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67 Linguística geraL Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 Unidade III 5 O gerativismO: visãO inatista de aquisiçãO de linguagem Retomando nossa caminhada teórica, vale lembrar que, na unidade I, vimos uma revisão histórica sobre a forma como a linguística surgiu, enquanto que na unidade II vimos toda a teoria do Estruturalismo. Nessas unidades, sugerimos algumas leituras complementares e acreditamos que você tenha seguido nossa orientação, pois quanto mais você lê, mais facilmente consegue estabelecer relações entre os conceitos estudados e o papel que exercem no desenvolvimento da ciência linguística. Muito bem! Vamos, então, a uma nova corrente linguística: o Gerativismo. O gerativismo (...) teve uma influência enorme, não apenas em linguística, mas também em filosofia, psicologia e outras disciplinas preocupadas com a linguagem (LYONS, 1982, p.211). Gerativismo é o termo utilizado para se referir à teoria da linguagem desenvolvida por Noam Chomsky no final da década de cinquenta. Essa teoria nasceu com o nome de gramática gerativo- transformacional. A gramática gerativa, de acordo com o pensamento de Chomsky, estava interessada, entre outras questões, em mostrar que ao se analisar um enunciado era preciso levar em conta os diferentes níveis da estrutura gramatical, denominados “superficial” e “profundo”. Veja como essa questão era pensada por Chomsky: tomando-se, por exemplo, as frases “João está ávido por agradar” e “João é fácil de agradar” (WEEDWOOD, 2002, p.132), percebemos que, em um primeiro momento, a análise de ambas é idêntica (gramatical e sintaticamente, os elementos exercem, nas duas frases, os mesmos papéis). No entanto, as frases carregam um significado subjacente, que as torna muito diferentes, pois na primeira João quer agradar alguém, ao passo que, na segunda, alguém estaria envolvido em agradá-lo. Essa questão remete ao que pensava Chomsky: há dois níveis de análise: um superficial (que parece relacionar-se à própria estrutura do sistema linguístico) e outro, profundo (relacionado à funcionalidade da estrutura gramatical). Todo o trabalho de Chomsky desenvolveu-se para oferecer meios para se analisar enunciados considerando-se o nível subjacente à estrutura gramatical. A teoria foi sofrendo modificações e adaptações e, atualmente, é conhecida como a Teoria de Princípios e Parâmetros. O objetivo do gerativismo é construir uma gramática que dê conta dos chamados universais linguísticos, ou daquilo que é comum a todas as línguas, ou da gramática universal – GU. Essa 68 Unidade III Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 gramática, construída pelo linguista, deve dar conta de descrever as línguas humanas, ou mais especificamente, ela deve dar conta do conhecimento linguístico inato que é da espécie humana e é universal, pois é comum a todos os membros dessa espécie (SCARPA, 2001). Em outras palavras, trata-se de uma gramática por meio da qual é possível “gerar” todos os enunciados possíveis em qualquer língua natural e apenas os enunciados possíveis. É possível construir, assim, um conjunto de regras que dê conta de todas as línguas do mundo, ou um conjunto de princípios que dê conta da GU. É possível dizer nesta língua: “os menino jogam bola” “os meninos jogam bola” “os menino joga bola” “jogam bola os meninos” Não é possível dizer nesta língua: “bola jogam meninos os” De acordo com o gerativismo, as línguas não podem ser interpretadas como um comportamento socialmente condicionado. Para compreender melhor esses termos ou conceitos e alguns dos pressupostos do gerativismo, a seção a seguir discutirá a visão inatista de aquisição de linguagem, considerada por Noam Chomsky (SCARPA, 2001, p.206). saiba mais AUGUSTO, M. R. A. Teoria gerativa e aquisição da linguagem. Disponível em: <http://www.uefs.br/sitientibus/pdf/13/teoria_gerativa_ e_aquisicao_da_linguagem.pdf>. Acesso em: 20 out. 2010. 5.1 Contra-argumentos do gerativismo (Chomsky) à visão behaviorista de aprendizagem da linguagem O gerativismo desenvolveu-se em grande parte como reação ao behaviorismo, que prevalecia na psicologia, e ao estruturalismo americano, que prevalecia na linguística dos Estados Unidos da América. Em 1959, em uma revista chamada Language, Chomsky publicou uma resenha intitulada Resenha do comportamento verbal de B. F. Skinner (Review of B.F. Skinner´s Verbal Behavior). Nesta publicação foi apresentanda uma série de contra-argumentos à proposta behaviorista 69 Linguística geraL Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 de aquisição de linguagem, obtendo uma enorme repercussão em todas as áreas de estudos da linguagem. Destacaremos neste tópico aquilo que diz respeito à aquisição da linguagem ou à natureza da linguagem. 5.1.1 Capacidade inata: meio ambiente fornece modelos linguísticos para um sujeito competente Para Chomsky, a linguagem é adquirida a partir de um dispositivo inato inscrito na mente humana, que é desencadeado a partir da exposição da criança aos modelos linguísticos de sua comunidade. A linguagem, assim, é uma dotação genética, específica da espécie. Essa abordagem é conhecida como “inatismo”, pois a criança nasce dotada dessa capacidade (SCARPA, 2001). Isso não significa que a criança nasça com uma gramática na cabeça, ou com palavras, ou frases ou textos de diferentes línguas, mas que a criança nasce dotada de: um mecanismo ou dispositivo inato de aquisição de linguagem (em inglês, LAD, language acquisition device), que elabora hipóteses linguísticas sobre dados linguísticos primários (isto é, a língua a que a criança está exposta) e gera uma gramática específica, que é a gramática da língua nativa da criança, de maneira relativamente fácil e com um certo grau de instantaneidade. Isto é, esse mecanismo inato faz ´desabrochar` o que ´já está lá, através da projeção, nos dados do ambiente, de um conhecimento linguístico prévio, sintático por natureza (SCARPA, 2001, p.207). 5.1.2 Capacidade específica da espécie Uma criança é sempre dotada de um conhecimento linguístico, ou competência linguística, inato (genético, biológico). Este é um forte contraponto à criança considerada tábula rasa na corrente behaviorista, ou seja, enquanto para esta última todos os comportamentos são aprendidos após o contato com o meio, para aquele a criança já nasce com os conhecimentos linguísticos. São vários os contra-argumentos apresentados por Chomsky à visão behaviorista: • não é possível transpor os resultados obtidos com animais em laboratório para a linguagem humana (SCARPA, 2001); Sobre a criatividade, é possível dizer que o enunciado que alguém profere em dada ocasião é, em princípio, não previsível, e não pode ser descrito apropriadamente, no sentido técnico desses termos, como uma resposta a algum estímulo identificável, linguístico ou não linguístico (LYONS, 1983, p.213). • o esquema estímulo-resposta proposto por Skinner (teoria behaviorista) não dá conta da complexidade e sofisticação do conhecimento linguístico (SCARPA, 2001). 70 Unidade III Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en -C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 5.1.3 Criatividade linguística Para Chomsky, a criatividade é a principal característica do comportamento linguístico humano. É ela que mais distingue a linguagem humana do sistema de comunicação animal. A linguagem, ao contrário do que se tem no behaviorismo, é independente do estímulo. Isso se relaciona à chamada “criatividade” linguística, ou à liberdade do falante em produzir enunciados imprevisíveis: “uma qualidade peculiarmente humana, que distingue os homens das máquinas e, até onde sabemos, de outros animais” (LYONS, 1983, p.213). Ainda segundo Chomsky, uma vez considerada a criatividade como principal característica da linguagem humana, então é preciso abandonar o modelo teórico do behaviorismo, pois nele não há espaço para eventos criativos. 5.1.4 Complexidade x tempo de aquisição Um período relativamente curto, de 18 a 24 meses, aproximadamente, é o que leva uma criança, a partir do nascimento, em condições normais, para apresentar domínio de um conjunto complexo de regras ou princípios básicos que constituem a gramática internalizada do falante (SCARPA, 2001). Fala- se também na espantosa facilidade com que as crianças pequenas aprendem não só uma, mas duas ou três línguas, simplesmente pelo fato de estarem expostas a elas (ELGIN, 1986). O acúmulo de conversas que uma criança ouve e o tipo de fala e de situações de fala às quais está exposta varia radicalmente de criança para criança; no entanto, todas as crianças aprendem sua língua materna. lembrete Todas as crianças em condições ditas normais, físicas, psíquicas e sociais, desenvolvem linguagem. Da “pobreza de estímulo”, conforme apresentado por Scarpa (op.cit.), tira-se esta que é uma das questões centrais para os gerativistas: Este é também chamado de “problema lógico da aquisição de linguagem”: como, logicamente, as crianças adquirem uma língua se não têm informação suficiente para a tarefa? A resposta lógica é que trazem uma enorme quantidade de informações a que Chomsky chama de Gramática Universal (SCARPA, 2001, p.209). Outra questão diz respeito ao período crítico de aquisição de linguagem. Apesar da falta de consenso entre os autores, é apontado por alguns como argumento a favor de uma abordagem inatista para a aquisição de linguagem. O chamado período crítico é apresentado tanto para referir-se à dificuldade, ou quase impossibilidade, de aquisição de linguagem por crianças após a 71 Linguística geraL Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 puberdade, bem como à facilidade com que crianças aprendem uma segunda língua em relação à dificuldade dos adultos. Uma das interpretações é a de que a GU só estaria disponível para a criança. Outra é, por exemplo, a de Lenneberg (1967), para quem existem momentos cruciais no desenvolvimento da linguagem: o início depende de vários índices de maturação do cérebro e, uma vez completada essa maturação física, por volta da puberdade, a aprendizagem torna-se muito mais difícil. Sobre este tema, sugerimos a leitura de Scarpa (2001, p.220-224). Na primeira versão da hipótese inatista, Chomsky considerou a existência de um dispositivo de aquisição de linguagem composto de regras gramaticais e de estratégias que permitem à criança, ao ser exposta à língua de sua comunidade, construir hipóteses e chegar às regras que compõem a gramática dessa língua. Em outras palavras, as pessoas apresentam suas manifestações linguísticas, produzem frases ao redor da criança e esta, ao observar a forma como a linguagem se organiza nos adultos, elabora suas hipóteses para a construção de frases. Esse conjunto de frases que a criança ouve constitui o chamado input linguístico. A criança aplica seu dispositivo inato sobre essas frases e descobre como é a gramática de sua língua nativa. Essa gramática construída pela criança constitui sua gramática internalizada. A partir daí, a criança pode começar a apresentar suas próprias manifestações/produções linguísticas, que constituem seu output linguístico (SCARPA, 2001). 5.1.5 Capacidade linguística inata, específica da espécie e universal Numa versão mais recente do gerativismo, Chomsky mantém sua visão inatista, mas o dispositivo inato é dotado de princípios e parâmetros. Os princípios são os universais linguísticos, aquilo que constitui a gramática universal – GU, aquilo que é comum a todas as línguas. A criança nasce também dotada de um conjunto de parâmetros que permitirá a ela constatar aquilo que é específico da língua de sua comunidade, aquilo que é particular dessa língua: No entanto, a tarefa não é tão simples como parece. Muitas questões ainda hoje estão por ser respondidas no que diz respeito aos parâmetros: (...) o que desencadearia a parametrização? (...) A criança só faz uso das sentenças ouvidas (evidência positiva) ou também leva em conta o fato de nunca ter ouvido uma sentença (evidência negativa)? (...) (SANTOS, 2002, p. 221). Explorando um pouco mais essa questão, podemos pensar no sujeito de frases em português e em inglês. Uma criança exposta ao português poderá internalizar que o parâmetro considerado na língua portuguesa é “o sujeito pode ser omitido”. Caso a criança seja exposta à língua inglesa, o parâmetro marcado será “o sujeito deve ser preenchido”. Basta lembrarmos que em português, usualmente, dizemos “está chovendo”, enquanto em inglês dizemos it is raining. Você pode notar que nestas duas versões, é mantida a ideia de um componente inato, específico para a linguagem, que depende apenas de a criança ser exposta a modelos linguísticos. Não depende, 72 Unidade III Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 diretamente, de outros conhecimentos cognitivos ou comportamentais (SCARPA, 2001), como é o caso de hipóteses cognitivistas ou sociointeracionistas que serão vistas em outro momento: A relação entre a língua e outros sistemas cognitivos, como a percepção, a memória e a inteligência, é indireta, e a aquisição de linguagem – ou o desencadeamento da Gramática Universal junto com a fixação de parâmetros – não depende, necessariamente, de outros módulos cognitivos, muito menos de interação social (SCARPA, 2001, p.209). It is raining It is a dog It is a cat He is a boy She is a girl Está chovendo Ele é um cachorro / É um cachorro Ele é um gato / É um gato Ele é um menino / É um menino Ela é uma menina / É uma menina Esta proposição de um componente específico para a linguagem é o que difere a proposta de Chomsky da proposição de outras abordagens, também consideradas inatistas. É o caso do cognitivismo ou construtivismo, pois para o cognitivismo a linguagem é parte da cognição humana geral. Outras propostas de aquisição de linguagem, como já dito, serão objetos de discussão em outro momento do curso. Ao contrário do que foi visto com relação ao behaviorismo, na hipótese chomskiana a criança é a principal responsável por seu desenvolvimento linguístico, pois traz em sua composição genética, biológica, aquilo que a torna ativa nesse processo. Ao meio ambiente externo, cabe à criança apenas apresentar modelos de frases da língua. 5.1.6 Os conceitos de aquisição x aprendizagem de linguagem Neste ponto, cabe um esclarecimento sobre a terminologia empregada. Você deve ter notado a mudança no uso dos termos “aprendizagem” e “aquisição”, usados, deliberadamente: o primeiro, ao se tratar da hipótese behaviorista, vista na unidade II; eo segundo, para a hipótese inatista, nesta unidade III. A literatura da área faz essa distinção justamente porque o termo aprendizagem está associado à teoria behaviorista e, apesar de o termo “aquisição” implicar “vir a ter algo que não se tinha antes” – e, portanto, não ser o mais adequado para a teoria de Chomsky –, é o mais usado em todas as outras hipóteses, não behavioristas, por ser considerado mais neutro (LYONS, 1983). lembrete “O termo ‘aquisição da linguagem’ é normalmente usado sem ressalvas para o processo que resulta no conhecimento da língua nativa (ou línguas nativas)” (LYONS, 1983, p.231). O termo aprendizagem é em geral usado para o processo que resulta no conhecimento de uma língua, via ambiente não natural, como é o ambiente escolar. 73 Linguística geraL Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 Ao tratar da teoria linguística como formulada por Chomsky, parece haver necessidade de abordar seu princípio inatista de aquisição de linguagem, pois (...) a criança que aprende sua língua nativa é uma imagem a que Chomsky retorna repetidamente, desde seus primeiros escritos, de maneira que se torna difícil discriminar sua teoria da linguagem de sua visão de aquisição de linguagem (SCARPA, 2001, p.207). Volta-se, assim, a partir do exposto, para os conceitos básicos da teoria da linguagem proposta por Noam Chomsky. Muitos pesquisadores, principalmente aqueles voltados ao ensino de segunda língua, discutem a questão da gramática universal por esta sustentar o ensino de línguas em diferentes situações e momentos. Destacamos aqui um texto sobre Gramática Universal, elaborado pela pesquisadora Vera Lucia Menezes de Oliveira e Paiva, linguista da UFMG, que poderá ajudá-lo a compreender melhor os conceitos chomskyanos. saiba mais Não deixe de ler e discutir mais sobre o tema em: PAIVA, Vera Lucia Meneses de Oliveira e. Modelo da gramática universal. Disponível em http://www.veramenezes.com/gu.pdf. Acesso em: 18 set. 2010. 6 COnCeitOs básiCOs dO gerativismO e análise gerativista Chomsky apresentou sua proposta teórica em um livro intitulado Estruturas sintáticas (Syntatic structures), publicado na década de 1960. A partir daí essa teoria sofreu uma série de reformulações. Não temos por objetivo, aqui, tratar profundamente das questões dessa teoria e dos motivos que levaram a suas revisões e reformulações. O propósito é apresentar linhas gerais da corrente denominada gerativismo, oferecendo condições básicas para que você acompanhe as disciplinas da área da linguística que constituem a grade curricular de um curso voltado para a linguagem, como é o caso do curso de Letras. lembrete As duas teorias apresentadas neste texto – o estruturalismo e o gerativismo – constituem bases teóricas muito importantes nos estudos da linguística. A partir delas muitas outras teorias foram construídas, permitindo o crescimento das discussões científicas sobre a linguagem. 74 Unidade III Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 Na primeira apresentação de sua teoria, Chomsky definiu a linguagem como um conjunto de sentenças formadas por elementos linguísticos. A quantidade de sentenças possíveis em uma língua é infinita. Pense você: em um único dia de sua vida, quantas sentenças diferentes você ouve e quantas outras podem ser criadas a partir das ouvidas? No entanto, nem todas as combinações possíveis de elementos da língua resultam em sentenças possíveis dentro da língua. Basta lembrar o exemplo já apresentado “bola jogam meninos os”. Podemos notar que existem regras para a constituição dessa sentença e que essas regras foram ignoradas. Podemos dizer, entre outras possibilidades: • Os meninos jogam bola. • Os meninos que gostam de futebol jogam bola. • Os meninos que gostam de futebol e torcem pela Ponte Preta jogam bola. • Victor disse que os meninos que gostam de futebol e torcem pela Ponte Preta jogam bola. • Rachel contou que Victor disse que os meninos que gostam de futebol e torcem pela Ponte Preta jogam bola. Podemos perceber, a cada sequência apresentada, que fica mais difícil produzir e compreendê-las. Isso significa que, apesar de a quantidade de sentenças ser infinita, a extensão de cada uma delas é limitada. Você pode notar, no entanto, que nesse caso a limitação é decorrente de limitações da memória e não de fatores propriamente linguísticos. Ou seja, a limitação da memória afeta o uso, não o conhecimento. Para Chomsky, o linguista deve ser capaz de construir uma gramática por meio da qual seja possível gerar todas as sentenças possíveis de uma língua e apenas as possíveis. Ou seja, o linguista deve ser capaz de, por meio de sua gramática, dizer o que pertence àquela língua e o que não pertence; o que pode ser dito e o que não pode ser dito naquela língua; quais das “sequências finitas são sentenças e quais não são” (PETTER, 2002, p.15). lembrete O gerativismo também se trata de uma teoria, um conjunto de hipóteses empíricas sobre o que é a linguagem; ou seja, um outro ponto de vista sobre o objeto. Volte às unidades I e II e estabeleça um paralelo entre o que está sendo dito sobre esta teoria da linguagem e o que foi dito sobre o estruturalismo. Além do mais, sendo a linguagem uma capacidade inata e específica da espécie humana (já que transmitida geneticamente), devem existir propriedades universais da linguagem. Cabe aos linguistas, 75 Linguística geraL Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 portanto, encontrar essas propriedades universais de modo a ser capaz de descrever uma teoria geral da linguagem. 6.1 Competência e desempenho Observação O desempenho pressupõe a competência, ao passo que a competência não pressupõe o desempenho (PETTER, 2002, p.14). A teoria geral da linguagem em seu momento inicial, de acordo com Chomsky, apoiava-se numa distinção fundamental entre o “conhecimento que uma pessoa tem das regras de uma língua e o uso efetivo dessa língua em situações reais” (WEEDWOOD, 2002, p.133), entre competência e desempenho, ou competence e performance. Por competência entende-se o conhecimento que um falante tem de um dado sistema linguístico (e de suas regras), que permite a ele produzir um conjunto infinitamente grande de sentenças, constituindo, assim, a língua. Desempenho significa a maneira como o falante faz uso de sua competência linguística com base, por um lado, em tudo o que é convencionado socialmente, em fatores emocionais, e por outro, no “funcionamento dos mecanismos psicológicos e fisiológicos envolvidos na produção de enunciados” (LYONS, 1983, p.236). Trata-se de uma distinção entre conhecimento e uso da linguagem, muito importante na teoria, “sendo o conhecimento sempre muito maior que sua manifestação” (SCARPA, 2001, p.208). lembrete Neste momento, da dicotomia saussureana língua/fala, distinção apresentada pelo linguístico entre ambas, e de um dos motivos que levam a língua a ser estabelecida como prioridade em relação à fala nos estudos linguísticos. A separação estrita entre conhecimento e uso é decorrência direta da postulação de conhecimento tácito, biológico, de cunho linguístico, independente dos fatores ambientais, culturais, psicológicos ou histórico- sociais determinantesda aquisição da língua materna. O uso da linguagem foge à alçada da teoria linguística (SCARPA, 2001, p.208). O linguista deixa de lado, deliberadamente, todos os fatores que não são linguísticos e que constituem o desempenho: motivação, interesse, limitações de atenção e de memória, crenças, atitudes emocionais, mecanismos de ordem fisiológica e psicológica, entre outros (PETTER, 2002, p.14). Isso não é da teoria linguística. Mesmo sendo pertinentes ao desempenho, esses fatores não são importantes para a formulação de declarações gerais sobre a linguagem (LYONS, 1983). 76 Unidade III Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 A língua – sistema linguístico socializado – de Saussure aproxima a linguística da sociologia ou da psicologia social; a competência – conhecimento linguístico internalizado – aproxima a linguística da psicologia cognitiva ou da biologia (PETTER, 2002, p.14). Em síntese, tanto Chomsky quanto Saussure tinham em mente a necessidade de separar o que é linguístico do que não é linguístico. Saussure procura fazer essa distinção ao apresentar langue e parole como uma dicotomia, enfatizando os estudos da língua e não da fala. Chomsky faz a distinção ao apresentar os conceitos de competência e de desempenho para enfatizar os estudos sobre a competência. A competência linguística é o conhecimento do sistema linguístico que o falante possui e que lhe permite produzir o conjunto de sentenças de sua língua. É o resultado da aplicação de sua capacidade, ou dispositivo inato, sobre as sentenças que ouviu desde bebê. “A tarefa do linguista é descrever a competência, que é puramente linguística, subjacente ao desempenho” (PETTER, 2002, p.14). Assim, cabe ao linguista debruçar-se sobre as questões da língua para descrever a competência, que é algo puramente linguístico e que subjaz ao desempenho, ou seja, que dá condições ao falante para que use a língua. 6.2 gramaticalidade e aceitabilidade Considerando que todos os falantes possuem uma gramática internalizada, que é a gramática do sistema linguístico de sua comunidade de fala, e considerando ainda que todos os falantes obedecem a essa gramática ao produzirem suas sentenças, pode-se concluir que todas as sentenças produzidas pelos falantes de uma língua são sentenças gramaticais. Em outras palavras, por definição, todas as sentenças produzidas são gramaticais ou bem formadas (LYONS, 1983, p.67). Assim se define o conceito de gramaticalidade: as sentenças são formadas em conformidade com a gramática do sistema linguístico. Observação Quando falamos em gramaticalidade, estamos considerando um “conhecimento implícito, inconsciente e natural acerca da língua que todos os falantes nativos possuem, e não das regras da gramática normativa que aprendemos na escola” (KENEDY, 2009, p.133). O conceito de gramaticalidade não pode ser confundido com o conceito de aceitabilidade nem com o conceito de significação. Tomando o exemplo clássico de Chomsky, podemos dizer que as sequências produzidas a partir de uma gramática recebem o nome de sequências gramaticais, enquanto que as que são produzidas sem que sejam levadas em conta as questões de organização linguística inerentes ao conhecimento implícito da gramática são chamadas sequências agramaticais. Essa gramática pode ser a gramática internalizada pelo falante ou a gramática construída pelo linguista. 77 Linguística geraL Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 Você ouve com frequência algo como: “pessoa escreveu que livro você conhece vende”? Pois é. Essa é uma frase denominada agramatical em nossa língua, pois “não está bem formada fonológica e sintaticamente” (LOPES, 1975, p.197). Por outro lado, bem provavelmente você já tenha ouvido algo assim: “Vocês vai lá hoje?” Pois é. Essa é uma frase considerada “gramatical”, embora não corresponda à norma culta. saiba mais Observe: “Ideias verdes incolores dormem furiosamente” (Colorless green ideas sleep furiously) – essa é uma frase gramatical, embora cause um certo estranhamento em relação ao que quer dizer. Para saber mais sobre essa frase, que tal uma rápida pesquisa? Vá ao endereço eletrônico <http://languagebar.blogsome.com/2007/05/> e descrubra o autor da frase e o que ele diz sobre ela. Esse é um exemplo apresentado pelo próprio Chomsky para ilustrar a questão da gramaticalidade. Podemos dizer que essa sentença é bem formada, tanto em português como em sua versão original em inglês, embora apresentem diferenças em sua organização (uma vez que essas línguas são regidas por regras diferentes). Nesse sentido, é uma sentença gramatical. No entanto, dificilmente pode receber uma interpretação coerente. Você pode objetar dizendo que essa sentença pode aparecer em um texto poético, por exemplo, e estaria com a razão. Até porque o que se vê nas teorias do texto é que todo texto é passível de uma interpretação. Entretanto, aceitamos, aqui, o exemplo de Chomsky para ilustrar o conceito, como já dito. lembrete Mas devemos aceitar, então, todas as sentenças consideradas dentro dos princípios gramaticais intuitivos do falante? A noção de gramaticalidade relaciona-se, mas não se identifica com a de aceitabilidade (Perini, 1970, p. 30). Observe a combinação de palavras: Cedo dormiu ontem ele. É claramente agramatical. Qualquer interpretação só é possível se forem violadas as regras gramaticais. 78 Unidade III Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 Esse é um dos argumentos de Chomsky para a capacidade inata de aquisição de linguagem: no processo normal de aquisição da linguagem, a criança consegue aprender, sem que lhe ensinem, as regras gramaticais de sua língua materna (LYONS, 1983). Observação Faça uma pesquisa: procure anotar frases ditas por diferentes falantes de nossa língua – crianças muito pequenas, crianças em idade escolar, adultos de diferentes graus de escolaridade e nativos recém-chegados de seus países que estão aprendendo nossa língua. Em seguida, analise as frases procurando separá-las em gramaticais e agramaticais. 6.3 a intuição linguística Como foi dito na primeira unidade deste trabalho, ser científico em linguística significa, dentre outras coisas, ser comprovado empiricamente. De acordo com a gramática gerativa, um dos objetivos do linguista é construir uma gramática que explique ou dê conta de todos os enunciados considerados gramaticais, já produzidos ou que possam vir a ser produzidos em algum momento (os enunciados potenciais). Dado que o falante produz enunciados gramaticais, pois estão em conformidade com a gramática da língua internalizada por ele, a gramática construída pelo linguista deve espelhar fielmente a gramática internalizada pelo falante. lembrete O objetivo maior da linguística que tem por fundamentação teórica a abordagem gerativista é dar conta do conhecimento linguístico do falante, ou seja, sua competência. O linguista só tem acesso à capacidade linguística do falante por meio do uso ou da manifestação dessa capacidade. Lembre-se ainda de que o uso é sempre menor do que a capacidade. Isso leva à conclusão de que o linguista deve submeter as frases geradas por sua gramática à avaliação do falante da língua. O linguista, então, faz uso da intuição linguísticado falante. lembrete Intuição linguística: serve de argumento para tornar fidedignas as decisões de aceitabilidade dos dados da língua por parte do falante-ouvinte ideal (CARNEIRO, 1997, p.119). 79 Linguística geraL Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 Antes de prosseguir, convém explicar que os termos “frase”, “sentença” e “enunciado” estão sendo usados aqui como sinônimos por uma questão meramente didática, não levando em conta, portanto, as discussões teóricas sobre esses conceitos linguísticos. A intuição linguística é o julgamento que o falante de uma língua faz sobre a aceitabilidade ou não de uma sentença. O linguista deve excluir de sua análise as sentenças não aceitáveis. Podemos notar, assim, que “a aceitabilidade é um fenômeno essencialmente intuitivo: algo que o falante “sente” com relação à sentença ouvida” (PERINI, 1970, p.30). 6.4 Produtividade dos sistemas linguísticos x criatividade linguística dos sujeitos falantes Ao produzirem e compreenderem uma quantidade indefinida de sentenças, os falantes estão fazendo uso de uma propriedade das línguas naturais que é a produtividade. Essa propriedade dos sistemas linguísticos possibilita aos falantes fazerem uso da criatividade: a capacidade que o falante tem de compreender e produzir um número indefinido de sentenças; uma capacidade que independe do estímulo, um dos contra-argumentos à proposta behaviorista de aquisição da linguagem. lembrete “Produtividade, devemos observar, não pode ser identificada com criatividade: mas existe uma conexão intrínseca entre elas” (LYONS, 1983, p.212). A criatividade é uma capacidade humana e uma das características que separa o ser humano dos outros animais. O ser humano pode e faz uso de sua criatividade linguística. E, para tanto, utiliza-se da propriedade dos sistemas linguísticos, que é a produtividade. Essa criatividade é dependente e vigiada pela produtividade no sentido de que o falante pode dar vazão a toda sua criatividade, desde que obedeça às regras impostas pelos sistemas gramaticais e obedeça às regras da gramática de sua língua. 6.5 Princípios e parâmetros Como foi já mencionamos anteriormente, a teoria da linguagem de Chomsky, iniciada em 1957, passou por uma série de reformulações, resultando no atual programa de princípios e parâmetros. Na fase inicial da teoria, o conhecimento linguístico consistia em um conjunto de regras de diferentes naturezas. No programa de princípios e parâmetros, as regras são efeitos de princípios universais e parâmetros de variação, os quais também formam a base para uma teoria da aquisição (KATO, 1997). Ao tratar desse assunto, Kato (op.cit., p.7) formula uma questão bastante interessante: “Mas, se crianças de diferentes povos aprendem línguas diferentes, por que não se pode dizer que a criança aprende sua língua dependendo exclusivamente do input do ambiente?”, para a qual responde: Para Chomsky, sem uma estrutura interna, um organismo não interage com o ambiente. A estrutura interna na espécie humana é invariante 80 Unidade III Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 e é responsável não só pelas propriedades invariantes das línguas, mas também pelas variações possíveis. As línguas variam, mas a variação é restrita, porque depende de um número limitado de parâmetros já programados geneticamente (...) (KATO, 1997, p.7). Ao ter contato com o input, a criança acionará o parâmetro que está de acordo com a língua que está ouvindo. Os parâmetros são, portanto, particulares de cada língua. Os princípios são universais. Cabe ao linguista descobrir quais são os princípios universais – a GU ou gramática universal – e os parâmetros particulares de cada língua. Quando concluir essa tarefa, o linguista terá conhecido a capacidade linguística inata do falante, devidamente registrada em sua genética. 6.6 O modelo de análise gerativista: explicativo A linguística foi definida como uma ciência descritiva e explicativa. O estruturalismo foi visto como um modelo de análise descritivo, pois entendia que da descrição do sistema linguístico – a língua – chega-se à compreensão de seu funcionamento – uma explicação de seu funcionamento. Para Chomsky (1997) e para os adeptos do gerativismo, esse modelo de análise preenche uma das condições da teoria da linguagem humana, a adequação descritiva. A gramática construída pelo linguista, ao descrever uma língua particular e ao constituir uma descrição das propriedades da língua, descreve aquilo que o falante sabe. É necessário preencher outra condição: a adequação explicativa. “Um fenômeno só pode ser explicado quando pode ser deduzido de leis mais gerais” (PETTER, 2002, p.22). A adequação explicativa, na forma como a gramática gerativa foi apresentada inicialmente, consistia de uma gramática descrita pelo linguista que desse conta das frases produzidas e potencialmente produzidas. Na teoria dos princípios e parâmetros, trata-se de construir uma teoria da linguagem que mostre “como cada língua particular pode ser derivada de um estado inicial uniforme” (CHOMSKY, 1997). Esse estado inicial uniforme refere-se aos princípios (universais), ao passo que os parâmetros são as configurações assumidas pelas línguas a partir daquele estado inicial. A estrutura das línguas é uniforme e invariante – dada pelos princípios. Por parâmetros entende-se tudo que as torna sistemas particulares. 6.7 Os limites de análise no gerativismo Nesta seção, trataremos dos limites de análise do gerativismo, englobando o estudo da competência (excluindo do escopo de análise o falante – limites da performance –, e o contexto sociocultural). O gerativismo é um modelo teórico bastante influente que transcendeu as fronteiras da linguística, surtindo efeitos em outras ciências. Apesar disso, está sujeito a críticas, assim como ocorre em outras 81 Linguística geraL Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 teorias linguísticas e em outras ciências. São de crítica, revisão e contestação de conceitos e trabalhos anteriores que as ciências se desenvolvem. As chamadas teorias do texto fundamentam muitas de suas teses em contra-argumentos à teoria gerativista. Uma das questões que se destacam diz respeito ao fato de o gerativismo tratar de um falante-ouvinte ideal pertencente a uma comunidade linguística homogênea. Isso porque tem por objetivo descrever a capacidade linguística, deixando de lado, deliberadamente, o desempenho, pois este último está sujeito à interferência de fatores não linguísticos. Em consequência, o falante e, obviamente, o ouvinte, estão fora da análise. Um falante e um ouvinte jamais são vistos como interlocutores. A sociolinguística, por exemplo, rompe com o gerativismo ao observar os falantes em situações de uso real, constatando e salientando não só a imensa heterogeneidade dos sistemas linguísticos, como a imensa variação decorrente dos interlocutores e das situações em que estão inseridos. No que diz respeito à aquisição de linguagem, os estudos fundamentados no gerativismo sofreram críticas de outras teorias, como o chamado cognitivismo, apoiado na teoria do desenvolvimento cognitivo de Piaget; o sociointeracionismo, apoiado em Vygotsky; e, mais recentemente, as hipóteses formuladas por Cláudiade Lemos. Essas abordagens e as críticas que fizeram ao gerativismo estarão em outro texto. Sugerimos a você a leitura de Scarpa (2001) e Santos (2002). saiba mais Como sugestão, leia sobre a aquisição da linguagem e pesquisas atuais: • Projeto Aquisição de Linguagem faz 25 anos. Disponível em: <http:// www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/jornalPDF/199-pag08. pdf>. Acesso em: 15 set. 2010. • A singularidade da fala da criança e o estatuto do investigador da aquisição da linguagem. Disponível em: <http://revistas.pucsp.br/ index.php/intercambio/article/viewFile/3538/2306>. Acesso em: 13 set. 2010. 82 Unidade III Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 resumo Quadro XII: Gerativismo – síntese Gerativismo • Teoria da linguagem desenvolvida por Noam Chomsky; • Inicialmente denominada Gramática Gerativo-Transformacional; • Atualmente denominada Teoria de Princípios e Parâmetros. Objetivo • Construir gramática com foco nos universais linguísticos ou na gramática universal (o que é comum a todas as línguas). Linguagem • Capacidade inata inscrita na mente do sujeito. Criatividade • Independe do estímulo; é característica do comportamento linguístico humano. Dicotomia • Competência linguística – conhecimento do falante em relação ao sistema linguístico; • Desempenho linguístico – maneira como o falante faz uso do sistema linguístico. Intuição linguística • Julgamento do falante sobre a aceitabilidade ou não de enunciados da língua. Análise gerativista • Descritiva – explicita, enumera e classifica a estrutura das frases (palavras e sua formação) e das regras de combinação dessas diferentes unidades; envolve trabalho de definição e classificação; • Explicativa – analisa corpus (conjunto de dados coletados por meio de pesquisas, para fins de investigação) em busca de compreender e interpretar como se formam as frases, como são utilizados os morfemas e fonemas de uma língua e como é possível explicar a derivação lógica das descrições observadas. Explicação dos fatos linguísticos • Busca de propriedades universais da língua; • Regras são mais importantes do que relações entre linguagem e mundo. Crítica ao Estruturalismo • Corrente gerativista alega que o estruturalismo permanece no nível empírico e descritivo, não sendo capaz de explicar a criatividade humana na produção linguística. exercícios Questão 1. (UNESP 2010 – Com adaptações) Leia o texto. Fragmento do livro Reflexões sobre a linguagem, de Noam Chomsky (1928-): Por que estudar a linguagem? Ha muitas respostas possíveis e, ao focalizar algumas delas, não pretendo, é claro, depreciar outras ou questionar sua legitimidade. Algumas pessoas, por exemplo, podem simplesmente achar os elementos da linguagem fascinantes em si mesmos e querer descobrir sua ordem e combinação, sua origem na história ou no indivíduo, ou os modos de sua utilização no pensamento, na ciência ou na arte, ou no intercurso social normal. Uma das razões para estudar a linguagem – e para mim, pessoalmente, a mais premente delas – é a possibilidade instigante de ver a linguagem como “um espelho do espírito”, como diz a expressão tradicional. Com isto não quero apenas dizer que os conceitos expressados e as distinções desenvolvidas no uso normal da linguagem nos revelam os modelos do pensamento e o universo do “senso comum” construídos pela mente humana. Mais intrigante ainda, 83 Linguística geraL Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 pelo menos para mim, é a possibilidade de descobrir, através do estudo da linguagem, princípios abstratos que governam sua estrutura e uso, princípios que são universais por necessidade biológica e não por simples acidente histórico, e que decorrem de características mentais da espécie. Uma língua humana e um sistema de notável complexidade. Chegar a conhecer uma língua humana seria um feito intelectual extraordinário para uma criatura não especificamente dotada para realizar esta tarefa. Uma criança normal adquire esse conhecimento expondo-se relativamente pouco e sem treinamento específico. Ela consegue, então, quase sem esforço, fazer uso de uma estrutura intrincada de regras específicas e princípios reguladores para transmitir seus pensamentos e sentimentos aos outros, provocando nestes ideias novas, percepções e juízos sutis. (Noam Chomsky. Reflexões sobre a linguagem. Trad. Carlos Vogt. São Paulo: Cultrix, 1980.) No início do fragmento, Chomsky afirma que há muitos motivos para estudar a linguagem e aponta alguns deles. Considere as afirmações a seguir: I. verificar os modos de utilização dos elementos da linguagem no pensamento. II. descobrir os efeitos da utilização dos elementos da linguagem humana sobre os animais próximos ao homem. III. descobrir a ordem e a combinação dos elementos da linguagem. Concernente com o posicionamento de Chomsky, é correto o que se afirma em: A) Apenas I e II. B) Apenas I e III. C) Apenas I. D) I, II e III. E) Apenas II e III. Resposta correta: B Análise das afirmativas: I – Afirmativa correta Justificativa: para Chomky, o uso da linguagem revela os modelos do pensamento e o universo do “senso comum” construídos pela mente humana. II – Afirmativa incorreta Justificativa: não é objeto do texto a relação entre homens e animais, mesmo que haja proximidade destes com aqueles. 84 Unidade III Re vi sã o: A ile en - D ia gr am aç ão : F ab io - 2 0/ 04 /1 1 -| |- 2 ª R ev isã o: A ile en - C or re çã o: F ab io - 2 8/ 04 /2 01 1 III – Afirmativa correta Justificativa: a questão estrutural é privilegiada por Chomky: a descoberta, por meio do estudo da linguagem, princípios abstratos que governam sua estrutura e uso, princípios que são universais por necessidade biológica e não por simples acidente histórico. Questão 2. (UNESP 2010) Leia o fragmento a seguir: Uma das razões para estudar a linguagem – e para mim, pessoalmente, a mais premente delas – é a possibilidade instigante de ver a linguagem como “um espelho do espírito”, como diz a expressão tradicional. Com isto não quero apenas dizer que os conceitos expressados e as distinções desenvolvidas no uso normal da linguagem nos revelam os modelos do pensamento e o universo do “senso comum” construídos pela mente humana. Mais intrigante ainda, pelo menos para mim, é a possibilidade de descobrir, através do estudo da linguagem, princípios abstratos que governam sua estrutura e uso, princípios que são universais por necessidade biológica e não por simples acidente histórico, e que decorrem de características mentais da espécie. (Noam Chomsky. Reflexões sobre a linguagem. Trad. Carlos Vogt. São Paulo: Cultrix, 1980.) Chomsky usa para explicar seu ponto de vista uma expressão tradicional: a linguagem como “espelho do espírito”. O autor quer dizer, ao utilizar tal imagem, a) que a linguagem é o melhor meio de comunicação entre os homens. b) que o estudo da linguagem tem de se basear em fundamentos rigorosamente científicos. c) que descobrir como a linguagem funciona pode conduzir ao conhecimento de como o pensamento funciona. d) que a linguagem, como um espelho, pode revelar o espírito, mas não em sua totalidade. e) que o homem tem um modo de ser peculiaríssimo que não se revela pela linguagem. Resolução desta questão na plataforma.