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30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 1/61 Alcoolismo Alcoolismo Plataforma: ANP Cidadã Evento: Prevenção ao Alcoolismo e Outras Doenças Associadas Livro: Alcoolismo Impresso por: NILSON VIANA DA SILVA JUNIOR Data: sexta, 30 agosto 2019, 16:43 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 2/61 Sumário Introdução Relações entre Alcoolismo e Trabalho Breve Histórico Mecanismos de Defesa relacionados ao uso indevido do álcool Causas do alcoolismo Os efeitos do álcool no organismo Identificando o uso do álcool O uso nocivo do álcool Características da dependência alcoólica Consequências do alcoolismo Consequências Físicas Consequências psicológicas Consequências Sociais Prevenção O significado de prevenção A prevenção ao uso indevido de álcool Políticas de Redução de Danos (RD) Fatores de risco e fatores de proteção Tratamentos do alcoolismo Acompanhamento psicológico Assistência social Tratamento médico e medicamentoso Participação em grupos de apoio e autoajuda como Alcoólicos Anônimos (A.A.). 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 3/61 Orientação à família Internação para desintoxicação Prevenção à recaída Onde Buscar Auxílio Encerramento 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 4/61 Introdução Prezados alunos e alunas, sejam muito-bem vindos à última unidade de estudos deste curso. Abordaremos o assunto central deste curso que é o alcoolismo. Como é a unidade mais longa, talvez você sinta necessidade de interromper a leitura algumas vezes, mas isso não é problema. Anote o ponto que você parou e, depois, recomece quando puder. Vamos lá? Diversas estatísticas confirmam que o consumo de álcool e drogas tem afetado de 10% a 12% da população mundial e 11,2% dos brasileiros que vivem nas 107 maiores cidades do país. Especificamente na área do trabalho, 82 milhões de trabalhadores brasileiros são atingidos por essa doença, gerando prejuízos pessoais, profissionais e econômicos. Segundo cálculos do Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID), o Brasil perde por ano US$ 19 bilhões com o absenteísmo (ausência ao trabalho), acidentes e enfermidades causadas pelo uso do álcool e outras drogas. Dados levantados pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que 20% a 25% dos acidentes de trabalho no mundo envolvem pessoas intoxicadas que machucam a si mesmas e a outros(CISA, 2018). O uso periódico e prolongado dessas substâncias reduz a capacidade para o trabalho na medida em que afeta o raciocínio, a concentração e o humor, alterando sobremaneira o comportamento do trabalhador, comprometendo sua responsabilidade, postura, valores morais e ocasionando sua exclusão do convívio social. Na área de segurança pública, o alcoolismo nem sempre aparece de forma explícita nas estatísticas de adoecimento, mas é um dos principais fatores de absenteísmo e de licenças para tratamento de saúde em decorrência de doenças secundárias provocadas pelo abuso do álcool (ex: doenças cardiovasculares, depressão, câncer, doenças do aparelho gastrointestinal, transtornos psiquiátricos etc.).Cabe ressaltar também, que parte dos problemas disciplinares (ex: abuso de autoridade, “carteirada”, direção perigosa, homicídios, brigas, entre outros) tem sua origem no uso abusivo dessa substância. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 5/61 Alcoolismo reflete um contínuo e multideterminado conjunto de comportamentos relacionados ao beber, cujos determinantes têm diferentes pesos para pessoas distintas e incluem aspectos culturais e genéticos, bem como, hábitos e costumes sociais. Pesquisa afirmam, com base nas estatísticas da OMS, que o alcoolismo é reconhecido como uma doença de saúde pública, sendo pacífico o entendimento de que seja uma doença grave, que além de estigmatizar o dependente, proporciona-lhe intenso sofrimento psíquico, social e físico (Mangueira e cols., 2015; Gaulio, 2015). O consumo do álcool que leva a dependência química e, portanto, ao adoecimento tem crescido de forma significativa no Brasil e no mundo. Com o intuito de discutir os fatores epidemiológicos, históricos e culturais que podem impactar nesse crescimento do consumo no Brasil e na América Latina, a Fiocruzem parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde, promoveu,em outubro de 2016, o “Seminário Internacional Álcool, Saúde e Sociedade”. Portela (2016) ao descrever os dados das pesquisas apresentadas durante o evento, afirmou que: “do consumo lícito a um problema de saúde pública o consumo de álcool no Brasil deixa em estado de alerta pesquisadores e especialistas da área de saúde. Francisco Inácio Bastos compara inclusive o consumo de álcool ao de tabaco, alertando para alguns pontos:, “o baixo preço, a imensa acessibilidade e o funcionamento inadequado ou inexistência de regulamentos, em forte oposição ao tabaco, onde persistem obviamente problemas, mas a regulação, em termos globais, é substancialmente melhor e mais sistematicamente aplicada” – o que levaria o álcool a ser a substância psicoativa mais consumida em todo o mundo e a que corresponde a mais elevada “carga de doença” – ou seja, óbitos, doenças e perda de capacidade de realizar tarefas cotidianas”. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 6/61 Relações entre Alcoolismo e Trabalho As estatísticas sobre o alcoolismo no ambiente de trabalho normalmente são subestimadas. Todavia, a literatura mundial atesta que uma das causas mais importantes dos afastamentos do trabalho é, justamente, a ingestão abusiva de álcool. Melo (2006) ao fazer a resenha do livro “Alcoolismo no trabalho” de Magda Vaissman, 2006, afirma que no Brasil, o alcoolismo é o terceiro motivo para faltas e a causa mais frequente de acidentes no trabalho.Muitas vezes os sinais que indicam o alcoolismo são sutis e podem aparecer relacionados também a outras patologias, portanto não se deve rotular ou diagnosticar o indivíduo de forma leviana e sim utilizar esses comportamentos como sinal de alerta para um problema de saúde. Estudos (Frone, 1999 apud Lopes, 2011; Fonseca, 2007; Barros e cols., 2009) sobre adoecimento no trabalho apontam que variáveis psicossociais do contexto laboral podem favorecer o consumo do álcool ou potencializar o uso da substância ocasionando o alcoolismo crônico. O consumo coletivo de bebidas alcoólicas, por exemplo, associado a situações de trabalho pode ser decorrente de práticas defensivas, como meio de garantir inclusão no grupo. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 7/61 Outro fator importante e que pode contribuir para o desenvolvimento do alcoolismo é o uso da substância como forma de gerenciar o estresse decorrente de atividades perigosas, socialmente desprestigiadas, que envolvem afastamento prolongado do lar ou que por sua peculiaridade fazem com que as pessoas tenham que ficar isoladas do convívio. Conforme podemos perceber, o uso do álcool está associado a diversos fatores relacionados ao ambiente de trabalho ou à atividade laboral em si. Por isso mesmo, é muito importante entender e perceber quando a utilização da substância passa a ser considerada inadequada ou patológica. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 8/61 Breve Histórico O uso de drogas está presente em todas as civilizações e tem as mais diferentes finalidades, como por exemplo, religiosas, militares, medicinais, comemorativas, entre outras. Registros arqueológicos revelam que os primeiros indícios sobre o consumo de álcool pelo ser humano datamde aproximadamente 6.000 a.C., sendo, portanto, um costume extremamente antigo e que tem persistido por milhares de anos. Inúmeros exemplos na mitologia apresentam o álcool como uma substância divina, e este é possivelmente um dos fatores responsáveis pela manutenção do hábito de beber ao longo do tempo. Inicialmente, as bebidas alcoólicas tinham teor alcoólico relativamente baixo, como é o caso do vinho e da cerveja, já que dependiam exclusivamente do processo de fermentação de carboidratos (açúcares) presentes em vegetais, como a cana-de-açúcar, a uva e a cevada. Com o advento do processo de destilação, introduzido na Europa pelos árabes na Idade Média, surgiram novos tipos de bebidas alcoólicas, que passaram a ser consideradas remédio para diversas doenças. Com a Revolução Industrial, a bebida passou a ser produzida em larga escala, o que aumentou consideravelmente o número de consumidores e, por consequência, os problemas sociais causados pelo abuso do consumo do álcool. Conforme pode se verificar, os problemas relacionados ao abuso do álcool já são registrados há bastante tempo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou em 2018 o Relatório Global sobre Álcool e Saúde, que traz informações sobre o consumo de álcool no mundo e os avanços nas políticas do álcool desde a publicação das Estratégias Globais para Redução do Uso Nocivo do álcool (2010) (WHO, 2010; WHO, 2018). De acordo com o relatório da OMS (2018), o consumo do álcool ocorre no mundo todo e 43% da população mundial com mais de 15 anos de idade (isso equivale a mais de 2.348 bilhões de pessoas) relataram terem bebido nos últimos 12 meses. No Brasil, o consumo total estimado é equivalente a 7,8 litros por pessoa, quantidade superior à média mundial (6,4 litros por pessoa/ano). Considerando apenas os indivíduos que consomem álcool, esta média sobe para 19,3 litros de álcool puro por pessoa (sendo mulheres 8,9 litros e homens24,8 litros). A Figura 3 apresenta a estimativa do consumo per capita de álcool de acordo com país. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 9/61 Figura 3. Consumo total de álcool per capita. Fonte: WORLD HEALTH ORGANIZATION (2018). Global Status Report on Alcohol and Health 2018. http://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/274603/9789241565639-eng.pdf?ua=1 Em termos globais,os dados apontam para uma diminuição no consumo (legal e ilegal) per capita de álcool puro nas Américas entre 2010 (8,2 L) e 2016 (8,0 L). No entanto, quando se considera apenas as pessoas que consomem álcool, as estatísticas mudam um pouco, mostrando um aumento no consumo - de 14,5 em 2010 a 15,1 em 2016. Quanto aos tipos de bebidas mais consumidas no mundo, as destiladas ocupam a posição principal(44%), seguida da cerveja (34,3%) e do vinho (11,7%). No Brasil, a cerveja é o tipo mais consumido (62%), seguido dos destilados (34%) e do vinho (3%)., 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 10/61 O álcool é considerado uma droga psicotrópica, o que significa dizer que atua no sistema nervoso central (SNC), provocando mudança no comportamento de quem o consome. Além disso, ele tem potencial para desenvolver dependência que pode ser física e psicológica. O álcool é considerado uma droga lícita (de uso permitido legalmente em nosso país) e seu consumo é, de maneira geral, incentivado pela sociedade. Esse é um dos motivos pelos quais ele é encarado de forma diferenciada, quando comparado com as demais drogas. Apesar da sua ampla aceitação social, o consumo de bebidas alcoólicas é atualmente um problema de saúde pública.O uso nocivo do álcool tem um impacto significativo para a morbidade, mortalidade e incapacidades em todo o mundo, estando relacionado a 3milhões de mortes a cada ano. Vale destacar que, 5,3% de todas as mortes em todo o mundo são atribuídas total ou parcialmente ao álcool(OMS, 2018). No gráfico abaixo, é possível verificar as principais doenças e prejuízos associados ao álcool em diferentes níveis: A Figura 4 a seguir mostra a porcentagem que pode ser atribuída a algumas doenças e aos prejuízos decorrentes do uso do álcool. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 11/61 Figura 4. Doenças e prejuízos atribuídos ao uso do álcool. O alcoolismo é definido como o consumo excessivo, duradouro e compulsivo de bebidas alcoólicas, e que degrada a vida pessoal, familiar, profissional e social do indivíduo. É uma doença crônica e progressiva, caracterizada pela perda do controle do consumo, com consequências físicas, sociais, legais ementais e por uma incapacidade do usuário em reconhecer e admitir os problemas relacionados ao uso. De maneira geral, observa-se na história de vida dos indivíduos com diagnóstico de alcoolismo um lapso de tempo de 10 (dez) anos até a instalação da doença em sua forma mais grave. Existem vários motivos que levam o indivíduo a usar a substância, geralmente sobressaem: (1)alteração da consciência visando modificar a percepção da realidade; (2) busca de sensação de prazer e (3) alívio de dor (física ou emocional). Thomas Babor, autor do livro Alcohol: No Ordinary Commodity, apresenta ainda outros fatores que são considerados problemas ligados ao álcool e que podem agravar a situação do consumo promovendo epidemias, principalmente entre os jovens: preços baixos, a fácil disponibilidade, a cultura do uso da bebida em excesso, as estratégias de marketing agressivas e a ausência de controles regulatórios. (Seminário Internacional – Álcool, Saúde e Sociedade, 2016). 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 12/61 Você já viu a abertura do filme 28 dias (Direção de Betty Thomas)? Naquela cena é possível refletir sobre a relação da personagem da atriz Sandra Bullock com a bebida alcoólica, com seus familiares e seu companheiro. Observe as situações de risco nas quais ela se envolve no filme. Clique no link abaixo para ver a cena de abertura do filme: 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 13/61 Mecanismos de Defesa relacionados ao uso indevido do álcool Os mecanismos de defesa são formas que o próprio alcoolista ou pessoas próximas a ele utilizam para interpretar a relação com o álcool. São espécies de explicações que essas pessoas fazem para si e para os outros para tentar entender o que está ocorrendo ou justificar ações. Assim, as alterações e problemas causados pelo uso indevido do álcool são minimizados ou ignorados pelo alcoolista, por sua família, pelos amigos e até mesmo pela chefia e colegas de trabalho. Esse processo de distorção do problema ocorre de maneira inconsciente, ou seja, as pessoas não percebem que estão utilizando esses mecanismos. Isso ocorre porque, em geral, reconhecer o problema é extremamente difícil e desconfortável. Principais mecanismos de defesa: Negação: Consiste na negação de fatos como forma de proteção em relação ao sofrimento que essa realidade provoca. A negação muitas vezes leva a manifestações incoerentes ou contraditórias. Exemplo: Um alcoolista dizendo: “Eu bebo socialmente. Paro de beber quando quiser”. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 14/61 Perceba que neste caso o alcoolista nega ter problemas com bebidas alcoólicas. Racionalização: O indivíduo tenta explicar de forma coerente do ponto de vista lógico ou aceitável do ponto de vista moral, uma atitude, uma ação, uma ideia, um sentimento, cujos verdadeiros motivos não são bem aceitos por ele, pela família ou pela sociedade e os quais ele não percebe. Exemplo: A esposa de um alcoolista diz: “Meu marido teve uma infância muito difícil, sofreu demais com as agressões de seu pai, é porisso que ele bebe”. Observe que na situação acima a esposa do alcoolista tenta justificar o fato de ele ser alcoolista. Projeção: Nesse caso o indivíduo atribui a outras pessoas dificuldades, limitações, desejos e pensamentos que ele não aceita conscientemente como seus. Veja que algumas pessoas que projetam, muitas vezes são mais críticas com os outros indivíduos que apresentam o mesmo comportamento que ele. Exemplo: Um alcoolista ao comentar sobre um amigo que fez uso de álcool: “Está vendo que vergonha, nosso amigo não sabe beber e perde o controle”. É possível verificar o julgamento sobre o comportamento do amigo, desconsiderando o próprio descontrole e dependência. Atenção: A diferença entre a racionalização e a projeção pode ser muito sutil. Na projeção o problema está no outro, já na racionalização o indivíduo procura uma explicação para a realidade. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 15/61 Causas do alcoolismo Fatores sociais, psicológicos e genéticos contribuem decisivamente para a instalação do alcoolismo. Na maior parte dos casos a doença inicia seu curso já no período da adolescência, no qual existe a busca por segurança e aprovação do meio e o ato de beber facilita a aceitação do indivíduo em seu grupo social. Em nossa cultura, tomar uma dose de bebida é uma prática associada a comemorações, a momentos bons ou divertidos. Se essa prática é continuada, com o tempo tudo passa a ser motivo para beber; bons ou maus momentos, festas de reencontro ou de despedidas, sucessos ou fracassos. O alcoolista tenta usar o álcool para resolver seus problemas, sem se dar conta de que multiplica seus desconfortos – físicos e emocionais – e passa a depender do álcool para tudo, até para esquecer que é dependente. Assim, o álcool aliado a situações de crise vai se tornando o vilão do dependente. E a pessoa, que no início achava que se tornava forte, se enxerga absolutamente fragilizada e acredita ser merecedora do desrespeito e desprezo alheio. Twerski (1987)pontua que o alcoolismo é uma condição cercada de paradoxos. Talvez o maior desses paradoxos seja que, muitas vezes buscando ajudar o alcoolista, aqueles que o cercam (familiares, amigos, colegas de trabalho e gestor) alimentam sua dependência. Como isso ocorre? Para o alcoolista o consumo de álcool é mais vantajoso do que parar de beber. Ao se embriagar seus problemas parecem ser amenizados. Por outro lado, nem sempre as consequências negativas que o consumo inadequado do álcool gera são percebidas, pois aqueles que querem o bem do alcoolista tendem a aliviá-las. Depreende-se daí que, para que o alcoolista queira parar de beber e decida buscar tratamento ele deverá reconhecer sua condição, perceber as consequências negativas de sua doença e saber que existem tratamentos efetivos que possibilitarão sua recuperação. Vale salientar que, o alcoolismo é uma doença e dificilmente a pessoa adoecida terá êxito em resolver o problema sozinha.Por isso, em situações de dependência avançada, o álcool passa a ser considerado como uma forma de autodestruição. Apresentaremos agora um teste utilizado para detectar possíveis problemas relacionados ao abuso do álcool. O CAGE, proposto por John Ewing (1970), é o mais simples questionário utilizado para detecção do alcoolismo e teve tradução validada para o Brasil por Mansur e Monteiro (1983). A sigla CAGE resulta das palavraschaves contidas em cada uma das perguntas: Cut-down, Annoyed, Guilty e Eye-opener (traduzido: diminuição, aborrecimento, culpa e abrir os olhos). Consiste de quatro perguntas, a saber: 1. Alguma vez o senhor (a) sentiu que deveria diminuir (Cut-down) a quantidade de bebida ou parar de beber? 2. As pessoas o (a) aborrecem (Annoyed) porque criticam o seu modo de beber? 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 16/61 3. O senhor (a) se sente culpado (Guilty) ou chateado consigo pela maneira com que costuma beber? 4. O senhor (a) costuma beber pela manhã (Eye-opener) para diminuir o nervosismo ou a ressaca? Deve-se considerar positivo para alcoolismo se duas ou mais respostas forem positivas no CAGE. O CAGE tem sido utilizado como rotina de avaliação em hospitais gerais, para discriminar quais pacientes necessitam de cuidados nesta área, e também em pesquisas para estimar a magnitude do problema do uso de álcool em empresas ou outras populações específicas (Ramos et al. 1997; Castells e Furlanetto, 2005; Corradi-Webster; Laprega e Furtado, 2005) Este teste é uma boa maneira de avaliar a sua relação com o álcool. Caso tenha respondido afirmativamente a duas ou mais perguntas, é preciso reavaliar a maneira como você faz uso do álcool. Uma boa alternativa também é procurar o auxílio de um profissional de saúde(Amaral e Malbergier, 2004). 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 17/61 Os efeitos do álcool no organismo Os efeitos do álcool variam de intensidade não apenas de acordo com a quantidade e a frequência com que se bebe, mas também de acordo com as características pessoais do usuário. Para saber as consequências do consumo das bebidas alcoólicas para a saúde é importante conhecer a quantidade de álcool puro que cada tipo de bebida contém. Costuma-se chamar "unidade de álcool" o equivalente a cerca de 10 a 12g de álcool puro. Como a concentração de álcool varia de bebida para bebida, vejamos a quantidade presente nas mais consumidas no nosso meio: 1 lata de cerveja (355ml) - 1,5 unidade de álcool 1 copo de chope ou cerveja (300ml) - 1 unidade de álcool 1 copo de vinho (100 ml) - 1 unidade de álcool 1 dose de destilado (pinga, uísque, vodca) (50 ml) - 1,5 unidade de álcool Cada unidade de álcool (10 a 12 g de álcool puro) requer uma hora para ser metabolizada completamente. Assim, por exemplo, uma pessoa que tenha bebido 4 chopes, (equivalente a 4 unidades de álcool) terá um efeito físico do álcool em seu organismo por 4 horas. No início estes efeitos são leves até atingirem o máximo, para posteriormente diminuírem. Porém, a desintoxicação (cessação dos efeitos do álcool no organismo) só ocorrerá após algumas horas. O consumo regular de cinco a dez unidades diárias de álcool a partir dos 14 anos de idade está associado a mais de 150 doenças. Pode causar a perda de 1,8% do volume cerebral global, envelhecimento precoce e dependência química. O quadro síntese, a seguir, apresenta alguns efeitos que podem ser encontrados com o passar dos anos. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 18/61 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 19/61 Fonte: Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas – Unifesp, citado em Revista Isto É, 26 de setembro/2007 n°1978. Ano 30, p.52. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 20/61 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 21/61 Identificando o uso do álcool O grau do risco pelo uso nocivo do álcool varia em função da idade, do sexo e de outras características biológicas do usuário, assim como da situação e do contexto em que se bebe. Alguns grupos vulneráveis ou em situação de risco apresentam maior sensibilidade às propriedades tóxicas, psicoativas e viciantes do álcool. No entanto, pode-se afirmar que nenhum consumo de álcool é isento de riscos. Quando ele é controlado, é denominado consumo de baixo risco.Por exemplo, não se deve beber nada antes de dirigir ou de realizar atividades que coloquem em risco a segurança pessoal ou de terceiros, já que, nesses casos, as consequências do consumo, ainda que em pequena quantidade, podem ser desastrosas. Quandoo indivíduo apresenta problemas sociais, físicos e/ou psicológicos relacionados estritamente ao episódio de consumo, caracteriza-se o uso nocivo da substância. Quando o consumo se torna compulsivo, sem controle e destinado a evitar os sintomas da abstinência classifica-se esse tipo de consumo como dependência. Um estudo publicado pela revista científica The Lancet, em 2018 confirmou o que algumas pesquisas já indicavam - não há um nível seguro para o consumo de álcool. A partir da análise dos resultados, os pesquisadores reconheceram que o beber moderado pode levar à proteção de doenças coronárias, no entanto, alertaram que o risco do desenvolvimento de doenças como o câncer acabam sobressaindo aos benefícios. A pesquisa analisou os níveis de consumo de álcool e seus efeitos sobre a saúde em 195 países de 1990 a 2016. Incluiu participantes de 15 a 95 anos. Foram comparadas pessoas que não bebem álcool com consumidores de bebida alcoólica. Dos resultados encontrados, foi verificado que “(..) dos 100 mil abstêmios, 914 desenvolveram problemas de saúde relacionados ao álcool, como câncer, ou sofreram alguma lesão.Já quem toma diariamente uma dose - equivalente a 10 gramas de álcool puro - apresenta um risco 0,5% maior, se comparado a quem não bebe.Se o consumo for de duas doses por dia, o risco sobe para 7%. E, no caso de cinco doses diárias, chega a ser 37% maior”. Com base nessas evidências, os pesquisadores defendem o risco consciente que demanda informações e a disposição do consumidor em assumir os riscos que a ingestão da bebida pode trazer para sua vida (Ives, 2018). 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 22/61 O uso nocivo do álcool 1) Intoxicação por álcool (embriaguez) Intoxicação significa o uso nocivo de substâncias, em quantidades acima do tolerável para o organismo. A embriaguez caracteriza-se pelo efeito depressor do álcool no sistema nervoso central agindo em diversos órgãos, tais como fígado, coração, vasos sanguíneos e parede do estômago. Os sinais e sintomas da intoxicação alcoólica caracterizam-se por níveis crescentes de depressão do sistema nervoso central. Inicialmente há sintomas de euforia leve, evoluindo para tonturas, falta de coordenação motora, confusão e desorientação mental. A intensidade desses sintomas tem relação direta com a alcoolemia (nível de álcool no sangue) – quanto maior for a quantidade de álcool no sangue mais intenso será o sintoma percebido. Algumas variáveis podem alterar a ação do álcool no corpo, como por exemplo: a presença de alimentos no estômago e o tipo de bebida ingerida, pois algumas são absorvidas com maior rapidez. Algumas horas após o pico da intoxicação alcoólica aguda - normalmente, na manhã seguinte - surge a conhecida ressaca. Os sintomas mais importantes são provocados pela ação tóxica do álcool sobre o sistema nervoso central: dor de cabeça, dificuldade de concentração e sensação de confusão mental. Além disso, o álcool irrita a mucosa do estômago, provocando dor ou azia. Pode ainda surgir um aumento da produção de urina devido ao efeito diurético do álcool, o que pode levar a desidratação e sensação de boca seca. Para diminuir a intensidade e duração destes sintomas, convém ingerir bastante líquidos. Podemos citar como exemplo de intoxicação por álcool, aquela pessoa que consome bebidas alcoólicas ocasionalmente em circunstâncias especiais e que ultrapassa o nível de álcool suportado pelo organismo. É importante lembrar que a quantidade de bebida ingerida para chegar ao estado de embriaguez dependerá de cada pessoa e de algumas condições já mencionadas, como o fato de estar alimentado ou não. 2) Transtorno por Uso do Álcool É uma relação alterada entre o indivíduo e seu modo de consumir uma substância. Essa relação é capaz de trazer problemas para o seu usuário, interferindo em suas funções sociais e ocupacionais, trazendo reações físicas como a tolerância e a síndrome de abstinência. Segundo o DSM-V, a dependência do álcool pode ser entendida por: “um padrão problemático de uso de substância, levando ao comprometimento ou sofrimento clinicamente significativo, manifestado por dois dos seguintes critérios, ocorrido durante um período de 12 meses: 1. Álcool é frequentemente consumido em maiores quantidades ou por um período mais longo do que o pretendido. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 23/61 2. Existe um desejo persistente ou esforços malsucedidos no sentido de reduzir ou controlar o uso de álcool. 3. Muito tempo é gasto em atividades necessárias para a obtenção de álcool, na utilização de álcool ou na recuperação de seus efeitos. 4. Fissura ou um forte desejo ou necessidade de usar álcool. 5. Uso recorrente de álcool, resultando no fracasso em desempenhar papéis importantes no trabalho, na escola ou em casa. 6. Uso continuado de álcool, apesar de problemas sociais ou interpessoais persistentes ou recorrentes causados ou exacerbados por seus efeitos. 7. Importantes atividades sociais, profissionais ou recreacionais são abandonadas ou reduzidas em virtude do uso de álcool. 8. Uso recorrente de álcool em situações nas quais isso representa perigo para a integridade física. 9. O uso de álcool é mantido apesar da consciência de ter um problema físico ou psicológico persistente ou recorrente que tende a ser causado ou exacerbado pelo álcool. 10. Tolerância, definida por qualquer um dos seguintes aspectos: a. Necessidade de quantidades progressivamente maiores de álcool para alcançar a intoxicação ou o efeito desejado. b. Efeito acentuadamente menor com o uso continuado da mesma quantidade de álcool 11. Abstinência, manifestada por qualquer um dos seguintes aspectos: 11.1. Síndrome de abstinência característica de álcool: A. Cessação (ou redução) do uso pesado e prolongado de álcool. B. Dois (ou mais) dos seguintes sintomas, desenvolvidos no período de algumas horas a alguns dias após a cessação (ou redução) do uso de álcool descrita no Critério A: 1. Hiperatividade autonômica (p. ex., sudorese ou frequência cardíaca maior que 100 bpm). 2. Tremor aumentado nas mãos. 3. Insônia. 4. Náusea ou vômitos. 5. Alucinações ou ilusões visuais, táteis ou auditivas transitórias. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 24/61 6. Agitação psicomotora. 7. Ansiedade. 8. Convulsões tônico-clônicas generalizadas. 11.2. Álcool (ou uma substância estreitamente relacionada, como benzodiazepínicos) é consumido para aliviar ou evitar os sintomas de abstinência.” Classificação de acordo com os critérios que caracterizam transtornos de uso de substância. Classificação de acordo com os critérios que caracterizam transtornos de uso de substância. Fonte: (http://www.aberta.senad.gov.br/modulos/capa/criterios-diagnosticos-cid-10-e-dsm, acessado em 30/05/2018) Os critérios de diagnósticos propostos pelo DSM-V para o Transtorno por Uso do Álcool, contemplam sinais de fácil identificação da dependência alcoólica, entretanto é oportuno sinalizar outras características que podem ajudar a avaliar a gravidade do quadro e orientar os encaminhamentos necessários para tratamento. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 25/61 Características da dependência alcoólica 1. Compulsão para o consumo - A experiência de um desejo incontrolável de consumir uma substância. O indivíduo imagina-se incapaz de colocar barreiras a tal desejo e sempre acaba consumindo; 2. Aumento da tolerância - A necessidade de doses crescentes de uma determinada substância psicoativa para alcançar efeitos originalmente obtidos com doses mais baixas. 3. Síndrome de abstinência - O surgimento de sinais e sintomas de intensidade variáveis quando o consumo de substância psicoativacessou ou foi reduzido. As formas mais leves de abstinência se apresentam com tremores, aumento da sudorese (suor excessivo), aceleração do pulso, insônia, náuseas, vômitos e ansiedade após o período de 6 a 48 horas desde a última bebida ingerida. Sua forma mais leve não surgirá necessariamente acompanhada de todos os sintomas, podendo limitar-se aos tremores, insônia e irritabilidade. A Síndrome de Abstinência torna-se mais perigosa com o surgimento do delirium tremens. Nesse estado, o paciente apresenta confusão mental, alucinações e convulsões. Geralmente, tem início dentro de 48 a 96 horas a partir da última dose. Para diagnosticar a abstinência, é necessário que o paciente tenha pelo menos diminuído o volume de ingestão alcoólica, ou seja, mesmo não interrompendo completamente o uso é possível verificar os sintomas da abstinência. Pesquisadores afirmam que as crises se tornam mais graves na medida em que se repetem, por exemplo, um dependente que esteja passado pela quinta ou sexta crise estará sofrendo os sintomas mencionados com mais intensidade, podendo apresentar um quadro convulsivo ou de delirium tremens. Portanto, as primeiras crises de abstinências são menos intensas e perigosas. 4. Delirium Tremens – Trata-se da forma mais intensa e complicada da abstinência, que ocorre após a interrupção ou redução brusca do uso crônico e intenso do álcool, em pacientes clinicamente comprometidos. É caracterizado por um estado de confusão mental: a pessoa não sabe onde está, qual é o dia da semana, não consegue prestar atenção em nada, comporta-se de forma desorganizada, sua fala é incompreensível e no período da noite pode ficar mais agitado. Um sintoma comum no delirium tremens, porém nem sempre presente, são as alucinações táteis e visuais onde a pessoa tem a percepção visual de insetos ou animais asquerosos próximos ou andando pelo próprio corpo. Esse tipo de alucinação pode levar a um estado de agitação violenta na intenção de livrar-se dos animais. 5. Amnésia Alcoólica – São episódios transitórios de amnésia que acompanham variados graus de intoxicação alcoólica. Os “blackouts” (apagões) são mais comuns nas pessoas em fases avançadas da doença. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 26/61 6. Alívio dos sintomas da abstinência pelo consumo - o indivíduo aprende a detectar os intervalos que separam a manifestação de tais sintomas, passa a consumir a substância preventivamente, a fim de evitá-los. 7. Relevância do consumo - O consumo de uma substância torna-se prioridade, mais importante do que coisas que antes eram valorizadas pelo indivíduo. 8. Reinstalação da dependência - Após um período sem o consumo da substância, o ressurgimento de comportamentos relacionados ao consumo do álcool e dos sintomas de abstinência. Uma síndrome que levou anos para se desenvolver pode se reinstalar em poucos dias, mesmo que o indivíduo tenhaenfrentado um longo período de abstinência. Dica de filme: “Quando um homem ama uma mulher”. (Direção – Luis Mandoki) que aborda os temas tratados nesta unidade, especialmente a compulsão por bebidas alcoólicas e a negação do problema. Clique no ícone abaixo para ver uma cena do filme: 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 27/61 Consequências do alcoolismo Como já mencionado, o consumo do álcool provoca efeitos físicos e comportamentais no organismo. Ao longo do tempo, se a pessoa faz uso dessa substância de forma contínua e abusiva, aumenta consideravelmente a probabilidade do desenvolvimento da doença, alcoolismo. Com a doença instalada sintomas que antes eram pouco frequentes começam a aparecer de forma persistente e grave, acarretando problemas nas atividades diárias, na convivência social e na saúde física e mental da pessoa. Por isso, podemos afirmar que o alcoolismo acarreta sérias consequências físicas, comportamentais e sociais, alterando significativamente a vida do doente e de seus familiares. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 28/61 Consequências Físicas De forma geral, o álcool interfere no funcionamento do corpo humano, afetando, principalmente, os seguintes órgãos e sistemas com o aparecimento de sintomas e doenças: Cérebro: “apagões”, perda de memória, diminuição da concentração, degeneração, epilepsia, demência, derrame cerebral; Coração: arritmias cardíacas, cardiopatia alcoólica, doenças coronárias, infarto; Pulmão: pneumonia, tuberculose; Sistema gastrointestinal: gastrite, úlcera péptica, esofagite, pancreatite, cirrose hepática, hepatite; Sistema nervoso central: doenças dos nervos periféricos (estado permanente de hipersensibilidade, dormência, formigamento das mãos, pés ou ambos); Sistema circulatório: aumento da pressão arterial favorecendo o aparecimento de doenças crônicas como a hipertensão arterial; Sistema hormonal: o metabolismo do álcool afeta o equilíbrio dos hormônios reprodutivos no homem e na mulher. No homem, contribui para lesões testiculares, o que prejudica a produção de testosterona e a síntese de esperma. Na mulher, pode ocasionar a diminuição ou interrupção do fluxo menstrual e a redução da ocitocina, hormônio responsável pelas contrações do útero no parto. Entre as doenças que surgem em decorrência do alcoolismo, algumas merecem atenção especial. A cirrose hepática, por exemplo, é traduzida como uma insuficiência ou mau funcionamento do fígado. É a doença maisconhecida associada ao alcoolismo. Pode levar a pessoa à morte ou provocar grande incapacidade física. Segundo dados do relatório da OMS (2018), o álcool esteve associado a 69,5% (homens) e 42,6% (mulheres) dos índices de cirrose hepática no Brasil.Em um estudo que analisou as mortes por álcool como causa necessária, ou seja as mortes causadas estritamente pelo uso do álcool e, portanto, evitáveis, as doenças do fígado consistiram em mais de 55% dos casos (Garcia et al., 2015). Os alcoolistas também são mais suscetíveis ao aparecimento de alguns tipos de câncer (ex: pâncreas, esôfago, estômago e intestino) se comparados com a população em geral. A desnutrição acompanhada de anemia profunda pode ser instalada, considerando que ao ingerir o álcool de forma abusiva, o alcoolista passa a não sentir fome e por isso deixa de alimentar-se adequadamente. É pertinente frisar que a bebida alcoólica é calórica, entretanto, é fonte de caloria "vazia", ou seja, não armazenada; por isso não consegue suprir o organismo de substâncias (proteínas, vitaminas, açúcar, gorduras e minerais) necessárias para uma alimentação saudável. O uso pesado e prolongado do álcool afeta o funcionamento do cérebro promovendo o aparecimento de lesões difusas que prejudicam, além da memória, a capacidade de julgamento, de abstração de conceitos; levando a alterações na personalidade e comportamento. A pessoa torna-se incapaz de manter-se independente e autônoma. Esse quadro é diagnosticado como Síndrome Demencial Alcoólica. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 29/61 Um segundo tipo de problema grave de memória ocasionada pelo uso pesado do álcool, refere-se à Síndrome Wernicke-Korsakoff (SWK) que raramente ocorre antes dos 35 anos de idade. Caracteriza-se pela falta de coordenação motora, movimentos oculares rítmicos como se estivesse lendo (nistagmo) e paralisia de certos músculos oculares, provocando algo semelhante ao estrabismo. Além desses sintomas neurológicos, a pessoa pode apresentar confusão mental ou déficit acentuado da memória recente, mas não da memória imediata, com tendência a confabulações, sem prejuízo da consciência. Essa Síndrome relaciona-se à deficiência de tiamina (vitamina B1), em função da desnutrição causada pela ingestão de grandes quantidades de álcool que levaria à má absorção dessa vitamina pelo organismo.Os reflexos sobre o aparelho reprodutivo masculino e feminino merecem ser destacados. Sendo uma substância psicoativa, o álcool pode afetar a função sexual a partir de alterações de neurotransmissores (especialmente a serotonina, noradrenalina e dopamina) e pela ação direta ou indireta na liberação de hormônios capazes de aumentar a libido (testosterona, progesterona e estrógeno); ou por atuarem diretamente sobre o fluxo sanguíneo ou outros mecanismos fisiológicos dos órgãos sexuais. Ao atuar como depressor do sistema nervoso central, o álcool contribui direta ou indiretamente, para a disfunção da ereção, redução da secreção vaginal, redução do desempenho sexual e outras disfunções sexuais. Em doses elevadas, o uso do álcool, prejudica a ereção, interfere na ejaculação e causa redução do desejo sexual (libido). Caso o consumo abusivo se torne crônico, haverá prejuízo em todos os aspectos da função sexual com destaque para as complicações apresentadas nos quadros abaixo: Vale destacar que as disfunções sexuais costumam atingir 80% dos dependentes de álcool. Relatos femininos afirmam que o álcool aumenta o prazer sexual. Porém estudos indicam que, quanto maior a quantidade de álcool, menor o prazer sexual e a capacidade do organismo em atingir o orgasmo. O consumo crônico acarreta disfunções sexuais e problemas ginecológicos, como descrito no quadro abaixo. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 30/61 Ainda em relação ao impacto do álcool sobre o organismo feminino, é importante lembrar da Síndrome de Abstinência Fetal (SAF). Essa Síndrome acomete os bebês de mulheres alcoolistas e foi descrita pela primeira vez em 1973 sendo atribuída, inicialmente, aos efeitos da desnutrição da mãe sobre o desenvolvimento do bebê. Entretanto, os pesquisadores observaram que os bebês de mães alcoolistas apresentavam sintomas diferenciados das mães desnutridas. Durante a gestação a criança recebe doses significativas de álcool pela circulação sanguínea da mãe, ao nascer deixa de ter contato com a substância e então começa a apresentar sintomas característicos da síndrome de abstinência alcoólica. As características da SAF são: baixo peso ao nascer, atraso no crescimento e no desenvolvimento, anormalidades neurológicas, prejuízos intelectuais, má-formação do esqueleto e sistema nervoso, comportamento perturbado, modificação nas pálpebras deixando os olhos mais abertos que o comum, lábio superior fino e alongado. O retardo mental e a hiperatividade são os problemas mais significativos dessa síndrome. Caso não ocorra o retardo mental, ainda assim é comum as crianças apresentarem prejuízos no aprendizado, na atenção e na memória; como também problemas na coordenação motora, impulsividade, problemas para falar e ouvir. O déficit de aprendizagem pode estender-se até a idade adulta. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 31/61 Fonte: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/foto/0,,20638542,00.jpg 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 32/61 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 33/61 Consequências psicológicas Como mencionado no início do nosso curso, o alcoolismo, como qualquer diagnóstico psiquiátrico, é estigmatizante. Isso significa dizer que o alcoolista é visto pela sociedade de maneira desvalorizada e preconceituosa, o que interfere na autoestima do doente que não possui a mesma disposição para viver e lutar contra a doença. Outra característica associada ao alcoolismo dificulta o tratamento: a negação da doença. Essa negação está presente na maioria dos casos e dificulta bastante o tratamento. Raros são os casos em que o paciente reconhece o uso abusivo de bebidas, passo considerado essencial para livrar-se da dependência. Muitas das consequências na vida familiar e social do paciente já podem ser observadas antes dele reconhecer que a dependência do álcool já foi instalada e que ele necessita de tratamento e de ajuda. Os efeitos psicológicos do uso abusivo do álcool não dependem apenas do tipo de bebida consumida (cerveja, uísque, vinho, pinga etc.), mas também do contexto em que ela é usada e das expectativas que o usuário tem com relação a ela. O tempo e a quantidade necessários para determinada substância provocar efeitos visíveis no organismo pode variar, porém instalada a dependência os sintomas e as consequências dela advindas são as mesmas. É bastante comum a tendência de classificar as bebidas em: “fracas” ou “fortes”; típicas de bebedores sociais ou típicas de pessoas que já desenvolveram a dependência, o que é um erro de avaliação. Cabe lembrar que o alcoolismo é uma doença bastante democrática e não escolhe faixa etária, gênero, nível de instrução, nem tão pouco a classe social. O consumo de álcool assume o papel de congregar pessoas. Muitas vezes, o desejo de pertencer a um determinado grupo social atua como porta de entrada para a dependência. Nestes casos não demora muito para a bebida deixar de ser o meio e passar a ser o fim, ou seja, a bebida deixa de fazer parte da reunião social para tornar-se o centro dela, até o ponto em que há uma deterioração das relações. O usuário é incapaz de cultivar relações em que não esteja presente algum derivado etílico e inclusive evita tais lugares. No contexto familiar, a dependência ao álcool gera muitos conflitos nos relacionamentos. É frequente a falta de diálogo com o cônjuge, acompanhado de frequentes explosões comportamentais com manifestação de raiva, atitudes hostis e perda do interesse na relação conjugal. O álcool passa a ser procurado tanto para desinibir, quanto para evitar a relação sexual. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 34/61 Outro reflexo observado está na educação dos filhos. No processo de ensino-aprendizagem, a criança tende a seguir modelos e por isso é possível que filhos de alcoolistas desenvolvam o padrão de uso do álcool de forma inadequada, em consequência do desejo de imitar o comportamento das figuras parentais. Outro aspecto muito comum neste contexto é o aparecimento ou agravamento de dificuldades financeiras, em virtude do desemprego ou de despesas que extrapolam o orçamento familiar, seja por descontrole do alcoolista com os compromissos assumidos, seja por conta dos custos em manter o vício da bebida. Ao perceber que um parente está em adoecimento pela dependência do álcool, a família começa a controlar o gasto do dinheiro achando que ao agir assim, poderá controlar o consumo da substância pelo familiar. No entanto, é comum que o alcoolista comece a pedir dinheiro emprestado e em alguns casos até comece a furtar dinheiro ou objetos que possam ser trocados por bebida. Esse comportamento se assemelha a outros tipos de dependência química, como o da cocaína, crack, maconha etc. Em geral os prejuízos físicos e psíquicos mais graves do abuso do álcool só serão observados em torno de 10 a 15 anos de consumo. Nesta fase serão mais visíveis os comprometimentos psíquicos tais como depressão e insônia, que de certa forma impedem e retardam a busca por um tratamento adequado. Torna-se difícil estabelecer se são causa ou consequência do alcoolismo, são as chamadas comorbidades. Sintomas depressivos também são comuns entre alcoolistas. Isso ocorre porque o álcool causa alterações bioquímicas no organismo, contribuindo para o surgimento de humor depressivo. Porém, muitas vezes é difícil diagnosticar se a depressão surgiu em função do alcoolismo ou se foi o quadro de depressão que levou ao consumo abusivo do álcool. O relato da associação de consumo excessivo de álcool/depressão é antigo. Menninger, em 1938 (apud Scivoletto e Andrade,1997), já descrevia o alcoolismo como um “suicídio crônico” e referia-seaos alcoolistas como personalidades depressivas que buscam alívio temporário na bebida. Pesquisas também alertam para o fato de que o suicídio entre a população de alcoolistas é 50 vezes mais comum que na população geral. Quando o comprometimento psíquico do usuário de álcool se torna crônico, pode aparecer um quadro clinico mais severo. Citaremos dois dos distúrbios mais comumente observados: Delírio patológico de ciúmes: pode ser precipitado pelo aparecimento de impotência causada pelo consumo crônico do álcool. O usuário passa a se sentir inseguro por não conseguir manter relações sexuais satisfatórias com sua companheira, o que pode se agravar pela indiferença que a companheira passa a apresentar frente aos episódios de embriaguez. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 35/61 Déficits cognitivos associados ao alcoolismo: Cerca de 50% a 60% dos alcoolistas em atendimento psiquiátrico apresentam resultados em testes cognitivos pior do que o esperado, levando-se em consideração seu nível de inteligência verbal, nível educacional e idade. É uma demência que persiste por um período mínimo de três semanas após o alcoolista que faz uso prolongado do álcool parar de beber. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 36/61 Consequências Sociais “No Brasil, durante os anos de 2010 a 2012, foram registradas, a cada ano, quase 20.000 mortes nas quais o consumo de álcool foi condição necessária (que não teriam ocorrido na ausência do uso de álcool) para sua ocorrência, o que equivale a mais de 1.500 mortes por mês, ou 50 por dia.” (Garcia et al. 2015, p. 421). Ressalta-se que essas estatísticas referem-se a morte registradas oficialmente no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde. Imagina-se um número total maior, pois, no país, o padrão é de subnotificação. Além das mortes que poderiam ser evitadas, o consumo abusivo do álcool pode levar a consequências sociais graves. Contribui para a violência doméstica, abuso infantil, acidentes de trânsito, agressões e aumento na incidência de várias doenças incapacitantes. Infelizmente, vários levantamentos sobre o consumo de álcool no Brasil têm apontado para uma iniciação à experimentação da substância cada vez mais precoce. De acordo com o II LENAD (Laranjeira, 2012), crianças com até 11 anos compreendiam 5% da população que consumiu álcool no país. Se considerarmos que o mesmo estudo mostrou que 50% da população brasileira não é abstêmia e que 58% deste são jovens de até 17 anos de idade, temos um panorama sombrio em relação às consequências para a nossa sociedade. Um estudo anterior já tinha retratado dados alarmantes. O "V Levantamento Nacional" com estudantes de ensino fundamental e médio, realizado em 2004 nas 27 capitais brasileiras, indicou que a idade do primeiro uso do álcool se deu por volta dos 12 anos de idade e predominantemente no ambiente familiar. Dentro da população estudada 65,2% dos jovens já haviam feito uso do álcool uma vez na vida, 63,3% no último ano e 44,3% haviam feito uso pelo menos uma vez nos últimos 30 dias que antecederam a pesquisa (SENAD, 2008). Com esses dados, vemos que pouco melhorou na última década. É fato recorrente na mídia e nas pesquisas, que o consumo de álcool está cada vez mais presente na sociedade brasileira perpassando as relações familiares e sociais, desencadeando uma série de problemas sociais, pessoais e de saúde. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 37/61 No ambiente urbano, a pessoa fica mais suscetível a envolver-se em acidentes de trânsito, porque passa a dirigir embriagado ou transitar nas ruas sob os efeitos do álcool, aumentando a probabilidade deser atropelado. De acordo com a OPAS/OMS (2016), o trânsito brasileiro é o quarto mais violento do continente americano e boa parte das mortes pelo consumo de álcool acontece devido aos acidentes de trânsito, com vítimas fatais ou com sequelas irreversíveis (ex: paralisia cerebral, paraplegia etc.). São 23,4 mortes por 100 mil habitantes. Na Europa, a média é de 10,3 mortes por 100 mil. O álcool também aparece com frequência associado à violência urbana e familiar. A pessoa alcoolizada perde o controle da situação e começa a perceber os acontecimentos de forma distorcida, assim aumenta consideravelmente a sua disposição em envolver-se em brigas, discussões e agressões físicas e verbais com estranhos na rua. Deve-se lembrar no entanto, que a ingestão do álcool por si só não promove a violência, mas atua como um potencializador de ações violentas. Fonseca et al. (2009, p. 743) investigaram situações de violência domiciliar ocorridas com o agressor sob efeito do álcool. Para tanto, realizaram em 2005 um levantamento domiciliar que incluiu 108 cidades brasileiras com mais de 200 mil habitantes. Esse estudo encontrou elevada proporção de domicílios com histórico de violência (33,5% de um total de 7.939 domicílios pesquisados e destes 17,1% com agressores alcoolizados). Os tipos de violência,associadas ao uso do álcool, mais frequentes foram: “discussões direcionadas a pessoas do domicílio (81,8%); escândalos não direcionados a alguém específico (70,9%); ameaça de agressão física (39,5%) e de quebra de objetos (38,7%), agressões físicas (27,8%), com armas (5,5%) e abuso sexual (3,2%).” Na família, os conflitos e desentendimentos ocorrem com mais frequência. Novamente, por conta da alteração da percepção da realidade e dos acontecimentos, o alcoolista fica mais propenso a envolver-se em discussões com familiares que muitas vezes levam ao uso da força física. Dados do Ministério da Saúde referente ao ano de 2008 indicam que 30,3% das mulheres vítimas de violência doméstica, sexual e outras violências relataram que seus prováveis agressores haviam ingerido bebida alcoólica (Brasil - MS, 2009). Clique no ícone abaixo e veja a cena do filme: “Quando um homem ama uma mulher”. Esteja atento para as consequências familiares do consumo inadequado de álcool, como a agressividade gerada, a preocupação e o sofrimento dos familiares. Veja também a reação de culpa e vergonha da alcoolista após recuperar a sobriedade. No contexto de trabalho, o consumo do álcool também acarreta consequências graves. A pessoa que faz uso abusivo da substância tem maior probabilidade de: envolver-se em acidentes no trabalho; faltar sem justificativa; apresentar redução na sua capacidade laborativa (redução da concentração e eficiência); desencadear conflitos interpessoais; sofrer sanções disciplinares entre outras consequências. O alcoolista pode apresentar mudanças de comportamentos, tornando-se mais irritado e/ou ansioso do que o comum. Com o agravamento da dependência,começa a ir trabalhar alcoolizado, o que muitas vezes provoca sua demissão ou aposentadoria precoce. Todos esses fatores podem impactar de forma significativa o clima de 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 38/61 trabalho na equipe (por ex. sobrecarga de trabalho e pressão por resultados em virtude da ausência de um dos integrantes da equipe, percepção de injustiça, ocultação de erros/falhas graves etc.) e a qualidade de vida no trabalho. No Brasil, o alcoolismo é a terceira causa de aposentadorias por invalidez e ocupa o segundo lugar entre os demais transtornos mentais (Resende et al., 2005).Vale salientar que, o país gasta parte do seu Produto Interno Bruto (PIB) no tratamento e recuperação de alcoolistas. Muito desse dinheiro poderia ser destinado a políticas de prevenção à saúde e melhoria do sistema de saúde pública, entretanto, boa parte da verba é gasta em tratamentos de reabilitação de vítimas de trânsito, aposentadorias precoces e tratamento de reabilitação para alcoolistas. Para saber mais sobre o estigma social sobre ouso do álcool, leia o texto “Estigma Social sobre o uso do álcool” (Ronzani & Furtado, 2010). Clique no Link abaixo para acessar: 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 39/61 Prevenção Conforme estudado nas outras unidades, o problema do alcoolismo vem se agravando bastante nas últimas décadas. O uso de álcool tem uma prevalência importante por ser uma droga lícita, de fácil acesso e culturalmente aceita. A ANS (2011) citando uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Harvard sobre a carga global de doenças destaca que, considerando qualquer faixa etária, o uso indevido de álcool tem a maior prevalência global, com importantes consequências para a saúde pública mundial, visto que é responsável por cerca de 1,5% de todas as mortes do mundo e 2,5% do total de anos vividos ajustados para a incapacidade; incluindo transtornos físicos, como cirrose hepática e miocardiopatia alcoólica, até lesões decorrentes de acidentes (automobilístico e em indústrias). Considerando a gravidade mundial do problema, faz-se necessário não só o diagnóstico e o tratamento precoce à dependência do álcool, mas principalmente a adoção de medidas voltadas para a prevenção ao uso indevido de álcool. Como vimos na unidade anterior, o consumo inadequado de bebidas alcoólicas traz inúmeras consequências físicas, psicológicas e sociais para o dependente e aqueles com quem convive. Assim, podemos pensar também nos custos econômicos e sociais envolvidos no problema do alcoolismo e que poderiam ser evitados. A seguir listamos alguns: Custo do tratamento do alcoolista; Custo do tratamento de doenças decorrentes do alcoolismo (gastrite, úlcera, cirrose, problemas cardíacos, etc.); Aposentadorias precoces; Acidentes de trabalho; Perdas relacionadas à queda de produtividade no trabalho; Mortes prematuras; Acidentes de trânsito; Crimes; Conflitos interpessoais; Desestruturação familiar, entre outros. A ANS (2011, p. 53) assinala que o foco na prevenção torna-se essencial, quando se constata o “despreparo significativo e a desinformação das pessoas que lidam diretamente com o problema, sejam elas usuários, familiares ou profissionais de saúde. Nesse sentido, educar a população é fundamental e as atividades preventivas devem ser orientadas ao fornecimento de informações e discussão dos problemas provocados pelo consumo do álcool, tendo como fundamento uma visão compreensiva do consumo do álcool como fenômeno social, e ao mesmo tempo individual””. Portanto, é importante lembrar que as ações e programas de prevenção podem e devem atingir diversos contextos sociais como o indivíduo, a família, a escola, o trabalho e a comunidade. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 40/61 O significado de prevenção As ações preventivas são intervenções orientadas para evitar o surgimento de doenças específicas, reduzindo sua incidência e prevalência nas populações. Baseiam-se no conhecimento das causas das doenças, do número de pessoas que ela atinge na população e das consequências específicas dessas doenças na vida dos indivíduos. Assim, a prevenção orienta-se às ações de detecção, controle e enfraquecimento dos fatores de risco de enfermidades, sendo o foco a doença e os mecanismos para atacá-la (ANS, 2011). Conforme citado nos Cadernos de Atenção Primária do Ministério da Saúde (2013), existem quatro níveis de prevenção: primária, secundária e terciária. Prevenção primária:envolve a adoção de medidas para remover as causas e os fatores de risco antes que a doença ocorra. Inclui promoção da saúde e proteção (ex.: saneamento básico, vacinas, exames clínicos preventivos etc.). Prevenção secundária:abrange ações para diagnóstico e tratamento de saúde em estágio inicial da doença, muitas vezes em estágio subclínico, o que pode facilitar a conclusão de um diagnóstico, o tratamento levando a redução da probabilidade da disseminação da doença e/ou dos seus efeitos a longo prazo (ex.: diagnóstico precoce). Prevenção terciária:inclui ações para reduzir os prejuízos funcionais em virtude de uma doença aguda ou crônica. Visa reabilitar e reinserir o indivíduo na sociedade (ex.: prevenir complicações do diabetes, reabilitar paciente após derrame cerebral ou acidente vascular cerebral). Prevenção quaternária:envolve intervenções protetivas e sugestões de alternativas de tratamento eticamente aceitáveis em função do agravamento do estado de saúde do indivíduo. Visa à proteção do paciente de novas intervenções médicas inapropriadas diante do quadro avançado do problema. Alunos e alunas, parabéns pelo empenho e esforço de vocês! Estamos mais ou menos na metade do conteúdo desta unidade de ensino. Antes de continuar, certifique-se que você entendeu os conceitos apresentados. Você pode voltar a qualquer ponto desta unidade clicando nas setas do livro ou nos subtítulos na coluna que aparece do lado esquerdo da tela. Assim que estiver pronto, continue avançando! 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 41/61 A prevenção ao uso indevido de álcool Quando falamos em prevenir o uso inadequado de álcool, nos referimos a tudo o que pode ser feito para evitar, impedir, retardar, reduzir ou minimizar o uso, abuso ou a dependência do álcool e os prejuízos que ele irá produzir. Vamos ver o que pode ser feito? No caso do uso indevido de álcool, as ações preventivas também podem ser desenvolvidas nos três níveis, dependendo da população-alvo e do perfil da intervenção. Vejamos como pode ocorrer em cada um dos níveis de prevenção (Noto&Galduróz, 1999): Prevenção primária –conjunto de ações que procuram evitar a ocorrência de novos casos de uso abusivo ou até mesmo de um primeiro uso. Esse tipo de intervenção pode envolver: 1. Divulgação de informações: abrangem as ações de prevenção que visam à disponibilização de informações sobre os efeitos do consumo de bebidas alcoólicas, com o objetivo de conscientizar as pessoas quanto aos riscos. 1. Criação e o fortalecimento dos fatores de proteção: tem como foco o incentivo aos hábitos saudáveis; o oferecimento de alternativas esportivas e culturais; a modificação do ambiente no qual o usuário está inserido; o enriquecimento das condições e práticas educacionais; formação de lideranças e multiplicadores que possam atuar em pequenos grupos sociais/bairros/comunidades, escolas ou outras instituições públicas. Prevenção secundária –conjunto de ações que procuram evitar a ocorrência de complicações para as pessoas que fazem uso indevido de bebidas alcoólicas e que apresentam um nível relativamente baixo de problemas em decorrência do uso da substância. Essas medidas buscam sensibilizar as pessoas a respeito dos riscos, favorecendo a mudança de comportamento por meio do aprendizado de novas atitudes e escolhas mais responsáveis. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 42/61 Prevenção terciária – envolve um conjunto de ações que, a partir de um problema identificado, procura evitar prejuízos adicionais e/ou reintegrar na sociedade os indivíduos com problemas sérios advindos do consumo abusivo do álcool. Inclui também medidas para a melhoria da qualidade de vida dos usuários junto à família, ao trabalho e à comunidade de forma geral. Essas ações envolvem identificar e cuidar de casos emergenciais (como a síndrome de abstinência, a overdose, as tentativas de suicídio, etc.), assim como a assistência aos pacientes portadores de problemas que necessitam de encaminhamento (hepatite, Aids, cirrose entre outros). Também é consenso entre os especialistas nesse tipo de intervenção a necessidade da criação de redes de assistência integral ao dependente; incluindo serviços de orientação familiar, encaminhamentopara tratamento de doenças associadas, apoio para reinserção profissional e/ou educacional. As ações de prevenção terciária muitas vezes se fundem com o tratamento daqueles alcoolistas que buscam ajuda para sua recuperação. Existem inúmeros modelos de tratamento do alcoolismo, incluindo várias linhas de grupos de autoajuda (com destaque para os Alcoólicos Anônimos), abordagens psicológicas (como as psicanalíticas, comportamentais, cognitivas), tratamentos medicamentosos, etc. Ainda sobre o aspecto da prevenção vale destacar alguns princípios básicos, divulgados pela OMS (2014), para o desenvolvimento e implantação de políticas públicas de saúde voltadas para o controle do consumo abusivo do álcool em todos os níveis. Essasnormastrazem características multivariadas dos efeitos nocivos do álcool e em virtude disso, as ações preventivas devem ser trabalhadas e implementadas em conjunto para serem eficazes: “• As políticas públicas e intervenções devem ser orientadas e formuladas a partir dos interesses da saúde pública, com metas muito bem definidas e baseadas nas melhores evidências disponíveis; • As políticas devem ser equitativas e sensíveis aos contextos nacionais, religiosos e culturais; • Todas as partes envolvidas têm a responsabilidade de agir de forma a não prejudicar a implementação de políticas públicas e intervenções; • Deve ser dada atenção e prioridade à saúde pública em relação aos interesses concorrentes e promovidas as abordagens que focam nessa direção; • Proteger populações de alto risco e expostas aos efeitos nocivos do consumo de álcool deve ser parte integrante das políticas do álcool; • Indivíduos e familiares afetados pelo uso nocivo do álcool devem ter acesso a prevenção e serviços de saúde eficazes e com preços acessíveis; • Crianças, adolescentes e adultos que optam por não beber têm o direito de serem apoiados no seu comportamento e protegidos das pressões para beber; • As políticas e intervenções públicas para prevenir e reduzir os malefícios do álcool devem abranger todos os tipos de bebidas alcoólicas. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 43/61 Em relação à evidência de efetividade das intervenções, muitos estudos mostram que políticas de base populacional (ex: restringir acesso ao álcool e regulamentação das propagandas) são as intervenções com maior custo-benefício na redução dos danos causados pelo álcool. Também há fortes evidências comprovando a efetividade de políticas voltadas ao beber e dirigir” (CISA, 2014). 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 44/61 Políticas de Redução de Danos (RD) A Associação Internacional de Redução de Danos (IHRA, 2010) define a Redução de Danos (RD) como um conjunto de “políticas, programas e práticas que visam primeiramente reduzir as consequências adversas para a saúde, sociais e econômicas do uso de drogas lícitas e ilícitas, sem necessariamente reduzir o seu consumo. Redução de Danos beneficia pessoas que usam drogas, suas famílias e a comunidade”. Podemos ilustrar esse tipo de prática com campanhas do tipo: “Se beber não dirija”. Dessa forma, as políticas de redução de danos reconhecem que as pessoas usam e muitas delas continuarão a usar as substâncias, independentemente das intervenções convencionais. Alves (2009) defende que os princípios dessa política são baseados na constatação pragmática de que o consumo de drogas (lícitas ou ilícitas) sempre esteve presente na história da humanidade. Assim, o ideário de uma sociedade sem drogas fica sem sentido. Então é possível concluir que, se o consumo de drogas não pode ser suprimido da sociedade torna-se necessário traçar estratégias para reduzir os danos relacionados a ele. De acordo com a autora, esse enfoque agrega maior racionalidade ao enfrentamento da questão das drogas ao tratar o consumo, como um problema de saúde pública. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 45/61 Fatores de risco e fatores de proteção Conforme mencionado anteriormente, a prevenção pode atuar fortalecendo fatores de proteção e/ou minimizando os fatores de risco. Mas o que significam as expressões FATORES DE PROTEÇÃO e FATORES DE RISCO? Fatores de proteção - Refere-se a tudo aquilo que diminui a probabilidade do uso indevido de álcool e drogas. Exemplos: Existência de um projeto de vida com metas realistas; Valores morais sólidos; Modelos sociais que promovam a saúde; Família estruturada; Satisfação no trabalho; Informações adequadas sobre o álcool e seus efeitos no organismo; Bom suporte social; Prática de atividade esportiva; Vida pessoal enriquecida com atividades culturais e de lazer, etc. Fatores de risco - São circunstâncias e características pessoais, ambientais ou relacionadas ao álcool ou outras drogas, que aumentam a probabilidade de o indivíduo fazer uso indevido dela(s). Exemplos: 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 46/61 Presença de transtornos mentais como depressão e ansiedade; Facilidade de acesso ao álcool; Baixo poder aquisitivo; Modelos sociais que aprovam ou incentivam o uso de álcool; Influência de grupos; Falta de informações adequadas sobre o álcool e outras drogas e seus efeitos no organismo; Violência urbana e/ou doméstica; Atividade laboral com elevado grau de estresse e/ou grande probabilidade de enfrentamento de risco de vida (ex: profissionais que atuam na segurança pública) ou com acesso fácil ao álcool e outras drogas (ex: policiais, médicos, enfermeiros etc); Estímulo ao uso da substância pela mídia, por meio de publicidade. Relembrando: As ações de prevenção mais efetivas priorizam o desenvolvimento dos fatores de proteção e a minimização dos fatores de risco. Vale ressaltar que os fatores de risco e de proteção para o uso indevido de álcool não são estanques, eles permeiam todos os contextos da vida das pessoas, seu meio, o ambiente escolar e familiar etc. Além disso, o consumo ocorre no âmbito da comunidade, frequentemente no convívio com pares. Há uma grande variabilidade de influências que não podem ser reduzidas simplesmente a este ou a aquele fator de risco ou de proteção. Observe o quadro abaixo que apresenta alguns fatores de risco e de proteção nos níveis individuais, familiares e interpessoais. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 47/61 Fonte: ANS (2011) Promoção da Saúde e prevenção de riscos e doenças na saúde suplementar - 4ª ed. rev. e atual, pg. 191(com adaptações) 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 48/61 Tenho uma sugestão de leitura: a Cartilha: Beber ou Dirigir – Faça a sua Escolha Certa ! Clique no link abaixo e acesse: 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 49/61 Tratamentos do alcoolismo Agora você pode estar pensando: como se tratar do alcoolismo? Vamos estudar mais um pouco: De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - DSM V (2014), os transtornos mentais relacionados ao uso de substâncias psicoativas abrangem desde transtornos relacionados ao consumo de uma droga de abuso (inclusive álcool), aos efeitos colaterais de um medicamento e à exposição a toxinas. O termo pode referir-se a uma droga de abuso, um medicamento ou uma toxina. Há várias classes de substâncias, dentre elas: álcool, anfetamina, cafeína, canabinoide (maconha), cocaína, alucinógenos, inalantes, nicotina (cigarro), sedativos. O tratamento do alcoolismo é complexo e envolve váriosprofissionais, técnicas, recursos da comunidade, a família e a rede social do alcoolista. Contudo, não existe modelo predefinido para o tratamento. Isso ocorre porque cada indivíduo apresenta características únicas, está inserido em um contexto específico e tem necessidades diferenciadas que precisam ser consideradas ao se estabelecer uma estratégia de tratamento. Um tratamento eficaz deve ocupar-se das múltiplas necessidades do indivíduo, e não apenas de seu uso indevido do álcool. Deve ser continuamente avaliado e modificado segundo a necessidade, para garantir o atendimento das necessidades do paciente. É oportuno salientar ainda, que o tratamento não precisa ser voluntário para ser eficaz e que a desintoxicação médica é apenas a primeira etapa do tratamento para adição e, por si só, pouco faz para mudar o padrão de consumo do álcool. Assim, o tratamento do alcoolismo pode envolver diferentes tipos de intervenções que normalmente não ocorrem isoladamente, mas se tornam muito mais efetivas se combinadas entre elas. Vejamos abaixo alguns tipos de tratamentos indicados: Acompanhamento psicológico; 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 50/61 Assistência social; Tratamento médico e medicamentoso; Participação em grupos de apoio e autoajuda como Alcoólicos Anônimos e Al-Anon; Orientação à família; Internação para desintoxicação, Prevenção à recaída, entre outros. Veremos agora detalhadamente os recursos citados acima. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 51/61 Acompanhamento psicológico Em geral a decisão de mudança de comportamento é fácil para a maioria das pessoas, entretanto a manutenção do novo comportamento é algo muito mais complexo, especialmente quando se trata de um transtorno crônico como é o alcoolismo. A literatura na área aponta, que as contribuições da teoria e da técnica da abordagem cognitivo-comportamental, a saber: a terapia cognitiva de Aaron Beck e seus colaboradores, no tratamento do alcoolismo tem se mostrado a abordagem mais efetiva para tratar o transtorno. De acordo com Beck (1979, apud Knapp em Ramos; Bertolote et col. 1997), o terapeuta cognitivo auxilia o paciente a pensar e agir de forma mais realística e adaptada com relação aos seus problemas psicológicos para redução dos sintomas. Os objetivos da terapia cognitivo-comportamental são: Capacitar o paciente a examinar a sequência de acontecimentos que levam ao comportamento aditivo e explorar as crenças básicas envolvidas nesse comportamento. Capacitar o paciente a identificar e lidar com as formas com que seu pensamento produz angústia e estresse, de modo a conseguir maior eficácia ao lidar com seus problemas reais. Ajudar o paciente a construir um sistema de controle aplicável no enfrentamento de impulsos de comportamentos aditivos. Ajudar o paciente a aprender a manter mudanças no estilo de vida. A motivação do paciente em abandonar o uso da substância sofre oscilações durante o tratamento, portanto é fundamental que ele desenvolva a disposição de reiniciar o processo desde os estágios anteriores à mudança, compreendendo que o tratamento não segue uma linearidade, mas ocorre de forma cíclica. O que se procura em um processo psicoterapêutico dentro da abordagem cognitivo comportamental é o desenvolvimento da capacidade do indivíduo de construir estratégias para enfrentar situações que envolvam o risco de uma recaída e se adaptar de forma adequada aos desafios apresentados pela vida. Vale destacar que, é fundamental para a eficácia do tratamento a adesão por um período mínimo adequado (três meses ou mais). O acompanhamento psicológico é um componente central no tratamento eficaz do alcoolismo, pois auxilia na identificação dos problemas relacionados ao uso indevido de álcool, fortalecendo a autoestima do indivíduo e ajudando-o a identificar seus déficits e a aperfeiçoar repertórios cognitivos, afetivos e comportamentais para enfrentar os desafios de sua vida. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 52/61 Assistência social Assistente social é o profissional que tem em mente o bem-estar coletivo e a integração do indivíduo na sociedade. Poderá atuar junto a grupos de indivíduos, no âmbito familiar, assim como em empresas. Seu trabalho está relacionado à orientação quanto ao entendimento do problema e aos tipos de tratamentos existentes e à facilitação do acesso aos recursos da comunidade. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 53/61 Tratamento médico e medicamentoso Visa o reestabelecimento da saúde física do paciente e busca um quadro clínico estável. O médico realiza a avaliação clínica para definir o tipo de tratamento adequado para cada caso; verifica se além da dependência química existe alguma comorbidade (gástrica, hepática, psiquiátrica ou outra); encaminha para o tratamento específico; prescreve medicação adequada, como, por exemplo, remédios para reduzir os sintomas de abstinência ou para reduzir a vontade de beber, além de outros medicamentos para doenças específicas associadas. Vale mencionar que pacientes com um quadro de abuso de álcool e com transtorno mental coexistente, devem ter ambos os transtornos tratados de forma integrada e que a medicação adequada pode auxiliar muito na adesão ao tratamento e sua eficácia. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 54/61 Participação em grupos de apoio e autoajuda como Alcoólicos Anônimos (A.A.). A.A. pode ser descrito como um método para recuperação do alcoolismo, no qual os membros ajudam-se mutuamente, compartilhando entre si uma enorme gama de experiências semelhantes em sofrimento e recuperação do alcoolismo. Para conhecer um pouco mais, acesse as páginas do A.A. clicando nos links abaixo (links externos): Alcoólicos Anônimos do Brasil Alcoólicos Anônimos Online 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 55/61 Orientação à família O alcoolismo é considerado uma doença que afeta não apenas o dependente, mas também a família. A família sofre intensamente em função das consequências do alcoolismo, seja por ver o sofrimento do indivíduo, seja pela sensação de impotência e ambivalência que a situação provoca, ou até mesmo por outras consequências como a violência doméstica. Ambivalência – Refere-se a sentimentos antagônicos, como gostar e ao mesmo tempo não querer estar perto, que surgem em quem convive com o alcoolista. Filhos de dependentes químicos apresentam risco aumentado para transtornos psiquiátricos, desenvolvimento de problemas físico-emocionais e dificuldades escolares, também é um grupo com maior chance para o desenvolvimento de depressão, ansiedade, transtorno de conduta e fobia social. Assim, é importante que os membros da família de um alcoolista recebam atenção para suas angústias, como também recebam informações fundamentais para a melhor compreensão do quadro de dependência química, e consequentemente melhora no relacionamento familiar. Uma avaliação familiar pode ser um grande auxílio no planejamento do tratamento, pois fornece dados que corroboram com o diagnóstico do dependente químico, bem como funciona como indicador do tipo de intervenção mais adequada. Como forma de receber apoio e orientação adequados para o enfrentamento ao alcoolismo, as famílias podem recorrer ao tratamento psicológico por meio de terapeutas especializados em famílias e ainda a grupos de apoio próprios, como, por exemplo, o Al-Anon. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 56/61 Internação para desintoxicação A internação para desintoxicação destina-se a pessoasdependentes que precisam de tempo para efetuar o tratamento físico e restabelecer o equilíbrio psicológico sem álcool. Pode durar de 2 a 4 semanas e é realizada em instituições especializadas ou em clínicas. É indicado que após a internação o paciente permaneça sob acompanhamento ambulatorial, pois durante o período de internação o alcoolista permanece em um ambiente extremamente protegido, afastado de seus fatores de risco para consumo de álcool (como por exemplo: desestruturação familiar, problemas relacionais, preocupações financeiras). Ao retornar à rotina e ao convívio com sua realidade anterior, o paciente pode ficar mais vulnerável, pois já não se encontra mais em uma situação de afastamento dos fatores de risco. Por isso a importância do acompanhamento sistemático por profissionais como assistentes sociais, psicólogos, médicos, assim como o apoio familiar e social e a participação em grupos de apoio. Com isso, busca-se oferecer maior suporte para o alcoolista e fortalecimento dos fatores de proteção. 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 57/61 Prevenção à recaída Para se considerar que houve uma recaída, é necessário que o paciente tenha conseguido, ao menos, dois meses de abstinência. Na recaída o paciente retorna ao uso do álcool da mesma maneira que usava antes de iniciar o tratamento. Pode-se dizer que este comportamento faz parte do processo de reabilitação e não deve ser entendido como um fracasso do tratamento ou sinalizar a impossibilidade de recuperação. Durante o tratamento do alcoolismo é esperado que o paciente passe por episódios de recaída (retorno ao uso do álcool). Segundo Marlatt (1984, em Knapp, 1997): “A probabilidade de beber ocorre em função do nível de tensão percebida na situação, o grau de controle pessoal, a disponibilidade de respostas adequadas para lidar com a situação, a disponibilidade de álcool e as expectativas de resultado positivo oferecidas pelo álcool, como resposta para lidar com a situação”(p.177). Diante da constatação da presença de recaídas crônicas em um terço dos tratamentos, o que implica recuperações transitórias da adição química, resta-nos identificar as diversas situações de risco. Marlatte Gordon (1980, 1985, apud Álvarez, 2007)argumentamque a recaída é decorrente da inter-relação das situações ambientais, as habilidades para enfrentá-las, o nível percebido de controle pessoal e a antecipação dos efeitos positivos do álcool. A análise de alguns episódios apontou que a maioria das recaídas estava associada a três situações de alto risco: a) frustração e ira; b) pressão social; e c) tentação interpessoal. É oportuno lembrar que a recaída sempre dá sinais que antecedem o reiníciodo uso do álcool propriamente dito.Segundo os autores esses fatores são de duas classes: 1. Determinantes imediatos: que são as situações de alto risco, como estados emocionais negativos, situações de conflito interpessoal, situações de pressão social e estados afetivos positivos. 2. Antecedentes ocultos: que são o estilo de vida do paciente, os tipos de enfrentamento ao estresse, o sistema de crenças etc., que mediam a resposta aos fatores imediatos. Quando ocorre o consumo ocasional de álcool, que pode ainda não ser caracterizado como uma recaída, além de ser um grande risco para o tratamento, surge um sentimento de culpa ao lado de expectativas positivas quanto a possibilidade de ter controle sobre o consumo de álcool, o que termina favorecendo a recaída. De acordo com os estudos relatos por Álvarez (2007) os fatores que favorecem a recaída seriam: “a) pressão social: influência prejudicial de amigos bebedores, ir a lugares onde se consome, a festas e celebrações; b) dependência (craving): necessidade de beber, beber com controle e falta de vontade para deixar de beber; c) conflitos interpessoais, fundamentalmente com a família (separações, brigas, falta de apoio e harmonia familiar); 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 58/61 d) estados emocionais negativos (ansiedade, depressão, raiva).”(p. 189) A prevenção à recaída envolve muito mais coisas do que ajudar o dependente a ficar sóbrio; envolve também o desenvolvimento de habilidades para a pessoa aprender a viver, sem ter a bebida alcoólica como uma prioridade. Com isso, o alcoolista modifica de maneira mais ampla e permanente seu estilo de vida. Identificar as circunstâncias que ele percebe como “gatilho” para a vontade de beber, ou seja, situações que podem ser evitadas (ex.: convivência com amigos que bebem, presença em locais relacionados ao consumo) e situações que não podem ser evitadas (datas comemorativas, festas de aniversário, filmes que mostram o uso.) Quando esses eventos são previstos, são antecipadas as dificuldades e mobilizados recursos para o enfrentamento. Para Caballo (2003), independentemente da causa do déficit em habilidades, o abuso de substâncias psicoativas pode servir como um meio para enfrentar a vida diária e/ou as fortes pressões externas. Uma sugestão de leitura: A Cartilha Informativa sobre Álcool e Jovens da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas. Clique no Link abaixo e acesse: 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 59/61 Onde Buscar Auxílio A prevenção à recaída envolve muito mais coisas do que ajudar o dependente a ficar sóbrio; envolve também o desenvolvimento de habilidades para a pessoa aprender a viver, sem ter a bebida alcoólica como uma prioridade. Com isso, o alcoolista modifica de maneira mais ampla e permanente seu estilo de vida. O tratamento do alcoolismo normalmente envolve a conjunção de várias abordagens que podem envolver: tratamento medicamentoso, intervenção psicológica, apoio e orientação familiar, fortalecimento das redes de suporte familiar e social, participação em grupos de apoio, acompanhamento por parte dos profissionais no âmbito do trabalho do alcoolista, acompanhamento de assistente social, internação, comunidades terapêuticas, entre outros. Geralmente o tratamento tende a ser de longa duração e é possível que ocorram recaídas durante o processo. O apoio social, das pessoas a sua volta, é essencial para o sucesso do tratamento. CONTATOS VIVA VOZ - SENAD Informações sobre drogas, prevenção, e recursos disponíveis na comunidade. 0800 510 015 ALCOÓLICOS ANÔNIMOS www.alcoolicosanonimos.org.br 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 60/61 GRUPOS PARA FAMILIARES http://www.naranon.org.br/ NARCÓTICOS ANÔNIMOS www.na.org.br 30/08/2019 Alcoolismo https://ead.dpf.gov.br/anpcidada/mod/book/tool/print/index.php?id=6527 61/61 Encerramento Finalizamos nossa última unidade de estudos. Espero que este curso tenha sido útil e esclarecedor para você. Volte à página inicial e veja os vídeos selecionados para esta unidade. Não se esqueça de realizar a avaliação final! Espero encontrá-lo em breve em outros cursos da ANP.Net. Até mais!