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"Nesse lugar, onde muitos só enxergam a violência, nasce uma nova maneira de contar os tempos da cidade, a partir do diálogo, da troca e do respeito à diversidade cultural. O Museu da Maré é um convite à construção desse novo tempo". Frase afixada na entrada do museu Entrada principal ao Museu (2018) Panorama geral do Museu (2018) Muro de boas vindas do Museu (2018) Entrada que dá acesso as exposições (2017) PARCERIA COM O CEASM No final dos anos noventa, a Maré era apontada como o terceiro bairro de pior índice de desenvolvimento humano da cidade já que a população da Maré não parou de crescer, recebendo imigrantes, sobretudo dos estados do Nordeste e Minas Gerais que por sua vez não possuíam acesso à educação. É neste cenário nada promissor que um grupo de jovens moradores, que a despeito das precárias condições de educação na região havia chegado à Universidade, esses jovens fundam o CEASM, Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré que é uma associação civil sem fins lucrativos, cuja primeira iniciativa centrou- se num Curso de Pré-Vestibular para estimular o ingresso dos jovens nas universidades. O curso era realizado em uma sala cedida por uma igreja do Morro do Timbau. Com o tempo e o sucesso do Curso de Pré-Vestibular e outros projetos, o CEASM conseguiu adquirir duas sedes: uma no Timbau e outra na Nova Holanda. Mais tarde, conquistou a oportunidade de utilização do espaço da antiga Fábrica de Transportes Marítimos (Cia Libra de Navegação). A localização da antiga Fábrica de Transportes Marítimos tratava-se de uma área de ampla e fácil acesso, por esse motivo foi cedida para sediar o Museu da Maré. Sede do CEASM localizada no morro do Timbau (2017) FUNDAÇÃO DO MUSEU A necessidade de eternizar as memórias da Maré surgiu a partir da tomada de consciência de jovens moradores, que ao decidirem desenvolver um vídeo comunitário para registrar a fala dos mais velhos e contar a história do lugar onde viviam se viram surpreendidos por uma história que não conheciam. Na busca de sua própria identidade estes jovens mergulharam num processo de pesquisa sobre a história local, que já não se limitava apenas ao depoimento oral, mas avançava em outras formas de registro documental, principalmente num processo quase arqueológico de identificação de imagens, já que o objetivo principal era o de realização de um vídeo que contasse a história do lugar. Nesse trabalho conseguiram reunir um considerável volume de informação e como resultado desse engajamento no trabalho de memória, foi constituída a Rede Memória da Maré, que passou a desenvolver, de forma institucional, uma série de projetos voltados para a preservação da história local. No esforço de garantir uma historiografia local, que seja inclusiva e situe o processo histórico da Maré no contexto da história da cidade e do país, a Rede Memória produziu um texto fundador chamado “História da Maré”. Por fim, o desejo de memória chegou às últimas consequências após a proposta de sediar o Museu na antiga Fábrica de Transportes Marítimos e assim no dia oito de maio de 2006 foi inaugurado o Museu da Maré. “Favela tem direito à memória” – Intervenção do Coletivo Projetação na Praça do Parque União. ORDEM DE DESPEJO (2014) O Museu da Maré está instalado num imóvel que foi cedido por dez anos em comodato para o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (Ceasm), ONG gestora do Museu no qual tem um documento de empréstimo assinado com a empresa proprietária do terreno, a Companhia Paulista de Navegação, que faz parte do Grupo Libra de Comércio Marítimo. No final de agosto de 2014, um dos diretores entrou em contato com os representantes do Museu da Maré para dizer que não havia mais interesse por parte da empresa em renovar o comodato, estabelecendo o prazo de 90 dias para desocupação do terreno. No mês de setembro chegou uma notificação ao Museu da Maré decretando o prazo para o início de dezembro. Os representantes do Museu da Maré buscaram apoio e criaram o movimento “Museu da Maré resiste!” que conta com a adesão de várias pessoas. No dia 18 de outubro de 2014 foi realizado um ato pelas ruas do Complexo da Maré com a participação de moradores, movimentos sociais, sociedade em geral, entre outros, reivindicando a permanência do Museu da Maré. O ato em defesa ao Museu da Maré, em 2014, em direção à avenida Brasil durante as pacificações. CANVAS – MODELO DE NEGÓCIOS PROPOSTA DO MUSEU Podemos perceber a proposta deste museu pela apresentação que encontramos no site de museus do Rio. Ao acessarmos o link, nos deparamos com a seguinte afirmação: O Museu da Maré, fundado no dia oito de maio de 2006, surgiu a partir do desejo dos moradores de terem o seu lugar de memória, um lugar de imersão no passado e de olhar para o futuro, na reflexão sobre as referências dessa comunidade, das suas condições e identidades, de sua diversidade cultural e territorial. Deste modo percebemos que sua proposta está fortemente vinculada a uma dimensão coletiva, social e comunitária, cujo o objetivo é o de preservar e divulgar a histórias das comunidades da Maré, em seus mais amplos aspectos, sejam eles culturais, sociais ou econômicos afim de criar uma identidade, fortalecendo os pontos positivos da favela, bem como a autoestima dos moradores. As ações propostas no Plano Museológico, contemplam o programa institucional, de acervos, de exposição, educativo cultural, de pesquisa e de divulgação da iniciativa. O museu conta a participação voluntária da comunidade local e a colaboração de professores universitários e técnicos do Departamento de Museus e Centros Culturais do IPHAN. RENDA DO MUSEU A renda do museu provém, preponderantemente, da inscrição de editais disponibilizados pela FAPERJ, os fundos arrecadados nesses editais são utilizados para a manutenção do espaço e pagamento de alguns funcionários. Para além dos editais, o museu disponibiliza o aluguel de um galpão, usualmente ele é utilizado para sediar eventos culturais na Maré, como por exemplo rodas de debate, exibição de documentários, entre outros fins. Nas dependências do museu há uma loja chamada Marias da Maré que apresenta uma linha de itens artesanais produzidos pelos artesões da Maré. Ela comercializa produtos de qualidades, como: camisetas, blocos de anotações, chaveiros, dentre outros. E todos os itens que estão a venda foram doados por artesãos. Vale ressaltar que todo o dinheiro arrecadado com as vendas é voltados para o museu. O museu não obtém nenhuma ajuda do estado, nem patrocinadores ou até mesmo qualquer instituição privada. Possuindo como fontes rendáveis apenas os itens citados anteriormente, porém, não tem sido o suficiente para suprir todas as necessidades internas do museu, que por consequência atrapalha no desenvolvimento do museu, visto que ele não tem renda fixa por mês. Galpão (2018) Interior da loja Marias da Maré (2018) MELHORAMENTO DA RENDA Durante o estudo dos serviços prestados pelo Museu da Maré e pelas informações que foram contatadas, o grupo elaborou algumas possíveis soluções para auxiliar o desenvolvimento de renda no museu, dentre eles: • Criar parcerias com empresas de turismo, afim de expandir o público do museu e entrar em com novas pessoas; • Adesão de um valor simbólico ao ingresso de 2 a 5 reais, em alguns dias da semana. O dinheiro arrecadado teria como prioridade a manutenção do espaço na parte estética e assim será possível tornar o museu mais atraente para os visitantes. • Estabelecer um sistema colaborativo entre os próprios moradores, funcionários e outros projetos da Maré para promover Bazares e Cantinas Colaborativas a partir de doações feitas pelos mesmos. LEGENDA LIMITE DO MUSEU DA MARÉ RUAS Distância entreo museu e o ponto de ônibus mais próximo LOCALIZAÇÃO O museu está localizado no meio do maior complexo de favelas do Rio, a Maré, mais precisamente na Avenida Guilherme Maxwell, 26, atrás do antigo Sesi. Localizado próximo ao entroncamento da Avenida Brasil com as linhas Amarela e Vermelha, sendo a Linha Amarela o caminho mais próximo de se chegar ao museu. Imagens: Google Earth (2019) PROBLEMAS DA LOCALIZAÇÃO Apesar da proximidade com as três vias mais importantes do Rio de Janeiro, à saber linhas vermelha e amarela e Avenida Brasil. O espaço é compreendido no contexto da cidade como um lugar de violência, principalmente a partir da ação midiática, que sempre destaca nos noticiários os conflitos entre as facções do narcotráfico instaladas no local e as ações policiais. Esta realidade impõe uma permanente tensão e o fato de haver um domínio marcado pela territorialidade, com limites definidos entre os grupos rivais, acaba por reforçar a fragmentação do espaço. Me diga: quem vai visitar esse museu, logo na Maré, tão dividida por facções? Comentário de Tereza — 9/05/2006 Esse negócio de glamourizar favelas em vez de promover a sua extinção via remoções ou reurbani- zação levou o Rio à situação que se vê hoje Comentário de The Talking Cricket — 9/05/2006 Que lembranças terríveis são essas q as pessoas querem tanto guardar na memória. Morar em palafitas, sem rede de esgoto e inúmeras dificul- dades enfrentadas. Sem contar o que já foi dito anteriormente. Com a insegurança predominante nas favelas, quem irá visitar esse museu? Comentário de Isaias — 10/05/2006 (www.nominimo.com.br) Comentários reais retirados de um artigo encontrado no acervo museu sobre a sua inauguração em 2006. EXPOSIÇÕES MAPA DAS EXPOSIÇÕES UM MUSEU EM DOZE TEMPOS O museu tem como exposição permanente a mostra “12 tempos”, que representa os tempos de construção da Maré, entre eles, tempo da água, tempo da casa, tempo da migração, tempo da resistência, tempo do trabalho, tempo da festa, tempo da feira, tempo da fé, tempo do cotidiano, tempo da criança, tempo do medo e tempo do futuro que foi substituído por uma exposição temporária de vida da Marielle Franco, ex-moradora da Maré e ex- vereadora. Ao todo são doze exposições de longa duração (tempos), ressignificando o tempo cronológico que tem nesse número uma especial referência, pois são doze as horas do relógio e os meses do ano. O museu compreende o tempo, ao mesmo tempo, de modo diacrônico e sincrônico, ele dialoga com relógios, calendários, cronômetros e diferentes ritmos naturais e sociais. Os objetos de seu acervo foram reunidos a partir da doação dos moradores e o museu é uma das principais fontes de estudos sobre a memória e a história da favela e o seu acervo reúne mais de três mil e duzentos itens, é composto por mapas, vídeos, fotografias, recortes de jornais e outros documentos textuais, objetos pessoais, objetos de uso doméstico, alfaias de faina, alfaias religiosas e brinquedos. A exposição foi criada com base na história da Maré e no arquivo pessoal de Orosina Vieira, uma antiga moradora do morro do Timbaú e uma das precursoras das ocupações iniciais na região da Maré, por volta da década de 1930. TEMPO DA ÁGUA A primeira sala de exposição é toda azul, um azul intenso e vibrante que expressa a cor da maré, a maré que regulou durante anos a vida dos moradores da região. Maré baixa, maré alta, sinalizando o tempo de chegar em casa e o tempo de permanecer nela. Quando a maré ficava alta não dava pra andar nas pontes que ligavam as casas de palafitas. Uma placa sinaliza o “Tempo da Água”, escrita em uma tipografia que propositalmente se assemelha as escritas dos barcos antigos que transitavam na Baia de Guanabara. Esse tempo tem bastante simbologia, além do mais, era o tempo de fartura e de pobreza; fartura de peixes, pobreza de saneamento urbano e de condições de moradia e saúde. Nas paredes encontramos fotografias antigas que detalham as cenas sensíveis do cotidiano, como por exemplo crianças brincando nas pontes de tábuas que dão acesso às casas de palafitas mesmo sabendo que qualquer descuido elas poderiam cair na maré. Cenas que emocionam e fazem a visitante refletir sobre a vida e de como ela é repleta de sentido, imagens e cores. Em uma das extremidades do “Tempo da Água” encontramos diversos artefatos expostos, artefatos esses que buscavam ilustrar o modo de vida daquelas pessoas. Dentre todas as coisas, o que salta aos olhos são os barris enormes com rodas que serviam para transportar a água já que não havia saneamento básico e tratamento de água e esgoto. Tempo da Água (2018) Indicação do Tempo da Água com letras que imitam as que eram usadas nos barcos (2018) Algumas fotos que ilustram as fases da Maré (2018) TEMPO DA CASA O “Tempo da Casa” escrita em uma tipografia que intencionalmente se assemelha as placas que eram encontradas nas entradas das casas, é um dos tempos com maior impacto ao visitante, pois diante da palafita- habitação de madeira apoiada sobre estacas o visitante é levado à compreensão da dimensão humana, ancestral e arquetípica desse formato de casa. Por conta de se tratar de uma região cheio de mangues os recém- chegados tiveram que construir sobre a lama e começaram a fazer casas de palafitas e por esse motivo tornou-se o símbolo maior da Maré, que chegou a ser signo da miséria nacional nos anos 80. A cor da palafita é azul, mas não o azul monótono e frio das paredes lisas. “É um azul de muitos tons, que representa cor das águas e do céu e da vida, mutável conforme a luminosidade dos dias, os anúncios de tempestades, os fluxos do mar e os dramas da existência”, como explica um dos organizadores do museu, Antonio Carlos Pinto Vieira. No interior da palafita existem velhas fotos retocadas, um calendário antigo, muitos quadros, como por exemplo o Menino Jesus de Praga, todos acima da velha cama patente. Sobre o guarda-roupa há malas de couro e papelão, denunciando que quem vive certamente veio por migração. O telhado é pesado, de telhas de barro tipo francesas, em duas águas, de acabamento irregular, tem frestas e goteiras. Da casa de palafitas vemos as roupas no varal de roupas brancas, que eram usadas pelas pessoas, uma curiosidade é que elas são brancas por conta de serem mais baratas que as coloridas, por conta dos tingimentos. Da palafita e é possível ter um panorama geral de todos os tempos . Indicação do Tempo da Casa (2018) O grande símbolo do museu, uma palafita em tamanho real que representa o “Tempo da Casa” (2018) Interior da palafita (2018)Exterior da palafita (2018) TEMPO DA MIGRAÇÃO O espaço é de um tom alaranjado forte quase avermelhado, “cor da terra do sertão, de onde vieram os primeiros migrantes” como explica Marcelo Pinto Vieira, cenógrafo, morador do Timbau e responsável pelo projeto museográfico. Uma placa sinaliza o “Tempo da Migração”, escrita em uma tipografia que propositalmente se assemelha às utilizadas nos caminhões de pau- de-arara, bastante marcante no cotidiano daquelas pessoas. O singelo espaço destinado à memoria dos tempos de migração é composto por paredes de pau a pique (feitas de barro e madeira) que representam o estilo das casas dos migrantes já que essa técnica é de baixo custo e muita das vezes feito com materiais encontrados na própria natureza. Entretanto essas construções por muito tempo foram diretamente relacionadas à doença de Chagas, por conta frestas nas paredes onde o barbeiro (parasita) pode se esconder. Nas paredes encontramos objetos antigos que eram usados nas casas, como rádios analógicos que eles usavam para ouvir as notícias e outros objetos que podemos dizer que são, majoritariamente, nordestinos pelo uso damadeira, revestimento em couro, entre outras coisas características do sertão nordestino. Mais abaixo está disposto uma mesa com três tamanhos de malas, nas quais as pessoas colocavam todos os seus bens para a longa viagem. Os migrantes, que vinham de pau-de-arara, uma espécie de caminhão adaptado com bancos de madeira demoravam aproximadamente 4 dias até desembarcarem no Rio de Janeiro e muito deles não sobreviviam a viagem devido à precariedade do transporte e a superlotação dos caminhão. Indicação do Tempo da Migração com letras que imitam as que eram vistas nos caminhões pau-de-arara (2018) Artefatos expostos no Tempo da Migração (2018) Parede de pau a pique (2018) Coleção de areias, cada garrafa possui um exemplar de areias recolhidas pelo mundo todo trazidas pelos visitantes (2018) TEMPO DO TRABALHO E TEMPO DA RESISTÊNCIA A primeiro impacto os visitantes ao descerem do “Tempo da Casa” são confrontados com uma outra placa: “Tempo do Trabalho” escrita de uma maneira a aludir ripas de madeiras. No espaço existem algumas fotos indicam o trabalho cotidiano, os trabalhadores e seus gestos de trabalho. Varrer as ruas, lavar as roupas, fazer obras em mutirão. O “Tempo do Trabalho” se mistura com o “Tempo da Resistência”, até porque muito material de trabalho (tijolos, areia, madeira e cimento) serviu para a construção da resistência... Numa pequena vitrine, podemos ler notícias em jornais artesanais, documentos singelos da união de alguns moradores lutando por melhores condições de vida na região e também as primeiras associações de moradores. Menções à Dona Orosina, mulher combativa que defendia seu território portando um temível facão e uma garrucha, líder que ficou na lembrança do imaginário popular. Dona Orosina Vieira, considerada uma das primeiras moradoras da Maré. Tempo do Trabalho (2018) Tempo da Resistência (2018) A tipografia do “Tempo da Festa” incita a imaginação do visitante a lembrar coisas alegres, dada as cores e o arranjo tipográfico ali representados. O “Tempo da Festa” exemplifica as folias, blocos e carnavais que tiveram seu início na Maré e no acervo é possível ver o estandarte, o bumbo, a cuíca, o pandeiro, símbolos da festa maior dos rituais populares, o carnaval O primeiro bloco que surgiu se chamava “Mataram meu gato” e esse nome foi dado a partir da história de uma fatídica moradora chamada Maria Dentão que não gostava de muita conversa e também não gostava muito dos meninos de sua vizinhança. Sempre que a bola caía em seu quintal, ela destruía. Certo dia, os rapazes resolveram se vingar. Caçaram o gato de estimação de Maria Dentão, e fizeram um ensopado com ele. Maria não demorou a descobrir o que acontecera com o bichano, e foi diretamente ao posto policial dar queixa do acontecido, bradando desesperadamente: "Mataram meu gato, mataram meu gato" e assim surgiu o nome do bloco. TEMPO DAS FESTAS Tempo da Festa com imagens de festas que aconteceram na Maré e também a primeira bandeira do Bloco ‘Mataram meu Gato’ (2018) O “Tempo da Feira” é um dos tempos com o menor número de peças do acervo, pois se trata apenas de um acontecimento no cotidiano dos moradores, que são as feiras que vendem frutas e legumes. Essa feira ocorria na principal rua da Nova Holanda em um trecho de aproximadamente 500 metros, dispostos de barracas nas quais os feirantes ofereciam seus produtos aos moradores. O acervo possui dois tipos de balanças que eram utilizados pelos feirantes, com seus pesos e suas medidas para dar a sensação do visitante de total imersão naquela realidade. TEMPO DA FEIRA Tempo da Feira (2018) A sala é onde é reservado o “Tempo do Cotidiano” é margeada por instalações de tijolos, massas de cimento batido, telhas, basculantes, emoldurando fotografias de interiores das casas, como mulheres com filhos ao colo e cozinhando, crianças sentadas nas camas, temos a ilusão de poder observar na intimidade o interior das novas casas, aquelas que substituíram as antigas palafitas, casas de tijolo, cimento e laje. Casas sólidas e em permanente construção, para ilustrar a demora da construção definitiva da Maré, convivendo com a fugacidade dos dias, das noites, dos moradores, das paisagens. Uma instalação que salta aos olhos é a representação de um bar simples, no qual há milhares de exemplares de garrafas de bebidas que eram facilmente encontradas no cotidiano das pessoas naquela época, das mais diversas marcas e tipos, como por exemplo engradados de garrafas de vidro da Coca-Cola ou garrafas de Jurupinga, uma bebida alcoólica bastante famosa entre os jovens. Todas as garrafas foram doadas por moradores da Maré ou visitantes dos mais diversos estados do Brasil. TEMPO DO COTIDIANO Tempo do Cotidiano (2018) Recriação de uma barbearia antiga (2018) “Botequim” (2018) Exterior do “botequim” (2018) Atravessando essa sala plausível observar uma sala fechada com uma renda branca, ao adentrar percebemos que é o “Tempo da Fé”. No Tempo da Fé ou da religiosidade, não há nenhuma religião privilegiada, há uma clara indicação dos hibridismos, das miscigenações culturais. É possível observar numa mesma vitrine objetos ligados aos cultos afro-brasileiros, ao espiritismo, ao catolicismo popular e aos evangélicos protestantes. A escultura de Nossa Senhora dos Navegantes que esteve exposta durante algum tempo voltou para a igreja; a imagem de São Jorge, cedida pela paróquia, está em exposição, mas poderá a qualquer momento sair do nicho da cultura e voltar para o seu lugar de culto. TEMPO DA FÉ Tempo da Fé (2018) Panorama geral do Tempo da Fé (2018) Essas peças são promessas de cura que as pessoas pediam e se curadas elas faziam uma prótese do membro em sinal de gratidão (2018) No “Tempo das Crianças” os visitantes se deparam com um cenário alegre, no qual os jogos espalhados pelo chão em caixas de areia, cobertas por placas de vidro muito resistente. É possível caminhar sobre essas placas de vidro, o que produz um sentido lúdico para esse setor da exposição. Ali estão bolas de gude, patinetes, carrinhos de rolimã, piões, pipas, atiradeiras, bambolês, patas de cavalo, petecas, telefones sem fio... Brincadeiras de outros tempos, brincadeiras de crianças que faziam seus próprios brinquedos e reciclavam sobejos com as alegrias infantis. TEMPO DAS CRIANÇAS Tempo da Criança (2018) Placas de Vidros no chão com brinquedos dentro (2018) Na tempo do medo, espalham-se tábuas de madeira pelo solo onde somos forçados a pisar e tropeçar. Tudo é muito instável, como eram instáveis as pontes de tábuas que ligavam as casas de palafitas, como ainda hoje é instável a realidade dos moradores da Maré. A instabilidade do solo de tábuas é absolutamente proposital e por elas somos conduzidos a um espaço escuro, fechado, com as paredes pintadas de preto. Pequenas prateleiras com cápsulas de balas de vários calibres recolhidas nas ruas da Maré nos indicam que ali não há espaço para a descontração. O texto exposto na parede sinaliza a gravidade do que se tenta exprimir neste setor da exposição: “Quais são os nossos medos? / No tempo do medo havia tábua podre,/ Criança caindo na água/ Ventania, tempestade, ratos, remoções.../No tempo do medo, existe a bala perdida,/ Violência, morte bruta.../O medo que nos assombra pode nos paralisar/ Tanto quanto nos motivar a lutar/ Pela transformação da realidade.” O módulo do “Tempo do Medo” é uma parada estratégica. Ela provoca instiga e incomoda os visitantes. São centenas de cápsulas de balas amontoadas ao centro do espaço e recobertas por uma cúpula de vidro na intenção evidente de formar um monumento. TEMPO DO MEDO Tempo do Medo (2018) Capsulas de balas (2018) Na parede há negativos de perfuraçõesnas paredes feitas por balas durante os confrontos na comunidade (2018) Na exposição Retratos da Marielle o intuito do museu foi homenagear uma personagem de extrema relevância na comunidade da Maré. Marielle Franco foi mulher, negra, mãe e socióloga com mestrado em Administração Pública. Em 2016 foi eleita Vereadora da Câmara do Rio de Janeiro filiada pelo PSOL, com 46.502 votos e foi também Presidente da Comissão da Mulher da Câmara, entretanto, no dia 14/03/2018 ela e seu motorista sofreram um atentado ao seu veículo, no qual não sobreviveram. Ela nasceu e cresceu na comunidade, e se apresentava com orgulho como "cria da Maré“ e estava envolvida diretamente com vários projetos sociais da região. A exposição trata-se de uma pequena reflexão acerca da trajetória de vida da Marielle, com um mapa desenhado na parede apelidado de Pontes entre Brasil e Quênia. No quarto em que está a exposição, há uma fila de fotos com o rosto da Marielle, cada foto com um desenho diferente e logo o visitante observa um enorme corredor com enfeites pendurados e imagens que fazem parte de um vídeo em stop motion em homenagem à Marielle. RETRATOS DA MARIELLE (EXPOSIÇÃO TEMPORÁRIA) Marielle Franco, ex-vereadora e ‘cria’ da Maré. Marielle Franco em um ensaio fotográfico no Morro do Timbau (2016) Retratos de Marielle, criando pontes entre Brasil e Quênia (2018) Imagens do stop motion espalhadas pela parede (2018) OBRIGADO Disciplina: Elementos de Projeto de Serviço Professor: Wandyr Hagge Ester Oliveira Isaac Passos Thayná Barreto Vitória Souza Vivian Marinho