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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE GOIÁS PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO DIRETORIA DE PESQUISA E INOVAÇÃO LOUCURA, MORTE E INCOMUNICABILIDADE EM MACHADO DE ASSIS: NOVAS PERSPECTIVAS PARA A ABORDAGEM DE CLÁSSICOS DA LITERATURA BRASILEIRA NO ENSINO MÉDIO Emanuely da Silva Santos 1 Rafael Machado Dias da Silva2, Lucas Ferreira Neri Sobrinho3, Karine Rios de Oliveira Leite4, Ana Clara Magalhães de Medeiros5 1Instituto Federal de Goiás/Campus Águas Lindas/Curso Téc. em Meio Ambiente Integrado ao E.M./Programa PIBIC-EM, emanuely.silva576@gmail.com 2 Instituto Federal de Goiás/Campus Águas Lindas/Curso Téc. em Análises Clínicas Integrado ao E.M /Programa PIBIC-EM, rafa.ma80@gmail.com 3Instituto Federal de Goiás/Campus Águas Lindas/Curso Téc. Em Vigilância em Saúde Integrado ao E.M /Programa PIBIC-EM, lucasnery2000@gmail.com 4Instituto Federal de Goiás/Campus Águas Lindas/Departamento de Áreas Acadêmicas, karine.leite@gmail.com 5Instituto Federal de Goiás/Campus Águas Lindas/Departamento de Áreas Acadêmicas, a.claramagalhaes@gmail.com Resumo Este projeto analisa os quatro romances centrais da obra de Machado de Assis – Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899) e Esaú e Jacó (1904) – com o objetivo de tornar a leitura de clássicos da cultura brasileira acessível e significativa para adolescentes habitantes de região periférica, de letramento deficitário e acesso mínimo a ferramentas de difusão artístico-cultural. A espelho da tese da professora-orientadora, que toma Memórias póstumas de Brás Cubas como romance irradiador da tanatografia (escrita de morte) e do discurso da loucura na obra machadiana, nesta investigação, parte-se do livro do defunto autor Brás Cubas para se estabelecer comparativo com as três publicações subsequentes. Desse modo, morte, loucura e incomunicabilidade humana surgem como temas motivadores que, a um só tempo, estruturam discursivamente a literatura de Machado de Assis e suscitam curiosidade e inquietação nos jovens leitores. Buscamos acessar o desenvolvimento desses índices principais na filosofia inovadora de Quincas Borba (personagem do romance homônimo); na obsessão amorosa de Bento Santiago e na narrativa do trespasse da amada Capitu (de Dom Casmurro); bem como nas alucinações da menina Flora (Esaú e Jacó) que tem seu falecimento narrado pelo autor defunto Conselheiro Aires. Assim, releva-se uma literatura que discute questões atuais, pertinentes à realidade de jovens de periferia: morte, sandice e monologismo. A partir de tais motes, procura-se compreender, junto aos adolescentes, como clássicos da literatura brasileira podem dizer sobre questões-desafio de nosso tempo e apontar mecanismos de convivência e superação das mazelas humanas. Palavras-chave: Machado de Assis, Loucura, Morte, Incomunicabilidade, Ensino Médio. INTRODUÇÃO Relatório Final PIBIC-EM – IFG Edital nº 008/2017 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE GOIÁS PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO DIRETORIA DE PESQUISA E INOVAÇÃO A pesquisa “Loucura, morte e incomunicabilidade em Machado de Assis: novas perspectivas para abordagem de clássicos da literatura brasileira no Ensino Médio” esteve pautada na leitura ativa e inflexão crítica dos quatro romances nucleares da prosa machadiana: Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899) e Esaú e Jacó (1904). Nossa abordagem alicerçou-se em três temas motivadores pesquisados pelos estudantes nos romances investigados: a tanatografia (SILVA JUNIOR, 2009; 2014) – escrita de morte –, o discurso da loucura (especialmente a partir de Foucault) e a incomunicabilidade no discurso humano. Trespasse, sandice e entraves dialogais despontaram como índices que atualizam a leitura do bruxo do Cosme Velho e a tornam provocativa para jovens de periferia que convivem ordinariamente com essas questões fulcrais da condição humana. Esta proposta erigiu-se de um problema evidenciado na dinâmica escolar do Ensino Médio: o desafio de se apresentar e tornar acessível a obra de Machado de Assis aos estudantes do 2o ano desta etapa da Educação Básica, tendo-se em vista que o autor máximo da nossa literatura insere-se no âmbito das competências e saberes a serem desenvolvidos a esta altura da formação escolar, a despeito da preferência (verificada por pesquisas na área) dos adolescentes pela leitura de best-sellers contemporâneos. Constatou-se, ainda, que obras comumente referidas em exames de avaliação para ingresso em universidades (ENEM, vestibulares), como o são as de Machado de Assis, tornam-se deveras assustadoras para os alunos, preocupados com prazos, rendimento nas avaliações e imersos no sentido pragmático da leitura (que teria por finalidade conferir sucesso acadêmico, sem qualquer perspectiva de deleite estético ou fruição artística). Nosso objetivo central foi reapresentar os romances machadianos como obras a serem lidas não pela obrigatoriedade gerada pelas avaliações, mas como objeto de desenvolvimento intelectual e pessoal do estudante, bem como de seu círculo social e familiar. Nesta ótica, a leitura saiu do contexto de obrigatoriedade para assumir-se como ato voluntário, deixa de significar algo com estrito benefício individual (resultado em exames) para implicar ganho coletivo (contribuição com os níveis investigativos/culturais do câmpus e da cidade onde o adolescente está situado). O CASO BRÁS CUBAS: A ASCENSÃO DA TANATOGRAFIA Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) erige a partir de um defunto autor, o que gera uma sensação de mistério em torno da existência: ao se ver morto, Brás Cubas se sente livre para falar o que sente pois já não haverá consequências sobre suas opiniões. Na trajetória que envolve vida e post-mortem, ele se envolve em diversos conflitos amorosos, de interesse político e de loucura, chegando a narrar um delírio seu (em capítulo específico). Logo no primeiro capítulo de Memórias Póstumas, há um trecho que destaca a morte do narrador, que se declara, no caso, autor da história, ao afirmar ser um “defunto autor”, não um autor defunto, como costuma acontecer. Isto é, o narrador lança-se como figura que escreve após a morte, um morto que se tornou autor. Analisando o modo conforme o romance se desenvolve podemos perceber uma noção de que “a morte não cala”, para além disso, a morte oferece liberdade para dizer aquilo que em vida era cerceado pela falta de coragem ou oportunidade, Relatório Final PIBIC-EM – IFG Edital nº 008/2017 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE GOIÁS PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO DIRETORIA DE PESQUISA E INOVAÇÃO como é o caso de Brás Cubas que, ao contar a própria história, acaba revelando muito, por vezes até mesmo desabafando, em processo de encobrire “desencobrir” – como acentua o crítico José Paulo Paes (1985, p. 13-14). Em Memórias Póstumas, parece ser entrevista a ideia de que o morto é exaltado apenas quando envolve certo prestígio social. Brás Cubas fala de seu funeral, em que estavam poucos amigos e um “fiel da última hora”, a quem Brás deixara apólices. Essa fala permite perceber que sua morte, não sendo algo necessariamente trágico, para que tivesse como honraria fúnebre a presença desse “fiel” foi necessário certo pagamento (as apólices). Os dizeres que comumente se professam face à morte são de exaltação ao morto pelo que ele foi, ou teve, em vida. Assim, Brás Cubas, para garantir esse direito, não tendo tido nem esposa, nem filhos, precisou pagar pelas honrarias. Quanto menos é feito pelo morto, menos é dito e feito sobre e para o falecido. Isso pode ser visto, inclusive, em outros momentos desta e de outras obras, como será abordado adiante. No tocante à presença central da morte na obra de 1880/81, cumpre esclarecer que a tanatografia é uma escrita de morte. A constituição ampla do conceito de tanatografia vai desde de defuntos e fantasmas que tentam se comunicar, vivos evocando defuntos até defuntos autores. Essa escrita sepulcral tem uma longa trajetória e se traduz em uma tentativa de busca pelo sentido da morte, intento de significação do fim que faz parte da história da humanidade e, por consequência, da história da literatura. Tratar o discurso do morto ao longo da literatura é valorizar a consciência do outro e acreditar que essa não pode ser concluída e finalizada. Há sempre uma tentativa de burlar o trespasse, o silêncio e a solidão que esta gera, daí surge a escrita póstuma (que é uma ressurreição sentimental) e a análise do discurso do morto. Podemos observar a escrita de morte durante toda a história da literatura, sendo possível traçar a seguinte linha (no que tange a uma evolução da escrita de morte, no Ocidente, num período linear até culminar em Machado de Assis, com quem a tanatografia tem sua ascensão): Íliada e Odisseia de Homero (na Grécia Antiga), Os Diálogos dos mortos de Luciano de Samósata (no séc. II d.C.), A divina comédia de Dante e Autos da barca do inferno de Gil Vicente (na Idade Média, quando entra o campo religioso e o pagão na percepção de morte), Bobók de Dostoiévski (já no século XIX, nesta obra já há um desenvolvimento do discurso póstumo, discurso realizado por uma pessoa já morta) e, mais recentemente, O ano da morte de Ricardo Reis, Todos os nomes e As intermitências da morte de José Saramago. Todas as obras acimas citadas já apresentam elementos tanatográficos, mas a teoria tanatográfica só nasce em Machado de Assis, conforme entendimento de Augusto Silva Junior (2008), autor do termo “tanatografia”. A teoria da tanatografia, por ser uma teoria do literário e não da literatura, surge, no Brasil, com Machado de Assis em seu livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, pois além de fundir todos elementos tanatográficos já despontados na literatura ocidental, inova ao trazer um defunto autor. O defunto além de grafar, pratica filosofia, inventa biografia, romanceia a própria biografia em uma decomposição autobiográfica-romanesca. Machado de Assis, grande expoente neste campo literário, revoluciona tudo que já se havia visto de personagens mortos na literatura brasileira até então, trazendo à tona um defunto-autor, aquele que escreve após a morte. O defunto tagarela de Machado explora a liberdade de dizer dos finados. Por não haver repressão e coerção, este defunto agora podem Relatório Final PIBIC-EM – IFG Edital nº 008/2017 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE GOIÁS PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO DIRETORIA DE PESQUISA E INOVAÇÃO dizer tudo que pensara e quisera dizer em vida, podendo confessar os seus piores pecados e seus segredos mais embaraçosos. No capítulo 124 de Memórias Póstumas , a passagem “Que há entre a vida e a morte? Uma curta ponte” (ASSIS, 2012, p.225) oferece o tom que guia este trabalho: o morrer, por sua proximidade com o viver, ensina a ler, na palavra romanesca, formas de vida para-além do ordinário. Uma memória póstuma constitui-se de um discurso autoral; confissões em relações a si próprio; memórias de outros. Machado de Assis apresenta, em seus romances finais, uma literatura tanatográfica. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas , um defunto autor; em Quincas Borba, um personagem defunto; em Dom Casmurro, um velho autor que discorre sobre lembranças e incriminações a sua finada esposa; Em Esaú e Jacó, temos uma personagem fadada à loucura e ao finamento fatalista; e, por último, no Memorial de Aires, um defunto que “volta” para narrar outras variáveis do riso ruminante de uma narrador que proclama que os vivos vão mais depressa que os mortos. A LOUCURA NÃO É TÃO FEIA QUANTO SE PINTA: A SANDICE NOS ROMANCES MACHADIANOS DE MEMÓRIAS PÓSTUMAS A ESAÚ E JACÓ O capítulo sétimo de Memórias Póstumas de Brás Cubas é bastante emblemático no que se refere à loucura. Podemos observar um estado de delírio da parte de Brás Cubas na iminência de morte, havendo um descompasso da existência em plenitude e a existência ordinária. O capítulo em si, que narra um delírio de forma consideravelmente detalhada, pode ser considerado um episódio claro de loucura. Explora-se também a forma como a sandice chega ao indivíduo quando este está frente a uma situação de iminência da morte, como o personagem Brás Cubas em seus momentos derradeiros. O capítulo em si traz a natureza personificada em um diálogo com Cubas, que a define como um “imenso absurdo”. Há uma conversa que mais tarde supõe ironia por parte de Brás, o medo da natureza que “cria para destruir” é mascarado pelo riso. O humor do protagonista representa o sentimento genuíno do homem da necessidade de viver a qualquer custo, quando a vítima se eleva acima da fatalidade e quer viver independente da condição em que se encontra. Augusto Meyer utiliza Stefan George, em sua obra Machado de Assis, para resumir essa vontade insaciável de ser do homem, em uma frase:“Ich bin Beginn will alles fur allzeit”. Traduz-se o excerto por: “Eu sou o começo e quero tudo por todo o sempre” e sugere que a ideia de que a vida surge com o seu próprio nascimento, numa visão natural e egocêntrica esquece-se de que já houve vida antes da nossa primeira inspiração. Tal desejo de ser e viver pode ser observado no personagem Rubião, presente em Quincas Borba, que morre com a ganância de ser, a fim de agradar a todos e ter visibilidade social, pois só o dinheiro ainda não lhe era suficiente para a ascensão que visava. Delira e morre “coroando” a si mesmo como imperador. Cena marco na literatura universal que versa sobre a loucura. Ainda sobre a sandice, Augusto Meyer adverte: “Nafalta da crença inventam para seu uso a ‘mística inquietação’, e a inquietação acaba tendo para a pulsação insaciável do seu espírito o mesmo valor que a fé religiosa tem para o crente” (2008, p. 27). A busca pela verdade, Relatório Final PIBIC-EM – IFG Edital nº 008/2017 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE GOIÁS PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO DIRETORIA DE PESQUISA E INOVAÇÃO aceitação, o certo e o errado, acaba gerando ideias fixas, que na literatura machadiana representa uma forte tendência ao delírio, como adverte Silva Junior em sua tese (2008). Há ainda a definição da morte dita pela Natureza/Pandora no capítulo “Voluptuoso nada” e Brás Cubas, como defunto autor, não nos garante se tal definição não passou de delírio, ou se chega perto dos ideais de morte que temos em mente durante a vida. Também no âmbito do delírio, na obra Quincas Borba, logo no capítulo quinto, em diversas passagens durante a fase doente do personagem Quincas Borba (o filósofo), temos demonstrações de lapsos de delírio e demência – característica que marca vários personagens na literatura machadiana, a saber: a loucura na iminência da morte. Mais tarde, Rubião começa a mostrar traços de delírio também, quando ouve uma cigarra cantar o nome de Sofia (seu amor impossível e não correspondido). Posteriormente, esses traços proliferam-se com gestos impulsivos, até atingir atitudes obsessivas que resultaram na sua perda total de identidade e sanidade. No capítulo dezenove, de Memórias Póstumas , afirma-se que dormir é um jeito interino de morrer. Uma interessante visão de Brás Cubas sobre o sono, que fala de dormir como uma forma de morte, seria uma realidade muito presente ainda nos dias de hoje, na fuga dos problemas que cercam o dia a dia, tanto no sono quanto na morte. Avançando na cronologia das publicações machadianas, chegamos a Dom Casmurro (1899), notamos que desde o título do livro revela-se a personalidade encurvada sobre si próprio do protagonista Bento Santiago, que leva a alcunha de Camurro.. No entanto, há que se considerar que reside no título algum auto-chiste, na medida em que a alcunha é apelido, lançado por um jovem poeta, ao já retirado e rabugento Santiago. Tendo vivido, basicamente, ora a cortejar ora a incriminar Capitu, escreve justamente com o fim de expurgar a lembrança oblíqua e dissimulada que sobre ele paira. Um aficionado pela amante, Bentinho ocupa seus dias de solidão com uma escrita que possa incriminar a já defunta esposa. Atormentado pela hipótese de um triângulo amoroso que envolvesse sua mulher e seu melhor amigo, o abastado Santiago encasmurra-se: como quem cultiva a loucura, a ideia fixa pelos hábitos solitários. A ideia fixa também aparece na personagem Flora, do romance Esaú e Jacó (1904): a jovem parece acreditar que sua plenitude existencial só pode ser alcançada com a realização/consumação de sua ideia fixa, acreditando que a existência só vale a pena se for plena. Então, começa-se uma busca inalcançável pela consumação desta ideia, esta perseguição a todo custo irá culminar em loucura, morte e incomunicabilidade no texto literário, conforme adverte o crítico brasileiro Augusto Meyer. Para Flora, havia uma necessidade de decidir com qual dos irmãos ficaria (Pedro ou Paulo), esta era sua ideia fixa: ela, a todo custo, tentava fazer sua escolha, mas sempre que se inclinava para um lado, o peso oposto exigia o reestabelecimento do equilíbrio, assim hesitou durante toda a trama entre Pedro e Paulo. Flora, vivendo a hesitação e a espera pelo momento certo para tomar a decisão, começa a apresentar sintomas de loucura e incomunicabilidade que acabam culminando em sua morte. Augusto Meyer descreve o percurso da moça no decorrer do livro Esaú e Jacó pelo seguinte trecho: “Querendo tudo sem renúncia, perderá tudo, num longo suicídio consciente, através de uma agonia narcisista voltada para os quatro pontos cardeais da insatisfação” (MEYER, 1952, p. 34). Nesta descrição de Meyer sobre o percurso da personagem Flora é notável que sua ideia fixa de decidir entre um dos gêmeos exercia uma grande força sobre esta, mas, em contrapartida, Relatório Final PIBIC-EM – IFG Edital nº 008/2017 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE GOIÁS PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO DIRETORIA DE PESQUISA E INOVAÇÃO exercia uma força de recusa a aceitar um dos gêmeos e negar o outro. Estas duas forças se neutralizavam, pois ao mesmo tempo que não decide, não tem paz por não decidir, tentando agradar ambas as forças sem renúncia, Flora acaba indo ao abismo da loucura, perdendo tudo com sua morte. A escrita de Machado revela o poder da ideia fixa sobre o ser humano, muitas vezes a ideia-emplasto planta a loucura na mente daquele que a detém e pode levar a consequências tais como a morte do indivíduo. Brás Cubas cria um emplasto sem embasamento científico aparente, não chega a obter sucesso e morre com a dúvida da ideia fixa. Já Rubião busca um amor e aceitação social, perde todos os seus bens, mas luta pela sua ideia fixa até se confundir com a própria personalidade e achar que é Napoleão. Quincas Borba, presente tanto em Quincas Borba, quanto em Memórias Póstumas de Brás Cubas, representa bem a loucura no cerne dos romances: sem transparecer insanidade o tempo todo, Borba chega a ser convincente com sua filosofia do “Humanitismo”. Há uma questão sem resposta aparente envolvida para reflexão: o humanitismo foi uma consequência da loucura de Quincas, ou a loucura foi uma consequência do fato de se entregar tanto ao humanitismo? Tal questionamento pode ainda ser estendido para os demais personagens que sofreram com ideias fixas nas obras machadianas. Finalmente, Foucault, em seu História da loucura, oferece aparato teórico para a reflexão sobre os personagens machadianos que enveredam pela desrazão – como alternativa a uma razão ou a razões incompletas, monológicas e autoritárias: Mas ela [a consciência da loucura] se precipitou, sem medida nem conceito, no próprio interior da diferença, no ponto mais acentuado da oposição, no âmago desse conflito onde loucura e não-loucura trocam sua linguagem mais primitiva; e a oposição se torna reversível: nesta ausência de ponto fixo, pode ser que a loucura seja razão, e que a consciência da loucura seja presença secreta, estratagema da própria loucura (...). Mas como não existe para a loucura a certeza de estar louca, há aí uma loucura mais geral que todas as outras e que abriga, pela mesma razão que a loucura, a mais obstinada das sabedorias (...). Sabedoria frágil, porém suprema. Ela pressupõe, exige o eterno desdobramento da consciência da loucura, sua absorção pela loucura e sua nova emergência. Ela se apóia em valores ou, melhor, sobre o valor, desdelogo colocado, da razão, mas o abole para logo reencontrá-lo na lucidez irônica e falsamente desesperada dessa abolição. Consciência crítica que finge levar o rigor até o ponto extremo de fazer-se crítica radical de si mesma, e até a arriscar-se no absoluto de um combate duvidoso, mas que ela evita secreta e antecipadamente ao se reconhecer como razão apenas pelo fato de aceitar o risco (FOUCAULT, 1991, p. 184-5). A literatura (ao menos a que se observa nesta arena) coloca-se sobre a plataforma incerta da razão para aboli-la, para depois reencontrá-la, em movimento inacabado que aponta para uma “lucidez irônica”, a referida “consciência crítica” que conduz à autocrítica radical – autoconsciência dialógica, para falar em termos de teoria estética. Os parágrafos destacados de Foucault, além de célebres pelo novo estatuto que conferem à sandice, orientam a concepção de loucura arrolada nesta pesquisa. Relatório Final PIBIC-EM – IFG Edital nº 008/2017 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE GOIÁS PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO DIRETORIA DE PESQUISA E INOVAÇÃO DIALOGISMO E POLIFONIA COMO ESTRATÉGIAS DE SUPERAÇÃO DA INCOMUNICABILIDADE NO TERCEIRO MILÊNIO Para compreender o dialogismo e a polifonia, conceitos desenvolvidos por Mikhail Bakhtin, faz-se necessário ter ciência de como o teórico acreditava que a língua surgira. Segundo Bakhtin, a palavra viva funciona por meio das relações sociais e das interações verbais. Ou seja, a língua é dotada de resquícios da interação de vários discursos, e nisso consiste o dialogismo. Para o teórico russo, o discurso não acontecia de forma neutra e sem influência de terceiros, uma vez que o discurso é resultado de várias interações. Embora dialogismo e polifonia sejam constantemente associados a mesma ideia, estes conceitos se diferem. Tendo em vista que a polifonia é um gênero de texto em que há uma pluralidade de ideias, ou seja, não há predominância de apenas um discurso como sendo uma verdade, ou como Bakhtin mencionou "a última palavra não foi dita". Como o próprio nome "polifonia" sugere, há presença de várias vozes, ao contrário da monofonia. A polifonia também pode ser comparada à intertextualidade, porque há presença de aspectos de uma obra em outras obras. Dialogismo, polifonia, alteridade, carnavalização e liberdade são conceitos explorados por Mikhail Bakhtin para explicar suas teorias sobre linguagem e literatura. Além desses conceitos citados, o russo permite o desenvolvimento de uma crítica polifônica, revelando sua presença em diversas obras literárias. A crítica polifônica é a prática de agregar e por em arena diferentes discursos literários (antigos e atuais), modelos estéticos e modelos de produção e inserir estas no campo cultural. Dialogismo e polifonia sempre estão próximos: o dialogismo é o diálogo entre textos, entre obras, entre produções de diferentes visões, mas estas matérias são permeadas pela polifonia, pois a obra em si é polifônica, ela possui múltiplas vozes e discursos. Uma obra é produzida de forma polifônica, pois esta recebe influência de teorias, de discursos passados e até mesmo influenciado por estéticas de vários cunhos. Além deste dois, há um terceiro conceito fundamental para compreender as teorias de Bakhtin (os três conceitos dão base a maneira bakhtiniana de pensar o literário e a cultura em si), que é o conceito de inacabamento. Para Bakhtin, a última palavra do mundo e sobre o mundo ainda não foi dita. O autor de romances, portanto, deixa de ser o maestro da literatura e torna-se apenas um agente no contexto do dialogismo e da polifonia. Torna-se um produtor de material dialógico, que irá influenciar e dialogar com inúmeras outras obras, por isso a última palavra de um texto não foi dita, esta irá reverberar e se disseminar no campo literário ininterruptamente. Marta de Senna, importante estudiosa de Machado de Assis no século XX, adverte que a obra machadiana, ao flagrar a “incomunicabilidade que preside aos relacionamentos humanos” (SENNA, 1998, p. 47), pode apresentar, a seus leitores-pesquisadores, o problema da comunicação, das relações de alteridade, escuta e diálogo ainda absolutamente graves na sociedade contemporânea. Perplexo diante da problemática, o leitor machadiano pode interessar-se por sondar novas formar de pensar, agir e dialogar – mais polifônicas e menos individualistas. Relatório Final PIBIC-EM – IFG Edital nº 008/2017 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE GOIÁS PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO DIRETORIA DE PESQUISA E INOVAÇÃO Fazendo breve percurso de crítica literária sobre o papel do dialogismo e da polifonia na articulação da incomunicabilidade, temos: no capítulo dois de Memórias Póstumas , o narrador afirma: “Agora, porém que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo [...]” (ASSIS, 2012, p.70). A partir desse trecho, podemos observar que a vida pode gerar incomunicabilidade, pois, em vida, não se pode dizer ou confessar tudo. Usualmente, é necessário pontuar as limitações do politicamente correto ou do desejável e quando se ultrapassa tais espaços liminares se é punido. Contudo, após a morte não há retaliações ou punições, podendo-se assumir tudo sem medos ou meandros. Ainda no que tange à incomunicabilidade, no capítulo 6 de Memórias Póstumas, há trecho em que essa situação é comum no dia a dia, como em “[...] durante algum tempo ficamos a olhar um para o outro, sem articular palavras” (ASSIS, 2012, p.76). Na passagem, podemos ver como o desconforto, o acanhamento ou situações inesperadas podem gerar a incomunicabilidade. Já no primeiro capítulo de Esaú e Jacó (1904), também é possível observar um execrto expressivo da incomunicabilidade. Quando Natividade e Perpétua estavam na casa da Cabocla, logo no primeiro capítulo do romance, estas permanecem caladas, por se situarem naquele local, consultando uma negra sobre o futuro, algo que é um tabu para sociedade elitizada carioca novecentista. Podemos observar que situações que não agradam a sociedade ou são vistas pejorativamente tornam-se problemáticas e geram silenciamento – de ações e de personagens sociais marginalizados sistematicamente. Ainda, podemos observar no capítulo 52 de Esaú e Jacó, que Flora (personagem feminina central na trama) pensa de forma atrevida e guarda só para si suas conclusões, pois este pensamento não era aceitável. Podemos observar isso no seguinte trecho: “Tudo isto era visto ou pensando em silêncio” (ASSIS, 2012, p.60). Na obra A ordem do discurso, o francês Michel Foucault define a produção do discurso como "ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório,esquivar sua pesada e temível materialidade" (2004, p.8-9). Ou seja, há uma relação de poder envolvida no discurso, voltamos então ao medo de represália, consequências ou exclusão motivada pelo discurso. Tais fatores podem ser relacionados à incomunicabilidade de Brás Cubas em vida e de Rubião em estado de sandice, de Bento Santiago em relação à sua amada silenciada (por ele mesmo) e de Flora em relação aos jovens pretendentes, à sua família e mesmo à cena político-social brasileira do período de transição para a República. A morte e a loucura, então, podem ser vistas como modos de os personagens poderem confessar ou expor sua condição humana. Consideramos as formas de reação da sociedade, através de punição, exclusão e retaliação como elementos que refletem a incomunicabilidade social – magistralmente pontuada na literatura machadiana por capítulos curtos, silêncios longos e entrelinhas definitivas. CONCLUSÃO Os romances machadianos a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas (1880/81) são permeados pela tanatografia (esta, por sua vez, é embasada na iminência da morte e na espreita da loucura) e portam o anseio de superação da incomunicabilidade entre os vivos – problema Relatório Final PIBIC-EM – IFG Edital nº 008/2017 MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DE GOIÁS PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO DIRETORIA DE PESQUISA E INOVAÇÃO discursivo, ético e político que afeta também o século XXI, quando os jovens leitores estudantes do Ensino Médio acessam o legado de Machado de Assis. Em suma, podemos concluir que o Machado de Assis faz críticas à sociedade carioca, fluminense e mesmo brasileira e a seu modo de organização, mostrando de forma lúdica como esta é cruel e coercitiva. Utilizando-se conceito de Mikhail Bakhtin na produção machadiana, pode-se dizer que em tentativa de carnavalização, Machado de Assis utiliza-se da literatura para romper e criticar padrões sociais, com um defunto-autor, com personagens que voltam entre livros, ou que partem em sandice, tudo isto a fim de superar a incomunicabilidade, podendo dar voz e cena ao personagem que foi calado, e que é calado diariamente pela sociedade patriarcal e elitizada que, a despeito da passagem de um século inteiro das publicações machadianas até os dias de hoje, ainda caracteriza nosso meio. REFERÊNCIAS ASSIS, Machado de. Obra Completa. (Org. Afrânio Coutinho). Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas . Rio de Janeiro: Globo, 1997. ASSIS, Machado de. Quincas Borba. São Paulo: Editora Martin Claret, 2001. ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro: Globo, 2012. BAKHTIN, Mikhail. Epos e romance (sobre a metodologia do estudo do romance). 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