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2 SUMÁRIO 1 A CIÊNCIA MODERNA E A PSICOLOGIA ................................................. 3 2 FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA HUMANISTA .................................... 9 2.1 Fenomenologia, gênese e evolução histórica .................................... 10 3 HUMANISMO ............................................................................................ 15 4 EXISTENCIALISMO ................................................................................. 18 5 Teoria da Intencionalidade ........................................................................ 20 6 O conceito de Existência........................................................................... 21 7 A RELAÇÃO ENTRE AS TÉCNICAS E A PSICOTERAPIA ..................... 23 8 Psicoterapia Existencial: Que lugar? ........................................................ 25 8.1 O que caracteriza a existência individual ........................................... 27 8.2 A ansiedade resulta do confronto com os dados da existência .......... 30 9 OBJETIVOS DA PSICOTERAPIA EXISTENCIAL .................................... 34 10 ENCONTRO TERAPÊUTICO ................................................................ 37 10.1 Características da relação existencial em terapia ........................... 38 10.2 Estilo terapêutico ............................................................................. 39 10.3 Atitudes e qualidades profissionais e pessoais desejáveis ............. 42 11 BIBLIOGRAFIA ...................................................................................... 44 3 1 A CIÊNCIA MODERNA E A PSICOLOGIA Fonte: www.istockphoto.com Os paradigmas clássicos do método científico influenciaram fortemente as ideias e práticas de uma época. Ofereciam ao mundo uma certeza extremamente ansiada de progresso, respostas objetivas, ordem, liberdade e justiça social. Segundo Dahlberg; Moss; Pence (2003), o projeto sustentado e defendido pela modernidade, berço do surgimento da ciência clássica, compreende o ser humano totalmente realizado, maduro, independente, autônomo, livre e racional. Ressaltam: “ ... o projeto da modernidade tinha objetivos ambiciosos: progresso, linear e contínuo; verdade, como a revelação de um mundo “conhecível”, emancipação e liberdade para o indivíduo – social, política e culturalmente (p. 33) Nesta direção, a busca da razão constitui-se no caminho da busca da essência humana e das verdades da natureza. Assim, o progresso e a tecnologia caminham de mãos dadas em direção à prometida felicidade. A partir destas reflexões torna-se muito claro a grande aceitação e difusão do projeto da ciência moderna, uma vez que trazia embutida no seu paradigma, uma promessa de desenvolvimento, ordem e progresso social. Com a modernidade, incrementada que foi pela invenção da imprensa, pelas conquistas das grandes navegações, pela revolução industrial, pela transformação social e familiar, pelas mudanças do sistema econômico mundial, dentre outras, ofereceu-se ao mundo a promessa da produção de um saber construído 4 a partir de uma metodologia objetiva, quantificável, infalível. Ora, esta promessa encheu os olhos e aqueceu o coração de todos aqueles que desejavam respostas para suas questões. A sociedade sonhava com o dia em que pudesse resolver seus problemas mais urgentes como a cura de doenças, a produção de alimentos suficiente para todos, a busca de uma justiça social e, principalmente, a superação das crenças religiosas que, por muito tempo dominaram as mentes humanas, impedindo-as ou dificultando na produção de um saber que se sustentasse em si mesmo. A criação de um método científico foi extremamente bem-vindo na sociedade da época. O método científico, foi profundamente marcada pela filosofia de Descartes -penso, logo existo; pela metodologia científica de Bacon e pela teoria matemática de Newton. Para Descartes, o mundo material deveria ser estudado com absoluta objetividade, criando, a partir de então, a necessidade de neutralidade do pesquisador. As ideias de Bacon, sugeriram um método de busca de saber, ou seja, de produção de conhecimento, que seguisse uma metodologia objetiva, passível de ser repetida, testada e generalizada, crível, infalível. Newton, com seu modelo matemático e uma postura reducionista, sugeriu que o todo pode ser conhecido através da soma de suas partes. Seu modelo também sugere uma temporalidade linear, uma relação absoluta de causa e efeito, de determinismo e do primado da matéria. Então, o modelo mecanicista dominou o pensamento científico até a bem pouco tempo. A ciência foi aceita como a via de acesso a todo e qualquer conhecimento, passando a desvalorizar qualquer saber produzido por outras vias. A crença existente era a de que o método científico descrevia corretamente a realidade, sendo adotada como modelo pelos saberes que se pretendessem científicos. Para Feijo (2000), a racionalidade deveria superar qualquer paixão na busca dos saberes científicos a partir dos paradigmas clássicos da ciência moderna. Além disso, perseguindo a herança newtoniana, o mundo deveria ser compreendido como um grande complexo, formado por partes contínuas, que somadas resultariam numa totalidade. Para atingir uma compreensão e, posterior, domínio do todo, seria necessário desmembrá-lo em partes, cognoscíveis através de um método objetivo, seguido por cientistas neutros e racionais. Tal busca seria possível uma vez que as leis do universo seguiriam uma causalidade mecanicista, e seriam regidas por uma 5 temporalidade linear - com presente, passado e futuro bem marcados - autônomo e independente do observador; assim como por um espaço constante e em repouso. Uma figura metafórica que seria, como descreve a autora, “a imagem do universo seria comparada a um grande relógio gigantesco, inteiramente determinístico” (p. 19). A busca de verdades pela ciência moderna é marcada pelo estatuto de cientificidade, sendo garantida pela construção de conceitos logicamente parametrados e ausência de intimidade entre homens e mundo. O modo técnico pelo qual o homem moderno habita o mundo tem estreita relação, denuncia Critelli (1996), com sua necessidade de superar a insegurança do seu ser ou, senão, esconder esta condição. Porém, não é porque os homens criaram método, técnicas e processos que nos permitem controlar alguns fenômenos e criar outros, que se alterou a condição ontológica de inospitalidade no mundo e de liberdade humana. Pelo contrário, talvez tenha sido para esconder isso que a ciência moderna tenha se lançado sobre o conhecimento e o controle do mundo, transformando-os em coisa objetiva, e (que) tenha se afastado cada vez mais, de qualquer tentativa de compreensão de sentido da vida” (p. 21). O modelo de pensamento e produção de conhecimentos marcou profundamente a sociedade ocidental desde o século XVIII até meados do século XX. A partir daí o projeto da modernidade vem sofrendo grandes abalos na sua tão propagada pretensão da busca de verdades universais. Aos poucos a humanidade foi se dando conta de que a ciência moderna não seria capaz de compreender e acomodar a diversidade e a complexidade da experiência humana concreta. Chamou-se de saber pós-moderno aquele estado da cultura construído após as transformações que afetaram as regras do jogo da ciência, da literatura e das artes a partir do século XIX (LYOTARD, 1989). Seu saber não se propõe a ser um instrumentalizador de poderes. Ele refina a sensibilidade para o diferente e para suportar o incomensurável. Sob uma perspectiva pós-moderna, não existe conhecimento absoluto, realidadecristalizada esperando para ser conhecida e domado; um ensinamento universal, que se faça fora da história ou da sociedade (FROTA, 2007). No lugar disso, seu projeto propõe que o mundo e o conhecimento sejam vistos como socialmente construídos. Isso significa pensar que todos nós estamos engajados na construção de significados, em vez de engajados na descoberta de verdades. Torna-se possível afirmar, deste modo, que não existe somente uma 6 realidade, mas várias. O conhecimento não é único, e sim múltiplo, variável, fragmentado e mutável, inscrito nas relações de poder, que lhes determinam o que deve ser considerado como verdade e falsidade. A verdade é compreendida como uma correspondência da verdade, uma representação falseada, mas que, como tal deve ser tomada. Enquanto a verdade para a ciência moderna é compreendida como veritas, verdade; a fenomenologia, a compreende como aletheia, desvelamento, deixando clara a diferença de paradigma entre elas. A verdade para a fenomenologia sabe-se transitória, parcial e incompleta. Assim, muito menos pretensiosa. Na origem das psicologias existe uma tendência a atuar como se os saberes psicológicos fossem “grandes narrativas”, e, como tal, representassem o modelo essencialista da natureza humana. Fonte:www.lauraquiroga.es As grandes teorias psicológicas, encarnadas por seus seguidores, assumem seus saberes como se eles fossem “os verdadeiros” e representassem “o modelo correto” da realidade. Contudo como alertam Dahlberg; Moss; Pence (2003), “em vez de serem vistas como representações socialmente construídas de uma realidade complexa, uma maneira selecionada de como descrever o mundo, essas teorias parecem se tornar o próprio território” (p.54). O risco daí advindo é esquecermos a contextualização histórica do saber ou, ainda, perdermos de vista a subjetividade concreta do humano. Perderíamos de vista o homem ficando dele somente sua representação, falseada, que é, via teoria. Além deste risco, não podemos esquecer que as grandes narrativas contam as histórias dos saberes como se fossem únicos e universais, já repudiadas pelo estatuto pós- 7 modernista, por representarem perspectivas teóricas descoladas da realidade e por representarem empecilhos para a compreensão dos sujeitos reais em situações históricas concretas vivendo numa condição pós-moderna, o conhecimento e os diversos saberes solicitam que abandonemos as grandes narrativas teóricas e nos contentemos com objetivos locais e mais práticos. Para Heywood (2004), isso significa abandonar as esperanças mais profundas do pensamento iluminista: que o que está para ser descoberto seria, de fato, um mundo ordeiro e sistemático, idêntico para cada um de nós, sendo possível estabelecer um acordo universal com a natureza. O que fica, então, é a busca de conhecer verdades, multiplicidades de narrativas, saberes construídos na e pela realidade social concreta. A partir destas reflexões, pensemos no que isso interfere nos nossos pensares e fazeres psicológicos, para nos achegarmos na nossa questão maior: origens e destinos das psicoterapias humanista. Também para a Psicologia foi importante o método científico, como possibilidade de se fazer aceita e receber o estatuto de ciência, é o que afirma Capra (1983). Deste modo, a adaptação do objeto de estudo da psicologia, o psiquismo humano, aos princípios da mecânica clássica de Newton fizeram-se no sentido de busca de cientificidade. É, assim, que a Psicanálise de Freud e o Behaviorismo de Skinner se enquadram no mecanicismo da ciência positivista. Capra tem razão ao dizer que a primeira tópica de Freud seguia um modelo mecanicista. Como o próprio Freud afirma no seu Projeto de uma psicologia científica, sua intenção era representar os processos psíquicos como estados, quantitativamente determinados. Deste modo, pelo menos de princípio, é lícito afirmar que Freud parece respeitar e seguir os princípios apregoados pela ciência moderna, os quais, certamente, lhe garantiram respeitabilidade e divulgação. Também o behaviorismo skineriano segue o modelo científico. Aliás, para ele, seu objeto de estudo era o comportamento, aquele que poderia ser observado e quantificado. A mente existia somente enquanto expressa pelo comportamento. Na verdade, o behaviorismo de Skinner parece se adequar completamente ao método experimental: a relação causa-efeito é inquestionável, as causas dos fenômenos psíquicos encontram-se no mundo externo, o tempo é linear, a força é sempre externa (SKINNER, 1985). Para os behavioristas, a objetividade é imprescindível e deve ser garantida pelo controle das condições que regem as relações sujeito – objeto. Por sua vez, as 8 técnicas comportamentais clássicas “possuem um status físico para o qual as técnicas usuais da ciência são adequadas e permitem uma explicação dos comportamentos nos moldes da de outros objetos explicados pelas respectivas ciências. A Psicanálise e o Behaviorismo formaram a primeira e segunda força dentro da psicologia. A terceira força, Psicologia Humanista, surgiu como reação ao panorama da psicologia norte-americana, dominado pela leitura mecanicista e determinística da Psicanálise e do Behaviorismo. Maslow, conforme narra o autor, foi um dos principais responsáveis pela criação de um movimento que pretendia, de início, unir tendências que se opusessem ao behaviorismo e psicanálise, a partir de elementos fundantes de sua identidade. A partir daí, torna-se clara a negação da perspectiva pessimista e psicopatologizante da metapsicologia freudiana. Além disso, a terceira força assume a perspectiva holística e organísmica do ser humano e adota uma perspectiva fenomenológica e existencial para a compreensão do homem. Assegura o autor: Assim, a volta ao humano como objeto de estudo é uma das bandeiras do movimento, importante a ponto de fornecer-lhe o título designativo. Qualidades, e capacidades humanas por excelência, tais como valores, criatividade, sentimentos, identidade, vontade, coragem, liberdade, responsabilidade, auto realização etc., fornecem temas de estudo típicos das abordagens humanistas (p. 31). A Psicologia Humanista defende uma visão globalizante do ser humano, enfatizando a vivência das emoções, a subjetividade, a intuição e as potencialidades. Provavelmente como resultado da exacerbação do sentimento, da vivência e da experienciação, adotadas como métodos de trabalho, ela foi duramente acusada de irresponsável, de teoricamente vazia, de ter uma prática rasa em termos de fundamentação teórica e filosófica. O movimento humanista teve forte influência das filosofias existenciais e da fenomenologia. Assim, “assume e propõe a inevitabilidade da adoção de um modelo de homem, ou seja, uma concepção filosófica da natureza humana, como ponto de partida e princípio norteador de qualquer projeto de construção de psicologia. Além disso, prioriza o fenômeno, em detrimento das técnicas e teorias, centrando-se na “relação fenomenológica” existencial atual entre seus agentes. 9 2 FENOMENOLOGIA E PSICOLOGIA HUMANISTA Fonte: www.mindmeister.com A Fenomenologia representa um marco na história da Filosofia, podendo ser comparada às autenticas revoluções paradigmáticas, como a socrática, a cartesiana e a kantiana. Sua penetração no âmbito da psicologia é de fundamental importância para se entender a totalidade da relação psicoterapêutica e da psicopatologia. A importância da fenomenologia se caracteriza pelo resgate da subjetividade na Filosofia e nas demais ciências humanas. O compromisso de Husserl com o pensamento de Descartes torna a Fenomenologia uma correntede pensamento imprescindível para a própria compreensão da cultura e da evolução do nosso século. Husserl era um profundo admirador da filosofia de Descartes. Todavia, considerava que Descartes não havia aprofundado suficientemente sua investigação epistemológica. Seu compromisso com Descartes consiste no seu projeto de tornar a Filosofia uma ciência rigorosa, semelhante à ideia cartesiana. Em complemento a isto, podemos citar o próprio Husserl, quando escreve que: “ Com efeito nenhum filósofo do passado teve uma influência tão decisiva sobre o sentido da fenomenologia como o maior pensador da França, René Descartes. É a ele que ela deve venerar como seu verdadeiro patriarca. Foi de um modo muito direto diga – se expressamente, que o estudo das meditações cartesianas interveio na nova configuração da fenomenologia nascente e lhe deu a forma de sentido que agora tem e que quase lhe permite chamar – se um novo cartesianismo, um cartesianismo do século XX”. 10 Para realizar seu projeto, Husserl parte de Descartes para criticá-lo no estabelecimento de um subjetivismo solipsista caracterizado por uma consciência definidora, mas que esquece os objetos e as relações que esta consciência estabelece com o mundo. O projeto de Husserl é de tornar a Filosofia o fundamento básico de todo o conhecimento, ou mais especificamente fazer da filosofia uma ciência de rigor, tomando por base as matemáticas. A fenomenologia se preocupa essencialmente com o rigor epistemológico, promovendo a radicalização do projeto de análise crítica dos fundamentos e das condições de possibilidade do conhecimento. Além disso, a Fenomenologia como método, possibilitou o advento de uma forte corrente de pensamento europeia, cujo legado ainda está para ser avaliado: o Existencialismo, com todas as suas conotações e diversificações. Esta abordagem de pensamento é muito bem representada em nosso século por figuras como Martin Heidegger, Jean Paul Sartre, Karl Jaspers, Gabriel Marcel, Martin Buber e Emmanuel Lévinas, apenas para citar alguns. 2.1 Fenomenologia, gênese e evolução histórica O que entendemos hoje como fenomenologia diz respeito a uma corrente de pensamento cujas raízes estão calcadas na preocupação: preocupação com os rumos da ciência e com a colocação do ser humano nessa situação. Fenomenologia é uma filosofia, se a entendemos de maneira original. Todavia, antes de se caracterizar como um modo específico de pensamento antes de se constituir numa forma sistemática de se acessar a realidade, a Fenomenologia é um método, uma metodologia de pesquisa dessa mesma realidade, e como tal implica uma específica visão de mundo. Originalmente diríamos que a Fenomenologia é um retorno, um recomeço radical, uma retomada do sentido exato do vocábulo grego phainómenon, que significa “aquilo vem à luz”, que se mostra, é a manifestação daquilo que se esconde. Historicamente, phainómenon era para os astrônomos gregos, a referência aos eventos celestes. A expressão “Fenomenologia” à qual nos referimos não é aquela utilizada por Hegel quando escreve sua obra A Fenomenologia do Espírito; mas refere – se a metodologia idealizada pelo filósofo alemão Edmund Husserl. 11 Fonte: blogdopadregilberto.blogspot.com A figura de Husserl é central dentro dessa consideração, podendo ser considerado um marco na filosofia do século XX. Suas ideias foram determinantes diretas dos pensamentos de filósofos como Sartre, Heidegger, Merleau – Ponty e outros. A história de Husserl é marcada por situações de considerável relevância. De origem judaica, foi proibido de publicar durante o período de governo do III Reich; suas obras somente foram publicadas integralmente em 1950 na cidade de Haia, na Holanda, e segundo alguns autores, graças aos esforços de alunos seus que conseguiram clandestinamente, evitar a queima de seus manuscritos enviando – os para fora da Alemanha. A gênese da Fenomenologia, contudo se dá através da figura de Franz Brentano, alemão nascido em Marienberg. Em 1874, publica sua obra capital: Psicologia do Ponto de Vista Empírico, fato este importante devido à posterior influência que terá sobre Husserl o pensamento deste filósofo. Brentano foi representante de uma psicologia descritiva a qual chamou de “psicologia dos atos”, que considera o essencial das manifestações anímicas (atos) em sua relação com o objetivo ao qual estão encaminhadas (intencionalidade). 12 Foi sacerdote católico, tendo se ordenado em 1864, mesmo ano de seu doutoramento em Filosofia. Entrou em confronto com a igreja por não aceitar o dogma da infalibilidade papal, tendo por isto se retirado de sua cátedra em 1873 e se convertido ao protestantismo em 1879. O fundamental da psicologia brentaniana é que a experiência se baseia na percepção interior, ao contrário do que propunham os sistemas psicológicos primevos a apontar para a introspecção (observação interior). Com isto reage contra a análise dos conteúdos da consciência conforme a psicologia experimental de Wilhelm Wundt e contra a orientação naturalista tomada de empréstimo à física e à fisiologia. Husserl nasceu na cidade de Prostnitz, na Morávia em 1859, entre os anos de 1876 a 1878 frequenta e se gradua em Matemática pela Universidade de Leipizig. Baseado na obra de Brentano, Husserl desenvolve grande parte de sus ideias. Em 1882, Husserl obtém seu doutorado na Universidade de Viena com a tese “Sobre o Cálculo das Variações”. No ano seguinte, em Berlim, torna – se assistente de um ex professor seu, Weirtrass. Em 1884, Husserl retorna a Viena e se afilia ao pensamento Brentano. Dois anos depois renuncia à sua ascendência judaica, convertendo ao Luteranismo, casando no ano seguinte com Malvine Steinschneider. Posteriormente torna – se livre docente pela Universidade de Halle. Começa aí sua vida intelectual realmente produtiva. No ano de 1891 publica o primeiro volume da sua Filosofia Aritmética, obra que ficou inacabada. Entre os anos de 1900 -1901, publica uma de suas obras capitais: Investigações Lógicas. Cresce sua consideração, tanto que em 1906, é nomeado professor da Universidade de Gottingen. Seus cursos sempre foram fonte de questionamento e de desenvolvimento de suas ideias. Definir a Fenomenologia talvez seja tarefa árdua. Na realidade, o próprio conceito de definição carrega uma conotação de algo estático que ignora a própria essência do termo. O problema da Fenomenologia é um problema de fundamentação da ciência. Husserl estabeleceu para si a tarefa de repensar os fundamentos. Eugen Fink, um eminente conhecedor do pensamento husserliano, aponta a fenomenologia como um “recomeço radical” uma retomada da busca das raízes. Constitui – se numa tentativa de superação da dicotomia sujeito/objeto, através da apreensão das relações do homem com o mundo. 13 A Fenomenologia surge como uma crítica, no sentido original do termo, como uma tentativa de pôr em crise o conhecimento vigente. Assim, surge com crítica à psicologia positivista, objetiva, experimental, que como as demais ciências buscava conhecimento absoluto ignorando a subjetividade. Ao propor isso, a ciência constrói uma imagem de homem que não condiz com sua realidade. O homem não é uma coisa, entre as coisas, e como tal não pode assim ser considerado. O mundo é um objeto intencional com referência a um sujeito pensante, o que invalida a objetividade absoluta. A Fenomenologia se opõe também ao naturalismo, que assinala o comportamento como uma mera relação causa e efeito, e ao idealismo de Kant e Hegel, que propunha o homem como um conjunto conceptual organizado. No prefácio de seu livroPhénomenologie de la Perception, o filósofo francês Maurice Merleau – Ponty – principal personagem da Fenomenologia pós husserliana propõe a questão: “ O que é a fenomenologia? (...) É o estudo das essências...Mas a fenomenologia é também uma filosofia que recoloca as essências na existência e não pensa que seja possível compreender o homem e o mundo de outra forma que não seja a partir de sua facticidade. É uma filosofia transcendental, que põe em suspenso para compreender as afirmações da atitude natural, mas é ainda uma filosofia para a qual o mundo está sempre aí,antes da reflexão como uma presença inalienável... A Fenomenologia é um esforço, uma tentativa de clarificação da realidade humana. É uma abertura à experiência, à vivência integral do mundo. É a busca do fenômeno, daquilo que surge por si só, daquilo que aparece, que se revela. Fenomenologia é ir às coisas mesmas, descobrí –las tais quais se apresentam aos meus sentidos, tais quais eu as percebo. Mas é um ir em busca aliado à minha própria experiência subjetiva concreta. É um olhar e ver, e não apenas uma colocação diante de algo. É participação, envolvimento. Assim sendo a Fenomenologia torna – se um modo de existir, de se colocar no mundo de fazer parte deste mundo. Neste contexto, temos o ser humano também como fenômeno. O mais complexo (talvez) mas o mais completo também. A Fenomenologia é, pois, um método de evidenciação, uma forma de renovação dos problemas filosóficos, mas o que temos como primordial na Fenomenologia é o seu caráter de contínua reflexão crítica, de repensar o mundo e a realidade, pois afinal o ser somente se completa no seu devir, no seu crescer. 14 Ao contrário do humanismo individual, a fenomenologia é um movimento filosófico que se estruturou no início do século XX, através de Husserl. A palavra Fenomenologia foi utilizada pela primeira vez pelo médico francês J.H. Lambert em meados do século XVIII, para designar o estudo ou a "descrição da aparência", na quarta parte do seu livro intitulado New Organon (1764). Este sentido pré-husserliano é recolhido por Kant e retomado por Hegel na Fenomenologia do Espírito já para designar a sucessão, por necessidade dialética, dos fenômenos da consciência, desde as simples aparências sensíveis até o saber absoluto. Sem se esquecer que o termo foi também utilizado por Hartman, Pirce e Stumpf, chegamos ao sentido husserliano, anunciado na obra Logische Unter- Suchunger (1900-1901) onde Fenomenologia é entendida como um método para fundar a lógica pura, e, posteriormente, pensada por Husserl para fundamentar a totalidade dos objetos possíveis. É necessário lembrar que a concepção da Fenomenologia não foi colocada por Husserl de maneira acabada na referida obra. Ela sofre uma evolução ao longo do pensamento husserliano. Como nos mostra Van Breda no seu excelente artigo Phenomenologie, existe, em Husserl, duas grandes concepções de Fenomenologia. Na primeira, Husserl "define Fenomenologia como uma ciência filosófica propedêutica, que tem como objeto a descrição das essências fundamentais para uma problemática filosófica dada". A segunda concepção, que se desenvolveu a partir do escrito de 1907, "Ideias para uma fenomenologia pura", proclama a fenomenologia possuidora da seguinte tarefa: "redescobrir a gênese intencional da consciência e os passos constitutivos que a consciência coloca em movimento". Hoje, quando falamos que um pensador é influenciado pela fenomenologia, devemos ter o cuidado de detectar qual é a sua concepção de fenomenologia subjacente ao seu trabalho teórico, pois a 1a. concepção de fenomenologia influenciou um grande número de psicólogos, psiquiatras, crítico de artes dos quais podemos citar Jagers como o 1º que trouxe esta concepção para o domínio da psicopatologia. Já a 2ª concepção foi utilizada mais pelos filósofos nas suas investigações. 15 Fonte:edukaparadigma.blogspot.com 3 HUMANISMO Fonte:sitedopsicologo.com.br O conceito histórico-cultural de humanismo se refere à época do Renascimento e tinha como objetivo uma volta aos estudos dos autores clássicos greco-latinos. Dessa maneira, a recuperação dos grandes modelos de sabedoria do pensamento antigo possibilitava o crescimento do homem. Por outro lado, o humanismo, enquanto possuidor de um significado ideal, designa uma concepção do mundo e da existência que tem por centro o homem. Assim temos tantos humanismos quantas concepções de homem. É nesta perspectiva que devemos entender o movimento humanista que surgiu na sociedade americana e que foi responsável pelo aparecimento da Psicologia 16 humanista que se apresentou como a terceira força da Psicologia e como alternativa a psicanálise de Freud, que tinha como preocupação central o estudo do inconsciente, e a Psicologia behaviorista, que tinha como objeto de estudo o comportamento. A psicologia humanista é um retorno ao estudo da experiência consciente. "Esta psicologia constitui-se em oposição à objetividade do behaviorismo, e, embora em acordo com a ênfase subjetiva da psicanálise, opõe-se ao reducionismo do comportamento a defesas e pulsões". O movimento cultural que sustentou esta transformação foi chamado por Gomes (1986) de humanismo individual e "sua história está associada com o desempenho da economia. Com a economia em ascensão, decorrente das transformações sociais pós-guerra, valores tais como, independência, hedonismo, dissidência, tolerância, permissividade, auto-expressão, ganham proeminência. Todo este movimento liberalizante e permissivo alcança seu pico no governo Kennedy onde suas qualidades anunciam mudanças rápidas e significativas". Nós assistimos à invasão da sociedade pelo Eu, onde tudo, a partir dos anos 60, se estruturou tendo nas preocupações pessoais seu lugar privilegiado. A lei, a seguir, formou-se depois da percepção de que a política não leva a nada: Sentir e viver plenamente suas emoções. O impacto desta maneira de viver pode se sentir também na psicologia e é descrita por Gomes assim: Exemplos da atmosfera dominante podem ser vistas em frases que ficaram célebres como a oração da Gestalt: 'Você cuide da sua vida que eu cuido da minha. Eu estou aqui para não viver as suas expectativas e nem você está aqui para viver as minhas'. Ou como Maslow (1968) costumava dizer que uma pessoa é valorizada não pelo que ela produziu, mas pelo que pode vir a ser; ou ainda, na teoria rogeriana da confiança irrestrita na pessoa". Este clima de centramento no sujeito é a matriz de vários movimentos terápicos e, hoje, a exacerbação do eu como centro, em tudo que se faz, provoca a onda de técnicas de autoajuda que assistimos proliferarem na sociedade contemporânea. A psicologia humanista procura entender a vida humana na sua totalidade e, assim, a compreensão do homem pelos psicólogos humanistas é entendê-lo como um ser que, em primeiro lugar, possui uma unidade. A diferença entre as diversas abordagens está em que cada uma, ao descrever as características principais do homem, sublinhará pontos diferentes. Como exemplo podemos citar Maslow, que 17 coloca o acento sobre o projeto humano e na superação de si, quando fala das experiências culminantes. A ênfase sobre o ciclo da vida é outra característica da Psicologia Humanista. Seus representantes têm enfatizado que a vida humana possui uma dinâmica na qual, em cada fase da vida, o ser humano deve alcançar um certo grau de realização, a fim de que possa, ao longo da vida, se estruturar como uma pessoa plena, integrada. Ora, essa ênfase dos humanistas nos faz perceber que o homem é compreendido, em primeiro lugar, como processo eevolução. Somente a partir deste processo é que podemos compreender a sua estrutura. Assim, Poelman, em seu livro "O homem a caminho de si mesmo", afirma que esse processo da evolução é inerente à própria vida e que "essa evolução não ocorre ao acaso, mas segue uma certa direção, tem um certo fim em vista; não é um processo que ocorre somente por acertos e erros ou por tentativas desconexas, não é um vôo no escuro". O conceito de auto realização quer acentuar que esse processo de crescimento inerente à dinâmica da vida deve ser entendido na sua globalidade, isto é, no desenvolvimento de todas as dimensões humanas, sejam elas biológicas, psicológicas, espirituais e sociais. Gostaria de citar Rogers e Maslow como os representantes mais significativos da explicitação das fases do processo de auto realização do homem. Rogers, no seu livro "Tornar-se Pessoa", na quarta parte, quando trata da Filosofia da Pessoa, traça características deste processo de auto realização. Por outro lado, Maslow, no seu livro "Motwation and Personality", na parte que trata da Teoria da Motivação humana, desenvolve as dimensões do ser humano que devem ser atingidas no processo de auto realização. Fonte: psicoativo.com 18 O conceito de autodesenvolvimento nos ajuda a entender a evolução do ciclo da vida do homem. Entre os humanistas citaria Bühler e um neoculturalista que traduz bem este processo, Erikson. Enquanto Buhler mostra que o ser humano deve passar por cinco fases, Erikson enumera oito fases, destacando sempre, em cada uma delas, uma dialética entre dois polos opostos. As duas interpretações estão baseadas no fato de que a vida é vivida como um todo por uma pessoa que atinge seu pleno desenvolvimento no instante em que percorre as diversas fases, cada uma com uma conquista integrativa, retratadas através de seus sucessos e de seus fracassos. 4 EXISTENCIALISMO Fonte: tig-saude-mental-cersam.webnode.com Enquanto a Fenomenologia é compreendida pelos discípulos como um método, o Existencialismo é entendido como uma doutrina filosófica sobre o homem. As filosofias da Existência surgirão como uma oposição a toda filosofia clássica a qual é entendida como o estudo das essências, cuja ideia principal seria a compreensão das dimensões estáveis. Os filósofos da existência vão redirecionar as perguntas sobre o homem. Em vez de se perguntar: o que é o homem, se perguntará: quem é o homem? Evidentemente a palavra existencialismo começou a ser usada depois da primeira guerra mundial para designar justamente o movimento de alguns pensadores 19 e de alguns literatos sobre a investigação de quem é o homem. Este movimento, que se estruturou com mais força no entre guerras, isto é, entre 1918 e 1945, teve suas raízes históricas no pensamento de Kierkegaard quando o filósofo dinamarquês se opôs ao pensamento pós- hegeliano dominante do seu tempo. A ideia central de luta de Kierkegaard era reagir contra o caráter universal, intelectual e determinista do hegelianismo, afirmando o interesse pelo singular e pela vontade. Segundo os historiadores, o movimento existencialista se iniciou na Alemanha, em 1919, quando Barth publicou um comentário sobre a epístola aos Romanos e Jaspers publicou A Psicologia da Mundividência. De um lado, o movimento existencialista ganha forças justamente a partir da década de 20, uma vez que o entre guerras foi um período de muito sofrimento, desespero e angústias. Estes temas se tornaram os temas preferidos dos existencialistas, pois estes se preocupavam em falar e refletir sobre o que o homem estava vivendo naquele instante. Por outro lado, este movimento só veio a se expandir fora do contexto europeu a partir do fim da segunda guerra mundial. A década de 50 foi, talvez, a década de divulgação do movimento existencialista. É necessário observar que, embora encontramos um número muito grande de escritores ditos existencialistas, Büber, Bultmann, Guadini, Camus, Dostoevsky, entre outros, só são considerados clássicos filósofos existencialistas Heidegger, Jaspers, Sartre e Marcel. E uma segunda observação é que todos estes quatro filósofos, que passaram para os anais da história da filosofia como os filósofos da existência, utilizaram, cada um a partir de uma inspiração pessoal, o método fenomenológico para concretizarem as suas reflexões sobre o homem. A Filosofia da existência pode ser concretizada através de duas grandes características. A primeira é que todos os filósofos e escritores procuram valorizar o homem. A segunda é que todos procuram descrever e explicitar o modo concreto do homem viver, isto é, refletindo sobre a angústia, a liberdade. Salientamos que o desenvolvido até aqui visa explicitar a necessidade de um cuidado de se detectar as diversas fontes da psicoterapia e, mais ainda, observar que os três movimentos, que ora analisamos, possuem as origens mais diversas e ideias forças diretrizes muito diferentes. 20 5 TEORIA DA INTENCIONALIDADE Fonte: queconceito.com.br Sem querer fazer um estudo exaustivo sobre a fenomenologia, os psicólogos devem se interrogar sobre quais conceitos fundamentais da Fenomenologia são úteis para seu trabalho. Assim, não se trata de fazer Filosofia Fenomenológica, mas captar os conceitos que nos ajudariam a entender melhor os fenômenos psicológicos. De um modo geral, utilizamos uma compreensão do método fenomenológico para nossos estudos. Este método tem, porém, alguns fundamentos e procedimentos que podem ser tematizados através da explicitação de suas características. Para um certo domínio da fenomenologia, será necessária a compreensão do retorno "às coisas mesmas", o conceito de redução eidética e a redução transcendental, a teoria da intencionalidade, a intuição das essências, o mundo da vida a intersubjetividade. Diante do tempo limitado desta conferência, destacaremos o que nos parece ser a descoberta mais significativa de Husserl, que é a teoria da intencionalidade. A afirmação de Husserl é que a consciência é intencionalidade, isto é, que ela é sempre consciência de alguma coisa. Husserl avança o conceito de intencionalidade dos escolásticos retomado por Brentano, pois "a intencionalidade husserliana não é apenas uma propriedade do ato ou vivência, como em Brentano que não fala ainda de consciência intencional. Segundo Husserl, a intencionalidade vivifica a vivência, tornando-a 21 designativa do objeto, em virtude de um processo mais radical, inerente à própria consciência". "A novidade, aqui, é que a consciência se esgota em visar algo que não é ela mesma: ela se define pelo objeto que visa. Assim, a ideia de intencionalidade que começou a ser desenvolvida por Brentano e retomada por Husserl, vai se articular independentemente da ideia que o sujeito e o objeto são duas substâncias separadas, justamente o contrário da filosofia cartesiana onde o Cogito separa radicalmente o mundo do pensamento e a realidade do corpo. Podemos concluir com Forghieri dizendo que a intencionalidade é, essencialmente, o ato de atribuir um sentido: é ela que unifica a consciência e o objeto, o sujeito e o mundo. "Com a intencionalidade há o reconhecimento de que o mundo não é pura exterioridade e o sujeito não é pura interioridade, mas a saída de si para um mundo que tem uma significação para ele". 6 O CONCEITO DE EXISTÊNCIA Fonte: www.resumoescolar.com.br Se também percorrermos os principais existencialistas, como citamos os principais humanistas, vamos destacar os temas mais relevantes para a Psicologia Existencial. Antes de destacar as principais categorias da Filosofia da Existência,faria duas observações. A primeira é que os ditos filósofos oficiais do existencialismo 22 Sartre, Jaspers, Heidegger, Marcel - cada um, a seu modo, utilizou o método fenomenológico para elaborar a sua filosofia da existência, unido assim os dois conceitos - fenomenologia e existencialismo. A segunda observação é que a Psicologia Existencial não se baseia só nas filosofias "oficiais" do Existencialismo, mas utiliza também os conceitos elaborados pelos outros escritores existencialistas supracitados. Sem corrermos o risco de, sob o nome de Existencialismo, abrigarmos todo tipo de pensamento anti-racionalista, é necessário procurarmos explicitar os fundamentos teóricos, isto é, analisar e esclarecer nossas próprias pressuposições de entendermos a existência humana. Dentre a vasta temática das filosofias da Existência, podemos destacar as categorias de Existência, ser-no-mundo, liberdade, o outro, a Angústia, Temporalidade, o Amor etc. Escolhemos falar sobre a Existência pois é ela que nos explicita melhor as dimensões do ser humano. A pergunta inicial seria a seguinte: é possível definir o conceito de Existência? A palavra Existência, diz Jaspers, "é um dos sinônimos da palavra realidade", mas, graças à maneira de como Kierkegaard a acentua, ela tomou um aspecto novo: "ela designa o que eu sou fundamentalmente por mim". Existência não deve ser entendida no sentido trivial de ser-no-mundo, como simplemente um ente no meio de outros entes. Ex-sistere deve ser compreendida como ex = fora de e sistere = ter sua postura. Existir é, pois, ter sua postura fora. A existência difere radicalmente do comportamento de todo os outros entes. Nós somos o destino de nós mesmo. Esta postura, que está sempre em construção, nunca acabada nos permite captar algumas características do existir humano. Em primeiro lugar, existir é ir sendo, o que se fará através da escolha e da decisão. Em segundo lugar, é estar em conflito consigo mesmo, e uma preocupação infinita de si próprio. Em terceiro lugar, ela não é definível. Ela não pode tornar-se objeto. Cada filósofo, através de seus escritos, procura precisar as características de Existência. Heidegger deve ser lembrado como, talvez, o que fez um esforço gigantesco na sua obra Ser e Tempo para analisar a estrutura da Existência, mostrando a estrutura Dasein, o estar fora de si e estar-no-mundo. Por isso, vai falar de existência autêntica e existência mantêutica. No aprofundamento do pensamento de Heidegger, vamos encontrar Binswanger que, mostrando o limite das análises heideggerianas, quando 23 compreende o Dasein como cuidado (Sorge), mostra que o amor (Liebe) é uma outra dimensão do Dasein (de Existência) que não mereceu atenção dos filósofos. 7 A RELAÇÃO ENTRE AS TÉCNICAS E A PSICOTERAPIA Fonte: www.slideshare.net Desde o século XX que as psicoterapias e as suas respetivas definições se vêm alterando. Se antigamente psicoterapia e psicopatologia tinham uma relação estreita, com o passar dos anos essa relação foi se alargando (Leal, 2005). Foi Sigmund Freud quem deu um salto enorme para se passar a entender a psicoterapia ligada não só à psicopatologia, mas também à normalidade (Leal, 2005). Ainda assim a relação entre psicoterapia e psicopatologia foi-se mantendo sempre muito próxima. Se se recordar algumas definições inicias de autores como Piéron ou Chaplin verifica- se o termo doença mental associado (Leal, 2005). Só nas décadas seguintes é que se verifica uma tônica na relação entre duas pessoas, Gauquelin et al., refere mesmo a psicoterapia como “um trabalho de relação de homem a homem” (1978, cit. por Leal, 2005). É a partir desta definição que a ênfase na relação entre paciente e terapeuta começa a ganhar uma importância maior. Distanciando - se cada vez mais do modelo médico entra-se numa lógica de “construção de sentidos” (Leal, 2005). 24 De acordo com Leal (2005) pode- se falar em psicoterapia como um tratamento que permite melhorar um mal-estar anterior tratando – se de um tratamento implica, ainda que de maneira subtil, uma doença. Wampold (2001) define a psicoterapia como “um tratamento interpessoal baseado em princípios psicológicos e envolve um terapeuta treinado e um cliente com doença mental, problema ou queixa. Cabe ao terapeuta então remediar essa doença, problema ou queixa. Contudo, mais recentemente o foco já não está na doença mental. A psicoterapia é um processo entre duas pessoas onde é possível o cliente refletir sobre experiências passadas, presentes e futuras, compreendê-las e viver de forma mais prazerosa consigo próprio (Ribeiro, 2013). As psicoterapias implicam um quadro teórico subjacente. Estes quadros teóricos podem ser definidos como “as teorias, as hipóteses e os modelos que sustentam as práticas e as intervenções de qualquer disciplina científica” (Leal, 2005). Existem diferentes quadros teóricos desde o psicanalítico, ao cognitivo, passando pelo existencial, entre outros. O modelo teórico subjacente a este trabalho é o existencial, contudo antes de se falar em que consiste este modelo, importa referir que são necessárias técnicas para se aplicar o modelo. De acordo com Tejera (1970, p82, citados por Ribeiro, 1986) as técnicas da entrevista psicológica são definidas como “um conjunto de regras práticas… as quais tendem a garantir a liberdade de decisão e aquela ajuda de intervenção por parte do psicólogo na dinâmica do encontro psicólogo-sujeito”. As técnicas devem ser aplicadas não com o propósito de gerar algum fenómeno, mas em consequência desse fenómeno. Devem surgir da necessidade ou da importância do momento (Ribeiro, 1986). Um modelo teórico pode ser definido como um conjunto de crenças ou como uma teoria única sobre como fazer com que a pessoa ou paciente consiga mudar algo em si, num contexto terapêutico (Ogles, Anderson, & Lunnen, 1999). Os modelos estão baseados numa série de princípios que incluem técnicas terapêuticas específicas (Castonguay & Beutlei, 2006, citados por Ogles et al., 1999). Por sua vez Goldifried (1980, citados por Ogles et al., 1999) refere que estas técnicas são definidas como extensões das crenças do modelo teórico. Entende-se desde já esta relação muito próxima entre técnicas e modelos teóricos e é de fácil entendimento que dependendo do modelo teórico subjacente as técnicas utilizadas serão diferentes. 25 Em 1936, surge uma ideia que progressivamente foi ganhando terreno não só na investigação em psicoterapia, mas também na sua prática propriamente dita. 8 PSICOTERAPIA EXISTENCIAL: QUE LUGAR? Fonte:www.scoop.it Com a evolução das psicoterapias suportadas em números, ou seja, baseadas em dados empíricos, os modelos teóricos ficaram colocados numa sessão secundária, não sendo fundamental para poder produzir mudança terapêutica. Sendo este dado adquirido, como pode o modelo existencial se colocar face a estas novas questões? Tradicionalmente o modelo fenomenológico-existencial nunca dominou ou sequer se interessou muito pela investigação em psicoterapia (Timulak, 2011). Algumas razões podem ser levantadas quanto a esta posição, desde logo o fato de o existencialismo ter partido de correntes filosóficas, o que comparando à psicanálise, que “nasceu” num contexto da clínica, fez diferença (Leal, 2005) ou até devido ao facto de se posicionar contra a visão do Homem como objeto para ser analisado. O que parece ter suscitado algum interesse pela investigação em psicoterapia foi o descontentamento sentido pelas pessoas dessa mesma corrente/modelo em relação à psicologia empírica produzida até a data, nomeadamente por ter por detrásum modelo cognitivo comportamental (Schneider et al., 2001). Sabendo que muitos 26 estudos apontavam já para ganhos semelhantes entre as várias psicoterapias, desde cognitivas a psicanalíticas, a psicoterapia existencial precisava também de o mostrar. Elliott et al. (2004) apresenta então alguns resultados referentes a terapias experienciais, nas quais englobavam as terapias existenciais, as terapias centradas no cliente e a terapia Gestalt. Alguns resultados são importantes serem descritos, desde logo a eficácia desta terapia experiencial quando ao final da mesma, ou seja, as pessoas depois da terapia mantinham os ganhos. Em seguida foi feita uma comparação entre as terapias experienciais com as terapias não experienciais, sendo que tal como outras terapias já o tinham feito, os resultados apontaram para níveis de eficácia semelhantes, ou seja, não existe diferença entre as diferentes terapias. E mesmo numa comparação exclusivamente feita com as terapias cognitivas- comportamentais não foram encontradas diferenças significativas (Elliott et al., 2004), o que tendo em conta que foi um dos motivos, divergência face ao modelo cognitivo- comportamental, que levou ao aumento exponencial da investigação em psicoterapia existencial deu um enorme impulso e motivo para que a investigação aumentasse. Alguns conceitos teóricos da corrente existencialista foram também colocados em “prática” já que se encontrou esses mesmos conceitos relacionados com o processo de mudança em psicoterapia. Desde logo toda a essência do existencialismo remete para a noção de experiência enquanto algo único, individual e diferente para cada indivíduo. A atitude terapêutica tem também uma relevância fundamental neste modelo (Walsh & McElwain, 2001). Repare-se que em ambos os conceitos denota-se variáveis tanto da relação terapêutica, como das características individuais da pessoa como também aspetos mais específicos de todo o processo psicoterapêutico estando por isso este modelo relativamente em linha com a evidência das Task Forces referidas anteriormente. Relativamente aos temas ou a assunções deste modelo importa referir que já existe uma vasta evidência empírica que sustenta a sua importância. Destaca-se entre outros a noção de liberdade versus limitação, ou seja, como o sujeito encara o fato de o ser humano não ter uma autonomia absoluta e viver com limitações. Os dados empíricos sustentam que esta noção de liberdade, o pensar sobre, permite uma maior reflexão pessoal por parte do paciente e isso está ligado ao sucesso na terapia. 27 A intersubjetividade é também um tema frequente e importante no modelo existencial, no sentido em que todo o ser humano é um ser em relação com os outros e, portanto, existe toda uma dinâmica entre paciente e terapeuta a ser considerada. Neste âmbito detecta-se um grande desinteresse por este conceito nos estudos já feitos, de perceber se há um encontro entre ambos ou não, já que as perspectivas de um face a outro são muitas vezes distintas. Outro aspecto prende-se com a autenticidade, na abertura face ao outro. A este nível, estudos apontam para que quanto maior for a abertura à experiência de contato com o outro maior probabilidade de ocorrer mudança em psicoterapia. 8.1 O que caracteriza a existência individual O que caracteriza a existência individual é o ser que se escolhe a si mesmo com autenticidade, construindo assim o seu destino, num processo dinâmico de vir-a- ser. O indivíduo é um ser consciente, capaz de fazer escolhas livres e intencionais, isto é, escolhas das quais resulta o sentido da sua existência. Ele faz-se a si próprio escolhendo-se e é uma combinação de realidades/capacidades e possibilidades/potencialidades, está “em aberto” ou melhor está em projeto. Este, é a maneira como ele escolhe estar-no-mundo, o que se permite ser através da sua liberdade, sendo que as escolhas podem ser feitas em função do futuro ou em função do passado: escolher o futuro envolve ansiedade (associada ao medo do desconhecido) e escolher o passado envolve culpabilidade (associada à consciência das possibilidades perdidas). A autenticidade (Cabestan, 2005) implica aceitar a condição humana tal como é vivida e conseguir confrontar-se com a ansiedade e escolher o futuro, reduzindo a culpabilidade existencial. A autenticidade caracteriza a maturidade no desenvolvimento pessoal e social. A escolha é um processo central e inevitável na existência individual e a liberdade de escolher-se envolve responsabilidade pela autoria do seu destino e compromisso com o seu projeto. A liberdade de escolha não só é parte integrante da experiência como o indivíduo é as suas escolhas: a identidade e as características do indivíduo seriam consequências das suas próprias escolhas. O projeto existencial é a união, o “fio condutor” entre o passado, presente e futuro, a continuidade compreensível das vivências, coerência interna do mundo 28 individual, que reflete a escolha originária que o indivíduo fez de si e que aparece em todas as suas realizações significativas, quer ao nível dos sentimentos, quer ao nível das realizações pessoais e profissionais. O mundo interno exprime-se na simbolização (categorias cognitivas que representam a experiência na sua ausência), na imaginação (recombinação de categorias mentais que se assemelham à experiência, mas sem interação com o meio) e juízo (avaliação em relação à experiência), associadas à intimidade, ao amor, à espontaneidade e à criatividade. O processo de individuação opõe-se ao conformismo com as normas e papéis sociais, o que conduz a um funcionamento estereotipado e inibidor da simbolização e da imaginação. Fonte: allevents.in O indivíduo está comprometido com a tarefa, sempre inacabada, de dar sentido à sua própria existência. Em síntese, a existência individual caracteriza-se por três palavras-chave – cuidado, construção e responsabilidade– na medida em que o indivíduo cuida da sua existência procurando conhecer-se e compreender-se, descobrindo-se na relação com o outro, constrói o seu-mundo dando sentido à sua existência e escolhendo viver de acordo com os seus valores (o que confere um carácter único e singular) e responsabiliza-se por si próprio na realização do seu projeto. Assim, a existência individual é uma totalidade, única (singular) e concreta. O que é estar-no-mundo A existência enquanto estar-no-mundo envolve a unidade entre o indivíduo e o meio em quatro dimensões, que são as dimensões da existência (Van Deurzen-Smith, 29 1996, 1998) e o processo terapêutico seria a exploração do mundo do cliente nas suas várias dimensões (Cohn, 1997): Física – É o mundo natural (Umwelt), o da relação do indivíduo com os aspectos biológicos do existir e com o ambiente e que envolve as suas atitudes em relação ao corpo, aos objetos, à saúde e à doença e no qual se exprime em permanência uma procura de domínio sobre o meio natural, que se opõe a submissão e aceitação das limitações impostas, nomeadamente pela idade e pelo ambiente. O sentimento de segurança é aqui dado pela saúde e bem-estar Social – É o mundo da relação com os outros ( Mitwelt), do estar-com e da intersubjetividade onde se revela e descobre o que se é, mundo que envolve as atitudes e os sentimentos em relação aos outros, tais como amor/ódio, cooperação/competição, aceitação/rejeição e partilha/isolamento. Inclui os significados que os outros têm para nós, quer sejam os familiares, os amigos ou os colegas de trabalho, significados que dependem das modalidades da nossa relação com eles. Esta dimensão relacional é uma premissa fundamentaldo modelo existencial (Spinelli, 2003) Psicológica – É o mundo da relação consigo próprio (Eigenwelt), da existência subjetiva e fenomenológica de si mesmo, da construção do mundo pessoal, com auto percepção de si, da sua experiência passada e das suas possibilidades, recursos, fragilidade e contradições, profundamente marcado pela procura da identidade própria, assente na autoafirmação e numa polaridade de atividade/passividade Espiritual – É o mundo da relação com o desconhecido (Ueberwelt), que envolve uma relação com o mundo ideal, a ideologia e os valores, onde se pode exprimir o propósito da existência individual, numa tensão permanente entre o propósito/absurdo e esperança/desespero. Cada indivíduo centra-se na construção de significados com que luta contra o vazio e a falta de sentido, sendo responsável (existencialmente) pela sua autoafirmação e desenvolvimento, estando consciente do que sentiu e pensou, do que sente e pensa e podendo antecipar o que poderá vir a ser no futuro. Cada indivíduo necessita e deseja estar com os outros, com os quais pode empatizar e aprender, através dos quais se descobre e com os quais constrói projetos e relações significativas. 30 8.2 A ansiedade resulta do confronto com os dados da existência Fonte:www.mulheresid.com.br O desenvolvimento individual e a integração envolvem um confronto incontornável e inevitável do indivíduo com os dados da existência, confronto do qual resulta experiências de ansiedade na gestão da qual o indivíduo pode utilizar estratégias variadas. Existir envolve, por um lado, a consciência de tragédia inerente à condição humana e construída por insegurança, frustração e perdas irreparáveis e, por outro, pela consciência da esperança que resulta da liberdade de escolha, da auto realização, da dignidade individual, do amor e da criatividade. Os dados da existência são: Consciência da morte – Implica a experiência de contingência, enquanto possibilidade do fim de todas as suas possibilidades (existência/finitude), geradora da ansiedade e medo da morte, que emerge do conflito entre a consciência de finitude e o desejo de continuar sendo; Consciência da liberdade– Implica a experiência de responsabilidade e autonomia no sentido das escolhas concretas e situadas que envolvem medo do incerto e do desconhecido. A ansiedade emerge do conflito/dependência 31 Consciência da solidão – Implica a experiência de isolamento, com medo da separação. A ansiedade emerge do conflito solidão/sociabilidade Consciência da falta de sentido – Implica a experiência de vazio e desespero associado ao absurdo de existir. A ansiedade emerge do conflito falta de sentido/projeto e a coragem é a capacidade para continuar em direção ao futuro apesar do desespero. O indivíduo não pode escolher as limitações da sua existência, mas pode escolher os modos de confronto com essas limitações, isto é, como é que se confronta com elas. Assim, diferentes autores têm enfatizado preferencialmente diferentes dados da existência, o que também tem contribuído para a heterogeneidade das concepções mesmo dentro da perspectiva existencial. No entanto, quase todos deram importância que pode ter a negação da liberdade de escolha e/ou à negação das limitações inerentes à facticidade. Assim surgiu o conceito de inautenticidade, usado como sinónimo de auto decepção por Heidegger e correspondendo ao conceito de má fé de Sartre. Negando a sua liberdade de escolha e a sua responsabilidade, o indivíduo nega a possibilidade de escolher livremente o seu futuro. A ansiedade é, ela própria um dado da existência com que o indivíduo se confronta inevitavelmente e que pode ser experimentada de forma mais intensa e significativa mais em certos momentos da trajetória existencial do que noutros. Por exemplo, pode associar-se a crises pessoais, luto, doença física, fases de transição do ciclo de vida individual ou familiar, entre outras situações. Perturbar-se é uma possibilidade do existir 32 Fonte:www.altoastral.com.br No quadro existencial é importante situar o estatuto da perturbação mental, uma vez que parte significativa das psicoterapias existenciais não a tomam necessariamente como foco da sua intervenção, por considerarem que isso seria uma perspectiva redutora ou, pelo menos, não tomam a psicopatologia como foco principal de intervenção. Até porque a valorização da dignidade existencial opõe-se às classificações psiquiátricas (Erthal, 1999), que fragmentam a totalidade da existência individual. Nesta medida, as perturbações mentais são vistas como aspectos integrado na totalidade da existência individual, expressões parciais das modalidades de construção do seu-mundo. Sem uma finalidade exaustiva, uma vez que o objetivo deste não é a relação entre a psicopatologia e a existência, mas sim introduzir as psicoterapias existenciais, referem-se aspectos valorizados por autores relevantes sobre o significado existencial da psicopatologia, tendo em conta que ela é uma possibilidade humana universal (pode acontecer a qualquer um...). Com Binswanger (1981, 1971) a psicopatologia é o que se afasta da estrutura apriorística do ser (categorias ontológicas) e se tornou uma estrutura existencial modificada. Para May (1958), que introduziu a psicoterapia existencial nos Estados Unidos da América, a ansiedade patológica resultaria do indivíduo não se confrontar com a ansiedade normal, sendo esta a que deriva do confronto com os dados da existência. 33 Denominando-a ansiedade neurótica, desproporcionada ao perigo, May contextualizou-a como resultado das tentativas feitas pelo indivíduo para diminuir ou negar a ansiedade resultante do confronto com os dados da existência. Assim, a ansiedade neurótica poderia significar, por exemplo, negação do medo da morte, negação da liberdade de escolha, evitando assumir responsabilidades ou conformismo com as normas sociais impostas. Assim, serviria para proteger o indivíduo contra a ansiedade que emerge dos dados da existência, na medida em que resultaria da tentativa de reduzir ou negar a ansiedade ligada à existência, na busca duma existência segura, certa e livre de ansiedade. Desta maneira, o que denominamos por sintomas em psicopatologia poderiam ser considerados como possibilidades escolhidas: ao escolher não se confrontar diretamente com a ansiedade associada aos conflitos existenciais, o indivíduo poderia perturbar-se mentalmente. Isto é, os sintomas derivariam de escolhas não autênticas que, não reduzindo a ansiedade associada aos dados da existência, apareceria sob a forma de ansiedade neurótica. Portanto, os sintomas poderiam ser compreendidos como expressões parciais da forma como o indivíduo constrói o seu mundo. Ou, se quiser, o desajustamento é o resultado de uma escolha do próprio indivíduo, que experimenta uma inabilidade para contatar com o mundo e consigo mesmo, mantendo-se bloqueado num falso projeto de ser, uma forma pouco autêntica de realizar o projeto. Por exemplo, o esforço do indivíduo neurótico para ser o que deseja afasta-o da possibilidade de ser o que é (Erthal,1999). Isto não significa, de modo algum, que o indivíduo seja culpado pela perturbação mental que experimenta. Apenas quer dizer que a perturbação mental se relaciona compreensivelmente com as modalidades de construção do seu-mundo. Com Yalom (1980), o comportamento perturbado surge diretamente associado ao fracasso na resolução dos conflitos existenciais, entendidos estes como confrontos entre o indivíduo e os dados da existência. Ou seja, são definidas modalidades de perturbaçãomental especificamente associadas ao medo da morte, ao medo da liberdade de escolha, ao medo do isolamento e à falta de sentido. 34 9 OBJETIVOS DA PSICOTERAPIA EXISTENCIAL Fonte: amenteemaravilhosa.com.br Tendo em conta que não existe uma, mas sim várias propostas de psicoterapia existencial, apenas podem delimitar-se objetivos gerais uma vez que cada proposta tem os seus objetivos específicos (Deurzen-Smith, 1996): - Facilitar ao indivíduo uma atitude mais autêntica em relação a si próprio; - O conceito de autenticidade assume aqui importância central. Trata-se de um processo gradual de auto compreensão com a finalidade do sujeito vir-a-ser mais verdadeiro e coerente consigo próprio, para que possa responder às situações com sentimento de domínio e maior percepção de controle pessoal. Para Cohn (1997), trata-se de ajudar o cliente a libertar-se das consequências perturbadoras da negação e evasão no seu confronto com os dados da existência, acendendo a uma forma de existir mais autêntica - Promover uma abertura cada vez maior das perspectivas do indivíduo em relação a si próprio e ao mundo; – Esta abertura, que consiste num trabalho focalizado na relação do indivíduo consigo mesmo, pode ser promovida através da facilitação de uma auto avaliação das suas crenças, valores e aspirações que sirva para atingir maior clareza na exploração das suas experiências. 35 O foco é a autoconsciência, enquanto consciência de si mesmo, em particular a autoconsciência do tempo perdido (possibilidades perdidas) e da necessidade de viver agora. O principal objetivo é proporcionar o máximo de auto--Consciência para favorecer um aumento do potencial de escolha (Erthal, 1999). Clarificar como agir no futuro em novas direções Trata-se de facilitar a abertura a novas possibilidades de vir-a-ser, diferentes das desenvolvidas até aí e de acordo com o seu projeto, em relação ao qual se facilita o confronto. Pretende-se ajudar o cliente a descobrir o seu poder de autocriação e a aceitar a liberdade de ser capaz de usar as suas próprias capacidades para existir. O foco é a autodeterminação, enquanto poder do indivíduo de decidir o que lhe convém ser e fazer, exercendo a sua liberdade de escolha. Trata-se de facilitar a abertura à construção de novas alternativas: Facilitar o encontro do indivíduo com o significado da sua existência; Trata-se de promover o confronto e a reavaliação da compreensão que o indivíduo tem da vida, dos problemas que tem enfrentado e dos limites impostos ao seu estar-no-mundo. O foco é a procura de sentido que permite a auto realização, enquanto tudo o que o indivíduo é capaz de vir-a-ser; Promover o confronto com e a superação da ansiedade que emerge dos dados da existência, nomeadamente da inevitabilidade da morte, da liberdade de escolha em situação, da solidão e da falta de sentido para a vida. Em síntese, trata-se de facilitar ao indivíduo o desenvolvimento de maior autenticidade em relação a si próprio, uma maior abertura das suas perspectivas sobre si próprio e o mundo e, ainda, de ajudar a clarificar como é que poderá agir no futuro de forma mais significativa. O centro é a responsabilidade da liberdade de escolha do indivíduo. A palavra-chave é construção, uma vez que se trata de desafiar o indivíduo a ser o construtor da sua existência. Tendo em conta que a psicoterapia existencial não é conceitualizada como um tratamento nem como uma terapêutica da perturbação mental, nem se focaliza necessariamente no alívio dos sintomas, mas que é essencialmente um processo de confronto com as potencialidades e de mudança pessoal, os indivíduos que mais podem beneficiar são os que: 36 Apresentam um pedido de ajuda no qual já mostram a percepção de que os seus problemas são acerca do existir e não uma forma de patologia, ou que acabam por reconhecer isto ao fim de algumas entrevistas; Consultam por motivos relacionados com crises pessoais e/ou psicopatologia mas conseguem relacionar o seu mal-estar com a sua trajetória existencial; Têm interesse genuíno em aumentarem o seu autoconhecimento e auto compreensão, isto é, re-situarem-se em relação a si próprios e à situação que vivem; Desejam ser mais autênticos, considerando mais o futuro do que o seu passado nos momentos de tomada de decisão e que querem desenvolver expressões mais significativas nas suas relações com os outros; Desejam pensar sobre si próprios e sobre os significados que atribuem aos seus comportamentos e relações interpessoais; Enfrentam crises pessoais, tais como luto, separações, desemprego, transição de fase do ciclo de vida, solidão e anomia; Estão em confronto com doença física grave ou pelo menos percepcionada como ameaçadora, ou com consequências de acidentes e/ou incapacidades Têm facilidade em verbalizar sobre as suas experiências, ideias intenções, emoções e Sentimentos; Têm interesse genuíno em aumentarem o seu autoconhecimento e auto compreensão, isto é, re-situarem-se em relação a si próprios e à situação que vivem; Desejam ser mais autênticos, considerando mais o futuro do que o seu passado nos momentos de tomada de decisão e que querem desenvolver expressões mais significativas nas suas relações com os outros; Desejam pensar sobre si próprios e sobre os significados que atribuem aos seus comportamentos e relações interpessoais; Enfrentam crises pessoais, tais como luto, separações, desemprego, transição de fase do ciclo de vida, solidão e anomia; Estão em confronto com doença física grave ou pelo menos percepcionada como ameaçadora, ou com consequências de acidentes e/ou incapacidades Têm facilidade em verbalizar sobre as suas experiências, ideias intenções, emoções e sentimentos; 37 Em princípio, a psicoterapia existencial não beneficiará significativamente indivíduos que procuram apenas alívio de sintomas, em que o mal-estar que motiva o pedido de ajuda está exclusivamente relacionado com representações de doença, buscam dependência ou não desejam ou temem pôr-se em questão, não desejando confrontar-se com as suas contradições e possibilidades de mudança. 10 ENCONTRO TERAPÊUTICO Fonte:oferplan.elcorreo.com O encontro terapêutico enraíza no método fenomenológico, de tal modo que é apreensão da presença do outro “tal como” ele aparece diante do terapeuta – apreensão da presença do outro tal como ele se fenomenaliza frente ao terapeuta, sem distorções interpretativas – pelo que é necessário estabelecer contato (sintonizando), acender ao seu estado de consciência (empatizando) e compreender, captando as modalidades de constituição da sua presença no mundo. O foco é a realidade do outro, isto é, a experiência que ele tem do mundo. Caracteriza-se por uma relação existencial que envolve estar-com e estar-para. 38 10.1 Características da relação existencial em terapia Fonte:www.e-tlaxcala.mx A relação existencial é estar-com porque é encontro enquanto tal (Spinelli, 2003), de uma existência com outra existência, implicando uma presença sentida (estar-por-si), a reciprocidade (estar-para-o-outro), cuidado (acolher o outro na sua esfera vital), o laço emocional (eu/tu que criam um “nós”, numa reciprocidade ativa para que o outro se ilumine e descubra) e convite ao diálogo autêntico, a partir das vivências ou intencionalidades significativas. A atitude fundamental é a atitude fenomenológica, de aproximação ao mundo do outro com abertura e espírito de descoberta dos significados que ele atribui (O quê? Como?), permitindo aumentar a consciência que ele tem da sua experiência(autoconsciência), compreender a importância que dá ao futuro nas suas decisões (auto realização) e perspectivar a autenticidade em termos de agir interações determinadas (autodeterminação) e fundadas na sua individualidade e integradas no seu projeto. A psicoterapia desenvolve-se a partir da aplicação do método fenomenológico aplicado à existência. As características principais do encontro terapêutico em psicoterapia existencial são: a coerência (comportamento mútuo de co-relação), o caráter fortuito, uma vez que o encontro pode chegar no instante de forma imprevista (acontece...), a liberdade de deixar o outro ser como é, e a abertura a novas possibilidades. Envolve também o face-a-face, porque o encontro acontece no olhar. 39 As grandes finalidades relacionam-se com facilitar ao cliente o aceitar-se (como se é), querer-se (a si mesmo), sentir-se e escolher-se. Na entrevista clínica de avaliação inicial é necessário considerar um conjunto de focos e dinâmicas existenciais. Entre os focos salientam--se: experiência subjetiva, intencionalidade, liberdade e responsabilidade, escolhas, autenticidade e o mundo pessoal (dimensões da existência, sonhos). Entre as dinâmicas existenciais salientam-se a incorporação do passado e do futuro no presente e, também, o comprometimento para vir-a-ser. 10.2 Estilo terapêutico Fonte: harmonizandovinculos.com O estilo terapêutico é marcado pela variabilidade adaptável às necessidades individuais, passividade, atividade, ritmo que segue as preocupações do cliente, temas considerados e explorados em diálogo e interesse por aquilo que interessa ao sujeito. As intervenções mais essenciais destinam-se a contrariar a persistência, na pessoa do cliente, em evitar o reconhecimento da sua autoafirmação (responsabilidade) e a facilitar-lhe a identificação de alternativas pessoalmente viáveis. É possível sistematizar as estratégias de intervenção que são mais utilizadas em psicoterapia existencial: 40 Utilizar a atitude fenomenológica na abordagem dos conteúdos temáticos que estão implícitos nas produções discursivas do indivíduo, dos seus valores e crenças pessoais, explorando as suas construções mais significativas sobre si próprio e o mundo. Qual a minha natureza essencial? Quais as minhas qualidades? O que é importante para mim? Quais as pessoas mais importantes para mim? O que é o mundo? É seguro ou ameaçador?). O método fenomenológico é usado para compreender o existente tal como ele é e se escolhe; Confrontar com as limitações existenciais, nomeadamente no que concerne à auto decepção/frustração (ajudando a redescobrir as oportunidades e desafios esquecidos), à angústia existencial (facilitando a consciência das limitações provenientes da inevitabilidade da morte), à culpabilidade existencial, às consequências das escolhas passadas e futuras (reconhecendo limitações e possibilidades) e as contradições próprias relacionadas com sucesso/fracasso, liberdade/necessidade e certeza/dúvida. Facilitar a exploração do mundo pessoal Em relação às quatro dimensões da existência (física, psicológica, social e espiritual) para identificar prioridades e impasses, bem como eventuais preocupações em níveis particulares da existência, o que exige a facilitação de uma atitude expressiva de auto exploração e envolvimento emocional. Inclui também a eventual exploração dos sonhos, entendidos como mensagens do sonhador para si próprio e refletindo as várias dimensões da existência Facilitar a elucidação de significados, encorajando uma atitude de procura focalizada em si próprio, com abertura à autodescoberta para se encontrar ( Como se identifica a si próprio e ao mundo? O que é que lhe interessa realmente neste momento? Que conflitos encontra? Quais são os desejos? Quais são os obstáculos?). Assim, as intervenções deverão facilitar as alternativas ao cliente, pelo que beneficiam de aspectos tais como: 41 Porque não? Haverá outras possibilidades? Encoraja a reflexão, cria uma oportunidade para a auto exploração e pode gerar alternativas Poderia...? Promove o confronto com a responsabilidade existencial e com a liberdade O que terá feito para criar essa situação? Permite aumentar a consciência da autoria das suas escolhas O que é que isto quer dizer para si? Solicita uma compreensão do significado dos acontecimentos para o próprio O que vai fazer para o futuro? Perspectiva a possibilidade de vir-a-ser Será que poderia fazer de outra maneira? Proporciona a possibilidade de mudança ao desafiar o cliente a compreender como poderá fazer outras escolhas. Pretende-se facilitar o confronto ativo do cliente com o seu projeto, questionando a sua existência e facilitando a abertura à construção de alternativas, para que possa mudar o presente e o futuro. Esta reconstrução alternativa da experiência destina-se a proporcionar mudança e deve ter em conta que a mudança terapêutica é um processo de construção gradual que implica comprometimento com o desejo (projeto), escolha e ação. Trata-se de ajudar o outro a ser o seu nome (o“quem”), fazendo aquilo que deseja e se permite, convertendo a história na sua história e a realidade individual em realização pessoal. Procura-se ativar as zonas de desenvolvimento potencial da pessoa do cliente que se integrem no seu projeto, para que ele possa cuidar de si e da situação. 42 10.3 Atitudes e qualidades profissionais e pessoais desejáveis Fonte: vilamulher.uol.com.br As atitudes do terapeuta permitem escrutinar o nível de consciência que o cliente tem da sua experiência e devem também facilitar-lhe tomar ainda mais consciência de si. Devem permitir também ao cliente perspectivar a sua autenticidade para girações determinadas e fundadas na sua individualidade, integradas no seu projeto. Entre essas atitudes clínicas destacam-se: A autenticidade de apresentar-se “tal como se é”, evitando esconder-se atrás do profissionalismo, estando consciente dos seus próprios sentimentos em relação à pessoa do cliente. Implica uma atitude natural e espontânea, com vontade de ser verdadeiro para a pessoa do outro, que lhe facilite o autoconhecimento e seja sensível e fator de confiança; A aceitação incondicional da pessoa do cliente, sem pré-juízos nem ideias preconcebidas da originalidade do cliente, tal como se apresenta. Implica recusa de qualquer atitude avaliativa, para que venha a ser possível libertar o medo e confirmar a responsabilidade de cuidar de si e da situação. Envolve interesse positivo, respeito por todas as manifestações da personalidade do cliente, escuta acreditante, consideração pelo seu sistema explicativo e respeito pela sua capacidade potencial de vir-a-ser mais autêntico; 43 A compreensão empática, enquanto partilha baseada na intuição participante, uma aproximação que permitirá ressoar as referências internas do outro tal como ele as experimenta e que alternará com o distanciamento analítico que permite a distância terapêutica óptima para a compreensão da totalidade da existência do cliente. No seu conjunto, as atitudes de autenticidade, aceitação incondicional e compreensão empática permitem o escrutínio do nível de consciência que o cliente tem sobre a sua experiência (para facilitar uma maior consciência de si) e, também, compreender a importância que ele confere ao futuro ou ao seu passado nas decisões pessoais. Pode questionar-se se existem qualidades desejáveis para ser terapeuta existencial. Para além dos conhecimentos teóricos e do treino profissional que são necessários,a natureza específica da psicoterapia existencial torna desejável a presença de certas características pessoais e de certa experiência de vida. Entre as características pessoais destacam - se: capacidade de autorreflexão, atitude de procura de significados e abertura a várias perspectivas. A experiência de vida envolve diferentes experiências profissionais em diferentes contextos, experiência de crises existenciais e de conflito satisfatoriamente resolvidas e capacidade de lidar com um número muito diverso de contradições, atitudes, sentimentos, pensamentos, valores e experiências. A relação terapêutica deverá caracterizar-se por um movimento para a reciprocidade positiva, no interior de uma relação real em desenvolvimento 44 11 BIBLIOGRAFIA ARANHA, Maria Lúcia; MARTINS, Maria Helena. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 2009. BAKEWELL, Sarah. 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