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Identidade cultural Kênia Kemp Introdução A3 falar em identidade, imediatamente pensamosna identidade de uma pessoa, nos traços marcan- tes de sua personalidade e em características que lhe seriam essenciais. Assim, identidade seria algo idênti- co à personalidade. Pensando socialmente, entretanto, consideremos que o conceito de identidade é atravessado por outros, como grupo social e cultura. Para as Ciências Sociais, a iden- tidade dos sujeitos se constitui inicialmente de condições históricas e culturais que lhes são dadas, condições que não escolhem, pois ao nascer se deparam com um grupo familiar e social em pleno funcionamento, com sua língua, regras, hábitos e tradições. Entretanto, a partir de um certo momento de nossa trajetória pessoal de vida, é possível negociar com essas limitações anteriores, pois a cultura é pautada pelo movimento. Esse movimento de manipulação de coisas previa- mente dadas pelo ambiente social deve-se à nossa capacidade de re-significar experiências, mesmo que repetitivas. Assim, falamos da constituição das identidades como "processos de identificação": as experiências cotidianas nunca cessam de proporcionar situações que nos 66 Kênia Kemp demandam escolhas e posicionamentos em relação a condutas e valores, tanto os pessoais como os alheios. Nós e os outros, os semelhantes e os diferentes: as noções que construímos socialmente de igualdade e diferença são a moeda do jogo de construção das identidades. A cultura entraria proporcionando referenciais a partir dos quais os atores sociais acessam os elementos do cenário de conduta para desempenhar seus papéis. Em vez de uma essência, algo acabado e estático, a ênfase da antropologia recai sobre o incessante movimento de diálogo entre os símbolos que fazem parte da cultura dos diferentes sujeitos. Dessa forma, é possível refletir sobre as várias identidades que cada situação social nos permite utilizar, considerando os fatores que interferem nesse processo: a categoria de idade, a participação em grupos, o desempenho de papéis socialmente reconhecidos. Tais fatores são responsáveis pela construção da identidade que cada sujeito se atribui, bem como a que os outros reconhecem em alguém, e que nem sempre são coincidentes. Identidade nacional, de classe, de grupo, profissional, de género: todas elas nos remetem à forma como os sujeitos percebem e participam de suas culturas. Biologia, psicologia e antropologia Hippie, punk, rapper, clubber, skatista, homossexual, careca, gótico, motor biker. Algumas identidades culturais chamam atenção por causarem atração ou repúdio. Essas formas identitárias não passam despercebidas sobretudo por se distanciarem do "padrão" de comportamento de um grupo. Entretanto, existem outras categorias de identidade que percebemos, demarcamos e às quais atribuímos di- ferentes valores: os compatriotas, estrangeiros, negros, orientais e índios. Igualmente capazes de atribuir identidades, elas parecem desprovidas da mesma força de mobilização que as outras, mais glamorosas. Mas não é assim. Podemos brincar com a combinação dessas dife- Identidade cultural 67 rentes fontes de identificação: o punk inglês e o punk brasileiro; o rapper branco e o negro; o hippie chique e o autêntico; o sambista tradicional e o pagodeiro; o caipira e o country. As rotulações sociais fazem parte de um jeito de categorizar as identidades culturais na sociedade contem- porânea e resultam de uma combinação complexa entre origens biológicas, opções sexuais, padrões de consumo, tradicionalidade, idade, classes sociais, localização geográ- fica e muitas informações do senso-comum. Na vida em sociedade utilizamos constantemente essas referências, seja para afirmar a nossa identidade, seja para localizar o outro. Ao lado dessas práticas, há várias maneiras de pensá-las. Algumas versões disciplinares se diferenciam da antropologia e demarcam questões específicas. Biologia - A definição biológica da identidade dos indivíduos enfatiza a herança genética, da qual derivam as várias raças humanas. O conceito de raça encontra-se praticamente banido das ciências humanas e princi- palmente da antropologia, que a substituiu pelo conceito de etnia. Essa substituição deveu-se ao abuso político que legitimou práticas de discriminação, preconceito e ódio entre raças durante os últimos séculos. Os fundamentos puramente biológicos do conceito de raça, utilizado para classificar os tipos humanos, desembocou em práticas de dominação económica, militar, política e moral de algumas nacionalidades sobre outras, desde as Grandes Nave- gações. Essa dominação mostrou as muitas formas possíveis de subjugar um povo, como a espoliação do trabalho alheio, a completa desvalorização das tradições e crenças, a inferiorização de traços culturais alheios ou o extermínio de populações inteiras. A ciência não é imparcial. Uma vez produzido, o conhecimento pode ter uma infinidade de usos, na maior parte das vezes imprevisíveis ou indesejáveis. O inventor de um instrumento, ou de uma teoria, não possui controle absoluto sobre os desdobramentos de sua invenção. Mas 68 Kênia Kemp há o compromisso de qualquer cientista quanto aos posicionamentos adotados frente às produções científicas: o fato de alguém concordar ou não com o uso de teorias racialistas para justificar políticas de caráter racista, é de inteira responsabilidade de cada um de nós. No caso da antropologia, houve uma série de dis- torções que partiram da tradução literal das teorias biológicas da evolução para explicar fatos de ordem cultural: a isso chamamos de evolucionismo (ou darwi- nismo) social. Uma das especialidades responsáveis pelo desenvolvimento desse pensamento evolucionista foi a antropologia física. Ela se especializa no conhecimento dos tipos humanos, sendo auxiliar da arqueologia na reconstrução de modos de vida e grupos sociais extintos e dos quais temos apenas vestígios materiais. Assim, através da medição de crânios e da investigação quantitativa de outras partes do corpo humano, a antropologia física cataloga, mapeia e data muitos grupos, tentando conhecer como se deu biológica e territorialmente nossa evolução. No final do século XIX e início do XX, o evolucionismo ganhou um crescente número de adeptos, predominando em quase todas as áreas de conhecimento. Conceitualmen- te, o evolucionismo caracteriza-se pela ideia de que algu- mas espécies possuem maior capacidade de se adaptar ao ambiente, daí resultando sua evolução orgânica; existiria assim uma hierarquia entre as espécies, em que as mais hábeis e capazes sobreviveriam e as mais débeis se extin- guiriam. Naquele momento, as teorias que serviam para mapear e datar serviram de base para justificar a su- perioridade de algumas raças, às quais associava-se "na- turalmente" determinada cultura. Como certas raças eram julgadas superiores às outras, estava justificada a ideia de que algumas culturas também seriam superiores. No Bra- sil o principal representante do evolucionismo social foi o médico Nina Rodrigues cuja obra colaborou para uma sé- rie de equívocos racistas acerca da população negra trazi- da ao Brasil como mão-de-obra escrava. Na Alemanha, o movimento nazista afirmou a s.uperioridade da raça aria- Identidade cultural 69 na sobre todas as demais justificando assim a persegui- ção contra os judeus e seu holocausto. Após a II Guerra Mundial, vários intelectuais conven- cidos do papel perverso cumprido pela ideologia evolucio- nista nos eventos promovidos pelo nazi-fascismo, desem- penharam importante papel crítico. Destaque para Lévi- Strauss. Em Raça e história1, ele aponta que, quando tra- duzido em termos de teoria social, o evolucionismo social utiliza pressupostos erróneos. Aqui nos interessam dois pressupostos. O primeiro é a ideia de que a cultura é uma extensão natural de nosso aparelho biológico e que a cada raça corresponderiauma cultura melhor ou pior. No en- tanto, invalida esse pressuposto a constatação de que exis- te um número muito maior de culturas do que o de raças e que dentro de um mesmo padrão racial existe diversi- dade cultural. O segundo é que a teoria evolucionista pau- ta-se sobre as sequências geracionais e mutações de uma mesma espécie. A maior aptidão à sobrevivência revelada pela evolução de algumas espécies só pode ser tomada a partir da linha evolutiva de um único representante de cada família. Assim, a partir de um grande número de fós- seis da mesma espécie e de sua datação, pode-se organi- zar uma linha evolutiva de cada espécie, ordenada tem- poral e espacialmente. Não se pode comprovar a evolução das girafas com base nos fósseis de hipopótamos ou sapos. Perceberemos o equívoco ao transpor essa lógica às evidências da cultura material, como instrumentos e tecnologia. Segundo a ideologia evolucionista, as socie- dades com uma tecnologia como a do avião seriam colocadas num patamar mais evoluído que aquelas cujo meio de transporte mais avançado é a carroça. Ora, é inegável o fato de que partimos de um passado remoto em que as girafas possuíam um pescoço muito mais curto que as de hoje. No entanto, argumenta Lévi-Strauss, um cavalo sempre dará origem a outro cavalo; nada nos garante que 1. LÉVI-STRAUSS, C. Raça e história. 70 Kênia Kemp a carroça pode dar origem ao avião, ou o machado à moto- serra. A cultura material se reproduz e se transforma mediante a obra humana, cujas necessidades seguem uma lógica de transformação que não se reduz à adaptação e à sobrevivência. O ser humano transforma, aperfeiçoa e inventa movido por necessidades humanas, cuja lógica extrapola a da sobrevivência e para a qual nem sempre são necessários requisitos como uma maior capacidade física ou intelectual. Em resumo, Lévi-Strauss defende a ideia de que, para a antropologia, a identidade cultural não deve ser pensada biologicamente. Devemos deixar de atribuir caráter hereditário à cultura: nós não herdamos geneticamente práticas ou aptidões culturais. Um bebé chinês recém- nascido que passe a ser socializado por uma família di- namarquesa crescerá e desenvolverá habilidades culturais de um dinamarquês. É equivocada a ideia de que certos atributos culturais são "naturais" e "pertencem" a de- terminadas etnias. É no cotidiano do grupo social que se reproduzem aprendizados e se produzem habilidades. Psicologia e Antropologia - Outra visão sobre a identidade é elaborada pela psicologia e se relaciona com a constituição histórica da subjetividade; a antropologia, além desta, trabalha com a "noção de pessoa". Essa dife- rença conceituai resulta de diferentes enfoques e do mé- todo de observação de cada ciência com respeito a ques- tões bastante próximas mas que recebem destinos disci- plinares diferentes. No caso da psicologia, o estudo da constituição histórica da subjetividade privilegia a tradi- ção da cultura ocidental e a herança greco-romana. Procura-se compreender os antecedentes históricos da subjetividade contemporânea e suas intercorrências com a cultura ocidental. A subjetividade, como a entende a psi- cologia, se refere à constituição dos sujeitos nas socieda- des modernas. Na modernidade, observamos um "desco- lamento" do sujeito em relação às estruturas sociais. Isto Identidade cultural 71 faz parte das profundas mudanças que caracterizaram o advento da modernidade. Na antropologia, a noção de pessoa abrange uma gama enorme de grupos sociais com tradições culturais diferentes das nossas. Até certo momento da história moderna, essas culturas não eram dominadas pelo padrão ocidental. Pensar a noção de pessoa permite ver como várias culturas não-modernas entenderam a relação indivíduo-sociedade. Nela residem os mecanismos que nos mostram tanto a nossa identidade cultural como a identidade de quem denominamos "outro". Em tempos da modernidade-mundo contemporânea - termo que Ortiz prefere ao de "globalização"2 e em que a pluralidade e a circulação de ideias e símbolos não apenas faz parte da constituição das identidades mas é a mentalidade dominante -, o enfoque da antropologia so- bre o "outro" ajuda a pensar a atribuição de nossas iden- tidades culturais. Ao invés de descrever e comparar uma enorme quan- tidade de culturas e a maneira como cada uma constitui a noção de pessoa, aglutinamos dois grandes grupos: as "sociedades tradicionais" e as "sociedades modernas". Ne- les foram aproximadas culturas aparentemente distintas mas que possuem mecanismos equivalentes. As sociedades modernas integram o grande grupo cuja característica principal é uma autonomia bem demarcada entre esferas de práticas sociais como a política, a eco- nomia, as leis, a família, o trabalho, a religião, a educação, a arte. Nesse tipo de arranjo social, ao qual pertencemos, cada uma das esferas mencionadas pertence a práticas distintas. Somos capazes de separar, por exemplo, a religião do trabalho. Essa autonomização das diferentes esferas é consequência das mudanças ocorridas desde o Renascimento europeu. Em "O exílio do sagrado", Rubem Alves3 lembra que a lógica utilitária da vida económica 2. ORTIZ, R. Um outro território, p. 85. 3. ALVES, R. "O exílio do sagrado". 72 Kênia Kemp passou a ocupar um lugar central sob o capitalismo. O domínio da esfera material e de sua racionalidade competitiva-acumulativa sobre todos os outros aspectos da vida social precipitou a separação de esferas antes concebidas como equivalentes. Foi necessário desvincular o trabalho da religião para poder encará-lo como fonte de acumulação individual de riqueza sem nenhum comprometimento espiritual. Foi necessário desvincular a política da religião para que na disputa por cargos predominasse o poder económico. Nessa sequência de quebra de vínculos, o próprio sujeito desvincula-se das estruturas que o circundam e se percebe como indivíduo dotado de vontade e liberdade. Nas sociedades tradicionais, esse grau de dife- renciação e autonomia, ou é muito pequeno ou é ine- xistente, pois sua lógica não é a do utilitarismo económico mas a das concepções místico-religiosas. O misticismo atravessa todas as outras esferas da vida social, tecendo um elo que as une e equivale. Basta lembrar que, nessas sociedades, a arte - principalmente a música e a dança - faz parte da religião. Canta-se e dança-se ritualmente, para adorar deuses e para ir à guerra. Nessas sociedades, a colheita farta não é encarada como riqueza mas como dádiva divina. A centralidade da lógica religiosa faz com que os indivíduos concebam sua participação no grupo social como algo regido por mecanismos mais coletivistas que individualistas. Aí o sujeito está confundido com a estrutura de seu grupo, sua única fonte de referência identitária. A partir dessa compreensão peculiar de mundo, é definida a noção de pessoa nas sociedades tradicionais. Para construir sua identidade, os indivíduos dispõem de referenciais distintos dos modernos que nos permitem estranhar a nós mesmos e compreender que não são ideias "naturais". Por que parece que a questão da identidade não é problematizada nas sociedades tradicionais, como é nas modernas? Será que os índios não sofrem de crise de identidade? Nas sociedades tradicionais não existe um Identidade cultural 73 individualismo tão característico da modernidade, as coisas se passam como se aí os indivíduos tivessem identidades mais estáveis. Hall lembra que "isto não significa que nos tempos pré-modernos as pessoas não eram indivíduos mas que a individualidade era tanto Vivida' como 'conceptualizada' de forma diferente"4. Nas .sociedades tradicionais existe uma forte associação entre cultura, povo e território. A cada etnia corresponde uma geografia bem delimitada e um único referencial cultural a partir do qual os indivíduos são educados. O contato cara-a-cara, o local da interaçãosocial é uma instância privilegiada - e praticamente única - de construção de identidades. A relativa ausência de um contato cultural com a diferença teria como consequência a reprodução de um modelo cultural de identidades menos exposto a transformações. Elas ocorrem, sim, mas em ritmo muito mais lento que nas sociedades modernas. Na ausência de subjetivídades, nos referimos na literatura antropológica à construção da noção de pessoa. Como ela ocorre? Carneiro da Cunha analisa como na etnia krahó a noção de pessoa é ligada a categorias sociais específicas como "amigo formal" e "companheiro"5. Entre esses índios, a identidade social é associada à nomeação; a identidade individual e biológica se associa à con- sanguinidade. Assim, companheiro é "quem faz o que eu faço ao mesmo tempo que eu, quem nasce no dia em que nasço, quem governa o pátio quando eu também governo... quem me acompanha em minhas ações cotidianas". Já amigo formal é um "estranho, um não-parente" (que seria associado ao nome) com quem se mantém uma relação de respeito extremo e de evitação. Quando colocados juntos para serem iniciados, os krahós podem optar estabelecer relações de amizade formal após passarem por um rito: "De costas um para o outro, mergulham no ribeirão em 4. HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade, p. 25. 5. CARNEIRO DA CUNHA, M. Antropologia do Brasil, pp. 58-59. 74 Kênia Kemp direções opostas, em seguida emergem e se encaram". Um rito semelhante estabelece a relação de companheirismo: "Os candidatos mergulham juntos, abraçados e na mesma direção". A noção de pessoa se definir na semelhança, simultaneidade e proximidade através dos "companheiros", ou na alteridade, desencontro e distância através dos "amigos formais". Trata-se de relações sociais construídas e não apenas determinadas, como normalmente entendemos as sociedades tradicionais, em que sujeito e estrutura são encarados como extensões "naturais". Contraste e identidade Um ponto central para a compreensão antropológica da identidade refere-se à necessidade de referenciais. Quando se parte do ponto de vista da própria cultura, a princípio todos os comportamentos parecem naturais, como se não fosse possível conceber certas atitudes em deter- minadas situações de maneira diferente. Entretanto, a di- versidade cultural nos mostra que nada no comportamento humano pode ser visto como "natural", pois cada cultura resolve seus modos de vida de forma original. Quando vemos pessoas de outros grupos tomando atitudes que não condizem com nosso padrão, achamos que são loucas, esquisitas ou engraçadas. Um muçulmano se flagelando por ocasião da morte de um líder político- religioso nos parece insano; a ele também parece estranho o fato de não nos flagelarmos quando perdemos líderes. Uma roda de líderes de diferentes nações indígenas fumando o cachimbo da paz nos parece engraçada, assim como eles devem achar graça que nossos líderes, ao se reunirem, não fumem juntos. Em nossa cultura, já foi muito comum dois homens duelarem até a morte por questões de honra ou pela disputa de uma dama; hoje não nos parece normal tirar a vida de alguém ou arriscar a nossa devido a honra, orgulho ou amor. Tais juízos e estranhamento decorrem de referenciais etnocêntricos, que Identidade cultural 75 nos levam a pensar o outro não a partir das categorias culturais dele, mas a partir das nossas. Contudo, só nesse contato com a diferença é que se podem construir noções sobre identidade. Enquanto não se deparar com o "outro", em sua alteridade, não se pode abandonar a perspectiva que naturaliza a cultura e as identidades que ela produz. Enquanto os fatos culturais forem tomados como naturais, não se pode compará-los, questioná-los e entendê-los. Enquanto os indivíduos de um grupo dispõem de um único referencial cultural - o pró- prio - a questão da identidade não se coloca, pois não há parâmetros para dimensioná-la ou avaliá-la. Existe no sen- so-comum a ideia (preconceituosa) de que "brasileiro não gosta de trabalhar", associada a eventos da cultura bra- sileira. De onde viria tal afirmação se não houvesse um traço cultural de outro povo cuja característica parecesse o inverso dessa? Ora, só é possível conhecer como sou a partir daquilo que não sou. Construir uma identidade é dialogar com referências simbólicas disponíveis, as quais só são percebidas quando se descolam de sua pretensa naturalidade. É necessária uma referência a partir da qual se pode comparar. Trata-se da "identidade contras- tiva", "que surge por oposição, implicando a afirmação do 'nós' diante do 'outros'"6. É muito comum o riso ou es- panto quando vemos os "outros" exercitando suas iden- tidades e que nos parecem tão impensadas que reagi- mos como plateia num teatro. Essa reação reafirma con- dutas consideradas corretas, e portanto naturais, dentro de nosso grupo. Diante da diferença, passamos a ter mais de um re- ferencial. Quanto mais referenciais disponíveis, maior a multiplicidade de jogar com identidades culturais possí- veis. Uma das características marcantes da contempora- neidade, a "modernidade-mundo", é a aceleração do ritmo de circulação de pessoas e mercadorias, portadores e co- 6. OLIVEIRA, R.C. Um conceito antropológico de identidade, p. 36. 76 Kênia Kemp municadores de uma quantidade crescente de referências simbólicas. Os símbolos se desprendem, porque retirados de seus contextos originais, sendo constantemente mani- pulados e reinterpretados gerando novas possibilidades de uso e de novas significações. A isso Giddens denominou "desencaixe" dos sistemas sociais.7 O advento das socieda- des modernas rompe com a antiga continuidade entre um povo, um local, uma cultura: "Tudo se passa como se, nas sociedades antigas, espaço e tempo estivessem contidos pelo entorno físico"8. Pois, agora, o território da cultura nem precisa existir. Parafraseando Lévi-Strauss, "a iden- tidade é uma espécie de lugar virtual, o qual nos é indis- pensável para nos referirmos e explicarmos um certo número de coisas, mas que não possui na verdade uma existência real"9. Apesar de todas essas rupturas com a antiga ordem, referenciais ainda são necessários pois servem não só para construir as identidades mas sobretudo, para legitimá-las. Quando afirmamos que um punk inglês é "verdadeiro" e o brasileiro é uma "caricatura" ou uma versão piorada dos originais, referimo-nos àquilo que tomamos como modelo para determinada identidade social. Entramos no terreno da disputa social de legitimidade sobre as várias identidades e não nos requisitos para a construção simbólica delas. Eis mais uma consequência dos "desencaixes" da modernidade. Devido à intensa circulação de ideias e símbolos, a modernidade estimula a explosão de um número imenso de identidades grupais dentro de uma mesma sociedade e época. Esse "multi-tribalismo" contemporâneo modela comportamentos que caracterizam várias "tribos". 7. GIDDENS, A. As consequências da modernidade, p. 8. ORTIZ, R. Op. cit., p. 79. 9. ORTIZ, R. Op. cit., p. 75. 25. Identidade cultural 77 Identidade nacional e identidade de género Nação - Em qualquer sociedade, os indivíduos cons- tróem suas identidades de acordo com um "modelo" cul- tural de comportamento que os enquadra em papéis e funções sociais. A identidade nacional é parte da constru- ção desse modelo, sendo diferente da totalidade de nossa cultura. Os traços associados a cada nacionalidade fazem parte da construção histórica da ideia de nação. Assim afir- mam-se as diferenças nacionais que são de ordem políti- ca, territorial, jurídica e económica, através das pretensas peculiaridades culturais entre elas. A totalidade de uma cultura não pode ser reduzida a seus traços "nacionais", mesmo porque é impossível determinarmos a origem e pro- priedade de todas as manifestações culturais; a ideia de identidade nacional é apenas um recorte conceituai,uma das forma de representação de nossas identidades. O subs- trato de uma nação não é de ordem biológica, e depende portanto da interação social do grupo que reproduz tradi- ções ou as descarta estabelecendo cotidianamente formas de reconhecimento mútuo delimitando a fronteira entre o "nós" e os "outros". Género - Ao lado da identidade nacional, temos outros recortes possíveis de nossa identidade cultural. Tomemos como exemplo a questão da diferença de identidade entre os indivíduos que pertencem ao sexo masculino e feminino. As pessoas nascem com um sexo biologicamente definido, mas não com um papel ou comportamento social que seja inerente a ele. A cada cultura correspondem diferentes modelos de comportamento esperados pelo grupo, para que um indivíduos seja considerado de um ou outro sexo. A isso denominamos género. Os atributos associados ao comportamento feminino e masculino variam imensamente dentre a diversidade cultural, e estão intimamente associados não apenas à reprodução, mas também aos papéis desempenhados por cada um dos sexos em seu grupo. 78 Kênia Kemp A identidade de género faz parte do processo de socialização e portanto se encontra intrinsecamente dependente dos modelos de educação afetiva que di- ferenciam meninos de meninas. Nesse aspecto, o indivíduo depende em parte da escolha dos pais e da sociedade como um todo que lhe oferecem referências de identificação relacionadas a um ou outro sexo, desde o ambiente que compõem o quarto da criança, sua vestimenta, as reações reprimidas e as incentivadas, o gosto desenvolvido por certas atividades. Complementar ao processo de socia- lização e de educação afetiva encontramos a identificação sexual propriamente dita. Assim, cada indivíduo estabelece relações de identificação com um ou outro género, desenvolvendo comportamentos que considere congruentes com sua escolha.10 Resumindo, existe uma tipificação de género para cada cultura e espera-se dos indivíduos distintos biologicamente um comportamento sexual correspondente; porém durante o processo de identificação pode-se tanto convergir como divergir dos padrões. Em nossa sociedade, o padrão majoritariamente aceito determina que ao feminino devem-se associar caracterís- ticas como a fragilidade, a dependência, a afetividade, o romantismo; ao masculino seriam a virilidade, a raciona- lidade, a agressividade. Porém esse modelo pode estar "ao avesso" em outras culturas. O sexo biológico é parte, mas não determinante de nossa identidade de género. O géne- ro é uma construção psicossocial. Relacionado ao género, temos os papéis sociais. Cada cultura define que certos papéis serão preferencialmente ou ainda exclusivamente atribuídos a um ou outro sexo. Nas sociedades tradicionais cozinhar, cultivar a terra, criar animais, caçar, ensinar, curar, são atividades sociais reconhecidas como responsabilidade de um ou outro sexo. Na sociedade contemporânea, existe uma tendência cada 10. SILVA, M.C.A. Formação e desenvolvimento da identidade sexual ou identidade de género, pp. 46-47. Identidade cultural 79 vez mais comum onde essa delimitação deixa de ter sentido; entretanto não é difícil encontrarmos localidades mais apegadas às tradições onde as fronteiras de papéis sexuais são mais rígidas e demarcadas. Nesse contexto, o ato de ler jornal por exemplo, que para muitos não indica determinação de género, pode estar vinculado a uma concepção de papel masculino, provocando estranhamento o fato de uma mulher fazê-lo. Grupos, tribos, gangues e "minorias" Nas sociedades modernas, a tradição cultural do gru- po perde a centralidade como referência identitária para as pessoas. Os indivíduos sentem-se livres e capacitados a formular escolhas subjetivas. Em decorrência dessas orientações subjetivas, o reconhecimento do "lugar" social de cada um pode ser resultado da combinação de vários elementos identitários como género, profissão, lazer, con- sumo, crenças, orientação política e partidária e assim por diante. O agrupamento é uma forma de afirmação de di- ferenças, ideia que nos remete novamente ao conceito de identidade contrastiva. Além de contrastiva, a construção simbólica das iden- tidades é também relacional, pois elas são "complementa- res" ou "combinadas"11. Pensamos as identidades sempre "em relação a" algo. Em nosso dia-a-dia desempenhamos vários papéis sociais em diferentes contextos. Em casa, somos filhos ou pais complementarmente ao lugar do ou- tro - só posso ser "filha" se houver um "pai" ou uma "mãe"; no trabalho ocupo o lugar de "professora" porque há "alu- nos". Enfim, dirigimos nossa conduta orientados pelo setting (cenário) social que se forma nas várias situações. Ao reconhecermos a que categoria pertence o outro, ime- diatamente assumimos esta ou aquela conduta, combinan- do ou complementando a situação social. 11. OLIVEIRA, R. Op. cit. 80 Kênia Kemp O caráter associativo na modernidade permite uma variedade de agrupamentos sociais devido à multiplicidade de "categorias sociais". Jovem, executivo ou artista apenas na modernidade passam a atuar e ser percebidas no cenário social enquanto dotados de particularidades em relação à sociedade como um todo. Vários fatores são responsáveis pela multiplicação de categorias sociais: a universalização da educação através das escolas fundamentadas em teorias psicológicas e pedagógicas; a qualificação para o mercado de trabalho, que canaliza para um mesmo tipo de formação os profissionais de uma mesma especialidade; a explosão dos meios de comu- nicação de massa, responsáveis pela divulgação de modos de vida e hábitos e pela criação de mitos retirados do universo artístico (músicos, dançarinos, atores e es- critores); a cultura do consumo como instância legiti- madora de identidades. Essas características permitem que os símbolos de identidade operem em mão-dupla: multiplicam-se as categorias sociais através de um uni- verso simbólico característico demarcando a identidade de cada grupo; torna-se maior o convívio entre elas. Os cenários sociais possibilitam o contato com a dife- rença a partir da qual dialogamos e criamos algum nível de identificação. Assim, nos aproximamos e associamos a grupos que proporcionam referências que fazem sentido em nosso universo simbólico. Nem todo grupo é identifi- cado como uma "tribo". Para tanto, é necessária certa ma- nipulação simbólica que torne sua identidade reconhecí- vel - porque contrastável - frente às demais. Essa mani- pulação é a seleção de traços específicos: vestimentas, lín- guas/ dialetos/ gírias, religião etc. Tornam-se "traços diacríticos"12 desse grupo e permitem aos "outros" reconhecê-los e a eles próprios dar sentido e coerência à sua identidade. Quando reunidos em grupo, essa identi- dade ritualiza-se, condensa-se, agudiza-se. Nos cenários 12.CARNEIRO DA CUNHA, M. Op. cit. Identidade cultural 81 urbanos há territórios que parecem ocupados por uma "tri- bo". Subirats refere-se a uma "cultura do espetáculo" con- temporânea, metáfora dessa publicização e ritualização das identidades e da importância exacerbada conquista- da pela performance e pela dimensão audiovisual atual.13 Carneiro da Cunha associa a cultura a um "acervo" simbólico do qual retiramos de cada contexto elementos que consideramos representativos de nossa identidade.14 Apesar de imprevisível, essa seleção não é totalmente ar- bitrária, havendo uma coerência com os elementos novos, mesmo que isso pareça contraditório do ponto de vista alheio. Por exemplo, o eixo África-Bahia-Caribe - tríade de referência para um "tribalismo baiano" muito em voga - tem fundamento não na igualdade cultural desses locais, aliás bastante distintos, mas na formação de um univer- so "que se sustenta a partir da condição de subalternida- de dos negros nas sociedades atuais e do ludismo das ge- rações descendentes de escravos"15. Entretanto, nem todos os negroselegem como referencial a tríade acima; em con- textos como a cidade de São Paulo, é mais comum nos depararmos com "tribos" que se referem ao negro norte- americano, em sua versão rapper. São os "manos", que exercem a cultura do RAP (Rhythm And Poetry). O corpo adquiriu dimensão privilegiada como meio de comunicação das identidades. O vestuário, os adornos, o body piercing, as tatuagens, os cortes e cores de cabelos servem como formas identitárias de pertencimento a grupos. O "estilo" é uma linguagem simbólica que localiza indivíduos e determina escolhas. Trata-se de um "neo- tribalismo" que remete a uma prática das sociedades tradicionais. Na maior parte das tribos, as interferências corporais são recurso comum tanto em ocasiões rituais quanto para identificar linhagens familiares ou papéis 13. SUBIRATS, E. A cultura como espetáculo. 14. CARNEIRO DA CUNHA, M. Op. cit. IÕ.ORTIZ, R. Op.cit., p. 86. 82 Kênia Kemp sociais, fazendo parte da obediência às tradições e regras. A diferença da versão atual desse fenómeno reside no fato de ser utilizado não em conformidade às regras, mas como tentativa de quebrá-las. O corpo atualmente é o canvas em que se inscrevem as interpretações sobre as relações sociais: nele, exibimos a forma como percebemos e vi- venciamos as contradições sociais e os desejos; também facilita a sociabilidade, agrupamento e pertencimento. Em qualquer "tribo", a reprodução da linguagem, do visual, do gestual, da dança e dos valores sempre terão um referencial; o que se faz com ele posteriormente, isto sim, é imprevisível. São inúmeros os motivos de alguns indivíduos, e outros não, fazerem parte de "tribos", sendo impossível determinar por que se adota a solução grupai em uns casos e em outros não. Entretanto o pertencimento pode solucionar, de forma simbólica ou real, limites ou privações, constrangimentos ou preconceitos enfrentados quotidianamente. Existe a possibilidade de tornar-se "diferente" do padrão para deixar de ser tratado como "desigual" quando se esforça por ser parecido. Lá, entre os "diferentes", conquisto a igualdade. Isso nos leva ao conceito de "minorias sociais". São chamadas "minorias" os grupos cujas identidades de alguma forma divergem ou questionam o padrão imposto socialmente como modelo e aceito pela maioria de seus membros. O conceito tem origem na manifestação pública que certos grupos como negros, feministas e homossexuais iniciaram a partir da década 60. Eles procuravam rei- vindicar direitos que reconhecessem sua condição de cidadãos independentemente do pertencimento étnico, sexual, político ou religioso. A partir daí, outros grupos passaram a adotar a postura de tornar cada vez mais pública suas identidades, disputando espaços de le- gitimidade social e do direito à diferença. Hoje o conceito de minorias abrange qualquer grupo social que adote essa estratégia de publicização e de afirmação identitária. Para além dos modelos e das "minorias" encontramos a formação de uma imensa gama de grupos cuja si- Identidade cultural 83 milaridade é essa afirmação - consequência visível da noção de subjetividade. Manipulando a diferença e a desigualdade A constituição de identidades é resultado de um jogo simbólico. Manipulamos socialmente nossa identidade, e também a dos outros, para demarcar lugares. Numa sociedade com uma hierarquia complexa como a nossa, as categorias sociais movem-se o tempo todo - em certos contextos, nossa identidade nos faz ser respeitados e, em outros, sofremos preconceito. A partir disso, elegemos os que consideramos diferentes simbolicamente, porém iguais em direitos e posição social e aqueles que consideramos iguais simbolicamente, porém desiguais na posição que ocupam em relação à nossa. A manipulação não cessa aí. Identidade cultural não é um todo único e acabado que nos acompanha aonde quer que vamos: essa é uma conceituação própria do Iluminis- mo. Desde então, todas as mudanças sociais e intelec- tuais nos fizeram pensar e agir de forma completamente diferente em relação às identidades. Hoje preferimos pen- sar em processos de identificação: em cada contexto so- cial enfrentado, recombinamos os elementos de nossa iden- tidade, ressaltando alguns ou ocultando outros. A identi- ficação é sempre referencial, relacional e combinada. As- sim, descarte-se a ideia do senso-comum de que, ao enfren- tar certas situações, algumas pessoas "perdem a identida- de". Sempre teremos alguma identidade sempre operante dentro de contextos sociais com os quais mantemos expec- tativas, aos quais pretendemos dar respostas. Identidade não vem pronta mas é fruto de uma construção contínua. Por isso não faz sentido dizer que se pode "perdê-la". Há interesses de legitimação do próprio grupo, ou interesses em retirar a legitimidade do outro. Pode ser conveniente agir como o brasileiro do "jeitinho" em certos momentos, ou então adotar uma atitude "globalizada", 84 Kênia Kemp "competente". Rocha lembra: "A expressão 'fulano é muito louco' pode ser elogiosa em certos casos e pejorativa em outros. Em alguns momentos da história o louco foi acorrentado e torturado, em outros, foi feito portador de uma palavra sagrada e respeitada"16. A manipulação de identidades esconde esse jogo de disputa de legitimidade e de posições sociais. Quando queremos nos apresentar a estrangeiros para nos valorizar, trazemos à tona traços da tradição e peculiaridades que nos identificam como brasileiros: a cordialidade, informalidade e alegria. Entretanto, entre nós são comuns expressões depreciativas: "Brasileiro é preguiçoso"; "a terra é boa, mas tem um povinho...". Enfim, qualquer grupo de alguma fornia coloca em questão a legitimidade dos traços de sua identidade, que inclusive podem ser modificados, ampliados ou reprimidos. En- quanto forem legitimados, permanecerão. "Direito à diferença" é uma expressão resultante de intensa prática política de minorias sociais a partir da década de 60. Relembrando, negros, homossexuais, prostitutas, minorias étnicas, grupos religiosos, feministas e estudantes vieram a público denunciar questões importantes relacionadas a direitos de igualdade e cidadania. Nesses casos, trata-se de denunciar o tra- tamento inferiorizante, os lugares subalternos a que são confinados. Faz parte do jogo da "política das identidades". Hall refere-se às identidades pós-modernas como "abertas, contraditórias, inacabadas, fragmentadas"17. Não que se- jamos esquizofrênicos ou incapazes de escolher e sim porque finalmente podemos expressar as contradições e escolher sem ter de abandonar as outras opções. Então, viva a diferença! 16. ROCHA, E. Op. cit. 17. HALL, S. Op. cit. Identidade cultural 85 Referências bibliográficas ALVES, Rubem. "O exílio do sagrado". In: O que é religião. São Paulo: Brasiliense, 1981. ABRAMO, Helena W. Cenas Juvenis - punks e darks no espetáculo urbano, São Paulo: Scritta, 1994. CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. Antropologia do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1987. LÉVI-STRAUSS, Claude. "Raça e história". In: Antropologia estrutural II. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1976. GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991. GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1975. HALL, Stuart. 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