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NEUROLOGIA: DIAGNÓSTICOS, TRATAMENTOS E CIRURGIAS EDIÇÃO II Organizadores: Guilherme Barroso Langoni de Freitas Juliane Cristina de Almeida Paganini Talita Cristina Moreira Moraes 2022 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Editora Pasteur, PR, Brasil) F866 FREITAS, GUILHERME BARROSO LANGONI DE Neurologia: diagnósticos, tratamentos e cirurgias FREITAS, G.B.L. et al. - Irati: Pasteur, 2022. 1 livro digital; 135p.; ed. II; il. Modo de acesso: Internet ISBN 978-65-815-4954-1 https://doi.org/10.29327/588083 1. Medicina 2. Neurologia 3. Ciências da Saúde I. Título. CDD 610 CDU 616.8 2022 by Editora Pasteur Copyright © Editora Pasteur Editor Chefe: Dr Guilherme Barroso Langoni de Freitas Corpo Editorial: Dr. Alaercio Aparecido de Oliveira (Faculdade INSPIRAR, UNINTER, CEPROMEC e Força Aérea Brasileira) Ana Karolina Santos Góes (Universidade Estadual do Centro-Oeste - PR) Dra. Aldenora Maria Ximenes Rodrigues MSc. Aline de Oliveira Brandão (Universidade Federal de Minas Gerais - MG) MSc. Bárbara Mendes Paz (Universidade Estadual do Centro-Oeste - PR) Dr. Daniel Brustolin Ludwig (Universidade Estadual do Centro-Oeste - PR) Dr. Durinézio José de Almeida (Universidade Estadual de Maringá - PR) Dr. Everton Dias D’Andréa (University of Arizona/USA) Dr. Fábio Solon Tajra (Universidade Federal do Piauí - PI) Francisco Tiago dos Santos Silva Júnior (Universidade Federal do Piauí - PI) Dra. Gabriela Dantas Carvalho Dr. Geison Eduardo Cambri MSc. Guilherme Augusto G. Martins (Universidade Estadual do Centro-Oeste - PR) Dr Guilherme Barroso Langoni de Freitas (Universidade Federal do Piauí - PI) Dra. Hanan Khaled Sleiman (Faculdade Guairacá - PR) MSc. Juliane Cristina de Almeida Paganini (Universidade Estadual do Centro-Oeste - PR) Dra. Kátia da Conceição Machado (Universidade Federal do Piauí - PI) Dr. Lucas Villas Boas Hoelz (FIOCRUZ - RJ) MSc. Lyslian Joelma Alves Moreira (Faculdade Inspirar - PR) Dra. Márcia Astrês Fernandes (Universidade Federal do Piauí - PI) Dr. Otávio Luiz Gusso Maioli (Instituto Federal do Espírito Santo - ES) Dr. Paulo Alex Bezerra Sales MSc. Raul Sousa Andreza MSc. Renan Monteiro do Nascimento MSc. Talita Cristina Moreira Moraes (Centro Universitário Uniguairacá) Dra. Teresa Leal https://doi.org/10.29327/5 A Neurologia é a uma subárea da Ciências da Saúde que contempla a prevenção, diagnóstico, tratamento e intervenções das doenças que afetam o sistema nervoso central e seus componentes diretos e indiretos, como por exemplo, órgãos periféricos, funções múscoloesqueléticas. Para muitos acadêmicos e até mesmo profissionais da Neurologia, ela ainda é um campo em crescente expansão de conhecimento, que necessita atualização técnica constante devido às expansões tecnológicas dos últimos anos, o que permitiu avaliar mecanismos de ação de fármacos, diagnósticos mais modernos, intervenções cirúrgicas até então restritas apenas a alguns centros médicos de grande desenvolvimento. Portanto, a Editora Pasteur organizou o livro Neurologia: Diagnósticos, Tratamentos e Cirurgias II, com estudos de excelência dentro desta subárea, os quais permitem ao leitor amante da Neurologia se atualizar e buscar maiores conhecimentos. Dr. Guilherme Barroso L. De Freitas Prof. Dpto Bioquímica e Farmacologia – Universidade Federal do Piauí Editor Chefe Editora Pasteur Capítulo 1 Entendendo os aspectos clínicos das neurofibromatoses .. 1 Capítulo 2 Manifestações clínicas das crises de epilepsia focal e suas correlações neuroanatômicas .................................................................. 8 Capítulo 3 Análise da mortalidade por doenças cerebrovasculares em campinas entre os anos de 2015 e 2019 ................................................ 20 Capítulo 04 Distúrbios do movimento .................................................... 26 Capítulo 05 Discectomia endoscópica lombar: vantagens da técnica minimamente invasiva ............................................................................. 37 Capítulo 06 Neuropatia Periférica Diabética – Uma Revisão da Literatura .................................................................................................................. 46 Capítulo 07 Resultados da estimulação transcraniana em paciente com doenças neuropsiquiátricas, como Parkinson, TDAH e depressão ..... 60 Capítulo 08 tratamento da afasia pós AVC ............................................ 70 Capítulo 09 Doenças neurodegenerativas, importância do diagnóstico precoce no tratamento, uma revisão literária expositiva ...................... 79 Capítulo 10 Inovações terapêuticas na Doença de Alzheimer ............. 85 Capítulo 11 Diastematomielia ................................................................. 92 Capítulo 12 Hematomas intracranianos: aspectos anatomo-clínicos . 98 Capítulo 13 Síndrome de Fahr e suas diversas apresentações: uma comparação entre casos clínicos ..........................................................111 Capítulo 14 Transtorno do Espectro Autista(TEA) ...............................119 1 Capítulo 1 ENTENDENDO OS ASPECTOS CLÍNICOS DAS NEUROFIBROMATOSES Palavras-chave: Neurofibromatoses; Genética; Sinais e Sintomas CAPÍTULO 01 ENTENDENDO OS ASPECTOS CLÍNICOS DAS NEUROFIBROMATOSES RÉGIA NUNES DE QUEIROZ1 TAINÁ RODRIGUES TOQUETON2 ISABELLA KAROLINE SOUSA MORAES3 CAMILA FARIA AMORIM3 ISABELA PANTALEÃO MENDONÇA SOUZA3 CAROLINE CAETANO ROSA ABREU3 ANA CAMILA DA SILVA RAMALDES4 MIRELLY KAROLINE CUNHA5 EDIVALDO BEZERRA MENDES FILHO6 ÉRICA OLIVEIRA ALVES7 NATHAN COLOMBO ALVES7 STACY JOCELYN ECHEVERRIA QUINTANA8 LUCAS LEANDRO BRITO LACERDA9 ÍTALO DANTAS RODRIGUES10 ELÍZIA REGINA AMANCIO MEDRADO DE ALMEIDA10 1. Discente – Medicina pela Instituição de ensino e campus: Faculdade Instituto Master Ensino Presidente Antônio Carlos, campus Itumbiara. 2. Discente – Medicina pela Universidade Cidade de São Paulo, campus Pinheiros 3. Discente – Medicina pela Instituição de ensino e campus: Faculdade Instituto Master Ensino Presidente Antônio Carlos, campus Araguari. 4. Discente – Medicina pela Universidade de Gurupi, campus II 5. Discente – Medicina pelo Instituto Tocantinense Presidente Antônio Carlos 6. Discente – Doutorado em Inovação Terapêutica pela Universidade Federal de Pernambuco 7. Discente – Medicina pela Universidade de Dracena 8.Graduado(a) – Medicina pela Universidade de los Llanos Centrales Rômulo Gallegos, Venezuela 9. Discente – Medicina pelo Centro Universitário CESMAC 10. Discente – Medicina pelo Centro Universitário Tiradentes, campus Amélia Maria Uchoa PALAVRAS-CHAVE: Neurofibromatoses; Genética; Sinais e Sintomas. 2 INTRODUÇÃO As neurofibromatoses são doenças hereditárias (50% dos casos) ou espontâneas (responsável pelos outros 50%), autossômicas dominantes, de evolução progressiva e imprevisível, que propicia o surgimento de múltiplos tumores benignos no sistema nervoso. As neurofibromatoses são caracterizadas também como neurodermatoses já que, as alterações nervosas, provocam também modificações cutâneas, como manchas, sardas axilares, nódulos cutâneos e subcutâneos (MURINELLO et al., 2012). Existem vários tipos de neurofibromatoses, sendo os três principais: neurofibromatose tipo 1 (NF1), neurofibromatose tipo 2 (NF2) e Schwannomatose. Essas podem ser hereditárias ou espontânea, caracterizada por seu caráter autossômico dominante e desenvolver progressivo e imprevisível (MURINELLO et al., 2012). Neurofibromatose tipo 1 A NF1 também conhecida como neurofibromatose de von Recklinghausen ou NF periférica,início na infância ou adolescência, se tornando estável por volta da quarta década de vida (KLINGELFUS et al., 2020). É uma doença rara, normalmente descoberta na infância, inicialmente acometendo membros inferiores, através de alguns sinais como marcha atípica, aumento dos reflexos, pé equinovaro e quedas frequentes. Além disso, ao longo de sua evolução, pode acometer os membros superiores e a coluna vertebral com tremor postural e escoliose respectivamente (KLINGELFUS et al., 2020). Diferentemente da idade adulta, em que o parkinsonismo pode ser o principal ou o único sintoma dessa síndrome, na infância, a DRD pode se apresentar clinicamente semelhante a paralisia cerebral atípica. Como consequência disso, cerca de 24% dos pacientes com DRD são diagnosticados equivocadamente com paralisia cerebral (JAN, 2004). O tratamento atual para DRD tem sido o uso de Levodopa, sendo inicialmente responsivo a baixas doses, aumentando a dosagem com avanço da idade e evolução dos sintomas. ESTEREOTIPIAS Tiques e Síndrome de Tourette A palavra Tique deriva do francês tic e originalmente era usada para se referir ao “momento convulsivo do cavalo com a garganta”, a qual foi, após alguns anos, transformada para se designar a trejeitos motores. Segundo a Classificação Internacional das doenças (CID-10) tique pode ser definido como a contração de certos músculos de forma breve, rápida e recorrente. Geralmente, não é realizado de forma proposital e pode envolver a face, cordas vocais, pescoço ou até as extremidades, sendo essas últimas menos frequentes. Como subclassificação dos tiques, encontra-se a Doença de Gilles de lá Tourette (F95.2) ou Tiques Vocais e Motores Múltiplos. Dessa forma, os tiques motores podem afetar apenas um grupo muscular o comprometendo múltiplos grupos musculares coordenadamente (como por exemplo, saltar, fungar, bater com a cabeça ou movimentos de imitação). Já os tiques sensoriais são compostos de sensações desagradáveis. Ainda, existem os tiques vocais que, assim como os motores, também podem ser simples o complexos. Os tiques, diferente de estereotipias, podem ser interrompidos voluntariamente por um curto período de tempo mas, logo em seguida, há o impulso iminente de expressá-los (HAUSER & JOSEPHSON, 2012) Quanto a etimologia, os tiques tendem a surgir na infância até a adolescência, tendo como a idade média de 7 anos. Podem se atenuar ou desaparecer no avançar da idade. Os pacientes podem apresentar transtornos comportamentais, como déficit de atenção, ansiedade, TDAH, TOC e dificuldade de socialização. Como já abordado, a síndrome de Gilles de la Tourette, nome dado em homenagem ao autor da descrição e mais conhecida como Síndrome de Tourette, é um transtorno neurocomportamental que abrange tiques múltiplos. Os tiques vão desde a abalos breves e simples a um padrão complexo de movimentos involuntários, podendo surgir como consequência de uma atividade normal e frequentemente têm como consequência uma 30 sensação desagradável que é aliviada pelo movimento. Os tiques podem variar de clônicos (contrações rápidas) a distônicos (contrações prolongadas). Esses últimos devem ser diferenciados da distonia de torção primária. A Coreia de Sydenham diferencia-se por apresentar um padrão de movimentos inquietos e contínuos, e é autolimitada. (ROWLAND, 2018). Seus critérios diagnósticos para diferenciar- se de outros tiques, incluem: A. Múltiplos tiques motores e vocais B. Os tiques ocorrem muitas vezes/dias, quase todos os dias, há mais de 1 ano, sem nenhuma remissão por mais de 3 meses. C. Angústia ou alteração no funcionamento social ou ocupacional D. Início antes da idade de 18 anos E. Nenhuma outra causa direta, como medicações ou transtornos neurodegenerativos Fisiopatologia A Síndrome de Tourette (ST) é o transtorno de tiques melhor descrito e abordado. A fisiopatologia ainda não é bem estabelecida, sendo a herança genética a hipótese mais forte da atualidade, embora os achados genéticos específicos não tenham sido reproduzidos para a comprovação da mesma (ROWLAND, 2018). Estudos recentes demonstraram que a herança genética da ST é demasiadamente complexa, com a possível característica de ser semidominante, semirecessivo e de penetração maior em homozigotos. No estudo anatômico, por meio de exames de imagem (ressonância magnética) e necropsia, foi constatado redução de núcleos da base, além de alterações do córtex motor primário, pré-motor e decréscimo da quantidade de interneurônios GABA na região do núcleo da base (HAUSER & JOSEPHSON, 2012). Tratamento De maneira objetiva, o tratamento da ST deve ser direcionado de acordo com as alterações específicas de cada paciente e o grau de comprometimento em seu dia a dia. Os tiques podem não ser tão relevantes quanto outras comorbidades psiquiátricas associadas, como o TDAH, TOC, depressão e ansiedade, como mencionado anteriormente. Entretanto, quando instaurado o tratamento tem por ponto principal reduzir os tiques para um nível aceitável dos mesmo. À não identificação leva prejuízo ao dia a dia ou emocional do paciente, pode se utilizar somente da instrução ao paciente e familiares com orientações gerais, sem a necessidade de tratamento farmacológico. Já em casos em que os tiques causam comprometimento em qualquer um dos aspectos da qualidade de vida do paciente, a introdução da terapia farmacológica está indicada para melhor prognóstico (ROWLAND, 2018). A Tabela 4.1 demostra os principais fármacos utilizados para a supressão e/ou controle dos tiques no paciente portador da ST e comorbidades associadas. A classe do medicamento de primeira escolha é a dos 𝛂- agonistas, sendo a clonidina seu principal representante. A clonidina é, geralmente, o fármaco de primeira escolha com a sua prescrição em doses baixas para posterior gradual elevação da mesma - recomendado doses iniciais de 0,1 mg/dia até 0,3mg/dia. Quando não efetivo o tratamento com a classe dos 𝛂-agonistas, podemos utilizar medicamentos antipsicóticos. Considerando como principais efeitos adversos dessa classe, os efeitos extrapiramidais, os neurolépticos atípicos são preferíveis para o tratamento - risperidona, ziprasidona e olanzapina (ROWLAND, 2018). 31 A utilização de neurolépticos clássicos em doses baixas também pode ser considerada, se as classes anteriores não forem efetivas ao tratamento. Os principais são haloperidol, pimozida, flufenazina (HAUSER & JOSEPHSON, 2012) As comorbidades (depressão, TOC, ansiedade e TDAH) associadas com a ST necessitam de abordagem específica e podem apresentar melhora efetiva com a associação de terapia comportamental, terapia farmacológica e psicoterapia. Em casos mais avançados e tiques intratáveis, a cirurgia para estimulação cerebral profunda pode ser utilizada. Em contrapartida, paciente com tiques localizados em um grupo muscular específico podem se beneficiar da utilização da toxina botulínica (ROWLAND, 2018). Tabela 4.1 Medicamentos utilizados no tratamento da ST e doenças comórbidas associadas. Fonte: Adaptada ROWLAND, 2018. 32 COREIA Coreias são alterações classificadas em síndrome de movimentos irregulares, abruptos, involuntários e excessivos, com contrações musculares que iniciam em um músculo e terminam em outra parte, este se assemelha a agitação e inquietação injúrias dos núcleos de base, especificamente na via indireta, onde ocorre inibição de contrações musculares e iniciação de movimentos (JOY, 2011). Coreia de SYDENHAM A coreia de Syndenham (CS) é definida como um distúrbio neurológico caracterizado pela manifestação de movimentos involuntários e incessantes de face, tronco e membros superiores e/ou inferiores. Apresentacomo fator de piora situações estressantes e, como fator de melhora, o sono. A CS possui um início insidioso marcado pela ocorrência de sintomas como astenia e labilidade emocional. É evidente uma piora progressiva destes, os quais comumente passam a ser acompanhados de disartria, ataxia, hipotonia e dificuldade de escrita. Ademais, manifestações neuropsiquiátricas como tiques e transtorno obsessivo compulsivo podem estar presentes. Estudos sugerem que a ocorrência de CS na infância ou adolescência pode corroborar o desenvolvimento de distúrbios psiquiátricos na vida adulta, como distúrbios obsessivo- compulsivos, depressão, tiques e dificuldade de concentração (COUTO, 2015). As idades em que comumente se iniciam a CS são de 5 a 15 anos e as mulheres são mais afetadas do que os homens. Ela geralmente se desenvolve de 4 a 8 semanas após uma faringite estreptocócica beta-hemolítica do grupo A. Normalmente, a coreia em CS é generalizada, mas a hemicoreia ocorre em cerca de 25% dos pacientes (DEAN & CANTOR, 2017). A CS é a expressão neurológica da febre reumática aguda. Apesar da incidência decrescente dessa febre em todo o mundo, continua a ser a causa mais comum de coreia aguda em crianças. Acredita-se que a patogênese envolva anticorpos induzidos por estreptococos que reagem de forma cruzada com antígenos dos gânglios da base. O diagnóstico é feito em bases puramente clínicas, uma vez que não há marcador biológico da doença (CARDOSO et al., 2011). A CS é a causa mais comum de coreia em países em desenvolvimento. É uma doença tradicionalmente considerada como autolimitada com remissão espontânea após 6 a 9 meses. Não obstante, há um número considerável de indivíduos que apresentam permanência no seguimento de longo prazo -o qual dura mais de 2 anos sendo denominado CS persistente, de modo a manifestar danos irreversíveis nos gânglios da base durante a fase aguda da doença ou resposta imune patológica sustentada (TORRES et al., 2016). Tratamento As vias do tratamento são: o uso de drogas que aumentam os níveis de GABA (neurotransmissor inibitório) nos núcleos da base, como o ácido valproico; o uso de drogas que depletam ou antagonizam a dopamina (neurotransmissor monoaminérgico) nos núcleos da base, como o haloperidol, a clorpromazina, a pimozida e a carbamazepina; drogas que diminuem o processo inflamatório cerebral, como a prednisona, ou a realização de plasmaférese, o qual consiste em um procedimento que objetiva a filtração do sangue. Além disso, cabe ressaltar a importância da profilaxia de novos surtos de infecção por 33 estreptococos a partir da prescrição de antibióticos adequados (CARDOSO et al., 2011). Nesse sentido, verifica-se que o haloperidol é um neuroléptico que bloqueia os receptores dopaminérgicos. É usado há muitos anos para o tratamento de CS e, por muito tempo, foi considerado eficaz a partir da diminuição notória dos sintomas. Entretanto, diversos são os efeitos colaterais provocados, como distonias, vômitos, discinesias, hipersonia e alterações comportamentais. Nesse viés, o medicamento primozida tem sido mais recomendado, visto que promove menos efeitos indesejáveis e diminui consideravelmente os riscos de desenvolvimento de discinesia tardia. Já a carbamazepina tem um mecanismo de funcionamento semelhante ao do haloperidol, pois também atua bloqueando os receptores pós- sinápticos do neurotransmissor dopamina. Já o ácido valproico age suprimindo os movimentos coreicos a partir do aumento da atividade do neurotransmissor inibitório GABA (COUTO, 2015). Apesar dos pacientes geralmente não terem uma infecção ativa no momento do aparecimento da coreia, a maioria das recomendações de tratamento publicadas inclui um curso de 10 dias de penicilina oral ou uma dose única intramuscular de penicilina no momento do diagnóstico de CS. Na literatura revisada, apenas 4 artigos (11 pacientes) relataram resultados de cultura de garganta no momento do diagnóstico (5 positivos e 6 negativos) (DEAN & CANTOR, 2017). Coreia de Huntington A Coreia de Huntington ou Doença de Huntington (DH) é uma doença neurodegenerativa, com ocorrência distúrbio psiquiátrico, comportamental e demencial. Inicial. Os sintomas começam na faixa etária 30-50 anos, não sendo regra, ocorrendo casos precoce. Sendo a coreia a manifestação primária da patologia. A evolução clínica da DH é descrita em 3 fases segundo Caron e colaboradores (2020), pré-sintomática, prodrômica e manifestação. Fase pré-sintomática :o paciente está assintomático, não manifestando sinais e sintomas das alterações patológicas. A evolução para a próxima fase poderá levar cerca de 30-50 anos, entrando na fase prodrômica. Fase prodrômica: começam de forma débil as alterações motoras (coreias), depressão, cognitiva e personalidade (CARON et al., 2020). A ocorrência dessa fase precede em 15- 20 anos da manifestação da doença. Fase Manifesta: sinais/sintomas clínicos motores e/ou cognitivos que tenham impacto na vida, com: queda na capacidade funcional total, com pontuação motora acima 3, alterações cognitivas e alterações progressivas da doença. Tratamento Não há cura, somente tratamento sintomático para síndromes motoras, neuropsíquicas, cognitivas, a seguir serão descritos de modo breve. Desordens motoras: inicialmente a Coreia prevalece, com a evolução do quadro nota-se rigidez e a bradicinesia. A classe dos neurolépticos: Haloperidol Flufenazina,Risperidona,tiotixeno e Tioridazina.os neurolépticos são prescritos somente para coreia ,na ausência da mesma ,não há motivos para sua prescrição. A classe dos benzodiazepínicos: clonazepam, diazepam. Agentes de depleção de dopamina: reserpina e a tetrabenazina. 34 Todo medicamento tem efeitos colaterais devendo o médico se atentar a isso ao prescrevê- los (MCCOLGAN & TABRIZI, 2017). Rigidez, espasmo e distonia prescreve-se benzodiazepínicos; tizanidina a exemplo clonidina é usado nos espasmos. Bradicinesia e a rigidez indica amantadine e levodopa/carbidopa. Para desordens neuropsiquiátricas: antidepressivos (Os Inibidores Selectivos da Recaptação da Serotonina - ISRS), Drogas antipsicóticas e estabilizadores do humor, a indicação dependerá do grau de manifestação do paciente (GIL et al., 2011; KUMAR et al., 2020). MIOCLONIAS Mioclonia benigna infantil precoce A mioclonia benigna infantil precoce ou da primeira infância, é uma rara condição caracterizada por espasmos não epilépticos que se assemelham muito com espasmos epilépticos da síndrome de West (PACHATZ et al., 2022). Geralmente essa mioclonia atinge os primeiros anos de infância, ante do primeiro ano de idade e são autolimitadas. Essa mioclonia foi descrita pela primeira vez por Natalio Fejerman em 1976, portanto muito conhecida como Mioclonia de Fejerman. No entanto, esse quadro difere da West pela ausência de comprometimento mental e psicomotor, além de ter EEG (eletroencefalograma) normal e regular durante a vigília e o sono. O diagnóstico diferencial inclui todas as doenças não epilépticas com movimentos anormais durante o primeiro ano de vida. (BERNARDINA, 2009; DRAVET et al., 1986, PACHATZ et al., 2022). Os episódios são caracterizados por movimentos repetitivos do pescoço ou dos músculos superiores que realizam a flexão ou rotação abrupta da cabeça e extensão com abdução dos membros, sem alteração da consciência. Pode também ocasionar de forma com queda da cabeça ou redução do tronco como atonia epiléptica. Essas crises duram cerca de 3 a 4 minutos, variando com a intensidade de cada crise e manifestação dos músculos axiais (DRAVET et al., 1986). Para caráter diagnóstico, observa-se a falta da estereótipo do espasmo infantil, que seria a periodicidaderegular, não vista na mioclonia da primeira infância (DRAVET et al., 1986). Além disso, sua relação com o estado de alerta, excitação, início, desenvolvimento psicomotor, sono e EEG, são os principais critérios semiológicos para elucidar um caso semelhante a espasmos infantis epilépticos. Portanto, devido grande semelhança com outras síndromes, nota-se a necessidade de uma boa história clínica para afastar diagnósticos diferenciais (PACHATZ et al., 2022). Mioclonia neonatal benigna A mioclonia neonatal benigna é um distúrbio no qual ocorrem abalos mioclônicos repetitivos na criança durante o sono não-REM (Non-rapid Eye Movement), de maneira especial em seus membros superiores, podendo acometer outras áreas do corpo (MENEZES, 2002; JOHN & PATNAIK, 2006, MAURER et al., 2010). A condição é considerada benigna pois se cessa geralmente por volta dos três meses de idade, sem causar sequelas para o neonato, além de ser caracterizada pela normalidade na eletroencefalografia ou em outros exames laboratoriais (MAURER et al., 2010). Sua apresentação clínica ocorre apenas durante períodos de sono, se encerrando quando o paciente retorna à vigília, durando cerca de alguns segundos em sua maioria, há a possibilidade de que alterações transitórias no neurotransmissor serotonina possam causar tal 35 distúrbio, ademais possui história familiar positiva para parentes próximos (MENEZES, 2002; JOHN & PATNAIK, 2006). Pode ser mal diagnosticada como uma crise epiléptica, contudo durante o uso de medicações anticonvulsivantes, suas manifestações podem sofrer alterações ou até mesmo se exacerbarem (MENEZES, 2002; JOHN & PATNAIK, 2006), sendo que a mioclonia benigna infantil precoce seu principal diagnóstico diferencial (JOHN & PATNAIK, 2006). Importante ressaltar que a mioclonia se apresenta com movimentos repetitivos, com origem que pode variar entre focal, multifocal ou generalizada, sendo simétrica, síncrona, e de acometimento mais distal dos membros (MAURER et al., 2010). Por se tratar de um quadro benigno, que não leva à alterações no neurodesenvolvimento e se interrompe de modo espontâneo, não há recomendação para a realização de uma terapia de tratamento específica, apenas o auxílio de um médico que realize o acompanhamento desse distúrbio (MENEZES, 2002; JOHN & PATNAIK, 2006; MAURER et al., 2010). CONCLUSÃO Existem vários distúrbios do movimento, tanto hipo quanto hipercinéticos, com apresentação clínica diversas, sendo o passo inicial do diagnóstico, classificar o distúrbio em uma das duas categorias. No diagnóstico evidencia-se a importância de uma boa anamnese e exames físico e neurológico, a fim de caracterizar o distúrbio e seu padrão de acometimento; com início dos sintomas, se houve alteração deles, se é bi ou unilateral, presente em extremidades ou geral, se predomina membros inferiores ou superiores, se foi precedido por algum quadro infeccioso, se já houve casos na família similares e outras alterações associadas. É importante observar também os fatores de melhora e piora, como sono e situações estressantes, presença de hiper ou hiporreflexia, se o movimento tem relação ou não com intenção, a frequência com que ocorre, se gera limitações nas atividades cotidianas, dentre outros fatores. O tratamento vai variar de acordo com o distúrbio diagnosticado, porém de forma geral, vai desde a psicoterapia à farmacoterapia, e, em alguns casos, a cirurgia para estimulação cerebral profunda pode ser uma opção, caso o distúrbio seja refratário aos tratamentos anteriores. Ademais, frequentemente se têm transtornos psiquiátricos associados à esses distúrbios, como TDAH, TAG, Transtorno Depressivo e TOC, sendo necessário o tratamento voltado à tais comorbidades, quando presentes. Por fim, vale ressaltar que, em muitos casos, a cura não é possível e o tratamento tem por objetivo melhorar a qualidade de vida do paciente e diminuir suas limitações. 36 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BERNARDINA, B. D. 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CAPÍTULO 05 DISCECTOMIA ENDOSCÓPICA LOMBAR: VANTAGENS DA TÉCNICA MINIMAMENTE INVASIVA ANA CLARA CORREA LANGHI¹ GIULIANO DE LIMA CAPOBIANCO1 SABRINA LETÍCIA FERREIRA NETO2 LARISSA ALVES FERNANDES3 CAMILA ARAN DE MEDEIROS4 BIANCA MACIEL TORRES SIMÕES4 FERNANDA PEIXE DE OLIVEIRA2 JÉSSICA ALESSANDRA CRUZ DOS SANTOS5 SÉRGIO AUGUSTO DUTRA DA CONCEIÇÃO6 LUCAS SILVA DURÃO7 MARIA JÚLIA DE CARVALHO PELLEGRINELLI8 MARIA ANGÉLICA OTERO DE MELO DOS REIS2 1. Discente – Medicina Universidade do Oeste Paulista. 2. Discente – Medicina da Universidad Nacional do Rosário. 3. Discente – Medicina da Universidad Nacional de La Plata. 4. Discente – Medicina do Centro Universitário – UNIFACIMED. 5. Discente – Medicina do Centro Universitário Fametro. 6. Discente – Medicina da Universidade UniEvangélica de Goiás. 7. Discente – Medicina do Centro Universitário do Espírito Santo. 8. Discente – Medicina da Faculdade São Leopoldo Mandic. PALAVRAS-CHAVE: Nervo ciático; Hérnia discal lombar; Discetomia. 38 INTRODUÇÃO Uma queixa muito comum na rotina do cirurgião de coluna é a dor ciática. Seu tratamento cirúrgico tem apresentado diversas inovações nos últimos anos (SEBBEN et al., 2017). Dentre as técnicas cirúrgicas, a considerada referência atualmente é a microdiscectomia lombar aberta (MLA), amplamente utilizada por apresentar bons resultados clínicos. Porém a discectomia endoscópica lombar percutânea (DELP), surge como uma nova técnica cirúrgica, destacando- se por diversos pontos fortes em relação a demais abordagens cirúrgicas do quadro (KIM et al., 2018). Esta técnica inovadora apresenta vantagens como a possibilidade de sua realização sob anestesia local, preservação das estruturas para- espinhais, e dor pós-operatória mínima. Além disso, a melhora álgica e funcional dos pacientes que foram submetidos a cirurgia com técnicas DELP também são superiores (APRILE et al., 2020). Porém, a mesma também apresenta suas desvantagens, sendo a mais recorrente a remoção insuficiente do disco e uma alta taxa de recorrência das hérnias de disco lombares (HDL). Tal situação evidencia a necessidade de desenvolvimento de competências essenciais para a execução eficaz do procedimento (KIM et al., 2020). Avaliando fatores como segurança, efetividade a médio e longo prazo, e menor agressão aos tecidos, evidências indicam a DELP em detrimento ao tratamento padrão para hérnia discal lombar sem instabilidade através de MDA (APRILE et al., 2020). As indicações DELP se disseminaram além da HDL para casos de tumor metastático lombar, estenose espinhal lombar, cisto discal lombar e HDL recorrente. Entretanto, as complicações relacionadas à cirurgia estão ocorrendo mais frequentemente com a popularização da técnica. Tais complicações incluem ruptura dural, infecção intervertebral, quebra de fio-guia e recorrência da hérnia de disco lombar (PAN et al., 2020). O objetivo do presente estudo foi investigar a produção científica atual com a finalidade de avaliar se o tratamento cirúrgico para hérnia de disco lombar pela técnica de discectomia endoscópica oferece um bom prognóstico e vantagens em relação às demais técnicas cirúrgicas convencionais. MÉTODO O presente estudo se trata de uma Revisão Bibliográfica Narrativa realizada entre os meses de julho e agosto de 2022. Para o levantamento de informações na literatura, as bases de dados utilizadas foram Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), PubMed e Scientific Electronic Library Online (Scielo), e aplicado os seguintes Descritores em Ciências da Saúde em combinação: "Percutaneous Endoscopic Lumbar Discectomy", "Neurosurgery", "Prognosis", "Lumbar Intervertebral Disc Displacement" e "Lumbar Intervertebral Herniation". Foram selecionados artigos publicados nos idiomas Inglês, Espanhol e Português. O filtro utilizado nas bases de dados foi a data de publicação de 5 anos, obtendo como resultado estudos publicados entre 2017 a 2022. Os critérios de inclusão foram preferência por artigos com estudos originais e revisões sistemáticas. Não foram considerados estudos que não fossem as temáticas propostas para esta pesquisa após a leitura de títulos e resumos, artigos duplicados, disponibilizados na forma de resumo e que não atendiam aos demais critérios de inclusão. Após a seleção foram incluídos 15 artigos que foram submetidos à leitura minuciosa para 39 a coleta de dados. Os resultados foram apresentados de forma descritiva, divididos em categorias temáticas abordando a discussão a respeito da fisiopatologia das hérnias de disco lombares e sobre o seu tratamento por meio da discectomia endoscópica lombar percutânea, definindo a indicação, vantagens e desvantagens ao comparar com as técnicas invasivas convencionais já descritas na literatura. RESULTADOS E DISCUSSÃO A hérnia de disco lombar é uma das doenças degenerativas da coluna vertebral mais comum na atualidade, causando dores lombares baixas e ciáticas, e sendo a principal causadora de dores nas pernas e cintura. Grande parte das pessoas que sofrem com esse tipo de patologia, chegam a apresentar dificuldades em atividades laborais e na vida de modo geral (ZHANG et al.,2018). A mesma está caracterizada pelo deslocamento do núcleo pulposo para além dos limites do espaço do disco. Como resultado, isso causa intensa dor na região lombar, assim como mudanças na força, reflexos e sensibilidades do paciente (GUARESCHI et al.,2021). Segundo Guscha et al. (2018), a hérnia de disco é bastante frequente, chegando a ser de 13 a 40% das pessoas ao decorrer da vida, tendo um pico de incidência entre os 50 e 60 anos de idade. Os tratamentos conservadores, incluindo medicações, podem reduzir os sintomas clínicos na maioria dos pacientes com hérnia de disco lombar. Em alguns casos, os sintomas podem persistir ocasionalmente mesmo após os tratamentos conservadores, sendo assim consideradas diferentes abordagens cirúrgicas para o tratamento do quadro (KANNO et al.,2019). Nesse âmbito, segundo Ren e colaboradores (2020), nos casos em que necessita realizar a discectomia, se mostra necessário priorizar a reparação da estrutura anular, para assim evitar a recorrência do problema e manter a altura do disco intervertebral. O fechamento do ânulo fibroso diminui a ação dos fatores inflamatórios lançados sobre o disco e a consequente estimulação das raízes nervosas diminuídas. Para a realização da remoção do disco intervertebral foram desenvolvidas várias técnicas cirúrgicas que evoluíram com o tempo e melhoraram o índice de sucesso da cirurgia. Dentre as diversas técnicas as mais comuns são: discectomia aberta convencional; discectomia microendoscópica (DME); e discectomia endoscópica percutânea (DEP), podendo ser transforaminal (TF) e intralaminar (IL) (KANNOet al., 2019). Discectomia Endoscópica Percutânea e outras técnicas A DEP é uma abordagem cirúrgica, feito de forma endoscópica, onde os fragmentos de disco são removidos através do neuroforame, com o paciente sob uso de anestesia local (YUN et al., 2020) Segundo Pan et al. (2020), para há algumas indicações para se realizar a cirurgia de discectomia endoscópica lomba são a estenose lombar, metástases vertebrais lombares, cisto discal lombar e hérnia de disco lombar recorrente. Em pacientes que possuem estenose lombar, o volume do canal espinal ou do forame é diminuído, podendo ocorrer a compressão da medula espinhal ou raiz nervosa que poderá causar dor nas costas, radiculopatia e claudicação intermitente. A estenose possui 3 principais etiologias, que são: a hérnia de disco lombar, os osteófitos das articulações da faceta e a hipertrofia ou ossificação do tecido mole. Além de tais etiologias, a estenose lombar também pode ser classificada em estenose 40 central, estenose do recesso lateral ou estenose do forame (PAN et al., 2020). Nos casos de tumores malignos avançados como câncer de mama, de pulmão, carcinoma de células renais e câncer de próstata podem invadir as vértebras, resultando em dor intratável e fraturas vertebrais patológicas. Além de que, a invasão das vértebras, pode causar uma compressão da medula espinhal e da raiz do nervo. Com isso, para melhorar os sintomas, deve ser realizada a cirurgia para a remoção da massa invasiva, consequentemente descomprimindo a medula (PAN et al., 2020). O cisto discal lombar é um tipo de lesão rara de ocorrer em disco intervertebral e tem como principal sintoma a ciatalgia e dores lombares baixas, diferentemente das doenças típicas degenerativas de disco. Além dos sintomas acima, apresenta também sinais de compressão das raízes nervosas, déficit motor e hipoestesia. Pode ocorrer uma regressão espontânea mas normalmente, os casos são sintomáticos e tratados com cirurgia, especialmente com a discectomia endoscópica percutânea (DEP) (PAN et al., 2020). A hérnia de disco lombar recorrente é caracterizada como uma hérnia de disco que ocorre no mesmo segmento, no período de 6 meses, após a cirurgia. Há alguns fatores de risco para a ocorrência de recidiva mais frequente, que são: sexo masculino, idade acima de 50 anos, hábito de fumar, histórico de trauma espinhal e hérnia de disco lombar central. O tipo cirúrgico mais utilizado também é a DEP lombar (PAN et al., 2020). A discectomia endoscópica percutânea DEP) pode ser feita por meio de duas abordagens, a abordagem transforaminal e a abordagem intralaminar. A abordagem transforaminal (TF) é indicada em casos de hérnia de disco intracanal sem migração em L1- 2 a L4-5 e hérnia de disco fora do canal fora do canal vertebral. Essa abordagem, diferente das outras técnicas, pode ser realizada sob anestesia local. Por segurança com orientação fluoroscópica na posição anteroposterior e lateral é confirmado o nível que irá ser abordado e o local de entrada da agulha de punção (LI et al.,2020). Em seguida uma cânula de 6mm de diâmetro é infiltrada passando pela pele e músculos até ser inserida através do forame por meio da técnica desenvolvida por Hijikata de nucleotomia percutânea com assistência de fluoroscopia para evitar lesões a raiz nervosa (KANNO et al., 2019). Na DEP por meio da Abordagem interlaminar (IL), normalmente é recomendada para hérnias no nível L5-S1 devido ao maior espaço interlaminar. O paciente é submetido a anestesia geral, sendo posicionado em decúbito ventral. Primeiramente ocorre a confirmação por fluoroscopia do nível vertebral que será abordado e determina o melhor ponto de entrada do endoscópio. De acordo Kanno et al., (2019) normalmente o melhor ponto de entrada da cânula localizado na borda medial do pedículo na visão AP e a direção da cânula em direção à placa terminal superior da vértebra S1 na visão lateral. Depois de inserir o endoscópio, vemos o ligamento amarelo, em seguida ele é dividido expondo a gordura epidural. E utilizando de um coagulador bipolar de radiofrequência é retirado a gordura. Ao confirmar a raiz do nervo S1, o endoscópio é inserido no canal espinhal e uma de suas funções será a proteção da raiz do nervo. Dessa forma ocorre a visualização da hérnia de disco e retirada com auxílio de um fórceps (KANNO et al., 2019). De acordo com Fane colaboradores (2021), a DEP transforaminal é uma das técnicas mais utilizadas dentro desta categoria e inicia-se com o paciente em posição pronada, em cima de uma 41 mesa radiolúcida, em seguida ocorre a aplicação da anestesia local, para que os cirurgiões e o paciente possam ter uma comunicação durante toda a cirurgia, em busca de evitar danos a raiz do nervo. Em seguida, os pontos de entradas e de operação são guiados pela fluoroscopia. O cirurgião realiza uma incisão na parte posterior da linha média, normalmente entre 10 a 14 cm da linha média, para iniciar a abordagem transforaminal. Posteriormente, o fio guia vai ser inserido no processo articular superior do segmento alvo, utilizando uma agulha de punção sob orientação fluoroscópica, após a inserção, a abordagem cirúrgica será expandida para 8 mm operando uma cânula côncava. Em seguida, para realizar a foraminoplastia, uma trepana é inserida na cânula, subsequente a cânula de trabalho e o endoscópio também são inseridos na incisão, e para que seja confirmado o local do canal de trabalho é utilizado uma fluoroscopia do arco em C. Após isso, o ligamento amarelo hipertrófico e os elementos ventrais do processo articular superior são removidos usando um rongeur, quando necessário, a trefina é usada para aumentar o forame. Posteriormente, a protrusão do disco é ressecada por inteiro utilizando um rongeur para ocorrer a descompressão ventral. Após todos esses passos, a remoção do disco protruso, as facetas ventrais do SAP e o ligamento amarelo, a raiz do nervo transversal e o saco dural são expostos com mobilidade adequada e bom pulso, sinalizando uma descompressão completa. Quando esse resultado é alcançado, ocorre a irrigação adequada e o tratamento hemostático é efetivo, sendo as feridas cirúrgicas suturas (FAN et al., 2021). É importante observar o tempo de média na duração da operação da DELP, que apresenta um tempo médio de 58 minutos, bem como o tempo de internação com um média de 8,5 horas (FRUCELLA & MALDONADO, 2020). Atualmente existem várias técnicas cirúrgicas, que evoluíram com o tempo e melhoraram o índice de sucesso das cirurgias direcionadas aos quadros mencionados. Dentre as diversas técnicas, as mais comuns são: discectomia aberta convencional; discectomia microendoscópica (DME); e discectomia endoscópica percutânea (DEP), podendo ser transforaminal (TF) e intralaminar (IL) (KANNO et al., 2019). A discectomia convencional registrada pela primeira vez em 1934 por Mixter e Barr e em 1939 por Love, é realizada com o paciente em decúbito ventral com indução de anestesia geral. Durante a diérese ocorre a exposição das lâminas que serão abordadas, sendo efetuado uma laminectomia parcial, utilizando uma pinça de kerrison e/ou uma broca de ar. Nessa técnica ocorre a remoção do ligamento amarelo (ligamentum flavum), diferente das outras técnicas menos invasivas, para confirmar a raiz do nervo, sendo assim retraída medialmente de maneira delicada. Em seguida é cortado o ligamento posterior no ápice da hérnia, sendo assim removendo a massa da hérnia e o disco. Dessa forma, após a discectomia, é necessário a confirmação que a raiz nervosa afetada foi descompactada (KANNO et al., 2019). A DME também é realizada com o paciente sob anestesia geral em decúbito ventral. Uma fluoroscopia geralmente é utilizadapara a confirmação do segmento que será abordado (REN et al.,2020; LI et al.,2020). Na diérese é feita uma incisão longitudinal de cerca de 1,6 cm a 1,8 cm ao lado do processo espinhoso para que seja instalado o sistema endoscópico. Em seguida com a utilização do sistema de vídeo todas as etapas da cirurgia (flavectomia, laminotomia, retração da raiz nervosa e 42 discectomia) são realizadas como na aberta. Essa técnica é recomendada para todas as formas de hérnia de disco (KANNO et al., 2019). Segundo Gadjradj e colaboradores (2021), não há evidência suficiente sobre a diferença na dor nas pernas e no status funcional, no acompanhamento intermediário e a longo prazo, após a realização tanto da DEP quanto da DME. Já os dados sobre a dor nas pernas a curto prazo mostram uma certa heterogeneidade, com resultados expressivamente diferentes entre as duas abordagens. Já em relação a discectomia aberta convencional, foram relatadas mais frequentemente complicações em pacientes que foram submetidos a mesma quando comparado às demais técnicas, embora a incidência de complicações após a discectomia lombar seja baixa. Vantagens e desvantagens, complicações, fatores de risco e prognóstico DEP. As vantagens da discectomia endoscópica lombar percutânea resultam da redução significativa: no retorno aos tempos normais de atividade, na internação por incapacidade temporária e nível de dor nas costas no pós- operatório imediato. Tais reduções favorecem também a diminuição do tempo de reabilitação pós cirurgia (GUSCHA et al., 2018). Além disso, as vantagens mais significativas para serem avaliadas são as relacionadas aos sintomas mais pertinentes ao quadro que originou a necessidade do procedimento, como por exemplo dormência, dores e fraqueza. Têm- se demonstrado que pacientes com hérnia de disco lombar, após a discectomia endoscópica percutânea possuem uma recuperação em maior medida das áreas relacionadas à dor, dormência e fraqueza. Os pacientes indicaram uma um alívio da dor muito significativo no pós operatório, sendo notório que a aplicação da técnica apresenta resultados simultâneos e incisivos no alívio dos sintomas (WANG et al., 2019). Com os avanços na aplicação da DEP é possível analisar as abordagens endoscópicas percutânea transforaminal e interlaminar, que apresentam prognósticos significativos e uma redução da intensidade da dor evidente. Ambos os tipos de cirurgia obtiveram melhora na funcionalidade e questões como menor agressão aos tecidos, demonstram evidências suficientes sobre a segurança da DEP quando comparada com outras técnicas, embora a mesma não seja considerada definitivamente superior (APRILE et al., 2020). É válido ressaltar que a maioria dos pacientes também recebem alta dentro de um período médio de até 6 horas após a cirurgia, sem reinternações relatadas, sem sangramentos agravantes, ou lesões neurológicas. A utilização da técnica lhe permite uma melhora progressiva sem incidência de complicações secundárias, sejam elas infecção, lesão na medula, perda do líquido cefalorraquidiano, dano a raiz nervosa, e anomalias sensoriais e na maioria dos casos e, em alguns casos existe a possibilidade de sua realização com a utilização de anestesia local (CASTILHO et al., 2022). Além disso, a conservação das estruturas espinais, acompanhado de alta em um tempo significativamente rápido, deixa evidente o avanço na recuperação frente a dor, complicações, sangramentos, e tempo de internação (APRILE et al., 2020). Uma desvantagem importante desse procedimento seria a falta de radicalidade suficiente devido à ossificação da hérnia e/ou anatomia complicada do forame intervertebral (CASTILHO et al., 2022). Já de acordo com Fan e colaboradores (2021), foram definidas 43 diversas complicações deste procedimento, incluindo recorrência de estenose espinhal lombar, dor lombossacral persistente, ruptura dural, descompressão incompleta, infecção do sítio cirúrgico, hematoma epidural, e dor cervical posterior intra operatória. Por conta disso, foi visto que idade avançada, grau grave de degeneração discal em nível cirúrgico e mais níveis de degeneração discal estão correlacionados com a incidência dessas complicações. Algumas outras possíveis complicações encontradas são: disestesia pós- operatória, reoperação e quebra de instrumento durante o procedimento (PAN et al., 2020). Pacientes que apresentaram reherniação não tiveram déficit neurológico (APRILE et al., 2020). Desvantagens como a reinternação, a continuidade na intensidade da dor e déficit radicular oriundo da cirurgia também foram relatados (FRUCELLA & MALDONADO, 2020). Apesar da presença de complicações nesse procedimento, ele se mostra um dos melhores, se não o melhor meio de tratamento para pessoas com hérnia de disco principalmente para pacientes com hérnia de disco com apresentação antero e retro espondilolistese com leve grau de deslizamento e instabilidade (YUN et al.,2020). Após a realização da discectomia endoscópica lombar, é notório a melhora dos sintomas dos pacientes com hérnia de disco lombar. Entretanto, apesar da grande melhora, a recuperação biomecânica da coluna do paciente é complicada, de acordo com Zhang et al., (2018). Pesquisadores demonstraram que o exercício funcional é fundamental no pós- operatório, uma vez que sua falta faz com que os músculos tenham pior resposta capilar, causando insuficiência de suprimento sanguíneo na zona da operação. Como consequência, os músculos acumulam uma grande quantidade de ácido lático, gerando edema e dor. Logo, se torna indispensável o exercício funcional para a recuperação desses pacientes para evitar a recorrência da hérnia de disco lombar e melhorar sua recuperação (ZHANG et al., 2018). CONCLUSÃO O presente estudo buscava explorar as diferentes técnicas convencionais indicadas para o tratamento de quadros de afetação discal lombar, comparadas com a DELP, em prol de destacar suas indicações, vantagens e desvantagens. A hérnia de disco lombar é uma condição na qual nem todos os pacientes precisam ser operados e nos casos onde é necessário o tratamento cirúrgico se apresentam várias técnicas distintas. A análise da literatura permitiu concluir que a evolução das técnicas ao longo do tempo, levou a um aumento no índice de sucesso nas cirurgias, e que a DELP mesmo não sendo considerada absolutamente superior quando se trata na total recuperação da dor em relação às demais técnicas utilizadas atualmente, apresenta resultados simultâneos em relação à elas em diversos fatores. A conservação das estruturas espinais, acompanhado de alta em um tempo significativamente rápido, deixa evidente um considerável avanço na recuperação do paciente, diminuindo também o risco de complicações, sangramentos, e também do tempo de internação. Em vista da precocidade desta técnica e a presença de análises contrapostas em relação à efetividade de sua abordagem, se faz necessário a realização de estudos e ensaios clínicos com grandes amostras e populações que permitam analisar especificamente o pós operatório em uma janela de acompanhamento ampla, permitindo, através de tais conhecimentos um aprimoramento da 44 técnica maximizando sua efetividade e prognóstico para os pacientes submetidos à mesma. 45 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS APRILE, B. C. et al. Evolução funcional após discectomia endoscópica lombar, uma avaliação mais precoce de 32 casos. Revista Brasileira de Ortopedia, v. 55, p. 415-418, 2020. CASTILHO, C. A. G. et al. 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Eur Rev Med Pharmacol Sci, v. 22, n. 1 Suppl, p. 15-22, 2018. 46 Capítulo 06 Neuropatia Periférica Diabética – Uma Revisão da Literatura Palavras-chave: Diabetes; Neurologia; Nervo periférico; Dor. CAPÍTULO 06 NEUROPATIA PERIFÉRICA DIABÉTICA – UMA REVISÃO DA LITERATURA ANA MARIA PORTO CORTINES LAXE MARTINS DA SILVA¹ CAIO ARAUJO DE SOUZA¹ ESTHER SERMAN CASTRO E SILVA¹ FELIPPE JORGE BRUCE LAGES¹ JÚLIA DE SOUZA CASTRO¹ LEONAM DE FREITAS AZEVEDO LOUREIRO¹ LEONARDO PEREIRA LEVADA¹ LUCAS SERRA SANT’ANNA¹ MARIANA LETÍCIA DE BASTOS MAXIMIANO¹ PEDRO EDUARDO VIANA DE SOUSA DUTRA¹ CAMILA CASTELO BRANCO PUPE2 1. Discente – Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense. 2. Docente – Departamento de Neurologia da Universidade Federal Fluminense. PALAVRAS-CHAVE: Diabetes; Neurologia; Nervo periférico; Dor. 47 INTRODUÇÃO A diabetes mellitus (DM) é a etiologia mais comum de polineuropatia na prática clínica (ROPPER & VICTOR, 2021), resultando em aproximadamente 50% dos pacientes diabéticos com algum grau de dano em nervos periféricos (ZILLIOX, 2021). Dentre as manifestações possíveis estão: polineuropatia simétrica distal, neuropatia autonômica, radiculoplexopatias e mononeuropatias (JENSEN et al., 2021). Nesse contexto, a Neuropatia Diabética (ND) ainda representa um enorme desafio para médicos e sistemas de saúde ao redor do mundo devido ao seu subdiagnóstico, aos altos custos relacionados ao tratamento e à abordagem multidisciplinar necessária para um manejo eficaz (CARMICHAEL et al., 2021). Embora a ND seja frequentemente assintomática durante os estágios iniciais, uma vez que os sintomas e os déficits evidentes tenham se desenvolvido, os mesmos não podem ser revertidos. Nesse sentido, o diagnóstico precoce e a intervenção oportuna mostram-se como essenciais para prevenir o desenvolvimento e a progressão da doença (CARMICHAEL et al., 2021). O objetivo deste estudo foi realizar uma revisão da literatura que pudesse reunir o que há de mais recente e relevante sobre prevenção, identificação, diagnóstico e manejo clínico do paciente com Neuropatia Periférica Diabética. MÉTODO O capítulo propõe uma revisão da literatura no que tange ao manejo clínico dos pacientes com neuropatia periférica diabética . Desse modo, foi realizado um levantamento dos artigos publicados em inglês na plataforma Publish Medical Literature Analysis and Retrievel System Online (PubMed) nos últimos 2 anos (2020-2022). Utilizou-se as palavras- chave em inglês "Diabetes Mellitus" e "Peripheral Nervous System Diseases" como fonte de busca no PubMed. Dos 202 artigos encontrados, 22 foram selecionados, pois compreendiam os seguintes critérios de inclusão: artigos de revisão, meta-análise e guidelines. Foram excluídos os artigos que não compreendiam ao tema proposto para o capítulo, trabalhos que não realizaram estudos em humanos e que estavam em outros idiomas que não o inglês. O livro-texto "Principles of Neurology - Adams and Victor's" (2021) e os artigos “Comparison of amitriptyline supplemented with pregabalin, pregabalin supplemented with amitriptyline, and duloxetine supplemented with pregabalin for the treatment of diabetic peripheral neuropathic pain (OPTION-DM): a multicentre, double- blind, randomised crossover trial” (2022), “The Effectiveness of Topical Cannabidiol Oil in Symptomatic Relief of Peripheral Neuropathy of the Lower Extremities” (2020) e “Efficacy of Inhaled Cannabis on Painful Diabetic Neuropathy” (2015) foram utilizados como fonte adicional de pesquisa. Os resultados foram apresentados de forma descritiva divididos em Epidemiologia, Fatores de Risco, Fisio- patologia, Diagnóstico e Tratamento. RESULTADOS E DISCUSSÃO Epidemiologia A Diabetes Mellitus é uma doença endócrina que afetou 5-15% da população mundial em 2020 (LEE et al., 2020), e cerca de 20%, em 2022 (PATHAK et al., 2022). Dos indivíduos que convivem com DM, 15% apresentam sinais e sintomas de polineuropatia e 50% apresentam anor- malidades na condução nervosa (ROPPER & VICTOR, 2021). Estes valores podem chegar até 70 a 90% da população (YU, 2021), pois são inerentemente dependentes do teste de detecção 48 utilizado e das características genéticas e socioculturais dos indivíduos estudados (SLOAN et al., 2021). Ademais, a Neuropatia Diabética Dolorosa, caracterizada por dor intensa nas extremidades, manifesta-se em cerca de 20% dos pacientes com Polineuropatia Diabética, impactando fortemente a qualidade de vida e as atividades diárias deste grupo (ZILLIOX, 2021). Fatores de risco Os fatores de risco para o desenvolvimento da Neuropatia Diabética (ND) são bem fundamentados em diversos estudos trans- versais e prospectivos (SLOAN et al., 2021). Portanto, torna-se essencial o conhecimento de tais fatores para a prevenção e entendimento da doença. A Síndrome Metabólica (incluindo as variáveis hipertensão, hiperlipidemia, circun- ferência abdominal aumentada e obesidade) é cada vez mais relacionada ao surgimento da Neuropatia Diabética, e é encarada como uma variável independente para o surgimento desta complicação (ZILLIOX,2021; SLOAN et al., 2021). Por outro lado, a duração e a gravidade do estado hiperglicêmico também constituem variáveis importantes, principalmente no contexto da Diabetes Mellitus tipo 1 (DM1) (ZILLIOX, 2021). No que tange à duração, a ND é mais frequente após 25 anos do diagnóstico de DM, sendo pouco frequente em pacientes menores de 30 anos e rara em crianças (ROPPER & VICTOR, 2021). Já em relação à gravidade, estudos estimam que o aumento de 1% na dosagem de Hemoglobina Glicosilada (HbA1c) resulta em um crescimento de 10% na prevalência de ND (SLOAN et al., 2021). Portanto, hábitos de vida pouco saudáveis (como a alimentação rica em carboidrato e o sedentarismo), além de idade avançada e inadequado controle glicêmico são, de um modo geral, marcos decisivos no surgimento da Polineuropatia Diabética. Outros dois fatores de risco que podem ser citados são o tabagismo, que é um fator independente para o surgimento da ND, es- pecialmente na Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) (ZILLIOX, 2021; SLOAN et al., 2021), e o polimorfismo genético, que vem sendo ob- servado em diversas evidências preliminares (SLOAN et al., 2021). Fisiopatologia Até o momento, não há um modelo único que consiga explicar a patogenia da ND. Porém, a maioria dos autores concorda que a hiperglicemia relacionada com estresse oxi- dativo, respostas inflamatórias crônicas, produtos finais de glicosilação avançada, do- ença microvascular (tal qual também acontece na patogenia da retinopatia diabética e da nefropatia diabética), disfunção mitocondrial, entre outros diversos mecanismos, estão relacionados com o aparecimento da neuropatia (SLOAN et al., 2021; AGHAMIRI et al., 2022). Além disso, existem diferenças entre os tipos de diabetes, já que a hiperglicemia parece ter maior influência sobre o surgimento da ND na DM1 quando comparada a DM2 (SLOAN et al., 2021). Ademais, há muitos outros fatores que foram propostos, mas necessitam de uma investigação mais aprofundada, como a epi- genética e a modulação do sistema nervoso central nas neuropatias dolorosas (SLOAN et al., 2021). Fisiologicamente, a glicólise tem como principal objetivo produzir piruvato. Contudo, em um contexto hiperglicêmico, como acontece na DM descontrolada, pode haver um desvio pa- 49 ra vias alternativas patológicas: 1. A via do poliol leva à produção de sorbitol e frutose, que, através da inibição do transporte de mio-inositol (ROPPER & VICTOR, 2021) e outros mecanismos, inibe o transportador sódio- potássio-ATPase, comprometendo a conduti- bilidade axonal e a fisiologia neuronal (SLOAN et al., 2021). 2. A frutose-6-fosfato pode ser redire- cionada para a produção de uridina difosfato N- acetilglucosamina através da via da hexosamina, alterando a expressão genética e as funções proteicas, que, em última instância, levam ao dano microvascular, inflamação e estresse oxidativo (SLOAN et al., 2021). 3. O gliceraldeído-3-fosfato pode ser des- viado para duas possíveis vias: 1) A via dos produtos finais de glicosilação avançada (PFGA), que em última análise leva ao dano dos axônios, das células de Schwann e da microvasculatura (SLOAN et al., 2021) através de mecanismos similares aos mencionados anteriormente; 2) A via da Proteína Quinase C, que culmina causando a redução do fluxo sanguíneo aos nervos (PANG et al., 2020). Além dessas vias específicas, o dano mitocondrial e a inflamação também estão no cerne da fisiopatologia da ND, e são especificamente ligados à dor. Os PFGA podem promover alterações na mitocôndria e comprometer a produção de ATP, levando à formação de um ambiente mais ácido no nervo e, portanto, à ativação de nociceptores (TESFAYE et al., 2022). Por outro lado, a inflamação leva à maior produção dos PFGA, ao dano de células β-pancreáticas (AGHAMIRI et al., 2022), à lesão da vasa nervorum, entre outros efeitos agressores. É importante ressaltar que alterações no Sistema Nervoso Central (SNC) não podem ser negligenciadas, uma vez que estão relacionadas ao mecanismo da dor. Alguns estudos sugerem que, ao nível da medula espinhal, em resposta ao peróxido de hidrogênio, há uma diminuição da recaptação de glutamato nas vias noci- ceptivas, ao mesmo tempo que interneurônios inibitórios gabaérgicos ficam disfuncionais pela exposição a espécies reativas de oxigênio (presentes em maior quantidade na ND), como radicais livres. Os dois fenômenos levam ao reforço do estímulo doloroso. Ainda, células gliais respondem ao estresse oxidativo com inflamação, tornando o ciclo autoperpetuante e intensificando os mecanismos de reforço da dor supracitados (TESFAYE et al., 2022). Além disso, alterações no córtex somatosensorial e no tálamo têm sido encontradas tanto em pacientes com ND dolorosa quanto com ND não dolorosa (SLOAN et al., 2021). Por fim, vale ressaltar que o papel do Sistema Nervoso Central na fisiopatologia ainda carece de estudos mais aprofundados. Ademais, como mostraremos a seguir, a ausência de uma intervenção farmacológica embasada nesses mecanismos fisiopatológicos demonstra o quanto ainda há muito a se estudar e entender sobre a Neuropatia Diabética. Diante do exposto, surge um grande interesse em encontrar biomarcadores eficientes e potenciais formas de intervenção terapêutica. DIAGNÓSTICO Critérios diagnósticos atuais • Classificação da neuropatia diabética A Neuropatia Diabética inclui todas as condições, oriundas da hiperglicemia crônica, que levam à lesão do sistema nervoso periférico. A classificação é dada de acordo com o local da lesão nervosa, sendo que a Polineuropatia Simétrica Distal (PSD), a Mononeuropatia e a Radiculopatia Lombar, Truncal e Cervical são 50 as manifestações mais comumente citadas (YU, 2021). • Escalas de pontuação Existem diversos sistemas de pontuação disponíveis para avaliação da Neuropatia Diabética, podendo envolver escores de sintomas, de sinais ou de ambos. Tais sistemas contribuem na melhoria da precisão diagnóstica, são convenientes, de fácil interpretação e realização, tornando-os uma ferramenta útil no apoio à tomada de decisões (CARMICHAEL et al., 2021). O Neurological Symptom Score (NSS) é um escore de rastreio da Neuropatia Diabética composto por 17 perguntas. Ele avalia, em forma de entrevista, as funções sensitiva, motora e autonômica. Porém, devido ao seu longo tempo de aplicação, não é muito eficiente para a prática clínica. O Diabetic Neuropathy Symptom Score (DNSS), uma adaptação do NSS, é um método de rastreio mais rápido, com apenas quatro perguntas, oferecendo uma moderada sensibilidade (79%) e especificidade (78%). Entretanto, o DNSS possui uma redução discreta da confiabilidade diagnóstica quando comparado ao NSS (CARMICHAEL et al., 2021). Ademais, outros sistemas de pontuação de sintomas concentram-se na dor e na diferenciação entre neuropatia diabética e outras neuropatias. O questionário de dor McGill, por exemplo, uma das escalas multidimensionais da dor mais utilizadas globalmente, foi o primeiro projetado para avaliar a gravidade/intensidade, impacto emocional e significância da dor para o paciente (CARMICHAEL et al., 2021). O Neuropathy Disability Score (NDS) é um dos métodos que utilizam o exame clínico para identificar sinais de neuropatia. Neste escore de trinta e cinco itens, são avaliados lesões de nervos cranianos, redução da força muscular, perda de sensibilidade e redução de reflexos. Entretanto, devido a algumas limitações e por ser um teste extenso, criou-se uma versão revisada do NDS. Dessa forma, o NDS revisado é mais comumente usado e testa quatro principais sinais de neuropatia em ambos os membros inferiores: 1) Reflexo do tendão Aquileu; 2) Sensibilidade vibratória; 3) Sensibilidade dolorosa e; 4)Sensibilidade térmica. A pontuação máxima do teste, obtida pela soma dos pontos obtidos em cada item, é 10 (CARMICHAEL et al., 2021). A classificação de severidade é dada como a seguir: 1. Testes com resultado final de 3 a 5 são classificados como neuropatia leve; 2. Testes com resultado final de 6 a 8 são classificados como neuropatia moderada e; 3. Testes com resultado final maior que 8 são classificados como neuropatia grave. Vale ressaltar que a sensibilidade diagnóstica de testes que avaliam apenas sinais ou apenas sintomas é baixa. A combinação de ambos permite uma avaliação mais completa e sensível. Neste sentido, diversos escores avaliam conjuntamente os sinais e sintomas de Neuropatia Diabética para produzir uma pontuação composta, como o Toronto Clinical Neuropathy Score (TCNS) e o Michigan Neuropathy Screening Instrument (MNSI). O TCNS consiste na Avaliação dos sintomas, dos reflexos e da sensibilidade. A pontuação máxima é de dezenove pontos, sendo o teste capaz de estratificar os pacientes em: 1) Sem Neuropatia Diabética; 2) Neuropatia Diabética Leve; 3) Neuropatia Diabética Moderada e; 4) Neuropatia Diabética Grave. O MNSI é composto por um questionário em forma de entrevista e um exame físico do pé. Neste escore, a ND já pode ser diagnosticada https://www.zotero.org/google-docs/?cRl0av https://www.zotero.org/google-docs/?cRl0av 51 quando obtém-se sete ou mais respostas positivas no questionário de sintomas. O exame físico do pé abrange a ectoscopia, o reflexo Aquileu e o teste de sensibilidade vibratória com o diapasão de 128 Hz (CARMICHAEL et al., 2021). • Avaliação De maneira geral, a Neuropatia Diabética é definida como sinais e/ou sintomas de disfunção nervosa periférica em pessoas com diabetes, após exclusão de outras causas (CARMICHAEL et al., 2021). Dessa forma, a avaliação neurológica básica deve compreender a anamnese detalhada, a inspeção dos pés e o exame neurológico com instrumentos semi- quantitativos simples à beira do leito (ZIEGLER et al., 2021). A American Diabetes Association (ADA) e o International Working Group on the Diabetic Foot (IWGDF) recomendam exames neu- rológicos regulares de pacientes com Diabetes Mellitus, a fim de realizar o diagnóstico precoce da ND e identificar indivíduos em risco de desenvolvimento desta complicação. Assim, é possível abordar ou prevenir precocemente as úlceras associadas à Neuropatia Diabética (CARMICHAEL et al., 2021). Nesse contexto, vale ressaltar que a ND é o fator de risco inicial mais importante para o desenvolvimento de úlcera neuropática na região do pé (Pé Diabético). A dormência resultante da neu- ropatia faz com que tais úlceras permaneçam indetectáveis por longos períodos, o que explica o atraso na abordagem terapêutica dessas lesões. Uma vez não abordada precocemente, a lesão ulcerada no pé pode evoluir, levando a danos teciduais irreversíveis, amputação do membro acometido e significativa morbimortalidade (CARMICHAEL et al., 2021). O início do rastreio neurológico de ND depende do tipo de Diabetes: na DM2, recomenda-se que todos os pacientes sejam avaliados no momento do diagnóstico, enquanto que na DM1 o rastreamento deve começar cinco anos após o diagnóstico e, em seguida, manter- se anualmente (CARMICHAEL et al., 2021). A avaliação neurológica deve detectar eventuais sinais e sintomas sugestivos, além do estudo da condução nervosa (ECN) (YU, 2021). Os testes de rastreio tradicionais se beneficiam por serem rápidos e fáceis, no entanto, avaliam apenas a função das fibras nervosas grossas e são menos eficazes na detecção de alterações precoces nas fibras nervosas finas (CARMICHAEL et al., 2021). O Estudo de Condução Nervosa surge como uma das técnicas padrão-ouro para o diagnóstico de ND, avaliando a ocorrência e o desen- volvimento da doença, além de detectar a capacidade do nervo periférico de transmitir sinais elétricos (YU, 2021). O Consenso de Toronto propôs que a associação de um ECN anormal com um sinal/sintoma característico é suficiente para o diagnóstico de Neuropatia Diabética. Entretanto, a necessidade de exami- nadores e equipamentos especializados torna o ECN inadequado como teste de rastreio, sendo usado apenas para confirmar casos em que se há dúvida sobre o diagnóstico de Neuropatia Diabética (CARMICHAEL et al., 2021). Testes diagnósticos da neuropatia diabética • Testes não invasivos Existe uma variedade de testes não invasivos que podem ser realizados a nível ambulatorial, dentre os quais se destacam o teste de monofilamento de 10 g de quatro sítios, o teste do reflexo Aquileu e o teste do limiar da 52 sensibilidade vibratória (MCILLHATTON et al., 2021). O Teste Quantitativo de Sensibilidade (TQS) avalia a resposta provocada por estímulos mecânicos e térmicos controlados e geram resultados objetivos. Os resultados encontrados são, por fim, comparados aos valores de referência em pacientes sem diagnóstico de ND. É importante citar que o déficit sensitivo do paciente com ND frequentemente se inicia a partir de alterações na sensibilidade térmica e, por isso, o TQS mostra-se importante para o acompanhamento e rastreio de pacientes diabéticos. Entretanto, apesar do TQS permitir a detecção da ND ainda em estado subclínico, ele enfrenta alguns obstáculos - como variabilidade de reprodução e equipamentos de alto custo -, não sendo adequado como método diagnóstico isolado (PATHAK et al., 2022). A Eletroneuromiografia (ENMG) pode contribuir na investigação da ND de forma objetiva e quantificável, porém é limitada ao passo que se mostra mais sensível a alterações em fibras nervosas grossas, enquanto que na ND as fibras nervosas finas são as primeiras a serem acometidas. Além disso, a ENMG possui alto custo associado e a necessidade de um examinador qualificado para a realização do exame (PATHAK et al., 2022). A Microscopia Corneal Confocal (MCC) é um método rápido, não invasivo e com alta resolução, baseado na avaliação morfológica e microscópica das fibras nervosas finas da córnea, que podem estar degeneradas e reduzidas no processo de instalação da Neuro- patia Diabética, Figura 6.1 (PETROPOULOS et al., 2021). O exame se baseia no fato das fibras corneanas serem estruturalmente e funcio- nalmente semelhantes às fibras nervosas intraepidérmicas, avaliadas no diagnóstico da ND por biópsia de pele (discutido a seguir). Portanto, a MCC se revela como um forte candidato a biomarcador precoce, com sem- sibilidade e especificidade, respectivamente, de 0,82 e 0,52 para o diagnóstico de ND e de 0,71 e 0,64 para o diagnóstico de pacientes com risco aumentado de desenvolvimento de úlceras neuropáticas (PETROPOULOS et al., 2021). 53 Figura 6.1 Imagem de Microscopia Corneal Confocal do plexo nervoso sub-basal, mostrando uma progressiva redução na inervação da córnea Legenda: Indivíduo Controle (A); Paciente com Neuropatia Diabética Leve (B); Paciente com Neuropatia Diabética Moderada (C); Paciente com Neuropatia Diabética Grave (D); Fibras nervosas principais da córnea (setas vermelhas); Ramos nervosos da córnea (setas amarelas). Fonte: Petropoulos et al., 2021. • Teste invasivos Dentre os testes invasivos, a biópsia de pele se destaca como a ferramenta mais estudada e utilizada, principalmente em países desen- volvidos. Esta consiste em uma técnica capaz de quantificar a densidade de fibras nervosas intraepidérmicas (DFNIE) de forma superficial, sendo possível detectar danos às fibras finas precocemente (RØIKJER et al., 2021). Como exposto por Jensen e colaboradores (2021), a Federação Europeia de Sociedades Neurológicas e a Peripheral Nerve Society definiram diretrizes no uso da biópsia de pele para o diagnóstico da ND. Neste âmbito,recomenda-se fazer um punch de 3 mm da porção distal da perna, entre 7 e 10 cm acima do maléolo lateral, e comparar os valores de DFNIE encontrados com os valores de referência normativos, de acordo com idade e sexo. Uma biópsia opcional pode ser feita na coxa distal lateral, entre 7 e 10 cm acima do joelho, ou na coxa proximal lateral, entre 7 e 10 cm abaixo do trocânter maior. Para calcular o DFNIE, deve-se identificar, por meio de microscópio, o número de fibras intra- epidérmicas dispostas perpendicularmente por milímetro cúbico. Para isso, utiliza-se marcador pan-axonal não específico que fornece colo- ração imunoquímica às fibras nervosas, o PGP 9,5 (OH, 2020). 54 A biópsia de pele, portanto, é capaz de detectar neuropatias de fibras nervosas finas e suas vantagens abrangem o fato de ser um método quantificável, com boa sensibilidade e boa reprodutibilidade. Contudo, é um teste dispendioso, que exige equipamentos sofis- ticados e equipes especializadas, pode causar feridas e infecções no local da biópsia e, além disso, consegue apenas descrever a morfologia das fibras nervosas e não sua a funcionalidade (RØIKJER et al., 2021). Diagnóstico Diferencial Diversas outras causas explicam o surgimento de doenças do nervo periférico. A consideração do diagnóstico diferencial é importante para que, ao avaliar os sinais e sintomas do paciente, o médico seja capaz de apontar se a doença possui etiologia diabética ou não, essencial para definição do tratamento. Os diagnósticos diferenciais da neuropatia diabética mais comuns encontrados na prática clínica são as neuropatias causadas por abuso de álcool, por uremia, por hipotireoidismo, por gamopatia monoclonal, por deficiência de vitamina B12, por toxicidade após uso de drogas neurotóxicas (como alguns quimioterápicos), por neuropatias autoimunes (como a polirradiculoneuropatia inflamatória desmie- linizante crônica - PIDC), por amiloidose, por síndromes paraneoplásicas, dentre outras. (ZIEGLER et al., 2021). Assim, conforme descrevem Callaghan et al., (2020) e Ziegler et al., (2021), para a correta classificação da neuropatia como Neuropatia Diabética, primeiramente, deve-se realizar testes que comprovem a existência da diabetes, tais quais a dosagem dos níveis séricos de HbA1c e a glicemia de jejum. Posteriormente, deve-se excluir outras causas de neuropatia por meio: 1) Da dosagem sanguínea de vitamina B12, eGFR, TSH e enzimas hepáticas; 2) Da eletroforese de proteínas séricas; 3) Do levantamento do histórico familiar do paciente a respeito de neuropatias não diabéticas e; 4) Do rastreio de abuso de álcool. TRATAMENTO O manejo da Neuropatia Diabética é normalmente limitado devido às incertezas sobre a fisiopatologia da doença. Entretanto, existem três aspectos importantes no tratamento desta comorbidade, estes incluindo tratamentos farmacológicos e não farmacológicos, são eles: 1) O manejo ideal da diabetes, abordando modificação do estilo de vida, controle glicêmico e intervenção multifatorial (dieta, exercícios físicos, cessação do tabagismo); 2) A farmacoterapia direcionada e; 3) O alívio sintomático da dor. As abordagens medicamentosas costumam ser opções com efeito terapêutico restrito e com possíveis efeitos colaterais, por vezes, limitantes (ZIEGLER et al., 2021). Portanto, o quadro clínico geral do paciente deve ser analisado a fim de que a conduta escolhida seja individualizada e represente o mais adequado para cada necessidade do paciente. Atualmente, não há nenhum tratamento modificador de doença para a Neuropatia Diabética aprovado pelo Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos ou a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) (ZIEGLER et al., 2021). Dados do Diabetes Control and Complications Trial (DCCT) e do Epidemiology of Diabetes Interventions and Complications (EDIC) mostram que a melhora da glicemia é a única conduta comprovada para prevenir ou impedir a progressão da neuropatia em pacientes com DM1, mesmo em casos graves. Porém, em casos de DM2, a otimização do controle glicêmico não demonstrou um 55 grande efeito sobre redução de perda axonal e nenhum benefício na melhora da condução nervosa, apresentando, inclusive aumento de mortalidade e episódios de hipoglicemia em pacientes com controle rígido e intenso da glicose sanguínea. (AZMI et al., 2021). O estudo “Look Ahead” mostrou que a intervenção intensiva no estilo de vida com dieta e exercício físico resultou na melhoria da Neuropatia Diabética (STINO et al., 2020), uma vez que a redução do peso pode modular a resistência à insulina e reverter a progressão da Neuropatia (AZMI et al., 2021). No presente momento, há poucas evidências sobre o efeito da cirurgia metabólica na Neuropatia Diabética já estabelecida. (NEFF & LE ROUX, 2020). Contudo, os dados existentes demonstram que tal procedimento cirúrgico está relacionado à menor chance de desenvolver neuropatia diabética e à menor mortalidade. (AZMI et al., 2021). Cabe ressaltar que a cirurgia, às vezes, pode ocasionar um quadro de neuropatia aguda induzida por tratamento, provavelmente estando associada a redução abrupta da hemoglobina glicada, somada a deficiências de micronutrientes, como a vitamina B12 e B1 (NEFF & LE ROUX, 2020). A identificação de pacientes com Neuropatia Diabética Dolorosa é fundamental para indicar tratamentos que gerem mais resultados a esse grupo (JENSEN et al., 2021). É válido destacar que um tratamento eficiente deve sempre analisar a balança entre o alívio da dor e os efeitos adversos da terapêutica, buscando determinar um cenário favorável ao paciente (ZIEGLER et al., 2021). Neste sentido, entre os agentes farmacológicos, a duloxetina e a pregabalina são consideradas as primeiras e as principais opções de tratamento para os sintomas da dor relacionada à Neuropatia Diabética, sendo aprovadas pela US Food and Drug Administration (FDA). A duloxetina é um fármaco oral da classe dos inibidores duplos de recaptação de serotonina e norepinefrina, sendo a dose preconizada de 60 a 120 mg/dia (RASTOGI & JUDE, 2021). Já a pregabalina é um medicamento oral da classe dos gabapentinoides que apresenta como dose preconizada 100 a 600 mg/dia (AZMI et al., 2021). Além destes, a amitriptilina, outro agente farmacológico muito usado na prática médica, é um medicamento oral da classe dos antidepressivos tricíclicos que apresenta como dose preconizada 10 a 25 mg/dia. Entretanto, apesar da duloxetina, da pregabalina e da amitriptilina apresentarem evidências significativas acerca de suas eficácias, quando prescritas na rotina médica de forma isolada, demonstraram, no melhor dos cenários, redução de apenas 50% da dor em menos da metade dos pacientes, às custas de um maior risco de surgimento de efeitos colaterais. Neste sentido, o estudo “OPTIMAL-DM” demonstrou que a utilização de um tratamento combinado desses fármacos comparado à monoterapia foi bem tolerado e apresentou resultados significativamente melhores no alívio da dor (TESFAYE et al., 2022). Os tratamentos tópicos, como a capsaicina e a lidocaína, demonstraram ser razoavelmente efetivos no alívio da dor, podendo ser indicados quando o paciente não consegue tolerar as terapias convencionais (RASTOGI & JUDE, 2021; AZMI et al., 2021). Analgésicos simples, como o ibuprofeno e o paracetamol, não são considerados medi- camentos adequados para o tratamento da condição, visto que os possíveis efeitos adversos podem superar seus potenciais benefícios (ZIEGLER et al., 2021). 56 Ademais, a suplementação de vitamina B12 nesses pacientes provou-se efetiva em reduzir a intensidade da dor (ZIEGLER et al., 2021). Deve-se ressaltar que, uma vez que não existe uma farmacoterapia totalmenteteve a comprovação como distúrbio genético dominante, depois de um mapeamento gênico seguido de estudos, descobriu-se ainda que a desordem genética estaria localizada no braço longo do cromossomo 17, banda 11, sub banda 3 (17q11.2), como observado na Figura 1.1, chegando a afetar 350Kb de DNA e 51 éxons. A mutação no gene provoca uma alteração na síntese da proteína Neurofibrina (GTPase), cuja função é acionar a guanosina (fosfatase GAPs), responsável por atenuar os chamados p21–ras, que são proto-oncogenes celulares, ou seja, a proteína neurofibrina é essencial para regular o crescimento das células (SILVA et al., 2016). Figura 1.1 Cromossomo 17 Fonte:http://www.cytocell.com/probes/117- neurofibromatosis-type-1>, acesso em: 22/05/2018. Assim, ao estabelecer uma disfunção gênica na formação desta proteína, levará a uma patologia de cunho genético, a qual acarretará num crescimento celular anômalo, na maioria dos casos em células nervosas, propiciando o surgimento de tumores. Em algumas pesquisas indica-se a produção desta proteína em: neurônios, células de Schwann e oligodendrócitos (SILVA et al., 2016). Manifestações Clínicas da NF1 NF1 apresenta-se sob vários quadros clínicos desde mais leves até́ mais graves e em casos mais raros levar à morte. As crianças e adolescentes são os alvos, geralmente, mais afetados. As principais manifestações, apresentadas em cerca de 90% dos portadores da doença são: manchas café́ com leite, nódulos de Lisch e neurofibroma. Porém, outros sintomas podem estar presentes (Figura 1.2), como: efélides inguinais e axilares, neurofibroma plexiforme, glioma óptico, alterações ósseas e endócrinas, do sistema nervoso central e dificuldades de cognição e aprendizado (MARQUES & VERONEZ, 2015; SILVA et al., 2016). 3 Figura 1.2 Manifestações clínicas NF Legenda: A) 6 ou mais MCL (maior que 5 mm antes da puberdade e do que 15 mm depois da puberdade); B) Efélides axilares ou inguinais; C) 2 ou mais Nódulos de Lisch no exame oftalmológico; D) Displasia da asa menor do esfenoide; E) 2 ou mais neurofibromas de qualquer tipo; F) 1 neurofibroma plexiforme; G) Glioma óptico; H) Displasia de ossos longos, como a tíbia, com ou sem pseudoartrose. Fonte: Disponível em: , acesso em: 22/05/1018. Neurofibromatose tipo 2 O gene localizado no cromossomo 22 (22q12.2) (Figura 1.3), está envolvido na etiopatogenia da NF2, também conhecida como NF central, em sua normalidade, esse, atua na produção da proteína merlina, cuja principal função é a contenção tumoral. Assim, quando a mutação o afeta causa um desencadeamento de multiplicação celular, devido a supressão da produção de merlina, ou até mesmo provocando a perda de função dessa (SILVA et al., 2016). A NF2 engloba alguns tipos de neoplasias tumorais, dentre eles o schwannoma, meningioma, ependiomas e gliomas (MARQUES & VERONEZ, 2015; SILVA et al., 2016). Sabe-se que a maioria dos doentes desenvolvem schwannoma bilateral do nervo vestibular superior, e ainda assim, a NF2 apresenta um grau de malignização, menor do que a NF1 (SILVA et al., 2016). Figura 1.3 Cromossomo 22 Fonte: 4 Manifestações Clínicas da NF2 As manifestações clínicas dependem da localização dessas no sistema nervoso central e periférico. No entanto de maneira geral, os sintomas mais comuns e precoces são diminuição auditiva progressiva, acufeno, alterações do equilíbrio, e hipoacúsia inicialmente unilateral, que com sua evolução podem vir se desenvolver surdez bilateral (MARQUES & VERONEZ, 2015; SILVA et al., 2016). Os Schwannomas podem apresentar dois tipos: o vestibular e do forame jugular. O Schwannoma vestibular pode provocar paralisia facial, hidrocefalia e compressão do tronco cerebral. Já o Schwannoma no forame jugular ocasiona disfagia (dificuldade de engolir), disfonia (alteração da voz), pneumonias de aspiração e alterações da motilidade esofágica. Os meningiomas intracranianos dependendo da sua localização, provocam múltiplas alterações neurológicas, como cefaleias, convulsões e parestesias (adormecimento) (MARQUES & VERONEZ, 2015; SILVA et al., 2016). Por sua vez, os Ependiomas, gliomas e neoplasias malignas de baixo grau envolvem sintomas como queixas de mialgias (dor muscular), parestesias, diminuição da força muscular, 60 a 80% apresentam catarata lenticular posterior juvenil subcapsular, além de hamartomas e meningiomas do nervo óptico (MARQUES & VERONEZ, 2015; SILVA et al., 2016). Ao contrário da NF1, cujas principais características são lesões dermatológicas como manchas “café-au-lait” e neurofibromas cutâneos, na NF2 essas manifestações dermatológicas são sutis nesses indivíduos, de forma a não contribuir para o diagnóstico mais precoce da doença (SILVA et al., 2016) (Figura 1.4). 5 Figura 1.4 Comparação entre NF1 e NF2 Fonte: Disponível em: acesso em: 22/05/2018. DIAGNÓSTICO O diagnóstico baseia-se primeiramente na clínica apresentada pelo paciente, uma boa anamnese, avaliando o histórico familiar, e o exame físico são fundamentais. Exames complementares de ressonância magnética ou tomografia computorizada são essenciais em queixas neurológicas, a fim de buscar achados que podem ser condizentes com a doença. Alguns outros exames podem ser solicitados de acordo com a clínica do paciente, são eles: biópsia dos neurofibromas, avaliação oftalmológica, auditiva e radiológica, além de testes moleculares para avaliar mutações cromossômicas (Quadro 1.1) (ASTHAGIRI et al., 2009). 6 Quadro 1.1 Critérios diagnósticos de NF. CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS NF1 DOIS OU MAIS ASPECTOS DEVEM ESTAR PRESENTES PARA FECHAR DIAGNÓSTICO ≥ 6 manchas café com leite, com diâmetro no ponto mais largo de > 5 mm nos pré-púberes e > 15 mm nos pós- púberes; ≥ 2 neurofibromas de qualquer tipo ou 1 neurofibroma plexiforme; Sardas (efélides) nas regiões axilares e inguinais; Glioma óptico; ≥ 2 nódulos de Lisch (hamartomas pigmentados da íris) Uma lesão óssea distinta como pseudoartrose de um osso longo ou displasia da asa do esfenoide; Um parente de primeiro grau com NF 1 que preencha os critérios precedentes. CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS NF2 UM ASPECTO DEVE ESTAR PRESENTE PARA FECHAR DIAGNÓSTICO Massas bilaterais no oitavo par craniano visíveis à TC ou RNM; Pais ou irmãos com neurofibromatose tipo 2 e/ou massa unilateral no oitavo nervo ou qualquer dos seguintes: Neurofibroma, meningioma, glioma, schwannoma ou opacidade lenticular subcapsular posterior juvenil. Fonte: adaptada Disponível em: , acesso em: 22/05/1018. TRATAMENTO É importante ressaltar a diferença entre cura e tratamento, a neurofibromatose, não tem uma cura, ou seja, a não há como acabar de forma definitiva com a doença. No entanto tem-se como melhorar a qualidade de vida da pessoa portadora da doença, com tratamento dos sintomas que a doença acarreta evitando, assim, complicações e aumentando a expectativa de vida do paciente. 7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASTHAGIRI, A. R. et al. Neurofibromatosis type 2. Lancet. v.373, n. 9679, p.1974-86, 2009. MARQUES, M. & VERONEZ, D. Desmistificando a neurofibromatose tipo 1 na infância: artigo de revisão. Rev. Med.,v.2, n.2, p.79-84, 2015. MURINELLO, A. et al. Schwannomatose em mulher d 83 anos de idade. Rev. Port. Ortop. traum. v.20, n.4,satisfatória, abordagens não farmacológicas, tais como acupuntura, suporte psicológico, fisioterapia, neuromodulação e estimulação muscular, mesmo não apresentando grandes evidências de efetividade, devem ser consideradas (ZIEGLER et al., 2021). A estimulação da medula espinhal destaca-se como uma das técnicas mais importantes de neuromodulação da dor, pois gera alterações neuroquímicas locais, levando a uma redução da nocicepção, que pode ser mantida por ao menos seis meses. Porém, esta técnica tem sido associada a eventos adversos, como infecções, que podem culminar em hematomas subdurais e óbitos. A acupuntura, um procedimento minimamente invasivo baseado em conhecimento empírico, comprovou melhora na intensidade da dor, no entanto, de modo menos significativo quando comparada à neuromodulação (LIAMPAS et al., 2020). Desse modo, é importante que os estudos sejam aprimorados nessa temática. Além disso, eletroterapias transcutâneas, como a estimulação neural eletromagnética modulada em frequência (atuantes nas membranas do tecido alvo), comprovaram eficácia, uma vez que houve melhora significativa da dor por ao menos quatro meses e melhora na velocidade de condução nervosa motora, além de aprimorar a qualidade de vida (LIAMPAS et al., 2020). Além das abordagens já esclarecidas, terapias inferenciais, estimulações eletro- magnéticas transcranianas, fotoestimulação e estimulações vibratórias têm se mostrado parcialmente eficazes na redução da dor. Dentre estas, a estimulação magnética transcraniana revelou um efeito mais prolongado, enquanto as outras três evidenciaram uma atuação apenas a curto prazo. Ademais, o neurofeedback inclui- se nesse cenário como uma intervenção de aprendizado, na qual os pacientes objetivam controlar, de maneira consciente, suas ondas cerebrais, visando o alívio doloroso. Estudos mostraram que após 4 meses houve uma potencial redução no escore da dor destes indivíduos, além de evidentes melhoras em outros sintomas neuropáticos, como o formigamento e a dormência (LIAMPAS et al., 2020). Além do supracitado, é válido destacar o uso da cannabis de forma inalada no alívio da dor, já que estudos preliminares sugerem um efeito analgésico dessa planta quando utilizada em pacientes com neuropatia diabética dolorosa. Apesar dos resultados positivos, os efeitos psicotrópicos da cannabis medicinal perma- necem sendo uma preocupação para muitos pacientes e médicos. Neste sentido, o óleo de canabidiol (CBD), além do potencial clínico e terapêutico, possui aplicação transdérmica (supostamente mais eficaz em comparação com os outros métodos de uso), é um canabinóide não psicoativo, sendo metabolizado pelo fígado e excretado pelas fezes, e não apresentou efeitos colaterais significativos no sistema nervoso central e na hemodinâmica dos indivíduos que participaram dos estudos clínicos (WALLACE et al., 2015; XU et al., 2020). Por fim, medidas de consciência e educação são indicadas na prevenção da progressão da doença. Destacam-se: 1) A higienização diária dos pés com água morna e sabão neutro, buscando evitar o aparecimento de bolhas; 2) A hidratação dos pés, exceto entre os dedos; 3) O exame regular em busca de lesões; 4) A realização de visita rotineira ao podólogo e; 5) 57 O uso de sapatos de qualidade visando evitar injúrias (PATHAK et al., 2022). Segue abaixo a Tabela 6.1, que tem como objetivo mostrar dados sobre os principais fármacos e suas respectivas classes para o tratamento da dor advinda da neuropatia diabética. Tabela 6.1 Tabela dos principais fármacos usados para tratamento da neuropatia diabética dolorosa Medicamento Recomendação NICE* Dose recomendada em adultos Principais efeitos adversos Mecanismo de ação Gabapentina (anticonvulsivante) 1-2 300-3600 mg/dia Tonturas, fadiga, sonolência, boca seca, ganho de peso, edema periférico, cefaléia Combinado com canais de cálcio dependentes de voltagem, reduz a liberação sináptica de vários neurotransmissores Pregabalina (anticonvulsivante) 1-2 100-600 mg/dia Sonolência, tonturas, ataxia, fadiga Combinado com canais de cálcio dependentes de voltagem, reduz a liberação sináptica de vários neurotransmissores Duloxetina (ISRSN**) 1-2 60-120 mg/dia Náuseas, sonolência, tonturas, constipação, dispepsia, diarréia, boca seca, anorexia, dor de cabeça, diaforese, insônia, fadiga, diminuição da libido Suprime a recaptação de norepinefrina e serotonina e aumenta a via de inibição negativa Amitriptilina (antidepressivo tricíclico) 1-2 10-25 mg/dia Boca seca, fadiga, dor de cabeça, tontura, insônia, hipotensão ortostática, anorexia, náusea, retenção urinária, constipação, visão turva, distúrbios, midríase, ganho de peso, sonolência Inibição da recaptação de noradrenalina e serotonina Tramadol (opióide) 3 50-400 mg/dia Sonolência, constipação, náusea, vômitos, tontura Inibição da recaptação de noradrenalina e serotonina 58 Capsaicina 8% (analgésico) 3 1-4 adesivos por 30 minutos a cada 3 meses Ardor, eritema, tosse, espirros Anestesia local, afeta a substância pré-sináptica P, um dos neurotransmissores relacionados com a dor Fonte: Adaptado de YANG et al., 2022; AZMI et al., 2021; RASTOGI & JUDE, 2021. *NICE = “The National Institute for Health and Care Excellence”. As recomendações são indicadas como 1 = Primeira escolha, 2 = Segunda escolha, 3 = Terceira escolha. **ISRSN = Inibidores seletivos da recaptação da serotonina e noradrenalina. CONCLUSÃO O estudo da Neuropatia Diabética é fun- damental, visto que é uma doença prevalente e incidente, com tendência de aumento do número de pessoas acometidas anualmente, além de possuir uma fisiopatologia multifatorial e complexa. No que tange a prevenção, o controle glicêmico é mais eficaz em prevenir a DM1, enquanto que o controle do peso, a cessação do tabagismo e o exercício físico destacam-se como medidas de mudança do estilo de vida na prevenção de ambos os tipos de DM. Apesar de existirem diversos sistemas de pontuação utilizados no diagnóstico, muitos deles apresentam baixa a moderada sensibilidade e especificidade e, por isso, dependem da avaliação tanto dos sinais quanto dos sintomas do paciente de forma individualizada, uti- lizando-se testes mais rebuscados, podendo ser invasivos ou não. Dessa forma, demonstra-se a necessidade da criação de escores com maior acurácia. Por fim, ainda que não haja um tratamento farmacológico modificador da neu- ropatia diabética e mais estudos sejam necessários, alguns medicamentos se destacam, como a duloxetina e a pregabalina, além das abordagens não farmacológicas como a acu- puntura e o acompanhamento psicológico para o controle da dor. 59 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGHAMIRI, S. H. et al. Toll-Like Receptors (TLRs) and their potential therapeutic applications in diabetic neuropathy. International immunopharmacology, v. 102, p. 108398, 2022. AZMI, S. et al. State-of-the-art pharmacotherapy for diabetic neuropathy. Expert Opinion on Pharmacotherapy, v. 22, p. 55, 2021. CALLAGHAN, B. C. et al. Diabetic neuropathy: what does the future hold?. Diabetologia, v. 63, n. 5, p. 891, 2020. CARMICHAEL, J. et al. Advances in Screening, Early Diagnosis and Accurate Staging of Diabetic Neuropathy. 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CAPÍTULO 07 RESULTADOS DA ESTIMULAÇÃO TRANSCRANIANA EM PACIENTE COM DOENÇAS NEUROPSIQUIÁTRICAS, COMO PARKINSON, TDAH E DEPRESSÃO BRUANY ANTONIOLLI BIANCHI¹ BRUNA FERREIRA RIBEIRO DA SILVA¹ EMILY SANTOS DA SILVEIRA¹ FELIPE VOGEL¹ GABRIELE PAIVA DA SILVA¹ LAÍS TROVÃO DE CARVALHO¹ LAURA GOMES RUIZ¹ LUCAS NABAHAN BRAGA¹ MARIANA LIMA DE MOURA¹ MARIANA MOREIRA SILVEIRA¹ NICOLI LUSTOSA GONZAGA¹ RICARDO GALHARDONI² TAYNÁ ARIAS ROLIM¹ 1. Discente - Medicina Universidade Anhembi Morumbi 2. Docente – Gerontológo, Cirurgião-dentista, Doutor e Pós-Doutor em Ciências da saúde, área de concentração Neurologia. Fundador do Neuromodulação em Foco. PALAVRAS-CHAVE: Estimulação transcraniana; Depressão clínica; Parkinson. 61 INTRODUÇÃO A neuromodulação abrange uma diversidade de técnicas que contribuem para a plasticidade cerebral (PESENTE et al., 2015). As técnicas de estimulação cerebral não – invasivas são modalidades de intervenção emergentes na prática clínica neuropsiquiátrica. Enquanto isso, os métodos são utilizados amplamente para o estudo do controle motor, da linguagem, visão, e diversos outros distúrbios psiquiátricos (HORDACRE et al., 2017), os mecanismos de ação e as repercussões clínicas dessas técnicas ainda são amplamente estudadas. Essa técnica pode ser dividida em dois grandes braços, o primeiro chamado de Neuromodulação invasiva, realizada através de procedimentos cirúrgicos com a finalidade de implantar dispositivos tanto no sistema nervoso central como periférico, exemplos deste tipo de neuromodulação, é a estimulação cerebral profunda - do inglês: deep brain stimulation (DBS); a estimulação epidural do córtex motor e a estimulação implantada do nervo vago, usadas para tratamento da doença de Parkinson, Dor e Epilepsia respectivamente (GALHARDONI et al., 2015). A técnica de Estimulação Magnética Transcraniana (EMT ou TMS, do inglês Transcranial Magnetic Stimulation) é um método não invasivo de estimulação do córtex cerebral (EDWARDS et al., 2008). Essa técnica foi desenvolvida em 1985 por Anthony Barker baseada no princípio da Lei de Faraday, onde a corrente elétrica induzida é capaz de desencadear um campo magnético que despolariza impulsos nervosos no córtex motor, na medula espinhal, e nervos periféricos e músculos. Em outras palavras, a EMT é capaz de gerar potencial de ação e assim gerar potenciais evocados motores (HUERTA & VOLPE, 2009). O presente estudo tem como objetivo a revisão da literatura existente sobre os resultados da estimulação transcraniana em pacientes com doenças neuropsiquiátricas, como doença de Parkinson, transtorno déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e depressão. Portanto, tenciona-se demonstrar a efetividade, segurança e benefícios da EMT como tratamento de escolha frente a outros métodos terapêuticos não invasivos, já disponíveis. Fundamentos - Fisiologia da EMT A EMT baseia-se no princípio de indução eletromagnética de Faraday de 1831, consiste na passagem de uma corrente elétrica de alta intensidade, geralmente de 1,5 a 3 T, em uma bobina de fio de cobre, que gera um pulso de campo magnético perpendicular (ou ortogonal) ao plano da corrente, capaz de atingir áreas corticais com o posicionamento correto da bobina no escalpo (Figura 7.1) (RAZZA et al., 2021). A corrente resultante tem intensidade suficiente para desencadear potenciais de ação nas regiões estimuladas (PASCUAL-LEONE et al., 2018; HALLETT et al., 2017). 62 Figura 7.1 Ativação neuronal gerada pela estimulação magnética transcraniana Fonte: STAPENHORST et al., 2018. A EMT é capaz de estimular diretamente as corticais do cérebro, assim inibindo ou excitando circuitos neuronais (ALONZO et al., 2016). Estas alterações, provocam mudanças em mecanismos neurofisiológicos e neurobioquímicos de forma não invasiva (PASCUAL-LEONE et al.,2018). Portanto, favorece a despolarização dos neuronal da membrana, ao gerar o campo eletromagnético satisfatório para desencadear potenciais de ação (Figura 7.2). Figura 7.2 Processo de despolarização neuronal que possibilita a transmissão do impulso nervoso Fonte: PESENTE et al., 2015. Deste modo, a plasticidade cortical é influenciada pelas diferentes frequências estimulatórias. As frequências inibitórias - 0.2 a 1 Hz- são capazes de mimetizar os efeitos da depressão de longoprazo, em inglês - long depression term (LDT), enquanto as frequências excitatórias >/=5 Hz, são capazes de gerar po- tenciação de longo prazo, em inglês - long term potentiation (LTP) (HUERTA &VOLPE, 2009; CHEN & UDUPA, 2009). Interessantemente, a corrente induzida quando aplicada no córtex motor primário, é especialmente distribuída nas camadas corticais 3 e 4, o que fala a favor dos efeitos encontrados em regiões distantes do 63 córtex e medula espinhal, devido a ligação destas estruturas com o trato extrapiramidal. Aplicação e diagnósticos Inicialmente, o método de EMT foi utilizado como uma ferramenta diagnóstica em lesões neurológicas. Através de pulsos únicos (EMTp), mensurava-se o tempo de condução motora, desde o estímulo no córtex até a resposta periférica, permitindo, assim, o estudo das interações córtico-corticais. Já a EMT em pulsos pareados é aplicada na conectividade corticocortical e suas interações, sendo possível através dela analisar duas áreas diferentes do cérebro. Ambas as técnicas de Estimulação Magnética Transcraniana (EMTp e EMT) são aplicadas atualmente ao diagnóstico e prognóstico de condições musculoesqueléticas, neuromusculares e cardiorrespiratórias (HENDRICKS et al., 2002). A EMT consiste em um trem de pulsos aplicados em uma área cerebral específica, a qual permite a modulação de forma duradoura da atividade cortical e também a modulação da duração do estímulo (VALERO-CABRÉ et al., 2017; Polania et al., 2018). Tal técnica é capaz de gerar diversos pulsos em diferentes frequências, o que permite o emprego de protocolos estimulatórios e inibitórios que são capazes de induzir modificações duradouras na plasticidade neuronal no córtex. A EMTr (Estimulação magnética transcraniana) é a mais relevante em distúrbios psiquiátricos, como a depressão, pois permite a aplicação de pulsos de diferentes frequências variáveis. Em processos de reabilitação, a EMTr tem sido utilizada em pacientes pós – AVC como uma opção terapêutica de modulação da integração sensório – motora e da reorganização cortical (MACHADO et al., 2011). Portanto, a TMS apresenta significativa capacidade de modulação do funcionamento neurológico, estimulando ou inibindo as atividades cerebrais, e, devido a isso, indivíduos com patologias que são caracterizadas pelos déficits supracitados podem usufruir de grandes benefícios na técnica. Parkinson A doença de Parkinson causa degeneração do sistema nervoso central de forma crônica e progressiva. Sua etiologia consiste na diminuição intensa da produção de dopamina, substância química que ajuda na transmissão de mensagens entre as células nervosas e na realização dos movimentos voluntários do corpo (PUSCHMANN, 2017). TDAH O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) possui sua etiologia baseada em alterações genéticas. Os sintomas geralmente surgem na infância e persistem por toda a vida adulta do indivíduo. A desatenção, inquietude e impulsividade são alguns exemplos de sintomas que caracterizam o transtorno (FECZKO et al., 2018). Depressão Trata-se de um conjunto de condições associadas à elevação ou ao rebaixamento do humor. Evidências mostram alterações químicas no cérebro do indivíduo deprimido, principalmente em relação a neurotransmissores como serotonina, noradrenalina e, em menor proporção, dopamina (PARK et al., 2019). Atualmente, a EMT tem ganhado grande destaque no tratamento de diversas patologias neuropsiquiátricas, como por exemplo, na depressão, transtorno de déficit de atenção e hi- 64 peratividade (TDAH) e na Doença de Parkinson. Por isso, protocolos repetitivos de estimulação transcraniana se tornaram uma opção de tratamento estabelecida e aplicada globalmente. No entanto, mesmo que se mostre eficiente, não se trata de um procedimento comumente utilizado em questões neurológicas, exceto para neurorreabilitação após acidente vascular cerebral (motor) e tratamento de dor neuropática (EDWARDS et al., 2008). A estimulação do córtex pré-frontal provou exercer, em muitos casos, efeitos semelhantes a antidepressivos ou placebos, além de ter se mostrado equivalente ao tratamento farmacológico utilizado como padrão. Ademais, evidências científicas comprovam que mudanças de humor e alterações do movimento podem surgir da mesma área do cérebro (frontoestriatal). A partir disso, permitiu o tratamento concomitante de duas doenças diferentes através da mesma técnica de estimulação cerebral não invasiva (LEFAUCHEUR et al., 2014). MÉTODO Trata-se de uma revisão integrativa da literatura disponível, realizada no segundo semestre de 2022, abordando um recorte cronológico de 2007 até 2022, utilizando como bases de dados: National Library of Medicine and National Institutes of Health (PUBMED) e Scientific Eletronic Library Online (SciELO). Durante a curadoria dos artigos compilados, foram usados os seguintes descritores no PUBMED e SciELO: "estimulação transcraniana", "depressão clínica", "ADHD", "transcranial stimulation", "tDCS", "clinical depression", "TDAH", "parkinson" com o uso dos seguintes operadores booleanos: "AND". Foram incorporados artigos disponíveis nas línguas portuguesa e inglesa, os quais tratavam do tema proposto (Resultados da estimulação transcraniana em pacientes com doenças neurológicas como parkinsonismo, TDAH e depressão), na intenção de que fossem disponibilizados na integra sem restrição de tempo e de forma gratuita. Considera-se para investigação estudos, artigos originais, revisões, ensaios acerca do tema e artigos publicados em periódicos de grande impacto. As pesquisas não consideradas para análise foram aquelas disponibilizadas na forma de resumo, duplicadas e que não discutem o tema. Posteriormente à seleção e análise criteriosas dos artigos disponíveis, quinze documentos foram submetidos a leitura e coleta de informações, minuciosamente, referente ao tema abordado e seus resultados que foram expostos de forma descritiva. RESULTADOS E DISCUSSÃO Estimulação transcraniana em pacientes com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) A estimulação transcraniana em pacientes com TDAH foi analisada como possibilidade de tratamento com quatro formas diferentes de estimulação. Dentre elas, a estimulação transcraniana por corrente contínua se mostrou a mais efetiva, possibilitando um efeito imediato na gravidade dos sintomas do TDAH, principalmente em crianças (BRAUER et al., 2021). Em um estudo com 20 alunos do ensino médio diagnosticados com TDAH, a estimulação transcraniana por corrente contínua catódica se mostrou útil, aumentando a precisão do controle de inibição durante a realização de tarefas, porém não foram observados grandes efeitos em relação à estimulação anódica (SOLTANINEJAD et al., 2019). Contraditoriamente, Breitling et al., (2016) 65 mostrou em seu estudo melhoras na inibição de interferências durante atividades cognitivas nos pacientes com TDAH através do tratamento com a estimulação anódica. (BOETZEL et al., 2021). Enquanto isso, a estimulação transcraniana de ruído aleatório também pode ser considerada uma forma alternativa de tratamento, pois de acordo com o resultado, o sistema nervoso responde ao ruído artificial. Portanto, pode-se melhorar a detecção e discriminação de sinais fracos durante as tarefas visuais, possivelmente trazendo efeitos benéficos para os pacientes com TDAH. Todavia, ainda são necessários mais estudos na área (BOETZEL et al., 2021). A corrente alternada é outra forma de estimulação transcraniana relevante, porque é uma alternativa possível no tratamento de doenças neuropsiquiátricas que apresentam oscilações cerebrais alteradas, como é o caso do TDAH. Estudosevidenciaram efetividade na alteração da percepção, cognição e de oscilações nesses pacientes (FEURRA et al., 2011; LADENBAUER et al., 2016; ANTONENKO et al., 2016; KASTEN & HERRMANN, 2017; BUMKE, C. & VOßKUHLE, 2015; RUHNAU et al., 2016; BEUTNER, E. & ZÄHLE, 2010). Sendo assim, há evidências mais favoráveis à relevância da estimulação transcraniana por corrente contínua catódica como tratamento no TDAH, enquanto persistem contradições relativas à efetividade da terapia com estimulação transcraniana por corrente contínua anódica. Por sua vez, a terapia magnética baseada em corrente alternada também obteve evidências positivas. Já a EMT de ruído aleatório, ainda necessita de elucidações que permitam concluir se esse tipo específico de terapia é realmente benéfico aos pacientes em questão. Estimulação transcraniana em pacientes com depressão Em pacientes com o diagnóstico de depressão em revisão sistemática e meta-análise de literatura datada de 1 de janeiro de 1994 a 20 de novembro de 2014, (HEALTH QUALITY ONTARIO, 2016) vinte e três estudos controle randomizados compararam estimulação transcraniana com placebo, seis estudos randomizados comparados com eletroconvulsoterapia (ECT). A estimulação transcraniana demonstrou melhora estatisticamente e significativamente maior do que nos casos com o tratamento placebo. Apesar disso, a melhora desses pacientes foi menor que o esperado em tratamentos clínicos pré especificados para depressão. Em relação à taxa de remissão ou resposta ao tratamento, houve uma diferença entre o placebo e a estimulação transcraniana de 10%, favorecendo a estimulação transcraniana. O risco relativo para remissão ou resposta com o tratamento via estimulação transcraniana foi de 2,20. Nos seis pacientes da qual foi comparado a estimulação transcraniana e a eletroconvulsoterapia, foi demonstrado uma diferença significativa favorecendo os resultados da ECT. O risco relativo da remissão e resposta ao tratamento da estimulação transcraniana foi de 1,44% comparado com a eletroconvulsoterapia que foi de 1,72, o que demonstra que a opção que trouxe mais resultados remissivos foi a ECT, quando comparada a TMS. Em outra revisão sistemática (DE RISIO et al., 2020), 23 estudos pré-clínicos foram compilados e foi feita a meta-análise com 22 destes. Nestes estudos foram selecionados ratos com estresse induzido que apresentavam depressão e grupos que foram submetidos a esti- 66 mulação transcraniana e outros grupos ao tratamento placebo. Verificadas as diferentes respostas, foram obtidos resultados que demonstraram um grande benefício do uso da estimulação transcraniana comparada ao tratamento placebo, resposta que foi refletida até para o “perfil helplessness”, e o "perfil anedônico” dos sujeitos do estudo, além de melhora em todos os perfis “depressive like”, independente da frequência aplicada na estimulação. É importante lembrar que esses resultados têm pouco valor preditivo para quadros de pacientes com depressão refratária, uma vez que os estudos selecionados foram feitos apenas com modelos sensíveis a antidepressivos. Em suma, os resultados da EMT diante dos quadros de depressão permitem, a princípio, conclusões positivas, uma vez que melhoras com a terapia foram relatadas, comparando-se com o uso de placebo. Ainda há dúvidas, entretanto, quanto à real efetividade, já que resultados também mostraram que, em tratamentos clínicos pré-especificados, a mudança positiva foi menor do que o esperado. Estimulação transcraniana em pacientes com Doença de Parkinson Foram utilizados quatro artigos para a análise da estimulação transcraniana em pacientes com Doença de Parkinson (DP), destes, três foram ensaios clínicos randomizados (BENNINGER et al., 2012; LI et al., 2020; MANENTI et al., 2016) e um foi estudo quasi-experimental do tipo pré-pós intervenção (HADOUSH et al., 2018). Entre os estudos supracitados, dois aplicaram Estimulação Magnética Transcraniana (LI et al., 2020; BENNINGER et al., 2012) e os outros dois utilizaram Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (ETCC) (HADOUSH et al., 2018; MANENTI et al., 2016). Em dois dos estudos, a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT) foi a técnica determinada, cujo local estimulado nos pacientes com parkinsonismo foi o córtex motor primário, com número médio de sessões variando entre 5 a 8 sessões (LI et al., 2020; BENNINGER et al., 2012). Os resultados dos estudos utilizando EMT foram melhorias na qualidade de vida (QV), no qual foi utilizado o Questionário da Doença de Parkinson (PDQ-39) como método de avaliação; redução da gravidade dos sintomas motores, por meio da Escala de Classificação da Doença de Parkinson III (MDS-UPDRS III) (LI et al., 2020); e melhora nas atividades de vida diária (AVDs), por meio da Escala Unificada de Classificação da Doença de Parkinson II (UPDRS-II) (BENNINGER et al., 2012). Foram observadas melhorias nos escores em ambos os estudos, corroborando com os resultados de outras meta- análises realizadas anteriormente (MAKKOS et al., 2016; PAL et al., 2010). Em contrapartida, para a Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (ETCC) foram utilizados locais de estimulação e polarização de membrana neuronal variados, uma vez que a polaridade da corrente influencia diretamente nos efeitos da ETCC, de forma que a polaridade anódica induz um aumento da excitabilidade cortical, ao passo que a polaridade catódica gera um efeito inverso ao anódico (MONTE-SILVA et al., 2022). Manenti e colaboradores (2016) estimularam o córtex dorsolateral pré-frontal (DLPFC) apenas com a polaridade anódica associado com fisioterapia, já o estudo de HADOUSH et al., 2018, utilizou ambas as polaridades: nas áreas do c órtex motor primário e DLPFC aplicou po- 67 laridade anódica e sobre as regiões supraorbitárias bilateralmente posicionou polaridade catódica. Os principais resultados da aplicação da ETCC foram melhorias na qualidade de vida tanto nos componentes físicos quanto mentais, avaliados através do Questionário de Qualidade de Vida (SF-36), além de melhorar a qualidade do sono (HADOUSH et al., 2018), enquanto que os resultados do estudo de Manenti mostraram efeitos significativos no desempenho cognitivo, avaliado por meio da Escala de Avaliação Cognitiva da Doença de Parkinson (PD-CRS) e teste de fluência verbal; além disso, houve melhora na escala de depressão e na atividade motora, a última avaliada por meio do teste da cegonha em pé, Timed Up and Go e teste de sentar e levantar, na qual, entretanto, não possuiu um resultado significativo se comparado com estudos anteriores, pois a melhora da atividade motora neste estudo ocorreu em decorrência da associação da ETCC com fisioterapia. Em síntese, resultados da ETCC diante da Doença de Parkinson também se mostram assertivos, já que a terapia permite evoluções na qualidade de vida e do sono, no desempenho cognitivo e na depressão vinculada à DP. CONCLUSÃO Referente à EMT e todas às patologias em questão neste presente trabalho, é possível observar, em sua maioria, resultados positivos. Porém, ainda são necessários estudos mais complexos, aumento dos grupos amostrais, assim como a utilização de ferramentas mais específicas e sensíveis, e um maior monitoramento da eficácia de diferentes métodos para uma avaliação mais esclarecida dos efeitos da estimulação magnética transcraniana. 68 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALONZO, A. et al. Study design and methodology for a multicentre, randomised controlled trial of transcranial direct current stimulation as a treatment for unipolar and bipolar depression. Contemp Clin Trials, 2016. ANTONENKO, D. et al. 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CAPÍTULO 08 TRATAMENTO DA AFASIA PÓS AVC LAILA MONTEIRO PORFÍRIO¹ LÍVIA ARAÚJO GONÇALVES¹ ANDRESSA BORGES DA CUNHA ANDRADE¹ LETÍCIA ARAÚJO GONÇALVES¹ MARIANA LIMA GONÇALVES¹ JÚLIA MAGALHÃES MOTTA¹ 1. Discente – Medicina da Universidade de Vassouras. PALAVRAS-CHAVE: Terapêutica; Afasia; AVC. 71 INTRODUÇÃO A afasia é caracterizada como com- prometimento da linguagem associado a uma lesão cerebral. Esse problema é responsável pela diminuição da qualidade de vida das pessoas acometidas, na medida em que afeta a compreensão, a capacidade de decifrar palavras, a reflexão, a fala e a escrita. Estima-se que um terço das pessoas se tornarão afásicas após episódio de acidente vascular cerebral (AVC), seja ele isquêmico ou hemorrágico. A sintomatologia manifestada pelo paciente irá depender, dentre outros fatores, da extensão do AVC, da rapidez com que o tratamento foi iniciado após manifestação do quadro e do acesso ao serviço médico de qualidade (SHEPPARD & SEBASTIAN, 2020). O sistema de classificação de Boston, desenvolvido na década de 1960 por Norman Geschwind, Frank Benson, Harold Goodglass e Edith Kaplan, determinaoito tipos principais de afasias, divididas em afasias fluentes e não fluentes. Dentre as afasias fluentes, estão a afasia de Broca ou afasia expressiva; afasia motora transcortical; afasia global e afasia trans- cortical mista. A afasia de Wernicke/receptiva; afasia sensorial transcortical; afasia de condução e afasia anômica são consideradas afasias não fluentes (SHEPPARD & SE- BASTIAN, 2020). Os pacientes afásicos passam por limitações na participação social, devido às dificuldades de comunicação e à perda de autonomia, o que contribui para estigmatização desses indivíduos. Além disso, muitos ficam irritados e frustrados com o estado de saúde em que se encontram, visto que, algumas vezes, a capacidade de compreensão não é afetada (STAHL et al., 2017). A recuperação da afasia após episódio de AVC depende de alguns fatores, dentre os quais se destacam a extensão atingida pela lesão, a capacidade cognitiva e as condições de saúde do paciente. Logo, nota-se que o tratamento da afasia é individualizado e a previsão de recuperação da linguagem é desafiadora e incerta, a depender de cada paciente (WILMS- KOETTER et al., 2021). Muitas vezes, um fator que dificulta a aderência ao tratamento da afasia pós AVC é a obrigatoriedade de um longo período de adesão para obter melhorias de habilidades de comunicação. Na maioria das vezes, o tratamento é conduzido por fonoaudiólogos e esses contam com a ajuda de uma equipe multiprofissional para lidar com outras decorrências do AVC (AKABOGU et al., 2019). O objetivo desse estudo foi descrever os métodos utilizados no tratamento de indivíduos que desenvolveram afasia após episódio de acidente vascular cerebral. MÉTODO O presente estudo trata-se de uma revisão integrativa de literatura. Para tanto, foi realizada uma análise das produções científicas veiculadas em periódicos indexados no banco de dados do United States National Library of Medicine (PubMed). Os descritores utilizados foram: “aphasia treatment stroke”, sem a utilização de operadores booleanos. Quanto à elegibilidade das pesquisas, foram utilizados como critérios de inclusão: recorte temporal dos últimos 5 anos (2017-2022), texto completo e gratuito, com o idioma inglês e do tipo ensaio clínico, que abordavam as temáticas propostas para esta pesquisa e como critérios de exclusão: artigos que não abordavam diretamente a proposta em questão, que não atendiam aos critérios de inclusão e artigos duplicados. Diante da aplicação dos critérios de seleção, 72 rastrearam-se 51 artigos, dos quais, após leitura e seleção manual, resultaram em 25 periódicos para análise. A partir disso, foram feitas leituras minuciosas e atentas para a coleta de dados A busca também foi realizada na base de dados Scientific Eletronic Library Online – SciELO com os mesmos descritores em questão, contudo, não foi usado nenhum dos artigos encontrados nesta base. Todo processo de seleção foi sintetizado, por meio da construção de um fluxograma, apresentado na Figura 8.1. Figura 8.1 Fluxograma de seleção dos artigos originais RESULTADOS E DISCUSSÃO Quadro clínico A afasia caracteriza-se pela perda total ou parcial da capacidade de expressar e/ou compreender a linguagem escrita e falada, podendo se manifestar por deficiências na fala, escrita, leitura, compreensão, expressão e repetição. As alterações podem ser de conteúdo, forma e uso da linguagem e o grau de deficiências é determinado pela extensão da lesão e a doença de base. 73 Os sintomas presentes podem incluir: Expressão de palavras irreconhecíveis; Escrita ou fala de frases sem sentido; Dificuldade em encontrar as palavras que deseja para se expressar; Substituição de palavras por outras ou por sons; Incapacidade de acompanhar diálogos; Formulação de frases curtas e incompletas; Confusão recorrente de sons; Desentendimentos frequentes durante uma conversa. Pelo sistema de classificação de Boston, existem 8 tipos principais de afasias, divididas em afasias fluentes e não-fluentes (Figura 8.2) (SHEPPARD & SEBASTIAN, 2020). Figura 8.2 Fluxograma classificação de Boston. AFASIAS NÃO FLUENTES Afasia de Broca ou afasia expressiva Acometimento da área de Broca responsável pela linguagem, com compreensão preservada. Dessa forma, nota-se dificuldade em falar palavras e frases completas com sentido, nomear objetos, repetir expressões, ler e escrever. Por isso, a fala torna-se lentificada, monótona, esforçada e não-fluente, a melodia é prejudicada e as frases são reduzidas a poucas palavras. Devido a manutenção da compreensão, o indivíduo tem consciência dos erros que está cometendo. Afasia motora transcortical Acometimento anterior ou superior à área de Broca no córtex frontal medial e área pré- suplementar. A clínica é semelhante a afasia de Broca, porém com a repetição de palavras e frases preservada. Normalmente apresentam ecolalia. 74 Afasia global Acometimento de grandes áreas do hemisfério esquerdo, afetando as áreas de Broca e Wernicke. Ocasiona dificuldades em todos os aspectos da linguagem, de modo que a fala e a compreensão são severamente limitadas. Passam a utilizar gestos e expressões faciais para se comunicar. Afasia transcortical mista As áreas de Broca e Wernicke estão preservadas, porém sem capacidade de interação com os estímulos gerados em outras áreas do cérebro. Se assemelha à global, entretanto, a capacidade de repetição é preservada. AFASIAS FLUENTES Afasia de Wernicke / receptiva Lesão na área de Wernicke e regiões temporais e parietais vizinhas. Afeta a área ligada à compreensão, ou seja, há fluência verbal, porém, ausência de compreensão, nomeação e repetição. É marcada por dificuldades em entender discursos, nomear e reconhecer símbolos. Assim, expressa sequências de palavras sem sentido, frases incompreensíveis, não é capaz de narrar fatos com clareza e pode perder a capacidade de ler e escrever. O fato de não ter consciência dos seus erros leva a episódios mais comuns de agitação e nervosismo. Afasia sensorial transcortical Lesões ao redor da área de Wernicke, levam a uma afasia semelhante a anterior, porém, com habilidades de repetição preservadas. Afasia de condução Lesões no fasciculus arcuate esquerdo (local que conecta área de Broca e de Wernicke) e regiões temporoparietais. O indivíduo possui fala fluente e boa compreensão, com os déficits restritos à capacidade de nomeação e habilidades de repetição. Afasia anômica Apresenta-se com dificuldades de nomeação e hesitação para encontrar palavras, sem outros déficits graves. Confira na Figura 8.3 o acometimento cerebral nos tipos de afasia. Figura 83 Acometimento cerebral nos tipos de afasia Fonte: SHEPPARD & SEBASTIAN, 2020. DIAGNÓSTICO O diagnóstico da afasia é essencialmente clínico e deve ser realizado por um neurologista que, após anamnese e exame físico, pode solicitar a realização de testes neuropsicológicos e exames de imagem cranioencefálicos, como a tomografia computadorizada e a ressonância magnética. Os exames de imagem visam identificar a localização da alteração e auxiliar na descoberta da origem da afasia. 75 Testes diagnósticos Para identificar a afasia, uma série de testes neuropsicológicos podem ser usados, associados aos sintomas apresentados. Os testes avaliam as funções da linguagem do paciente, como: • Fluência e qualidade do discurso; • Compreensão do discurso; • Capacidade de nomeação; • Capacidade de repetição; • Formulação de expressões e frases; • Leitura; • Escrita; • Sintaxe; • Semântica; • Descrição de cenas e imagens; • Capacidade de obedecer a comandos. O Exame de Afasia Diagnóstica de Boston 3° edição (BDAE) e a Bateriade Afasia Ocidental – revisada (WAB-R) são as avaliações mais comuns de afasia. O BDAE avalia fala espontânea, compreensão, repetição, leitura e escrita, podendo ser implementado em sua forma curta ou estendida. Além disso, inclui o Boston Naming Test (BNT) para avaliar a nomeação de objetos. O WARB-R avalia a produção e compreensão da fala, leitura, escrita, práxis, habilidades construtivas e visuespaciais. O teste da afasia integral (CAT) é uma triagem para déficits cognitivos que podem impactar na bateria de afasia, avaliação do desempenho de linguagem e questionário de incapacidade. Desse modo, verifica, ainda, as consequências emocionais e impacto da afasia no cotidiano da pessoa. O diagnóstico é importante tanto para avaliar a extensão do problema e a repercussão na vida funcional da pessoa, quanto para prever as taxas de sucesso do tratamento. Fonoaudiólogos e psicólogos podem trabalhar em conjunto com o neurologista na realização de testes para confirmar a doença (SHEPPARD & SEBASTIAN, 2020). TRATAMENTO O tratamento da Afasia pós AVC consiste em uma combinação de terapias não farmacológicas e farmacológicas. Tratamento não farmacológico Há uma série de alternativas não medicamentosas que podem ser utilizadas no tratamento da Afasia pós AVC, destacam-se entre elas: 1. Abordagem de apoio comunitário: Tem como objetivo a reintegração do paciente ao convívio social, por meio dos grupos comunitários que fornecem apoio. 2. Terapia de Entonação Melódica (MIT): Por serem as funções do hemisfério direito, a exemplo do canto e do conhecimento de melodia e de ritmo, pontos fortes na afasia não fluente, o MIT utiliza desses pontos para melhorar a linguagem. Assim, ele consiste em vários níveis, desde cantar frases simples até falar frases com cinco ou mais sílabas. Acrescido a isso, ele é indicado para aqueles que possuem fala não fluente com a capacidade de produzir algumas palavras inteligíveis ao cantar músicas familiares, compreensão relativamente boa, repetição prejudicada, boa capacidade de atenção e forte motivação. 3. Terapia de Linguagem Induzida por Restrição (CILT): Atua priorizando o uso da linguagem falada no lugar de estratégias compensatórias, como escrever e usar gestos. Além disso, há uma abordagem intensiva que necessita de prática por um longo período de horas. 76 4. A análise de características semânticas (SFA): Estimula os pacientes a produzirem informações semânticas quando estão com dificuldade para produzir uma palavra específica. Para isso, é solicitado ao paciente que para que é utilizado, como é, onde é encontrado etc. Na tentativa de identificar cinco componentes fonológicos relacionados à palavra-alvo. Existem inúmeras outras terapias que podem ser utilizadas a depender dos déficits do paciente afásico, cabe ao fonoaudiólogo em conjunto ao neurologista determinarem a melhor terapêutica para cada indivíduo (SHEPPARD & SEBASTIAN, 2020). Tratamento Farmacológico As principais classes de drogas utilizadas no tratamento são: as catecolaminérgicas, colinérgicas, nootrópicas e serotoninérgicas. Dentre essas, a donepezila, fármaco colinérgico, tem sido amplamente estudado para o uso na afasia crônica pós AVC e tem demonstrado bons resultados. Além disso, inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRSs), especialmente fluxamina, continuam sendo utilizados no tratamento da depressão, que é bem prevalente entre esse grupo de pacientes e potencializa a afasia. É válido ressaltar, que alguns fármacos utilizados para as complicações do AVC, como os anticonvulsivantes topiramato e zonisamida, não devem ser a primeira opção. Pois, podem prejudicar a linguagem (SHEPPARD & SEBASTIAN, 2020). Terapias de reperfusão É um tratamento para AVC agudo que restaura o fluxo sanguíneo pela remoção cirúrgica de um coágulo sanguíneo ou com medicamentos que dissolvem coágulos. Destaca- se a trombólise intravenosa com ativador do plasminogênio tecidual recombinante (rTPA), que demonstrou melhorias na linguagem após AVC isquêmico agudo no hemisfério esquerdo (SHEPPARD & SEBASTIAN, 2020). PROGNÓSTICO A recuperação da Afasia pós AVC depende de inúmeros fatores, como: nível de escolaridade, conhecimento de línguas, o momento em que deu início ao tratamento, tempo de internação, fatores emocionais associados como uma depressão, o tipo de AVC (isquêmico ou hemorrágico), a extensão da lesão e a área cerebral atingida. Isto posto, há um intervalo temporal de recuperação espontânea passado o AVC, no qual podem ocorrer melhorias expressivas na linguagem e no funcionamento cognitivo. Desse modo, um paciente pode ocorrer uma significativa evolução entre o momento do estágio agudo (dentro de ~ 1 semana após o AVC) quando comparado ao estágio crônico (definido como mais de seis meses ou um ano após o AVC). É notório que há uma variabilidade no prognóstico de cada paciente, tendo em vista as particularidades humanas. No entanto, em função da recuperação natural e reorganização funcional, o esperado é que a afasia de um paciente evolua rapidamente nos primeiros dias, semanas e meses após um acidente vascular cerebral. A título de exemplificação, enfermos com de Broca aguda podem ter recuperação do quadro e serem posteriormente diagnosticados como portadores de afasia anômica crônica. Somado a isso, a afasia aguda pode ter completa resolução quando passa para o estágio crônico. Pois, no geral os comprometimentos 77 linguísticos estão mais agravados no período inicial, ocorrendo nos primeiros três meses o maior período de recuperação. Contudo, alguns pacientes apresentam declínio, que estão relacionados a inúmeros fatores, a exemplo do início de demência vascular ou a ausência de terapia fonoaudiológica (SHEPPARD & SEBASTIAN, 2020). CONCLUSÃO Frente aos estudos abordados, torna-se claro o quão desafiador é o paciente afásico após um episódio de AVC para os profissionais responsáveis por sua reabilitação. Esse desafio se deve não só aos sinais e sintomas em si, sejam típicos e atípicos, mas à topografia das áreas cerebrais acometidas, à pluralidade dos tratamentos propostos, à determinação do seu prognóstico e capacidade de reabilitação. A respeito do diagnóstico da afasia, embora essencialmente clínico, com o avançar tecnológico, os exames de imagem têm se tornado crucial na complementação do diagnóstico, principalmente na delimitação acuradas áreas atingidas, que se traduzem em uma sintomatologia particular do paciente, para além das síndromes clássicas. Dentre os alternativas não medicamentosas para o tratamento dos pacientes afásico, que se demonstram mais efetivas que os tratamentos farmacológicos, possuem maior relevância as terapias de linguagem, atuando como peças- chave na a reabilitação dos pacientes no geral, com uma abordagem direta ou indireta de seu exercício, de caráter intensivista e de longo prazo, sendo este último fator um importante óbice à terapêutica, pois seu caráter crônico e gradativo resulta na desistência dos tratamentos. Por fim, tratando-se da reabilitação e prognóstico do paciente, têm-se ainda mais variáveis a serem analisadas para determinação de seu sucesso, como o tipo de AVC, a área atingida, o quanto essa área e áreas adjacentes foram afetadas, a adesão e o tempo de tratamento ao qual foi submetido, além de fatores intrínsecos ao paciente. Deste modo, evidencia-se como melhor opção aos pacientes a abordagem terapêutica individualizada e personalizada, objetivando abarcar todas suas particularidades enquanto indivíduo e portador de um transtorno de linguagem, tendo em mente as numerosas circunstâncias que vão gerar e se associar ao quadro clínico da afasia. 78REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AKABOGU, J. et al. Efficacy of cognitive behavior language therapy for aphasia following stroke. Medicine, v. 98, n. 18, p. e15305, maio 2019. STAHL, B. et al. Efficacy of intensive aphasia therapy in patients with chronic stroke: a randomised controlled trial. Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry, v. 89, n. 6, p. 586–592, 22 dez. 2017. SHEPPARD, S. M. & SEBASTIAN, R. Diagnosing and managing post-stroke aphasia. Expert Review of Neurotherapeutics, v. 21, n. 2, p. 221–234, 10 dez. 2020. WILMSKOETTER, J. et al. Language Recovery after Brain Injury: A Structural Network Control Theory Study. The Journal of Neuroscience, v. 42, n. 4, p. 657– 669, 6 dez. 2021. 79 Capítulo 09 Doenças neurodegenerativas, importância do diagnóstico precoce no tratamento, uma revisão literária expositiva Palavras-chave: Doenças Neurodegenerativas; Exame De Imagem; Diagnostico Precoce. CAPÍTULO 09 DOENÇAS NEURODEGENERATIVAS, IMPORTÂNCIA DO DIAGNÓSTICO PRECOCE NO TRATAMENTO, UMA REVISÃO LITERÁRIA EXPOSITIVA HAYANI YURI FERREIRA OUTI SANTOS1 LUANA CAROLINA SILVA SANTOS2 ANA LUIZA MOREIRA CIANTELLI3 GIOVANA JULIA MELO MOREIRA4 VICTORIA DE OLIVEIRA CARMO BORGES5 RAFAEL CAETANO MUSTAFÁ4 MANUELA ALVEZ BORELLI3 HELEN FERNANDA DOS SANTOS4 ANA CAROLINA BELTRAMI4 RHUAN PABLO MOREIRA FREITAS4 JOELSON SALES DOS SANTOS4 FABIANA CAPITANIO BATISTA4 STÉFANI MARTINS SABETZKI4 ARKADI MENEZES POPOFF JUNIOR6 IAN COVIZZI VILAS BOAS7 1. Discente – Medicina – Centro Universitário de Adamantina, SP. 2. Discente – Medicina – Universidade de Araraquara, SP. 3. Discente – Medicina – União das faculdades dos Grandes Lagos, São José do Rio Preto, SP. 4. Discente – Medicina – Universidade Brasil, Fernandopolis, SP. 5. Discente – Medicina – Universidade São Leopoldo Mandic, Campinas, SP. 6. Discente – Medicina - Centro Universitário FIPMOC - UNIFIPMOC- Montes Claros, MG. 7. Medico – Formado pela Universidade Brasil, campus de Fernandopolis. Residente em Radiologia e Diagnostico por Imagem no instituto Imagem Center, São Jose do Rio Preto, SP. PALAVRAS-CHAVE: Doenças Neurodegenerativas; Exame De Imagem; Diagnostico Precoce. 80 INTRODUÇÃO Podemos definir as denças neurode- generativas como condições muito debilitntes, sem remissão ou cura, podem afetar pessoas em todas as faixas etarias, causando degeneração progressiva e/ou morte dos neurônios, células responsáveis pelas funções do sistema nervoso. Essas degradações podem afetar desde a memória do paciente, causando demência, até o movimento do corpo. As doenças neurodegenerativas são um dos mais importantes problemas médicos e so- cioeconômicos da atualidade. Apesar disso, não se conhece os fatores que causam o apare- cimento dessas patologias. O objetivo deste capítulo é apresentar as principais doenças neurodegenerativas, bem como seus sintomas, e seus respectivos trata- mentos, objetiva-se demonstrar a importância do diagnóstico por imagem para se desenvolver a abordagem precoce dessas doenças, a fim de conter os danos causados por elas e melhorar a qualidade de vida dos pacientes após o diagnóstico. MÉTODO Trata-se de uma revisão narrativa realizada no período de junho a julho a agosto de 2022, por meio de pesquisas nas bases de dados: Pubmed, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e SciELO. Foram utilizados os descritores: Neuro- degenerative Diseases; Image Examination; Early diagnosis. Nesta busca foram encontrados 4.210 artigos, posteriormente submetidos à leitura minuciosa e em seguida aplicados aos critérios de seleção. Os critérios de inclusão foram: Artigos nos idiomas português e inglês; publicados no período de 2016 a 2022 e que abordavam as temáticas propostas para esta pesquisa, estudos do tipo revisão, meta-análise e relatos de caso disponibilizados na íntegra. Os critérios de exclusão foram: Artigos duplicados, disponibilizados na forma de resumo, que não abordavam diretamente a proposta estudada e que não atendiam aos demais critérios de inclusão. Após os critérios de seleção restaram 4 artigos que foram submetidos à leitura minu- ciosa para a coleta de dados. Os resultados foram apresentados em quadros e de forma descritiva, divididos em categorias temáticas abordando: as doenças neurodegenerativas, o diagnóstico por imagem e a abordagem do tra- tamento delas. RESULTADOS E DISCUSSÃO A literatura recente apresenta vários conceitos sobre a abordagem diagnóstica das doenças neurodegenerativas, sendo que, o médico responsável por traçar o plano de tratamento é o neurologista. Em contrapartida o médico especialista em diagnóstico por imagem possui imensa im- portância na abordagem do tratamento dessas patologias, uma vez que, os exames de imagem representam uma fatia considerável para se atestar as alterações morfológicas no sistema nervoso central dos pacientes. A seguir vamos discutir cada uma das doenças neurodegenerativas que possuem os exames de imagem como um importante passo no diagnóstico precoce, objetivando expô-las de forma sucinta e de facil compreenção para todos os públicos. Doença de Alzheimer (DA) Afeta a memória de pessoas mais idosas, dentre seus efeitos está o declínio gradual da capacidade de julgamento, raciocínio e apren- dizagem. 81 Dessa forma, essa doença neurodegenerativa também pode ter sintomas como confusão mental, mudança de personalidade, dificuldades com a fala, incapacidade de realizar as tarefas diárias e comportamento inapropriado, porém, a perda de memória recente é o sintoma que mais se destaca. Os principais marcadores fisiopatológicos são as placas amiloides extracelulares e os emaranhados neurofibrilares intercelulares que causam neurodegeneração. Há evidências de que alterações vasculares relacionadas a irrigação cerebral estão diretamente rela- cionadas com a fisiopatologia da doença de Alzheimer. O exame de imagem por ressonância magnética pode fornecer dados sobre o aporte sanguíneo cerebral quanto ao volume em- cefálico, tornando-se um biomarcador de extrema relevância de alterações em fases precoces da DA (AGNOLLITTO, 2021). Para o Alzheimer não há marcadores específicos na investigação laboratorial e nos exames de imagem. Entretanto, à partir dos exames convencionais, pode-se excluir causas reversíveis diferentes do Alzheimer e observar os parâmetros de neuroimagem condizentes com os estágios clínicos da doença, tais como atrofia cortical, alterações hipocampais e tem- porais mesiais. Em nível experimental, marcadores mole- culares da doença têm sido pesquisados em fluídos biológicos, particularmente no líquido cefalorraquidiano. A realização de exames no estágio inicial da doença, como a análise do líquido cefalorraquidiano (LCR), neuroimagem cerebral, como tomografia por emissão de pósitron (PET) e tomografia por emissão de fóton único (SPECT), laboratoriais, avaliação do histórico familiar, permitem que o paciente possa se beneficiar de tratamentos, reorganizar sua rotina, planejar seu futuro, preparar os familiares, com a intenção de postergar o má- ximo possível a instalação da doença (FARIA & ARAUJO, 2022). Doença de Parkinson (DP) Destaca-se principalmente pelos espasmos musculares, mesmo quando os músculos estão em repouso, além disso, causa rigidez muscular, lentidão dos movimentos e dificuldades em manter a postura devido a perda de equilíbrio, ocorre com mais frequência em pacientes com mais de 50 anos. Também compromete a capacidade de julgamento e pensamento dando origem a demência. Nessa doença, ocorre a morte precoce dos neurônios dopaminérgicos da substância nigra. Hoje sabemos que a progressão da doença se dá de forma lenta e pode iniciar anos antes do diagnóstico ser formado uma vez que,apresenta forte evidência de desenvolvimento com fatores de risco ambientais e comportamentais. Alguns estudos, apresentam que o ferro ocasiona anormalidades no metabolismo, que produzem estresse oxidativo, disfunção mito- condrial e inflamação neuronal, corre- lacionando essas alterações diretamente com a Doença de Parkinson, todavia, ainda há escassa evidência clínica de relação direta entre esses fatores e a patologia em questão, recentemente, diversos estudos têm buscado elucidar essa afinidade (BRAGAGNOLO & MARRONE, 2021). A ressonância magnética representa um importante avanço no diagnostico dessa doença, uma vez que, possibilita através do seu alto campo que permite uma melhoria adicional no diagnóstico, tanto para fins de pesquisa quanto para aplicação clínica (FREITAS & SILVA, 2018). 82 Esclerose Múltipla (EM) Mais comum em mulheres com mais de 20 anos, provoca lesões cerebrais devido suas características autoimunes, no caso a Esclerose Múltipla, o sistema imunológico ataca a bainha de mielina, membrana que reveste os neurônios. Essa patologia, é caracterizada por episódios ociosos, seus sintomas vão e vem, sem uma frequência determinada. No início da mani- festação patológica, a esclerose múltipla apresenta sintomas transitórios e leves, como alterações na visão e em outros sentidos, podendo surgir manifestações como visão dupla, perda visual, astenia, parestesia de membros inferiores, fadiga e espasmos. O diagnóstico por imagem na EM é de suma importância, visto que apenas com a inves- tigação clínica não é possivel atestar o diagnostico desta patologia, logo o exame de ressonância magnética (RM) é crucial para o diagnóstico correto desta em fases iniciais e avançados, uma vez que, permite a visualização das imagens e dos processos inerentes a patologia supracitada. (SANTOS, 2019). O Exame de Imagem Como mencionado anteriormente, os exa- mes de imagem representam um fator im- portante no diagnóstico precoce das patologias relacionadas ao sistema nervoso, uma vez que através deles é possivel identificar alterações patológicas na massa cefálica dos pacientes, principalmente nos casos de alterações rela- cionadas a atrofia do córtex entorrinal e do hipocampo que é possivel ser observados nos casos de DA. Sendo assim é possivel que pacientes que estão em fase de pré-demência ou em estágios iniciais de desenvolvimento das doenças neurodegenerativas as quais apresentam um declínio cognitivo natural do envelhecimento ou mesmo causado por outras desordens fisiopatológicas. Todavia, nos casos de DP a obtenção de imagens por ressonância magnética é incapaz de apontar diretamente a perda neuronal dopa- minérgica, porém, mostra-se capaz de salientar outros dados complementares, da mesma forma que na DA, o exame de ressonância magnética não é capaz de evidenciar os marcadores moleculares responsáveis pelas perdas neuro- nais, e dendríticas, mesmo assim, o exame mostra-se eficaz como complementar no diagnóstico e no acompanhamento da evolução fisiopatológica. A ressonância magnética é uma das técnicas mais versáteis para fins de pesquisa cientifica. Nos casos de EM é possível observar dire- tamente as alterações relacionadas a morfologia cerebral, sendo assim auxiliar no diagnóstico e acompanhamento desta, bem como nas demais. (WATTJES et al., 2021). CONCLUSÃO Com base no que foi analisado, discutido e posteriormente descrito acima, pode-se concluir que, das doenças neurodegenerativas que possuem diagnostico facilitado através dos exames de imagem Doença de Parkinson, Doença de Alzheimer e Esclerose Múltipla, uma vez que essas, apresentam alterações da massa cefálica. As alterações na massa cefálica, são observadas principalmente através dos exames de ressonância magnética, este exame tem sido solicitado com frequência para o diagnóstico das doenças neurodegenerativas uma vez que seu método não é invasivo, e suas imagens permitem comparações com imagens de cére- bros saudaveis para eventual avaliação do estágio da doença em questão. 83 O exame diagnostico pode ser útil para detectar os sinais de alteração cognitiva precoce apresentadas nas doenças de Alzheimer e Parkinson, podendo eleger grupos de ensaios clínicos e a monitoração da progressão da doença, auxiliando na conduta terapêutica escolhida pelo médico neurologista. Logo é possivel afirmar que, os exames diagnósticos representam um grande avanço para a conduta médica, uma vez que estas doenças possuem terapêutica focada nos cuidados paliativos, principalmente quando diagnosticadas tardiamente, o diagnóstico precoce, permite que recebam intervenção clínica que apesar de não as curarem, melhoram a qualidade de vida e, aumentam a possibilidade de uma evolução lenta. 84 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGNOLLITTO, M. L. S. S. Influência do fluxo sanguíneo cerebral na perda volumétrica encefálica relacionada à Doença de Alzheimer. 2021. Tese (Doutorado em Clínica Médica) - Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, University of São Paulo, Ribeirão Preto, 2021. doi:10.11606/T.17.2021.tde-07022022- 150515. Acesso em: 28 Ago. 2022. BRAGAGNOLO, J.G. & MARRONE, L.C.P. A influência do metabolismo do ferro na Doença de Parkinson: revisão de literatura. Revista da AMRIGS, Rio Grande do Sul, v.65, n.2, p. 346, 2021. FREITAS, E.M.S. & SILVA, R.E. Técnicas de imagem de ressonância magnética para o diagnóstico de Doença de Parkinson. XC Congresso Metodista de Iniciação e Produção Científica e XX Seminário de Extensão. São Paulo, 2018. FARIA, E.D.A. & ARAUJO, L. F. Cuidados paliativos em idosos com Doenças Neurodegenerativas: ênfase na doença de Alzheimer. Revista Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.8, n.6, p. 47448-47472, jun., 2022. SANTOS, V. Diagnóstico de Esclerose Múltipla por Ressonância Magnética. Revista REMECS - Revista Multidisciplinar em Estudos Científicos em Saúde. n.3, v.5, p. 03-13, out 2019. WATTJES, M. et al. MAGNIMS-CMSC-NAIMS consensus recommendations on the use of MRI in patients with multiple sclerosis. Lancet Neurol. n. 20, v. 8, p.653- 670, jun. 2021. 85 Capítulo 10 Inovações terapêuticas na Doença de Alzheimer Palavras-chave: Doença de Alzheimer; Tratamento; Imunoterapia. CAPÍTULO 10 INOVAÇÕES TERAPÊUTICAS NA DOENÇA DE ALZHEIMER KEFREN CRISTINA DE OLIVEIRA ARANTES¹ CAMILLA CEREZINI ¹ GEILLY CARVALHO COSTA SANTOS¹ GUILHERME DA MATA E CASTRO¹ ISABELLA TORRES FURBINO MALAFAIA¹ JOÃO PEDRO CARDOSO DÂMASO¹ JOÃO PHAWLLO FERREIRA PIZA¹ JULIA MENDES FERREIRA¹ MARIA EDUARDA MENDES PIRES¹ NATHALIA CRISTINA FERREIRA DE OLIVEIRA¹ YASMIM CAROLINE DE ARAÚJO ROLIM¹ BEATRIZ DE ALMEIDA NEGRAES² GUSTAVO HENRIQUE DE OLIVEIRA CARMO BORGES³ SÂMELA CARVALHO RAMOS DUTRA³ GUILHERME DE OLIVEIRA ARANTES⁴ 1. Discente - Medicina da Universidade de Rio Verde Campus Aparecida de Goiânia. 2. Discente - Medicina da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. 3. Discente - Medicina da Universidade Evangélica de Goiás, UniEVANGÉLICA. 4. Médico pela Universidade de Rio Verde Campus Aparecida de Goiânia. PALAVRAS-CHAVE: Doença de Alzheimer; Tratamento; Imunoterapia. 86 INTRODUÇÃO A Doença de Alzheimer (DA), que foi descrita pela primeira vez em 1906 pelo neuropatologista alemão Alois Alzheimer, é um dos mais comuns tipos de demência na população idosa a partir dos 60 anos e sua incidência tem aumentado conforme o aumento da expectativa de vida (SANTANA et al., 2018). De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), foi constatado que, em 2021, mais de 55 milhões de pessoas no mundo viviam com demência, e há quase 10 milhões de novos casos a cada ano. A OMS também estima que esse número quase triplique até 2050 (OMS, 2021).O envelhecimento populacional tem se apresentado como fator de grande importância para o estudo desta doença neurodegenerativa que impacta esferas sociais, clínicas e econômicas. Segundo sua patogênese, a DA é atribuída a um desequilíbrio do peptídeo β-amiloide (Aβ) no sistema nervoso central e a emaranhados neurofibrilares, formados pelo excesso de proteína tau (p-tau). Seu acúmulo resulta em placas senis que precedem em anos o aparecimento dos sintomas clássicos do Alzheimer. Mutações do gene da proteína precursora do amilóide, da p-tau, das presenilinas 1 e 2 (PSEN1 e PSEN2), assim como o polimorfismo da apolipoproteína E (apoE), são exemplos de alterações genéticas que podem aumentar o risco para DA (PRADO & SOUZA, 2021). As manifestações são progressivas e incluem distúrbios cognitivos, que podem comprometer atividades básicas diárias e promover o desenvolvimento de anomia, redução da fluência verbal, desorientação espacial e temporal e, em especial, a perda de memória (KLEIN & ANGEL, 2022), que inclui dificuldade em novos aprendizados e incapacidade de recordar com precisão eventos ou habilidades previamente aprendidas. Podem ser observados distúrbios de outras funções corticais, como insônia, hemiplegia e dificuldade de compreensão (DUTHIE et al., 2002). Essa doença afeta áreas do córtex cerebral e acarreta destruição e deterioração das células nervosas, o que proporciona uma perda significativa de volume cerebral. Apesar de ser comumente chamada de "doença da velhice", alguns casos podem ocorrer em pessoas entre 40 e 50 anos (FREITAS et al., 2006). Embora os pacientes com DA tenham distúrbios neuropsiquiátricos e compor- tamentais marcantes, as principais funções motoras, auditivas e visuais permanecem intactas por quase todo o curso da doença. Na DA clássica, a disfunção extrapiramidal está ausente e anormalidades neurológicas, como rigidez, mioclonia, ataxia, convulsões e ar- ritmias, estão presentes apenas em estágios mais avançados (FREITAS et al., 2006). O tratamento da DA tem potencial para amenizar os sintomas e retardar a progressão patológica ao envolver estratégias não farma- cológicas e farmacológicas. A primeira é ampla e integra plantas medicinais, exercícios físicos e hábitos saudáveis, enquanto a segunda cen- traliza-se na sintomatologia com o objetivo de atrasar a progressão da doença e melhorar a qualidade de vida do paciente, sem surtir efeito nos principais mecanismos fisiopatológicos e, consequentemente, sem exercer ação curativa (SIQUEIRA, 2020). Tem-se ampliado a abor- dagem farmacológica para o tratamento ou retardamento dessa doença, estudos a respeito de medicamentos como o controverso Aduca- numab e CRISPR/Cas9, imunoterapia ativa e passiva, inibidores da colinesterase, modulação da microbiota intestinal, fitoterapia e inibidores 87 seletivos e não seletivos da acetilcolinesterase (AchE) são alguns dos exemplos do foco de terapia atual. Nessa perspectiva, é de suma necessidade a realização deste estudo, que tem como objetivo primordial analisar as evidências científicas acerca da DA, de modo a ressaltar seu processo terapêutico considerando especialmente as ino- vações e descobertas mais recentes com relação a essa doença. MÉTODO O presente estudo corresponde a uma revisão integrativa que foi realizada no período de junho a agosto de 2022 através de busca por publicações que contemplam a temática da DA, em especial seu tratamento. As referências utilizadas foram encontradas na base de dados Google Acadêmico e Scientific Electronic Library Online (SciELO) combinando os des- critores: “Alzheimer”, “Imunoterapia”, “tra- tamento”, “cura” de acordo com o Descritores em Ciência da Saúde (DeCS) e utilizando os operadores booleanos “AND” e “OR”. A partir disso, foram encontrados 28 artigos para análise e seleção de acordo com a temática da pesquisa. Os critérios de inclusão foram: artigos originais, disponíveis na íntegra, escritos entre os anos de 2006 a 2022, em língua inglesa ou portuguesa e que abordavam inovações terapêuticas voltadas para o tratamento da DA. Por outro lado, os critérios de exclusão foram: artigos que não abordavam de forma satisfatória a proposta temática desta pesquisa e artigos duplicados. Dentre esse montante, foram selecionados 18 artigos. Estes, por fim, foram lidos em sua integridade e posteriormente selecionados aqueles que melhor se encaixam na temática abordada, totalizando uma amostra final de 15 artigos originais. RESULTADOS E DISCUSSÃO O achado anatomopatológico mais comum na DA é a atrofia cortical e, microscopicamente nas áreas lesionadas - como o córtex e o hipocampo - pode-se observar o acúmulo do peptídeo Aβ e algumas alterações genéticas, por exemplo na p-tau - que passa a se acumular nos dendritos e em corpos celulares (PRADO & SOUZA, 2021). Pacientes afetados apresentam hipocampo e córtex com número reduzido de alguns receptores de acetilcolina, entre eles os nicotínicos e muscarínicos M2 - que se loca- lizam em fendas pré-sinápticas - dessa forma, existem duas teorias sobre a perda colinérgica relacionada a DA, posto que ainda não se sabe se essa perda é uma consequência secundária a doença ou um fator determinante para sua patogênese (SANTOS, 2016). Por ser progressiva, a DA apresenta uma série de estágios, como o de comprometimento cognitivo leve (CCL) – que é uma de suas fases iniciais, composta por poucos defeitos cog- nitivos, porém ainda marcante na sua progressão. Não existe tratamento preventivo, curativo ou paliativo para a DA, por isso é considerada um dos maiores problemas de saúde pública do mundo até hoje. Todavia, muito ainda pode ser feito pelo paciente e seus familiares, ou seja, embora ainda não curável, DA é tratável (FREITAS et al., 2006) e, caso diagnosticada precocemente, por exemplo no estágio de CCL, o tratamento pode ser mais efetivo e prevenir o avanço a estágios mais graves da doença (BORGES et al., 2022). Terapêutica farmacológica Inúmeros tratamentos foram e continuam a ser propostos na tentativa de amenizar ou controlar efetivamente os déficits cognitivos e funcionais da DA, como o uso de antioxidantes, estrógenos, anti-inflamatórios e estatinas. No 88 entanto, logo após realização de estudos científicos com rigor metodológico, não houve evidências que justificassem o uso de qualquer uma destas terapêuticas (LIMA, 2008). Existem medicamentos disponíveis para ajudar a aliviar determinados sinais e sintomas - inquietação, ansiedade, depressão, confusão e insônia -, entretanto, esses medicamentos são eficazes apenas para um número limitado de pacientes e por curtos períodos, podendo causar efeitos colaterais e reações adversas (OLI- VEIRA et al., 2006). O uso de inibidores colinérgicos é comum no tratamento da DA. São responsáveis por atuar na inibição da enzima que degrada AchE, diminuindo os sintomas cognitivos da doença (RAMOS, 2018). A terapia com antiamiloides é relativamente nova e, portanto, ainda apresenta caráter experimental. Sua base consiste no combate ao acúmulo de peptídeo Aβ que caracteriza o início da doença e tem como principal finalidade agir em, pelo menos, uma de três partes do seu processo de deposição: como inibidores da fibrilogênese - que possuem como principal mecanismo de ação diminuir a transformação do peptídeo Aβ solúvel nos polímeros insolúveis; como inibidores de formação - que vão bloquear enzimas proteolíticas e reduzir a formação do peptídeo Aβ; e como promotores de sua depuração. (SANT’ANA, 2018). A disbiose intestinal também tem sido correlacionada com a deposição de Aβ e formação dos emaranhados neurofibrilares por meio da diminuição da diversidade bacteriana e das concentraçõesp.499-505, 2012. SILVA, M. et al. Neurofibromatose tipo II: a propósito de casos clínicos. Revista Portuguesa de otorrinolaringologista e cirurgia cérvico facial, v.54, n.3, p.187-191, 2016. 8 Capítulo 2 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DAS CRISES DE EPILEPSIA FOCAL E SUAS CORRELAÇÕES NEUROANATÔMICAS Palavras-chave: Epilepsia; Semiologia; Neurologia CAPÍTULO 02 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DAS CRISES DE EPILEPSIA FOCAL E SUAS CORRELAÇÕES NEUROANATÔMICAS ANTONIO DUARTE GUEDES FILHO¹ BEATRIZ MARQUES BARBOSA LOURO¹ BEATRIZ MUTZ ALBANO¹ ENZO FONSECA FERREIRA¹ GISELE FERNANDES SENA¹ GUSTAVO SCATAMBURLO BATISTA¹ JULIA STEIN SALEME ¹ LIVIA SANTIAGO PEREIRA¹ MATEUS DE SOUSA ARAUJO¹ RAPHAEL VIANA CURVELO SEPÚLVIDA¹ SOFIA GAMEIRO DE SOUZA¹ IZABELA JARDIM RODRIGUES PITTA2 1. Discente – Medicina da Universidade Federal Fluminense 2. Docente – Departamento de Neurologia da Universidade Federal Fluminense PALAVRAS-CHAVE: Epilepsia; Semiologia; Neurologia. 9 INTRODUÇÃO A epilepsia é uma importante doença neurológica, com importante morbidade e mortalidade, sobretudo, quando não tratada de forma correta (BRASIL, 2018). Sua fisiopatologia está ligada a hiperatividade neuronal e de circuitos intrínsecos do sistema nervoso central, associada a disparo excessivo e sincrônico de descargas elétricas, paralelo a um desequilíbrio entre processos excitatórios e inibitórios, conjunto de fatores que é responsável, em última análise, pela clínica manifestada pelo indivíduo acometido (COSTA et al., 2020). Assim, o paciente pode apresentar, as chamadas crises epilépticas, eventos ligados aos mecanismos de desequilíbrio ao nível do sistema nervoso central típico da epilepsia. Essas crises podem estar presentes em situações de agudização da doença, contudo não são específicas, havendo um extenso leque de diagnósticos diferenciais, tais quais meningite, traumatismo cranioencefálico, tumor cerebral, acidente vascular encefálico, hipoglicemia dentre outros (RECH, 2021). Podem ocorrer ainda períodos prolongados de crise e, também, crises repetidas em intervalos mais curtos, notoriamente, associadas ao estado de mal epilético (COSTA et al., 2020). É importante, ainda, citar que a epilepsia possui uma variedade considerável de etiologias, desse modo, sua correta identificação e caracterização é imprescindível, sobretudo, para definir o correto manejo terapêutico (Tabela 2.1). . Tabela 2.1 Caracterização etiológica da epilepsia Tipo Achados clínicos associados Bases para o diagnóstico Estrutural/ Adquiridas Início dos sintomas associadas a ocorrência recente de AVC, Trauma, encefalopatias dentre outras lesões estruturais. Lesões visíveis em neuroimagem, associadas a achados clínicos e encefalográficos. Genéticas Síndrome da epilepsia neonatal; síndrome da epilepsia do lobo frontal noturna autossômica dominante; síndrome de Dravet. Identificação ou dedução, da mutação genética. Histórico familiar sugestivo. Infecciosa Infecção em que a crise é um sintoma central da doença. Ex: Neurocisticercose, HIV, toxoplasmose cerebral, Zika dentre outros. Investigação e identificação da infecção por agente etiológico típico. Metabólica Resultado de distúrbio metabólico conhecido ou presumido. Ex: uremia, porfiria, aminoacidopatias dentre outras. Investigação e identificação de distúrbio metabólico, que justifique os sintomas Imunológica Doença mediada por auto anticorpos que culminam na inflamação do sistema nervoso central. Ex: Encefalite antirreceptor NMDA anti- LGI1 Realização de testes de anticorpos específicos. Origem desconhecida Situações em que não foi possível classificar em alguma categoria, seja por falta de critérios diagnósticos, seja por escassez de recursos. Diagnóstico de exclusão/quando não há recursos para continuar a investigação de outras etiologias Fonte: Adaptado de Costa et al., 2020. Legenda: AVC: acidente vascular cerabral; NMDA: N-metilDaspartato; LGI1:anti-glioma inativado-1 rico em leucina; HIV:vírus da imunodeficiência humana. 10 Um dos grandes desafios impostos por esta doença reside não só nos aspectos supracitados, mas também pela difícil caracterização das crises, pois, diversas vezes, o examinador não está presente no momento das crises, ou mesmo serem crises com apresentações mais incomuns (BRASIL, 2018). Portanto, o presente capítulo visa discutir os aspectos clínicos mais importantes das crises epilépticas tendo como ponto de partida as áreas do sistema nervoso central mais acometidas, perpassando os principais sinais e sintomas, diagnóstico e tratamento, no intuito de esclarecer o correto manejo dessa doença, além de aprofundar a neuroanatomia associada a esse distúrbio. MÉTODO O presente capítulo se propõe como uma revisão integrativa da literatura, no que tange às manifestações clínicas das crises epilépticas focais correlacionadas à neuroanatomia local. Nesse contexto, no período de um mês, foi feito um levantamento bibliográfico de artigos científicos publicados e disponibilizados sobre a temática nas plataformas de pesquisa Publish Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (PUBMED) e Literatura Latino- Americana em Ciências da Saúde (LILACS). A busca foi realizada com combinações dos descritores “epilepsy”, “frontal lobe”, “parietal lobe”, "occipital lobe”, “frontal lobe” e/ou “semiology”, e com filtro de idioma em inglês, português e espanhol. Já os critérios de exclusão utilizados foram: artigos duplicados quando comparados os dados publicados nas bases de pesquisa e artigos que não abordassem diretamente a temática proposta. Ao final, foram selecionados 16 artigos para o melhor estudo e construção do capítulo. Além disso, foram utilizados como literatura auxiliar os livros texto "Neuroanatomia Funcional - Texto e Atlas" e “Adams and Victor's Principles of Neurology”, assim como Manuais do Ministério da Saúde. RESULTADOS E DISCUSSÃO Neuroanatomia Dentre as áreas do sistema nervoso central, as áreas de maior interesse, dentro do estudo das epilepsias, abordadas no presente capítulo, são os lobos temporal, frontal, parietal, occipital e ínsula. O lobo temporal, particularmente importante dentro da fisiopatologia da epilepsia, pode ser limitado a partir do sulco lateral, convergindo para os giros temporais, superior, médio e inferior, divididos pelos sulcos temporal superior e inferior, progredindo para a face mais medial do hemisfério cerebral, indo de encontro ao giro parahipocampal, circundado pelo sulco occipito temporal, o qual faz a divisão entre os giros occipitotemporal medial e lateral, numa progressão mais posterior do lobo, além de ser incrustado pelo sulco rinal, que marca a topografia do uncus (MACHADO, 2013). Tendo como base essa divisão, tal área abriga tanto regiões imprescindíveis para os circuitos que formam o sistema límbico - tais como o hipocampo, istmo do cíngulo e amígdala -responsável, essencialmente, pelo comportamento emocional, quanto áreas sensoriais, como o córtex olfatório primário, córtex auditivo primário e associativo e, no hemisfério dominante, contribui para a área de Wernicke, chave para a compreensão da linguagem falada (AFIFI & BERGMAN, 2007). O lobo frontal é delimitado do lobo parietal pelo sulco central e da região temporal pelo sulco lateral. Abriga os giros frontais superior, médio e inferior, sendo estes separados pelos sulcos frontais, superior e inferior; o giro pré- central é separado dos giros frontais pelo sulco pré-central, além do bulbo olfatório, em progressão ao nervo olfatório, os quais estão 11 recaídos no sulco olfatório (MACHADO, 2013). Funcionalmente, esse lobo resguarda diversas áreas de interesse,de Faecalibacterium e de Firmicutes no microbioma, que são diretamente responsáveis pela produção de butirato - ácido graxo de cadeia curta (AGCC) com efeitos anti- inflamatórios e neuroprotetores. Por conse- guinte, o uso de probióticos e outras formas de modulação gastrointestinal vem crescendo como métodos de tratamento contra a DA, podendo até reverter determinados estados cognitivos. Contudo, ainda é uma área a ser melhor estudada e que pode contribuir até com o diagnóstico mais precoce da doença (BORGES et al., 2022). No que se refere à imunoterapia, que visa promover a depuração de Aβ e/ou p-tau, alguns pesquisadores acreditam que a imunização ativa com vacinas ou imunização passiva com anti- corpos específicos é promissora. Ambas as estratégias apresentam determinadas vantagens: a ativa depende das respostas imunes humorais e celulares, na geração a longo prazo de anti- corpos endógenos; já a passiva é considerada mais adequada e eficaz para idosos pacientes cuja resposta às vacinas é reduzida (SONG et al., 2022). Também há drogas em desenvolvimento capazes de modificar a evolução natural da doença que, ao lado da antecipação do diag- nóstico, representam o futuro do tratamento da DA e de outras demências. Por exemplo, o Aducanumab, que é um anticorpo humano monoclonal desenvolvido pela Biogen, foi aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) em 2021 e é capaz de estagnar o acúmulo dos sítios de Aβ ao dirigir-se seletivamente para seus sítios (KLEIN & ANGEL, 2022; REMA & COUTO, 2022). No contexto brasileiro, seu uso ainda não foi liberado pela ANVISA, mas sua aprovação em escala de avaliação clínica é um grande marco no manejo da DA e resulta em esperança aos afetados pela doença e seus familiares. A droga foi desenvolvida para pacientes com CCL e em outros quadros demenciais leves, portanto essa medicação é ideal para pacientes assinto- máticos, com poucos sintomas da DA, com história de familiar de primeiro grau ou com 89 quadro pré-senil característico (KLEIN & ANGEL, 2022; REMA & COUTO, 2022). No entanto, o Aducanumab apresenta alto custo somados a exames regulares de controle de biomarcadores de líquor, do PET (tomografia por emissão de prótons) de amilóide e ressonância magnética - necessários para moni- torar possíveis efeitos adversos. Ademais, por seu mecanismo de ação ser relativamente recente, ainda é necessário comprovação dos possíveis benefícios na fase 4 de ensaios clínicos e o FDA ressalta a necessidade de pro- longar a farmacovigilância para a observação da segurança da droga e dos resultados de longo prazo (KLEIN & ANGEL, 2022). Outra forma de tratamento que vem sendo estudada é a utilização de repetição palin- drômica curta regularmente interceptada em cluster (CRISPR), associado ao sistema de proteína 9 (Cas9). Ao ser transcrito, o CRISPR gera pequenos fragmentos de RNA capazes de reconhecer genes específicos e orientar o Cas9 a realizar a clivagem do DNA alvo. Em decorrência disso, os mecanismos de reparo da célula preenchem o DNA com uma sequência de nucleotídeos. No caso específico da DA – com mutações como APP, e PSEN1 e PSEN2, por meio desse sistema foi possível modelar essas mutações alterando a clivagem do APP o que leva a uma normalização dos níveis de Aβ. (PRADO & SOUZA, 2021). Terapias não farmacológicas A investigação de novas opções de tratamento não farmacológicas para a DA, como terapias botânicas e a prática de exercícios físicos, é de suma relevância dado que os efeitos colaterais de medicamentos são suspeitos pela população e isso, recentemente, está levando pessoas a buscarem alternativas mais saudáveis, o que gerou a ascensão desse tipo de tratamento (SANTOS, 2016). A exemplo dessas terapias botânicas, temos o estudo com huperzia serrata, planta em qual encontra-se a substância hurpezina A (HupA) que é um inibidor re- versível potente da AchE. A HupA inibe a AchE ao ligar-se à ela e, dessa forma, prolonga a ação da acetilcolina e facilita a transmissão sináptica em humanos. Além disso, a HupA é capaz de reduzir a degeneração no córtex e hipocampo provocada pelo peptídeo Aβ. (SANTOS, 2016). Dentre os diversos fitoterápicos estudados para o tratamento da DA, destacam-se seus efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios e va- sodilatadores, o que proporciona uma ampla gama de benefícios quando presentes na dieta, principalmente em idosos (VIERO & DOMBROWSKI, 2022). Devido à atividade anti-inflamatória presente nos compostos fitoterápicos, pode haver atividade neurogênica e, após experimentação com as propriedades contidas na erva, as respostas benéficas foram satisfatórias na redução da inflamação e dis- ponibilizaram mais oportunidades de reparação para os tecidos lesados. Sabemos que o cérebro é muito sensível aos danos causados pela oxidação, por conseguinte, para poder preveni- los, os tratamentos com ervas são a melhor opção devido à redução de efeitos adversos (OLIVEIRA et al., 2017). A fisioterapia tem um papel importante na busca da melhoria da qualidade de vida do paciente por meio de uma reabilitação global e uma equipe multidisciplinar. As funções mais beneficiadas são a reabilitação motora, a obtenção de independência do paciente e o retorno às relações interpessoais, ou seja, a reinserção social (OLIVEIRA et al., 2006; CARVALHO et al., 2008). Em relação à prática de exercícios físicos, essa vem indicando ser benéfica no retardo do declínio cognitivo no curso da DA. É 90 demonstrado que os exercícios físicos possuem uma resposta neuroprotetora para DA, visto que promove a neuroplasticidade e protege dire- tamente certas áreas do hipocampo que estão sob alto risco de atrofia suscitada por essa doença. Ademais, pessoas submetidas a exer- cícios físicos apresentam aumento do VO2peak (maior taxa de consumo de oxigênio durante um exercício exaustivo), o qual está relacionado com melhora funcional, melhor performance em testes cognitivos e diminuição dos sintomas da doença. Logo, a prática de exercícios físicos tem forte impacto na função cognitiva e funcional dos pacientes com a DA, além de atuar sobre os mecanismos fisiopatológicos e na prevenção do desenvolvimento da doença (BROADHOUSE et al., 2020). CONCLUSÃO Por fim, infere-se que não há ainda novos métodos farmacológicos bem explanados com mecanismo de ação, contraindicações e efeitos adversos no meio clínico e o aprofundamento nesse assunto ainda é necessário, porém a vasta gama de pesquisas relacionadas nos possibilita enxergar a utilização de algumas dessas técnicas no futuro terapêutico da DA. Nesse viés, destacou-se no nosso estudo o Aducanumab, o qual já passou por validação em alguns setores e países e, atualmente, segue pela fase 4 dos estudos, demonstrando, até agora, um excelente progresso para o uso terapêutico da DA no arsenal da imunoterapia. Assim, enquanto não há cura para a DA, o principal objetivo da terapêutica é retardar sua evolução e preservar por mais tempo possível as funções intelectuais. Nesse sentido, a busca por tratamentos inovadores finda aliviar certos sinais e sintomas - perda cognitiva e de me- mória, inquietação, ansiedade, depressão, confusão e insônia - logo nos momentos iniciais da doença, como no estágio de CCL. Vale ressaltar a importância da reabilitação global do paciente, visto que a DA traz inúmeras limitações em seus estágios avançados. Assim, é possível concluir também que os tratamentos não farmacológicos vêm, ao longo dos anos, ganhando maior destaque, pela maior aces- sibilidade e aceitação social. Nesse âmbito, a fitoterapia e a fisioterapia apresentaram ótimos resultados comprovados pela prevenção da DA. Desse modo, é de suma importância a continuidade nos estudos de novas técnicaspara melhoria do quadro do paciente, com a uti- lização dos, já citados nesse estudo, possíveis medicamentos, fisioterapia, terapias botânicas, práticas de exercício físico, para dessa forma, auxiliar na função cognitiva e funcional dos pacientes com a DA, com o objetivo de futu- ramente obter a validação na clínica médica desses métodos. 91 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BORGES, G. H. DE O. C. et al. A influência da Microbiota intestinal na patogênese da doença de Alzheimer: uma revisão integrativa / The influence of the intestinal Microbiota on the pathogenesis of Alzheimer’s disease: an integrative review. Brazilian Journal of Development, v. 8, p. 50475, 2022. BROADHOUSE, K. M. et al. Hippocampal plasticity underpins long-term cognitive gains from resistance exercise in MCI. Neuroimage Clin. v. 8, p. 102182, 2020. CARVALHO, K. R. de. et al. 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CAPÍTULO 11 DIASTEMATOMIELIA ALINE RABELO RODRIGUES¹ ÁLVARO ALVES DE SÁ JÚNIOR1 MATHEUS HENRIQUE DE ABREU ARAUJO1 GABRIEL DE SÁ FERREIRA1 DANIELA ALVES GULHOTE2 IVO EMMANUEL MACEDO MARINHO3 MELLYNE HENRIQUES GUERRA4 GABRIEL DE MORAES MANGAS5 ARTHUR SANTOS DA SILVA6 PAMELA LOPES CARVALHO7 RAYSSA BARROS7 MARIA FERNANDA GRAEL TINÓS8 LÍVIA SOUSA RIBEIRO9 MATHEUS FERNANDO MANZOLLI BALLESTERO10 RICARDO SANTOS DE OLIVEIRA11 1. Discente –Medicina da Universidade Federal de Jataí (UFJ). 2. Discente–Medicina da Pontifica Universidade Católica de Campinas(PUCC). 3. Discente –Medicina do Centro Universitário Fundação Assis Gurgacz. 4. Discente –Medicina da Universidade Tiradentes (UNIT). 5. Discente –Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF). 6. Discente –Medicina da Universidade Federal do Tocantins (UFT) 7. Medicina da Universidade do Vale do Sapucaí (UNIVÁS). 8. Universidade do Oeste Paulista (Unoeste) 9. Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) 10. Docente- Departamento de Medicina da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. 11. Docente- Divisão de Neurocirurgia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. PALAVRAS-CHAVE: Diastematomielia; Espinha bifida oculta; Diplomielia.. 93 INTRODUÇÃO A diastematomielia é uma anomalia congênita rara da coluna vertebral. Ela possui provável origem na ausência de fusão na linha mediana de duas notocordas paramedianas no momento da gastrulação, o que induz a formação de duas medulas espinhais, cada uma podendo ter o seu canal medular próprio (LACERDA et al., 2011). O sexo feminino é o mais acometido por esta condição, cerca de três vezes mais, e a região lombar a mais envolvida, podendo apresentar-se em qualquer faixa etária (BARRIEL et al.,2009). Pode ser classificada em tipos I e II, sendo o tipo I (cerca de 25% dos casos) marcado pela presença de um septo osteocartilaginoso com formação de dois sacos durais envolvendo cada uma das hemimedulas, enquanto o tipo II apresenta saco dural único (Figura 11.1) (TRAPP et al.,2021). Os sintomas clínicos são, em sua maioria, a dorsalgia, parestesia e redução da força muscular em membros inferiores. Eles tendem a aparecer até a juventude – (média 16 anos ), com a grande maioria dos casos diagnosticados até a idade adulta (AHMED et al.,2020). Figura 11.1 Diastematomielia tipo I, vista em RM corte T2 lombossacral Fonte :Adaptada OLIVEIRA et al.,2021. É frequente a associação da diastematomielia com anomalias vertebrais, como espinha bífida posterior, hemivértebras, fusão parcial, dentre outras. A escoliose congênita é encontrada em mais da metade dos pacientes (SALTER et al., 2001). MÉTODO O presente artigo, é uma revisão de literatura, sendo pesquisados nos bancos de dados Scielo, Pubmed e Lilacs, os seguintes caracteres: “Diastematomielia” e “Diastema- tomyelia”, obtendo estudos em um período de 5 anos (2017-2022), incluindo artigos indepen- dentemente do idioma, texto completo gratuito, relatos de casos, independente de gênero ou faixa etária descritos nestes, excluídos aqueles que não descreviam o escopo do presente estudo, resumos, excluídos aqueles que somente descreviam disrafismo oculto sem descrição da diastematomielia; resultando em 2 (Scielo), 152 (Pubmed) e 18 (Lilacs), ademais este resultado demonstra a carência de trabalhos com o tema. DIAGNÓSTICO DA DIASTEMATOMIELIA O diagnóstico da diastematomielia é iniciado no exame físico, quando se realiza a inspeção e palpação da região dorsal do paciente. Em alguns casos, há a presença de um aglomerado de pelos localizado na parte lombar do dorso da criança, podendo estar associado à condição de diastematomielia (BARRIO- PEDRO, 2021). O diagnóstico não é somente clínico, ao suspeitar inicia-se a investigação imaginológica, na ocorrência de alterações ao exame fisico supracitados (pode não haver alteraçoes morfologicas pois em sua maioria é assintomático). Outras características a serem levadas em consideraçãosão atrofias musculares de mem- 94 bros inferiores, incontinências urinárias ou fecais e deformidades de mãos e pés (MCCOMB, 2015). Entretanto, é importante ressaltar que o diagnóstico dessa condição deve ser dado como definido após exames de imagens, como a ressonância magnética (RM). Quando a pa- tologia está presente, podem ser visualizados duas medulas (BRAGA & MELO, 2005; MCCOMB, 2015). A RM da medula espinal é o exame de escolha na maioria dos casos, e é extremamente importante para descartar outras possíveis patologias associadas ao sistema nervoso, como a Síndrome de Arnold-Chiari (SIQUEIRA, 2016). Além disso, é sabido que a mielotomografia pode ser útil no diagnóstico da diastematomielia (BRAGA & MELO, 2005). A mielotomografia, ou tomomielografia computadorizada, consiste em um exame de imagem que abrange as regiões da cabeça, pescoço e coluna vertebral. O exame é feito com o auxílio de contraste, que é injetado no canal medular do paciente. Desta forma, o profissional deve se atentar às características apresentadas pelo paciente e escolher adequadamente os exames a serem feitos para concluir o diagnóstico de diastematomielia e não expor o paciente a radiação desnecessariamente. DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS Cistos Neuroentéricos Segundo Mccomb (2015), alguns defeitos do tubo neural podem estar associados as malformações da medula espinhal como os cistos neuroentéricos que tem origem durante a gastrulação. Nesse, o canal neuroentérico conecta o saco vitelínico a cavidade amniótica por meio do blastóporo, ligando tempo- rariamente os precursores do trato gas- trointestinal ou respiratório, coluna vertebral e a medula espinhal, com isso inúmeras anomalias podem acontecer durante esse processo, dentre elas: duplicação e má rotação intestinal, cistos entéricos, cistos mesentéricos abdominais e cistos neuroentéricos. Estes incidem com mais frequência na região cervical inferior, nas regiões torácicas superiores e no cone medular, podendo ser extra ou intradurais, quando são intradurais esses cistos são divididos em anterior e posterior à medula espinhal. Os cistos neuroentéricos se apresentam com síndrome de compressão medular associada a espinha bífida anterior ou posterior em até 50% dos casos (ROSSI et al., 2006). Mielomeningocele Entre outras condições que possam estar associadas ou serem diagnósticos diferenciais encontra-se a mielomeningocele, que é a forma mais comum de defeito aberto do tubo neural, onde ocorre uma projeção das meninges dis- plásicas e a medula espinhal devido ao defeito nos arcos vertebrais posteriores que se estendem além do canal medular (MCCOMB, 2015). Espinha bífida oculta e Anomalia de klippel-feil Os defeitos vertebrais associados à síndrome da notocorda dividida variam em gravidade: desde uma mera fenda vertebral ou vértebra bífida (que quando afeta o elemento vertebral posterior é chamada de espinha bífida oculta), até hemivértebras, vértebras em bloco ou fun- didas (como no caso da anomalia de Klippel- Feil), vértebras hipertróficas ou hiperplásicas e vértebras de borboleta, ou até mesmo vértebras ausentes, e na forma mais grave também pode levar a agenesia sacral parcial ou total (MICHELSON & ASHWAL, 2004; DIEL et al., 2001; SCHIJMAN, 2003). 95 Dimielia e diplomielia As malformações da medula espinhal dividida (SSCM) é o termo atual para descrever anomalias nas quais há divisão ou duplicação da medula espinhal. Os termos usados na literatura passada incluem diastematomielia, diplomielia, pseudo-diplomielia e dimielia (KHOURY et al.,2019). A dimielia e a diplomielia estão entre as condições que tem a mesma origem embriológica, de acordo com Ahmed et al. (2020), e pode ser diagnósticos diferenciais da diastematomielia. A dimielia é reconhecida pela presença de duas medulas espinhais verdadeiras que terminam em dois sacos durais distintos. Já na diplomielia há a presença de uma medula espinhal que é acessória à medula original, com um conjunto de quatro raízes nervosas dorsais e ventrais que se encerram em um único saco dural (AHMED et al., 2020); há duas hemi- medulas contidas em um único estojo dural, separadas por uma trave fibrosa (ROSSI et al., 2006). Essas condições ocorrem pelo mesmo erro da diastematomielia que é uma interrupção no processo normal de pré-neurulação da medula espinhal (MCCOMB, 2015), porém nesta há dois sacos durais, contendo cada um uma metade da medula espinhal, separadas por uma trave óssea (ROSSI et al.,2006). TRATAMENTO O tratamento pode ser conservador ou cirúrgico. A cirurgia possui melhores resultados na diastematomielia tipo 1 (CHENG et al, 2012). Pacientes assintomáticos ou que não tenham sintomas neurológicos ou ortopédicos podem ser observados (LEUNG & BUXTON, 2005). Em presença de sintomas recomenda-se realizar cirurgia que, geralmente, envolve procedimentos neurocirúrgicos e ortopédicos (RESENDE et al., 1998). Um estudo demonstrou que a ressecção cirúrgica do esporão deve ser realizada, se o paciente possuir deterioração progressiva dos sintomas neu- rológicos. O tratamento cirúrgico precoce pode prevenir a expansão dos danos neurológicos (MAMO et al., 2021). Em casos de associação com outras anomalias, como cutâneas, vertebrais e de escoliose, deve-se realizar a ressecção do septo antes de cirurgias de correção das outras anomalias e deformidades (LEUNG & BUXTON, 2005). As Diastematomielias são malformações da coluna vertebral que podem gerar lesões medulares e aos nervos espinhais, sendo assim, provável de causar danos neurológicos. Nesse sentido, recomenda-se o tratamento precoce, quando indicado, visto que estudos mostram melhora expressiva ou estabilização dos sintomas neurológicos do paciente (PANG et al., 1992). No pós-operatório, o paciente pode apre- sentar piora temporária, desenvolvendo deficit motor e incontinência urinária e fecal. Neste caso, é necessário fisioterapia intensiva para conseguir resultados positivos como melhor controle da bexiga e controle dos movimentos (ENGLISH & MALTBY, 1967). CONCLUSÃO Têm-se então que a diastematomielia é uma condição congênita, de apresentação predo- minante na juventude, acometendo, prin- cipalmente, indivíduos do sexo feminino, na região lombar, com uma sintomatologia majoritária de dorsalgia, parestesia e déficit de força em membros inferiores. Por se tratar de um defeito de formação do tubo neural, está intimamente relacionada a outros quadros cuja etiologia é pautada nesse princípio e, por isso, é necessária uma investigação diagnóstica ade- 96 quada a fim de se realizar ou excluir diagnósticos diferenciais. Nesse sentido, a reali- zação de exames de imagens é imprescindível para a confirmação diagnóstica, uma vez que a anamnese e o exame físico mesmo funda- mentais para a construção da hipótese diagnóstica, são insuficientes para defini-la. Determinado o diagnóstico, o tratamento res- ponsável por melhor evolução é o cirúrgico associado à fisioterapia pós operatória, no entanto pode-se adotar tratamento conservador a depender do caso analisado. Sendo assim, diastematomielia mostra-se como uma importante afecção do sistema ner- voso central acometendo a população e, embora rara, merece a devida atenção. 97 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AHMED, A.K. et al. Split Cord Malformation in Adults: Literature Review and Classification. 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PALAVRAS-CHAVE: Hematomas; Intracranianos; Intraparenquimatosos. 99 INTRODUÇÃO O sistema nervoso central (SNC) é formado por estruturas nobres, que desempenham inúmeras funções e necessitam de um suprimento constante de oxigênio (MACHADO & HAERTEL, 2014). Os hematomas intra- cranianos (HI) são fenômenos que podem prejudicar o funcionamento ideal deste órgão, comprometendo a irrigação e ocasionando a compressão das estruturas da cavidade crânio- vertebral, podendo determinar um quadro de hipertensão craniana (MACHADO & HAERTEL, 2014; MERRITT et al., 2011). A classificação dos hematomas é feita de acordo com o mecanismo de lesão e a lo- calização anatômica, sendo caracterizado como epidural, subdural ou intraparenquimatoso, ou ainda: traumáticos e não traumáticos (MER- RITT et al., 2011; SIQUEIRA, 2016). Os hematomas não traumáticos estão relacionados a diversos fatores, por exemplo: a rotura arterial aguda devido a hipertensão, aneurisma, mal- formações arteriovenosas, entre outras causas (AFIFI & BERGMAN, 2005). Por outro lado, os hematomas por evento traumático estão relacionados ao traumatismo cranioencefálico (TCE), que se caracteriza por impactos, com transmissão de energia, para o crânio e pa- rênquima cerebral, resultando em fratura óssea e/ou dano ao tecido encefálico, vasos e me- ninges, culminando no comprometimento funcional destas estruturas (OLIVEIRA et al., 2020). A sintomatologia dos HI varia de acordo com a localização da lesão, a sua dimensão e a idade do paciente, podendo existir pacientes assintomáticos. Dessa forma, ocorre uma gran- de variabilidade sintomática. No entanto, é possível inferir os sintomas mais prevalentes a partir das regiões mais comumente acometidas por cada lesão (MERRITT et al., 2011; NETTER, 2013; PAWLOWSKI et al., 2013; SOARES & CARVALHO, 2005). Nesse sentido, cabe discutir a anatomia do encéfalo focando em algumas estruturas ósseas, meníngeas, vasculares e corticais. Portanto, visando contribuir com uma visão mais ampliada e descritiva sobre o tema, esse estudo objetiva descrever os hematomas intracranianos e seus aspectos clínicos, tendo como base a descrição anatômica das estruturas envolvidas. MÉTODO Realizou-se uma revisão bibliográfica de artigos científicos e trabalhos referentes ao tema. A pesquisa foi realizada nas plataformas Google Scholar, Pubmed Central e Scielo e a seleção dos artigos baseou-se na inclusão das palavras-chave: “hematoma” AND “intra- cranianos” OR “subdural” OR “epidural” OR “intraparenquimatoso” OR “intracerebral” e “hemorragia” AND “intraparenquimatosa”; enquanto na plataforma Pubmed Central foi utilizado também as palavras-chaves: “intracerebral” AND “hemorrhage”. De ma- neira complementar, foram consultados livros de anatomia e neurocirurgia. Também foram instituídos critérios de inclusão, como: ano da publicação, priorizando artigos publicados no período de 2011 a 2021; considerando título e resumo disponíveis; idiomas da publicação: Português, Inglês e Espanhol. Foram incluídos 20 artigos e 9 livros, referenciados poste- riormente. A partir da leitura, foi realizada uma análise interpretativa e crítica, sendo possível selecionar as informações relevantes ao pre- sente texto. RESULTADOS E DISCUSSÃO Aspectos anatômicos O crânio é uma estrutura óssea que protege o SNC . Seu arcabouço impossibilita a expansão 100 volumétrica do seu conteúdo, favorecendo o aumento pressórico, como ocorre nos HI (MACHADO & HAERTEL, 2014). Interposto entre este e o encéfalo, dispõem-se as meninges, que são os referenciais para a localização dos HI. A dura máter (DM) é a meninge mais externa, que está intimamente aderida aos ossos da calota craniana, tornando mínimo o espaço entre eles, denominado espaço epidural (AFIFI & BERGMAN, 2005; MACHADO & HAERTEL, 2014). A partir da DM, projetam-se como pregas os seios venosos, os quais tratam- se de canais que se comunicam com veias (Vv.) da face exterior do crânio. Ainda, destaca-se seu folheto mais externo, extremamente vascu- larizado, que é principalmente suprido pela artéria (A.) meníngea média, ramo da A. maxilar (MACHADO & HAERTEL, 2014). Em contato com a DM, dispõe-se a membrana aracnóidea, acomodando entre essas o espaço subdural. Internamente à aracnóide (AC), situa- se a pia máter (PM), separadas pelo espaço subaracnóideo, que aloja o líquido cefa- lorraquidiano. Por fim, a mais interna das meningesé a PM, intimamente aderida à superfície encefálica. Destaca-se sua função de suporte aos órgãos encefálicos, oferecendo-os resistência, e o fornecimento de suprimento sanguíneo, que deriva do espaço subaracnóideo (AFIFI & BERGMAN, 2005; MACHADO & HAERTEL, 2014). O suprimento arterial é realizado por dois sistemas, o anterior e posterior, que formam o círculo arterial anastomótico do cérebro (polígono de Willis) e originam todas as artérias (Aa.) que suprem o encéfalo. Uma característica estrutural das Aa. cerebrais pertinente ao tema, é que possuem paredes peculiarmente mais finas, o que as torna muito propensas a hemorragias (MACHADO & HAERTEL, 2014). O sistema anterior se inicia com a A. carótida interna (ACI), a qual perfura a DM e divide-se em seus ramos terminais: A. cerebral anterior e A. cerebral média. O ramo cerebral anterior cursa anteriormente e ramifica-se na face medial do hemisfério cerebral, apro- ximadamente do lobo frontal até o sulco parietoccipital, alcançando também a parte superior da face dorsolateral hemisférica. A artéria comunicante anterior, nem sempre presente, é um ramo de comunicação entre as Aa. cerebrais anteriores, compondo a parte anterior do polígono de Willis. Por fim, o segundo e principal ramo terminal da ACI é a A. cerebral média, a qual trafega pelo sulco lateral, em direção ao lobo insular e a face superolateral hemisférica. A base para o sistema posterior de irrigação são as Aa. vertebrais, as quais na altura do sulco bulbo-pontino, se fundem para formar a A. basilar. Antes dessa anastomose, a A. vertebral dá origem a importantes ramos, como a A. cerebelar inferior posterior (ACIP). Quanto à A. basilar, esta origina uma série de ramos que irrigam o tronco encefálico, o cerebelo e um ramo terminal: A. cerebral posterior. Por fim, a A. basilar se bifurca em Aa. cerebrais posteriores direita e esquerda, ramos terminais desse sistema, que irrigam a superfície medial do lobo occipital e temporal, em sua porção mais caudal, eventualmente até a porção posterior do lobo parietal (AFIFI & BER- GMAN, 2005; MACHADO & HAERTEL, 2014; STANDRING, 2016). Cabe ressaltar que o polígono de Willis é uma rede anastomótica crucial à irrigação encefálica, visto que este pode vir a possibilitar circulação colateral ao comprometimento do sistema vertebrobasilar ou carotídeo interno. Este se forma ao redor do infundíbulo hipofisário e do quiasma óptico, na base do cérebro, constituindo-se da porção proximal das 101 Aa. cerebrais anteriores, interconectadas pela A. comunicante anterior, as cerebrais médias e as cerebrais posteriores, interconectadas pelas Aa. comunicantes posteriores (MACHADO & HAERTEL, 2014; STANDRING, 2016). A drenagem do córtex cerebral e da substância branca adjacente é realizada pelo sis- tema venoso superficial, cujos vasos transitam sobre a PM. Regiões mais profundas do encéfalo são drenadas pelo sistema venoso profundo, cujos vasos confluem para uma grande V. ímpar - a V. de Galeno ou cerebral magna, a qual desemboca seu conteúdo no seio reto da DM. Ao chegar aos seios, o sangue segue para as Vv. verdadeiras, sendo drenado para fora do crânio, através das Vv. jugulares internas (MACHADO & HAERTEL, 2014). Hematomas epidurais O hematoma epidural (HED) é caracterizado pelo acúmulo de sangue entre a DM e o peri- ósteo da calota craniana e ocorre em torno de 1% dos casos de TCE, sendo mais comum no sexo masculino, com uma relação de 4:1 em relação ao sexo feminino (DA SILVA et al., 2018; MERRITT et al., 2011; SIQUEIRA, 2016). Além disso, predomina nos adultos jovens, sendo mais raros nos idosos, que possuem a DM mais aderida à tábua óssea - que aumenta com a idade - (MERRITT et al., 2011) e apresenta uma mortalidade estimada entre 5% e 10% (PEREIRA & OLIVEIRA, 2015). Majoritariamente, o HED é traumático, como consequência de um TCE devido à queda de altura, a acidente de trânsito ou à agressão física, por exemplo, sendo, em muitos casos, ipsilateral ao local em que ocorreu o impacto (MERRITT et al., 2011; PEREIRA & OLIVEIRA, 2015; RUSCHEL et al., 2016). Porém, também pode estar associado a infecções pericranianas, malformações vascu- lares da DM, distúrbios de coagulação e metástases para o crânio (RUSCHEL et al., 2016). Esses hematomas, ainda, podem ser classificados quanto a sua evolução como agudos, subagudos e crônicos (PEREIRA & OLIVEIRA, 2015). O HED pode ser de etiologia arterial ou venosa. Relativo à origem arterial, é o resultado do rompimento de uma das Aa. meníngeas, principalmente a meníngea média, e representa aproximadamente 85% dos casos. O san- gramento também pode se originar de uma lesão de um seio dural ou de uma V. meníngea média, gerando um HED venoso (DA SILVA et al., 2018; MERRITT et al., 2011). O aumento do volume do hematoma causa gradualmente uma separação entre a DM e o crânio e ocorre até que o vaso rompido seja comprimido ou ocluído pelo hematoma (MERRITT et al., 2011; SIQUEIRA, 2016). As regiões predominantes para os HEDs são a temporal e a temporoparietal, onde há uma menor aderência entre os ossos temporal e parietal e a DM, na zona descolável de Gerard Marchand, menor espessura da escama do osso temporal e proximidade do osso com as Aa. e Vv. meníngeas médias (DA SILVA et al., 2018; PEREIRA & OLIVEIRA, 2015; SIQUEIRA, 2016). Além disso, esses hematomas, em sua maioria, se encontram na fossa craniana média, podendo também se localizar na fossa anterior, com o rompimento de Aa. meníngeas médias, ou na fossa posterior, resultante da ruptura da confluência dos seios (MERRITT et al., 2011). Hematomas subdurais O hematoma subdural (HSD) se caracteriza pelo acúmulo de sangue entre a DM e a aracnóide (AC). Além disso, possui maior frequência quando ipsilateral ao trauma (sendo que cerca de 33% são contralaterais) e 102 costumam se localizar nas convexidades laterais do cérebro, podendo ser pós-traumático, es- pontâneo ou pós-ruptura de malformações vasculares (BADKE et al., 2011). O grupo de risco inclui idosos, etilistas e indivíduos que possuem coagulopatias, além dos que utilizam anticoagulantes orais (MERRITT et al., 2011). A origem é geralmente venosa e, em casos mais graves, pode ocorrer ruptura de A. do parênquima próxima à lesão (BADKE et al., 2011). Uma das causas desse hematoma é a aceleração ou desaceleração promovida pelo impacto que resulta em deslizamento da AC em relação a DM e, por conseguinte, ruptura de Vv. pontes que cruzam o espaço subdural (SIQUEIRA, 2016). O HSD pode se apresentar como agudo, subagudo e crônico. Na formação do hematoma subdural agudo (HSDA), são relevantes o cisalhamento de Vv. pontes derivado da aceleração/desaceleração, sendo essa a forma mais frequente, além de ruptura de Aa. superficiais por traumas diretos ao crânio ou sendo secundário a contusão/laceração cerebral. O HSDA ocorre em 22% dos TCE graves e de 1 a 5% de todas as lesões traumáticas no crânio, tendo como localização mais comum a região frontotemporoparietal (FARIA, 2013). O hematoma subdural crônico (HSDC) possui localização mais comum na região fron- toparietal (SIQUEIRA, 2016). A idade é um fator de risco para o HSDC, já que a atrofia cerebral dos idosos faz com que as Vv. pontes superficiais tenham um trajeto mais longo, sendo mais suscetíveis ao rompimento. Outros fatores de risco são o etilismo crônico, pois torna o indivíduo mais suscetível a traumas, além de promover atrofia cerebral; o uso de drogas anticoagulantes; entre outros. Também foi observado que o gênero masculino é o mais acometido e que a causa mais incidente do hematoma é a traumática, sendo que de 25 a 50% dos casos o trauma craniano não é reconhecido (MERRITT et al., 2011). Ademais, pode-sedestacar que a fisiopatologia do HSDC se dá pela formação de cápsula fibrosa neovascularizada a partir do acúmulo de sangue associado à reação inflamatória (SIQUEIRA, 2016). Hematomas intraparenquimatosos O hematoma intraparenquimatoso (HIP) localiza-se no parênquima cerebral, podendo estender-se aos ventrículos e, menos fre- quentemente, aos espaços subaracnóideo e subdural; e está intimamente relacionado a eventos não traumáticos (AFIFI & BERGMAN, 2005). Esse hematoma acomete cerca de 2 milhões de pessoas no mundo a cada ano e compreende aproximadamente 10% a 15% de todas as causas de acidente vascular cerebral (AVC). Segundo a etiologia do sangramento, o HIP é classificado como primário (80 a 85% dos casos), causado pela ruptura de vasos de pequeno calibre cronicamente danificados – como as Aa. estriadas, Aa. subcorticais lobares, ramos paramedianos da A. basilar e Aa. cerebelares (NETTER, 2013), e está fre- quentemente relacionado à hipertensão crônica e angiopatia amilóide cerebral; ou secundário (15 a 25% dos casos), por aspectos que predispõem a hemorragia, como malformações arteriovenosas, aneurismas e cavernomas, dro- gas antiplaquetárias, coagulopatias, neoplasias, vasculites, trauma, doença de Moyamoya, entre outras causas (MERRITT et al., 2011; ZIAI & CARHUAPOMA, 2018). O HIP apresenta a região profunda dos hemisférios cerebrais como sendo a topografia mais acometida por esse tipo de lesão. Em seguida, a localização de hemorra- 103 gia mais frequente é a região superficial (lobar), com foco para o lobo parietal (AGUIAR et al., 2001; SOARES & CARVALHO, 2005). A etiologia do HIP é caracterizada pela combinação da apresentação clínica, dos fatores de risco e das características da hemorragia nos exames de imagem. Dentre os principais fatores de risco, destacam-se como não-modificáveis a idade avançada, indivíduos do gênero mas- culino, afrodescendentes, hispânicos, latinos e asiáticos; em relação aos fatores modificáveis, destacam-se a hipertensão arterial sistêmica, angiopatia amilóide cerebral, tabagismo, com- sumo de álcool, coagulopatias, simpati- comiméticos, obesidade, fatores genéticos, entre outros (MOROTTI & GOLDSTEIN, 2016). A expansão do hematoma, que pode ocorrer dentro de 24 horas após o início da hemorragia, é causa comum de deterioração neurológica secundária, o que está associado com um pior prognóstico, afetando os índices de mortalidade e morbidade de aproximadamente 33% dos pacientes (ZIAI & CARHUAPOMA, 2018). O HIP geralmente é absorvido de forma espon- tânea, entre 6 e 8 semanas; entretanto, hemorragias de repetição causadas por mal- formação arteriovenosa cerebral ou neovas- cularização desenvolvidas em torno da lesão estão relacionadas com o encapsulamento crônico do hematoma (AGUIAR et al., 2001). Sintomatologia dos hematomas epidurais O rompimento da A. meníngea média pode resultar na Síndrome de Herniação Trans- tentorial, uma vez que o lobo temporal ipsilateral à lesão é forçado na linha média e, assim, o nervo (N.) oculomotor é comprimido contra o tronco cerebral ocasionando midríase ipsilateral . Tal quadro ocorre pois o músculo constritor da pupila, inervado pelo N. oculomotor, deixa de antagonizar a ação do músculo dilatador da pupila. Com o desenvolvimento da pressão ocasionada pelo hematoma, a A. cerebral posterior ipsilateral pode ser severamente comprimida resultando em um AVC no lobo occipital. Além disso, esse aumento de pressão, que continuamente altera a posição do cérebro medialmente para o lado oposto, comprime o tronco encefálico, forçando o pedúnculo cerebral contra a borda do tentório contralateral, podendo ocasionar danos parciais ou totais às fibras piramidais. Como resultado, pode ocorrer uma hemiparesia ipsilateral ao local da lesão, fenômeno conhecido como sinal de Kernohan. Com a compressão do pedúnculo cerebral, também pode ocorrer a compressão das fibras da via corticoespinhal ipsilateral resultando em uma hemiparesia contralateral com hiperreflexia, evidenciada pelo Sinal de Babinski. Estes quadros ocorrem pois o trato corticoespinhal possui fibras motoras somá- ticas, sendo o trato corticoespinhal lateral o principal feixe de fibras responsáveis pela motricidade voluntária (NETTER, 2013). Se a hemorragia permanecer severa, peque- nas Aa. que saem da A. basilar podem se romper com o aumento de pressão ocasionando hemorragias no tronco cerebral, chamadas de Hemorragia de Duret, que podem resultar em morte por lesarem centros vitais do tronco (NETTER, 2013). Sintomatologia dos hematomas subdurais Metade das pessoas acometidas com HSDA perdem a consciência após a lesão, sendo que 25% dessas estão em estado de coma ao serem admitidas no hospital, e metade dos pacientes que desperta do coma perdem novamente a consciência após um “intervalo lúcido” que pode ser de minutos a horas, em função do 104 crescimento do hematoma (MERRITT et al., 2011). Semelhante aos HED, a compressão temporal ocasionada pelo HSD, em especial o agudo, pode resultar em midríase ipsilateral e hemiparesia contralateral. No entanto, os “sinais falsamente localizantes” também são normais nestes hematomas uma vez que pode ocorrer a herniação do úncus, resultando, novamente, na compressão do pedúnculo contralateral ou do terceiro nervo craniano contra a borda do tentório (MERRITT et al., 2011). Em muitos casos de HSDC, os sintomas são mínimos, uma vez que ocorre uma acomodação do cérebro em relação ao aumento gradual do hematoma. Dessa forma, os sintomas podem estar restritos a alterações do estado mental, o que pode ser confundido erroneamente com demência (MERRITT et al., 2011). No caso de lesão no lobo frontal, alguns dos sintomas prováveis são: hemiparesia contra- lateral, visto que o córtex motor primário situado no lobo frontal possui fibras motoras que decussam no tronco encefálico; abulia, resultado de um comprometimento da área frontal medial, responsável pela atenção e motivação; distúrbios comportamentais, dado que o lobo frontal desempenha importante papel na modulação dos comportamentos sociais; e afasia, uma vez que a área de Broca é responsável pela expressão da linguagem (PAWLOWSKI et al., 2013). Em pacientes com lesão no lobo parietal, são esperadas manifestações clínicas como aste- reognosia, disfunção da propriocepção, disgrafia, discalculia, agnosia digital e apraxia, uma vez que tal região do encéfalo está intimamente relacionada com funções somatossensoriais, visuoespaciais, proprio- ceptivas e habilidades da escrita e cálculo (NETTER, 2013). Sintomatologia dos hematomas intraparenquimatosos A sintomatologia mais presente no HIP é composta por cefaléia, vômitos, alterações dos níveis de consciência e hipertensão arterial. Entretanto, é possível inferir outras mani- festações clínicas a partir da região afetada e sua respectiva função neurológica (SOARES & CARVALHO, 2005). No caso de uma hemorragia com foco nos núcleos da base e cápsulas, pode-se esperar uma hemiparesia contralateral - podendo ser acom- panhada de hemianestesia, déficits no campo visual, como a hemianopsia, além de déficits cognitivos e de raciocínio. Esse quadro pode ocorrer visto que essa região encefálica constitui importantes alças neurológicas, tal como: alça oculomotora, responsável pelos movimentos oculares, composta pelo putâmen, globo pálido interno e substância negra reticular; alça motora esquelética, cujo papel está relacionado à função motora, composta pelo corpo do núcleo caudado, globo pálido interno e substância negra reticular; alça de associação, que recebe e envia funções cognitivas e motoras, composta pela cabeça do núcleo caudado, globo pálido interno e substância negra reticular; e alça límbica,de natureza emocional, composta pelo corpo estriado, globo pálido interno e substância negra reticular (MERRITT et al., 2011; PAWLOWSKI et al., 2013). Já em um hematoma com predominância talâmica, é possível que haja sintomas como: hemiplegia, hemianestesia superficial, hemi- ataxia leve e astereognosia, dores no lado hemiplégico, movimentos coreicos e atetósicos e prejuízos na memória. Essas manifestações estão relacionadas com as perdas das funções do tálamo, importante centro de integração motora, sensorial, emocional e cognitiva. Assim como na hemorragia com foco nos núcleos da base e 105 cápsulas, o hematoma talâmico tem seus sinais motores e sensitivos manifestados no lado contralateral à lesão, uma vez que a maioria das fibras desses neurônios decussam antes de inervar sua região alvo (MERRITT et al., 2011; PAWLOWSKI et al., 2013). Cabe ressaltar que comumente o HIP está associado a alterações tomográficas, tendo como principais exemplos a distorção e compressão dos ventrículos adjacentes, desvio da linha média e drenagem para o sistema ventricular - vinculada, geralmente, a pior prognóstico. Um hematoma obstruindo o terceiro ou quarto ventrículo pode resultar em hidrocefalia e hipertensão craniana, cuja sintomatologia comumente está associada a paralisias bilaterais do VI nervo craniano, retardo psicomotor e distúrbios de marcha. Se o sangue segue para o líquido cefalorraquidiano, a hemorragia intraparenquimatosa também pode causar irritação meníngea e rigidez do pescoço (SOARES & CARVALHO, 2005). Exames e diagnóstico Em avaliação inicial, a Tomografia Computadorizada (TC) é considerada exame padrão ouro no diagnóstico das hemorragias intracranianas, por sua alta sensibilidade na identificação dos hematomas e por sua acessibilidade financeira. Além da iden- tificação, uma TC sem contraste é capaz de fornecer informações como localização, extensão intraventricular, assim como o volume do hematoma, que se torna, portanto, importante fator no manejo e prognóstico do quadro em análise. Ainda em relação à TC, uma angiotomografia tem a capacidade de identificar anormalidades vasculares como causas secundárias, e eventual extravasamento com contraste dentro do próprio hematoma (“spot sign”) (MOROTTI & GOLDSTEIN, 2016). Ademais, a Ressonância Magnética (RM) é aplicada em avaliação inicial e secundária, em substituição a uma angiotomografia em pa- cientes com intolerância ao contraste iodado. Assim, tem-se um exame de neuroimagem com alta sensibilidade como a TC, apresentando, porém, custos e duração maiores (MOROTTI & GOLDSTEIN, 2016). Achados característicos dos hematomas epidurais A apresentação clássica do HED na TC é marcada por uma forma biconvexa e hiperdensa (HEMPHILL et al., 2011), que se dá, pois o sangue tem sua expansão limitada pelas ligações da DM às suturas cranianas caracterizadas na calvária, se voltando, portanto, à expansão contra a DM e escavação do encéfalo (HEMPHILL et al., 2011; MACHADO & HAERTEL, 2014). Além disso, em função da epidemiologia/etiologia do quadro, é comum que uma fratura do crânio também seja observada na TC (Figura 12.1) (HEMPHILL et al., 2011). No entanto, na possibilidade de um hematoma de tamanho reduzido, em que o formato biconvexo não é claramente visível, pode-se solicitar uma RM ao paciente para distinguir de um HSD. Dessa maneira, é possível caracterizar a linha da DM, confirmando o diagnóstico de HED. O RM também é capaz de diferenciar HEDs de origem arterial e venosa (HEMPHILL et al., 2011). 106 Figura 12.1 A e B (TC sem contraste) com apresentação clássica de hematoma epidural biconvexo e hiperdenso em hemisfério esquerdo (marcada por seta branca em A), e fratura não deslocada e sobreposta da calvária (marcada por seta branca em B) Fonte: Mutch et al., 2016 (adaptada). Achados característicos dos hematomas subdurais Na TC, os HSDs se manifestam a partir de formato côncavo-convexo (“lua crescente”) situado entre o encéfalo e a calvária, sendo este o principal ponto de distinção radiológica entre HSDs e HEDs (Figuras 12.2 e 12.3) (HEMPHILL et al., 2011; MERRITT et al., 2011). Nessa perspectiva, por estarem contidos em espaço subdural, HSDs não são limitados pelas suturas calvarianas, mas estarão contidos pelos limites do espaço subdural (BROUWERS et al., 2014). Ainda, a partir de análise da densidade do hematoma em comparação à densidade do córtex em TC (Quadro 12.1), ressalta-se a identificação da idade da hemorragia e estado de degradação sanguínea, permitindo uma classificação temporal do HSD. Por último, a maioria dos HSDs não apresenta um curso homogêneo, devido à presença de sangramentos recorrentes. Assim, tem-se um hematoma agudo-crônico, manifestado em TC pela disposição de regiões com características hiperdensa e hipodensa (Figura 12.2) (BROUWERS et al., 2014). Figura 12.2 TC sem contraste demonstra hematoma subdural agudo-crônico direito, com formato côncavo- convexo ou disposição em “lua crescente” Legenda: Em hematoma, apresenta-se zona hipodensa (seta vermelha superior) e zona hiperdensa (seta vermelha inferior). Fonte: Carroll et al., 2017 (adaptada). 107 Quadro 12.1 Variação da densidade do HSD ao longo do tempo na tomografia computadorizada sem contraste Tempo desde episódio de hemorragia subdural Densidade do hematoma em tomografia computadorizada (TC) Agudo (0 - 3 dias) (Figura 3A e 3B) Hiperdenso Subagudo (3 - 21 dias) (Figura 3C) Isodenso (em ausência de novo sangramento) Crônico (> 21 dias) (Figura 3D) Hipodenso (em ausência de sangramento recorrente) Fonte: Brouwers et al., 2014 (Adaptado). Figura 12.3 (A e B) TC sem contraste demonstrando hematoma subdural côncavo-convexo esquerdo. (C) TC sem contraste demonstrando hematoma subdural subagudo direito com característica isodensa. (D) TC sem contraste demonstrando grande hematoma subdural direito crônico de característica hipodensa Legenda: Exames de imagem por tomografia computadorizada sem contraste com apresentações de cortes axial (A, C, D) e coronal (B). Fonte: Carroll et al, 2017 (adaptada). Achados característicos dos hematomas intraparenquimatosos Os HIPs se manifestam de maneira mais restrita do que as outras contusões hemorrágicas (HEMPHILL et al., 2011). Dessa forma, res- salta-se que este hematoma fica contido pelas demais porções de parênquima intacto, sendo o seu volume inicial, um importante preditor da mortalidade do paciente. Ademais, a expansão desse hematoma é fator significativo para um prognóstico funcional ruim e inclusive para a morte do paciente, e por isso deve receber atenção especial no diagnóstico (MUTCH et al., 2016). Nesse sentido, Brouwers et al., em estudo prospectivo realizado em 2015, determinaram a importância de acompanhamento de sangra- mentos ativos em HIPs, já que o cálculo da taxa de extravasamento indica a probabilidade de expansão do hematoma e piora do quadro. O rastreamento desses sangramentos ocorre a partir da identificação de spot sign, pontos hiperdensos ou hipertensos dentro da de- marcação do próprio hematoma primário, em angiotomografia ou RM (CARROLL et al., 2017; MUTCH et al., 2016). Para exemplificar a observação do spot sign podemos observar a seguinte angiotomografia (Figura 12.4). 108 Figura 12.4 Paciente com “sign spot” apresentando extravasamento e expansão do hematoma Legenda: Exames de imagem obtidos por método de tomografia computadorizada sem contraste (A e D), e por angiotomografia (B e C). Fonte: Wada et al, 2007 (adaptada). Abordagem conservadora Os HIs espontâneos, no geral, não necessitam de abordagem cirúrgica, pois muitos são naturalmente reabsorvidos. Assim, pa- cientes com hematomas pequenos e sem sin- tomatologianeurológica tendem a ser monitorados e tratados de forma conservadora (TOWNSEND et al., 2015). Essa abordagem também vem sendo discutida para alguns hematomas com leve manifestação sintomática, desde que não causem desvios significativos da linha média e possuam volume reduzido (SILVA et al., 2020). Tal abordagem consiste no manejo me- dicamentoso para alívio sintomático, repouso, monitoramento clínico e acom-panhamento por imagem (PEREIRA & OLIVEIRA, 2015; SILVA et al., 2020). Ainda assim, alguns desses pacientes precisarão de cirurgia no futuro com ampliado risco de mortalidade, o que fomenta o debate acerca do real benefício dos métodos conservadores (PEREIRA & OLIVEIRA, 2015; SILVA et al., 2020). Ademais, argumenta-se que mesmo a abordagem medicamentosa não está bem esclarecida. Assim, não é reco- mendado que se aguarde a resolução espontânea como conduta inicial, já que não existe previsão ou tempo seguro definido para que isso ocorra (SILVA et al., 2020). Abordagem cirúrgica A intervenção cirúrgica é a mais indicada para pacientes sintomáticos e sem contra- indicações, sendo recomendada para hematomas > 30 cm³, bem como desvio da linha média > 5 mm, além espessura > 15 mm no HED. Já no HSD, há indicação cirúrgica para hematomas de espessura > 10 mm, desvio da linha média > 5 mm ou quando há queda de ≥ 2 pontos na Escala de Coma de Glasgow desde a admissão, pupilas assimétricas ou fixas e dilatadas (GREENBERG, 2016). A cirurgia também é indicada como tratamento quando, após abordagem conservadora, ainda se mantenha a sintomatologia (PEREIRA & OLIVEIRA, 2015; TOWNSEND et al., 2015). A utilização das técnicas cirúrgicas objetivam a descompressão do hemisfério cerebral bem como a prevenção de recidiva, diminuindo a mortalidade e morbidade (TOWNSEND et al., 2015). Para essa abordagem, existem diferentes técnicas a serem aplicadas de acordo com o quadro do paciente, localização do hematoma, preferência e experiência pessoais do cirurgião, desde que permitam expansão homogênea do tecido cerebral (FALEIRO & MARTINS, 2014). 109 Cirurgia minimamente invasiva (CMI) A CMI é uma abordagem mais atual e menos invasiva, tendo como desvantagem um efeito tardio de descompressão da pressão intra- craniana (PIC) (GREENBERG, 2016; SANTOS et al., 2021). A CMI é subdividida em duas técnicas: remoção neuroesdoscópica (RN) e aspiração estereotáxica (AE) (SANTOS et al., 2021). A RN se baseia na utilização de um endoscópio acoplado a uma câmera e a um foco de luz e essa técnica tem como ponto positivo garantir um campo de visão nítido da contusão e dos seus arredores. O procedimento se inicia com uma incisão na região do hematoma, seguida por perfuração do crânio com broca. Um canal é aberto com uma agulha de punção lombar na qual posteriormente será acoplada uma seringa para drenagem inicial (SANTOS et al., 2021),. Já a AE é uma técnica de alta precisão e complexidade que se baseia na utilização de um sistema de coordenadas tridimensionais que localizam áreas intracranianas que não são observáveis de forma direta (TOWNSEND et al., 2015), como os HIP (GREENBERG, 2016). Para isso, o crânio é fixado em um arco de estereotaxia e as coordenadas x, y e z do hematoma a ser drenado são obtidas por TC (GREENBERG, 2016; TOWNSEND et al., 2015), em seguida, um multi cateter será inserido e será realizada a drenagem (SANTOS et al., 2021). Craniotomia Apesar de mais invasivo, esse procedimento é descrito como uma técnica eficaz para a diminuição da PIC (FALEIRO & MARTINS, 2014). O HSD e o HED podem ser tratados com abordagens similares de craniotomia centrada no coágulo, pela parte mais acessível do hematoma, sendo os monitores de PIC mantidos durante o procedimento cirúrgico para avaliação em tempo real. A utilização de um ultrassom durante a cirurgia também é considerada útil nos casos em que a lesão não esteja próxima da superfície cortical, o que auxilia no moni- toramento do esvaziamento (TOWNSEND et al., 2015). A placa óssea retirada durante o procedimento cirúrgico pode ser alojada no tecido subcutâneo abdominal para posterior recolocação, ou descartada, nos casos em que a preferência seja realizar um cranioplastia com placa acrílica (FALEIRO & MARTINS, 2014). CONCLUSÃO Os hematomas intracranianos possuem etiologia variada, o que se reflete em sua epidemiologia e quadro clínico do paciente. No entanto, podem ser diagnosticados por exames de imagem, sendo a TC considerada como pa- drão-ouro devido a sua alta sensibilidade e baixo custo (MOROTTI & GOLDSTEIN, 2016). A julgar pelas diferentes causas dos HIs, bem como as diferentes estruturas em que essas lesões se localizam, os tratamentos escolhidos dependerão da análise do quadro do paciente (HEMPHILL et al., 2011; PEREIRA & OLI- VEIRA, 2015). As intervenções podem ser conservadoras ou cirúrgicas e serão escolhidas com base no tamanho, localização e aces- sibilidade do hematoma, levando também em consideração sinais de deterioração neurológica e o risco cirúrgico. Cabe ressaltar que, conforme a metodologia estabelecida, não foi encontrado na literatura um consenso acerca da padro- nização de indicação de tratamento para cada tipo de hematoma, sendo necessários novos estudos para estabelecimento da conduta mais apropriada (WANG et al., 2013). 110 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGUIAR, P.H. et al. 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Professor de Habilidades Clínicas do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia-UNIFAMAZ, Belém (PA), Brasil. 3. Médica. Graduada pela Universidade do Estado do Pará – UEPA, Belém- PA, Brasil. 4. Acadêmico de Medicina no Centro Universitário do Pará – CESUPA, Belém-PA, Brasil 5. Acadêmica de Medicina do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia - UNIFAMAZ, Belém- PA PALAVRAS-CHAVE: Síndrome de Fahr; Núcleos da base; Hipoparatireoidismo. 112 INTRODUÇÃO A síndrome de Fahr recebe este nome em homenagem a Theodor Fahr, ainda que ele não tenha sido o primeiro a descrever as mani- festações clínicas relacionadas a calcificações cerebrais (DONZUSO et al., 2019). Ela é entendida como a presença de calcificação bilateral e simétrica geralmente dos gânglios da base, mas também nos núcleos denteados do cerebelo, tálamo, córtex e outras regiões (AR- RUDA et al., 2021; GHOGARE & NEMADE, 2021). Algumas subdivisões são importantes dentro do espectro da síndrome, como a divisão entre a forma primária e a forma secundária. A pri- mária, chamada de "doença de Fahr", é idiopática, autossômica dominante e espo- rádica, com maior prevalência em pessoas entre 40 e 60 anos. Já a secundária, seria a "síndrome de Fahr", a qual é relacionada a causas sub- jacentes, como o hipoparatireoidismo, em indi- víduos entre 40 e 60 anos, simbolizando a união das manifestações clínicas e radiológicas (MOHAMMEDIN et al., 2021; GHOGARE & NEMADE, 2021; PALU et al., 2021). Com o processo de envelhecimento há calcificação fisiológica dos gânglios da base, porém isso ocorre somente até certo grau e sem causar sintomas. Já a calcificação patológica é mais difusa e extensa, com padrão mais gros- seiro (DONZUSO et al., 2019). A principal etiologia da síndrome de Fahr é o hipoparatireoidismo, o qual gera desregulação do metabolismo do cálcio e do fósforo, a partir da diminuição dos níveis de paratormônio (PTH) (DONZUSO et al., 2019). Com esta se- creção inapropriada de PTH, há menor mobilização óssea de cálcio, assim como reabsorção de cálcio pelos rins. O diagnóstico laboratorial é feito a partir de níveis de PTH normais ou baixos, em indivíduo com valores subnormais de cálcio e com o fósforo sérico elevado ou no limite máximo da normalidade (ARRUDA et al., 2021). A principal causa de hipoparatireoidismo nos Estados Unidos da América é a cirurgia com abordagem cervical, porém existem outras causas como anomalias congênitas, radiação no pescoço, hipomag- nesemia (DONZUSO et al., 2019; MOHA- MMEDIN et al., 2021). O quadro clínico ocorre principalmente pela hipocalcemia e inclui: parestesias, hiperreflexia (manifestada por sinal de Trousseau e sinal de Chvostek), tetania, broncoespasmo, convulsões e anormalidades no eletrocardiograma (in- tervalo QT aumentado). Como consequência da calcificação bilateral dos núcleos da base ocorrem os sintomas extrapiramidais e cere- belares, além das demais alterações cognitivas (DONZUSO et al., 2019; ARRUDA et al., 2021). A abordagem terapêutica é focada no alívio sintomático e nas correções metabólicas para a melhora dos sintomas neurológicos. Há descrição do uso de gluconato de cálcio intravenoso e uso a longo prazo de cálcio e calcitriol. Em caso de convulsões, drogas antiepilépticas habituais podem ser usadas. Assim, o foco do tratamento é a correção da causa de base, sem um tratamento específico para calcificação cerebral (DONZUSO et al., 2019; ARRUDA et al., 2021). O objetivo dessa descrição é relatar o caso clínico de uma paciente admitida na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) geral de um hospital privado em Belém do Pará com Síndrome de Fahr, tendo o hipoparatireoidismo como etiologia, além de comparar o caso em questão com outros relatados na literatura médica. 113 MÉTODO Trata-se de uma revisão de literatura com relato de caso. As informações relacionadas ao caso clínico foram obtidas por meio de revisão do prontuário, entrevista com familiares e registro fotográfico dos laudos diagnósticos. Este estudo atendeu aos critérios de pesquisa envolvendo seres humanos estabelecidos na Resolução 466/2012 do CNS, tendo aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa sob o parecer de número CAAE: 09281019.6.0000.5701. O local da pesquisa envolveu Unidade de Terapia Intensiva (UTI) geral de um hospital privado em Belém do Pará. A busca por referencial teórico ocorreu nas plataformas digitais: Scielo, LILACS e Pub- Med. Foram utilizados os descritores: Síndrome de Fahr; núcleos da base e hipoparatireoidismo. Desta busca foram encontrados 95 artigos, posteriormente submetidos aos critérios de seleção. Os critérios de inclusão foram: artigos nos idiomas inglês e português; publicados no período de 2017 a 2022 e que abordavam as temáticas propostas para esta pesquisa, estudos do tipo relato de casos, disponibilizados na íntegra. Os critérios de exclusão foram: artigos duplicados, disponibilizados na forma de resumo, que não abordavam diretamente a proposta estudada. Após os critérios de seleção restaram 10 artigos que foram submetidos à leitura minuciosa para a coleta de dados, sendo os resultados apresentados de forma descritiva. RELATO DE CASO Diz respeito ao caso de uma mulher, 68 anos, com perda súbita da consciência,seguida de queda da própria altura, resultando em traumatismo facial. Familiares informaram du- ração de aproximadamente cinco minutos, até que voltasse a apresentar algum contato. Foi levada ao departamento de emergência hos- pitalar, apresentando alteração do nível de consciência, o que motivou a sua transferência para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Admitida na UTI, apresentava desconforto respiratório, notando-se estridor laríngeo e SO2: 79%, cianose de extremidades e frequência respiratória de 30 incursões por minuto (FR= 30 ipm), uso de musculatura acessória da res- piração, batimento de asas nasais, pressão arterial 80/60mmHg e frequência cardíaca de 100 bpm e Escala de coma de Glasgow=8 (AO= 2, RV= 2, RM= 4), sem alteração pupilar. Foi indicada a intubação orotraqueal, evidenciando- se saída de secreção mucopurulenta pelo tubo orotraqueal (TOT) em quantidade pequena a moderada. Adicionalmente, foi submetida à res- tauração circulatória por meio de fluidoterapia com cristaloide, até a estabilização da pressão arterial. Durante o atendimento inicial na UTI, apresentou três episódios epiléticos gene- ralizados tônico-clônicas, revertidos por terapia farmacológica habitual. A paciente foi sub- metida à sedação com cloridrato de midazolan e analgesia com citrato de fentanila em infusão contínua nas primeiras 24 h. Foi iniciado ceftriaxona sódica 2 g∕dia EV, perma-necendo com anticonvulsivante (fenitoína), hidratação venosa com SF0,9% 30 ml∕Kg∕24h. Após a estabilização inicial, foi encami- nhada ao setor de tomografia computadorizada (TC), onde o exame crânio-cerebral revelou calcificações parenquimatosas relativamente simétricas, envolvendo a substância cinzenta profunda, os centros medulares do cérebro e os núcleos denteados do cerebelo, estes últimos com aspecto grosseiramente estriado ines- pecífico. A TC cervical evidenciou estenose de segmento superior da traqueia, enquanto a tomografia de tórax revelou consolidação em base pulmonar direita (Figura 13.1). 114 Figura 13.1 Tomografia computadorizada crânio-cerebral. Corte axial mostrando calcificações no núcleo caudado, núcleo estriado e núcleo dentado. Fonte: Arquivo do hospital Legenda: Imagens obtidas nos meses de Fonte: et al., 2019. Os exames laboratoriais de admissão apontavam para uma alteração importante do cálcio iônico (0,7 mmol/L); Hb 11.8 g/dL, Ht 31%, leucócitos de 9.480/µL, plaquetas 230.000/µL; PCR 4,4 mg∕dL; ureia 36 mg∕dl, creatinina 0,7 mg∕dl, Na 136 mEq∕L, K 3,6 mEq∕L, Mg 1,4 mEq∕L (Tabela 13.1). Outros exames adicionais, como enzimas cardíacas, eletrocardiograma de 12 derivações e ecocardiograma com doppler, estavam dentro da normalidade. Tabela 13.1 Análise laboratorial inicial Exames Resultados Valores de referência Hemoglobina 11,8 g/dL 12 – 16 g/dL Hematócrito 31% 35-47% Leucócitos 9.480 µL 4.500 – 10.000/µL Plaquetas 230.000/µL 150.000 – 400.000/µL PCR 4,4m g∕dLtais como o córtex pré-frontal, o qual possui papel chave no julgamento, comportamento afetivo e decisão de custo benefício, e a majoritária parte do córtex motor (área primária, secundária e pré- motora), as quais são chave para desde a racionalização do movimento até o estímulo, refinamento e comando final da expressão da atividade motora. Encontra-se ainda no hemisfério dominante do lobo frontal a área de Broca, responsável pela execução motora da fala, além da circuitaria ligada ao sentido do olfato (Figura 2.1) (AFIFI & BERGMAN, 2007). Figura 2.1 Base do telencéfalo, com enfoque para os lobos frontal, temporal e occipital Fonte: MARTIN, 2013. O lobo parietal, além da delimitação supracitada, também é loteado pelo sulco parieto-occipital, em relação ao lobo occipital (MACHADO, 2013). Nesse contexto, destaca- se o giro central, separado do pré-central pelo sulco central, e do restante do lobo parietal, ainda, pelo sulco pós-central, o qual será cortado pelo sulco intraparietal que, por sua vez, irá delimitar a topografía dos lóbulos parietal superior e inferior (MACHADO, 2013). Além da clássica função somatossensorial, por abrigar o córtex somatossensorial primário, secundário e associativo, essa região também possui diversas áreas de associação unimodal e multimodal, tal qual o grã córtex associativo, responsável pela integração, em última análise, da informação advinda de todos os sentidos, ao nível do sistema nervoso central (AFIFI & BERGMAN, 2007). O lobo occipital é a região mais posterior, responsável por aglomerar todo o polo occipital do telencéfalo, possui em destaque o sulco calcarino, que abriga em sua topografia redundante o córtex visual e suas vias associativas, córtex este responsável, primordialmente, por toda a racionalização dos estímulos que são transduzidos na visão humana (AFIFI & BERGMAN, 2007). Figura 2.2 Vista súpero lateral do telenféfalo, com enfoque nos lobos frontal, parietal, temporal e occipital Fonte: MARTIN, 2013. A ínsula é considerada um lobo cerebral filogeneticamente mais antigo, se comparado às demais regiões do telencéfalo, e fica localizada no assoalho do sulco lateral, sendo delimitada pelo sulco circular da ínsula e sulco central da ínsula, o qual divide essa região em giros curtos 12 e giro longo (MACHADO, 2013). Funcionalmente, a ínsula tem funções diversas, tendo conexões relacionadas, sobretudo, à gustação, olfato, memória, controle de informação visceral, dentre outras funções (AFIFI & BERGMAN, 2007). Portanto, o estudo prévio dessas regiões do sistema nervoso central ajuda o examinador a abrir a suspeição de que área pode estar potencialmente acometida, a depender, justamente, das características semiológicas da crise, as quais guardam íntima relação com a função e conexões envolvidas na área acometida. Crises de lobo temporal As crises epilépticas do lobo temporal são o tipo de crise mais frequente, correspondendo a cerca de 60 a 80% dos casos. Essas podem ser classificadas em três subtipos: mesial, lateral e meso-lateral. Algumas características semiológicas podem ajudar a distingui-las, como os sinais e sintomas ictais, sejam esses precoces ou tardios, e pós-ictais. Admitem-se etiologias diversas para epilepsia do lobo temporal, sendo as principais esclerose hipocampal, tumores de baixo grau, malformações e lesões decorrentes de trauma ou infecção (TÉLLEZ-ZENTENO & LADINO, 2013). Durante a crise em si, as manifestações ictais consistem com frequência em automatismos orofaciais ou manuais associados a olhar fixo, hiperventilação e fenômenos autonômicos, como taquicardia, piloereção e midríase. A evolução desse quadro inicial para uma crise tônico-clônica bilateral é incomum. Para fazer o diagnóstico, é importante uma anamnese completa que busque os antecedentes, histórico familiar e fatores de risco, além de pedir para que uma testemunha da crise possa detalhadamente descrever as manifestações da crise, visando topografar a região em que ocorreu (TÉLLEZ-ZENTENO & LADINO, 2013). Dentre os tipos citados, a epilepsia de lobo temporal mesial é a mais comum e a melhor caracterizada de todas elas. Em geral, os pacientes que apresentam esse tipo de crise possuem história prévia de meningite, encefalite, crise febril, traumatismo cranioencefálico, evento hipóxico-isquêmico perinatal e antecedentes familiares. Contudo, é comum apresentarem um intervalo temporal significativo em que a doença não se manifesta, até o reaparecimento das crises em idade adulta, em que as crises se manifestam sem a presença de febre. Por outro lado, as crises temporais laterais, que mais frequente e precocemente evoluem para generalização secundária, ocorrem, geralmente, em pacientes sem fatores de risco, de forma que a história clínica não pode ser tão bem caracterizada quanto às mesiais, que raramente apresentam generalização secundária. (TÉLLEZ- ZENTENO & LADINO, 2013). Sobre a frequência dos achados semiológicos em cada subtipo de crise, os automatismos oroalimentares são mais frequentes nas mesiais e meso-laterais, o que sugere envolvimento da amígdala e região anterior temporopolar. Enquanto as generalizações secundárias, desvio da cabeça e/ou olhos são mais frequentes nas crises do lobo temporal lateral. São comuns para os três subtipos a perda de contato inicial ou secundária, longa duração, mais de 60 segundos (MAILLARD et al., 2004). Outro achado importante da epilepsia de lobo temporal são as manifestações pré-ictais chamadas de aura, que podem se apresentar como sentimento de ansiedade, medo ou de déja 13 vu, ou até mesmo como náusea ou uma sensação visceral ascendente de difícil descrição, comumente em região epigástrica. (TÉLLEZ- ZENTENO & LADINO, 2013). Essas sensações viscerais iniciais, principalmente a sensação epigástrica inicial, mais presentes no subtipo mesial e meso-lateral, apontam para um componente límbico da rede. Entretanto, esse sintoma também pode estar presente em crises temporais com acometimento insular (MAILLARD et al., 2004). As estruturas límbicas, especialmente a amígdala, também estão envolvidas na manifestação sintomática do medo e ansiedade, comuns à epilepsia do lobo temporal mesial e meso-lateral. Seguindo este raciocínio para as crises do lobo temporal lateral, o tipo de ilusão ou alucinação - auditivas primárias, auditivas complexas ou visuais complexas - depende da área acometida, de forma que alucinações ou ilusões auditivas e visuais são mais frequentes no lobo temporal lateral. Ademais, o envolvimento precoce do neocórtex temporal lateral ou médio-lateral relaciona-se com a perda inicial do contato durante uma crise (MAILLARD et al., 2004). Em relação aos automatismos motores, na epilepsia temporal mesial eles são, em geral, ipsilaterais, seguidos de postura distônica contralateral. Já na epilepsia temporal lateral a postura distônica lateral não é precedida pelo automatismo, ocorre mais movimentos clônicos e raramente apresenta movimentos de pernas (TÉLLEZ-ZENTENO & LADINO, 2013). Por fim, podemos sintetizar que enquanto os sintomas ictais como sensação epigástrica e automatismos orofaciais iniciais estão mais associados às crises do lobo temporal mesial, as alucinações sensoriais ou psíquicas estão mais associadas às crises do lobo temporal lateral (Tabela 2.2). Tabela 2.2 Características das crises de lobo temporal mesial e temporal lateral Características Temporal mesial Temporal lateral Fatores de risco Meningite, encefalite, crise febril, traumatismo cranioencefálico, evento hipóxico-isquêmico perinatal e antecedentes familiares Em geral, sem fatores de risco Achados semiológicos Automatismos oroalimentares, perda de contatorepetidos em ambas as mãos por 10 anos. Ele teve sinal de Chvostek positivo e os exames laboratoriais apontavam para hipocalcemia, hiperfosfatemia e baixos níveis de paratormônio (PTH). A tomografia computadorizada revelou calcificação dos gânglios da base. Foi tratado com cálcio intravenoso para alívio dos sintomas e uso oral de cálcio e calcitriol. Ademais, enfatizou que em casos de pacientes com hipocalcemia de longa duração, tetania recorrente ou sintomas psiquiátricos, deve-se considerar a possibilidade de hipoparatireoi- dismo. Já o estudo de (EIRINI et al., 2021) refere um caso de uma paciente que foi observado hipocalcemia ao exame laboratorial, nível de paratormônio baixo, bem como anemia de doença crônica. A tomografia computadorizada apresentou extensas calcificações dos gânglios da base, periventricular e cerebelar. O tra- tamento foi conduzido com reposição com gluconato de cálcio e suplementação digestiva com calcitriol, havendo melhora gradual de seus sintomas clínicos, o que também foi descrito por outros autores. Este artigo apresenta o caso de uma paciente idosa, com uma infecção respiratória e manifestações neurológicas graves. Segundo informações coletadas com os familiares, havia antecedente de tireoidectomia total e quimio- terapia há vinte anos, em decorrência de neoplasia da tireoide, além de mudanças comportamentais, tais como episódios de confusão mental e lapso de memória, postura retraída e melancólica, cujo tempo de evolução não foi possível estabelecer junto aos in- formantes. Também não havia informações sobre avaliações neuropsiquiátricas prévias. Outro caso semelhante (ARRUDA et al., 2021) descreve uma mulher na faixa dos 60 anos submetida à tireoidectomia total há 32 anos, apresentou hipoparatireoidismo, com hipocal- cemia crônica, transtorno depressivo maior e internação após sinais agudos de hipocalcemia. Alcançou níveis de cálcio iônico inferiores aos limites de normalidade, fósforo sérico 6,6 mg/dL e PTH baixo. Com uma TC de crânio com calcificações bilaterais simétricas, supra e infratentoriais. No relato de (SAMUELS et al., 2018) foi enfatizado uma apresentação incomum da do- ença de Fahr em um paciente assintomático que 117 apresentava manifestações psiquiátricas e alte- rações de neuroimagem e exames laboratoriais. A hipocalemia do hipoparatireoidismo pode ser responsável pelo estabelecimento de epilepsia. Em outro relato, a paciente também apresentou episódios de crises epilépticas tônico-clônicas, por 6 anos (AHMAD et al., 2019). Destaca-se a importância de intervir em tempo hábil para prevenção de danos cerebrais e consequentes déficits neurológicos impor- tantes. Porém, apenas isto não é suficiente, posto que a correção metabólica é fundamental para o tratamento. CONCLUSÃO Tem-se a importância para a comunidade médica de reconhecer as diversas manifestações clínicas, radiológicas e laboratoriais da Síndro- me de Fahr, na medida que suas repercussões compreendem extremos, que vão desde sin- tomas leves musculares até alterações neuro- psíquicas e cardíacas graves, inclusive com risco à vida. 118 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AHMAD, J. et. al. Relevance of early intervention in Fahr's disease: understanding through a case study. General Psychiatry, v. 32, p. 1-3, 2019. ARRUDA, A.C.G. et. al. Hipoparatireoidismo e síndrome de Fahr: série de casos. J. Bras. Nefrol., p. 1-5, 2021. DONZUSO, G. et al. Basal ganglia calcificantions (Fahr's syndrome): related conditions and clinical features. Neurological Sciences, v. 40, p. 2251-2263, 2019. EIRINI, B. et. al. A rare case of Fahr's syndrome in a patient with secondary hypoparathyroidism and neurophychitric symptoms. Innovations in clinical neuroscience, v. 18, p. 11-14. GHOGARE, A.S. & NEMADE, S. 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CAPÍTULO 14 TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA(TEA) MATHEUS GEORGE SANTOS¹ FÁBIO HENRIQUE DOS SANTOS² YAMAN PAULA BARBOSA RIBEIRO² TATIANA BARBOSA BRAGA² HAIANY EDUARDA BATISTA LOBO³ DÉBORA ZVICKER DA SILVA³ 1. Médico formado pela Universidade de Gurupi. 2. Discentes do curso de medicina da Universidade de Anápolis 3. Enfermeira, pós graduada em terapia intensiva. 4. Discente – Medicina na Universidade de Gurupi. PALAVRAS-CHAVE: Transtorno do neurodesenvolvimento; Transtorno do espectro autista; Tratamento Autismo. 120 INTRODUÇÃO Transtorno do Espectro Autismo (TEA), conforme o DSM-5 é uma condição clínica caracterizada pelo comprometimento nas rela- ções interpessoais (socialização e comunicação verbal e não verbal), além de apresentar um desvio acentuado em relação ao nível de desenvolvimento ou idade mental do indivíduo (MORIUCHI et al., 2016). Dessa forma, apresentam muitos déficits de linguagem, as quais variam de ausência total da fala, passando por atrasos na linguagem, compreensão redu- zida da fala, déficits para desenvolver, manter e compreender as relações devem ser julgados em relação aos padrões relativos a idade, gênero e cultura, bem como a dificuldade no compar- tilhamento de objetos (BEDFORD et al., 2019). Os sintomas costumam ser observados entre os 12 a 24 meses, embora possam ser vistos antes, no caso das formas mais graves. O padrão de início pode incluir a demora no desen- volvimento de habilidades linguísticas e sociais. Outras alterações que podem ser notadas são as comportamentais, nas quais há perda no controle dos esfíncteres, do autocuidado, costumam fracassar no uso de gestos ex- pressivos com espontaneidade na comunicação, por padrões restritos e repetitivos de com- portamento, interesses ou atividade (DEBO- RAH et al., 2018). Nesse capítulo abordaremos os métodos diagnósticos, formas de tratamento, com enfo- que nas alterações neurofisiológicas no autismo. EPIDEMIOLOGIA A prevalência de TEA no mundo é de aproximadamente 1% na população mundial, com predominância de cerca de quatro vezes mais no sexo masculino. Atualmente, até 15% dos casos de transtorno do espectro autista parecem estar associados a uma mutação genética conhecida. Com relação à influência dos fatores ambientais, há uma gama de caracteres inespecíficos que tendem a ter maior propensão para o desenvolvimento do transtorno como idade parental avançada, baixo peso ao nascer ou exposição fetal a ácido valproico (DSM V, 2019). Já em relação a gravidade, tendem a apresentar melhor prognóstico os casos de ausência de deficiência intelectual e com- prometimento da linguagem associados, bem como outros problemas de saúde mental. A epilepsia, por exemplo, como um diagnóstico de comorbidade, está associada a maior deficiência intelectual e menor capacidade verbal. Além disso, o sexo feminino tem mais propensão a apresentar os casos mais severos do transtorno, com deficiência intelectual, sendo um critério geralmenteavaliado no critério diagnóstico piores (GOTHAM et al., 2009). 121 CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS (Tabela 14.1) Tabela 14.1 Critérios de diagnóstico de autismo DSM-5 A. Déficits persistentes na comunicação social e interação social: • Déficits de reciprocidade sócio e emocional: reduzido compartilhamento de interesses, emoções ou afeto; fracasso em iniciar ou responder às interações sociais; • Déficits em comportamentos comunicativos não-verbais (interação social, variando): falha na compreensão da comunicação verbal e não verbal; dificuldade de manter contato visual; déficits na compreensão e uso de gestos; falta de expressões faciais e comunicação não verbal; • Déficits no desenvolvimento, manutenção e compreensão de relacionamento: dificuldades para ajustar o comportamento para se adequar a vários contextos sociais; dificuldades em fazer amigos; ausência de interesse nos pares; dificuldade em compartilhar. B. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades, conforme manifestado por pelo menos dois dos seguintes: • Movimentos motores estereotipados ou repetitivos, uso de objetos ou fala: estereotipias motoras simples, alinhar brinquedos ou lançar objetos, ecolalia, enfileirar brinquedos; andar nas pontas dos pés; • Insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados ou padrões autísticos de comportamento: angústia extrema em pequenas mudanças, dificuldades com transições, padrões de pensamento rígidos, rituais de saudação, necessidade de seguir o mesmo caminho ou comer a mesma comida todos os dias; • Interesses restritos e fixos que são anormais em intensidade ou foco: forte apego ou preocupação com objetos incomuns, interesses excessivamente circunscritos; • Hiper ou hiporreatividade estímulos sensoriais no ambiente: indiferença aparente à dor, resposta adversa a sons ou texturas específicos, cheirar ou tocar excessivamente em objetos, fascinação visual por luzes ou movimento. C. Os sintomas devem estar presentes no início do período de desenvolvimento podendo se tornar identificáveis ou totalmente manifestos quando a demanda social for maior, excedendo suas capacidades. D. Os sintomas causam prejuízos clinicamente significativos em áreas ou sociais, ou ocupacionais ou outras áreas importantes do funcionamento atual. E. Esses distúrbios não são melhores explicados pela deficiência intelectual ou atraso de desenvolvimento. Fonte: Adaptado de DSM-V, 2019. RASTREAMENTO A escala Modified Checklist for Autism in Toddlers (M-CHAT) auxilia no rastreamento de TEA, através da busca por identificar indícios desse transtorno em crianças entre 18 e 24 meses. É realizada através da aplicação nos pais ou cuidadores da criança. É autoaplicável e simples, e apresenta alta sensibilidade e espe- cificidade. Ainda não está disponível uma versão em português (LOSAPIO & PONDÉ, 2008). EXAMES NEUROPSICOLÓGICOS Escala de Avaliação de Autismo na Infância Os teóricos referem outro instrumento que tem sido utilizado o Childhood Autism Rating Scale – CARS (Escala de Avaliação de Autismo na Infância). Nesse teste, os comportamentos da criança são avaliados de acordo com as infor- mações obtidas através de entrevistas com os pais e de observações diretas da criança (SILVA & MULICK, 2009). 122 A escala faz a avaliação comportamental de 14 domínios geralmente afetados no autismo. Somados a mais uma categoria geral de impressão de autismo possibilita a padronização das relações pessoais, imitação, resposta emo- cional, uso corporal, uso de objetos, resposta a mudanças, resposta visual, resposta auditiva, resposta e uso do paladar, olfato e tato, medo ou nervosismo, comunicação verbal, comunicação não verbal, nível de atividade, nível e com- sistência da resposta intelectual e impressões gerais observados em crianças autistas (PE- REIRA, et al., 2008). Inventário Comportamental dos Transtornos Invasivos do Desenvolvimento (PDDBI) O Pervasive Developmental Disorder Behavior Inventory – PDDBI (Inventário Com- portamental dos Transtornos Invasivos do Desenvolvimento). Auxilia na detecção de sintomas de autismo durante o processo de avaliação diagnóstica. Dentre os instrumentos em formato de questionário para os pais ou professores (NEUMANN et al., 2017; FILIPE, 2012). Outros testes Profissionais também tem se utilizado do Autism Diagnostic Interview – Revised – ADI- R (Entrevista Diagnóstica para Autismo) e do Autism Diagnostic Observation Schedule – ADOS (Observação Diagnóstica Programática para Autismo). Foram elaborados para serem utilizados de forma complementar. Enquanto o ADI-R corresponde a uma entrevista semi- estruturada com os pais, o ADOS corresponde a um programa semiestruturado de atividades e entrevistas realizadas diretamente com a criança. Dessa forma, é possível ter uma noção melhor do funcionamento cognitivo e ada- ptativo da criança (SILVA & MULICK, 2009). Reconhecimento de Emoções da Bateria de NEPSY-II e teste de Desenvolvimento Infantil de Bayley Alguns testes e escalas neuropsicológicas para avaliação de emoções e competências sociais podem ser importantes para o diagnóstico diferencial, bem como, a orientação de intervenções terapêuticas. Os autores des- tacam alguns destes testes entre eles estão: o Subteste de reconhecimento de Emoções da Bateria de NEPSY-II, o Teste de Compreensão Emocional indicado a crianças de 3 a 6 anos, sendo este fundamental na abordagem precoce (NEUMANN et al., 2017). Cita-se ainda o Desenvolvimento Infantil de Bayley. É formado por três escalas que avaliam questões motoras, mentais e comportamentais, as três são complementares para avaliação final. São importantes no desenvolvimento de cri- anças de 1 a 42 meses (COSTA et al., 2004). ALTERAÇÕES NEUROBIOLÓGICAS As principais estruturas cerebrais afetadas no TEA incluem o cerebelo, a amígdala, o hipocampo, o corpo caloso e o cíngulo. Foram encontradas ainda alterações anatômicas e fisiológicas no lobo temporal, o qual seria essencial para a percepção de estímulos sociais, expressões gestuais e movimento biológico, além de se conectar a outras regiões cognitivas (HADJIKHANI et al., 2004). Foram notadas também várias alterações causadas por desconectividade entre estruturas subcorticais e corticais. Cita-se também alterações corticais compreendiam as áreas frontal e parietal, bem como as áreas supra-marginal e giro angular e bilateral. Nos giros pré e pós-central do hemis- 123 fério esquerdo, déficits nas regiões do cérebro responsável pelo processamento de ordem inferior (LIDAKA et al., 2019). Amígdalas (Figura 14.1): Figura 14.1 Estrutural cerebral- Amígdala Legenda: Imagens obtidas no mês de agosto de 2022. Fonte: ALMEIDA, 2013. Estudos revelaram uma conectividade reduzida entre as amígdalas bilaterais e o córtex occipital inferior esquerdo. Foi observada também uma maior conectividade entre a amígdala direita e o córtex sensório-motor direito. Para melhorar a capacidade de se habituar diminuída e aumentar o nível de respostas comportamentais quanto na ativação da amígdala para enfrentar estímulos em crianças com TEA. Para isso, foi empregado um trabalho de memória alimentada por rostos com emoções diferentes ao início, com distratores irrelevantes da tarefa, como sons ao fundo (TAM et al., 2017). Córtex pré-frontal (Figura 14.2) Figura 14.2 Córtex pré-frontal Legenda: Imagens obtidas no mês de agosto de 2022. Fonte: PSICOSOMAVISEU, 2015. No caso de TEA houve uma diminuição no êxito da recuperação de memórias, mas, com relação aos níveis comparáveis de atividade e conectividade funcional, mas a atividade de córtex pré-frontal lateral durante a codificação não prevista na memória no grupo com TEA. Foi realizadopara recuperação de memórias nos autistas por meio de figuras: uma contendo uma cena de fundo sobreposta a três objetos do cotidiano, variando em 3 características: cor, orientação e localização (REINHARDT et al., 2019). Ínsula anterior (IA) É notável que a conectividade ínsula anterior (IA) (Figura 14.3) disfuncional desempenhe papel importante no autismo. Segundo o estudo, http://www.doctoralia.com.pt/medico/almeida+ana-14828134 124 foi relatado hipoatividade da IA no autismo através da promoção de tarefas empregadas na avaliação de habilidades sociais envolvendo a visualização de expressões faciais emocionais e olhar incongruente. Tarefas de conscientização emocional e outras tarefas que envolvem processamento facial (Di Martino et al., 2009) também foram associadas à hipoatividade da IA no TEA (UDDIN et al., 2009). Figura 14.3 Anatomia da ínsula em verde Legenda: Imagens obtidas no mês de agosto de 2022. Fonte: ANATOMIA, PAPEL E CANETA, 2016. Foi descoberto também que indivíduos com TEA ativavam a área da face fusiforme e outras áreas do cérebro normalmente envolvidas no processamento da face quando visualizavam faces em comparação com estímulos não- faciais. As ferramentas usadas foram imagens segmentadas, reconstruídas, infladas e acha- tadas. Durante a digitalização, os participantes receberam imagens em escala de cinza de rostos, objetos e versões mexidas dessas fotos em uma apresentação diferente. Os estímulos consistiam em 64 diferentes rostos e objetos, cada um com sua própria versão embaralhada (HADJIKHANI et al., 2004). Giro fusiforme (Figura 14.4) Figura 14.4 Representação do giro fusiforme Legenda: Imagens obtidas no mês de agosto de 2022. Fonte: WIKIPEDIA. Polygon data were generated by Database Center for Life Science (DBCLS, 2015. O neurodesenvolvimento do giro fusiforme nos autistas é mostrado com deficiências sociais fundamentais vistas em pacientes com TEA. O giro temporal superior esquerdo demonstrou correlações negativas com TEA. No geral, ocorreram diferenças funcionais nas principais regiões de processamento de idioma. Foi analisado que crianças e adolescentes com TEA apresentaram diminuição na área de Broca. Os adultos com TEA apresentaram diminuição do grau de centralidade na área de Wernicke capacidade do corpo caloso de distribuir a carga de processamento pelos hemisférios e com- pensar possíveis menor capacidade intra- hemisférica, contribuindo para menores pon- tuações nos índices de velocidade de pro- cessamento (LEE et al., 2017). 125 Desconectividade entre estruturas corticais e subcorticais (Figura 14.5): Figura 14.5 Áreas corticais e subcorticais do cérebro Legenda: Imagens obtidas no mês de agosto de 2022. Fonte: ORGANIZATION KENYA, 2017. Alterações observadas no cérebro de pacientes com TEA são causadas por des- conectividade entre estruturas subcorticais e corticais.. As regiões corticais compreendiam as áreas frontal e parietal, bem como as áreas supra-marginal e giro angular e bilateral. Nos giros pré e pós-central do hemisfério esquerdo déficits nas regiões do cérebro responsável pelo processamento de ordem inferior (sensação, percepção e execução motora). Quando as crianças amadurecem, anormalidades nas redes de processamento de ordem inferior afetam regiões responsáveis pela cognição de ordem superior. Na amostra atual de TEA, os fatores inter-hemisféricos déficits foram detectados em sistemas inter-hemisféricos redes (motor, visual e auditiva). Comparado com TEA de baixo funcionamento, TEA sem déficit intelectual pode ser caracterizado por um curso de desen- volvimento de menor prejuízo, resultando em maior eficiência redes de ordem superior (LIDAKA et al., 2019). Conectividade entre lóbulos e o cerebelo (Figura 14.6): Figura 14.6 Lóbulos cerebrais Legenda: Imagens obtidas no mês de agosto de 2022. Fonte: HUANG, 2020 Foram encontradas silenciosas em crianças autistas (lóbulos IV/V e cerebelo anterior). Além do que, uma função reduzida entre as áreas pré-motoras e o cerebelo foi encontrada em crianças, o que sugere possíveis alterações nas conexões cérebro-cerebelares de longo alcance. Por exemplo, em uma tarefa que requer percepção e imitação de ações humanas se detectou um envolvimento entre o sulco temporal superior posterior e a região cerebelar. Tal fato é resultado do grau de coativação funcional que prevê déficits sociais em TEA em relação a atividades que exigem memorização por meio de questionário. Foi organizado um relatório dos pais para habilidades específicas de cognição social com base em atividade mental imaginativa, o que permite a com- preensão do comportamento de outras pessoas (intenções, necessidades, desejos ou objetivos). Assim, interações mais fortes foram associado a https://www.msdmanuals.com/pt-pt/casa/authors/huang-juebin 126 uma melhor capacidade de memorização. Em uma nota semelhante, durante tarefas que envolvem a capacidade de perceber estados mentais de outras pessoas, uma ativação cerebelar reduzida em participantes com TEA foi encontrado (MANTO et al., 2011). LIMITAÇÕES ALIMENTARES Haja vista relatos de alterações em per- meabilidade intestinal em crianças com TEA, apresentando disbiose, disfunções gastro- intestinais hipersensibilidade a alimentos, necessário se faz a abordagem sobre a alimentação no questionário proposto. As per- guntas serão pautadas na composição da dieta e sua relação com a intensidade de sintomas, sem restringir, a priori, sobre tipos de consumo ou carência de alimentos. Mas, já se delineia importância de alguns alimentos e com- portamentos dietéticos como consumo de açúcares, leite e glúten. O primeiro, relaciona-se à disbiose e consequente perda de per- meabilidade seletiva que resulta em reações inflamatórias e imunológicas sistêmicas, além de reduzida absorção de minerais e vitaminas. Também, sua fermentação por fungos gera acetaldeído que pode provocar neurotoxicidade. Quanto aos outros dois, trigo e leite, são considerados os principais alérgenos ali- mentares associados com o autismo. E, mesmo que a sugestão de que digestão ineficiente desses dois, gerando peptídeos opióides (caseomorfinas e gluteomorfinas) e com isso, afetando emoção, humor e comportamento do autista esteja carecendo de maiores estudos e consenso no meio científico como causa de sintomas, há comprovação de melhora comportamental das crianças quando em dieta de exclusão de caseína e glúten (MARQUES, 2013). Melhorias nas relações com as crianças autistas O TEA possui um espectro de sintomas que podem ser classificados em um tripé: falha na interação social recíproca; comprimento da imaginação, comportamento e interesses repe- titivos; e dificuldade na comunicação verbal e não verbal. Ademais, sabe-se que o autismo é uma condição que não tem cura. No entanto, com o apoio da família e a intervenção de um profissional especializado pode melhorar a vida do autista de maneira significativa e, com isso, a compensação certa a longo prazo para os cuidadores (LOCATELI, 2016). Diversos métodos terapêuticos foram desenvolvidos ao longo dos anos, apresentando diversos ônus e níveis de resultados no tratamento dessas crianças. O presente trabalho também propõe uma análise do método empregado na APAE e na terapia do TEA, observando a efetividade, aderência e também dúvidas dos cuidadores em relação ao tratamento. Visto isso, os pesquisadores criarão uma proposta de instrumento que visa tanto facilitar o entendimento dos familiares, quanto contribuir para os agentes da APAE no cuidado com essas crianças. TRATRAMENTOS Fonoaudiologia O principal objetivo é trazer melhoras na comunicação oral, escrita, voz, audição e equilíbrio. Nota-se que nos primeiros seismeses a extensão e a velocidade do processo evolutivo tornaram-se mais evidentes, especialmente nos grupos em acompanhamento com fono- audiólogos. Na Faixa da Linguagem também houve melhora significante e na área Pessoal- Social também houve desempenho favorável ao longo do tempo (TAMANAHA, 2015). 127 Terapia ocupacional A terapia ocupacional, que é a área responsável por promover saúde e bem-estar de pessoas com problemas sensoriais, motores e físicos. Quando aplicada ao autismo, a terapia ocupacional utiliza tecnologia e atividades diversas que pretendem buscar autonomia e melhorar a adaptação da vida social daquele indivíduo (ABELENDA et al., 2020). Terapia comportamental (ABA) As terapias que seguem os princípios da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) são as mais indicadas. Baseiam-se na ma- nutenção de técnicas cognitivas e compor- tamentais, como psicoeducação, exposição e resposta, reestruturação cognitiva e regulação emocional. Os resultados obtidos, quando aplicada ao TEA, têm se mostrado eficientes na aquisição de novas habilidades e redução de comportamento prejudiciais. Os tipos mais comuns de intervenção; em grupo, e com participação dos pais (CONSOLINI et al., 2019). Acompanhamento pedagógico Toda pessoa no espectro do autismo tem direito à educação. Por esse motivo, o acompanhamento pedagógico é essencial para garantir que cada um tenha suas indi- vidualidades e necessidades respeitadas. O ensino estruturado centra-se nas áreas fortes processamento visual, memorização de rotinas e interesses pessoais, devendo ser adaptado a diferentes níveis de funcionamento e às necessidades individuais de cada criança (MORAIS, 2012). Fisioterapia ou atividade física O desenvolvimento motor pode ser afetado em pessoas com espectro autista. O desen- volvimento da coordenação motora fina e grossa são essenciais para muitas atividades, influência direta no desenvolvimento neuropsicomotor da criança autista (AZEVEDO & GUSMÃO, 2016). Estudos demonstram que, por meio da prática de exercícios como caminhada, equinoterapia, e atividades aquáticas as pessoas com autismo conseguem desenvolver melhor sua capacidade comunicativa, reduzir o comportamento antissocial, diminuir compor- tamentos que demonstram inadaptação, este- reotipias e agressividade (AGUIAR et al., 2017). DIFICULDADES O acesso precário aos serviços de saúde e apoio social predispõe ao aumento do estresse e a diminuição da qualidade de vida de cuidadores e de crianças com TEA. Somado a isso, a falta de atividades de lazer e educação disponíveis para seus filhos dificultam a vida dos cuidadores, uma vez que estes se tornam os principais provedores de educação e relações sociais para seus filhos. Além disso, observa-se um aumento no horário de trabalho dos pais para custear as despesas com terapia e educação voltadas para a criança autista, e a falta de preparo de cuidadores. Assim, tona-se difícil à melhora dos principais déficits apresentados: comunicação insuficiente e prejuízos cognitivos (PAULYANE, 2015). As crianças com espectro autista tendem a ter diversos prejuízos sociais em aprendizagem por interação social, de planejamento e no estabelecimento de independência. Cita-se ainda a persistência em rotinas e dificuldade na aceitação de mudanças; sensibilidades senso- riais, organizar e enfrentar a mudança causa impacto negativo; de estabelecer sua inde- pendência devido à rigidez e à dificuldade 128 contínuas com o novo. Tais fatores levam ao isolamento social, problemas de comunicação e atrasam o estabelecimento da independência devido à dificuldade do convívio com o novo (MORIUCHI et al., 2016). 129 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABELENDA, A.J.; et al. Evidencia científica de integración sensorial como abordaje de terapia ocupacional en autismo. Medicina (B. Aires), Ciudad Autónoma de Buenos Aires , v. 80,supl. 2, p. 41-46, 2020. AGUIAR, R. P.; et al, Importância da prática de atividade física para as pessoas com autismo. Rev. De Saúde e Ciências Biológicas, v. 2, n. 5, 2017. ALMEIDA. A. Estruturas cerebrais – Amígdala, 2013. Disponível em:. Acesso em: 06 de Ago. de 2022. ANATOMIA PAPEL E CANETA. Lobos cerebrais, 2016. Disponível em:. 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Acesso em: 06 de Ago. de 2022. 131 Afasia, 70 AVC, 70 Depressão clínica, 60 Diabetes, 46 Diagnostico Precoce, 79 Diastematomielia, 92 Diplomielia, 92 Discectomia, 37 Doença de Alzheimer, 85 Doenças Cardiovasculares, 20 Doenças Neurodegenerativas, 79 Dor, 46 Epidemiologia, 20 Epilepsia, 8 Espinha bifida oculta, 92 Estimulação transcraniana, 60 Exame De Imagem, 79 Genética, 1 Hematomas, 98 Hérnia discal lombar, 37 Hipoparatireoidismo, 111 Imunoterapia, 85 Intracranianos, 98 Intraparenquimatosos, 98 Mortalidade, 20 Nervo ciático, 37 Nervo periférico, 46 Neurofibromatoses, 1 Neurologia, 8, 46 Núcleos da base, 111 Parkinson, 60 Semiologia, 8 Sinais e Sintomas, 1 Síndrome de Fahr, 111 Síndrome de Segawa, 26 Síndrome de Tourette, 26 Terapêutica, 70 Tiques, 26 Transtorno do espectro autista, 119 Transtorno do neurodesenvolvimento, 119 Tratamento, 1, 85 Tratamento Autismo, 119inicial ou secundária, longa duração, aura visceral, automatismos motores ipsilaterais seguido de postura distônica contralateral Generalizações secundárias, desvio da cabeça e/ou olhos, perda de contato inicial ou secundária, longa duração, alucinações auditivas e visuais, postura tônica na lateral não precedida por automatismos Fonte: Adaptado de TÉLLEZ-ZENTENO & LADINO, 2013; MAILLARD et al., 2004. Crises de lobo frontal A epilepsia do lobo frontal (ELF) é o segundo tipo mais comum de epilepsia focal, correspondendo a cerca de 20-30% dos casos e refletem a grande heterogeneidade funcional dos lobos frontais, assim como as conexões diretas com os lobos temporal e parietal (PATRIKELIS et al., 2009). Todavia, relata-se difícil caracterização semiológica das crises do lobo frontal, uma vez que apresentam sintomatologia diversificada conforme localização e extensão da lesão, e padrões semiológicos e elétricos que podem ser enganosos quanto à localização do início das crises, dificultando, assim, efetiva categorização e classificação entre os pacientes 14 (BONINI et al., 2014). Para O'Muircheartaigh e Richardson (2011), embora haja ampla gama de padrões de crises na ELF, cada paciente geralmente apresenta pequeno número de crises altamente estereotipadas. Nesse sentido, a ELF pode, ainda, ser confundida com condições psiquiátricas, sendo diagnosticada erroneamente, por não ser bem compreendida (GOLD et al., 2016). Como já descrito anteriormente, o lobo frontal é responsável por funções motoras, expressão linguística, memória, funções de planejamento mental e do comportamento. Assim, é de se esperar que as manifestações semiológicas das crises originadas nesse lobo estejam relacionadas a alterações dessas funções. As crises focais motoras podem começar com desvio forçado e sustentado da cabeça e dos olhos, e algumas vezes, de todo o corpo. A rotação normalmente ocorre contralateralmente ao do foco elétrico, mas, algumas vezes, ipsilateralmente. O mesmo ocorre para a rotação da cabeça e dos olhos que ocorre no final da fase generalizada tônico- clônica das crises. Esses movimentos corporais e da cabeça podem ser precedidos por olhar fixo silencioso ou por automatismos (ROPPER et al., 2019). É importante ressaltar que as principais expressões das crises do lobo frontal são motoras. Quando falamos dessas manifestações, podemos diferenciar lesões confinadas ao córtex motor, que assumem a forma de contrações, daquelas confinadas ao córtex pré- motor, caracterizadas por contrações tônicas do braço, da face, do pescoço e de todo um dimídio corporal contralateral. A elevação tônica ou a extensão do braço contralateral e a flexão do braço ipsilateral, chamada postura do esgrimista, e posturas coreoatetócas e distônicas têm sido associadas a lesões frontais mediais altas (área 8 e córtex motor). A transpiração e a piloereção ocorrem ocasionalmente em partes do corpo envolvidas em crises motoras focais, o que sugere que essas funções autonômicas apresentam representação cortical na área motora ou adjacente a ela. Tem-se como conhecimento, que grande parte das crises frontais são noturnas. A epilepsia noturna do lobo frontal apresenta componente predominantemente motor, e ocorre, sobretudo, durante o sono não-REM. Tais crises são caracterizadas por diversos ataques por noite, a qualquer hora e com breve duração dos ataques. Existe um padrão motor estereotipado, de forma que alterações autonômicas (taquicardia, taquipnéia, entre outros) são frequentemente observadas durante as crises (FERINI-STAMBI et al., 2012). Além disso, ainda pode ocorrer o fenômeno da marcha Jacksoniana, uma forma de crise focal frontal que começa com contrações tônicas seguidas por clônicas nos dedos de uma mão, em uma hemiface, ou nos músculos de um dos pés. Eventualmente, uma série de movimentos clônicos de crescente frequência evoluem para uma contração tônica. O aspecto característico é a progressão, a marcha, do movimento da parte inicialmente afetada para outros músculos contíguos do mesmo lado do corpo sofrendo os fenômenos motores. A forma típica da crise se caracteriza pela progressão das alterações de uma mão, que ascendem para o braço, para a face e descendem para as pernas (ROPPER et al., 2019). Ainda, sabemos que o lobo frontal está relacionado à linguagem. Dessa forma, descargas epilépticas provenientes das áreas corticais da linguagem podem originar breves distúrbios afásicos (afasia ictal), e a emissão de uma palavra ou som intenso. A afasia ictal geralmente é sucedida por outra atividade 15 epiléptica focal ou generalizada mas pode acontecer isoladamente, sem perda de consciência, o que permite sua posterior descrição pelo paciente. A afasia pós-ictal é mais comum que a ictal. A verbalização no início de uma crise não tem um significado lateral consistente, e paradoxalmente, geralmente está associada a uma origem no hemisfério não dominante, esses distúrbios devem ser diferenciados da repetição estereotipada de palavras ou frases ou da fala distorcida que caracteriza algumas crises focais ou o estado confusional pós-ictal e, claro, a afasia de Wernicke (ROPPER et al., 2019). Didaticamente, com base na semiologia ictal, foi sugerida pela International League Against Epilepsy (ILAE) em 1989 uma classificação das crises do lobo frontal de acordo com o seu local de origem. ● Córtex motor primário: movimentos tônicos ou clônicos contralaterais de acordo com a somatotopia, parada de fala e deglutição com generalização frequente. ● Área motora suplementar: crises tônicas focais simples com vocalização, parada de fala, postura de esgrima e atividade motora focal complexa com incontinência urinária. ● Cíngulo: atividade motora focal complexa com automatismo inicial, características sexuais, mudanças de humor e incontinência urinária ● Área frontopolar: perda inicial de contato, movimentos versivos iniciais da cabeça e do pescoço, movimentos clônicos axiais, quedas e sinais autonômicos com crises tônico- clônicas generalizadas frequentes ● Área orbitofrontal: crises motoras focais complexas com automatismos iniciais ou alucinação olfativa, sinais autonômicos e incontinência urinária. ● Área dorsolateral/opercular: tônico focal simples com movimentos versivos e afasia, e atividade motora focal complexa com automatismos iniciais. Mastigação, salivação, deglutição e parada de fala com aura epigástrica, medo fenômenos autonômicos. (O’MUIRCHEARTAIGH & RICHARDSON, 2011). Por fim, algumas crises oriundas do lobo frontal podem ser confundidas com originadas do lobo temporal mesial e algumas características descritas pelo paciente ou acompanhante podem ajudar na diferenciação (Tabela 2.3). Tabela 2.3 Diferenciação entre crises complexas parciais do lobo frontal e do lobo temporal mesial Diferença Lobo frontal Lobo temporal mesial Manifestação Movimentos repetitivos grosseiros dos membros superiores, completa perda de consciência e atividade motora completa Aura seguida de automatismos oroalimentares, movimentos repetitivos das extremidades superiores distais, perda de consciência, olhar ao redor e movimentos de corpo inteiro Aura Aura de uma sensação geral do corpo ou de sentimento indescritível. Aura epigástrica, olfatória, psíquica ou abdominal. Fonte: Adaptado de O’MUIRCHEARTAIGH & RICHARDSON, 2011. Crises de lobo parietal Existem poucos relatos de pacientes com epilepsia do lobo parietal. Uma das maiores séries, a do Montreal Neurological Institute (MNI), relatou que pacientes com áreas epileptogênicas no córtex parietal atrás do giro pós-central representavam cerca de 6% dos pacientes com epilepsia focal refratária tratados cirurgicamente no MNI entreos anos de 1929 e 1988 (SALANOVA, 2018). A etiologia deste 16 tipo de crise está relacionada há pacientes com histórico de alguma lesão por algum trauma estrutural, encefalite, ou até mesmo convulsões febris. Entretanto estima-se que em 20% dos pacientes não tenham uma etiologia conhecida (SALANOVA, 2018). Além disso, as auras se mostram frequentes nas epilepsias do lobo parietal, sendo mais comumente distúrbios somatossensitivos, como parestesia, em sua maioria contralaterais à zona epileptogênica. A segunda aura mais relatada são as classificadas como distúrbios da imagem corporal, tendo por exemplo a sensação de movimento em alguma extremidade (SALANOVA, 2018). Existem vários processos nos quais o lobo parietal está envolvido, para além dos já citados neste capítulo como as funções sensitivo- motoras, temos a cognição/consciência, integração visual e sensações vestibulares. Devido a essas amplas conexões em todo o córtex cerebral, as crises causadas pelo envolvimento pré-cuneal podem se propagar para diferentes áreas, causando semiologias de crises incomuns. Há estudos, inclusive, que sugerem a possibilidade de propagação a partir ou através do pré-cuneo sensório-motor para regiões motoras frontais (AL-RAMADHANI, et al., 2021). A variabilidade clínica das crises epilépticas se torna ainda mais problemática no caso das crises do lobo parietal, principalmente as originárias do pré-cuneo, que possuem extensa conectividade com as áreas de associação multimodal. Crises parietais também podem ter manifestações de linguagem como alexia, agrafia. Para exemplificar, essa gama de semiologias possíveis foi simplificada na tabela a seguir (Tabela 2.4). Tabela 2.4 Semiologia das crises de lobo parietal região pré-cuneal Lobo frontal Lobo temporal mesial Região Pré-Cuneal Anterior sensitivo-motora Pode levar a manifestações motoras ou sensitivas simples ou complexas: manifestações tônicas, clônicas, versivas, hipermotoras, e tônicas assimétricas bilaterais. Esta área também está ligada ao opérculo parietal e à ínsula, o que pode contribuir para distúrbios vestibulares e da imagem corporal Região Pré-Cuneal Central Cognitiva/ Associativa Essa região se conecta com o giro angular e o córtex pré-frontal dorsolateral e, portanto, pode apresentar semiologia relacionada ao movimento ocular, como o desvio ocular. A Região Pré-Cuneal Posterior Visual Alucinações visuais complexas e ilusão visual podem ser previstas com base na conectividade com o giro fusiforme posterior. Além disso, o envolvimento com o córtex visual primário pode levar a alucinações visuais elementares. A Região Pré-Cuneal Límbica Esta área está intimamente relacionada com a parte caudal do giro do cíngulo (Região retrosplenial) que se conecta à região temporal medial límbica, incluindo o giro parahipocampal e o hipocampo. Isso pode levar a manifestações mesiais do tipo temporal. Fonte: Adaptado de AL-RAMADHANI et al., 2021. Crises de lobo occipital A epilepsia de lobo occipital representa de 5% a 10% dos casos de epilepsias (ADCOCK & PANAYIOTOPOULOS, 2012), sendo assim uma apresentação pouco comum (WILLIAMSON et al., 1992). Os sintomas ictais da epilepsia de lobo occipital são normalmente visuais e oculomotores, ocorrendo não raramente alucinações visuais. Ademais, essas crises epilépticas podem acontecer de 17 forma espontânea ou serem desencadeadas por estímulos visuais externos (ADCOCK & PANAYIOTOPOULOS, 2012). Em relação às manifestações visuais, essas podem ocorrer alucinações, normalmente, coloridas e circulares, apresentando-se, majoritariamente, no campo visual temporal, de forma unilateral, podendo aumentar de tamanho ou multiplicar-se. Outro sintoma é a amaurose ictal, a qual é capaz de se apresentar associada ou seguida das alucinações, entretanto, a cegueira é mais observada como manifestação inicial. Pode ocorrer ainda a hemianopsia ictal, mais relacionada a pacientes com epilepsia de lobo occipital idiopática. Além disso, as alucinações podem ser seguidas de outras manifestações devido à disseminação da atividade epiléptica para outras regiões do cérebro. Essa forma de crise pode também progredir para uma crise tônico-clônica (ADCOCK & PANAYIOTOPOULOS, 2012). As crises occipitais também podem apresentar palinopsia, manifestação na qual o paciente continua vendo um objeto mesmo depois que ele é retirado do campo visual. Entre os sintomas não visuais da epilepsia de lobo occipital é possível destacar o desvio tônico dos olhos muitas vezes seguido de rotação ipsilateral da cabeça, cefaleia ictal - principalmente orbital - e, geralmente aparecendo após as alucinações visuais, o fechamento repetitivo e flutter das pálpebras e piscamento, quando há comprometimento da consciência, servindo de alerta para o início de uma segunda crise (ADCOCK & PANAYIOTOPOULOS, 2012). Como sintomas iniciais mais comuns destacam-se as alucinações visuais, a amaurose ictal e flutter das pálpebras. Atenção a essas manifestações é essencial para realização do diagnóstico e designação da região de origem da crise no cérebro (WILLIAMSON et al., 1992). Outro ponto importante, é a semelhança que pode ocorrer entre a semiologia da epilepsia de lobo occipital e a migrânea com aura, o que pode causar diagnósticos errôneos e designação da última pela primeira em pacientes com sintomas semelhantes. Nesse sentido, diferenciam-se alguns pontos entre os sintomas comuns nas duas doenças, os quais na epilepsia de lobo occipital a duração dos fenômenos visuais é menor e, geralmente, são coloridas, constituem uma alucinação e ocorrem o mesmo momento ou procede a dor de cabeça, enquanto na migrânea com aura os fenômenos duram mais tempo, se apresentam, normalmente, como pontos dourados ou brancos e escotoma, precedendo a dor de cabeça. Ainda nessa perspectiva, a cefaléia costuma ter uma duração maior na migrânea com aura (MAHMUD, 2022). Paralisia de Todd Crises epilépticas que possuem uma assinatura motora focal proeminente, apresentam comumente uma paralisia transitória do membro afetado. Chamada de “Paralisia de Todd”, essa persiste por minutos ou, algumas vezes, por horas após a crise, em que geralmente o tempo é proporcional à duração da convulsão. A paralisia focal continuada para além desse tempo costuma indicar a presença de lesão cerebral focal como causa subjacente da crise ou crises persistentes em uma forma não convulsiva. Os casos de epilepsia focal que envolvem a linguagem, áreas somestésicas ou visuais apresentam um fenômeno Todd semelhante, em que o déficit persistente corresponde à região do cérebro afetada (ROPPER et al., 2019). 18 CONCLUSÃO As crises epilépticas focais têm grande destaque no cenário neurológico. Seja pela especificidade muitas vezes indefinida, seja pela significativa versatilidade entre os avaliadores na interpretação da semiologia, sua caracterização pode nem sempre ser fácil. Como evidenciado, cada lobo do nosso cérebro engloba diferentes estruturas com funções distintas que estão sujeitas a originar uma crise, o que vai definir manifestações clínicas características da região para cada uma. O conhecimento sobre a relação entre a semiologia das crises e as funções dos centros acometidos pode auxiliar no norteamento do provável diagnóstico. Desta forma, mostra-se cada vez mais importante a prática de uma boa anamnese e exame físico, para que assim, seja possível a realização da terapia adequada visando o bom controle de crises e melhora da qualidade de vida das pessoas com epilepsia. 19 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADCOCK, J. E. & PANAYIOTOPOULOS; C. P. Occipital lobe seizures and epilepsies. J Clin Neurophysiol. 2012;29(5):397-407.doi:10.1097/WNP.0b013e31826c98fe AFIFI, A. K. & BERGMAN, R. A. Neuroanatomia Funcional - Texto e Atlas, 2°edição, Roca, 2007. AL-RA MADHANI, R. R. et al. The precuneal cortex: anatomy and seizure semiology. 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Dentre estas, tem-se as doenças cerebrovasculares, isquêmicas do coração, hipertensivas, oclusivas por aterosclerose, adquiridas como febre reumática e entre outros agravos do coração, ocupando primeira colocação no ranking de enfermidades no Brasil, contribuindo de forma recorrente para a mortalidade e morbidade precoces em Campinas. Tal grupo de doenças, segundo dados no ministério da saúde, no Brasil em 2007, ocuparam o primeiro lugar na mortalidade com um coeficiente de mortalidade de 52,61 óbitos por 100 mil habitantes, tendo como principal forma de doenças cerebrovasculares o acidente vascular cerebral (AVC), que pode ser isquêmico ou hemorrágico, com grande importância a partir de 55 anos de idade e com significativo número de internação, sequelas e óbitos a partir dos 65 anos, segundo Renato Mendonça, neurologista do Lavoisier Medicina Diagnóstica. Estudos sobre a mortalidade das doenças cerebrovasculares são importantes para que possamos entender sua distribuição por localidade, a fim de identificar as políticas de atenção aos agravos agudos e crônicos mais prevalentes. Além dos óbitos por causa, sexo, faixa etária, cor, raça e escolaridade, as outras variáveis devem ser analisadas e exploradas em estudos de mortalidade. A região de residência do falecido e o local de ocorrência dos óbitos podem ser utilizados como indicadores da qualidade do atendimento e do acesso aos serviços de saúde. No início do século XX era mais comum as pessoas morrerem em suas casas. A partir dos anos 1950, em muitos países industrializados o óbito passou a ocorrer cada vez mais nos hospitais ou em outras instituições de saúde. Mas no decorrer dos anos tem se notado um declínio nesse número de óbitos em hospitais, consequentemente, houve um aumento de óbitos nos domicílios ou em outros estabelecimentos de saúde. Essa queda na porcentagem de óbitos ocorridos nos hospitais vem acontecendo por todas as causas citadas como por causas específicas, como óbitos por AVC e infarto agudo do miocárdio. Entre 1989 e 2002, no estado de Washington nos Estados Unidos, a proporção de óbitos hospitalares diminuiu de 44,2% para 35,4%, enquanto que a proporção de óbitos no domicílio aumentou de 24,1% para 31,1% nos dois anos analisados. (FURUKAWA et al., 2011). Enquanto nos países industrializados os óbitos ocorridos por doenças cerebrovasculares em hospitais estão diminuindo, em Campinas a tendência é de aumento, isso foi observado pelo Ministério da Saúde em uma pesquisa feita em 2018 (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2018). Os aspectos principais da mortalidade cerebrovascular é a redução do risco de morte pela doença ser muito desigual, de acordo com os indicadores sociais e econômicos nas macrorregiões, estados ou distritos de cidades, que a de outras doenças crônicas não transmissíveis. Nas cidades do interior de São Paulo como Campinas, entre 1996 e 2011, o declínio das taxas de mortalidade por AVC foi muito mais significativo nos bairros afluentes comparado aos menos afluentes. (LOTUFO et al., 2017). Nesse panorama, o objetivo deste estudo foi analisar o perfil epidemiológico dos pacientes acometidos por doenças cerebrovasculares entre os anos de 2015 e 2019 em Campinas, com a finalidade de evidenciar as faixas etárias, sexo, cor/raça e escolaridade mais vulneráveis. 22 Para tanto, foi realizado um estudo epidemiológico, transversal, descritivo de base populacional, utilizando os dados secundários do Datasus. Os dados relevantes sobre doenças cerebrovasculares foram exportados em arquivos csv para o programa MicrosoftExcel e posteriormente foi executado a tabulação de dados divididos em quatro aspectos diferentes: números absolutos de óbitos; faixa etária; sexo; cor/raça; escolaridade. A análise foi feita comparando os efeitos de cada uma das quatro categorias entre diversas faixas etárias, sexo, cor/raça e grau de escolaridade nas distribuições de Pareto, com a finalidade de executar a epidemiologia descritiva. Os dados aqui expostos foram provenientes exclusivamente do Datasus, de domínio público e está de acordo com a resolução CNS n 466, de 12 de dezembro de 2012, a qual dispensa a apreciação e aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Mortalidade no município de Campinas Entre os anos de 2015 a 2019 foram registrados 2813 óbitos por doenças cerebrovasculares na cidade de Campinas. Por meio da análise do coeficiente de mortalidade por faixa etária é possível observar que há um pico no número de óbitos a partir da faixa etária de 50 a 59 anos, em todos os anos analisados sendo que na faixa de 50 a 69 anos observa-se o índice mais alto de internações hospitalares e outras complicações, ocasionando um alto grau de mortalidade. Também se observa que de 2015 a 2017 houve um aumento no número total de óbitos, e a partir do ano de 2017 houve certa queda desse número. Essa queda denota um aumento no cuidado com doenças relacionadas, como por exemplo as cardiovasculares (Tabela 3.1). Tabela 3.1 Coeficiente de mortalidade por faixa etária no município de Campinas nos anos de 2015 a 2019 Fonte: Disponível em: http://www.portalsinan.saude.gov.br. Acesso em setembro de 2022. Por sua vez, diante da análise do coeficiente de mortalidade por grau de escolaridade na cidade de Campinas, é interessante notar que na faixa de tempo escolar de 4 a 7 anos a mortalidade era uma das menores no ano de 2015, e passou a ser a maior no ano de 2019, apresentando aumento significativo de 2015 a 2016, e 2018 a 2019, do que com 72 mortes, figura a maior mortalidade entre todos os itens analisados nessa tabela com diferença significante quando não se leva em conta os dados ignorados, que consiste na mortalidade das pessoas cujo grau de escolaridade não foi informado (Tabela 3.2). 23 Tabela 3.2 Coeficiente de mortalidade por grau de escolaridade no município de Campinas nos anos de 2015 a 2019 Fonte: Disponível em: http://www.portalsinan.saude.gov.br. Acesso em setembro de 2022. Já a Tabela 3.3, permite comparar a quantidade de óbitos por doenças cerebrovasculares entre os sexos. Diante a análise do coeficiente de mortalidade por sexo na cidade de campinas, a tabela abaixo representa o maior índice de mortalidade entre homens e mulheres, relevante no ano de 2017, com aumento significativo no sexo feminino. De 2015 a 2019, nota-se que a mortalidade em mulheres demonstra uma porcentagem elevada com diferença entre a população masculina, de 3% a 10% em decorrência dos anos. Esses dados representam o que vem ocorrendo ultimamente com a população campineira, o aumento de mulheres com doenças subjacentes as cerebrovasculares como as cardiovasculares e o aumento do tabagismo em massa do público, denota-se de um acréscimo de complicações e da mortalidade pelas doenças cerebrovasculares. Tabela 3.3 Coeficiente de mortalidade por sexo no município de Campinas nos anos de 2015 a 2019 Fonte: Disponível em: http://www.portalsinan.saude.gov.br. Acesso em setembro de 2022. E por sua vez, analisando os dados da tabela do coeficiente de mortalidade por cor/raça pode se observar a influência da raça na mortalidade por doenças cardiovasculares. A tabela mostra que em todos os anos as populações branca e parda apresentam as maiores taxas de mortalidade, porém a porcentagem de óbitos entre os brancos sofreu diminuição ao longo dos anos analisados, enquanto a porcentagem de óbitos de pardos sofreu aumento. Este aumento foi mais acentuado comparando o ano de 2016 com 2015. É interessante observar que a população branca corresponde a maior porcentagem (Tabela 3.4). 24 Tabela 3.4 Coeficiente de mortalidade por raça no município de Campinas nos anos de 2015 a 2019 Fonte: Disponível em: http://www.portalsinan.saude.gov.br. Acesso em setembro de 2022. Análises dos dados epidemiológicos A partir da população estudada nos anos de 2015 a 2019 em Campinas pode-se aferir algumas ressalvas. Com relação à idade mais acometida temos 2 pontos a serem analisados: a população que mais morre é entre os 50 e 59 anos, porém vemos um aumento de internações por essas doenças na faixa etária dos 50 aos 69 anos, muitas dessas internações que culminam no óbito do paciente. Então analisando somente a faixa etária podemos inferir que os óbitos por doenças cerebrovasculares são mais frequentes entre os 50 e 59 anos, com a ressalva de que entre os 50 e 69 anos as internações são mais frequentes, o que aumenta significativamente a morte nessa faixa etária. Com relação a mortalidade entre os sexos ficou evidente nesta pesquisa que as mulheres são mais acometidas que os homens, cerca de 3 a 10% a mais que os homens, variando entre essas porcentagens durante 2015 e 2019. Segundo as análises, o grupo raça branca teve uma diminuição histórica na porcentagem de número de óbitos mesmo sendo a maior parcela da população campineira, enquanto o número de óbitos no grupo preto e pardo aumentou a média histórica entre os anos 2015 e 2019. Com relação ao grau de escolaridade, nota- se uma variação expressiva na mortalidade entre todos os graus escolares, porém, pode-se observar que o grupo que possui de 1 a 3 anos de estudo escolar apresenta um decréscimo na taxa de mortalidade enquanto os demais grupos apresentaram um aumento na porcentagem de óbitos, vale ressaltar que o grupo de 4 a 7 anos foi o que apresentou a maior porcentagem de aumento da taxa de óbitos por doenças cerebrovasculares. 25 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FURUKAWA, T. S. et al. Mortalidade por doenças cerebrovasculares por residência e local de ocorrência do óbito: Paraná, Brasil, 2007. Cadernos de Saúde Pública LOTUFO, P. A. et al. Doença cerebrovascular no Brasil de 1990 a 2015: Global Burden of Disease 2015. Revista Brasileira de Epidemiologia [online]. 2017, v. 20, n. Suppl 01, pp. 129-141. Disponível em: . ISSN 1980-5497. https://doi.org/10.1590/1980- 5497201700050011. Acesso em agosto de 2022. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Saúde Brasil 2006: uma análise da desigualdade em saúde. Brasília: Ministério da Saúde; 2006. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/1000102153 7.pdf. Acesso em agosto de 2022. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Saúde Brasil 2018, Uma análise da situação de saúde e das doenças e agravos crônicos: desafios e perspectivas. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/saude_brasil _2018_analise_situacao_saude_doencas_agravos_cronic os_desafios_perspectivas.pdf. Acesso em agosto de 2022. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Portal SINAN – Sistema de informação de agravos de notificação. Disponível em: http://www.portalsinan.saude.gov.br/. Acesso em setembro de 2022. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Portal Datasus. Disponível em: https://datasus.saude.gov.br/. Acesso em agosto de 2022. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação estatística internacional de doenças e problemas relacionados à saúde, 10ª revisão. v. 1. São Paulo: Edusp; 2001. 26 Capítulo 04 DISTÚRBIOS DO MOVIMENTO Palavras-chave: Tiques; Síndrome de Segawa; Síndrome de Tourette. CAPÍTULO 04 DISTÚRBIOS DO MOVIMENTO DANIELA ALVES GULHOTE¹ ALINE RABELO RODRIGUES2 ENZO LUSTOSA CAMPOS3 ANA BEATRIZ REZENDE RIBEIRO4 MATHEUS HENRIQUE DE ABREU ARAUJO5 GABRIEL DE MORAES MANGAS3 ARTHUR SANTOS DA SILVA6JOÃO ELIAS GOMES DE FREITAS7 ANA MONIZE RIBEIRO FONSECA8 MONIQUE MENEMÉRITA VILELA GOMES9 GABRIEL BAGAROLO PETRONILHO10 NATÁLIA GODOI DE SOUZA8 LARISSA BORTOLOTTO DA SILVA8 MATHEUS FERNANDO MANZOLLI BALLESTERO9 RICARDO SANTOS DE OLIVEIRA10 1.Discente – Medicina da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCC). 2.Discente –Medicina da Universidade Federal de Jataí (UFJ). 3.Discente –Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF). 4.Discente –Medicina da Universidade Federal do Tocantins (UFT). 5.Discente –Medicina da Universidade do Vale do Sapucaí (UNIVÁS) 6.Discente –Medicina da Universidade Tiradentes (UNIT-SE). 7.Discente –Medicina da Universidade Federal do Piauí (UFPI) 8.Discente –Medicina do Centro Universitário Fundação Assis Gurgacz (FAG). 9-Docente- Medicina da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. 10-Docente- Divisão de Neurocirurgia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. PALAVRAS-CHAVE: Tiques; Síndrome de Segawa; Síndrome de Tourette. 27 INTRODUÇÃO Distúrbios do movimento é o termo de definição para uma série de síndromes do Sistema Nervoso Central que são caracterizadas por excessos, redução dos movimentos voluntários e presença de movimentos automáticos que não estão relacionados a fraqueza muscular e espasticidade (FAHN, 2011). Ocorrem devido a uma disfunção nos núcleos da base. Seu funcionamento normal baseia-se em mecanismos inibitórios e excitatórios distribuídos em três circuitos. O primeiro, corticocortical que inicia no córtex cerebral, passa por caudado e putame, segmento interno do globo pálido, tálamo e volta ao córtex. O segundo, nigroestriatal, conecta a substância negra com o caudado e o putame. E o terceiro, estriatopalidal, projeta-se do caudado e do putame para o segmento externo do globo pálido, núcleo subtalâmico e volta para o segmento interno do globo pálido (FOCHESATTO FILHO & BARROS, 2013). De maneira geral as hipercinesias correspondem aos movimentos excessivos, podendo ser chamadas de discinesias, movimentos anormais, e movimentos involuntários anormais. Já as hipocinesias, fazem referência a diminuição da amplitude dos movimentos, podendo ser denominada de bradicinesia (que é a redução da velocidade do movimento) e acinesia (quando ocorre a ausência do movimento). A apresentação clínica dos distúrbios do movimento é ampla e complexa, dificultando o diagnóstico. A primeira etapa na abordagem diagnóstica é definir a fenomenologia do problema. Pode-se dividir os sinais/sintomas dos distúrbios do movimento em duas grandes categorias: distúrbios hipercinéticos e hipocinéticos. Definida a fenomenologia, deve- se identificar outros achados neurológicos e não neurológicos e tentar definir se há uma síndrome específica. Para isso, a realização de exames complementares pode ser de grande valia. (FOCHESATTO FILHO & BARROS, 2013). Neste capítulo, por motivos didáticos, os distúrbios do movimento serão divididos hipercinéticos, distonias, coreia e mioclonias. Também serão abordadas algumas destas síndromes detalhadamente e seus respectivos tratamentos. MÉTODO Tendo como objetivo o estudo dos distúrbios do movimento em pediatria, os quais são divididos de acordo com sinais e sintomas em hipercinéticos e hipocinéticos, foi realizada uma revisão sistemática na qual foram selecionados 27 artigos nas plataformas Medline, Lilacs e Pubmed, publicados do período de 2011 a 2022, com enfoque nas informações mais atualizadas em distúrbios hipercinéticos, distonia, estereótipos e coreia. Foram excluídos trabalhos os quais não abordavam tratamento e distúrbios hipocinéticos. DISTÚRBIO HIPERCINÉTICO Definição e Diagnóstico Hipercinesias são movimentos involuntários ou movimentos anormais que ocorrem em consequência de disfunções ou lesões que comprometem o sistema motor (SANGER et al., 2010). Embora possam aparecer em decorrência do acometimento de diversas partes do sistema nervoso, as hipercinesias estão mais associadas ao acometimento dos gânglios da base. Apresenta-se como sintoma de doenças que acometem os núcleos da base ocasionando 28 uma elevação da produção de dopamina (SANGER et al., 2010). O aumento da dopamina altera a fluidez do movimento, dando origem aos sintomas motores (KHANENKO et al., 2018). A hipercinesia pode ser causada por um grande número de doenças, incluindo distúrbios metabólicos, disrupção endócrina, distúrbios hereditários, distúrbios vasculares ou distúrbios traumáticos (JANKOVIC, 2009). Outras causas incluem intoxicação doenças autoimunes e infecções (KHANENKO et al., 2018). O diagnóstico de hipercinesia deve ser feito anamnese e exame neurológico (BORDELON, 2010). Os movimentos anormais podem ser clinicamente caracterizados de diversas formas e a identificação correta do tipo de movimento involuntário é essencial na avaliação clínica. Entre os tipos de caracterização dos movimentos involuntários pode-se citar: coréia, balismo, distonia, tremor, mioclonia e tique (BORDELON, 2010). A identificação correta do tipo de movimento involuntário é essencial na avaliação clínica. A hipercinesia acomete os núcleos da base, no entanto não causa uma redução de força, visto que as patologias que ocasionam o distúrbio hipercinético geram lesões diretamente a via motora primária, ou trato piramidal (SANGER et al., 2010). Um exemplo de doença que acomete os núcleos da base e causa distúrbio hipercinético é a doença de Huntington, cujo tipo de movimento involuntário é a coréia (BORDELON, 2010). Tratamento O tratamento visa reduzir os sintomas, restaurar a postura normal e melhorar o estado geral do paciente (KHANENKO et al., 2018). O manejo eficaz dos distúrbios do movimento hipercinético exige que os médicos estejam bem informados sobre as abordagens farmacológicas e cirúrgicas atuais e novas. Além da tetrabenazina, uma droga depletora de monoaminas, novas formulações de toxina botulínica estão sendo cada vez mais utilizadas no tratamento desses distúrbios do movimento. (JANKOVIC, 2009). A toxina botulínica injetada nos músculos envolvidos na hipercinesia causa paralisia temporária e alívio temporário da hipercinesia (JANKOVIC, 2009). Quando os efeitos da toxina botulínica se dissipam (3 a 6 meses após a injeção), a injeção pode ser repetida (SCHAITKIN, 2010). A neurólise seletiva cirurgicamente ou a miectomia regional podem proporcionar um tratamento mais duradouro para a hipercinesia. A neurólise seletiva envolve o enfraquecimento ou a inervação paralisante do músculo hipercinético (SCHAITKIN, 2010). Os resultados da neurólise são difíceis de prever, entretanto a hipercinesia pode retornar, mesmo após a excisão de um segmento do nervo (KHANENKO et al., 2018) .Por essas razões, a miectomia regional é a técnica cirúrgica atualmente preferida para o manejo da hipercinesia em pacientes que falham ou que não desejam usar a toxina botulínica (SCHAITKIN, 2010). DISTONIAS Síndrome de Segawa As distonias podem ser definidas como posturas e movimentos anormais ocasionalmente dolorosos decorrentes de contrações involuntárias de diferentes grupos musculares. A Síndrome de Segawa, também conhecida como distonia responsiva à dopa (DRD), é um conjunto de sinais e sintomas em que o principal sintoma é a distonia causada pela 29 mutação do gene guanosina trifosfato (GTP) (KLINGELFUS et al., 2020). Essa síndrome pode ser tanto autossômica dominante, como autossômica recessiva, a depender respectivamente da deficiência de ciclo-hidrolase 1 (GTP1) e deficiência de tirosina hidroxilase. (LONLAY et al, 2000). A deficiência dessas enzimas tem como consequência a redução da atividade da Dopamina nas vias nigroestriatais, que costuma ter