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FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS E SOCIOLÓGICOS Professor Me. Wanderly Alves de Sousa GRADUAÇÃO Unicesumar C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; SOUSA, Wanderly Alves de. Fundamentos Antropológicos e Sociológicos. Wanderly Alves de Sousa. Reimpressão Maringá-Pr.: UniCesumar, 2018. 116 p. “Graduação - EaD”. 1. Fundamentos. 2. Antropologia. 3. Sociologia. 4. EaD. I. Título. ISBN 978-85-459-0994-1 CDD - 22 ed. 306 CIP - NBR 12899 - AACR/2 Ficha catalográfica elaborada pelo Bibliotecário João Vivaldo de Souza – CRB-9 - 1807 Impresso por: Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de EAD Willian Victor Kendrick de Matos Silva Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi NEAD - Núcleo de Educação a Distância Direção Operacional de Ensino Kátia Coelho Direção de Planejamento de Ensino Fabrício Lazilha Direção de Operações Chrystiano Mincoff Direção de Mercado Hilton Pereira Direção de Polos Próprios James Prestes Direção de Desenvolvimento Dayane Almeida Direção de Relacionamento Alessandra Baron Head de Produção de Conteúdos Rodolfo Encinas de Encarnação Pinelli Gerência de Produção de Conteúdos Gabriel Araújo Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais Nádila de Almeida Toledo Coordenador de Conteúdo Maria Cristina Araujo de Brito Cunha Qualidade Editorial e Textual Daniel F. Hey, Hellyery Agda Design Educacional Rossana Costa Giani Iconografia Isabela Soares Silva Projeto Gráfico Jaime de Marchi Junior José Jhonny Coelho Arte Capa Arthur Cantareli Silva Editoração André Morais Robson Yuiti Saito Revisão Textual Keren Pardini Jaquelina Kutsunugi Ilustração André Morais Em um mundo global e dinâmico, nós trabalha- mos com princípios éticos e profissionalismo, não somente para oferecer uma educação de qualida- de, mas, acima de tudo, para gerar uma conversão integral das pessoas ao conhecimento. Baseamo- -nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emo- cional e espiritual. Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cur- sos de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e pós-graduação. Produzimos e revi- samos 500 livros e distribuímos mais de 500 mil exemplares por ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos educacionais do Brasil. A rapidez do mundo moderno exige dos educa- dores soluções inteligentes para as necessidades de todos. Para continuar relevante, a instituição de educação precisa ter pelo menos três virtudes: inovação, coragem e compromisso com a quali- dade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de Engenharia, metodologias ativas, as quais visam reunir o melhor do ensino presencial e a distância. Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é promover a educação de qualidade nas diferen- tes áreas do conhecimento, formando profissio- nais cidadãos que contribuam para o desenvolvi- mento de uma sociedade justa e solidária. Vamos juntos! Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportu- nidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pedagógica, con- tribuindo no processo educacional, complementando sua formação profissional, desenvolvendo competên- cias e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessá- rios para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de cresci- mento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o Studeo, que é o seu Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das dis- cussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui- lidade e segurança sua trajetória acadêmica. Professor Me. Wanderly Alves de Sousa Possui graduação em filosofia (2005) e mestrado em filosofia (2008) pela Universidade Federal do Paraná. Doutorando em filosofia pela UFPR (2014). Graduando em Análise de Sistemas pela UNOPAR (2014). A U TO R SEJA BEM-VINDO(A)! Caro(a) estudante, é com muito prazer que apresento a você o livro que fará parte da disciplina de Fundamentos Antropológicos e Sociológicos. Nele, buscaremos apre- sentar em linhas gerais as teorias antropológicas e sociológicas que compõem o acervo cultural no qual estamos inseridos. Dedicar-se ao estudo da antropologia e da sociolo- gia constitui-se em uma tarefa desafiadora e encantadora à medida que ambas vão, por definição, revelando a origem do homem e da formação da sociedade entre os homens. Por um lado, o desafio está na tarefa da qual o antropólogo e o sociólogo não podem abrir mão, qual seja, a de descrever fatos empíricos que devem ser apresentados de ma- neira objetiva e livre de opiniões infundamentadas; por outro lado, o aluno não deixará de se espantar com a visão encantadora que se dá, não por acaso, quando o estudo do homem da perspectiva antropológica vincula-se ao estudo da formação da vida em so- ciedade. A passagem das considerações antropológicas às considerações sociológicas é natural para quem se dedica a essas ciências. Aqui, convido você estudante a refletir a respeito da definição de antropologia e so- ciologia, entre outras coisas que veremos, a refletir também a respeito do nascimento da antropologia e da sociologia como ciência, a perceber – ainda que em linhas gerais – que a sociologia nasce no período de revoluções, a exemplo da revolução industrial, a qual transformou para sempre a sociedade dos homens. Sem dúvidas, a revolução in- dustrial foi o ponto de partida que conduziu grandes teóricos da época a pensarem na sociedade moderna e suas transformações inevitáveis no modo como o homem se vê e interage com o meio onde vive. De fato, quero dizer-lhe que a sociologia é um conjunto de conceitos, de técnicas e de métodos de investigação que foram produzidos paulati- namente e sistematicamente para explicar a vida social. Nesse sentido, a sociologia é o resultado de uma tentativa de compreender situações sociais novas, tais como as que foram originadas pela então nascente sociedade capita- lista. Dessa maneira, a sociologia nasce com a finalidade de expressar o pensamento do homem moderno, mas com a tarefa precípua de ir além do pensamento fundamental- mente matemático dos séculos XIII – XV (até os dias atuais). As teorias de ordem social vierampreencher lacunas do saber social, seguindo-se após elas o surgimento de outras ciências naturais. A sociologia surge como resposta a problemas oriundos do desapa- recimento lento, mas gradativo, da sociedade feudal e da consolidação da civilização capitalista, trata-se, portanto, da revolução industrial com seus modos de produção. Dada as transformações ocorridas pelo modo de produção e o surgimento de novas técnicas de reprodução em massa que acaba por modificar as relações de trabalho e consumo, exige-se que o cientista social reflita a respeito da sociedade, de suas trans- formações, de suas crises e, especialmente, dos antagonismos de classe. Assim, se pode concluir que a sociologia é uma ciência fundamentalmente baseada na observação e no experimento, nos fatos que empiricamente podem ser provados, de modo que a observação e os fatos são fontes fundamentais à sociologia. Assim, o novo método da observação e da experimentação amplia infinitamente o poder do homem para com- preender a sociedade em que vive. A você desejo bons estudos! APRESENTAÇÃO FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS E SOCIOLÓGICOS SUMÁRIO 09 UNIDADE I O SURGIMENTO DA ANTROPOLOGIA E DA SOCIOLOGIA COMO CIÊNCIAS, SEUS IDEALIZADORES E PRINCIPAIS TEÓRICOS 15 Introdução 16 Definição de Antropologia 21 Divisão da Antropologia 24 Definição de Sociologia 32 Considerações Finais UNIDADE II ANÁLISE ANTROPOLÓGICA E SOCIOLÓGICA DO PROCESSO IDENTITÁRIO DO HOMEM CULTURAL E SOCIAL 39 Introdução 39 Conceito de Cultura do Ponto de Vista Antropológico 41 Homem, Ser Cultural e Social 47 Identidade Cultural e Social 51 Considerações Finais SUMÁRIO UNIDADE III O HOMEM E A ORGANIZAÇÃO DA SOCIEDADE 57 Introdução 57 Fundamentos da Sociabilidade do Homem 59 Organização Social 61 Organização Política 67 Considerações Finais UNIDADE IV A PERSPECTIVA DA ANTROPOLOGIA E DA SOCIOLOGIA NA CONTEMPORANEIDADE MUNDIAL E BRASILEIRA 73 Introdução 74 Era da Globalização 76 Globalização: Enigmas Históricos e Teóricos 78 Realidade Social, Antropológica e seus Desafios Teóricos Contemporâneos 82 Considerações Finais SUMÁRIO 11 UNIDADE V SABERES E FAZERES ANTROPOLÓGICOS E SOCIOLÓGICOS NAS DISTINTAS ÁREAS DE ATUAÇÃO 89 Introdução 90 Arte, da Perspectiva Antropológica e Social 99 Educação, da Perspectiva Antropológica e Social 102 Direito, da Perspectiva Antropológica e Social 106 Considerações Finais 109 CONCLUSÃO 111 REFERÊNCIAS 113 GABARITO U N ID A D E I Professor Me. Wanderly Alves de Sousa O SURGIMENTO DA ANTROPOLOGIA E DA SOCIOLOGIA COMO CIÊNCIAS, SEUS IDEALIZADORES E PRINCIPAIS TEÓRICOS Objetivos de Aprendizagem ■ Aprender como se estabeleceu o surgimento da antropologia como ciência. ■ Refletir a respeito do surgimento da sociologia como ciência. ■ Conhecer os principais teóricos da sociologia. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Definição de antropologia ■ Divisão da antropologia ■ Definição de sociologia INTRODUÇÃO Bem-vindo(a) ao estudo dos fundamentos antropológicos e sociológicos. Tanto a antropologia como a sociologia proporcionam ao(à) estudante uma visão ampla e crítica da atividade do homem no mundo em que vive. Entender o homem com base em sua dimensão biológica e cultural ajuda-nos a estabelecer critérios para abalizar as diferenças culturais, religiosas, políticas, bem como a diferença racial existente no mundo. Isso é possível porque a antropologia é uma ciência que se mantém aberta ao diálogo com outras áreas do saber, tais como a física, a bio- logia, a arqueologia, entre outras. Do ponto de vista da biologia, por exemplo, ao antropólogo será perfeitamente possível constatar que o grau de diferença da pigmentação da pele do indivíduo está diretamente relacionado com a região em que seu grupo social estabeleceu sua primeira moradia. Há, como atestam os pesquisadores, uma adequação genética do indivíduo ao lugar de sua habitação. Caro(a) aluno(a), note que a biologia por si só não dará ao antropólogo essas informações, o que deixa subentendido que o antropólogo lança mão também da arqueologia para determinar a origem de determinado grupo social e assim por diante. E por causa desse caráter dialogal da antropologia não será estranho ouvirmos falar em antropologia arqueológica, antropologia filosófica, antropolo- gia física, antropologia forense e antropologia social entre modos antropológicos de investigação. Ao enveredar pelo campo da investigação antropológica, o estu- dante tem diante de si um vasto campo de possibilidades em que pode buscar sua especialização. Devemos seguir nosso estudo apresentando o significado de antropologia, suas divisões possíveis e a definição de sociologia. 15 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . ©shutterstock O SURGIMENTO DA ANTROPOLOGIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I DEFINIÇÃO DE ANTROPOLOGIA A antropologia é a ciência que estuda o homem. Bem, é isso que a palavra antro- pologia significa: anthropos – homem; logos – ciência; por consequência, estamos diante de uma ciência cujo objeto é o homem ou, se quisermos, poderíamos dizer que a antropologia é o discurso racional acerca da natureza humana. No entanto, essa afirmação não esclarece nada acerca dessa disciplina que se encontra entre as chamadas ciências humanas. Veja só, a psicologia, a sociologia, entre outras, também têm como objeto o estudo do homem, sendo assim, qual é a caracte- rística fundamental da antropologia que a torna diferente dessas disciplinas? O que torna a antropologia uma disciplina especificamente voltada ao homem é a constante preocupação em defini-lo. Nesse sentido, a pergunta fundamental é: o que é o homem? Quem já viajou de avião ou subiu em um prédio bem alto pôde contemplar a beleza de uma paisagem ou de uma cidade sem se preocupar com os deta- lhes graças ao ponto de vista panorâmico. Um sentimento semelhante pode ser experimentado por aqueles que olham para a história da humanidade a partir de um ponto de vista panorâmico. Com isso em mente, convido você a traçar uma linha histórica da humanidade para compreender, antes de mergulharmos ©shutterstock 17 Definição de Antropologia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . na antropologia propriamente dita, que a história das ideias passa por períodos característicos ao seu tempo. Ao pensamos na história de uma perspectiva filosófica, podemos identifi- car diferentes ênfases do pensamento humano em diferentes épocas da história da humanidade. E, nesse sentido, podemos identificar os seguintes períodos: Figura 1: Linha cronológica de uma perspectiva filosófica Fonte: o autor COSMOLÓGICO A ênfase do pensamento do mundo antigo era essencialmente cosmológico. Isso não significa dizer que a atividade intelectual do homem tenha se limitado única e exclusivamente a uma abordagem cosmológica. Não! Esse foi um tema predomi- nante de uma época específica da história humana. O pensamento grego ilustra bem isso. Na história da filosofia, verifica-se que a reflexão filosófica dos chamados pré-socráticos – filósofos antes de Sócrates – era predominantemente cosmológica. A preocupação des- ses filósofos era a natureza como dado objetivo do conhecimento. Suas pesquisas tinham comoobje- tivo compreender a estrutura do universo e dos seus elementos constitutivos. Por causa disso, os pré-socráticos eram comumente chamados de físicos. Cosmológico Teocêntrico Antropológico ©shutterstock O SURGIMENTO DA ANTROPOLOGIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I TEOCÊNTRICO Inicialmente, o pensamento grego reflete também uma ênfase teocêntrica, tal como se pode ver nas obras de Homero e de Hesíodo. Aqui, o mito precede a filosofia – ao discurso racional – e as cosmogonias de Homero e de Hesíodo explicam a constituição do mundo. Note, caro(a) aluno(a), que nesse período, no período socrático e posteriormente a este, até chegar ao pensamento cris- tão, não se fala em criação do mundo, mas sim em origem do mundo, em que a matéria que compõe o mundo é eterna, sempre existiu. Na origem do pensamento grego, a razão humana não ousa explicar causas e efeitos dos fenômenos observados. Nesse sentido, falamos em período mítico, em que os fenômenos da natureza eram explicados por um discurso mítico. Como sugere nossa imagem acima, sempre houve – na história da humanidade – o desejo do homem em ligar-se a algo que fosse superior a ele, é nesse sentido que se toma a palavra religião. ANTROPOLÓGICO Mas no decorrer dos tempos, a ênfase do pensamento filosófico dos gregos começa a mudar da natureza, como objeto de estudo e da ênfase teocêntrica, para o homem, como sujeito e objeto de sua própria reflexão. Isso se deu gra- ças aos, assim chamados, sofistas, que se encontram já no período denominado socrático; você já ouviu falar deles? Não?! Bem, os sofistas eram homens que tinham habilidades para ensinar a outras pessoas os mais variados assuntos. No período socrático, os sofistas são tidos como educadores profissionais que ensi- navam a jovens, em especial, a retórica, que é a arte da persuasão, por pagamento. ©shutterstock 19 Definição de Antropologia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Com os sofistas, a preocupação maior parece ser com a educação do homem e sua relação com o âmbito social. A ênfase antropológica que é dada nesse perí- odo atinge o ponto mais alto com Sócrates. Ele parte da famosa frase escrita no oráculo de Delfos: “Conhece-te a Ti mesmo”, como ponto funda- mental de todo filosofar. Assim, quando paramos para pensar na história da filosofia em termos ainda que gerais, podemos identificar diferentes ênfases do pensamento humano em diferentes épocas: cosmológico, teológico e antropo- lógico. Essas ênfases aparecem, desaparecem e voltam a reaparecer novamente com grande ímpeto em dado momento do processo histórico humano. De fato, no período da Idade Média, o foco da atenção foi teocêntrico, devido à grande desconfiança depositada única e exclusivamente na razão humana para explicar as causas dos fenômenos no mundo; o filosofar torna-se teologar. Já no período moderno, o homem volta-se para a reflexão antropológica, tornando-se ponto de partida da formulação e reformulação do pensamento. Assim, ainda que o homem reflita sobre a natureza das coisas, a despeito dos avanços na área tecnológica, o homem tem sido para si a sua maior preocupação. De fato, o surgimento da antropologia como ciência é um atestado do desejo insaciável que o homem tem de conhecer a si mesmo. O autoconhecimento tem como fim, como objetivo, definir o homem, tendo sempre a questão com a qual estamos às voltas: o que é o homem? Nesse particular, a influência de Kant – filósofo da era moderna – parece óbvia. Kant operou, o que ficou conhecido entre os filósofos modernos, o cha- mado giro copernicano. Antes de Copérnico, o centro da especulação filosófica era o ser, de modo que a preocupação essencial da filosofia era essencialmente com a metafísica – por metafísica entendemos a investigação a respeito dos assuntos que estão para além da física. Com Kant, o centro da especulação filosófica passa a ser o modo como o homem pode conhecer. Nesse sentido, a epistemologia torna-se a preocupação central do filosofar. De acordo com o filósofo, os problemas filosóficos redu- zem-se a quatro, a saber: O SURGIMENTO DA ANTROPOLOGIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I 1. O que podemos conhecer? Este seria o campo específico de uma teoria do conhecimento (epistemologia). 2. O que devemos fazer? Aqui, a pergunta ocupa-se com a ética. 3. O que podemos esperar? Aqui, a pergunta ocupa-se com o problema religioso. 4. O que é o homem? Este é o problema antropológico. Segundo Kant, todos os problemas filosóficos reduzem-se ao antropológico. Nesse sentido, o objetivo da filosofia seria o de proporcionar ao homem a pos- sibilidade de conhecer-se adequadamente. De acordo com Kant (2006, p. 22): O ser humano que percebe que está sendo observado e que procuram examiná-lo, parecerá embaraçado (constrangido) e não pode se mos- trar como é, ou finge e não quer ser conhecido como é. Mesmo quando só quer investigar a si mesmo, ele se encontra numa situação crítica, principalmente quando é tomado por uma afecção, estado que habi- tualmente não admite fingimento, a saber, quando os móbiles da ação estão atuando, ele não se observa, e quando se observa, os móbiles es- tão em repouso. Quando permanecem constantes, o lugar e as circuns- tâncias temporais geram hábitos que são, como se diz, outra natureza e dificultam o juízo do homem acerca de si mesmo e de quem considera que é, porém mais ainda acerca de que conceito deve ter a respeito do outro com o qual mantém relação, pois quando muda a situação em que o ser humano é colocado por seu destino, ou em que se coloca a si mesmo quando se aventura, essa mudança dificulta muito a antropo- logia a se elevar à condição de uma ciência propriamente dita. Por fim, não são precisamente fontes, mas meios auxiliares da antropologia: a história mundial, as biografias e até peças de teatro e romances. Pois ainda que a estes últimos não se atribua propriamente experiência e verdade, mas só ficção, e ainda que seja permitido exagerar os caracte- res e as situações em que se colocam os homens, tal como aparecem em imagens de sonho, ainda, portanto, que aqueles nada pareçam ensinar para o conhecimento do ser humano, ainda assim os caracteres esboça- dos por um Richardson ou por um Moliére devem ter sido tirados, em seus traços fundamentais, da observação do que os homens realmente fazem ou deixam de fazer, porque são de fato exagerados em grau, mas, quanto à qualidade, precisam estar de acordo com a natureza humana. Uma antropologia sistematicamente delineada e, todavia, popular (pela referência a exemplos que todo leitor possa por si mesmo encontrar), composta desde um ponto de vista pragmático, traz ao público leitor a vantagem de que, esgotando todas as rubricas sob as quais se pode ©shutterstock 21 Divisão da Antropologia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . colocar esta ou aquela qualidade humana, observada na prática, lhe são dadas numerosas ocasiões e lhe são dirigidas numerosas exortações para tratar, como um tema próprio, cada qualidade particular, inse- rindo a um item específico: com isso, na antropologia os trabalhos se dividem por si mesmos entre os amantes desse estudo e serão poste- riormente reunidos num todo pela unidade do plano, promovendo-se e acelerando-se então o crescimento de uma ciência de utilidade geral. DIVISÃO DA ANTROPOLOGIA A resposta à perguntade Kant sobre o que é o homem, tal como falamos no tópico anterior, pode ser dada de dife- rentes pontos de vistas, segundo Barrio (2014). Nesse sentido, podemos res- pondê-la da perspectiva empírica. Isso significa que podemos chegar a conclu- sões gerais a respeito do homem e sua natureza por meio da observação e, a partir disso, recompilar os dados reco- lhidos e comparar as variantes físicas e culturais que podemos observar entre os diferentes grupos de homens. Kant foi um filósofo importante para o pensamento filosófico do século XVIII. Com ele, houve a nítida separação entre o que podemos pensar e aqui- lo que podemos conhecer. Podemos conhecer todas as coisas que afetam nossos sentidos corporais, e sobre todas as outras, apenas podemos pensar, tais como: Deus, a imortalidade da alma, a origem do mundo e a liberdade do homem. Fonte: o autor ANTROPOLOGIA Antropologia empírica Antropologia física Antropologia cultural Etnografia geral Etnografia Etnologia Antropologia social LinguísticaArqueologia Antropologia filosófica O SURGIMENTO DA ANTROPOLOGIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Saiba, aluno(a), o homem pode ser estudado de diferentes perspectivas, nesse sentido, a antropologia contemporânea comporta várias divisões ou especializações. Figura 2: Divisão da antropologia Fonte: adaptada de Barrio (2014, p. 22) Podemos falar, por exemplo, em antropologia física, que seria o estudo da espécie humana, suas origens, evolução e diferenciação em tipos raciais, contando com dis- ciplinas auxiliares, como a antropometria, que estabelece critérios de classificação dos tipos raciais, e a paleontologia, que se ocupa do homem fóssil ou pré-histó- rico. Indo um pouco além, a pergunta a respeito do que é o homem nos coloca na perspectiva da antropologia humanística e filosófica, que trata do homem a partir de seus costumes e diferentes modos de vida, como também de seu destino. Segundo Barrio (2014, p.23): A antropologia, desde que se constituiu como saber organizado, de- sempenhou tradicionalmente um papel unificador em muitas áreas da pesquisa científica, assim como em humanidades, e o pôde fazer porque é um conhecimento integral e integrador. As classificações es- tritas de objetos de estudo foram muito frutíferas no desenvolvimento das ciências, mas, hoje em dia, cada vez há maior interesse por aquelas áreas nebulosas que se encontram nos limites das taxonomias clássicas (como o demonstra o desenvolvimento de ciências intermediárias: físi- 23 Divisão da Antropologia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . co-química, bioquímica, astrofísica etc.). Do mesmo modo, o enfoque integral para estudar o homem exige que cada vez que se estude uma parte – sejamos conscientes: só é uma parte – ela seja posta em conexão com o resto. O conhecimento antropológico envolve o uso de técnicas e teorias de muitas disciplinas e, por sua vez, as técnicas e conceitos da antropologia possuem ramificações e consequências que se prolongam muito além dela. Nesse sentido, ainda segundo Barrio (2014, p. 23), teríamos então: A etnolingüística, cujo tema central se apresenta como a dicotomia linguagem-cultura. A etnopsicologia e seu estudo das relações entre cultura versus personalidade (nome adotado por toda uma escola an- tropológica). A etno-história: a mudança cultural, as aculturações su- cessivas etc. Do ponto de vista de uma antropologia filosófica, a antropologia reflete todas as preocupações do homem e de sua relação com o mundo em que vive. No entanto, uma antropologia filosófica é de natureza fundamentalmente especulativa, vol- tando-se para os aspectos mais gerais da experiência do homem. Nesse sentido, sua justificação encontra-se na necessidade que temos em ter uma visão global do homem e de seus problemas. Uma visão global do homem e de seus pro- blemas nos distancia de uma ciência cada vez mais especializada, que por sua natureza precisa realizar um recorte dessa visão global do homem. O que quero dizer, caro(a) aluno(a), é isto: quanto mais uma ciência é particularizada, tanto mais ela se torna abstrata em relação aos problemas do homem e da sociedade em que vive. Contrariamente, quanto mais uma ciência tem uma visão da totali- dade do homem e de seus problemas, tanto mais concreto, autônomo, completo o homem se manifesta para essa ciência. Dada a possibilidade de uma antropologia filosófica, o que está em jogo aqui não é tanto o problema do homem em geral, mas o problema daquele homem concreto que vive em uma comunidade, que se encontra engajado na realidade, a qual fatidicamente constitui suas experiências pessoais. Pelas ciências particulares conhecemos e avançamos em muitas áreas, tais como: no campo tecnológico, no campo da medicina, entre outros. No entanto, deixamos de conhecer o homem em sua essência, não vemos seus feitos em sua totalidade, por isso ignoramos o real sentido do labor humano. ©shutterstock O SURGIMENTO DA ANTROPOLOGIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Nesse sentido, segundo Max Sheler (apud CASSIER, 1967, p. 40): Em nenhum outro período do conhecimento do humano o homem se tornou mais problemático para si mesmo do que em nossos dias. Dis- pomos de uma antropologia científica, antropologia filosófica e de uma antropologia teológica que se ignoram entre si. Por conseguinte, já não possuímos nenhuma idéia clara e coerente do homem. A multiplicida- de cada vez maior das ciências particulares, que se ocupam do estudo dos homens, antes confundiu e obscureceu do que elucidou nossa con- cepção do homem. DEFINIÇÃO DE SOCIOLOGIA A sociologia é a ciência que estuda a sociedade humana. Como ciência, nasce em função da neces- sidade que o homem tem de compreender a si mesmo e o grupo no qual está inserido. Como se sabe, um dos percursores da sociologia foi Auguste Comte, filósofo positivista, que atribui o nome sociologia às pesquisas sobre os princípios universais do compor- tamento social. Para ele, a sociedade só poderia ser convenientemente reorganizada por meio de uma completa reforma intelectual do homem. Para isso, propôs uma ciência estruturada em três pontos cen- trais, segundo Barreto (2012, p. 27): 1) Essa ciência deve investigar as razões pelas quais o homem funda- menta seu pensamento; a este procedimento Comte chamou de filosofia positiva ou pensamento positivo. 2) Fundamentar e classificar as ciências baseadas na filosofia positiva. 3) Reformar na prática as instituições, inclusive religiosas, através de uma determinação estrutural da Sociedade, dada pelo que ele chamou de Física Social e depois Sociologia. 25 Definição de Sociologia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Como queria Comte, o conhecimento advindo da ciência era a única forma de conhecimento verdadeiro. Foi com essa assertiva que ele divulgou o positivismo, concebido por ele como uma doutrina que buscava explicações para os fenô- menos sociais, baseada na observação e não o idealismo, somada à ascensão da experiência sensível, o que para ele era o caminho para se chegar à verdadeira ciência. Ao longo do tempo, esse termo foi sendo apropriado por várias áreas do conhecimento fazendo com que servisse de premissa para muitas teorias. Deste modo, a sociologia, fruto da sociedade moderna, nasce para explicar o surgimento e as condições nas quais se tornou possível o desenvolvimentoda sociedade industrial. Com esse intuito, Comte recorreu a conhecimentos oriun- dos da Filosofia e da História. Segundo Costa (2010, p. 29): O desenvolvimento das bases científicas do estudo da sociedade huma- na dependeu de fatores internos ao campo científico e de circunstân- cias externas e históricas, tais como: a complexa relação social diante da industrialização, o colonialismo europeu e o contato entre diferentes civilizações. Devido a esses fatores, os primeiros teóricos do pensamen- to sociológico preocuparam-se em justificar as diferenças e as desigual- dades sociais e em estudar a ordem e o progresso da nova ordem social inaugurada pelo desenvolvimento industrial que levou à derrocada do artesanato e à submissão das atividades agrárias à manufatura. É verdade que alguns estudiosos admitiram uma atitude de otimismo diante da sociedade capitalista identificando os valores e os interesses da classe dominante como representativos do conjunto da sociedade, deixando de lado preocupações como os conflitos e as lutas de classes, mas também é verdade que foi nos pressupostos teóricos da Sociolo- gia que o proletariado buscou auxílio para encampar a luta prática na sociedade de classes. É nesse contexto que a Sociologia vincula-se ao socialismo e a nova teoria crítica da sociedade passa a estar ao lado dos interesses das classes trabalhadoras. Ainda conforme Costa (2010, p. 30): Toda uma ordem social baseada nos valores de uma cultura senhoril e rural entrou em declínio e foi suplantada por uma economia urbana, industrial e burguesa, voltada para os privilégios da classe emergente. O surgimento dessa nova ordem social exigiu que filósofos sociais dessem explicações racionais para os problemas oriundos dessa nova ordem. Com esse objetivo, o positivismo buscou delimitar o objeto, a estabe- lecer conceitos, a elaborar uma metodologia de investigação e definir O SURGIMENTO DA ANTROPOLOGIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I em que deveria consistir o estudo científico da sociedade, de modo que foi possível instituir o lugar próprio para ciência social. No interior de uma discussão acerca da natureza da ciência social, quando falamos em “positivismo” quer-se atribuir a esse nome, originado do adjetivo positivo o significado de certo seguro, definitivo. Isto quer dizer então que essa escola filosófica aposta todas as fichas no poder dominante e absoluto da razão humana em conhecer a realidade e traduzi-la sob forma de leis, que seriam a base da regulamentação da vida do homem, da natureza e do próprio universo. Os teóricos sociais, devido à grande influência das ciências naturais, defendiam que a sociologia e a física só eram diferentes quanto à sua essência, nesse sentido, a sociedade era concebida como um organismo constituído de partes integradas e coesas, que funcionavam harmonicamente segundo um modelo físico ou mecânico. Ora, se Auguste Comte foi um dos percussores que atribuiu o nome sociologia às pesquisas sobre os princípios universais do comportamento social, será com Émile Durkheim, na segunda metade do século XIX, que os estudos no âmbito da sociologia relacionar-se-ão diretamente com os fatos, deixando para trás a especulação dos teóricos sociais de seu tempo. Durkheim preocupou-se constan- temente com as questões de ordem social, por isso ele ocupou-se em estabelecer qual era o objeto de estudo da sociologia assim como indicar o seu método de investigação. Com efeito, com Durkheim, a sociologia penetrou o universo aca- dêmico ganhando delimitações próprias de uma disciplina universitária. Vale dizer, caro(a) aluno(a), que a obra durkheiminiana nasce em período de crises econômicas cada vez mais constantes, de modo que o desemprego e a miséria provocaram o acirramento das lutas de classe. Operários lançavam mão da greve como instrumento de luta para impor-se diante das dificuldades. Não precisamos recuar muito no tempo para entendermos como eventos de uma greve são tão persuasivos a conduzir teóricos a pensarem no homem na comu- nidade em que vivem. Vivendo nessa época em que as teorias socialistas ganhavam terreno, Durkheim não poderia ignorá-las, tanto é que em certo sentido, suas ideias constituíam a tentativa de fornecer uma resposta às formulações socialistas. Discordava, sobretudo, das teorias socialistas quanto à ênfase atribuída aos fatos econômicos para diagnosticar a crise das sociedades europeias. Para Durkheim (2014), a origem dos problemas sociais não era de natureza econômica, mas 27 Definição de Sociologia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . originavam-se da fragilidade dos princípios morais da sociedade para orientar adequadamente o comportamento individual. Com essa preocupação no horizonte de suas reflexões, Durkheim buscou estabelecer um objeto de estudo e um método para a sociologia. Dedicou-se, então, a essa questão, salientando que nenhuma ciência poderia constituir-se sem uma área própria de investigação. A sociologia deveria ocupar-se com os fatos sociais que se apresentavam aos indivíduos como exteriores e coercitivos. Referindo-se aos grandes sociólogos de seu tempo, Durkheim (2014, p.10) nos diz que: (...) raramente saíram das generalidades sobre a natureza das socieda- des, sobre as relações do reino social e do reino biológico, sobre a mar- cha geral do progresso; mesmo a volumosa sociologia de Spencer quase não tem outro objeto senão mostrar como a lei da evolução universal se aplica às sociedades. Durkheim compreendeu que para tratar da natureza das sociedades não são necessários procedimentos especiais e complexos. Pelo contrário, será suficiente pesar os méritos comparados da dedução e da indução e fazer uma inspeção sumária dos recursos mais gerais de que dispõe a investigação sociológica. O que ele propõe é tomar na observação dos fatos, a maneira como os principais proble- mas devem ser colocados, o sentido no qual as pesquisas devem ser di- rigidas, as práticas especiais que podem permitir chegar aos fatos, as re- gras que devem presidir a administração das provas (...) (DURKHEIM, 2014, p.10). Essa postura mais factual de Durkheim deve-se à sua formação judaica, que favo- recia a análise dos laços comunitários e da coesão social. Motivado por conflitos pelos quais atravessava a Europa, Durkheim dedicou-se a um vasto repertório de temas que vão da emergência do indivíduo à origem da ordem social, da moral ao estudo da religião, da vida econômica à análise da divisão social do trabalho. Para isso, Émile Durkheim valeu-se da história, da etnografia (estudo descritivo das diversas etnias), do estudo das leis, da estatística e da filosofia. Herdeiro tam- bém do positivismo, dedicou-se a constituir o objeto da sociologia e as regras para desvendá-lo. A obra mais importante nesse sentido foi As Regras do Método Sociológico, na qual o autor procurou instituir a fronteira entre a sociologia e as O SURGIMENTO DA ANTROPOLOGIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I demais ciências, dando-lhe autonomia e objetividade. Nesta obra, Durkheim definiu o que entendia por fatos sociais. Segundo ele (2014, p.10), fatos sociais consistem em maneiras de agir, de pensar e de sentir, exteriores ao indivíduo, e que são dotadas de um poder de coerção em virtude do qual esses fatos se impõem a ele. Por conseguinte, eles não poderiam se confundir com os fenômenos orgânicos, já que consistem em represen- tações e em ações; nem com os fenômenos psíquicos, os quais só têm existência na consciência individual e através dela. Esses fatos consti- tuem,portanto, uma espécie nova, e é a eles que deve ser dada e reser- vada a qualificação de sociais. Essa qualificação lhes convém; pois é cla- ro que, não tendo o indivíduo por substrato, eles não podem ter outro senão a sociedade, seja a sociedade política em seu conjunto, seja um dos grupos parciais que ela encerra: confissões religiosas, escolas polí- ticas, literárias, corporações profissionais, etc. Por outro lado, é a eles só que ela convém; pois a palavra social só tem sentido definido com a condição de designar unicamente fenômenos que não se incluem em nenhuma das categorias de fatos já constituídos e denominados. Eles são, portanto, o domínio próprio da sociologia. Durkheim (2014, p.11) resumidamente diz que: É fato social toda maneira de fazer, fixada ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou ainda, toda maneira de fa- zer que é geral na extensão de uma sociedade dada e, ao mesmo tempo, possui uma existência própria, independentemente de suas manifesta- ções individuais. Vejamos então as características dos fatos sociais, tal como Costa (2014, online) interpreta: a) Coerção Para Durkheim (apud COSTA, 2014, online), os fatos sociais distinguem-se dos fatos orgânicos ou psicológicos por se imporem ao indivíduo como uma pode- rosa força coercitiva à qual ele deve, obrigatoriamente, se submeter. A adoção de um idioma, a organização familiar e o sentimento de pertencer a uma nação são manifestações do comportamento humano dotadas dessa força impositiva sobre o indivíduo, força essa que Durkheim denominou coerção social. A força coercitiva dos fatos sociais se manifesta pelas “sanções legais” ou “espontâneas” 29 Definição de Sociologia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . a que o indivíduo está sujeito quando tenta rebelar-se contra ela. “Legais” são as sanções prescritas pela sociedade, sob a forma de leis, nas quais se define a infração e se estabelece a penalidade correspondente. “Espontâneas” são as que afloram como resposta a uma conduta considerada inadequada por um determi- nado grupo ou por uma sociedade. Multas de trânsito, por exemplo, fazem parte das coerções legais, pois estão previstas e organizadas pela legislação que regula o tráfego de veículos e pessoas pelas vias públicas. Já os olhares de reprovação de que somos alvo quando comparecemos a um local com a roupa inadequada constituem sanções espontâneas. Embora não codificados em lei, esses olhares têm o poder de conduzir o infrator para o comportamento esperado? Durkheim afirma (2014, p.10) que, nesses casos, [...] a coerção é menos violenta; mas não deixa de existir. Se não me submeto às convenções mundanas; se, ao me vestir, não levo em con- sideração os usos seguidos em meu país e na minha classe, o riso que provoco, o afastamento em que os outros me conservam, produzem, embora de maneira mais atenuada, os mesmos efeitos que uma pena propriamente dita. O comportamento desviante em um grupo social pode não ter penalidade pre- vista por lei, mas o infrator pode ser espontaneamente punido pelo grupo na medida em que sua ação fere determinados valores e princípios. A reação nega- tiva da sociedade a certas atitudes ou comportamentos é, muitas vezes, mais intimidadora do que a lei. A “educação” – entendida de forma geral, ou seja, a educação formal e a infor- mal – desempenha, segundo Durkheim, uma importante tarefa nessa adequação dos indivíduos à sociedade em que vivem, a ponto de, após algum tempo, as regras estarem internalizadas nos membros do grupo e transformadas em hábi- tos. O uso de uma determinada língua ou o gosto por determinada comida são internalizados no indivíduo, que passa a considerar tais hábitos como pessoais. b) Exterioridade A segunda característica dos fatos sociais é que eles existem e atuam indepen- dentemente da vontade ou adesão consciente dos indivíduos, sendo, assim, “exteriores” a eles. Ao nascer, já encontramos regras sociais, costumes e leis que somos coagidos a aceitar por meio de mecanismos de coerção social, como a ©shutterstock O SURGIMENTO DA ANTROPOLOGIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I educação. Não nos é dada a possibilidade de opinar ou escolher, sendo inde- pendentes de nós, de nossos desejos e vontades. Por isso, os fatos sociais são, ao mesmo tempo, coercitivos e dotados de existência exterior às consciências indivi- duais. Podemos experimentar a exterioridade dos fatos sociais nas formas de agir e pensar que não adotaríamos de modo espontâneo ou como resultado apenas de nossa vontade, por exemplo, ao nos sentirmos pressionados a obedecer nosso lugar em uma fila quando nosso desejo nos impele a passar os outros para trás. c) Generalidade Além da coerção e da exterioridade, é possível distinguir fatos sociais porque eles não se apresentam como fatos isolados. Eles são dotados de generalidade, envol- vem muitos indivíduos e grupos ao longo do tempo, repetem-se e difundem-se. Permitem, por isso, uma grande sondagem como a que Durkheim desenvolveu para estudar o suicídio, fato social dotado de grande generalidade. A assiduidade com que determinados fatos ocorrem na sociedade indica a sua importância e a necessidade de estudá-los, assim como torna a estatística uma das ferramentas que garante ao sociólogo a objetividade e o controle. É pela generalidade que os fatos sociais exibem a sua natureza coletiva, sejam eles fatos observáveis, como o modelo das habitações de um grupo, sejam fatos morais, como os valores e as crenças. A formação e o desenvolvimento do conhecimento sociológico crítico e negador da sociedade capitalista, sem dúvida, ligam- -se à tradição do pensamento socialista, que encontra em Marx e Engels a sua elaboração mais expressiva. Esses pensadores não esta- vam preocupados em fundar a sociologia como disciplina específica. A rigor, não encontramos neles a intenção de estabelecer fronteiras rígi- das entre os diferentes campos do saber, tão ao gosto dos “especialistas” de nossos dias. Eles, em suas obras, interligavam disciplinas como antropologia, política, economia, procurando 31 Definição de Sociologia Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . oferecer uma explicação da sociedade como um todo, colocando em evidência as suas dimensões globais. Seus trabalhos não foram elaborados nos bancos das universidades, mas frequentemente no calor das lutas políticas. A formação teórica do socialismo marxista constitui uma complexa operação intelectual, na qual são assimiladas de maneira crítica as três principais correntes do pensamento europeu do século passado, tais como o socialismo, a dialética e a economia política. O socialismo antes do marxismo, também denominado socialismo utópico, constituía uma clara reação à nova realidade implantada pelo capitalismo, principalmente quanto às suas relações de exploração. Marx e Engels, ao tomarem contato com a literatura socialista da época, assinalaram as brilhantes ideias de seus antecessores sem deixarem de elaborar algumas crí- ticas a esse socialismo, a fim de dar-lhe maior consistência teórica e efetividade prática. Assinalavam que as lacunas existentes nesse tipo de socialismo possu- íam uma relação com o estágio de desenvolvimento do capitalismo da época, uma vez que as contradições entre burguesia e proletariado não se encontravam ainda plenamente amadurecidas. Atuavam os “utópicos” como representantes dos interesses da humanidade, não reconhecendo em nenhumaclasse social o instrumento para a concretiza- ção de suas ideias. A filosofia alemã da época de Marx encontra em Hegel uma de suas mais expressivas figuras. Como se sabe, a dialética ocupava posição de destaque em seu sistema filosófico. A tomarem contato com a dialética hegeliana, eles ressalta- ram o caráter revolucionário, uma vez que o método de análise de Hegel sugeria que tudo o que existia, devido às suas contradições, tendia a extinguir-se. A crí- tica que eles faziam à dialética hegeliana se dirigia ao seu caráter idealista. Assim, procuraram “corrigi-la”, recorrendo ao materialismo filosófico de seu tempo. A intenção era conferir à sociologia uma reputação científica encontrando em Max Weber um marco de referência. Durante toda sua vida, insistiu em estabelecer uma clara distinção entre o conhecimento científico, fruto de cuidadosa inves- tigação, e os julgamentos de valor sobre a realidade. O SURGIMENTO DA ANTROPOLOGIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I CONSIDERAÇÕES FINAIS Para finalizar, poderíamos supor que a busca de uma neutralidade científica levou Weber a estabelecer uma rigorosa fronteira entre o cientista, homem do saber, das análises frias e penetrantes; e o político, homem de ação e de decisão, comprometido com as questões práticas da vida. Essa posição de Weber, que tantas discussões tem provocado entre os cientistas sociais, constitui, ao isolar a sociologia dos movimentos revolucionários, um dos momentos decisivos da profissionalização dessa disciplina. A ideia de uma ciência social neutra seria um argumento útil e fascinante para aqueles que viviam e iriam viver da sociologia como profissão. A sociologia por ele desenvolvida considerava o indivíduo e a sua ação os pontos-chave da investigação. Com isso, ele queria salientar que o verdadeiro ponto de partida da sociologia era a compreensão da ação dos indiví- duos e não a análise das “instituições sociais” ou do “grupo social”, tão enfatizados pelo pensamento conservador. Existe uma clara distinção entre o conhecimento científico, fruto de cuida- dosa investigação, e os julgamentos de valor sobre a realidade? 33 1. Qual é a característica essencial que distingue estes três períodos: cosmológico, teocêntrico e antropológico? 2. Qual é o significado da palavra antropologia? 3. O que é sociologia? 4. O que é “fato social”? 5. Comente: em que consiste a “força coercitiva dos fatos sociais”? Marx sabia que a incompatibilidade entre o pensamento político clássico e as modernas condições políticas repousa no fato consumado das Revoluções Francesa e Industrial, que, em conjunto, elevaram o trabalho, tradicionalmente a mais desprezada de todas as atividades humanas, ao grau máximo de produtividade, e pretenderam ser capazes de reafirmar o ideal de liberdade sob condições inauditas de igualdade universal. A questão era colocada apenas superficialmente nas asserções idealistas de igualdade do homem e da dignidade inata de todo ser humano, e era respondida apenas de modo superficial por meio da concessão do direito de voto aos operários. Não se tratava de um problema de justiça que pudesse ser resolvido concedendo à nova classe de trabalhadores o seu direito, após que a velha ordem do suum cuique fosse automaticamente restaurada e funcionasse como no passado. Há o fato da incompatibilidade básica entre os conceitos tradicionais, que fazem do trabalho o símbolo da sujeição do homem à necessidade, e a época moderna, que viu o trabalho elevado para expressar a liberdade positiva do ho- mem, a liberdade da produtividade. É do impacto do trabalho, isto é, da necessidade no sentido tradicional, que Marx visou salvar o pensamento filosófico, destinado pela tradi- ção a ser o núcleo de todas as atividades humanas. Entretanto, ao proclamar que “não se pode abolir a Filosofia sem realizá-la”, começou por sujeitar também o pensamento ao inexorável despotismo da necessidade à “lei férrea das forças produtivas na sociedade”. A desvaloração dos valores de Nietzsche, como a teoria do valor-trabalho de Marx, sur- ge da incompatibilidade entre as “ideias” tradicionais, que haviam sido utilizadas como unidades transcendentes para identificar e medir pensamentos e ações humanas, e a sociedade moderna, que dissolvera todas essas normas em relacionamentos entre seus membros, estabelecendo-as como “valores” funcionais. Valores são bens sociais que não têm significado autônomo, mas, como outras mercadorias, existem somente na sempre fluida relatividade das relações sociais e do comércio. Por meio dessa relativização, tanto as coisas que o homem produz para seu uso como os padrões conforme os quais ele vive sofrem uma mudança decisiva: tornam-se entidades de troca, e o portador de seu “valor” é a sociedade e não o homem que produz, usa e julga. O “bem” perde seu caráter de ideia, padrão pelo qual o bem e o mal podem ser medidos e reconhecidos; torna-se um valor que pode ser trocado por outros valores, tais como: eficiência ou poder. O detentor de valores pode recusar-se a essa troca e se tornar um “idealista” que estima o valor do “bem” acima do valor da eficiência; isso, porém, em nada torna o “valor” do bem menos relativo. O termo “valor” deve sua origem à tendência sociológica que, mesmo antes de Marx, es- tava inteiramente explícita na ciência relativamente nova da Economia clássica. Marx era ainda cônscio do fato, esquecido desde então pelas Ciências Sociais, de que ninguém “visto em isolamento produz valores”, de que os produtos “tornam-se valores somente em seu relacionamento social”. Sua distinção entre “valor de uso” e “valor de troca” reflete a distinção entre coisas tais como os homens as utilizam e as produzem e seu valor na sociedade, e sua insistência na maior autenticidade dos valores de uso, sua frequente descrição do surgimento do valor de troca como uma espécie de pecado original no princípio da produção mercantil reflete seu reconhecimento, desamparado e como que 35 cego, da inevitabilidade de uma iminente “desvalorização de todos os valores”. O nas- cimento das Ciências Sociais pode ser localizado no instante em que todas as coisas, tanto “ideias” como objetos materiais, equacionavam-se a valores, de tal modo que tudo derivasse sua existência da sociedade e fosse a ela relacionado, o bonum e o malum não menos que os objetos tangíveis. Na disputa sobre se a fonte de todos os valores é o capital ou trabalho, geralmente percebe-se que em nenhuma ocasião anterior à in- cipiente Revolução Industrial admitiu-se serem os valores, e não as coisas, o resultado da capacidade produtiva do homem, ou relacionavam-se todas as coisas que existem à sociedade e não ao homem “visto em isolamento”. A noção de homens socializados, cuja emergência Marx projetou na sociedade sem classes futuras, é de fato o pressuposto subjacente tanto à Economia clássica como à marxista (ARENDT, 2000, p.61). MATERIAL COMPLEMENTAR Germinal Diretor: Claude Berri Ano: 1993 Sinopse: A respeito do que foi a Revolução Industrial, assista ao fi lme “Germinal” baseado no romance de Émile Zola. Nele, você perceberá o contexto que envolve a referida revolução. U N ID A D E II Professor Me. Wanderly Alves de Sousa ANÁLISE ANTROPOLÓGICA E SOCIOLÓGICA DO PROCESSO IDENTITÁRIO DO HOMEM CULTURAL E SOCIAL Objetivos de Aprendizagem ■ Apresentar o conceito de cultura. ■ Discutir a relação entre antropologia e cultura. ■ Avaliar a relação entre sociologia e cultura. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Conceito de cultura do ponto de vista antropológico ■ Homem, ser cultural e social ■ Identidade cultural e social INTRODUÇÃOO conceito de cultura é o mais importante conceito da antropologia, assim como das ciências sociais. Também é uma das noções mais complexas que encontramos nas ciências humanas, pois não há acordo entre os especialistas no assunto sobre o que seja cultura. Devido ao seu caráter polissemântico, o termo cultura recebe três significados e três usos principais, a saber: elitista, pedagógico e antropo- lógico. No primeiro sentido, cultura significa uma grande quantidade de saber; no segundo sentido, indica educação recebida durante a vida; no terceiro, cul- tura significa o conjunto de costumes. Devemos ter em mente que todo e qualquer conceito de cultura surge a partir de uma determinada cultura, como veremos. Assim, se temos inúmeras defini- ções para o conceito de cultura, é porque há inúmeras culturas informando sobre a sua própria formulação. O conceito de cultura forma, com a noção de natureza, uma das grandes oposições do quadro do pensamento das ciências sociais. Mais do que vê-las delimitando espaços opostos mutuamente excludentes, é interes- sante e oportuno tratá-las como complementares, ou seja, ambas são limites de um sistema que hierarquiza e ordena uma multiplicidade de elementos que se situam entre dois extremos e se articulam de maneira dinâmica. Muitos desses sentidos tendem a revelar algo de nossa sociedade e até de nós mesmos. Não é incomum pensarmos a antropologia e o outro como um grande espelho pelo qual podemos nos ver. É isso que buscaremos expor a seguir. CONCEITO DE CULTURA DO PONTO DE VISTA ANTROPOLÓGICO Como dissemos, no sentido elitista, cultura significa uma grande quantidade de saber, assim, quando falamos que certa pessoa sabe muito de antropologia, de filosofia, de sociologia, nesse sentido, dizemos que essa pessoa sabe muito a respeito de quase tudo. Caro(a) estudante, aposto que você já ouviu alguém 39 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . ©shutterstock ANÁLISE ANTROPOLÓGICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II falar desse modo: conheço certa pessoa que possui vasta cultura científica, filosófica, artística, literária etc. Diante desse cenário, fala-se: fulano é “muito culto”. No sentido pedagógico, cultura indica a educação, a formação que a pessoa teve ao longo de sua vida, trata-se do cultivo do homem, isto é, do processo por meio do qual o homem chega à plena maturação e realização de sua personalidade. No sentido antropológico – e acredito que esse sentido nos interessa muito – cultura significa o conjunto de costumes, técnicas e valores que caracterizam um grupo social, uma tribo, um povo, uma nação. Colocado isso, sabemos agora que essa indefinição acerca da noção da palavra nos informa bastante sobre o próprio conceito. Ao contrário do que podemos pensar, quando articulamos a ideia de cultura, surgem inúmeros sentidos e significados para ela. É por isso que dizemos que cultura assume uma variedade de sentidos. Em todas as áreas do conhecimento, cada vez mais a ideia, noção ou con- ceito de cultura tem sido vista como uma forma de pensarmos a diferença entre os homens ao mesmo tempo em que pensamos sua unidade. Em geral, estamos falando de diferenças em todos os planos do vir a ser do homem, por exemplo, formas de existir, fazer, pensar, ser e sentir. São vários os sentidos atribuídos à palavra cultura. Em alguns momentos, nos imaginamos sujeitos portadores de cultura, em outros, somos acusados de não termos cultura, como se isso significasse que não temos modos, costumes, Estado, educação, conhecimento, refinamento, acesso ao campo das artes, letras, teatro e ciência, enfim, nos dias atuais, acesso à informação. Cultura diz respeito a muito mais do que isso que acabamos de enumerar. Mas é possível uma pessoa, grupo ou mesmo uma sociedade inteira ser despro- vida de cultura? Do ponto de vista da antropologia, isso não é possível. O homem só se torna homem à medida que se torna membro de uma sociedade e interna- liza códigos ou formas de agir/ser no mundo. Então, fique tranquilo(a)! Não há ©shutterstock 41 Homem, Ser Cultural e Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . como um membro de qualquer sociedade não ter ou estar inserido em uma rede de sentidos e significados que chamamos de cultura, afinal, você é sujeito dela em qualquer um de seus aspectos, e eles são muitos. Pode ter certeza que todos nós somos portadores de cultura à medida que fomos socializados nos princípios mais gerais que nos tornam membros de um grupamento social. Nenhuma pessoa é plenamente socializada em toda a cultura de sua sociedade. Isso nos informa o quanto somos dependentes de outros sujeitos para vivermos em uma sociedade. Nós compartilhamos alguns códigos simbólicos, mas não todos os códigos, afinal, a vida social nas sociedades modernas é bastante complexa. Tais códigos e sua interpretação permitem-nos chegar a acordos razoáveis com outros sujei- tos, sobre o mundo e alguns de seus sentidos. Há exemplos para isso que estamos falando? Sim, com certeza. Por exemplo: àquela partida de futebol que assisti- mos pela televisão ou mesmo no estádio, não se trata de um evento irracional, absurdo e incompreensível para seus participantes ou para seus expectadores. Pelo contrário, assistir a uma partida de futebol pode nos fazer compreender um pouco ou muito do que pensamos ser e do que somos capazes de fazer quando o que está em disputa é muito mais do que uma simples vitória. HOMEM, SER CULTURAL E SOCIAL Antes do século XVIII, o problema cultural coincidia fundamentalmente com o peda- gógico. Isto é, até a chegada do período que conhecemos como iluminismo, a cultura era concebida essencialmente como pai- deia, como formação da pessoa e não como estrutura fundamental da sociedade. Nesse sentido, o problema cultural era tratado como exclusivamente um problema antropológico, como um problema da educação do homem. ANÁLISE ANTROPOLÓGICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Caro(a) aluno(a), a educação é uma exigência própria da natureza do homem, porque ele nasce com ilimitadas capacidades de agir, no entanto, não tem a habi- lidade necessária para realizar qualquer ação. O homem deve, pois, aprender com o outro como exercer suas capacidades fundamentais, tais como: alimen- tar, caminhar, falar, ler, escrever e trabalhar. Nesse sentido, poderíamos dizer que o fenômeno da educação é tipicamente humano. Dado que somente o homem pode e deve educar-se. Assim, comparativa- mente com o mundo dos animais irracionais, a estes é possível apenas adestrá-los. O animal é um ser já especializado desde seu nascimento, um ser dotado ins- titivamente de determinadas habilidades e somente destas. Contrariamente, o homem está inicialmente privado de qualquer especialização, mas possui a capa- cidade de adquirir, por meio da educação, da aprendizagem, as especializações mais variadas. Dada essa capacidade em especializar-se mediante a educação, o homem pode individualizar-se, tornar-se um eu, adquirir uma personalidade exclusivamente sua que está em contínua evolução e maturação. Antes de prosseguir, quero destacar aqui três pontos importantes da educa- ção do homem: o primeiro diz respeito ao pessoal, a educação deve promover ao educando o conhecimento de si mesmo, o conhecimento de suas habilidades para desenvolver-se como indivíduo; o segundo diz respeito ao social, porque a educaçãoenvolve eminentemente uma relação interpessoal: educador e edu- cando; o terceiro diz respeito à cultura propriamente dita, uma vez que a educação deve transmitir à pessoa valores culturais elaborados pela humanidade ao logo de sua história no mundo. Do ponto de vista da Antropologia e da Sociologia, é a partir do conceito de cultura que podemos entender o homem como ser cultural e social, inserido em uma comunidade, sendo esta, por sua vez, dotada de cultura. O homem, inde- pendentemente de sua base biológica, acaba detendo um componente cultural e seu comportamento é essencialmente influenciado por ele. Para entender esse homem, há que se entender também suas interações, seja com a natureza, com os outros homens, seja com o grupo a que pertence, pois é o seu grupo quem dita as regras de convívio social. Ao nascer, o homem começa o seu processo de socialização, ou seja, a inte- riorização dos elementos socioculturais que lhe permitem adaptar-se à sociedade, 43 Homem, Ser Cultural e Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . vencendo os obstáculos das situações novas e amadurecendo a sua maneira de ser e de estar no mundo. O processo de socialização, nesse sentido, sedimenta no novo homem ou no homem novo os modelos de comportamentos anterior- mente definidos e aceitos. Se por um lado temos os indivíduos que aceitam a realidade como ela é e aprendem a conviver, por outro, temos os indivíduos inconformados e que não aceitam as regras como elas são, não aceitam “a vida como ela é” e, por isso, tor- nam-se objeto de crítica, mas, ainda assim, revelam-se a base da mudança social. É esse tipo de minorias que, resistindo à pressão social para o conformismo e obediência, consegue estabelecer condições para o progresso, na medida em que influencia, para um lado ou para o outro, grupos existentes em cada sociedade, e assim o homem torna-se um ser cultural e social. É aprendendo e produzindo formas de viver e conviver que o ser humano incorpora, reelabora e reflete a língua, a culinária, a estética, a vestimenta, as artes, a forma de morar, a religião, dentre outras expressões culturais. Com o pas- sar dos anos, porém, acabamos escolhendo se aquela forma de vida é de fato a que queremos ou vamos viver de outra forma, podendo até encabeçar um movi- mento reconhecido como contracultura. O que é contracultura? Para entendermos o que é contracultura, tomemos como exemplo a cultura gótica. Segundo Ianni: Os Emos – gênero musical que se estabeleceu sob forte influência nor- te-americana em meados de 2003 que influenciou a moda, a música e o comportamento dos adolescentes. Os adolescentes reconhecidos por cultivar a cultura da rebeldia, da irreverência e indisciplina têm nos Emos pessoas com comportamento eminentemente emotivo e toleran- A palavra pedagogia é de origem grega e significa: arte de guiar a criança. Modernamente, nos referimos a essa palavra como sinônimo de ciência da educação. ©shutterstock ANÁLISE ANTROPOLÓGICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II te cujo visual consiste em geral em trajes pretos ou listrados, tênis, ca- belos coloridos e franjas caídas sobre os olhos. Por certo, movimentos como esses são encontrados em várias partes do mundo, e que, não por isso, deixam de ser julgados, deixam de ser vistos sob a ótica do observador, a partir dos valores do observador, como um fenômeno estranho, como algo que vai de encontro a sua cultura, a sua forma de pensar, de realizar, de se portar. A esse “estranhamento”, a esse julga- mento, a Antropologia denomina etnocentrismo, que nada mais é do que o ato de analisar o outro ou sua sociedade a partir dos meus valores e, consequentemente, de minha sociedade. A Antropologia e a Sociologia procuram definir as várias relações que surgem na sociedade, em meio às quais fica cada vez mais difícil e complicado determinar quem é quem e qual o seu papel dentro do todo social. Assim, buscar respostas para entendermos o que somos a partir da imagem refletida pelo “outro” é aten- tar para o fato de que estamos situados na fronteira de vários mundos sociais e culturais, ora fazendo ligações entre eles, ora impedindo que o diferente se torne comum aos nossos olhos. Pensar a relação indivíduo e sociedade em uma tribo indígena, em um país miserável, em um país subdesenvolvido ou mesmo em um país de primeiro mundo nos ajuda a alargar nossas possibilidades de sentir, agir e refletir sobre o que, afinal de contas, nos torna seres singulares e humanos. Entretanto, não se pode negar que cada um desses recortes tem dentro de si suas particularidades, seus diferenciais, além do poder das circunstâncias. Como a sociedade é composta de indivíduos, necessário se faz centrar-se no indivíduo. E acredito que seria muito significativo tentar problematizar o papel do indivíduo, restituindo-lhe seu caráter ativo, mutável, inconstante e de 45 Homem, Ser Cultural e Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . alteridade. Levar em conta o vínculo existente entre as maneiras de sentir, de se comportar, de aceitar, de negar, de ver, de ouvir, é um exercício bastante perti- nente, principalmente se o que estiver em jogo for o entendimento da relação entre o indivíduo e a sociedade. Diante da crescente industrialização e da consequente troca do homem pelas máquinas, diante das exigências cada vez mais rígidas de aperfeiçoamento e especialização, diante dos novos e disponíveis meios de comunicação, das novas doenças sociais, do baixo salário, da carestia, dos impostos por vezes abusivos, das epidemias, da liberdade sexual, do uso abusivo das drogas, enfim, diante de tantos problemas sociais, fica mais fácil conceber as formas de diferenciação social e suas implicações. Não é verdade? A procura do entendimento entre tais diferenciações e implicações faz ruir a barreira entre a Antropologia e a Sociologia. Segundo Costa (2010, p. 166): A Antropologia e a Sociologia procuram redefinir as múltiplas relações que emergem na sociedade, em meio às quais fica cada vez mais difícil definir quem sou eu e quem é o outro, o que é tradicional ou efetiva- mente moderno, aquilo que é globalizado e o que é regional. De qualquer maneira, perduram certas práticas de pesquisa mais próximas de uma ou de outra ciência. Enquanto métodos de pesquisa de massa se desenvol- vem na investigação das diferenças regionais entre fenômenos mundiais – como desemprego e miséria –, as análises minuciosas da Antropologia procuram iden- tificar nessa sociedade tecnológica e informacional os nichos de resistência e, como sempre, de manifestações de alteridade. Mas como entender a análise sociológica e antropológica dos homens e da sociedade sem que se incorpore a história? Do mesmo modo que não podemos nos esquecer das relações internacionais instauradas pelo capitalismo, nem do pro- cesso de colonização, não podemos deixar de lado, para as nossas análises, a história de cada povo, de cada nação, de cada região, de cada estado, de cada município. Não podemos esquecer que qualquer aspecto da realidade social tem suas especificidades e estas são frutos da história e das disparidades internas de cada nação, que revelam, por sua vez, as diferentes formas seguidas pelas socieda- des ao se implicarem no sistema capitalista. Sem que as conheçamos, fica quase impossível propor soluções eficientes, propor melhorias substanciais. ANÁLISE ANTROPOLÓGICA Reprodução proibida. A rt. 184 do CódigoPenal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Para se entender e propor soluções para um problema social, é preciso conhecer as relações intersubjetivas ou de reciprocidade. No seu já citado livro “Ensaio sobre o dom”, Marcel Mauss estuda os dons e os contradons, ou a troca de presentes, e chega à conclusão de que nesses rituais de troca há uma natu- reza voluntária, porém obrigatória, embasada nos princípios de dar, receber e retribuir. Por isso é preciso conhecer os diferentes graus de dependência entre indivíduos e grupos. É preciso também entender quem domina e quem é subor- dinado, e só a história nos revela tais elementos. O indivíduo dotado de liberdade, vontade e motivação busca romper com os determinismos e causalidades e é assim que ele deve ser entendido em sua relação com a sociedade. Mas, para isso, é preciso que se conheçam suas confi- gurações e habitus, ou seja, o universo simbólico dos sujeitos envolvidos na ação social. Em outras palavras, para se entender a relação indivíduo e sociedade, é preciso atentar para as marcas que a sociedade imprime nos sujeitos, é preciso entender como determinada cultura é incorporada ou apropriada e reelaborada pelo indivíduo por meio das disposições para sentir, pensar e agir. Por cultura entendemos nossa forma de pensar, agir, se expressar, o nosso repertório gastronômico e artístico, dentre outros elementos que se revelam no nosso cotidiano e que se tornam característicos de nosso tempo e do nosso espaço. Não fosse a cultura dos nossos antepassados, não teríamos as feições que temos, não seríamos como somos, pois o que somos é resultado, sobretudo, das formas de viver dos que nos antecedem na escala da vida. Não nos perguntamos a toda hora por que somos de um jeito e não de outro, não vivemos nos pergun- tando por que nos vestimos de um modo e os indianos de outro, e, por certo, achamos muito estranho que os japoneses comam cachorro e não caranguejo ou paca ou cutia como muitos de nós, sabe por quê? Porque somos diferentes, fomos colonizados de modo diferente, temos climas diferentes, temos recursos diferentes e, consequentemente, temos culturas diferentes, e isso não é demé- rito nenhum, muito pelo contrário, essa diversidade é o que dá identidade a um povo, é o que o faz singular, o que o faz detentor de um rol de ideias e de práti- cas que conjugam os indivíduos que os compõem. Para o sociólogo Karl Mannheim (2012), o indivíduo tem a capacidade de compor sua identidade pela junção entre o que lhe é próprio, inato e aquilo que ©shutterstock 47 Identidade Cultural e Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . a interação social com outros indivíduos proporciona. É assim, segundo ele, que construímos nossa identidade. É verdade que ela pode ser individual ou cole- tiva, mas seja qual for a identidade, é aquilo que nos caracteriza e que nos faz ser reconhecido. Já deve ter se perguntado: se eu tivesse nascido em outro país ou mesmo em outra família, como seria? Será que teria os mesmos valores, o mesmo senso crítico, os mesmos gostos, as mesmas ideias, a mesma escolha de profissão? Ou será que somos determinados geneticamente? Tais perguntas podem não ter respostas certas, mas podemos, baseando-nos na experiência sensível, vislum- brar algumas respostas que recairiam no que Mannheim (1950, p. 20) afirmou: [...] pertencemos a um grupo, não apenas porque nascemos nele, nem porque professamos pertencer a ele, nem finalmente porque lhe ofere- cemos nossa lealdade e lhe prestamos nosso preito de fidelidade, mas primeiramente porque vemos o mundo e certas coisas do mundo da mesma maneira pela qual eles os veem (isso é, em função das signifi- cações do grupo em apreço). Cada conceito, cada significado concreto é resultante das experiências de um determinado grupo. Em qualquer definição todo conteúdo substancial, toda avaliação não mais susce- tível de merecer um consenso sofre uma reinterpretação em termos funcionais. IDENTIDADE CULTURAL E SOCIAL A discussão a respeito do tema Identidade começou a ser central no campo de estudos das ciências humanas a partir dos anos de 1970. No campo da administração, a dis- cussão e a problematização acerca da identidade, de sua construção, manu- tenção e reprodução, assim como dos processos de identificação, adquirem ANÁLISE ANTROPOLÓGICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II centralidade à medida que, diante do processo de globalização, passa-se a dis- cutir cada vez mais a influência do choque entre culturas distintas no processo de trabalho, de produção e de controle da mão de obra no interior das organi- zações. A identidade, seja ela social, pessoal ou cultural, é sempre uma relação social construída com outros, jamais algo ou alguma coisa com a qual nasce- mos ou herdamos por meio de nossos genes. Identidade, portanto, nada tem a ver com os genes que herdamos; a identidade é definida historicamente e não biologicamente. Com essas primeiras palavras, queremos logo deixar claro que a noção de identidade implica em algum tipo de montagem social e simbólica. Nesse sen- tido, discutimos a ideia de que o homem é sempre um ser social em construção; um ser social em constante devir ou vir a ser; ele é sempre uma possibilidade dentre muitas que coabitam nesse mundo. Na casa, na rua ou no trabalho, na faculdade, na família, na igreja ou no bairro, estamos sempre nos perguntando sobre quem somos nós ou quem sou eu? Imagino-me pertencendo a um grupo social ligado à minha profissão, sou morador de uma cidade que está localizada em um estado e que faz parte de um país, de uma nação. Ao mesmo tempo, per- tenço a uma determinada classe social, tenho uma renda X, moro em uma parte da cidade diferente de outras regiões, frequento uma igreja e me incluo, assim, em uma religião específica, ao mesmo tempo, sou filiado a um partido político e a um sindicato. Enfim, são muitos os componentes de um sistema social e as possibilidades de vinculação do sujeito a um desses subsistemas. Parece que não há quem não tenha se deparado com a ideia de uma crise de identidade. A identidade, em linhas gerais, operaria como um mapa ou guia na estrutura de posições do sistema social, sem ela, não poderíamos nos localizar nem sermos localizados na estrutura de posições do sistema social. Ao mesmo tempo, sem “identidade”, não poderíamos nos diferenciar dos demais sujeitos de nossa própria sociedade ou de grupos sociais em seu interior, assim como aqueles localizados em seu exterior. Dessa maneira, identidade é fundamental para que eu me per- ceba em contraste com aquele que é diferente de mim. Prezado(a) aluno(a), como já falamos nesta unidade, a identidade não é uma coisa: é uma relação. Não nascemos com uma identidade pronta, acabada e definitiva. Lenta e gradualmente, nossa identidade pessoal, social e cultural 49 Identidade Cultural e Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . vai sendo constituída pela sociedade em que nascemos. Isso não é uma tarefa fácil, pelo contrário. Ela implica em tensões, problemas, ambiguidades, dúvidas e incertezas que se inserem na vida de todos nós. A identidade é, vale repetir, uma relação social. Isso jamais pode ser esquecido. Ela é uma construção social dos sujeitos que habitam um território e que compartilham de uma cultura em comum, ainda que haja disputas, tensões e contradições sobre os valores comuns que compartilhamos. Ela somente pode ser pensada quando pessoas esujeitos sociais interagem uns com os outros – às vezes contra ou a favor dos outros – a fim de sustentar ideias, representações, ações, gestos e memórias. A identidade é construída como relação social quando uma espécie de ten- são entre a semelhança e a diferença está em jogo. Diferença e semelhança são fundamentais à construção da identidade. A diferença cultural é fundamental à construção da identidade. É somente quando me vejo diferente do outro que tenho consciência da alteridade e que sou identificado como sendo diferente dele; é assim que posso me identificar com aqueles os quais julgo como meus semelhantes. Ao estarmos incluídos em um grupo, logicamente, ao mesmo tempo nos excluímos de outro. Assim, a inclusão só existe concomitantemente com a exclu- são. São dois lados da mesma moeda. Somos brasileiros em oposição a argentinos, americanos, franceses etc., da mesma forma que argentinos se veem em oposição a brasileiros, ingleses e franceses, e assim por diante. Dessa forma, a identidade ou identificação, como preferem alguns, como processo de inclusão/exclusão, nos informa sobre uma relação entre minimamente dois grupos, pessoas, empresas, países, que se veem de forma distinta e que se reconhecem na relação como tais. Instituições, grupos, espaços ou termos sociais aos quais nos vinculamos são fundamentais à constituição da pessoa social, é por meio dela que qualquer homem se percebe como pertencendo a algum grupo, sociedade, cultura ou território. Sentir-se parte do grupo, de uma comunidade, de uma sociedade e de uma cultura; sentir-se integrado a outros sujeitos que compartilham de uma mesma herança cultural, de um mesmo código simbólico, das mesmas ideias: eis o quanto é fundamental a identidade para qualquer pessoa. Ser brasileiro, mineiro, casado ou solteiro, negro ou branco, profissional liberal ou funcionário público, desempregado ou aposentado, hetero ou homossexual, nos informa o ANÁLISE ANTROPOLÓGICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II quanto a identidade pode ser construída por meio das mais diferentes vincula- ções. O que isso significa e o que tem a ver com identidade? Muita coisa; pode acreditar! Pois estamos falando de como e por meio de quais mecanismos o indi- víduo biológico, unidade da espécie humana, é investido de um papel social e do status correspondente no interior de um grupo social que com outros esta- belece oposição. Hoje, muitas pessoas se perguntam quem são, no que estão se tornando, no que deixaram de ser ou no que gostariam de se tornar ou de ser. Quem nunca se perguntou: o que estarei fazendo daqui dez anos? – pelo menos. Muitas vezes, construímos nossa identidade ocultando uma determinada vinculação, por exem- plo, basta pensarmos nos sentimentos de vergonha e humilhação quando somos identificados como brasileiros e associados à corrupção, injustiça e pobreza de nosso povo ou de alegria e profundo orgulho quando vencemos no futebol ou somos elogiados por nossas belezas naturais e culturais. “Muitas pessoas pensam que estão a pensar quando estão apenas a re- arrumar os seus preconceitos” (William James) Ao filósofo Hobbes está associada esta máxima: “homo lupus hominis”, o homem é o lobo do homem.” O que você pensa a respeito? 51 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . CONSIDERAÇÕES FINAIS A Antropologia Cultural analisa a essência humana e o que determinados grupos sociais criam historicamente. Entendemos que o homem é ser social, portanto, ele aprende sempre com outros indivíduos, assim, o ser humano ao utilizar suas inúmeras habilidades e competências perscruta a sua realidade e tenta explicá-la ao outro, o que o caracteriza como um ser que gosta de socializar-se. Nossos hábitos são essencialmente humanos porque fomos inseridos em um grupo social e aprendemos a reconhecer determinados símbolos, expressar os nossos sentimentos como chorar, rir etc. O que distingue os homens dos ani- mais é a nossa capacidade de pensar e utilizar a nossa inteligência para sanar as nossas vicissitudes por meio do trabalho, que transforma o meio em que vive- mos. Somos capazes de mudar o curso de um rio, construir prédios e casas para nos abrigar e proteger nossos familiares. Há algum tempo, dispomos de muitas formas de reconstruir ou reconfigurar nossa identidade, mas essa flexibilidade ou abertura ampliada da construção da identidade nem sempre foi assim tão flexível. Houve momentos na história do homem, e eles formam a grande parte dessa história, que a identidade que nos era atribuída nos acompanhava até o fim de nossas vidas. Queremos deixar claro, mais uma vez, que a noção de identidade implica em algum tipo de montagem social e simbólica. Nesse sentido, discutimos a ideia de que o homem é sempre um ser social em construção, um ser social em constante devir ou vir a ser; ele é sempre uma possibilidade dentre muitas que coabitam nesse mundo. Na casa, na rua ou no trabalho, na faculdade, na família, na igreja ou no bairro, estamos sempre nos perguntando sobre quem somos nós ou quem sou eu? 1. O que é cultura? 2. O que é identidade cultural? 3. Uma pessoa, grupo ou mesmo uma sociedade inteira pode ser desprovida de cultura? 53 Maria Araújo, a mulher trans que passou na UFPE MULHER TRANSEXUAL, NEGRA E DE INFÂNCIA POBRE, MARIA CLARA ARAÚJO CAUSOU COMOÇÃO AO SER APROVADA. Aos 18 anos, Maria Clara Araújo já se tor- nou um símbolo da luta pelos direitos das transexuais. Aprovada pelo Sisu para cur- sar Pedagogia na Universidade Federal de Pernambuco, a jovem de Recife comemora o fato de ser mais uma transexual matricu- lada em uma universidade pública. Passada a euforia, no entanto, um percalço na hora da matrícula: mesmo tendo encaminhado os papéis para adequar seus documen- tos com seu nome social, precisou fazer a matrícula com o seu nome civil, aquele que recebeu ao nascer e que não corresponde ao seu gênero (...). Leia a matéria na íntegra no site: <http://www.cartacapital.com.br/sociedade/conheca-ma- ria-clara-araujo-a-transexual-que-passou-na-universidade-publica-6544.html>. Acesso em: 26 fev. 2015. AMALA E KAMALA: AS MENINAS-LOBO Na Índia, onde os casos de meninos-lobo foram relativamente numerosos, desco- briram-se em 1920, duas crianças, Amala e Kamala, vivendo no meio de uma família de lobos. A primeira tinha um ano e meio e veio a morrer um ano mais tarde. Kamala, de oito anos de idade, viveu até 1929. Não tinham nada de humano e seu comporta- mento era exatamente semelhante àquele de seus irmãos lobos. Elas caminhavam de quatro, apoiando-se sobre os joelhos e coto- velos para os pequenos trajetos e sobre as mãos e os pés para os trajetos longos e rápi- dos. Eram incapazes de permanecer em pé. Só se alimentavam de carne crua ou podre. Comiam e bebiam como os animais, lan- çando a cabeça para a frente e lambendo os líquidos. Na instituição, onde foram recolhidas, passavam o dia acabrunhadas e prostradas em uma sombra. Eram ativas e ruidosas durante a noite, procurando fugir e uivando como lobos. Nunca choravam ou riam. Kamala viveu oito anos na instituição que a acolheu, humanizando-se lentamente. Necessitou de seis anos para aprender a andar e, pouco antes de morrer, tinha um vocabulário de apenas cinquenta pala- vras. Atitudes afetivas foram aparecendo aos poucos. Chorou pela primeira vez por ocasião da morte de Amala e se apegou len- tamente às pessoas que cuidaram dela bem como às outras com as quais conviveu. Sua inteligência permitiu-lhe comunicar-se porgestos, inicialmente, e depois por palavras de um vocabulário rudimentar, aprendendo a executar ordens simples. Fonte: Martins e Aranha (1993) ANÁLISE ANTROPOLÓGICA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Raça Humana Gênero: Documentário Tempo de Duração: 42 min. Ano: 2009 Sinopse: O país do orgulho da miscigenação, apregoado por Gilberto Freire e Darcy Ribeiro, se deparou há alguns anos com uma questão espinhosa: a adoção de cotas raciais nas universidades. Se falar de racismo no Brasil já era tabu, falar de cotas então se transformou em um daqueles temas sobre os quais é melhor nem iniciar conversa. A menos que estejamos em um grupo onde todos são favoráveis ou todos contrários. Aí, sim, dá para desabafar os inconformismos, de um lado e de outro. Tabu – Fanatismo Gênero: Documentário Tempo de Duração: 45:37 min. Ano: 2014 Sinopse: Uma mulher abre mão de se casar e ter fi lhos para se dedicar de corpo e alma ao seu time de futebol. Um professor de inglês afi rma ser a reencarnação de seres de outro planeta e ter conexão com extraterrestres. A Outra História Americana Gênero: Drama Tempo de Duração: 1h59m. Ano: 1999 Sinopse: Derek (Edward Norton) busca vazão para suas agruras tornando-se líder de uma gangue de racistas. A violência o leva a um assassinato, e ele é condenado pelo crime. Três anos mais tarde, ele sai da prisão e tem que convencer seu irmão (Edward Furlong), que está prestes a assumir a liderança do grupo, a não trilhar o mesmo caminho. Sinopse: Derek (Edward Norton) busca vazão para suas agruras tornando-se líder de uma gangue de racistas. A violência o U N ID A D E III Professor Me. Wanderly Alves de Sousa O HOMEM E A ORGANIZAÇÃO DA SOCIEDADE Objetivos de Aprendizagem ■ Apresentar a natureza social do homem. ■ Averiguar o nascimento da organização social. ■ Demonstrar o fundamento da organização política. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Fundamentos da sociabilidade do homem ■ Organização social ■ Organização política INTRODUÇÃO Aristóteles, em sua obra A Política (1998, p.1-37), expõe o que ele entendeu a respeito da origem e a finalidade da “polis” – que modernamente chamamos de Estado – guardadas as devidas diferenças. O filósofo grego partiu de uma consi- deração que lhe é peculiar: a natureza deu aos homens a vida; em função da vida eles têm o dever, bem como o fim principal, de encontrar meios para conservá-la. Naturalmente inclinados para viverem juntos, os homens estabeleceram entre si uma natural sociedade. Dado que querem viver juntos, eles não estão destinados a satisfazerem apenas suas necessidades fundamentais para conserva- ção da vida, há que se considerar algo a mais, os homens são por natureza seres inclinados a viverem em sociedade, mais do que isso, são por natureza seres polí- ticos. De modo que, para Aristóteles, como veremos, “todas as sociedades têm como meta alguma vantagem... [e] a principal [sociedade que] contém em si todas as outras [vantagens, propondo-se] à maior possível” (1998, p. 2); o autor a denomina de polis. Ela é o lugar em que os homens deliberam acerca de ques- tões políticas, nela há igualdade de direito, uma vez que ali é o lugar de homens livres. Ainda que falando rapidamente, há em Aristóteles, uma dupla definição do homem: ele concebe o homem como, nos diz Arendt (2005, p.49), um zôon politikón e um zôon lógon ékhon, isto é, o filosofo grego concebe o homem como um ser que atinge sua possibilidade máxima na faculdade do discurso e na vida em uma polis. Passaremos a expor, mesmo que brevemente, a origem e o fun- damento da sociedade humana. FUNDAMENTOS DA SOCIABILIDADE DO HOMEM Aristóteles (1998, p.1) argumenta que a natural associação dos homens tem como fim formar a “sociedade política”; esta é o primeiro objeto a que se propôs a natu- reza. Eis sua afirmação lapidar: “o todo existe necessariamente antes das partes” (ARISTÓTELES, 1998, p. 5). Ora, as partes são: a família, a aldeia e a cidade. 57 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . ©shutterstock O HOMEM E A ORGANIZAÇÃO DA SOCIEDADE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III A primeira sociedade natural é a família, pequena comunidade que se forma da dupla reunião do homem e da mulher (unidade familiar), do senhor e do escravo (lar como um todo). Vale ressaltar aqui que Aristóteles toma o escravo como parte integrante que compõe a família porque ele compreende que a escra- vidão seja uma condição natural (como veremos em Agostinho, a escravidão não é uma condição natural, mas resultado do pecado). Para afirmar o caráter natural da escravidão, Aristóteles (1991) parte da seguinte premissa: o homem que não pertence a si mesmo é escravo por natureza. Com esta afirmação Aristóteles não quer dizer outra coisa senão que o homem dotado de “sabedoria prática” (modo de vida, por excelência, no âmbito polí- tico) deve dominar aqueles que não a possuem. A analogia que melhor exprime essa ideia é visível na relação entre alma e corpo. Para o autor, a alma, por natu- reza, exerce domínio sobre o corpo; a primeira comanda e o segundo obedece, de modo que o corpo serve naturalmente a alma. Dessa analogia, Aristóteles retira a ideia de que a autoridade do senhor sobre o escravo segue a hierarquia de comando, tal como existe entre alma e o corpo. O escravo como instrumento e propriedade do senhor é usado para atingir os seus objetivos racionais. Dado que o senhor é dotado de sabedoria prática, segue- -se que todos os que não têm nada melhor para oferecer do que o uso de seus corpos e de seus membros é condenado pela natureza à escravidão (1998, p.13). Para Aristóteles (1998, p.13), não é apenas necessário, mas também vantajoso que haja mando por um lado e obediência por outro. Na família, em particular, e na casa, em geral, há uma hierarquia natural em que o pai da família exerce sua auto- ridade porque é dotado de sabedoria prática. Aristóteles argumentará em favor de uma hierarquia das virtudes entre os membros da família, ou seja, a virtude presente no homem não é encontrada no mesmo grau na mulher, no filho e no escravo. Dessa primeira sociedade natural segue-se a forma- ção da aldeia, lugar de satisfação das ©shutterstock 59 Organização Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . necessidades para manutenção da vida. Das várias aldeias surge a cidade. Essa é a comunidade perfeitamente suficiente não só porque foi organizada para con- servar a existência dos homens na vida, mas porque também ela ocupa-se com o bem viver. Para Aristóteles a natureza de cada coisa é precisamente seu fim. Ora, ele compreende que sociedade doméstica (a família e a aldeia) não tem um fim em si mesma, seu desenvolvimento tende naturalmente para a formação da “socie- dade política”, pois a casa e a aldeia são associações incompletas que só encontram plenitude na polis. A polis é o bem e a plena realização da natureza humana. A família é o núcleo primeiro que compõe a sociedade. ORGANIZAÇÃO SOCIAL A polis é o bem e a plena realização da natureza, ela existe necessariamente antes das partes, por isso é pre- ciso ter em vista que Aristóteles argumenta do ponto de vista da finalidade da natureza. Nesse sen- tido, o argumento do autor visa demonstrar que a finalidade da natureza humanatende a formar a sociedade política, de tal modo que Aristóteles não deixará de afirmar que o homem é um “animal polí- tico”. É natural, pois, que o homem encontre sua plena realização na polis. Este é o espaço em que o cidadão – o homem dotado de sabedoria prática delibera acerca do que é o justo, o útil e o nocivo para sociedade. A ele é dado o direito de voto nas Assembleias e o direito de participar no exercício do poder público em sua pátria. O HOMEM E A ORGANIZAÇÃO DA SOCIEDADE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III Disso, segue-se que a justiça política será encontrada entre homens que vivem em comum tendo em vista a autossuficiência, isto é, entre os homens que são livres e iguais na pólis. De modo que, para Aristóteles (1998, 13-18), a mulher, as crianças e o escravo estão subjugados não à justiça política, mas a um tipo de justiça doméstica conforme a natureza. Segundo Aristóteles, a justiça do senhor e a do pai de família não é a mesma que a justiça dos cidadãos (1998, p. 13-14). Ora, Aristóteles (1998) argumenta que: 1. Não pode haver justiça em relação às coisas que nos pertencem. Com isto, Aristóteles quer dizer que o filho e o escravo, até atingirem certa idade e tornarem-se independentes, são uma parte do senhor da casa. Além do mais, na ordem natural, isto é, no convívio familiar, o que se observa é uma hierarquia que aponta para uma natural diferença: o homem está acima da mulher, o mais velho está acima do mais jovem e o senhor manda no escravo. 2. A justiça política existe apenas entre homens cujas relações mútuas são governadas pela lei, ou seja, no âmbito da polis, não há distinção de natu- reza, muito menos hierarquia natural. Ora, se a ordem política é o espaço de absoluta igualdade, é preciso, então, esta- belecer a justiça legal como critério de distinção entre os homens livres iguais. De modo que Aristóteles passa a denominar de justiça legal aquela que existe para estabelecer a distinção entre o justo e o injusto. Seguindo Aristóteles, é preciso dizer que os homens não são iguais por natu- reza, pelo contrário, com a instituição da “ordem política”, todos os homens livres são “considerados” iguais, pois na ordem política a hierarquia natural desapa- rece, tal como existe na ordem doméstica. No livro V da Ética a Nicômaco, Aristóteles (1991, p.81-98) trata da justiça. Ele parte da análise da linguagem comum, dos usos e costumes praticados no interior da vida social para retirar daí a noção de justiça. Aristóteles dedica-se, portanto, a descrever comportamentos, maneiras habituais de agir, o caráter do homem prudente, do homem temperante, do bom amigo, ou do homem justo, as virtudes e os vícios que lhes correspondem, como a virtude da justiça e de seu contrário, a injustiça. ©shutterstock 61 Organização Política Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Aristóteles caracteriza o homem justo como aquele que não toma mais do que sua parte dos bens exteriores compartilhados em um grupo social. São suas essas palavras: [...] justiça é aquilo em virtude do qual se diz que o homem justo pra- tica, por escolha própria, o que é justo, e que distribui, seja entre si mesmo e um outro, seja entre dois outros, não de maneira a dar mais do que convém a si mesmo e menos ao seu próximo (e inversamente no relativo ao que não convém), mas de maneira a dar o que é igual de acordo com a proporção; e da mesma forma, quando se trata de distri- buir entre duas pessoas (ARISTÓTELES, 1991, p.89). Por conseguinte, a justiça legal refere-se àquela parte da justiça geral que cons- titui no interior da polis a boa repartição dos bens exteriores, assim, essa justiça será uma virtude puramente política, e visa, sobretudo, que se realize em uma comunidade social a justa divisão dos bens e dos encargos. ORGANIZAÇÃO POLÍTICA O orador romano Marco Túlio Cícero (1973, p. 147) – ao fazer ressoar as teses de Aristóteles a respeito da formação social entre os homens – nos informa que nada se diz de “são e honesto”, entre os filósofos, que não tenha sido confirmado antes pelo povo (populus); por conseguinte, é o povo que confirma o direito (ius) da República. É o povo que, segundo os costumes, confirma com leis a formação do Estado. Daí deriva então a piedade, a religião, o direito das gentes, a justiça, a fé, a equidade, o pudor, a contingência, o horror ao que é infame e o amor ao que é louvável e honesto. O HOMEM E A ORGANIZAÇÃO DA SOCIEDADE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III Na concepção de Cícero (1973, p. 148-149), a existência do povo não só con- firma o direito da res publica (coisa pública) como também precede a própria existência da cidade, pois “sem a reunião dos homens, as cidades não seriam edificadas e habitadas”. Mas uma vez que se estabeleceram, não só foram “insti- tuídas as leis e os costumes, como também a distribuição equitativa do Direito e a correta disciplina do viver”, eis a civitas. Por isso faz-se necessário explicar clara- mente os conceitos de res publica e populus. Isso Cícero passará a expor dizendo que a “República” é coisa do povo, considerando como tal não todos os homens de qualquer modo congregados, mas a reunião que tem seu fundamento no con- sentimento jurídico (iuris consensus) e na utilidade comum (communio utilitatis). De acordo com essa definição, a res publica é considerada como massa de homens de interesse comum unida por um vínculo jurídico. O que dá, pois, a forma à massa é o “direito” (iuris universum), reconhecido por todos e a todos, no qual mantém na comunidade o bem que pertence a todos, a coisa pública (res publica). Só assim esta massa de homens, pode-se dizer, é uma sociedade. Consequentemente, a multidão de homens se constitui um povo porque se encon- tra diretamente regida por um princípio unificador, que é o Direito Natural; este se constitui, em Cícero, o fundamento da res publica. O Direito Natural a que Cícero se refere é ricamente tratado em sua obra intitulada Das leis. O iuris consensus designa o assentimento recíproco e espontâneo dos homens a reuni- rem-se em grupos particulares sob uma “regra de justiça” que garanta a todos a proteção de seus interesses, infundindo em cada um o mesmo respeito para com os outros e a colaboração nos interesses da sociedade. Disso resulta a von- tade comum – uma vez que é natural – que provém da justiça natural, fora da qual não existe ou deixa de existir o povo. Com isso, conclui-se que a forma- ção da sociedade política implica três condições: que seja composta por uma multidão de homens (coetus multitudinis); que eles estejam associados por uma legislação comum (juris consensu), ou como diz Agostinho que os homens sejam associados por direitos reconhecidos por todos; e que sejam uma comunidade de interesses comuns (utilitatis communione sociatus). O direito natural a serviço de todos é o que torna possível um agregado natural de homens converter-se em povo, e a partir disso se pode falar em res púbica. Logo, res publica não se refere a uma concreta forma de governo que se 63 Organização Política Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . contrapõe a outra forma de governar como, por exemplo, a monarquia; por este termo, deve-se entender o governo público. Assim, a república – como é apre- sentada por Cícero – consiste naquele governo que afeta o povo, um governo que tem o povo como objeto, daí dizer-se quea república é coisa (res) do povo (populus). Cada povo pode servir-se de comum acordo da res publica, pois esta disponibilidade desse direito é precisamente a utilitas, que designa aquilo que deve ser usado em comum por todos. A república nasce não de uma carência dos homens, mas de certa propen- são natural da espécie humana para a sociabilidade, que é, sem dúvida, anterior às leis (lege) e aos costumes. Pode-se dizer que a primeira causa da reunião dos homens é o instinto de sociabilidade, que é inato a todos. Na modernidade, sabemos que o primeiro autor a dedicar-se à teoria do Estado no sentido moderno foi Maquiavel (1469-1527). Em 1513, ao escrever sua famosa obra intitulada de “O Príncipe”, Maquiavel estudou as formas de poder e os tipos de governo: monarquia e república. Ao analisá-los, ele estabeleceu pas- sos que deveriam ser seguidos por um governante para que tenha sucesso em seu governo. Nesse período, o que hoje denominamos de Estado fora concebido como conjunto de instituições cujo objetivo era o de regular a vida social. Tais instituições tinham no comando reis cujo poder era considerado divino, uma vez que, segundo as doutrinas cesaropapistas bizantinas, o rei ocupava esse lugar de poder por vontade de Deus, recebendo da Igreja Católica a devida legitimação para ocupar o poder. Assim, tanto na França quanto na Inglaterra – guardadas as devidas diferenças entre catolicismo de uma e protestantismo de outra, o direito de governar era emanado por Deus. Ainda que resumidamente, nesse sentido, podemos dizer isto: a lei e o direito são também de origem divina, uma vez que o próprio poder do Estado origina-se de uma fonte não natural. Com efeito, ainda no período em que antecede as teses sobre o Estado que saem das penas de Maquiavel, a lei tem origem divina, é uma emanação da Divindade que pode ser, inclusive, demasiadamente boa para os maus e não merecedores. O mesmo se dá com o direito (ius). Ele pode ser demasiado bom para aqueles que se encontram debaixo do governo Divino. Ainda que não com- preendamos como isso funciona, para um medieval, cuja tendência no âmbito jurídico é a de tratar de ajustar as realidades terrenas a um esquema universal de ©shutterstock O HOMEM E A ORGANIZAÇÃO DA SOCIEDADE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III perfeita bondade, isso é perfeitamente compreensível. A ordem social do ponto de vista teórico, nesse período, é essencialmente estática: aceita-se ou rebate-se, não podendo ser melhorada. A única maneira como o homem pode cooperar para a finalidade cósmica universal é submetendo-se à lei moral, com isso, ele imediatamente se con- forma com a lei eterna (lex aeterna). Essa lei é a mente Divina ou Razão Suprema governando o universo; a lei natural é um reflexo, na natureza das criaturas (dos homens), da lei eterna, que o homem interpreta e aplica mediante a lei positiva. Para esta construção jurídica, não existe a possibilidade de um conflito entre as leis – a lei de ordem natural não se confunde com a lei de ordem sobrenatural. Para um medieval, em verdade, a lei natural nada mais é do que a participação da criatura racional na luz eterna. A lei da razão natural, que nos permite dis- cernir o bem e o mal, nada mais é que a marca indelével da luz Divina em nós mesmos. Assim, só há conflito entre essas ordens se elas forem confundidas, como no caso da luta entre Sacerdotum e Imperium ocorrido, no fim do perí- odo medieval e início do período moderno. O conceito de Estado Natural, caracterizado pela inexistência de controle e onde os indivíduos agiam baseando-se apenas em sua consciência e em seu poder, é a base a partir da qual podemos entender a formação do Estado Moderno. Este, por sua vez, nasce da necessidade que os indivíduos têm de um governante e de um regime político em detrimento de sua pretensa liberdade e assim por diante, como veremos. O Estado, por meio da polícia, é a única institui- ção que pode fazer uso da força legitimamente. Max Weber (1991), ao estudar a autoridade dos governan- tes, identificou três tipos, a saber: a tradicional, a caris- mática e a racional-legal. A primeira explica a autoridade de determinado governante 65 Organização Política Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . por acreditar que, como sempre foi assim, seu poder é legitimo. A autoridade carismática, por sua vez, é compreendida quando se leva em consideração que o líder é virtuoso, especial, um verdadeiro herói. Já com relação à autoridade racional-legal, ela pode ser entendida quando o governante assume o poder de forma legal e suas ações e atos são tomados a partir de um conjunto de leis espe- cíficas (Costa, 2010, p.54). Apesar de outros teóricos também terem se dedicado à temática do Estado e do governo, o que se pode entender é que o Estado hoje é concebido como expressão da vontade coletiva, como produto da razão humana. Na visão de Kant, ao saírem do estado de natureza para o de associação, os indivíduos se subme- teram a uma limitação externa, o que fez surgir a autoridade civil e o Estado. Se levarmos em consideração que o ser humano, além do biológico, é cultural e social e que, por isso, precisa de seus semelhantes para criar, produzir, trocar, enfim, viver, entenderemos a necessidade da família como primeiro conglome- rado para guiar os indivíduos. As famílias, por sua vez, para sobreviverem, para se prolongarem, acabam por compor agrupamentos contínuos que chegaram a ideia de Estado-nação, cujas bases foram determinadas pela Ordem de Westfália, em 1648, e que tem como objetivo regimentar e regular a vida em sociedade. A prevalência estatal é de suma importância para as sociedades, pois, despótica ou não, ela evita o caos estabelecido pela falta de regras. A Paz de Westfália ou Tratados de Munster e Osnabruck nomeia uma série de tratados que puseram fim a guerras, como a Guerra dos Trinta Anos, e tam- bém reconheceram oficialmente as Províncias Unidas e a Confederação Suíça, dando início ao moderno Sistema de Relações Internacionais, acatando consen- sualmente as noções e os princípios de soberania estatal e o de Estado-nação. Com uma série de prescrições jurídicas e sociais que regulam a vida em Sociedade, o Estado evita a degeneração social. Na prática, isso ocorre com o estabelecimento dos poderes que podem ser identificados em países republica- nos, como o Brasil, são eles: o legislativo, o judiciário e o executivo. 1. O poder legislativo está na esfera do municipal (vereadores), estadual (deputados estaduais) e federal (deputados federais e senadores), e é o responsável pela criação de leis que favoreçam a população; O HOMEM E A ORGANIZAÇÃO DA SOCIEDADE Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III 2. O poder executivo, por sua vez, também está nos âmbitos municipal (prefeito e secretariado), estadual (governador e secretariado) e federal (presidente e ministros), e é o responsável pelo cumprimento das leis, representadas principalmente pela constituição federal; 3. O poder judiciário. Este é responsável pelo julgamento de casos que por algum motivo remetem à injustiça social e que tem nos membros desse poder a esperança de justiça. Composto pelo: 01. Supremo Tribunal Federal, responsável pela interpretação e aplicação da constituição. 02. Superior Tribunal de Justiça, responsável pela uniformidade da lei em todos os estados, bem como dos casos infraconstitucionais. 03. Justiça federal, responsável pelas causas indígenas e pelos casos que envolvem a união, autarquias e empresas públicas federais. O judiciário aindaconta com sua esfera estadual, composta pelos tribunais de justiça e juízes de direito em fóruns que procuram resolver as questões de incons- titucionalidade e atos normativos no âmbito estadual, sem contar com a Justiça do Trabalho, responsável pelas questões trabalhistas; Justiça eleitoral, que tem seus tribunais regionais e seu tribunal superior eleitoral, e é responsável pelo encami- nhamento, coordenação e fiscalização das eleições e do processo de formação e registro dos partidos políticos; além da Justiça Militar, constituída pelo Superior Tribunal Militar (STM), juízes e tribunais militares e os Conselhos de Justiça Militar, sendo este responsável pelo processo e julgamento de crimes militares. “A violência é, tradicionalmente, a última ratio nas relações entre nações e, das ações domésticas, a mais vergonhosa, sendo considerada sempre a ca- racterística saliente da tirania” (ARANT, 2005, p. 49). 67 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . CONSIDERAÇÕES FINAIS De maneira geral, podemos dizer que Aristóteles compreendeu que sociedade doméstica (a família e a aldeia) não tem um fim em si mesma, seu desenvolvi- mento tende naturalmente para a formação da “sociedade política”, pois a casa e a aldeia são associações incompletas que só encontram plenitude na polis. Sendo assim, a polis é o bem e a plena realização da natureza humana, e a família é o núcleo primeiro que compõe a sociedade. Parece ser clara a tradição grega que sem ordem social seria impossível a formação do Estado, e sem este não pode- ríamos falar em justiça, uma vez que justiça é atribuir a cada um aquilo que lhe é devido dentro da sociedade. Assim, uma sociedade sem Estado, ou seja, hori- zontalizada, sem hierarquias não só é utópica, tal como Marx a desejava, como é quase impossível de ser implementada nos dias de hoje, onde predomina o capi- talismo, caracterizado por ser um sistema sociopolítico e econômico centrado na propriedade privada. Com efeito, sistemas políticos do tipo comunismo e mesmo anarquismo se revelam cada vez mais impossíveis de serem implantados dada a realidade da globalização mundial. Lembramo-nos de países fundamentalmente socialistas, como o caso de Cuba, de Fidel Castro, em que suas ideologias, ao vigorarem, acabaram por desfazer a composição da ideia de Estado tal como a concebemos por tradição histórica, o que conduziu a reconhecê-lo como dita- dor. Mas poderíamos legitimamente nos questionar se o melhor sistema é o capitalismo. Poderíamos responder que a pergunta não é trivial e muito menos a resposta, pois esta vai muito além de uma resposta pragmática. A razão da não trivialidade repousa no fato de que a resposta exige reflexão rigorosa uma vez que ela está no campo das ideias e do dever ser. Isso é, parece evidente que o capita- lismo está muito longe de ser um sistema ideal, porque não é imperceptível os vários casos em que vigoram as injustiças, os antagonismos e as desesperanças semeadas por esse sistema, para aqueles que pensam a necessidade de constru- ção de um sistema mais adequado. 1. O que é justiça? Comente. 2. A polis é o bem e a plena realização da natureza. Comente essa frase a partir da concepção de Aristóteles a respeito da política. 3. Max Weber, ao estudar a autoridade dos governantes, identificou três tipos de governantes, quais são eles? 69 Você provavelmente já leu sobre ou ouviu a expressão “Novos Arranjos Familiares”, mas, afinal, você sabe o que isso significa? O artigo intitulado “A escola e os arranjos familiares” trata de um estudo que apresenta a transformação do modo tradicional de família patriarcal. Segundo o autor, novas mo- dalidades de famílias surgiram atualmente no cenário social que optaram por estabe- lecerem laços familiares livremente sem o estabelecimento de vinculação cível ou reli- giosa. O autor identificou a formação de famílias monoparentais, que são tipo de família formada ao menos por dois parentes integrais, seja mãe e filho, seja pais e filhos, seja avós e neto. Esse tipo de formação familiar não decorre exclusivamente de casamento tradicional: homem e mulher. Essa nova realidade constatada pelo pesquisador possibi- lita como resultado desse novo fenômeno social o surgimento de famílias formadas por casais homossexuais, os quais vêm ganhando cada dia mais o direito e a capacidade de formarem famílias, de criar, educar, proteger e amar uma criança como qualquer família tradicional. Isso também acaba que estabelecendo novo arranjo no modo como a edu- cação infantil deve ser conduzida a fim de levar a bom termo o processo educativo da criança diante das mudanças sociais. Nesse sentido, trata-se de averiguar como o edu- cador enfrenta a questão do ato educativo diante dessa nova composição familiar. Qual deve ser a atitude do educador e da sociedade diante de datas festivas como dia das mães e dia dos pais, frente a famílias constituídas com dois pais ou duas mães? Diante de uma transformação tão profunda, um princípio deve ser cada vez mais afirmado: iguais e diferentes vivem juntos, daí a necessidade precípua de respeito mútuo. Leia o artigo na íntegra no site dispoível em: <https://www.puc-campinas.edu.br/rep/ pos/docentes/producao_cientifica/AP_Adolfo_Aescolaeosnovosarranjosfamiliares. pdf>. Acesso em: 27 fev. 2015. MATERIAL COMPLEMENTAR 12 ANOS DE ESCRAVIDÃO Gênero: Drama Tempo de Duração: 2h13 min Ano: 2014 Direção: Steve McQueen (II) Sinopse: Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) é um escravo liberto, que vive em paz ao lado da esposa e fi lhos. Um dia, após aceitar um trabalho que o leva a outra cidade, ele é sequestrado e acorrentado. Vendido como se fosse um escravo, Solomon precisa superar humilhações físicas e emocionais para sobreviver. Ao longo de doze anos, ele passa por dois senhores, Ford (Benedict Cumberbatch) e Edwin Epps (Michael Fassbender), que, cada um à sua maneira, exploram seus serviços. Cidade de Deus Gênero: Drama Tempo de Duração: 2h10min Ano: 2002 Direção: Fernando Meirelles Sinopse: Buscapé (Alexandre Rodrigues) é um jovem pobre, negro e muito sensível, que cresce em um universo de muita violência. Buscapé vive na Cidade de Deus, favela carioca conhecida por ser um dos locais mais violentos da cidade. Amedrontado com a possibilidade de se tornar um bandido, Buscapé acaba sendo salvo de seu destino por causa de seu talento como fotógrafo, o qual permite que siga carreira na profi ssão. É por meio de seu olhar atrás da câmera que Buscapé analisa o dia a dia da favela onde vive, onde a violência aparenta ser infi nita. LIXO ESTRAORDINÁRIO Gênero: Documentário Tempo de Duração: 1h39 min Ano: 2011 Direção: Lucy Walker Sinopse: Uma análise sobre o trabalho do artista plástico Vik Muniz no Jardim Gramacho, localizado na cidade de Duque de Caxias (RJ), que é um dos maiores aterros sanitários do mundo. U N ID A D E IV Professor Me. Wanderly Alves de Sousa A PERSPECTIVA DA ANTROPOLOGIA E DA SOCIOLOGIA NA CONTEMPORANEIDADE MUNDIAL E BRASILEIRA Objetivos de Aprendizagem ■ Apresentar os desafios teóricos para antropologia e sociologia. ■ Discutir a respeito dos desafios metodológicos para antropologia e sociologia. ■ Apontar os problemas de um mundo cada vez mais globalizado e tecnológico. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Era da globalização ■ Globalização: enigmas históricos e teóricos ■ Realidade social, antropológica e seus desafios teóricos contemporâneos INTRODUÇÃO O que é globalização? Globalização parece compreender um processo histó-rico-social que transforma inevitavelmente os padrões da sociedade atual e seus modelos mentais, de referência de indivíduos e coletividade com os quais estamos acostumados. A globalização rompe e recria o mapa do mundo, inau- gura diversos processos, outras estruturas e outras formas de sociabilidade, as quais se articulam e se impõem aos povos, tribos, nações e nacionalidades. A Antropologia e a Sociologia concebem a contemporaneidade mundial e brasi- leira cada vez mais como ruptura histórica. Essa ruptura histórica é essencialmente moderna e nos separa do modo de pensar moderno, por exemplo, do pensamento filosófico grego, especialmente o estoico, que concebia o homem como cidadão do mundo. Para o filósofo estoico, o mundo que compreende toda a terra habitável (ou não) era – em última instân- cia – sua pátria. Nesse modo de pensar, não há ruptura de pensamento, quebra de paradigmas, mas sim uma concepção de unidade de pensamento, de referên- cias absolutamente estáticas, de modo que não há enfraquecimento da força nas crenças estabelecidas, não há adesão a ideias díspares que colocam em perigo a visão de mundo com aspirações à verdade absoluta. Contrariamente, o termo globalização não sugere que o homem moderno ou contemporâneo seja, cada vez mais, um cidadão do mundo. Pelo termo glo- balização fica pressuposto que a ordem vigente de conceitos ora estabelecidos e em pleno vigor, de categorias ou interpretações, relativos aos mais diversos aspectos da realidade social, parece perder significado, tornando-se anacrônico adquirir outros sentidos. Parece haver – como efeito da globalização – um esforço para mesclar territórios, fronteiras, regimes políticos, estilos de vida, culturas e civilizações. Nesse âmbito global, tudo parece tencionar-se e dinamizar-se em outras modalidades, direções ou possibilidades. Com efeito, há uma multiplici- dade de pessoas bem como de ideias que se movimentam em direções diversas e até mesmo contraditórias; não há unidade de pensamento. Há sim perda de unidade, perda de singularidade e identidade que se confi- gura em um sincretismo religioso, econômico, cultural. Como nos sugere Ianni (1998, p.1): 73 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A PERSPECTIVA DA ANTROPOLOGIA E DA SOCIOLOGIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV Nesse sentido mudam-se as sensações e as noções de próximo e dis- tante, lento e rápido, instantâneo e ubíquo, passado e presente, atual e remoto, visível e invisível, singular e universal. Está em curso a gênese de uma nova totalidade histórico-social, abarcando a geografia, a eco- logia e a demografia, assim como a economia, a política e a cultura. As religiões universais, tais como o budismo, o taoísmo, o cristianismo e o islamismo, tornam-se universais também como realidades histó- rico-culturais. O imaginário de indivíduos e coletividades, em todo o mundo, passa a ser influenciado, muitas vezes decisivamente, pela mí- dia mundial. Passaremos a investigar isso agora. ERA DA GLOBALIZAÇÃO Vivemos em um mundo globalizado, de modo que nossa época é marcada por um modo de vida em que as relações nacionais e internacionais exigem do teó- rico social cada vez mais estruturas lógico-conceituais que consigam explicar e explicitar acontecimentos que ganham repercussão em escala mundial, disso não temos dúvidas. Edgar Morin, filósofo francês contemporâneo, alerta-nos para certa inadequa- ção crescente entre os conhecimentos compartilhados, as realidades e problemas globais. Caro(a) aluno(a), o que o filósofo quer dizer com isso é que aquilo que acontece na Ásia, na África, na Europa ou nas América do Norte e Central acaba de uma maneira ou de outra chegando até nós na América do Sul. Assim, seja na economia, educação e tecnologia, cabe ao antropólogo e sociólogo interpre- tar a onda de transformações que nos atinge devido à globalização. Diante dessa constatação, Morin propõe que o conhecimento adequado para o presente século seja contextualizado, global, multidimensional e complexo. Por contextualização do conhecimento, determinam-se as condições de validade, assim, o que é válido para o contexto do Brasil não é válido para o contexto da Argentina. Por global, quer-se dizer a respeito das relações entre o todo e as partes. Isso é mais do que contexto, isso tem uma significação de cunho © sh ut te rs to ck 75 Era da Globalização Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . organizacional, de organismo. Nesse sentido, a sociedade é compreendida como organismo e princípio organizador do qual os indivíduos fazem parte, de modo que é impossível entender o indivíduo sem entender a sociedade e vice-versa. A sociedade não é outra coisa senão a união entre indivíduos. O indivíduo não é outra coisa senão parte da sociedade, assim compreende-se que a sociedade está presente nos indivíduos e estes contribuem para a manutenção e a trans- formação da sociedade a partir de seus atos individuais. O mesmo raciocínio aplica-se ao que diz respeito ao conhecimento. Uma teoria do conhecimento na era da globalização deve ter caráter multidimensional tanto do indivíduo, que é um ser humano biológico, histórico e cultural, quanto da sociedade, cujas par- tes econômica, social, política, religiosa não podem ser isoladas umas das outras. Diante das transformações nascidas da era da globalização, a sociologia e antropologia encontram-se frente a novos desafios tanto metodológicos, como teóricos que pertencem ao domínio do conhecimento propriamente dito. Nesse sentido, quero dizer que o objeto das ciências sociais deixa de ser principalmente a realidade histórico-social nacional e passa a ser também uma realidade da sociedade global. Assim, aquele que se dedica aos problemas sociais deve deixar de refletir apenas nos problemas oriundos da sociedade em que se vive e passar a pensar também – e, sobretudo, – nos problemas de ordem social, econômica, política, cultural, linguística, religiosa, demográfica e ecológica, em sua signifi- cação propriamente mundial. © sh ut te rs to ck A PERSPECTIVA DA ANTROPOLOGIA E DA SOCIOLOGIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV GLOBALIZAÇÃO: ENIGMAS HISTÓRICOS E TEÓRICOS Com o advento da era da globalização, houve também um exponencial cresci- mento de dificuldades históricas e teóricas que envolvem problemas da ordem estritamente epistemológica, da ordem da possibilidade do conhecimento certo e seguro dessa nova realidade. No âmbito da globalização, entendido aqui como uma totalidade histórico-teórica, reabrem-se os contrapontos, as continuidades e as descontinuidades, sintetizados em noções, tais como: Sujeito e objeto do conhecimento, parte e todo, passado e presente, espaço e tempo, singular e universal, micro teoria e macro teoria. Es- tes e outros problemas envolvem novos desafios e outras perspectivas quando se trata de refletir sobre as relações, os processos e as estrutu- ras, bem como as formas de sociabilidade e os jogos das forças sociais, que desenham as configurações e os movimentos da sociedade global (IANNI, 1998, p. 5). Conforme Ianni (1998, p. 6): Uma parte importante das controvérsias que abalam, traumatizam e fertilizam as ciências sociais na época do globalismo desemboca no desenvolvimento de estudos que podem ser classificados de “metate- 77 Globalização: Enigmas Históricos e Teóricos Re prod uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . óricos”. Realmente, multiplicam-se os estudos de História, Sociologia, Antropologia, Economia, Política, Geografia, Demografia, Ecologia e outros, contribuindo para interpretações abrangentes e integrativas, ou propriamente metateóricas. Ocorre que a globalização, como tota- lidade não só abrangente e integrativa, mas complexa, fragmentária e contraditória, subsume crescentemente indivíduos e coletividades, po- vos e tribos, nações e nacionalidades, grupos sociais e classes sociais, partidos políticos e movimentos sociais, etnias e raças, línguas e reli- giões, culturas e civilizações. Sem esquecer que a recíproca também é verdadeira, já que estas diversas e múltiplas realidades se constituem como determinações da globalização, globalidade ou globalismo. Mais uma vez, e sempre, recoloca-se a dialética parte e todo, tanto quanto singular e universal. E o que dizer da Antropologia? A Antropologia também se debruça sobre o tema da globalização. Parece ser instigador ao antropólogo a ideia segundo a qual o mundo pode ser visto como um pequeno viveiro ligado pela abrangente força da mídia e do capitalismo internacional. Esse é o pano de fundo que serve de base ao empenho de muitos intelectuais à atividade comercial e às diretrizes de governo na atualidade: Uma das coisas que a tecnologia realmente revoluciona é a escala, ou são as escalas, em que operam as relações sociais. Globalização diz respeito à multiplicidade de relações e interconexões entre Estados e sociedades, conformando o moderno sistema mundial. Focaliza o pro- cesso pelo qual os acontecimentos, decisões e atividades em uma parte do mundo podem vir a ter consequências significativas para indivíduos e coletividade em lugares distantes do globo. Nesse “congresso” de cien- tistas sociais está presente inclusive o economista: a economia global é o sistema gerado pela globalização da produção e das finanças. A pro- dução global beneficia-se das divisões territoriais da economia inter- nacional, jogando com as diferentes jurisdições territoriais, de modo a reduzir custos, economizar impostos, evitar regulamentos antipoluição e controles sobre o trabalho, bem como obtendo garantias de políticas de estabilidade e favores (IANNI, 1998, p. 6). Ainda segundo Ianni (1998, p. 7): Devemos notar que “definições” de globalização nem sempre se distin- guem pela originalidade. Algumas são um tanto vagas, ao passo que outras dedicam-se a precisar aspectos ou ângulos. Mas a maioria reco- nhece a novidade dessa problemática, desafiando a pesquisa e a teoria nas ciências sociais. Aliás, já é notável a quantidade e a qualidade dos estudos sobre a globalização, ou os seus diferentes aspectos, que po- Vale a pena examinar algumas das breves “definições” de globalização pre- sentes em estudos de cientistas sociais. Há congruências e disparidades entre elas, mas cabe registrar a unanimidade com que se reconhece a pro- blemática. A PERSPECTIVA DA ANTROPOLOGIA E DA SOCIOLOGIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV dem ser classificados de metateóricos. Uns são monográficos e outros ensaísticos, assim como há os que são principalmente descritivos, ao lado dos interpretativos. Além disso, destacam-se os que são críticos, no sentido de que se debruçam sobre os nexos e os movimentos da realidade, buscando desvendar a sua constituição e a sua dinâmica, ao lado dos seus impasses e das suas contradições. Mas também multi- plicam-se os que se dedicam a fundamentar e explicitar prognósticos, diretrizes ou objetivos convenientes para governos, corporações, orga- nizações multilaterais, movimentos sociais. REALIDADE SOCIAL, ANTROPOLÓGICA E SEUS DESAFIOS TEÓRICOS CONTEMPORÂNEOS Para Ianni (1998, p. 7), A realidade social, ou o “objeto” das ciências sociais, revela-se diferente, novo ou surpreendente. Revela-se simultaneamente mundial, nacional, regional e local, sem esquecer o tribal. Muito do que é particular re- vela-se também no geral. O indivíduo e a coletividade constituem-se na trama das formas de sociabilidade e no jogo das forças sociais em desenvolvimento em âmbito global. Muito do que pode ser identidade e alteridade, nação e nacionalidade, ocidental e oriental, cristão e islâ- mico, africano e indígena ou soberania e hegemonia revela-se consti- tutivo das formas de sociabilidade e do jogo das forças sociais que se desenvolvem em âmbito simultaneamente global, regional, nacional, tribal e local. 79 Realidade Social, Antropológica e seus Desafios Teóricos Contemporâneos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Precisamente nesse sentido é que a globalização se constitui como um objeto dife- rente, novo ou surpreendente das ciências sociais. Com efeito, aqui se desenvolvem: Relações, processos e estruturas demarcando as configurações e os movimentos da sociedade global. Uma sociedade na qual se inserem dinâmica e decisivamente os indivíduos e as coletividades, os grupos sociais e as classes sociais, os gêneros e as raças, os partidos e os sin- dicatos, os movimentos sociais e as correntes de opinião pública; uma sociedade na qual tanto se multiplicam como se dissolvem os espaços e os tempos. Revela-se insatisfatório, carente de significado, exigindo reelaboração ou mesmo dependente de novos conceitos, categorias ou leis. São muitos os recursos teóricos acumulados pelas várias teorias da realidade social que se mostram problemáticos, inadequados ou caren- tes de complementação. Ocorre que, em sua maioria, os conceitos, as categorias e as leis são construídas tendo como referência a sociedade nacional (IANNI, 1998, p. 7). O que se quer dizer com noções científicas no contexto de um mundo globali- zado não é outra coisa senão aquelas noções construídas, aceitas, debatidas e mais ou menos sedimentadas, tendo como referência principal a sociedade nacional. Nesse sentido, teríamos um cabedal de noções, tais como: Sociedade civil e Estado, Estado/nação e soberania e hegemonia, povo e cidadão, grupo social e classe social, classe social e lutas de classe, partido político e sindicato, indivíduo e sociedade, natureza e socieda- de, identidade e alteridade, cooperação e divisão do trabalho, ordem e progresso, democracia e ditadura, nacionalismo e imperialismo, tri- balismo e nacionalismo, cultura e tradição, mercado e planejamento, reforma e revolução, revolução e contra-revolução, revolução nacional e revolução social, relações internacionais e geopolíticas, geopolítica e guerra, capitalismo e socialismo (IANNI,1998, p. 8). Para Ianni (1998, p. 8), em geral, essas noções construídas, aceitas, debatidas e mais ou menos sedimentadas, ajudam-nos a pensar a respeito da (...) sociedade mundial, em toda a sua originalidade e complexidade, tendo em vista interpretar as suas configurações e os seus movimentos. Daí a importância de noções, metáforas ou conceitos como: mundiali- zação, planetarização, globalização, mundo sem fronteira, aldeia global, fábrica global, shopping center global, divisão transnacional do traba- lho e da produção, estruturas mundiais de poder, desterritorialização, cultura global, mídia global, sociedade civil mundial, cidadão do mun- do, mercados mundiais, infovia, internet, metahistória, metateoria. A PERSPECTIVA DA ANTROPOLOGIA E DA SOCIOLOGIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV Não há dúvidas de que a globalização força o sociólogo a ampliar seus conheci-mentos no sentido de alargar seu cabedal conceitual. Assim: Mais do que nunca, diante da problemática da globalização, o cientista social é levado a realizar comparações mais ou menos complexas, bus- cando que sejam rigorosas. Na medida em que a globalização abre um vasto e complexo cenário à observação, pesquisa e análise, o cientista social é levado a mapear ângulos e tendências, condições e possibilidades, recorrências e descontinuidades, diversidades e desigualdades, impasses e rupturas, desenvolvimentos e retrocessos, progressos e decadências. São muitos os processos e as estruturas presentes, ativos, visíveis ou subjetivos, no vasto e complicado palco constituído com a globalização do capitalismo, como modo de produção e processo civilizatório. Daí a importância do método comparativo, como uma forma experimental, uma espécie de experimento mental, ideal ou imaginário. Com a globalização, tanto se criam novos desafios e novas perspectivas para a interpretação do presente, como se descortinam outras possi- bilidades de interpretar o passado. A partir dos horizontes da globali- zação, o passado pode revelar-se ainda pouco conhecido, enigmático ou mesmo carente de novas interpretações. É como se uma nova luz permitisse clarificar com outras cores o que parecia desenhado, assim como desvendasse traços, movimentos, sons e cores que não se havia percebido quando o patamar podia ser nacionalismo, colonialismo, imperialismo, internacionalismo ou outro. Com as novas perspectivas, são várias as realidades e interpretações que podem ser repensadas. Torna-se possível reavaliar o alcance e o significado da acumulação originária, do mercantilismo, colonialismo e imperialismo, tanto quan- do do nacionalismo e tribalismo. Também se torna possível repensar outras realidades antigas e recentes: islamismo e cristianismo, Oriente e Ocidente, ocidentalização do mundo, orientalização do mundo, afri- canismo, indigenismo, transculturação. Ele precisa rever as suas posições habitualmente adotadas na análise da problemática nacional. Posições que parecem estabelecidas, cômo- das ou estratégicas precisam ser revistas ou radicalmente modificadas. Quando se trata da problemática global, o sujeito do conhecimento é desafiado a deslocar o seu olhar por muitos lugares e diferentes pers- pectivas, como se estivesse viajando pelo mapa do mundo. As exigên- cias da reflexão implicam a adoção de um “olhar desterritorializado”, capaz de mover-se do indivíduo à coletividade, caminhando por po- vos e nações, tribos e nacionalidades, grupos e classes sociais, cultu- ras e civilizações. Um olhar desterritorializado movendo-se através de territórios e fronteiras, atravessando continentes, ilhas e arquipélagos (IANNI, 1998, p. 8). 81 Realidade Social, Antropológica e seus Desafios Teóricos Contemporâneos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Na atualidade, a ciência social encontra-se em embate com várias questões quando se trata de surpreender os movimentos e as configurações da sociedade mundial. Ora, se é verdade que as ciências sociais nascem, concomitantemente, com a revo- lução industrial e com ela a nova ordem social – como temos visto –, podemos afirmar, com Ianni (1998), que elas “renascem com a globalização”. Os estudos sobre a globalização podem ser classificados, conforme Ianni (1998, p. 8), em: “sistêmicos” e “históricos”. De maneira geral, os estudos sistêmicos privilegiam as relações internacionais, a interdependência das nações, a integração regional, a geoeconomia e a geopolítica. Aí predomina a preocupação com as zonas de influência, os blocos de nações, os espa- ços geográficos, as hegemonias, as articulações dos mercados, a divisão transnacional do trabalho e da produção, a fábrica global, o shopping center global, as redes de internet, o fim da geografia e o fim da história, entre outras articulações, malhas, redes, interdependências ou traçados do mapa do mundo. Muito do que são as relações, os processos e as estruturas tecendo os diversos níveis e segmentos da globalização são descritos e interpretados em termos sistêmicos. Segundo nos diz Ianni (1998, p. 8-9), devemos compreender pela expressão sistema “um conjunto específico de relações concernentes a uma escala de deter- minados problemas envolvidos na consecução, ou busca organizada, da atuação coletiva em nível global”. O que significa isso? Isso significa que essas relações envolvem a administração de liderança global que estejam capazes de adminis- trar conflitos igualmente globais. Assim, por exemplo, um sistema administrativo mundial deve orientar-se de tal maneira que seja possível “visualizar os arranjos sociais mundiais em termos de totalidade”, permitindo a possibilidade de pesquisar “as relações entre as interações de alcance mundial e os arranjos sociais em níveis regional, nacional e local”. Nesse sentido, as análises orientam-se principalmente A violência possui íntima relação com os conflitos de classes e as mazelas econômicas da sociedade? Qual seu posicionamento sobre isso? A PERSPECTIVA DA ANTROPOLOGIA E DA SOCIOLOGIA Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV com a finalidade de propiciar a inteligência da ordem socioeconômica mundial vigente, tendo em conta o seu funcionamento, a sua integra- ção, os seus impasses e o seu aperfeiçoamento. No mundo sistêmico, os subsistemas são muitos, diversos, integrados e desencontra- dos, o que é complexamente desafiador, uma vez que tais sistemas podem “conjugar-se ou atritar-se, modificar-se ou recriar-se, em geral, segundo exigências da dinâmica do capitalismo, com o sistema global” (IANNI, 1998, p. 9). CONSIDERAÇÕES FINAIS Como podemos perceber, cada processo e estrutura de âmbito mundial, com todas as suas implicações, sejam locais, nacionais, regionais e mundiais, exige conceitos, categorias ou interpretações de alcance global. O papel das ciências sociais, nesse contexto, não é outro senão o de propiciar os meios pelos quais o pesquisador possa lançar mão da rica biblioteca multicultural com os livros e as revistas de ciências sociais que se publicam, gerando uma visão múltipla, polifônica, babélica ou fantástica de diversas formas de autoconsciência, com- preensão, explicação, imaginação e fabulação tratando de entender o presente, repensar o passado e imaginar o futuro (IANNI, 1998). Esses estudos sistêmicos e históricos revelam ao pesquisador o esforço das ciências sociais em interpretar os acontecimentos mundanos, exatamente na medida em que é possível verificar o que se pode realmente falar dessa imensi- dão de um mundo globalizado. 83 1. O que é globalização? 2. O que significa ruptura histórica? 3. O que está em causa quando se trata de globalização? Comente. CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA Um morador do bairro Cabula, Salvador, desmentiu a versão da Polícia Militar da Bahia, sobre o assassinato de 12 jovens numa suposta troca de tiros, na madrugada de sex- ta-feira (6/02/2015). Segundo o homem, que pediu para não ter o nome revelado, os rapazes estavam rendidos e desarmados quando foram executados, a informação é do jornal Correio, de Salvador. “Nossos contatos com organizações sociais e relatos da comunidade mostram que há indícios de que algumas dessas mortes foram feitas com as pessoas já rendidas (...)”. Leia a íntegra da matéria no site disponível em: <http://www.cartacapital.com.br/socie- dade/em-tres-dias-pm-de-salvador-matou-15-jovens-negros-5479.html>. Acesso em: 27 fev. 2015. Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR ComoSteve Jobs mudou o mundo Gênero: Documentário Tempo de Duração: 121 minutos Ano: 2011 Sinopse: Este documentário do Discovery Channel, com a apresentação de Adam Savage e Jamie Hyneman, os Mythbusters, procura detalhar a história e infl uência de Steve Jobs, desde sua contribuição no desenvolvimento do PC até a mudança na forma de ver fi lmes e ouvir músicas. Zeitgeist: The Movie Gênero: Documentário Tempo de Duração: 1h57 min. Ano: 2007 Sinopse: O fi lme reúne fontes de informação variadas e mostra que é possível que as pessoas sejam manipuladas por grandes instituições, governos e poderes econômicos. Ele é dividido em três partes. 1. Religião: Crenças astrológicas pagãs comparadas a religiões modernas e antigas. 2. Onze de setembro: Uma perspectiva dos numerosos aspectos questionáveis deste evento imensamente importante. 3. O Banco de Reserva Federal: Uma história de sua formação e a habilidade de controlar a economia. Trazendo novas imagens de eventos trágicos da história e depoimentos daqueles que acreditam que as pessoas estão sendo iludidas sobre o nível de liberdade que elas têm, este instigante documentário vai afetar tanto aqueles que concordam com isso quanto aqueles que discordam. Sinopse: O fi lme reúne fontes de informação variadas e mostra que é possível que as pessoas sejam manipuladas por grandes U N ID A D E V Professor Me. Wanderly Alves de Sousa SABERES E FAZERES ANTROPOLÓGICOS E SOCIOLÓGICOS NAS DISTINTAS ÁREAS DE ATUAÇÃO Objetivos de Aprendizagem ■ Apresentar o ponto de vista da antropologia e da sociologia em relação à arte. ■ Averiguar o ponto de vista da sociologia e da sociologia em relação à educação. ■ Demonstrar o ponto de vista da sociologia e da sociologia em relação ao direito. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Arte, da perspectiva antropológica e social ■ Educação, da perspectiva antropológica e social ■ Direito, da perspectiva antropológica e social INTRODUÇÃO Iremos estudar a Arte, a Educação e o Direito do ponto de vista antropológico e sociológico. No que diz respeito à Arte, iremos usar especialmente o texto de autoria de Walter Benjamin acerca do lugar da obra de arte na era de sua reprodu- tibilidade técnica, publicado em 1955. Há, como o próprio autor deixa entender logo no início de usa obra, uma forte influência das teses de Karl Marx. Tanto é que a reflexão a respeito do modo de produção ou reprodução da arte, seja qual for o tipo de arte, parte do ponto em que Marx parou. Segundo Benjamim (2000, p. 1): Quando Marx empreendeu a análise do modo de produção capitalista, esse modo de produção ainda estava em seus primórdios. Marx orien- tou suas investigações de forma a dar-lhes valor de prognósticos. Re- montou às relações fundamentais da produção capitalista e, ao descre- vê-las, previu o futuro do capitalismo. Concluiu que se podia esperar desse sistema não somente uma exploração crescente do proletariado, mas também, em última análise, a criação de condições para a sua pró- pria supressão. Tendo em vista que a superestrutura se modifica mais lentamente que a base econômica, as mudanças ocorridas nas condições de produção precisaram mais de meio século para refletir-se em todos os setores da cultura. Só hoje podemos indicar de que forma isso se deu. Tais indi- cações devem por sua vez comportar alguns prognósticos. Mas esses prognósticos não se referem a teses sobre a arte de proletariado depois da tomada do poder, e muito menos na fase da sociedade sem classes, e sim a teses sobre as tendências evolutivas da arte, nas atuais condi- ções produtivas. A dialética dessas tendências não é menos visível na superestrutura que na economia. Seria, portanto, falso subestimar o va- lor dessas teses para o combate político. Elas põem de lado numerosos conceitos tradicionais - como criatividade e gênio, validade eterna e estilo, forma e conteúdo - cuja aplicação incontrolada, e no momento dificilmente controlável, conduz à elaboração dos dados num sentido fascista. Os conceitos seguintes, novos na teoria da arte, distinguem-se dos outros pela circunstância de não serem de modo algum apropriá- veis pelo fascismo. Em compensação, podem ser utilizados para a for- mulação de exigências revolucionárias na política artística. Tenhamos em mente que Walter Benjamin discute os efeitos que o capitalismo exer- ceu e exerce no modo de produção da obra de arte em geral. Para isso, ele inicia 89 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . © sh ut te rs to ck SABERES E FAZERES ANTROPOLÓGICOS E SOCIOLÓGICOS NAS DISTINTAS ÁREAS DE ATUAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V sua reflexão com a reconstrução do que ele designa como reprodução técnica por meio da história da humanidade. Diga-se de passagem que a reprodução técnica já era algo conhecido entre os gregos, o que significa que esse fenômeno não é fun- damentalmente moderno. Estejamos atentos! A diferença entre os gregos e nós, da modernidade, pode ser resumida assim: os gregos buscavam o eterno, o atemporal e expressavam essas aspirações mediante as obras de arte que permaneciam únicas, não reprodutivas, mas como objeto de contemplação. Nós, os modernos, ao contrá- rio, por causa da industrialização massificada das obras de arte, perdemos o caráter único que cada obra de arte deve conter em si como histórico de sua identidade. É a respeito disso, da educação e do direito, que passaremos a falar em seguida. ARTE, DA PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA E SOCIAL Em sua essência, a obra de arte sempre foi reprodutível. O que os homens fazem sempre pode ser imitado por outros homens. De modo que no mundo dos homens não há criação propriamente dita, mas sim imitação. Segundo Walter Benjamin (2000, p.1): Imitação é exercida e praticada por discípulos, em seus exercícios, pe- los mestres, para a difusão das obras, e finalmente por terceiros, me- ramente interessados no lucro. A reprodução técnica da obra de arte representa um processo novo, que se vem desenvolvendo na história intermitentemente, através de saltos separados por longos intervalos, mas com intensidade crescente. ©shutterstock ©shutterstock 91 Arte, da Perspectiva Antropológica e Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O que interessa a Walter Benjamin, pelo menos no texto que estamos analisando, é investigar a tendência evo- lutiva da arte nas atuais condições reprodutivas. Nesse sentido, a reprodução técnica da obra de arte repre- senta um processo novo na história da própria arte. Ele começa a descrever seu diagnóstico do estado da arte, pela xilogravura, técnica de gravura em madeira, que se tornou pela primeira vez tecnicamente reprodutível, muito antes que a imprensa prestasse o mesmo serviço para a palavra escrita. E será com a litografia que (...) a técnica de reprodução atinge uma etapa essencialmente nova. Esse procedimento muito mais preciso, que distingue a transcrição do desenho numa pedra de sua incisão sobre um bloco de madeira ou uma prancha de cobre, permitiu às artes gráficas pela primeira vez colocar no mercado suas produções não somente em massa, como já acontecia antes, mas também sob a forma de criações sempre novas. Dessa for- ma, as artes gráficas adquiriram os meios de ilustrar a vida cotidiana. Graças à litografia, elas começaram a situar-se no mesmo nível que a imprensa (BENJAMIN,2000, p.2). Mas logo a litografia foi ultrapassada pela fotografia. E segundo Walter Benjamin (2000, p.2): Pela primeira vez no processo de reprodução da imagem, a mão foi liberada das responsabilidades artísticas mais importantes, que agora cabiam unicamente ao olho. Como o olho apreende mais depressa do que a mão desenha, o processo de reprodução das imagens experi- mentou tal aceleração que começou a situar-se no mesmo nível que a palavra oral. Se o jornal ilustrado estava contido virtualmente na litografia, o cine- ma falado estava contido virtualmente na fotografia. ©shutterstock SABERES E FAZERES ANTROPOLÓGICOS E SOCIOLÓGICOS NAS DISTINTAS ÁREAS DE ATUAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Da fotografia, chega-se à reprodução téc- nica do som e com ela: A reprodução técnica atin- giu tal padrão de qualidade que ela não somente podia transformar em seus objetos a totalidade das obras de arte tradicionais, submetendo-as a transfor- mações profundas como conquistar para si um lugar próprio entre os procedimentos artísticos (BENJAMIN, 2000, p.2). Mas mesmo com o avanço da técnica em reproduzir aquilo que o olhar atinge e captura pela lente de uma câmara fotográfica ou aquilo que as mãos desenham ao reproduzir objetos da natureza: Um elemento está ausente: o aqui e agora da obra de arte, sua existên- cia única, no lugar em que ela se encontra. E nessa existência única, e somente nela, que se desdobra a história da obra. Essa história compre- ende não apenas as transformações que ela sofreu, com a passagem do tempo, em sua estrutura física, como as relações de propriedade em que ela ingressou. Os vestígios das primeiras só podem ser investigados por análises químicas ou físicas, irrealizáveis na reprodução; os vestígios das segundas são o objeto de uma tradição, cuja reconstituição precisa par- tir do lugar em que se achava o original. O aqui e agora do original cons- titui o conteúdo da sua autenticidade, e nela se enraíza uma tradição que identifica esse objeto, até os nossos dias, como sendo aquele objeto, sempre igual e idêntico a si mesmo (BENJAMIN, 2000, p.2). A produtividade técnica deixa escapar o aqui e o agora original do objeto, a saber, sua autenticidade: a esfera da autenticidade, como um todo, escapa à repro- dutibilidade técnica, e naturalmente não apenas à técnica. Caro(a) aluno(a), há aqui uma distinção sutil que Walter Benjamin estabelece (2000, p.2): “O autêntico preserva toda a sua autoridade com relação à repro- dução manual, em geral considerada uma falsificação, o mesmo não ocorre no que diz respeito à reprodução técnica (...)”. Tal distinção tem suas razões de ser, de acordo com Walter Benjamin (2000, p.2): Em primeiro lugar, relativamente ao original, reprodução técnica tem mais autonomia que a reprodução manual. Ela pode, por exemplo, pela fotografia, acentuar certos aspectos do original, acessíveis à objetiva - ajustável e capaz de selecionar arbitrariamente o seu ângulo de obser- vação, mas não acessíveis ao olhar humano. Ela pode, também, graças a procedimentos como a ampliação ou a câmera lenta, fixar imagens que ©shutterstock 93 Arte, da Perspectiva Antropológica e Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . fogem inteiramente à ótica natural. Em segundo lugar, a reprodução técnica pode colocar a cópia do original em situações impossíveis para o próprio original. Ela pode, principalmente, aproximar do indivíduo a obra, seja sob a forma da fotografia, seja do disco. A catedral aban- dona seu lugar para instalar-se no estúdio de um amador; o coro, exe- cutado numa sala ou ao ar livre, pode ser ouvido num quarto. Mesmo que essas novas circunstâncias deixem intacto o conteúdo da obra de arte, elas desvalorizam, de qualquer modo, o seu aqui e agora. Embora esse fenômeno não seja exclusivo da obra de arte, podendo ocorrer, por exemplo, numa paisagem, que aparece num filme aos olhos do es- pectador, ele afeta a obra de arte em um núcleo especialmente sensível que não existe num objeto da natureza: sua autenticidade. A autentici- dade de uma coisa é a quintessência de tudo o que foi transmitido pela tradição, a partir de sua origem, desde sua duração material até o seu testemunho histórico. Como este depende da materialidade da obra, quando ela se esquiva do homem através da reprodução, também o testemunho se perde. Sem dúvida, só esse testemunho desaparece, mas o que desaparece com ele a autoridade da coisa, seu peso tradicional. Pelo menos sob dois aspectos a reprodução técnica sobressai à reprodução manual: a lente de uma câmera fotográfica, por exem- plo, é capaz de captar aspectos próprios de um objeto que são inacessíveis ao olho humano. A lente da câmera fotográfica pode também, uma vez captada a imagem original de um objeto, colocá-lo (objeto) em lugares impossíveis de estarem. Veja, por exemplo, a imagem que se segue, ela está em um lugar que é impossível para o próprio original. Como julga Walter Benjamin (2000, p. 2), o que permite perceber essas carac- terísticas é o conceito de aura: O que se atrofia na era da reprodutibilidade técnica da obra de arte é sua aura. Esse processo é sintomático, e sua significação vai muito além da es- fera da arte. Generalizando, podemos, dizer que a técnica da reprodução destaca do domínio da tradição o objeto reproduzido. Na medida em que ela multiplica a reprodução, substitui a existência única da obra por uma existência serial. E, na medida em que essa técnica permite à reprodução vir ao encontro do espectador, em todas as situações, ela atualiza o objeto reproduzido. Esses dois processos resultam num violento abalo da tradi- ção, que constitui o reverso da crise atual e a renovação da humanidade. SABERES E FAZERES ANTROPOLÓGICOS E SOCIOLÓGICOS NAS DISTINTAS ÁREAS DE ATUAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V A reprodução técnica produz dois efeitos sintomáticos: 1. A reprodução serial de um único objeto. Imagine, caro(a) aluno(a), quan- tas Torres Eiffel foram reproduzidas a partir de uma única foto. 2. A possibilidade dessa reprodução vir ao encontro do espectador atuali- zando o objeto reproduzido. Esses dois efeitos se relacionam intimamente com os movimentos de massa, quer dizer com a cultura de massa própria dos nossos dias. De acordo com Walter Benjamin (2000, p.2), o agente mais poderoso da cultura de massa é o cinema: Sua função social não é concebível, mesmo em seus traços mais positi- vos, e precisamente neles, sem seu lado destrutivo e catártico: a liqui- dação do valor tradicional do patrimônio da cultura. Esse fenômeno é especialmente tangível nos grandes filmes históricos, de Cleópatra e Ben Hur até Frederico, o Grande e Napoleão. E quando Abel Gan- ce, em 1927, proclamou com entusiasmo: “Shakespeare, Rembrandt, Beethoven, farão cinema... Todas as lendas, todas as mitologias e todos os mitos, todos os fundadores de novas religiões, sim, todas as religi- ões... aguardam sua ressurreição luminosa, e os heróis se acotovelam às nossas portas”; ele nos convida, sem o saber talvez, para essa grande liquidação. Bem, a possibilidade da reprodução serial de um objeto promovido pela reprodução técnica acaba por transformar também a forma de percepção das coletividades humanas. Assim, A forma de percepção das coletividades humanas se transforma ao mesmo tempo que seu modo de existência. O modo pelo qual se or- ganiza a percepção humana, o meio em que ela se dá, não é apenas condicionado naturalmente, mas também historicamente. A época das invasões dos bárbaros, durantea qual surgiram as indústrias artísti- cas do Baixo Império Romano e a Gênese de Viena, não tinha apenas uma arte diferente da que caracterizava o período clássico, mas tam- bém uma outra forma de percepção. Os grandes estudiosos da escola vienense, Riegl Wickhoff, que se revoltaram contra o peso da tradição classicista, sob o qual aquela arte tinha sido soterrada, foram os primei- ros a tentar extrair dessa arte algumas conclusões sob a organização da percepção nas épocas em que ela estava e vigor. Por mais penetrantes que fossem, essas conclusões estavam limitadas pelo fato de que esses pesquisadores se contentaram em descrever as características formais do estilo percepção característico do Baixo Império. Não tentaram, tal- 95 Arte, da Perspectiva Antropológica e Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . vez não tivessem a esperança de consegui-lo, mostrar as Convulsões sociais que se exprimiram nessas metamorfoses da percepção (BEN- JAMIN, 2000, p. 2). Walter Benjamin (2000, p.2) identifica aqui o seguinte: a reprodutividade téc- nica do objeto de arte em massa desemboca na destruição do caráter único do objeto de arte. Se “fosse possível compreender as transformações contemporâ- neas da faculdade perceptiva segundo a ótica do declínio da aura, as causas sociais dessas transformações se tornariam inteligíveis”. Isto é, entender o declínio da aura nos permite entender as transformações da faculdade perceptiva. Para tornar mais evidente seu ponto argumentativo, Walter Benjamin (2000, p.3) define o que ele compreende por aura: É uma figura singular, composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante por mais perto que ela esteja. Observar, em repouso, numa tarde de verão, uma cadeia de montanhas no horizonte, ou um galho, que projeta sua sombra sobre nós, significa respirar a aura dessas montanhas, desse galho. Graças a essa definição, é fácil identificar os fatores sociais específicos que condicionam o de- clínio atual da aura. Esse momento de repouso, de observação da aparição única de uma coisa distante que tão-somente observo é abalado por fatores sociais específicos que, segundo Benjamin (2000, p.3), derivam-se de duas circunstâncias, Estreitamente ligadas à crescente difusão e intensidade dos movimen- tos de massas. Fazer as coisas “ficarem mais próximas” é uma preo- cupação tão apaixonada das massas modernas como sua tendência a superar o caráter único de todos os fatos através da sua reprodutibili- dade. Cada dia fica mais irresistível a necessidade de possuir o objeto, de tão perto quanto possível, na imagem, ou antes, na sua cópia, na sua reprodução. Cada dia fica mais nítida a diferença entre a reprodução, como ela nos é oferecida pelas revistas ilustradas e pelas atualidades cinematográficas, e a imagem. Benjamin chama-nos a atenção para percebermos que as mudanças técnicas ocor- ridas nos processos de produção de imagens refletem-se na própria percepção que temos da unicidade da obra de arte, que até o momento de suas reflexões expostas na obra que estamos analisando não tinha sido colocada em discussão. Aqui, o autor tem como horizonte de sua reflexão, caro(a) aluno(a), o problema SABERES E FAZERES ANTROPOLÓGICOS E SOCIOLÓGICOS NAS DISTINTAS ÁREAS DE ATUAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V da modernidade, qual seja: o problema da percepção, da produção e consumo da obra de arte. Talvez a pergunta a qual autor pretende responder poderia ser colocada nestes termos: quais são os efeitos da produção, do consumo de massa e da tecnologia moderna sobre o status da obra de arte? Uma resposta possível seria a de que as técnicas de reprodução da obra de arte em massa – seja no âmbito da arte fotográfica ou no âmbito da produção cinematográfica, tanto uma como outra, acabaram por transformar profunda- mente nosso entendimento, na nossa concepção, na nossa percepção da obra de arte enquanto tal. A causa dessa transformação se deve ao fato de que o capita- lismo estabeleceu novas formas de produção, as quais passaram a ter efeitos até mesmo na própria concepção cultural. Nas palavras de Benjamin (2000, p.4): Retirar o objeto do seu invólucro, destruir sua aura, é a característica de uma forma de percepção cuja capacidade de captar “o semelhante no mundo” é tão aguda, que graças à reprodução ela consegue captá-lo até no fenômeno único. Assim se manifesta na esfera sensorial a tendência que na esfera teórica explica a importância crescente da estatística. Orientar a realidade em função das massas e as massas em função da realidade é um processo de imenso alcance, tanto para o pensamento como para a intuição. A uni- cidade da obra de arte é idêntica à sua inserção no contexto da tradição. Sem dúvida, essa tradição é algo de vivo, de extraordinariamente vari- ável. Uma antiga estátua de Vênus, por exemplo, estava inscrita numa certa tradição entre os gregos, que faziam dela um objeto de culto, e em outra tradição na Idade Média, quando os doutores da Igreja viam nela um ídolo malfazejo. O que era comum às duas tradições, contudo, era a unicidade da obra ou, em outras palavras, sua aura. A forma mais primitiva de sua inserção da obra de arte no contexto da tradição se exprimia no culto. As mais antigas obras de arte, como sabemos, sur- giram a serviço de um ritual, inicialmente mágico, e depois religioso. O que é de importância decisiva é que esse modo de ser aurático da obra de arte nunca se destaca completamente de sua função ritual. Em outras palavras: o valor único da obra de arte “autêntica” tem sempre um fundamento teológico, por mais remoto que seja: ele pode ser re- conhecido, como ritual secularizado, mesmo nas formas mais profanas do culto do Belo. Essas formas profanas do culto do Belo, surgidas na Renascença e vigentes durante três séculos, deixaram manifesto esse fundamento quando sofreram seu primeiro abalo grave. Com efeito, quando o advento da primeira técnica de reprodução verdadeiramente revolucionária - a fotografia, contemporânea do início do socialismo 97 Arte, da Perspectiva Antropológica e Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . - levou a arte a pressentir a proximidade de uma crise, que só fez apro- fundar-se nos cem anos seguintes, ela reagiu ao perigo iminente com a doutrina da arte pela arte, que é no fundo uma teologia da arte. Dela resultou a teologia negativa da arte, sob a forma de uma arte pura, que não rejeita apenas toda função social, mas também qualquer determi- nação objetiva. (Na literatura, foi Mallarmé o primeiro a alcançar esse estágio). É indispensável levar em conta essas relações em um estudo que se propõe estudar a arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Assim, Com a reprodutibilidade técnica, a obra de arte se emancipa, pela pri- meira vez na história, de sua existência parasitária, destacando-se do ritual: A obra de arte reproduzida é cada vez mais a reprodução de uma obra de arte criada para ser reproduzida. A chapa fotográfica, por exemplo, permite uma grande variedade de cópias; a questão da auten- ticidade das cópias não tem nenhum sentido. Mas, no momento em que o critério da autenticidade deixa de aplicar-se à produção artística, toda a função social da arte se transforma. Em vez de fundar-se no ritual, ela passa a fundar-se em outras práxis: a política. De acordo com Walter Benjamin (2000), precisamos diferenciar as funções da obra de arte enquanto: a. “Valorcultural”, diferenciar a obra de arte enquanto pertencente ao con- junto de crenças que estão ineridas na tradição de uma determinada época. b. Valor puramente expositivo, ou seja, enquanto uma reprodução pura- mente mecânica. Nesse sentido, o valor cultural passa a faltar: a obra se torna uma mera imagem, um simples objeto desligado de valores pro- fundos, que não faz mais parte daquilo que, para o autor, é a tradição. A conclusão que poderíamos tirar disso é a de que a obra de arte, perdendo seu valor cultural, perde também sua autenticidade, perde sua singularidade perceptível naquilo que Benjamin chamou de aura. A causa desse processo de definhamento da autenticidade da obra de arte está em processo, a saber: no processo de secularização da obra de arte. Ao secularizar a obra de arte, não importa mais sua autenticidade, sua unicidade, ou o fato de ter sido uma expe- riência única. Ela se torna, simplesmente, uma coisa qualquer diante de nós que pode ser trocada por sua imagem. SABERES E FAZERES ANTROPOLÓGICOS E SOCIOLÓGICOS NAS DISTINTAS ÁREAS DE ATUAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Segundo Benjamim (2000, p.3), Os gregos só conheciam dois processos técnicos para reprodução de obras de arte: o molde e a cunhagem. As moedas e terracotas eram as únicas obras de arte por eles fabricadas em massa. Todas as demais eram únicas e tecnicamente irreprodutíveis. Por isso, precisavam ser únicas e construídas para a eternidade. Os gregos foram obrigados, pelo estágio de sua técnica, a produzir valores eternos. Devem a essa circunstância o seu lugar privilegiado na história da arte e sua capaci- dade de marcar, com seu próprio ponto de vista, toda a evolução artís- tica posterior. Não há dúvida de que esse ponto de vista se encontra no pólo oposto do nosso. Nunca as obras arte foram reprodutíveis tecnica- mente, em tal escala e amplitude, como em nossos dias. A reprodução, nos diz Benjamin (2000), sempre ocorreu, entretanto, é a partir do advento da fotografia que ela passa a ser diferenciada, isto é, por meio das técni- cas de reprodução, as obras passam a ser pensadas e concebidas para as massas, visto que podem ser vistas e ouvidas – no caso da música – em qualquer lugar e a qualquer momento. A reprodução de qualquer obra de arte – considerada materialmente única – não possui o status de arte, por mais perfeita que ela seja, alerta-nos Walter Benjamin. A obra original constitui-se historicamente e mediante sua unicidade é possível observar as transformações ocorridas na mesma. Isso significa dizer que o status da obra de arte é determinado por elementos essenciais à obra: o aqui e agora e sua existência única. Em outra perspectiva, cada reprodução é uma obra nova, com uma vida nova, diz Benjamin. Então, é importante observar que, assim como a obra original, sua reprodução também passa por transformações físicas, que constituem sua história. Desse modo, por mais que seja uma repro- dução, esta passa por processos semelhantes ao das obras originais. ©shutterstock 99 Educação, da Perspectiva Antropológica e Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . EDUCAÇÃO, DA PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA E SOCIAL De modo geral, a sociologia investiga as bases das sociedades em busca da com- preensão dos seus modos de educar, de maneira que essa investigação possa resultar em uma intervenção a fim de tornar a educação mais eficiente e eficaz. Dado ao caráter investigativo do sociólogo ou antropólogo, a Sociologia, assim como a Antropologia, se constituem ciências humanas com o alto grau de refle- xão e consequentemente passíveis de serem ouvidas em muitas das questões sociais que envolvem a educação. Na perspectiva de Durkheim (2014), educar é socializar o indivíduo. Isso significa que educar é o processo pelo qual se aprende a ser membro da socie- dade. O indivíduo nasce em uma sociedade que já está formada, estruturada, com suas instituições, com sua dinâmica econômica e as funções previamente definidas, resta a ele apenas receber a educação que vai prepará-lo para convi- ver, para fazer parte do todo funcionando. Durkheim vê a educação com duplo aspecto, uno e múltiplo, com seus cons- tituintes básicos, e aponta suas principais funções, a saber: SABERES E FAZERES ANTROPOLÓGICOS E SOCIOLÓGICOS NAS DISTINTAS ÁREAS DE ATUAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Suscitar na criança: um certo número de estados físicos e mentais, que a sociedade a que pertença considere como indispensáveis a todos os seus membros; certos estados físicos e mentais, que o grupo social particular (casta, classe família, profissão) considere igualmente indispensáveis a todos quantos o formem (DURKHEIM, 1967, p. 40). Segundo Weber (2003), a educação é dirigida a três tipos de finalidade: 1. despertar o carisma; 2. preparar o aluno para uma conduta de vida; 3. transmitir conhecimento especializado. Essas duas acepções de educação (a de Durkheim e a de Weber) não são excludentes, muito pelo contrário, elas complementam-se. O que nos deixa à vontade para afirmar que, baseando-se nos dois clássicos, a Sociologia da Educação não se faz necessária apenas pela via teórica, mas, principalmente, pela via prática, pois na medida em que a educação visa preparar o aluno para uma conduta de vida, é na Sociologia, ciência que se dedica ao estudo das interações sociais, que ela vai buscar subsídios. Para Marx, a educação foi pensada sob o ponto de vista econômico. Foi analisando a sociedade em seus aspectos históricos e filosóficos que ele contribuiu com a ação educativa. Pensando na classe trabalhadora, ele concebe a escola como aquela que deveria preparar o indivíduo integralmente, ensinando-lhe, inclusive, uma profissão. Ao passo que muitos dos seus discípulos, seguindo a lógica marxista de compreensão das relações sociais, que se dão no seio da sociedade capitalista, criaram teorias que explicam a escola em seu aspecto mais importante, qual seja o da sua função. Louis Althusser (1918-1990), por exemplo, percebeu que as classes sociais são frutos da ação dos “aparelhos repressivos e ideológicos do Estado”, sendo a Escola o principal deles, pois, segundo ele, é ela quem inculca a ideologia nele que, por sua vez, repre- senta os interesses da classe dominante. Já Antonio Gramsci (1891-1937) analisou a escola a partir do entendimento de que a sociedade capitalista é eminentemente conflituosa, pois de um lado está o patrão (o explorador) e do outro o trabalhador (o explorado), e a educação é o meio onde o capitalista pode impor sua hegemonia, mas é também o meio que o trabalhador encontra para entender sua situação de 101 Educação, da Perspectiva Antropológica e Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . exploração e, consequentemente, reagir. Para ele, a escola tem que ser crítica e polí- tica para promover mudança na estrutura social. Assim como Althusser e Gramsci, outros autores se dedicaram à educação como objeto de estudo, analisando aspectos, tais como: a relação sociedade e educação, as relações de poder dentro da escola, aspectos como o acesso à escola, políticas públi- cas voltadas à educação, cultura escolar, práticas escolares, bem como o entorno das escolas. De modo que a educação tem encontrado nas ciências sociais pensadores que se dedicaram a teorizá-las, oferecendo aos estudiosos de hoje um ponto de par- tida, seja para concordar ou discordar.No ano de 2000, houve o fórum mundial de educação, ocorrido em Dacar, no Senegal. Nesse fórum, foram decididas 6 metas para uma “educação para todos” e que devem ser alcançadas até 2015. São elas: 1. Estender e melhorar a proteção e a educação da primeira infância. 2. Conseguir que todos tenham acesso ao ensino primário obrigatório e gratuito. 3. Garantir o acesso de jovens e adultos à aprendizagem e à aquisição de com- petências para a vida diária. 4. Aumentar o nível de alfabetização dos adultos para 50%. 5. Promover a igualdade entre os gêneros na educação primária e secundária. 6. Melhorar a qualidade da educação. A educação é indispensável para que as pessoas possam exercitar os demais direi- tos fundamentais. Koichiro Matsuura, ex-diretor geral da UNESCO, por ocasião da celebração do Dia dos Direitos Humanos, disse que somente aquele que sabe o valor dos direitos é quem pode impor sua observância. O que se conclui é que os indiví- duos não podem exercer nenhum direito civil, político, econômico ou social sem terem recebido o mínimo de educação. Mesmo que os conhecimentos produzidos pelas ciências sociais ainda não garantam uma educação crítica e transformadora, eles vêm contribuindo com suas análises para a ampliação da compreensão da realidade social e da educação, o que já as legitimam. ©shutterstock SABERES E FAZERES ANTROPOLÓGICOS E SOCIOLÓGICOS NAS DISTINTAS ÁREAS DE ATUAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V DIREITO, DA PERSPECTIVA ANTROPOLÓGICA E SOCIAL Sociologia e Direito têm uma relação muito estreita, pois sociedade e norma não estão dissociadas. A Sociologia, como ciência que trata das sociedades enfocando seus fatores econômicos, culturais, artísticos e religiosos, soma-se ao Direito, que estabelece e sistematiza as regras necessárias para assegurar o equilíbrio das fun- ções do organismo social e dá lugar à Sociologia Jurídica ou do Direito. Esta, com a responsabilidade de tratar sempre da consequência do direito na socie- dade e desta no próprio direito. No campo das ciências sociais, analisar uma sociedade requer, dentre outros aspectos, que se considere que os problemas se apresentam de forma distinta e que por isso devem ser analisados à luz de seu contexto histórico, de preferência com o máximo de neutralidade, a partir de pesquisas calcadas em observação e análises lógicas e à luz de teorias coerentes. Assim, para se entender a justiça de um país, se requer também que se conheça seu passado e seu presente, além de um embasamento teórico e metodológico, afinal, ciência requer rigor e análise. A Sociologia do Direito, nesse sentido, se propõe a auxiliar na percepção das relações, dos conflitos, das normas, do descontrole de todas as ligações que possam surgir entre os indivíduos e que necessite de um regulador. Afinal, as 103 Direito, da Perspectiva Antropológica e Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . relações humanas sempre precisaram de normas para ocorrer. Sejam religiosas, morais, políticas ou econômicas, as normas fizeram e fazem com que o homem conviva melhor com o outro. Na idade antiga, as regras vinham do mais forte. Na idade média, o cristia- nismo foi quem as elaborou. Na idade moderna, obras foram feitas no sentido de regular a política e a economia. Na idade moderna, mais precisamente no século XVIII, surgiu a Sociologia, e os seus estudos vêm contribuindo, significa- tivamente, na elaboração das regras de convívio social. Deste então, a Sociologia sempre procurou analisar as modificações que ocorreram na sociedade, seus con- flitos e consequências a fim de tornar mais eficazes as normas jurídicas. Criando métodos próprios, sendo assistida por outras ciências e tendo a certeza de que o homem tem, necessariamente, que viver sob regras, a Sociologia do Direito vem auxiliando os estudos sobre os crimes e suas punições na tentativa de melhor fornecer subsídios para o legislador. Durkheim, que combinou teoria sociológica e pesquisa empírica, chegou à conclusão de que os fatos sociais podem ser normais e patológicos, sendo nor- mais aqueles que independem do indivíduo, em outras palavras, são superiores a ele e acabam sendo obrigatórios, já os patológicos são o contrário disso. Tal imposição do fato social normal acaba por favorecer o surgimento de uma soli- dariedade entre os indivíduos, e esta, por sua vez, é variável e acompanha o tempo, o espaço, o contexto social e é moldada por normas, que, ao longo do tempo, transformaram-se em normas jurídicas que favorecem, dentre outras coisas, a colaboração e troca de serviços entre os que participam do trabalho coletivo. Assim, o crime é considerado um fato social e a pena, por sua vez, é para Durkheim (2014) um artifício criado pela sociedade para aqueles que têm atitudes ou comportamentos ameaçadores à ordem social e consiste na repara- ção do mal. Diante do conceito de Pena de Durkheim, é possível afirmar que as penas alternativas de fato punem os criminosos? A coerção social, conceito empregado por Durkheim e que se tornou caro à Sociologia, é fundamental para entendermos como atua a Sociologia jurídica. A força da coletividade e da sociedade sobre a força individual parece até des- proporcional, entretanto, podemos perceber que o homem, durante toda a sua vida social, submeteu-se a regras, sejam estas impostas por um grupo social ou SABERES E FAZERES ANTROPOLÓGICOS E SOCIOLÓGICOS NAS DISTINTAS ÁREAS DE ATUAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V pelo Estado. Desde que nascemos, todas as nossas ações estão reguladas. Para Durkheim, coerção social é a força que os fatos exercem sobre os indivíduos, fazendo-os aceitarem as regras de sua sociedade mesmo não concordando. A sociedade possui vários modos de conduta coletiva, entre eles, os que mais se destacam são os usos e os costumes. São eles que exercem pressão ou certa obrigatoriedade, reservando a designação de hábitos sociais para os usos não normativos. Existem várias teorias que tentam caracterizar as diversas normas existentes na sociedade, além das normas morais e do direito, a exemplo das nor- mas de trato social e das normas técnicas, religiosas, políticas, higiênicas, dentre outras. Caracterizar essas normas não se traduz tarefa fácil, pois vários fatores influenciam nesta diferenciação, entre eles, a própria convicção de cada grupo. O que é errado para uma sociedade pode não ser para outra. Ainda hoje, em pleno século XXI, existem tribos indígenas que praticam o infanticídio em crianças consideradas portadoras de algum mal. Percebe o quanto a convicção de um grupo é determinante em suas atitudes? As normas morais, técnicas, religiosas, políticas e mesmo higiênicas, por exemplo, incidem no indivíduo, já as normas jurídicas incidem no eu socializado, ou no homem social, ou seja, as normas jurídicas procuram o homem no sentido de regular a convivência humana em dada sociedade. Exemplo: um indivíduo do qual é chamada a atenção pelo padre ou pastor por estar vestindo roupa de praia na missa ou no culto não está recebendo sanção penal, mas moral. Esta sanção, ou seja, a “bronca” foi dada ao indivíduo que foi inconveniente, o que não quer dizer que é um crime, pois a “bronca” do padre ou pastor não foi pensada para regular a convivência entre os homens, mas para regular um único indivíduo. Nesse sentido, a Sociologia do Direito trata da moral coletiva como fato social e não da moral individual, em que o indivíduo é legislador. Assim, o que diferencia uma e outra moral é a institucionalização. Desse modo é que algumas situações encaminhadasnas últimas décadas no Brasil merecem ser referenciadas no campo da Sociologia jurídica. Uma delas é o antagonismo entre o privilé- gio, como forma arcaica de poder, e o direito, como afirmação democrática dos interesses públicos. Um exemplo que identifica essa antinomia é o do concurso público no Brasil, estabelecido desde a Constituição Federal de 1988. O concurso 105 Direito, da Perspectiva Antropológica e Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . retira do poder político o privilégio de atender os seus apadrinhados e submete as vagas efetivas ao rigor do mérito. O modelo de justiça restaurativa vem ganhando força no Brasil porque mui- tos dos que compõem o sistema judiciário querem fazer justiça e não aplicar punição. Por certo uma coisa não anula a outra, entretanto, tal medida vem pri- vilegiando a resolução de conflitos. Por inclusão social entende-se o conjunto de procedimentos e meios que combatem a exclusão dos indivíduos do seio da sociedade. Esta exclusão pode ser pela classe social, pelo gênero, pela raça ou mesmo pela falta de acesso às tecnologias. Marco Túlio Cícero – orador, filósofo e político romano (106-43 a.C.) – com- preendia a justiça como uma virtude essencialmente social, de modo que a sociedade dos homens deve se agrupar em torno dela. Em sentido amplo, justiça consiste em dar a cada um o que é de cada um, incide sobre a distri- buição dos bens e se liga à equidade e à liberalidade. Um dos fundamentos da justiça é a boa-fé, assim considerada a firmeza moral e o caráter incorrup- tível em palavras e acordos. Fé advém de fides, assim chamada porque “faz (fiat) o que foi dito”. O homem que “não faz o que foi dito”, que não mantém a palavra, que rompe ou não cumpre o contrato, perde a fides e, com ela, a própria reputação. “Os indivíduos não podem exercer nenhum direito civil, político, econômico ou social sem terem recebido o mínimo de educação”. Disso concluímos que é necessário dedicar-nos aos estudos. O que você acha? SABERES E FAZERES ANTROPOLÓGICOS E SOCIOLÓGICOS NAS DISTINTAS ÁREAS DE ATUAÇÃO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) aluno(a), concluo aqui dizendo que o fato de que o direito depende da existência de um poder capaz de impor pela força a obediência não põe a per- der a natureza estritamente jurídica do Estado. Certamente, a soberania do Estado é uma realidade jurídica, um ente de razão, produto da concórdia entre os homens; não obstante, aquele que detém a soberania dispõe de um poder de fato do qual faz uso para governar os homens e determinar efetivamente suas vontades e comportamentos. Em suma, vale repetir, perceber a diferença entre a justiça retributiva e a justiça restaurativa vai nos dotar de um espírito crítico, capaz de conceber outras formas de analisar o crime, o sistema penal, o infra- tor, a vítima, a culpa e a comunidade, o que será de extrema importância para atuar na área do serviço social. 107 1. Na perspectiva de Durkheim, o que é educar? 2. Quais são as metas para uma “educação para todos”? 3. Durkheim combinou teoria sociológica e pesquisa empírica e chegou a que con- clusão? O filme é uma forma cujo característico é em grande parte determinado por sua repro- dutibilidade. (...) Com o cinema, a obra de arte adquiriu um atributo decisivo (...): a per- fectibilidade. O filme acabado não é produzido de um só jato, e sim montado a partir de inúmeras imagens isoladas e de sequências imagens entre as quais o montador exerce seu direito de escolha - imagens, aliás, que poderiam, desde o início da filmagem, ter sido corrigidas, sem qualquer restrição. Para produzir A opinião pública, com uma duração de 3000 metros, Chaplin filmou 125000 metros. O filme, pois, a mais perfectível das obras de arte. O fato de que essa perfectibilidade se relaciona com a renúncia radical aos valores eternos pode ser de- monstrado por uma contraprova. Para os gregos, cuja arte visava a produção de valores eternos, a mais alta das artes era a menos perfectível, a escultura, cujas criações se fazem literalmente a partir de um só bloco. Daí o declínio inevitável da escultura, na era da obra de arte montável. Fonte: Walter Benjamin (2000) Confira, um breve bate-papo a respeito do pensamento de Walter Benjamim: <https://www.youtube.com/watch?v=zLMggZCo0dg> CONCLUSÃO 109 Apresentamos neste livro de Fundamentos Antropológicos e Sociológicos as teo- rias antropológicas e sociológicas que compõem o acervo cultural no qual estamos inseridos e que nos influenciam no dia a dia. Verificamos que o estudo da antropo- logia e da sociologia é uma tarefa desafiadoramente árdua, mas recompensadora, pois revela-nos – não no sentido dogmático – a origem do homem e da formação da sociedade entre os homens. Mas para chegar à visão do homem e sua sociedade, dividimos o texto em cinco unidade que tiveram a missão de apresentar ao(à) alu- no(a) facetas da saga humana em busca do conhecimento de si para a compreensão do outro. Não houve a pretensão de esgotar os temas propostos nas unidades, mas houve sim a intenção de introduzir o(a) estudante à problemática antropológica e sociológica. Como vimos, a Sociologia nasceu da necessidade do homem explicar as profundas transformações na sociedade provocadas pela revolução industrial e proliferação profícua das ciências ditas particulares. Por isso, tivemos que percorrer e averiguar como se deu o nascimento da sociedade entre os homens, a qual denominamos modernamente de Estado. Dada a concórdia entre os homens para viverem em so- ciedade, compreendemos, no desenvolver deste livro, que nossa identidade é mol- dada pela sociedade em que vivemos, o que significa que ela é uma construção progressiva. E apoiados na literatura especializada no assunto, verificamos que a revolução industrial foi um marco decisivo que mudou irreversivelmente não só as relações entre os homens ditos modernos mas também o modo de produção e seus valores. Aqui o valor do homem tem sua origem na força de seu trabalho, isso signi- fica que o homem moderno cria a si mesmo na medida em que sua atividade trans- forma a si mesmo e o mundo em que vive. Vale dizer: o trabalho dignifica o homem. O homem moderno foi considerado por Marx – como vimos em linhas gerais – como um animal laborans. O atributo máximo do homem é o trabalho, no trabalho o homem encontra sua humanidade. No decorrer do livro, não tivemos a intenção de expor as teses marxistas, mas essa faceta de sua teoria acerca do capitalismo nos ajuda a compreender que essa foi a razão pela qual – consciente ou inconsciente- mente – houve desde os primórdios da revolução industrial produção em série, bens puramente artísticos e bens de sobrevivência da espécie humana no mundo. Vimos também que a educação, a arte e o direito são maneiras pelas quais podemos expressar nossos sentimentos e ideias, podemos expressar nosso contentamento ou descontentamento. A educação, por exemplo, é fundamental ao homem na medida em que compreendemos que ela é instrumento de socialização entre os homens. Nesse sentido, poderíamos dizer que a educação nos torna decisivamente indivíduos políticos, nos torna capazes de argumentar e defender ideias. Enfim, a tarefa que fica ao antropólogo e ao sociólogo é a de não abrir mão da pes- quisa empírica, isto é, não abrir mão de averiguar os fatos, de verificá-los objetiva- mente livre de opiniões infundamentadas, pois a antropologia e a sociologia forne- cem ao estudante técnicas e fundamentação teórica para que ele possa desenvolver um espíritocrítico e sensível em relação à condição da vida humana em sociedade. CONCLUSÃO REFERÊNCIAS 111 ARISTÓTELES, A Política. Tradução: Roberto LEAL FERREIRA. 2. ed. ed.: Martins Fon- tes, São Paulo 1998. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. São Paulo: Editora Perspectiva S.A., 2005. ARON, Raymond. As Etapas do Pensamento Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2000. Disponível em: <http://copyfight.me/Acervo/livros/ARON,%20Ray- mond.%20As%20Etapas%20do%20Pensamento%20Sociolo%CC%81gico.pdf>. Acesso em: 20 out. 2014. BARRETO, Raylane Andreza Dias Navarro. 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O período cosmológico tem como característica fundamental a preo- cupação que o filósofo tinha com a natureza, tomando-a como dado objetivo do conhecimento. Suas pesquisas tinham como objetivo com- preender a estrutura do universo e dos seus elementos constitutivos. O período teocêntrico tem como característica a explicação da origem do mundo pelo mito. Nesse sentido, as cosmogonias de Homero e de Hesíodo explicam a constituição do mundo. O período antropológico tem como preocupação fundamental a educação do homem e sua rela- ção com o âmbito social. O homem torna-se o centro das investigações filosóficas. 2. Qual é o significado da palavra antropologia? Antropologia significa estudo do homem. 3. O que é sociologia? A sociologia é a ciência que estuda a sociedade humana. Como ciência, nasce em função da necessidade que o homem tem de compreender a si mesmo e o grupo no qual está inserido. 4. O que é “fato social”? Fato social constitui-se em maneiras de agir, de pensar e de sentir, ex- teriores ao indivíduo, e que são dotadas de um poder de coerção em virtude do qual esses fatos se impõem a ele. 5. Comente: em que consiste a “força coercitiva dos fatos sociais”? Coerção social é definida por Durkheim como força impositiva sobre o indivíduo. Nesse sentido, trata-se sempre de manifestações do compor- tamento humano com que o indivíduo já está desde sempre envolvido, tais como: adoção de um idioma, a organização familiar e o sentimento de pertencer a uma nação. GABARITO GABARITO UNIDADE II 1. O que é cultura? Segundo a frase bem conhecida do antropólogo britânico Edward Bur- nett Taylor, cultura é: o modo de viver próprio de uma sociedade. 2. O que é identidade cultural? A identidade, seja ela social, pessoal ou cultural, é sempre uma relação social construída com outros, jamais algo ou alguma coisa com a qual nascemos ou herdamos por meio de nossos genes. Identidade, portan- to, nada tem a ver com os genes que herdamos. A identidade é definida historicamente e não biologicamente. 3. Uma pessoa, grupo ou mesmo uma sociedade inteira pode ser despro- vida de cultura? Do ponto de vista da antropologia, isso não é possível. O homem só se torna homem à medida que se torna membro de uma sociedade e internaliza códigos ou formas de agir/ser no mundo. UNIDADE III 1. O que é justiça? Comente? Justiça é dar a cada um aquilo que lhe é de direto. 2. A polis é o bem e a plena realização da natureza. Comente essa frase a partir da concepção de Aristóteles a respeito da política. Para Aristóteles, a natureza de cada coisa é precisamente seu fim. Nesse sentido, ele compreende que sociedade doméstica (a família e a aldeia) não tem um fim em si mesma, seu desenvolvimento tende naturalmen- te para a formação da “sociedade política”, pois a casa e a aldeia são associações incompletas que só encontram plenitude na polis. Por isso, a polis é o bem e a plena realização da natureza humana, uma vez que a família é apenas o núcleo primeiro a partir do qual que se compõe a sociedade política. GABARITO 115 3. Max Weber, ao estudar a autoridade dos governantes, identificou três tipos de governantes; quais são eles?A tradicional, a carismática e a racional-legal. A primeira explica a autoridade de determinado governante por acreditar que como sempre foi assim, seu poder é legítimo. A autoridade carismática por sua vez é compreendida quando se leva em consideração que o líder é virtuoso, especial, um verdadeiro herói. Já com relação à autoridade racional- -legal, ela pode ser entendida quando o governante assume o poder de forma legal e suas ações e atos são tomados a partir de um conjunto de leis específicas. UNIDADE IV 1. O que é globalização? Globalização parece compreender um processo histórico-social que transforma inevitavelmente os padrões da sociedade atual e seus mo- delos mentais, de referência de indivíduos e coletividades ao qual esta- mos acostumados. A globalização rompe e recria o mapa do mundo, inaugura diversos processos, outras estruturas e outras formas de so- ciabilidade as quais se articulam e se impõem aos povos, tribos, nações e nacionalidades. 2. O que significa ruptura histórica? Ruptura histórica é essencialmente moderna, e nos separa do modo de pensar da antiguidade clássica como, por exemplo, do pensamento filosófico grego ou medieval. 3. O que está em causa quando se trata de globalização? Comente. Diante das transformações nascidas da era da globalização, a sociolo- gia e antropologia encontram-se frente a novos desafios, tanto meto- dológicos como teóricos, que pertencem ao domínio do conhecimento propriamente dito. Nesse sentido, o objeto das ciências sociais deixa de ser principalmente a realidade histórico-social nacional e passa a ser também uma realidade sociedade global. Assim, aquele que se dedi- ca aos problemas sociais deve deixar de refletir apenas nos problemas oriundos da sociedade em que se vive e passar a pensar também – e, sobretudo, – nos problemas de ordem social, econômica, política, cul- tural, linguística, religiosa, demográfica e ecológica, em sua significa- ção propriamente mundial. GABARITO UNIDADE V 1. Na perspectiva de Durkheim, o que é educar? Na perspectiva de Durkheim, educar é socializar o indivíduo. Isso sig- nifica que educar é o processo pelo qual se aprende a ser membro da sociedade. O indivíduo nasce em uma sociedade que já está formada, estruturada, com suas instituições, com sua dinâmica econômica e as funções previamente definidas, resta a ele apenas receber a educação que vai prepará-lo para conviver, para fazer parte do todo funcionando. 2. Quais são as metas para uma “educação para todos”? No ano 2000, houve o fórum mundial de educação, ocorrido em Dacar, no Senegal. Nesse fórum foram decididas 6 metas para uma “educação para todos” e que devem ser alcançadas até 2015. São elas: ■ Estender e melhorar a proteção e a educação da primeira infância. ■ Conseguir que todos tenham acesso ao ensino primário obrigatório e gratuito. ■ Garantir o acesso de jovens e adultos à aprendizagem e à aquisição de com- petências para a vida diária. ■ Aumentar o nível de alfabetização dos adultos para 50%. ■ Promover a igualdade entre os gêneros na educação primária e secundária. ■ Melhorar a qualidade da educação. 3. Durkheim combinou teoria sociológica e pesquisa empírica e chegou à qual conclusão? Chegou à conclusão de que os fatos sociais podem ser normais e pa- tológicos, sendo normal aqueles que independem do indivíduo, em outras palavras, são superiores a ele e acabam sendo obrigatórios, já o patológico é o contrário disso.