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Apuração de haveres e o Código de Processo Civil APURAÇÃO DE HAVERES E O CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL Screening of assets and the Code of Civil Procedure Revista de Direito Bancário e do Mercado de Capitais | vol. 75/2017 | p. 219 - 257 | Jan - Mar / 2017 DTR\2017\484 Pedro Guilhardi LL.M. em Comparative and International Dispute Resolution pela Queen Mary, University of London. Mestrando em Direito Comercial pela PUC-SP. Advogado em São Paulo. pguilhardi@nanni.adv.br Área do Direito: Processual; Comercial/Empresarial Resumo: Pretende-se examinar neste artigo as razões que fundamentam a nova disciplina inaugurada de maneira mais ampla pelo Código de Processo Civil da ação de dissolução parcial de sociedade, notadamente um de seus objetos possíveis, qual seja a apuração de haveres do sócio que se desliga da sociedade empresária, sem extinção da pessoa jurídica. As mesmas razões que fundamentam a inovação legislativa, fundadas na prática e em dados obtidos pela jurimetria, norteiam a atividade do intérprete nas diferentes e principais normas previstas no Código de Processo Civil, as quais são analisadas pelo artigo. Discute-se a nova disciplina da ação de dissolução parcial, as razões para o abandono de um procedimento especial de dissolução total, a legitimidade ativa, passiva, os critérios balizadores dos cálculos dos haveres, a disciplina a respeito dos haveres incontroversos e a forma de pagamento. Analisa-se, igualmente, o contexto em que normas de direito tipicamente material foram inseridas em um diploma primordialmente processual e eventuais consequências que podem advir dessa regulação híbrida pelo Código de Processo Civil no que tange à ação de dissolução parcial de sociedade. Palavras-chave: Apuração de Haveres - Código de Processo Civil - Dissolução Parcial - Efetividade do Direito Privado - Proteção ao Investimento Privado Abstract: This article addresses the reasons behind the regulation introduced by the new Brazilian Code of Civil Procedure relating to the procedure of an entity’s partial dissolution, notably regarding one of its possible claims, which is the screening of assets by the partner leaving the entity without its extinction. The same reasons that supported the legislative modification, which are founded on legal practice and on statistical analysis of legal data, also guide the interpretation of the main rules contained in the new Brazilian Code of Civil Procedure. The paper analyzes these rules and addresses the new regulation of the procedure of an entity’s partial dissolution, as well as the reasons behind the extinction of a special procedure for the complete dissolution of an entity. In addition, this article also handles matters of legal standing, the criteria for the calculation of the assets, the rules regarding undisputed amounts due and type of payment. Moreover, it analyzes the context in which typically substantive rules were introduced in a mainly procedural code and addresses the potential consequences that may arise from Página 1 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil the hybrid regulation – procedural and substantive –, by the Brazilian Code of Civil Procedure of the procedure for partial dissolution of an entity. Keywords: Screening of Assets - Code of Civil Procedure - Entity’s Partial Dissolution - Effectiveness of Private Law - Protection of Private Investment Sumário: 1 Introdução - 2 O regramento antes do advento do CPC - 3 A apuração de haveres no CPC - 3.1 A apuração de haveres como um dos objetos possíveis da dissolução parcial de sociedade - 4 A disciplina de direito material no CPC - 5 Conclusão - 6 Bibliografia 1 Introdução Constata-se, no mais das vezes, que a crise da sociedade empresária pode demandar a saída de um sócio, sem extinção da pessoa jurídica, que continua a exercer suas atividades em vínculo com os sócios remanescentes. A saída, aqui entendida em sentido amplo, pode em alguns casos nem mesmo ser o ponto central, propriamente, da crise que se instalará. O ponto de maior discórdia pode ter, como de fato tem sido na maioria dos casos, cunho eminentemente financeiro. Daí decorre que é na apuração de haveres do sócio que deixa a sociedade empresária que a disputa se acirra. Nesse contexto de anormal indisposição entre as partes em disputa, nada melhor há do que um conjunto de regras claro e objetivo o tanto quanto possível, pois traz segurança jurídica ao devedor, assim como ao credor. Sabem, de antemão, o que têm a perder e a ganhar, facilitando a superação da crise instaurada. Nesse sentido, o presente artigo iniciará descrevendo o conjunto de leis materiais e processuais então vigentes até a entrada em vigor da Lei 13.105/2015 (“CPC (LGL\2015\1656)”) e, quais os efeitos que tal regramento produzia perante as demandas que eram ajuizadas por sócios, sociedades e partes relacionadas perante o Poder Judiciário. As informações relacionadas a tais efeitos têm respaldo na jurimetria, cujos estudos recomendavam a alteração legislativa, incluindo-se o abandono do procedimento especial de dissolução total de sociedade. Em seguida, tratar-se-á das disposições mais relevantes do CPC (LGL\2015\1656) a respeito da ação de dissolução parcial de sociedade, notadamente de um de seus objetos possíveis, qual seja, a apuração de haveres do sócio que se desliga da sociedade empresária, sem extinção da pessoa jurídica, sempre lidas e interpretadas à luz dos fundamentos que recomendavam a alteração legislativa levada a cabo. Em especial, discutir-se-á a legitimidade ativa e passiva para o ajuizamento da ação em discussão, a possibilidade de dissolução parcial de sociedade anônima de capital fechado, como exceção à regra estipulada no CPC (LGL\2015\1656), os critérios de tempo e método objetivamente regulados pelo CPC (LGL\2015\1656) e que darão o balizamento necessário para os cálculos dos haveres, o tratamento dado pelo legislador aos haveres incontroversos e a previsão quanto ao pagamento do montante apurado. Por fim, avaliar-se-á o contexto em que normas de direito tipicamente material foram inseridas em um diploma primordialmente processual, assim como eventuais Página 2 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil consequências que podem advir dessa regulação híbrida pelo CPC (LGL\2015\1656) no que tange a ação de dissolução parcial de sociedade. 2 O regramento antes do advento do CPC É preciso estabelecer o que determinava a legislação brasileira existente ao tempo dos debates ocorridos no seio do processo legislativo que culminou com a entrada em vigor do CPC (LGL\2015\1656), notadamente perante a Câmara dos Deputados por meio do Projeto de Lei 8046/2010, cuja gênese decorre do Projeto de Lei 166/2010, aprovado no Senado Federal em 15 de dezembro de 2010. No âmbito de regras voltadas a regular o processo, a Lei 5869/1974 (“CPC de 1973”) regulava de maneira apenas indireta o procedimento de dissolução e liquidação das sociedades. Determinava o artigo 1.218, inciso VII, do CPC de 1973 que: “Art. 1.218. Continuam em vigor até serem incorporados nas leis especiais os procedimentos regulados pelo Decreto-lei nº 1.608, de 18de setembro de 1939, concernentes: (...) VII - à dissolução e liquidação das sociedades (arts. 655 a 674);” O fato de nem mesmo o CPC de 1973 atualizar as regras procedimentais datadas de 1939 concernentes à dissolução das sociedades é grande evidência de que a disciplina processual voltada às sociedades empresárias foi deixada em segundo plano pelo legislador, de modo que o resultado não poderia ser outro: as normas processuais empresariais não acompanharam o desenvolvimento da realidade empresarial. Conforme anotado por Pablo Gonçalves e Arruda, considerando que o Direito brasileiro conheceu sua primeira norma de processo civil pelo Decreto 737/1950, que regulamentava, curiosamente, o Código Comercial de 1850, a pouca importância dada pelo legislador às normas processuais voltadas a acompanhar o desenvolvimento das atividades empresarias constituiu verdadeiro paradoxo.1 De qualquer modo, o Decreto-lei 1.608/1939 (“CPC de 1939”), a que aludia o CPC de 1973, em seus artigos 655 a 674, disciplinava apenas o procedimento a ser seguido para fins de liquidação total da sociedade, não abordando aquilo que o CPC (LGL\2015\1656) convencionou denominar dissolução parcial. No que tange ao conjunto de regras voltado a disciplinar o direito material, a Lei 3.971/1916 (“Código Civil de 1916”) tratava, a exemplo das regras processuais antes vistas, apenas da dissolução total da sociedade, em seus artigos 1399 a 1409, o que culminaria, nos termos do artigo 21 daquele Código, com o término da existência da pessoa jurídica. Nesse contexto, não é de se estranhar que àquela altura, embora já se reconhecesse na primeira metade do século XX a prática contratual da dissolução parcial da sociedade empresária, houvesse uma proposição de abandono à nomenclatura “dissolução parcial”, dada a ausência de previsão no direito positivo então vigente.2 Em contraposição, Rubens Requião pautava-se no próprio Código Civil de 1916 para sustentar que a figura da dissolução parcial não era estranha ao direito positivado. Sustentou que bastaria recorrer ao “texto do artigo 1.403, do Código Civil Página 3 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil (LGL\2002\400), que, dispondo sôbre a continuação da sociedade civil com os herdeiros do sócio falecido, diz: ‘... mas, sendo menor o herdeiro, será dissolvido, em relação a êle, o vínculo social, caso o juiz o determine,’"3 então ter-se-ia a dissolução parcial configurada, pois arremata “essa figura, de fato, nada mais traduz senão a dissolução do vínculo social em relação a alguém. A disciplina do herdeiro menor”.4 E a realidade empresarial, já na primeira metade do século passado, não passava alheia à atuação do Poder Judiciário. Conforme relatado por Rubens Requião, duas decisões do ano de 1947, uma do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e outra do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, “afastaram a dissolução total e a apuração de haveres segundo o balanço, para determinar a dissolução e liquidação parcial da sociedade, como nova fórmula de equilíbrio entre os interesses dos sócios divergentes e os da sociedade, evitando-se a dissolução integral”.5 A verdade é que da maneira como se entende atualmente a figura da dissolução parcial, no que tange às sociedades empresárias contratuais ou simples, em oposição às institucionais – compreendida pela sociedade anônima e pela sociedade em comandita por ações – a Lei 10.406/2002 (“Código Civil (LGL\2002\400)”) foi a que primeira disciplinou, expressa e diretamente, o que o legislador civil convencionou chamar de “resolução da sociedade em relação a um sócio”, nos seus artigos 1028 a 1032. Especificamente, em seu artigo 1.031, o Código Civil (LGL\2002\400) pretendeu regular a regra geral a ser observada no que se refere à apuração da quota do sócio que deixa a sociedade.6 Salvo disposição contratual em contrário, o valor da quota, “considerada pelo montante efetivamente realizado, liquidar-se-á (...), com base na situação patrimonial da sociedade, à data da resolução, verificada em balanço especialmente levantado”. Nesse contexto e observada a velha máxima de que a todo direito [“resolução” da sociedade em relação a um sócio] corresponde uma ação, indaga-se qual seria a ação de que deveria se utilizar os interessados para, se necessário, (i) declarar a dissolução parcial da sociedade e (ii) apurar os haveres devidos ao sócio que rompe seu vínculo com os demais sócios. A jurimetria e a realidade concreta como fundamento para a alteração legislativa Exatamente nesse vácuo, entra em cena a jurimetria, ferramenta com o potencial de efetivamente mudar o norte das discussões legislativas. Embora remonte a um movimento estatístico que se iniciou no século XIX, tendo sido aplicada ao Direito no século XX, é hoje uma tendência.7 A jurimetria foi objeto de estudo desenvolvido pelo Professor Marcelo Guedes Nunes,8 e os resultados estatísticos apresentados em sua tese de doutorado serviram como um dos pilares inovadores para a proposição da inclusão da dissolução parcial de sociedade ao CPC (LGL\2015\1656).9 Tal constatação se verifica no ofício encaminhado por Fábio Ulhoa Coelho e Marcelo Guedes Nunes à Comissão Especial destinada a proferir parecer relativamente ao texto projetado.10 Conforme explica Marcelo Guedes Nunes, “[m]ais do que simplesmente descrever o funcionamento de uma ordem jurídica, a jurimetria fornece elementos para que esses operadores possam tomar a decisão que melhor satisfaça as suas necessidades: no caso do advogado, para melhor aconselhar seu cliente sobre as suas chances de êxito; no caso do legislador, para aperfeiçoar a lei e a sociedade; e no caso do juiz, para proferir Página 4 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil uma sentença com as consequências esperadas”.11 Importante mencionar, conforme conclui o autor, “o objeto da jurimetria não é a norma, mas o comportamento humano de quem produz e de quem obedece à norma”.12 Para os fins do presente artigo, eis os resultados e conclusões mais relevantes que o estudo estatístico levantado por Marcelo Guedes Nunes apurou: “Sociedades limitadas e anônimas possuem regimes contenciosos distintos para a superação da crise. Na anônima, é a ação de invalidação de deliberação social; na limitada, é a dissolução de sociedade; As sociedades mais envolvidas em ações de dissolução são as limitadas, com 71%; A dissolução total responde por 44,8% das ações originárias, com tendência da redução dessa modalidade de ação; Na comparação dos percentuais das ações originárias nos períodos entre os anos de 1997-2007 e 2008-2011 foi detectado um decréscimo de 46,8% para 40,7% nas ações de dissolução total; A dissolução parcial, aqui entendida aquela com fundamento na expulsão ou na retirada, responde por 55,2% das ações, subdivididos da seguinte forma:(i) 39,7% fundada na retirada e (ii) 15,5% pautada na exclusão; No plano da dissolução parcial, (i) houve um volume crescente de ações de expulsão de sócios a partir de 2007, provavelmente associada à entrada em vigor das regras do novo Código Civil e (ii) um volume bastante relevante de ações de dissolução parcial com retirada, cujo julgamento pela procedência é quase certo (as chances de improcedência são de 3,5%); Embora a dissolução total represente a mais numerosa população de processos, sua decretação judicial, na ampla maioria dos casos, depende de uma vontade unânime, incompatível com uma jurisdição contenciosa. O autor atribuiu essa incongruência aos seguintes motivos principais: Ausência de regulamentação da dissolução parcial, atrelada a uma cultura de desinvestimento acabou judicializando a dissolução total; Ausente outra alternativa, ajuizava-se a ação de dissolução total para, ouvidos os demais sócios e demonstrada a ausência de consenso quanto à extinção da sociedade, determinar-se em sede de decisão final a dissolução parcial; Tudo isso atrelado a dificuldades de promoção da dissolução total extrajudicial, quer seja porque se a sociedade empresária estiver em situação de insolvência, o liquidante deverá confessar a falência, pelo que se evita a dissolução total, quer seja porque o Registro Público de Empresas exige certidões negativas que são incompatíveis com a situação de crise que, muitas vezes, dá ensejo à liquidação total. A ordem jurídica hoje comporta a dissolução total judicial apenas por causas não vinculadas à vontade dos sócios, como a perda de autorização para funcionamento ou a falência. A falência tem procedimento próprio e a perda de autorização é uma causa exótica, com apenas 0,4% dos casos, que pode ser processada em uma ação ordinária; Em uma sociedade limitada, os sócios dificilmente recorrerão ao Poder Judiciário para discutir de forma isolada apenas o contrato ou a deliberação polêmica. Se a saída do Página 5 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil sócio é insatisfatória, isto é, se o valor patrimonial da sociedade não corresponder ao valor que o sócio atribui à sociedade, restariam apenas as alternativas da dissolução total e da expulsão para a superação do conflito de interesses, que não coadunam com o objetivo de superação da crise política ou negocial da sociedade empresária; A análise do tempo de duração de processos permitiu concluir que a resistência dos sócios em formalizar a retirada tem a função de criar desconforto para forçar a negociação de um valor de haveres menor, pelo que, em muitos casos, a dissolução em si não é controvertida, mas apenas a apuração dos haveres respectivos; Quanto ao método de avaliação dos haveres,13-14 mais de 60% das sentenças tiveram a resposta ‘vazio’,15 isto é, não houve na decisão a indicação do critério a ser utilizado para avaliação;16 Concernente à necessidade ou não de inclusão de sociedade17 na disputa respectiva, os resultados a esse respeito não foram especificados pelo autor em seu trabalho, mas, conforme verificado em outro estudo, do qual o autor faz parte, ‘mais de 95% das sociedades em juízo possuem dois ou três sócios e 36,54% das ações de dissolução propostas não trazem a sociedade em qualquer dos polos’.18 Quanto ao fundamento da avaliação,19 embora o trabalho não tenha especificado os resultados, foi possível apurar em outro estudo,20 pautado em resultados disponibilizados pela Associação Brasileira de Jurimetria, da qual Marcelo Guedes Nunes é Diretor-presidente, que, entre 1997 e 2011, em 67% das decisões não há menção ao fundamento do método de avaliação escolhido; em outros 23% dos casos, o fundamento do método da avaliação é jurisprudencial, seguido por 6% de fundamento contratual e apenas 3% pautando-se na lei; No que se refere à data-base do laudo,21 mais de 80% das sentenças proferidas são omissas quanto à data-base a ser utilizada;22” Nesse contexto, sensível a respeito das necessidades das sociedades empresárias no mundo contemporâneo23 e já conhecedor dos dados estatísticos que fizeram parte do trabalho de Marcelo Guedes Nunes, narra Fábio Ulhoa Coelho que: “[E]m maio deste ano [2010], quando cruzei, nos corredores da PUC-SP, com a relatora da comissão constituída pelo Senado para elaboração do anteprojeto de novo CPC (LGL\2015\1656), minha colega de magistério, a ilustre processualista Tereza Arruda Alvim Wambier, ofereci-me para redigir uma proposta de atualização do procedimento previsto na norma de 1939. Ela considerou oportuna a sugestão e levou à comissão meu texto”.24 Conforme explica Fábio Ulhoa Coelho,25 a proposta de incluir disciplina específica da ação de dissolução de sociedade (total e parcial)26 não foi acolhida, por diferentes razões, as quais serão discutidas mais adiante.27 Por outro lado, a minuta original apresentada à comissão redatora do anteprojeto no que se refere à dissolução parcial28 foi acolhida, por meio de relatório apresentado pelo Senador Valter Pereira, em 24 de novembro de 2010, mas acrescida de sugestões de institutos e outros juristas. Assim, chegou-se ao texto final, cujos principais temas serão discutidos adiante. Página 6 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil Antes, contudo, é preciso fazer uma observação geral. Muitas críticas surgiram ao texto que regula a dissolução parcial de sociedades no CPC (LGL\2015\1656), sob o argumento de ser afastado da técnica processual, civil e societária. Ponto comum de tais críticas é que se inserem em um ambiente quase que exclusivamente acadêmico, afastado dos dados concretos da realidade das sociedades empresárias, fato que o CPC (LGL\2015\1656), bem ou mal, pretendeu regular. Enfim, quando se trata de legislar para atender à realidade, é preciso afastar-se dos filigranas e egos acadêmicos para propor soluções práticas que impactem, sempre para melhor, a vida de milhares de empreendedores brasileiros que buscam na lei resposta para seus problemas diários. Somente investidos dessa mentalidade é que o debate acadêmico será proveitoso para procurar mais soluções do que problemas que, na grande maioria das vezes, nem sequer existirão na prática. 3 A apuração de haveres no CPC 3.1 A apuração de haveres como um dos objetos possíveis da dissolução parcial de sociedade As razões que justificaram o abandono, pelo legislador, da figura da ação de dissolução total como procedimento especial tipificado pela lei processual, precisam ser esclarecidas, até como forma de ponderação aos posicionamentos diversos que clamam pela regulamentação expressa da ação de dissolução total.29 Em primeiro lugar, tem-se um ideal amplamente divulgado no sentido de que o CPC (LGL\2015\1656) tentou reduzir ao máximo possível o número de procedimentos especiais, com vistas à simplificação das regras de processo.Aliado a tal finalidade, não se pode deixar de mencionar que os próprios resultados jurimétricos, já discutidos, indicavam uma tendência de queda do ajuizamento de ações dessa natureza. Isto está, inclusive, em linha com o princípio da preservação da empresa e sua função social. Não menos importante, também conforme já mencionado, a lei material vigente, notadamente após a entrada em vigor do Código Civil (LGL\2002\400), exigiu, salvo exceções pontuais, a vontade unânime dos sócios para o encerramento das atividades da empresa. Logo, a rigor, não há interesse processual na “judicialização da dissolução total de sociedade na qual todos concordam com a liquidação e em que inexiste um conflito de interesses”.30 Nesse sentido, conforme orientação dada pela pesquisa jurimétrica, as causas externas que dependeriam de uma declaração judicial de dissolução total da sociedade representam um percentual ínfimo dos casos submetidos ao Poder Judiciário, não justificando o regramento por meio de um procedimento especial. Dessa maneira, disciplina o artigo 599 do CPC (LGL\2015\1656) apenas a dissolução parcial: “Art. 599. A ação de dissolução parcial de sociedade pode ter por objeto: I - a resolução da sociedade empresária contratual ou simples em relação ao sócio falecido, excluído ou que exerceu o direito de retirada ou recesso; e Página 7 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil II - a apuração dos haveres do sócio falecido, excluído ou que exerceu o direito de retirada ou recesso; ou III - somente a resolução ou a apuração de haveres.” Resta claro do texto legal que os pedidos possíveis a serem formulados dentro de uma ação tipificada pela lei de “ação de dissolução parcial de sociedade” é o da “resolução” da sociedade e/ou a apuração de haveres. O referido artigo de lei, ao contrário da interpretação dada por parte dos comentadores, não cria uma relação gênero/espécie entre a ação de dissolução parcial e a apuração de haveres. Ao referir-se ao objeto da ação de dissolução, o CPC (LGL\2015\1656) está se referindo aos possíveis pleitos, pedidos ou pretensões a serem formulados pela parte perante o Juízo, nada havendo de atécnico em tal formulação. Também não parecem existir maiores problemas no tratamento da apuração de haveres como uma pretensão facultativa e autônoma ao da “resolução” da sociedade. Sugere-se, por exemplo, inadvertidamente, que: “surgirão na prática situações absolutamente iníquas: pense-se na ação de exclusão, por exemplo, a qual os remanescentes e a sociedade não têm nenhum interesse em pedir a apuração dos haveres que esta estará obrigada a pagar, e diante da qual o excluindo será colocado na difícil posição de, ao mesmo tempo que se se vier a se opor ao pedido de exclusão, terá ainda que formular em caráter eventual o pedido contraposto de apuração de haveres, para ser acolhido na eventualidade de ser excluído”.31 Além de nada ter de iníqua a situação, que apenas contempla o princípio da eventualidade que rege o processo civil, fato é que o excluindo não terá que formular o pretenso pedido contraposto. Trata-se de mera faculdade. É que, se por hipótese reconhecida a exclusão do sócio mencionado no exemplo, caso tenha optado por não formular o pedido contraposto de apuração de haveres, poderá, graças à redação que deu autonomia ao pedido de apuração de haveres, ajuizar outra demanda contemplando exclusivamente tal pretensão. Independentemente destas questões, que pouco parecem afetar a prática, conforme já salientado, “a despeito de algumas dúvidas teóricas apontadas pela doutrina, tal opção reflete no Projeto uma solução pragmática amplamente adotada pelos tribunais, onde 79,57% das ações de dissolução trazem a apuração de haveres como uma fase de liquidação”.32 Assim, a opção do legislador é de reunir esforços naquilo que realmente é controvertido, otimizando, assim, os recursos privados e públicos, bem assim o tempo de duração do litígio, já que as pesquisas jurimétricas demonstram que o tempo de duração do processo varia muito a depender se a questão controvertida foca exclusivamente no objeto de apuração de haveres ou na “resolução” da sociedade ou em ambos. Nesse contexto de otimização de tempo e recursos, o artigo 603 do CPC (LGL\2015\1656) estabelece que, “[h]avendo manifestação expressa e unânime pela concordância da dissolução, o juiz a decretará, passando-se imediatamente à fase de liquidação”. Nesta hipótese, nos termos do parágrafo 1º do referido artigo, não haverá Página 8 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil condenação em honorários, com custas sendo rateadas conforme a participação das partes no capital social. Interessante e aqui corroborada a visão de Marcelo Guedes Nunes no sentido de que o referido dispositivo deve ser interpretado de maneira a contribuir com o interesse perseguido pelo legislador de reduzir o tempo de duração do processo. Esclarece o autor que: “A não resistência dos demais sócios deve ser interpretada não como uma estrita confissão do pedido, mas como inexistência de uma argumentação plausível para impedir a saída do sócio retirante. Apesar de comuns, não são argumentos plausíveis, por exemplo: a ausência de recursos para pagamento do reembolso, a culpa do sócio retirante pela situação de dificuldade da sociedade e a existência de balanço patrimonial negativo. (...) As principais contestações de mérito plausíveis a um pedido de retirada são baseadas em dois pontos: inexistência do direito pelo tipo societário (sociedade anônima) ou no fato de a sociedade ter sido contratada por prazo determinado.”33 A intepretação sugerida, evita, igualmente, a recusa por parte da sociedade de formalizar a retirada voluntária de sócio como forma de criar dificuldades ao sócio a fim de que aceite um pagamento que seja menor do que o efetivamente devido pela sociedade, fato que se observa com certa recorrência na prática. Discute-se, igualmente, a possibilidade de cumulação facultativa de outros pedidos pelo autor, além dos expressamente previstos no artigo 599 do CPC (LGL\2015\1656), como, por exemplo, o pedido indenizatório. Não existe, em princípio, óbice a tal cumulação. Ressalva-se, porém, que, na hipótese de a ação de dissolução parcial ter por objeto a apuração de haveres, poderá haver incompatibilidade, a depender da natureza do pedido e das circunstâncias atinentes à causa de pedir da pretensão que se cumula.34 3.2 A ação de dissolução parcial de sociedade anônima fechada Dispõe o parágrafo 2º do artigo 599 que a "ação de dissolução parcial de sociedade pode ter também por objeto a sociedade anônima de capital fechado quando demonstrado, por acionista ou acionistas que representem cinco por cento ou mais do capital social, que não pode preencher o seu fim". Tal dispositivo está em linha, embora excepcione,a disposição constante do artigo 206, inciso II, “b” da Lei 6404/1976 (“Lei das S.A.”), que possibilita dissolução total para as sociedades anônimas por decisão judicial, “quando provado que não pode preencher o seu fim, em ação proposta por acionistas que representem 5% (cinco por cento) ou mais do capital social”. Referida disposição do parágrafo 2º, do artigo 599, do CPC (LGL\2015\1656), foi incluída por meio da Emenda 507/201135 e deve ser interpretada de maneira condizente com o caput do artigo em que está inserida. Afasta-se, portanto, e desde logo, a conclusão rasa no sentido de que referida norma não mereça guarida,36 isto é, não mereça aplicação pelo Poder Judiciário, por tratar de hipótese de dissolução total e não parcial. Ao contrário, referida norma pretende, em primeiro lugar, positivar tendência jurisprudencial já observada no sentido de admitir a exclusão de sócios nas sociedades Página 9 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil heterotípicas, assim entendidas “aquelas que formalmente adotam um tipo no registro comercial, porém na prática se comportam como um tipo societário diferente”.37 Tais sociedades também denominadas “sociedades anônimas de pessoas” ou “sociedades anônimas intuitu personae” ou “sociedade empresária apenas na fachada, já que não há a exploração de qualquer atividade econômica”,38 constituem fenômeno reconhecido pelo Superior Tribunal de Justiça, que as denominou “sociedade limitada travestida de sociedade anônima”.39 De mais a mais, observada a inviabilidade do preenchimento do fim social da sociedade anônima fechada e verificada a circunstância de que a dissolução parcial poderá sanar,40 em relação aos sócios remanescentes, a inviabilidade de preenchimento do fim social da empresa, quer seja por razões econômicas – internas ou externas –, jurídicas ou políticas, admitir-se-á a dissolução parcial. 3.3 A legitimidade ativa e passiva A legitimidade ativa para propositura da ação de dissolução parcial está regulada no artigo 600 e seus incisos do CPC (LGL\2015\1656),41 ao passo que a legitimidade passiva pode ser deduzida pelo artigo 601 do mesmo Código.42 No que tange a legitimidade ativa, nota-se importante alteração havida durante o processo legislativo. É que o texto original, já citado, previa que os legitimados ativos citados nos incisos do vigente artigo 660 do CPC (LGL\2015\1656) o seriam “quando o objeto da ação for a resolução da sociedade empresária contratual ou simples em relação ao sócio falecido, excluído ou que exerceu o direito de retirada ou recesso”. Portanto, o texto original nada disciplinava a respeito da legitimidade ativa por ocasião do ajuizamento da ação quando o seu objeto fosse a apuração de haveres. Apesar de algumas críticas a respeito do texto final do CPC (LGL\2015\1656), ao tratar de maneira unitária os legitimados ativos para a propositura da demanda, a verdade é que o intérprete e aplicador do Direito, na prática, poderão certamente ultrapassar eventuais dificuldades criadas com a disciplina da legitimação ativa prevista. A legitimidade ativa seguiu em linha com o direito material43 previsto no Código Civil (LGL\2002\400), isto é, previu-se a legitimação em caso de (i) falecimento, (ii) retirada, (iii) recesso e (iv) exclusão judicial. O falecimento é tratado pelo artigo 1.028 do Código Civil (LGL\2002\400);44 a retirada é prevista no artigo 1.02945 do Código Civil (LGL\2002\400) para sociedades com prazo indeterminado e compreende o direito que tem o sócio de deixar a sociedade mediante denúncia; o recesso depende de uma das três justas causas previstas no artigo 1.07746 do Código Civil (LGL\2002\400), exigidas para as sociedades de prazo determinado; a exclusão judicial, prevista no artigo 1.004,47 em conjunto com o artigo 1.05848 do Código Civil (LGL\2002\400), os quais tratam da exclusão do sócio remisso e o artigo 1.030,49 que trata da exclusão por ocasião de falta grave50 ou incapacidade superveniente. Em caso de falecimento, os incisos I, II, e III, preveem, respectivamente, a legitimação do “espólio do falecido, quanto a totalidade dos sucessores não ingressar na sociedade”, (ii) “pelos sucessores, após concluída a partilha do sócio falecido” e (iii) “pela sociedade, se os sócios sobreviventes não admitirem o ingresso do espólio ou dos sucessores do falecido na sociedade, quando esse direito decorrer do contrato social”. Página 10 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil A primeira pergunta que se põe a respeito de tais legitimados é se apenas poderiam propor a ação de dissolução parcial tendo por objeto a apuração de haveres ou também para ver declarada a extinção parcial do vínculo societário. Embora haja posição diversa, que se apega ao fato de que com a morte do sócio, o vínculo social se encerra independentemente de declaração judicial, de maneira que ao legitimar os seus sucessores para também pleitear a extinção parcial em relação à sociedade, estar-se-ia legitimando quem não integrou o vínculo associativo, fato é que tal debate, embora valioso sob o ponto de vista acadêmico, ignora a prática recorrente de nossos tribunais. Com efeito, não só herdeiros, mas também sócios retirantes, usualmente ajuízam demandas visando à declaração do encerramento do vínculo societário em relação ao falecido, realidade que não foi ignorada, e nem poderia ser esquecida, pelo CPC (LGL\2015\1656). Na mesma linha e em favorecimento da segurança jurídica é que se admite a propositura da demanda pela própria sociedade para que possa pleitear a declaração do término do vínculo societário, havendo recusa, pautada no contrato social,51 por parte dos sócios sobreviventes, em admitir o ingresso do herdeiro ou do espólio na sociedade. Declara-se, portanto, o encerramento do vínculo, apurando-se, se assim pleiteado, os haveres devidos aos herdeiros ou espólio. Passando-se à legitimidade ativa em caso de retirada ou recesso, disposição também criticada, à luz da interpretação adequadamente dada ao artigo 1.032 do Código Civil (LGL\2002\400), o qual prevê direito potestativo de autodesvinculação, sem pretensão de minimizar os efeitos do artigo do Código Civil (LGL\2002\400) citado, ponderam Marcelo Guedes Nunes e Rodrigo Mendes de Araújo: “referida crítica desconsidera que, apesar de já ter exercido o seu direito de retirada ou de recesso, o sócio não consegue se desligar formalmente da sociedade sem a competente alteração do contrato social e, dependendo da situação financeira da sociedade, fica sujeito a ações judiciais de credores da sociedade, com possibilidade de bloqueios de ativos e outras medidas constritivas do seu patrimônio. Portanto, a outorga de legitimidade em favor do sócio que exerce o direito de retirada ou recesso está longe de ser uma medida desnecessária, possuindoconsequências significativas no plano prático. Tanto que este tipo de ação responde atualmente por 38,53% do total de ações de dissolução de sociedade”.52 Resta, dessa maneira, plenamente justificável o ajuizamento da ação pelo sócio que exerce o direito de retirada, em caso de recusa superior a dez dias, contados desde o exercício de tal direito, pelos sócios remanescentes em alterar o contrato social, não só para a declaração da extinção do vínculo societário em relação ao sócio, mas também para apuração dos haveres a ele devidos. Finalmente, no que diz respeito aos legitimados ativos em caso de exclusão, atribuiu-se, em primeiro lugar, à sociedade tal legitimação, quando não prevista em lei a exclusão extrajudicial, encerrando-se infinito debate doutrinário e jurisprudencial a respeito de quem seriam os legitimados para tal medida judicial – se a sociedade ou se os demais sócios. Aqui, deve-se entender a legitimação ativa da sociedade em conjunto com a disposição de direito material prevista no Código Civil (LGL\2002\400), especificamente no artigo Página 11 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil 1.030,53 a permitir que os sócios antes minoritários, mas majoritários efetuada a expulsão, possam, em nome da sociedade, propor a ação.54 Quanto ao sócio excluído, o entendimento tranquilo55 é de que a sua legitimidade somente estaria configurada para a pretensão de apuração de haveres, eis que o máximo que ele poderia seria discutir a legalidade de sua exclusão, o que não tem lugar no procedimento especial previsto pelo CPC (LGL\2015\1656). Nesse sentido, o ideal seria que tal legitimidade fosse tratada em parágrafo apartado, como é o caso do parágrafo único, do artigo 600, do CPC (LGL\2015\1656), atribuindo legitimidade ativa ao ex-cônjuge ou ex-companheiro do sócio. A inclusão de tal previsão tem por fundamento o fato de que, embora seja possível a recusa do ingresso dos sujeitos indicados no parágrafo único na sociedade, retirar-lhes a legitimidade ativa para a ação de apuração de haveres seria negar valor ao bem partilhado.56 É preciso destacar que a existência dos requisitos e formalização da união estável não podem ser objeto de controvérsia, ainda que incidentalmente, no contexto do procedimento especial de apuração de haveres.57 Pressupõe-se, igualmente, a existência de um direito de meação em relação à quota do sócio, não podendo ser objeto de apuração de haveres quotas particulares pertencentes a este.58 Embora ainda pouco discutido, parece ter o texto do parágrafo único do artigo 600 do CPC (LGL\2015\1656) ter revogado, tacitamente, a disciplina do artigo 1.027 do Código Civil (LGL\2002\400), o que é já sustentado,59 embora ainda caiba a pergunta se remanesce vigente a previsão do Código Civil (LGL\2002\400) no que se refere ao herdeiro do cônjuge ou do companheiro do sócio, em relação ao qual silencia o CPC (LGL\2015\1656). Soa mais coerente com o ideal perseguido pelo legislador ao estabelecer a regra do CPC (LGL\2015\1656) que seja a tal dispositivo aplicada uma interpretação extensiva, de modo a abranger o herdeiro do cônjuge ou do companheiro do sócio, até porque duas partes com interesses iguais não podem ter tratamento diferenciado.60 No que se refere à legitimidade passiva, o texto inicialmente proposto, já citado na integralidade, nada disciplinava, como seria o ideal. Apenas determinava que “a sociedade não precisa ser parte na ação quando forem litigantes todos os sócios, mas ficará, ainda assim, sujeita aos efeitos da decisão”, evitando-se graves problemas práticos que eram observados ausente tal disposição expressa no CPC de 1973. A redação foi alterada no curso do processo legislativo e sobre a redação hoje vigente paira uma dúvida. Trata-se, efetivamente, de um litisconsórcio, mas seria tal litisconsórcio necessário ou facultativo entre a sociedade e seus sócios? Sustenta-se ser hipótese de litisconsórcio passivo necessário entre todos os sócios e sociedade, excluído o sujeito que estiver no polo ativo, porque não há dispensa, pela lei, da sociedade constar do polo passivo, mas de sua citação.61 Entende-se, contudo, embora respeitada a opinião divergente, que imprimir a tal dispositivo legal a interpretação acima, seria, primeiro, desconsiderar a intenção do legislador de que os dispositivos legais produzam efeitos, pois não há que se falar de Página 12 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil citação de quem já é réu no processo, conduzindo a um regramento legal inócuo, desprovido de qualquer efeito. Assim, parece ser hipótese de litisconsórcio passivo facultativo,62 em que a sociedade não precisa mesmo constar do polo passivo, caso todos os sócios integrem a lide, já que, verdadeiramente, os reais interessados na defesa dos interesses da sociedade, “pessoa ficta e sem autonomia volitiva que está mais para objeto do que sujeito da disputa”, estarão preservados.63 Ademais, conforme os dados antes indicados, a esmagadora maioria das sociedades em disputa têm apenas dois ou três sócios, sendo que cerca de um terço das ações de dissolução ajuizadas não tem a sociedade empresária em nenhum dos polos da relação processual. Mais do que isso, a interpretação segundo a qual o litisconsórcio nessa hipótese é facultativo é apta a deixar ao legitimado ativo, a depender do direito material subjacente objeto da lide, que indique se pretende a citação de sócios e sociedade ou de apenas um deles. A norma processual deve ser avaliada e interpretada em vista e no contexto do direito material correspondente. Assim, a verdade é que a crítica segundo a qual “a solução unitária adotada agora no CPC/2015 (LGL\2015\1656) traz o imenso ônus de transformar faticamente a simples detenção de uma participação societária em sementeira de ações”64 parte de um pressuposto, ou melhor, de uma interpretação equivocada da norma em comento – no sentido de que impõe um litisconsórcio passivo necessário, quando não é esse o caso. Estabelecidas as diretrizes interpretativas a respeito da legitimidade passiva, cabe salientar que a “sociedade poderá formular pedido de indenização compensável com o valor dos haveres a apurar”, nos termos do artigo 602 do CPC (LGL\2015\1656), o que poderá ser feito tanto em sede de reconvenção, como em sede de petição inicial, na hipótese de a sociedade ter legitimidade ativa. Busca-se, assim, prestigiar o rápido reestabelecimento dos prejuízos pela sociedade, vedando o seu desinvestimento em razão de um ilícito, discutindo-se no âmbito de um mesmo procedimento questões que, no mais das vezes, estão intimamente relacionadas. A interpretação que deve se dar a tal dispositivo é que o sócio ou os sócios que figurarem no polo passivo da ação que tenha por objeto a sua expulsão, poderão igualmente formular reconvençãocom pleito indenizatório em relação à sociedade.65 Aliás, é na condição de parte ativa no procedimento que terá a sociedade causa de pedir para formular pleito indenizatório, eis que a discussão se dará em torno da expulsão, quando se cogita a possibilidade de pleitos indenizatórios cumulados ao pedido de extinção da sociedade em relação ao sócio faltoso/ou apuração de haveres. Por tal razão, caso a sociedade não esteja, ela própria, mas seus sócios, no polo passivo em razão da interpretação dada ao disposto no artigo 601 do CPC (LGL\2015\1656), as discussões objeto da demanda não estariam relacionadas a um ato ilícito, de maneira que dificilmente a pretensão de indenização será deduzida.66 3.4 Os haveres e os critérios de tempo e de método Conforme antecipado, é nos haveres que, muitas vezes, a disputa a respeito da saída de um sócio de uma sociedade empresarial se acirra e a animosidade dos envolvidos se potencializa. Página 13 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil Essa condição é alimentada, parcialmente, pela ausência de critérios objetos aptos a conferirem segurança jurídica e estabilidade aos litigantes que, caso soubessem exatamente os contornos a serem observados para se apurar o valor dos haveres, estariam incentivados a resolverem a questão sem necessidade de leva-la às últimas consequências. Basta conferir os dados jurimétricos já apontados, indicando que em grande número de casos em que não há menção (i) ao critério de tempo e de método a ser adotado para a apuração dos haveres, o que no mais das vezes, incumbirá ao perito, em substituição indevida do magistrado fazer isso, nem (ii) sequer ao fundamento que deu origem ao método de avaliação utilizado no caso concreto, o que, evidentemente, faz com que as disputas tenham resultados absolutamente imprevisíveis. Não se quer dizer com isso que a avaliação do sócio retirante, excluído ou falecido, não seja questão técnica, a depender de um especialista a auxiliar o juízo, mas “o perito judicial somente pode dar início ao seu trabalho avaliativo se lhe forem dadas estas duas balizas: a data da dissolução e o critério de avaliação. Quando se inverte a ordem lógica desse procedimento, determinando-se a realização da perícia de avaliação das quotas antes de decididas aquelas duas balizas, tende o processo à irracionalidade e ineficiência”.67 Assim determina o artigo 604 do Código de Processo Civil uma cronologia a ser seguida pelo juiz. Ele deverá fixar a data da extinção da sociedade em relação àquele sócio, definir o critério de apuração de haveres à vista do disposto no contrato social, sendo que na omissão do instrumento deverá observar o previsto no artigo 606 do CPC (LGL\2015\1656),68 e nomear perito. 3.4.1 A data da extinção da sociedade em relação a um dos sócios Seguindo-se o ideal de adotar-se um critério objetivo para traçar os contornos da avaliação que se procederá em seguida, por especialista técnico, dispõe o CPC (LGL\2015\1656) no artigo 605, em seus incisos de I a V, as datas que deverão servir de ponto de partida para a realização da avaliação. Em caso de falecimento do sócio, a data será a do óbito (inciso I); na retirada imotivada, no sexagésimo dia seguinte ao recebimento, pela sociedade, da notificação do sócio retirante (inciso II); no recesso, o dia do recebimento, pela sociedade, da notificação do sócio dissidente (inciso III); na retirada por justa causa de sociedade por prazo determinado e na exclusão judicial de sócio, a do trânsito em julgado da decisão que dissolver a sociedade (inciso IV) e; na exclusão extrajudicial, a data da assembleia ou da reunião que a tiver deliberado (inciso V). 3.4.2 A metodologia de apuração dos haveres Completando os limites de atuação do técnico que auxiliará o Juízo na determinação dos haveres, não havendo regra prevista no contrato social, nos termos do artigo 604 do CPC (LGL\2015\1656), deverá o juiz fixar como critério de apuração de haveres o “valor patrimonial apurado em balanço de determinação, tomando-se por referência a data da resolução e avaliando-se bens e direitos do ativo, tangíveis e intangíveis, a preço de saída, além do passivo também a ser apurado de igual forma”. Página 14 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil O dispositivo dá concretude ao artigo 1.031 do Código Civil (LGL\2002\400), em relação ao qual as decisões judiciais se mostraram vacilantes, conforme dados jurimétricos. Isso apesar de, em sua grande maioria, tais decisões terem em vista que a apuração não poderia causar enriquecimento do ex-sócio ou seus sucessores, nem da sociedade, pelo que deveria apurar o que se denominou de valor patrimonial real, em oposição aos valores patrimoniais contábil e contábil à data presente. Para auxiliar o Juízo, deverá a nomeação do perito recair, preferencialmente, sobre especialista em avaliação de sociedade, o que está em linha com o critério a ser seguido na avaliação, adotado como regra pelo CPC (LGL\2015\1656). O referido critério recebe críticas por ser “aberrante regra dispositiva”, limitando, de certa forma, maleabilidade no critério a ser levado em conta as especificidades de cada sociedade que será objeto de avaliação.69 Trata-se de uma perspectiva que não considera a necessidade de pacificação das relações sociais. Como já se adiantou, é exatamente pela falta de regras objetivas que a crise entre os litigantes se vê maximizada. Foi o que tentou evitar a redação imposta ao CPC (LGL\2015\1656). Se, eventualmente, para a sociedade específica, não tem lugar o método de avaliação adotado como regra pela lei, deve-se, então, referida sociedade, por meio de seus assessores, ajustar o convencionado no contrato social, pois a lei, enfatize-se, prioriza tal acordo. Dispõe, ainda, o artigo 607 do CPC (LGL\2015\1656) que “a data da resolução e o critério de apuração de haveres podem ser revistos pelo juiz, a pedido da parte, a qualquer tempo antes do início da perícia”. A regra, que depende de provocação da parte para ser implementada pelo juiz, somente tem potencial de ser aplicada antes do início da perícia, o que evita, assim, que partes descontentes com o rumo da perícia ou com o seu resultado possam vir a pleitear a revisão dos critérios. Mais que isso, não é de se aplicar a possibilidade de revisão caso os critérios tenham sido fixados no contrato social, em atenção e prestígio à autonomia privada. Em outras palavras, se o critério do contrato social independer de interpretação pelo juiz, prevendo desde logo a metodologia a ser seguida, a regra do artigo 607 não poderá ser aplicada. Aplica-se, no máximo, as regras do direito civil atinente à validade dos negócios jurídicos. Por outro lado, havendo que o juiz interpretar o contrato social para se chegara uma metodologia, conforme intenção das partes, referida interpretação poderá ser revista. Entende-se que, de qualquer forma, tal regra deve ser aplicada de maneira absolutamente parcimoniosa, isto é, em casos extremos e sempre utilizada dentro dos parâmetros de boa-fé e cooperação. Assim, por exemplo, nos casos em que o critério antes fixado poderá resultar em apuração esdrúxula, desproporcional ao extremo em favor de uma das partes, com seu enriquecimento sem causa, desde que fundado em elementos novos, isto é, que não tenham feito parte do racional do julgador no momento em que fixou por decisão inicial Página 15 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil os critérios a serem seguidos, poderá o juiz, a seu critério, revisar os parâmetros anteriormente fixados. A regra não delimita o número de vezes que os parâmetros podem ser revistos, desde que o sejam antes do início da perícia. 3.5 A quantia incontroversa dos haveres devidos De grande utilidade prática, regulam os parágrafos 1º, 2º e 3º, do artigo 604, do CPC (LGL\2015\1656), as providências a serem adotadas em relação aos haveres incontroversos devidos pela sociedade ao sócio. Deverá o juiz determinar o depósito, de acordo com a forma de pagamento estabelecida no contrato social respectivo, pela sociedade ou sócios remanescentes, do valor incontroverso, o qual poderá ser, de imediato, levantado pelo ex-sócio, espólio ou sucessores. Ao mencionar que os haveres deverão ser depositados pelos sócios remanescentes, não se está a desvirtuar a regra de que o devedor dos haveres é a sociedade. O que se pretendeu, com isso, é dar efetividade prática à ordem emanada do juiz nas hipóteses em que todos os sócios forem citados e, portanto, a sociedade não constar do polo passivo. A determinação é no sentido de que será emanada aos sócios, interessados no resguardo dos direitos da sociedade, mas o desembolso será realizado pela sociedade, devedora dos haveres. 3.6 O pagamento dos haveres O pagamento dos haveres está previsto no artigo 609 do CPC (LGL\2015\1656). A regra deixou clara a prevalência do pagamento na forma estipulada no contrato social, assim como já fazia o Código Civil (LGL\2002\400), em respeito à autonomia privada das partes. Na ausência de estipulação, remete à regra prevista no Código Civil (LGL\2002\400), artigo 1.031, parágrafo 2º,70 isto é, pagamento se dará em dinheiro, noventa dias após a liquidação, a serem contados a partir do momento em que for proferida decisão transitada em julgado ou, caso não transitada em julgado, contra a qual não foi interposto recurso dotado de efeito suspensivo. Nessa última hipótese, segue-se as regras dos artigos 520 e seguintes do CPC (LGL\2015\1656) atinentes ao cumprimento provisório de sentença que reconhece a exigibilidade de obrigação de pagar quantia certa. “Sócio retirante”, mencionado pelo referido artigo, deve ser entendido como aquele que se desligou ou seus sucessores, qualquer que seja a causa de direito material que ensejou o seu desligamento da sociedade. O pagamento deverá incluir, ainda, os valores que, apropriadamente, o artigo 608 do CPC (LGL\2015\1656) expressamente declarou como devidos ao ex-sócio ou seu sucessor, quais sejam, a participação nos lucros ou os juros sobre capital próprio declarados pela sociedade, acrescidos da remuneração como administrador, se for o caso. Por fim, após a resolução, conforme disciplina o parágrafo único do artigo 608, do CPC (LGL\2015\1656), nada mais caberá àquele que se retira da sociedade ou seu sucessor, Página 16 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil devendo, contudo, as verbas devidas serem acrescidas de correção monetárias e juros contratuais ou legais, conforme o caso. 4 A disciplina de direito material no CPC É evidente que a disciplina analisada contém, em alguma medida, regramentos de direitos material, a regular direitos e obrigações entre sócios, sociedade e partes relacionadas. Questiona-se se tais aspectos tratados no CPC (LGL\2015\1656), diploma afeito, primordialmente, para sustentar regras de cunho processual tem alguma ilegalidade ou apresenta algum problema insolúvel, a justificar as críticas duras que o novo regramento recebeu a esse respeito.71 O Direito, bem se sabe, é um sistema único, não permitindo uma divisão sistemática clara entre as diferentes matérias e especialidades, o que se faz, no mais das vezes, por uma questão de metodologia científica de ensino e para facilitar o trabalho do operador do Direito. Não há, contudo, que se obedecer com rigidez tal regra a ponto de impedir, nas raras oportunidades em que se tem de dar andamento a uma evolução legislativa – em relação a disciplinas notoriamente ultrapassadas – a de se submeter a um rigor científico tal a impedir o avanço apenas porque a disciplina que ali deveria constar seria pura e estritamente processual.72 E tal se dá porque reformas legislativas, quer sejam elas de leis civis, processuais civis ou comerciais, dificilmente – em especial no Brasil – serão estudadas e aprovadas em processo legislativo concomitante de modo a criar-se um sistema coeso. Assim, é preciso discutir quais os efeitos que a existência de normas de direito material contidas em um diploma tipicamente processual pode trazer aos litigantes. Na visão do autor, o caráter material de algumas normas inseridas no CPC (LGL\2015\1656) não traz nenhum problema grave, nem muito menos insolúvel. 4.1 A apuração de haveres no CPC e o tempus regit actum Como já é tradicional, as regras processuais se aplicam, desde o início de sua vigência, de maneira imediata aos processos pendentes. Daí porque, estabelece o CPC (LGL\2015\1656), em seu artigo 1.046 que “[a]o entrar em vigor este Código, suas disposições se aplicarão desde logo aos processos pendentes (...)”. Ratificando a norma inserida no Livro Complementar – Disposições Finais e Transitórias, o artigo 14 do CPC determina que “[a] norma processual não retroagirá e será aplicável imediatamente aos processos em curso, respeitados os atos processuais praticados e as situações jurídicas consolidadas sob a vigência da lei revogada”. É preciso bem compreender o alcance de tais disposições, à luz, inclusive, do Decreto-lei 4657/1842 (“LINDB”), que fixa a regra geral, em seu artigo 6º, de aplicação imediata e geral às leis que entrarem em vigor, respeitado o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada. Nos termos da lei, o ato jurídico perfeito, que aqui interessa, é o já consumado segundo a lei vigente ao tempo em que se efetuou.73 Mais importante, prescreve a Constituição Federal, em seu artigo 5º, inciso XXXVI,74 que a lei não retroagirá para atingir o ato jurídico perfeito. Página 17 Apuração dehaveres e o Código de Processo Civil Nesse particular, regras de direito material, em sua natureza, não têm a sua substância alterada apenas por estarem em uma “plataforma” voltada ao regramento processual. Desta feita, algumas normas que regulam a ação de dissolução parcial, não obstante estarem codificadas por meio de um diploma procedimental, primordialmente, “não alcançam os processos pendentes, e a isso deve o aplicador da lei bem atentar”.75 Assim, pode-se citar: artigo 600, parágrafo único e a maior parte dos regramentos especificados nos artigos 605 a 609. É preciso dizer, contudo, que, conforme se debateu, ainda que as disposições de direito material do CPC (LGL\2015\1656) sejam inapropriadamente aplicadas a atos jurídicos ocorridos sob a égide do CPC de 1973, certo é que há grandes de nenhum prejuízo ser verificado em desfavor da parte contra a qual tal ilegalidade ocorreu. E tal se dá porque, na maioria dos casos, o que fez a disciplina da ação de dissolução parcial de sociedade foi consolidar, de modo a dar segurança jurídica, entendimentos que já vinham sendo adotados pelos Tribunais. 4.2 A disciplina da apuração de haveres no CPC e a arbitragem É comum aos arbitralistas a afirmação de que o “CPC (LGL\2015\1656) não tem lugar na arbitragem” ou, ainda, “o CPC (LGL\2015\1656) não entra na sala de audiência em arbitragens”. A verdade é que o CPC (LGL\2015\1656), embora não tenha aplicação direta de seus dispositivos em procedimentos arbitrais – ou pelo menos não deveria ter – serve de parâmetro importante para definir questões procedimentais não previstas pelas partes, quer seja na convenção arbitral, quer seja no termo de arbitragem. O próprio regulamento da instituição arbitral escolhida pelas partes para administrar a disputa e regular o procedimento poderá ser lacunoso. E é preciso distinguir a aplicação do CPC (LGL\2015\1656) à arbitragem – o que não se mostra recomendável – de empréstimo pela arbitragem, em hipóteses de lacuna, das regras e princípios processuais que podem coincidir com regramentos contidos no CPC (LGL\2015\1656). É que, assim como ocorre em disputas em trâmite perante o Poder Judiciário, a arbitragem é um procedimento litigioso, voltado à resolução de disputa, tendo como fruto uma sentença, que se equivale, aliás, à sentença proferida pelo Estado. Daí porque, regras e princípios processuais aplicam-se aos dois institutos, podendo, dentro desse limite, o CPC (LGL\2015\1656) servir de importante parâmetro para o bom desenvolvimento do procedimento arbitral, ausente previsão acordada pelas partes. Nesse contexto, questionam-se se as regras de direito material, já indicadas, relativas à ação de dissolução parcial de sociedades, aplicam-se ao procedimento arbitral. Parece não haver dúvidas de que sim. Caberá aos advogados que atuam em procedimentos arbitrais e aos próprios árbitros se atentarem ao fato de que, em verdade, embora inseridos no CPC (LGL\2015\1656), grande parte das regras discutidas no presente artigo tem natureza de direito material, as quais não se alteram pelo fato de estarem inseridas, independentemente do motivo, dentro de um diploma primordialmente processual. Página 18 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil Trata-se de ponto de grande relevo, até porque, como se sabe, a arbitragem vem sendo utilizada com grande frequência em litígios societários. Como visto, no entanto, bem analisada a questão, o fato de o CPC (LGL\2015\1656) conter regulamento híbrido no que se refere à ação de dissolução parcial de sociedades não trará, pelo menos em princípio, os efeitos perversos que justificariam as críticas da doutrina a respeito. 5 Conclusão A disciplina da dissolução parcial no novo CPC (LGL\2015\1656), com abandono do procedimento especial de dissolução total, é resultado de estudo jurimétrico que, objetivamente, verificou as necessidades práticas das sociedades empresárias e de sua relação com os sócios. Os números demonstram que a disciplina exigia a atualização, pois a realidade do desenvolvimento social e econômico moderno não estava alinhada aos regramentos então existentes. A esse respeito, nota-se que a jurimetria permite que as alterações legislativas sejam pautadas em dados concretos, evitando-se legislar-se a “esmo”. Permitiu-se, com isso, que o legislador, em grande medida, se aproveitasse das proposições de reforma do CPC de 1973 para incluir novas regras atinentes à dissolução parcial, as quais contêm, regramentos tipicamente de direitos materiais. A hibridez, embora não desejável em um sistema ideal, mas irrealista ante o cenário político brasileiro, não traz qualquer prejuízo aos jurisdicionados. Se adequadamente interpretadas – não há norma insuscetível de interpretação –, as novas regras trarão estabilidade e cumprirão o propósito de pacificação das relações sociais. 6 Bibliografia ARRUDA, Pablo Gonçalves e. A dissolução (total e parcial) de sociedade no novo CPC (LGL\2015\1656). Disponível em: [www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI234881,71043-A+dissolucao+total+e+parcial+de+ sociedade+no+novo+CPC (LGL\2015\1656)]. Acesso em: 15.10.2016. COELHO, Fábio Ulhoa. A ação de dissolução parcial de sociedade. Revista de Informação Legislativa, Brasília, ano 48, n. 190, abr.-jun. 2011. ________. 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Disponível em: [www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI234881,71043-A+dissolucao+total+e+parcial+de+ sociedade+no+novo+CPC (LGL\2015\1656)]. Acesso em: 15.10.2016. 2 “Outrora, quando inexistia disciplina legal específica, qual a que está hoje consagrada no art. 668 do Cod. Proc., poderia, talvez, justificar-se a expressão que teve sua origem na prática contratual, a que alude Miranda Valverde. Era isso, então, um expediente para coadunar essa prática com a nomenclatura do Código Comercial. Desde que a lei veio lhe dar disciplina autônoma, insta abandonar denominação assim assaz equivocada” (ESTRELLA, Hernani. Despedida de sócio e a apuração dos haveres. José Konfino: Porto Alegre, 1948, p. 98, nota 111). Página 20 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil 3 REQUIÃO, Rubens. A preservação da sociedade comercial pela exclusão do sócio. Curitiba, 1959. Tese (concurso à Cátedra de Direito Comercial da Faculdade de Direito da Universidade do Paraná), p. 186-187. 4 REQUIÃO, Rubens. A preservação da sociedade comercial pela exclusão do sócio. Curitiba, 1959. Tese (concurso à Cátedra de Direito Comercial da Faculdade de Direito da Universidade do Paraná), p. 187. 5 REQUIÃO, Rubens. A preservação da sociedade comercial pela exclusão do sócio. Curitiba, 1959. Tese (concurso à Cátedra de Direito Comercial da Faculdade de Direito da Universidade do Paraná), p. 185. 6 Exceção feita à expulsão de sócio remisso, cuja quota será apurada nos termos e descontadas as verbas previstas no artigo 1.058 do Código Civil (LGL\2002\400). 7 Conforme explica Marcelo Guedes Nunes: “1.1. A jurimetria é uma nova disciplina do Direito que utiliza a metodologia estatística para analisar o funcionamento da ordem jurídica.1.2. A jurimetria integra o movimento conhecido por Revolução Estatística, que, a partir da primeira metade do século XIX, promoveu a utilização de técnicas estatísticas em quase todos os campos do conhecimento humano. 1.3. O uso da estatística no Direito remonta à obra de Leibinz e Bernoulli, porém a expressão foi criada no século XX por Lee Loevinger. 1.4. A realização de pesquisas empíricas no Direito, incluindo pesquisas estatísticas, é uma tendência.” (NUNES, Marcelo Guedes. Jurimetria aplicada ao direito societário – um estudo estatístico da dissolução de sociedade no Brasil. São Paulo, 2012. Tese (Doutoramento em Direito Comercial). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. p. 351). 8 Marcelo Guedes Nunes é fundador e presidente do Instituto Brasileiro de Jurimetria, criado em 2012. Sua tese de doutorado desenvolvida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP é intitulada “Jurimetria aplicada ao direito societário – um estudo estatístico da dissolução de sociedade no Brasil”. Em 2016 foi publicado pela Revista dos Tribunais seu livro intitulado “Jurimetria: como a estatística pode reinventar o Direito”. 9 Os resultados de seu estudo também constituem um dos alicerces que fundamentam as pretensões de promulgação de um novo Código Comercial. 10 “A proposta de emenda foi aprovada e se tornou o que é hoje o Título III, Livro II, Capítulo V do projeto. Este capítulo foi em grande medida baseado em pesquisas empíricas e estatísticas realizadas durante a elaboração da tese de doutoramento de Marcelo Guedes Nunes, sob a orientação do Prof. Fábio Ulhoa Coelho, a respeito das disputas entre sócios levadas aos 27 tribunais estaduais do Brasil entre os anos de 1997 e 2011, de forma a prover soluções eficazes para os problemas concretos e às aflições reais das partes que, diariamente, batem às portas do Poder Judiciário.Trata-se da primeira proposta legislativa elaborada com base em pesquisa empírica e estatística Página 21 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil prática que, em nossa opinião, deveria ser generalizada a fim de servir de modelo para outras iniciativas.” (Disponível em: [www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI168124,101048-Carta+de+apoio+ao+novo+CPC (LGL\2015\1656)+sugere+procedimento+especial+para+tratar]. Acesso em: 01.10.2016. 11 NUNES, Marcelo Guedes. Jurimetria aplicada ao direito societário – um estudo estatístico da dissolução de sociedade no Brasil. São Paulo, 2012. Tese (Doutoramento em Direito Comercial) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, p. 160. 12 NUNES, Marcelo Guedes. Jurimetria aplicada ao direito societário – um estudo estatístico da dissolução de sociedade no Brasil. São Paulo, 2012. Tese (Doutoramento em Direito Comercial) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, p. 353. 13 O estudo adotou as seguintes variáveis de método de avaliação: Patrimonial a preço de mercado. Decisão determina a apuração de haveres com base no valor patrimonial de mercado (valor de saída) dos itens do ativo. Patrimonial contábil. Decisão determina a apuração de haveres com base no valor patrimonial constante do balanço contábil da sociedade. Nominal. Decisão determina a apuração de haveres com base no valor nominal da quota. Vazio. Decisão não indica critério de apuração de haveres. 14 A respeito dos valores da participação societária, ver: COELHO, Fábio Ulhoa. O valor da participação societária. In: COELHO, Fábio Ulhoa (coord.). Tratado de direito comercial. v. 1. São Paulo: Saraiva, 2015, p. 299-358. 15 Veja-se a esse respeito, igualmente: NUNES, Marcelo Guedes; ARAÚJO, Rodrigo Mendes de. A ação de dissolução parcial de sociedade no Projeto de Código de Processo Civil. In JR, Fredie Didier et al. Novas tendências do processo civil - estudos sobre o Projeto do novo Código de Processo Civil, vol. III. São Paulo: JusPodivm, 2014. 16 Ver nesse sentido: “Da análise dos gráficos, observa-se que, na maior parte das vezes, o juiz é omisso quanto ao método de avaliação dos haveres, ao qual não se faz qualquer referência na decisão. Daí conclui-seque, nestas hipóteses, o perito é o responsável pela apuração, demonstrando a falha do Judiciário no controle desta atividade, cuja função passar a ser a de simplesmente homologar o laudo pericial, sem decisão sobre o método mais adequado àquele caso concreto.” (ALMEIDA, Marcus Elidius Michelli; STEFANO, Marcelle Silbiger. Questões polêmicas sobre apuração de haveres na dissolução parcial de sociedade limitada – análise segundo a jurimetria. Revista de Direito Bancário e do Mercado de Capitais. São Paulo: Revista dos Tribunais, v. 65, p. 333-347, jul./set. 2014). Página 22 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil 17 O estudo adotou os seguintes critérios de identificação: Autor. A sociedade está incluída na lide na posição de autor. Réu. A sociedade está incluída na lide na posição de ré. Não inclusão. A sociedade não está incluída na lide. 18 NUNES, Marcelo Guedes; ARAÚJO, Rodrigo Mendes de. A ação de dissolução parcial de sociedade no Projeto de Código de Processo Civil. In: JR, Fredie Didier et al. Novas tendências do processo civil – estudos sobre o Projeto do novo Código de Processo Civil, vol. III. São Paulo: JusPodivm, 2014. 19 O estudo adotou as seguintes variáveis de fundamento quanto ao método de avaliação escolhido pela decisão judicial:Legal. Decisão fundamenta a escolha do método de avaliação em dispositivo legal. Jurisprudencial. Decisão fundamenta a escolha do método de avaliação em precedentes jurisprudenciais. Contratual. Decisão fundamenta a escolha do método de avaliação em dispositivo do contrato social ou acordo de sócios. Vazio. Decisão não indica fundamento para a escolha do método de avaliação. 20 Ver: ALMEIDA, Marcus Elidius Michelli; STEFANO, Marcelle Silbiger. Questões polêmicas sobre apuração de haveres na dissolução parcial de sociedade limitada – análise segundo a jurimetria. Revista de Direito Bancário e do Mercado de Capitais. São Paulo: Revista dos Tribunais, v. 65, p. 333-347, jul.-set. 2014, que, muito apropriadamente, concluem: “[o]utra observação que merece ser feita é a baixa e constante utilização dos contratos para fundamentar a avaliação da empresa para fins de apuração de haveres. Em razão do disposto no Código Civil (LGL\2002\400), que eleva o conteúdo contratual em razão da máxima ‘pacta sunt servanda’, vislumbra-se que a imensa maioria dos contratos sociais não estabelece (ou não é suficientemente claro) o modo pelo qual a sociedade será avaliada nos casos de dissolução do vínculo societário. De fato, tal constatação reflete a necessidade de os sócios terem mais cautela e preocupação quando da elaboração dos contratos sociais, a fim de tornar desnecessária qualquer intervenção judicial nos assuntos privados da empresa. Além disso, o baixo índice de decisões que se fundamentam na lei (apenas 3%) é explicado pela omissão do legislador em relação ao método de avaliação, o qual fala simplesmente em ‘balanço especialmente levantado’, expressão dúbia que pouco esclarece as controvérsias da sociedade apresentadas ao Judiciário. Assim, nos casos em que o juiz fundamenta-se na lei para proceder à avaliação da sociedade, entendemos pela aplicação do art. 1.031, dependendo o perito das demais especificações para proceder à avaliação segura da sociedade.” Página 23 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil 21 O estudo adotou as seguintes variáveis de data-base do laudo: Ajuizamento. Decisão determina que o laudo tome por referência a data em que a ação originária foi distribuída. Citação. Decisão determina que o laudo tome por referência a data em que o réu foi citado, sem especificar qual data prevalece em caso de multiplicidade de réus. Data de afastamento. Decisão determina que o laudo tome por referência a data em que o sócio foi afastado da sociedade. Sentença. Decisão determina que o laudo tome por referência a data em que a sentença foi proferida. Trânsito em julgado. Decisão determina que o laudo tome por referência a data do trânsito em julgado da decisão final da ação. Outros. Decisão determina que o laudo tome por referência outros marcos temporais, como, por exemplo, a data de uma notificação extrajudicial, de uma reunião de sócios ou de uma viagem que caracterize abandono da empresa, do primeiro despacho, dentre outras. Vazio. Decisão não indica o marco temporal a ser adotado para levantamento do balanço. 22 Veja-se a esse respeito, igualmente: NUNES, Marcelo Guedes; ARAÚJO, Rodrigo Mendes de. A ação de dissolução parcial de sociedade no Projeto de Código de Processo Civil. In: JR, Fredie Didier et al. Novas tendências do processo civil – estudos sobre o Projeto do novo Código de Processo Civil, vol. III. São Paulo: JusPodivm, 2014. 23 Prova disso é o seu texto, que demonstra a importância da preservação da empresa, não apenas às sociedades empresárias e seus sócios, mas a toda a sociedade: “Mas esse não é o único, e nem mesmo o mais importante dos interesses voltados à preservação da empresa. Outros sujeitos de direito também titulam interesse legítimo relativamente à continuidade e desenvolvimento da atividade econômica. Não terão, estes outros agentes, obviamente, nenhum lucro – este é o ganho específico e exclusivo de investidores e empreendedores. Terão, contudo, ganhos de natureza diversa, ou mesmo meros proveitos. Os trabalhadores têm interesse na preservação da empresa, porque disso depende seu posto de trabalho, progressão na carreira, aposentadoria e outros benefícios. Aos consumidores interessa a preservação da empresa, em vista dos bens ou serviços que atendem às necessidades e querências deles. O fisco, e, por via de consequência, toda a sociedade atendida pelos serviços públicos, também se interessa pela preservação da empresa, em função dos tributos incidentes sobre a atividade econômica. Outros empresários, como os fornecedores de insumo, prestadores de serviço, bancos e seguradores, igualmente se interessam pela preservação da empresa, pelas oportunidades de negócio que por ela surgem. Os vizinhos dos estabelecimentos empresariais também estão interessados na preservação da empresa, pela riqueza local e regional gerada. Em suma, interesses diversos, alguns dos quais metaindividuais, gravitam em torno da continuidade e desenvolvimento das atividades econômicas” Página 24 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil (COELHO, Fábio Ulhoa. A ação de dissolução parcial de sociedade. Revista de Informação Legislativa, Brasília, ano 48, n. 190, abr.-jun. 2011, p. 143). 24 COELHO, Fábio Ulhoa. Dissolução de sociedade e o novo CPC (LGL\2015\1656). Disponível em: [http://supremoemdebate.blogspot.com.br/2010/12/dissolucao-de-sociedade-e-o-novo- cpc.html]. Acesso em: 15.10.2016. 25 COELHO, Fábio Ulhoa. Dissolução de sociedade e o novo CPC (LGL\2015\1656). Disponível em: [http://supremoemdebate.blogspot.com.br/2010/12/dissolucao-de-sociedade-e-o-novo- cpc.html]. Acesso em: 15.10.2016. 26 O texto apresentado foi gentilmente compartilhado por Fábio Ulhoa Coelho e tinha a seguinte redação:“Exposição de motivos O anteprojeto também propõe a solução para os problemas atualmente existentes, em razão de se encontrar a ação de dissolução de sociedades regida ainda pelas normas do vetusto Código de Processo Civil, de 1939(Código de Processo Civil de 1973, art. 1.218, VII). Procede-se, assim, à atualização da disciplina desta ação, adequando-a às disposições do Código Civil (LGL\2002\400), de 2003, que introduziu a figura da resolução da sociedade em relação a um sócio e definiu o critério de apuração dos haveres no caso de omissão do contrato social (arts. 1.028 a 1.032), e também à farta jurisprudência produzida sobre a matéria desde a década de 1940. Capítulo (...) – Da ação de dissolução de sociedade Art. 1º. A ação de dissolução de sociedade pode ter por objeto: I – a dissolução total de sociedade empresária ou simples; II – a resolução da sociedade empresária contratual ou simples em relação ao sócio falecido, expulso ou que exerceu o direito de retirada ou recesso; ou III – a apuração dos haveres do sócio falecido, expulso ou que exerceu o direito de retirada. § 1º. O rito da ação de dissolução de sociedade é o ordinário, com as alterações previstas neste Capítulo. § 2º. O autor exibirá na petição inicial o estatuto ou contrato social. Art. 2º. Quando o objeto da ação for a dissolução total de sociedade empresária ou simples, a ação será proposta pelo sócio ou sócios que entendem ter se verificado hipótese legal ou contratual de dissolução contra o sócio ou sócios que a ela se opõem. § 1º. O prazo de resposta será de 5 (cinco) dias. § 2º. O juiz pode decretar a dissolução parcial da sociedade, determinando a apuração de haveres do autor, se considerar necessária ou útil a terceiros a continuidade da atividade econômica. Neste caso, a ação seguirá conforme o disposto, neste Capítulo, sobre a ação de dissolução cujo objeto é apenas a apuração de haveres. Página 25 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil Art. 3º. Transitada em julgado a decisão pela procedência da ação, se a liquidação extrajudicial não tiver início, na forma da lei e do contrato social ou estatuto, no prazo de 30 (trinta) dias, qualquer sócio pode requerer, nos mesmos autos, a liquidação judicial. § 1º. Processar-se-á também nos mesmos autos da ação de dissolução a liquidação judicial se, após o início da liquidação extrajudicial, esta ficar injustificadamente paralisada por mais de 60 (sessenta) dias ou se os sócios divergirem sobre a realização do ativo, satisfação do passivo ou partilha do acervo remanescente. § 2º. Pedida a liquidação judicial, serão intimados os demais sócios para se manifestarem sobre o pedido no prazo comum de 5 (cinco) dias. Neste mesmo prazo, o liquidante escolhido pelos sócios, se houver, poderá também manifestar-se sobre o pedido. § 3º. Se acolher o pedido de instauração da liquidação judicial, o juiz nomeará o liquidante judicial, a quem caberá: a) providenciar o levantamento do inventário de bens e do balanço patrimonial da sociedade dissolvida, no prazo de 30 (trinta) dias, contados da assinatura do termo de compromisso; b) promover a cobrança das obrigações ativas da sociedade, dos recursos necessários à solução do passivo do sócio com responsabilidade ilimitada ou, se ainda não integralizado o capital social, do devido pelo sócio com responsabilidade limitada; c) vender os bens da sociedade, observadas as disposições da lei falimentar referentes à realização do ativo do falido; d) se, após a cobrança dos valores referidos na alínea b e da venda da totalidade dos bens da sociedade, na forma da alínea c, houver recursos em caixa suficientes à completa satisfação do passivo, proceder ao pagamento dos credores; se não houver, requerer a falência da sociedade; e) propor, após a completa realização do ativo e satisfação do passivo, o plano de partilha do patrimônio líquido remanescente, submetendo-o ao juiz; f) praticar os atos necessários para assegurar os direitos da sociedade em liquidação e representá-la, ativa ou passivamente, em juízo ou fora dele; § 4º. Os sócios poderão se manifestar sobre o plano de partilha apresentado pelo liquidante judicial, no prazo comum de 5 (cinco) dias. Havendo objeções, o liquidante judicial falará sobre elas nos 5 (cinco) dias seguintes, independentemente de intimação. § 5º. Proceder-se-á à partilha do patrimônio líquido na forma decidida por sentença. § 6º. À liquidação judicial aplicam-se, no que couber, as normas da lei falimentar, equiparando-se o liquidante judicial ao administrador judicial. Art. 4º. Quando o objeto for a resolução da sociedade empresária contratual ou simples em relação ao sócio falecido, expulso ou que exerceu o direito de retirada ou recesso, a ação pode ser proposta: I – pelo espólio do sócio falecido, quando a totalidade dos sucessores não quer ingressar na sociedade; Página 26 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil II – pelos sócios sobreviventes, se não querem o ingresso dos sucessores do falecido na sociedade “de pessoas”; III – pelo sócio que exerceu o direito de retirada ou recesso, se não tiver sido providenciada, pelos demais sócios, a alteração contratual formalizando o desligamento, depois de transcorridos 10 (dez) dias do exercício do direito; ou IV – pela sociedade, nos casos em que a lei não faculta a expulsão extrajudicial. Parágrafo único. Julgada procedente a ação, se as partes não se compuserem relativamente à apuração de haveres, esta será feita nos mesmos autos segundo o disposto no artigo seguinte. Art. 5º. Ao mandar processar a ação de dissolução cujo objeto é apenas a apuração de haveres, o juiz proferirá despacho em que: I – fixará a data da resolução da sociedade; II – definirá, à vista do disposto no contrato social, o critério de apuração dos haveres; e III – nomeará o perito. § 1º. A data da resolução da sociedade será: a) no caso de falecimento do sócio, a do óbito; b) na retirada imotivada, a do recebimento, pela sociedade, da notificação do sócio retirante; c) na retirada motivada ou recesso, a do arquivamento, no Registro Público de Empresas, do instrumento de alteração contratual que deu origem à dissidência; e d) na retirada por justa causa de sociedade por prazo determinado e na expulsão judicial de sócio, a do trânsito em julgado da decisão. § 2º. Em caso de omissão do contrato social, o juiz definirá, no despacho que mandar processar a ação, como critério de apuração de haveres, o valor patrimonial apurado em balanço de determinação (Código Civil (LGL\2002\400), art. 1.031), a ser levantado por perito contador, tomando-se por referência a data da resolução e apropriando-se os bens e direitos do ativo a preço de saída. § 3º. Também será contador o perito se o contrato social estabelecer como critério de apuração de haveres o valor patrimonial, contábil ou a data presente; mas se o contrato social estabelecer como critério o valor econômico da sociedade ou outro fundado em estimativa de resultados futuros, a nomeação recairá sobre especialista em avaliação de ativos. § 4º. A data da resolução e o critério de apuração de haverespodem ser alterados pelo juiz, a pedido da parte ou de ofício, a qualquer tempo antes do início da perícia. § 5º. A sociedade ou os sócios que nela permanecem só podem propor a ação de dissolução prevista neste artigo, ou, não sendo os autores, respondê-la, depositando em juízo a parte incontroversa do reembolso devido. O depósito poderá ser, desde logo, levantado pelo ex-sócio ou pelo espólio. Página 27 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil § 6º. Se o contrato social estabelecer o parcelamento do reembolso, será observado o que nele se dispôs no depósito judicial da parte incontroversa, ficando a sociedade ou os sócios que nela permanecem proibidos de falar nos autos enquanto estiverem em mora. § 7º. Até a data da resolução, integra o valor devido ao ex-sócio ou ao espólio a participação nos resultados da sociedade e, se for o caso, a remuneração como administrador (pro labore); após esta, terão direito apenas à correção monetária dos valores apurados e, em caso de mora, aos juros contratuais ou legais. Perdas e danos, se devidas, serão apuradas em ação própria.”. 27 Há texto do próprio Fábio Ulhoa Coelho com considerações a respeito da proposta inicial submetida ao Congresso Nacional e que incluía a dissolução total, embora o enfoque seja mesmo a dissolução parcial, concluindo-se com algumas sugestões de aperfeiçoamento do texto submetido ao processo legislativo. Ver: COELHO, Fábio Ulhoa. A ação de dissolução parcial de sociedade. Revista de Informação Legislativa, Brasília, ano 48, n. 190, abr./jun. 2011. 28 O texto emendado foi igualmente gentilmente compartilhado por Fábio Ulhoa Coelho e tinha a seguinte redação:“Emenda ao Anteprojeto de Código de Processo Civil Inclua-se novo Capítulo X ao Titulo III, renumerando-se para XI o capítulo referente aos “procedimentos não contenciosos” e renumerando-se os artigos. Capítulo X – Da ação de dissolução parcial de sociedade Art. 653. A ação de dissolução parcial de sociedade pode ter por objeto: I – a resolução da sociedade empresária contratual ou simples em relação ao sócio falecido, excluído ou que exerceu o direito de retirada ou recesso; e II – a apuração dos haveres do sócio falecido, excluído ou que exerceu o direito de retirada; ou III – somente a resolução (inciso I) ou a apuração de haveres (inciso II). § 1º. Aplica-se ao rito previsto neste Capítulo, no que não o contrariar, o disposto no Título I do Livro II. § 2º. O autor exibirá na petição inicial o contrato social. § 3º. São contratuais as sociedades empresárias dos tipos limitada, em nome coletivo e em comandita simples. § 4 º. A sociedade poderá, como autora ou ré, formular pedido de indenização compensável com o valor dos haveres a apurar. § 5º. O objeto da ação também poderá ser a apuração de deveres. Art. 654. Quando o objeto da ação for a resolução da sociedade empresária contratual ou simples em relação ao sócio falecido, excluído ou que exerceu o direito de retirada ou recesso, a ação pode ser proposta: I – pelo espólio do sócio falecido, quando a totalidade dos sucessores não quer ingressar na sociedade; Página 28 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil II – pelos sucessores, após concluída a partilha do sócio falecido; III – pelos sócios sobreviventes, se não querem o ingresso do espólio ou dos sucessores do falecido na sociedade, quando esse direito decorer do contrato social; IV – pelo sócio que exerceu o direito de retirada ou recesso, se não tiver sido providenciada, pelos demais sócios, a alteração contratual formalizando o desligamento, depois de transcorridos 10 (dez) dias do exercício do direito; V – pela sociedade, nos casos em que a lei não autoriza a exclusão extrajudicial; ou V – pelo sócio excluído. § 1º Somente poderá ser proposta a ação de dissolução parcial com o objeto destinado à resolução da sociedade se o autor demonstrar que esta não pôde se operar por alteração do contrato social em razão de divergência entre os sócios. § 2º. O cônjuge ou companheiro do sócio cujo casamento, união estável ou convivência terminou poderá requerer a apuração de seus haveres na sociedade. Os haveres assim apurados serão pagos à conta da quota social titulada por este sócio. § 3º. A sociedade não precisa ser parte na ação quando forem litigantes todos os sócios, mas ficará, ainda assim, sujeita aos efeitos da decisão. Art. 655. Julgada procedente a ação, se as partes não se compuserem relativamente ao valor dos haveres ou o critério de sua apuração, esta será feita nos mesmos autos segundo o disposto no artigo seguinte. Art. 656. Ao mandar processar a ação de dissolução cujo objeto é apenas a apuração de haveres, o juiz proferirá despacho em que: I – fixará a data da resolução da sociedade; II – definirá, à vista do disposto no contrato social, o critério de apuração dos haveres; e III – nomeará o perito. Art. 657. A data da resolução da sociedade será: I – no caso de falecimento do sócio, a do óbito; II – na retirada imotivada (Código Civil (LGL\2002\400), art. 1.029, primeira parte), o 60º (sexagésimo) dia seguinte ao do recebimento, pela sociedade, da notificação do sócio retirante; III – no recesso (Código Civil (LGL\2002\400), art. 1.077), o dia do recebimento, pela sociedade, da notificação do sócio dissidente; e IV – na retirada por justa causa de sociedade por prazo determinado (Código Civil (LGL\2002\400), art. 1.029, in fine) e na exclusão judicial de sócio (Código Civil (LGL\2002\400), art. 1.030), a do trânsito em julgado da decisão. Art. 658. Em caso de omissão do contrato social, o juiz definirá, no despacho que mandar processar a ação, como critério de apuração de haveres, o valor patrimonial apurado em balanço de determinação (Código Civil (LGL\2002\400), art. 1.031), a ser levantado por perito contabilista, pessoa física ou jurídica, tomando-se por referência a data da resolução e avaliando-se os bens e direitos do ativo a preço de saída. Página 29 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil Parágrafo único. Também será contabilista o perito se o contrato social estabelecer como critério de apuração de haveres o valor patrimonial, contábil ou a data presente; mas se o contrato social estabelecer como critério o valor econômico da sociedade ou outro fundado em projeção de resultados futuros, a nomeação recairá sobre especialista, pessoa física ou jurídica, em avaliação de sociedades. Art. 659. A data da resolução e o critério de apuração de haveres podem ser revistos pelo juiz, a pedido da parte, a qualquer tempo antes do início da perícia. Art. 660. A sociedade ou os sócios que nela permanecem só podem propor a ação de dissolução parcial com objeto de apuração de haveres, ou, não sendo os autores, respondê-la, depositando em juízo a parte incontroversa dos haveres devidos. § 1º. O depósito poderá ser, desde logo, levantado pelo ex-sócio, pelo espólio ou pelos seus sucessores. § 2º. Se ocontrato social estabelecer o parcelamento dos haveres, será observado o que nele se dispôs no depósito judicial da parte incontroversa. Art. 661. Até a data da resolução, integra o valor devido ao ex-sócio, ao espólio ou aos seus sucessores a participação nos lucros ou os juros sobre o capital próprio declarados pela sociedade e, se for o caso, a remuneração como administrador (pro labore). Parágrafo único. Após a data da resolução, o ex-sócio, o espólio ou seus sucessores terão direito apenas à correção monetária dos valores apurados e aos juros contratuais ou legais. Justificativa O anteprojeto deve prever a solução para os problemas atualmente existentes, decorrentes do fato de se encontrar a ação de dissolução de sociedades regida ainda pelas normas do vetusto Código de Processo Civil, de 1939 (Código de Processo Civil de 1973, art. 1.218, VII). Procede-se, assim, à atualização da disciplina desta ação, adequando-a às disposições do Código Civil (LGL\2002\400), de 2003, que introduziu a figura da resolução da sociedade em relação a um sócio e definiu o critério de apuração dos haveres no caso de omissão do contrato social (arts. 1.028 a 1.032), e também à farta jurisprudência produzida sobre a matéria desde a década de 1940.” 29 Ver, exemplificativamente: FRANÇA, Erasmo Valladão Azevedo e Novaes; ADAMEK, Marcelo Vieira von. Da ação de dissolução parcial de sociedade – comentários breves ao CPC/2015 (LGL\2015\1656). São Paulo: Malheiros, 2016, p. 19-20. 30 NUNES, Marcelo Guedes; ARAÚJO, Rodrigo Mendes de. A ação de dissolução parcial de sociedade no Projeto de Código de Processo Civil. In: JR, Fredie Didier et al. Novas tendências do processo civil – estudos sobre o Projeto do novo Código de Processo Civil, vol. III. São Paulo: JusPodivm, 2014. 31 FRANÇA, Erasmo Valladão Azevedo e Novaes; ADAMEK, Marcelo Vieira von. Da ação de dissolução parcial de sociedade – comentários breves ao CPC/2015 (LGL\2015\1656). São Paulo: Malheiros, 2016, p. 24. Página 30 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil 32 NUNES, Marcelo Guedes; ARAÚJO, Rodrigo Mendes de. A ação de dissolução parcial de sociedade no Projeto de Código de Processo Civil. In JR, Fredie Didier et al. Novas tendências do processo civil – estudos sobre o Projeto do novo Código de Processo Civil, vol. III. São Paulo: JusPodivm, 2014. 33 NUNES, Marcelo Guedes. Jurimetria aplicada ao direito societário – um estudo estatístico da dissolução de sociedade no Brasil. São Paulo, 2012. Tese (Doutoramento em Direito Comercial). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. p. 325. 34 Ver a esse respeito: YARSHELL, Flávio Luiz; MATOS, Felipe do Amara. O procedimento especial de dissolução (parcial) de sociedade no Projeto de CPC (LGL\2015\1656). In: YARSHELL, Flávio Luiz; PEREIRA, Guilherme Setoguti j (coords.). Processo societário. São Paulo: Quartier Latin, 2012, p. 221; FRANÇA, Erasmo Valladão Azevedo e Novaes; ADAMEK, Marcelo Vieira von. Da ação de dissolução parcial de sociedade – comentários breves ao CPC/2015 (LGL\2015\1656). São Paulo: Malheiros, 2016, p. 26, nota 8; e, ainda: “[n]ão comungamos do mesmo entendimento, já que a apuração da indenização, tanto em favor da sociedade quanto em favor do sócio, tem por objetivo majorar ou diminuir os haveres do sócio retirante, o que é perfeitamente possível na ação que busca apenas a apuração dos haveres” (NUNES, Marcelo Guedes; ARAÚJO, Rodrigo Mendes de. A ação de dissolução parcial de sociedade no Projeto de Código de Processo Civil. In JR, Fredie Didier et al. Novas tendências do processo civil – estudos sobre o Projeto do novo Código de Processo Civil, vol. III. São Paulo: JusPodivm, 2014). 35 Segue texto da referida Emenda:“Comissão especial destinada a proferir parecer ao Projeto de Lei nº 6025, de 2005, do Senado Federal e apensados, que tratam do "Código de Processo Civil" (Revoga a Lei nº 5.869, de 1973) Projeto de Lei nº 8.046, de 2010 (Do Senado Federal) (...) Inclua-se um parágrafo ao art. 585, renumerando-se os demais, do PL nº 8046 de 2010, que trata do "Código de Processo Civil" (revoga a Lei nº 5.869, de 1973), na forma seguinte: Art. 585 (...) § 2° A ação de dissolução parcial de sociedade pode ter também por objeto a sociedade anônima de capital fechado quando provado que não pode preencher o seu fim em ação proposta por acionista ou acionistas que representem 5% ou mais do capital social. Justificativa As companhias ou sociedades anônimas de capital fechado podem vir a ostentar a condição de sociedade de pessoa. É o caso das sociedades anônimas ditas familiares, inacessíveis a estranhos, cujas ações circulam entre os poucos acionistas que as adquirem. Esse fenômeno tem sido anotado tanto na doutrina quanto na jurisprudência, concluindo-se que, reunindo a condição de sociedade intuitu personae, pode a sociedade anônima fechada ser dissolvida judicialmente, e de forma parcial, quando se verificar a ruptura da affectio societatis, por restar, nesses casos, evidente a impossibilidade de ser preenchido o seu fim social (Lei 6.404/76, art. 206, II, b). Nesse sentido é a jurisprudência do STJ (REsp 111.294-PR, 4ª Turma, RSTJ 146/323, out./01). Página 31 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil Assim, a presente emenda propõe a incorporação do seu texto na regulação da ação de dissolução parcial para traduzir na lei aquilo que já é consagrado pelo STJ. Sala das Sessões, em ______ de __________ de 2011. Deputado Arthur Oliveira Maia”. 36 “A norma, nitidamente heterotópica, promove enorme confusão entre os institutos de dissolução parcial e dissolução total de sociedades. A Lei 6.404/766 prevê que quando a sociedade não atinge seu fim, uma minoria ativa formada por acionista(s) que represente(m) ao menos 5% do capital social pode(m) propor a dissolução total da sociedade e não a dissolução parcial, como sugere o parágrafo segundo do art. 599 do novo CPC (LGL\2015\1656).A inexequibilidade do fim social não pode levar à dissolução parcial, resolvendo-se a sociedade apenas em relação a quem promover a demanda. Se inexequível é o objeto, o é para toda a sociedade e não em relação a um sócio. O CC, no inciso II7 do art. 1.034 já trata a matéria como hipótese de dissolução total, como já fazia (e ainda faz) a lei de S/A. A matéria já era assim regida quando ainda vigente o CC de 19168 e, frise-se, quando da vigência da 1ª parte do Código Comercial de 1850. A toda evidência, a norma insculpida no parágrafo segundo do art. 599 do CPC/15 (LGL\2015\1656) não merece guarida. Evidente também que não foi capaz de revogar o art. 206, II, "b" da LSA e menos ainda o inciso II do art. 1.034 do CC. Caberá ao Poder Judiciário e à Doutrina debruçar-se sobre a matéria e, espera-se, afastar a aplicação do dispositivo.” (ARRUDA, Pablo Gonçalves e. A dissolução (total e parcial) de sociedade no novo CPC (LGL\2015\1656). Disponível em: [www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI234881,71043-A+dissolucao+total+e+parcial+de+sociedade+no+novo+CPC (LGL\2015\1656)]. Acesso em: 15.10.2016). 37 NUNES, Marcelo Guedes; ARAÚJO, Rodrigo Mendes de. A ação de dissolução parcial de sociedade no Projeto de Código de Processo Civil. In JR, Fredie Didier et al. Novas tendências do processo civil – estudos sobre o Projeto do novo Código de Processo Civil, vol. III. São Paulo: JusPodivm, 2014. 38 FÁBIO ULHOA. A ação de dissolução parcial de sociedade. Revista de Informação Legislativa, Brasília, ano 48, n. 190, abr.-jun. 2011, p. 149, nota 7. 39 “Inquestionável que as sociedades anônimas são sociedade de capital (intuitu pecuniae), próprio às grandes empresas, em que a pessoa dos sócios não tem papel preponderante. Contudo, a realidade da economia brasileira revela a existência, em sua grande maioria, de sociedade anônimas de médio e pequeno porte, em regra, de capital fechado, que concentram na pessoa de seus sócios um de seus elementos preponderantes, como sói acontecer com as sociedades ditas familiares, cujas ações circulam entre os seus membros, e que são, por isso, constituídas intuitu personae. Nelas, o fato dominante em sua formação é a afinidade e identificação pessoal entre os acionistas, marcadas pela confiança mútua. Em tais circunstâncias, muitas vezes, o que se tem, na prática, é uma sociedade limitada travestida de sociedade anônima, sendo, Página 32 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil por conseguinte, equivocado querer generalizar as sociedades anônimas em um único grupo, com características rígidas e bem definidas” (STJ, 2ª Seção, EREsp 111.294/PR, rel. Min. Castro Filho, j. 28/06/2016). 40 A possibilidade de superação de tal crise não é meramente teórica: “Assim, os sócios remanescentes poderão, dentro de um quadro social reduzido, porém alinhado, encontrar novos meios para superação dos obstáculos ao preenchimento do fim. Assim, no caso de inviabilidade econômica, os sócios remanescentes, unidos em torno de um objetivo comum, poderão buscar novos investidores ou financiadores; no caso de inviabilidade jurídica, poderão alterar o objeto ou realocar os investimentos; e no caso de inviabilidade política, poderão excluir sócios faltosos ou viabilizar a retirada daqueles que não se encontrem satisfeitos com a condução dos negócios” (NUNES, Marcelo Guedes; ARAÚJO, Rodrigo Mendes de. A ação de dissolução parcial de sociedade no Projeto de Código de Processo Civil. In: JR, Fredie Didier et al. Novas tendências do processo civil – estudos sobre o Projeto do novo Código de Processo Civil, vol. III. São Paulo: JusPodivm, 2014). 41 “Art. 600. A ação pode ser proposta:I - pelo espólio do sócio falecido, quando a totalidade dos sucessores não ingressar na sociedade; II - pelos sucessores, após concluída a partilha do sócio falecido; III - pela sociedade, se os sócios sobreviventes não admitirem o ingresso do espólio ou dos sucessores do falecido na sociedade, quando esse direito decorrer do contrato social; IV - pelo sócio que exerceu o direito de retirada ou recesso, se não tiver sido providenciada, pelos demais sócios, a alteração contratual consensual formalizando o desligamento, depois de transcorridos 10 (dez) dias do exercício do direito; V - pela sociedade, nos casos em que a lei não autoriza a exclusão extrajudicial; ou VI - pelo sócio excluído. Parágrafo único. O cônjuge ou companheiro do sócio cujo casamento, união estável ou convivência terminou poderá requerer a apuração de seus haveres na sociedade, que serão pagos à conta da quota social titulada por este sócio.” 42 “Art. 601. Os sócios e a sociedade serão citados para, no prazo de 15 (quinze) dias, concordar com o pedido ou apresentar contestação.Parágrafo único. A sociedade não será citada se todos os seus sócios o forem, mas ficará sujeita aos efeitos da decisão e à coisa julgada.” 43 A esse respeito: NUNES, Marcelo Guedes. Dissolução parcial na sociedade limitada. In: COELHO, Fábio Ulhoa (coord.). Tratado de direito comercial. v. 2. São Paulo: Saraiva, 2015, p. 220-247. Página 33 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil 44 “Art. 1.028. No caso de morte de sócio, liquidar-se-á sua quota, salvo:I - se o contrato dispuser diferentemente; II - se os sócios remanescentes optarem pela dissolução da sociedade; III - se, por acordo com os herdeiros, regular-se a substituição do sócio falecido.” 45 “Art. 1.029. Além dos casos previstos na lei ou no contrato, qualquer sócio pode retirar-se da sociedade; se de prazo indeterminado, mediante notificação aos demais sócios, com antecedência mínima de sessenta dias; se de prazo determinado, provando judicialmente justa causa.” 46 “Art. 1.077. Quando houver modificação do contrato, fusão da sociedade, incorporação de outra, ou dela por outra, terá o sócio que dissentiu o direito de retirar-se da sociedade, nos trinta dias subseqüentes à reunião, aplicando-se, no silêncio do contrato social antes vigente, o disposto no art. 1.031.” 47 “Art. 1.004. Os sócios são obrigados, na forma e prazo previstos, às contribuições estabelecidas no contrato social, e aquele que deixar de fazê-lo, nos trinta dias seguintes ao da notificação pela sociedade, responderá perante esta pelo dano emergente da mora.Parágrafo único. Verificada a mora, poderá a maioria dos demais sócios preferir, à indenização, a exclusão do sócio remisso, ou reduzir-lhe a quota ao montante já realizado, aplicando-se, em ambos os casos, o disposto no§ 1º do art. 1.031.” 48 “Art. 1.058. Não integralizada a quota de sócio remisso, os outros sócios podem, sem prejuízo do disposto no art. 1.004 e seu parágrafo único, tomá-la para si ou transferi-la a terceiros, excluindo o primitivo titular e devolvendo-lhe o que houver pago, deduzidos os juros da mora, as prestações estabelecidas no contrato mais as despesas.” 49 “Art. 1.030. Ressalvado o disposto no art. 1.004 e seu parágrafo único, pode o sócio ser excluído judicialmente, mediante iniciativa da maioria dos demais sócios, por falta grave no cumprimento de suas obrigações, ou, ainda, por incapacidade superveniente.” 50 Ver a esse respeito: SPINELLI, Luis Felipe. Exclusão de sócio por falta grave na sociedade limitada. São Paulo: Quartier Latin, 2015. 51 É que admite-se a inclusão da chamada clausula mortis, por exemplo, no contrato social, permitindo aos herdeiros assumir a posição do sócio falecido na sociedade. 52 NUNES, Marcelo Guedes; ARAÚJO, Rodrigo Mendes de. A ação de dissolução parcial de sociedade no Projeto de Código de Processo Civil. In JR, Fredie Didier et al. Novas tendências do processo civil – estudos sobre o Projeto do novo Código de Processo Civil, vol. III. São Paulo: JusPodivm, 2014. Página 34 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil 53 “Art. 1.030. Ressalvado o disposto no art. 1.004 e seu parágrafo único, pode o sócio ser excluído judicialmente, mediante iniciativa da maioria dos demais sócios, por falta grave no cumprimento de suas obrigações, ou, ainda, por incapacidade superveniente.” 54 “Por outro lado, nem sempre a sociedade terá interesse em ingressar com ação judicial, em especial na hipótese de o sócio a ser excluído ser o majoritário e, portanto, responsável pela representação judicial da sociedade. Nesse caso, os sócios que sãominoritários, mas passarão a ser majoritários com a exclusão do sócio majoritário, poderão ingressar com ação de dissolução parcial em nome da sociedade, em típica hipótese de substituição processual” (NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Novo Código de Processo Civil comentado. Salvador: JusPodivm, 2016, p. 1.016).No mesmo sentido: “A legitimidade ativa da sociedade, no entanto, deve ser interpretada de forma sistemática com o artigo 1.030 do Código Civil (LGL\2002\400), que viabiliza a chamada expulsão do majoritário. Esse dispositivo faculta a expulsão de sócio majoritário por iniciativa de outros sócios, desde que estes sejam detentores da maioria do capital social remanescente. Assim, por exemplo, comprovada a justa causa, sócios detentores de 16% do capital social de uma limitada podem promover a expulsão judicial de um sócio majoritário titular de 70%. Mas se no Projeto a legitimidade passa a ser apenas da sociedade, que em regra é representada pelo sócio majoritário, como poderão os sócios minoritários propor a ação de dissolução parcial? A resposta passa pelo significado da expressão ‘por iniciativa dos titulares da maioria do capital remanescente’ do artigo 1.030 do Código Civil (LGL\2002\400). De acordo com este dispositivo, os sócios que forem minoritários no momento da propositura da ação e que, como consequência da expulsão, passarão a ser majoritários, têm uma autorização extraordinária da lei para tomar a iniciativa de propor em nome da sociedade a ação de expulsão contra aquele que ordinariamente poderia representá-la em juízo. A autorização extraordinária faz sentido porque não é razoável esperar que o sócio majoritário (diretamente ou por meio dos administradores por ele indicados) autorize a propositura de uma ação contra si próprio. Assim, quaisquer sócios, desde que sejam detentores da maioria do capital remanescente, poderão iniciar como representantes legais da sociedade ação de dissolução parcial com pedido de expulsão. Por outro lado, a propositura dessa ação por qualquer sócio em nome próprio deve ser extinta por ilegitimidade ativa” (NUNES, Marcelo Guedes; ARAÚJO, Rodrigo Mendes de. A ação de dissolução parcial de sociedade no Projeto de Código de Processo Civil. In: JR, Fredie Didier et al. Novas tendências do processo civil – estudos sobre o Projeto do novo Código de Processo Civil, vol. III. São Paulo: JusPodivm, 2014). 55 NUNES, Marcelo Guedes; ARAÚJO, Rodrigo Mendes de. A ação de dissolução parcial de sociedade no Projeto de Código de Processo Civil. In: JR, Fredie Didier et al. Novas tendências do processo civil - estudos sobre o Projeto do novo Código de Processo Civil, vol. III. São Paulo: JusPodivm, 2014; FRANÇA, Erasmo Valladão Azevedo e Novaes; ADAMEK, Marcelo Vieira von. Da ação de dissolução parcial de sociedade – comentários breves ao CPC/2015 (LGL\2015\1656). São Paulo: Malheiros, 2016, p. 43; e ROSSONI, Igor Bimkowski. O Procedimento de Dissolução de Parcial de Sociedade no PL 166/2010 Página 35 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil (Novo Código de Processo Civil). In: YARSHELL, Flávio Luiz; PEREIRA, Guilherme Setoguti J. Processo Societário. São Paulo: Quartier Latin, 2012, p. 344; NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Novo Código de Processo Civil comentado. Salvador: JusPodivm, 2016, p. 1.017. 56 Fato reconhecido pelo Superior Tribunal de Justiça, 3ª Turma, REsp 114.708/MG, rel. Min. Carlos Alberto Menezes Direito, j. 19/02/2001. 57 NUNES, Marcelo Guedes; ARAÚJO, Rodrigo Mendes de. A ação de dissolução parcial de sociedade no Projeto de Código de Processo Civil. In JR, Fredie Didier et al. Novas tendências do processo civil – estudos sobre o Projeto do novo Código de Processo Civil, vol. III. São Paulo: JusPodivm, 2014; NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Novo Código de Processo Civil comentado. Salvador: JusPodivm, 2016, p. 1017. 58 “Mas se, por força do regime de bens, não titula o ex-cônjuge ou ex-companheiro nenhum direito sobre as quotas sociais do outro, é evidente que não estará cumprida a condição para sua legitimação ativa.” (COELHO, Fábio Ulhoa. A ação de dissolução parcial de sociedade. Revista de Informação Legislativa, Brasília, ano 48, n. 190, abr.-jun. 2011, p. 152). 59 ARRUDA, Pablo Gonçalves e. A dissolução (total e parcial) de sociedade no novo CPC (LGL\2015\1656). Disponível em: [www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI234881,71043-A+dissolucao+total+e+parcial+de+ sociedade+no+novo+CPC (LGL\2015\1656)]. Acesso em: 15.10.2016; FRANÇA, Erasmo Valladão Azevedo e Novaes; ADAMEK, Marcelo Vieira von. Da ação de dissolução parcial de sociedade – comentários breves ao CPC/2015 (LGL\2015\1656). São Paulo: Malheiros, 2016, p. 44-45. 60 ARRUDA, Pablo Gonçalves e. A dissolução (total e parcial) de sociedade no novo CPC (LGL\2015\1656). Disponível em: [www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI234881,71043-A+dissolucao+total+e+parcial+de+ sociedade+no+novo+CPC (LGL\2015\1656)]. Acesso em: 15.10.2016. 61 NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Novo Código de Processo Civil comentado. Salvador: JusPodivm, 2016, p. 1018. 62 NUNES, Marcelo Guedes; ARAÚJO, Rodrigo Mendes de. A ação de dissolução parcial de sociedade no Projeto de Código de Processo Civil. In: JR, Fredie Didier et al. Novas tendências do processo civil – estudos sobre o Projeto do novo Código de Processo Civil, vol. III. São Paulo: JusPodivm, 2014. 63 NUNES, Marcelo Guedes; ARAÚJO, Rodrigo Mendes de. A ação de dissolução parcial de sociedade no Projeto de Código de Processo Civil. In JR, Fredie Didier et al. Novas tendências do processo civil – estudos sobre o Projeto do novo Código de Processo Civil, vol. III. São Paulo: JusPodivm, 2014. Página 36 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil 64 FRANÇA, Erasmo Valladão Azevedo e Novaes; ADAMEK, Marcelo Vieira von. Da ação de dissolução parcial de sociedade – comentários breves ao CPC/2015 (LGL\2015\1656). São Paulo: Malheiros, 2016, p. 48. 65 FRANÇA, Erasmo Valladão Azevedo e Novaes; ADAMEK, Marcelo Vieira von. Da ação de dissolução parcial de sociedade – comentários breves ao CPC/2015 (LGL\2015\1656). São Paulo: Malheiros, 2016, p. 54; NUNES, Marcelo Guedes; ARAÚJO, Rodrigo Mendes de. A ação de dissolução parcial de sociedade no Projeto de Código de Processo Civil. In JR, Fredie Didier et al. Novas tendências do processo civil - estudos sobre o Projeto do novo Código de Processo Civil, vol. III. São Paulo: JusPodivm, 2014. 66 “A dispensa da participação formal da sociedade quando da presença de todos os seus sócios gerou dúvidas a respeito da aplicabilidade do artigo 617 do Projeto, que faculta à sociedade a formulação de pedido de indenização compensável com o valor dos haveres do sócio. Neste caso, não estando formalmente no processo, mas havendo pretensão da sociedade, os seus sócios poderão formular pedido em favor da sociedade? E se não houver concordância de todos os sócios, a quem caberá a formulação destepedido? Ao sócio majoritário?A dúvida tem pouca aderência à prática porque a sociedade deduz pedido de indenização em regra apenas nas ações de expulsão, nas quais a legitimidade ativa é da própria sociedade. Se ela está na ação, ainda querepresentada por minoritários, não há dúvidas de que o pedido de indenização é cabível. Nos demais casos, nos quais a sociedade é ré e não há discussão quanto à prática de ato ilícito, o problema da indenização não se coloca.” (NUNES, Marcelo Guedes; ARAÚJO, Rodrigo Mendes de. A ação de dissolução parcial de sociedade no Projeto de Código de Processo Civil. In JR, Fredie Didier et al. Novas tendências do processo civil - estudos sobre o Projeto do novo Código de Processo Civil, vol. III. São Paulo: JusPodivm, 2014). 67 COELHO, Fábio Ulhoa. A ação de dissolução parcial de sociedade. Revista de Informação Legislativa, Brasília, ano 48, n. 190, abr.-jun. 2011, p. 149. 68 “Art. 606. Em caso de omissão do contrato social, o juiz definirá, como critério de apuração de haveres, o valor patrimonial apurado em balanço de determinação, tomando-se por referência a data da resolução e avaliando-se bens e direitos do ativo, tangíveis e intangíveis, a preço de saída, além do passivo também a ser apurado de igual forma.” 69 FRANÇA, Erasmo Valladão Azevedo e Novaes; ADAMEK, Marcelo Vieira von. Da ação de dissolução parcial de sociedade – comentários breves ao CPC/2015 (LGL\2015\1656). São Paulo: Malheiros, 2016, p. 69-70. 70 “Art. 1.031. Nos casos em que a sociedade se resolver em relação a um sócio, o valor da sua quota, considerada pelo montante efetivamente realizado, liquidar-se-á, salvo disposição contratual em contrário, com base na situação patrimonial da sociedade, à data da resolução, verificada em balanço especialmente levantado.(...) Página 37 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil § 2 º A quota liquidada será paga em dinheiro, no prazo de noventa dias, a partir da liquidação, salvo acordo, ou estipulação contratual em contrário.” 71 Por exemplo:“Por outro lado, ao extrapolar sua essência processual, o NCPC adentra questões materiais sem propriedade ou, no mínimo, contrariando a norma material existente e a posição consolidada dos Tribunais. É exemplo dessa impropriedade a possibilidade de dissolução parcial de Sociedade Anônima Fechada no caso de não preenchimento de seu fim (§ 2º, art. 599, NCPC), tratada historicamente como dissolução total. Ou, ainda, a legitimidade conferida ao ex-cônjuge de sócio no caso de extinção da relação conjugal (Parágrafo Único do Art. 600, NCPC), em afronta ao que estabelece o art. 1.027 do CC.” (ARRUDA, Pablo Gonçalves e. A dissolução (total e parcial) de sociedade no novo CPC (LGL\2015\1656). Disponível em: [www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI234881,71043-A+dissolucao+total+e+parcial+de+ sociedade+no+novo+CPC (LGL\2015\1656)]. Acesso em: 15.10.2016). “O Projeto é omisso sobre isso, embora não tenha contido sua ansiedade para adentrar em questões materiais. Curioso... bem curioso!” (RESTIFFE, Paulo Sérgio. O Caranguejo e o Projeto de Novo CPC: o procedimento especial de dissolução parcial de sociedade ou lição de como se piorar por não saber melhorar. Disponível em: [www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI122853,11049-O+Caranguejo+e+o+Projeto+de+N ovo+CPC (LGL\2015\1656)+o+procedimento+especial+de]. Acesso em: 15.10.2016. “(...) a qual não ostenta traço de especialidade procedimental; o que nela existe de especial são regras de direito material. Ao assim fazê-lo, porém, o legislador do CPC/2015 (LGL\2015\1656) não apenas trouxe regras de direito material – sobrepostas àquelas do vigente Código Civil (LGL\2002\400) e que, por isso, melhor lá se enquadrariam (...)” (FRANÇA, Erasmo Valladão Azevedo e Novaes; ADAMEK, Marcelo Vieira von. Da ação de dissolução parcial de sociedade – comentários breves ao CPC/2015 (LGL\2015\1656). São Paulo: Malheiros, 2016, p. 18). 72 Veja-se a esse respeito: “É certo - e isso precisa ser bem destacado - que boa parte das regras constantes do Projeto, nesse particular, não regula propriamente o procedimento, isto é, a prática de atos do processo. Na verdade, em muitos casos, as regras propostas não são sequer processuais, porque não estabelecem posições jurídicas integrantes da relação processual. Dessa forma, muitas das normas têm natureza substancial. Mas isso, embora não seja o ideal, continua a ser conveniente porque, como dito inicialmente, positiva disciplina mais moderna e, principalmente, mais segura para os interessados” (YARSHELL, Flávio Luiz. A opção (feliz) do Projeto de CPC (LGL\2015\1656) pela disciplina do procedimento especial de dissolução parcial de sociedade. Disponível em: [www.cartaforense.com.br/conteudo/colunas/a-opcao-feliz-do-projeto-de-cpc-pela-discip lina-do-procedimento-especial-de-dissolucao-parcial-de-sociedade/7433]. Acesso em: 15.10.2016). Página 38 Apuração de haveres e o Código de Processo Civil 73 “Art. 6º A Lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada. § 1º Reputa-se ato jurídico perfeito o já consumado segundo a lei vigente ao tempo em que se efetuou. § 2º Consideram-se adquiridos assim os direitos que o seu titular, ou alguém por êle, possa exercer, como aquêles cujo comêço do exercício tenha têrmo pré-fixo, ou condição pré-estabelecida inalterável, a arbítrio de outrem. § 3º Chama-se coisa julgada ou caso julgado a decisão judicial de que já não caiba recurso.” 74 Art, 5º. (...)XXXVI - a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada” 75 FRANÇA, Erasmo Valladão Azevedo e Novaes; ADAMEK, Marcelo Vieira von. Da ação de dissolução parcial de sociedade – comentários breves ao CPC/2015 (LGL\2015\1656). São Paulo: Malheiros, 2016, p. 21. Página 39