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AT 1 2 32 S U M Á R IO 3 UNIDADE 1 - Introdução 5 UNIDADE 2 - Psicologia da Educação 5 2.1 Definição e histórico de psicologia 6 2.2 Behaviorismo: contribuições essenciais 8 2.3 Psicanálise: contribuições essenciais 12 2.4 Psicologia da Educação 20 UNIDADE 3 - O Desenvolvimento do Estudante 21 3.1 Concepção inatista x Concepção ambientalista 24 3.2 Piaget e a aprendizagem 24 3.2.1 Conceitos principais 26 3.2.2 Estágios de desenvolvimento cognitivo 32 3.2.3 Piaget e a aprendizagem 32 3.3 Vygotsky e a aprendizagem 35 3.4 Fases do desenvolvimento psicossexual de Freud e implicações na aprendizagem 41 UNIDADE 4 - Psicologia da Aprendizagem 41 4.1 Aprendizagem e psicologia da aprendizagem 42 4.2 Processos psicológicos do estudante e a aprendizagem 46 4.3 Teorias da Aprendizagem 49 4.4 Afetividade, autoestima, relações interpessoais e aprendizagem 55 4.5 Dificuldades de aprendizagem 56 4.6 Habilidades metalinguísticas 58 REFERÊNCIAS 2 33 UNIDADE 1 - Introdução Talvez possa parecer estranho numa apostila de Psicologia da Educação, ao invés de citarem-se as obras originais, você se de- parar com o estudo de obras clássicas (tais como Freud, Piaget e Vygotsky) citados a partir de outras obras (também conceitua- das, como renomados livros de Desenvolvi- mento humano ou Teorias da Personalida- de). Isso não ocorreu devido à dificuldade em localizar o original, visto que são obras disponíveis em livrarias, para venda, em bibliotecas públicas e algumas delas ainda disponíveis no domínio público, na internet. A escolha desse tipo de consulta (fonte in- direta) das obras de deu pelo seguinte crité- rio: tempo de execução de material e limite de páginas. Como será possível observar a seguir, muitos temas serão abordados, al- guns bastante densos, portanto, a leitura dos originais tornaria a compilação e reda- ção ainda mais extensa. A pesquisa a partir de uma fonte indireta não é a opção mais recomendada, mas devido a esse caso foi a opção mais viável e, por se tratar de obras renomadas, de conteúdo fidedigno e já mais sucinto, o conteúdo se tornou mais apro- priado para a redação da apostila. Também já justificamos o uso de algumas citações de citações (apuds), o que não é recomendado do ponto de vista da metodo- logia da pesquisa, porém, se fez necessário em algumas situações devido à dificulda- de em se localizar algumas obras originais. Sugerimos que, na introdução, anotem as questões que mais despertaram sua curio- sidade ou dúvidas e após o estudo da apos- tila revejam se as mesmas ficaram realmen- te claras. Enquanto orientadores, sempre orien- tamos a pesquisa de materiais recentes, porém, ao se utilizar obras clássicas (como nesses casos) isso não se faz possível – ain- da mais em caso de livros que já possuem edições mais recentes, porém lançamos mão de cópias mais antigas. Fora isso, é sempre importante mantermos o conheci- mento científico atualizado! Quando vamos estudar – ou nos aper- feiçoar – em determinada área de saber e surge uma disciplina um pouco diferente daquela de nossa formação sempre surge aquela pergunta: “Por que preciso saber isso?” No caso de vocês, profissionais da educação, essa pergunta já foi respondida durante a graduação. Vocês já tiveram suas satisfações e crí- ticas com a psicologia enquanto teoria e instrumento de aplicação prática em suas salas de aula. Nossa proposta aqui é tentar criar mais pontos de satisfação e diminuir as críticas destrutivas com essa disciplina tão próxima da educação. Tão próxima que nas- ceu de uma base comum com a educação e a pedagogia, que também são da área de hu- manas: somos irmãos, filhos de uma mesma filosofia: Normalmente os historiadores da Psicologia identificam suas primeiras raízes em duas abordagens diferentes para a compreensão da mente huma- na: A Filosofia busca entender a natu- reza geral de muitos aspectos do mundo, parte por meio da introspecção, ou seja, o exame das ideias e experiências internas (intro = para dentro; spectione = olhar, inspecionar). 4 54 A Fisiologia busca um estudo cien- tífico das funções vitais dos organismos vivos, basicamente por meio dos méto- dos empíricos (baseados na observação) (STEINBERG, 2010, p.3). Convidamos vocês a partirem para esse mundo da observação – que descende da nossa herança fisiológica – e conhecer mais nosso aluno e como ele aprende. A temática “Psicologia da Educação” é muito ampla, sendo necessária, para a con- fecção do material, uma seleção criteriosa de temas, teorias e materiais que servissem de subsídio teórico para que o profissional da educação possa fazer uma observação criteriosa de sua prática em busca de apri- morá-la, detectar pontos de melhoria, visar a melhoria das relações interpessoais, en- caminhar o aluno para acompanhamento profissional, quando necessário. Inicialmente, pretende-se conceituar a psicologia e apresentar o Behaviorismo e a Psicanálise, sempre articulando as escolas psicológicas com a educação. Em seguida, nessa mesma seção, visa-se apresentar os conceitos de psicologia educacional e esco- lar, assim como diferenciar a práxis do psicó- logo educacional como oferecer subsídios teóricos da psicologia para a equipe multi- profissional que atua na escola. Na outra seção, inicia-se falando sobre o processo de desenvolvimento do estudan- te, enfatizando-se as concepções inatistas e ambientalistas. As teorias de Freud e Pia- get sobre o desenvolvimento serão explo- radas. Na última parte do trabalho, falaremos das teorias da aprendizagem de Piaget, Vygotsky, Freud e Knowles, visando dife- renciar os processos de aprendizagem da criança e do adulto. Aspectos cognitivos, afetivos e relacionais serão apresentados como facilitadores ou dificultadores do pro- cesso de aprendizagem. Os principais materiais pesquisados para a confecção dessa apostila foram Ga- zzaninga e Heatherton (2005), Papalia, Olds e Feldman (2006), Cole e Cole (2005), Coll, Marchesi e Palacios (2004), Cassins et al. (2007), Hall; Lindzey(1984), Schultz, Schultz (1992), dentre outros. Bons estudos! 4 55 UNIDADE 2 - Psicologia da Educação 2.1 Definição e histórico de psicologia Neste momento não iremos aprofundar no estudo do histórico da psicologia, visto que isto fugiria do escopo desta apostila, apenas citaremos alguns autores, escolas e linhas de pensamento que foram signifi- cativas no contexto histórico e que, ainda hoje, são relevantes no contexto da psico- logia educacional. Os teóricos e teorias cita- dos nessa seção serão devidamente apro- fundados em momentos oportunos nesse mesmo material. Recuperar a história da psicologia se faz necessário, visto que somente dessa forma compreenderemos sua diversida- de hoje e sua relação com áreas do co- nhecimento como antropologia, socio- logia, educação, filosofia, dentre outras (MAIA, 2008, p.14). A palavra “Psicologia” remete ao grego psyché, que significa “alma”, e logos, que significa “razão”. Assim, inicialmente com- preende-se psicologia como o estudo da alma (MAIA, 2008). Schultz e Schultz (1992) elucidam que para a sua efetivação enquanto ciência e profissão – tal como se estabeleceu nos dias de hoje – a psicologia sofreu influência da fisiologia e da filosofia. “Sabe-se que a psicologia se desenvol- veu no fim do século XIX como fruto da fi- losofia e da fisiologia experimental” (HALL, LINDZEY, 1984, p.3). Descartes (1596-1650) inaugurou a psi- cologia moderna ao sugerir que a mente in- fluencia o corpo, ao mesmo tempo em que o corpo pode exercer sobre a mente uma influência maior do que até então se supu- nha, o que é um grande avanço, pois, desde as ideias de filósofos clássicos, como Pla- tão, acreditava-seque a mente (ou alma) e o corpo possuíam naturezas diferentes. Observa-se que aqui já não se fala mais em alma, como na definição clássica de psico- logia, mas em mente (SCHULTZ; SCHULTZ, 1992). A ideia mais radical de Descartes foi sugerir que, embora a mente conse- guisse afetar o corpo, o corpo também conseguia afetar a mente. Por exem- plo, ele acreditava que paixões, como amor, ódio, tristeza, surgiam do corpo e influenciavam os estados mentais, em- bora o corpo agisse sobre essas paixões por meio de seus mecanismos. Dessa maneira, Descartes aproximou mente e corpo ao focalizar suas interações (GAZ- ZANIGA; HEATHERTON, 2005, p.48). Maia (2008) ressalta que a psicologia co- meçou a se fazer presente no final do sécu- lo XIX, na Alemanha. Dentre os estudiosos alemães, podemos destacar Wundt, Weber e Fechner. Wundt (1832-1920) merece destaque, reconhecido como o fundador da psicologia experimental enquanto disciplina acadêmi- ca. Antes dos seus estudos não acreditava- -se que os fenômenos psicológicos podiam ser estudados experimentalmente, apenas que esses podiam ser descritos e discuti- dos (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005). “A psicologia de Wundt recorreu aos métodos 6 7 experimentais das ciências naturais, parti- cularmente às técnicas usadas pelos fisiolo- gistas [...]. O objeto de estudo de Wundt era, em uma palavra, a consciência” (SHULTZ; SCHULTZ, 1992, p.81). Os estudos sobre a psicologia não se res- tringiram à Alemanha, logo a corrente se espalhou pelos Estados Unidos, de onde podem se destacar os estudos de Titchner (1867-1927), que ampliou a corrente de Wundt e a denominou de Estruturalismo (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005; MAIA, 2008). James (1842-1910), também dessa cor- rente fora da Alemanha, criticou o Estru- turalismo e criou a o Funcionalismo, outra corrente psicológica que também só será citada (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005; MAIA, 2008). A partir dessas correntes psicológicas surgiram várias outras linhas, muitas das quais de vital importância para a psicologia enquanto ciência e profissão até os dias de hoje. Entende-se que a psicologia pode ser aplicada diretamente pelo profissional da psicologia em diferentes contextos, como, por exemplo, clínico, educacional, hospi- talar, jurídico, dentre outros, ao mesmo tempo que pode servir de subsídio para o entendimento do funcionamento psíquico do ser humano. Por isso, a psicologia é uma disciplina que serve como base para a for- mação de outros profissionais que também lidam com seres humanos – sejam das áreas da saúde, educação ou humanas, por exem- plo – e carregam, desde os seus primórdios, as bases na filosofia e na fisiologia – assim como a psicologia – como pudemos obser- var nesse breve histórico. No decorrer do contexto histórico da psi- cologia, a partir desse momento histórico em que definimos até aqui, surgiram duas escolas psicológicas que são de interesse para o profissional da educação: o behavio- rismo (ou comportamentalismo); e a psica- nálise. Falaremos brevemente das mesmas agora ao enquadrar as mesmas dentro de um contexto histórico e, logo a seguir, tra- remos a contribuições necessárias dessas escolas para a Educação. “Behaviorismo - Nasceu nos Estados Uni- dos, com Watson, elevando o status de ciên- cia à psicologia. Seu principal representante é Skinner” (MAIA, 2008, p.16). Seu fundador foi Watson (1878-1958), mas teve também outro nome de grande importância, Skinner (1904-1990). O behaviorismo ou comporta- mentalismo enfatiza o papel do ambiente no comportamento (SCHULTZ; SCHULTZ, 1992; GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005). “Psicanálise – Nasceu com Freud, na Áus- tria, a partir da sua prática médica. Postula o inconsciente como objeto de estudo. En- fatiza que determinados impulsos instinti- vos seriam de origem sexual” (MAIA, 2008, p.16). Segundo Freud (1856-1939), criador da psicanálise: “Todas as criações humanas, sem exceção – os esportes, as artes, a ci- ências, entre outras, estão ancoradas num desejo sexual indestrutível que constitui o núcleo do inconsciente” (JORGE; FERREIRA, 2002, p.7-8). 2.2 Behaviorismo: contri- buições essenciais O behaviorismo ou comportamentalismo preconiza uma abordagem mais científica da psicologia e, em linhas gerais, enfatiza o papel das forças ambientais no compor- tamento humano. Os primeiros estudos dos behavioristas (comportamentalistas) aconteceram em laboratórios de psicologia, 6 7 com animais. (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005). Segundo Papalia, Olds e Feldman (2006), nessa abordagem, o indivíduo mostra-se passivo perante seu desenvolvimento, já que o ambiente desempenha um papel principal, ou seja, as pessoas são reativas e o ambiente controla o comportamento. Dentre os teóricos behavioristas, mere- ce destaque Skinner, que desenvolveu mui- tos estudos com animais em laboratórios de psicologia para investigar o comportamento destes. Ele desenvolveu a caixa de Skinner, local onde desenvolveu técnicas de reforço e condicionamento em ratos, as quais po- diam ser adequadas posteriormente para serem aplicadas em pessoas, como técni- cas de aprendizagem (SCHULTZ; SCHULTZ, 1992, GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005; MAIA, 2008). Segundo Maia (2008), Skinner carrega consigo a visão de que o indivíduo é uma tábula rasa e que precisará do meio para ser preenchido e moldado. Essa visão será aprofundada a seguir com a visão ambien- talista. Assim, no que diz respeito à aprendiza- gem, para Skinner, a aprendizagem ocorre através da influência dos estímulos do meio, por isso o autor defende que os estímulos precisam ser condicionados (MAIA, 2008). Para o behaviorismo há dois tipos de com- portamento que merecem destaque para nós: o respondente e o operante. Segundo Schultz e Schultz (1992), no comportamen- to respondente “a resposta comportamen- tal é suscitada por um estímulo observável específico” (p.281), enquanto que no condi- cionamento operante “a resposta do orga- nismo é aparentemente espontânea – no sentido de não estar relacionada com ne- nhum estímulo observável” (p.281). Segundo Maia (2008), relacionam-se ao comportamento respondente (refle- xo) as interações estímulo-resposta en- tre ambiente-sujeito incondicionadas, ou seja, aqueles comportamentos provocados por estímulos antecedentes ao ambiente (exemplo: arreio de frio). Por outro lado, o comportamento operante é intencional, são aqueles relacionados diariamente de forma desejada (exemplo: ler um livro). Pa- palia, Olds e Feldman (2006) sintetizam a definição de comportamento operante ao afirmar que nesse tipo de aprendizagem a pessoa repete o comportamento que foi reforçado e cessa o comportamento que foi punido. “Outra diferença entre o comportamen- to respondente e o operante é que o com- portamento operante opera no organismo, ao passo que o respondente não o faz” (SCHULTZ; SCHULTZ, 1992, p.281). Entende-se como reforço qualquer estí- mulo que possibilite o aumento da probabi- lidade de resposta, podendo os reforços ser positivos ou negativos. (MAIA, 2008). Os reforços são mais eficazes quando seguem um comportamento imediatamente. O reforço positivo consiste em dar uma recompensa, como comida, troféu, dinheiro, elogio – ou brincar com um bebê. O reforço negativo consiste em tirar alguma coisa que o indivíduo não gosta (conhecido como evento aversi- vo), como, por exemplo, um ruído intenso (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006, p.73). Importante não confundir os conceitos de reforço negativo e punição. Enquanto o 8 9 reforço negativo consiste em retirar do in- divíduo algo que ele não goste (o que faça com que ele se sinta beneficiado com isso), a punição é definida como um estímulo experimentado após um comportamento (bater numa criança ou aplicar um choqueelétrico num animal) ou retirar um evento positivo (não permitir assistir televisão ou ir ao recreio). Skinner e seus seguidores fizeram muitas pesquisas sobre problemas de aprendizagem, tais como o papel da pu- nição na aquisição de respostas, o efeito de diferentes problemas de reforços, a extinção da resposta operante, o refor- ço secundário e a generalização. [...] No caso dos seres humanos, o comporta- mento operante envolve a resolução de problemas, reforçada pela aprovação verbal ou pelo conhecimento de ter dado a resposta correta (SCHULTZ; SCHULTZ, 1992, p.281). O comportamento verbal é, segundo Skinner, a única área em que há diferenças no condicionamento entre o homem e o rato. O comportamento verbal exige a interação de duas pessoas: um falante e um ouvinte. No caso da criança que está aprendendo as primeiras palavras, o adulto – o ouvinte – pode, através do seu comportamento, re- forçar, não reforçar ou punir a criança pelo que disse ou não disse, assim controlando seu comportamento subsequente. “Para Skinner, a fala é comportamento, estando, pois, sujeita, como qualquer outro compor- tamento, sujeita a contingências de refor- ço, de previsão e de controle” (SCHULTZ; SCHULTZ, 1992, p.284). Maia (2008) aponta práticas comporta- mentalistas muito presentes no dia a dia do educador como, por exemplo, reforços positivos que visam à manutenção de com- portamentos, como estrelinhas no caderno, prêmios após o término das atividades, cor- reção com “muito bem”, dentre outras men- sagens motivadoras. Sendo assim, na perspectiva skinne- rianna, o ensino na escola se processará através da relação estímulo-resposta, sendo o professor o responsável pelo estabelecimento de reforços positivos e negativos a fim de se estabelecerem comportamentos desejados (MAIA, 2008, p.33). Em síntese, a abordagem comportamen- tal na educação é positiva pelos fatores elu- cidados na citação abaixo, porém recebe crí- ticas por parecer excessivamente artificial, visto que em alguns momentos, o professor pode parecer um verdadeiro manipulador de comportamentos ao invés de educador. [...] trabalha com modificações de comportamento, utilizando-se de técni- cas próprias. É especialmente utilizada quando é necessário clarificar e estabe- lecer limites, extinguir comportamentos inadequados ou para desenvolver com- portamentos novos. Geralmente suas técnicas, de forte impacto, são utiliza- das juntamente com outras abordagens complementares. O Behaviorismo sa- lienta a importância do planejamento da ação pedagógica de forma a fazer com que a aprendizagem do aluno gere con- sequências naturalmente reforçadoras (positivas) ao aprender. (CASSINS et al., 2007, p.28) 2.3 Psicanálise: contribui- ções essenciais 8 9 Como a psicanálise será um dos referen- ciais teóricos mais abordados nesta apos- tila, nesta seção, enfocaremos alguns dos conceitos principais da teoria psicanalítica que possuem aplicabilidade na educação. Em outras seções desse material, iremos abordar o desenvolvimento psicossexual proposto por Freud, além de considerações do mesmo acerca da inteligência e afetivi- dade. Breve trajetória de Freud Freud (1856-1939) foi um grande pensa- dor e uma personalidade que muito influen- ciou a psicologia do século XX – mesmo que sua psicanálise seja alvo de crítica de muitas linhas de abordagem da atualidade. Em linhas gerais, pelo método da psica- nálise, ele buscava trazer os conteúdos do inconsciente para o consciente para assim trabalhar os conflitos de forma construti- va (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005; JOR- GE; FERREIRA, 2002; SCHULTZ; SCHULTZ, 1992; HALL, LINDZEY, 1984). Estudou medicina, porém também es- tudou biologia (zoologia e fisiologia) em Viena. Após formado e desinteressado da clínica médica foi começar sua carreira em neurologia clínica junto com pacientes que apresentavam sintomas de paralisia em vá- rias partes do corpo e observou que o tra- tamento dispensado a essas pacientes no momento era a hipnose. Dando continui- dade aos seus estudos em Paris, ouviu de Charcot – o médico que seria o seu tutor, a explicação de que a denominação para es- ses males neurológicos sem causa defini- da que acometia as mulheres era histeria e que a causa dos mesmos era sexual. A partir de então, Freud resolveu aprofundar nesses estudos. (GAZZANIGA; HEATHER- TON, 2005; SCHULTZ; SCHULTZ, 1992). Freud deduziu que grande parte do comportamento humano é determinada por processos mentais que operam abai- xo do nível do conhecimento consciente, no nível do inconsciente. Freud acredita- va que as forças mentais inconscientes muitas vezes entravam em conflito, o que produzia desconforto psicológico e, em alguns casos inclusive, alguns trans- tornos mentais aparentes (GAZZANIGA; HEATHERTON, 2005, p.53). No decorrer de sua prática, Freud foi fi- cando insatisfeito com a hipnose e, ao invés de sugestionar a paciente a um estado alte- rado de consciência, adotou como técnica a associação livre: “o analisando é convidado a falar tudo o que lhe passa na cabeça, sem exercer o crivo da censura” (JORGE; FERREI- RA, 2002, p.21). Ele observava que com a hipnose, muitos sintomas podiam ser aliviados ou eliminados, porém não eram curados, além do que, nem todos os pacientes se mostravam em con- dições de ser hipnotizáveis. Na associação livre, o paciente era convidado a se deitar no divã e falar livremente, sem se preocupar em estabelecer um nexo em suas ideias. O objetivo da psicanálise freudiana é trazer à percepção consciente lembran- ças ou pensamentos reprimidos, que ele supunha ser a fonte do comportamento anormal do paciente. [...] Mediante a li- vre associação, Freud descobriu que as lembranças do paciente iam invariavel- mente à infância, e que muitas das ex- periências reprimidas de que o paciente se recordava tinham relação com ques- tões sexuais (SCHULTZ; SCHULTZ, 1992, p.335). 10 11 Inicialmente, Freud acreditava que to- das as pacientes histéricas haviam sido re- almente vítimas de algum tipo de situação traumática relacionada à sexualidade na infância, porém, com o avanço de seus es- tudos sobre a teoria psicanalítica, ele reviu este ponto e concluiu que em muitos casos o ponto chave para as neuroses eram fan- tasias de traumas sexuais infantis, e não traumas propriamente ditos (SCHULTZ, SHULTZ, 1992). A obra de Freud é muito extensa, aqui apenas iremos ressaltar o que pode ser de interesse para o estudo da psicologia esco- lar. Além dos estudos com as pacientes his- téricas, que foram brevemente ilustrados aqui, Freud, no decorrer de sua carreira, es- tudou “Interpretação dos Sonhos”, o desen- volvimento psicossexual infantil (que será detalhado em outra seção), textos sobre a técnica psicanalítica, “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” “Mal estar na cultu- ra”, dentre outros temas que estão catalo- gados em sua “Coleção Standard das Obras Completas de Sigmund Freud”. Morreu em 23 de Setembro de 1939, em consequência de um câncer de boca (JORGE; FERREIRA, 2002). Conceitos principais Desde o início, ressaltamos a importân- cia que o inconsciente possui para a teoria psicanalítica, porém, Freud não fez menção a apenas essa estrutura. Na primeira tópica da personalidade, Freud propôs o modelo topográfico da mente, em que comparou a mente com um iceberg: Figura 1: Modelo topográfico da mente Fonte: EXPANDIR A MENTE (2009) . Em síntese, pode-se compreender sobre cada uma dessas instâncias que 10 11 compõem a primeira tópica do apare- lho psíquico (LAPLANCHE; PONTALIS, 1988; FADIMAN; FRAGER, 2002): Consciente – contém pensamentos dos quais as pessoas estão cientes. Recebe informações do mundo exterior e interior (percepção, atenção, raciocínio– processos cognitivos); pré-consciente – zona intermediária que abriga conteúdos que não estão corre- tamente no consciente, mas podem ser tra- zidos à consciência com um certo esforço; inconsciente – parte maior, mais im- portante e mais profunda do iceberg. O in- consciente contém desejos e motivos que estão associados a conflitos, ansiedade, sofrimento e o mecanismo de recalque (ou repressão) os deixam inacessíveis, prote- gendo a pessoa da angústia. Os conteúdos inconscientes são impossíveis de serem lembrados de forma voluntária. Formas de se acessar o inconsciente: sonhos, chistes, atos falhos (chistes e atos falhos são lapsos da linguagem), associação livre, sintoma (como foi visto na histeria). O mecanismo de recalque (ou repressão) é compreendido como um mecanismo de defesa do ego, opera inconscientemente, de modo que a pessoa não tem consciência do que está acontecendo. Ao reprimir (re- calcar) um conteúdo, a pessoa está envian- do para o inconsciente algum tipo de conte- údo que causa dor, sofrimento, vergonha, repulsa ou medo muito grandes a ela, de forma que o sofrimento de ligar com esses sentimentos iriam trazer prejuízos muito grandes ao seu ego. Hall e Lindzey (1984, p.39) ilustram sobre o processo de reclaque (repressão): As repressões, uma vez formadas, são difíceis de desfazer. A pessoa pro- cura assegurar-se de que o perigo não existe mais, o que só consegue quando a repressão é suspensa e a realidade pode ser encarada de frente. É como um círcu- lo vicioso. Essa é a razão por que o adul- to conserva medos infantis. Nunca tem a possibilidade de descobrir que esses medos têm base na realidade. Para Freud, a personalidade é com- posta por três sistemas: id, ego e supe- rego. Segundo Hall e Lindzey (1984): o id é formado pelos aspectos psico- lógicos inatos, herdados, inclusive os ins- tintos. Funciona de forma a descarregar a tensão interna do organismo e ocasionar prazer – o que ele denominou princípio do prazer; o ego seleciona a quais aspectos do meio reagirá, além de decidir quais instin- tos devem ser satisfeitos e de que modo. “A diferença básica entre o id e o ego reside em que o primeiro conhece somente a rea- lidade subjetiva da mente, enquanto que o segundo faz a distinção entre as coisas da mente e as do mundo exterior” (HALL; LIN- DZEY, 1984, p.27); o superego é o representante inter- no dos valores da sociedade, os quais são transmitidos pelos pais e reforçados pelos castigos e recompensas que foram impos- tos à criança “De modo geral, podemos con- siderar o id como o componente biológico da personalidade, o ego como o componen- te psicológico e o superego como o compo- nente social” (HALL; LINDZEY, 1984, p.28). A partir desses conceitos da teoria psica- nalítica Cassins et al. (2007) argumentam 12 13 que esta é uma base teórica de aplicabilida- de no meio educacional, pois: O sujeito, que é um ser singular, úni- co e dotado de um psiquismo regido por uma lógica específica, é também um in- divíduo que participa das relações inter- pessoais e ocupa um lugar, estabelecen- do laços com o contexto social no qual está incluído. Sendo assim, a Psicanálise está muito atenta para a relação que se constrói entre professor e aluno, que é o que estabelece as condições para o aprender, com vistas à transmissão e apreensão do conhecimento. Cabe ao educador, na atividade edu- cativa, a responsabilidade por construir e transmitir o mundo da convivência humana em que seu aluno está ou esta- rá inserido. Esta é a tarefa daquele que quer educar, humanizar o mundo dos seres humanos e, de alguma maneira, implicar os sujeitos que o habitam (CAS- SINS et al., 2007, p.29) 2.4 Psicologia da Educação Psicologia da Educação e Psicologia Escolar A existência da psicologia da educação como uma área conhecimento e de saberes teóricos e práticos claramente identificável, relacionado com outros ramos e outras es- pecialidades da psicologia e das ciências da educação, mas, ao mesmo tempo, distintos delas, tem sua crença racional na convicção profunda de que a educação e o ensino po- dem melhorar sensivelmente com a utili- zação adequada dos conhecimentos psico- lógicos. Tal convicção, que tem suas raízes nos grandes sistemas de pensamento e nas teorias filosóficas anteriores ao surgimento da psicologia científica, foi objeto de múlti- plas interpretações (COLL, 2004, p.21). O conceito de Psicologia Escolar/Educa- cional engloba os conceitos de psicologia na escola e da educação. Dentre as variações, sobre as reais atribuições relacionadas à Psicologia Escolar e à Psicologia Educacio- nal, compreende-se que a psicologia esco- lar possui uma aplicação mais voltada à prá- tica, enquanto que a psicologia educacional é mais voltada à área acadêmica, à pesqui- sa. Entretanto, vale a pena destacar que ambas se complementam, portanto essa dicotomia é uma mera distinção acadêmica, conceitual (CASSINS et al., 2007). Dando prosseguimento a essa discussão, Coll (2004) enfatiza que diversos autores propõem diferentes conceituações para a psicologia da educação, entretanto, todas essas definições levam em consideração a importância dos componentes psicológicos para se explicar e compreender os fenô- menos educacionais. Ao longo do percurso histórico da psicologia da educação obser- vam-se duas vertentes distintas: a psicolo- gia da educação entendida como um âmbito de aplicação da psicologia e a psicologia da educação entendida como uma disciplina- -ponte entre a psicologia e a educação. Na atualidade, percebe-se que a psicologia da educação tende para essa segunda verten- te, a qual será explorada nessa seção. Em linhas gerais, o objetivo da Psicologia Educacional/Escolar é auxiliar o desenvolvi- mento global do estudante através de um trabalho em equipe multiprofissional com diretores, professores, orientadores, pais e supervisores. Seu trabalho visa à pre- venção, avaliação, orientação psicológica e acompanhamento, aplicados preferencial- mente no contexto institucional, em detri- mento do atendimento individual, que só é 12 13 realizado nos casos onde há realmente essa necessidade (CASSINS et al., 2007). A Psicologia Escolar tem como refe- rência conhecimentos científicos sobre desenvolvimento emocional, cognitivo e social, utilizando-os para compreender os processos e estilos de aprendizagem e direcionar a equipe educativa na bus- ca de um constante aperfeiçoamento do processo ensino/aprendizagem. Sua participação na equipe multidisciplinar é fundamental para respaldá-la com conhecimentos e experiências científi- cas atualizadas na tomada de decisões de base, como a distribuição apropriada de conteúdos programáticos (de acordo com as fases de desenvolvimento hu- mano), seleção de estratégias de mane- jo de turma, apoio ao professor no tra- balho com a heterogeneidade presente na sala de aula, desenvolvimento de técnicas inclusivas para alunos com di- ficuldades de aprendizagem e/ou com- portamentais, programas de desenvol- vimento de habilidades sociais e outras questões relevantes no dia-a-dia da sala de aula, nas quais os fatores psicológicos tenham papel preponderante. (CASSINS et al., 2007, p.17) Coll (2004) aprofunda um pouco mais nessa discussão ao elucidar os objetivos da psicologia da educação como disciplina- -ponte entre a psicologia e a educação, tal como foi mostrado anteriormente. Os obje- tivos são estudar os processos de mudan- ças psicológicas que ocorrem nas pessoas em decorrência de sua participação em ati- vidades educativas. Subentendem-se como processos de mudanças a aprendizagem, o desenvolvimento e a socialização (todos esses fatores serão abordados ao longo desta apostila), sendo importante destacar que a psicologiada educação se interessa pela natureza, as teorias e os aspectos im- plicados entre esses processos. Compreende-se aqui a importância da abordagem multidisciplinar dos fenômenos educacionais, os quais precisam ser aborda- dos como um todo. Dentre as finalidades da psicologia escolar podem-se destacar (CASSINS et al., 2007, p.23-24): Incentivar os educadores (incluídos os próprios psicólogos) para tomada de posições políticas em relação aos proble- mas sociais que afligem a todos; Estimular a escolha deliberada e conscientemente assumida de uma atu- ação profissional sustentada por teorias psicológicas, cuja visão contemple o ho- mem em suas múltiplas determinações e relações histórico-sociais; Assessorar a escola no desenvolvi- mento de uma concepção de educação, na compreensão e amplitude de seu papel, em seus limites e possibilidades, utilizan- do os conhecimentos da Psicologia; Desenvolver uma concepção de Psi- cologia voltada a um compromisso social; Propor uma concepção do fracasso escolar não como um processo individual; Mediar os processos de reflexão so- bre as ações educativas a partir da atua- ção com os diversos profissionais da edu- cação; Propor e apoiar a construção de no- vas alternativas sociais para auxiliar na administração de possíveis deficiências escolares; 14 15 Compreender e elucidar os processos de desenvolvimento biopsicossocial dos envolvidos com a escola; Compreender e elucidar os proces- sos diferenciados de desenvolvimento da aprendizagem (aprender a aprender) de cada aluno e de cada professor; Compreender e clarificar a constru- ção da subjetividade (construção do Eu) em cada ambiente educacional; Assessorar a escola na busca da hu- manização do sujeito, através do encon- tro da cognição com a motricidade, os afe- tos e as emoções na educação; Cultivar o enfoque preventivo: traba- lhar as relações interpessoais na escola, visando à reflexão e conscientização de funções, papéis e responsabilidades dos envolvidos; Buscar ser o mediador do processo reflexivo e não o solucionador de proble- mas; Conscientizar o indivíduo da impor- tância de sua participação e responsabi- lidade nos grupos em que está inserido, como a família, a escola, o trabalho e a sociedade. Antes de elucidarmos o papel específico do psicólogo escolar, convém esclarecer que a psicologia educacional é uma atividade que só pode ser desempenhada pelo psicó- logo – profissional graduado em psicologia e devidamente inscrito no Conselho Regio- nal de Psicologia da sua localidade. Porém, a psicologia escolar é uma área de interes- se dos profissionais da área da educação – como o pedagogo, o profissional graduado em normal superior, os licenciados em dife- rentes áreas – pois serve de subsídio para o entendimento de processos cognitivos, afetivos, psicossociais e relacionais envol- vidos ao ensino-aprendizagem. Como será exposto na seção a seguir, algumas ativida- des são privativas do psicólogo, como, por exemplo, a aplicação de testes, inventários e avaliações psicológicas. Outras atividades são compartilhadas pelos profissionais que atuam na escola visando o bem-estar da co- munidade escolar em geral. O psicólogo escolar A psicologia escolar busca um trabalho em parceria com a coordenação da escola, professores, familiares e demais profissio- nais da educação que acompanham o aluno dentro e fora do ambiente escolar. Para a realização deste trabalho, o psicólogo de- senvolve atividades preventivas ou direcio- nadas a indivíduos/grupos que já possuem problemas instalados de alunos, profes- sores e funcionários. Suas estratégias de atuação visam, de maneira geral, contribuir para o desenvolvimento cognitivo, humano e psicossocial de toda a comunidade escolar (CASSINS et al., 2007). O trabalho do psicólogo escolar/educa- cional tem como diretriz o desenvolvimento do viver em cidadania. Busca instrumentos para apoiar o progresso acadêmico adequa- do do aluno, respeitando diferenças indivi- duais. É pautado na promoção da saúde da comunidade escolar a partir de trabalhos preventivos que visem um processo de transformação pessoal e social. Para tanto, baseia-se nos conhecimentos referentes aos estágios de desenvolvimento humano, estilos de aprendizagem, aptidões e inte- resses individuais e a conscientização de papéis sociais (CASSINS et al., 2007, p.23) 14 15 Percebe-se, a partir da descrição de tare- fas a serem desempenhadas pelo psicólogo escolar, que o trabalho desse profissional precisa ser realizado em equipe, juntamen- te com os demais profissionais da escola (professor, diretor, coordenador pedagógi- co, supervisor, dentre outros) e fora da es- cola, quando for o caso (médico, psicólogo, fonoaudiólogo, assistente social, dentre outros). Juntos, esses profissionais atuarão com- pondo uma equipe multidisciplinar, que pode ser compreendida como especialistas que podem interagir entre si no trabalho de reabilitação ou educação de pessoas com deficiências. Esses profissionais procuram uma interseção de conhecimentos de suas especialidades para uma ação terapêutica, clínica ou educativa unificada (ANDRADE, 1999). Convém ressaltar que o autor em questão aborda somente a questão da de- ficiência, mas as equipes multidisciplinares não visam apenas a esse público-alvo, mas a todas as pessoas, independente de suas condições gerais. Além das escolas, os psicólogos escola- res/educacionais encontram campo de atu- ação em ouras instituições, tais como clíni- cas especializadas, consultorias a órgãos governamentais, clínicas de acessória com projetos para escolas, serviços públicos de saúde e educação, ONGs, projetos de ex- tensão universitária, onde se visa promo- ver a educação no trabalho e pelo trabalho (CASSINS et al., 2007). Martinez (2009) acrescenta que, além desses espaços já mencionados, também podem ser conside- rados locais para a prática do psicólogo edu- cacional e escolar as casas abrigos, as peni- tenciárias, as universidades coorporativas, dentre outros espaços diversificados. Cassins et al. (2007, p.24) elucidam algumas atividades desempenhadas pelo psicólogo escolar, as quais são: assessorar a escola na construção do Projeto Político-Pedagógico; apoiar a escola em seu trabalho de resgate do valor e da autonomia do pro- fessor; assessorar o professor na articulação entre a teoria de aprendizagem adotada e a prática pedagógica; trabalhar com políticas públicas; conscientizar pais e professores so- bre necessidades básicas de crianças e adolescentes; mobilizar a comunidade educacional em torno de propostas de intervenção com utilização de recursos da comunida- de; pesquisar, desenvolver, aplicar e di- vulgar os conhecimentos relacionados com Psicologia Escolar/Educacional. Frente a essas tarefas possíveis de ser executadas no contexto educacional, Mar- tinez (2009) divide a atuação do psicólogo educacional/escolar em dois grandes gru- pos de atividades: as formas de atuação tradicionais e as formas de atuação emer- gentes. Essas duas formas de atuação se- rão descritas a seguir. Compreendem-se por formas de atuação tradicionais aquelas associadas à dimensão psicoeducativa, como, por exemplo, proble- mas de desenvolvimento e aprendizagem dos alunos, os quais encontram na atuação do profissional da psicologia uma possí- 16 17 vel resolução e resposta. Dentre as possí- veis formas de atuação, podemos destacar (MARTINEZ, 2009): Forma de atuação tradicional Descrição da atividade Avaliação, diagnóstico e encaminhamento de alunos com dificuldades de aprendizagem Mudança de uma situação onde um avaliador externo aplicava testes padronizados e rotuladores para uma nova realidade,onde o aluno é avaliado em seu próprio contexto de aprendiza- gem, visando compreender as reais causas das dificuldades de aprendizagem. As condições de avaliações tornam-se mais naturais para a criança. Impera o trabalho em equipe, onde o professor tem um impor- tante papel. O psicólogo escolar só encaminha o aluno com dificuldades de aprendizagem para acompanhamento com profissionais exter- nos à escola como última alternativa de ajuda, visto que essa atitude pode ser segregatória e reforçar mais na criança e seus familiares o estigma de suas dificuldades, ou seja, dificultar mais do que ajudar. Orientação de pais e alunos Propõe-se a orientação individual ou grupal no sentido de for- necer informações acerca das dificuldades escolares e outros assuntos referentes ao desenvolvimento do aluno. Orientação profissional Também, observam-se mudanças do antigo paradigma da apli- cação de testes padronizados para caracterizar habilidades e interesses dos alunos a partir dos resultados para um espaço promotor do autoconhecimento, reflexão e elaboração de pro- jetos profissionais. Orientação sexual “A orientação em relação ao sentido atribuído à sexualidade, à responsabilidade para com o outro, às dúvidas e inquieta- ções sobre desejos e afetos, assim como, a contribuição para o desenvolvimento do autoconhecimento, a autorreflexão, a capacidade de antecipar consequências e a tomada de decisões éticas, se constituem em um objeto significativo do trabalho do psicólogo escolar tanto na sua expressão individual quanto grupal” (MARTINEZ, 2009, p.171-172). Formação e orientação de professores Uma das formas de auxiliar os professores, seja através de sua orientação ou formação, envolve os processos subjetivos de aprendizagem e desenvolvimento. 16 17 Elaboração e coordenação de projetos educativos específicos O psicólogo escolar participa junto com a equipe multidisciplinar da escola em projetos como resposta a problemas concretos que surgem na escola e na comunidade (por exemplo, violência, uso de drogas, gravidez precoce, preconceito, dentre outros). Atualmente, entende-se que esses projetos devem ter mais um caráter preventivo que para intervir em problemas já instalados. Tabela 01: Formas de atuação tradicional do psicólogo escolar / educacional Fonte: Martinez (2009). Como a tabela anterior já deixa sugerir há um processo de mudança na práxis do psicólogo escolar/educacional e, atualmen- te, já se observa uma atuação mais criativa, como se pode observar na tabela a seguir. Formas de atuação emergentes Descrição da atividade Diagnóstico, análise e inter- venção a nível institucional especialmente no que diz respeito à subjetividade social da escola visando deli- near estratégias de trabalho favorecedoras das mudanças necessárias para a otimização do processo educativo O psicólogo precisa reconhecer não apenas a dimen- são psicoeducacional da escola, como também sua dimensão psicossocial. A partir do diagnóstico e análise das necessidades institucionais o psicólogo pode sugerir e traçar estra- tégias de intervenção para potencializar o trabalho em equipe, propor mudanças positivas, aprimorar a co- municação, mediar conflitos, dentre outras ações que visam à melhoria do funcionamento organizacional. Participação na construção, acompanhamento e avalia- ção da proposta pedagógica da escola Sabe-se que o projeto político- pedagógico de mui- tas instituições é um documento que fica apenas no papel, ou que, ao contrário do que deveria, não é uma construção coletiva que se relaciona com a realidade escolar. Quanto ao trabalho do psicólogo escolar: “Seu traba- lho pode ser especialmente importante na integração e na coesão da equipe escolar; na coordenação do trabalho em grupo; na mudança de representações, de crenças e mitos, na definição coletiva de funções e, ainda no processo de negociação e resolução de conflitos, os quais são frequentes em qualquer tipo de trabalho coletivo que implique no encontro de pontos de vistas diferentes.” (MARTINEZ, 2009, p.173) 18 19 Participação no processo de seleção dos membros da equi- pe pedagógica e no processo de avaliação dos resultados do trabalho Atuação mais comum no ensino particular, onde o psi- cólogo atua junto aos demais gestores em processos seletivos (lembrando-se que esse é um dos campos de atuação do psicólogo nas empresas). Importante trabalhar a questão da avaliação, impor- tante instrumento já adotado em muitas empresas, por que não também nas escolas, para que não seja visto como algo negativo, mas como oportunidade de crescimento. Contribuição para a coesão da equipe de direção pedagógica e para a sua formação técnica É essencial que a equipe da escola trabalhe em equipe, mas o psicólogo deve começar seu trabalho com a for- mação técnica da equipe de direção, atingindo todos os outros coletivos possíveis da escola. Coordenação de disciplinas e de oficinas direcionadas ao desenvolvimento integral do aluno Com a inclusão de propostas pedagógicas “não tradi- cionais” de cunho psicológico, como autoconhecimen- to, desenvolvimento de habilidades interpessoais, criatividade, dentre outros, o psicólogo encontra espaço para o desenvolvimento de projetos. Contribuir para a caracteri- zação da população infantil com o objetivo de subsidiar o ensino personalizado O psicólogo, juntamente com o professor e o orien- tador educacional, devem buscar compreender os aspectos da subjetividade individual de cada aluno envolvidos nos processos de aprendizagem para assim promover o melhor processo de aprendizagem e de- senvolvimento. Realização de pesquisas di- versas com o objetivo de apri- morar o processo educativo Importante não se fazer separação entre pesquisa e trabalho na escola. Relevância de pesquisa com equipe de trabalho, pais, alunos e membros da comunidade. Facilitar, de forma crítica, refle- xiva e criativa, a implementação das políticas públicas A efetivação de qualquer mudança ou inovação ideali- zada fora do contexto escolar passa, necessariamen- te, na forma pela qual os atores do processo assu- mem-na. Nesse sentido o psicólogo tem papel de destaque por considerar não apenas a dimensão psicoeducativa da aprendizagem, mas também a dimensão psicossocial. Tabela 02: Formas de atuação emergentes do psicólogo escolar / educacional Fonte: Martinez (2009). 18 19 O caráter qualitativo, processual, co- municativo e construtivo do diagnóstico e da avaliação das dificuldades escolares vai superando, não sem dificuldades, o diagnóstico rotulador e estático que caracterizou o diagnóstico das dificul- dades escolares durante muitos anos (MARTINEZ, 2009, p.171). 20 2120 UNIDADE 3 - O Desenvolvimento do Estudante Compreender o desenvolvimento do es- tudante se faz essencial para avançar no estudo da Psicologia da Educação – tema desta apostila. O profissional da educação precisa entender que o aluno de dois anos apresenta padrões cognitivos e biopsicos- sociais diferentes dos alunos de três anos, diferentes dos de quatro anos e assim su- cessivamente. Porém, antes de tentarmos compreen- der um pouco mais como se dá o processo de desenvolvimento do aluno e conhecer algumas das teorias que explicam esse pro- cesso é importante entender o conceito de desenvolvimento humano. O desenvolvimento humano envolve o estudo de variáveis afetivas, cogni- tivas, sociais e biológicas em todo ciclo da vida. Desta forma faz interface com diversas áreas do conhecimento como: a biologia, antropologia, sociologia, edu- cação, medicina, entre outras. (MOTA, 2005, p.106) Em síntese, o desenvolvimento humano é o estudo científico dasmudanças e das continuidades que ocorrem durante todo o ciclo vital do indivíduo (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006). Já Oliveira e Davis (1994) definem desen- volvimento como “o processo através do qual o indivíduo constrói ativamente, nas relações que estabelece com o ambiente físico e social, suas características” (p.19). A autora defende que as características humanas são historicamente herdadas. De geração em geração acumulamos conheci- mentos, os quais são herdados e transmiti- dos, o que influencia, desde o nascimento, na percepção do indivíduo sobre o mundo à sua volta. Assim, compreende-se que para a apropriação dessas características hu- manas faz-se necessária a interação do in- divíduo com o meio. Essas questões sobre a hereditariedade e o ambiente serão mais detalhadas a seguir. Inicialmente, acreditava-se que o desen- volvimento ocorria apenas na infância, visto que até o início do século XX, a adolescência não era compreendida como um período se- parado da infância. Atualmente, fala-se em desenvolvimento no ciclo vital, ou seja, o desenvolvimento acontece por toda a vida, do nascimento à morte (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006). Mota (2005), afirma que a Psicologia do Desenvolvimento aumenta sua área de abrangência e inclui outras áreas, como a psicologia social, cognitiva, personalidade e, finalmente, a educacional, que é a nossa área de interesse nesta apostila. Alguns teóricos, como Freud (desenvol- vimento psicossexual) e Piaget (desenvol- vimento cognitivo) postulam que o proces- so de desenvolvimento humano ocorre em etapas. De acordo com essa linha de raciocí- nio, em cada etapa, os indivíduos lidam com diferentes tipos de problemas e desenvol- vem diferentes tipos de capacidades para a resolução dos mesmos. Cada etapa funda- menta-se nas anteriores e prepara o cami- nho para a seguinte. Já numa linha de raciocínio bem diferen- te, outros teóricos, como Baltes (teoria do curso de vida) apregoam que o desenvolvi- mento é um processo vitalício e contínuo. 20 2121 O desenvolvimento é governado sempre pelos mesmos processos, permitindo a pre- dição de comportamentos posteriores a partir da observação dos comportamentos anteriores. Essa abordagem do ciclo vital é bastan- te importante e, em termos de educação, o educador consegue refletir que, como al- guns teóricos como Knowles apregoam, a pedagogia é a forma de ensinar direcionada às crianças, porém precisamos apropriar a didática para pessoas de diferentes idades, pois elas têm condições de aprender – an- dragogia. A necessidade de se integrar ao es- tudo do desenvolvimento humano uma perspectiva interdisciplinar, que adote uma metodologia de pesquisa própria, faz com que alguns autores sugiram que o estudo do desenvolvimento humano constitua um campo de atuação inde- pendente da Psicologia, que tem sido chamado de ‘Ciência do Desenvolvimen- to Humano’ (ASPESI, DESSEN & CHAGAS, 2005; BRONFRENBRENNER & EVANS, 2000, apud MOTA, 1995, p.106). Tendo tudo isso em vista, Oliveira e Da- vis (1994) fazem uma relevante articulação entre a psicologia do desenvolvimento hu- mano e a pedagogia. Segundo as autoras, o estudo da psicologia do desenvolvimento humano, dentre outros fatores já explíci- tos aqui, estuda a evolução da capacidade física, psíquica, cognitiva, sociabilidade e afetividade do ser humano. O estudo do de- senvolvimento humano torna possível com- preender que as manifestações complexas das atividades do adulto – sejam elas físicas, psíquicas, dentre outras – são resultado de um longo processo, que se inicia antes mes- mo do nascimento. Isto é de extrema im- portância para a Pedagogia, para subsidiar a organização das condições para a aprendi- zagem infantil, ativando, assim, processos internos de desenvolvimento na criança, os quais serão transformados em aquisições individuais. 3.1 Concepção inatista x Concepção ambientalista Natureza x Ambiente Antes de estudarmos as duas concep- ções propriamente ditas, iremos dar con- tinuidade ao estudo do desenvolvimento humano, visto que as concepções estão di- retamente associadas com um importante princípio do desenvolvimento. O estudo do desenvolvimento humano abre margem para alguns questionamen- tos bastante importantes que levaram os estudiosos a compreender ou pelo menos tentar entender como se dá o processo de crescimento e desenvolvimento físico, cognitivo e psicossocial. Para tentarmos compreender melhor o nosso aluno e como ocorre o processo de aprendizagem, faz-se necessário conhecer o debate sobre as fon- tes de desenvolvimento: inato X ambiente – expressões que serão explicadas a seguir. Cole e Cole (2004) elucidam que há uma interação entre os fatores geneticamen- te determinados (inatos) e os fatores am- bientais, resultando no desenvolvimento de cada indivíduo. Este debate é também denominado de nature (natureza) x nurtu- re (educação), de onde fica subentendido que a natureza refere-se ao que é herdado e a educação faz menção às influências do ambiente social e cultural (família e comuni- dade). Ressalta-se que, na prática, torna-se difícil estudar a influência isolada de cada 22 23 um desses aspectos no desenvolvimento das crianças, já que a interação constante entre o organismo e o ambiente constitui um único processo de vida. As crenças sobre as contribuições da natureza e da educação para o desen- volvimento podem ter efeitos de longo alcance sobre como a sociedade trata as crianças. Se, por exemplo, supõe-se que as meninas, por natureza, têm pouco in- teresse por matemática e ciências, não é provável que sejam encorajadas por seus pais, professores e outros membros da sociedade a se tornarem matemáticas ou cientistas. Se, por outro lado, supõe-se que os talentos matemático e científico são, em grande parte, resultado da edu- cação, uma sociedade pode treinar meni- nos e meninas igualmente nessas ativi- dades (COLE; COLE, 2004, p.35). Papalia, Olds e Feldman (2006), outros importantes teóricos sobre o assunto, tam- bém afirmam que a hereditariedade e o am- biente são importantes influências sobre o desenvolvimento. Os autores acrescentam ainda que a maturação do corpo e do cérebro é responsável por muitas das mudanças típi- cas da primeira e da segunda infância. Sobre maturação compreende-se: [...] o desdobramento de uma sequen- cia natural geneticamente influenciada de mudanças físicas e padrões de com- portamento incluindo a prontidão para adquirir novas habilidades, como cami- nhar e falar. À medida que as crianças transformam-se em adolescentes e de- pois em adultos, as diferenças nas carac- terísticas inatas e na experiência de vida desempenham um papel mais importan- te (p.54). Carvalho (1996) acrescenta que atribuir a aprendizagem e a maturação como fato- res determinantes do desenvolvimento é fator polêmico. Esclarece que as funções filogenéticas – aquelas próprias da espé- cie, como engatinhar, ficar de pé e caminhar – são mais influenciadas pela maturação, enquanto que as funções ontogenéticas – aquelas próprias de cada indivíduo – são mais influenciadas pela aprendizagem. Ve- rifica-se também que as funções filogené- ticas têm cronologias mais definidas (por exemplo, sabemos o período aproximado que um bebê humano normalmente come- ça a engatinhar e a dar os primeiros passos), enquanto que as funções ontogenéticas apresentam variação individual em relação à época de aquisição. Diferentes estudos realizados onde tentaram privar grupos experimentais e controle de alguma dessas variáveis (sendo a aprendizagem muito mais sim- ples de se isolar) mostram que ambas são imprescindíveis ao processo de de- senvolvimento. A ausência de uma ou outra impede o desenvolvimento inte- gral do organismo.‘É necessário que a maturação tenha instalado suas bases para que o processo de aprendizagem seja mais eficaz. Por outro lado, não se pode prescindir da aprendizagem se se quiser obter um desenvolvimento inte- gral’ (CARVALHO, 1996, p.31). No que diz respeito aos aspectos psi- cológicos, o debate sobre a influência da natureza ou do ambiente é muito antigo e vem desde a Grécia antiga. As característi- cas psicológicas são biologicamente inatas, mas também adquiridas pela educação, experiência ou cultura. Entende-se como cultura as crenças, regras, valores e costu- 22 23 mes de determinado grupo de pessoas que compartilham uma mesma língua e ambien- te, de onde é possível supor que aspectos culturais são transmitidos entre gerações através da aprendizagem (GAZZANIGA; HE- ATHERTON, 2005). Ainda que inegável a presença de fa- tores de maturação e de aprendizagem no processo evolutivo, acreditamos que o indivíduo que cresce participa cada vez mais ativamente de sua própria evolu- ção. Ao maior controle dos órgãos ligados à fonação, do diafragma e, consequente- mente, da quantidade do ar inspirado e expirado, que levam a um maior domínio das cordas vocais e à emissão de diferen- tes sons, ao final do primeiro ano de vida – maturação –, somam-se as influências ambientais, reforçando diferencialmen- te os sons, que culminam na formação de palavras, inicialmente globais, mas que possibilitam o início da comunicação semântica – aprendizagem. Segue-se a isso uma fase de perguntas, variável de uma criança para outra, mais ou menos intensa, que por si mesma enriquece o vocabulário, amplia o conhecimento e a possibilidade de uma comunicação mais ampla. E desta forma fatores endóge- nos, exógenos e pessoais se entrelaçam e realimentam num complexo de intera- ções (CARVAHO, 1996, p.29). Como foi possível observar em Carvalho (1996), Cole e Cole (2004) e Gazzaninga e Heatherton (2005), é indiscutível a impor- tância dos fatores inatos e do ambiente do desenvolvimento do indivíduo, porém os últimos autores são enfáticos ao afirmarem que, atualmente, torna-se relevante para os cientistas conhecerem como natureza e ambiente interagem, além do que “é a rela- tiva importância da natureza e do ambiente na determinação da mente e do comporta- mento que atrai o interesse dos cientistas psicológicos” (p.47). Concepção Inatista A concepção inatista parte do pressu- posto de que os eventos que ocorrem após o nascimento não são essenciais e/ou im- portantes para o desenvolvimento. As qua- lidades e capacidades básicas de cada ser humano – sua personalidade, seus valores, hábitos e crenças, sua forma de pensar suas reações emocionais e mesmo sua condu- ta social – já se encontrariam basicamen- te prontas e em forma final por ocasião do nascimento, sofrendo pouca diferenciação qualitativa e quase nenhuma transforma- ção ao longo da existência. O papel do am- biente (e, portanto, da educação e do ensi- no) é tentar interferir o mínimo possível no processo do desenvolvimento espontâneo da pessoa (OLIVEIRA; DAVIS, 1994, p.27). Suas origens foram embasadas em in- terpretações da Teologia, do Darwinismo e da Embriologia, em visões muitas das vezes equivocadas ou não aplicáveis para o es- tudo de humanos. Não há bases empíricas para a psicologia quem comprovem a visão inatista. Em síntese, o inatismo apregoa que o homem já nasce pronto, portanto, o edu- cador tem a visão, muitas das vezes pessi- mista, de que a criança ou adolescente será do jeito que chegou até ele, independente do que ele tentar fazer no sentido de pro- mover uma educação melhor. Essa visão até os dias de hoje aparece em sala de aula, ca- muflada sobre ideias de aptidões, prontidão e coeficientes de inteligência e é bastante preconceituosa (OLIVEIRA; DAVIS, 1994). Concepção Ambientalista 24 25 Ao contrário da concepção inatista, que apregoa que o ser humano já nasce pronto, para a concepção ambientalista, o homem é compreendido como um ser dotado de grande plasticidade, ou seja, ele nasce do- tado de condições de moldar-se segundo as características do meio onde ele se encon- tra inserido. Segundo Oliveira e Davis (1994), essa corrente sofreu influência do empirismo e do behaviorismo de Skinner, corrente psi- cológica que já foi abordada anteriormente. Recapitulando, segundo a teoria comporta- mentalista, os indivíduos buscam maximizar o prazer, ao mesmo tempo em que evitam a dor. Dessa forma, é possível manipular es- tímulos ambientais para assim controlar o comportamento. Na visão ambientalista, a ênfase está em proporcionar novas aprendizagens, por meio da manipulação dos estímulos que antecedem e sucedem o comporta- mento. Para tanto, é preciso uma análi- se rigorosa da forma como os indivíduos atuam em seu ambiente, identificando os estímulos que provocam o apare- cimento do comportamento-alvo e as consequências que o mantém. A esta análise dá-se o nome de análise funcio- nal do comportamento. Nela defende-se o planejamento das condições ambien- tais para a aprendizagem de determina- dos comportamentos (OLIVEIRA; DAVIS, 1994, p.33). A concepção ambientalista coloca o pro- fessor em papel de destaque, pois a ele cabe planejar bem as aulas e dar reforços positivos aos seus alunos (como elogios, notas) para que os mesmos possam ter um bom desempenho. Por outro lado, a concep- ção inatista deixava o professor com um pa- pel mais passivo, já que como o estudante já chegava até à escola pronto, nada adianta- va fazer para que seu desempenho se mo- dificasse. Por outro lado, a concepção am- bientalista enxerga os seres humanos como criaturas possíveis de serem manipuladas e controladas, deixando de ser a aprendiza- gem algo mais espontâneo (OLIVEIRA; DA- VIS, 1994). A partir do entendimento do debate na- tureza X ambiente e, consequentemente, das concepções inatista e ambientalista da aprendizagem prosseguiremos os estudos de alguns teóricos que investigaram o de- senvolvimento humano. A partir da com- preensão do processo de desenvolvimento – seja ele físico, psicológico, social ou cogni- tivo – podemos articular esse conhecimento com o processo educacional. Teremos como principal teoria de aprendizagem a Teoria Construtivista. 3.2 Piaget e a aprendizagem Assim como foi mencionado na teoria de Freud, Piaget também será um dos referen- ciais teóricos principais desse material. Nes- sa seção, serão abordados alguns conceitos de sua obra (convém ressaltar que devido às limitações de espaço não será possível aprofundar no estudo desses temas) e, em outros momentos, será abordado o desen- volvimento cognitivo pela perspectiva do autor, além de considerações do mesmo acerca da inteligência e afetividade. 3.2.1 Conceitos principais Piaget defende uma linha muito impor- tante para a psicologia e para a educação: o construtivismo. Segundo essa linha, tanto a natureza, quanto a educação são impor- 24 25 tantes para o desenvolvimento da criança e, além disso, defende-se que o papel do ambiente vai além de apenas desencadear o potencial inato da criança, ao contrário do que se poderia imaginar. As crianças cons- troem seu conhecimento, em níveis cada vez mais elevados, sendo essa construção uma relação ativa com o ambiente. “São se- res biossociais, porque tanto as circunstân- cias do amadurecimento quanto as circuns- tâncias ambientais estão reciprocamente envolvidas no processo de mudança” (COLE; COLE, 2005, p.58). A influência que o ambiente exerce sobre as crianças varia de acordo com o estágio de desenvolvimento no qual as mesmas se en- contram, mas esses processos de mudança desenvolvimental – como será visto no pró- ximo item – são universais na espécie hu- mana. Piaget (1973 apud COLE; COLE, 2005)apregoa que a sociedade na qual o indiví- duo encontra-se imerso desde o nascimen- to, em certo sentido, pode modificar a pró- pria estrutura do indivíduo. A influência das relações sociais na vida das pessoas é tão grande quanto a influência do ambiente fí- sico. O que distingue especialmente as teorias construtivistas das teorias ma- turacionais e das de aprendizagem é a importância que os construtivistas dão ao papel ativo das crianças na moldagem do seu próprio desenvolvimento (COLE; COLE, 2005, p.58). Coll (2004b) elucida que a ideia original do construtivismo reside no fato de que co- nhecimento e aprendizagem são, em boa parte, resultado de uma dinâmica ativa do sujeito entre conhecer e aprender. Assim, conhecimento e aprendizagem nunca são o resultado de uma leitura direta da expe- riência, mas sim o resultado da atividade mental construtiva através da qual as pes- soas leem e interpretam a experiência. Vale a pena destacar que essa é a ideia original defendida por Piaget e os colaboradores da epistemologia genética nos anos de 1940- 1950, porém a partir desses estudos atual- mente surgiram outros enfoques teóricos cuja base é o construtivismo, mas que apre- sentam outras características peculiares. Retomando às ideias base de Piaget, o desenvolvimento cognitivo – que será expli- cado detalhadamente na subseção a seguir – ocorre através de três princípios inter-re- lacionados, os quais são pontos-chave na teoria piagetiana: organização, adaptação e equilibração. Organização: Tendência para criar estruturas cogniti- vas (esquemas) cada vez mais complexas. Com o desenvolvimento, naturalmente a criança adquire mais informações e os es- quemas vão se tornando mais complexos (PAPALIA: OLDS: FELDMAN, 2006). Adaptação: É o processo pelo qual a criança ajusta as novas informações sobre o ambiente que entram em conflito com aquelas que ela já sabe. Envolve duas etapas: assimilação e adaptação. Assimilação é a incorporação de novas informações a uma estrutura cognitiva já existente (PAPALIA: OLDS: FELDMAN, 2006). Maia (2008, p.59) acrescenta que “por assimilação, compreende-se o meca- nismo que o sujeito aplica ao procurar com- preender o seu mundo”. 26 27 Acomodação consiste nas mudanças nas estruturas cognitivas existentes para se incluir novas informações (PAPALIA: OLDS: FELDMAN, 2006). Por acomodação, podemos compre- ender o movimento de ajustamento dos esquemas ou estruturas cognitivas às resistências provocadas pelas novas situações, não passíveis de uma assimi- lação pura. Surge a partir das perturba- ções provocadas pelas situações que o sujeito enfrenta (MAIA, 2008, p.59). Segundo Carvalho (1996), assimilação e acomodação são dois aspectos do processo de adaptação. Toda assimilação pressupõe uma acomodação anterior do organismo e toda acomodação uma modificação assimi- lativa do objeto ao qual o organismo deve se acomodar. A equilibração é a tendência para se bus- car um equilíbrio entre elementos cogniti- vos do próprio organismo, assim como entre o organismo e o mundo exterior (PAPALIA: OLDS: FELDMAN, 2006). Segundo Carvalho (1996), a equilibração pode ser compara- da a uma homeostase, porém se difere da biológica, visto que a equilibração visa a um nível cada vez superior de funcionamento mental. Em síntese, o desenvolvimento cognitivo acontece através de constantes desequilí- brios e equilibrações. O surgimento do novo – sejam novas possibilidades orgânicas no organismo ou mesmo características dife- rentes no ambiente – quebram o estado an- terior de equilíbrio, gerando desequilíbrio. Em busca de atingir novo estado de equilí- brio os mecanismos de assimilação e aco- modação são acionados (DAVIS; OLIVEIRA, 1994). 3.2.2 Estágios de desen- volvimento cognitivo Piaget tinha uma visão organísmica das crianças, considerando-as seres ati- vos em crescimento, com seus próprios impulsos internos e padrões de desen- volvimento. Ele via o desenvolvimento cognitivo como produto dos esforços das crianças para compreender e atu- ar sobre o seu mundo (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006, p.73). Piaget estudou o desenvolvimento cog- nitivo que, segundo ele, se inicia com a ca- pacidade inata do ser humano de se adaptar ao ambiente. Sua metodologia de estudo visou investigar as mudanças ocorridas em cada estágio de desenvolvimento, ou seja, as mudanças na qualidade do funcionamen- to cognitivo da criança e do adolescente. A teoria piagetiana visa investigar como a mente estrutura suas atividades e adapta- -se ao ambiente. A teoria de Piaget foi desenvolvida a par- tir da observação de seus próprios filhos. O pesquisador inicialmente aplicou testes padronizados em crianças e ficou curioso ao observar os padrões de erros cometidos pelas mesmas, muitos dos quais associados aos padrões de pensamento esperados pela idade. A partir desses erros, iniciou essa observação mais intensiva em seus filhos e outras crianças desde os seus primeiros anos de vida, de onde pôde concluir que o padrão de pensamento das crianças é qua- litativamente diferente do modo de pensar dos adultos. Segundo o pesquisador, essas sequências de pensamento são universais e, ao contrário do que outros teóricos acre- ditavam, os padrões de pensamento infan- til não se caracterizam como erros, apenas como padrões característicos de determi- 26 27 nada faixa etária (PAPALIA; OLDS; FELD- MAN, 2006). Piaget dividiu o desenvolvimento cog- nitivo em quatro estágios: sensório-mo- tor, pré-operacional, operações concretas e operações formais. O primeiro desses estágios, o sensório-motor, é dividido em seis subestágios. A tabela a seguir sintetiza brevemente os principais acontecimentos de cada um desses estágios e subestágios e, após a tabela, serão feitas mais algumas considerações específicas a respeito de al- guns desses estágios. Estágio (Estádio) Faixa etária Principais Características Sensório-motor 0 – 2 anos Aprendizagem através dos seus sentidos e da atividade motora. Estimulação ambiental essencial. Dividido nos 6 subestágios abaixo: Subestágio 1 Nascimento ao 1° mês Reflexos inatos. Certo controle sobre estes reflexos. Subestágio 2 1 – 4 meses Reações circulares primárias: os bebês apren- dem a repetir sensações agradáveis primeira- mente obtidas por acaso. Atentam-se para os sons. Começam a coordenar diferentes tipos de infor- mações sensoriais. Subestágio 3 4 – 8 meses Interesse em manipular objetos e aprender so- bre suas propriedades. Reações circulares secundárias: ações intencio- nais repetidas não apenas pelo seu próprio valor, mas para obter resultados além do próprio corpo. Subestágio 4 8 – 12 meses Coordenação de esquemas secundários: os be- bês já elaboraram os poucos esquemas com os quais nasceram. Generalização a partir da experiência passada para resolver novos problemas. Independência: engatinham ou afastam o que é indesejado. Início do comportamento intencional. Subestágio 5 12 – 18 meses Experimentam novos comportamentos para ver o que acontece. Reações circulares terciárias: variam uma ação para obter um resultado parecido. Originalidade na resolução de problemas. 28 29 Subestágio 6 12 a 24 meses Capacidade de representar mentalmente obje- tos e ações na memória. Imitação diferida: imitam ações que não estão vendo no momento. Pré-operacional 2 – 7 anos (Educação infantil) Pensamento simbólico mais sofisticado, porém não são capazes de utilizar a lógica. Simbolização: as crianças são capazes de imagi- nar objetos, mesmo sem contato com ele. Compreensão de identidades. Compreensão de números. Operacional concre- to 7 – 11 anos (Educação básica) Desenvolvimento do pensamento lógico,mas não do abstrato. As operações fazem parte de um conjunto de atos inter-relacionados: operações lógicas de adição, subtração, multiplicação, classificação, operações envolvendo quantidade, tempo, men- suração, espaço. Operações formais 11 – 19 anos(Adolescência) Etapa final do desenvolvimento cognitivo, carac- terizada pela capacidade de pensar em termos abstratos. Pensam em termos do “poderia ser” e não ape- nas no “é”. Capacidade de pensar de maneira abstrata pos- sui implicações emocionais. Raciocínio hipotético-dedutivo: capacidade de desenvolver, considerar e testar hipóteses. Interesse em ideias científicas e abstratas. Tabela 03: Síntese dos estágios do desenvolvimento cognitivo de Piaget Fonte: Adaptado de Papalia; Olds; Feldman (2006). A seguir, teceremos alguns esclareci- mentos extra acerca do que foi exposto na tabela anterior. Estágio sensório-motor: Como foi ilustrado na tabela, esse está- gio é dividido em seis subestágios. A pas- sagem de um estágio para o outro ocorre à medida em que os esquemas do bebê vão se tornando mais complexos. Em termos de desenvolvimento cognitivo conceituam-se esquemas como “estruturas cognitivas bá- sicas que consistem de padrões organiza- dos de comportamento utilizados em dife- rentes tipos de situações” (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006, p.197). Outros termos que também foram ape- nas citados na tabela, porém sem maiores explicações foram as “reações circulares”, as quais acontecem durante esse estágio. Piaget definiu essas reações por situações agradáveis que o bebê aprende a produzir, inicialmente por acaso, fazendo com que ele deseje repeti-las. A partir daí, as repetições 28 29 se retroalimentam, formando uma espécie de ciclo, ou seja, um comportamento ini- cialmente casual se consolida num novo es- quema. “As ações desse tipo são chamadas primárias, porque os objetos aos quais elas são dirigidas são partes do próprio corpo do bebê; eles são chamados circulares porque conduzem apenas de volta a si mesmos” (COLE; COLE, 2004, p.184). Já as reações se- cundárias envolvem algo fora do corpo do bebê. As reações circulares terciárias são mais complexas, o bebê experimenta dife- rentes maneiras de produzir determinada resposta que foi descoberta por ele de ma- neira acidental. A figura a seguir ilustra os exemplos das reações circulares primárias, secundárias e terciárias, as quais ocorrem nos subestá- gios 2, 3 e 5 respectivamente, como foi de- monstrado anteriormente na tabela. Figura 02: Reações circulares primárias, secundárias e terciárias Fonte: Papalia, Olds, Feldman (2006, p.199). 30 31 Estágio pré-operacional: A primeira infância é uma fase de tran- sição entre a fase de bebê – marcada pelos esquemas sensórios motores – e os pensa- mentos mais complexos da segunda infân- cia que serão explorados a seguir. O padrão de pensamento pré-operatório é carac- terizado por uma série de “erros” devido à incapacidade da criança dessa fase de des- centrar seu pensamento, ou seja, a criança ainda não é capaz de direcionar sua atenção para mais de um aspecto de qualquer situa- ção sobre a qual estejam querendo pensar. Piaget percebeu a descentração numa experiência simples, a qual pode ser realiza- da em sala de aula. Inicialmente, a criança re- cebia dois recipientes idênticos com a mes- ma quantidade de água. Enquanto a criança observa, a água de um dos recipientes é derramada até um terceiro, mais estreito e mais alto, de forma que dê a impressão de que este terceiro tenha mais água que o ori- ginal. Ao serem arguidas sobre o que acon- teceu com a água é comum que as crianças de 3 a 4 anos respondam que a quantidade de água aumentou (COLE; COLE, 2004). A figura a seguir, retirada de um blog di- recionado à área da Psicologia da Educação, ilustra recipientes que podem ser utilizados para se fazer essa experiência em sala de aula e suas instruções detalhadas (assim como instruções de como realizar outras provas piagetianas). Figura 03: Material para prova piagetiana de con- servação de líquidos (irreversibilidade) Fonte: LAPSI (2014). Piaget considerava outras característi- cas marcantes no pensamento da primeira infância: o egocentrismo, a confusão entre a aparência e a realidade e o raciocínio não lógico. Assim como a descentração, essas características também explicam os erros que a criança pré-operacional comete nor- malmente, ou seja, as limitações comuns ao seu padrão de pensamento. O egocentrismo na visão de Piaget pode ser compreendido como a tendência da criança dessa faixa etária de considerar o mundo apenas a partir de seu próprio ponto de vista, ou seja, elas ainda são incapazes de descentrar (COLE; COLE; 2005). Dentre as outras limitações do pensa- mento pré-operacional, podemos destacar o animismo (atribuir vida a objetos inanima- dos, como, por exemplo, desenhar o sol com rosto) e a incapacidade de distinguir o que é aparência de realidade (não saber diferen- ciar, por exemplo, se a estátua de um enor- me dinossauro no cinema como propaganda de um filme é real ou apenas um “boneco”) 30 31 (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006). Estágio das operações concretas: Na segunda infância, os avanços nas ha- bilidades cognitivas da criança tornam as mesmas aptas a ingressarem no ambiente da educação básica, visto que suas ope- rações mentais já são capazes de resolver problemas concretos. A criança demonstra capacidade de pen- samento espacial, consegue compreender relações de causa e efeito, possui capaci- dade de realizar classificações e categori- zações, sabe fazer inferências a partir de raciocínio indutivo e dedutivo, compreen- de princípios da conservação das matérias, além de já conseguir dominar números e conceitos matemáticos. Por outro lado, as crianças ainda apresentam limitações para pensar em situações reais no aqui e no ago- ra (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006). A imagem a seguir ilustra a conservação: semelhante ao que foi feito com os líquidos com a criança pré-operacional, mostra-se à criança duas quantidades iguais de massi- nha, porém, molda-se uma delas com for- mato de salsicha. Ao indagar a criança qual das duas pesa mais a criança já compreende que o peso é o mesmo. Figura 04: Prova piagetiana da conservação Fonte: Ler e Escrever Certo (2009). Além das habilidades cognitivas, Pia- get elucida que o desenvolvimento moral está ligado ao desenvolvimento cognitivo. A criança começa a fazer julgamentos mo- rais em torno dos 7 anos, ainda em estágio pré-operacional, porém, nessa fase, ela ain- da pensa de maneira muito rígida sobre os conceitos morais, são muito egocêntricas e não conseguem ver uma situação moral sobre mais de um ponto de vista, acreditam que qualquer infração merece punições rí- gidas, exceto quanto ela comete a infração. Já acima dos 7 anos, a criança torna-se mais flexível para elaborar o seu próprio código moral a partir da sua interação com outras pessoas. O interesse das crianças pelos jo- gos com regras nessa fase relaciona-se com o desenvolvimento do julgamento moral (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006). Estágio das operações formais Não mais limitados ao aqui e agora, são capazes de compreender o tempo histórico e o espaço extraterrestre. Po- dem utilizar símbolos para representar outros símbolos (por exemplo, utilizar a letra X para representar um número, como 15) e, assim, podem aprender ál- gebra e cálculo. Podem apreciar melhor a metáfora e a alegoria e, assim, desco- brir significados mais ricos na literatura. São capazes de pensar em termos do que poderia ser, e não apenas do que é. São capazes de imaginar possibilidades e de gerar e testar hipóteses (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006, p.455). Os estudos de Piaget para demonstrar opensamento de operações formais foram nos campos da ciência e da lógica, porém esse padrão de pensamento ocorre em di- ferentes padrões de pensamento do ado- lescente e é esperado encontrar o mesmo 32 33 em adolescentes e adultos de diferentes culturas (COLE; COLE, 2005). 3.2.3 Piaget e a aprendiza- gem Dentre os conteúdos que foram apresentados sobre a teoria de Pia- get, alguns pontos se fazem relevantes para a educação, os quais são: compreender a natureza interacionista da aprendizagem; conhecer os estágios do desenvolvi- mento cognitivo da criança; entender que determinados “erros” são, na verdade, típicos do padrão de de- senvolvimento do pensamento infantil; compreender que, a partir dessa teo- ria, há embasamentos que justifiquem as idades adequadas para a aprendizagem de determinados conteúdos; entender como se dá o processo de in- trojeção do código moral. A partir desses pontos de reflexão, é pos- sível concluir que, para Piaget, o objetivo da educação seria potencializar a construção de estruturas cognitivas, contribuindo, as- sim, para o desenvolvimento dos estágios anteriormente apresentados. O professor pode colaborar com esse processo asso- ciando os conteúdos escolares à compe- tência cognitiva dos alunos, de forma que a metodologia de ensino torne claro que o co- nhecimento é um processo de construção por parte do sujeito, ou seja, não é simples- mente transmitido pelo professor. É papel dos educadores e familiares proporem aos educandos atividades lúdicas, experiên- cias físicas sobre os objetos (como aquelas descritas por Piaget e exemplificadas nesse material), pois, dessa forma, o estudante pode agir de maneira ativa sobre esses ma- teriais, construindo conceitos, assimilando, acomodando e equilibrando (MAIA, 2008). 3.3 Vygotsky e a aprendiza- gem Assim como Freud e Piaget, Vygotsky é o terceiro teórico da aprendizagem esco- lhido para ser um de nossos principais refe- renciais nesses materiais. Nesse momento iremos abordar brevemente algumas de suas ideias centrais sobre a aprendizagem e, posteriormente, em outra seção, apre- sentaremos algumas de suas ideias sobre a afetividade. [...] Vygotsky tem como um de seus pressupostos básicos a ideia de que o ser humano constitui-se enquanto tal na sua relação com o outro social. A cul- tura torna-se parte da natureza humana num processo histórico que, ao longo da espécie e do indivíduo, molda o funcio- namento psicológico do homem (OLIVEI- RA, 1992, p.24). Assim como Piaget, Vygotsky (1896- 1934) também enfatiza a importância da interação ativa da criança com o ambiente para o seu desenvolvimento cognitivo. O te- órico postula que a aprendizagem das crian- ças se dá através das interações sociais, ou seja, as crianças adquirem habilidades cog- nitivas a partir das interações sociais, es- pecialmente com adultos (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006). Vygotsky defende a ideia de contínua interação entre as mutáveis condições sociais e a base biológica do comporta- mento humano. Partindo de estruturas 32 33 orgânicas elementares, determinadas basicamente pela maturação, formam- -se novas e mais complexas funções mentais, a depender da natureza das experiências sociais a que as crianças se acham expostas (OLIVEIRA; DAVIS, 1994, p.49). Para Vygotsky, os adultos devem dirigir e organizar a aprendizagem da criança até que ela tenha condições de aprender e in- ternalizar seu próprio aprendizado. (PAPA- LIA; OLDS; FELDMAN, 2006). O papel da lin- guagem é essencial para introduzir a criança no contexto social ao qual ela pertence, o que normalmente é feito pelos adultos e pelas crianças mais velhas. Esse processo de internalização é ati- vo e a criança apropria-se do social de uma forma muito particular (OLIVEIRA; DAVIS, 1994). Maia (2008, p.69) caracteriza inter- nalização como: “reconstrução interna de uma operação externa”. O sujeito, ao mesmo tempo em que se in- tegra no social, posiciona-se frente ao meio e é capaz de transformá-lo; à medida que as crianças crescem elas vão necessitando menos da ajuda externa para o processo de internalização, assim como para transfor- mar o meio ao seu redor (OLIVEIRA; DAVIS, 1994). Através da fala, é possível aprender so- bre o meio, além de modificar a qualidade de conhecimento e pensamento que se tem sobre o mundo no qual o sujeito está inserido. Segundo Vygotsky, ao internalizar instruções, as crianças acabam por modifi- car os seus processos psicológicos básicos – tais como percepção, atenção e memória – essenciais ao processo de aprendizagem e que serão apresentados numa outra seção da apostila (OLIVEIRA; DAVIS, 1994). Os mecanismos de mudanças indivi- duais têm suas raízes na cultura e na so- ciedade, sendo a linguagem um proces- so extremamente social que, através da interação social, transforma-se em um processo puramente pessoal, precedin- do, dessa forma, o pensamento (MAIA, 2008, p.69). Por meio desse processo, torna-se possí- vel compreender que os processos mentais superiores como a capacidade de resolver problemas e o complexo uso da memória, dentre outros, aparecem, a princípio, no plano do social, pois estão relacionados com a interação de outras pessoas, para só com o decorrer do desenvolvimento surgirem no plano psicológico, individual. Dessa forma, é possível afirmar que a apropriação que a criança faz da experiência social (constru- ção da sua realidade) parte primeiramente do social e depois é internalizada por ela (OLIVEIRA; DAVIS, 1994). Vygotsky não postula que o desenvolvi- mento cognitivo aconteça em etapas, como fez Piaget. Segundo ele, os fatores bioló- gicos são mais importantes que os sociais apenas na ocasião do nascimento e, ao lon- go do desenvolvimento, são as múltiplas e variadas situações sociais que irão influen- ciar o desenvolvimento do pensamento e do raciocínio infantil (OLIVEIRA; DAVIS, 1994). As postulações de Vygotsky sobre os fatores biológicos e sociais no desenvolvi- mento psicológico apontam para dois ca- minhos complementares e investigação: de um lado, o conhecimento do cérebro como substrato material da atividade psicológica e, de outro lado, a cultura como parte es- 34 35 sencial da constituição do ser humano, num processo em que o biológico transforma-se no sócio-histórico (OLIVEIRA, 1992, p.33). Já foi atribuída a grande importância da linguagem em sua teoria, no que diz respei- to ao desenvolvimento cognitivo. Central nas teorias de Vygotsky é a ideia de que o contexto social influencia o desenvolvimento da linguagem, que, por sua vez, influencia o desenvolvi- mento cognitivo. As crianças começam dirigindo sua fala para comunicações específicas com os outros, tal como pe- dir comida ou quando se dão instruções ou conversam consigo mesmo enquanto brincam. Finalmente, as crianças inter- nalizam as palavras em uma fala interior, que compreende pensamentos verbais que dirigem o comportamento e a cog- nição. Nossos pensamentos baseiam-se na linguagem que adquirimos por meio da cultura, e essa fala interior constante reflete processos cognitivos de ordem superior (GAZANINGA; HEARTHETON, 2005, p.370). Para ele, pensamento e linguagem são circuitos interligados – o que pode ser ob- servado, por exemplo, quando se observa uma criança de menos de três anos narrar o seu comportamento, padrão que se modifi- ca ao longo do desenvolvimento (OLIVEIRA; DAVIS, 1994). Com essa orientação, elas podem ultra- passar a ZDP – zona de desenvolvimento proximal, que é a distância entre o que a criança já é capaz de fazer sozinha e aquilo que ela ainda não está totalmente pronta para alcançar sem auxílio (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006). A teoria de Vygotsky tem importan- tes implicaçõespara a educação e para os testes cognitivos. Testes baseados na ZDP, que focalizam o potencial de uma criança, oferecem uma alternati- va valiosa para os testes de inteligência padrão que avaliam o que uma criança já aprendeu; muitas crianças beneficiam- -se com o tipo de orientação especiali- zada prescrita por Vygotsky (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006, p.83). Oliveira e Davis (1994) também elucidam a importância da teoria de Vygotsky para a educação. Segundo os autores, o educador precisa entender a importância da lingua- gem no processo de aprendizagem, já que através da relação verbal entre professor e alunos, as crianças tornam seu padrão de pensamento mais complexo e conseguem processar mais informações. Além disso, ao se compreender o conceito de ZDP, o edu- cador pode entender o que a criança é ca- paz de conseguir com e sem ajuda externa, podendo, assim, planejar as situações de ensino e avaliar os progressos individuais de seus alunos. Além disso, Maia (2008) acrescenta que a interação social propiciada pela exploração linguística é indispensável à construção da ZDP do estudante, por isso ela sugere que o educador trabalhe filmes, músicas, histó- rias, desenhos, brincadeiras que envolvam a linguagem, a atenção, a memória, explo- rando sempre as diversas variações linguís- ticas presentes nesses diferentes canais. Finalizamos com a reflexão de Oliveira (1992, p.33): “[...] a aprendizagem é fun- damental para o desenvolvimento desde o nascimento da criança. A aprendizagem desperta processos internos de desenvol- vimento que só podem ocorrer quando o in- 34 35 divíduo interage com outras pessoas.” 3.4 Fases do desenvolvimen- to psicossexual de Freud e implicações na aprendiza- gem Após, no capítulo anterior, tomarmos co- nhecimento de conceitos centrais da teoria psicanalítica como inconsciente, id, ego e superego é o momento de apresentarmos outro ponto de central importância para o educador: as fases do desenvolvimento psicossexual propostas por Freud e suas consequentes implicações para o processo educacional. Assim como Piaget e Erikson, Freud tam- bém postulava que o desenvolvimento humano se dá através de estágios. Piaget estudou o desenvolvimento cognitivo, en- quanto Freud defendeu a teoria do desen- volvimento psicossexual. Para ele, os primeiros anos de vida são de extrema importância na estruturação da personalidade da criança, já que, para a sua teoria, a criança passa por três estágios du- rante os seus cinco primeiros anos de vida, em seguida, ocorre o período de latência, o qual dura aproximadamente cinco anos de relativa estabilidade e, com o advento da adolescência, surge a última fase do desen- volvimento psicossexual (HALL; LINDZEY, 1984). A tabela a seguir sintetiza os principais acontecimentos ocorridos em cada uma das fases ou estágios descritos por Freud: Estágio Psicossexual Idade aproximada Principais Características Fase oral 0 – 1 ano e meio aproximadamente Boca: comer é fonte de prazer pela estimulação dos lábios e boca. Reflexo de sucção: sobrevivência, prazer. Fixação nesta fase: “engole” tudo que dizem; prazer da aquisição de conhecimentos e de bens; sarcasmo ou tendência à discussão (mor- der), roer unhas, transtornos alimentares, compulsão pelo cigarro. Base do desenvolvimento da personalidade, atitudes e traços de caráter. 36 37 Fase anal 1 a 3 anos aproximadamente Prazer: retenção e expulsão das fezes. Treino higiênico: controle dos esfíncteres mar- ca o controle externo de um impulso instintivo. Método educativo e postura da mãe em relação às fezes pode produzir efeitos prolongados na formação de traços na criança. Mãe rigorosa e repressiva: retenção das fe- zes; conduta de caráter retentivo: obstinação, avareza, defecação em horas impróprias, cruel- dade, destrutividade, obsessão pela limpeza, rigidez com horários e rotinas, desleixo exces- sivo. Mãe que exige para que a criança defeque e elogia intensamente: noção de que a expulsão das fezes é extremamente importante: base da criatividade e produtividade. Fezes: valor simbólico de presente. Fase fálica 3 – 6 anos aproximadamente Zona de prazer: órgãos genitais. Sensações sexuais e de agressividade associa- da aos órgãos genitais. Presença de masturbação, fantasias, autoero- tismo, descoberta do próprio corpo e do corpo do outro (as diferenças sexuais). Eventos importantes: Complexo de Édipo e complexo de castração. Vivências diferentes nos meninos e nas meni- nas. O Complexo de Édipo marca a estruturação da personalidade do indivíduo, mesmo após ser reprimido. As relações com as pessoas do sexo oposto e com pessoas que simbolizem autoridade são condicionadas por este complexo. Latência 6 anos à puberdade aproximadamente Repressão dos impulsos. Diminuição das atividades sexuais. Mecanismo de defesa: sublimação. Realizações escolares, alfabetização, socializa- ção. Fase relativamente calma. 36 37 Tabela 04: Estágios psicossexuais de Freud e principais características Fontes: compilações de Hall e Lindzey (1984); Papalia, Olds e Feldman (2006); Fadiman e Frager (2002). Fase genital Puberdade à idade adulta Órgãos genitais. Mudanças físicas e hormonais da puberdade despertam a libido. Nos estágios pré-genitais há o autoerotismo. Na fase genital, o adolescente já realiza esco- lhas objetais. Amam o outro por motivos altruístas e não ape- nas por razões narcisistas ou egoístas. Atração sexual, socialização, atividades de grupo, interesse profissional, preparação para o casamento e interesse em constituir família. Mecanismos de sublimação, identificação. Função biológica: reprodução. Aspectos psicológicos: estabilidade e seguran- ça. Para uma melhor compreensão da tabela anterior, algumas observações serão reali- zadas a seguir: Importante destacar que dentre os auto- res que estudam personalidade, como Hall e Lindzey (1984); Fadiman e Frager (2002), quanto os que estudam o desenvolvimen- to humano como Papalia, Olds e Feldman (2006), Cole e Cole (2004), ao fazerem menção à teoria de Freud, os mesmos res- saltam que os estágios acontecem em ida- des aproximadas, visto que temos que con- siderar as diferenças individuais. Isso deve ser ressaltado ainda mais se considerarmos que a teoria de Freud foi descrita há bas- tante tempo. Por exemplo, o texto sobre o Complexo de Édipo data de 1897 e se consi- derarmos as diferenças ocorridas nas esfe- ras sócio-históricas e culturais nessa época há de se esperar que pequenas diferenças podem ocorrer (era mais fácil compreender a expressão “inveja do pênis” na sociedade da época extremamente machista, onde a mulher ainda era extremamente reprimida educacionalmente e sexualmente, não era garantido a ela o direito de voto do que na atualidade, quando a igualdade dos sexos prega uma realidade diferente). Observa-se que a libido (prazer sexual) modifica-se de uma zona corporal para a outra. Freud causou um grande impacto na sociedade científica e leiga ao afirmar que a sexualidade fazia parte da vida infantil, já que as crianças eram consideradas ver- dadeiros anjos, isentos de uma dimensão sexual. Houve uma verdadeira interpreta- ção errônea, não se está afirmando que a dimensão sexual a qual o adulto está acos- tumado se faz presente na vida das crian- ças, apenas que a sexualidade, na forma de energia, de libido, é um impulso que se faz presente desde o nascimento e é responsá- vel pela sobrevivência do ser humano. Inicialmente, a libido está concentrada na boca, região relacionada à sobrevivên- cia, à nutrição. Se sugar não fosse também 38 39 fonte de prazer talvez o bebê não tivesse, por si só, condições de mamar e garantir suasobrevivência. Observa-se que o bebê acal- ma ao mamar, ao chupar os dedos, a chupe- ta, ou seja, alivia tensões associadas à zona oral. Quando essa libido não migra para ou- tras zonas, ou seja, quando acontecem as denominadas fixações, as consequências persistem até anos posteriores, conforme mostra a tabela. Se o desenvolvimento segue seu curso normal, a libido passa para o ânus, ocasião em que, por esse motivo, é indicado retirar as fraldas da criança. Retirar as fraldas an- tes dessa idade não é recomendado, visto que a libido normalmente ainda não foi des- locada para a região anal, por isso a aten- ção da criança não está direcionada para a retenção e eliminação das fezes e o ato de controlar as idas ao banheiro pode ser difícil. Quando a libido é deslocada para os ór- gãos genitais, na fase fálica, é muito comum observarmos as crianças, sejam elas meni- nos ou meninas, num processo constante de conhecimento do próprio corpo e curio- sidade com o corpo do outro. A criança des- cobre que obtém prazer pela estimulação dela mesma em determinadas zonas de seu corpo, em especial as zonas genitais, o que costuma gerar constrangimentos por parte de professores e familiares. Freud denomi- nava esse processo de autoerotismo. Nes- se período, a criança passa por conflitos in- conscientes entre seus impulsos biológicos inatos e as exigências sociais, já que as pes- soas reprimem essa manipulação. Convém ressaltar que o processo de descoberta do corpo e do prazer que o mesmo proporcio- na nesta fase é normal e os adultos devem tentar intervir com naturalidade para mi- nimizar os comportamentos exploratórios excessivos e públicos por parte da criança. Observa-se que nas fases anteriores só os impulsos biológicos estavam em jogo. Os mecanismos de defesa foram defini- dos por Freud como medidas extremas para se aliviar a tensão quando o ego se vê sob a pressão excessiva da angústia. Segundo Hall e Lindzey (1984, p.38): Todos os mecanismos de defesa pos- suem duas características em comum: 1) negam, falsificam ou distorcem a reali- dade; 2) operam inconscientemente, de sorte que a pessoa não tem consciência do que está ocorrendo. Citamos que na latência, o mecanismo de defesa característico é a sublimação, que consiste, em linhas gerais, no fato da criança, neste momento, ter suas pulsões sexuais da fase anterior – fase fálica – ca- nalizadas para outras atividades, como as acadêmicas e culturais (LAPLANCHE; PON- TALIS, 1988). Assim, compreendemos por- que do ponto de vista psicossexual, da libi- do, da energia, é por volta dos 6 anos – fase da latência – que a criança encontra-se em condições de ingressar-se na educação bá- sica e de ser alfabetizada. Antes dessa fase, sua libido estaria toda direcionada à re- gião genital, seu prazer seria atingido pela curiosidade e pelo autoerotismo, portanto, a aprendizagem não seria satisfatória. Por outro lado, na fase da latência, observa-se na tabela que a libido não está localizada em nenhum órgão do corpo, ou seja, a libido se desloca para fora do corpo, permitindo à criança a satisfação por vias exteriores a ele, como as intelectuais. Outro mecanismo de defesa citado na ta- bela anterior que acontece na fase genital é a identificação que consiste, em linhas ge- rais, num processo inconsciente, em que o 38 39 indivíduo assimila um aspecto, uma proprie- dade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo desta pessoa. Convém destacar que a per- sonalidade constitui-se e diferencia-se por uma série de identificações (HALL; LIND- ZEY, 1984). As fases oral, anal, genital e de latência ocorrem de maneira semelhante em am- bos os sexos. Na fase fálica acontecem dois eventos marcantes – o Complexo de Édipo e o Complexo de Castração – os quais apre- sentam história e destino diferentes nos meninos e nas meninas. É muito importan- te conhecer os dois complexos para tentar compreender que as diferenças entre me- ninos e meninas não são apenas anatômi- cas e começam a ficar mais evidentes em sua personalidade na ocasião da elaboração desses complexos. O termo Complexo de Édipo foi citado por Freud a partir da leitura da “Trilogia Tebana”, em que Édipo matou seu pai e se casou com a mãe (JORGE; FERREIRA, 2002). Entende- -se que, a partir de seus escritos sobre o complexo de Édipo e o complexo de castra- ção, devemos fazer uma leitura crítica e re- alizar interpretações cuidadosas, para não corrermos o cuidado de cair naquela visão crítica de que “Freud afirmou que as crian- ças desejavam conscientemente manter relações sexuais com suas mães”. Como já foi explicado anteriormente, o sentido não é esse, ele teorizou a respeito de libido, de energia, de desejos inconscientes, portan- to, aqui não iremos fugir da ideia inicial. Inicialmente, há o interesse precoce da criança pelos órgãos genitais. Aqui, a dife- rença genital não conta, porque a criança fabrica a fantasia de que todos os seres hu- manos têm o mesmo genital: o órgão sexual masculino. Depois, vem o período em que ela se depara com a diferença entre os se- xos: tanto ela quanto os adultos se dividem entre aqueles que têm pênis e aqueles que não têm. Dessa constatação advêm fanta- sias: ameaça de perder o pênis para os me- ninos e esperança de vir a tê-lo para as me- ninas. Freud afirma que essa fantasia tem a função de reparar a decepção de um des- locamento: existem seres humanos des- providos de uma parte preciosa. O desmo- ronamento da prevalência do órgão sexual masculino inaugura o complexo de castra- ção. Desta forma, o complexo de castração se apresenta indissociável do complexo de Édipo (JORGE; FERREIRA, 2002, p.47-48). a) Complexo de Édipo e angústia de castração no menino: A síntese a seguir mostra o caminho que o menino percorre para a resolução de seu complexo de Édipo e para lidar com a angús- tia de castração. O menino deseja possuir a mãe e afas- tar o pai. Alternância entre amor e ódio pelos pais. Mãe: primeiro objeto de amor. Teme ser castigado pelo pai (por dese- jar a mãe): angústia de castração. Reprime o desejo sexual em relação à mãe e sua hostilidade em relação ao pai. Identificação com o pai. Repressão do Complexo de Édipo: su- perego: garantia contra o incesto e a agres- são. No menino, o drama edípico se articula com a entrada no complexo de castração: “Se alguns têm pênis e outros não, logo eu que tenho, posso perdê-lo”. Aqui, entra em cena a função do pai que é interditar a mãe. 40 4140 Essa proibição, núcleo do sentimento de culpa, conduz o menino à renúncia da mãe e à identificação com o pai. Logo, identifica- ção viril – que se realiza pela internalização do pai como ideal do eu – e substituição da mãe pelas mulheres resultam na resolução do complexo de Édipo e na saída encontra- da para o complexo de castração (JORGE; FERREIRA, 2002, p.48-49). b)Complexo de Édipo e complexo de castração na menina A síntese a seguir mostra o caminho que a menina percorre para a resolução do dra- ma edípico e para lidar com a constatação da sua castração. Objeto de amor inicial: mãe. Descobre que o menino tem o pênis e ela não tem. Culpa a mãe por sua castração. Deslocamento para o pai, pois ele pos- sui o falo. Amor pelo pai e pelos homens: mescla- do pela inveja do pênis. Complexo de castração: ela imagina que teve um pênis e o perdeu. Compensação da falta do pênis com o nascimento de um filho homem. O complexo de castração dá início ao Complexo de Édipo, que tende a persistir. Na menina o complexo não é tão forte- mente reprimido como no menino, funda- mentando as diferenças psicológicas entre os sexos. Em relação à menina, a resolução do drama edípico se efetua não pela saídaencontrada pelo menino para o comple- xo de castração, mas com o fato de se deparar com sua própria condição ana- tômica, experimentada como castração: “Nunca tive pênis, logo nunca poderei vir a tê-lo”. Isto implica numa dupla re- núncia: ao pênis e à fantasia erótica de ter um filho com o pai (JORGE; FERREIRA, 2002, p.49). Compreender essas diferenças entre menino e menina, assim como o que acon- tece com a libido no processo de latência e alguns mecanismos de defesa é muito pou- co diante da extensa teoria psicanalítica, mas é um pouco necessário ao profissional da educação, que irá lidar com crianças em diferentes fases de desenvolvimento. Es- sas breves pinceladas sobre a psicanálise não deixarão o educador atônito ao se de- parar com uma criança na fase fálica explo- rando seus órgãos genitais, ou, ao mesmo tempo, compreenderá, por via de uma outra teoria, não pedagógica, por que forçar a al- fabetização antes da idade recomendada pode não ser benéfico para a criança, assim como pode não ser recomendável a retirada das fraldas por volta dos oito meses, como muitos pais o faziam. Associando-se a psi- canálise à educação pode-se refletir que: O trabalho educativo orientado pela Psicanálise reconhece a individualidade de cada aluno e que não existe modelo único, nem um sistema fixo de represen- tações. Utiliza-se uma ética baseada no respeito às diferenças individuais como único meio de se atingir a igualdade so- cial. A ética do respeito e do reconheci- mento (CASSINS, 2007, p.29). 40 4141 UNIDADE 4 - Psicologia da Aprendizagem Até este momento, procurou-se defi- nir a psicologia e seu campo de estudo; o Behaviorismo e a Psicanálise, que trazem importantes contribuições para a formação teórica e, consequente, aplicação prática do educador. Definiu-se também a psicologia da educação e escolar, procurando estabe- lecer uma diferenciação entre a práxis do psicólogo escolar e as contribuições que a psicologia da educação têm a oferecer para o educador e os profissionais que atuam na escola. Para isso, precisamos compreender um pouco mais o processo de desenvolvi- mento humano e algumas teorias psicoló- gicas, como a psicanálise de Freud, e as que fazem ponte entre a psicologia e a educa- ção, como as teorias de Piaget e Vygotsky. A partir de agora, pretende-se enfocar o aluno dentro do paradigma da psicologia da aprendizagem, compreendendo esta dentro de um viés cognitivo, social e afeti- vo. Serão enfocados conceitos, teorias, difi- culdades de aprendizagem e possibilidades que podem ser oferecidas pela psicologia sempre em interface com a educação. A aprendizagem acontece desde o mo- mento do nascimento, mas a escola é o lo- cal destinado à educação formal. A citação a seguir ilustra isso: A aquisição da linguagem escrita é um objetivo básico a ser alcançado na fase ini- cial de escolarização e dela depende o su- cesso da aprendizagem escolar nas fases posteriores da escolarização. Desde o mo- mento em que a criança inicia sua vida esco- lar, a aprendizagem da leitura e da escrita se torna o objetivo principal, inicialmente em função da alfabetização, que marca a en- trada da criança em um novo mundo, onde ela pode ser mais autônoma, por ser capaz de ler informações importantes e entender melhor o que está à sua volta, como tam- bém, a partir desse conhecimento, buscar formas de desenvolver essa nova capaci- dade. Assim, após a aprendizagem dessas habilidades, no decorrer dos anos da vida acadêmica, a leitura/escrita continua sen- do fundamental para o ensino e a aprendi- zagem de diversas disciplinas. (HAGEN; MI- RANDA; MOTA, 2010, p.149). 4.1 Aprendizagem e psicolo- gia da aprendizagem Gazzaninga e Heatherton (2005) defi- nem aprendizagem como uma mudança re- lativamente duradoura de comportamento que acontece quando os indivíduos se be- neficiam da experiência para assim torna- rem seus comportamentos futuros mais adaptados ao ambiente. Há mecanismos biológicos similares envolvidos na aprendi- zagem e na memória. Como já foi apresentado anteriormente nesta apostila (quando se estudou o beha- viorismo), a aprendizagem pode ocorrer através de reforços – que são estímulos posteriores a uma determinada resposta e que aumentam a probabilidade desta res- posta ser repetida. Esse tipo de aprendiza- gem, ou condicionamento, pode acontecer tanto em humanos, quanto em animais. Re- capitulando a aprendizagem por condicio- namento: O condicionamento clássico envolve a as- sociação aprendida entre estímulos neutros e reflexivos. O condicionamento operante 42 43 é uma forma de aprendizagem em que os estímulos que se seguem a comportamen- tos determinam a probabilidade de os com- portamentos serem repetidos. Os reforços positivos aumentam o comportamento ao proporcionar uma recompensa, ao pas- so que os reforços negativos aumentam o comportamento ao remover um estímulo aversivo. O reforço contínuo é melhor para a aquisição de um novo comportamento, enquanto o reforço parcial, especialmente o reforço de razão variável, é mais resisten- te à extinção. A punição só é efetiva quando é aplicada imediatamente após o comporta- mento indesejado. A punição muitas vezes é utilizada de modo inefetivo e tem uma série de consequências indesejáveis. A biologia impõe limites para que os animais podem aprender, e os animais têm dificuldades em adquirir comportamentos que são incompa- tíveis com respostas adaptativas evolutivas (GAZANINGA; HEATHERTON, 2005, p.198). Ensinar através de condicionamentos é uma forma eficaz, porém, aprender através de condicionamento, reforços e punições não é a única estratégia existente. Bandu- ra propôs a teoria da aprendizagem social, a qual postula que a aprendizagem, em espe- cial das crianças, ocorre pela observação e imitação de modelos. Nessa teoria, o apren- diz aparece com um papel ativo sobre o am- biente. De acordo com a teoria de Bandura, as crianças escolhem quem irão observar, mesmo que o modelo não esteja presente no momento, sendo que a escolha do mode- lo a imitar é influenciada pelas característi- cas do modelo, pela escolha, pelo ambiente, ou, por exemplo, se o comportamento é va- lorizado pela cultura. Segundo a teoria da aprendizagem social, a imitação de modelos é o ele- mento mais importante na forma como as crianças aprendem uma língua, lidam com a agressividade, desenvolvem um senso moral e aprendem comportamen- tos apropriados ao gênero (PAPALIA; OLDS; FELDMAN, 2006, p.73-74). Essa linha teórica é importante para em- basar teoricamente, por exemplo, os está- gios de observação, onde, após estudar te- oricamente, o próximo passo do estagiário é observar os profissionais executarem as tarefas para que apenas futuramente ele possa desempenhá-las. Num momento anterior desse material, fornecemos definições sobre psicologia da educação e escolar e qual o papel do psicólo- go educacional/escolar na equipe multipro- fissional da escola. Porém, temos também a psicologia da aprendizagem, cuja definição está mais voltada para os processos psico- lógicos relacionados à aprendizagem em si, como mostra a citação a seguir. A Psicologia da Aprendizagem estuda o complexo processo pelo qual as formas de pensar e os conhecimentos existen- tes numa sociedade são apropriados pela criança. Para que se possa entender esse processo é necessário reconhecer a natureza social da aprendizagem (OLI- VEIRA; DAVIS, 1994, p.21). 4.2 Processos psicológicos do estudante e a aprendiza- gem Definimos brevemente o que é a apren- dizagem – um campo de estudo da psicolo- 42 43 gia e também área de interesse do educador. Entender como ocorre a aprendizagem é es- sencial para compreendermos, por exemplo, o que causam as dificuldades de aprendiza-gem. Porém, antes de pensarmos nas dificul- dades de aprendizagem, iremos aprofundar um pouco mais na questão de como as pes- soas aprendem, ou melhor, como as pessoas pensam. A área da psicologia que estuda esse cam- po não é a psicologia escolar, mas a psico- logia cognitiva, que é “o estudo de como as pessoas percebem, aprendem, lembram-se e pensam sobre a informação” (STERNBERG, 2010, p.1). Em linhas gerais, pode-se afirmar que a Psicologia Cognitiva preocupa-se com os processos internos envolvidos em extrair sentido do ambiente e decidir que ação deve ser apropriada. São processos cognitivos a atenção, a percepção, a aprendizagem, a memória, a linguagem, a resolução de pro- blemas, o raciocínio e o pensamento. Como os temas são bastante extensos e não haveria espaço disponível para abor- darmos todos aqui nesta apostila, limitare- mo-nos a discorrer acerca da atenção, me- mória e inteligência, processos cognitivos esses que estão muito próximos da prática do educador. Importante ressaltar que esses processos cognitivos atuam conjuntamente a nível cerebral, sendo, muitas vezes, difícil compreender o funcionamento de um pro- cesso cognitivo isolado do outro. Atenção A atenção refere-se tipicamente à sele- tividade do processamento. É a direção da consciência, focalização. É a aplicação se- letiva da sensibilidade a uma determinada porção dos fenômenos que nos afetam. Para estar atento, o indivíduo precisa abdicar a percepção de determinados estímulos para assim lidar de maneira eficaz com outros. “O estudo da atenção é o estudo de como o cérebro seleciona quais estímulos senso- riais descartar e quais transmitir para níveis superiores de processamento” (GAZZANI- GA; HEATHERTON, 2005, p. 175). Para Sternberg (2008, p. 71), a atenção tem papel importante no funcionamento psicológico do ser humano, ou seja, é fun- damental para sobrevivência e adaptação. “Os fenômenos psicológicos da atenção nos possibilitam usar nossos recursos mentais limitados de forma sensata” (p. 72). O autor acrescenta que assim podemos nos focar em estímulos do nosso interesse e respon- der de forma mais rápida e precisa a esses estímulos, ou seja, interesse faz menção a uma característica que depende da vontade, da afetividade, que iremos aprofundar num outro momento. A atenção está também estreitamente ligada à memória. “É mais provável que nos lembremos de informações às quais pres- tamos atenção do que das que ignoramos.” (STERNBERG, 2008, p. 72) A atenção pode ser de dois tipos: focaliza- da (seletiva) ou dividida. Atenção focalizada (seletiva): dentre mais de um estímulo, a pessoa seleciona aquele ao qual irá direcionar sua atenção. Exemplo: quando abrimos mão de músicas e conversas no celular para nos dedicar a estu- dar uma apostila. Atenção dividida: dentre mais de um es- tímulo, a pessoa direciona sua atenção a to- dos eles. Exemplo: atenção necessária para dirigir (necessidade de prestar atenção a todos os retrovisores, volante, pedais, mar- 44 45 chas, sons, entre outros). Atualmente, ouve-se muito falar no TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção e Hipera- tividade – em alunos. Os sintomas principais são desatenção, hiperatividade ou ambos, o que pode influenciar negativamente no de- sempenho escolar do aluno. Quando é do tipo hiperativo costuma causar desajustes em toda a classe. Há a necessidade de avaliação por equipe multidisciplinar, composta princi- palmente por médico e neuropsicólogo, pois, atualmente, há vários casos de crianças com diagnóstico impreciso e que são medicadas de forma desnecessária, o que pode acarre- tar numa série de prejuízos. Importante des- tacar que o professor tem um importante papel no diagnóstico do TDAH, pois, na maio- ria das vezes, ele percebe os primeiros sin- tomas antes mesmo dos pais e deve relatar que há algo de errado com a criança. A gran- de questão é tentar não confundir TDAH, um transtorno real, biológico, que necessita de tratamento, com falta de limites, uma ques- tão comportamental, que precisa ser corri- gida, sem o uso de medicação (COUTINHO et al., 2009). Memória Assim como a atenção, a memória é im- prescindível para o desempenho de tarefas escolares, de atividades cotidianas, assim como para a nossa sobrevivência em geral. Gazaninga e Heatherton (2005, p.216) de- finem memória como: [...] a capacidade do sistema nervoso de adquirir e reter habilidades e conhe- cimentos utilizáveis, permitindo que os organismos se beneficiem da experiên- cia. [...] Todo nosso senso de self é aquilo que sabemos por nossa memória, nossas lembranças de experiências pessoais. Os autores levantam um ponto extrema- mente importante, o qual iremos reforçar: a memória é nossa identidade, pois somos aquilo que lembramos. A linguagem exerce um importante papel por ser um proces- so cognitivo relacionado com a memória e, além disso, por, junto dessa, atuar na for- mação da identidade de cada um. Izquierdo, na citação a seguir, reforça essa ideia: Memória é a aquisição, a formação, a conservação e a evocação de informa- ções. O conjunto das memórias de cada um determina aquilo que se denomina per- sonalidade ou forma de ser. Um humano ou um animal criado no medo será mais cuidadoso, introvertido, lutador ou res- sentido, dependendo mais de suas lem- branças específicas do que de suas pro- priedades congênitas. Nem sequer as lembranças específicas dos seres clona- dos (como os gêmeos univitelinos) são iguais; as experiências de vida de cada um são diferentes. [...] O acervo das memórias de cada um nos converte em indivíduos. Em seu sentido mais amplo, então, a palavra “memória” abrange desde os mecanismos que operam nas placas de meu computador, até a história de cada cidade, país, povo ou civilização, e as me- mórias individuais dos animais e das pes- soas. [...] Os seres humanos utilizam, a partir dos 2 ou 3 anos de idade, a linguagem para adquirir, codificar, guardar ou evo- car memórias, as demais espécies ani- mais, não (IZQUIERDO, 2006, p.9-12). Os estudiosos da memória dividem-na em diferentes sistemas, o que não será 44 45 abordado aqui. Apenas iremos ressaltar dois tipos de armazenamento na memória que devem ser conhecidos pelo educador: a memória de curto prazo e a memória de longo prazo. A memória de curto prazo possui capa- cidade limitada e contém informações na consciência por um período de tempo muito breve. Caso essas informações não sejam direcionadas para a memória de longo pra- zo elas serão perdidas (GAZANINGA; HEAR- THETON, 2005). Já a memória de longo prazo contém in- formações que foram transferidas da me- mória de curto prazo, as quais pareceram úteis para o indivíduo que as armazenou. Para que a informação seja armazenada e mantida, alguns aspectos devem ser consi- derados, como, por exemplo, a repetição – estratégia bastante conhecida pelos estu- dantes (GAZANINGA; HEARTHETON, 2005). A emoção e o interesse afetivo também estão diretamente relacionados a uma boa memória, da mesma forma que a ansiedade prejudica o bom funcionamento da mesma (STERNBERG, 2010). Inteligência [...] inteligência é a capacidade para aprender com a experiência, usando processos metacognitivos para incre- mentar a aprendizagem e a capacidade de adaptar-se ao meio ambiente que nos cerca. Pode exigir adaptações dife- rentes no âmbito de contextos sociais e culturais diferentes (STERNBERG, 2010, p.474). Essa é uma definição bastante genérica sobre inteligência, conceito que não é uni- ficado. Há testes para medir a inteligência, mas hoje em dia acredita-se que nem tudo pode ser testado e quantificado. Gazzanin- ga e Heatheton (2005) elucidam que uma série de estudos aponta que a inteligência sofre influênciados fatores genético e am- biental. Pesquisadores acreditam que a inteli- gência é um construto unificado, ou seja, existem pessoas muito inteligentes de ma- neira geral ou pouco inteligentes de maneira geral; por outro lado, outros teóricos enfati- zam a existência de inteligências múltiplas, o que torna a definição menos segregató- ria. Há também o conceito de inteligência emocional, o qual, em linhas gerais, articula emoção e pensamento, bastante utilizado na atualidade. Compreender a inteligência e como ela se manifesta de diferentes for- mas, em diferentes níveis, nos estudantes é um grande desafio para o professor. Um desses modelos de inteligência, pro- posto por Gardner, denominado como teo- ria de inteligências múltiplas (STERNBERG, 2010), apregoa que a inteligência engloba vários constructos independentes, os quais juntos constituem a inteligência. As nove inteligências de Gardner estão expressas no quadro a seguir: 46 47 Em relação às inteligências múltiplas e o papel do educador Maia (2008, p.89) con- clui que: Com sua teoria, Gardner busca salien- tar a pluralidade da mente e a ineficácia da medição, da classificação e da here- ditariedade. Diferentes inteligências fa- zem partes da constituição do sujeito, o que significa que os sujeitos possuem inteligências diferenciadas a serem tra- balhadas e valorizadas. Cabe à família, à sociedade e ao educador, principalmen- te, desenvolvê-las e respeitá-las. Seria positivo falar nesse material sobre os outros processos cognitivos, já que to- dos possuem relação com a aprendizagem, porém, devido às limitações de espaço isso se torna inviável. O professor precisa ter em mente que todos os processos cognitivos – percepção, atenção, memória, inteligência, linguagem – são processos complexos e inter-relacio- nados. Devido a essa relação íntima entre os processos cognitivos, conseguimos com- preender, por exemplo, que uma queixa de falta de memória pode ser, na verdade, um problema da ordem da atenção. Mesmo sendo processos cognitivos, so- frem influência dos estados emocionais do indivíduo, o que justifica, por exemplo, o “branco” que acontece na hora da prova mesmo após horas de estudo e conheci- mento da matéria. 4.3 Teorias da Aprendi- zagem: aprendizagem de crianças (Piaget e Vygotsky) X aprendizagem de adultos (Knowles): Quando verificamos as teorias construti- Tabela 05: Inteligências múltiplas de Gardner e descrição Fonte: Henneman (2012). 46 47 vista (Piaget) e sócio-histórica (Vygotsky), é possível perceber que as mesmas enfo- cam a aprendizagem da criança e do adoles- cente. Piaget refere-se ao desenvolvimen- to cognitivo da criança e do adolescente, embasou sua teoria com a observação de crianças, enquanto que Vygotsky teorizou acerca de questões desenvolvimentais que ocorrem na infância (como a aquisição da linguagem). O construtivismo, como já foi citado em outras seções desse material, é um referen- cial muito difundido para o ensino e a apren- dizagem e pode ser compreendido como: A interpretação construtivista em sentido estrito dá ênfase aos processos individuais e endógenos de construção do conhecimento e apresenta a ativi- dade autoestruturante do aluno – ativi- dade cuja origem, organização e plane- jamento correspondem ao aluno, para que este possa realizar uma verdadeira aprendizagem. Desde modo, a ação pe- dagógica terá como finalidade criar um ambiente rico e estimulante no qual ele possa se desenvolver sem limitações à sua atividade autoestruturante (COLL; MARTI, 2004, p.57). Autores como Osterman e Cavalcanti (2010) afirmam que as ideias de Piaget são utilizadas para o ensino de Física e Ciências em geral, pois ele mostrou que as crianças aprendem espontaneamente sobre o mun- do físico em determinadas fases de seu de- senvolvimento cognitivo (o que foi ilustra- do na seção sobre os estágios de Piaget). Porém, mesmo com esse exemplo sobre o ensino de física, outros autores mostram como o construtivismo de Piaget continua sendo uma preferência para os anos iniciais de escolarização: A interpretação construtivista em sentido estrito da aprendizagem es- colar inspirou programas pedagógicos dirigidos fundamentalmente à educa- ção pré-escolar e aos primeiros anos do ensino fundamental. [...] A maioria dos conteúdos que se trabalham na escola, sobretudo a partir de um certo nível de escolaridade, possuem um nível de com- plexidade tal que é muito difícil sua assi- milação sem um tipo de ajuda muito mais direta e focalizada que aquela que pare- ce sugerir a formulação exposta (COLL; MARTI, 2004, p.57). Ao recapitular a perspectiva sócio-histó- rica de Vygotsky, observa-se que o teórico enfatizou a importância da mediação, dos signos, da formação de conceitos, da lin- guagem, da zona de desenvolvimento pro- ximal, da afetividade. É destacada, portanto, a importância da figura professor como identificação/ modelo e como elemento-chave nas in- terações sociais do estudante. Os siste- mas de signos, a linguagem, os diagra- mas que o professor utiliza têm um papel relevante na psicologia vygotskyana, pois a aprendizagem depende da rique- za do sistema de signos transmitido e como são utilizados os instrumentos. O objetivo geral da educação, na perspec- tiva vygotskyana, seria o desenvolvi- mento da consciência construída cultu- ralmente (OSTERMANN; CAVALCANTI, 2010, p.28). Até aqui discutimos várias teorias a res- peito de como se ensinar crianças, mas será 48 49 que apenas os pequenos desejam apren- der? Os adultos também não apresentam os mesmos processos cognitivos e os mesmos interesses? Será que os métodos para ensi- nar as crianças são os mesmos para ensinar os adultos? Carvalho et al. (2010) fazem uma rele- vante diferenciação entre a pedagogia e a andragogia. Enquanto a pedagogia, em li- nhas gerais, pode ser compreendida como educação para crianças – indivíduos que, devido às características de seu desenvolvi- mento, são mais dependentes de cuidados por partes de terceiros, como, por exemplo, a atenção dispensada por seus professores, por outro lado, a andragogia consiste na arte de ensinar o adulto a aprender (apud KNOWLES, 1970). A tabela a seguir expõe algumas diferenciações básicas entre a pe- dagogia e a andragogia: Tabela 06: Modelo Andragógico X Modelo Pedagógico Fonte: Noffs, Rodrigues (2011, p.287). Mesmo com essa conceituação defendi- da por teóricos como Knowles, ainda há um debate equivocado de teóricos que falam sobre a pedagogia do adulto, criando um grande equívoco contextual, como apon- tam Carvalho e colaboradores (2010), os quais afirmam a importância dos profissio- nais da educação investigarem o tema para terem subsídios teóricos suficientes e não cometerem enganos como esse. O adulto, diferentemente da criança, é mais independente, carrega consigo uma bagagem maior de experiências de vida – a qual não pode ser descartada no processo de aprendizagem. Assim, a metodologia de ensino direcionada ao adulto deve ser mais centrada no aluno, que pode ser autogestor de sua aprendizagem. O aluno, a partir de suas vivências, tem condições de escolher o que deseja aprender, de modo mais prático e aplicado à sua realidade. Cabe ao profes- sor buscar aplicar os conteúdos à realidade de seus alunos (CARVALHO et al., 2010; NO- FFS; RODRIGUES, 2011). Quando se olha a aprendizagem de adul- tos através da andragogia, vê-se que o pa- pel do professor como é tradicionalmente conhecido, deve ser revisto. Os alunos adul- tos são conscientes de suas habilidades e experiências, e exigem seu maior envol- vimento no processo de aprendizagem. O professor deve transformar-se em facilita- dor, em agente de transformação (CARVA- LHO et al., 2010, p.88).48 49 4.4 Afetividade, autoesti- ma, relações interpessoais e aprendizagem Além da importância dos processos cog- nitivos – tais como a atenção, a percepção, a memória, a linguagem, a inteligência, a criatividade, a resolução de problemas – para a aprendizagem, a psicologia também enfatiza a relevância de outros aspectos, tais como a afetividade, a autoestima e os relacionamentos interpessoais (com o pro- fessor, com os familiares e os colegas) para uma boa aprendizagem. Assim como os aspectos cognitivos, es- ses assuntos, por si só, poderiam ser temas de uma única apostila e não são os únicos fatores que não possuem relação direta com a cognição e influenciam na aprendiza- gem, porém, devido às limitações de espa- ço, os mesmo serão explorados de maneira sucinta nessa seção do material. Afetividade Importante partir do pressuposto de que a afetividade e a cognição possuem, cada uma delas, sua parcela de importância no que diz respeito à aprendizagem. Investi- gando diferentes referenciais teóricos, é comum observar que, a exemplo do que acontecia com a antiga discussão entre corpo e alma, razão e emoção, as duas enti- dades acabam por parecer antagônicas, ou uma extremamente dependente da outra. A citação a seguir explica melhor esse de- bate: Podemos notar, então, que, para algumas abordagens, a razão parece estar submetida à afetividade (confor- me algumas interpretações do modelo freudiano, por exemplo), ou vice-ver- sa (conforme algumas críticas feitas à abordagem piagetiana do assunto). As- sim, consideramos muito importante rever os estatutos e os papéis atribuí- dos aos aspectos afetivos e cognitivos, nas diferentes teorias para empreender uma compreensão para além da visão di- cotômica da natureza humana (SOUZA, 2011, p.50). Souza (2011) disserta sobre a questão das relações entre a afetividade e a inteli- gência no desenvolvimento psicológico nas teorias de Piaget, Vygotsky, Freud e Wallon. Como nesta apostila optamos por não abor- dar a teoria de Wallon, iremos compilar algu- mas das importantes considerações da pes- quisadora a respeito das teorias dos outros três teóricos. Vygotsky realizou uma crítica a esta se- paração entre os aspectos intelectuais e afetivos, propondo uma união entre os dois processos. Segundo ele, o pensamento ori- gina-se na motivação, que inclui necessi- dades, interesses, afeto e emoção. Desta forma, ele explica que uma das bases do pensamento é afetiva (OLIVEIRA, 1992b). O ponto onde se encontram afetividade e inteligência, para Vygotsky, é na palavra, quanto aos seus dois componentes essen- ciais: o significado e o sentido. Sabemos que o estudo das funções cognitivas superiores tomando como referência a intervenção da mediação cultural, especialmente aquela propiciada pela linguagem e tendo como objeto de estudo a consciência humana, foi o foco de Vygotsky. [...] A palavra pos- sui, então, dois elementos: o significado e o sentido. O primeiro refere-se a um siste- ma de relações objetivas que formam uma 50 51 espécie de núcleo estável, o qual pode ser compartilhado com outros indivíduos do mesmo grupo cultural. O significado está, assim, para Vygotsky, mais relacionado ao desenvolvimento dos processos cognitivos superiores. O sentido, por sua vez, se refere ao significado para cada indivíduo, que está, portanto, diretamente relacionado às suas vivências particulares, sendo assim o polo mais afetivo da palavra. A palavra reúne, então, de acordo com a teoria vygotskyana, subjetividade e intersubjetividade, razão e emoção, afetividade e cognição [...] (SOU- ZA, 2011, p.251-252) Segundo Souza (2011), Piaget define que o afeto é essencial, porém não suficiente no funcionamento da inteligência. Segundo ele, a inteligência depende dos afetos, pois, sem eles, não haveria motivação e interes- ses e, consequentemente, a formulação de problemas, necessária à inteligência. La Taille (1992b) acrescenta que a articulação entre inteligência e afeto realizada por Pia- get envolve a questão do juízo moral. Já em relação à teoria freudiana, como elucidamos anteriormente, Freud discor- reu muito sobre as pulsões, e não enfatizou a questão da inteligência. Nesse sentido, Souza (2011, p.252) conclui que: Se tivermos que estabelecer para o modelo freudiano uma tendência quan- to às relações entre afetividade e inte- ligência, diríamos que se trata de uma relação de preponderância dos impulsos inconscientes sobre o funcionamento cognitivo e afetivo consciente. Foi possível concluir que Vygotsky pos- tula uma relação de complementaridade entre afetividade e Inteligência, enquanto Piaget defende a ideia de correspondência entre ambas, ao passo que Freud apregoa que aspectos da ordem das pulsões (instin- tos) influenciam no funcionamento afetivo e cognitivo (SOUZA, 2011). O profissional da educação deve compre- ender a importância da afetividade frente à aprendizagem. A afetividade não se reduz à positiva administração das relações inter- pessoais (assunto também importante e que será tratado a seguir), porém relaciona- -se ao interesse, à motivação. Torna-se mais fácil compreender que o aluno tem maior facilidade em aprender o conteúdo que ele gosta mais, ou aquela matéria do professor que ele se identifica mais, ou presta mais atenção quando o professor fala um assun- to que lhe desperta o interesse. Desta for- ma, torna-se mais fácil compreender que afetividade e cognição caminham juntas e podem facilitar ou dificultar a aprendiza- gem. Cabe ao professor saber usar a afeti- vidade e a motivação como instrumentos de aproximação do aluno, não de repulsa do mesmo. Autoestima [...] a autoestima é o aspecto avaliati- vo do autoconceito, referindo-se a se a pessoa se percebe como tendo valor ou não, sendo boa ou má. São as respostas emocionais das pessoas ao contemplar e avaliar diferentes características suas (GAZZANINGA; HEARTHETON, 2005, p.416). A autoestima está relacionada ao auto- conceito – o conhecimento que a pessoa possui sobre si mesma – e à consideração social percebida – ou seja, por exemplo, quando pessoas que ocupam lugar de im- portância na vida de determinadas pessoas as rejeitam ou humilham isso poderá resul- 50 51 tar em baixa autoestima. O oposto também é verdadeiro (GAZZANINGA; HEARTHETON, 2005). Segundo Papalia, Olds e Feldman (2006), autoestima significa gostar de si mesmo de modo genuíno e altruísta; não se trata de excesso de valorização de si mesmo ou de arrogância e egocentrismo. Gostamos do que realmente somos, aceitando nossas próprias habilidades e limitações. O papel do outro é importante no desenvolvimento da autoestima, sejam eles familiares, ami- gos, ou mesmo desconhecidos. Afirmar que um sujeito possui uma autoestima elevada é o mesmo que dizer que ele tem um julga- mento positivo de si mesmo. Miras (2004) acrescenta que alguns componentes do autoconceito, como a autoimagem e a acei- tação social parecem ser determinantes no nível de autoestima e na citação abaixo, é possível observar como a autoestima rela- ciona-se diretamente com a aprendizagem. A inegável influência dos êxitos e dos fracassos acadêmicos no autoconceito e na autoestima do aluno tende a ser concebida muitas vezes de maneira excessivamente lógica e racional, esquecendo que as repre- sentações que se tem sobre si mesmo, e em particular as crenças sobre suas capacida- des, estão estreitamente ligadas às neces- sidades básicas de controle e à habilidade de sentir-se bem consigo mesmo. Desse modo, a necessidade de manter um auto- conceito e uma autoestima aceitáveis leva a pessoa a procurar modelar o ambiente para que se adapte às próprias expectati- vas e necessidades, evitando, na medida do possível,os fatos e as situações que podem fazer com que se sinta mal consigo mesma. Esse viés autoprotetor explicaria em par- te por que os alunos com um autoconceito acadêmico pobre e um nível de autoestima baixo são os mais reticentes em pedir ajuda ao professor, ou também por que as normas do grupo de iguais, em particular o grau em que valorizam ou se mostram hostis diante do êxito acadêmico, determinam a intera- ção e a busca de ajuda no contexto da sala de aula (KENNEDY, 1997 apud MIRAS, 2004, p.219-220). Cabe ao educador refletir sobre como o autoconceito de seu aluno e sua autoestima influenciam em sua aprendizagem ou em suas dificuldades de aprendizagem. Mais que isso, ele deve entender que a autoes- tima não depende apenas do autoconceito, mas de todo o contexto socioeconômico e cultural no qual o aluno está inserido, o que pode acabar por reforçar sentimentos posi- tivos ou negativos acerca de si mesmo. Uma análise acerca da relação entre autoestima e a aprendizagem / fracasso escolar apon- ta que diferentes linhas de raciocínio foram traçadas até o presente momento, de onde é possível concluir que: Nesse momento, parece ser importan- te retomar os caminhos e descaminhos trilhados pela autoestima e aprendiza- gem até o presente momento. Destaca- mos, assim, algumas análises: a) as estri- tamente psicológicas; b) as que pautam a discussão, quase que exclusivamente, no plano sociológico; c) as atuais, que discutem o fato da produção do fracasso produzir, também, baixa autoestima que, por sua vez, mantém o fracasso escolar. Pensamos, portanto, que se a autoes- tima influencia a aprendizagem escolar, esta também incide sobre a autoestima e ambas são construídas na relação com o outro. (FRANCO, 2009, p.328) Quando se fala da não aprendizagem es- colar, deve-se compreender que as crianças 52 53 e jovens que vivem esses problemas ne- cessitam de condições de vida – biopsicos- sociais – que lhe proporcionem a formação de uma linha de raciocínio mais organizada, ou seja, pensar apenas na autoestima sem considerar toda a rede de relações na qual o estudante está inserido é simplista demais. É importante construir uma imagem posi- tiva de si enquanto aluno, porém, mais que isso, a educação deve também “formar indi- víduos capazes de perceber o real e de su- perar a realidade” (FRANCO, 2009, p.332). A autoestima é um assunto que já faz parte do senso comum, porém o educador deve tentar aprofundar os estudos sobre o tema em sua prática diária, ciente de que irá lidar com alunos de autoestima elevada, média e fraca. Como o professor é uma pes- soa marcante para o aluno, certas atitudes e falas do mesmo poderão influenciar a au- toestima do mesmo de maneira positiva ou negativa, o que pode ser perigoso, especial- mente se estiver em jogo um aluno já com uma autoestima muito baixa. Uma visão mais detalhada do fracasso escolar será fei- ta numa outra seção, porém fica a reflexão de que a baixa autoestima pode ser tanto causa como consequência desse fenômeno devastador para o aluno, o professor, a so- ciedade e a educação em geral. Relacionamentos interpessoais Os reacionamentos interpessoais – ou relações humanas – dependendo da de- nominação do autor são, como afirma Weil (2002), especialidades do psiquiatra, psi- cólogo, sociólogo, assistente social e edu- cador especializado, porém esses relacio- namentos se encontram presentes onde se encontram pessoas reunidas, sejam nas famílias, no trabalho, na educação, nas or- ganizações em geral, enfim, em todos os locais. O estudo das relações humanas cons- titui, hoje, verdadeira ciência comple- mentada por uma arte – a de obter e conservar a cooperação e a confiança dos membros do grupo […] Problemas de relações humanas se encontram nas relações do indivíduo com o grupo, dos indivíduos entre si, do grupo com outros grupos, do líder com o grupo, do indiví- duo com o líder. Onde se encontram dois indivíduos há problema de relações hu- manas. Nas escolas, se o professor não for um líder dos seus alunos, quer dizer, se os alunos não gostarem dele e não o seguirem como Mestre, terá ele perdido a metade do seu trabalho. A Pedagoia Moderna utiliza-se dos trabalhos em grupos para conseguir maior interes- se dos alunos e, por conseguinte, maior rendimento na aprendizagem (WEIL, 2002, p. 15). O autor ilustra de maneira explícita que o trabalho do professor não seria completo se este não souber administrar as relações humanas que se estabelecem no ambien- te da sala de aula, ou seja, mais uma vez, a partir de um referencial teórico completa- mente diferente, que dessa vez não enfoca as teorias de aprendizagem abordadas an- teriormente, compreendemos que a apren- dizagem não se dá apenas pelos fatores cognitivos, mas também pela via da afetivi- dade. A citação a seguir serve para iniciar a dis- cussão sobre o relacionamento interpes- soal e a aprendizagem. O aluno é o maior interessado, o foco desse contexto, porém, uma série de relações é estabelecida para que uma via de comunicação eficaz seja executada: professores, familiares, dire- 52 53 tores, supervisores, assistentes educacio- nais, comunidade, o aluno, dentre outros profissionais irão se relacionar em busca de atingir seus objetivos. E qual é esse objeti- vo? A aprendizagem, a educação, um bom relacionamento interpessoal. Quando a família e a escola mantêm boas relações, as condições para um me- lhor aprendizado e desenvolvimento da criança podem ser maximizadas. Assim, pais e professores devem ser estimula- dos a discutirem e buscarem estratégias conjuntas e específicas ao seu papel, que resultem em novas opções e condi- ções de ajuda mútua (LEITE & TASSONI, 2002). A escola deve reconhecer a importân- cia da colaboração dos pais na história e no projeto escolar dos alunos e auxi- liar as famílias a exercerem o seu papel na educação, na evolução e no sucesso profissional dos filhos e, concomitante- mente, na transformação da sociedade (POLONIA; DESSEN, 2005, p.304). A frase bastante conhecida do senso co- mum “O homem é um ser social” traz rele- vantes implicações para o estudo sobre as relações humanas. Iremos fazer uma refle- xão sobre ela. Desde quando nos tornamos seres sociais? Bowlby desenvolveu importantes estu- dos sobre o vínculo estabelecido entre os bebês e seus cuidadores. Segundo ele, os bebês necessitam de cuidados de adultos para sobreviver, porém seu choro desenca- deia no cuidador reações psicológicas, fisio- lógicas e comportamentais que os obriga a fornecer cuidados e consolo a esse recém- -nascido. Como resposta a esse cuidado, com o desenvolvimento, o bebê começa e demonstrar reações de sorriso frente ao cuidador, criando assim a primeira interação social. Esse vínculo é denominado apego e se define como uma conexão emocional forte, íntima e persistente, que leva ao sen- timento de segurança do bebê (GAZZANIN- GA; HEARTHETON, 2005). O educador deve compreender que o ape- go é a primeira interação social que a crian- ça estabelece com alguém, normalmente com a mãe ou a cuidadora principal. Mesmo que essa criança não vá para a creche logo nos primeiros anos de vida é importante ter em mente que as implicações do apego em sua vida – a segurança, a confiança – prova- velmente permanecerão como traços mar- cados nas relações interpessoais que ele irá estabelecer ao longo de sua vida (GAZZA- NINGA; HEARTHETON, 2005). Essas primeiras relações da criança com os pais, posteriormente irão se aprimorar em relações sociais cada vez mais comple- xas, constituindo-se no processo de sociali- zação primária, que é realizado pela família. Já no decorrer do desenvolvimento infantil, os contatos da criança se expandem além dos domínios domésticos e ocorreo pro- cesso de socialização secundária na esco- la, onde acontecem relações interpessoais com professores, colegas, ou seja, com pes- soas fora do convívio familiar. Nesse sentido, Polonia e Dessen (2005) afirmam que tanto a família quanto a escola são instituições que atuam como impulso- ras ou inibidoras do crescimento físico, inte- lectual e social das crianças. Cabe à família, a socialização da criança, ou seja, inserir a mesma no mundo adulto a partir do ensino da língua materna, dos símbolos e das re- gras de convivência em grupo. Já à escola cabe transmitir o saber formal, diferente do 54 55 saber informal, repassado pelas famílias. A partir dos primeiros anos de vida a criança passa a se interessar pela compa- nhia de crianças da mesma idade. A rejeição por parte dos colegas pode ser causa de violência escolar, por isso os programas de treinamento de habilidades sociais podem se mostrar positivos. Iremos aprofundar um pouco a respeito das habilidades sociais. Atualmente, já é de conhecimento das áreas afins da psicologia e da educação que o estudo e a promoção das habilidades so- ciais pode ser benéfica para todas as crian- ças, relacionando-se com a aprendizagem, o bom desempenho escolar, o desenvolvi- mento sócio-emocional e o ajustamento na escola (ROSIN-PINOLA et al., 2007). O termo habilidades sociais, geral- mente utilizado no plural, aplica-se às diferentes classes de comportamentos sociais do repertório de um indivíduo, que contribuem para a competência social, favorecendo um relacionamen- to saudável e produtivo com as demais pessoas (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2005; p. 31). Ao mesmo tempo em que pais, profes- sores e demais profissionais da área da educação sentem-se confusos diante dos comportamentos de crianças e adolescen- tes, estes também vivem numa sociedade marcada por uma série de cobranças, pres- sões e permissividade. Assim, para lidar com estas características da sociedade atual, a criança precisa desenvolver um vasto re- pertório de habilidades sociais (DEL PRET- TE; DEL PRETTE, 2005). Os programas de Treinamento de Habi- lidades Sociais na infância visam prevenir problemas nas crianças e atuam em duas vertentes: como alternativa de prevenção através da integração entre escola e família e sua associação com intervenções clínicas que visem à superação das dificuldades in- terpessoais e dos problemas relacionados (DEL PRETTE; DEL PRETTE, 2005). Se o indi- víduo consegue tornar-se mais competen- te, seu bem-estar psicológico aumenta e, consequentemente, ele terá maior capaci- dade para lidar com os fatores passíveis de provocar algum tipo de mal-ajustamento, assim como também poderá resistir a estes fatores de risco (DURLAK; WELLS, 1997). As interações que se desenvolvem no contexto educacional não são emocional- mente neutras, professores e alunos expe- rimentam emoções positivas e negativas, ainda que os alunos acabem aprendendo a esconder suas emoções negativas para se adaptarem ao ambiente escolar (BO- EKAERTS, 1996 apud MIRAS, 2004). Quan- do esses estados emocionais das relações interpessoais atingem certa intensidade em sala de aula, é provável que as partes envolvidas concentrem-se mais nos esta- dos emocionais que nos aspectos cogniti- vos da tarefa desempenhada. Como assinalam Ratner e Settner (1991), a interação entre professores e alunos requer uma mutualidade e uma coordenação tanto de caráter cognitivo como afetivo e, nesse sentido, do mes- mo modo que as emoções que experi- mentamos cumprem uma importante função autorreguladora, as emoções que percebemos nos outros proporcio- nam uma informação de vital importân- cia para interpretar e regular nossas re- lações (MIRAS, 2004, p.221). A família pode ser responsável tanto pela aprendizagem quanto pelo fracasso 54 55 do aluno, portanto, faz-se necessário que as escolas busquem cada vez mais a inte- ração com as famílias, mesmo sabendo que isso não será fácil, que haverá resistências, porém o resultado final pode ser positivo para o desenvolvimento social, emocional e cognitivo do aluno. A parceria pais-educa- dores deve ser buscada, mesmo com todas as diferenças encontradas, visando sem- pre adaptar-se uns aos outros e concentrar seus investimentos na criança (POLONIA; DESSEN, 2005). 4.5 Dificuldades de aprendi- zagem Definir dificuldades de aprendizagem não é tarefa simples. É um problema que atinge um número significativo de crianças e apresenta-se em diferentes tipos. A di- ficuldade pode ser específica, em apenas uma área (como, por exemplo, apenas na lei- tura ou apenas na matemática), ou pode ser geral, como no caso em que a criança apre- senta um aprendizado mais lento em várias tarefas. Importante destacar que o diag- nóstico das dificuldades de aprendizagem se dá através de avaliações e, caso alguma dificuldade seja realmente detectada, fa- z-se necessária a adoção de um programa de intervenção com o objetivo de sanar ou apenas minimizar a dificuldade (DOCKRELL; MCSHANE, 2000). As dificuldades podem ser transitórias ou permanentes, podem ser devido a condi- ções orgânicas ou sensoriais (por exemplo, uma baixa visão que leva a uma consequen- te dificuldade na leitura). Deve-se compre- ender que os fatores do meio podem ser agravantes dessa dificuldade, estratégias educacionais ineficientes, dentre outros fatores (DOCKRELL; MCSHANE, 2000). Falar em dificuldades de aprendizagem implica em abordar a temática do fracasso escolar (já mencionada anteriormente, que se associa a múltiplos fatores, dentre eles à autoestima do estudante) e, consequente- mente, da evasão dos estudos. De acordo com Carraher, Carraher e Schliemann (1988), a evasão e o fracasso escolar são grandes desafios do sistema educacional. Vários pesquisadores estu- dam a produção do fracasso escolar, sendo que há diferentes pontos de vista acerca dos responsáveis pelo problema, como o próprio indivíduo, a classe social, o sistema sociopolítico econômico e, finalmente, o fracasso é produzido pela própria escola. As crianças inseridas num contexto de privação cultural podem apresentar de- sajustes de natureza cognitiva, afetiva ou social. Nestas crianças é comum observar deficiências nas funções psiconeurológi- cas, embasamento para o desempenho de atividades de leitura, linguagem, matemá- tica, autoconceito negativo, sentimentos de culpa e vergonha, problemas familiares e desconhecimento de sua própria cultu- ra. Segundo esta concepção, os processos psicológicos desenvolvem-se em função da experiência do sujeito, em especial nos seus primeiros anos de vida. Outros fatores como os biológicos também devem ser ava- liados nesta visão mais ampla do fracasso escolar. Pode-se perceber que estes estão inter-relacionados, pois os efeitos da priva- ção cultural, da má-alimentação e de uma saúde deficiente caminham paralelamente, mas não se podem generalizar os malefícios destes fatores em todas as crianças perten- centes a classes sociais menos abastadas. Carneiro, Martinelli e Sisto (2003) tam- bém fazem uma reflexão sobre os múltiplos 56 57 fatores que resultam no fracasso escolar: Dentre as situações externas mais arroladas, podemos citar as causas de ordem socioeconômica das famílias dos estudantes, acarretando a necessidade do trabalho infantil, e as causas de or- dem sócio-institucional, que vão desde as condições da estrutura física da esco- la quanto às questões administrativas, salariais, pedagógicas passando tam- bém pela formação do professor. Dentre os fatores de ordem interna ao indiví- duo, destacam-se os relacionados ao de- senvolvimento cognitivo e os de ordem afetivo-emocionais, motivacionais e de relacionamento (p.428). Quanto não resultam em fracasso ou abandonoda escola, as dificuldades de aprendizagem nos primeiros anos de esco- larização giram em torno da matemática ou da linguística – grandes aquisições relacio- nadas a essa fase inicial. Em relação à escrita, Carneiro, Martinelli e Sisto (2003) listaram estudos de autores que investigaram que as dificuldades po- dem ocorrer no campo da codificação e da composição da escrita, outros apontam as dificuldades relacionadas às habilidades metalinguísticas (tema que será abordado na seção a seguir). Sabemos não existir uma causa única ou um fator exclusivo que possa determinar as dificuldades de aprendizagem, porém, atualmente, tem-se reconhecido que as al- terações do tipo afetivo-emocionais, moti- vacionais e de relacionamento interpessoal têm contribuído para o surgimento dos pro- blemas de aprendizagem (BORUCHOVITCH, 2001; MARTINELLI, 2001; apud CARNEIRO; MARTINELLI; SISTO 2003, p.428). 4.6 Habilidades metalin- guísticas A aprendizagem da leitura e da escrita é uma tarefa bastante complexa, visto que as duas habilidades são distintas e cada uma delas pode ser avaliada em vários níveis. O termo “habilidade metalinguística” pode ser brevemente definido como a ha- bilidade de refletir sobre a língua como ob- jeto do pensamento (PRATT; GRIEVE, 1984 apud MOTA, 2009). Marec-Breton e Gombert (2004) afirmam que a escrita é composta de dois princípios: o princípio fonográfico, relacionado à cor- respondência entre as letras e os sons que compõem as palavras e o princípio semio- gráfico, que envolve a questão da consti- tuição das palavras a partir dos seus mor- femas. O princípio fonográfico relaciona-se aos fonemas a habilidade metalinguística relacionada é a consciência fonológica. Já o princípio semiográfico relaciona-se aos morfemas e a habilidade metalinguística relacionada é a consciência morfológica. A consciência fonológica é a capacidade de refletir intencionalmente sobre os sons que compõem a fala e manipular estes seg- mentos (ANTHONY; FRANCIS, 2005, CA- POVILLA; CAPOVILLA, 1998, 2000), sendo uma habilidade extremamente importante para a aprendizagem da leitura e da escrita de línguas alfabéticas (ANTHONY; FRANCIS, 2005). Por outro lado, a consciência mor- fológica é a habilidade de refletir sobre os morfemas que compõem as palavras e ma- nipulá-los (CARLISLE, 1995), sendo uma ha- bilidade metalinguística que contribui para a aprendizagem da escrita (CARLISLE, 1995; NUNES; BRYANT, 2006) como também na leitura de palavras individuais, na compre- 56 57 ensão de textos (DEACON; KIRBY, 2004). Miranda e Mota (2011) realizaram um es- tudo e perceberam que muitos dos erros co- metidos pelas crianças em tarefas de ditado eram devido às estratégias fonológicas, ou seja, as crianças escrevem como falam. Se as mesmas aprendessem a escrever a partir dos morfemas esses erros poderiam ser minimi- zados. O estudo das habilidades metalinguísti- cas, em especial a consciência morfológica, no Brasil ainda não é muito numeroso. As es- tratégias de alfabetização enfatizam, em sua maioria, estratégias fonológicas e parece ser um recurso válido, como acontece em várias línguas, como a inglesa, ensinar as crianças a respeito dos morfemas. Esta linha de pesqui- sa é uma área de interesse da educação, da psicologia e da linguística. 58 5958 REFERÊNCIAS ANDRADE, Jorge Márcio Pereira de. Glos- sário. Banco de dados para e sobre pessoas com deficiência. Rio de Janeiro, 1999. Dispo- nível em: http://www.defnet.org.br/ Aces- so em 18 set. 2009. ANTHONY, J. L.; FRANCIS, D. J. Develop- ment of phonological awareness. Current Directions in Psychological Science, v.14, n.5, p.255-259, 2005. CAPOVILLA, A. G. S.; CAPOVILLA, F. C. Treino de consciência fonológica de pré 1 a segunda série: Efeitos sobre habilidades fonológicas, leitura e escrita. Temas sobre Desenvolvimento, v.7, n.40, p5-15, 1998. CAPOVILLA, A. G. S.; CAPOVILLA, F. C. Efeitos do treino de consciência fonológica em crianças com baixo nível sócio-econômi- co. 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