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O objetiVO deste livro é introduzir o
le1tor ao conhecimento do Brasil - sua
formação histórica, seu povo, sua socie-
dade, sua cultura, sua economia. suas
instituições. O caminho escolhido para
isso foi apresentar. na forma de exten·
sas resenhas, feitas por renomados es·
pecialistas, um conjunto de dezenove
obras dássicas - desde os fermões, do
padre Vieira, até A rerolufio burguesa
M lrlsil, de Florestan Fernandes. pas-
sando, entre outras, por Os sertões. de
Eudid da Cunha. úsa-jrande I sen-
- de GHb rto Freire, Raízes do 8ras1~
· luarque de Htlanda. forma-
~ deCaio
,., «<nlmia do
Introdução ao BraJi!
UM B.\ 'QUE.TJ~ o TRÓPICO
II !H(III) lld '>111.11
n I 111
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O objetiVO deste livro é introduzir o
le1tor ao conhecimento do Brasil - sua
formação histórica, seu povo, sua socie-
dade, sua cultura, sua economia. suas
instituições. O caminho escolhido para
isso foi apresentar. na forma de exten·
sas resenhas, feitas por renomados es·
pecialistas, um conjunto de dezenove
obras dássicas - desde os fermões, do
padre Vieira, até A rerolufio burguesa
M lrlsil, de Florestan Fernandes. pas-
sando, entre outras, por Os sertões. de
Eudid da Cunha. úsa-jrande I sen-
- de GHb rto Freire, Raízes do 8ras1~
· luarque de Htlanda. forma-
~ deCaio
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Introdução ao BraJi!
UM B.\ 'QUE.TJ~ o TRÓPICO
II !H(III) lld '>111.11
n I 111
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2 15
(,JL l'J I I IRE
r.a " J:rande & Jtllwla
LlldeRu .Jl Ba t•J
235
257
(. I' A(J(J) (JP.
F01711ajáo dr; Bra ;/ (rm!m.J,r;rtÍT/tfJ
273
c
2~3
315
Cf·l.'i<J fURTAIXJ
Frmna(ãr; e{f)1rfmtica do Brasil
hanci~co de Oliveira
335
RAYMUNOO fAORO
Os d()llOS de poder
Laura de Mello c Souza
357
A TO 10 CA :DIDO
Formação da llltratura brasileira
BenjaJnJn Abdala Junior
381
jost HoN6~ RODRIGUES
C()nállafáD e ref()l'7fl(J no Brasil
Alberto da ÜKta e Sdva
393
Fwn.HA fLa A oes
A rewluçiio burgutJa no Brasrl
GabneiCohn
413
Sobre os autores
Nota do Editor
O Brasil- instituições, economia, cultura, história -é o tema que reúne
dezenove estudiosos para apresentar o trabalho de meaba que, ao pen r a
nacionalidade, foram decisivos para compreen~-la. de seus primórd alé
hoje.
Com rimas, coincidências e discordâncias, as obras h'atadaJ que dos
Sennões aos Sertõe1, de ClUa-gronde & seltZJlÚl a Formaçílo econômi
do Bra.sí/, aqui se visitam, referem-se uma à outra, nsalimenram-se criand
elos que iluminam DOIIOS SOO Ala. U-las é um modo de partJc.ípar da
discus ão .oote esse país meatiço localizado no trópioo
Sem colocar ponto final no aMUDID, pois se trata de uma · mrod
este livro pretende estimular o contato direto com texU»
cançado e se objetivo, a Editora Seoac Sio Paulo já eed euniiJI'Íiio
papel, dilatando os horizontes de conhecimenco da DOMa real
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(,JL l'J I I IRE
r.a " J:rande & Jtllwla
LlldeRu .Jl Ba t•J
235
257
(. I' A(J(J) (JP.
F01711ajáo dr; Bra ;/ (rm!m.J,r;rtÍT/tfJ
273
c
2~3
315
Cf·l.'i<J fURTAIXJ
Frmna(ãr; e{f)1rfmtica do Brasil
hanci~co de Oliveira
335
RAYMUNOO fAORO
Os d()llOS de poder
Laura de Mello c Souza
357
A TO 10 CA :DIDO
Formação da llltratura brasileira
BenjaJnJn Abdala Junior
381
jost HoN6~ RODRIGUES
C()nállafáD e ref()l'7fl(J no Brasil
Alberto da ÜKta e Sdva
393
Fwn.HA fLa A oes
A rewluçiio burgutJa no Brasrl
GabneiCohn
413
Sobre os autores
Nota do Editor
O Brasil- instituições, economia, cultura, história -é o tema que reúne
dezenove estudiosos para apresentar o trabalho de meaba que, ao pen r a
nacionalidade, foram decisivos para compreen~-la. de seus primórd alé
hoje.
Com rimas, coincidências e discordâncias, as obras h'atadaJ que dos
Sennões aos Sertõe1, de ClUa-gronde & seltZJlÚl a Formaçílo econômi
do Bra.sí/, aqui se visitam, referem-se uma à outra, nsalimenram-se criand
elos que iluminam DOIIOS SOO Ala. U-las é um modo de partJc.ípar da
discus ão .oote esse país meatiço localizado no trópioo
Sem colocar ponto final no aMUDID, pois se trata de uma · mrod
este livro pretende estimular o contato direto com texU»
cançado e se objetivo, a Editora Seoac Sio Paulo já eed euniiJI'Íiio
papel, dilatando os horizontes de conhecimenco da DOMa real
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I!
e E e os que teram
ua formação da laera·
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I!
e E e os que teram
ua formação da laera·
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l"'liWIJlt,', ll
l~r 11 1 llt"r.tlur .t, ,utt:s, polttic,t. estudos sobre nossa lormaçao - tudo pa sa
p•u 111ntnt n •ttr.tlulho Jc rdlcxiio, contestaçao c revisão. Retrato do /Jra-
il d
1
l';mlo Pr.tdtl, que partictpar.t ativamente da Semana, é parte desse
lotoyíl M.1 o pc sinusmn desse livro, ressaltado desde o início pelos críti-
co., prim:lp.ilrucnll: por ~uJ insist~ncia na tese da tristeza brasileira c na
lllt cn~ttl.ldc c n.r fm ma com que a luxúria c a cobiça teriam marcado nossa
1 nnaç.1o no pcrítJdo coloni.d. faz com que ele ainda permaneça em boa
111 dida t11bnt.u1o do pas~aJo. Mesmo que Paulo Prado não tenha atribuído
\JIIll ncg.1t1\0 .r mi cigcnação, como era comum nos estudiosos que o ante-
~:cdcra!ll. I· mt· mo que stw dura crítica às nossas elites, no "Post scriptum",
,timl.t m mt nhot w1 várias passagens perturbadora atualidade. Marco Auré-
lto Nogucii.J com.h11 em sua resenha:
MJt~ qu~ um tlt.tgnó\ttCn, tr~t~va- ~de um veredito pesado, amargo, categórico, que
tolhtJ ao c~mlnr qualquer chance de c r llcxf\CI, de. c perguntar. por exemplo, se essa
" trnn r rJ e pcctal" nao: n.t c alr tJÚo mJt~ i arde, adqumdooutros traços. atenua-
do ua' uulêncl.t
publ!caçao dl! (aw-grmule & ~cn::ala, em 1933, põe abaixo dois
mtto teimosos - o., ddcrminisrnos geográfico e racial, segundo os quais,
unphflcat.lann:ntc. a maim ia dl: nossos males tinha suas raízes no fato de
s •nno um p.tís tropical c rm:~ttço. No caso da geografia, uma condenação
in.lp~la~cl. Da nu tura de raças, isto é, da innuência "negativa" principal-
mente d,t população Jtcgra, ó o ''branqueamento" poderia, quem sabe, a
longuís~imo pnuo, quando se completasse, redimir o Brasil. Gilberto Freire
m~1stra cntao "~·r .wtktcntífica "afirmação da superioridade ou da inferiori-
dade de uma raça ob1c a outra. construindo sua reflexão sobre a anteriori-
daJe c plicati\'a d.t cu ltura. Afirma que a formação social brasileira se deve
,10 africano c que tndo brasileiro é racial ou culturalmente negro", diz Elide
Ru •,u B.tstos E m.11,. Freire "atribui uma função social diferente da conven-
wnalm~nll' .rtrihuída ao negro na formação brasileira, a partir da qualifica-
Ç.tt t.lck conw coluni;:ador. isto é, dando ênfase ao papel civilizador por ele
' l' ·nta il1". Ou seja, não apenas somos racial ou culturalmente negros
t:omo es ·,1 lont.liçüo nada tem de inferior. Casa-grande representa "uma
\' rdadcii .1 revolução nos estudos sociais no país" não só por isso como pelo
' lutk> que faz da influência da família patriarcal na formação brasileira e
pür .\;i rio nutro aspectos apontados por E lide Rugai Bastos. Nem os que
lç.J ltam I ,HJtrov rtiJa tese da democracia racial, deduzida dessa e de ou-
tr" obra 'l .tutor, negam o caráter revolucionário de Casa-grQI'Ide. Gil·
16
1-(liJRENÇO OI\ TI\S MOTA
bcrto Freire supera as contorções e vacilações de Euclides da Cunhae po -
sibilita ao bra~1h!1ro d i. ar de se lamentar por ser como é e reconcth r-se
consigo mesmo. Com seu livro, o Brasil se liberta da pesada herança a que
se refere Walnice Nogueira Galvão, a do "racismo aceito e aprovado pr ci-
samcnte por aqueles que ele discrimina".
Brasílio Sal! um Jr., logo no início de sua resenha de Raizes do Brasrl, d
Sérgio Buarque de Holanda- o segundo livro da trilogia lembrada por Francts-
co de Oliveira-, adverte que esse não é um livro de história, mas que "u a a
matéria legada pela história para identificar as amarras que bloqueiam no pre-
sente o nascimento de um futuro melhor". E tratando de um dos capítulos mais
famosos e discutidos de Rafzes, o do "homem cordial", mostra que para Sérgio
Buarque o indivíduo formado em um ambiente dominado pelo patriarcali mo,
como é o caso do brasileiro, "dificilmente conseguirá distinguir entre o domínio
privado e o domínio público". Para ele, diz Sal! um,
aqui quase sempre predominou, tanto na admimstraçlo pdbhca como em outras
áreas, o modelo de relações gerado na vida domésuca- a esfera dos laço a~ uvos e de
parentesco. Vale sublinhar que essa concepção de patrimonialismo dtz respctto a uma
forma de domlnio polftico em que agrupamentos enra1zado em grupos panrculan~tas
da sociedade- a famnia e seus desdobramentos- produzem um viés na esfera púhlt
ca. submelem o Estado. e o interesse geral, ao seu parllculansmo.
Esse é apenas um exemplo de amarra que dificulta a transformação da
sociedade. Quanto à cordialidade do brasileiro, que ainda se presta a muitas
interpretações apressadas, ela é, lembra Sallum,
tentattva de recon truçlo fora do ambiente famrliar, no plano societário, do mesmo
Upo de sociabtlidadc da famflta patrian:al, de um Upo de soctabllidldc dependente de
laços comumtários. Seriam exemplos disso algumas formas de IIDJuaacm. de xpre -
slo religiosa, c: até o horror às hierarquias e a busca de inumldldc no tratamento
di pcn ado à autoridade.
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~:cdcra!ll. I· mt· mo que stw dura crítica às nossas elites, no "Post scriptum",
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MJt~ qu~ um tlt.tgnó\ttCn, tr~t~va- ~de um veredito pesado, amargo, categórico, que
tolhtJ ao c~mlnr qualquer chance de c r llcxf\CI, de. c perguntar. por exemplo, se essa
" trnn r rJ e pcctal" nao: n.t c alr tJÚo mJt~ i arde, adqumdooutros traços. atenua-
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publ!caçao dl! (aw-grmule & ~cn::ala, em 1933, põe abaixo dois
mtto teimosos - o., ddcrminisrnos geográfico e racial, segundo os quais,
unphflcat.lann:ntc. a maim ia dl: nossos males tinha suas raízes no fato de
s •nno um p.tís tropical c rm:~ttço. No caso da geografia, uma condenação
in.lp~la~cl. Da nu tura de raças, isto é, da innuência "negativa" principal-
mente d,t população Jtcgra, ó o ''branqueamento" poderia, quem sabe, a
longuís~imo pnuo, quando se completasse, redimir o Brasil. Gilberto Freire
m~1stra cntao "~·r .wtktcntífica "afirmação da superioridade ou da inferiori-
dade de uma raça ob1c a outra. construindo sua reflexão sobre a anteriori-
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,10 africano c que tndo brasileiro é racial ou culturalmente negro", diz Elide
Ru •,u B.tstos E m.11,. Freire "atribui uma função social diferente da conven-
wnalm~nll' .rtrihuída ao negro na formação brasileira, a partir da qualifica-
Ç.tt t.lck conw coluni;:ador. isto é, dando ênfase ao papel civilizador por ele
' l' ·nta il1". Ou seja, não apenas somos racial ou culturalmente negros
t:omo es ·,1 lont.liçüo nada tem de inferior. Casa-grande representa "uma
\' rdadcii .1 revolução nos estudos sociais no país" não só por isso como pelo
' lutk> que faz da influência da família patriarcal na formação brasileira e
pür .\;i rio nutro aspectos apontados por E lide Rugai Bastos. Nem os que
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se refere Walnice Nogueira Galvão, a do "racismo aceito e aprovado pr ci-
samcnte por aqueles que ele discrimina".
Brasílio Sal! um Jr., logo no início de sua resenha de Raizes do Brasrl, d
Sérgio Buarque de Holanda- o segundo livro da trilogia lembrada por Francts-
co de Oliveira-, adverte que esse não é um livro de história, mas que "u a a
matéria legada pela história para identificar as amarras que bloqueiam no pre-
sente o nascimento de um futuro melhor". E tratando de um dos capítulos mais
famosos e discutidos de Rafzes, o do "homem cordial", mostra que para Sérgio
Buarque o indivíduo formado em um ambiente dominado pelo patriarcali mo,
como é o caso do brasileiro, "dificilmente conseguirá distinguir entre o domínio
privado e o domínio público". Para ele, diz Sal! um,
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áreas, o modelo de relações gerado na vida domésuca- a esfera dos laço a~ uvos e de
parentesco. Vale sublinhar que essa concepção de patrimonialismo dtz respctto a uma
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ca. submelem o Estado. e o interesse geral, ao seu parllculansmo.
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sociedade. Quanto à cordialidade do brasileiro, que ainda se presta a muitas
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r
L TRODl (AO
, 01101 wnam 1110 4u,·, nmfcrc wltHliJ, de cumpm o papel de ~1mples f orne-
' dor.l de rnodulll' 1 rop 1 1 ~ 1' para o mcrc .ulos europeus, va1 a seu \er tran~cender a
In t~nlla pohuc.l do 1 ~!ad• • , h'nlullsla português para idenllflcar-sc com a própna
11J, da ,1 •nl.ldc wlom.d c l'lllulnlinUidaJc da soucdade nac•onal, o que exphcana a
'"' ,1 d 110 11, 1 m nw d poiS de promu' 1Ja a independência em 1822, permane-
c 11011 1 \llllll IJillhl tO!nmal, que nm lllil'fl!lllla c nos Wll\lrange nas lentaliVas de
rompm1 nlu 11ua ·<tU f.ll.llm lll' lblinada~ ao fra.:asso pela própna Óliea que o
)u.mto 1 oc1 d.tdc org.mizad.t, diz Amaral Lapa, "o autor privilegia o
r.llld.: Jnnmuo, on !c'.: c ·ntr.to ela d.t família patriarcal. Esse tipo de família.
, 0111 o · 1 ah1 111 ntc pt,dcr,..: m.tis a Igreja em patamar menos proeminente,
pot · t.1 puJc . UJe ttJr·\e .tqu~ l.t, constituem as duas vigasem que se funda-
m nt.t ,, 1 1 d.tth.:.
I m C< lllll< liww, , n\1/c/a ,. l 'oto, ao estudar um dos fenômenos mais
1111pnrt.1nt d.t pt,lill .llt .t iletr.t,Vítor Nunes Leal contraria a idéia então do-
flllll.IIH • (ltm d 1 d..:~. tLI.1 de -tO) d.: qu.: o coroneli mo decorreria da pujança
' , 1.tl d l.ttt fu mho, que e sohn:pona ao próprio poder político.
T!Pii\.u I .1mount.:r em ua resenha-.
I OURF. ÇO DANTAS MOT
0 drsafw ~ ntral c forma políll'a no Brasil é de enhar tn•lltu
capal c d n ulralttar, ou pelo mcno~ rcduztr por meto de um 1 l ma d
t·ontrape m. a mOuêncta adversa do e pínto de clã Cnar um amh te h. t1
poltuca pm all\ta. pcrsonall\la c patnmomallsta do clã é ondtç 1 pr
llbcrd Je, democracia c progresso Para ter ê:(I!O, a reforma polfuc • m
enfraquecer u complexo de clã. não pode '1olentar a cultura e num nto
mas a, raJão pela qual de\ c ser gradativa c moderada Não hâ de ~on 1 r
hhcral: preu~a recorrer a uma certa coação
Em 1958 c 1959 são publicados outros três livros que trazem no o
importantes elementos para a compreensão do Brasil. O primeiro, de 1958. é
Os donos do poder, no qual Raymundo Faoro aprofunda a análi e do
patrimoniahsmo português e brasileiro c inova com a aplicação a no a r 11-
dade htstôrica.: política do conceito de cstamento de Max Wcber. dtferente do
de class.: - "os estamentos governam, as classes negociam". E plica Laura
de Mello c Souza. expondo o pensamento do autor, que "o e lamento é uptco
das sociedades em que a economia não é totalmente dominada pelo merc do,
como a feudal e, no caso português, a patrimonial. Contudo. encontra- e t m-
bém, de forma residual, nas sociedades capitalistas. Representa um freio n-
servador, voltado para si mesmo e preocupado em assegurar a ba e do pod r"
Daí a conclusão:
De D Joll.o I a Getdho Vargas, numa &agem de sets cuJos uma e trutu
soc1al r ~1stm a todas as transfonnações fundamentais aos des.:lio ma1 pr
travcs"a do oceano largo Durante todo esse tempo, o patnmon ah mo
mdllle\ . os olhos voltados para a especulaçilo, o lucro, a a entura pnnc p
t rí ltca do Estado patnmomal fot a predonunlncia do quadro adnum t 1
loco upcnor d pod r: o estamento evolu1u de an toclitico para b
dando- !>C às mudanças sem alterar as estruturas. O patnmon1 1
pó!' sando de pe soai para e tatal, amoldando- u transformaç
mudanças sa compauhJluladc entre capital mo mode1110equadro trlll(liCIIOil:al c un•o~
das chaves para a compre nslo do fen&neno bislórico pcc r
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In t~nlla pohuc.l do 1 ~!ad• • , h'nlullsla português para idenllflcar-sc com a própna
11J, da ,1 •nl.ldc wlom.d c l'lllulnlinUidaJc da soucdade nac•onal, o que exphcana a
'"' ,1 d 110 11, 1 m nw d poiS de promu' 1Ja a independência em 1822, permane-
c 11011 1 \llllll IJillhl tO!nmal, que nm lllil'fl!lllla c nos Wll\lrange nas lentaliVas de
rompm1 nlu 11ua ·<tU f.ll.llm lll' lblinada~ ao fra.:asso pela própna Óliea que o
)u.mto 1 oc1 d.tdc org.mizad.t, diz Amaral Lapa, "o autor privilegia o
r.llld.: Jnnmuo, on !c'.: c ·ntr.to ela d.t família patriarcal. Esse tipo de família.
, 0111 o · 1 ah1 111 ntc pt,dcr,..: m.tis a Igreja em patamar menos proeminente,
pot · t.1 puJc . UJe ttJr·\e .tqu~ l.t, constituem as duas vigas em que se funda-
m nt.t ,, 1 1 d.tth.:.
I m C< lllll< liww, , n\1/c/a ,. l 'oto, ao estudar um dos fenômenos mais
1111pnrt.1nt d.t pt,lill .llt .t iletr.t,Vítor Nunes Leal contraria a idéia então do-
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' , 1.tl d l.ttt fu mho, que e sohn:pona ao próprio poder político.
T!Pii\.u I .1mount.:r em ua resenha-.
I OURF. ÇO DANTAS MOT
0 drsafw ~ ntral c forma políll'a no Brasil é de enhar tn•lltu
capal c d n ulralttar, ou pelo mcno~ rcduztr por meto de um 1 l ma d
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llbcrd Je, democracia c progresso Para ter ê:(I!O, a reforma polfuc • m
enfraquecer u complexo de clã. não pode '1olentar a cultura e num nto
mas a, raJão pela qual de\ c ser gradativa c moderada Não hâ de ~on 1 r
hhcral: preu~a recorrer a uma certa coação
Em 1958 c 1959 são publicados outros três livros que trazem no o
importantes elementos para a compreensão do Brasil. O primeiro, de 1958. é
Os donos do poder, no qual Raymundo Faoro aprofunda a análi e do
patrimoniahsmo português e brasileiro c inova com a aplicação a no a r 11-
dade htstôrica.: política do conceito de cstamento de Max Wcber. dtferente do
de class.: - "os estamentos governam, as classes negociam". E plica Laura
de Mello c Souza. expondo o pensamento do autor, que "o e lamento é uptco
das sociedades em que a economia não é totalmente dominada pelo merc do,
como a feudal e, no caso português, a patrimonial. Contudo. encontra- e t m-
bém, de forma residual, nas sociedades capitalistas. Representa um freio n-
servador, voltado para si mesmo e preocupado em assegurar a ba e do pod r"
Daí a conclusão:
De D Joll.o I a Getdho Vargas, numa &agem de sets cuJos uma e trutu
soc1al r ~1stm a todas as transfonnações fundamentais aos des.:lio ma1 pr
travcs"a do oceano largo Durante todo esse tempo, o patnmon ah mo
mdllle\ . os olhos voltados para a especulaçilo, o lucro, a a entura pnnc p
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'" t''• d,·, nl• nitll'.mdithl,ltllllou- c logo um clás ico. elemento indi pensável
.1 , t>lllpr,· n ;1•, 1lo k nonwno que ·studa. Ele "não con titui a pena um livro
,,hr ·o~ lll<ltm·ntn luntl.lmcnl .lisda f,mna ãode no a literatura, noarcadismo
·no m111.11111smo". \r.·gundo lk•njamin Abdala Junior. "É obretudo uma fixa-
~ml, ,111 •1\l\ d.1 li h.! I .ttura . do. tr.tço~ marcantes de como nos imaginávamos no
monwnl•, de no"·' Jfmnaçao como nação politicamente independente." A
inl\'11\·1" h1 .wtnr, ~~· ·undo de mesmo diz. é "c tudar a formação da literatura
bt.tsik 11.1 Ullllll sint '\c r.k l l' tHl ~ nc tas uni ver alistas c particularistas", procu-
t.mdotnnsll ,11 "o jn{!o de sas forç.1 .uni-.crsal c nacional, técnica e emocional,
JUl' ,1 pla ~m.u;~mcnmn p 'J mancntc mi stur.t d.1 tradição européia e das desco-
lx·n.t. d11 Br.tsll". E\plic.t Benjamin Abdala Junior que
J.lf·'·' ••mpt~•n ,\lHk sal<>ttnaç~o~nccc âno,!>Cgundooautor,dlstinguirmanifts-
r,,1 c' /ao ,,11 d•llfr'tntwtpr<•priJmcnlc dua I .. ) AntomoCandidonloconsidera
lan 111trr1. 111.1 mrtlll}t llriÇril'l lu, r.u w1, produ\Oes anteriore . Faltana a elas esse
l".\1 lrr 1 t•nmn tlllfrltt'l,l'.ll rl<'rllandoJC\tSI netadeumavidahtcliria;pdbl/cos,
p rmu1nlln u,, ,, .. ·la\ ao, c rrud,~,w. r 1t.1 dar lOnllnutdade ao repenóno litelirio.
,\ """"/1 ''''li'< 1 /Hrl<lll•l.l fl11oll<'ll1 us produçt c do século XVI at~ meados do
\ ' lll ~lu 'llllu.llH.t~ llt'll.t w cnnt1gura na sc:~unda metade do ~cuJo XVIII. ga·
IX , quando o ~islema se consolida. propictando
um t.lllltd.td • hl<'ra• 1.1 r,· •ul;u
Complct.un o quadro dois li\'ros- Conciliaçtio e refonna no Brasil, de
Jo ~ l hllll'tlll Rtldrigu~~. c A n• t·oluçcio burgtusa no Bra i/, de Florestan
r 111.111 l l 11) • U.l h:~.:nha. lbcrto da Costa c Silva observa:J ~ H nôno R•>Jnp1 ., rc unuu nos escnto que compõem Conc:lliaçcfo t rtforma
r /)ra' 't' qtk tT\lu:>.c dc ·ua~ c~a1ações no passado e procurou re elar-nos-edaf
n n"aJ ·,t l11ro -n~··gredod ·orno fi z mosccontinuamosafazcranossa
,h 1 c p.tr.to:nt ·nJ~r· no - screve ele -é ac:onclliaçio. Mas biconciliaçlo
20
I OI RE ÇO D NTAS MOTA
Papel d • i h o po itivo foi o das "m iori s qu
indtgcnas. o negro ali\o"o mesti osdetod as ores'.
ção efetuada no s iodo po o d vemos o ter o Brasil. d d do dei ado de
er 'uma caricatura de Portugal' no. trópico , e pos uir um sub trato novo".
Já no seio da elites
a concilinçlio mvcnlivn c fecunda cria rara em no a hi lóna.\. I A oonc•haçikl pela
mércia scmpr~ empumnt para o futuro o grandes prohlem nacional~ S o~ enfren
tamos. temerosos c prudenles. quando nllo hâ mais jCito de ev11 ·lo C001 llTande
atra~o. portanto, c. em geral, com soluções e remt!dto quej4perderam a lic ll8 o
se huscn a concórdia pelo rc peito à d1verstdnde das id~ias e pela a ellaç o de que
governe um partido e de que os outros del discordem. O que se procura é d1lutr ou,
se possfvcl, anular o disscnso.
Em A revolução burguesa 110 Brasil - livro comple o, mai que todos
os demais aqui apresentados, preso ao rigor da linguagem acadêmica , Flore tan
Fernandes sustenta, como explica Gabriel Cohn, que
numa sociedade capitalista dependente como a brasileira verifi n·se "uma forte
dissociação pmgmdlica entre desenvolvimento capitalista e democracia, ou uma forte
associação racional entre desenvolvimento cnpitali ta au1ocrac1a". Em uma. o
regime compalfvel com a natureza peculiar da revoluçllo burgue a no Bra 11 tru o
timbre de uma classe dommante que, nllo obstanl e tar in cnla hi toncamenle num
rroces o de transfonnaçllo da sociedade, não supona a polarizaçlo (e portanto tam
bém o conflito de classes) e, sob presslo, recua para a acomodaçlo econômica e stX.tal
e para o despotismo polftlco.
E conclui mais udiant Gabriel Cohn:
O que Florestan nos d1z é que, deixada a burauesla numa SOCiedade como a bm ·tletra
Mlha c à sua própria orte, ua revoluçlo, aquela que lava a confonnar a sociedade l'l
Ull Imagem e semelhança. nlo tem como ser de~ a mu sempre estarli sob o
encanto da oluçlio autocrática. Portanto, n1o revoluçlo bWJueaa e mu1to meno
revoluçlo democr4tux>-burguesa, mu revolu;lo lllltOCdlic:o-bw'&uesa. Enio avanço
autônomo e progressivo das clasaea btJrauaw.. mu ace1tt*Çio num a rçwto fechado.
qu.e ex1ge outras forças históricas para 10 lbJk,
Bste conjunto de obma mostra coartlltll vjiiMi·.e
história. Levanta as graadeapeqifli!• .f!- l• ·
que lhes demo& - SQl.a o.-;••-'~•l• ~killo
o& obstfoulos que ••ltt Qlll4\'j_.l,táj·~·-~
Scanned by CamScanner
. Vll como " conomia
11.1 h1ti1IUI,tl,• ·"
o tn cno h fll, fotiii<~Çcio ela lacratura brasilt'ira - Momelltos deci-
'" t''• d,·, nl• nitll'.mdithl,ltllllou- c logo um clás ico. elemento indi pensável
.1 , t>lllpr,· n ;1•, 1lo k nonwno que ·studa. Ele "não con titui a pena um livro
,,hr ·o~ lll<ltm·ntn luntl.lmcnl .lisda f,mna ãode no a literatura, noarcadismo
·no m111.11111smo". \r.·gundo lk•njamin Abdala Junior. "É obretudo uma fixa-
~ml, ,111 •1\l\ d.1 li h.! I .ttura . do. tr.tço~ marcantes de como nos imaginávamos no
monwnl•, de no"·' Jfmnaçao como nação politicamente independente." A
inl\'11\·1" h1 .wtnr, ~~· ·undo de mesmo diz. é "c tudar a formação da literatura
bt.tsik 11.1 Ullllll sint '\c r.k l l' tHl ~ nc tas uni ver alistas c particularistas", procu-
t.mdotnnsll ,11 "o jn{!o de sas forç.1 .uni-.crsal c nacional, técnica e emocional,
JUl' ,1 pla ~m.u;~mcnmn p 'J mancntc mi stur.t d.1 tradição européia e das desco-
lx·n.t. d11 Br.tsll". E\plic.t Benjamin Abdala Junior que
J.lf·'·' ••mpt~•n ,\lHk sal<>ttnaç~o~nccc âno,!>Cgundooautor,dlstinguirmanifts-
r,,1 c' /ao ,,11 d•llfr'tntwtpr<•priJmcnlc dua I .. ) AntomoCandidonloconsidera
lan 111trr1. 111.1 mrtlll}t llriÇril'l lu, r.u w1, produ\Oes anteriore . Faltana a elas esse
l".\1 lrr 1 t•nmn tlllfrltt'l,l'.ll rl<'rllandoJC\tSI netadeumavidahtcliria;pdbl/cos,
p rmu1nlln u,, ,, .. ·la\ ao, c rrud,~,w. r 1t.1 dar lOnllnutdade ao repenóno litelirio.
,\ """"/1 ''''li'< 1 /Hrl<lll•l.l fl11oll<'ll1 us produçt c do século XVI at~ meados do
\ ' lll ~lu 'llllu.llH.t~ llt'll.t w cnnt1gura na sc:~unda metade do ~cuJo XVIII. ga·
IX , quando o ~islema se consolida. propictando
um t.lllltd.td • hl<'ra• 1.1 r,· •ul;u
Complct.un o quadro dois li\'ros- Conciliaçtio e refonna no Brasil, de
Jo ~ l hllll'tlll Rtldrigu~~. c A n• t·oluçcio burgtusa no Bra i/, de Florestan
r 111.111 l l 11) • U.l h:~.:nha. lbcrto da Costa c Silva observa:
J ~ H nôno R•>Jnp1 ., rc unuu nos escnto que compõem Conc:lliaçcfo t rtforma
r /)ra' 't' qtk tT\lu:>.c dc ·ua~ c~a1ações no passado e procurou re elar-nos-edaf
n n"aJ ·,t l11ro -n~··gredod ·orno fi z mosccontinuamosafazcranossa
,h 1 c p.tr.to:nt ·nJ~r· no - screve ele -é ac:onclliaçio. Mas biconciliaçlo
20
I OI RE ÇO D NTAS MOTA
Papel d • i h o po itivo foi o das "m iori s qu
indtgcnas. o negro ali\o"o mesti osdetod as ores'.
ção efetuada no s iodo po o d vemos o ter o Brasil. d d do dei ado de
er 'uma caricatura de Portugal' no. trópico , e pos uir um sub trato novo".
Já no seio da elites
a concilinçlio mvcnlivn c fecunda cria rara em no a hi lóna.\. I A oonc•haçikl pela
mércia scmpr~ empumnt para o futuro o grandes prohlem nacional~ S o~ enfren
tamos. temerosos c prudenles. quando nllo hâ mais jCito de ev11 ·lo C001 llTande
atra~o. portanto, c. em geral, com soluções e remt!dto quej4perderam a lic ll8 o
se huscn a concórdia pelo rc peito à d1verstdnde das id~ias e pela a ellaç o de que
governe um partido e de que os outros del discordem. O que se procura é d1lutr ou,
se possfvcl, anular o disscnso.
Em A revolução burguesa 110 Brasil - livro comple o, mai que todos
os demais aqui apresentados, preso ao rigor da linguagem acadêmica , Flore tan
Fernandes sustenta, como explica Gabriel Cohn, que
numa sociedade capitalista dependente como a brasileira verifi n·se "uma forte
dissociação pmgmdlica entre desenvolvimento capitalista e democracia, ou uma forte
associação racional entre desenvolvimento cnpitali ta au1ocrac1a". Em uma. o
regime compalfvel com a natureza peculiar da revoluçllo burgue a no Bra 11 tru o
timbre de uma classe dommante que, nllo obstanl e tar in cnla hi toncamenle num
rroces o de transfonnaçllo da sociedade, não supona a polarizaçlo (e portanto tam
bém o conflito de classes) e, sob presslo, recua para a acomodaçlo econômica e stX.tal
e para o despotismo polftlco.
E conclui mais udiant Gabriel Cohn:
O que Florestan nos d1z é que, deixada a burauesla numa SOCiedade como a bm ·tletra
Mlha c à sua própria orte, ua revoluçlo, aquela que lava a confonnar a sociedade l'l
Ull Imagem e semelhança. nlo tem como ser de~ a mu sempre estarli sob o
encanto da oluçlio autocrática. Portanto, n1o revoluçlo bWJueaa e mu1to meno
revoluçlo democr4tux>-burguesa, mu revolu;lo lllltOCdlic:o-bw'&uesa. Enio avanço
autônomo e progressivo das clasaea btJrauaw.. mu ace1tt*Çio num a rçwto fechado.
qu.e ex1ge outras forças históricas para 10 lbJk,
Bste conjunto de obma mostra coartlltll vjiiMi·.e
história. Levanta as graadeapeqifli!• .f!- l• ·
que lhes demo& - SQl.a o.-;••-'~•l• ~killo
o& obstfoulos que ••ltt Qlll4\'j_.l,táj·~·-~
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l~TRODU~· \0
('onjunt(· que não se pretende completo. que tem, como foi dito acima, os
ddeitos inevitáveis de qualquer seleção. Insistir em evi tá-los só redundaria em
dcbatcs infind{ivl.!is 1.! tornaria inviável o projeto. A solução encontrada foi dei-
xar para um segundo volume o preenchimento das lacunas do primeiro. Nunca
é dt:rnai5 in ·istir que este livro é apenas aquilo que diz seu título- uma introdu-
ção. para ~rvir de estímulo ao contato com os textosoriginais. Ele não pode
t.:r c não tem nenhuma outra ambição além dessa. Leitores que porventura
p ·nsarcrn o contrário cometerão um grave erro. Nada pode substituir, para a
plena compr..:cnsão desses livros. o contato íntimo com o desenvolvimento e a
trama da Jrgumentação de seus autores, sua complexidade e riqueza de su-
gestão, que ~ão insuscetíveis de resumo. Isso é ainda mais verdadeiro no caso
de li\ 10~ como Serm6es, Casa-grande & senzala c Os sertões - para citar
apenas três e)(emplos -,que são obras-primas literárias. Atente-se para o que
dzl Amaral Lapa a certa altura de seu trabalho sobre Fomzação do Brasil
('(J/1/cmporfmt'o .. Sente-se aí o caráter seminal deste livro, cujas colocações
muitas vezes breves. ponteadas como resultado conclusivo, só possível depois
de longa pcsqui a e reflexão e de extraordinária capacidade de leitura, provo-
caram te es comprobatórias , extensas e intensas, de repercussão, cuja nas-
culle ját 11111/lll.\ re:::e1 um ou dois parágrafos redigidos por Caio Prado
Júnior"( grifo meu). Um ou dois parágrafos que não constam de resenhas e, se
constas em. perderiam seu poder de sugestão fora do contexto. Resenhas são
um onviLe e uma útil introdução à leitura, não são a leitura.
22
pADRE ANTóNIO VIEIRA
Sermões
João Adolfo Hansen
Scanned by CamScanner
l~TRODU~· \0
('onjunt(· que não se pretende completo. que tem, como foi dito acima, os
ddeitos inevitáveis de qualquer seleção. Insistir em evi tá-los só redundaria em
dcbatcs infind{ivl.!is 1.! tornaria inviável o projeto. A solução encontrada foi dei-
xar para um segundo volume o preenchimento das lacunas do primeiro. Nunca
é dt:rnai5 in ·istir que este livro é apenas aquilo que diz seu título- uma introdu-
ção. para ~rvir de estímulo ao contato com os textos originais. Ele não pode
t.:r c não tem nenhuma outra ambição além dessa. Leitores que porventura
p ·nsarcrn o contrário cometerão um grave erro. Nada pode substituir, para a
plena compr..:cnsão desses livros. o contato íntimo com o desenvolvimento e a
trama da Jrgumentação de seus autores, sua complexidade e riqueza de su-
gestão, que ~ão insuscetíveis de resumo. Isso é ainda mais verdadeiro no caso
de li\ 10~ como Serm6es, Casa-grande & senzala c Os sertões - para citar
apenas três e)(emplos -,que são obras-primas literárias. Atente-se para o que
dzl Amaral Lapa a certa altura de seu trabalho sobre Fomzação do Brasil
('(J/1/cmporfmt'o .. Sente-se aí o caráter seminal deste livro, cujas colocações
muitas vezes breves. ponteadas como resultado conclusivo, só possível depois
de longa pcsqui a e reflexão e de extraordinária capacidade de leitura, provo-
caram te es comprobatórias , extensas e intensas, de repercussão, cuja nas-
culle ját 11111/lll.\ re:::e1 um ou dois parágrafos redigidos por Caio Prado
Júnior"( grifo meu). Um ou dois parágrafos que não constam de resenhas e, se
constas em. perderiam seu poder de sugestão fora do contexto. Resenhas são
um onviLe e uma útil introdução à leitura, não são a leitura.
22
pADRE ANTóNIO VIEIRA
Sermões
João Adolfo Hansen
Scanned by CamScanner
Entre 1624, quando escreveu a Carta !mUil em que relata a im.aÇo
holandesa da Bahia. e 1697, quando morreu em Salvador. deixando i na h do
o manuscrito de um texto profético. Clavis prophetarum. o jesuíta Antômo
Vieira produziu a obra espantosa que faz dele um dos autores maiores do
século XVII. A finalidade de toda ela é promover a integração harmoniosa do
indivíduos. estamentos e ordens do império português, desde os prfncipe da
casa real e cortesãos aristocratas até os mais humildes escra\OS e índios bra-
vos do mato, visando a sua redenção coletiva como um "corpo místíco" unifi-
cado. Ao sacramentar Portugal como nação eleita para estabelecer o Império
de Deus na Terra, o retorno do Messias, Vieira sacraliza a dinastia dos
Bragança, estabelecendo ponderações agudas e misteriosas entre o ritual ca-
tólico e a monarquia absoluta definida como instrumento da divindade. Em seu
projeto salvífico, o papel do Novo Mundo é essencial.
Para tratar de representações dele em sua obra, primeiramente é preciso
lembrar que, em seu tempo, "Brasil" nomeava o Estado do Brasil, um terrítóno
correspondente à Bahia e às capitanias sob a jurisdição do governador-geral
sediado em Salvador. O Estado do Brasil formava então o domínio colonial
português na América, juntamente com o Estado do Maranhão e Grão-Pará.
Este último, criado por um decreto real em 13 de junho de 1621, correspondia
aproximadamente ao território dos atuais estados do Ceará, Piauí. Maranhão.
Pará e partes de Tocantins e Amazonas. Ambos os estados. Brasil e Maranhão
e Grão-Pará. transcendem os limites político-administrativos regionais e me-
tropolitanos, pois são regiões por assim dizer "espirituais", concebidas por Victra
como o espaço-tempo de uma práxis sociaP fundamentada na metafísica c ris·
Em segundo I ugar, como é necessário falar da sua biografia, pois a concep-
%iO jesuítica de ação não dissocia "vida" e "obra", é preciso dizer que, no
caso, o "eu" de Vieira não é uma categoria psk:ológica, ma uma posição
l:bit~rárqui,ca ("jesuíta", "chefe de missão", "réu da Inquisição", "diplomata",
~)llSielhc:iro do rei", "orador da Capela Real", etc.) preenchida por repre en-
que são partes do todo social objetivo. Por isso. em &ercciro lugar, é
especificar a natureza e J t\u1çio da a obra ap seu tempo. Ele
seus sermões do "cho~" wmparava aos "palácios"
Scanned by CamScanner
Entre 1624, quando escreveu a Carta !mUil em que relata a im.aÇo
holandesa da Bahia. e 1697, quando morreu em Salvador. deixando i na h do
o manuscrito de um texto profético. Clavis prophetarum. o jesuíta Antômo
Vieira produziu a obra espantosa que faz dele um dos autores maiores do
século XVII. A finalidade de toda ela é promover a integração harmoniosa do
indivíduos. estamentos e ordens do império português, desde os prfncipe da
casa real e cortesãos aristocratas até os mais humildes escra\OS e índios bra-
vos do mato, visando a sua redenção coletiva como um "corpo místíco" unifi-
cado. Ao sacramentar Portugal como nação eleita para estabelecer o Império
de Deus na Terra, o retorno do Messias, Vieira sacraliza a dinastia dos
Bragança, estabelecendo ponderações agudas e misteriosas entre o ritual ca-
tólico e a monarquia absoluta definida como instrumento da divindade. Em seu
projeto salvífico, o papel do Novo Mundo é essencial.
Para tratar de representações dele em sua obra, primeiramente é preciso
lembrar que, em seu tempo, "Brasil" nomeava o Estado do Brasil, um terrítóno
correspondente à Bahia e às capitanias sob a jurisdição do governador-geral
sediado em Salvador. O Estado do Brasil formava então o domínio colonial
português na América, juntamente com o Estado do Maranhão e Grão-Pará.
Este último, criado por um decreto real em 13 de junho de 1621, correspondia
aproximadamente ao território dos atuais estados do Ceará, Piauí. Maranhão.
Pará e partes de Tocantins e Amazonas. Ambos os estados. Brasil e Maranhão
e Grão-Pará. transcendem os limites político-administrativos regionais e me-
tropolitanos, pois são regiões por assim dizer "espirituais", concebidas por Victra
como o espaço-tempo de uma práxis sociaP fundamentada na metafísica c ris·
Em segundo I ugar, como é necessário falar da sua biografia, pois a concep-
%iO jesuítica de ação não dissocia "vida" e "obra", é preciso dizer que, no
caso, o "eu" de Vieira não é uma categoria psk:ológica, ma uma posição
l:bit~rárqui,ca ("jesuíta", "chefe de missão", "réu da Inquisição", "diplomata",
~)llSielhc:iro do rei", "orador da Capela Real", etc.) preenchida por repre en-
que são partes do todo social objetivo. Por isso. em &ercciro lugar, é
especificar a natureza e J t\u1çio da a obra ap seu tempo. Ele
seus sermões do "cho~" wmparava aos "palácios"Scanned by CamScanner
de suas obras proféticas. I Ioje. estas são praticamente ilegíveis e valorizamos
o~ sermões, ainda que por rnões quase sempre apenas estéticas, de modo
ba~tantc diverso do seu, po1s os entendia C>lmo instrumentos salvíficos imedia-
tamente praticos. No prólogo da edição dos Sermões. de 1677, escreveu que,
~em a voz que os tinha animado no púlpito, ainda ressuscitados eram cadáve-
res. IJoje, só os conhecemos "ressuscitados" como textos escritos. Na leitura,
não mais ex1stc a acuo ou a dramatização deles pela voz e pelo corpo do
padrc. Mas é essa primitiva natureza oral que especifica historicamente a prá-
tica de Vieira como "solução" católica para a questão do contato do fiel com
Deus
I m 1517. em uma das teses de Wittenbcrg, Martinho Lutero afirmou que
ba.~la ao fiel ter uma Bíblia c lê-la individualmente, em silêncio, para pôr-se em
contato com Deus. A tese lutcrana da sola scriprura, "apenas a Escritura",
pressupoc <l possl: da Ríhlirt e a alfabetização dos fiéis. Ela toma evidentemente
desm·cess.iria a mediação do clero c dos ritos visíveis da Igreja. Na sessão de 8
dt ahnf de I 5 J(, do ( "onc ílio de Trcnto. n:unido para combater a Reforma protes-
tante, teólogos Jesuítas c dominicanos declararam a tese da sola scriptura heré-
tica, ddin1ndo c delimitando a traditio, a ''tradição" (ritos, cerimônias, magistério,
nini\t(llo t' poverno) c o~ textos canúnicos da Igreja. Logo depois, em 17 de
r• nho, determinaram il ohri~ra toricdadc de pregar a verdade revelada a toda cria-
turt~, 'vi .mdo "tudo que é necessário para a salvação". Nos países católicos, a
p<K c pa1 tit•llar da !Jíhltr1 c a sua leitura individual foram proibidas. A Igreja
rcconfmnou a nt:cessidadc do~ ritos vbívcis c da cspctacularização dos sacra-
l!ltlllo . unpondo" audlç<m coletiva d:t pregação. Contra Lutero, o interior dos
tciiiJllm tornou •,c tllil c\pa~o tiL' luxo c pompa, envolvendo os sentidos dos fiéis
~.:om ,1 p10fus.m d~: 1111 ~t·ns, mthicas, perfumes, pregações. O púlpito passou
a ocupar urna po~içao elevada, significando a autoridade do pregador sobre a
audiéntla Rl.'novou ~c o calendário Jittí1gico c novas festa5 e novos santos pus-
aram a· er u~khradlls. J·m Portugal c no Brasil, a Companhia de Jesus, recém-
lundíllfa cn1 J 'i 10, le\IXlllsahi li;ou··Sc pelo l'nsino da cloqtlência sacra em seus
rolé)'ill~ adotando to mo d11u trina c exemplo as ohras retóricas de Aristóteles.
1 )ulnttli.lflo, < 'ícL 1 o, Sên<'La e mais autmes latinos c medievais. Na dcwJtio mo-
d, 111o c,u • dt·\oç.to n1~)duna" da Companhia, a pregação foi definida como
llll r\ 11~.1<, t fct1va na vida pdtica dos ti~is.
Como o termo latino \t'llllfl indica, o sem1ãoé uma fala; noca o jesuítico,
um.~ t.d.t lh.tm.lll;ad.t pdo p1"l'gador para a audição e a visão de um público
qu do v~ ~l·r per .uadido da v ·rdadc c v;~Jidadc universal da doutrina
I> modo .ti, o ~~.:1m~o . acro jc!>uítico tem &eis part s -exórdio,
J0..\0 ADOLFO HANSE."i
ção, divisiio. confinnaçüo, peroração c epflogo - cuja teoria não é po. sí-
vel fazer aqui. Os de Vieira repartem-se pelos três grandes gêneros omtórios
da retórica aristotélica: deliberativos, propõem a decisão sobre algo futuro;
judiciais, julgam personagens ou eventos passados; epidítiws. celebram (ou
atacam) personagens e ações no presente. Em todos os gêneros. Vil:ira sem-
pre transmite um conteúdo doutrinário dogmático, letrado, culto c erudito, para
ouvintes muitas vezes iletrados e incultos, como colonos, índios, negros.
mamelucos e mulatos do Brasil e do Maranhão c Grão-Pará. Ele torna o con-
teúdo dogmático não só compreensível, adaptando-o ao auditório, mas princi-
palmente eficaz, traduzindo os dogmas em uma argumentação capaz de ensinar.
agradar e comover os ouvintes. Seu sermão é simultaneamente didático. teoló-
gico c político. Segue a lição de Marciano Capela, estabelecendo relações
entre o tema, o assunto dogmático ou canônico interno ao discurso. e o consilium.
a intenção exterior dele. Como lembrou Margarida Vieira Mendes, na oratória
sagrada do século X VIl o tema era totalmente imposto pelo calendário litúrgico
e pela obrigação de tratar textos bíblicos prévios, com conteúdos religiosos
específicos.2 Quase invariavelmente, Vieira conduz os temas para as questões
políticas e econômicas que mais lhe interessam, conforme o ccmsiliwn. Evi-
dentemente, tem de tratar dos assuntos circunstanciais subordinando-o~ aos
discursos dogmáticos impostos como tema. O que faz por meio de conceitos
predicáveis e concordâncias.
O conceito predicável é um texto- palavra ou sentença -extraído do
Velho ou do Novo testamemo comentado pelo orador. No século XVH, era
costume usar caderninhos para colecionar conceitos predicáveis específicos
das várias datas litúrgicas e adaptá-los com sentido profético às circuu tância~
da pregação. A adaptação, chamada de concordância, consistia em dcmons
trar semelhanças proféticas entre o sentido da vida de homens c acontccnneu-
tos da Bfblia c o sentido da vida de homens e eventos do presente. A semelhança
era interpretada como presença providencial de Deu orientando uns e outros
no passado e no presente. Por exemplo, no "Sermão pelo hc m . uc~ ~o da
armas de Portugal contra as de Holanda", pregado em maio ou junho d l 640,
~ f)tlacrva-:se a semelhança entre Moiaés. guiando os hebreus em fuga do Egrto.
próprio Vieira, pregando aos católicos da Bahia. Ou entr Vieira pedmdo a
que auxilie os portugu~ o o Jti O.v.i. nnplorando a Jeová que •enha
$OCorro dos hebreus. A 6 .saH!ocida por uma proporção
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de suas obras proféticas. I Ioje. estas são praticamente ilegíveis e valorizamos
o~ sermões, ainda que por rnões quase sempre apenas estéticas, de modo
ba~tantc diverso do seu, po1s os entendia C>lmo instrumentos salvíficos imedia-
tamente praticos. No prólogo da edição dos Sermões. de 1677, escreveu que,
~em a voz que os tinha animado no púlpito, ainda ressuscitados eram cadáve-
res. IJoje, só os conhecemos "ressuscitados" como textos escritos. Na leitura,
não mais ex1stc a acuo ou a dramatização deles pela voz e pelo corpo do
padrc. Mas é essa primitiva natureza oral que especifica historicamente a prá-
tica de Vieira como "solução" católica para a questão do contato do fiel com
Deus
I m 1517. em uma das teses de Wittenbcrg, Martinho Lutero afirmou que
ba.~la ao fiel ter uma Bíblia c lê-la individualmente, em silêncio, para pôr-se em
contato com Deus. A tese lutcrana da sola scriprura, "apenas a Escritura",
pressupoc <l possl: da Ríhlirt e a alfabetização dos fiéis. Ela toma evidentemente
desm·cess.iria a mediação do clero c dos ritos visíveis da Igreja. Na sessão de 8
dt ahnf de I 5 J(, do ( "onc ílio de Trcnto. n:unido para combater a Reforma protes-
tante, teólogos Jesuítas c dominicanos declararam a tese da sola scriptura heré-
tica, ddin1ndo c delimitando a traditio, a ''tradição" (ritos, cerimônias, magistério,
nini\t(llo t' poverno) c o~ textos canúnicos da Igreja. Logo depois, em 17 de
r• nho, determinaram il ohri~ra toricdadc de pregar a verdade revelada a toda cria-
turt~, 'vi .mdo "tudo que é necessário para a salvação". Nos países católicos, a
p<K c pa1 tit•llar da !Jíhltr1 c a sua leitura individual foram proibidas. A Igreja
rcconfmnou a nt:cessidadc do~ ritos vbívcis c da cspctacularização dos sacra-
l!ltlllo . unpondo" audlç<m coletiva d:t pregação. Contra Lutero, o interior dos
tciiiJllm tornou •,c tllil c\pa~o tiL' luxo c pompa, envolvendo os sentidos dos fiéis
~.:om ,1 p10fus.m d~: 1111 ~t·ns, mthicas, perfumes, pregações. O púlpito passou
a ocupar urna po~içao elevada, significando a autoridade do pregador sobre a
audiéntla Rl.'novou ~c o calendário Jittí1gico c novas festa5 e novos santos pus-
aram a· er u~khradlls. J·m Portugal c no Brasil, a Companhia de Jesus, recém-
lundíllfa cn1 J 'i 10, le\IXlllsahi li;ou··Sc pelol'nsino da cloqtlência sacra em seus
rolé)'ill~ adotando to mo d11u trina c exemplo as ohras retóricas de Aristóteles.
1 )ulnttli.lflo, < 'ícL 1 o, Sên<'La e mais autmes latinos c medievais. Na dcwJtio mo-
d, 111o c,u • dt·\oç.to n1~)duna" da Companhia, a pregação foi definida como
llll r\ 11~.1<, t fct1va na vida pdtica dos ti~is.
Como o termo latino \t'llllfl indica, o sem1ãoé uma fala; noca o jesuítico,
um.~ t.d.t lh.tm.lll;ad.t pdo p1"l'gador para a audição e a visão de um público
qu do v~ ~l·r per .uadido da v ·rdadc c v;~Jidadc universal da doutrina
I> modo .ti, o ~~.:1m~o . acro jc!>uítico tem &eis part s -exórdio,
J0..\0 ADOLFO HANSE."i
ção, divisiio. confinnaçüo, peroração c epflogo - cuja teoria não é po. sí-
vel fazer aqui. Os de Vieira repartem-se pelos três grandes gêneros omtórios
da retórica aristotélica: deliberativos, propõem a decisão sobre algo futuro;
judiciais, julgam personagens ou eventos passados; epidítiws. celebram (ou
atacam) personagens e ações no presente. Em todos os gêneros. Vil:ira sem-
pre transmite um conteúdo doutrinário dogmático, letrado, culto c erudito, para
ouvintes muitas vezes iletrados e incultos, como colonos, índios, negros.
mamelucos e mulatos do Brasil e do Maranhão c Grão-Pará. Ele torna o con-
teúdo dogmático não só compreensível, adaptando-o ao auditório, mas princi-
palmente eficaz, traduzindo os dogmas em uma argumentação capaz de ensinar.
agradar e comover os ouvintes. Seu sermão é simultaneamente didático. teoló-
gico c político. Segue a lição de Marciano Capela, estabelecendo relações
entre o tema, o assunto dogmático ou canônico interno ao discurso. e o consilium.
a intenção exterior dele. Como lembrou Margarida Vieira Mendes, na oratória
sagrada do século X VIl o tema era totalmente imposto pelo calendário litúrgico
e pela obrigação de tratar textos bíblicos prévios, com conteúdos religiosos
específicos.2 Quase invariavelmente, Vieira conduz os temas para as questões
políticas e econômicas que mais lhe interessam, conforme o ccmsiliwn. Evi-
dentemente, tem de tratar dos assuntos circunstanciais subordinando-o~ aos
discursos dogmáticos impostos como tema. O que faz por meio de conceitos
predicáveis e concordâncias.
O conceito predicável é um texto- palavra ou sentença -extraído do
Velho ou do Novo testamemo comentado pelo orador. No século XVH, era
costume usar caderninhos para colecionar conceitos predicáveis específicos
das várias datas litúrgicas e adaptá-los com sentido profético às circuu tância~
da pregação. A adaptação, chamada de concordância, consistia em dcmons
trar semelhanças proféticas entre o sentido da vida de homens c acontccnneu-
tos da Bfblia c o sentido da vida de homens e eventos do presente. A semelhança
era interpretada como presença providencial de Deu orientando uns e outros
no passado e no presente. Por exemplo, no "Sermão pelo hc m . uc~ ~o da
armas de Portugal contra as de Holanda", pregado em maio ou junho d l 640,
~ f)tlacrva-:se a semelhança entre Moiaés. guiando os hebreus em fuga do Egrto.
próprio Vieira, pregando aos católicos da Bahia. Ou entr Vieira pedmdo a
que auxilie os portugu~ o o Jti O.v.i. nnplorando a Jeová que •enha
$OCorro dos hebreus. A 6 .saH!ocida por uma proporção
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po 111 \ a lo1s \ CD.tviJ. Vieira:· hcbreus: portugueses. Ou negativa-Fa6
((inlia ). ;-.J .t ,au :egípciOs (ti listcus): holandeses. No "Senn!o pelo bomsu-
cc u. ", ú•ngindo c a lku~ com muita veemência, ooradorexigequeaiJXille.
0 t.H<'•Iico contra os calvinistas. Com palavras de Davi, interpela Deus
" !·1utt•c <JIIIIIt' ubdormi.\, Domine?"l ("Acorda, por qu donncs, Senhor?''),
dnmando que, se não awrdar a tempo de int rvir em favor dos católicos,
11 •ara ,, prcípt ia Pro\ idência, que rege a história, e o mundo dirá "Deus está
hollllult;\·• ou \eja. "Deus está calvini ta". A interpelação~ certam nte &U•
d ll iO'J , ma\ també m ortodoxa. O próprio Vieira adverte que seu modelo é o
• Salmo ~r. úc Davi.
O tc rn.t d,, pregação sacra empre "Pele a Palavra de Deus
no h:xto L.UIÚnJco~; por isso, o sermão aparece para o pregador
puhl11.:o W lllll Ulll ÚÍ\Uif O csscncJaJ. 0 jeSUÍtaS dO século XVH de:finlhUill
~~ ~m. to cmnn tlll'alnm• 1acrum, ''teatro sacro", concebendoaparen6tióa.
ri pr • •Jr, como úr.un.ltitaçuo das verdade sagradas. Aqui, o eadlode
cnconlt .t ~ ua ra7ao d~.: c r: hnjc ele é conhectdo como .. conceptlsta ..
c " mas, em ~cu tempo, quando ainda não havia sido inventad&O COlllCedfO:I
' h.mow", era um c til o a •udo, engenhoso, florido. esqui ito, CCJIIlC~It'ti~'O~
.1 ,,111 o Apro xun.t wrll:t:Ho~ distantes e os funde em image011 lplll'êilfem&!IUI
1.mt.1 tic.1 e inrongtuenh.: • mas sempre fundamentadasnamaisod04i;Jlt~IIJ
lo •t.t 11.1 rn.t is strll.t ltígll.t. O poder espiritual e o poder temporal
flat,1dr n~k <.:orno um<tllllldade de teologia e de polftica tecn'bcada}IICW"iilidl
bn Ul111 c,lft.J de 1(, 1J para n re i D. Afonso VI, afirma que: "[,-J·.Qilpr!~DI
c m,uoiL'S in \ lrumcnto\ da con~crvação e aumento desta IDilmt~-rttlié'~
1111111\fl()•, d.i PIL'gaçao c rrnpagação da Fé, para que Deu a tn
tnu no mundo",
f 11.1 'D ·lesa do li\ro int itulado 'Quinto Impéno"',de l8D~UifCID,tJDI!
que n JMpa t' os pregadores evangé licm, "varões llpoltdtic••.alo-'lf~IJJUIISI
tn> tml'Jtato\" d.1 co111 crs.to do mundo, JUntamente COI!n1lltn'11•11111•t4JJBJ
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po 111 \ a lo1s \ CD.tviJ. Vieira:· hcbreus: portugueses. Ou negativa-Fa6
((inlia ). ;-.J .t ,au :egípciOs (ti listcus): holandeses. No "Senn!o pelo bomsu-
cc u. ", ú•ngindo c a lku~ com muita veemência, ooradorexigequeaiJXille.
0 t.H<'•Iico contra os calvinistas. Com palavras de Davi, interpela Deus
" !·1utt•c <JIIIIIt' ubdormi.\, Domine?"l ("Acorda, por qu donncs, Senhor?''),
dnmando que, se não awrdar a tempo de int rvir em favor dos católicos,
11 •ara ,, prcípt ia Pro\ idência, que rege a história, e o mundo dirá "Deus está
hollllult;\·• ou \eja. "Deus está calvini ta". A interpelação~ certam nte &U•
d ll iO'J , ma\ també m ortodoxa. O próprio Vieira adverte que seu modelo é o
• Salmo ~r. úc Davi.
O tc rn.t d,, pregação sacra empre "Pele a Palavra de Deus
no h:xto L.UIÚnJco~; por isso, o sermão aparece para o pregador
puhl11.:o W lllll Ulll ÚÍ\Uif O csscncJaJ. 0 jeSUÍtaS dO século XVH de:finlhUill
~~ ~m. to cmnn tlll'alnm• 1acrum, ''teatro sacro", concebendoaparen6tióa.
ri pr • •Jr, como úr.un.ltitaçuo das verdade sagradas. Aqui, o eadlode
cnconlt .t ~ ua ra7ao d~.: c r: hnjc ele é conhectdo como .. conceptlsta ..
c " mas, em ~cu tempo, quando ainda não havia sido inventad&O COlllCedfO:I
' h.mow", era um c til o a •udo, engenhoso, florido. esqui ito, CCJIIlC~It'ti~'O~
.1 ,,111 o Apro xun.t wrll:t:Ho~ distantes e os funde em image011 lplll'êilfem&!IUI
1.mt.1 tic.1 e inrongtuenh.: • mas sempre fundamentadasnamaisod04i;Jlt~IIJ
lo •t.t 11.1 rn.t is strll.t ltígll.t. O poder espiritual e o poder temporal
flat,1dr n~k <.:orno um<tllllldade de teologia e de polftica tecn'bcada}IICW"iilidl
bn Ul111 c,lft.J de 1(, 1J para n re i D. Afonso VI, afirma que: "[,-J·.Qilpr!~DI
c m,uoiL'S in \ lrumcnto\ da con~crvação e aumento desta IDilmt~-rttlié'~
1111111\fl()•, d.i PIL'gaçao c rrnpagação da Fé, para que Deu a tn
tnu no mundo",
f 11.1 'D ·lesa do li\ro int itulado 'Quinto Impéno"',de l8D~UifCID,tJDI!
que n JMpa t' os pregadores evangé licm, "varões llpoltdtic••.alo-'lf~IJJUIISI
tn> tml'Jtato\" d.1 co111 crs.to do mundo, JUntamente COI!n1lltn'11•11111•t4JJBJ
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p ·~ em_-; de dezembro de 1633
· e d s Homen Pretos de um engenho
!:Lu ·a de "liberdade''. É a mesma que
bre .:7ra' idão dos índios pregado em
e Lt' a entre 16"2 1662. É ana ronismo confundir essa
~ " r id 1 democrático. datado da segunda metade do século
fi: ''hberdd .. como autodeterminação fundada na igualdade
1 1reit humano . . ·o ca o. nenhum fundamento divino é necessá-
no p.1ro J de 1 raç:io dos direito democráticos que fazem todos os homens
ltHe • , ai . Bem di•ersa é a concepção de Vieira: para ele, desde que o
índt u o n~.:gro foram escravizados e receberam o batismo, entraram para o
m1o r.IJ hurrumtdade cristã. pas ando por isso mesmo a ter deveres para
com o EstJJo Alcir Pécora define a tuncepção neo-esco1ástica de "liberda-
d .. com e atidão: "( . . ) J liberdade cristã é [ ... ].acima de tudo, pelo conheci-
mento tio bem. impossibilidade de pecar: o pecado. e não o cativeiro temporal,
aractenza es enci .. tlrnente a escravidão".9
Como diz Vieira no "Sermão da Epifania", pregado em 1662 na Capela
Jktl de L1 boa. não é sua intenção que não haja escravos, mas demonstrar
que o l!fcatos dos cativeiros ilícitos de índios são pecados. No caso dos escra-
'' negros. também s.to pecados ou crimes contra naturam os excessos dos
senhores 4ue ferem a lei natural :
Se o senhor mandasse ao c\cravo, ou quase5~C da escrava, cousa que ofenda gravemen·
te a alma, c a conscacncaa; assam como ele o nào pode querer, nem mandar, assim o
c cravo é obngado a não obedecer. Dtzei constantemente, que não haveis de ofender
a Deu~ . c s~ por as~o vos ameaçarem c castigarem, ~ofre a ammosa e cristll.mente, ainda
que \C )a por toda a vada, que es es casugos são manfnos.'0
A danação das almas de escravos que morreram pagãos e que fazetll
companhm no inferno às almas dos senhores que não se preocuparam eJll
ári " b:ttuá-los e o pior efeito da escravidão. Assim, no "Sermão XIV do Ros O
ScrnMt X VIl do Ro,áno", em Samões, v XII, cit, p. 331.
' < f AI r '<cou "\'tctra, o índio e o corpo mú;tico", em Adauto Novaes (org.), Tt mpo t
l~Jn I' I Scctc t~ria \lunicipal de ( ultura 1 Companhia das Letras, 1992), p. 432.
nnl '11 d•> ~o,ário ", em Strmtlts. v. XII, ctl., p. 341.
O Lf'O H E
Vieira afirma à · ud'ên ia africana que n ngenho d a ú. ar o scra
certamente sofre ma1 q J•su Cri to, ma que d e r pa l'nte e \er na
servidão um "nulag "ou signo da Providência diVIna. P·l
dência liHou alma do inferno para onde cenamenl iria e permanece se
livre e gentio na sua terra de origem:
Oh! s a gente preta, urada das brenhas da sua Etiópia. e pa~ a.b o Br ai. onhecera
bem quanto de; e a Deus c a sua Santíssima Mãe por c te ue pod par~ r d tcrro.
catl\·ciro e de graça, e não~ senão malagre, e grande mtlagre? Dtl et-mc o. os pats
que nasceram nas trevas da gcntilidade, c nela va~ m acabam a ; d m lume da f
nem conhectmcnto de Deus, aonde vão depois da monc' Todo . mo crede e
confessais, vão ao inferno, e lá e~tão ardendo e arderão por toda ct muladc. "
Muitos anos depois, em 1691 , quando foi consultado pela Juntadas Mi -
-.sões acerca das medidas a serem tomadas quanto a Palmares, a nação dos
quilombolas chefiados por Zumbi que atacava as fazendas c os engenhos de
'Pernambuco, Vieira apresentou cinco razões para a destruição do quilombo c
oextenníniodos seus habitantes. Depois de ponderar, na primeira. que talvez;
ja possível enviar padres naturais de Angola como embaixadores ao
palmarinos, afirma, na segunda, que provavelmente serão tidos por t! ptõcs do
governo ponuguês, concluindo, na terceira, que por isso serão monos "por
peçonha". Assim, na quana razão, afmna que, embora possam cessar o~ a •
saltos contra os colonos, os negros de Palmares nunca deixarão de asilares-
cravos fugitivos. Na quinta razão, a mais forte de todas, declara que "( ... I
sendo rebelados e cativos, estão e perseveram em pecado contínuo e atual, de
que não podem ser absoltos, nem receber a graça de Deus. sem se restituírem
ao serviço e obediência de seus senhores, o que de nenhum modo hão de
fazer".' 2
Provavelmente, hoje essas afirmações decepcionam c escandalizam o
-~1·~;tt,r Como foi dito, Vieira não é um iluminista. Jesuíta contra-reformado. não
-.ec>nc•ebe doutrina dissociada das coisas práticas, considerando que estas tam-
são atravessadas pela sacralidade da presença de Deus, por isso. a es-
o batismo dos escravos e a salvação das alma cativas n o !>e
do seu projeto de conquista da hegemonia polui o-econômica no
Sul. A hegemonia catóüca da JfhUtica e da economia de Ponugal so
ca 1920), p 372.
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p ·~ em_-; de dezembro de 1633
· e d s Homen Pretos de um engenho
!:Lu ·a de "liberdade''. É a mesma que
bre .:7ra' idão dos índios pregado em
e Lt' a entre 16"2 1662. É ana ronismo confundir essa
~ " r id 1 democrático. datado da segunda metade do século
fi: ''hberd d .. como autodeterminação fundada na igualdade
1 1reit humano . . ·o ca o. nenhum fundamento divino é necessá-
no p.1ro J de 1 raç:io dos direito democráticos que fazem todos os homens
ltHe • , ai . Bem di•ersa é a concepção de Vieira: para ele, desde que o
índt u o n~.:gro foram escravizados e receberam o batismo, entraram para o
m1o r.IJ hurrumtdade cristã. pas ando por isso mesmo a ter deveres para
com o EstJJo Alcir Pécora define a tuncepção neo-esco1ástica de "liberda-
d .. com e atidão: "( . . ) J liberdade cristã é [ ... ].acima de tudo, pelo conheci-
mento tio bem. impossibilidade de pecar: o pecado. e não o cativeiro temporal,
aractenza es enci .. tlrnente a escravidão".9
Como diz Vieira no "Sermão da Epifania", pregado em 1662 na Capela
Jktl de L1 boa. não é sua intenção que não haja escravos, mas demonstrar
que o l!fcatos dos cativeiros ilícitos de índios são pecados. No caso dos escra-
'' negros. também s.to pecados ou crimes contra naturam os excessos dos
senhores 4ue ferem a lei natural :
Se o senhor mandasse ao c\cravo, ou quase5~C da escrava, cousa que ofenda gravemen·
te a alma, c a conscacncaa; assam como ele o nào pode querer, nem mandar, assim o
c cravo é obngado a não obedecer. Dtzei constantemente, que não haveis de ofender
a Deu~ . c s~ por as~o vos ameaçarem c castigarem, ~ofre a ammosa e cristll.mente, ainda
que \C )a por toda a vada, que es es casugos são manfnos.'0
A danação das almas de escravos que morreram pagãos e que fazetll
companhm no inferno às almas dos senhores que não se preocuparam eJll
ári " b:ttuá-los e o pior efeito da escravidão. Assim, no "Sermão XIV do Ros O
ScrnMt X VIl do Ro,áno", em Samões, v XII, cit, p. 331.
' < f AI r '<cou "\'tctra, o índio e o corpo mú;tico", em Adauto Novaes (org.), Tt mpo t
l~Jn I' I Scctc t~ria \lunicipal de ( ultura 1 Companhia das Letras, 1992), p. 432.
nnl '11 d•> ~o,ário ", em Strmtlts. v. XII, ctl., p. 341.
O Lf'O H E
Vieira afirma à · ud'ên ia africana que n ngenho d a ú. ar o scra
certamente sofre ma1 q J•su Cri to, ma que d e r pa l'nte e \er na
servidão um "nulag "ou signo da Providência diVIna. P·l
dência liHou alma do inferno para onde cenamenl iria e permanece se
livre e gentio na sua terra de origem:
Oh! s a gente preta, urada das brenhas da sua Etiópia. e pa~ a.b o Br ai. onhecera
bem quanto de; e a Deus c a sua Santíssima Mãe por c te ue pod par~ r d tcrro.
catl\·ciro e de graça, e não~ senão malagre, e grande mtlagre? Dtl et-mc o. os pats
que nasceram nas trevas da gcntilidade, c nela va~ m acabam a ; d m lume da f
nem conhectmcnto de Deus, aonde vão depois da monc' Todo . mo crede e
confessais, vão ao inferno, e lá e~tão ardendo e arderão por toda ct muladc. "
Muitos anos depois, em 1691 , quando foi consultado pela Juntadas Mi -
-.sões acerca das medidas a serem tomadas quanto a Palmares, a nação dos
quilombolas chefiados por Zumbi que atacava as fazendas c os engenhos de
'Pernambuco, Vieira apresentou cinco razões para a destruição do quilombo c
oextenníniodos seus habitantes. Depois de ponderar, na primeira. que talvez;
ja possível enviar padres naturais de Angola como embaixadores ao
palmarinos, afirma, na segunda, que provavelmente serão tidos por t! ptõcs dogoverno ponuguês, concluindo, na terceira, que por isso serão monos "por
peçonha". Assim, na quana razão, afmna que, embora possam cessar o~ a •
saltos contra os colonos, os negros de Palmares nunca deixarão de asilares-
cravos fugitivos. Na quinta razão, a mais forte de todas, declara que "( ... I
sendo rebelados e cativos, estão e perseveram em pecado contínuo e atual, de
que não podem ser absoltos, nem receber a graça de Deus. sem se restituírem
ao serviço e obediência de seus senhores, o que de nenhum modo hão de
fazer".' 2
Provavelmente, hoje essas afirmações decepcionam c escandalizam o
-~1·~;tt,r Como foi dito, Vieira não é um iluminista. Jesuíta contra-reformado. não
-.ec>nc•ebe doutrina dissociada das coisas práticas, considerando que estas tam-
são atravessadas pela sacralidade da presença de Deus, por isso. a es-
o batismo dos escravos e a salvação das alma cativas n o !>e
do seu projeto de conquista da hegemonia polui o-econômica no
Sul. A hegemonia catóüca da JfhUtica e da economia de Ponugal so
ca 1920), p 372.
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fN\f<) J I'
. .,. 111 1J 1 !'t·l~' uwnop,,lio ponugu ·s do tráfico negreiro e da mão-de-• \ tl.l ~1 l .. , '
, 11 ,1 .llth~~111 , 1 t ~~,. qu.mdl' .1tinna o dl·ver de obédiência dos escravos ao
,.,111 , • 11 , til' UlX' • mtl-rnt' it'S t'n~enhos de · ·úcar. Vieira pressupõe que a
. ,·r.1, td.1, · u p1 ., t~t.l r-:t.1 l r wid2nda para ua rátria. Dizia, por exemplo,
qu. ,, lkt~iltmh.l'' .:.'rP'' 11.1 Anwrka 'a alma na Africa. Ou que sem Angola
ll.ll h,l\ IJ l't.l~tl
p '. :.1 pim·ir f.l~ • qu • c''inddc com as guerras holandesas. também
,· J,·, · 1 •mht .1r l' t •nu da mis <il h L tórica do portugueses no mundo, que
\ 1 ·ira 1 • .,,. ·m :ua )l:>ra prof'tica, e o da rc ponsabilidade divina na guerra
• •1t .• 1 Ht l.wd.l. comi.'' se I\ no" cnnão de Santo Antônio", de 13 de junho
J.r~u ·<:o l n:. e nu~ ·r:h L que e tácadadia mendigandocomosuorde
F.·, r. uc ~ · :><·rd ·u ,, B 1':1 tl. c1 porque se perde o mundo. e os castigos
rx1r dt.ml • ' ] Jbets ror que nos dá Deus as vitórias de mãos lavadas?
= toJ ~ que ne·tes dtas ttvemo ; porque matando sempre tantos
h •l.mJ, • .. Ja no ~a pm' entn: todos. apenas. se contam quatro ou cinco
• :. 1 rqu e 1o'[ .]porqucsclavaramasmãos;porquehálimpezade
uc ~ n1."1 tm!!em a,. mjos no angue do povo, por isso as vemos ensan-~ 'orw,amcnt~ no ~angue dos inrm1gos: por isso tudo luz; por isso tudo
r 1 ,,, tudo' por diant . c como por falta di to se perdeu o Brasil. assim
h d • rc:uperar [ ... ]
RESTALRAÇÀO, 1641-1651
,;unJa "fa e" da obras de Vieira pode ser datada de 1641 a 1651
t:p Hc fundamentalmente do temas da Restauração. No que se
BrJ ti, .cu mamr objeti\ o é a restauração de Pernambuco, Clo,minat;u:
· holande~es do Sradtlrolder Maurício de Nassau. Nesse tempo,
em S.r ~' ,. 11 . ,·ic, pp. 97-98
JOAO ADOLFO HANSEN
famosíssimo e poderosíssimo. como pregador da Capela Real. conselheiro e
confessor do rei D. João IV e da rainha D. Luísa de Gusmão. fazendo jus ao
anexim inventado por D. Francisco Manuel de Melo, "mandar lançar tapete de
madrugada em São Roque para ouvir o padre Vieira".
A função do pregador da Capela Real era interpretar religiosamente even-
tos, como vitórias em guerras, pestes, fomes, aparições de cometa, e ocasiões
festivas e fúnebres da família real e da nobreza. Provavelmente, seu primeiro
sermão dessa fase foi o "Sermão dos bons anos", pregado em 1° de janeiro de
1642. Como em sermões e cartas anteriores, aqui o Novo Mundo é referido
como parte essencial do projeto divino para Portugal. Na peroração, quando
comenta o versículo do Pai Nosso, adveniat Regnum Tuum, "venha o Teu
Reino", profetiza que o rei vivo e presente, D. João IV. dá continuidade ao rei
e ausente, D. Sebastião, cumprindo a promessa feita por Deus a D.
Henriques na batalha de Ourique. No momento em que prega. diz. já
o Reino que Portugal já foi, mas ainda está para chegar o Reino que
há de ser, o Quinto Império. 14 (Os impérios anteriores foram o assírio,
o grego e o romano.) Para o advento do Quinto Império. o Brasil e o
1!118Jranlllão são essenciais, pois a catequese dos povos selvagens realizada pela
IJWiiSãC> Je:sun:tca está prevista por Deus como aumento e redenção universal da
ll'l"illtarldaele. Logo, era necessário começar por libertar o Bra il dos hereges
calvinistas. Como a Companhia Ocidental holandesa pedisse três milhões de
cruzados pela restituição de Pernambuco aos portugueses. Vieira pretendia
levantar o dinheiro junto aos comerciantes judeus de Flandres e França. Viajou
em 1646 a Paris; nada conseguindo, foi para a Holanda, em abri I de 1646. onde
visitou Haia, em traje civil de escarlata e espadim. Em março de 164 7. de volta
em Lisboa, redigiu um documento pelo qual D. João IV se comprometia a
os três milhões, em prestações anuais de seiscentos mil. recebendo em
Pernambuco e outros territórios ocupados pelos holandeses no Nordeste
Brasil, e na África, em Angola e São Tomé. Data desse tempo sua
~flelisiSinl8 e perigosíssima proposta de abrandamento dos "estilos" usado
Inquisição contra os cristãos-no os e judeus em troca dos emprésllmos de
capitais. Em agosto de 1647, foi de novo à França, avi tando-se com o
Mazarino. Seu plano era contratar .Q casamento de D. Tecxiósio. filho
de D. Joio Iv, com ~k de Montpensier, filha d duque de
Se desse certo D. Joio-lV a~ 'tinha para o Bras ti, enquanto
da noiva seria .regane de P~ menoridade do Príncipe. O
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fN\f<) J I'
. .,. 111 1J 1 !'t·l~' uwnop,,lio ponugu ·s do tráfico negreiro e da mão-de-• \ tl.l ~1 l .. , '
, 11 ,1 .llth~~111 , 1 t ~~,. qu.mdl' .1tinna o dl·ver de obédiência dos escravos ao
,.,111 , • 11 , til' UlX' • mtl-rnt' it'S t'n~enhos de · ·úcar. Vieira pressupõe que a
. ,·r.1, td.1, · u p1 ., t~t.l r-:t.1 l r wid2nda para ua rátria. Dizia, por exemplo,
qu. ,, lkt~iltmh.l'' .:.'rP'' 11.1 Anwrka 'a alma na Africa. Ou que sem Angola
ll.ll h,l\ IJ l't.l~tl
p '. :.1 pim·ir f.l~ • qu • c''inddc com as guerras holandesas. também
,· J,·, · 1 •mht .1r l' t •nu da mis <il h L tórica do portugueses no mundo, que
\ 1 ·ira 1 • .,,. ·m :ua )l:>ra prof'tica, e o da rc ponsabilidade divina na guerra
• •1t .• 1 Ht l.wd.l. comi.'' se I\ no" cnnão de Santo Antônio", de 13 de junho
J.r~u ·<:o l n:. e nu~ ·r:h L que e tácadadia mendigandocomosuorde
F.·, r. uc ~ · :><·rd ·u ,, B 1':1 tl. c1 porque se perde o mundo. e os castigos
rx1r dt.ml • ' ] Jbets ror que nos dá Deus as vitórias de mãos lavadas?
= toJ ~ que ne·tes dtas ttvemo ; porque matando sempre tantos
h •l.mJ, • .. Ja no ~a pm' entn: todos. apenas. se contam quatro ou cinco
• :. 1 rqu e 1o'[ .]porqucsclavaramasmãos;porquehálimpezade
uc ~ n1."1 tm!!em a,. mjos no angue do povo, por isso as vemos ensan-~ 'orw,amcnt~ no ~angue dos inrm1gos: por isso tudo luz; por isso tudo
r 1 ,,, tudo' por diant . c como por falta di to se perdeu o Brasil. assim
h d • rc:uperar [ ... ]
RESTALRAÇÀO, 1641-1651
,;unJa "fa e" da obras de Vieira pode ser datada de 1641 a 1651
t:p Hc fundamentalmente do temas da Restauração. No que se
BrJ ti, .cu mamr objeti\ o é a restauração de Pernambuco, Clo,minat;u:
· holande~es do Sradtlrolder Maurício de Nassau. Nesse tempo,
em S.r ~' ,. 11 . ,·ic, pp. 97-98
JOAO ADOLFO HANSEN
famosíssimo e poderosíssimo. como pregador da Capela Real. conselheiro e
confessor do rei D. João IV e da rainha D. Luísa de Gusmão. fazendo jus ao
anexim inventado por D. Francisco Manuel de Melo, "mandar lançar tapete de
madrugada em São Roque para ouvir o padre Vieira".
A função do pregador da Capela Real era interpretar religiosamente even-
tos, como vitórias em guerras, pestes, fomes, aparições de cometa, e ocasiões
festivas e fúnebres da família real e da nobreza. Provavelmente, seu primeiro
sermão dessa fasefoi o "Sermão dos bons anos", pregado em 1° de janeiro de
1642. Como em sermões e cartas anteriores, aqui o Novo Mundo é referido
como parte essencial do projeto divino para Portugal. Na peroração, quando
comenta o versículo do Pai Nosso, adveniat Regnum Tuum, "venha o Teu
Reino", profetiza que o rei vivo e presente, D. João IV. dá continuidade ao rei
e ausente, D. Sebastião, cumprindo a promessa feita por Deus a D.
Henriques na batalha de Ourique. No momento em que prega. diz. já
o Reino que Portugal já foi, mas ainda está para chegar o Reino que
há de ser, o Quinto Império. 14 (Os impérios anteriores foram o assírio,
o grego e o romano.) Para o advento do Quinto Império. o Brasil e o
1!118Jranlllão são essenciais, pois a catequese dos povos selvagens realizada pela
IJWiiSãC> Je:sun:tca está prevista por Deus como aumento e redenção universal da
ll'l"illtarldaele. Logo, era necessário começar por libertar o Bra il dos hereges
calvinistas. Como a Companhia Ocidental holandesa pedisse três milhões de
cruzados pela restituição de Pernambuco aos portugueses. Vieira pretendia
levantar o dinheiro junto aos comerciantes judeus de Flandres e França. Viajou
em 1646 a Paris; nada conseguindo, foi para a Holanda, em abri I de 1646. onde
visitou Haia, em traje civil de escarlata e espadim. Em março de 164 7. de volta
em Lisboa, redigiu um documento pelo qual D. João IV se comprometia a
os três milhões, em prestações anuais de seiscentos mil. recebendo em
Pernambuco e outros territórios ocupados pelos holandeses no Nordeste
Brasil, e na África, em Angola e São Tomé. Data desse tempo sua
~flelisiSinl8 e perigosíssima proposta de abrandamento dos "estilos" usado
Inquisição contra os cristãos-no os e judeus em troca dos emprésllmos de
capitais. Em agosto de 1647, foi de novo à França, avi tando-se com o
Mazarino. Seu plano era contratar .Q casamento de D. Tecxiósio. filho
de D. Joio Iv, com ~k de Montpensier, filha d duque de
Se desse certo D. Joio-lV a~ 'tinha para o Bras ti, enquanto
da noiva seria .regane de P~ menoridade do Príncipe. O
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EN\IOES
plano gorou e Vieira nO\ a mente foi à Holanda. com papéis que agora o autori-
ZJ\am a fazer o embaixador ponuguê em Haia. Francisco de Sousa Coutinho,
trocar Pernambuco pela paz no Brasil e na Africa. Nesse tempo, mante e
·ontato com o judeu da inagoga de Amsterdam. como Manassés-ben-Is-
rael. que em 1640 e creY ra um texto profético. Esperança de Israel. que em
1659 Vieira imitou em eu Esperanças de Portugal. escrito quando estava na
AmJ.Z0nia. ~ C m o ami.,o jud u, discute o destino das tribos perdidas de Is-
t!l. ~restituição de Judá e o advento de Cristo. temas que aparecem em suas
can e obra proféticas posteriores em que trata do papel providencial a ser
de empenhado pelo.· oYo ~tundo e pelos índios brasileiros antes do retomo do
).1essia_. . - H !anda. porém. as negociações da compra de Pernambuco fa-
lh ram no' am nte. Em outubro de 164 . \ inte propostas de Vieira referentes
ao ne.,. .. ios com a Holanda foram apreciadas e rejeitadas em várias instân-
cia· da C rte. o Tribunal do Desembargo do Paço. a Mesa de Consciência e
Ord ns. Crmra de Li boa. o Conselho da Guerra. o Conselho da Fazenda,
JOÃO ADOLFO HA ' E
simultaneamente con pi r contra a Espanha. tentando uble r o Remo e
ápoles então domin do por Madri. O plano foi descobeno c emba.i~•ldor
espanhol. duque do lnfantado. ameaçou Vieir-.t de mort • intimando o geral da
Companhia de Jesus a fazer com que abandonas e Roma às pressas, p ra
salvar a pele. Em junho de 1650. voltou para Ponugal. • meado hefe da
missão do Maranhão e Grão-Pará, dei ou a barra de Li boa m :!5 de n em-
bro de 1651. Em 16 de janeiro de 1652, depoi de parar em C bo \erde. he-
gou a São Luís do iaranhão.1
MISSÀO ,'OMARA. HÀOEGRÃo-P RA.l65--1662
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EN\IOES
plano gorou e Vieira nO\ a mente foi à Holanda. com papéis que agora o autori-
ZJ\am a fazer o embaixador ponuguê em Haia. Francisco de Sousa Coutinho,
trocar Pernambuco pela paz no Brasil e na Africa. Nesse tempo, mante e
·ontato com o judeu da inagoga de Amsterdam. como Manassés-ben-Is-
rael. que em 1640 e creY ra um texto profético. Esperança de Israel. que em
1659 Vieira imitou em eu Esperanças de Portugal. escrito quando estava na
AmJ.Z0nia. ~ C m o ami.,o jud u, discute o destino das tribos perdidas de Is-
t!l. ~restituição de Judá e o advento de Cristo. temas que aparecem em suas
can e obra proféticas posteriores em que trata do papel providencial a ser
de empenhado pelo.· oYo ~tundo e pelos índios brasileiros antes do retomo do
).1essia_. . - H !anda. porém. as negociações da compra de Pernambuco fa-
lh ram no' am nte. Em outubro de 164 . \ inte propostas de Vieira referentes
ao ne.,. .. ios com a Holanda foram apreciadas e rejeitadas em várias instân-
cia· da C rte. o Tribunal do Desembargo do Paço. a Mesa de Consciência e
Ord ns. Crmra de Li boa. o Conselho da Guerra. o Conselho da Fazenda,
JOÃO ADOLFO HA ' E
simultaneamente con pi r contra a Espanha. tentando uble r o Remo e
ápoles então domin do por Madri. O plano foi descobeno c emba.i~•ldor
espanhol. duque do lnfantado. ameaçou Vieir-.t de mort • intimando o geral da
Companhia de Jesus a fazer com que abandonas e Roma às pressas, p ra
salvar a pele. Em junho de 1650. voltou para Ponugal. • meado hefe da
missão do Maranhão e Grão-Pará, dei ou a barra de Li boa m :!5 de n em-
bro de 1651. Em 16 de janeiro de 1652, depoi de parar em C bo \erde. he-
gou a São Luís do iaranhão.1
MISSÀO ,'OMARA. HÀOEGRÃo-P RA.l65--1662
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, 1 HI!ÔI ~
liv 1 0~ h 1 hli~os de [);nm:l c baJ.JS. as Tml'rls do sapateiro de Trancoso, Gonçalo
Ane:, B.mdo.~ rra, o texltl Ut· pmCtllflllda. do jesuíta peruano José de Aco ta,
c11 tre ou11 LJS. fornecem matéria a Vieira para interpretar profeticamente o sen-
tido tran cemknte da rcvelaç:io da palavra divina para os índios brasileiros
rco.~l11ada pelm jesuítas de~de o século XVI. Segundo sua interpretação, a mis-
·•n c ,, ratrqucsc ~;1o um mistério da Providi!ncia divina, que faz a Igreja
avan~.u e'-pirllualmcnl~.: ,, redenção humana quando inclui o Novo Mundo no
grê111io cn'-lac• (~ JU stamente porqu~.: é ~clvagcm ou "boçal" que o fndio deve
cr amurn~.tllJl! n t L' conduzido a superar s~.:u estado de barbárie; quando os
colono• o esc1.1viza rn, também são culpados pela descr~.:nça. E a não-conver-
s.to 1mp!Jca a perda das almas para Satanás. Nesse sentido, a Coroa portugue-
'·'..: ant d Kada pm ~eu papel apo~tólico de patrocinadora da missão jesuítica,
que rea liza no tempo o projeto sobrenatural. dando testemunho da Graça.
A\ COJ\Js nao cram tão espirituais em São Luí do Maranhão quando
Vt.:ira aí che)!ou Uma ordem r~gi.t que libertava os índios escravizados causa-
v,, cnt .to talt umultn l ntrc os colono · que ele e os padres recém-desembarca-
diJs qiiJ\L' l'orn m •·xpulsns. O· coloniais argumentavam, com total razão, que
•t,un pobre~ d~ nJaÍ\ p.1ra compmr escravos africanos c que a economia do
Mat,llth.tu (h' p\:nd ia diretamente U<l brJço indígena, Também alegavam queoa
1ndio cl.tlll b,irhaJo' c que loua scrvitlão era legitima. Fundamentavam-se em
11111.1 JLk ,,, tl.t l'flhtrm ari stot~ lica, então corrente. que afirma ser próprio do
mknor. uhnnl 111ar : l ' ao superior. No" sermões dessa fase, como o "Sermio
d.t pnmcir 1 domin l.!a da QuarL·srna", pr~:gado em São Luís em 16 dejaneirode
I ()'i'· conhecido como "'\crmão das tl·ntaçÕl!s", Vieira parece querer intimidar
os colonos com o nll'do da pcrdiçao da alma. fazendo uma perfeita demonstra·
~·ao silog•~tJca dot•rrn em que vivem.
'h'Uil o hnm~m. que dele ~<'li 1\'0. nu ltbc1dadc .tlhcta. l' pt1Liendo-a rcMlluir. nllo
tc,llllll, t' n ttu <JUl' se rondcn.t todos, ou qua ,. todos os homens do Maranhlolkwm ''1"~'"· <' ltbnd.tdc\ alhc1a,, l' 1mdcndo r,•stJtulr. não·" re~tllucm. logo,
t<>dn . ou qu,t c toJo se wlllknam I !"
\inda ne s • s :tm:lo, Vie1ra propi'1\ organizar o cativeiro indígena, d~
min.llldo que sú podcnarn ~e r esct aYizaJos os índios que estivessem "em cor-
d.t", ou ~eja, os pri~mnc t ro~ que fo~scm resgatados de seus captores para se
intp<.dit qu• fl'"L'lll comido. l~tmbcm poderiam ser escravizados ind(g
1111
JOAO AOOLRJ HANSEN
que ao serem capturado tá fossem escravos de seus inimigos; ou n. que fo •
sem aprisionados em "guerra justa". Nos ca os em que essa condições nlio
se aplicassem. os índios seriam libertados e postos nas aldeias sob a jurisdição
temporal e espiritual da Companhia de Jesus:
De sorte que nesta fonna todos os (ndios deste estado M:n crão aos portuguese · ou
como própria, c intetramente cativos, que silo os de corda, os de guerra JU,ta, e os qu
livre, c volunlanamente quiserem servir, como dt semos dos primetros; ou como
meios caltvos, que são todos os das antigas, c novas aldeias, que petn l>em, e con er
vação do estado me consta que, sendo hvres. se sujcuaram a nn~ ~crvir, e aJudar a
metade do tempo de sua vida. Só resta saber qual será o preço dc:Mes. que chamamos
meios cativos, ou meios livres[ ... ] É matéria de que se nrá qualquer outra naçiln do
mundo, e só nesta terra não se admira."'
Os coloniais não cederam à argumentação c Vieira contemporizou, indo
para o Pará. Lá chegou em 5 de outubro de 1653 c, logo depois, em 13 de
dezembro de 1653, navegou o rio dos Tocantins. Encontramos um relato minu-
e vfvido dessa viagem na carta que então dirigiu ao provincial da Compa·
nhia. Voltando ao Maranhão. como a oposição aos jesuítas aumentava, Vieira
em 22 de março de 1654 o "Sermão da quinta dominga da Quaresma",
conhecido como "Sermão das mentiras". Com desassombro, promete
auditório que vai dizer injúrias e afrontá-lo, falando de uma "grande de on-
no Maranhão não há verdade. Aqui, toma-se sarcástico quando, aeusando
a sociedade maranhense de mentir e de assacar calúnias. faz com que o "M'
de "Maranhão" contamine com a mentira alegada vários verbos inktados por
"M" e relacionados com o vfcio:
E se as letras dest abcccdâno e repartissem pelos estados de Por1u •ai, que l•·tra
tncana no nosso Maranhlo? Nlo hi dúvrda queM. M. Maranhão. M. murmu1ar 1.
motejar, M. maldizer. M. malsinar, M. mexericar e sobrerudu M menur m nhr unn
u~ ralavra • menttr com as obras, mentir com os pen amentos, L!UC de tndo . ~ por
lodo. os modos aqui se mente, Novelas, e novelo Ao as duu moedas wrr ntc de t
terra, ma tem uma diferença. que as novelas armam se sobre nada. os novelo
armam- c sobre muito, para tudo acr moeda fal a.,,
Em 1653, Vieira tinha reclamado que nenhuma propo do morudorc
Maranhão poderia ser resolvida sem que fosse ouvido antes. d dar.mdo
IV tt. p I 6
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liv 1 0~ h 1 hli~os de [);nm:l c baJ.JS. as Tml'rls do sapateiro de Trancoso, Gonçalo
Ane:, B.mdo.~ rra, o texltl Ut· pmCtllflllda. do jesuíta peruano José de Aco ta,
c11 tre ou11 LJS. fornecem matéria a Vieira para interpretar profeticamente o sen-
tido tran cemknte da rcvelaç:io da palavra divina para os índios brasileiros
rco.~l11ada pelm jesuítas de~de o século XVI. Segundo sua interpretação, a mis-
·•n c ,, ratrqucsc ~;1o um mistério da Providi!ncia divina, que faz a Igreja
avan~.u e'-pirllualmcnl~.: ,, redenção humana quando inclui o Novo Mundo no
grê111io cn'-lac• (~ JU stamente porqu~.: é ~clvagcm ou "boçal" que o fndio deve
cr amurn~.tllJl! n t L' conduzido a superar s~.:u estado de barbárie; quando os
colono• o esc1.1viza rn, também são culpados pela descr~.:nça. E a não-conver-
s.to 1mp!Jca a perda das almas para Satanás. Nesse sentido, a Coroa portugue-
'·'..: ant d Kada pm ~eu papel apo~tólico de patrocinadora da missão jesuítica,
que rea liza no tempo o projeto sobrenatural. dando testemunho da Graça.
A\ COJ\Js nao cram tão espirituais em São Luí do Maranhão quando
Vt.:ira aí che)!ou Uma ordem r~gi.t que libertava os índios escravizados causa-
v,, cnt .to talt umultn l ntrc os colono · que ele e os padres recém-desembarca-
diJs qiiJ\L' l'orn m •·xpulsns. O· coloniais argumentavam, com total razão, que
•t,un pobre~ d~ nJaÍ\ p.1ra compmr escravos africanos c que a economia do
Mat,llth.tu (h' p\:nd ia diretamente U<l brJço indígena, Também alegavam queoa
1ndio cl.tlll b,irhaJo' c que loua scrvitlão era legitima. Fundamentavam-se em
11111.1 JLk ,,, tl.t l'flhtrm ari stot~ lica, então corrente. que afirma ser próprio do
mknor. uhnnl 111ar : l ' ao superior. No" sermões dessa fase, como o "Sermio
d.t pnmcir 1 domin l.!a da QuarL·srna", pr~:gado em São Luís em 16 dejaneirode
I ()'i'· conhecido como "'\crmão das tl·ntaçÕl!s", Vieira parece querer intimidar
os colonos com o nll'do da pcrdiçao da alma. fazendo uma perfeita demonstra·
~·ao silog•~tJca dot•rrn em que vivem.
'h'Uil o hnm~m. que dele ~<'li 1\'0. nu ltbc1dadc .tlhcta. l' pt1Liendo-a rcMlluir. nllo
tc,llllll, t' n ttu <JUl' se rondcn.t todos, ou qua ,. todos os homens do Maranhlo
lkwm ''1"~'"· <' ltbnd.tdc\ alhc1a,, l' 1mdcndo r,•stJtulr. não·" re~tllucm. logo,
t<>dn . ou qu,t c toJo se wlllknam I !"
\inda ne s • s :tm:lo, Vie1ra propi'1\ organizar o cativeiro indígena, d~
min.llldo que sú podcnarn ~e r esct aYizaJos os índios que estivessem "em cor-
d.t", ou ~eja, os pri~mnc t ro~ que fo~scm resgatados de seus captores para se
intp<.dit qu• fl'"L'lll comido. l~tmbcm poderiam ser escravizados ind(g
1111
JOAO AOOLRJ HANSEN
que ao serem capturado tá fossem escravos de seus inimigos; ou n. que fo •
sem aprisionados em "guerra justa". Nos ca os em que essa condições nlio
se aplicassem. os índios seriam libertados e postos nas aldeias sob a jurisdição
temporal e espiritual da Companhia de Jesus:
De sorte que nesta fonna todos os (ndios deste estado M:n crão aos portuguese · ou
como própria, c intetramente cativos, que silo os de corda, os de guerra JU,ta, e os qu
livre, c volunlanamente quiserem servir, como dt semos dos primetros; ou como
meios caltvos, que são todos os das antigas, c novas aldeias, que petn l>em, e con er
vação do estado me consta que, sendo hvres. se sujcuaram a nn~ ~crvir, e aJudar a
metade do tempo de sua vida. Só resta saber qual será o preço dc:Mes. que chamamos
meios cativos, ou meios livres[ ... ] É matéria de que se nrá qualquer outra naçiln do
mundo, e só nesta terra não se admira."'
Os coloniais não cederam à argumentação c Vieira contemporizou, indo
para o Pará. Lá chegou em 5 de outubro de 1653 c, logo depois, em 13 de
dezembro de 1653, navegou o rio dos Tocantins. Encontramos um relato minu-
e vfvido dessa viagem na carta que então dirigiu ao provincial da Compa·
nhia. Voltando ao Maranhão. como a oposição aos jesuítas aumentava, Vieira
em 22 de março de 1654 o "Sermão da quinta dominga da Quaresma",
conhecido como "Sermão das mentiras". Com desassombro, promete
auditório que vai dizer injúrias e afrontá-lo, falando de uma "grande de on-
no Maranhão não há verdade. Aqui, toma-se sarcástico quando, aeusando
a sociedade maranhense de mentir e de assacar calúnias. faz com que o "M'
de "Maranhão" contamine com a mentira alegada vários verbos inktados por
"M" e relacionados com o vfcio:
E se as letras dest abcccdâno e repartissem pelos estados de Por1u •ai, que l•·tra
tncana no nosso Maranhlo? Nlo hi dúvrda queM. M. Maranhão. M. murmu1ar 1.
motejar, M. maldizer. M. malsinar, M. mexericar e sobrerudu M menur m nhr unn
u~ ralavra • menttr com as obras, mentir com os pen amentos, L!UC de tndo . ~ por
lodo. os modos aqui se mente, Novelas, e novelo Ao as duu moedas wrr ntc de t
terra, ma tem uma diferença. que as novelas armam se sobre nada. os novelo
armam- c sobre muito, para tudo acr moeda fal a.,,
Em 1653, Vieira tinha reclamadoque nenhuma propo do morudorc
Maranhão poderia ser resolvida sem que fosse ouvido antes. d dar.mdo
IV tt. p I 6
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f ,
u. " f J lmto u f u n que cri i e ta missão por ordern
qu · . l1brc la d1 pô : cu só tenho as notfcias
1 1> infomtar e alegar da razões por que
Jda , c o •raví imos danos que do contrário se
tndl
m 19 .. r m i o .. r~ ui ando a questã 1 do trabalho indígena c do poder tem-
poral · pi rilual ohr· o~ índio aldeados. Entre as várias medidas, propõe,
pore cmpl< .que o go emador· nãodc,eriamterjurisdiçãosobreosíndios·
lJUC t ·~ tcnam um pr \Curador-geral em cada capitania; que seriam total-
m nt~ ujei o aos r IJgio;.os; que no início de cada ano se faria urna lista de
tod o índ1m de se1 viço c de todos os moradores da capitania, para repartir
I m<11adorc ; que o número de aldeamentos seria reduzidQ.
para facilitar· m lhc.rar o controle; que índio só poderiam trabalharquatl$
IIH: • Jor.t de ua • ldcias; que nl!nhum deles deveria trabalhar sem que an1llll
f•1 c pago; que toda as emana ou a cada quinze dias haveria uma ti
ndc vendcnam seu p1od uto . Além d1 o, somente os eclesiásticos pod •
f tZCI l!ntro~d ''" ~.: ri :Jo; um.t única ordem religiosa, a ser nomeada pelo
·nc.m • n.t do índios; nenhum deles poderia ser trazido do sertão
Ih preptu,trc m rO<;a c aldl!ia ; o índios de corda seriam resgatad
A ituaç.tn se ag1 .tvava. porém, e Vieira decidiu ir a Lisboa para tentar
1111lucm:iar dnctamt.:n tc a r ort t.: em favor da causa jesuítica. Antes, por611, em
lJ de junh< de I ü5·1. pr egou o f.unosís~imo "Sermão de Santo Antônio", em
que a\ va1 i,ts o.:~p~cics de p1·ixc\ do mar são metáforas das várias esp6cics de
con upçõ • c cnnuptos do Maranhão, do Brasil c de Portugal. Uma PC411Willll~:
Jmo<;U .1 d.1 tll1t.: supcnor dt.: Vicir3 é a alegoria dn polvo. Significando
ta em gcr.ll. ela 1.1mbém parece aludir a carmcliti.l~ . inimigos de Vieira
Luís. c .1 dominkanns, seus \'c lhos inimigos do Santo Ofício, no R i no:
\I Ja que c\t,unn~ n;l\ cova~ do mar, ante~ qui! s:namos delas, temos IA o trmle
poli n,' ont1.1 < qual t~m ~uas qur1 a . c gt ande, , n:io menos que Slo Basrllo e Saoro
' \o lei P \h•n u \'1, 1611 (\I r ), maio 21", em Cartas, l I, Cll., p 589
''r 1 I J o 1\ , l6~J. 11 nl (•". em Cartal t. I, 11, pp 431-441.
JO O OOLPO HA
Ambrósio. O polvo com aquele eu capelo, parece um monge, com aquele us ra os
estendidos, p8l'tCC uma la, com aquele nlo ter osso nem espmha. parece a mesma
brandura. a me ma mans1dl . E debai o dest2 aparfnc tio modesta, ou desta h•po-
crisia tão santa. te temunham conte tamente os dous grande Doutores da IgreJa
latina, e grega, que o dito polvo ~ o mmor traidor do mar Constst esta trai llo do
polvo primeiramente em se vestir. ou pmtar das mesmu ores de todas aquelas con: ,
a que está pegado. As con:s, que no camalelo slo gala no polvo são malfCla, as
figuras, que em Proteu ão fãbula, no polvo são verdade. e anJflcto •
Data da Quaresma de 1655 o "Sermão da se agésima", pregado na Ca-
pela Real. Nele, Vieira critica os "estilos cultos", a agudezas gongóricas que
então eram usadíssimas pelos seus rivais dominicanos da lnquisiçao, como o
famoso pregador frei Domingos de Santo Tomás. Vieira fundamenta a argu
mentação no conceito predicável extraído de Mateus, xm. 3, "Ec e eX!ÍI qUI
seminat, seminare" (Eis saiu o que semeia a semear}, desenvolvendo-o pala-
por palavra e acrescentando-lhe semen suum, "a sua semente". O leitor
pensar que fala abstratamente do pregador evangélico e da II:Oria da
mas fala efetivamente de si mesmo e dos mi sionários Jesuftas do
e do Maranhão e Grão-Pará, tamb6n atacando destemidamente o San-
da Inquisição, quando ataca o estilo do seu maior pregador e di tio-
duas es~ies de pregadores, "os que ficam" e "os que saem" É nesse
que faz o trocadilho "paçofpassos", condensando o programa mi io
da Companhia de Jesus. Perguntando ironicamente o que acontecerá
pregadores no Dia do Juízo, afmna que então "Os de cá achar-vos-eis
mais paço; os de lá, com mais passos".25 Ou seja, "o que ficam ·
na Corte, como os dominicanos da Inquisição, com mai apego às
do mundo, e "os que saem" a pregar nas missões, como os Jesuíta do
~ll'atthã<o, com mais ações virtuosas e mais sofrimentos. No dommgo seguin
a quinquagésima, fn:i Domingos de Santo Tomás deu o troco, mas Vieira
retomou a diatribe. O "Scrmlo da sexagésima" foi escolhido por ele para
os volumes de suas obras oratórias, ficando conhectdo como o principal
doutrinário do "m6todo porcupas de pregar'' A1nda na Quaresma de
em Portugal, pregou pa o .-e~ do remo o bdfasimo "Sermio
ladtld',emquelQc&,a &1Mü em JUÍ7ae
~ C)WJilUltl~ da alma-... l&!taa Vt ira
a~~~----l;.~~
Scanned by CamScanner
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u. " f J lmto u f u n que cri i e ta missão por ordern
qu · . l1brc la d1 pô : cu só tenho as notfcias
1 1> infomtar e alegar da razões por que
Jda , c o •raví imos danos que do contrário se
tndl
m 19 .. r m i o .. r~ ui ando a questã 1 do trabalho indígena c do poder tem-
poral · pi rilual ohr· o~ índio aldeados. Entre as várias medidas, propõe,
pore cmpl< .que o go emador· nãodc,eriamterjurisdiçãosobreosíndios·
lJUC t ·~ tcnam um pr \Curador-geral em cada capitania; que seriam total-
m nt~ ujei o aos r IJgio;.os; que no início de cada ano se faria urna lista de
tod o índ1m de se1 viço c de todos os moradores da capitania, para repartir
I m<11adorc ; que o número de aldeamentos seria reduzidQ.
para facilitar· m lhc.rar o controle; que índio só poderiam trabalharquatl$
IIH: • Jor.t de ua • ldcias; que nl!nhum deles deveria trabalhar sem que an1llll
f•1 c pago; que toda as emana ou a cada quinze dias haveria uma ti
ndc vendcnam seu p1od uto . Além d1 o, somente os eclesiásticos pod •
f tZCI l!ntro~d ''" ~.: ri :Jo; um.t única ordem religiosa, a ser nomeada pelo
·nc.m • n.t do índios; nenhum deles poderia ser trazido do sertão
Ih preptu,trc m rO<;a c aldl!ia ; o índios de corda seriam resgatad
A ituaç.tn se ag1 .tvava. porém, e Vieira decidiu ir a Lisboa para tentar
1111lucm:iar dnctamt.:n tc a r ort t.: em favor da causa jesuítica. Antes, por611, em
lJ de junh< de I ü5·1. pr egou o f.unosís~imo "Sermão de Santo Antônio", em
que a\ va1 i,ts o.:~p~cics de p1·ixc\ do mar são metáforas das várias esp6cics de
con upçõ • c cnnuptos do Maranhão, do Brasil c de Portugal. Uma PC411Willll~:
Jmo<;U .1 d.1 tll1t.: supcnor dt.: Vicir3 é a alegoria dn polvo. Significando
ta em gcr.ll. ela 1.1mbém parece aludir a carmcliti.l~ . inimigos de Vieira
Luís. c .1 dominkanns, seus \'c lhos inimigos do Santo Ofício, no R i no:
\I Ja que c\t,unn~ n;l\ cova~ do mar, ante~ qui! s:namos delas, temos IA o trmle
poli n,' ont1.1 < qual t~m ~uas qur1 a . c gt ande, , n:io menos que Slo Basrllo e Saoro
' \o lei P \h•n u \'1, 1611 (\I r ), maio 21", em Cartas, l I, Cll., p 589
''r 1 I J o 1\ , l6~J. 11 nl (•". em Cartal t. I, 11, pp 431-441.
JO O OOLPO HA
Ambrósio. O polvo com aquele eu capelo, parece um monge, com aquele us ra os
estendidos, p8l'tCC uma la, com aquele nlo ter osso nem espmha. parece a mesma
brandura. a me ma mans1dl . E debai o dest2 aparfnc tio modesta, ou desta h•po-
crisia tão santa. te temunham conte tamente os dous grande Doutores da IgreJa
latina, e grega, que o dito polvo ~ o mmor traidor do mar Constst esta trai llo do
polvo primeiramente em se vestir. ou pmtar das mesmu ores de todas aquelas con: ,
a que está pegado. As con:s, que no camalelo slo gala no polvo são malfCla, as
figuras, que em Proteu ão fãbula, no polvo são verdade. e anJflcto •
Data da Quaresma de 1655 o "Sermão da se agésima", pregado na Ca-
pela Real. Nele, Vieira critica os "estilos cultos", a agudezas gongóricas que
então eram usadíssimas pelos seus rivais dominicanos da lnquisiçao, como o
famoso pregador frei Domingos de Santo Tomás. Vieirafundamenta a argu
mentação no conceito predicável extraído de Mateus, xm. 3, "Ec e eX!ÍI qUI
seminat, seminare" (Eis saiu o que semeia a semear}, desenvolvendo-o pala-
por palavra e acrescentando-lhe semen suum, "a sua semente". O leitor
pensar que fala abstratamente do pregador evangélico e da II:Oria da
mas fala efetivamente de si mesmo e dos mi sionários Jesuftas do
e do Maranhão e Grão-Pará, tamb6n atacando destemidamente o San-
da Inquisição, quando ataca o estilo do seu maior pregador e di tio-
duas es~ies de pregadores, "os que ficam" e "os que saem" É nesse
que faz o trocadilho "paçofpassos", condensando o programa mi io
da Companhia de Jesus. Perguntando ironicamente o que acontecerá
pregadores no Dia do Juízo, afmna que então "Os de cá achar-vos-eis
mais paço; os de lá, com mais passos".25 Ou seja, "o que ficam ·
na Corte, como os dominicanos da Inquisição, com mai apego às
do mundo, e "os que saem" a pregar nas missões, como os Jesuíta do
~ll'atthã<o, com mais ações virtuosas e mais sofrimentos. No dommgo seguin
a quinquagésima, fn:i Domingos de Santo Tomás deu o troco, mas Vieira
retomou a diatribe. O "Scrmlo da sexagésima" foi escolhido por ele para
os volumes de suas obras oratórias, ficando conhectdo como o principal
doutrinário do "m6todo porcupas de pregar'' A1nda na Quaresma de
em Portugal, pregou pa o .-e~ do remo o bdfasimo "Sermio
ladtld',emquelQc&,a &1Mü em JUÍ7ae
~ C)WJilUltl~ da alma-... l&!taa Vt ira
a~~~----l;.~~
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SERMàES
bo latino rapio, ''rapinar'', dizendo que os ladrões de lá e os de cá sempre
roubam em todo os eu modos c tempos:
:'\:io são só IJdrõe·, diz o Santo, os que cortam bolsas. ou espreitam os que se vão
bar:har. para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem
este titul • são aquele a quem os reis encomendam os exércitos e as legiões, ou
0
go\ em o das provinctas. ou a administração das cidades, os quais jâ com manha, já
com força. roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes
roub::m ctdades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor. nem
pengo. os outros. se furtam, são enforcados, estes furtam c enforcam. Diógenes, que
tudo \ia com mais aguda v1sta que os outros homens, viu que uma grande tropa de
'aras e ministros de JUSttça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: "Lá
:lo os ladrões grandes enforcar os pequenos''. Dtlosa Gréc1a, que unha tal prega-
dor''•
Em 9 de abril de 1655, obteve uma provisão régia determinando várias
medidas fa,orá,ei s aos jesuítas e aos índios; em 16 de abril de 1655, voltou
p;u-a o. Iaranhão. pondo-a em práti ·a imediatamente. Segundo a provisão, os
coloniais não mais podiam declarar guerra aos índios sem autorização da Co-
roa: os índios catequizados seriam aldeados e governados por seus chefes com
a orientação da Companhia de Jesus; os comandantes das expedições que
fossem ao sertlio para resgatar ''índios de corda" - efetivamente, escravizar
quai quer índios bravos que encontrassem-, seriam indicados pelos jesuítas.
A reação dos civis e eclesiásticos maranhenses foi violentíssima, mas o gover-
nador André Vidal de Negreiros apoiava Vieira. Mandou prender e julgar os
responsáveis pelos tumultos e os degredou. Outra vez, a roda da Fortuna girou.
A vitória de Vieira durou pouco: seu protetor, o rei D. João IV, morreu em 6 de
DO\ embro de 165u. A profecia do Quinto Império não se havia cumprido quan-
do o rei estava vivo; logo, como o rei era essencial no seu projeto salvífico,
Vieira afirmou que D. João IV ia ressuscitar.
Em 4 de abril de 1654, tinha enviado carta ao rei, falando-lhe da corrupção
dos governadores do Maranhão e Grão-Pará e "do sangue e do suor dos tristes
dos índios":
Tru~ são os d01~ capnães-morcs em que se repartiu este governo: Baltasar de Sousa não
tem nada, lnâcto do Rego não lhe basta nada; e eu não sei qual é maior tentação, se a
necessidade, se a cobtça. Tudo quanto há na capttanta do Pará, tirando as terras, não vale
dez mtl cruzados, como é notório, e desta terra há de tirar Inácio do Rego mais de cem
o de. bom ladrão". em S•mrõe~, v. V, cit, p. 65 .
42
JOÃO ADOLFO HANSEN
m1l cruzados em três anos, segundo se lhe vão logrando bem as indu.,rnas. Tudo 1st o sat
do sangue e do ,uor do tristes fndios, aos quats trata como escra,os seus. que nenhum
tem lihcrdad~ nem p.u-a dctxar de servir a ele nem para poder servir a outrem [ .. F'
Depois da morte de D. João IV, passou a definir explicitamente como
"heresia" a escravidão dos índios e a violência dos colonos contr.t os jesuítas.
Escrevendo ao amigo, padre André Fernandes, diz que os jesuítas vivem no
Maranhão e Grão-Pará"[ ... ] um inferno abreviado".78 Em carta de 20 de abril
de 1657 para o novo rei, D. Afonso VI, é terrível a afirmação sobre os dois
milhões de índios mortos pelos portugueses. Na data, o rei tinha 14 anos e
pode-se supor que efetivamente se dirigia à regente, a rainha-mãe D. Luísa de
Gusmão, e ao Conselho Ultramarino. Ele ere valido da rainha e provavelmente
esperava medidas favoráveis que viessem reforçar sua autoridade:
Em espaço de quarenta anos se mataram e se destruíram por esta costa e sertões mats
de dois milhões de índios. e mais de quinhentas povoações como grandes cidades. e
disto nunca se viu castigo [ ... ] no ano de mil, seiscentos e cincDl'nta e cinco. se
cativaram no rio das Amazonas dois mil índios, entre os quais muitos eram amigos e
aliados dos portugueses, e vassalos de V. M., tudo contra a d1sposição da lc1 que \cio
naquele ano a este Estado, e tudo mandado obrar pelos mesmos que unham maior
obrigação de fazer observar a mesma lei.29
Enquanto essas tiranias ocorriam no Maranhão, diz, não houve ninguém.
secular ou religioso, que zelasse pela salvação das almas dos índios, que foram
para o inferno. Por isso, vê nos adversários dos jesuítas a instigação do demô-
nio "[ ... ] para impedir o bem espiritual tanto dos portugueses como dos índios.
que uns com os outros se iam ao inferno". O que contraria radicalmente a
destinação divina de Portugal como nação universalizadora da cristandade:
Os outros reinos da cristandade [ ... ] têm por fim a conservação dos vassalo • em
ordem à felicidade temporal nesta vida, e à felicidade eterna na outra: o reino dc.-
Portugal, de mais deste fim universal a todos, tem por fim particular e própno a
propagação e a extensão da f6 católica nas terras dos gentios, para que Deus o levan-
tou e instituiu; e quanto Portugal mais se ~tar com este fim. tanto maJs t'Crta e
segura será sua conservaçlo; e quanto mais se desviar dele tanto maJ duVIdosa c
arriscada. 30
LXVII Ao roi D. Joio IV. l6S4. aWU•, an CGnias, I. l, e1L, pp 416-417.
l.XXVL AD padrt A1ltW ~ II$5G ('r OD: Cartas. t I, c:iL, p 4S9
JJCXVU. Ao rei D Atba$0 W. tCíll .U ~ fllt. Qlrfa.r, t I. et~. p 468
4iQ.
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SERMàES
bo latino rapio, ''rapinar'', dizendo que os ladrões de lá e os de cá sempre
roubam em todo os eu modos c tempos:
:'\:io são só IJdrõe·, diz o Santo, os que cortam bolsas. ou espreitam os que se vão
bar:har. para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem
este titul • são aquele a quem os reis encomendam os exércitos e as legiões, ou
0
go\ em o das provinctas. ou a administração das cidades, os quais jâ com manha, já
com força. roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes
roub::m ctdades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco, estes sem temor. nem
pengo. os outros. se furtam, são enforcados, estes furtam c enforcam. Diógenes, que
tudo \ia com mais aguda v1sta que os outros homens, viu que uma grande tropa de
'aras e ministros de JUSttça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: "Lá
:lo os ladrões grandes enforcar os pequenos''. Dtlosa Gréc1a, que unhatal prega-
dor''•
Em 9 de abril de 1655, obteve uma provisão régia determinando várias
medidas fa,orá,ei s aos jesuítas e aos índios; em 16 de abril de 1655, voltou
p;u-a o. Iaranhão. pondo-a em práti ·a imediatamente. Segundo a provisão, os
coloniais não mais podiam declarar guerra aos índios sem autorização da Co-
roa: os índios catequizados seriam aldeados e governados por seus chefes com
a orientação da Companhia de Jesus; os comandantes das expedições que
fossem ao sertlio para resgatar ''índios de corda" - efetivamente, escravizar
quai quer índios bravos que encontrassem-, seriam indicados pelos jesuítas.
A reação dos civis e eclesiásticos maranhenses foi violentíssima, mas o gover-
nador André Vidal de Negreiros apoiava Vieira. Mandou prender e julgar os
responsáveis pelos tumultos e os degredou. Outra vez, a roda da Fortuna girou.
A vitória de Vieira durou pouco: seu protetor, o rei D. João IV, morreu em 6 de
DO\ embro de 165u. A profecia do Quinto Império não se havia cumprido quan-
do o rei estava vivo; logo, como o rei era essencial no seu projeto salvífico,
Vieira afirmou que D. João IV ia ressuscitar.
Em 4 de abril de 1654, tinha enviado carta ao rei, falando-lhe da corrupção
dos governadores do Maranhão e Grão-Pará e "do sangue e do suor dos tristes
dos índios":
Tru~ são os d01~ capnães-morcs em que se repartiu este governo: Baltasar de Sousa não
tem nada, lnâcto do Rego não lhe basta nada; e eu não sei qual é maior tentação, se a
necessidade, se a cobtça. Tudo quanto há na capttanta do Pará, tirando as terras, não vale
dez mtl cruzados, como é notório, e desta terra há de tirar Inácio do Rego mais de cem
o de. bom ladrão". em S•mrõe~, v. V, cit, p. 65 .
42
JOÃO ADOLFO HANSEN
m1l cruzados em três anos, segundo se lhe vão logrando bem as indu.,rnas. Tudo 1st o sat
do sangue e do ,uor do tristes fndios, aos quats trata como escra,os seus. que nenhum
tem lihcrdad~ nem p.u-a dctxar de servir a ele nem para poder servir a outrem [ .. F'
Depois da morte de D. João IV, passou a definir explicitamente como
"heresia" a escravidão dos índios e a violência dos colonos contr.t os jesuítas.
Escrevendo ao amigo, padre André Fernandes, diz que os jesuítas vivem no
Maranhão e Grão-Pará"[ ... ] um inferno abreviado".78 Em carta de 20 de abril
de 1657 para o novo rei, D. Afonso VI, é terrível a afirmação sobre os dois
milhões de índios mortos pelos portugueses. Na data, o rei tinha 14 anos e
pode-se supor que efetivamente se dirigia à regente, a rainha-mãe D. Luísa de
Gusmão, e ao Conselho Ultramarino. Ele ere valido da rainha e provavelmente
esperava medidas favoráveis que viessem reforçar sua autoridade:
Em espaço de quarenta anos se mataram e se destruíram por esta costa e sertões mats
de dois milhões de índios. e mais de quinhentas povoações como grandes cidades. e
disto nunca se viu castigo [ ... ] no ano de mil, seiscentos e cincDl'nta e cinco. se
cativaram no rio das Amazonas dois mil índios, entre os quais muitos eram amigos e
aliados dos portugueses, e vassalos de V. M., tudo contra a d1sposição da lc1 que \cio
naquele ano a este Estado, e tudo mandado obrar pelos mesmos que unham maior
obrigação de fazer observar a mesma lei.29
Enquanto essas tiranias ocorriam no Maranhão, diz, não houve ninguém.
secular ou religioso, que zelasse pela salvação das almas dos índios, que foram
para o inferno. Por isso, vê nos adversários dos jesuítas a instigação do demô-
nio "[ ... ] para impedir o bem espiritual tanto dos portugueses como dos índios.
que uns com os outros se iam ao inferno". O que contraria radicalmente a
destinação divina de Portugal como nação universalizadora da cristandade:
Os outros reinos da cristandade [ ... ] têm por fim a conservação dos vassalo • em
ordem à felicidade temporal nesta vida, e à felicidade eterna na outra: o reino dc.-
Portugal, de mais deste fim universal a todos, tem por fim particular e própno a
propagação e a extensão da f6 católica nas terras dos gentios, para que Deus o levan-
tou e instituiu; e quanto Portugal mais se ~tar com este fim. tanto maJs t'Crta e
segura será sua conservaçlo; e quanto mais se desviar dele tanto maJ duVIdosa c
arriscada. 30
LXVII Ao roi D. Joio IV. l6S4. aWU•, an CGnias, I. l, e1L, pp 416-417.
l.XXVL AD padrt A1ltW ~ II$5G ('r OD: Cartas. t I, c:iL, p 4S9
JJCXVU. Ao rei D Atba$0 W. tCíll .U ~ fllt. Qlrfa.r, t I. et~. p 468
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SE. 'ÓES
ema que escre,eu para o
o rei • ·a carta. acusa tam-
da proibição de escravizar
leiS d~ V \I , e porque damo' tonta a V M dos excessos com
dc;pr~zJd , e porque ~tenJemch a lthcrdade e JUsttç.l do' mrser~v~rs fndrns
cu t < e qu de rr ,. o wnvert~ndn, t' sobretudo porque \Oillm c\turvo ao'
C'lul•·
IHJin ll' til\ f·,,,,o 1 1 111, p '\K/
Eml~.v~r•·~~~-.-.all
é indicativo de que IÍBdlea•ilo·---~-.11
porém. e. quandodeeidiu irpla:aPIItit.flflllldM
pelos colonos de Bel6m.
Ao voltar derrotado para Portugal. o SadiO Olfeió '1fji11Jilfl~ lira,~· ·
inquiri-lo sobre suas profecias baseadas nas Tmwudo BuiJaitat*!lailll~t
na carta para o bispo do Japão. Encerrando o ctclo du mlu&s ao
~Iaranhão. para onde nunca mais voltaria, em 6 de janeu-o de 1662 ieira
pregou o !.ermão que é, como diz Thomas Cohen em um livro mag111fic:o, o
mais importante que jamais pregou sobre o Brasil.33 o .. Sermlo da Epifa-
nia ... :\ele transparece sua ira e, simultaneamente. a firme detenninaçio
cristã de incluir os colonos que expulsaram os jesuítas do Maranhão e Grão-
Pará no projeto salvífico por meio de uma nova tentativa de conciliaçio.
Com ela_ ao mesmo tempo dissolve as resistências e reforça a justiça alegada
da sua posição. No exórdio, afirma que está mudo e que será o E~·angelho
que falará por ele. A data da Epifania comemora o mistério da vocação e
a conversão dos gentios à Fé. Segundo Vieira, até o dia em que está pre-
gando, a Igreja comemorou, na data, o nascimento de Cristo. No dia em
que prega, diz, a data celebra o nascimento da Cristandade. E ta resulta da
incorporação do ovo Mundo descoberto por Portugal à missão jesuítica.
a data também se comemora a humanidade de Cri to visitado pelos três
reis magos . Citando o texto bíblico e intérpretes. Vieira afirma que eram
três porque representavam a Ásia, a África c a Europa, mas não a Améri-
ca, que faltava na adoração de Deus. O quarto rei c~perado é o que traz a
América para Cristo. É um rei português. ou melhor, a "pcs oa mfstica"
que foi encarnada por grandes reis portugueses dos séculos XV e XVI, D
João 11. D. Manuel c D. Joüo llJ: "Para melhor intcligênda desta duas
vocações. ou destas duas Epifanias, havemos de supor que ne te me mo
mundo l'tn diferentes tempos houve dois mundos: o Mundo Velho. que co-
11 l'hom.,, Coht:n, " I h~· t t'~ llll'i nl l•tuphan) , \ll1 Ih,. ,.,,... o/ lu11111' nldltle ltrhtt •*
Mn\lnnmv c ltmt 11 ltl u,,, 1l u11,J l'.ut•"i ••l (\1 nlunJ, Cahfórnta tanford UDi.WI'Iify
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SE. 'ÓES
ema que escre,eu para o
o rei • ·a carta. acusa tam-
da proibição de escravizar
leiS d~ V \I , e porque damo' tonta a V M dos excessos com
dc;pr~zJd , e porque ~tenJemch a lthcrdade e JUsttç.l do' mrser~v~rs fndrns
cu t < e qu de rr ,. o wnvert~ndn, t' sobretudo porque \Oillm c\turvo ao'
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Eml~.v~r•·~~~-.-.all
é indicativo de que IÍBdlea•ilo·---~-.11
porém. e. quandodeeidiu irpla:aPIItit.flflllldM
pelos colonos de Bel6m.
Ao voltar derrotado para Portugal. o SadiO Olfeió '1fji11Jilfl~ lira,~· ·
inquiri-lo sobre suas profecias baseadas nas Tmwudo BuiJaitat*!lailll~t
na carta para o bispo do Japão. Encerrando o ctclo du mlu&s ao
~Iaranhão. para onde nunca mais voltaria, em 6 de janeu-o de 1662 ieira
pregou o !.ermão que é, como diz Thomas Cohen em um livro mag111fic:o, o
mais importanteque jamais pregou sobre o Brasil.33 o .. Sermlo da Epifa-
nia ... :\ele transparece sua ira e, simultaneamente. a firme detenninaçio
cristã de incluir os colonos que expulsaram os jesuítas do Maranhão e Grão-
Pará no projeto salvífico por meio de uma nova tentativa de conciliaçio.
Com ela_ ao mesmo tempo dissolve as resistências e reforça a justiça alegada
da sua posição. No exórdio, afirma que está mudo e que será o E~·angelho
que falará por ele. A data da Epifania comemora o mistério da vocação e
a conversão dos gentios à Fé. Segundo Vieira, até o dia em que está pre-
gando, a Igreja comemorou, na data, o nascimento de Cristo. No dia em
que prega, diz, a data celebra o nascimento da Cristandade. E ta resulta da
incorporação do ovo Mundo descoberto por Portugal à missão jesuítica.
a data também se comemora a humanidade de Cri to visitado pelos três
reis magos . Citando o texto bíblico e intérpretes. Vieira afirma que eram
três porque representavam a Ásia, a África c a Europa, mas não a Améri-
ca, que faltava na adoração de Deus. O quarto rei c~perado é o que traz a
América para Cristo. É um rei português. ou melhor, a "pcs oa mfstica"
que foi encarnada por grandes reis portugueses dos séculos XV e XVI, D
João 11. D. Manuel c D. Joüo llJ: "Para melhor intcligênda desta duas
vocações. ou destas duas Epifanias, havemos de supor que ne te me mo
mundo l'tn diferentes tempos houve dois mundos: o Mundo Velho. que co-
11 l'hom.,, Coht:n, " I h~· t t'~ llll'i nl l•tuphan) , \ll1 Ih,. ,.,,... o/ lu11111' nldltle ltrhtt •*
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..__,,_ "''m ""'·''o do> nm·a~nte convem dos, e à vísla dos ~~iosii6Dilrllse.J!IIII•~
o dos autores. e e~ecutores destes ~ tmlaS vaes,.
úrm& • •· 11, ar., p. S.
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o dos autores. e e~ecutores destes ~ tmlaS vaes,.
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SERM6F.S
rqo tradal ~ causa~ do cauve1ro licito Mas porque nós queremos s6 os lfcifot,
deléndetnos (pr01b1mo ) os Jlfc•tos, por 1sso nos nAo querem naquela terra, e
la amd la
Quais são os •·remédios" propostos? "O primeiro e fundamental de
era que aquelas terras fo sem povoadas com gente de melhores COIItiiiiDeiL~
\WJadeiramentc cristã.''" Aqui, critica a colonização portuguesa corndeál:i
d .. do , demon trando a contradição existente no fato de o regimento doa
. ernadores detennínar que a" ida dos portugueses deve ser honesta pa
~ exemplo na conv rsão dos índios e, ao mesmo tempo"[ .•. ] os ~roadM
man am par:1 as mesmas terras são os criminosos e malfeitores
do f Jo das enxo ias. e levados a embarcar em grilbaes".•
o .. ro "remédio" é "[ ... ] a boa eleição dos sujeitos a quem se
·· ·nda. "[ .] é que as congregações eclesiMticas daGiedfeàMi
e is sujeitos. que saibam dizer a verdadeeqa~a·a•
. 'que todos [os remédios} que l'on!:aUIIISC!e .. ill•dl
c I ra daquelas almas, se lhes devem nios6tdlll
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SERM6F.S
rqo tradal ~ causa~ do cauve1ro licito Mas porque nós queremos s6 os lfcifot,
deléndetnos (pr01b1mo ) os Jlfc•tos, por 1sso nos nAo querem naquela terra, e
la amd la
Quais são os •·remédios" propostos? "O primeiro e fundamental de
era que aquelas terras fo sem povoadas com gente de melhores COIItiiiiDeiL~
\WJadeiramentc cristã.''" Aqui, critica a colonização portuguesa corndeál:i
d .. do , demon trando a contradição existente no fato de o regimento doa
. ernadores detennínar que a" ida dos portugueses deve ser honesta pa
~ exemplo na conv rsão dos índios e, ao mesmo tempo"[ .•. ] os ~roadM
man am par:1 as mesmas terras são os criminosos e malfeitores
do f Jo das enxo ias. e levados a embarcar em grilbaes".•
o .. ro "remédio" é "[ ... ] a boa eleição dos sujeitos a quem se
·· ·nda. "[ .] é que as congregações eclesiMticas daGiedfeàMi
e is sujeitos. que saibam dizer a verdadeeqa~a·a•
. 'que todos [os remédios} que l'on!:aUIIISC!e .. ill•dl
c I ra daquelas almas, se lhes devem nios6tdlll
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Ro 1 • 1669-1675
P.tra fins de te texto. bata dizer qu'. em Roma, Vieira freqUentou o
P la 10 RrJri >. d.~rainha Cri tina da Suécia, pas ando a pregarem italiano a partir
d I T!. Em I 6 7·t, na Acad mia Real de Roma c no Palácio de Cristina da Suécia,
pr po e um problema· se o mundo em mais digno de ri o ou de lágrimas; e qual
do dor and.tíJ ma1~ pmdente, · Demócrito. que ria sempre, se Heráclito, que
cmpr chor~na . Vierra cnt .to pregou o scnnão "As lágrimas de Heráclito",
cncendn o prcgad(lr itali,lf1o (ii rolamo Cattaneo, autor do sennão "O riso de
D m ' nto" Era lamo'Í'\ irno, ma' seu principal ohjctívo na cidade era livrar-se
dajuri,drç<~o da lnqur"ilrao portuguc a. Em 17 de ahril de 1675, o papa Clemente
I ·concedeu Ih•' um hrc\'t.: que o lr Ha\a do tribunal c o absolvia de todas aa
r·stnçix:s c penas. ·,10 quis ficar em Roma c, em agosto de 1675, chegava
nov.tm ·r11e .1 Li hoa Ainda acred itava ser capaz de influenciar a Corte em favor
dos cristãos· no~ os contr.t .t lnqUI. ição, quarta entidade que, sem ser fome, peste
nc.m gucna. L,tu. a\ a calarmdadcs rgualmcntc lastimosas no comum e particular do
rcrno, comocscrc\cu em 1690 .to conde de Ca tela Melhor." Mais uma vez, sem
succs~o. I>. Pedro o ignorou, mantendo-o a distância. Quando voltou para o
em 1681. em a sétima c últtma vct quL' atravessava o Atlântico.
nla an ( "ndc rl ( 'a ,tclu Mdhor [600, JU[ho 15", em Cartas, I [JI, c:il, p. 593.
JC una M nuel
a ( ta apre entaram a D. Ped um proJ t d perd ra n -
-n v . Como condi ã para o me mo. C d 1 rmm u qu o ri
tão -novo de riam financiar Companhi P nugu d Índi On ntats.
Companhia ra um elh projeto de 1 ira49 e Antônio Corret Bra • Pedro
Álvare Caldas e Manuel da Gama de Pádua, riquí imos merciant s cri
tãos-novo • dispuseram-se a financtá-1 Em Li boa, ontudo, aumenta a
murmuração popular contra os jud us. Uma c n piração am a ou Pedro,
em 1673, com o retomo de D. Afonso I, enta ilado na ad 1ra. Correram
boatos de que era apoiada por cristãos-novos Em 1674. as Corte de Li boa
opuseram-se ao perdão geral e fizeram a Coroa d istir do projeto da Comp -
nhia das Índias. Os comerciantes cristãos-novos ainda tentaram bt r o fa'<or
do papa, oferecendo 500.000 cruzados à Cúria romana para a guerra da Polôma
contra os turcos otomanos. Nesse ano, o papa determinou a suspen o dos
autos-da-fé, exigindo que a Inquisição mandasse para Roma uma compilação
dos processos para exame de suas atividades. Apesar da ordem papal, o prín-
cipe D. Pedro proibiu o inquisidor-geral de remeter os papéis A murmura ã
da plebe aumentou e pasquins infamantes circularam: "Quem deseJar ser JU-
deu, herege, sodomita, e casar três vezes, vá falar com o padre Manuel
Fernandes, confessor de Sua Majestade, e com Manuel da Gama de Pádua e
Pedro Álvares Caldas, que tem bulas do padre Quental para tud As Con
de 1679-1680 infonnaram a D. Pedro seu desejo de que o Santo Ofk1o reto-
masse as práticas suspensas. Em 1680, morreu Manuel da Gama de Pádua, o
comerciante que havia conseguido interessar a C6ria romana pela c usa c
ti-nova. Manuel Fernandes demitiu-se da fUnçlo de CODfeuor real. obede
cendoaoOeralda ompanhiadeJesva. Eina&Oifocfe le&l,opapa restabeleceu
a Inquiaiçlo em Portugal. Nesse ano e no soptnte.. muit.oa c:omercíante& cri
tios-novos foram presos. Bm 1682, D. P~emf.Jsboa um pode
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Ro 1 • 1669-1675
P.tra fins de te texto. bata dizer qu'. em Roma, Vieira freqUentou o
P la 10 RrJri >. d.~rainha Cri tina da Suécia, pas ando a pregarem italiano a partir
d I T!. Em I 6 7·t, na Acad mia Real de Roma c no Palácio de Cristina da Suécia,
pr po e um problema· se o mundo em maisdigno de ri o ou de lágrimas; e qual
do dor and.tíJ ma1~ pmdente, · Demócrito. que ria sempre, se Heráclito, que
cmpr chor~na . Vierra cnt .to pregou o scnnão "As lágrimas de Heráclito",
cncendn o prcgad(lr itali,lf1o (ii rolamo Cattaneo, autor do sennão "O riso de
D m ' nto" Era lamo'Í'\ irno, ma' seu principal ohjctívo na cidade era livrar-se
dajuri,drç<~o da lnqur"ilrao portuguc a. Em 17 de ahril de 1675, o papa Clemente
I ·concedeu Ih•' um hrc\'t.: que o lr Ha\a do tribunal c o absolvia de todas aa
r·stnçix:s c penas. ·,10 quis ficar em Roma c, em agosto de 1675, chegava
nov.tm ·r11e .1 Li hoa Ainda acred itava ser capaz de influenciar a Corte em favor
dos cristãos· no~ os contr.t .t lnqUI. ição, quarta entidade que, sem ser fome, peste
nc.m gucna. L,tu. a\ a calarmdadcs rgualmcntc lastimosas no comum e particular do
rcrno, comocscrc\cu em 1690 .to conde de Ca tela Melhor." Mais uma vez, sem
succs~o. I>. Pedro o ignorou, mantendo-o a distância. Quando voltou para o
em 1681. em a sétima c últtma vct quL' atravessava o Atlântico.
nla an ( "ndc rl ( 'a ,tclu Mdhor [600, JU[ho 15", em Cartas, I [JI, c:il, p. 593.
JC una M nuel
a ( ta apre entaram a D. Ped um proJ t d perd ra n -
-n v . Como condi ã para o me mo. C d 1 rmm u qu o ri
tão -novo de riam financiar Companhi P nugu d Índi On ntats.
Companhia ra um elh projeto de 1 ira49 e Antônio Corret Bra • Pedro
Álvare Caldas e Manuel da Gama de Pádua, riquí imos merciant s cri
tãos-novo • dispuseram-se a financtá-1 Em Li boa, ontudo, aumenta a
murmuração popular contra os jud us. Uma c n piração am a ou Pedro,
em 1673, com o retomo de D. Afonso I, enta ilado na ad 1ra. Correram
boatos de que era apoiada por cristãos-novos Em 1674. as Corte de Li boa
opuseram-se ao perdão geral e fizeram a Coroa d istir do projeto da Comp -
nhia das Índias. Os comerciantes cristãos-novos ainda tentaram bt r o fa'<or
do papa, oferecendo 500.000 cruzados à Cúria romana para a guerra da Polôma
contra os turcos otomanos. Nesse ano, o papa determinou a suspen o dos
autos-da-fé, exigindo que a Inquisição mandasse para Roma uma compilação
dos processos para exame de suas atividades. Apesar da ordem papal, o prín-
cipe D. Pedro proibiu o inquisidor-geral de remeter os papéis A murmura ã
da plebe aumentou e pasquins infamantes circularam: "Quem deseJar ser JU-
deu, herege, sodomita, e casar três vezes, vá falar com o padre Manuel
Fernandes, confessor de Sua Majestade, e com Manuel da Gama de Pádua e
Pedro Álvares Caldas, que tem bulas do padre Quental para tud As Con
de 1679-1680 infonnaram a D. Pedro seu desejo de que o Santo Ofk1o reto-
masse as práticas suspensas. Em 1680, morreu Manuel da Gama de Pádua, o
comerciante que havia conseguido interessar a C6ria romana pela c usa c
ti-nova. Manuel Fernandes demitiu-se da fUnçlo de CODfeuor real. obede
cendoaoOeralda ompanhiadeJesva. Eina&Oifocfe le&l,opapa restabeleceu
a Inquiaiçlo em Portugal. Nesse ano e no soptnte.. muit.oa c:omercíante& cri
tios-novos foram presos. Bm 1682, D. P~emf.Jsboa um pode
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SERMÕES
auto-da-f,~ para o qual foram levados prisioneiros de outras cidades de Portu-
gal. Em Coimbra. estudantes arruaceiros queimaram um boneco vestido de
jesuíta, declarando que era Vieira. judeu vendido para judeus. Em 1681, ele
tinha retomado para a Bahia, "deserto", "desterro", "purgatório", como tantas
vezes repele nas cartas que escreveu da Quinta do Tanque, uma chácara onde
os jesuítas aclimatavam plantas da África e da Ásia em Salvador.
Desse deserto ou desterro, entre 1681 e 1694, enviou muitas cartas para
a Europa pelas frotas anuais. São cartas deliberativas e judiciais, familiares e
negociai . tratando dos assuntos particulares e públicos do império: a crise da
economia açucare1ra; a seca: a fome; o cometa; a "bicha", a febre amarela
vinda nos navios negreiros. Data de 1683 seu conflito com o governador Antô-
nio de Sousa de .!\.Ieneses. o ''Braço de Prata". O governador tinha perdido um
braço na guerras pernambucanas aos holandeses. e costumava trazer, sob o
casaco. um braço artificial de prata amarrado ao pescoço. Vieira o chamou.
ma]\'adamente, de ·'meio homem". Na ocasião, o alcaide de Salvador foi as-
sas i nado por mascarados em uma manhã de domingo, quando saía da missa.
Pertenciam ao clã de Vieira, pois eram homens de Bernardo Vieira Ravasco,
eu ;rmão e secretário do Estado do Brasil. Pesou sobre Vieira a suspeita de
ser mandante do crime. Indo a palácio para exigir outro tratamento do gover-
n dor. que mandara os soldados invadir a igreja onde os criminosos estavam
si lado e mantinha Bernardo preso, foi destratado por Sousa de Meneses, que
ao berros o pôs para fora do palácio. as cartas que então envia para amigos
da no reza, em Portugal. sua referência ao fato é altiva e irônica: lembrando
ter sido honrado nos ma cres palácios da Europa e da Nova Espanha, afirma
que fOI preciso voltar à Bahia para ser assassino de homens e ser expulso do
palácio loc ... l por um "meio homem". Também datam desse tempo suas medi-
ações e plenos para liYTar o irmão do cárcere e proteger o sobrinho, Gonçalo
Rava.;co de Albuquerque Cavalcante, refugiado na Corte, da fúria do gover-
nador.
, ·o ermão quepregaem 1684nasexéquias darainha,D.MariaFrancisca
Isabel de Sabóia, o maior e)ogio da defunta que sempre o desprezou tem uma
ponta atre• idíssima de desdém irônico também observável na sua correspon-
êncra para o conde da Ericeira. Em 1690 e 1692, opôs-se aos habitantes de
S 'J Paulo no negócio dos índios. Em 1694, emitiu parecer sobre dezesseis
ú~ ida que tinham acerca da administração do gentio, dando voto contrário a
eles. Ind1gnado com o descimento de indígenas, escreve a D. Pedro li Tr"'""""u-c·"'
das redu-õcs je uíticas. Defende mais uma vez a velha posição da CCIIDJ~8IID1l~
con r o bandeirante de São Paulo. que continuavam assaltando as
52
JOÃO ADOLFO HANSE:-.1
jesuíticas do Sul, como tinham feito nas reduções espanholas do Guairá no
início do século XVII:
( .. . ]não duvidei escrever a EJ-re1, pai de S. M .. que tanto podia ele pôr lei aos índ1os
como aos mglescs e franceses; e, querendo-me argumentar dcpo1s em contrário em
presença do Marquês de Gouve1a, o Conde de Soure. Prestdentc do Conselho Ultra·
marino.lhe d1sse eu que os fnd1os eram mais livres que S Sas.. porque eles ao menos
nasceram vassalos, e os fndios não, e eram lão absolutos senhores de suas liberdades
como das suas terras."'
Na mesma época, contudo, outro jesuíta, o padre vi itador Luís Mami:mi,
quando fez seu relatório sobre o colégio de São Paulo. informou que nas fazen-
das dos jesuítas não havia distinção na divisão das tarefas entre os quase 300
índios e as várias dezenas de escravos africanos. Mamiani concluía então que
80% da renda do colégio vinham do trabalho indígena. 51 Em 1696, o rei deu
razão aos paulistas. Em 1694, em uma carta geral para a nobreza de Portugal.
Vieira se havia despedido do grande teatro do mundo. Ressuscitado das cinzas
de Coimbra, ainda retocaria a arte de morrer até 17 de julho de 1697, esperan-
do o favor real, que nunca veio.
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SERMÕES
auto-da-f,~ para o qual foram levados prisioneiros de outras cidades de Portu-
gal. Em Coimbra. estudantes arruaceiros queimaram um boneco vestido de
jesuíta, declarando que era Vieira. judeu vendido para judeus. Em 1681, ele
tinha retomado para a Bahia, "deserto", "desterro", "purgatório", como tantas
vezes repele nas cartas que escreveu da Quinta do Tanque, uma chácara onde
os jesuítas aclimatavam plantas da África e da Ásia em Salvador.
Desse deserto ou desterro, entre 1681 e 1694, enviou muitas cartas para
a Europa pelas frotas anuais. São cartas deliberativas e judiciais, familiares e
negociai . tratando dos assuntos particulares e públicos do império: a crise da
economia açucare1ra;a seca: a fome; o cometa; a "bicha", a febre amarela
vinda nos navios negreiros. Data de 1683 seu conflito com o governador Antô-
nio de Sousa de .!\.Ieneses. o ''Braço de Prata". O governador tinha perdido um
braço na guerras pernambucanas aos holandeses. e costumava trazer, sob o
casaco. um braço artificial de prata amarrado ao pescoço. Vieira o chamou.
ma]\'adamente, de ·'meio homem". Na ocasião, o alcaide de Salvador foi as-
sas i nado por mascarados em uma manhã de domingo, quando saía da missa.
Pertenciam ao clã de Vieira, pois eram homens de Bernardo Vieira Ravasco,
eu ;rmão e secretário do Estado do Brasil. Pesou sobre Vieira a suspeita de
ser mandante do crime. Indo a palácio para exigir outro tratamento do gover-
n dor. que mandara os soldados invadir a igreja onde os criminosos estavam
si lado e mantinha Bernardo preso, foi destratado por Sousa de Meneses, que
ao berros o pôs para fora do palácio. as cartas que então envia para amigos
da no reza, em Portugal. sua referência ao fato é altiva e irônica: lembrando
ter sido honrado nos ma cres palácios da Europa e da Nova Espanha, afirma
que fOI preciso voltar à Bahia para ser assassino de homens e ser expulso do
palácio loc ... l por um "meio homem". Também datam desse tempo suas medi-
ações e plenos para liYTar o irmão do cárcere e proteger o sobrinho, Gonçalo
Rava.;co de Albuquerque Cavalcante, refugiado na Corte, da fúria do gover-
nador.
, ·o ermão quepregaem 1684nasexéquias darainha,D.MariaFrancisca
Isabel de Sabóia, o maior e)ogio da defunta que sempre o desprezou tem uma
ponta atre• idíssima de desdém irônico também observável na sua correspon-
êncra para o conde da Ericeira. Em 1690 e 1692, opôs-se aos habitantes de
S 'J Paulo no negócio dos índios. Em 1694, emitiu parecer sobre dezesseis
ú~ ida que tinham acerca da administração do gentio, dando voto contrário a
eles. Ind1gnado com o descimento de indígenas, escreve a D. Pedro li Tr"'""""u-c·"'
das redu-õcs je uíticas. Defende mais uma vez a velha posição da CCIIDJ~8IID1l~
con r o bandeirante de São Paulo. que continuavam assaltando as
52
JOÃO ADOLFO HANSE:-.1
jesuíticas do Sul, como tinham feito nas reduções espanholas do Guairá no
início do século XVII:
( .. . ]não duvidei escrever a EJ-re1, pai de S. M .. que tanto podia ele pôr lei aos índ1os
como aos mglescs e franceses; e, querendo-me argumentar dcpo1s em contrário em
presença do Marquês de Gouve1a, o Conde de Soure. Prestdentc do Conselho Ultra·
marino.lhe d1sse eu que os fnd1os eram mais livres que S Sas.. porque eles ao menos
nasceram vassalos, e os fndios não, e eram lão absolutos senhores de suas liberdades
como das suas terras."'
Na mesma época, contudo, outro jesuíta, o padre vi itador Luís Mami:mi,
quando fez seu relatório sobre o colégio de São Paulo. informou que nas fazen-
das dos jesuítas não havia distinção na divisão das tarefas entre os quase 300
índios e as várias dezenas de escravos africanos. Mamiani concluía então que
80% da renda do colégio vinham do trabalho indígena. 51 Em 1696, o rei deu
razão aos paulistas. Em 1694, em uma carta geral para a nobreza de Portugal.
Vieira se havia despedido do grande teatro do mundo. Ressuscitado das cinzas
de Coimbra, ainda retocaria a arte de morrer até 17 de julho de 1697, esperan-
do o favor real, que nunca veio.
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CIIL71JRA E ()p(l/.tNCIA DO BRASIL
partes em que se subdivide antes de iniciarmos uma viagem mais detalhada etn
meio à forma c ao conteúdo deste livro
A primeira parte, "Cultura e opulência do Brasil na lavra do açúcar_
engenho real moente e con-ente", é dedicada ao açúcar. Subdivide-se em tJts
grandes núcleos de análise: a plantação e o fabrico do açúcar, os modos brasi ..
!eiras de se vender c comprar. Em seguida Antonil analisa o modo de preparar
a cana e todas a engrenagens de funcionamento e fabrico do engenho. E para
terminar esta unidade o autor detalha o modo de purgar o açúcar, os preços
amigos e moderno , retomando a história da produção do açúcar desde o plan--
tio da cana até as formas pelas quais o açúcar vai deixar o Brasil. O autor, na
part1: dedicada à produção do açúcar, analisa os problemas do engenho cotn
uma profundidade que não se repete nas outras partes do livro.
A ·egunda parte recebe o título de "Cultura e opulência do Brasil
la\ra do tabaco". A folha do tabaco é analisada levando em cottsi(iet'lllQi~
JANICE THEODORO DA SILVA
CulDAJX>S NA LBmJRA
Ao se produzir um texto para informar o leitor sobre uma obra como
Cultura e opul2ncia do Brasü, escrita por um estilista do porte do padre
André João Antonil, o maior perigo é supor ser possível resumir os temas
tratados no livro. Pode parecer simples relatar o que contém cada uma das
quatro partes em que se divide a obra e falar do açúcar, do tabaco, do ouro, do
gado e do couro. Milhares de escritores fizeram esse percurso-com maior ou
menor habilidade. Mas, apesar de uma produção intensa de estudos sobre a
economia colonial brasileira, sentimos necessidade de voltar a Antonil e ao
século XVII. Por quê?
Ter a capacidade de transpOrtar o leitor no tempo e recuperar a sensibi-
lidade dos séculos XVII e XVIII é tarefa que poucos couseguem realizar.
para penetrar no universo mental de Antonil é necessário lançar mio
mesmas ferramentas que ele utiliza: a língua e o estilo. Bssas são as cha-
que abrem as portas do dlfiago trazendo à tona a visão de tempo, a per-
do território e o conhecimento dos homens.
O mistério e a beleza dc;sse-toxto nio estão contidos apenas no conteúdo
livro. mas na tPnna come ti uamda a cultura e a opulência no Brasil
reproduziroteltO ~a sua e a sua aura &iste uma iBfi.Di..
4e escritos q ~ 1'e$lUIIÍdos porqae a mt:esar" aio
~·~ ~ um~~ ~~·o
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partes em que se subdivide antes de iniciarmos uma viagem mais detalhada etn
meio à forma c ao conteúdo deste livro
A primeira parte, "Cultura e opulência do Brasil na lavra do açúcar_
engenho real moente e con-ente", é dedicada ao açúcar. Subdivide-se em tJts
grandes núcleos de análise: a plantação e o fabrico do açúcar, os modos brasi ..
!eiras de se vender c comprar. Em seguida Antonil analisa o modo de preparar
a cana e todas a engrenagens de funcionamento e fabrico do engenho. E para
terminar esta unidade o autor detalha o modo de purgar o açúcar, os preços
amigos e moderno , retomando a história da produção do açúcar desde o plan--
tio da cana até as formas pelas quais o açúcar vai deixar o Brasil. O autor, na
part1: dedicada à produção do açúcar, analisa os problemas do engenho cotn
uma profundidade que não se repete nas outras partes do livro.
A ·egunda parte recebe o título de "Cultura e opulência do Brasil
la\ra do tabaco". A folha do tabaco é analisada levando em cottsi(iet'lllQi~
JANICE THEODORO DA SILVA
CulDAJX>S NA LBmJRA
Ao se produzir um texto para informar o leitor sobre uma obra como
Cultura e opul2ncia do Brasü, escrita por um estilista do porte do padre
André João Antonil, o maior perigo é supor ser possível resumir os temas
tratados no livro. Pode parecer simples relatar o que contém cada uma das
quatro partes em que se divide a obra e falar do açúcar, do tabaco, do ouro, do
gado e do couro. Milhares de escritores fizeram esse percurso-com maior ou
menor habilidade. Mas, apesar de uma produção intensa de estudos sobre a
economia colonial brasileira, sentimos necessidade de voltar a Antonil e ao
século XVII. Por quê?
Ter a capacidade de transpOrtar o leitor no tempo e recuperar a sensibi-
lidade dos séculos XVII e XVIII é tarefa que poucos couseguem realizar.
para penetrar no universo mental de Antonil é necessário lançar mio
mesmas ferramentasque ele utiliza: a língua e o estilo. Bssas são as cha-
que abrem as portas do dlfiago trazendo à tona a visão de tempo, a per-
do território e o conhecimento dos homens.
O mistério e a beleza dc;sse-toxto nio estão contidos apenas no conteúdo
livro. mas na tPnna come ti uamda a cultura e a opulência no Brasil
reproduziroteltO ~a sua e a sua aura &iste uma iBfi.Di..
4e escritos q ~ 1'e$lUIIÍdos porqae a mt:esar" aio
~·~ ~ um~~ ~~·o
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CULTURA E OPULlNCIA DO BRASIL
Observem. aci ma de tudo. o estilo capaz de despertar no leitor vúi
. ·t- d nem stlmpre po~síveis de ser descritos. Ao falar das ativi
q_;m rca o. · .
- , de.en\ oh·em no engenho o mestre do !lçúcar, o banquerro e o ajuda-que . , • , • u~ir . :\n toni 1 conjuga a a ti v idade desempenhada com pnnc1p1os etiCos e
0
quai. d~vem nortear a conduta de cada personagem citado na obra.
conjugação é fctta com muito engenho, de tal forma que o relato de An
obre
0
processo da produção de açúcar não apaga a presença de homens q
atuam de forrna equilibrada ou cruel, justa ou injusta, verdadeira ou hi~
A JU'>IlÇ c v rd Je os obngam a não misturar o açúcar de um lavrador com o do
outro; e por1 ;o. nas formas que manda pôr no tenda!. façaquehajasinalcomquese
possam d1<:mgUJr das outras que pertencem a outras donos para que o meu c o teu.
JOJmJgos da paz. não ;ejam causa de bulhas. E. para que sua obra seja perfctta. tenha
~:><>a corre- pondência com o feitor da moenda, que lhe envia o caldo. com o banqucU'O
c ;otobanque1ro. que lhe sucede de noite no oficio, e com o purgadordo açúcar, para
que \ cJ:unJuntamente donde nasce o purgar bem ou mal em as fonnas, c sejam entre
,I como os olho. que igualmente vigiam e como as mãos que unidamente trabalham.~
PRIMEIRA PARTE
CULTI:RA E OPULÊNCIA DO BRASIL NA LAVRA
00 AÇl'CAR -ENGENHO REAL MOENTE E CORRENTB
1 a primeira parte do livro o autor trata do capital (cabedal) que o
de engenho necessita para possuir um engenho real. Além dos lavradores.
arrendam terra. o senhor depende da escravaria e de boa capacidade de.
\Crno para adrninistr .
O investimento para a montagem de um engenho é tão grande que
alerta sobre o ri. co que alguns homens presunçosos enfrentam ao
engenhocas e emprestar dinheiro. Muitos, diz ele, perdem tudo: logo
safra se vi:em desprovidos de condição para pagar as dívidas assumidas.
têm mats juízo prderem er lavradores, ainda que tenham sob suas ordens.
ou quarenta escravos A capacidade de agenciar tudo, da terra aos
· ct, "'' . incluindo arrendaml.!nlos e manutenção do engenho, é rara.
1 rat,mdo de temas que di7em respeito à montagem da economia
no Bras ti, Antonil oscila entre uma admirável capacidade de avaliar
11.1111, I' X6
JANICB TIIBOOORO DA SILVA
mente o empreendimento e. ao mesntotempo perceber a&~ dos
homens. E, em meio a asa pereepçio, ainda conj1rJa ama aguçada &elllibüi·
dade para os pequenot problemas~
Nem detxe os papas c as CICI'Ü1J1'U ctae tem na ema da 1lldlber 011 SCible a...,..
exposta ao pó, ao vento, à traÇa c ao<et~pDD, para que depois nlo -.fa ~
mandar dizer muitas IDJSSIS a Santo Ati(Opio paraacbar algum papel ~que
desapareceu. quando houvcrmisterde-..Jo. .Ponptc lbe~'Piaaidou
serva ure duas ou tres folhas da caixacfascnbora pn embrulhar com aocpe 1llli
lhe agradar; e o filho mais pequeoo dmt tamNm aJpmu da .-.. ,... piollt'
caretas. ou para fazer banjuinhos de prapcJ. em que aavepem IIICISCII ~ ou
finalmente, o vento fart com que V0$!1ibra ela cata se111 pena.
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CULTURA E OPULlNCIA DO BRASIL
Observem. aci ma de tudo. o estilo capaz de despertar no leitor vúi
. ·t- d nem stlmpre po~síveis de ser descritos. Ao falar das ativi
q_;m rca o. · .
- , de.en\ oh·em no engenho o mestre do !lçúcar, o banquerro e o ajuda-que . , • , • u~ir . :\n toni 1 conjuga a a ti v idade desempenhada com pnnc1p1os etiCos e
0
quai. d~vem nortear a conduta de cada personagem citado na obra.
conjugação é fctta com muito engenho, de tal forma que o relato de An
obre
0
processo da produção de açúcar não apaga a presença de homens q
atuam de forrna equilibrada ou cruel, justa ou injusta, verdadeira ou hi~
A JU'>IlÇ c v rd Je os obngam a não misturar o açúcar de um lavrador com o do
outro; e por1 ;o. nas formas que manda pôr no tenda!. façaquehajasinalcomquese
possam d1<:mgUJr das outras que pertencem a outras donos para que o meu c o teu.
JOJmJgos da paz. não ;ejam causa de bulhas. E. para que sua obra seja perfctta. tenha
~:><>a corre- pondência com o feitor da moenda, que lhe envia o caldo. com o banqucU'O
c ;otobanque1ro. que lhe sucede de noite no oficio, e com o purgadordo açúcar, para
que \ cJ:unJuntamente donde nasce o purgar bem ou mal em as fonnas, c sejam entre
,I como os olho. que igualmente vigiam e como as mãos que unidamente trabalham.~
PRIMEIRA PARTE
CULTI:RA E OPULÊNCIA DO BRASIL NA LAVRA
00 AÇl'CAR -ENGENHO REAL MOENTE E CORRENTB
1 a primeira parte do livro o autor trata do capital (cabedal) que o
de engenho necessita para possuir um engenho real. Além dos lavradores.
arrendam terra. o senhor depende da escravaria e de boa capacidade de.
\Crno para adrninistr .
O investimento para a montagem de um engenho é tão grande que
alerta sobre o ri. co que alguns homens presunçosos enfrentam ao
engenhocas e emprestar dinheiro. Muitos, diz ele, perdem tudo: logo
safra se vi:em desprovidos de condição para pagar as dívidas assumidas.
têm mats juízo prderem er lavradores, ainda que tenham sob suas ordens.
ou quarenta escravos A capacidade de agenciar tudo, da terra aos
· ct, "'' . incluindo arrendaml.!nlos e manutenção do engenho, é rara.
1 rat,mdo de temas que di7em respeito à montagem da economia
no Bras ti, Antonil oscila entre uma admirável capacidade de avaliar
11.1111, I' X6
JANICB TIIBOOORO DA SILVA
mente o empreendimento e. ao mesntotempo perceber a&~ dos
homens. E, em meio a asa pereepçio, ainda conj1rJa ama aguçada &elllibüi·
dade para os pequenot problemas~
Nem detxe os papas c as CICI'Ü1J1'U ctae tem na ema da 1lldlber 011 SCible a...,..
exposta ao pó, ao vento, à traÇa c ao<et~pDD, para que depois nlo -.fa ~
mandar dizer muitas IDJSSIS a Santo Ati(Opio paraacbar algum papel ~que
desapareceu. quando houvcrmisterde-..Jo. .Ponptc lbe~'Piaaidou
serva ure duas ou tres folhas da caixacfascnbora pn embrulhar com aocpe 1llli
lhe agradar; e o filho mais pequeoo dmt tamNm aJpmu da .-.. ,... piollt'
caretas. ou para fazer banjuinhos de prapcJ. em que aavepem IIICISCII ~ ou
finalmente, o vento fart com que V0$!1ibra ela cata se111 pena.
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n I /1 H.\ 1 OI' I Lf"'c ftl /10 BRA SI/.
001
llllll 0 que é de outro o purgador deve saber quando o a?úcar está ~nxu
c qtw~ .~o 0 " 11 ,11 , de purgat hem. De\ e saber também evttar que suJem
t.lll<Jlft· dl· md c aluw·ntar o tl)orccgos que s~o a pra~a consta~te de todas
l.t . 1 ~ t.k pur~a1 () l·a• \<:Íro é aquele que encatxa o açucar dcpots de purgado
1 .ua f un\<to mandar 1 ir.JT da fôrmas, assistir quando se ma cava e guardá-lo
c111 lur.;11 t•ro. Cabe .1 c1 • também pesar c repartir entre o senhor de engenho
1 0 · J.1vtiHlom·s h cahc .unda ao purgador tirar o dízimo c a vintena ou quinto
qu1 p.1g.un m qul' I.Jvr.tm em terras do engenho c que entregam a caixas para
I) l'lllh.ll<jllt'.
M.t·. o IIIJJPJ dc\alio para quem comanda tão grande empresa é pôr em
p 11 ,, todo . unpcduulo ,, discórdia. Trahalho árduo em terra onde os homens
.111 m.u~ dtc •.1do ao sangue do que a caridade
O nhor do engenho e os escravos
/\ H'l.t~·.to do~ ~enhores de engenho com seus escravo
c1 n d,t n:ononu.1 colonial no Brasil. Antonil refere-se a essa relação
nHHIJ propncduc.k ''Os c'cravos são as mão~ e os pés do senhor de engenho,
pnrqut• sem ck·' JJnllrasil não é po sívclfazer, con enar e aumentar fazenda,
n •rn lt'J l'll!'Cnho corrente" .'•
\ntond uuci.1 o seu rcl.rto camcterizando a diferença dos escravo
p.utJr d.ts na~ck' de que sao 011 •inano: Sao Tomé. Angola, Cabo Verde
\h><;.nnhtqul' P.n.t ele o. que nJ,~:cmm no Bra ai sao os mai industrio os
kndn pcll qu,tllo h!x.m". Os mul.uo , egundo o autor, ao os que têm
' "'"' Drtum p1merhac' d.1 éJJIK.t catado na ohra qu "o Brasil é o inferno
lll' •r os, pun•.JtnrJc> dm bran~·o c p.u-aí o do mulaws c da mulatas".
lt~Jtoll mulut,Js o.tutnr wnsidL·r.t petdi~.to mantk\t,t porque. em geral, diz
rnmt• 'llt'lll .tlrbcJdo~dc ;, i: lista do l·urpn. de r ·retido~ peGtdos, c me mo
Jl'lllt<'' ,,, lll' •rJs lllx·tt,ts n>ll llllll.tlll .1 ~cr .1tum.1 J ·muito .1
\ l'Slt.t\ id.tlllt.lo L' roloç,tda em 411C,t.to l'lll momento algum do tcx~
cnnlr,IJtP \ntuml ~ • Jt•fcrl.' .trmp•lll:incJa do tt.th.tlho · cr.tvo para
•lÇllt.llt:it .l ,S,•gtlllld\l l'SSC JlCIClll SO. an.tli~a ,1 import:incia do U t nto
'·stllllcnta • da nuxkr.tç.rn do tr.tl'.tlho, de tal fonna que o scravos
·•t.llr.u. \l\ c r c pl.mt.ll su.Js t\ ç.t~ que llws d,1ràc1 sustento." oBra il,
dt l~r quL' 1 ;11,1 o ··~c r,l\ n <In llt'C<'ssarios lr~s PPP. a aber, pau, p1o c pano.
JA ICB 1'ti8000RO DAS
O castigos devem ocorrer, mas de forma moderada, sem fmper.o vinga
u 0 , abrindo a possibilidade do pen!lo, perdlo que possa impedir a fuga ancon-
veniente para o senhor. É necessário, diz Antonil, que dê a elos espaço para
folguedos, porque assim sentirio alfvlo do cativeiro, evitando- o d o
e a melancolia que, muitas vezes os levam à morte.
o que se deve evitar nos engenhos é a bebida feita com garapa azeda ou
água ardente, substituindo-as por garapa doce que nio causa dano.
Governo da famflia e hospitalidade
Se é difícil controlar os escravos, nlo mais fácil o go o da famllia.
Diz Antonil: "Mau é ter nome de avarento, mas nlo 6 glória dtgna de louvor o
ser pródigo".9 Ter os filhos no engenho é criá-los incapazes d con ar
bre outra coisa que cão, cavalo ou boi. Deixá-los na cidade 6 faoilitar o contat
com doenças vergonhosas e com os víctos. Tamb6m nlo dev onsentir
que a mãe lhes mande dinheiro, ainda que secretamen porqu o dinheiro
poderá os conduzir ao jogo e à vida Mcil. O melhor ensino 6 o bom e mpfo
dos pais.
A hospitalidade tanto ele b6tpodea 001110 de- 01 d uma açlo rt6l e uma
VIrtude crlatl, o no Btllll.mallO•••~tQI-r-petque faltudo fora da. lido
as estalaaone. vlo nte dllrCOIIJI&o nos enaeuhol todos
ordlnariamODIO acham de clltllletro
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n I /1 H.\ 1 OI' I Lf"'c ftl /10 BRA SI/.
001
llllll 0 que é de outro o purgador deve saber quando o a?úcar está ~nxu
c qtw~ .~o 0 " 11 ,11 , de purgat hem. De\ e saber também evttar que suJem
t.lll<Jlft· dl· md c aluw·ntar o tl)orccgos que s~o a pra~a consta~te de todas
l.t . 1 ~ t.k pur~a1 () l·a• \<:Íro é aquele que encatxa o açucar dcpots de purgado
1 .ua f un\<to mandar 1 ir.JT da fôrmas, assistir quando se ma cava e guardá-lo
c111 lur.;11 t•ro. Cabe .1 c1 • também pesar c repartir entre o senhor de engenho
1 0 · J.1vtiHlom·s h cahc .unda ao purgador tirar o dízimo c a vintena ou quinto
qu1 p.1g.un m qul' I.Jvr.tm em terras do engenho c que entregam a caixas para
I) l'lllh.ll<jllt'.
M.t·. o IIIJJPJ dc\alio para quem comanda tão grande empresa é pôr em
p 11 ,, todo . unpcduulo ,, discórdia. Trahalho árduo em terra onde os homens
.111 m.u~ dtc •.1do ao sangue do que a caridade
O nhor do engenho e os escravos
/\ H'l.t~·.to do~ ~enhores de engenho com seus escravo
c1 n d,t n:ononu.1 colonial no Brasil. Antonil refere-se a essa relação
nHHIJ propncduc.k ''Os c'cravos são as mão~ e os pés do senhor de engenho,
pnrqut• sem ck·' JJnllrasil não é po sívcl fazer, con enar e aumentar fazenda,
n •rn lt'J l'll!'Cnho corrente" .'•
\ntond uuci.1 o seu rcl.rto camcterizando a diferença dos escravo
p.utJr d.ts na~ck' de que sao 011 •inano: Sao Tomé. Angola, Cabo Verde
\h><;.nnhtqul' P.n.t ele o. que nJ,~:cmm no Bra ai sao os mai industrio os
kndn pcll qu,tllo h!x.m". Os mul.uo , egundo o autor, ao os que têm
' "'"' Drtum p1merhac' d.1 éJJIK.t catado na ohra qu "o Brasil é o inferno
lll' •r os, pun•.JtnrJc> dm bran~·o c p.u-aí o do mulaws c da mulatas".
lt~Jtoll mulut,Js o.tutnr wnsidL·r.t petdi~.to mantk\t,t porque. em geral, diz
rnmt• 'llt'lll .tlrbcJdo~dc ;, i: lista do l·urpn. de r ·retido~ peGtdos, c me mo
Jl'lllt<'' ,,, lll' •rJs lllx·tt,ts n>ll llllll.tlll .1 ~cr .1tum.1 J ·muito .1
\ l'Slt.t\ id.tlllt.lo L' roloç,tda em 411C,t.to l'lll momento algum do tcx~
cnnlr,IJtP \ntuml ~ • Jt•fcrl.' .trmp•lll:incJa do tt.th.tlho · cr.tvo para
•lÇllt.llt:it .l ,S,•gtlllld\l l'SSC JlCIClll SO. an.tli~a ,1 import:incia do U t nto
'·stllllcnta • da nuxkr.tç.rn do tr.tl'.tlho, de tal fonna que o scravos
·•t.llr.u. \l\ c r c pl.mt.ll su.Js t\ ç.t~ que llws d,1ràc1 sustento." oBra il,
dt l~r quL' 1 ;11,1 o ··~c r,l\ n <In llt'C<'ssarios lr~s PPP. a aber, pau, p1o c pano.
JA ICB 1'ti8000RO DAS
O castigos devem ocorrer, mas de forma moderada, sem fmper.o vinga
u 0 , abrindo a possibilidade do pen!lo, perdlo que possa impedir a fuga ancon-
veniente para o senhor. É necessário, diz Antonil, que dê a elos espaço para
folguedos, porque assim sentirio alfvlo do cativeiro, evitando- o d o
e a melancolia que, muitas vezes os levam à morte.
o que se deve evitar nos engenhos é a bebida feita com garapa azeda ou
água ardente, substituindo-as por garapa doce que nio causa dano.
Governo da famflia e hospitalidade
Se é difícil controlar os escravos, nlo mais fácil o go o da famllia.
Diz Antonil: "Mau é ter nome de avarento, mas nlo 6 glória dtgna de louvor o
ser pródigo".9 Ter os filhos no engenho é criá-los incapazes d con ar
bre outra coisa que cão, cavalo ou boi. Deixá-los na cidade 6 faoilitar o contat
com doenças vergonhosas e com os víctos. Tamb6m nlo dev onsentir
que a mãe lhes mande dinheiro, ainda que secretamen porqu o dinheiro
poderá os conduzir ao jogo e à vida Mcil. O melhor ensino 6 o bom e mpfo
dos pais.
A hospitalidade tanto ele b6tpodea 001110 de- 01 d uma açlo rt6l e uma
VIrtude crlatl, o no Btllll.mallO•••~tQI-r-petque faltudo fora da. lido
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I I ((N\ r1 l'l \!/I /111 H/11\1/
JANI B THl!OOORO DA IL A
•)Ih
l'l ll'
"'' n •aldu na m cll
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I I ((N\ r1 l'l \!/I /111 H/11\1/
JANI B THl!OOORO DA IL A
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Cl"LTl'RA E tll'C.Ltl\D:\ DO BR,\ '/L
Com is 0 se ntcndcr:í donde nasce o ter esta doce droga tantos nomes diversos. antes
d ft'l!raro maJ not>re e o ma1s perfeito de açúl'ar; porque. confom1c o eu princípio,
rndh~na e pcrfe1ção. e conft'rmc o· e~tados di ver os pelos quais passa. vai também
mudando d· nomes. E a. tm, na moenda. chama- c ~umo de cana; nos paróis do
encenho. ate entrar na catd tra do me1o. caldo; nc~ta. caldo fcrvtdo; na caldetra de
n ;lar. clar1ticado; na bacta, co do; nas tachas, melado; utumamcntc. têmpera: e, na
f'rmas. açú ·ar. de cujas d11 e as qualidade falaremo . quando chegarmos a vê-lo
po ·to nas ca~xas.''
Uvrolll
~'a terceira parte do livro, Antonil continua descrevendo as formas do-
produção do açúcar. procurando avaliar o processo em seu conjunto tanto no
que diz re peito ao valor do produto como em relação ao custo humano. T~
os artifícios de linguagem utilizados, desde a escolha das metáforas até a sola--
ção e tilística.. representam uma vontade clara de despertar no leitor a consci
c ia plena de que "para regalar com doçura os paladares os homens mui"P'""' • ._.t..
os tormentos e a penas".
Para se ter uma idéia do volume da produção. um engenho real faz
der de 120 a 300 pães de açúcar. O açúcarproduzido pode ser repartido
cai ·a. fecho. pão. cara, lasca. torrão e migalhas.
Se as terras forem do engenho, o lavrador paga o quinto (além da
de cada cinco pães. paga um) e também o dízimo que se deve a Deus.
O açúcar é colocado em caixas que são fechadas com oitenta e
pregos e marcadas conforme o tipo do açúcar. Existem várias castas de
ar ''porque também nesta droga há sua nobreza, há casta vil, há
Há o açúcar branco e o mascavado. Há o açúcar branco fino, redondo e
O açúcar fi no é o melhor. que fica em cima da fôrma, o redondo é menos
e o baixo menos amda. O mascavado é de cor parda e fica no fundo da
O acúcar que pinga das fôrmas quando se purga chama-se mel e o que
re chama-se remei. Do mel pode-se fazer aguardente.
Para se distinguir o açúcar marcam-se as caixas com ferro ardente
com tint.a. Cada caixa recebe três marcas: a das arrobas, a do engenho e
nh r ou mercador re~ponsável pelo embarque do produto. A marca
o produto porque, a sim como nas pipas de breu que vêm de Portugal se
p -,,
66
JA I I! THEODORO DA
pedras o adas, ou nas peças de fino linho, no meio, se acha pano de estopa.
a s1m t mbém se poderia mandar açúcar com meno~ arrobas, ou açucar
ma cavado. por branco.
As im, o açúcar sai do canavial onde nasce, vai até os portos do BrasJI.
navega para Portugal e é repartido entre muitas cidades da Europa.
Quanto aos preços, muitas vezes a necessidade obriga a vender barato
que tanto custou a servos e senhores. A falta de na ios e a Jta dos p~os do
cobre. ferro e pano e. particulannente, do valor dos escravos são os pn11Cipal
motivos de o açúcar ter subido tanto de p~o Se redumem o p~ das coi a
que 'êm do reino e dos escra os que v~m de Angola e C ta da Guiné, os
preços poderiam se tomar mais moderados.
A Bahia po sui cento e quarenta e sei engenhos. Pernambuco. duzent
e quarenta e sei e Rio de Jane1ro, cento e trinta e seiS. os engenhos da
Bahia se produzem quatorze mil e quinhentas caixas de açúcar; em Pernambuco,
doze mil e trezentas caixas; e no Rio de Janeiro, dez mil, duzentas e inte, ou
seja, num ano o Brasil produz trinta e seis mil oitocentas e
precioso produto.
é reparo singular dos que COIIfeJIIphun as c:caas lllblrals ver que as que
proveito ao g!ncro humano Dlo se mcluzeaa • perfeiçJo sem pwarem pn
por not4veis apertos, e 1110 ae Ya bem DI Eurapa110 piiiiO de I
e no VInho, rrutoa da terra llo aex:essáiol entmados.
dos e moídos anta do cbcglllem a ser perfeitamellle o que E
vemosnaf~deaçdcar,oqoal.desckoprimolro....._de pl-~r:H!~ct .. ""ar
às mesas e passar entte os den a tepOIIIr--se 110 que
uma vida cheia de llis e tantos IDIIl1tftof fl'llt ii.'NII&IAID li.l'llll;,s ua 1nao
~~~--~-:--~~-~.~~u~mu-
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Cl"LTl'RA E tll'C.Ltl\D:\ DO BR,\ '/L
Com is 0 se ntcndcr:í donde nasce o ter esta doce droga tantos nomes diversos. antes
d ft'l!raro maJ not>re e o ma1s perfeito de açúl'ar; porque. confom1c o eu princípio,
rndh~na e pcrfe1ção. e conft'rmc o· e~tados di ver os pelos quais passa. vai também
mudando d· nomes. E a. tm, na moenda. chama- c ~umo de cana; nos paróis do
encenho. ate entrar na catd tra do me1o. caldo; nc~ta. caldo fcrvtdo; na caldetra de
n ;lar. clar1ticado; na bacta, co do; nas tachas, melado; utumamcntc. têmpera: e, na
f'rmas. açú ·ar. de cujas d11 e as qualidade falaremo . quando chegarmos a vê-lo
po ·to nas ca~xas.''
Uvrolll
~'a terceira parte do livro, Antonil continua descrevendo as formas do-
produção do açúcar. procurando avaliar o processo em seu conjunto tanto no
que diz re peito ao valor do produto como em relação ao custo humano. T~
os artifícios de linguagem utilizados, desde a escolha das metáforas até a sola--
ção e tilística.. representam uma vontade clara de despertar no leitor a consci
c ia plena de que "para regalar com doçura os paladares os homens mui"P'""' • ._.t..
os tormentos e a penas".
Para se ter uma idéia do volume da produção. um engenho real faz
der de 120 a 300 pães de açúcar. O açúcar produzido pode ser repartido
cai ·a. fecho. pão. cara, lasca. torrão e migalhas.
Se as terras forem do engenho, o lavrador paga o quinto (além da
de cada cinco pães. paga um) e também o dízimo que se deve a Deus.
O açúcar é colocado em caixas que são fechadas com oitenta e
pregos e marcadas conforme o tipo do açúcar. Existem várias castas de
ar ''porque também nesta droga há sua nobreza, há casta vil, há
Há o açúcar branco e o mascavado. Há o açúcar branco fino, redondo e
O açúcar fi no é o melhor. que fica em cima da fôrma, o redondo é menos
e o baixo menos amda. O mascavado é de cor parda e fica no fundo da
O acúcar que pinga das fôrmas quando se purga chama-se mel e o que
re chama-se remei. Do mel pode-se fazer aguardente.
Para se distinguir o açúcar marcam-se as caixas com ferro ardente
com tint.a. Cada caixa recebe três marcas: a das arrobas, a do engenho e
nh r ou mercador re~ponsável pelo embarque do produto. A marca
o produto porque, a sim como nas pipas de breu que vêm de Portugal se
p -,,
66
JA I I! THEODORO DA
pedras o adas, ou nas peças de fino linho, no meio, se acha pano de estopa.
a s1m t mbém se poderia mandar açúcar com meno~ arrobas, ou açucar
ma cavado. por branco.
As im, o açúcar sai do canavial onde nasce, vai até os portos do BrasJI.
navega para Portugal e é repartido entre muitas cidades da Europa.
Quanto aos preços, muitas vezes a necessidade obriga a vender barato
que tanto custou a servos e senhores. A falta de na ios e a Jta dos p~os do
cobre. ferro e pano e. particulannente, do valor dos escravos são os pn11Cipal
motivos de o açúcar ter subido tanto de p~o Se redumem o p~ das coi a
que 'êm do reino e dos escra os que v~m de Angola e C ta da Guiné, os
preços poderiam se tomar mais moderados.
A Bahia po sui cento e quarenta e sei engenhos. Pernambuco. duzent
e quarenta e sei e Rio de Jane1ro, cento e trinta e seiS. os engenhos da
Bahia se produzem quatorze mil e quinhentas caixas de açúcar; em Pernambuco,
doze mil e trezentas caixas; e no Rio de Janeiro, dez mil, duzentas e inte, ou
seja, num ano o Brasil produz trinta e seis mil oitocentas e
precioso produto.
é reparo singular dos que COIIfeJIIphun as c:caas lllblrals ver que as que
proveito ao g!ncro humano Dlo se mcluzeaa • perfeiçJo sem pwarem pn
por not4veis apertos, e 1110 ae Ya bem DI Eurapa110 piiiiO de I
e no VInho, rrutoa da terra llo aex:essáiol entmados.
dos e moídos anta do cbcglllem a ser perfeitamellle o que E
vemosnaf~deaçdcar,oqoal.desckoprimolro....._de pl-~r:H!~ct .. ""ar
às mesas e passar entte os den a tepOIIIr--se 110 que
uma vida cheia de llis e tantos IDIIl1tftof fl'llt ii.'NII&IAID li.l'llll;,s ua 1nao
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c 111/IIH.~ I 111'11/ fNc'J~ /!0 IlHA\//
1 Jt- ~1 1 , w 1 wrtw \t' plant.t. limp.t. colhe. hcncficiu, uru, enrola, como .s
p;tdt o~ na ,dl .111dl'ga t, luwlmcntc. como se dá o rendimento a rcpurt1ç
l. tb.t, lll'lll tli vu ,,, p;utrs do lllttlldo.
o t.lb.tL'o tll'w ~L' t st'lllL',ulo nos 111 ses de maio, junho e julho em t
1 ( 11 1 <' '>lt'Jcatl.l 1 kpt~is dt' st•nt·ado de v -se cuidar ·mtirar o capim s m
dtur.1r •1 planla. 1\ l.tg.ut.t. a formiga. o pulgão c o grilo podem causar mui
r t1 ,1 .. n .. n.t pl.lllt.t , dl'\'l'lldn o l.tvrador ser sempre vigilante.
< )uando .1 pl.tnt.t wnta com oito ou dez folhas, tira-se: o olho de cima p
l(lll' n .... , 1111 tHllllls s ·m qttL' ~c tire a substância da. folhas.
\ s folhas ~.il cortadas junto ao talo e dependuradas longe do sol mas
lu~· ,u km \ enttl .tdtl, p.ua que equem em perder a ub tância. urad
lolh .1.. tira . c o t.tlo c se faz urna corda da grossura de três d do .
ctllll.t. L' tlflll.t·st: num pau c a sim toda a noite sedes nrola e enrola,
.tpc tt.llldo ma1 s p.u.t que fique mais dura. O último beneficio é te11noe~w·~,,,Jd.t du mcsmn t.tbaco com erva-doce, alfavaca e manteiga de porco.
ca- '>l' .t lrntsc,tr c amb.tr, mistura-se a calda com mel de açúcar bem gro
p.t s..t se na ntda e. em seguida. fazem-se os rolos. 18
Os rolos s:io cobertos com folhas de caruvatá amarrados com
Det ois · 1.11 uma ~.:apa de couro da medida do rolo e marca- e com o
lh' dono. \ ~s im s.1o desp.tchado por mar.
t.tl>act' da pnmeir.t folha é o melhor. serve para cachimbo, para
c.tr t' ptsar. () fr.tco só crv • para beber no cachimbo. Os melhores
·m po s.tll de Al.tgu.L. Pernambuco. Campos da Cachoeira e das
ParJ pisar o t.l!>.u.:o s:io ne~.:cssárias bacia de cobre e mexer com
que ~eJ.Il 1 Úl' peJr.t-mármnrc. ~.:om a mão de pisar de pau. Pisado,
' o que fic.tr de m.ti gwsso pi.;,t -. c novamente até se reduzir a pó. E
fL' I'Ill.l ·m que mai etlmunlL'ntc se procura o tabaco.
O tab,t '<'no B1.tsil é expt111ado sem mistura e por is o tanto se
. I.!. n.1 !ta lia. por e cmplo. mi. tura- c com mel, um pouco de vinho,
bc t 1 • d 'Pt' iç com a: mã . se fazem bolinho . depois se passa por uma
lim p·tra qu · · ~ tran fl,nne em um pó bem fino e solto. Pode-se
tjllt. ·rem da r algum ~.heim. b n·ifar água cheiro a ou colocar num vaso
11' n:c Ih •u uma bauru lha inteir,L
hnto · cham.tm o tabaC\l de cr\a-·anta. Há os que não podem vi v r
l 1 c l'hnnband a qualqu ·r hora. Tant o marítimos como os tralballilad~
. forr ~ pcs. as Illlbre , olJado e eclesiá ticos fumam.
fumo do chimbo bebido
v cuaç , hvia a ma e dtmiaul
Urbano VIII, b rv ndooabuaodo
nu Igreja de S o Pedro em Roma, no adt~ e alpendre do templot, e JAOCet1cilO X
proibiu nas igrejas de todo o arcebifpado
o tabaco ben ficiado e enrolado pap o NU dízimo a • Hi
mai de cem ano , diz Antonil o tabaco começou a plantado benetic:iad
no Brasil. orno uma sementeira de delej01 difundiu- nlo só peta Europa
ma também em outras partes do mundo N idade de Lo Qeda por
mais de oitocentas mil almaa, vendas de tabaco ultrap o número de
sete mil. Se considerarmos o que N vende a cada ano em toda Bretanh
Jundres, França, Espanha. Itália e. o quo va1 para as Índia Octdentaia e Orien
tais, teremos a dimenslo desse cO!Mrcio.
Qualquer descaminho do tabaco no Brasil é purudo com pena& de de~
do para Angola e, em Portugal. a pena ainda é mais rigorosa O rigor das penas
só prova o grande lucro desse comérçio. O tabaoo já foi encontrado em peças
de artilharia, dentto de caixas e f&cJ1a da.., doDtro de barris de farinha
da terra, de breu, de melado. ~ t11àle frascos de vinho
mesmo dentro d estátaas oca&. d 1 Tanta nções sugerem a t1
ma, o apetite e a esporança. do htcto que aoomp tabaco.
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c 111/IIH.~ I 111'11/ fNc'J~ /!0 IlHA\//
1 Jt- ~1 1 , w 1 wrtw \t' plant.t. limp.t. colhe. hcncficiu, uru, enrola, como .s
p;tdt o~ na ,dl .111dl'ga t, luwlmcntc. como se dá o rendimento a rcpurt1ç
l. tb.t, lll'lll tli vu ,,, p;utrs do lllttlldo.
o t.lb.tL'o tll'w ~L' t st'lllL',ulo nos 111 ses de maio, junho e julho em t
1 ( 11 1 <' '>lt'Jcatl.l 1 kpt~is dt' st•nt·ado de v -se cuidar ·mtirar o capim s m
dtur.1r •1 planla. 1\ l.tg.ut.t. a formiga. o pulgão c o grilo podem causar mui
r t1 ,1 .. n .. n.t pl.lllt.t , dl'\'l'lldn o l.tvrador ser sempre vigilante.
< )uando .1 pl.tnt.t wnta com oito ou dez folhas, tira-se: o olho de cima p
l(lll' n .... , 1111 tHllllls s ·m qttL' ~c tire a substância da. folhas.
\ s folhas ~.il cortadas junto ao talo e dependuradas longe do sol mas
lu~· ,u km \ enttl .tdtl, p.ua que equem em perder a ub tância. urad
lolh .1.. tira . c o t.tlo c se faz urna corda da grossura de três d do .
ctllll.t. L' tlflll.t·st: num pau c a sim toda a noite sedes nrola e enrola,
.tpc tt.llldo ma1 s p.u.t que fique mais dura. O último beneficio é te11noe~w·~
,,,Jd.t du mcsmn t.tbaco com erva-doce, alfavaca e manteiga de porco.
ca- '>l' .t lrntsc,tr c amb.tr, mistura-se a calda com mel de açúcar bem gro
p.t s..t se na ntda e. em seguida. fazem-se os rolos. 18
Os rolos s:io cobertos com folhas de caruvatá amarrados com
Det ois · 1.11 uma ~.:apa de couro da medida do rolo e marca- e com o
lh' dono. \ ~s im s.1o desp.tchado por mar.
t.tl>act' da pnmeir.t folha é o melhor. serve para cachimbo, para
c.tr t' ptsar. () fr.tco só crv • para beber no cachimbo. Os melhores
·m po s.tll de Al.tgu.L. Pernambuco. Campos da Cachoeira e das
ParJ pisar o t.l!>.u.:o s:io ne~.:cssárias bacia de cobre e mexer com
que ~eJ.Il 1 Úl' peJr.t-mármnrc. ~.:om a mão de pisar de pau. Pisado,
' o que fic.tr de m.ti gwsso pi.;,t -. c novamente até se reduzir a pó. E
fL' I'Ill.l ·m que mai etlmunlL'ntc se procura o tabaco.
O tab,t '<'no B1.tsil é expt111ado sem mistura e por is o tanto se
. I.!. n.1 !ta lia. por e cmplo. mi. tura- c com mel, um pouco de vinho,
bc t 1 • d 'Pt' iç com a: mã . se fazem bolinho . depois se passa por uma
lim p·tra qu · · ~ tran fl,nne em um pó bem fino e solto. Pode-se
tjllt. ·rem da r algum ~.heim. b n·ifar água cheiro a ou colocar num vaso
11' n:c Ih •u uma bauru lha inteir,L
hnto · cham.tm o tabaC\l de cr\a-·anta. Há os que não podem vi v r
l 1 c l'hnnband a qualqu ·r hora. Tant o marítimos como os tralballilad~
. forr ~ pcs. as Illlbre , olJado e eclesiá ticos fumam.
fumo do chimbo bebido
v cuaç , hvia a ma e dtmiaul
Urbano VIII, b rv ndooabuaodo
nu Igreja de S o Pedro em Roma, no adt~ e alpendre do templot, e JAOCet1cilO X
proibiu nas igrejas de todo o arcebifpado
o tabaco ben ficiado e enrolado pap o NU dízimo a • Hi
mai de cem ano , diz Antonil o tabaco começou a plantado benetic:iad
no Brasil. orno uma sementeira de delej01 difundiu- nlo só peta Europa
ma também em outras partes do mundo N idade de Lo Qeda por
mais de oitocentas mil almaa, vendas de tabaco ultrap o número de
sete mil. Se considerarmos o que N vende a cada ano em toda Bretanh
Jundres, França, Espanha. Itália e. o quo va1 para as Índia Octdentaia e Orien
tais, teremos a dimenslo desse cO!Mrcio.
Qualquer descaminho do tabaco no Brasil é purudo com pena& de de~
do para Angola e, em Portugal. a pena ainda é mais rigorosa O rigor das penas
só prova o grande lucro desse comérçio. O tabaoo já foi encontrado em peças
de artilharia, dentto de caixas e f&cJ1a da.., doDtro de barris de farinha
da terra, de breu, de melado. ~ t11àle frascos de vinho
mesmo dentro d estátaas oca&. d 1 Tanta nções sugerem a t1
ma, o apetite e a esporança. do htcto que aoomp tabaco.
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d I.1L 'I 1 F OI' I fl VCI \ DO BR.\. 11.
d
. \I · pr"'' 1,·-lnwnt·. •m \1utro. ril'leiros .• ugerc Antonil, ,lrfl1l',l~ ' OUI L'· · J-. l ' , • ,
tirt
1
mai. \ uro (\>rll 1d '· t'- .. k.c hridt'res. para não s' suJettarem a repani-
• •
01
a
111
·,·,,
1 1
, 101 \t··srlt .1~ im ,'u.1 ~1Jjcstadc não deixou de obt r ".H'. n.l ' ~c - . • • · -· • · ·
l!f,\1 ,k lu ·ro n.1 C.t~.l J.t \h •,.ü dL I Il de Janeiro.
• \ ·de d '\IH ! ,, tu muH.l g nlt' a d ·i ar. u.t. terr.t
·"' u' 'I•' c.mun.>sJ.J·mmas ~LH.Jctnn!.lmilp•. st'a.s• ·uparam m
, t. r. 11 nJ.lr .:.11 r 'ncg 'J.lf uro. lllJl. rara 0 St'll rróprit1 l •ndíci 'UO que
JAt I li'. THEODORO IH Sll \
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d I.1L 'I 1 F OI' I fl VCI \ DO BR.\. 11.
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CC l I R I OPVC l I IJV ftRA 11
Concluindo o seu estudo sobre opa da COC!IIOIIIIIia lllrWiileilra.
defende a proposta de que é Justo. canto para FUIIDda re.l
bem público. fa oreccr a cooquista e o deseovolvimllltoec<~nftiiBil:o
o lucro que a colônia gera para Portugal. pl'OI\Ielliealle du llavGura!Hk
açúcar e tabaco. da mineração e do era gnmde. sendo. portiDIO.
os requerimentos e demandas elabf:lra(losM ,coaOaia f<~S~Cm•eq101liitk11s n~pida
mente para Portugal, o que nos 1e a a pensar
c lônia era muito IDOI'06IL Da mesma forma .A.toail estuDIV a mubi}llticlaçio
das igrejas.. para que todos tivessem mais MD6d10 para
A organização da economia colonial brasileira apnmonmenao da
religiosa sem dúvida guantiriam a cxpanlio do podutivoc~dlcoaa·
cialização do açúcar. tabaco, ouro e gado mcdiaaee lril.icll• ec:OIIlne~~bu~
adas no mercaulilismo.
É admirável neste livro aio
tincia da colônia DOS qaalasclo
fabuloso cusro bumiDo -=llllll1iriD:(IIPILa lll:odiiiCIO dO 1111;
Trata-se de wn bomela cam ••pâldlk villlioaill116do :IJRliCIMIC DIJ8J
futuro· nio apeaas ..... -~--
dos seoboles como. plillliplllla-.~IIM•IIICIIIMII.IIIIl'lae má ciD • ..._
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CC l I R I OPVC l I IJV ftRA 11
Concluindo o seu estudo sobre opa da COC!IIOIIIIIia lllrWiileilra.
defende a proposta de que é Justo. canto para FUIIDda re.l
bem público. fa oreccr a cooquista e o deseovolvimllltoec<~nftiiBil:o
o lucro que a colônia gera para Portugal. pl'OI\Ielliealle du llavGura!Hk
açúcar e tabaco. da mineração e do era gnmde. sendo. portiDIO.
os requerimentos e demandas elabf:lra(losM ,coaOaia f<~S~Cm•eq101liitk11s n~pida
mente para Portugal, o que nos 1e a a pensar
c lônia era muito IDOI'06IL Da mesma forma .A.toail estuDIV a mubi}llticlaçio
das igrejas.. para que todos tivessem mais MD6d10 para
A organização da economia colonial brasileira apnmonmenao da
religiosa sem dúvida guantiriam a cxpanlio do podutivoc~dlcoaa·
cialização do açúcar. tabaco, ouro e gado mcdiaaee lril.icll• ec:OIIlne~~bu~
adas no mercaulilismo.
É admirável neste livro aio
tincia da colônia DOS qaalasclo
fabuloso cusro bumiDo -=llllll1iriD:(IIPILa lll:odiiiCIO dO 1111;
Trata-se de wn bomela cam ••pâldlk villlioaill116do :IJRliCIMIC DIJ8J
futuro· nio apeaas ..... -~--
dos seoboles como. plillliplllla-.~IIM•IIICIIIMII.IIIIl'lae má ciD • ..._
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/'/'OI' ttl 1'~ /'/t 11 11/IA '11
I l /1,.11nc 10 .,, ,du:,f "" aavo• A 12 de novembro, """ I J /,JIUI·I I I Jl , .... I '1 J I YVI
,,reLu c) , 111 ,,1 lo ri• f 'Jfl lillll ~ ·l''· IJ l'cdw I I ch<~ a Conf>IIIUÍnte.
H,,11 tf,Íllo pr• ,, , ;~ v rhad" r: xJiad() para a !·rança, com &eu irmloa
M 111 m 11 11u n r<~ f 11 Jo- rt.unbém d ptJiadc, cxil<~diJ~). pa1> ando por Viao
11 P nli<ll 1 f1• •.wdo 1 H11rd au K rn 5 de juf/Jo de lll24. Aí, vigiado pela
P''"' 1., Jr.HH , Hnp dHlo de voh<~r ao Bra il por han~oi~ Chateaubríand. nu
111
lrt cfq /,xt lforv,lllur~dr,(omornarqu~ de Palrnela, vivecomdificuldadc
p 11 hh~<wd'' .w1 !'111'\l fl\ mulw c Odr• no.\ f{rt'X"'· Durante a viagem de
r '''rn" m JlQ'J,, .111.1 a falece uo navio. !·orçado a abdicar em 1831, Pedro
1 , md1ç' lllt< Jr d,. Pedro li . com S anos. Nesse ano, sob o pseudônimo arcádico
r1 • A 111 ' nc< ' Uí w. publica O poeta dellerrado. Ode e5crita em Bordtus em
Jll2'i No ~11 0 ~qwnte 6 de~tituído da tutoria de Pedro IJ. por força do ministro
cb lu tiç;,, o pJdn !Jtc,go Antonio rcijcí, que o acusa de tentativa de levante
Jrmado nt> /' i'' d<' Janeiro em lil11 I~m IWB, é definitivamente afastado da
tut ,,, ,t, r IJrandr, c par.t Niterói "na condição de preso por conspira~ e
f'C II !lrh IÇ t'HI I (lfdcm pública". Em uns. julgado a revelia, é absolvido, vínde
fal c ·r em f'a4ucuí .1 ()de ahril de J il3S.
O 1114u ieto Jo é BonifáCio, leitor de clássicos, cientista e tradutor •
I lu nhCJid t, ck:lt-ndcu .1 introduçao da vacina, do sistema métrico, da meteorologit,
pr K.upou ~c com os problemas da população brasileira, da língua, da cul
uo '' , dos a n<~lfHbclo (.t~scgurado na Instrução de 19 de junho de 1822)~
' I rm.t agr.ína, da 1ndú Iria , da agricultura, da universidade. Como afirmoao
h1 tori.tdOJ J o~é I Ioncíno Rodrigues, o projeto de José Bonifácio sobre a ab01i
çao do trafico c da c~cravtdão constitui a mais importante obra brasileiraCOJI-'
t~a o rráfko, " ·"clando sua grandeza de estadista". Talvez mais se~
d11cJ, cr.:10 cu. do projeto sobre os índios, de sua compacta correspond&tlll
~ubJl' tema~ \ános e de sua ação diplomática, que o qualificam como o ftu1c1ap
do1 da política exterior brasileira. Homem da Ilustração, avançado para
trrnpo. Jo é B~nifácio foi posto fora da história, tendo sua imagem
gada co~ 0 rcv1gorarncnto da mentalidade atrasada do Segundo Reinado.
n:cstuda-lo.
Ü CONTEXTO
C AR r, IUfi!Ofe MOt
de deM:ol nir.ação. a revoluçõe de índependbu:'1a dai ex~coJ~001ll5
,t>éríc<~ rão decr JVa . o entant • o nucíment d Br
prccmméncia íngle a, com a pel1l'UUlblc1a da dínut1a dos Bra que.
gindo da tropas d~ Napoleão, atravessaram o Atlântico oltad pela arma
da hritanic:a.
Se a maior parte das principal lideranças portuguesas emigram para a ex-
colônia, armstando consigo boa parte de~ e quadros adm~ntstrab os lá
ficaram personagens importantes do mundo luso-brastlesro. Dentre eles o pauhsta
José Bonifácio de Andrada e Silva. intelectual e cienusta dos ma1 destacados da
Europa. Personagem proeminente na vida póblíca européia. professor em Coimbra
amadurecido na cultura da Ilustração, eta um cosmopolita e viajado pesqutsador
tradutor, crítico, homem de ação. "BruUeiro", foi afastado no processo de im-
plantação da corte e na reorganização do governo bragantino nos trópicos
Bonifácio somente regressaria em 1819.já com 56 anos. após 36 anos longe do
Brasil. Participou do processo de tentativa de consolidação do império luso-bra~
sileiro, ultrapassado pela revolução liberal de 1820em Portugal, recolonizadora.
e pela revolução da independência no Brasil.
Nos embates entre a revolução descolonizadora. a contra-revolução e a
conciliação, teve papel decisivo, na liderança da construção do moderno Esta-
do brasileiro. Em 1833, defmitivamente alijado do jogo do poder, o Brasil de
pendente e escravocrata, já ocupava lugar es~vel no concerto das naçoes
embora diversamente do que ele preconizara.
Conhecedor do mundo político, Bonifácio tinha clara noção das dificulda-
des de construção no Atlântico sul de um novo pafs. Para se fonnar uma
"nação", sabia ele. requer-. um ••povo • uma "Identidade nacional". com cer-
ta homogeneidade 6D:doa ~ GUit:Qral. :Miucado por seu tempo, como Pichle
Goethe, ou pelOJ ~canos. Bonifác1o bga--se, des-
de o início do ''D01111a identidade cultural". E ma1s.
prC(:oni·~~,ai·fli!~~~.i!laae e compooente mdissociável da
!O'lii~Uasvezesmvisitado em conjuntu
~ionalidallle" por historiadorel
a.aBulilde&~Omha Gilber-
, .. : ---Paoro Joaé ·~-~-~ lll8ftlndamen-
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,,reLu c) , 111 ,,1 lo ri• f 'Jfl lillll ~ ·l''· IJ l'cdw I I ch<~ a Conf>IIIUÍnte.
H,,11 tf,Íllo pr• ,, , ;~ v rhad" r: xJiad() para a !·rança, com &eu irmloa
M 111 m 11 11u n r<~ f 11 Jo- rt.unbém d ptJiadc, cxil<~diJ~). pa1> ando por Viao
11 P nli<ll 1 f1• •.wdo 1 H11rd au K rn 5 de juf/Jo de lll24. Aí, vigiado pela
P''"' 1., Jr.HH , Hnp dHlo de voh<~r ao Bra il por han~oi~ Chateaubríand. nu
111
lrt cfq /,xt lforv,lllur~dr,(omornarqu~ de Palrnela, vivecomdificuldadc
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1 , md1ç' lllt< Jr d,. Pedro li . com S anos. Nesse ano, sob o pseudônimo arcádico
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Jll2'i No ~11 0 ~qwnte 6 de~tituído da tutoria de Pedro IJ. por força do ministro
cb lu tiç;,, o pJdn !Jtc,go Antonio rcijcí, que o acusa de tentativa de levante
Jrmado nt> /' i'' d<' Janeiro em lil11 I~m IWB, é definitivamente afastado da
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f'C II !lrh IÇ t'HI I (lfdcm pública". Em uns. julgado a revelia, é absolvido, vínde
fal c ·r em f'a4ucuí .1 ()de ahril de J il3S.
O 1114u ieto Jo é BonifáCio, leitor de clássicos, cientista e tradutor •
I lu nhCJid t, ck:lt-ndcu .1 introduçao da vacina, do sistema métrico, da meteorologit,
pr K.upou ~c com os problemas da população brasileira, da língua, da cul
uo '' , dos a n<~lfHbclo (.t~scgurado na Instrução de 19 de junho de 1822)~
' I rm.t agr.ína, da 1ndú Iria , da agricultura, da universidade. Como afirmoao
h1 tori.tdOJ J o~é I Ioncíno Rodrigues, o projeto de José Bonifácio sobre a ab01i
çao do trafico c da c~cravtdão constitui a mais importante obra brasileiraCOJI-'
t~a o rráfko, " ·"clando sua grandeza de estadista". Talvez mais se~
d11cJ, cr.:10 cu. do projeto sobre os índios, de sua compacta correspond&tlll
~ubJl' tema~ \ános e de sua ação diplomática, que o qualificam como o ftu1c1ap
do1 da política exterior brasileira. Homem da Ilustração, avançado para
trrnpo. Jo é B~nifácio foi posto fora da história, tendo sua imagem
gada co~ 0 rcv1gorarncnto da mentalidade atrasada do Segundo Reinado.
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Ü CONTEXTO
C AR r, IUfi!Ofe MOt
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prccmméncia íngle a, com a pel1l'UUlblc1a da dínut1a dos Bra que.
gindo da tropas d~ Napoleão, atravessaram o Atlântico oltad pela arma
da hritanic:a.
Se a maior parte das principal lideranças portuguesas emigram para a ex-
colônia, armstando consigo boa parte de~ e quadros adm~ntstrab os lá
ficaram personagens importantes do mundo luso-brastlesro. Dentre eles o pauhsta
José Bonifácio de Andrada e Silva. intelectual e cienusta dos ma1 destacados da
Europa. Personagem proeminente na vida póblíca européia. professor em Coimbra
amadurecido na cultura da Ilustração, eta um cosmopolita e viajado pesqutsador
tradutor, crítico, homem de ação. "BruUeiro", foi afastado no processo de im-
plantação da corte e na reorganização do governo bragantino nos trópicos
Bonifácio somente regressaria em 1819.já com 56 anos. após 36 anos longe do
Brasil. Participou do processo de tentativa de consolidação do império luso-bra~
sileiro, ultrapassado pela revolução liberal de 1820em Portugal, recolonizadora.
e pela revolução da independência no Brasil.
Nos embates entre a revolução descolonizadora. a contra-revolução e a
conciliação, teve papel decisivo, na liderança da construção do moderno Esta-
do brasileiro. Em 1833, defmitivamente alijado do jogo do poder, o Brasil de
pendente e escravocrata, já ocupava lugar es~vel no concerto das naçoes
embora diversamente do que ele preconizara.
Conhecedor do mundo político, Bonifácio tinha clara noção das dificulda-
des de construção no Atlântico sul de um novo pafs. Para se fonnar uma
"nação", sabia ele. requer-. um ••povo • uma "Identidade nacional". com cer-
ta homogeneidade 6D:doa ~ GUit:Qral. :Miucado por seu tempo, como Pichle
Goethe, ou pelOJ ~canos. Bonifác1o bga--se, des-
de o início do ''D01111a identidade cultural". E ma1s.
prC(:oni·~~,ai·fli!~~~.i!laae e compooente mdissociável da
!O'lii~Uasvezesmvisitado em conjuntu
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qul'
PHUJI 10.~ I'ARA O BRA IL
, ou 1u~ s~·lva . Antcdpando Rondon, e também Freire, Bonif4cio
,, 111 ~..1.1o •h cr a r~a rnat auva e empreendedora. pot reúne a VIVICidade iiJipe..
tu o C' .11 bu t t do n gro uJm a mobtlidadc e sens1b1hdade do europeu; pois o íudio
n t ~~lmcm m l;~ncohro e apáuco, estado de que nlo ai senlo por gl"'llde
e( c neta d p ni'le , ou pela embnaguez, a sua música~ 16gubre, e a ua c1uça
r · tr e tm(),el que a do negro.1
1>.11 '111 nd.:r- e. hoje. por que seus principai textos- os mais c~
mt 111 1 c um programa e de uma teoria doBra il de todo o s6:ulo XIX
r m r· l md1os e os negros na x-colônia. Para esse líder ilustrado.._
Lt nh 'l r Pari durnnte a Revolução Francesa. impunha-se eliminaroC'allCI.ft
d ra 1dão e redefinir o papel do lemento nati o, o mais autentic:a111ieftft
11 I" Em uat ·a,oequacionamentodosdoistemasniosurgedi'issodal8
0 O [)()CU"fE."'TT: DOS INDIOS
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qul'
PHUJI 10.~ I'ARA O BRA IL
, ou 1u~ s~·lva . Antcdpando Rondon, e também Freire, Bonif4cio
,, 111 ~..1.1o •h cr a r~a rnat auva e empreendedora. pot reúne a VIVICidade iiJipe..
tu o C' .11 bu t t do n gro uJm a mobtlidadc e sens1b1hdade do europeu; pois o íudio
n t ~~lmcm m l;~ncohro e apáuco, estado de que nlo ai senlo por gl"'llde
e( c neta d p ni'le , ou pela embnaguez, a sua música~ 16gubre, e a ua c1uça
r · tr e tm(),el que a do negro.1
1>.11 '111 nd.:r- e. hoje. por que seus principai textos- os mais c~
mt 111 1 c um programa e de uma teoria doBra il de todo o s6:ulo XIX
r m r· l md1os e os negros na x-colônia. Para esse líder ilustrado.._
Lt nh 'l r Pari durnnte a Revolução Francesa. impunha-se eliminaroC'allCI.ft
d ra 1dão e redefinir o papel do lemento nati o, o mais autentic:a111ieftft
11 I" Em uat ·a,oequacionamentodosdoistemasniosurgedi'issodal8
0 O [)()CU"fE."'TT: DOS INDIOS
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/'/WJ/.1(1.\ /'ARA O IlRAS/I,
1 rn que \l' 1:ncon1ram; segundo, o modo errado como os portugueses têm tra.
tado m índios. "ainda quando de~ejamos dome~ticá-los e fazê-los felizes".
()uanto <I ~Jiuuçào em <.Ule se acham, faz uma série de observações que,
embora marcada\ pelo refom1ismo do despotismo esclarecido, revelam os juízos
de uma sociedade ainda presa aos valores estabelecidos, europeizada, branca,
pré-capitali\ta. Daf se dizer serem os índios "povos vagabundos", envolvidos
em guerras contínuas c roubos, não terem freios religiosos ou civis, sendo-lhes
"insuportável ~ujcitarem-se a kis, c costumes regulares". Entregues natural-
mente a preguiça, diz ele, fogem dos trabalhos regulares e aturados; temem
sofrer lorne~. se abandonarem sua vida de caçadores. As "nações" inimigas
dos hrancos temem ser aldeadas, com medo de vingança depois, ou, presumi-
damente valentes, desprezam os brancos por não terem sido castigados, prefe-
nndo continuar a "roubar-nos a servir-nos''. Além disso, os valentes e poderosos
entre eles temem perder esse respeito e os privilégios de guerreiros; e se en-
trarem "no seio da Igreja" deverão abandonar suas "contínuas bebedices", a
polil.!amia e os divórcios voluntários. O que explica, segundo Bonifácio, que as
r.lp.trigas casadas ,!dotassem mais facilmente a religião cristã, "porque assim
sc!'uram os maridos c se livram de rivais".
Ma~ o deputado das Luzes mostra o outro lado da mesma questão vista a
p<~rtir do mau componamento dos brancos. O medo dos indígenas derivaria
dos cat1veirm antigos, do desprezo com o qual foram tratados, "o roubo contí-
nuo de ~ uas mclho1es terras", os serviços a que os sujeitamos, pagando pouco
ou nenhum salário ("jornais"), alimentando-os mal, "enganando-os nos contra
tos de w mpra, e venda, que com eles fazemos". E completa seu arrazoado
dcn uncimtdo que os índios são tirados por anos c anos de suas famílias e roçaa
para o ~c rv iços do Est<tdo c de particulares. Em suma, damos-lhes todos OS
no• o >ICJo c doenças, sem lhe~ comunicar nossas virtudes e talentos. Em
contta te com a v1 ào que o E tado lu o-brasileirotinha do assunto, isso 6
re\olucmnano. Et 'i ua u ·c~tão:
tu ror heccndo pnmcrro o que ~lo e devem er naturalmente 01
n a depor Jch m o o mero de os converter no que nos cumpre que
CAMI Os OIJIIIIERM~ MCYT
gregos c os romanos, "nações" muito instruídas e civthzadas, que 1 aram
culos até adotar o cristianismo. E que os negros da Áfnca apesar de 1 rem
contato há séculos com os europeus, ainda estão "qua e no me mo • estado
de barbaridade" que o "nossos índios do Brasil".
Sua lógica é notável, nesse hábil e dialético movimento de rotaç 0 de
posições. Algo de Rousseau ronda sua teoria das civilizações e da cultura
Segundo pensa, "o homem em estado selvático, e mormente o índio bra 0 do
Brasil, deve ser preguiçoso". Tese radical. E aqui nasce uma prefiguração d
sua curiosa antropologia, que faria escola no Brasil no século gumtc, ao
constatar que esse indígena pode arranchar-se em terrenos bundantes de
caça e pesca, de frutos silvestres, vivendo cômodo todo os dias e posto ao
tempo, "sem os melindres de nosso luxo". O índio "não tem idéia de pro pen
dade, nem desejo de distinções e vaidades sociais, que são as molas podero a
que põem em atividade o homem civilizado". Tem, sim, uma "razão sem exer-
cício", pouco treinada, é "falto de uma razão apurada, falto de precaução" por
não se preocupar mais senão com sua conservação física. Do que não v ,
nada lhe importa, nota o Patriarca. reduzindo-o assim brutalment ao estado
natural: "É como o animal silvestre seu companheiro".
O índio é diferente do homem civilizado, pois "para ser feliz o homem
civilizado precisa calcular, e uma aritmética, por mais grosseira e manca que
seja lhe é indispensável". Já o índio bravo, "sem bens e sem dinheiro, nada t m
que calcular, e todas as idéias abstratas de quantidade e numero, sem ru qua1
a razão do homem pouco difere do instinto dos brutos, lhe são desconhecidas"
Aqui está a diferença entre as duas civilizações, ou ntre a c1 ihzação e
a barbárie. Numa formulação cortante e inovadora. diz que o "índio da Amert
ca parece um homem novo" por ter que repelir a força pela força, ndo a
guerra uma necessidade. "Bntlo a fraqueza e covmfia que alguns escritore5
europeus fazem ingênitas aos fndios desaparecem. e uma oragem e valentw
que há poucos exemplos na Europa tomam o teu lugar". &oando Montaigne
do século XVI, lembra ele a descri9IO"' uma beralhl contada por Jean de
Léry, noinfciodacolonizaçlo,depoiJ~~contrao e
finalmente, do ÚldlO Camaslo CODb'a OI ueáellJo XVD
Com rnenta1tc1aae ~ íiQ. eDOI'JI
ele interpreta que taf,dtflilfiiiWufíW.Â'l•tuil~~
magistrados o ••HM•
obrigaçio .. ., fDalltl!tllll
diapersoa aa uwro~•
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/'/WJ/.1(1.\ /'ARA O IlRAS/I,
1 rn que \l' 1:ncon1ram; segundo, o modo errado como os portugueses têm tra.
tado m índios. "ainda quando de~ejamos dome~ticá-los e fazê-los felizes".
()uanto <I ~Jiuuçào em <.Ule se acham, faz uma série de observações que,
embora marcada\ pelo refom1ismo do despotismo esclarecido, revelam os juízos
de uma sociedade ainda presa aos valores estabelecidos, europeizada, branca,
pré-capitali\ta. Daf se dizer serem os índios "povos vagabundos", envolvidos
em guerras contínuas c roubos, não terem freios religiosos ou civis, sendo-lhes
"insuportável ~ujcitarem-se a kis, c costumes regulares". Entregues natural-
mente a preguiça, diz ele, fogem dos trabalhos regulares e aturados; temem
sofrer lorne~. se abandonarem sua vida de caçadores. As "nações" inimigas
dos hrancos temem ser aldeadas, com medo de vingança depois, ou, presumi-
damente valentes, desprezam os brancos por não terem sido castigados, prefe-
nndo continuar a "roubar-nos a servir-nos''. Além disso, os valentes e poderosos
entre eles temem perder esse respeito e os privilégios de guerreiros; e se en-
trarem "no seio da Igreja" deverão abandonar suas "contínuas bebedices", a
polil.!amia e os divórcios voluntários. O que explica, segundo Bonifácio, que as
r.lp.trigas casadas ,!dotassem mais facilmente a religião cristã, "porque assim
sc!'uram os maridos c se livram de rivais".
Ma~ o deputado das Luzes mostra o outro lado da mesma questão vista a
p<~rtir do mau componamento dos brancos. O medo dos indígenas derivaria
dos cat1veirm antigos, do desprezo com o qual foram tratados, "o roubo contí-
nuo de ~ uas mclho1es terras", os serviços a que os sujeitamos, pagando pouco
ou nenhum salário ("jornais"), alimentando-os mal, "enganando-os nos contra
tos de w mpra, e venda, que com eles fazemos". E completa seu arrazoado
dcn uncimtdo que os índios são tirados por anos c anos de suas famílias e roçaa
para o ~c rv iços do Est<tdo c de particulares. Em suma, damos-lhes todos OS
no• o >ICJo c doenças, sem lhe~ comunicar nossas virtudes e talentos. Em
contta te com a v1 ào que o E tado lu o-brasileiro tinha do assunto, isso 6
re\olucmnano. Et 'i ua u ·c~tão:
tu ror heccndo pnmcrro o que ~lo e devem er naturalmente 01
n a depor Jch m o o mero de os converter no que nos cumpre que
CAMI Os OIJIIIIERM~ MCYT
gregos c os romanos, "nações" muito instruídas e civthzadas, que 1 aram
culos até adotar o cristianismo. E que os negros da Áfnca apesar de 1 rem
contato há séculos com os europeus, ainda estão "qua e no me mo • estado
de barbaridade" que o "nossos índios do Brasil".
Sua lógica é notável, nesse hábil e dialético movimento de rotaç 0 de
posições. Algo de Rousseau ronda sua teoria das civilizações e da cultura
Segundo pensa, "o homem em estado selvático, e mormente o índio bra 0 do
Brasil, deve ser preguiçoso". Tese radical. E aqui nasce uma prefiguração d
sua curiosa antropologia, que faria escola no Brasil no século gumtc, ao
constatar que esse indígena pode arranchar-se em terrenos bundantes de
caça e pesca, de frutos silvestres, vivendo cômodo todo os dias e posto ao
tempo, "sem os melindres de nosso luxo". O índio "não tem idéia de pro pen
dade, nem desejo de distinções e vaidades sociais, que são as molas podero a
que põem em atividade o homem civilizado". Tem, sim, uma "razão sem exer-
cício", pouco treinada, é "falto de uma razão apurada, falto de precaução" por
não se preocupar mais senão com sua conservação física. Do que não v ,
nada lhe importa, nota o Patriarca. reduzindo-o assim brutalment ao estado
natural: "É como o animal silvestre seu companheiro".
O índio é diferente do homem civilizado, pois "para ser feliz o homem
civilizado precisa calcular, e uma aritmética, por mais grosseira e manca que
seja lhe é indispensável". Já o índio bravo, "sem bens e sem dinheiro, nada t m
que calcular, e todas as idéias abstratas de quantidade e numero, sem ru qua1
a razão do homem pouco difere do instinto dos brutos, lhe são desconhecidas"
Aqui está a diferença entre as duas civilizações, ou ntre a c1 ihzação e
a barbárie. Numa formulação cortante e inovadora. diz que o "índio da Amert
ca parece um homem novo" por ter que repelir a força pela força, ndo a
guerra uma necessidade. "Bntlo a fraqueza e covmfia que alguns escritore5
europeus fazem ingênitas aos fndios desaparecem. e uma oragem e valentw
que há poucos exemplos na Europa tomam o teu lugar". &oando Montaigne
do século XVI, lembra ele a descri9IO"' uma beralhl contada por Jean de
Léry, noinfciodacolonizaçlo,depoiJ~~contrao e
finalmente, do ÚldlO Camaslo CODb'a OI ueáellJo XVD
Com rnenta1tc1aae ~ íiQ. eDOI'JI
ele interpreta que taf,dtflilfiiiWufíW.Â'l•tuil~~
magistrados o ••HM•
obrigaçio .. ., fDalltl!tllll
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CARLOS G ILHERME MQ'r
ó podem reprimir
devoram. E ha emo de
ri tio , Ih 1 mo feito
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CARLOS G ILHERME MQ'r
ó podem reprimir
devoram. E ha emo de
ri tio , Ih 1 mo feito
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R J 1 I\ I' I I BR \/L ( ARLO GUILHHRM MOT
n.t 1J J aJ1,, 'l.jUth~rar-. ·-i.un o culti' o e o f abri
I'ROPOST\.uces Í\ " civiliza ão d
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R J 1 I\ I' I I BR \/L ( ARLO GUILHHRM MOT
n.t 1J J aJ1,, 'l.jUth~rar-. ·-i.un o culti' o e o f abri
I'ROPOST\.
uces Í\ " civiliza ão d
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F' ROl/- TOS ~\RA O BRASIL
colônias. E qui.!. nada ohstante, não se arruinaram as colônias, nem o império
ingl~ . . _ .. . . ,
Cone i amando de modo explícito seus conc1dadaos brastle1ros a adota.
n.!m a causa da abolição, propõe os argumentos da "mzão, e da religião cristã,
da hon1a c do brio nacional''. E aqui se localizam os valores que embasam e
JUStificam sua tese indcpendentista c abolicionista, bastante avançada para o
·Bra~il ~cr11aleiro , numa conjunção de linhas ideológicas que desenham- pela
w 1 prrmcrra num ambiente institucionalizado- o espaço nacional com homens
1r r~;\ Nesse sentido, está à frente até das lideranças independentistas da
América do Norte, inclusive de Thomas Jefferson. Pode-se entender, também,
a partir dessas po~içõcs radicais, por que seria, poucos meses depois, exilado,
com perseguição e risco de morte em alto-mar.
Autodcfine-sc ele como "cristão c filantropo", e pede o auxílio de Deus,
que o "anime para ousar levantar minha fraca voz no meio desta augusta As-
Sl!mbleia". Lembra que seus ouvintes e pares são legisladores - ou seja,
agenll:~ da história - e têm por essa razão responsabilidade tremenda. Não
bla de revolução, mas prega a "regeneração política" do país, e justiça, pro-
pondo uma série de medidas concretas para a formação de um outro tipo de
~~· ictl<itll' c. a longo prazo. de mentalidade. Para a independência nacional nl0
h<~stava a reforma política; necessário era constituir uma nova sociedade, vistó
que o despoti mo anterior queria que "fôssemos um povo mesclado e hetero-
geueo, sem nacional idade. e sem irmandade, para melhor nos escravizar". PaJ.II
.1 n:gencração, a Constituição liberal c duradoura deveria abrigar os pressU
postos da nova sociedade.
Para tanto, Bonrfácio 1\!COITc a uma série de hábeis argumentos, c
çando por assustar as elites: deve-se acabar com o "país continuamente
do por uma multidão imensa de escr.r vos bmtais c inimigos", chegando a
num dos art tgos a revolução de escravos de São Domingos (hoje Haiti),
1791 As eli tes não devem ser apenas justas, como também penitentes.
mostras de arrependimento, pois "fomos contra a religião que diz 'não
aos out1os o que queremos que na o nos façam a nós"' (em sua fOimtllatçãct~Q
.me\esada). lláhil, desfia uma série de mazelas que acompanham o
inc~ndios. rouhos, guerras, "que fomentamos entre os selvagens da
Qt~ · · ac.t~"ll!~~ com essas mortes e martírios sem conta, flagelos em
nropno tc1 ntnno" I~ . c pode imaginar o quanto suas palavras
tnltcnt . pohtico social. turbulento desde a insurreição de 1817
) tl,mdo \tlhr..:tudo os meios da empresa negreira, tão fort na
90
CARLOS GUILHERMe MOl'A
É tempo, e ma•s que tempo, que acabemos com om trti'k:o tio b~aroecanuceuo, ~
tempo rambém que vamos acabando gradualmente a~ os úlbJIIOI veslfgJOS da escra-
vtdão entre nós, para que venhamos a formar em poucas genaç6es umauaç1o homoge-
nea, sem o que nunca seremos verdadeiramente bv~Q, l'elpons4vetJ c felizes É da
maior necessidade ir acabando tanta heterogeneidade ffstca e CIVIl.
Aqui reside a tese principal de Bonifácio, enunctada no mesmo tom da
Convenção Nacional durante o período jacobino da Revolução Prancesa . A
nação requer um povo, e que seja, dizia ele, o resultado de am4lgama (tenno
que retira da química, que estuda inclusive o amálgama, ou nlo, de metai
diversos) de elementos que componham "um todo homogêneo e compacto,
que não se esfarele ao pequeno toque de qualquer nova convulsão política"
Incita os deputados, comparando seu papel de químico que serlo agente
dessa "tão grande e difícil manipulação", e faz o julgamento dW'o da naç
portuguesa, "de que fazíamos outrora parte". Segundo pensa, "nenhuma talvez
pecou mais contra a humanidade".
Aí está sua ruptura. Esse "outrora" joga para o passado um cont.encroao
de erros, uma política desumana, a barbárie. Bonifácio faz história, ma tam
bémjulga a história com impiedade:
Foram os portugueses os primeiros que, desde o tempo do infante D HoJirlque
fizeram um ramo do comúçio legal deprear homens livres. e veudl-los ClOIIe
nos mercados europeus e americanos. Ainda hoje perto de 40 000 c:ríJCU~VhumaAu
são arrancadas da África, privadas de 101.18laqa. de ICUI pm. filhoa I
portados às nossas regiGcs, ac:m aiiiCDOl'~ rapuwemouua p6t
ares, e destinadas a trabalhar toda vic!J ®bailodo.IÇDJte eruel de aenham, el
seus filhos, e os filhos de seus ftlhol ,PUt rolO o Rmpl'el •
A frase é sofisticada. ao fa1l~d~bí-1Joit --
o grande tema da época, o
família, liberdade, futuro.
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F' ROl/- TOS ~\RA O BRASIL
colônias. E qui.!. nada ohstante, não se arruinaram as colônias, nem o império
ingl~ . . _ .. . . ,
Cone i amando de modo explícito seus conc1dadaos brastle1ros a adota.
n.!m a causa da abolição, propõe os argumentos da "mzão, e da religião cristã,
da hon1a c do brio nacional''. E aqui se localizam os valores que embasam e
JUStificam sua tese indcpendentista c abolicionista, bastante avançada para o
·Bra~il ~cr11aleiro , numa conjunção de linhas ideológicas que desenham- pela
w 1 prrmcrra num ambiente institucionalizado- o espaço nacional com homens
1r r~;\ Nesse sentido, está à frente até das lideranças independentistas da
América do Norte, inclusive de Thomas Jefferson. Pode-se entender, também,
a partir dessas po~içõcs radicais, por que seria, poucos meses depois, exilado,
com perseguição e risco de morte em alto-mar.
Autodcfine-sc ele como "cristão c filantropo", e pede o auxílio de Deus,
que o "anime para ousar levantar minha fraca voz no meio desta augusta As-
Sl!mbleia". Lembra que seus ouvintes e pares são legisladores - ou seja,
agenll:~ da história - e têm por essa razão responsabilidade tremenda. Não
bla de revolução, mas prega a "regeneração política" do país, e justiça, pro-
pondo uma série de medidas concretas para a formação de um outro tipo de
~~· ictl<itll' c. a longo prazo. de mentalidade. Para a independência nacional nl0
h<~stava a reforma política; necessário era constituir uma nova sociedade, vistó
que o despoti mo anterior queria que "fôssemos um povo mesclado e hetero-
geueo, sem nacional idade. e sem irmandade, para melhor nos escravizar". PaJ.II
.1 n:gencração, a Constituição liberal c duradoura deveria abrigar os pressU
postos da nova sociedade.
Para tanto, Bonrfácio 1\!COITc a uma série de hábeis argumentos, c
çando por assustar as elites: deve-se acabar com o "país continuamente
do por uma multidão imensa de escr.r vos bmtais c inimigos", chegando a
num dos art tgos a revolução de escravos de São Domingos (hoje Haiti),
1791 As eli tes não devem ser apenas justas, como também penitentes.
mostras de arrependimento, pois "fomos contra a religião que diz 'não
aos out1os o que queremos que na o nos façam a nós"' (em sua fOimtllatçãct~Q
.me\esada). lláhil, desfia uma série de mazelas que acompanham o
inc~ndios. rouhos, guerras, "que fomentamos entre os selvagens da
Qt~ · · ac.t~"ll!~~ com essas mortes e martírios sem conta, flagelos em
nropno tc1 ntnno" I~ . c pode imaginar o quanto suas palavras
tnltcnt . pohtico social. turbulento desde a insurreição de 1817
) tl,mdo \tlhr..:tudo os meios da empresa negreira, tão fort na
90
CARLOS GUILHERMe MOl'A
É tempo, e ma•s que tempo, que acabemos com om trti'k:o tio b~aroecanuceuo, ~
tempo rambém que vamos acabando gradualmente a~ os úlbJIIOI veslfgJOS da escra-
vtdão entre nós, para que venhamos a formar em poucas genaç6es umauaç1o homoge-
nea, sem o que nunca seremos verdadeiramentebv~Q, l'elpons4vetJ c felizes É da
maior necessidade ir acabando tanta heterogeneidade ffstca e CIVIl.
Aqui reside a tese principal de Bonifácio, enunctada no mesmo tom da
Convenção Nacional durante o período jacobino da Revolução Prancesa . A
nação requer um povo, e que seja, dizia ele, o resultado de am4lgama (tenno
que retira da química, que estuda inclusive o amálgama, ou nlo, de metai
diversos) de elementos que componham "um todo homogêneo e compacto,
que não se esfarele ao pequeno toque de qualquer nova convulsão política"
Incita os deputados, comparando seu papel de químico que serlo agente
dessa "tão grande e difícil manipulação", e faz o julgamento dW'o da naç
portuguesa, "de que fazíamos outrora parte". Segundo pensa, "nenhuma talvez
pecou mais contra a humanidade".
Aí está sua ruptura. Esse "outrora" joga para o passado um cont.encroao
de erros, uma política desumana, a barbárie. Bonifácio faz história, ma tam
bémjulga a história com impiedade:
Foram os portugueses os primeiros que, desde o tempo do infante D HoJirlque
fizeram um ramo do comúçio legal deprear homens livres. e veudl-los ClOIIe
nos mercados europeus e americanos. Ainda hoje perto de 40 000 c:ríJCU~VhumaAu
são arrancadas da África, privadas de 101.18laqa. de ICUI pm. filhoa I
portados às nossas regiGcs, ac:m aiiiCDOl'~ rapuwemouua p6t
ares, e destinadas a trabalhar toda vic!J ®bailodo.IÇDJte eruel de aenham, el
seus filhos, e os filhos de seus ftlhol ,PUt rolO o Rmpl'el •
A frase é sofisticada. ao fa1l~d~bí-1Joit --
o grande tema da época, o
família, liberdade, futuro.
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1'/<0JI.TOS /11/1,\ O BRA:./1.
1ul .mdo. er um fa,or comprá lo para lhes conservar a vida, ainda que em
catiH:tro. Rl.!futa, a~.-..im, com vigor. os argumentos consolidados ao longo de
c ulo de exploração. incrustados na mentalidade dessa rude sociedade
c era\ tsta.
\ J longo da introdução aos pontos que irá propor para a feitura da lei,
rc' Ja-sc a ompo ição de sua ideologia monarquista liberal-con titucional,
undad.t em uma tmpr sionantemente sólida visão do direito público. do direito
r\ ti d.l ht tmia em geral Afinal. era leitor de Aristóteles, Sêneca. Cícero,
l'lut : . Tá !lo, trgtlJO. Tu o LÍ\ i o, Bacon. Leibniz. Bayle, Montesquieu,
·en I n. Humc. Gtbbon, Herde r. Buffon ( obretudo). Meister e Voltaire, den-
IR utr dás ·._ lem de Cam3e e \'ieira ~osso deputado. utilizando-se
pJ idade d • rgumema ão. de observação do acontecimentos
âneo . do uso da dialética (que retira do clá sico ), alcança uma
d • ied de bast:mte avançada para sua época: pois ele domina,
CARLOS GlJ!LHERME I A
te um sistema de superstições e abusos anti- octai ... E. leitor de \ ltaire.
ataca ··nosso clero, em muita parte ignorante e corrompido r pois] é o pnme'r
que se erve de escravos", para acumular. enriquecer, omeret r. p an r
formar muitas vezes com as "desgraçadas escra as um harém turc · Den n-
cia os pseudo-estadistas, os "nos o comprad re e \endedores de c me hu-
mana". venais "que só empunham a vara dajusti a para oprimir de gra d ·
ficando a ordem de\ alores "de todo im enida no Brastl ',dominando no á-
rio 0 lu o e a corrupção. que nasceu entre nós nte da CJ 'hzação e da nd' •
tria E qual a cau a dos males? A escra\ idão ... E rebate o anugo argument
que ela é nece sária porque a gente do Brastl ''é froux preguiÇosa .
tem. diz. e para demonstrá-lo. recorre ao exemplo de ~o Paulo antes da
ão do engenhos de a úcar, que tinha poucos escra~os. e c 1a em po
e agricultura. na base do milho. feijão, farinha, arroz toucinhos. carnes de
co. etc. E calcula matematicamente que aqui produzia c nco
milho que em Ponugal. "estando as horas d trabal necessanoda la
razão inversa do produto da mesma".
Tal como Jefferson o fazia. baseia-se em ál u
r a ão l com a Índia, por exemplo, onde e iste ··unpoh · a
em castas", ou com a Cochinchina). Preocupad
te. ad' ene que naqueles países o ulti ocorria "sem nec:essi~:lc
matas e esterilizar terrenos. como desgraçadamen
do··. l'm precursor da ecologia. como se rê
Para re\ ner esse quadro. propugna a in1tmduciode tOO\'·as
ropéias. d eno c m poucos fa d insllrUI:netHOS
rústi o " e. com e práticas. o terre110. Mm,.,.nrtn nrt..'U< tralo.ll!\ldo,
fi ará''. Em sínt 3 :
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1'/<0JI.TOS /11/1,\ O BRA:./1.
1ul .mdo. er um fa,or comprá lo para lhes conservar a vida, ainda que em
catiH:tro. Rl.!futa, a~.-..im, com vigor. os argumentos consolidados ao longo de
c ulo de exploração. incrustados na mentalidade dessa rude sociedade
c era\ tsta.
\ J longo da introdução aos pontos que irá propor para a feitura da lei,
rc' Ja-sc a ompo ição de sua ideologia monarquista liberal-con titucional,
undad.t em uma tmpr sionantemente sólida visão do direito público. do direito
r\ ti d.l ht tmia em geral Afinal. era leitor de Aristóteles, Sêneca. Cícero,
l'lut : . Tá !lo, trgtlJO. Tu o LÍ\ i o, Bacon. Leibniz. Bayle, Montesquieu,
·en I n. Humc. Gtbbon, Herde r. Buffon ( obretudo). Meister e Voltaire, den-
IR utr dás ·._ lem de Cam3e e \'ieira ~osso deputado. utilizando-se
pJ idade d • rgumema ão. de observação do acontecimentos
âneo . do uso da dialética (que retira do clá sico ), alcança uma
d • ied de bast:mte avançada para sua época: pois ele domina,
CARLOS GlJ!LHERME I A
te um sistema de superstições e abusos anti- octai ... E. leitor de \ ltaire.
ataca ··nosso clero, em muita parte ignorante e corrompido r pois] é o pnme'r
que se erve de escravos", para acumular. enriquecer, omeret r. p an r
formar muitas vezes com as "desgraçadas escra as um harém turc · Den n-
cia os pseudo-estadistas, os "nos o comprad re e \endedores de c me hu-
mana". venais "que só empunham a vara dajusti a para oprimir de gra d ·
ficando a ordem de\ alores "de todo im enida no Brastl ',dominando no á-
rio 0 lu o e a corrupção. que nasceu entre nós nte da CJ 'hzação e da nd' •
tria E qual a cau a dos males? A escra\ idão ... E rebate o anugo argument
que ela é nece sária porque a gente do Brastl ''é froux preguiÇosa .
tem. diz. e para demonstrá-lo. recorre ao exemplo de ~o Paulo antes da
ão do engenhos de a úcar, que tinha poucos escra~os. e c 1a em po
e agricultura. na base do milho. feijão, farinha, arroz toucinhos. carnes de
co. etc. E calcula matematicamente que aqui produzia c nco
milho que em Ponugal. "estando as horas d trabal necessanoda la
razão inversa do produto da mesma".
Tal como Jefferson o fazia. baseia-se em ál u
r a ão l com a Índia, por exemplo, onde e iste ··unpoh · a
em castas", ou com a Cochinchina). Preocupad
te. ad' ene que naqueles países o ulti ocorria "sem nec:essi~:lc
matas e esterilizar terrenos. como desgraçadamen
do··. l'm precursor da ecologia. como se rê
Para re\ ner esse quadro. propugna a in1tmduciode tOO\'·as
ropéias. d eno c m poucos fa d insllrUI:netHOS
rústi o " e. com e práticas. o terre110. Mm,.,.nrtn nrt..'U< tralo.ll!\ldo,
fi ará''. Em sínt 3 :
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PROJETOS PAR,\ O BRASIL CARLOS GUILHERME MOTA
Com 0 andar do tempo, serão postos em livre circulação cabedais mor-
tos. que não são absorvidos com a adoção desse sistema, livrando adernai as
famílias do mau exemplo e da tirania, poupando o Estado de seus inimigos, ou
seja, dessa gente que "hoje não tem pátria, e que podem vir a ser nosso
irmãos e nossos compatriotas".
Fazendo um apelo a uma inspiração profunda na religião de Jesus Cristo
"e não em momices e superstições", propõe que seja dada aos escravos toda a
civilização de que são capazes no seu desgraçado estado, "despojando-os 0
menos que pudermos da dignidade de homens e cidadãos".
Nessa perspectiva, cidadania, pátria, propriedade, fraternidade, liberda-
de, imigração, miscigenação e imigração delineariam os contorno da nova
idéia de nação independente, sustentada por uma sólida "sociedadecivil". Que
deixasse o passado para trás, o que não aconteceu ... Pois os interesses dos
comerciantes negreiros junto à coroa, associados aos interesses de grandes
proprietários de terras que ainda se utilizavam do trabalho escravo, e que co-
meçavam a ver renascer sua força com o crescimento da economia cafeeira,
conseguiram alijar Bonifácio da cena histórica brasileira.
Monarquista e constitucionalista ferrenho, a figura mais importante e i-
sível da jovem nação (tanto quanto Benjamin Franklin, "the Doctor". nos Esta-
dos Unidos), nosso sábio foi apeado do poder, aviltado, exilado em Talence,
nos arredores de Bordeaux, na França. Fez-se a independência, mas escra o
e índios continuariam no limbo de sua "incorrigível barbaridade", sem aber
exatamente qual era seu lugar no mundo que o português cnou.
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PROJETOS PAR,\ O BRASIL CARLOS GUILHERME MOTA
Com 0 andar do tempo, serão postos em livre circulação cabedais mor-
tos. que não são absorvidos com a adoção desse sistema, livrando adernai as
famílias do mau exemplo e da tirania, poupando o Estado de seus inimigos, ou
seja, dessa gente que "hoje não tem pátria, e que podem vir a ser nosso
irmãos e nossos compatriotas".
Fazendo um apelo a uma inspiração profunda na religião de Jesus Cristo
"e não em momices e superstições", propõe que seja dada aos escravos toda a
civilização de que são capazes no seu desgraçado estado, "despojando-os 0
menos que pudermos da dignidade de homens e cidadãos".
Nessa perspectiva, cidadania, pátria, propriedade, fraternidade, liberda-
de, imigração, miscigenação e imigração delineariam os contorno da nova
idéia de nação independente, sustentada por uma sólida "sociedade civil". Que
deixasse o passado para trás, o que não aconteceu ... Pois os interesses dos
comerciantes negreiros junto à coroa, associados aos interesses de grandes
proprietários de terras que ainda se utilizavam do trabalho escravo, e que co-
meçavam a ver renascer sua força com o crescimento da economia cafeeira,
conseguiram alijar Bonifácio da cena histórica brasileira.
Monarquista e constitucionalista ferrenho, a figura mais importante e i-
sível da jovem nação (tanto quanto Benjamin Franklin, "the Doctor". nos Esta-
dos Unidos), nosso sábio foi apeado do poder, aviltado, exilado em Talence,
nos arredores de Bordeaux, na França. Fez-se a independência, mas escra o
e índios continuariam no limbo de sua "incorrigível barbaridade", sem aber
exatamente qual era seu lugar no mundo que o português cnou.
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Autobio ifi.
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Autobio ifi.
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Autor: um senhor de 64 anos de idade, que vive em desespero. Local:
fazenda Atalaia, no estado do Rio de Janeiro. Tempo de execução da obra:
quinze dias, na maior parte dos quais o autor tinha de interromper 0 trabalho,
atacado por crises violentas de enxaqueca. Momento: julho de 1878, imediata-
mente após a decretação da falência da empresa Mauá & Cia. Intenção origi-
na 1 do trabalho: provar a credores prejudicados com a falência que o empresário
mereceu a confiança nele depositada. Resultado posterior: na avaliação do
economista Celso Furtado, um dos quinze livros básicos para se entender o
Brasil.
As condições precárias em que foi escrita Exposição aos credores. sua
finalidade episódica, conjuntural, jamais indicariam o destino posterior da obra
de Irineu Evangelista de Sousa, visconde de Mauá. Se ao improvisado escritor
faltavam tempo e vontade de fazer literatura ou análise, as próprias condições
do momento ajudavam a dar intensidade a suas palavras. Da fazenda onde
acompanhava o marido desesperado, Maria Joaquina de Sousa, também sobri-
nha do autor, escrevia a uma filha: "Teu pai envelheceu dez anos nestas quatro
semanas. Tenho me esforçado para consolá-lo, mas é difícil quando se tem
razão e se reconhece que [a falência) foi uma grande injustiça".
Injustiça: esse o sentimento envolvido intensamente na obra. Daí que ela
implique, acima de tudo, um julgamento moral: onde estaria a razão. que deve-
ria presidir a justiça- no homem que escrevia ou nas circunst&ncias que o
arrastaram a escrever como falido?
A falência dava nova forma à questão. O hvro era uma novidade para
aquele senhor. Ele escrevia muito, todos os dias. Mas sua especialidade eram
canas comerciais. De vez em quando. por exigência das situações, escre ia
um ou outro artigo de jornal, quase sempre para se defender ele a&aques O
debate de idéias desempenhava um papel muito seci1Dd4rio em s priorida-
des de empresário. Para Mauá, ~fora.amito mais importante ~a
construção de obras visíveis, s6U4a, ~.-,~ E uma respo8Ca.a llJU
mentos, para ele, exigia aç a vkla ilttDiRir8·1111JIGD-
der críticas com inaupll'JÇ~---·
mais consistentes QCUIWi iDJIIIIII~
Vitória
&ideraçsõesrnc.;n'l'allmQ,dejkuati-·
deixava no WIDBQilD·~MIIII
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Autor: um senhor de 64 anos de idade, que vive em desespero. Local:
fazenda Atalaia, no estado do Rio de Janeiro. Tempo de execução da obra:
quinze dias, na maior parte dos quais o autor tinha de interromper 0 trabalho,
atacado por crises violentas de enxaqueca. Momento: julho de 1878, imediata-
mente após a decretação da falência da empresa Mauá & Cia. Intenção origi-
na 1 do trabalho: provar a credores prejudicados com a falência que o empresário
mereceu a confiança nele depositada. Resultado posterior: na avaliação do
economista Celso Furtado, um dos quinze livros básicos para se entender o
Brasil.
As condições precárias em que foi escrita Exposição aos credores. sua
finalidade episódica, conjuntural, jamais indicariam o destino posterior da obra
de Irineu Evangelista de Sousa, visconde de Mauá. Se ao improvisado escritor
faltavam tempo e vontade de fazer literatura ou análise, as próprias condições
do momento ajudavam a dar intensidade a suas palavras. Da fazenda onde
acompanhava o marido desesperado, Maria Joaquina de Sousa, também sobri-
nha do autor, escrevia a uma filha: "Teu pai envelheceu dez anos nestas quatro
semanas. Tenho me esforçado para consolá-lo, mas é difícil quando se tem
razão e se reconhece que [a falência) foi uma grande injustiça".
Injustiça: esse o sentimento envolvido intensamente na obra. Daí que ela
implique, acima de tudo, um julgamento moral: onde estaria a razão. que deve-
ria presidir a justiça- no homem que escrevia ou nas circunst&ncias que o
arrastaram a escrever como falido?
A falência dava nova forma à questão. O hvro era uma novidade para
aquele senhor. Ele escrevia muito, todos os dias. Mas sua especialidade eram
canas comerciais. De vez em quando. por exigência das situações, escre ia
um ou outro artigo de jornal, quase sempre para se defender ele a&aques O
debate de idéias desempenhava um papel muito seci1Dd4rio em s priorida-
des de empresário. Para Mauá, ~fora.amito mais importante ~a
construção de obras visíveis, s6U4a, ~.-,~ E uma respo8Ca.a llJU
mentos, para ele, exigia aç a vkla ilttDiRir8·1111JIGD-
der críticas com inaupll'JÇ~---·
mais consistentes QCUIWi iDJIIIIII~
Vitória
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M//fl/1/lllt!IM IA
lo • fqtfllfl ,l I 11111
l"'''"';'''''"'lliiU,o J',"'"' ""' odo 1110 tlopaf
111, "'' ,, fluu ·'""' qtw viv t.tlll ,, u.o '11 1.1 , ,, forruna omealhoda
''"l''' 11111 o·nopP lor ' trqu•,r.o'' lllfll'l.lflOriJII I"Wirulodccálculolq
11 1111 ''""' u.1111, "'fi!' '·'l'"''iu'· l''' tllt,Jv.runtltpotpw lhea p recio poucoq
111 ,dn lltt.ollll• ll'' lllJul.l P"'IJ"' '( l~o~ ••ava• rnccrta premtuaadopro-
J!ll " u.o dtil '·'"do 1 .qut.rh 1110 qw lodo\ ele deleatavam; injusta porque
, ,,u 1,mh ,., ult , "'"' •• v. t , "' JWI ívo ,, lordt·rn "nalural" da eacravldlo,
u• 1u""'', ,, !f, '"tw·~o~ p.ua qul'm .tpo lo~ he m empreendimenlOI
,, "'' · d.t, "itullw.t tllfl l'>l.t, t•rlfuu . porque nmdenova quem vivia do tta
aJh, 10 • 11.1\J doJH6pt i o >li'''
A, x"·~·~~' d" lo11u11.t dl' lrim·u ajudou a aumentar a inveja contra
,, 11 I• 11111 a 1 ''" ,, na '' ulfU '>I t~r·• " de ~ u:• riqueza. Enquanto foi multo
1111p1t olllll lt'Vr IJ;j :umas Jltllll harrar esse sentimentos. Poi
•"l'<lll.nua tnlcr · <'trt>, inirmgo da pálria, destruidor da solidez
\• 'd· dt uu m rta ~u.trt •ra, devolvia as críticas na forma de novol
cutltul nh ··;.com uma C.:lliiÇa inabalável na capacidade de creac:imento
tHIIllhtlll, t~tkir.t. hu cantlnwnstantemente novos melhorameDtol
l111t • 1.1 • I.UIIhém Cl)ffi o manejo de símbolos carol aot
a< 11ou .ti a menti! o rflulo d barão- numa opcraçlo que delmclnsl*
100
1an10 DOI q dw
Hlltido de ua vida unha
btulllpt.,.& JIICIIW~:tr IIDl caraiaho pail,
........ IJK:ia. paa leuJ
dH._,_....,.fl~um desvio pocte.
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4U /011/0GRMIA
Jill'rJllllJUL'st,1o d ·adotar uma política t:conômica rt:stritiva, que favorecia a
, iJ,1 h11,1 Jc rt•n tistas t.!m dt:tnmcnto do crc cimento econômico. A sim, a em.
prt's,t dL' 1au.t em como um.l hakia pre a numa pequena enseada: sempre
,uriscada ;) falta de t.! spuço para se 1110\ Ímentar. Várias vezes ele e caparu
J ,ts tL·nwti' .t~ dt.! seus ,1dvcrsario. de fechar o cerco. De sa vez, não c capou.
F.tlttlll·lht• dinheiro em cai \a para manobrar. Um ocorro de liquidcz do Banco
Jo Hr.tsil s ·ria ·ufic:it•nte pa r.t •vitar o encalhc, ma. lhe foi negado.
Pda~ lé1: da t'pt a, .t f.tlta de caixa tornava obrigatória a liquidação do
lll' , l' itl l'nl II~S .lllos .. a liquid.tçfio roi decretada. Não import lVa que a ern-
1' ·s.t I K • olid.t. n ·m quc tive .. 'ótima pt:rspcctivas econômicas. Mauá foi
,,hrig.td 1 .t , t·m trt~s .mo .liquitl.tr um patrimônio monumental num país t:m que
.L propria crise tl·~l' LKadt•ada pela moratôria tornava mais pre árias as condi-
~' tl's ti· liquid ''· Fk quase on. eguiu o que parecia impos íwL entrc outras
Clli'J por Jllt' ~u ,1s ·mprt:sa · n;i,) tinham problema, econômico.: o ativo era
. up ·nm ,to p.t . iH1 o. Ires anlls de prazo. fez uma redução de 80% do
p.ts~i' ''·
Collll'\ ·t· otimo enc.uninhamcnto dos negocio. c o total apoio dos credo-
r'.. tiniu de cnntom.tr apenil. um ob t:iettlo hurocnítico: obter prorrogação da
111• ra tl na .. tas .1 grande .trma que empregava para c defender perdera . ua
m 1gra \ moratt ria foi um sinal· estavam rompidas a barreiras para os ata·
qu •s d · ·eu .• ld\ crsan< s unca. como ncs c período, Mauá foi tão atacado.
Aind.t a· im. llltiOuou como :empre. fc mo urvado sob o pe o da morató-
ria. m.mt ' c. ua p siç;io tle jamai rt:. pondcr a ataques pe soai . No máximo.
em momento' !ltim,,s, faz1a ob ervaçõcs de tudo que c passava em cartas
pata amigo.. uma dt!las. concluiu: "Em leão deitado, até burro dá coice". O
i~·~: qu • l ' J rrubou \ ·ío de uma manohra de ba tidores. com a qual os adver-
ano '.JUntaram para impedir a boa liquidação do negócios- uma pos ibili·
dad' ma1' que razoa\cl em face do hrilhante de empenho da liquidação. Emm
ente pod •ro a. o que significava •mpregar cada interpretação de cada vírgula
d..t l•t co.ntra n .11h ~r. á no . • 10 fim. venceram graças a um parágrafo do Código
rt lal qu . ~nga\ a a presença física dos credores para aprovar a prorro-
-e \b~a !lnha credores não apenas em todo o Brasil. mas espalhados
~ \.'m .P~Ise · \ s procuraçõc desses credores não foram reconhecidas e
•1 f lenc1a ro1 d.::cretada.
E 0
qu_adro do drama vivido nos quinze dias como escritor num retiro
IÇao n~s-crednre~ é a exposição do sentido de uma vida, mas é,
. po I ao de uma frust . - . d h
nh raçao. a o ornem que construía, do ho--
.l c m um grande futuro econômico para seu bolso e
102
JORGE CALDEIRA
pals e não via diferença entre os dois resultados. Tudo o que considerava
importante, tudo o que esperava de bom, perdia sentido prático. Naquele 010 •
menta não havia mais as armas de semprc, somente a pena. Com ela lutaria
Para a maioria dos brasileiros, a falência parecia uma boa obra moral: 0 país s~.:
li vrava de um mal, afastava um perigo. Perigo traduzido na imagem demoníaca
do emprc ário, que a falência parecia exorcizar. A faiCncia era derrota nao
apenas pessoal: parecia uma prova evidente de que o caminho trilhado por
Muuá não deveria ser seguido por outros.
Pcça de defesa, a Exposiçcío aos credores tem urna estrutura narrati v.t
muito simples. Começa com um breve resumo dos anos iniciai de vida do
cmpre ário, até o momento em que ele lança seu primeiro empreendimento
industrial , a fundição e estaleiro da Ponta de Areia. A partir daí, numa série de
25 capítulos curtos, descreve o desenvolvimento de um número idcntico d~
cmpre as que criou, que dirigiu ou de que participou. O estilo é seco, dirt•to,
ma i parecido com o dos jornais do século XX que com o dos livros de sua
cpoca . Em poucas palavras o autor narra as circunstância , os cálculo~ de
rentabilidade ou as razões que o levaram ao negócio, e seus resultados. Qua ~c
nada de discussões laterais, raros elogios ou lamentações. Apenas o último
capítulo, referente a seu banco, destoa disso. Ali há uma discussiio mais alen-
tada. Todo o argumento sobre a falência se concentra nesse final - c o ar~u
mcnto será detalhado adiante.
Antes dele, é preciso considerar a estrutura geral. O pequeno livro che-
gou a ser depois publicado com o tftulo de Autobiografia. Título curio o. que
confunde uma lista de obras com a narração da intimidade. Mas também título
compreensível. Para Mauá, de fato, as obras, a empresa c confundiam com
0
sentido de sua vida. As poucas páginas dedicadas a cada empresa re um1am
an?s de trabalhos, glórias e frustrações- o plano das obras e resultados finan-
ce~ros identificado diretamente com o dos de ejos e onho pessoais. Nada
alem di ·
sso tmportava ao narrador, o que levou à troca pó tuma do título, s ·m
que nada parecesse estranho. Mas a mudança só foi pos ív I porque s a
associação se tomou algo imputável legitimamente a um empre ária. a épo·
~·era uma confusão imposswel. Melhor dizendo. ra algo quas inadmissível.
auá não pensava a obra como lista de realizações pessoai • a não ser por um
subterfúgio·d oal . 'fi . d ·os argumentos e ordem pes eramJUStl JcatJvas para os cre-
t ores. Ele escreveu o livro para pedir desculpas públicas aos homens de quem
Ornou di h · -d n e1ro e não pagou. Apenas indiretamente. outros tão presentes.
a versários com força suficiente para impedir a liquidação das dívidas - e a
manutenção da honra comercial do autor .
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4U /011/0GRMIA
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JORGE CALDEIRA
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Muuá não deveria ser seguido por outros.
Pcça de defesa, a Exposiçcío aos credores tem urna estrutura narrati v.t
muito simples. Começa com um breve resumo dos anos iniciai de vida do
cmpre ário, até o momento em que ele lança seu primeiro empreendimento
industrial , a fundição e estaleiro da Ponta de Areia. A partir daí, numa série de
25 capítulos curtos, descreve o desenvolvimento de um número idcntico d~
cmpre as que criou, que dirigiu ou de que participou. O estilo é seco, dirt•to,
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cpoca . Em poucas palavras o autor narra as circunstância , os cálculo~ de
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capítulo, referente a seu banco, destoa disso. Ali há uma discussiio mais alen-
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mcnto será detalhado adiante.
Antes dele, é preciso considerar a estrutura geral. O pequeno livro che-
gou a ser depois publicado com o tftulo de Autobiografia. Título curio o. que
confunde uma lista de obras com a narração da intimidade. Mas também título
compreensível. Para Mauá, de fato, as obras, a empresa c confundiam com
0
sentido de sua vida. As poucas páginas dedicadas a cada empresa re um1am
an?s de trabalhos, glórias e frustrações- o plano das obras e resultados finan-
ce~ros identificado diretamente com o dos de ejos e onho pessoais. Nada
alem di ·
sso tmportava ao narrador, o que levou à troca pó tuma do título, s ·m
que nada parecesse estranho. Mas a mudança só foi pos ív I porque s a
associação se tomou algo imputável legitimamente a um empre ária. a épo·
~·era uma confusão imposswel. Melhor dizendo. ra algo quas inadmissível.
auá não pensava a obra como lista de realizações pessoai • a não ser por um
subterfúgio· d oal . 'fi . d ·os argumentos e ordem pes eramJUStl JcatJvas para os cre-
t ores. Ele escreveu o livro para pedir desculpas públicas aos homens de quem
Ornou di h · -d n e1ro e não pagou. Apenas indiretamente. outros tão presentes.
a versários com força suficiente para impedir a liquidação das dívidas - e a
manutenção da honra comercial do autor .
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A UTOB/OGRAFJA
Como projeto literário, Exposição aos credores era obra de circunstân-
cia. Pouco mais que uma lista, de leitura fácil, sem pretensão maior. Mandada
imprimir numa pequena tipografia, apenas para distribuição a homens que ti-
nham dinheiro a receber, e receberiam em vez disso as desculpas escritas do
empresário. Mas tomou-se um clássico, um tipo especialíssimo de clássico.
Não pode ser explicado somente por seu conteúdo, como os demais. A secura
da linguagem, a falta aparente de idéias interligadas impedem o caminho tradi-
cional de análise, centrada no conteúdo. Para entender a importância da obra,
é preciso acompanhar suas metamorfoses entre os leitores, que foram muitas,
elc.:vando passo a passo seu conceito. O tempo se encarregou de reverter o
contexto da leitura e da avaliação crítica.
Na época da publicação, Exposição aos credores foi recebida como
peça comercial. Razoável para os credores que acreditavam no empresário,
mas em geral apenas a queixa de um indivíduo ganancioso e em boa hora
afastado do domínio de grandes massas de dinheiro. No entanto, a voz queixo-
sa do narrador aos poucos foi se associando a um sentimento nacional: o de
que o Brasil é um país que desperdiça oportunidades, que não consegue cres-
cer, que vai ficando para trás enquanto o mundo avança. Na via inversa, o
mundo ao qual se opunha o indivíduo que remava contra a maré deixou de ter
a importância que parecia ter em 1878. Nenhum brasileiro hoje levaria a sério
um projeto cuja proposta fosse conter o desenvolvimento econômico para evi-
tar prejuízos para nobres proprietários de terras e seus sócios comerciantes.
Nenhum brasi leiro levaria a sério tentativas deliberadas de se evitar que o país
tivesse indústrias, consideradas "artificiais", para nãoameaçar sua natural
vocação para a agricultura e a natural destinação de todos os trabalhadores
para um poço onde nenhum de seus direitos fosse reconhecido.
ssim. o que na época era drama pessoal, pode muito bem ser visto atual·
mente como drama nacionaL A sensação de frustração do empresário é a sen-
sa ão de todos os brasileiros com a situação do país. A descrição das barreiraS
que encontrou é a de impedimentos que irritam os leitores posteriores.
• 'a última frase da obra há uma pista para o valor que permitiu a
tr:m c ndência .. [auá termina sua Exposição aos credores com as seguinteS
pai 'ra : •·p la pane que me toca. fui vencido, mas não convencido". A fraSe
é u~;a citação: o utor original foi o imperador D. Pedro li, obrigado a reco-
- r unu deci ão do Vaticano com a qual não concordava. Remete o leitor
qu onte' e o ímpeto empresarial: a própria monarquia. Re·
de pa agem. feita por um monarquista, incapaz de proferir
iP ta ao governo de seu país, mesmo tendo todos os motiVOS
!04
JORGE CALDEIRA
ara isso durante a vida. Mas que, naquele momento, não poderia deixar de
p "d '1" a ontar aquela que const erava a causa u ttma de todo 0 desastre: 0 modo p . . h .
como 0 governo mtervm a na econonna.
Essa é a discussão de fundo em toda a obra. O argumento de Mauá é
relativamente simples: fez tudo o que um empresário individual poderia fazer. e
arou porque o Estado não queria empresas crescendo.
p . . d
Sustenta a pnmerra parte o argumento no cerne da obra, a descrição de
seus empreendimentos. O estaleiro da Ponta de Areia, primeira indústria do
Brasil, que chegou a empregar mil e duzentos funcionários na década de 1850
e no qual foram produzidos 72 navios- mais guindastes, engenhos de açúcar,
canos de ferro, motores, peças de bronze, pontes metálicas e uma infinidade
de objetos. A primeira estrada de ferro do país. Uma companhia de iluminação
a gás no Rio de Janeiro. Uma empresa de navegação na Amazônia. A Estrada
de Ferro Santos a Jundiaí. Dezenas de outros empreendimentos menores no
país. Mas não era só: Mauá tinha bancos e empresas no Uruguai, Argentina.
Inglaterra e França. No auge de seus negócios, chegou a controlar um conjun-
to de dezessete empresas espalhadas por seis países.
No mundo pós-Mauá, em que estruturas multinacionais são comuns, en-
tende-se com mais facilidade esse tipo de descrição. Mas, na época dos em-
preendimentos de Mauá, tal estrutura era uma raridade. Eram os tempos do
capitalismo concorrencial, quando o âmbito das empresas era muito limitado.
Mais ainda, era quase inexistente a estrutura de fundar negócios a partir de um
banco, empregado como instrumento de financiamento para grandes projetos
empresariais do grupo. O negócio de Mauá, em essência, era controlar um
banco de investimentos e, ao mesmo tempo, as empresas financiadas por ele.
Negócio com estrutura avançada mesmo para a Inglaterra, então a maior po-
tência capitalista do planeta.
Por causa dessa estrutura, os empreendimentos de Mauá sempre foram
melhor entendidos na Inglaterra que no Brasil. Enquanto os grandes ricos do
país o odiavam, os maiores milionários ingleses faziam questão de imestir seu
dinheiro nos projetos desenhados por aquele estranho tipo tropical. No sécul~
passado, Mauá sensibiliza.va gente que pensava no futuro. Gente como 0 escn-
tor francês Júlio Veme, que o tomou personagem de um de seus livro • ~agem
à Lua. Conta a história de um capitão que, tendo desenvolvido um projetO de
foguete lunar e estando às voltas com dificuldades para que as pessoas ao
redor o entendam, imagina uma saída. Faz um apelo aos homens de ~
visão no mundo, que possam investir em algo como um foguete. Entre w
homens, inclui o barão de Mauá, do Brasil.
105
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A UTOB/OGRAFJA
Como projeto literário, Exposição aos credores era obra de circunstân-
cia. Pouco mais que uma lista, de leitura fácil, sem pretensão maior. Mandada
imprimir numa pequena tipografia, apenas para distribuição a homens que ti-
nham dinheiro a receber, e receberiam em vez disso as desculpas escritas do
empresário. Mas tomou-se um clássico, um tipo especialíssimo de clássico.
Não pode ser explicado somente por seu conteúdo, como os demais. A secura
da linguagem, a falta aparente de idéias interligadas impedem o caminho tradi-
cional de análise, centrada no conteúdo. Para entender a importância da obra,
é preciso acompanhar suas metamorfoses entre os leitores, que foram muitas,
elc.:vando passo a passo seu conceito. O tempo se encarregou de reverter o
contexto da leitura e da avaliação crítica.
Na época da publicação, Exposição aos credores foi recebida como
peça comercial. Razoável para os credores que acreditavam no empresário,
mas em geral apenas a queixa de um indivíduo ganancioso e em boa hora
afastado do domínio de grandes massas de dinheiro. No entanto, a voz queixo-
sa do narrador aos poucos foi se associando a um sentimento nacional: o de
que o Brasil é um país que desperdiça oportunidades, que não consegue cres-
cer, que vai ficando para trás enquanto o mundo avança. Na via inversa, o
mundo ao qual se opunha o indivíduo que remava contra a maré deixou de ter
a importância que parecia ter em 1878. Nenhum brasileiro hoje levaria a sério
um projeto cuja proposta fosse conter o desenvolvimento econômico para evi-
tar prejuízos para nobres proprietários de terras e seus sócios comerciantes.
Nenhum brasi leiro levaria a sério tentativas deliberadas de se evitar que o país
tivesse indústrias, consideradas "artificiais", para não ameaçar sua natural
vocação para a agricultura e a natural destinação de todos os trabalhadores
para um poço onde nenhum de seus direitos fosse reconhecido.
ssim. o que na época era drama pessoal, pode muito bem ser visto atual·
mente como drama nacionaL A sensação de frustração do empresário é a sen-
sa ão de todos os brasileiros com a situação do país. A descrição das barreiraS
que encontrou é a de impedimentos que irritam os leitores posteriores.
• 'a última frase da obra há uma pista para o valor que permitiu a
tr:m c ndência .. [auá termina sua Exposição aos credores com as seguinteS
pai 'ra : •·p la pane que me toca. fui vencido, mas não convencido". A fraSe
é u~;a citação: o utor original foi o imperador D. Pedro li, obrigado a reco-
- r unu deci ão do Vaticano com a qual não concordava. Remete o leitor
qu onte' e o ímpeto empresarial: a própria monarquia. Re·
de pa agem. feita por um monarquista, incapaz de proferir
iP ta ao governo de seu país, mesmo tendo todos os motiVOS
!04
JORGE CALDEIRA
ara isso durante a vida. Mas que, naquele momento, não poderia deixar de
p "d '1" a ontar aquela que const erava a causa u ttma de todo 0 desastre: 0 modo p . . h .
como 0 governo mtervm a na econonna.
Essa é a discussão de fundo em toda a obra. O argumento de Mauá é
relativamente simples: fez tudo o que um empresário individual poderia fazer. e
arou porque o Estado não queria empresas crescendo.
p . . d
Sustenta a pnmerra parte o argumento no cerne da obra, a descrição de
seus empreendimentos. O estaleiro da Ponta de Areia, primeira indústria do
Brasil, que chegou a empregar mil e duzentos funcionários na década de 1850
e no qual foram produzidos 72 navios- mais guindastes, engenhos de açúcar,
canos de ferro, motores, peças de bronze, pontes metálicas e uma infinidade
de objetos. A primeira estrada de ferro do país. Uma companhia de iluminação
a gás no Rio de Janeiro. Uma empresa de navegação na Amazônia. A Estrada
de Ferro Santos a Jundiaí. Dezenas de outros empreendimentos menores no
país. Mas não era só: Mauá tinha bancos e empresas no Uruguai, Argentina.
Inglaterra e França. No auge de seus negócios, chegou a controlar um conjun-
to de dezessete empresas espalhadas por seis países.
No mundo pós-Mauá, em que estruturas multinacionaissão comuns, en-
tende-se com mais facilidade esse tipo de descrição. Mas, na época dos em-
preendimentos de Mauá, tal estrutura era uma raridade. Eram os tempos do
capitalismo concorrencial, quando o âmbito das empresas era muito limitado.
Mais ainda, era quase inexistente a estrutura de fundar negócios a partir de um
banco, empregado como instrumento de financiamento para grandes projetos
empresariais do grupo. O negócio de Mauá, em essência, era controlar um
banco de investimentos e, ao mesmo tempo, as empresas financiadas por ele.
Negócio com estrutura avançada mesmo para a Inglaterra, então a maior po-
tência capitalista do planeta.
Por causa dessa estrutura, os empreendimentos de Mauá sempre foram
melhor entendidos na Inglaterra que no Brasil. Enquanto os grandes ricos do
país o odiavam, os maiores milionários ingleses faziam questão de imestir seu
dinheiro nos projetos desenhados por aquele estranho tipo tropical. No sécul~
passado, Mauá sensibiliza.va gente que pensava no futuro. Gente como 0 escn-
tor francês Júlio Veme, que o tomou personagem de um de seus livro • ~agem
à Lua. Conta a história de um capitão que, tendo desenvolvido um projetO de
foguete lunar e estando às voltas com dificuldades para que as pessoas ao
redor o entendam, imagina uma saída. Faz um apelo aos homens de ~
visão no mundo, que possam investir em algo como um foguete. Entre w
homens, inclui o barão de Mauá, do Brasil.
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_a :ne· e a argumentação, desem•olvída no último
Ma. O a1TI1d r ce. tra o fracasso não na sua capa-
as arre •as · .s i•ucionais existentes no BrasiJ parao
íntese .. fauá diz que a excessiva interferência
::: nam melhor se dirigidos por particulares foi a
e • se o d"sc ido há um século. Enquanto tiver im-
po ~ e . . 'ele se concentra a parte substantiva daS
· •o q e o le aram da posição de panfleto à de clássi-
ca . p rca ão falz mal do governo parecia quase cinismo para
E - a todto m<}men o. apresentaram Mauá como uma figura
,.,.,, •• ~ n-...~•:.e ~on ·á . o do que pretendia ser: um favorecido do Estado.
~---'""' '1-'c; g3.m:~ooam· heíro com fa ·ore inconfessáveis. Um argumento fácil
em;) .camente. Da primeira à última empresa, havia con-
106
JORGE C LDE RA
-~·-ões. en\'Olvimento com a polüica fiscal. necess>dade
~~:-o !!TOS. O de suas empresas envo· "ia a prestaçã de se
!O . ~
pon.wro. diretamente o governo. como concess:onário e muuas ezes
d r de ubsídios para os negócios.
A partir dessa constatação. di'. ide-se a heranç da de ~1:1 á _ e i".a
própria conónuidade da divisão está o sinal da 1m rtâ cía do i r • ·,
enenle interpretativa estão os que considerain \ álido o argu •o do a . r E
q e. por isso. em geraJ apresentam • fauá como um pal in da li re in1c:a ~
e do progres o. com a vida emperrada por go>emantes q e fi ariam me r
em algum século anterior ao XIX. Tradição imciada por Alberto de Fana. qt:e
publicou em 1924 o li \To Jfauá .. ·a vertente oposta. cujo inaugurador ti i Edg
de Castro Rebello, autor de Jfauá: restaurarulo a >erdade. da o lu;: err
1932. a argumentação do favorecido foi retrabalbada a partir de um mstrume .
tal marxista. FaJso o empresário que se quer privado no Brasil. porque -
passa de um filho espúrio dos favores do Tesouro.
Assim Exposição aos credores passou pelo século XX. como um..t o a
que coloca emblematicamente o papel do empresário privado na soc1eda e
brasileira. Papel positivo e fundamentaJ, para os liberais; retrógrado e incapaz
de heroísmo, na via oposta.
Dessa duplicidade de vertentes possíveis de leitura deri\a em pane a
riqueza do livro de Mauá. Duplicidade que se expressa em sua estrutura· ao
mesmo tempo confissão pessoaJ, gesto de dor de um homem e análLe da ida
econômica do pais, com conclusões que transcendem a figura indi\ idual e p
jetam um problema.
A proximidade do sécuJo XXI, com o fim das barreiras ideológ1ca q e
garantiam a firmeza das vertentes interpretativas do século - sub ttuídas
por um cenário tão geral como incerto em seus resuJtados, o da globahzar(
- , pennitíu um novo enquadramento para o livro. Várias reed1ções f r m
realizadas a partir dos anos 80, com ensaios que mostravam a surpreendente
atualidade do dilema original. O lugar do Estado na economia brastle1ra tão
solidamente assegurado por Getúlio Vargas e tão extraordinariamente ampl a-
do no regime militar, (ornou-se o fulcro do drama brasileiro neste fim
século. Drama já presente no livro, drama que toma sua leitura quase ob
gatória.
A sobrevivência do que parece ser um caso individual como estrutura
forte na discussão sobre o destino do país, enfim. não pode ser ignorada. Ma1
que dar ou não dar razão aos argumentos do empresário que sofria. 0 livro tem
valor porque narra questões fundamentais para o Brasil Nesse quadro. talvez
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_a :ne· e a argumentação, desem•olvída no último
Ma. O a1TI1d r ce. tra o fracasso não na sua capa-
as arre •as · .s i•ucionais existentes no BrasiJ parao
íntese .. fauá diz que a excessiva interferência
::: nam melhor se dirigidos por particulares foi a
e • se o d"sc ido há um século. Enquanto tiver im-
po ~ e . . 'ele se concentra a parte substantiva daS
· •o q e o le aram da posição de panfleto à de clássi-
ca . p rca ão falz mal do governo parecia quase cinismo para
E - a todto m<}men o. apresentaram Mauá como uma figura
,.,.,, •• ~ n-...~•:.e ~on ·á . o do que pretendia ser: um favorecido do Estado.
~---'""' '1-'c; g3.m:~ooam· heíro com fa ·ore inconfessáveis. Um argumento fácil
em;) .camente. Da primeira à última empresa, havia con-
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-~·-ões. en\'Olvimento com a polüica fiscal. necess>dade
~~:-o !!TOS. O de suas empresas envo· "ia a prestaçã de se
!O . ~
pon.wro. diretamente o governo. como concess:onário e muuas ezes
d r de ubsídios para os negócios.
A partir dessa constatação. di'. ide-se a heranç da de ~1:1 á _ e i".a
própria conónuidade da divisão está o sinal da 1m rtâ cía do i r • ·,
enenle interpretativa estão os que considerain \ álido o argu •o do a . r E
q e. por isso. em geraJ apresentam • fauá como um pal in da li re in1c:a ~
e do progres o. com a vida emperrada por go>emantes q e fi ariam me r
em algum século anterior ao XIX. Tradição imciada por Alberto de Fana. qt:e
publicou em 1924 o li \To Jfauá .. ·a vertente oposta. cujo inaugurador ti i Edg
de Castro Rebello, autor de Jfauá: restaurarulo a >erdade. da o lu;: err
1932. a argumentação do favorecido foi retrabalbada a partir de um mstrume .
tal marxista. FaJso o empresário que se quer privado no Brasil. porque -
passa de um filho espúrio dos favores do Tesouro.
Assim Exposição aos credores passou pelo século XX. como um..t o a
que coloca emblematicamente o papel do empresário privado na soc1eda e
brasileira. Papel positivo e fundamentaJ, para os liberais; retrógrado e incapaz
de heroísmo, na via oposta.
Dessa duplicidade de vertentes possíveis de leitura deri\a em pane a
riqueza do livro de Mauá. Duplicidade que se expressa em sua estrutura· ao
mesmo tempo confissão pessoaJ, gesto de dor de um homem e análLe da ida
econômica do pais, com conclusões que transcendem a figura indi\ idual e p
jetam um problema.
A proximidade do sécuJo XXI, com o fim das barreiras ideológ1ca q e
garantiam a firmeza das vertentes interpretativas do século - sub ttuídas
por um cenário tão geral como incerto em seus resuJtados, o da globahzar(
- , pennitíu um novo enquadramento para o livro. Várias reed1ções f r m
realizadas a partir dos anos 80, com ensaios que mostravam a surpreendente
atualidade do dilema original. O lugar do Estado na economia brastle1ra tão
solidamente assegurado por Getúlio Vargas e tão extraordinariamente ampl a-
do no regime militar, (ornou-se o fulcro do drama brasileiro neste fim
século. Drama já presente nolivro, drama que toma sua leitura quase ob
gatória.
A sobrevivência do que parece ser um caso individual como estrutura
forte na discussão sobre o destino do país, enfim. não pode ser ignorada. Ma1
que dar ou não dar razão aos argumentos do empresário que sofria. 0 livro tem
valor porque narra questões fundamentais para o Brasil Nesse quadro. talvez
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AUTOB/OGRAF/tl
compcn e olhar para o argumento de Mauá no que vale para além do peso
trazido pelas interpretações opostas que vigoraram no século XX.
:Vtau:í não de creve a intervenção estatal como uma questão de princí-
pio. Pelo contrário, o Ih ro traz muitos trechos em que ele clama por ela, ern
que afirma que é uma obrigação do Estado apoiar os empresários nacionais. 0
que discute, isto sim, é a maneira como tal intervenção acontece. Trata-se
portanto, de uma discussão no campo das oportunidades e meios. '
Apreciado com essa necessária limitação, o argumento central ganha
outro significado Não é discussão sobre ideologia, mas sobre atos práticos.
Clama, digamos assim, por uma intervenção "correta" do governo, aquela que
permita desenvolvimento de empresas, não uma que as limite- como julga ter
acontecido em seu caso.
Assim se chega ao fundo do argumento. Mauá atribuiu seus problemas
de I 878 a um ato governamental de 1854: a proibição de que organizasse sua
empresa-mãe, o banco de investimentos, como uma empresa de capital aberto
e na qual os acionistas correriam riscos de capital. Por causa disso, tudo o que
fe.t: sempre correu um risco evitável. Sem poder recorrer a capital de tercei-
ros ficava permanentemente descapitalizado, correndo riscos muito maiores.
Parece pouco, mas é um argumento forte. Mauá toca no grande proble-
ma estrutural de todas as empresas brasileiras até hoje: a ausência de um
mercado de capitais desenvolvido que as suporte. Diz que esse mercado não
se desenvolveu porque o governo atuou o tempo todo para impedir que fosse
privado- e não porque o Brasil era um país pobre em capitais ou em instru-
mentos huma ~ para geri-los.
'm simples golpe de vista sobre a estrutura das grandes empresas brasi-
leJraç. na época ou depois dela, permite ver que essa distorção importa. Em-
pre a grande, no Brasil, quase só estatal ou familiar. Para além dessas, domina
o capital estrangeiro. porque possui por trás das empresas um acesso privilegi-
ado a mercado de crédito internacionais. A única maneira "nacional" de com-
pen ar essa desvantagem é o apelo a uma sólida fortuna particular, em geral
composta de atil:os de elevado valor patrimonial e baixa liquidez. Saída cuja
face isí\e) é'a presença de empresários brasileiros nas listas de homens mais
ncos do mundo. em visÍ\·eJ contraste com a ausência de empresas brasileiras
nas mesmas listas.
o centro dessa diferença está o mercado de capitais. Financiamento de
..,o prazo. no Brasil, só o feito por empresas financeiras estatais. Essa situa·
ç xi te desde 1853, quando o governo imperial estatizou o Banco do Brasil.
fundado dois anos antes por Mauá. O argumento central do movimento res·
/08
JORGE CALDEIRA
ponsável pela ~statização, dirigido pelo próprio imperador, era que havia risco
demais em detxar o controle do mercado de capitais nas mãos de agentes
privados - apresentados_ como aventure~ros. irresponsáveis. Mauá perdeu a
batalha e o banco, mas nao se deu por satisfeito. No ano seguinte, linha reuni-
do capitais para montar um banco maior ainda- e nesse momento foi impedido
de estruturar a empresa como uma sociedade anônima, e limitado na capitali-
zação do negócio.
A forma quase obrigatória das grandes empresas, sejam de qne ramo ou
país forem, é a das sociedades anônimas. É, enfim, de empresas que são gran-
des porque recorrem ao mercado de capitais para ganhar estrutura financeira
à altura dos desafios que pretendem enfrentar. As empresas brasileiras de to-
am bastante dessa tendência geral, mesmo quando as comparaçõe · são feitas
em números relativos. Quando necessitam do mercado de capitais, não encon-
tram um mercado privado de acionistas ou tomadores de bônus. Só lhes resta
0 Estado, seja por meio de suas instituições financeiras, seja por favores fis-
cais ou fundos de pensão.
É certo que hoje isso é uma via obrigatória -como foi obrigatória para
Mauá desde 1854. O que diferencia seu argumento da situação presente c!
uma hipótese: e se fosse diferente? Uma hipótese que ele, ao contrário dos que
vieram depois, pôde apresentarno livro como possibilidade real. Afinal, tinha o
dinheiro, tinha capital - o que não teve, diz, foi a permissão do governo para
seguir seu caminho.
Este o nervo exposto: uma possibilidade, uma responsabilidade. Uma
possibilidade que ganha ênfase dramática com o caso pessoal. Mais que a
discussão finalista e escolástica sobre o papel do Estado na economia, está a
grande questão, posta em forma pessoal: quem faz o progresso, o empresário
ou seus inimigos? Quem cuida do interesse público melhor: empresários uu
governantes?
O brilho empresarial de Mauá dá brilho a suas crenças e hipóteses - u
resultado final do negócio fala contra elas. O deslocamento entre o sentimento
de grandeza e frustração dá mais qualidade literária, drama c fluidez para a
leitura.
Este final de século ~crescenta um elemento extra: a possibilidade de
entregar o controle do desenvolvimento a agentes privados, que parecia enter-
rada desde a década de 30 ressurgiu com seus esplendores e misérias. Mas
out . . ' . ' 1. (' t é orno uma discussão de ra vez, aqut, uma leitura finahsta do Jvro JS o • c
P
· , . · ) pod ocultar problemas rele-
nnciplo sobre o papel do Estado na economia e
v antes.
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compcn e olhar para o argumento de Mauá no que vale para além do peso
trazido pelas interpretações opostas que vigoraram no século XX.
:Vtau:í não de creve a intervenção estatal como uma questão de princí-
pio. Pelo contrário, o Ih ro traz muitos trechos em que ele clama por ela, ern
que afirma que é uma obrigação do Estado apoiar os empresários nacionais. 0
que discute, isto sim, é a maneira como tal intervenção acontece. Trata-se
portanto, de uma discussão no campo das oportunidades e meios. '
Apreciado com essa necessária limitação, o argumento central ganha
outro significado Não é discussão sobre ideologia, mas sobre atos práticos.
Clama, digamos assim, por uma intervenção "correta" do governo, aquela que
permita desenvolvimento de empresas, não uma que as limite- como julga ter
acontecido em seu caso.
Assim se chega ao fundo do argumento. Mauá atribuiu seus problemas
de I 878 a um ato governamental de 1854: a proibição de que organizasse sua
empresa-mãe, o banco de investimentos, como uma empresa de capital aberto
e na qual os acionistas correriam riscos de capital. Por causa disso, tudo o que
fe.t: sempre correu um risco evitável. Sem poder recorrer a capital de tercei-
ros ficava permanentemente descapitalizado, correndo riscos muito maiores.
Parece pouco, mas é um argumento forte. Mauá toca no grande proble-
ma estrutural de todas as empresas brasileiras até hoje: a ausência de um
mercado de capitais desenvolvido que as suporte. Diz que esse mercado não
se desenvolveu porque o governo atuou o tempo todo para impedir que fosse
privado- e não porque o Brasil era um país pobre em capitais ou em instru-
mentos huma ~ para geri-los.
'm simples golpe de vista sobre a estrutura das grandes empresas brasi-
leJraç. na época ou depois dela, permite ver que essa distorção importa. Em-
pre a grande, no Brasil, quase só estatal ou familiar. Para além dessas, domina
o capital estrangeiro. porque possui por trás das empresas um acesso privilegi-
ado a mercado de crédito internacionais. A única maneira "nacional" de com-
pen ar essa desvantagem é o apelo auma sólida fortuna particular, em geral
composta de atil:os de elevado valor patrimonial e baixa liquidez. Saída cuja
face isí\e) é'a presença de empresários brasileiros nas listas de homens mais
ncos do mundo. em visÍ\·eJ contraste com a ausência de empresas brasileiras
nas mesmas listas.
o centro dessa diferença está o mercado de capitais. Financiamento de
..,o prazo. no Brasil, só o feito por empresas financeiras estatais. Essa situa·
ç xi te desde 1853, quando o governo imperial estatizou o Banco do Brasil.
fundado dois anos antes por Mauá. O argumento central do movimento res·
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JORGE CALDEIRA
ponsável pela ~statização, dirigido pelo próprio imperador, era que havia risco
demais em detxar o controle do mercado de capitais nas mãos de agentes
privados - apresentados_ como aventure~ros. irresponsáveis. Mauá perdeu a
batalha e o banco, mas nao se deu por satisfeito. No ano seguinte, linha reuni-
do capitais para montar um banco maior ainda- e nesse momento foi impedido
de estruturar a empresa como uma sociedade anônima, e limitado na capitali-
zação do negócio.
A forma quase obrigatória das grandes empresas, sejam de qne ramo ou
país forem, é a das sociedades anônimas. É, enfim, de empresas que são gran-
des porque recorrem ao mercado de capitais para ganhar estrutura financeira
à altura dos desafios que pretendem enfrentar. As empresas brasileiras de to-
am bastante dessa tendência geral, mesmo quando as comparaçõe · são feitas
em números relativos. Quando necessitam do mercado de capitais, não encon-
tram um mercado privado de acionistas ou tomadores de bônus. Só lhes resta
0 Estado, seja por meio de suas instituições financeiras, seja por favores fis-
cais ou fundos de pensão.
É certo que hoje isso é uma via obrigatória -como foi obrigatória para
Mauá desde 1854. O que diferencia seu argumento da situação presente c!
uma hipótese: e se fosse diferente? Uma hipótese que ele, ao contrário dos que
vieram depois, pôde apresentarno livro como possibilidade real. Afinal, tinha o
dinheiro, tinha capital - o que não teve, diz, foi a permissão do governo para
seguir seu caminho.
Este o nervo exposto: uma possibilidade, uma responsabilidade. Uma
possibilidade que ganha ênfase dramática com o caso pessoal. Mais que a
discussão finalista e escolástica sobre o papel do Estado na economia, está a
grande questão, posta em forma pessoal: quem faz o progresso, o empresário
ou seus inimigos? Quem cuida do interesse público melhor: empresários uu
governantes?
O brilho empresarial de Mauá dá brilho a suas crenças e hipóteses - u
resultado final do negócio fala contra elas. O deslocamento entre o sentimento
de grandeza e frustração dá mais qualidade literária, drama c fluidez para a
leitura.
Este final de século ~crescenta um elemento extra: a possibilidade de
entregar o controle do desenvolvimento a agentes privados, que parecia enter-
rada desde a década de 30 ressurgiu com seus esplendores e misérias. Mas
out . . ' . ' 1. (' t é orno uma discussão de ra vez, aqut, uma leitura finahsta do Jvro JS o • c
P
· , . · ) pod ocultar problemas rele-
nnciplo sobre o papel do Estado na economia e
v antes.
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AUTOBIOGRAf"IA
O atraso da economia brasileira, a péssima distribuição da riqueza, 0
afastamento de grande parte da população dos benefícios do progresso são
elementos relevantes na discussão atual. Relevantes não apenas pelas maze.
las evidentes, mas também porque feitos numa realidade em que a estatização
do mercado de crédito foi um fato pennanente.
Esse fato permite colocar o problema em outro patamar. A Exposição
aos credore~ lida com outra questão que sobreviveu ao livro de maneira
aguda· a forma peculiar de separar "público" e "privado" existente no Brasil.
.Mauá segue estritamente as definições liberais para separar tais espaços.
Pública é a esfera da lei, e privada a esfera de liberdade, que está para além
dela. Mais ainda, delimita idealmente o papel do Estado como guardião dessa
separação, tendo como função primordial garantir a esfera da liberdade_
em termos econômicos, sancionar legalmente os interesses dos proprietários
privados. O livro é uma afirmação desses ideais contra o comportamento
concreto das autoridades. É. em outras palavras, um protesto contra a não-
adoção de tal doutrina.
A revolta contra o governo que domina os leitores liberais -e, na via
in"ersa, a revolta contra as atitudes de Mauá que domina os leitores defenso-
rc da intervenção- deriva de um deslocamento, que o livro aponta. De fato,
a separação entre as esferas do público e do privado no Brasil não segue as
doutrmas liberais. Antes. deriva da distinção entre público e privado vinda do
Antigo Regime, e baseada sobretudo em Aristóteles. A linha de corte, em
lugar de passar pela esfera da lei, deriva do acesso a uma condição estamental.
Público. ness 1isão, é o espaço do comércio e da riqueza monetária- um
espaço qui.! deve ser controlado por outro tipo de pessoas que não comercian-
tes, donas de títulos estamentais. Para o filósofo grego, caso o espaço público
fosse dominado pelos homens do dinheiro, desmoronaria uma ordem social que
era garantida, sobretudo, pelos proprietários de terra. Assim, o trabalho ma-
nual do comércio. o contato com o dinheiro, embora fosse a marca distintiva da
esfera pública, era também uma marca de desqualificação: quem lida com
dinheiro devi.! ser excluído das decisões do Estado - uma esfera reservada
com exclusividade para nobres proprietários de terra.
, Enquanto Mauá trabalha como apóstolo das definições liberais, seus ad-
versanos s~ pautam pelo esquema aristotélico. Lutam para impedir que um
poder que Imagina d . m reserva o apenas a eles caia em mãos erradas. Agem
11
' para Impedir o progresso, mas para não perder um comando que lhes
pa c essencial para que ha·a d "ed . J or em na soc1 ade, mesmo que Isso custe o
pngrcsso.
110
JORGE C.ALDEII!A
É apenas nesse sentido que se podem entender a
sobre o papel do Estado apresentadas em Expo.tiçiío ao aedore fa '(
nos leva a uma nova inversão: agora o empresário parece um Jdeali ta, não 0
homem prático que sempre foi. Daí a suspeição: apresenta ua hlpóte e em
causa própria, não em busca do interesse geral.
Entra-se assim de volta no terreno da ética, no julgamento dos atos em
função do bem que podem trazer. Nesse campo, e não no das finalidade
últimas, é que Exposição aos credores é efetivamente um J .m exemplélr
sobre o Brasil: toca, como nenhum oulro texto que trctta da economia bra~iJc 1 -
ra, numa questão ética: qual o correto caminho para colocar em ação empre-
sáliOS privados e governo para o desenvolvimento nacional? Mais que 1 o.
apresenta, numa leitura agradável, a maior parte dos dados necessário para
uma resposta -e esse "agradável" é um desvio que ajuda a tomar convíncent·
o argumento. A simpatia com o drama pessoal se confunde com adesão ao
argumento liberal. Isso, no entanto, está longe de invalidar o restante ape ar
da questão pessoal, os temas fundamentais do país estão presentes. Tocad ~
de maneira profunda, desenvolvendo pontos essenciais. Tanto quanto o autor.
o leitor é levado a um dilema: vencer-se pela leitura, ou convencer o ndrrador
de seu erro. Uma questão que as mudanças econômicas ao longo de mais de
um século deixaram como alternativa intocada, drama vivo da interpretação
econômica do país, ponto de separação de visões de mundo. 'os qumze diJ
mais duros de sua vida, Irineu Evangelista de Sousa foi capaz de expnm~r o
dilema de um século.
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AUTOBIOGRAf"IA
O atraso da economia brasileira, a péssima distribuição da riqueza, 0
afastamento de grande parte da população dos benefícios do progresso são
elementos relevantes na discussão atual. Relevantes não apenas pelas maze.
las evidentes,mas também porque feitos numa realidade em que a estatização
do mercado de crédito foi um fato pennanente.
Esse fato permite colocar o problema em outro patamar. A Exposição
aos credore~ lida com outra questão que sobreviveu ao livro de maneira
aguda· a forma peculiar de separar "público" e "privado" existente no Brasil.
.Mauá segue estritamente as definições liberais para separar tais espaços.
Pública é a esfera da lei, e privada a esfera de liberdade, que está para além
dela. Mais ainda, delimita idealmente o papel do Estado como guardião dessa
separação, tendo como função primordial garantir a esfera da liberdade_
em termos econômicos, sancionar legalmente os interesses dos proprietários
privados. O livro é uma afirmação desses ideais contra o comportamento
concreto das autoridades. É. em outras palavras, um protesto contra a não-
adoção de tal doutrina.
A revolta contra o governo que domina os leitores liberais -e, na via
in"ersa, a revolta contra as atitudes de Mauá que domina os leitores defenso-
rc da intervenção- deriva de um deslocamento, que o livro aponta. De fato,
a separação entre as esferas do público e do privado no Brasil não segue as
doutrmas liberais. Antes. deriva da distinção entre público e privado vinda do
Antigo Regime, e baseada sobretudo em Aristóteles. A linha de corte, em
lugar de passar pela esfera da lei, deriva do acesso a uma condição estamental.
Público. ness 1isão, é o espaço do comércio e da riqueza monetária- um
espaço qui.! deve ser controlado por outro tipo de pessoas que não comercian-
tes, donas de títulos estamentais. Para o filósofo grego, caso o espaço público
fosse dominado pelos homens do dinheiro, desmoronaria uma ordem social que
era garantida, sobretudo, pelos proprietários de terra. Assim, o trabalho ma-
nual do comércio. o contato com o dinheiro, embora fosse a marca distintiva da
esfera pública, era também uma marca de desqualificação: quem lida com
dinheiro devi.! ser excluído das decisões do Estado - uma esfera reservada
com exclusividade para nobres proprietários de terra.
, Enquanto Mauá trabalha como apóstolo das definições liberais, seus ad-
versanos s~ pautam pelo esquema aristotélico. Lutam para impedir que um
poder que Imagina d . m reserva o apenas a eles caia em mãos erradas. Agem
11
' para Impedir o progresso, mas para não perder um comando que lhes
pa c essencial para que ha·a d "ed . J or em na soc1 ade, mesmo que Isso custe o
pngrcsso.
110
JORGE C.ALDEII!A
É apenas nesse sentido que se podem entender a
sobre o papel do Estado apresentadas em Expo.tiçiío ao aedore fa '(
nos leva a uma nova inversão: agora o empresário parece um Jdeali ta, não 0
homem prático que sempre foi. Daí a suspeição: apresenta ua hlpóte e em
causa própria, não em busca do interesse geral.
Entra-se assim de volta no terreno da ética, no julgamento dos atos em
função do bem que podem trazer. Nesse campo, e não no das finalidade
últimas, é que Exposição aos credores é efetivamente um J .m exemplélr
sobre o Brasil: toca, como nenhum oulro texto que trctta da economia bra~iJc 1 -
ra, numa questão ética: qual o correto caminho para colocar em ação empre-
sáliOS privados e governo para o desenvolvimento nacional? Mais que 1 o.
apresenta, numa leitura agradável, a maior parte dos dados necessário para
uma resposta -e esse "agradável" é um desvio que ajuda a tomar convíncent·
o argumento. A simpatia com o drama pessoal se confunde com adesão ao
argumento liberal. Isso, no entanto, está longe de invalidar o restante ape ar
da questão pessoal, os temas fundamentais do país estão presentes. Tocad ~
de maneira profunda, desenvolvendo pontos essenciais. Tanto quanto o autor.
o leitor é levado a um dilema: vencer-se pela leitura, ou convencer o ndrrador
de seu erro. Uma questão que as mudanças econômicas ao longo de mais de
um século deixaram como alternativa intocada, drama vivo da interpretação
econômica do país, ponto de separação de visões de mundo. 'os qumze diJ
mais duros de sua vida, Irineu Evangelista de Sousa foi capaz de expnm~r o
dilema de um século.
/11
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jOAQl L f NABT (o
Urn estadista do inzpério
Luiz Felipe de Alcncac;tro
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jOAQl L f NABT (o
Urn estadista do inzpério
Luiz Felipe de Alcncac;tro
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A GÍ!NR~fl DA OBRA
Um estadista do império completa o seu centenário. Com efeito, cntn!
1897 c !899 foram publicados os três volumes da obra que Joaquun Nabuco
começara a preparar alguns anos antes sobre a vida de seu pai. José Thomaz
Nabuco de Araújo ( 1813-1 878).
Magistrado, deputado, senador, ministro c prócer do Segundo Remado, 1
Nabuco de Araújo conservou o hábito de recolher c classificar os documentos
que diziam respeito às suas lides políticas, assim como sua corre~pondênna
particular. O estudo, o aproveitamento desse acervo ameaçado de dbpcr~ão
teria consti tuído a razão imediata que levou Nabuco a redigir Um e.1tadí.lta
Como ele próprio escreveu, "foi o receio de que, se cu mesmo o nao fizc~sc,
nunca fosse utilizada essa para mim preciosa coleção que me dcc1diu a empreen-
der a obra". Antes de analisar as motivações mais complexas do autor, con·
vém examinar de perto a documentação que utilizou c o método posto em
prática para redigir o livro.
Numa carta a seu cunhado Hilário de Gouveia, Joaquim Nabuco da ..t
dimensão do arquivo paterno. Trinta mil documentos -afora os livros, discur·
sos e anais parlamentares - , dos quais foram selecionados "três caixões" de
textos com o "i ndispensável" para a redação de Um estadista.2 De seu lado.
praticando o jornalismo acadêmico desde seus I 7 anos, quando ingressou na
Faculdade de Direito de São Paulo (1866) c conviveu com personalidades
como Castro Alves, Rui Barbosa e dois futuros presidentes da Repúbl ica
(Rodrigues Alves e Afonso Pena), homem viajado, dono de uma cultura cos·
mopolita, ex-diplomata em Washington e Londres, Nabuco pennancccu atento
às atividades políticas do pai, à evolução da monarquia e da sociedade brasilei-
ra. Seu arquivo pessoal comporta mais de dez mil documentos. a maior parte
1 Alguns autores, e até o grande historiador Capistraoo de Abreu, referem-se ao pcrfc.>do do rciJladn
de D. Pedro 11 ( 1840-1889) como "Segundo Império", ao mvés de "Segundo Remado" Ao
empregar essa denominação, tais autores estabelecem, cvJdentemeote. urm analogia cnt r~ 0
reinado de D. Pedro 11 e o "Second empire" que transcorria na França na me ma época ( !852
1870). Trata-se, no entanto, de um equívoco. o reino de o Pedro 11 configura um verdadeiro
segundo reinado no quadro de um mesmo iiiiJII!rio, sucedendo no mesmo sistema constituciOnal
posto em vigor em 1824, no contexto de um mesmo temtóno imperial c na seqüénc•a de uma
regência na qual a continuidade din,stica dos Bragança nfto sofreu interrupçio. Circunst!nc•as
I ~ue não estavam presentes DO Second empire de Napolei~ Ill. " 'm Nabu o
Carta de Joaquim Nabuco a Hiürio de Gouveia. Petrópolis, IO.JII·I894 ·em Joaqw . ·
Um eMadista do implrio, 2 volumes; prcf,cio e cronologra Raymundo Faoro. po~fKJO Evald
Cabral de Mello (S• edlçlo. Rio de Janeiro· Topbooks, 1997), v 11• PP
1317
•
8
·
llS
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A GÍ!NR~fl DA OBRA
Um estadista do império completa o seu centenário. Com efeito, cntn!
1897 c !899 foram publicados os três volumes da obra que Joaquun Nabuco
começara a preparar alguns anos antes sobre a vida de seu pai. José Thomaz
Nabuco de Araújo ( 1813-1 878).
Magistrado, deputado, senador, ministro c prócer do Segundo Remado, 1
Nabuco de Araújo conservou o hábito de recolher c classificar os documentos
que diziam respeito às suas lides políticas, assim como sua corre~pondênna
particular. O estudo, o aproveitamento desse acervo ameaçado de dbpcr~ão
teria consti tuído a razão imediataque levou Nabuco a redigir Um e.1tadí.lta
Como ele próprio escreveu, "foi o receio de que, se cu mesmo o nao fizc~sc,
nunca fosse utilizada essa para mim preciosa coleção que me dcc1diu a empreen-
der a obra". Antes de analisar as motivações mais complexas do autor, con·
vém examinar de perto a documentação que utilizou c o método posto em
prática para redigir o livro.
Numa carta a seu cunhado Hilário de Gouveia, Joaquim Nabuco da ..t
dimensão do arquivo paterno. Trinta mil documentos -afora os livros, discur·
sos e anais parlamentares - , dos quais foram selecionados "três caixões" de
textos com o "i ndispensável" para a redação de Um estadista.2 De seu lado.
praticando o jornalismo acadêmico desde seus I 7 anos, quando ingressou na
Faculdade de Direito de São Paulo (1866) c conviveu com personalidades
como Castro Alves, Rui Barbosa e dois futuros presidentes da Repúbl ica
(Rodrigues Alves e Afonso Pena), homem viajado, dono de uma cultura cos·
mopolita, ex-diplomata em Washington e Londres, Nabuco pennancccu atento
às atividades políticas do pai, à evolução da monarquia e da sociedade brasilei-
ra. Seu arquivo pessoal comporta mais de dez mil documentos. a maior parte
1 Alguns autores, e até o grande historiador Capistraoo de Abreu, referem-se ao pcrfc.>do do rciJladn
de D. Pedro 11 ( 1840-1889) como "Segundo Império", ao mvés de "Segundo Remado" Ao
empregar essa denominação, tais autores estabelecem, cvJdentemeote. urm analogia cnt r~ 0
reinado de D. Pedro 11 e o "Second empire" que transcorria na França na me ma época ( !852
1870). Trata-se, no entanto, de um equívoco. o reino de o Pedro 11 configura um verdadeiro
segundo reinado no quadro de um mesmo iiiiJII!rio, sucedendo no mesmo sistema constituciOnal
posto em vigor em 1824, no contexto de um mesmo temtóno imperial c na seqüénc•a de uma
regência na qual a continuidade din,stica dos Bragança nfto sofreu interrupçio. Circunst!nc•as
I ~ue não estavam presentes DO Second empire de Napolei~ Ill. " 'm Nabu o
Carta de Joaquim Nabuco a Hiürio de Gouveia. Petrópolis, IO.JII·I894 ·em Joaqw . ·
Um eMadista do implrio, 2 volumes; prcf,cio e cronologra Raymundo Faoro. po~fKJO Evald
Cabral de Mello (S• edlçlo. Rio de Janeiro· Topbooks, 1997), v 11• PP
1317
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UM HS7i\DIS1'A DO /MPÉ/1/0
<.fo:. quais referentes ao Segundo Reinado.3 Depois de sua morte, sua filha,
Carolina Nabuco, tirou proveito <.lesse acervo para redigir a sua biografia, A
vida de Joaquim Nabuco ( 1 928).
Na elaboração de Um estadista, Nabuco pesquisou outras fontes, obten-
do de alguns contemporâneos de seu pai, ainda vivos no início da década de
I 890, informações sobre os primeiros anos da vida de Nabuco de Araújo como
e~tudante de Direito, magistrado c homem político. Assim, a narrativa de Um
e.1tarlista ~e articula em tomo de documentos de natureza bem distinta.
Em primeiro lugar vêm os textos oficiais, que constituem a parte mais
suh~tantiva da obra. Discursos de Nabuco de Araújo em diversas ocasiões;
quando era ministro da Justiça (como a longa intervenção de 23 de março de
I 866 na Câmara, em resposta aos ataques dos deputados do Partido Liberal,
texto que Nabuco considera o ''tipo perfeitamente acabado e colorido da arte
parlamentar'' de seu pai); no posto de senador pela Bahia (tal o discurso "de
jurisconsulto e de político de vastas previsões", de 26 de setembro de 1871, a
favor da Lei do Ventre Livre que seria aprovada dois dias depois); na exposi-
ção de estudos ministeriais de sua responsabilidade (relatórios diversos e em
particular a análise sobre a organização do Poder Judiciário apresentada ao
governo em 1 856); no exame de tratados diplomáticos no Conselho de Estado,
onde ocupava o posto de relator da seção dos Negócios Estrangeiros (memorial
sobre o tratado das novas fronteiras da Tríplice Aliança com o Paraguai em
1 872J; na introdução de projetos de lei e decretos imperiais recolhidos no apên-
dice documental do livro. Do apêndice também constam textos até então iné-
ditos (cartas • unes Machado, líder da Praieira, à sua mulher; as cartas de
Cotegipe ao visconde do Rio Branco) c panfletos sobre a Guerra do Paraguai.
Em segundo lugar aparecem os artigos e comentários extraídos da im-
prensa do Segundo Reinado c estrangei ra (como a inevitável Revue des Deux-
foruies, r i a parisiense de ensaios sociológicos, políticos e literários muito
l1 a pela eiJtc in clcctual do império; a imprensa argentina, citada na análise
dJ cn õe diplomática~ urgidas em 1871 e I 872 entre o império e as repúblí-
c do Prata, na seq t!ncia da Guerra do Paraguai). t um contexto em que a
I' 'ca pari mentar e os d.:bates importantes só tomavam corpo e expressão
e ade1ram n nacional nas estreitas camadas da população escolarizada,
J panflc o e re i tas desempenhavam um papel decisivo. Na ausên·
rd e'ro mercado editorial de livros e de uma massa de leitores
l/li
LUIZ FELJI>B DE ALP.NC'ASTk J
formados pelo en~ino acadêmi~o c a frcqüentaçã~ de biblioteras púbhcas. os
'ódicos aparec1am como vc1culos quase exclusivos da difusão dt.: idéia~ pcn . . . ·
Como a mawna dos personagens mfluentes da época, Nabuco expnmia
seus pontos de vista na imprensa diária. Entre outras colaborações, atuou como
articulista no jornal A Reforma (em I 87 I ,1872 e 1873), que defendia o 1dcáno
liberal, travou uma viva polêmica literária com José de Alencar no antigo )ornai
0 Globo ( 1875), teve uma coluna diária em O Pafs ( 1886). No recém-funda
do Jornal do Brasil (1891), de inclinação monarquista, Nabuco lançou·sc em
discussões sobre D. Pedro li e os homens políticos do Segundo Reinado. Jdé~as.
fragmentos e capítulos de suas obras foram publicados em jorna1s c revista~ do
Rio de Janeiro e de São Paulo antes de tomar a forma de livros completos.
A predominância desse gênero de mídia incidia na maneira de escrever.
Na medida em que se dirigiam ao público de leitore. de jornais, os intelectuais
do Segundo Reinado procuravam fazer uso de um estilo mais direto, evitando o
jargão acadêmico europeu e a linguagem especializada das diversas disciplinas
universitárias. Essa circunstância responde pela narrativa segura e clara de
alguns livros importantes da época, como, por exemplo, a llist6ria gctal do
Brasil (1854), de Vamhagen, cuja leitura é ainda apreciada pelos estudantes
dos dias de hoje. Já não será mais o caso no final do século, quando o cientificbmo
empola a narrativa de muitos autores, e mesmo de jornalistas escritores, como
sucede com Euclides da Cunha em Os sertões.4
O Correio Mercantil (no qual Tavares Bastos publicou seus escritos,
depois reunidos em livros) e o Jornal do Comércio, largamente utilizados na
feitura de Um estadista, eram os jornais cariocas que serviam de rcfer\:nc1a
nacional no Segundo B,einado. Aliás, o Jornal do Comércio, do qual Nabuco
foi correspondente em Londres, ocupa nessa época um destaque inédito na
Imprensa brasileira de ontem e de hoje. Constituindo um excelente órgão de
informação e de debate, o jornal se apresentava também como um verdadeiro
"Diário Oficial", publicando decretos, leis e, quase sempre. os debate parla-
mentares transcritos integralmente por seus taquígrafos na Cámara e no Scna-
' Para avahar o contraste entre os dois estilos, compareiii-Je, por exemplo. /J nr~r e a [IJl)D{ li
de Gonçalves de Magalhks, Memória hiJtóríca t docWMnuula da r< olll{du do pro In ra dt
Maranhão desde 1839 até 1840 {1848}, em Novos Estudo -Ctbrap. a• 23 19 9, PP 14 (,6
Como E~hdes da Cunha em Canudos, Gonçalves de Magalbics regJSUou 110 M.araohSo c• •
ta ao~ antes de Os urliJts, o olhar do i11telec1ualllfballo sobre a~ re10IU s.erWitJI
:"nta de Gonçalves de Magalhães, escorretta e dltcu. lliO faz alarde de btT 11 tco
(>peça em ~lise geológícas
JJ7
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UM HS7i\DIS1'A DO /MPÉ/1/0<.fo:. quais referentes ao Segundo Reinado.3 Depois de sua morte, sua filha,
Carolina Nabuco, tirou proveito <.lesse acervo para redigir a sua biografia, A
vida de Joaquim Nabuco ( 1 928).
Na elaboração de Um estadista, Nabuco pesquisou outras fontes, obten-
do de alguns contemporâneos de seu pai, ainda vivos no início da década de
I 890, informações sobre os primeiros anos da vida de Nabuco de Araújo como
e~tudante de Direito, magistrado c homem político. Assim, a narrativa de Um
e.1tarlista ~e articula em tomo de documentos de natureza bem distinta.
Em primeiro lugar vêm os textos oficiais, que constituem a parte mais
suh~tantiva da obra. Discursos de Nabuco de Araújo em diversas ocasiões;
quando era ministro da Justiça (como a longa intervenção de 23 de março de
I 866 na Câmara, em resposta aos ataques dos deputados do Partido Liberal,
texto que Nabuco considera o ''tipo perfeitamente acabado e colorido da arte
parlamentar'' de seu pai); no posto de senador pela Bahia (tal o discurso "de
jurisconsulto e de político de vastas previsões", de 26 de setembro de 1871, a
favor da Lei do Ventre Livre que seria aprovada dois dias depois); na exposi-
ção de estudos ministeriais de sua responsabilidade (relatórios diversos e em
particular a análise sobre a organização do Poder Judiciário apresentada ao
governo em 1 856); no exame de tratados diplomáticos no Conselho de Estado,
onde ocupava o posto de relator da seção dos Negócios Estrangeiros (memorial
sobre o tratado das novas fronteiras da Tríplice Aliança com o Paraguai em
1 872J; na introdução de projetos de lei e decretos imperiais recolhidos no apên-
dice documental do livro. Do apêndice também constam textos até então iné-
ditos (cartas • unes Machado, líder da Praieira, à sua mulher; as cartas de
Cotegipe ao visconde do Rio Branco) c panfletos sobre a Guerra do Paraguai.
Em segundo lugar aparecem os artigos e comentários extraídos da im-
prensa do Segundo Reinado c estrangei ra (como a inevitável Revue des Deux-
foruies, r i a parisiense de ensaios sociológicos, políticos e literários muito
l1 a pela eiJtc in clcctual do império; a imprensa argentina, citada na análise
dJ cn õe diplomática~ urgidas em 1871 e I 872 entre o império e as repúblí-
c do Prata, na seq t!ncia da Guerra do Paraguai). t um contexto em que a
I' 'ca pari mentar e os d.:bates importantes só tomavam corpo e expressão
e ade1ram n nacional nas estreitas camadas da população escolarizada,
J panflc o e re i tas desempenhavam um papel decisivo. Na ausên·
rd e'ro mercado editorial de livros e de uma massa de leitores
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LUIZ FELJI>B DE ALP.NC'ASTk J
formados pelo en~ino acadêmi~o c a frcqüentaçã~ de biblioteras púbhcas. os
'ódicos aparec1am como vc1culos quase exclusivos da difusão dt.: idéia~ pcn . . . ·
Como a mawna dos personagens mfluentes da época, Nabuco expnmia
seus pontos de vista na imprensa diária. Entre outras colaborações, atuou como
articulista no jornal A Reforma (em I 87 I ,1872 e 1873), que defendia o 1dcáno
liberal, travou uma viva polêmica literária com José de Alencar no antigo )ornai
0 Globo ( 1875), teve uma coluna diária em O Pafs ( 1886). No recém-funda
do Jornal do Brasil (1891), de inclinação monarquista, Nabuco lançou·sc em
discussões sobre D. Pedro li e os homens políticos do Segundo Reinado. Jdé~as.
fragmentos e capítulos de suas obras foram publicados em jorna1s c revista~ do
Rio de Janeiro e de São Paulo antes de tomar a forma de livros completos.
A predominância desse gênero de mídia incidia na maneira de escrever.
Na medida em que se dirigiam ao público de leitore. de jornais, os intelectuais
do Segundo Reinado procuravam fazer uso de um estilo mais direto, evitando o
jargão acadêmico europeu e a linguagem especializada das diversas disciplinas
universitárias. Essa circunstância responde pela narrativa segura e clara de
alguns livros importantes da época, como, por exemplo, a llist6ria gctal do
Brasil (1854), de Vamhagen, cuja leitura é ainda apreciada pelos estudantes
dos dias de hoje. Já não será mais o caso no final do século, quando o cientificbmo
empola a narrativa de muitos autores, e mesmo de jornalistas escritores, como
sucede com Euclides da Cunha em Os sertões.4
O Correio Mercantil (no qual Tavares Bastos publicou seus escritos,
depois reunidos em livros) e o Jornal do Comércio, largamente utilizados na
feitura de Um estadista, eram os jornais cariocas que serviam de rcfer\:nc1a
nacional no Segundo B,einado. Aliás, o Jornal do Comércio, do qual Nabuco
foi correspondente em Londres, ocupa nessa época um destaque inédito na
Imprensa brasileira de ontem e de hoje. Constituindo um excelente órgão de
informação e de debate, o jornal se apresentava também como um verdadeiro
"Diário Oficial", publicando decretos, leis e, quase sempre. os debate parla-
mentares transcritos integralmente por seus taquígrafos na Cámara e no Scna-
' Para avahar o contraste entre os dois estilos, compareiii-Je, por exemplo. /J nr~r e a [IJl)D{ li
de Gonçalves de Magalhks, Memória hiJtóríca t docWMnuula da r< olll{du do pro In ra dt
Maranhão desde 1839 até 1840 {1848}, em Novos Estudo -Ctbrap. a• 23 19 9, PP 14 (,6
Como E~hdes da Cunha em Canudos, Gonçalves de Magalbics regJSUou 110 M.araohSo c• •
ta ao~ antes de Os urliJts, o olhar do i11telec1ualllfballo sobre a~ re10IU s.erWitJI
:"nta de Gonçalves de Magalhães, escorretta e dltcu. lliO faz alarde de btT 11 tco
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UM I \1,1/l/\1,\ /itl /M/'1 H/li
1ltl Nahuco jll'MJllisuu as etlk\ocs do Jmnal do Comércio p·trn s · inteirar do
.wthil'nk poltttw tlll~ prilllL'itos anos da cat rdra de seu pai, ~ohretudo durante os
atlll~ em que ck proprio se encontrava ausente do país, na Europa ( 1873 1874 c
J, 77) l' t'lll Washingtnn ( 187(!). Em todo caso, llm t•statlisfa está semeado de
1 ·ktL'Ilcia~ cxpltcit,ts ou impltcitas às matcrias editoriais do Jomal do Comér-
r w. cujo L'Stilt tl.msparccc em algumas da pas agens do livro. ·1
llavi.t outro g~ncro de imprensa, reprc. cntado pelas folha de província
c o. JOt nais partidarios. Praticando uma linguagem mais livre c aberta ao bra-
silcmsmo d,t smtaxe c do ocabulário -como o demonstra o periódi o recifcnsc
O ('araprtn•im tI R32-18·l2). do padre Lopes Gama-, muitos des,cs pcriódi-
~.:o , que haviam conhecido seu momento de glória na descentralização política
operada durante a rcgcncia, ainda continuavam ativos.h Nabuco de Araújo,
julgando os cYento da Revolução Praieira, considerava tais jornai "foco de
anarquia imoralidade". cu filho e pressa no livro uma opinião mais tolerante
obre c , as "folha volantes. segundo o sistema de pasquim, que é o que tem-
peru\a anllgamentc a prepotência da autoridade". Entretanto, Nabuco reserva
sua preferência à grande imprensa compassada e séria da corte, uma das
base da documentação de Um estadista.
Acresce ainda a enorme influência- difícil de avaliar no Brasil descen-
tralizado e televisual da atualidade- da corte e de sua imprensa. Capital do
império, sede do governo e das representações diplomáticas, maior centro ur-
bano, econômico e cultural da nação, dispondo de um porto que canalizava dois
terços do comércio externo do país e constituía escala obrigatória das grandes
carreiras marítimas (o Canal do Panamá só será inaugurado em 1914), o Rio
de Janeiro detmha uma hegemonia jamais igualada por nenhuma outra cidade
bra ileira do passado ou presente. Na realidade, a hegemonia política e cultu-
ral do Rio de Janeiro tem seu peso na maneira pela qual Nabuco concebe o
Segundo Reinado e a história do Brasil oitocentista.
' Quando o acesso e a leitura do Jornal da Comércio se tornarem facilitados pela cópia doS
mtcrofilmes dos exemplares oilocentistas em CDs. ficará clara a enorme influência desse peri6·
dtco sobre: a forma, o conteúdo e o csttlo dos livrospoHticos da época.
' P.tdrc Lopes Gama. O Carapuceiro 1832·1842, prefácio de Leonardo Dantas Silva, 3 volumes
(Rectfe Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1983). Para uma coletânea e um comeotiriO
tntrodutóno das crõmcas publicadas nesses três volumes, cf. Evaldo Cabral de Mello (org.), O
''' pu<.~tro (São Pauto: Companhia das Letras, 1996). Para um apanhado geral sobre o telllli
I 1 l tann•. Conrribuiçdo à história da imprensa braúleira 1812-1869 (Rio de Jaudr
1117, en .a NaciOnal, 1945)
118
I.lllZ i'l~l.ll'l'. IJI AI hN< AS .tO
Um t•s/ltdista comporta uma terceira série de documento,, formutla pot
. ·scências, correspondência privada c descriçücs de cidadL•. L' ambtcnt ·
rernutt. , . . . .
onde viveu Nabuco de ArauJO. Dessa formn .. o ltvro Incorpora as inter ·s~anlt'~
obsl:rvações do barão de Penedo, sobre a v1da dos estudantes de Direito em
Olinda na década de 1830, quando Nabuco Ara(tjo completava cu curso.
Boa parte da bibliografia oitocentista relativa ao império tamhl!m consta d.ts
rdcrências da obra. Algumas vezes (como na abordagem da Lei do Yt:ntrc
Livre ou da Questão Religiosa), Nabuco indica em nota de rodape o livros
mais importantes publicados sobre o tema focalizado em seu capítulo.
Na parte dos depoimentos que ajudaram a constituir a obra, é intercs~an
tc Jar relevo às pessoas que Nabuco freqüentava quando redigia Um estadiç
ta. Nessa época, informa Evaldo Cabral de Mello, junto com outros dois
pernambucanos que haviam ocupado postos eminentes no Segundo Reinado
(João Alfredo, conselheiro de Estado, senador, ministro do império no mini t<!-
rio da Lei do Ventre Livre e presidente do Conselho de Ministro que promul-
gou a Abel ição, e Soares Brandão, senador e ministro dos Negócios Estrangeiros
no gabinete de 24 de maio de 1883), seus vizinhos de ma no bairro de Botafogo.
no Rio de Janeiro, Nabuco entretinha discussões sobre o passado recente do
império. Cabral de Mello registra alguns ecos dessas conversas nas páginas de
Um estadista do império.8 Logo de saída, no prefácio do livro, Nabuco marca
o contraste entre o período histórico que se propunha a descrever e os transes
políticos do momento. A disparidade entre as "lutas pacíficas" do império e o
estrondo dos canhões da marinha na Baía de Guanabara, que tumultuavam os
primeiros anos da república, durante a Revolta da Annada (1893-1894), quan-
do começou a redigir a biografia de seu pai.
De posse desse variado e copioso acervo documental, Nabuco deu a Um
estadista uma forma específica que merece ser examinada.
A ESTRUTURA DO UVRO
· 1' da biogra-Como foi assinalado por vários comentadores, a obra va1 a em
fia para abranger análises sóbre os temas da época. a sociedade e os modos de
7 p . . . d longOS anos embatxador do
ranc•sco Carvalho Moreira, o bario de Penedo, bam Slllo uran&e de 1 1 1877) B ·1 . . denS como adido ega~ rast em Londres, e Joaquim Nabuco ah semra sob suas or N Luiz Felipe d
Evaldo Cabral de Mello, "O fim das casas-grandes". em Fcmando ov::; a mudtrnuúule
Alcncastro (orgs.), Hlst4rla da vida prlvoda no BTtJSU - Jmpino. ~
l14cio~~al, volume 11 (Sio Paulo: Compubia dls Letra. l991). pp.
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UM I \1,1/l/\1,\ /itl /M/'1 H/li
1ltl Nahuco jll'MJllisuu as etlk\ocs do Jmnal do Comércio p·trn s · inteirar do
.wthil'nk poltttw tlll~ prilllL'itos anos da cat rdra de seu pai, ~ohretudo durante os
atlll~ em que ck proprio se encontrava ausente do país, na Europa ( 1873 1874 c
J, 77) l' t'lll Washingtnn ( 187(!). Em todo caso, llm t•statlisfa está semeado de
1 ·ktL'Ilcia~ cxpltcit,ts ou impltcitas às matcrias editoriais do Jomal do Comér-
r w. cujo L'Stilt tl.msparccc em algumas da pas agens do livro. ·1
llavi.t outro g~ncro de imprensa, reprc. cntado pelas folha de província
c o. JOt nais partidarios. Praticando uma linguagem mais livre c aberta ao bra-
silcmsmo d,t smtaxe c do ocabulário -como o demonstra o periódi o recifcnsc
O ('araprtn•im tI R32-18·l2). do padre Lopes Gama-, muitos des,cs pcriódi-
~.:o , que haviam conhecido seu momento de glória na descentralização política
operada durante a rcgcncia, ainda continuavam ativos.h Nabuco de Araújo,
julgando os cYento da Revolução Praieira, considerava tais jornai "foco de
anarquia imoralidade". cu filho e pressa no livro uma opinião mais tolerante
obre c , as "folha volantes. segundo o sistema de pasquim, que é o que tem-
peru\a anllgamentc a prepotência da autoridade". Entretanto, Nabuco reserva
sua preferência à grande imprensa compassada e séria da corte, uma das
base da documentação de Um estadista.
Acresce ainda a enorme influência- difícil de avaliar no Brasil descen-
tralizado e televisual da atualidade- da corte e de sua imprensa. Capital do
império, sede do governo e das representações diplomáticas, maior centro ur-
bano, econômico e cultural da nação, dispondo de um porto que canalizava dois
terços do comércio externo do país e constituía escala obrigatória das grandes
carreiras marítimas (o Canal do Panamá só será inaugurado em 1914), o Rio
de Janeiro detmha uma hegemonia jamais igualada por nenhuma outra cidade
bra ileira do passado ou presente. Na realidade, a hegemonia política e cultu-
ral do Rio de Janeiro tem seu peso na maneira pela qual Nabuco concebe o
Segundo Reinado e a história do Brasil oitocentista.
' Quando o acesso e a leitura do Jornal da Comércio se tornarem facilitados pela cópia doS
mtcrofilmes dos exemplares oilocentistas em CDs. ficará clara a enorme influência desse peri6·
dtco sobre: a forma, o conteúdo e o csttlo dos livros poHticos da época.
' P.tdrc Lopes Gama. O Carapuceiro 1832·1842, prefácio de Leonardo Dantas Silva, 3 volumes
(Rectfe Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1983). Para uma coletânea e um comeotiriO
tntrodutóno das crõmcas publicadas nesses três volumes, cf. Evaldo Cabral de Mello (org.), O
''' pu<.~tro (São Pauto: Companhia das Letras, 1996). Para um apanhado geral sobre o telllli
I 1 l tann•. Conrribuiçdo à história da imprensa braúleira 1812-1869 (Rio de Jaudr
1117, en .a NaciOnal, 1945)
118
I.lllZ i'l~l.ll'l'. IJI AI hN< AS .tO
Um t•s/ltdista comporta uma terceira série de documento,, formutla pot
. ·scências, correspondência privada c descriçücs de cidadL•. L' ambtcnt ·
rernutt. , . . . .
onde viveu Nabuco de ArauJO. Dessa formn .. o ltvro Incorpora as inter ·s~anlt'~
obsl:rvações do barão de Penedo, sobre a v1da dos estudantes de Direito em
Olinda na década de 1830, quando Nabuco Ara(tjo completava cu curso.
Boa parte da bibliografia oitocentista relativa ao império tamhl!m consta d.ts
rdcrências da obra. Algumas vezes (como na abordagem da Lei do Yt:ntrc
Livre ou da Questão Religiosa), Nabuco indica em nota de rodape o livros
mais importantes publicados sobre o tema focalizado em seu capítulo.
Na parte dos depoimentos que ajudaram a constituir a obra, é intercs~an
tc Jar relevo às pessoas que Nabuco freqüentava quando redigia Um estadiç
ta. Nessa época, informa Evaldo Cabral de Mello, junto com outros dois
pernambucanos que haviam ocupado postos eminentes no Segundo Reinado
(João Alfredo, conselheiro de Estado, senador, ministro do império no mini t<!-
rio da Lei do Ventre Livre e presidente do Conselho de Ministro que promul-
gou a Abel ição, e Soares Brandão, senador e ministro dos Negócios Estrangeiros
no gabinete de 24 de maio de 1883), seus vizinhos de ma no bairro de Botafogo.
no Rio de Janeiro, Nabuco entretinha discussões sobre o passado recente do
império. Cabral de Mello registra alguns ecos dessas conversas nas páginas de
Um estadista do império.8 Logo de saída, no prefácio do livro, Nabuco marca
o contraste entre o período histórico que se propunha a descrever e os transes
políticos do momento. A disparidade entre as "lutas pacíficas" do império e o
estrondo dos canhões da marinha na Baía de Guanabara, que tumultuavam osprimeiros anos da república, durante a Revolta da Annada (1893-1894), quan-
do começou a redigir a biografia de seu pai.
De posse desse variado e copioso acervo documental, Nabuco deu a Um
estadista uma forma específica que merece ser examinada.
A ESTRUTURA DO UVRO
· 1' da biogra-Como foi assinalado por vários comentadores, a obra va1 a em
fia para abranger análises sóbre os temas da época. a sociedade e os modos de
7 p . . . d longOS anos embatxador do
ranc•sco Carvalho Moreira, o bario de Penedo, bam Slllo uran&e de 1 1 1877) B ·1 . . denS como adido ega~ rast em Londres, e Joaquim Nabuco ah semra sob suas or N Luiz Felipe d
Evaldo Cabral de Mello, "O fim das casas-grandes". em Fcmando ov::; a mudtrnuúule
Alcncastro (orgs.), Hlst4rla da vida prlvoda no BTtJSU - Jmpino. ~
l14cio~~al, volume 11 (Sio Paulo: Compubia dls Letra. l991). pp.
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li /Mil /,lo IJU IM/'(R/0 I I/.
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li /Mil /,lo IJU IM/'(R/0 I I/.
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e os au•ores suscetí eis de ter influenciado a feitura de
nho ara mim que os críticos ensaístas contemporâneos (como
H . de, ;I, hiteJ. os sociólogos, e mesmos os sociólogos-historiadores, como
R do Faoro, sube ~imam o impacto das fontes no trabalho do historia-
d 'a \ erdade, todo historiador, ao lidar com as fontes primárias (manus-
cnto . documentos impresso e. eventualmente. testemunhos orais) -
instrumento e sencial de seu ofício -. é levado a selecionar. organizar e
hierarquiar o material disponível obre o tema que se propõe estudar. Nesse
proc so elas 1ficatóno, o histon<.~dor privilegia determinadas fontes, usa de
outra de maneira secundária e negligencia as séries documentais que, na sua
a·.aJiação, contêm dados insuficientes ou inapropriados ao enfoque de seu es-
tudo. A partir d:.tí, >CU trabalho passa a ser moldado, condicionado e até res-
tringido pela natureza das fontes. o limite, os capítulos de um livro podem se
reve ir de formatos diferenciados. Um historiador que esteja escrevendo um
hvro obre o tráfico negreiro, por exemplo, será levado a redigir as partes
relativas a análi t:: quantitativa de seu tema de maneira bastante diversa do
capítulo em que aborda, baseado em fontes de outra natureza, o debate teoló-
gico c mí~~ionário sobre a legitimidade da escravidão no século XVII.
Ob-. ia mente, o gênero biográfico, e muito mais ainda, a redação da bio-
grafia paterna. não se presta a essa prolixidade de estilos. Ainda assim, Nabuco
d1 punha, como se pôde entrever nas páginas acima, de fontes bastante varia-
da • que poderiam ter imprimido um feitio diferente a Um estadista. O fato de
0
livro Ler tomado o tom compassado e institucional que o caracteriza não
?ecorre simplesmente do amor filial que movia seu autor. Decorre, isso sim, da
m crprctação política que Joaquim Nabuco enuncia sobre o império a partir
d<Js fontes -discursos parlamentares, documentos do Conselho de Estado.
~~1<!6 Yltlril Fazenda. "Antiqualhas e memórias do R1o de Janeiro" em Revi.1ta do lmtituto
I r m co ,. r;,,~rájlro BrtHiielfo, tomo 95, vol 149, 1927, PP 24G-50
lla n Whlle Metnh11rory TI /li . . . . · •
m 0\'c 1 h H te storu·at lmagm a11on 111 Nwetet!nlh-Century Europt
a11d 10,r
0
/ ~ opk~ns Un~ve"11Y Press, l975, The Contento[ the Form. Narrative Díscount
a epre~rnrnrton (Ilalttmore Johns Hopkins Unlversity Press, 1990).
portugue~a .
, 'uma longa digressão sobre a excelência da at 'na plartar!lc;.t;u
pai. J ·abuco pretende que ele nunca "escre·.eu m d u IJlJ
discurso··. Machado de Assis, relembrando a época em que co Ja c mo
lista as sessões do Senado para o Diário do R to de Janeim. dÍ.l o c ár
minha impressão é que preparava os seus d1scu os··. 4 Frase pouco i ci 1 a q
se deve, talvez, a divergência pontual com, 'abuco. seu am:go fraterno na época
da redação de Um estadista. Mas é Machado quem tem razão. Como a m.l na
dos parlamentares que se preocupavam em deixar suas f <tias registrada p<tra
posteridade, Nabuco de Araújo preparava seus di:.curws e em seguida o ree -
crevia, a partir da taquigrafia registrada no Senado ou na Cámara O recurso .l
citações latinas, que aparece com alguma freqtiéncia nos d1scursos parlamcnta
res e na narrativa do livro, também deve sercontextualizado. Com efe:to o latin 'no
básico, herdado do ensino jesuítico e religioso da época colonial. d hulhado na
aulas de catecismo, do ensino secundário e, com mais dcnsJdade. nas faculdade
de Direito, fazia parte da cultura da população escolarizada do impéno e da
primei ras décadas da república.
Quando apareceu o primeiro tomo de Um e.\tadista. José \'erí s1mo afir-
mou que a intercalação dos discursos e textos oficiais con tituía um "dcfe1t
[ ... J na estrutura do livro" . 1 ~ Veríssimo escrevia numa conjuntura em que ta1
discursos ainda não tinham adquirido a estampa de documentos histórico · 't•
entanto, quer tenha sido um defeito ou, ao contrário, um efc.:ito narrdli\O
deliberadamente elaborado, o procedimento contribuiu, com o passar do anos.
P~ra dar o tom edificante que caracteriza a obra. Retratando questõe di tan-
~Iadas da atualidade republicana e incorporadas ao passado- um pa. ado q_uc
"ruptura histórica provocada pcla Abolição fazia ficar cada vez mais longtn
::------
.. Machado de Assis, "O velho Senado", em Joaqu1m Nabuco, Um estaduta dt 111 ' >ll ·
u Ane~o. v 11, p. 1280.
Jos~ Verlssimo. "Um historiador poHtico, o sr Joaqu1m abuco • em Joaq •m ah c L ' ~ltadura do imphw, cit., Anexo. v 11, p 1300.
12J
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e os au•ores suscetí eis de ter influenciado a feitura de
nho ara mim que os críticos ensaístas contemporâneos (como
H . de, ;I, hiteJ. os sociólogos, e mesmos os sociólogos-historiadores, como
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d 'a \ erdade, todo historiador, ao lidar com as fontes primárias (manus-
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proc so elas 1ficatóno, o histon<.~dor privilegia determinadas fontes, usa de
outra de maneira secundária e negligencia as séries documentais que, na sua
a·.aJiação, contêm dados insuficientes ou inapropriados ao enfoque de seu es-
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relativas a análi t:: quantitativa de seu tema de maneira bastante diversa do
capítulo em que aborda, baseado em fontes de outra natureza, o debate teoló-
gico c mí~~ionário sobre a legitimidade da escravidão no século XVII.
Ob-. ia mente, o gênero biográfico, e muito mais ainda, a redação da bio-
grafia paterna. não se presta a essa prolixidade de estilos. Ainda assim, Nabuco
d1 punha, como se pôde entrever nas páginas acima, de fontes bastante varia-
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livro Ler tomado o tom compassado e institucional que o caracteriza não
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m crprctação política que Joaquim Nabuco enuncia sobre o império a partir
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, 'uma longa digressão sobre a excelência da at 'na plartar!lc;.t;u
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dos parlamentares que se preocupavam em deixar suas f <tias registrada p<tra
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crevia, a partir da taquigrafia registrada no Senado ou na Cámara O recurso .l
citações latinas, que aparece com alguma freqtiéncia nos d1scursos parlamcnta
res e na narrativa do livro, também deve sercontextualizado. Com efe:to o latin 'no
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aulas de catecismo, do ensino secundário e, com mais dcnsJdade. nas faculdade
de Direito, fazia parte da cultura da população escolarizada do impéno e da
primei ras décadas da república.
Quando apareceu o primeiro tomo de Um e.\tadista. José \'erí s1mo afir-
mou que a intercalação dos discursos e textos oficiais con tituía um "dcfe1t
[ ... J na estrutura do livro" . 1 ~ Veríssimo escrevia numa conjuntura em que ta1
discursos ainda não tinham adquirido a estampa de documentos histórico · 't•
entanto, quer tenha sido um defeito ou, ao contrário, um efc.:ito narrdli\O
deliberadamente elaborado, o procedimento contribuiu, com o passar do anos.
P~ra dar o tom edificante que caracteriza a obra. Retratando questõe di tan-
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.. Machado de Assis, "O velho Senado", em Joaqu1m Nabuco, Um estaduta dt 111 ' >ll ·
u Ane~o. v 11, p. 1280.
Jos~ Verlssimo. "Um historiador poHtico, o sr Joaqu1m abuco • em Joaq •m ah c L ' ~ltadura do imphw, cit., Anexo. v 11, p 1300.
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11\t I· I\')/, I I {)(1/I/1'/-RIO LLIIZ FELIPE DE ·\ LE C·\STIW
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c1 ·ntl' • da .Hn td.H.k . q11c St' dt·~cnrol.un à margem da t 'âmum
· ],, • t n.lth' 11.1<' ·LI nr • · m u llltl ~tup.1s es~enci.li. d.1 histotia nnpetial c. por
'"'' m ·-.n,. n"'' !!·lnh.un l •st.1quc em Um , •.~fadista Pc f.lto. o livm passa ao
l.lr•'t' J.t pt ltti 'o i rcgtonalt• munil..tpal. J · mo1 tmcntos rq;ionaliMa c. de uma
nwt •i r.t !! •t.JI da. l}Ul' ~t&: debatida 11.1s câmar.1s e nas asscmblciu provin-
c·i.ti~ . cl'lu.mdo. oh\ tJillt'llh:, J Revolução Praieira. CliJ.l devassa judicial foi
lt·' .td.t .1 c'.1hn pt'r N.thucn de .\r.IUJO. ,\Jguns comcntadorcs da obra obscrva-
r.mt. '<'11\ pcn i n(lnci;.~. que o objetivo de JoJquim ahuco consi tia em seguir o
iunct u i11 poltl i '' de seu pai . t' n:io em redtgtr a h i tôria do império. Ainda
,1 un. h. 1~m.1' com o~ quat, 1 ahuco de Araújo lidou bastante que não rcce-
~ m no h' 10 um L •• IJmcnto à .11t11ra
f ai te mJ d.1 imigr.tção c do tr.1halho rural. mal resolvido nas discussões
no P Jl'lantcnlo, ma 'i\ Jmcntc dcb:rtido 0:1 província , obretudo em São Paulo.
Efcti\ .nncntc. L m c.ltaclisra não trJtJ da Lei de Locação de Serviços na Agri·
cullur.1 1 1,'791. à qual Nabuco de Araújo dedicou boa parte de sua atenção no
pcn do qu' prcc ·dcu . u.t morte. Concebida para fazer a junção entre a políti·
c.1 nnigrant1sta que s • in iciava e a legislação emancipacionista que fechava
tr~s < iculo d l' . cravismo. de pcnneio aos interesses divergentes dos fazen·
dwos do 'ordestc e do Centro-Sul quanto à imigração estrangeira c à migra·
<~ inLerprO\ incial dos trah.1lhadores livres e ex-escravos, a lei de 1879 constiLUía
'qua t' um Código Rural", segundo os comentadores da época. Para redigi-la.
o então ~on elheiro de Estado e tudou os relatórios das comissões sobre a
imt_;r.tção que e tiveram em São Paulo, como também a legislação européia
.ttm·nt ao trabalho compulsório nas colônia oitocentistas. A despeito de ter
fL ... c,•nhec ldJ como Lei Sinimbu (presidente do Conselho de Ministros e
mi Tl' da .,;cultura do gabinete que apre entou o projeto referente a essa
126
I til/ 11·1 11'1 lll · \L I N< A \ 'llto
le' l). , I le·e de· I ~71> t' lmf.l c•l.t du lavra de· N.1huco dt• Ar;tUjo, [,1(1·c 1do pou1 0
,ul le s " '' ~ 11a apwva(:tll nu l'arl:une•nto. ri
No~ ~~tiS 'li os <' nos sc:us ac'l't tos. N;~htlco, ('01110 todo ht\toll;rdm l <'~ta
tributa I io tlncllnjunllltll historica q111' divi~avu Nos ano de ll'<Lrç.1n do f lVI o,
unn peldiu pt•r·cehc:l' os desdoh1 amcntos ullt·r lcm·~ de algn11s dos h'nl.ls pollltn>~
,. sociais qut' su1·gi11111 110 finnl do impcSrin. Fator que tL'r.! l<llttli'm JWs.ldo na
~ 1111 suheslinlU(!IO do pu~wl da política i1nigranli~1a .
Mnis complicado c o salto sobre algutna~ q1H'S1tks do pass.tdo, ,. ,1 rl'I.J
11
v:1 brevidade com que o livro uborda as laboriosas ncgodaçc •s dtplmnatic.ls,
econômicas, políticas t: policiais prcct:dcndo a suprcs~ao do tdfico nq!tciro
clandcstino em I 850. Nus suas estadas em Londn·s, Juaquim Nahuco le·u. Jo
m~:nos em parte, os autos das comissões parlamt:ntarcs de inquérito do Paria
mcnto britânico obre o tdfico de africanos. Há nl'ssa documentação d.H.lm
d~:vastndorcs sohre o comprometimento brasileiro na pirataria ncgrcir.t. rK De
putado, seu pai acompanhou, a partir de 1848. as tratativa~ oficiais c oficiosas
que 0 gabinete saquarcma c, sobretudo, o ministro da Justiça. Eusébio Qlll•ir(s
e 0 ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulino Soares de Sousa (viscondc de
Uruguai), desenvolviam com os fazendeiro e negreiros brasileiros, de um lado.
e com o governo britânico, de outro, sobre a que tão mais perigosa enfrentada
pelo império. Considerado pelo direito internacional um ato de pirataria. o trá -
fico negreiro brasileiro estava à beira de provocar um conflito armado com a
Inglaterra. Apesar da cessação do tráfico clandestino em 1850. as tensões
persistiram em torno do estatuto dos africanos introduzidos após a lei de 7 dc
novembro de 183 J. Tensões que desembocaram no "affaire Christie". levan-
do à ruptura de relações diplomáticas entre a Inglaterra e o Brasil (1863-1865).
Como se sabe, a lei de 1831 proibia o tráfico atlântico de escravos c determ!·
nava a imediata soltura dos africanos introduzidos após essa data, os quats
eram considerados homens livres. Conseqüentemente, todos os proprietários
de africanos desembarcados após 1831 estavam praticando o crime de man~~r
pessoas livres em cárcere privado. Ministro da Justiça, Nabuco de ArauJO
arbitrou questões delicadas sobre a matéria. Em 1854, no desdobramento de
uma decisão do Senado, ele redigiu uma recomendação aos delegados de po·
" V . . • . La unier Da tscra••idiio '"' Trabu -
CJa-se a esse respeito o livro esclarecedor de Mana Luc•o mo ·
• lho livre (Campinas: Papiros. 1988). . em O> rdatonos dJ>
No livro, Nabuco se refere aos Britüll Parliamtnrary Paptrs que reun
COmissões da Câmara dos Comuns e da Câmara dos Lordes rclabvos li queseãu
127
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,1 un. h. 1~m.1' com o~ quat, 1 ahuco de Araújo lidou bastante que não rcce-
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dwos do 'ordestc e do Centro-Sul quanto à imigração estrangeira c à migra·
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'qua t' um Código Rural", segundo os comentadores da época. Para redigi-la.
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imt_;r.tção que e tiveram em São Paulo, como também a legislação européia
.ttm·nt ao trabalho compulsório nas colônia oitocentistas. A despeito de ter
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I til/ 11·1 11'1 lll · \L I N< A \ 'llto
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v:1 brevidade com que o livro uborda as laboriosas ncgodaçc •s dtplmnatic.ls,
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m~:nos em parte, os autos das comissões parlamt:ntarcs de inquérito do Paria
mcnto britânico obre o tdfico de africanos. Há nl'ssa documentação d.H.lm
d~:vastndorcs sohre o comprometimento brasileiro na pirataria ncgrcir.t. rK De
putado, seu pai acompanhou, a partir de 1848. as tratativa~ oficiais c oficiosas
que 0 gabinete saquarcma c, sobretudo, o ministro da Justiça. Eusébio Qlll•ir(s
e 0 ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulino Soares de Sousa (viscondc de
Uruguai), desenvolviam com os fazendeiro e negreiros brasileiros, de um lado.
e com o governo britânico, de outro, sobre a que tão mais perigosa enfrentada
pelo império. Considerado pelo direito internacional um ato de pirataria. o trá -
fico negreiro brasileiro estava à beira de provocar um conflito armado com a
Inglaterra. Apesar da cessação do tráfico clandestino em 1850. as tensões
persistiram em torno do estatuto dos africanos introduzidos após a lei de 7 dc
novembro de 183 J. Tensões que desembocaram no "affaire Christie". levan-
do à ruptura de relações diplomáticas entre a Inglaterra e o Brasil (1863-1865).
Como se sabe, a lei de 1831 proibia o tráfico atlântico de escravos c determ!·
nava a imediata soltura dos africanos introduzidos após essa data, os quats
eram considerados homens livres. Conseqüentemente, todos os proprietários
de africanos desembarcados após 1831 estavam praticando o crime de man~~r
pessoas livres em cárcere privado. Ministro da Justiça, Nabuco de ArauJO
arbitrou questões delicadas sobre a matéria. Em 1854, no desdobramento de
uma decisão do Senado, ele redigiu uma recomendação aos delegados de po·
" V . . • . La unier Da tscra••idiio '"' Trabu -
CJa-se a esse respeito o livro esclarecedor de Mana Luc•o mo ·
• lho livre (Campinas: Papiros. 1988). . em O> rdatonos dJ>
No livro, Nabuco se refere aos Britüll Parliamtnrary Paptrs que reun
COmissões da Câmara dos Comuns e da Câmara dos Lordes rclabvos li queseãu
127
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DO IVI'lRIO
8
LUIZ FELIPE DI! AL CASTRO
Imperador. uma Ctmara. clmdaclasua oulidllde e que pede IOiertDtia; um
que reduz a ser um pmaneu"; partidos que sio apenas SOciedldes coopera~~ as de
co I lo ou de seguro contra a mis&ia: todas apareocias de um governo 1
ão preservadas por orgulho nacioDat, como f01 a dignadade roosuJar oo lmptaio
Romano. mas, no fundo, o que temos 6 um goYm!O de uma simpli pnrmb
m que as responsabthdades se dividem ao infinito, e o poder esti conct'lllrado nas
mão de um só.,
o ataque arrasador de O abolicionismo ilustra a dimensão do recuo
con ervador do pensamento nabuquiano estampado em U111 estadista.
A respeito da personalidade dos políticos do Segundo R inado. abu o
traça às ezes alguns perfis psicológicos. Assim, quando fala d Luí Pedrerra
do Couto Ferraz.. visconde de Bom Retiro, ministro do império do gabinet de
Paraná. ele menciona sua grande timidez e dificuldade em falar m públic
Malgrado seu alor e experiência. Pedreira só discursava quando um de seu
colegas de ministério. tal abuco de Araújo, usava de subterfügios para forçá-
lo a subir na tribuna do Parlamento. abuco Dio abafa os sentiment de
personagens e, a propósito do arbítrio do imperador lba dos senadore
eleitos em lista trfp1ice pelas províncias, nota pcrspiclzmcote a '"ferida mcurá-
el" assim criada nos eleitos preteridos na nomeação.
Contudo. elo nio se permite nenhuma obsena9lo irreven:n .
em Um estadista nada que se compare às sutilezas ele bado de as
quando menciona. por exemplo. a surdez do DlllRlu& de OliDda. obrigando-o
d scer da tribuna para sentar-se ao lado do parlamentar que o aparte& ,
mania do nador gadc:ho J8 Arújo Ribearo, viscoade do Rio Graode,
sempre com o didonirio lado para verificlr ou tal
palavras de um orador Jeaftimas '. Sem paralD tu
macbldlau~IIIDltleaimlpm de um seDid«
deolsaa'tlllarfOIIiao'" para formollr-.,..~~~~~~~~.-;
----~·----~-~a.n·*----
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DO IVI'lRIO
8
LUIZ FELIPE DI! AL CASTRO
Imperador. uma Ctmara. clmdaclasua oulidllde e que pede IOiertDtia; um
que reduz a ser um pmaneu"; partidos que sio apenas SOciedldes coopera~~ as de
co I lo ou de seguro contra a mis&ia: todas apareocias de um governo 1
ão preservadas por orgulho nacioDat, como f01 a dignadade roosuJar oo lmptaio
Romano. mas, no fundo, o que temos 6 um goYm!O de uma simpli pnrmb
m que as responsabthdades se dividem ao infinito, e o poder esti conct'lllrado nas
mão de um só.,
o ataque arrasador de O abolicionismo ilustra a dimensão do recuo
con ervador do pensamento nabuquiano estampado em U111 estadista.
A respeito da personalidade dos políticos do Segundo R inado. abu o
traça às ezes alguns perfis psicológicos. Assim, quando fala d Luí Pedrerra
do Couto Ferraz.. visconde de Bom Retiro, ministro do império do gabinet de
Paraná. ele menciona sua grande timidez e dificuldade em falar m públic
Malgrado seu alor e experiência. Pedreira só discursavaquando um de seu
colegas de ministério. tal abuco de Araújo, usava de subterfügios para forçá-
lo a subir na tribuna do Parlamento. abuco Dio abafa os sentiment de
personagens e, a propósito do arbítrio do imperador lba dos senadore
eleitos em lista trfp1ice pelas províncias, nota pcrspiclzmcote a '"ferida mcurá-
el" assim criada nos eleitos preteridos na nomeação.
Contudo. elo nio se permite nenhuma obsena9lo irreven:n .
em Um estadista nada que se compare às sutilezas ele bado de as
quando menciona. por exemplo. a surdez do DlllRlu& de OliDda. obrigando-o
d scer da tribuna para sentar-se ao lado do parlamentar que o aparte& ,
mania do nador gadc:ho J8 Arújo Ribearo, viscoade do Rio Graode,
sempre com o didonirio lado para verificlr ou tal
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A ri' ~Jli'Íio da pe1 Mnltllidudc do~ poiiiiCOii doS ~undo l{cm.tdo, N,1h11 o
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dn 1 'nn tol'l'll·ll., vi,condt• Úl' Bom Retiro, 1111111 lro do 1mpér~n do •nh111 lto d1
''"'" 11 ,1, (')1• m•·udona Mlll ~-:rundt• timidez dificuldud em lulur em puhlu o
M,,Jg~,ulo M'll valor,. l' pelicnciu, l,cdrciru ~ó dis ursuvu quundo um de seus
,·nlt')'·l~' 1k ministério. tu I Nnhuco de Araí1jo, usava d . uhlerfl\gms puru lort;ú
111 ,1 suhir 1111 11 ihunu do Purlumcnto. Nuhuco n o nbafu 011. nlllncnto. dt• st•u
J1t'IMliJagt•ns l', a propt sito do arhrtrio do impcrudor na s nlhu dos senado
,•killl' •·mlisla 11 fplicc pclus provfncius, notu p rspi uzm nte a "fcridu incura
n•l" ussim criudu nos eleitos preteridos nu nomeaç o.
Contudo, cl n o e permite n nhuma ob •rvnç o irrev r ntc. Não hn
t'lll (lm t•stadista nudn qu se comp rc i\s sutil za. d M chudo d Assi
t(Uandom ncionu, por e mplo, a urdez do murqu s de OI inda, ohrigundo ou
dt'Sl'l'r c.lu tribuna pnru ntar-s ao ludo do pariam •ntur qu o apurt•uvu; a
mania úo scnudor gnú ho Jos d rnújo Ribeiro, viscond do Rio Orand ,
st•mpre com o di iondrio M rni ao u lado paru verificar " tais ou tai
p.11.1vras de um orad r rnm u n o I gftimus". 'em aparnt v macular, a
tl'rtt·ira ironiumuchndiann dem I a imag m d um enador mo o mnrqu
de: llanhac m, "s m d nte nem vai r político", para fonnular uma fina an li
Pt1htka: "a figuru d lt nha mera uma raz!o vi {vel contra vitah iedade do
St:11.1do, ma. t mbém no qu a italiciedade dava qu la ca a uma
l'il'ncia de durnç o perpétua, que parecia ler- e no ro to e n trat d
m mbro.".'
~~~nru wna om: •• anllp, lupr de rewailo doi prfcanea. ODdc 101111 111 rd Cll$la do
• tao.lo, além dclc:s, Jflllldc námaro de ~ pdbllool e car101 c:idldiGI a QI&CIIIIC conmfia
1~ 1 Jlfl\il gto em f«''IIIJICIISI de erviÇOI preslldoll ~ (Dkioúrlo ri~
•
1 qu•m abuco, o tlbolit-UJIIUMO 41 ec1ç1o (Pdnlpolla: lm), pp 1 0.171
lach.tdo de Assl "() velllo SCIIIdD • • ICIIIpdll U. ,.,.,.,. dD AIINO.
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M,,Jg~,ulo M'll valor,. l' pelicnciu, l,cdrciru ~ó dis ursuvu quundo um de seus
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Contudo, cl n o e permite n nhuma ob •rvnç o irrev r ntc. Não hn
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mania úo scnudor gnú ho Jos d rnújo Ribeiro, viscond do Rio Orand ,
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p.11.1vras de um orad r rnm u n o I gftimus". 'em aparnt v macular, a
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Pt1htka: "a figuru d lt nha mera uma raz!o vi {vel contra vitah iedade do
St:11.1do, ma. t mbém no qu a italiciedade dava qu la ca a uma
l'il'ncia de durnç o perpétua, que parecia ler- e no ro to e n trat d
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11. p 12 7.
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EDUARDO PRADO
A ilusão americana
Lúcia Líppi Oliveira
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EDUARDO PRADO
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Lúcia Líppi Oliveira
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'.,do ·•utordc A i/u.lao nmaicnna'.quc apresenta remo~. pmk
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cfl:ncontr ·I· r ·ça das armas em 1889. Na c ido em I 8(10. de urn ela t.tvo-
. wlada pt.: '1 101 · • 1 Xl I· ca ms :- da lavoura de café paulista. no fmal do secu o ' • ~: l
'd da cxpans.IO . recr o p . mtiiJdo de riqueza clcgftm;ia c cultura. Ja nos hnnc(ls
, c vt\'Cll em um ' . .
cn:sct.:U I· t , a na imprensa acadêmica e publicava crônJcas no JOrnal
. . lares. co a Jorav . . . , ' . csco ,. Como boa parte dos filhos da elite hrastlcrra da cpoc.:a.
reio Pnu rstnno. , . ,
Cor . Faculdade de Direito de São p,IUio. llnde teve como colegas dt:
ingressou na . B .I J .,. J u' ui .
1
, ,. de Castilhos, Joaquim Francisco de Ass1s ras1 c u 10 c ;VJcsq
turm•l u ro . .d.
· . n1 a se tomar políticos ilustres. Após o bacharelado, drv1 J:J o tem-ta que vrcra · d·
· raze11da no interior de São Paulo c os centros co mopolrtas ,1 po entre a I· '
Europa.
Radicado em Paris, a partir de 1886, transformou a casa onde morava
em um verdadeiro centro de estudos brasileiros e portugueses. Desse círculo
privilegiado fizeram parte intelectuais da estatura de Eça de Qu ·irós. Ramalho
Ortigão, Joaquim Nabuco, Afonso Arinos e Rio Branco, ntre outros. t o cl!n-
tenário da Revolução Francesa, em 14 de julho de !889, Eduardo Prado inte-
grou a representação oficial brasileira à exposição de Paris. que festejou a
queda da Bastilha.
Quatro meses depois, com a proclamação da república no Brasil, deu
início ã carreira de polemista, usando como veículo a ReviMa de Portugal.
Nela escreveu, sob o pseudônimo de Frederico de S., artigos mais tarde reu-
nidos no livro Fastos da ditadura militar no Brasil. Mas foi em 1893, çom A
ilusão americana- primeiro livro apreendido pela polícia republicana em São
Paulo-, que passou a enfrentar problemas mais sérios. Sentindo-se persegui-
do. "fugiu" para a Europa.
Isso não o impediu, porém, de continuar fazendo propaganda anti-repu-
blicana na terra natal. Em 1897 foi sócio fundador da Academia Brasileira de
Letras, onde assumiu a cadeira ng 40, escolhendo como patrono o visconde do
Rio Branco. Voltou definitivamente ao país em 1900, a fim de retomar os ata-
Leres d. pol't' · d . . . c I rco, pesqutsa or, htstorrador e escntor. Por pouco tempD. Na \'I a-
gem que fez R' d J · I . · ao lO e anetro, em 9 de agosto de 190 l. para tomar po se no
~stltuto Histórico e Geográfico Brasileiro, foi contagiado pela febre amar la
orrcu no dia 30, em São Paulo, aos 41 anos de idade. 2
' Eduardo Prad A I
' Sob 0 • 1 usdo IVnmcana (S' ediçlo. Sio Paulo lbra a. 1980)
re o autor ver a d d M Filho 1967) C ' 0 1 O OIA I • A vida tk Eduordu Prado (Rio de Janc11 J'* Olymps
' olrção Documento Brasllesros, 129
135
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d !
'.,do ·•utordc A i/u.lao nmaicnna'.quc apresenta remo~. pmk
rdu'll o 1'1 '... 'h!" : ' ado na linha de frt.!nte do momuquista. qut.! cnmh:-~tcram a r:r.u 1-
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'd da cxpans.IO . recr o p . mtiiJdo de riqueza clcgftm;ia c cultura. Ja nos hnnc(ls
, c vt\'Cll em um ' . .
cn:sct.:U I· t , a na imprensa acadêmicae publicava crônJcas no JOrnal
. . lares. co a Jorav . . . , ' . csco ,. Como boa parte dos filhos da elite hrastlcrra da cpoc.:a.
reio Pnu rstnno. , . ,
Cor . Faculdade de Direito de São p,IUio. llnde teve como colegas dt:
ingressou na . B .I J .,. J u' ui .
1
, ,. de Castilhos, Joaquim Francisco de Ass1s ras1 c u 10 c ;VJcsq
turm•l u ro . .d.
· . n1 a se tomar políticos ilustres. Após o bacharelado, drv1 J:J o tem-ta que vrcra · d·
· raze11da no interior de São Paulo c os centros co mopolrtas ,1 po entre a I· '
Europa.
Radicado em Paris, a partir de 1886, transformou a casa onde morava
em um verdadeiro centro de estudos brasileiros e portugueses. Desse círculo
privilegiado fizeram parte intelectuais da estatura de Eça de Qu ·irós. Ramalho
Ortigão, Joaquim Nabuco, Afonso Arinos e Rio Branco, ntre outros. t o cl!n-
tenário da Revolução Francesa, em 14 de julho de !889, Eduardo Prado inte-
grou a representação oficial brasileira à exposição de Paris. que festejou a
queda da Bastilha.
Quatro meses depois, com a proclamação da república no Brasil, deu
início ã carreira de polemista, usando como veículo a ReviMa de Portugal.
Nela escreveu, sob o pseudônimo de Frederico de S., artigos mais tarde reu-
nidos no livro Fastos da ditadura militar no Brasil. Mas foi em 1893, çom A
ilusão americana- primeiro livro apreendido pela polícia republicana em São
Paulo-, que passou a enfrentar problemas mais sérios. Sentindo-se persegui-
do. "fugiu" para a Europa.
Isso não o impediu, porém, de continuar fazendo propaganda anti-repu-
blicana na terra natal. Em 1897 foi sócio fundador da Academia Brasileira de
Letras, onde assumiu a cadeira ng 40, escolhendo como patrono o visconde do
Rio Branco. Voltou definitivamente ao país em 1900, a fim de retomar os ata-
Leres d. pol't' · d . . . c I rco, pesqutsa or, htstorrador e escntor. Por pouco tempD. Na \'I a-
gem que fez R' d J · I . · ao lO e anetro, em 9 de agosto de 190 l. para tomar po se no
~stltuto Histórico e Geográfico Brasileiro, foi contagiado pela febre amar la
orrcu no dia 30, em São Paulo, aos 41 anos de idade. 2
' Eduardo Prad A I
' Sob 0 • 1 usdo IVnmcana (S' ediçlo. Sio Paulo lbra a. 1980)
re o autor ver a d d M Filho 1967) C ' 0 1 O OIA I • A vida tk Eduordu Prado (Rio de Janc11 J'* Olymps
' olrção Documento Brasllesros, 129
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iWSÃO AMERJC.\, 'A LÚCIA LIPJ>I OLI, EJf'.A
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iWSÃO AMERJC.\, 'A LÚCIA LIPJ>I OLI, EJf'.A
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A ILUSÃO AMERJCANA
Eduardo Prado transmite seus argumentos centrais ao leitor com nqueza
de mterpretação. A Ilusão america11a levanta a tese de que entre o Brasil e 05
Estados Unidos. e seus respectivos povos. existe um verdadeiro abismo cultu.
ral. com separação de raça. de religião, de índole, de língua, de história e de
tradiçõc . Portanto. nada deveria levá-los a possuir as mesmas instituições e a
mesma fo1ma de governo. Até o fato de ambos estarem situados no mesmo
contmente não passaria de mero acidente geográfico, verdadeiro equívoco
causado por mutações geológicas.
OBra il encontrt-se voltado para o Leste, onde nasce o sol. ou seja, para
a Europa. onde estão os centros mais populosos e importantes, e não para os
outros paí es americanos. A geografia também nos separa dos países andinos;
ilha imensa. por si só um continente. O autor retoma a idéia de que o no da
Prata e o no Amazonas foram mares que se comunicavam no passado, confir-
mando um.t 1déia antiga e famosa- a existência da ilha Brasil. A junção com
o terntório do Andes, superficial. não gerou muitos laços físicos e culturais.
Eduardo Prado não só demarca as diferenças entre o Brasil e os Estados
Umdos. mas também as do Brasil com as demais nações do hemisfério. Ao
longo do texto aparecem inúmeras referências negativas aos países hispano-
americanos. "Estudem um a um", diz o autor, "c o traço característico de todos
eles, alé!Tl da contínua tragicomédia das ditaduras, das constituintes e das sedi-
'rões. que é .t vida desses países, é a ruína das finanças. "4
A América espanhola, ao adotar o modelo norte-americano por ocasião
do movimentos de independência durante o século XIX, teria renegado suas
trad1 õe . "O Br·•,il, mais feliz, instintivamente obedeceu à grande lei de que
as nações devem se reformar dentro de si mesmas, como todos os organismos
\ 1vos. com a própria substância."5 Em 1889, no entanto, cometia o mesmo erro
dos VIZinhos.
A fraternidade americana seria outra menti~a divulgada pelos republica-
nos. O autor defende seu ponto de vista apresentando exemplos de ódios nacio-
nats, a altos. ataques, lutas entre os países do continente que desmentem OS
id'!ai fraternos. Denuncia a "ilusão americana" mostrando as diferenças do
Bra il com o outros países da América do Sul e, no mesmo tom, aponta e
d nuncia a ba1xa qualidade da política norte-americana dirigida aos "irmãos do
• ui"
/J8
LÚCIA Lli'Pl OLIVEIRA
vamos acompanhá-lo na demonstração de sua tese. Eduardo Prad(J apre-
t' sua visão sobre a sociedade norte-americana através da política. privJle-
sen a- d' 1 · E b I d'f d · iando a condução de sua 1p omac1a. sta e ece a 1 erença entre o1s
g omentos- o da instauração da república, em 1776, e o da virada do éculo
;IX. No final do século XVIII, "homens extraordinários, da velha c~tirpe
saxônica. revigorada pelo puritanismo e alguns deles bafejados pelo lilosofismo,
surgiram nas treze colônias inglesas da América do Norte. Resolveram cons-
tituir em nação independente a sua pátria".6
Prossegue dizendo que, ao se emanciparem politicamente. os norte-ame-
ncanos tiveram como aliados os reis da França e da Espanha. Não pretendi-
am, então, fazer proselitismo, divulgar a idéia de que as demais colônias na
Aménca deveriam ser independentes ou republicanas, como eles. 'o caso da
Aménca Latina, nos diz Eduardo Prado, foi a Inglaterra que a aJudou a conse-
guir a independência no século XIX, ao defender esses novos países contra as
monarquias européias que pretendiam intervir na América a favor da Espanha.
A política externa norte-americana viveu, no final do século XIX. sob a
ég1dc do pan-americanismo. A Doutrina Monroe. que se origina na mensagem
encaminhada pelo presidente James Monroe ao Congresso dos Estado Uni-
dos, em 1823, tinha como objetivo afirmar a soberania nacional dos paí ·e- do
continente contra as pretensões das monarquias européias que forma•am a
Santa Aliança. A doutrina se opunha às pretensões francesas de intervir na
América espanhola e às pretensões russas de estabelecer novas feitorias na
costa do Pacífico.
Para Eduardo Prado, a Doutrina Monroe ficou restrita ao declaratóno.
não tendo o significado de compromisso nem de aliança. como imaginavam os
republicanos jacobinos. Os Estados Unidos não estavam. de forma alguma.
dispostos a comprar as brigas da América Latina com as potências além-mar
Daí não ter nenhuma base, segundo o autor, "a crendice que c qu r espalhar
no Brasil de que os Estados Unidos não consentem na América outro gover-
no senão o republicano''.7
Ao relatar os eventos mais significativos das relações entre os Estados
Unidos e o Brasil durante o sécllio XIX, ele mostra que a nossa independên ia
só foi reconhecida pelos norte-americanos depois que Portugal o f; z. e ainda
assim graças à intervenção inglesa. Menciona conflitos no rio da Prata que
envolveram apreensão de navios e e igências desmedidas e e orbitantes que
: lbid. p. 22
lbid. p. 30.
JJ9
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A ILUSÃO AMERJCANA
Eduardo Prado transmite seus argumentos centrais ao leitor com nqueza
de mterpretação. A Ilusão america11a levanta a tese de que entre o Brasil e 05
Estados Unidos. e seus respectivos povos. existe um verdadeiro abismo cultu.
ral. com separação de raça. de religião, de índole, de língua,de história e de
tradiçõc . Portanto. nada deveria levá-los a possuir as mesmas instituições e a
mesma fo1ma de governo. Até o fato de ambos estarem situados no mesmo
contmente não passaria de mero acidente geográfico, verdadeiro equívoco
causado por mutações geológicas.
OBra il encontrt-se voltado para o Leste, onde nasce o sol. ou seja, para
a Europa. onde estão os centros mais populosos e importantes, e não para os
outros paí es americanos. A geografia também nos separa dos países andinos;
ilha imensa. por si só um continente. O autor retoma a idéia de que o no da
Prata e o no Amazonas foram mares que se comunicavam no passado, confir-
mando um.t 1déia antiga e famosa- a existência da ilha Brasil. A junção com
o terntório do Andes, superficial. não gerou muitos laços físicos e culturais.
Eduardo Prado não só demarca as diferenças entre o Brasil e os Estados
Umdos. mas também as do Brasil com as demais nações do hemisfério. Ao
longo do texto aparecem inúmeras referências negativas aos países hispano-
americanos. "Estudem um a um", diz o autor, "c o traço característico de todos
eles, alé!Tl da contínua tragicomédia das ditaduras, das constituintes e das sedi-
'rões. que é .t vida desses países, é a ruína das finanças. "4
A América espanhola, ao adotar o modelo norte-americano por ocasião
do movimentos de independência durante o século XIX, teria renegado suas
trad1 õe . "O Br·•,il, mais feliz, instintivamente obedeceu à grande lei de que
as nações devem se reformar dentro de si mesmas, como todos os organismos
\ 1vos. com a própria substância."5 Em 1889, no entanto, cometia o mesmo erro
dos VIZinhos.
A fraternidade americana seria outra menti~a divulgada pelos republica-
nos. O autor defende seu ponto de vista apresentando exemplos de ódios nacio-
nats, a altos. ataques, lutas entre os países do continente que desmentem OS
id'!ai fraternos. Denuncia a "ilusão americana" mostrando as diferenças do
Bra il com o outros países da América do Sul e, no mesmo tom, aponta e
d nuncia a ba1xa qualidade da política norte-americana dirigida aos "irmãos do
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LÚCIA Lli'Pl OLIVEIRA
vamos acompanhá-lo na demonstração de sua tese. Eduardo Prad(J apre-
t' sua visão sobre a sociedade norte-americana através da política. privJle-
sen a- d' 1 · E b I d'f d · iando a condução de sua 1p omac1a. sta e ece a 1 erença entre o1s
g omentos- o da instauração da república, em 1776, e o da virada do éculo
;IX. No final do século XVIII, "homens extraordinários, da velha c~tirpe
saxônica. revigorada pelo puritanismo e alguns deles bafejados pelo lilosofismo,
surgiram nas treze colônias inglesas da América do Norte. Resolveram cons-
tituir em nação independente a sua pátria".6
Prossegue dizendo que, ao se emanciparem politicamente. os norte-ame-
ncanos tiveram como aliados os reis da França e da Espanha. Não pretendi-
am, então, fazer proselitismo, divulgar a idéia de que as demais colônias na
Aménca deveriam ser independentes ou republicanas, como eles. 'o caso da
Aménca Latina, nos diz Eduardo Prado, foi a Inglaterra que a aJudou a conse-
guir a independência no século XIX, ao defender esses novos países contra as
monarquias européias que pretendiam intervir na América a favor da Espanha.
A política externa norte-americana viveu, no final do século XIX. sob a
ég1dc do pan-americanismo. A Doutrina Monroe. que se origina na mensagem
encaminhada pelo presidente James Monroe ao Congresso dos Estado Uni-
dos, em 1823, tinha como objetivo afirmar a soberania nacional dos paí ·e- do
continente contra as pretensões das monarquias européias que forma•am a
Santa Aliança. A doutrina se opunha às pretensões francesas de intervir na
América espanhola e às pretensões russas de estabelecer novas feitorias na
costa do Pacífico.
Para Eduardo Prado, a Doutrina Monroe ficou restrita ao declaratóno.
não tendo o significado de compromisso nem de aliança. como imaginavam os
republicanos jacobinos. Os Estados Unidos não estavam. de forma alguma.
dispostos a comprar as brigas da América Latina com as potências além-mar
Daí não ter nenhuma base, segundo o autor, "a crendice que c qu r espalhar
no Brasil de que os Estados Unidos não consentem na América outro gover-
no senão o republicano''.7
Ao relatar os eventos mais significativos das relações entre os Estados
Unidos e o Brasil durante o sécllio XIX, ele mostra que a nossa independên ia
só foi reconhecida pelos norte-americanos depois que Portugal o f; z. e ainda
assim graças à intervenção inglesa. Menciona conflitos no rio da Prata que
envolveram apreensão de navios e e igências desmedidas e e orbitantes que
: lbid. p. 22
lbid. p. 30.
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i1 11 f/ ÃO AMf R/C ANil
11 ovcrno nnrt .tmct tcano passou .1 fazer ao govemo bras ileiro. Também no
c 1 Hl.t •u ·n .tJU\Ia que B tJ\Í I. Argentina c Uruguai fizeram contra o Paraguai,
.1 po içao do I >lado Unidos não fo i recomendável. A diplomacia americana
que .1 ~ 1 t1.1 •lindo muda ·Impassível, se toma cúmplice do caudilho paraguaio:
nu ilertc.;it · uo louvor criando me~mo dificuldade c se comportando como
c~p1.1 ele Lupt•t, "tra u1do" o e. ército aliado.
P.u.1 • tmpl il tear a relações com o resto do continente, Eduardo Prado
,thottl.t .1 pulítka do~ f\tado Unidos em relação ao México. Em primeiro
lu • 1r, lllt'llLHllla a má fé do gO\erno de Washington no caso do Texas.
I nmr< u o quanto Jll de a rc\O)ta daquele tcrntório, annnou-o a scparar-~c do Mé-
llll , JW ,, m.u dcp r cs~d ah,onc ·lo, e dcpor s declarou guerra ao México, vcrdadCJra
u r r,, dt• um<\111\ la que humilhou aquela rcpubhca ao extre mo e arrcbmou-lhe metade
dn ~~~ lc lfJI(>no '
nos mats tat dc, admite o autor de A ilusüo americana, os Estados
lfrudos e 1 t.tm que" França tcttras c suas tropas do território mexicano, mas
o preço w hrado fm murto alto. O governo de Maximiliano, príncipe liberal
• liilll!'t'li O, foi o mar& honc~ to de• de a independência do México. Combateu
n ahu ,,, do clero, <tboli u leis de scn tdão no campo que ainda existiam e, com
~ .1 .tt ll udcs. <tlranr o !idio das c la ~~c~ conservadoras. Os Estados Unidos
pr t.tram o scn i o de .tt:Jhar com c se governo para entregar o poder a seus
pwpno~ 1 •prc l.! nta ntcs.
( > tidro .to cs tr angc rro fm mccntrYado c o militarismo republicano, o cau-
dilhi~mo, fi~: nu n:inando. como nm dcmats paí~cs da América Latina. Generais
~ 1.:1 ctamm no poder, J" que a constituição copiada da norte-americana im-
l't'(ha que t pre rdc ntc ft ca ~c por mai s de um período presidencial consecuti·
v o. O Mt· tco sob os r.cncrai s Díaz c Gonzálc7:, que dominaram o país durante
m.us de vmtc an0<:,. c tornou território livre puro~ "um bando de aventureiros"
patwcinados pela representa ão diplomátiCa norte americana C'onccssõc ·
pm ilt:gtos c ou tJ as formas de fraude financeira proliferavam a custa do tesou
tn nu: rc.mo. Graça& a isso, grandes fortunas no Méxrco c nos Estados Unido
1nt,mt am ·alhadas. muitas delas com falsas obras que só existiam no papel
A~stm. dcpoi de haver retalhado o território mexicano em 1848, c da vitória
nuhtar drfinrtiva. o~ E tad0s Unidos constitufram um 1erdadeiro protetorado
nr · P~ll~. o~ "enerais de plantão, "eleitos" ob o regime republicano, garan·
• lé!l r 17
140
LÚC' lA Ll i'Pl OI !VE! R
tiam a orgia financeira, as falsas melhorias c a presença dos aventureiros ame-
ricanos.
Eduardo Prado cita, também, o caso das ilhas Ma h i nas que, em 1 R31.
arrebatadas da Argentina por navios norte-americanos. foram ent regues à Jn-
latcrra. E segue mencionando numerosos incidente durante todo o éculo ~rX. nos quais a diplomacia, a marinha, os corsários c a tropas amcncana
fizeram estragos no território, no comércio e na produção dos países da Amé-
rica Latina. Os norte-americanos, critica o autor. sempre se rcfcn,un . 10~ou
tros países da América do Sul c ao Brasil de forn1a grosseira c arrogante.
considerando seus governos instáveis e incapazes.
A América Central também merece atenção do autor. "A mfehz kara-
gua", o processo do Panamá, o caso de Cuba são mencionado~ no hvro. (h
patriotas cubanos sonhavam com a independência da ilha c pensavam que, sob
a Doutrina Monroe, podiam contar com o apoio norte-americano em sua luta.
Fizeram de Nova York seu quartel-general e, com a aquiescência nnrt.:-amc
ricana, organizaram a conspiração c compraram armas. Até que, na ultun;•
hora, a polícia americana atendeu aos reclamos da Espanh,t, acabando com
suas esperanças. "Os patriotas cubanos, talvez injustamente, acusam scmpt<'
seus auxiliares, americanos mercenários. de traição."9 Os Estados Umdm tt'-
riam vendido Cuba à Espanha, em troca de favores comerciais, de iscnçoes de
direitos sobre seus produtos.
"Para o México, ela [a política americana Item sido um algo1., e JMra a
América Central, um inimigo", 10 prossegue Eduardo Prado. citando, tamhrm,
a malograda companhia, com sede na França, que pretendia construrr urn ca-
nal transoceânico ligando o Atlântico ao Pacífico. Os Estados Unidos empre-
garam toda a sua influência para atrasar c embargar a obra, a ftm de atender
aos in<ercsscs das ·ompanhias de ferro transcontincntais. r~ pr~ t:iso notar que
° Canal do Panamá ~ó foi aberto anos mais tarde, quando o\ Fstados I Jnidm
obtiveram a anulação de tratado anterior com a fnglatcrra c promov ·ram a
s~cessão do Panamá, território colombiano. Só entao é que realizaram a obra.
Os conflitos decorrentes da atuação de aventureiros americano~ intcr~s
sados nas riquezas do Peru c oo Chile são igualmente abordados A República
do Pt'ru também sofreu nas suas relações com os Estados Unido~ Durante
urna das muitas revoluções no pais, navios americanos se envolveram no wn
' lb rd , p 74. ~ li>rd , p 72
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i1 11 f/ ÃO AMf R/C ANil
11 ovcrno nnrt .tmct tcano passou .1 fazer ao govemo bras ileiro. Também no
c 1 Hl.t •u ·n .tJU\Ia que B tJ\Í I. Argentina c Uruguai fizeram contra o Paraguai,
.1 po içao do I >lado Unidos não fo i recomendável. A diplomacia americana
que .1 ~ 1 t1.1 •lindo muda ·Impassível, se toma cúmplice do caudilho paraguaio:
nu ilertc.;it · uo louvor criando me~mo dificuldade c se comportando como
c~p1.1 ele Lupt•t, "tra u1do" o e. ército aliado.
P.u.1 • tmpl il tear a relações com o resto do continente, Eduardo Prado
,thottl.t .1 pulítka do~ f\tado Unidos em relação ao México. Em primeiro
lu • 1r, lllt'llLHllla a má fé do gO\erno de Washington no caso do Texas.
I nmr< u o quanto Jll de a rc\O)ta daquele tcrntório, annnou-o a scparar-~c do Mé-
llll , JW ,, m.u dcp r cs~d ah,onc ·lo, e dcpor s declarou guerra ao México, vcrdadCJra
u r r,, dt• um<\111\ la que humilhou aquela rcpubhca ao extre mo e arrcbmou-lhe metade
dn ~~~ lc lfJI(>no '
nos mats tat dc, admite o autor de A ilusüo americana, os Estados
lfrudos e 1 t.tm que" França tcttras c suas tropas do território mexicano, mas
o preço w hrado fm murto alto. O governo de Maximiliano, príncipe liberal
• liilll!'t'li O, foi o mar& honc~ to de• de a independência do México. Combateu
n ahu ,,, do clero, <tboli u leis de scn tdão no campo que ainda existiam e, com
~ .1 .tt ll udcs. <tlranr o !idio das c la ~~c~ conservadoras. Os Estados Unidos
pr t.tram o scn i o de .tt:Jhar com c se governo para entregar o poder a seus
pwpno~ 1 •prc l.! nta ntcs.
( > tidro .to cs tr angc rro fm mccntrYado c o militarismo republicano, o cau-
dilhi~mo, fi~: nu n:inando. como nm dcmats paí~cs da América Latina. Generais
~ 1.:1 ctamm no poder, J" que a constituição copiada da norte-americana im-
l't'(ha que t pre rdc ntc ft ca ~c por mai s de um período presidencial consecuti·
v o. O Mt· tco sob os r.cncrai s Díaz c Gonzálc7:, que dominaram o país durante
m.us de vmtc an0<:,. c tornou território livre puro~ "um bando de aventureiros"
patwcinados pela representa ão diplomátiCa norte americana C'onccssõc ·
pm ilt:gtos c ou tJ as formas de fraude financeira proliferavam a custa do tesou
tn nu: rc.mo. Graça& a isso, grandes fortunas no Méxrco c nos Estados Unido
1nt,mt am ·alhadas. muitas delas com falsas obras que só existiam no papel
A~stm. dcpoi de haver retalhado o território mexicano em 1848, c da vitória
nuhtar drfinrtiva. o~ E tad0s Unidos constitufram um 1erdadeiro protetorado
nr · P~ll~. o~ "enerais de plantão, "eleitos" ob o regime republicano, garan·
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LÚC' lA Ll i'Pl OI !VE! R
tiam a orgia financeira, as falsas melhorias c a presença dos aventureiros ame-
ricanos.
Eduardo Prado cita, também, o caso das ilhas Ma h i nas que, em 1 R31.
arrebatadas da Argentina por navios norte-americanos. foram ent regues à Jn-
latcrra. E segue mencionando numerosos incidente durante todo o éculo ~rX. nos quais a diplomacia, a marinha, os corsários c a tropas amcncana
fizeram estragos no território, no comércio e na produção dos países da Amé-
rica Latina. Os norte-americanos, critica o autor. sempre se rcfcn,un . 10~ ou
tros países da América do Sul c ao Brasil de forn1a grosseira c arrogante.
considerando seus governos instáveis e incapazes.
A América Central também merece atenção do autor. "A mfehz kara-
gua", o processo do Panamá, o caso de Cuba são mencionado~ no hvro. (h
patriotas cubanos sonhavam com a independência da ilha c pensavam que, sob
a Doutrina Monroe, podiam contar com o apoio norte-americano em sua luta.
Fizeram de Nova York seu quartel-general e, com a aquiescência nnrt.:-amc
ricana, organizaram a conspiração c compraram armas. Até que, na ultun;•
hora, a polícia americana atendeu aos reclamos da Espanh,t, acabando com
suas esperanças. "Os patriotas cubanos, talvez injustamente, acusam scmpt<'
seus auxiliares, americanos mercenários. de traição."9 Os Estados Umdm tt'-
riam vendido Cuba à Espanha, em troca de favores comerciais, de iscnçoes de
direitos sobre seus produtos.
"Para o México, ela [a política americana Item sido um algo1., e JMra a
América Central, um inimigo", 10 prossegue Eduardo Prado. citando, tamhrm,
a malograda companhia, com sede na França, que pretendia construrr urn ca-
nal transoceânico ligando o Atlântico ao Pacífico. Os Estados Unidos empre-
garam toda a sua influência para atrasar c embargar a obra, a ftm de atender
aos in<ercsscs das ·ompanhias de ferro transcontincntais. r~ pr~ t:iso notar que
° Canal do Panamá ~ó foi aberto anos mais tarde, quando o\ Fstados I Jnidm
obtiveram a anulação de tratado anterior com a fnglatcrra c promov ·ram a
s~cessão do Panamá, território colombiano. Só entao é que realizaram a obra.
Os conflitos decorrentes da atuação de aventureiros americano~ intcr~s
sados nas riquezas do Peru c oo Chile são igualmente abordados A República
do Pt'ru também sofreu nas suas relações com os Estados Unido~ Durante
urna das muitas revoluções no pais, navios americanos se envolveram no wn
' lb rd , p 74. ~ li>rd , p 72
141
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t1 IWSÀO AMERICANA
trabundo do guano- proibido pelas leis peruanas. Ao serem aprisionados
. . d w h' 'os donos dos nav10s consegUiam que o governo e as mgton rompesse reJa.
ções diplomáticas c exigisse indenizações que acabaram sendo pagas pelo
P..:ru .
A história desse país é apresentada por Eduardo Prado como exemplo a
ser observado. Depois do período trágico e heróico da conquista, e de termina.
do o domínio colonial, o Peru vivia, segundo o autor, setenta anos de desgraça
republicana que transformaram a mais rica possessão espanhola em um dos
países mais pobres c infelizes do mundo. O guano, adubo natural , que deveria
constituir uma riqueza nacional, se tornou sua desgraça. Foi declarado proprie-
dade nacional e sua extração passou a ser objeto de concessões feitas a pani-
cularcs Mesmocom favorecimentos pessoais, sua exportação produzia enonnes
excedentes ao t..:souro peruano, mas isso não durou.
D01s .nencrars de boa vontade [. ) secundados por outros colegas, por muitos coro·
nérs c por um cxértrto rodo metido a político, acabaram com os saldos, e o Peru deixou
de scrcxcc~· ão na América espanhola, ficou tão fahdo como qualquer outra repúbli·
ca,11
O <tutor quis mostrar que aventureiros americanos faziam alianças com
políticos con-uptos sul-americanos e, diante dos problemas que enfrentaram,
pass;tram a exigir e nbter indenizações milionárias, já que suas demandas eram
colocadJs sob a proteção da diplomacia e da marinha norte-americanas. Os
Estados Unidos são acusados por Prado de prepotência, vulgaridade, cinismo,
rupmagem c espe\.:utação, c sua política externa é qualificada como invasora,
tirânica, arrogante e oportunista. As repúblicas da América espanhola são, por
outro lado, rdentilicadas com o militarismo e o caudilhismo.
Os argumentos de Eduardo Prado seguem um mesmo raciocínio. O au·
tor descreve a atuação dos Estados Unidos em suas incursões na América
Latina, fazendo comparações com a política da Inglaterra, mostrando como
csl.t sempre foi melhor do que aquela. Compara a vida política das repúblicas
d.r América espanhola com a monarquia brasileira e o saldo é sempre favorá·
vcl à realeza.
Importa destacar que a realidade da pol ítica, da vida norte-americana
contemporânea difere para o autor da do tempo dos fundadores da pátria. Daí
\Ua observação: "Os pais da pátria americana, os fundadores da Constituição,
" lbíd .• p kl
142
LÚCIA LIPPJ OLIVEIRA
viveram num período histórico de pureza moral. em tempo de patriotismo e de
abnegação".12 Isso era muito diferente do que se via no final do século XIX.
em que a vida americana estava sob o império do industrialismo e das finanças,
e quando se sentia a expansão do despotismo dos monopólios, que faziam
crescer todas as formas de corrupção.
A repúbhca norte-americana não teve sua mfãncia corroída pela corrupção. nem a sua
puerícia se passou nos jogos sangrentos das guerras crvis. Era ela Já quase ecutar
quando o seu solo foi fratricidamente regado pelo sangue de seus filhos; e os vrcHJS
contra os quais lutam hoje os patriotas[ ... ] São vícios de hoje. faltas atuais , que não
podem se jus ti ficar no exemplo dos antepassados."
Eduardo Prado reconhecia, portanto, que a república de Washington fora
criada em um período histórico no qual predominaram o patriotismo e a abne-
gação. Baseia sua afirmação em Montesquieu, na proposição de que as repú-
blicas precisam ter como fundamento a virtude, e considera que esta foi a base
da república norte-americana no tempo dos fundadores, dos pais da pátria. O
vícios e as faltas, que ele menciona existirem no final do século XIX. não
estavam presentes desde o início, e foram se constituindo a medida que os
Estados Unidos se transformaram em sociedade industrial burguesa Os que
justificam a corrupção e o crime dizendo que são próprios das instituições
novas estão falseando a verdade histórica, nos diz Eduardo Prado, condenando
os que pretendem defender os problemas e as falhas dos primeiros anos repu-
blicanos no Brasil.
A república, forma moderna de governo, estimula os abusos do capitalis-
mo. O capital cresce por si só, os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres
cada vez mais pobres. O materialismo sem medidas, o interesse pri\'ado sem
limites conduzem os Estados Unidos ao utilitarismo e a formularem uma politi·
ca nacional em que os interesses econômicos predominam sobre os vaiare
éticos. A pureza moral, o patriotismo, a solidariedade dos tempos originais ão
valores já abandonados pela república dos Estados Unidos.
Os novos tempos de corrupção e de monopólio são representados pelo
famoso secretário de estado, Janj.es Blaine. "Foi e tinha que ser o estadista de
sua época!", nos diz Eduardo Prado em tom irônico. Blaine, à frente do De par-
lamento de Estado, tentou promover a I Conferência Pan-Americana, interes----:: lbid. p. 87. lb,d., p. 89.
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t1 IWSÀO AMERICANA
trabundo do guano- proibido pelas leis peruanas. Ao serem aprisionados
. . d w h' 'os donos dos nav10s consegUiam que o governo e as mgton rompesse reJa.
ções diplomáticas c exigisse indenizações que acabaram sendo pagas pelo
P..:ru .
A história desse país é apresentada por Eduardo Prado como exemplo a
ser observado. Depois do período trágico e heróico da conquista, e de termina.
do o domínio colonial, o Peru vivia, segundo o autor, setenta anos de desgraça
republicana que transformaram a mais rica possessão espanhola em um dos
países mais pobres c infelizes do mundo. O guano, adubo natural , que deveria
constituir uma riqueza nacional, se tornou sua desgraça. Foi declarado proprie-
dade nacional e sua extração passou a ser objeto de concessões feitas a pani-
cularcs Mesmo com favorecimentos pessoais, sua exportação produzia enonnes
excedentes ao t..:souro peruano, mas isso não durou.
D01s .nencrars de boa vontade [. ) secundados por outros colegas, por muitos coro·
nérs c por um cxértrto rodo metido a político, acabaram com os saldos, e o Peru deixou
de scrcxcc~· ão na América espanhola, ficou tão fahdo como qualquer outra repúbli·
ca,11
O <tutor quis mostrar que aventureiros americanos faziam alianças com
políticos con-uptos sul-americanos e, diante dos problemas que enfrentaram,
pass;tram a exigir e nbter indenizações milionárias, já que suas demandas eram
colocadJs sob a proteção da diplomacia e da marinha norte-americanas. Os
Estados Unidos são acusados por Prado de prepotência, vulgaridade, cinismo,
rupmagem c espe\.:utação, c sua política externa é qualificada como invasora,
tirânica, arrogante e oportunista. As repúblicas da América espanhola são, por
outro lado, rdentilicadas com o militarismo e o caudilhismo.
Os argumentos de Eduardo Prado seguem um mesmo raciocínio. O au·
tor descreve a atuação dos Estados Unidos em suas incursões na América
Latina, fazendo comparações com a política da Inglaterra, mostrando como
csl.t sempre foi melhor do que aquela. Compara a vida política das repúblicas
d.r América espanhola com a monarquia brasileira e o saldo é sempre favorá·
vcl à realeza.
Importa destacar que a realidade da pol ítica, da vida norte-americana
contemporânea difere para o autor da do tempo dos fundadores da pátria. Daí
\Ua observação: "Os pais da pátria americana, os fundadores da Constituição,
" lbíd .• p kl
142
LÚCIA LIPPJ OLIVEIRA
viveram num período histórico de pureza moral. em tempo de patriotismo e de
abnegação".12 Isso era muito diferente do que se via no final do século XIX.
em que a vida americana estava sob o império do industrialismo e das finanças,
e quando se sentia a expansão do despotismo dos monopólios, que faziam
crescer todas as formas de corrupção.
A repúbhca norte-americana não teve sua mfãncia corroída pela corrupção. nem a sua
puerícia se passou nos jogos sangrentos das guerras crvis. Era ela Já quase ecutar
quando o seu solo foi fratricidamente regado pelo sangue de seus filhos; e os vrcHJS
contra os quais lutam hoje os patriotas[ ... ] São vícios de hoje. faltas atuais , que não
podem se jus ti ficar no exemplo dos antepassados."
Eduardo Prado reconhecia, portanto, que a república de Washington fora
criada em um período histórico no qual predominaram o patriotismo e a abne-
gação. Baseia sua afirmação em Montesquieu, na proposição de que as repú-
blicas precisam ter como fundamento a virtude, e considera que esta foi a base
da república norte-americana no tempo dos fundadores, dos pais da pátria. O
vícios e as faltas, que ele menciona existirem no final do século XIX. não
estavam presentes desde o início, e foram se constituindo a medida que os
Estados Unidos se transformaram em sociedadeindustrial burguesa Os que
justificam a corrupção e o crime dizendo que são próprios das instituições
novas estão falseando a verdade histórica, nos diz Eduardo Prado, condenando
os que pretendem defender os problemas e as falhas dos primeiros anos repu-
blicanos no Brasil.
A república, forma moderna de governo, estimula os abusos do capitalis-
mo. O capital cresce por si só, os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres
cada vez mais pobres. O materialismo sem medidas, o interesse pri\'ado sem
limites conduzem os Estados Unidos ao utilitarismo e a formularem uma politi·
ca nacional em que os interesses econômicos predominam sobre os vaiare
éticos. A pureza moral, o patriotismo, a solidariedade dos tempos originais ão
valores já abandonados pela república dos Estados Unidos.
Os novos tempos de corrupção e de monopólio são representados pelo
famoso secretário de estado, Janj.es Blaine. "Foi e tinha que ser o estadista de
sua época!", nos diz Eduardo Prado em tom irônico. Blaine, à frente do De par-
lamento de Estado, tentou promover a I Conferência Pan-Americana, interes----:: lbid. p. 87. lb,d., p. 89.
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A IWSÃO AMERICANA
sada em criar uma união alfandegária de todos os países da América. Isso
mostra como a Doutrina Monroe queria assumir um caráter predominante.
mente econômico, e não mais militar ou de defesa da soberania. A doutrina
passa a se relacionar com tarifas e impostos nas relações comerciais entre
08
E tados Unidos e a América Latina. E, continua Eduardo Prado, "ele [Blaine]
imaginava a águia americana pairando, de pólo a pólo, com as asas poderosas
expandidas".
A águia simbólica, ele não a via protegendo os fracos com a sua sombra
como acreditavam sul-americanos ingênuos. Ao contrário, com Blaine no p~
der, a ave passa a significar a política imperial dos Estados Unidos, que repre-
senta. de fato, uma ameaça para toda a América, já que os países latinos têm
sofrido a arrogância e, às vezes, a rapinagem dos norte-americanos.
No conflito entre o Brasil e os Estados Unidos, o amor-próprio brasileiro
sempre saiu vencedor, já que de um lado estava a integridade dos nossos ho-
mens de Estado durante o império e, do outro, a diplomacia trapaceira e ganan-
ctosa dos Estados Unidos. A classe plutocrática suga a seiva americana em
busca do ouro. Dominando as estradas de ferro, as docas, as fábricas, essa
classe de milionários convertia os políticos em súditos. E é daí que a designa-
ção de político se toma, nos Estados Unidos, uma verdadeira injúria.
A classe dos donos de estradas de ferro, dos industriais monopolistas que o
protecionismo enriqueceu, promove a subordinação dos políticos e do governo
dos Estados Unidos. Eduardo Prado cita Andrew Carnegie, escocês prodigiosa-
mente enriquecido, dono de fundições gigantescas e autor de livros em que exal-
ta o capitalismo. a felicidade da riqueza e a superioridade dos Estados Unidos.
Monopol.ista, Camegie liderou manifestações contra a Europa, mas, di-
ante de greves em suas próprias fábricas, fazia uso de milícias privadas, com a
aprovação governamental. Eduardo Prado aponta como um dos principais pro-
blemas a promiscuidade entre o público e o privado, resultado dos interesses
sem limite da classe rica. Essa seria prova inequívoca da corrupção que se
instaura na política burguesa norte-americana.
"O poder dos milionários não encontra nos Estados Unidos nenhum cor-
reli\ o eficaz nas leis ou na ação da autoridade pública. Tudo lhe é lícito, tudo
lhe .é possível." E prossegue dizendo que os homens de bem, os mais cultos e
sábtos, os poetas, os filantropos, evitam todo contato com a política, já que esta
serve como campo de atuação dos homens subservientes. Em outros países do
<-on nente os homens de valor não querem ser títeres nas mãos do militaris·
ntl 'los Estados U ·d
DI os, temem estar a serviço dos financistas ou seja, elll
am w o~ casos o home 'bl. , .
· ' m pu tco perde a sua dignidade, a sua independêncra.
144
LÚCIA LIPPI OLIVEIRA
A república brasileira, sob a ditadura republicana, cedeu aos desejos dos
Estados Unidos, assinando o tratado de reciprocidade comercial _ 0 tratado
Blaine-Salvador (Salvador de Mendonça, o então embaixador brasileiro em
Washington), que em nada beneficiava os interesses brasileiros. O presidente
Cleveland dizia que "os bons negócios é que fazem bons amigos", daí as rela-
ões entre Brasil e Estados Unidos envolverem basicamente relações econô-~cas, ou seja, a tentativa de criar uma área livre de comércio, de estabelecer
cláusulas de reciprocidade em seus negócios. Foi Blaine quem levou o
panamericanismo a assumir caráter econômico e apresentar uma face mais
agressiva da Doutrina Monroe. A questão passa a ser não só conservar a
Europa fora da América Latina, mas impor a esta as mercadorias e as idéias
norte-americanas.
"Nos Estados Unidos, a palavra América significa a parte do novo conti-
nente que obedece ao governo de Washington."14 Os norte-americanos têm
um sentimento de acentuada superioridade, que é feito de amor-próprio e de
desprezo pelos sul-americanos. No caso particular do Brasil, o governo ameri-
cano foi o último, de todos os governos do novo continente, que reconheceu a
república, inspirado na frieza, quase hostilidade, com que a imprensa recebeu a
revolução.
Eduardo Prado lembra que o imperador desfrutava de grande prestígio
nos Estados Unidos, principalmente após a visita que fez à exposição de Fila-
délfia, em 1876, no centenário da independência. Seu amor à liberdade, seu
espírito aberto impressionaram os norte-americanos. "Os discursos pronuncia-
dos no Senado americano, quando se discutiu o reconhecimento da república
brasileira, consistiram, quase que exclusivamente, não no elogio dos vencedo-
res, mas na exaltação das virtudes do grande vencido.''1s
Por outro lado, os jornais americanos publicavam informes do Brasil que
recebiam via Buenos Aires e Montevidéu, "onde as notícias são todas exage-
radas e apimentadas com a má vontade dos nossos irmãos argentinos e uru-
guaios, que são nossos inimigos[ ... ]. Os Estados Unidos são, para o resto do
mundo, o veículo transmissor da bflis argentina contra o Brasil", 16 nos diz Eduardo
Prado.
Na diplomacia e na ord~m econômica, os Estados Unidos têm apresen-
tado fartura de maus exemplos ao Brasil. Os males da república norte-ameri-
~ lbid., p. 154.
lbid., p. 155
K fbid., p. 161:
145
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A IWSÃO AMERICANA
sada em criar uma união alfandegária de todos os países da América. Isso
mostra como a Doutrina Monroe queria assumir um caráter predominante.
mente econômico, e não mais militar ou de defesa da soberania. A doutrina
passa a se relacionar com tarifas e impostos nas relações comerciais entre
08
E tados Unidos e a América Latina. E, continua Eduardo Prado, "ele [Blaine]
imaginava a águia americana pairando, de pólo a pólo, com as asas poderosas
expandidas".
A águia simbólica, ele não a via protegendo os fracos com a sua sombra
como acreditavam sul-americanos ingênuos. Ao contrário, com Blaine no p~
der, a ave passa a significar a política imperial dos Estados Unidos, que repre-
senta. de fato, uma ameaça para toda a América, já que os países latinos têm
sofrido a arrogância e, às vezes, a rapinagem dos norte-americanos.
No conflito entre o Brasil e os Estados Unidos, o amor-próprio brasileiro
sempre saiu vencedor, já que de um lado estava a integridade dos nossos ho-
mens de Estado durante o império e, do outro, a diplomacia trapaceira e ganan-
ctosa dos Estados Unidos. A classe plutocrática suga a seiva americana em
busca do ouro. Dominando as estradas de ferro, as docas, as fábricas, essa
classe de milionários convertia os políticos em súditos. E é daí que a designa-
ção de político se toma, nos Estados Unidos, uma verdadeira injúria.A classe dos donos de estradas de ferro, dos industriais monopolistas que o
protecionismo enriqueceu, promove a subordinação dos políticos e do governo
dos Estados Unidos. Eduardo Prado cita Andrew Carnegie, escocês prodigiosa-
mente enriquecido, dono de fundições gigantescas e autor de livros em que exal-
ta o capitalismo. a felicidade da riqueza e a superioridade dos Estados Unidos.
Monopol.ista, Camegie liderou manifestações contra a Europa, mas, di-
ante de greves em suas próprias fábricas, fazia uso de milícias privadas, com a
aprovação governamental. Eduardo Prado aponta como um dos principais pro-
blemas a promiscuidade entre o público e o privado, resultado dos interesses
sem limite da classe rica. Essa seria prova inequívoca da corrupção que se
instaura na política burguesa norte-americana.
"O poder dos milionários não encontra nos Estados Unidos nenhum cor-
reli\ o eficaz nas leis ou na ação da autoridade pública. Tudo lhe é lícito, tudo
lhe .é possível." E prossegue dizendo que os homens de bem, os mais cultos e
sábtos, os poetas, os filantropos, evitam todo contato com a política, já que esta
serve como campo de atuação dos homens subservientes. Em outros países do
<-on nente os homens de valor não querem ser títeres nas mãos do militaris·
ntl 'los Estados U ·d
DI os, temem estar a serviço dos financistas ou seja, elll
am w o~ casos o home 'bl. , .
· ' m pu tco perde a sua dignidade, a sua independêncra.
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LÚCIA LIPPI OLIVEIRA
A república brasileira, sob a ditadura republicana, cedeu aos desejos dos
Estados Unidos, assinando o tratado de reciprocidade comercial _ 0 tratado
Blaine-Salvador (Salvador de Mendonça, o então embaixador brasileiro em
Washington), que em nada beneficiava os interesses brasileiros. O presidente
Cleveland dizia que "os bons negócios é que fazem bons amigos", daí as rela-
ões entre Brasil e Estados Unidos envolverem basicamente relações econô-~cas, ou seja, a tentativa de criar uma área livre de comércio, de estabelecer
cláusulas de reciprocidade em seus negócios. Foi Blaine quem levou o
panamericanismo a assumir caráter econômico e apresentar uma face mais
agressiva da Doutrina Monroe. A questão passa a ser não só conservar a
Europa fora da América Latina, mas impor a esta as mercadorias e as idéias
norte-americanas.
"Nos Estados Unidos, a palavra América significa a parte do novo conti-
nente que obedece ao governo de Washington."14 Os norte-americanos têm
um sentimento de acentuada superioridade, que é feito de amor-próprio e de
desprezo pelos sul-americanos. No caso particular do Brasil, o governo ameri-
cano foi o último, de todos os governos do novo continente, que reconheceu a
república, inspirado na frieza, quase hostilidade, com que a imprensa recebeu a
revolução.
Eduardo Prado lembra que o imperador desfrutava de grande prestígio
nos Estados Unidos, principalmente após a visita que fez à exposição de Fila-
délfia, em 1876, no centenário da independência. Seu amor à liberdade, seu
espírito aberto impressionaram os norte-americanos. "Os discursos pronuncia-
dos no Senado americano, quando se discutiu o reconhecimento da república
brasileira, consistiram, quase que exclusivamente, não no elogio dos vencedo-
res, mas na exaltação das virtudes do grande vencido.''1s
Por outro lado, os jornais americanos publicavam informes do Brasil que
recebiam via Buenos Aires e Montevidéu, "onde as notícias são todas exage-
radas e apimentadas com a má vontade dos nossos irmãos argentinos e uru-
guaios, que são nossos inimigos[ ... ]. Os Estados Unidos são, para o resto do
mundo, o veículo transmissor da bflis argentina contra o Brasil", 16 nos diz Eduardo
Prado.
Na diplomacia e na ord~m econômica, os Estados Unidos têm apresen-
tado fartura de maus exemplos ao Brasil. Os males da república norte-ameri-
~ lbid., p. 154.
lbid., p. 155
K fbid., p. 161:
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u:n ' PPl Oll\EIR-\
da ~ci humana.
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u:n ' PPl Oll\EIR-\
da ~ci humana.
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No lu •<H d;1 a111<::aça c do pcri •o tanque, Sílvio Rom~.:ro, por exemplo, falava do
pcngo ale mito ..
Ao longo do século XX, o livro foi dest<lcado menos como defesa da
monarquia, que j;í havia pouca chances de o império ser restaurado. Sua
r ·rupcra<; to deveu ~c muito mais a ser considerado a primeira obra que aprc.
sen tava uma vis;~o antiamericana, muito antes de serem desfraldadas as ban-
dciru\ wnu.t o unpo..:rí,illsmu ianque. O livro também demarca a diferenças c
.1 d1 tfincia~ t:ntrc o Br,1sil c os dcmais países da América Latina, versão que
pt:ntMill c cu na cultura política brasileira durante quase todo o século c que só
conwçou a ~c alterar reccntcmentc.
Logo após a publicação de A i/meio americana a presença norte-ame-
ric,ma avançou muito mms não só na América do ui c Central, mas em dire-
ç;IO à Á~1a, com a anexação do I Ia •a í c das Filipinas (1898). Com a ascensão
c o governo de 1 hcodorc Roosevelt na pre idência dos Estado Unidos (1901-
1909), o país passou a as um ir papel ainda maior c mais agrcssi vo na América
Latina Por outro lado, Theodorc Roosevelt, com sua forte personalidade, de-
senvolveu uma grande campanha contra a corrupção e contra os trustes, mos-
trando que, pelo menos em parte, as denúncias de Eduardo Prado sobre a vida
de negocíos nos Est,tdos Unidos tinham fundamento.
É nc~sa époc"I que os Estados Unidos estavam começando a se afirmar
como verdadeira potência mundial. o que vai se consolidar após as duas guer-
ras mundiais .
As Dhserva~ocs c os exemplos citados por Ed uardo Prado em sua análi-
s · sohre o. Fstados Unidos expõem com clareza as bases do seu pensamento-
a defesa dos valores do mundo ibérico ou europeu, do catolicismo, da honra
c do re~peito à hierarquia. Esse. são valorcs que reaparecem toda vez que se
condena o mundo capitalista c se denunciam os ma les da civilização burguesa.
A .málisc das diferenças e distâncias entre o Brasi l e os Est.ados Unidos
<Oll\ titui um,! trilha que teve continuadores ao longo do século XX, valendo
cit.Ir o h\·to de Viana Moog ~6
' t P10nt m>1. puhhcJdo m 1954. Sobre o lema. \er Lúcta Ltppt Olivetra
r' d1l 1,lr ltlc!adc. lltl( w,za/ rw Bra.ul ~ no\ E.\tndcJ:J Umdo'i (Belo Horizonte
EucLIDES DA Cu HA
Os sertões
Walnice Nogueira Galvão
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No lu •<H d;1 a111<::aça c do pcri •o tanque, Sílvio Rom~.:ro, por exemplo, falava do
pcngo ale mito ..
Ao longo do século XX, o livro foi dest<lcado menos como defesa da
monarquia, que j;í havia pouca chances de o império ser restaurado. Sua
r ·rupcra<; to deveu ~c muito mais a ser considerado a primeira obra que aprc.
sen tava uma vis;~o antiamericana, muito antes de serem desfraldadas as ban-
dciru\ wnu.t o unpo..:rí,illsmu ianque. O livro também demarca a diferenças c
.1 d1 tfincia~ t:ntrc o Br,1sil c os dcmais países da América Latina, versão que
pt:ntMill c cu na cultura política brasileira durante quase todo o século c que só
conwçou a ~c alterar reccntcmentc.
Logo após a publicação de A i/meio americana a presença norte-ame-
ric,ma avançou muito mms não só na América do ui c Central, mas em dire-
ç;IO à Á~1a, com a anexação do I Ia •a í c das Filipinas (1898). Com a ascensão
c o governo de 1 hcodorc Roosevelt na pre idência dos Estado Unidos (1901-
1909), o país passou a as um ir papel ainda maior c mais agrcssi vo na América
Latina Por outro lado, Theodorc Roosevelt, com sua forte personalidade, de-
senvolveu uma grande campanha contra a corrupção e contra os trustes, mos-
trando que, pelo menos em parte, as denúncias de Eduardo Prado sobre a vida
de negocíos nos Est,tdos Unidos tinham fundamento.
É nc~sa époc"I que os Estados Unidos estavam começando a se afirmar
como verdadeira potênciamundial. o que vai se consolidar após as duas guer-
ras mundiais .
As Dhserva~ocs c os exemplos citados por Ed uardo Prado em sua análi-
s · sohre o. Fstados Unidos expõem com clareza as bases do seu pensamento-
a defesa dos valores do mundo ibérico ou europeu, do catolicismo, da honra
c do re~peito à hierarquia. Esse. são valorcs que reaparecem toda vez que se
condena o mundo capitalista c se denunciam os ma les da civilização burguesa.
A .málisc das diferenças e distâncias entre o Brasi l e os Est.ados Unidos
<Oll\ titui um,! trilha que teve continuadores ao longo do século XX, valendo
cit.Ir o h\·to de Viana Moog ~6
' t P10nt m>1. puhhcJdo m 1954. Sobre o lema. \er Lúcta Ltppt Olivetra
r' d1l 1,lr ltlc!adc. lltl( w,za/ rw Bra.ul ~ no\ E.\tndcJ:J Umdo'i (Belo Horizonte
EucLIDES DA Cu HA
Os sertões
Walnice Nogueira Galvão
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0& tempos que se ucedem à proclama ã da rep. r . e
d'd;~ um ano antes pela libertação dos escra\os, a 1 ma e -
1
to'n' 0 nac1onal de insurreições rnaí ou menos profundas e teffl ·
5
~ezes limitadas a pequenos Je, antes loca1 . Até que o no o cg1me con-
a lide e passe a funcionar, vános anos decorrerão A Guerra de Canudo
:sencadeada no sertão da Bahia em 1896-1897. não é mats do que um e -
sas revoltas que compõem o cortejo de uma mudança de regune. Dedtcado
crônica de um evento histórico, que seu autor testemunhou de corpo pre nt ,
Os sertões tem por objeto essa guerra.
Os elementos de diversa natureza que estiveram na origem d ua com-
posição, entre eles a formação do autor, a conjuntura histónca. o momcnt<
cultural e literário, bem como as práticas discursivas da época, dc\em cr
tomados em consideração, para que esse livro possa ser apreciado no JU~to
contexto.
Ü AUTOR E! SUA FORMAÇÃO
Para começar, detenhamo-nos um instante na formação do autor. típico
fruto da Escola Militar, tal como ela era em seu tempo. Até 181 O, ano em que
D. João VI, recém-chegado ao país, cria a escola, o oficialato era obrigatoria-
mente formado no exterior, o que queria dizer sobretudo Portugal. O ohjettvo
primordial da nova instituição era antes de mais nada qualificar o oficialato e
preparar os engenheiros necessários para os serviços públicos civis, como a
construção de estradas, portos e pontes.
Assiste-se assim ao paradoxo de uma escola que copia um modelo ins-
taurado pela Revolução Francesa, funcionando com materiais didáticos fran-
ceses tais como os programas de ensino e os manuais escritos por encomenda,
instalada numa remota colônia escravista aurífera e açucareira, na periferia de
um império. O caráter inovador da escola, valorizando as ciências c a tecnologia,
em detrimento do prestígio na época conferido ao estudos clássicos ou ~
ret6rica, vai gerar entre os alunos um comportamento vanguardista e uma
atitude contestatária. Bem como, o qÚe não é menos notável, instigar à consciên-
cia da cidadania e à militância política. Tudo isso coisas extremamente raras
nos rincões coloniais.
Quando Euclides ingressa na Escola Militar. em 1885, os alunos, além de
acreditarem na ciência e no progresso, estavam empenhados na batalha pela
unplantação do regime republicano e pela abolição do cativeiro. Essas dispo6J-
JH
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0& tempos que se ucedem à proclama ã da rep. r . e
d'd;~ um ano antes pela libertação dos escra\os, a 1 ma e -
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to'n' 0 nac1onal de insurreições rnaí ou menos profundas e teffl ·
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~ezes limitadas a pequenos Je, antes loca1 . Até que o no o cg1me con-
a lide e passe a funcionar, vános anos decorrerão A Guerra de Canudo
:sencadeada no sertão da Bahia em 1896-1897. não é mats do que um e -
sas revoltas que compõem o cortejo de uma mudança de regune. Dedtcado
crônica de um evento histórico, que seu autor testemunhou de corpo pre nt ,
Os sertões tem por objeto essa guerra.
Os elementos de diversa natureza que estiveram na origem d ua com-
posição, entre eles a formação do autor, a conjuntura histónca. o momcnt<
cultural e literário, bem como as práticas discursivas da época, dc\em cr
tomados em consideração, para que esse livro possa ser apreciado no JU~to
contexto.
Ü AUTOR E! SUA FORMAÇÃO
Para começar, detenhamo-nos um instante na formação do autor. típico
fruto da Escola Militar, tal como ela era em seu tempo. Até 181 O, ano em que
D. João VI, recém-chegado ao país, cria a escola, o oficialato era obrigatoria-
mente formado no exterior, o que queria dizer sobretudo Portugal. O ohjettvo
primordial da nova instituição era antes de mais nada qualificar o oficialato e
preparar os engenheiros necessários para os serviços públicos civis, como a
construção de estradas, portos e pontes.
Assiste-se assim ao paradoxo de uma escola que copia um modelo ins-
taurado pela Revolução Francesa, funcionando com materiais didáticos fran-
ceses tais como os programas de ensino e os manuais escritos por encomenda,
instalada numa remota colônia escravista aurífera e açucareira, na periferia de
um império. O caráter inovador da escola, valorizando as ciências c a tecnologia,
em detrimento do prestígio na época conferido ao estudos clássicos ou ~
ret6rica, vai gerar entre os alunos um comportamento vanguardista e uma
atitude contestatária. Bem como, o qÚe não é menos notável, instigar à consciên-
cia da cidadania e à militância política. Tudo isso coisas extremamente raras
nos rincões coloniais.
Quando Euclides ingressa na Escola Militar. em 1885, os alunos, além de
acreditarem na ciência e no progresso, estavam empenhados na batalha pela
unplantação do regime republicano e pela abolição do cativeiro. Essas dispo6J-
JH
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OS SERTÕES
ções de e ·pírito permanecerão dominante , como se verá, tanto no pro· e
· f h · ·1· 1· ~ to de , 1da do umro eng n e1ro m1 Jtar quanto em seu 1vro Os sertões.
CORRESPO:>;DE ITE DE GUERRA
Euclides da Cunha viria a participar da Guerra de Canudos como enviad
e -pecial do jornal A Pro1·íncia (hoje O Estado) de S. Paulo. De lá remeteu um 0
série de reportagens que se tomaria célebre, mas que ele mesmo nunca republic a ou.
E que o apareceria em forma de livro postumamente, em 1939, com o título de
Can11dos- Diário de uma expedição. Entretanto, o interesse maior da série é
o fato de poder ser vista a poste rio ri como o embrião de Os sertões.
Marco na história da imprensa nacional, essa guerra foi de um impacto
extraordináno: pela primeira vez no país foi feita uma cobertura em bloco no
palco dos acontecimentos. As principais folhas do Rio de Janeiro, São Paulo e
Bahia criaram uma coluna especial , quase sempre intitulada "Canudos", dedicada
exclusivamente ao assunto, por toda a duração da guerra Além disso, estampa-
vam qualquer coisa: invencionices, pareceres dogmáticos de militares de partido
previamente tomado, e até trechos da correspondência do comandante da quar-
ta e ·pedi,..ão com sua esposa. Todas essas publicações tinham o objetivo comum
de reforçar a idéia de uma iminente restauração monárquica.
A importância Ja imprensa nesse lance não deve ser minimizada. O jor-
nal era, na época, antes da invenção dos meios de comunicação audiovisuais, o
mau medwm por excelência. A util ização da figura do enviado especial, ou
seja, um jornalista que vai observar pessoalmente os eventos no próprio local,
é quase uma novidade no Brasil da época. E certamente a Guerra de Canudos
foi o primeiro evento no país a ser totalmente coberto como tal, ou seja, como
evento mediático. o que foi viabilizado pela recente instalação de redes de
t légrafo cobrindo o sertão, pelas quais transitavam as notícias. E é curioso, no
qu conceme à campanha, que os correspondentes fossem em geral militares.
al.;u deles m~smo combatentes.
C Jmo a Guerra de Canudos provocou uma comoção considerável que
m0 i!Jzou a opinião pública- num primeiro tempo para apoiá-lae num segundo
empo para denunciá-la-, não é de surpreender que a maioria dos enviadOS
Clat< tenha escrito livros a respeito do que ali assistiram, utilizando suas
reportag -ns e notas inéditas.
rm é q lC, quando o livro de Euclides surgiu em dezembro de 1902,já
pre ·dido por mu1tas outras reportagens e livros, ficcionais ou nãO·
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WAL:>;ICE. 'OGCEIRA GAL\ÃO
:t\fas é preci ~ c?nvir que o seu foi o único a tomar- e um monumento da
literatura brastle1ra; todos os outros, sem exceção. perderam interesse ao lon-
go do tempo. _ , .
E é digno de nota que nao so no Bras!l , mas em geral por toda a América
Latina, a história das insurreições populares tenha sido escrita por militares.
Segundo Angel Rama, isso se explica por que o projeto modemizador, que
rejudicava as populações rurais pobres, foi em toda parte imposto a força
pelo exérci to, que já então ocupava posição de mando nos países neo-ibéricos ~o continente. Os militares, sem esquecer o tenente, e adjunto do mini tro da
Guerra, Euclides da Cunha, foram ao mesmo tempo os algozes e as testemu-
nhas que legaram seu depoimento à posteridade.
A TERRA
É com a primeira parte, intitulada "A terra", abrindo o livro como um
majestoso pórtico, esplêndido em suas galas literárias, que o lei tor entra em
contato com o livro. Assim, Os sertões começa sublinhando o privilégio que
concede ao espaço, ao investir diretamente o planalto central brasileiro. onde
se situa Canudos.
A primeira frase reza: "O planalto central do Brasil desce, nos li torais do
Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; e desata-se
em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras marítimas [etcT. Des e
modo, o narrador, impessoalmente identificado ao leitor ("quem o contorna"),
vai propor uma investigação integral dessa imensa porção do país. revelando a
heterogeneidade que a caracteriza. Assim o fazendo, desenha um percurso
que dá uma improvável volta completa em tomo do planalto central, mostran-
do-o ao leitor através do olhar do narrador.
Considerando-o de três pontos de vista, a saber o astronômico, o topo-
gráfico e o geológico, passa a argumentar que se trata de uma "região ~riv i le
giada, onde a natureza armou a sua mais portentosa oficina". O porque dessa
afirmação, só bem mais à frente se desvendará. . .
Procede então à descrição topográfica e geológica da regiã~. fetta com
uma paixão tal que lhe atribui belêza inaudita e capacidade de atrair 0 ho~e~.
E . · s que correm ao contrariO, sta capacidade se assinala mclustve em seus no • . .
d 50 0 rumo dos nos vat cons-a costa para o interior, arrebatando-o no seu cur ·
lituir mais um dos paradoxos tão do gosto desse autor. .. d
ç • - gião dá margem a qua ros
Diversificando ainda mais sua tetçao, are b em
, . recipitam saltam e tom am naturais mais imponentes" ate. Os nos se P '
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OS SERTÕES
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Euclides da Cunha viria a participar da Guerra de Canudos como enviad
e -pecial do jornal A Pro1·íncia (hoje O Estado) de S. Paulo. De lá remeteu um 0
série de reportagens que se tomaria célebre, mas que ele mesmo nunca republic a ou.
E que o apareceria em forma de livro postumamente, em 1939, com o título de
Can11dos- Diário de uma expedição. Entretanto, o interesse maior da série é
o fato de poder ser vista a poste rio ri como o embrião de Os sertões.
Marco na história da imprensa nacional, essa guerra foi de um impacto
extraordináno: pela primeira vez no país foi feita uma cobertura em bloco no
palco dos acontecimentos. As principais folhas do Rio de Janeiro, São Paulo e
Bahia criaram uma coluna especial , quase sempre intitulada "Canudos", dedicada
exclusivamente ao assunto, por toda a duração da guerra Além disso, estampa-
vam qualquer coisa: invencionices, pareceres dogmáticos de militares de partido
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ta e ·pedi,..ão com sua esposa. Todas essas publicações tinham o objetivo comum
de reforçar a idéia de uma iminente restauração monárquica.
A importância Ja imprensa nesse lance não deve ser minimizada. O jor-
nal era, na época, antes da invenção dos meios de comunicação audiovisuais, o
mau medwm por excelência. A util ização da figura do enviado especial, ou
seja, um jornalista que vai observar pessoalmente os eventos no próprio local,
é quase uma novidade no Brasil da época. E certamente a Guerra de Canudos
foi o primeiro evento no país a ser totalmente coberto como tal, ou seja, como
evento mediático. o que foi viabilizado pela recente instalação de redes de
t légrafo cobrindo o sertão, pelas quais transitavam as notícias. E é curioso, no
qu conceme à campanha, que os correspondentes fossem em geral militares.
al.;u deles m~smo combatentes.
C Jmo a Guerra de Canudos provocou uma comoção considerável que
m0 i!Jzou a opinião pública- num primeiro tempo para apoiá-la e num segundo
empo para denunciá-la-, não é de surpreender que a maioria dos enviadOS
Clat< tenha escrito livros a respeito do que ali assistiram, utilizando suas
reportag -ns e notas inéditas.
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pre ·dido por mu1tas outras reportagens e livros, ficcionais ou nãO·
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Latina, a história das insurreições populares tenha sido escrita por militares.
Segundo Angel Rama, isso se explica por que o projeto modemizador, que
rejudicava as populações rurais pobres, foi em toda parte imposto a força
pelo exérci to, que já então ocupava posição de mando nos países neo-ibéricos ~o continente. Os militares, sem esquecer o tenente, e adjunto do mini tro da
Guerra, Euclides da Cunha, foram ao mesmo tempo os algozes e as testemu-
nhas que legaram seu depoimento à posteridade.
A TERRA
É com a primeira parte, intitulada "A terra", abrindo o livro como um
majestoso pórtico, esplêndido em suas galas literárias, que o lei tor entra em
contato com o livro. Assim, Os sertões começa sublinhando o privilégio que
concede ao espaço, ao investir diretamente o planalto central brasileiro. onde
se situa Canudos.
A primeira frase reza: "O planalto central do Brasil desce, nos li torais do
Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; e desata-se
em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras marítimas [etcT. Des e
modo, o narrador, impessoalmente identificado ao leitor ("quem o contorna"),
vai propor uma investigação integral dessa imensa porção do país. revelando a
heterogeneidade que a caracteriza. Assim o fazendo, desenha um percurso
que dá uma improvável volta completa em tomo do planalto central, mostran-
do-o ao leitor através do olhar do narrador.
Considerando-o de três pontos de vista, a saber o astronômico, o topo-
gráfico e o geológico, passa a argumentar que se trata de uma "região ~riv i le
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Procede então à descrição topográfica e geológica da regiã~. fetta com
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Diversificando