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Prévia do material em texto

HISTÓRIA 
MODERNA 
Professor Me. Kleber Eduardo Men
GRADUAÇÃO
Unicesumar
C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a 
Distância; MEN, Kleber Eduardo. 
 
 História Moderna. Kleber Eduardo Men. 
 Maringá-Pr.: UniCesumar, 2015. Reimpresso em 2018.
 179 p.
“Graduação - EaD”.
 
 1. Ensino. 2. História Moderna. 3. EaD. I. Título.
ISBN 978-85-459-0067-2
CDD - 22 ed. 907
CIP - NBR 12899 - AACR/2
Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário 
João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828
Reitor
Wilson de Matos Silva
Vice-Reitor
Wilson de Matos Silva Filho
Pró-Reitor de Administração
Wilson de Matos Silva Filho
Pró-Reitor de EAD
Willian Victor Kendrick de Matos Silva
Presidente da Mantenedora
Cláudio Ferdinandi
NEAD - Núcleo de Educação a Distância
Direção Operacional de Ensino
Kátia Coelho
Direção de Planejamento de Ensino
Fabrício Lazilha
Direção de Operações
Chrystiano Mincoff
Direção de Mercado
Hilton Pereira
Direção de Polos Próprios
James Prestes
Direção de Desenvolvimento
Dayane Almeida 
Direção de Relacionamento
Alessandra Baron
Head de Produção de Conteúdos
Rodolfo Encinas de Encarnação Pinelli
Gerência de Produção de Conteúdos
Gabriel Araújo
Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais
Nádila de Almeida Toledo
Supervisão de Projetos Especiais
Daniel F. Hey
Coordenador de Conteúdo
Priscilla Campiolo Manesco
Design Educacional
Maria Fernanda Canova Vasconcelos
Iconografia
Amanda Peçanha dos Santos
Ana Carolina Martins Prado
Projeto Gráfico
Jaime de Marchi Junior
José Jhonny Coelho
Arte Capa
Arthur Cantareli Silva
Editoração
Humberto Garcia da Silva
Priscila Stadler
Qualidade Textual
Hellyery Agda
Yara Martins Dias
Keren Pardini
Ilustração
André Luís Onishi
Viver e trabalhar em uma sociedade global é um 
grande desafio para todos os cidadãos. A busca 
por tecnologia, informação, conhecimento de 
qualidade, novas habilidades para liderança e so-
lução de problemas com eficiência tornou-se uma 
questão de sobrevivência no mundo do trabalho.
Cada um de nós tem uma grande responsabilida-
de: as escolhas que fizermos por nós e pelos nos-
sos farão grande diferença no futuro.
Com essa visão, o Centro Universitário Cesumar 
assume o compromisso de democratizar o conhe-
cimento por meio de alta tecnologia e contribuir 
para o futuro dos brasileiros.
No cumprimento de sua missão – “promover a 
educação de qualidade nas diferentes áreas do 
conhecimento, formando profissionais cidadãos 
que contribuam para o desenvolvimento de uma 
sociedade justa e solidária” –, o Centro Universi-
tário Cesumar busca a integração do ensino-pes-
quisa-extensão com as demandas institucionais 
e sociais; a realização de uma prática acadêmica 
que contribua para o desenvolvimento da consci-
ência social e política e, por fim, a democratização 
do conhecimento acadêmico com a articulação e 
a integração com a sociedade.
Diante disso, o Centro Universitário Cesumar al-
meja ser reconhecido como uma instituição uni-
versitária de referência regional e nacional pela 
qualidade e compromisso do corpo docente; 
aquisição de competências institucionais para 
o desenvolvimento de linhas de pesquisa; con-
solidação da extensão universitária; qualidade 
da oferta dos ensinos presencial e a distância; 
bem-estar e satisfação da comunidade interna; 
qualidade da gestão acadêmica e administrati-
va; compromisso social de inclusão; processos de 
cooperação e parceria com o mundo do trabalho, 
como também pelo compromisso e relaciona-
mento permanente com os egressos, incentivan-
do a educação continuada.
Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está 
iniciando um processo de transformação, pois quan-
do investimos em nossa formação, seja ela pessoal 
ou profissional, nos transformamos e, consequente-
mente, transformamos também a sociedade na qual 
estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando 
oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capa-
zes de alcançar um nível de desenvolvimento compa-
tível com os desafios que surgem no mundo contem-
porâneo. 
O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de 
Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo 
este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens 
se educam juntos, na transformação do mundo”.
Os materiais produzidos oferecem linguagem dialó-
gica e encontram-se integrados à proposta pedagó-
gica, contribuindo no processo educacional, comple-
mentando sua formação profissional, desenvolvendo 
competências e habilidades, e aplicando conceitos 
teóricos em situação de realidade, de maneira a inse-
ri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais 
têm como principal objetivo “provocar uma aproxi-
mação entre você e o conteúdo”, desta forma possi-
bilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos 
conhecimentos necessários para a sua formação pes-
soal e profissional.
Portanto, nossa distância nesse processo de cres-
cimento e construção do conhecimento deve ser 
apenas geográfica. Utilize os diversos recursos peda-
gógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possi-
bilita. Ou seja, acesse regularmente o AVA – Ambiente 
Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e en-
quetes, assista às aulas ao vivo e participe das discus-
sões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de 
professores e tutores que se encontra disponível para 
sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de 
aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui-
lidade e segurança sua trajetória acadêmica.
Professor Me. Kleber Eduardo Men
Mestre em História das Ideias e das Instituições pela Universidade Estadual 
de Maringá (2013), Especialista em Docência no Ensino Superior pela 
UNICESUMAR (2011), com ênfase na Educação a Distância, e graduado em 
História pela Universidade Estadual de Maringá (2007). Professor do ensino 
superior, médio e fundamental da rede particular. Também é organizador 
e autor de material didático. Atualmente é aluno do curso de Bacharel em 
Direito da UNICESUMAR. 
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SEJA BEM-VINDO(A)!
Olá, aluno(a)!
Seja bem-vindo(a) à disciplina de História Moderna. Neste livro, abordaremos temas que 
estão diretamente vinculados à formação de nossa sociedade Ocidental. Entretanto, an-
tes de apresentarmos de forma mais detalhada o conteúdo, me apresentarei a você.
Sou graduado em História pela Universidade Estadual de Maringá (2007), especialista 
em Docência no Ensino Superior pela Unicesumar (2011), com ênfase em Educação a 
Distância, e também sou Mestre em Políticas e Movimentos Sociais, com ênfase em His-
tória das Ideias e das Instituições, pela Universidade Estadual de Maringá (2013). Atual-
mente, curso a graduação em Direito pela Unicesumar, além de me dedicar ao estudo 
da civilização Ocidental bem como de suas instituições jurídicas, econômicas, políticas 
e sociais.
Para apresentar o nosso conteúdo, gostaria de propor a você uma reflexão muito interes-
sante. Se você já passou dos 30 anos de idade, certamente deve ter assistido ao famoso 
filme da década de 1980, “De volta para o futuro”, sob a direção de Robert Zemeckis. Na 
verdade, estou me referindo a um dos integrantes da clássica trilogia, o “De volta para o 
futuro III”, em que boa parte dele se passa no ano de 1955 e 1885. Há uma cena no filme 
que me chama muito atenção. É aquela em que os dois principais personagens, Mar-
ty McFly (Michael J. Fox) e o Doutor Emmett L. Browm (Critopher Lloyd) estão em 1955, 
no fundo de uma antiga mina abandonada, em busca do Delorean e, ao constatar que a 
peça que estava dando defeito era fabricada no Japão, o Dr. Browm alertou: “Claro que 
esta peça é defeituosa. Ela é fabricada no Japão”. Com um olhar de reprovação, Mar-
ty olha para ele e responde: “Doutor, em 1985 (ano em que tudo começou) tudo é fabri-
cado no Japão”. Com um olhar deespanto, o doutor Browm aceita, meio a contragosto.
Esta cena, por mais engraçada que pareça ser, representa muito do ponto de vista his-
tórico. O Japão havia sido devastado pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945), além 
de ter sofrido com os efeitos da primeira bomba atômica lançada sobre uma nação na 
história da humanidade. Em pouco tempo, do ponto de vista histórico, esta nação havia 
se tornado uma das maiores economias do planeta. Mas e quando se trata da Europa? 
Se tivéssemos a oportunidade de voltarmos no tempo, mais precisamente uns 600 anos 
atrás, dificilmente imaginaríamos que as bases de um dos modelos mais bem-sucedidos 
de civilização emergiriam deste continente. 
Segundo Niall Ferguson (2012), em 1415, a Europa estava devastada. Era um continente 
miserável. A Inglaterra e a França quase se destruíram na Guerra dos Cem anos (1337-
1453). Após este evento, a Inglaterra mergulhou fundo em uma guerra civil (1455-1485), 
a Guerra das Duas Rosas. Na Península Ibérica, Portugal e, em especial, a Espanha tra-
vavam uma luta sangrenta contra os muçulmanos, em busca do total controle da re-
gião. Além desses problemas de ordem política, tivemos também a Peste Negra, que 
devastou quase um terço de toda população do Continente. Diante disso, como foi pos-
sível emergir deste continente um dos modelos de civilização que mais influenciou e 
influencia até hoje o mundo? A resposta está nas suas instituições. 
APRESENTAÇÃO
HISTÓRIA MODERNA 
Segundo Niall Ferguson (2012), foram os “aplicativos” criados pelos europeus os res-
ponsáveis por colocar a Europa na dianteira das principais transformações. O termo 
aplicativo foi cunhado por esse historiador para identificar o consumo, a medicina, 
a ciência, o trabalho, a propriedade e a competição. Nessa perspectiva, iremos abor-
dá-los de forma ampla, ao longo deste livro. Sendo assim, é importante destacar 
quais temas especificamente estudaremos. Em suma, foi durante a Idade Moderna 
que a Europa conseguiu deixar pra trás todo passado miserável e se tornar o modelo 
de civilização mais bem-sucedido de todos os tempos. 
Para iniciar nossa discussão, precisamos fazer uma abordagem sobre a política bem 
como sobre a formação dos Estados Nacionais Europeus. Para tanto, buscaremos 
apresentar um pouco do debate entre o poder do rei e o poder clerical. O contexto 
que permeou este embate foi a emergência das monarquias centralizadas.
Avançando um pouco mais no tempo, dedicamos uma unidade inteira ao estudo de 
um dos maiores pensadores da política, Nicolau Maquiavel. A importância deste au-
tor é no sentido de que ele inaugurou o realismo político. Nessa perspectiva, foi Ma-
quiavel quem conseguiu enxergar com mais rigor e perspicácia todos os elementos 
que fizeram parte do contexto de transição entre a Idade Média e a Idade Moderna. 
A nossa terceira unidade é dedicada ao estudo de um dos pontos mais importan-
tes da Idade Moderna. Trata-se da Reforma Religiosa ou Reforma Protestante, como 
preferem alguns. Este evento é considerado como a vertente religiosa do Renas-
cimento. Pelas mãos de Martinho Lutero e João Calvino, o mundo viu nascer uma 
nova doutrina religiosa baseada no cristianismo, que alterou sobremaneira a con-
figuração social. 
Nas Unidades III e IV, damos destaque à História da Inglaterra e da França. Vamos 
apresentar a você como esses dois países se organizaram politicamente bem como 
os fatores que os levaram, em um mesmo contexto histórico, a seguirem caminhos 
políticos distintos. Enquanto, na Inglaterra, durante a Idade Moderna, prevaleceu o 
interesse particular sobre o Estado, na França ocorre o contrário, o que veio mudar 
apenas com sua revolução no século XVIII.
Por fim, é preciso lembrar,  estimado(a) aluno(a),  que este livro não se prendeu a 
recortes temporais dogmáticos. Tampouco ficou preocupado em manter uma linha 
cronológica  que impossibilitasse qualquer tipo de discussão mais aprofundada. 
Nossa principal preocupação, aqui, foi mostrar como as instituições  se compor-
taram ao longo dos períodos históricos. Ora reproduzindo comportamentos, ora 
adaptando-os à realidade e, muitas vezes, eliminando-os por completo. Também foi 
de grande preocupação mostrar a você como o debate de ideias é importante para 
a construção do conhecimento histórico. 
Desejo a você uma excelente leitura! 
Professor Kleber Men 
APRESENTAÇÃO
SUMÁRIO
09
UNIDADE I
AS TRANSFORMAÇÕES POLÍTICAS E SOCIAIS NA BAIXA IDADE MÉDIA
15 Introdução
16 Igreja e Poder na Baixa Idade Média  
21 Egídio Romano e o Poder Eclesiástico  
27 João Quidort Entre o Poder Papal e o Poder Real  
34 Considerações Acerca da Centralização Política  
36 Considerações Finais  
UNIDADE II
A IMPORTÂNCIA DE NICOLAU MAQUIAVEL À COMPREENSÃO DAS 
TRANSFORMAÇÕES NA ERA MODERNA
45 Introdução
46 Quem foi Nicolau Maquiavel? Apontamentos Biográficos  
52 O Historiador Nicolau Maquiavel e o seu Tempo  
60 O Contexto de Transição Entre os Valores Medievais e Modernos  
69 O Renascimento Cultural  
72 Considerações Finais  
SUMÁRIO
UNIDADE III
A REFORMA PROTESTANTE E SUA INFLUÊNCIA SOBRE A POLÍTICA, 
SOCIEDADE E ECONOMIA
81 Introdução
82 O Contexto Histórico da Reforma Religiosa  
88 Martinho Lutero e a Reforma na Alemanha  
93 A Reforma de João Calvino  
95 A Contribuição do Protestantismo ao Desenvolvimento do Capitalismo  
102 Considerações Finais  
UNIDADE IV
A INGLATERRA MODERNA: DA FORMAÇÃO DA NAÇÃO ÀS REVOLUÇÕES 
BURGUESAS
109 Introdução
110 A Formação do Estado Inglês  
115 Dinastia Tudor 
118 A Sociedade Moderna Inglesa  
127 A Revolução Puritana e o Protetorado de Cromwell  
136 O Legado da Revolução Gloriosa à Inglaterra  
138 Considerações Finais  
SUMÁRIO
11
UNIDADE V
DO FEUDALISMO À MODERNIDADE: A FORMAÇÃO DA FRANÇA E O 
CENÁRIO REVOLUCIONÁRIO DO SÉCULO XVIII
145 Introdução 
146 A Sociedade do Antigo Regime Na França  
150 O Absolutismo  
157 O Cenário Revolucionário Francês  
163 A Obra da Revolução Francesa  
166 Considerações Finais  
171 CONCLUSÃO
173 REFERÊNCIAS
176 GABARITO
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Professor Me. Kleber Eduardo Men
AS TRANSFORMAÇÕES 
POLÍTICAS E SOCIAIS NA 
BAIXA IDADE MÉDIA
Objetivos de Aprendizagem
 ■ Compreender o conflito político estabelecido na Baixa Idade Média 
entre a Igreja e as Monarquias Emergentes. 
 ■ Entender as propostas teóricas sobre as atribuições do poder real e 
do poder papal. 
 ■ Observar como a centralização monárquica, ocorrida na Baixa Idade 
Média europeia, se deu à luz de muitos conflitos religiosos. 
 ■ Relacionar as discussões políticas com o contexto histórico estudado.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
 ■ Igreja e poder na baixa Idade Média 
 ■ Egídio Romano e o poder eclesiástico
 ■ João Quidort entre o poder papal e o poder real 
 ■ Considerações acerca da Centralização Política
INTRODUÇÃO
Olá, aluno(a)! 
Dando início à nossa discussão sobre a Idade Moderna, abordaremos, nesta 
unidade, algumas das transformações que influenciaram na configuração deste 
período histórico, mas suas raízes não estão ligadas ao recorte temporal que 
o quadripartismo histórico convencionou denominar Idade Moderna. Em outras 
palavras, como faremos uma análise das instituições que fizeram parte do contexto 
da Idade Moderna, os recortes temporais são secundários, pois, assim, podemos 
aprofundar muito mais nossa análise, possibilitando a você, aluno(a) da EaD – 
Unicesumar, uma maior compreensão dos temas relacionados a esse período. 
Com a emergência da burguesia e do capitalismo, o sistema feudal (sistema 
em que, a partir da Baixa Idade Média, cada feudo era uma espécie de monarquia) 
começa a ser gradativamente substituído por outrosistema, em que o papel das 
cidades merece grande destaque. Eram nessas cidades (burgos) que as ativida-
des comerciais ocorriam. Entretanto o feudalismo e o capitalismo tornaram-se 
duas instituições incompatíveis para um mesmo contexto. 
Por outro lado, ao mesmo tempo, assistimos, também, a uma disputa entre 
a Igreja Cristã Ocidental, com a sede de seu poder em Roma e representada pelo 
Papa, e as monarquias emergentes, em que cada uma delas aspirava a se tornar uma 
nação independente. Um dos grandes acontecimentos que fazem parte da Idade 
Moderna é a consolidação dessas monarquias, mas isso não se deu de forma pací-
fica, pois a Igreja, instituição mais bem organizada da Idade Média e que exercia 
grande poder político, não estava interessada em abrir mão de sua total influência e 
esta será uma das maiores batalhas já travadas pelo Clero para manter o seu poder. 
A disputa entre o poder Papal e o poder Real será o tema desta nossa unidade. 
Este assunto se torna indispensável, pois como a Idade Moderna será o momento 
de consolidação dessas monarquias, compreender todo o processo que envolve o 
seu fortalecimento político contribui ainda mais para nos aprofundarmos nessa 
temática, que inclui o questionamento ao poder dessas mesmas monarquias. 
Sendo assim, convido você a observar com bastante atenção todos os porme-
nores que serão debatidos nesta unidade, pois utilizaremos como fontes os dois 
maiores representantes deste imbróglio que foi a tônica das disputas políticas 
15
Introdução
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Catedral de Notre Dame, Paris, França. Um dos maiores símbolos do poder 
da Igreja Cristã Católica na Idade Média.
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AS TRANSFORMAÇÕES POLÍTICAS E SOCIAIS NA BAIXA IDADE MÉDIA
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
I
no Ocidente. Por um lado, Egídio Romano, clérigo defensor do poder papal e, 
do outro lado, João Quidort, clérigo, mas que defendia que o poder papal esti-
vesse restrito apenas às questões religiosas. 
Acredito que você se deliciará com esse debate, pois conhecerá fontes do perí-
odo. As bibliografias que serão utilizadas por nós, muito ricas em informações, 
somente serão utilizadas a título de apoio para que nossa leitura seja mais fluente.
IGREJA E PODER NA BAIXA IDADE MÉDIA 
Prezado(a) aluno(a), conforme destacamos na Introdução desta unidade, fazer 
um estudo do nascimento da sociedade moderna sem antes fazer uma breve 
análise das transformações ocorridas na Baixa Idade Média tornaria nossa dis-
cussão incompleta. Desta forma, analisaremos algumas instituições de grande 
importância para este contexto, buscando compreender como elas influencia-
ram na formação de um novo conceito de política, além de observar as rupturas 
e continuidades que ocorreram nesse período. 
A instituição de maior destaque, para se entender o funcionamento da política 
e da sociedade europeia, no período medieval, é a Igreja Cristã. Para compreen-
der como ela se comportou 
durante essa fase de transfor-
mações da Baixa Idade Média 
(séc. XI a XV), é necessário 
interpretá-la como a insti-
tuição mais organizada do 
período em termos jurídico 
e político. Entendê-la sig-
nifica percorrer a estrutura 
pensante dessa sociedade. 
17
Igreja e Poder na Baixa Idade Média 
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Dentre os principais acontecimentos ocorridos neste contexto, tem-se a 
emergência das monarquias nacionais. Até então, a Europa Ocidental tinha a 
Igreja Cristã como a principal esfera do poder, tanto no âmbito espiritual quanto 
no secular. 
Com uma estrutura fortemente consolidada já na Alta Idade Média (séc. V 
a X), a Igreja era a instituição mais poderosa do Ocidente europeu, vindo a ser 
a grande barreira para a consolidação das monarquias. 
A emergência dos Estados modernos eliminaria boa parte das nor-
mas e valores feudais. Mesmo assim, em nossas modernas institui-
ções políticas sobreviveria ao menos um elemento que remontava 
diretamente a essas origens feudais: a noção de que a relação entre go-
vernantes e cidadãos se baseava no contrato mútuo, o que significava 
terem os governos direitos e deveres, e ser legítima a resistência fosse 
majestoso ou ungido, era também um senhor feudal que tinha rela-
ções contratuais com seus homens e, por extensão, com a nação. Mas 
até que se chegasse no Estado territorial moderno, algumas transfor-
mações políticas fundamentais ainda teriam lugar, a principal delas 
a disputa pelo poder último de fazer cumprir a justiça, isto é, nos 
termos dos medievais, pelo “vicariato de Cristo” na terra (KRITSCH, 
2002, p. 206). 
Dentre as normas e valores feudais mencionados nesta citação, podemos fazer 
referência à característica tripartida de sociedade. Na sociedade tripartida, existia 
uma espécie de separação entre seus componentes, sendo a origem de nasci-
mento o que definia a camada (estamento) a qual cada um pertenceria e isso se 
tornava um fator determinante para se manter a estabilidade social. Nas pala-
vras de Franco Júnior (1985, p. 34-35): 
Como toda construção ideológica, esse esquema tripartido não era 
uma descrição do real, mas uma representação mental, um sonho, um 
projeto de agir sobre o real. Não por acaso, ele é o começo do século 
XI, quando o Feudalismo provocava transformações sociais – apare-
cimento dos cavaleiros, total sujeição do campesinato – que gera-
vam tensões. Daí a necessidade de um reacomodamento dos quadros 
sociais, do estabelecimento de um sistema estrita e definitivamente 
hierarquizado. Portanto, a ideologia das três ordens funcionava para a 
elite, e, sobretudo para a elite clerical elaboradora do modelo, como um 
sonho e também como uma arma para manter seus interesses.
©Wikipedia
AS TRANSFORMAÇÕES POLÍTICAS E SOCIAIS NA BAIXA IDADE MÉDIA
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
I
Como você bem pode perceber, 
prezado(a) aluno(a), essa cons-
trução ideológica (a sociedade 
tripartida) tornou-se uma das 
principais instituições feudais. 
Era assim: cada qual possuía 
seu papel muito bem definido; 
cada estamento era responsável 
por uma determinada função 
e, certamente, os estamentos 
superiores eram tidos com mais 
privilégios frente aos demais. 
Certamente o clero, a instituição mais importante da Idade Média no sen-
tido político, era o grande responsável pela concepção tripartida de sociedade. O 
Bispo Adalberon, da região de Laon, assim se expressou no século XI: “A casa de 
Deus que parece uma é, portanto, tripla: uns rezam, outros combatem e outros 
trabalham. Todos os três formam um conjunto e não se separam” (ADALBERON, 
s/d apud FRANCO JUNIOR, 1985, p. 34). 
O conflito entre Igreja e as monarquias nascentes foi a tônica do período, 
dando origem às teorias que, ganhando corpo no século XIII, visavam fortalecer o 
poder papal, centralizando em suas mãos tanto o poder secular quanto o temporal. 
Com a teoria hierocrática do poder, o Papa tornou-se o ser supremo da cristan-
dade ocidental (KRITSCH, 2002). Todavia o que estava em jogo mesmo eram os 
interesses políticos. De um lado, a Igreja querendo se fortalecer ainda mais e, de 
outro, as monarquias emergentes, lutando por sua soberania. Como bem desta-
cou Kritsch (2002, p. 225): 
É possível assegurar com alguma convicção, portanto, que as questões 
vinculadas à noção de soberania eram simultaneamente políticas e 
jurídicas. Eram políticas porque envolviam a construção deum sistema 
de poder, fosse ele  hierocrático  ou estatal. A imagem do  rex  in  reg-
no suo imperator est – que viria a ser muito em breve reivindicada pelos 
governantes dos Estados territoriais emergentes – evocava, ao mesmo 
tempo, a concentração do comando territorial (relações internas) e a 
pretensão de independência em face de potências externas, fossem elas 
os não cristãos ou os territórios vizinhos. Jurídicas porque todas as 
pretensões eram apresentadas como legais. 
Basílica de São Pedro, Vaticano.
Um dos grandes pensadores medievais ligados à religião foi Tomás de Aqui-
no (1225-1274). Monge e filósofo, foi o responsável por, no século XIII, intro-
duzir o pensamento de Aristóteles na teologia católica, em substituição ao 
platonismo, introduzido por Santo Agostinho. Seus escritos foram a base de 
sustentação da teologia medieval Ocidental. 
Fonte: o autor. 
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Igreja e Poder na Baixa Idade Média 
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Não é difícil entender a razão pela qual a Igreja possuía, entre os seus clérigos, 
o que se havia de melhor em termos de material humano intelectual. A maioria 
das produções filosóficas e intelectuais da sociedade europeia medieval estava 
sob o domínio do clero. Não obstante, muitas de suas formulações foram utili-
zadas pelos reis das monarquias emergentes, como foi o caso de Felipe, o Belo, 
da França. 
Enfim, o que devemos deixar em evidência é a enorme representação que a 
Igreja tinha no período, tornando-se uma das principais barreiras a serem trans-
postas no processo de centralização política em curso na Europa, tanto no plano 
social quanto no econômico ou político. 
Baschet (2006) afirmou que o sentido de religião, como conhecemos hoje, não 
existia na Idade Média. Naquele contexto, com muito mais abrangência, a Igreja 
era a responsável direta pela comunidade.
A fim de que a legitimidade da instituição seja fundada sobre a subs-
tituição do todo por sua parte mais eminente, a palavra deve também 
significar a cristandade em seu conjunto. Assim, se a Igreja – identifica-
da ao clero – ordena e dirige a sociedade, em seu sentido comunitário, 
ela é a própria sociedade (BASCHET, 2006, p. 168). 
A Igreja, como já afirmamos, foi a instituição mais organizada do período. A 
aristocracia feudal e o clero compunham a classe dominante do período em 
questão. O alto clero, grupo ligado aos assuntos políticos, tinha seus cargos mais 
importantes monopolizados pela aristocracia. No fim das contas, o modelo de 
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sociedade tripartida se tornara bipartida, existindo apenas o grupo do clero/
nobreza e o dos servo-camponeses. Não obstante, embora eles se combinassem 
no que diz respeito à dominação, pouco se entendia no quesito poder, como 
explica Baschet (2006, p. 169): 
Clero e aristocracia são, assim, cúmplices na obra de dominação, alia-
dos perante os dominados, mas também são concorrentes, como indica 
uma infinidade de conflitos, notadamente pelo controle das terras e dos 
direitos que estruturam a organização dos senhorios, tanto laicos como 
eclesiásticos. 
Como isso repercute na sociedade medieval? O reflexo principal aparece 
praticamente na perpetuação da desigualdade social, que será a principal 
característica dessa sociedade. No entanto, podemos afirmar que tudo isso 
contribuiu diretamente para o surgimento de uma nova organização política 
que acabaria com as intrigas entre clero e aristocracia, colocando fim a tudo 
o que pudesse impedir o desenvolvimento dessa sociedade. Com o desenro-
lar da história e o surgimento das monarquias nacionais, Igreja e reis entram 
em conflito, o que resulta em uma reorganização dos poderes. Baschet  (2006, 
p. 269) sintetiza bem esse processo: 
É verdade que o crescimento dos poderes monárquicos obriga a Igreja a 
recuos e novos arranjos. As justiças eclesiásticas cedem terreno perante 
os oficiais reais, e se a imunidade fiscal do clero o põe ao abrigo do 
imposto direto, o papa muitas vezes cede aos reis uma parte importante 
dos dízimos que normalmente lhe cabem, enquanto os Reis Católicos 
obtêm do clero o pagamento de subsídios excepcionais para financiar a 
Guerra contra Granada, assimilada a uma cruzada. 
De fato, com a consolidação das monarquias, o que ocorreu foi um rearranjo 
dos deveres políticos da Igreja. O clero ainda continuava exercendo seu poder, 
mas de maneira diferente. Era certo para qualquer monarca que o domínio da 
Igreja seria indispensável, porque ele reconhecia que ela era a instituição domi-
nante no Ocidente (BASCHET, 2006). Uma união entre Igreja e Estado, como 
a que ocorreu nos tempos de Carlos Magno, parecia ser a saída do impasse. 
Segundo Baschet (2006, p. 270): 
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No geral, a relação entre Igreja e os poderes laicos se modifica e se 
fala cada vez com mais frequência de uma Igreja galicana ou de uma 
Igreja Anglicana, expressões desconhecidas antes do fim de século 
XIII. (...) No mais, os quadros da cristandade, especialmente o poder 
material e espiritual da Sé Romana, continuam a pesar muito, enquanto 
sua dimensão ideológica, da qual o espírito de cruzada é uma das 
expressões, orienta ainda a política das monarquias, a começar pela 
dos Reis Católicos. 
Enfim, pode-se afirmar que o clero sempre soube estar ao lado do poder. Enquanto 
predominava a descentralização política característica do feudalismo, este exer-
ceu o poder e influenciou toda a Europa. Com a formação das monarquias e o 
surgimento dos Estados Nacionais, a Igreja manteve seu poder, não como antes, 
mas exercendo diretamente influência sobre reis e príncipes. Entretanto, antes que 
isso, de fato, ocorresse, muitos conflitos e debates foram travados. É o que vere-
mos adiante, na análise de textos escritos no período. De nosso ponto de vista, 
eles sintetizam o conflito político deflagrado entre o poder papal e o poder real.
EGÍDIO ROMANO E O PODER ECLESIÁSTICO 
A fonte que será estudada neste tópico consiste em um relato muito detalhado 
de como estava o clima político na Baixa Idade Média. Egídio Romano (194?-
1316) é, dentre os autores contemplados neste estudo, o defensor de um poder 
eclesiástico centralizador e manipulador, ou seja, um poder que comandasse tudo 
ao seu redor. Vivendo entre os séculos XIII e XIV, ele não defende um Estado 
independente, mas, sim, um Estado totalmente vinculado e submisso ao clero. 
Seu pensamento expressivamente clerical reforça a ideia de que o embate tra-
vado entre canonistas e defensores da autonomia dos reinados emergentes em 
relação ao eclesiástico era mesmo a tônica da época. 
Segundo Raquel Kritsch (2002), embora tenha defendido a centralização 
do poder na Igreja, Egídio Romano pode ser considerado como um dos autores 
que serviram de base para a elaboração de um sistema monárquico absolutista, 
mesmo sem ter essa intenção. 
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A teoria egidiana, minuciosamente exposta em seu livro Sobre o poder 
eclesiástico, segundo a qual a Igreja subsumiria em sua plenitudo po-
testatis  todos os poderes inferiores, seria apropriada e amplamente 
adaptada aos interesses de uma formação política emergente, as 
monarquias absolutas europeias e seus defensores (KRISTCH, 2002,p. 
392-392). 
Com uma posição diretamente ligada à sua formação, Egídio Romano foi a prin-
cipal voz em defesa de uma Igreja poderosa, não submissa ao poder dos reis. 
Ele ingressou na ordem agostiniana por volta de 1260, sendo aluno do mestre 
Tomás de Aquino. Foi exímio estudioso e sua incursão no campo político o fez 
tornar-se preceptor de Felipe, o Belo. Durante esse período, escreveu De regi-
mine Principum, uma de suas principais obras e a mais lida na Idade Média 
(BONI, 1989). 
Ele acompanhou os conflitos travados entre o papa Bonifácio VIII e o seu 
ex-aluno, Felipe IV, o Belo, e, mesmo que nesse conflito esteja envolvida uma 
pessoa pela qual nutre bastante apreço, Egídio não hesitou em se posicionar ao 
lado do Papa. É nesse momento que escreveu De eclesiástica potestade. 
Escritor fecundo e talentoso, não possui o gênio de Tomás, seu mes-
tre, nem de Duns Scotus, seu contemporâneo. Escreveu sobre os mais 
diversos temas. (...) Se defendeu Tomás de Aquino contra os que pre-
tendiam condená-lo, não foi, contudo um simples repetidor. Seguindo 
seus próprios caminhos, desviou-se frequentemente do mestre e em 
sua síntese filosófico-teológica aproximou-se das correntes conserva-
doras do final do século XIII (BONI, 1989, p. 12). 
Como você pôde perceber claramente, Egídio Romano defende, com muita con-
vicção, a submissão do poder temporal ao poder eclesiástico. De seu ponto de 
vista, para Deus não ignorar o homem, este não deve ignorar o Sumo Pontífice, 
o qual, como o vigário de Cristo, tem o poder de legislar sobre todas as coisas, 
tanto no campo espiritual quanto no temporal. 
Ora, compete ao sumo pontífice e à sua plenitude de poder dispor o 
símbolo da fé e estabelecer as coisas que se relacionam com os bons 
costumes, porquanto, se surgir uma questão, quer de fé, quer de cos-
tumes, compete a ele dar uma sentença definitiva e estabelecer, como 
também dispor firmemente, o que os cristãos devem crer e que aspecto 
os fiéis devem evitar daquelas coisas de onde se originam os litígios 
(ROMANO, 1989, p. 37). 
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Entretanto, para compreender a essência das palavras de Romano, devemos situá-
-lo no contexto político da Europa na transição do século XIII ao XIV. Nesse 
momento, segundo Strefling (2007), ocorre a dura disputa entre Felipe IV, o Belo, 
e o papa Bonifácio VIII, a qual fará estremecer a cristandade, marcando a pas-
sagem para uma nova época.  
Na época, França e Inglaterra estavam em guerra pela disputa de um 
território. Ambas ficaram prejudicadas, assim como também o clero, 
que se sentiu afetado com as cobranças de impostos e por isso ape-
lou ao Papa contra tais abusos. Bonifácio VIII levou o assunto a sé-
rio, colocando todo o peso do seu pontificado nessa questão. Em 1296, 
com a Bula Clericis  laicos proibia a ambos os reis a taxação dos bens 
eclesiásticos, pois esta estava reservada ao Papa. A Inglaterra cedeu sem 
dificuldades. A França, porém, inicia uma luta dura contra o Papado. 
O Pontífice queria dar continuidade à política  hierocrática  de seus 
antecessores, no que diz respeito ao governo da  Ecclesia/Christiani-
tas (STREFLING, 2007, p. 527). 
A defesa veemente da interferência do Sumo Pontífice nos assuntos temporais 
fica clara ao longo do livro de Romano, principalmente nas últimas partes em 
que ele escreve longos discursos em defesa do poder eclesiástico centralizador. 
Seu raciocínio é o seguinte: assim como há um só Deus no campo espiritual e 
como a Igreja possui sobre as coisas temporais um domínio universal, há a neces-
sidade de apenas um indivíduo para comandar os homens no plano temporal: 
sem dúvida, o Papa. 
Assim como no governo de todo o mundo há uma fonte, um só Deus, 
no qual há todo o poder, do qual derivam e ao qual se reduzem todos os 
poderes, assim também no governo dos homens, e em toda a Igreja mi-
litante é preciso que haja uma só fonte, uma cabeça, na qual esteja a ple-
nitude do poder, na qual esteja todo o poder sobre o Corpo Místico, que 
é a Igreja, com quem ambos os gládios, porque do contrário não haveria 
nela todo o poder. Desta fonte derivam todos os outros poderes e a ela 
eles retornam; esta fonte, enquanto rega e inebria toda a Igreja, segundo 
a lei comum, comporta-se uniformemente em relação a todas as coisas, 
porque de um modo organizado, como requer o governo da Igreja, se 
mostra inteira a cada um, mas ninguém a abrange inteira, porque em 
ninguém há tanto poder como nela (ROMANO, 1989, p. 187). 
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Segundo Kristch (2002), Egídio Romano advoga uma rígida hierarquia da ordem 
universal, sendo Deus superior a todos os outros seres. Seu representante máximo 
na Terra seria, portanto, o Sumo Pontífice: 
Ao Uno correspondia o supremo grau de espiritualidade. Dele emana-
vam as realidades superiores. As outras realidades delas provinham e 
a elas deviam materialidade à espiritualidade. Assim, cada hierarquia 
continha previamente em si, num grau superior, as inferiores que, ao se 
lhe reduzirem, eram por elas reconduzidas a outra hierarquia superior 
na ordem da unidade e da espiritualidade e, por meio deste processo 
de conversão, as hierarquias intermediárias se reduziriam à hierarquia 
suprema, que era Deus (KRISTCH, 2002, p. 401). 
Percebe-se, ao ler Egídio Romano, sua irredutibilidade diante das novas situa-
ções que permeiam o contexto histórico. A tentativa recorrente de defender o 
poder eclesiástico o faz parecer mais um escritor dos séculos XI e XII do que 
o do seu século. A defesa de um absolutismo eclesiástico, no contexto do gra-
dual enfraquecimento do poder temporal da Igreja, o faz buscar justificativas 
em textos dos séculos anteriores. A bula Unan sactam foi publicada pelo Papa, 
em 1302, no entanto, boa parte dos argumentos apresentados parecem cópias 
literais de excertos eclesiásticos escritos anteriormente (BONI, 1989). Isto mos-
tra como o pensamento de Egídio Romano foi comungado pela Igreja Católica. 
A subordinação exigida pela Bula  Unam  Sanctam  tem sido muito 
discutida. Significa que até mesmo no plano temporal todos os homens 
(inclusive os reis) devem submeter-se ao Papa? Ou só se pode afirmar 
isto no plano espiritual, isto é, no plano dos valores éticos (que decorrem 
da Lei de Deus)? A segunda interpretação é a única correta; a sujeição se 
dá tão somente ratione peccati, isto é, quando o pecado entra em jogo; o 
fundamento para se preferir a segunda interpretação é o início da pró-
pria Bula Unam Sanctam, que afirma ser a Igreja necessária para a sal-
vação eterna; além disso, é no sentido espiritual que S. Tomás de Aqui-
no entende tal subordinação, no opúsculo Contra errores graecorum c. 
32, fonte do texto de Bonifácio VIII. Prevalece, assim, a tese do poder 
indireto do Papa sobre os monarcas: a atividade política destes não deve 
ser controlada pela Igreja, na medida em que é especificamente política; 
como, porém, toda atividade humana, além das suas notas específicas, 
tem características éticas (é virtuosa ou pecaminosa), a moral cristã, 
cujo porta-voz é o Papa, deve pronunciar-se sobre ela (na medida em 
que toca a moral) (STREFLING, 2007, p. 533). 
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Com base nisso, é possível afirmar que Romano praticamente mundanizou a 
função da Igreja. Ao legitimar o poder eclesiásticonos assuntos mundanos, 
ele desce a Igreja de seu elevado patamar espiritual, envolvendo-a desne-
cessariamente nas intrigas políticas, as quais se manifestam nos conflitos de 
Bonifácio VIII. 
Para melhor contextualizar, é preciso sempre ter em mente que havia uma 
disputa velada pelo poder. De um lado, havia os reis e suas emergentes monar-
quias lutando pela sua soberania. De outro lado, havia a tradicional Igreja Católica 
Romana, a instituição mais importante da medievalidade e que exercia seu poder, 
não apenas no âmbito religioso, mas, sobretudo, no campo da política. A Bula 
Unam Sanctam, publicada por Bonifácio VIII, foi o instrumento que a Igreja 
elaborou para atestar, mais uma vez, a superioridade desta instituição sobre as 
demais. Na citação acima, o autor mostra o impacto que esse documento cau-
sou do ponto de vista político. 
Considerando que na época em questão, em que assistimos ao fortaleci-
mento gradativo das monarquias seculares, o pensamento de Romano representa 
um retrocesso e, do ponto de vista crítico das novas situações políticas, suas 
ideias podem soar mesmo como retrocesso. No entanto, da ótica do que ele 
tenta legitimar, ou seja, da manutenção do poder da Igreja sobre os assuntos 
temporais, ele se viu nessa obrigação por ser clérigo e defensor da doutrina 
católica. Ao tomar esse partido, ele revela que o poder clerical está sendo ame-
açado frequentemente. 
Como falar em centralização política no rei se o maior empecilho para esse 
processo vem da instituição que, durante séculos, exerceu seu poder nos diversos 
âmbitos: temporal e espiritual? A divisão do poder entre diversos reis represen-
taria a ruína do império universal religioso. 
Assim, é no contexto em que a Igreja se vê na contingência de lutar pela 
manutenção de seu poder espiritual e pela atuação do Papa nos assuntos munda-
nos que compreendemos o posicionamento de Egídio Romano. Suas afirmações 
podem soar repetitivas, mas é dessa forma que ele se comporta, pois se vale de 
argumentos diversos para chegar sempre à mesma conclusão: a submissão do 
poder dos reis ao do Sumo Pontífice. 
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O gládio material tem seu poder vindo do sumo pontífice, pois todo 
poder que há na Igreja militante é derivado dele; ninguém pode ter al-
gum poder justamente, nem ser dono de alguma coisa com justiça, (...), 
a não ser através da Igreja, ou porque é regenerado por ela e absolvido 
sacramentalmente. Portanto, os príncipes seculares têm o poder vindo 
de Deus. Há aqui uma certa  semelhança entre o poder que o gládio 
material tem, vindo da Igreja, e o poder que as coisas naturais têm, 
vindo de Deus; e se não é semelhança de todos os modos, é o quanto 
basta para a questão (ROMANO, 1989, p. 192). 
Como veremos adiante, a forma com que ele se refere ao direito natural difere 
totalmente da tônica aristotélica defendida por Tomás de Aquino e que foi o 
argumento mais aceito entre os escritores da época. O mestre Tomás de Aquino 
(1997) faz uma diferenciação: as leis dos homens são para os homens e as leis 
de Deus são para as coisas espirituais. Egídio Romano não concorda com esta 
concepção, conforme destaca Kristch (2002, p. 429-430): 
Por ser senhora de direito de tudo quanto havia no mundo, residia 
na Ecclesia – que tinha no sumo pontífice o seu representante máximo 
– a plenitudo potestatis, dizia Egídio no livro III. Por isso, pertencia a 
ela criar leis, publicá-las aos povos, explicá-las e interpretá-las. Aque-
les que diziam ter o imperador o mesmo poder porque “o que apraz 
ao príncipe tem força de lei”, como estava dito nos Instituta, exortava 
Egídio, tinham de compreender que havia um gládio sob o outro, um 
principado sob o outro. Do mesmo modo, era preciso que as leis se su-
jeitassem às leis. Pois o poder da Igreja, e, portanto o do sumo sacerdo-
te, que a representava, era sem peso, número e medida. Mesmo assim, 
o pontífice devia se impor limites e procurar viver de acordo com as 
leis estabelecidas, já que convinha àquele que criava as leis observá-las. 
Enfim, prezado(a) aluno(a), para Egídio Romano sempre haverá um poder acima 
do outro, mas nenhum poder caminhará sem as determinações da Igreja, sem 
obedecer às deliberações do Sumo Pontífice. Assim, podemos concluir que ele se 
posiciona contrariamente à existência de um Estado independente das normas 
impostas pelo poder eclesiástico. O mesmo não se pode afirmar de seu contem-
porâneo, João Quidort, como veremos a seguir. 
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JOÃO QUIDORT ENTRE O PODER PAPAL E O PODER 
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Estimado(a) aluno(a), as discussões acerca dos limites entre o poder eclesiástico 
e o poder terreno é um tema bastante intrigante. João Quidort (127?-1306), tam-
bém conhecido na literatura como João de Paris, escreveu uma importante obra 
política e, ao mesmo tempo, teológica, com a finalidade de discutir os limites 
entre o poder papal e o poder real, tão em voga no contexto que estamos estu-
dando (BONI, 1989). 
Monge Dominicano e professor em Paris, sua principal obra foi escrita no iní-
cio do século XIV, com base na metodologia de análise proposta pela escolástica, 
numa clara demonstração de que ele foi muito influenciado pelo mestre Tomás de 
Aquino. No livro, O Poder Papal e o Poder Real, faz uma dura crítica aos defenso-
res do poder direto do Papa em questões civis. Entretanto, segundo Luis Alberto 
de Boni (1989), Quidort não trata o Sumo Pontífice de maneira desrespeitosa 
como fizeram outros defensores do poder real. Com uma análise mais centrada 
na questão de jurisprudência, tendo como princípio a Bíblia e as obras de Tomás 
de Aquino, o autor procura definir até onde vai o poder papal, como se organiza 
o poder real e quais são suas atribuições. 
O contexto histórico vivido por Quidort tem como pano de fundo a luta 
entre reis e clero a respeito da jurisprudência quanto à extensão do poder de 
um e ao início do poder do outro. No caso dos reis, eles estão em busca da legi-
timação de um poder independente do poder eclesiástico; o Papa, por sua vez, 
busca, de todas as formas, continuar interferindo nos assuntos temporais. O 
papa Bonifácio VIII, foi o responsável pela reafirmação do poder eclesiástico 
e, como destaca Strefling (2007), foi questionado por setores da própria Igreja: 
Vendo periclitar o poder papal, Bonifácio VIII, formado na linha ca-
nonista, interpõe-se energicamente e age com inteligência e idealismo. 
Governou a Igreja com a mentalidade do século XII, não reconhecendo 
que, no século XIV, os tempos haviam mudado. A influência dos Es-
pirituais criou uma concepção nova de Igreja, na qual a plenitude po-
testatis do Papa é questionada dentro da própria Igreja (STREFLING, 
2007, p. 526). 
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Um dos teólogos a questionar essa atuação do Papa nos assuntos temporais foi 
João Quidort. Rachel Kristch afirma que seu tratado sobre o poder régio e papal, 
além de ser uma resposta imediata a Egídio Romano, correspondeu a uma apre-
sentação dos princípios da monarquia constitucional: 
A resposta imediata ao tratado de Egídio Romano foi escrita por 
João  Quidort  ou João de Paris. Retomando a noção do rei como 
“um imperador dentro de seu reino”, João Quidort escrevia ao mesmo 
tempo contra os defensores do sacerdotium e contra os do imperium. 
Do confronto entre esses dois  universalismos, nascia, depois de um 
longo processo de gestação,o poder político secular propriamente dito, 
tal como manifesto nas monarquias cada vez mais nacionais. João Qui-
dort, entretanto, embora partidário do rei, não era um defensor in-
condicional da causa real: às pretensões absolutistas de Felipe IV o 
autor opunha o populus, o novo intermediário tanto do poder tempo-
ral quanto do eclesiástico, como já havia ensinado Tomás de Aquino 
(KRISTCH, 2002, p. 436). 
Além de demonstrar uma clara preferência pela existência de regras a serem cum-
pridas por todos, o populus, ele compartilha da opinião de Tomás de Aquino a 
respeito do direito natural, buscado na filosofia clássica de Aristóteles. Esse ponto 
de vista o ajuda a entender e dar significado, tanto ao poder real quanto ao poder 
papal. Para Quidort, a definição de reino é: “o governo de uma multidão per-
feita, ordenado ao bem comum e exercido por um só indivíduo” (QUIDORT, 
1989, p. 44). Assim como Aquino, Quidort justifica a necessidade do homem 
viver em sociedade: 
Segundo consta no dicionário, a origem da expressão Poder Régio vem do 
adjetivo Real; que pertence ao rei; que vem do rei ou nele tem sua origem: 
ato régio; poder régio. No sentido figurado vem de Suntuoso; que expres-
sa suntuosidade, pompa, luxo, esplendor: cargo régio. (Etm. do latim:  re-
gius.a.um; regium.ii) 
Fonte: RÉGIO. In: Dicionário Online de Português. Disponível em: <http://
www.dicio.com.br/regio/>. Acesso em: 15 mar. 2015. 
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Esta unidade de governo é, pois, necessária, visto que o próprio não é 
igual ao comum: segundo o que é próprio, diferenciam-se os homens 
entre si, segundo o comum, unem-se. As coisas, porém, que são dife-
rentes, possuem também causas diferentes, pelo que é necessário que, 
além das forças que movem para o bem próprio de cada um, haja tam-
bém algo que mova ao bem comum de muitos (QUIDORT, 1989, p. 45). 
As influências de Tomás de Aquino não param por aí. Assim como o mestre, 
João Quidort acredita que o fim de todo o governante é a busca pelo bem comum. 
E, vivendo o homem em sociedade, tal finalidade pode ser facilmente alcançada, 
como ficou patente na afirmação acima. 
Para defender a tese de que deveria haver uma limitação entre os poderes 
temporal e sacerdotal, Quidort traça um longo caminho. Primeiramente, ele 
busca dar sentido à origem do sacerdócio que, segundo seu entendimento, “é o 
poder espiritual conferido por Cristo aos ministros das Igrejas para dispensa-
rem os sacramentos aos fiéis” (QUIDORT, 1989, p. 48). Dentre as atribuições 
sacerdotais, existem também as hierarquias; estas devem ser respeitadas pelos 
sacerdotes, mas entre os reis, sua mensuração é diferente. 
Ele assevera que, na Igreja, existe a autoridade do Papa porque, nas coisas 
divinas, uma pessoa precisa estar à frente de tudo. Ao nomear o Papa, por este ser 
descendente de Pedro, Cristo teria dado origem à autoridade papal. No entanto, 
na vida temporal, esta hierarquia nem sempre é possível. Não há como o Papa 
determinar o que deve ser feito em todos os lugares do mundo.  
Já os fiéis leigos não têm uma determinação de direito divino que, nas 
coisas temporais, os coloque sob um só monarca supremo. Pelo contrá-
rio, por um instinto natural, que provém de Deus, são levados a viver 
na comunidade civil e, para bem viver em comum, elegem chefes, que 
variam em quantidade segundo o número das comunidades. A colo-
cação de todos sob um único monarca supremo, nas coisas temporais, 
não se fundamenta nem na inclinação natural, nem no direito divino, 
e nem lhes convém da mesma forma como aos ministros eclesiásticos 
(QUIDORT, 1989, p. 49). 
Dentre as razões que João Quidort listou para defender seu ponto de vista 
quanto às especificidades dos poderes real e papal, podemos destacar as 
diferenças geográficas, os costumes, as diferenças raciais. Para ele, as almas 
são iguais, mas os corpos são diferentes. Como agir por meio do espírito é 
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mais fácil do que pela força, torna-se necessário haver governos com juris-
dição sobre os diferentes territórios. Assim, o poder da Igreja restringe-se 
ao campo espiritual e o do rei ao campo temporal, cabendo a cada monarca 
cultivar o que é de mais virtuoso em cada reino, pois “o que é virtuoso num 
povo não é em outro” (QUIDORT, 1989, p. 50) e uni-lo na fé é mais fácil 
que politicamente. 
Percebe-se que, a todo o momento, João Quidort faz questão de separar o 
que é dever da Igreja e o que é poder dos reis. Então, seria correto afirmar que a 
posição do autor é por uma Igreja que não interfira nos assuntos temporais ou 
por um Estado centralizado, que seja independente da interferência da Igreja? 
Pelo fato de Quidort ter sido monge, parece-nos que sua intenção era limitar 
a ação da Igreja, evitando maiores conflitos. Seria mais vantajoso para a socie-
dade se a Igreja não se intrometesse nos assuntos de ordem temporal. Como foi 
afirmado anteriormente, Quidort encontra, na Bíblia, os argumentos para sua 
discussão sobre quem tem a prioridade para governar nos assuntos temporais. 
Ao contrário de Egídio Romano, ele não considera que é o Papa quem concede 
poder aos reis, mas, sim, que são os governantes seculares que, com sua bondade 
e porque não dizer conveniência, permitem que o Papa atue em suas jurispru-
dências (KRITSCH, 2002). 
Sua argumentação baseia-se no seguinte raciocínio: sendo o reino anterior 
ao sacerdócio, o que significa que a Igreja se formou posteriormente ao surgi-
mento deles, o reino não deve obediência a ela nos assuntos de ordem temporal. 
Ele não deixa de ressaltar a superioridade do poder eclesiástico em relação ao 
poder dos príncipes, já que as questões espirituais são superiores às de ordem 
mundana, mas destaca que isso se restringe apenas ao campo da dignidade. 
“Os reis costumam temer as coisas duvidosas como se fossem certas”. 
(SÊNECA)
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Contudo, se o sacerdote tem maior dignidade que o príncipe, nem por 
isso precisa ser superior ao príncipe em todas as coisas. O poder secu-
lar, que é menor, não se comporta ante o poder espiritual como ante do 
qual provenha ou derive, como o faz o poder do procônsul ante o poder 
imperial, que em tudo lhe é maior, pois o poder daquele deriva deste 
(QUIDORT, 1989, p. 54). 
Quidort, prezado(a) aluno(a), vai além e vê limites no poder do pró-
prio Papa, tanto no que tange aos bens eclesiásticos quanto aos bens dos leigos. 
Para o autor, “o papa não é senhor único, mas administrador geral; o bispo e o 
abade são administradores especiais e imediatos; a comunidade, porém, é que 
tem o verdadeiro direito de posse sobre os bens” (QUIDORT, 1989, p. 58). No 
entanto, com o consentimento do cidadão, o Papa pode se apropriar de seus 
bens, segundo as necessidades da Igreja, na forma de dízimo ou de colabora-
ções para o clero. 
Em suas afirmações, Quidort utiliza inúmeros argumentos, todos com base 
na Bíblia Sagrada. Para corroborar sua tese a respeito dos limites de poder do 
Papa sobre os bens dos leigos, ele utiliza passagens que se referem a Jesus. Ele 
parte do princípio de que Jesus não teve nenhum poder sobre os bens dos lei-
gos e, mesmo que tivesse tido, este poder não fora transmitido a Pedro. Cristo 
dava o maior valor às virtudes dos homens, já que seu reino, sendo eterno,não 
era desse mundo. 
Em relação ao poder do papado nas questões temporais, vale destacar a ale-
goria do sol e da lua contida na epístola do Papa Inocêncio III, escrita em 1198: 
Do mesmo modo que Deus, criador do universo, colocou no firma-
mento dois grandes astros, o maior para iluminar o dia e o menor a 
noite, assim também, no espaço universal da Igreja, Ele estabeleceu 
duas autoridades supremas, a autoridade dos papas e a autoridade real, 
para que estejam à frente das almas a maior, e dos corpos a menor, 
comparadas respectivamente ao dia e à noite. Portanto, da mesma for-
ma que a Lua é menor em volume, inferior nos seus efeitos e recebe 
a luz do Sol, que brilha muito mais que ela, a autoridade real tira seu 
brilho e prestígio da autoridade pontifícia1. 
1 EPÍSTOLA Sicuti universitatis conditor (1198) apud S. Baluzius: Epistolarum Inocentii III, I, 235. In: 
ARTOLA, Miguel. Textos fundamentales para la Historia. Madrid: Alianza Editorial, 1992, p. 126.
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A teoria contida nessa alegoria retirada do livro de Gênesis (Gn 1:16) é refutada 
com maestria por Quidort. 
Segundo Dionísio, a interpretação mística só vale como argumento 
quando sua afirmação deixa-se comprovar por outro texto da escritura, 
pois a teologia mística não é argumentativa (...) Mesmo, porém, que 
fosse aceita a interpretação oposta, esta também estaria em favor de 
nossa tese, pois embora a lua não ilumine a noite a não ser pela luz que 
recebe do sol, contudo possui uma força própria que lhe foi dada por 
Deus, e não pelo sol. Por tal força, ou virtude, a lua esfria e umedece, 
enquanto o sol faz o contrário. Isto pode ser aplicado deste modo es-
pecial a nosso caso: o príncipe recebe da Igreja a iluminação e a infor-
mação sobre a fé, contudo possui um poder distinto que lhe é próprio, 
e que não recebe do papa, mas imediatamente de Deus (QUIDORT, 
1989, p. 96, grifo nosso). 
Assim, Quidort refuta um dos principais argumentos utilizados pela Igreja 
Católica para legitimar o poder papal sobre o real. Na parte em destaque, pode-
mos perceber a forma com que o autor trata da independência do príncipe nos 
assuntos temporais e dos demais assuntos de ordem religiosa.  
Sabemos que o poder da Igreja era imenso e que o clero possuía o direito de 
legislar, executar e, inclusive, o poder de julgar e acusar pessoas. Assim, é impor-
tante situar o posicionamento do autor, considerando que ele o assume naquele 
momento da Baixa Idade Média, quando os conflitos entre os poderes de reis e 
papas estão começando a tomar contornos mais sérios. Nesse cenário político em 
que as monarquias nacionais vão surgindo e se fortalecendo com base em conceitos 
nacionalistas, as novas concepções de Estado que começam a surgir naquele con-
texto contrapõem-se à universalidade do Papa, vista até então como algo normal. 
A universalidade do Papa, de acordo com os dados da Bíblia, da práti-
ca do cristianismo primitivo e de Gregório Magno, era essencialmente 
religiosa. Mas, no século XIII, o aspecto político-secular firma-se for-
temente na plenitude de poder do Papa. Prevalece o objetivismo sobre 
o subjetivismo, ou seja, aquilo que do Papa promana é norma segura e 
obrigatória para todo cristão. A partir de Gregório VII, a evolução do 
papado concentra-se na ideia do poder que se sobrepõe sobre todos 
os outros campos. Trata-se, conforme os canonistas do século XIII, do 
poder absoluto do Papa na esfera temporal. Compreendia a supremacia 
papal sobre as potências políticas do Ocidente e o poder de depor dos 
cargos e benefícios em toda a Igreja (STREFLING, 2007, p. 525). 
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É nesse contexto que, ao longo de sua obra, Quidort se posiciona, refutando os 
argumentos de superioridade do Papa sobre o príncipe. O fato de Cristo não ter 
tido qualquer tipo de poder sobre os bens dos leigos é o bastante para o autor 
defender que o Papa não possui direito algum. Cristo, segundo ele, dava mais 
atenção às virtudes espirituais que às virtudes mundanas de ordem material, pois, 
na vida eterna, não é necessário possuir qualquer vínculo material. 
Que conclusão se pode tirar das considerações de João Quidort sobre o poder 
régio e papal? Conclui-se que o pensamento de João Quidort, entre os canonis-
tas, foi o precursor no estabelecimento de limites restritivos para a atuação da 
Igreja nos assuntos temporais. Nas entrelinhas, podemos depreender o modelo 
de Estado pensado por João Quidort: em nenhum momento ele entende como 
atribuição da Igreja sua intromissão nos assuntos de ordem política e, na Europa, 
entre os séculos XIII e XIV, isso faz muita diferença. 
O Papa Bonifácio VIII exerceu seu pontificado entre os anos de 1294 a 
1303. Certamente, o fato de este exercer uma política dominadora no pró-
prio momento em que o nacionalismo, tendo na França seu maior exemplo, 
progredia em diversas partes do mundo, influenciou a constituição da obra 
de Quidort, que foi escrita por volta de 1303. Bonifácio VIII, além de se envol-
ver em conflitos com a França de Felipe IV, envolveu-se em conflitos na Região 
da Itália com a poderosa família Colonna (STREFLING, 2007). Esse conflito 
também exerceu influência na obra do renascentista Dante Alighieri, dando 
origem ao livro Da Monarquia, no qual o autor se contrapôs à dominação 
exercida pelo Sumo Pontífice. A publicação da Bula Unan Sanctum foi a ofi-
cialização da prática defensiva de manutenção do poder da Igreja, como fica 
claro na seguinte citação: 
Em 1302, Bonifácio VIII lançava a Unam Sanctam, explicitando toda 
a sua autoridade dada por Deus. Aos reis caberia apenas um poder de 
execução. Na conclusão, declarava que a submissão ao Sumo Pontífice 
é necessária para a salvação de toda criatura. Esta Bula não era dirigi-
da diretamente contra Filipe IV, mas tinha a intenção de esclarecer, de 
uma vez por todas, a posição do papado diante do mundo. O Papa tem 
autoridade sobre toda a Igreja, fora da qual não há salvação. Tem-se aí a 
linha das teorias papais da Idade Média, onde o temporal está submisso 
ao espiritual (STREFLING, 2007, p. 532). 
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O contexto vivido por João Quidort favorece que se tenha uma compreensão 
mais satisfatória de sua concepção de Igreja. Embora, por ser um canonista, um 
membro do clero, ele não precisasse se manifestar a respeito de assuntos tem-
porais, é possível retirar dessa concepção de Igreja aspectos de sua posição a 
respeito da atribuição do príncipe. Assim, pode-se assegurar que, em sua concep-
ção, cabe apenas ao rei definir o que será de seu reinado, legitimando a máxima 
“dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. 
CONSIDERAÇÕES ACERCA DA CENTRALIZAÇÃO 
POLÍTICA 
Depois de toda esta discussão, você deve estar se perguntando: a quem interes-
sava a centralização política? De fato, havia muitos interesses em jogo. Poder 
político, econômico e religioso certamente eram os principais pontos da dis-
cussão. Sendo assim, precisamos entender que, do ponto de vista da economia, 
uma grande e importante classe social emergia, a burguesia. Essa classe social 
que crescia era de origem exclusivamente urbana. A própria palavra “burguês” 
tem sua origem nos burgos, que eram vilarejos cercados por muros, ou seja, as 
cidades medievais. 
A burguesia, para escapar do jugo dos senhores feudais, decidiu se aliar a uma 
força diferente daquela. Apoiarum poder centralizado tornava-se uma chance 
de ver seus negócios prosperar. Nas palavras de Braick (2011, p. 155): 
A centralização do poder real significava o uso de uma mesma moeda 
e de um padrão de pesos e medidas único, o que facilitaria bastante 
as atividades comerciais. Ao mesmo tempo, a cobrança de impostos 
passaria a ser feita apenas pelo Estado, e não mais por cada feudo, tor-
nando mais barato o comércio entre diferentes regiões. 
O que foi exposto acima, prezado(a) aluno(a), é aquilo que Norbert Elias (1993) 
chamou de processo monopolizador. Para o Estado se fortalecer, seria necessá-
rio ter sob o seu controle algumas funções essenciais, como a justiça (acabando 
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Considerações acerca da Centralização Política 
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com os tribunais locais e religiosos), a monopolização da tributação (acabando 
com o poder dos nobres em cobrar e estabelecer impostos) e a monopolização 
das armas (acabando com as milícias locais). 
A monopolização dos elementos vinculados à tributação dava poderes ao rei 
de estipular sua própria moeda. Além disso, com o monopólio da cobrança de 
impostos, o rei poderia ter junto de si funcionários capacitados para desempenhar 
funções importantes, como a construção de pontes e estradas que facilitariam a 
entrada e saída de mercadorias, dinamizando o comércio e aumentando muito 
mais o seu poder de arrecadação, já que as vendas só melhorariam em razão de 
toda infraestrutura que poderia ser organizada. O estabelecimento de pesos e 
medidas uniformes seria um elemento fundamental na organização do comér-
cio e enfraqueceria ainda mais o poder dos barões feudais. 
Precisamos nos lembrar, prezado(a) aluno(a), de que os monarcas também 
seriam os grandes interessados e beneficiados por tudo isso. 
Aos reis, interessava manter uma nobreza dependente, que ajudas-
se a consolidar o poder real, e o apoio da burguesia, pois esta tinha o 
dinheiro necessário para a manutenção e despesas do Estado. A bur-
guesia também fornecia pessoal capacitado para a administração, pois 
muitos cargos importantes para a economia dos países eram oferecidos 
aos burgueses, que já estavam habituados a administrar os seus negó-
cios (BRAICK, 2011, p. 155). 
Percebe-se que a aliança entre o rei e a burguesia foi indispensável para a conso-
lidação dos Estados Nacionais. Enquanto um garantia os fins necessários a uma 
determinada atividade, outro garantia os meios necessários. Os burgueses entra-
vam com o dinheiro, arrecadado por meio dos impostos, e os reis entravam com 
o poder administrativo. A única instituição que tinha a perder com a centrali-
zação política nas mãos dos reis era a Igreja Católica. O surgimento de Estados 
Nacionais, como o poder unificado nas mãos de um monarca, faria da Igreja uma 
instituição subordinada a um poder maior dentro de uma determinada região. 
A questão da Soberania, muito discutida por Kritsch (2002), consistia em não 
admitir que o Estado poderia ter em seu próprio território um poder igual ou 
maior do que o seu. Nesse caso, é preciso entender que o rei não iria admitir 
que a Igreja pudesse desempenhar todas as suas funções. Sendo assim, fica ainda 
mais clara a discussão feita aqui nesta unidade com relação aos limites do poder. 
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Em suma, a nova sociedade que emergia na Baixa Idade Média europeia teve, 
como um dos seus principais feitos, a centralização de um poder nas mãos de 
um monarca. Isso se viu em toda Europa Ocidental. Inglaterra, França, Portugal, 
Espanha são exemplos de países que conseguiram se unificar sob a batuta de um 
rei no período em questão. Holanda, por exemplo, obteve sua unificação e inde-
pendência no século XVI e a Itália, assim como a Alemanha, somente conseguiu 
se unificar depois de muitas lutas, se consolidou somente em fins do século XIX. 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Prezado(a) aluno(a), espero que, ao final desta unidade, você tenha conseguido 
perceber os principais fatores políticos que envolvem a disputa entre o poder 
real e o poder papal. Sabemos, como já fora citado ao longo desta unidade, que 
a Igreja Cristã Ocidental era a instituição que possuía o maior poder. Este poder 
não se resumia apenas ao religioso, mas a todas as esferas. Não se fazia nada sem 
a permissão do papa. Assistir ao surgimento de pessoas que tinham como obje-
tivo limitar o poder da Igreja não poderia ocorrer sem qualquer resistência por 
parte desta. Por isso, assistimos a um verdadeiro combate de ideias, travado no 
calor da hora.
É importante que você tenha percebido que havia pensadores que busca-
vam de todas as maneiras defender o seu posicionamento frente a essas questões. 
Egídio Romano e João Quidort foram as fontes utilizadas por nós neste texto, 
mas há outras leituras que, caso você queira se aprofundar em tal temática, tor-
nam-se obrigatórias, como é o caso de Marsílio de Pádua, autor precursor de 
Nicolau Maquiavel. Nesta unidade, ficou bem claro o posicionamento extre-
mamente medieval de Egídio Romano, enquanto, de outro lado, João Quidort 
demonstra um pensamento mais autônomo frente às atribuições do Clero.
A profunda mudança social, política e econômica que marcou a transição 
entre os valores medieval e moderno não se restringiu a disputas entre Igreja e 
monarquias emergentes. Havia, também, uma disputa entre o velho e o novo, 
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Considerações Finais 
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representado por dois modelos distintos de sociedade: aquela que ainda insistia 
em existir, baseada nos privilégios feudais; e a outra que gradativamente ganhava 
força, representada pelo poder mercantil da burguesia. E será este conflito que 
poderá ser melhor observado em nossa próxima unidade, ao analisar a impor-
tância de um dos maiores pensadores políticos, Nicolau Maquiavel.
O GRANDE CISMA DO OCIDENTE (1378-1417) 
Entre 1305 e 1376, a sede do papado 
esteve na cidade de Avignon, na França. 
Clemente V e toda a cúria2 romana se 
transferiram para o condado de Provença, 
pertencente à casa dos Anjou, no dramá-
tico episódio que ficou conhecido como o 
“Cativeiro da Babilônia”. Em 1377, o Papa 
Gregório XI (c. 1329-1378) reinstalou seu 
pontificado em Roma, após fortes pressões 
populares e atendendo aos apelos de Santa 
Catarina de Sena (1347-1380). 
Gregório XI morreu no mês de março do 
ano seguinte, aos 47 anos de idade. A notí-
cia de sua morte foi motivo de desordens 
entre a população romana, que temia o 
retorno do papado a Avignon. Era impres-
cindível a eleição de um Papa italiano para 
que Roma pudesse novamente  dirigir 
a Cristandade. Diante de uma multi-
dão ameaçadora, o Colégio Cardinalício 
se reuniu em conclave no início de abril. 
Amedrontados com uma possível insurrei-
ção popular, os cardeais procederam com 
uma eleição rápida, favorável ao napoli-
tano Bartolommeo Prignano, arcebispo de 
Bari. Prignano foi coroado solenemente 
como o novo Papa e adotou o nome de 
Urbano VI (1318-1389). 
Urbano VI era o “nome da concórdia”, uma 
vez que agradava ao mesmo tempo às 
“facções” francesa e italiana do Colégio 
cardinalício. Bom conhecedor da adminis-
tração pontifícia, Urbano Viera um homem 
piedoso, com boa parte de sua formação 
em Avignon. No entanto, o novo Papa reve-
lou tão logo eleito, uma brusca mudança 
de conduta. Assumiu um discurso crítico e 
reprovador de certas atitudes dos outros 
cardeais, o quecomeçou a produzir atri-
tos com os mesmos. 
Em 1378, parte do Colégio de Carde-
ais se retirou para  Anagni  e depois 
para  Fondi,  onde realizaram uma nova 
eleição. Inconformados com as atitudes de 
Urbano, os cardeais afirmavam que sua elei-
ção tinha sido inválida, visto que o conclave 
havia se reunido sob pressão. O eleito foi o 
cardeal Roberto de Genebra, que adotou o 
nome de Clemente VII (1342-1394). Estava 
concretizada a ruptura. Em 1379, Clemente 
VII se instalou em Avignon. Diante de uma 
Cristandade atônita, tinha-se, a partir de 
então, uma Igreja bicéfala. 
Tão logo se produziu o  Cisma,  as duas 
partes buscaram alianças políticas inter-
nacionais.  Carlos V (1338-1380), rei da 
França, e Amadeu VI (1334-1383), conde 
de Savoia,  reconheceram Clemente VII 
como o verdadeiro Papa. O mesmo fez o 
reino da Escócia, aliado da França. A Ingla-
terra reconheceu Urbano VI, assim como 
o sacro-imperador Carlos IV (1316-1378) 
o fez. Também se posicionaram urbanis-
tas a Hungria e Flandres. 
2 A Cúria Romana é o corpo administrativo que auxilia o Papa a exercer o seu poder. Segundo o Concílio 
Vaticano I, o poder do Papa “é pleno e imediato sobre a Igreja do mundo inteiro”. Para exercê-lo, o Papa se 
utiliza dos Dicastérios (que são equivalentes aos ministérios no governo secular), ou seja, órgãos executivos 
na maioria das vezes, pois também existem alguns Tribunais, os quais o ajudam a exercer a sua função de 
Romano Pontífice. Disponível em: <https://padrepauloricardo.org/episodios/o-que-e-a-curia-romana>. 
Acesso em: 15 mar. 2015.
39 
Nos reinos ibéricos, o clima foi mais caute-
loso. Em Castela, Henrique II (1334-1379) se 
declarou neutro; a mesma posição foi a de 
João I (1358-1390), seu filho, que relutante-
mente convocou uma assembleia do clero 
para que pudessem chegar a um denomi-
nador comum; em1380, Castela se decidiu 
por Clemente VII. O rei aragonês Pedro IV, o 
Cerimonioso, também se declarou indife-
rente, mas não tardou a se colocar favorável 
ao Papa avignonês. Carlos II (1332-1387), de 
Navarra, foi o único monarca a não aban-
donar a neutralidade, conservando-a até 
sua morte. Portugal, sob o governo de Fer-
nando I (1345-1383), apoiou Clemente VII; 
no entanto, a partir de 1383, já sob a política 
de João I (1357-1433), o reino português 
favoreceu o papado romano. 
Na Itália, o reino de Nápoles optou por 
Clemente VII. Já os Estados do norte 
da península se posicionaram a favor de 
Urbano VI. Antes de se instalar em Avig-
non, Clemente VII permaneceu alguns 
meses em território italiano. Com os dois 
pontífices em mesmo solo, a Itália esteve 
prestes a se tornar palco de uma guerra 
entre ambos, afinal, a primeira tentativa 
de superação do cisma era pela força, a 
chamada via facti (PALENZUELA, 2005, p. 
717). Felizmente, o conflito não chegou a 
ser iniciado. 
Em 1389, morria Urbano VI. Surgia um novo 
alento de ver, mais uma vez, a Cristan-
dade unida sob um mesmo líder espiritual. 
No entanto todas as expectativas foram 
frustradas e, quinze dias após sua morte, 
o napolitano Pietro Tomacelli era eleito o 
novo Papa, que adotou o nome de Bonifá-
cio IX (1356-1404). O Cisma persistia. 
Com a morte de Clemente VII, em 1394, 
mais uma vez se tinha a expectativa de 
que a divisão da Igreja chegaria a seu fim. 
Contudo, os cardeais da obediência avigno-
nesa não depositaram seus votos no Papa 
romano. Procederam, assim, com uma nova 
eleição, que recaiu sobre o cardeal arago-
nês Pedro de Luna, que adotou o nome de 
Bento XIII (1328-1423). 
Fonte: Adaptado de SILVA, Matheus Corassa. O Grande Cisma do Ocidente em O Sonho, de Ber-
nat Metge. In: Revista Medievalis. V. 2. Ano, 2012.
1. Descreva, em linhas gerais, o contexto histórico de transição entre a Idade Média 
e a Idade Moderna, abordando as questões que envolvem o poder político.
2. Defina, com base nos argumentos apresentados nesta unidade, o posicionamen-
to de Egídio Romano, referente à relação entre o Papa e o Rei. 
3. Observando o contexto histórico da Europa no período de transição entre a Idade 
Média e a Idade Moderna, no que diz respeito à formação das monarquias unifica-
das, ASSINALE A ALTERNATIVA CORRETA: 
a. O embate entre o Papa e o rei francês foi uma amostra de que, por um lado, 
a Igreja acatava essa ideia de perder seu poder, mas não queria admitir isso 
publicamente. 
b. João Quidort e Egídio Romano foram dois pensadores que buscaram defen-
der a soberania do poder religioso sobre o poder dos reis. 
c. O Papa Bonifácio VIII, percebendo que o poder da Igreja pudesse ser coloca-
do em xeque, decidiu reafirmar o poder religioso, com a publicação da Bula 
Unam Sanctum. 
d. A Bula Unam Sanctum foi um documento que visava estabelecer as regras do 
que seria atribuição da Igreja e do que viria a ser atribuição dos reis, para que 
ambos pudessem governar tranquilamente. 
e. Egídio Romano era um dos principais pensadores que defendia uma maior 
autonomia do poder real sobre o poder papal. 
4. Acerca do contexto histórico da Baixa Idade Média, considere as afirmativas abaixo:
I. A Igreja Cristã Católica Romana representava, no contexto da emergência 
das monarquias nacionais, uma das principais barreiras a ser transposta. 
II. Felipe IV, da França, e o Papa Bonifácio VIII travaram uma disputa política que 
foi uma das principais marcas do período em questão. 
III. João Quidort foi um clérigo que defendia a supremacia do poder religioso 
sobre o poder real. 
IV. Egídio Romano foi um membro do clero que defendia a subordinação do 
poder real sob o poder papal. 
Estão corretas as afirmações: 
a. I e II.  
b. II e III. 
c. II, III e IV. 
d. I, II e IV. 
e. I, III e IV.
Material Complementar
MATERIAL COMPLEMENTAR
Soberania: a construção de um conceito
Raquel Kritsch 
Editora: Humanitas-FFLCH-USP
Ano: 2002
Sinopse: O que signifi ca um Estado ter soberania? De forma 
resumida, podemos afi rmar que é o poder de o Estado não 
reconhecer nenhuma autoridade maior do que a sua em seu 
território. Entretanto, isto não se deu de forma pacífi ca, muitas 
disputas ocorreram para que a monarquias europeias pudessem 
ser soberanas. Toda essa disputa política fi cou registrada nas 
obras de autores do período e que Kritsch conseguiu tratá-las de forma bastante profunda e, ao 
mesmo tempo, didática. Esta é uma leitura muito prazerosa ao aluno da graduação e dos demais 
níveis da vida acadêmica.
A cidade medieval – também conhecida como burgo – até o século XI era, de certa forma, uma 
extensão do mundo senhorial. 
<http://www.historiadomundo.com.br/idade-media/renascimento-urbano-medieval.htm>. 
Artigo: Rumo ao Estado Moderno: as Raízes Medievais de alguns de seus Elementos Formadores 
<http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n23/24625.pdf>.
O Nome da Rosa 
Direção: Jean-Jacques Annaud 
Ano: 1986 
Gênero: Drama/Suspense 
Elenco: Sean Connery, Christian Slater e grande elenco. 
Sinopse: Baseado no romance homônimo do escritor italiano 
Umberto Eco, este fi lme conta a história de uma abadia onde mortes 
misteriosas ocorrem. O fi lme mostra um pouco de como era a vida 
dos monges, enfatizando principalmente a disciplina que lhe era 
exigida. Além disso, mostra uma visão sobre o Tribunal da Inquisição, 
além de outros pontos que contribuem signifi cativamente para a 
discussão do período da Baixa Idade Média.
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Professor Me. Kleber Eduardo Men
A IMPORTÂNCIA DE NICOLAU 
MAQUIAVEL À COMPREENSÃO 
DAS TRANSFORMAÇÕES
NA ERA MODERNA
Objetivos de Aprendizagem
 ■ Apresentar a importância histórica de Nicolau Maquiavel. 
 ■ Destacar como este autor observou as transformações históricas do 
seu tempo. 
 ■ Compreender como a análise feita por ele representou uma quebra 
no paradigma da ciência política. 
 ■ Mostrar como sua análise contribui para a compreensãodos temas 
relacionados à política moderna.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
 ■ Quem foi Nicolau Maquiavel? Apontamentos biográficos
 ■ O historiador Nicolau Maquiavel e o seu tempo
 ■ O contexto de transição entre os valores medievais e modernos
 ■ O Renascimento Cultural
INTRODUÇÃO
Estimado(a) aluno(a), certamente o nome Nicolau Maquiavel não lhe é estranho. 
Também não lhe deve ser estranha a expressão “maquiavélica” ou a frase “os fins 
justificam os meios”. Pois é! Essas duas expressões são atribuídas a este pensador 
florentino que viveu entre os séculos XV e XVI, embora, ao ler sua obra, você 
não encontre nada que justifique tal feito. Maquiavel foi um pensador que soube 
compreender as transformações que fizeram parte do contexto em que viveu 
e que se tornou um importante documento para o estudo da Idade Moderna. 
A Idade Moderna foi um período que se iniciou por volta do século XV e 
perdurou até fins do século XVIII. No entanto esses recortes temporais tornam-
-se insignificantes diante do conflito que havia entre as instituições medievais, 
que, pouco a pouco, estavam perdendo sua razão de existir e as instituições 
modernas que, lentamente, iam ganhando importância diante do cenário polí-
tico, social e econômico que emergia. Nicolau Maquiavel soube observar tudo 
isso com uma atenção especial, registrando o decorrer desse processo em suas 
principais obras, O Príncipe e Os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. 
É importante destacar também – em relação à unidade anterior ter dado des-
taque à relação de poder entre Igreja e as Monarquias Emergentes – que Nicolau 
Maquiavel tomou partido quanto aos conflitos envolvendo religião e política. Ele 
não foi, como muitos gostam de afirmar erroneamente, um escritor antirreligião. 
Ele apenas manifestou a necessidade de haver uma política mais voltada às ques-
tões mundanas, sem a intervenção da Igreja. Entretanto, Maquiavel se diferenciou 
dos demais escritores pelo seu realismo político frente aos temas de sua época.
Diante disto, analisaremos a sociedade moderna que estava se desenvolvendo 
na Europa sobre o viés da História das Ideias e das Instituições. Dessa forma, no 
que diz respeito a essa análise, não nos prenderemos a recortes temporais e nem 
espaciais. Ao longo desta unidade, buscaremos responder às questões de cunho 
político, econômico, social e desvendar a verdadeira essência deste autor que é 
tratado de forma muito errônea pela literatura de modo geral. 
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Introdução
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Reprodução proibida. A
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II
QUEM FOI NICOLAU MAQUIAVEL? APONTAMENTOS 
BIOGRÁFICOS 
Estimado(a) aluno(a), nosso objetivo, nesta unidade, será o de fazer uma aná-
lise de alguns pontos do pensamento do escritor florentino Nicolau Maquiavel 
(1469-1527), no que diz respeito principalmente às instituições e às finalidades 
que o Estado devia ter em um momento histórico em que as discussões sobre 
esses temas estavam cada dia mais presentes bem como à legitimidade dessa nova 
forma de organização social que emergiu em fins da Idade Média. Também apre-
sentaremos brevemente a você, aluno(a) do curso de História da Unicesumar, 
um pouco do que esse autor tinha como ideal de governante. 
Para que nossa análise seja um retrato mais próximo da visão do autor, nosso 
estudo prestou-se a uma análise de alguns pontos das obras de Nicolau Maquiavel, 
principalmente no que tange à organização das instituições. 
Em sua carreira como futuro(a) professor(a) de História, perceberá que, 
em inúmeros livros didáticos de Sociologia, Filosofia e História, o nome de 
Nicolau Maquiavel sempre esteve (e em grande parte ainda está) associado ao tema 
da formação dos Estados Nacionais e do absolutismo. Todavia, não será a inten-
ção deste estudo entrar no mérito dessa discussão. Então, qual seria a principal 
questão que este trabalho se propõe a discutir? Um dos propósitos principais 
desta unidade é compreender o pensamento de Nicolau Maquiavel, pois este foi 
O Renascimento foi um período histórico iniciado por volta do século XIV 
na Península Itálica, onde houve uma busca pelos ideais Greco-romanos, ou 
seja, pela cultural da Antiguidade Clássica Ocidental. A influência da cultura 
greco-romana foi sentida na literatura, nas artes e principalmente na filo-
sofia, em que o homem passou a ter um papel primordial nesta sociedade.
Para saber mais, acesse o link, disponível em:  <http://www.brasilescola.
com/historiag/renascimento.htm>. Acesso em: 15 mar. 2015. 
Cidade de Florença, Itália. Berço de Nicolau Maquiavel e um dos principais centros irradiadores da cultura 
renascentista.
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uma testemunha ocular das principais transformações que ocorreram na tran-
sição dos valores Medieval para o Moderno. 
É importante destacar que, segundo os pesquisadores que atuam na área do 
pensamento político e institucional e que têm Nicolau Maquiavel como seu 
principal objeto de estudo, as inúmeras obras literárias, incluindo-se peças de 
teatro e crônicas além de outros escritos, são importantes fontes para o estudo 
da política moderna, principalmente para a corrente que aborda a emergência 
dos Estados centralizados na Europa no período de transição entre a sociedade 
feudal e a moderna. 
Podemos afirmar que Maquiavel se dedicou de corpo e alma a responder 
os questionamentos relacionados a esses temas. O autor teve um olhar atento 
ao seu tempo e às transformações que ocorriam e, dessa forma, registrou essas 
mudanças em suas obras, tornando-as fontes muito valiosas à análise histórica. 
O autor também não mediu palavras para criticar e, também, louvar as monar-
quias que estavam trilhando um caminho que objetivava o fortalecimento do 
Estado como fim último, como foi o caso da Espanha, França, Inglaterra, dentre 
outros exemplos mencionados por ele. Em síntese, para Maquiavel, mais impor-
tante do que ser um principado ou uma república, este regime de governo deveria 
ter como principais objetivos o fortalecimento do Estado e o bem comum dos 
seus cidadãos. 
A IMPORTÂNCIA DE NICOLAU MAQUIAVEL À COMPREENSÃO DAS TRANSFORMAÇÕES
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
II
Nascido em 3 de maio de 1469, na República de Florença, na Península 
Itálica, Maquiavel era filho de um advogado pertencente a um dos grupos 
mais pobres da nobreza toscana. Pela influência de seu pai, sabemos que desde 
pequeno fora instruído a ler os clássicos latinos e italianos. Sua vida, em geral, 
confunde-se com a própria situação política de Florença, tendo em vista os 
constantes conflitos desta natureza que assolavam essa República e a Península 
Itálica como um todo. 
Maquiavel iniciou sua vida pública aos 25 anos, em 1494, quando Florença 
era governada por Savonarola. Trabalhou na chancelaria em funções de 
menor importância e, após a deposição e execução de Savonarola (1498) pelo 
Papa Alexandre VI, Maquiavel assumiu o cargo de Segundo Chanceler da 
República, o primeiro cargo de grande importância de sua carreira política. 
Este contato mais próximo dos assuntos de Estado despertou em Maquiavel 
a necessidade de refletir sobre as práticas políticas dos homens e a posição 
que estes deveriam manterquando estivessem à frente de um governo. A 
questão que envolveu Florença e Pisa em longo conflito foi decisiva na vida 
de Maquiavel e aguçou-lhe mais ainda a necessidade de refletir sobre esses 
temas (MARTINS, 2000). 
Depois de um período de convivência com o Duque Valentino, 
César Bórgia (1475-1507), filho do Papa Alexandre VI (1492-1503), Maquiavel, 
mais uma vez, foi tocado por uma série de acontecimentos e, com base no que 
via, nascia o que seria a sua principal característica como cientista político: 
a valorização dos acontecimentos históricos por parte dos governantes como 
item indispensável às ações e práticas políticas. Maquiavel acreditava que a 
História não poderia servir apenas de passatempo, mas, sim, como um ins-
trumento de governo para que as ações fossem executadas da maneira mais 
eficiente possível. 
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É neste ponto que eu gostaria que você prestasse muita atenção! Nicolau Maquiavel 
foi um pensador que elevou os eventos históricos à categoria de indispensáveis 
aos governantes. É como a praxeologia defendida por Ludwig von Mises. A histó-
ria não seria, para Maquiavel, apenas um passatempo, mas, sim, uma importante 
ferramenta para que os governantes atingissem aquilo que almejassem. Ao longo 
desta unidade, você vai perceber como este autor deu valor ao nosso ofício. 
Antes mesmo, se faz necessário discutir a  praxeologia  que  não é 
uma ciência histórica, mas uma ciência teórica e sistemática. Seu 
escopo é a ação humana como tal, independentemente de quaisquer 
circunstâncias ambientais, acidentais ou individuais que possam influir 
nas ações efetivamente realizadas. Sua percepção é meramente formal 
e geral, e não se refere ao conteúdo material nem às  características 
particulares de cada ação. Seu objetivo é o conhecimento válido 
para todas as situações onde as condições correspondam exatamente 
àquelas indicadas nas suas hipóteses e inferências. Suas afirmativas e 
proposições não derivam da experiência. São como a lógica e a mate-
mática, aprioristas, ou seja, não estão sujeitas à verificação com base 
na experiência e nos fatos. São tanto lógica como temporalmente an-
teriores a qualquer compreensão de fatos históricos. São um requisito 
necessário para qualquer percepção intelectual de eventos históricos. 
Sem sua ajuda, nossa percepção do curso dos eventos históricos ficaria 
reduzida ao registro de mudanças caleidoscópicas ou de uma desordem 
caótica (MISES, 1990, p. 48). 
César Bórgia, Duque de Valentinois (Roma, 17 de Setembro de 1475 – Via-
na, 12 de Março de 1507), ou Cesare Borgia, Duca Valentino, em italiano, foi 
um príncipe italiano da Renascença europeia. Filho de Rodrigo Bórgia, futu-
ro Papa Alexandre VI, com Vannozza dei Cattanei. 
Fonte: CÉSAR BÓRGIA. In: Wikipedia [online]. Disponível em: <http://pt.wi-
kipedia.org/wiki/C%C3%A9sar_B%C3%B3rgia>. Acesso em: 17 mar. 2015. 
Alexandre VI, nascido Rodrigo de Borja, (Xàtiva, 1 de Janeiro de 1431 – Roma, 
18 de Agosto de 1503), foi o 214º papa da Igreja Católica, de 10 de Agosto 
1492 até a data da sua morte. Natural de Valência, estudou na Universidade 
de Bolonha e adotou o nome de Rodrigo Borgia ao chegar à Itália. 
Fonte: PAPA ALEXANDRE VI. In: Wikipedia [online]. Disponível em: <http://
pt.wikipedia.org/wiki/Papa_Alexandre_VI>. Acesso em: 17 mar. 2015.
A IMPORTÂNCIA DE NICOLAU MAQUIAVEL À COMPREENSÃO DAS TRANSFORMAÇÕES
Reprodução proibida. A
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É importante se ter em mente que, quando o assunto é política, aquele que toma 
partido de uma determinada situação corre o risco de sofrer as consequên-
cias, caso esta não lhe seja mais favorável. E foi o que ocorreu entre os anos de 
1512 e 1513, quando Maquiavel sofreu inúmeras retaliações, dentre elas, o exí-
lio político. Desse período até sua morte, em 1527, Maquiavel esteve à mercê da 
inconstância política italiana e vez ou outra se via afastado das funções públicas 
pelas quais nutria um apreço inquestionável. Foi durante esse afastamento da vida 
pública, vivendo na ociosidade, que Maquiavel escreveu suas principais obras: O 
Príncipe (1513) e Os discursos sobre a primeira década de Tito Lívio (1512-1517). 
Na obra O Príncipe, Maquiavel fez um tratado de governo em que buscou, 
por meio da experiência adquirida em sua vida pública, expor o que o governante 
deveria fazer para manter um Estado unido, forte e pronto para enfrentar qual-
quer problema de ordem política. Essa obra foi dedicada a Lorenzo de Médici 
II, alguém que Maquiavel acreditava ter as características básicas e que, por-
tanto, poderia se tornar o governante certo para promover a unificação italiana. 
Contudo, dentre as características necessárias, uma faltava a Lorenzo de Médici 
II – era a virtú (RIDOLFI, 2003). Dessa forma, essa característica foi uma das 
mais debatidas pelo autor ao longo desse livro, como veremos adiante. A inten-
ção do autor era clara: educar o novo príncipe dentro do seu conceito de virtú.  
Os Discoursi são considerados a principal obra de Maquiavel. Nessa obra, escrita 
em um período de cinco anos, o autor tratou, de forma magistral, como se deve-
ria organizar uma república, suas instituições, seus cidadãos e, além disso, deixou 
explícito o conflito de gerações que havia na Itália, mostrando sempre que, para os 
novos ideais políticos prevalecerem, era necessário que as antigas instituições feu-
dais fossem suplantadas por esses. Nessa obra, Maquiavel celebrou a organização 
institucional da república romana e a considerou um modelo perfeito de governo. 
Estão entre as composições de Nicolau Maquiavel, além das obras já cita-
das que apresentam inestimável valor político, obras literárias que são Asno, 
a Mandrágora e Belfagor. Maquiavel foi um dos poucos escritores que obtive-
ram êxito em mais de um gênero literário. Além disso, escreveu um manual de 
ciência militar, intitulado A Arte da Guerra, o qual dedicou a Lorenzo Strozzi em 
virtude de um benefício recebido. Nessa obra, Maquiavel mostrou, mais uma 
vez, seu caráter historicizante com que buscou legitimar as ações por meio dos 
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escritos antigos e da longa experiência vivida por ele frente aos assuntos de cunho 
diplomático (RIDOLFI, 2003). 
Foi também de autoria de Nicolau Maquiavel a obra História de Florença, escrita 
entre os anos de 1520 e 1525, período em que foi nomeado historiador dessa repú-
blica. Nessa obra, Maquiavel traçou um panorama histórico completo e detalhado 
sobre a Itália, tendo como ponto de vista a República florentina, enfatizando as 
questões políticas e institucionais, não se prendendo a recortes temporais. 
Nicolau Maquiavel, depois de sofrer outro duro golpe do jogo político com a 
deposição dos Médici, não suportou a amargura de não poder continuar participando 
ativamente da vida pública de sua tão amada Florença e foi acometido de uma doença, 
vindo a falecer em 21 de junho de 1527, com 58 anos de idade (MARTINS, 2000). 
Posto isso, é importante deixar claro quais são as obras que nortearão nossa 
discussão ao longo desta Unidade. Para tanto, selecionamos como fontes prin-
cipais as obras Os discursos sobre a primeira década de Tito Lívio (1970) e O 
Príncipe (2000), que são consideradas a síntese do pensamento do autor. Dando-
lhes um conteúdo exclusivamente político, Maquiavel abordou com maestria os 
regimesrepublicano e monárquico bem como a forma e a organização desses 
modelos de governo, além de possuírem uma observação histórica riquíssima 
em detalhes, possibilitando-nos conhecer o contexto ao qual pertenceu. 
Igualmente, utilizamos outros escritos do autor que, apesar de não serem 
tão conhecidos, não deixaram de expressar suas concepções sobre a sociedade, 
a política, o governo, a economia e os costumes em geral. 
Para elaborar esta unidade e proporcionar a você um conhecimento mais 
amplo, procuramos, sobretudo, resgatar o pensamento original de Maquiavel, 
interpretando seus escritos. Por isso, é importante esclarecer que não focamos 
O livro de Nicolau Maquiavel, assim como o escrito por Sun Tzu, possuem 
títulos homônimos. 
“O estudo da história torna um homem sábio e judicioso”. 
(Mises) 
A IMPORTÂNCIA DE NICOLAU MAQUIAVEL À COMPREENSÃO DAS TRANSFORMAÇÕES
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nosso estudo no debate historiográfico. Embora muitos autores tenham sido pes-
quisados por nós, chegamos à conclusão de que, se fôssemos nos concentrar em 
uma análise do pensamento de Maquiavel e, ainda por cima, discutir a historio-
grafia existente sobre o mesmo, este trabalho ficaria muito extenso e perderia a 
objetividade necessária a um livro didático como este. 
Portanto, o que buscamos mostrar a você é o momento delicado pelo qual 
passava a Itália de Maquiavel e as soluções apontadas por ele para que um Estado 
fosse capaz de emergir da desordem reinante naquele contexto – desafogando a 
Itália politicamente e colocando-a novamente em posição de destaque conforme 
fora em tempos anteriores. Com essas informações, poderemos compreender 
não apenas a Itália, mas todo o conflito de instituições e pensamentos que pre-
dominavam no ambiente europeu. 
O HISTORIADOR NICOLAU MAQUIAVEL E O SEU 
TEMPO 
Maquiavel, como já deve ter ficado claro a você, foi um político que enxergou a rea-
lidade vivida por ele e seus contemporâneos de maneira bastante particular. Esse 
autor foi a expressão política do período por ele vivido. É consenso geral, nas ciên-
cias humanas, que cada um escreve tendo como base seus valores. A essa altura, tal 
concepção já deve estar bem clara. Em suma, cada um busca dar sentido ou respos-
tas às questões colocadas pelo seu tempo, pelo momento a que cada um pertence ou 
pertenceu. Nicolau Maquiavel foi, assim, um escritor que viveu em um período de 
transição entre os valores medievais e os valores modernos de governo e de sociedade. 
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Entendemos que tratar do período de transição entre a Idade Média e a 
Idade Moderna é tarefa bastante difícil, visto que, em cada região, as pessoas, os 
governos, as leis, tudo isso pode apresentar-se com muita variação. Entretanto, 
é sempre prudente destacar o alerta feito por Tocqueville (1997) em relação 
a isso, destacando que a compreensão de determinada região o levava a com-
preender melhor outra. Por mais que as diferenças possam ser maiores que as 
semelhanças e, no geral, a Península Itálica havia sido um caso à parte no que 
diz respeito à unificação política de toda a Europa Medieval Ocidental, aos 
olhos de nossa fonte, Maquiavel, o que se procurou encontrar (e a metodolo-
gia empregada) tanto na Itália quanto em outros locais por ele estudados, em 
linhas gerais, possuiu grandes semelhanças. Embora os resultados tenham sido 
muito diferentes, o fato é: diferenças ou não, a formação dos Estados nacio-
nais ocorreu em toda a Europa, fosse ela Ocidental ou Oriental, o que tornou 
a Itália e também a Alemanha exceções a essa regra. Isso deve ficar bem claro a 
você! A Idade Moderna foi o momento da consolidação dos Estados Nacionais. 
A transição entre esses dois períodos – Idade Média para a Idade Moderna 
– foi, sem dúvida, um momento muito rico para análise da sociedade. A socie-
dade estamental, atributo da Alta Idade Média, já não era aceita no século XVI, 
principalmente pelo desenvolvimento cada vez mais intenso das atividades 
comerciais bem como pela nova classe em ascensão, a burguesia. Surgiu, assim, 
um debate sobre os males causados pelas instituições feudais, sobre o perfil da 
nova sociedade e das qualidades dos governantes que coordenavam a vida dos 
homens que nela habitavam. 
O pensamento de Maquiavel surgiu como um divisor de águas na história 
do pensamento político, já que conseguiu expressar muito bem aquilo que era 
um esboço das novas ideias e valores políticos que orientavam os homens na 
sociedade moderna em construção. Este ponto da obra de Maquiavel deve sem-
pre ser destacado, reiterando sua importância como historiador. 
Uma das características principais da sociedade moderna que se firmava 
historicamente na Europa foi o Renascimento italiano, marcado pelo retorno 
dos valores culturais da Antiguidade clássica. Maquiavel não poderia ter vivido 
naquele contexto sem ter sido influenciado por essas transformações, fato esse 
que vamos buscar mostrar ao longo desta unidade. 
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Veneza, cidade italiana e um dos principais  polos  comerciais da Idade 
Média. Foi uma das cidades que viveu seu auge durante o Renascimento 
Cultural.
A IMPORTÂNCIA DE NICOLAU MAQUIAVEL À COMPREENSÃO DAS TRANSFORMAÇÕES
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Florença, berço do autor, é considerada por Jacob Buckhardt (1973) o primeiro 
Estado moderno do mundo. O que justifica tal afirmação é a ampla participa-
ção popular na vida política dessa república. Florença, segundo as palavras 
de Buckhardt (1973), foi o berço do Humanismo e do espírito renascentista, tão 
valorizado por Maquiavel em suas obras. 
A mais perfeita consciência política, o desenvolvimento mais completo 
e variado encontram-se reunidos na história de Florença, a cidade que, 
neste sentido, merece ser considerada o primeiro estado moderno do 
mundo. Aqui, vê-se [sic] um povo inteiro a ocupar-se daquilo que, nos 
estados governados por príncipes, interessa apenas a uma família. O 
maravilhoso espírito florentino, esse espírito ao mesmo tempo justo, 
enamorado pelo belo, ávido de criar, transforma incessantemente o 
estatuto político e social, incessantemente o descreve e o julga. Deste 
modo, Florença tornou-se a pátria das doutrinas e das teorias políticas, 
das experiências e das bruscas transformações, mas, ao mesmo tempo, 
tornou-se com Veneza o berço da estatística e, antes de todos os estados 
do mundo, o berço dos estudos históricos no sentido moderno da 
expressão (BUCKHARDT, 1973, p. 65-66). 
O sentido de modernidade 
frisado por Buckhardt (1973) 
relaciona-se com a partici-
pação popular nos assuntos 
políticos. Quando ele des-
taca que, em Florença, o povo 
inteiro se preocupava com 
assuntos que em outros luga-
res eram de exclusividade de 
uma família apenas, está se 
referindo ao espírito polí-
tico moderno que emergiu 
entre os cidadãos florentinos. 
Certamente essa participação é uma clara demonstração da influência do espí-
rito greco-romano, tão em voga no Renascimento. 
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Ao que tudo indica, o ambiente dessa cidade era extremamente inspirador 
para que uma cultura política de discussão dos assuntos públicos, especialmente 
sobre a forma de gerir a cidade, fosse constante. Como Buckhardt (1973, p. 70) 
destacounesta citação: 
Florença experimenta não só mais forma e cambiantes políticos como 
os julga e discute infinitamente melhor do que os outros estados livres 
da Itália ou, em geral, do Ocidente. A sua historiografia é o espelho 
mais fiel da relação que existe entre as classes e os indivíduos, dum lado, 
e em todo móvel e em mudança, pelo outro. Os quadros das grandes 
demagogias burguesas de França e Flandres, tais como os traça Frois-
sart, os relatos das crônicas alemãs do século XIV, são seguramente 
eloquentes, mas no aspecto da alta compreensão dos fatos e do estudo 
aprofundado das causas que lhes deram origem, os florentinos são infi-
nitamente superiores a todos os outros. 
O que percebemos é que, no contexto de transformações políticas pelo qual o 
mundo estava passando, Florença assumiu a vanguarda dessa temática. Essa par-
ticipação, essa vida ativa são características amplamente discutidas por autores e 
pesquisadores que têm o Renascimento como seu principal período de estudos. 
Não obstante, todo esse desenvolvimento intelectual e político não fora capaz 
de tornar Florença, muito menos a Itália, uma nação unida politicamente e aqui 
está o grande descontentamento de Maquiavel.
Dessa forma, analisaremos a situação de Florença e a da Itália, de modo geral, 
pelas palavras desse autor, um dos cidadãos florentinos mais ilustres. Além de 
percebermos todas essas características já citadas, observaremos os motivos que 
o levaram a dar destaque às questões desconfortáveis, principalmente sobre a 
desordem política que a cidade vivenciava apesar de seus cidadãos serem exem-
plo de participação política para o mundo. 
Para darmos início à nossa contextualização, é necessário apontar uma das 
características mais originais do pensamento de Nicolau Maquiavel, que é a 
importância que o próprio deu à experiência histórica. É verdade que isso repre-
senta uma das marcas do movimento renascentista, do qual Maquiavel também 
fez parte. Mas o que chamou atenção desse autor foi o fato de a experiência his-
tórica ser vista como algo útil, de extremo valor à vida pública e política dos 
cidadãos e governantes, principalmente para estes últimos. Nesse sentido, con-
forme assinalou Pereira (2000, p. 255-256), para Maquiavel: 
Gênova, assim como Veneza e Florença, também foi um dos centros 
irradiadores da cultura Renascentista.
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A principal utilidade da história dos grandes homens e das grandes na-
ções não é proporcionar passatempos agradáveis a quem lê os livros de 
história, mas ensinar e transmitir experiências para os príncipes e para 
os homens em geral, fazendo com que eles evitem os erros e imitem os 
acertos dos grandes homens e dos grandes estados do passado. 
Gostaria que você observasse com bastante atenção tal afirmação. Maquiavel uti-
lizou-se da experiência dos grandes homens do passado, como o próprio sempre 
fez questão de destacar, para criticar a atitude dos governantes do seu tempo e, na 
maioria das vezes, indicar-lhes o caminho mais adequado para atingir determinado 
objetivo. Mas o próprio autor tinha a consciência de que observar essas experi-
ências não era uma prática comum e nem uma virtude da maioria dos homens. 
Para Maquiavel, isso se deu 
pelo fato de os poderosos 
valorizarem muito mais as 
honrarias e adulações do que 
os conselhos. Mas os pró-
prios conselhos podem ser 
um perigo, já que a maioria 
deles é feita por pessoas que 
se aproximam do governante 
em busca de privilégios, dei-
xando a franqueza necessária 
para esse tipo de assunto em 
segundo plano. 
Já no início dos Discoursi, Maquiavel deixou claro que seu “interesse” era 
mostrar uma leitura dos fatos dos grandes homens, principalmente dos antigos, 
para deixá-los como exemplo para os que lessem seu texto: 
Querendo, pois, tirar os homens desse erro, julguei necessário escrever 
sobre todos aqueles livros de Tito Lívio, que não foram roubados pela 
malignidade dos tempos, e falar sobre tudo aquilo que eu, segundo as 
coisas antigas e modernas, julgar necessário para maior inteligência 
delas, a fim de que aqueles que lerem estes meus discursos possam 
deles extrair aquela utilidade pela qual se deve buscar o conhecimento 
da História (MAQUIAVEL, 1970, p. 97). 
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Mais uma vez, ele mostra sua preocupação com a História. Uma das grandes 
contribuições desse autor para nossa profissão foi a de valorizá-la como instru-
mento de poder. Quem sabe mais, corre o risco de errar menos. Para Maquiavel, 
aprender com os erros dos outros era uma grande virtude. Ao longo de sua vida, 
fez importantes observações e buscou registrá-las, a fim de que viessem a servir 
a esses grandes homens destacados nas citações anteriores. Tomemos o exem-
plo da França. No que diz respeito à natureza dos franceses, o autor faz alguns 
apontamentos sobre a forma como eles interagem nos negócios e no respeito 
uns com os outros. Um destaque que nos chama atenção é com relação à ques-
tão financeira. Assim escreve o autor: 
Os que desejam levar um negócio a bom termo na corte necessitam de 
muito dinheiro, grande diligência e boa fortuna. Quando querem um 
benefício, calculam antes o proveito que podem tirar dele do que no 
serviço que lhes será possível prestar (MAQUIAVEL, 2000b, p. 211). 
O que podemos afirmar com essas simples anotações de Maquiavel? Pelo menos 
no que tange aos negócios, o egoísmo dos franceses é algo que fica explícito. 
Ter apenas o lucro em mente, não objetivando a qualidade dos serviços presta-
dos, era algo nocivo ao desenvolvimento dos empreendimentos econômicos, o 
que poderia levar à desestruturação de um sistema financeiro em longo prazo. 
Nas entrelinhas, podemos perceber que os franceses, ao necessitarem de muito 
dinheiro para abrir um negócio, o necessitavam pela forte dependência que 
tinham com relação às ações do Estado. 
A França foi um dos primeiros países a se unificar e a estabelecer um 
governo centralizado, por volta do século XIV. Essa dependência fica clara na 
seguinte citação: 
“aquele que vence está, por isso mesmo e quase sempre, com o rei; o 
que perde, raríssimas vezes; por esse motivo, quem precisa realizar um 
empreendimento deve considerar rapidamente se tal lhe sairá bem ou 
não” (MAQUIAVEL, 2000b, p. 212).
Em suma, o sucesso dependia da intriga. O insucesso trazia infortúnios, já que 
o derrotado caía em desgraça em razão das intrigas do vencedor. 
Nesse sentido, o que podemos observar nesses breves apontamentos? O obje-
tivo de Maquiavel é descrever a personalidade dos franceses em busca da melhor 
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compreensão humana. O autor sempre deixa clara a importância disso para o 
príncipe. Um governante, para que tivesse êxito frente ao Estado, deveria conhecer 
a natureza humana tanto de seus súditos quanto de seus vizinhos, para que estes 
últimos não viessem a demonstrar perigo e, caso isso viesse a ocorrer, pudesse 
o príncipe se adiantar aos fatos. Em resumo, o príncipe precisava desse tipo de 
conhecimento para agir. E, no caso da Itália, tão próxima da França, a preocu-
pação de Maquiavel não poderia ser diferente. 
Outro fato que está implícito nessa citação é que havia falta de leis ou critérios 
administrativos que fossem iguais para todos, o que desencadeava desarmonia 
na sociedade. Além disso, quandoum súdito se beneficiava pelo simples fato de 
ele estar ao lado do rei, isso impedia que outros súditos mais empreendedores 
pudessem contribuir para o bem comum, gerando mais riquezas e outros bene-
fícios para a sociedade. 
Ainda com relação à França, Maquiavel (2000c) assinalou que ela era a 
coroa mais rica e poderosa na época. Maquiavel apontou os motivos do desta-
que financeiro da coroa francesa. Para ele, esse fato basicamente se resumia na 
existência de um Estado forte e centralizado. Um Estado que estivesse acima de 
todos os cidadãos. Assim, o interesse maior de Maquiavel (2000c) em descrevê-
-lo era mostrar os meios que fizeram a França se tornar tão forte e próspera e, 
ao mesmo tempo, instruir o governo de Florença acerca dos pontos fortes dos 
franceses para que assim pudessem se relacionar de modo mais seguro. Além 
disso, o autor tinha o interesse de interpretar as características do Estado francês 
que poderiam ser utilizadas pelo governo florentino para que a mesma prospe-
ridade francesa pudesse ser atingida também por Florença. 
Vejamos o que Maquiavel (2000c, p. 215) enfatiza com relação à força insti-
tucional da monarquia francesa: 
A coroa, transmitida por sucessão de sangue, veio a se tornar rica; isso 
porque às vezes, não tendo filhos os reis, nem sucessores na própria he-
rança, foram para a coroa suas posses e seus Estados. E, como tal suce-
deu a muitos monarcas, a coroa acabou sendo muito enriquecida pelos 
numerosos Estados que lhe couberam; como ocorreu com o ducado 
de Anjou, e no presente, como sucederá ao rei atual, o qual, não tendo 
filhos varões, deixará para a coroa o ducado de Orleans e o Estado de 
Milão; de sorte que, atualmente, todas as boas terras de França são da 
coroa, não dos seus barões, em particular.  
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A citação de Maquiavel (2000c) nos chama atenção principalmente pela parte final 
destacada por ele, em que afirmou que as boas terras eram todas posses da Coroa 
e não dos barões. Certamente que se as boas terras pertencessem aos campone-
ses, talvez isso não despertasse tanto a atenção de Maquiavel, justamente pelo fato 
de que estes não eram concorrentes ao poder dentro do Estado francês. Quanto 
mais terras produtivas nas mãos dos barões, maior o poder destes e isso poderia 
fazer com que o Estado, representado pelo rei, viesse a se tornar um instrumento 
de manipulação por parte desses poderosos. Essa era a característica principal da 
sociedade que estava desaparecendo, a feudal, e que Maquiavel tanto repudiava 
e, ao mesmo tempo, procurava combater. Essa preocupação deixa à mostra mais 
uma vez a característica historicizante e, também, política deste autor. 
Deixando as características mais específicas de lado, em suma, a França não 
deixava de apresentar semelhanças com a situação em que Maquiavel vivia em 
Florença. Assim, para que essa nova organização social que emergia na Europa 
tivesse êxito também na Itália, era preciso que houvesse uma pessoa capaz de 
aprender com os exemplos dos outros, observando o que houvesse de errado em 
um e também em outro, contemporizando e buscando aplicar aquilo que havia 
de bom nos outros países. 
Por isso que as obras de Maquiavel, no geral, são ricas em exemplos. O autor 
não se cansou de analisar os feitos dos grandes homens e dar a eles a importância 
necessária. O contexto de desordem política, social e, principalmente, institucio-
nal pelo qual Florença estava passando fez com que o autor desenvolvesse um 
trabalho, buscando identificar os motivos que impediam sua cidade natal de se 
tornar próspera e de servir também de exemplo aos outros países. Em suma, 
Nicolau Maquiavel desejava ver os cidadãos italianos unidos em torno de um 
objetivo, deixando suas intrigas e egoísmos de lado. 
Maquiavel (2000c) também deu destaque à relação entre a nobreza e o rei, na 
França. Na verdade, o rei era apenas um representante do Estado. Ele era o que 
estava à frente para manter o Estado unido e fortalecido. Vez ou outra, cedendo 
certas regalias aos nobres como forma de manter seu apoio. Em suma, o Estado 
não estava a serviço do rei, mas, sim, o contrário. Tal atitude do rei não ofendia 
os nobres, os quais, por possuírem linhagem real, viviam sempre na esperança 
de um dia poderem herdar o trono. Portanto: 
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E, assim, cada um se conserva unido à coroa aguardando que ele mes-
mo ou um dos seus filhos consigam alcançar aquele grau. Rebelar-se 
ou vir a ser um inimigo poderia ser mais danoso do que bom; como 
quase sucedeu a esse rei, quando se viu preso na jornada de Bretanha, 
para onde se dirigira mercê daquele duque e contra os franceses; e foi 
discutido se, morto o rei Carlos, por aquela falta e deserção devesse ele 
perder o direito à sucessão (MAQUIAVEL, 2000c, p. 216). 
O fato acima mostra que, na pior das hipóteses, mesmo aqueles nobres inimigos 
do rei tinham medo de perder o direito à potencial sucessão do trono. Mais uma 
amostra clara da importância desse Estado unificado que Maquiavel tanto fez ques-
tão de demonstrar direta ou indiretamente. É que, nessa situação, eliminava-se 
a possibilidade de um nobre tentar se unir a algum estrangeiro e, consequente-
mente, colocar a perder a possibilidade de um dia vir a assumir o trono ou um 
cargo de maior importância. Não estaria Maquiavel (2000c) mandando um recado 
indireto àqueles que, cegos pela ganância do poder político, estariam colocando 
barreiras às suas próprias possibilidades de ascensão ao poder? Florença se encon-
trava tomada pela desordem por causa dos acordos políticos feitos por aqueles 
que colocavam os interesses pessoais acima dos interesses do Estado. 
O CONTEXTO DE TRANSIÇÃO ENTRE OS VALORES 
MEDIEVAIS E MODERNOS 
Nicolau Maquiavel não era um escritor isento de juízo de valores. Em suas 
principais obras já mencionadas, a todo o momento ele deixava claro o tipo 
de sociedade e de governo que desejava ver. Mais importante do que o modelo 
de governo, fosse ele republicano ou monárquico, o que ficou evidente é que, 
independente disso, quem estivesse à frente desse Estado deveria agir para o 
engrandecimento e fortalecimento do mesmo. Não obstante, Maquiavel, em 
suas obras, defendeu uma organização social que obedecesse a alguns axio-
mas indispensáveis, como a liberdade dos cidadãos, a lei e a ordem de modo 
geral, além de outros atributos. 
Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci. Uma das gravuras que representam 
o humanismo renascentista.
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Apesar de mencio-
narmos constantemente o 
período em que se dá nossa 
discussão, não podemos 
deixar de destacar que esse 
contexto é denominado por 
Renascimento e de apontar 
uma das principais carac-
terísticas dessa etapa da 
História, que é a valoriza-
ção do homem e a procura 
pelo conhecimento. A busca 
por exemplos a serem segui-
dos fez com que Nicolau 
Maquiavel se debruçasse 
sobre os clássicos da lite-
ratura greco-romana, mas 
isso não o impediu de obser-
var com bastante atenção o 
que estava ocorrendo no seu 
tempo, como foi o caso da França, citado anteriormente. Vale lembrar que muitas 
dessas observações foram feitas durante o tempo em que Maquiavel foi mem-
bro do governo de Florença.  
Assim, qual seria a base daorganização política defendida por Maquiavel? 
Frente ao contexto vivido pelo autor (1469-1527) e todas as suas pesquisas sobre 
a História da Península Itálica e de Florença mais especificamente, o que seria 
para ele um modelo ideal de sociedade e de governante? O que esse autor res-
saltou, ao longo de suas obras, é que o que escreveu se originou da longa prática 
e das contínuas lições das coisas do mundo (MAQUIAVEL, 1970). Ou seja, ele 
não se baseou em ficções ou idealizações para demonstrar aquilo que defen-
deu, mas, sim, nas práticas passadas registradas nos livros, segundo seu próprio 
entendimento, conforme ficou exposto: 
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Como, porém, minha intenção não é escrever sobre assuntos de que 
todos os interessados tirem proveito, julguei adequado procurar a ver-
dade pelo resultado das coisas, mais do que por aquilo que delas se pos-
sa imaginar. E muitos imaginam repúblicas e principados nunca vistos 
ou reconhecidos como reais. Tamanha diferença se encontra entre o 
modo como se vive e o modo como se deveria viver que aqueles que se 
ocuparem do que deveria ser feito, em vez do que na realidade se faz 
aprendem antes a própria derrota do que sua preservação; e, quando 
um homem deseja professar a bondade, natural é que vá à ruína, entre 
tantos maus (MAQUIAVEL, 2000a, p. 99). 
Essa citação acima é a expressão máxima do método que Maquiavel emprega 
para elaborar suas obras. Observe com muita atenção, pois, como aluno(a) do 
curso de História, precisa estar bastante ligado(a) a isso. O autor, com esse olhar 
atento aos fatos acontecidos, inaugurou o realismo na política, distanciando-se 
de vez do paradigma religioso. Para ele, era claro que a maioria das pessoas, ao 
discorrerem sobre política, se perdia em afirmações infundadas, em idealizações 
de governos e governantes que não se aplicavam na prática. Como o próprio 
Maquiavel (2000a) afirmou, a verdade foi procurada pelo resultado das coisas e 
não a partir do que foi imaginado. 
Maquiavel (2000a) deixou claro que havia uma distância enorme entre o 
que era e o que deveria ser quando o assunto era política. Para ele, quando havia 
uma preocupação apenas com aquilo que se pudesse imaginar e não com a rea-
lidade demonstrada pelos fatos, o governante seria derrotado bem antes do que 
pudesse imaginar. Em suma, seu reino seria levado à ruína. 
Outro fato importante na citação é com relação ao perfil do governante 
analisado por Maquiavel (2000a). Para o autor, a atitude do príncipe se 
resumiria em saber fazer o bem, saber ser bom, conforme necessário, mas 
também saber empregar a maldade na justa medida de suas necessidades. 
Para se conservar um principado, o emprego da força e da maldade se tor-
nava indispensável. Em suma, um bom príncipe era aquele que não fazia 
profissão de bondade. 
Tanto nos Discoursi quanto em O Príncipe, esse objetivo de analisar os fei-
tos reais estava bem claro. Dessa forma, vejamos uma passagem dos Discoursi: 
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Por isso, eu, para não incorrer nesse erro, escolhi não aqueles que são 
príncipes, mas aqueles que mereceriam sê-lo, pelas suas infinitas e 
boas qualidades; não os que me podem cumular de títulos, honrarias 
e riquezas, mas sim aqueles que, embora não o possam, desejariam fa-
zê-lo. Os homens, quando querem julgar acertadamente, devem esti-
mar aqueles que são e não aqueles que podem ser liberais, assim como 
aqueles que sabem e não aqueles que, sem saber, podem governar um 
reino (MAQUIAVEL, 1970, p. 94). 
A citação acima faz parte da dedicatória de Nicolau Maquiavel a Zanobi Buo
ndelmonti e Cosimo Rucellai, referente à composição de sua obra Discursos 
sobre a primeira década de Tito Lívio (1970). Essa citação é uma demonstração 
explícita do tipo de sociedade a que Maquiavel se contrapôs: uma sociedade 
baseada em honrarias, riquezas e títulos. Tudo isso oriundo de bajulações e não 
pela capacidade ou virtú. A organização social que prevaleceu durante a Idade 
Média em diferentes regiões da Europa tinha, dentre seus pilares de sustenta-
ção, o poder baseado em favores, nos contratos de suserania e vassalagem. Dessa 
forma, podemos afirmar que não era uma sociedade democrática no sentido das 
oportunidades, mas uma sociedade estamental, definida pelo nascimento (con-
sanguinidade) e de raríssima mobilidade social. 
Na dedicatória a Lorenço de Médici, feita em O Príncipe, Maquiavel (2000a) 
seguiu a mesma linha de pensamento ao enfatizar que se basearia nas atuações 
dos governantes, preocupando-se apenas com a verdade, não se importando se o 
tom de suas críticas ou observações seria ou não aceito, se ele seria ou não agra-
dável aos olhos de quem às visse. O autor também pouco se importou com o 
estilo literário, como fica explícito: 
Não enfeitei esta obra nem busquei recheá-la de frases sonoras, termos 
pomposos, adornos, lisonjas ou floreios de estilo, recursos a que recor-
rem comumente os que desejam descrever ou embelezar as próprias 
obras. Não permiti que nada a tornasse agradável senão a profundidade 
e a diversidade do assunto mesmo (MAQUIAVEL, 2000a, p. 35-36).
À guisa dessas citações mencionadas, podemos entender que a prática política, 
para Maquiavel (2000a), dependia exclusivamente da fortuna e virtú. O prín-
cipe precisava convencer, com sua prática diária, de que era realmente a pessoa 
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adequada para assumir tal compromisso. Não deveria, portanto, ser conven-
cido por aqueles que só faziam tais elogios em busca de vantagens pessoais. 
Esse é um fator importante em suas obras. Para Maquiavel (2000a), os cidadãos 
precisavam apoiar aqueles que possuíssem um perfil político que estivesse com-
provadamente vinculado às necessidades principais para o bom andamento das 
Instituições. Como ele mesmo destacou acima, “precisamos optar por aque-
les que são e não por aqueles que pretendem ser” (MAQUIAVEL, 1970, p. 94). 
Essa certeza só é possível ter ao observarmos o histórico político de cada um. 
Além disso, podermos fazer um paralelo entre as ações políticas e as virtudes de 
um indivíduo como cidadão. 
Entretanto, a grande insatisfação de Nicolau Maquiavel era com essa socie-
dade que se baseava nas adulações e na ambição do poder pelo poder, não com 
um fim que pudesse beneficiar a grande maioria dos cidadãos. Por isso, ele se 
colocou como um dos principais críticos dessa forma de organização que pre-
dominou durante praticamente toda a Idade Média europeia. Embora a região 
em destaque não tenha registrado o desenvolvimento de um feudalismo clássico, 
conforme o visto na França, Alemanha, dentre outros, em termos de costumes 
e das relações de poder, não há motivos para não levarmos em conta tais fatos. 
É muito importante que fique claro que Maquiavel não foi o paladino da 
igualdade social e econômica. Ao criticar os aduladores, ele o fez na intenção de 
mostrar que esses em nada contribuíam para o bom funcionamento do Estado. 
Ao não ajudarem o príncipe a enxergar as coisas como elas realmente eram, esses 
aduladores poderiam levar o Estado à ruína. 
Outra característica da sociedade a que Maquiavel se contrapôs, em linhas 
gerais, é composta pelo que ele definiu de gentil-homem. Em resumo, esse sujeito 
era aquele que vivia do esforço alheio. O autor, assim, o descreveu: 
Para esclarecer o que entendo por gentil-homem, direi quese chamam 
assim os que vivem na ociosidade, do produto de seus bens, que fruem 
os dias na abundância, sem nenhuma preocupação a tratar, para viver, 
nem de agricultura, ou de qualquer comércio. Esses homens são peri-
gosos em todas as repúblicas e em todos os Estados: deve-se, porém, 
temer, acima de tudo, todos aqueles que, além das vantagens que aca-
bo de mencionar, comandam castelos e têm vassalos que lhes prestam 
obediência (MAQUIAVEL, 1970, p. 244). 
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A quem o autor se referia como gentis-homens? Certamente, aos senhores feu-
dais que dominaram as relações econômicas e sociais na Idade Média europeia. 
A principal preocupação do autor com esses homens era o perigo político que 
eles representavam para o Estado, não apenas por serem mais ricos do que os 
outros. Esses gentis homens eram os principais obstáculos para que a unifica-
ção política ocorresse, pois quando suas necessidades não eram atendidas, esses, 
por possuírem poderes muitas vezes superiores aos dos príncipes, se tornariam 
seu principal inimigo. 
Como já citamos anteriormente, as mudanças ocorridas durante esse perí-
odo não foram uniformes, ou seja, não ocorreram ao mesmo tempo em todas 
as regiões. A prova disso são os exemplos que o escritor renascentista cita 
como contraponto à sua exposição. Ora ele destaca que determinada região 
é avançada com relação a isso, ora ele menciona o atraso de uma região com 
relação àquilo. 
Todo esse conjunto de transformações acentuou a instabilidade polí-
tica. As intensas disputas entre os representantes das famílias nobres fizeram 
com que inúmeros conflitos fossem gerados, arruinando a economia de 
determinadas regiões. Nesse sentido, isso era extremamente nocivo ao desen-
volvimento. Essa instabilidade política e a ausência de um corpo unificado 
que pudesse prover maior segurança aos moradores de determinada loca-
lidade seriam as grandes responsáveis pelo relativo atraso econômico por 
que a região atravessava. 
A Itália foi um dos países que mais demorou em conseguir sua unifica-
ção política e territorial. Enquanto Portugal, França, Inglaterra e Espanha 
já eram monarquias praticamente consolidadas ao final de Idade Média, a 
Itália, assim como a Alemanha, só conseguiu sua unidade territorial e polí-
tica no século XIX. Apesar de ser uma região próspera, muito superior a 
outras da Europa, a região da península estava extremamente dividida em 
facções políticas. Umas em posse da Igreja, outras nas mãos de aristocratas, 
o que tornou essa disputa pelo poder um dos principais motivos que impe-
diam essa unificação. Sobre esse fato, Buckhardt (1973, p. 56) fez o seguinte 
apontamento: 
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As lutas dos séculos XII e XIII levaram à formação de grandes e po-
derosas ligas de cidades e Sismondi acredita (II, 174) que a altura dos 
últimos preparativos militares da Liga Lombarda contra Barbaroxa (a 
partir de 1168) teria sido favorável à federação das cidades italianas. 
Mas as cidades importantes tinham criado hábitos que tornavam 
semelhante federação impossível. No campo da concorrência comercial, 
empregavam todos os meios umas contra as outras e esmagavam com 
todo poder as cidades vizinhas mais fracas. Deste modo acabaram por 
acreditar que podiam subsistir sem procurar a força na união e abriram 
caminho para o despotismo. O despotismo vem na sequência das lutas 
intestinas, quando a  necessidade dum governo forte se faz sentir nas 
cidades em que as tropas mercenárias vendiam o apoio a quem mais 
dava e em que os partidos no poder tinham há muito tempo declarado 
impraticável o armamento de todos os cidadãos. A tirania devorou a 
liberdade na maior parte das cidades. De tempos a tempos os tiranos 
eram derrubados, mas levantaram-se sempre e a tirania reaparecia 
mais vivaz do que nunca, porque a situação interna a favorecia e já não 
existiam forças vivas capazes de combatê-la [sic]. 
A exposição acima resume bem os principais fatores que impediam, 
segundo Buckhardt (1973), a formação de uma federação na Península Itálica. 
Em uma época em que o capitalismo estava dando seus primeiros passos na 
Europa, o que podemos perceber é que não havia noção de cooperação entre as 
cidades concorrentes, o que levava uma cidade comercial a tentar destruir a outra. 
Mas a tentativa de monopolizar o comércio, esmagando os concorrentes, se mos-
trou ineficiente para os comerciantes e, principalmente, para os consumidores. 
O Capitalismo se fortaleceu na Europa por volta do século XV e isso ocor-
reu devido a uma soma de diversos fatores. Dentre os fatores, destacamos a união 
entre os setores burgueses da sociedade e o rei, mas como na Itália, no período em 
questão, não havia um governo centralizado, aos poucos a prosperidade econômica 
foi dando lugar ao caos e às crises políticas. Essas animosidades, somadas às con-
dições emergentes das instituições políticas e jurídicas, provocaram conflitos que 
não obtinham outra consequência senão a desordem e a confusão dessas cidades. 
Caos econômico é, muitas vezes, seguido do caos político e esse é o segundo des-
taque que Buckhardt (1973) deu no que tange à situação italiana. As disputas entre 
essas cidades, em inúmeras ocasiões, acabavam abrindo precedentes para o apareci-
mento de governantes que procuravam, por meio da força e da tirania, colocar fim à 
desordem, mas que, na verdade, acabavam piorando a situação, pois, muitas vezes, 
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O Contexto de Transição entre os Valores Medievais e Modernos 
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cessavam-se os conflitos, porém perdia-se a liberdade. Assim, uma sucessão de tira-
nias e disputas internas acabava minando as bases do que poderia contribuir com 
a formação de uma federação sólida e próspera que envolvesse as cidades italianas. 
Na obra História de Florença, Maquiavel tratou dessas intrigas políticas que 
envolviam a aristocracia, a Igreja e os demais grupos interessados no poder polí-
tico da região. De acordo com o testemunho desse autor, provocar uma guerra, 
com a finalidade de desestabilizar a região, estava entre os principais objetivos 
das pessoas que possuíam certo poder político na Itália. 
A Itália se encontrava dividida, em duas facções: Papa e rei de um lado, 
do outro os venezianos, o duque e os florentinos. E mesmo que entre 
eles não houvesse estourado uma guerra, todos os dias davam-se mo-
tivos para que eclodisse, e principalmente o pontífice, em qualquer de 
suas empresas, arranjava modo de ofender o estado florentino (MA-
QUIAVEL, 1998, p. 374). 
Sabemos que a visão de Nicolau Maquiavel não era isenta e, ao o considerar-
mos como um florentino que amou mais a sua pátria do que a si, podemos, em 
parte, entender a posição de vítima em que Maquiavel classificou Florença. Mas 
deixando de lado sua paixão por Florença, o que sabemos é que a instabilidade 
era um fato na Itália renascentista. 
As questões comerciais são de extrema importância para compreendermos 
o que estava se passando na Península Itálica, pois foi justamente a prosperi-
dade econômica atingida por essa região no período de Renascimento Comercial 
que a colocou em posição de destaque na Europa. Os resultados das inovações 
e dos benefícios trazidos por essa prosperidade foram inúmeros. O próprio 
Renascimento Cultural foi resultado do crescimento econômicoda Península, o 
que fez concentrar ali intelectuais, artistas, dentre outras profissões que emergiam 
sempre nas regiões mais desenvolvidas. Mas qual a causa de essa região não ter 
se tornado o Estado mais poderoso de toda a Europa? Uma hipótese era a falta 
de um governo centralizado que pudesse convergir às forças em luta para um 
único objetivo. Os fatores que impediram essa unificação são de ordem diversa, 
mas, nas palavras de Maquiavel, o que fica claro é a sobrevivência de anacro-
nismos na região, como é o caso dos gentis-homens, sempre destacado por ele. 
Maquiavel deu o seguinte exemplo para explicar a razão de Nápoles, Roman
ha e Lombardia não possuírem um governo regular. Para ele, isso se resumia no 
A IMPORTÂNCIA DE NICOLAU MAQUIAVEL À COMPREENSÃO DAS TRANSFORMAÇÕES
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fato da existência desse tipo de gente (gentis-homens) e de serem inimigas de todas 
as instituições civis. Instituições que, para Maquiavel, eram a pedra fundamental 
do funcionamento seguro e pacífico. Para isso, destacou que, para se implantar 
um governo em uma região qualquer, que se organizava em torno desses homens 
poderosos, a figura de um rei poderoso era essencial. Mesmo assim, ele pouco 
acreditava que isso pudesse vir a acontecer: 
Querer introduzir um governo num país assim organizado seria tentar 
o impossível. Se fosse possível, porém, a alguém, introduzir nele a or-
dem, não o conseguiria senão criando um rei. A razão é que, onde exis-
tem tantas causas de corrupção, a lei lhes opõe um dique demasiado 
frágil: é indispensável uma força mais irresistível, que reside somente 
na mão de um rei; é seu poder absoluto e ilimitado que pode por um 
freio à ambição excessiva e à corrupção dos homens poderosos (MA-
QUIAVEL, 1970, p. 244). 
O que percebemos é que Maquiavel conhecia muito bem aqueles que eram 
inimigos das instituições civis e que essas eram indispensáveis para o estabele-
cimento da ordem, da paz, da liberdade bem como para proporcionar segurança 
e prosperidade a seus cidadãos. Siena, Luca e Florença eram as cidades que se 
encaixavam nesse contexto de devastação política provocada por esses gentis-
-homens. A Florença de Maquiavel parecia estar tomada pela falta de liberdade e 
de instituições políticas que garantissem sua segurança, sua liberdade e sua pros-
peridade, ao contrário de outras cidades da região que conseguiram manter tais 
instituições. Qual seria, então, a principal diferença entre essas três repúblicas 
citadas anteriormente e as demais tratadas por Maquiavel? Na visão do autor, 
Isso provém de que nesse país não existe nenhum proprietário de cas-
telo, nenhum gentil-homem, ou, pelo menos, muito poucos, e que aí 
reina uma tal  igualdade, que um homem sábio, e instruído quanto à 
constituição das antigas repúblicas, nele introduziria facilmente uma 
existência legal (MAQUIAVEL, 1970, p. 245). 
Pelo que podemos perceber nessas palavras, era o temor o que esses gentis-ho-
mens despertavam em Maquiavel (1970), ou seja, os senhores feudais, que foram 
personagens tão importantes da política feudal, eram para ele uma barreira que 
deveria ser transposta. Igualmente, havia a necessidade do surgimento de um 
homem que possuísse vigor para que colocasse fim aos desmandos dessa classe. 
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O RENASCIMENTO CULTURAL 
Pois bem, até agora, neste livro, tratamos de mostrar a você um pouco do pen-
samento político que envolve o surgimento da modernidade e destacar como 
ele influenciou a nova visão de mundo que fora sendo criada, deixando cada vez 
mais para trás aquela forma de pensar típica da Idade Média. Entretanto, nosso 
trabalho não seria completo se não mostrássemos, ao(à) aluno(a), o fator cru-
cial de transformação na forma de conceber o mundo deste período, que foi o 
Renascimento. Sendo assim, conheceremos, agora, o que foi este período bem 
como o que ele realmente representou para a história da humanidade. 
Podemos considerar o Renascimento Cultural como o período de transi-
ção dos valores medievais aos valores modernos. Entretanto, o que foram esses 
valores que emergiram nesse contexto? Na verdade, o Renascimento foi o resul-
tado de um retorno aos ensinamentos da Antiguidade Clássica, em especial, de 
Grécia e Roma. Sendo assim, antes de tudo, qual é o significado do Renascimento? 
O termo Renascimento é um conceito histórico, isto é, refere-se e dá 
significado ao conjunto de transformações ocorridas na Europa entre 
os séculos XIII e XV. Cronologicamente, pode-se considerar como iní-
cio do movimento renascentista as obras de Giotto di Bondone (1266-
1337). No final do século XIII e início do século XIV, esse  pintor e 
arquiteto italiano produziu, por exemplo, O Beijo de Judas, A Lamen-
tação e Julgamento Final, nas quais se manifestou um princípio estético 
novo, diferente do da Idade Média (MANOEL, 2011, p. 73). 
Sendo assim, prezado(a) aluno(a), pelo que fora destacado acima, o Renascimento 
foi uma mudança estética no que diz respeito às artes? De certa forma sim, mas 
essa mudança, primeiramente, foi entendida como uma nova forma de conce-
ber o homem e, consequentemente, o mundo. 
A forma de conceber o mundo do homem medieval era enraizada no teocen-
trismo. Esta expressão significa que era Deus o centro do universo (teo = Deus). 
Entretanto o homem renascentista, movido por um novo ideal, começou a modi-
ficar sua forma de interpretar as coisas, se colocando como centro do universo, o 
que ficou conhecido como antropocentrismo. Mas, então, o homem teria deixado 
Deus de lado? Não, o que mudou foi a forma de conceber o mundo. A religião 
influenciou diretamente, todavia, não ficou em segundo plano. 
A IMPORTÂNCIA DE NICOLAU MAQUIAVEL À COMPREENSÃO DAS TRANSFORMAÇÕES
Reprodução proibida. A
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II
Imaginemos um exemplo bem didático. Segundo a Bíblia, o homem foi criado 
à imagem e semelhança de Deus. Sendo esse, uma imagem do criador e, tendo 
Deus, feito o homem o único digno de sua aparência, isso seria uma prova mais 
do que fiel de que Deus o queria muito bem. Deus concebeu, ao homem, capaci-
dade de pensar, raciocinar, falar, se expressar, trabalhar, cantar e, principalmente, 
ter prazer. Dessa forma, tendo Deus agraciado o homem com todas essas dádi-
vas, seria um insulto a Deus que o homem não usasse todas essas virtudes. Em 
resumo, se Deus colocou o homem, aqui, com todas essas qualidades, era para 
que o homem pudesse usufruir de tudo isso. E foi o despertar dessa consciência 
que fez toda a diferença nesse contexto. Segundo Manoel (2011, p. 79): 
O Humanismo foi uma violenta reação ao modo de pensar, de educar, 
de se exprimir, e, podemos mesmo afirmar, foi uma reação à maneira 
de viver da Idade Média. As novas ideias renascentistas não se limita-
ram a recuperar os pensadores da Antiguidade, mas chegaram a esta-
belecer uma espécie de tribunal epistemológico. Se, antes, o que valia 
era o saber referente a Deus e à salvação da alma, as novas realidades 
concretas e intelectuais do Renascimento, e da Era Moderna em geral, 
estabeleceram que o homem era o centro de preocupações do próprio 
homem. Abriram, assim, espaço para pesquisas e especulações livres 
do controle do tribunal católico. Abandonando  as disputas retóricas 
sobre gramática e lógica, dever-se-ia enveredar pelos caminhos da mo-
derna ciência. Ocorreu, portanto, uma ruptura com a epistemologia 
medieval de bases profundamente teológicas, na qual as ciências físicas 
e biológicas, como as denominamos atualmente, tinham pouco, ou ne-
nhum, espaço.Como você pôde observar, o homem moderno, com o advento do 
Renascimento, se apresenta à nova sociedade que emergia na Europa. Uma 
nova sociedade que se tornava cada vez mais urbana e comercial, e cada vez 
menos ruralizada. Todas essas transformações na forma do homem conce-
ber o mundo se espalharam por diversas áreas, não se restringindo apenas 
ao campo da política e da filosofia. O humanismo, citado acima, era uma 
das vertentes do Renascimento. 
Mas o Renascimento foi um evento que, desde o seu início, já tomou dimen-
sões continentais na Velha Europa? De fato, não. O Renascimento teve como 
berço as cidades de Gênova, Veneza e, principalmente, Florença. Essas cidades 
italianas, por terem se desenvolvido comercialmente, viram florescer esta nova 
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O Renascimento Cultural 
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mentalidade. Mas dos séculos XIV a XVI, essa mentalidade renascentista se espa-
lhou por todo o Continente. 
A Renascença espalhou-se lentamente pela Europa, deslocando-se de 
sua base original italiana para a França, Inglaterra, Espanha e Alema-
nha. Por volta de 1600, a primeira onda deu origem ao florescimen-
to da poesia e da prosa em vernáculo. Os  herois  da primeira onda 
foram escritores como Clement Marot (1496?-1544) e Fraçois Rabelais 
(1483?-1533), em francês, e Geoffrey Chaucer (1342/3-1400) em inglês. 
Esta primeira onda foi seguida, tal como acontecera na Itália, por uma 
profusão de obras em latim clássico (DOREN, 2012, p. 171). 
Sendo assim, prezado(a) aluno(a), você, como futuro(a) professor(a) de História, 
precisa estar atento(a) à maneira como este tema é retratado pelos livros didáti-
cos. Como nosso objetivo principal aqui é prepará-lo(a) ao mercado de trabalho 
docente, nada é mais importante do que apresentar a você como verá tal tema 
na prática docente. Vejamos como o Renascimento é classificado: 
Muitos indivíduos perceberam claramente essas transformações e de-
fenderam a ideia de que eles viviam um período de renovação em todos 
os setores da vida humana, que rompia com o mundo medieval. Esse 
período de mudanças na vida política, econômica, artística e científica 
ficou conhecido como Renascimento (BRAICK, 2011, p. 118). 
Entretanto, o tema Renascimento sempre é tratado dando-se ênfase em uma 
de suas mais importantes facetas, que é o humanismo. Essa concepção é assim 
definida: 
O homem medieval acreditava que todos os acontecimentos cotidia-
nos eram determinados por Deus. Alguns artistas e intelectuais, insa-
tisfeitos com essa visão de mundo que desprezava a vida terrena e a 
capacidade criativa do ser humano, no século XIV, na Península Itálica, 
deram início a um movimento conhecido como humanismo (BRAI-
CK, 2011, p. 119). 
Nessas breves passagens, você já percebeu que a principal ênfase dada no 
Renascimento é em virtude da sua relação com as transformações econômicas 
e sociais ocorridas na transição da Baixa Idade Média à modernidade. Entretanto 
podemos sintetizar que este evento foi um conjunto de transformações dos quais 
se percebe os resultados até hoje. Um dos pontos importantes é a relação entre 
economia e Renascimento. 
A IMPORTÂNCIA DE NICOLAU MAQUIAVEL À COMPREENSÃO DAS TRANSFORMAÇÕES
Reprodução proibida. A
rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
II
A burguesia era uma classe social em ascensão na Europa. Em razão do 
desenvolvimento comercial, muitos burgueses, em busca de reconhecimento, 
patrocinavam artistas para que esses fizessem obras que pudessem imortalizá-los. 
Os burgueses mandavam construir Igrejas, Palácios, pinturas, esculturas, tudo 
objetivando deixar o seu nome à posteridade. Vale lembrar que esta identifica-
ção era uma forma de individualismo que também foi uma marca desta época. 
É importante destacar que as transformações não ficaram apenas na arte, polí-
tica e filosofia. As inovações técnicas e científicas também foram fundamentais. 
Dentre elas, destacamos a teoria heliocêntrica de Nicolau Copérnico (1473-
1543). Nesta teoria, Copérnico ousou discordar do geocentrismo de Ptolomeu, 
em que, para ele, a Terra era o centro do Universo, para afirmar que era a Terra 
que girava em torno do Sol. 
Para a divulgação destas novas ideias, outra invenção foi de suma importân-
cia, que foi a Prensa de Gutenberg. A criação dos tipos móveis permitiu que os 
livros pudessem ser impressos com maior facilidade. Antes, os livros eram pro-
dutos caríssimos, pois dependiam da ação dos monges copistas para que fossem 
reproduzidos. Com a invenção de Gutenberg, diversas cópias poderiam ser fei-
tas, o que facilitou a sua popularização. 
Além desses dois personagens, também temos Leonardo da Vinci, Miguelângelo, 
Rafael Sânzio, Giotto, Petrarca, dentre outros importantes nomes que contribuí-
ram para imortalizar este capítulo da história Ocidental. 
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Prezado(a) aluno(a), é importante destacar, a título de considerações finais desta 
unidade, que o nosso objetivo principal foi mostrar a você a importância que 
Nicolau Maquiavel teve no que diz respeito a registrar um momento histórico 
tão importante que é o da transição dos valores medievais para os valores con-
siderados modernos. Suas observações são gerais acerca da situação política, 
econômica e social. 
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Considerações Finais 
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Precisamos ter claro em nossa leitura de que o mesmo buscou responder 
aos questionamentos do seu tempo. Ele não buscou fazer previsões futuras, mas, 
sim, demonstrar, por meio do estudo da História, os caminhos que deveriam 
ser trilhados pelos homens que estavam ligados à política. Isso deixou à mostra 
o caráter historicizante de Maquiavel, faceta esta que procuramos ressaltar ao 
longo da unidade. Reiteramos que analisar a obra deste autor é perceber como 
as mudanças de cunho políticas estavam sendo sentidas.
Maquiavel também representou uma quebra no paradigma analítico da polí-
tica, pois norteou toda sua análise em acontecimentos reais e soube separar o 
mito da realidade. Como ele bem destacou, ele fez uma análise real, não fictícia. 
Escreveu com o intuito de ser verdadeiro e não adulador. 
É importante que o aluno de História tenha clareza dos temas abordados 
por Maquiavel, principalmente neste choque de gerações que ele menciona, 
pois, ao longo da Idade Moderna, perceberemos que, conflitos desta natureza, 
serão bastante comuns. Assistiremos isso primeiramente na Inglaterra, França 
e na América, que serão o prenúncio de uma nova era em termos institucionais. 
Além disso, precisamos ter em mente que Nicolau Maquiavel foi fruto de 
todas as transformações ocorridas no contexto do Renascimento. Entendê-lo 
tendo por base esta perspectiva, nos permite compreender ainda mais o perí-
odo em questão.
O HUMANISMO E A LINGUAGEM POLÍTICA DO RENASCIMENTO: O USO 
DAS PRATICHE COMO FONTE PARA O ESTUDO DA FORMAÇÃO DO 
PENSAMENTO POLÍTICO MODERNO 
Newton Bignotto 
Faz parte do ofício dos historiadores o 
recurso a fontes documentais de toda 
natureza. Não ocorreria a um estudioso 
sério de um determinado período histó-
rico recusar, por exemplo, a importância de 
documentos conservados em arquivos, ou 
mesmo de cartas pessoais, que se referem 
a seu tema. Essa afirmação, banal para os 
historiadores, não encontra acolhida tão 
favorável, quando se trata de estudos filo-
sóficos, mesmo entre os historiadores da 
filosofia. De uma maneira geral, ao se refe-
rir às fontes primárias de sua pesquisa, um 
filósofo profissional está apontando parao conjunto de textos que o guiam e que 
devem ser secundados pelo recurso às fon-
tes secundárias, o que, na maior parte das 
vezes, diz respeito aos muitos comentários 
existentes sobre um determinado autor ou 
tema. O recurso a exemplos, ou mesmo a 
fatos históricos, para auxiliar na demons-
tração de uma hipótese é algo frequente, 
mas raramente escapa do uso instrumental 
reservado às ferramentas auxiliares da argu-
mentação. Esse é o caso, por exemplo, de 
lógicos, que inventam situações para facili-
tar a compreensão do problema que estão 
tratando, sem, com isso, alterar o percurso 
de suas demonstrações. Esse procedimento 
influencia, nos dias de hoje, várias correntes 
filosóficas e mesmo outros saberes, como 
é o caso da economia, que fez da teoria 
dos jogos um instrumento importante de 
suas investigações. No tocante à filosofia 
política, o recurso a exemplos históricos 
é frequente, mas nem sempre fica claro o 
estatuto epistemológico dos fatos lembra-
dos pelos autores. Com frequência, grandes 
fatos estão na raiz dos estudos sobre temas 
como o do contrato social, ou mesmo sobre 
a natureza dos regimes totalitários, sem que 
seja dedicada muita atenção ao esclareci-
mento da importância epistemológica do 
recurso à história. 
Não temos a pretensão de tratar, de forma 
exaustiva, da questão da relação entre a 
filosofia política e a história. Tal questão é 
por demais complexa para o espaço de um 
texto, e nem mesmo sabemos se podemos 
formulá-la de forma tão ampla sem incorrer 
em falsas generalizações. Nossas preten-
sões, bem mais modestas, referem-se à 
investigação da utilidade do uso de um 
conjunto de documentos conservados nos 
arquivos de Florença para a compreensão 
da formação e do desenvolvimento do pen-
samento político renascentista. Estamos 
nos referindo aos protocolos das Consulte 
e Pratiche, que eram as reuniões organiza-
das em Florença para auxiliar os principais 
órgãos de governo no período que vai de 
1494 a 1512. Nesses encontros, cidadãos 
notáveis, ou representantes de grupos 
políticos ou profissionais, eram convoca-
dos para opinar sobre questões urgentes 
e, com isso, participar do processo de deci-
são, que muitas vezes lidava com questões 
75 
concernentes à própria sobrevivência da 
cidade. Essas fontes são fundamentais para 
a compreensão do funcionamento das ins-
tituições florentinas no final do século XV, 
mas elas contêm mais do que um reper-
tório de falas que precediam a tomada de 
decisões. Nelas se refletia um século de cul-
tura humanista e se forjava a nova reflexão 
política. Para formular, no entanto, correta-
mente uma hipótese de trabalho, é preciso 
clarear alguns pontos. 
Nossa investigação parte da ideia de que 
o desenvolvimento do humanismo criou 
uma linguagem capaz de influenciar não 
apenas os estudiosos da política, mas a pró-
pria vida política. Num primeiro momento, 
vamos tomar essa afirmação como plausí-
vel e tentar, de forma sumária, identificar 
alguns elementos dessa linguagem, lem-
brando alguns tempos fortes da reflexão 
de humanistas como Leonardo Bruni. Nossa 
segunda tarefa consiste em mostrar que, 
de fato, a língua dos humanistas passou 
a ser falada não apenas pelos que se inte-
ressavam pelos studiahumanitatis, mas 
também pelos participantes mais ativos 
da cena pública, em particular no período 
entre 1494 e 1512. Nesse período, a parti-
cipação nos negócios públicos aumentou 
de forma expressiva, como resultado da 
introdução de novas instituições  sob a 
instigação de Savonarola. Num terceiro 
momento, vamos nos perguntar pelo 
uso filosófico que pode ser dado aos tex-
tos conservados nos arquivos florentinos, 
tendo claro que nosso objeto de fundo é 
o aparecimento de uma reflexão política 
inovadora durante o Renascimento, e não 
a história italiana em sua generalidade. De 
forma mais precisa, interessa-nos estudar 
a relação entre linguagem política e filo-
sofia no contexto aludido. Ao fim desse 
percurso, acreditamos que teremos cha-
mado a atenção para alguns temas que 
podem contribuir para uma melhor com-
preensão da questão mais ampla da relação 
entre filosofia política e história. 
Fonte: BIGNOTTO, Newton. O humanismo e a linguagem política do renascimento: o uso das Pra-
tiche como fonte para o estudo da formação do pensamento político moderno. Cad. CRH [online]. 
2012, vol.25, n.spe2, p. 119-131. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_art-
text&pid=S0103-49792012000500009&lang=pt>. Acesso em: 16 mar. 2015. 
1. Maquiavel foi um autor renascentista. Com base no que fora estudado sobre 
ele, destaque em quais pontos podemos observar essa influência no autor.
2. Faça uma breve pesquisa pela internet pelos seguintes termos: “maquiavélico” 
e “os fins justificam os meios”. Feito isso, descreva em linhas gerais como tais 
termos estão atrelados à obra de Maquiavel. 
3. Nicolau Maquiavel é conhecido pela história por inaugurar o realismo na políti-
ca. Acerca dessa afirmação, ASSINALE A OPÇÃO CORRETA: 
a. Uma das principais características de Maquiavel foi a de analisar a política 
com bases nos eventos e na experiência histórica, deixando as idealizações 
de lado. 
b. Maquiavel foi um dos grandes defensores de um poder político interligado 
com o poder religioso. 
c. Esse autor foi um dos responsáveis por resgatar a importância do poder 
eclesiástico no contexto do renascimento europeu. 
d. Maquiavel foi um autor que manteve a tradição política de se valer dos fatos 
idealizados em detrimento dos fatos reais. 
e. Nicolau Maquiavel era um autor canonista que, ao lado de Egídio Romano 
e João Quidort, defendia a autonomia do poder real frente ao poder papal. 
4. O Renascimento foi um período histórico em que o resgate dos valores da ci-
vilização greco-romana estivese em evidência. Analisando a obra de Nicolau 
Maquiavel sob esse prisma:
a. Ele foi um autor que submetia suas análises políticas às suas conveniências 
religiosas. 
b. Esse autor defendia que os políticos deveriam se espelhar nos escritos clás-
sicos e buscar, por meio deste, inspiração para suas empreitadas. 
c. O teocentrismo, na obra de Maquiavel, é evidente, haja vista seu posiciona-
mento com o clero católico. 
d. O Renascimento cultural teve, em Nicolau Maquiavel, um dos seus grandes 
opositores. 
e. Maquiavel é visto como o pai da ciência política, pois defendia um governo 
benevolente e alinhado com as concepções teocêntricas.
Material Complementar
MATERIAL COMPLEMENTAR
História Moderna
Paulo Miceli
Editora: Contexto 
Sinopse: O livro faz uma abordagem bastante diversifi cada sobre a 
Idade Moderna. Ele traz temas como o Renascimento, a emergência 
das monarquias, o humanismo, a cultura, o desenvolvimento do 
comércio, enfi m, tudo que o leitor precisa saber para compreender 
de forma mais ampla as principais transformações ocorridas neste 
período histórico. Este livro encontra-se disponível em nossa biblioteca virtual.
Confi ra algumas das principais mentes do Renascimento: <http://www.historiadigital.org/
curiosidades/top-10-mentes-mais-infl uentes-do-renascimento-cultural/>.
Os Bórgias
Gênero: Seriado/Drama 
Criador: Neil Jordan 
Elenco: Jeremy Irons, François Arnaud, Holliday Grainger, 
Joanne Whalley e David Oakes. 
Ano da primeira temporada: 2011 
Sinopse: Esse seriado conta a história de ascensão da família Bórgia ao 
poder na Itália, por meio da eleição do patriarca, Rodrigo Bórgia, que 
foi eleito papa pelo conclave de 1492, assumindo seu pontifi cado com 
o nome de Alexandre VI. Esta família é conhecida por ter agido sem 
qualquer tipo de escrúpulos para se manter no poder. César Bórgia, 
inclusive, foi uma das inspirações de Maquiavel em muito de seus escritos. 
O seriado é ambientalizado na Itália Renascentista.
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Professor Me. KleberEduardo Men
A REFORMA PROTESTANTE 
E SUA INFLUÊNCIA SOBRE 
A POLÍTICA, SOCIEDADE 
E ECONOMIA
Objetivos de Aprendizagem
 ■ Apresentar o contexto histórico que possibilitou o surgimento de 
uma reforma religiosa envolvendo a Igreja Cristã. 
 ■ Destacar a importância de Martinho Lutero bem como seus ideais na 
formulação de uma nova doutrina religiosa. 
 ■ Refletir sobre os fatores políticos e econômicos que envolveram a 
Reforma Protestante. 
 ■ Estudar a importância da doutrina calvinista para a formação da 
mentalidade burguesa. 
 ■ Debater acerca da importância da ética protestante para a 
consolidação do capitalismo moderno.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
 ■ O contexto histórico da Reforma religiosa
 ■ Martinho Lutero e a reforma na Alemanha
 ■ A Reforma de João Calvino
 ■ Da contribuição do protestantismo ao desenvolvimento do 
capitalismo
INTRODUÇÃO
Prezado(a) aluno(a), a história, como você já pôde ter percebido em outras lei-
turas, é um emaranhado de rupturas e continuidades. Dificilmente se vê algo 
iniciado do zero. Toda etapa histórica é isso, pois percebemos que muitas insti-
tuições são substituídas por outras que melhor atendem aos anseios da sociedade 
naquele contexto. Na Idade Moderna, isso não foi diferente. 
Um dos grandes eventos que podemos destacar como balizador do perí-
odo em questão foi a Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero e 
que, ao longo do século XVI, assistiu a sua propagação por toda Europa. O 
rompimento de Lutero com a Igreja Romana foi mais do que uma disputa por 
questões teológicas, uma vez que ele teve como apoiadores setores da nobreza 
e da burguesia mercantil, que ganhava cada vez mais força. Assim também se 
deu com João Calvino.
O ambiente religioso da Idade Média europeia é marcado pelo pleno domí-
nio da Igreja Católica Apostólica Romana. Qualquer desafio aos dogmas dessa 
instituição poderia ser condenado à morte, por meio do seu principal instru-
mento de coação, o Tribunal do Santo Ofício, criado justamente com o intuito 
de punir aqueles que discordavam dos mandamentos da Santa Sé. Entretanto, 
esses doutrinadores não se intimidaram diante de tanta opressão e desafiaram o 
clero, propondo uma nova forma de pensar o cristianismo, quebrando de uma 
vez o monopólio da Igreja Romana.
Assim, nosso objetivo nesta unidade será o de apresentar, ao(à) estimado(a) 
aluno(a), as principais transformações provocadas por essa reforma. Procuraremos 
mostrar o que estava por trás desses interesses, o contexto no qual essas refor-
mas ocorreram e, por último, destacar a contribuição essencial que essa nova 
mentalidade religiosa, oriunda dessas transformações, possibilitou ao desen-
volvimento do capitalismo, proporcionando o fortalecimento e a consolidação 
definitiva desse sistema econômico. 
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Introdução
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III
O CONTEXTO HISTÓRICO DA REFORMA RELIGIOSA 
Conforme você pôde perceber nas unidades anteriores, diferente de qualquer 
época anterior, a Idade Moderna representou um choque de mentalidade 
muito grande. A questão da soberania envolvendo os Estados nacionais emer-
gentes, a disputa do poder entre a Igreja e o rei, os privilégios feudais que 
iam de encontro à mentalidade burgo-capitalista que se fortalecia gradativa-
mente, tudo isso serviu de pano de fundo para que inúmeras transformações 
ocorressem. 
O renascimento fez debutar uma nova concepção de homem. Mais ale-
gre, mais feliz; esse homem se colocava como sendo a mais perfeita criatura 
de Deus, conforme se observava nas Sagradas Escrituras. Dessa forma, a vida 
deixava de ser contemplativa e se tornava mais ativa. Deus não deixou de ser 
importante, mas, no que diz respeito à vida terrena, o livre arbítrio passou a 
ser entendido de forma mais ampla, dando maior liberdade às atitudes dos 
homens. 
Para termos uma visão mais ampla dessas transformações, torna-se pru-
dente destacar o que leciona Manoel (2011, p. 36): 
O mundo moderno, conforme o entendimento de muitos historiado-
res, começou a se estruturar nos séculos XV e XVI. Seus fundamentos 
são três: primeiro, a definição da propriedade individual da terra e a 
eliminação da propriedade comunal, onde houvesse; segundo, a urba-
nização relacionada inicialmente ao mercado e, futuramente, também 
à industrialização; terceiro, a formação dos Estados Nacionais, com a 
centralização do poder na Coroa e com a eliminação do poder local da 
nobreza. 
Os pontos destacados acima pelo autor são imprescindíveis para que pos-
samos visualizar o tamanho que essas transformações representaram no 
contexto em que ocorreram. Alterar a relação de propriedade, tornando-a 
individual, mudaria uma estrutura praticamente milenar. Consoante a isso, 
a servidão deixou de ser a principal forma de trabalho e fora substituída pelo 
trabalho assalariado. Só isso já nos fornece uma boa noção de como as coi-
sas andavam por lá! 
Basílica de São Pedro no Vaticano, sede da Igreja Católica Apostólica Romana.
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Diante disso, havia uma instituição que sofreu muito com essas transforma-
ções: a Igreja Cristã, com sede em Roma e liderada pelo Papa. Sua intransigência, 
bem como sua negativa em ceder em alguns pontos importantes, fez com que 
algumas de suas próprias lideranças se irrompessem contra ela, causando pro-
fundas mudanças. 
O aluno precisa ter em 
mente que, quando falamos 
em Igreja Católica Romana, 
estamos diante da estru-
tura melhor organizada 
da Europa. O papa tinha 
poderes de imperador. Os 
cardeais eram vistos como 
príncipes. Em suma, a Igreja 
se comportava tal como uma 
monarquia, inclusive, os seus 
cerimoniais eram bastante 
pomposos e cheios de pro-
tocolos que deveriam ser 
cumpridos rigidamente. 
A transição do feudalismo para o capitalismo não se fez de maneira tranqui-
la, pois foi, antes de qualquer coisa, uma ruptura das estruturas feudais e o 
surgimento das estruturas que se consolidariam na Idade Moderna. A crise 
na produção agrícola, o fim das Cruzadas, a reabertura do Mediterrâneo ao 
comércio europeu, a fome, a Peste Negra, a Guerra dos Cem Anos envolven-
do França e Inglaterra, tudo isso serve para ilustrar um pouco do que ocorria 
na Baixa Idade Média. 
Fonte: TRANSIÇÃO feudo-capitalista. Historianet. Disponível em: <http://
www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=9>. Acesso em: 26 
jan. 2015. 
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III
No que diz respeito à religião, essa instituição implantou uma forma de pen-
sar o cristianismo que não permitia que nada fosse concebido sem o endosso 
dela. Criou-se, na Europa, durante a Idade Média, uma “civilização católica” e 
que, segundo Manoel (2011, p. 37), alicerçava-se nos seguintes princípios: 
1. O poder religioso, isto é, o poder católico romano, materializado no 
Papa e na Cúria Romana, é, e sempre será, superior ao poder civil dos 
governos dos Estados. 
2. O único modo válido de pensar é o modo católico romano, instituído 
por sua teologia e sua filosofia, não se admitindo a liberdade de pen-
samento. 
3. O homemsomente poderá chegar a Deus por meio do clero católico, 
e somente o clero católico tem o poder de remir os pecados por meio 
da confissão e da absolvição. 
4. O clero católico é o único interprete fiel da Bíblia, porque o homem 
comum, não entenderia seus mistérios, de modo que os homens co-
muns se fossem autorizados a ler a Bíblia, por certo deformariam suas 
palavras. 
5. A melhor forma de organização social é a estamental, com funda-
mentos agrários, governada por um poder monárquico. 
6. O mercado, por ser uma atividade de abastecimento e de suprimento 
das necessidades, não deveria visar o lucro. 
7. Os juros pelo empréstimo do dinheiro ou como mora pelo atraso nos 
pagamentos são manifestações de ganância, o que, portanto, é pecado. 
8. Os trabalhadores não são mercadorias geradoras de excedentes, mas 
pessoas que devem ser respeitadas em sua qualidade de pessoas.
Gostaria que você prestasse muita atenção nos pontos destacados acima. Somente, 
por si só, já seriam suficientes para compreender a incompatibilidade dos valo-
res defendidos pela Igreja Católica com os novos valores que emergiam naquele 
contexto. Dessa forma, vou comentar de forma breve cada um dos pontos apre-
sentados pelo autor supracitado. 
Com relação à superioridade do poder do Papa sobre os demais, já discuti-
mos, suficientemente, na primeira unidade deste livro. Sendo assim, prolongá-la 
seria desnecessário. Já com relação ao segundo ponto, ficou explícito que a 
Igreja Católica era contrária à liberdade de pensamento. Qualquer forma de 
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conceber o mundo que não fosse endossada 
pela Igreja seria vista como uma heresia. 
No que diz respeito ao terceiro ponto, a 
Igreja Católica se colocou como a única inter-
mediária entre o mundo sagrado e o mundo 
dos homens. Apenas por meio desta era 
possível um homem ter contato com Deus. 
Embora, segundo a teologia, Deus estivesse 
em todos os lugares, você somente poderia 
chegar a ele por intermédio do clero. 
Já no quarto ponto, fi cou evidente que 
o monopólio de interpretação da Bíblia 
também era do clero. Não era permitida às 
pessoas comuns a leitura da Bíblia. Na ver-
dade, traduzi-la para o vernáculo era proibido, 
sendo disponível apenas em sua versão em 
latim. Isso difi cultava ainda mais a leitura 
e interpretação desse livro pelas pessoas 
comuns, inclusive de alguns padres do baixo 
clero. 
O quinto ponto deixa clara a opção da 
Igreja em defender aquele modelo de socie-
dade que já estava em franca decadência. O 
modelo estamental, no qual a vida da pessoa 
era defi nida pelo nascimento, era pratica-
mente uma perpetuação da miséria, haja vista 
que a grande maioria das pessoas trabalha-
vam como servos. Era uma sociedade em que 
apenas os “bem nascidos” possuíam direi-
tos. Aqueles que eram de família humilde 
deveriam se conformar com sua respectiva 
situação, pois aquilo era a vontade de Deus. 
Além disso, seria impossível a Igreja Católica 
Papa Francisco, atual líder supremo da Igreja Católica 
Apostólica Romana.
Bíblia Sagrada. Fonte de toda doutrina Cristã.
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III
pensar em uma forma de governo em que as pessoas fossem as responsáveis por 
escolher os seus governantes. Assim, a hereditariedade do poder e as divisões 
econômicas e sociais oriundas do modelo estamental se mantiveram. 
Os pontos seis, sete e oito são aqueles que mais estariam sendo incompatí-
veis com o novo modelo de sociedade moderna. A Igreja Católica, como deve 
ter percebido, condenava o lucro, o empréstimo de dinheiro a juros, considerado 
inclusive como pecado de usura, além de condenar a exploração da mão de obra 
produtiva. Para a Igreja, o trabalhador deveria ser responsável apenas por pro-
duzir o necessário para seu sustento e para o sustento de seu senhor. 
Para finalizar essa explanação sobre o contexto histórico, devemos lembrar 
que os reformadores Martinho Lutero e João Calvino não quiseram desenvolver 
uma nova religião, mas apenas fazer uma reestruturação da forma de pensar da 
Igreja, para que ela se adaptasse às novas demandas colocadas pela sociedade. 
Com a negativa, surgem novas religiões, as quais estudaremos agora. Entretanto, 
antes de iniciarmos nossa discussão acerca dessas religiões, é importante abrir 
uma lacuna para que possamos mostrar ao(à) aluno(a) um pouco da religião 
Anglicana, que nasceu na Inglaterra no século XVI e também está ligada a essas 
questões colocadas aqui. 
A Reforma Anglicana ocorreu na Inglaterra e teve como um dos motivos 
principais a negativa do papa em anular o casamento do Rei Henrique VIII. O 
pano de fundo para essa reforma se dá pelo fato de que Henrique VIII, casado 
com Catarina de Aragão, desejava se divorciar, já que a sua mulher não havia lhe 
Entende-se por estamental um modelo de sociedade no qual o nascimento 
é o fator que define a posição em que o indivíduo vai se manter na pirâmide 
social. No feudalismo, se o sujeito nascesse um nobre, morreria nobre. O 
mesmo ocorria se ele nascesse camponês. As possibilidades de ascensão so-
cial eram raríssimas, praticamente inexistentes. Havia três estamentos: no-
breza, clero e os servos e camponeses. Cada qual assumindo suas posições 
dentro dessa sociedade estratificada.
Fonte: O autor.
Rei Henrique VIII (1491-1547), reformista inglês que 
fundou a Igreja Anglicana.
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dado um filho homem, para que pudesse ser herdeiro do trono. De fato, preza-
do(a) aluno(a), naquela época, não se tinha o conhecimento biológico de que 
o responsável pelo sexo do bebê era o homem e não a mulher. Dessa forma, o 
rei inglês acreditava que o simples fato de trocar de esposa resolveria aquilo que 
hoje sabemos ser problema seu. 
Além disso, o rei possuía uma amante, Ana Bolena, e a anulação do seu casa-
mento abriria a possibilidade de que ele viesse a casar com ela. O papa na época 
era Clemente VII e, tendo se recusado a anular esse matrimônio, viu surgir diante 
de seus olhos mais uma religião, a anglicana. Entretanto, por trás desse fato fami-
liar, há outros pontos que devemos levar em conta, já que a Igreja Católica, além 
do poder religioso, possuía dentro do território inglês muitas propriedades. 
Em 1531, ano em que Henrique VIII oficialmente rompeu com a Igreja 
romana, este se autoproclamou chefe da Igreja Anglicana. No bojo desse aconte-
cimento, Henrique VIII pôde colocar em prática seu plano de expropriar a Igreja 
de suas propriedades em território inglês. Dessa forma, ele fez pressão para que 
o Parlamento inglês abolisse as taxas pagas 
pelo Clero e que desvinculasse a Inglaterra 
da autoridade romana. Além disso, confis-
cou boa parte das terras e propriedades da 
Igreja Católica Romana.  
A Reforma foi consolidada com a for-
malização do Ato de Supremacia, assinado 
pelo Rei em 1534. Esse ato teve como princi-
pal consequência a transformação do rei na 
autoridade máxima da religião na Inglaterra, 
que contou com o apoio de diversos setores 
da sociedade, já que a Igreja Católica repre-
sentava uma barreira para o desenvolvimento 
dos negócios mercantis. 
Prezado(a) aluno(a), é importante 
ressaltar que o rei inglês, Henrique VIII, fun-
dador do anglicanismo, não foi nenhum 
teólogo que desenvolveu uma nova formaA REFORMA PROTESTANTE E SUA INFLUÊNCIA SOBRE A POLÍTICA, SOCIEDADE E ECONOMIA
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de pensar a religião ou uma nova concepção do cristianismo. Essa faceta da 
reforma apenas se restringiu ao rompimento político com Roma e teve, no divór-
cio do rei com a sua esposa Catarina de Aragão, a gota d’água necessária para 
que a Inglaterra não continuasse subordinada aos interesses externos, visto que, 
com a consolidação dos Estados Nacionais, obedecer ao Papa, considerado um 
líder estrangeiro, feria o princípio da soberania. 
MARTINHO LUTERO E A REFORMA NA ALEMANHA 
Martinho Lutero (1483-1546) pode ser considerado a primeira pessoa que 
teve êxito em sua luta contra a maior instituição que exercia o monopólio 
do cristianismo no Europa Ocidental - a Igreja Católica Apostólica Romana. 
Nascido na região central da Alemanha, em Eisleben, na Turíngia, foi criado 
em Mansfeld. Ao completar 14 anos e depois de ter terminado a escola elementar, 
foi para Magdeburgo para cursar o colégio e a faculdade. Depois de alguns pro-
blemas de saúde, conseguiu terminar o ensino médio e, na Faculdade de Erfurt, 
recebeu o grau de Bacharel (1502) e o de Mestre de Artes, em 1505. Então, resol-
veu ingressar no curso de Direito (MANOEL, 2011). 
Como promessa à Santa Ana – em razão de ter saído ileso de uma grave 
possibilidade de morte – Lutero decide se tornar monge, sendo ordenado pela 
É necessário ter em mente que a Alemanha somente se tornou um reino 
unificado e independente no século XIX. A região onde se encontra esse 
país passou por diversas fases: Sacro Império Romano Germânico, Confede-
ração do Reno (no período Napoleônico) e Confederação Germânica após a 
queda de Napoleão. 
Fonte: O autor.
Estátua de Martinho Lutero, em Wittenberg, Alemanha.
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ordem dos Agostinianos, em 1507. Embora, prezado(a) aluno(a), um historiador 
nunca deva acreditar em determinismos, alguns fatos da vida de certas persona-
gens nos fazem pensar muito sobre o papel desses homens. 
Havia inúmeras questões teológicas que inquietavam Lutero, principalmente aque-
las que versavam sobre a salvação do homem. O que seria necessário para o homem 
alcançar a sua salvação? Indagava-se Lutero. Segundo a Igreja Católica Romana, a 
salvação estaria em suas próprias obras. Entretanto, Lutero (1998, p. 37) discordava: 
A fé não somente faz que a alma se torne livre, cheia de graça e bem-
-aventurada, semelhante à Palavra divina, mas também uma alma com 
Cristo, como uma noiva com seu noivo. Desse casamento resulta, como 
diz São Paulo, que Cristo e a alma formem um só corpo tornando bens 
comuns a ambos a felicidade e o infortúnio e tudo o mais; que o Cristo 
tem, pertence à alma crente, e o que a alma possui todos os bens e toda 
a bem-aventurança que pertencerão à alma. 
Segundo Manoel (2011), a tese de que a fé era a única responsável por salvar o 
homem foi a grande bandeira de Lutero. Essa foi a sua principal tese. Lutero também 
obteve o título de Bacharel Bíblico, em 1509, e o de Doutor em Teologia, em 1512. 
As opiniões de Martinho Lutero não passavam despercebidas pelos fiéis. 
Imagine, prezado(a) aluno(a), que, se fosse nos dias atuais, Lutero seria um daque-
les sacerdotes celebridades e que seus cultos e celebrações arrastariam milhares 
de pessoas, gravaria vídeos com suas pregações e venderia livros aos montes. 
Segundo Manoel (2011), pessoas de outros países iam ver as missas celebradas 
por Lutero, tamanha era sua popularidade. 
A mudança de posicionamento com relação à Igreja começou em uma de 
suas viagens até a sede do 
papado, em Roma. Segundo 
Manoel (2011), Lutero viu de 
perto o esplendor da Santa Sé 
e a busca indiscriminada de 
recursos pelos membros do 
clero. A venda de cargos ecle-
siásticos, a corrupção moral, 
além do despreparo da maio-
ria dos clérigos fizeram com 
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que ele voltasse de lá horrorizado e disposto a iniciar um amplo debate acerca 
da necessidade de a Igreja Católica se reformar. 
Um dos pontos cruciais do debate iniciado por Lutero estava na questão das 
indulgências. Segundo Manoel (2011, p. 40): 
A questão da venda de indulgências era, para Lutero, central no deba-
te teológico que propunha, por três razões fundamentais. A primei-
ra, uma questão estritamente teológica: não era admissível que Deus 
pudesse dar o perdão dos pecados porque a Igreja Católica Romana 
o tivesse vendido. Lutero continuava inabalável na certeza de que so-
mente a fé poderia salvar. A segunda era uma razão moral: a venda das 
indulgências era uma farsa para ludibriar o povo e conseguir recursos 
para custear os gastos desenfreados de Roma. A terceira, uma questão 
social: por meio da venda das indulgências, a Igreja Católica Romana 
empobrecia ainda mais o povo, em particular os já despossuídos cam-
poneses e artesãos.
Observe bem, prezado(a) aluno(a), poderíamos resumir a citação acima afir-
mando que Lutero era contra a exploração que os mais pobres sofriam, mas não é 
apenas isso. Muito mais do que a exploração condenada pelo monge, a cobrança 
de indulgências ia de encontro aos preceitos teológicos que Lutero acreditava ser 
o correto. Como já afirmamos, ele tinha plena confiança de que a fé era a única 
forma de o homem encontrar a salvação. Em suma, como Manoel (2011) bem 
definiu, as questões eram de cunho teológico, moral e social. 
Acredito que você, em sua jornada pelos ensinos Fundamental e Médio, 
já tenha visto que a data que marca o início da Reforma Protestante foi o ano 
de 1517. Essa foi a data em que Lutero, procurando aguçar um debate acerca 
das necessidades de reformar o catolicismo romano, pregou na porta da Igreja 
do Castelo de Wittenberg um pergaminho, escrito em latim, contendo as suas 
famosas 95 teses. Teses essas que giravam em torno da venda de indulgências. 
A intenção de Lutero não foi rebaixar a Igreja ou desestruturá-la, pelo contrá-
rio, ele buscou proporcionar um debate acadêmico acerca do assunto, já que era 
professor universitário (MANOEL, 2011). A intenção dele era de reafirmar os 
dogmas do catolicismo romano e buscava fazer isso com a participação de toda 
a comunidade. 
Como o nosso objetivo principal é o de formar um profissional que tenha 
contato com os mais variados documentos, transcreverei abaixo algumas das 
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95 teses de Lutero, para que o(a) aluno(a) veja quais eram as principais inquie-
tações desse teólogo: 
1. Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: Arrependei-vos... etc., 
certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo 
e ininterrupto arrependimento. 
2. E esta expressão não pode e não deve ser interpretada como refe-
rindo-se ao sacramento da penitência, isto é, à confissão e satisfação, a 
cargo dos sacerdotes. 
5. O papa não quer e não pode dispensar de outras penas além das que 
impôs ao seu alvitre ou nem acordo com os cânones, que são estatutos 
papais. 
21. Eis por que erram os apregoadores de indulgências ao afirmarem 
ser o homem perdoado de todas as penas e salvo mediante indulgência 
do papa. 
24. Logo, a maioria do povo é  ludibriado com as pomposas promes-
sas do indistinto perdão, impressionando-seo homem singelo com as 
penas pagas. 
28. Certo é que, no momento em que a moeda soa na caixa, vem lucro, 
e o amor ao dinheiro cresce e aumenta; a ajuda, porém, ou a intercessão 
da igreja tão só correspondem à vontade e ao agrado de Deus. 
32. Irão para o diabo, juntamente com os seus mestres, aqueles que 
julgam obter certeza de sua salvação mediante breves de indulgên-
cia. 
36. Todo o cristão que se arrepende verdadeiramente dos seus pe-
cados e sente pesar por ter pecado, tem pleno perdão da pena e da 
dívida, perdão esse que lhe pertence mesmo sem breve de indul-
gência. 
48. Deve-se ensinar aos cristãos que se o papa precisa conceder mais 
indulgências, mais necessita de uma oração fervorosa do que de di-
nheiro (LUTERO apud CULTURA BRASILEIRA, online). 
Embora tenhamos selecionado apenas algumas das 95 teses de Lutero, podemos 
perceber que ele nutria uma grande repulsa pela cobrança de indulgências. Em 
quase todas as 95 teses esse tema é tratado de forma direta ou indiretamente. 
Para esse teólogo, seria mais valoroso praticar a caridade do que pagar indul-
gência ao clero. 
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E qual o resultado de toda essa discussão provocada por Lutero? Sem dúvida, 
a Igreja não poderia simplesmente ignorá-lo. Inclusive, as suas teses ultrapassa-
ram o âmbito acadêmico, foram traduzidas para o alemão e se tornaram públicas, 
chegando mesmo a servir de fomento às Guerras Camponesas (MANOEL, 2011). 
Sendo assim, o resultado não poderia ser outro senão o de ser obrigado a se retra-
tar, conforme destacou Manoel (2011, p. 41): 
Leão X (Papa) condenou 41 das 95 Teses de Lutero e exigiu que ele se 
retratasse e declarasse submissão à autoridade do papa e à teologia ro-
mana. Como se recusasse, em 21 de janeira de 1521, foi excomungado, 
isto é, expulso do convívio católico e, conforme reza a doutrina católica 
romana, condenado às penas infernais. 
Ser excomungado, atualmente, pode não significar muita coisa para muitos, 
entretanto, receber tal punição naquela época seria a mesma coisa que ser conde-
nado à morte, haja vista que o seu contato com os católicos deveria ser cortado. 
Qualquer pessoa que tentasse contra a vida de um excomungado, seria visto como 
uma espécie de herói. Lutero somente conseguiu sair vivo de toda essa confu-
são em razão de haver sido protegido por príncipes alemães que viam nele uma 
possibilidade de organizar uma Igreja local que fosse desvinculada da autori-
dade romana, o que fortaleceria ainda mais a consolidação da Alemanha como 
um Estado centralizado. 
Vivendo praticamente como um exilado, continuou lecionando sob a pro-
teção dos príncipes, traduziu a Bíblia para o Alemão e tratou de organizar a sua 
própria Igreja, juntamente com sua própria doutrina cristã. Se acaso o aluno não 
é luterano e/ou nunca foi visitar uma Igreja dessa confissão, não se espante, pois 
a semelhança com a Igreja Católica Romana é muito grande. 
“O justo viverá pela fé” 
(ROMANOS, 1:17).
João Calvino, fundador da doutrina conhecida por 
Calvinismo.
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A Reforma de João Calvino 
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A REFORMA DE JOÃO CALVINO 
João Calvino (1509-1564) foi outro grande 
reformador que deixou para a história uma 
doutrina religiosa muito rica. Nascido 
em Noyon, na França, sua importância como 
pensador religioso não se restringiu apenas 
a esse país, já que viveu na Suíça, país onde 
faleceu. 
Calvino foi uma espécie de discípulo 
de Lutero. Conforme destacou Manoel 
(2011), não é seguro precisar a data cor-
reta em que ocorreu essa conversão ao 
protestantismo, entretanto, Calvino, em 
O Livro dos Salmos (2002, p. 216), deixa-
-nos uma passagem bastante clara sobre 
essa conversão: 
Após tomar conhecimento da verdadeira fé e de lhe ter tomado o 
gosto, apossou-se de mim  um tal  zelo e vontade de avançar mais 
profundamente, de tal modo que apesar de eu não ter prescindido dos 
outros estudos, passei a ocupar-me menos com eles.
Calvino doutorou-se em Direito com apenas 23 anos de idade. Segundo suas 
próprias palavras, após conhecer a “verdadeira fé”, dedicou-se muito mais aos 
estudos teológicos do que aos estudos relacionados às leis e à justiça. 
Dedicou-se à discussão e à organização da nova religião ou, como pre-
feria dizer, da verdadeira religião, oposta à idolatria romana e nessa 
atividade vagou entre França e Suíça, ora perseguido, ora aceito, até 
que, em 1540, fixou-se definitivamente em Genebra, onde organizou o 
“calvinismo”. Consoante o espírito violento da época e herdando muito 
da forma como a Igreja Católica Romana perseguia os que considera-
va hereges, Calvino, em seu trabalho de organização da nova religião, 
também perseguiu os que se desviavam de sua doutrina. Muitos foram 
decapitados, esquartejados ou queimados vivos em Genebra durante 
os anos em que ele ocupou posição de comando naquela cidade 
(MANOEL, 2011, p. 44). 
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III
Como pode ser visto, Calvino era muito mais radical em comparação ao lute-
ranismo. Ele organizou uma religião em que a intolerância com aquele que 
discordasse era a tônica. Isso não era uma característica apenas do calvinismo, 
mas também de outras religiões. Manoel (2011, p. 44) dá mais destaques sobre 
essa característica: 
Esse dado histórico é extremamente importante porque revela duas 
coisas. Primeiro, o extremo grau de violência e intolerância existentes 
na Europa, situação em que a diversidade não era aceita e a solução 
sempre posta em prática não era o diálogo, o debate das ideias, mas a 
eliminação física do oponente, em rituais sangrentos, quase macabros. 
Segundo, que também o calvinismo na Suíça, e nos EUA, posterior-
mente, instituiu sua inquisição com as mesmas características e violên-
cia da inquisição católica romana.
Em se tratando da doutrina calvinista, outra informação é de grande importân-
cia para compreendermos sua essência. João Calvino, com base nas epístolas do 
Apóstolo Paulo, desenvolveu aquela que seria a principal característica de sua 
religião, que é a doutrina da predestinação. Segundo essa doutrina, os homens 
já nasciam predestinados à salvação ou à danação eterna. Em outras palavras, 
o homem já nasceria condenado ao inferno ou à salvação. Isso quer dizer que 
de nada adiantaria o que esse sujeito viesse a fazer em sua vida, pois seu desti-
nado já fora traçado. 
Diante disso, cabe aqui uma importante indagação: de que maneira o sujeito 
saberia se foi ou não um escolhido por Deus? Quais seriam os sinais dessa mani-
festação divina de salvação? Segundo Manoel (2011, p. 45), embora isso fosse 
impossível, era na conduta do calvinista que a reposta a essa pergunta poderia 
ser encontrada: 
Por essa razão, o calvinista procurou fazer de sua vida um culto a Deus, 
tanto no âmbito privado quanto no público, em uma relação individual 
com o Criador. A observância estrita da moral calvinista era conside-
rada a verdadeira moral cristã. Assim, para o calvinista, ir ao culto reli-
gioso, trabalhar ou participar da comunidade civil ou política eram atos 
particulares por meio dos quais ele cultuava o Criador. 
Observe a citação acima, prezado(a) aluno(a), veja o que o autor destacou. Isso 
foi o divisor entre as doutrinas luterana e calvinista. Se, para Lutero, a fé seria 
a grande responsável por salvar o sujeito, para Calvino, a salvação, embora já 
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tivesse sido determinada, poderia ser reconhecida por meio de sua atuação na 
comunidade: na forma de trabalhar, de agir, ou seja, mais do que uma doutrina 
religiosa, o calvinismo pregou uma ética social. Segundo Manoel (2011), a grande 
diferença entre essas duas doutrinas era que as bases do calvinismo somente 
poderiam ser plenas se colocadas em prática no ambiente urbano. 
Essa ética criada pelo calvinismo foi muito bem aceita pela burguesia mercan-
til, já que o trabalho, bem como o acúmulo de riquezas, também foi visto como 
uma forma de manifestação da vontade divina. Se, para o clero romano, lucrar 
era pecado, para o calvinismo seria uma forma de manifestação da graça. Um ato 
de que Deus o havia escolhido. Isso fez com que uma nova mentalidade acerca 
do trabalho e do capital fosse desenvolvida, sendo o calvinismo um dos grandes 
responsáveis pela formação de uma ética capitalista, conforme veremos a seguir. 
A CONTRIBUIÇÃO DO PROTESTANTISMO AO 
DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO 
Prezado(a) aluno(a), o tema que trataremos neste tópico é um dos mais impor-
tantes deste livro, pois se trata de uma das principais bases que possibilitou ao 
Ocidente se tornar o melhor e mais bem-sucedido modelo de civilização já expe-
rimentado pelo homem. Segundo Niall Ferguson (2012), historiador britânico e 
um estudioso da cultura Ocidental, o trabalho consiste em um dos seis aplicativos 
“Os erros jamais podem ser arrancados do coração humano, enquanto não 
for nele implantado o verdadeiro conhecimento de Deus” 
(Calvino).
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III
desenvolvidos pelo Ocidente. Inclusive, o termo “aplicativo”, para denominar tais 
estruturas, fora cunhado por esse autor. 
Não é novidade alguma para nós relacionar desenvolvimento econômico 
com desenvolvimento educacional. Países ricos são, em sua grande maioria, paí-
ses em que o sistema educacional é muito bem organizado, com uma educação 
voltada ao desenvolvimento econômico que, como consequência, traz o desen-
volvimento social. Isso, podemos dizer, nos países onde o modelo Ocidental é 
predominante. 
Podemos apontar a Reforma Protestante como a grande responsável por 
incentivar esse modelo que muito influenciou na melhora da educação, em fun-
ção da autonomia que pregava com relação à leitura e interpretação da Bíblia. 
Vale lembrar mais uma vez que foi Lutero o responsável por traduzir a Bíblia 
para o Alemão, possibilitando essa autonomia. Para que o crente pudesse ter 
seu contato estabelecido com Deus, seria necessário que soubesse ler e escrever. 
Consequentemente, nos países em que o protestantismo se desenvolveu, o nível 
de alfabetização tornou-se, também, muito alto. 
A respeito da relação entre trabalho, desenvolvimento econômico e protes-
tantismo, é importante destacar: 
Se você fosse um próspero industrial vivendo na Europa no fim do sé-
culo XIX, haveria uma chance desproporcional de que fosse protestan-
te. Desde a Reforma, que levara muitos Estados do norte da Europa 
a se afastarem da Igreja Católica Romana, o poder econômico havia 
passado de países católicos, como a Áustria, a França, a Itália, a Espa-
nha e Portugal, para países protestantes, como a Inglaterra, a Holanda, 
a Prússia, a Saxônia e a Escócia. Era como se as formas de fé e de culto 
estivessem, de algum modo, relacionadas com a fortuna econômica das 
pessoas. A pergunta era: o que havia de diferente no protestantismo? 
O que havia nos ensinamentos de Lutero e de seus sucessores que en-
corajou as pessoas não só a trabalhar duro como também a acumular 
capital? O homem que deu a resposta mais influente a essas perguntas 
foi um professor alemão depressivo chamado Max Weber – o pai da 
sociologia moderna e o autor que cunhou o termo “ética protestante” 
(FERGUNSON, 2012, p. 305). 
Os países onde o capitalismo se desenvolveu foram aqueles que adotaram o pro-
testantismo como religião oficial. Antes da Reforma Protestante, a relação entre 
ganhos materiais e vida espiritual era algo incompatível com os dogmas da Igreja 
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Católica Romana. Conforme destacamos anteriormente, a exploração da mão 
de obra, a obtenção de lucro, tudo isso era visto como pecado pelo clero. Com 
a Reforma Protestante, essa concepção mudou radicalmente, principalmente 
com o calvinismo, que via na acumulação de riquezas um sinal da graça divina. 
O aluno percebeu também, na citação, acima que foi Max Weber o pensador 
que conseguiu encontrar a resposta mais coerente para explicar a razão pela qual 
os protestantes eram mais prósperos economicamente do que os não protestan-
tes. Havia uma grande diferença entre os países do norte e os do sul da Europa, 
entretanto, segundo Ferguson (2012), para que formulasse essa resposta, Weber 
teve de cruzar o Atlântico e ir aos Estados Unidos da América. 
Max Weber fora em viagem aos EUA para participar do Congresso de Artes 
e Ciências da Exposição Universal. Lá ele ficou encantado com todo esplendor 
daquela sociedade. Mais impressionado ainda ficou com a dinâmica que o capi-
talismo havia atingido naquele local. Logo ele percebeu que o capitalismo era o 
responsável por proporcionar conforto aos cidadãos, fornecendo-lhes tecnolo-
gia que aliviaria suas necessidades. Tudo isso colocou um ponto de interrogação 
bem grande na cabeça de Weber, que ficara se questionando sobre a razão pela 
qual o capitalismo havia se desenvolvido de forma tão dinâmica naquela socie-
dade. Ele encontrou essa resposta na religião. 
É necessário observar, todavia, algo que muitas vezes tem sido 
esquecido, o fato de a Reforma não ter implicado a eliminação do 
controle da Igreja sobre a vida cotidiana, mas a substituição do controle 
vigente por uma nova forma. Isto significou o repúdio a um controle 
que era muito tênue na época, dificilmente perceptível na prática, e 
pouco mais do que formal, em favor de uma regulamentação de toda 
uma conduta, que, penetrando em todos os setores da vida pública e 
privada, era infinitamente onerosa e seriamente cumprida (WEBER, 
2010, p. 20). 
Observe que a Reforma não eliminou o poder da Igreja na vida das pessoas. 
Muito pelo contrário. O que houve foi uma reformulação doutrinária. O con-
trole, que antes era mais brando, passou a ser muito mais intenso, saindo da esfera 
espiritual e controlando todas as situações em que o sujeito estivesse envolvido.
Da casa ao trabalho, na vida doméstica e religiosa, na relação com Deus e 
com as pessoas, ou seja, o que o protestantismo criou foi uma rígida doutrina 
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III
de controle da vida social e que influenciou diretamente na relação do traba-
lho e da prosperidade econômica. O desenvolvimento do capitalismo, segundo 
Weber, não estava apenas nas questões históricas, envolvendo política externa, 
ou mesmo em situações temporárias, mas sim influenciadas diretamente pela 
forma de pensar a religião. Era um conjunto que abarcava todas essas relações. 
Segundo Max Weber (2010), o capitalismo existiu em vários países como, 
por exemplo, na China, na Itália, na Índia e em alguns outros, entretanto,o que 
faltou a esses países para que o capitalismo fosse consolidado de forma pujante 
foi a ausência de uma ética ligada a ele. O capitalismo, da forma como ele pas-
sou a existir na modernidade após o advento da Reforma Protestante, veio no 
intuito de educar e selecionar as pessoas que melhor se adaptam a essas condições. 
Já citamos que a Reforma foi a faceta religiosa do renascimento. Uma das 
principais transformações na concepção de mundo foi relegar ao homem o papel 
de centro do universo (antropocentrismo). A vida, pouco a pouco, deixou de ser 
contemplativa e se tornou mais ativa. Uma mudança bem radical foi a de que o 
que estava em cheque naquele momento não era apenas uma questão de espí-
rito; de que você deveria esquecer-se dos temas mundanos e se dedicar somente 
a Deus. Os afazeres do dia a dia também passaram a ser vistos como uma dádiva 
divina, uma vocação e, ao mesmo tempo, um dever para com Deus. Conforme 
podemos observar: 
Foi isso que deu pela primeira vez este sentido ao termo vocação, e que, 
inevitavelmente teve como consequência a atribuição de um significa-
do religioso ao trabalho secular cotidiano. Foi, portanto, nesse conceito 
de vocação que se manifestou o dogma central de todos os ramos do 
Protestantismo, descartado pela divisão católica dos preceitos éticos 
em praecepta e concilia, e segundo a qual a única maneira de viver acei-
tável para Deus não estava na superação da moralidade secular pela 
ascese monástica, mas sim no cumprimento das tarefas impostas ao 
indivíduo pela sua posição no mundo. Nisso é que está a sua vocação 
(WEBER, 2010, p. 43-44). 
A “vocação” ganhou um sentido muito mais prático com a Reforma. Aquela vida 
reclusa, tão comum aos monges, fora vista como uma forma de egoísmo, já que 
nada faziam para melhorar as condições do mundo, exceto rezar. 
Em suma, podemos sintetizar a ideia com o seguinte silogismo: Deus é o 
Criador de todas as coisas que existe no universo. Dentre suas obras, o homem 
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foi o único criado à sua imagem e semelhança. Sendo assim, o homem tornou-se 
sua criação especial, pois era seu dever reinar sobre as outras coisas. Ao criar o 
homem, Deus lhe deu inúmeros dons e capacidades. Deu capacidade de racioci-
nar e agir conforme seu pensamento; deu capacidade de sentir prazer; capacidade 
para trabalhar, inventar, inovar, lucrar, enfim, Deus praticamente presenteou o 
homem com inúmeros dons e colocá-los em prática seria uma das formas de 
agradecê-lo. As ações cotidianas também se tornaram uma forma de louvar e 
agradecer a Deus, conforme destacamos anteriormente. 
As teses de Weber não poderiam estar isentas de alguns equívocos, pois, 
segundo Ferguson (2012), ele ignorou os empreendimentos católicos nos paí-
ses como a França, Bélgica e outros lugares. Contudo, a análise de Weber nos 
proporcionou o entendimento de várias coisas, conforme podemos observar: 
Após a Reforma, houve de fato, conforme ele  presumiu,  uma clara 
tendência dos países protestantes da Europa a crescerem mais 
rapidamente que os católicos, de modo que, em 1700, os primeiros 
haviam superado os últimos em renda per capita, e em 1940 os 
habitantes dos países católicos eram, em média, 40% mais pobres que 
o dos países protestantes. As antigas colônias protestantes também 
tiveram melhor desempenho econômico que as católicas desde os anos 
1950, embora a religião não seja uma explicação suficiente para essa 
diferença (FERGUSON, 2012, p. 309). 
Em suma, como havíamos citado no início deste tópico sobre a relação entre 
educação, desenvolvimento e protestantismo, prossegue Ferguson (2012, p. 309):  
Devido à importância central que a leitura individual da Bíblia ocupa 
no pensamento de Lutero, o protestantismo encorajou a alfabetização, 
sem falar da imprensa, e essas duas coisas sem dúvida impulsionaram o 
desenvolvimento econômico (a acumulação de “capital humano”), bem 
como o estudo científico. Essa proposição não é válida somente para 
países como a Escócia, onde os índices de alfabetização, matrícula em 
escolas e gastos em educação eram excepcionalmente altos, como tam-
bém para o mundo protestante como um todo. Aonde quer que fossem 
os missionários protestantes, eles promoviam a alfabetização, com be-
nefícios mensuráveis a longo prazo para as sociedades que procuraram 
educar; não se pode dizer a mesma coisa dos missionários católicos 
durante o período que vai da Contrareforma às reformas do Concílio 
Vaticano II (1962-5). 
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III
Como havíamos destacado anteriormente, os locais onde o acesso à educação 
mais cresceu também foram os lugares onde a economia mais prosperou. A 
Reforma Protestante não mudou apenas as questões religiosas, mas provocou 
uma profunda mudança na forma como as pessoas passaram a entender o mundo 
material. Todas as revoluções que se seguiram após a Reforma Protestante tive-
ram a influência direta do aumento da escolaridade das pessoas – um grande 
exemplo foi a Revolução Industrial. 
O mundo material e o espiritual tiveram uma grande aproximação com a 
reforma. A conduta, a escolha da profissão, o desempenho no trabalho, tudo isso 
se tornou uma forma de louvar e agradecer a Deus. A personificação maior dessa 
ética está ligada ao calvinismo, como podemos perceber abaixo: 
Em princípio, parece um mistério como a indubitável superioridade 
do Calvinismo na organização social pôde se relacionar com as suas 
tendências para arrancar o indivíduo dos mais fortes laços pelos 
quais ele se liga a este mundo. Todavia, por mais estranho que possa 
perecer, ela decorre da forma peculiar com o qual o amor fraternal 
cristão foi forçado a assumir, através da fé calvinista, a pressão do 
isolamento interno do indivíduo. Em primeiro lugar, ela decorre disto 
dogmaticamente. O cristão eleito está no mundo apenas para enaltecer 
esta glória, cumprindo Seus mandamentos o melhor que puder 
(WEBER, 2010, p. 59-60). 
Weber captou a mensagem de que o calvinismo era uma religião bastante rígida 
em seus posicionamentos. Nenhuma outra religião conseguiu implantar na 
cabeça do indivíduo uma disciplina religiosa e social tão exitosa como essa. O 
homem vive em função de Deus. Ele come porque Deus assim lhe permitiu. Ele 
trabalha porque Deus lhe dera o dom e deve agradecê-lo por tudo isso diaria-
mente. A todo instante de sua vida. Tudo isso seria a garantia da sua salvação. 
Qual seria a principal diferença, para Weber, da forma de vida dos católicos 
para os protestantes calvinistas? Essa é uma questão de grande importância para 
esse debate, pois, assim, temos um ponto de partida para que possamos conti-
nuar nossa discussão. Sendo assim, o autor destacou: 
A diferença pode ser formulada da seguinte maneira: o católico leigo 
medieval normal vivia eticamente, por assim dizer, imprevidentemen-
te. Em primeiro lugar, ele executava conscienciosamente as obrigações 
tradicionais. Além deste mínimo, suas “boas obras” não formavam ne-
cessariamente um sistema de vida integrado, ou pelo menos racionali-
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zado, mas eram mais uma sucessão de atos isolados. Ele podia usá-las, 
conforme as exigências da ocasião, para expiar determinados pecados, 
para melhorarsuas possibilidades de salvação, ou, ao aproximar-se o 
fim de sua vida, como um tipo de prêmio de seguro. Naturalmente a 
ética católica era uma ética de “intenções”, mas a intentio concreta de 
um único ato determinava seu valor. Esta única ação – boa ou má – 
era creditada ao agente, determinando seu destino temporal ou eterno 
(WEBER, 2010, p. 63-64). 
Em suma, o que ficou evidente nas palavras acima é que o católico tinha uma 
relação bastante pontual com a salvação. O católico não via em suas ações coti-
dianas uma forma de louvar e agradecer a Deus – para ele a salvação não estaria 
ligada a essas questões. Assim, o católico poderia pecar, mas, depois que se con-
fessasse e pagasse a penitência, tudo estaria resolvido. Contudo, os calvinistas 
não pensavam assim. Em suma, o autor prossegue: 
A diferença entre o ascetismo calvinista e o medieval é evidente. Con-
sistiu no desaparecimento do concilia evangélica e na subsequente 
transformação do ascetismo em atividade terrena. Não que o catoli-
cismo tenha restringido a vida metódica à cela monástica. De modo 
algum foi este o caso, quer na teoria, quer na prática (WEBER, 2010, 
p. 65-66). 
Em outras palavras, aquilo que antes era visto apenas no plano dos céus, do 
divino, foi trazido para a vida terrena. 
Do ponto de vista do capitalismo, quais as lições que podemos tirar da aná-
lise feita por Marx Weber? Primeiramente, precisamos compreender que, para o 
autor, sem a ética desenvolvida pelos protestantes, o capitalismo jamais teria se 
desenvolvido da maneira como foi. A conduta diária do protestante, bem como 
a sua aplicação com o trabalho e o acúmulo de riquezas, foi a grande responsá-
vel por dar ao capitalismo a dimensão que este alcançou. 
Para os calvinistas, uma vida de fé sem a relação com as práticas diárias era 
nula. De nada adiantava ter fé sem ter ação. Por isso, o protestantismo conse-
guiu se desenvolver e obter mais êxito do que as demais religiões. Além disso, 
os níveis de educação também caminharam juntos, em razão da necessidade 
de interpretação bíblica. Portanto, o capitalismo moderno foi desenvolvido, em 
grande parte, devido à Reforma Protestante. 
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III
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Prezado(a) aluno(a), espero que ao final desta unidade você tenha percebido 
alguns pontos essenciais, os quais gostaria de destacar. Primeiramente, preci-
samos entender que o contexto econômico e social do período em questão, as 
estruturas religiosas, ainda atreladas ao modelo de sociedade feudal, não pode-
riam continuar da maneira como estavam. Principalmente, quando se trata da 
afirmação do modelo de vida urbano e do capitalismo como estrutura econômica. 
No que diz respeito à Reforma feita por Henrique VIII, não é difícil perce-
ber que o elemento político, que envolve as questões de soberania de um Estado, 
foi o principal fundamento dessa Reforma. Sendo assim, a Reforma Anglicana 
foi, antes de tudo, uma Reforma política, diferente das empreendidas por Lutero 
e Calvino.
Também é necessário perceber que a intenção de Lutero não era criar uma 
nova religião, mas sim reafirmar os dogmas da Igreja Católica Romana por meio 
de um amplo debate acadêmico, além de tornar o tema público para perceber 
como a população acolheria essas inovações na esfera religiosa. A corrupção reli-
giosa do Clero, as questões morais, principalmente no que diz respeito à venda 
de indulgências, foram o grande motivo de descontentamento de Lutero.
Com relação ao calvinismo, essa religião trouxe para o cotidiano a prática 
intensa de se louvar a Deus. Tudo passou a ser visto como forma de agradeci-
mento pela obra do Senhor. Nesse diapasão, a classe burguesa que emergia nesse 
contexto viu nessa nova doutrina religiosa uma forma de atrelar trabalho e lucro 
com a religião. Para tanto, a doutrina da Predestinação foi de suma importân-
cia para a consolidação do calvinismo. 
Ambas as doutrinas foram importantes por moldar uma nova mentalidade 
acerca do trabalho e da acumulação de capital. Dessa forma, conforme foi pos-
sível observar em Max Weber, dificilmente o capitalismo teria se desenvolvido 
como foi sem a contribuição essencial da ética protestante.
103 
SÍNTESE DO PENSAMENTO DE LUTERO 
Do Pecado 
O pecado originou-se de um só homem, Adão, por cuja desobediência todos os homens 
se tornaram pecadores, sujeitos à morte e ao diabo. A isso se chama pecado hereditário 
ou pecado capital. Esse pecado hereditário é a corrupção de tal maneira profunda e per-
niciosa da natureza, que razão alguma o compreende. Deve, ao contrário, ser crido com 
base na revelação da escritura. 
Da Lei 
A lei foi dada por Deus para refrear o 
pecado, de um lado, com ameaças e pelo 
temor do castigo e, de outro, com promessa 
e oferecimento da graça e do benefício. 
Tudo isso, porém, malogrou por causa da 
maldade que o pecado operou no homem. 
A função ou virtude principal da lei é revelar 
o pecado hereditário com os frutos e tudo, 
e mostrar ao homem a que tremenda pro-
fundidade sua natureza caiu e quão abismal 
foi sua corrupção. 
Do Arrependimento 
O arrependimento verdadeiro nada mais 
é do que o discernimento do pecado, ou 
seja, ter conhecimento do pecado, sentir 
contrição e pesar e terror por causa dele 
e, ao mesmo tempo, crer no evangelho e 
na absolvição. Acreditando que o pecado 
foi perdoado e que por Cristo foi obtida 
a graça, a fé volta a consolar e serenar o 
coração. 
Do Evangelho
O evangelho dá consolo e ajuda contra 
o pecado, não de uma mesma maneira, 
pois Deus é exuberantemente rico em sua 
graça. Primeiro, mediante a palavra falada, 
por meio da qual é pregada a remissão dos 
pecados em todo mundo. Segundo, pelo 
batismo. Terceiro, pelo santo sacramento 
do altar (Comunhão ou Santa Ceia). Quarto, 
mediante o poder das chaves e também 
pela mútua assistência e consolo dos 
irmãos. 
Considerações Finais 
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Do Batismo 
O Batismo, que outra coisa não é se não a 
palavra de Deus na água, é ordenado por 
sua instituição. Por isso, cremos que as 
crianças devem ser batizadas, pois elas 
também pertencem à redenção prometida, 
que se realizou através de Cristo. A Igreja 
deve administrá-lo. 
Do Sacramento do Altar 
O pão e o vinho na ceia são o verdadeiro 
corpo e sangue de Cristo, conforme foi por 
ele instituído. Eles devem ser administra-
dos e recebidos não somente por cristãos 
piedosos, mas também por cristãos ímpios. 
Ambos, pão e vinho, devem ser dados aos 
cristãos que forem receber a comunhão 
do corpo e do sangue de Cristo por meio 
da transubstanciação; o fato de se ensinar 
que o pão e vinho abandonam ou perdem 
sua substância natural ficando apenas a 
aparência e cor do pão e do vinho não é 
verdadeiro, já que se harmoniza perfeita-
mente com a Escritura que o pão e o vinho 
estejam e permaneçam presentes. 
Fonte:  MANOEL, Ivan Aparecido. A Reforma Protestante. In. PEREIRA, José Flávio. (org.).  Tem-
pos  Modernos, tempos contemporâneos: as origens da sociedade contemporânea. Maringá: 
EDUEM, 2011. p. 28-50. 
Este texto foi adaptado pelo autor da obra de Lutero, Artigos de Esmalcalde. 
105 
1. Destaque os principais pontos em que a Igreja Católica Romana apresenta in-
compatibilidade com o tipo de sociedade que emergia na Europa do século XVI. 
2. Descreva as principais características das doutrinas luterana e calvinista, des-
tacando em que elas se assemelham bem como em que elas se divergem. 
3. A Reforma Protestante foi um evento religioso que representouum divisor de 
águas no cristianismo medieval para o cristianismo moderno. Acerca disso, assi-
nale a alternativa correta: 
a. Martinho Lutero, com a publicação de suas 95 teses, alertou a Igreja Roma-
na quanto à sua intenção de fundar um novo movimento religioso. 
b. Lutero se posicionou contra os desmandos do clero romano, mas defendia 
a existência das indulgências como uma forma de remir os pecados huma-
nos. 
c. Martinho Lutero, de início, não tinha a intenção de criar uma nova religião. 
Suas teses possuíam propostas para aprimorar o catolicismo, trazendo este 
para mais próximo dos fiéis. 
d. A religião luterana, fundada por Lutero, teve grande aceitação junto à bur-
guesia mercantil. 
e. Uma das principais características da religião luterana foi a sua grande acei-
tação no ambiente urbano. 
4. Além da Reforma de Martinho Lutero, na Alemanha, tivemos também uma refor-
ma religiosa feita na Suíça, por João Calvino. Tomando como base essa religião: 
a. O Calvinismo teve grande aceitação junto a uma classe camponesa emer-
gente, denominada gentry. 
b. Calvino elaborou uma doutrina religiosa totalmente avessa ao luteranismo. 
c. O trabalho, para a doutrina calvinista, representava uma forma de pecado 
original. 
d. Tanto Calvino como Lutero se assemelhavam pelo radicalismo como trata-
vam os seus opositores. 
e. O calvinismo foi bem aceito junto à burguesia mercantil, pois esta doutri-
na religiosa colocava o trabalho como uma forma de louvar e agradecer a 
Deus.
MATERIAL COMPLEMENTAR
A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo
Max Weber 
Editora: Cengage Learning
Sinopse: O livro é um ensaio feito por Weber buscando identifi car 
os fatores que tornaram os protestantes muito mais prósperos 
economicamente do que as demais doutrinas religiosas.
Lutero 
Gênero: Cinebiografi a histórica 
Diretor: Eric Till 
Elenco: Joseph Fiennes, Peter Ustinov, Bruno Ganz e grande elenco
Ano de lançamento: 2003
Sinopse: O fi lme retrata a vida de Martinho Lutero, um homem que 
quase foi morto por um raio e viu nesse acontecimento um chamado 
de Deus. Ao se tornar monge, percebe como são as práticas adotadas 
pela Igreja Católica Romana e inicia um debate acerca dos dogmas, 
propondo uma reforma.
Civilização: Ocidente x Oriente 
Niall Ferguson 
Editora: Planeta 
Sinopse: Se você pudesse viajar pela Europa no início do século 
XV, fi caria horrorizado com a pobreza e a miséria presentes 
nesse continente. Ninguém jamais imaginaria que daquele local 
pudesse emergir um modelo de civilização que se espalhou pelo 
mundo, mudando costumes e alterando signifi cativamente o 
curso da história. Sendo assim, o que tornou isso possível? Para 
este historiador foram seis aplicativos responsáveis por isso: 
a medicina, o trabalho, a ciência, o consumo, a propriedade e a 
competição. Com uma leitura dinâmica e com argumentos muito bem elaborados, o livro é uma 
excelente explicação sobre a origem de nossa civilização moderna. 
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Professor Me. Kleber Eduardo Men
A INGLATERRA MODERNA: DA 
FORMAÇÃO DA NAÇÃO ÀS 
REVOLUÇÕES BURGUESAS
Objetivos de Aprendizagem
 ■ Analisar como foi o processo de unificação inglesa. 
 ■ Compreender como foi a consolidação do absolutismo na ilha. 
 ■ Observar como era o ambiente político surgido das condições sociais 
e econômicas deste país. 
 ■ Compreender os fatores que contribuíram com o processo 
revolucionário. 
 ■ Entender o significado das revoluções do século XVII à história 
inglesa.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
 ■ A formação do estado inglês
 ■ A sociedade moderna inglesa
 ■ A revolução puritana e o protetorado de Cromwell
 ■ O legado da revolução gloriosa à Inglaterra
INTRODUÇÃO
Prezado(a) aluno(a), para você que hoje vê toda a grandeza e poder dos Estados 
Unidos da América, que consegue perceber toda a força dessa nação surgida 
aqui deste lado do Atlântico, talvez seja difícil perceber que, no início do século 
passado, esse poderio se concentrava nas mãos de uma nação que se situava do 
outro lado deste mesmo Oceano, no velho continente europeu. 
A Inglaterra foi um país que passou por diversas situações catastróficas, 
como a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), quando se opôs à França em um 
confronto devastador. Após esse conflito, mergulhou em uma guerra interna 
em que as famílias Lancaster e York disputavam o poder na famosa Guerra das 
Duas Rosas (1455-1485). Assim como seus vizinhos europeus, também enfren-
tou o poder aterrorizante da Peste Negra, que dizimou aproximadamente 1/3 de 
toda a população desse continente. Enfim, tudo isso seria possível para deter-
minar a má sorte de um país. Entretanto, embora os fatores nos levem a pensar 
o contrário, o mundo Ocidental deve muito à Inglaterra. 
Foi na terra dos Beatles e dos Rolling Stones que foi assinado o primeiro docu-
mento do qual se tem registro – um documento que apontava que o rei deveria 
se submeter a um poder auxiliar. Estamos falando da Carta Magna, assinada no 
século XIII pelo Rei João Sem Terra e que representa até hoje um dos grandes 
marcos da história da democracia. 
Foi também na terra do Big Ben e do Rio Tâmisa que um rei ousou desafiar 
o poder papal em busca de anular seu casamento para poder se casar com outra 
mulher. Em oposição a essa atitude autoritária, foi também na Inglaterra que 
um rei, pela primeira vez na história da humanidade, foi julgado e condenado à 
morte (mesmo com o direito de defesa que lhe fora dado). 
Foi essa mesma Inglaterra mergulhada em inconstâncias políticas que um 
membro da nobreza rural a levou à categoria de Rainha dos Mares, tornando-a a 
maior potência marítima de que se tem registro na Idade Moderna. Além disso, 
essa ilha também foi o berço daquilo que, segundo alguns autores, foi a maior 
invenção do homem desde a roda, que foi a revolução Industrial, ocorrida no 
século XVIII. 
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Introdução
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Embora todos esses eventos citados soem como uma espécie de determinismo 
histórico, precisamos deixar claro que o objetivo desta unidade é fazer uma análise 
da história inglesa. Observaremos suas instituições políticas, as transformações 
a que foram sujeitas bem como o tipo de sociedade que se formou naquele local.
Dessa forma, convido você a viajar até a Inglaterra e mergulhar a fundo nos 
primórdios de sua história, daquela que fora considerada, até parte do século 
XX, como o Império onde o sol nunca se põe. 
Desejo um bom estudo a você! 
A FORMAÇÃO DO ESTADO INGLÊS 
Prezado(a) aluno(a), a Inglaterra, assim como todos os países da Europa, conseguiu 
sua unificação política e territorial a partir da Baixa Idade Média (séc. XI - XV). 
Sua história, como a de seus vizinhos, também é recheada de problemas decor-
rentes do próprio processo de consolidação de sua unificação, visto que a disputa 
pelo poder, tanto interno quanto externo, foi a tônica de vários conflitos de que se 
tem registro no período supracitado (Portugal, Espanha, França, dentre outros). 
Um dos marcos mais discutidos sobre a história política da Inglaterra diz 
respeito à assinatura da Carta Magna, feita pelo rei João Sem Terra, no século 
XIII. Segundo afirmam alguns estudiosos, esse ato representou o momento em 
que a nobreza feudal se rebelou contra os gastos excessivos do rei e, por meio 
desse documento, buscou colocar um fim em sua falta de limite e de responsa-
bilidade com o que era arrecadado por meio dos impostos.Em suma, para que 
ele continuasse governando, foi necessário ceder à pressão que os senhores feu-
dais exerceram sobre ele e, sendo assim, podemos destacar esse evento como o 
primeiro ato que visou limitar a atuação do poder executivo. Entretanto, embora 
tal evento seja de grande importância histórica e jurídica, não foi capaz de evi-
tar que naquela ilha se desenvolvesse um tipo de governo absolutista – mesmo 
que em proporção menor do que em outros locais –, assim como ocorreu no 
restante da Europa. 
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A história da Inglaterra na Baixa Idade Média é mergulhada em sangue e 
muita luta. Entre os anos de 1337 e 1453, este país mergulhou naquilo que é, até 
hoje, o mais longo conflito da história: a Guerra dos Cem Anos. A maior con-
tribuição desse conflito para a Inglaterra foi trazer à tona questionamentos que 
visavam discutir qual o real sentido daquela luta. 
A Guerra dos Cem anos foi um dos eventos mais importantes da Baixa Idade 
Média (séc. XI a XV). Esse conflito, juntamente com a Peste Negra, a Crise no 
Feudalismo e a consequente fome gerada por esse conjunto de fatores, foi o res-
ponsável por acelerar o processo de desintegração da ordem feudal europeia, 
embora muitas dessas instituições feudais  tenham perdurado por muitos anos, 
até sucumbirem definitivamente. 
O motivo principal dessa guerra que opôs França e Inglaterra por mais de 
cem anos foi iniciado por uma questão sucessória. Com a morte do Rei fran-
cês Carlos IV, em 1328, como este não havia deixado herdeiros, inicia-se uma 
disputa para ver quem ficaria com o trono. Depois de muitas disputas entre os 
nobres parentes do rei morto, o trono foi para as mãos de seu sobrinho, Felipe 
de Valois. O que parecia ser uma disputa interna, ou seja, de total responsabili-
dade da França, atravessou o Canal da Mancha e foi parar na Inglaterra. 
Você deve ter percebido que, ao longo da história, muitos conflitos se iniciam 
em razão de disputas econômicas. Neste, em especial, não foi diferente. França 
e Inglaterra possuíam interesses em comum na rica região de Flandres, grande 
produtora de tecidos. O fato de a nobreza de Flandres ser vassala do rei francês 
ia de encontro aos interesses dos comerciantes dessa região, que eram ligados à 
Inglaterra, já que esta era grande produtora de lã, principal matéria-prima dos 
comerciantes dessa região. Essa questão se intensificou no ano de 1337, quando 
o rei Eduardo III, da Inglaterra, decidiu se unir aos comerciantes de Flandres e 
se declarar rei da França e da Inglaterra. Foram mais de cem anos de conflitos, 
recheados de tréguas, avanços e retração de ambos os lados. 
Embora a França tenha sido a vencedora desse conflito, já que continuou 
com o território de Flandres, essa Guerra foi um arraso para ambos os países, 
já que foram destruídos campos de plantações, além de milhares de mortos de 
ambos os lados. A destruição dos campos provocou fome e miséria que se alas-
trom por quase toda a Europa. 
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Reprodução proibida. A
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Vale lembrar que o conceito de nação, como conhecemos hoje, não exis-
tia. O que havia na Europa Ocidental era uma enorme região que obedecia ao 
papado romano. 
A grande maioria da Europa Ocidental era composta de cristãos que obe-
deciam à Igreja Católica Romana. Mas no que diz respeito a sua identidade 
local, quantos aos quesitos básicos como povo, soberania, território e governo, 
a Inglaterra ainda não possuía clareza quanto. Sendo assim, a Guerra dos Cem 
Anos começou a suscitar questionamentos como: o que é ser inglês? O que nos 
une quanto povo? 
Findo o conflito com a França, a Inglaterra mergulhou em um novo e, não 
diferente, violento conflito. Dessa vez, o inimigo era interno. Dos anos de 1455 
a 1485, eclode uma Guerra Civil em que as duas famílias mais importantes, a 
família York (que usava uma rosa branca como símbolo) e a família Lancaster 
(que usava uma rosa vermelha), envolveram-se em mais três décadas de con-
flito, atrasando o desenvolvimento econômico e político do país, se comparado 
com Portugal e Espanha. 
Para melhor explicitar esse assunto, precisamos entender um ponto impor-
tante. Após perder a Guerra para a França, muitos senhores feudais ficaram 
enfraquecidos. O principal deles foi Ricardo, Duque de York e aspirante ao trono 
inglês. Em razão de sua perda de poder, decidiu aprisionar Henrique VI, rei da 
Inglaterra, membro da família Lancaster. Esse episódio foi o responsável por desen-
cadear essa guerra civil que mergulhou a Inglaterra por mais 30 anos de conflitos. 
JOANA D’ARC 
A história é rica em episódios heroicos e mitológicos. Muitos são tão extra-
vagantes que chegam até ser custoso acreditar, haja vista a dimensão que 
tais fatos atingem. Nesse sentido, em se tratando da Guerra dos Cem anos, 
a figura de Joana D’arc é uma das mais emblemáticas desse período. Sai-
ba detalhes dessa personagem em: <http://guiadoestudante.abril.com.br/
aventuras-historia/historia-heroina-joana-d-arc-674505.shtml>. Acesso em: 
29 abr. 2015.
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Durante os 30 anos do conflito, o trono inglês saltou de família em família. 
Um dos episódios mais trágicos dessa guerra foi quando Ricardo III, ao assumir 
o trono em decorrência da morte de Eduardo IV, ambos da família Lancaster, 
mandou matar todos os seus sobrinhos que seriam seus possíveis sucessores. 
Essa guerra só teve fim em 1485, quando Henrique Tudor derrota Ricardo III 
e assume o trono. Henrique foi o responsável por unificar essas duas alas da 
nobreza, o que acabou definitivamente com o conflito. Como o Parlamento estava 
enfraquecido, em razão de seus membros terem sido afetados diretamente com 
a série de conflitos, Henrique Tudor assume o trono da Inglaterra com o Título 
de Henrique VII, precursor do absolutismo inglês. 
Posto isso, podemos indagar: qual a importância desses conflitos para a con-
solidação do absolutismo inglês? Segundo Karnal (2007, p. 31): 
A luta contra a França estimulou certa unidade na ilha, reforçando o 
chamado “esplêndido isolamento”, como os ingleses denominaram seu 
relativo afastamento do continente. A sucessão de guerras colabora 
também para enfraquecer a nobreza e suscitar no país o desejo de um 
poder centralizado e pacificador. A dinastia Tudor (1485-1603), que 
surge desse processo, torna-se, de fato, a primeira dinastia absolutista 
da Inglaterra. 
Prezado(a) aluno(a), com respeito ao isolamento da ilha, segundo o que bem 
destacou Ferguson (2012), esse foi um dos grandes elementos – que o autor 
chama de aplicativos – que fez com que a Europa pudesse assumir a dianteira 
das inovações e das transformações políticas, econômicas e sociais às quais 
o mundo assistiu a partir da Idade Moderna. O relativo isolamento que cada 
país estabeleceu bem como a temeridade de que um país estrangeiro com 
melhores condições viesse a suplantar e anexar o outro tornaram esses países 
europeus muito competitivos. Isso não possibilitou que eles ficassem tão gran-
des a ponto de estagnarem, como ocorreu com o Império Chinês e o Império 
Turco, nem que fossem tão fracos a ponto de terem de se unir contra um ini-
migo em comum. 
Já em relação ao enfraquecimento da nobreza, como esta havia ganhado 
muita autoridade após a assinatura da Carta Magna, o país acabou se tornando 
refém das intrigas políticasque uma família pudesse ter com a outra. Por isso, 
emergiu na Inglaterra uma necessidade de que houvesse um poder centralizado, 
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com capacidade suficiente para pacificar o país e promover o desenvolvimento 
pleno. Nesse contexto, emergiu a dinastia Tudor. 
A família Tudor no governo seria responsável pela afirmação do poder 
real inglês em escala inédita. Um país cansado de guerras ofereceu-se 
à ação dos Tudor sem grandes resistências. A expressão “país cansado” 
pode dar a ideia de que a Nação seja um indivíduo. Quem é “o país”? 
Nesse momento, é importante destacar que as guerras atrapalhavam as 
atividades produtivas e comerciais. Logo, uma das partes do “país” que 
estava mais cansada era constituída por burgueses que, em sua maioria, 
queriam um poder forte e centralizado. A outra parte do “país”, que po-
deria oferecer resistência – os nobres –, tinha sido duramente atingida 
pelas guerras (KARNAL, 2007, p. 31-32). 
Como pôde perceber, prezado(a) aluno(a), as guerras, as perseguições, a insta-
bilidade política e econômica levam grande parte dos habitantes de um país, de 
forma natural, a consentir que o controle político de uma nação seja entregue 
ao primeiro que tenha pulso firme e que, de alguma forma, venda um discurso 
que possibilite aos cidadãos acreditar em melhorias, mesmo que essas promessas 
sejam as mais absurdas possíveis. A inconstância política é a principal responsá-
vel por fazer com que uma nação entregue seu futuro ao primeiro que seja capaz 
de enxergar esses problemas e propor soluções mágicas. Vale lembrar que o preço 
cobrado por isso é aquilo que o homem tem de mais valioso, a sua liberdade. 
Na Inglaterra, isso não foi diferente. A família Tudor foi a responsável por 
instaurar o absolutismo monárquico na Inglaterra, fato esse que ocorreu sem 
maiores resistências. O ápice desse absolutismo foi atingido com a Reforma pro-
testante de Henrique VIII. 
O poder dos Tudor aumentou ainda mais com a Reforma religiosa (sé-
culo XVI). Usando como justificativa sua intenção de divórcio, o rei 
Henrique VIII rompeu com o papa e fundou o anglicanismo, tornan-
do-se chefe da Igreja na Inglaterra e confiscando as terras da Igreja 
Católica. 
Os dois maiores limites ao poder real eram os nobres e a Igreja Católica. 
Graças à Reforma e à fraqueza da nobreza inglesa, esses limites foram 
eliminados ou diminuídos durante a dinastia Tudor (KARNAL, 2007, 
p. 32). 
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Como foi possível perceber, não havia mais, 
ao que parece, qualquer instituição que 
pudesse colocar o poder dessa dinastia em 
risco. Vale lembrar que, do ponto de vista 
religioso, no tocante à Reforma Protestante, 
Henrique VIII aproveitou a onda de mudan-
ças iniciada por Lutero em 1517 e fez a sua 
própria reforma, quando criou uma religião 
exclusivamente nacional, em que o rei seria 
a autoridade máxima. Em suma, a perso-
nificação do absolutismo foi tão completa 
que até mesmo o fator religioso estava sob 
o domínio real. 
DINASTIA TUDOR
Figura 1: Árvore genealógica com os principais membros da dinastia Tudor
Fonte: CASA... (online) 
Henrique VIII, rei inglês e fundador da Reforma anglicana.
Willian Shakespeare (1564-1616), poeta e 
dramaturgo inglês.
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Certamente, você deve estar se questionando sobre a Inglaterra e sua política externa 
nesse contexto. Pois bem, é sabido que a França, desde a Guerra dos Cem Anos 
(1337-1453), era a principal rival inglesa. Entretanto, segundo Karnal (2007), a 
França fora substituída pelo “perigo espanhol”. Temia-se mais pelo poder espanhol, 
em razão do poderio naval desenvolvido por essa nação, principalmente após o 
descobrimento do território americano, do que pelo poder de qualquer outro país. 
Entretanto, esse perigo passou a não representar mais nada com o episódio conhe-
cido como a Invencível Armada, ocorrido em 1588, em que a Inglaterra derrotou 
a frota naval espanhola. Em suma, aos poucos, a Inglaterra foi ganhando contor-
nos de nação politicamente moderna, deixando para trás aquele velho método 
de fazer política. Ao que fica evidente nas palavras de Karnal, percebemos que os 
ideais políticos de Nicolau Maquiavel (1469-1527) não demoraram a atravessar o 
Continente europeu e cruzar o Canal da Mancha, como fica claro na citação abaixo: 
Os ingleses estavam desenvolvendo a “modernidade política”. Mas no 
que ela consistia? Basicamente, seria uma ação politica independen-
te da teologia e da moral. Em outras palavras, a ação dos príncipes 
modernos não procura levar em conta se o que fazem é moralmente 
correto. Os príncipes modernos agem porque tal ação é eficaz para 
atingir seus objetivos, dentre os quais o maior é conseguir o poder ab-
soluto. Na história política da Inglaterra, entre o final da Idade Média 
e o início da Moderna, esse tipo de príncipe foi comum. Eram prínci-
pes reais, concretos, sem fumos divinos ao redor do trono (KARNAL, 
2007, p. 33). 
A história, como já deve estar  claro a 
você nesta altura do nosso curso, é feita 
de documentos. Não há história sem que 
haja meios que a instrumentalizem. Nesse 
diapasão, um dos documentos que pode-
mos utilizar para compreender melhor 
o ambiente inglês do século XVI são 
as obras do poeta Willian Shakespeare. 
Segundo Karnal (2007), mesmo ambien-
tando seus personagens em períodos 
distintos daquele em que vivera, esse autor 
Willian Shakespeare (1564-1616) é considerado um dos mais importantes 
dramaturgos e escritores de todos os tempos. Seus textos literários são 
verdadeiras obras de arte e permaneceram vivas até os dias de hoje, sen-
do retratadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura. 
Saiba mais em: <http://www.suapesquisa.com/shakespeare/>. Acesso em: 
29 abr. 2015. 
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deixou em suas obras um registro histórico que atesta a astúcia, a violência 
e a realidade dos príncipes na hora de governar. Ou seja, o realismo polí-
tico estava presente na vida dos monarcas ingleses e é isso que se percebe, 
em especial, nas peças Macbeth e Ricardo III. 
Macbeth faz de tudo para conseguir o trono da Escócia. Mata, trai e 
personifica um tipo particular de política não muito distante daquele 
a que os ingleses haviam assistido no princípio da Idade Moderna. A 
fala das feiticeiras da peça Macbeth mostra que esse é um mundo em 
que os valores estão em transformação: “O belo é feio e o feio é belo”. 
Da guerra nasce uma relatividade nos valores tradicionais, uma das 
características do moderno. O que valia até aqui pode não valer mais, é 
isso que as feiticeiras dizem aos ingleses que assistem a sua fala (KAR-
NAL, 2007, p. 33). 
A respeito de Ricardo III, prossegue o autor: 
No final de Ricardo III, Shakespeare anuncia o fim da guerra civil e o 
advento da paz com o início do governo Tudor. Era preciso descrever 
como era terrível o rei que antecedeu a dinastia para a qual o poeta tra-
balhava. Mesmo querendo realçar a ruptura entre Ricardo III e Henri-
que VII, Shakespeare acaba nos mostrando quanto a Inglaterra é fruto 
também da modernidade política, seja ela York, Lancaster ou Tudor 
(KARNAL, 2007, p. 33).©
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Ricardo III da Inglaterra governou a ilha entre os anos 
de 1452 a 1485.
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IV
Como pôde perceber, a formação do abso-
lutismo monárquico na Inglaterra obedeceu 
aos parâmetros políticos de uma nova era que 
se anunciava. Não se aceitaria mais justifica-
tivas que não fossem oriundas das práticas 
políticas, ou que não pudessem ter uma apli-
cabilidade mais eficiente. Em consonância a 
isso, temos também a emergência de uma 
nova sociedade. E esse será o tema de preo-
cupação de nosso próximo tópico. 
A SOCIEDADE MODERNA INGLESA 
Pois bem, prezado(a) aluno(a), dos eventos que marcaram a Idade Moderna, sem 
dúvida alguma, estão as denominadas pelos livros didáticos como revoluções 
burguesas. De fato, a burguesia estava entre os líderes desse movimento, mas 
essa revolução foi uma resposta da sociedade inglesa aos desmandos ocorridos 
durante o século XVII. Entretanto, antes de entrarmos a fundo nesse processo 
revolucionário, que dominou o cenário político inglês por quase meio século, 
precisamos compreender qual foi a dinâmica social desenvolvida nesse país. 
A Inglaterra, por uma longa tradição, que remonta ao período feudal, 
No ano de 2012, pesquisadores britânicos encontraram os restos mortais 
daquele que teria sido o Rei Ricardo III. As descobertas foram surpreenden-
tes e contrariaram boa parte da imagem que esse monarca possuía frente 
à literatura. 
Para constatar os resultados da pesquisa, acesse o link disponível em: <http://
veja.abril.com.br/noticia/ciencia/rei-ricardo-iii-morreu-sem-capacete-com-
-golpes-no-cranio-diz-estudo>. Acesso em: 29 abr. 2015. 
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sempre foi uma sociedade mais aberta, livre e democrática; nela, o po-
der real sempre foi mais fraco e, em contrapartida, a sociedade civil mais 
autônoma e zelosa de seus direitos. Sabemos que, desde muito cedo, no 
começo do século XIII, os ingleses tinham estabelecido leis e criado 
instituições para coibir os possíveis excessos do poder dos reis. A Carta 
Magna de 1212(sic) e a criação de um Parlamento livre são exemplos 
de como, ainda na vigência do feudalismo, a sociedade inglesa foi se 
organizando em torno do ideal de liberdade (PEREIRA, 2011a, p. 25).
A citação acima merece uma reflexão importante, já que vai de encontro com o 
que fora destacado no tópico anterior. Sem sombra alguma de dúvida, o debate 
acerca dos fatos históricos enriquece nosso conhecimento.  
Enquanto Karnal (2007) destacou que, em razão dos vários conflitos que 
assolaram a Inglaterra (Guerra dos Cem Anos e a Guerra das Duas Rosas), um 
poder absoluto foi formado sem maiores resistência, personificado na dinastia 
Tudor, Pereira (2011a) não concorda com essa afirmação. 
Pereira (2011a) defende a ideia de que naquela ilha formou-se uma sociedade 
diferente, na qual os princípios da democracia liberal e do dinamismo social e 
econômico eram reinantes. Essa visão também é compactuada por Elias (1990).  
Em suma, deixando esse debate de lado, gostaria de alertá-lo(a) sobre dois 
pontos importantes: 1) que em história não há verdade absoluta, pois cada his-
toriador busca o conhecimento por métodos e documentos próprios que, muitas 
vezes, são incompatíveis com as demais correntes; 2) o que será importante neste 
tópico é mostrar como essa sociedade inglesa se configurou, para que se tenha os 
recursos necessários para aprofundamento em tal temática. 
A Inglaterra, mesmo com toda essa tradição liberal e democrática que Elias 
“A vida é uma peça de teatro que não nos permite ensaios, por isso, cante, 
dance, ria, viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine 
sem aplausos. Não perca tempo, a vida passa num piscar de olhos. Aproveite 
cada segundo que passa, pois o tempo infelizmente não volta. Arrase ao 
máximo. Divirta-se ao extremo. Viva! E faça cada momento valer a pena”. 
(W. Shakespeare).
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(1990) e Pereira (2011a) destacaram, não foi suficiente para evitar que o poder real 
se tornasse tão forte. Sim, parece que, quanto a isso, não podemos negar. Tendo 
sido fácil ou não, o fato é que esse fortalecimento do poder real sob a batuta da 
dinastia Tudor ocorreu. Entretanto, esse absolutismo foi diferente daquele que 
ocorreu no restante da Europa, principalmente na França, que abordaremos na 
próxima unidade. A despeito disso, Pereira destacou: 
A propósito, é necessário esclarecer que estado centralizado e estado 
absolutista são coisas distintas, embora o segundo derive do primei-
ro. Não há absolutismo real sem um estado centralizado, mas nem 
todo estado centralizado é um estado absolutista. O estado centrali-
zado transforma-se em estado absolutista somente quando o monarca 
enfeixa os poderes executivo, legislativo e judiciário em suas mãos, 
confundindo-se com o próprio estado. Dessa forma, ele se coloca aci-
ma da própria lei e reage de modo arbitrário e intolerante a qualquer 
crítica ou oposição vinda dos súditos. É necessário esclarecer, ainda, 
que o estado absolutista surge na chamada era absolutista, que se ini-
cia no século XVI e toma contornos definidos no século XVII; no 
entanto, varia de país a país, sendo mais forte e mais arbitrário em 
algumas sociedades do que em outras. Por exemplo, o absolutismo 
real na Inglaterra é mais fraco e menos arbitrário do que na França 
(PEREIRA, 2011a, p. 26). 
A colocação acima é de suma importância para compreendermos algumas das 
terminologias que serão empregadas de agora em diante. Em suma, quando se 
trata de absolutismo, só podemos considerá-lo quando as esferas do poder estão 
todas concentradas nas mãos de uma única pessoa. 
Uma das marcas mais importantes e tradicionais da Inglaterra, sem sombra 
de dúvida, é o Parlamento. Este foi, segundo destacou Pereira (2011a), uma das 
grandes barreiras enfrentadas pelos reis ingleses. Durante o reinado de Henrique 
VIII, tentou-se de todas as formas fortalecer o poder real, estabelecendo severas 
penas àquele que desrespeitasse o soberano. Segundo Stone (2000), tentaram cri-
minalizar a opinião como uma forma de ofensa ao rei. Além disso, Henrique 
VIII confiscou as terras da Igreja, procurou estabelecer um controle sobre o que 
era produzido nas universidades, além de aparelhar o judiciário, fazendo com 
que os tribunais fossem sempre favoráveis ao Estado e a círculos governamentais 
em geral. Em resumo, o poder centralizado procurava dar passos largos rumo ao 
Parlamento Inglês, Londres.
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absolutismo real. Entretanto, Pereira (2011a), analisando a obra de Stone (2000), 
faz o seguinte destaque: 
Tal impulso absolutista foi freado por duas causas. Em primeiro lugar, 
porque os reis ingleses se defrontaram com algumas tradições insti-
tucionais de caráter liberal-democrático herdadas do feudalismo, que 
foram o Parlamento e o direito consuetudinário. Em segundo lugar, 
porque, mal havia dominado a nobreza feudal, melhorado suas finan-
ças e instaurado um sistema de leis unificado e uma ordem pública 
mais segura, a Coroa inglesa viu-se envolvida com a questão religiosa 
(PEREIRA, 2011a, p. 26). 
Gostaria que você observasse a citaçãoacima com bastante atenção! O que se 
percebe na Inglaterra era que havia um temor muito grande em não dar limites 
ao poder do rei. Nem bem a ilha havia conseguido se consolidar como estado 
unificado, já estava na iminência de enfrentar outros problemas mais sérios. Por 
isso a importância dessa tradição liberal e democrática que já citamos anterior-
mente e, por consequência, a importância dessas duas instituições: o Parlamento 
e o direito consuetudinário. 
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 Parlamento representou um obstáculo ao avanço do absolutismo 
porque, apesar das pressões dos reis, nunca deixou de ser um espaço 
democrático de participação política da nobreza, do clero e dos se-
tores burgueses emergentes. Os reis tinham dificuldade em dominar 
o Parlamento porque se tratava de uma instituição tradicional enrai-
zada socialmente e que gozava de muita reputação entre os ingleses, 
justamente pela forma democrática da escolha de seus membros, que 
provinham de todas as regiões e de quase todas as classes da socieda-
de inglesa. Frequentemente, os parlamentares ingleses negavam-se ou, 
no mínimo, criavam dificuldade para a aprovação de matérias que, se 
aprovadas, deixariam a sociedade civil à mercê das arbitrariedades do 
absolutismo real (PEREIRA, 2011a, p. 27) 
Fica evidente o respeito e o poder que o Parlamento possuía frente ao cená-
rio político inglês. Em razão de sua relativa democracia, pôde comportar 
em suas fileiras membros de diversos setores da Inglaterra, inclusive a bur-
guesia mercantil emergente, o que proporcionou a essa instituição um 
equilíbrio de forças, não submetendo um grupo à vontade arbitrária do 
outro. Nesse sentido, essa instituição foi de suma importância para que o 
poder monárquico sempre estivesse sob relativa vigilância. No que tange ao 
direito consuetudinário, 
O Direito Consuetudinário (Comom Law) é utilizado até hoje pelos pa-
íses de origem anglo-saxões. A base desse Direito está nos costumes e 
nos princípios gerais. Não há, como nos países de origem jurídica roma-
no-germânica (como é o caso do Brasil), uma tradição legiferante (Civil 
Law), ou seja, que o Direito é produzido quase que exclusivamente por 
meio de leis editadas pelo Congresso Nacional, Câmara de Deputados 
Estaduais ou pelos vereadores municipais. Dessa forma, fica o juiz  vin-
culado aos bons costumes e à boa fé objetiva, na hora de decidir sobre 
alguma lide. 
Fonte: o autor.
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Constituído de leis não escritas, continha muitas disposições liberais, 
igualitárias e democráticas, as quais eram geralmente invocadas pelos 
críticos do absolutismo no combate às ameaças do poder real à liber-
dade individual, ao direito de propriedade privada, à igualdade tribu-
tária, à liberdade de opinião, à liberdade política, entre outros direitos 
considerados inalienáveis pelos ingleses. A seu favor, esses críticos do 
absolutismo argumentavam que o direito consuetudinário, surgido há 
muitas gerações, tinha precedência sobre o absolutista do século XVI 
(PEREIRA, 2011a, p. 27). 
O que ficou bem explícito foi o grande respeito que havia pelas instituições tradi-
cionais. Essas instituições foram as responsáveis por evitar que o pior ocorresse. 
Entre a tradição e a centralização excessiva, entre confiar no rei ou nas institui-
ções políticas, o que ocorreu foi uma prevalência da tradição sobre os demais. 
No que diz respeito à economia e à sociedade, as transformações também 
foram sentidas. As antigas tradições feudais deram lugar a uma sociedade dinâ-
mica, viva e atuante. Já na Idade Moderna, a Inglaterra era um país muito mais 
desenvolvido que os demais em termos econômicos e sociais. Em aproximada-
mente cem anos, essa nação superou, principalmente na economia, seus vizinhos 
como França, Espanha e Portugal. Nesse diapasão, é importante destacar: 
No começo do século XVI, a servidão havia praticamente desaparecido 
da Inglaterra: cinco sextos das terras estavam nas mãos de camponeses 
livres, os quais possuíam a propriedade sob os mais variados títulos. 
Parte das terras estava também nas mãos de arrendatários plebeus, os 
quais exploravam as propriedades pertencentes à nobreza abstinente, 
que migrava para as cidades ou permanecera em seus castelos, sem fa-
zer quase nada. A nobreza e o clero tradicionais sobreviveram, mas ao 
preço de perderem praticamente toda sua natureza feudal anterior e se-
rem obrigados a coexistir com uma nobreza artificial e uma burguesia 
urbana e emergente (PEREIRA, 2011a, p. 29). 
Prezado(a) aluno(a), é importante que você observe como as instituições feu-
dais haviam sido suplantadas por instituições mais condizentes com a realidade, 
mais precisamente com o capitalismo. A posse da terra, apenas no sentido do 
ter, nada mais representava frente a quanto ela poderia produzir. Vale lembrar 
que uma das virtudes da sociedade capitalista é a produção para comercializa-
ção. Apenas o fato de possuir terra não era tão valioso, mas sim a capacidade de 
transformar terra em renda, em capital rentável. 
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Essa dinâmica econômica também se seguiu à dinâmica social, tornando a 
Inglaterra um país em que as relações entre as classes eram bem mais democráticas. 
Apesar das diferenças de classe, a tradicional nobreza inglesa, ao con-
trário da francesa, relacionava-se com a burguesia e outros setores 
emergentes de modo mais aberto e pragmático. Era menos preconcei-
tuosa e possuía poucos privilégios, se comparada à nobreza francesa. 
Misturava-se com a burguesia nos salões, criava sociedades mercantis 
e de outra natureza com burgueses, pagava impostos com qualquer ou-
tra classe e seus filhos e filhas podiam até mesmo se casar com pessoas 
oriundas das classes emergentes (PEREIRA, 2011a, p. 29). 
Percebe-se na citação acima que na Inglaterra não havia um orgulho de classe 
mais intenso. Um dos fundamentos da sociedade feudal, que era a separação de 
classes por nascimento, denominado de estamental, parecia já haver sido supe-
rado há muito tempo, diferente da França, como bem destacou Tocqueville (1997), 
que ainda convivia, em sua época pré-revolucionária, com elementos sociais 
muito fortes oriundos da sua tradição feudal. 
Essas questões sociais também não deixariam de se refletir nas questões 
políticas, haja vista que bastava haver uma violação de algum desses itens, tidos 
pela sociedade como direito, para que ela se unisse na luta pela manutenção ou 
melhoria desses direitos. Dessa forma, com todo esse sentimento de liberdade, 
parece que estava bem claro qual seria o papel do Estado Inglês: uma espécie de 
árbitro. Além disso, como destacou Pereira (2011a), no corpo de funcionários 
do Estado não havia apenas pessoas ligadas à nobreza, mas também oriundas de 
várias classes sociais, tornando o serviço público mais democrático. 
No seio da sociedade agrária inglesa surgiu uma nova espécie de classe social, 
a gentry. Nas palavras de Pereira podemos assim defini-la: 
Uma espécie de classe média abastada que, ao lado da burguesia comercial 
e manufatureira, foi a grande protagonista nos acontecimentos políticos 
e religiosos dos séculos XVI e XVII. Esta classe, embora tenha sido pro-
duto genuíno da modernização em andamento, só se consolidou como 
poderosa classe proprietária entre 1538 e 1563, quando apoiou a Refor-
ma Protestante inglesa promovida por Henrique VIII e recebeu, comorecompensa, boa parte das terras que foram expropriadas da Igreja Cató-
lica. Nesse sentido, em parte, foi um produto social e político da reforma 
religiosa e das estratégias da monarquia inglesa para construir uma nova 
base social e religiosa de sustentação do Estado absolutista (2011a, p. 30). 
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Certamente, você já deve imaginar que essa jogada feita pelo rei não veio sem 
qualquer ônus. No jogo político, infelizmente, o que prevalece é o jogo do “toma 
lá, dá cá”. Se, de um lado, o rei permitiu a esses proprietários possuírem as terras 
que pertenciam à Igreja, por outro lado, o rei necessitava do apoio desse pessoal 
para que seu governo, frente ao Estado inglês, fosse possível. Em resumo, a gen-
try passou a ser uma peça indispensável no jogo político da monarquia inglesa, 
como fica claro na citação abaixo: 
Além de terras, o Estado inglês vendeu títulos de nobreza para esses no-
vos proprietários rurais com o objetivo de criar uma nobreza artificial 
e aumentar sua base de apoio. Desse modo, a gentry se projetou como 
uma nova nobreza e passou a conviver, nem sempre pacificamente, 
com a antiga nobreza de sangue azul, com o clero e com os setores 
burgueses tradicionais que tinham se expandido sob a proteção do 
sistema mercantilista inglês (PEREIRA, 2011a, p. 30). 
O que podemos compreender dessa nova classe social é que havia no cená-
rio inglês mais um grupo que seria imprescindível ao equilíbrio necessário das 
forças políticas. Se, por acaso, o rei tivesse um grupo mais coeso de nobres, cer-
tamente ele os dominaria com mais facilidade, entretanto, como cada classe 
possuía algo muito particular para defender, seria muito difícil uni-las em busca 
de algo que beneficiaria apenas uma delas. Ou seja, o equilíbrio de forças, que 
é algo fundamental em uma democracia, já estava presente no seio dessa socie-
dade moderna inglesa. 
Para atestar isso, prezado(a) aluno(a), verificamos o que escreveu Pereira: 
Na passagem do século XVI para o XVII, a gentry também fortaleceu sua 
representação política no Parlamento inglês: o número de deputados na 
Câmara dos comuns passou de 300 para 500. Simultaneamente a essa 
ampliação do Parlamento, a representação da gentry, que antes ficava 
com 50% dos assentos parlamentares, passou a ficar com 75%. Nessa 
época, como as seções do Parlamento ocorriam com maior frequência, 
seus representantes ganharam muita experiência e autoconfiança polí-
tica (2011a, p. 31). 
Acima está o maior exemplo do fortalecimento desta classe social e de sua impor-
tância no cenário político. Toda essa configuração foi decisiva para o desfecho 
favorável a uma maior liberdade do Parlamento frente ao rei em meio aos con-
flitos que marcaram a história inglesa no século XVII. 
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Além desse grupo, originado no seio da zona rural inglesa, também é preciso 
destacar a importância que os setores urbanos tiveram nessa nova configuração 
social da Inglaterra Moderna. 
O setor industrial da Inglaterra nos séculos XVI e XVII sofreu profundas 
transformações. Consoante a isso, assistimos também a um desenvolvimento 
do comércio e, como consequência de tudo isso, o desenvolvimento das cidades. 
Além do ambiente rural fortalecido pela formação da gentry, podemos perceber 
também o fortalecimento da burguesia mercantil. 
Beneficiados pela ausência de pedágios nos rios e nas estradas, pelas 
baixas taxas de juros, pela maior segurança jurídica nos negócios e 
pelas facilidades de criação de sociedades empresariais por ações, os 
novos setores comerciais manufatureiros expandiram-se. A partir de 
1540, a Inglaterra vivenciou uma onda de criação de novos setores pro-
dutivos que passaram a rivalizar com a tradicional manufatura de lã 
organizada com base no sistema de corporações. Foi o caso da pro-
dução de carvão de Newcastle, a primeira indústria de grande escala 
no Ocidente. Criaram-se, ainda, as manufaturas de arame e de sabão, 
que logo arrebataram a liderança tecnológica que pertencia ao sistema 
manufatureiro da Alemanha (PEREIRA, 2011a, p. 31). 
Toda essa transformação fez com que os pequenos e médios centros urbanos 
aumentassem a sua população em uma proporção muito grande. Como foi o 
caso de Londres, que passou de 60 mil pessoas, no final do século XV, para mais 
de 400 mil habitantes, em meados do século XVII. 
Gostaria que você, aluno(a) de História, refletisse sobre a seguinte questão: 
será que nesse ambiente de crescente economia, em que as relações sociais esta-
vam cada vez mais dinâmicas, haveria espaço para descontentamentos? Sem 
dúvida alguma! Não são apenas as necessidades que fazem com que as pessoas 
clamem por direitos, mas também o desejo de liberdade e de prosperidade. 
Principalmente quando essas pessoas vivenciam um estágio muito avançado no 
que diz respeito aos seus direitos políticos e sociais. Sendo assim, esse ambiente 
se tornou propício para que se desenvolvessem alguns questionamentos com 
relação aos rumos dessa sociedade.  
Essa corrente de descontentamentos nasceu justamente daquelas diferentes 
forças que passaram a compor o cenário social como a gentry, a burguesia tradi-
cional, a burguesia emergente e a nobreza. Todo esse conflito dificultou a atuação 
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do rei, para que exercesse cada vez mais os mecanismos de arbitragem dos con-
flitos. Pereira (2011a, p. 33), observando o que escreveu Stone (2000), destacou 
o que estava ocorrendo no contexto social dessa sociedade: 
A quantidade de textos políticos e religiosos publicados na Inglaterra, 
na primeira metade do século XVII, dá uma ideia do clima político 
reinante: vieram a público, aproximadamente, 22 mil textos, divididos 
entre sermões, discursos, panfletos e jornais. Isso evidencia o choque 
de ideologias, de tais ideias religiosas, de ideias científicas, de manifes-
tações culturais, boa parte delas contaminadas por concepções radicais 
acerca de todos os aspectos do comportamento humano e de todas as 
instituições da sociedade. 
Em suma, percebemos que, no ambiente político, em qualquer dimensão 
que fosse, não seria fácil dirimir quaisquer conflitos. Por isso, o século XVII 
foi tão importante para os rumos dessa nação – fato esse que estudaremos em 
nosso próximo tópico. 
A REVOLUÇÃO PURITANA E O PROTETORADO DE 
CROMWELL 
Para darmos prosseguimento a esta unidade, primeiramente, gostaria de propor 
a você, aluno(a) de História, uma reflexão a respeito dos eventos que ocorreram 
durante a realização da Copa das Confederações, no ano de 2013, no Brasil. Caso 
você não se lembre, vou destacar alguns pontos para que sua memória seja refrescada. 
Durante o evento organizado pelo Brasil em parceria com a FIFA, ocor-
reram inúmeros conflitos, principalmente em decorrência das manifestações 
de caráter político. Milhares de pessoas foram às ruas reivindicar seus direitos, 
tudo iniciado pelo aumento na cobrança no transporte público. Nesse diapasão, 
uns saíram para pedir mais saúde, outros educação, segurança, mais lisura no 
comando da coisa pública, mais transparência com o uso do dinheiro, eficiência 
dos serviços prestados à sociedade por parte do governo. Pelo fato de o evento ter 
ocorrido recentemente, não seria prudente tirarmos conclusões mais profundas, 
entretanto,diante de tais fatos, precisamos observar algumas coisas importantes. 
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Do ponto de vista econômico, desde meados da década de 1990, o brasileiro 
teve uma melhora considerável em seu padrão de vida.  A estabilização da eco-
nomia, controlando a inflação que corroía os salários dos trabalhadores, além 
da inserção mais efetiva de nossa economia no mercado internacional, propor-
cionou aos brasileiros um grande aumento em seu poder de consumo. Isso se 
intensificou a partir da última década, em função de uma oferta maior de crédito. 
No que diz respeito à política, já era a segunda vez na história de nossa 
recente democracia que um presidente eleito pelo sufrágio universal havia trans-
ferido a faixa presidencial a outro também eleito pelo voto popular. De Fernando 
Henrique Cardoso para Luís Inácio Lula da Silva e, desse último, para Dilma 
Rousseff, todos eleitos com o voto direto pelos cidadãos. Isso atesta que o pro-
cesso democrático havia se consolidado. 
Embora sejam assuntos complexos e impossíveis de tratá-los com profundi-
dade apenas a título de comparação, diante do exposto, parecia que os brasileiros 
não tinham razões para saírem às ruas e fazer o que fizeram. Mas a história 
nos mostra que as coisas não são tão simples como se parece e nosso objeto de 
estudo nesta unidade – a Inglaterra – mostra que algo parecido ocorreu neste 
país no século XVII, que acabou por colocar fim ao absolutismo monárquico. 
A Inglaterra, desde o fim dos conflitos do final da Idade Média, ascendia como 
uma grande potência econômica. Como já mencionamos anteriormente, houve 
a ascensão de novos grupos econômicos e sociais, o que contribuiu diretamente 
para a melhoria da qualidade de vida na ilha. 
Ao longo do século XVI, o absolutismo inglês se fortaleceu e, em meados 
do século XVII, ele já foi contestado. Foram mais de cem anos. Muito pouco, se 
comparado à França, onde o absolutismo teve sua personificação mais clara. A 
respeito do absolutismo inglês, Pereira destacou (2011b, p. 63-64): 
No século XVI, quando os monarcas ingleses, seus ministros e conse-
lheiros invocavam a doutrina do Direito Divino dos Reis para legitimar 
os atos reais, não provocavam uma reação popular generalizada, apesar 
da tradicional antipatia dos ingleses por qualquer discurso autoritário. 
Isto ocorria porque, internamente, após a dissolução do feudalismo, a 
Inglaterra passou por um processo de redefinição social, no qual nem a 
nobreza feudal enfraquecida nem os novos setores sociais tinham con-
dições de agir de modo eficaz contra todas as arbitrariedades do estado 
absolutista. 
Rei Carlos I, rei Inglês.
Os Stuarts formaram uma dinastia que dominou a Inglaterra por mais de 100 
anos. Suas atitudes no governo começaram em 1603 e foram a principal causa 
da guerra civil inglesa. Eles tinham origem escocesa e políticas absolutistas 
que transformaram a religião, a economia e sociedade da Inglaterra. 
Saiba mais em:  <http://www.infoescola.com/inglaterra/stuarts/>.  Acesso 
em: 29 abr. 2015.
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Certamente você já deve ter ouvido aquela expressão “dividir pra reinar”. Pois 
bem, foi mais ou menos isso que ocorreu. Embora com toda participação política 
no Parlamento, parece que esse mecanismo tradicional de controle do executivo 
não surtia o efeito desejado, o que acabou permitindo ao rei agir de forma abso-
luta. Além disso, o surgimento de revoltas camponesas acabou por colocar a vida 
da gentry em risco, fazendo com que muitos fugissem de suas terras. Somado a 
isso, temos as revoltas religiosas que colocaram a Inglaterra à beira de uma Guerra 
Civil. Todos esses ingredientes possibilitaram 
ao rei agir de forma mais dura. O temor da 
sociedade inglesa de que conflitos como aque-
les que haviam ocorrido nos séculos passados, 
e que atrasou o desenvolvimento da região, 
retornassem, deixou os reis ingleses em uma 
situação mais confortável (PEREIRA, 2011b). 
A crise do absolutismo inglês teve iní-
cio na década de 1620, quando o rei Carlos 
I, que assumiu o trono no lugar do seu pai, 
Jaime I (que inaugurou no início do século 
XVII a dinastia Stuart), queria governar com 
mãos de ferro a Inglaterra. Tudo isso somado 
à sua arrogância. Como dissemos acima, a 
Inglaterra havia atingido uma prosperidade 
muito grande.   
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Na década de 1620, quando Carlos I ascendeu ao trono inglês, a In-
glaterra colhia os bons frutos das grandes transformações do século 
XVI. Era um país enriquecido que contava com um maior estoque de 
alimentos e demais produtos necessários à vida civilizada. A situação 
do conjunto da população, em termos de conforto e alimentação, havia 
melhorado muito. As crises de fome, tão frequentes no passado, desa-
pareceram com a modernização da agricultura, embora a situação dos 
pobres ainda não tivesse melhorado muito. A sociedade se tornara mais 
heterogênea e havia surgido uma classe média escolarizada e conscien-
te de seus direitos, constituída de advogados, proprietários, médicos, 
escritores, jornalistas, professores, etc. (PEREIRA, 2011b, p. 66). 
Frente a essa configuração social, você poderá perceber que nem tudo eram flo-
res. Embora a Inglaterra tivesse atingido um desenvolvimento econômico e social 
muito bom, ainda convivia com resquícios do período feudal e isso ocasionava 
conflitos sociais, principalmente em decorrência da alta carga tributária que aca-
bava por reter grande parte do fruto do trabalho dos produtores e comerciantes. 
Somado a isso, temos também o empobrecimento econômico e o enfraqueci-
mento político da nobreza de sangue azul, o que tornava essa classe bastante 
ressentida com as atitudes do rei. Os setores mais pobres sofriam com o pro-
cesso de cercamento (enclausures), incentivado pelo próprio estado absolutista 
(PEREIRA, 2011 b). Esse era o cenário que Carlos I haveria de enfrentar. Antes 
de prosseguirmos nesse assunto, a título de esclarecimento, é de suma importân-
cia que o(a) aluno(a) tome conhecimento do que foi a política de cercamentos. 
Com o advento do capitalismo, a terra deixa de ser sinônimo de poder e passa 
cada vez mais a se tornar uma mercadoria. Durante o feudalismo, era comum 
as terras dos senhores feudais serem exploradas pelos servos e camponeses que, 
em troca de produzir sua subsistência, pagavam a título de obrigações alguns tri-
butos a esse nobre. Os impostos eram diversos. Entretanto, como a propriedade 
havia se tornado uma mercadoria valiosíssima, muitos nobres acabaram expul-
sando de suas terras esses servos, para que essas propriedades fossem alugadas 
aos produtores de ovelhas. Essas ovelhas eram utilizadas para a produção de lãs, 
principal matéria-prima da Revolução Industrial do século XVIII. 
É importante lembrar, prezado(a) aluno(a), que a política dos cercamen-
tos (encalusures), embora tivesse se intensificado no século XVIII, já era uma 
prática recorrente desde o século XVII. Aos que foram tirados de suas terras não 
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restou outra coisa a não ser migrarem para as cidades, engrossando a quantidade 
de pessoas sem trabalho disponíveise que viriam a ser de grande importância 
para o advento da revolução Industrial, no século XVIII. 
E foi dentro desse contexto de efervescência econômica, social e política que 
começou a emergir na Inglaterra uma sensação de descontentamento muito grande. 
Isso incentivou o avanço da oposição, mas, por outro lado, Carlos I não assistiu a 
tudo isso de forma passiva. A oposição a Carlos I se concentrava no Parlamento. 
Conforme já citamos anteriormente, vários setores da sociedade passaram a engros-
sar as fileiras dessa instituição, tornando-a a principal base da resistência ao rei. 
Com essa nova  composição do Parlamento, estavam  dadas as 
condições para o confronto político entre a oposição parlamentar e 
o Rei. No entanto, de acordo com Lawrence Stone, tal confronto não 
teria desembocado em uma violenta revolução se os adversários do 
absolutismo real não estivessem influenciados por novas ideias e novos 
valores contrários à situação existente (PEREIRA, 2011b, p. 77-78). 
Esse novo conjunto de ideias, conforme destacou Lawrence Stone (2000), são 
de origens diversas, as quais destacaremos de forma resumida: 1) o puritanismo, 
uma versão mais radical do calvinismo, pregava uma forma de religião muito 
mais ortodoxa, radicalmente oposta ao catolicismo. O puritanismo, além de 
questões religiosas, também passou a invocar em seus discursos uma posição de 
crítica ao Estado absolutista. 2) As pessoas ligadas ao Direito Consuetudinário, 
oriundo do período da Idade Média, eram totalmente contrárias aos desmandos 
cometidos pelo Estado Absolutista. Eles defendiam que esse direito, por ser mais 
antigo que o próprio Estado Absolutista, tinha sobre esse maior preponderân-
cia. 3) Também havia uma corrente mais romântica, cujos seguidores pertenciam 
a gentry e defendiam que o campo era superior à cidade. 4) Por último, havia uma 
questão científica muito influente, já que esses intelectuais, liderados por Galileu 
Galilei, defendiam o conhecimento científico como a base principal e eram, em 
sua maioria, contrários a uma posição mais mística das coisas do Estado. 
Todas essas ideias em jogo colocaram em xeque a política absolutista de Carlos 
I, que caminhou para um confronto entre o rei e a oposição. Isso se acentuou 
com a dissolução do Parlamento e com a imposição de taxas arbitrárias e mui-
tas outras práticas absolutistas, que acabou desencadeando uma Guerra Civil, 
conhecida também como Revolução Puritana. 
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Reprodução proibida. A
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IV
A reação de Carlos I contra a oposição enfraqueceu profundamente seu 
poder, ao invés de lhe dar mais fôlego para enfrentar a crise política. Ela 
provocou uma cisão nas elites governantes: um número crescente de 
nobres se recusavam a entrar na corte e alguns se juntavam e até mesmo 
dirigiam a oposição. Além disso, o governo perdeu o apoio considerável 
das oligarquias mercantis urbanas, descontentes com a concessão 
exageradas de carta de monopólio, as quais acirravam a concorrência 
entre os próprios monopolistas, e com a crescente interferência do 
Estado nas atividades econômicas (PEREIRA, 2011b, p. 81). 
Como você pôde perceber, prezado(a) aluno(a), as atitudes absolutistas de Carlos 
I provocaram o seu isolamento político. Até mesmo aqueles que haviam sido 
beneficiados com favores do Estado, como é o caso dos comerciantes que rece-
biam cartas de monopólio, ficaram em oposição ao governo. Isso só intensificou 
cada vez mais a crise institucional. Em consonância com essa grave crise polí-
tica, houve também uma crise econômica muito grande, em decorrência das más 
colheitas que se sucederam bem como os problemas na exportação dos produtos 
de origem têxtil. Diante de grave crise financeira que a coroa passou a enfren-
tar, Carlos I se viu obrigado a convocar o Parlamento e a propor aumentos de 
imposto para custear a continuação da Guerra contra a Escócia. Essa atitude 
representou o colapso do seu governo. 
A derrota nesta guerra, causada em grande parte pela má vontade de 
lutar das tropas e dos comandantes ingleses, fez com que a Coroa, por 
sua vez, perdesse o controle sobre suas forças armadas, que é o pri-
meiro e mais necessário prelúdio de uma revolução. A greve parcial 
dos contribuintes, o custo da guerra, e as reparações exigidas pelos 
escoceses juntaram-se para esvaziar o tesouro régio e levar o Estado 
ao colapso financeiro. Privado do suporte financeiro da City de Lon-
dres, o governo somente podia obter dinheiro para se manter apelando 
ao Parlamento, o que implicava uma rendição às forças - agora a todo 
vapor - da oposição que se opunham à política régia em todos os 
domínios (STONE, 2000, p. 234). 
É necessário perceber que, quando a situação do executivo vai mal, ocorre tam-
bém um enfraquecimento da sua base aliada no Parlamento. Isso também foi 
assistido com a nova composição dessa instituição, quando, na necessidade 
de conseguir mais dinheiro, Carlos I convocou novas eleições, mas o resultado 
lhe deixou ainda mais isolado. Até mesmo os aliados naturais da realeza esta-
vam em situação complicada. 
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As atitudes do rei acabaram por minar a confiança do Parlamento sobre si. 
Um dos grandes defensores dessa ideia, de que o rei era alguém que não ins-
pirava confiança, foi Oliver Cromwell (1599-1658), um dos grandes líderes do 
puritanismo inglês. Diante disso, os parlamentares oposicionistas acabaram por 
deixar a cargo do próprio Parlamento a nomeação de ministros, o que eliminou 
de vez a possibilidade do rei de exercer seu poder pessoal tanto nas instituições 
civis como no exército. 
Uma série de situações conflitantes foi surgindo e o rei, que já se encontrava 
em uma posição de isolamento, foi ficando cada vez mais enfraquecido. Os pro-
prietários de terras, manufaturas e comércio relutavam em resolver o problema 
por meio da guerra, mas, diante de todo o contexto, entenderam não haver uma 
solução mais eficaz que não fosse um conflito armado. O ponto de partida para 
esse conflito foi a tentativa de aprisionamento de cinco deputados oposicionistas 
puritanos. Diante do fato, o rei se viu na necessidade de se encastelar e preparar 
um exército, já que a oposição havia declarado guerra a ele.  
Na primeira fase do conflito, derrotas e vitórias foram vistas tanto do lado 
dos parlamentares quanto das tropas reais. Entretanto, com base nos estudos de 
Hill (1990), Pereira destacou (2011 b, p. 85): 
O curso da guerra civil mudou finalmente a favor dos revolucionários 
do Parlamento em 1645, quando o líder máximo dos puritanos, Oliver 
Cromwell, criou um novo exército, o chamado exército de novo tipo. 
Organizado com profissionalismo, bem treinado e comandado por 
pessoas de extratos sociais inferiores promovidas por mérito, esse novo 
exército definiu a guerra civil a favor do Parlamento em duas famosas 
batalhas: a de Naseby, travada em 14 de junho, e a de Langport, travada 
em 10 de julho. 
Diante de tal derrota, o rei não viu alternativa a não ser buscar refúgio na Escócia, 
o que não ocorreu, pois foi perseguido e acabou se rendendo – o que pôs fim 
à primeira fase da Guerra Civil. No entanto, os problemas estavam apenas come-
çando para Carlos I. 
Foram inúmeras as tentativas do rei em busca de reaver o seu trono, inclu-
sive, chegou a tentar, de forma sorrateira, uma aliança com a Escócia. Ao ser 
descoberto, a guerra civil inicia-se novamente, o exército real é definitivamente 
derrotado e os deputados favoráveis ao rei foram expurgados do Parlamento. 
Oliver Cromwell (1599-1658),líder da Revolução 
Puritana.
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IV
Diante disso, o rei foi julgado e sentenciado à morte. Matar um rei não era 
nada de inovador na história mundial. Muitos reis já haviam sido mortos ou depos-
tos. Contudo, pela primeira vez na história Ocidental, um rei havia sido morto 
depois de julgado e condenado. O seu julgamento lhe deu condições de se defen-
der e se retratar diante do Parlamento, porém, diante da negativa parlamentar, não 
houve saída para os seus julgadores que não fosse lhe condenar à pena capital, fato 
que ocorreu no dia 30 de janeiro de 1649, no Palácio de Whitehall, em Londres. 
Diante disso, cabe uma pergunta: quem iria governar a Inglaterra, agora 
que o rei Carlos havia sido decapitado? Essa era uma questão que se discutia 
muito naquele contexto. Diante da recusa de Cromwell, a Inglaterra ficou sob 
o comando do Parlamento, que buscou resolver os problemas que se arrasta-
vam, como os que envolviam a Irlanda, por exemplo.  
O resultado foi mais uma guerra, que acabou por implantar o puritanismo 
à força na Irlanda pelo exército liderado por Cromwell, em 1951 (PEREIRA, 
2011 b). Além da Irlanda, os problemas da Escócia também se arrastaram. 
Entretanto, gostaria de focar nossa discussão, prezado(a) aluno(a), no papel de 
Oliver Cromwell, grande líder do puritanismo inglês. 
Gostaria que você prestasse muita atenção, pois a história, neste ponto, é 
bastante contraditória, já que Cromwell se 
colocou como líder do exército que lutava 
contra o absolutismo de Carlos I, mas, assim 
que ele tomou as rédeas da Inglaterra, diante 
dos primeiros desentendimentos que este 
teve com o Parlamento, convocou o seu 
exército pessoal e acabou por dissolver essa 
instituição. No entanto, com a intensificação 
da crise, criou-se um novo Parlamento, mas 
esse ficou composto quase que exclusiva-
mente de fanáticos religiosos, principalmente 
após a renúncia dos deputados moderados. 
Por fim, em 1653, Cromwell foi indicado ao 
cargo de Lorde Protetor da Inglaterra, a única 
fase republicana pela qual esse país passou. 
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A fase que se seguiu a sua nomeação é chamada de Protetorado de Cromwell 
ou, também, de República Puritana. Segundo Pereira (2011b, p. 88): 
O Protetorado significou uma experiência revolucionária singular na 
história inglesa. Pela primeira vez, a Inglaterra passou a viver sob uma 
espécie de Carta Constitucional escrita, que determinava que o chefe 
do executivo, o Protetor, deveria ser eleito indiretamente e dividir o po-
der com o Conselho de Estado e com o Parlamento, ambos igualmente 
compostos por pessoas eleitas. O Conselho de Estado ficou com várias 
prerrogativas, entre elas a de eleger o sucessor de Cromwell. 
Esse período foi de grande importância, além de ter proporcionado muitos 
ganhos aos ingleses, que se viram diante de uma administração mais sen-
sata e menos ideológica, já que o próprio Lorde Protetor havia se distanciado 
dos mais radicais (PEREIRA, 2011b). Não obstante, o embate entre ele e o 
Parlamento estava longe de terminar e Cromwell acabou por dissolver essa 
instituição em 1654. 
Com a morte de Cromwell, em 1658, o poder foi entregue ao seu filho, mas 
este se viu mergulhado em muitos conflitos. Um Parlamento livre se reuniu, em 
abril de 1660, e acabou por restaurar a monarquia na Inglaterra, entregando a 
coroa a Carlos II, filho de Carlos I. Entretanto, é preciso analisar a fundo a obra 
desta revolução que se iniciou na década de 1640. 
Muitos foram os benefícios gerados pela revolução no que diz respeito às 
liberdades política e religiosa. É necessário perceber que, mesmo com todo o 
sofrimento que a Inglaterra passou diante de quase duas décadas de instabili-
dade política, essa foi a última grande revolução pela qual esse país passou no 
que diz respeito a essa temática. 
Houve uma grande melhora na economia inglesa durante o período em que 
Cromwell esteve à frente do poder, pois tanto as manufaturas quanto a agricultura 
estavam mais livres das barreiras mercantilistas. Além disso, com mais liberdade 
religiosa, houve uma crescente alfabetização na Inglaterra, diante de uma maior 
necessidade de haver pessoas capazes de ler e interpretar a Bíblia. 
Pereira (2011b) destacou que no plano externo a Inglaterra se tornou uma 
potência marítima em razão do Ato de Navegação assinado por Cromwell. Mesmo 
diante de tais avanços, mesmo aqueles que haviam apoiado a revolução clama-
vam pela restauração da monarquia. Contudo, essa monarquia não seria mais 
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IV
como antigamente, pois o Parlamento, principal instituição política do país, era 
muito forte e não iria se submeter facilmente a uma nova tentativa de restaurar, 
além da monarquia, o absolutismo. Sendo assim, segue-se uma nova fase dessa 
Revolução, a Gloriosa. 
O LEGADO DA REVOLUÇÃO GLORIOSA À INGLATERRA 
Prezado(a) aluno(a), certamente você já deve ter ouvido a expressão Revolução 
Gloriosa, entretanto, você sabe qual é o verdadeiro sentido dela? Em linhas 
gerais, podemos defini-la como o momento em que houve a restauração da 
monarquia e, mesmo diante de todas as controvérsias que esse processo apre-
sentou, não houve o derramamento de nenhuma gota de sangue. O que ocorreu 
foi uma restauração envolvida em acordos políticos entre as elites monarquistas 
rurais e o Parlamento. Havia, de um lado, exigências quanto ao posicionamento 
do rei, mas havia, também, algumas concessões (PEREIRA, 2011b). Porém, essa 
restauração, ocorrida em 1660, estava longe de colocar um fim nos problemas 
políticos ingleses. 
É necessário perceber que da restauração monárquica até a consolidação 
da revolução foram vinte e oito anos de disputas e acordos políticos. Se, de 
um lado, o rei aceitou respeitar o poder legislativo, além de dividir com esse 
algumas importantes funções, por outro lado, houve um retrocesso político-
-religioso, pois, com a restauração do anglicanismo, a elite religiosa passou a 
ocupar cargos e a monopolizar aqueles mais importantes. Além disso, houve 
também uma perseguição empreendida pelo rei Carlos II e, posteriormente, 
Jaime II, contra aqueles apoiadores da Revolução de 1642, em sua maioria, 
líderes puritanos. Entretanto, os tempos eram outros e o monarca inglês, qual-
quer que fosse, encontraria muita resistência se tentasse implantar um modelo 
absolutista de governo. Sem dúvida alguma, uma das grandes heranças da 
Revolução Puritana. 
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O termo Revolução Gloriosa é empregado para destacar o que ocorreu no 
ano de 1688.  
A verdadeira “glória” da Revolução não descansa no mínimo de violên-
cia necessária ao seu sucesso, mas na maneira de se evitar a violência 
que o Acordo da Revolução legou para as futuras gerações inglesas. 
[...] A “glória” desta campanha rápida e sem sangue deve-se mais a 
Guilherme, que  elaborou minuciosos e complicados planos  e correu 
grandes riscos ao vir resolutamente, do que aos ingleses que tiveram 
somente que lançar seus bonés para o alto, em sua homenagem e com 
suficiente unanimidade, quando ele e suas tropas desembarcaram. Mas 
a verdadeira glória foi queo cataclismo de lançamento de Jaime não 
foi acompanhado por derramamento de sangue inglês, nem no campo 
de batalha nem no patíbulo. Os instintos políticos do nosso povo 
apareceram na fuga de uma segunda guerra civil, para qual todos os 
elementos eram favoráveis (TREVELYAN, 1982, p. 4). 
Em suma, a coroa foi tirada das mãos de Jaime II e entregue ao marido de sua 
filha, Maria (1662-1694), que era casada com o Príncipe holandês Guilherme 
de Orange-Nassau. Este, após aceitar o convite, foi empossado rei inglês com o 
nome de Guilherme III. Entretanto, para que ele pudesse subir ao trono, teve 
de aceitar as imposições do Parlamento. Segundo Trevelyan (1982, p. 61-62): 
O Acordo da Revolução [de 1688] foi nada mais nada a menos do que o 
restabelecimento do império da lei. Foi o triunfo das leis comuns e dos 
juristas sobre o rei, que havia tentado colocar sua prerrogativa sobre o 
direito. Portanto a lei só poderia ser alterada por decretos aprovados 
pelas duas Câmaras, com o consentimento do rei. E a interpretação 
da lei estava, a partir deste dia, confiada a tribunais libertados, pela 
revolução, de todas as interferências governamentais, segundo o novo 
princípio da irremovibilidade dos juízes. 
Em resumo, a Inglaterra foi o berço do que chamamos de Estado de Direito. Um 
Estado em que há uma supremacia das leis sob os privilégios. Um Estado no qual 
os direitos básicos, a liberdade, a vida e a propriedade, são os principais instru-
mentos tutelados por ele. Por fim, o que ocorreu na Inglaterra permitiu que essa 
nação se preparasse para os novos tempos e fosse o berço de inúmeras transfor-
mações que a colocaram na dianteira do mundo. Desde 1688, a Inglaterra segue 
as mesmas bases institucionais e a independência dos poderes é algo muito sólido. 
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IV
CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Prezado(a) aluno(a), espero que ao final desta unidade você tenha compreen-
dido como foi o processo de consolidação da unificação inglesa bem como o 
fortalecimento do absolutismo monárquico. É preciso prestar muita atenção nos 
detalhes que envolvem essa temática, como se atentar aos diferentes posiciona-
mentos apresentados logo no início. Mas é preciso estar ciente de que o processo 
de consolidação da Inglaterra esteve envolto em muitos conflitos. 
Nesse diapasão, é preciso perceber que, desde os tempos feudais, os habitantes 
daquela ilha se mostravam muito preocupados com os limites que deveriam ser 
impostos ao monarca. O ideal de liberdade política bem como o cuidado que os 
governantes deveriam ter com o dinheiro oriundo dos impostos pareciam estar 
impregnados no DNA do ideal de nação desse país. 
A unificação política proporcionou aos habitantes dessa ilha um grande 
avanço social e econômico. A prosperidade permitiu o desenvolvimento de for-
ças econômicas e sociais que seriam a base de sustentação política. Manter esse 
equilíbrio, sem dúvida alguma, estava implícito na pauta de reivindicações dos 
revolucionários puritanos. 
Em suma, entendia-se que, antes da França, a Inglaterra já sabia muito bem 
o que significava os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Esse modelo, 
com certeza, foi um dos grandes fatores que proporcionou a emergência de uma 
civilização do outro lado do Atlântico, os Estado Unidos da América, onde o 
povo teria a supremacia sobre o Estado. 
Outrossim, é de suma importância atentar-se ao fato de que, desde o século 
XVII, a Inglaterra vive um ambiente de relativa estabilidade política. Desde a 
Revolução Gloriosa, de 1688, não ocorre nada que pudesse colocar as estruturas 
democráticas em jogo, enfraquecendo o Parlamento ou qualquer outra instituição 
em jogo. Não diferente, possibilitou que a Inglaterra figurasse entre as grandes 
potências mundiais já vistas.
139 
CRONOLOGIA DA REVOLUÇÃO INGLESA 
1603-1625: Reinado de Jaime I (início da 
Dinastia Stuart). 
1625: Início do Reinado de Carlos I. 
1629: Carlos I fecha o Parlamento inglês, 
passa a cobrar pesados impostos e a per-
seguir os puritanos. 
1640-abril: Carlos I reabre o Parlamento e 
fecha-o novamente após três semanas. É o 
período do Parlamento Curto. 
1640-novembro: Reabertura do Parla-
mento, conhecido com Parlamento Longo. 
Ele fica aberto até 1653, quando é dissol-
vido por Cromwell. 
1642-agosto: Começo da Guerra Civil. 
Cromwell forma o exército de novo tipo 
para lutar pelo Parlamento e contra Carlos I. 
1642-julho: Batalha de Hull, vencida pelo 
exército do Parlamento. 
1642-outubro: Batalha de Edgehill, ven-
cida por Carlos I. 
1644-julho: Batalha de MarstonMoor, ven-
cida por Cromwell. 
1645-junho: Batalha de Naseby, vencida 
por Cromwell. 
1645-julho: Batalha de Langport, vencida 
por Cromwell. 
1646-junho: Fim da primeira guerra civil e 
rendição de Carlos I. 
1648-fevereiro: Começo da segunda guerra 
civil. 
1648-agosto: Batalha de Preston, com a 
derrota final de Carlos I. 
1649-janeiro: Carlos é julgado e execu-
tado em Londres. 
1649-março: Decretada a Abolição da 
Monarquia. 
1649-maio: Proclamação da República e 
criação da Comunidade Inglesa (English 
Commonwealth). A Inglaterra passa a ser 
dirigida pelo Parlamento. 
1651: Ato de Navegação. 
1653-abril: Cromwell fecha o Parlamento. 
1653-dezembro: Criação do Protetorado. 
Cromwell é empossado como Lorde Protetor. 
1655-fevereiro: Cromwell fecha o Parla-
mento e impõe o regime militar. 
1658-setembro: Cromwell morre, aos 59 
anos. 
1658-setembro: O filho de Cromwell, 
Ricardo Cromwell, é empossado como lorde 
Protetor da Inglaterra. 
1660-abril: O Parlamento aprova a des-
tituição de Ricardo Cromwell, o fim da 
República e a restauração da Monarquia. 
1660-maio: Início do reinado de Carlos II. 
1685-fevereiro: Morte de Carlos II. 
1658-abril: Coroação de Jaime II. 
1688-dezembro: Fim do Reinado de Jaime II. 
1689-janeiro: É publicada a “Declaração dos 
Direitos”, pela qual Guilherme III aceita o 
Trono Inglês e se compromete a respeitar 
as leis e a aceitar a preponderância do Par-
lamento sobre o poder real. 
1689-fevereiro: Início do Reinado de Gui-
lherme de Orange-Nassau e de Maria II 
Stuart. Fundação da Monarquia Constitucio-
nal da Inglaterra, que vige até os dias atuais. 
Fonte:  PEREIRA, José Flávio. A sociedade moderna na Inglaterra. In.: PEREIRA, José Flávio. 
(org.). Tempos Modernos: economia, política, religião e arte. Maringá: EDUEM, 2011. p. 95-96.
141 
1. Com base nos argumentos apresentados por Karnal  (2007), explique os fato-
res que permitiram a unificação do poder real na Inglaterra.
2. Descreva, em linhas gerais, como era composta a sociedade inglesa na Idade 
Moderna.
3. Diante do contexto revolucionário inglês, aponte o que pode ser considerado 
como uma verdadeira herança política da Revolução de 1688:
a. Podemos destacar que, com essa Revolução, foi instaurado na Inglaterra o 
Estado de Direito, no qual a lei teria supremacia diante dos privilégios. 
b. A Revolução Gloriosa mostrou que a Guerra Civil foi o melhor caminho ado-
tado pelos ingleses. 
c. Apesar de exclusivamente burguesa, a Revolução de 1688 acabou por per-
petuar o regime absolutista na Inglaterra. 
d. Tanto a Revolução Gloriosa quanto a Revolução Puritana tiveram grandes 
custos humanos em razão dos conflitos. 
e. Em 1688, Carlos III, ao assumir definitivamente o trono, se dispôs a aceitar as 
condições que o Parlamento lhe ofereceu. 
4. Acerca da formação do Estado Inglês, considere as afirmativas abaixo: 
I. Um dos principais documentos da história inglesa é a Carta Magna, assi-
nada pelo Rei João Sem Terra. Esse documento estipulou limites à atuação 
do rei, submetendo este a uma avalição por parte de um grupo de nobres. 
II.A Guerra dos Cem Anos (1337-1453) foi um dos eventos responsáveis por 
atrasar o desenvolvimento econômico e social da Inglaterra. 
III. A Guerra das Duas Rosas foi um conflito que envolveu a Inglaterra na dispu-
ta pelo controle dos reinos vizinhos, como Escócia e País de Gales. 
IV. O absolutismo monárquico, embora não tenha sido tão intenso na Ingla-
terra, teve seu ápice com o Rei Henrique VIII. Esse monarca teve como um 
dos seus principais feitos a criação da Igreja Anglicana, que tornou o poder 
religioso submisso ao poder real. 
É correto o que se lê em: 
a. II. 
b. I e III. 
c. III e IV. 
d. I, II e IV. 
e. I, III e V
MATERIAL COMPLEMENTAR
Causas da Revolução Inglesa (1529-1642)
Lawrence Stone 
Editora: Bauru-SP: Universidade do Sagrado Coração
Sinopse: Neste livro, o autor traça uma linha de raciocínio 
buscando apresentar ao leitor os diversos fatores que 
infl uenciaram diretamente na Revolução Inglesa, ocorrida no 
século XVII. Fatores sociais, econômicos, religiosos e institucionais 
estão entre os enfoques dados por Stone para explicar a série de 
eventos ocorridos no século XVII, desde a Revolução Puritana e 
a Revolução Gloriosa. O autor mostra que esses eventos foram 
indispensáveis para preparar a Inglaterra à Era Contemporânea. 
Cromwell, o homem de Ferro
Ano de lançamento: 1970 (reino Unido) 
Direção: Ken Hughes
Sinopse: O fi lme é um drama histórico que apresenta a história 
de Oliver Cromwell, líder da Revolução Puritana e que acabou por 
condenar Carlos I a morte. Esse fi lme retrata a Inglaterra do século 
XVII bem como todos os problemas que colocaram o rei em choque 
com o Parlamento, ocasionando o processo revolucionário.
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Professor Me. Kleber Eduardo Men
DO FEUDALISMO À MODERNIDADE:
A FORMAÇÃO DA FRANÇA E O 
CENÁRIO REVOLUCIONÁRIO DO 
SÉCULO XVIII
Objetivos de Aprendizagem
 ■ Analisar o processo de formação da Sociedade Francesa. 
 ■ Estudar as principais bases que configuraram o Absolutismo 
monárquico. 
 ■ Compreender o contexto social francês. 
 ■ Refletir sobre a obra da Revolução Francesa.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
 ■ A Sociedade do Antigo Regime na França
 ■ O absolutismo
 ■ O cenário Revolucionário Francês
 ■ A obra da Revolução Francesa
INTRODUÇÃO
Olá, aluno(a)! 
Certamente, você já deve ter ouvido falar que a França é o berço da liberdade, 
da igualdade e da fraternidade. Esse, de fato, foi o lema da Revolução Francesa, 
que se espalhou por todo o mundo a partir do final do século XVIII, inclusive 
sendo sentido os seus reflexos no Brasil. Entretanto, quais foram os fatores que 
motivaram tal evento? As explicações são muito mais complexas do que aque-
las proferidas nos livros didáticos. Para entendermos a Revolução que ocorreu 
no século XVIII, precisamos interrogar as estruturas que emergiram no perí-
odo feudal. 
A Sociedade Moderna Francesa é confundida com a própria denominação 
de Antigo Regime, nessa fase da história aquela sociedade estava dividida em 
estamentos, em que cada posição era determinada pelo nascimento do indiví-
duo. Além disso, para os indivíduos situados na base dessa pirâmide social, não 
havia qualquer tipo de garantia ou direitos individuais que pudessem lhe prote-
ger da arbitrariedade do Estado, restando a esses obedecer aos desmandos do rei. 
Nesse sentido, gostaria de convidá-lo(a) a interpretar essa sociedade. O 
nosso objetivo central nesta unidade será o de refletir sobre o papel das ins-
tituições francesas, observando como cada uma delas se comportou ao longo 
da História. Vale lembrar que uma análise histórica de longa duração pode 
muito bem ser aplicada para observar esse país, haja vista que as transforma-
ções ocorridas ao longo dos séculos, que separou a consolidação do Estado 
francês em fins da Idade Média, e a Revolução do século XVIII estão intima-
mente ligadas. 
Diante disso, é importante que estejamos atentos a essas transformações, 
observando como as rupturas e as continuidades se fizeram presentes ao longo 
da história francesa. Sendo assim, convido você a viajar na história da sociedade 
francesa. Bons estudos! 
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Introdução
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A SOCIEDADE DO ANTIGO REGIME NA FRANÇA 
Como você bem percebeu na unidade I, a França foi palco de um dos confli-
tos mais intrigantes da História do Ocidente. Foi nesse país que ocorreu uma 
disputa muito acirrada envolvendo a questão da soberania do rei frente ao 
papa. Felipe IV, conhecido como Felipe, o Belo, se lançou em uma cruzada 
política contra o papa Bonifácio VIII. Em suma, foi na França que aconteceu 
a primeira manifestação, velada de descontentamento com as intromissões 
da Igreja na esfera política, e isso alterou completamente essa relação entre 
Igreja e Estado. 
A formação da sociedade francesa, que também pode ser denominada 
por Sociedade do Antigo Regime, até mais ou menos o século XIV, era 
muito semelhante à inglesa, conforme destacou o ilustre pensador Alexis 
de Tocqueville (1997). Como você pôde perceber na unidade anterior, até o 
fim da Guerra dos Cem Anos (1337-1453), que envolveu Inglaterra e França, 
tanto uma como a outra enfrentaram os mesmo problemas, inclusive, as carac-
terísticas da nobreza desses dois países eram muito semelhantes. Em termos 
sociais e políticos, nada podemos destacar que venha a estabelecer um hiato 
muito grande entre as duas. A esse respeito, é importante observar o que des-
tacou Pereira (2011a, p. 39): 
Percebemos, assim, que, no século XIV, no contexto do enfraqueci-
mento das relações feudais e da indefinição social e política que se ins-
taurou em seguida, Inglaterra e França vivenciaram, para as condições 
históricas da época, um ambiente político relativamente democrático 
e cooperativo. No entanto, embora algumas semelhanças entre elas se 
mantivessem, conforme as instituições e as relações sociais e políticas 
foram redefinindo e se reordenando ao longo desse século, os dois paí-
ses enveredaram por caminhos políticos distintos. 
Entretanto, prezado(a) aluno(a), para que nossos estudos sobre a França sejam 
mais claros, torna-se indispensável que façamos uma comparação com a Inglaterra, 
pelo menos em linhas gerais, para que você possa compreender os pontos essen-
ciais de sua evolução política. 
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Ao contrário da Inglaterra, onde o poder real teve muitas dificuldades em 
obter o controle pleno sobre a população, na França isso foi muito diferente. Desde 
os tempos de Felipe IV, o poder real já se mostrava bem definido quanto ao tipo 
de influência que ele queria exercer sobre os seus súditos. Na França, mesmo 
com toda resistência, não houve o que limitasse o engrandecimento do Estado 
na vida das pessoas. A esse fato podemos utilizar o mesmo raciocínio empregado 
por Karnal (2007) para explicar o que, no seu ponto de vista, havia sido a razão 
pela qual o poder real inglês havia se consolidado, que é a situação de vulnera-
bilidade que essa nação se encontrava quando a Guerra dos cem anos terminou. 
Esse argumento utilizado por Karnal (2007) para explicar a centralização 
inglesa, no que diz respeito à sociedade francesa, segue a mesma linha de racio-
cínio que foi empregada por Pereira (2011a, p. 40-41). 
O que pareceter contribuído de modo marcante para o aumento do 
poder do Estado e dos reis franceses foi a Guerra dos Cem Anos (1337-
1453). Diante da invasão do território francês pelos exércitos ingleses, 
amplas parcelas da população francesa foram tomadas pelo pavor, o 
que levou à aceitação do aumento do poder tributário, político e mili-
tar do Estado e dos reis franceses. Estado e reis mais poderosos e ricos 
seriam, na visão dessa parte da população, a única saída para garantir a 
integridade e a independência da França diante dos invasores ingleses. 
Como você pôde perceber na citação acima, a situação de vulnerabilidade em 
que a França se encontrava ao final do conflito com a Inglaterra foi o fator res-
ponsável por torná-la sujeita a um poder centralizado mais intenso. É evidente 
que o processo de centralização do poder ocorre pelo mecanismo monopolista, 
como bem destacou Elias (1993), em que o Estado vai gradativamente tomando 
para si o monopólio de determinadas funções que antes não havia qualquer tipo 
de controle mais eficiente, como é o caso da tributação e do exército. Tudo isso, 
“Uma mudança deixa sempre patamares para uma nova mudança”
(Maquiavel).
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Reprodução proibida. A
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utilizando-se da justificativa de que o poder fornece mais segurança e prospe-
ridade aos seus súditos. Ou seja, o Estado monopoliza funções e promete tutela 
sobre a população. 
Entretanto, prezado(a) aluno(a), Elias (1993) também destaca que essa 
centralização exacerbada não ocorreu sem que houvesse qualquer tipo de mani-
festação. Pelo contrário, era visível que muitos setores da sociedade enxergavam 
nesse aumento do poder real algo muito nocivo às liberdades individuais. Na 
carta abaixo, escrita no século XV, de autoria do arcebispo da cidade de Rheims e 
endereçada ao Rei Carlos VII, da França, já há a ideia dos contornos dos quais 
o Estado francês estava se revestindo: 
Quando os predecessores de Vossa alteza tencionavam ir à guerra, 
costumavam convocar os três estados; convidavam representantes da 
Igreja, da nobreza e dos plebeus para reunirem-se com eles em suas 
boas cidades. Vinham e explicavam o estado das coisas, diziam o que 
era necessário para resistir ao inimigo, e solicitavam que os represen-
tantes reunidos se consultassem sobre a maneira como a guerra devia 
ser conduzida, a fim de ajudarem o reio com impostos decididos nes-
sa discussão. Vossa alteza sempre observou esse procedimento, até que 
compreendeu que Deus e a Fortuna - que é mutável - a ajudaram de tal 
forma que tais discussões estão agora abaixo de sua dignidade. Vossa 
alteza impõe agora as “aides” e outros tributos e permite que sejam co-
bradas como se fossem tributos de seu próprio domínio, sem a anuên-
cia dos seus três estados.  Antes..., o reino podia, com justiça, ser deno-
minado ‘Royaume France’, pois costumava ser livre [franc] e gozava de 
todas as liberdades [franchisesetlibertés]. Hoje o povo nada mais é do 
que escravo, arbitrariamente tributado [taillables à voulenté]. Se exami-
namos a população do reino, descobrimos apenas um décimo dos que 
antigamente nele viviam. Não desejo reduzir o poder de vossa alteza, 
mas, sim aumentá-lo tanto quanto estiver dentro de minhas forças. Não 
há dúvida de que um príncipe, e em especial vossa alteza, pode em cer-
tos casos tirar [tailler] alguma coisa de vossos súditos e cobrar as ‘aides’, 
sobretudo para defender o reino e a coisa pública [chose publique]. Mas 
tem que concordar em fazer isso de forma razoável. A tarefa dele não 
é a minha. É possível que a vossa Alteza seja soberana nas questões de 
justiça, e que esta seja sua autoridade. Mas no que interessa às receitas de 
seus domínios, o rei tem seu domínio e cada particular também possui 
o seu [N.B: em outras palavras, o rei deve sustentar-se com a receita 
de suas propriedades e domínios, sem usurpar o controle da receita de 
todo país]. Hoje, os súditos têm tosquiada não só a sua lã, mas também 
a pele, a carne e o sangue, até os ossos (apud ELIAS, 1993, p. 182-183). 
Rei Luis XIV, o Rei Sol.
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Atenção, aluno(a)! O documento acima é de uma riqueza impressionante. Veja 
como o bispo se dirige ao rei demonstrando total descontentamento com os des-
mandos tributários. O que pode ser verificado é que, com a centralização política 
e o consequente monopólio de certas funções que antes cabiam à nobreza, esse 
estamento se viu enfraquecido. A nobreza estava refém do rei, pois não possuía 
meios para sobreviver e tornou-se dependente do Estado. Em suma, a nobreza, 
que antes tinha um papel importante na administração das vilas, agora se tor-
nava uma nobreza parasitária, pois obteria os recursos necessários à manutenção 
do seu status quo das verbas oriundas do rei. Esse tema é de suma importância 
e, vez ou outra, será necessário retomá-lo nesta unidade. 
Outro ponto importante que observamos é a arbitrariedade do rei com rela-
ção aos tributos, já que ele nem se dava mais ao trabalho de consultar os demais 
membros da estrutura social francesa. O avanço do Estado nas áreas que antes 
eram de domínio dos nobres bem como a cobrança dos tributos que a esses eram 
devidos estavam causando um descontentamento grande na população. 
Nicolau Maquiavel (2000), em sua obra o Príncipe, alertou o governante 
com relação aos cuidados que este deveria ter na hora de tratar dos tributos. Para 
esse autor, o príncipe deveria saber a hora de ser liberal bem como o momento 
exato de agir com responsabilidade com as contas do Estado. Esse autor tinha 
claro que os súditos sabiam muito bem que, 
no final, eram eles quem pagavam as contas 
pela má administração da coisa pública. Um 
dos fatores mais importantes nessa passa-
gem é a diferença que Maquiavel estabeleceu 
entre os bens públicos e os bens privados. 
O príncipe deveria saber muito bem fazer 
a separação dessas duas esferas, já que o 
dinheiro do súdito, bem como os interes-
ses desse enquanto membro de um Estado, 
deveria vir em primeiro lugar, para que o 
Estado prosperasse. Entretanto, o que vemos 
na França é uma verdadeira mistura com 
essas duas esferas. Aliás, a expressão do Rei 
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Luís XIV, “L’Étatc’est moi” (O Estado sou eu), dava a entender perfeitamente que 
as esferas pública e privada pertenciam a um mesmo sujeito - o rei. 
Foi nesse ambiente político que os súditos franceses começaram a cha-
mar a atenção para o caráter público da função real. Expressões que 
hoje em dia são triviais eram, naquele momento, utilizadas pelos súditos 
para marcar posição contra os abusos dos reis e distinguir uma instân-
cia da outra. Foram usadas, assim, pela primeira vez, expressões como 
coisa pública, pátria e mesmo Estado para se contrapor a príncipes e a 
reis que, em suas ações, confundiam o que lhes pertencia e à sua família 
com o que era do Estado propriamente dito e da sociedade. No entanto, 
apesar das reações contrárias das várias ordens sociais, os reis franceses 
foram os grandes vencedores do conflito, persistindo, portanto, a ideia 
de que rei e Estado eram a mesma coisa (PEREIRA, 2011a, p. 41). 
Como podemos perceber, parece que nesse ponto reside o grande divisor de águas 
no que diz respeito à história francesa e à inglesa. Enquanto na última o rei teve 
de conviver com a constante pressão de diferentes grupos sociais, impondo-lhe 
limites, na França, o rei sobressaiu como força soberana e absoluta, não deixando 
aos seus opositores grandes chancesde se verem livres das garras do Estado. 
Além desse ponto importante, você deve observar que o Antigo Regime 
francês já nasceu envolto em inúmeros vícios administrativos. Não é apenas a 
confusão patrimonial, mas também inúmeros outros problemas de ordem admi-
nistrativa e tributária que fezeram emergir um conceito de Estado em que algumas 
pessoas viviam como parasitas, enquanto uma grande parcela da população tra-
balhava para sustentá-las, mas isso será tratado mais à frente. 
O ABSOLUTISMO 
Como você já deve ter percebido, do ponto de vista político, a França tornou-
-se um Estado muito forte, no qual o rei passou a exercer plenos poderes. Foi 
na França que o absolutismo monárquico se cristalizou. O conceito de absolu-
tismo, como já mencionamos na unidade anterior, significa que o rei detém em 
suas mãos as funções de executor, legislador e julgador. Na carta do bispo ao rei 
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Carlos VII, citada anterior-
mente, fica claro que o rei já 
concentrava em suas mãos o 
papel legislativo e executivo, 
visto que, antes, as decisões 
de como devia ser gasto o 
dinheiro eram tomadas por 
um conjunto de pessoas e 
uma das lamentações na carta é justamente com relação a isso, pois o rei passou 
simplesmente a ignorar tal fato. 
O poder da Coroa francesa chamou atenção também de Nicolau Maquiavel 
(2000). Na segunda unidade deste livro, apresentamos esse escritor, entretanto, 
seus comentários acerca dessa nação são pertinentes. Ele, inclusive, chegou a 
afirmar, no século XVI, que a Coroa e os Reis franceses eram mais poderosos 
do que jamais haviam sido. Os fatores que Maquiavel enumera são inúmeros. 
Mas, nas palavras dele, percebemos que o poder real era muito forte. Observe: 
A coroa, transmitida por sucessão de sangue, veio a se tornar rica; isso 
porque às vezes, não tendo filhos os reis, nem sucessores na própria 
herança, foram para a coroa suas posses e seus Estados. E, como tal 
sucedeu a muitos monarcas, a coroa acabou sendo muito enriquecida 
pelos numerosos Estados que lhe couberam; [...] de sorte que, atual-
mente, todas as boas terras de França são da coroa, não dos seus barões, 
em particular (MAQUIAVEL, 2000, p. 215). 
Você sabia que o Rei Luis XIV, personagem máximo do absolutismo francês, 
se autoproclamou “Rei Sol”? Sua obsessão pelo poder era tão grande que 
ele queria ser igualado ao sol, o astro Rei. Durante o seu governo, foi cons-
truído o Palácio de Versalhes, mais um dos grandes símbolos da imponência 
do regime absolutista. 
Fonte: o autor. 
Palácio de Versalhes (Château de Versailles).
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Acerca da citação acima, o que fica exposto é que houve um fortalecimento 
econômico em razão dos vários monarcas que passaram pelo trono francês. 
Isso ocorreu no período em que o processo de consolidação estava ocorrendo. 
Conforme a centralização política foi intensificando, o poder foi aumentando, 
pois cada monarca que passou a ocupar o cargo trazia seu patrimônio pessoal e 
somava este ao patrimônio do monarca anterior. 
Há outro motivo, muitíssimo forte, da força daquele rei: acontece que, 
no passado, a França não se encontrava unida à mercê dos potentes 
barões, que tudo ousavam e lhes era suficiente o desejo para se entre-
gar a qualquer empresa contra os reis, como era o caso dum duque 
de Guiena e de Bourbon, os quais, hoje, são todos muito benevolentes. 
Tornou-se, dessa maneira, o mais forte (MAQUIAVEL, 2000, p. 215). 
Nessa citação, fica claro que o poder na França, em pleno século XVI, já estava 
bem concentrado nas mãos dos reis. Inclusive, fica também exposto que o rei 
soube muito bem domesticar a ira dos barões feudais, visto que estes represen-
tavam um grande perigo. Segundo Adam Smith (1999, p. 660), 
Nesses tempos conturbados, todo grande proprietário era uma espécie 
de príncipe em ponto pequeno. Os seus arrendatários eram seus súdi-
tos. Ele era o Juiz e, em chefe, em tempos de guerra. Fazia guerra ao seu 
bel-prazer, e, frequentemente, contra seus vizinhos, e, às vezes, contra 
o seu soberano. 
Havia, na Idade Moderna, pensadores que buscaram legitimar a ação do 
Estado em nossas vidas. Dentre eles, podemos destacar Thomas Hobbes 
(1588-1679), autor de O Leviatã, que defendeu que os seres humanos en-
tregaram, a um terceiro, parte de sua liberdade, para que esse preservasse 
a sua própria existência; Jacques Bossuet (1627-1704), autor de a Política ti-
rada das Sagradas Escrituras, defendeu que o rei era uma autoridade divina, 
ou seja, o trono do rei era o trono do próprio Deus. 
Fonte: o autor. 
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Por fim, não é preciso dar maiores destaques com relação ao fato da França estar 
ou não unificada, visto que os documentos citados até aqui já deixam isso bem 
explicitado. Entretanto, precisamos compreender como se organizou o absolu-
tismo nesse país. 
Quando afirmamos anteriormente que a França foi o país onde o absolu-
tismo se cristalizou de forma mais velada, Norbert Elias (1993, p. 19) também 
considera esta afirmação: 
Alguns dos mecanismos mais importantes que, em fins da Idade Média, 
foram aumentando o poder da autoridade central de um território po-
dem ser descritos sumariamente neste estágio preliminar. Eles foram, 
de modo geral, semelhantes em todos os maiores países do Ocidente, 
e isso pode ser observado com especial clareza no desenvolvimento da 
monarquia francesa.
O excerto acima faz parte da introdução sobre o mecanismo de formação dos 
Estados, entretanto, ele lança de forma breve os fatores que contribuíram com 
isso. Já citamos anteriormente que o monopólio tributário foi um dos pontos 
essenciais dessa política. Em suma, com a perda de sua importância no campo 
econômico, restou à nobreza feudal se tornar uma nobreza de corte, ou seja, uma 
nobreza que passava a auxiliar o rei na administração do Estado. 
Ao mesmo tempo em que a nobreza perdia seu poder econômico, emergia 
uma classe social que passava a dominar essa área. Não por meio dos tributos, 
mas sim em razão da exploração das atividades comerciais. São eles: os burgue-
ses. Nesse diapasão, era interessante para o rei manter o controle dessas duas 
instituições, visto que o menor sinal de aliança entre a burguesia e a nobreza 
poderia colocar a supremacia real em risco. 
A nobreza perdeu poder social com a expansão do setor monetário da 
economia, enquanto aumentava o poder das classes burguesas. Mas, 
de modo geral, nenhum dos dois estados mostrou ser forte o suficien-
te para obter a predominância por um período prolongado. Tensões 
constantes em toda parte irrompiam em lutas ocasionais (ELIAS, 1993, 
p. 22). 
Tocar nesse assunto sem, mais uma vez, fazer uma comparação com a Inglaterra 
é praticamente impossível. Da mesma forma, quanto mais você perceber essas 
diferenças, melhor será para que o conteúdo fique mais claro. No entanto, ao 
contrário do que houve na Inglaterra, em que o poder do rei foi constantemente 
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ameaçado, mesmo no período em que o absolutismo esteve mais avançado, na 
França, o poder central do rei soube muito bem estabelecer um controle sobre 
esses dois estados (nobreza e burguesia), impedindo que se criasse ali uma resis-
tência mais eficiente, como havia ocorrido do outro ladodo Canal da Mancha. 
Em suma, prossegue Elias (1993, p. 22): 
Os representantes da autoridade central absoluta, por isso mesmo, 
tinham que estar constantemente alerta para garantir esse equilíbrio 
instável no território. Nos casos em que se rompia o equilíbrio, em 
que um único grupo ou classe se tornavam fortes demais, ou em que 
grupos aristocráticos e da alta burguesia se aliavam temporariamente, 
a supremacia do poder central corria sério risco ou - como no caso 
da Inglaterra - tinha seus dias contados. Dessa maneira, observamos 
frequentemente entre os governantes que, enquanto um protege e pro-
move a burguesia porque a nobreza aparece poderosa demais e, por 
isso mesmo, perigosa, outro se inclina para a nobreza, porque esta se 
tornou muito fraca ou porque a burguesia se mostra muito refratária, 
sem, contudo que o outro lado seja jamais inteiramente negligenciado. 
Como foi possível perceber, prezado(a) aluno(a), o rei sabia muito bem fazer o 
jogo do poder. Ele sabia utilizar-se do poder econômico para comprar seu apoio. 
Além disso, soube utilizar o seu poder de concessão de monopólios, pois, dessa 
forma, obteria o apoio da burguesia. 
O mecanismo de divisão social que havia na França era um dos principais 
pontos que davam sustentação ao absolutismo. Havia nesse país uma rígida hie-
rarquia social, que já existia desde os tempos do feudalismo. A sociedade francesa 
era dividida em estados, com os mesmos pressupostos dos estamentos no feu-
dalismo, visto que era o nascimento a condição que determinava o estado ao 
qual o sujeito pertencia. 
O resultado da desigualdade política, tributária e jurídica que se insti-
tuiu foi uma sociedade dividida rigidamente em três Estados: no topo 
da pirâmide social, e beneficiados por vários privilégios, estavam o 
clero (Primeiro Estado) e a nobreza (Segundo Estado); na base, esta-
vam os integrantes da burguesia (Terceiro Estado), cuja esmagadora 
maioria era praticamente desprovida de qualquer privilégio e ficava 
com todo o ônus tributário da nação. O desenvolvimento da França no 
período moderno assentou-se, portanto, na rígida e desigual hierarquia 
social, que acabou por determinar a forma como os franceses aboliram 
o Antigo Regime no século XVIII (PEREIRA, 2011a, p. 42). 
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Essa rígida hierarquia social, base de sus-
tentação do Antigo Regime, pode ser muito 
bem ilustrada pela charge a lado: 
Essa imagem, que foi produzida às vés-
peras da revolução do século XVIII, dá uma 
boa ideia do que era o regime absolutista. 
Acima estão o primeiro e o segundo esta-
dos, que são o clero e a nobreza. Os dois 
estão sentados sobre um velho camponês 
que, assim como a burguesia, pertencia ao 
terceiro estado e era o responsável por arcar 
com as despesas tributárias que bancavam 
as festas e os privilégios dos demais estados. 
Quem trabalhava não tinha o direito de usufruir do seu trabalho, já que boa parte 
dos rendimentos era tributada pelo governo. Isso foi o responsável pelo enrique-
cimento dos primeiros estados, mas, em geral, provocou um empobrecimento 
muito grande dessa nação ao longo dos anos, conforme podemos observar abaixo: 
Com esse perfil político, social e tributário, a França moderna não foi 
uma sociedade tão dinâmica em termos econômicos e sociais como a 
Inglaterra e nem deu condições para que as forças sociais e econômicas 
espontâneas produzissem todas as mudanças de que eram capazes na 
manufatura, no comércio e na agricultura. Cabe recordar que havía-
mos identificado duas grandes etapas de transformação histórica da 
Inglaterra: a da dissolução das relações feudais, praticamente consu-
mada no final do século XV e a da revolução agrícola, manufatureira, 
política e religiosa da primeira metade do século XVI, que desenca-
deou a expropriação dos camponeses, a expansão da manufatura têxtil, 
a reforma religiosa e a instituição do Estado absolutista. Na França, as 
transformações econômicas e sociais tiveram sequência, mas em rit-
mo mais lento e por um caminho diferente. Talvez não seja exagero 
afirmar que a França não vivenciou uma revolução modernizadora 
tão profunda quanto a da Inglaterra a partir do século XVI. A própria 
reforma protestante não teve na França desdobramentos profundos 
e generalizados, como na Inglaterra, na Holanda e na Alemanha. 
Nesse sentido, a Noite de São Bartolomeu, marcada pelo massacre de 
milhares de calvinistas franceses em 1572, freou a expansão protestante 
e garantiu o predomínio do catolicismo no território francês até os dias 
atuais (PEREIRA, 2011a, p. 43). 
Fonte: Costa (2011, online)
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O absolutismo atingiu dimensões inexplicáveis na França. Do ponto de vista 
econômico, a intervenção do Estado era tão intensa que os funcionários reais 
tinham poder para decidir o que o camponês deveria plantar. O mais complicado 
de tudo, prezado(a) aluno(a), é que os critérios utilizados eram muito subjeti-
vos, outra característica do governo absolutista, já que as regras não eram claras 
e muito menos se destinavam a todos de forma isonômica. 
Toda essa intervenção tornou os franceses dependentes do Estado. Veja bem, 
essa característica não é uma exclusividade do brasileiro, o qual não consegue 
dar um passo à frente sem pedir permissão ao Estado, haja vista a tamanha buro-
cracia que o nosso sistema político e econômico tem, desde os tempos coloniais. 
Isso foi denominado por Tocqueville como Estado tutelar, em que cabia a este 
“proteger” o súdito. 
No antigo regime, como hoje, não havia nenhuma cidade, aldeia, vi-
larejo ou povoação da França, por menor que fosse, nem hospital, 
fábrica, convento ou colégio algum com o direito de administrar in-
dependentemente seus negócios particulares ou seus bens. Na época, 
como  aliás  hoje, a administração tutelava todos os franceses e, se a 
insolência da palavra ainda não se produzira, a coisa em si já existia 
(TOCQUEVILLE, 1997, p. 71-76). 
Essa dependência das decisões do Estado se mostrou muito nociva, já que houve 
um grande desestímulo à produção. A longo prazo, a falta de investimentos decor-
rentes do excesso de intervenção – essa que era assistida em toda as esferas do 
poder - produziu uma grande crise econômica, que foi acelerada por inúmeros 
outros problemas econômicos e sociais. Segundo Pereira (2011a, p. 45): 
Foi moldada, ao longo do tempo, uma população cujos indivíduos as-
semelhavam-se pela condição de dependentes e tutelados do Estado 
absolutista. Isso trouxe sérios problemas políticos para os reis france-
ses, principalmente no século XVIII, pois eles se viram impossibilita-
dos de atender a todas as demandas da sociedade, que havia se tornado 
mais complexa, exigente e dividida em termos sociais e políticos. Nesse 
contexto, eles passam a perder legitimidade e apoio para governar de 
modo absoluto, inclusive no interior do clero e da nobreza. 
A citação acima, para melhor ser entendida, prezado(a) aluno(a), necessita de 
uma avaliação pormenorizada. Primeiramente, é importante que saibamos que 
a única semelhança que havia entre os indivíduas na França do século XVIII, 
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segundo o autor supracitado, era a condição de dependentes do Estado. O Estado 
Absolutista tinha nessa tutela excessiva uma de suas principais características. 
Entretanto, como a evolução natural de uma sociedade,as suas necessidades 
foram se tornando complexas por demais. Essa complexidade foi, aos poucos, 
causando descontentamentos entre os indivíduos, já que o Estado não conseguia 
mais responder com a mesma eficiência às suas necessidades. Era necessário que 
houvesse mudanças para que essa tutela fosse mantida. 
Outro ponto é com relação à política. Os grupos que antes não ousavam dis-
cordar da forma como eram administradas as questões do Estado, diante dessa 
nova situação, pouco a pouco, passaram de apoiadores a críticos. Isso pode ser 
observado, conforme Pereira (2011a) advertiu, no seio da própria nobreza e do 
próprio clero. Em suma, o governo absolutista passava a perder legitimidade 
dentro dos próprios segmentos que antes lhe eram fiéis. Esse descontentamento 
só fez aumentar, causando revolta e inquietações. Isso é o que veremos no pró-
ximo tópico. 
O CENÁRIO REVOLUCIONÁRIO FRANCÊS 
A história se faz com documentos. Essa citação, prezado(a) aluno(a), deverá 
estar sempre presente em sua carreira como professor(a) de História, haja vista 
que tudo que afirmamos precisa estar instrumentalizado, ou seja, documen-
tado. Não importa o argumento que defenderá (desde que, em nossa opinião, 
observe-se o caráter lícito do objeto), mas sim a forma como demonstrará a sua 
linha de raciocínio. A contradição é um dos erros mais grosseiros e mais come-
tidos pelas pessoas. Devemos sempre seguir uma linha de raciocínio que não 
“Ao longo dos séculos, existiram homens que deram os primeiros passos em 
novas estradas armados apenas com a sua própria visão”. 
(AynRand).
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jogue nosso argumento pela janela. Devemos trabalhar os documentos e apre-
sentar os argumentos de forma clara e objetiva. 
Para que nosso trabalho sobre a Revolução Francesa seja mais claro e mais 
próximo daquilo que acreditamos ser o mais correto, utilizaremos um docu-
mento de suma importância - o relato feito, ainda no século XIX, ou seja, no 
frescor do processo revolucionário, pelo escritor Alexis de Tocqueville. Sua obra, 
intitulada O Antigo Regime e a Revolução, procura responder a uma questão 
bastante simples, porém, de uma reflexão profunda: por que a revolução acon-
teceu na França e não em outro lugar? 
Diante da questão acima, você pode até mesmo pensar que não há nada 
de complexo ou de profundo. Uns podem dizer: mas houve uma Revolução na 
Inglaterra. Entretanto, diante da conjuntura que a Inglaterra apresentou às vés-
peras de sua revolução, podemos afirmar que houve uma mesma dimensão? De 
fato, não. Sendo assim, nosso objetivo é fazer um debate acerca desses temas, 
enfatizando a situação que fez emergir a revolução na França. 
O lema da revolução Francesa era “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, 
mas será que os franceses não tinham liberdade, igualdade ou fraternidade 
antes de 1789? Primeiramente, um dos pontos principais que devemos obser-
var é com relação à Igreja e a sua posição na sociedade. O Clero, assim como a 
Nobreza, pertencia ao estamento superior e, sendo assim, era isento de tribu-
tos. Percebe-se que, em termo de igualdade, no quesito tributo, ela não existia. 
Entretanto, engana-se aquele que acredita que os revolucionários eram contra 
o poder da Igreja. Segundo Tocqueville (1997), embora o Clero tenha sido um 
dos primeiros alvos da Revolução, a instituição religiosa foi a primeira a se orga-
nizar após os conflitos. 
Vejam como a marcha do tempo pôs esta verdade em evidência, 
realçando-a dia a dia: à medida em que a obra política da Revolução 
consolidou-se, arruinou-se sua obra irreligiosa; à medida em que 
todas as instituições políticas que atacou  melhor foram destruídas, 
que os poderes, as influências, as classes que lhe eram particularmente 
odiosas foram definitivamente vencidas e que, como último sinal de 
sua derrota, os próprios ódios que inspiravam foram enfraquecendo; à 
medida, enfim, que o clero mais se afastou de tudo que caíra com ele, 
vimos gradualmente o poder da igreja reerguer-se e fortalecer-se nos 
espíritos (TOCQUEVILLE, 1997, p. 56). 
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A citação acima mostra que, mesmo com toda corrente antirreligiosa presente 
no contexto da Revolução Francesa, essa não foi suficiente para fazer com que 
aquele ódio emergente durasse por muito tempo, haja vista a rápida reorganiza-
ção que a Igreja teve no seio da sociedade francesa pós-revolucionária. 
O ponto crucial da obra de Tocqueville é mostrar ao leitor que a França do 
século XVIII era um país onde as estruturas feudais e do antigo Regime convi-
viam de forma bastante controversa. O problema não era a existência de uma ou 
de outra estrutura (feudal ou do Antigo Regime), mas sim a forma anacrônica 
de como elas se comportavam. Esse emaranhado de instituições anacrônicas foi 
o grande responsável por nutrir um sentimento de desigualdade que foi um dos 
motores principais da Revolução. 
As instituições feudais, ao contrário do que se pode pensar, ainda eram pre-
sentes na vida dos súditos franceses do século XVIII. Para não nos alongarmos 
muito nessa análise, destacaremos alguns pontos para que o aluno possa ter isso 
bem claro. Na França pré-revolucionária, ainda se via a corveia e uma série de 
obrigações que os camponeses pagavam para o nobre detentor do poder sobre a 
região. Entretanto, esse nobre não possuía os mesmos poderes de outrora. Todas 
as funções que antes lhe eram cabidas, agora, não eram mais de sua competência. 
E isso o fez um parasita. O ódio por parte dos camponeses só aumentou, tendo 
em vista que, com o aumento da família e as crises que ocorreram nesse mesmo 
século na França, tornou-se impossível sustentar a família e ainda pagar os tri-
butos devidos (TOCQUEVILLE, 1997). 
Em suma, havia instituições feudais, mas não funcionavam plenamente. Em 
regiões nas quais essas instituições ainda funcionavam como na Idade Média, 
o povo sentiu-se menos lesado e não se viu um descontentamento tão grande 
como foi visto na França. Já nas nações que no século XVII eram mais liberais, 
como a Inglaterra, a falta do serviço que essas instituições prestavam também 
não fazia falta, já que isso também não onerava a população. Sendo assim, como 
na França viu-se, por um lado, a cobrança, mas, por outro, a falta de serviços, o 
país resolveu se sublevar contra o regime político. 
Uma coisa surpreende logo de saída: a Revolução, cujo objetivo real 
era abolir, por toda parte, as instituições da Idade Média, não explodiu 
nos países onde estas instituições, melhor conservadas, faziam sentir 
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ao povo com mais força seu rigor e sua opressão, mas, ao contrário, 
naqueles onde menos se fazia sentir e assim foi que seu jugo pareceu 
mais insuportável lá onde era na realidade o menos pesado (TOCQUE-
VILLE, 1997, p. 71). 
Como você pôde perceber, na França, em que o jugo feudal parecia mais insu-
portável, era, na verdade, mais leve em relação à Alemanha, por exemplo, já que 
o exército de Frederico II, ainda no século XVIII, era composto em sua totali-
dade por servos. Ou seja, essa instituição feudal, a servidão, era muito presente 
(TOCQUEVILLE, 1997). Em suma, podemos destacar: 
O feudalismo continuou sendo a maior de todas nossas instituições 
civis quando deixou de ser uma instituição política. Assim reduzida, 
provocava ainda muito mais ódio e esta verdade permite-nos dizer que 
ao destruir uma parte das instituições da Idade Média tornaram cem 
vez mais odioso (sic)o que delas sobrava (TOCQUEVILLE, 1997, p. 
76). 
O autor acima justifica o motivo pelo qual uma revolução, nos moldes como 
ocorreu na França, somente encontrou neste país terreno fértil, em razão desse 
anacronismo institucional. A revolução aconteceu na França porque era o único 
lugar que possuía todas as características necessárias para provocar o ódio e a 
revolta na população. 
Ainda se tratando da permanência de instituições feudais em pleno século 
XVIII, não podemos nos esquecer da própria nobreza. Embora já tenhamos 
dado atenção a esse tema de forma superficial, acredito ser pertinente mostrar 
a você um pouco mais sobre ele. 
No século dezoito, todos os negócios da paróquia eram conduzidos 
por um certo número de funcionários que não eram mais os agentes da 
senhoria e que o senhor não mais escolhia; uns eram nomeados pelo 
intendente da província, outros eleitos pelos próprios camponeses. 
Cabia a estas autoridades repartir o imposto, conservar as igrejas, 
construir escolas, chamar e presidir a assembleia da paróquia. Velavam 
o bem comunal, instauravam e seguiam os processos em nome da 
comunidade. O senhor, além de não mais dirigir a administração de 
todos estes pequenos negócios locais, tampouco os controlava. Todos 
os funcionários da paróquia obedeciam ao governo ou ao controle do 
poder central (...). Mais do que isto, quase não se vê mais o senhor 
agir na paróquia como o representante do rei, como o intermediário 
entre o rei e os habitantes. Não está mais encarregado de aplicar as leis 
gerais do Estado, juntar as milícias, cobrar os impostos, publicar os 
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mandamentos do príncipe, distribuir socorros. Todos estes deveres e 
todos estes direitos pertencem a outros. Na realidade, o senhor não 
passa de um habitante que imunidades e privilégios o separam e o 
isolam de todos os outros. Sua condição é diferente, mas seu poder 
não o é mais. O senhor é apenas um primeiro habitante, dizem os 
intendentes nas suas cartas aos seus subdelegados (TOQUEVILLE, 
1997, p. 73). 
O texto acima mostra bem o que já mencionamos ao longo dessa unidade. 
A Nobreza local não passava de um parasita, já que não possuía qualquer 
função mais importante no que diz respeito à conservação das vilas ou da 
própria proteção que os moradores necessitavam. Um ponto muito impor-
tante é com relação à liberdade, que tanto é considerada como um dos 
principais pilares da Revolução. Segundo Tocqueville, a França era o país 
onde os homens haviam se tornado mais livres, mesmo antes da Revolução. 
Segundo esse autor: 
Havia muito tempo que nada semelhante existia na França: o camponês 
ia e vinha onde queria, comprava, vendia, negociava como queria. Os 
últimos vestígios da servidão só se notavam numa ou duas províncias 
do Leste que eram províncias conquistadas; tinham desaparecido em 
todo o resto do país e sua abolição remontava a uma época tão longín-
qua que a sua própria data já fora esquecida. Pesquisas feitas em nossos 
dias comprovam que não existem mais na Normandia desde o século 
XIII (TOCQUEVILLE, 1997, p. 71). 
Essa citação, prezado(a) aluno(a), mostra de forma clara que o camponês fran-
cês era um homem livre. O Estado, embora tivesse aquela característica tutelar, 
permitia que o camponês francês tivesse uma liberdade como muitos outros da 
Europa não possuíam. A servidão era vista em pouquíssimos lugares. Ou seja, 
aquele sistema em que o homem era preso à terra, como era o caso da servidão, 
não mais existia há quase cinco séculos. Isso já é suficiente para mostrar que a 
questão da liberdade, como princípio da luta que ocorreu no século XVIII, não 
representa, nas palavras do autor, um fator preponderante. 
Mas acreditamos que o(a) aluno(a) também pode pensar no fato de que na 
França, embora o camponês fosse um homem livre, este não possuía os meios 
necessários à sua subsistência. Do que adianta ele ser livre se não possui, por 
exemplo, terras para seu cultivo? 
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Fiz muitos esforços por reconstruir o cadastro do antigo regime e 
consegui fazê-lo vez ou outra. Segundo a lei de 1790, que estabeleceu 
o imposto rural, cada paróquia teve de fazer um levantamento das 
propriedades que existiam em seu território. A maioria destes inven-
tários desapareceram. Consegui  todavia  encontrar alguns num certo 
números de aldeias. Comparando-os com inventários de hoje, vi que 
nestas aldeias, o número de proprietários rurais chegava  a  metade e 
muitas vezes a dois terços do número total, o que não deixa de ser no-
tável, se nos lembrarmos que a população da França aumentou de mais 
de um quarto desde esta época (TOCQUEVILLE, 1997, p. 72). 
Trocando em miúdos, não parece que havia uma concentração descomunal de 
terras como antigamente. Dentre as instituições feudais, a terra era um instru-
mento de poder. Quem possuía mais terras, certamente, haveria de ter mais 
poder. Raramente em uma região havia mais de um proprietário. Sendo assim, 
se observarmos a citação acima, perceberemos que a quantidade de proprietários 
em comparação à quantidade de propriedades, pressupõe-se que havia uma plu-
ralidade de proprietários. Para os padrões da época, a França havia conseguido 
um grande avanço. E o que mudou com isso? Qual foi a grande transformação 
que o aumento de propriedades fez na vida do camponês e que, em linhas gerais, 
contribui para a eclosão da Revolução Francesa? 
Como os camponeses passaram a serem donos de sua própria terra, 
puderam perceber quanto sofriam para pagar os impostos. De fato, (...) 
só vamos sentir o peso do Estado em nossas costas quando olhamos os 
produtos e vemos a quantia absurda de impostos que são cobrados ou 
quando vemos o nosso holerite e percebemos o tanto de descontos que 
temos em razão das contribuições obrigatórias. Ficamos ainda mais 
enervados quando precisamos de serviços públicos de qualidade e nos 
deparamos com filas enormes em hospitais e postos de saúde. Quando 
percebemos o quão mal tratado são nossas escolas públicas. Ou como 
são “bem” conservadas nossas estradas públicas e os serviços básicos de 
que tanto precisamos (MEN, 2014, p. 80). 
E foi essa sensação que os camponeses passaram a ter. Passaram a nutrir um 
descontentamento muito grande. Quanto mais trabalhavam, viam o fruto do 
seu trabalho ir para as mãos de outros. Se queriam plantar alguma coisa, seria 
necessário pedir autorização ao funcionário real. A liberdade relativa de ir e de 
vir era suplantada pela tutela administrativa. Ir e vir era um direito, mas fazer o 
que bem entendesse de sua propriedade não era permitido. Isso provocou um 
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desestímulo muito grande na população francesa. 
Para sintetizar o contexto de desigualdades e de transformações que havia 
no que diz respeito aos direitos e deveres, podemos acrescentar o que desta-
cou Tocqueville (1997, p. 75): 
Quando a nobreza possui não somente privilégios mas também poderes, 
quando governa e administra, seus direitos particulares podem ser ao 
mesmo tempo maiores e menos visíveis. Nos tempos feudais conside-
rava-se a nobreza mais ou menos como consideramos hoje o governo: 
aguentavam os encargos que impunha tendo em vista as garantias que 
dava. Os nobres tinham privilégios constrangedores, possuíam direitos 
onerosos, mas garantiam a ordem pública, faziam a justiça,mandavam 
executar leis, socorriam o fraco, dirigiam os negócios comuns. À medi-
da que a nobreza deixa de fazer estas coisas, o peso de seus privilégios 
torna-se maior e a sua existência acaba incompreensível. 
O Estado se tornou mais pesado na vida das pessoas, mas não havia qualquer 
tipo de retribuição. Na medida em que seu peso foi aumentando e as funções 
foram diminuindo, tornou-se uma instituição obsoleta, sendo, assim, necessá-
rio modificar suas bases. Dessa forma, qual foi a grande obra da Revolução? Isso 
é o que veremos em nosso próximo tópico. 
A OBRA DA REVOLUÇÃO FRANCESA 
Prezado(a) aluno(a), é comum observarmos doutrinadores contemporâneos, 
principalmente da área das Ciências Sociais Aplicadas, atribuir a libertação do 
mundo das garras do absolutismo à Revolução Francesa. De fato, seu resultado 
fez ecoar por todos os cantos do mundo, inclusive no Brasil, onde assistimos 
eventos como a Conjuração Mineira e a Baiana, influenciados direta e indireta-
mente pelos ideais de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. O ideal de liberdade é 
aquele normativo, em que o sujeito pode fazer aquilo que a lei não proíbe. No 
caso de igualdade, isso vem na esfera da igualdade perante a lei. Em termos de 
fraternidade, estamos nos referindo ao conceito de direitos coletivos. Enfim, 
mas será que tudo isso pode ser atribuído como obra da Revolução Francesa? 
DO FEUDALISMO À MODERNIDADE:
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A Revolução não foi feita, como se pensou, para destruir o império 
das crenças religiosas. Apesar das aparências, foi essencialmente uma 
revolução social e política. No círculo das instituições deste tipo, não 
propendeu nem a perpetuar a desordem e torná-la de certa maneira 
estável, nem a metodizar a anarquia, como dizia um dos seus principais 
adversários, mas antes a aumentar o poder e os direitos da autoridade 
pública. Não ia mudar o caráter que nossa civilização teve até então 
como muitos o pensaram, nem parar seu progresso, nem mesmo al-
terar em sua essência nenhuma das leis fundamentais sobre as quais 
repousam as sociedades humanas em nosso Ocidente. Se pararmos esta 
sociedade de todos os acidentes que mudaram momentaneamente sua 
fisionomia em diferentes épocas e em diversos países para só conside-
ra-la tal qual é, veremos claramente que o único efeito desta revolução 
foi abolir as instituições políticas que durante século dominaram total-
mente a maioria dos povos europeus e que recebem geralmente o rótu-
lo de instituições feudais e substituí-las por uma ordem social e política 
mais uniforme e mais simples tendo por base a igualdade de condições 
(TOCQUEVILLE, 1997, p. 67). 
Gostaríamos que você observasse com bastante atenção o que fora destacado 
na citação acima. Conforme pôde perceber, era o objetivo da Revolução aca-
bar com a Monarquia? Era o objetivo desta acabar com a Igreja? Era o objetivo 
acabar com a nobreza? Era o objetivo  acabar com o Antigo Regime? Na ver-
dade, o que fica evidente é que todas as instituições que tinham como princípio 
privar as pessoas de direitos iguais foram o verdadeiro objetivo da Revolução 
Francesa. Sendo assim, essa revolução se processou pela necessidade de igual-
dade de direitos. 
Sabemos que os dois primeiros Estados, Clero e a Nobreza, encontravam-
-se em posição muito confortável, pois não pagavam qualquer tipo de tributos. 
Quem sustentava essa sociedade era o terceiro Estado, que era composto, 
aproximadamente, por mais de 95% das pessoas existentes na França. Sendo 
assim, Tocqueville (1997) destacou que a maior ira daqueles que pertenciam ao 
3º Estado era com relação a não existência de isonomia perante a lei.  
Por mais radical que tenha sido a Revolução, inovou muito menos de 
que se supões geralmente. (...) A verdade é que destruiu  interamen-
te  ou está destruindo (pois ela ainda continua) tudo que, na antiga 
sociedade, derivava das instituições aristocráticas e feudais, tudo que a 
elas se ligava de uma ou outra maneira, tudo que delas trazia uma mar-
ca por menor que fosse. Do antigo mundo só conservou o que sempre 
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foi alheio a estas instituições ou podia existir sem elas. A Revolução 
não foi de maneira alguma um acontecimento fortuito. Realmente, pe-
gou o mundo de improviso embora nada mais fosse que o complemen-
to do trabalho mais longo e do término repentino e violento de uma 
obra à qual dez gerações tinham trabalhado. Mesmo que não tivesse 
surgido a Revolução Francesa, o velho edifício social teria ruído por 
toda parte, aqui mais cedo, acolá mais tarde, mas teria caído, peça 
por peça, em vez de desmoronar-se de uma vez. A Revolução resol-
veu repentinamente, por esforço convulsivo e doloroso, sem transição, 
sem precauções, sem deferências, o que  ter-se-ia  realizado sozinho, 
pouco a pouco, com o tempo. Esta foi, portanto a obra da Revolução 
(TOCQUEVILLE, 1997, p. 67-68). 
Veja bem, Tocqueville (1997) afirma que a obra da Revolução foi muito menos 
no sentido de quantidade do que de intensidade. Ele escreve em um momento 
em que o cheiro de pólvora ainda se fazia sentir na França, por isso ele destacou 
que ela ainda estava ocorrendo. Dentre os pontos da Revolução, podemos des-
tacar que ela pegou o mundo de surpresa. Não houve qualquer tipo de ensaio, 
como ocorreu com a Revolução Inglesa, em que, durante quase uma década, 
assistiu-se ao debate entre o rei e o parlamento. 
Para Tocqueville (1997), as instituições feudais haveriam de deixar de existir, 
mesmo sem a ocorrência da Revolução. Isso mesmo que você leu! Para esse autor, 
o próprio desgaste seria o responsável por eliminá-las, pois, há muitos séculos, 
muitas delas haviam se tornado anacrônicas. O maior mérito da Revolução foi 
haver colocado fim a elas de uma só vez e de maneira bem rápida. 
Sendo assim, prezado(a) aluno(a), precisamos sempre nos atentar à superes-
timação dos eventos históricos, como é o caso da Revolução Francesa. Sabemos 
que ela foi muito importante para a História da Humanidade, mas está longe 
de haver sido o divisor de águas que muita gente confere a ela. Isso fica claro ao 
ler a obra de Tocqueville. Atualmente, tudo que diz respeito à liberdade, igual-
dade e fraternidade é creditado à Revolução Francesa, entretanto, por mais que 
os discursos sejam favoráveis a ela, não há documentos que comprovem tudo 
isso. Duvidar dos fatos é, antes de tudo, uma das principais funções de um pro-
fessor de História. 
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CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Prezado(a) aluno(a), é importante que, antes de qualquer coisa, você reflita sobre 
a forma como os conteúdos foram expressos nesta unidade. A sociedade moderna 
francesa guardou, assim como a sociedade alemã e também a inglesa, propriedades 
institucionais que lhes eram comuns. Cada uma das nações, principalmente França 
e Inglaterra, é importante para compreender e complementar o que se sabe sobre 
a outra. Entretanto, é preciso, primeiramente, buscar os fatos por meio dos docu-
mentos históricos e de historiografia especializada no assunto. Por conseguinte, 
precisamos interpretar os fatos à luz de uma metodologia que consiga demonstrar 
com clareza aquilo que se pretende analisar. Não existe verdade absoluta em histó-
ria. O que torna um fato ou um posicionamento mais aceitável do que outros são 
os procedimentos metodológicos bem como as fontes e documentos utilizados. 
No que diz respeito à França, precisamos observar que, desde o processo de sua 
unificação, há uma intensa luta entre o rei eo clero, bem como rupturas e conti-
nuidade de suas instituições ao longo dos séculos. Esse foi o grande mérito da obra 
de Tocqueville. A França moderna era tão parecida com a feudal que as razões pelas 
quais se procedeu a Revolução foram muito mais pela falta do funcionamento das 
instituições feudais do que pela sua inexistência. Enfim, é um tema bastante com-
plexo e que necessita de um estudo mais aprofundado para sua melhor compreensão. 
É importante ressaltar que esta unidade está longe de querer ser transfor-
mada em um fim. Nossa intenção, primeiramente, é fazê-la um meio pelo qual 
você, estudante da graduação em História, tome conhecimento dos fatos e possa 
se aprofundar em estudos futuros. Essa foi a nossa principal preocupação. 
Com relação à França no seu período de consolidação do Estado, torna-se 
imprudente destacá-la da realidade vivida por países como Inglaterra. Por isso, 
temos que estudar sua história à luz daquilo que se havia na época, sem pré-jul-
gamentos desnecessários. 
Outro ponto é com relação ao absolutismo, pois aquela instituição não fora vista 
em outro país como fora na França. A sociedade moderna, marcada por uma tutela 
excessiva do Estado, foi uma das principais marcas daquela nação e a Revolução 
Francesa foi a obra responsável por questionar tudo isso, entretanto, a mudança 
vista não foi de toda uma obra da Revolução, como muitos podem acreditar.
167 
A INFLUÊNCIA DA REALEZA NA CIVILIZAÇÃO MODERNA 
Terezinha Oliveira e Claudinei Magno Magro Mendes 
Ao estudarmos a formação das nações 
modernas e o papel que as lutas políti-
cas desempenharam nesse processo, não 
podemos deixar de considerar um aconte-
cimento que teve sua origem no momento 
em que as comunas, combatendo os senho-
res feudais para obter sua liberdade, davam 
início à formação do Terceiro Estado. Trata-
-se da formação da realeza, acontecimento 
que foi uma consequência das mudanças 
ocorridas nas relações feudais. Reiteramos 
que a realeza e o Terceiro Estado nasceram 
e se fortaleceram juntos no interior do feu-
dalismo. Embora a realeza tenha tido um 
papel decisivo na libertação das comunas 
e na formação do Terceiro Estado, não os 
antecedeu, foi uma espécie de consequ-
ência da luta contra os senhores feudais. 
Ou seja, a constituição da realeza, a forma-
ção dos estados nacionais e a criação das 
monarquias absolutistas são aspectos do 
mesmo processo. 
Segundo Guizot, a realeza feudal teve pro-
priamente seu início na França, com Luís, 
o Gordo (1081-1137). Com este rei princi-
piou também a realeza moderna, ou seja, 
delineou-se um poder geral nas mãos do 
rei, dando origem à frase Sabe-se que os 
reis têm as mãos compridas. Foi nesse 
momento que a realeza começou o pro-
cesso de submissão das diferentes “classes” 
da sociedade. As características do governo 
de Luís, o Gordo, em nada se assemelham 
às do reinado de Carlos Magno (747-814), 
entre 771 e 814, e, muito menos, às do rei-
nado de Hugo Capeto (938-996) sobre os 
francos, entre 987 e 996. O primeiro pro-
curou governar os senhores feudais, sem, 
no entanto, deixar de respeitá-los. Luís, o 
Gordo, protegeu a Igreja, mas não procurou 
nela a base do poder soberano. Esta realeza 
era muito diferente das de Felipe I (1060-
1108) e de Roberto II (996-1031), que se 
caracterizaram pela moleza e inércia. Tam-
bém não era semelhante à antiga realeza 
dos Carolíngios (751-987), marcada pela 
força e pela glória. Em tudo era uma rea-
leza distinta da que até então existira. Essa 
nova realeza não pretendia o poder abso-
luto e nem se colocava como a herdeira 
dos antigos imperadores. Ela reconhecia 
e respeitava a independência dos senho-
res feudais, deixando que eles exercessem 
a jurisdição em seus domínios. Ela apenas 
se destacava da feudalidade, colocando-
-se como um poder distinto, superior aos 
demais. Acreditava ter, pelo título original, o 
direito de intervir para restabelecer a ordem 
e a justiça e proteger os fracos contra os 
poderosos. 
Sua originalidade estava no fato de que 
não pretendia fundar um império nos mol-
des romanos, como fora o caso de Carlos 
Magno, tampouco seguir e submeter-se à 
Igreja, como ocorreu com Hugo Capeto. A 
originalidade da realeza estava na circuns-
tância de que se encontrava em harmonia 
com as necessidades reais e imediatas da 
sociedade, de que não tinha nenhum prin-
cípio que não fosse o estabelecimento da 
paz, a proteção dos pobres, a intervenção 
nas disputas entre os senhores e a busca da 
manutenção da ordem. Em síntese, residia 
no fato de que tinha como único princípio o 
bom senso. Embora possa parecer simples, 
esse objetivo foi mais do que suficiente 
para provocar uma completa alteração nas 
relações entre a realeza e os senhores feu-
dais. Ele deu origem a um poder que se 
encontrava acima dos senhores feudais e 
que buscava regular as relações sociais. 
Segundo Guizot, o princípio do bom senso 
alterou a forma da realeza. Com Luís, o 
Gordo, bem como com seu filho Luís, o 
Jovem (1120-1180), a realeza adquiriu 
características públicas. Desempenhou a 
função de fiscalizar as relações feudais. A 
partir de então, a realeza moderna passou 
a existir verdadeiramente, desempenhando 
o papel que, durante muito tempo, lhe per-
tenceu. Se, com Luís, o Gordo, e seu filho, 
assistimos à tentativa da realeza de sobre-
por-se aos domínios feudais, de estabelecer 
leis com caráter público, com Felipe-Au-
gusto (1165-1223), vemo-la buscar sua 
libertação do poder clerical, tentar separar 
o poder temporal do eclesiástico, principal-
mente o do papa. Esta separação entre o 
poder temporal e o espiritual, relacionada 
ao surgimento de uma realeza indepen-
dente, mantida pelo seu próprio direito e 
apoiada pelos grandes vassalos, desem-
penhou um papel importante na história 
da França. 
Na luta de Felipe-Augusto contra o poder 
eclesiástico, percebemos que a realeza 
foi se libertando das demais instituições 
de natureza feudal para se converter, len-
tamente, em um poder soberano. Desse 
modo, a mudança na forma do poder, 
que passou de privado, já que se encon-
trava nas mãos dos senhores feudais, para 
público, porque concentrado nas mãos do 
rei, também foi feita de forma gradativa, da 
mesma maneira que ocorreu a libertação 
das comunas. 
Segundo  Guizot, o reinado de Felipe 
Augusto representou um grande desen-
volvimento social no sentido de uma 
organização e de uma sistematização das 
leis e das relações sociais. Um exemplo 
desta mudança na forma do poder e da 
organização foi o testamento deixado por 
Felipe-Augusto quando participou da Cru-
zada. O fato de ele pretender que o governo 
do reino fosse tranquilo durante sua ausên-
cia dá a medida de como o governo era 
real e, de certo modo, geral. Promovendo 
a estabilização, seu reinado contribuiu 
imensamente para o desenvolvimento da 
civilização. Felipe-Augusto fez mais ainda: 
pavimentou as ruas de Paris, aumentou e 
elevou seus limites, construiu aquedutos, 
hospitais, igrejas e aléias. Preocupou-se 
com o conforto material de todos os seus 
súditos. 
Fonte: adaptado de: OLIVEIRA, Terezinha; MENDES, Claudinei Magno Magre. As transformações 
da nobreza e a emergência do Terceiro Estado. In: PEREIRA, José Flávio. (org.). Tempos Modernos: 
economia, política, religião e arte. Maringá: EDUEM, 2011. (p. 51-72)
169 
1. Construa uma tabela comparativa entre a sociedade inglesa e a sociedade mo-
derna francesa, apontando em que elas se assemelhavam e em que pontos elas 
se distanciavam. 
2. Explique, em linhas gerais, o significado do absolutismo. 
3. Alexis de Tocqueville  foi um dos principais estudiosos da Revolução Francesa. 
Segundo esse autor, a França foi o único país que reuniu condições de ser pal-
co de um evento como o que ali ocorreu em razão de quais fatores abaixo? 
a. A França era o únicopaís em que as estruturas feudais já haviam sido total-
mente suplantadas, causando estranhamento na população de modo geral. 
b. As estruturas do Antigo Regime eram toleradas na França, entretanto, o fato 
de que os nobres pagavam impostos os deixou muito desconfiados do po-
der real. 
c. O absolutismo francês foi materializado na imposição do Rei Luís XVI de ta-
xar todos os nobres e os bens do Clero, por isso a revolta geral. 
d. O que havia  na França eram estruturas tanto  oriundas do período feudal 
quanto do período do Antigo Regime, que funcionavam de forma anacrôni-
ca, o que provocou um sentimento maior de desigualdade entre os súditos. 
e. As estruturas feudais presentes na França do século XVIII, tal qual havia no 
século XIII, foi a grande causa da insatisfação popular que causou a Revolu-
ção de 1789. 
4. Analisando a estrutura social francesa do século XVIII, é correto afirmar que: 
a. Era estamental e o terceiro Estado, composto pela maioria da população, 
arcava com todas as despesas tributárias. 
b. O Clero era o seguimento mais importante, mas, apesar disso, arcava com 
as despesas tributárias. 
c. A Burguesia, classe social pertencente ao 2º Estado, embora poderosa, não 
possuía direitos sobre sua produção. 
d. O Estado, embora absoluto, intervinha pouco na vida dos súditos. 
e. O primeiro, segundo e terceiro Estados eram diferentes apenas quan-
to às funções exercidas na sociedade, entretanto, do ponto de vista legal, 
possuíam os mesmo direitos. 
MATERIAL COMPLEMENTAR
O Antigo Regime e a Revolução
Alexis de Tocqueville 
Editora: UNB
Sinopse: O livro é um relato muito bem feito sobre o processo 
revolucionário francês, feito pelo nobre Alexis de  Tocqueville, 
que observou de forma magistral todos os elementos que 
estiveram por trás desse evento histórico. Para explicar o cenário 
histórico francês, ele busca elementos desde a Baixa Idade Média, 
mostrando como  as instituições feudais e do Antigo Regime 
estavam presentes no século XVIII. Esse autor é um dos principais 
estudiosos que inauguraram aquilo que os historiadores chamam 
de história de longa duração
Para saber mais sobre o Palácio de Versalhes, acesse: <http://www.france.fr/pt/arte-e-cultura/
castelo-e-parque-de-versailles.html>. 
Para saber mais sobre o escritor Alexis de Tocqueville, acesse: <http://www.institutoliberal.org.br/
biblioteca/galeria-de-autores/alexis-de-tocqueville/>.
Danton
Ano de lançamento: 1982 
Gênero: Drama Histórico: 
Direção: Andrzej Wajda. 
Elenco: Gérard Depardieu e grande elenco. 
Sinopse: Este fi lme mostra o período posterior ao da Revolução 
Francesa, em um momento em que o terror começa a tomar conta 
daquele país. Os interesses de Danton acabam se chocando com os 
de Robespierre, ambos líderes da Revolução. Danton acaba levado 
a julgamento.
CONCLUSÃO
171
Prezado(a) aluno(a), chegamos ao final deste livro e gostaria de enfatizar a você os 
principais pontos que deverão ser incluídos na sua pauta de discussão e aperfeiçoa-
mento profissional, ao longo de sua carreira como docente e estudioso(a) da histó-
ria da humanidade. Vale lembrar que este livro nunca se propôs como um fim, mas 
sim como um meio pelo qual você obteria as bases necessárias para compreender o 
processo de formação da sociedade Ocidental, bem como suas ideias e instituições. 
Sempre ouvi do meu professor, responsável por esta disciplina, que a História Mo-
derna possui  três grandes  eixos: a Reforma Protestante, a Revolução Inglesa e a 
Revolução Francesa. Tudo o mais está, de uma forma ou de outra, vinculado a es-
ses grandes eventos. Dessa forma, buscamos, além de apresentar a você esses três 
eventos, mostrar também um pouco sobre a história das ideias políticas que envol-
veram o processo de formação das Monarquias Centralizadas. 
Na primeira unidade, é importante que você tenha percebido as disputas pelo po-
der político envolvendo a Igreja e a Monarquia. A centralização política que ocor-
reu na transição da Idade Média para a Idade Moderna foi um dos elementos fun-
damentais para que o Ocidente conseguisse se organizar. As constantes disputas 
proporcionaram uma grande diversidade regional, permitindo a esses países se for-
talecerem  com meios próprios, sem a necessidade de constituir alianças que os 
tornassem dependentes uns dos outros. Do ponto de vista da história das Ideias, 
torna-se indispensável compreender a importância que a Igreja Católica Apostólica 
Romana tinha nesse cenário de disputas. 
Na segunda unidade, é importante perceber como Nicolau Maquiavel se mostrou, 
naquele contexto, à frente do seu tempo. A perspicácia com que ele conseguiu ob-
servar a política fora vista como algo novo. Ele apresentou uma forma de governo 
que era totalmente voltada à experiência humana. Para ele, não havia ilações ou ide-
alizações. O que contava, para esse escritor, era a experiência política. Sendo assim, 
a História se torna uma ferramenta não mais de diversão e entretenimento, mas sim 
um instrumento de poder, de sabedoria, que poderia tornar os governantes mais 
preparados para as adversidades que o poder lhes traria. 
Na terceira unidade, buscamos apresentar para você a faceta religiosa de toda trans-
formação que se anunciava na Idade Moderna. A Reforma Religiosa representou 
mais do que uma quebra do domínio da Igreja Romana sobre o Cristianismo, signi-
ficou, na verdade, uma etapa do cristianismo em que este se aproximou mais dos 
seus fiéis, pois o estímulo à leitura e a interpretação da Bíblia foram incentivados. 
Representou uma mudança na forma de conceber a religião e a vida. As práticas 
religiosas se aproximaram muito mais da vida das pessoas. A religião deixou de ser 
algo formal e passou a ser algo rotineiro. Trabalhar, por exemplo, passou a ser uma 
forma de louvar e agradecer a Deus. Isso provocou uma mudança radical na vida das 
pessoas, criando aquilo que Max Weber chamou de ética protestante. 
Na penúltima unidade, foi possível perceber, a priori, a semelhança que França e 
Inglaterra tiveram, no que diz respeito, principalmente, a sua sociedade. Mas você 
CONCLUSÃO
CONCLUSÃO
pôde perceber que essas semelhanças foram ficando pelo caminho, na medida em 
que a Inglaterra foi nutrindo um valor e um apreço maior pela liberdade, enquanto 
os franceses sucumbiram diante do Estado Tutelar. Os Ingleses mostraram ao mundo 
que era possível limitar os poderes reais. Também mostraram que as leis existiam e 
deveriam ser seguidas por todos. Além disso, ensinaram uma nova forma de gover-
nar, baseada na cooperação, na discussão e no debate de ideias, não simplesmente 
pela imposição.  A ideia de Estado de Direito também emergiu diante das situações 
criadas na Inglaterra, pois ficou evidente que as leis deveriam ser cumpridas por 
todos, inclusive pela autoridade máxima. Dessa forma, não haveria distinção quanto 
aos sujeitos de direito. Todos deveriam ter o mesmo tratamento diante da lei. 
Na última unidade, mostramos a você como foi o desenvolvimento da sociedade 
francesa e como se encontrava esta às vésperas da Revolução. O mais importante 
foi perceber que as causas desse evento não foram semeadas a duas, três ou quatro 
décadas, mas sim durantes séculos. Por muito tempo a França se viu em situação 
delicada, no que diz respeito as suas instituições. O anacronismo tornou essas ins-
tituições inaceitáveis, fazendo com que a população se sublevasse contra o poder 
estabelecido.
Dessa forma, agradecemos a sua leitura. Espero que você desperte curiosidade e 
vontade pelos temas aqui tratados. Muito em breve, você estará ministrando aulas 
ou pesquisando o assunto e o domínio desses temas apresentados será de grande 
importância.
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GABARITO
177
UNIDADE I 
1. O contexto histórico que precisa ser observado se relaciona com o período de 
transição entre o feudalismo e a modernidade. Um dos principais aspectos que 
deve ser abordado é a disputa entre a Igreja e as monarquias emergentes. De um 
lado, temos a Igreja que não via com bons olhos a emergência dessas monar-
quias, pois isso limitaria seu poder. Ao mesmo tempo, temos os monarcas que 
queriam centralizar o poder em torno de si, mas, para isso, tinham de limitar o 
poder do Clero. 
2. O posicionamento dos escritores medievais é bem explícito: Egídio Roma-
no era um defensor de um poder papal abrangente. Para ele, não havia ne-
nhuma distinção entre o poder terreno e o poder religioso, devendo ambos 
estar sob a tutela papal. Já João Quidort defendia que deveria haver uma 
distinção entre o poder papal e o poder real. Ou seja, a Igreja se limitaria 
a cuidar dos assuntos religiosos, enquanto o rei ficaria a cargo dos assuntos 
terrenos. 
3. C. 
4. D. 
UNIDADE II 
1. Nicolau Maquiavel foi um autor que deixou explícito em suas obras muito dos 
valores renascentistas. Dentre eles, podemos destacar o humanismo, tendo em 
vista que ele valorizava a experiência humana, em detrimento das idealizações 
religiosas. Ele também valorizava o conhecimento histórico como uma fonte de 
sabedoria e poder. Para esse autor, os homens públicos deveriam se espelhar 
mais nas experiências do que em qualquer outra coisa. Além disso, ele foi buscar 
inspiração de suas obras na literatura clássica grega e romana, mais uma carac-
terística renascentista. 
2. Uma das questões que você deverá observar em sua pesquisa é com relação a 
frases que Maquiavel nunca escreveu, por exemplo “os fins justificam os meios” 
e o próprio termo maquiavélico que, em linhas gerais, é empregado de forma 
errônea. 
3. A. 
4. B. 
GABARITO
UNIDADE III 
1. Um dos pontos principais está no posicionamento da Igreja Católica que nega-
va a dinâmica capitalista do comércio e  do lucro, condenando tais atividades 
em um momento em que essas estruturas estavam emergindo a todo vapor na 
Europa. Temos também a corrupção do Clero, já que eles pregavam uma coisa 
e praticavam outra. Outro problema é com relação ao posicionamento frente às 
unificações políticas, já que a Igreja era contra, pois não queria perderseu poder. 
Além disso, temos a venda de indulgências e a simonia, práticas comuns na épo-
ca, mas que provocavam várias críticas. 
2. Lutero teve grande aceitação das classes camponesas, ao contrário de Calvino, 
que viu suas ideias se propagando principalmente no meio urbano. Lutero fez 
uma reforma mais abrangente, que atingia todas as classes. As teses de Calvino 
ecoaram principalmente na classe burguesa emergente, que agora podia traba-
lhar e ganhar dinheiro honestamente que, mesmo assim, seria agraciada com a 
dádiva divina. 
3. C. 
4. E. 
UNIDADE IV 
1. Segundo  Karnal  (2007) a unificação ocorreu, principalmente, em razão do 
sentimento de pertencimento despertado depois da guerra dos Cem anos. Para 
ele, esse conflito foi fundamental para que se formasse uma mentalidade ingle-
sa, um sentimento de que você pertencia a um lugar específico. 
2. Nas palavras de Pereira, formou-se na Inglaterra uma sociedade “mais aberta, 
livre e democrática; nela, o poder real sempre foi mais fraco e, em contrapartida, 
a sociedade civil mais autônoma e zelosa de seus direitos. Sabemos que, desde 
muito cedo, no começo do século XIII, os ingleses tinham estabelecido leis e cria-
do instituições para coibir os possíveis excessos do poder dos reis. A Carta Mag-
na de 1212(sic) e a criação de um Parlamento livre são exemplos de como, ainda 
na vigência do feudalismo, a sociedade inglesa foi se organizando em torno do 
ideal de liberdade” (2011a, p. 25). 
3. A. 
4. D. 
GABARITO
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UNIDADE V 
1. Em linhas gerais, é preciso compreender esses exemplos abaixo e identificar 
tudo que deles foi derivado. 
INGLATERRA  FRANÇA 
Mais liberal  Mais dependente 
Soube limitar o poder real  Não evitou o absolutismo 
Criou instituições fortes  Possuía instituições anacrônicas 
 
2. O Absolutismo foi um período em que o rei possuía todas as esferas do poder 
concentradas em suas mãos. Ele fazia as vezes de executivo, de legislativo e de 
judiciário. A própria palavra absoluta tem em seu significado etimológico a ques-
tão “desvinculada”, ou seja, o poder não está vinculado a nada, nem à lei nem a 
qualquer instituição. Sendo assim, o rei tinha o poder absoluto e intervinha em 
todas as instâncias da vida e da sociedade civil francesa. 
3. D. 
4. A.
GABARITO

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