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DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 1 Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA2 Dedicatória Aos pacientes com epilepsia e seus familiares Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 3 Agradecimentos Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo Instituto da Criança, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA4 Prefácio Em Marcos 9:14-29 a Bíblia narra o tratamento de um menino que foi trazido por seu pai a Jesus, passagem imortalizada no célebre quadro de Rafael ‘A Transiguração de Cris- to’, pintado entre 1518 e 1520. O menino lunático (Marcos 9: 14-29) “E chegando junto aos outros discípulos, viram uma grande multidão em torno deles. E logo que a multidão viu Jesus, icou admirada e correu para saudá-lo. Ele perguntou-lhes: “Que discutiam com eles?” Alguém da multidão respondeu: “Mes- tre, eu te trouxe meu ilho que tem um espírito que quando o toma, o atira ao chão. E ele espuma, range os dentes e ica rígido. Pedi aos teus discípulos que o expul- sassem, mas não conseguiram”. Ele, porém, respondeu: “Ó geração incrédula! Até quando estarei convosco? Até quando vos suportarei? Trazei-o a mim”. Levaram-no até Ele. O espírito vendo a Jesus imediatamente agitou com violência o menino que, caindo por terra, rolava e espumava pela boca. Jesus perguntou ao pai: “Há quanto tempo lhe sucede isto?” – Desde pequeno, respondeu; e muitas vezes o atira ao fogo ou à água para matá-lo. Mas se tu podes, ajuda-nos, tem compaixão de nós”. En- tão Jesus lhe disse: “Se tu podes! ...Tudo é possível àquele que crê!” Imediatamente o pai do menino gritou: “Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade!” Vendo Jesus que a multidão aluía, conjurou severamente o espírito impuro, dizendo-lhe: “Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: deixe-o e nunca mais entre nele!” E, gritan- do e agitando-o violentamente, saiu. E o menino icou como se estivesse morto, de modo que muitos diziam que ele morrera. Jesus, porém, tomando-o pela mão ergueu-o, e ele se levantou. Ao chegar em casa seus discípulos perguntaram-lhe, a sós: “Por que não pudemos expulsá-lo?” Ele respondeu: “Esta espécie de demônios com nada se pode expulsar, a não ser com oração e jejum”. Jejum era o tratamento das crises epilépticas ao tempo de Jesus Cristo. Por mimetizar os efeitos do jejum, usado há tempos imemoriais, a dieta cetogênica, popularizada há cer- ca um século, é um dos tratamentos efetivos para epilepsia. Para as pessoas cujas crises epilépticas não são controladas com fármacos antiepilépticos, a dieta pode reduzir o nú- mero e a gravidade das crises e ainda exercer efeitos positivos sobre o comportamento. Este livro, detalha os passos históricos lentamente progressivos da dieta cetogênica desde uma época em que se acreditava que a descoberta de sucessivos fármacos antie- pilépticos promoveriam a cura da epilepsia. Nos últimos vinte anos, com a constatação da eicácia limitada dos mesmos a despeito da comercialização de 16 novos fármacos antiepilépticos a partir de 1990, tem havido uma explosão no interesse cientíico e no uso da dieta cetogênica. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 5 Nesta obra pioneira e essencial em nosso meio, inaugurada com o diagnóstico e tra- tamento das crises epilépticas, todos os aspectos fundamentais desta modalidade te- rapêutica são abordados de maneira didática e abrangente. Nela, a partir do papel do estresse oxidativo na epilepsia e dos mecanismos neurobioquímicos da dieta, um prois- sional interessado encontrará informações que lhe fornecerão as bases para a instituição deste tratamento e as precauções no decorrer do mesmo. Nossos parabéns a este grupo multidisciplinar capaz de organizar com extraordinária extensão todos os aspectos fundamentais de uma das mais eicazes modalidades tera- pêuticas em epilepsia. Elza Márcia Yacubian | São Paulo, setembro de 2016 Professora livre docente em Neurologia do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia Unidade de Pesquisa e Tratamento das Epilepsias Universidade Federal de São Paulo Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA6 Autores Brenda Caroline Ladeia Soares Nutricionista formada pelo Centro Universitário São Camilo – SP. Pós graduanda em Nutrição Pediátrica pelo ICr- FMUSP e Aprimoranda em Nutrição Clínica pela Faculdade de Saúde Pública – USP. Cristina Yuri Takakura Nutricionista pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp). Especialista em Nutrição Clínica em Pediatria pelo Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). Nutricionista das Unidades de Nutrologia, Hepatologia, Berçários, Erros Inatos do Metabolismo e Dieta Cetogênica do Instituto da Criança - HCFMUSP Daniela Kawamoto Murakami Nutricionista pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP). Especia- lista em Nutrição Clínica e Terapia Nutricional pelo Grupo de Apoio a Nutrição Enteral e Parenteral (GANEP). Trabalhou no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas (ICr - HCFMUSP) no Ambulató- rio de Dieta Cetogênica. Atualmente é nutricionista da Autarquia Hospitalar Municipal do Hospital Municipal Dr. Fernando Mauro Pires da Rocha (HMFMPR). Eliana Garzon Neurologista e Neuroisiologista, coordenadora da Seção de eletroencefalograia do Hospital das Clínicas de São Paulo da FMUSP. Giovanna Fernandes Ricciarelli Técnica em Nutrição e Dietética, graduanda em Nutrição pela Universidade Paulista e aluna de ini- ciação cientíica do Departamento de Nutrição pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP). Laura M. F. Ferreira Guilhoto Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Mes- tre e Doutora em Medicina pela FMUSP. Pós-doutoramento Children’s Hospital Boston – Harvard University. Neurologista responsável pelo Ambulatório de Epilepsia Infantil da Unidade de Pesqui- sa e Tratamento das Epilepsias (UNIPETE) do Hospital São Paulo da Unifesp. Letícia Pereira de Brito Sampaio Médica Neurologista Infantil do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Coordenadora do ambulatório de dieta cetogênica para epilepsia. Médica Neuroisiologista Clínica -Eletroencefalograia - do Hospital Israelita Albert Eins- tein. Doutora em neurologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 7 Luciana Midori Inuzuka Nakaharada Neurologista infantil e Neuroisiologista do Setor de Neuroisiologia do Hospital Sírio Libanês e do Hospital Municipal Infantil Menino Jesus. Márcia Wang Matsuoka Doutora em Radiologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Maria Luiza Giraldes Manreza Médica Supervisora do Serviço de Neurologia Infantil da Divisão de Clínica Neurológica do HC da FMUSP. Doutora em Neurologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universi- dade de São Paulo. Marcela Marques O. Gregório Graduada em Nutrição pelo Centro Universitário São Camilo. Mestranda na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Nutricionista colaboradora do serviçode dieta cetogênica no Ambulatório de Epilepsia Infantil da Unidade de Pesquisa e Tratamento das Epilepsias (UNIPETE) do Hospital São Paulo da Unifesp. Mariana Baldini Prudencio Nutricionista graduada pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Mestran- da no programa de pós-graduação em Nutrição em Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Nágila Raquel Teixeira Damasceno Pos-doutora em Imunoisiopatologia (USP) e Endocrinologia e Lipideos (UnB, Espanha), Profa. Associada da Universidade de São Paulo, vinculada ao Departamento de Nutricão, Faculdade de Saúde Pública e Diretora da Divisão de Nutricão e Dietética do Hospital Universitário da Univer- sidade de São Paulo. Patrícia Azevedo de Lima Doutoranda do Programa de Nutrição Humana da USP. Mestre em Ciências pela USP, Especialista em Nutrição Clinica pelo GANEP. Nutricionista pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Ex-Nutri- cionista do Ambulatório de Dieta Cetogênica do ICr-HC-FMUSP. Silvia Maria Sucena da Rocha Doutora em Radiologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Radiologista Pediátrica, assistente do Serviço de Apoio Diagnóstico e Terapêutico do Instituto da Criança do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA8 Sumário I - Epilepsia: Deinição, Etiologia, Epidemiologia e Diagnóstico Epilepsia: visão epidemiológica e etiológica Estresse oxidativo na epilepsia: aspectos neurobioquímicos e mecanísticos Aplicações e limitações dos métodos diagnósticos Tratamentos da epilepsia II - Dieta Cetogênica no tratamento da epilepsia Aspectos históricos e manejo nutricional Mecanismos neurobioquímicos da dieta cetogênica Epilepsia e Dieta cetogênica:Papel dos biomarcadores inlamatórios Dieta cetogênica na resposta clínica e seu impacto na qualidade de vida Pirâmide cetogênica III - Efeitos Adversos Dieta cetogênica e marcadores cardiometabólicos Alterações no metabolismo hepático na dieta cetogênica Inadequações de micronutrientes da dieta cetogênica Impacto no crescimento e desenvolvimento IV - Perguntas e Respostas 09 22 33 46 59 65 75 86 93 101 110 128 133 146 156 Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 9 Epilepsia: visão epidemiológica e etiológica Letícia Pereira de Brito Sampaio | Patrícia Azevedo de Lima A epilepsia é um distúrbio cerebral crônico, comum a todos os paísese repercussões na vida do paciente e de sua família. O conceito deepilepsia não se aplica a uma doença ou a uma síndrome especíica, mas aum grupo de condições neurológicas diversas que tem como característicacomum a presença de crises epilépticas recorrentes e sem evidências deinsultos agudos. Sabemos que existem diferenças no peril clínico e dahistória natural desse distúrbio de acordo com as condições socioeconômicasda população, particular- mente entre os países desenvolvidos em comparaçãocom os em via de desenvolvimento. 1.Epidemiologia A prevalência, por deinição, corresponde ao número total de casosde uma dada do- ença em uma população deinida em determinado momento;enquanto a incidência se caracteriza pela taxa de ocorrência de casos novosdurante um dado intervalo de tempo, geralmente um ano em uma populaçãodeinida. A prevalência é derivada tanto da incidência como da duração daenfermidade. Assim, uma prevalência elevada pode indicar que a patologia écrônica e não necessariamente que a população possui um risco alto de seracometida; por outro lado, uma prevalência baixa poderia, em determinadascircunstâncias, dever-se a uma mortalidade elevada re- lacionada à patologia. A incidência, por sua vez, indica a medida direta da probabilidade deuma população saudável desenvolver a patologia. Nesse contexto, a prevalência é útil para veriicar as necessidades desaúde e avaliar os programas de saúde pública, enquanto o conhecimento da incidência permite pro- gramar as medidas de prevenção e proporcionar ainformação sobre a efetividade do controle das enfermidades. A taxa de prevalência de epilepsia nos países desenvolvidos varia de4 – 8,9/1000indi- víduos (CAVAZZUTI 1980; GRANIERI et al., 1983; RUSS et al., 2012; GIUSSANI et al., 2014), com média de 7.1/1000 indivíduos (HIRSTZ et al., 2007). Na América Latina, nos países em- desenvolvimento, essa taxa se encontra em torno de 3 - 57/1000 (BHARUCHA et al., 1988; GRACIA et al., 1990; SAMPAIO et al., 2010). Se nospaíses desenvolvidos se observa maior taxa de prevalência nas idadesextremas da vida, nos países latino-americanos são rela- tadas as maiorestaxas de prevalência, entre 15 – 40 anos de idade (SANDER eSHORVON, 1987; HAUSER et al., 1991). Estima-se que 1% das crianças e adolescentes nos Estados Unidos vão apresentar ao menos uma crise afebril até os 14 anos de idade. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA1 0 As maiores taxas de prevalência de epilepsia são encontradas nospaíses em desen- volvimento, onde se observa que a grande maioria dosindivíduos muitas vezes não re- cebe o tratamento adequado. Apesar dosurgimento de novas medicações e dos avanços nos métodos diagnósticos,o maior desaio para a saúde pública persiste na identiicação das pessoascom epilepsia e na capacidade de proporcionar-lhes tratamento eicaz com- custo adequado, o que muitas vezes envolve equipes multiproissionais e acões governa- mentais. Em torno de ¾ dessas pessoas com epilepsia, o tratamento é simples permitin- doque levem uma vida normal; entretanto aproximadamente 85% desses indivíduosnão recebemqualquer tratamento (KALE, 2002). HAUSER et al., em 1991, publicaram um estudo clássico sobre aprevalência de epi- lepsia realizado em Rochester, EUA, durante cinco décadasconsecutivas, observando a taxa de prevalência de epilepsia ativa (indivíduoque tem ou teve pelo menos uma crise epiléptica nos últimos cinco anos ouem uso de medicação antiepiléptica) de 2,7/1000, em 1940; com aumentosprogressivos de até 6,8/1000, em 1980, com predomínio no sexo masculino,exceto na década de 80, em que se observou o predomínio do sexo feminino. As crises focais foram identiicadas em mais de 60% dos indivíduos. Em tornode 75% deles, a epilepsia foi classiicada como idiopática. Foi observadamenor prevalência nos primeiros cinco anos de vida (1,4 – 2/1000). No sexomasculino, essa prevalência aumen- tou até os 14 anos e se tornou estável atéa sétima década de vida. No sexo feminino, exceto pelas décadas de 40 e 50,em que a prevalência tendeu a diminuir ou icou estável até os 10 anos devida, apresentou o mesmo padrão do sexo masculino, com o aumento daprevalência nos idosos. Esse padrão é consistente com o que podemosesperar de uma patologia crônica, com baixa mortalidade, que afeta todas asidades e apresenta maior incidência nas crianças e nos idosos. No Brasil, a prevalência bruta de epilepsia na população da Comunidade deParaisó- polis, São Paulo no período de um ano foi de 9,7/1000 em crianças eadolescentes até 16 anos, e de epilepsia ativa, de 8,7/1000, com discretopredomínio no sexo feminino, sem diferença signiicativa (SAMPAIO et al., 2010). A incidência varia de 43 a 47 por 100.000 indivíduos/ano nos Estados Unidos e Europa (HAUSER et al., 1991; FORSGREEN et al., 2005). As maiores taxas de incidência de epilepsia ocorrem nos extremos da vida (ANNE- GERS et al., 1995). Nos países desenvolvidos a incidência é maior nos primeiros meses de vida, principalmente no período pós natal,reduz signiicativamente após o primeiro ano de vida, se estabiliza na primeira década e reduz novamente na adolescência. A incidên- cia é baixa em adultos jovens e começa a aumentar em torno dos 50 anos de idade, com um aumento importante após os 60 anos; aos 70 anos de idade, a incidência é maior do que na infância. Nos países em desenvolvimento, o pico de incidência ocorre em adultos jovens (RWIZA et al., 1992). Observa-se uma maior incidência de epilepsia no sexo mas- culino (RUSS et al., 2012). Não existe diferença entre os grupos raciais. A incidência é mais alta em populações com menor padrão socioeconômico (CUI et al., 2015). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 1 1 Quadro 1 – Classiicação das Crises Epilépticas, segundo Comissão da ILAE (2010). Crises que não podem ser diagnosticadas em uma das categorias devem ser consideradas não classiicadas. Fonte: ILAE (2010). 2.Etiologia Na prática clínica, o diagnóstico é feito em duas etapas: primeiro, procura-se classii- car o tipo de crise (Quadro 1) ou síndrome eletroclínica e, em seguida, se determina a etio- logia, quando possível. A etiologia é o principal determinante do tratamento, prognóstico e curso clínico da epilepsia. Em 2010, BERG et al., a Comissão de Classiicação e Terminologia da Liga Internacional Contra a Epilepsia (ILAE) publicou uma nova proposta de classiicação das crises epilépti- cas e epilepsias, ressaltando a importância da classiicação etiológica. Crises generalizadas Tônico-clônicas (em qualquer combinação) Ausência Típica Atípica Ausência com características especiais Ausencia mioclônica Mioclonias palpebrais Mioclônica Mioclônica Mioclônica atônica Mioclônica tônica Clônica Tônica Atônica Crises focais Desconhecido Espasmos epilépticos Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA1 2 A síndrome eletroclínica é deinida pela idade de início da epilepsia,tipo de crise, pa- drão do eletroencefalograma, achados de neuroimagem e comorbidades como o déicit intelectual. Ascrises epilépticas são entidades clínicas distintas, com implicações no tra- tamento e prognóstico. Elas podem estar associadas a etiologias heterogêneas, como por exemplo a síndrome de West que pode ter como etiologia a encefalopatia hipóxico-isquê- mica, malformação cortical, o complexo da esclerose tuberosa, mutações genéticas nos genes ARX, STXBP1 ou ainda ser de etiologia desconhecida. A Tabela 1 lista as síndromes eletroclínicas. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 1 3 Tabela 1 – Síndromes eletroclínicas e outras epilepsias. Síndromes eletroclínicas de acordo com a idade de início Período neonatal Epilepsia neonatal familiar benigna Encefalopatia mioclônica precoce Síndrome de Ohtahara Lactente Epilepsia da infânciia com crises focais migratórias Síndrome de West Epilepsia mioclônica da infância Epilepsia infantil benigna Epilepsia infantil familiar benigna Síndrome de Dravet Encefalopatia mioclônica das doenças não progressivas Infância Crise febril “plus” Síndrome de Panayiotopoulos Epilepsia com crises mioclônico-atônicas Epilepsia benigna com espículas centrotemporais Epilepsia do lobo frontal noturna autossômica dominante Epilepsia occipital da infância de início tatdio (tipo Gastaut) Epilepsia com ausência mioclônica Síndrome de Lennox-Gastaut Encefalopatia epiléptica com espículas ondas contínuas durante o sono Síndrome de Landau-Klefner Epilepsia ausência da infância Adolescência Epilepsia ausência juvenil Epilepsia mioclônica juvenil Epilepsia com crises tônico-clônicas generalizadas Epilepsia mioclônica progressiva Epilepsia autossômica dominante com sintomas auditivos Outras epilepsias do lobo temporal familiares Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA1 4 A organização das síndromes eletroclínicas não relete a etiologia.Fonte: BERG et al., 2010. Menos especíicas em relação a idade Epilepsia focal familiar com focos variáveis (infância ao adulto) Epilepsias relexas Constelações Esclerose mesial temporal Síndrome de Rasmussen Crises gelásticas com hamartoma hipotalâmico Hemiconvulsão-Hemiplegia- Epilepsia Epilepsias que não se encaixam em nenhuma dessas categorais diagnósticas Epilepsias atribuídas e organizadas por causa estrutural/metabólica Malformação do desenvolvimento cortical (hemimegalencefalia, heterotopias, etc) Síndromes neurocutâneas Tumor Infecção Trauma Angioma Insulto perinatal AVC etc. Epilepsias de causa desconhecida Condições com crises epilépticas que tradicionalmente não são diagnosticadas como epilepsia Crises benignas neonatais Crises febris A organização das síndromes eletroclínicas não relete a etiologia Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 1 5 Segundo esta proposta da ILAE, a etiologia das crises epilépticas e a epilepsia seriam classiicadas em três categorias: 1) Genética: a maioria das epilepsias de origem genética conhecida se iniciam na in- fância. As epilepsias genéticas incluem síndromes eletroclínicas bem caracterizadas, como as epilepsias generalizadas genéticas que incluem a epilepsia ausência da infância, epilepsia ausência juvenil e a epilepsia mioclônica juvenil, assim como síndromes mais graves, associadas com atraso do neurodesenvolvimento e epilepsia refratária, como a síndrome de Dravet. 2) Estrutural ou metabólica: Qualquer insulto ao córtex cerebral pode desencadear uma crise. As crises podem ser desencadeadas por uma alteração metabólica (febre, hi- pocalcemia, hiponatremia), por um distúrbio cortical temporário, como um traumatismo craniano leve; isquemia, sangramento intraparenquimatoso ou subaracnoideo, processo inlamatório como meningite, encefalite e sepsis. A crise pode também ser uma mani- festação de um insulto cerebral crônico, causado por um evento remoto, como asixia perinatal ou um acidente vascular cerebral intraútero, assim como manifestação de uma doença neurológica progressiva, como um tumor, uma doença neurodegenerativa ou neurometabólica. Esta categoria também contempla a origem genética, em algumas etio- logias como a malformação do desenvolvimento cortical e esclerose tuberosa. 3) Causa desconhecida: a natureza da causa é ainda desconhecida; pode haver um defeito genético ainda não identiicado, ou pode ser a consequência de um distúrbio metabólico ainda não reconhecido ou identiicado. Esta proposta, que pretendia incorporar os avanços da neurociência, por diferentes motivos vem sofrendo várias críticas dos epileptologistas e encontra-se em revisão. Desta forma, SHORVON em 2011 propôs um algoritmo etiológico objetivando permi- tir uma visão global de todas as etiologias subjacentes às epilepsias, retomando termino- logias da classiicação de 1989 na elaboracäo de uma nova proposta. A Tabela 2apresenta essa nova proposta de deinicão etiológica das epilepsias e crises epilépticas: 1) Epilepsia Idiopática: epilepsia de origem predominante ou presumivelmente genéti- ca, nas quais não se encontram grandes anomalias neuroanatômicas ou neuropatológi- cas. São incluídas as epilepsias de origem presumivelmente multigênicas ou de herança complexa, mesmo que as bases genéticas ainda não estejam elucidadas. 2) Epilepsia sintomática: epilepsia de causa adquirida ou genética, associada a anoma- liasanatômicas ou neuropatológicas, e/ou com sinais clínicos sugestivos de doença ou condição subjacente. Nesta categoria estão incluídos os distúrbios do desenvolvimento e congênitos, quando associados com alterações patológicas cerebrais, de origem gené- tica ou adquirida (ou mesmo criptogênica). Também incluem doenças genéticas onde a epilepsia é um dos sintomas dentro de um fenótipo com outros sintomas cerebrais ou sistêmicos. 3) Epilepsia provocada: epilepsia na qual um fator ambiental ou sistêmico especíico é a principal causa das crises epilépticas e, não há grandes alterações neuroanatômicas ou neuropatológicas. Algumas “epilepsias provocadas” terão uma base genética e outras uma base adquirida, mas, na maioria, não pode ser identiicada uma causa hereditária. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA1 6 As epilepsias relexas estão incluídas nesta categoria (que são usualmente genéticas) as- sim como as epilepsias com um fator precipitante de crises. 4) Epilepsia criptogênica: epilepsia de natureza presumidamente sintomática na qual a causa não tenha sido identiicada. O número destes casos tende a diminuir, principal- mente devido aos recentes avanços genéticos, porém ainda uma categoria importante, correspondendo a, pelo menos, 40% dos casos de epilepsia de início na vida adulta. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 1 7 Categoria principal Epilepsia idiopática Epilepsia sintomática Causa predominantemente genética ou do desenvolvi- mento Subcategoria Epilepsias puras devido alteração de um gene Epilepsias puras com herança complexa Síndromes epilépticas da infância Epilepsias mioclônicas progressi- vas Síndromes neurocutâneas Outros doenças neurológicas por alteração de um gene Distúrbios de cromossomos Anomalias do desenvolvimento da estrutura Cerebral Exemplo Convulsões neonatais familiares benignas; epilepsia noturna do lobo frontal autossômica domi- nante; epilepsia generalizada com crises febris plus; epilepsia mioclônica severa da infância; epilepsia mioclônica benigna fami- liar do adulto Epilepsia generalizada idiopática (e seus subtipos); epilepsias parciais benignas da infância Síndrome de West; Síndrome de Lennox-Gastaut Doença de Unverricht-Lundborg; atroia dentaro-rubro-palidoluisia- na; doença dos corpos de Lafora;mito- condriopatias; sialidose; Lipofuccinose ceróide; mioclonias associadas a insuiciência renal Esclerose tuberosa; neuroibroma- tose; síndrome de Sturge-Weber Síndrome de Angelman; distúrbios dos lisossomas; neuroacantocito- se; acidúrias orgânicas e distúrbios dos peroxissomas; poriria; Epilepsia por deiciência de pirido- xina; síndrome de Rett; distúrbios do ciclo da úreia; doença de Wilson; distúr- bios da cobalamina e do metabo- lismo de folatos Síndrome de Down; Síndrome do X Frágil; Síndrome do cromossomo 4p Syndrome do cromossoma 20 em anel Tabela 2 – Esquema de classiicaçãoetiológica segundo SHORVON, 2011. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA1 8 Causas predo- minantemente adquirida Epilepsia provocada Epilepsias criptogênicas Esclerose Hipocampal Causas Perinatais e da infância Trauma cerebral Tumor cerebral Infecção cerebral Distúrbios cerebrovasculares Distúrbios imunológicos cerebrais Estados degenerativos e outras condições Neurológicas Fatores precipitantes Epilepsias relexas Hemimegalencefalia; displasia focal cortical; agiria-paquigiria; agenesia do corpo caloso; polimicrogiria; esquizoence- falia; heterotopia periventricular nodular; microcefalia; cisto aracnoide Esclerose Hipocampal Crises neonatais, pós-natais, paralisia cere- bral, vacinação e imunização Ferida aberta na cabeça; traumatismo cefálico fechado; neurocirurgia; epilepsia após cirurgia da epi- lepsia; traumatismos cefálicos não acidentais na in- fância Glioma; ganglioglioma e hamartoma; DNET; hamartoma hipotalâmico; meningioma; tumores secundá- rios Meningite e encefalite virais; meningite e ab- cesso bacterianos; malária; neurocisticercose, tuberculose, HIV Hemorragia cerebral; infarto cerebral; doença vascular degenerativa; malformação arteriovenosa; hemangioma ca- vernoso Encefalite de Rasmussen; Lúpus eritematoso disseminado e doenças do colagéno; distúrbios inlamatórios e imunológicos Doença de Alzheimer e outras demências; es- clerose múltipla e distúrbios desmielinizantes; hidrocefalia e porencefalia Febre; ciclo menstrual e epilepsia catamenial; ciclo sono-despertar; crises metabólicas e endócrinas; crises induzi- das por fármacos, álcool e tóxicos. Epilepsias fotossensíveis; epilepsias induzidas pelo “susto”; epilepsia da leitura; epilepsia induzida pela audição; epilepsia desencadeada pela alimentação e epilepsia precipitada pela água quente. DNET: tumor neuroepitelial disembrioplásico As causas das epilepsias criptogênicas são “desconhecidas”. Esta categoria corresponde a pelo menos 40% das epilepsias encontradas na prática clínica em adultos e uma proporção menor em idade pediátrica | Fonte: SHORVON, 2011. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 1 9 Em 2013, foi publicado um novo relatório da Comissão da ILAE onde alguns termos foram revisados, baseados na estrutura de classiicação proposta em 2010. Nesta nova abordagem foi proposta a ampliação das categorias etiológicas. A etiologia pode englo- bar duas ou mais categorias, porém uma é mais importante para determinar a orientação clínica. São elas: 1)Genética: defeito genético conhecido ou presumido (ex. SCN1A associado a Sindrome de Dravet) sendo a epilepsia o principal sintoma deste defeito. As epilepsias generalizadas idiopáticas passam a ser denominadas de epilepsias ge- neralizadas genéticas. Em muitos casos, o gene ainda não é conhecido. 2)Estrutural: apresenta lesão estrutural visível na neuroimagem, concordan- te com os achados eletroclínicos. A causa da lesão pode ser genética ou adquirida. 3)Metabólica: defeito metabólico, geralmente de causa genética como, por exemplo, algumas aminoacidopatias, poririas e uremias. 4)Imunológica: epilepsias com evidências de processo autoimune ocasionan- do inlamação do sistema nervoso central, por exemplo, encefalite anti-receptor NMDA e anti-LGI1. 5)Infecciosa: epilepsia desencadeada por processo infeccioso como tubercu- lose, malária cerebral, HIV, neurocisticercose, panencefalite esclerosante subagu- da e toxoplasmose. 6)Desconhecida: quando a causa da epilepsia não pode ser determinada. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA2 0 3. Considerações Finais Os novos avanços no campo da neuroimagem, da anatomina e isiologia; na genética, com o sequenciamento do genoma humano; nas técnicas neuroisiológicas e avaliação neuropsicológica dos pacientes com epilepsia permitem que cada vez mais a etiologia seja esclarecida. A classiicação das crises epilépticas, epilepsias e síndromes epilépticas encontram-se em processo constante de discussão e revisão no sentido de permitir um melhor entendimento, melhorando a prática clínica, assim como a pesquisa básicas, apli- cadas e translacionais. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 21 Referências 1.Annegers JF, Hauser WA, Lee JR, Rocca WA. Incidence of acute symptomatic seizures in Rochester, Minne- sota, 1935-1984. Epilepsia. 1995;36:327-33. 2.Bharucha NE, Bharucha EP, Bharucha AE, Bhise AV, Schoenberg BS.Prevalence of epilepsy in the Parsi community of Bombay. 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Em conjunto, essas doenças apresentam características isiopatológicas independentes, mas contêm um espectro de alterações comuns que envolvem a perda no equilíbrio eletroneural como resultado da excessiva expressão, síntese e liberação de neurotransmissores excitatórios e/ou redu- ção dos neurotransmissores inibitórios. Esse desequilíbrio induz e contribui para a manu- tenção das crises epilépticas capazes de induzir reações oxidativas e inlamatórias locais, mas com repercussões ao nível sistêmico. Em linhas gerais, as reações oxidativas fazem parte da maioria das vias metabóli- cas isiológicas dos organismos aeróbios, incluindo o homem, e contribuem diretamente para geração de energia, sob a forma de ATP ao nível da cadeia transportadora de elé- trons. Entretanto, em situações de estresse metabólico induzido por agentes exógenos (vírus, bactérias, extremos de temperatura, poluentes ambientais, pesticidas, tabagismo e alguns fármacos) e desbalanço endógeno (obesidade, câncer, doenças inlamatórias e neurológicas) o organismo ativa diversas vias catabólicas que favorecerão a geração de energia, mas também induzirá a geração de diversos radicais livres (RL). A depender do contexto metabólico, a presença de RL e espécies reativas contribuirão para a restaura- ção da homeostase local e sistêmica, mas também poderá favorecer o agravamento de reações inlamatórias que retroalimentarão o desequilíbrio metabólico e o desenvolvi- mento de doenças. Este capítulo tem por objetivo introduzir o leitor aos conceitos básicos, mas importan- tes no contexto das reações oxidativas em sistemas biológicos, assim como apresentar os possíveis mecanismos celulares e moleculares que associam as reações oxidativas à epilepsia. Destacar o sistema antioxidante, danos celulares e teciduais causados pelos RL e como algumas formas de tratamento podem agravar a geração dos RL e favorecer o desenvolvimento de morbidades em pacientes com epilepsia. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 2 3 1.Radicais Livres: origem, mecanismos de ação e controle Entende-se por RL todas as estruturas químicas que possuem um ou mais elétrons não pareados em seu último orbital (HALLIWELL e GUTTERIDGE, 1999). Esses desparea- mento torna essa estrutura química altamente instável e a busca pela estabilidade quími- ca o torna extremamente reativo à biomoléculas presentes no DNA, lipídeos, proteínas e carboidratos. A interação dos RL com essas biomoléculas modiica a estrutura original do substrato, gerando produtos de oxidação com funções biológicas alteradas que poderão perpetuar as reações oxidativas ou não. Esses processos envolvem espécies reativas de oxigênio (EROS) e nitrogênio (ERN), que poderão ter sua reatividade neutralizada ou redu- zida após interação com biomoléculas. O Quadro 1 descreve os principais RL estudados, com respectivos tempos de meia-vida. Espécies reativas de oxigê- nio e nitrogênio HO• HO2• RO• ROO• H2O2 O2•- NO• HCLO ONOO• 1O2 N2O3 HNO2 Nomenclatura química Radical hidroxila Radical hidroperoxila Radical alcoxila Radical peroxila Peróxido de hidrogênio Ânion radical superóxido Óxido nítrico Ácido hipocloroso Peroxinitrito Oxigênio singlete Óxido nitroso Ácido nitroso Meia-vida (segundos) 10-9 instável 10-7 7 Depende do meio Depende do meio 1-10 estável 0,05-1 10-5 1-10 1-10 Quadro 1 – Radicais livres e respectivos tempos de meia vida. Um exemplo clássico da importância da geração de RL para a manutenção da saúde relaciona-se à capacidade do organismo eliminar vírus e bactérias por meio do fenôme- no conhecido como “burst oxidativo”. Estudos in vitro têm mostrado modelos elegantes de morte de parasitas por meio da geração de EROS. No estudo de PERCÁRIO et al., (2012), a incubação de Plasmodium falciparum (agente causador da Malária) com glicose e glicose oxidase ou xantina e xantina oxidase, promoveu, respectivamente, a geração de H2O2 e O2•-, que induziram elevada toxicidade ao meio celular,seguida da morte do parasita. Esse evento reforça a noção da importância do balanço redox para a manuten- ção da saúde. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA2 4 Apesar desse exemplo, inúmeras situações associadas à iniciação e desenvolvi- mento de doenças também envolvem a geração de RL e a oxidação de biomoléculas, que contribuem para a ativação de mecanismos inlamatórios ao nível celular e molecular. 2. Sistemas antioxidantes O equilíbrio redox faz parte dos processos metabólicos isiológicos e seu desbalan- ço está associado a inúmeras doenças. Nesse contexto, é fundamental a participação dos sistemas antioxidantes endógeno e exógeno. Entendem-se como antioxidantes, qualquer substância que, em baixa concentração, quando comparada ao substrato oxidável, seja capaz de inibir ou neutralizar a reação oxidativa induzida pelo substrato (SIES e STAHL, 1995).Os antioxidantes endógenos são compostos pelas enzimas Superóxido Dismuta- se (SOD), GlutationaPeroxidase (GPx), Catalase (CAT), Tioredoxina (Trx) e Peroxiredozinas (Prxs). A isoforma SOD (Cu-Zn) é encontrada no citoplasma, enquanto a SOD (Mn) está pre- sente nas mitocôndrias. Ambas catalisam a dismutação do ânion superóxido em peró- xido de hidrogênio e por isso são denominadas com antioxidantes parciais, ou seja, o produto gerado ainda tem potencial radicalar (CARDENAS-RODRIGUEZ et al., 2013). A GPx é uma selenoproteína amplamente distribuída no citoplasma de todos os o te- cido e também presente no plasma. Ela apresenta-se sob diversas isoformas (GPx-1, GPx- 2, GPx-3, GPx-4) a depender do seu sítio de ação e estado redox. Sua função antioxidante ocorre por meio da neutralização de duas moléculas de peróxido de hidrogênio com con- sequente geração de glutationa oxidada e H2O. É portanto, considerado um antioxidante completo, pois gera produtos não reativos (CARDENAS-RODRIGUEZ et al., 2013). De modo semelhante a GPx, a CAT é responsável pela dismutação do peróxido de hidrogênio, gerando H2O e O2. A Trx está presente no retículo endoplasmático, sendo capaz participar de diversas reações redox transferindo elétrons ou neutralizando diretamente o peróxido de hidro- gênio. As Prxs constituem um grupo de enzimas capazes de reagir com o peróxido de hidro- gênio, hidroperóxidos, peroxinitrito e grupos tióis. Além das enzimas antioxidantes o organismo humano também possui outras biomo- léculas que agem como antioxidantes não enzimáticos endógenos,como: ceruloplasmina, bilirrubina, ácido úrico, albumina e o tripeptídeo glutationa (GSH) Essas substâncias dão estabilidade a diversos elétrons presentes em minerais (cobre e ferro), evitando que es- ses catalisem reações de oxi-redução (CARDENAS-RODRIGUEZ et al., 2013). Destacam-se também os antioxidantes exógenos, cuja dieta permanece sendo a prin- Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 2 5 cipal fonte, seguida dos suplementos minerais e vitamínicos. Esse grupo inclui as vita- minas A, C e E), carotenoides (licopeno, zeaxantina, β-caroteno) e compostos fenólicos (isolavonas, lavonoides, antocianidinas, lavonas, dentre outras). Em conjunto, os antioxidantes ajudam na manutenção e restauração do estado re- dox, contribuindo para otimização das vias metabólicas, resposta inlamatória e sinaliza- ção celular. Mais recentemente foi descoberto o master regulador da resposta antioxidante, de- nominado fator de transcrição2 relacionado ao factor eritroide 2 (Nrf2, também conheci- do por NFE2L2), cuja expressão e ativação é diretamente modulada pelo estresse oxida- tivo e pela inlamação (PALL e LEVINE, 2015). Do ponto de vista antioxidante, a ativação do complexo Nrf2 associada ao elemento responsivo à antioxidante (ARE) – Nrf2-ARE representa o principal sistema transcripcional nuclear associado à modulação do estresse oxidativo, levando à síntese de centenas de genes antioxidantes e detoxiicantes (JOHNSON et al., 2008; LEE et al., 2003; SHIH et al., 2003). Esse processo está diretamente associado a maior expressão e aumento plasmáti- co de enzimas antioxidantes e mais de 100 genes tais como NAD(P)H:quinona oxidoredu- tase, glutationa-S transferase, c-glultamilcisteína sintase, heme-oxigenase-1, glutationa peroxidase e tioredozina, enzimas detoxiicante de fase I e II, proteínas transportadoras chaperonas, fatores de crescimento e alguns fatores de transcrição (CHEN e KUNSCH, 2004; STEPKOWSKI et al., 2011). O Nrf2 representa um elemento chave na cascata antio- xidante, sendo sua modulação e vias de ação complexas tanto nos processos isiológicos, quanto patológicos (SANDBERG et al., 2014). Em condições isiológicas, a geração normal de produtos de oxidação promove a ativação do ARE, o qual se liga ao Nrf2 por meio da proteína reguladora Keap1, gerando o complexo Keap1-Nrf2-ARE. Em situação de estres- se oxidativo, o Keap1 é inativado por meio da perda de um resíduo de cisteína, favorecen- do o acúmulo e ativação de Nrf2, que passa a estimular a geração de diversos elementos de proteção celular, entre eles antioxidantes. No contexto das doenças neurológicas, a inibição ou inativação do Nrf2 têm sido associada a peris mais graves da doença de Parkinson, Alzheimer, Esclerose Lateral Mio- tróica e Epilepsia devido sua relação direta com a inibição de genes antioxidantes e an- ti-inlamatórios. Evidências da literatura sugerem que a redução do estresse oxidativo decorrentes da ativação do fator Nrf2 seja a base do seu mecanismo de ação anti-inla- matório, além da sua capacidade na regulação da expressão gênica de receptores em macrófagos envolvidos com a resposta imune (KOBAYASHI et al., 2016). Considerando o Nrf2 como um regulador primário do sistema antioxidante, diversas moléculas têm sido desenvolvidas e testadas na busca pela identiicação de potenciais agentes que possam ser usados como fármacos no controle das doenças neurodegenerativas. Um exemplo promissor é o uso do ativador de Nrf2 (dimetilfumarato – DMF e seu metabólito ativo, o monometilfumarao – MMF) desenvolvido pela empresa Biogen Idec, aprovado pelo Food and Drug Administration – FDA e disponível nos Estados Unidos para uso clínico em pa- cientes com Esclerose Múltipa (LINKER et al., 2011). Ensaios clínicos de fase III mostraram que ambos os ativadores de Nrf2 foram capazes de reduzir o estresse oxidativo, a injúria, perda neuronal, assim como também reduziram o número de crises em pacientes com esclerose múltipla (SCANNNEVIN et al., 2012). A participação do Nrf2 também foi estuda- da em pacientes com Doença de Alzheimer, na qual a ativação desse regulador associou- -se à redução da amiloide-β (KANNINEN et al., 2008). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA2 6 3. Estresse oxidativo e Epilepsia Para uma melhor compreensão do papel dos RL nas doenças neurológicas é fun- damental contextualizar as múltiplas ações da mitocôndria ao nível neuronal. A mito- côndria participa direta e indiretamente da hiperexcitabilidade neuronal por meio da ge- ração de ATP, biossíntese de metabólitos e neurotransmissores, homeostase de cálcio, controle de morte celular, além de ser um sítio primário da geracção de RL. Esse papel é particularmente importante nas crises epilépticas e em vários mecanismos da epilepsia, onde as mudanças energéticas e metabólicas mitocondriais(elevado processo glicolíti- co, aumento do luxo sanguíneo e razão lactato/piruvato) encontram-se intensiicadas (ROWLEY e PATEL, 2013). Na epilepsia as sucessivas crises levam a ruptura da homeostase mitocondrial com consequente perda de funções e morte celular por mecanismos apop- tóticos(CHUANG et al., 2009). A literatura descreve que a relação entre disfunção mitocondrial e epilepsia envol- ve medidas objetivas avaliadas em modelos animais, onde destacam-se as alterações na atividade enzimática mitocondrial, marcadores de dano oxidativo, alterações bioenergéti- cas e no estado redox com inibição de enzimas envolvidas na fosforilação oxidativa e nas defesas antioxidantes Apesar das limitações dos modelos animais e das críticas quanto a sobrecarga de estímulo farmacológico excitatório capaz de mimetizar crises epilépti- cas, são crescentes as evidências da ruptura do equilíbrio redox na epilepsia. A Figura 1 descreve a geração de espécies reativas e os danos celulares ao nível mitocondrial nas fases aguda, de latência e crônica do processo epileptogênico. Nessa igura é evidenciado a participação inquestionável dos RL na epilepsia, indicando que a falta de controle das crises epilépticas tendem a acumular danos cerebrais irreversíveis nos pacientes com epilepsia. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 2 7 O clássico estudo de DALTON et al., (1995) foi o primeiro relato da presença de estres- se oxidativo na epilepsia. Neste trabalho, os autores descreveram a presença de diversos marcadores oxidativos (heat shock protein 70 e mRNA para heme oxigenase 1) e inla- matórios (mRNA para IL-1β), sem aumento signiicativo das defesas antioxidantes (SOD e GPx). Fase aguda Fase de latência Fase crônica O 2 /H 2 O 2 O 2 /H 2 O 2 O 2 /H 2 O 2 GSH/GSSG CoASH/CoASSG Aconitase A-KDDH ATP Baixa probabilidade crise epiléptica Epilepsia Crise espontânea Morte celular Dano DNA Peroxidação lipídica [Cálcio] Reparo de DNA GSH/GSSG CoASH/CoASSG Reparo de DNA Dano DNA GSH/GSSG CoASH/CoASSG Aconitase Cl- Reparo de DNA ATP Figura 1 – Estresse oxidativo mitocondrial nas fases aguda, de latência e crônica da epi- lepsia. Adaptado de ROWEL e PATEL, 2013. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA2 8 Posteriormente, estudo em modelos animais avaliaram o impacto da dieta cetogêni- ca (DC) e de alguns fármacos nas reações oxidativas associadas à epilepsia. ZIEGLER et al., (2003) foram um dos primeiros grupos a avaliar o efeito da DC nas resposta antioxidante ao nível do cérebro de animais. Os autores observaram uma resposta sítio-especíica, onde a concentração de GPx aumentou quatro vezes no hipocampo, sugerindo efeito antioxidante induzido pela DC. Em humanos, BEN-MENACHEM et al., (2000)avaliaram num estudo caso-controle a atividade plasmática de diversas enzimas antioxidantes (SOD, GPx e CAT) de pacientes com epilepsia mioclônica progressiva e observaram valores signiicativamente menores, quando comparados a indivíduos saudáveis. Nesse mesmo estudo, o uso do antioxidante N-acetilcisteína (6 g/dia) foi associado a melhora na resposta antioxidante.Posteriormen- te, SHIIHARÁ et al., (2006) descreveram o caso de uma paciente com encefalopatia aguda e quadro de epilepsia refratária. Nesse relato de caso, a concentração de 8-hidroxi-2-deo- xiguanosina (8-OHdG) foi usada como marcador de dano oxidativo ao DNA, sendo moni- torada ao nível do luido cerebro-espinhal, plasma e urina. Em todos os compartimentos avaliados observou-se valores elevados de 8-OHdG após o início das crises epilépticas. Considerando que a presença de 8-OHdG é indicativo de fragmentação do DNA, é pro- vável que o aumento desse marcador sinalize um maior dano neuronal e morte celular, compatíveis com os múltiplos danos celulares presentes nas crises epilépticas não con- troladas. Além da DC, a intervenção cirúrgica é uma estratégia bastante usada no controle das crises epilépticas refratárias ao tratamento farmacológico. LÓPEZ et al., (2007) avaliaram o efeito da cirurgia para epilepsia sobre diversos marcadores de oxidação e enzimas an- tioxidantes. No momento basal todos os marcadores apresentaram valores alterados, quando comparados a um grupo de indivíduos saudáveis pareados por sexo e idade. Após a cirurgia, os pacientes apresentaram redução signiicativa dos marcadores de pe- roxidação lipídica e produtos avançados de oxidação proteica, enquanto observou-se re- dução nas enzimas antioxidantes CAT e GPx, excetuando-se a SOD. De modo semelhante, RUMIÁ et al., (2013) veriicaram em pacientes epilépticos submetidos à cirurgia maior conteúdo de produtos de oxidação (8-OhdG), radicais livres (ânion radical superóxido) e redução nos marcadores antioxidantes (CAT), quando comparados com controles saudá- veis. De modo interessante, a GPx diminuiu, enquanto a SOD icou inalterada, sugerindo um papel antioxidante sítio-especíico para CAT. A modulação de diversas etapas da epileptogênese por meio do complexo Nrf2-ARE e, consequente, otimização da biogênese mitocondrial, redução de RL e menor dano e morte neuronal também tem sido foco de muitos estudos. Baseando-se nesses estudos, a modulação do sistema Nrf2-ARE por meio da DC tam- bém tem apresentado resultados promissores. O estudo de MILDER et al., (2010) mostrou que a DC contribuiu para o equilíbrio do estado redox por meio do aumento de glutationa induzida pelo Nrf2. Posteriormente, MAZZUFERI et al., (2012) veriicaram em diferentes modelos de epilepsia tratada com DC, que o papel terapêutico da dieta envolve a ativação de alguns fatores de transcrição e expressão de genes associados à inlamação e oxida- ção. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 2 9 4. Estresse oxidativo na epilepsia: Potencial alvo terapêutico Apesar da complexa relação entre estresse oxidativo e epilepsia, estudos experimen- tais e clínicos conirmam que a epilepsia não controlada está associada a maior geração de RL, de produtos de oxidação e disfunção de múltiplas funções mitocondriais e neuro- nais, que podem culminar com o dano tecidual, celular e morte apoptótica. Diante dessa perspectiva, o uso de terapias farmacológicas, dietéticas e cirúrgicas capazes de reduzir o estresse oxidativo tem potencial efeito benéico nos controle de crises, na evolução da doença e no prognóstico clínico. ROWLEY e PATEL (2013) propuseram que a terapia antioxidante na epilepsia de difícil controle pode-se estabelecer em três níveis: I – uso de sequestradores estequiométricos de elétrons, como vitaminas C e E; II – antioxidantes catalíticos como substâncias macro- cíclicas e metaloporirinas e III – antioxidantes indiretos como quelantes de ferro e DC, capazes de ativar simultaneamente múltiplas vias antioxidantes por meio da ativação do Nrf2, aumento da glutationa mitocondrial e redução na síntese de ROS. Estudos baseados em intervenção com vitamina E em modelos de epilepsia mostra- ram aumento na atividade da CAT (BARROS et al., 2007), enquanto crianças submetidas a tratamento semelhante apresentaram melhora das crises epilépticas (Ogunmekan et al., 1989). Apesar dessas observações, estudos clínicos posteriores não conirmaram a eicácia clínica da terapia com vitaminas antioxidantes; fato que parece ser modelo-de- pendente e não transferível diretamente à epilepsia humana. O uso de metaporirinas capazes de remover ânion superóxido, peroxinitrito e peróxido de nitrogênio tem mos- trado resultados promissores em modelos animais (LIANG et al., 2000; 2012), embora estudos clínicos ainda devam ser conduzidos no sentido de avaliar sua potencial eicácia no controle das crises epilépticas. No contexto da DC, ROWLEY e PATEL (2013) propuseram que os corpos cetônicos associados à dieta reduzem a geração de ROS e aumentam o conteúdo de glutationa mi- tocondrial.KOVAC et al., (2013) e KLEIN et al., (2014) propuseram que a DC pode ser um importante alvo terapêutico, pois contribui para o controle das crises epilépticas, além de ter efeito neuroprotetor. Um aspecto bastante importante a ser analisado sobre o estresse oxidativo em pa- cientes com epilepsia refere-se ao complexo arsenal de medicamentos ao qual esses pa- cientes estão submetidos. Visando avaliar a possível associação com entre doença-fár- macos-estresse oxidativo, MENON et al., (2012) monitoraram a 100 pacientes epilépticos tratados com múltiplos fármacos, pareados por sexo e idade com indivíduos saudáveis. Os autores veriicaram que a concentração de malondialdeído e proteínas carboxiladas foi inferior nos indivíduos controle e que não houve inluência do tipo de fármaco, suge- rindo que independente da medicação usada a epilepsia evolui com estresse oxidativo. Entretanto, o estudo de PALSAMI et al., (2014) avaliou o impacto do tratamento com ácido valproico – um dos mais comuns fármacos anti-epilépticos (FAE) usado no tratamento da epilepsia, sobre o complexo Nrf2-Keap1. Apesar da eicácia do ácido valproico no controle Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA3 0 de diversas manifestações clínicas da epilepsia, esse apresenta diversos efeitos adversos, que incluem instabilidade do sistema redox (NA et al., 2003; DEFOOT et al., 2006), e super expressão de Keap1, que age como potente inibidor do Nrf2. Ampliado os estudos pela identiicação de novas drogas capazes de modular o estres- se oxidativo presente na epilepsia, MAZZUFERI et al., (2012), avaliaram o efeito da super expressão de Nrf2 no controle das crises epilépticas. Os resultados obtidos conirmaram o papel essencial do Nrf2 no processo epileptogênico, criando perspectivas terapêuticas que envolvam o desenvolvimento de ativadores do Nrf2. Além dos inquestionáveis be- nefícios da DC no controle das crises epilépticas e na qualidade de vida de dos pacientes, inúmeros aspectos mecanísticos favorecem o uso desse tipo de tratamento, pois nesse mesmo estudo, os autores veriicaram que o uso da DC associou-se à ativação do Nrf2. 5. Considerações inais As reações oxidativas fazem partem da homeostase metabólica dos seres aeróbios, incluindo o homem; entretanto, em diversas doenças neurológicas o estresse oxidati- vo é gerado pelo desequilíbrio entre a síntese de RL e os sistemas antioxidantes para a manutenção e agravamento da doença. Na epilepsia, as constantes crises epilépticas estimulam diversas vias catabólicas que contribuem para a geração de RL, que agiram retroalimentando a disfunção mitocondrial, gerando mais RL e mediadores inlamató- rios que podem ser considerados marcadores bioquímicos de gravidade da epilepsia. A associação do estresse oxidativo com a epilepsia tem motivado o desenvolvimento de terapias farmacológicas que possam reduzir a geração de RL e/ou estimular os sistemas antioxidantes nos mais diversos níveis de ação. A DC tem se mostrado eiciente não só na redução das manifestações clínicas da epilepsia, mas também um importante ativador do complexo Nrf2-ARE. Apesar dos resultados positivos, muitas questões ainda necessi- tam ser respondidas por meio de ensaios clínicos: I – A terapia antioxidante baseada em suplementos antioxidantes tem ação benéica no controle das crises epilépticas; II – A super ativação do Nrf2 pode induzir respostas adversas visto que o equilíbrio redox é essencial à vida; III – A DC e suas variações reduzem diretamente a geração de RL ou seus benefícios antioxidantes estão associados à ativação do sistema antioxidante e IV – O uso precoce da associação DC-FAE ampliaria a resposta clínica dos pacientes, controlando melhor a doença e suas morbidades. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 3 1 Referências 1.Barros DO, Xavier SML, Barbosa CO, Silva RF, Freitas RLM, Maia FD, Oliveira AA, Freitas RMT, Akahashi RN. Efects of the vitamin E in catalase activities in hippocampus after status epilepticus induced by pilocarpine in Wistar rats. Neurosci Lett. 2007;416:227–30. 2.Ben-Menachem E, Kyllerman M, Marklund S. Superoxide dismutase and glutathione peroxidase function in progressive myoclonus epilepsies. Epilepsy Res. 2000;40: 33–39. 3.Chen XL, Kunsch C. Induction of cytoprotective genes through Nrf2/antioxidant response element pathway: a new therapeutic approach for the treatment of inlammatory diseases. Curr Pharm Des. 2004;10(8):879- 91. 4.Dalton T, Pazdernik TL, Wagner J, Samson F, Andrews GK. 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Esse desequilíbrio induz e contribui para a manu- tenção das crises epilépticas capazes de induzir reações oxidativas e inlamatórias locais, mas com repercussões ao nível sistêmico. Em linhas gerais, as reações oxidativas fazem parte da maioria das vias metabóli- cas isiológicas dos organismos aeróbios, incluindo o homem, e contribuem diretamente para geração de energia, sob a forma de ATP ao nível da cadeia transportadora de elé- trons. Entretanto, em situações de estresse metabólico induzido por agentes exógenos (vírus, bactérias, extremos de temperatura, poluentes ambientais, pesticidas, tabagismo e alguns fármacos) e desbalanço endógeno (obesidade, câncer, doenças inlamatórias e neurológicas) o organismo ativa diversas vias catabólicas que favorecerão a geração de energia, mas também induzirá a geração de diversos radicais livres (RL). A depender do contexto metabólico, a presença de RL e espécies reativas contribuirão para a restaura- ção da homeostase local e sistêmica, mas também poderá favorecer o agravamento de reações inlamatórias que retroalimentarão o desequilíbrio metabólico e o desenvolvi- mento de doenças. Este capítulo tem por objetivo introduzir o leitor aos conceitos básicos, mas importan- tes no contexto das reações oxidativas em sistemas biológicos, assim como apresentar os possíveis mecanismos celulares e moleculares que associam as reações oxidativas à epilepsia. Destacar o sistema antioxidante, danos celulares e teciduais causados pelos RL e como algumas formas de tratamento podem agravar a geração dos RL e favorecer o desenvolvimento de morbidades em pacientes com epilepsia. Crise epiléptica é a manifestação clínica decorrente da atividade elétrica neuronal anormal, excessiva e hipersincronizada. Epilepsia são crises epilépticas repetidas excluin- do situações nas quais se presume que, provavelmente, não haverá recorrência das cri- ses. Exemplo desta situação são as crises decorrentes de alteração metabólica ou infec- ção do sistema nervoso central. Nestes casos, espera-se que a estabilização da condição clínica seja suiciente para que não ocorram novas crises epilépticas. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA3 4 O diagnóstico de epilepsia é essencialmente clínico, portanto, além dos exames para a investigação diagnóstica, uma história clínica detalhada e exame neurológico minucioso são fundamentais para o diagnóstico. Os exames complementares auxiliarão à deinição do tipo de síndrome epiléptica, etiologia e o seguimento clínico. 1. Diagnóstico 1.1. Anamnese A história detalhada do evento ictal, inserir a deinição, incluindo em que circuns- tâncias o evento clínico ocorreu é de extrema importância. Deve-se investigar o que o paciente estava fazendo, como era o seu comportamento, se icou parado, se perdeu o contato com o meio, se houve ou não manifestações motoras associadas, como foi o inal e como o paciente voltou ao seu estado basal. Se a crise epiléptica ocorreu em vigília ou se tem relação com ciclo sono-vigília, ocor- rendo em períodos de transição, durante o sono ou no despertar, são questões que de- vem ser abordadas para que se possa determinar o tipo de síndrome epiléptica. Alguns dados como a sequência das manifestações clínicas, se houve outros sinais e sintomas antecedendo a perda da consciência, presença de sintomas sensitivos, visuais, olfativos, autonômicos, psíquicos, auditivos ou motores localizados, ajudarão a deinir se a crise epiléptica tem origem focal. A análise detalhada do tipo de manifestação motora e a sua localização como face, membros superiores ou inferiores, segmento cefálico ou olhos quando presentes antes da fase dos movimentos generalizados, é importante para diferenciar crises epilépticas primariamente generalizadas de crises epilépticas secundariamente generalizadas. Para a obtenção de detalhes é fundamental que uma pessoa que tenha testemu- nhado os eventos clínicos esteja presente durante a avaliação e a anamnese, pois estas informações diicilmente poderão ser fornecidas somente pelo paciente e por familiares que não estiveram presentes durante a crise epiléptica. O paciente certamente dará in- formações úteis, porém na fase de perda de consciência, naqueles que apresentam este sintoma, ele não saberá descrever o ocorrido. Alguns indivíduos podem apresentar am- nésia, o que diiculta a descrição até mesmo de sintomas subjetivos. Além disso, a faixa etária pediátrica é um limitante a essa descrição detalhada. A aparência física do paciente durante o evento clínico como palidez, cianose ou outro sinal pode contribuir para corroborar se o evento foi realmente uma crise epiléptica. Um importante diagnóstico diferencialé que as crises não epilépticas psicogênicas (CNEP), em geral, não são acompanhadas por alterações autonômicas. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 3 5 Como foi o inal do evento e como o paciente voltou, especialmente se houve con- fusão mental, se a linguagem icou comprometida por alguns minutos, se voltou com diiculdade motora transitória (paralisia de Todd), são indícios de crise epiléptica focal e podem ajudar na lateralização. Confusão mental após crise epiléptica é relativamente comum e associada ao tipo e duração do evento. As crises epilépticas, em geral, têm a duração variando entre alguns segundos a minutos. A duração do evento e a presença de confusão após também são importantes na diferenciação entre crise epiléptica e CNEP, que em geral tem duração de vários minutos, podendo chegar a horas e sem confusão mental após o evento. Condições clínicas ou situações que precipitam as crises epilépticas podem sugerir uma síndrome. Um exemplo é a síndrome de Dravet. Nesta síndrome cuja causa é uma mutação no gene do canal de sódio voltagem dependente, subtipo SCN1A, as crises epi- lépticas iniciam antes do primeiro ano de vida, são de múltiplos tipos clínicos, focais e ge- neralizadas, de difícil controle e condições clínicas como: febre, infecções e vacinação são situações que desencadeiam as crises epilépticas. Estas podem ser de duração prolon- gada, sendo necessária a intervenção com farmácos antiepilépticos para o seu controle. Outros dados relevantes são: patologias agudas associadas, medicamentos utiliza- dos, presença de doenças crônicas, antecedente de traumatismo cranioencefálico, infec- ções do sistema nervoso central, condições de parto, intercorrências periparto ou neona- tais, antecedentes familiares positivos para epilepsia ou doenças genéticas, presença de consanguinidade, etc. O histórico sobre as aquisições quanto ao desenvolvimento motor, da linguagem e o cognitivo, além do desenvolvimento e aquisições acadêmicas devem ser abordados. 1.2. Exame Físico O exame físico do paciente com epilepsia deve contemplar a avaliação da pele, pois as síndromes neurocutâneas(como por exemplo esclerose tuberosa, neuroibromato- se, síndrome de Sturge Weber) frequentemente cursam com crises. Fundo de olho (na procura de manchas e cicatrizes), avaliação abdominal (veriicar hepatoesplenomegalia presente nas doenças de depósito), além de avaliação cardíaca (episódios neurológicos consequentes às arritmias ou outras condições cardiológicas) são detalhes importantes no exame físico. Outros aspectos são a presença de dismorias faciais, avaliação do cognitivo, além do exame neurológico convencional na procura de déicits motores, de linguagem, intelec- tual, etc. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA3 6 1.3. Exames Complementares 1.3.1 Eletroencefalograma Eletroencefalograma (EEG) é o registro da atividade elétrica cerebral espontânea e a sua introdução na investigação de pacientes com epilepsia representou um grande avan- ço. Sua utilização como “marcador”, até então inexistente da epileptogênese interictal, impulsionou de forma inequívoca a evolução e o conhecimento na área. O registro eletroencefalográico é um método funcional, único na prática clínica, sen- do o princípio, a representação gráica, ao longo do tempo, da diferença de voltagem entre duas regiões cerebrais distintas. Esta diferença de potencial ou voltagem é cap- tada através de eletrodos posicionados no couro cabeludo, que relete as variações de corrente no espaço extracelular. A principal fonte é a somatória de potenciais sinápticos inibitórios e excitatórios que ocorrem em centenas ou mesmo em milhões de neurônios corticais, inluenciados por estruturas subcorticais, tálamo e formação reticular do tron- co cerebral (STERIADE et al., 1990; EBERSOLE, 2003). O EEG deve ser solicitado para responder uma pergunta clínica referente ao diag- nóstico e evolução do paciente. O EEG é indicado, para diagnóstico ou seguimento, em diversas situações clínicas que cursam com alteração do nível de consciência, dentre elas, sintomas paroxísticos sugestivos de crises epilépticas (perda de consciência, quedas, aba- los musculares), dentre outras patologias e sintomas neurológicos. Apesar da indiscutível importância do EEG, algumas considerações deste método como teste complementar para o diagnóstico das epilepsias e síndromes epilépticas de- vem ser feitas. O EEG, isoladamente, não faz diagnóstico de epilepsia, mesmo que se detecte inequívoca atividade epileptiforme. O EEG deverá ser utilizado sempre como complemento dos dados da história clínica e em contexto clínico apropriado. Uma vez deinido o diagnóstico clínico, o EEG é útil para a compreensão da natureza e etiologia da epilepsia ou síndrome epiléptica, associado aos demais exames complementares, espe- cialmente os de neuroimagem. O tipo de anormalidade epileptiforme no EEG é útil para classiicação do tipo de crise epiléptica e do tipo de síndrome epiléptica. Paroxismos de espículas e ondas agudas fo- cais, geralmente são encontrados nas epilepsias focais. Os paroxismos podem permane- cer sempre localizados ou apresentar certo grau de propagação. Em geral, há correlação entre a localização dos paroxismos e a área de origem das crises. Nas crises generalizadas, o EEG tipicamente mostra paroxismos epileptiformes gene- ralizados e podem ser do tipo complexos de espícula-onda, complexo de multiespícula, complexo de multiespícula-onda, complexo de onda aguda-onda lenta e paroxismos de ritmo rápido. Nas epilepsias generalizadas primárias, não há patologia subjacente, a atividade de base se mostra normal, enquanto nas formas generalizadas secundárias, nas quais exis- Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 3 7 te uma doença de base, pode haver algum grau de alentecimento da atividade elétrica cerebral. Paroxismos epileptiformes multifocais de espículas e de ondas agudas podem ser en- contrados em mais de uma área cerebral (três ou mais para a deinição de multifocalida- de), de um ou de ambos os hemisférios. Estas descargas podem ser observadas tanto em crianças como em adultos, comumente com comprometimento cognitivo e relacionadas com crises generalizadas clônicas ou tônicas. O registro obtido durante a ocorrência de crises epilépticas é referido como ictal, constituído por descargas repetitivas com início e término relativamente abruptos, apre- senta padrão característico de evolução e duração de vários segundos. O padrão ictal varia em forma, frequência e topograia, apresenta ritmicidade e durante o mesmo epi- sódio, evolui com aumento de amplitude e diminuição de frequência. Quando de início focal, há propagação do ritmo ictal no decorrer da crise para outras áreas. Não é comum, na prática clínica, a obtenção do registro ictal durante o EEG de rotina, que é um registro de curta duração (30 minutos) e o paciente não interrompe as suas medicações habituais para a realização deste exame. O registro ictal no EEG de rotina dependerá da frequência das crises epilépticas e da casualidade. Todos os achados interictais necessitam ser criteriosamente avaliados e interpreta- dos. Anormalidades paroxísticas epileptiformes devem ser cuidadosamente diferencia- das de artefatos, de grafoelementos de sono, daqueles achados originalmente descritos como epileptiformes, porém hoje reconhecidos como desprovidos de signiicado especí- ico (variantes da normalidade) e, inalmente, de outros achados ou anormalidades ines- pecíicas. O EEG deve ser solicitado o mais precocemente possível.O registro deve incluir um período de vigília e de sono, tendo o paciente feito privação de sono. Considerar repetir o exame para aqueles que não demonstraram anormalidades, pois múltiplos exames podem aumentar a sensibilidade (SALINSKY et al., 1987). Para a caracterização de algumas síndromes epilépticas em particular, o EEG pode ser decisivo ou mesmo imprescindível, pois possui dados eletrográicos característicos. Em pediatria, a epilepsia benigna da infância com paroxismos centrotemporais é uma síndrome epiléptica que cursa comanormalidades típicas no EEG e que são essenciais para a conirmação do diagnóstico. Nesta síndrome, os paroxismos são de ondas agudas com amplitude máxima nas áreas centrotemporais. As ondas agudas são unilaterais em 60% dos casos, ocorrendo em igual proporção no hemisfério direito e esquerdo, contra ou ipsilateral às manifestações clínicas. Quando bilaterais (40% dos casos), podem ser síncronas ou assíncronas (HOLMES, 1993). Multifocalidade ocorre em até 37,5% dos casos (LÜDERS et al., 1987) e é importante diferenciá-la do padrão de ondas agudas multifocais associadas a outras formas de epilepsias. O diagnóstico diferencial geralmente é possível pelas outras características como a morfologia e o campo de distribuição das descargas, além, evidentemente, do contexto clínico. Quanto ao campo de distribuição dos paro- xismos frequentemente observam-se dipolos tangenciais à superfície cortical (BLUME, Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA3 8 1982). Tipicamente, os paroxismos são ativados pelo sono, quando tendem a surgir de forma repetitiva e em agrupamentos. Outro exemplo de anormalidades eletrográicas que colaboram para a deinição da síndrome epiléptica é o registro de paroxismos epileptiformes generalizados de comple- xos de espícula-onda, regulares e ritmados a 3/s encontrados nas epilepsias generali- zadas idiopáticas com crises de ausência, em geral ausência da infância (Figura 1). Na epilepsia ausência juvenil, o complexo de espícula-onda é um pouco mais rápido do que 3/s (3,5 a 4/s) e mais irregular. Na epilepsia mioclônica juvenil, o EEG é quase sempre anormal em pacientes não tratados, sendo que 84,8% dos pacientes têm pelo menos uma anormalidade. Excesso de ondas lentas teta difusas ou ocasionais surtos teta são as principais anormalidades ines- pecíicas. Paroxismos epileptiformes são encontrados em 51,5% dos casos (ROGER et al., 1994). Diante de suspeita de epilepsia mioclônica juvenil, deve-se realizar o EEG ao des- pertar. As anormalidades interictais epileptiformes são caracterizadas por paroxismos de complexos de multiespícula-onda, comumente irregulares e ritmados a mais do que 3/s. A fragmentação dos paroxismos e as múltiplas espículas formam a aparência de um W maiúsculo comprimido. Este achado é comum e característico (PANAYIOTOPOULOS et al., 1989). Em todas estas formas generalizadas e idiopáticas de epilepsia, durante o sono, ob- serva-se ativação dos paroxismos epileptiformes. As provas de hiperpneia e de fotoesti- mulação intermitente também podem desencadear os paroxismos. Fotossensibilidade é frequente na ausência juvenil e na epilepsia mioclônica juvenil. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 3 9 Dentre as epilepsias generalizadas sintomáticas, algumas síndromes também apre- sentam achados característicos. Na síndrome de West, as crises são do tipo espasmos infantis, com interrupção ou regressão do desenvolvimento neurológico no início do qua- dro e padrão eletrográico de hipsarritmia (Figura 2). A principal característica eletrencefalográica da síndrome de West é a hipsarritmia que relete eletrogênese cortical completamente desorganizada e caótica, com ritmos de base não distinguíveis da atividade epiléptica, que é usualmente de elevado potencial (> 300 µV). A síndrome de Lennox-Gastaut cursa comcrises de ausência atípica, crise tônica, atô- nica ou mioclônica. Retardo mental com distúrbios de personalidade também acompa- nham esta síndrome, que é observada em criança em uma das seguintes condições: pre- viamente normal, com atraso mental e motor, antecedente de síndrome de West ou de outra síndrome epiléptica sintomática, criptogênica ou idiopática (focal ou generalizada). O EEG exibe padrão característico constituído por complexos de onda aguda-onda lenta, 1 a 2,5/s, de projeção generalizada, com expressão máxima sobre as áreas fron- tais em meio a atividade de base usualmente alentecida, com ondas teta e delta. Estes complexos ocupam de 30 a 50% do registro de vigília e podem estar associados às crises clínicas, especialmente ausência atípicas (BLUME, 1982). A sonolência e o sono leve aumentam a incidência dos complexos de onda aguda-on- Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA4 0 da lenta e ativam o registro de paroxismos de ritmo rápido, de 10-20 Hz (ritmo recrutan- te), que muitas vezes, correspondem a crises tônicas (Figura 3). Outro exemplo é a encefalopatia epiléptica infantil precoce com surto-supressão, também chamada de síndrome de Ohtahara. Inicia-se muito precocemente e caracteri- za-se por espasmos tônicos, em salvas(10 a 40 crises) e frequentes (100 a 300/dia). Crises focais motoras erráticas, hemiconvulsões ou crises tônico-clônicas generalizadas tam- bém podem estar presentes. O padrão eletrográico de surto-supressão é encontrado em todos os casos e caracteriza-se por surtos de ondas lentas misturadas à espículas ir- regulares de elevada amplitude (150-350 µV), 1 a 3 segundos de duração, que se alternam com períodos de supressão da atividade elétrica cerebral de duração de 3 a 4 segundos. O padrão surto-supressão permanece inalterado independentemente dos vários está- gios de sono ou da vigília. 1.3.2 Vídeo-Eletroencefalograma Vídeo-eletroencefalograma (vídeo-EEG) é o registro simultâneo e sincronizado do EEG e do comportamento clínico. Embora o EEG seja um instrumento essencial na avaliação da atividade elétrica cerebral, algumas vezes, persistem dúvidas quanto ao diagnóstico de fenômenos episódicos que não podem ser adequadamente elucidados apenas com o registro interictal. Aproximadamente, 5% das pessoas com epilepsia, 13-20% de adultos e em torno de 40% das crianças são referidas a centros especializados para investigação mais acurada (BINNIE e STEFAN, 1999). Nestes casos, para deinição diagnóstica, é ne- cessário documentar o evento ictal. Isto requer registro prolongado tanto do comporta- Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 4 1 mento quanto do EEG até que o fenômeno clínico seja documentado. Comportamento ictal bizarro, que não é facilmente reconhecido como crise, será corretamente deinido se houver o registro simultâneo de padrão eletrográico ictal no EEG. A evidência de um comportamento típico de crise epiléptica poderá ser suiciente para o diagnóstico de epilepsia mesmo na ausência de paroxismos epileptiformes. O registro ictal, por vezes, pode ser obscurecido por artefatos de atividade muscular e de movimentação ou ainda, quando a origem da crise epiléptica está em área muito restrita ou profunda, o traçado eletrográico com os eletrodos de superfície pode não evidenciar uma mudança nítida. As principais indicações do vídeo-EEG são: diagnóstico, classiicação e caracterização das crises epilépticas, quantiicação das crises epilépticas, avaliação de fatores desenca- deantes, investigação da possibilidade de tratamento cirúrgico para os casos refratários ao tratamento clínico eseguimento quanto a resposta ao tratamento. O vídeo-EEG pode fornecer dados mais objetivos e precisos quando apenas o acompanhamento clínico e EEG de rotina não são suicientes para fornecer todos os dados necessários para uma deinição quanto ao ajuste do tratamento. Alguns exemplos das indicações são comportamentos anormais que podem corres- ponder a crises epilépticas, mas também podem corresponder a condições associadas a sintomas intermitentes decorrentes de mecanismos não epilépticos como síncopes, ar- ritmias cardíacas, ataques isquêmicos transitórios, narcolepsia ou outros distúrbios de sono, CNEP ou outras doenças que levem a alterações de comportamento. O registro de crises clínicas pode ser útil para distinguir diferentes semiologias que requerem tratamentos diferentes. Por exemplo, pode haver diiculdades na diferencia- ção entre crises de ausência com automatismos e crises focais com comprometimento da consciência. Obviamente, as crises de ausência requerem tratamento com drogas para epilepsia generalizada e a crise focal drogas com melhor ação nas epilepsias focais. Dentre os vários distúrbios paroxísticos que são de diagnóstico diferencial das epi- lepsias, CNEP é o fenômeno de natureza não epiléptica, mais frequentemente encontra- do na unidade de vídeo-EEG. Até 30% dos pacientes referidos a centros especializados com diagnóstico inicial de epilepsia de difícil controle, apresentam CNEP (GORDON et al., 2014). A sintomatologia clínica pode ser muito semelhante às crises epilépticas e, portan- to, tal como essas, de variada apresentação semiológica. Porém, a análise cuidadosa de todos os sintomas é imprescindível, sendo que entre 5 a 60% dos pacientes com CNEP apresentam epilepsia como comorbidade. Nestes casos, é possível a orientação aos fami- liares no reconhecimento das duas patologias, uma vez que há condutas diferentes para cada uma das condições (GORDON et al., 2014). O EEG durante a CNEP é normal, o que signiica que durante as mesmas não há pa- roxismos epileptiformes ou ritmo ictal, e sim apenas artefatos produzidos pelos movi- mentos do paciente. Ao inal da CNEP, não são observadas ondas lentas, nem depressão pós-ictal dos ritmos de base. Em algumas situações há diiculdades na realização do vídeo-EEG. Há eventos que são muito esporádicos, com intervalos de meses. Estas manifestações clínicas diicilmen- te serão registradas e podem não ter o diagnóstico completamente elucidado, embora o registro do EEG interictal prolongado positivo e típico possa sugerir uma determinada Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA4 2 síndrome epiléptica. A Figura 4 ilustra o algoritmo da investigação nas epilepsias. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 4 3 1.3.3 Neuroimagem O objetivo da neuroimagem é a determinação da etiologia e não o diagnóstico de epi- lepsia. Procura-se por lesões estruturais que possam estar no contexto das crises epilép- ticas e dos achados do EEG. Dentre as lesões estruturais, deve-se considerar neoplasias, malformações, anormalidades agudas ou sequelas de evento vascular, hipóxico-isquêmi- co e de traumatismo cranioencefálico. Pode-se ainda veriicar anormalidades sugestivas de alterações metabólicas, infecções, anormalidade estrutural e/ou sinal do hipocampo ou lobo temporal. Na literatura, estudos com crianças que apresentaram a primeira crise afebril, não provocada, observou-se que em 16% delas houve anormalidades signiicati- vas na ressonância magnética. A maior possibilidade de recorrência de crise epiléptica foi associada à presença destas anormalidades (ARTHUR et al., 2008). A ressonância magnética é mais apropriada do que a tomograia de crânio para a in- vestigação etiológica de crises epilépticas. A ressonância exibe maior sensibilidade para detectar malformações cerebrais, displasias, assim como patologias sutis do lobo tempo- ral, particularmente no hipocampo (HSIEH et al., 2010). A tomograia é mais frequentemente usada na emergência, em geral, após a ocorrên- cia da primeira crise. Estudo em crianças mostrou que, nestas condições, a tomograia de crânio sem contraste pode indicar achados que modiicam a conduta em 3 a 9% dos casos (HARDEN et al., 2007). 1.3.4 Exames Laboratoriais Vários exames laboratoriais de sangue e urina, extensa investigação metabólica para diagnóstico de erros inatos do metabolismo e análise do líquido cefaloraquidiano (LCR), são alguns dos testes realizados para deinir a etiologia e, por vezes, tratamento clínico das epilepsias. Esta investigação assim como a neuroimagem não fará o diagnóstico de epilepsia. Considerando este fato, o ideal é iniciar com a história clínica e o exame físico de forma minuciosa e, na sequência, o eletroencefalograma. A avaliação por neuroima- gem também fará parte da investigação na maioria dos casos. Com estes testes, uma parcela signiicativa de pacientes já terá diagnóstico sindrômico e etiológico deinidos e a extensa, exaustiva e onerosa investigação por exames laboratoriais será desnecessária. Nos casos sem etiologia deinida, em especial, aqueles que cursam com epilepsia de difícil controle, a continuidade da investigação se torna necessária. Um exemplo, é o achado de baixa taxa de glicose no LCR. Obviamente, sem sintomas de infecção, este achado no LCR pode signiicar uma síndrome rara, a síndrome da deiciência de GLUT1, ou seja, a deiciência de uma enzima necessária para transportar glicose para o sistema nervoso central (PONG et al., 2012). O diagnóstico deve ser conirmado, podendo ser realizado teste genético molecular. A dieta cetogênica é o tratamento de escolha para esta síndrome (VIGEVANO et al., 2013; KASS et al., 2016;). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA4 4 1.3.5 Testes Genéticos A avaliação genética para as síndromes epilépticas está cada vez mais disponível e acessível economicamente. Com forte suspeita clínica um único gene pode ser mape- ado. Testes mais amplos como a pesquisa de um painel de genes para epilepsia ou mes- mo todo o exoma podem ser realizados quando a suspeita de diagnóstico envolve mais de uma síndrome ou quando os dados clínicos são pouco indicativos de uma síndrome especíica (TAN et al., 2015; JOSHI et al., 2016). O diagnóstico etiológico é sempre muito importante, pois além de contribuir para a escolha do tratamento mais apropriado, for- necerá dados de prognóstico, aconselhamento genético e ainda será imprescindível para evitar outras investigações desnecessárias. 2. Considerações Finais O EEG é um método não invasivo para a análise da atividade elétrica cerebral. Na prática clínica, é indicado para complementação diagnóstica nas patologias neurológicas e nas condições clínicas com sintomas neurológicos. Nas epilepsias e síndromes epilép- ticas, o EEG é indicado para a conirmação do diagnóstico, diferenciação entre certos tipos de crises e síndromes e para o diagnóstico diferencial entre distúrbios paroxísticos epilépticos e não epilépticos. Algumas síndromes epilépticas apresentam padrões ele- trográicos relativamente especíicos. O EEG fora do contexto clínico não é suiciente para o diagnóstico de epilepsia, devendo ser interpretado em associação com os demais exames complementares e, em especial, integrado à história clínica do paciente. Vídeo-EEG está indicado sempre que houver necessidade de se registrar o even- to clínico em função de dúvidas ou incertezas diagnósticas. O paciente deve então ser monitorado ininterruptamente por horas ou dias até que o evento seja registrado. O registro eletrográico ictal será elucidativona maioria dos casos, entretanto, registros obscurecidos por artefatos de movimentação, atividade muscular e outros artefatos não são infrequentes. A experiência do eletroencefalograista será útil, podendo inclusive diagnosticar crises epilépticas, mesmo na ausência de padrão ictal evidente. Os demais exames complementares como os de neuroimagem, testes laborato- riais, incluindo pesquisa para erros inatos do metabolismo, LCR e testes genéticos estão indicados para a pesquisa da etiologia das epilepsias e não para o seu diagnóstico. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 4 5 Referências 1.Arthur TM, deGrauw TJ, Johnson CS, Perkins SM, Kalnin A, Austin JK, Dunn DW. Seizure recurrence risk following a irst seizure in neurologically normal children. Epilepsia. 2008;49(11):1950-54. 2.Binnie CD, Stefan H. Modern electroencephalography: its role in epilepsy management.Clin Neurophysiol. 1999;110(10):1671-97. 3.Blume WT. Atlas of pediatric electroencephalography. New York: Raven Press; 1982. 4.Ebersole JS. 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Aspectos gerais dos fármacos antiepilépticos A escolha dos FAE se baseia no tipo de crise epiléptica ou preferencialmente, na epi- lepsia ou síndrome epiléptica. Além disso, devem ser valorizados dados do paciente como idade, sexo, condições físicas e situação socioeconômica. Uma vez determinada a medicação a ser utilizada deve-se buscar a concentração ca- paz de determinar o controle das crises epilépticas (EFICÁCIA) com o menor número pos- sível de efeitos colaterais (TOLERABILIDADE). Para isso é fundamental o conhecimento da farmacocinética e da farmacodinâmica dos FAE. A farmacocinética é entendida como tudo aquilo que o organismo faz com o fármaco, enquanto a farmacodinâmica diz respei- to ao que o fármaco faz ao organismo. 1.1 Farmacodinâmica As crises epilépticas decorrem de mecanismos diversos entre eles o desequilíbrio entre fatores de inibição e de excitação ao nível do sistema nervoso central (SNC). Os FAE atuam aumentando a inibição ou diminuindo a excitabilidade neuronal. O aumento da inibição pode ser obtido através de substâncias que aumentam o ácido gama-aminobutírico (GABA), principal neurotransmissor inibitório do SNC, por diferentes mecanismos. Outras substâncias reduzem a excitabilidade neuronal, diminuindo acon- centração de glutamato, principal aminoácido excitatório do SNC, por meio da inibicão na sua síntese ou então bloqueando seus receptores na membrana pós-sináptica. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 4 7 Os FAE atuam ainda alterando a excitabilidade da membrana celular modiicando a condutância dos canais iônicos de Na+, Ca++, K+ ou Cl-. Com a abertura dos canais e entrada de Na+ e Ca++ para o interior da célula, há uma despolarização da membrana, que se repolariza pela saída de K+ e entrada de Cl-. O bloqueio dos canais de Na+ e Ca++ impede a despolarização da membrana celular enquanto a ativação dos canais de K+ re- polariza a membrana impedindo a propagação da descarga. 1.2 Interação Farmacodinâmica Quando duas medicações são administradas em conjunto seus efeitos podem ser aditivos (somados), supra-aditivos (potencializados) ou infra-aditivos (diminuídos). Na combinação supra aditiva é importante que a tolerabilidade seja mantida aceitável. A as- sociação de dois fármacos pode ser desejável se a eicácia é supra aditiva e a toxicidade aditiva ou infra aditiva (BOURGEOIS, 2006). 1.3 Farmacocinética Os FAE percorrem no organismo todo um trajeto aonde são absorvidos, transporta- dos, metabolizados e inalmente eliminados. A absorção determina a biodisponibilidade que representa a fração da dose admi- nistrada que chega à corrente sanguínea, essa é dependente da via de administração e do tipo de formulação. Após a administração endovenosa a biodisponibilidade é 1% ou 100%. Bioequivalência signiica que dois fármacos têm a mesma biodisponibilidade sen- do, do ponto de vista regulatório, aceitas diferenças de até ± 20 a 25% (YACUBIAN, 2014). Na corrente sanguíneaos fármacos ligam-se às proteínas plasmáticas. Apenas a fra- ção livre do fármaco, não ligada à proteína plasmática, será capaz de atravessar a barrei- ra hematoencefálica para exercer sua ação antiepiléptica SNC. Consideradas substâncias estranhas ao organismo os FAEs devem ser rapidamente eliminados. Em geral eles são altamente solúveis em lipídeos para atravessarem a bar- reira hematoencefálica. Para serem eliminados necessitam ser metabolizadas para que sejam transformadas em compostos solúveis em água, de modo a possibilitar a excreção renal. Esta metabolização é feita no fígado em dois sistemas: o microssomal, sistema enzimático citocromo P-450, localizado no retículo endoplasmático e, o não microssomal, situado no citoplasma e nas organelas celulares. Na metabolização dos FAE podem surgir metabólitos que por vezes têm atividade farmacológica, semelhante à molécula original ou diferente, chegando a determinar reações indesejáveis. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA4 8 2. Características gerais dos fármacos antiepilépticos Fenobarbital O fenobarbital (PB) é um barbitúrico sintetizado em 1864 e introduzido na prática clínica em 1912. Pela sua eicácia, longa experiência clínica, comodidade de uso e baixo preço é ainda um fármaco a ser considerado (GUERREIRO e GUERREIRO, 2014). A absorção do PB é lenta e a meia vida longa especialmente em recém-nascidos po- dendo ser usado uma única vez ao dia. Ele é metabolizado no fígado, sendo um indutor enzimático. A sua principal indicação é em crises generalizadas ditas convulsivas, espe- cialmente as tônico-clônicas (GUERREIRO e GUERREIRO, 2014). É usado também em crises focais com eicácia comparável à carbamazepina (CBZ) e fenitoína (PHT), em crises neo- natais e tem importante ação no estado de mal epiléptico (EME) (DONOVAN et al., 2016; FALCO-WALTER e BLECK, 2016). Os principais efeitos colaterais do PB são os distúrbios cognitivos e comportamen- tais sendo que em adultos é referido, fadiga, desatenção e cansaço. A ocorrência de nis- tagmo, ataxia, tontura, bem como diminuição da libido e impotência, costuma ser dose dependente. O rash cutâneo ocorre em menos de 3% dos pacientes (BŁASZCZYK et al., 2015). Pode ocorrer ainda agranulocitose, anemia aplástica, insuiciência hepática, trom- bocitopenia e mais raramente osteoporose e alterações no tecido conectivo. Na infância também é comum ser obseravdo hiperatividade, especialmente em crianças pequenas e já hiperativas (SCHUBERT, 2005; ALDENKAMP et al., 2016;). PB pode ser administrado uma única vez ao dia e a suspensão da medicação deve ser lenta (3 a 6 meses) para evitar o risco de recidiva de crises epilépticas (GUERREIRO e GUERREIRO, 2014). Fenitoína A PHT foi descoberta por Merritt e Putnam em 1938 sendo o primeiro FAE não seda- tivo (Jorge, 2014). A PTH é indutor enzimático, diminuindo os níveis séricos de outras FAE bem como de anticoagulantes e de anticoncepcionais orais. Sua particularidade farmacocinética é a cinética de ordem zero, ou seja, independente da sua concentração sua taxa de trans- ferência celular é constante (JORGE, 2014). Ela é indicada em crises focais e generalizada dita convulsiva, não existindo diferenças estatisticamente signiicativas entre ela e a CBZ e, mais recentemente, a oxcarbazepina (OCBZ) (NOLAN et al., 2015). PTH é eicaz ainda Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 4 9 no tratamento do Estado de Mal Epiléptico - EME convulsivo e pode ser usada em crises neonatais (FALCO-WALTER e BLECK, 2016). É importante salientar que pode piorar crises mioclônicas e de ausência (GENTON, 2000). PTH está associada a amplo espectro de efeitos adversos que podem ou não depen- der da dose. Dentre os que independem da dose observam-se: efeitos cosméticos, por espessamento do tecido conjuntivo, como dismorismo facial; alterações dermatológi- cas como hirsutismo, acne e hiperpigmentação; hiperplasia gengival; rash; intolerância a carboidratos; neuropatia periférica; deiciência de vitamina D; osteomalácia e lúpus eri- tematoso sistêmico. Entre os efeitos dose dependentes estão: nistagmo, borramento vi- sual, diplopia, tontura, sonolência, letargia, coma, febre, náusea, vômitos, espessamento gengival, confusão mental, alterações do humor, depleção de ácido fólico, osteomalácia e hiperglicemia. Os sinais de toxicidade podem incluir ainda aumento na frequência das crises e nas doses mais altas sinais extrapiramidais como: distonia, movimentos atetóide e coreiforme e raramente mioclonias. O tratamento crônico com altas doses de PTH pode levar a encefalopatia irreversível, evidenciada nos exames de neuroimagem por atroia cerebelar e caracterizada por déicit mental, alterações do humor ou sintomas cerebelo vasculares (JORGE, 2014). Na pele as reações são frequentes e variadas incluindo algumas que podem ser fa- tais: dermatite bolhosa, exfoliativa e purpúrica, lúpus eritematoso, síndrome de Stevens- -Johnson e necrólise epidérmica tóxica (INDU e BASUTKAR, 2015). O uso endovenoso de PTH pode determinar hipotensão, bradicardia e arritmias car- díacas relacionadas à velocidade de infusão, além de fenômenos locais como irritação venosa e trombolebite, relacionadas ao calibre da veia. PHT é usada preferencialmente em três doses ao dia e os aumentos de dose devem ser lentos. Carbamazepina A CBZ é um composto tricíclico que foi sintetizado na década de 50 em conexão com antidepressivos como a imipramina (DA COSTA, 2014). A CBZ é um importante indutor da atividade enzimática o que determina muitas inte- rações medicamentosas. Acelera o metabolismo dos hormônios, tanto endógenos como exógenos, de corticosteroides, teoilina, haloperidol entre outros. É ainda auto indutora do sistema enzimático responsável pelo seu metabolismo, de modo que após as primei- ras semanas de tratamento, ocorre uma reducão na sua concentração sanguínea o que pode promover recorrência das crises e necessidade de ajuste da dose (ALRASHOOD, 2016). Na biotransformação da CBZ é gerado o metabólito CBZ-10,11-epóxido que tem sido implicado na toxicidade da CBZ (ALRASHOOD, 2016). A CBZ é indicada para o tratamento de crises focais e tônico-clônicas generalizadas, Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA5 0 principalmente as secundariamente generalizadas. De modo semelhante à PTH, a CBZ pode piorar crises de ausência e mioclônicas (GENTON, 2000). Além disso, pode agra- var certas crises e epilepsias devido a um efeito paradoxal em que ela determina piora de crises para as quais ela é usualmente efetiva. Este efeito é mais comum na infância, em especial na epilepsia parcial autolimitada da infância com ponta centro-temporal, a epilepsia rolândica, mas pode ocorrer também com outros tipos de epilepsias. Nesta cir- cunstância há agravamento do quadro clínico com aparecimento de distúrbios neurop- sicológicos e de novos tipos de crises e a ocorrência no eletroencefalograma (EEG) de complexos de espícula-onda contínuos durante o sono (YILMAZ et al., 2014). A grande vantagem da CBZ é que determina menos frequentemente distúrbios cog- nitivos. Os principais efeitos colaterais são dose dependentes: diplopia, visão borrada, sonolência, cefaléia, náusea, e dor de estômago que costumam desaparecer com o uso continuo. A introdução lenta pode em alguns pacientes evitar o desenvolvimento dos efeitos colaterais (DA COSTA, 2014). Um dos problemas maiores com a CBZ é o rash cutâneo que ocorre em 5-10% dos pacientes, mas que desaparece com a suspensão do fármaco. Efeitos severos, como a síndrome de Stevens-Johnson,são raros. Efeitos endocrinológicos como a hiponatremia e a retenção de água ocorrem devido à liberação ou potencialização do hormônio anti- diurético (DA COSTA, 2014). A CBZ deve ser usada em 3 ou mais raramente em 2 doses diárias. A apresentação CR (liberação lenta) facilita o uso em 2 tomadas diárias. A introdução lenta e o uso da forma CR podem evitar a ocorrência de efeitos colaterais. A retirada da medicação pode ser rá- pida sem risco de exacerbação das crises como ocorre com o PB e os benzodiazepínicos. Ácido valproico O ácido valproico (VPA) é um ácido graxo ramiicado sintetizado em 1882 e usado pela primeira vez como FAE em 1964. Dado que a maioria de suas formulações são sais (valproato de sódio, valproato de magnésio, e divalproato de sódio) ele é frequentemente chamado de valproato (YACUBIAN, 2014) O VPA é metabolizado no sistema citrocromo P-450, por glucuronidação e ainda por ß-oxidação. É um inibidor enzimático, elevando as concentrações plasmáticas dos outros FAE e, consequentemente, seus níveis séricos e o risco de efeitos colaterais como a fre- quência e severidade das reações cutâneas quando administrada simultaneamente com a lamotrigina. VPA é o fármaco de maior espectro de ação, pois age em todos os tipos de crises e não piora qualquer uma delas. Assim, atua tanto em crises focais com em todos os tipos de crises generalizadas, incluindo as crises de ausência típica e atípica, tônica, atônica e mioclônica. Devido ao seu amplo espectro de ação e pelo fato de não piorar outros tipos de crises, está indicado nas epilepsias indeterminadas (BOURGEOIS, 2006). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 5 1 Osefeitos colaterais do VPA podem ser relacionados à dose como os gastrintestinais, ganho de peso, pele e anexos e SNC. Anorexia, náusea e vômitos são comuns (42%), ocor- rem no início do tratamento e podem ser evitados com aumento gradual da dose, inges- tão após as refeições e fracionamento da dose ao longo do dia. Ganho excessivo de peso é observado em 8 a 57% dos pacientes. Edema periférico pode ocorrer em alguns pacien- tes contribuindo para o aumento de peso (NANAU e NEUMAN, 2015). O rash cutâneo é raro e pode ser controlado com a diminuição da dose. Queda dos cabelos é observada em até 50% dos pacientes sendo que quando renascem os cabelos podem apresentar textura e cor diferentes do inicial (BOURGEOIS, 2006). Os relacionados ao SNC são pouco expressivos quando comparados aos de outros FAE. Tremor ino das mãos ocorre em 10% dos casos, sedação é rara e distúrbio cognitivo não costuma ser observado. Rara- mente ocorre encefalopatia aguda que parece decorrer de hiperamonemia e deiciência de carnitina bem como pseudo atroia cerebral, com deterioração cognitiva e quadros piramidais ou extrapiramidais. Os efeitos colaterais do VPA podem ser ainda idiossincrásicos como os hematológicos, hepáticos e pancreáticos. Os efeitos hematológicos mais comuns como plaquetopenia e inibição da agregação plaquetária geralmente possuem importância clínica pequena (YACUBIAN, 2014). A hepatotoxicidade, que pode ser fulminante, é rara sendo referida es- pecialmente em crianças com menos de dois anos de idade, com retardo do desenvolvi- mento, anormalidades congênitas, epilepsia refratária e, mais raramente história familiar de insuiciência hepática o que sugere tratar-se de um distúrbio familiar do grupo das mi- tocondriopatias. O comprometimento do pâncreas caracteriza-se mais comumente por elevações transitórias e assintomáticas dos níveis de amilase sérica. VPA determina ainda alterações endócrinas como irregularidade menstrual, amenor- réia, ovários policísticos e hiperandrogenismo. A síndrome dos ovários policísticos que determina ganho de peso, irregularidade menstrual, amnenorréia e infertilidade devida provavelmente a hiperinsulinemismo e hiperandrogenismo é referida especialmente em mulheres entre 17 e 25 anos de idade (VERROTTI et al, 2011). Em relação ao feto deve ser lembrado que o VPA é um dos FAE mais teratogênicos levando principalmente a distúrbios de fechamento do tubo neural. Este efeito é dose dependente ocorrendo em paciente com doses acima de 600mg/dia ou concentração sé- rica maior do que 70 µg/ml. Este efeito do VPA levou a que órgãos regulatórios europeus e americanos contraindicassem seu uso em mulheres grávidas e também naquelas em idade gestacional, estabelecendo diretrizes para o seu uso nessa população (TOMSON e BATTINO, 2012). O uso de ácido fólico parece diminui a incidência deste efeito embora seja controverso na literatura. A dose do VPA deve ser fracionada em duas ou três vezes ao dia. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA5 2 Oxcarbazepina A OCBZ é um dibenzazepínico estruturalmente relacionado à CBZ (GUERREIRO e GUERREIRO, 2014). Do mesmo modo que a CBZ, é eicaz em crises focais e tônico-clônicas generalizadas e pode piorar crises de ausência e mioclônica. Como determina pouca interação medica- mentosa é indicada em politerapia (BAZIL e PEDLEY, 2003). OCBZ é uma droga segura e não costuma determinar distúrbios cognitivos. Os efeitos colaterais observados são semelhantes aos da CBZ, porém menos frequentes. A rea- ção alérgica por exemplo é menos comum sendo que cerca de 75% dos pacientes que apresentam reações de hipersensibilidade à CBZ não irão apresentá-las com a OCBZ. Também o efeito paradoxal observado com a CBZ pode ocorrer com a OCBZ, em frequ- ência menor, levando ao agravamento do quadro clínico e eletrográico de pacientes com epilepsia em especial focal (PAVLIDIS et al., 2015). Apenas a hiponatremia é referida mais frequentemente, quando comparada à CBZ, sendo mais comum em pessoas idosas (KIM et al., 2014). OCBZ costuma ser usada em duas vezes ao dia. Lamotrigina A lamotrigina (LTG) foi sintetizada em 1970, durante pesquisa das propriedades anti- convulsivantes dos inibidores do folato. É uma base fraca, uma feniltraziana (MANREZA, 2014). LTG é metabolizada no fígado, por glucoronização, sendo que apenas uma pequena fração é metabolizada por oxidação e por metilação. Não determina indução ou inibição enzimática, apresentando apenas pequena autoindução, sem signiicado clínico, no início do tratamento. Não tem metabólitos ativos. LTG possui amplo espectro de ação, atuando em crises: parcial, tônico-clônicas primá- ria ou secundariamente generalizada, de ausência típica ou atípica, tônica e atônica. Em crises focais a eicácia é equivalente a CBZ e PTH. Nas crises mioclônicas, embora existam referências quanto à eicácia da LTG em mioclonias associadas à epilepsia mioclônico-a- tônica, a epilepsia mioclônica juvenil e a ausência mioclônica, observa-se que ocasional- mente, a LTG pode não controlar ou mesmo piorar algumas crises mioclônicas (GENTON, 2000). A LTG piora as crises mioclônicas em pacientes com Epilepsia Mioclônica Grave da Infância e também tem sido relatado, embora mais esporadicamente, em pacientes com Epilepsia Mioclônica Juvenil (IRABEN et al., 2000; TRINKA et al., 2002) Na infância tem se mostrado eicaz nas síndromes de West (CIANCHETTI et al., 2002), de Lennox-Gastaut e Landau-Klefner (MCDONALD et al., 2005) LTG é bem tolerada. As Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 5 3 reações adversas mais comuns dizem respeito ao SNC: cefaléia, náusea e vômito, diplo- pia, tontura e ataxia, geralmente leves e não havendo necessidade de suspensão do tra- tamento. Sedação pode ocorrer, mas é menos frequente. Alterações de comportamento como agressividade, irritabilidade, agitação, confusão, alucinaçãoe mesmo psicose são descritos em indivíduos com distúrbios psíquicos pregressos ou ainda em crianças com deiciência mental. Mudanças positivas de comportamento como melhora da atenção, da atividade e sensação de bem-estar são mais frequentemente referidas (KOWSKI et al., 2016). O rash cutâneo é o fator mais comum de descontinuação da droga (2,1%). A incidên- cia é de 10% sendo mais comum na infância, em pacientes em uso concomitante de VPA e está relacionado à introdução rápida da droga. A intensidade é variável: pode ser leve, não necessitando a interrupção do tratamento; algumas vezes é mais severo, acompa- nhado de sinais sistêmicos como febre, mal estar, artralgia, mialgia, linfoadenopatia e eo- sinoilia e, inalmente, em alguns pacientes, pode ocorrer síndrome de Stevens-Johnson ou necrólise epidérmica tóxica, por vezes severa, levando ao óbito. Efeitos adversos menos comuns incluem: anormalidades dos movimentos oculares; alterações do comportamento; movimentos anormais, como coréia; e, tique de modo se- melhante à síndrome de Tourette. É bem tolerada na infância especialmente em relação aos distúrbios cognitivos observados em menos de 1% das crianças. A LTG pode ser usada em duas doses ao dia. Especial atenção dever ser dada ao início do tratamento, pois sua introducão deve ser feita com pequenas doses em especial na politerapia com o VPA para se evitar o rash cutâneo. Uma regra prática consiste em iniciar com dose baixa variável de acordo com a idade e os medicamentos associados, sendo dobrados a cada 15 dias (YACUBIAN, 2014). Vigabatrina A vigabatrina (VGB) ou gama vinil GABA é estruturalmente relacionada ao GABA com um apêndice vinil. Ela destrói de modo irreversível, a enzima gabatransaminase respon- sável pela degradação do GABA. VGB apresenta excelente farmacocinética, pois não se liga às proteínas plasmáticas e não é metabolizada no fígado de modo que não determina interação medicamentosa. Ela é totalmente excretada na forma ativa pela urina. Devido à possibilidade de ocorrência de distúrbios visuais irreversíveis atualmente a VGB está indicada em adultos com epilepsias focais refratárias e na infância nas crises de espasmo e em crises focais refratárias naquelas que colaboram para a realização da campimetria visual. A VGB pode piorar a crise mioclônica e de ausência. A maior indicação da VGB é na síndrome de West, especialmente naquelas devidas a esclerose tuberosa na qual o controle das crises está próximo a 100%. Outra vantagem Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA5 4 da VGB nestas crianças é que a resposta terapêutica pode ser observada rapidamente, ao redor de quatro dias de uso. A VGB é bem tolerada. Os efeitos colaterais estão relacionados principalmente ao SNC, sendo sonolência e fadiga os mais comuns. Estes efeitos são geralmente leves não necessitando a interrupção do tratamento. Não têm sido descritas reações alérgicas com a VGB. Reações psicóticas ocorrem em um pequeno número de pacientes especialmente naqueles com historia de doença psiquiátrica. Por outro lado alguns estudos têm verii- cado melhora nos testes de processos cognitivos. Pode ainda ocorrer ganho de peso com a VGB. O efeito colateral mais importante com o uso da VGB é uma retinopatia GABAérgica que afeta mais especiicamente as células em cone. Os sintomas consistem de constrição periférica do campo visual com relativa preservação temporal ou embaçamento da visão, que começam 2 a 40 meses após o uso da medicação. A frequência destes sintomas varia na literatura de 12 a 92%, sendo menos comum na infância. Os fatores a eles relacionados não estão ainda bem estabelecidos. Acredita-se que não dependam da dose ou tempo de tratamento, que não sejam progressivos e, que não regridam após a interrupção da medicação. A VGB é utilizada em regime de duas ou mesmo uma tomada dose diária. Na síndro- me de West preconiza-se iniciar o tratamento com dose baixas com aumentos, se neces- sários, a cada 4 dias até a dose de 150 ou 200mg/kg/dia. Topiramato O topiramato (TPM) é um açúcar, um monossacarídeo sulfato substituído. TPM é eicaz em crises focais e em todas as crises generalizadas, mas sua eicácia nas crises de ausência é discreta. Em crianças menores de dois anos de idade, a eicácia nas crises focais (48%) é um pouco melhor do que nas generalizadas (32%). Na síndrome de Lennox-Gastaut tem ação especial nas crises de queda. O TPM é utilizado em estado de mal epiléptico refratário convulsivo e não convulsivo. É considerado um fármaco seguro. Os eventos mais comuns estão relacionados ao SNC: tonturas, sonolência, distúrbios cognitivos, alentecimento psicomotor, disfasia de expressão, nervosismo, parestesias, ataxia e diiculdade de concentração ou memória que ocorrem mais comumente na fase de titulação e desaparecem com a continuação do tratamento. Aparentemente estes distúrbios não estão relacionados nem com a dose nem com a velocidade de introducão da medicação e ocorrem mais comumente em pes- soas já com algum tipo de comprometimento prévio e desaparecem com a suspensão da medicação. Distúrbios psiquiátricos como transtornos afetivos, comportamento agressivo, dis- túrbios psicóticos e do comportamento, entre outros, são descritos especialmente em Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 5 5 pacientes com história familiar ou pessoal de doença psiquiátrica os quais, ao contrário dos distúrbios cognitivos, parecem estar relacionados à velocidade mais rápida de titula- ção da medicação. Na terapia com TPM observa-se ainda: nefrolitíase que ocorre em 1,5% dos pacientes e na maioria das vezes regridem espontaneamente; anorexia e redução de peso; acidose, hipertermia e hipohidrose, que são mais comuns em crianças. Geralmente têm pouco signiicado clínico, desaparecendo com a interrupção da medicação. Muito raramente tem sido referido distúrbio visual caracterizado por miopia aguda secundária à glaucoma de ângulo fechado. Este ocorre geralmente no primeiro mês de tratamento, com início agudo e caracterizado por dor ocular e/ou borramento de visão. O tratamento consiste na rápida descontinuação do TPM e do uso de medicações espe- cíicas capazes de diminuírem a pressão intraocular para que se evitem sequelas graves como perda da visão. Não foram descritos eventos adversos idiossincrásicos com TPM. O TPM é usado em duas tomadas ao dia. A titulação lenta diminui a incidência dos efeitos colaterais relativos ao SNC. Levetiracetam O levetiracetam (LEV) apresenta farmacocinética considerada próxima a ideal. Bio- disponibilidade igual ou superior a 95%, absorção rápida, cinética linear, metabolismo mínimo e excreção renal. O LEV não tem interação com outros FAE, no entanto os FAE indutores enzimáticos aumentam a depuração de LEV em graus variáveis com diminuição de sua meia vida. O LEV é um fármaco de amplo espectro eicaz em crises focais com e sem generali- zação secundária e em todos os tipos de crises generalizadas. Sua eicácia é menos evi- dente nas crises de ausência. É indicado ainda nas crises neonatais e no estado de mal epiléptico. O LEV é um fármaco bem tolerado. Seus efeitos colaterais são classiicados como: 1-muito frequente (>10%), sonolência, astenia e fadiga; 2-frequentes (1-10%), depressão, nervosismo, irritabilidade e ansiedade; 3- infrequentes (0,1 a <1%) sintomas psicóticos e, raros (0,01 a 0,01%) rash. A descontinuação do tratamento se dá geralmente pelos sintomas psiquiátricos. Eles são mais comumente referidos pelos familiares, ocorrem já nas primeiras quatro sema- nas de tratamento e desaparecem em uma a duas semanas após a interrupção do fárma- co.Os fatores de risco para estes sintomas são história familiar e/ou pessoal de distúrbios comportamentais e psiquiátricos, deiciência cognitiva, doses elevadas e titulação rápida. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA5 6 O uso crônico do LEV não promove efeitos cognitivos, podem inclusive promover leve melhora na atenção e memória que não poderiam ser explicadas apenas pelo controle das crises. O LEV é indicado em duas doses ao dia. Lacosamida A lacosamida (LCM) tem excelente farmacocinética: biodisponilidade de 100%, baixa ligação proteica, baixo potencial de interação medicamentosa, não é indutora e nem ini- bidora enzimática, sendo excretada quase que totalmente (95%) pela urina. A LCM foi aprovada para uso em crises focais com ou sem generalização em pacientes maiores de 17 anos de idade. No entanto sua eicácia tem sido demonstrada ainda em crianças, em crises generalizadas e em estado de mal refratário. A LCM é um fármaco seguro. Os eventos adversos mais comuns são tonturas, cefa- leia, náuseas, diplopia, instabilidade na marcha e vômitos. Esses efeitos são mais comuns no uso de doses altas, titulação rápida ou quando ela usada em associação com fármacos bloqueadores de canal de sódio, especialmente CBZ e OCBZ. Alterações cardíacas como prolongamento do intervalo PR, ibriliação e lutter atrial foram descritos, mas não alte- ração do intervalo QT. Deste modo recomenda-se cautela no seu uso em pessoas com alterações cardíacas ou em uso de medicamentos que possam prolongar o intervalo PR. A incidência de alterações psiquiátricas com LCM é baixa tendo sido observado ape- nas psicose em 0,3% em pacientes voluntários de ensaios clínicos. O uso da LCM é recomendado em duas doses diárias, iniciando-se com doses baixas com aumento progressivo a cada uma ou duas semanas. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 5 7 3. Tratamento da epilepsia de início re- cente A decisão de iniciar o tratamento logo após a primeira crise epiléptica é complexo, pois irá estabelecer a necessidade do uso crônico de FAE por um período geralmente longo, além do diagnostico de epilepsia com todos os seus estigmas. Para esta decisão deve-se avaliar inicialmente a frequência de recorrência de uma segunda crise bem como os fatores de risco para que esta recorrência ocorra. A frequência de recorrência varia de acordo com a faixa etária sendo menor nas crianças e maior nos idosos. A recorrência é mais comum nos dois primeiros anos após a primeira crise epiléptica sendo que o exame de EEG alterado e anormalidades do exa- me neurológico são considerados como fatores de risco de recorrência mais comuns. Deve-se considerar ainda que os FAE com frequência determinam efeitos colaterais e que eles evitam as crises epilépticas, mas não modiicam a epileptogênese. Trabalho que comparou pacientes que receberam ou não FAE logo após a primeira crise mostrou que o tratamento imediato reduziu a probabilidade de recorrência nos dois primeiros anos, mas não a longo prazo (BONNETT et al., 2014). Diante destes fatos a conduta geralmente adotada é não medicar crianças após a primeira crise, pois além de serem menores o risco de recorrência e os riscos físicos de- correntes da crise, procura-se evitar os efeitos dos FAE sobre o cérebro em desenvolvi- mento. Em adultos prefere-se iniciar o tratamento mantendo por pelo menos dois anos, pois as consequências físicas e, especialmente, sociais de uma crise epiléptica são impor- tantes. No idoso a conduta é sempre tratar, pois crises possibilitam quedas e fraturas aumentando a mortalidade nesta faixa etária. 4. Com que fármaco iniciar o tratamento O espectro de ação dos FAE disponíveis deve ser conhecido no momento de escolha da deinicão do medicamento mais adequado. PERUCCA (2005) classiicou as FAE de acor- do com sua eicácia, mas ressaltou que existem diferenças entre elas. Em relação à Qua- dro 1, ele destacou que as medicações citadas na primeira coluna apresentam diferenças quanto o grau de eicácia em relação aos diferentes tipos de crises. Além da eicácia dos diversos FAE devem ser valorizadas as características do paciente. E, inalmente para pri- meira terapia em geral opta-se pelos FAE ditos tradicionais pela longa experiência que se tem com eles no tratamento das epilepsias. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA5 8 Quadro 1 – Espectro de Eicácia dos Fármacos Antiepilépticos (Modiicado de Perucca, 2005). * pode exacerbar crises de ausência e mioclônica; &pode agravar Epilepsia Mioclônica Grave Da Infância; + eicaz também em crises de espasmo Maioria das crises e síndromes Valproato Benzodiazepínicos Lamotrigina& Topiramato Levetiracetam Principalmente para crises focais Carbamazepina * Fenitoína* Oxcarbazepina* Vigabatrina *+ Lacosamida* Amplo espectro mas não ausência Fenobarbital Primidona Ausência somente Etossuximida Cerca da metade dos pacientes com epilepsia recém diagnosticada são tratados com sucesso, respondendo ao primeiro FAE prescrito (KWAN E BRODIE; 2001; PETROVSKI et al., 2010). A falta de eicácia do tratamento leva ao escape de crises epilépticas ou pode resultar da intolerância ao FAE. Neste ponto, um segundo FAE deve ser tentado. Quando a falta de resposta ao FAE inicial é devido a efeitos adversos, o segundo FAE será bem sucedido em aproximadamente metade dos pacientes (KWAN e BRODIE, 2000; GLAUSER et al., 2013). Naqueles que apresentaram falta de eicácia ao FAE, cerca de 10 a 20% res- ponderão a um segundo FAE (BRODIE et al., 2013; BONETT et al., 2014). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 5 9 5. O tratamento da epilepsia refratária A falta de resposta à FAEs deine a epilepsia refratária ao tratamento. A Liga Interna- cional contra epilepsia em 2010 sugeriu que a epilepsia refratária seja deinida como a au- sência de resposta a dois FAEs, adequadamente selecionados, tolerados e administrados em doses adequadas. Cerca de 20 a 40% dos pacientes evoluem com epilepsia refratária (BRODIE, 2002; KWAN, 2010). Em alguns desses pacientes com epilepsia refratária, que apresentam epilepsia focal com lesão no sistema central, a neurocirurgia, com ressecção da lesão pode levar ao controle das crises epilépticas. Em outros, a associação de FAE, a dieta cetogênica, a es- timulação do nervo vago e a estimulação cerebral profunda podem levar ao controle ou redução das crises epilépticas e a melhora da qualidade de vida dos pacientes (BENBA- DIS, 2000). Dieta Cetogênica A dieta cetogênica (DC), rica em gorduras, pobre em carboidratos e adequada em proteínas, foi desenvolvida em 1921, com o objetivo de mimetizar no organismo as altera- ções bioquímicas associadas ao jejum, quando os corpos cetônicos se tornam o principal combustível para a produção de energia no sistema nervoso central (WILDER, 1921). É um tratamento não farmacológico, bem estabelecido e efetivo para crianças e adultos com epilepsia refratária ao tratamento. A DC é rigidamente controlada e individualmente calculada, sendo realizada com diferentes protocolos em vários países, ocasionalmente com variações signiicativas na sua administração. Ela deve ser realizada de forma multi- disciplinar, com a supervisão do médico e nutricionista. O mecanismo de ação da DC ainda é pouco conhecido, sendo similar a outras medi- cações antiepilépticas, onde várias ações farmacológicas são descritas, porém persiste o desaio de se criaruma relação causa-efeito deinitiva entre o mecanismo de ação es- pecíico e a ação antiepiléptica. Assim que a DC é iniciada, com a produção dos corpos cetônicos (acetona, acetoacetato e hidroxi-butirato), estes se tornam disponíveis na cir- culação e atravessam a barreira hemato-encefálica e entram no sistema nervoso central, onde atuam no início, propagação e término da crise epiléptica. Pesquisas em modelos animais de epilepsia sugerem que o mecanismo de ação é complexo e envolve a alteração da função mitocondrial, efeitos de corpos cetônicos na função neuronal e a liberação de neurotransmissores, efeitos antiepilépticos de ácidos graxos, e / ou estabilização da glico- se. Os corpos cetônicos podem aumentar o potencial de hiperpolarização da membrana, aumentar a síntese ou diminuição da liberação de GABA, do glutamato, noradrenalina ou adenosina. A DC pode também desempenhar um papel na inibição das vias do alvo da rapamicina em mamíferos (mTOR) (RHO, 2015; MCDANIEL et al., 2011; LIMA et al., 2014). A DC clássica é o tratamento mais tradicional. Em alguns casos pode-se dar preferên- cia à dieta com triglicerídeos de cadeia média (TCM), dieta modiicada de Atkins ou a dieta com baixos índices glicêmicos. Na tentativa de deixar a DC mais palatável e menos rígida, nos anos 70 foi desenvolvi- Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA6 0 da a DC com TCM. O TCM é mais cetogênico, permitindo a inclusão de maior quantidade de carboidratos e proteínas na dieta, é absorvido de forma mais eiciente e é transporta- do diretamente do sistema digestivo para o fígado através do sistema porta. Na dieta tra- dicional com TCM, 60% da energia provêm do TCM. É frequente o desconforto gastroin- testinal, cólica abdominal, diarreia e vômitos. Por esta razão foi desenvolvida a dieta com TCM modiicada, onde 30% da energia provém do TCM e 30% dos triglicerídeos de cadeia longa. Na prática, o uso do TCM em um nível entre 40-50% parece ter melhor tolerância gástrica e cetose adequada. A dieta modiicada de Atkins é semelhante a DC na sua composição, na relação 1:1. O consumo inicial de carboidratos é de aproximadamente 10 g/dia, aumentando para 15-20 g/dia após 1 a 3 meses. Não existe limitação ao consumo de proteínas, líquidos e calorias, tornando mais fácil o planejamento das refeições. A dieta com baixos índices glicêmicos (DBIG) permite a ingestão de uma quantidade de carboidratos diários de 40-60g/dia, porém controla o tipo de carboidratos, sendo uti- lizados aqueles que produzem pouca alteração na glicose sanguínea (carboidratos com índice glicêmico < 50), como os encontrados em produtos integrais. Estas últimas duas dietas são mais livres e não é necessário que os alimentos sejam pesados. Os níveis mais altos de cetose são obtidos com a DC clássica. Na DC é necessária a suplementação com vitaminas e minerais, com suplementos livres de carboidratos. Os efeitos adversos podem ocorrer e devem ser monitorados. As anormalidades me- tabólicas incluem hiperuricemia (2%-26%), hipocalcemia (2%), hipomagnesemia (5%), re- dução dos níveis de aminoácidos e acidose (2-5%) (KANG et al., 2004). Alguns pacientes podem apresentar alterações gastrointestinais, vômitos, diarréia, reluxo gastroesofágico e constipação, sendo tratados quando necessário. A hipercolesterolemia ocorre em 14% - 59% das crianças (KWITEROVICH et al., 2003) e cálculos renais em 3-7%, compostos por ácido úrico (50%), oxalato de cálcio, fosfato de cálcio e mistos. Não é necessário a des- continuação da dieta e a litotripsia raramente é necessária. O uso de citrato de potássio pode prevenir a formação de cálculos (SAMPATH et al., 2007). Os dados em relação ao crescimento durante a DC não são conclusivos. Um estudo prospectivo com 237 crianças mostrou que crianças maiores crescem de forma adequada, enquanto crianças menores crescem de forma mais lenta (VINING et al., 2002). A longo prazo existe um maior risco de fratura óssea, cálculo renal e atraso de crescimento. Frequentemente é observado potencial melhora do humor, alerta e habilidades verbais e de desempenho geral. Curio- samente, estes efeitos relevantes podem ser independentes da redução da frequência das crises. Nos pacientes que apresentaram controle maior que 50% das crises epilépticas, a DC deve ser descontinuada após aproximadamente dois anos. Em pacientes nos quais o con- trole foi quase completo (>90% de redução de crises) e os efeitos adversos são poucos, a dieta pode ser mantida por período prolongado (GROESBECK et al., 2006). Indivíduos portadores de deiciência de GLUT-1, piruvato desidrogenase necessitam da DC durante toda a vida. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 6 1 Estimulação vagal A estimulação vagal foi aprovada no Brasil pela Agência de Vigilância Sanitária (ANVI- SA) em 2000 para tratamento para epilepsia refratária, focal ou generalizada em pacien- tes maiores de 2 anos de idade. O aparelho estimula de forma crônica ou intermitente o nervo vago, levando a redu- ção da frequência ou intensidade das crises. Estima-se que em torno de um ano após a implantação, 52% dos pacientes reduzem em torno de 50% das crises epilépticas. Efeitos adversos são raros e ocorrem geralmente durante a fase inicial de estimulação e tendem a desaparecer com o tempo. As complicações mais frequentes são o hematoma pós ope- ratório, infecção, paralisia de cordas vocais, rouquidão, tosse e parestesias (DEGIORGIO et al., 2000). Estimulação cerebral profunda A estimulação cerebral profunda (DBS) se baseia na estimulação elétrica do parênqui- ma cerebral através de eletrodos implantados profundamente, tendo como alvo o núcleo anterior do tálamo, núcleo mediano do tálamo, núcleo cerebelar e outros. Na última dé- cada, estudos pré-clínicos e clínicos demonstraram que DBS reduz a frequência das crises epilépticas e aumenta o tempo para o desenvolvimento de convulsões e EME. Os efeitos adversos mais sérios com o DBS para epilepsia são morte, infecção, hemorragia e EME (THEODORE e FISCHER, 2004). No Brasil, o DBS é aprovado pela ANVISA para uso em pacientes com epilepsia que izeram uso do estimulador vagal por pelo menos dois anos, sem melhora signiicativa. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA6 2 Referências 1.Aldenkamp A, Besag F, Gobbi G, Caplan R, Dunn DW, Sillanpää M. 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Os babilônios entendiam que cada tipo de crise representava a posse por um demônio ou espírito diferente. Partindo dessa premissa, o tratamento da epilepsia era focado em métodos baseados em crenças religiosas (HUNT et al., 2007). Por volta de 400 aC, Hipócrates concluiu que as crises epilépticas eram uma doença puramente física causadapor uma anomalia manifestada no cérebro, não possuindo in- luência sagrada ou sobrenatural (HUNT et al., 2007). Hipócrates mencionou em sua coleção que o jejum era a única medida terapêuti- ca contra a epilepsia. Cinco séculos mais tarde, foi documentado, na versão bíblica de King James, um relato de Marcos onde Jesus cura um menino epiléptico através do jejum (WHELESS, 2008). Na literatura moderna, o primeiro uso do jejum como terapia não farmacológica na epilepsia foi descritono estudo desenvolvido pelos médicos parisienses, Gulep e Marie, em 1911, onde 20 pessoas, entre adultos e crianças, foram tratadas com uma dieta vege- tariana de baixo teor calórico combinado com períodos de jejum. Embora não haja descri- cão detalhada desse estudo, os autores relataram que somente dois pacientes apresen- taram melhora das crises convulsivas (DHAMIJA et al., 2013). Mcfadden, um “guru” do início do século 20, indicava aos leitores como desenvolver- -se isicamente, manter a saúde e como conviver com a epilepsia. Em uma das publica- ções da revista Cultura Física, Mcfadden airmou que o jejum de três dias a três semanas poderia aliviar ou curar praticamente qualquer doença, incluindo a epilepsia (WHELESS, 2008). O endocrinologista Hugh Conklin, começou como assistente de Mcfadeen e adaptou o seu método de jejum para tratar diversas doenças. Conklin acreditava empiricamente que a epilepsia era causada pela intoxicação do cérebro a partir de substâncias prove- nientes do intestino. Ele postulou que manter o intestino completamente em repouso iria livrar o corpo da intoxicação, e assim, desenvolveu o seu “jejum” ou “tratamento de água” para a epilepsia. Por conta de sua teoria Conklin privou crianças com epilepsia de todos os alimentos, ofertando apenas água por até 25 dias (FREEMAN et.al., 2007). Conklin Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA6 6 mostrou que 20% dos seus pacientes icaram livres das crises convulsivas e 50% apresen- taram alguma melhora clínica (DHAMIJA et al., 2013). O uso do jejum para tratar a epilepsia e os resultados obtidos por Conklin chamaram atenção de outro pioneiro no estudo da epilepsia, H. Rawle Geyelin, endocrinologista do New York Presbyterian Hospital. Geyelin relatou pela primeira vez, em 1921, na Conven- ção da American Medical Association, sua experiência com o jejum como tratamento da epilepsia e foi o primeiro a documentar a melhora cognitiva acarretada por essa terapêu- tica (WHELESS, 2008). O sucesso obtido pelos resultados do Dr. Conklin alcançou destaque rapidamente, sendo enfatizado no livro de Penield e Erickson publicado em 1941. No início da déca- da de 20, os Drs. Cobb e Lennox, na Harvard Medical School, notaram que indivíduos submetidos ao jejum evidenciavam melhora clínica na redução de crises após 2 ou 3 dias de tratamento. Lennox concluiu que o controle das crises era causado pela mudança na homeostase corporale que a ausência de alimento ou privacão de carboidratos forçaria o organismo a “queimar” gordura e formar “ácido”. Sabe-se que a descrição feita por Lennox sobre a ação da dieta no controle das crises foi a base para o desenvolvimen- todo mecanismo de ação da DC proposto atualmente, onde, o jejum ou a escassez de carboidratos favorecem a formação dos corpos cetônicos provenientes da oxidação de ácidos graxos, e estes são utilizados como fonte primária de energia em substituição aos carboidratos, modulando o metabolismo cerebral e promovendo controle das crises con- vulsivas (WHELESS, 2008). Em 1921, Woodyatt observou que em indivíduos saudáveis submetidos a jejum ou a uma dieta restrita em carboidratos e rica em gorduras, eram identiicadas concentrações de cetona e ácido β-hidroxibutirato. No mesmo ano, Dr. Wilder na Clínica Mayo propôs que os benefícios do jejum devido à produção dos corpos cetônicos poderiam ser obtidos de outras maneiras. Wilder então sugeriu que pacientes com epilepsia deveriam ser sub- metidos a uma dieta que mimetizasse os efeitos da fome, o qual tinha sido reconhecido há séculos como terapia para a epilepsia (KOSSOF e WANG, 2013). Ao identiicar a produção de cetona pelos pacientes aderentes ao tratamento dietoterápico na Clínica Mayo, Wilder criou o termo dieta cetogênica utilizado até os dias de hoje. A DC tornou-se amplamente utilizada na época devido a escassez de medicamentos anticonvulsivos disponíveis (DHA- MIJA et al., 2013). Subsequentemente, Peterman, na Clínica Mayo, desenvolveu o cálculo da DC semelhante ao utilizado atualmente: 1 g de proteínas por quilo de peso corporal em crianças, 10 a 15g de carboidratos por dia e o restante das calorias totais provenientes de gorduras, ou seja, esse tratamento restringia carboidratos e luidos, mantinha a quan- tidade proteínas adequada para garantir o crescimento, enquanto aumenta signiicati- vamente a ingestão de gorduras, compreendendo até 90% das calorias totais (KOSSOF e WANG, 2013). Peterman observou resultados da DC não somente no controle das crises, mas também no comportamento e efeitos positivos no cognitivo (WHELESS, 2008). O uso da DC foi relatado em quase todos os livros sobre epilepsia em idade pediátrica publicados entre 1941 e 1980. Em 1972, Livingston, no Johns Hopkins Hospital, evidenciou em seu livro os resultados da DC em mais de 1.000 crianças com epilepsia, onde 52% i- caram livres de crises e 27% mostram melhora clínica signiicativa no controle das crises (WHELESS, 2008). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 6 7 Em 1938, Merrit e Putnam descobriram a difenilhidantoína, que permitiu que o tra- tamento da epilepsia entrasse na era farmacológicaem detrimento da desaceleracão do uso da DC (WHELESS, 2008). Para tornar a DC clássica mais palatável, em 1971, o Peter Huttenlocher, da University of Chicago, introduziu à DC os triacilgliceróis de cadeia média (TCM), permitindo uma re- dução na restrição de outros alimentos (WHELESS, 2008). Após a introdução do valproato de sódio, passou-se a acreditava que esse fármaco iria tratar convulsões típicas da síndrome de Lennox-Gastaut e que não havia mais justii- cativa para o uso da DC. A partir dos primeiros resltados positivos obtidos com o valpro- ato de sódio, o uso de fármacos foi estimulado e observou-se um declínio signiicativo no uso da DC (WHELESS, 2008). Desse modo, o uso da DC passou a se limitar a cerca de 10 crianças por ano no Johns Hopkins Hospital, inicialmente sob direção do Dr. Samuel Livingston, e posteriormente, o Dr. John Freeman e sua nutricionista Millicent Kelley. No inal dos anos 80, Kinsman avaliou a eicácia da DC em 58 pacientes com epilepsia e observou que apesar do uso de muitos fármacos anticonvulsivantes, os pacientes que possuíam refratariedade ao trata- mento convencional, quando submetidos à DC apresentavam a mesma taxa de sucesso relatada em décadas anteriores (FREEMAN et al., 2007). A nova era da DC teve início com Jim Abrahams, um produtor de Hollywood, e seu ilho Charlie diagnosticado com epilepsia refratária. Após ler sobre a DC, Abrahams levou o ilho ao Johns Hopkins Hospital, e logo no início do tratamento Charlie foi responsivo à dieta,icando de crises convulsivasao longo do tratamento (FREEMAN et al., 2007). Para divulgar a DC para outras famílias, Abrahams criou a Charlie Fundation, que além da publicação de um livro sobre a dieta, também transmitiu, em 1994, através da NBC um programa de televisão sobre o tratamento. Além disso, Abrahams criou o ilme “Pela vida do meu ilho”. O longa-metragem conta a história vivenciada por Charlie e toda sua família, desde o diagnóstico da doença até a descoberta e tratamento com DC no Johns Hopkins Hospital, evidenciando os resultadosobtidos, onde Charlie ica livre das crises. Com o lucro obtido no ilme, aCharlie Fundation inanciou um estudo sobre a DC. O estudo foi iniciado em 1994 e apresentado à American Epilepsy Society em 1996. Os resultados obtidos nesse estudos com 150 pacientes, no Johns Hopkins Hospital, contri- buirampara que outros estudos fossem realizados, o que levou a publicacão de inúmeros resumos e artigos envolvendo a DC sob os mais diversos aspectos clínicos da epilepsia(- FREEMAN et.al., 2007). Uma coorte realizada com crianças com epilepsia refratária apresentou resultados positivos na melhora clínica em >60% dos pacientes. Resultados semelhantes (>50% dos pacientes obtiveram redução de >50% das crises em 6 meses) foram encontrados em um estudo multicêntrico realizado com crianças (de 1 a 8 anos) que tinham pelo menos 10 crises epilépticas por semana no período basal (DHAMIJA et al., 2013). O primeiro estudo prospectivo, randomizado, controlado utilizando a DC em crianças foi publicado em 2008. O estudo foi realizado com 145 crianças com idades entre 2 e 16 Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA6 8 anos, que tinham pelo menos 1 crise por dia e não eram responsivas a pelo menos dois fármacos antiepilépticos. Após 3 meses de tratamento com DC, a redução no número de crises foi signiicativamente maior no grupo caso em comparação ao grupo controle com decréscimo de 75% (DHAMIJA et al., 2013). Atualmente, o tratamento com a DC está disponível em centros especializados distri- buídos em mais de 45 países. No entanto, a percepção dos neuropediatras quanto à DC ainda afeta muito seu uso na prática clínica. Pesquisas de opinião realizadas na Europa e nos Estados Unidos indicaram que a DC é a última escolha para o tratamento de quase todas as epilepsias em idade pediátrica. Sendo assim, ainda são necessários avanços no sentido de melhorar a percepção dos proissionais de saúde sobre os benefícios da DC como terapêutica adjuvante no controle da epilepsia em idade pediátrica, podendo essa, ser comparada positivamente com outros tratamentos introduzidos na prática clínica (WHELESS, 2008). 2. Manejo nutricional da dieta cetogênica Aproximadamente 50% das calorias ingeridas diariamente por indivíduos saudáveis são provenientes dos carboidratos, 15% das proteínas e 35% das gorduras. Os carboi- dratos são convertidos em glicose, que é a principal fonte de energia para o organismo. Quando o fornecimento de glicose é limitado, o organismo inicia o processo de gliconeo- gênese, ou seja, conversão de fontes não glicídicas em glicose. A dieta cetogênica (DC) é uma dieta rica em gorduras, controlada em proteínas e po- bre em carboidratos que simula o estado de jejum. Consiste em aproximadamente 90% das calorias provenientes das gorduras, 8% das proteínas e 2% dos carboidratos. Nesta situação, o organismo é forçado a desviar os gordurasda β-oxidacão com consequente geracão de glicose.Neste processo, a cetogênese é estimulada e os corpos cetônicos pas- sam a ser a principal fonte de energia para o cérebro, mantendo assim, um estado de cetose.Ainda não se sabe exatamente quais os mecanismos envolvidos envolvidos no controle das crises epilépticas, embora a participação dos corpos cetônicos seja inques- tionável (RHO, 2015). Existem vários tipos de DC como a Clássica, a dieta de Atkins modiicada (DAM), a dieta com triacilgliceróis de cadeia média (TCM) e a dieta com baixo índice glicêmico(KOS- SOFF e WANG, 2013). A dieta cetogênica clássica é calculada de acordo com a razão, em gramas, de gorduras para proteínas e carboidratos (KOSSOFF et al., 2009). Para introdução da DC, pode-se utilizar o jejum por 48horas para atingir o estado de cetose mais rapidamente, porém o paciente deve ser internado devido aos riscos de des- compensação (náuseas, vômitos, desidratação, hipoglicemia, letargia entre outros). Ou- tra alternativa é iniciar a DC lentamente, em domicílio, na proporção de 2:1 (duas partes de gorduras para uma parte de carboidratosassociado com proteínas), com progressão Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 6 9 para 3:1 e 4:1,conforme resposta da cetose.Quando a DC atinge a proporcão de 90% das calorias provenientes dos gorduras e 10% de proteínas e carboidratos combinados os resultados tendem a ser potencializados. Cada dieta deve ser calculada individualmen- te com base na avaliação nutricional (dados antropométricos, estado nutricional, faixa etária, sexo, preferências, aversões, intolerâncias) da criança e deve ser reavaliada com frequência durante todo o tratamento. 2. 1 Necessidades nutricionais Necessidades calóricas O cálculo da oferta calórica é realizado levando em consideração o estado nutricio- nal da criança. O diagnóstico do estado nutricional pode ser realizado de acordo com as curvas de crescimento da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2006) e a recomendação das necessidades calóricas de acordo com a RDA(Recommended Dietary Allowance) que relaciona peso, sexo e faixa etária. Além do estado nutricional, fatores como atividade física e taxa de metabolismo podem interferir no cálculo (FREEMAN et al., 1996). Recomenda-se que pacientes com diagnóstico de magreza acentuada recuperem o estado nutricional antes de iniciar a DC e para pacientes acima do peso pode ser neces- sária a diminuição da oferta calórica, podendo ser utilizado o peso ideal no cálculo. Gorduras Alimentos como maionese, creme de leite fresco, toucinho, óleos vegetais e azeite de oliva são bastante utilizados na DC por conterem grande quantidade de gorduras e baixos teores de carboidratos. A quantidade de gorduras será calculada de acordo com a proporção de gorduras em relação aos carboidratos e proteínas que se quer atingir (2:1, 3:1 ou 4:1). Os triacilgliceróis de cadeia média (TCM) são, dentre osgorduras, os mais eicientes em produzir cetosee, por isso, combinados com os triacilgliceróis de cadeia longa, podem ser utilizados para otimizar o tratamento (COUCH et al., 1999). Proteínas As maiores fontes de proteína da DC são as carnes, ovos e queijos. O cálculo é feito de acordo com a RDA (1989) para a idade, podendo-se utilizar o valor de 1 grama por quilo de peso do paciente por dia e variar de acordo com o estado nutricional da criança. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA7 0 Carboidratos Frutas, legumes e verduras fornecem a quantidade de carboidratos adequada para a DC. Alimentos ricos em carboidratos como arroz, pães, massas, leite, açúcar e doces em geral são proibidos. Em substituição ao açúcar são utilizados edulcorantes sem lactose, frutose e sorbitol. Alguns outros alimentos com baixos teores de carboidratos ou sem carboidratos também podem entrar como opção desde que suas quantidades sejam cal- culadas para manter a razão estabelecida (2:1, 3:1 ou 4:1). Micronutrientes Em uma alimentação balanceada, a quantidade de vitaminas e minerais são normal- mente supridas, porém na DC há a necessidade de suplementação por ser uma dieta bas- tante restritiva com baixas quantidades de frutas, verduras, legumes e alimentos fontes de cálcio. As recomendações dos micronutrientes devem seguir a DRI (Dietary References Intakes) (1997) e serão melhor abordadas em outro capítulo. Líquidos A restrição hídrica é controversa, mas costuma-se calcular 60ml a 70ml/kg peso/dia distribuídos ao longo do dia (NORDLI e DEVIVO, 1997). Pode-se utilizar, também, a refe- rência de Holliday e Segar (1957). O Quadro 1 apresenta um modelo básico de cardápio proposto para criancas sob tratamento com dieta cetogênica.Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 7 1 2.2 Manejo nutricional e ajuste ino A DC clássica deve ser utilizada por, pelo menos, 2 anos e, em alguns casos, para a vida toda e isso implica em especial atenção à aceitação dos alimentos pela criança, pois a ingestão deles é o fator principal para o sucesso do tratamento e adequacão das neces- sidades nutricioniais do paciente. Ao longo do tratamento é comum a criança apresentar aversões e mesmo enjoar os mesmos tipos de alimentos, portanto é de fundamental importância que os responsáveis pela preparação da dietas sejam criativos e variem bas- tante as preparações, além disso a introdução de novos alimentos e a sugestão de recei- tas pelo nutricionista também pode contribuir para a melhor adesão à dietoterapia. Por ser uma dieta rigidamente calculada, é preciso que o nutricionista alerte os pais ou responsáveis pela criança sobre a ingestão indevida de alimentos proibidos e ensinar a leitura adequada de rótulos.O ajuste ino tem como objetivo alcançar o melhor nível de cetose, o melhor controle das crises e o melhor planejamento alimentar para a criança. Para isso, é preciso sempre observar: calorias diárias, distribuição das refeições, enfermi- dades, proporção da dieta, ingestão hídrica, alimentos industrializados, balança de pesa- gem dos alimentos, base de dados utilizada para o cálculo das necessidades nutricionais e medicamentos (KOSSOFF et al., 2011). 2.3 Dieta cetogênica industrializada Atualmente existem formulacões dietéticas industrializadas especíicamente desen- volvidas para tratamento da epilepsia com dieta cetogênica. Essas que podem ser utili- zadas como opção no tratamento das epilepsias refratárias em pacientes que utilizam sonda para alimentação.Para esses pacientesas formulacões industrializada de DC re- presentam a melhor escolha devido à facilidade de preparo, armazenamento e adminis- Café da manhã Vitamina de creme de leite com abacate Ovos mexidos Merenda Petit suisse de creme de leite com morango Ovo cozido Almoço Estrogonofe de frango com maionese Abobrinha assada Salada de agrião Jantar Yakissoba de Itokonyaku, carne bovina, toucinho, cenoura e couve-lor Salada de alface Gelatina diet Quadro 1 – Modelo de DC recomendada para criancas com epilepsia. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA7 2 tração, além de serem completas do ponto de vista nutricional. Para pacientes que se alimentam via oral também servem como opção para evitar a monotonia alimentar visto que podem ser preparadas diversas receitas com essa dieta, além de serem boas opções para refeições fora do domicílio. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 7 3 Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim Sim A criança está em cetose franca (4+)? Alteração recente de medicação? Reestabelecer o esquema de medicação anterior. Tentar novamente depois A criança esteve sob estresse? Não mexer na dieta e tentar normalizar o ambiente A criança está em doente? Verificar medicamentos (sem açúcar) A criança possui períodos cíclicos de piora das crises? (ex.: menstruação, clima, estação do ano) A piora das crises pode acontecer. É preciso se conformar. Se as crises continuarem, inicie o jejum por 24h e aumente para 4,5 ou 5:1 Houve algum escape da dieta? Pule 1 a 2 refeições até a cetose voltar a 4+ A criança está ganhando peso? Diminua o aporte calórico em 100kcal/dia aproximadamente A criança está ingerindo líquidos em excesso? Diminua o volume (200-400ml/dia) Os pais modificaram a dieta ou incluíram algum novo alimento? Verifique a composição dos alimentos A criança está doente ou recebendo outros medicamentos? Verifique a composição dos medicamentos Não Não Não Não Sim Não Não Não Não Não O algoritmo abaixo descreve as etapas que o nutricionista deverá seguir para o ajuste ino da dieta cetogênica frente a um paciente que apresente escapes de crises epilépticas durante o tratamento. Esse algoritmo orienta o monitoramento de pacientes, segundo nível de cetose e possíveis escapes de crises. (Figura 1). Figura 1 – Algoritmo decisório monitoramento da DC em pacientes com epilepsia. Adaptada de Freeman et al., 1996. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA7 4 Referências 1.Couch S, Schwarzman F, Carrol J, Koenigsberger NA, Nordli DR, Deckebraum RJ, Defelice AR. Growth and nutritional outcomes of children treated with ketogenic diet. J Am Diet Assoc 1999;99(12):1573-5. 2.Dhamija R, Eckert S, Wirrell E. Ketogenic diet. Can J Neurol Sci. 2013;40(2):158-67. 3.Freeman JM, Kelly MT, Freeman JB. The epilepsy diet treatment.An introduction diet to the ketogenic diet. New York: Demos; 1996. 4.Freeman JM, Kossof EH, Hartman AL. The ketogenic diet: one decade later. Pediatrics. 2007;119(3):535-43. 5.Holliday MA, Segar WE. The maintenance need for water in parenteral luid therapy. Pediatrics. 1957;19:823-32. 6.Hunt SJ, Morrow JI, Craig JJ. Are we failing those with ‘The Falling Sickness’? Time to mo- dernise the approach to epilepsy care. 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Disponível em: http://www.who.int./childgrowth/en/. Acesso em: 10 jun. 2016. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 7 5 Mecanismos Neurobioquímicos da Dieta Cetogênica Patrícia Azevedo de Lima | Nágila Raquel Teixeira DamascenoEmbora a dieta cetogênica (DC) tenha sido criada em 1921 e seja utilizada no trata- mento da epilepsia há quase 1 século, os mecanismos de ação associados ainda são pou- co compreendidos. A complexa estrutura biológica do cérebro e as invasivas técnicas uti- lizadas na investigação dos mecanismos de ação relacionados a ação antiepiléptica da DC reduzem a maioria dos estudos aos modelos celulares e animais. Apesar dessa limitação, a dieta cetogênica é considerada eicaz sempre que, independente do modelo adotado, for capaz de promover redução igual ou superior a 50% das crises (FREEMAN et al., 2007). 1. Síntese dos corpos cetônicos Os ácidos graxos, provenientes desta dieta hiperlipídica, são oxidados na mitocôndria do hepatócito gerando um excesso de acetil-CoA que em baixa concentração de oxalo- acetato reduz a velocidade de oxidação pelo ciclo de Krebs, favorecendo a cetogenêse, estimulando sua conversão em acetoacetato e, subsequentemente, em acetona e β-hi- droxibutirato. Os corpos cetônicos gerados atravessam a barreira hematoencefálica, sen- do transportados para o espaço intersticial do cérebro através dos transportadores de ácido monocarboxílico (MCNALLY et al., 2012). De acordo com SOKOLOFF (1973) e BILGER (1922) a concentração e eicácia dos transportadores monocarboxilícos varia em função da idade, podendo essa relação inluenciar diretamente a resposta clínica à DC. De acordo com a revisão de LIMA et al., (2014) os principais mecanismos associados às crises epilépticas envolvem a modulação dos potencial de membrana, regulação dos canais de íons, alteração na concentração das monoaminas biogênicas e ação neuropro- tetora (Figura 1). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA7 6 Figura 1 – Produção de corpos cetônicos e possíveis efeitos anticonvulsivos no cérebro. Os ácidos graxos provenientes da DC são oxidados e o excesso de Acetil-CoA é convertido em ACA e poste- riormente em acetona e β-hidroxibutirato. Os corpos cetônicos atravessam a BHE promovendo o efeito an- ticonvulsivante. 1- Aumento da síntese de GABA através da alteração do ciclo glutamato-glutamina ou pelo estímulo nos canais de Cl- (receptor GABAa); 2- Redução de glutamato pela inibição da VGLUT; 3-Alteração nas concentrações das monoaminas biogênicas (norepinefrina, adenosina, dopamina, serotonina); 4- Hi- perpolarização neuronal pelos canais de KATP possivelmente mediada pelo receptor GABAb. 5- Diminuição de ROS por ativação das proteínas desacopladoras (UCPs). 6- Efeito antioxidante por ativação do fator de transcrição (Nrf2). CAT: carnitina acil transferase; ACA:acetoacetato; BHB: β-hidroxibutirato; BHE: barrei- ra hematoencefálica; VGLUT: transportador vesicular de glutamato; A1R: receptor de adenosina; GABAaR: Receptor alfa do GABA; GABAbR: receptor beta do GABA; ROS: espécies reativas de oxigênio. Adaptado de MCNALLY et al., (2012). 1.1Modulação dos Neurotransmissores A principal hipótese da ação da DC e, provavelmente, a mais bem estudada envolve a concentração de neurotransmissores como consequência da alteração da síntese e cle- arance na fenda sináptica. Os corpos cetônicos parecem modular neurotransmissores e alterações nas concentrações dos principais neurotransmissores excitatórios e inibitó- rios (glutamato e ácido ᵧ-aminobutírico – GABA, respectivamente) (YUDKOFF et al., 2005, DAHLIN et al., 2005). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 7 7 Figura 2 Via de síntese e degradação dos principais neurotransmissores inibitórios e excitatório. Adaptado de RANG e DALE (2011). A glutamina é convertida em glutamato pela glutaminase e, posteriormente, pode ser con- vertida em GABA pela ação da glutamina descarboxilase (GAD) ou em Aspartato pela presença do oxaloace- tato. Na DC, há baixa concentração de oxalacetato pela restrição de carboidratos e proteínas favorecendo a via da síntese do GABA a partir da Glutamina e reduzindo a via de produção do aspartato e do glutamato via oxalacetato. 2.1.1 Ácido Gama-aminobutírico - GABA Os corpos cetônicos parecem alterar o metabolismo do glutamato de forma a au- mentar a concentração do GABA. O GABA é um intermediário do α-cetoglutarato sinteti- zado no ciclo de Krebs via glutamato e convertido em GABA pela glutamato descarboxila- se (MCNALLY et al., 2012). Os corpos cetônicos são capazes de reduzir a concentração de aspartato que estimula a glutamato descarboxilase e leva ao aumento da conversão de α-cetoglutarato para GABA de GABA (Figura 2), otimizando o controle das crises (CHENG et al., 2004). De maneira mais didática é importante entender o luxo normal desta via. Ao nível cerebral, o glutamato é captado por astrócitos que convertem glutamato em glutamina através da enzima glutamina sintetase. Posteriormente, a glutamina é exportada para os neurônios, em seguida, é hidrolisada para glutamato e pode ser convertido em GABA ou transaminada para aspartato, numa reação que requer oxalacetato (RHO, 2015). Como a DC induz mudanças no metabolismo reduzindo a concentração de oxalacetato, devido a restrição de carboidratos e proteínas, a produção de aspartato a partir do glutamato é reduzida, estimulando a via da glutamato descarboxilase e a biossíntese de GABA funda- mentando a hipótese GABAérgica de controle de crises epilépticas via geração de corpos cetônicos. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA7 8 O modelo in vitro de cultura de astrócitos proposto por YUDKOFF et al., (1997), mos- trou redução na concentração de aspartato após 1 hora de exposição a acetoacetato ou β-hidroxibutirato. Outro estudo experimental, usando isótopos de sinaptossomas, termi- nal sináptico isolado de um neurônio, de ratos expostos a acetoacetato e β-hidroxibutira- to mostrou aumento da concentração de GABA (ERENCISKA et al., 1996). Esses resultados também foram semelhantes ao observado em crianças que receberam a DC e passaram a ter aumento signiicativo da concentração de GABA em amostras de sangue avaliada por cromatograia líquida de alta performance (HPLC) (DAHLIN et al., 2005). O aumento da inibição ou redução da excitabilidade, se suicientemente intensa, pode inluenciar na função do cérebro, controlando as crises (RUSKIN et al., 2012). A alta concentração de GABA parece estimular os receptores dos canais de cloreto (Cl-), aumen- tando o inluxo negativo de íons, modulando o potencial de ação e induzindo a hiperpo- larização neuronal (CHENG et al., 2004). Esta hiperpolarização é responsável por inibir a ativação dos canais de cálcio e sódio, atividades necessárias para a excitação neuronal (TANNER et al., 2011). Além disto, a indução da hiperpolarização neuronal também pode ser associada ao aumento da abertura dos canais de KATP (TANNER et al., 2011) também contribuindo para o controle da excitação neuronal. Esses resultados sugerem a relação entre neurotransmissores, canais de íons e, con- sequentemente, a modulação do potencial de ação, visto que estes são essenciais para o impulso nervoso (Figura 3). Entretanto, na epilepsia, onde há atividade elétrica anormal, ocorrem estímulos favorecendo a fase ascendente (despolarização), enquanto que na presença da DC ocorre a hiperpolarização da membrana neuronal, estabilizando o poten- cial de ação e otimizando o controle das crises. Figura 3 - Potencial de ação durante o impulso nervoso. Fonte: QUILLFEDT (2005). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 7 9 Apesar destes achados, alguns estudos experimentais não apresentamresultados na modulação do GABA pela DC, o que pode estar associado com o local ou região mo- nitorada, ou seja, tais mudanças podem ser observadas em determinadas regiões do cérebro (YUDKOFF et al., 2005, MELO et al., 2006). Portanto, essas controvérsias sugerem a necessidade de estudos adicionais para direcionarmos à avaliação do impacto da DC em compartimentos cerebrais especíicos. 2.1.2 Gutamato Assim como a hipótese GABAérgica, existe a hipótese glutaminérgica (excitatória). A razão glutamato-cetose pode modular as funções isiológicas através dos transpor- tadores vesicular de glutamato (VGLUT), que são responsáveis pelo preenchimento das vesículas pré-sinápticas com glutamato dependente dos canais de Cl- ( JUGE et al., 2010) (Figura 1). Este estudo in vitro permitiu mostrar que o cloro é um ativador alostérico do VGLUTs, competitivamente inibido pelos corpos cetônicos (acetoacetato > β-hidroxibuti- rato) ( JUGE et al., 2010). Estudos demonstram que o acetoacetato foi capaz de suprimir in vivo a liberação do glutamato e as crises em ratos expostos a droga estimulante de convulsões, entretanto essas doses foram supra terapêutica (10 mM) (SAMALA et al., 2011). Estima-se que a DC em crianças promova um aumento na concentração de acetoacetato no luído cérebro- -espinhal de 0,3mM, inferior às dosagens utilizadas nos modelos animais. Além disso, a produção de corpos cetônicos, apresenta o acetoacetato sendo rapidamente convertido a β-hidroxibutirato, principal corpo cetônico sintetizado e encontrado em maior concen- tração (Figura 1). Em 2005, o mesmo estudo que descreveu aumento de GABA (DAHLIN et al., 2005), não observou nenhuma mudança na concentração de glutamato em crianças tratadas com a DC. Mais recentemente, em 2011, OMOTE et al., também observou o efeito dos cor- pos cetônicos na modulação de VGLUT 1 e VGLUT 2 e na regulação do Cl-. Estes autores propuseram que esta modulação seja fundamental no controle excitatório, entretanto o mecanismo molecular envolvido neste processo ainda precisa ser mais investigado. Destaca-se também a importância da identiicação e caracterização dos corpos cetônicos nos compartimentos cerebrais e se há diferença entre esses e o conteúdo sistêmicos de corpos cetônicos induzidos pela DC. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA8 0 2.1.3 Aminas biogênicas A modulação das aminas biogênicas (norepinefrina, serotonina, dopamina) pela DC tem sido investigada em modelos animais e em humanos (WEINSHENKER, 2008; MARTI- LOTTI et al., 2006; DAHLIN et al., 2012; MASINO et al., 2012). Em modelos animais, a concentração de norepinefrina aumentou em ratos que rece- beram a DC, enquanto que os ratos que tiveram o transportador de norepinefrina bloque- ado não apresentaram resposta semelhante (MARTILLOTTI et al., 2006). Posteriormente, outro estudo também demonstrou que a concentração de norepinefrina no hipocampo de ratos alimentados com DC foi maior que em animais alimentados com dieta normal (WEINSHENKER, 2008). O estudo clínico de DAHLIN et al., 2012 mostrou redução signiicativa na concentra- ção de dopamina (de 410 para 342 nmol/L) e serotonina (de 158 para 137 nmol/L) após 3 meses de tratamento com DC, enquanto que a concentração de norepinefrina permane- ceu inalterada (de 51,7 para 51,0 nmol/L). As mudanças nessas concentrações também podem ser diferentes em crianças responsivas e não responsivas à DC (DAHLIN et al., 2012), além da possibilidade da resposta sistêmica ser ou não a mesma que a resposta cerebral. A adenosina é considerada o principal neuromodulador inibitório das crises epilép- ticas (MASINO et al., 2009). Esta possibilidade foi reforçada anteriormente por FEDELE et al., (2005), que mostraram convulsões eletrográicas no hipocampo de camundongos transgênicos que tinham deiciência de adenosina. Há evidências sugerindo que a DC exerce efeitos anticonvulsivantes, restaurando a concentração de adenosina e ativando receptores (A1R) através de mecanismos relacionados à baixa concentração de glicose (DAHLIN et al., 2012). Além da relação positiva entre corpos cetônicos e adenosina, a redução de glicose por si só parece ser uma hipótese alternativa e complementar que teoricamente poderia explicar o efeito anticonvulsivante da DC. KAWAMURA et al., (2010), avaliaram os efeitos eletroisiológicos da redução de glicose em neurônicos piramidais CA3 do hipocampo e descobriram que a restrição de glicose estimulou à geração de ATP nestes neurônios. O aumento de ATP extracelular, mediante degradação por ectonucleotidases (nucleotídeos expressos na membrana plasmática) à adenosina ativou receptores de adenosina A1, que foram acoplados à abertura de canais KATP contribuindo para o controle da excitação neuronal. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 8 1 2.1.4 Efeito neuroprotetor A mitocôndria também tem uma função importante no mecanismo de controle das crises pela geração de adenosina trifosfato (ATP), controle de apoptose, manutenção da homeostase de cálcio, e produção e detoxiicação de espécies reativas de oxigênio (ROS) que estão presentes em condições isiológicas, mas encontram-se desreguladas na epi- lepsia (MILDER et al., 2012). As mitocôndrias são organelas intracelular cuja função é a produção de energia na forma de ATP. Este nucleotídeo é produzido pela cadeia respiratória através da oxidação fosforilativa, que é composta por cinco complexos multienzimáticos (complexos I-V). A disfunção do complexo I pode levar a redução da produção de ATP que é normalmente observado em doenças neurológicas (CADENAS e DAVIES, 2000). Na epilepsia este dese- quilíbrio (redução de ATP e aumento de ROS) contribui com o processo de morte celular (PATEL, 2004, CHUANG et al., 2009). No estudo experimental de BOUGH et al., (2006), camundongos mantidos em DC por pelo menos 3 semanas tiveram aumento da biogênese mitocondrial no hipocampo em comparação com os controles, sugerindo uma alternativa nos estoques de energia. Embora o papel antiepiléptico ligado à proteção da apoptose não esteja claro, esse mecanismo se deve provavelmente a restrição calórica (MAALOUF et al., 2009). Além da restrição calórica, os corpos cetônicos também têm efeitos antioxidantes e os ácidos gra- xos ativam as proteínas desacopladoras mitocondriais (UCPs) (Figura 4) (MAALOUF et al., 2007; SULLIVAN et al., 2004; MILDER et al., 2012). De acordo com SULLIVAN et al., (2004), a DC pode exercer efeito neuroprotetor pela redução de ROS através da ativação das UCPs. O estudo de revisão de MILDER et al., (2012) mostraram que apesar deste mecanismo não estar claro, além da ativação dessas proteínas, há um estimulo no fator de transcrição Nrf2 que parece estimular os elemen- tos de resposta antioxidante e promover aumento na razão antioxidante glutationa redu- zida/glutationa oxidada indicativa de diminuição de ROS como o peróxido de hidrogênio e outros peróxidos orgânicos lesivos em nível neuronal Desta forma as evidências apontam para um efeito antioxidante da DC no cérebro, incluindo o período pós-dieta, pois as crianças responsivas ao tratamento que empirica- mente é de 2 a 3 anos permanecem com este efeito neuroprotetor mesmo após a retira- da da DC (KOSSOFF et al., 2009; McNALLY et al., 2012). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA8 2 Figura 4 Mecanismo neuroprotetor da dieta cetogênica.Alta concentração de cálcio mitocondrial durante a injúria neuronal leva ao aumento de síntese de espécies reativas ao oxigênio (ROS), redução de síntese de ATP e secundariamentea abertura do poro de transição permeável mitocondrial (mPTP). Como resultado, o citocromo c (cyt c) é liberado para o citoplasma e é iniciada a cascata de apoptose. A dieta cetogênica (DC) limita a injúria neuronal e a morte celular estimulando a calbidina (tampão de cálcio), promovendo a biogê- nese mitocondrial (que aumenta a síntese de ATP), ativando as proteínas desacopladoras (que diminuem a formação de ROS). Adicionalmente, a DC inibe fatores de apoptose (Bad, caspase 3). Vias da apoptose são destacadas em preto e vias neuroprotetoras são destacadas em vermelho. Setas escuras indicam efeitos excitatórios enquanto setas invertidas efeitos inibitórios. Adaptado de MAALOUF et al., (2009). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 8 3 2.Considerações inais Atualmente, estudos cientíicos vêm dando ênfase ao papel dos ácidos graxos na mo- dulação neuronal e no efeito neuroprotetor nas doenças neurológicas, como é o caso da epilepsia. Esses estudos sugerem que os ácidos graxos poli-instaturados (PUFAs), especialmen- te ômega-3 e ácido docosahexanoico (DHA) têm propriedades antieoilépticas e podem apresentar maior eicácia clínica no controle de crises em comparação aos ácidos satura- dos (TAHA et al., 2010, YOON et al., 2014). Os mecanismos deste efeito antiepiléptico também não estão elucidados, entretanto, os estudos em modelos animais sugerem que a modiicação da composição da membra- na celular parece estar associada com a ativação de receptores de proliferação de pero- xisomos (PPARs), sugerindo efeito anti-inlamatório e maior controle de crises (AUVIN, 2012). Aproximadamente 60% do peso seco do cérebro consistem de lipídeos, sendo que cerca de 30% é constituído de ácidos graxos poli-insaturados (PUFAs) provenientes es- sencialmente da dieta (AUVIN, 2012). Portanto, a identiicação dos mecanismos modu- lados por diferentes ácidos graxos pode permitir prescrever DC menos restritiva, mais eicaz clinicamente e apresentar menos efeitos adversos como o aumento na incidência das dislipidemias durante o tratamento. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA8 4 Referências 1.Auvin S. 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Outro exemplo é a presença de auto-anticorpos em outras formas de epilep- sia (BIEN, 2012). A inlamação e outras vias do sistema imunológico incluem processos dinâmicos que atuam em conjunto com o objetivo de proteger o organismo frente a agressões externas, como por exemplo, os quadros infecciosos (ISHIKAWA, 2015; DUPUIS e AUVIN, 2014). A resposta imune é dividida em inata e adaptativa. A inata é responsável pela resposta não especíica e imediata do hospedeiro contra a agressão dos patógenos através de anti- corpos produzidos pelos linfócitos B (VEZZANI et al., 2011). A resposta imune adaptativa ou adquirida é ativada pela imunidade inata, sendo especíica para o antígeno. Após ser delagrada, atinge um efeito máximo conduzindo à resposta imunológica (VEZZANI et al., 2011; DUPUIS e AUVIN, 2014). O sistema nervoso central (SNC) é um órgão que utiliza ambas respostas imunitárias (inata e adaptativa) após exposição aos patógenos, lesões de etiologias diversas (trauma, hipóxia, isquemia) e até mesmo na ausência destes agentes, como por exemplo, no esta- do de mal epiléptico (DUPUIS e AUVIN, 2014). As respostas imunológicas e inlamatórias iniciam-se a partir do tecido lesionado sen- do ativadas e mantidas por meio da expresão de biomarcadores inlamatórios a im de recuperar a homeostase orgânica (BINKOWSKA et al., 2015). Estes marcadores são repre- sentados por pequenas proteínas solúveis, denominadas citocinas, com reduzida meia vida, produzidas por leucócitos, células gliais, neurônios e endotélio da barreira hemato- encefálica (WOODCOCK e MORGANTI-KOSSMANN, 2013; SONMEZ et al., 2013, VEZZANI et al., 2015). Entre outros mediadores relacionados ao processo inlamatório, as citocinas são as mais importantes identiicadas no tecido cerebral epileptogênico, atuando não apenas no processo inlamatório, mas também como neuromoduladoras ao ativar receptores neuronais, afetando diretamente a função e a excitabilidade celular. Em estudos animais, alguns destes agentes podem contribuir de modo signiicativo na geração de crises (VE- ZZANI et al., 2015). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 8 7 As citocinas são divididas em pró e anti-inlamatórias, sendo responsáveis, respec- tivamente, por iniciar e/ou propagar a resposta inlamatória, ou por inibi-la. Desta for- ma, na presença de um quadro infeccioso, diversas citocinas com funções especíicas são liberadas no tecido ou luido (sangue, plasma, líquor etc.), atuando em conjunto por meiode uma rede complexa de biomarcadores inlamatórios (WOODCOCK e MORGANTI- -KOSSMANN, 2013). Há forte correlação bidirecional entre a inlamação cerebral e a epilepsia, ou seja, a doença induz a ativação do sistema imune, mas também a resposta imunológica con- tribui mantendo a resposta inlamatória ao nível neuronal, possivelmente contribuindo com as crises epilépticas e piora no prognóstico clínico dos pacientes. Estudos clínicos ou experimentais recentes evidenciam que as crises epilépticas prolongadas e as lesões cerebrais podem acarretar um processo inlamatório, assim como a inlamação é capaz de atuar como gatilho para o surgimento das crises epilépticas, contribuindo assim, para a epileptogênese (DUPUIS e AUVIN, 2014; CHOI et al., 2009; VEZZANI et al., 2011; 2015). I-Epileptogênese e inlamação a)Modelos experimentais Pesquisas em animais demonstraram que após lesões agudas ou crises epilépticas provocadas, mecanismos inlamatórios são ativados na micróglia e nos astrócitos. Isto ocorre, por exemplo, em ratos com epilepsias genéticas como a causada por descargas a 3Hz que mimetizam as crises de ausência. A ativação glial ocorre durante a epileptogêne- se, tanto em epilepsias sintomáticas quanto nos modelos genéticos de epilepsia, sendo mantida na fase crônica da doença (PITKANEN e ENGEL, 2014). As células gliais liberam várias citocinas inlamatórias e moléculas relacionadas, iniciando, portanto, uma cascata de eventos moleculares no cérebro e na sua microvasculatura, que por sua vez aumenta a excitabilidade neuronal e diminui o limiar para a ocorrência de crises (VEZZANI et al., 2015). Em modelos animais, linfócitos foram encontrados no hipocampo em epilepsia induzida por injeção com pilocarpina (FABENE et al., 2008). b)Mediadores inlamatórios Além das citocinas, o tecido cerebral epileptogênico também apresenta outros tipos de marcadores pró-inlamatórios, como as quimiocinas, as prostaglandinas e os elemen- tos do sistema complemento. Tais moléculas não atuam apenas promovendo a inlama- ção local e o recrutamento de células imunes periféricas, mas também exercem função neuromoduladora (VEZZANI et al., 2015). Na presença de um quadro infeccioso, as células do sistema imunológico produzem os marcadores inlamatórios representados pelas ci- tocinas pró-inlamatórias, principalmente as interleucinas IL-1 e IL-6, o fator de necrose tumoral (TNF-α) e a proteína C reativa (PCR). Desta forma, pode-se dizer que as citocinas atuam como sinalizadoras de uma condição inlamatória inata (ISHIKAWA, 2015). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA8 8 I-Principais citocinas e suas funções na epilepsia a)Citocinas pró-inlamatórias Interleucina 1-beta (IL-1β) As crises epilépticas aumentam a expressão de IL-1β, estando envolvidos na excito- xicidade, estresse oxidativo e modulação de sistemas neuroendócrinos. A sua mensura- ção sérica é insuiciente para se correlacionar com a epileptogênese, sendo necessários modelos animais para uma análise mais detalhada (VEZZANI et al., 2015). Experimentos animais demonstraram o seu potencial epileptogênico em altas concentrações, ao passo que injeção intraperitoneal e intraventricular de pequenas doses, conirmaram tal acão (SAYYAH et al., 2005). Interleucina 6 (IL-6) A IL-6 é uma citocina multifuncioal que regula a resposta inlamatória e outras rea- ções. Embora a IL-6 seja necessária para o desenvolvimento normal do SNC, os experi- mentos em modelos animais mostram que sua elevada concentração cerebral é um fator neurotóxico e pró-convulsivante, sendo que o aumento de sua expressão tecidual e séri- ca está intimamente associada ao aumento de crises epilépticas. No entanto, ainda não está claro se a concentracão sanguínea elevada de IL-6 permite estabelecer conclusões sobre sua função em áreas epileptogênicas (LI et al., 2011). Fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) No SNC, o TNF-α pode ativar receptores e modular a sinalização celular. O recep- tor TNF-α p55 tem sido implicado na ativação da morte celular programada (apoptose).Embora o seu mecanismo ainda não esteja claro, em modelos animais, as crises podem induzir a expressão de TNF-α e RNA mensageiro no cérebro (LI et al., 2011). Interleucina 2 (IL-2) A IL-2 desempenha um papel importante na regulação da resposta imunológica atra- vés da ativação de células T. A administração intraventricular de IL-2 em ratos promoveu a geração de crises em vários modelos de epilepsia experimental. No entanto, os níveis de IL-2 plasmática e liquórica permaneceram inalterados em pacientes com crises febris prolongadas durante a fase aguda, com ou sem encefalopatia associada (ICHIYAMA et al., 2008) Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 8 9 b)Citocinas anti-inlamatórias Interleucina 10 (IL-10) A IL-10 tem propriedade anti-inlamatória por causar a inibição da função das células apresentadoras de antígeno e supressão da produção de citocinas pró-inlamatórias e quimiocinas. De acordo com ISHIZAKI et al., (2009) o efeito anticonvulsivante de IL-10, após episódios transitórios de hipóxia no hipocampo de ratos. Em crises induzidas por hipertermia em ratos imaturos, a temperatura limiar para ocorrência de convulsão em ratos tratados com IL-10 foi signiicativamente maior do que nos controles. Além disso, a frequência dos alelos associados ao aumento da produção de IL-10 foi signiicativamente menor naqueles que apresentavam crises febris em comparação com controles saudá- veis. II-Epilepsia e inlamação As crises epilépticas induzem um processo inlamatório na barreira hemato-encefá- lica acarretando em danos estruturais e funcionais, como por exemplo, o aumento de sua permeabilidade. Este comprometimento representa um possível mecanismo para as citocinas inluenciarem no curso da epilepsia (LI et al., 2011). Alguns estudos sugerem que a inlamação no cérebro (neuroinlamação) se relaciona com a isiopatologia e a epilepto- gênese das epilepsias e das crises epilépticas (VEZZANI, GRANATA, 2005; VEZZANI et al., 2013). Especiicamente na crise epiléptica, o estado inlamatório cerebral ocorre por meio da ativação das células imunitárias e, consequentemente, na produção de citocinas pró- -inlamatórias (RIAZI et al., 2010). É possível compreender este mecanismo através de alguns estudos experimentais que demonstraram que após a ativação, as células gliais liberaram citocinas pró-inlamatórias no cérebro, dando início a uma cascata de eventos que acarretam o aumento da excitabilidade, degeneração neuronais e na redução do limiar convulsivo (VEZZANI et al., 2015; SINHA et al., 2008). A esclerose hipocampal representa a lesão mais comum na epilepsia do lobo tempo- ral (ELT) em pacientes cirúrgicos, permitindo o estudo in vivo dos mediadores inlamató- rios no tecido cerebral. Estudos imuno-histoquímicos e de expressão gênica evidenciam associação de gliose e ativação das células microgliais com a indução de vias pró-inlama- tórias em pacientes com ELT. A expressão aumentada de IL-1β e de seu receptor, IL-1R1, foi detectada em espécimes cirúrgicos com esclerose hipocampal (VEZZANI et al., 2015). Outros estudos com displasias corticais focais, esclerose tuberosa e tumores glio- neuronais apresentaram evidências de ativação de mecanismos imunes. Possivelmen- te estas doenças envolvem a expressão de vias relacionadas à participação do mTOR (mammalian target of rapamycin). No ganglioma, os processos inlamatórios evidenciam Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA9 0 alterações na permeabilidade com extravasamento de albumina e sua captação pelos astrócitos tumorais (ARONICA et al., 2008). Encefalites auto-imunes envolvem o sistema imunológico adquirido. Os auto-anticorpos podem ser divididos naqueles direcionados às estruturas intracelulares (por exemplo GAD65) como nas condições paraneoplásicas e naqueles envolvidos com os receptores celulares (complexo VGKC, glutamato e GABA, etc.) (VEZZANI et al., 2015). A principal condição epiléptica na qual a inlamação está intimamente relacionada é a encefalite de Rasmussen, na qual conteúdos elevados de auto-anticorpos contra receptor do glutamato (GlutR3) foram detectados, sugerindo a ativação do sistema imune adapta- tivo e que pode ser secundário a ação de linfócitos citotóxicos T no cérebro. Nesta condi- ção, crises epilépticas focais contínuas são acompanhadas por déicit motor progressivo unilateral (VEZZANI, 2013). Outra condição em que os marcadores inlamatórios apresentam grande inluência para desencadear as crises epilépticas são as crises febris. Nas epilepsias idiopáticas foi descrito também aumento de auto-anticorpos em alguns pacientes (MCKNIGHT, 2005; VEZZANI et al., 2015). III-Dieta cetogência e inlamação Até o momento, há poucos estudos que correlacionam detalhadamente o papel dos biomarcadores inlamatórios durante o tratamento com a dieta cetogênica (DC) nos pa- cientes com epilepsia refratária. De qualquer forma, tem-se demonstrado que este tra- tamento adjuvante pode exerce um papel anti-inlamatório e neuroprotetor importante. Existem diversos mecanismos envolvidos com a diminuição da inlamação durante a DC, como por exemplo, a redução na produção de espécies reativas de oxigênio através do aumento da cetose induzida pela dieta (RUSKIN et al., 2009). Também há relatos que os ácidos graxos poli-insaturados reduzem a nocicepção através de receptores ativados pelo proliferador peroxissoma (PPARs) (CULLINGFORD, 2008). Os estudos em modelos animais descrevem que o uso de dietas hipocalóricas exerce redução da inlamação e efeito hipoalgésico (SHIBOLET et al., 2002; RUSKIN et al., 2009). O estudo de Dupuis et al. (2015) analisou o efeito protetor e anti-inlamatório da DC em 8 ratos machos adultos, comparando-os com um grupo controle em dieta conven- cional. Ambas intervenções foram mantidas durante 14 dias e, posteriormente, após a indução de febre com lipopolissacarídeo, os níveis cerebrais e periféricos de IL-1β e TNF-α foram correlacionados com os valores de temperatura corporal. Após 4 horas da indução da febre, a concentração plasmática de IL-1β e TNF-α do grupo submetido à DC foi signi- icativamente menor que o grupo controle (p<0,01). Portanto, este estudo demonstrou que a DC pode modular a febre com redução concomitante da inlamação periférica e cerebral e da concentração de IL-1β. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 9 1 IV-Considerções inais Estudos clínicos e experimentais demonstram a presença de ativação de células in- lamatórias (micróglia, astrócitos e leucócitos) e o aumento de citocinas pró-inlamatórias com a indução de vias de sinalização e neuromodulação em várias formas de epilepsia refratária. Embora poucos estudos a respeito do efeito anti-inlamatório da DC tenham sido publicados até o momento, existem evidências mecanisticas de que dietas hipocalóricas e dietas que induzem ao aumento da cetose, inluênciam positivamente a redução da inlamação e proteção neuronal. Considerando que a inlamação cerebral contribui para o gatilho das crises epilépti- cas, são necessários mais estudos sobre a DC e a inlamação a im de elucidar tanto os mecanismos envolvidos, como os efeitos neuroprotetores e anti-inlamatórios, auxilian- do deste modo a busca de novas estratégias terapêuticas na epilepsia refratária. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA9 2 REFERÊNCIAS 1.Aronica E, et al. Gene expression proile analysis of epilepsy associated gangliogliomas. Neuroscience. 2008;151(1): 272–92. 2.Bien CG,et al. Immunopathology of autoantibody-associated encephalitides: clues for pathogenesis. Brain. 2012;135(5):1622-38. 3.Binkowska AM. Michalak G, Slotwinski R. Current views on the mechanisms of immune responses to trau- ma and infection. Center Eur J Immunol. 2015;40(2):206-16. 4.Choi J, et al. 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Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 9 3 Dieta cetogênica na resposta clínica e seu impacto na qualidade de vida Letícia Pereira de Brito Sampaio | Brenda Ladeia A dieta cetogênica (DC), rica em gorduras, pobre em carboidratos e adequada em proteínas foi desenvolvida em 1921, com o objetivo de mimetizar no organismo as altera- ções bioquímicas associadas ao jejum, quando os corpos cetônicos se tornam o principal combustível para a produção de energia no sistema nervoso central (WILDER, 1921). É um tratamento não farmacológico, bem estabelecido e efetivo para crianças e adultos com epilepsia de difícil controle. Naquela época, quando ainda poucos fármacos antiepilépti- cos (FAE) estavam disponíveis, 60 a 75% das crianças que eram tratadas com DC apresen- tavam redução de mais de 50% das crises epilépticas; 30 a 40% apresentavam redução de mais de 90% na frequência das crises epilépticas e 20 a 30% não apresentavam nenhum benefício no controle das crises (SWINK et al., 1997). Independente da idade, tipo de crise ou etiologia, a DC promove redução de >90% das crises epilépticas em 1/3 dos pacientes após início do tratamento (HENDERSON et al., 2006). FREEMAN et al., (1998), publicaram um estudo realizado com 150 crianças entre 1 e 16 anos de idade, apresentando em média 410 crises epilépticas ao mês. Observou-se que após 1 ano de DC, 27% das crianças apresentaram > 90% de redução na frequência das crises, sendo que 7% icaram livres de crises e, 50% apresentaram > 50% de redução na frequência das crises epilépticas. As crianças que se mantiveram na DC pelo período de 1 ano foram as que apresentaram mais 50% de redução na frequência das crises. Aquelas que apresentaram menos de 50% de redução na frequência de crises acabaram conside- rando a dieta difícil manuseio e a abandonaram. Foi também observado que as crianças que obtêm sucesso com a DC, apresentam logo nos primeiros três meses uma redução de > 50% na frequência das crises. Em 2008, NEAL et al., acompanharam 103 crianças que não haviam apresentado res- posta a pelo menos dois FAE e que apresentavam pelo menos 7 crises epilépticas por semana. Esses pacientes foram randomizados em dois grupos, sendo que um iniciava a DC de imediato e o outro grupo, após três meses, com a medicação em dose estável. Após três meses, o grupo em tratamento com a DC apresentou redução de 75% na fre- quência de crises em relação ao grupo controle, sendo que 38% apresentou mais de 50% de redução das crises epilépticas e 7% mais de 90% de redução na frequência das crises. Existem algumas síndromes epilépticas nas quais a DC tem se mostrado eicaz no controle das crises epilépticas. Em outras, sua eicácia ainda não esta totalmente deini- da, porém a DC pode ser considerada como uma opção válida. Em 2009, foi publicado o primeiro consenso para padronização da dieta cetogênica (KOSSOFF et al., 2009). Segundo este consenso, a DC deve ser oferecida a crianças após a ausência de resposta a duas ou três medicações antiepilépticas, independente da idade ou sexo e, principalmente, nas epilepsias generalizadas sintomáticas, devido a sua eicá- cia e a pouca chance de controle de crise com novos FAE. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA9 4 A DC é o tratamento de primeira linha para Síndrome de De Vivo – deiciência do transportador de glicose tipo 1 (KLEPPER e LEIENDECKER, 2007) e para a deiciência de piruvato desidrogenase (WEXLER et al., 1997), quando os corpos cetônicos contornam o defeito metabólico, passando a ser a fonte primária de energia para o cérebro. Em algumas condições especíicas a DC pode ainda ser usada de forma mais precoce, como a síndrome de Dravet, espasmos infantis (síndrome de West), epilepsia mioclônico-atô- nica (síndrome de Doose) e esclerose tuberosa. Pode também ser efetiva na síndrome de Rett, síndrome de Lennox-Gastaut, síndrome de Landau-Klefner, encefalopatia com ponta-onda contínua durante o sono. Nas crianças candidatas a cirurgia de epilepsia o seu benefício é limitado, porém pode ser utilizada durante o período pré-operatório. É uma opção válida nas crianças que apresentam toxicidade a diferentes FAEs. A DC é contraindicada em algumas condições especíicas. Antes de iniciar a DC, princi- palmente nos pacientes com sintomas clínicos de atraso de desenvolvimento, cardiomio- patia, hipotonia, intolerância ao exercício, mioglobinúria e fatigabilidade. Pacientes com erros inatos do metabolismo tais como deiciência dos transportadores de ácidos graxos, defeitos da beta oxidação e outras doenças mitocondriais podem apresentarcrises cata- bólicas após o início da DC e, portanto, devem ser excluídos. Nos últimos anos as evidências de eicácia da DC têm aumentado substancialmente. Em 2014, foi publicado na Argentina um consenso nacional sobre a DC (ARMENO et al., 2014). Esse documento incluiu novas evidências de eicácia da DC nos casos de epilepsia com crises focais refratárias desencadeadas por febre (FIRES), onde ainda a etiologia não foi esclarecida se infecciosa, imunológica ou genética (Quadro 1). A eicácia da DC tam- bém tem sido observada em algumas doenças metabólicas, como as doenças mitocon- driais da cadeia respiratória (SCHOLL-BÜRGI et al., 2015). Deiciência do transportador de glicose (Glut-1) Deiciência de piruvato desidrogenase Epilepsia mioclônica grave (síndrome de Dravet) Espasmos infantis Epilepsia mioclônico atônica (síndrome de Doose) Síndrome de Lennox-Gastaut Encefalopatia epiléptica com ponta-onda contínua durante o sono Síndrome de Landau-Klefner Epilepsia com crises focais refratárias desencadeadas por febre (FIRES) Outras (Epilepsias focais estruturais e de causa desconhecida) Quadro 1 - Indicações mais frequentes do tratamento com a dieta Cetogênica. Fonte: ARMENO et al., (2014). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 9 5 A compreensão dos aspectos mecanísticos associados à indução e controle das crises epilépticas poderá subsidiar o desenvolvimento de intervenções farmacológicas e dietéti- cas que se traduzam num melhor prognóstico clínico e em qualidade de vida. A epilepsia, assim como outras doenças neurológicas crônicas, é caracterizada por in- certezas. Devido às razões enraizadas na própria história da doença, ela é muito estigma- tizada. Assim, o impacto da epilepsia na qualidade de vida (QV) das crianças é de grande signiicância (BACKER et al., 1997). Em uma criança com epilepsia, as crises epilépticas ocorrem durante a infância, no momento em que o Sistema Nervoso Central encontra-se em seu potencial máximo de desenvolvimento, podendo afetar inúmeras funções cognitivas e locomotoras (SORIA et al., 2008). O desenvolvimento de doenças mentais, comorbidades físicas e a incapacidade fun- cional aumentam conforme a frequência das crises convulsivas e, portanto, portadores de epilepsia são mais propensos a limitações funcionais e cognitivas, exigindo maior atenção dos cuidadores e tratamentos médicos especíicos (RUSS et al., 2012). Na sociedade, qualquer pessoa que apresente deiciência está entre as mais vulne- ráveis, isso pode ser ainda mais evidenciado em pessoas acometidas pela epilepsia ou outras condições neurológicas que tenham como consequência alguma deiciência cog- nitiva. Pessoas com epilepsia têm suas potencialidades neurocognitivas e físicas prejudi- cadas em muitas esferas da vida e, historicamente, são estigmatizadas e discriminadas (PRILIPKO e SAXENA, 2005). O diagnóstico de epilepsia pode gerar na família um desajuste emocional. Além dos indivíduos com epilepsia serem superprotegidos, tornando-os dependentes e imaturos (GRÜSNPUN, 1978), sofrem também um profundo impacto na reação dos mesmos, que reconhecem ter uma condição que os diferencia das demais. Estas interferências são um fator determinante na qualidade de vida das crianças, impedindo o bom desenvolvimen- to da sua autonomia, alterando suas relações e gerando distúrbios cognitivos (CHAIX et al., 2006). A QV de uma criança está estritamente relacionada com a sua saúde, uma vez que essa é deinida como um estado de completo bem-estar físico, mental e social (WHO, 1947). A QV é estabelecida como a percepção de um indivíduo e sua posição na vida, no contexto da cultura e valores sociais, nos quais esse indivíduo está inserido, incluindo suas expectativas, padrões e preocupações. É considerada um conceito amplo que afeta de forma complexa a saúde física, estado psicológico, nível de independência, relações sociais e a relação com o ambiente (WHO, 1998). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA9 6 De acordo com GRÜSNPUN (1978), para uma abordagem que se associa neurociência com a psicanálise, conclui-se que a personalidade estrutural do indivíduo epiléptico é variada, dependendo de vários fatores, que podem ser divididos nos seguintes grupos: 1) Condicionamentos pelo funcionamento anormal do sistema nervoso; 2) Derivados dos conlitos da adaptação ao meio. Uma integração normal da personalidade demanda de uma harmonia entre as es- truturas do SNC e suas funções. O epiléptico não apresenta essa sintonia e o distúrbio fundamental consiste na estrutura especíica da personalidade. A característica mais evidente na integração de personalidade do indivíduo com epi- lepsia, é a intensidade de suas exigências instintivas e necessidades bastante desmensu- radas. ‘’O prazer, como tendência dominante, não alcança sua completa satisfação, exata- mente pelo aumento de suas exigências instintivas, condicionando desprazer contínuo, impedindo sua adaptação afetiva. A busca constante do prazer, não estando relacionada diretamente com as experiências que lhe dão origem, impede a passagem do princípio do prazer ao princípio da realidade. Esses indivíduos procuram durante a vida inteira uma satisfação sem nunca a alcançarem, não conseguindo, portanto, sua evolução plástico-a- daptativa. Em sua evolução, caracterizam-se por personalidade imatura, com traços de primitivismo’’. Um outro ponto de grande importância é o aumento da instabilidade causado pela la- bilidade neuronal, o que acarreta respostas desproporcionais frente ao estímulo e predo- mínio das reações explosivas. As crises acarretam processos de adaptação inadequadas do indivíduo ao meio, criando uma situação de inferioridade social e, quanto mais preco- ce, mais modiicada será a estrutura deinitiva da personalidade; quanto mais esporádi- cas as crises, menores as reações inadequadas frente ao ambiente; com poucas crises, sem lesão, o indivíduo terá rendimento intelectual satisfatório e uma boa adaptação. A personalidade do indivíduo portador da epilepsia, antes do aparecimento das cri- ses, não é um fator causal para as mesmas, contudo possui uma inluência de maneira indireta na frequência e natureza das manifestações clínicas da epilepsia (COELHO, 1980). O simples fato de se ter uma doença neurológica da magnitude da epilepsia já é um agravante na QV (SCHLINDWEIN-ZANINI et al., 2007). As crianças portadoras dessa doen- ça enfrentam inúmeros desaios, o que acaba impedindo o bom desenvolvimento de sua autonomia e alterando suas relações, incluindo também, déicits cognitivos e de aprendi- zagem, diiculdades na escola, estigmas sociais, comorbidades psiquiátricas (BACA et al., 2010). Nesse contexto, inclui-se também os problemas relacionados aos efeitos colaterais dos medicamentos, desde efeitos cognitivos até os estéticos, como obesidade, alteração nos cabelos, nas gengivas e dentição (SCHLINDWEIN-ZANINI et al., 2007). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 9 7 A qualidade do sono também é prejudicada. A privação de sono e/ou perturbações do sono prejudicam os mecanismos neuroisiológicos e neuroquímicos que são impor- tantes para o processo de aprendizagem e memória (HALLBOÖÖK et al., 2007). Além de afetar a memória, a reduzida qualidade do sono pode desencadear crises epilépticas e afetar o comportamento do paciente, pois muitas crises epilépticas são ativadas durante sono ou despertar (MÉNDEZ e RADTKE, 2001). Desta forma, variações nos padrões de sono poderiam esclarecer tanto a deiciência de aprendizagem e outros sintomas típicos de criançascom epilepsia como as descargas epilépticas interictais em eletroencefalograia (EEG) e persistência de convulsões na distribuição circadiana (HALL- BOÖÖK et al., 2012). DEVINSKI e PENRY (1993) destacaram que o desempenho escolar, número de drogas antiepilépticas e estigma são os fatores que mais inluenciam na qualidade de vida em pacientes portadores de epilepsia de várias regiões do mundo, incluindo o declínio cog- nitivo e desempenho escolar como alguns dos principais problemas de saúde mental. O impacto mais importante está na aprendizagem, memória, desempenho visual-espacial, problemas de atenção e tarefas de memória de longo prazo (BARRAGÁN et al., 2006). Durante a vida adulta, estes indivíduos estarão mais propensos a terem baixa auto- estima e desenvolverem ansiedade e depressão. Além de terem mecanismos pobres de enfrentamento, como resposta à epilepsia e ao tratamento (BACKER et al., 2002), uma maior tendência ao desemprego e/ou ao subemprego, baixos índices de casamento e um considerável isolamento social (BACKER et al., 1997). A DC, quando eicaz, reduz a frequência das crises epilépticas e consequentemente melhoram a QV do indivíduo (SORIA et al., 2008). Na maioria das vezes observa-se mu- danças na cognição, comportamento, humor e estado de alerta (GRÜSNPUN, 1978). As crianças possuem uma melhora signiicativa na atenção, o que favorece aspectos relacionados à aprendizagem (GRÜSNPUN, 1978), melhorando, portanto, o desenvolvi- mento na escola (DUARTE, 1996). Há uma melhora no sono, evidenciando a qualidade do sono com movimentos ocu- lares rápidos (Rapid Eye Movements:REM) (HALLBOÖÖK et al., 2007). O sono REM e sono não REM (NREM), estão envolvidos na formação da memória e desempenho cognitivo. Com a melhora no sono REM e NREM há uma otimização no desenvolvimento da criança. Evidências apontam que o sono após a aprendizagem aumenta a consolidação de me- mórias declarativas, procedimentais e emocionais, pois o sono possui importância sig- niicativa nesses processos, através remodelação neuroplástica de redes neurais (HALL- BOÖÖK et al., 2012). A literatura descreve diversos estudos que avaliaram o impacto da epilepsia na qua- lidade de vida de pacientes (RAMOS, 2001), embora a abordagem especíica sobre os benefícios da DC nos aspectos cognitivos e na qualidade de vida tenham sido pouco ava- liados. Diversos estudos apontam para a melhora da capacidade cognitiva e funcional, porém essas mudanças não são quantiicadas pela ausência da aplicação de um ques- tionário especíico para este im. PIRES et al., (2013), observou uma melhora na atenção, vigilância, nível de atividade e interação social, porém estas melhoras não foram quanti- icadas especiicamente. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA9 8 O uso de questionários e escalas é de grande relevância para se avaliar os aspectos cognitivos, nível funcional e qualidade de vida, favorecendo e contribuindo para a identi- icação de prejuízos no desempenho da criança, possibilitando que o cuidador e a equipe acompanhe a evolução e o tratamento com nitidez, sendo de extrema importância no processo de reabilitação clínica (PAICHECO et al., 2010). Considerações inais Observa-se um amplo espectro de déicits cognitivos e anormalidades comporta- mentais que estão associados com a epilepsia. Sendo assim, a DC é um tratamento que pode melhorar a QV das crianças com epilepsia. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 9 9 Referências 1.Andrade SA et al. Ambiente familiar e desenvolvimento cognitivo infantil: uma abordagem epidemiológi- ca. Rev Saúde Pública, 2005, 29(4):606-1. 2.Armeno M, Caraballo R1, Vaccarezza M, Alberti MJ, Ríos V, Galicchio S, de Grandis ES, Mestre G, Escobal N, Matarrese P, Viollaz R, Agostinho A, Díez C, Cresta A, Cabrera A, Blanco V, Ferrero H, Gambarini V, Sosa P, Bouquet C, Caramuta L, Guisande S, Gamboni B, Hassan A, Pesce L, Argumedo L, Dlugoszewski C, DeMartini MG, Panico L. [National consensus on the ketogenic diet]. Rev Neurol. 2014;59:213-23. 3.Baca CB, Vickrey BG, Hays RD, Vassar SD, Berg AT. 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Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 101 Pirâmide Alimentar na Dieta Cetogênica Mariana Baldini Prudêncio | Daniela Kawamoto Murakami É amplamente aceito na literatura a utilização de ícones gráicos como ferramenta do manejo nutricional em diversas estratégias de educação nutricional (WELSH et al., 1992; FAO/WHO, 1996). Um dos ícones gráicos comumente descritos na literatura mundial é a pirâmide ali- mentar, sendo utilizada desde a década de 70 quando foi publicada a sua primeira versão na Suécia. Apesar desse marco histórico, o uso da pirâmide alimentar ganhou visibilidade no ano de 1992 quando o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos lançou re- comendações nutricionais para a população americana em forma de pirâmide alimentar (UNITED STATES DEPARTMENT OF AGRICULTURE, 1992). No âmbito nutricional, ícones gráicos como as pirâmides alimentares, são muito uti- lizados para a composição de guias alimentares. Esses consistem em uma ferramenta que apresentam como objetivo o estabelecimento de metas nutricionais utilizando men- sagens objetivas e simples e levando-se em consideração o contexto social, econômico e cultural, assim como fatores físicos e biológicos para uma população especíica. Na prática clínica a utilização dessa ferramenta permite educar o público em relação as suas escolhas alimentares, além de permitir guiar políticas públicas nacionais (ALTAMIRANO MARTÍNEZ et al., 2015). Segundo a Organização Mundial da Saúde os guias alimentares devem explicar os princípios da educação nutricional e serem de fácil entendimento pela população em geral evitando o uso de linguagem técnica. O uso de representações gráicas nos guias alimentares possibilita expressar as recomendações nutricionais de maneira ilustrativa tornando mais fácil seu entendimento. Essas ferramentas exercem grande inluência na adoção de hábitos alimentares pela população, pois são capazes de inluenciar diferentes grupos étnicos, diversas faixas etárias e grupos com diversas necessidades isiológicas. Essas orientações ajudam os indivíduos no planejamento, avaliação e tomada de decisões em relação à aquisição de alimentos saudáveis de forma independente (WHO, 2000). A pirâmide alimentar também possibilita fornecer informações gráicas sobre a fre- quência e proporção da ingestão de alimentos. Sua proposta original convergiu de dois conceitos principais - o da variedade e da proporcionalidade. Na pirâmide ambos os con- ceitos são representados através de suas ilustrações e pelo tamanho dos grupos alimen- tares, sendo o seu objetivo principal auxiliar a população na adoção de boas escolhas ali- mentares, de forma a reduzir o risco de doenças crônicas (UNITED STATES DEPARTMENT OF AGRICULTURE e UNITED STATES DEPARTMENT OF HEALTH AND HUMAN SERVICES, 2015). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA102 Desde a sua primeira publicação em 1992, centenas de pirâmides têm sido publica- das mundialmente com o objetivo de adaptar a mensagem da pirâmide para diferentes etnias, grupos populacionais (vegetarianos, atletas, crianças e idosos), além de condições de saúde especíicas como alergias alimentares, doença renal e cirurgia bariátrica (GON- ZÁLEZ-GROSS et al., 2008; D’ALESSANDRO et al., 2015; MOIZÉ et al., 2010). As principais adaptações realizadas na pirâmide alimentar referem-se aos alimentos que compõe cada pirâmide, ao posicionamento desses entre os grupos alimentares e o número de porções recomendadas, atualizados de acordo com o grau de evidências cientíicas adquiridas, ou até mesmo adaptadas de acordo com a necessidade isiológica especíica (GONZÁLEZ-GROSS et al., 2008). No Brasil a pirâmide alimentar é amplamente utilizada entre nutricionistas, proissio- nais da área da saúde e público leigo como ferramenta de educação nutricional. A pirâmide alimentar para a população brasileira foi adaptada por PHILLIPPI et al., (1999) a partir da pirâmide alimentar norte-americana (UNITED STATES DEPARTAMENT OF AGRICULTURE, 1992). Assim como em outras adaptações, para a elaboração da pirâmide alimentar brasi- leira foram consideradas algumas características locais como alimentos típicos, hábitos alimentares, número de refeições e diferentes necessidades energéticas (PHILIPPI et al., 1999). Além da pirâmide alimentar para a população brasileira, no Brasil outras adaptações da pirâmide foram realizadas; sendo a pirâmide alimentar para crianças de 2 a 3 anos de idade, adaptada por PHILIPPI et al., (2003) amplamente utilizada na prática clínica. A adaptação levou em consideração as necessidades nutricionais especíicas de energia e proteína que esse grupo etário apresenta. 1.Pirâmide alimentar na dieta cetogênica Considerando o uso e aplicação da pirâmide como ferramenta de educação nutri- cional bem consolidado na população brasileira, tanto para pacientes, quanto para nu- tricionistas e outros proissionais da área da saúde, outras adaptações em relação às condições isiológicas e necessidades dietoterápicas especíicas foram realizadas no país. No contexto da epilepsia refratária os aspectos qualitativos e quantitativos relaciona- dos à composição de alimentos ofertados na dieta cetogênica (DC) ainda são muito pouco explorado na literatura. Sob essa perspectiva PRUDENCIO et al., (2016, in press) propuse- ram a pirâmide alimentar da dieta cetogênica para a população brasileira com o objetivo de ilustrar os alimentos consumidos durante o tratamento dietético, bem como o número de porções e as respectivas quantidades de alimentos permitidos na composição da DC. Licenciado para franklin almeida alves- E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 103 Para a elaboração da pirâmide algumas especiicidades relacionadas ao cálculo da DC foram consideradas em sua construção. Dentre essas foi realizada uma estimativa média da necessidade energética calculadas, segundo as recomendações propostas por FREEMAN et al., (1994) (Tabela 1). Como a pirâmide alimentar visa sua aplicação para grupos etários, essa estimativa média da necessidade energética foi calculada por meio da adoção de idades médias das seguintes faixas etárias: 1 a 3 anos; 4 a 6 anos; 7 a 10 anos e 11 a 19 anos, conforme proposto no cálculo de FREEMAN et al., (1994). Além disso, foram adotados parâmetros ideais do estado nutricional considerando-se os percentis 50 de Z Escores de IMC/Idade, Peso/Idade e Estatura/Idade, para cada idade média adotada no cálculo da necessidade energética. A pirâmide foi elaborada utilizando-se a distribuição de macronutrientes na propor- ção da dieta 4:1, pois é nessa proporção que os pacientes normalmente estabilizam a cetose e controlam as crises (Tabela 2). Idade (anos) < 1 1-3 4- 6 7- 10 ≥ 11 Proporção 4:1 Calorias 36 Kcal por unidade dietética 36 + 4= 40 Gorduras 4 x 9 kcal/g = 36 CHO e PTN 1 x 4 kcal/g = 4 % Gorduras 90,0 % PTN + CHO 10,0 Kcal/kg 80 75 68 60 40 – 50 ou menos Tabela 1 - Determinação da necessidade energética por quilograma de peso (kcal/kg) baseado no peso atual e no z escore ideal de IMC/ idade. Tabela 2 - Distribuição dos macronutrientes segundo a proporção da DC Fonte: FREEMAN et al., (1994). PTN: proteínas; CHO: carboidratos; Fonte: Adaptado de FREEMAN et al., (1994). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA104 Nessa pirâmide os macronutrientes calculados para cada faixa etária foram distribu- ídos igualmente em 4 refeições visando à otimização da produção de corpos cetônicos e aproximação com a conduta adotada na prática clínica, na qual o fracionamento mais utilizado no manejo da dieta são de 4 refeições; porém podem ser ofertadas de 3 a 6 re- feições diárias, conforme necessidade individual. Na pirâmide alimentar da DC brasileira, proposta por PRUDENCIO et al., (2016) assim como em outras pirâmides, os estratos e alimentos que compuseram cada proposta fo- ram agrupados qualitativamente, conforme a composição nutricional de macronutrien- tes presentes no alimento. Além disso a pirâmide apresentou em sua composição ele- mentos qualitativos e quantitativos. No Brasil, os alimentos comumente utilizados para o fornecimento de gorduras na DC são: creme de leite fresco, toucinho, maionese, manteiga, triacilgliceróis de cadeia média (TCM) e diferentes tipos de óleos vegetais como os óleos de canola, milho, soja e azeite. Os alimentos fontes de proteínas também se apresentam de forma diversiicada e incluem: ovos, carnes vermelhas, aves, peixes, suínos, carnes embutidas como a salsicha, linguiça, hambúrguer e presunto; além de algumas oleaginosas como as castanhas e amendoim. Apesar da quantidade de carboidratos ofertada na dieta ser limitada, os principais ali- mentos fontes permitidos na DC são as frutas, hortaliças folhosas e não folhosas, além de tubérculos que podem ser ofertados apenas nas DC nas proporções 2:1 e 3:1. O trabalho proposto por PRUDENCIO et al., (2016, in press) resultou de forma inova- dora na elaboração de um ícone gráico para a DC (Figura 1), na qual elementos quali- tativos da DC como a composição de macronutrientes dos alimentos usualmente consu- midos na DC brasileira foram utilizados para o agrupamento dos alimentos em 3 níveis representados pelos seguintes macronutrientes: gorduras, proteínas e carboidratos. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 105 Na pirâmide esses níveis foram subdivididos em 5 grupos alimentares: grupo das gorduras, grupo das proteínas, grupo das frutas, grupo das hortaliças tipo I (constituído por hortaliças folhosas e não folhosas com maior percentual de carboidratos por 100 gra- mas de alimento) e grupo das hortaliças tipo II (constituído por hortaliças folhosas e não folhosas, porém com menor percentual de carboidratos por 100 gramas de alimento). Na pirâmide da DC o grupo dos tubérculos não foi ilustrado, pois esse se encontra presente apenas nas proporções 2:1 e 3:1. No primeiro nível da pirâmide, seguindo-se o princípio da proporcionalidade da ilus- tração, foram distribuídos os alimentos base do consumo da dieta. Como o efeito tera- pêutico da DC é baseado no alto aporte de gorduras, a base da pirâmide foi composta por esse grupo, no qual foram incluídos alimentos como o creme de leite fresco, toucinho, maionese, manteiga, triacilgliceróis de cadeia média (TCM) e diferentes tipos de óleos ve- getais como os óleos de canola, milho, soja e azeite. O creme de leite fresco foi evidenciado na pirâmide, pois possui maior teor de gordu- ras (≥ 35g de gorduras/100g produto) quando comparado ao o creme de leite tradicional que possui aproximadamente de 25g de gorduras/100g produto. A adoção do creme de leite fresco possibilita a oferta adequada de calorias e gorduras em uma porção menor de alimento, diminuindo a necessidade do acréscimo de óleo nas refeições além de auxi- liar na palatabilidade e, consequente, adesão à DC. Figura 2 - Pirâmide alimentar para a dieta cetogênica.São Paulo, 2016 Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA106 No segundo nível foram distribuídos os diversos alimentos fontes de proteínas como: ovos, carnes vermelhas, aves, peixes, suínos, carnes embutidas como a salsicha, linguiça, hambúrguer e presunto, além de algumas oleaginosas como as castanhas e amendoim. Nesse segundo nível para todas as faixas etárias foi preconizada a oferta de 1g de proteínas por quilograma de peso considerando-se o percentil 50 do Z escore de peso/ idade para todas as faixas etárias, com exceção da faixa etária de 11 a 19 anos na qual foi preconizada a oferta de 0,75 gramas de proteínas por quilograma de peso corpóreo, segundo o Z escore de IMC/idade. A adoção dessas quantidades de proteínas visou o aporte adequado desse macronutriente para as crianças (≤10 anos), considerando-se que esse grupo encontra-se em uma etapa fundamental do seu crescimento e desenvolvi- mento, enquanto para a faixa etária de 11 a 19 anos o aporte proteico foi menor, porém adequado, visando à otimização da oferta de alimentos fontes de carboidratos. O terceiro nível da pirâmide foi composto pelos grupos alimentares fontes de carboi- dratos como o grupo das frutas que incluiu frutas cítricas e não cítricas como: abacaxi, goiaba, maça, mamão, melancia, melão e uva; o grupo das hortaliças tipo 1 que apresen- tou vegetais com maior proporção de carboidratos como: abóbora, abobrinha, brócolis, cenoura, chuchu, couve e espinafre; e o grupo de hortaliças tipo 2 que foi composto por vegetais com menor proporção de carboidratos como: agrião, alface, escarola, pepino e tomate. Independente do grupo etário, o número de porções recomendadas para o consumo dos alimentos de cada grupo é a mesma para todos os grupos, sendo recomendado o consumo de 4 a 10 porções de alimentos do grupo das gorduras e 2 porções de alimen- tos para cada um dos seguintes grupos: das proteínas, das frutas, das hortaliças tipo I e das hortaliças tipo II, todos distribuídos em 4 refeições, sendo que a quantidade média recomendadapara cada porção difere-se de acordo com o grupo etário, conforme apre- sentado na lista de substitutos. As porções recomendadas podem ser distribuídas em quatro refeições como café da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar. No café da manhã e lanche da tarde são usu- almente oferecidos o creme de leite fresco como fonte de gorduras, o ovo como fonte proteica e uma fruta como fonte de carboidratos. No almoço e jantar a fonte proteica ofertada pode ser uma carne (de vaca, frango, peixe, porco, etc.), como fonte de carboi- dratos um legume e uma verdura, e o toucinho pode ser ofertado como alimento fonte de gorduras. Esses alimentos podem sofrer variações de acordo com a aceitação e pre- ferência alimentar da criança ou adolescente, porém a proporção de gorduras deve se manter maior em relação à quantidade de carboidratos mais proteína, independente de sua composição. Em dieta administrada por gastrostomia ou por sonda enteral, o toucinho fresco, fonte de gorduras da dieta, pode ser substituído por maionese ou creme de leite fresco; e no caso da fonte proteica, o ovo (clara mais gema) pode ser substituído apenas pelo for- necimento da gema de forma a evitar obstruções na sonda. Essas substituições também podem ser realizadas para pacientes com necessidade de dieta pastosa. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 107 Na pirâmide da DC é possível observar que não é ilustrado o açúcar de adição, isso ocorre principalmente pelo fato da dieta ser restrita em carboidratos. Dessa forma o açú- car é substituído pelo uso de adoçantes sem lactose, frutose, maltodextrina e sorbitol. Fora da pirâmide é possível observar a recomendação de controle hídrico de 70ml/ kg. Apesar dessa restrição, o consumo de líquidos pode ser realizado entre e durante as refeições, sendo a água, chás sem açúcar, suco de limão ou maracujá com adoçante ou sucos industrializados sem carboidratos recomendados de acordo com o calculado para o dia. Apesar de não ilustrado na pirâmide alimentar da DC, quando o paciente apresenta disfagia pode haver necessidade do uso de espessante e nesse caso o conteúdo de car- boidratos presentes deve ser considerado no cálculo da dieta. Os alimentos calculados para cada refeição devem ser oferecidos juntos (Ex.: não oferecer o creme de leite primeiro e depois de duas horas oferecer a fruta), de forma a otimizar a produção de corpos cetônicos. Caso a oferta seja feita de forma isolada pode ocorrer diminuição da cetose pela não seguimento da proporção de macronutrientes cal- culada para determinada refeição. A variação dos alimentos ilustrados na pirâmide deve ser incentivada para não tornar a alimentação monótona e inluenciar negativamente na aderência ao tratamento. 2.Usos e aplicações da pirâmide alimen- tar da dieta cetogênica na prática clínica Na prática clínica e acadêmica, tal representação se utilizada considerando-se apenas seus aspectos qualitativos como a estratiicação dos alimentos em grupos alimentares permite, de forma educativa ilustrar brevemente a composição de macronutrientes da DC e exempliicar os alimentos presentes em cada grupo alimentar. Na pirâmide apesar da aplicação abrangente dos parâmetros qualitativos, os parâme- tros quantitativos como número de porções e as respectivas quantidades de alimentos contidas por porção apresentam certas especiicidades. Dessa forma é necessária uma avaliação criteriosa dos objetivos de uso dos parâmetros quantitativos dessa ferramenta, lembrando-se que o manejo dietético da DC deve ser realizado de forma individualizada, e que se caso essa ferramenta seja adotada na prática clínica são necessários ajustes desses parâmetros quantitativos para a obtenção do efeito terapêutico. Essa ferramenta constitui-se de um guia que permite a socialização do conhecimento da alimentação e nutrição (SILVA e MURA, 2007) capaz de orientar e permitir, no caso da DC, que o indivíduo consiga selecionar os alimentos adequadamente, respeitando a proporção de gorduras em relação às de carboidrato mais proteína para a manutenção da cetose. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA108 Assim, a pirâmide alimentar na DC surge como uma ferramenta de educação nutri- cional, sendo um guia prático e eiciente. A forma piramidal caracteriza os alimentos e ajuda os indivíduos a planejar suas refeições (MARCHINI e OLIVEIRA, 2008; BARBOSA et al., 2005). Nela, os alimentos são distribuídos em grupos com suas respectivas porções, suge- rindo maior importância e participação dos alimentos que estão nos grupos que vão da base para o topo da pirâmide. A pirâmide alimentar da DC é um guia pessoal e bem lexível, pois fornece um resumo dos alimentos que devem ser ingeridos ao longo do dia e as informações gerais sobre a escolha dos mesmos. Na DC, a pirâmide também é útil no monitoramento nutricional para se veriicar as diferenças no consumo alimentar recomendado e o atual. Através da pirâmide, o pacien- te ou responsável (no caso de crianças) pode visualizar de forma clara a necessidade da presença constante dos alimentos fontes de gorduras e pode haver maior conscientiza- ção do controle de alimentos fontes de carboidratos na dieta. Além disso, através da pirâmide, o nutricionista consegue mostrar a necessidade de controle hídrico, porém sem restrição, lembrando que a ingestão de líquidos é recomen- dada e incentivada para a adequada hidratação, respeitando a quantidade calculada para cada indivíduo. 3.Considerações Finais A pirâmide alimentar possibilita que o paciente visualize no seu dia-a-dia que, a DC mesmo sendo restrita em relação a alguns alimentos, não deve ser monótona; que cada grupo alimentar garante a oferta de diversos alimentos e, que o paciente tem a possibi- lidade de fazer várias combinações de acordo com suas preferências alimentares dentro de cada refeição. Devemos lembrar que o público infantil pode se beneiciar com a utilização da pirâmi- de alimentar, pois há a possibilidade de apresentá-la de forma lúdica e a imagem colorida de seus componentes pode ser um atrativo a mais para compreensão e aderência ao tratamento. Dessa forma, o nutricionista é de extrema importância na utilização e divulgação da pirâmide alimentar por meio de atendimentos individualizados, trabalhos informativos ou palestras, para que haja melhor ixação da informação e, conscientização dos alimen- tos permitidos e dos que não fazem parte da rotina daqueles que estão em uso da DC, auxiliando para um tratamento dietético mais equilibrado, variado e atrativo. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 109 Referências 1.Achterberg G, McDonnell E., Bagby R. How to put the food guide into pratice. Journal of American Dietetic Association, Chicago, v.94, n.9, p.1030-1035, 1994. 2.Altamirano Martínez MB, Cordero Muñoz AY, Macedo Ojeda G, Márquez Sandoval YF, Vizmanos B. A review of graphical representations used in the dietary guidelines of selected countries in the Americas, Europe and Asia. Nutr Hosp. 2015;32(3):986-96. 3.Barbosa RMS. et al. Consumo alimentar de crianças com base na pirâmide alimentar brasileira infantil, SP. Revista de Nutrição, Campinas,18(5);634,35,40 set./out. 2005. 4.Bottoni A. et al. Guia de nutrição: nutrição clínica no adulto. São Paulo: Manole, 2002, 144,51,52,54. 5.D’Alessandro C, Piccoli GB, Cupisti A. The “phosphorus pyramid”: a visual tool for dietary phosphate ma- nagement in dialysis and CKD patients. BMC Nephrol. 2015;16:9. 6.Department of Health and Human Services and U.S. Department of Agriculture. 2015–2020 Dietary Guide- linesfor Americans. December. 2015. Available from http://health.gov/dietaryguidelines/2015/guidelines/. 7.FAO/WHO. 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Pirâmide alimentar ce- togênica para pacientes com epilepsia refratária: Da teoria à prática clínica. Revista de Nutrição. 2016. IN PRESS. 14.Philippi ST, Cruz ATR, Colucci ACA. Pirâmide alimentar para crianças de 2 a 3 anos. Rev. Nutr., Campinas, 16 (1): 5-19, jan./mar.,2003. 15.Philippi ST, Latterza AR, Cruz ATR, Ribeiro LC. Pirâmide Alimentar Adaptada: Guia para escolha dos ali- mentos. Rev. Nutr., Campinas, 12(1): 65-80, jan./abr., 1999. 16.Silva SMCSD, Mura JDP. Tratado de alimentação, nutrição e dietoterapia.São Paulo: Rocca, 2007, 171,72,74,76,77. 17.United States Department of Agriculture. Human Nutrition Information Service. The food guide pyramid. Hyattsville, 1992. Available from: ttps://nutritionhistory.nal.usda.gov/download/1759165/PDF. 18.United States Department of Agriculture and United States Department of Health and Human Services. 2015- 2020: Dietary Guidelines for Americans. 8th Edition. December, 2015. 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Dentre os fatores de risco para doen- ças cardiovasculares o aumento na concentração de colesterol total (CT) associado ao aumento da lipoproteína de baixa densidade (LDL) e triacilgliceróis (TG) são os principais fatores lipídicos associados (WHO, 2011; SBC, 2013). No Brasil, 74% de todas as mortes são decorrentes das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), sendo as doenças car- diovasculares (DCV) responsáveis por 33% das mortes, tornando-as a principal causa de morbidade e óbito no país, além de contribuírem de maneira signiicativa com o aumento de recursos inanceiros destinados à saúde pública (WHO, 2011). Sabe-se que as principais complicações clínicas da aterosclerose, como infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral, geralmente ocorrem em adultos, entretanto, o desenvolvimento da aterosclerose se inicia nos primeiros anos de vida e seu progresso está diretamente associado à alterações nas concentrações plasmáticas das lipoproteí- nas (AHA, 2005; AAP, 2011). As associações entre as dislipidemias e o desenvolvimento da aterosclerose em crian- ças, adolescentes e adultos jovens foram classicamente descritas pelo “Bogalusa Heart Study” (BERENSON et al., 1998). Este estudo avaliou a autopsia de 204 indivíduos de 2 a 39 anos e veriicou a ocorrência de estrias gordurosas e placas ibrosas nas artérias coro- nárias e aorta em 28% das crianças e adolescentes de 2 a 15 anos. Essas lesões arteriais foram correlacionadas signiicativamente com a concentração de CT, LDL e TG. Desde a década de 50, estudos avaliam a relação entre dieta e risco cardiometabólico (AHRENS et al., 1957; KEYS et al., 1957; KEYS et al., 1966; HEGSTED et al., 1993; KROMHOUT et al., 1995), e até o momento tanto nos estudos pioneiros como nos estudos mais re- centes (MOZZAFARIAN et al., 2011; LOTTENBERG et al., 2009) a maioria deles indicam a relação direta entre o consumo de ácidos graxos trans e saturados (AGS) com o aumento da concentração de lipoproteínas mais aterogênicas (LDL-c), enquanto os ácidos graxos monoinsaturados (AGM) e poli-insaturados (AGP) são associados ao peril cardioprotetor por aumentarem a concentração da HDL que favorece o transporte reverso e leva a à redução do risco cardiometabólico. A Dieta Cetogênica (DC) clássica devido sua composição rica em ácidos graxos satu- rados e colesterol apresenta um peril lipídico favorável ao desenvolvimento de dislipide- mias, sendo potencialmente aterogênica. Estudos realizados em nosso grupo de pesquisa Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 111 mostraram que a DC clássica em comparação à dieta habitual de crianças e adolescentes com epilepsia refratária promoveu aumento de 297% no consumo de AGS, enquanto os AGP e AGM aumentaram, respectivamente, 146 e 189% (LIMA, 2014). A DC normalmente é bem tolerada pelos pacientes com epilepsia, entretanto, algu- mas complicações deste tratamento estão associadas ao desenvolvimento de hiperurice- mia (2 a 26%), hipocalcemia (2%), acidose metabólica (2 a 5%), hipercolesterolemia (14 a 59%), litíase renal (3 a 7%) e alterações gastrointestinais (12 a 50%) (KOSSOFF et al., 2009). Dentre esses efeitos adversos, a principal manifestação clínica observada nos ensaios clínicos são as dislipidemias como demonstrado por LIU et al., (2003); KWITEROVICH et al., (2003); GROESBECK et al., 2006, NIZAMUDDIN et al., (2008); TUMAS et al., (2010); e ZAMANI et al., 2016. Esses estudos mostraram que o aumento de LDL, assim como de TG foram os principais efeitos colaterais observados no metabolismo lipídico ao longo do tratamento com DC. O estudo de revisão de VINING (2008) referiu que não existem estudos prospectivos de longa duração que avaliaram o impacto da DC na saúde cardiovascular. De acordo com as diretrizes da Universidade Johns Hopkins nos Estados Unidos, as alterações no per- il lipídico em longo prazo observadas durante o tratamento da epilepsia, não parecem ser signiicativas, embora as inluências dessas mudanças nas doenças coronarianas são desconhecidas (LEE e KOSSOFF, 2011). Diante da ausência de resultados clínicos voltados ao monitoramento dos riscos car- diometabólicos de pacientes com epilepsia submetidos à DC, novos estudos estão sendo realizados visando avaliar parâmetros lipídicos clássicos (colesterol total, TAG, LDL-c) e emergentes (LDLox, homocisteína, Lp-PLA2, PCR). Os resultados obtidos a partir desses estudos subsidiarão a deinição de protocolos clínicos e diretrizes para o manuseio clínico da DC no contexto da epilepsia refratária. 1.Fatores de Risco Clássicos Os fatores de risco clássicos para doença cardiovascular e aumento do risco cardio- metabólico incluem o aumento na concentração de CT, LDL, redução da lipoproteína de alta densidade (HDL), e aumento da lipoproteína de muito baixa densidade (VLDL) direta- mente inluenciada pelo conteúdode TG (SBC, 2013). Desta forma é importante conside- rar a avaliação desses parâmetros e a incidência de dislipidemia nas crianças e adolescen- tes submetidas ao tratamento com DC. A Tabela 1 apresenta os principais pontos de cortes para dislipidemia propostos pela Associação Americana de Pediatria - AAP (2011). Recomenda-se o uso desta referência para classiicação das dislipidemias em crianças e adolescentes por ser a referência mais completa abrangendo todo o peril lipídico incluindo diversas sub-frações lipídicas e in- Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA112 cluindo a concentração de apoliproteínas (APO A-I e APO B) em pacientes pediátricos. De um modo geral, as dislipidemias induzidas ao longo do tratamento com DC não re- presentam um fator indicativo de suspensão do tratamento, entretanto, pacientes com hipertriacilgliceridemia (> 1000 mg/dL) devem ser monitorados criteriosamente, sobretu- do se estiverem em uso simultâneo de valproato, pois a interação negativa entre esses parâmetros tem sido associada ao desenvolvimento de pancreatites (KANG et al., 2004). Recentemente, a revisão de LIMA et al., (2015) destacou os principais efeitos adversos lipídicos associados à DC descritos na literatura nos últimos 15 anos. De modo geral, to- dos os estudos descreveram intensas modiicações lipídicas induzidas pela DC, embora a falta de homogeneidade nos desenhos dos estudos em termos de descrição da composi- ção da DC, tempo de seguimentos e avaliação de parâmetros lipídicos tenham diicultado estabelecer conclusões em termo risco de desenvolvimento de dislipidemias (LIMA et al., 2015). Apesar dos aspectos descritos acima, grande parte dos estudos clínicos referiu o uso da DC clássica, subentendendo-se que essa é composta por ácidos graxos saturados (LIU et al., 2003; KWITEROVICH et al., 2003; GROESBECK et al., 2006; NIZAMUDDIN et al., 2008; TUMAS et al., 2010; e ZAMANI et al., 2016). Esses estudos observaram aumento de 12,9 a 35% no CT, de 10,2 a 48% na LDL, de 3,8 a 17% na HDL, exceto no estudo de KWITEROVICH et al., (2003) que descreveu redução na HDL. Quanto aos TG, LIU et al., (2003) e KWITE- ROVICH et al., (2003) descreveram aumento de 60% a 83%, respectivamente, ao longo do período de 4, 6 ou 24 meses de tratamento. Categoria (mg/dL) CT LDL Não-HDL APO B TG 0-9 anos 10-19 anos HDL APO A-I Aceitável <170 <110 <120 <90 <75 <90 >45 >120 Alta ≥200 ≥130 ≥145 ≥110 ≥100 ≥130 ---- ---- Baixo ---- ---- ---- ---- ---- ---- ---- <40 <115 Limítrofe 170-199 110-129 120-144 90-109 75-99 90-129 40-45 115-120 Tabela 1 - Concentração de lipoproteínas e apolipoproteínas em crianças e adolescentes (0 a 19 anos). CT: colesterol total; LDL: lipoproteína de baixa densidade; APO B: apolipoproteina B; TG: triacilgliceróis; HDL: lipoproteína de alta densidade; APOA-I: apolipoproteina A-I. Fonte: Associação Americana de Pedia- tria – AAP. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 113 Mais recentemente, no estudo de LIU et al., 2013, foi observada redução de CT e LDL após introdução da DC. Este trabalho descreveu que crianças dislipidêmicas podem re- ceber a DC, otimizando a oferta de AGP e reduzindo a quantidade de AGS. Neste estudo a qualidade das gorduras reletiu na redução signiicativa do CT e LDL, normalizando o peril lipídico dessas crianças. A resposta na concentração de lipoproteínas também parece ser dependente do tem- po de tratamento. Em geral, observa-se uma resposta aguda com aumento progressivo das dislipidemias nos primeiros 3 meses de DC e, posteriormente, uma fase de estabili- zação a partir do sexto mês (LIMA et al., 2016). Nesse mesmo estudo, os autores descre- veram que o peril de estabilização não foi observado nos TG, que aumentou em 46% após o sexto mês de tratamento, apresentando aumento progressivo ao longo de todo o seguimento. Apesar do monitoramento das alterações lipídicas induzidas pela DC ser foco de al- guns estudos, não está claro na literatura se após a interrupção do tratamento o peril lipídico retornaria aos valores basais e em quanto tempo isso ocorreria. No estudo de PATEL et al., 2010, foi observada redução do CT após 2 anos de interrupção da DC, entre- tanto, este estudo não apresentou a concentração média das frações do CT, impedindo uma análise mais profunda do que os autores consideraram como dislipidemias e como valores de normalidade. Figura 1 - Representação gráica das mudanças na concentração plasmática de CT e LDL até 6 meses de tratamento com DC clássica. Adaptado de LIMA et al., (2016). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA114 Adicionalmente aos fatores de risco clássico das lipoproteínas aterogênicas, devemos ressaltar o papel cardioprotetor da HDL, devido suas propriedades antioxidantes, ação anti-inlamatória e inibitória das moléculas de adesão (CAMONT et al., 2013). Apesar de alguns autores (GROESBECK et al., 2006; TUMAS et al., 2010) observarem aumento de HDL (3,8 a 17%), após introdução da DC, este aumento é proporcionalmente inferior ao aumento observado nas partículas pró-aterogênicas. Desta forma, torna-se interessante avaliar as relações TG/HDL, LDL/HDL, CT/HDL e a não-HDL ao longo do monitoramento desses pacientes. No período de 6 meses de tratamento, nosso grupo observou que LDL/HDL, CT/HDL e a não-HDL aumentaram 38%, 25% e 60%, respectivamente, ou seja, apenas TG/HDL, co- nhecida como indicador de aterogenicidade, não apresentou aumento signiicativo (LIMA et al., 2016). Sabe-se que os fatores de risco clássico são de fácil acesso e amplamente dissemina- dos na clínica, entretanto, a concentração plasmática de colesterol nas lipoproteínas não é capaz de explicar integralmente o risco cardiometabólico ou cardiovascular do pacien- te. A complexidade estrutural das lipoproteínas determina sua funcionalidade, sendo o conjunto de componentes lipossolúveis e proteicos presentes em sua estrutura os agen- tes diretamente envolvidos no desenvolvimento da aterosclerose. Portanto, as lipoprote- ínas são estruturas heterogêneas compostas por múltiplas frações, variando quanto ao tamanho de partícula, densidade, composição química e cujo papel biológico depende de constituintes não lipídicos, frequentemente não monitorados em rotinas clínicas. 2.Fatores de Risco Não Clássicos Estudos prévios demonstraram que as modiicações oxidativas das lipoproteínas bem como o aumento das partículas pequenas de LDL são essenciais à iniciação e pro- gressão da aterosclerose tanto em adultos como em crianças e adolescentes (SEVANIAN et al., 1999; TOSHIMA et al., 2000; e HULTHE e FAGERBERG, 2002). Portanto, esses estudos sugerem que o aumento do risco cardiometabólico não se limita apenas a concentração de colesterol associada à LDL, mas também a qualidade desta partícula. A LDL é uma partícula estruturalmente complexa composta por proteína de alto peso molecular, a APOB-100, lipídeos neutros e polares e antioxidantes lipofílicos como o α-to- coferol e β-caroteno. Após migração para o espaço subendotelial e retenção por meio de ligação com proteoglicanos, essas partículas se tornam susceptíveis a modiicação oxidativa pela ação de enzimas como as lipoxigenases e mieloperoxidases, e também através de reações oxidantes não enzimáticas do tipo radicalar, favorecendo a geração de LDL oxidada (LDLox), cujo potencial aterogênico é amplamente descrito na literatura (KETELHUTH e HANSSON, 2011). Assim, a LDLox induz o recrutamento de monócitos, a ativaçãodos macrófagos, a formação de células espumosas e o acúmulo de lipídios na parede arterial, contribuindo para o processo aterogênico (YOSHIDA e KISUGI, 2010). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 115 Estudos prévios em crianças e adolescentes demonstraram que além do excesso de peso, a concentração elevada de TG e LDL estão associadas à formação de LDLox, en- quanto que a concentração de HDL apresenta uma associação negativa (KELISHADI et al., 2010; KELLY et al., 2010; ALVES et al., 2010). Diversos estudos demonstraram que além do aumento na concentração da LDLox na circulação de indivíduos dislipidêmicos, esses indivíduos também apresentam partículas de LDL com carga mais negativa, partículas de LDL minimamente oxidadas, classicamen- te denominadas como LDL eletronegativa [LDL(-)] (IVANOVA et al., 2015; HOLVOET et al., 2008). A LDL(-) está associada ao aumento dos ácidos graxos não esteriicados (AGNEs), aumento no conteúdo de substâncias reativas ao ácido tiobarbitúrico (TBARS), dos óxidos de colesterol e concentração reduzida de α-tocoferol (DEJAGER et al., 1993; HODIS et al., 1994, SEVANIAN et al., 1997). Em 2011, MELLO et al., em estudo de revisão mostraram que a origem da LDL(-) é múltipla e complexa, incluindo processos oxidativos e sendo capaz de ativar a inlamação e a resposta imune. Essa revisão mostrou ainda que o aumento no conteúdo de LDL(-) está associado com a formação de auto-anticorpos anti-LDL(-), fundamental à ativação e manutenção da resposta imunológica associada ao desenvolvimento da aterosclerose. Desse modo, é provável que indivíduos submetidos a DC apresentem condições me- tabólicas favoráveis à oxidação de LDL, predispondo-os a um maior risco cardiometabóli- co. Apesar dos mecanismos associados às dislipidemias favorecerem essas modiicações, até o momento nenhum estudo descreveu o impacto da DC na concentração de LDLox. Visando identiicar marcadores oxidativos induzidos pelo tratamento com a DC, nosso grupo veriicou em pacientes submetidos à DC (3 e 6 meses) um aumento signiicativo de 20% na concentração de substâncias reativas ao ácido tiobarbitúrico (TBARs), marcador de peroxidação lipídica avançada, que apesar de não ser tão especíico, podem sinalizar o provável impacto negativo da DC clássica no peril oxidativo dessas crianças (LIMA, 2014). Além desses marcadores, as alterações no peril lipídico, provenientes da DC também podem favorecer a geração de AGNEs que contribuem para: a ativação de diversas vias pró-inlamatórias, resistência à insulina e desenvolvimento de aterosclerose. De acordo com GRUZDEVA et al., 2013 o aumento de AGNEs pode favorecer a ativação das molé- culas de adesão do endotélio (ICAM e VCAM), elevar a produção de espécies reativas ao oxigênio (ROS) e a oxidação da LDL, além de desencadear a disfunção endotelial, poten- cializando a ativação de mecanismos aterogênicos. Avaliando 26 crianças e adolescentes sob tratamento com DC, LIMA, 2014 descreveu aumento progressivo de AGNEs após 3 e 6 meses (34% e 95%, respectivamente) de tratamento (LIMA, 2014). As propriedades físicas das lipoproteínas também vêm sendo estudadas e sua varia- ção sugere que o tamanho das partículas de lipoproteínas pode fornecer detalhes adicio- nais sobre o risco cardiovascular individual, além do clássico peril lipídico (PACKARD et al., 2000; BERNEIS et al., 2002; OTVOS et al., 2011; DIFFENDERFER e SCHAEFER, 2014). A inluência do tamanho no risco cardiovascular é explicada pelo fato das partículas pequenas de LDL serem transportadas mais facilmente da circulação para a camada su- bendotelial que as partículas grandes (VERHOYE e LANGLOIS, 2009). Atualmente, sabe-se que essas partículas têm maior ainidade por proteoglicanos na parede arterial, contém Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA116 maior percentual de apolipoproteína B glicada e são mais susceptíveis à oxidação (SORAN e DURRINGTON, 2011). Em conjunto, essas alterações fariam com que partículas menores migrassem e fossem retidas mais facilmente no espaço subendotelial, onde modiicações posteriores estimulariam sua captação por macrófagos, com consequente formação de células espumosas. Além destes aspectos, estudos in vitro demonstraram que LDL pe- quenas têm menor ainidade por receptores de LDL que as partículas grandes (NIGON et al., 1991), o que contribui para diminuição de clearance hepático com a permanência dessas partículas em maior concentração no plasma, aumentando a susceptibilidade de penetrarem na parede arterial, favorecendo o processo oxidativo e captação pelos recep- tores scanvengers. Embora múltiplas vias possam ser associadas à formação de partículas pequenas de LDL, a hipertrigliceridemia é provavelmente o mais importante mecanismo. Altas concen- trações de TG representam um potente estímulo positivo para ativação da proteína de transferência de éster de colesterol (CETP) (BARTER et al., 2003), que promove a transfe- rência de colesterol da HDL para lipoproteínas ricas em APO B (VLDL, IDL e LDL), gerando partículas pequenas de LDL. Este processo também aumenta a atividade da lipase hepá- tica, que induz a hidrólise da LDL, contribuindo para a geração de partículas pequenas e densas de LDL (DIFFENDERFER e SCHAEFER, 2014). SHARMAN et al., (2002) mostraram que homens eutróicos e normolipidêmicos após 6 semanas recebendo DC não apresentaram alterações nas concentrações de TG, LDL- -C e LDLox. Entretanto, os indivíduos com predomínio de partículas pequenas de LDL apresentaram aumento no diâmetro da partícula e maior concentração de colesterol na partícula LDL-1 após a DC, sugerindo que a qualidade da LDL melhorou com a geração de partículas maiores. Posteriormente, WESTMAN et al., (2006) utilizaram a DC por 6 meses como forma de tratamento para perda de peso em adultos. Esses autores observaram que a quantidade reduzida de carboidratos na DC favoreceu a redução na concentração de TG e aumento da formação de partículas grandes de HDL e LDL, quando comparada a uma dieta com baixo teor de gorduras. De forma semelhante, um estudo em ratos mostrou melhora da perfusão cardíaca com DC em relação a ratos que receberam uma dieta normal ou com alto teor de carboidratos (AL-ZAID et al., 2007). É importante destacar que esses estudos (SHARMAN et al., 2002 e WESTMAN et al., 2006) não avaliaram mudanças qualitativas nas lipoproteínas de crianças e adolescentes com epilepsia tratados com DC. Entretanto, recentemente LIMA et al., 2016, veriicaram que neste contexto clínico, crianças e adolescentes tratadas com DC apresentaram após 6 meses 17 vezes mais partículas de LDL pequena, reletindo na redução da média do ta- manho de LDL e contribuindo para um fenótipo mais aterogênico. Antes do início da DC 100% das crianças apresentavam fenótipo A (menos aterogênico) e após 6 meses de DC 52% das crianças apresentavam fenótico não-A (mais aterogênico). Considerando os desfechos encontrados pelos ensaios clínicos descritos na literatura e pelo nosso grupo de pesquisa a Figura 2 apresenta as principais modiicações oxidati- vas e físicas e os prováveis mecanismos associados ao aumento do risco cardiometabóli- co em pacientes epilépticos submetidos à DC. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 117 Figura 2 Modiicações clássicas e possíveis modiicações físicas e oxidativas promovidas pela dieta cetogênica clássi- ca no tratamento da epilepsia refratária. DC: dieta cetogênica, LDLox: LDL oxidada, AGNE: ácidos graxos não esteriicados, TBARS: substâncias reativas ao ácido tiobarbitúrico Adaptada de LIMAet al., (2015). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA118 3.Outros marcadores e perspectivas clínicas Além dos marcadores bioquímicos clássicos e emergentes, alguns estudos têm inclu- ído nos cuidados integrais aos pacientes com epilepsia refratária submetidos à DC, o uso de técnicas de imagem visando monitorar o impacto do tratamento na disfunção endote- lial e na formação de estrias gordurosas e ateroma. O estudo de KAPETANAKIS et al., (2014) e DOKSOZ et al., (2015), assim como os an- teriores também observaram impacto negativo da DC no peril lipídico clássico, mas de forma complementar utilizaram esta técnica de imagem e nenhum efeito foi observado nas propriedades de elasticidade e espessura da artéria carótida após 24 e 6 meses de DC, respectivamente. Entretanto, esses estudos não apresentaram a composição de áci- dos graxos da DC, sendo esta uma importante limitação. Desta forma, durante o tratamento dietético é essencial que além do monitoramento dos pacientes com marcadores cardiometabólicos clássicos como o peril lipídico tam- bém sejam incorporados marcadores emergentes capazes de predizer o risco cardiome- tabólico e fornecer informações adicionais à tradicional avaliação laboratorial. Além dis- so, a deinição da quantidade e qualidade de ácidos graxos ofertados deve fazer parte do protocolo nutricional, pois permitirá realinhar a conduta clinica e nutricional frente a possíveis resultados cardiometabólicos encontrados. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 119 Referências 1.American Academy of Pediatrics. Expert panel on integrated guidelines for cardiovascular health and risk reduction in children and adolescents: summary report. Pediatrics. 2011;128 Suppl 5:S213-56. 2.Ahrens EH, Insull W, Blomstrand R, Hirsch J, Tsaltas TT, Peterson ML. The inluence of dietary fats on serum-lipid levels in man. Lancet. 1957;272(6976):943-53. 3.Alves AC, Medeiros AM, Francisco V, Gaspar IM, Rato Q, Bourbon M. Molecular diagnosis of familial hyper- cholesterolemia: an important tool for cardiovascular risk stratiication. 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As alterações no metabolismo hepático induzidas pela dieta cetogênica apesar de não serem tão bem elucidados no contexto da epilepsia são descritas em estudos experimentais, sendo as principais manifestações caracterizadas pela presença de hepatite (inlamação do parê- quima hepático) causada pela potencialização de fármacos antiepiléticos e a ocorrência de doenças hepáticas não alcoólicas como a estetatose hepática. 1.Doenças Hepáticas Não Alcoólicas A doença hepática não alcoólica (DHNA) é caracterizada histologicamente pelo acú- mulo de gordura no tecido hepático em pelo menos 5% dos hepatócitos ou concentra- ções de triacilgliceróis intra-hepático superiores a 55 mg/g de tecido hepático. A DHNA compreende um espectro de disfunções que vão desde o simples acúmulo de gordura hepática como a esteatose hepática (EH) até o desenvolvimento de esteato hepatite ca- racterizada por sinais de injúria nos hepatócitos, inlamação do tecido hepático com de- posição de colágeno e aumento dos níveis da enzina alanina aminotransferase, podendo evoluir para cirrose hepática (TINIAKOS et al., 2010). Os fatores causais envolvidos no desenvolvimento da EH são múltiplos e complexos podendo estar associados à suscetibilidade genética e fatores como: acúmulo de inter- mediários lipídicos, alteração da expressão de citocinas inlamatórias e disfunção mito- condrial (ASRIH e JOMAYVAZ., 2013). Diversos estudos têm descrito forte associação das DHNA com dietas hiperlipídicas, resistência à insulina, doenças como obesidade e dislipidemias, sendo as dislipidemias e resistência à insulina efeitos adversos frequentes em pacientes com epilepsia tratados com DC. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 123 2.Fisiopatologia da Doença Hepática não Alcoólica A isiopatologia da DHNA é complexa, porém alguns mecanismos amplamente acei- tos sugerem que o acúmulo de gordura em nível tecidual hepático ocorra pelo desequi- líbrio entre o inluxo, produção, catabolismo via beta oxidação e transporte de lipídeos hepáticos (YORK et al., 2009). Na ocorrência dessedesequilíbrio os ácidos graxos são acumulados no tecido he- pático causando EH, inlamação tecidual, alteração da função mitocondrial e aumento de intermediários lipídicos como: ácido lisofosfatídico, ácido fosfatídico, diacilgliceróis e triacilgliceróis (YORK et al., 2009). A manutenção da EH ocorre principalmente pela ação moduladora dos intermediá- rios lipídicos ao nível do receptor de insulina. Em nível celular esses intermediários são capazes de ativar quinases como mTOR, IKK, JNK e PKC que inibem a transdução de sinal do receptor de insulina. A inibição desse receptor promove o aumento de insulina na cir- culação sanguínea que através de uma cascata de reações é capaz de aumentar a lipogê- nese e diminuir a gliconeogênese hepática. Na ocorrência desses processos há elevação de triacilgliceróis na corrente sanguínea que contribuem para o desequilíbrio do inluxo de ácidos graxos e sua capacidade de oxidação, perpetuando o acúmulo de gordura no tecido hepático (ASRIH e JOMAYVAZ, 2013). 3.Métodos Diagnósticos da Esteatose Hepática na Infância e Adolescência Os métodos não invasivos atualmente aplicados ao diagnóstico da EH envolvem téc- nicas de imagem: ultrassonograia (USG), tomograia computadorizada (TC) e ressonân- cia magnética (RM), que buscam substituir a biópsia hepática, ainda considerada “padrão ouro” para esse diagnóstico (DAO et al., 1993; FONTANA e LOK, 2002; DOVE, 2004). O uso da TC na faixa pediátrica tem sido limitado devido à crescentes evidências de potenciais danos futuros à saúde, relacionados à exposição à radiação ionizante e por haver a disponibilidade de métodos alternativas (SAADEH et al., 2002). A RM tem sido relatada como uma técnica com maior acurácia e reprodutibilidade em crianças (SAADEH et al., 2002), permitindo estabelecer boa correlação entre EH e a distri- buição da gordura corporal. Além disso, por não estar sujeita à interpretação subjetiva ou à variação inter-observador, a RM seria uma técnica melhor que a USG para quantiicar a EH em crianças (FISHBEIN et al., 2006; PACIFICO et al., 2007; MANCO e NOBILI, 2008). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA124 Apesar de não fornecer dados quantitativos e do fator operador-dependência ine- rente ao método, a USG tem se mostrado a opção mais vantajosa para a avaliação da EH, especialmente em crianças e adolescentes, por ser a única técnica totalmente não invasiva, que não exige sedação e não utiliza radiação ionizante, além de ser amplamente disponível e de relativo baixo custo. A USG avalia o fígado sob os seguintes aspectos: dimensões, forma, contornos, dispo- sição dos vasos intra-hepáticos e características ecográicas do parênquima: ecotextura, ecogenicidade e atenuação. O parênquima hepático normal apresenta ecotextura homo- gênea e ecogenicidade intermediária, sendo geralmente isoecogênico ou pouco mais eco- gênico que o córtex renal e pouco menos ecogênico que o tecido esplênico. A atenuação do feixe acústico é mínima, o que possibilita boa identiicação dos vasos intra-hepáticos e do diafragma na região posterior do fígado (PALMER, 1999; WITHERS e WILSON, 1998; RODRIGUES et al., 2002) (Figura 1). Figura 1 – Aspectos ecográicos do fígado normal. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 125 USG do fígado normal: A) corte longitudinal do lobo hepático direito evidenciando parênquima de ecogenicidade pouco maior que a do rim (RD) e ecotextura homogênea. A atenuação do feixe sonoro é praticamente inexistente e o diafragma (setas) é bem de- inido junto ao contorno posterior do fígado; B) corte transversal do fígado evidenciando as paredes dos vasos intrahepáticos bem demarcadas (setas). Em relação à EH, tanto as características ecográicas do parênquima como a biome- tria hepática são habitualmente consideradas. Os achados ultrasssonográicos da EH difusa, incluem hepatomegalia, aumento da ecogenicidade do parênquima e maior atenuação do feixe sonoro, acarretando visualiza- ção deiciente dos vasos intra-hepáticos, da porção posterior do fígado e do diafragma (JOSEPH et al., 1991). Alterações texturais, quando presentes, são discretas e de menor relevância (MATSUOKA et al., 2011). Áreas de parênquima poupado pela iniltração gordurosa frequentemente podem ser identiicadas tipicamente ao longo do leito da vesícula biliar, no segmento medial do lobo esquerdo (junto à porta hepática) e em localização subcapsular e caracterizam- -se por áreas geográicas de menor ecogenicidade que o parênquima adjacente (SIEGEL, 2003) (Figura 2). Figura 2 – Área de parênquima poupado pela iniltração gordurosa. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA126 Ultrassonograia hepática evidenciando parênquima hepático com ecogenicidade di- fusamente aumentada, exceto por pequenas áreas de menor ecogenicidade (cinza mais escuro), caracterizando áreas de parênquima poupado pela iniltração gordurosa (setas) nas localizações típicas: A) perivesicular (VB: vesícula biliar) e B) anterior à bifurcação por- tal (BP). A EH focal caracteriza-se por áreas de maior ecogenicidade, geográicas ou digitifor- mes, de limites bem deinidos, podendo às vezes assumir aspecto nodular, sem, contudo, promover efeito de massa (LABUSKI et al., 1992) (Figura 3). Figura 3 – Aspectos ecográicos da esteatose hepática focal. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 127 A) USG hepática no plano transversal no nível da conluência das veias hepáticas va veia cava inferior (VCI) evidencia aumento da ecogenicidade do parênquima do lobo direi- to (área mais clara à esquerda da veia hepática média (VHM), representando aumento do teor lipídico com distribuição geográica (esteatose focal geográica) - VHE: veia hepática esquerda; VHD: veia hepática direita.; B) esteatose focal de aspecto nodular (seta) locali- zada junto ao fundo da vesícula biliar (VB) em estudo realizado com transdutor linear; C) outra forma de apresentação da esteatose focal de aspecto nodular, em situação subcap- sular (seta), com destaque para a ausência de efeito de massa. A EH difusa pode ser classiicada ultrassonograicamente em: Leve (Figura 4A): parênquima hepático com aumento discreto da ecogenicidade e da atenuação do feixe sonoro, com redução discreta da visualização do diafragma e da vascularização intra-he- pática; Moderada (Figura 4B): parênquima hepático com aumento moderado da ecogenicidade e da ate- nuação do feixe sonoro, com redução moderada da visualização do diafragma e da vascularização intra-hepática; Acentuada (Figura 4C): parênquima hepático com aumento acentuado da ecogenicidade e da ate- nuação do feixe sonoro, com perda acentuada ou completa da visualização do diafragma e da vascularização intra-hepática (WITHERS e WILSON, 1998; MACHADO et al., 2002). Figura 4 – Classiicação ecográica segundo o grau da esteatose hepática. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA128 Ultrassonograia hepática em diferentes pacientes demonstrando o aumento pro- gressivo da ecogenicidade do parênquima e da atenuação sonora (*) nos graus de es- teatose: leve (A), moderada (B) e acentuada (C), com progressiva perda de deinição das paredes vasculares (setas) e do diafragma (D) junto ao contorno posterior do fígado. O aumento da ecogenicidade do parênquima hepático e da atenuação do feixe so- noro, no entanto, não são sinais especíicos da EH e podem estar presentes tambémna ibrose e/ou nos processos inlamatórios hepáticos, o que limita o desempenho do mé- todo ultrassonográico para o diagnóstico da EH (MACHADO et al., 2002; FOSTER et al., 1980; HEPBURN et al., 2005). Além disso, esses são avaliados de forma subjetiva, o que determina resultados conlitantes quanto ao valor especíico da USG para o diagnóstico da EH, com taxas de sensibilidade que variam entre 55% e 95% (CELLE et al., 1988; NEE- DLEMAN et al., 1986; LUPSOR e BADEA, 2005). As taxas elevadas de sensibilidade da USG para o diagnóstico da EH têm sido rela- tadas na identiicação dos graus moderados e severos da EH, enquanto que se mostra reduzida para os graus leves (JOSEPH et al., 1979; NEEDLEMAN et al., 1986; CELLE et al., 1988; MACHADO et al., 2002; PEREZ et al., 2007; van WERVEN et al., 2010; MATSUOKA et al., 2011). A atenuação do feixe sonoro é considerada por diversos autores como o critério ul- trassonográico mais coniável para a identiicação de EH (LU et al., 1999; FONTANA e LOK, 2002; GAITINI et al., 2004; MATSUOKA et al., 2011). A USG tem se mostrado, em especial, uma técnica capaz de demonstrar a probabi- lidade de inexistência de EH, com especiicidade de 77,9% e valor preditivo negativo de 95,5% (MATSUOKA et al., 2011). 4.Doença Hepática não Alcoólica e ou- tras Alterações Hepáticas na Dieta Ceto- gênica A DC apresenta alguns efeitos adversos que podem se manifestar em longo prazo. Um desses efeitos observados são alterações hepáticas como inlamação do tecido hepá- tico e desenvolvimento de doença hepática não alcoólica. JORNAYVAZ et al., (2010) em estudo experimental avaliou os efeitos metabólicos da DC no fígado e no músculo sobre a capacidade de resposta à insulina. No grupo trata- do com DC foi possível observar que as concentrações basais de glicemia e insulina fo- ram signiicativamente menores dos que as observadas no grupo tratado com uma dieta normoglicídica. Em clamps hiperinsulinêmico e euglicêmico, a taxa de infusão de glicose necessária para a manutenção do estado euglicêmico foi 47% menor nos ratos alimenta- dos com DC. Apesar desses resultados, foi possível observar redução na capacidade de Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 129 supressão da glicemia endógena nos ratos tratados com DC. Em avaliação histológica do tecido hepático foi observado iniltração de gordura microvesicular e aumento de níveis de intermediários lipídicos como triacilgliceróis e ceramidas, resultados condizentes com esteatose hepática não alcoólica. Nesse grupo apesar do ganho de peso ter sido signii- cantemente menor foram observadas alterações na composição corporal associadas ao aumento de massa gorda e diminuição de 16% da massa magra. Resultados similares aos encontrados por JORNAYVAZ et al., (2010) foi descrito pos- teriormente por GARBOW et al., (2011). Ao comparar modelos experimentais de ratos, os autores observaram o efeito de três tipos de dietas na composição corporal, marcadores séricos e conteúdo de gordura intra-hepática. No grupo alimentado com DC observou-se alterações na composição corporal, com redução signiicativa de peso e massa magra após 6 e 12 semanas, manutenção de estado euglicêmico e níveis de insulina signiicati- vamente mais baixos, quando comparado com as demais intervenções. Houve aumento signiicativo do conteúdo de triacilgliceróis hepático após três semanas de intervencão (1% para 6,5%), com estabilização em torno de 6% na sexta semana. Na análise histológi- ca foram observados focos isolados com pequenas e grandes gotas de esteatose macro- vesicular, numerosas mitoses hepatocelulares, características de regeneração, e focos de inlamação parenquimal, concluindo-se que os animais alimentados com DC apresenta- ram achados de lesões teciduais similares às encontradas fenotipicamente na esteatose hepática não alcoólica. PICCHI et al., (2011) em estudo caso-controle comparou os níveis de gordura hepáti- ca em ratos Wistar submetidos a uma dieta padrão e uma dieta rica em gordura 75 %) durante o período de um mês. No inal do estudo foi possível observar que o grupo ali- mentado com a dieta rica em gordura apresentou percentual de gordura hepática (55,2% ± 9,7) signiicativamente maior que o grupo controle (26,9% ± 11,2), sem diferenças signi- icativas na glicemia, proteínas séricas e colesterol total entre os grupos. A descrição da ocorrência de hepatite em pacientes com epilepsia foi realizada por KANG et al., (2004) que descreveu os efeitos adversos a curto e longo prazo observados em pacientes tratados com a DC. Apesar de não ser o efeito adverso mais prevalente, dos 129 pacientes monitorados foi observado que 10 pacientes desenvolveram hepatite, sendo que 8 desses faziam o uso de valproato, medicação utilizada para o controle de cri- ses epilépticas. Apesar da maior prevalência de hepatite nesse grupo não foi observada correlação entre o uso desse fármaco e a presença de hepatite. Posteriormente, STEVANS et al., (2016) relatou a potencialização do efeito hepatotó- xico do valproato em um paciente sob tratamento com DC. Nesse estudo após a intro- dução da dieta houve aumento da alanina aminotransferase (13 para 750 IU/L), aumento da aspartato aminotransferase (28 para 785 IU/L), e aumento da ecogenicidade hepática com extravasamento de líquido peri hepático. Após suspensão da dieta as concentrações dessas enzimas regrediram. Sete dias apósa cessação da DC, essa foi reintroduzida, sen- do a tendência de declínio das enzimas hepáticas mantida constante normalizando-se após três semanas. Outros estudos em humanos visando à descrição do efeito da DC sobre o tecido he- pático vêm sendo publicados fora do contexto da epilepsia principalmente no contexto do uso da dieta para a perda de peso em pacientes obesos. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA130 Em 2007, TENDLER et al., analisaram parâmetros hepáticos de pacientes obesos (IMC: ≥30 e <40 Kg/m2) com achados prévios de esteatose hepática conirmados por biópsia e comparou esses parâmetros após 6 meses de intervenção com DC pobre em carboi- dratos e sem controle de ingestão proteica e calórica. Ao inal do estudo os resultados demonstraram que a DC foi capaz de melhorar signiicativamente a severidade da estea- tose, grau necroinlamatório e ibrose centrilobular em 4 dos 5 pacientes analisados. Os parâmetros hepáticos associados à DC e obesidade também foram descritos por PÉREZ-GUISADO e MUÑOZ-SERRANO (2011), no qual o tratamento com a DC mediterrâ- nea por 3 meses apresentou efeito na redução na severidade da esteatose, redução das concentrações de TGO e TGP, além de melhoria nos parâmetros lipídicos com redução de colesterol associado a LDL e aumento de colesterol associado a HDL. Embora esses estudos tenham otidos resultados contraditórios a prévios estudos experimentais, é importante ressaltar que no contexto da obesidade a adoção do tra- tamento com DC não pode ser visto de forma isolada, pois alterações como redução da ingesta energética e de carboidratos simples como a frutose poderiam ser considerados vieses importantes a serem considerados na interpretação dos resultados. Além disso, outros fatores limitantes como a presença prévia de alterações hepáticas e um período curto de intervenção não permitem obter uma visão abrangente sobre o tratamento crô- nico com DC frente a parâmetros hepáticos, conforme ocorre no contexto da epilepsia refratária. 5- Considerações Finais O impacto da DC na epilepsia refratária e suas repercussões no tecido hepático ain- da é um cenário a ser explorado. Apesar de reduzidos, os estudos em seres humanos demonstraram a necessidade de se avaliar criteriosamente as interaçõesfármaco-nu- trientes, pois sabe-se que ambos exercem efeito sinérgico negativo favorecendo o de- senvolvimento e manutenção da EH. Além disso, os resultados obtidos nos estudos ex- perimentais indicam a necessidade do acompanhamento meticuloso da função hepática através de exames bioquímicos e de imagem para o monitoramento de possíveis efeitos adversos como as DHNA. Nesse sentido são necessários mais estudos clínicos que inclu- am em seus protocolos a avaliação do efeito da DC nos parâmetros hepáticos no contex- to da epilepsia. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 131 Referências 1.Asrih M, Jornayvaz FR. Inlammation as a potential link between nonalcoholic fatty liver disease and insulin resistance. 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Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 133 Inadequação de Micronutrientes na Die- ta Cetogênica Mariana Baldini Prudencio | Daniela Murakami A dieta cetogência (DC) apesar de ter sua eicácia clínica bem descrita na literatura, assim como o tratamento medicamentoso, também possui efeitos adversos que podem ser observados a curto e longo prazo. Esses efeitos adversos devem ser monitorados du- rante o tratamento dietético para quepossam ser parcial ou completamente prevenidos e revertidos. Um dos possíveis efeitos adversos observado durante o tratamento dieté- tico em longo prazo é a deiciência de vitaminas e minerais. Este efeito adverso pode ser prevenido através da prescrição de suplementos vitamínicos e minerais que atendam as necessidades individuais desses nutrientes, conforme proposto pela Dietary Reference Intake (DRIs). Na prática clínica, assim como em estudos cientíicos, existem diversas formas de se avaliar a inadequação de micronutrientes na dieta e no organismo. Os métodos mais utilizados para a avaliação da inadequação do consumo de micronutrientes na dieta são os de avaliação do consumo alimentar pela aplicação de recordatórios alimentares de 24 horas, registros alimentares e questionários de freqüência alimentar (FISBERG et al., 2005). Além desses, outros métodos para a avaliação do status de nutrientes no organis- mo também são utilizados, como os biomarcadores em amostras de luidos biológicos como: plasma, soro e urina (ROSS et al., 2009). Além disso, na prática clínica, a deiciência de vitaminas e minerais pode ser observada pela presença de alguns sinais ou sintomas físicos indicativos de suas deiciências (ROSSI et al., 2009). 1.Estudos de inadequação do consumo de micronutrientes na dieta cetogênica Na literatura sobre DC e epilepsia os primeiros estudos relacionados à deiciência de micronutrientes datam de 1979, quando HAHN et al., descreveram pela primeira vez os efeitos deletérios da DC no metabolismo ósseo. Nesse estudo foi avaliado e comparado o metabolismo mineral e de vitamina D em crianças com epilepsia, crianças com epilepsia submetidas a tratamento medicamentoso e crianças com epilepsia submetidas a trata- mento medicamentoso mais DC. Os autores observaram que o grupo com tratamento medicamentoso mais a DC apresentou um peril bioquímico compatível com a deiciên- cia de vitamina D e osteomalácia. Em todos os grupos foram observados concentrações reduzidas de 25-hidroxi-vitamina D (25OHD) e cálcio, porém no grupo tratado com a DC o impacto negativo da deiciência de vitamina D e cálcio foi mais evidente quando foram avaliados parâmetros como a massa óssea, na qual foi observada maior redução. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA134 Posteriormente, BERGQVIST et al., (2007) analisou o status de vitamina D em 45 crian- ças e adolescentes com idade entre 1 a 14 anos com epilepsia refratária. As análises foram realizadas antes do tratamento com DC e após 15 meses de seguimento. Nesse estudo foram analisadas as concentrações de vitamina D (25-OHD e 1,25-OHD), cálcio, fósforo, magnésio e paratohormônio no soro dos participantes. A ingestão de micronu- trientes também foi analisada pela aplicação de 3 registros alimentares. Após 1 mês de tratamento com a dieta foi observado que o consumo de vitamina D e cálcio foi inade- quado, atingindo 87% e 60% das recomendações, respectivamente. Além desses micro- nutrientes, o consumo de fósforo e magnésio também foi inadequado (37% e 29% da RDA, respectivamente). Após 15 meses da dieta, 30% dos participantes apresentaram conteúdo plasmático insuiciente de vitamina D. Na DC o consumo de vitamina D muitas vezes é limitado principalmente devido ao fato da dieta não ofertar grande quantidade de peixe, bem como vegetais de folhas ver- des escuras que são alimentos fontes de vitamina D. Além disso, na DC alimentos ricos em cálcio como o leite e seus derivados não são usualmente ofertados principalmente devido ao seu conteúdo proteico, nutriente que apresenta oferta controlada na DC. No estudo de BERGQVIST et al., (2007) o baixo conteúdo desses nutrientes na DC foi destacado pela autora ao airmar que os percentuais de adequação do consumo de cálcio e vitamina D encontrados foram provenientes principalmente dos suplementos ingeridos durante o tratamento e não dos alimentos ofertados na DC que são deicientes em cálcio e vitamina D. Em 1979 foi descrito por HOYT e BILLSON outra manifestação clínica decorrente de deiciência de vitaminas na DC. Nesse relato de caso houve a ocorrência de neuropatia óptica em duas crianças submetidas a tratamento com a DC. Nas análises clínicas não foram encontradas alterações no nervo óptico, porém foi observado que o nível de tia- mina de uma das crianças apresentava-se abaixo dos valores de referência. Em ambos os casos, as crianças receberam suplementação de tiamina e vitaminas do complexo B e, após o tratamento observou-se melhora na capacidade visual. Esse resultado clínico foi associado à má suplementação de tiamina e demais vitaminas do complexo B, pois logo após a suplementação houve melhora do quadro clínico em ambos os casos. Além dessas deiciências de cálcio, vitamina D e vitaminas do complexo B descritas, outros minerais como o selênio também foram descritos como deicientes. BERGQVIST et al., (2003) foram os primeiros autores a descrever a ocorrência de ma- nifestações clínicas compatíveis com deiciência de selênio na DC. Em seu relato de caso foi observado que após a introdução do tratamento com a DC para controle de crises epilépticas, uma paciente adolescente do sexo feminino com diagnóstico de encefalopa- tia crônica secundária a uma encefalite causada por herpes tipo 1 apresentou alterações na coloração das unhas e na textura dos cabelos. Após exames bioquímicos e cardíacos foram observadas alterações nas concentrações de selênio no sangue e no ritmo cardía- co avaliado por meio de ecocardiograma. As alterações encontradas no exame cardíaco foram compatíveis com cardiopatia dilatada. Houve suspensão da DC por 6 meses para o tratamento da deiciência de selênio e após a suplementação desse micronutriente por 2 anos houve normalização das funções cardíacas. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 135 Posteriormente aos relatos de BERGQVIST et al., (2003) manifestações semelhantes foi observada em uma criança com alteração das função cardíaca sob tratamento com DC. Esse relato de caso foi descrito por SIRIKONDA et al., (2012) que em exames bioquími- cos observou níveis inadequados de selênio no sangue. Foi iniciada uma suplementação com esse micronutriente com uma dose de 3 µg/kg/dia por um período de 10 dias e após esse período foi observado aumento da biodisponibiidade plasmática, normalização ele- trocardiográica e melhoria das funções cardíacas. Nesses estudos foi sugerido que a deiciência de selênio pode ter sido ocasionada principalmente pelo consumo de baixas quantidades de carnes vermelhas, frutos do mar e, algumas oleaginosas como a castanha do Pará, alimentos com consumo restrito na DC devido seu conteúdo proteico. Outros estudos de casos mais recentes descrevem a deiciência de vitaminas e mi- nerais na DC. WILMOTT e BRYAN (2008) descreveram a deiciência de vitamina C em re- lato de caso no qual foi observada a presença de complicações odontológicas em uma adolescente tratada com DC. Em avaliação bioquímica foi constatada baixa concentração plasmática de vitamina C (0,7 µmol/L) compatível com o quadro clínico de deiciência e de diagnóstico de escorbuto. Após suplementação com uma dose de 1000 mg/dia por perí- odo de 7 dias e mensuração plasmática após três semanas, foi observado normalização do conteúdo plasmático de vitamina C e a suplementação foi reduzida para uma dose de 250 mg/dia. No seguimento foi observada melhoria dos sinais e sintomas relacionados ao escorbuto e estado de alerta da paciente. Apesar de não ter sido estabelecido se a causa do escorbuto foi exclusivamente por deiciência da DC ou por potencialização de alguma medicação, que contribuiu para aumentar o catabolismo da vitaminaC, é necessário que durante o tratamento dietético com DC seja monitorada a suplementação desse micro- nutriente. LIU et al., (2003) foi um dos pioneiros em avaliar a inadequação do consumo de micronutrientes na DC através de estudo prospectivo. Nesse estudo o autor analisou crianças e adolescentes com idade entre 1 a 16 anos que estavam em tratamento dieté- tico para a epilepsia refratária com a DC clássica e com DC com triacilgliceróis de cadeia média (TCM). Na avaliação do consumo de micronutrientes realizada por meio de registro alimentar de 7 dias foi considerada a suplementação prescrita baseada no alcance de 100% das recomendações da Recomended Dietary Allowance (RDA) ou Adequate Intake (AI) para a ingestão de vitaminas e minerais. Os resultados obtidos demonstraram que após 4 meses de tratamento com DC, dentre todos os nutrientes analisados: vitamina A,vitaminas do complexo B, vitamina C, vitamina D, vitamina E, folato, cálcio, ferro, mag- nésio, fósforo e zinco, apenas o consumo de fósforo em ambas as dietas e o folato para a DC clássica foram inadequados quando considerados os dados de suplementação. No entanto, o autor propôs que se não tivessem sido considerados os dados de suplementa- ção, o consumo da maioria dos micronutrientes analisados teria sido inadequado duran- te o tratamento dietético. Apesar desse estudo utilizar métodos subjetivos de avaliação da ingestão alimen- tar, que podem subestimar ou superestimar o consumo de um determinado nutriente, a utilização dessa ferramenta permitiu obter uma estimativa quantitativa do consumo destacando a necessidade de suplementação para diversos micronutrientes durante o tratamento com a DC. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA136 A inadequação do consumo de vitaminas e minerais na DC também foi analisada em suas diferentes proporções (2:1, 3:1 e 4:1) no estudo de ZUPEC-KANIA e SPELLMAN (2008). Para o estudo foram selecionados alimentos que apresentavam em sua composi- ção grande quantidade de micronutrientes. Os alimentos selecionados compuseram três registros alimentares e foram comparados com as recomendações propostas pelas DRIs. Foi observado que as inadequações aumentavam conforme o aumento da proporção da dieta. Na proporção 4:1 observou-se que apenas 3 dos 28 nutrientes analisados encon- travam-se adequados. Vitaminas como a tiamina, ribolavina, niacina, ácido pantotênico, vitamina B6, folato, biotina e vitamina C e, minerais como cálcio, fósforo, magnésio, ferro, zinco, cobre, selênio, manganês e molibdênio foram inadequadas na DC 4:1. Em 2009, KOSSOFF et al., publicaram um consenso internacional com recomendações visando um ótimo manejo clínico de crianças tratadas com DC. Nesse consenso, os au- tores descreveram a necessidade de suplementação de vitaminas e minerais na dieta de acordo com as DRIs, propostas por faixa etária. Os autores mostraram que a limitação da quantidade de frutas, de vegetais, de leguminosas e de alimentos fontes de cálcio são um dos principais motivos pelos quais as crianças devem ser suplementadas com polivitamínicos e minerais em especial por vitaminas do complexo B, cálcio e vitamina D. Além disso, nesse estudo os autores descreveram que faltam evidências cientíicas para suplementação adicional além daquela fornecida por polivitamínico e polimineral para os seguintes micronutrientes: minerais de zinco, selênio, magnésio e fósforo. Em 2012, CHRISTODOULIDES et al., em estudo randomizado, avaliaram de forma pio- neira o consumo e a concentrações plasmáticas de vitamina A, vitamina E, zinco, selênio e magnésio em crianças e adolescentes tratados com DC clássica e DC com TCM. Nesse estudo foram observados que após 3, 6 e 12 meses de tratamento considerando a suple- mentação ofertada, ambos os grupos apresentavam quantidades de ingestão adequadas para esses micronutrientes, quando comparados com References Nutrient Intake, pro- postos para a população do Reino Unido (DEPARTAMENT OF HEALTH, 1991). A análise da concentração plasmática de vitamina A mostrou que apenas algumas crianças apresen- tavam inadequação de vitamina A. Houve aumento de vitamina E no plasma, sendo que alguns pacientes apresentaram valores acima da faixa de referência para esse biomar- cador. O conteúdo plasmático de zinco, selênio e magnésio após 12 meses diminuíram quando comparados ao momento basal, quando alguns pacientes apresentaram valores abaixo da referência. Na DC a concentração plasmática de vitamina A tende a ser alta principalmente devi- do ao elevado teor de gorduras ofertadas na dieta, assim como o conteúdo de vitamina E resultante da alta oferta de alimentos fonte desses nutrientes (CHRISTODOULIDES et al., 2012). NEAL et al., (2012) em seu estudo propôs que as deiciências de tiamina, folato e ácido pantotênico observadas durante o tratamento com a DC decorrem principalmente da restrição da ingestão de carboidratos e, por isso durante o tratamento dietético esses micronutrientes devem ser suplementados. KOSSOFF e WANG (2013) reairmou a necessidade de suplementação de cálcio e vi- tamina D. Acrescentou a importância de suplementação com carnitina, selênio e zinco como estratégia a ser adotada para controlar os efeitos adversos ocasionados pelas dei- ciências desses minerais durante o tratamento dietético com DC. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 137 Em estudo transversal PRUDENCIO et al., (resultados não publicados) avaliaram o consumo dietético de vitaminas e minerais de crianças e adolescentes brasileiros tra- tados com DC. No estudo foi possível observar que os grupos etários não atingiram as recomendações da Estimate Avarage Requirement (EAR) para o consumo de vitaminas e minerais e que os grupos com faixas etárias de maior idade apresentaram maior nível de inadequação. Micronutrientes como vitamina A, vitaminas do complexo B, vitamina C, vitamina D, vitamina E, vitamina K, folato, cálcio, ferro, magnésio, fósforo e zinco tive- ram altas prevalências de inadequação do consumo entre os participantes. Nesse mesmo estudo foi observado que 100% dos participantes apresentaram inadequação do con- sumo de vitamina D, cálcio, folato e magnésio. Após terem sido acrescentados os dados de consumo a ingestão de suplementos dietéticos, foi possível observar que a ingestão encontrava-se adequada para as vitaminas do complexo como: B1, B2, B3 e B6, vitamina C, folato, ferro e zinco somente para alguns grupos etários e que os demais nutrientes permaneceram com valores inadequados. Na DC essas diversas inadequações observadas na literatura são ocasionadas princi- palmente devido a composição da dieta, na qual a necessidade de se ofertar um alto teor de gorduras faz com que haja uma limitação da oferta de alimentos como cereais, frutas, verduras, legumes e tubérculos fontes de carboidratos, que também contém em suas composições grandes quantidades de vitaminas e minerais. Na DC o controle da ingestão proteica também faz com que outros alimentos como leguminosas, leites e seus deriva- dos não sejam ofertados durante o tratamento e, outros alimentos como as oleaginosas tenham sua oferta restringida. Dessa forma, vitaminas principalmente as do complexo B e minerais como o cálcio e selênio encontram-se inadequados na DC. Essas limitações no consumo de certos alimentos bem como a inexistência de protocolos de suplementação padronizados para a DC geram um ciclo de inadequações de micronutrientes (Figura1). Figura 1 – Ciclo de inadequações do consumo de micronutrientes na Dieta Cetogênica. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTODA EPILEPSIA138 Na prática clínica é essencial que esse ciclo seja analisado criteriosamente, assim como seja levado em consideração todos os nutrientes inadequados já descritos na lite- ratura de forma a auxiliar o manejo da prescrição da suplementação. 2.Impacto da deiciência de micronu- trientes na infância e adolescência Considerando esse ciclo de inadequações é importante ressaltar que as crianças re- presentam um grupo de grande vulnerabilidade devido ao crescimento rápido e à imatu- ridade isiológica e imunológica. A nutrição adequada nessa fase e na adolescência é fun- damental para o crescimento e o desenvolvimento saudáveis. Inadequações no consumo de nutrientes podem comprometer o estado nutricional e levarão ao desenvolvimento de carências nutricionais (CARVALHO et al., 2015). Na maioria dos países em desenvolvimento e também em alguns grupos populacio- nais de países desenvolvidos, a alimentação habitual é insuiciente para suprir 100% dos requerimentos de micronutrientes das crianças, principalmente, para os minerais: ferro, zinco e cálcio. Isso também é válido, embora em menor grau, para algumas vitaminas, incluindo a vitamina A. A deiciência de micronutrientes está relacionada com uma série de efeitos deletérios na infância, com consequente aumento das taxas de morbi-mortalidade, dentre outros agravos à saúde (SINGH, 2004). Ferro, zinco, vitamina D e vitamina A são exemplos desses micronutrientes que são imprescindíveis ao adequado crescimento e desenvolvimento infantil e, que muitas ve- zes, podem estar em quantidades insuicientes na alimentação e no organismo de mui- tas crianças brasileiras, principalmente naquelas sob tratamento com DC, pois a grande quantidade de gorduras e a baixa oferta de carboidratos diicultam a adequada oferta desses micronutrientes. A deiciência de ferro observada na infância e adolescência, tanto em grupos que fazem ou não a DC deve ser tratada logo que diagnosticada por oferecer grandes riscos à saúde do indivíduo. Na infância, a anemia constitui um grave problema de saúde pública devido à eleva- da prevalência e às signiicativas repercussões no desenvolvimento da criança afetada. Criança de até 5 anos de idade tem uma prevalência global estimada de 47,4% de anemia (KRAEMER e ZIMMERMANN, 2007). Em lactentes e pré-escolares, as principais consequências da anemia ferropriva são: comprometimento do desenvolvimento, da coordenação motora e da linguagem, efeitos comportamentais, como falta de atenção, fadiga redução da atividade física e redução da afetividade (WHO, 1989; LOZOFF et al., 1991; LOZOFF et al., 1998). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 139 Estudos experimentais com animais têm mostrado uma possível relação entre a de- iciência de ferro no crescimento e desenvolvimento cerebral. O ferro tem uma função importante na maturação neuronal no sistema nervoso central (SNC), como também na mielinização e na constituição de algumas enzimas envolvidas na síntese, na função e na degradação de neurotransmissores cerebrais tais como a dopamina, a adrenalina e a serotonina que possuem envolvimento na modulação comportamental e controle da atenção (SANTOS-MONTEIRO et al., 2002). A anemia por deiciência de ferro pode acar- retar em aumento no risco de baixo desenvolvimento cognitivo, neuropsicológico, motor e socioemocional em crianças entre 6 a 24 meses de idade (SACHDEV, 2004). Porém, os resultados de estudos clínicos sobre os efeitos da suplementação com ferro no desenvol- vimento mental ainda são conlitantes. A importância do adequado estado nutricional de vitamina A é incontestável, uma vez que ela possui papel isiológico muito diversiicado, atuando no bom funcionamento do processo visual, na integridade do tecido epitelial, importante para o crescimento, na di- ferenciação e proliferação celular, no sistema imunológico, entre outros. Os pré-escolares possuem reconhecidamente maior risco para o desenvolvimento de deiciência devido ao seu rápido crescimento e desenvolvimento, com consequente aumento das necessidades de vitamina A. As altas taxas de infecção e infestações intestinais, que comprometem a absorção dessa vitamina e, infecções do trato digestivo, respiratório, geniturinário e outras doenças comuns na infância que aumentam a demanda de vitamina A, são apon- tadas como as principais responsáveis pelas altas taxas de inadequação observadas em crianças menores de 5 anos de idade (SOMMER, 1995). Para esse grupo etário, a ingestão de cálcio também deve ser monitorada, pois ele é necessário para a mineralização adequada e manutenção do osso em crescimento. Devido ao desenvolvimento muscular, esquelético e endócrino acelerados, as necessida- des de cálcio são maiores durante a puberdade e a adolescência do que na infância ou durante a fase adulta. Na realidade, 45% da massa esquelética é adicionada durante a adolescência. A vitamina D é necessária para a absorção de cálcio e sua deposição nos ossos. De acordo com levantamentos internacionais, a prevalência dessa hipovitaminose D é maior em adolescentes do que em crianças. Além de reduzir a mineralização óssea, a deiciência de 25-hidroxivitamina D favorece a resistência à insulina, contribuindo para a patogênese da síndrome metabólica (LEÃO et al., 2013). Para pacientes sob tratamento com DC, essa deiciência pode ser potencializada, já que fármacos antiepilépticos (FAE) como fenitoína, carbamazepina e fenobarbital interferem signiicativamente no metabolismo do cálcio e vitamina D, elevando os níveis do paratormônio (PTH), diminuindo a força muscular, au- mentando à propensão à perda óssea e elevando o risco de fraturas (PETTY et al., 2007). O zinco também é essencial para o crescimento; sua deiciência resulta em insui- ciência de crescimento, falta de apetite, acuidade de paladar diminuída e cicatrização de feridas prejudicada. Essa deiciência em pacientes em uso de dieta cetogênica pode inluenciar na aderência ao tratamento, pois a diminuição da palatabilidade e do apetite inluenciam negativamente na aceitação da dieta. A deiciência de zinco pode também ter como consequência problemas no funcionamento neuropsicológico, nos níveis de ativi- dade e atenção e no desenvolvimento motor, funções que interferem no processo de cog- nição (SANDSTEAD et al., 2007). Apesar disso, os mecanismos que vinculam a deiciência Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA140 de zinco ao desenvolvimento cognitivo não estão totalmente claros, pois a deiciência de zinco diicilmente ocorre de forma isolada. O acompanhamento frequente da ingestão alimentar do paciente sob tratamento com DC e sua adequação torna-se necessário para orientar e individualizar os protocolos de suplementação de micronutrientes, evitando deiciências importantes e agravamento do estado de saúde, assim como redução na aderência ao tratamento com a dieta. Ferro Vitamina A Vitamina D Zinco Comprometimento do desenvolvimento, da coordenação motora e da linguagem, falta de atenção, fadiga redução da atividade física e redução da afetividade. Comprometimento do crescimento, diferenciação e proliferação celular e integridade do sistema imunológico. Alteração da homeostase cálcio/fósforo, redução da mineraliza- ção óssea, favorece a resistência à insulina, contribuindo para a pato- gênese da síndrome metabólica. Insuiciência de crescimento, apetite diminuído, acuidade de pala- dar diminuída, prejuízo na cicatrização de feridas, diminuição do de- senvolvimento cognitivo. Quadro 1 – Consequências da deiciência de alguns micronutrientes em crianças e ado- lescentes: Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.brCPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 141 3. Protocolos de suplementação de micronutrientes na DC (aplicação das DRIs) Para um acompanhamento adequado das reais necessidades de micronutrientes no paciente sob tratamento com DC, é importante assegurar algumas condutas nutricionais na rotina da nutricionista no início e durante o tratamento: Aferição das medidas antropométricas, principalmente do peso e estatura e clas- siicação do estado nutricional, segundo a faixa etária e sexo pelas curvas da OMS (WHO, 2006/2007). Cálculo das necessidades energéticas, segundo FREMAN et al., (1994) e de proteí- nas diárias, de acordo com a faixa etária, adaptado ao estado nutricional. Planejamento dietoterápico considerando a proporção de macronutrientes da DC (2:1, 3:1, 4:1 ou suas variações). Avaliação da alimentação através de registro alimentar (considerar a média de três registros). Cálculo dos micronutrientes de acordo com o R24h e comparação com as reco- mendações das DRIs (RDA e AI). Avaliação bioquímica (hemograma completo, peril de ferro, níveis de folato, vita- mina B12 e outros). Avaliação clínica do paciente (pele ressecada, unhas e cabelos quebradiços, pali- dez, etc.) Levantamento das drogas anticonvulsivantes que podem interferir na absorção de micronutrientes. No atendimento ambulatorial, normalmente a DC é introduzida sem o jejum, assim, há o aumento gradativo das gorduras em relação aos carboidratos + proteínas. Costu- ma-se iniciar a dieta na proporção de duas partes de gorduras para uma parte de car- boidratos + proteínas (DC 2:1). Essa fase tem duração aproximada de uma semana e se caracteriza por uma fase de adaptação dos familiares e do paciente ao novo esquema alimentar. As crianças e adolescentes costumam apresentar melhora do quadro epilético nas dietas com proporção 3:1 ou 4:1, a progressão da proporção de gorduras em relação aos demais macronutrientes dependerá do nível de cetose que deverá estar franca (+++) ou da melhora do quadro de crises epilépticas. Não faz parte da maioria das rotinas orientar a suplementação de micronutrientes quando a DC está no proporção de 2:1, pois a primeira semana de dieta, além de ser um período curto para acarretar em deiciência, costuma ser um período de adaptação no qual a família terá que se se organizar com os horários, lista de compras, pesagem dos alimentos, etc. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA142 Após a primeira semana, a família retornará em consulta com a nutricionista e terá a possibilidade de tirar todas as dúvidas em relação à DC. Com todas as dúvidas esclareci- das e mais familiarizados com a DC, haverá a orientação sobre o início da suplementação de micronutrientes. A suplementação de vitaminas e minerais deve fazer parte do protocolo nutricional, pois é amplamente aceito que a DC caseira não fornece todos os micronutrientes que crianças e adolescentes necessitam em seus respectivos estágios de vida. Essa suple- mentação deve ser individualizada e deve ser iniciada logo após a introdução da DC na proporção 3:1 (DC 3:1) e não deve conter carboidratos em sua composição. Em uso de DC industrializada, dependendo se essa oferta for total ou parcial, poderá haver ou não a necessidade de suplementação. A avaliação da ingestão de nutrientes é um importante indicador indireto do estado nutricional. Juntamente com outros parâmetros, ela pode ser utilizada para a tomada de decisão quanto à adequação do consumo alimentar do indivíduo e auxiliar no estabele- cimento da conduta dietoterápica (MARCHIONI et al., 2004). Obter de maneira acurada a ingestão habitual de um indivíduo é um grande desaio devido a questões como a ocor- rência frequente de subestimação da ingestão e a grande variabilidade da ingestão do dia-a-dia (variação intrapessoal). A melhor estimativa da necessidade deve ser baseada na Recommended Dietary Allowance (RDA) deinida como a ingestão média de um nu- triente necessária por alcançar a 97 a 98% dos requerimentos de uma população saudá- vel segundo o estágio de vida e gênero (PADOVANI et al., 2006). Para corrigir a distribuição da ingestão do nutriente necessita-se de, pelo menos, três medidas independentes da dieta, que podem ser obtidas por três recordatórios de 24 horas ou três dias de registro alimentar. Os dias da coleta de dados não devem ser consecutivos. A média desses dados deve ser comparada com a RDA de cada nutriente e, caso não haja a informação da RDA, deve-se utilizar a Adequate Intake (AI), nunca ultra- passando os valores do Tolerable Upper Intake Level (UL). É muito importante caso seja orientada a suplementação de um polivitamínico e po- limineral industrializado, que a nutricionista tenha conhecimento de sua formulação, da quantidade média de micronutrientes que a dieta fornece e de quanto o paciente neces- sita de acordo com as recomendações das DRIs. Essa avaliação deve ser refeita no máxi- mo até 3 meses após a introdução da DC. Sempre que se recalcula a dieta, é necessária a reavaliação da suplementação vigente. As vitaminas e minerais também podem ser manipulados, porém deve-se ter a pre- ocupação de serem feitos em laboratório certiicados, não devem conter carboidratos como sorbitol, maltodextrina, lactose ou glicose em sua composição e deve haver o cui- dado para não haver interação nutriente x nutriente. O horário da oferta do suplemento vitamínico e mineral também é muito importante. Alguns estudos indicam que os antiácidos contendo carbonato de cálcio podem interferir na absorção de fenitoína e talvez outros FAE. Por esta razão, deve-se orientar que su- plementos de cálcio e FAE sejam ingeridos em horários diferentes para evitar interação fármaco x nutriente (CARTER et al., 1991). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 143 4.Considerações Finais Apesar de bem documentada na literatura as deiciências de micronutrientes na DC, até o momento não existem protocolos padronizados para a suplementação de crian- ças e adolescentes em tratamento com a DC. Dessa forma, essa deve seguir critérios de avaliação individual como a estimativa do consumo de nutrientes pela dieta e avaliação quanto ao grau de adequação, segundo as DRIs. Na DC a ausência de protocolos ocorre principalmente pelo fato da maioria dos es- tudos relacionados à deiciência de micronutriente ser provenientes de relatos de caso os quais pelo seu grau de evidência cientíica e parâmetros metodológicos adotados não permitem estabelecer um peril de consumo e mensuração de forma adequada dos nu- trientes a serem suplementados; além disso, na literatura existem poucos estudos que associem a avaliação do consumo alimentar com biomarcadores de deiciência de micro- nutrientes, o que limita o conhecimento das inadequações do consumo de vitaminas e minerais na DC e estabelecimento de protocolos padronizados que na prática clínica. Dessa forma para o estabelecimento de protocolos de suplementação padronizados são necessários estudos futuros que avaliem o peril de consumo dessa população, faci- litando a prescrição desses suplementos pelo médico e/ou nutricionista e minimizando possíveis efeitos adversos decorrentes da deiciência de vitaminas e minerais como os já descritos na literatura. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA144 Referências 1.Bergqvist AG, Chee CM, Lutchka L, Rychik J, Stallings VA. Selenium deiciency associated with cardiomyo- pathy: a complication of the ketogenic diet. Epilepsia. 2003;44(4):618-20. 2.Bergqvist AG, Schall JI, Stallings VA. Vitamin D statusin children with intractable epilepsy, and impact of the ketogenic diet. Epilepsia. 2007;48(1):66-71. 3.Carter BL, Garnett WR, Pellock JM, et al. Efect of antacids on phenytoin bioavailability. 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Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA146 Impacto da dieta cetogênica no cresci- mento e desenvolvimento Patricia Azevedo de Lima | Giovanna Fernandes Ricciarelli O processo de crescimento e desenvolvimento é complexo e multifatorial, especial- mente quando consideramos as doenças neurológicas. A genética da criança, fatores hor- monais, psicossociais e nutricionais são determinantes do padrão de crescimento (Socie- dade Brasileira de Pediatria - SBP, 2009). Os distúrbios neurológicos oriundos de lesões no sistema nervoso evidenciam im- pacto negativo no estado nutricional de acordo com a área e extensão envolvida, o que muitas vezes afeta a capacidade física e cognitiva necessária para uma nutrição adequa- da (SIMONY et al., 2014). O potencial de crescimento pode estar comprometido nas doenças neurológicas, mesmo na ausência de má nutrição, por alterações endócrinas concomitantes e subja- centes, fatores genéticos inerentes e estilo de vida, principalmente quanto à mobilidade física (MANSILHA, 2010). Independente de sexo e idade, a aplicação de força muscular no osso origina um ganho signiicativo de massa óssea. De modo contrário, a diminuição do impacto, causado pelo estresse mecânico sobre os ossos devido à imobilidade, é também associada com a diminuição da formação óssea (SIMONY et al., 2014). Portanto, pacientes acometidos com distúrbios neurológicossão mais susceptíveis ao comprometimento do crescimento edesenvolvimento. Desse modo e, particularmente, na epilepsia refratária, a nutrição deve atender aos requisitos mínimos que garantam o crescimento e desenvolvimentos adequados, mas também contribuam para o controle das crises epilépticas. Esses requisitos são particularmente importantes, pois sabe-se que o tratamento com dieta cetogênica (DC) pode se estenderpor 2 ou 3 anos ou, em alguns casos, por toda a vida. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 147 1.Métodos de Avaliação Nutricional Independente da presença de epilepsia, a infância é caracterizada por grandes mu- danças na composição corporal ocasionadas pelo crescimento e desenvolvimento ace- lerados. A avaliação da composição corporal assume grande importância nesse período da vida, devido a sua íntima relação com o estado nutricional e estado de saúde (SBP, 2009). A composição corporal representa a proporção entre os diferentes componentes corporais e a massa corpórea total. A avaliação da composição corporal pode determinar os componentes do corpo humano de forma quantitativa, além de utilizar os dados obti- dos para detectar o grau de crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes (GONÇALVESe MOURÃO, 2008). A antropometria abrange a obtenção de medidas físicas de um indivíduo para es- tabelecer uma relação com um padrão que relita seu crescimento e desenvolvimento, diagnosticando tanto a má nutrição por deiciência quanto por excesso. Além disso, é um método simples, de baixo custo e inócuo (ROSSI et al., 2008) Os dados antropométricos mais utilizados em pacientes pediátricos variam con- forme faixa etária avaliada: Crianças (0 a <10 anos): peso, altura (comprimento/estatura), dobras cutâneas, perímetros bra- quial, cefálico e torácico, além dos índices antropométricos E/I (estatura ou comprimento para idade), P/E (peso para estatura ou comprimento), P/I (peso para idade) e IMC/I (índice de massa corporal para idade); Adolescentes (10 a 19 anos): peso, estatura, dobras cutâneas, circunferências braquial e abdomi- nal, além dos índices antropométricos E/I, P/E, P/I e IMC/I. (ROSSI et al., 2008). Adicionalmente, podem ser utilizadas para avaliação da composição corpórea em pacientes pediátricos metodologias como: a pesagem hidrostática, a ultrassonograia, a tomograia computadorizada, a bioimpedância elétrica (BIA) e aabsortometriaradiológica de dupla energia (DEXA) (SIGULEM et al., 2000). As variações da estatura são mais lentas se comparadas ao peso. A alturaquando uti- lizada de maneira isolada não pode ser considerada como indicador do estado nutricio- nal de crianças, porém, quando combinada a outras medidas, torna-se um indicador im- portante na estimativa do estado nutricional atual e pregresso, como, no caso dos índices antropométricos E/I (estatura para idade) e P/E (peso para estatura) (ROSSI et al., 2008). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA148 2.Limitações da avaliação nutricional em pediatria Considerando-se a relevância da avaliação nutricional para determinação do cresci- mento e desenvolvimentode pacientes em idade pediátrica, devem ser selecionadas as melhores ferramentas para obtenção da composição corporal,avaliando a limitação de cada método. Embora a antropometria seja ainda considerada uma das melhores ferramentas pro- pedêuticas para aferir a condição nutricional de crianças, os índices antropométricos (peso e estatura) não fornecem informações precisas sobre os compartimentos corpo- rais, bem como as alterações isiológicas ou patológicas que neles ocorrem durante o desenvolvimento de uma doença (DELGADO et al., 2010). A medida precisa de dobras cutâneas depende de fatores como: o tipo de adipômetro utilizado, da familiarização dos avaliadores com as técnicas de medida e da perfeita iden- tiicação do ponto anatômico a ser medido (SANT’ANNA et al., 2009). Por esse motivo, é imprescindível a obtenção dos valores das dobras cutâneas repetidas vezes (ex: triplicata) para minimizar os erros e adquirir resultados mais idedignos. A aferição dos perímetros corporais demonstra fragilidade para estimar quantidade de gordura corporal em razão de suas dimensões incluírem outros tecidos e órgãos além do tecido adiposo (ANDAKI, 2010). A bioimpedância elétrica (BIA) é uma técnica que não determina o padrão de distri- buição da gordura corporal,enquanto a existência de diferentes equações de somató- ria das dobras cutâneas e equações de bioimpedância originam diferentes estimativas da composição corporal (ANDAKI, 2010). Sendo assim, para pacientes pediátricosse faz necessária padronização da técnica, bem como o uso de equações apropriadas para a população a ser estudada que consideram fatores como a idade, o sexo e as condições isiológicas (DELGADO et al., 2010). A BIA quando aplicada em crianças menores de 7 anos de idade é questionada devido as mudanças intensas de composição corporal. Além dis- so, em crianças muito pequenas a colocação dos eletrodos na posição adequada é impos- sibilitada, acarretando interações entre os seus campos elétricos, resultando em valores equivocados. Para minimizar esse problema, alguns autores propõe a distância média de 3 cm entre os eletrodos (NGUYEN et al., 2007). Além dessas limitações, não há equações padronizadas para crianças ou adolescentes com epilepsia refratária. Destaca-se que a infância é um período caracterizado por mudanças rápidas e gran- de variabilidade interindividual de luidos corporais. Sabe-se que a distribuição de luidos e concentração de eletrólitos livres afetam a resistência e, consequentemente, o valor da impedância, além de que, nesse método se assume como constante a razão entre a água corporal total e a massa livre de gordura, por esse motivoa estimativa da composição corpórea nos primeiros anos de vida não pode ser severa (SBP, 2009). A ultrassonograia embora seja uma técnica segura, não é indicada para avaliar com- posição corpórea, principalmente da gordura subcutânea, pois há grande variabilidade Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 149 na sua medida devido à compressão direta da gordura pelo aparelho transdutor, acarre- tando na obtenção de resultados imprecisos (SIGULEM et al, 2000). A pesagem hidrostática possui limitações quando aplicada em crianças, visto que, o modelo matemático para estimar o percentual de gordura corporal supõe que a massa livre de gordura é constante e, nessa fase da vida ocorrem muitas alterações nas propor- ções e densidade dos componentes da massa livre de gordura, ocasionadas durante o crescimento e maturação, demonstradas pela redução na água corporal total e aumento no conteúdo mineral. Além disso, esse método requer grande cooperação do avaliado, tornando-se inviável para crianças (SANT’ANNA, 2009). Os métodos DEXA e Tomograia computadorizada (TC) são técnicas de imagemque possuem limitações para uso devido ao alto custo, a soisticação metodológica e diicul- dades em envolver seus avaliados nos protocolos de medidas. A aplicaçãodo DEXA e da TC na população pediátrica deve ser utilizada com cautela, pois a exposição dos indivídu- os à radiação, especialmentequando repetidas vezes são necessárias, principalmente se considerarmos que na TC as doses de radiação são ainda mais elevadas. O DEXA é uma técnica imprecisa para avaliar distribuição da gordura corpórea, pois não permite o cál- culo da gordura visceral (ANDAKI, 2010). As metodologias que avaliam a composição corporal em crianças, especialmente, quando consideramos algumas limitações oriundas das doenças neurológicas não são consensuais. Por esse motivo, a deinição da melhor técnica deve ser feita com cautela para minimizar equívocos, considerando o objetivo da avaliação, as características da população alvo e a existência de padrões de referência validados especíicos para deter- minados grupos populacionais; não excluindo critérios como o custo, a disponibilidade e a utilização de instrumentos. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA150 3.Estado Nutricional e Epilepsia Enquanto a eicácia clínica da DC é inquestionável no contexto da epilepsia refratária, essa apresenta inadequações nas vitaminas e minerais, distribuição diferenciada de ma- cronutrientes, e na grande maioria das vezesapresenta restrição calórica em comparação às recomendações por faixa etária (Tabela 1). Desse modo, é fundamental que crian- ças e adolescentes sob tratamento com DC sejam regularmente monitoradas, visando à adoção de estratégias que possam minimizar o impacto da DC sobre o crescimento e desenvolvimento. Visando a melhor compreensão das diferenças nas recomendações nutricionais de uma criança submetida a uma dieta normal, conforme as DRIs, e de uma criança em tra- tamento com a DC, será descrito abaixoum estudo de caso. * Dietary Reference Intakes (recomendação de valor energético total/dia de 0 a 18 anos) ** Valores estimados por quilograma de peso corporal baseado no peso atual ou peso ideal segundo Z-Escore de IMC/I Fonte:DRI (2002/2005), FREEMAN etal., (1994) Faixa etária (anos) < 1 1 – 3 4 – 6 7 – 10 ≥ 11 Feminino 520 – 676 992 – 1.642 1.642 1.642 – 2.071 2.071 – 2.368 Masculino 570 – 743 1.046 – 1.742 1.742 1.742 – 2.279 2.279 – 3.152 Recomendação energética DC clás- sica(Kcal/kg)** 80 75 68 60 ≤ 40 – 50 Recomendação energética DRI (Kcal/dia)* Tabela 1 – Recomendação energética da DRI e da DC clássica, conforme faixa etária. 4.Estudo de caso Paciente A.R., sexo masculino, 6 anos de idade e 21 kg de peso, sendo seu peso ade- quado para sua altura e idade, com diagnóstico de epilepsia refratária, recebeu indicação para iniciar tratamento com DC na proporção 4:1. Para calcular as calorias na DC deve-se considerar a idade. Sendo assim, conforme Ta- bela 1 o paciente A.R. deve receber 68 kcal/kg. O total de calorias é obtido multiplicando Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 151 Na Tabela 2 podemos observar o impacto negativoda restrição calórica da DC bem como na quantidade de proteínas e carboidratos. A DC apresenta oferta de 82% das reco- mendações calóricas para faixa etária normal e fornece 47% da recomendação proteica mínima e 7,5% da recomendação mínima de carboidratos. Apesar disto, as DRIs preconi- zam para crianças de 4-18 anos ingestão mínima de 19g de proteína/dia, permitindo que a DC oferte um “teor proteico moderado” de proteína. Por outro lado, a oferta de lipídios na DC é 2,1 vezes maior que a recomendação das DRIs. 1DietaryReferenceIntakes, * valor estimado considerando recomendação proteica de 1g/Kg de peso/dia. Macronutrientes e energia Gorduras Proteínas Carboidratos Calorias g/dia 142,8 21* 14,7 1.428 kcal/dia 1.742 kcal/dia g/dia 48-68 44-131 196-283 % 90% 5,32% 4,68% % 25-35% 10-30% 45-65% Recomendação DC 4:1 Recomendação DRI¹ Tabela 2 – Comparação das recomendações nutricionais diárias da entre DC e recomen- dações da DRI para criança de 6 anos com 21 Kg. Considerando a tríade crescimento/desenvolvimento, avaliação nutricional e DC, di- versos trabalhos apontam para o impacto negativo deste tratamento no crescimento e desenvolvimento dessas crianças. A descrição do estudo de caso acima, evidencia o efeito agudo e crônica que a DC pode exercer sobre os parâmetros antropométricos e composição corporal. A Tabela 3 apresenta os principais estudos clínicos, estudos de caso e trabalhos de revisão que avaliaram índices antropométricos em pacientes com epilepsia. Destaca-se diiculdade de comparação entre os estudos, associada tanto aos aspectos contraditórios entre os estudos, como a falta de informação, sendo os principais: I) padronização dos ín- dices antropométricos utilizados, especialmente para classiicação do estado nutricional; II) seleção distinta das curvas de referência para crescimento; III) diferentes períodos de avaliação; IV) diferentes recomendações do valor energético e proteico utilizado; V) mo- nitoramento de ingestão energética e proteica; VI) proporções da DC utilizada; VII) faixa etária; VIII) peril heterogêneo da etiologia epiléptica. 68 pelo seu peso, ou seja, o paciente A.R. deve consumir um total de 1.428 calorias por dia (68 kcal/kg x 21 Kg). Para distribuiçãodos macronutrientes da DC na proporção4:1, temos como exemplo 40 calorias por unidade (4x9 + 1x4), ou seja, 35,7 (1.428/40), sendo 21 g de proteína (1g/Kg/dia) e 14,7g de carboidratos (ver mais detalhes do cálculo da DC no capítulo de manejo nutricional). Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA152 Tabela 3 – Mudança nos indicadores antropométricos e na composição corporal dos prin- cipais estudos clínicos com pacientes com epilepsia sob tratamento com DC. Center for Health Statistics growth curves; Tanner-Whitehouse growth chart, NI: não infomado, MM: massa magra, MG: massa gorda, DC: dieta cetogênica,TCM: triacilglicerois de cadeia média *Valores de z-escore não apresentados, resultados apresentados graicamente, ** mudanças não signiicativas , −: não avaliado NEAL et al.,: valores da diferença entre os grupos, GROLEAU et al., e SHULL et al., 2014: valores da mudança ao longo do tempo, NUMIS et al.,valores z-escore de peso/estatura-não respondedores e respondedores Amostra n Seguimento (meses) Idade(anos) Curvas de Crescimento (z-escore ou percentil) Referência Média Mínimo - Máxima ΔP/I ΔMC/I ΔE/I Curvas 21 133 76 25 34 25 75 22 26 18 40 24 48 -5,2 < < -9,5 0,36 0,79 -0,32 0,52 − 0,05 0,56 0,04 -2 7,9 3,8* 3,8* 6/ 8,1 NI 7,3 NI 5,5 19,5 12,4 4,8 5,6 3,11 − − − − 12 0,14 -0,033 0,5 0,23/0,21 0,23 1,02 0,8 -0,5 Tanner CDC CDC Tanner Tanner Tanner CDC British 1990 NI CDC CDC NI CDC CDC WILLIANS et al., 2002 VINING et al., 2002* VINING et al., 2002* LIU et al., 2003 PETERSON et al., 2005 BERQVIST et al., 2008 NEAL et al., 2008 SPULBER et al., 2009 NUMIS et al., 2011 TAGLIABUE et al., 2012** KIM et al., 2013 GROLEAU et al., 2014 SHULL et al., 2014 6 6 24 4 12 15 12 ≥ 12 13 6 24 15 1 -11,6 < < -0,8 0,69 1,08 -0,506 0,37 − 0,04 1,13 -0,6 − 1 - 15,5 0,2 - 9,1 0,2 - 9,1 2,8 – 14 1 a 26 1 – 14 2 a 16 3,5 - 9,8 NI NI 0,6-15,5 0,7- 6,5 NI Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 153 5.Considerações Finais Apesar das diiculdades de comparação entre os estudos observa-se que quanto maior o período de tratamento com DC e mais precoce sua introdução maior o impacto negativo desse tratamento nos índices antropométricos e na massa óssea. Entretanto, a constante reavaliação das necessidades energéticas, de macronutrientes, vitaminas e mi- nerais é fundamental para minimizar a redução do z-escores. Recomenda-se que o ajuste proteico e calórico ocorra após a estabilização da proporção de macronutrientes (lipídeos para carboidratos mais proteínas) e resposta clínica sempre considerando o estado nutri- cional do paciente. Para crianças menores deve-se priorizar maior oferta proteica ≥ 1 g/ kg de peso e para adolescentes pode-se utilizar ≤ 1 g/Kg de peso. Para o ajuste energético recomenda-se a avaliação após 1 mês da estabilização da cetose e seguimento trimestral. Desta forma, ao observar a redução do z-escore, por exemplo, de -0,4 para -0,8, deve-se fazer o ajuste calórico, baseado no z-escore de IMC/I, utilizando como base o ponto médio, equivalente ao percentil 50, ou o mais próximo da eutroia para se estabelecer o peso ideal e o cálculo da DC. Outra estratégia utilizada na prática clínica é o aumento de 10 a 20% do valor energético total. Na população brasileira, a recomendação para avaliação do estado nutricional de crianças e adolescentes baseia-senas curvas de crescimento da OMS (WHO, 2006/ 2007). Medidas de composição corporal agregam valor a este monitoramento e, embora não sejamessenciais, podem ampliar o monitoramento clínico das curvas de crescimento e desenvolvimento de pacientes pediátricos sob tratamento com DC. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail:almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA154 Referências 1.Andaki ACR. Predição da síndrome metabólica em crianças por meio das medidas antropométricas e nível de atividade física. Minas Gerais: Universidade Federal de Viçosa ;2010 2.Bergqvist AG, Schall JI, Stallings VA, Zemel BS. Progressive bone mineral content loss in children with in- tractable epilepsy treated with the ketogenic diet. 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Entende-se por RL todas as estruturas químicas que possuem um ou mais elétrons não pareados em seu último orbital. Esses despareamento torna essa estrutura química altamente instável e a busca pela estabilidade química o torna extremamente reativo à biomoléculas presentes no DNA, lipídeos, proteínas e carboidratos. A interação dos RL com essas biomoléculas modiica a estrutura original do substrato, gerando produtos de oxidação com funções biológicas alteradas que poderão perpetuar as reações oxidativas ou não. Qual é a deinição de antioxidante? Quais são os antioxidantes endógenos e exóge- nos? Entendem-se como antioxidantes, qualquer substância que, em baixa concentração, quando comparada ao substrato oxidável, seja capaz de inibir ou neutralizar a reações de óxido-redução induzida pelo substrato. Em conjunto, os antioxidantes ajudam na manu- tenção e restauração do estado redox, contribuindo para otimização das vias metabóli- cas, resposta inlamatória e sinalização celular. Os antioxidantes endógenos são compostos pelas enzimas Superóxido Dismutase (SOD), Glutationa Peroxidase (GPx), Catalase (CAT), Tioredoxina (Trx) e Peroxiredozinas (Prxs). Além das enzimas antioxidantes o organismo humano também possui outras bio- moléculas que agem como antioxidantes não enzimáticos endógenos, como: ceruloplas- mina, bilirrubina, ácido úrico, albumina e o tripeptídeo glutation (GSH) Essas substâncias Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 157 dão estabilidade a diversos elétrons presentes em minerais (cobree ferro), evitando que esses catalizem reações de oxirredução. Destacam-se também os antioxidantes exógenos, cuja dieta permanece sendo a prin- cipal fonte, seguida dos suplementos minerais e vitamínicos. Esse grupo inclui as vita- minas A, C e E), carotenoides (licopeno, zeaxantina, β-caroteno) e compostos fenólicos (isolavonas, lavonoides, antocianidinas, lavonas, dentre outras). Qual é a diferença entre antioxidante parcial e antioxidante completo? Os antioxidantes parciais são assim denominados, pois o produto gerado ainda tem potencial radicalar. Exemplos de antioxidantes parciais são: a isoforma SOD (Cu-Zn) en- contrada no citoplasma e SOD (Mn) presente nas mitocôndrias, pois ambas catalisam a dismutação do ânion superóxido em peróxido de hidrogênio. Em contrapartida, os antioxidantes completos são assim denominados devido a ge- ração de produtos não radicalares. Um exemplo de antioxidante completo é a GPx, uma selenoproteína amplamente distribuída no citoplasma de todos os tecidos e também presente no plasma, apresenta-se sob diversas isoformas (GPx-1, GPx-2, GPx-3, GPx-4) a depender do seu sítio de ação e estado redox. Sua função antioxidante ocorre por meio da neutralização de duas moléculas de peróxido de hidrogênio com consequente geração de glutationa oxidada e H2O. Qual é o papel da mitocôndria a nível neuronal? A mitocôndria participa direta e indiretamente da hiperexcitabilidade neuronal por meio da geracão de ATP, biosíntese de metabólitos e neurotransmissores, homeostase de cálcio, controle de morte celular, além de ser um sítio primário da geração de radicais livres. Esse papel é particularmente importante nas crises epilépticas e em vários meca- nismos da epilepsia, onde as mudanças energéticas e metabólicas mitocondriais (elevado processo glicolítico, aumento do luxo sanguíneo e razão lactato/piruvato) encontram-se intensiicadas. Na epilepsia as sucessivas crises levam a ruptura da homeostase mitocon- drial com consequente perda de funções e morte celular por mecanismos apoptóticos. No contexto do estresse oxidativo qual é a importância da DC? ROWLEY e PATEL (2013) propuseram que os corpos cetônicos associados à dieta redu- zem a geracão de ROS e aumentam o conteúdo de glutationa mitocondrial. KLEIN et al., Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA158 (2014) e KOVAC et al., (2013) propuseram que a DC pode ser um importante alvo terapêu- tico, pois contribui para o controle das crises epilépticas, além de ter efeito neuroprotetor. Capítulo III - Aplicações e limitações dos métodos diagnós- ticos Qual é a diferença ente crise epiléptica e epilepsia? Crise epiléptica é a manifestação clínica decorrente da atividade elétrica neuronal anormal, excessiva e hipersincronizada. Epilepsia são crises epilépticas repetidas excluin- do situações nas quais se presume que, provavelmente, não haverá recorrência das cri- ses. O que deve ser avaliado no exame físico? O exame físico do paciente com epilepsia deve contemplar a avaliação da pele, pois as síndromes neurocutâneas (como por exemplo esclerose tuberosa, neuroibromato- se, síndrome de Sturge Weber) frequentemente cursam com crises. Fundo de olho (na procura de manchas e cicatrizes), avaliação abdominal (veriicar hepatoesplenomegalia presente nas doenças de depósito), além de avaliação cardíaca (episódios neurológicos consequentes às arritmias ou outras condições cardiológicas) são detalhes importantes no exame físico. Outros aspectos são a presença de dismorias faciais, avaliação do cognitivo, além do exame neurológico convencional na procura de déicits motores, de linguagem, intelec- tual, etc. Em que momento deve ser solicitado o EEG? O EEG deve ser solicitado o mais precocemente possível. O registro deve incluir um período de vigília e de sono, tendo o paciente feito privação de sono. Considerar repetir o exame para aqueles que não demonstraram anormalidades, pois múltiplos exames podem aumentar a sensibilidade. O EEG deve ser solicitado para responder uma pergunta clínica referente ao diag- Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA 159 nóstico e evolução do paciente. O EEG é indicado, para diagnóstico ou seguimento, em diversas situações clínicas que cursam com alteração do nível de consciência, dentre elas, sintomas paroxísticos sugestivos de crises epilépticas (perda de consciência, quedas, aba- los musculares), dentre outras patologias e sintomas neurológicos. Capítulo IV - Tratamentos da epilepsia O que determina a escolha dos FAE? A escolha dos FAE se baseia no tipo de crise epiléptica ou preferencialmente, na epi- lepsia ou síndrome epiléptica. Além disso, devem ser valorizados dados do paciente como idade, sexo, condições físicas e situação socioeconômica. Quais mecanismos de ação dos FAE no SNC? Os FAE atuam aumentando a inibição ou diminuindo a excitabilidade neuronal. O aumento da inibição pode ser obtido por substâncias que aumentam o ácido gama-ami- nobutírico (GABA), principal neurotransmissor inibitório do SNC, por diferentes mecanis- mos. Outras substâncias reduzem a excitabilidade neuronal, diminuindo a concentração de glutamato, principal aminoácido excitatório do SNC, por meio da inibição na sua sínte- se ou então bloqueando seus receptores na membrana pós-sináptica. Os FAE atuam ainda alterando a excitabilidade da membrana celular modiicando a condutância dos canais iônicos de Na+, Ca++, K+ ou Cl-. Com a abertura dos canais e entrada de Na+ e Ca++ para o interior da célula, há uma despolarização da membrana, que se repolariza pela saída de K+ e entrada de Cl-. O bloqueio dos canais de Na+ e Ca++ impede a despolarização da membrana celular enquanto a ativação dos canais de K+ re- polariza a membrana impedindo a propagação da descarga. Quando deve ser iniciado o tratamento com os FAE? Geralmente, a conduta adotada é não medicar crianças após a primeira crise, pois além de serem menores o risco de recorrência e os riscos físicos decorrentes da crise, procura-se evitar os efeitos dos FAE sobre o cérebro em desenvolvimento. Em adultos prefere-se iniciar o tratamento mantendo por pelo menos dois anos, pois as consequên- cias físicas e, especialmente, sociais de uma crise epiléptica são importantes. No idoso a conduta é sempre tratar, pois crises possibilitam quedas e fraturas aumentando a mor- talidade nesta faixa etária. Licenciado para franklin almeida alves - E-mail: almeidafranklin@uol.com.br CPF: 30387549862 - IP: DIETA CETOGÊNICA NO TRATAMENTO DA EPILEPSIA160 O que é epilepsia refratária? O ILAE (2010) sugeriu que a epilepsia refratária seja deinida como a ausência de resposta a dois FAE, adequadamente selecionados, tolerados e administrados em doses adequadas. Qual é o mecanismo de ação da estimulação cerebral profunda (DBS)? A DBS se baseia na estimulação elétrica do parênquima cerebral através de eletro- dos implantados profundamente, tendo como alvo o núcleo anterior do tálamo, núcleo mediano do tálamo, núcleo cerebelar e outros. Estudos vêm demonstrando que a DBS reduz a frequência das crises epilépticas e aumenta o tempo para o desenvolvimento de convulsões e estado de mal epiléptico (EME). Capítulo V - Aspectos históricos e manejo nutricional Quais são as principais diferenças da DC quando comparada a uma dieta normal? As diferenças observadas entre a DC e uma dieta habitual são estabelecidas prin- cipalmente por dois aspectos: a distribuição de macronutrientes e o nutriente utilizado como fonte energética principal. Aproximadamente 50% das calorias ingeridas diariamente por indivíduos saudáveis são provenientes dos carboidratos, 15% das proteínas