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Coesão e coerência
 A coesão e a coerência constituem dois fatores importantes da textualidade.
UEMG – Unidade de Passos
Profa. Dra. Raíssa Medici de Oliveira
E-mail: raissa.oliveira@uemg.br
Coesão
“Num texto, certos elementos comparam-se aos fios que costuram entre si as
partes de uma vestimenta. Cortados esses fios, o que sobra são simples pedaços de
pano” (FIORIN; SAVIOLI, 2006, p. 367).
A coesão textual diz respeito à ligação, à relação, à conexão entre as palavras,
expressões ou frases do texto. Ela é manifestada por elementos formais, como se
observa no período abaixo, que abre o romance Iracema, de José de Alencar:
Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia na fronde da carnaúba.
 O termo onde faz a conexão entre verdes mares bravios de minha terra natal e canta a
jandaia na fronte da carnaúba. Onde é um elemento coesivo, responsável pela coesão do
enunciado.
A coesão referencial
A coesão referencial é aquela em que um elemento do texto faz
referência a outro(s) elemento(s), retomando-o(s) ou antecipando-o(s). Veja o
exemplo abaixo:
João Paulo II esteve, ontem, em Varsóvia. Lá, ele disse que a igreja
continua a favor do celibato.
As palavras responsáveis por esse tipo de coesão são os pronomes, que
podem ser pessoais (ele, ela, nós, o, a, lhe, etc.), possessivos (meu, teu, seu,
etc.), demonstrativos (este, esse, aquele, etc.), os advérbios de lugar e também
os artigos definidos.
anáfora catáfora
Outra alternativa para se fazer a coesão do exemplo citado no slide
anterior seria por meio de uma elipse:
João Paulo II esteve, ontem, em Varsóvia. Lá, disse que a igreja
continua a favor do celibato.
Observa-se que “João Paulo II” se acha retomado no segundo
período por ausência: o sujeito do verbo (disse) está elíptico, de modo
que, para descobrir quem disse, é preciso voltar ao período anterior.
Ø
Uma outra possibilidade seria utilizar palavras ou expressões sinônimas,
selecionados do léxico da língua – coesão lexical:
João Paulo II esteve, ontem, em Varsóvia. Na capital da Polônia, o papa disse que
a igreja continua a favor do celibato.
É importante destacar, a esse respeito, que a coesão lexical pode funcionar como
marca da enunciação, seja num processo de apreciação positiva seja num processo de
apreciação negativa:
João Paulo II esteve, ontem, em Varsóvia. Lá, sua Santidade disse que a igreja
continua a favor do celibato.
João Paulo II esteve, ontem, em Varsóvia. Lá, o mais recente aliado do capitalismo
ocidental disse que a igreja continua a favor do celibato.
As palavras mais utilizadas nesse processo de coesão são os denominados sinônimos
superordenados ou hiperônimos, isto é, palavras que mantêm com outras uma relação do
tipo contém/está contido:
mesa......................móvel
faca........................talher
termômetro...........instrumento
computador...........equipamento
Utilizando tais sinônimos, podemos trocar sequências de gosto duvidoso como:
Acabamos de receber trinta termômetros clínicos. Os mesmos deverão ser
encaminhados ao departamento de pediatria.
Por sequências como:
Acabamos de receber trinta termômetros clínicos. Esses instrumentos deverão ser
encaminhados ao departamento de pediatria.
Para analisar...
André e Pedro são fanáticos torcedores de futebol. Apesar disso, são
diferentes. Este não briga com quem torce para outro time; aquele o faz.
O termo isso (em “apesar disso”) retoma o predicado _____________;
este recupera a palavra ___________; aquele, o termo ____________; o faz, o
predicado ______________.
Ambiguidade: cuidado!
Há um problema de coesão quando um elemento anafórico está empregado num contexto
em que pode se referir a dois termos antecedentes distintos, provocando ambiguidade.
O famoso jornalista desentendeu-se com o jornal por causa de sua campanha a favor do
presidente.
Do famoso jornalista? Ou do jornal?
Para evitar a ambiguidade, redige-se a frase de outro modo:
A campanha do famoso jornalista em favor do presidente levou-o ao desentendimento com
o jornal.
A campanha que fazia em favor do presidente levou o famoso jornalista a desentender-se
com o jornal.
A coesão sequencial
A coesão sequencial diz respeito aos procedimentos linguísticos que
fazem o texto progredir, avançar.
Ela pode ser feita por meio de conectores ou operadores discursivos,
que são palavras ou expressões responsáveis pela concatenação, pela criação
de relações entre os segmentos do texto: então, portanto, já que, com efeito,
porque, mas, assim, dessa forma, isto é.
Cada um desses conectores, além de ligar as partes do texto, estabelece
uma certa relação semântica (causa, finalidade, conclusão, contradição,
condição, etc.), que possui uma dada função argumentativa no texto.
Vejamos alguns dos principais tipos de operadores:
1) Os que marcam uma gradação numa série de argumentos orientada no
sentido de uma determinada conclusão. Alguns indicam o argumento mais
forte: até, mesmo, até mesmo, inclusive; outros introduzem um argumento,
deixando subentendida a existência de uma escala com outros argumentos
mais fortes: ao menos, pelo menos, no mínimo, no máximo, quando muito.
Ela tem todas as qualidades necessárias para vencer na vida: é bonita,
inteligente, charmosa e até rica.
Ele é um político hábil. Chegará pelo menos a ser prefeito.
Ele não é inteligente. Nunca será um cientista. No máximo será um bom
técnico.
2) Os que marcam uma relação de conjunção argumentativa, isto é, que ligam
argumentos em favor de uma mesma conclusão: e, também, ainda, nem, não só...
mas também, tanto... como, além de, além disso, a par de.
A curto prazo, o Brasil não estará entre os países mais desenvolvidos do mundo,
pois seus indicadores sociais o situam entre os mais atrasados. Convém ainda
lembrar que o fluxo de capitais em direção à América Latina praticamente cessou.
3) Os que indicam uma relação de disjunção argumentativa, isto é, que introduzem
argumentos que levam a conclusões opostas, que têm orientação argumentativa
diferente: ou, ou então, seja... seja, caso contrário.
É preciso manter, a todo custo, o plano de estabilização econômica. Ou então será
inevitável a volta da inflação.
4) Os que marcam uma relação de conclusão, isto é, que introduzem uma
conclusão em relação a dois (ou mais) enunciados anteriores: portanto, logo,
por conseguinte, pois (posposto ao verbo).
O Palmeiras foi o melhor time do campeonato. Teria, pois, que ser o
campeão.
5) Os que introduzem uma explicação ou justificativa ao que foi dito no
enunciado anterior: porque, já que, que, pois.
A alegria da posse do prefeito já acabou, porque os problemas já
começaram.
6) Os que marcam uma relação de contrajunção, ou seja, contrapõem
enunciados de orientação argumentativa contrária: conjunções adversativas
(mas, porém, contudo, todavia, no entanto, entretanto), conjunções concessivas
(embora, ainda que, mesmo que, apesar de que).
A Sabesp está tratando a água da represa de Guarapiranga, mas o gosto da
água das regiões Sul de Sudeste da cidade não melhorou.
7) Os que indicam uma generalização ou uma amplificação do que foi dito
anteriormente: de fato, realmente, aliás, também, é verdade que.
Pedro já chegou. Aliás, ele sempre chega antes da hora.
8) Os que especificam ou exemplificam o que foi dito anteriormente: por exemplo, como.
Mesmo os estados tidos como mais desenvolvidos, como São Paulo, Rio Grande do Sul,
Rio de Janeiro e Minas Gerais, estão falidos.
9) Os que marcam uma relação de retificação, de correção: ou melhor, isto é, quer dizer, ou
seja, em outras palavras.
Este prefeito está contradizendo o programa apresentado na campanha eleitoral, isto é,
não está cumprindo as promessas de campanha.
10) Os que servem para introduzir uma explicitação, uma confirmação ou umailustração do
que foi dito antes: assim, desse modo, dessa maneira.
Pedro sempre estuda uma ou duas horas por dia. Desse modo, acredita que conseguirá
bons resultados nas provas.
Além da coesão sequencial feita por meio de conectivos, há ainda aquela
que se faz pela justaposição de sequências do texto, com ou sem o auxílio de
sequenciadores (operadores de sequenciação).
Estes podem ser de vários tipos, dentre os quais destacamos:
1) Os que marcam a sequência temporal: dois meses depois, uma semana antes, um
pouco mais cedo.
2) Os que marcam a sequência espacial: à esquerda, à direita, atrás, na frente.
3) Os que servem para especificar a ordem dos assuntos no texto: primeiramente, em
seguida, a seguir, finalmente.
4) Os que, na conversação, servem para introduzir um dado tema ou para mudar de
assunto: a propósito, por falar nisso, voltando ao assunto, fazendo um parêntese.
Praticando...
01) Analise os enunciados abaixo e identifique os problemas de coesão que
apresentam. Em seguida, proponha uma forma de reescrita para cada um:
O motorista do carro, um bancário de 32 anos, foi preso em flagrante por homicídio
doloso e levado para a 89ª DP (Portal do Morumbi), onde o caso foi registrado. O motorista
do carro se recusou a passar pelo teste do bafômetro, mas, segundo o tenente da PM, Luís
Gomes, o motorista do carro apresentava sinais de embriaguez.
Vi uma garotinha correndo em minha direção segurando uma espécie de embrulho.
Quando se aproximou, a garotinha me deu um abraço e deixou o embrulho caído no chão.
02) O mau uso dos mecanismos de coesão pode produzir efeitos perturbadores
para a compreensão do texto. É o que ocorre no caso que segue.
Engulo o uísque e vou caminhando. Tenho um encontro com um empresário e um
americano antropólogo que está com ele. Cinema, grana, outros papos. O burguês amigo
meu fala muito “deles... deles... deles”. Todo o mal do Brasil é culpa deles. O mundo e o país
estão sendo destruídos por eles. Até que o americano não aguenta mais de curiosidade e
pergunta: “Who are they?” (Quem são eles?) Meu amigo para, travado. Quem serão eles? Aí
descubro o óbvio triunfal. Eles são os outros. São as forças ocultas que desculpam nossa
omissão. Grande categoria descobri: eles. Todos nós falamos da desgraça nacional como se
fosse feita por outros, seres impalpáveis que são responsáveis por tudo. Eles podem ser o
governo, o operariado, os americanos, os jornalistas, até os judeus talvez... Todos, menos nós.
JABOR, Arnaldo. Os canibais estão na sala de jantar. 5. ed. São Paulo: Siciliano, 1993, p. 19.
02)
a) Qual é o motivo de tamanha curiosidade do americano ao perguntar:
“Quem são eles?”
a) Sob o ponto de vista argumentativo, o uso do pronome eles/deles seguidas
vezes produziu um efeito de sentido favorável ou desfavorável para o
falante? Explique sua resposta.
Respostas:
a)Qual é o motivo de tamanha curiosidade do americano ao perguntar: “Quem são
eles?”
A curiosidade se deve ao fato de o amigo do narrador ter usado
repetidamente um pronome (eles/deles) que não faz referência a nenhum
termo explicitamente presente no interior do texto e que também não vem
implícito no contexto externo. Daí o fato de o americano não conseguir
identificar de quem estava falando seu interlocutor.
b) Sob o ponto de vista argumentativo, o uso do pronome eles/deles seguidas vezes
produziu um efeito de sentido favorável ou desfavorável para o falante? Explique sua
resposta.
O uso desse pronome produziu um péssimo resultado argumentativo, já
que tudo o que se atribuía a essa palavra de sentido indefinível (eles) ficou
esvaziado e sem credibilidade.
Coerência
Coerência significa “conexão, união estreita entre várias partes, relação
entre ideias que se harmonizam, ausência de contradição. É a coerência que
distingue um texto de um aglomerado de frases” (FIORIN; SAVIOLI, 2006, p.
392, grifos nossos)
Enquanto a coesão dá conta da estruturação das unidades linguísticas
presentes na superfície do texto, a coerência dá conta do processamento
cognitivo do texto, isto é, da sua organização profunda.
Vejamos alguns tipos de coerência:
• Coerência narrativa: ocorre quando se respeitam as implicações lógicas
existentes entre as partes da narrativa.
Exemplo: Para que uma personagem realize uma ação (performance), é preciso que saiba e
possa fazê-la (competência). Seria, pois, uma incoerência narrativa relatar uma ação realizada por um
sujeito que não tinha competência para realizá-la.
Havia um menino muito magro que vendia amendoins numa esquina de uma das avenidas
de São Paulo. Ele era tão fraquinho, que mal podia carregar a cesta em que estavam os pacotinhos de
amendoim. Um dia, na esquina em que ficava, um motorista, que vinha em alta velocidade, perdeu a
direção. O carro capotou e ficou de rodas para o ar. O menino não pensou duas vezes. Correu para o
carro e tirou de lá o motorista, que era um homem corpulento. Carregou-o até a calçada, parou um
carro e levou o homem para o hospital. Assim salvou-lhe a vida.
• Coerência argumentativa: diz respeito às relações de implicação e/ou de
adequação entre certos pressupostos ou certos dados apresentados no texto
e as conclusões que deles se tiram. Se os pressupostos ou os dados
apresentados não permitem tirar as conclusões que foram tiradas, tem-se
uma incoerência de nível argumentativo.
Exemplos:
Se o texto parte da premissa de que todos são iguais perante a lei, defender posteriormente
o privilégio de algumas categorias profissionais não estarem obrigadas a pagar imposto de renda
constitui uma incoerência. O argumentador pode até defender essas regalias, mas não pode partir da
premissa de que todos são iguais perante a lei.
Do mesmo modo, constitui uma incoerência argumentativa defender ponto de vista
contrário a qualquer tipo de violência e ser favorável à pena de morte.
• Coerência figurativa: diz respeito à articulação harmônica das figuras do texto,
com base na relação semântica que mantêm entre si. É essa articulação que garantirá
a manifestação de um dado tema.
Exemplo:
Suponhamos que se queira figurativizar o tema do requinte e da sofisticação.
Pode-se citar, ao descrever uma festa dada em uma mansão, por exemplo, a lareira, a
adega, os cristais, a porcelana, o cachorro de raça, as obras de arte expostas na sala de
visitas e outras figuras do mesmo campo semântico. Seria uma incoerência figurativa
incluir nesse conjunto de elementos a reprodução de uma música do grupo É o tchan.
Essa ruptura apenas se justificaria se a intenção fosse provocar o riso ou então mostrar
o paradoxo relacionado a um requinte que é apenas exterior.
• Coerência temporal: concerne ao respeito às leis da sucessividade dos
eventos ou à apresentação de compatibilidade entre os enunciados do
texto, do ponto de vista da localização no tempo.
Exemplo:
Quando o professor entrou, ele já tinha posto o sapo na bolsa da
colega e estava sentado tranquilamente no seu lugar. O mestre pegou-o
em flagrante, quando estava pondo o sapo na bolsa da colega.
• Coerência espacial: concerne à compatibilidade entre os enunciados
do ponto de vista da localização no espaço.
Exemplo:
Embaixo do único lustre, colocado bem no meio do teto, um grupo
de pessoas conversava animadamente. Quando ela entrou, todos
pararam de falar e olharam para ela. Ela não se importou e foi também
postar-se embaixo do lustre num dos cantos do salão.
• Coerência no nível de linguagem: compatibilidade, do ponto de
vista da variante linguística escolhida, no nível do léxico e das estruturas
sintáticas utilizadas no texto.
Exemplo:
Magnífico Reitor da Universidade de São Paulo
Tendo tomado conhecimento pelos periódicos da capital paulista de que o
Prefeito da Cidade Universitária, onde está situada a Universidade que vossa
Magnificência, com alto descortino, dirige, resolveuinterditar o acesso da população
ao campus nos finais de semana, ouso vir à presença de vossa Magnificência para
manifestar-lhe meu repúdio ao fato de uma instituição pública querer subtrair da
população de uma cidade desumana um espaço de lazer. Francamente, achei a
maior sujeira da USP, sacanagem, nada a ver.
Em cada um desses níveis (narrativo, figurativo, temporal, etc.),
há dois tipos de coerência: intratextual e extratextual.
1) Coerência intratextual: compatibilidade, adequação, não
contradição entre os enunciados do texto, como ocorre, por
exemplo, quando respondemos o que nos foi perguntado, quando
não desdizemos o que acabamos de dizer, etc.
2) Coerência extratextual: adequação do texto a algo que lhe é
exterior. Essa exterioridade pode ser: a) o conhecimento de mundo;
b) os mecanismos gramaticais e semânticos da língua.
Para analisar...
Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma,
creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente,
toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos,
gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço. Relógio, maço de
cigarros, caixa de fósforos, jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres,
guardanapos. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro,
papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, blocos de notas, espátula, pastas, caixas
de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara
pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques [...].
(Trecho do conto Circuito fechado, de Ricardo Ramos)
Questionamentos a serem levados em consideração
quanto à (in)coerência dos textos:
• Há continuidade nas ideias do texto: progressão?
• A intenção do texto é facilmente recuperável?
• A linguagem do texto é adequada ao auditório a que ele se destina?
• O texto possui um início, um meio e um fim?
• Há contradição?
• As conclusões a que chega o texto são aceitáveis?
SNOOKER
Millôr Fernandes 
Certa vez eu jogava uma partida de sinuca e só havia a bola sete na mesa. De modo
que mastiguei-a lentamente saboreando-lhe os bocados com prazer. Refiro-me à refeição
que havia pedido ao garçom. Dei-lhe duas tacadas na cara. Estou me referindo à bola. Em
seguida saí montado nela e a égua, de que estou falando agora, chegou calmamente à
fazenda de minha mãe. Fui encontrá-la morta na mesa, meu irmão comia-lhe uma perna
com prazer e ofereceu-me um pedaço: "Obrigado" disse eu, "já comi galinha no almoço".
Logo em seguida chegou minha mulher e deu-me na cara. Um beijo, digo. Dei-lhe um
abraço. Fazia calor. Daí a pouco minha camisa estava inteiramente molhada. Refiro-me à que
estava na corda secando, quando começou a chover. Minha sogra apareceu para apanhar a
camisa. Não tive remédio senão esmagá-la com o pé. Estou falando da barata que ia
trepando na cadeira.
Malaquias, meu primo, vivia com uma velha de oitenta anos. A velha
era sua avó, esclareço. Malaquias tinha dezoito filhos, mas nunca se casou.
Isto é, nunca se casou com uma mulher que durasse mais de um ano. Agora,
sentado à nossa frente Malaquias fura o coração com uma faca. Depois corta
as pernas e o sangue vermelho do porco enche a bacia.
Nos bons tempos passeávamos juntos. Eu tinha um carro. Malaquias
tinha uma namorada. Um dia rolou a ribanceira. Me refiro a Malaquias.
Entrou pela pretoria adentro arrebentando a porta e parou resfolegante
junto do juiz pálido de susto. Me refiro ao carro. E a Malaquias.
(FERNANDES, Millôr. Trinta anos de mim mesmo. São Paulo: Abril Cultural, 1973)
 
A Vaguidão Específica (Millôr Fernandes) 
"As mulheres têm uma maneira de falar que eu chamo de vago-específica." Richard Gehman 
- Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte. 
- Junto com as outras? 
- Não ponha junto com as outras, não. Senão pode vir alguém e querer fazer coisa com elas. Ponha 
no lugar do outro dia. 
- Sim senhora. Olha, o homem está aí. 
- Aquele de quando choveu? 
- Não, o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo. 
- Que é que você disse a ele? 
- Eu disse pra ele continuar. 
- Ele já começou? 
- Acho que já. Eu disse que podia principiar por onde quisesse. 
- É bom? 
- Mais ou menos. O outro parece mais capaz. 
- Você trouxe tudo pra cima? 
- Não senhora, só trouxe as coisas. O resto não trouxe porque a senhora recomendou para deixar 
até a véspera. 
- Mas traga, traga. Na ocasião nós descemos tudo de novo. É melhor, senão atravanca a entrada e 
ele reclama como na outra noite. 
- Está bem, vou ver como. 
[O Pif-Paf / O Cruzeiro / 1956] 
 
 
 
Praticando...
1) Abaixo temos fragmentos de textos que apresentam algum tipo de
incoerência. Aponte-os e discuta a razão delas:
O quarto espelha características de seu dono: um esportista, que
adorava a vida ao ar livre e não tinha o menor gosto pelas atividades
intelectuais. Por toda parte, havia sinais disso: raquetes de tênis, prancha de
surf, equipamentos de alpinismo, skate, um tabuleiro de xadrez com as peças
arrumadas sobre uma mesinha, as obras completas de Shakespeare.
Praticando...
Conheci Sheng no primeiro colegial e aí começou um namoro
apaixonado que dura até hoje e talvez para sempre. Mas não gosto da sua
família: repressora, preconceituosa, preocupada em manter as milenares
tradições chinesas. O pior é que sou brasileira, detesto comida chinesa e não
sei comer com pauzinhos. Em casa, só falam chinês e de chinês eu só sei o
nome do Sheng.
No dia do seu aniversário, já fazia dois anos de namoro, ele ganhou
coragem e me convidou para jantar em sua casa. Eu não podia recusar e fui.
Fiquei conhecendo os velhos, conversei com eles, ouvi muitas histórias da
família e da China, comi tantas coisas diferentes que nem sei. Depois fomos ao
cinema eu e o Sheng.
2) Que “incoerência textual” você identifica na propaganda abaixo?
Por que o publicitário fez uso de tal recurso?
Alguns fatores de coerência:
• O contexto;
• A situação de comunicação;
• As regras do gênero a que o texto pertence;
• O intertexto.
Intertextualidade
“[...] a intertextualidade ocorre quando, em um texto, está inserido
outro texto (intertexto) anteriormente produzido, que faz parte da
memória social de uma coletividade” (KOCH; ELIAS, 2018, p. 86).
Canção do exílio
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
(Gonçalves Dias)
Nova Canção do Exílio
Um sabiá
na palmeira, longe.
Estas aves cantam
um outro canto.
O céu cintila
sobre flores úmidas.
Vozes na mata,
e o maior amor.
Só, na noite,
seria feliz:
um sabiá,
na palmeira, longe.
Onde é tudo belo
e fantástico,
só, na noite,
seria feliz.
(Um sabiá,
na palmeira, longe.)
Ainda um grito de vida e
voltar
para onde é tudo belo
e fantástico:
a palmeira, o sabiá,
o longe.
(Carlos Drummond de Andrade)
Canção do Exílio Facilitada
lá?
ah!
sabiá…
papá…
maná…
sofá…
sinhá…
cá?
bah!
(José Paulo Paes)
Canto de regresso à Pátria
Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem maisrosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que eu veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo
(Oswald de Andrade)
 A intertextualidade pode ser explícita ou implícita:
Explícita:
Implícita:
Referências
ABREU, Antônio Suárez. Curso de Redação. 6. ed. São Paulo: Ática, 1997.
FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Lições de texto: leitura e redação. 5. 
ed. São Paulo: Ática, 2006. 
FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e 
redação. 17. ed. São Paulo: Ática, 2012. 
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler em três artigos que se completam. 
44. ed. São Paulo: Cortez, 2003.
KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do 
texto. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2018.

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