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P O R T U G U ÊS A - 3 .a S Português Curso Extensivo – A 3.a Série – Ensino Médio REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página I P O R T U G U ÊS A - 3 . aS REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página II Para responder às questões de 1 a 2, leia o soneto de Raimundo Correia (1859-1911). 1. (Unesp-2018) a) Que processo o soneto de Raimundo Correia retrata? RESOLUÇÃO O soneto retrata o crepúsculo, o anoitecer. O escurecimento da natureza ocorre, pouco a pouco, como se nota, por exemplo, no último terceto: A natureza apática esmaece... Pouco a pouco, entre as árvores, a lua Surge trêmula, trêmula... Anoitece. b) A primeira estrofe do soneto é composta por três períodos simples em ordem indireta (“Esbraseia o Ocidente na agonia / O sol”; “Aves em bandos destacados, / Por céus de ouro e de púrpura raiados, / Fogem”; e “Fecha-se a pálpebra do dia”). Reescreva esses três períodos em ordem direta. RESOLUÇÃO Colocando-se os versos em ordem direta, tem-se: 1) O sol esbraseia o Ocidente na agonia. 2) Aves fogem em bandos destacados por céus raiados de outro e de púrpura. 3) A pálpebra do dia fecha-se. 2. (Unesp-2018) a) Há no soneto menção a um sentimento que permeia e circunda a natureza retratada. Que sentimento é esse? Do que decorre tal sentimento? RESOLUÇÃO A descrição do anoitecer está associada à melan colia causada pelo declínio do sol, o qual se assemelha à agonia crescente proporcionada pela sombra resultante do recuo da luz do dia. b) Verifica-se na terceira estrofe a ocorrência de uma antítese. Que termos configuram essa antítese? RESOLUÇÃO Há antítese no verso: “A sombra à proporção que a luz recua...”, em que os termos “sombra” e “luz” apresentam ideias opostas. Esbraseia o Ocidente na agonia O sol... Aves em bandos destacados, Por céus de ouro e de púrpura raiados, Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia... Delineiam-se, além, da serrania Os vértices de chama aureolados, E em tudo, em torno, esbatem derramados Uns tons suaves de melancolia... Um mundo de vapores no ar flutua... Como uma informe nódoa, avulta e cresce A sombra à proporção que a luz recua... A natureza apática esmaece... Pouco a pouco, entre as árvores, a lua Surge trêmula, trêmula... Anoitece. (Poesia completa e prosa, 1961.) – 1 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S Revisão PORTUGUÊS MÓDULO 11 Sintaxe (I) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 1 2 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS Leia o trecho inicial do artigo “Artifícios da inteligência”, do físico brasileiro Marcelo Gleiser (1959- ), para responder às questões 3 e 4. 3. (Unesp-2018) a) Para o físico Marcelo Gleiser, o que distingue as tecnologias transumanas daquelas apenas corretivas? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO Segundo o texto, as tecnologias corretivas regula rizam deficiências físicas existentes, não têm como objetivo a ampliação de características cognitivas, como é o caso do transumanismo. b) Cite dois termos empregados em sentido figurado no primeiro parágrafo do artigo. RESOLUÇÃO São exemplos de termos empregados em sentido figurado: “engavetado”, metáfora que se refere a estar preso no congestionamento, e “navegar”, também metáfora, referindo-se a passar de um sítio para outro na internet. Considere a seguinte situação: você acorda atrasado para o trabalho e, na pressa, esquece o celular em casa. Só quando engavetado no tráfego ou amassado no metrô você se dá conta. E agora é tarde para voltar. Olhando em volta, você vê pessoas com celular em punho conversando, mandando mensagens, navegando na internet. Aos poucos, você vai sendo possuído por uma sensação de perda, de desconexão. Sem o seu celular, você não é mais você. A junção do humano com a máquina é conhecida como “transumanismo”. Tema de vários livros e filmes de ficção científica, hoje é um tópico essencial na pesquisa de muitos cientistas e filósofos. A questão que nos interessa aqui é até que ponto essa junção pode ocorrer e o que isso significa para o futuro da nossa espécie. Será que, ao inventarmos tecnologias que nos permitam ampliar nossas capacidades físicas e mentais, ou mesmo máquinas pensantes, estaremos decretando nosso próprio fim? Será esse nosso destino evolucionário, criar uma nova espécie além do humano? É bom começar distinguindo tecnologias transumanas daquelas que são apenas corretivas, como óculos ou aparelhos para surdez. Tecnologias corretivas não têm como função ampliar nossa capacidade cognitiva: só regularizam alguma deficiência existente. A diferença ocorre quando uma tecnologia não apenas corrige uma deficiência como leva seu portador a um novo patamar, além da capacidade normal da espécie humana. Por exemplo, braços robóticos que permitem que uma pessoa levante 300 quilos, ou óculos com lentes que dotam o usuário de visão no infravermelho. No caso de atletas com deficiência física, a questão se torna bem interessante: a partir de que ponto uma prótese como uma perna artificial de fibra de carbono cria condições além da capacidade humana? Nesse caso, será que é justo que esses atletas compitam com humanos sem próteses? Poderia parecer que esse tipo de hibridização entre tecnologia e biologia é coisa de um futuro distante. Ledo engano. Como no caso do celular, está acontecendo agora. Estamos redefinindo a espécie humana através da interação – na maior parte ainda externa – com tecnologias que ampliam nossa capacidade. Sem nossos aparelhos digitais – celulares, tabletes, laptops – já não somos os mesmos. Criamos personalidades virtuais, ativas apenas na internet, outros eus que interagem em redes sociais com selfies arranjados para impressionar; criações remotas, onipresentes. Cientistas e engenheiros usam computadores para ampliar sua habilidade cerebral, enfrentando problemas que, há apenas algumas décadas, eram considerados impossíveis. Como resultado, a cada dia surgem questões que antes nem podíamos contemplar. (Folha de S.Paulo, 01.02.2015. Adaptado.) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 2 4. (Unesp-2018) a) De acordo com o físico, nós já podemos ser considerados transumanos? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO Segundo o autor, o transumanismo, “hibridismo entre tecnologia e biologia”, já está ocorrendo. Marcelo Gleiser considera que os seres humanos estão ampliando sua capacidade por meio de tecnologias que os redefinem de modo que as pessoas já não são as mesmas, caso percam o acesso aos aparelhos eletrônicos, tal como acontece no caso do celular. b) Dêiticos: expressões linguísticas cuja interpretação depende da pessoa, do lugar e do momento em que são enunciadas. Por exemplo: “eu” designa a pessoa que fala “eu”. (Ernani Terra. Leitura do texto literário, 2014.) Cite dois dêiticos empregados nos dois primeiros parágrafos do texto. RESOLUÇÃO O pronome de tratamento “você” foi empregado em sentido generalizante, pois não se refere a uma pessoa em particular, mas a todos os que já vivenciaram as situações descritas no primeiro parágrafo. No segundo parágrafo, o pronome pessoal oblíquo “nos” refere-se ao próprio autor do texto, é usado como plural de modéstia. O pronome possessivo “nossa” refere-se à espécie humana. Texto para questão 5. 5. (FUVEST-2017) a) Explique por que o autor agradece “imediatamente depois de receber o volume”. RESOLUÇÃO: Segundo o autor, o agradecimento prescinde da leitura do livro recebido de presente. Assim, o escritor se esquivaria da possibilidade de elogiar um livro que poderia não lhe agradar. b) Levando em conta o contexto, reescreva duas vezes o trecho “sem lê-lo”, substituindo “sem” por “sem que”, na primeira vez, e por “mesmo não”, na segunda. RESOLUÇÃO: O trecho reescrito ficaria em 1) “é menor pecadoelogiar um mau livro sem que o tenha lido”, e em 2) “é menor pecado elogiar um mau livro mesmo não o tendo lido”. Trata-se, portanto, de uma questão sobre sintaxe de colocação e emprego de verbos em tempos compostos. Em 1, a próclise ocorre em função da locução subordinativa “sem que”, e em 2, a próclise ocorre devido ao advérbio de negação “não”. É menor pecado elogiar um mau livro, sem lê-lo, do que depois de o haver lido. Por isso, agradeço imedia tamente depois de receber o volume. (Carlos Drummond de Andrade, Passeios na ilha) – 3 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 3 4 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS Leia a fábula “A raposa e o lenhador”, do escritor grego Esopo (620 a.C.?-564 a.C.?), para responder às questões de 6 a 9. 6. (UNIFESP-2017) – A moral mais apropriada para fechar a fábula seria: a) Esta fábula pode ser dita a propósito de homens desventurados que, quando estão em situações embaraçosas, rezam para encontrar uma saída, mas assim que encontram procuram evitá-las. b) Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito daqueles homens que nitidamente proclamam ações nobres, mas na prática realizam atos vis. c) Esta fábula mostra que os homens desatentos prestam atenção nas coisas de que esperam tirar proveito, mas permanecem apáticos em relação àquelas que não lhes agradam. d) Assim, alguns homens se entregam a tarefas arriscadas, na esperança de obter ganhos, mas se arruínam antes mesmo de chegar perto do que almejam. e) Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito de um homem frouxo que reclama de ínfimas desgraças, enquanto ela própria suporta, sem dificuldade, desgraças enormes. RESOLUÇÃO: É nítida, na fábula “A raposa e o lenhador”, de Esopo, o ensinamento moral acerca de pessoas que, com hipocrisia, escondem suas práticas vis, mascarando-as por meio de um discurso em que buscam apresentar nobreza de caráter. Resposta: B 7. (UNIFESP-2017) – “Entretanto, como eles não prestaram atenção nos seus gestos, deram crédito às suas palavras.” Em relação à oração que a sucede, a oração destacada tem sentido de a) causa. b) conclusão. c) proporção. d) consequência. e) comparação. RESOLUÇÃO: A oração destacada estabelece relação de causa com a oração posterior, que é a sua consequência. Resposta: A 8. (UNIFESP-2017) – Os trechos “Ele sugeriu que ela entrasse em sua cabana” e “vieram os caçadores e perguntaram ao lenhador se ele tinha visto uma raposa” foram construídos em discurso indireto. Ao se transpor tais trechos para o discurso direto, o verbo “entrasse” e a locução verbal “tinha visto” assumem, respectivamente, as seguintes formas: a) “entrai” e “vira”. b) “entrou” e “viu”. c) “entre” e “vira”. d) “entre” e “viu”. e) “entrai” e “viu”. RESOLUÇÃO: No discurso indireto, a forma verbal “entrasse”, no imperfeito do subjuntivo, passa, no discurso direto, para o imperativo: “entre”. O pretérito mais-que-perfeito composto “tinha visto”, no discurso indireto, passa para o pretérito perfeito no discurso direto: “viu”. Resposta: D 9. (UNIFESP-2017) – “Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.” (4.° parágrafo) Os termos em destaque constituem, respectivamente, a) um pronome e um artigo. b) uma conjunção e um artigo. c) um artigo e uma preposição. d) um pronome e uma preposição. e) um artigo e uma conjunção. RESOLUÇÃO: Em “a virtude”, o a é artigo definido porque antecede um substantivo. Em “chegava a suprir”, o a é preposição, uma vez que se encontra em uma locução verbal. Resposta: C Enquanto fugia de caçadores, uma raposa viu um lenhador e lhe pediu que a escondesse. Ele sugeriu que ela entrasse em sua cabana e se ocultasse lá dentro. Não muito tempo depois, vieram os caçadores e perguntaram ao lenhador se ele tinha visto uma raposa passar por ali. Em voz alta ele negou tê-la visto, mas com a mão fez gestos indicando onde ela estava escondida. Entretanto, como eles não prestaram atenção nos seus gestos, deram crédito às suas palavras. Ao constatar que eles já estavam longe, a raposa saiu em silêncio e foi indo embora. E o lenhador se pôs a repreendê-la, pois ela, salva por ele, não lhe dera nem uma palavra de gratidão. A raposa respondeu: “Mas eu seria grata, se os gestos de sua mão fossem condizentes com suas palavras.” (Fábulas completas, 2013.) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 4 1. (FUVEST-2018) – Leia o texto. a) No texto, que ideia é sintetizada pela palavra “crise”? RESOLUÇÃO O termo “crise”, no texto, sintetiza todo e qual quer conflito matrimonial, o que poderia levar inclusive ao assassinato, o que desmente a con cepção do caráter indissolúvel do matrimônio. b) Reescreva a oração “tal como ele era concebido pela Igreja Católica”, empregando a voz ativa e fazendo as adaptações necessárias. RESOLUÇÃO Passando-se a frase na voz passiva para a ativa, tem-se: “tal como a Igreja Católica o concebia (ou concebia-o). O pronome oblíquo “o” refere-se a “vínculo do matrimônio”. 2. (FUVEST-2017) – Leia o seguinte texto, extraído de uma matéria jornalística sobre supercomputadores: a) Reescreva o trecho “é a de simulação climática: com quatrilhões por segundo de processamento”, levando em conta a correção e a clareza. RESOLUÇÃO: Reescrevendo o trecho, considerando correção e clareza, tem-se: Um exemplo recorrente do uso desse tipo de equipamento, com (ou que tem) capa cidade de processar quatrilhões de informações por segundo, é o de simulação climática. b) A palavra “cenários” (sublinhada no texto) foi empregada com o mesmo sentido em suas duas ocorrências? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: Não. Na primeira ocorrência, a palavra “cenários” refere-se a simulações de situações climáticas, por exemplo, de seca prolongada ou de excesso de chuva. Na segunda ocorrência, a palavra “ce ná rios” tem sentido mais genérico que a anterior, re fe rindo-se à capacidade de os supercomputadores cria rem situações simuladas para estudos cientí ficos das mais variadas áreas do conhecimento. No Brasil colonial, o indissolúvel vínculo do matri mônio, tal como ele era concebido pela Igreja Católica, nem sempre terminava com a morte natural de um dos cônjuges. A crise do casamento assumia várias formas: a clausura das mulheres, enquanto os maridos continuavam suas vidas; a separação ou a anulação do matrimônio decretadas pela Igreja; a transgressão pela bigamia ou mesmo pelo assassínio do cônjuge. Maria Beatriz Nizza da Silva, História da Família no Brasil Colonial. Adaptado. Supercomputadores são usados para cálculos de simulação pesada. Um exemplo recorrente do uso desse tipo de equipamento é a de simulação climática: com quatrilhões por segundo de processamento, torna-se possível que um computador tenha capacidade de calcular as oscilações meteorológicas. Isso ajuda a prevenir desastres, ou a preparar políticas de apoio à agricultura, se antecipando a cenários os mais variados. Evidentemente, há outros usos, como pesquisas científicas que precisam também simular cenários, com uma ampla gama de variáveis. Estudos militares e de desenvolvimento de tecnologia também se beneficiam do poder computacional desse tipo de equipamento. www.techtudo.com.br, 24.06.2016. – 5 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S MÓDULO 22 Sintaxe (II) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 5 6 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS 3. (FUVEST-2018) – Examine a propaganda. a) Considerando o contexto da propaganda, existe alguma relação de sentido entre a imagem estilizada dos dedos e as palavras “digital” e “diferença”? Explique. RESOLUÇÃO Digital é um adjetivo substantivadorelativo a “dedos”, figurados na imagem como pessoas, ou seja, representando as individualidades de cada eleitor, assim como de suas impressões digitais. Quanto ao termo “diferença”, ele se refere tanto a essa individualidade quanto à importância de cada voto para a manutenção da democracia. Cabe lembrar que o anúncio publicitário é de utilidade pública, pois divulga a necessidade de os eleitores fazerem o cadastro biométrico que será utilizado nas próximas eleições. b) Sem alterar o modo verbal, reescreva o trecho “Venha para a biometria. Cadastre suas digitais.”, passando os verbos para a primeira pessoa do plural e fazendo as modificações necessárias. RESOLUÇÃO Reescrevendo a frase do anúncio, tem-se: “Venha mos para a biometria. Cadastremos nossas digi tais”, pois os verbos de ambas as frases se en con - tram no modo imperativo afirmativo, os quais, trans postos para a primeira pessoa do plural, são derivados do presente do subjuntivo. 4. (FUVEST-2018) – Leia o texto. Um tema frequente em culturas variadas é o do desafio à ordem divina, a apropriação do fogo pelos mortais. Nos mitos gregos, Prometeu é quem rouba o fogo dos deuses. Diz Vernant que Prometeu representa no Olimpo uma vozinha de contestação, espécie de movimento estudantil de maio de 1968. Zeus decide esconder dos homens o fogo, antes disponível para todos, mortais e imortais, na copa de certas árvores — os freixos — porque Prometeu tentara tapeá-lo numa repartição da carne de um touro entre deuses e homens. ——————-—————————————————————— Na mitologia dos Yanomami, o dono do fogo era o jacaré, que cuidadosamente o escondia dos outros, comendo taturanas assadas com sua mulher sapo, sem que ninguém soubesse. Ao resto do povo – animais que naquela época eram gente – eles só davam as taturanas cruas. O jacaré costumava esconder o fogo na boca. Os outros decidem fazer uma festa para fazê-lo rir e soltar as chamas. Todos fazem coisas engraçadas, mas o jacaré fica firme, no máximo dá um sorrisinho. Betty Mindlin, O fogo e as chamas dos mitos. Revista Estudos Avançados. Adaptado. REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 6 a) O emprego do diminutivo nas palavras “vozinha” e “sorrisinho”, consideradas no contexto, produz o mesmo efeito de sentido nos dois casos? Justifique. RESOLUÇÃO O emprego do diminutivo não produz o mesmo efeito de sentido nas palavras indicadas. Em “vozinha”, minimiza-se a contestação de Prometeu à ordem vigente no Olimpo, comparando essa rebeldia à do movimento estudantil de maio de 1968. Quanto a “sorrizinho”, o di minutivo evi dencia que o jacaré percebeu a cilada prepa rada pelos outros animais e, de forma irô nica, não gargalha, apenas sorri, quebrando a expectativa de seus provocadores. b) Reescreva o trecho “Os outros decidem fazer uma festa para fazê- lo rir (...). Todos fazem coisas engraçadas”, substituindo o verbo “fazer” por sinônimos adequados ao contexto em duas de suas três ocorrências. RESOLUÇÃO Reescrevendo, tem-se: “Os outros decidem promo ver (produzir, efetuar) uma festa para levá-lo (estimulá-lo, incentivá-lo) a rir (…). Todos rea lizam (praticam, elaboram) coisas engraçadas”. Há outras possibilidades e somente dois verbos deve riam ser substituídos. Texto para as questões de 5 a 10. 5. (UNIFESP) – As informações do texto permitem afirmar que a) a edição artesanal, como a praticada por João Cabral de Melo Neto, permitiu que a cultura nacional fosse enriquecida com obras de expressivos escritores. b) as edições artesanais, como as de João Cabral de Melo Neto, raramente se destinam à produção de obras literárias para pessoas dos círculos íntimos de convi vência dos autores. c) a edição artesanal é uma realidade específica do Brasil, retratando a dificuldade que autores como Vinícius de Moraes e Guimarães Rosa tiveram para publicar suas obras. d) a venda de uma edição artesanal se dá com um grande volume de livros, razão pela qual desperta grande interesse comercial e cultural dos editores no Brasil. e) os livreiros normalmente têm pouco interesse por livros artesanais, como os de Manuel Bandeira e Cecília Meireles, por conside rarem- nos uma forma menor de expressão artística. RESOLUÇÃO: Segundo o texto, João Cabral de Melo Neto fazia “ginástica poética” para curar uma dor de cabeça. Como editor artesanal, publicou pequenos livros divulgando a obra de grandes escritores brasileiros e estrangeiros. Resposta: A POETAS E TIPÓGRAFOS Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico por causa de sua crônica dor de cabeça. Ele lhe receitou exercícios físicos, para “canalizar a tensão”. João Cabral seguiu o conselho. Comprou uma prensa manual e passou a produzir à mão, domesticamente, os próprios livros e os dos amigos. E, com tal “ginástica poética”, como a cha - mava, tornou-se essa ave rara e fascinante: um editor artesanal. Um livro recém-lançado, “Editores Artesanais Brasileiros”, de Gisela Creni, conta a história de João Cabral e de outros sonha - dores que, desde os anos 50, enriqueceram a cultura brasileira a partir de seu quarto dos fundos ou de um galpão no quintal. O editor artesanal dispõe de uma minitipografia e faz tudo: escolhe a tipologia, compõe o texto, diagrama-o, produz as ilustrações, tira provas, revisa, compra o papel e imprime – em folhas soltas, não costuradas – 100 ou 200 lindos exemplares de um livrinho que, se não fosse por ele, nunca seria publicado. Daí, distribui-os aos subscritores (amigos que se comprometeram a comprar um exemplar). O resto, dá ao autor. Os livreiros não querem nem saber. Foi assim que nasceram, em pequenos livros, poemas de – acredite ou não – João Cabral, Manuel Bandeira, Drummond, Cecília Meireles, Joaquim Cardozo, Vinicius de Moraes, Lêdo Ivo, Paulo Mendes Campos, Jorge de Lima e até o conto “Com o Vaqueiro Mariano” (1952), de Guimarães Rosa. E de Donne, Baudelaire, Lautréamont, Rimbaud, Mallarmé, Keats, Rilke, Eliot, Lorca, Cummings e outros, traduzidos por amor. João Cabral não se curou da dor de cabeça, mas valeu. (Ruy Castro. Folha de S.Paulo, 17.08.2013. Adaptado.) – 7 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 7 8 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS 6. (UNIFESP) – Com a frase – tornou-se essa ave rara e fascinante – (1.º parágrafo), o autor vale-se de uma a) hipérbole para sugerir que João Cabral melhorou após a prensa. b) redundância para afirmar que João Cabral poderia dispensar a prensa. c) ironia para questionar João Cabral como editor arte sanal. d) metáfora para externar uma avaliação positiva de João Cabral. e) metonímia para atribuir uma ideia de genialidade a João Cabral. RESOLUÇÃO: Ruy Castro utilizou uma metáfora “ave rara e fas ci nante” para referir-se a João Cabral, atribuindo a este a qualidade de ser extraordinário e admirável. Resposta: D 7. (UNIFESP) – Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico por causa de sua crônica dor de cabeça. O trecho pode ser reescrito, sem prejuízo de sentido ao texto, por: a) Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, tão logo sentiu sua crônica dor de cabeça, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico. b) Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, como sentia dor de cabeça crônica, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico. c) Embora fosse vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico sentindo crônica dor de cabeça. d) Por ser vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico com crônica dor de cabeça. e) Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico, mas era vítima de uma crônica dor de cabeça. RESOLUÇÃO: A locução prepositivapor causa de pode ser substi tuída, sem prejuízo de sentido, pela conjunção como, que também indica causa. Resposta: B 8. (UNIFESP) – Na oração – como a chamava – (1.º parágrafo), o pro nome retoma: a) ave rara e fascinante. b) tensão. c) ginástica poética. d) crônica dor de cabeça. e) prensa manual. RESOLUÇÃO: O pronome oblíquo a refere-se à prensa manual citada no período anterior. Resposta: E 9. (UNIFESP) – Na passagem – O editor artesanal dispõe de uma minitipografia e faz tudo: escolhe a tipologia, compõe o texto, diagrama-o, produz as ilustrações –, se a expressão editor artesanal for para o plural, a sequência em destaque assume a seguinte redação, de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa: a) compõe o texto, diagrama-no, produz as ilustrações. b) compõem o texto, diagrama-lo, produz as ilustrações. c) compõem o texto, diagramam-no, produzem as ilus trações. d) compõe o texto, diagramam-o, produzem as ilustra ções. e) compõem o texto, diagramam ele, produz as ilustra ções. RESOLUÇÃO: Com o sujeito no plural “editores artesanais”, os verbos assumem a 3.ª pessoa do plural, como consta da alternativa c. Resposta: C 10.(UNIFESP) – Assinale a alternativa em que se analisa corretamente o fato linguístico do texto. a) No trecho – O resto, dá ao autor. – (3.º parágrafo), a vírgula está indevidamente empregada, pois não se separam termos imediatos, no caso, sujeito e verbo da oração. b) No trecho – João Cabral não se curou da dor de cabeça, mas valeu. – (5.º parágrafo), o verbo valer está flexionado, concordando com a expressão João Cabral. c) No trecho – enriqueceram a cultura brasileira a partir de seu quarto – (2.º parágrafo), o pronome em desta que refere-se ao poeta João Cabral de Melo Neto. d) No trecho – Comprou uma prensa manual e passou a produzir à mão – (1.º parágrafo), a expressão em destaque indica circunstância de conformidade. e) No trecho – 100 ou 200 lindos exemplares de um livrinho – (3.º parágrafo), o diminutivo do substantivo em destaque carrega-o de conotação afetiva. RESOLUÇÃO: O emprego do diminutivo livrinho conota o sentimento de apreço e carinho pela publicação. Em a, a vírgula está adequadamente empregada porque ficou elíptica a expressão “dos exemplares”; em b, o sujeito está implícito: isso valeu; em c, o pronome possessivo seu refere-se aos “Editores Artesanais Brasileiros”, em d, a locução à mão indica circunstância de modo. Resposta: E REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 8 1. (FUVEST-2017) – Leia este texto, publicado em 1905. a) O sentido que se atribui, no texto, à palavra “retórica” é o de “arte da eloquência, arte de bem argumentar; arte da palavra” (Houaiss)? Justifique. RESOLUÇÃO: Não. O termo “retórica” está inserido em um contexto dominado por vocábulos de carga semântica negativa: “verbiagem”, “oca”, “inútil”, “vã”. Dessa forma, ele não pode ser entendido no sentido positivo consignado na citação extraída do Houaiss. Na verdade, essa palavra assume valor pejorativo, significando discurso afetado, de acessórios inúteis e conteúdo vazio. b) Mantendo-se o sentido que eles têm no contexto, que outra forma os verbos “se encontrem” e “houvera” poderiam assumir? RESOLUÇÃO: A primeira frase está na voz passiva sintética, que tem como sujeito composto “nem uma ideia original, nem uma só observação própria”. Mantendo-se o sentido, pode-se passá-la para a voz passiva analítica: Embora não sejam encontradas nos seus longos discursos e muitos volumes nem uma ideia original, nem uma só observação própria. A segunda frase apresenta um uso clássico literário do pretérito mais-que-perfeito do indicativo, “houvera”, no lugar do pretérito imperfeito do modo subjuntivo, “houvesse”: O escândalo viria se houvesse originalidade. Por toda parte, a verbiagem,* oca, inútil e vã, a retórica [...] pomposa, a erudição míope, o aparato de sabedoria resumem toda a elaboração intelectual. [...] Aceitam-se e proclamam-se os mais altos representantes da intelectualidade: os retóricos inveterados, cuja palavra abundante e preciosa impõe-se como sinal de gênio, embora não se encontrem nos seus longos discursos e muitos volumes nem uma ideia original, nem uma só observação própria. E disto ninguém se escandaliza; o escândalo viria se houvera originalidade. (Manoel Bomfim, A América Latina: males de origem. Adaptado.) *verbiagem: falatório longo mas com pouco sentido ou utilidade; verborragia. – 9 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S MÓDULO 33 Sintaxe (III) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 9 10 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS 2. (FUVEST-2018) – Leia o texto e responda ao que se pede. a) No texto, o autor retifica o que corriqueiramente se entende por “morte natural”? Justifique. RESOLUÇÃO O autor argumenta que a ideia de morte natural (“morrer de esgotamento em virtude uma extre ma velhice”) é na verdade uma exceção, pou cas vezes acontece, sendo, portanto, pouco na tural. Também salienta que é natural morrer de aci den tes ou de doenças, já que não vai contra a natureza do homem sucumbir ao sofrer algum trauma físico. b) A que palavra ou expressão se referem, respecti vamente, os pronomes destacados no trecho “Vejo que os filósofos lhe assinam um limite bem menor do que o fazemos comumente”? RESOLUÇÃO O pronome pessoal oblíquo “lhe” refere-se a “du ração da vida”; o pronome demonstrativo “o” refere-se a “limite”. 3. (UNICAMP-2017) – Leia o excerto abaixo, adaptado do ensaio Para que servem as humanidades?, de Leyla Perrone-Moisés. a) As expressões “agregar valorˮ e “cultivo de valoresˮ, embora aparentemente próximas pelo uso da mesma palavra, produzem efeitos de sentido distintos. Explique-os. RESOLUÇÃO: “Agregar valor”, no contexto, tem sentido quan titativo, pois se refere às informações e conhecimento que o indivíduo adquire sem apro fun da men - to. “Cultivo de valores” implica a aquisição de saberes por meio de posicionamentos críticos e reflexivos constantes, que se desenvol vem não apenas ao longo da vida acadêmica, mas por toda a existência. b) Na última oração do texto, são utilizados dois elemen tos coesivos: “elesˮ e “à qualˮ. Aponte a que se refere, respectivamente, cada um desses elementos. RESOLUÇÃO: Os elementos coesivos “eles” e “à qual” referem-se, respecti vamente, a “os cursos de humanidades” e “sociedade”, assim a ideia que se estabelece é a de que os cursos de humanidades estudam a socie dade e a ela servem. As humanidades servem para pensar a finalidade e a qualidade da existência humana, para além do simples alongamento de sua duração ou do bem-estar baseado no consumo. Servem para estudar os problemas de nosso país e do mundo, para humanizar a globalização. Tendo por objeto e objetivo o homem, a capacidade que este tem de entender, de imaginar e de criar, esses estudos servem à vida tanto quanto a pesquisa sobre o genoma. Num mundo informatizado, servem para preservar, de forma articulada, o saber acumulado por nossa cultura e por outras, estilhaçado no imediatismo da mídia e das redes. Em tempos de informação excessiva e superficial, servem para produzir conhecimento; para “agregar valorˮ, como se diz no jargão mercadológico. Os cursos de humani dades são um espaço de pensamento livre, de busca desinteressada do saber, de cultivo de valores, sem os quais a própria ideia de universidade perde sentido. Por isso merecem o apoio firme das autoridades universitárias e da sociedade, que eles estudam e à qual servem. (Adaptado de Leyla Perrone-Moisés, Para que servem as humanidades? Folha de São Paulo, São Paulo, 30 jun. 2002, Caderno Mais!.) Da idade Não posso aprovar a maneira por que entendemos a duração da vida. Vejo que os filósofos lhe assinam* um limite bem menor do que o fazemos comumente. (...) Os [homens] que falam de uma certa duraçãonormal da vida, estabelecem-na pouco além. Tais ideias seriam admissíveis se existisse algum privilégio capaz de os colocar fora do alcance dos acidentes, tão numerosos, a que estamos todos expostos e que podem interromper essa duração com que nos acenam. E é pura fantasia imaginar que podemos morrer de esgotamento em virtude de uma extrema velhice, e assim fixar a duração da vida, pois esse gênero de morte é o mais raro de todos. E a isso chamamos morte natural como se fosse contrário à natureza um homem quebrar a cabeça numa queda, afogar-se em algum naufrágio, morrer de peste ou de pleurisia; como se na vida comum não esbarrássemos a todo instante com esses acidentes. Não nos iludamos com belas palavras; não denominemos natural o que é apenas exceção e guardemos o qualificativo para o comum, o geral, o universal. Morrer de velhice é coisa que se vê raramente, singular e extraordinária e portanto menos natural do que qualquer outra. É a morte que nos espera ao fim da existência, e quanto mais longe de nós menos direito temos de a esperar. Michel de Montaigne, Ensaios. Editora 34. Trad. de Sérgio Milliet. *assinar: fixar, indicar. REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 10 Texto para a questão 4. 4. (FUVEST) a) Reescreva os dois primeiros períodos, substi tuindo os verbos “chamar” e “reconhecer” por substan tivos que não sejam da mesma família desses verbos. Faça apenas as adaptações neces sárias, mantendo o sentido original. RESOLUÇÃO: A designação (ou qualificação) do dicionário de (como) pai-dos-burros é que é burrice. A confissão (ou aceitação) de um desconhecimento não é uma virtude? No texto, chamar equivale a "designar", "qualificar"; reconhecer está empregado no sentido de "confessar", "aceitar". b) Reescreva o último período do texto, utilizando agora as formas “não costuma” e “dispensa”. Faça apenas as alterações neces sárias, mantendo o sentido original. RESOLUÇÃO: Se a inteligência não costuma vir sempre acompanhada da inso lên cia, a burrice dispensa a força da humildade. Tirinha para a questão 5. 5. (FUVEST-2017) a) A dificuldade explicitada no último quadrinho verifica-se apenas na redação de cartas ou ocorre também na redação dos gêneros textuais romance e conto? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: Para o personagem da tirinha, escrever uma carta é difícil em razão dos sistemas eletrônicos de comunicação. Pode-se interir que essa dificuldade ocorre porque a linguagem utilizada na internet, no e-mail, apesar de escrita, está mais próxima da oralidade do que a linguagem das cartas, que normalmente exige maior formalidade. Portanto, essa dificuldade deve ocorrer também na elaboração de outros gêneros textuais, como romance e conto, por haver maior preocupação com as normas gramaticais e exigir maior formalidade em sua elaboração. b) O texto que compõe as falas dos quadrinhos pertence inteiramente à modalidade escrita da língua portuguesa? Justifique sua resposta, com base em elementos presentes no texto. RESOLUÇÃO: Não, ainda que as falas dos quadrinhos privilegiem a modalidade escrita da língua portuguesa, apresentam expressões coloquiais como “você sabe”, como toda essa coisa de internet”, “é escrever uma coisa”. Chamar o dicionário de pai-dos-burros é que é burrice. Reconhecer um desconhe cimento não é uma virtude? Se a burrice costuma vir sempre acompanhada da insolência, a inteligência não dispensa a força da humildade. LAERTEVISÃO ESCREVER CARTAS, HOJE EM DIA, É BEM DIFÍCIL, MEU CARO AMIGO. VOCÊ SABE – COM TODA ESSA COISA DE INTERNET, E-MAIL... PORÉM, O MAIS DIFÍCIL, MESMO, NÃO É (PARA MIM, PELO MENOS) ESCREVER EM SI. É ESCREVER UMA COISA ENQUANTO FALO OUTRA. – 11 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 11 1. (UNICAMP-SP-2018) – O trecho abaixo corresponde à parte final do primeiro Sermão de Quarta-Feira de Cinza, pregado em 1672 pelo Padre Antônio Vieira. a) Levando em conta o trecho e o propósito argumentativo do Sermão, explique por que, segundo Vieira, se deve preservar “a memória da morte”. RESOLUÇÃO: O primeiro Sermão de Quarta-Feira de Cinza desenvolve o tema da vaidade e do desengano da vida, fatores perigosos para quem almeja a salvação da alma. No trecho acima, o objetivo do orador é convencer o receptor de que, para que se consiga a salvação, é preciso sempre ter em mente a extrema importância da hora da sua morte, pois é nesse momento em que se dará conta das escolhas feitas em vida e que se arcará com as consequências dessas escolhas. Em resumo, é o momento em que se assegurará a salvação no Paraíso ou a danação no Inferno. O verdadeiro seguidor dos preceitos divinos deve afastar-se dos valores mundanos, da vaidade, pois são efêmeros e enganosos e causam a perdição da alma. b) Considere as perguntas presentes no trecho e explique sua função para a mensagem final do Sermão. RESOLUÇÃO: As interrogações presentes no trecho funcionam como perguntas retóricas e têm como objetivo provocar a reflexão do receptor e induzi-lo a ter comportamento adequado para a salvação da alma. A intenção de todas essas perguntas, portanto, é fazer com que aquele que queira ser um bom cristão avalie a forma como vive e busque orientar sua existência de maneira a assegurar o Paraíso. Em que cuidamos, e em que não cuidamos? Homens mortais, homens imortais, se todos os dias podemos morrer, se cada dia nos imos chegando mais à morte, e ela a nós; não se acabe com este dia a memória da morte. Resolução, resolução uma vez, que sem resolução nada se faz. E para que esta resolução dure, e não seja como outras, tomemos cada dia uma hora em que cuidemos bem naquela hora. De vinte e quatro horas que tem o dia, por que se não dará uma hora à triste alma? Esta é a melhor devoção e mais útil penitência, e mais agradável a Deus, que podeis fazer nesta Quaresma. (...) Torno a dizer para que vos fique na memória: Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva? Memento homo. (VIEIRA, Antônio. Sermões de Quarta-Feira de Cinza. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2016, p.102.) 12 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS MÓDULO 44 Literatura e Análise de Textos Literários – I REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 12 Texto para a questão 2. 2. Vieira afirma que “duas coisas prega hoje a Igreja”. Com base no exposto pelo autor: a) Aponte a semelhança entre essas duas coisas. RESOLUÇÃO: As duas coisas que a Igreja prega são certas, ou seja, são indubitáveis, inquestionáveis, têm sua existência garantida. Além disso, há a palavra pó como característica intrínseca à condição humana. b) Indique as diferenças entre elas. RESOLUÇÃO: Uma das coisas que a Igreja prega é evidente e futura, ou seja, fácil de perceber que acontecerá em tempos vindouros. A outra é dificultosa e presente, ou seja, é difícil perceber que esteja ocorrendo no presente momento. Texto para as questões de 3 a 5. 3. (UFSCar-SP – adaptada) a) De que forma o autor reproduz, no texto escrito, características próprias do discurso falado? RESOLUÇÃO: No texto de Vieira, percebem-se várias construções em que o orador se dirige ao receptor, ao ouvinte do sermão: “Ora, (...) perguntar-me-eis”, “Não é assim?”. Essas expressões, que buscam o contato com o receptor, são bem próprias do discurso falado. A própria série de orações interrogativas pressupõe um receptor de um discurso falado. b) Antes de iniciar sua pregação, Vieira fundamenta-se num argumento que, do ponto de vista religioso, se mostra incontestável. Transcreva esse argumento e explique-o. RESOLUÇÃO: A afirmação “pois Deus o disse” corresponde ao argumento de fé utilizado por Vieira. Como se trata de uma afirmação de Deus, deve então, do ponto de vista religioso, ser tomada como um fato inquestionável,dogmático. Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas gratuitas, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para a crer; outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura; mas a futura veem-na os olhos; a presente não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, et in pulverem reverteris. Sois pó, e em pó vos haveis de converter. Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura. O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, veem-no os olhos: o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o veem, nem o entendimento o alcança. Que me diga a Igreja que hei de ser pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento para o crer. Naquelas sepulturas, ou abertas, ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há, é o nada que havemos de ser: tudo pó. (VIEIRA, Antônio. “Sermão da Quarta-Feira de Cinza: ano de 1672”. In: A Arte de Morrer. São Paulo: Nova Alexandria, 1994, p. 47.) Ora, suposto que já somos pó, e não pode deixar de ser, pois Deus o disse, perguntar-me-eis, e com muita razão, em que nos distinguimos logo os vivos dos mortos? Os mortos são pó, nós também somos pó; em que nos distinguimos um dos outros? Distinguimo-nos os vivos dos mortos, assim como se distingue o pó do pó. Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído; os vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz. Hic jacet. Estão essas praças no Verão cobertas de pó: dá um pé de vento, levanta-se o pó no ar, e que faz? O que faz os vivos, e muitos vivos. Não aquieta o pó, nem pode estar quedo; anda, corre, voa; entra por esta rua, sai por aquela; já vai adiante, já torna atrás; tudo enche, tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo toma, tudo cega, tudo penetra, em tudo e por tudo se mete, sem aquietar nem sossegar um momento, enquanto o vento dura. Acalmou o vento: cai o pó, e onde o vento parou, ali fica; ou dentro de casa, ou na rua, ou em cima de um telhado, ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na campanha. Não é assim? Assim é. (VIEIRA, Antônio. “Sermão da Quarta-Feira de Cinza: ano de 1672”. In: A Arte de Morrer. São Paulo: Nova Alexandria, 1994, p. 54.) – 13 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 13 14 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS 4. “Distinguimo-nos os vivos dos mortos, assim como se distingue o pó do pó.” a) O trecho acima contém uma afirmação aparentemente absurda, um paradoxo. Explique. RESOLUÇÃO: O paradoxo consiste na afirmação de que o pó se distingue do pó. Na verdade, trata-se de um absurdo aparente, pois a palavra pó não tem o mesmo sentido nas duas ocorrências. Num caso, ela representa a insignificância do homem, tem sentido conotativo; no outro, o que resultará do homem após a morte, sendo o sentido literal. b) Reescreva o trecho com seus termos na ordem direta. RESOLUÇÃO: Os vivos distinguimo-nos dos mortos, assim como o pó se distingue do pó. 5. Vieira contrasta duas realidades: a do pó levantado e a do pó caído. a) Como, sintaticamente, essa oposição se realiza no texto? RESOLUÇÃO: A realidade do pó levantado é expressa por meio de uma sequência de orações coordenadas assindéticas curtas, o que conota o dinamismo da vida: “anda, corre, voa; entra por esta rua, sai por aquela; já vai adiante, já torna atrás; tudo enche, tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo toma, tudo cega, tudo penetra”. Já a realidade do pó caído é expressa por uma sequência de expressões em que se diminui a incidência de verbos que semanticamente expressam intenso dinamismo: “Acalmou o vento: cai o pó e onde o vento parou, ali fica, dentro de casa, ou na rua, ou em cima de um telhado, ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na campanha.” b) “Não aquieta o pó, nem pode estar quedo; anda, corre, voa; entra por esta rua, sai por aquela; já vai adiante, já torna atrás; tudo enche, tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo toma, tudo cega, tudo penetra, em tudo e por tudo se mete, sem aquietar nem sossegar um momento, enquanto o vento dura.” Considerando-se a relação de movimento e estaticidade entre o pó levantado e o pó caído, indique qual dessas ideias (movimento ou estaticidade) prevalece no trecho em análise e as figuras de linguagem utilizadas para exprimi-la. RESOLUÇÃO: No trecho, prevalece a ideia de movimento (“anda, corre, voa”). A construção desse trecho, visando-se à expressão de movimento, contém gradação e assíndeto (“anda, corre, voa”), antítese (“entra por esta rua”, “sai por aquela”; “já vai adiante, já torna atrás” e a anáfora do pronome tudo (“tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba...”). Há várias passagens que podem servir de exemplos. REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 14 – 15 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S 1. Leia o trecho a seguir e responda ao que se pede: a) No trecho transcrito, parte da nota de rodapé inserida pelo editor ficcional das memórias de Silvestre da Silva, há uma crítica em relação à sociedade lusa. Comente-a. RESOLUÇÃO: A crítica camiliana dirige-se ao representante de uma nobreza decadente, que faz das mulheres objeto de prazer e de dominação oportunista. b) A parte final do texto apresenta forte ironia do autor. Explique-a. RESOLUÇÃO: O conde envelhece pleno de saúde e na companhia de uma (recente) amante, talvez não tão recente assim, já que tinha sido expulsa pela condessa. O homem desfruta de regalias e não sofre punição por suas atitudes, reforçando-se a crítica ao comportamento machista e sexista. 2. Considerando as obras Coração, Cabeça e Estômago, de Camilo Castelo Branco, e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, responda ao que se pede: a) Silvestre da Silva e Brás Cubas, personagens, respectivamente, de Coração, Cabeça e Estômago e de Memórias Póstumas de Brás Cubas, superestimam ironicamente dois curiosos órgãos do corpo humano em suas narrativas. Quais são eles e o que simbolizam? RESOLUÇÃO: Silvestre da Silva elege o estômago como guia de vida, pois libertaria o homem dos sonhos do coração e do sofrimento que a racionalidade provoca, e Brás Cubas exalta o poder do nariz, pois “Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o fenômeno mais excelso do espírito. Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o próprio nariz (...) cujo efeito é a subordinação do universo a um nariz somente”, constituindo “o equilíbrio da sociedade”. O estômago simboliza a imposição dos prazeres gastronômicos e irracionais na vida humana, e o nariz conota a autoidolatria que impede o indivíduo de notar a existência do outro e do jogo social. b) Comparando-se os romances Coração, Cabeça e Estômago e Memórias Póstumas de Brás Cubas quanto aos narradores, quais semelhanças podem ser estabelecidas? RESOLUÇÃO: Os dois romances são memórias narradas pelas personagens centrais, mas, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o relato é feito por um defunto autor, Brás Cubas, que, depois de sua morte, relata sua trajetória de vida. Em Coração, Cabeça e Estômago, Silvestre da Silva é um escritor defunto que deixou suas memórias para serem publicadas por um amigo, o editor do livro. Chamava-se Margarida a dama. Viveu ainda até 1857 e morreu da febre amarela, e o filho também. Conta-se que o conde, receoso do contágio, não ousara vir a Lisboa, das Caldas da Rainha, onde estava, quando Margarida o mandou chamar para despedir-se. Morreu contemplando os paroxismos do filho. Os criados abandonaram-na no último dia. Estava sozinha quando expirou. O conde está ótimo de saúde e transferiu a mobília de Margarida para os aposentos de uma criada,que a condessa expulsou de casa... (Camilo Castelo Branco, Coração, Cabeça e Estômago) MÓDULO 55 Literatura e Análise de Textos Literários – II REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 15 16 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS 3. (FUVEST-SP-2018) – Leia o texto e responda ao que se pede: 1 – Murta: arbusto, árvore pequena. a) É possível relacionar a imagem da murta ao destino de Iracema no romance? Explique. RESOLUÇÃO: Na passagem, há um encadeamento de metáforas, que forma uma alegoria. Iracema é simbolizada pela murta, que morre. O jacarandá frondoso conota o colonizador Martim. É possível relacionar a imagem da murta que morre ao destino de Iracema, pois, assim como a raiz da planta morre para a árvore crescer, Iracema morre de paixão por Martim; é mártir do amor. b) A frase “Se ela não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer tão alto” pode ser entendida como uma alegoria do processo de colonização do Brasil? Explique. RESOLUÇÃO: Sim, essa frase pode ser entendida como uma alegoria do processo de colonização do País. Iracema, anagrama de América, simboliza a terra primitiva e edênica. Martim, cujo sentido etimológico é “o filho do guerreiro”, conota o colonizador luso, idealizado, com moral rigidamente cristã, segundo o narrador. A metrópole portuguesa, simbolizada por Martim, domina a terra, Iracema, aproveita-se dela, fazendo com que esse mundo primitivo seja exterminado, ocasionando a extinção de uma raça, conforme José de Alencar afirma na carta após o término do livro, que elabora o mito da formação do Brasil. 4. (FUVEST-SP) – Considere os dois trechos de Machado de Assis, relacionados a Iracema e publicados na época em que apareceu esse romance de Alencar, e responda ao que se pede: a) A poesia americana está completamente nobilitada; os maus poetas já não podem conseguir o descrédito desse movimento, que venceu com o autor de “I-Juca-Pirama”, e acaba de vencer com o autor de Iracema. (Adaptado de Machado de Assis, Crítica Literária) Machado de Assis refere-se, neste trecho, a um movimento literário chamado, na época, de “poesia americana” ou “escola americana”. Sob que outro nome veio a ser conhecido esse movimento? Quais eram seus principais objetivos? RESOLUÇÃO: Machado de Assis refere-se ao Indianismo, tendência romântica brasileira cujo objetivo central era nobilitar o passado nacional, associando-o a mitos heroicos elaborados por meio da idealização dos indígenas e de sua cultura, assimilados a padrões europeus de excelência física e moral. b) Tudo em Iracema nos parece primitivo; a ingenuidade dos sentimentos, o pitoresco da linguagem, tudo, até a parte narrativa do livro, que nem parece obra de um poeta moderno, mas uma história de bardo1 indígena, contada aos irmãos, à porta da cabana, aos últimos raios do sol que se entristece. (Adaptado de Machado de Assis, Crítica Literária) 1 – Bardo: poeta heroico, entre os celtas e gaélicos; por extensão, qualquer poeta, trovador etc. No trecho, Machado de Assis afirma que a narração de Iracema não parece ter sido feita por um “poeta moderno”, mas, sim, por um “bardo indígena”. Essa afirmação se justifica? Explique sucintamente. RESOLUÇÃO: A afirmação é pertinente, pois o estilo de Iracema procura incorporar a linguagem e a cosmovisão indígena. A tentativa de simular a cosmovisão aborígene é visível, por exemplo, na marcação temporal, que toma como parâmetro os ciclos da natureza. A apropriação da linguagem indígena ocorre nos nomes próprios, nas aglutinações lexicais, nas perífrases e nas comparações com elementos da natureza. — Não veem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vai subindo às nuvens? A seus pés ainda está a seca raiz da murta1 frondosa, que todos os invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para abraçar o tronco irmão. Se ela não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer tão alto. (José de Alencar, Iracema) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 16 5. Leia o texto a seguir e responda ao que se pede: a) Todo o enredo de Iracema gira em torno do núcleo do amor interdito entre a virgem tabajara e o português desbravador das terras brasileiras. Por que razão o amor deles é proibido e por que Martim repele todas as circunstâncias favoráveis ao encontro sexual entre eles? RESOLUÇÃO: Iracema e Martim sentem forte atração entre si, no entanto Iracema é uma virgem consagrada ao deus indígena Tupã e, portanto, uma sacerdotisa. Como no mito cristão, a virgindade de Iracema não poderia ser maculada por homem algum, para que o serviço da virgem fosse aceito pelo deus. Por outro lado, o forte caráter moral do guerreiro cristão repelia todas as circunstâncias favoráveis ao sexo, por sentir-se comprometido com a hospitalidade que recebera de Araquém, pai de Iracema e autoridade sacerdotal entre os tabajaras. Além disso, não queria colocar Iracema numa situação em que a tribo a condenaria mortalmente. b) Embora proibido, o encontro sexual entre Martim e Iracema acontece. De que maneira isso foi possível? RESOLUÇÃO: O encontro sexual entre Martim e Iracema só se consuma porque ela lhe fornece a bebida sagrada e alucinógena, o segredo da jurema. A concretização do ato sexual, portanto, só é possível porque Martim está sob efeito da droga. Para ele, as visões e sensações do corpo de Iracema não passam de fantasia erótica, de “sonho”. Só mais adiante Martim perceberá o que houve, quando Iracema lhe diz que não é mais a virgem de Tupã. c) A morte de Iracema pode ser prevista pelo leitor atento, se tiver conhecimento das principais características românticas. Explique em que a morte da protagonista pode ser considerada moralizante, do ponto vista dessa escola literária. RESOLUÇÃO: A morte de Iracema acaba se tornando previsível no contexto, pois, além da profecia de Araquém, no início do livro, pode-se notar que as escolhas da protagonista a levarão a ser punida pelas profanações que cometeu. Tendo traído o deus Tupã e se entregado sexualmente a um homem, ela paga por esses erros. Tal punição, além de ser condizente com o contexto do romance, também tem respaldo no caráter moralizante do Romantismo, escola em que o desvio moral é geralmente punido exemplarmente, ainda que esse desvio de conduta seja gerado por um motivo irrefreável, humana e romanticamente compreensível, o amor. (...) tirou a virgem do seio o vaso que ali trazia oculto (...) Martim lho arrebatou das mãos e libou as gotas do verde e amargo licor. Agora podia viver com Iracema e colher em seus lábios o beijo que ali viçava entre sorrisos como o fruto na corola da flor. Podia amá-la e sugar desse amor o mel e o perfume, sem deixar veneno no seio da virgem. (...) Quando veio a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada qual borboleta que dormiu no seio do formoso cacto. (...) Vendo Martim a virgem unida a seu coração, cuidou que o sonho continuava; cerrou os olhos para torná-los a abrir. (...) A filha de Araquém escondeu no coração a sua ventura. Ficou tímida e inquieta, como a ave que pressente a borrasca no horizonte. Afastou-se rápida e partiu. As águas do rio banharam o corpo casto da recente esposa. Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras. (José de Alencar, Iracema) – 17 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 17 1. (UNICAMP-SP) – Em A Relíquia, de Eça de Queirós, várias são as mulheres com quem Teodorico Raposo, o herói e narrador, se vê envolvido. Entre elas, podemos citar Mary, Adélia, Titi, Jesuína, Cibele. a) Uma dessas personagens é importantíssima para a trama do romance, já que acompanha o narrador desde a infância, e deve-se a ela a origem de todos os seus infortúnios posteriores. Quem é e o que fez ela para que o plano de Raposo não desse certo? RESOLUÇÃO: Entreas diversas personagens femininas citadas no enunciado da questão, apenas uma acompanhou Teodorico Raposo desde a infância. Trata-se de titi, sua tia D. Maria do Patrocínio das Neves, a cuja herança ele teria direito, caso se comportasse como um perfeito católico (segundo a perspectiva da tia). Como tal não acontece, e tendo sido descoberto o engodo que Raposo lhe preparava, titi expulsa-o da casa e deserda-o. b) A qual delas Raposo se refere quando diz “Tinha trinta e dois anos e era zarolha”? Que relações tem essa personagem com Crispim, a quem o narrador denomina “a firma”? RESOLUÇÃO: Trata-se de Jesuína, com quem Teodorico se casa. Trata-se da irmã de Crispim, o próspero amigo, herdeiro da firma Crispim & Cia. Não sem ironia, Teodorico chama-o “a firma”, para sugerir que a identidade do amigo se sustenta mais no valor financeiro do que no afetivo. A nomeação “a firma” corresponde à figura de palavra denominada metonímia, que se baseia na relação de contiguidade. 2. No romance A Relíquia, de Eça de Queirós, logo após saber que o Padre Negrão herdara o melhor da fortuna de G. Godinho e ainda tem Adélia como amante, Teodorico Raposo chega a uma amarga conclusão. a) Qual é essa conclusão? Comente-a. RESOLUÇÃO: Teodorico conclui que “fora esbulhado dos contos de G. Godinho simplesmente” porque faltou no oratório da tia Patrocínio a coragem de afirmar que aquela relíquia, a “camisa de dormir de Miss Mary”, era melhor que a forjada coroa de espinhos de Cristo. Deveria ter dito: “é a camisa de Santa Maria Madalena”. Acrescentando ainda que estava acompanhada de uma carta sobre o gozo celestial que Maria Madalena sentiu. Faltou-lhe, portanto, o descaramento de mentir com convicção, alterando, assim, os fatos. b) Pode-se dizer que essa conclusão sobre o que se considera verdade se refere apenas ao elemento místico? Por quê? RESOLUÇÃO: Não se pode dizer isso, porque, como consta do último parágrafo do romance, “‘esse descarado heroísmo de afirmar’, que batendo na Terra com pé forte, ou palidamente elevando os olhos ao Céu, cria, através da universal ilusão, ciências e religiões”. 18 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS MÓDULO 66 Literatura e Análise de Textos Literários – III REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 18 – 19 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S 3. É correto afirmar que, além de crítica social, o romance A Relíquia também contém o elemento fantástico? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: Sim, além de crítica social — a hipocrisia religiosa —, o romance A Relíquia também inclui o elemento fantástico, como indica a legenda do livro: “Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”, base da narrativa, que propicia o elemento alegórico ou fantástico. No sonho de Teodorico em Jerusalém, tem-se não só a revelação da personalidade de Teodorico, mergulhada em dilemas insolúveis, como também uma “reconstituição histórica, erudita, altamente racional da morte de Jesus. No seu sonho, fundem-se Realidade e Fantasia, Imaginação e Realismo, o Fantástico e Naturalismo, e Teodorico, turista maganão, cético e algo enfastiado, sempre a lamentar a falta dos prazeres mundanos da cidade de Salomão, descobre a antiga cidade judaica, sendo repentinamente testemunha inesperada do drama cristão, feito o Teodorico Evangelista, autor de um novo evangelho, narrado na primeira pessoa” (extraído do verbete sobre A Relíquia no Dicionário de Eça de Queirós). Há críticos que chegam a classificar o capítulo 3 de A Relíquia como um pseudossonho. 4. (FUVEST-SP-2018) – Leia o texto e responda ao que se pede: a) Pode-se afirmar que, neste excerto, além de resumir a existência de D. Plácida, o narrador expressa uma certa concepção de trabalho? Justifique. RESOLUÇÃO: Sim, o narrador não só resume a existência de D. Plácida, como também expressa uma certa concepção de trabalho, já que ela, mulher livre e pobre, trabalha arduamente, exercendo várias funções, e acaba, posteriormente na narrativa, até mediando a relação adúltera da patroa Virgília com Brás Cubas. Na trajetória existencial de D. Plácida, percebe-se que o trabalho não enobrece, nem dá, no Segundo Reinado, condição decente ao homem na sociedade patriarcal e escravagista do Brasil. b) De que maneira o ritmo textual, que caracteriza a possível resposta dos sacristãos, colabora para a caracterização de D. Plácida? RESOLUÇÃO: O ritmo textual é obtido pela extensa enumeração de breves orações reduzidas de infinitivo, com ideia de finalidade, e de gerúndio, com ideia de ação durativa. Em ambos os casos, esse andamento colabora para mostrar que D. Plácida é submetida a uma vida subalterna e pobre, por imposição social. O ritmo e o sentido do texto vão ao encontro da atarefada e dura vida de D. Plácida. 5. Com base no trecho a seguir e no conto “O Espelho” como um todo, responda ao que se pede: É de crer que D. Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: — Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam: — Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia. (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas) — Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. (...) — Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 19 20 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS a) Por que a concepção do caráter humano no conto “O Espelho” é realista? RESOLUÇÃO: É realista porque, além da análise psicológica aguda, há a concepção de que a nossa personalidade se forma a partir de valores externos, sociais. O caráter deriva de uma atitude, de um status que a sociedade valoriza, e o indivíduo procura se amoldar a isso, anulando a personalidade mais profunda. Enfim, os elementos materiais e sociais formatam a personalidade. A análise da imposição dos valores sociais e materiais sobre os individuais é característica do Realismo. b) O espelho reflete apenas a imagem da personagem que se olha? O que conota o espelho, no conto homônimo de Machado de Assis? RESOLUÇÃO: O espelho não reflete apenas a imagem de quem se olha, ele reflete o olhar da sociedade, do outro formatando o caráter de quem se observa. Quando falta esse olhar social, o narrador não se vê. Sem a farda, Jacobina não aparece integralmente no vidro. O espelho conota o valor social a que o indivíduo se submete para ser reconhecido e valorizado. O que Jacobina busca no espelho “é a imagem de si tal qual a vê o olho do outro que o agracia como alguém que subiu na vida. A opinião era o seu único espelho fidedigno; ausente ela, quebrado este, a imagem que resta é o lado do sujeito emenigma” (Alfredo Bosi), difusa, sem integridade. 6. (FUVEST-SP) – Considere o excerto em que Araripe Júnior, crítico associado ao Naturalismo, refere-se ao “estilo” praticado “nesta terra”, isto é, no Brasil: a) O modo pelo qual o crítico explica a feição que o “estilo” assume “nesta terra” indica que ele compartilha com o Naturalismo um postulado fundamental. Qual é esse postulado? Explique resumidamente. RESOLUÇÃO: [FUVEST-SP-2017] Araripe Júnior defende a tese de que o Naturalismo, estética de origem francesa, foi estilisticamente adaptado ao contexto brasileiro. A referência a frutos que, nesta terra, deformam-se, como a pinha, ou que provocam feridas na língua, é índice de uma doutrina fundamental do Naturalismo: o determinismo, formulado por Hippolyte Taine, que via o homem submetido inevitavelmente ao condicionamento de raça, meio e momento. No texto de Araripe Júnior, há referência ao determinismo do meio. b) As características de estilo sugeridas pelo crítico, no excerto, aplicam-se ao romance O Cortiço, de Aluísio Azevedo? Justifique sucintamente sua resposta. RESOLUÇÃO: [FUVEST-SP-2017] Sim, a doutrina determinista, na qual se baseia Aluísio Azevedo, justifica-se, dada a influência que o meio social do cortiço e a natureza do Brasil exercem sobre as personagens, moldando-lhes o caráter e a forma de vida. Exemplo notável disso é o caso de Jerônimo, imigrante português, trabalhador, que se transforma completamente: abandona a esposa e a filha, envolve-se com Rita Baiana (símbolo da terra e da sexualidade brasileiras). Jerônimo foi vencido pelo sol e pelo calor do Brasil: substitui os costumes alimentares e a música portugueses pelos brasileiros, culminando o seu abrasileiramento na vagabundagem embriagada. Jerônimo cede, portanto, à força do meio e é vencido por ele, de forma semelhante ao que ocorre com Pombinha, menina educada em meio abastado e que é influenciada pelo meio social, o cortiço, a partir da absorção das intimidades dos moradores para os quais ela lia e escrevia cartas. O sol tropical é também visto como elemento fertilizador, como ocorre no momento da menarca de Pombinha. O estilo, nesta terra, é como o sumo da pinha, que, quando viça, lasca, deforma-se, e, pelas fendas irregulares, poreja o mel dulcíssimo, que as aves vêm beijar; ou como o ácido do ananás do Amazonas, que desespera de sabor, deixando a língua a verter sangue, picada e dolorida. REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 20 1. (FUVEST-SP-2018) – Leia o texto e atenda ao que se pede: 1 – Carpir-se: lamentar-se. a) O ponto de vista do eu lírico em relação à “máquina do mundo” ilustra as principais características de Claro Enigma? Justifique. RESOLUÇÃO: O livro Claro Enigma (1951), pertencente à terceira fase da obra de Carlos Drummond de Andrade, caracteriza-se pelo questionamento metafísico e pela crise existencial, afastando-se da temática social e da poética iconoclasta das fases anteriores. Em “A Máquina do Mundo”, cuja forma e conteúdo dialogam com a poesia do poeta renascentista Dante Alighieri, há a possibilidade de o eu lírico desvendar “a total explicação da vida, / esse nexo primeiro e singular”, pois a máquina fez-lhe esse convite, que é surpreendentemente rejeitado. Penúltimo poema de Claro Enigma, “A Máquina do Mundo” sintetiza um percurso reflexivo e insolúvel recorrente no livro. O tom sombrio é evidenciado, nas quatro estrofes transcritas, nas expressões “de chumbo”, “escuridão” e, principalmente, “desenganado”. Esse sentido de perplexidade, de isolamento, é recorrente em Claro Enigma, como se nota já nos dois versos iniciais do primeiro poema do livro, “Dissolução”: “Escurece, e não me seduz / tatear sequer uma lâmpada”. b) Transcreva o verso que sintetiza o evento sublime de que trata o texto. RESOLUÇÃO: O verso que sintetiza o evento sublime é “a máquina do mundo se entreabriu”. A MÁQUINA DO MUNDO E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado, a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia1. (...) (Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma) – 21 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S MÓDULO 77 Literatura e Análise de Textos Literários – IV REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 21 22 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS Texto para as questões de 2 a 4. 2. Os poemas de Claro Enigma (1951) foram compostos durante a disputa ideológica entre capitalismo e comunismo, no período da chamada Guerra Fria, em que Estados Unidos e União Soviética revelavam caminhos igualmente questionáveis em seus métodos de ação. Drummond passa por um relativo esvaziamento de suas crenças políticas — de tendência socialista —, que o faziam ter uma postura poética compromissada com as questões sociais. A epígrafe de Claro Enigma é um verso de Paul Valéry: “les événements m’ennuient” (os acontecimentos me entediam). a) Nas duas primeiras estrofes do poema “Dissolução”, como reage o eu lírico diante da escuridão que se estabelece? Pode-se afirmar que o poeta continua com a mesma postura engajada nas questões sociais que revelou em livros anteriores? RESOLUÇÃO: Diante da escuridão, o eu lírico permanece de braços cruzados, sem ímpeto de reagir: “não me seduz / tatear sequer uma lâmpada”, “aceito a noite”. Portanto, depois de um período de engajamento político mais explícito, Drummond recolhe-se a uma autorreflexão da maturidade. O abandono da militância conduz o poeta a uma introspecção mais acentuada e à adoção de formas poéticas mais tradicionais, como demonstram vários poemas de Claro Enigma. b) “Dissolução” é o primeiro poema de Claro Enigma e dá a tônica a partir da qual se desenvolvem os poemas do livro, cuja parte inicial é intitulada “Entre Lobo e Cão”. Pode-se dizer que a palavra “escurece”, que inicia o poema, é a representação do nada? Explique. RESOLUÇÃO: Não, pois a escuridão traz uma nova disposição das coisas, já que, com a noite, o eu lírico não consegue delinear as figuras: “seres e coisas não figuradas” que se apresentam agora numa nova disposição, organização — “ordem outra de seres / e coisas não figuradas”. 3. Embora a definição de melancolia seja imprecisa, há um consenso quanto a algumas de suas características, desde estudiosos antigos, sendo entendida como: vazio interior, sensação de profundo desânimo em relação à vida, reação à possível perda de um objeto e, a partir de Freud, como sendo, talvez, a perda do próprio eu, a depressão diante da impossível reação, a falta de noção de si mesmo. a) Com base nas informações apresentadas, é correto afirmar que o eu lírico de “Dissolução” está melancólico? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: Sim, é correto, pois nota-se o vazio interior do eu lírico, explicitado sobretudo na terceira estrofe: “Vazio de quanto amávamos”, verso que reflete profundo desânimo em relação ao mundo externo, que não o atrai, é desinteressante e mais “vasto” do que o “eu” — “mais vasto é o céu” (que escurece tudo). DISSOLUÇÃO Escurece, e não me seduz tatear sequer uma lâmpada. Pois que aprouve ao dia findar, aceito a noite. E com ela aceito que brote uma ordem outra de seres e coisas não figuradas. Braços cruzados. Vazio de quanto amávamos, mais vasto é o céu. Povoações surgem do vácuo. Habito alguma? E nem destaco minha pele da confluente escuridão. Um fim unânime concentra-se e pousa no ar. Hesitando. E aquele agressivo espírito que o dia carreia consigo, já não oprime. Assim a paz, destroçada. Vai durar mil anos, ou extinguir-se na cor do galo?Esta rosa é definitiva, ainda que pobre. Imaginação, falsa demente, já te desprezo. E tu, palavra. No mundo, perene trânsito, calamo-nos. E sem alma, corpo, és suave. (Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 22 b) O primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, Alguma Poesia (1930), apresenta um eu lírico definido, no primeiro poema, como gauche — palavra da língua francesa que significa “canhoto, esquerdo”, mas, metaforicamente, adquiriu o significado de “diferente, estranho, deslocado em relação ao mundo”. Pode-se afirmar que, no poema “Dissolução”, o eu lírico continua sendo gauche, no sentido metafórico? RESOLUÇÃO: Sim, a afirmação procede, pois o eu lírico sente-se deslocado em relação à nova situação, não se identifica nem com as pessoas, nem com qualquer lugar, o que se nota no fato de ele não saber se habita alguma dessas novas povoações: “... Povoações / surgem no vácuo. / Habito alguma?”. Ressalte- se ainda a diferença de linguagem entre o primeiro livro, seguidor das inovações vanguardistas modernistas, e Claro Enigma, cuja linguagem ganha dimensão mais clássica, sem cortes abruptos. José Guilherme Merquior classifica a terceira fase de Drummond como a do “Modernismo classicizante”. 4. Apesar de a noite parecer um dado exterior, não se trata de algo objetivo, mas de uma indicação da subjetividade, um índice de desilusão, de falta de perspectivas em relação à realidade. a) A afirmação está correta em relação à quarta estrofe? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: Sim, essa afirmação é pertinente, pois a exterioridade e a interioridade do eu poético unem-se a tal ponto, que ele não pode destacar sua pele da “confluente escuridão”. Impera a visão subjetiva nesse “fim unânime”. b) Qual o significado da palavra “dissolução”, título do poema? Relacione-a com o conteúdo da quarta estrofe. RESOLUÇÃO: Dissolução significa “decomposição, desagregação, deterioração”. O indivíduo vê suas expectativas e esperanças dissolverem-se na noite e percebe que se anuncia um término, retomado na quarta estrofe: “Um fim unânime concentra-se / e pousa no ar. Hesitando.” A palavra “hesitando” traz um caráter oscilante a esse epílogo, uma mistura de pressentimento e ameaça real. Leia o poema “Sonetilho do Falso Fernando Pessoa”, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), que integra o livro Claro Enigma, publicado em 1951: 1 – Fausto: personagem do poema trágico homônimo de Goethe e que fez um pacto com o diabo. 2 – Mefisto (ou Mefistófeles): personagem satânica da Idade Média, também presente em Fausto, de Goethe. 3 – Oaristo: conversa carinhosa e familiar. 5. (UNESP) – Carlos Drummond de Andrade intitulou seu poema de “Sonetilho do Falso Fernando Pessoa”. Por que razão o poeta se refere a seu poema como “sonetilho”? Transcreva um verso em que a referência aos heterônimos do escritor português Fernando Pessoa se mostra evidente. Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: [UNESP-2017] Sonetilho é um soneto com versos curtos. No soneto clássico petrarquista, há quatro estrofes (dois quartetos e dois tercetos) e o verso tem dez sílabas métricas (versos decassílabos). O sonetilho de Drummond também tem quatro estrofes (dois quartetos e dois tercetos), mas versos de apenas seis sílabas métricas (versos hexassílabos). O poema mantém um diálogo intertextual com a poesia de Fernando Pessoa e seus heterônimos, e o verso que torna isso mais evidente é o último (“mas não sou eu, nem isto”), a chave de ouro, a síntese do poema. Nesse verso, há referência à despersonalização de Fernando Pessoa (“não sou eu”) e aos vários pontos de vista de suas máscaras poéticas. Onde nasci, morri. Onde morri, existo. E das peles que visto muitas há que não vi. Sem mim como sem ti posso durar. Desisto de tudo quanto é misto e que odiei ou senti. Nem Fausto1 nem Mefisto2, à deusa que se ri deste nosso oaristo3, eis-me a dizer: assisto além, nenhum, aqui, mas não sou eu, nem isto. (Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma) – 23 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 23 24 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS 1. (UNICAMP-SP-2018) – Na “Nota preliminar” escrita para a primeira edição do livro Poemas Negros, de Jorge de Lima, o antropólogo Gilberto Freyre afirma que, graças à “interpenetração de culturas, entre nós tão livre”, e graças ao “cruzamento de raças, o Brasil vai-se adoçando numa das comunidades mais genuinamente democráticas e cristãs do nosso tempo”. Com base no poema “Democracia”, responda às questões que se seguem: a) A ideia de “adoçamento” social está presente tanto no poema de Jorge de Lima quanto no texto de Gilberto Freyre. Aponte dois episódios da formação do poeta, referidos no poema, que exemplificam essa interpretação. Justifique sua escolha. RESOLUÇÃO: Pode-se entender a ideia de “adoçamento social” como um processo de convívio interétnico, que escamoteia o choque social e cultural ocorrido na formação da nação brasileira e que se prolongou na nossa sociedade. Essa visão aparece também em Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, em que se nota um orgulho por termos essa democracia mítica, tida como única e diversa de outras culturas, em virtude desse elemento de convívio no engenho. No poema “Democracia”, a interpenetração cultural ocorre em: I) “Mãe-negra me contou histórias de bicho” (há influência da cultura negra, da ama que cuidava do filho do senhor de engenho); II) “tocando maracá” (há influência da cultura indígena, pois o maracá é um instrumento musical de origem nativa); III) “brincando com as crioulas” (há referência à relação erótica do filho do senhor de engenho com as mulheres negras agregadas, e o convívio sexual aparece também em “emprenhando tudo que encontrava”). A resposta admite também outros versos, desde que tratem da interpenetração de culturas. b) Considerando elementos da composição do poema, explique de que maneira a ideia de “democracia”, presente no título, manifesta-se no texto. RESOLUÇÃO: A palavra “democracia”, no poema, tem o sentido de convívio entre classes e etnias e vai ao encontro do excerto de Gilberto Freyre: “a interpenetração de culturas, entre nós tão livre” ao lado do “cruzamento de raças”. Esse convívio é evidenciado no contexto do poema (o engenho de cana-de-açúcar em Alagoas) pela referência à cultura negra (“Mãe- negra me contou histórias de bicho”), à cultura indígena (“meu corpo pintado de urucu”) e pela influência da cultura da religião do colonizador luso (“catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes”), culminando nesse convívio intercultural e interétnico nos versos finais do poema (“me misturando, me sumindo, me acabando… / tatuado de cruzes, de corações, de mãos-ligadas, / de nomes de amor em todas as línguas de branco, de mouro ou de pagão”). Enaltecem-se, assim, a miscigenação e o convívio nessa democracia. Frise- se que a interpenetração de culturas, a democracia, é recorrente no texto e já visível nos primeiros versos, na alusão à rede para dormir, proveniente da cultura indígena, e na invocação a Walt Whitman, poeta norte- americano que também apregoava esse ideal. DEMOCRACIA Punhos de rede embalaram o meu canto para adoçar o meu país, ó Whitman. Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados, catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes, carumã me alimentou quando eu era criança, Mãe-negra me contou histórias de bicho, moleque me ensinou safadezas, massoca, tapioca, pipoca, tudo comi, bebi cachaça com caju para limpar-me, tive maleita, catapora e ínguas, bicho-de-pé, saudade, poesia; fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá, dizendo coisas, brincando com as crioulas, vendo espíritos, abusões, mães-d’água, conversando com os malucos, conversando sozinho, emprenhando tudo que encontrava, abraçandoas cobras pelos matos, me misturando, me sumindo, me acabando, para salvar a minha alma benzida e meu corpo pintado de urucu, tatuado de cruzes, de corações, de mãos-ligadas, de nomes de amor em todas as línguas de branco, [de mouro ou de pagão. (LIMA, Jorge de. Poesias Completas. v. I. Rio de Janeiro / Brasília: J. Aguilar / INL, 1974, p.160, 164-165.) MÓDULO 88 Literatura e Análise de Textos Literários – V REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 24 2. Neste poema, pode-se observar o sincretismo linguístico. Dê exemplos desse sincretismo e evidencie quais culturas estão presentes. RESOLUÇÃO: O sincretismo cultural e linguístico pode ser observado no uso de palavras como massoca, tapioca, pipoca, jenipapo, carumã etc., de origem indígena; catecismo, saudades, cruzes etc., de origem europeia; e moleque, da cultura africana. Texto para a questão 3. 1 – Pajeú (?-1897): Revolucionário brasileiro nascido em Pernambuco e falecido em Canudos, Bahia. Um dos líderes militares da Guerra de Canudos, foi hábil estrategista, derrotando várias vezes, com táticas de guerrilha, as forças federais. 2 – Cabeleira (1751-1776): Considerado por muitos pesquisadores como o primeiro grande cangaceiro. Ao lado do pai, assombrou Pernambuco com assaltos e mortes. Sua história foi contada no livro O Cabeleira, de Franklin Távora, precursor do romance regionalista brasileiro. Personagem também presente na literatura de cordel. 3. De que trata o poema “Nordeste”? RESOLUÇÃO: Trata da apresentação de uma espécie de painel das peculiaridades que diferenciam o Nordeste das demais regiões brasileiras e também, do ponto de vista do eu lírico, das características da região merecedoras de louvação. São elas: o clima marcado pelas temidas secas e pelas abençoadas estações chuvosas; algumas das mais relevantes personagens históricas do Nordeste: Pajeú, Cabeleira e Lampião; a paisagem nordestina (“Sertão”, “Pedra Bonita”), além da religiosidade onipresente da população, na qual se inclui o próprio eu lírico (“vamos dar graças a Nosso Senhor”, “Terra de Deus”). Texto para a questão 4. 4. Segundo o poema, qual é a causa da perda da identidade da negra Joaquina Maluca? RESOLUÇÃO: Essa escrava enlouqueceu para esquecer toda a experiência dolorosa por que passou na condição de objeto sexual. NORDESTE Nordeste, terra de São Sol! Irmã enchente, vamos dar graças a Nosso Senhor, que a minha madrasta Seca torrou seus anjinhos para os comer. São Tomé passou por aqui? Passou, sim senhor! Pajeú1! Pajeú! Vamos lavar Pedra Bonita, meus irmãos, com o sangue de mil meninos, amém! D. Sebastião ressuscitou! S. Tomé passou por aqui? Passou, sim senhor. Terra de Deus! Terra de minha bisavó que dançou uma valsa com D. Pedro II. São Tomé passou por aqui? Tranca a porta, gente, Cabeleira2 aí vem! Sertão! Pedra Bonita! Tragam uma virgem para D. Lampião! (Jorge de Lima, Poemas Negros) JOAQUINA MALUCA Joaquina Maluca, você ficou lesa não sei por que foi! Você tem um resto de graça menina, na boca, nos peitos, não sei onde é... Joaquina Maluca, você ficou lesa, não é? Talvez para não ver o que o mundo lhe faz. Você ficou lesa, não foi? Talvez pra não ver o que o mundo lhe fez. Joaquina Maluca, você foi bonita, não foi? Você tem um resto de graça menina não sei onde é... Tão suja de vício, nem sabe o que o foi. Tão lesa, tão pura, tão limpa de culpa, nem sabe o que é! (Jorge de Lima, Poemas Negros) – 25 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 25 26 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS Leia o poema de Murilo Mendes (1901-1975) para responder às questões 5 e 6: 1 – Apascentar: vigiar no pasto; pastorear. 5. (UNESP-2018) a) Explique por que se pode afirmar que o verso inicial desse poema opera uma perturbação ou quebra do discurso lógico. RESOLUÇÃO: O verso inicial quebra o discurso lógico porque os pianos foram considerados como seres animados, passíveis de terem liberdade e se movimentarem numa planície deserta, como animais que correm quando soltos. b) Na segunda estrofe, verifica-se a personificação dos pianos. Que outro elemento também é personificado nessa estrofe? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: Ocorre personificação das rosas, pois, além de essas flores serem migradoras, elas acompanham o eu lírico na função de pastorear os pianos no campo. 6. (UNESP-2018) a) O crítico literário Antônio Cândido caracterizou esse poema como uma “pastoral fantástica”. Tal caracterização alude a qual escola literária? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: A expressão “pastoral fantástica” remete tanto ao Arcadismo ou Neoclassicismo (e, antes dele, à poesia bucólica greco-latina), quanto ao Surrealismo. O gênero pastoral consiste na abordagem idealizada da vida de pastores e o Surrealismo, vanguarda do Modernismo, apresenta como característica o ilógico, o nonsense, com elementos visionários e oníricos, como se observa nos versos “Vejo ao longe com alegria meus pianos / recortarem vultos monumentais / contra a lua”. b) Identifique duas características que permitem vincular esse poema ao movimento modernista. RESOLUÇÃO: Os versos livres, sem métrica, a paródia da tradição literária (a retomada da poesia bucólica do Arcadismo ou Neoclassicismo) e a influência da teoria psicanalítica freudiana na literatura, rompendo com a lógica, são características da vanguarda modernista, iconoclasta não só em relação ao passado literário, como também quanto ao uso da razão para captar a realidade. Embora muitos candidatos possam ter mencionado os versos brancos (sem rima), esse tipo de verso já era usado na poesia do século XVIII, como exemplifica a obra O Uraguai, de Basílio da Gama, publicada em 1769. O PASTOR PIANISTA Soltaram os pianos na planície deserta Onde as sombras dos pássaros vêm beber. Eu sou o pastor pianista, Vejo ao longe com alegria meus pianos Recortarem os vultos monumentais Contra a lua. Acompanhado pelas rosas migradoras Apascento1 os pianos: gritam E transmitem o antigo clamor do homem Que reclamando a contemplação, Sonha e provoca a harmonia, Trabalha mesmo à força, E pelo vento nas folhagens, Pelos planetas, pelo andar das mulheres, Pelo amor e seus contrastes, Comunica-se com os deuses. (As Metamorfoses) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 26 – 27 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S 1. (FUVEST-SP) – Leia o trecho de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, para, em seguida, responder ao que se pede: a) O trecho pertence à parte de Vidas Secas intitulada “Festa”, na qual se narra a ida da família de sertanejos, acompanhada da cachorra Baleia, à cidade, onde deve participar de uma festividade pública. Considerada esta questão no contexto do livro, como se passa essa participação e o que ela mostra a respeito da socialização da família? RESOLUÇÃO: [FUVEST-SP-2017] O trecho em análise apresenta a família de Fabiano indo à cidade para acompanhar os festejos de Natal. O primeiro fato que chama a atenção é o caráter inusitado dessa participação, pois Fabiano e família não se socializam, ou seja, não interagem com os outros. Essa inadaptação reforça a marginalidade da família. Um dos exemplos é a incapacidade dos meninos de articularem uma linguagem e até de entenderem o que se passa à volta deles. Outro exemplo que ganha destaque, no excerto, é o protagonista sofrer muito para calçar suas botinas. Tais fatores servem para criar um contexto que revela a dificuldade de socialização das personagens de Vidas Secas, o que contribui para caracterizá-las como párias, vítimas de exclusão social. É por causa disso tudo que, no decorrer da festa, há um anticlímax. Fabiano e família estão alienados em relação ao festejo e até a cadela Baleia considera estranhaa quantidade de pessoas. b) O tratamento narrativo dado aos eventos apresentados no trecho confere a ele um tom que contrasta com o que é dominante, no conjunto de Vidas Secas. Qual é esse tom? Explique sucintamente. RESOLUÇÃO: [FUVEST-SP-2017] O excerto destacado apresenta a família de Fabiano preparando-se para o festejo de Natal num povoado nordestino. Assim, esse evento acaba servindo para mostrar essas personagens no esforço de assumir elementos civilizadores: a prática de higiene pessoal e a preocupação com a indumentária. Essa tentativa de integração social e civilizatória contrasta com a secura existencial a que estão submetidos os protagonistas no conjunto do romance, já que são apresentados como párias, seres alijados da sociedade. Aí Fabiano parou, sentou-se, lavou os pés duros, procurando retirar das gretas fundas o barro que lá havia. Sem se enxugar, tentou calçar-se — e foi uma dificuldade: os calcanhares das meias de algodão formaram bolos nos peitos dos pés e as botinas de vaqueta resistiram como virgens. Sinha Vitória levantou a saia, sentou-se no chão e limpou-se também. Os dois meninos entraram no riacho, esfregaram os pés, saíram, calçaram as chinelinhas e ficaram espiando os movimentos dos pais. Sinha Vitória aprontava- se e erguia-se, mas Fabiano soprava arreliado. Tinha vencido a obstinação de uma daquelas amaldiçoadas botinas; a outra emperrava, e ele, com os dedos nas alças, fazia esforços inúteis. Sinha Vitória dava palpites que irritavam o marido. Não havia meio de introduzir o diabo do calcanhar no tacão. A um arranco mais forte, a alça de trás rebentou-se, e o vaqueiro meteu as mãos pela borracha, energicamente. Nada conseguindo, levantou-se resolvido a entrar na rua assim mesmo, coxeando, uma perna mais comprida que a outra. Com raiva excessiva, a que se misturava alguma esperança, deu uma patada violenta no chão. A carne comprimiu-se, os ossos estalaram, a meia molhada rasgou-se e o pé amarrotado se encaixou entre as paredes de vaqueta. Fabiano soltou um suspiro largo de satisfação e dor. MÓDULO 99 Literatura e Análise de Textos Literários – VI REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 27 28 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS Texto para a questão 2. 2. (FUVEST-SP) – Considere as seguintes afirmações sobre este trecho de Vidas Secas, entendido no contexto da obra, e responda ao que se pede: a) No trecho, torna-se claro que a escassez vocabular do menino contribui de modo decisivo para ampliar as diferenças que distinguem homens de animais. Você concorda com essa afirmação? Justifique, com base no trecho, sua resposta. RESOLUÇÃO: A afirmação não é procedente, pois, ao contrário, a escassez vocabular do menino contribui de modo decisivo para diminuir as diferenças que distinguem homens de animais, como se evidencia tanto na passagem “tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio”, como no fato de o menino se comunicar por meio de “exclamações e de gestos”, tal como a cadela que lhe abana o rabo. b) Neste trecho, como em outros do mesmo livro, é por exprimir suas emoções e sentimentos pessoais a respeito da pobreza sertaneja que o narrador obtém o efeito de contagiar o leitor, fazendo com que ele também se emocione. Você concorda com a afirmação? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: Não há apelo à emoção, pois o narrador de Vidas Secas não se envolve emocionalmente com os fatos que representa. Seu relato, segundo os princípios realistas (o romance de Graciliano Ramos filia-se ao Neorrealismo, que substituiu o experimentalismo modernista da Primeira Geração), é objetivo e mantém neutralidade com relação aos fatos relatados, a qual, em vez de diminuir, intensifica a análise racional do leitor perante o quadro representado. 3. (FUVEST-SP – adaptada) – Leia os itens seguintes e responda ao que se pede: a) Apesar de quase atrofiadas na sua rusticidade, as personagens de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, conservam um filete de investigação da interioridade: cada uma delas se perscruta, reflete, tenta compreender a si e ao mundo, ajustando-o à sua visão. Você considera essa afirmação correta? Justifique brevemente a sua resposta. RESOLUÇÃO: A afirmação é correta, pois esse “filete de investigação da interioridade” é um recurso de que se vale o narrador, por meio do uso do discurso indireto livre, para trazer à tona a linguagem mental de Fabiano e de sua família. b) A dureza do clima, que se manifesta principalmente nas grandes secas periódicas, explica todas as aflições de Fabiano e de sinha Vitória, ao longo da narrativa de Vidas Secas? Justifique a sua resposta. RESOLUÇÃO: A dureza do clima não explica todas as aflições de Fabiano e família, pois as dificuldades que enfrentam não se restringem ao clima e à paisagem. Tais dificuldades decorrem de uma “secura” existencial, linguística e social, advinda de fatores políticos, econômicos e culturais. As aflições de Fabiano derivam, por exemplo, da violência que sofre por parte do Soldado Amarelo (símbolo da autoridade opressora), assim como da incapacidade de comunicação do vaqueiro. O pequeno sentou-se, acomodou nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história. Tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morrera no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de gestos, e Baleia respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis de entender. (Graciliano Ramos, Vidas Secas) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 28 – 29 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S 4. (UNICAMP-SP) – Leia os seguintes trechos de O Cortiço e Vidas Secas: a) Ambos os trechos são narrados em terceira pessoa. Apesar disso, há uma diferença de pontos de vista na aproximação das personagens com o mundo animal e vegetal. Que diferença é essa? RESOLUÇÃO: Em O Cortiço, a aproximação entre o mundo humano e o mundo animal e vegetal decorre unicamente da perspectiva do narrador, pois as personagens são completamente alheias a tal relação. Em Vidas Secas, ao contrário, procede da própria consciência da personagem a sua identificação com o mundo animal, expressa por meio do discurso indireto livre. b) Explique como essa diferença se associa à visão de mundo expressa em cada romance. RESOLUÇÃO: Na visão naturalista, presente em O Cortiço, trata-se de uma visão degradante da humanidade, cujos instintos e apetites são invariavelmente associados a formas “baixas” da natureza. Em Vidas Secas, diferentemente, o rebaixamento da personagem, sua assimilação ao mundo animal, não é visto como algo inerente à humanidade, mas como produto de uma sociedade degradante em sua injustiça. Para Fabiano, porém, chega a ser motivo de orgulho reconhecer-se como “um bicho, capaz de vencer dificuldades”. O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. (...) Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra. (AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. Ficção Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 462.) Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos — e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera. (...) — Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardarcoisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra. Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: — Você é um bicho, Fabiano. Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades. Chegara naquela situação medonha — e ali estava, forte, até gordo, fumando seu cigarro de palha. — Um bicho, Fabiano. (...) Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado (RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro: Editora Record, 2007, p. 18-19.) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 29 30 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS 5. (UNICAMP-SP) – Leia os textos a seguir e responda ao que se pede: a) Nos excertos citados, a seca e a falta de educação formal afetam a existência das personagens. Levando em conta o caráter crítico e político do romance, relacione o problema da seca com a questão da escolarização no que diz respeito à personagem Fabiano. RESOLUÇÃO: Fabiano é um sertanejo nordestino, miserável e flagelado pela seca, que o força periodicamente a se tornar nômade, retirante. Nesse contexto, a questão mais importante para ele é lutar por sua sobrevivência em um ambiente marcado pela injusta distribuição de terra (e de renda). Nessas condições, a educação formal acaba sendo deixada de lado, o que, de acordo com o enredo de Vidas Secas, atrofia a capacidade intelectual dessa personagem, assim como a de seus familiares. A consequência final desses sofrimentos é a incapacidade de compreensão do mundo em que se encontra, o que abre caminho para a exploração e a opressão a que Fabiano e seus familiares se veem recorrentemente submetidos. b) “Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares.” Descreva uma passagem do romance em que, por não saber ler e escrever, Fabiano é prejudicado e não consegue se defender. RESOLUÇÃO: Conforme explicitado no item anterior, as condições sociais a que Fabiano fora submetido impediram-no de obter uma educação formal, o que, na lógica de Vidas Secas, atrofiou sua capacidade intelectual e, consequentemente, seu domínio da linguagem. Dessa forma, essa personagem acaba sendo prejudicada por não saber argumentar e defender-se de maneira eficiente. Um exemplo disso está no capítulo “Cadeia”, em que a personagem não consegue desvencilhar-se do desentendimento com o Soldado Amarelo, que não só humilhou o vaqueiro, como também foi responsável pelo fato de o protagonista ter apanhado e passado a noite na prisão. Outro exemplo está no capítulo “Contas”, em que Fabiano, ao perceber que recebera do patrão bem menos do que esperava, não consegue fazer valer a sua reivindicação, deixando-se ser explorado. Um dia... Sim, quando as secas desaparecessem e tudo andasse direito... Seria que as secas iriam desaparecer e tudo andar certo? Não sabia. (RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 118. ed., Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 25.) Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares. O demônio daquela história entrava-lhe na cabeça e saía. Era para um cristão endoidecer. Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la. Impossível, só sabia lidar com bichos. (RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 118. ed., Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 35.) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 30 – 31 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S 1. (UNICAMP-SP) – Leia o soneto abaixo, de Luís de Camões: a) Uma oposição espacial configura o tema e o significado deste poema de Camões. Identifique essa oposição, indicando o seu significado para o conjunto dos versos. RESOLUÇÃO: Há oposição espacial e de sentido entre Babilônia e Sião. Babilônia, o local onde o eu lírico se encontra (“Cá nesta Babilônia donde mana / matéria a quanto mal o mundo cria”), refere-se à passagem bíblica que relata o exílio e a escravidão dos judeus. No contexto do poema, simboliza o mal, o mundo materialista, profanado, vil. Sião, o local sublime, é também passagem bíblica do Velho Testamento. É a terra prometida, a Jerusalém celestial. No contexto do poema, metaforiza o mundo ideal, nobre, sublime. Frise-se que o eu lírico, situado no mundo inferior, Babilônia, aspira ao mundo ideal, Sião. Esse soneto, estruturado numa alegoria bíblica, retoma o conflito central da poesia camoniana: a oposição entre o mundo platônico, ideal, do conhecimento, e o mundo inferior, o da realidade sensorial. b) Identifique nos tercetos duas expressões que contemplam a noção de desconcerto, fundamental para a compreensão do tema do soneto e da lírica camoniana. RESOLUÇÃO: A noção de desconcerto pode ser observada nas expressões “labirinto” e “caos”, que remetem ao mundo sombrio, sensorial, decadente, onde valores de toda a ordem são aviltados. Leia o soneto “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, do poeta português Luís Vaz de Camões (1525?-1580), para responder às questões de 2 a 5: 1 – Esperança: esperado. 2 – Mor: maior. 3 – Soer: costumar (soía: costumava). Cá nesta Babilônia, donde mana matéria a quanto mal o mundo cria; cá donde o puro Amor não tem valia, que a Mãe, que manda mais, tudo profana; cá, onde o mal se afina e o bem se dana, e pode mais que a honra a tirania; cá, onde a errada e cega Monarquia cuida que um nome vão a desengana; cá, neste labirinto, onde a nobreza com esforço e saber pedindo vão às portas da cobiça e da vileza; cá neste escuro caos de confusão, cumprindo o curso estou da natureza. Vê se me esquecerei de ti, Sião! (Disponível em: http:/www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000164.pdf. Acesso em: 08 set. 2015.) Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança1; do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem — se algum houve —, as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria, e enfim converte em choro o doce canto. E, afora este mudar-se cada dia, outra mudança faz de mor2 espanto: que não se muda já como soía3. (Sonetos) MÓDULO 11 00 Análise de Texto – I REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 31 32 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS 2. (UNESP) – Considere as seguintes citações: Quais das citações aproximam-se tematicamente do soneto camoniano? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: [UNESP-2017] As citações que se aproximam do tema do soneto camoniano são a 1 e a 4. No texto de Heráclito (1), há referência à mutabilidade do meio e do próprio homem. Essa instabilidade aparece no tema do soneto já na primeira estrofe. A frase de Sêneca (4) também converge para o sentido do poema. O vaivém das coisas e seres em geral acaba, pelo capricho da sorte, transformando uma situação no seu oposto, como se constata, por exemplo, nos versos “Continuamente vemos novidades / diferentes em tudo da esperança” (...); “o tempo cobre o chão de verde manto / que já coberto foi de neve fria / e enfim converte em choro o doce canto”. 3. (UNESP) – Em um determinado trecho do soneto, o eu lírico assinala a passagem de uma estação do ano para outra. Transcreva os versos em que isso ocorre e identifique as estações a que eles fazem referência. Para o eu lírico, tal passagem constitui um evento aprazível? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: [UNESP-2017] O trecho do soneto no qual se assinala a passagem de uma estação do ano para outra é: “O tempo cobreo chão de verde manto, / que já coberto foi de neve fria”. A expressão “verde manto” refere-se à primavera, subsequente ao inverno, representado pelas palavras “neve fria”. A mudança de estação indicada pelo eu lírico não ilustra uma alteração aprazível, pois o terceiro verso da terceira estrofe afirma que a passagem do tempo “converte em choro o doce canto”. 4. (UNESP) – Elipse: figura de sintaxe pela qual se omite um termo da oração que o contexto permite subentender. (Domingos Paschoal Cegalla, Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, 2009. Adaptado.) Transcreva o verso em que se verifica a elipse do verbo. Identifique o verbo omitido nesse verso. Para o eu lírico, qual das mudanças assinaladas ao longo do soneto lhe causa maior perplexidade? Justifique sua resposta, com base no texto. RESOLUÇÃO: [UNESP-2017] A omissão mais flagrante do verbo ocorre no quarto verso da segunda estrofe: “e do bem — se algum houve —, as saudades”. Trata- se de zeugma, pois o verbo ficar, que aparece no verso anterior, foi omitido e, em seu lugar, foi empregada uma vírgula: e do bem — se algum houve — [ficam] as saudades. Pode-se também considerar a elipse do verbo no segundo verso da segunda estrofe, “diferentes em tudo da esperança”, em que o verbo ser, que aparece na estrofe anterior, foi omitido: “novidades / [que são] diferentes em tudo da esperança”. A mudança que causa maior espanto ao eu lírico aparece no último verso: “que não se muda já como soía”, ou seja, a mudança já não ocorre como costumava, indicando que até a própria mudança está à mercê de transformação. 5. (UNESP) – A sinestesia (do grego syn, que significa “reunião”, “junção”, “ao mesmo tempo”, e aisthesis, “sensação”, “percepção”) designa a transferência de percepção de um sentido para outro, isto é, a fusão, num só ato perceptivo, de dois sentidos ou mais. (Massaud Moisés, Dicionário de Termos Literários, 2004. Adaptado.) Transcreva o verso em que se verifica a ocorrência de sinestesia. Justifique sua resposta. Reescreva o verso da terceira estrofe “que já coberto foi de neve fria”, adaptando-o para a ordem direta e substituindo o pronome “que” pelo seu referente. RESOLUÇÃO: [UNESP-2017] O verso em que ocorre sinestesia é “e enfim converte em choro o doce canto”. Na expressão “doce canto”, há fusão da sensação gustativa (“doce”) com a auditiva (“canto”). Na ordem direta, substituindo- se o pronome relativo “que” pelo seu referente, tem-se: “o chão já foi coberto de neve fria”. [Para o professor: numa ordem rigorosamente direta, tem-se: “o chão foi coberto de neve fria já”.] 1. “Não podemos entrar duas vezes no mesmo rio: suas águas não são nunca as mesmas e nós não somos nunca os mesmos.” – Heráclito (550 a.C.-480 a.C.) 2. “A breve duração da vida não nos permite alimentar longas esperanças.” – Horácio (65 a.C.-8 a.C.) 3. “O melhor para o homem é viver com o máximo de alegria e o mínimo de tristeza, o que acontece quando não se procura o prazer em coisas perecíveis.” – Demócrito (460 a.C.-370 a.C.) 4. “Toda e qualquer coisa tem seu vaivém e se transforma no contrário ao capricho tirânico da fortuna.” – Sêneca (4 a.C.-65 d.C.) 5. “Uma vez que a vida é um tormento, a morte acaba sendo para o homem o refúgio mais desejável.” – Heródoto (484 a.C.-430 a.C.) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 32 – 33 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S Texto para as questões 6 e 7. 1 – De que valerá tanto sofrimento pelo pouco viver que ainda tenho? 6. O tema dos versos é o sofrimento amoroso causado pela saudade da amada falecida. a) Quem é o interlocutor do eu lírico na primeira e na última estrofe? RESOLUÇÃO: A princípio, o eu lírico dirige-se à interlocutora: “Ah, minha Dinamene” ou “Ah, Ninfa minha”. Entretanto, na terceira estrofe, ele parece conscientizar-se de que a morte o impede de comunicar-se com ela: “Nem falar-te somente a dura morte / me deixou”. A partir de então, na quarta estrofe, dilui seu interlocutor entre elementos simbólicos como o “mar”, onde ela morreu; o “céu”, onde ela está, e a “escura sorte”, o destino cruel: “Ó mar, ó Céu, ó minha escura sorte!”. b) A partir do texto, é correto afirmar que a lírica de Camões se insere no Maneirismo, tendência artística do momento em que o homem renascentista, aos poucos, vai substituindo a euforia, o colorido, a autoconfiança pela consciência da brevidade da vida, pela dúvida e pela angústia presentes no estilo barroco? RESOLUÇÃO: Sim, essa afirmação é pertinente, pois a temática do texto é a impotência diante do destino. O eu lírico mostra-se depressivo, pessimista diante de opostos inconciliáveis, como o eterno amor que cultiva e a efêmera existência da mulher amada. As tensões existenciais e amorosas aproximam-se do maneirismo. 7. O neoplatonismo associa o mundo das ideias de Platão ao saber cognitivo. Essa idealização encontra respaldo na espiritualidade, na metafísica do cristianismo. Segundo Platão, a alma pertenceria a outro mundo — o inteligível: onde há ideias puras, beleza plena, felicidade absoluta, perfeição — e seria, temporariamente, prisioneira do corpo, sujeita à existência material — mundo sensível: um flagelo, pois o homem está entregue às contingências do destino (desastres, doenças, perdas, paixões etc.). Assim, a dor é inevitável neste mundo, o que torna o ser humano melancólico: a alma vive a nostalgia do suposto “paraíso” de onde veio. a) Na primeira estrofe, como o poeta vê o amor e a amada? Cite expressões do poema que justifiquem sua resposta. RESOLUÇÃO: Mesmo ao tratar de um caso particular, biográfico, Camões interpreta suas experiências amorosas à luz do neoplatonismo, pois tanto a mulher como o amor pertencem ao campo semântico do mundo inteligível, da eternidade. A amada é envolvida por uma aura de beleza e perfeição que a tornam sobre-humana, idealizada, uma “Ninfa”. Também o amor pertence ao mundo das ideias, do absoluto, do infinito, segundo se vê no modo como o eu lírico se apresenta, como possuidor de um amor que duraria para sempre: “Quem não deixara nunca de querer-te!” (o pretérito mais-que- perfeito foi empregado como futuro do pretérito do indicativo). b) O eu lírico sente-se, de algum modo, traído pelo destino da amada, ao supor que ela se teria deixado levar pelas ondas e pela morte. De que modo esse infortúnio se opõe à visão que o eu poético tem do amor e da amada na primeira estrofe? RESOLUÇÃO: O eterno amor que o eu lírico cultiva por Dinamene choca-se com a realidade: a efêmera existência da mulher amada. Por isso, sente-se traído. Em sua concepção neoplatônica, ela, tão perfeita e sobre-humana, não poderia morrer, principalmente não poderia ignorar a dor que causaria a ele. Daí seus questionamentos na segunda e terceira estrofes: “Puderam estas ondas defender-te / que não visses quem tanto magoaste?”; “tão cedo o negro manto / em teus olhos deitado consentiste!” Ah, minha Dinamene, assi deixaste quem não deixara nunca de querer-te! Ah, Ninfa minha, já não posso ver-te, tão asinha esta vida desprezaste! depressa Como já para sempre te apartaste de quem tão longe estava de perder-te? Puderam estas ondas defender-te que não visses quem tanto magoaste? Nem falar-te somente a dura morte me deixou, que tão cedo o negro manto em teus olhos deitado consentiste! Ó mar, ó Céu, ó minha escura sorte! Que pena sentirei que valha tanto, que ainda tenho por pouco o viver triste1? (Camões) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 33 34 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS 1. (FUVEST-SP) – No breve “Prólogo da 3.ª edição” das Memórias Póstumas de Brás Cubas, assinado pelo autor, Machado de Assis, constava o seguinte trecho: Considerando este trecho no contexto da obra à qual se incorpora, atenda ao que se pede: a) Identifique um aspecto das Memórias Póstumas de Brás Cubas capazde ter suscitado a dúvida expressa por Capistrano de Abreu. Explique resumidamente. RESOLUÇÃO: O conceito tradicional de romance — ao qual Capistrano de Abreu parece ter-se apegado — é o de um texto em prosa no qual se narram fatos que giram em torno de uma aventura. Memórias Póstumas de Brás Cubas, entretanto, livro que se caracteriza por um estilo digressivo, desvia-se desse padrão. Além disso, a autobiografia de Brás Cubas resulta no relato de uma vida vazia, supostamente sem acontecimentos suficientemente interessantes para uma narrativa convencional. b) Em que consistem os “lavores de igual escola”, a que se refere o autor, no final do trecho? Explique sucintamente. RESOLUÇÃO: Machado de Assis chama “lavores de igual escola” as técnicas narrativas que também se encontram em Laurence Sterne, Xavier de Maistre e Almeida Garrett, sobretudo o estilo digressivo — em que não há compromisso com a linearidade narrativa — e o diálogo com o leitor, no qual o emissor assume um tom irônico, zombeteiro, às vezes inferiorizando o seu receptor. Capistrano de Abreu, noticiando a publicação do livro, perguntava: “As Memórias Póstumas de Brás Cubas são um romance?” Macedo Soares, em carta que me escreveu por esse tempo, recordava amigamente as Viagens na Minha Terra. Ao primeiro respondia já o defunto Brás Cubas (como o leitor viu e verá no prólogo dele que vai adiante) que sim e que não, que era romance para uns e não o era para outros. Quanto ao segundo, assim se explicou o finado: “Trata-se de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo”. Toda essa gente viajou: Xavier de Maistre à roda do quarto, Garrett na terra dele, Sterne na terra dos outros. De Brás Cubas se pode talvez dizer que viajou à roda da vida. O que faz do meu Brás Cubas um autor particular é o que ele chama “rabugens de pessimismo”. Há na alma deste livro, por mais risonho que pareça, um sentimento amargo e áspero, que está longe de vir dos seus modelos. É taça que pode ter lavores de igual escola, mas leva outro vinho. Machado de Assis MÓDULO 11 11 Análise de Texto – II REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 34 – 35 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S 2. (FUVEST-SP) – No excerto abaixo, narra-se parte do encontro de Brás Cubas com Quincas Borba, quando este, reduzido à miséria, mendigava nas ruas do Rio de Janeiro: 1 – “In hoc signo vinces!”: citação em latim que significa “Com este sinal, vencerás” (frase que teria aparecido no céu, junto de uma cruz, ao imperador Constantino, antes de uma batalha). a) Tendo em vista a autobiografia de Brás Cubas e as considerações que ao longo de suas Memórias Póstumas ele tece a respeito do tema do trabalho, comente o conselho que, no excerto, ele dá a Quincas Borba: “— Trabalhando, concluí eu.” RESOLUÇÃO: É um conselho meramente retórico e hipócrita, não correspondendo à trajetória de vida de Brás Cubas. Constata-se, nas memórias do narrador, que ele é membro da elite brasileira do Segundo Reinado, totalmente avessa ao trabalho. Vive dos privilégios e vale-se da influência do pai. No último capítulo, Brás Cubas gaba-se da vida no ócio: “coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto.” b) Tendo agora como referência a história de D. Plácida, contada no livro, discuta sucintamente o mencionado conselho de Brás Cubas. RESOLUÇÃO: D. Plácida trabalhara com afinco durante toda a vida e nunca conseguira sair da pobreza, chegando até a cair na miséria. Dessa forma, o conselho de Brás Cubas, além de hipócrita do ponto de vista pessoal, revela-se insuficiente do ponto de vista social. Texto para as questões de 3 a 8. 3. (FUVEST-SP) a) Este trecho remete a episódio anterior, da mesma obra, no qual interagem Brás Cubas e Prudêncio, então crianças. Compare sucintamente os papéis que as personagens desempenham nesses episódios. RESOLUÇÃO: O trecho apresentado (capítulo LXVIII, “O Vergalho”) faz referência ao capítulo XI, “O Menino é Pai do Homem”, em que Brás Cubas, ao relatar sua infância, conta-nos que humilhava o então escravo Prudêncio, fazendo- o de montaria. No primeiro episódio, o narrador era o opressor, enquanto Prudêncio era o oprimido. Já liberto, Prudêncio compra um escravo, tornando-se agora o opressor, pois passa a “descontar” no infeliz tudo o que havia sofrido quando criança. Curiosamente, chega até a usar a mesma frase — “Cala a boca, besta!” — que havia ouvido na sua época de cativeiro. Dessa forma, nota-se que Prudêncio, vítima de um sistema escravista, acaba fortalecendo-o, ao reproduzir as injustiças a que fora submetido. CAPÍTULO LXVIII / O VERGALHO Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: — “Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!” Mas o primeiro não fazia caso e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova. — Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado! — Meu senhor! gemia o outro. — Cala a boca, besta! replicava o vergalho. Parei, olhei... Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio, — o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu- me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele. — É, sim, nhonhô. — Fez-te alguma cousa? — É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber. — Está bom, perdoa-lhe, disse eu. — Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado! Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um bom capítulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio, achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, — transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia- lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto! (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas) Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil-réis, — a menos limpa, — e dei-lha [a Quincas Borba]. Ele recebeu-ma com os olhos cintilantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a entusiasmado. — In hoc signo vinces!1 bradou. E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa expansão, que me produziu um sentimento misto de nojo e lástima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou sério, grotescamente sério, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não via, desde muitos anos, uma nota de cinco mil-réis. — Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu. — Sim? acudiu ele, dando um bote para mim. — Trabalhando, concluí eu. (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 35 36 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS b) Neste trecho, a variedade linguística utilizada pelas personagens contribui para caracterizá-las? Explique brevemente. RESOLUÇÃO: As variedades linguísticas empregadas conseguem de fato caracterizar onível social das personagens. Brás Cubas demonstra pertencer à classe alta quando utiliza a norma culta, bem percebida pela ênclise em “Fez-te” e “Perdoa-lhe”. Prudêncio demonstra pertencer à classe baixa, ao empregar a variante coloquial, em termos como nhonhô; no emprego do pronome pessoal ele em “deixei ele na quitanda”, quando o padrão gramatical pede “deixei-o na quitanda”; na utilização da preposição em como regime do verbo ir (“para ir na venda”), quando a norma culta exige a (“para ir à venda”). 4. Brás Cubas é o Nhonhô em questão. Qual a origem e o significado da palavra nhonhô? RESOLUÇÃO: A palavra nhonhô é uma corruptela da forma senhor, tratamento que os escravos davam a seus donos. A forma nhonhô revela submissão e afetividade. 5. (FUVEST-SP) a) O capítulo em questão mostra um autor preocupado com a instituição escravista ou apenas preocupado em revelar formas do comportamento humano? RESOLUÇÃO: O narrador revela as formas do comportamento humano, mostrando a maldade, o sadismo, o ressentimento, a violência, acentuados pela sociedade escravista. A história narrada exemplifica um mecanismo perverso já observado em outras situações: o ex-escravo comporta-se segundo uma lógica aparentemente contraditória: o indivíduo oprimido, quando obtém poder, reproduz o comportamento do opressor. b) Justifique sua resposta com elementos do texto. RESOLUÇÃO: No texto, as passagens, entre outras, que poderiam ser citadas como justificativas ao item anterior são: “era um preto que vergalhava outro na praça” e “Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, — transmitindo-as a outro. (...) Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera.” REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 36 6. (FUVEST-SP) – O narrador diz que gosta dos capítulos alegres. a) O capítulo em questão é alegre? RESOLUÇÃO: O narrador-personagem considera “o miolo” deste capítulo gaiato, alegre. Pode-se notar, portanto, o humor machadiano, revestido de certa melancolia, resvalando para a ironia. b) Fundamente sua resposta. RESOLUÇÃO: A atitude de Prudêncio é paradoxal, absurda. Um ex-escravo compra um negro e inflige-lhe maus-tratos. Essa atitude, como se fosse uma regressão neurótica à infância, reveste-se de um ar maroto, com essência gaiata, chegando ao nonsense e ao sorriso melancólico, ao humor negro. 7. (FUVEST-SP) – “Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido...” a) A forma verbal sinto seria mais bem compreendida como percebo ou como lamento? RESOLUÇÃO: A forma verbal sinto seria mais bem compreendida como lamento. b) Qual a fundamentação que o contexto oferece para sua resposta? RESOLUÇÃO: O narrador lamenta ter perdido aquilo que poderia ter sido matéria para um bom capítulo, e “talvez alegre”. 8. (FUVEST-SP) – O dicionário informa que vergalho é o órgão genital dos bois e dos cavalos; depois de cortado e seco, é também o azorrague feito desse órgão. Qual o sentido que a palavra vergalho assume em cada uma destas frases? a) “— Cala a boca, besta! replicava o vergalho.” RESOLUÇÃO: A palavra vergalho foi empregada em sentido abrangente, indicando a pessoa que empunha o chicote, traduzindo a ideia de que o vergalho e o homem tornam-se o mesmo, numa relação metonímica. b) “Quem havia de ser o do vergalho?” RESOLUÇÃO: A palavra vergalho tem sentido próprio de “chicote, açoite”. – 37 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 37 38 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS Para responder às questões de 1 a 2, leia o segundo capítulo do romance Iracema, do escritor José de Alencar (1829-1877), publicado em 1865: 1 – Graúna: pássaro de cor negra. 2 – Jati: pequena abelha que fabrica delicioso mel. 3 – Oiticica: árvore frondosa. 4 – Aljôfar: pérola; por extensão: gota. 5 – Rorejar: banhar. 6 – Mangaba: fruto da mangabeira. 7 – Gará: ave de cor vermelha. 8 – Ará: periquito. 9 – Uru: pequeno cesto. 10 – Crautá: bromélia. 11 – Juçara: palmeira de grandes espinhos. 12 – Ignoto: que ou o que é desconhecido. 13 – Lesto: ágil, veloz. 14 – Uiraçaba: estojo em que se guardavam e transportavam as flechas. 1. (UNESP) – O modo como o narrador descreve a personagem Iracema está de acordo com os preceitos da estética romântica? Justifique sua resposta, valendo-se de três expressões retiradas do texto. RESOLUÇÃO: [UNESP-2017] No romance Iracema, de José de Alencar, a personagem homônima é descrita conforme as tendências idealizadoras e nacionalistas do Romantismo. No fragmento, Iracema é aproximada dos elementos da natureza brasileira, refletindo a edênica paisagem em que está inserida, ela é a “virgem dos lábios de mel”, caracterizada pelos “cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira”, pelo “sorriso mais doce do que o favo da jati”, por ser “mais rápida que a ema selvagem” e por ter “o pé grácil e nu” deslizando suavemente pela “verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas”. Enfim, Iracema é calcada no mito do bom selvagem de Rousseau, símbolo da América primitiva, e na extensão da beleza e da sensibilidade da terra brasileira. Os exemplos dessa idealização podem ser retirados de várias passagens do fragmento que vai do segundo até o sexto parágrafo. Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna1, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati2 não era doce como seu sorriso, nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas. Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica3, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto. Iracema saiu do banho: o aljôfar4 d’água ainda a roreja5, como à doce mangaba6 que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará7 as flechas de seu arco e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste. A graciosa ará8, sua companheira e amiga, brinca junto dela. Às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras, remexe o uru9 de palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá10, as agulhas da juçara11 com que tece a renda e as tintas de que matiza o algodão. Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se. Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas12 armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo. Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido. De primeiro ímpeto, a mão lesta13 caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida. O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba14 e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara.A mão que rápida ferira estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha15 homicida; deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada. O guerreiro falou: — Quebras comigo a flecha da paz? — Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? Donde vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu? — Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmãos já possuíram e hoje têm os meus. — Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Araquém, pai de Iracema. (Iracema) MÓDULO 11 22 Análise de Texto – III REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 38 – 39 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S 2. (UNESP) – Examine o seguinte trecho: “O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu” (12.° parágrafo). A quem se refere o pronome “eu”? Reescreva este trecho em ordem direta, substituindo o pronome “o” pelo seu referente. RESOLUÇÃO: [UNESP-2017] O pronome “eu” refere-se ao narrador, que no romance aparece, eventualmente, em primeira pessoa, ainda que, ao longo da narrativa, o foco seja de terceira pessoa. Em ordem direta, substituindo-se o pronome “o” pelo seu referente, “sentimento”, tem-se: Eu não sei o sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto. 3. (UNICAMP-SP) – Pensando nos pares amorosos, já se afirmou que “há n’O Cortiço um pouco de Iracema coada pelo Naturalismo” (Antônio Cândido, “De Cortiço em Cortiço”, em O Discurso e a Cidade, São Paulo: Duas Cidades, 1993, p. 142). Partindo desse comentário, leia o trecho a seguir e responda ao que se pede: a) Na descrição transcrita, identifique dois aspectos que permitem aproximar Rita Baiana de Iracema, mostrando os limites dessa semelhança. RESOLUÇÃO: Iracema, protagonista do romance homônimo de José de Alencar, e Rita Baiana, personagem de O Cortiço, assemelham-se porque são construídas como sínteses da natureza brasileira. Entretanto, se a primeira, como típica heroína romântica, é associada apenas a características enaltecedoras, idealizadas (“o favo da jati não era doce como o seu sorriso”, “mais rápida que a ema selvagem”), a segunda é ligada a elementos tanto positivos quanto negativos (“cobra amaldiçoada”, “voz arrogante”, “veneno”, O chorado arrastava-os a todos, despoticamente, desesperando aos que não sabiam dançar. Mas ninguém como a Rita; só ela, só aquele demônio tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante. (...) Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca. Isto era o que Jerônimo sentia, mas o que o tonto não podia conceber. De todas as impressões daquele resto de domingo só lhe ficou no espírito o entorpecimento de uma desconhecida embriaguez, não de vinho, mas de mel chuchurreado no cálice de flores americanas, dessas muito alvas, cheirosas e úmidas, que ele na fazenda via debruçadas confidencialmente sobre os limosos pântanos sombrios, onde as oiticicas trescalam um aroma que entristece de saudade. (...) E ela só foi ter com ele, levando-lhe a chávena fumegante da perfumosa bebida que tinha sido a mensageira dos seus amores; assentou-se ao rebordo da cama e, segurando com uma das mãos o pires e com a outra a xícara, ajudava-o a beber, gole por gole, enquanto seus olhos o acarinhavam, cintilantes de impaciência no antegozo daquele primeiro enlace. Depois, atirou fora a saia e, só de camisa, lançou-se contra o seu amado, num frenesi de desejo doido. (AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. Ficção Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 498 e 581.) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 39 40 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS “cobra verde e traiçoeira”). Outro ponto comum entre as duas personagens está na utilização que fazem de uma “poção” para consumar um processo de sedução: a primeira emprega o vinho da jurema; a segunda, o café. Há que se lembrar, no entanto, que a índia comete um sacrilégio ao usar a droga, pois a bebida era restrita a um ritual tabajara. O mesmo caráter pecaminoso não pode ser imputado a Rita Baiana. Pode-se ainda lembrar que a índia e a mulata, com seu “mel” (“lábios de mel”, no romance romântico, e “mel chuchurreado no cálice de flores americanas”, no naturalista), seduzem portugueses cujas “fibras” se encontram “embambecidas pela saudade da terra”. b) Identifique uma semelhança e uma diferença entre Jerônimo e Martim. RESOLUÇÃO: Martim e Jerônimo são portugueses que têm, pelo menos em parte da narrativa, saudade de sua terra natal, mas que acabam se radicando no Brasil. Esse processo de fixação é consequência do encantamento que sentem pelo novo mundo, metaforizado nas qualidades sedutoras das brasileiras que encontram, Iracema e Rita Baiana, respectivamente. Entretanto, Martim é uma personagem de estrato social nobre, pois é um grande guerreiro, ao contrário de Jerônimo, que é cavouqueiro, isto é, um simples quebrador de pedra. Além disso, o primeiro tem um caráter eminentemente passivo: não reage ao ser flechado por Iracema, é protegido por ela e Caubi diante da sanha ciumenta de Irapuã, e sua primeira relação sexual com a heroína se dá enquanto está drogado. O segundo, diferentemente, é bastante ativo: prepara uma emboscada para assassinar Firmo, namorado de Rita Baiana, e une-se conscientemente a ela. Por fim, pode-se ainda lembrar que Martim é um herói que luta para manter a integridade de seu caráter, enquanto Jerônimo, vencido pelo meio, torna- se alcoólatra e vagabundo, enche-se de dívidas e abandona esposa e filha à miséria. 4. (FUVEST-SP) – Leia o texto a seguir e responda ao que se pede: 1 – Rosbife: tipo de assado ou fritura de alcatra ou filé bovinos, bem tostado externamente e sangrante na parte central, servido em fatias. a) A imagem do “rosbife naturalista” — empregada, com humor, por Machado de Assis, para evocar determinadas características do Naturalismo — poderia ser utilizada também para se referir a certos aspectos do romance O Cortiço? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: O Cortiço, como é de esperar de uma obra naturalista, apresenta preocupação de exibir, sem eufemismo, rodeio ou censura, os aspectos mais degradantes do ser humano, o que é compatível com a imagem do rosbife, que é sangrento. Gente que mamou leite romântico pode meter o dente no rosbife1 naturalista; mas em lhe cheirando a teta gótica e oriental, deixa logo o melhor pedaço de carne para correr à bebida da infância. Oh! Meu doce leite romântico! (Machado de Assis, Crônicas) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 40 b) A imagem do “doce leite romântico”, que se refere a certos traços do Romantismo, pode remeter também a alguns aspectos do romance Iracema? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO:A expressão “doce leite romântico” refere-se à idealização da realidade, característica do Romantismo e presente em diversos aspectos de Iracema: a fidelidade extrema a um ideal de amor, a nobreza e a bravura dos guerreiros indígenas (que mais parecem cavaleiros medievais), o enaltecimento da natureza brasileira, o engrandecimento da amizade entre Martim e Poti, o convívio harmonioso entre portugueses e pitiguaras. 5. (FUVEST-SP) – Responda ao que se pede: a) Qual é a relação entre o “sistema de filosofia” do Humanitismo, tal como figurado nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e as correntes de pensamento filosófico e científico presentes no contexto histórico-cultural em que essa obra foi escrita? Explique resumidamente. RESOLUÇÃO: O Humanitismo, sistema filosófico destinado a arruinar todos os outros, segundo Quincas Borba, é uma crítica satírica às correntes filosóficas e científicas da segunda metade do século XIX, como o Evolucionismo e o Positivismo. Segundo Quincas Borba, a sobrevivência dos mais aptos é a força propulsora de todos os fenômenos humanos, daí a guerra ser uma calamidade conveniente, e a fome, uma provação. A máxima filosófica da Humanitas é “Vida é luta” e, desse combate, apenas os mais fortes saem vencedores, selecionando-se os aptos à vida, o que remete à teoria evolucionista de Darwin. Além disso, o Humanitismo ou Humanitas satiriza o Positivismo, segundo o qual o conhecimento científico é a única forma de saber verdadeiro, isto é, apenas os métodos científicos são válidos. Machado de Assis desconstrói o cientificismo da segunda metade do século XIX. b) De que maneira, em O Cortiço, de Aluísio Azevedo, são encaradas as correntes de pensamento filosófico e científico de grande prestígio na época em que o romance foi escrito? Explique sucintamente. RESOLUÇÃO: O Cortiço é apontado como exemplo bem acabado do Naturalismo, o que se percebe pela incorporação do pensamento filosófico e científico da época. Nota-se, nesse romance, a vinculação ao Determinismo, teoria que afirmava que a personalidade do homem seria condicionada por fatores como raça, meio e momento. O Determinismo rege a narrativa. Há ainda referências à Biologia Experimental, de Claude Bernard, nas imagens escatológicas, na concepção do homem como prisioneiro dos impulsos sexuais. O romance de tese ou experimental, narrativa que serve como demonstração de um caso a ser analisado cientificamente, dá-se, por exemplo, na história de Jerônimo como prova de que o meio seria capaz de comandar a natureza humana. Em certos casos, O Cortiço obedece a essa doutrina (Rita Baiana, como mestiça, seria “naturalmente” leviana); outras vezes, subverte-a (João Romão e Jerônimo, ambos brancos, portugueses e da segunda metade do século XIX, encontram destinos opostos: o primeiro continua, no Brasil, com caráter de europeu e de explorador; o segundo, abrasileira-se). – 41 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 41 42 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS Examine a tira do cartunista argentino Quino (1932- ) para responder à questão 1. 1. (UNESP-2018) a) Na tira, o que cada um dos dois grupos de pessoas representa? RESOLUÇÃO A dupla à esquerda da tira representa os ricos obcecados por consumo, os que dispõem de capi tal abundante, como indica a montanha de di nheiro onde estão sentados, são os “potentes e os prepotentes”. O grupo à direita é o dos pobres, aquele que não tem capital e vive da sobra, dos detritos que os ricos descartam. Esse grupo é o dos “impotentes” e marginalizados em relação aos bens de consumo. MÓDULO 11 33 Morfologia e Redação (I) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 42 – 43 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S b) Em português, empregamos a seguinte expressão: “o tiro saiu pela culatra”. Explicite o sentido dessa expressão e a relacione com a crítica veiculada pela tira. RESOLUÇÃO “Culatra” é a parte posterior ou o fecho do cano da arma de fogo"(Houaiss). A expressão “o tiro saiu pela culatra” é metafórica, tem o sentido de que algo saiu ao contrário do que se esperava. Há analogia com o fato de a bala de revólver não ir em direção ao alvo, mas sim no sentido de quem efetuou o disparo. Na tira, nota-se que o excesso de consumo e descarte por parte dos que têm dinheiro causa continuamente lixo e a consequente deterioração do meio ambiente, prejudicando os próprios ricos, que deitados, com roupa de banho, só podem contemplar a montanha de lixo que produziram, sem resolver as graves questões de desequilíbrio ambiental e social. Perdem inclusive o sol, porque só conseguem visualizar a miséria que ajudaram a produzir, o que acaba indo ao encontro do sentido das frase “o tiro saiu pela culatra”. 2. (UNESP-2017) – Examine a tira do cartunista argentino Quino (1932 - ). (Quino. A pequena filosofia da Mafalda, 2015. Adaptado.) Pelo conteúdo de sua redação, depreende-se que o personagem Manuel Goreiro (o “Manolito”), além de estudar, exerce outra atividade. Transcreva o trecho em que esta outra atividade se mostra mais evidente. No trecho “As lojas fecham mais tarde por quê não escurese mais tamcedo”, verificam-se alguns desvios em relação à norma- padrão da língua. Reescreva este trecho, fazendo as correções necessárias. Por fim, reescreva o trecho final da redação (“nós ficamos muito mais contentes com a primavera com a chegada dela”), desfazendo a redundância nele contida. RESOLUÇÃO: O trecho que evidencia de modo mais claro a profissão de Manolito é “a gente não vende mais nada”, em que ele se inclui como alguém que trabalha como atendente em um estabelecimento comercial. Em norma culta, o trecho deve ser assim reescrito: As lojas fecham mais tarde porque não escurece mais tão cedo. Desfazendo-se a redundância do trecho, tem-se: nós ficamos muito mais contentes com a chegada da primavera. Redação Tema: A Primavera A primavera pega e começa no dia 21 de setembro e termina quando todos começam as compras de Natal e Ano-Novo As plantas dão folhas e muitas flores e as Redação Tema: A Primavera A primavera pega e começa no dia 21 de setembro e termina quando todos começam as compras de Natal e Ano-Novo As plantas dão folhas e muitas flores e as pessoas já pedem mais ocacola e Pepsi etc... eC outras bebidas e cerveja e presunto também. As lojas fecham mais tarde por quê não escurese mais tamcedo como no inverno que as setemeia a gente não vende mais nada e em compensasão pessoas já pedem mais ocacola e Pepsi etc... eC outras bebidas e cerveja e presunto também. As lojas fecham mais tarde por quê não escurese mais tamcedo como no inverno que as setemeia a gente não vende mais nada e em compensasão a Primavera é a melhor estasão e todos nós ficamos muito mais contentes com a primavera com a chegada dela a Primavera é a melhor estasão e todos nós ficamos muito mais contentes com a primavera com a chegada dela REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 43 44 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS Leia o trecho do conto O alienista1, de Machado de Assis (1839-1908), para responder às questões 3 e 4. 3. (UNESP- junho-2018) a) Cite os referentes dos pronomes sublinhados no primeiro e no segundo parágrafos. RESOLUÇÃO O pronome oblíquo “se” refere-se a “Simão Bacamarte”; o pronome oblíquo “lhe” refere-se a “um modesto”. b) Transcreva dois pequenos excertos em que o narrador se dirige diretamente ao leitor. RESOLUÇÃO Nas passagens " Agora, se imaginais", " mostrais com isso que ainda não conheceis " e "Vede a diferença", o narrador dirige-se diretamente ao leitor, pois os verbos estão na segunda pessoa do plural, promovendo a interlocução com o receptor. 4. (UNESP- junho-2018)a) Transcreva o trecho “ele [vereador Galvão] obteve uma boa interpretação, corrompendo os juízes, e embaçando os outros herdeiros” (5.o parágrafo), substituindo os termos sublinhados por outros de sentido equivalente. RESOLUÇÃO “Corrompendo”, no contexto, pode ser substituído por “subornando, aliciando”; “embaçando”, por “atrapalhando, dificultando, complicando”. b) Transcreva o trecho “— Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a uma comadre” (3.o parágrafo) em discurso indireto e em ordem direta. RESOLUÇÃO Transpondo para discurso indireto o trecho em ordem direta tem-se: A mãe do infeliz contava a uma comadre que fora (ou tinha sido) um santo remédio. Era a vez da terapêutica. Simão Bacamarte, ativo e sagaz em descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligência e penetração com que principiou a tratá-los. Neste ponto todos os cronistas estão de pleno acordo: o ilustre alienista fez curas pasmosas, que excitaram a mais viva admiração em Itaguaí. Com efeito, era difícil imaginar mais racional sistema terapêutico. Estando os loucos divididos por classes, segundo a perfeição moral que em cada um deles excedia às outras, Simão Bacamarte cuidou em atacar de frente a qualidade predominante. Suponhamos um modesto. Ele aplicava a medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento oposto; e não ia logo às doses máximas, — graduava-as, conforme o estado, a idade, o temperamento, a posição social do enfermo. Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado; em outros casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de brilhantes, às distinções honoríficas, etc. Houve um doente, poeta, que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar da cura, quando teve ideia de mandar correr matraca, para o fim de o apregoar como um rival de Garção2 e de Píndaro3. — Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a uma comadre; foi um santo remédio. [...] Tal era o sistema. Imagina-se o resto. Cada beleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida; e o efeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a qualidade predominante resistia a tudo; então, o alienista atacava outra parte, aplicando à terapêutica o método da estratégia militar, que toma uma fortaleza por um ponto, se por outro o não pode conseguir.No fim de cinco meses e meio estava vazia a Casa Verde; todos curados! O vereador Galvão, tão cruelmente afligido de moderação e equidade, teve a felicidade de perder um tio; digo felicidade, porque o tio deixou um testamento ambíguo, e ele obteve uma boa interpretação, corrompendo os juízes, e embaçando os outros herdeiros. [...] Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o último hóspede da Casa Verde, mostrais com isso que ainda não conheceis o nosso homem. Plus ultra!4 era a sua divisa. Não lhe bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguaí o reinado da razão. Plus ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogitativo; alguma coisa lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima teoria. — Vejamos, pensava ele; vejamos se chego enfim à última verdade. Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde fulgurava a mais rica biblioteca dos domínios ultramarinos de Sua Majestade. Um amplo chambre de damasco, preso à cintura por um cordão de seda, com borlas de ouro (presente de uma Universidade) envolvia o corpo majestoso e austero do ilustre alienista. A cabeleira cobria- lhe uma extensa e nobre calva adquirida nas cogitações cotidianas da ciência. Os pés, não delgados e femininos, não graúdos e mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto latão. Vede a diferença: — só se lhe notava luxo naquilo que era de origem científica; o que propriamente vinha dele trazia a cor da moderação e da singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um sábio. (O alienista, 2014.) 1alienista: médico especialista em doenças mentais. 2Garção: um dos principais poetas do Neoclassicismo português. 3Píndaro: considerado o maior poeta lírico da antiga Grécia. 4Plus ultra!: expressão latina que significa “Mais além!”. REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 44 Para responder às questões de 5 a 7, leia a letra da canção “Deus lhe pague”, do compositor Chico Buarque (1944- ), composta em 1971. 5. (UNESP-2017) – “Deus lhe pague”: pedido a Deus para que abençoe alguém por algo bom que esse alguém praticou. (Carlos Alberto de M. Rocha e Carlos Eduardo P. de M. Rocha. Dicionário de locuções e expressões da língua portuguesa, 2011.) Considerando a definição da expressão “Deus lhe pague”, é correto afirmar que o compositor se apropriou ironicamente dessa expressão em sua canção? Justifique sua resposta, valendo-se de três versos da letra da canção. RESOLUÇÃO: A expressão “Deus lhe pague” é uma apropriação irônica de uma expressão coloquial, que foi usada como estribilho na letra da música de Chico Buarque, composta em 1971, durante a ditadura militar. A ironia da expressão se deve ao fato de que a letra denuncia a situação de miséria do povo “pão pra comer, por esse chão pra dormir”, a repressão em “concessão pra sorrir”, a política do pão e circo em “piada no bar e o futebol pra aplaudir”, entre outros exemplos de situações de penúria e de restrição à liberdade por que passava o povo brasileiro, sendo o agradecimento uma zombaria dirigida às autoridades da época. 6. (UNESP-2017) – Considere as definições dos seguintes conceitos: 1. Autonomia: direito de um indivíduo tomar decisões livremente; independência moral ou intelectual; capacidade de governar-se pelos próprios meios. 2. Heteronomia: sujeição de um indivíduo a uma instân cia externa ou à vontade de outrem; ausência de autonomia. Qual dos conceitos mostra-se mais adequado para descrever a existência retratada pela letra da canção? Justifique sua resposta, com base no texto. Considerando o contexto histórico-social em que a canção foi composta, a quem ou a que se refere o pronome “lhe” em “Deus lhe pague”? RESOLUÇÃO: A existência retratada pela letra define-se pelo con ceito da heteronomia, uma vez que o eu lírico descreve uma vida à mercê das vontades e permissões de outrem, “ a concessão pra sorrir / por me deixar respirar / por me deixar existir”. A música foi composta em 1971, durante o regime militar, sendo uma forma de protesto contra os abusos da ditadura então vigente. De forma irônica, portanto, o “lhe”, objeto indireto do verbo “pagar”, refere-se aos governantes. 7. (UNESP-2017) – O eufemismo consiste em atenuar o sentido desagradável de uma palavra ou expressão, substituindo-a por outra, capaz de suavizar seu significado. (Celso Cunha. Gramática essencial, 2013. Adaptado.) Transcreva o verso em que se verifica a ocorrência de eufemismo. Justifique sua resposta. Reescreva, em linguagem formal, o trecho destacado do seguinte verso: “Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair”. RESOLUÇÃO: Um exemplo de eufemismo está em “e pela paz derradeira que enfim vai nos redimir”, em que a ideia de paz e redenção atenua a ideia de morte. Reescrevendo o verso em linguagem formal, tem-se: “Pelos andaimes, pingentes, de que (dos quais) nós temos de (que) cair.” Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir Por me deixar respirar, por me deixar existir Deus lhe pague Pelo prazer de chorar e pelo “estamos aí” Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir Um crime pra comentar e um samba pra distrair Deus lhe pague Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi Deus lhe pague Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir Pela fumaça, desgraça,que a gente tem que tossir Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair Deus lhe pague Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir E pelo grito demente que nos ajuda a fugir Deus lhe pague Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir Deus lhe pague (www.chicobuarque.com.br) – 45 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 45 46 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS Leia o trecho do livro O maior espetáculo da Terra, do biólogo britânico Richard Dawkins (1941- ), para responder às questões 1 e 2. 1. (UNESP- junho-2018) a) Explique sucintamente o que o autor entende por “corrida armamentista evolucionária”. RESOLUÇÃO “Corrida armamentista evolucionária” é a disputa entre o predador e a presa. Ela é evolucionária, porque tanto o agressor quanto a vítima vão, ao longo do tempo, incorporando melhores recursos para o ataque e para a defesa. Embora haja uma série de transformações em ambos, elas não alteram a base da diferença original. b) De que forma a fala da Rainha de Copas a Alice – “eles correm o mais rápido possível para não sair do lugar” (1.o parágrafo) – relaciona-se com a “marca registrada das corridas armamentistas” (1.o parágrafo)? RESOLUÇÃO A “marca registrada das corridas armamentistas” é o aprimoramento tanto do predador como também da presa, mas o poder de ataque e o de defesa não sofreram desequilíbrio. Por isso, essa competição armamentista, que não se modifica substancialmente em relação ao início da disputa, equivale à fala da Rainha de Copas a Alice: “Eles correm o mais rápido possível para não sair do lugar”. 2. (UNESP- junho-2018) a) A frase “Darwin tinha plena noção das corridas armamentistas evolucionárias, embora não usasse essa expressão” (2.o parágrafo) pode ser considerada ambígua? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO A frase apresenta duplo sentido porque não se sabe se Darwin desconhecia a expressão “corrida armamentista evolucionária” ou se a expressão “corrida armamentista evolucionária” não era empregada na época, pois, segundo o autor, essa expressão só foi usada pela primeira vez por Hugh Cott, em 1940, posterior , portanto, à morte de Darwin em 1882. b) Oximoro: figura de retórica em que se combinam palavras de sentido oposto que parecem excluir-se mutuamente, mas que, no contexto, reforçam a expressão; paradoxismo. (Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 2009.) Há na citação de Hugh Cott uma expressão que pode ser considerada exemplo de oximoro. Identifique-a e justifique sua resposta.. RESOLUÇÃO Há paradoxismo ou oximoro na expressão “refinamentos da guerra civilizada”, já que uma guerra não é refinada nem tampouco civilizada, ou seja, as duas palavras “refinamento” e “civilizada” apresentam sentido oposto a “guerra”. A seleção natural impele espécies predadoras a tornarem-se cada vez melhores em apanhar presas, e simultaneamente impele espécies que são caçadas a tornarem-se cada vez melhores em escapar dos caçadores. Predadores e presas apostam uma corrida armamentista evolucionária, disputada no tempo evolucionário. O resultado tem sido uma constante escalada na quantidade de recursos econômicos que os animais, dos dois lados, despendem na corrida armamentista, em detrimento de outros departamentos de sua economia corporal. Caçadores e caçados tornam-se cada vez mais bem equipados para correr mais do que (ou surpreender, ou sobrepujar em astúcia etc.) o outro lado. Mas um equipamento aprimorado para correr mais não se traduz obviamente em mais sucesso numa corrida, pela simples razão de que, numa corrida armamentista, o outro lado também está aprimorando seu equipamento: essa é a marca registrada das corridas armamentistas. Poderíamos dizer, como explicou a Rainha de Copas a Alice, que eles correm o mais rápido possível para não sair do lugar. Darwin tinha plena noção das corridas armamentistas evolu - cionárias, embora não usasse essa expressão. Meu colega John Krebs e eu publicamos um artigo sobre o tema em 1979, no qual atribuímos a expressão “corrida armamentista” ao biólogo britânico Hugh Cott. Talvez significativamente, Cott publicou seu livro, Adaptive coloration in animals, em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial: Antes de afirmar que a aparência enganosa de um gafanhoto ou borboleta é desnecessariamente detalhada, devemos verificar primeiro quais são os poderes de percepção e discriminação dos inimigos naturais desses insetos. Não fazê-lo é como dizer que a blindagem de um cruzador é pesada demais ou que seu conjunto de canhões é demasiado grande, sem investigar a natureza e a eficácia do armamento do inimigo. O fato é que, na primeva1 luta da selva, assim como nos refinamentos da guerra civilizada, vemos em progresso uma grande corrida armamentista evolucionária — cujos resultados, para a defesa, manifestam-se em recursos como velocidade, estado de alerta, couraça, coloração, hábitos subterrâneos, hábitos noturnos, secreções venenosas e gosto nauseante; e, para o ataque, em atributos compensadores como velocidade, surpresa, emboscada, atração, acuidade visual, garras, dentes, ferrões, presas venenosas e coloração atrativa. Assim como a velocidade do perseguido desenvolveu-se em relação a um aumento na velocidade do perseguidor, ou uma couraça defensiva em relação a armas ofensivas, também a perfeição de recursos de disfarce evoluiu em resposta a poderes crescentes de percepção. Saliento que a corrida armamentista é disputada no tempo evolucionário. Não deve ser confundida com as corridas entre, por exemplo, um guepardo individual e uma gazela individual, que é disputada em tempo real. A corrida no tempo evolucionário é uma corrida que desenvolve equipamento para as corridas em tempo real. E o que isso realmente significa é que os genes para produzir o equipamento destinado a vencer o adversário em esperteza ou velocidade acumulam-se nos reservatórios gênicos de ambos os lados. (O maior espetáculo da Terra, 2009. Adaptado.) 1primevo: antigo, primitivo. MÓDULO 11 44 Morfologia e Redação (II) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 46 – 47 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S Leia o excerto do conto “A cartomante”, de Machado de Assis, para responder às questões 3 e 4. 3. ( UNESP) – O trecho do quinto parágrafo “[Ele] disse-lhe que era imprudente andar por essas casas” foi construído em discurso indireto. Reescreva-o em discurso direto, substituindo os pronomes sublinhados pelos nomes das personagens e efetuando os demais ajustes necessários. RESOLUÇÃO: Camilo disse a Rita: – É imprudente andar por essas casas. 4. (UNESP) – Há, no penúltimo parágrafo, o emprego de uma figura de retórica que consiste no alargamento semântico de termos que designam dois entes abstratos pela atribuição a eles de traços próprios do ser humano. Quais são os dois entes abstratos que passam por tal processo? Justifique sua resposta. Como se denomina tal figura de retórica? RESOLUÇÃO: Trata-se das palavras “virtude” e “interesse”. O narrador, ao registrar o pensamento de Rita, atribui à virtude a característica humana da preguiça e da avareza; e ao “interesse”, a atividade e a prodiga li da de. Esse processo de atribuir características humanas a entes abstratos denomina-se prosopopeia ou personi ficação. 5. Identifique as figuras presentes nos trechos a seguir: extraídos de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis: a) Quê? Uma criatura tão dócil, tão meiga, tão santa, que nunca jamais fizera verter uma lágrima de desgosto, mãe carinhosa, esposa imaculada, era força que morresse assim, trateada, mordida pelo dente tenaz de uma doença sem misericórdia? RESOLUÇÃO Anáfora a gradaçãoascendente “tão dócil, tão meiga, tão santa”. Pleonasmo “nunca jamais”. Metáfora: “dente tenaz de uma doença”. b) Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos: não há platéia. RESOLUÇÃO Polissíndeto: “nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos” (conjunção aditiva) e antíteses. c) Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação única, uma coisa a que poderia chamar volúpia do aborrecimento. RESOLUÇÃO Paradoxo: “volúpia” (=grande prazer) e “aborrecimento” (fastio, tédio). d) O próprio tio João, guloso de escândalos, não tratou de outro assunto na carta, aliás de muitas folhas. RESOLUÇÃO Metáfora: “guloso de escândalos”. Catacrese: “carta de muitas folhas”. Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras. — Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma pessoa...” Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade... — Errou! interrompeu Camilo, rindo. — Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe, já lhe disse. Não ria de mim, não ria... Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois... [...] Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato. Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: – a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo. Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. (Contos: uma antologia, 1998.) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 47 48 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS 1. (UNICAMP-2018) – Enquanto viveu em Portugal, o escritor Mário Prata reuniu centenas de vocábulos e expressões usados no português falado na Europa que são diferentes dos termos correspondentes usados no português do Brasil. Reproduzimos abaixo um dos verbetes de seu dicionário. Descapotável É outra palavra que em português faz muito mais sentido do que em brasileiro. Não é mais claro dizer que um carro é descapotável, do que conversível? (Mário Prata, Dicionário de português: schifaizfavoire. São Paulo: Editora Globo, 1993, p. 48.) a) Identifique os dois afixos que formam a palavra “descapotável” a partir do substantivo “capota” (cober tura de um automóvel) e explique a função de cada um. RESOLUÇÃO A palavra “descapotável”, a partir do substantivo “capota”, apresenta o prefixo “des-”, que significa negação, e o sufixo “-vel”, formador de adjetivo, que significa “passível de”. Ressalve-se que, de acordo com o dicionário Houaiss, “descapo tável” forma-se por derivação sufixal (descapotar + vel) e “descapotar”, por derivação parassintética (des + capota + ar). A formação etimológica desse vocábulo difere daquela dada pelo examinador. b) Explique por que o autor considera, com certo humor, que a palavra “descapotável” do português europeu faz mais sentido de que o termo“conversível”, usado no português brasileiro. RESOLUÇÃO O adjetivo “descapotável”, usado no português europeu, significa “carro cuja capota, flexível ou rígida, pode ser baixada e recolhida, ou retirada” (Houaiss). O adjetivo “conversível”, usado no Brasil, significa o “que se pode converter, convertível” ou ainda “cuja capota se pode dobrar ou remover” (Houaiss). Apesar de os adjetivos poderem ser sinônimos, o autor do texto considera “descapotável” mais adequado por ser mais específico, já que literalmente significa “sem capota”; en quanto “conversível”, de sentido mais amplo, significa também tudo aquilo que pode ser mudado, convertido. 2. (UNICAMP-2018) – Leia a seguir trechos das entrevistas concedidas pelo escritor chileno Alejandro Zambra ao jornal Folha de São Paulo e à revista Cult sobre seu livro Múltipla Escolha, lançado no Brasil em 2017. A obra imita o formato da Prova de Aptidão Verbal aplicada de 1966 a 2002 aos candidatos a vagas em universidades no Chile. a) Cite dois fatores que levaram Zambra a adotar a forma narrativa empregada em Múltipla Escolha. RESOLUÇÃO Um dos fatores que levou Zambra a adotar essa forma narrativa foi o descontentamento no que tange à enunciação unívoca, isto é, uma voz única e impositiva que limita a interpretação. Esse tipo de narrativa assemelha- se à de Estados ditatoriais. O outro fator que levou Zambra a querer incor - porar esse tipo de texto foi a “postura crítica e autocrítica, o humor e a dor”. Assim, desnuda-se o autorita rismo do enunciador e des mis tifica-se a resposta dada como correta pelo arbítrio de quem a pretende como tal. Falando à Folha, Zambra afirma que havia na prova de múltipla escolha “uma grande sintonia com a ditadura chilena. Para entrar na universidade, teríamos que saber eliminar as orações. Havia censura, e nos aconselhavam a censurar”. E acrescenta que osistema educacional moldava o pensamento dos alunos com“a ideia de que só existe uma resposta correta.” Abordando o sentido crítico da escolha desse formato para a narrativa, o autor explica à Cult que, tendo sido criado nesse sistema, interessava-lhe mais a autocrítica. Escrevendo uma espécie de novela, lembrou-se da prova e começou a brincar com esse formato. “No começo foi divertido, como imitar as vozes das pessoas, mas logo me dei conta de que também imitava minha própria voz, até que de repente entendi que esse era o livro. A paródia e a autoparódia, a crítica e a autocrítica, o humor e a dor...” O formato de prova oferece diversas opções para completar e interpretar cada resposta, mas pede ao leitor um movimento duplo de leitura: testar possibilidades de respostas e erigir uma opção única e arbitrária. Zambra esclarece: “me interessam todos esses movimentos da autoridade. A ilusão de uma resposta, por exemplo. Creio que este é um livro sobre a ilusão de uma resposta. Nos ensinaram isso, que havia uma resposta única, e logo descobrimos que havia muitas e isso às vezes foi libertador e outras vezes foi terrível. Quem sabe algumas vezes nós também quisemos que houvesse uma resposta única.” (Adaptado de entrevistas de Alejandro Zambra concedidas ao jornal Folha de São Paulo e à revista Cult em maiode 2017. Disponíveis em https://revistacult.uol.com.br/home/alejandro- zambra-multipla-escolha/ e em http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/05/1885551 - literatura-esta-ligada-a-desordem-diz-escritor-chileno-alejandro- zambra.shtml. Acessados em 11/12/2017. MÓDULO 11 55 Morfologia e Redação (III) REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 48 – 49 P O R T U G U ÊS A - 3 .a S b) Por que Múltipla Escolha não funciona como a Prova de Aptidão Verbal chilena? Justifique sua resposta com base no tipo de leitor solicitado pela obra. RESOLUÇÃO A Prova de Aptidão Verbal chilena é autoritária, foi aplicada inclusive na vigência da ditadura de Augusto Pinochet, que se inicia em 11 de setembro de 1973, e impõe um tipo de abordagem dos pro blemas e admite arbritrariamente uma única resposta. Múltipla Escolha não tem as características da Prova de Aptidão Verbal chilena porque pede uma leitura múltipla, aberta a interpretações críticas e auto críticas, não permitindo uma recepção única, fechada. 3. (FUVEST-2018) – Leia o texto. a) Segundo a concepção do autor, como a poesia pode ser entendida? RESOLUÇÃO Rubem Alves conta um episódio em que uma per sonagem, antes acostumada com a função prag mática da cebola como mero alimento, surpreende-se ao descobrir a beleza nunca antes vista nesse vegetal, com seus “anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles”. Essa narrativa permite inferir o conceito de arte defendida pelo autor: a produção de um olhar diferente, inusitado sobre a realidade, destacando não o aspecto prático, utilitário, mas a disposição para o espanto diante da beleza. A arte passa a ser, portanto, fruto de uma nova percepção do convencional, do banal, do co tidiano. A complicada arte de ver Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresa. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto." Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementares", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver". Rubem Alves, Folha de S.Paulo, 26/10/2004. Adaptado. REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 49 b) Reescreva o trecho “Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”, substituindo o termo sublinhado por “Naquela época” e empregando a primeira pessoa do plural. Faça as adaptações necessárias. RESOLUÇÃO O trecho apresentado, reescrito, passa a ser “Naquela época, tudo o que víamos nos causava espanto”. Texto para a questão 4. 4. (FUVEST) a) Transcreva o trecho do texto em que o autor explora, com fins expressivos, o emprego de termos contra ditórios, sublinhando-os. RESOLUÇÃO: Trata-se do fragmento “(...) um grupo de cientistas construiu uma traquitana simples, mas extrema mente sofisticada (...)” O adjetivo simples refere-se a algo “descom pli cado”, e sofisticado, ao contrário, a algo “com plexo”. b) Esse excerto provém de um artigo de divulgação científica. Aponte duas características da linguagem nele empregada que o diferenciam de um artigo científico especializado. RESOLUÇÃO: O artigo científico prima por terminologia espe cífica de determinada área do conhecimento em linguagem denotativa e objetiva. Esse excerto distancia-se de um artigo científico convencional na medida em que o autor utiliza linguagem acessível a leigos, com imagens corri - queiras. Além disso, ao usar a 1.a pessoa do plural, o autor refere-se a experiências compartilhadas entre ele e os seus leitores. Isso fica evidente, por exemplo, no trecho: “Somos capazes de andar dezenas de quilômetros por quilo de feijão ingerido.” Há também o emprego de uma me táfora, “haste... espécie de embreagem”, recurso pouco comum em textos científicos. Nosso andar é elegante e gracioso, e também extremamente eficiente do ponto de vista energético. Somos capazes de andar dezenas de quilômetros por quilo de feijão ingerido. Ate agora, nenhum sapato, nenhuma técnica especial de balançar os braços, ou qualquer outro truque foram capazes de melhorar o número de quilômetros caminhados por quilo de feijão consumido. Mas, agora, depois de anos investigando o funcionamento de nossas pernas, um grupo de cientistas construiu uma traquitana simples, mas extremamente sofisticada, que é capaz de diminuir o consumo de energia de uma caminhada em até 10%. Trata-se de um pequeno exoesqueleto que recobre nosso pé e fica preso logo aboixo do joelho. Ele mimetiza o funcionamento do tendão de Aquiles e dos músculos ligados ao tendão. Uma haste no altura do tornozelo, a qual se projeta para trás, segura uma ponta de uma mola. Outra haste, logo abaixo do joelho, segura uma espécie de embreagem (...). Fernando Reinach, www.estadao.com.br, 13/06/2015. Adaptado. 50 – P O R T U G U ÊS A - 3 . aS REVGERAL 2_A_3S_PORT_2018_YONNE 03/10/2018 14:51 Página 50 P O R T U G U ÊS B Português Curso Extensivo – B REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página I P O R T U G U ÊS B REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página II Para responder às questões de 1 a 2, leia o soneto de Raimundo Correia (1859-1911). 1. (Unesp-2018) a) Que processo o soneto de Raimundo Correia retrata? RESOLUÇÃO O soneto retrata o crepúsculo, o anoitecer. O escurecimento da natureza ocorre, pouco a pouco, como se nota, por exemplo, no último terceto: A natureza apática esmaece... Pouco a pouco, entre as árvores, a lua Surge trêmula, trêmula... Anoitece. b) A primeira estrofe do soneto é composta por três períodos simples em ordem indireta (“Esbraseia o Ocidente na agonia / O sol”; “Aves em bandos destacados, / Por céus de ouro e de púrpura raiados, / Fogem”; e “Fecha-se a pálpebra do dia”). Reescreva esses três períodos em ordem direta. RESOLUÇÃO Colocando-se os versos em ordem direta, tem-se: 1) O sol esbraseia o Ocidente na agonia. 2) Aves fogem em bandos destacados por céus raiados de outro e de púrpura. 3) A pálpebra do dia fecha-se. 2. (Unesp-2018) a) Há no soneto menção a um sentimento que permeia e circunda a natureza retratada. Que sentimento é esse? Do que decorre tal sentimento? RESOLUÇÃO A descrição do anoitecer está associada à melan colia causada pelo declínio do sol, o qual se assemelha à agonia crescente proporcionada pela sombra resultante do recuo da luz do dia. b) Verifica-se na terceira estrofe a ocorrência de uma antítese. Que termos configuram essa antítese? RESOLUÇÃO Há antítese no verso: “A sombra à proporção que a luz recua...”, em que os termos “sombra” e “luz” apresentam ideias opostas. Esbraseia o Ocidente na agonia O sol... Aves em bandos destacados, Por céus de ouro e de púrpura raiados, Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia... Delineiam-se, além, da serrania Os vértices de chama aureolados, E em tudo, emtorno, esbatem derramados Uns tons suaves de melancolia... Um mundo de vapores no ar flutua... Como uma informe nódoa, avulta e cresce A sombra à proporção que a luz recua... A natureza apática esmaece... Pouco a pouco, entre as árvores, a lua Surge trêmula, trêmula... Anoitece. (Poesia completa e prosa, 1961.) – 1 P O R T U G U ÊS B Revisão PORTUGUÊS MÓDULO 11 Sintaxe (I) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 1 2 – P O R T U G U ÊS B Leia o trecho inicial do artigo “Artifícios da inteligência”, do físico brasileiro Marcelo Gleiser (1959- ), para responder às questões 3 e 4. 3. (Unesp-2018) a) Para o físico Marcelo Gleiser, o que distingue as tecnologias transumanas daquelas apenas corretivas? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO Segundo o texto, as tecnologias corretivas regula rizam deficiências físicas existentes, não têm como objetivo a ampliação de características cognitivas, como é o caso do transumanismo. b) Cite dois termos empregados em sentido figurado no primeiro parágrafo do artigo. RESOLUÇÃO São exemplos de termos empregados em sentido figurado: “engavetado”, metáfora que se refere a estar preso no congestionamento, e “navegar”, também metáfora, referindo-se a passar de um sítio para outro na internet. Considere a seguinte situação: você acorda atrasado para o trabalho e, na pressa, esquece o celular em casa. Só quando engavetado no tráfego ou amassado no metrô você se dá conta. E agora é tarde para voltar. Olhando em volta, você vê pessoas com celular em punho conversando, mandando mensagens, navegando na internet. Aos poucos, você vai sendo possuído por uma sensação de perda, de desconexão. Sem o seu celular, você não é mais você. A junção do humano com a máquina é conhecida como “transumanismo”. Tema de vários livros e filmes de ficção científica, hoje é um tópico essencial na pesquisa de muitos cientistas e filósofos. A questão que nos interessa aqui é até que ponto essa junção pode ocorrer e o que isso significa para o futuro da nossa espécie. Será que, ao inventarmos tecnologias que nos permitam ampliar nossas capacidades físicas e mentais, ou mesmo máquinas pensantes, estaremos decretando nosso próprio fim? Será esse nosso destino evolucionário, criar uma nova espécie além do humano? É bom começar distinguindo tecnologias transumanas daquelas que são apenas corretivas, como óculos ou aparelhos para surdez. Tecnologias corretivas não têm como função ampliar nossa capacidade cognitiva: só regularizam alguma deficiência existente. A diferença ocorre quando uma tecnologia não apenas corrige uma deficiência como leva seu portador a um novo patamar, além da capacidade normal da espécie humana. Por exemplo, braços robóticos que permitem que uma pessoa levante 300 quilos, ou óculos com lentes que dotam o usuário de visão no infravermelho. No caso de atletas com deficiência física, a questão se torna bem interessante: a partir de que ponto uma prótese como uma perna artificial de fibra de carbono cria condições além da capacidade humana? Nesse caso, será que é justo que esses atletas compitam com humanos sem próteses? Poderia parecer que esse tipo de hibridização entre tecnologia e biologia é coisa de um futuro distante. Ledo engano. Como no caso do celular, está acontecendo agora. Estamos redefinindo a espécie humana através da interação – na maior parte ainda externa – com tecnologias que ampliam nossa capacidade. Sem nossos aparelhos digitais – celulares, tabletes, laptops – já não somos os mesmos. Criamos personalidades virtuais, ativas apenas na internet, outros eus que interagem em redes sociais com selfies arranjados para impressionar; criações remotas, onipresentes. Cientistas e engenheiros usam computadores para ampliar sua habilidade cerebral, enfrentando problemas que, há apenas algumas décadas, eram considerados impossíveis. Como resultado, a cada dia surgem questões que antes nem podíamos contemplar. (Folha de S.Paulo, 01.02.2015. Adaptado.) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 2 4. (Unesp-2018) a) De acordo com o físico, nós já podemos ser considerados transumanos? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO Segundo o autor, o transumanismo, “hibridismo entre tecnologia e biologia”, já está ocorrendo. Marcelo Gleiser considera que os seres humanos estão ampliando sua capacidade por meio de tecnologias que os redefinem de modo que as pessoas já não são as mesmas, caso percam o acesso aos aparelhos eletrônicos, tal como acontece no caso do celular. b) Dêiticos: expressões linguísticas cuja interpretação depende da pessoa, do lugar e do momento em que são enunciadas. Por exemplo: “eu” designa a pessoa que fala “eu”. (Ernani Terra. Leitura do texto literário, 2014.) Cite dois dêiticos empregados nos dois primeiros parágrafos do texto. RESOLUÇÃO O pronome de tratamento “você” foi empregado em sentido generalizante, pois não se refere a uma pessoa em particular, mas a todos os que já vivenciaram as situações descritas no primeiro parágrafo. No segundo parágrafo, o pronome pessoal oblíquo “nos” refere-se ao próprio autor do texto, é usado como plural de modéstia. O pronome possessivo “nossa” refere-se à espécie humana. Texto para questão 5. 5. (FUVEST-2017) a) Explique por que o autor agradece “imediatamente depois de receber o volume”. RESOLUÇÃO: Segundo o autor, o agradecimento prescinde da leitura do livro recebido de presente. Assim, o escritor se esquivaria da possibilidade de elogiar um livro que poderia não lhe agradar. b) Levando em conta o contexto, reescreva duas vezes o trecho “sem lê-lo”, substituindo “sem” por “sem que”, na primeira vez, e por “mesmo não”, na segunda. RESOLUÇÃO: O trecho reescrito ficaria em 1) “é menor pecado elogiar um mau livro sem que o tenha lido”, e em 2) “é menor pecado elogiar um mau livro mesmo não o tendo lido”. Trata-se, portanto, de uma questão sobre sintaxe de colocação e emprego de verbos em tempos compostos. Em 1, a próclise ocorre em função da locução subordinativa “sem que”, e em 2, a próclise ocorre devido ao advérbio de negação “não”. É menor pecado elogiar um mau livro, sem lê-lo, do que depois de o haver lido. Por isso, agradeço imedia tamente depois de receber o volume. (Carlos Drummond de Andrade, Passeios na ilha) – 3 P O R T U G U ÊS B REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 3 4 – P O R T U G U ÊS B Leia a fábula “A raposa e o lenhador”, do escritor grego Esopo (620 a.C.?-564 a.C.?), para responder às questões de 6 a 9. 6. (UNIFESP-2017) – A moral mais apropriada para fechar a fábula seria: a) Esta fábula pode ser dita a propósito de homens desventurados que, quando estão em situações embaraçosas, rezam para encontrar uma saída, mas assim que encontram procuram evitá-las. b) Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito daqueles homens que nitidamente proclamam ações nobres, mas na prática realizam atos vis. c) Esta fábula mostra que os homens desatentos prestam atenção nas coisas de que esperam tirar proveito, mas permanecem apáticos em relação àquelas que não lhes agradam. d) Assim, alguns homens se entregam a tarefas arriscadas, na esperança de obter ganhos, mas se arruínam antes mesmo de chegar perto do que almejam. e) Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito de um homem frouxo que reclama de ínfimas desgraças, enquanto ela própria suporta, sem dificuldade, desgraças enormes. RESOLUÇÃO: É nítida, na fábula “A raposa e o lenhador”, de Esopo, o ensinamento moral acerca de pessoas que, com hipocrisia, escondem suas práticas vis, mascarando-as por meio de um discurso em que buscam apresentar nobreza de caráter. Resposta: B 7. (UNIFESP-2017) – “Entretanto, como eles não prestaram atenção nos seus gestos, deram crédito às suas palavras.”Em relação à oração que a sucede, a oração destacada tem sentido de a) causa. b) conclusão. c) proporção. d) consequência. e) comparação. RESOLUÇÃO: A oração destacada estabelece relação de causa com a oração posterior, que é a sua consequência. Resposta: A 8. (UNIFESP-2017) – Os trechos “Ele sugeriu que ela entrasse em sua cabana” e “vieram os caçadores e perguntaram ao lenhador se ele tinha visto uma raposa” foram construídos em discurso indireto. Ao se transpor tais trechos para o discurso direto, o verbo “entrasse” e a locução verbal “tinha visto” assumem, respectivamente, as seguintes formas: a) “entrai” e “vira”. b) “entrou” e “viu”. c) “entre” e “vira”. d) “entre” e “viu”. e) “entrai” e “viu”. RESOLUÇÃO: No discurso indireto, a forma verbal “entrasse”, no imperfeito do subjuntivo, passa, no discurso direto, para o imperativo: “entre”. O pretérito mais-que-perfeito composto “tinha visto”, no discurso indireto, passa para o pretérito perfeito no discurso direto: “viu”. Resposta: D 9. (UNIFESP-2017) – “Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.” (4.° parágrafo) Os termos em destaque constituem, respectivamente, a) um pronome e um artigo. b) uma conjunção e um artigo. c) um artigo e uma preposição. d) um pronome e uma preposição. e) um artigo e uma conjunção. RESOLUÇÃO: Em “a virtude”, o a é artigo definido porque antecede um substantivo. Em “chegava a suprir”, o a é preposição, uma vez que se encontra em uma locução verbal. Resposta: C Enquanto fugia de caçadores, uma raposa viu um lenhador e lhe pediu que a escondesse. Ele sugeriu que ela entrasse em sua cabana e se ocultasse lá dentro. Não muito tempo depois, vieram os caçadores e perguntaram ao lenhador se ele tinha visto uma raposa passar por ali. Em voz alta ele negou tê-la visto, mas com a mão fez gestos indicando onde ela estava escondida. Entretanto, como eles não prestaram atenção nos seus gestos, deram crédito às suas palavras. Ao constatar que eles já estavam longe, a raposa saiu em silêncio e foi indo embora. E o lenhador se pôs a repreendê-la, pois ela, salva por ele, não lhe dera nem uma palavra de gratidão. A raposa respondeu: “Mas eu seria grata, se os gestos de sua mão fossem condizentes com suas palavras.” (Fábulas completas, 2013.) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 4 1. (FUVEST-2018) – Leia o texto. a) No texto, que ideia é sintetizada pela palavra “crise”? RESOLUÇÃO O termo “crise”, no texto, sintetiza todo e qual quer conflito matrimonial, o que poderia levar inclusive ao assassinato, o que desmente a con cepção do caráter indissolúvel do matrimônio. b) Reescreva a oração “tal como ele era concebido pela Igreja Católica”, empregando a voz ativa e fazendo as adaptações necessárias. RESOLUÇÃO Passando-se a frase na voz passiva para a ativa, tem-se: “tal como a Igreja Católica o concebia (ou concebia-o). O pronome oblíquo “o” refere-se a “vínculo do matrimônio”. 2. (FUVEST-2017) – Leia o seguinte texto, extraído de uma matéria jornalística sobre supercomputadores: a) Reescreva o trecho “é a de simulação climática: com quatrilhões por segundo de processamento”, levando em conta a correção e a clareza. RESOLUÇÃO: Reescrevendo o trecho, considerando correção e clareza, tem-se: Um exemplo recorrente do uso desse tipo de equipamento, com (ou que tem) capa cidade de processar quatrilhões de informações por segundo, é o de simulação climática. b) A palavra “cenários” (sublinhada no texto) foi empregada com o mesmo sentido em suas duas ocorrências? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: Não. Na primeira ocorrência, a palavra “cenários” refere-se a simulações de situações climáticas, por exemplo, de seca prolongada ou de excesso de chuva. Na segunda ocorrência, a palavra “ce ná rios” tem sentido mais genérico que a anterior, re fe rindo-se à capacidade de os supercomputadores cria rem situações simuladas para estudos cientí ficos das mais variadas áreas do conhecimento. No Brasil colonial, o indissolúvel vínculo do matri mônio, tal como ele era concebido pela Igreja Católica, nem sempre terminava com a morte natural de um dos cônjuges. A crise do casamento assumia várias formas: a clausura das mulheres, enquanto os maridos continuavam suas vidas; a separação ou a anulação do matrimônio decretadas pela Igreja; a transgressão pela bigamia ou mesmo pelo assassínio do cônjuge. Maria Beatriz Nizza da Silva, História da Família no Brasil Colonial. Adaptado. Supercomputadores são usados para cálculos de simulação pesada. Um exemplo recorrente do uso desse tipo de equipamento é a de simulação climática: com quatrilhões por segundo de processamento, torna-se possível que um computador tenha capacidade de calcular as oscilações meteorológicas. Isso ajuda a prevenir desastres, ou a preparar políticas de apoio à agricultura, se antecipando a cenários os mais variados. Evidentemente, há outros usos, como pesquisas científicas que precisam também simular cenários, com uma ampla gama de variáveis. Estudos militares e de desenvolvimento de tecnologia também se beneficiam do poder computacional desse tipo de equipamento. www.techtudo.com.br, 24.06.2016. – 5 P O R T U G U ÊS B MÓDULO 22 Sintaxe (II) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 5 6 – P O R T U G U ÊS B 3. (FUVEST-2018) – Examine a propaganda. a) Considerando o contexto da propaganda, existe alguma relação de sentido entre a imagem estilizada dos dedos e as palavras “digital” e “diferença”? Explique. RESOLUÇÃO Digital é um adjetivo substantivado relativo a “dedos”, figurados na imagem como pessoas, ou seja, representando as individualidades de cada eleitor, assim como de suas impressões digitais. Quanto ao termo “diferença”, ele se refere tanto a essa individualidade quanto à importância de cada voto para a manutenção da democracia. Cabe lembrar que o anúncio publicitário é de utilidade pública, pois divulga a necessidade de os eleitores fazerem o cadastro biométrico que será utilizado nas próximas eleições. b) Sem alterar o modo verbal, reescreva o trecho “Venha para a biometria. Cadastre suas digitais.”, passando os verbos para a primeira pessoa do plural e fazendo as modificações necessárias. RESOLUÇÃO Reescrevendo a frase do anúncio, tem-se: “Venha mos para a biometria. Cadastremos nossas digi tais”, pois os verbos de ambas as frases se en con - tram no modo imperativo afirmativo, os quais, trans postos para a primeira pessoa do plural, são derivados do presente do subjuntivo. 4. (FUVEST-2018) – Leia o texto. Um tema frequente em culturas variadas é o do desafio à ordem divina, a apropriação do fogo pelos mortais. Nos mitos gregos, Prometeu é quem rouba o fogo dos deuses. Diz Vernant que Prometeu representa no Olimpo uma vozinha de contestação, espécie de movimento estudantil de maio de 1968. Zeus decide esconder dos homens o fogo, antes disponível para todos, mortais e imortais, na copa de certas árvores — os freixos — porque Prometeu tentara tapeá-lo numa repartição da carne de um touro entre deuses e homens. ——————-—————————————————————— Na mitologia dos Yanomami, o dono do fogo era o jacaré, que cuidadosamente o escondia dos outros, comendo taturanas assadas com sua mulher sapo, sem que ninguém soubesse. Ao resto do povo – animais que naquela época eram gente – eles só davam as taturanas cruas. O jacaré costumava esconder o fogo na boca. Os outros decidem fazer uma festa para fazê-lo rir e soltar as chamas. Todos fazem coisas engraçadas, mas o jacaré fica firme, no máximo dá um sorrisinho. Betty Mindlin, O fogo e as chamas dos mitos. Revista Estudos Avançados. Adaptado. REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 6 a) O empregodo diminutivo nas palavras “vozinha” e “sorrisinho”, consideradas no contexto, produz o mesmo efeito de sentido nos dois casos? Justifique. RESOLUÇÃO O emprego do diminutivo não produz o mesmo efeito de sentido nas palavras indicadas. Em “vozinha”, minimiza-se a contestação de Prometeu à ordem vigente no Olimpo, comparando essa rebeldia à do movimento estudantil de maio de 1968. Quanto a “sorrizinho”, o di minutivo evi dencia que o jacaré percebeu a cilada prepa rada pelos outros animais e, de forma irô nica, não gargalha, apenas sorri, quebrando a expectativa de seus provocadores. b) Reescreva o trecho “Os outros decidem fazer uma festa para fazê- lo rir (...). Todos fazem coisas engraçadas”, substituindo o verbo “fazer” por sinônimos adequados ao contexto em duas de suas três ocorrências. RESOLUÇÃO Reescrevendo, tem-se: “Os outros decidem promo ver (produzir, efetuar) uma festa para levá-lo (estimulá-lo, incentivá-lo) a rir (…). Todos rea lizam (praticam, elaboram) coisas engraçadas”. Há outras possibilidades e somente dois verbos deve riam ser substituídos. Texto para as questões de 5 a 10. 5. (UNIFESP) – As informações do texto permitem afirmar que a) a edição artesanal, como a praticada por João Cabral de Melo Neto, permitiu que a cultura nacional fosse enriquecida com obras de expressivos escritores. b) as edições artesanais, como as de João Cabral de Melo Neto, raramente se destinam à produção de obras literárias para pessoas dos círculos íntimos de convi vência dos autores. c) a edição artesanal é uma realidade específica do Brasil, retratando a dificuldade que autores como Vinícius de Moraes e Guimarães Rosa tiveram para publicar suas obras. d) a venda de uma edição artesanal se dá com um grande volume de livros, razão pela qual desperta grande interesse comercial e cultural dos editores no Brasil. e) os livreiros normalmente têm pouco interesse por livros artesanais, como os de Manuel Bandeira e Cecília Meireles, por conside rarem- nos uma forma menor de expressão artística. RESOLUÇÃO: Segundo o texto, João Cabral de Melo Neto fazia “ginástica poética” para curar uma dor de cabeça. Como editor artesanal, publicou pequenos livros divulgando a obra de grandes escritores brasileiros e estrangeiros. Resposta: A POETAS E TIPÓGRAFOS Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico por causa de sua crônica dor de cabeça. Ele lhe receitou exercícios físicos, para “canalizar a tensão”. João Cabral seguiu o conselho. Comprou uma prensa manual e passou a produzir à mão, domesticamente, os próprios livros e os dos amigos. E, com tal “ginástica poética”, como a cha - mava, tornou-se essa ave rara e fascinante: um editor artesanal. Um livro recém-lançado, “Editores Artesanais Brasileiros”, de Gisela Creni, conta a história de João Cabral e de outros sonha - dores que, desde os anos 50, enriqueceram a cultura brasileira a partir de seu quarto dos fundos ou de um galpão no quintal. O editor artesanal dispõe de uma minitipografia e faz tudo: escolhe a tipologia, compõe o texto, diagrama-o, produz as ilustrações, tira provas, revisa, compra o papel e imprime – em folhas soltas, não costuradas – 100 ou 200 lindos exemplares de um livrinho que, se não fosse por ele, nunca seria publicado. Daí, distribui-os aos subscritores (amigos que se comprometeram a comprar um exemplar). O resto, dá ao autor. Os livreiros não querem nem saber. Foi assim que nasceram, em pequenos livros, poemas de – acredite ou não – João Cabral, Manuel Bandeira, Drummond, Cecília Meireles, Joaquim Cardozo, Vinicius de Moraes, Lêdo Ivo, Paulo Mendes Campos, Jorge de Lima e até o conto “Com o Vaqueiro Mariano” (1952), de Guimarães Rosa. E de Donne, Baudelaire, Lautréamont, Rimbaud, Mallarmé, Keats, Rilke, Eliot, Lorca, Cummings e outros, traduzidos por amor. João Cabral não se curou da dor de cabeça, mas valeu. (Ruy Castro. Folha de S.Paulo, 17.08.2013. Adaptado.) – 7 P O R T U G U ÊS B REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 7 8 – P O R T U G U ÊS B 6. (UNIFESP) – Com a frase – tornou-se essa ave rara e fascinante – (1.º parágrafo), o autor vale-se de uma a) hipérbole para sugerir que João Cabral melhorou após a prensa. b) redundância para afirmar que João Cabral poderia dispensar a prensa. c) ironia para questionar João Cabral como editor arte sanal. d) metáfora para externar uma avaliação positiva de João Cabral. e) metonímia para atribuir uma ideia de genialidade a João Cabral. RESOLUÇÃO: Ruy Castro utilizou uma metáfora “ave rara e fas ci nante” para referir-se a João Cabral, atribuindo a este a qualidade de ser extraordinário e admirável. Resposta: D 7. (UNIFESP) – Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico por causa de sua crônica dor de cabeça. O trecho pode ser reescrito, sem prejuízo de sentido ao texto, por: a) Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, tão logo sentiu sua crônica dor de cabeça, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico. b) Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, como sentia dor de cabeça crônica, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico. c) Embora fosse vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico sentindo crônica dor de cabeça. d) Por ser vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico com crônica dor de cabeça. e) Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico, mas era vítima de uma crônica dor de cabeça. RESOLUÇÃO: A locução prepositiva por causa de pode ser substi tuída, sem prejuízo de sentido, pela conjunção como, que também indica causa. Resposta: B 8. (UNIFESP) – Na oração – como a chamava – (1.º parágrafo), o pro nome retoma: a) ave rara e fascinante. b) tensão. c) ginástica poética. d) crônica dor de cabeça. e) prensa manual. RESOLUÇÃO: O pronome oblíquo a refere-se à prensa manual citada no período anterior. Resposta: E 9. (UNIFESP) – Na passagem – O editor artesanal dispõe de uma minitipografia e faz tudo: escolhe a tipologia, compõe o texto, diagrama-o, produz as ilustrações –, se a expressão editor artesanal for para o plural, a sequência em destaque assume a seguinte redação, de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa: a) compõe o texto, diagrama-no, produz as ilustrações. b) compõem o texto, diagrama-lo, produz as ilustrações. c) compõem o texto, diagramam-no, produzem as ilus trações. d) compõe o texto, diagramam-o, produzem as ilustra ções. e) compõem o texto, diagramam ele, produz as ilustra ções. RESOLUÇÃO: Com o sujeito no plural “editores artesanais”, os verbos assumem a 3.ª pessoa do plural, como consta da alternativa c. Resposta: C 10.(UNIFESP) – Assinale a alternativa em que se analisa corretamente o fato linguístico do texto. a) No trecho – O resto, dá ao autor. – (3.º parágrafo), a vírgula está indevidamente empregada, pois não se separam termos imediatos, no caso, sujeito e verbo da oração. b) No trecho – João Cabral não se curou da dor de cabeça, mas valeu. – (5.º parágrafo), o verbo valer está flexionado, concordando com a expressão João Cabral. c) No trecho – enriqueceram a cultura brasileira a partir de seu quarto – (2.º parágrafo), o pronome em desta que refere-se ao poeta João Cabral de Melo Neto. d) No trecho – Comprou uma prensa manual e passou a produzir à mão – (1.º parágrafo), a expressão em destaque indica circunstância de conformidade. e) No trecho – 100 ou 200 lindos exemplares de um livrinho – (3.º parágrafo), o diminutivo do substantivo em destaque carrega-o de conotação afetiva. RESOLUÇÃO: O emprego do diminutivo livrinho conota o sentimento de apreço e carinho pela publicação. Em a, a vírgula está adequadamente empregadaporque ficou elíptica a expressão “dos exemplares”; em b, o sujeito está implícito: isso valeu; em c, o pronome possessivo seu refere-se aos “Editores Artesanais Brasileiros”, em d, a locução à mão indica circunstância de modo. Resposta: E REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 8 1. (FUVEST-2017) – Leia este texto, publicado em 1905. a) O sentido que se atribui, no texto, à palavra “retórica” é o de “arte da eloquência, arte de bem argumentar; arte da palavra” (Houaiss)? Justifique. RESOLUÇÃO: Não. O termo “retórica” está inserido em um contexto dominado por vocábulos de carga semântica negativa: “verbiagem”, “oca”, “inútil”, “vã”. Dessa forma, ele não pode ser entendido no sentido positivo consignado na citação extraída do Houaiss. Na verdade, essa palavra assume valor pejorativo, significando discurso afetado, de acessórios inúteis e conteúdo vazio. b) Mantendo-se o sentido que eles têm no contexto, que outra forma os verbos “se encontrem” e “houvera” poderiam assumir? RESOLUÇÃO: A primeira frase está na voz passiva sintética, que tem como sujeito composto “nem uma ideia original, nem uma só observação própria”. Mantendo-se o sentido, pode-se passá-la para a voz passiva analítica: Embora não sejam encontradas nos seus longos discursos e muitos volumes nem uma ideia original, nem uma só observação própria. A segunda frase apresenta um uso clássico literário do pretérito mais-que-perfeito do indicativo, “houvera”, no lugar do pretérito imperfeito do modo subjuntivo, “houvesse”: O escândalo viria se houvesse originalidade. Por toda parte, a verbiagem,* oca, inútil e vã, a retórica [...] pomposa, a erudição míope, o aparato de sabedoria resumem toda a elaboração intelectual. [...] Aceitam-se e proclamam-se os mais altos representantes da intelectualidade: os retóricos inveterados, cuja palavra abundante e preciosa impõe-se como sinal de gênio, embora não se encontrem nos seus longos discursos e muitos volumes nem uma ideia original, nem uma só observação própria. E disto ninguém se escandaliza; o escândalo viria se houvera originalidade. (Manoel Bomfim, A América Latina: males de origem. Adaptado.) *verbiagem: falatório longo mas com pouco sentido ou utilidade; verborragia. – 9 P O R T U G U ÊS B MÓDULO 33 Sintaxe (III) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 9 10 – P O R T U G U ÊS B 2. (FUVEST-2018) – Leia o texto e responda ao que se pede. a) No texto, o autor retifica o que corriqueiramente se entende por “morte natural”? Justifique. RESOLUÇÃO O autor argumenta que a ideia de morte natural (“morrer de esgotamento em virtude uma extre ma velhice”) é na verdade uma exceção, pou cas vezes acontece, sendo, portanto, pouco na tural. Também salienta que é natural morrer de aci den tes ou de doenças, já que não vai contra a natureza do homem sucumbir ao sofrer algum trauma físico. b) A que palavra ou expressão se referem, respecti vamente, os pronomes destacados no trecho “Vejo que os filósofos lhe assinam um limite bem menor do que o fazemos comumente”? RESOLUÇÃO O pronome pessoal oblíquo “lhe” refere-se a “du ração da vida”; o pronome demonstrativo “o” refere-se a “limite”. 3. (UNICAMP-2017) – Leia o excerto abaixo, adaptado do ensaio Para que servem as humanidades?, de Leyla Perrone-Moisés. a) As expressões “agregar valorˮ e “cultivo de valoresˮ, embora aparentemente próximas pelo uso da mesma palavra, produzem efeitos de sentido distintos. Explique-os. RESOLUÇÃO: “Agregar valor”, no contexto, tem sentido quan titativo, pois se refere às informações e conhecimento que o indivíduo adquire sem apro fun da men - to. “Cultivo de valores” implica a aquisição de saberes por meio de posicionamentos críticos e reflexivos constantes, que se desenvol vem não apenas ao longo da vida acadêmica, mas por toda a existência. b) Na última oração do texto, são utilizados dois elemen tos coesivos: “elesˮ e “à qualˮ. Aponte a que se refere, respectivamente, cada um desses elementos. RESOLUÇÃO: Os elementos coesivos “eles” e “à qual” referem-se, respecti vamente, a “os cursos de humanidades” e “sociedade”, assim a ideia que se estabelece é a de que os cursos de humanidades estudam a socie dade e a ela servem. As humanidades servem para pensar a finalidade e a qualidade da existência humana, para além do simples alongamento de sua duração ou do bem-estar baseado no consumo. Servem para estudar os problemas de nosso país e do mundo, para humanizar a globalização. Tendo por objeto e objetivo o homem, a capacidade que este tem de entender, de imaginar e de criar, esses estudos servem à vida tanto quanto a pesquisa sobre o genoma. Num mundo informatizado, servem para preservar, de forma articulada, o saber acumulado por nossa cultura e por outras, estilhaçado no imediatismo da mídia e das redes. Em tempos de informação excessiva e superficial, servem para produzir conhecimento; para “agregar valorˮ, como se diz no jargão mercadológico. Os cursos de humani dades são um espaço de pensamento livre, de busca desinteressada do saber, de cultivo de valores, sem os quais a própria ideia de universidade perde sentido. Por isso merecem o apoio firme das autoridades universitárias e da sociedade, que eles estudam e à qual servem. (Adaptado de Leyla Perrone-Moisés, Para que servem as humanidades? Folha de São Paulo, São Paulo, 30 jun. 2002, Caderno Mais!.) Da idade Não posso aprovar a maneira por que entendemos a duração da vida. Vejo que os filósofos lhe assinam* um limite bem menor do que o fazemos comumente. (...) Os [homens] que falam de uma certa duração normal da vida, estabelecem-na pouco além. Tais ideias seriam admissíveis se existisse algum privilégio capaz de os colocar fora do alcance dos acidentes, tão numerosos, a que estamos todos expostos e que podem interromper essa duração com que nos acenam. E é pura fantasia imaginar que podemos morrer de esgotamento em virtude de uma extrema velhice, e assim fixar a duração da vida, pois esse gênero de morte é o mais raro de todos. E a isso chamamos morte natural como se fosse contrário à natureza um homem quebrar a cabeça numa queda, afogar-se em algum naufrágio, morrer de peste ou de pleurisia; como se na vida comum não esbarrássemos a todo instante com esses acidentes. Não nos iludamos com belas palavras; não denominemos natural o que é apenas exceção e guardemos o qualificativo para o comum, o geral, o universal. Morrer de velhice é coisa que se vê raramente, singular e extraordinária e portanto menos natural do que qualquer outra. É a morte que nos espera ao fim da existência, e quanto mais longe de nós menos direito temos de a esperar. Michel de Montaigne, Ensaios. Editora 34. Trad. de Sérgio Milliet. *assinar: fixar, indicar. REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 10 Texto para a questão 4. 4. (FUVEST) a) Reescreva os dois primeiros períodos, substi tuindo os verbos “chamar” e “reconhecer” por substan tivos que não sejam da mesma família desses verbos. Faça apenas as adaptações neces sárias, mantendo o sentido original. RESOLUÇÃO: A designação (ou qualificação) do dicionário de (como) pai-dos-burros é que é burrice. A confissão (ou aceitação) de um desconhecimento não é uma virtude? No texto, chamar equivale a "designar", "qualificar"; reconhecer está empregado no sentido de "confessar", "aceitar". b) Reescreva o último período do texto, utilizando agora as formas “não costuma” e “dispensa”. Faça apenas as alterações neces sárias, mantendo o sentido original. RESOLUÇÃO: Se a inteligência não costuma vir sempre acompanhada da inso lên cia, a burrice dispensa a força da humildade. Tirinha para a questão 5. 5. (FUVEST-2017) a) A dificuldade explicitada no último quadrinho verifica-se apenas na redação de cartas ou ocorre também na redação dos gênerostextuais romance e conto? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: Para o personagem da tirinha, escrever uma carta é difícil em razão dos sistemas eletrônicos de comunicação. Pode-se interir que essa dificuldade ocorre porque a linguagem utilizada na internet, no e-mail, apesar de escrita, está mais próxima da oralidade do que a linguagem das cartas, que normalmente exige maior formalidade. Portanto, essa dificuldade deve ocorrer também na elaboração de outros gêneros textuais, como romance e conto, por haver maior preocupação com as normas gramaticais e exigir maior formalidade em sua elaboração. b) O texto que compõe as falas dos quadrinhos pertence inteiramente à modalidade escrita da língua portuguesa? Justifique sua resposta, com base em elementos presentes no texto. RESOLUÇÃO: Não, ainda que as falas dos quadrinhos privilegiem a modalidade escrita da língua portuguesa, apresentam expressões coloquiais como “você sabe”, como toda essa coisa de internet”, “é escrever uma coisa”. Chamar o dicionário de pai-dos-burros é que é burrice. Reconhecer um desconhe cimento não é uma virtude? Se a burrice costuma vir sempre acompanhada da insolência, a inteligência não dispensa a força da humildade. LAERTEVISÃO ESCREVER CARTAS, HOJE EM DIA, É BEM DIFÍCIL, MEU CARO AMIGO. VOCÊ SABE – COM TODA ESSA COISA DE INTERNET, E-MAIL... PORÉM, O MAIS DIFÍCIL, MESMO, NÃO É (PARA MIM, PELO MENOS) ESCREVER EM SI. É ESCREVER UMA COISA ENQUANTO FALO OUTRA. – 11 P O R T U G U ÊS B REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 11 1. (UNICAMP-SP-2018) – O trecho abaixo corresponde à parte final do primeiro Sermão de Quarta-Feira de Cinza, pregado em 1672 pelo Padre Antônio Vieira. a) Levando em conta o trecho e o propósito argumentativo do Sermão, explique por que, segundo Vieira, se deve preservar “a memória da morte”. RESOLUÇÃO: O primeiro Sermão de Quarta-Feira de Cinza desenvolve o tema da vaidade e do desengano da vida, fatores perigosos para quem almeja a salvação da alma. No trecho acima, o objetivo do orador é convencer o receptor de que, para que se consiga a salvação, é preciso sempre ter em mente a extrema importância da hora da sua morte, pois é nesse momento em que se dará conta das escolhas feitas em vida e que se arcará com as consequências dessas escolhas. Em resumo, é o momento em que se assegurará a salvação no Paraíso ou a danação no Inferno. O verdadeiro seguidor dos preceitos divinos deve afastar-se dos valores mundanos, da vaidade, pois são efêmeros e enganosos e causam a perdição da alma. b) Considere as perguntas presentes no trecho e explique sua função para a mensagem final do Sermão. RESOLUÇÃO: As interrogações presentes no trecho funcionam como perguntas retóricas e têm como objetivo provocar a reflexão do receptor e induzi-lo a ter comportamento adequado para a salvação da alma. A intenção de todas essas perguntas, portanto, é fazer com que aquele que queira ser um bom cristão avalie a forma como vive e busque orientar sua existência de maneira a assegurar o Paraíso. Em que cuidamos, e em que não cuidamos? Homens mortais, homens imortais, se todos os dias podemos morrer, se cada dia nos imos chegando mais à morte, e ela a nós; não se acabe com este dia a memória da morte. Resolução, resolução uma vez, que sem resolução nada se faz. E para que esta resolução dure, e não seja como outras, tomemos cada dia uma hora em que cuidemos bem naquela hora. De vinte e quatro horas que tem o dia, por que se não dará uma hora à triste alma? Esta é a melhor devoção e mais útil penitência, e mais agradável a Deus, que podeis fazer nesta Quaresma. (...) Torno a dizer para que vos fique na memória: Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva? Memento homo. (VIEIRA, Antônio. Sermões de Quarta-Feira de Cinza. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2016, p.102.) 12 – P O R T U G U ÊS B MÓDULO 44 Literatura e Análise de Textos Literários – I REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 12 Texto para a questão 2. 2. Vieira afirma que “duas coisas prega hoje a Igreja”. Com base no exposto pelo autor: a) Aponte a semelhança entre essas duas coisas. RESOLUÇÃO: As duas coisas que a Igreja prega são certas, ou seja, são indubitáveis, inquestionáveis, têm sua existência garantida. Além disso, há a palavra pó como característica intrínseca à condição humana. b) Indique as diferenças entre elas. RESOLUÇÃO: Uma das coisas que a Igreja prega é evidente e futura, ou seja, fácil de perceber que acontecerá em tempos vindouros. A outra é dificultosa e presente, ou seja, é difícil perceber que esteja ocorrendo no presente momento. Texto para as questões de 3 a 5. 3. (UFSCar-SP – adaptada) a) De que forma o autor reproduz, no texto escrito, características próprias do discurso falado? RESOLUÇÃO: No texto de Vieira, percebem-se várias construções em que o orador se dirige ao receptor, ao ouvinte do sermão: “Ora, (...) perguntar-me-eis”, “Não é assim?”. Essas expressões, que buscam o contato com o receptor, são bem próprias do discurso falado. A própria série de orações interrogativas pressupõe um receptor de um discurso falado. b) Antes de iniciar sua pregação, Vieira fundamenta-se num argumento que, do ponto de vista religioso, se mostra incontestável. Transcreva esse argumento e explique-o. RESOLUÇÃO: A afirmação “pois Deus o disse” corresponde ao argumento de fé utilizado por Vieira. Como se trata de uma afirmação de Deus, deve então, do ponto de vista religioso, ser tomada como um fato inquestionável, dogmático. Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas gratuitas, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para a crer; outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura; mas a futura veem-na os olhos; a presente não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, et in pulverem reverteris. Sois pó, e em pó vos haveis de converter. Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura. O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, veem-no os olhos: o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o veem, nem o entendimento o alcança. Que me diga a Igreja que hei de ser pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento para o crer. Naquelas sepulturas, ou abertas, ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há, é o nada que havemos de ser: tudo pó. (VIEIRA, Antônio. “Sermão da Quarta-Feira de Cinza: ano de 1672”. In: A Arte de Morrer. São Paulo: Nova Alexandria, 1994, p. 47.) Ora, suposto que já somos pó, e não pode deixar de ser, pois Deus o disse, perguntar-me-eis, e com muita razão, em que nos distinguimos logo os vivos dos mortos? Os mortos são pó, nós também somos pó; em que nos distinguimos um dos outros? Distinguimo-nos os vivos dos mortos, assim como se distingue o pó do pó. Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído; os vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz. Hic jacet. Estão essas praças no Verão cobertas de pó: dá um pé de vento, levanta-se o pó no ar, e que faz? O que faz os vivos, e muitos vivos. Não aquieta o pó, nem pode estar quedo; anda, corre, voa; entra por esta rua, sai por aquela; já vai adiante, já torna atrás; tudo enche, tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo toma, tudo cega, tudo penetra, em tudo e por tudo se mete, sem aquietar nem sossegar um momento, enquanto o vento dura. Acalmou o vento: cai o pó, e onde o vento parou, ali fica; ou dentro de casa, ou na rua, ou em cima de um telhado, ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na campanha. Não é assim? Assim é. (VIEIRA,Antônio. “Sermão da Quarta-Feira de Cinza: ano de 1672”. In: A Arte de Morrer. São Paulo: Nova Alexandria, 1994, p. 54.) – 13 P O R T U G U ÊS B REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 13 14 – P O R T U G U ÊS B 4. “Distinguimo-nos os vivos dos mortos, assim como se distingue o pó do pó.” a) O trecho acima contém uma afirmação aparentemente absurda, um paradoxo. Explique. RESOLUÇÃO: O paradoxo consiste na afirmação de que o pó se distingue do pó. Na verdade, trata-se de um absurdo aparente, pois a palavra pó não tem o mesmo sentido nas duas ocorrências. Num caso, ela representa a insignificância do homem, tem sentido conotativo; no outro, o que resultará do homem após a morte, sendo o sentido literal. b) Reescreva o trecho com seus termos na ordem direta. RESOLUÇÃO: Os vivos distinguimo-nos dos mortos, assim como o pó se distingue do pó. 5. Vieira contrasta duas realidades: a do pó levantado e a do pó caído. a) Como, sintaticamente, essa oposição se realiza no texto? RESOLUÇÃO: A realidade do pó levantado é expressa por meio de uma sequência de orações coordenadas assindéticas curtas, o que conota o dinamismo da vida: “anda, corre, voa; entra por esta rua, sai por aquela; já vai adiante, já torna atrás; tudo enche, tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo toma, tudo cega, tudo penetra”. Já a realidade do pó caído é expressa por uma sequência de expressões em que se diminui a incidência de verbos que semanticamente expressam intenso dinamismo: “Acalmou o vento: cai o pó e onde o vento parou, ali fica, dentro de casa, ou na rua, ou em cima de um telhado, ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na campanha.” b) “Não aquieta o pó, nem pode estar quedo; anda, corre, voa; entra por esta rua, sai por aquela; já vai adiante, já torna atrás; tudo enche, tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo toma, tudo cega, tudo penetra, em tudo e por tudo se mete, sem aquietar nem sossegar um momento, enquanto o vento dura.” Considerando-se a relação de movimento e estaticidade entre o pó levantado e o pó caído, indique qual dessas ideias (movimento ou estaticidade) prevalece no trecho em análise e as figuras de linguagem utilizadas para exprimi-la. RESOLUÇÃO: No trecho, prevalece a ideia de movimento (“anda, corre, voa”). A construção desse trecho, visando-se à expressão de movimento, contém gradação e assíndeto (“anda, corre, voa”), antítese (“entra por esta rua”, “sai por aquela”; “já vai adiante, já torna atrás” e a anáfora do pronome tudo (“tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba...”). Há várias passagens que podem servir de exemplos. REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 14 – 15 P O R T U G U ÊS B 1. Leia o trecho a seguir e responda ao que se pede: a) No trecho transcrito, parte da nota de rodapé inserida pelo editor ficcional das memórias de Silvestre da Silva, há uma crítica em relação à sociedade lusa. Comente-a. RESOLUÇÃO: A crítica camiliana dirige-se ao representante de uma nobreza decadente, que faz das mulheres objeto de prazer e de dominação oportunista. b) A parte final do texto apresenta forte ironia do autor. Explique-a. RESOLUÇÃO: O conde envelhece pleno de saúde e na companhia de uma (recente) amante, talvez não tão recente assim, já que tinha sido expulsa pela condessa. O homem desfruta de regalias e não sofre punição por suas atitudes, reforçando-se a crítica ao comportamento machista e sexista. 2. Considerando as obras Coração, Cabeça e Estômago, de Camilo Castelo Branco, e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, responda ao que se pede: a) Silvestre da Silva e Brás Cubas, personagens, respectivamente, de Coração, Cabeça e Estômago e de Memórias Póstumas de Brás Cubas, superestimam ironicamente dois curiosos órgãos do corpo humano em suas narrativas. Quais são eles e o que simbolizam? RESOLUÇÃO: Silvestre da Silva elege o estômago como guia de vida, pois libertaria o homem dos sonhos do coração e do sofrimento que a racionalidade provoca, e Brás Cubas exalta o poder do nariz, pois “Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o fenômeno mais excelso do espírito. Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o próprio nariz (...) cujo efeito é a subordinação do universo a um nariz somente”, constituindo “o equilíbrio da sociedade”. O estômago simboliza a imposição dos prazeres gastronômicos e irracionais na vida humana, e o nariz conota a autoidolatria que impede o indivíduo de notar a existência do outro e do jogo social. b) Comparando-se os romances Coração, Cabeça e Estômago e Memórias Póstumas de Brás Cubas quanto aos narradores, quais semelhanças podem ser estabelecidas? RESOLUÇÃO: Os dois romances são memórias narradas pelas personagens centrais, mas, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o relato é feito por um defunto autor, Brás Cubas, que, depois de sua morte, relata sua trajetória de vida. Em Coração, Cabeça e Estômago, Silvestre da Silva é um escritor defunto que deixou suas memórias para serem publicadas por um amigo, o editor do livro. Chamava-se Margarida a dama. Viveu ainda até 1857 e morreu da febre amarela, e o filho também. Conta-se que o conde, receoso do contágio, não ousara vir a Lisboa, das Caldas da Rainha, onde estava, quando Margarida o mandou chamar para despedir-se. Morreu contemplando os paroxismos do filho. Os criados abandonaram-na no último dia. Estava sozinha quando expirou. O conde está ótimo de saúde e transferiu a mobília de Margarida para os aposentos de uma criada, que a condessa expulsou de casa... (Camilo Castelo Branco, Coração, Cabeça e Estômago) MÓDULO 55 Literatura e Análise de Textos Literários – II REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 15 16 – P O R T U G U ÊS B 3. (FUVEST-SP-2018) – Leia o texto e responda ao que se pede: 1 – Murta: arbusto, árvore pequena. a) É possível relacionar a imagem da murta ao destino de Iracema no romance? Explique. RESOLUÇÃO: Na passagem, há um encadeamento de metáforas, que forma uma alegoria. Iracema é simbolizada pela murta, que morre. O jacarandá frondoso conota o colonizador Martim. É possível relacionar a imagem da murta que morre ao destino de Iracema, pois, assim como a raiz da planta morre para a árvore crescer, Iracema morre de paixão por Martim; é mártir do amor. b) A frase “Se ela não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer tão alto” pode ser entendida como uma alegoria do processo de colonização do Brasil? Explique. RESOLUÇÃO: Sim, essa frase pode ser entendida como uma alegoria do processo de colonização do País. Iracema, anagrama de América, simboliza a terra primitiva e edênica. Martim, cujo sentido etimológico é “o filho do guerreiro”, conota o colonizador luso, idealizado, com moral rigidamente cristã, segundo o narrador. A metrópole portuguesa, simbolizada por Martim, domina a terra, Iracema, aproveita-se dela, fazendo com que esse mundo primitivo seja exterminado, ocasionando a extinção de uma raça, conforme José de Alencar afirma na carta após o término do livro, que elabora o mito da formação do Brasil. 4. (FUVEST-SP) – Considere os dois trechos de Machado de Assis, relacionados a Iracema e publicados na época em que apareceu esse romance de Alencar, e responda ao que se pede: a) A poesia americana está completamente nobilitada; os maus poetas já não podem conseguir o descrédito desse movimento, que venceu com o autor de “I-Juca-Pirama”, e acaba de vencer com o autor de Iracema. (Adaptado de Machado de Assis, Crítica Literária) Machado de Assis refere-se, neste trecho, a um movimento literário chamado, na época, de “poesia americana” ou “escola americana”. Sob que outro nome veio a ser conhecido esse movimento? Quais eram seus principais objetivos? RESOLUÇÃO: Machado de Assis refere-se ao Indianismo, tendência românticabrasileira cujo objetivo central era nobilitar o passado nacional, associando-o a mitos heroicos elaborados por meio da idealização dos indígenas e de sua cultura, assimilados a padrões europeus de excelência física e moral. b) Tudo em Iracema nos parece primitivo; a ingenuidade dos sentimentos, o pitoresco da linguagem, tudo, até a parte narrativa do livro, que nem parece obra de um poeta moderno, mas uma história de bardo1 indígena, contada aos irmãos, à porta da cabana, aos últimos raios do sol que se entristece. (Adaptado de Machado de Assis, Crítica Literária) 1 – Bardo: poeta heroico, entre os celtas e gaélicos; por extensão, qualquer poeta, trovador etc. No trecho, Machado de Assis afirma que a narração de Iracema não parece ter sido feita por um “poeta moderno”, mas, sim, por um “bardo indígena”. Essa afirmação se justifica? Explique sucintamente. RESOLUÇÃO: A afirmação é pertinente, pois o estilo de Iracema procura incorporar a linguagem e a cosmovisão indígena. A tentativa de simular a cosmovisão aborígene é visível, por exemplo, na marcação temporal, que toma como parâmetro os ciclos da natureza. A apropriação da linguagem indígena ocorre nos nomes próprios, nas aglutinações lexicais, nas perífrases e nas comparações com elementos da natureza. — Não veem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vai subindo às nuvens? A seus pés ainda está a seca raiz da murta1 frondosa, que todos os invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para abraçar o tronco irmão. Se ela não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer tão alto. (José de Alencar, Iracema) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 16 5. Leia o texto a seguir e responda ao que se pede: a) Todo o enredo de Iracema gira em torno do núcleo do amor interdito entre a virgem tabajara e o português desbravador das terras brasileiras. Por que razão o amor deles é proibido e por que Martim repele todas as circunstâncias favoráveis ao encontro sexual entre eles? RESOLUÇÃO: Iracema e Martim sentem forte atração entre si, no entanto Iracema é uma virgem consagrada ao deus indígena Tupã e, portanto, uma sacerdotisa. Como no mito cristão, a virgindade de Iracema não poderia ser maculada por homem algum, para que o serviço da virgem fosse aceito pelo deus. Por outro lado, o forte caráter moral do guerreiro cristão repelia todas as circunstâncias favoráveis ao sexo, por sentir-se comprometido com a hospitalidade que recebera de Araquém, pai de Iracema e autoridade sacerdotal entre os tabajaras. Além disso, não queria colocar Iracema numa situação em que a tribo a condenaria mortalmente. b) Embora proibido, o encontro sexual entre Martim e Iracema acontece. De que maneira isso foi possível? RESOLUÇÃO: O encontro sexual entre Martim e Iracema só se consuma porque ela lhe fornece a bebida sagrada e alucinógena, o segredo da jurema. A concretização do ato sexual, portanto, só é possível porque Martim está sob efeito da droga. Para ele, as visões e sensações do corpo de Iracema não passam de fantasia erótica, de “sonho”. Só mais adiante Martim perceberá o que houve, quando Iracema lhe diz que não é mais a virgem de Tupã. c) A morte de Iracema pode ser prevista pelo leitor atento, se tiver conhecimento das principais características românticas. Explique em que a morte da protagonista pode ser considerada moralizante, do ponto vista dessa escola literária. RESOLUÇÃO: A morte de Iracema acaba se tornando previsível no contexto, pois, além da profecia de Araquém, no início do livro, pode-se notar que as escolhas da protagonista a levarão a ser punida pelas profanações que cometeu. Tendo traído o deus Tupã e se entregado sexualmente a um homem, ela paga por esses erros. Tal punição, além de ser condizente com o contexto do romance, também tem respaldo no caráter moralizante do Romantismo, escola em que o desvio moral é geralmente punido exemplarmente, ainda que esse desvio de conduta seja gerado por um motivo irrefreável, humana e romanticamente compreensível, o amor. (...) tirou a virgem do seio o vaso que ali trazia oculto (...) Martim lho arrebatou das mãos e libou as gotas do verde e amargo licor. Agora podia viver com Iracema e colher em seus lábios o beijo que ali viçava entre sorrisos como o fruto na corola da flor. Podia amá-la e sugar desse amor o mel e o perfume, sem deixar veneno no seio da virgem. (...) Quando veio a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada qual borboleta que dormiu no seio do formoso cacto. (...) Vendo Martim a virgem unida a seu coração, cuidou que o sonho continuava; cerrou os olhos para torná-los a abrir. (...) A filha de Araquém escondeu no coração a sua ventura. Ficou tímida e inquieta, como a ave que pressente a borrasca no horizonte. Afastou-se rápida e partiu. As águas do rio banharam o corpo casto da recente esposa. Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras. (José de Alencar, Iracema) – 17 P O R T U G U ÊS B REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 17 1. (UNICAMP-SP) – Em A Relíquia, de Eça de Queirós, várias são as mulheres com quem Teodorico Raposo, o herói e narrador, se vê envolvido. Entre elas, podemos citar Mary, Adélia, Titi, Jesuína, Cibele. a) Uma dessas personagens é importantíssima para a trama do romance, já que acompanha o narrador desde a infância, e deve-se a ela a origem de todos os seus infortúnios posteriores. Quem é e o que fez ela para que o plano de Raposo não desse certo? RESOLUÇÃO: Entre as diversas personagens femininas citadas no enunciado da questão, apenas uma acompanhou Teodorico Raposo desde a infância. Trata-se de titi, sua tia D. Maria do Patrocínio das Neves, a cuja herança ele teria direito, caso se comportasse como um perfeito católico (segundo a perspectiva da tia). Como tal não acontece, e tendo sido descoberto o engodo que Raposo lhe preparava, titi expulsa-o da casa e deserda-o. b) A qual delas Raposo se refere quando diz “Tinha trinta e dois anos e era zarolha”? Que relações tem essa personagem com Crispim, a quem o narrador denomina “a firma”? RESOLUÇÃO: Trata-se de Jesuína, com quem Teodorico se casa. Trata-se da irmã de Crispim, o próspero amigo, herdeiro da firma Crispim & Cia. Não sem ironia, Teodorico chama-o “a firma”, para sugerir que a identidade do amigo se sustenta mais no valor financeiro do que no afetivo. A nomeação “a firma” corresponde à figura de palavra denominada metonímia, que se baseia na relação de contiguidade. 2. No romance A Relíquia, de Eça de Queirós, logo após saber que o Padre Negrão herdara o melhor da fortuna de G. Godinho e ainda tem Adélia como amante, Teodorico Raposo chega a uma amarga conclusão. a) Qual é essa conclusão? Comente-a. RESOLUÇÃO: Teodorico conclui que “fora esbulhado dos contos de G. Godinho simplesmente” porque faltou no oratório da tia Patrocínio a coragem de afirmar que aquela relíquia, a “camisa de dormir de Miss Mary”, era melhor que a forjada coroa de espinhos de Cristo. Deveria ter dito: “é a camisa de Santa Maria Madalena”. Acrescentando ainda que estava acompanhada de uma carta sobre o gozo celestial que Maria Madalena sentiu. Faltou-lhe, portanto, o descaramento de mentir com convicção, alterando, assim, os fatos. b) Pode-se dizer que essa conclusão sobre o que se considera verdade se refere apenas ao elemento místico? Por quê? RESOLUÇÃO: Não se pode dizer isso, porque, como consta do último parágrafo do romance, “‘esse descarado heroísmo de afirmar’, que batendo na Terra com pé forte, ou palidamente elevando os olhos ao Céu, cria, através da universal ilusão, ciências e religiões”. 18 – P O R T U G U ÊS B MÓDULO 66 Literatura e Análise de Textos Literários – III REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 18 – 19 P O R T U G U ÊS B 3. É correto afirmar que, além de críticasocial, o romance A Relíquia também contém o elemento fantástico? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: Sim, além de crítica social — a hipocrisia religiosa —, o romance A Relíquia também inclui o elemento fantástico, como indica a legenda do livro: “Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”, base da narrativa, que propicia o elemento alegórico ou fantástico. No sonho de Teodorico em Jerusalém, tem-se não só a revelação da personalidade de Teodorico, mergulhada em dilemas insolúveis, como também uma “reconstituição histórica, erudita, altamente racional da morte de Jesus. No seu sonho, fundem-se Realidade e Fantasia, Imaginação e Realismo, o Fantástico e Naturalismo, e Teodorico, turista maganão, cético e algo enfastiado, sempre a lamentar a falta dos prazeres mundanos da cidade de Salomão, descobre a antiga cidade judaica, sendo repentinamente testemunha inesperada do drama cristão, feito o Teodorico Evangelista, autor de um novo evangelho, narrado na primeira pessoa” (extraído do verbete sobre A Relíquia no Dicionário de Eça de Queirós). Há críticos que chegam a classificar o capítulo 3 de A Relíquia como um pseudossonho. 4. (FUVEST-SP-2018) – Leia o texto e responda ao que se pede: a) Pode-se afirmar que, neste excerto, além de resumir a existência de D. Plácida, o narrador expressa uma certa concepção de trabalho? Justifique. RESOLUÇÃO: Sim, o narrador não só resume a existência de D. Plácida, como também expressa uma certa concepção de trabalho, já que ela, mulher livre e pobre, trabalha arduamente, exercendo várias funções, e acaba, posteriormente na narrativa, até mediando a relação adúltera da patroa Virgília com Brás Cubas. Na trajetória existencial de D. Plácida, percebe-se que o trabalho não enobrece, nem dá, no Segundo Reinado, condição decente ao homem na sociedade patriarcal e escravagista do Brasil. b) De que maneira o ritmo textual, que caracteriza a possível resposta dos sacristãos, colabora para a caracterização de D. Plácida? RESOLUÇÃO: O ritmo textual é obtido pela extensa enumeração de breves orações reduzidas de infinitivo, com ideia de finalidade, e de gerúndio, com ideia de ação durativa. Em ambos os casos, esse andamento colabora para mostrar que D. Plácida é submetida a uma vida subalterna e pobre, por imposição social. O ritmo e o sentido do texto vão ao encontro da atarefada e dura vida de D. Plácida. 5. Com base no trecho a seguir e no conto “O Espelho” como um todo, responda ao que se pede: É de crer que D. Plácida não falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: — Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam: — Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia. (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas) — Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. (...) — Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 19 20 – P O R T U G U ÊS B a) Por que a concepção do caráter humano no conto “O Espelho” é realista? RESOLUÇÃO: É realista porque, além da análise psicológica aguda, há a concepção de que a nossa personalidade se forma a partir de valores externos, sociais. O caráter deriva de uma atitude, de um status que a sociedade valoriza, e o indivíduo procura se amoldar a isso, anulando a personalidade mais profunda. Enfim, os elementos materiais e sociais formatam a personalidade. A análise da imposição dos valores sociais e materiais sobre os individuais é característica do Realismo. b) O espelho reflete apenas a imagem da personagem que se olha? O que conota o espelho, no conto homônimo de Machado de Assis? RESOLUÇÃO: O espelho não reflete apenas a imagem de quem se olha, ele reflete o olhar da sociedade, do outro formatando o caráter de quem se observa. Quando falta esse olhar social, o narrador não se vê. Sem a farda, Jacobina não aparece integralmente no vidro. O espelho conota o valor social a que o indivíduo se submete para ser reconhecido e valorizado. O que Jacobina busca no espelho “é a imagem de si tal qual a vê o olho do outro que o agracia como alguém que subiu na vida. A opinião era o seu único espelho fidedigno; ausente ela, quebrado este, a imagem que resta é o lado do sujeito em enigma” (Alfredo Bosi), difusa, sem integridade. 6. (FUVEST-SP) – Considere o excerto em que Araripe Júnior, crítico associado ao Naturalismo, refere-se ao “estilo” praticado “nesta terra”, isto é, no Brasil: a) O modo pelo qual o crítico explica a feição que o “estilo” assume “nesta terra” indica que ele compartilha com o Naturalismo um postulado fundamental. Qual é esse postulado? Explique resumidamente. RESOLUÇÃO: [FUVEST-SP-2017] Araripe Júnior defende a tese de que o Naturalismo, estética de origem francesa, foi estilisticamente adaptado ao contexto brasileiro. A referência a frutos que, nesta terra, deformam-se, como a pinha, ou que provocam feridas na língua, é índice de uma doutrina fundamental do Naturalismo: o determinismo, formulado por Hippolyte Taine, que via o homem submetido inevitavelmente ao condicionamento de raça, meio e momento. No texto de Araripe Júnior, há referência ao determinismo do meio. b) As características de estilo sugeridas pelo crítico, no excerto, aplicam-se ao romance O Cortiço, de Aluísio Azevedo? Justifique sucintamente sua resposta. RESOLUÇÃO: [FUVEST-SP-2017] Sim, a doutrina determinista, na qual se baseia Aluísio Azevedo, justifica-se, dada a influência que o meio social do cortiço e a natureza do Brasil exercem sobre as personagens, moldando-lhes o caráter e a forma de vida. Exemplo notável disso é o caso de Jerônimo, imigrante português, trabalhador, que se transforma completamente: abandona a esposa e a filha, envolve-se com Rita Baiana (símbolo da terra e da sexualidade brasileiras). Jerônimo foi vencido pelo sol e pelo calor do Brasil: substitui os costumes alimentares e a música portugueses pelos brasileiros, culminando o seu abrasileiramento na vagabundagem embriagada. Jerônimo cede, portanto, à força do meio e é vencido por ele, de forma semelhante ao que ocorre com Pombinha, menina educada em meio abastado e que é influenciada pelo meio social, o cortiço, a partir da absorção das intimidades dos moradores para os quais ela lia e escrevia cartas. O sol tropical é também visto como elemento fertilizador, como ocorre no momento da menarca de Pombinha. O estilo, nesta terra, é como o sumo da pinha, que, quando viça, lasca, deforma-se, e, pelas fendas irregulares, poreja o mel dulcíssimo, que as aves vêm beijar; ou como o ácido do ananás do Amazonas, que desespera de sabor, deixando a língua a verter sangue, picada e dolorida. REVGERAL2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 20 1. (FUVEST-SP-2018) – Leia o texto e atenda ao que se pede: 1 – Carpir-se: lamentar-se. a) O ponto de vista do eu lírico em relação à “máquina do mundo” ilustra as principais características de Claro Enigma? Justifique. RESOLUÇÃO: O livro Claro Enigma (1951), pertencente à terceira fase da obra de Carlos Drummond de Andrade, caracteriza-se pelo questionamento metafísico e pela crise existencial, afastando-se da temática social e da poética iconoclasta das fases anteriores. Em “A Máquina do Mundo”, cuja forma e conteúdo dialogam com a poesia do poeta renascentista Dante Alighieri, há a possibilidade de o eu lírico desvendar “a total explicação da vida, / esse nexo primeiro e singular”, pois a máquina fez-lhe esse convite, que é surpreendentemente rejeitado. Penúltimo poema de Claro Enigma, “A Máquina do Mundo” sintetiza um percurso reflexivo e insolúvel recorrente no livro. O tom sombrio é evidenciado, nas quatro estrofes transcritas, nas expressões “de chumbo”, “escuridão” e, principalmente, “desenganado”. Esse sentido de perplexidade, de isolamento, é recorrente em Claro Enigma, como se nota já nos dois versos iniciais do primeiro poema do livro, “Dissolução”: “Escurece, e não me seduz / tatear sequer uma lâmpada”. b) Transcreva o verso que sintetiza o evento sublime de que trata o texto. RESOLUÇÃO: O verso que sintetiza o evento sublime é “a máquina do mundo se entreabriu”. A MÁQUINA DO MUNDO E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado, a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia1. (...) (Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma) – 21 P O R T U G U ÊS B MÓDULO 77 Literatura e Análise de Textos Literários – IV REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 21 22 – P O R T U G U ÊS B Texto para as questões de 2 a 4. 2. Os poemas de Claro Enigma (1951) foram compostos durante a disputa ideológica entre capitalismo e comunismo, no período da chamada Guerra Fria, em que Estados Unidos e União Soviética revelavam caminhos igualmente questionáveis em seus métodos de ação. Drummond passa por um relativo esvaziamento de suas crenças políticas — de tendência socialista —, que o faziam ter uma postura poética compromissada com as questões sociais. A epígrafe de Claro Enigma é um verso de Paul Valéry: “les événements m’ennuient” (os acontecimentos me entediam). a) Nas duas primeiras estrofes do poema “Dissolução”, como reage o eu lírico diante da escuridão que se estabelece? Pode-se afirmar que o poeta continua com a mesma postura engajada nas questões sociais que revelou em livros anteriores? RESOLUÇÃO: Diante da escuridão, o eu lírico permanece de braços cruzados, sem ímpeto de reagir: “não me seduz / tatear sequer uma lâmpada”, “aceito a noite”. Portanto, depois de um período de engajamento político mais explícito, Drummond recolhe-se a uma autorreflexão da maturidade. O abandono da militância conduz o poeta a uma introspecção mais acentuada e à adoção de formas poéticas mais tradicionais, como demonstram vários poemas de Claro Enigma. b) “Dissolução” é o primeiro poema de Claro Enigma e dá a tônica a partir da qual se desenvolvem os poemas do livro, cuja parte inicial é intitulada “Entre Lobo e Cão”. Pode-se dizer que a palavra “escurece”, que inicia o poema, é a representação do nada? Explique. RESOLUÇÃO: Não, pois a escuridão traz uma nova disposição das coisas, já que, com a noite, o eu lírico não consegue delinear as figuras: “seres e coisas não figuradas” que se apresentam agora numa nova disposição, organização — “ordem outra de seres / e coisas não figuradas”. 3. Embora a definição de melancolia seja imprecisa, há um consenso quanto a algumas de suas características, desde estudiosos antigos, sendo entendida como: vazio interior, sensação de profundo desânimo em relação à vida, reação à possível perda de um objeto e, a partir de Freud, como sendo, talvez, a perda do próprio eu, a depressão diante da impossível reação, a falta de noção de si mesmo. a) Com base nas informações apresentadas, é correto afirmar que o eu lírico de “Dissolução” está melancólico? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: Sim, é correto, pois nota-se o vazio interior do eu lírico, explicitado sobretudo na terceira estrofe: “Vazio de quanto amávamos”, verso que reflete profundo desânimo em relação ao mundo externo, que não o atrai, é desinteressante e mais “vasto” do que o “eu” — “mais vasto é o céu” (que escurece tudo). DISSOLUÇÃO Escurece, e não me seduz tatear sequer uma lâmpada. Pois que aprouve ao dia findar, aceito a noite. E com ela aceito que brote uma ordem outra de seres e coisas não figuradas. Braços cruzados. Vazio de quanto amávamos, mais vasto é o céu. Povoações surgem do vácuo. Habito alguma? E nem destaco minha pele da confluente escuridão. Um fim unânime concentra-se e pousa no ar. Hesitando. E aquele agressivo espírito que o dia carreia consigo, já não oprime. Assim a paz, destroçada. Vai durar mil anos, ou extinguir-se na cor do galo? Esta rosa é definitiva, ainda que pobre. Imaginação, falsa demente, já te desprezo. E tu, palavra. No mundo, perene trânsito, calamo-nos. E sem alma, corpo, és suave. (Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 22 b) O primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, Alguma Poesia (1930), apresenta um eu lírico definido, no primeiro poema, como gauche — palavra da língua francesa que significa “canhoto, esquerdo”, mas, metaforicamente, adquiriu o significado de “diferente, estranho, deslocado em relação ao mundo”. Pode-se afirmar que, no poema “Dissolução”, o eu lírico continua sendo gauche, no sentido metafórico? RESOLUÇÃO: Sim, a afirmação procede, pois o eu lírico sente-se deslocado em relação à nova situação, não se identifica nem com as pessoas, nem com qualquer lugar, o que se nota no fato de ele não saber se habita alguma dessas novas povoações: “... Povoações / surgem no vácuo. / Habito alguma?”. Ressalte- se ainda a diferença de linguagem entre o primeiro livro, seguidor das inovações vanguardistas modernistas, e Claro Enigma, cuja linguagem ganha dimensão mais clássica, sem cortes abruptos. José Guilherme Merquior classifica a terceira fase de Drummond como a do “Modernismo classicizante”. 4. Apesar de a noite parecer um dado exterior, não se trata de algo objetivo, mas de uma indicação da subjetividade, um índice de desilusão, de falta de perspectivas em relação à realidade. a) A afirmação está correta em relação à quarta estrofe? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: Sim, essa afirmação é pertinente, pois a exterioridade e a interioridade do eu poético unem-se a tal ponto, que ele não pode destacar sua pele da “confluente escuridão”. Impera a visão subjetiva nesse “fim unânime”. b) Qual o significado da palavra “dissolução”, título do poema? Relacione-a com o conteúdo da quarta estrofe. RESOLUÇÃO: Dissolução significa “decomposição, desagregação, deterioração”. O indivíduo vê suas expectativas e esperanças dissolverem-se na noite e percebe que se anuncia um término, retomado na quarta estrofe: “Um fim unânime concentra-se / e pousa no ar. Hesitando.” A palavra “hesitando” traz um caráter oscilante a esse epílogo, uma mistura de pressentimento e ameaça real. Leia o poema “Sonetilho do Falso Fernando Pessoa”, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), que integra o livro Claro Enigma, publicado em 1951: 1 – Fausto: personagem do poematrágico homônimo de Goethe e que fez um pacto com o diabo. 2 – Mefisto (ou Mefistófeles): personagem satânica da Idade Média, também presente em Fausto, de Goethe. 3 – Oaristo: conversa carinhosa e familiar. 5. (UNESP) – Carlos Drummond de Andrade intitulou seu poema de “Sonetilho do Falso Fernando Pessoa”. Por que razão o poeta se refere a seu poema como “sonetilho”? Transcreva um verso em que a referência aos heterônimos do escritor português Fernando Pessoa se mostra evidente. Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: [UNESP-2017] Sonetilho é um soneto com versos curtos. No soneto clássico petrarquista, há quatro estrofes (dois quartetos e dois tercetos) e o verso tem dez sílabas métricas (versos decassílabos). O sonetilho de Drummond também tem quatro estrofes (dois quartetos e dois tercetos), mas versos de apenas seis sílabas métricas (versos hexassílabos). O poema mantém um diálogo intertextual com a poesia de Fernando Pessoa e seus heterônimos, e o verso que torna isso mais evidente é o último (“mas não sou eu, nem isto”), a chave de ouro, a síntese do poema. Nesse verso, há referência à despersonalização de Fernando Pessoa (“não sou eu”) e aos vários pontos de vista de suas máscaras poéticas. Onde nasci, morri. Onde morri, existo. E das peles que visto muitas há que não vi. Sem mim como sem ti posso durar. Desisto de tudo quanto é misto e que odiei ou senti. Nem Fausto1 nem Mefisto2, à deusa que se ri deste nosso oaristo3, eis-me a dizer: assisto além, nenhum, aqui, mas não sou eu, nem isto. (Carlos Drummond de Andrade, Claro Enigma) – 23 P O R T U G U ÊS B REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 23 24 – P O R T U G U ÊS B 1. (UNICAMP-SP-2018) – Na “Nota preliminar” escrita para a primeira edição do livro Poemas Negros, de Jorge de Lima, o antropólogo Gilberto Freyre afirma que, graças à “interpenetração de culturas, entre nós tão livre”, e graças ao “cruzamento de raças, o Brasil vai-se adoçando numa das comunidades mais genuinamente democráticas e cristãs do nosso tempo”. Com base no poema “Democracia”, responda às questões que se seguem: a) A ideia de “adoçamento” social está presente tanto no poema de Jorge de Lima quanto no texto de Gilberto Freyre. Aponte dois episódios da formação do poeta, referidos no poema, que exemplificam essa interpretação. Justifique sua escolha. RESOLUÇÃO: Pode-se entender a ideia de “adoçamento social” como um processo de convívio interétnico, que escamoteia o choque social e cultural ocorrido na formação da nação brasileira e que se prolongou na nossa sociedade. Essa visão aparece também em Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, em que se nota um orgulho por termos essa democracia mítica, tida como única e diversa de outras culturas, em virtude desse elemento de convívio no engenho. No poema “Democracia”, a interpenetração cultural ocorre em: I) “Mãe-negra me contou histórias de bicho” (há influência da cultura negra, da ama que cuidava do filho do senhor de engenho); II) “tocando maracá” (há influência da cultura indígena, pois o maracá é um instrumento musical de origem nativa); III) “brincando com as crioulas” (há referência à relação erótica do filho do senhor de engenho com as mulheres negras agregadas, e o convívio sexual aparece também em “emprenhando tudo que encontrava”). A resposta admite também outros versos, desde que tratem da interpenetração de culturas. b) Considerando elementos da composição do poema, explique de que maneira a ideia de “democracia”, presente no título, manifesta-se no texto. RESOLUÇÃO: A palavra “democracia”, no poema, tem o sentido de convívio entre classes e etnias e vai ao encontro do excerto de Gilberto Freyre: “a interpenetração de culturas, entre nós tão livre” ao lado do “cruzamento de raças”. Esse convívio é evidenciado no contexto do poema (o engenho de cana-de-açúcar em Alagoas) pela referência à cultura negra (“Mãe- negra me contou histórias de bicho”), à cultura indígena (“meu corpo pintado de urucu”) e pela influência da cultura da religião do colonizador luso (“catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes”), culminando nesse convívio intercultural e interétnico nos versos finais do poema (“me misturando, me sumindo, me acabando… / tatuado de cruzes, de corações, de mãos-ligadas, / de nomes de amor em todas as línguas de branco, de mouro ou de pagão”). Enaltecem-se, assim, a miscigenação e o convívio nessa democracia. Frise- se que a interpenetração de culturas, a democracia, é recorrente no texto e já visível nos primeiros versos, na alusão à rede para dormir, proveniente da cultura indígena, e na invocação a Walt Whitman, poeta norte- americano que também apregoava esse ideal. DEMOCRACIA Punhos de rede embalaram o meu canto para adoçar o meu país, ó Whitman. Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados, catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes, carumã me alimentou quando eu era criança, Mãe-negra me contou histórias de bicho, moleque me ensinou safadezas, massoca, tapioca, pipoca, tudo comi, bebi cachaça com caju para limpar-me, tive maleita, catapora e ínguas, bicho-de-pé, saudade, poesia; fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá, dizendo coisas, brincando com as crioulas, vendo espíritos, abusões, mães-d’água, conversando com os malucos, conversando sozinho, emprenhando tudo que encontrava, abraçando as cobras pelos matos, me misturando, me sumindo, me acabando, para salvar a minha alma benzida e meu corpo pintado de urucu, tatuado de cruzes, de corações, de mãos-ligadas, de nomes de amor em todas as línguas de branco, [de mouro ou de pagão. (LIMA, Jorge de. Poesias Completas. v. I. Rio de Janeiro / Brasília: J. Aguilar / INL, 1974, p.160, 164-165.) MÓDULO 88 Literatura e Análise de Textos Literários – V REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 24 2. Neste poema, pode-se observar o sincretismo linguístico. Dê exemplos desse sincretismo e evidencie quais culturas estão presentes. RESOLUÇÃO: O sincretismo cultural e linguístico pode ser observado no uso de palavras como massoca, tapioca, pipoca, jenipapo, carumã etc., de origem indígena; catecismo, saudades, cruzes etc., de origem europeia; e moleque, da cultura africana. Texto para a questão 3. 1 – Pajeú (?-1897): Revolucionário brasileiro nascido em Pernambuco e falecido em Canudos, Bahia. Um dos líderes militares da Guerra de Canudos, foi hábil estrategista, derrotando várias vezes, com táticas de guerrilha, as forças federais. 2 – Cabeleira (1751-1776): Considerado por muitos pesquisadores como o primeiro grande cangaceiro. Ao lado do pai, assombrou Pernambuco com assaltos e mortes. Sua história foi contada no livro O Cabeleira, de Franklin Távora, precursor do romance regionalista brasileiro. Personagem também presente na literatura de cordel. 3. De que trata o poema “Nordeste”? RESOLUÇÃO: Trata da apresentação de uma espécie de painel das peculiaridades que diferenciam o Nordeste das demais regiões brasileiras e também, do ponto de vista do eu lírico, das características da região merecedoras de louvação. São elas: o clima marcado pelas temidas secas e pelas abençoadas estações chuvosas; algumas das mais relevantes personagens históricas do Nordeste: Pajeú, Cabeleira e Lampião; a paisagem nordestina (“Sertão”, “Pedra Bonita”), além da religiosidade onipresente da população, na qual se inclui o próprio eu lírico (“vamos dar graças a Nosso Senhor”, “Terra de Deus”). Texto para a questão 4. 4. Segundo o poema, qual é a causa da perda da identidade da negra Joaquina Maluca? RESOLUÇÃO: Essa escrava enlouqueceu para esquecer toda a experiência dolorosa por que passou na condição de objeto sexual. NORDESTE Nordeste, terra de São Sol! Irmã enchente, vamos dar graças a Nosso Senhor, que a minha madrasta Seca torrou seus anjinhos para os comer. São Tomépassou por aqui? Passou, sim senhor! Pajeú1! Pajeú! Vamos lavar Pedra Bonita, meus irmãos, com o sangue de mil meninos, amém! D. Sebastião ressuscitou! S. Tomé passou por aqui? Passou, sim senhor. Terra de Deus! Terra de minha bisavó que dançou uma valsa com D. Pedro II. São Tomé passou por aqui? Tranca a porta, gente, Cabeleira2 aí vem! Sertão! Pedra Bonita! Tragam uma virgem para D. Lampião! (Jorge de Lima, Poemas Negros) JOAQUINA MALUCA Joaquina Maluca, você ficou lesa não sei por que foi! Você tem um resto de graça menina, na boca, nos peitos, não sei onde é... Joaquina Maluca, você ficou lesa, não é? Talvez para não ver o que o mundo lhe faz. Você ficou lesa, não foi? Talvez pra não ver o que o mundo lhe fez. Joaquina Maluca, você foi bonita, não foi? Você tem um resto de graça menina não sei onde é... Tão suja de vício, nem sabe o que o foi. Tão lesa, tão pura, tão limpa de culpa, nem sabe o que é! (Jorge de Lima, Poemas Negros) – 25 P O R T U G U ÊS B REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 25 26 – P O R T U G U ÊS B Leia o poema de Murilo Mendes (1901-1975) para responder às questões 5 e 6: 1 – Apascentar: vigiar no pasto; pastorear. 5. (UNESP-2018) a) Explique por que se pode afirmar que o verso inicial desse poema opera uma perturbação ou quebra do discurso lógico. RESOLUÇÃO: O verso inicial quebra o discurso lógico porque os pianos foram considerados como seres animados, passíveis de terem liberdade e se movimentarem numa planície deserta, como animais que correm quando soltos. b) Na segunda estrofe, verifica-se a personificação dos pianos. Que outro elemento também é personificado nessa estrofe? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: Ocorre personificação das rosas, pois, além de essas flores serem migradoras, elas acompanham o eu lírico na função de pastorear os pianos no campo. 6. (UNESP-2018) a) O crítico literário Antônio Cândido caracterizou esse poema como uma “pastoral fantástica”. Tal caracterização alude a qual escola literária? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: A expressão “pastoral fantástica” remete tanto ao Arcadismo ou Neoclassicismo (e, antes dele, à poesia bucólica greco-latina), quanto ao Surrealismo. O gênero pastoral consiste na abordagem idealizada da vida de pastores e o Surrealismo, vanguarda do Modernismo, apresenta como característica o ilógico, o nonsense, com elementos visionários e oníricos, como se observa nos versos “Vejo ao longe com alegria meus pianos / recortarem vultos monumentais / contra a lua”. b) Identifique duas características que permitem vincular esse poema ao movimento modernista. RESOLUÇÃO: Os versos livres, sem métrica, a paródia da tradição literária (a retomada da poesia bucólica do Arcadismo ou Neoclassicismo) e a influência da teoria psicanalítica freudiana na literatura, rompendo com a lógica, são características da vanguarda modernista, iconoclasta não só em relação ao passado literário, como também quanto ao uso da razão para captar a realidade. Embora muitos candidatos possam ter mencionado os versos brancos (sem rima), esse tipo de verso já era usado na poesia do século XVIII, como exemplifica a obra O Uraguai, de Basílio da Gama, publicada em 1769. O PASTOR PIANISTA Soltaram os pianos na planície deserta Onde as sombras dos pássaros vêm beber. Eu sou o pastor pianista, Vejo ao longe com alegria meus pianos Recortarem os vultos monumentais Contra a lua. Acompanhado pelas rosas migradoras Apascento1 os pianos: gritam E transmitem o antigo clamor do homem Que reclamando a contemplação, Sonha e provoca a harmonia, Trabalha mesmo à força, E pelo vento nas folhagens, Pelos planetas, pelo andar das mulheres, Pelo amor e seus contrastes, Comunica-se com os deuses. (As Metamorfoses) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 26 – 27 P O R T U G U ÊS B 1. (FUVEST-SP) – Leia o trecho de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, para, em seguida, responder ao que se pede: a) O trecho pertence à parte de Vidas Secas intitulada “Festa”, na qual se narra a ida da família de sertanejos, acompanhada da cachorra Baleia, à cidade, onde deve participar de uma festividade pública. Considerada esta questão no contexto do livro, como se passa essa participação e o que ela mostra a respeito da socialização da família? RESOLUÇÃO: [FUVEST-SP-2017] O trecho em análise apresenta a família de Fabiano indo à cidade para acompanhar os festejos de Natal. O primeiro fato que chama a atenção é o caráter inusitado dessa participação, pois Fabiano e família não se socializam, ou seja, não interagem com os outros. Essa inadaptação reforça a marginalidade da família. Um dos exemplos é a incapacidade dos meninos de articularem uma linguagem e até de entenderem o que se passa à volta deles. Outro exemplo que ganha destaque, no excerto, é o protagonista sofrer muito para calçar suas botinas. Tais fatores servem para criar um contexto que revela a dificuldade de socialização das personagens de Vidas Secas, o que contribui para caracterizá-las como párias, vítimas de exclusão social. É por causa disso tudo que, no decorrer da festa, há um anticlímax. Fabiano e família estão alienados em relação ao festejo e até a cadela Baleia considera estranha a quantidade de pessoas. b) O tratamento narrativo dado aos eventos apresentados no trecho confere a ele um tom que contrasta com o que é dominante, no conjunto de Vidas Secas. Qual é esse tom? Explique sucintamente. RESOLUÇÃO: [FUVEST-SP-2017] O excerto destacado apresenta a família de Fabiano preparando-se para o festejo de Natal num povoado nordestino. Assim, esse evento acaba servindo para mostrar essas personagens no esforço de assumir elementos civilizadores: a prática de higiene pessoal e a preocupação com a indumentária. Essa tentativa de integração social e civilizatória contrasta com a secura existencial a que estão submetidos os protagonistas no conjunto do romance, já que são apresentados como párias, seres alijados da sociedade. Aí Fabiano parou, sentou-se, lavou os pés duros, procurando retirar das gretas fundas o barro que lá havia. Sem se enxugar, tentou calçar-se — e foi uma dificuldade: os calcanhares das meias de algodão formaram bolos nos peitos dos pés e as botinas de vaqueta resistiram como virgens. Sinha Vitória levantou a saia, sentou-se no chão e limpou-se também. Os dois meninos entraram no riacho, esfregaram os pés, saíram, calçaram as chinelinhas e ficaram espiando os movimentos dos pais. Sinha Vitória aprontava- se e erguia-se, mas Fabiano soprava arreliado. Tinha vencido a obstinação de uma daquelas amaldiçoadas botinas; a outra emperrava, e ele, com os dedos nas alças, fazia esforços inúteis. Sinha Vitória dava palpites que irritavam o marido. Não havia meio de introduzir o diabo do calcanhar no tacão. A um arranco mais forte, a alça de trás rebentou-se, e o vaqueiro meteu as mãos pela borracha, energicamente. Nada conseguindo, levantou-se resolvido a entrar na rua assim mesmo, coxeando, uma perna mais comprida que a outra. Com raiva excessiva, a que se misturava alguma esperança, deu uma patada violenta no chão. A carne comprimiu-se, os ossos estalaram, a meia molhada rasgou-se e o pé amarrotado se encaixou entre as paredes de vaqueta. Fabiano soltou um suspiro largo de satisfação e dor. MÓDULO 99 Literatura e Análise de Textos Literários – VI REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 27 28 – P O R T U G U ÊS B Texto para a questão 2. 2. (FUVEST-SP) – Considere as seguintes afirmações sobre este trecho de Vidas Secas, entendido no contexto da obra, e responda ao que se pede: a) No trecho, torna-se claro que a escassez vocabular do menino contribui de modo decisivo para ampliar as diferenças que distinguem homens de animais. Você concordacom essa afirmação? Justifique, com base no trecho, sua resposta. RESOLUÇÃO: A afirmação não é procedente, pois, ao contrário, a escassez vocabular do menino contribui de modo decisivo para diminuir as diferenças que distinguem homens de animais, como se evidencia tanto na passagem “tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio”, como no fato de o menino se comunicar por meio de “exclamações e de gestos”, tal como a cadela que lhe abana o rabo. b) Neste trecho, como em outros do mesmo livro, é por exprimir suas emoções e sentimentos pessoais a respeito da pobreza sertaneja que o narrador obtém o efeito de contagiar o leitor, fazendo com que ele também se emocione. Você concorda com a afirmação? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: Não há apelo à emoção, pois o narrador de Vidas Secas não se envolve emocionalmente com os fatos que representa. Seu relato, segundo os princípios realistas (o romance de Graciliano Ramos filia-se ao Neorrealismo, que substituiu o experimentalismo modernista da Primeira Geração), é objetivo e mantém neutralidade com relação aos fatos relatados, a qual, em vez de diminuir, intensifica a análise racional do leitor perante o quadro representado. 3. (FUVEST-SP – adaptada) – Leia os itens seguintes e responda ao que se pede: a) Apesar de quase atrofiadas na sua rusticidade, as personagens de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, conservam um filete de investigação da interioridade: cada uma delas se perscruta, reflete, tenta compreender a si e ao mundo, ajustando-o à sua visão. Você considera essa afirmação correta? Justifique brevemente a sua resposta. RESOLUÇÃO: A afirmação é correta, pois esse “filete de investigação da interioridade” é um recurso de que se vale o narrador, por meio do uso do discurso indireto livre, para trazer à tona a linguagem mental de Fabiano e de sua família. b) A dureza do clima, que se manifesta principalmente nas grandes secas periódicas, explica todas as aflições de Fabiano e de sinha Vitória, ao longo da narrativa de Vidas Secas? Justifique a sua resposta. RESOLUÇÃO: A dureza do clima não explica todas as aflições de Fabiano e família, pois as dificuldades que enfrentam não se restringem ao clima e à paisagem. Tais dificuldades decorrem de uma “secura” existencial, linguística e social, advinda de fatores políticos, econômicos e culturais. As aflições de Fabiano derivam, por exemplo, da violência que sofre por parte do Soldado Amarelo (símbolo da autoridade opressora), assim como da incapacidade de comunicação do vaqueiro. O pequeno sentou-se, acomodou nas pernas a cabeça da cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história. Tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morrera no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de gestos, e Baleia respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis de entender. (Graciliano Ramos, Vidas Secas) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 28 – 29 P O R T U G U ÊS B 4. (UNICAMP-SP) – Leia os seguintes trechos de O Cortiço e Vidas Secas: a) Ambos os trechos são narrados em terceira pessoa. Apesar disso, há uma diferença de pontos de vista na aproximação das personagens com o mundo animal e vegetal. Que diferença é essa? RESOLUÇÃO: Em O Cortiço, a aproximação entre o mundo humano e o mundo animal e vegetal decorre unicamente da perspectiva do narrador, pois as personagens são completamente alheias a tal relação. Em Vidas Secas, ao contrário, procede da própria consciência da personagem a sua identificação com o mundo animal, expressa por meio do discurso indireto livre. b) Explique como essa diferença se associa à visão de mundo expressa em cada romance. RESOLUÇÃO: Na visão naturalista, presente em O Cortiço, trata-se de uma visão degradante da humanidade, cujos instintos e apetites são invariavelmente associados a formas “baixas” da natureza. Em Vidas Secas, diferentemente, o rebaixamento da personagem, sua assimilação ao mundo animal, não é visto como algo inerente à humanidade, mas como produto de uma sociedade degradante em sua injustiça. Para Fabiano, porém, chega a ser motivo de orgulho reconhecer-se como “um bicho, capaz de vencer dificuldades”. O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. (...) Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra. (AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. Ficção Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 462.) Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes. Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos — e a lembrança dos sofrimentos passados esmorecera. (...) — Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra. Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: — Você é um bicho, Fabiano. Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades. Chegara naquela situação medonha — e ali estava, forte, até gordo, fumando seu cigarro de palha. — Um bicho, Fabiano. (...) Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado (RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro: Editora Record, 2007, p. 18-19.) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 29 30 – P O R T U G U ÊS B 5. (UNICAMP-SP) – Leia os textos a seguir e responda ao que se pede: a) Nos excertos citados, a seca e a falta de educação formal afetam a existência das personagens. Levando em conta o caráter crítico e político do romance, relacione o problema da seca com a questão da escolarização no que diz respeito à personagem Fabiano. RESOLUÇÃO: Fabiano é um sertanejo nordestino, miserável e flagelado pela seca, que o força periodicamente a se tornar nômade, retirante. Nesse contexto, a questão mais importante para ele é lutar por sua sobrevivência em um ambiente marcado pela injusta distribuição de terra (e de renda). Nessas condições, a educação formal acaba sendo deixada de lado, o que, de acordo com o enredo de Vidas Secas, atrofia a capacidade intelectual dessa personagem, assim como a de seus familiares. A consequência final desses sofrimentos é a incapacidade de compreensão do mundo em que se encontra, o que abre caminho para a exploração e a opressão a que Fabiano e seus familiares se veem recorrentemente submetidos. b) “Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares.” Descreva uma passagem do romance em que, por não saber ler e escrever, Fabiano é prejudicado e não consegue se defender. RESOLUÇÃO: Conforme explicitado no item anterior, as condições sociais a que Fabiano fora submetido impediram-no de obter uma educação formal, o que, na lógica de Vidas Secas, atrofiou sua capacidade intelectual e, consequentemente, seu domínio da linguagem. Dessa forma, essa personagem acaba sendo prejudicada por não saber argumentar e defender-se de maneira eficiente. Um exemplo disso está no capítulo “Cadeia”,em que a personagem não consegue desvencilhar-se do desentendimento com o Soldado Amarelo, que não só humilhou o vaqueiro, como também foi responsável pelo fato de o protagonista ter apanhado e passado a noite na prisão. Outro exemplo está no capítulo “Contas”, em que Fabiano, ao perceber que recebera do patrão bem menos do que esperava, não consegue fazer valer a sua reivindicação, deixando-se ser explorado. Um dia... Sim, quando as secas desaparecessem e tudo andasse direito... Seria que as secas iriam desaparecer e tudo andar certo? Não sabia. (RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 118. ed., Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 25.) Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares. O demônio daquela história entrava-lhe na cabeça e saía. Era para um cristão endoidecer. Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la. Impossível, só sabia lidar com bichos. (RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 118. ed., Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 35.) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 30 – 31 P O R T U G U ÊS B 1. (UNICAMP-SP) – Leia o soneto abaixo, de Luís de Camões: a) Uma oposição espacial configura o tema e o significado deste poema de Camões. Identifique essa oposição, indicando o seu significado para o conjunto dos versos. RESOLUÇÃO: Há oposição espacial e de sentido entre Babilônia e Sião. Babilônia, o local onde o eu lírico se encontra (“Cá nesta Babilônia donde mana / matéria a quanto mal o mundo cria”), refere-se à passagem bíblica que relata o exílio e a escravidão dos judeus. No contexto do poema, simboliza o mal, o mundo materialista, profanado, vil. Sião, o local sublime, é também passagem bíblica do Velho Testamento. É a terra prometida, a Jerusalém celestial. No contexto do poema, metaforiza o mundo ideal, nobre, sublime. Frise-se que o eu lírico, situado no mundo inferior, Babilônia, aspira ao mundo ideal, Sião. Esse soneto, estruturado numa alegoria bíblica, retoma o conflito central da poesia camoniana: a oposição entre o mundo platônico, ideal, do conhecimento, e o mundo inferior, o da realidade sensorial. b) Identifique nos tercetos duas expressões que contemplam a noção de desconcerto, fundamental para a compreensão do tema do soneto e da lírica camoniana. RESOLUÇÃO: A noção de desconcerto pode ser observada nas expressões “labirinto” e “caos”, que remetem ao mundo sombrio, sensorial, decadente, onde valores de toda a ordem são aviltados. Cá nesta Babilônia, donde mana matéria a quanto mal o mundo cria; cá donde o puro Amor não tem valia, que a Mãe, que manda mais, tudo profana; cá, onde o mal se afina e o bem se dana, e pode mais que a honra a tirania; cá, onde a errada e cega Monarquia cuida que um nome vão a desengana; cá, neste labirinto, onde a nobreza com esforço e saber pedindo vão às portas da cobiça e da vileza; cá neste escuro caos de confusão, cumprindo o curso estou da natureza. Vê se me esquecerei de ti, Sião! (Disponível em: http:/www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000164.pdf. Acesso em: 08 set. 2015.) MÓDULO 11 00 Análise de Texto – I REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 31 32 – P O R T U G U ÊS B Leia o soneto “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, do poeta português Luís Vaz de Camões (1525?-1580), para responder às questões de 2 a 5: 1 – Esperança: esperado. 2 – Mor: maior. 3 – Soer: costumar (soía: costumava). 2. (UNESP) – Considere as seguintes citações: Quais das citações aproximam-se tematicamente do soneto camoniano? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: [UNESP-2017] As citações que se aproximam do tema do soneto camoniano são a 1 e a 4. No texto de Heráclito (1), há referência à mutabilidade do meio e do próprio homem. Essa instabilidade aparece no tema do soneto já na primeira estrofe. A frase de Sêneca (4) também converge para o sentido do poema. O vaivém das coisas e seres em geral acaba, pelo capricho da sorte, transformando uma situação no seu oposto, como se constata, por exemplo, nos versos “Continuamente vemos novidades / diferentes em tudo da esperança” (...); “o tempo cobre o chão de verde manto / que já coberto foi de neve fria / e enfim converte em choro o doce canto”. 3. (UNESP) – Em um determinado trecho do soneto, o eu lírico assinala a passagem de uma estação do ano para outra. Transcreva os versos em que isso ocorre e identifique as estações a que eles fazem referência. Para o eu lírico, tal passagem constitui um evento aprazível? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: [UNESP-2017] O trecho do soneto no qual se assinala a passagem de uma estação do ano para outra é: “O tempo cobre o chão de verde manto, / que já coberto foi de neve fria”. A expressão “verde manto” refere-se à primavera, subsequente ao inverno, representado pelas palavras “neve fria”. A mudança de estação indicada pelo eu lírico não ilustra uma alteração aprazível, pois o terceiro verso da terceira estrofe afirma que a passagem do tempo “converte em choro o doce canto”. 1. “Não podemos entrar duas vezes no mesmo rio: suas águas não são nunca as mesmas e nós não somos nunca os mesmos.” – Heráclito (550 a.C.-480 a.C.) 2. “A breve duração da vida não nos permite alimentar longas esperanças.” – Horácio (65 a.C.-8 a.C.) 3. “O melhor para o homem é viver com o máximo de alegria e o mínimo de tristeza, o que acontece quando não se procura o prazer em coisas perecíveis.” – Demócrito (460 a.C.-370 a.C.) 4. “Toda e qualquer coisa tem seu vaivém e se transforma no contrário ao capricho tirânico da fortuna.” – Sêneca (4 a.C.-65 d.C.) 5. “Uma vez que a vida é um tormento, a morte acaba sendo para o homem o refúgio mais desejável.” – Heródoto (484 a.C.-430 a.C.) Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança1; do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem — se algum houve —, as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria, e enfim converte em choro o doce canto. E, afora este mudar-se cada dia, outra mudança faz de mor2 espanto: que não se muda já como soía3. (Sonetos) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 32 – 33 P O R T U G U ÊS B 4. (UNESP) – Elipse: figura de sintaxe pela qual se omite um termo da oração que o contexto permite subentender. (Domingos Paschoal Cegalla, Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, 2009. Adaptado.) Transcreva o verso em que se verifica a elipse do verbo. Identifique o verbo omitido nesse verso. Para o eu lírico, qual das mudanças assinaladas ao longo do soneto lhe causa maior perplexidade? Justifique sua resposta, com base no texto. RESOLUÇÃO: [UNESP-2017] A omissão mais flagrante do verbo ocorre no quarto verso da segunda estrofe: “e do bem — se algum houve —, as saudades”. Trata- se de zeugma, pois o verbo ficar, que aparece no verso anterior, foi omitido e, em seu lugar, foi empregada uma vírgula: e do bem — se algum houve — [ficam] as saudades. Pode-se também considerar a elipse do verbo no segundo verso da segunda estrofe, “diferentes em tudo da esperança”, em que o verbo ser, que aparece na estrofe anterior, foi omitido: “novidades / [que são] diferentes em tudo da esperança”. A mudança que causa maior espanto ao eu lírico aparece no último verso: “que não se muda já como soía”, ou seja, a mudança já não ocorre como costumava, indicando que até a própria mudança está à mercê de transformação. 5. (UNESP) – A sinestesia (do grego syn, que significa “reunião”, “junção”, “ao mesmo tempo”, e aisthesis, “sensação”, “percepção”) designa a transferência de percepção de um sentido para outro, isto é, a fusão, num só ato perceptivo, de dois sentidos ou mais. (MassaudMoisés, Dicionário de Termos Literários, 2004. Adaptado.) Transcreva o verso em que se verifica a ocorrência de sinestesia. Justifique sua resposta. Reescreva o verso da terceira estrofe “que já coberto foi de neve fria”, adaptando-o para a ordem direta e substituindo o pronome “que” pelo seu referente. RESOLUÇÃO: [UNESP-2017] O verso em que ocorre sinestesia é “e enfim converte em choro o doce canto”. Na expressão “doce canto”, há fusão da sensação gustativa (“doce”) com a auditiva (“canto”). Na ordem direta, substituindo- se o pronome relativo “que” pelo seu referente, tem-se: “o chão já foi coberto de neve fria”. [Para o professor: numa ordem rigorosamente direta, tem-se: “o chão foi coberto de neve fria já”.] Texto para as questões 6 e 7. 1 – De que valerá tanto sofrimento pelo pouco viver que ainda tenho? Ah, minha Dinamene, assi deixaste quem não deixara nunca de querer-te! Ah, Ninfa minha, já não posso ver-te, tão asinha esta vida desprezaste! depressa Como já para sempre te apartaste de quem tão longe estava de perder-te? Puderam estas ondas defender-te que não visses quem tanto magoaste? Nem falar-te somente a dura morte me deixou, que tão cedo o negro manto em teus olhos deitado consentiste! Ó mar, ó Céu, ó minha escura sorte! Que pena sentirei que valha tanto, que ainda tenho por pouco o viver triste1? (Camões) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 33 34 – P O R T U G U ÊS B 6. O tema dos versos é o sofrimento amoroso causado pela saudade da amada falecida. a) Quem é o interlocutor do eu lírico na primeira e na última estrofe? RESOLUÇÃO: A princípio, o eu lírico dirige-se à interlocutora: “Ah, minha Dinamene” ou “Ah, Ninfa minha”. Entretanto, na terceira estrofe, ele parece conscientizar-se de que a morte o impede de comunicar-se com ela: “Nem falar-te somente a dura morte / me deixou”. A partir de então, na quarta estrofe, dilui seu interlocutor entre elementos simbólicos como o “mar”, onde ela morreu; o “céu”, onde ela está, e a “escura sorte”, o destino cruel: “Ó mar, ó Céu, ó minha escura sorte!”. b) A partir do texto, é correto afirmar que a lírica de Camões se insere no Maneirismo, tendência artística do momento em que o homem renascentista, aos poucos, vai substituindo a euforia, o colorido, a autoconfiança pela consciência da brevidade da vida, pela dúvida e pela angústia presentes no estilo barroco? RESOLUÇÃO: Sim, essa afirmação é pertinente, pois a temática do texto é a impotência diante do destino. O eu lírico mostra-se depressivo, pessimista diante de opostos inconciliáveis, como o eterno amor que cultiva e a efêmera existência da mulher amada. As tensões existenciais e amorosas aproximam-se do maneirismo. 7. O neoplatonismo associa o mundo das ideias de Platão ao saber cognitivo. Essa idealização encontra respaldo na espiritualidade, na metafísica do cristianismo. Segundo Platão, a alma pertenceria a outro mundo — o inteligível: onde há ideias puras, beleza plena, felicidade absoluta, perfeição — e seria, temporariamente, prisioneira do corpo, sujeita à existência material — mundo sensível: um flagelo, pois o homem está entregue às contingências do destino (desastres, doenças, perdas, paixões etc.). Assim, a dor é inevitável neste mundo, o que torna o ser humano melancólico: a alma vive a nostalgia do suposto “paraíso” de onde veio. a) Na primeira estrofe, como o poeta vê o amor e a amada? Cite expressões do poema que justifiquem sua resposta. RESOLUÇÃO: Mesmo ao tratar de um caso particular, biográfico, Camões interpreta suas experiências amorosas à luz do neoplatonismo, pois tanto a mulher como o amor pertencem ao campo semântico do mundo inteligível, da eternidade. A amada é envolvida por uma aura de beleza e perfeição que a tornam sobre-humana, idealizada, uma “Ninfa”. Também o amor pertence ao mundo das ideias, do absoluto, do infinito, segundo se vê no modo como o eu lírico se apresenta, como possuidor de um amor que duraria para sempre: “Quem não deixara nunca de querer-te!” (o pretérito mais-que- perfeito foi empregado como futuro do pretérito do indicativo). b) O eu lírico sente-se, de algum modo, traído pelo destino da amada, ao supor que ela se teria deixado levar pelas ondas e pela morte. De que modo esse infortúnio se opõe à visão que o eu poético tem do amor e da amada na primeira estrofe? RESOLUÇÃO: O eterno amor que o eu lírico cultiva por Dinamene choca-se com a realidade: a efêmera existência da mulher amada. Por isso, sente-se traído. Em sua concepção neoplatônica, ela, tão perfeita e sobre-humana, não poderia morrer, principalmente não poderia ignorar a dor que causaria a ele. Daí seus questionamentos na segunda e terceira estrofes: “Puderam estas ondas defender-te / que não visses quem tanto magoaste?”; “tão cedo o negro manto / em teus olhos deitado consentiste!” REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 34 – 35 P O R T U G U ÊS B 1. (FUVEST-SP) – No breve “Prólogo da 3.ª edição” das Memórias Póstumas de Brás Cubas, assinado pelo autor, Machado de Assis, constava o seguinte trecho: Considerando este trecho no contexto da obra à qual se incorpora, atenda ao que se pede: a) Identifique um aspecto das Memórias Póstumas de Brás Cubas capaz de ter suscitado a dúvida expressa por Capistrano de Abreu. Explique resumidamente. RESOLUÇÃO: O conceito tradicional de romance — ao qual Capistrano de Abreu parece ter-se apegado — é o de um texto em prosa no qual se narram fatos que giram em torno de uma aventura. Memórias Póstumas de Brás Cubas, entretanto, livro que se caracteriza por um estilo digressivo, desvia-se desse padrão. Além disso, a autobiografia de Brás Cubas resulta no relato de uma vida vazia, supostamente sem acontecimentos suficientemente interessantes para uma narrativa convencional. b) Em que consistem os “lavores de igual escola”, a que se refere o autor, no final do trecho? Explique sucintamente. RESOLUÇÃO: Machado de Assis chama “lavores de igual escola” as técnicas narrativas que também se encontram em Laurence Sterne, Xavier de Maistre e Almeida Garrett, sobretudo o estilo digressivo — em que não há compromisso com a linearidade narrativa — e o diálogo com o leitor, no qual o emissor assume um tom irônico, zombeteiro, às vezes inferiorizando o seu receptor. Capistrano de Abreu, noticiando a publicação do livro, perguntava: “As Memórias Póstumas de Brás Cubas são um romance?” Macedo Soares, em carta que me escreveu por esse tempo, recordava amigamente as Viagens na Minha Terra. Ao primeiro respondia já o defunto Brás Cubas (como o leitor viu e verá no prólogo dele que vai adiante) que sim e que não, que era romance para uns e não o era para outros. Quanto ao segundo, assim se explicou o finado: “Trata-se de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo”. Toda essa gente viajou: Xavier de Maistre à roda do quarto, Garrett na terra dele, Sterne na terra dos outros. De Brás Cubas se pode talvez dizer que viajou à roda da vida. O que faz do meu Brás Cubas um autor particular é o que ele chama “rabugens de pessimismo”. Há na alma deste livro, por mais risonho que pareça, um sentimento amargo e áspero, que está longe de vir dos seus modelos. É taça que pode ter lavores de igual escola, mas leva outro vinho. Machado de Assis MÓDULO 11 11 Análise de Texto – II REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 35 36 – P O R T U G U ÊS B 2. (FUVEST-SP) – No excerto abaixo, narra-se parte do encontro de Brás Cubas com Quincas Borba, quando este, reduzido à miséria, mendigava nas ruas do Rio de Janeiro: 1 – “In hoc signo vinces!”: citação em latim que significa “Com este sinal, vencerás” (frase que teria aparecido no céu, juntode uma cruz, ao imperador Constantino, antes de uma batalha). a) Tendo em vista a autobiografia de Brás Cubas e as considerações que ao longo de suas Memórias Póstumas ele tece a respeito do tema do trabalho, comente o conselho que, no excerto, ele dá a Quincas Borba: “— Trabalhando, concluí eu.” RESOLUÇÃO: É um conselho meramente retórico e hipócrita, não correspondendo à trajetória de vida de Brás Cubas. Constata-se, nas memórias do narrador, que ele é membro da elite brasileira do Segundo Reinado, totalmente avessa ao trabalho. Vive dos privilégios e vale-se da influência do pai. No último capítulo, Brás Cubas gaba-se da vida no ócio: “coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto.” b) Tendo agora como referência a história de D. Plácida, contada no livro, discuta sucintamente o mencionado conselho de Brás Cubas. RESOLUÇÃO: D. Plácida trabalhara com afinco durante toda a vida e nunca conseguira sair da pobreza, chegando até a cair na miséria. Dessa forma, o conselho de Brás Cubas, além de hipócrita do ponto de vista pessoal, revela-se insuficiente do ponto de vista social. Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil-réis, — a menos limpa, — e dei-lha [a Quincas Borba]. Ele recebeu-ma com os olhos cintilantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a entusiasmado. — In hoc signo vinces!1 bradou. E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão ruidosa expansão, que me produziu um sentimento misto de nojo e lástima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou sério, grotescamente sério, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre que não via, desde muitos anos, uma nota de cinco mil-réis. — Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu. — Sim? acudiu ele, dando um bote para mim. — Trabalhando, concluí eu. (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 36 Texto para as questões de 3 a 8. 3. (FUVEST-SP) a) Este trecho remete a episódio anterior, da mesma obra, no qual interagem Brás Cubas e Prudêncio, então crianças. Compare sucintamente os papéis que as personagens desempenham nesses episódios. RESOLUÇÃO: O trecho apresentado (capítulo LXVIII, “O Vergalho”) faz referência ao capítulo XI, “O Menino é Pai do Homem”, em que Brás Cubas, ao relatar sua infância, conta-nos que humilhava o então escravo Prudêncio, fazendo- o de montaria. No primeiro episódio, o narrador era o opressor, enquanto Prudêncio era o oprimido. Já liberto, Prudêncio compra um escravo, tornando-se agora o opressor, pois passa a “descontar” no infeliz tudo o que havia sofrido quando criança. Curiosamente, chega até a usar a mesma frase — “Cala a boca, besta!” — que havia ouvido na sua época de cativeiro. Dessa forma, nota-se que Prudêncio, vítima de um sistema escravista, acaba fortalecendo-o, ao reproduzir as injustiças a que fora submetido. b) Neste trecho, a variedade linguística utilizada pelas personagens contribui para caracterizá-las? Explique brevemente. RESOLUÇÃO: As variedades linguísticas empregadas conseguem de fato caracterizar o nível social das personagens. Brás Cubas demonstra pertencer à classe alta quando utiliza a norma culta, bem percebida pela ênclise em “Fez-te” e “Perdoa-lhe”. Prudêncio demonstra pertencer à classe baixa, ao empregar a variante coloquial, em termos como nhonhô; no emprego do pronome pessoal ele em “deixei ele na quitanda”, quando o padrão gramatical pede “deixei-o na quitanda”; na utilização da preposição em como regime do verbo ir (“para ir na venda”), quando a norma culta exige a (“para ir à venda”). CAPÍTULO LXVIII / O VERGALHO Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras: — “Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!” Mas o primeiro não fazia caso e, a cada súplica, respondia com uma vergalhada nova. — Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado! — Meu senhor! gemia o outro. — Cala a boca, besta! replicava o vergalho. Parei, olhei... Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho? Nada menos que o meu moleque Prudêncio, — o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu- me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele. — É, sim, nhonhô. — Fez-te alguma cousa? — É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber. — Está bom, perdoa-lhe, disse eu. — Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para casa, bêbado! Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um bom capítulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio, achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, — transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um freio na boca e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria. Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia- lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam as sutilezas do maroto! (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas) – 37 P O R T U G U ÊS B REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 37 38 – P O R T U G U ÊS B 4. Brás Cubas é o Nhonhô em questão. Qual a origem e o significado da palavra nhonhô? RESOLUÇÃO: A palavra nhonhô é uma corruptela da forma senhor, tratamento que os escravos davam a seus donos. A forma nhonhô revela submissão e afetividade. 5. (FUVEST-SP) a) O capítulo em questão mostra um autor preocupado com a instituição escravista ou apenas preocupado em revelar formas do comportamento humano? RESOLUÇÃO: O narrador revela as formas do comportamento humano, mostrando a maldade, o sadismo, o ressentimento, a violência, acentuados pela sociedade escravista. A história narrada exemplifica um mecanismo perverso já observado em outras situações: o ex-escravo comporta-se segundo uma lógica aparentemente contraditória: o indivíduo oprimido, quando obtém poder, reproduz o comportamento do opressor. b) Justifique sua resposta com elementos do texto. RESOLUÇÃO: No texto, as passagens, entre outras, que poderiam ser citadas como justificativas ao item anterior são: “era um preto que vergalhava outro na praça” e “Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, — transmitindo-as a outro. (...) Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera.” 6. (FUVEST-SP) – O narrador diz que gosta dos capítulos alegres. a) O capítulo em questão é alegre? RESOLUÇÃO: O narrador-personagem considera “o miolo” deste capítulo gaiato, alegre. Pode-se notar, portanto, o humor machadiano, revestido de certa melancolia, resvalando para a ironia. b) Fundamente sua resposta. RESOLUÇÃO: A atitude de Prudêncio é paradoxal, absurda. Um ex-escravo compra um negro e inflige-lhe maus-tratos. Essa atitude, como se fosse uma regressão neurótica à infância, reveste-se de um ar maroto, com essência gaiata, chegando ao nonsense e ao sorriso melancólico, ao humor negro. 7.(FUVEST-SP) – “Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões, que sinto haver inteiramente perdido...” a) A forma verbal sinto seria mais bem compreendida como percebo ou como lamento? RESOLUÇÃO: A forma verbal sinto seria mais bem compreendida como lamento. b) Qual a fundamentação que o contexto oferece para sua resposta? RESOLUÇÃO: O narrador lamenta ter perdido aquilo que poderia ter sido matéria para um bom capítulo, e “talvez alegre”. 8. (FUVEST-SP) – O dicionário informa que vergalho é o órgão genital dos bois e dos cavalos; depois de cortado e seco, é também o azorrague feito desse órgão. Qual o sentido que a palavra vergalho assume em cada uma destas frases? a) “— Cala a boca, besta! replicava o vergalho.” RESOLUÇÃO: A palavra vergalho foi empregada em sentido abrangente, indicando a pessoa que empunha o chicote, traduzindo a ideia de que o vergalho e o homem tornam-se o mesmo, numa relação metonímica. b) “Quem havia de ser o do vergalho?” RESOLUÇÃO: A palavra vergalho tem sentido próprio de “chicote, açoite”. REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 38 – 39 P O R T U G U ÊS B Para responder às questões de 1 a 2, leia o segundo capítulo do romance Iracema, do escritor José de Alencar (1829-1877), publicado em 1865: 1 – Graúna: pássaro de cor negra. 2 – Jati: pequena abelha que fabrica delicioso mel. 3 – Oiticica: árvore frondosa. 4 – Aljôfar: pérola; por extensão: gota. 5 – Rorejar: banhar. 6 – Mangaba: fruto da mangabeira. 7 – Gará: ave de cor vermelha. 8 – Ará: periquito. 9 – Uru: pequeno cesto. 10 – Crautá: bromélia. 11 – Juçara: palmeira de grandes espinhos. 12 – Ignoto: que ou o que é desconhecido. 13 – Lesto: ágil, veloz. 14 – Uiraçaba: estojo em que se guardavam e transportavam as flechas. 1. (UNESP) – O modo como o narrador descreve a personagem Iracema está de acordo com os preceitos da estética romântica? Justifique sua resposta, valendo-se de três expressões retiradas do texto. RESOLUÇÃO: [UNESP-2017] No romance Iracema, de José de Alencar, a personagem homônima é descrita conforme as tendências idealizadoras e nacionalistas do Romantismo. No fragmento, Iracema é aproximada dos elementos da natureza brasileira, refletindo a edênica paisagem em que está inserida, ela é a “virgem dos lábios de mel”, caracterizada pelos “cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira”, pelo “sorriso mais doce do que o favo da jati”, por ser “mais rápida que a ema selvagem” e por ter “o pé grácil e nu” deslizando suavemente pela “verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas”. Enfim, Iracema é calcada no mito do bom selvagem de Rousseau, símbolo da América primitiva, e na extensão da beleza e da sensibilidade da terra brasileira. Os exemplos dessa idealização podem ser retirados de várias passagens do fragmento que vai do segundo até o sexto parágrafo. 2. (UNESP) – Examine o seguinte trecho: “O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu” (12.° parágrafo). A quem se refere o pronome “eu”? Reescreva este trecho em ordem direta, substituindo o pronome “o” pelo seu referente. RESOLUÇÃO: [UNESP-2017] O pronome “eu” refere-se ao narrador, que no romance aparece, eventualmente, em primeira pessoa, ainda que, ao longo da narrativa, o foco seja de terceira pessoa. Em ordem direta, substituindo-se o pronome “o” pelo seu referente, “sentimento”, tem-se: Eu não sei o sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto. Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna1, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati2 não era doce como seu sorriso, nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado. Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas. Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica3, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto. Iracema saiu do banho: o aljôfar4 d’água ainda a roreja5, como à doce mangaba6 que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará7 as flechas de seu arco e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste. A graciosa ará8, sua companheira e amiga, brinca junto dela. Às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras, remexe o uru9 de palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá10, as agulhas da juçara11 com que tece a renda e as tintas de que matiza o algodão. Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se. Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas12 armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo. Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido. De primeiro ímpeto, a mão lesta13 caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que da ferida. O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba14 e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara. A mão que rápida ferira estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha15 homicida; deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada. O guerreiro falou: — Quebras comigo a flecha da paz? — Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? Donde vieste a estas matas, que nunca viram outro guerreiro como tu? — Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmãos já possuíram e hoje têm os meus. — Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana de Araquém, pai de Iracema. (Iracema) MÓDULO 11 22 Análise de Texto – III REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 39 40 – P O R T U G U ÊS B 3. (UNICAMP-SP) – Pensando nos pares amorosos, já se afirmou que “há n’O Cortiço um pouco de Iracema coada pelo Naturalismo” (Antônio Cândido, “De Cortiço em Cortiço”, em O Discurso e a Cidade, São Paulo: Duas Cidades, 1993, p. 142). Partindo desse comentário, leia o trecho a seguir e responda ao que se pede: a) Na descrição transcrita, identifique dois aspectos que permitem aproximar Rita Baiana de Iracema, mostrando os limites dessa semelhança. RESOLUÇÃO: Iracema, protagonista do romance homônimo de José de Alencar, e Rita Baiana, personagem de O Cortiço, assemelham-se porque são construídas como sínteses da natureza brasileira. Entretanto, se a primeira, como típica heroína romântica, é associada apenas a características enaltecedoras, idealizadas (“o favo da jati não era doce como o seu sorriso”, “mais rápida que a ema selvagem”), a segunda é ligada a elementos tanto positivos quanto negativos (“cobra amaldiçoada”, “voz arrogante”, “veneno”, “cobra verde e traiçoeira”). Outro ponto comum entre as duas personagens está na utilização que fazem de uma “poção” para consumar um processo de sedução: a primeira emprega o vinho da jurema; a segunda, o café. Há que se lembrar, no entanto, que a índia comete um sacrilégio ao usar a droga, pois a bebida era restrita a um ritual tabajara. O mesmocaráter pecaminoso não pode ser imputado a Rita Baiana. Pode-se ainda lembrar que a índia e a mulata, com seu “mel” (“lábios de mel”, no romance romântico, e “mel chuchurreado no cálice de flores americanas”, no naturalista), seduzem portugueses cujas “fibras” se encontram “embambecidas pela saudade da terra”. b) Identifique uma semelhança e uma diferença entre Jerônimo e Martim. RESOLUÇÃO: Martim e Jerônimo são portugueses que têm, pelo menos em parte da narrativa, saudade de sua terra natal, mas que acabam se radicando no Brasil. Esse processo de fixação é consequência do encantamento que sentem pelo novo mundo, metaforizado nas qualidades sedutoras das brasileiras que encontram, Iracema e Rita Baiana, respectivamente. Entretanto, Martim é uma personagem de estrato social nobre, pois é um grande guerreiro, ao contrário de Jerônimo, que é cavouqueiro, isto é, um simples quebrador de pedra. Além disso, o primeiro tem um caráter eminentemente passivo: não reage ao ser flechado por Iracema, é protegido por ela e Caubi diante da sanha ciumenta de Irapuã, e sua primeira relação sexual com a heroína se dá enquanto está drogado. O segundo, diferentemente, é bastante ativo: prepara uma emboscada para assassinar Firmo, namorado de Rita Baiana, e une-se conscientemente a ela. Por fim, pode-se ainda lembrar que Martim é um herói que luta para manter a integridade de seu caráter, enquanto Jerônimo, vencido pelo meio, torna- se alcoólatra e vagabundo, enche-se de dívidas e abandona esposa e filha à miséria. O chorado arrastava-os a todos, despoticamente, desesperando aos que não sabiam dançar. Mas ninguém como a Rita; só ela, só aquele demônio tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante. (...) Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca. Isto era o que Jerônimo sentia, mas o que o tonto não podia conceber. De todas as impressões daquele resto de domingo só lhe ficou no espírito o entorpecimento de uma desconhecida embriaguez, não de vinho, mas de mel chuchurreado no cálice de flores americanas, dessas muito alvas, cheirosas e úmidas, que ele na fazenda via debruçadas confidencialmente sobre os limosos pântanos sombrios, onde as oiticicas trescalam um aroma que entristece de saudade. (...) E ela só foi ter com ele, levando-lhe a chávena fumegante da perfumosa bebida que tinha sido a mensageira dos seus amores; assentou-se ao rebordo da cama e, segurando com uma das mãos o pires e com a outra a xícara, ajudava-o a beber, gole por gole, enquanto seus olhos o acarinhavam, cintilantes de impaciência no antegozo daquele primeiro enlace. Depois, atirou fora a saia e, só de camisa, lançou-se contra o seu amado, num frenesi de desejo doido. (AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. Ficção Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 498 e 581.) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 40 4. (FUVEST-SP) – Leia o texto a seguir e responda ao que se pede: 1 – Rosbife: tipo de assado ou fritura de alcatra ou filé bovinos, bem tostado externamente e sangrante na parte central, servido em fatias. a) A imagem do “rosbife naturalista” — empregada, com humor, por Machado de Assis, para evocar determinadas características do Naturalismo — poderia ser utilizada também para se referir a certos aspectos do romance O Cortiço? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: O Cortiço, como é de esperar de uma obra naturalista, apresenta preocupação de exibir, sem eufemismo, rodeio ou censura, os aspectos mais degradantes do ser humano, o que é compatível com a imagem do rosbife, que é sangrento. b) A imagem do “doce leite romântico”, que se refere a certos traços do Romantismo, pode remeter também a alguns aspectos do romance Iracema? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO: A expressão “doce leite romântico” refere-se à idealização da realidade, característica do Romantismo e presente em diversos aspectos de Iracema: a fidelidade extrema a um ideal de amor, a nobreza e a bravura dos guerreiros indígenas (que mais parecem cavaleiros medievais), o enaltecimento da natureza brasileira, o engrandecimento da amizade entre Martim e Poti, o convívio harmonioso entre portugueses e pitiguaras. 5. (FUVEST-SP) – Responda ao que se pede: a) Qual é a relação entre o “sistema de filosofia” do Humanitismo, tal como figurado nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e as correntes de pensamento filosófico e científico presentes no contexto histórico-cultural em que essa obra foi escrita? Explique resumidamente. RESOLUÇÃO: O Humanitismo, sistema filosófico destinado a arruinar todos os outros, segundo Quincas Borba, é uma crítica satírica às correntes filosóficas e científicas da segunda metade do século XIX, como o Evolucionismo e o Positivismo. Segundo Quincas Borba, a sobrevivência dos mais aptos é a força propulsora de todos os fenômenos humanos, daí a guerra ser uma calamidade conveniente, e a fome, uma provação. A máxima filosófica da Humanitas é “Vida é luta” e, desse combate, apenas os mais fortes saem vencedores, selecionando-se os aptos à vida, o que remete à teoria evolucionista de Darwin. Além disso, o Humanitismo ou Humanitas satiriza o Positivismo, segundo o qual o conhecimento científico é a única forma de saber verdadeiro, isto é, apenas os métodos científicos são válidos. Machado de Assis desconstrói o cientificismo da segunda metade do século XIX. b) De que maneira, em O Cortiço, de Aluísio Azevedo, são encaradas as correntes de pensamento filosófico e científico de grande prestígio na época em que o romance foi escrito? Explique sucintamente. RESOLUÇÃO: O Cortiço é apontado como exemplo bem acabado do Naturalismo, o que se percebe pela incorporação do pensamento filosófico e científico da época. Nota-se, nesse romance, a vinculação ao Determinismo, teoria que afirmava que a personalidade do homem seria condicionada por fatores como raça, meio e momento. O Determinismo rege a narrativa. Há ainda referências à Biologia Experimental, de Claude Bernard, nas imagens escatológicas, na concepção do homem como prisioneiro dos impulsos sexuais. O romance de tese ou experimental, narrativa que serve como demonstração de um caso a ser analisado cientificamente, dá-se, por exemplo, na história de Jerônimo como prova de que o meio seria capaz de comandar a natureza humana. Em certos casos, O Cortiço obedece a essa doutrina (Rita Baiana, como mestiça, seria “naturalmente” leviana); outras vezes, subverte-a (João Romão e Jerônimo, ambos brancos, portugueses e da segunda metade do século XIX, encontram destinos opostos: o primeiro continua, no Brasil, com caráter de europeu e de explorador; o segundo, abrasileira-se). Gente que mamou leite romântico pode meter o dente no rosbife1 naturalista; mas em lhe cheirando a teta gótica e oriental, deixa logo o melhor pedaço de carne para correrà bebida da infância. Oh! Meu doce leite romântico! (Machado de Assis, Crônicas) – 41 P O R T U G U ÊS B REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 41 42 – P O R T U G U ÊS B Examine a tira do cartunista argentino Quino (1932- ) para responder à questão 1. 1. (UNESP-2018) a) Na tira, o que cada um dos dois grupos de pessoas representa? RESOLUÇÃO A dupla à esquerda da tira representa os ricos obcecados por consumo, os que dispõem de capi tal abundante, como indica a montanha de di nheiro onde estão sentados, são os “potentes e os prepotentes”. O grupo à direita é o dos pobres, aquele que não tem capital e vive da sobra, dos detritos que os ricos descartam. Esse grupo é o dos “impotentes” e marginalizados em relação aos bens de consumo. MÓDULO 11 33 Morfologia e Redação (I) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 42 – 43 P O R T U G U ÊS B b) Em português, empregamos a seguinte expressão: “o tiro saiu pela culatra”. Explicite o sentido dessa expressão e a relacione com a crítica veiculada pela tira. RESOLUÇÃO “Culatra” é a parte posterior ou o fecho do cano da arma de fogo"(Houaiss). A expressão “o tiro saiu pela culatra” é metafórica, tem o sentido de que algo saiu ao contrário do que se esperava. Há analogia com o fato de a bala de revólver não ir em direção ao alvo, mas sim no sentido de quem efetuou o disparo. Na tira, nota-se que o excesso de consumo e descarte por parte dos que têm dinheiro causa continuamente lixo e a consequente deterioração do meio ambiente, prejudicando os próprios ricos, que deitados, com roupa de banho, só podem contemplar a montanha de lixo que produziram, sem resolver as graves questões de desequilíbrio ambiental e social. Perdem inclusive o sol, porque só conseguem visualizar a miséria que ajudaram a produzir, o que acaba indo ao encontro do sentido das frase “o tiro saiu pela culatra”. 2. (UNESP-2017) – Examine a tira do cartunista argentino Quino (1932 - ). (Quino. A pequena filosofia da Mafalda, 2015. Adaptado.) Pelo conteúdo de sua redação, depreende-se que o personagem Manuel Goreiro (o “Manolito”), além de estudar, exerce outra atividade. Transcreva o trecho em que esta outra atividade se mostra mais evidente. No trecho “As lojas fecham mais tarde por quê não escurese mais tamcedo”, verificam-se alguns desvios em relação à norma- padrão da língua. Reescreva este trecho, fazendo as correções necessárias. Por fim, reescreva o trecho final da redação (“nós ficamos muito mais contentes com a primavera com a chegada dela”), desfazendo a redundância nele contida. RESOLUÇÃO: O trecho que evidencia de modo mais claro a profissão de Manolito é “a gente não vende mais nada”, em que ele se inclui como alguém que trabalha como atendente em um estabelecimento comercial. Em norma culta, o trecho deve ser assim reescrito: As lojas fecham mais tarde porque não escurece mais tão cedo. Desfazendo-se a redundância do trecho, tem-se: nós ficamos muito mais contentes com a chegada da primavera. Redação Tema: A Primavera A primavera pega e começa no dia 21 de setembro e termina quando todos começam as compras de Natal e Ano-Novo As plantas dão folhas e muitas flores e as Redação Tema: A Primavera A primavera pega e começa no dia 21 de setembro e termina quando todos começam as compras de Natal e Ano-Novo As plantas dão folhas e muitas flores e as pessoas já pedem mais ocacola e Pepsi etc... eC outras bebidas e cerveja e presunto também. As lojas fecham mais tarde por quê não escurese mais tamcedo como no inverno que as setemeia a gente não vende mais nada e em compensasão pessoas já pedem mais ocacola e Pepsi etc... eC outras bebidas e cerveja e presunto também. As lojas fecham mais tarde por quê não escurese mais tamcedo como no inverno que as setemeia a gente não vende mais nada e em compensasão a Primavera é a melhor estasão e todos nós ficamos muito mais contentes com a primavera com a chegada dela a Primavera é a melhor estasão e todos nós ficamos muito mais contentes com a primavera com a chegada dela REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 43 44 – P O R T U G U ÊS B Leia o trecho do conto O alienista1, de Machado de Assis (1839-1908), para responder às questões 3 e 4. 3. (UNESP- junho-2018) a) Cite os referentes dos pronomes sublinhados no primeiro e no segundo parágrafos. RESOLUÇÃO O pronome oblíquo “se” refere-se a “Simão Bacamarte”; o pronome oblíquo “lhe” refere-se a “um modesto”. b) Transcreva dois pequenos excertos em que o narrador se dirige diretamente ao leitor. RESOLUÇÃO Nas passagens " Agora, se imaginais", " mostrais com isso que ainda não conheceis " e "Vede a diferença", o narrador dirige-se diretamente ao leitor, pois os verbos estão na segunda pessoa do plural, promovendo a interlocução com o receptor. 4. (UNESP- junho-2018) a) Transcreva o trecho “ele [vereador Galvão] obteve uma boa interpretação, corrompendo os juízes, e embaçando os outros herdeiros” (5.o parágrafo), substituindo os termos sublinhados por outros de sentido equivalente. RESOLUÇÃO “Corrompendo”, no contexto, pode ser substituído por “subornando, aliciando”; “embaçando”, por “atrapalhando, dificultando, complicando”. b) Transcreva o trecho “— Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a uma comadre” (3.o parágrafo) em discurso indireto e em ordem direta. RESOLUÇÃO Transpondo para discurso indireto o trecho em ordem direta tem-se: A mãe do infeliz contava a uma comadre que fora (ou tinha sido) um santo remédio. Era a vez da terapêutica. Simão Bacamarte, ativo e sagaz em descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligência e penetração com que principiou a tratá-los. Neste ponto todos os cronistas estão de pleno acordo: o ilustre alienista fez curas pasmosas, que excitaram a mais viva admiração em Itaguaí. Com efeito, era difícil imaginar mais racional sistema terapêutico. Estando os loucos divididos por classes, segundo a perfeição moral que em cada um deles excedia às outras, Simão Bacamarte cuidou em atacar de frente a qualidade predominante. Suponhamos um modesto. Ele aplicava a medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento oposto; e não ia logo às doses máximas, — graduava-as, conforme o estado, a idade, o temperamento, a posição social do enfermo. Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado; em outros casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de brilhantes, às distinções honoríficas, etc. Houve um doente, poeta, que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar da cura, quando teve ideia de mandar correr matraca, para o fim de o apregoar como um rival de Garção2 e de Píndaro3. — Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a uma comadre; foi um santo remédio. [...] Tal era o sistema. Imagina-se o resto. Cada beleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida; e o efeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a qualidade predominante resistia a tudo; então, o alienista atacava outra parte, aplicando à terapêutica o método da estratégia militar, que toma uma fortaleza por um ponto, se por outro o não pode conseguir.No fim de cinco meses e meio estava vazia a Casa Verde; todos curados! O vereador Galvão, tão cruelmente afligido de moderação e equidade, teve a felicidade de perder um tio; digo felicidade, porque o tio deixou um testamento ambíguo, e ele obteve uma boa interpretação, corrompendo os juízes, e embaçando os outros herdeiros. [...] Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o último hóspede da Casa Verde, mostrais com isso que ainda não conheceis o nosso homem. Plus ultra!4 era a sua divisa. Não lhe bastava terdescoberto a teoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguaí o reinado da razão. Plus ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogitativo; alguma coisa lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima teoria. — Vejamos, pensava ele; vejamos se chego enfim à última verdade. Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde fulgurava a mais rica biblioteca dos domínios ultramarinos de Sua Majestade. Um amplo chambre de damasco, preso à cintura por um cordão de seda, com borlas de ouro (presente de uma Universidade) envolvia o corpo majestoso e austero do ilustre alienista. A cabeleira cobria- lhe uma extensa e nobre calva adquirida nas cogitações cotidianas da ciência. Os pés, não delgados e femininos, não graúdos e mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto latão. Vede a diferença: — só se lhe notava luxo naquilo que era de origem científica; o que propriamente vinha dele trazia a cor da moderação e da singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um sábio. (O alienista, 2014.) 1alienista: médico especialista em doenças mentais. 2Garção: um dos principais poetas do Neoclassicismo português. 3Píndaro: considerado o maior poeta lírico da antiga Grécia. 4Plus ultra!: expressão latina que significa “Mais além!”. REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 44 Para responder às questões de 5 a 7, leia a letra da canção “Deus lhe pague”, do compositor Chico Buarque (1944- ), composta em 1971. 5. (UNESP-2017) – “Deus lhe pague”: pedido a Deus para que abençoe alguém por algo bom que esse alguém praticou. (Carlos Alberto de M. Rocha e Carlos Eduardo P. de M. Rocha. Dicionário de locuções e expressões da língua portuguesa, 2011.) Considerando a definição da expressão “Deus lhe pague”, é correto afirmar que o compositor se apropriou ironicamente dessa expressão em sua canção? Justifique sua resposta, valendo-se de três versos da letra da canção. RESOLUÇÃO: A expressão “Deus lhe pague” é uma apropriação irônica de uma expressão coloquial, que foi usada como estribilho na letra da música de Chico Buarque, composta em 1971, durante a ditadura militar. A ironia da expressão se deve ao fato de que a letra denuncia a situação de miséria do povo “pão pra comer, por esse chão pra dormir”, a repressão em “concessão pra sorrir”, a política do pão e circo em “piada no bar e o futebol pra aplaudir”, entre outros exemplos de situações de penúria e de restrição à liberdade por que passava o povo brasileiro, sendo o agradecimento uma zombaria dirigida às autoridades da época. 6. (UNESP-2017) – Considere as definições dos seguintes conceitos: 1. Autonomia: direito de um indivíduo tomar decisões livremente; independência moral ou intelectual; capacidade de governar-se pelos próprios meios. 2. Heteronomia: sujeição de um indivíduo a uma instân cia externa ou à vontade de outrem; ausência de autonomia. Qual dos conceitos mostra-se mais adequado para descrever a existência retratada pela letra da canção? Justifique sua resposta, com base no texto. Considerando o contexto histórico-social em que a canção foi composta, a quem ou a que se refere o pronome “lhe” em “Deus lhe pague”? RESOLUÇÃO: A existência retratada pela letra define-se pelo con ceito da heteronomia, uma vez que o eu lírico descreve uma vida à mercê das vontades e permissões de outrem, “ a concessão pra sorrir / por me deixar respirar / por me deixar existir”. A música foi composta em 1971, durante o regime militar, sendo uma forma de protesto contra os abusos da ditadura então vigente. De forma irônica, portanto, o “lhe”, objeto indireto do verbo “pagar”, refere-se aos governantes. 7. (UNESP-2017) – O eufemismo consiste em atenuar o sentido desagradável de uma palavra ou expressão, substituindo-a por outra, capaz de suavizar seu significado. (Celso Cunha. Gramática essencial, 2013. Adaptado.) Transcreva o verso em que se verifica a ocorrência de eufemismo. Justifique sua resposta. Reescreva, em linguagem formal, o trecho destacado do seguinte verso: “Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair”. RESOLUÇÃO: Um exemplo de eufemismo está em “e pela paz derradeira que enfim vai nos redimir”, em que a ideia de paz e redenção atenua a ideia de morte. Reescrevendo o verso em linguagem formal, tem-se: “Pelos andaimes, pingentes, de que (dos quais) nós temos de (que) cair.” Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir Por me deixar respirar, por me deixar existir Deus lhe pague Pelo prazer de chorar e pelo “estamos aí” Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir Um crime pra comentar e um samba pra distrair Deus lhe pague Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi Deus lhe pague Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair Deus lhe pague Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir E pelo grito demente que nos ajuda a fugir Deus lhe pague Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir Deus lhe pague (www.chicobuarque.com.br) – 45 P O R T U G U ÊS B REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 45 46 – P O R T U G U ÊS B Leia o trecho do livro O maior espetáculo da Terra, do biólogo britânico Richard Dawkins (1941- ), para responder às questões 1 e 2. 1. (UNESP- junho-2018) a) Explique sucintamente o que o autor entende por “corrida armamentista evolucionária”. RESOLUÇÃO “Corrida armamentista evolucionária” é a disputa entre o predador e a presa. Ela é evolucionária, porque tanto o agressor quanto a vítima vão, ao longo do tempo, incorporando melhores recursos para o ataque e para a defesa. Embora haja uma série de transformações em ambos, elas não alteram a base da diferença original. b) De que forma a fala da Rainha de Copas a Alice – “eles correm o mais rápido possível para não sair do lugar” (1.o parágrafo) – relaciona-se com a “marca registrada das corridas armamentistas” (1.o parágrafo)? RESOLUÇÃO A “marca registrada das corridas armamentistas” é o aprimoramento tanto do predador como também da presa, mas o poder de ataque e o de defesa não sofreram desequilíbrio. Por isso, essa competição armamentista, que não se modifica substancialmente em relação ao início da disputa, equivale à fala da Rainha de Copas a Alice: “Eles correm o mais rápido possível para não sair do lugar”. A seleção natural impele espécies predadoras a tornarem-se cada vez melhores em apanhar presas, e simultaneamente impele espécies que são caçadas a tornarem-se cada vez melhores em escapar dos caçadores. Predadores e presas apostam uma corrida armamentista evolucionária, disputada no tempo evolucionário. O resultado tem sido uma constante escalada na quantidade de recursos econômicos que os animais, dos dois lados, despendem na corrida armamentista, em detrimento de outros departamentos de sua economia corporal. Caçadores e caçados tornam-se cada vez mais bem equipados para correr mais do que (ou surpreender, ou sobrepujar em astúcia etc.) o outro lado. Mas um equipamento aprimorado para correr mais não se traduz obviamente em mais sucesso numa corrida, pela simples razão de que, numa corrida armamentista, o outro lado também está aprimorando seu equipamento: essa é a marca registrada das corridas armamentistas. Poderíamos dizer, como explicou a Rainha de Copas a Alice, que eles correm o mais rápido possível para não sair do lugar. Darwin tinha plena noção das corridas armamentistas evolu- cionárias, embora não usasse essa expressão. Meu colega John Krebs e eu publicamos um artigo sobre o tema em 1979, no qual atribuímos a expressão “corrida armamentista” ao biólogo britânico Hugh Cott. Talvez significativamente, Cott publicou seu livro, Adaptive coloration in animals, em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial: Antes de afirmar que a aparência enganosa de um gafanhoto ou borboleta é desnecessariamente detalhada, devemos verificar primeiro quais são os poderes de percepção e discriminação dos inimigos naturais desses insetos. Não fazê-lo é como dizer que a blindagem de um cruzador é pesada demais ou que seu conjunto de canhões é demasiado grande, sem investigar a natureza e a eficácia do armamento do inimigo. O fato é que, na primeva1 luta da selva, assim como nos refinamentos da guerra civilizada, vemos em progresso uma grande corrida armamentista evolucionária — cujos resultados, para a defesa, manifestam-se em recursos como velocidade, estado de alerta, couraça, coloração, hábitos subterrâneos, hábitos noturnos, secreções venenosas e gosto nauseante; e, para o ataque, em atributos compensadores como velocidade, surpresa, emboscada, atração, acuidade visual, garras, dentes, ferrões, presas venenosas e coloração atrativa. Assim como a velocidade do perseguido desenvolveu-se em relação a um aumento na velocidade do perseguidor, ou uma couraça defensiva em relação a armas ofensivas, também a perfeição de recursos de disfarce evoluiu em resposta a poderes crescentes de percepção. Saliento que a corrida armamentista é disputada no tempo evolucionário. Não deve ser confundida com as corridas entre, por exemplo, um guepardo individual e uma gazela individual, que é disputada em tempo real. A corrida no tempo evolucionário é uma corrida que desenvolve equipamento para as corridas em tempo real. E o que isso realmente significa é que os genes para produzir o equipamento destinado a vencer o adversário em esperteza ou velocidade acumulam-se nos reservatórios gênicos de ambos os lados. (O maior espetáculo da Terra, 2009. Adaptado.) 1primevo: antigo, primitivo. MÓDULO 11 44 Morfologia e Redação (II) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 46 – 47 P O R T U G U ÊS B 2. (UNESP- junho-2018) a) A frase “Darwin tinha plena noção das corridas armamentistas evolucionárias, embora não usasse essa expressão” (2.o parágrafo) pode ser considerada ambígua? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO A frase apresenta duplo sentido porque não se sabe se Darwin desconhecia a expressão “corrida armamentista evolucionária” ou se a expressão “corrida armamentista evolucionária” não era empregada na época, pois, segundo o autor, essa expressão só foi usada pela primeira vez por Hugh Cott, em 1940, posterior , portanto, à morte de Darwin em 1882. b) Oximoro: figura de retórica em que se combinam palavras de sentido oposto que parecem excluir-se mutuamente, mas que, no contexto, reforçam a expressão; paradoxismo. (Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 2009.) Há na citação de Hugh Cott uma expressão que pode ser considerada exemplo de oximoro. Identifique-a e justifique sua resposta.. RESOLUÇÃO Há paradoxismo ou oximoro na expressão “refinamentos da guerra civilizada”, já que uma guerra não é refinada nem tampouco civilizada, ou seja, as duas palavras “refinamento” e “civilizada” apresentam sentido oposto a “guerra”. Leia o excerto do conto “A cartomante”, de Machado de Assis, para responder às questões 3 e 4. 3. ( UNESP) – O trecho do quinto parágrafo “[Ele] disse-lhe que era imprudente andar por essas casas” foi construído em discurso indireto. Reescreva-o em discurso direto, substituindo os pronomes sublinhados pelos nomes das personagens e efetuando os demais ajustes necessários. RESOLUÇÃO: Camilo disse a Rita: – É imprudente andar por essas casas. Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras. — Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma pessoa...” Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade... — Errou! interrompeu Camilo, rindo. — Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe, já lhe disse. Não ria de mim, não ria... Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois... [...] Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato. Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: – a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo. Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. (Contos: uma antologia, 1998.) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 47 48 – P O R T U G U ÊS B 4. (UNESP) – Há, no penúltimo parágrafo, o emprego de uma figura de retórica que consiste no alargamento semântico de termos que designam dois entes abstratos pela atribuição a eles de traços próprios do ser humano. Quais são os dois entes abstratos que passam por tal processo? Justifique sua resposta. Como se denomina tal figura de retórica? RESOLUÇÃO: Trata-se das palavras “virtude” e “interesse”. O narrador, ao registrar o pensamento de Rita, atribui à virtude a característica humana da preguiça e da avareza; e ao “interesse”, a atividade e a prodiga li da de. Esse processo de atribuir características humanas a entes abstratos denomina-se prosopopeia ou personi ficação. 5. Identifique as figuras presentes nos trechos a seguir: extraídos de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis: a) Quê? Uma criatura tão dócil, tão meiga, tão santa, que nunca jamais fizera verter uma lágrima de desgosto, mãe carinhosa, esposa imaculada, era força que morresse assim, trateada, mordida pelo dente tenaz de uma doença sem misericórdia? RESOLUÇÃO Anáfora a gradação ascendente “tão dócil, tão meiga, tão santa”. Pleonasmo “nunca jamais”. Metáfora: “dente tenaz de uma doença”. b) Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos: não há platéia. RESOLUÇÃO Polissíndeto: “nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nemestranhos” (conjunção aditiva) e antíteses. c) Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação única, uma coisa a que poderia chamar volúpia do aborrecimento. RESOLUÇÃO Paradoxo: “volúpia” (=grande prazer) e “aborrecimento” (fastio, tédio). d) O próprio tio João, guloso de escândalos, não tratou de outro assunto na carta, aliás de muitas folhas. RESOLUÇÃO Metáfora: “guloso de escândalos”. Catacrese: “carta de muitas folhas”. REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 48 – 49 P O R T U G U ÊS B 1. (UNICAMP-2018) – Enquanto viveu em Portugal, o escritor Mário Prata reuniu centenas de vocábulos e expressões usados no português falado na Europa que são diferentes dos termos correspondentes usados no português do Brasil. Reproduzimos abaixo um dos verbetes de seu dicionário. Descapotável É outra palavra que em português faz muito mais sentido do que em brasileiro. Não é mais claro dizer que um carro é descapotável, do que conversível? (Mário Prata, Dicionário de português: schifaizfavoire. São Paulo: Editora Globo, 1993, p. 48.) a) Identifique os dois afixos que formam a palavra “descapotável” a partir do substantivo “capota” (cober tura de um automóvel) e explique a função de cada um. RESOLUÇÃO A palavra “descapotável”, a partir do substantivo “capota”, apresenta o prefixo “des-”, que significa negação, e o sufixo “-vel”, formador de adjetivo, que significa “passível de”. Ressalve-se que, de acordo com o dicionário Houaiss, “descapo tável” forma-se por derivação sufixal (descapotar + vel) e “descapotar”, por derivação parassintética (des + capota + ar). A formação etimológica desse vocábulo difere daquela dada pelo examinador. b) Explique por que o autor considera, com certo humor, que a palavra “descapotável” do português europeu faz mais sentido de que o termo“conversível”, usado no português brasileiro. RESOLUÇÃO O adjetivo “descapotável”, usado no português europeu, significa “carro cuja capota, flexível ou rígida, pode ser baixada e recolhida, ou retirada” (Houaiss). O adjetivo “conversível”, usado no Brasil, significa o “que se pode converter, convertível” ou ainda “cuja capota se pode dobrar ou remover” (Houaiss). Apesar de os adjetivos poderem ser sinônimos, o autor do texto considera “descapotável” mais adequado por ser mais específico, já que literalmente significa “sem capota”; en quanto “conversível”, de sentido mais amplo, significa também tudo aquilo que pode ser mudado, convertido. MÓDULO 11 55 Morfologia e Redação (III) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 49 2. (UNICAMP-2018) – Leia a seguir trechos das entrevistas concedidas pelo escritor chileno Alejandro Zambra ao jornal Folha de São Paulo e à revista Cult sobre seu livro Múltipla Escolha, lançado no Brasil em 2017. A obra imita o formato da Prova de Aptidão Verbal aplicada de 1966 a 2002 aos candidatos a vagas em universidades no Chile. a) Cite dois fatores que levaram Zambra a adotar a forma narrativa empregada em Múltipla Escolha. RESOLUÇÃO Um dos fatores que levou Zambra a adotar essa forma narrativa foi o descontentamento no que tange à enunciação unívoca, isto é, uma voz única e impositiva que limita a interpretação. Esse tipo de narrativa assemelha- se à de Estados ditatoriais. O outro fator que levou Zambra a querer incor - porar esse tipo de texto foi a “postura crítica e autocrítica, o humor e a dor”. Assim, desnuda-se o autorita rismo do enunciador e des mis tifica-se a resposta dada como correta pelo arbítrio de quem a pretende como tal. b) Por que Múltipla Escolha não funciona como a Prova de Aptidão Verbal chilena? Justifique sua resposta com base no tipo de leitor solicitado pela obra. RESOLUÇÃO A Prova de Aptidão Verbal chilena é autoritária, foi aplicada inclusive na vigência da ditadura de Augusto Pinochet, que se inicia em 11 de setembro de 1973, e impõe um tipo de abordagem dos pro blemas e admite arbritrariamente uma única resposta. Múltipla Escolha não tem as características da Prova de Aptidão Verbal chilena porque pede uma leitura múltipla, aberta a interpretações críticas e auto críticas, não permitindo uma recepção única, fechada. Falando à Folha, Zambra afirma que havia na prova de múltipla escolha “uma grande sintonia com a ditadura chilena. Para entrar na universidade, teríamos que saber eliminar as orações. Havia censura, e nos aconselhavam a censurar”. E acrescenta que osistema educacional moldava o pensamento dos alunos com“a ideia de que só existe uma resposta correta.” Abordando o sentido crítico da escolha desse formato para a narrativa, o autor explica à Cult que, tendo sido criado nesse sistema, interessava-lhe mais a autocrítica. Escrevendo uma espécie de novela, lembrou-se da prova e começou a brincar com esse formato. “No começo foi divertido, como imitar as vozes das pessoas, mas logo me dei conta de que também imitava minha própria voz, até que de repente entendi que esse era o livro. A paródia e a autoparódia, a crítica e a autocrítica, o humor e a dor...” O formato de prova oferece diversas opções para completar e interpretar cada resposta, mas pede ao leitor um movimento duplo de leitura: testar possibilidades de respostas e erigir uma opção única e arbitrária. Zambra esclarece: “me interessam todos esses movimentos da autoridade. A ilusão de uma resposta, por exemplo. Creio que este é um livro sobre a ilusão de uma resposta. Nos ensinaram isso, que havia uma resposta única, e logo descobrimos que havia muitas e isso às vezes foi libertador e outras vezes foi terrível. Quem sabe algumas vezes nós também quisemos que houvesse uma resposta única.” (Adaptado de entrevistas de Alejandro Zambra concedidas ao jornal Folha de São Paulo e à revista Cult em maio de 2017. Disponíveis em https://revistacult.uol.com.br/home/alejandro- zambra-multipla-escolha/ e em http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/05/1885551 - literatura-esta-ligada-a-desordem-diz-escritor-chileno-alejandro- zambra.shtml. Acessados em 11/12/2017. 50 – P O R T U G U ÊS B REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 50 – 51 P O R T U G U ÊS B 3. (FUVEST-2018) – Leia o texto. a) Segundo a concepção do autor, como a poesia pode ser entendida? RESOLUÇÃO Rubem Alves conta um episódio em que uma per sonagem, antes acostumada com a função prag mática da cebola como mero alimento, surpreende-se ao descobrir a beleza nunca antes vista nesse vegetal, com seus “anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles”. Essa narrativa permite inferir o conceito de arte defendida pelo autor: a produção de um olhar diferente, inusitado sobre a realidade, destacando não o aspecto prático, utilitário, mas a disposição para o espanto diante da beleza. A arte passa a ser, portanto, fruto de uma nova percepção do convencional, do banal, do co tidiano. b) Reescreva o trecho “Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”, substituindo o termo sublinhado por “Naquela época” e empregando a primeira pessoa do plural. Faça as adaptações necessárias. RESOLUÇÃO O trecho apresentado, reescrito, passa a ser “Naquela época, tudo o que víamos nos causava espanto”. Texto para a questão 4. 4. (FUVEST) a) Transcreva o trecho do texto em que o autor explora, com fins expressivos, o emprego de termos contra ditórios, sublinhando-os. RESOLUÇÃO: Trata-se do fragmento “(...) um grupo de cientistas construiu uma traquitana simples, mas extrema mente sofisticada (...)” O adjetivo simples refere-se a algo “descom pli cado”, e sofisticado, ao contrário, a algo “com plexo”. b) Esse excerto provém de um artigo de divulgação científica. Aponte duas características da linguagem nele empregada que o diferenciam de um artigo científico especializado. RESOLUÇÃO: O artigo científico prima por terminologia espe cífica de determinada áreado conhecimento em linguagem denotativa e objetiva. Esse excerto distancia-se de um artigo científico convencional na medida em que o autor utiliza linguagem acessível a leigos, com imagens corri - queiras. Além disso, ao usar a 1.a pessoa do plural, o autor refere-se a experiências compartilhadas entre ele e os seus leitores. Isso fica evidente, por exemplo, no trecho: “Somos capazes de andar dezenas de quilômetros por quilo de feijão ingerido.” Há também o emprego de uma me táfora, “haste... espécie de embreagem”, recurso pouco comum em textos científicos. A complicada arte de ver Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresa. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto." Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementares", de Pablo Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver". Rubem Alves, Folha de S.Paulo, 26/10/2004. Adaptado. Nosso andar é elegante e gracioso, e também extremamente eficiente do ponto de vista energético. Somos capazes de andar dezenas de quilômetros por quilo de feijão ingerido. Ate agora, nenhum sapato, nenhuma técnica especial de balançar os braços, ou qualquer outro truque foram capazes de melhorar o número de quilômetros caminhados por quilo de feijão consumido. Mas, agora, depois de anos investigando o funcionamento de nossas pernas, um grupo de cientistas construiu uma traquitana simples, mas extremamente sofisticada, que é capaz de diminuir o consumo de energia de uma caminhada em até 10%. Trata-se de um pequeno exoesqueleto que recobre nosso pé e fica preso logo aboixo do joelho. Ele mimetiza o funcionamento do tendão de Aquiles e dos músculos ligados ao tendão. Uma haste no altura do tornozelo, a qual se projeta para trás, segura uma ponta de uma mola. Outra haste, logo abaixo do joelho, segura uma espécie de embreagem (...). Fernando Reinach, www.estadao.com.br, 13/06/2015. Adaptado. REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 51 52 – P O R T U G U ÊS B As questões de números 1 a 4 tomam por base o poema Livros, do parnasiano brasileiro Afonso Celso (1860-1938) e uma passagem do livro Elementos de bibliologia, do filólogo e lexicógrafo brasileiro An - tonio Houaiss (1915-1999). 1. (UNESP) – Considerando que o poema Livros surge num livro pu - blicado em 1904 e é uma bem-humorada crítica à cultura livresca, sintetize a opinião sobre a utilidade dos livros manifestada pelo eu lírico no poema de Afonso Celso. RESOLUÇÃO: Segundo o autor, os livros não têm nenhuma utilidade prática. Não tornam quem os lê “nem menos mau, nem mais feliz” e nem trazem “paz e conforto”. Ade mais, a leitura não responde as perguntas essenciais sobre a existência humana: “Nenhum me diz se eu amanhã / Vivo estarei ou se, já morto, / Terá cessado o meu afã”. De forma bem-humorada, o poeta conclui, nos últimos versos, que a destruição da cultura livres ca alteraria em nada a experiência de viver. LIVROS De livros mil vivo cercado, Dias e noites passo a ler, Mas, francamente, o resultado Coisa não é de agradecer. Nenhum me dá – paz e conforto, Nenhum me diz se eu amanhã Vivo estarei ou se, já morto, Terá cessado o meu afã. Nada afinal sabeis ao certo Sobre das almas o tropel... Do vosso cume vê-se perto, Chatas montanhas de papel. Vãs pretensões! Orgulho fofo! Do ser mesquinho que voz fez Tendes o mesmo vil estofo, Tendes a mesma pequenez. Cada vez mais, debalde, avulta Vossa maré... Tudo invadis; Mas não tornais quem vos consulta Nem menos mau, nem mais feliz. Que um cataclismo vos destrua, Mal não fará... Sem o sentir, Serena a vida continua: Lutar, sofrer, sonhar, mentir. (Afonso Celso. Poesias escolhidas. Rio de Janeiro: H. Garnier Livreiro-Editor, 1904, p. 03-04. Adaptado.) O LIVRO E A DOCUMENTAÇÃO Nas condições do atual desenvolvimento histórico da humani - da de, o conhecimento de primeira mão não pode progredir sem o de se gunda mão. Conhecimento de pri meira mão é o decorrente, digamos assim, da integração do homem na natureza, para dela haurir continuidade específica e felicidade individual; essa inte - gração, para consolidar-se, foi condicionada pela e condicionou a comunicação verbal, implicadora do conhecimento de segunda mão, a linguagem, no que ela encerra de transmissão cognitiva. Esse conhecimento de segunda mão multiplicou de importância a partir do momento em que o homem pôde mantê-lo em conserva, graficamente, para uso de seus contemporâneos e de seus pósteros. A noosfera, gerando a grafosfe ra, aumentou os poderes e potências do homem. E hoje a matéria mentada e em conserva gráfica é tão imensa e se renova em ritmo tão intenso, que um dos mais graves problemas da civilização e da cultura humanas é conseguir torná- la relativamente acessível a quantos queiram ou possam acres cen - tar seu esforço ao herdado das gerações anteriores, na luta pelo aumento do saber, vale dizer, do conhecer, vale dizer, do fazer, vale dizer, do conhecer-fazer-conhecer-fazer, vale dizer, da perpetuação espe cífica e da felicidade individual. Uma “documentação ativa” é condição e imperativo, nesta altura, do progresso. Forma privile gia - da da mensagem gráfica, o livro se insere, necessaria mente, na documentação, como um dos meios espe cí ficos mais poderosos e eficazes da mesma documentação; mas não ape nas o livro, é óbvio, senão que quantas coisas realizadas, execu tadas, interpretadas, achadas, orde nadas, nominadas pelo homem. (Antonio Houaiss. Elementos de bibliologia. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1967, vol II, p. 36-37.) MÓDULO 11 66 Interpretação de Textos (I) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 52 – 53 P O R T U G U ÊS B 2. (UNESP) – Ao demonstrar a utilidade dos livros, Houaiss estabe - lece dois conceitos: conhecimento de primeira mão e conhe cimento de segunda mão. Releia o texto e explique a diferença entre esses dois conceitos. RESOLUÇÃO: O conhecimento de primeira mão diz respeito à “integração do homem na natureza”, isto é, resulta da experiência adquirida pelo contato direto com os elementos naturais. Essa integração promoveu o surgimento da lin gua - gem, da comunicação verbal, que é o conhecimento de segunda mão. Derivada desse conhecimento, surgiu a escrita, que possibilitou a transmissão dos saberes para outros indivíduos, contemporâneos ou das gerações seguintes. 3. (UNESP) – Mas não tornais quem vos consulta / Nem menos mau, nem mais feliz. Nestes versos, o eu lírico se serve ao mesmo tempo de dois proce di - mentos tradicionais da poesia e da oratória, a personificação (ou pro - so popeia), atribuição de vida, ação, movimento e voz a coisas inani madas, e a apóstrofe, recurso que consiste em o orador ou o eu lírico dirigir-se a uma pessoa ou coisa real ou fictícia. Identifique a pre - sençada personificação e da apóstrofe nos versos citados e aponte as palavras que, por suas características gra maticais, permitem detectar esses procedimentos. RESOLUÇÃO: O autor do poema personifica os livros e dialoga com eles a partir da terceira estrofe. As ações que ele atribui aos livros, por meio do verbo tornar (tornar menos mau, tornar mais feliz), podem implicar (mas não necessariamente) um agente animado, personi ficado. A prosopopeia se configura mais claramente com a presença da apóstrofe, pois tais agentes são tratados como interlocutores, por meio do verbo – tornais – e do pronome – vos – na segunda pessoa, isto é, o eu lírico se dirige a eles como se fossem pessoas. 4. (UNESP) – Um conceito lógico pode ser expresso figu ra damente, para ser melhor entendido. É o que ocorre no texto de Houaiss na passagem o homem pôde mantê-lo em conserva. Explique o signifi - cado lógico dessa imagem no contexto em que surge. RESOLUÇÃO: A metáfora utilizada pelo autor sugere que a escrita possibilitou que os conhecimentos adquiridos pela humanidade fossem preservados. REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 53 54 – P O R T U G U ÊS B Texto para as questões 5 e 6. 5. (FGV-Economia) – Analise as informações, extraídas e adap ta das da Moder na Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, e res ponda ao solicitado. a) Os substantivos apresentam-se com a sua significação diminuída, auxiliados por sufixos derivacionais. Além disso, a ideia de peque - nez se associa facilmente à de carinho que transparece nas formas diminutas. Transcreva do texto um exemplo para cada uma das descrições apresentadas. RESOLUÇÃO: Os substantivos que apresentam sufixos derivacio nais e têm sentido de “pequeno, de tamanho reduzido” são cavalinho, saquinhos e pacotinhos. As formas que no diminutivo conotam afetividade são olhinhos, em que o personagem Alonso demonstra seu carinho pelo cachorro; e casaquinho, forma carinhosa de se referir a um tipo de vestuário. b) Em algumas ocasiões, o possessivo “seu” pode dar lugar a dú vi das, a respeito do possuidor. Remedeia-se o mal com a substi tui ção de seu, sua, seus, suas, pelas formas dele, dela, deles, delas, de você, do senhor, etc., conforme convier. Transcreva do texto uma passagem em que um eventual emprego do pronome seu geraria ambiguidade e explique quais seriam os potenciais referentes do pronome, nesse caso. RESOLUÇÃO: A única passagem que poderia provocar ambi gui da de caso o pronome possessivo dele fosse trocado por seu é “Quando ele acordar amanhã vai en contrar o cavalinho dentro do sapato dele”. Se fosse empregado o pronome seu, ele poderia referir-se tanto ao filho de Leduína, quanto ao personagem Alonso, que dialoga com ela. 6. (FGV-Economia) – Com base nos tipos de discurso pre sen tes no texto, a) reescreva, em discurso indireto, o trecho do diálogo entre Alonso e Leduína, constante nos terceiro e quarto parágrafos, dando sequência à última frase do segundo parágrafo. Alonso voltou-se para Leduína e... RESOLUÇÃO: Alonso voltou-se para Leduína e perguntou o que o filho dela ia (ou iria) ganhar. A mulher respondeu que era um cavalinho e completou com a voz suave que quando ele acordasse no dia seguinte ia (ou iria) encontrar o cavalinho dentro do sapato, e que ele a vivia atormentando que queria um cavalinho... b) transcreva duas passagens que exemplifiquem o discurso indireto livre, justificando essa seleção. RESOLUÇÃO: As frases em discurso indireto livre são “pois não prometera levá-lo? Não prometera?” e “Ah, se ela pudesse ouvi-lo!”, pois nelas se misturam o pensa men to do personagem Alonso e o discurso do narrador. — Hoje é dia de Natal, menino. Eles vão jantar fora, eu também tenho a minha festa, você vai jantar sozinho. Alonso inclinou-se. E espiou apreensivo debaixo do fogão. Dois olhinhos brilharam no escuro. [O cachorro] Biruta ainda estava lá e Alonso suspirou. Era tão bom quando Biruta resolvia se sentar! Melhor ainda quando dormia. Tinha então a certeza de que não estava acontecendo nada, era a trégua. Voltou-se para Leduína. — O que seu filho vai ganhar? — Um cavalinho – disse a mulher. A voz suavizou. – Quando ele acordar amanhã vai encontrar o cavalinho dentro do sapato dele. Vivia me atormentando que queria um cavalinho, que queria um cavalinho... Alonso pegou uma batata cozida, morna ainda. Fechou-a nas mãos arroxeadas. — Lá no orfanato, no Natal, apareciam umas moças com uns saquinhos de balas e roupas. Tinha uma moça que já me conhecia, me dava sempre dois pacotinhos em lugar de um. Era a madrinha. Um dia ela me deu sapatos, um casaquinho de malha e uma camisa... — Por que ela não adotou você? — Ela disse uma vez que ia me levar, ela disse. Depois não sei por que ela não apareceu mais, sumiu... Deixou cair na caçarola a batata já fria. E ficou em silêncio, as mãos abertas em torno da vasilha. Apertou os olhos. Deles irradiou-se para todo o rosto uma expressão dura. Dois anos seguidos esperou por ela, pois não prometera levá-lo? Não prometera? Nem sabia o seu nome, não sabia nada a seu respeito, era apenas a Madrinha. Inutilmente a procurava entre as moças que apareciam no fim do ano com os pacotes de presentes. Inutilmente cantava mais alto do que todos no fim da festa na capela. Ah, se ela pudesse ouvi-lo! (Lygia Fagundes Telles, Um Coração Ardente) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 54 – 55 P O R T U G U ÊS B As questões de números 1 a 4 tomam por base um trecho do artigo Horror a aprender (06.01.1957), escrito pelo historiador e crítico lite - rário Afrânio Coutinho (1911-2000), e uma tira do blogue Blogloides. (www.blogloides.blogger.com.br. Adaptado.) 1. (UNESP) – No primeiro parágrafo, Afrânio Coutinho acusa uma inversão de valores no meio intelectual brasileiro. Explique em que consiste essa inversão e qual a sua con sequência, segundo o autor sugere, em termos de ensino. RESOLUÇÃO: A “inversão de valores” deriva do preconceito, apon tado pelo autor, que associa aprender a uma condição de inferioridade intelectual, quando o correto deveria ser o contrário. Daí derivariam o autodidatismo, que o autor considera “enraizado” nos meios literários brasileiros, e, como consequência, o fraco espírito universitário, ou seja, a falta de método e rigor que caracterizaria a intelectualidade referida pelo autor (e talvez naquela época – 1963 – “nossa falta de hábito universitário” fosse ainda maior). 2. (UNESP) – No segundo parágrafo, para reforçar sua argumentação, Coutinho se vale de duas expressões idiomáticas que apresentam praticamente o mesmo sentido. Identifique estas duas expressões idiomáticas e, com base no sentido comum a ambas, esclareça o argumento do autor. RESOLUÇÃO: As expressões em questão são arrombar portas abertas e chover no molhado, ambas com o sentido de “resolver o resolvido”, “explicar o que está claro” ou ainda “inventar o que já foi inventado”. Trata-se da atitude que o autor atribui aos “jovens intelectuais” pedantes e avessos ao aprendizado, que, por igno rância, repetem ideias consabidas como se se tratasse de grande novidade. HORROR A APRENDER Se quiséssemos numa fórmula definir a mentalidade mais ou menos generalizada dos que militam na vida literária brasileira, não lograríamos descobrir outra que melhor se prestasse do que esta: horror a aprender. Nosso autodidatismo enraizado, nossa falta de hábito universi tário, fazem com que aprender, entre nós, seja motivo de inferioridade intelectual. Ninguém gosta de aprender. Ninguém se quer dar ao trabalho de aprender. Porque já se nasce sabendo. Todos somos mestres antes de ser discípulos. Aprender o quê? Pois já sabemos tudo de nascença! Ignoramos essa verdade de extrema sabedoria: só os bons discípulos dão grandes mestres, e só é bom mestre quem foi um dia bom discípulo e continuacom o espírito aberto a um perpétuo aprendizado. Quem sabe aprender sabe ensinar, e só quem gosta de aprender tem o direito de dar lições. Como pode divulgar e orientar conhecimentos quem mantém o espírito impermeável a qualquer aprendizagem? Nossos jovens intelectuais, em sua maioria, primam pelo pedantismo, autossuficiência e falta de humildade de espírito. São mestres antes de ter sido discípulos. Saber não os preocupa, estudar, ninguém lhes viu os estudos. É só meter-lhes na mão uma pena e cair-lhes ao alcance uma coluna de jornal, e lá vem doutrinação leviana e prosa de meia-tigela. Não lhes importa verificar se estão arrom bando portas abertas ou chovendo no molhado. (No hospital das letras, 1963.) MÓDULO 11 77 Interpretação de Textos (II) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 55 56 – P O R T U G U ÊS B 3. (UNESP) – Indique a contradição da personagem mais nova da tira em pretender criar um blogue intelectual sobre Saramago. RESOLUÇÃO: Com a pretensão ignorante dos jovens intelectuais que Afrânio Coutinho condena, a personagem mais nova, demonstrando rematada insuficiência intelectual e cultural, pretende fazer um “blog intelectual” sobre José Saramago sem sequer saber de quem se trata. 4. (UNESP) – Considerando a natureza dos respectivos gêneros textuais, estabeleça a diferença entre o artigo e a tira quanto ao modo de manifestarem seus julgamentos críticos. RESOLUÇÃO: O artigo de Afrânio Coutinho é do um artigo de opinião (dissertação): apresenta dados e argumentos, implícitos (a impor tância do “hábito universitário” de método e rigor no trabalho intelectual) e explícitos (as carências e vícios da intelectualidade literária brasileira), para fun - damentar seu julgamento. A tira reproduzida, dife rentemente, é um “texto” (visual) narrativo de na tu re za satírica, pois apresenta uma situação em que se ridiculariza o comportamento da personagem objeto do “julgamento crítico” implícito. Texto para as questões 5 e 6. 5. (UERJ) – As imagens positivas presentes na 1.a estro fe do poema, como Frases calmas (v. 2), opõem-se às ima gens negativas da 3.ª estrofe, como confusão odienta (v. 11). Explique a que se referem as imagens positivas da 1.ª estrofe e a que se referem as imagens ne ga - tivas da 3.ª estrofe. RESOLUÇÃO: As imagens positivas se referem à idealização que se fará, no futuro, do presente em que o poeta vive. As imagens negativas se referem a acontecimentos reais do presente em que o poeta vive. 6. (UERJ) – No poema, observa-se uma tentativa de interlo cução entre o eu poético e as pessoas do futuro. Identifique a marca linguística que revela essa tentativa de interlocução. Em seguida, in di que a quem o eu poético se refere com o emprego do pronome nós. RESOLUÇÃO: Marca linguística é o emprego dos verbos na 2.a pessoa do plural: falareis, sonhareis. O pronome nós se refere às pessoas do presente. ODE1 PARA O FUTURO 1 Falareis de nós como de um sonho. 2 Crepúsculo dourado. Frases calmas. 3 Gestos vagarosos. Música suave. 4 Pensamento arguto2. Sutis sorrisos. 5 Paisagens deslizando na distância. 6 Éramos livres. Falávamos, sabíamos, 7 e amávamos serena e docemente. 8 Uma angústia delida3, melancólica, 9 sobre ela sonhareis. 10 E as tempestades, as desordens, gritos, 11 violência, escárnio4, confusão odienta5, 12 primaveras morrendo ignoradas 13 nas encostas vizinhas, as prisões, 14 as mortes, o amor vendido, 15 as lágrimas e as lutas, 16 o desespero da vida que nos roubam 17 – apenas uma angústia melancólica, 18 sobre a qual sonhareis a idade de ouro. 19 E, em segredo, saudosos, enlevados6, 20 falareis de nós – de nós! – como de um sonho. (Jorge de Sena. www.letras.ufrj.br) 1 ode: tipo de poema 2 arguto: capaz de perceber as coisas mais sutis 3 delida: apagada 4 escárnio: desdém, menosprezo 5 odienta: que inspira aversão, ódio 6 enlevados: maravilhados, extasiados REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 56 – 57 P O R T U G U ÊS B 1. (UNICAMP-SP) – Na sua coluna diária do Jornal Folha de S.Paulo de 17 de agosto de 2005, José Simão escreve: “No Brasil nem a esquerda é direita!”. a) Nessa afirmação, a polissemia da língua produz ironia. Em que palavras está ancorada essa ironia? RESOLUÇÃO: A ironia está presente nas palavras “esquerda” e “direita”. b) Quais os sentidos de cada uma das palavras envol vidas na polisse - mia acima referida? RESOLUÇÃO: Esquerda significa “tendência política ligada a rei vin dicações populares, trabalhistas, socialistas ou comu nistas”. Direita designa, como substantivo, “tendência política conser vadora ou reacionária em relação às reformas sociais” e, como adjetivo, significa “cor reta, honesta”. A polissemia criada pelo autor ironiza os partidos de esquerda que não agem com honestidade, inte gridade, probidade. c) Comparando a afirmação “No Brasil nem a esquerda é direita” com “No Brasil a esquerda não é direita”, qual a diferença de sentido estabelecida pela substituição de “nem” por “não”? RESOLUÇÃO: Nem, no contexto, expressa a ideia de adição e significa “inclusive não”, “também não”, ou seja, implica a ideia de que todos não agem com honestidade, inclusive a esquerda. Já o sentido de não é apenas de negação e entende-se que a esquerda não é honesta. 2. (FUVEST) – Examine esta propaganda de uma empresa de certificação digital (mecanismo de segurança que garante autentici - dade, confidenciabilidade e integridade às informações eletrônicas). a) Aponte a relação de sentido que existe entre a men sagem verbal e a imagem. RESOLUÇÃO: A tecla delete representa o avanço tecnológico, que seria respon sável pelo fim próximo dos métodos de organização e trabalho representados pelo carim bo, símbolo da burocracia. b) Forme uma frase correta e coerente com base em um verbo deri vado da palavra burocracia. RESOLUÇÃO: O verbo derivado do substantivo burocracia é buro cratizar. Exemplo: Os planos de saúde burocratizam o acesso a exa mes médicos mais complexos. c) Estar com os dias contados é uma das dezenas de locuções for ma - das a partir do substantivo dia. Crie uma frase em que apa reça uma dessas locuções (sem repetir, é claro, a locução utilizada na propaganda acima). RESOLUÇÃO: Seria possível construir frases com as locuções todo dia, dia a dia, dia e noite. Exemplo: Dia a dia crescem os congestionamentos no trân sito de São Paulo. MÓDULO 11 88 Interpretação de Textos (III) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 57 58 – P O R T U G U ÊS B Texto para a questão 3. 3. (FGV-Economia) – No primeiro parágrafo do texto, o narrador afirma que Ana Terra “... sentia o tempo passar, escutava vozes, via caras e lembrava-se de coisas...” a) Como se organiza no texto a ideia de passagem do tempo? Como isso está relacionado à percepção que a personagem tem da sua vida? RESOLUÇÃO: O trecho indicado na questão se constrói por meio de orações coordenadas. A organização dá ideia de passagem do tempo é associada “ao vento de outros tempos”, que traz para a personagem Ana Terra a rememoração de fatos marcantes e tristes que ocorreram em sua vida. O próprio título da obra O tempo e o Vento sugere essa associação. b) Há duas perspectivas temporais bastante marcadas no texto, com o emprego de verbos no pretérito imperfeito e no pretérito mais-que- perfeito. Explique a relação de sentido que há entre elas no texto. RESOLUÇÃO: Os verbos no pretérito imperfeito “costumava”, “ouvia”, “sentia”, “escutava”, “via” “lembrava-se” indicam ações durativas no passado. Os fatos narrados no pretérito mais-que-perfeito “trouxe ra”, “deixara”, “fora”, “casara” e “estabelecera” indicam ações anteriores ao pretérito imperfeito. Texto para a questão 4. 4. (UNICAMP) a) Tendo em vista que esse poema faz parte de uma série intituladaTempo-morte, indique de que maneira a primeira estrofe exprime certo sentido de absoluto associado ao título. RESOLUÇÃO: Na primeira estrofe, o verbo passar aparece no fu turo do presente (Passará), pretérito perfeito composto do indicativo (Tem passado) e presente do indicativo (Passa). O examinador quis que se relacionasse a abrangência do tempo (passado, presente e futuro) com certo sentido de absoluto associado ao título da série (Tempo-morte). b) Nesse poema há pronomes de segunda e terceira pessoas. Trans cre - va uma estrofe em que constem ambas as pessoas pronominais e diga a que se referem. RESOLUÇÃO: Há pronomes de segunda e terceira pessoas na terceira e última estrofes. “Fecha feridas, é unguento. Mas pode abrir a tua mágoa Com a sua fina faca.” “No corpo da tua água passará Tem passado Passa com a sua fina faca.” O pronome tua refere-se ao receptor (leitor) do texto; sua refere-se ao Tempo-morte. Muitos anos mais tarde, Ana Terra costumava sentar-se na frente de sua casa para pensar no passado. E no pensamento como que ouvia o vento de outros tempos e sentia o tempo passar, escutava vozes, via caras e lembrava- se de coisas... O ano de 81 trouxera um acontecimento triste para o velho Maneco: Horácio deixara a fazenda, a contragosto do pai, e fora para o Rio Pardo, onde se casara com a filha dum tanoeiro e se estabelecera com uma pequena venda. Em compensação nesse mesmo ano Antônio casou-se com Eulália Moura, filha dum colono açoriano dos arredores do Rio Pardo, e trouxe a mulher para a estância, indo ambos viver num puxado que tinham feito no rancho. Em 85 uma nuvem de gafanhotos desceu sobre a lavoura deitando a perder toda a colheita. Em 86, quando Pedrinho se aproximava dos oito anos, uma peste atacou o gado e um raio matou um dos escravos. Foi em 86 mesmo ou no ano seguinte que nasceu Rosa, a primeira filha de Antônio e Eulália? Bom. A verdade era que a criança tinha nascido pouco mais de um ano após o casamento. Dona Henriqueta cortara-lhe o cordão umbilical com a mesma tesoura de podar com que separara Pedrinho da mãe. E era assim que o tempo se arrastava, o sol nascia e se sumia, a lua passava por todas as fases, as estações iam e vinham, deixando sua marca nas árvores, na terra, nas coisas e nas pessoas. E havia períodos em que Ana perdia a conta dos dias. Mas entre as cenas que nunca mais lhe saíram da memória estavam as da tarde em que dona Henriqueta fora para a cama com uma dor aguda no lado direito, ficara se retorcendo durante horas, vomitando tudo o que engolia, gemendo e suando de frio. (Érico Veríssimo. O tempo e o Vento, “O Continente”, 1956) Passará Tem passado Passa com a sua fina faca. Tem nome de ninguém. Não faz ruído. Não fala. Mas passa com a sua fina faca. Fecha feridas, é unguento. Mas pode abrir a tua mágoa Com a sua fina faca. Estanca ventura e voz Silêncio e desventura. Imóvel Garrote Algoz No corpo da tua água passará Tem passado Passa com a sua fina faca. (HILST, Hilda. “Da morte”. Odes mínimas. São Paulo: Globo, 2003. p. 72.) REVGERAL 2_B_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:21 Página 58 P O R T U G U ÊS D Português Curso Extensivo – D REVGERAL 2_D_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:43 Página I P O R T U G U ÊS D REVGERAL 2_D_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:43 Página II Leia o trecho inicial do artigo “Artifícios da inteligência”, do físico brasileiro Marcelo Gleiser (1959- ), para responder às questões 1 e 2. 1. (Unesp-2018) a) Para o físico Marcelo Gleiser, o que distingue as tecnologias transumanas daquelas apenas corretivas? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO Segundo o texto, as tecnologias corretivas regula rizam deficiências físicas existentes, não têm como objetivo a ampliação de características cognitivas, como é o caso do transumanismo. b) Cite dois termos empregados em sentido figurado no primeiro parágrafo do artigo. RESOLUÇÃO São exemplos de termos empregados em sentido figurado: “engavetado”, metáfora que se refere a estar preso no congestionamento, e “navegar”, também metáfora, referindo-se a passar de um sítio para outro na internet. 2. (Unesp-2018) a) De acordo com o físico, nós já podemos ser considerados transumanos? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO Segundo o autor, o transumanismo, “hibridismo entre tecnologia e biologia”, já está ocorrendo. Marcelo Gleiser considera que os seres humanos estão ampliando sua capacidade por meio de tecnologias que os redefinem de modo que as pessoas já não são as mesmas, caso percam o acesso aos aparelhos eletrônicos, tal como acontece no caso do celular. Considere a seguinte situação: você acorda atrasado para o trabalho e, na pressa, esquece o celular em casa. Só quando engavetado no tráfego ou amassado no metrô você se dá conta. E agora é tarde para voltar. Olhando em volta, você vê pessoas com celular em punho conversando, mandando mensagens, navegando na internet. Aos poucos, você vai sendo possuído por uma sensação de perda, de desconexão. Sem o seu celular, você não é mais você. A junção do humano com a máquina é conhecida como “transumanismo”. Tema de vários livros e filmes de ficção científica, hoje é um tópico essencial na pesquisa de muitos cientistas e filósofos. A questão que nos interessa aqui é até que ponto essa junção pode ocorrer e o que isso significa para o futuro da nossa espécie. Será que, ao inventarmos tecnologias que nos permitam ampliar nossas capacidades físicas e mentais, ou mesmo máquinas pensantes, estaremos decretando nosso próprio fim? Será esse nosso destino evolucionário, criar uma nova espécie além do humano? É bom começar distinguindo tecnologias transumanas daquelas que são apenas corretivas, como óculos ou aparelhos para surdez. Tecnologias corretivas não têm como função ampliar nossa capacidade cognitiva: só regularizam alguma deficiência existente. A diferença ocorre quando uma tecnologia não apenas corrige uma deficiência como leva seu portador a um novo patamar, além da capacidade normal da espécie humana. Por exemplo, braços robóticos que permitem que uma pessoa levante 300 quilos, ou óculos com lentes que dotam o usuário de visão no infravermelho. No caso de atletas com deficiência física, a questão se torna bem interessante: a partir de que ponto uma prótese como uma perna artificial de fibra de carbono cria condições além da capacidade humana? Nesse caso, será que é justo que esses atletas compitam com humanos sem próteses? Poderia parecer que esse tipo de hibridização entre tecnologia e biologia é coisa de um futuro distante. Ledo engano. Como no caso do celular, está acontecendo agora. Estamos redefinindo a espécie humana através da interação – na maior parte ainda externa – com tecnologias que ampliam nossa capacidade. Sem nossos aparelhos digitais – celulares, tabletes, laptops – já não somos os mesmos. Criamos personalidades virtuais, ativas apenas na internet, outros eus que interagem em redes sociais com selfies arranjados para impressionar; criações remotas, onipresentes. Cientistas e engenheiros usam computadores para ampliar sua habilidade cerebral, enfrentando problemas que, há apenas algumas décadas, eram considerados impossíveis. Como resultado, a cada dia surgem questões que antes nem podíamos contemplar. (Folha de S.Paulo, 01.02.2015. Adaptado.) – 1 P O R T U G U ÊS D Revisão PORTUGUÊS MÓDULO 11 Sintaxe e Morfologia (I) REVGERAL 2_D_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:43 Página 1 2 – P O R T U G U ÊS D b) Dêiticos: expressões linguísticas cuja interpretação depende da pessoa, do lugar e do momento em que são enunciadas. Por exemplo: “eu” designa a pessoa que fala “eu”. (Ernani Terra. Leitura do texto literário, 2014.) Cite dois dêiticos empregados nos dois primeiros parágrafos do texto. RESOLUÇÃO O pronomede tratamento “você” foi empregado em sentido generalizante, pois não se refere a uma pessoa em particular, mas a todos os que já vivenciaram as situações descritas no primeiro parágrafo. No segundo parágrafo, o pronome pessoal oblíquo “nos” refere-se ao próprio autor do texto, é usado como plural de modéstia. O pronome possessivo “nossa” refere-se à espécie humana. Leia a fábula “A raposa e o lenhador”, do escritor grego Esopo (620 a.C.?-564 a.C.?), para responder às questões de 3 a 6. 3. (UNIFESP-2017) – A moral mais apropriada para fechar a fábula seria: a) Esta fábula pode ser dita a propósito de homens desventurados que, quando estão em situações embaraçosas, rezam para encontrar uma saída, mas assim que encontram procuram evitá-las. b) Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito daqueles homens que nitidamente proclamam ações nobres, mas na prática realizam atos vis. c) Esta fábula mostra que os homens desatentos prestam atenção nas coisas de que esperam tirar proveito, mas permanecem apáticos em relação àquelas que não lhes agradam. d) Assim, alguns homens se entregam a tarefas arriscadas, na esperança de obter ganhos, mas se arruínam antes mesmo de chegar perto do que almejam. e) Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito de um homem frouxo que reclama de ínfimas desgraças, enquanto ela própria suporta, sem dificuldade, desgraças enormes. RESOLUÇÃO: É nítida, na fábula “A raposa e o lenhador”, de Esopo, o ensinamento moral acerca de pessoas que, com hipocrisia, escondem suas práticas vis, mascarando-as por meio de um discurso em que buscam apresentar nobreza de caráter. Resposta: B 4. (UNIFESP-2017) – “Entretanto, como eles não prestaram atenção nos seus gestos, deram crédito às suas palavras.” Em relação à oração que a sucede, a oração destacada tem sentido de a) causa. b) conclusão. c) proporção. d) consequência. e) comparação. RESOLUÇÃO: A oração destacada estabelece relação de causa com a oração posterior, que é a sua consequência. Resposta: A 5. (UNIFESP-2017) – Os trechos “Ele sugeriu que ela entrasse em sua cabana” e “vieram os caçadores e perguntaram ao lenhador se ele tinha visto uma raposa” foram construídos em discurso indireto. Ao se transpor tais trechos para o discurso direto, o verbo “entrasse” e a locução verbal “tinha visto” assumem, respectivamente, as seguintes formas: a) “entrai” e “vira”. b) “entrou” e “viu”. c) “entre” e “vira”. d) “entre” e “viu”. e) “entrai” e “viu”. RESOLUÇÃO: No discurso indireto, a forma verbal “entrasse”, no imperfeito do subjuntivo, passa, no discurso direto, para o imperativo: “entre”. O pretérito mais-que-perfeito composto “tinha visto”, no discurso indireto, passa para o pretérito perfeito no discurso direto: “viu”. Resposta: D 6. (UNIFESP-2017) – “Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.” (4.° parágrafo) Os termos em destaque constituem, respectivamente, a) um pronome e um artigo. b) uma conjunção e um artigo. c) um artigo e uma preposição. d) um pronome e uma preposição. e) um artigo e uma conjunção. RESOLUÇÃO: Em “a virtude”, o a é artigo definido porque antecede um substantivo. Em “chegava a suprir”, o a é preposição, uma vez que se encontra em uma locução verbal. Resposta: C Enquanto fugia de caçadores, uma raposa viu um lenhador e lhe pediu que a escondesse. Ele sugeriu que ela entrasse em sua cabana e se ocultasse lá dentro. Não muito tempo depois, vieram os caçadores e perguntaram ao lenhador se ele tinha visto uma raposa passar por ali. Em voz alta ele negou tê-la visto, mas com a mão fez gestos indicando onde ela estava escondida. Entretanto, como eles não prestaram atenção nos seus gestos, deram crédito às suas palavras. Ao constatar que eles já estavam longe, a raposa saiu em silêncio e foi indo embora. E o lenhador se pôs a repreendê-la, pois ela, salva por ele, não lhe dera nem uma palavra de gratidão. A raposa respondeu: “Mas eu seria grata, se os gestos de sua mão fossem condizentes com suas palavras.” (Fábulas completas, 2013.) REVGERAL 2_D_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:43 Página 2 Leia o trecho do conto O alienista1, de Machado de Assis (1839-1908), para responder às questões 7 e 8. 7. (UNESP- junho-2018) a) Cite os referentes dos pronomes sublinhados no primeiro e no segundo parágrafos. RESOLUÇÃO O pronome oblíquo “se” refere-se a “Simão Bacamarte”; o pronome oblíquo “lhe” refere-se a “um modesto”. b) Transcreva dois pequenos excertos em que o narrador se dirige diretamente ao leitor. RESOLUÇÃO Nas passagens " Agora, se imaginais", " mostrais com isso que ainda não conheceis " e "Vede a diferença", o narrador dirige-se diretamente ao leitor, pois os verbos estão na segunda pessoa do plural, promovendo a interlocução com o receptor. 8. (UNESP- junho-2018) a) Transcreva o trecho “ele [vereador Galvão] obteve uma boa interpretação, corrompendo os juízes, e embaçando os outros herdeiros” (5.o parágrafo), substituindo os termos sublinhados por outros de sentido equivalente. RESOLUÇÃO “Corrompendo”, no contexto, pode ser substituído por “subornando, aliciando”; “embaçando”, por “atrapalhando, dificultando, complicando”. b) Transcreva o trecho “— Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a uma comadre” (3.o parágrafo) em discurso indireto e em ordem direta. RESOLUÇÃO Transpondo para discurso indireto o trecho em ordem direta tem-se: A mãe do infeliz contava a uma comadre que fora (ou tinha sido) um santo remédio. Era a vez da terapêutica. Simão Bacamarte, ativo e sagaz em descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligência e penetração com que principiou a tratá-los. Neste ponto todos os cronistas estão de pleno acordo: o ilustre alienista fez curas pasmosas, que excitaram a mais viva admiração em Itaguaí. Com efeito, era difícil imaginar mais racional sistema terapêutico. Estando os loucos divididos por classes, segundo a perfeição moral que em cada um deles excedia às outras, Simão Bacamarte cuidou em atacar de frente a qualidade predominante. Suponhamos um modesto. Ele aplicava a medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento oposto; e não ia logo às doses máximas, — graduava-as, conforme o estado, a idade, o temperamento, a posição social do enfermo. Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado; em outros casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de brilhantes, às distinções honoríficas, etc. Houve um doente, poeta, que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar da cura, quando teve ideia de mandar correr matraca, para o fim de o apregoar como um rival de Garção2 e de Píndaro3. — Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a uma comadre; foi um santo remédio. [...] Tal era o sistema. Imagina-se o resto. Cada beleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida; e o efeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a qualidade predominante resistia a tudo; então, o alienista atacava outra parte, aplicando à terapêutica o método da estratégia militar, que toma uma fortaleza por um ponto, se por outro o não pode conseguir.No fim de cinco meses e meio estava vazia a Casa Verde; todos curados! O vereador Galvão, tão cruelmente afligido de moderação e equidade, teve a felicidade de perder um tio; digo felicidade, porque o tio deixou um testamento ambíguo, e ele obteve uma boa interpretação, corrompendo os juízes, e embaçando os outros herdeiros. [...] Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o último hóspede da Casa Verde, mostrais com isso que ainda não conheceis o nosso homem. Plus ultra!4 era a sua divisa. Não lhe bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecidoem Itaguaí o reinado da razão. Plus ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogitativo; alguma coisa lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima teoria. — Vejamos, pensava ele; vejamos se chego enfim à última verdade. Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde fulgurava a mais rica biblioteca dos domínios ultramarinos de Sua Majestade. Um amplo chambre de damasco, preso à cintura por um cordão de seda, com borlas de ouro (presente de uma Universidade) envolvia o corpo majestoso e austero do ilustre alienista. A cabeleira cobria- lhe uma extensa e nobre calva adquirida nas cogitações cotidianas da ciência. Os pés, não delgados e femininos, não graúdos e mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto latão. Vede a diferença: — só se lhe notava luxo naquilo que era de origem científica; o que propriamente vinha dele trazia a cor da moderação e da singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um sábio. (O alienista, 2014.) 1alienista: médico especialista em doenças mentais. 2Garção: um dos principais poetas do Neoclassicismo português. 3Píndaro: considerado o maior poeta lírico da antiga Grécia. 4Plus ultra!: expressão latina que significa “Mais além!”. – 3 P O R T U G U ÊS D REVGERAL 2_D_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:43 Página 3 4 – P O R T U G U ÊS D 1. (FUVEST-2018) – Leia o texto. a) No texto, que ideia é sintetizada pela palavra “crise”? RESOLUÇÃO O termo “crise”, no texto, sintetiza todo e qual quer conflito matrimonial, o que poderia levar inclusive ao assassinato, o que desmente a con cepção do caráter indissolúvel do matrimônio. b) Reescreva a oração “tal como ele era concebido pela Igreja Católica”, empregando a voz ativa e fazendo as adaptações necessárias. RESOLUÇÃO Passando-se a frase na voz passiva para a ativa, tem-se: “tal como a Igreja Católica o concebia (ou concebia-o). O pronome oblíquo “o” refere-se a “vínculo do matrimônio”. 2. (FUVEST-2018) – Examine a propaganda. a) Considerando o contexto da propaganda, existe alguma relação de sentido entre a imagem estilizada dos dedos e as palavras “digital” e “diferença”? Explique. RESOLUÇÃO Digital é um adjetivo substantivado relativo a “dedos”, figurados na imagem como pessoas, ou seja, representando as individualidades de cada eleitor, assim como de suas impressões digitais. Quanto ao termo “diferença”, ele se refere tanto a essa individualidade quanto à importância de cada voto para a manutenção da democracia. Cabe lembrar que o anúncio publicitário é de utilidade pública, pois divulga a necessidade de os eleitores fazerem o cadastro biométrico que será utilizado nas próximas eleições. No Brasil colonial, o indissolúvel vínculo do matri mônio, tal como ele era concebido pela Igreja Católica, nem sempre terminava com a morte natural de um dos cônjuges. A crise do casamento assumia várias formas: a clausura das mulheres, enquanto os maridos continuavam suas vidas; a separação ou a anulação do matrimônio decretadas pela Igreja; a transgressão pela bigamia ou mesmo pelo assassínio do cônjuge. Maria Beatriz Nizza da Silva, História da Família no Brasil Colonial. Adaptado. MÓDULO 22 Sintaxe e Morfologia (II) REVGERAL 2_D_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:43 Página 4 – 5 P O R T U G U ÊS D b) Sem alterar o modo verbal, reescreva o trecho “Venha para a biometria. Cadastre suas digitais.”, passando os verbos para a primeira pessoa do plural e fazendo as modificações necessárias. RESOLUÇÃO Reescrevendo a frase do anúncio, tem-se: “Venha mos para a biometria. Cadastremos nossas digi tais”, pois os verbos de ambas as frases se en con - tram no modo imperativo afirmativo, os quais, trans postos para a primeira pessoa do plural, são derivados do presente do subjuntivo. 3. (FUVEST-2018) – Leia o texto. a) O emprego do diminutivo nas palavras “vozinha” e “sorrisinho”, consideradas no contexto, produz o mesmo efeito de sentido nos dois casos? Justifique. RESOLUÇÃO O emprego do diminutivo não produz o mesmo efeito de sentido nas palavras indicadas. Em “vozinha”, minimiza-se a contestação de Prometeu à ordem vigente no Olimpo, comparando essa rebeldia à do movimento estudantil de maio de 1968. Quanto a “sorrizinho”, o di minutivo evi dencia que o jacaré percebeu a cilada prepa rada pelos outros animais e, de forma irô nica, não gargalha, apenas sorri, quebrando a expectativa de seus provocadores. b) Reescreva o trecho “Os outros decidem fazer uma festa para fazê- lo rir (...). Todos fazem coisas engraçadas”, substituindo o verbo “fazer” por sinônimos adequados ao contexto em duas de suas três ocorrências. RESOLUÇÃO Reescrevendo, tem-se: “Os outros decidem promo ver (produzir, efetuar) uma festa para levá-lo (estimulá-lo, incentivá-lo) a rir (…). Todos rea lizam (praticam, elaboram) coisas engraçadas”. Há outras possibilidades e somente dois verbos deve riam ser substituídos.Um tema frequente em culturas variadas é o do desafio à ordem divina, a apropriação do fogo pelos mortais. Nos mitos gregos, Prometeu é quem rouba o fogo dos deuses. Diz Vernant que Prometeu representa no Olimpo uma vozinha de contestação, espécie de movimento estudantil de maio de 1968. Zeus decide esconder dos homens o fogo, antes disponível para todos, mortais e imortais, na copa de certas árvores — os freixos — porque Prometeu tentara tapeá-lo numa repartição da carne de um touro entre deuses e homens. ——————-—————————————————————— Na mitologia dos Yanomami, o dono do fogo era o jacaré, que cuidadosamente o escondia dos outros, comendo taturanas assadas com sua mulher sapo, sem que ninguém soubesse. Ao resto do povo – animais que naquela época eram gente – eles só davam as taturanas cruas. O jacaré costumava esconder o fogo na boca. Os outros decidem fazer uma festa para fazê-lo rir e soltar as chamas. Todos fazem coisas engraçadas, mas o jacaré fica firme, no máximo dá um sorrisinho. Betty Mindlin, O fogo e as chamas dos mitos. Revista Estudos Avançados. Adaptado. REVGERAL 2_D_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:43 Página 5 6 – P O R T U G U ÊS D Leia o trecho do livro O maior espetáculo da Terra, do biólogo britânico Richard Dawkins (1941- ), para responder às questões 4 e 5 . 4. (UNESP- junho-2018) a) Explique sucintamente o que o autor entende por “corrida armamentista evolucionária”. RESOLUÇÃO “Corrida armamentista evolucionária” é a disputa entre o predador e a presa. Ela é evolucionária, porque tanto o agressor quanto a vítima vão, ao longo do tempo, incorporando melhores recursos para o ataque e para a defesa. Embora haja uma série de transformações em ambos, elas não alteram a base da diferença original. b) De que forma a fala da Rainha de Copas a Alice – “eles correm o mais rápido possível para não sair do lugar” (1.o parágrafo) – relaciona-se com a “marca registrada das corridas armamentistas” (1.o parágrafo)? RESOLUÇÃO A “marca registrada das corridas armamentistas” é o aprimoramento tanto do predador como também da presa, mas o poder de ataque e o de defesa não sofreram desequilíbrio. Por isso, essa competição armamentista, que não se modifica substancialmente em relação ao início da disputa, equivale à fala da Rainha de Copas a Alice: “Eles correm o mais rápido possível para não sair do lugar”. A seleção natural impele espécies predadoras a tornarem-se cada vez melhores em apanhar presas, e simultaneamente impele espécies que são caçadas a tornarem-se cada vez melhores em escapar dos caçadores. Predadores e presas apostam uma corrida armamentista evolucionária, disputada no tempo evolucionário. O resultado tem sido uma constante escalada na quantidade de recursos econômicos que os animais, dos dois lados, despendem na corrida armamentista, em detrimentode outros departamentos de sua economia corporal. Caçadores e caçados tornam-se cada vez mais bem equipados para correr mais do que (ou surpreender, ou sobrepujar em astúcia etc.) o outro lado. Mas um equipamento aprimorado para correr mais não se traduz obviamente em mais sucesso numa corrida, pela simples razão de que, numa corrida armamentista, o outro lado também está aprimorando seu equipamento: essa é a marca registrada das corridas armamentistas. Poderíamos dizer, como explicou a Rainha de Copas a Alice, que eles correm o mais rápido possível para não sair do lugar. Darwin tinha plena noção das corridas armamentistas evolu - cionárias, embora não usasse essa expressão. Meu colega John Krebs e eu publicamos um artigo sobre o tema em 1979, no qual atribuímos a expressão “corrida armamentista” ao biólogo britânico Hugh Cott. Talvez significativamente, Cott publicou seu livro, Adaptive coloration in animals, em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial: Antes de afirmar que a aparência enganosa de um gafanhoto ou borboleta é desnecessariamente detalhada, devemos verificar primeiro quais são os poderes de percepção e discriminação dos inimigos naturais desses insetos. Não fazê-lo é como dizer que a blindagem de um cruzador é pesada demais ou que seu conjunto de canhões é demasiado grande, sem investigar a natureza e a eficácia do armamento do inimigo. O fato é que, na primeva1 luta da selva, assim como nos refinamentos da guerra civilizada, vemos em progresso uma grande corrida armamentista evolucionária — cujos resultados, para a defesa, manifestam-se em recursos como velocidade, estado de alerta, couraça, coloração, hábitos subterrâneos, hábitos noturnos, secreções venenosas e gosto nauseante; e, para o ataque, em atributos compensadores como velocidade, surpresa, emboscada, atração, acuidade visual, garras, dentes, ferrões, presas venenosas e coloração atrativa. Assim como a velocidade do perseguido desenvolveu-se em relação a um aumento na velocidade do perseguidor, ou uma couraça defensiva em relação a armas ofensivas, também a perfeição de recursos de disfarce evoluiu em resposta a poderes crescentes de percepção. Saliento que a corrida armamentista é disputada no tempo evolucionário. Não deve ser confundida com as corridas entre, por exemplo, um guepardo individual e uma gazela individual, que é disputada em tempo real. A corrida no tempo evolucionário é uma corrida que desenvolve equipamento para as corridas em tempo real. E o que isso realmente significa é que os genes para produzir o equipamento destinado a vencer o adversário em esperteza ou velocidade acumulam-se nos reservatórios gênicos de ambos os lados. (O maior espetáculo da Terra, 2009. Adaptado.) 1primevo: antigo, primitivo. REVGERAL 2_D_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:43 Página 6 5. (UNESP- junho-2018) a) A frase “Darwin tinha plena noção das corridas armamentistas evolucionárias, embora não usasse essa expressão” (2.o parágrafo) pode ser considerada ambígua? Justifique sua resposta. RESOLUÇÃO A frase apresenta duplo sentido porque não se sabe se Darwin desconhecia a expressão “corrida armamentista evolucionária” ou se a expressão “corrida armamentista evolucionária” não era empregada na época, pois, segundo o autor, essa expressão só foi usada pela primeira vez por Hugh Cott, em 1940, posterior , portanto, à morte de Darwin em 1882. b) Oximoro: figura de retórica em que se combinam palavras de sentido oposto que parecem excluir-se mutuamente, mas que, no contexto, reforçam a expressão; paradoxismo. (Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 2009.) Há na citação de Hugh Cott uma expressão que pode ser considerada exemplo de oximoro. Identifique-a e justifique sua resposta.. RESOLUÇÃO Há paradoxismo ou oximoro na expressão “refinamentos da guerra civilizada”, já que uma guerra não é refinada nem tampouco civilizada, ou seja, as duas palavras “refinamento” e “civilizada” apresentam sentido oposto a “guerra”. 6. Identifique as figuras presentes nos trechos a seguir: extraídos de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis: a) Quê? Uma criatura tão dócil, tão meiga, tão santa, que nunca jamais fizera verter uma lágrima de desgosto, mãe carinhosa, esposa imaculada, era força que morresse assim, trateada, mordida pelo dente tenaz de uma doença sem misericórdia? RESOLUÇÃO Anáfora a gradação ascendente “tão dócil, tão meiga, tão santa”. Pleonasmo “nunca jamais”. Metáfora: “dente tenaz de uma doença”. b) Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos: não há platéia. RESOLUÇÃO Polissíndeto: “nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos” (conjunção aditiva) e antíteses. c) Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação única, uma coisa a que poderia chamar volúpia do aborrecimento. RESOLUÇÃO Paradoxo: “volúpia” (=grande prazer) e “aborrecimento” (fastio, tédio). d) O próprio tio João, guloso de escândalos, não tratou de outro assunto na carta, aliás de muitas folhas. RESOLUÇÃO Metáfora: “guloso de escândalos”. Catacrese: “carta de muitas folhas”. – 7 P O R T U G U ÊS D REVGERAL 2_D_PORT_2018_YONNE 04/10/2018 11:43 Página 7 8 – P O R T U G U ÊS D 1. (FUVEST-2018) – Leia o texto e responda ao que se pede. a) No texto, o autor retifica o que corriqueiramente se entende por “morte natural”? Justifique. RESOLUÇÃO O autor argumenta que a ideia de morte natural (“morrer de esgotamento em virtude uma extre ma velhice”) é na verdade uma exceção, pou cas vezes acontece, sendo, portanto, pouco na tural. Também salienta que é natural morrer de aci den tes ou de doenças, já que não vai contra a natureza do homem sucumbir ao sofrer algum trauma físico. b) A que palavra ou expressão se referem, respecti vamente, os pronomes destacados no trecho “Vejo que os filósofos lhe assinam um limite bem menor do que o fazemos comumente”? RESOLUÇÃO O pronome pessoal oblíquo “lhe” refere-se a “du ração da vida”; o pronome demonstrativo “o” refere-se a “limite”. 2. (UNICAMP-2017) – Leia o excerto abaixo, adaptado do ensaio Para que servem as humanidades?, de Leyla Perrone-Moisés. a) As expressões “agregar valorˮ e “cultivo de valoresˮ, embora aparentemente próximas pelo uso da mesma palavra, produzem efeitos de sentido distintos. Explique-os. RESOLUÇÃO: “Agregar valor”, no contexto, tem sentido quan titativo, pois se refere às informações e conhecimento que o indivíduo adquire sem apro fun da men - to. “Cultivo de valores” implica a aquisição de saberes por meio de posicionamentos críticos e reflexivos constantes, que se desenvol vem não apenas ao longo da vida acadêmica, mas por toda a existência. b) Na última oração do texto, são utilizados dois elemen tos coesivos: “elesˮ e “à qualˮ. Aponte a que se refere, respectivamente, cada um desses elementos. RESOLUÇÃO: Os elementos coesivos “eles” e “à qual” referem-se, respecti vamente, a “os cursos de humanidades” e “sociedade”, assim a ideia que se estabelece é a de que os cursos de humanidades estudam a socie dade e a ela servem. Da idade Não posso aprovar a maneira por que entendemos a duração da vida. Vejo que os filósofos lhe assinam* um limite bem menor do que o fazemos comumente. (...) Os [homens] que falam de uma certa duração normal da vida, estabelecem-na pouco além. Tais ideias seriam admissíveis se existisse algum privilégio capaz de os colocar fora do alcance dos acidentes, tão numerosos, a que estamos todos expostos e que podem interromper essa duração com que nos acenam. E é pura fantasia imaginar que podemos morrer de esgotamento em virtude de uma extrema velhice, e assim fixar a duração da vida, pois esse gênero de morte é o mais raro de todos. E a isso chamamos morte natural como se fosse contrário à natureza um homem quebrar a cabeça numa queda, afogar-se em algum