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1 2 3 OBSERVAÇÕES INICIAIS A prova tão aguardada prova do ENAM 2024.2 foi aplicada dia 20/10/2024. Em linhas gerais, entendemos que esta prova apresentou um nível de dificuldade maior que as duas primeiras aplicações do ENAM. O que deixará um suspense sobre o número de aprovados nesta edição. A nossa equipe segue em apoio ainda dentro do prazo recursal para uma revisão geral de todos os temas e um alerta sobre 4 (quatro) questões possíveis de recursos. A nossa intenção neste material é auxiliar nossos alunos e seguidores na análise da elaboração de seus recursos, além de possibilitar, em formato conclusivo, a revisão de temas cobrados em um estudo direcionado para suas próximas provas. O estudo de nossa prova comentada é uma tradição obrigatória para todo concurseiro de magistratura. O arquivo apresentado trata de versão preliminar elaborada com as finalidades informadas e concluído por nosso time específico de magistratura, sem maiores pretensões de aprofundamento ou trabalho editorial neste momento, que é de puro apoio. A equipe Mege, no curto tempo disponível entre a divulgação do gabarito preliminar e a apresentado deste material, constatou uma informação MUITO valiosa para nossos alunos (destrinchada questão a questão até para facilitar a localização de cada correspondência informada): todas as questões da prova poderiam ser devidamente respondidas com o conteúdo do Clube da Magistratura! Os feedbacks de vocês enchem nosso coração de alegria! Nós seguimos ansiosos pela lista de aprovações para parabenizá-los um a um. No entanto, ainda estamos na luta por mais aprovados através das anulações indicadas neste momento. RESUMO DAS MACRO INFORMAÇÕES DA PROVA Os nossos professores entendem que 4 (quatro) questões, em especial, estão envolvidas em maior polêmica a serem apreciadas (22, 57, 66 e 67), onde a questão 57 tem com sugestão uma alteração de gabarito, as demais sugerem pedidos de anulações. Portanto, podem ter suas situações alteradas na fase recursal, o que deixa em aberto a aprovação no ENAM para candidatos que tenham errado as suas respostas preliminares. Neste material consta o nosso parecer sobre as reais chances do que pode ser discutido com maior probabilidade de alteração (mas, não deixem de recorrer de outras que também vislumbrem qualquer inconsistência, o curto tempo pode ter prejudicado algum argumento válido que não conste em nossa análise de 1 dia após o gabarito). Diante disso, em nosso sentimento, ainda é possível sonhar com a aprovação na ampla concorrência até a nota 52/53 (tendo como parâmetro uma margem de erro razoável sobre a quantidade de anulações). Para cotas, a esperança pode girar entre 36/37. 4 A sua maior ou menor probabilidade dependerá do aproveitamento das questões mais polêmicas. Trata-se de mera opinião de parâmetro circunstancial de tudo que temos de informação neste momento. Aos alunos da turma do Mege para o ENAM, pedimos que não deixem de reler os conteúdos das rodadas. Nós demos o nosso melhor e ficamos muito felizes com a assertividade do que foi cobrado! A luta foi intensa e só demonstra que, independentemente de qualquer resultado, vocês são vocacionados (sim!) e estão no caminho certo! Como perceberam, o estudo em sprint final sempre é revertido em pontos decisivos. As turmas de reta final são um sucesso desde nossa primeira edição. O trabalho de pesquisa faz a diferença! Até mesmo no aulão de véspera conseguimos ser assertivos e presentar bons pontos ao lado de todos no momento do último estudo. No entanto, o estudo ganha qualidade quando dedicamos um tempo maior para assimilação. Neste sentido, não deixem de considerar a matrícula imediata no Clube da Magistratura. Inclusive, os alunos do clube recebem acesso à turma do ENAM. Com a atualização constante de nossos materiais, as questões aqui tratadas já entrarão em sua rota de menção nos nossos próximos materiais. Da mesma forma, a turma ENAM 205.1 seguirá atenta às adaptações necessárias diante do que foi observado, matéria a matéria, nesta prova. Nós fomos felizes quando mesclamos uma abordagem analítica e decoreba no estudo para esse exame. A prova comentada deixa isso muito claro. É válido citar ainda que no próximo dia 28/10 abriremos inscrições abertas para as turmas de reta final para o ENAM 2025.1 e para o Clube da Magistratura 2025.1 (que já oferece acesso à turma focada no Exame Nacional) em condições especiais de BLACK MEGE. No entanto, após a live de apresentação da prova comentada faremos uma condição especial antecipada para a turma 2025.1 do ENAM (para as 100 primeiras vagas). 5 Atualmente, estes alunos estão em nossas turmas de 2ª fase para o TJSP191 (com quase 400 alunos matrículas, ou seja, praticamente o concurso inteiro é aluno do Mege), TRF2, TJSC. Além disso, seguimos com turmas de retas finais para TJRJ, TJPE e TJMT. TURMA ENAM 2025.1 As inscrições estarão abertas em nosso site em condição promocional de lançamento por 24 horas após a divulgação da prova (com cupons especiais para ex- alunos). No dia 28/10 repetiremos a condição em nosso lançamento da BLACK MEGE! CUPONS DE DESCONTO: Ex-alunos das turmas do ENAM (Ponto a Ponto, Pré-edital, Reta Final e Pós-edital 2024.1 e 2024.2) poderão utilizar o cupom “ENAM2025” para garantir sua matrícula por apenas R$598,50 (apenas 100 vagas nessa condição!). Ex-alunos poderão utilizar o cupom "ENAM977MEGE" para garantir sua matrícula por apenas R$ 977,00. (apenas 100 vagas nessa condição!). CAMINHOS POSSÍVEIS APÓS O ENAM E TURMAS INDICADAS Após a conferência do gabarito oficial, dividimos os candidatos em 5 grupos! 🎯 Grupos 1 e 2 (1. Menos de 30 pontos - candidato do sistema de cotas; 2. Menos de 40 pontos - candidato da ampla concorrência): focar diretamente na próxima turma do mege para o ENAM. Em nossa visão, é mais produtivo dedicar energia pelos próximos meses ao estudo apenas das disciplinas do Exame Nacional. Isso irá aumentar chances de aprovação e acelerará a sua condição como candidato em concursos. Depois da aprovação, nós ajudaremos na retomada com as demais matérias. https://loja.mege.com.br/proposta/enam-20251-pre-edital 6 🎯 Grupos 3 e 4 (3. Mais de 30 e menos de 40 pontos - candidato do sistema de cotas; 4. Mais de 40 e menos de 56 pontos - candidato da ampla concorrência): Você não foi aprovado agora, mas com 6 meses pela frente não será difícil auxiliar em sua evolução para uma condição mais confortável para aprovação. No entanto, em sua condição, embora o ENAM continue como objetivo principal para os próximos meses, é importante que também tenha contato com o universo de concursos (e demais disciplinas e simulados) da sua carreira. Isso auxiliará de forma decisiva a sua retomada aos editais após aprovação no ENAM. Nós conduziremos as orientações necessárias na medida certa para dosar o seu foco no Exame Nacional e as informações em outros conteúdos de forma leve, mas não que não o deixará distante do restante da bagagem necessária para ser aprovado nas primeiras fases de concursos seguintes. 🎯 Grupo 5 (Aprovados no ENAM - sistema de cotas e ampla concorrência): Parabéns! Você agora terá um universo de possibilidades a serem aproveitadas e deverá fazer inscrições em todos os concursos possíveis. O Clube da Magistratura é sua turma obrigatória! É o curso que irá lhe acompanhar desde as próximas primeiras fases até a prova oral. Além disso, não deixe de acompanhar as turmas de retas finais lançadas pelo Mege para cada desafio específico. SE VOCÊ NÃO FOI TÃO BEM NO ENAM, NÃO SE DESESPERE! O Clube da Magistratura foi pensado para todos os níveis de concurseiro da carreira. Se você presta concursos de magistratura em outros estados, o Clube da Magistratura conta com tudo que você precisa para preparação em todas as fases do concurso. Em 2025, viveremos a sua melhorJustiça (STJ) aplicam a lógica do overruling ao revisarem seus entendimentos anteriores, estabelecendo novos paradigmas que passam a ser obrigatórios para os tribunais inferiores. _______________________________________________________________________ DIREITO ADMINISTRATIVO 17. O Município Alfa decidiu realizar a contratação de sistemas de segurança cibernética por meio da modalidade de diálogo competitivo. Após a realização do estudo técnico preliminar (ETP), a equipe de planejamento identificou diversas soluções com padrões de desempenho e qualidade já consolidados no mercado, todas satisfatórias à necessidade pública. O Termo de Referência (TR) detalhou a solução identificada no ETP, daí seguindo a elaboração do edital e da minuta do contrato. Após a publicação do edital de diálogo competitivo, um interessado na licitação ajuizou demanda judicial questionando a legalidade do procedimento sob o argumento de que essa modalidade licitatória foi utilizada de forma indevida, contrariando a Lei nº 14.133/2021. Diante desse cenário, analise as afirmativas a seguir. I. O Município pode optar pelo diálogo competitivo sempre que quiser discutir com os fornecedores as melhores condições contratuais, mesmo que já tenha identificado as soluções consolidadas no mercado. II. Uma vez que ETP e TR identificaram que o objeto possui padrões de desempenho e qualidade que podem ser objetivamente definidos no edital, por meio das especificações usuais do mercado, o pregão se torna a modalidade de licitação obrigatória, conforme o Art. 29 da Lei nº 14.133/2021. III. O diálogo competitivo é uma modalidade de licitação de caráter restrito que não se aplica à contratação de bens e serviços comuns. Está CORRETO o que se afirma em (A) I, apenas. (B) I e II, apenas. (C) I e III, apenas. (D) II e III, apenas. (E) I, II e III. _______________________________________________________________________ GABARITO: D 32 COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 7,8 e 9 de Direito Administrativo na turma ENAM II 2024, a partir da página 21. Pregão a partir da página 48. Diálogo Competitivo a partir da página 51. I. INCORRETO. Art. 6º, XLII, Lei Federal nº 14.133/2021: O diálogo competitivo é modalidade de licitação para contratação de obras, serviços e compras em que a Administração Pública realiza diálogos com licitantes previamente selecionados mediante critérios objetivos, com o intuito de desenvolver uma ou mais alternativas capazes de atender às suas necessidades, devendo os licitantes apresentar proposta final após o encerramento dos diálogos. Art. 32: Cabimento: a) Condições do objeto: - Inovação tecnológica ou técnica; - Impossibilidade de o órgão ou entidade ter sua necessidade satisfeita sem a adaptação de soluções disponíveis no mercado; - Impossibilidade de as especificações técnicas serem definidas com precisão suficiente pela Administração. + b) Necessidade de definir e identificar meios e alternativas que possam satisfazer suas necessidades, com os seguintes aspectos: - Solução técnica mais adequada; - Requisitos técnicos aptos a concretizar a solução já definida; - Estrutura jurídica ou financeira do contrato. II. CORRETO. Nos termos do inciso XLI do art. 6º, o pregão é “modalidade de licitação obrigatória para aquisição de bens e serviços comuns, cujo critério de julgamento poderá ser o de menor preço ou o de maior desconto”. Complementarmente, o art. 29 estabelece que “A concorrência e o pregão seguem o rito procedimental comum a que se refere o art. 17 desta Lei, adotando-se o pregão sempre que o objeto possuir padrões de desempenho e qualidade que possam ser objetivamente definidos pelo edital, por meio de especificações usuais de mercado”. TODAVIA, cuidado: a despeito da redação do inciso XLI do art. 6º, existe uma hipótese em que o pregão é facultativo: serviços comuns de engenharia, para os quais se admite também a modalidade da concorrência. Ademais, no caso das licitações realizadas pelas empresas estatais, o pregão é modalidade preferencial para a aquisição de bens e serviços comuns, embora, no mais, essa modalidade deva seguir as disposições da presente Lei Geral de Licitações (art. 32, IV, da Lei Federal nº 13.303/2016, c/c art. 189 da Lei Federal nº 14.133/2021). 33 Na hipótese do enunciado, contudo, não se trata de serviços comuns de engenharia, de modo que o pregão é mesmo modalidade obrigatória. III. CORRETO. Tratando-se de bens e serviços comuns, seu objeto possui padrões de desempenho e qualidade que podem ser objetivamente definidos pelo edital, por meio de especificações usuais de mercado, não sendo possível o diálogo competitivo. _______________________________________________________________________ 18. Sobre os órgãos públicos, assinale a afirmativa CORRETA. (A) São pessoas jurídicas de direito público interno criadas por lei. (B) Possuem sempre capacidade judiciária e são representados em juízo pelos seus titulares. (C) De acordo com a doutrina, podem ser de dois tipos: supremos ou subalternos. (D) Mantêm relação de identidade com os agentes públicos que desempenham as atribuições definidas em lei, motivo pelo qual deixam de existir diante da vacância dos cargos a eles atrelados. (E) A jurisprudência reconhece a possibilidade de órgãos de cúpula da hierarquia administrativa atuarem em juízo na defesa de suas prerrogativas institucionais. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS O assunto “Órgãos Públicos” foi estudado nos pontos 4,5,6 e 14 de Direito Administrativo na turma ENAM II 2024, a partir da página 8. O julgado que foi cobrado na alternativa correta (Letra E) foi estudado especificamente na página 9. A doutrina conceitua órgão público como feixes de competências administrativas ou plexo de atribuições administrativas componentes de unidades integrantes de uma pessoa jurídica. Vale dizer, são unidades de atribuições, partições internas abstratas de determinada pessoa jurídica. Hely Lopes MEIRELLES explica que, enquanto feixe de atribuições, os órgãos públicos não se confundem com os agentes públicos: “Cada órgão, como centro de competência governamental ou administrativa, tem necessariamente funções, cargos e agentes, mas é distinto desses elementos, que podem ser modificados, substituídos ou retirados sem supressão da unidade orgânica. Isto explica por que a alteração de funções, ou a vacância dos cargos, ou a mudança de seus titulares não acarreta a extinção do órgão”. Enfim, os órgãos públicos são centros especializados de competência integrantes de uma pessoa jurídica e instituídos para o desempenho especializado de funções estatais. As CARACTERÍSTICAS do órgão público são as seguintes: a) Ausência de personalidade jurídica, de modo que a responsabilidade pelos seus atos é da pessoa jurídica a que pertence (apesar disso, podem ter CNPJ). Não é o órgão que 34 celebra contratos: o órgão realiza a licitação e a execução do contrato, mas a parte no contrato tem que ser a pessoa jurídica. É possível que, por lei, seja delegada a função de assinar o contrato para o gestor do órgão. CUIDADO: O art. 37, § 8º, da CF/88, introduzido pela EC 19/98, prevê a possibilidade de o contrato de desempenho, recentemente regulado pela Lei nº 13.934/19, (para ampliar a autonomia gerencial, orçamentária e financeira de órgãos e entidades da Administração) ser celebrado por órgãos e firmado por seus administradores. Apenas nessa hipótese é que, em provas, há de se considerar possível órgão celebrar contrato. Se a assertiva for genérica, deve ser tida por incorreta. b) Pode ter capacidade processual, nas hipóteses de defesa de prerrogativas funcionais, ou seja, naquilo que estiver diretamente ligado ao exercício de suas funções (personalidade judiciária). É essa a posição do STJ (AgRg no REsp 700.136/AP, julgado em 24/08/2010)._______________________________________________________________________ 19. Khan, servidor público federal lotado no Ministério Alfa, figura como réu em ação penal na qual é acusado de peculato e concussão (Art. 312 e Art. 316, ambos do Código Penal). O inquérito policial fora instaurado a partir de comunicação anônima apresentada na ouvidoria do órgão, corroborada por outros elementos de prova, resultando na posterior obtenção de provas por meio da interceptação telefônica, autorizada pela autoridade judiciária. Ciente desses fatos, a autoridade administrativa competente determinou a instauração de processo administrativo disciplinar (PAD), que foi regularmente constituído e desenvolvido. Apoiando-se no enunciado da Súmula 591 do Superior Tribunal de Justiça, a comissão responsável obteve o compartilhamento de provas do processo criminal, respeitados o contraditório e a ampla defesa. Dias depois, Carol Marcus, servidora pública lotada na mesma repartição, encontrou diversos documentos em um armário, que evidenciavam os malfeitos de Khan. Desconhecendo a existência da ação penal e do PAD, Carol Marcus comunicou imediatamente o fato ao seu chefe, James Kirk, que, ao tomar ciência, enviou o material encontrado para a comissão responsável. No entanto, ainda no curso do PAD e antes da decisão final, o Tribunal Regional Federal (TRF) competente deu provimento a um recurso do réu para reconhecer a incompetência do juízo que presidia a ação penal, assim como para invalidar as provas obtidas por meio da interceptação telefônica, reputando-as ilegais. Diante desse cenário, assinale a afirmativa CORRETA. (A) O PAD deve ser integralmente anulado, pois a decisão do TRF que reconheceu a incompetência do juízo penal e invalidou as provas por interceptação telefônica afeta diretamente a validade do PAD, uma vez que todas as provas utilizadas na instrução do processo disciplinar foram consideradas ilegais. (B) A decisão do TRF não impede a continuidade do PAD, mas exige que as provas obtidas por meio da interceptação telefônica sejam desconsideradas pela comissão responsável. No entanto, o PAD pode prosseguir e ser instruído com as novas provas encontradas pela servidora pública na repartição. 35 (C) O PAD deve ser imediatamente suspenso até que sobrevenha decisão judicial que confirme ou anule a decisão do TRF. (D) A decisão do TRF torna nulo todo o PAD, inclusive as provas encontradas posteriormente pela servidora pública, uma vez que a invalidação das provas principais afeta toda a cadeia probatória, impedindo o uso de qualquer material obtido no curso do processo. (E) A decisão do TRF que invalida as provas por interceptação telefônica no processo penal não impede que essas mesmas provas sejam utilizadas no PAD, uma vez que o regime probatório no processo administrativo disciplinar é mais flexível e admite a utilização de provas obtidas em outros processos, independentemente de sua validade no processo penal. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 7,8 e 9 de Direito Administrativo na turma ENAM II 2024, na página 98. Como o juízo criminal em que as provas obtidas por meio de interceptação telefônica foi considerado incompetente, seu empréstimo ao PAD não é mais possível. Entretanto, o PAD pode regularmente continuar porque: (i) a uma, porque foi instaurado regularmente, a partir de denúncia anônima corroborada por outros elementos de prova; e (ii) a duas, porque a comissão processante recebeu outros elementos de prova que lhe conferem lastro mínimo independente. Confiramos a jurisprudência do STJ que embasa o entendimento da alternativa “b”: Enunciado 05 da Edição nº 154 da Jurisprudência em Teses do STJ: Desde que devidamente motivada e com amparo em investigação ou sindicância, é permitida a instauração de processo administrativo disciplinar com base em denúncia anônima, em face do poder-dever de autotutela imposto à Administração. (Súmula n. 611/STJ) MS 21084/DF, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 26/10/2016, DJe 01/12/2016 Enunciado 26 da Edição nº 154 da Jurisprudência em Teses do STJ: “É permitida a prova emprestada no processo administrativo disciplinar, desde que devidamente autorizada pelo juízo competente e respeitados o contraditório e a ampla defesa”. (Súmula n. 591/STJ) MS 25131/DF, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 27/11/2019, DJe 08/05/2020 Enunciado 29 da Edição nº 154 da Jurisprudência em Teses do STJ: “As instâncias administrativa e penal são independentes entre si, salvo quando reconhecida a inexistência do fato ou a negativa de autoria na esfera criminal”. AgInt no RMS about:blank about:blank about:blank about:blank https://scon.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?i=1&b=ACOR&livre=((%27MS%27.clap.+e+@num=%2721084%27)+ou+(%27MS%27+adj+%2721084%27.suce.))&thesaurus=JURIDICO&fr=veja https://scon.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?i=1&b=ACOR&livre=((%27MS%27.clap.+e+@num=%2721084%27)+ou+(%27MS%27+adj+%2721084%27.suce.))&thesaurus=JURIDICO&fr=veja about:blank about:blank about:blank about:blank https://scon.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?i=1&b=ACOR&livre=((%27MS%27.clap.+e+@num=%2725131%27)+ou+(%27MS%27+adj+%2725131%27.suce.))&thesaurus=JURIDICO&fr=veja about:blank about:blank about:blank https://scon.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?i=1&b=ACOR&livre=((%27AIRMS%27.clas.+e+@num=%2762007%27)+ou+(%27AgInt%20no%20RMS%27+adj+%2762007%27.suce.))&thesaurus=JURIDICO&fr=veja 36 62007/SC, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em 22/04/2020, DJe 27/04/2020 _______________________________________________________________________ 20. A agência reguladora deverá observar, em suas atividades, a devida adequação entre meios e fins, vedada a imposição de obrigações, restrições e sanções em medida superior àquela necessária ao atendimento do interesse público. A respeito da atuação das agências reguladoras, analise as afirmativas a seguir. I. No exercício de suas competências definidas em lei, duas ou mais agências reguladoras poderão editar atos normativos conjuntos, dispondo sobre matéria cuja disciplina envolva agentes econômicos sujeitos a mais de uma regulação setorial, desde que sejam previamente aprovados pelos setores regulados, após consulta formal. II. Os atos normativos conjuntos deverão conter regras sobre a fiscalização de sua execução e prever mecanismos de solução de controvérsias decorrentes de sua aplicação, podendo admitir uma solução mediante mediação, nos termos da Lei nº 13.140/2015 (Lei da Mediação), ou mediante arbitragem, feita por uma comissão integrada, entre outros, por representantes de todas as agências reguladoras envolvidas. III. As agências reguladoras poderão articular-se com os órgãos de defesa do meio ambiente mediante a celebração de convênios e acordos de cooperação, visando ao intercâmbio de informações, à padronização de exigências e procedimentos, à celeridade na emissão de licenças ambientais e à maior eficiência nos processos de fiscalização. Está CORRETO o que se afirma em (A) I, apenas. (B) I e II, apenas. (C) I e III apenas. (D) II e III apenas. (E) I, II e III. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 5,5,6 e 14 de Direito Administrativo na turma ENAM II 2024, a partir da página 19. A Lei 13.848/19 que trata das Agências Reguladoras Federais foi abordado na 22ª Remessa de Circuito Legislativo. A “articulação entre agências reguladoras” é disciplinada pelos arts. 29 e 30 da Lei Federal nº 13.848/2019. Além disso, nos arts. 31-33 da Lei, consta a chamada “articulação das agências reguladoras com os órgãos de defesa do consumidor e do meio https://scon.stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/toc.jsp?i=1&b=ACOR&livre=((%27AIRMS%27.clas.+e+@num=%2762007%27)+ou+(%27AgInt%20no%20RMS%27+adj+%2762007%27.suce.))&thesaurus=JURIDICO&fr=veja37 ambiente”. Por fim, os arts. 34-35 trazem a “interação operacional entre agências reguladoras federais e agências reguladoras ou os órgãos de regulação estaduais, distritais e municipais”. Vejamos: CAPÍTULO IV DA ARTICULAÇÃO ENTRE AGÊNCIAS REGULADORAS Art. 29. No exercício de suas competências definidas em lei, duas ou mais agências reguladoras poderão editar atos normativos conjuntos dispondo sobre matéria cuja disciplina envolva agentes econômicos sujeitos a mais de uma regulação setorial. § 1º Os atos normativos conjuntos deverão ser aprovados pelo conselho diretor ou pela diretoria colegiada de cada agência reguladora envolvida, por procedimento idêntico ao de aprovação de ato normativo isolado, observando-se em cada agência as normas aplicáveis ao exercício da competência normativa previstas no respectivo regimento interno. § 2º Os atos normativos conjuntos deverão conter regras sobre a fiscalização de sua execução e prever mecanismos de solução de controvérsias decorrentes de sua aplicação, podendo admitir solução mediante mediação, nos termos da Lei nº 13.140, de 26 de junho de 2015 (Lei da Mediação), ou mediante arbitragem por comissão integrada, entre outros, por representantes de todas as agências reguladoras envolvidas. Art. 30. As agências reguladoras poderão constituir comitês para o intercâmbio de experiências e informações entre si ou com os órgãos integrantes do Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência (SBDC), visando a estabelecer orientações e procedimentos comuns para o exercício da regulação nas respectivas áreas e setores e a permitir a consulta recíproca quando da edição de normas que impliquem mudanças nas condições dos setores regulados. CAPÍTULO V DA ARTICULAÇÃO DAS AGÊNCIAS REGULADORAS COM OS ÓRGÃOS DE DEFESA DO CONSUMIDOR E DO MEIO AMBIENTE Art. 31. No exercício de suas atribuições, e em articulação com o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor (SNDC) e com o órgão de defesa do consumidor do Ministério da Justiça e Segurança Pública, incumbe às agências reguladoras zelar pelo cumprimento da legislação de defesa do consumidor, monitorando e acompanhando as práticas de mercado dos agentes do setor regulado. § 1º As agências reguladoras poderão articular-se com os órgãos e as entidades integrantes do SNDC, visando à eficácia da proteção e defesa do consumidor e do usuário de serviço público no âmbito das respectivas esferas de atuação. 38 § 2º As agências reguladoras poderão firmar convênios e acordos de cooperação com os órgãos e as entidades integrantes do SNDC para colaboração mútua, sendo vedada a delegação de competências que tenham sido a elas atribuídas por lei específica de proteção e defesa do consumidor no âmbito do setor regulado. Art. 32. Para o cumprimento do disposto nesta Lei, as agências reguladoras são autorizadas a celebrar, com força de título executivo extrajudicial, termo de ajustamento de conduta com pessoas físicas ou jurídicas sujeitas a sua competência regulatória, aplicando-se os requisitos do art. 4º-A da Lei nº 9.469, de 10 de julho de 1997. § 1º Enquanto perdurar a vigência do correspondente termo de ajustamento de conduta, ficará suspensa, em relação aos fatos que deram causa a sua celebração, a aplicação de sanções administrativas de competência da agência reguladora à pessoa física ou jurídica que o houver firmado. § 2º A agência reguladora deverá ser comunicada quando da celebração do termo de ajustamento de conduta a que se refere o § 6º do art. 5º da Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985, caso o termo tenha por objeto matéria de natureza regulatória de sua competência. Art. 33. As agências reguladoras poderão articular-se com os órgãos de defesa do meio ambiente mediante a celebração de convênios e acordos de cooperação, visando ao intercâmbio de informações, à padronização de exigências e procedimentos, à celeridade na emissão de licenças ambientais e à maior eficiência nos processos de fiscalização. CAPÍTULO VI DA INTERAÇÃO OPERACIONAL ENTRE AS AGÊNCIAS REGULADORAS FEDERAIS E AS AGÊNCIAS REGULADORAS OU OS ÓRGÃOS DE REGULAÇÃO ESTADUAIS, DISTRITAIS E MUNICIPAIS Art. 34. As agências reguladoras de que trata esta Lei poderão promover a articulação de suas atividades com as de agências reguladoras ou órgãos de regulação dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, nas respectivas áreas de competência, implementando, a seu critério e mediante acordo de cooperação, a descentralização de suas atividades fiscalizatórias, sancionatórias e arbitrais, exceto quanto a atividades do Sistema Único de Saúde (SUS), que observarão o disposto em legislação própria. § 1º É vedada a delegação de competências normativas. § 2º A descentralização de que trata o caput será instituída desde que a agência reguladora ou o órgão de regulação da 39 unidade federativa interessada possua serviços técnicos e administrativos competentes devidamente organizados e aparelhados para a execução das respectivas atividades, conforme condições estabelecidas em regimento interno da agência reguladora federal. § 3º A execução, por agência reguladora ou órgão de regulação estadual, distrital ou municipal, das atividades delegadas será permanentemente acompanhada e avaliada pela agência reguladora federal, nos termos do respectivo acordo. § 4º Na execução das atividades de fiscalização objeto de delegação, a agência reguladora ou o órgão regulador estadual, distrital ou municipal que receber a delegação observará as normas legais e regulamentares federais pertinentes. § 5º É vedado à agência reguladora ou ao órgão regulador estadual, distrital ou municipal conveniado, no exercício de competência fiscalizatória delegada, exigir de concessionária ou permissionária obrigação não prevista previamente em contrato. § 6º Além do disposto no § 2º deste artigo, a delegação de competências fiscalizatórias, sancionatórias e arbitrais somente poderá ser efetivada em favor de agência reguladora ou órgão de regulação estadual, distrital ou municipal que gozar de autonomia assegurada por regime jurídico compatível com o disposto nesta Lei. § 7º Havendo delegação de competência, a agência reguladora delegante permanecerá como instância superior e recursal das decisões tomadas no exercício da competência delegada. Art. 35. No caso da descentralização prevista no caput do art. 34, parte da receita arrecadada pela agência reguladora federal poderá ser repassada à agência reguladora ou ao órgão de regulação estadual, distrital ou municipal, para custeio de seus serviços, na forma do respectivo acordo de cooperação. Parágrafo único. O repasse referido no caput deste artigo deverá ser compatível com os custos da agência reguladora ou do órgão de regulação local para realizar as atividades delegadas. _______________________________________________________________________ 21. Sobre o regime constitucional dos agentes públicos e a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, assinale a afirmativa incorreta. (A) É constitucional a fixação de tempo de serviço público em um determinado ente federativo como critério de desempate em concursos públicos. (B) Só por lei se pode sujeitar a exame psicotécnico a habilitação de um candidato a cargo público. 40 (C) Os cargos, os empregos e as funções públicas são acessíveis aos brasileiros que preencham os requisitos estabelecidos em lei, assim como aos estrangeiros, na forma da lei. (D) O membro de poder público, o detentor de mandato eletivo, os ministros de Estado e os secretários estaduais e municipais serão remunerados exclusivamente por subsídio fixado em parcela única, vedado o acréscimo de qualquer gratificação, adicional, abono, prêmio, verba de representação ou outra espécie remuneratória, obedecido, em qualquer caso, o disposto no Art. 37, incisos X e XI, da Constituição Federal de 1988. (E) É vedada a incorporação de vantagens de caráter temporárioou vinculadas ao exercício de função de confiança ou de cargo em comissão à remuneração do cargo efetivo. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 13,15,16 e 17 de Direito Administrativo na turma ENAM II 2024, a partir da página 18. A alternativa B trata-se da Súmula Vinculante 44 encontrada na página 24 do mesmo material. A alternativa C pode ser encontrada também na página 24, trata-se da literalidade do art. 37 da CF. A alternativa D foi abordada na página 40 do mesmo material. (A) INCORRETA. STF - ADI: 5358 PA 8622294-44.2015.1.00.0000, Relator: ROBERTO BARROSO, Data de Julgamento: 30/11/2020, Tribunal Pleno, Data de Publicação: 15/12/2020: DIREITO CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. CONCURSO PÚBLICO. LEI ESTADUAL QUE FIXA CRITÉRIO DE DESEMPATE. 1. Trata-se de Ação Direta de Inconstitucionalidade que impugna norma estadual que define, como critério de desempate em concurso público, a preferência ao servidor do Estado e, persistindo o empate, àquele que contar com maior tempo de serviço ao Estado. 2. Critério que se revela ilegítimo, pois não assegura a seleção do candidato mais capacitado ou experiente, já que favorece o servidor estadual, em detrimento de servidores federais, municipais e de trabalhadores da iniciativa privada que tenham tempo superior de exercício profissional, e ademais desvinculado das aptidões necessárias ao cargo a ser provido. 3. Violação dos princípios constitucionais da isonomia e da impessoalidade. Afronta ao disposto no art. 19, III, da CF/88, que 41 veda à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios a criação de distinções entre brasileiros ou preferências entre si. 4. Cautelar confirmada e pedido julgado procedente, para declarar a inconstitucionalidade do art. 10, §§ 1º e 2º, da Lei nº 5.810/1994, do Estado do Pará. Fixada a seguinte tese: “É inconstitucional a fixação de critério de desempate em concursos públicos que favoreça candidatos que pertencem ao serviço público de um determinado ente federativo”. (B) CORRETA. Súmula Vinculante 44: Só por lei se pode sujeitar a exame psicotécnico a habilitação de candidato a cargo público. (C) CORRETA. Art. 37, caput, I, CF/88: I - os cargos, empregos e funções públicas são acessíveis aos brasileiros que preencham os requisitos estabelecidos em lei, assim como aos estrangeiros, na forma da lei; (D) CORRETA. O subsídio é forma de remuneração fixada em parcela única, vedado o acréscimo de outras vantagens pecuniárias (gratificação, adicional, abono, prêmio, verba de representação etc.). O regime é obrigatório para algumas carreiras delimitadas na Constituição e de adoção facultativa para os agentes organizados em carreira (escalonamento hierarquizado de cargos). Devem adotar obrigatoriamente o regime de subsídio: - Membro de Poder (Executivo, Legislativo e Judiciário), o detentor de mandato eletivo, os Ministros de Estado e os Secretários Estaduais e Municipais (art. 39, § 4º, da CF/88); - Membros dos Tribunais de Contas (art. 73, § 3º, da CF/88); - Membros do Ministério Público (art. 128, § 5º, da CF/88); - Membros da Advocacia Pública (art. 135 da CF/88); - Defensores Públicos (art. 135 da CF/88); - Carreiras Policiais (art. 144, § 9º da CF/88). (E) CORRETA. A EC 103/2019 inseriu o § 9º no art. 39 da CF/88 estabelecendo ser “vedada a incorporação de vantagens de caráter temporário ou vinculadas ao exercício de função de confiança ou de cargo em comissão à remuneração do cargo efetivo”. De acordo com o art. 13 da EC 103/2019, a nova regra não se aplica a parcelas remuneratórias decorrentes de incorporação de vantagens de caráter temporário ou vinculadas ao exercício de função de confiança ou de cargo em comissão efetivada até a data de entrada da emenda. _______________________________________________________________________ 22. O Ministério Público ajuizou, em 2022, ação de improbidade em face de João, de Pedro e de Inácio, pela conduta praticada em 2020 de, dolosamente, “conceder benefício administrativo ou fiscal sem a observância das formalidades legais ou regulamentares aplicáveis à espécie”. Realizado o pedido de indisponibilidade de bens na petição inicial, o juiz deferiu a medida, entendendo ser desnecessária a comprovação de que os réus estavam dilapidando seu patrimônio. 42 Acerca da indisponibilidade de bens na ação de improbidade, com base na lei e no entendimento do Superior Tribunal de Justiça, assinale a afirmativa CORRETA. (A) A Lei de Improbidade Administrativa, com as alterações da Lei nº 14.320/2021, autorizou a constrição em valores desiguais entre os réus, desde que o somatório não ultrapasse o montante indicado na petição inicial como dano ao erário ou como enriquecimento ilícito. (B) A Lei de Improbidade Administrativa prevê expressamente que a decisão cautelar de indisponibilidade de bens ocorrerá no limite da participação e dos benefícios diretos, vedada qualquer solidariedade. (C) A indisponibilidade pode ser decretada em qualquer hipótese de ato de improbidade e deve abranger o pagamento da multa civil. (D) Em razão da natureza do ato, é possível que a medida de indisponibilidade recaia, em qualquer hipótese, sobre bem de família e sobre aplicações financeiras, inclusive em montante inferior a 40 salários mínimos. (E) A Lei nº 14.230/2021 positivou o entendimento anterior do STJ no sentido de ser desnecessária a comprovação de atos de dilapidação do patrimônio para a decretação da medida de indisponibilidade de bens. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS QUESTÃO PASSÍVEL DE ANULAÇÃO. O assunto foi estudado nos pontos 18 a 21 de Direito Administrativo na turma ENAM II 2024. (A) (IN)CORRETA. Isso não está expresso exatamente expresso na disciplina da medida de indisponibilidade dada pelo art. 16 da Lei Federal n.º 8.429/1992 (com redação dada pela Lei Federal n.º 14.230/2021). Com efeito, o § 5º do art. 16 estabelece apenas o limite global da indisponibilidade, no montante indicado na petição inicial como dano ao erário ou como enriquecimento ilícito: “Se houver mais de um réu na ação, a somatória dos valores declarados indisponíveis não poderá superar o montante indicado na petição inicial como dano ao erário ou como enriquecimento ilícito”. Não é dito, efetivamente, que os corréus poderão sofrer a medida de indisponibilidade em valores distintos. Trata-se, entretanto, de entendimento perfilhado pela doutrina majoritária, nela despontando o professor Marçal Justen Filho, para quem, de acordo com a sistemática introduzida pela Lei 14.230/2021, a medida de indisponibilidade de bens, se decretada (observados os requisitos legais), deve não apenas observar o limite relativo ao valor do dano indicado na petição inicial (art. 16, §5º), mas também o limite da participação do réu, considerando as condutas de forma individualizada (art. 17, §6º, I). 43 TODAVIA, ressalve-se que, em sentido contrário ao texto do § 5º do art. 16 da LIA, a 1ª Seção do STJ, no julgamento dos REsp’s n.ºs 1.955.116/AM, 1.955.300/DF, 1.955.440/DF, 1.955.957/MG (Tema 1.213), ocorrido em 22/05/2024, concluiu que “"Para fins de indisponibilidade de bens, há solidariedade entre os corréus da ação de improbidade administrativa, de modo que a constrição deve recair sobre os bens de todos eles, sem divisão em cota parte, limitando-se o somatório da medida ao quantum determinado pelo juiz, sendo defeso que o bloqueio corresponda ao débito total em relação a cada um.". (B) INCORRETA. Essa previsão se refere à sentença condenatória, estando no art. 17-C, § 2º: “Na hipótese de litisconsórcio passivo, a condenação ocorrerá no limite da participação e dos benefícios diretos, vedada qualquer solidariedade”. (C) INCORRETA. De acordo como art. 16, caput, da LIA, o pedido de indisponibilidade de bens dos réus se destina a garantir a integral recomposição do erário ou do acréscimo patrimonial resultante de enriquecimento ilícito. Não é mais possível, pois, no caso de violação a princípios da administração pública. (D) INCORRETA. Art. 16, § 10. “A indisponibilidade recairá sobre bens que assegurem exclusivamente o integral ressarcimento do dano ao erário, sem incidir sobre os valores a serem eventualmente aplicados a título de multa civil ou sobre acréscimo patrimonial decorrente de atividade lícita”. (E) INCORRETA. Art. 16, § 3º. “O pedido de indisponibilidade de bens a que se refere o caput deste artigo apenas será deferido mediante a demonstração no caso concreto de perigo de dano irreparável ou de risco ao resultado útil do processo, desde que o juiz se convença da probabilidade da ocorrência dos atos descritos na petição inicial com fundamento nos respectivos elementos de instrução, após a oitiva do réu em 5 (cinco) dias”. _______________________________________________________________________ 23. A Lei nº 14.210/2021 inseriu o Art. 49-A na Lei nº 9.784/1999 para tratar da decisão coordenada, entendida como a instância de natureza interinstitucional ou intersetorial que atua de forma compartilhada, com a finalidade de simplificar o processo administrativo, mediante a participação concomitante de todas as autoridades, de todos os agentes decisórios e dos responsáveis pela instrução técnico-jurídica, observadas a natureza do objeto e a compatibilidade do procedimento e de sua formalização com a legislação pertinente. Sobre o tema, assinale a afirmativa CORRETA. (A) A decisão coordenada exclui a responsabilidade originária de cada órgão ou autoridade envolvida. (B) A decisão coordenada obedecerá aos princípios da legalidade, da eficiência, da transparência, do formalismo e da descentralização das instâncias decisórias. 44 (C) A fim de conferir maior eficiência à Administração, é possível a utilização da decisão coordenada nos processos de licitação. (D) No âmbito da Administração Pública Federal, as decisões administrativas que exijam a participação de três ou mais setores, órgãos ou entidades poderão ser tomadas mediante decisão coordenada, sempre que for justificável pela relevância da matéria ou houver discordância que prejudique a celeridade do processo administrativo decisório. (E) Apesar da ausência de previsão legal, a doutrina defende que as organizações e associações representativas, no tocante a direitos e interesses coletivos, poderão habilitar-se a participar da decisão coordenada, na qualidade de ouvintes. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS O assunto foi estudado na 6ª Remessa de Circuitos Legislativos na turma ENAM II 2024. A decisão coordenada consta do art. 49-A da Lei Federal nº 9.784/1999, incluído pela Lei Federal nº 14.210/2021: DA DECISÃO COORDENADA Art. 49-A. No âmbito da Administração Pública federal, as decisões administrativas que exijam a participação de 3 (três) ou mais setores, órgãos ou entidades poderão ser tomadas mediante decisão coordenada, sempre que: I - for justificável pela relevância da matéria; e II - houver discordância que prejudique a celeridade do processo administrativo decisório. § 1º Para os fins desta Lei, considera-se decisão coordenada a instância de natureza interinstitucional ou intersetorial que atua de forma compartilhada com a finalidade de simplificar o processo administrativo mediante participação concomitante de todas as autoridades e agentes decisórios e dos responsáveis pela instrução técnico-jurídica, observada a natureza do objeto e a compatibilidade do procedimento e de sua formalização com a legislação pertinente. § 4º A decisão coordenada não exclui a responsabilidade originária de cada órgão ou autoridade envolvida. § 5º A decisão coordenada obedecerá aos princípios da legalidade, da eficiência e da transparência, com utilização, sempre que necessário, da simplificação do procedimento e da concentração das instâncias decisórias. § 6º Não se aplica a decisão coordenada aos processos administrativos: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9784.htm#art49a 45 I - de licitação; II - relacionados ao poder sancionador; ou III - em que estejam envolvidas autoridades de Poderes distintos. Art. 49-B. Poderão habilitar-se a participar da decisão coordenada, na qualidade de ouvintes, os interessados de que trata o art. 9º desta Lei. Parágrafo único. A participação na reunião, que poderá incluir direito a voz, será deferida por decisão irrecorrível da autoridade responsável pela convocação da decisão coordenada. Art. 49-D. Os participantes da decisão coordenada deverão ser intimados na forma do art. 26 desta Lei. Art. 49-E. Cada órgão ou entidade participante é responsável pela elaboração de documento específico sobre o tema atinente à respectiva competência, a fim de subsidiar os trabalhos e integrar o processo da decisão coordenada. Parágrafo único. O documento previsto no caput deste artigo abordará a questão objeto da decisão coordenada e eventuais precedentes. Art. 49-F. Eventual dissenso na solução do objeto da decisão coordenada deverá ser manifestado durante as reuniões, de forma fundamentada, acompanhado das propostas de solução e de alteração necessárias para a resolução da questão. Parágrafo único. Não poderá ser arguida matéria estranha ao objeto da convocação. Art. 49-G. A conclusão dos trabalhos da decisão coordenada será consolidada em ata, que conterá as seguintes informações: I - relato sobre os itens da pauta; II - síntese dos fundamentos aduzidos; III - síntese das teses pertinentes ao objeto da convocação; IV - registro das orientações, das diretrizes, das soluções ou das propostas de atos governamentais relativos ao objeto da convocação; V - posicionamento dos participantes para subsidiar futura atuação governamental em matéria idêntica ou similar; e VI - decisão de cada órgão ou entidade relativa à matéria sujeita à sua competência. § 1º Até a assinatura da ata, poderá ser complementada a fundamentação da decisão da autoridade ou do agente a respeito de matéria de competência do órgão ou da entidade representada. § 2º (VETADO). https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9784.htm#art49b https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9784.htm#art49d https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9784.htm#art49e https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9784.htm#art49f https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9784.htm#art49g 46 § 3º A ata será publicada por extrato no Diário Oficial da União, do qual deverão constar, além do registro referido no inciso IV do caput deste artigo, os dados identificadores da decisão coordenada e o órgão e o local em que se encontra a ata em seu inteiro teor, para conhecimento dos interessados.” _______________________________________________________________________ 24. Uma associação privada ajuizou ação civil pública que questionava o patrocínio dado à Procissão do Fogaréu pelo Estado Alfa, alegando que o uso dos recursos públicos para o evento não atendia ao interesse público. O Estado defendeu o patrocínio, por meio de sua Procuradoria, argumentando que a Procissão do Fogaréu é patrimônio imaterial da comunidade e promove um importante evento em seu calendário cultural, atraindo milhares de turistas. Comprovou tais argumentos pela juntada de diversos documentos relativos à ocupação da rede hoteleira e à arrecadação tributária. Encerrada a fase instrutória, os autos eletrônicos foram remetidos à conclusão para sentença. Considerando o disposto na Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), assinale a afirmativa incorreta. (A) De acordo com a LINDB, se o controle judicial de atos do Poder Público se fundamentar em valores jurídicos abstratos, impõe-seao Poder Judiciário considerar as consequências práticas da decisão. (B) A LINDB introduz um dever de justificação qualificada sobre a proporcionalidade do controle judicial da validade de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa, sendo necessário demonstrar a adequação e necessidade da medida, inclusive em face das possíveis alternativas. (C) A noção de interesse público é vaga, indeterminada, não possuindo, por si só, densidade suficiente para embasar, de maneira consistente, eventual decisão favorável à associação privada. (D) O controle judicial do contrato de patrocínio deve se ater exclusivamente aos seus aspectos formais, sendo vedado ao Poder Judiciário considerar as possíveis consequências práticas de suas decisões. (E) Na indicação das consequências práticas da decisão, o Poder Judiciário apresentará apenas aquelas consequências práticas que, no exercício diligente de sua atuação, consiga vislumbrar diante dos fatos e fundamentos de mérito e jurídicos. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS O assunto foi abordado na 3ª Remessa do Circuito Legislativo de Constitucional, Civil, Penal e Processo Civil na turma ENAM II 2024. (A) CORRETA. 47 Art. 20, caput, LINDB. “Nas esferas administrativa, controladora e judicial, não se decidirá com base em valores jurídicos abstratos sem que sejam consideradas as consequências práticas da decisão.” (B) CORRETA. Art. 20, par. único, LINDB: “A motivação demonstrará a necessidade e a adequação da medida imposta ou da invalidação de ato, contrato, ajuste, processo ou norma administrativa, inclusive em face das possíveis alternativas.” (C) CORRETA. A Lei Federal nº 13.655/2018 introduziu na LINDB os princípios estruturantes do primado da realidade e do consequencialismo. (D) INCORRETA. Art. 20, caput, LINDB. (E) CORRETA. O Judiciário continua vinculado aos limites objetivos da demanda. _______________________________________________________________________ 25. A diretoria de administração de um Tribunal de Justiça está executando um projeto de criação de um painel gerencial (dashboard) para apresentar as atividades desenvolvidas pelas serventias judiciais. O painel agregará dados anonimizados relacionados ao acervo cartorário, à estrutura, à força de trabalho e aos custos de todas as serventias do Tribunal. A liderança do projeto defende que o painel permitirá a supervisão das atividades das serventias judiciais e subsidiará a tomada de decisão pela Presidência do Tribunal de Justiça. Uma entidade privada, constituída para a defesa de interesses individuais e coletivos, tomou conhecimento da medida e decidiu impetrar mandado de segurança, sustentando a incompatibilidade do tratamento de dados com a Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018). Nesse caso, assinale a opção que indica a base legal para o tratamento dos dados mencionados. (A) Legítimo interesse. (B) Realização de estudos por órgão de pesquisa. (C) Tratamento e uso compartilhado de dados necessários para a execução de políticas públicas. (D) Execução de contrato ou de procedimentos preliminares relacionados a contrato. (E) Consentimento. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS 48 O assunto foi abordado na 2ª Remessa do Circuito Legislativo de Direitos Humanos e Humanística na turma ENAM II 2024. Art. 7º, III, da Lei Federal nº 13.709/2018 – LGPD: Art. 7º O tratamento de dados pessoais somente poderá ser realizado nas seguintes hipóteses: I - mediante o fornecimento de consentimento pelo titular; II - para o cumprimento de obrigação legal ou regulatória pelo controlador; III - pela administração pública, para o tratamento e uso compartilhado de dados necessários à execução de políticas públicas previstas em leis e regulamentos ou respaldadas em contratos, convênios ou instrumentos congêneres, observadas as disposições do Capítulo IV desta Lei; IV - para a realização de estudos por órgão de pesquisa, garantida, sempre que possível, a anonimização dos dados pessoais; V - quando necessário para a execução de contrato ou de procedimentos preliminares relacionados a contrato do qual seja parte o titular, a pedido do titular dos dados; VI - para o exercício regular de direitos em processo judicial, administrativo ou arbitral, esse último nos termos da Lei nº 9.307, de 23 de setembro de 1996 (Lei de Arbitragem) ; VII - para a proteção da vida ou da incolumidade física do titular ou de terceiro; VIII - para a tutela da saúde, em procedimento realizado por profissionais da área da saúde ou por entidades sanitárias; VIII - para a tutela da saúde, exclusivamente, em procedimento realizado por profissionais de saúde, serviços de saúde ou autoridade sanitária; IX - quando necessário para atender aos interesses legítimos do controlador ou de terceiro, exceto no caso de prevalecerem direitos e liberdades fundamentais do titular que exijam a proteção dos dados pessoais; ou X - para a proteção do crédito, inclusive quanto ao disposto na legislação pertinente. _______________________________________________________________________ 26. Após uma série de atos de vandalismo, a prefeitura de Gama decidiu instalar câmeras de vigilância em praças públicas. Entidades privadas de defesa dos direitos civis contestaram a medida, argumentando que a vigilância constante pode inibir a liberdade de expressão e de reunião, violando direitos fundamentais garantidos pela Constituição Federal de 1988. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9307.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9307.htm 49 Em resposta, a prefeitura justificou a medida como adequada, necessária e proporcional para proteger o patrimônio público e contribuir para a segurança das pessoas que utilizam os equipamentos públicos. Essa medida pode representar uma possível tensão entre o exercício das funções administrativas de interesse público e o respeito aos direitos e às garantias fundamentais. Considerando os princípios constitucionais da atividade administrativa, analise as afirmativas a seguir. I. Atualmente, o princípio da legalidade no Direito Administrativo é compreendido como norma que vincula a atuação administrativa não apenas à lei, mas também ao Direito ou ao chamado bloco de constitucionalidade. II. Os direitos à vida privada e à intimidade podem ser limitados em situações de interesse público, desde que a medida seja adequada, necessária e proporcional ao fim almejado pela Administração Pública. III. O princípio da proporcionalidade no Direito Administrativo exige que, na atuação estatal, as medidas adotadas sejam adequadas e necessárias, mas no teste de proporcionalidade em sentido estrito vence a supremacia do interesse público. Está CORRETO o que se afirma em (A) I, apenas. (B) I e II, apenas. (C) I e III, apenas. (D) II e III, apenas. (E) I, II e III. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 1 a 3 – Conforme edital do ENAM de Direito Administrativo e nos pontos 1 a 5 (parte 1) de Direito Constitucional na turma ENAM II 2024. I. CORRETO. Numa perspectiva neoconstitucionalista e pós-positivista, o princípio da legalidade é compreendido como princípio da juridicidade, abrangente do Direito como um todo, seus princípios e valores albergados pela Constituição. Entretanto, não se trata apenas da Constituição em sentido formal, o texto positivado da CF/88, afinal de contas, reconhece-se também o chamado “bloco de constitucionalidade”, falando-se também numa Constituição em sentido material, para além o texto formal da CF/88. É o que enuncia o § 2º do art. 5º da CF/88, que prevê, além dos direitos e garantias expressos na Lei Maior Brasileira, outros decorrentes doregime e dos princípios por ela adotados, bem como os tratados internacionais de que a República Federativa do Brasil seja parte. 50 A noção de bloco de constitucionalidade surgiu numa decisão do Conselho Constitucional da França, em 16/07/1971, que incluiu em seu texto a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1979 e o preâmbulo da Constituição anterior. II. CORRETO. Pura aplicação do princípio da cedência recíproca, concordância prática ou harmonização, segundo o qual inexiste hierarquia entre os direitos fundamentais, que devem prevalecer, um em detrimento do outro, sempre no plano concreto e a partir de um juízo de razoabilidade. III. INCORRETO. O postulado da proporcionalidade se desdobra, igualmente no Direito Administrativo, no trinômio necessidade, adequação e proporcionalidade em sentido estrito. A supremacia do interesse público está em constante conflito com os direitos e garantias fundamentais, numa solução alcançada in concreto e sob um juízo de razoabilidade. _______________________________________________________________________ NOÇÕES GERAIS DE DIREITO E FORMAÇÃO HUMANÍSTICA 27. Considerando as resoluções do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que tratam das inovações tecnológicas na atividade jurisdicional e a Política de Gestão da Inovação no âmbito do Poder Judiciário, trazida pela Resolução nº 395, de 7 de junho de 2021, do CNJ, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Um dos princípios da gestão de inovação no Poder Judiciário é o da participação, segundo o qual é estimulada a participação de magistrados na construção das soluções de inovação do Poder Judiciário, para que as políticas judiciárias sejam pensadas a partir do ponto de vista dos executores dessas estratégias. (B) Inovação no Poder Judiciário consiste na implementação de ideias que criam uma forma de atuação e geram valor para o Poder Judiciário, seja por meio de novos produtos, serviços, processos de trabalho, ou uma maneira diferente e eficaz de solucionar problemas complexos encontrados no desenvolvimento das atividades que lhe são afetas. (C) A gestão de inovação no Poder Judiciário deve contar com o desenvolvimento de habilidades tradicionais dos magistrados, como a redação de sentenças e decisões jurídicas, considerando que as novas tecnologias da informação e comunicação suprem a atuação do magistrado nas atividades gerenciais mais complexas, que demandam flexibilidade cognitiva. (D) A transparência na gestão da inovação do Poder Judiciário consiste no acesso pleno à informação e aos dados produzidos pelo Poder Judiciário e deve ser reforçada, motivo pelo qual não deve ceder ante as hipóteses de restrição legal e de proteção de dados pessoais. (E) A cultura da inovação consiste na adoção de valores voltados ao desenvolvimento de soluções disruptivas, que tenham por finalidade facilitar a atuação dos integrantes do Poder Judiciário com foco na saúde de magistrados e servidores. _______________________________________________________________________ 51 GABARITO: D COMENTÁRIOS O assunto foi estudado no ponto 7 de Humanística na turma ENAM II 2024. Art. 3o São princípios da gestão de inovação no Poder Judiciário: I – cultura da inovação: promoção da cultura da inovação a partir da adoção de valores voltados ao estímulo da inovação incremental ou disruptiva, com prospecção e desenvolvimento de procedimentos que qualifiquem o acesso à justiça e promovam a excelência do serviço judicial, processual ou administrativo, com vistas a propiciar melhor atendimento ao usuário do Poder Judiciário; II – foco no(a) usuário(a): observância, sempre que possível, da construção de solução de problemas a partir dos valores da inovação consistentes na concepção do(a) usuário(a) como eixo central da gestão; (redação dada pela Resolução n. 521, de 18.9.2023); III – participação: promoção da ampla participação de magistrados(as) e servidores(as), bem como de atores externos ao Poder Judiciário, sempre buscando a visão multidisciplinar; (redação dada pela Resolução n. 521, de 18.9.2023); IV – colaboração: trabalho em rede de inovação para a coordenação de esforços, cocriação, criatividade, experimentação e o compartilhamento de boas práticas; V – desenvolvimento humano: desenvolvimento de novas habilidades de magistrados(as) e servidores(as) que lhes permitam adquirir conhecimentos necessários às novas competências para solução de problemas complexos, pensamento crítico, flexibilidade cognitiva, orientada a serviços e criatividade; (redação dada pela Resolução n. 521, de 18.9.2023); VI – acessibilidade: fomento à acessibilidade e à inclusão; VII – sustentabilidade socioambiental: promoção da sustentabilidade socioambiental; VIII – desenvolvimento sustentável: desenvolvimento econômico-social com a preservação da qualidade do meio ambiente e do equilíbrio ecológico, alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – Agenda 2030; IX – desburocratização: aprimoramento e simplificação de tarefas, procedimentos ou processos de trabalho, de modo a promover agilidade, otimização de recursos e ganho de eficiência à prestação de serviços; e https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5261 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5261 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5261 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5261 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5261 https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/5261 52 X – transparência: acesso à informação e aos dados produzidos pelo Poder Judiciário, respeitadas as hipóteses de restrição e de sigilo legal e a proteção de dados pessoais. _______________________________________________________________________ 28. Camila, pessoa com deficiência visual, acaba de completar 7 anos e ingressará no ensino fundamental. Seus pais, ao iniciarem o processo de matrícula da filha em uma instituição regular privada de ensino fundamental, foram informados pela diretoria de que o valor da mensalidade sofreria acréscimo em razão das condutas e medidas de apoio que seriam tomadas de forma individualizada em relação à Camila para que “conseguisse desenvolver-se bem acadêmica e socialmente”. Diante da situação relatada, baseando-se no direito da antidiscriminação, em normas de proteção às pessoas com deficiência, na Constituição Federal de 1988 e na jurisprudência do STF, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Como não houve negativa direta da matrícula de Camila, o ato praticado pela escola, de aumentar o valor da mensalidade, não pode ser considerado discriminatório, pois não feriu o princípio da efetiva participação e inclusão na sociedade da pessoa com deficiência. (B) Os pais de Camila têm o dever legal de matriculá-la em uma instituição de ensino especializada em pessoas com deficiência, considerando as peculiaridades da criança como pessoa em desenvolvimento e a prioridade do atendimento aos seus interesses como tal. (C) É permitida, às instituições de ensino privadas, a cobrança de valores adicionais em suas mensalidades, anuidades e matrículas desde que haja a comprovação do uso desses recursos financeiros para uma assistência individualizada da aluna com deficiência em sala de aula. (D) Camila sofreu discriminação de natureza institucional, pois a prática ocorreu no âmbito de uma instituição privada, de forma indireta, mas promovendo a exclusão de uma pessoa com deficiência. (E) O ato praticado pela diretora da instituição de ensino não gera a possibilidade de ajuizamento de ação de obrigação de fazer para que a matrícula de Camila seja realizada sem qualquer custo adicional, tampouco caracteriza danos morais, pois a legislação vigente prevê que incumbe ao Poder Público assegurar um sistema educacional inclusivo sem mencionar tratar-se de um dever das instituições privadas de ensino. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS O assunto foi estudado no ponto 9 de Humanísticana turma ENAM II 2024, página 37 53 A Lei nº 13.146/2015 tem como base a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (Convenção de Nova York) e seu Protocolo Facultativo. A Convenção foi assinada em 30/03/2007, aprovada no Congresso Nacional pelo Decreto Legislativo 186, de 31/08/2008 (data em que entrou em vigor para o Brasil no plano jurídico externo) e promulgada pelo Presidente da República pelo Decreto 6.949, de 25/08/2009 (data de início de sua vigência no plano interno). Vale ressaltar que a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência possui status de emenda constitucional em nosso país, considerando que se trata de convenção internacional sobre direitos humanos que foi aprovada, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, conforme previsto no § 3º do art. 5º da CF/88. O art. 24 da Convenção reconhece o direito à educação como isento de discriminação e determina que os Estados signatários assegurem sistema educacional inclusivo em todos os níveis, de maneira que as pessoas com deficiência não poderão ser excluídas do sistema educacional geral sob alegação de deficiência. Assim, à luz dessa Convenção e, por consequência, da própria Constituição (art. 5º, § 3º, da CF/88), o ensino inclusivo em todos os níveis é imperativo que se põe mediante regra explícita. Desse modo, o Brasil, ao editar a Lei nº 13.146/2015, incluindo os dispositivos impugnados, tão somente atendeu a mandamentos constitucionais de proteção à pessoa com deficiência, além de cumprir compromissos internacionais assumidos com o Decreto nº 6.949/2009. O art. 28, caput e § 1º determinam que o Poder Público e as instituições privadas de ensino são obrigadas a oferecer às pessoas com deficiência: a) sistema educacional inclusivo em todos os níveis e modalidades e aprendizado ao longo de toda a vida; b) recursos de acessibilidade que eliminem as barreiras e promovam a inclusão plena; c) projeto pedagógico que institucionalize o atendimento educacional especializado, assim como os demais serviços e adaptações razoáveis, para atender às características dos estudantes com deficiência e garantir o seu pleno acesso ao currículo em condições de igualdade, promovendo a conquista e o exercício de sua autonomia; d) medidas que maximizem o desenvolvimento acadêmico e social dos estudantes com deficiência; e) planejamento de estudo de caso, de elaboração de plano de atendimento educacional especializado, de organização de recursos e serviços de acessibilidade e de disponibilização e usabilidade pedagógica de recursos de tecnologia assistiva; f) participação dos estudantes com deficiência e de suas famílias nas diversas instâncias de atuação da comunidade escolar; g) medidas que favoreçam o desenvolvimento dos aspectos linguísticos, culturais, vocacionais e profissionais, levando-se em conta o talento, a criatividade, as habilidades e os interesses do estudante com deficiência; 54 h) práticas pedagógicas inclusivas pelos programas de formação inicial e continuada de professores e oferta de formação continuada para o atendimento educacional especializado; i) formação e disponibilização de professores para o atendimento educacional especializado, de tradutores e intérpretes da Libras, de guias intérpretes e de profissionais de apoio; j) oferta de ensino da Libras, do Sistema Braille e de uso de recursos de tecnologia assistiva, de forma a ampliar habilidades funcionais dos estudantes, promovendo sua autonomia e participação; k) acesso à educação superior e à educação profissional e tecnológica em igualdade de oportunidades e condições com as demais pessoas; l) inclusão em conteúdos curriculares, em cursos de nível superior e de educação profissional técnica e tecnológica, de temas relacionados à pessoa com deficiência nos respectivos campos de conhecimento; m) acesso, em igualdade de condições, a jogos e a atividades recreativas, esportivas e de lazer, no sistema escolar; n) acessibilidade para todos os estudantes, trabalhadores da educação e demais integrantes da comunidade escolar às edificações, aos ambientes e às atividades concernentes a todas as modalidades, etapas e níveis de ensino; o) profissionais de apoio escolar; p) articulação intersetorial na implementação de políticas públicas. Seguindo o Supremo Tribunal Federal, são constitucionais o art. 28, § 1º e o art. 30 da Lei nº 13.146/2015, que determinam que as escolas privadas ofereçam atendimento educacional adequado e inclusivo às pessoas com deficiência sem que possam cobrar valores adicionais de qualquer natureza em suas mensalidades, anuidades e matrículas para cumprimento dessa obrigação. STF. Plenário. ADI 5357 MC-Referendo/DF, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 9/6/2016 (Info 829). _______________________________________________________________________ 29. Para muitos juristas, o objeto de estudo do Direito são as relações sociais, as quais eles denominam de relações jurídicas. Vale dizer, quando a Sociologia elege como objeto de estudo o fato social, a ação social, a vida social, a interação social ou a relação social, esse interesse também é partilhado por outras ciências, inclusive pela ciência jurídica. Há, portanto, muitos pontos de contato entre Sociologia e Direito, fato que ressalta o aspecto interdisciplinar dessas duas áreas do conhecimento e justifica, nos seus estudos, o interesse de uma área pela outra. KÜMPEL, Vitor Frederico et. al. Noções gerais de direito e formação humanística. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 135. Acerca da interação entre Sociologia e Direito, assinale a afirmativa CORRETA. 55 (A) A aproximação entre Sociologia e Direito traz à lume duas possibilidades de se proceder à investigação de um problema jurídico: o enfoque dogmático, que visa ampliar as dimensões do fenômeno jurídico, problematizando as próprias normas, e o enfoque zetético, que considera que a solução já estaria previamente dada ou pressuposta no sistema de normas. (B) O controle social, considerado como mecanismo de submissão dos indivíduos a determinados padrões sociais estabelecidos, pode ser classificado como formal, que é aquele decorrente dos usos, costumes, tradição, opinião pública etc., ou informal, que é o controle social que decorre das leis, das polícias e do sistema de justiça. (C) Uma das condições sociais que caracterizaram a orientação da Sociologia Jurídica para as dimensões normativistas do Direito, ao longo da primeira metade do século XX, foram as denominadas lutas sociais, instrumento utilizado por determinados grupos para demandar novos direitos sociais, que colocaram em pauta a ideia da igualdade material. (D) O sociólogo alemão Max Weber desenvolveu a ideia de que a sociedade deveria ser vista através dos fatos sociais, os quais exercem poder de coerção externa, criando nas pessoas uma espécie de consciência coletiva que vai resultar na noção de direito. (E) A Sociologia aplicada ao Direito permite compreender com maior amplitude a função das normas jurídicas e sua função reguladora das relações sociais, tendo a coerção como instrumento que busca manter os indivíduos submetidos à determinada ordem, sob pena de sofrerem a intermediação dos aparelhos judiciários. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS Com o desenvolvimento do direito como um saber autônomo — tema posteriormente explorado por sociólogos contemporâneos como Niklas Luhmann, com sua teoria dos sistemas, e Pierre Bourdieu, com a teoria do campo —, houve um distanciamento entre direito e política, possibilitando a concepção do "Estado de direito" como uma instituição racional e permanente. Nesse contexto, os juristas tornaram-se figuras indispensáveis, enquanto a figura do rei, historicamente, perdeu sua relevância. A distinção entre Estado, governo e administração foi se tornando cada vezmais clara, como resultado do processo de racionalização do Estado. Atualmente, a Sociologia do Direito tem se consolidado como uma especialidade da Sociologia, abordando uma ampla gama de questões, tais como: a explicação das decisões dos agentes estatais (advogados, juízes, entre outros) com base em sua socialização primária e secundária; a autonomização da "razão jurídica" ou do "sistema jurídico"; as complexas relações entre direito e política, que não podem ser simplesmente equacionadas, mesmo com a crescente politização do direito e a juridicização da política. Também se discute a possibilidade de um sujeito político e jurídico que se posicione "fora" e "contra" a razão colonizadora europeia, assim como o disciplinamento dos corpos por meio de dispositivos jurídicos, científicos, médicos, entre outros. 56 Como afirmado pela banca examinadora, a função da sociologia aplicada ao direito é exatamente esta: aprimorar as relações sociais por meio das regras éticas e morais. Não há como separar o direito da sociologia, pensamento positivista kelseniano em muito superado. Note que a letra A tem um erro de partida ao afirmar que o saber zetético se refere àquilo que “está pronto”. Pelo contrário, zetética diz respeito à investigação contínua em oposição à dogmática. Quanto à letra B, não há falar em controle social sob tal viés opressor. A afirmação está incorreta porque a Sociologia Jurídica nas suas abordagens clássicas, especialmente na primeira metade do século XX, não se orientou predominantemente pelas dimensões normativistas do direito. O foco principal da Sociologia Jurídica, diferentemente da dogmática jurídica ou do normativismo, sempre foi o estudo do direito como fenômeno social, ou seja, como as normas jurídicas operam na sociedade, suas origens, seus efeitos e suas interações com outros fatores sociais, políticos e econômicos. Sobre a letra D, Émile Durkheim é o pensador que desenvolveu a ideia de que a sociedade deve ser entendida por meio dos fatos sociais, os quais exercem um poder de coerção externa sobre os indivíduos. Para Durkheim, os fatos sociais são modos de pensar, agir e sentir que existem fora do indivíduo, mas que o influenciam e o condicionam. A consciência coletiva, segundo ele, refere-se ao conjunto de crenças e sentimentos comuns a uma sociedade, que moldam o comportamento dos indivíduos e influenciam o direito e outras instituições sociais. Noutra monta, Max Weber desenvolveu uma abordagem diferente, propondo que a sociedade deveria ser compreendida a partir das ações sociais dos indivíduos, ou seja, os significados que as pessoas atribuem às suas próprias ações e às ações dos outros. Weber também foi conhecido por sua análise sobre o direito e a racionalização nas sociedades modernas, especialmente a ideia de que o direito moderno se desenvolve como um sistema de normas racionais e impessoais. _______________________________________________________________________ 30. A interpretação jurídica consiste na atividade de revelar ou atribuir sentido a textos ou outros elementos normativos (como princípios implícitos, costumes, precedentes), notadamente para o fim de solucionar problemas. Trata-se de uma atividade intelectual informada por métodos, técnicas e parâmetros que procuram dar-lhe legitimidade, racionalidade e controlabilidade. A aplicação de uma norma jurídica é o momento final do processo interpretativo, sua incidência sobre os fatos relevantes. Na aplicação se dá a conversão da disposição abstrata em uma regra concreta, com a pretensão de conformar a realidade ao Direito, o ser ao dever-ser. É nesse momento que a norma jurídica se transforma em norma de decisão. BARROSO, Luís Roberto. Curso de Direito Constitucional Contemporâneo: Os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. São Paulo: SaraivaJur, 2024, 12ª ed., p. 212. O estudo atual da hermenêutica jurídica tem proporcionado aportes teóricos que superam os elementos tradicionais de interpretação do Direito. 57 Acerca desse tema, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Ao vincular-se à lógica do razoável, o método tópico-problemático confere ao julgador o papel de construir, por meio de argumentação consistente, a melhor solução para o problema, visando à realização da justiça do caso concreto. (B) Nos países da tradição da common law, nos quais o raciocínio jurídico é estruturado a partir da norma, e não dos fatos, o estudo da Tópica teve papel relevante para reafirmar a ideia de separação absoluta entre o sujeito da interpretação e o objeto a ser interpretado. (C) O uso de conceitos jurídicos indeterminados pelo legislador, fenômeno cada vez mais recorrente, desloca parte da competência de formulação da norma para o seu intérprete, equiparando o poder de valoração concreta desses conceitos, por meio de uma atuação predominantemente técnica, ao poder discricionário. (D) A técnica da ponderação, inicialmente utilizada como recurso excepcional, isto é, reservada apenas para os hard cases, tornou-se prevalente no Direito brasileiro, superando de vez a vetusta técnica da subsunção baseada em raciocínio silogístico. (E) A fixação de regras e princípios de hermenêutica é atribuição prevalente da doutrina e, em alguma medida, da jurisprudência, mesmo porque não há, no Direito brasileiro, norma positivada a respeito do tema. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS (A) CORRETA. O método de interpretação tópico-problemático busca resolver problemas jurídicos concretos de forma prática e contextualizada. Em vez de aplicar normas de maneira rígida, propõe soluções adaptadas ao caso específico, utilizando diversas fontes, como jurisprudência, doutrina e princípios gerais do direito. Inspirado na tópica aristotélica valoriza a flexibilidade e a argumentação pluralista, considerando a complexidade do caso e o contexto social e político para encontrar a solução mais adequada e convincente. (B) INCORRETA. Nos países de tradição common law, o raciocínio jurídico não é estruturado primariamente a partir da norma escrita, como ocorre nos sistemas de civil law. O direito é baseado principalmente nos precedentes judiciais (princípio do stare decisis), ou seja, decisões anteriores de tribunais são fundamentais para resolver casos futuros com questões semelhantes. O raciocínio jurídico, portanto, se baseia na análise de casos anteriores e na aplicação desses precedentes de maneira coerente e consistente. Embora existam leis escritas (estatutos), elas desempenham um papel secundário em relação à jurisprudência. Assim, o foco do raciocínio está na interpretação e aplicação das decisões passadas, e não diretamente na norma abstrata. (C) INCORRETA. Não se equipara ou mesmo são sinônimos “conceitos jurídicos indeterminados” e discricionariedade, tampouco uma coisa autoriza a outra. 58 (D) INCORRETA. Não apenas para os casos complexos, mas para aqueles em que há confrontos ou choques entre direitos fundamentais ou individuais. (E) INCORRETA. Há sim Lei no Brasil fixando como deve ocorrer a construção das regras. _______________________________________________________________________ 31. O texto a seguir aborda o problema das fontes do Direito por meio da História e traz luzes sobre o fenômeno jurídico em suas fases iniciais. (...) O Direito foi, em primeiro lugar, um fato social bem pouco diferençado, confuso com outros elementos de natureza religiosa, mágica, moral ou meramente utilitária. Nas sociedades primitivas, o Direito é um processo de ordem costumeira. Não se pode nem mesmo dizer que haja um processo jurídico costumeiro, porquanto as regras jurídicas se formam anonimamente no todo social, em confusão com outras regras não jurídicas. Os costumes primitivos são como que uma nebulosa da qual se desprenderam, paulatinamente, as regras jurídicas, discriminadas e distintas das regras morais, higiênicas,religiosas e assim por diante. REALE, Miguel. Lições Preliminares de Direito. 27ª ed. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 143. A respeito das fontes do Direito, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Fontes formais do Direito são evidenciadas a partir de uma pesquisa de natureza filosófica, que diz respeito às condições lógicas e éticas do fenômeno jurídico, e consistem nos motivos que condicionam o aparecimento e as transformações das regras de Direito. (B) Os órgãos formais de jurisdição surgiram desde os primórdios da experiência jurídica, sendo responsáveis pela resolução de casos a partir da aplicação dos primeiros usos e costumes catalogados no curso da História. (C) O costume jurídico existe quando se apresentam dois elementos fundamentais: a repetição de um comportamento de maneira habitual (objetivo) e a compreensão dos cidadãos quanto à necessidade e conveniência da prática ao interesse social (subjetivo). (D) O Direito costumeiro tem origem certa e se localiza de maneira predeterminada, pois, embora não se possa especificar onde e como surge determinado uso ou hábito social, é possível testemunhar o momento de sua conversão em hábito jurídico, ou uso jurídico. (E) Fontes materiais do Direito consistem nos meios ou processos pelos quais as regras jurídicas se positivam com legítima força obrigatória, ou seja, com vigência e eficácia no contexto de uma estrutura normativa. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS 59 Os costumes podem ser definidos como a observância reiterada de um determinado comportamento, em uma comunidade, que, com o tempo, passa a ser visto como obrigatório. Eles refletem os valores, práticas e expectativas de uma sociedade em um dado momento e contexto, funcionando como normas que, mesmo sem terem sido formalmente escritas, possuem força vinculante. 1. Elemento Objetivo (Repetição ou Uso): O elemento objetivo refere-se à prática reiterada e constante de um determinado comportamento dentro de uma comunidade. Para que um comportamento se configure como costume, ele deve ser repetido de forma regular e duradoura, criando uma sensação de estabilidade e permanência. 2. Elemento Subjetivo (Convicção de Obrigatoriedade): O elemento subjetivo está relacionado à crença de que o comportamento repetido é juridicamente obrigatório. A comunidade ou grupo que segue o costume deve entender que sua observância não é apenas uma prática conveniente ou socialmente aceita, mas que há uma obrigação jurídica implícita nessa conduta. Essa percepção é chamada de opinio juris, ou seja, a convicção de que a prática tem força de norma jurídica. _______________________________________________________________________ 32. A estruturação dogmática de um sistema de precedentes judiciais obrigatórios é um dos pilares do Código de Processo Civil de 2015. O Art. 926, ao dispor que “os tribunais devem uniformizar sua jurisprudência e mantê-la estável, íntegra e coerente”, prevê deveres gerais para os tribunais no contexto da construção e manutenção de um sistema de precedentes (jurisprudência e súmula), persuasivos e obrigatórios, sendo eles: o dever de uniformizar sua jurisprudência; o dever de manter essa jurisprudência estável; o dever de integridade; e o dever de coerência. Sobre o tema, analise as afirmativas a seguir. I. O dever de uniformizar pressupõe que o tribunal não pode ser omisso diante de divergência interna, entre seus órgãos fracionários, sobre a mesma questão jurídica. II. As mudanças de posicionamento (superação; overruling) devem ser justificadas adequadamente, além de terem sua eficácia modulada em respeito à segurança jurídica. III. A coerência e a integridade são pressupostos para que a jurisprudência possa ser universalizada, sendo legitimamente aplicada a outros casos semelhantes. Está CORRETO o que se afirma em (A) I, apenas. (B) I e II, apenas. (C) I e III, apenas. (D) II e III, apenas. (E) I, II e III. _______________________________________________________________________ 60 GABARITO: E COMENTÁRIOS Vamos ver item por item. I. CORRETA. O dever de uniformização impõe aos tribunais a adoção de medidas para resolver divergências internas de jurisprudência, com o objetivo de evitar decisões conflitantes sobre a mesma questão jurídica. Essa prática busca assegurar a segurança jurídica e a previsibilidade das decisões judiciais. Mecanismos como o incidente de assunção de competência têm a finalidade de prevenir ou corrigir divergências entre os órgãos fracionários. O artigo 926 do Código de Processo Civil de 2015 reforça a importância de promover a uniformização, garantindo a coerência e a estabilidade das decisões: “Os tribunais devem uniformizar sua jurisprudência e mantê-la estável, íntegra e coerente.”. II. CORRETA. No sistema de precedentes brasileiro, a superação de entendimentos anteriores (overruling) deve ser claramente justificada, respeitando a segurança jurídica. Além disso, a modulação dos efeitos da decisão pode ser aplicada para reduzir impactos negativos e garantir a previsibilidade no ordenamento jurídico. O artigo 927, § 3º, do CPC, prevê que, em caso de alteração de jurisprudência dominante, é possível modular os efeitos da mudança visando o interesse social e a segurança jurídica. III. CORRETA. Sob uma perspectiva filosófica, a coerência e a integridade da jurisprudência refletem ideais centrais da justiça e do Estado de Direito. A coerência, ao evitar contradições entre decisões, está ligada à racionalidade e à previsibilidade, valores fundamentais para que os indivíduos possam confiar no sistema jurídico e organizar suas ações conforme expectativas claras. Esse princípio ressoa com a concepção kantiana de que as leis devem ser universais, ou seja, aplicáveis a todos de forma imparcial. A integridade, por sua vez, está conectada à ideia de justiça substantiva. Seguindo a filosofia de Ronald Dworkin, a integridade jurídica exige que os julgamentos sejam baseados em princípios morais consistentes e integrados, tratando os casos como partes de uma narrativa contínua. Assim, o direito não pode ser uma coleção fragmentada de regras isoladas, mas sim um sistema que reflita valores sociais mais amplos, como a dignidade, a igualdade e a liberdade. Ao garantir que decisões judiciais estejam em harmonia com um conjunto mais amplo de valores, a integridade sustenta não apenas a ordem, mas também a legitimidade moral do sistema jurídico. Dessa forma, por fim, coerência e integridade são mais do que ferramentas técnicas, são pilares filosóficos que asseguram a justiça, a legitimidade e a confiança no Direito, ao alinhar o ordenamento jurídico com princípios universais de racionalidade e moralidade. _______________________________________________________________________ 61 DIREITOS HUMANOS 33. A discussão do papel das sociedades empresárias na proteção aos Direitos Humanos avançou consideravelmente, especialmente após o período de forte globalização econômica ocorrido há algumas décadas. Acerca do assunto, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Admite-se hoje, na Corte Interamericana de Direitos Humanos, as sociedades empresárias como pessoas jurídicas sujeitas a terem seus direitos violados e, portanto, merecedoras de proteção perante o órgão, tal qual ocorre com as pessoas físicas. (B) Os Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos da ONU, aprovados em 2011, são um importante instrumento de hard law que obriga os Estados a cumprir as regras relativas aos direitos humanos nas empresas. (C) Por considerar que comunidades afrodescendentes e povos indígenas são particularmente afetados pela indústria extrativista, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos emitiu informe específico tratando desse tema. (D) O dever dos Estados, no que tange ao respeito dos Direitos Humanos por parte de pessoas jurídicas sobversão da história! Inclusive com módulos complementares ao de Magistratura Estadual, com divisões específicas para o ENAM, e Magistratura Federal. 7 Além, claro, do tradicional estudo da lei comentada, correções de provas de 2ª fase de forma personalizada; e até mesmo com a tão desejada opção de acompanhamento personalizado. Vale a pena conferir! SOBRE COMO RECORRER (SUGESTÃO DE MODELO) Antes de apresentarmos, é importante destacar que qualquer questão ANULADA beneficiará a todos (segundo o edital do ENAM). Então, este é um momento de união: EDITAL DO ENAM 2024.2 10.5. Se a análise do recurso resultar em anulação de questão ou de quesito integrante de prova, a pontuação correspondente a essa questão ou quesito será atribuída a todas as examinandas e a todos os examinandos, independentemente de terem recorrido. 10.5.1 Eventual retificação de erro material no gabarito oficial preliminar, como a troca de alternativa correta, não importa anulação de questão, cuja resposta retificada será Página 16 de 36 considerada para todas as pessoas examinandas, independentemente de terem recorrido. 10.7. Após a análise dos recursos contra o resultado preliminar da prova objetiva, a Banca Examinadora da FGV poderá manter ou alterar o resultado divulgado. Na live sobre questões passíveis de revisão explicaremos alguns termos que fazem sentido neste momento: 1. Como interpretar as lacunas do edital; 2. A mentalidade de abordagem recursal ampla; 3. Os candidatos devem apresentar um ataque simultâneo (sem copiar e colar recursos uns dos outros); 4. Foco em anular (e não em alterar alternativa); 5. Sejam objetivos (facilitem a vida do revisor). MODELO DE RECURSO Egrégia Banca Examinadora. O presente candidato vem, respeitosamente, pleitear a anulação da questão de nº X do Exame Nacional da Magistratura, pelas razões que passa a justificar. A alternativa I da referida questão não expressa o posicionamento do Supremo Tribunal Federal a respeito do tema, isso porque, embora, de fato, a Corte tenha reconhecido a repercussão geral da matéria atinente à possibilidade de execução imediata de pena aplicada pelo Tribunal do Júri (Tema 1068), a decisão faz referência a penas fixadas acima 8 de quinze anos, em decorrência de condenação pelo tribunal do júri, conforme destaque abaixo: Decisão: “Após o voto-vista do Ministro André Mendonça, que acompanhava integralmente o eminente Relator, no sentido de conhecer do recurso extraordinário e dar-lhe provimento, para negar provimento ao recurso ordinário em habeas corpus, anuindo à tese de julgamento fixada: "A soberania dos veredictos do Tribunal do Júri autoriza a imediata execução de condenação imposta pelo corpo de jurados, independentemente do total da pena aplicada"; e do voto do Ministro Edson Fachin, que divergia do Relator e do Ministro Gilmar Mendes, para o fim de reconhecer como ainda constitucional a execução imediata prevista em lei infraconstitucional das penas fixadas acima de quinze anos, em decorrência de condenação pelo tribunal do júri, e no caso concreto, com fundamento diverso do eminente Relator, dava provimento ao recurso para determinar a prisão do recorrido, uma vez que na hipótese a pena em concreto foi quantificada em 26 (vinte e seis) anos e 8 (oito) meses de reclusão, o processo foi destacado”. Link para acesso: “https://portal.stf.jus.br/jurisprudenciaRepercussao/verAndamentoProcesso.asp?incid ente=5776893&numeroProcesso=1235340&classeProcesso=RE&numeroTema=1068” Deste modo, a questão padece de vício ao estabelecer uma interpretação ampliativa do pensamento da Corte, que desconfigura a real essência do decidido em sede de repercussão geral, fazendo surgir a necessidade de que o item da questão seja considerado errado. Diante da inconsistência do gabarito apresentado pela banca, requer o candidato o recebimento e deferimento do presente recurso, para o fim de considerada como nula a questão de nº 16 do mencionado Exame. Agora é com vocês! Agradecemos o imenso carinho de todos. Bons estudos. Arnaldo Bruno Oliveira1 Equipe Mege 1 Insta: @prof.arnaldobruno (fiquem à vontade para o envio de mensagens sobre o Mege). https://www.instagram.com/prof.arnaldobruno?igsh=MTJnd2VxNWJ1NDhtZQ%3D%3D&utm_source=qr https://www.instagram.com/prof.arnaldobruno?igsh=MTJnd2VxNWJ1NDhtZQ%3D%3D&utm_source=qr 9 SUMÁRIO DIREITO CONSTITUCIONAL ............................................................................................. 10 DIREITO ADMINISTRATIVO .............................................................................................. 31 NOÇÕES GERAIS DE DIREITO E FORMAÇÃO HUMANÍSTICA ........................................... 50 DIREITOS HUMANOS....................................................................................................... 61 DIREITO PROCESSUAL CIVIL ............................................................................................ 68 DIREITO CIVIL .................................................................................................................. 86 DIREITO EMPRESARIAL ................................................................................................. 103 DIREITO PENAL .............................................................................................................. 111 10 DIREITO CONSTITUCIONAL 1. Uma lei do Estado Delta, de iniciativa da Assembleia Legislativa, estabeleceu a recomposição linear nos vencimentos e nas funções gratificadas dos servidores públicos do Poder Legislativo estadual, estendendo-a aos aposentados e pensionistas, com o intuito de recuperar a perda do poder aquisitivo da moeda. A respeito da referida norma, de acordo com a ordem sistemática constitucional e com a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Ela é constitucional, pois a Constituição Federal de 1988 garante a revisão geral como forma de recomposição da perda do poder aquisitivo da moeda. (B) Ela é inconstitucional, pois a iniciativa legislativa para a revisão geral de vencimentos de todos os servidores estaduais é do Poder Executivo. (C) Ela é constitucional, pois a iniciativa legislativa para a revisão geral de vencimentos dos servidores do Poder Legislativo é do próprio Poder Legislativo. (D) Ela é inconstitucional, pois a competência para a concessão da revisão geral anual de vencimentos de todos os servidores públicos é da União, por meio de norma de iniciativa do Presidente da República. (E) Ela é constitucional, pois em razão do princípio da isonomia os aposentados e pensionistas também devem ser beneficiados com a revisão geral de vencimentos, uma vez que a finalidade da norma é a recomposição da perda do poder aquisitivo da moeda. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS O julgado foi estudado no material de temas selecionados em Repercussão Geral (Teses organizadas para revisão – 2024) enviado para a turma do ENAM II 2024, página 14. A revisão remuneratória dos servidores públicos deve observar a competência do Poder Executivo para a sua iniciativa, conforme consolidado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3.599. Esse precedente destaca que a Constituição Federal confere ao chefe do Poder Executivo a prerrogativa de propor leis que alterem a remuneração dos servidores públicos. Além disso, o STF reafirmou esse entendimento no julgamento do RE 843.112, com Repercussão Geral, consolidando a tese de que apenas o Executivo pode iniciar projetos de lei que tratem de matérias salariais e revisões gerais dos vencimentos dos servidores. Esse posicionamento visa garantir a harmonia e o equilíbrio orçamentário, uma vez que a iniciativa legislativa sobre gastossua jurisdição, restringe-se ao seu próprio território, conforme entendimento da Corte Interamericana de Direitos Humanos. (E) A observância dos chamados Princípios de Ruggie tem sido suficiente para a proteção dos Direitos Humanos, o que torna prescindível a formalização de tratado para a responsabilização internacional dos Estados e das sociedades empresárias. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. A Corte Interamericana de Direitos Humanos não reconhece as sociedades empresárias como sujeitos passivos de proteção de direitos humanos. Apenas indivíduos, ou seja, pessoas físicas, podem ser demandantes perante a Corte. Assim, as sociedades empresárias não têm legitimidade para buscar proteção diretamente na Corte. (B) INCORRETA. Os Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos da ONU, também conhecidos como Princípios de Ruggie, constituem um exemplo de soft law, não vinculantes, ou seja, eles não criam obrigações jurídicas diretas para os Estados, mas fornecem diretrizes sobre como as empresas devem respeitar os direitos humanos e como os Estados devem regulamentar e fiscalizar as atividades empresariais. (C) CORRETA. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) realmente emitiu um informe específico sobre o impacto da indústria extrativista, que afeta de maneira desproporcional as comunidades afrodescendentes e indígenas. Esses grupos são 62 vulneráveis às violações de direitos, especialmente no que se refere ao acesso à terra, ao meio ambiente e ao respeito às suas tradições e modos de vida. (D) INCORRETA. O dever dos Estados em relação à proteção dos Direitos Humanos não se restringe apenas ao território nacional. Em determinados casos, há uma responsabilidade extraterritorial, especialmente quando os atos de empresas com sede em um Estado afetam diretamente os direitos humanos em outro país. (E) INCORRETA. Embora os Princípios de Ruggie sejam importantes para guiar a atuação das empresas em relação aos direitos humanos, eles não são suficientes por si só. Há um movimento internacional que busca a criação de um tratado vinculante para regular e responsabilizar empresas no plano internacional. A criação desse tratado é vista como necessária por muitos defensores dos direitos humanos, já que os princípios não possuem caráter obrigatório. Portanto, a alternativa correta é a C. _______________________________________________________________________ 34. Acerca do procedimento de incorporação dos tratados de Direitos Humanos na perspectiva da Constituição Federal de 1988, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Rompendo com a tradição constitucional verificada nas Cartas Políticas anteriores, a Constituição Federal de 1988 tornou o processo de incorporação de tratados internacionais de Direitos Humanos um ato de natureza complexa, exigindo a manifestação de vontades convergentes pelos Poderes Executivo e Legislativo. (B) Por cumular as funções de chefe de Estado e chefe de governo, o Presidente da República detém a última palavra em relação à celebração de tratados internacionais. Desse modo, ainda que seja necessária a manifestação do Congresso Nacional previamente à ratificação do tratado, trata-se de opinião não vinculante, podendo o Chefe do Poder Executivo decidir em sentido contrário à deliberação legislativa. (C) Para corrente majoritária da doutrina, tal como os tratados comuns, o procedimento de incorporação dos tratados de Direitos Humanos pode ser dividido em quatro fases ou etapas: (i) a assinatura, pelo Presidente da República, no plano internacional; (ii) a aprovação, pelo Congresso Nacional, no plano interno; (iii) a ratificação, pelo Presidente da República, no plano internacional; e (iv) a incorporação do tratado já celebrado pelo Brasil ao ordenamento jurídico interno, por meio da edição do Decreto Presidencial (Decreto de Promulgação). (D) Por ostentarem status de norma constitucional, os tratados de Direitos Humanos devem ser obrigatoriamente apreciados, em cada casa do Congresso Nacional, em dois turnos de votação, somente sendo aprovados se obtiverem três quintos dos votos dos respectivos membros. (E) Em razão da cláusula de abertura prevista no § 2º do Art. 5º da Constituição Federal de 1988, que não exclui outros direitos e garantias além daqueles expressos no Texto Constitucional, reconhece-se a possibilidade de aplicação, em determinado caso, de direitos e garantias previstos em tratados de Direitos Humanos mesmo que ainda não tenham o seu rito de incorporação concluído. 63 _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 5, 6 e 8 de Direitos Humanos na turma ENAM II 2024, páginas 26 a 30. (A) INCORRETA. O processo de incorporação de tratados de Direitos Humanos, de forma geral, segue o mesmo procedimento de tratados internacionais comuns, não havendo uma complexidade adicional imposta pela Constituição Federal de 1988, exceto em caso de tratados que se pretende conferir status de norma constitucional (emenda constitucional), conforme o § 3º do art. 5º, que exige aprovação com quórum qualificado (três quintos). (B) INCORRETA. A manifestação do Congresso Nacional não é meramente consultiva. O Presidente da República não pode ratificar um tratado internacional sem a aprovação prévia do Congresso. A Constituição Federal, em seu art. 49, inciso I, atribui ao Congresso Nacional a competência para resolver definitivamente sobre tratados que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao país. (C) CORRETA. O procedimento descrito está de acordo com a doutrina majoritária, por exemplo André de Carvalho Ramos. A incorporação de tratados internacionais de Direitos Humanos segue as quatro etapas mencionadas: assinatura, aprovação pelo Congresso, ratificação pelo Presidente e promulgação por meio de decreto presidencial, que incorpora o tratado ao ordenamento jurídico interno. (D) INCORRETA. Tratados de Direitos Humanos podem, de fato, adquirir status constitucional se aprovados conforme o § 3º do art. 5º da Constituição, com o quórum qualificado de três quintos em dois turnos de votação nas duas Casas do Congresso. No entanto, nem todos os tratados de Direitos Humanos têm status constitucional — os que não seguem esse rito possuem status supralegal, conforme entendimento do STF. (E) INCORRETA. Embora o § 2º do art. 5º preveja a cláusula de abertura para o reconhecimento de outros direitos e garantias, a aplicação de um tratado de Direitos Humanos no Brasil depende de sua incorporação formal ao ordenamento jurídico, o que só ocorre após o rito completo (assinatura, aprovação, ratificação e promulgação). Portanto, a alternativa correta é a C. _______________________________________________________________________ 35. O Brasil ratificou a Convenção Americana sobre Direitos Humanos no ano de 1992 (Decreto nº 678/1992) e reconheceu a competência jurisdicional contenciosa da Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) para fatos posteriores a 10 de dezembro de 1998 (Decreto nº 4.463/2002). A partir dessa data, a responsabilidade internacional do Estado brasileiro por violações de direitos protegidos pela Convenção Interamericana foi apreciada pela Corte Interamericana, tendo sido o Brasil condenado em alguns casos, como no recente Caso Honorato e outros vs. Brasil. Sobre esse caso, assinale a afirmativa CORRETA. 64 (A) O caso se relaciona às alegadas violações perpetradas por agentes do Estado, no contexto da mobilização de trabalhadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, que se reuniram com o objetivo de protestar contra as políticas agrárias. (B) O caso se relaciona à um caso de maus tratos praticados em detrimento de paciente, em uma clínica de saúde vinculada ao SUS. (C) O caso se relaciona às falhas na investigação e na puniçãodos responsáveis pela morte de muitas pessoas no contexto de duas incursões policiais efetuadas pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro. (D) O caso se relaciona à morte de jornalista que teve a sua integridade física atingida, quando compareceu para prestar declarações sobre um fato. (E) O caso se refere à responsabilidade do Estado por uma série de atos que teriam culminado no homicídio de várias pessoas na Operação Castelinho, como resultado do alegado uso excessivo da força por parte da Polícia Militar, bem como pela suposta situação de impunidade em que as mortes dessas pessoas permaneceram. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS O caso Honorato e outros vs. Brasil, também conhecido como Operação Castelinho, refere-se à responsabilidade do Estado brasileiro pelas execuções extrajudiciais de 12 pessoas em março de 2002. Essas execuções foram resultado de uma operação policial organizada pelo GRADI (Grupo de Repressão e Análise dos Delitos de Intolerância), que utilizou táticas ilegais, como o recrutamento de presos para se infiltrarem em grupos criminosos. O objetivo da operação era criar uma emboscada para o suposto grupo criminoso, resultando na morte dos suspeitos, que estavam desarmados e sem possibilidade de resistência. A Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Brasil por uso desproporcional da força e falhas na investigação dos fatos, destacando que não houve uma apuração imparcial e adequada das responsabilidades, perpetuando a impunidade. Além disso, a Corte determinou reparações aos familiares das vítimas, incluindo tratamento médico e psicológico, além de medidas de não repetição. Assim, a alternativa correta é a E, que menciona a Operação Castelinho e a responsabilidade do Estado brasileiro pelos homicídios ocorridos devido ao uso excessivo da força por parte da Polícia Militar, bem como pela impunidade que se seguiu. _______________________________________________________________________ 36. Sobre os Direitos Humanos das mulheres, assinale a opção que reflete corretamente a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF). (A) Acaso verificada a existência de risco atual ou iminente à vida ou à integridade física ou psicológica da mulher em situação de violência doméstica e familiar, ou de seus dependentes, e desde que o município de residência da vítima não seja sede de comarca, 65 poderá a autoridade policial promover o imediato afastamento do agressor do lar, domicílio ou local de convivência com a ofendida. (B) Por ser responsável pelo policiamento ostensivo e pelo combate direto à criminalidade, sujeitando-se a níveis mais elevados de risco, há fator de discriminação razoável, apto a legitimar a restrição de vagas disponibilizadas às mulheres nos concursos públicos para ingresso nos quadros da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar, sendo constitucionalmente justificada a impossibilidade de as mulheres concorrerem à totalidade das vagas ofertadas no certame. (C) A “legítima defesa da honra” é recurso retórico argumentativo odioso, utilizado pelas defesas de acusados de feminicídio ou agressões contra a mulher para imputar às vítimas a causa de suas próprias mortes ou lesões. Nada obstante, em razão do princípio constitucional da ampla defesa, não há como impedir o seu emprego nas sessões do Tribunal do Júri, ou anular o julgamento absolutório em razão do acolhimento da tese. (D) Considerando a natureza jurídica distinta dos institutos, afigura-se compatível com a Constituição Federal de 1988 a fixação de prazos diferenciados entre a licença adotante e a licença gestante. (E) A remarcação do teste de aptidão física de candidata que esteja grávida à época de sua realização é inconstitucional, pois tal possibilidade violaria o direito à isonomia entre os candidatos. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS (A) CORRETA. A resposta correta é a alternativa A, conforme a ADIn 6138. O Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu que, em situações de risco iminente ou atual à vida ou à integridade física ou psicológica da mulher, ou de seus dependentes, a autoridade policial pode, de forma imediata, afastar o agressor do lar ou do local de convivência, desde que o município de residência da vítima não seja sede de comarca e, portanto, não tenha juiz disponível para deliberar rapidamente sobre a questão. Isso foi considerado constitucional e necessário para proteger as mulheres em situações de violência doméstica, reforçando a importância da atuação das autoridades para garantir a integridade da vítima. As demais alternativas estão incorretas por não refletirem adequadamente a jurisprudência do STF: (B) INCORRETA. O STF entende que a restrição de vagas às mulheres em concursos públicos é inconstitucional, representando discriminação de gênero e violação ao princípio da isonomia (ADIn 7558). (C) INCORRETA. O STF já considerou a tese da "legítima defesa da honra" inconstitucional, rejeitando seu uso em casos de feminicídio e violência contra a mulher, sendo um argumento que reforça estereótipos discriminatórios e justifica a violência (ADPF 779). 66 (D) INCORRETA. O STF já decidiu pela necessidade de equiparação entre os prazos das licenças adotante e gestante, em respeito à igualdade entre as mulheres, independentemente da forma como se tornaram mães (RE 778889). (E) INCORRETA. O STF já definiu que a remarcação do teste de aptidão física de candidatas grávidas não viola a isonomia, sendo uma forma de garantir a igualdade de oportunidades entre candidatos e candidatas, ao permitir que as mulheres grávidas realizem o teste em condições adequadas (RE 1058333). _______________________________________________________________________ 37. Com base nos documentos internacionais e na legislação interna concernente aos direitos dos povos originários e indígenas, assinale a afirmativa CORRETA. (A) A Convenção nº 107 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), editada em 1957, rompe com a visão jurídica integracionista, até então predominante no âmbito do direito internacional dos direitos humanos, passando a reconhecer de forma expressa que as populações tribais possuem o mesmo nível de desenvolvimento que outros setores da comunidade nacional respectiva. (B) No plano interno, antes mesmo do advento do Novo Código Civil, editado em 2002, o “Estatuto do Índio”, promulgado em 1973, promoveu a superação da visão integracionista, reconhecendo, no plano normativo formal, a autonomia e autodeterminação dos povos originários, a partir da compreensão de uma sociedade pluriétnica e multicultural. (C) O sistema regional americano foi pioneiro na edição de instrumento internacional de reconhecimento dos direitos dos povos indígenas e tribais, oferecendo proteção específica a esse grupo de pessoas. Antes do advento da Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas, o sistema global (ou onusiano) aplicava a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial como mecanismo de proteção às comunidades tradicionais. (D) Ao reconhecer o direito das comunidades indígenas à propriedade sobre as terras que tradicionalmente ocupam, a Constituição Federal de 1988 confere maior nível de proteção a este grupo minoritário do que aquele garantido pelos instrumentos internacionais correlatos, como por exemplo a Convenção nº 169 da OIT. (E) A Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), editada em 1989, inovou no critério adotado para a promoção do reconhecimento de determinada comunidade como sendo indígena ou tribal, passando a acolher a autoidentificação como procedimento mais adequado. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS A alternativa correta é a E, que afirma que a Convenção nº169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), adotada em 1989, inovou ao introduzir a 67 autoidentificação como critério principal para o reconhecimento de uma comunidade como indígena ou tribal. O art. 1.2 da referida Convenção estabelece que "a consciência de sua identidade indígena ou tribal deve ser considerada um critério fundamental para determinar os grupos aos quais se aplicam as disposições da Convenção". Essa mudança foi importante porque respeita a autonomia dos povos em se definirem, o que reforça a proteção e a promoção de seus direitos. O enfoque na autoidentificação se afasta de critérios exógenos ou impostos, permitindo que as próprias comunidades determinem sua identidade étnica ou tribal. Ademais, a Convenção nº 169 é um dos instrumentos internacionais mais importantes na defesa dos direitos dos povos indígenas e tribais, e o Brasil ratificou essa convenção em 2002, incorporando-a ao seu ordenamento jurídico. _______________________________________________________________________ 38. Na qualidade de marco jurídico da transição democrática e da institucionalização dos Direitos Humanos, a Constituição Federal de 1988 confere especial ênfase aos direitos humanos, consagrando o princípio da(o) (A) soberania popular, o regime de fundamentalidade exclusivamente aos direitos políticos, a cláusula pétrea dos direitos e garantias coletivos, bem como a cláusula constitucional de abertura, que permitem a interação da Constituição com o Direito Internacional dos Direitos Humanos. (B) relativismo cultural, o regime de fundamentalidade exclusivamente aos direitos políticos, a cláusula pétrea dos direitos e garantias individuais, bem como a cláusula constitucional de abertura, que permitem a interação da Constituição com o Direito Internacional dos Direitos Humanos, expandindo o bloco de constitucionalidade. (C) dignidade humana, o regime de fundamentalidade dos direitos sociais, a cláusula pétrea dos direitos e garantias individuais, bem como a cláusula constitucional de abertura, que permite a interação da Constituição com o Direito Internacional dos Direitos Humanos, expandindo o bloco de constitucionalidade. (D) relativismo cultural, o regime de fundamentalidade exclusivamente dos direitos de solidariedade, a cláusula pétrea dos direitos e garantias coletivos, não prevendo cláusula constitucional de abertura ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. (E) soberania do Estado, o regime de fundamentalidade dos direitos sociais, a cláusula pétrea dos direitos e garantias coletivos, não prevendo cláusula constitucional de abertura ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS O assunto foi estudado no ponto 6 de Direito Constitucional e na 3ª Remessa de Direitos Humanos do Circuito Legislativo, página 4 na turma ENAM II 2024. 68 A Constituição Federal de 1988, no Brasil, tem como um de seus princípios fundamentais a dignidade humana (art. 1º, III), que é o centro dos direitos humanos no texto constitucional. Além disso, a Constituição confere fundamentalidade não só aos direitos políticos, mas também aos direitos sociais (art. 6º) e aos direitos e garantias individuais (art. 5º), assegurados como cláusulas pétreas (art. 60, § 4º, IV), o que significa que não podem ser abolidos nem por emenda constitucional. A Carta de 1988 também estabelece a cláusula de abertura constitucional no § 2º do art. 5º, que reconhece direitos e garantias não expressamente mencionados no texto constitucional, mas que derivam de tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil, expandindo, assim, o bloco de constitucionalidade. Isso permite a interação entre a Constituição brasileira e o Direito Internacional dos Direitos Humanos, incluindo normas supralegais e até de status constitucional, como os tratados de direitos humanos aprovados nos moldes do § 3º do art. 5º. A resposta correta é a alternativa C. _______________________________________________________________________ DIREITO PROCESSUAL CIVIL 39. O valor da causa é requisito da petição inicial, indispensável para a definição de diversos aspectos econômicos do processo, como a competência e a fixação de honorários de sucumbência, entre outros. A respeito do tema, assinale a afirmativa CORRETA. (A) O valor da causa, na ação de alimentos, corresponderá à soma de 24 (vinte e quatro) prestações mensais pedidas pelo autor. (B) Na ação em que há cumulação de pedidos, o valor da causa corresponderá à quantia correspondente ao maior pedido formulado pelo autor. (C) Na ação em que os pedidos são alternativos, o valor da causa corresponderá ao pedido de menor valor. (D) O réu poderá impugnar, em preliminar da contestação, o valor atribuído à causa pelo autor, sob pena de preclusão, e o juiz decidirá a respeito, impondo, se for o caso, a complementação das custas. (E) O juiz corrigirá liminarmente o valor da causa quando verificar que não corresponde ao conteúdo patrimonial em discussão ou ao proveito econômico perseguido pelo autor, sendo admissível, a partir daí, a correção apenas por requerimento do réu. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS 69 O assunto foi estudado no material de na 4ª Remessa de Direito Processual Civil do Circuito Legislativo da turma ENAM II. (A) INCORRETA. CPC, Art. 292. O valor da causa constará da petição inicial ou da reconvenção e será: (...) III - na ação de alimentos, a soma de 12 (doze) prestações mensais pedidas pelo autor; (B) INCORRETA. Art. 292. O valor da causa constará da petição inicial ou da reconvenção e será: (...) VI - na ação em que há cumulação de pedidos, a quantia correspondente à soma dos valores de todos eles; (C) INCORRETA. Art. 292. O valor da causa constará da petição inicial ou da reconvenção e será: (...) VII - na ação em que os pedidos são alternativos, o de maior valor; (D) CORRETA. Art. 293. O réu poderá impugnar, em preliminar da contestação, o valor atribuído à causa pelo autor, sob pena de preclusão, e o juiz decidirá a respeito, impondo, se for o caso, a complementação das custas. (E) INCORRETA. Art. 292, § 3º O juiz corrigirá, de ofício e por arbitramento, o valor da causa quando verificar que não corresponde ao conteúdo patrimonial em discussão ou ao proveito econômico perseguido pelo autor, caso em que se procederá ao recolhimento das custas correspondentes. _______________________________________________________________________ 40. Diante da suspeita de que Paulo deixaria de devolver o filho do ex-casal após a visita, Joana ajuizou ação de guarda unilateral com pedido de antecipação dos efeitos da tutela. Apresentadas as provas junto à inicial e ouvido o Ministério Público, Carlos, juiz competente para julgar a demanda, concedeu a tutela de urgência de modo a garantir a guarda unilateral em favor de Joana e marcou a audiência de conciliação entre os genitores. Na data designada, após o término da audiência sem acordo entre as partes, ao deixar o Fórum, Paulo abalroou o veículo dirigido por Carlos por desatenção, o que levou a uma 70 calorosa discussão entre ambos. Após, o episódio, Carlos declarou sua suspeição, conforme disposição legal e determinou a remessa ao juízo substituto, ao passo que Paulo pugnou pela anulação da antecipação de tutela concedida ante a declaração exarada pelo magistrado. Sobre o pedido realizado por Paulo, à luz das disposições legais e da jurisprudência dominante sobre o tema, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Deverá ser acolhido, considerando a flagrante inimizade existente entre o juiz e a parte. (B) Deverá ser rejeitado, pois a causa da declaração se deu por ato praticado por Paulo. (C) Deverá ser rejeitado, pois a declaração de suspeição pelo magistrado por motivos supervenientesnão possui efeitos retroativos. (D) Deverá ser acolhido, sendo certo que a manutenção da decisão prejudicará Paulo e decorreu da parcialidade do julgador. (E) Deverá ser rejeitado, pois a remessa da ação ao juízo substituto e a ratificação dos atos anteriores é capaz de afastar a nulidade arguida. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 05 e 06 de Direito Processual Civil na turma ENAM II 2024, página 16. Conforme entendimento da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, "a declaração pelo magistrado de suspeição por motivo superveniente não tem efeitos retroativos, não importando em nulidade dos atos processuais praticados em momento anterior ao fato ensejador da suspeição" (STJ, AgRg no AResp n. 763.510/SP, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, DJe de 05/11/2015 e PET no REsp 1339313/RJ, Rel. Ministro SÉRGIO KUKINA, Rel. p/ Acórdão Ministra ASSUSETE MAGALHÃES, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 13/04/2016, DJe 09/08/2016) Desse modo, no caso apresentado, como o motivo que ensejou a suspeição ocorreu após a audiência, deverá ser rejeitado o pedido de Paulo, haja vista que a declaração de suspeição por motivo superveniente não possui efeitos retroativos, de modo a ensejar, por si só, a anulação da decisão que deferiu a tutela de urgência em desfavor de Paulo. _______________________________________________________________________ 41. Em relação às diversas formas de pronunciamento do juiz e dos auxiliares da justiça, relacione as hipóteses listadas a seguir às respectivas naturezas jurídicas. 1. Sentença 2. Decisão interlocutória 71 3. Despacho 4. Ato ordinatório ( ) Ato que põe fim à segunda fase da ação de prestação de contas. ( ) Ato que dá vista obrigatória às partes. ( ) Ato que julga embargos de declaração opostos contra a concessão de tutela de urgência. ( ) Ato de homologação de indicação de depositário, em penhora de empresa. Assinale a opção que indica a relação CORRETA, segundo a ordem apresentada. (A) 1 – 4 – 2 – 3. (B) 1 – 3 – 4 – 2. (C) 3 – 1 – 2 – 4. (D) 2 – 4 – 1 – 3. (E) 1 – 3 – 2 – 4. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS O assunto foi estudado na 4ª Remessa de Direito Processual Civil do Circuito Legislativos da turma ENAM II 2024. Fundamental conhecer a previsão do art. 203 do CPC: Art. 203. Os pronunciamentos do juiz consistirão em sentenças, decisões interlocutórias e despachos. § 1º Ressalvadas as disposições expressas dos procedimentos especiais, sentença é o pronunciamento por meio do qual o juiz, com fundamento nos arts. 485 e 487 , põe fim à fase cognitiva do procedimento comum, bem como extingue a execução. § 2º Decisão interlocutória é todo pronunciamento judicial de natureza decisória que não se enquadre no § 1º. § 3º São despachos todos os demais pronunciamentos do juiz praticados no processo, de ofício ou a requerimento da parte. § 4º Os atos meramente ordinatórios, como a juntada e a vista obrigatória, independem de despacho, devendo ser praticados de ofício pelo servidor e revistos pelo juiz quando necessário. Importante ressaltar, à luz do entendimento do STJ, que o ato decisório que põe fim à segunda fase da ação de prestação de contas possui natureza jurídica de sentença. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art485 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art487 72 Confira-se o seguinte precedente: RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO DE EXIGIR CONTAS (CPC/2015, ART. 550, § 5º). DECISÃO QUE, NA PRIMEIRA FASE, JULGA PROCEDENTE A EXIGÊNCIA DE CONTAS. RECURSO CABÍVEL. MANEJO DE AGRAVO DE INSTRUMENTO (CPC, ART. 1.015, II). DÚVIDA FUNDADA. FUNGIBILIDADE RECURSAL. APLICAÇÃO. RECURSO PROVIDO. 1. Havendo dúvida fundada e objetiva acerca do recurso cabível e inexistindo ainda pronunciamento judicial definitivo acerca do tema, deve ser aplicado o princípio da fungibilidade recursal. 2. Na hipótese, a matéria é ainda bastante controvertida tanto na doutrina como na jurisprudência, pois trata-se de definir, à luz do Código de Processo Civil de 2015, qual o recurso cabível contra a decisão que julga procedente, na primeira fase, a ação de exigir contas (arts. 550 e 551), condenando o réu a prestar as contas exigidas. 3. Não acarretando a decisão o encerramento do processo, o recurso cabível será o agravo de instrumento (CPC/2015, arts. 550, § 5º, e 1.015, II). No caso contrário, ou seja, se a decisão produz a extinção do processo, sem ou com resolução de mérito (arts. 485 e 487), aí sim haverá sentença e o recurso cabível será a apelação. 4. Recurso especial provido. (REsp 1680168/SP, Rel. Ministro MARCO BUZZI, Rel. p/ Acórdão Ministro RAUL ARAÚJO, QUARTA TURMA, julgado em 09/04/2019, DJe 10/06/2019) Desse modo, a partir da interpretação do referido dispositivo legal, a resposta correta é a letra A. _______________________________________________________________________ 42. Em determinado processo, no qual havia sido deferido, a ambas as partes, o benefício da gratuidade de justiça, o magistrado, à luz dos elementos coligidos aos autos, concluiu que o réu vinha incorrendo em uma série de condutas processuais, sobretudo por meio das petições protocolizadas por seu advogado, que inequivocamente visavam obstaculizar a efetivação prática da tutela provisória concedida em favor do demandante. Assim, o juiz da causa advertiu o réu sobre a possibilidade de configuração de ato atentatório à dignidade da justiça. Contudo, persistiu o demandado, por meio de seu patrono, na criação de toda a sorte de expedientes voltados para embaraçar o efetivo cumprimento da tutela provisória. Nesse cenário, assinale a opção que apresenta, corretamente, a ação que caberá ao juiz. (A) Impor multa em desfavor do réu e de seu advogado, ficando ambos solidariamente responsáveis pelo seu pagamento, sem prejuízo da expedição de ofício à Ordem dos Advogados do Brasil. (B) Impor multa em desfavor do réu, a qual, não sendo paga no prazo fixado, será inscrita como dívida ativa da União ou do Estado, sem prejuízo da aplicação das sanções criminais, civis e processuais cabíveis. (C) Impor multa em desfavor do réu, isentando-o, contudo, de seu pagamento, por força do benefício da gratuidade de justiça que lhe havia sido deferido. 73 (D) Cominar as astreintes em desfavor do réu, sem lhe impor a multa pela prática de ato atentatório à dignidade da justiça, haja vista a incompatibilidade entre ambas as medidas. (E) Cominar as astreintes em desfavor do réu, sem lhe impor a multa pela prática de ato atentatório à dignidade da justiça, o qual não se configura nas hipóteses de criação de embaraços à efetivação das decisões de natureza provisória. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS O assunto foi estudado na 4ª Remessa de Direito Processual Civil do Circuito Legislativo da turma ENAM II 2024. Assim prevê o art. 77 do CPC: Art. 77. Além de outros previstos neste Código, são deveres das partes, de seus procuradores e de todos aqueles que de qualquer forma participem do processo: I - expor os fatos em juízo conforme a verdade; II - não formular pretensão ou de apresentar defesa quando cientes de que são destituídas de fundamento; III - não produzir provas e não praticar atos inúteis ou desnecessários à declaração ou à defesa do direito; IV - cumprir com exatidão as decisões jurisdicionais, de natureza provisória ou final, e não criar embaraços à sua efetivação; V - declinar, no primeiro momento que lhes couber falar nos autos, o endereço residencial ou profissional onde receberão intimações, atualizando essa informação sempre que ocorrer qualquer modificação temporária ou definitiva; VI - não praticar inovaçãoilegal no estado de fato de bem ou direito litigioso. VII - informar e manter atualizados seus dados cadastrais perante os órgãos do Poder Judiciário e, no caso do § 6º do art. 246 deste Código, da Administração Tributária, para recebimento de citações e intimações. § 1º Nas hipóteses dos incisos IV e VI, o juiz advertirá qualquer das pessoas mencionadas no caput de que sua conduta poderá ser punida como ato atentatório à dignidade da justiça. § 2º A violação ao disposto nos incisos IV e VI constitui ato atentatório à dignidade da justiça, devendo o juiz, sem prejuízo das sanções criminais, civis e processuais cabíveis, aplicar ao responsável multa de até vinte por cento do valor da causa, de acordo com a gravidade da conduta. 74 § 3 o Não sendo paga no prazo a ser fixado pelo juiz, a multa prevista no § 2º será inscrita como dívida ativa da União ou do Estado após o trânsito em julgado da decisão que a fixou, e sua execução observará o procedimento da execução fiscal, revertendo-se aos fundos previstos no art. 97 . § 4º A multa estabelecida no § 2º poderá ser fixada independentemente da incidência das previstas nos arts. 523, § 1º , e 536, § 1º . § 5º Quando o valor da causa for irrisório ou inestimável, a multa prevista no § 2º poderá ser fixada em até 10 (dez) vezes o valor do salário-mínimo. § 6º Aos advogados públicos ou privados e aos membros da Defensoria Pública e do Ministério Público não se aplica o disposto nos §§ 2º a 5º, devendo eventual responsabilidade disciplinar ser apurada pelo respectivo órgão de classe ou corregedoria, ao qual o juiz oficiará. Desse modo, a conduta do réu, após devidamente advertido, configura ato atentatório à dignidade da justiça, cabendo ao Juiz fixar multa em seu desfavor, sem prejuízo das sanções criminais, civis e processuais cabíveis. Não sendo paga, a multa prevista no § 2º será inscrita como dívida ativa da União ou do Estado após o trânsito em julgado da decisão que a fixou, e sua execução observará o procedimento da execução fiscal. Registre-se, por fim, na forma do art. 98, § 4º, do CPC, a concessão de gratuidade não afasta o dever de o beneficiário pagar, ao final, as multas processuais que lhe sejam impostas. _______________________________________________________________________ 43. Ajuizada ação de execução fundada em nota promissória vencida e não paga, o juiz, apreciando a petição inicial, ordenou a citação do executado para que, no prazo legal, pagasse o débito. O demandado, contudo, quedou-se inerte, não tendo ofertado qualquer manifestação processual. Na esteira do juízo positivo de admissibilidade da ação, o demandante adotou as providências necessárias para viabilizar a averbação da instauração do processo na serventia imobiliária em que se achava matriculado um imóvel do executado. Transcorrido um mês após a ultimação do ato citatório, o exequente protocolizou petição, devidamente instruída com documentos, na qual noticiava ao órgão judicial que o demandado havia vendido a um terceiro o imóvel em cuja matrícula já estava averbada a existência do feito executivo. Alegando que tal alienação comprometeria a satisfação de seu crédito, por reduzir o devedor à insolvência, o exequente requereu que fosse reconhecida a fraude à execução. Nesse contexto, o juiz deverá https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art97 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art523%C2%A71 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art523%C2%A71 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art536%C2%A71 75 (A) determinar a intimação do terceiro adquirente para que este intente, caso queira, embargos de terceiro, a serem resolvidos por sentença impugnável por recurso de apelação. (B) aguardar a iniciativa do terceiro adquirente, em prazo não superior a 15 (quinze) dias, no sentido de intentar embargos de terceiro, a serem resolvidos em sentença impugnável por recurso de apelação. (C) determinar a intimação do adquirente para que este suscite, caso queira, o incidente processual de aferição de fraude à execução, a ser resolvido por decisão interlocutória impugnável por recurso de agravo de instrumento. (D) aguardar a iniciativa do terceiro adquirente, em prazo não superior a 15 (quinze) dias, no sentido de suscitar o incidente processual de aferição de fraude à execução, a ser resolvido por decisão interlocutória impugnável por recurso de agravo de instrumento. (E) proferir de imediato decisão interlocutória reconhecendo a fraude à execução, caso já disponha de elementos de convicção nesse sentido. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 16 a 19 de Direito Processual Civil na turma ENAM II 2024, página 87. Confiram o teor do art. 792 do CPC: Art. 792. A alienação ou a oneração de bem é considerada fraude à execução: I - quando sobre o bem pender ação fundada em direito real ou com pretensão reipersecutória, desde que a pendência do processo tenha sido averbada no respectivo registro público, se houver; II - quando tiver sido averbada, no registro do bem, a pendência do processo de execução, na forma do art. 828 ; III - quando tiver sido averbado, no registro do bem, hipoteca judiciária ou outro ato de constrição judicial originário do processo onde foi arguida a fraude; IV - quando, ao tempo da alienação ou da oneração, tramitava contra o devedor ação capaz de reduzi-lo à insolvência; V - nos demais casos expressos em lei. § 1º A alienação em fraude à execução é ineficaz em relação ao exequente. § 2º No caso de aquisição de bem não sujeito a registro, o terceiro adquirente tem o ônus de provar que adotou as cautelas necessárias para a aquisição, mediante a exibição das certidões https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art828 76 pertinentes, obtidas no domicílio do vendedor e no local onde se encontra o bem. § 3º Nos casos de desconsideração da personalidade jurídica, a fraude à execução verifica-se a partir da citação da parte cuja personalidade se pretende desconsiderar. § 4º Antes de declarar a fraude à execução, o juiz deverá intimar o terceiro adquirente, que, se quiser, poderá opor embargos de terceiro, no prazo de 15 (quinze) dias. Deve o Juiz, portanto, antes de declarar a fraude à execução, o juiz deverá intimar o terceiro adquirente, que, se quiser, poderá opor embargos de terceiro, no prazo de 15 (quinze) dias, que serão julgados por sentença, pondo fim à fase de conhecimento, contra a qual cabe recurso de apelação. _______________________________________________________________________ 44. Com relação aos requisitos da petição inicial, seu recebimento, seu indeferimento e sua inépcia, analise as afirmativas a seguir e assinale (V) para a verdadeira e (F) para falsa. ( ) É indispensável em todos os procedimentos e graus de jurisdição que a petição inicial seja escrita e em língua portuguesa. ( ) Em se tratando de execução fiscal, a falta de indicação do CPF ou do CPNJ da parte executada é causa de indeferimento da petição inicial. ( ) Não induz a inépcia da inicial a realização de pedido genérico, quando se tratar de ações universais, se o autor não puder individuar os bens demandados. As afirmativas são, respectivamente, (A) V – F – V. (B) F – F – V. (C) V – V – F. (D) V – F – F. (E) F – V – F. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 7 a 9 de Direito Processual Civil na turma ENAM II 2024, página 15 e material de súmulas do STJ, página 69. A resposta é extraída da interpretação em conjunto dos seguintes dispositivos do CPC e de entendimento sumulado do STJ: 77 Art. 192. Em todos os atos e termos do processo é obrigatórioo uso da língua portuguesa. Súmula 558 do STJ: Em ações de execução fiscal, a petição inicial não pode ser indeferida sob o argumento da falta de indicação do CPF e/ou RG ou CNPJ da parte executada. Art. 330. A petição inicial será indeferida quando: I - for inepta; § 1º Considera-se inepta a petição inicial quando: I - lhe faltar pedido ou causa de pedir; II - o pedido for indeterminado, ressalvadas as hipóteses legais em que se permite o pedido genérico; III - da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão; IV - contiver pedidos incompatíveis entre si. Art. 324. O pedido deve ser determinado. § 1º É lícito, porém, formular pedido genérico: I - nas ações universais, se o autor não puder individuar os bens demandados; II - quando não for possível determinar, desde logo, as consequências do ato ou do fato; III - quando a determinação do objeto ou do valor da condenação depender de ato que deva ser praticado pelo réu. Importante atentar, por fim, quanto à primeira alternativa, que, ainda que, excepcionalmente, admita-se que o processo se inicie oralmente, como no âmbito dos Juizados Especiais Cíveis (art. 14, caput e §3º, do CPC), o pedido deverá ser reduzido a escrito, uma vez que a petição inicial, necessariamente, precisa constar de documento escrito. _______________________________________________________________________ 45. Uma associação civil ajuizou ação civil pública, distribuída em dezembro de 2021 à 1ª Vara Cível da Comarca do Rio de Janeiro, RJ, em face da Construtora More Bem, responsável pela empreitada do Edifício Boa Moradia e sediada naquela cidade. O pedido foi de indenização em razão do desabamento do edifício, localizado no Município de São Paulo. A associação foi constituída em maio de 2021 com o intuito de promover coletivamente a defesa dos direitos das vítimas do evento danoso, assim como de seus sucessores. Em sede de contestação, a Construtora More Bem arguiu a ilegitimidade ativa da associação em razão de sua constituição ter ocorrido há menos de um ano da propositura da ação civil pública, de não ter sido comprovada a autorização assemblear para a propositura da mesma ação. Ambos os argumentos foram rejeitados pelo juiz em sede de decisão de saneamento e organização do processo, que apontou a desnecessidade da autorização, bem como, diante da sensibilidade do direito defendido em juízo, o requisito de que a pré-constituição poderia ser afastado no caso concreto. Finda a instrução processual, a sentença julgou procedente o pedido, condenando a Construtora More Bem ao pagamento da indenização pretendida, assim como ao pagamento das custas processuais e dos honorários de sucumbência fixados em 10% 78 (dez por cento) sobre o valor global da condenação, a ser apurado em sede de liquidação de sentença. Transcorrido o prazo legal sem interposição de recurso, a sentença transitou em julgado. Sobre o caso acima, assinale a afirmativa CORRETA. (A) A Comarca do Rio de Janeiro é competente para apreciar a ação, por se tratar do foro do domicílio do réu, bem como por ser a competência territorial na ação civil pública relativa, prorrogável caso não seja alegada a incompetência em sede de contestação, como na hipótese. (B) A coisa julgada, por se tratar de ação civil pública para a defesa de direitos coletivos em sentido estrito, terá eficácia ultra partes, mas limitadamente à categoria das vítimas e sucessores do evento danoso. (C) A liquidação de sentença poderá ser promovida pela associação civil ou pelo Ministério Público, exclusivamente, vedada igual iniciativa às vítimas e/ou a seus sucessores. (D) A autorização assemblear é dispensável na hipótese, bem como não há nulidade decorrente da flexibilização do requisito da pré-constituição da associação civil nos termos da fundamentação exposta pelo juízo ao sanear o processo. (E) A condenação do réu ao pagamento de honorários advocatícios de sucumbência em sede de ação civil pública promovida por associação civil é cabível, ainda que ausente a má-fé em sua atuação. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 22 e 23 de Direito Processual Civil na turma ENAM II 2024, página 11. Segundo entendimento do STJ, “as associações civis, para ajuizar ações civis públicas ou coletivas, precisam deter representatividade adequada do grupo que pretendam defender em juízo, aferida à vista do preenchimento de dois requisitos: a) pré- constituição há pelo menos um ano nos termos da lei civil - dispensável, quando evidente interesse social; e b) pertinência temática - indispensável e correspondente à finalidade institucional compatível com a defesa judicial do interesse. Quanto ao requisito temporal, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é firme quanto à possibilidade de dispensa do requisito de um ano de pré-constituição da associação, nos casos de interesse social evidenciado pela dimensão do dano e pela relevância do bem jurídico a ser protegido” (AgInt nos EDcl no REsp 1788290 / MS, QUARTA TURMA, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, DJe 01/08/2022). Desse modo, no caso da questão, é possível dispensar o requisito temporal de pré- constituição, sempre que o juiz condutor do processo entender que remanesce interesse 79 social evidenciado pela dimensão do dano e pela relevância do bem jurídico a ser protegido. Quanto à necessidade de autorização dos associados, fundamental rememorar o entendimento mais recente do STJ (REsp 1.993.506 – MT, Terceira Turma, Rel. MINISTRA NANCY ANDRIGHI, julgado em 26 de abril de 2022). Para a Corte Superior, “4. Ordinariamente, as partes da relação jurídica processual devem ser as mesmas que figuram como titulares da relação jurídica de direito material (art. 18 do CPC/2015). Nesse contexto, a defesa coletiva de interesses comuns pertencentes a diversos titulares somente poderia ser realizada em litisconsórcio. Todavia, diante da necessidade de enfrentamento simultâneo de lides multitudinárias e para propiciar a defesa conjunta de interesses comuns, surgiram os institutos da representação e da substituição processuais. 5. O art. 5º, XXI, da CF/88 confere às entidades associativas legitimidade para representar seus filiados judicial e extrajudicialmente, quando expressamente autorizadas. O referido dispositivo constitucional diz respeito às ações de rito ordinário, as quais se prestam às mais diversas postulações, voltadas contra entes públicos ou privados, para satisfação de direitos individuais ou coletivos. Apesar de a lei não ser expressa a respeito, o objeto material da demanda deve guardar pertinência com os fins da associação. 6. Nessas lides, a associação atua como representante processual, porquanto vai a juízo em nome e no interesse dos associados. Por essa razão, há necessidade de autorização expressa dos filiados, a qual é satisfeita com a anuência dos associados manifestada em assembleia geral. Se tais elementos não acompanharem a petição inicial, o juiz deve oportunizar à parte a correção do vício e apenas caso não atendida a determinação é que o feito deve ser extinto sem julgamento do mérito (art. 76 do CPC/2015). Precedentes. 7. O ordenamento jurídico também assegura à associação a possibilidade de atuar em juízo para a defesa de interesse coletivo em sentido amplo, seja mediante a propositura de ação coletiva de consumo ou de ação civil pública. A tanto, basta que estejam preenchidos os pressupostos legais, a saber: constituição regular há pelo menos 01 (um) ano e pertinência temática (art. 82, IV, do CDC e art. 5º, V, da Lei nº 7.347/1985). 8. Nessas hipóteses, a associação assume o papel não de representante, mas sim de substituta processual (legitimação extraordinária), pois age em nome próprio para a defesa de pretensão alheia. No regime de substituição processual, é inaplicável a tese firmada pelo STF quanto à necessidade de autorizaçãodos associados, a qual se restringe às ações coletivas de rito ordinário. Precedentes. Desse modo, a resposta é a letra D. _______________________________________________________________________ 46. Após enunciar o dever dos tribunais de “uniformizar sua jurisprudência e mantê-la estável, íntegra e coerente” o atual Código de Processo Civil lista os padrões decisórios de força vinculativa, entre os quais os acórdãos em incidente de assunção de competência e em julgamento de recurso especial repetitivo. Especificamente em relação ao tema dos Juizados Especiais, o Superior Tribunal de Justiça vem, ao longo dos últimos anos, firmando precedentes vinculantes de notável repercussão jurídica. 80 À luz de tais considerações, analise as teses a seguir. I. Os Juizados Especiais da Fazenda Pública, órgãos da justiça comum e integrantes do Sistema dos Juizados Especiais, serão criados pela União, no Distrito Federal e nos Territórios, e pelos Estados, para conciliação, processo, julgamento e execução, nas causas de sua competência, a qual possui natureza absoluta nos foros em que tenha sido instalado o respectivo Juizado, para as causas da sua alçada e matéria. II. Ao autor que deseje litigar no âmbito de Juizado Especial Federal Cível, é lícito renunciar, de modo expresso e para fins de atribuição de valor à causa, ao montante que exceda os 60 (sessenta) salários mínimos previstos no Art. 3º, caput, da Lei nº 10.259/2001, aí incluídas, sendo o caso, as prestações vincendas. III. Os Juizados Especiais da Fazenda Pública têm competência para o julgamento de ações decorrentes de acidente de trabalho em que o Instituto Nacional do Seguro Social figure como parte. IV. Não é possível propor nos Juizados Especiais da Fazenda Pública a execução de título executivo formado em ação coletiva que tramitou sob o rito ordinário, assim como impor o rito sumaríssimo da Lei nº 12.153/2009 ao juízo comum da execução. Está CORRETO o que se afirma em (A) I e III, apenas. (B) II e III, apenas. (C) II, III e IV, apenas. (D) I, II e IV, apenas. (E) I, II, III e IV. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS O Superior Tribunal de Justiça pacificou o entendimento no sentido de que os juizados especiais possuem competência absoluta para julgar as demandas quando o valor da causa não ultrapasse 60 (sessenta) salários mínimos, sendo certo que a complexidade da causa não é motivo suficiente para afastar a competência dos juizados especiais. AgInt nos EDcl no AREsp 2.201.340/RS, relator ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, julgado em 4/9/2023, DJe de 6/9/2023. Ademais, firmou o STJ tese sob o rito dos recursos repetitivos (Tema 1030) no seguinte sentido: "Ao autor que deseje litigar no âmbito de Juizado Especial Federal Cível, é lícito renunciar, de modo expresso e para fins de atribuição de valor à causa, ao montante que exceda os 60 (sessenta) salários mínimos previstos no art. 3º, caput, da Lei 10.259/2001, aí incluídas, sendo o caso, as prestações vincendas". 81 No bojo do Tema 1053, decidiu o STJ que os Juizados Especiais da Fazenda Pública não têm competência para o julgamento de ações decorrentes de acidente de trabalho em que o Instituto Nacional do Seguro Social figure como parte. E, ainda, no âmbito do Tema 1029, foi fixada a seguinte tese: "Não é possível propor nos Juizados Especiais da Fazenda Pública a execução de título executivo formado em Ação Coletiva que tramitou sob o rito ordinário, assim como impor o rito sumaríssimo da Lei 12.153/2009 ao juízo comum da execução." Sendo assim, são verdadeiras as afirmativas I, II e IV. _______________________________________________________________________ 47. A partir de dados obtidos pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), sabe-se que, em 2023, havia 84 milhões de ações judiciais em trâmite no território nacional. Diante disso, os mecanismos paraestatais surgem como instrumentos adequados à resolução de conflitos. Nesse cenário, a arbitragem permite que partes maiores e capazes, divergindo sobre o direito de cunho patrimonial, submetam o litígio ao terceiro (árbitro), que deverá, após regular o procedimento, decidir o conflito. Para tanto, o árbitro deverá ter os poderes do juiz togado listados a seguir, à exceção de um. Assinale-o. (A) Determinar a realização de perícias indispensáveis ao julgamento da demanda. (B) Tomar depoimento das partes e ouvir testemunhas indicadas. (C) Modificar ou revogar a medida cautelar ou de urgência concedida pelo Poder Judiciário. (D) Usar do poder de coercibilidade direta para impor à parte o cumprimento da decisão arbitral. (E) Definir, de ofício, a produção de prova que julgar necessária à resolução da lide. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS Dentre as opções, a única correta é a letra D, uma vez que as decisões arbitrais não possuem imediata coercibilidade, isto é, se a parte vencida não cumprir espontaneamente a decisão, a parte vencedora necessitará distribuir um processo próprio perante o Poder Judiciário, a fim de que a decisão arbitral seja cumprida de modo forçado. _______________________________________________________________________ 48. Ajuizada ação por consumidor em face da operadora de plano de saúde que havia contratado, o juiz da causa deferiu a tutela provisória pleiteada, determinando que a parte ré custeasse de imediato os tratamentos médicos de que necessitava o autor, enquanto fossem necessários, conforme requerido na petição inicial. 82 Encerrada a fase postulatória, o magistrado, concluindo pela desnecessidade da prova pericial requerida pela demandada, julgou antecipadamente o mérito e acolheu o pleito autoral. Restou confirmada no ato sentencial, assim, a tutela provisória deferida inicialmente, com a condenação da operadora demandada a garantir a cobertura dos tratamentos médicos nos moldes especificados na peça exordial. Regularmente intimada, a ré interpôs recurso de apelação, na qual requereu a anulação da sentença, por entender que esta se achava maculada por error in procedendo, consubstanciado no cerceamento de seu direito de defesa, e, subsidiariamente, a reforma do julgado, para que se julgasse improcedente o pedido. Na sequência, o autor requereu o processamento do cumprimento provisório da sentença, com a subsequente intimação da ré para depositar os valores relativos aos tratamentos médicos. Nesse cenário, a respeito da ação do juiz, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Deve indeferir o cumprimento provisório de sentença, uma vez que o recurso de apelação interposto pela ré é dotado de efeito suspensivo. (B) Deve indeferir o cumprimento provisório de sentença, uma vez que, no recurso de apelação interposto pela ré, pleiteou-se a anulação da sentença. (C) Deve indeferir o cumprimento provisório de sentença, por ser este incabível nas hipóteses de condenação ao cumprimento de obrigação de fazer. (D) Deve deferir o cumprimento provisório de sentença, o qual não ficará sem efeito ainda que sobrevenha acórdão que anule o ato sentencial objeto da execução. (E) Deve deferir o cumprimento provisório de sentença, cabendo ao autor a obrigação de reparar os danos sofridos pela ré na hipótese de reforma do ato sentencial objeto da execução. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nas remessas 9 e 14 de circuito legislativo da turma ENAM II 2024 na disciplina de Direito Processual Civil. Via de regra, a apelação possui efeito suspensivo, na forma do caput do art. 1012 do CPC. Entretanto, além de outras hipóteses previstas em lei, começa a produzir efeitos imediatamente após a sua publicação a sentença que confirma, concede ou revoga tutela provisória (art. 1012, §2º, V, do CPC). No caso apresentado,considerando que a apelação não terá efeito suspensivo, já que impugna a sentença proferida pelo Juízo a quo, que confirmou a tutela de urgência, é possível o cumprimento provisório de sentença, com base no art. 520 do CPC, 83 obrigando-se o exequente, se a sentença for reformada, a reparar os danos que o executado haja sofrido: Art. 520. O cumprimento provisório da sentença impugnada por recurso desprovido de efeito suspensivo será realizado da mesma forma que o cumprimento definitivo, sujeitando-se ao seguinte regime: I - corre por iniciativa e responsabilidade do exequente, que se obriga, se a sentença for reformada, a reparar os danos que o executado haja sofrido; A resposta correta, portanto, é a letra E. _______________________________________________________________________ 49. Denise impetrou mandado de segurança, com pedido de liminar, em face de ato coator praticado pelo Diretor de Benefícios da Autarquia Previdenciária do Município Beta, que lhe negou o direito de incorporar determinada gratificação a seus proventos de aposentadoria do cargo efetivo de Professor de Ensino Fundamental I. O juízo, em apreciação inicial, indeferiu a liminar pretendida, bem como determinou a notificação da autoridade coatora para prestar informações e a intimação da Procuradoria-Geral do Município Beta para, querendo, ingressar no feito. Após a vinda das informações e a oferta de impugnação pelo Município Beta, o juiz concedeu a ordem, determinando à autoridade coatora que promovesse a incorporação pretendida por Denise. Inconformado com a sentença, o Município Beta interpôs recurso de apelação, o qual foi conhecido e desprovido pela maioria dos votos dos desembargadores da 1ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Estado Alfa. Na sequência, o ente público interpôs recursos especial e extraordinário em face do acórdão de julgamento da apelação. Diante do caso acima, assinale a afirmativa CORRETA. (A) O recurso de apelação interposto pelo Município Beta não deveria ter sido conhecido pela Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Estado Alfa, pois o duplo grau obrigatório de jurisdição da sentença concessiva de mandado de segurança retira o interesse recursal do ente público em buscar a reforma e/ou anulação da decisão. (B) Após a interposição dos recursos especial e extraordinário, os autos serão inicialmente remetidos ao Superior Tribunal de Justiça para o julgamento do recurso especial e, concluído o julgamento, remetidos ao Supremo Tribunal Federal para a apreciação do recurso extraordinário, se este não estiver prejudicado. (C) Não é possível a execução provisória da sentença concessiva da segurança que beneficiou Denise, por haver a vedação legal à concessão de medida liminar para a concessão de vantagens ao servidor público, a impedir o cumprimento provisório do título executivo judicial. (D) Caso tivesse sido denegada a ordem em sede de apelação no Tribunal de Justiça, deveria ter sido ofertado recurso ordinário ao Superior Tribunal de Justiça. 84 (E) No recurso extraordinário, cabe ao Município demonstrar a existência de repercussão geral da questão constitucional debatida, a ser inicialmente apreciada pela Presidência do Tribunal de Justiça do Estado Alfa em sede preliminar e, em seguida, pelo Supremo Tribunal Federal, caso seja negada a repercussão geral pelo tribunal de origem e seja interposto agravo em recurso extraordinário pelo Município Beta. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 13 a 15 de Direito Processual Civil na turma ENAM II 2024. A resposta é extraída da análise do art. 1.031 do CPC: Art. 1.031. Na hipótese de interposição conjunta de recurso extraordinário e recurso especial, os autos serão remetidos ao Superior Tribunal de Justiça. § 1º Concluído o julgamento do recurso especial, os autos serão remetidos ao Supremo Tribunal Federal para apreciação do recurso extraordinário, se este não estiver prejudicado. Importante atentarem que o duplo grau de jurisdição independe de eventual recurso de apelação interposto, sendo decorrência do interesse público no julgamento da lide. Ademais, de acordo com teor do art. 14, § 3o, da Lei 12.016/1990, “a sentença que conceder o mandado de segurança pode ser executada provisoriamente, salvo nos casos em que for vedada a concessão da medida liminar”. Prevê o art. 7º, § 2o, que “não será concedida medida liminar que tenha por objeto a compensação de créditos tributários, a entrega de mercadorias e bens provenientes do exterior, a reclassificação ou equiparação de servidores públicos e a concessão de aumento ou a extensão de vantagens ou pagamento de qualquer natureza”. Entretanto, tal dispositivo foi reputado inconstitucional pelo STJ, que decidiu ser inconstitucional ato normativo que vede ou condicione a concessão de medida liminar na via mandamental. STF. Plenário. ADI 4296/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, redator do acórdão Min. Alexandre de Moraes julgado em 9/6/2021 (Info 1021). E, ainda, ao se que se extrai do art. 18 da mesma Lei, das decisões em mandado de segurança proferidas em única instância pelos tribunais cabe recurso especial e extraordinário, nos casos legalmente previstos, e recurso ordinário, quando a ordem for denegada, de modo que, a depender da hipótese, seria cabível a interposição de recurso especial ou extraordinário, nos casos legalmente previstos. Por fim, confiram o que prevê o art. 1030 do CPC: Art. 1.030. Recebida a petição do recurso pela secretaria do tribunal, o recorrido será intimado para apresentar 85 contrarrazões no prazo de 15 (quinze) dias, findo o qual os autos serão conclusos ao presidente ou ao vice-presidente do tribunal recorrido, que deverá: I – negar seguimento: a) a recurso extraordinário que discuta questão constitucional à qual o Supremo Tribunal Federal não tenha reconhecido a existência de repercussão geral ou a recurso extraordinário interposto contra acórdão que esteja em conformidade com entendimento do Supremo Tribunal Federal exarado no regime de repercussão geral; b) a recurso extraordinário ou a recurso especial interposto contra acórdão que esteja em conformidade com entendimento do Supremo Tribunal Federal ou do Superior Tribunal de Justiça, respectivamente, exarado no regime de julgamento de recursos repetitivos; § 2º Da decisão proferida com fundamento nos incisos I e III caberá agravo interno, nos termos do art. 1.021. Sendo assim, a alternativa correta é a letra B. _______________________________________________________________________ 50. Tendo o autor de uma demanda formulado três pedidos, embora sem o requerimento de concessão de tutela provisória em relação a qualquer deles, o juiz da causa, depois de encerrada a fase postulatória, entendeu que a sua convicção já estava formada acerca da procedência de pelo menos uma das três pretensões deduzidas na petição inicial. Desse modo, o magistrado acolheu de imediato essa parcela do pleito autoral, tendo condenado o réu ao pagamento de uma obrigação ainda ilíquida, restando consignado no ato decisório, ainda, que a apuração do quantum debeatur ficaria reservada para posterior etapa de liquidação. Sem prejuízo, o magistrado determinou o prosseguimento do feito, rumo à fase da instrução probatória, para fins de futuro julgamento dos outros dois pedidos veiculados na peça exordial. A respeito do quadro apresentado, assinale a afirmativa CORRETA. (A) O juiz agiu equivocadamente, uma vez que não há previsão na lei processual para a cisão do julgamento dos pedidos formulados na petição inicial, o qual deve ser simultâneo e pressupôs a conclusão da fase da instrução probatória. (B) O juiz agiu equivocadamente, uma vez que, embora a lei processual preveja o julgamento antecipado parcial do mérito, isso pressupõe,na hipótese de condenação ao cumprimento de obrigação pecuniária, que esta seja líquida. (C) O juiz agiu equivocadamente, uma vez que, embora a lei processual preveja o julgamento antecipado parcial do mérito, isso pressupõe que tenha sido requerida, na petição inicial, a concessão de tutela provisória de natureza antecipada. 86 (D) O juiz agiu acertadamente, sendo a decisão de julgamento antecipado parcial do mérito impugnável por recurso de apelação, o qual viabiliza o juízo de retratação pelo órgão a quo. (E) O juiz agiu acertadamente, sendo a decisão de julgamento antecipado parcial do mérito impugnável por recurso de agravo de instrumento. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nas remessas de Direito Processual Civil do Circuito Legislativo da turma ENAM II 2024. A resposta é extraída da leitura do art. 356 do CPC: Art. 356. O juiz decidirá parcialmente o mérito quando um ou mais dos pedidos formulados ou parcela deles: I - mostrar-se incontroverso; II - estiver em condições de imediato julgamento, nos termos do art. 355 . § 1º A decisão que julgar parcialmente o mérito poderá reconhecer a existência de obrigação líquida ou ilíquida. § 2º A parte poderá liquidar ou executar, desde logo, a obrigação reconhecida na decisão que julgar parcialmente o mérito, independentemente de caução, ainda que haja recurso contra essa interposto. § 3º Na hipótese do § 2º, se houver trânsito em julgado da decisão, a execução será definitiva. § 4º A liquidação e o cumprimento da decisão que julgar parcialmente o mérito poderão ser processados em autos suplementares, a requerimento da parte ou a critério do juiz. § 5º A decisão proferida com base neste artigo é impugnável por agravo de instrumento. Dessa forma, o juiz, se entender que um dos pedidos se encontra em condições de imediato julgamento, pode julgar antecipadamente o mérito quanto a tal pedido, ainda que reconheça o direito à quantia ilíquida, sendo tal decisão impugnável por agravo de instrumento. _______________________________________________________________________ DIREITO CIVIL 51. Lenira, que acabara de perder o marido vítima de atropelamento, encontrando-se em situação financeira muito difícil para se sustentar e manter os quatro filhos, foi https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art355 87 procurada por Dr. Tício, advogado, que ofereceu a ela os seus serviços para obter a pensão por morte que ela não conseguira administrativamente, mediante a remuneração de 60% (sessenta por cento) sobre a totalidade do benefício auferido na ação judicial. Lenira, de pouca instrução e desesperada para obter ajuda, celebrou o negócio jurídico nesses termos com o referido advogado. De acordo com a situação hipotética apresentada, Lenira pode propor ação de anulação (A) no prazo de dois anos, a contar da celebração do negócio jurídico, com base em coação moral. (B) no prazo de dois anos, a contar da celebração do negócio jurídico, com base no estado de perigo. (C) no prazo de dois anos, a contar da celebração do negócio jurídico, com base no dolo. (D) no prazo de quatro anos, a contar da celebração do negócio jurídico, com base na lesão. (E) no prazo de quatro anos, a contar da celebração do negócio jurídico, com base no erro. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 04 a 06 de Direito Civil na turma ENAM II 2024, a partir da página 34. (A) INCORRETA. Vide comentários alternativa D. (B) INCORRETA. Vide comentários alternativa D. (C) INCORRETA. Vide comentários alternativa D. (D) CORRETA. A lesão consiste na hipótese em que “uma pessoa, sob premente necessidade, ou por inexperiência, se obriga a prestação manifestamente desproporcional ao valor da prestação oposta” (art. 157 do CC). Ocorre a lesão quando alguém se obriga a uma prestação manifestamente desproporcional (1º requisito OBJETIVO), em razão de necessidade ou inexperiência (2º requisito SUBJETIVO). Posto isso, podemos constatar que a questão trouxe uma hipótese de celebração de negócio jurídico que ocasiona lesão. Neste particular, o Código Civil prevê em seu art. 178, inciso II, que o prazo decadencial para pleitear a anulação de tal negócio é de quatro anos a contar do dia em que este foi celebrado: 88 “Art. 178. É de quatro anos o prazo de decadência para pleitear- se a anulação do negócio jurídico, contado: II - no de erro, dolo, fraude contra credores, estado de perigo ou lesão, do dia em que se realizou o negócio jurídico;” (E) INCORRETA. Vide comentários alternativa D. _______________________________________________________________________ 52. Em 1º de setembro de 2024, Maria e Jorge celebraram contrato com o médico Zeno, por meio do qual este se obrigou a transmitir a propriedade de seu veículo particular (chassi ABCDEFGH) para aqueles, no valor de R$80.000,00 (oitenta mil reais), constando a favor dos compradores cláusula expressa de solidariedade ativa. Na minuta contratual, não consta taxa de juros moratórios convencionais ou índice de correção monetária. Na data acordada, Zeno transmite a posse e a propriedade do veículo a ambos os compradores e, ao conferir a sua conta corrente, percebe que a transferência dos valores não foi realizada tal como informado pelos adquirentes, constando apenas o pagamento de metade do valor, realizado por Maria. Inconformado, decide propor ação contra Maria para cobrar o valor remanescente. Com relação a esse evento, assinale a afirmativa CORRETA. (A) O pedido deve ser julgado improcedente porque, como se trata de obrigação divisível, presume-se que o valor devido por Maria corresponde à metade do preço estipulado, já tendo ela realizado o pagamento de sua obrigação. (B) Zeno tem direito de cobrar a dívida inteira de Maria, em razão da cláusula de solidariedade expressamente estipulada. (C) A taxa legal de juros decorrente da mora deve corresponder à taxa referencial Selic, deduzido o índice de atualização monetária, vedando-se a possibilidade de juros zerados. (D) Maria responde por toda a dívida, em razão da indivisibilidade do bem alienado, de modo que, pagando a integralidade da obrigação, sub-roga-se no direito do credor em relação a Jorge. (E) Em razão da mora, Zeno deve cobrar o valor monetariamente atualizado pelo índice INPC ou IGP-M, podendo adotar o que lhe for mais favorável. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS O assunto foi estudado no material sobre os pontos 04 a 06 de Direito Civil na turma ENAM II 2024 a partir da página 73. 89 (A) CORRETA. A obrigação divisível é aquela cuja prestação é suscetível de cumprimento parcial, sem prejuízo de sua substância e de seu valor, podendo ser cumprida de forma fracionada, ou seja, em partes. Preconiza o art. 257 do CC/2002 que havendo mais de um devedor ou mais de um credor em obrigação divisível, esta se presume dividida em tantas obrigações, iguais e distintas, quanto os credores e devedores. As obrigações de dar, em regra, são divisíveis quando se tratam de obrigação pecuniária, quando de tratam de obrigação de dar coisa fungível, quando compreende ela número certo de objetos de mesma espécie, igual ao dos concredores, ou dos codevedores, ou submúltiplo desse número, quando tenha por objeto a transferência de propriedade ou de outro direito real, pois é sempre possível a divisão em partes ideais. Washington de Barros Monteiro destaca importantes consequências jurídicas decorrentes do fato de a obrigação divisível ter numerosos sujeitos ativos ou passivos, quer originariamente, quer de modo derivado (por cessão ou herança): “a) cada um dos credores só tem direito a exigir sua fração no crédito; b) de modo idêntico,cada um dos devedores só tem de pagar a própria quota no débito (exemplo: art. 699 do Código Civil 1916, correspondente ao art. 1.380, do atual); c) se o devedor solver integralmente a dívida a um só dos vários credores, não se desobrigará com relação aos demais concredores; d) o credor que recusar o recebimento de sua quota, por pretender solução integral, pode ser constituído em mora; e) a insolvência de um dos codevedores não aumentará a quota dos demais; f) a suspensão da prescrição, especial a um dos devedores, não aproveita aos demais (Código Civil 1916, art. 171, correspondente ao art. 201 do atual); g) a interrupção da prescrição por um dos credores não beneficia os outros; operada contra um dos devedores não prejudica os demais (Código Civil 1916, art. 176; atual art. 204)” (B) INCORRETA. Vide comentários da assertiva A. (C) INCORRETA. Vide comentários da assertiva A. (D) INCORRETA. Vide comentários da assertiva A. (E) INCORRETA. Vide comentários da assertiva A. _______________________________________________________________________ 53. Osvaldo celebrou um contrato, com prazo de vigência de seis meses, pelo qual se comprometeu a vender os tomates que produz por R$3,00 (três reais) o quilo para um mercado local, devendo entregá-los toda segunda-feira de manhã. Passados dois meses de execução regular do contrato, Osvaldo entendeu que o contrato se tornou injusto, pois houve significativa alta no valor do tomate em razão de pragas que atingiram os produtores da região. Diante disso, pretende a resolução do contrato por onerosidade excessiva. Sobre o caso, analise as afirmativas a seguir. https://www.jusbrasil.com.br/topicos/11434637/artigo-699-da-lei-n-3071-de-01-de-janeiro-de-1916 https://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/586165/conflito-de-competencia-cc-1916 https://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/586165/conflito-de-competencia-cc-1916 https://www.jusbrasil.com.br/topicos/11481307/artigo-171-da-lei-n-3071-de-01-de-janeiro-de-1916 https://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/586165/conflito-de-competencia-cc-1916 https://www.jusbrasil.com.br/topicos/11480747/artigo-176-da-lei-n-3071-de-01-de-janeiro-de-1916 90 I. A pretensão de Osvaldo somente poderá ser acolhida se a alta no valor do tomate em razão de pragas que atingiram os produtores da região for considerada um acontecimento imprevisível no momento da contratação. II. Ainda que o pedido de Osvaldo tenha sido a resolução do contrato e não a sua revisão, o mercado pode evitar a extinção do negócio, oferecendo-se a aumentar equitativamente o preço que paga pelos tomates. III. O fundamento para Osvaldo pretender a resolução é seu direito básico como consumidor, o que implica na revisão das cláusulas contratuais em razão de fatos supervenientes que as tornam excessivamente onerosas. Está CORRETO o que se afirma em (A) I, apenas. (B) I e II, apenas. (C) I e III, apenas. (D) II e III, apenas. (E) I, II e III. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS O assunto foi estudado no material sobre os pontos 04 a 06 de Direito Civil na turma ENAM II 2024, a partir da página 66. I. CORRETA. A assertiva trata da teoria da imprevisão prevista no art. 478, CC: “Art. 478. Nos contratos de execução continuada ou diferida, se a prestação de uma das partes se tornar excessivamente onerosa, com extrema vantagem para a outra, em virtude de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis, poderá o devedor pedir a resolução do contrato. Os efeitos da sentença que a decretar retroagirão à data da citação”. II. CORRETA. CC: art. 479, CC: “Art. 479. A resolução poderá ser evitada, oferecendo-se o réu a modificar equitativamente as condições do contrato.” III. INCORRETA. Para a legislação, consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatária final. O conceito de consumidor foi construído na legislação brasileira sob ótica objetiva, voltada para o ato de retirar o produto ou serviço do mercado, na condição de seu destinatário final. 91 Com efeito, resta evidenciado que Osvaldo não é consumidor, mas sim produtor, não se aplicando, portanto, o CDC. Diante disso, a única alternativa correta é a B. _______________________________________________________________________ 54. Alice Semedo, estrangeira, viúva, oriunda do país Alpha, proprietária de dois imóveis no Estado da Bahia, Brasil, realizou testamento no Brasil, deixando metade de todo seu patrimônio para uma Organização Não Governamental com sede em Salvador, Bahia. Alice tem dois filhos brasileiros com idades de 5 e 7 anos. A legislação do país de Alice prevê que, em caso de falecimento, deixando o de cujus filhos, dois terços da herança devem ser destinados a eles na condição de herdeiros necessários. Na situação hipotética narrada, assinale a opção que apresenta, corretamente, a legislação aplicável ao caso. (A) Como os bens imóveis situam-se no Brasil, a legislação brasileira será aplicada exclusivamente em detrimento da lei pessoal do de cujus. (B) O ordenamento jurídico impõe aplicação exclusiva da legislação pessoal do de cujus, independentemente da existência de filhos. (C) Deve ser cumprida a vontade do de cujus, visto que a autonomia da vontade sempre impera nos atos de última vontade. (D) A legislação brasileira impõe a junção da norma nacional com a lei pessoal do de cujus, limitando a vontade do de cujus, independentemente da existência de herdeiros necessários. (E) A sucessão de bens de estrangeiros, situados no país, será regulada pela lei brasileira em benefício dos filhos brasileiros, sempre que não lhes seja mais favorável a lei pessoal do de cujus. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS O assunto foi estudado no ponto 01 de Direito Civil na turma ENAM II 2024, a partir da página 35. (A) INCORRETA. Vide comentários da assertiva E. (B) INCORRETA. Vide comentários da assertiva E. (C) INCORRETA. Vide comentários da assertiva E. (D) INCORRETA. Vide comentários da assertiva E. (E) CORRETA. LINDB (Decreto-Lei nº 4.657/42): 92 “Art. 10. A sucessão por morte ou por ausência obedece à lei do país em que domiciliado o defunto ou o desaparecido, qualquer que seja a natureza e a situação dos bens. § 1º A sucessão de bens de estrangeiros, situados no País, será regulada pela lei brasileira em benefício do cônjuge ou dos filhos brasileiros, ou de quem os represente, sempre que não lhes seja mais favorável a lei pessoal do de cujus. (...)” Note que a alternativa estabelece que a sucessão de bens de estrangeiros situados no Brasil será regulada pela lei brasileira em benefício dos filhos brasileiros, a menos que a lei pessoal do de cujus seja mais favorável. _______________________________________________________________________ 55. A família de Teodoro Madureira notificou extrajudicialmente a sociedade empresária de previdência privada, Vida Longínqua S.A., informando o falecimento do segurado. A notificação do falecimento foi enviada ao negócio 72 horas após o ocorrido, anexando a certidão de óbito. Apesar disso, durante seis meses, a sociedade empresária de previdência privada depositou o valor do benefício da aposentadoria contratada. O contrato estipulava o desembolso do benefício de maneira vitalícia, não havendo a incidência de pensão a qualquer beneficiário. Diante da situação hipotética narrada, considerando que Vida Longínqua S.A. pretende a restituição dos valores pagos após o falecimento de Teodoro, assinale a afirmativa CORRETA. (A) O ordenamento jurídico brasileiro admite a repetição, quando o devedor solveu obrigação judicialmente inexigível. (B) A inexistência de relação jurídica entre a família de Teodoro e a sociedade empresária de previdência privada desobriga a restituição. (C) O enriquecimento ilícitopúblicos deve partir do órgão responsável pela administração do orçamento. 11 Com base nesses julgados, conclui-se que a competência para a proposição de revisões remuneratórias é exclusiva do Poder Executivo, reforçando e assegurando a estabilidade financeira e administrativa na gestão pública. _______________________________________________________________________ 2. Conforme prevê o Art. 200 da Constituição Estatual de Alfa, “o Estado não intervirá nos municípios, exceto nos casos previstos no Art. 35 da Constituição Federal de 1988”. Dessa forma, o constituinte de Alfa optou por não elencar no texto constitucional estadual o rol de princípios constitucionais sensíveis. Sobre o Art. 200 da Constituição de Alfa, tendo como parâmetros a Constituição Federal de 1988 e a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, assinale a afirmativa CORRETA. (A) É constitucional, pois a previsão na Constituição Estadual da possibilidade de intervenção nos municípios é facultativa, em razão da autonomia federativa dos Estados. (B) É inconstitucional, pois é necessária a reprodução expressa do rol taxativo, previsto na Constituição Federal de 1988, dos princípios constitucionais sensíveis na Constituição Estadual ou, ao menos, em lei complementar, como requisito para a intervenção do Estado em seus municípios. (C) É constitucional, pois é desnecessária a reprodução expressa do rol taxativo, previsto na Constituição Federal de 1988, dos princípios constitucionais sensíveis na Constituição Estadual, como condição autorizativa para a intervenção do Estado em seus municípios, por inexistir autonomia para modificá-lo. (D) É inconstitucional, pois o Estado tem o dever de definir expressamente o rol taxativo dos princípios sensíveis que, uma vez violados, podem ensejar a intervenção nos municípios, ainda que a previsão seja distinta da Constituição Federal de 1988. (E) É constitucional, pois em observância ao princípio federativo, compete aos Estados a escolha de seguir ou não as normas previstas na Constituição Federal de 1988, no que tange à intervenção nos municípios. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS O julgado foi estudado no material do Informativo nº 1.121 a 1.1142 do STF (Janeiro e Junho de 2024) enviado para a turma do ENAM II 2024, página 18. Os princípios constitucionais sensíveis previstos no inciso VII do art. 34 da Constituição Federal são de observância obrigatória pelos Estados, sendo estes princípios essenciais à manutenção do pacto federativo e à ordem constitucional. Assim, não há necessidade de que as Constituições estaduais repliquem literalmente esses princípios como condição para a aplicação e intervenção do Estado nos seus Municípios. 12 Conforme entendimento consolidado pelo Supremo Tribunal Federal na ADI 7369, os Estados não possuem autonomia para alterar ou modificar o conteúdo desses princípios, pois sua essência é vinculante e de observância impositiva. Dessa forma, a falta de reprodução literal dos princípios constitucionais sensíveis na Constituição estadual não afasta a possibilidade de intervenção do Estado em seus Municípios, caso haja afronta a esses princípios. Esse entendimento garante a supremacia da Constituição Federal e a integridade do sistema federativo, evitando que os entes estaduais flexibilizem princípios fundamentais que devem reger a atuação de todos os entes federativos. A decisão na ADI 7369 reforça, assim, a importância da uniformidade na aplicação desses princípios para a proteção da ordem constitucional e a defesa do interesse público. _______________________________________________________________________ 3. Maria, política muito conhecida no cenário nacional, tendo ocupado por décadas inúmeros cargos de grande relevância nas estruturas estatais de poder, foi convidada, pelo editor de um conhecido e tradicional periódico, a participar de uma entrevista sobre sua vida profissional, com o objetivo de subsidiar reportagem que seria direcionada especificamente a ela. Como Maria protagonizara diversas controvérsias em sua atuação funcional e não mais ocupava qualquer cargo público, decidiu não conceder a entrevista, de modo a preservar a sua esfera jurídica. Apesar disso, o referido periódico dedicou uma edição inteira à análise da vida pública de Maria, realizando críticas ácidas à sua atuação funcional, o que ocorreu sem que tivesse conhecimento prévio do teor da matéria, desagradando-a profundamente. Considerando os balizamentos oferecidos pela sistemática constitucional, assinale a afirmativa CORRETA. (A) A matéria seria lícita caso fosse adotado o conceito de reportagem neutral, mas a existência de críticas ácidas evidencia a sua ilicitude. (B) Em razão da autonomia da vontade, a negativa de Maria em conceder a entrevista evidencia a ilicitude da matéria em relação à análise de sua vida pública. (C) As liberdades de pensamento e expressão devem preponderar na situação descrita, abrangendo a realização de críticas, ainda que sejam consideradas ácidas. (D) Como a liberdade de expressão sempre prepondera sobre o direito à honra de personagens públicos, a matéria publicada pelo periódico apresenta conformidade constitucional. (E) Apesar de Maria ter ocupado cargos públicos, o que evidencia o interesse público na matéria, o resultado da ponderação entre o direito à honra e a liberdade de informação se inverteu ao deixar de ocupá-los, de modo que aquele direito passou a prevalecer. _______________________________________________________________________ GABARITO: C 13 COMENTÁRIOS O Supremo Tribunal Federal (STF) consolidou entendimento no AI 705.630 acerca da proteção constitucional da crítica jornalística como uma manifestação legítima do direito à liberdade de expressão e imprensa, especialmente quando dirigida a figuras públicas ou notórias. Esse direito, impregnado de qualificação constitucional, é fundamental para assegurar a transparência e o controle social sobre atividades que envolvem interesse da coletividade. De acordo com a decisão, o interesse social que legitima a crítica jornalística se sobrepõe às eventuais suscetibilidades pessoais das figuras públicas, ainda que exerçam, ou não, cargos oficiais. Assim, críticas severas, mordazes ou até impiedosas dirigidas a pessoas públicas não configuram, por si só, ato ilícito, desde que realizadas no contexto de uma manifestação legítima de opinião. A liberdade de crítica é reconhecida como uma excludente anímica, capaz de afastar o intuito doloso de ofender e, por conseguinte, excluir a responsabilidade civil por dano moral. Isso significa que a divulgação de opiniões e observações críticas pelos meios de comunicação social não estará sujeita às limitações ordinárias dos direitos de personalidade aplicáveis a pessoas comuns, visto que figuras públicas, pela natureza de sua exposição, estão sujeitas a um maior grau de escrutínio público. _______________________________________________________________________ 4. De acordo com a Constituição Federal de 1988, será concedido mandado de injunção sempre que a falta de norma regulamentadora tornar inviável o exercício dos direitos e das liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à soberania e à cidadania. A respeito do referido remédio constitucional, a partir da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, assinale a afirmativa CORRETA. (A) É incabível o pedido de desistência formulado após o início do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, quando a maioria dos ministros já tiver se manifestado favoravelmente à concessão da medida. (B) A Constituição Federal de 1988 prevê adicional noturno aos militares estaduais ou distritais e será cabível mandado de injunção para que se apliquem as normas que regulamentam o adicional noturno dos servidores públicos civis aos militares estaduais. (C) O mandadoda família de Teodoro se presume, mas a falta de má-fé gera a restituição sem a atualização dos valores monetários. (D) Como o pagamento ocorreu voluntariamente, caberá à sociedade empresária de previdência privada o ônus probatório do erro. (E) A restituição é indevida, quando deixa de existir a causa que justifique o enriquecimento. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 07 a 09 de Direito Civil na turma ENAM II 2024, assim como na 7ª Remessa do Circuito Legislativo de Direito Civil. 93 (A) INCORRETA. CC: Art. 882. Não se pode repetir o que se pagou para solver dívida prescrita, ou cumprir obrigação judicialmente inexigível. (B) INCORRETA. CC: Art. 876. Todo aquele que recebeu o que lhe não era devido fica obrigado a restituir; obrigação que incumbe àquele que recebe dívida condicional antes de cumprida a condição. (C) INCORRETA. CC: Art. 884. Aquele que, sem justa causa, se enriquecer à custa de outrem, será obrigado a restituir o indevidamente auferido, feita a atualização dos valores monetários. Parágrafo único. Se o enriquecimento tiver por objeto coisa determinada, quem a recebeu é obrigado a restituí-la, e, se a coisa não mais subsistir, a restituição se fará pelo valor do bem na época em que foi exigido. (D) CORRETA. CC: Art. 877. Àquele que voluntariamente pagou o indevido incumbe a prova de tê-lo feito por erro. (E) INCORRETA. CC: Art. 885. A restituição é devida, não só quando não tenha havido causa que justifique o enriquecimento, mas também se esta deixou de existir. _______________________________________________________________________ 56. A respeito do fenômeno da constitucionalização do Direito Civil, analise as afirmativas a seguir. I. A função econômica da liberdade negocial afasta a incidência dos direitos fundamentais nas relações jurídicas de natureza privada. II. A interpretação do Código Civil deve atribuir a todo corpo normativo codificado um significado coerente com a tábua de valores do ordenamento, que pretende transformar efetivamente a realidade a partir das relações jurídicas de natureza privada, segundo os ditames da solidariedade e da justiça social. III. A ordem voluntarista da teoria contratual oitocentista instrumentaliza os princípios constitucionais de acordo com os ditames inafastáveis da lógica individualista. Está CORRETO o que se afirma em (A) II, apenas. 94 (B) I e II, apenas. (C) I e III, apenas. (D) II e III, apenas. (E) I, II e III. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS O assunto foi estudado no ponto 01 de Direito Civil na turma ENAM II 2024, páginas 08 e 31. I. INCORRETA. Hoje é assente a noção de que há um Direito Civil constitucionalizado, pois os direitos fundamentais e os princípios constitucionais que emergem da Constituição Federal de 1988 passam a ter eficácia radiante, aplicando-se não só às relações verticais (Estado x pessoa), mas também às relações horizontais ou privadas (pessoa x pessoa). Atualmente, inclusive no STF e no STJ, é aceita a tese de eficácia horizontal dos direitos fundamentais nas relações privadas. Três são os princípios básicos do Direito Civil Constitucional, conforme as lições de Gustavo Tepedino: dignidade da pessoa humana (trata-se do superprincípio ou princípio dos princípios), que constitui o principal fundamento da personalização do Direito Civil, da valorização da pessoa humana em detrimento do patrimônio. O segundo princípio visa à solidariedade social, outro objetivo fundamental da República, conforme o art. 3.º, inc. I, da CF/1988. Por fim, o princípio da isonomia. Vê-se, pois, que a tríade dignidade-solidariedade-igualdade ou dignidade personalidade- igualdade é o que norteia essa nova ótica civilista. O Direito Civil Constitucional, portanto, representa uma mudança de postura, uma visão unitária do ordenamento jurídico, uma releitura do Código Civil e das leis especiais à luz da Constituição Federal. Neste particular, a função econômica da liberdade negocial não exclui a aplicação dos direitos fundamentais nas relações privadas. Com a constitucionalização do Direito Civil busca integrar os direitos fundamentais na esfera privada, promovendo a proteção da dignidade da pessoa humana e a justiça social. II. CORRETA. Na linha do que foi comentado na assertiva I. A interpretação do Código Civil deve refletir os valores constitucionais, promovendo a busca a solidariedade e a justiça social nas relações privadas. As normas do Direito Civil devem ser aplicadas de forma a respeitar e efetivar os direitos fundamentais. III. INCORRETA. A teoria contratual oitocentista se desenvolveu no contexto do Estado moderno-liberal, marcado por uma orientação individualista. Ela enfatiza o 95 voluntarismo e o individualismo, contrastando com a solidariedade e a função social dos contratos. Logo, a afirmação não está correta. Diante disso, a única assertiva correta é a A _______________________________________________________________________ 57. Olavo é administrador da associação Viver Bem, um famoso clube em região litorânea. Para conseguir recursos para sua campanha política ao cargo de prefeito, prestou aval, em nome da associação, a um contrato de empréstimo com um banco. A respeito da responsabilização de Olavo pelo ato praticado, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Só poderá ser responsabilizado pela garantia regressivamente, considerando que é inviável a desconsideração da personalidade jurídica de associação, entidade sem fins lucrativos, em que não há direitos e obrigações recíprocas entre os associados. (B) Não poderá ser responsabilizado pela garantia nem mesmo regressivamente, considerando que não há direitos e obrigações recíprocas entre os associados, de modo que não cabe a desconsideração da personalidade jurídica, tampouco o regresso contra associados. (C) Só será responsabilizado pela garantia se desconsiderada a personalidade jurídica da associação, observada a teoria maior. (D) Só será responsabilizado pela garantia se desconsiderada a personalidade jurídica da associação, observada a teoria menor. (E) Poderá ser diretamente responsabilizado pela garantia, sequer imputável à associação, independentemente de desconsideração de sua personalidade jurídica. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS QUESTÃO PASSÍVEL DE RECURSO. O GABARITO PRELIMINAR APONTA A ALTERNATIVA (E) E A EQUIPE MEGE APONTA A ALTERNATIVA (C). O assunto foi estudado no ponto 02 de Direito Civil na turma ENAM II 2024, página 41. (A) INCORRETA. (B) INCORRETA. (C) CORRETA. A desconsideração da personalidade jurídica, no âmbito das relações civis gerais, está disciplinada no art. 50 do CC. É correto afirmar que o art. 50 traz a regra geral sobre a desconsideração jurídica no ordenamento jurídico brasileiro, havendo algumas previsões específicas em diplomas próprios (como é o caso do CDC). 96 Somente poderá ocorrer a desconsideração da personalidade jurídica nas relações jurídicas regidas pelo Código Civil se ficar caracterizado que houve abuso da personalidade jurídica. O abuso da personalidade jurídica pode ocorrer em duas situações: 1) Desvio de finalidade; 2) Confusão patrimonial. O Direito Civil brasileiro adotou, como regra geral, a chamada teoria maior da desconsideração. Isso porque o art. 50 exige que se prove o desvio de finalidade (teoria maior subjetiva) ou a confusão patrimonial (teoria maior objetiva). Posto isso, podemos concluir no caso, que Olavo será responsabilizado pela garantia se desconsiderada a personalidade jurídica da associação, observada a teoria maior. O gabarito oficial aponta como correta a alternativa E, no sentido de que o administrador será diretamenteresponsabilizado pela garantia, independentemente da desconsideração da personalidade jurídica. Ocorre, porém, que não parece ser possível que o administrador seja responsabilizado pessoalmente, porquanto a garantia refere-se a uma dívida em que ele próprio é o devedor. O aval é uma garantia pessoal, que no caso foi prestada pela pessoa jurídica, devendo ser cumprida por ela, de modo que eventual irregularidade deve ser sanada em ação própria, como a desconsideração da personalidade jurídica para atingir o patrimônio do administrador. O avalista não se equipara à figura do devedor principal, apesar da solidariedade em relação a obrigação de pagar. Sendo a associação a avalista, também é a primeira responsável pela garantia, podendo ser desconsiderada a personalidade jurídica (teoria maior), atingindo o patrimônio do associado administrador. (D) INCORRETA. (E) INCORRETA. _______________________________________________________________________ 58. Anacleto viu no quadro de avisos do condomínio que sua vizinha Ofélia estava vendendo seu automóvel usado por R$50.000,00 (cinquenta mil reais). Ele procurou Ofélia, examinou o carro na garagem e fechou negócio nos termos ofertados. Anacleto pagou imediatamente o valor acertado, mas Ofélia pediu para entregar o veículo somente no dia seguinte, já que, naquela noite, ela precisaria dele para visitar uma amiga, o que foi autorizado pelo comprador. Ocorre que, retornando da casa da amiga naquela noite, Ofélia causou um acidente por estar dirigindo embriagada, provocando a perda total do carro. Sobre a hipótese narrada, assinale a opção que apresenta o que Anacleto pode exigir de Ofélia. 97 (A) O equivalente pecuniário (valor de mercado) do automóvel perdido, mais perdas e danos. (B) O equivalente pecuniário (valor de mercado) do automóvel perdido. (C) O preço pago, R$50.000,00 (cinquenta mil reais), mais perdas e danos. (D) Apenas o preço pago, R$50.000,00 (cinquenta mil reais). (E) Outro automóvel da mesma espécie e qualidade. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS O assunto foi estudado na 4ª Remessa de Direito Civil do Circuito Legislativo da turma ENAM II 2024. (A) CORRETA. CC/02: Art. 239. Se a coisa se perder por culpa do devedor, responderá este pelo equivalente, mais perdas e danos. Determina o art. 239 do CC/2002 que, na obrigação de restituir, se a coisa se perder por culpa do devedor, responderá este pelo equivalente, mais perdas e danos. (B) INCORRETA. Vide comentário da assertiva “A”. (C) INCORRETA. Vide comentário da assertiva “A”. (D) INCORRETA. Vide comentário da assertiva “A”. (E) INCORRETA. Vide comentário da assertiva “A”. _______________________________________________________________________ 59. Jeremias resolveu passar suas férias fora da cidade e, em razão disso, emprestou seu automóvel à sua irmã, Lucrécia. Quando retornou, ela se recusou a devolvê-lo no prazo que havia sido combinado. Somente duas semanas depois, graças à mediação da mãe de ambos, Lucrécia devolveu o veículo. Entretanto, ela cobrou de Jeremias as despesas que realizou nas duas últimas semanas: os gastos com gasolina, o conserto de um vazamento de óleo (que estava degradando o automóvel) e a instalação de ar- condicionado. A respeito dessas despesas, Jeremias deve pagar (A) os gastos com gasolina, somente. (B) o conserto do vazamento de óleo, somente. (C) os gastos com gasolina e o conserto do vazamento de óleo, somente. 98 (D) a instalação de ar-condicionado, somente. (E) o conserto do vazamento de óleo e a instalação de ar-condicionado, somente. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS O assunto foi estudado na 7ª Remessa de Direito Civil do Circuito Legislativo da turma ENAM II 2024. (A) INCORRETA. Vide comentário da assertiva “B”. (B) CORRETA. CC: Art. 678. É igualmente obrigado o mandante a ressarcir ao mandatário as perdas que este sofrer com a execução do mandato, sempre que não resultem de culpa sua ou de excesso de poderes. Cuida-se de uma benfeitoria necessária para o funcionamento do automóvel, de sorte que Jeremias deve indenizar o conserto do vazamento de óleo. (C) INCORRETA. Vide comentário da assertiva “B”. (D) INCORRETA. Vide comentário da assertiva “B”. (E) INCORRETA. Vide comentário da assertiva “B”. _______________________________________________________________________ 60. Maria, advogada, celebrou com João, médico, um contrato de compra e venda irretratável de um imóvel no valor de R$600.000,00 (seiscentos mil reais), por instrumento particular. Nos termos do contrato celebrado, a compradora pagou uma entrada no valor de R$200.000,00 (duzentos mil reais) no ato da celebração; já o valor restante deveria ser pago no dia útil seguinte à averbação no registro de imóveis, realizada por João que, conforme cláusula contratual, deveria ser feita no prazo máximo de 30 (trinta) dias a partir do pagamento do sinal. Foi ainda acordado que a não averbação no prazo estipulado configuraria inadimplemento absoluto e ensejaria a resolução do contrato com a restituição do valor em dobro. João não logrou êxito ao realizar a averbação e procurou Maria para informar do óbice encontrado, a fim de que resolvessem conjuntamente a situação. No entanto, foi surpreendido com a recusa de Maria em contribuir para a solução do problema. Ao contrário, por ter se arrependido do negócio, Maria exigiu a restituição em dobro do valor pago como sinal. Diante do impasse, João moveu ação judicial e o juiz da causa declarou a nulidade do acordo e entendeu que o contrato de compra e venda do referido imóvel valeria como promessa de compra e venda. 99 Acerca da situação hipotética narrada, assinale a opção que indica, corretamente, a técnica que foi aplicada ao negócio jurídico. (A) Conversão, restando o contrato requalificado em conformidade com o pretendido pelas partes no negócio que foi declarado nulo. (B) Integração, restando preenchidas as lacunas do contrato com base nos princípios gerais do direito e no princípio da boa-fé. (C) Ratificação, restando a requalificação contratual confirmada por suprimento judicial. (D) Confirmação, restando eventual vício sanado, permitindo a produção de todos os efeitos pretendidos. (E) Redução, restando o contrato limitado em seus efeitos e extensão. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 04 a 06 de Direito Civil na turma ENAM II 2024, página 43. (A) CORRETA. É uma declaração de vontade emitida em conformidade com o ordenamento legal e principiológico, que gera efeitos jurídicos pretendidos pelas partes. Flávio Tartuce afirma ser um ato jurídico em que há uma composição de interesses das partes com uma finalidade específica. Caio Mário aduz que o negócio jurídico seria “toda declaração de vontade, emitida de acordo com o ordenamento legal, e geradora de efeitos jurídicos pretendidos”. O Código Civil de 2002 admite a conversão do negócio jurídico nulo em outro de natureza diferente, conforme o seu art. 170, que prescreve: “se o negócio jurídico nulo contiver requisitos de outro, subsistirá este quando o fim a que visavam as partes permitir supor que o teriam querido, se houvessem previsto a nulidade”. A conversão do negócio jurídico constitui o meio jurídico pelo qual o negócio nulo, respeitados certos requisitos, transforma-se em outro negócio, totalmente válido, visando à conservação contratual e à manutenção da vontade, da autonomia privada. Constata-se que o art. 170 do CC/2002 consagra uma conversão subjetiva e indireta. Subjetiva porque exige a vontade das partes; indireta porque o negócio nulo é convertido em outro. CC: Art. 169. O negócio jurídico nulo não é suscetível de confirmação, nem convalescepelo decurso do tempo. (B) INCORRETA. Vide comentários alternativa A. (C) INCORRETA. Vide comentários alternativa A. 100 (D) INCORRETA. Vide comentários alternativa A. (E) INCORRETA. Vide comentários alternativa A. _______________________________________________________________________ 61. Marcos, atualmente com 50 anos, em união estável com Ana sem pacto de convivência, teve três filhos, Pedro de 17 anos, Henrique de 15 anos e Júlia de 12 anos. Júlia é portadora de uma síndrome rara e, por isso, Ana se viu obrigada a abandonar sua promissora carreira de jornalista para cuidar da filha. Marcos é empresário e sempre foi um pai responsável. No entanto, nos últimos anos desenvolveu o vício em jogos de azar, potencializado pela facilidade das apostas online. A pedido de Ana, Marcos se submeteu a tratamento, mas não conseguiu largar o vício, fato confessado por ele e atestado pelo médico assistente. É raro o dia em que Marcos não está envolvido em apostas, o que causa grande desgaste da família, tanto emocional quanto financeiro, pois é comum ele vender bens para sustentar o vício. Além disso, o endividamento já coloca em risco a subsistência da família. Ana, então, decide propor ação de interdição, a fim de limitar os atos de Marcos na vida civil. Diante da situação hipotética narrada e com base na legislação vigente, analise as afirmativas a seguir. I. Em razão das modificações promovidas pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência, Marcos é considerado presumidamente capaz, devendo ser deferido, no caso, o processo de tomada de decisão apoiada e não a interdição. II. Diante dos fatos narrados, Marcos enquadra-se em hipótese de incapacidade relativa, sujeitando-se à curatela restrita aos atos de natureza patrimonial. III. Marcos, considerando a sua idade, a atividade empresarial que desempenha e o seu papel de provedor da família, independentemente do vício em jogos de azar, não se enquadra em nenhuma hipótese de incapacidade, razão pela qual não está sujeito à interdição. IV. Julgada procedente a ação, Ana deverá ser nomeada curadora de Marcos e, em razão da união estável, será dispensada de eventual prestação de contas. Está CORRETO o que se afirma em (A) I, apenas. (B) II, apenas. (C) III, apenas. (D) I e III, apenas. (E) II e IV, apenas. _______________________________________________________________________ GABARITO: B 101 COMENTÁRIOS O assunto foi no ponto 10 de Direito Civil na turma ENAM II 2024, página 23. Assim como, na 13ª Remessa de Direito Civil do Circuito Legislativo. (A) INCORRETA. Vide comentário da assertiva “B”. (B) CORRETA. A assertiva II está correta, uma vez que Marcos está sujeito ao processo de curatela, nos termos do art. 1.767 do Código Civil: “Estão sujeitos a curatela: […] V – os pródigos”. A tomada de decisão apoiada é aplicável às pessoas com deficiência, o que não é o caso de Marcos, que possui um vício. O art. 1.767 do CC/2002 traz o rol taxativo dos interditos, ou seja, daqueles que estão sujeitos à curatela. Como não poderia ser diferente, a norma foi modificada pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência, diante da revolução que atingiu a teoria das incapacidades. (C) INCORRETA. Vide comentário da assertiva “B”. (D) INCORRETA. Vide comentário da assertiva “B”. (E) INCORRETA. Vide comentário da assertiva “B”. _______________________________________________________________________ 62. Depois de receber um vasto conjunto de bens por herança, Henriqueta, que não tem herdeiros necessários, sentiu-se compelida a um ato de generosidade, doando diversos dos bens adquiridos para pessoas próximas e mantendo consigo o essencial para seu estilo de vida. Para tanto, celebrou quatro contratos de doação: I. Doou ações de uma companhia aberta a um nascituro, Enzo, o filho que sua amiga Cleonice (que aceitou de bom grado o presente) ainda carrega no ventre. II. Doou uma joia a seu afilhado Isaías, de seis anos de idade, sem impor-lhe qualquer encargo, mas sem que seus pais tenham aceitado a doação. III. Doou uma sala comercial para a Associação de Defesa dos Transeuntes, que ainda está em fase de constituição. IV. Doou um apartamento ao primeiro filho que Tobias venha a ter com sua atual esposa (Tobias ainda não tem filhos). São válidas as seguintes doações: (A) I e II, apenas. (B) II e III, apenas. (C) I, III e IV, apenas. (D) II, III e IV, apenas. 102 (E) I, II, III e IV. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 07 a 09 de Direito Civil na turma ENAM II 2024, a partir da página 31. I. CORRETO. CC: “Art. 542. A doação feita ao nascituro valerá, sendo aceita pelo seu representante legal.” II. CORRETO. CC: Art. 543, CC: “Art. 543. Se o donatário for absolutamente incapaz, dispensa-se a aceitação, desde que se trate de doação pura.” III. CORRETO. O art. 538 do Código Civil considera a doação como o contrato em que uma pessoa transfere do seu patrimônio bens ou vantagens para o de outra. A doação é um ato de mera liberalidade e, em regra, um negócio jurídico gratuito. CC: “Art. 544. A doação de ascendentes a descendentes, ou de um cônjuge a outro, importa adiantamento do que lhes cabe por herança”. “Art. 54. Sob pena de nulidade, o estatuto das associações conterá: - a denominação, os fins e a sede da associação; II - os requisitos para a admissão, demissão e exclusão dos associados; III - os direitos e deveres dos associados; IV - as fontes de recursos para sua manutenção; V – o modo de constituição e de funcionamento dos órgãos deliberativos; VI - as condições para a alteração das disposições estatutárias e para a dissolução. VII – a forma de gestão administrativa e de aprovação das respectivas contas. IV. CORRETO. CC: “Art. 546. A doação feita em contemplação de casamento futuro com certa e determinada pessoa, quer pelos nubentes entre si, quer por terceiro a um deles, a ambos, ou aos filhos que, de futuro, houverem um do outro, não pode ser impugnada por 103 falta de aceitação, e só ficará sem efeito se o casamento não se realizar”. Assim, a única alternativa a ser assinalada é a E. _______________________________________________________________________ DIREITO EMPRESARIAL 63. Loanda, Marialva e Astorga decidiram constituir uma sociedade, porém não se preocuparam com as formalidades de arquivamento do ato constitutivo, que estava sob a incumbência de Loanda. Considerando-se as disposições legais para a sociedade nessa condição, assinale a alternativa CORRETA. (A) Apenas a sócia Loanda responderá pessoalmente pelas obrigações sociais enquanto não forem providenciadas as formalidades para a regularização da sociedade, já que ela era responsável perante os demais sócios. (B) Os bens sociais respondem pelos atos de gestão praticados por qualquer um dos sócios, sendo nulo qualquer pacto limitativo de poderes. (C) A sociedade será representada em juízo, ativa e passivamente, pela pessoa a quem couber a administração de seus bens. (D) Os bens e dívidas sociais constituem patrimônio especial, do qual a sociedade e os sócios são titulares em comum. (E) Os sócios, nas relações entre si ou com terceiros, podem provar a existência da sociedade por qualquer meio admitido em direito. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS O assunto foi estudado no material dos pontos 3, 4 e 5 de Direito Empresarial na turma ENAM II 2024, página 12. (A) INCORRETA. Embora Loanda fosse responsável pelo arquivamento, todos os sócios respondem solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais na sociedade em comum, conforme o artigo 990 do Código Civil. (B) INCORRETA. Pactos limitativos de poderes são válidos entre os sócios, mas não podem prejudicar terceiros que não tenham conhecimento dessespactos, conforme o artigo 989 do Código Civil. (C) CORRETA. Art. 75, IX, do CPC Art. 75. Serão representados em juízo, ativa e passivamente: 104 IX - a sociedade e a associação irregulares e outros entes organizados sem personalidade jurídica, pela pessoa a quem couber a administração de seus bens; (D) INCORRETA. Os bens e dívidas sociais constituem patrimônio especial, mas pertencem exclusivamente aos sócios, já que a sociedade em comum não possui personalidade jurídica distinta. (E) INCORRETA. Conforme art. 987 do CC, os sócios não podem provar a existência da sociedade por qualquer meio admitido em direito, mas apenas por escrito. _______________________________________________________________________ 64. O Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/1990) contempla regras de proteção ao consumidor no tocante à cobrança de dívidas e acesso às informações constantes de cadastros, fichas, registros e dados pessoais e de consumo arquivados sobre ele, bem como sobre as suas respectivas fontes. Assinale a opção que apresenta corretamente uma dessas regras. (A) Os cadastros e dados de consumidores devem ser objetivos, claros, verdadeiros e em linguagem de fácil compreensão, não podendo conter informações negativas referentes a período superior a dois anos. (B) O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à repetição do indébito, por valor igual a quantia que pagou em excesso, acrescido de correção monetária e juros legais, salvo hipótese de engano justificável. (C) Os órgãos públicos de defesa do consumidor manterão cadastros atualizados de reclamações fundamentadas contra fornecedores de produtos e serviços, devendo divulgá-los pública e mensalmente. (D) Consumada a prescrição relativa à cobrança de débitos do consumidor, não serão fornecidas, pelos respectivos Sistemas de Proteção ao Crédito, quaisquer informações que possam impedir ou dificultar o novo acesso ao crédito junto aos fornecedores. (E) A abertura de cadastro, ficha, registro e dados pessoais e de consumo deverá ser comunicada por escrito ao consumidor, quando não solicitada por ele, no prazo máximo de dez dias úteis, sob pena de reparação dos danos causados. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS (A) INCORRETA. O prazo é de 5 anos, conforme art. 45, §5º, do CDC. (B) INCORRETA. O CDC assegura ao consumidor o direito à repetição do indébito em dobro do valor pago indevidamente, não apenas o valor simples. 105 (C) INCORRETA. Segundo o CDC, os órgãos de defesa do consumidor devem divulgar o cadastro de reclamações fundamentadas anualmente, e não mensalmente. (D) CORRETA. Art. 43, §5º, Lei nº 8.078/90 Art. 43. O consumidor, sem prejuízo do disposto no art. 86, terá acesso às informações existentes em cadastros, fichas, registros e dados pessoais e de consumo arquivados sobre ele, bem como sobre as suas respectivas fontes. § 5° Consumada a prescrição relativa à cobrança de débitos do consumidor, não serão fornecidas, pelos respectivos Sistemas de Proteção ao Crédito, quaisquer informações que possam impedir ou dificultar novo acesso ao crédito junto aos fornecedores. (E) INCORRETA. Conforme o art. 43, §2º, do CDC, não se estabelece um prazo de dez dias úteis nem menciona a reparação dos danos causados nesse contexto. _______________________________________________________________________ 65. Em relação à recuperação judicial, determina o Art. 49 da Lei nº 11.101/2005 que estão sujeitos a ela todos os créditos existentes na data do pedido, ainda que não vencidos. A fim de fixar a orientação jurisprudencial sobre a interpretação do dispositivo, em atenção ao disposto no Art. 1.040 do CPC/2015, fixou-se no STJ a tese que considera a existência do crédito sendo determinada (A) pelo reconhecimento de sua legitimidade por sentença judicial ou acordo extrajudicial. (B) pela data em que ocorreu o seu fato gerador. (C) pelo momento da celebração do contrato, exceto se o crédito for ilíquido, quando a existência é aferida na data de sua liquidação. (D) pela data do pedido de recuperação judicial, para os créditos vincendos, e pela data de sua exigibilidade, para os créditos já vencidos. (E) pelo momento da execução do contrato, independentemente de o crédito ser líquido ou ilíquido. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS Tema 1051, do STJ De acordo com o entendimento consolidado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), para fins de habilitação de créditos na recuperação judicial, considera-se que o crédito existe 106 a partir da data em que ocorreu o seu fato gerador, mesmo que seja ilíquido ou não vencido. Este entendimento foi fixado no Tema Repetitivo n.º 1051, julgado sob o rito dos recursos repetitivos. O STJ estabeleceu a seguinte tese: "Para fins de habilitação em recuperação judicial, considera-se existente o crédito desde o momento em que ocorreu o fato que constitua a obrigação, ainda que ilíquida e não vencida." _______________________________________________________________________ 66. A sociedade unipessoal Cardoso Moreira Ltda., negativada em razão do não pagamento de duplicata de compra e venda sacada com base em contrato de consumo e protestada por falta de pagamento, ajuizou ação de obrigação de fazer, cumulada com pedido indenizatório, em face da sacadora e beneficiária do título, a sociedade Alfredo, Wagner & Cia. Ltda. A autora, justificando já ter realizado o pagamento, pretende que a ré seja compelida a promover o cancelamento do protesto perante o tabelionato. Mesmo assim, a ré não providenciou a medida e ela permanece negativada. Considerados os fatos narrados e as disposições da lei de protestos, assinale a afirmativa CORRETA. (A) A ré não deve ser compelida a promover o cancelamento do protesto, pois esse ônus é sempre do devedor, sendo nula qualquer pactuação em sentido contrário. (B) A ré está obrigada a promover o cancelamento do protesto por se tratar de dívida oriunda de relação de consumo, na qual a vulnerabilidade do consumidor é presumida. (C) A ré não deve ser compelida a promover o cancelamento do protesto porque não há vulnerabilidade do consumidor por se tratar de pessoa jurídica. (D) A ré está obrigada a promover o cancelamento do protesto, pois é ela quem se beneficia do pagamento da dívida, sendo considerada interessada para efeitos legais. (E) A ré não deve ser compelida a promover o cancelamento do protesto, pois esse ônus é do devedor após a quitação da dívida, salvo inequívoca pactuação em sentido contrário. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS QUESTÃO PASSÍVEL DE ANULAÇÃO. O assunto foi estudado na 10ª remessa de circuitos legislativos referente a Direito Empresarial, em seu ponto 1.3, páginas 183 e 184 na turma ENAM. GABARITO OFICIAL: 107 (E) A ré não deve ser compelida a promover o cancelamento do protesto, pois esse ônus é do devedor após a quitação da dívida, salvo inequívoca pactuação em sentido contrário. FUNDAMENTO: Art. 26, §3º, Lei nº 9.492/97 Art. 26. O cancelamento do registro do protesto será solicitado diretamente no Tabelionato de Protesto de Títulos, por qualquer interessado, mediante apresentação do documento protestado, cuja cópia ficará arquivada. § 3º O cancelamento do registro do protesto, se fundado em outro motivo que não no pagamento do título ou documento de dívida, será efetivado por determinação judicial, pagos os emolumentos devidos ao Tabelião. A banca examinadora errou na identificação do gabarito pois existe outra alternativa que está correta. Senão vejamos: De acordo com o art. 26, da Lei nº 9.492/1997, o cancelamento do protesto será solicitado pelo interessado diretamente ao tabelionato, mediante a apresentação da prova do pagamento da dívida ou de documentohábil que comprove a extinção da obrigação. Com efeito, não havendo possibilidade de apresentação do título no original, o cancelamento pode ser feito mediante carta de anuência, assinado pelo credor do título, seja ele o originário ou o endossatário por endosso translativo, na forma do art. 26, §1º, da Lei nº 9.492/97. Por sua vez, havendo endosso mandato quem deve assinar a carta de anuência é o endossante, que será o credor, de acordo com o art. 26, §2º, da mesma Lei. Em tais casos, portanto, o credor emite a carta de anuência e o devedor vai proceder o cancelamento diante de um protesto devido. Porém, no caso da questão apresentada, trata-se de protesto indevido, haja vista que a sociedade devedora ajuizou ação de obrigação de fazer, para cancelar o protesto que deve ser considerado indevido. Em tais casos, cabe ação de cancelamento de protesto, na forma do art. 26, §3º, da Lei nº 9.492/97. Sempre que o protesto for indevido o cancelamento deve ser feito pelo devedor, o que é o caso pois foi realizado um protesto de uma dívida já paga. Em casos como tais, o ônus e a obrigação de cancelamento são do credor. E nem se diga que o protesto foi feito antes e mantido irregularmente após o pagamento, pois o tratamento é o mesmo nos dois casos pela jurisprudência do STJ: AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÍVIDA C/C CANCELAMENTO DE PROTESTO E INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. PROTESTO. BAIXA. RESPONSABILIDADE DO CREDOR. PRECEDENTES. DANOS MORAIS. MONTANTE. REVISÃO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7/STJ. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL PREJUDICADA. JUROS MORATÓRIOS. RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL. TERMO INICIAL. EVENTO DANOSO. SÚMULA 54/STJ. 108 JURISPRUDÊNCIA DESTA CORTE SUPERIOR. ENTENDIMENTO NÃO MODIFICADO. AGRAVO DESPROVIDO. 1. Independentemente de se tratar de protesto indevido ou de manutenção irregular do protesto, é certo que, em ambos os casos, incumbiria ao credor proceder à baixa do registro desabonador, conforme jurisprudência desta Corte Superior. Precedentes. (...) (AgInt no REsp n. 1.705.877/AC, relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado em 8/5/2018, DJe de 21/5/2018.) Portanto, nesta questão, o gabarito correto seria a alternativa D, na forma do art. 26, §3º, da Lei nº 9.492/97: (D) A ré está obrigada a promover o cancelamento do protesto, pois é ela quem se beneficia do pagamento da dívida, sendo considerada interessada para efeitos legais. Dessa forma, dado que o gabarito dado como correto está, na verdade, errado, a presente questão deve ser anulada ou, no mínimo, ter o gabarito alterado quando do gabarito definitivo. _______________________________________________________________________ 67. Em razão do falecimento de seu pai, que era empresário individual, o menor relativamente incapaz João Câmara, assistido por sua mãe, requereu em juízo autorização para o prosseguimento da sociedade empresária. Acerca dessa situação, assinale a afirmativa CORRETA. (A) O pedido de autorização deve ser indeferido, uma vez que João Câmara ainda não se encontra em pleno gozo da capacidade civil para ser empresário e não pode prosseguir a sociedade empresária iniciada por outrem. (B) O juiz, após exame das circunstâncias e dos riscos da sociedade empresária, bem como da conveniência em continuá-la, deverá conceder a autorização, que será mantida até o fim da incapacidade. (C) O pedido poderá ser deferido; contudo, se a mãe de João Câmara for pessoa impedida de exercer a atividade de empresário, ela nomeará, com a aprovação do juiz, um ou mais gerentes. (D) O pedido poderá ser deferido, caso em que nenhum dos bens que João Câmara já possuía ao tempo da sucessão ficará sujeito ao resultado da sociedade empresária, devendo tal ressalva constar do alvará que conceder a autorização. (E) O pedido de autorização deve ser indeferido, uma vez que somente se permite o prosseguimento da sociedade empresária quando o empresário é interditado, e não para menores, absoluta ou relativamente incapazes. _______________________________________________________________________ GABARITO: C 109 COMENTÁRIOS QUESTÃO PASSÍVEL DE ANULAÇÃO. O assunto foi estudado no material sobre os pontos 1 e 2 de Direito Empresarial na turma ENAM II 2024, página 18. (A) INCORRETA. (B) INCORRETA. (C) CORRETA. Art. 975. Se o representante ou assistente do incapaz for pessoa que, por disposição de lei, não puder exercer atividade de empresário, nomeará, com a aprovação do juiz, um ou mais gerentes. § 1º Do mesmo modo será nomeado gerente em todos os casos em que o juiz entender ser conveniente. § 2º A aprovação do juiz não exime o representante ou assistente do menor ou do interdito da responsabilidade pelos atos dos gerentes nomeados. (D) CORRETA. Art. 974. Poderá o incapaz, por meio de representante ou devidamente assistido, continuar a empresa antes exercida por ele enquanto capaz, por seus pais ou pelo autor de herança. § 2º Não ficam sujeitos ao resultado da empresa os bens que o incapaz já possuía, ao tempo da sucessão ou da interdição, desde que estranhos ao acervo daquela, devendo tais fatos constar do alvará que conceder a autorização. (E) INCORRETA. FUNDAMENTO: Preliminarmente: erro material (confusão dos conceitos de empresário individual e de sociedade empresária). MÉRITO: Duas questões corretas conforme a Lei. _______________________________________________________________________ 68. Foi celebrado contrato de comissão, tendo por objeto a contratação de mútuo, pelo comissário, à conta do comitente, e dele constando cláusula del credere parcial. Sobre esse contrato, assinale a afirmativa CORRETA. (A) É nulo e, por ser acessória, também é nula a cláusula del credere, uma vez que o objeto do contrato está restrito a uma operação de compra ou venda pelo comissário em seu próprio nome e à conta do comitente. 110 (B) É válido, pois a comissão pode ter por objeto a realização de mútuo pelo comissário, porém é vedada a inclusão de cláusula del credere. (C) É válido, mas a cláusula del credere parcial é nula, uma vez que ela sempre deverá ser pactuada para que o comissário responda integralmente perante o comitente pelo inadimplemento do terceiro com quem contratar. (D) É válido, pois a comissão pode ter por objeto a realização de mútuo pelo comissário, e a cláusula del credere pode ser total ou parcial. (E) É válido, mas a cláusula del credere é nula, uma vez que ela só é permitida, ainda que parcialmente, se o objeto da comissão for compra ou venda de bens pelo comissário em seu próprio nome e à conta do comitente. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS O assunto foi estudado no material sobre os pontos 6, 7 e 8 de Direito Empresarial na turma ENAM, páginas 28 e 29. (A) INCORRETA. O contrato de comissão não é nulo quando tem por objeto a realização de negócios diversos da compra e venda, como o mútuo. Além disso, a cláusula "del credere" não é nula nesse contexto. (B) INCORRETA. Embora a comissão possa ter por objeto a realização de mútuo, não é vedada a inclusão da cláusula "del credere". O artigo 698, parágrafo único, permite expressamente essa cláusula. (C) INCORRETA. A cláusula "del credere" não precisa ser necessariamente integral. A lei permite que seja pactuada de forma parcial, ajustando a responsabilidade do comissário. (D) CORRETA. Art. 693 c/c art. 698, parágrafo único, do CC (com a redação dada pela Lei nº 14.690/23) Art. 693. O contrato de comissão tem por objeto a compra ou venda de bens ou a realização de mútuo ou outro negócio jurídico de crédito pelo comissário, em seu próprio nome, à conta do comitente. (Redação dada pela Lei nº 14.690, de 2023) Art. 698. Se do contrato de comissão constar a cláusula del credere , responderá o comissário solidariamente com as pessoas com que houver tratadoem nome do comitente, caso em que, salvo estipulação em contrário, o comissário tem direito a remuneração mais elevada, para compensar o ônus assumido. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2023/Lei/L14690.htm#art30 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2023/Lei/L14690.htm#art30 111 Parágrafo único. A cláusula del credere de que trata o caput deste artigo poderá ser parcial. (Incluído Lei nº 14.690, de 2023) (E) INCORRETA. A cláusula "del credere" não é restrita apenas a contratos de comissão que tenham por objeto a compra ou venda de bens. Ela pode ser aplicada em quaisquer negócios realizados pelo comissário em seu próprio nome e por conta do comitente. _______________________________________________________________________ DIREITO PENAL 69. Segundo a teoria geral do crime, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Os crimes de dano são aqueles que demandam a comprovação da ameaça de lesão ao bem jurídico protegido. (B) Os crimes de mera conduta são consumados no momento da produção do resultado expressamente contido na descrição típica. (C) Os crimes de perigo concreto são aqueles que demandam a comprovação da ofensa material ao bem jurídico tutelado. (D) Os crimes materiais são aqueles em que o tipo penal descreve a conduta e o resultado, mas não exige a ocorrência deste último para fins de consumação. (E) Os crimes formais se consumam antes da ocorrência do resultado naturalístico previsto na descrição típica, sendo, por essa razão, também chamados de crimes de consumação antecipada. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS O assunto foi estudado no material enviado sobre os pontos 4 a 10 de Direito Penal na turma ENAM II 2024, a partir da página 11. (A) INCORRETA. Crime de dano: se consuma com a efetiva ocorrência de um dano ao bem jurídico tutelado. É assim com a maior parcela das infrações penais. Ex.: homicídio, roubo, furto, estupro. (B) INCORRETA. Crime de mera conduta: se consumam com a mera prática da conduta, não admitindo resultado naturalístico como consequência direta da ação. Ex.: violação de domicílio. (C) INCORRETA. Crimes de perigo concreto: o perigo ao bem jurídico deve ficar comprovado nos autos, pois a lei exige que a conduta do agente provoque perigo real. Ex.: expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente (art. 132). A acusação https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2023/Lei/L14690.htm#art30 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2023/Lei/L14690.htm#art30 112 precisa provar, no caso concreto, que a conduta do agente gerou o perigo direto e iminente. (D) INCORRETA. Crimes de resultado (causais ou materiais): dependem da ocorrência de resultado naturalístico para se consumarem. Ex.: homicídio, estupro. (E) CORRETA. Crimes Formais (crimes de resultado cortado): se consumam com a mera prática da conduta, embora seja possível a ocorrência de resultado naturalístico como consequência direta da conduta. Exemplo: prevaricação (art. 319). Para sua consumação, basta que o agente deixe de praticar o ato de ofício para satisfazer interesse pessoal, sendo desnecessário resultado naturalístico. Porém, é possível que o crime provoque mudanças no mundo dos fatos (ex.: causando efetivo prejuízo ao Estado). _______________________________________________________________________ 70. Em 15 de junho de 2024, Técio buscou atendimento em hospital de sua cidade devido a uma indisposição gástrica, preencheu a ficha com seus dados, consignando no campo próprio que possuía alergia a dipirona, e foi, em seguida, encaminhado ao consultório onde estava de plantão o médico Caio. Ao iniciar o atendimento, o paciente Técio relatou os sintomas de desconforto abdominal e náusea. O médico Caio, após exame clínico, acabou se esquecendo, negligentemente, de ler na ficha de atendimento do paciente o campo de suas declaradas alergias medicamentosas e o encaminhou para a enfermaria, com prescrição de aplicação de uma ampola de Buscopam (composto de butilbrometo de escopolamina e de dipirona sódica monoidratada). Chegando ao setor próprio para receber o prescrito medicamento, Técio foi recebido pelo enfermeiro Guilherme que, de pronto, não só o reconheceu como um vizinho por ele malquisto, como também constatou a notória inobservância do cuidado objetivo do médico Caio, já que, em sua prescrição de medicamento, havia um dos potenciais alérgenos declarados pelo paciente em sua ficha (dipirona). Certo é que, mesmo percebendo o irresponsável equívoco do médico, Guilherme, desejando fortemente a morte do paciente Técio, aplicou-lhe o medicamento, gerando rápidas consequências em seu organismo, com grave choque anafilático e parada cardíaca que, por muito pouco, não custaram a vida do paciente. Técio só foi salvo por força de rápida e eficaz ação de outra equipe de plantonistas que se encontrava no nosocômio, vindo a vítima a sobreviver. Considerando que todos os fatos foram devidamente comprovados, inclusive os aspectos subjetivo-normativos dos comportamentos dos envolvidos (atuação culposa de Caio e dolosa de Guilherme), e que o remédio prescrito seria o teoricamente adequado em qualidade e quantidade ao quadro de saúde de Técio, não fosse sua declarada alergia a uma das substâncias, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Caio e Guilherme responderão por crime de homicídio doloso na modalidade tentada, não havendo que se falar em concurso de pessoas. (B) Caio e Guilherme responderão por crime de lesão corporal dolosa grave pelo perigo de vida, em concurso de pessoas. 113 (C) Caio responderá por crime de lesão corporal dolosa grave pelo perigo de vida, enquanto Guilherme estará sujeito às penas do homicídio doloso, na modalidade tentada, não havendo que se falar em concurso de agentes. (D) Caio responderá por crime de lesão corporal culposa grave, qualificada pelo perigo de vida, e Guilherme por crime de homicídio doloso, na modalidade tentada, não havendo que se falar em concurso de agentes. (E) Caio responderá por crime de lesão corporal culposa, e, Guilherme, por crime de homicídio doloso na modalidade tentada, não havendo que se falar em concurso de agentes. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS O assunto foi estudado no Circuito Legislativo na 5ª Remessa de Direito Penal na turma ENAM II 2024, a partir da página 75 e no Vade Mege ENAM – Parte 2. (A) INCORRETA. O próprio enunciado indica a atuação culposa de Caio e dolosa de Guilherme. (B) INCORRETA. O próprio enunciado indica a atuação culposa de Caio e dolosa de Guilherme. (C) INCORRETA. O próprio enunciado indica a atuação culposa de Caio e dolosa de Guilherme. (D) INCORRETA. A lesão corporal culposa, diferentemente da dolosa, não poderá ser qualificada como grave (art. 129, §1º, do CP), gravíssima (art. 129, §2º, do CP) ou seguida de morte (art. 129, §3º, do CP). Entretanto, a lesão corporal culposa, que é a cometida sem intenção de fazê-lo, mas quando o agente atua com negligência, imprudência ou imperícia, não existe qualificação pelo nivelamento do dano. (E) CORRETA. Caio responderá por crime de lesão corporal culposa e Guilherme, por crime de homicídio doloso na modalidade tentada. Não há que se falar em concurso de agentes, por ausência de liame subjetivo e de identidade da infração penal. _______________________________________________________________________ 71. Afrodite é presidente da mineradora Fluminis e, com o objetivo de reduzir custos, determinou que a barragem de contenção dos dejetos provenientes do beneficiamento mineral fosse construída com material barato, embora contraindicado em parecer técnico. Por maioria, o conselho de administração da Fluminis referendou a decisão de Afrodite. Em decorrência da precariedade do material utilizado, a barragem veio a desmoronar,causando poluição e graves danos ambientais, fato, em tese, penalmente relevante pelas circunstâncias do caso. Diante da hipótese narrada, em tema de responsabilidade penal da pessoa jurídica, assinale a afirmativa CORRETA. 114 (A) A mineradora não pode ser responsabilizada penalmente, uma vez que a legislação vigente permite a punição por crime contra o meio ambiente apenas se comprovado que a infração penal foi praticada por decisão prévia da direção institucional. (B) A mineradora pode ser responsabilizada por crime contra o meio ambiente mediante a aplicação da pena de interdição definitiva da atividade no local, a depender da comprovação da irreversibilidade dos danos causados. (C) A mineradora pode ser responsabilizada penalmente pelos crimes contra o meio ambiente praticados em seu interesse ou benefício, ainda que nenhum de seus dirigentes ou prepostos já tenham sido responsabilizados, cível ou criminalmente. (D) A extensão dos danos causados pode justificar a aplicação da pena de proibição de contratar com o Poder Público pelo prazo de até 15 (quinze) anos. (E) A responsabilidade penal da mineradora deverá ser reconhecida cumulativamente com a responsabilidade de Afrodite e dos membros do conselho que referendaram a utilização do material precário, uma vez que a legislação vigente acolhe a teoria da imputação subjetiva. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 11 a 15 de Direito Penal na turma ENAM II 2024, a partir da página 128, no Circuito Legislativo na 5ª Remessa de Direito Penal, a partir da página 53 e no Vade Mege ENAM – Parte 2. (A) INCORRETA. Para configuração da responsabilidade penal das pessoas jurídicas em crimes ambientais é exigido que a infração seja cometida por decisão de seu representante legal ou contratual, ou de seu órgão colegiado, no interesse ou benefício da sua entidade. Lei nº 9.605/98 - Art. 3º As pessoas jurídicas serão responsabilizadas administrativa, civil e penalmente conforme o disposto nesta Lei, nos casos em que a infração seja cometida por decisão de seu representante legal ou contratual, ou de seu órgão colegiado, no interesse ou benefício da sua entidade. (B) INCORRETA. Não há necessidade da comprovação da irreversibilidade dos danos causados para a responsabilização penal da pessoa jurídica por crime ambiental. Além disso, a pena prevista é a de interdição temporária de estabelecimento, obra ou atividade. Lei nº 9.605/98 - Art. 22. As penas restritivas de direitos da pessoa jurídica são: I - suspensão parcial ou total de atividades; II - interdição temporária de estabelecimento, obra ou atividade; III - proibição de contratar com o Poder Público, bem como dele obter subsídios, subvenções ou doações. 115 (C) CORRETA. É possível a responsabilização penal da pessoa jurídica no caso de crimes ambientais, nos termos do § 3º do art. 225 da CF/88 c/c art. 3º da Lei 9.605/98. Assim, é possível a responsabilização penal da pessoa jurídica por crimes ambientais independentemente da responsabilização da pessoa física que a represente. A jurisprudência não mais adota a chamada teoria da "dupla imputação". (STF RE 548.181) (D) INCORRETA. Lei nº 9.605/98 - Art. 22. § 3º A proibição de contratar com o Poder Público e dele obter subsídios, subvenções ou doações não poderá exceder o prazo de dez anos. (E) INCORRETA. É possível a responsabilização penal da pessoa jurídica no caso de crimes ambientais, nos termos do § 3º do art. 225 da CF/88 c/c art. 3º da Lei 9.605/98. Assim, é possível a responsabilização penal da pessoa jurídica por crimes ambientais independentemente da responsabilização da pessoa física que a represente. A jurisprudência não mais adota a chamada teoria da "dupla imputação". (STF RE 548.181) _______________________________________________________________________ 72. Sobre o tema do concurso de crimes, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Não se admite continuidade delitiva em crimes contra a vida. (B) As penas aplicadas são somadas nos casos de concurso material, e o resultado da soma é usado como parâmetro para calcular o prazo prescricional. (C) As penas aplicadas são somadas nos casos de concurso formal impróprio, ou seja, quando dois ou mais crimes são praticados mediante uma só ação ou omissão, necessariamente dolosa, resultando os crimes concorrentes de desígnios autônomos. (D) Nos casos de concurso formal próprio, aplica-se o princípio da exasperação à pena de multa. (E) Segundo a regra do concurso material benéfico, a pena resultante da soma das penas não pode ser superior àquela cabível na aplicação do princípio da exasperação. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 4 a 10 de Direito Penal na turma ENAM II 2024, no Circuito Legislativo na 5ª Remessa de Direito Penal, a partir da página 16 e no Vade Mege ENAM – Parte 2, na página 25. (A) INCORRETA. A Súmula 605 do STF (Não se admite continuidade delitiva nos crimes contra a vida) é anterior à redação mais atual do art. 71 do Código Penal, que admite a continuidade delitiva inclusive nos crimes cometidos com violência ou grave ameaça à pessoa. Assim, a referida súmula restou inaplicável. 116 Código Penal – Art. 71, Parágrafo único - Nos crimes dolosos, contra vítimas diferentes, cometidos com violência ou grave ameaça à pessoa, poderá o juiz, considerando a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias, aumentar a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, até o triplo, observadas as regras do parágrafo único do art. 70 e do art. 75 deste Código. (B) INCORRETA. A primeira parte da alternativa está correta, pois essa é a ideia de concurso material de crimes, nos termos do art. 69 do Código Penal. Entretanto, quanto à prescrição a extinção da punibilidade incidirá sobre a pena de cada um, isoladamente, ou seja, cada crime prescreve individualmente. Código Penal - Art. 69 - Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplicam-se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido. No caso de aplicação cumulativa de penas de reclusão e de detenção, executa-se primeiro aquela. Código Penal - Art. 119 - No caso de concurso de crimes, a extinção da punibilidade incidirá sobre a pena de cada um, isoladamente. (C) CORRETA. No concurso formal impróprio ou imperfeito, o agente, mediante uma só ação ou omissão, pratica mais de um crime, agindo com desígnios autônomos em relação a cada um deles. Consequência: aplica-se a regra do cúmulo material (somam- se as penas). Como o sujeito teve a finalidade de praticar os vários crimes, ou seja, como há dolo de produzir mais de um resultado, não merece o benefício da exasperação, devendo as penas ser somadas, sem que haja tratamento diferenciado. (D) INCORRETA. Pena de multa no concurso formal - As penas de multa fogem à regra geral, sendo aplicadas cumulativamente. Assim estabelece o art. 72: “No concurso de crimes, as penas de multa são aplicadas distinta e integralmente”. (E) INCORRETA. No concurso formal, a pena não poderá exceder a que seria cabível pela regra do concurso material. Se o resultado da exasperação for mais gravoso que a soma de penas, deve-se então somá-las, aplicando a regra do concurso material (é o chamado concurso material benéfico). Art. 70, Parágrafo único – “Não poderá a pena exceder a que seria cabível pela regra do art. 69 deste Código”. _______________________________________________________________________ 73. Aloysio, 81 anos de idade, residia sozinho em um bairro violento de uma grande metrópole. Em determinado dia, sua casa foi acometida por um curto-circuito que resultou na interrupçãodo abastecimento de energia elétrica no imóvel. Aloysio fez contato com o eletricista Miguel para que este fizesse o reparo. Miguel, todavia, informou que, em razão de compromissos profissionais anteriores, só poderia ir ao local no dia seguinte. 117 À noite, Aloysio acordou com o barulho de seu portão sendo arrombado. Posteriormente, viu um homem armado ingressando em seu quintal. Mesmo letárgico em razão da ingestão de remédio para dormir, temendo por sua vida, Aloysio pegou uma arma de fogo velha que guardava embaixo de sua cama e efetuou um único disparo contra o homem, que, atingido na barriga, faleceu no local. Ato contínuo, Aloysio se aproximou do corpo e verificou que a vítima era Miguel, que tinha ido ao local para tentar reparar a rede elétrica da casa. Diante do exposto, assinale a opção que indica o correto enquadramento da conduta de Aloysio. (A) Exclusão da ilicitude em razão da legítima defesa. (B) Isenção de pena em razão da legítima defesa putativa. (C) Exclusão da tipicidade em razão de atos reflexos. (D) Inimputabilidade em razão do estado de sonolência. (E) Homicídio doloso. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 4 a 10 de Direito Penal na turma ENAM II 2024, no Circuito Legislativo na 5ª Remessa de Direito Penal, a partir da página 16 e no Vade Mege ENAM – Parte 2, na página 25. (A) INCORRETA. Legítima defesa é a defesa contra agressão injusta, atual ou iminente, a direito próprio ou de terceiro, mediante o emprego dos meios necessários. Trata-se de hipótese de exclusão da ilicitude, nos termos do art. 23, II, do Código Penal. Na hipótese narrada, restou ausente um dos requisitos da legítima defesa, a “injusta agressão”. Agressão é a conduta humana (comissiva ou omissiva) que atinge ou coloca em perigo um bem jurídico. Entende-se que agressão injusta é a agressão ilícita, ou seja, contrária ao direito, mas não necessariamente típica. Art. 23 - Não há crime quando o agente pratica o fato: II - em legítima defesa. Código Penal - Art. 25 - Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. (B) CORRETA. Não tendo havido legítima defesa real, ante a ausência de injusta agressão, a hipótese caracteriza a legítima defesa putativa, na qual o agente, por erro, acredita estar agindo em legítima defesa. Trata-se de causa de exclusão da ilicitude, ante a presença de descriminante putativa, nos termos do art. 20, §1º do Código Penal. 118 Código Penal - Art. 20, § 1º - É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato que, se existisse, tornaria a ação legítima. Não há isenção de pena quando o erro deriva de culpa e o fato é punível como crime culposo. (C) INCORRETA. Os atos reflexos são respostas rápidas e involuntárias, isto é, independentes de nossa vontade, que nosso corpo gera diante de determinados estímulos. A questão não apresenta hipótese de ato reflexo, mas sim de legítima defesa putativa. Os atos reflexos se inserem dentre as causas que retiram a voluntariedade, e consequentemente a tipicidade. (D) INCORRETA. A questão não apresenta caso de inimputabilidade, o que restaria configurado nas hipóteses do art. 26 do CP. Código Penal - Art. 26 - É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. (E) INCORRETA. Havendo exclusão da ilicitude em razão da descriminante putativa, não há que se falar em crime. _______________________________________________________________________ 74. A Criminologia é o ramo da Ciência Penal que abrange os conhecimentos relativos ao delito como fenômeno social, inclusive os processos de elaborar as leis, infringir as leis e reagir à infração das leis. Acerca das teorias criminológicas, analise as afirmativas a seguir. I. A teoria ecológica do delito foi criada no contexto da Escola de Chicago e consiste na sustentação, baseada em pesquisas empíricas, da correlação entre o ambiente comunitário e a formação de determinados padrões infracionais. II. A teoria da associação diferencial, também chamada de teoria da aprendizagem social, preconiza que as racionalidades motivacionais e metodológicas que envolvem o cometimento de ilicitudes podem ter origem genética, mas são principalmente transmitidas em circunstâncias específicas no curso da convivência grupal. III. Os chamados crimes do colarinho branco são infrações praticadas por indivíduos dotados de elevado status socioeconômico no curso de atividades filantrópicas, sendo a razão pela qual as cifras negras não incidem sobre tais comportamentos ilícitos. Está CORRETO o que se afirma em (A) I, apenas. (B) I e II, apenas. (C) I e III, apenas. (D) II e III, apenas. 119 (E) I, II e III. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS I. A teoria ecológica na criminologia estuda a relação entre o indivíduo e o ambiente, priorizando aspectos sociais e estruturais sobre fatores individuais na análise da criminalidade. II. A teoria da associação diferencial de Sutherland destaca que o crime é um sintoma da desorganização social, o que se distancia da ideia de origem genética. O autor afirma que indivíduos inseridos em contexto favorável à criminalidade tendem a praticar condutas clandestinas, em especial quando pessoas de sua relação o fazem. III. A criminalidade de "colarinho branco" foca na perpetração de delitos por pessoas em posição de poder, opondo-se às correntes criminológicas tradicionais de que o comportamento clandestino está diretamente ligado à pobreza ou distúrbios de personalidade. Não há vinculação entre os crimes de colarinho branco e as atividades filantrópicas. _______________________________________________________________________ 75. Antônio assistia a uma série televisiva noturna, quando foi surpreendido pelo inesperado toque da campainha de sua casa. Ao atender a porta, deparou-se com o funcionário de uma renomada loja de vinhos, que indagou se aquele seria o endereço para onde havia sido pedido por João da Silva uma celebrada garrafa de vinho, já devidamente paga por Pix pelo destinatário, no valor de R$1.500,00 (mil e quinhentos reais). Percebendo o erro, mas dominado pela vontade de degustar a bebida, Antônio confirmou falsamente ser ele o autor da encomenda, dando ainda como correto o endereço, o que fez com que a garrafa fosse, em seguida, a ele voluntariamente entregue, sendo consumida por Antônio antes do engano ser percebido pela loja vendedora do produto e por seu funcionário. Sobre a hipótese narrada, assinale a afirmativa correta. (A) Antônio responderá por furto qualificado pela fraude. (B) Antônio responderá por crime de estelionato. (C) Antônio responderá por crime de apropriação indébita simples. (D) Antônio responderá por apropriação indébita de coisa alheia havida por erro. (E) Antônio responderá por furto qualificado pela destreza. _______________________________________________________________________ GABARITO: B 120 COMENTÁRIOS O assunto foi estudado no Circuito Legislativo na 5ª Remessa de Direito Penal, a partir da página 113 na turma ENAM II 2024. (A) INCORRETA. No furto mediante fraude, o agente subtrai a coisa com discordância expressa ou presumida da vítima, sendo a fraude meio para retirar a res da esfera de vigilância da vítima. A fraude diminui a vigilância da vítima viabilizando, assim, a inversão da posse. (B) CORRETA. O estelionato é caracterizado pelo emprego de fraude para enganar a vítima, fazendo com que ela entregue espontaneamente ao agentea vantagem por ele pretendida. Não há qualquer tipo de violência, grave ameaça ou coação. O autor obtém o bem através de transferência empreendida pelo próprio ofendido por ter sido induzido em erro. A fraude faz com que a vítima incorra em erro e, de forma voluntária, transfira a posse do bem. (C) INCORRETA. Na apropriação indébita, o agente, abusando da qualidade de possuidor ou codetentor, passa a ter o bem móvel como seu, dele apropriando-se arbitrariamente. O sujeito ativo do crime é qualquer pessoa, desde que tenha a posse ou detenção legítima e desvigiada da coisa móvel alheia. Na apropriação indébita o dolo, ou seja, a vontade de se apropriar, surge depois de ter o agente a posse da coisa, recebida legitimamente. Assim, um dos requisitos configuradores da apropriação indébita é que receba a coisa de boa-fé, o que não restou apresentado na questão. Código Penal - Art. 168 - Apropriar-se de coisa alheia móvel, de que tem a posse ou a detenção. (D) INCORRETA. A coisa não foi havida por erro, pois o agente já recebe a coisa de má fé. Código Penal - Art. 169 - Apropriar-se alguém de coisa alheia vinda ao seu poder por erro, caso fortuito ou força da natureza. (E) INCORRETA. A destreza é uma especial habilidade do agente, que lhe permite realizar a subtração. Para alguns (STJ - Resp 1478648/PR), a qualificadora apenas se o agente utiliza tal habilidade excepcional para retirar bens em poder direto da vítima (é o caso dos denominados “punguistas”, ou seja, “batedores de carteira”). Para outros (STJ - HC 223790/MG), qualquer tipo de destreza permite a aplicação da qualificadora (ex.: abertura de cofre). _______________________________________________________________________ 76. Caio, Tício e Mévio integram um grupo de extermínio e decidem matar três integrantes de uma organização criminosa rival, cabendo a cada um o assassinato de uma das vítimas. Caio abordou sua vítima em emboscada. Todavia ao efetuar o disparo, verificou que a arma de fogo estava desmuniciada. Tício efetuou um disparo de arma de fogo no tórax da vítima que era seu alvo. Porém, ao ver o homem agonizando e chamando por seus filhos, Tício se compadeceu e o levou ao hospital. O esforço foi, contudo, em vão, tendo 121 em vista que a vítima faleceu na mesa cirúrgica em decorrência de hemorragia. Por fim, Mévio rendeu sua vítima apontando a arma de fogo para a cabeça. Nesse ínterim, a vítima propôs a Mévio o pagamento de R$50.000,00 (cinquenta mil reais) para que ele não o matasse, pedido que foi aceito por Mévio. Ocorre que minutos depois uma viatura passava pelo local e prendeu Mévio em flagrante. Diante do exposto, assinale a opção que indica a consequência jurídica que melhor se amolda às condutas de Caio, Tício e Mévio, respectivamente. (A) Tentativa de homicídio, homicídio doloso e arrependimento eficaz. (B) Crime impossível, homicídio doloso e desistência voluntária. (C) Tentativa de homicídio, arrependimento eficaz e desistência voluntária. (D) Crime impossível, arrependimento eficaz e desistência voluntária. (E) Crime impossível, homicídio doloso e tentativa de homicídio. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 4 a 10 de Direito Penal na turma ENAM II 2024. Os conceitos dos institutos jurídicos são essenciais para a resolução da questão, vejam: Crime impossível (tentativa inadequada, inidônea, quase crime ou crime oco): Tentativa não punível, pois o agente se vale de meio absolutamente ineficaz (crime impossível por ineficácia absoluta do meio) ou volta-se contra objeto absolutamente impróprio (crime impossível por impropriedade absoluta do objeto), razão pela qual é impossível consumar o crime. Desistência Voluntária: O agente pode prosseguir, mas não quer (é forma de tentativa qualificada). Na desistência voluntária, o agente ainda não fez tudo o que podia, quando, voluntariamente, desiste de prosseguir (abandona os atos executórios). Ocorre antes do fim dos atos executórios. Há exclusão de tipicidade do crime inicialmente desejado pelo agente, restando a responsabilidade penal pelos atos já praticados, que configuram crimes autônomos menos graves e consumados. Dessa maneira, o agente só responde pelos atos já praticados. Arrependimento eficaz: O agente pode prosseguir, mas não quer (é forma de tentativa qualificada). No arrependimento eficaz, o agente já havia feito tudo o que podia, mas, voluntariamente, passa a agir para impedir o resultado. Ocorre entre o fim dos atos executórios, mas antes da consumação do crime. Há exclusão de tipicidade do crime inicialmente desejado pelo agente, restando a responsabilidade penal pelos atos já praticados, que configuram crimes autônomos menos graves e consumados. Dessa maneira, o agente só responde pelos atos já praticados. 122 Conjugando as hipóteses narradas com os conceitos apresentados, temos que a consequência jurídica que melhor se amolda à conduta de Caio é o crime impossível, à conduta de Tício é o homicídio doloso e à conduta de Mévio é a desistência voluntária. (A) INCORRETA. (B) CORRETA. Crime impossível para Caio. Homicídio doloso para Tício. Desistência voluntária para Mévio. (C) INCORRETA. (D) INCORRETA. (E) INCORRETA. _______________________________________________________________________ 77. Acerca dos crimes contra a Administração Pública, assinale a afirmativa CORRETA. (A) O funcionário público que detém a posse de uma bicicleta particular em razão do cargo e concorre culposamente para a apropriação desse bem por outro funcionário público não incorre em prática delitiva, podendo, no entanto, responder por improbidade administrativa. (B) Em caso de prática do crime de peculato culposo, a reparação do dano extingue a punibilidade se for precedente à sentença irrecorrível ou, se for posterior, reduz à metade a pena imposta. (C) A reparação do dano causado não configura condição essencial para a progressão do regime de cumprimento da pena privativa de liberdade em relação aos condenados por crime contra a Administração Pública. (D) A circunstância de um dos agentes ser funcionário público é elementar do crime de concussão e, por isso, comunica-se ao agente concorrente particular, independentemente da ciência deste sobre a qualificação do primeiro. (E) A testemunha que faz afirmação falsa pode ser multada, mas não pratica fato penalmente típico desde que inexista aceitação de vantagem indevida e o fato ocorra em fase pré-processual. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS O assunto foi no Circuito Legislativo na 5ª e 7ª Remessas de Direito Penal e no Vade Mege ENAM – Parte 2 na turma ENAM II 2024. (A) INCORRETA. Código Penal - Peculato Culposo. Art. 312 - Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a posse em razão do 123 cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio ou alheio: § 2º - Se o funcionário concorre culposamente para o crime de outrem. (B) CORRETA. Código Penal - Art. 312, § 3º - No caso do parágrafo anterior (peculato culposo), a reparação do dano, se precede à sentença irrecorrível, extingue a punibilidade; se lhe é posterior, reduz de metade a pena imposta. (C) INCORRETA. Código Penal - Art. 33, § 4o O condenado por crime contra a administração pública terá a progressão de regime do cumprimento da pena condicionada à reparação do dano que causou, ou à devolução do produto do ilícito praticado, com os acréscimos legais. (D) INCORRETA. De fato, se elementar do crime, as circunstâncias de caráter pessoal se comunicam a todos os envolvidos. Entretanto, para que haja tal comunicação é necessária a ciência do comparsa acerca da qualificação do outro. Código Penal - Art. 30 - Não se comunicam as circunstâncias e as condições de caráter pessoal,salvo quando elementares do crime. (E) INCORRETA. Fazer afirmação falsa na condição de testemunha, ainda que durante o inquérito policial, configura o delito previsto no art. 342 do CP, que prevê aplicação de pena de reclusão e multa. Código Penal - Art. 342. Fazer afirmação falsa, ou negar ou calar a verdade como testemunha, perito, contador, tradutor ou intérprete em processo judicial, ou administrativo, inquérito policial, ou em juízo arbitral: Pena - reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa. _______________________________________________________________________ 78. Na solução do conflito aparente de normas penais, assinale a afirmativa CORRETA. (A) O princípio da especialidade afirma que o ordenamento penal somente protege os bens jurídicos mais importantes para a vida pacífica em sociedade. (B) O princípio da taxatividade estabelece a prevalência da norma penal que descreve condutas de observância obrigatória para fins de proteção fiscal. (C) O princípio da fungibilidade considera a equivalência entre normas penais incriminadoras, que são preponderantes em relação às normas penais permissivas e explicativas. (D) O princípio da fragmentariedade considera a prevalência da norma penal que contém todos os elementos da norma geral, além de outros que a tornam distinta. 124 (E) O princípio da alternatividade estabelece que, nos crimes de conteúdo variável, a incursão delitiva será única, ainda que sejam múltiplas as condutas típicas praticadas pelo mesmo sujeito no mesmo contexto. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS O assunto foi estudado nos pontos 1, 2 e 3 de Direito Penal na turma ENAM II 2024. (A) INCORRETA. Critério da especialidade: significa que a norma especial tem preferência em relação à norma geral (lex specialis derogat legi generali). É especial a norma que possui determinada particularidade objetiva ou subjetiva. Contém todos os requisitos da geral, além de elementos especializantes. (B) INCORRETA. Taxatividade: a lei penal deve ser clara, certa, precisa, proibindo-se o uso de conceitos vagos e imprecisos. Estamos diante do fundamento jurídico da reserva legal, qual seja, o princípio da taxatividade, o qual exige, na elaboração dos tipos penais, a facilidade na sua compreensão, não devendo deter em seu conteúdo expressões ambíguas ou indeterminadas. (C) INCORRETA. O princípio da fungibilidade não possui aplicação na solução de conflito aparente de normas penais, tratando-se de princípio usualmente utilizado no processo penal, especialmente no que toca às espécies recursais. (D) INCORRETA. Fragmentariedade: O Direito Penal não deve ser utilizado para tutelar toda e qualquer situação, nem para tutelar todo e qualquer bem jurídico. Somente uma pequena parcela da imensa gama de atos ilícitos existentes interessa a esse ramo do direito. Tal parcela compreende os atos que ofendem de modo mais grave os bens jurídicos considerados essenciais para o convívio em sociedade. Assim, o Direito Penal só intervirá quando houver relevante lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico tutelado. É a fragmentariedade que fundamenta o princípio da insignificância como causa de atipicidade material da conduta. (E) CORRETA. Critério da alternatividade: aplicável em se tratando de crime de ação múltipla ou tipo misto alternativo. Nesses casos, mesmo que o agente pratique mais de uma conduta, no mesmo contexto fático, responderá por um só crime. _______________________________________________________________________ 79. Jerônimo, porteiro de edifício residencial, ao perceber que uma entregadora está totalmente vestida de branco e usando guias de candomblé, diz a ela, no intuito de ofendê-la, que “ela é uma macumbeira endemoniada”. Em seguida, Jerônimo fala para a entregadora que, em razão de sua religião, ela não poderá usar a entrada e o elevador sociais, devendo utilizar a entrada e o elevador de serviços para fazer a entrega ao morador que a solicitara. Diante do caso narrado, Jerônimo deverá responder por 125 (A) racismo, apenas. (B) injúria simples, apenas. (C) injúria qualificada, apenas. (D) injúria simples e racismo. (E) injúria qualificada e racismo. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS O assunto foi no Circuito Legislativo na 5ª e 12ª Remessas de Direito Penal e no Vade Mege ENAM – Parte 2 na turma ENAM II 2024. Injúria qualificada - Art. 140, § 3º, CP - A intenção do agente é ofender a honra de alguém valendo-se de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. - Se a intenção do agente é ferir a honra alheia, ofendendo uma ou mais vítimas específicas, tem-se o crime de injúria qualificada (ex.: achincalhar alguém em razão de sua cor). Ação pública condicionada à representação. Afiançável e prescritível. Racismo - Lei 7.716/89 - Discriminação generalizada, contra todos de determinada cor, etnia etc., atingindo um número indeterminado de pessoas. Tratando-se de discriminação generalizada, contra todos de determinada cor, etnia etc., atingindo um número indeterminado de pessoas, há o crime da Lei 7.716/1989 (ex.: impedir pessoas de determinada cor de ingressarem em estabelecimento). Ação pública incondicionada. Inafiançável e imprescritível. (A) INCORRETA. (B) INCORRETA. (C) INCORRETA. (D) INCORRETA. (E) CORRETA. A conduta de Jerônimo, ao falar “ela é uma macumbeira endemoniada”, se amolda à injúria qualificada. Por outro lado, o impedimento de usar a entrada e elevadores sociais se amolda ao crime de racismo. _______________________________________________________________________ 80. Marcela, empregada celetista de sociedade empresária terceirizada de determinado órgão público, subtraiu uma valiosa obra de arte pertencente à repartição pública, valendo-se do acesso facilitado pelo seu vínculo empregatício. 126 Entretanto, após a subtração da peça, que pretendia revender, percebeu que seria descoberta, pois havia câmeras de segurança que registraram toda a ação. Marcela soube que as autoridades competentes já haviam sido acionadas para que se iniciasse a persecução penal e, por isso, decidiu restituir a peça, o que foi feito antes mesmo do recebimento da denúncia. Sobre os fatos, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Marcela pode ter a pena reduzida pelo arrependimento posterior, ante a integral restituição antes do recebimento da denúncia. (B) Ocorreu uma tentativa inidônea, pois as câmeras de vigilância tornariam impossível a consumação da subtração. (C) Marcela não é funcionária pública, devendo ser responsabilizada por furto qualificado pelo abuso de confiança. (D) Marcela pode ser beneficiada pela exclusão da tipicidade do arrependimento eficaz, afastando-se a sua responsabilidade penal pelo fato. (E) Há extinção da punibilidade do delito de peculato pela restituição integral da coisa antes da sentença. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS O assunto foi no Circuito Legislativo na 5ª e 7ª Remessas de Direito Penal e no Vade Mege ENAM – Parte 2 na turma ENAM II 2024. (A) CORRETA. Código Penal - Art. 16 - Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de um a dois terços. (B) INCORRETA. Súmula 567 do STJ - Sistema de vigilância realizado por monitoramento eletrônico ou por existência de segurança no interior de estabelecimento comercial, por si só, não torna impossível a configuração do crime de furto. (C) INCORRETA. Trata-se de funcionário Público por equiparação. Código Penal - Art. 327 - Considera-se funcionário público, para os efeitos penais, quem, embora transitoriamente ou sem remuneração, exerce cargo, emprego ou funçãode injunção também é o meio processual adequado para questionar a efetividade da lei regulamentadora. (D) Há norma constitucional que impõe ao legislador o dever de regulamentar os direitos do nascituro e, portanto, cabe mandado de injunção para que a omissão legislativa possa ser imputada às autoridades impetradas. (E) É cabível o mandado de injunção à declaração judicial de vacância de cargo, para compelir o Presidente da República a praticar ato administrativo, concreto e determinado. 14 _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS De acordo com o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) no Mandado de Injunção (MI) 712, é incabível o pedido de desistência de uma ação após o início do julgamento, especialmente quando a maioria dos Ministros já tiver se manifestado a favor da concessão da medida. Esse posicionamento reforça a preservação da estabilidade processual e a proteção da integridade das deliberações do tribunal. O princípio que orienta essa vedação é o da segurança jurídica, uma vez que permitir a desistência após a formação de uma maioria favorável poderia representar uma tentativa estratégica de influenciar indevidamente o resultado ou esvaziar o pronunciamento jurisdicional. Além disso o julgamento do STF não envolve apenas interesse meramente privado das partes, mas sim, muitas vezes, questões de relevância constitucional e impacto coletivo. Ao negar a possibilidade de desistência em tais circunstâncias, o STF assegura a coerência e a integridade do processo decisório, evitando que a mudança de postura da parte comprometa a efetividade do julgamento e o interesse público. Assim, o entendimento no MI 712 fortalece a finalidade das decisões colegiadas e impede que o processo seja utilizado como instrumento de manobra, garantindo a proteção da confiança legítima das partes e da sociedade no Judiciário. _______________________________________________________________________ 5. Na data-base de reajuste da categoria dos bancários, a negociação para a implementação de reajuste salarial, a partir de 2024, fracassou. Então, o sindicato dos empregados, após assembleia, decidiu que em 24 horas ocuparia todas as agências bancárias da região para pressionar os empregadores a aceitarem o reajuste desejado. Os bancos foram comunicados por escrito dessa decisão. Um banco estatal federal (sociedade de economia mista) e um banco privado resolveram, cada qual, ingressar com interdito proibitório na defesa de seus interesses, visando impedir que a posse de suas agências fosse molestada pelos grevistas. Considerando os fatos, as regras de competência e o entendimento consolidado do STF, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Tanto o banco estatal quanto o privado deverão ajuizar suas ações na Justiça Estadual. (B) O banco estatal, dada a sua natureza jurídica, ajuizará ação na Justiça Federal comum e o banco privado, na Justiça do Trabalho. (C) O banco estatal federal e o banco privado ajuizarão suas ações na Justiça do Trabalho. (D) O banco privado ajuizará ação na justiça estadual e o banco estatal federal, na Justiça Federal comum. 15 (E) O banco estatal federal e o banco privado ajuizarão suas ações na Justiça Federal comum. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS De acordo com o entendimento consolidado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do RE 1.015.362, as ações que envolvem empregados públicos contratados sob o regime celetista são de competência da Justiça do Trabalho, por se tratar de vínculo regido pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Contudo, há uma questão relevante: quando a controvérsia envolve aspectos pré- contratuais ou a nulidade do certame (natureza administrativa), a competência para processar e julgar a ação será da Justiça Comum. Isso ocorre porque, nesses casos, a discussão se relaciona com a legalidade do processo seletivo e não com a relação de emprego propriamente dita, escapando, portanto, da esfera trabalhista. Assim, questões atinentes à validade do concurso público ou a problemas ocorridos antes da contratação formal exigem análise pela Justiça Comum, enquanto que disputas decorrentes do contrato de trabalho, como direitos e obrigações trabalhistas, são julgadas pela Justiça do Trabalho. _______________________________________________________________________ 6. Uma mulher transgênero foi admitida, em 2024, em uma sociedade empresária para exercer a função de auxiliar no Departamento de Recursos Humanos. A funcionária trajava-se e portava-se como mulher, mas foi impedida de acessar o banheiro feminino da sociedade empresária, porque no seu registro civil ainda constava o nome masculino. Diante dos fatos, da previsão constitucional e do entendimento do STF, assinale a afirmativa CORRETA. (A) A sociedade empresária agiu de modo incorreto, porque, diante das peculiaridades do caso apresentado, a pessoa tem o direito de acessar o banheiro conforme o gênero com o qual se identifica. (B) A sociedade empresária está correta, porque a transição ainda não se completou, uma vez que o registro civil continua identificando a pessoa com o gênero biológico masculino. (C) A sociedade empresária está parcialmente equivocada, porque o reconhecimento e a visibilidade atuais da transexualidade exigem que ela construa um banheiro apenas para pessoas trans. (D) A sociedade empresária está correta, porque está preservando a segurança e a intimidade das mulheres cis que nela trabalham. 16 (E) A sociedade empresária deve preservar o meio ambiente de trabalho, que é bem indivisível e de todos, de modo que a situação deve ser debatida, votada e decidida pelas empregadas cisgênero. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS No julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 845.779, o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), por maioria de votos, decidiu que o caso não envolve matéria constitucional e, portanto, não cabe à Corte apreciá-lo. O recurso discutia o impedimento de uma mulher trans de utilizar o banheiro feminino em um shopping center em Florianópolis (SC). No entendimento do Plenário, a controvérsia apresentada não demandava, naquele momento, a análise de princípios constitucionais como dignidade da pessoa humana, igualdade e liberdade de expressão da identidade de gênero, remetendo assim a discussão para instâncias inferiores. Por não haver enfrentamento direto da questão de fundo sobre o direito das pessoas trans de serem tratadas em consonância com sua identidade de gênero, o julgamento não gera precedente sobre o mérito desse tema específico, deixando a possibilidade de que a questão seja apreciada em processos futuros, até porque a Repercussão Geral foi cancelada. Por outro lado, de forma indireta, em fundamentação de votos, o Supremo Tribunal Federal abordou a questão no RE 670432, considerando, assim, que a sociedade empresária agiu de modo incorreto. _______________________________________________________________________ 7. José, acometido de câncer, percebe apenas um salário mínimo de aposentadoria e precisa fazer uso de remédio de baixo custo prescrito pelo médico público que o acompanha. Ao buscar o remédio na Secretaria Municipal de Saúde da sua cidade, foi informado de que tal medicamento, usualmente fornecido pelo SUS (integra a lista padronizada do SUS) e registrado na Anvisa, havia se esgotado no estoque municipal. Foi informado, também, de que somente haveria recursos para nova aquisição no ano seguinte, após a inclusão de novas dotações na lei orçamentária anual. Não podendo interromper seu tratamento, conforme orientação médica comprovada, e sem recursos para adquirir o remédio, José procura a Defensoria Pública Estadual, para que ela promova uma ação contra o Município para que o medicamentopública. § 1º - Equipara-se a funcionário público quem exerce cargo, emprego ou função em entidade paraestatal, e quem trabalha para empresa prestadora de serviço contratada ou conveniada para a execução de atividade típica da Administração Pública. 127 (D) INCORRETA. O arrependimento eficaz (art. 15 do CP) ocorre quando o agente pratica todos os atos executórios suficientes à consumação do crime. No entanto, antes que a consumação ocorra, por meio de providências aptas, ele voluntariamente impede a ocorrência do resultado naturalístico. Na hipótese narrada, o crime foi consumado. (E) INCORRETA. A extinção da punibilidade nos moldes apresentados na alternativa só seria possível em se tratando de peculato culposo, o que não é o caso do enunciado. Código Penal - Art. 312, § 3º - No caso do parágrafo anterior, a reparação do dano, se precede à sentença irrecorrível, extingue a punibilidade; se lhe é posterior, reduz de metade a pena imposta. _______________________________________________________________________seja fornecido incondicionalmente. Em contestação, o ente federado alega que enfrenta grave crise financeira, que não possui dotações orçamentárias para esse fornecimento e que haveria indevida interferência do Poder Judiciário em matéria orçamentária, caso fosse obrigado a fornecer o medicamento por ordem judicial. 17 Diante desse cenário e à luz da jurisprudência dos Tribunais Superiores, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Com fundamento na teoria da reserva do possível, caso comprovada a crise financeira municipal, o magistrado não pode obrigar o Município a fornecer o medicamento. (B) A ausência de dotação orçamentária específica impede qualquer concessão do medicamento por ordem judicial, uma vez que é constitucionalmente vedado realizar despesas não previstas na lei orçamentária anual. (C) A criação de despesa orçamentária para a concessão de medicamento sem previsão na lei orçamentária, por ordem do Poder Judiciário, não é possível por violar a separação dos poderes. (D) O Poder Judiciário pode determinar a realização dessa despesa não originalmente prevista na lei orçamentária, em razão da grave omissão do Poder Público na garantia do direito fundamental à saúde. (E) A criação da despesa para o fornecimento do medicamento pode ser ordenada por decisão judicial, desde que a União participe obrigatoriamente do polo passivo da demanda. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS O Supremo Tribunal Federal (STF), ao julgar o Recurso Extraordinário (RE) 669.635, consolidou o entendimento de que, em situações excepcionais, o Poder Judiciário pode determinar que a Administração Pública adote medidas necessárias à garantia de direitos constitucionalmente reconhecidos como essenciais, sem que isso configure violação ao princípio da separação dos poderes previsto no art. 2º da Constituição Federal. Essa possibilidade de intervenção judicial é justificada pela efetividade dos direitos fundamentais, especialmente em casos onde a inércia ou omissão administrativa coloca em risco direitos indispensáveis, como saúde, educação ou segurança. Nessas hipóteses, a atuação do Judiciário busca garantir a plena fruição de direitos sociais e a observância do Estado Democrático de Direito, assegurando que o compromisso constitucional com a dignidade humana e a justiça social seja concretizado. O STF ressalta, no entanto, que essa intervenção é excepcional e se limita a assegurar o cumprimento de obrigações já determinadas pela Constituição ou pela legislação, sem que isso configure uma substituição indevida da competência administrativa. Assim, a atuação judicial deve ser complementar e subsidiária, sendo direcionada apenas a assegurar a realização de direitos fundamentais quando a Administração Pública se mostrar omissa ou insuficiente. 18 _______________________________________________________________________ 8. Sobre medida provisória, de acordo com a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Não é permitido aos Chefes do Poder Executivo dos Estados-membros editarem medidas provisórias, ainda que seja observado o conjunto de regras básicas do processo legislativo posto no texto constitucional de 1988. (B) Os requisitos constitucionais legitimadores da edição de medidas provisórias não podem, em nenhuma hipótese, ser submetidos ao crivo do Poder Judiciário, por força da regra da separação dos poderes. (C) Não é cabível o controle de constitucionalidade da medida provisória para a comprovação do desvio de finalidade ou abuso da competência normativa do Chefe do Executivo. (D) A conversão de medida provisória em lei, com absorção de conteúdo, não torna prejudicado o debate sobre o atendimento dos pressupostos de sua admissibilidade. (E) A medida provisória não revoga a lei anterior, mas apenas suspende seus efeitos no ordenamento jurídico, em face do seu caráter transitório e precário. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS Conforme entendimento consolidado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na ADI 5.709, a medida provisória (MP) não tem o poder de revogar uma lei anterior, mas apenas suspende seus efeitos enquanto estiver em vigor, em razão do seu caráter transitório e precário. A medida provisória é um instrumento normativo de uso emergencial pelo Poder Executivo, com vigência imediata, mas sujeito à aprovação ou rejeição pelo Congresso Nacional. Assim, aprovada a medida provisória pelas duas Casas do Congresso (Câmara e Senado), ela se converte em lei ordinária. Nesse momento, ocorre a revogação definitiva da lei anterior, que havia sido suspensa pela medida provisória. Por outro lado, caso a medida provisória seja rejeitada – seja de forma expressa (votação contrária) ou tácita (pelo decurso de prazo sem votação) –, a lei antecedente, que estava com seus efeitos suspensos, volta a ter eficácia plena e imediata. A decisão na ADI 5.709 ressalta, portanto, que o sistema jurídico brasileiro trata a medida provisória como um ato de natureza temporária, cuja estabilidade depende da ratificação legislativa. Até sua conversão em lei ou rejeição, a MP possui força normativa, mas sua rejeição implica o restabelecimento integral da norma suspensa, garantindo a continuidade e coerência do ordenamento jurídico. _______________________________________________________________________ 19 9. Foi publicada a Lei nº X, do Estado Alfa, alterando o Regime Jurídico dos Servidores Públicos Estaduais. O objetivo declarado desse diploma normativo era o de desburocratizar o processo administrativo disciplinar, tendo estabelecido os requisitos a serem observados para a implementação da consensualidade da pura reprimenda e da consensualidade de colaboração, em que o servidor estadual pode receber uma sanção de imediato, independentemente de qualquer colaboração com a apuração, ou vir a recebê-la caso ocorra essa colaboração. A alteração foi muito comemorada por Maria, Deputada Estadual e autora do projeto, e considerada inconstitucional pelo Diretório Regional do Partido Político Beta, agremiação partidária que somente possui representação na Câmara dos Deputados. O referido Diretório ajuizou Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) perante o Supremo Tribunal Federal. Sobre a hipótese, à luz da sistemática vigente, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Beta não tem legitimidade para ajuizar a ADI. (B) A Lei nº X não apresenta vício de inconstitucionalidade. (C) A Lei nº X veicula temática própria de lei complementar, logo, é inconstitucional. (D) A Lei nº X deve ser considerada constitucional, caso tenham sido observadas as normas gerais editadas pela União. (E) O Estado Alfa incursionou em matéria de competência legislativa privativa da União, mas a Lei nº X é constitucional caso haja lei da União autorizando a sua edição. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS O assunto foi estudado no material sobre o ponto 15 de Direito Constitucional na turma ENAM II 2024, página 97. De acordo com o art. 103 da Constituição Federal de 1988, apenas os legitimados expressamente previstos nesse dispositivo possuem competência para propor ações de controle concentrado de constitucionalidade perante o Supremo Tribunal Federal (STF). Destaca-se aqui, então, que diretórios regionais de partidos políticos não possuem legitimidade para propor tais ações. A legitimidade é conferida exclusivamente aos partidos políticos com representação no Congresso Nacional, o que assegura uma conexão entre a legitimidade ativa e a relevância do partido no âmbito federal. Assim, a presença parlamentar é considerada essencial para que o partido atue na defesa do controle abstrato de normas perante o STF. _______________________________________________________________________20 10. Determinada Lei do Estado Alfa isentou os servidores públicos do respectivo Estado do pagamento da taxa de inscrição em concursos públicos realizados por Alfa, com a finalidade de motivá-los a continuar a se aperfeiçoar tecnicamente. Sobre a referida norma, assinale a afirmativa CORRETA. (A) É constitucional, pois observou o princípio da eficiência ao implementar a medida que beneficia seus servidores, com a finalidade de motivá-los a continuar estudando e a participar de ações de formação continuada. (B) É constitucional, pois observou o princípio da igualdade no viés material, já que a norma estabeleceu distinções a fim de compensar os indivíduos que se encontram em situação desprivilegiada para elevá-los ao patamar dos demais. (C) É inconstitucional, pois a medida aprovada não tem a finalidade de promover a igualdade substancial, ou seja, não está voltada à mitigação de uma discriminação ou de uma desigualdade constatada na sociedade. (D) É constitucional, pois a taxa de inscrição em concurso público não tem natureza tributária e, portanto, a concessão da isenção está inserida em um espaço de discricionariedade administrativa para a gestão dos recursos públicos. (E) É inconstitucional, pois a concessão da isenção de taxa tem natureza tributária e, portanto, é necessária a observância dos princípios constitucionais tributários. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS O julgado foi estudado no material de temas selecionados do STF para o ENAM – 2022 (Informativos 1042 a 1079) enviado para a turma do ENAM II 2024, página 5. No julgamento da ADI 5818, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou a inconstitucionalidade de lei estadual que isenta servidores públicos da taxa de inscrição em concursos promovidos pela Administração Pública local. O STF entendeu que tal isenção representa um tratamento privilegiado e desproporcional em favor de um grupo que, em geral, já é mais favorecido social e economicamente, contrariando o princípio constitucional da isonomia. A criação de vantagens que beneficiam grupos específicos, sem justificativa razoável, rompe com o ideal de igualdade de oportunidades que deve nortear a Administração Pública. Em vez de promover a inclusão e a equidade, essa medida amplia a desigualdade entre os candidatos, frustrando a finalidade do concurso público como um mecanismo democrático de seleção. Assim, o entendimento do STF é que isenções seletivas e injustificadas para grupos específicos, como servidores públicos, são incompatíveis com a ordem constitucional, pois comprometem o princípio da impessoalidade e criam barreiras artificiais ao acesso justo e igualitário aos cargos públicos. Com base nessa interpretação, o STF reafirma a 21 necessidade de neutralidade e transparência nos concursos públicos, garantindo que as regras de seleção não favoreçam indevidamente grupos com maior poder econômico ou social. _______________________________________________________________________ 11. Em tema de “Direitos e Garantias Fundamentais”, a Constituição Federal de 1988 dispõe, em seu Art. 5º, inciso LVII, que "ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória". A respeito do princípio da não culpabilidade, considerando a jurisprudência assentada do Supremo Tribunal Federal, analise as afirmativas a seguir. I. Só é lícito o uso de algemas em casos de resistência e de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros, justificada a excepcionalidade por escrito, sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a que se refere, sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado. II. A condução coercitiva de pessoas investigadas ou réus para fins de interrogatório policial ou judicial é compatível com a presunção de inocência, dada a possibilidade de o conduzido exercer livremente seu direito de não responder às perguntas formuladas pela autoridade policial e de solicitar a presença de advogado para participar do ato. III. A norma constitucional que veda a concessão de liberdade provisória em caso de crimes hediondos e equiparados é compatível com a presunção de inocência, dada a exigência de interpretação sistemática e harmônica do texto constitucional. Havendo prisão em flagrante de crime hediondo, o autor do fato deve permanecer preso durante toda a instrução, sendo-lhe, contudo, assegurado o direito de permanecer em estabelecimento prisional reservado a presos provisórios. Está CORRETO o que se afirma em (A) I, apenas. (B) I e II, apenas. (C) I e III, apenas. (D) II e III, apenas. (E) I, II e III. _______________________________________________________________________ GABARITO: A COMENTÁRIOS O assunto foi abordado no material de súmulas do STF, página 56, no ponto 6, 7, 8 e 14 de Direito Constitucional na turma ENAM II 2024 22 I. CORRETA. De acordo com a Súmula Vinculante 11, o uso de algemas por agentes estatais somente será é possível em situações excepcionais em que a medida seja estritamente necessária para garantir a segurança do agente público ou evitar a fuga ou a resistência por parte da pessoa detida. A súmula estabelece, ainda, que o uso inadequado de algemas pode configurar constrangimento ilegal, passível de responsabilização do Estado. II. INCORRETA. No julgamento das ADPFs 395 e 444, o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou a inconstitucionalidade da condução coercitiva de pessoas investigadas ou acusadas para interrogatório, entendendo que essa prática viola o princípio da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, da CF/88) e o princípio da presunção de não culpabilidade (art. 5º, LVII, da CF/88). A condução coercitiva é caracterizada como uma restrição temporária da liberdade de locomoção, realizada mediante custódia por forças policiais em vias públicas, o que pode expor o indivíduo a constrangimento público, mesmo sem condenação prévia. III. INCORRETA. A atual jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF) admite a possibilidade de concessão de liberdade provisória a acusados de crimes hediondos ou equiparados, desde que ausentes os fundamentos autorizadores da prisão preventiva, conforme previstos no art. 312 do Código de Processo Penal (CPP). Esse entendimento foi consolidado no julgamento do Habeas Corpus (HC) 92.824. _______________________________________________________________________ 12. A Lei Federal nº X cominou a sanção de multa pelo descumprimento das normas ambientais que indicou. Em determinado mandado de segurança, Maria, que recebera a referida sanção, sustentava a inconstitucionalidade desse diploma normativo e, por via reflexa, a nulidade da multa que sofrera. A Câmara competente do Tribunal de Justiça do Estado Beta, que processou e julgou a causa em caráter originário, não reconheceu a alegada inconstitucionalidade, denegando a ordem. No dia seguinte à publicação do acórdão, que não padecia de qualquer erro, obscuridade, contradição ou omissão, foi publicado acórdão do Supremo Tribunal Federal, proferido em sede de controle concentrado de constitucionalidade, no qual foi declarada a inconstitucionalidade da Lei Federal nº X. Sobre a hipótese apresentada, à luz da sistemática vigente, assinale a afirmativa CORRETA. (A) O acórdão proferido pela Câmara tornou-se ineficaz. (B) O acórdão proferido pela Câmara afrontou a reserva de plenário. (C) O acórdão proferido pela Câmara pode ser reformado por decisão monocrática do relator do recurso extraordinário do Supremo Tribunal Federal. (D) O acórdão proferido pela Câmara deve ser objeto do recurso próprio, a ser julgado pelo Tribunal ad quem, não sendo de competência do Supremo Tribunal Federal o seu julgamento. 23 (E) O órgão competente do Tribunal de Justiça do EstadoBeta, no juízo de admissibilidade do recurso a ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal, deve reconhecer a ineficácia do acórdão proferido pela Câmara. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS O julgado foi estudado no material de Repercussão Geral (Teses organizadas para revisão – 2024) na turma do ENAM II 2024, página 2. Conforme o definido no julgamento do RE 730462, com repercussão geral, as decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) que declaram a constitucionalidade ou inconstitucionalidade de norma não têm o efeito de automaticamente reformar ou rescindir decisões anteriores proferidas em sentido contrário por outros órgãos jurisdicionais. Para que ocorra a revisão de tais decisões passadas, é indispensável a interposição de recurso próprio ou, quando cabível, a propositura de ação rescisória, nos termos dos arts. 485 e 495 do Código de Processo Civil (CPC). Esse entendimento reflete a necessidade de segurança jurídica e estabilidade das decisões judiciais. Mesmo quando o STF fixa um novo posicionamento em controle de constitucionalidade, as decisões anteriores permanecem válidas e eficazes até que sejam revisadas por meio dos instrumentos processuais adequados. A ação rescisória é o meio apropriado para rescindir decisões transitadas em julgado que tenham contrariado o novo entendimento do STF, respeitando o prazo decadencial de dois anos previsto no art. 495 do CPC. _______________________________________________________________________ 13. Sobre o tema prisão temporária, à luz do entendimento do Supremo Tribunal Federal, analise as afirmativas a seguir. I. A decretação da prisão temporária reclama sempre a presença do Art. 1º, inciso III, da Lei nº 7.960/1989, que elenca o rol de crimes aptos a ensejar tal medida cautelar. O dispositivo, ao exigir a presença de fundadas razões de autoria ou participação do indiciado nos crimes nele previstos, evidencia a necessidade do fumus commissi delicti, indispensável para a decretação da medida cautelar. O citado rol de crimes possui natureza taxativa, desautorizada a analogia ou a interpretação extensiva, em razão dos princípios constitucionais da legalidade estrita e do devido processo legal substantivo. II. A prisão temporária deve estar fundamentada em fatos novos ou contemporâneos à decretação da medida (Art. 312, § 2º, do Código de Processo Penal). Ainda que se cuide de dispositivo voltado à prisão preventiva, a regra é consequência lógica da cautelaridade das prisões provisórias e do princípio constitucional da não culpabilidade. III. O Código de Processo Penal dispõe que a prisão preventiva somente será determinada quando não for cabível a sua substituição por outra medida cautelar, observado o Art. 319 desse Código. O não cabimento da substituição por outra medida 24 cautelar deverá ser justificado de forma fundamentada nos elementos presentes do caso concreto, de modo individualizado. A citada disposição desse Código não se aplica às prisões temporárias, por possuírem natureza de medida cautelar na fase investigatória pré-processual. Está CORRETO o que se afirma em (A) I, apenas. (B) I e II, apenas. (C) I e III, apenas. (D) II e III, apenas. (E) I, II e III. _______________________________________________________________________ GABARITO: B COMENTÁRIOS O assunto foi estudado no material sobre os pontos 7, 8 e 14 de Direito Constitucional na turma ENAM II 2024, página 9. A questão foi integralmente extraída da ADI 4109/DF e, por isso, é colacionada abaixo para que o aluno a analise à luz dos princípios e fundamentos jurídicos utilizados, visando à compreensão de seu alcance e implicações. EMENTA OFICIAL: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. LEI 7.960/1989. PRISÃO TEMPORÁRIA. CONSTITUCIONALIDADE. ART. 5º, INCISOS LXI E LVII, DA CF. NECESSIDADE DE DECISÃO JUDICIAL DEVIDAMENTE FUNDAMENTADA. ART. 93, INCISO IX, DA CF. PRAZO IMPRÓPRIO DE 24 HORAS PARA A DECRETAÇÃO DA PRISÃO. INTERPRETAÇÃO CONFORME A CONSTITUIÇÃO FEDERAL. ART. 1º, INCISO III, DA LEI 7.960/1989. ROL DE NATUREZA TAXATIVA. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE ESTRITA. ART. 5º, INCISO XXXIX, DA CF. ART. 1º, INCISO I, DA LEI 7.960/1989. EXIGÊNCIA DE ELEMENTOS CONCRETOS. PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA. ART. 1º, INCISO II, DA LEI 7.960/1989. MERA AUSÊNCIA DE ENDEREÇO FIXO. VEDAÇÃO DE DECRETAÇÃO DE PRISÃO TEMPORÁRIA. NECESSIDADE DE OCORRÊNCIA DE FATOS NOVOS OU CONTEMPORÂNEOS QUE JUSTIFIQUEM A ADOÇÃO DA MEDIDA. ART. 312, § 2º, CPP. APLICABILIDADE À PRISÃO TEMPORÁRIA. VEDAÇÃO DE DECRETAÇÃO DA PRISÃO TEMPORÁRIA SOMENTE COM A FINALIDADE DE INTERROGATÓRIO. DIREITO À NÃO AUTOINCRIMINAÇÃO. ART. 282, INCISO II, E § 6º, DO CPP. DISPOSITIVOS APLICÁVEIS À PRISÃO TEMPORÁRIA. PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE. PRISÃO CAUTELAR COMO ULTIMA RATIO DO SISTEMA PROCESSUAL PENAL. INTELIGÊNCIA DO ART. 5º, INCISO LXVI, DA CF. PROCEDÊNCIA PARCIAL. I – A parte autora não desenvolveu fundamentação jurídica mínima a amparar o pedido de inconstitucionalidade dos arts. 3º e seguintes da Lei 7.960/1989. Falta de causa de pedir. Ação conhecida somente no tocante à impugnação dos artigos 1º e 2º da Lei em comento. II – A Constituição Federal autoriza que o legislador ordinário preveja modalidade de prisão cautelar voltada a assegurar o resultado útil da investigação 25 criminal, como é o caso da prisão temporária, desde que respeitado o princípio da presunção de não culpabilidade. Inteligência do art. 5º, incisos LXI e LVII, da Constituição Federal. III – Não viola a Constituição Federal a previsão legal de decretação de prisão temporária quando presentes fundados indícios da prática dos crimes de quadrilha, atual associação criminosa, e contra o sistema financeiro (alíneas “l” e “o” do inciso III do art. 1º da Lei 7.960/89). Cuida-se de opção do legislador, dentro do seu legítimo campo de conformação, com o escopo de conferir especial atenção a determinados crimes que em seu entender merecem maior necessidade de prevenção. IV – A prisão temporária não é medida de caráter compulsório, já que sua decretação deve se dar mediante decisão judicial devidamente fundamentada em elementos aptos a justificar a imposição da medida. Inteligência do art. 2º, caput e § 2º, da Lei 7.960/1989, bem como art. 93, inciso IX, da CF. V – O prazo de 24 horas previsto no § 2º do art. 2º da Lei 7.960/1989 é compatível com a Constituição Federal. Trata-se de prazo impróprio a ser observado conforme o prudente arbítrio do Magistrado competente para a decretação da medida. VI – A decretação da prisão temporária reclama sempre a presença do inciso III do art. 1º da Lei 7.960/1989. O dispositivo, ao exigir a presença de fundadas razões de autoria ou participação do indiciado nos crimes nele previstos, evidencia a necessidade do fumus comissi delicti, indispensável para a decretação de qualquer medida cautelar. Rol de crimes de natureza taxativa, desautorizada a analogia ou a interpretação extensiva, em razão dos princípios da legalidade estrita (art. 5º, inciso XXXIX, da CF) e do devido processo legal substantivo (art. 5º, inciso LXV, CF). VII – A decretação da prisão temporária exige também a presença do inciso I do art. 1º da Lei de regência. O inciso, ao dispor que a prisão temporária pode ser decretada somente quando for imprescindível para as investigações do inquérito policial, traz a necessidade de demonstração do periculum libertatis do representado, requisito indispensável para a imposição de prisões cautelares por força do princípio constitucional da presunção de inocência que obsta a antecipação de penas. Exigência de fundamentação calcada em elementos concretos, e não em simples conjecturas. Precedentes desta Corte. VIII – O inciso II do art. 1º da Lei 7.960/1989 mostra-se dispensável ou, quando interpretado isoladamente, inconstitucional. Não se pode decretar a prisão temporária pelo simples fato de o representado não possuirendereço fixo. A circunstância de o indiciado não possuir residência fixa deve evidenciar de modo concreto que a prisão temporária é imprescindível para a investigação criminal (inciso I do art. 1º da Lei em comento). IX – A prisão temporária deve estar fundamentada em fatos novos ou contemporâneos à decretação da medida (art. 312, § 2º, CPP). Ainda que se cuide de dispositivo voltado à prisão preventiva, a regra é consequência lógica da cautelaridade das prisões provisórias e do princípio constitucional da não culpabilidade. X – É vedada a decretação da prisão temporária somente com a finalidade de interrogar o indiciado, porquanto ninguém pode ser forçado a falar ou a produzir prova contra si. Doutrina. Inteligência das Arguições de Descumprimento de Preceito Fundamental n.º 395 e n.º 444, rel. Min. Gilmar Mendes, Plenário, STF, julgadas em 14/06/2018. XI – A decretação da prisão temporária deve observar o previsto no art. 282, inciso II, do CPP. Trata-se de regra geral a incidir sobre todas as modalidades de medida cautelar, as quais, em atenção ao princípio da proporcionalidade, devem observar a necessidade e a adequação da medida em vista da gravidade do crime, das circunstâncias do fato e das condições pessoais do representado. XII – O disposto no art. 282, § 6º, do CPP também deve ser atendido para a decretação da prisão temporária. Em razão do princípio constitucional 26 da não culpabilidade, a regra é a liberdade; a imposição das medidas cautelares diversas da prisão a exceção; ao passo que a prisão, qualquer que seja a sua modalidade, a exceção da exceção, é dizer, a ultima ratio do sistema processual penal. Inteligência do art. 5º, inciso LXVI, da CF. XIII – O art. 313 do CPP cuida de dispositivo específico para a prisão preventiva não aplicável à prisão temporária, porquanto, no caso desta, o legislador ordinário, no seu legítimo campo de conformação, já escolheu os delitos que julgou de maior gravidade para a imposição da prisão (inciso III do art. 1º da Lei 7.960/89). Entender de modo diverso implicaria confusão entre os pressupostos de decretação das prisões preventiva e temporária, bem como violação aos princípios da legalidade e da separação entre os poderes. XIV – Ação Direta de Inconstitucionalidade parcialmente conhecida e, na parte conhecida, julgados parcialmente procedentes os pedidos para conferir interpretação conforme a Constituição Federal ao art. 1º da Lei 7.960/1989 e fixar o entendimento de que a decretação de prisão temporária autoriza- se quando, cumulativamente: 1) for imprescindível para as investigações do inquérito policial (art. 1º, I, Lei 7.960/1989) (periculum libertatis), constatada a partir de elementos concretos, e não meras conjecturas, vedada a sua utilização como prisão para averiguações, em violação ao direito à não autoincriminação, ou quando fundada no mero fato de o representado não possuir residência fixa (inciso II); 2) houver fundadas razões de autoria ou participação do indiciado nos crimes previstos no art. 1º, III, Lei 7.960/1989 (fumus comissi delicti), vedada a analogia ou a interpretação extensiva do rol previsto no dispositivo; 3) for justificada em fatos novos ou contemporâneos que fundamentem a medida (art. 312, § 2º, CPP); 4) a medida for adequada à gravidade concreta do crime, às circunstâncias do fato e às condições pessoais do indiciado (art. 282, II, CPP); 5) não for suficiente a imposição de medidas cautelares diversas, previstas nos arts. 319 e 320 do CPP (art. 282, § 6º, CPP) Assim, estão CORRETOS os itens I e II. I. CORRETO. A decretação da prisão temporária reclama sempre a presença do inciso III do art. 1º da Lei 7.960/1989. O dispositivo, ao exigir a presença de fundadas razões de autoria ou participação do indiciado nos crimes nele previstos, evidencia a necessidade do fumus comissi delicti, indispensável para a decretação de qualquer medida cautelar. Rol de crimes de natureza taxativa, desautorizada a analogia ou a interpretação extensiva, em razão dos princípios da legalidade estrita (art. 5º, inciso XXXIX, da CF) e do devido processo legal substantivo (art. 5º, inciso LXV, CF). II. CORRETO. A prisão temporária deve estar fundamentada em fatos novos ou contemporâneos à decretação da medida (art. 312, § 2º, CPP). Ainda que se cuide de dispositivo voltado à prisão preventiva, a regra é consequência lógica da cautelaridade das prisões provisórias e do princípio constitucional da não culpabilidade. III. INCORRETO. De acordo com o entendimento expresso no julgado mencionado, o art. 282, § 6º, do Código de Processo Penal (CPP), que determina que a prisão preventiva só deve ser aplicada quando não for possível substituí-la por outra medida cautelar, também se aplica à prisão temporária. Em virtude do princípio constitucional da presunção de inocência, a liberdade é a regra, enquanto a imposição de medidas cautelares alternativas à prisão constitui uma exceção. A prisão, independentemente de 27 sua modalidade, representa a exceção da exceção, ou seja, a ultima ratio no sistema processual penal. Art. 282 do CPP - As medidas cautelares previstas neste Título deverão ser aplicadas observando-se a: § 6o A prisão preventiva será determinada quando não for cabível a sua substituição por outra medida cautelar (art. 319). ATENÇÃO! O art. 313 do CPP é que não se aplica à prisão temporária. Consoante o STF, trata-se de dispositivo específico para a prisão preventiva não aplicável à prisão temporária, porquanto, no caso desta, o legislador ordinário, no seu legítimo campo de conformação, já escolheu os delitos que julgou de maior gravidade para a imposição da prisão (inciso III do art. 1º da Lei 7.960/89). Entender de modo diverso implicaria confusão entre os pressupostos de decretação das prisões preventiva e temporária, bem como violação aos princípios da legalidade e da separação entre os poderes. _______________________________________________________________________ 14. Um Senador da República, pretendendo realizar a expansão da seguridade social, protocolou em janeiro de 2024 um projeto de lei ordinária para a criação de uma nova contribuição adicional de seguridade social, prevendo que produziria efeitos depois de decorridos trinta dias da data da publicação da lei que a instituiu. A lei foi aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo Presidente da República, sendo publicada em maio de 2024. Antes mesmo de transcorridos os trinta dias previstos na lei, uma sociedade empresária ingressou com ação declaratória tributária, requerendo que seja declarado seu direito de não recolher tal exação, alegando que a nova lei é inconstitucional. Diante dos fatos trazidos no enunciado, assinale a opção que apresenta a alegação que você, como magistrado(a), acolheria para que tal lei fosse considerada inconstitucional. (A) Por violar apenas a reserva de lei complementar para a criação desse tipo de contribuição. (B) Por violar a reserva de lei complementar para a criação desse tipo de contribuição e por violar a anterioridade tributária anual. (C) Por violar a reserva de lei complementar para a criação desse tipo de contribuição e por violar a anterioridade tributária nonagesimal. (D) Por violar a reserva de iniciativa do Presidente da República para a criação desse tipo de contribuição e por violar a anterioridade tributária anual. (E) Por violar a reserva de iniciativa do Presidente da República e por violar a reserva de lei complementar para a criação desse tipo de contribuição. _______________________________________________________________________ GABARITO: C COMENTÁRIOS https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689.htm#art319. 28 O assunto foi estudado no material sobre os pontos 7, 8 e 14 de Direito Constitucional na turma ENAM II 2024, página 34 e na 11ª Remessa do Circuito Legislativo de Direito Constitucional. Há violação aos princípiosda legalidade, especificamente a reserva de lei complementar (art. 195, §4º, c/c, art. 154, I, da CF) e da anterioridade nonagesimal (art. 195, §6º, da CF): Art. 195. A seguridade social será financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta, nos termos da lei, mediante recursos provenientes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, e das seguintes contribuições sociais § 4º A lei poderá instituir outras fontes destinadas a garantir a manutenção ou expansão da seguridade social, obedecido o disposto no art. 154, I. Art. 154. A União poderá instituir: I - mediante lei complementar, impostos não previstos no artigo anterior, desde que sejam não-cumulativos e não tenham fato gerador ou base de cálculo próprios dos discriminados nesta Constituição; § 6º As contribuições sociais de que trata este artigo só poderão ser exigidas após decorridos noventa dias da data da publicação da lei que as houver instituído ou modificado, não se lhes aplicando o disposto no art. 150, III, "b". _______________________________________________________________________ 15. O Estado Alfa realizou pagamento a seu servidor público estadual Roberto, mas este percebeu que a retenção na fonte do Imposto sobre a Renda (IR) presente em seu contracheque estava acima do que reputava devido. Roberto então ingressou com ação de repetição do indébito tributário contra o Estado Alfa e a União requerendo que os valores de IR recolhidos a maior lhe fossem restituídos. Em contestação, tanto a União como o Estado Alfa alegaram sua ilegitimidade passiva. Como magistrado(a), você terá que decidir quem deve permanecer no polo passivo dessa ação tributária e por que razão, à luz das regras de repartição de receitas tributárias da Constituição Federal de 1988 e da jurisprudência dos Tribunais Superiores. Diante de tal cenário, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Deve permanecer no polo passivo da ação apenas a União, em razão de ser o ente instituidor do IR, apesar de ser o Estado Alfa o destinatário integral dos valores de IR retidos na fonte de Roberto. (B) A presença tanto da União como do Estado Alfa se impõe como decorrência do litisconsórcio passivo necessário, em razão de que, embora seja o Estado Alfa o destinatário integral dos valores de IR retidos na fonte de Roberto, a União é o ente instituidor do IR. 29 (C) A presença tanto da União como do Estado Alfa se impõe como decorrência do litisconsórcio passivo necessário, em razão de que, embora seja a União a destinatária integral dos valores de IR retidos na fonte de Roberto, o responsável tributário pela retenção é o Estado Alfa. (D) A presença tanto da União como do Estado Alfa se impõe como decorrência do litisconsórcio passivo necessário, em razão de que ambos os entes partilham, em partes iguais, os valores de IR retidos na fonte de Roberto. (E) Deve permanecer no polo passivo da ação apenas o Estado Alfa, em razão de que, embora não seja o ente instituidor do IR, é o destinatário integral dos valores de IR retidos na fonte de Roberto. _______________________________________________________________________ GABARITO: E COMENTÁRIOS O assunto foi abordado na 16ª Remessa do Circuito Legislativo de Direito Constitucional e no material de súmulas do STJ, página 51 na turma ENAM II 2024. Para responder a essa questão era necessário o conhecimento do art. 159, I e §1º, da CF, além da jurisprudência do STJ. Considerando que o produto da arrecadação do imposto de renda incidente na fonte, que forem pagos pelos Estados, DF e Municípios não pertencem à União, mas sim ao respectivo ente pagador, a União não possui legitimidade para figurar no polo passivo da ação de repetição de indébito. No caso da questão, a legitimidade passiva pertence ao Estado, pois se trata de servidor estadual. Art. 159. A União entregará: I - do produto da arrecadação dos impostos sobre renda e proventos de qualquer natureza e sobre produtos industrializados e do imposto previsto no art. 153, VIII, 50% (cinquenta por cento), da seguinte forma: § 1º Para efeito de cálculo da entrega a ser efetuada de acordo com o previsto no inciso I, excluir-se-á a parcela da arrecadação do imposto de renda e proventos de qualquer natureza pertencente aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, nos termos do disposto nos arts. 157, I, e 158, I. 157. Pertencem aos Estados e ao Distrito Federal: I - o produto da arrecadação do imposto da União sobre renda e proventos de qualquer natureza, incidente na fonte, sobre rendimentos pagos, a qualquer título, por eles, suas autarquias e pelas fundações que instituírem e mantiverem; Súmula 447 STJ: Os Estados e o Distrito Federal são partes legítimas na ação de restituição de imposto de renda retido na fonte proposta por seus servidores. _______________________________________________________________________ 30 16. A Supremacia da Constituição Federal de 1988 e sua força vinculante em relação aos Poderes Públicos torna imprescindível o debate sobre as formas e os modos de defesa da Constituição e sobre a necessidade de controle da constitucionalidade dos atos do Poder Público, principalmente das leis e dos atos normativos. Assim, a respeito do controle de constitucionalidade, assinale a afirmativa CORRETA. (A) Coexistindo ações diretas de inconstitucionalidade de uma mesma norma estadual, a decisão proferida pelo Tribunal de Justiça somente prejudicará a ação perante o Supremo Tribunal Federal se for pela improcedência e desde que a alegação ofenda dispositivo constitucional estadual que constitui reprodução de norma da Constituição Federal de 1988. (B) O legislador não pode dispor, em novo ato legislativo, sobre a mesma matéria versada em legislação anteriormente declarada inconstitucional pelo Supremo, pois tal conduta importa em desrespeito à autoridade das decisões do Supremo Tribunal Federal. (C) Os Tribunais de Justiça Estaduais não podem exercer o controle abstrato da constitucionalidade das leis municipais utilizando como parâmetros as normas da Constituição Federal de 1988, ainda que se trate das normas de reprodução obrigatória pelos Estados. (D) Overruling é a técnica que pressupõe a força vinculante do precedente e que, portanto, impõe à Corte responsável pela sua formulação um complexo encargo argumentativo, a indicar que a antiga interpretação já se tornou inconstitucional ou está se tornando. (E) Não é cabível na Ação Direta de Inconstitucionalidade a inclusão, em seu pedido, da declaração de revogação das normas anteriores à vigência do novo parâmetro constitucional. _______________________________________________________________________ GABARITO: D COMENTÁRIOS O conceito de overruling é amplamente utilizado no direito anglo-saxão, especialmente no sistema common law, e se refere ao momento em que um tribunal superior, geralmente uma Corte Suprema, decide reverter ou alterar um precedente judicial previamente estabelecido. A nova decisão substitui o entendimento anterior e passa a constituir a referência obrigatória para julgamentos futuros em casos semelhantes. Esse mecanismo permite a evolução da jurisprudência, garantindo que a interpretação jurídica acompanhe mudanças sociais, culturais ou legais. O overruling é fundamental para corrigir entendimentos equivocados ou ultrapassados e adequar a jurisprudência às novas realidades e valores da sociedade. Uma vez aplicado, ele não invalida automaticamente as decisões passadas que se basearam no precedente antigo, sendo necessário o uso de mecanismos processuais, como a ação rescisória, para questionar sentenças transitadas em julgado. 31 Embora seja um conceito típico do common law, o sistema jurídico brasileiro tem incorporado práticas semelhantes, especialmente após o CPC/2015, que deu maior força vinculante aos precedentes judiciais. O Supremo Tribunal Federal (STF) e o Superior Tribunal de