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Português
Curso Extensivo – A
3.a Série – Ensino Médio
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Para responder às questões de 1 a 2, leia o soneto de Raimundo Correia
(1859-1911).
1. (Unesp-2018)
a) Que processo o soneto de Raimundo Correia retrata?
RESOLUÇÃO
O soneto retrata o crepúsculo, o anoitecer. O escurecimento da natureza
ocorre, pouco a pouco, como se nota, por exemplo, no último terceto:
A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece.
b) A primeira estrofe do soneto é composta por três períodos simples
em ordem indireta (“Esbraseia o Ocidente na agonia / O sol”; “Aves
em bandos destacados, / Por céus de ouro e de púrpura raiados, /
Fogem”; e “Fecha-se a pálpebra do dia”). Reescreva esses três
períodos em ordem direta.
RESOLUÇÃO
Colocando-se os versos em ordem direta, tem-se:
1) O sol esbraseia o Ocidente na agonia.
2) Aves fogem em bandos destacados por céus raiados de outro e de
púrpura.
3) A pálpebra do dia fecha-se.
2. (Unesp-2018)
a) Há no soneto menção a um sentimento que permeia e circunda a
natureza retratada. Que sentimento é esse? Do que decorre tal
sentimento?
RESOLUÇÃO
A descrição do anoitecer está associada à melan colia causada pelo declínio
do sol, o qual se assemelha à agonia crescente proporcionada pela sombra
resultante do recuo da luz do dia.
b) Verifica-se na terceira estrofe a ocorrência de uma antítese. Que
termos configuram essa antítese?
RESOLUÇÃO
Há antítese no verso: “A sombra à proporção que a luz recua...”, em que
os termos “sombra” e “luz” apresentam ideias opostas.
Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol... Aves em bandos destacados,
Por céus de ouro e de púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...
Delineiam-se, além, da serrania
Os vértices de chama aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia...
Um mundo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua...
A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece. 
(Poesia completa e prosa, 1961.)
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Revisão PORTUGUÊS
MÓDULO 11 Sintaxe (I)
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Leia o trecho inicial do artigo “Artifícios da inteligência”, do físico
brasileiro Marcelo Gleiser (1959- ), para responder às questões 3 e 4.
3. (Unesp-2018)
a) Para o físico Marcelo Gleiser, o que distingue as tecnologias
transumanas daquelas apenas corretivas? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO
Segundo o texto, as tecnologias corretivas regula rizam deficiências físicas
existentes, não têm como objetivo a ampliação de características cognitivas,
como é o caso do transumanismo.
b) Cite dois termos empregados em sentido figurado no primeiro
parágrafo do artigo.
RESOLUÇÃO
São exemplos de termos empregados em sentido figurado: “engavetado”,
metáfora que se refere a estar preso no congestionamento, e “navegar”,
também metáfora, referindo-se a passar de um sítio para outro na internet.
Considere a seguinte situação: você acorda atrasado para o
trabalho e, na pressa, esquece o celular em casa. Só quando
engavetado no tráfego ou amassado no metrô você se dá conta.
E agora é tarde para voltar. Olhando em volta, você vê pessoas
com celular em punho conversando, mandando mensagens,
navegando na internet. Aos poucos, você vai sendo possuído por
uma sensação de perda, de desconexão. Sem o seu celular, você
não é mais você.
A junção do humano com a máquina é conhecida como
“transumanismo”. Tema de vários livros e filmes de ficção
científica, hoje é um tópico essencial na pesquisa de muitos
cientistas e filósofos. A questão que nos interessa aqui é até que
ponto essa junção pode ocorrer e o que isso significa para o
futuro da nossa espécie.
Será que, ao inventarmos tecnologias que nos permitam
ampliar nossas capacidades físicas e mentais, ou mesmo
máquinas pensantes, estaremos decretando nosso próprio fim?
Será esse nosso destino evolucionário, criar uma nova espécie
além do humano?
É bom começar distinguindo tecnologias transumanas
daquelas que são apenas corretivas, como óculos ou aparelhos
para surdez. Tecnologias corretivas não têm como função ampliar
nossa capacidade cognitiva: só regularizam alguma deficiência
existente.
A diferença ocorre quando uma tecnologia não apenas corrige
uma deficiência como leva seu portador a um novo patamar, além
da capacidade normal da espécie humana. Por exemplo, braços
robóticos que permitem que uma pessoa levante 300 quilos, ou
óculos com lentes que dotam o usuário de visão no infravermelho.
No caso de atletas com deficiência física, a questão se torna bem
interessante: a partir de que ponto uma prótese como uma perna
artificial de fibra de carbono cria condições além da capacidade
humana? Nesse caso, será que é justo que esses atletas compitam
com humanos sem próteses?
Poderia parecer que esse tipo de hibridização entre tecnologia
e biologia é coisa de um futuro distante. Ledo engano. Como no
caso do celular, está acontecendo agora. Estamos redefinindo a
espécie humana através da interação – na maior parte ainda
externa – com tecnologias que ampliam nossa capacidade.
Sem nossos aparelhos digitais – celulares, tabletes, laptops –
já não somos os mesmos. Criamos personalidades virtuais, ativas
apenas na internet, outros eus que interagem em redes sociais
com selfies arranjados para impressionar; criações remotas,
onipresentes. Cientistas e engenheiros usam computadores para
ampliar sua habilidade cerebral, enfrentando problemas que, há
apenas algumas décadas, eram considerados impossíveis. Como
resultado, a cada dia surgem questões que antes nem podíamos
contemplar.
(Folha de S.Paulo, 01.02.2015. Adaptado.)
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4. (Unesp-2018)
a) De acordo com o físico, nós já podemos ser considerados
transumanos? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO
Segundo o autor, o transumanismo, “hibridismo entre tecnologia e
biologia”, já está ocorrendo. Marcelo Gleiser considera que os seres
humanos estão ampliando sua capacidade por meio de tecnologias que os
redefinem de modo que as pessoas já não são as mesmas, caso percam o
acesso aos aparelhos eletrônicos, tal como acontece no caso do celular.
b) Dêiticos: expressões linguísticas cuja interpretação depende da
pessoa, do lugar e do momento em que são enunciadas. Por
exemplo: “eu” designa a pessoa que fala “eu”. 
(Ernani Terra. Leitura do texto literário, 2014.)
Cite dois dêiticos empregados nos dois primeiros parágrafos do
texto.
RESOLUÇÃO
O pronome de tratamento “você” foi empregado em sentido generalizante,
pois não se refere a uma pessoa em particular, mas a todos os que já
vivenciaram as situações descritas no primeiro parágrafo. No segundo
parágrafo, o pronome pessoal oblíquo “nos” refere-se ao próprio autor do
texto, é usado como plural de modéstia. O pronome possessivo “nossa”
refere-se à espécie humana.
Texto para questão 5.
5. (FUVEST-2017)
a) Explique por que o autor agradece “imediatamente depois de
receber o volume”.
RESOLUÇÃO:
Segundo o autor, o agradecimento prescinde da leitura do livro recebido de
presente. Assim, o escritor se esquivaria da possibilidade de elogiar um
livro que poderia não lhe agradar.
b) Levando em conta o contexto, reescreva duas vezes o trecho “sem
lê-lo”, substituindo “sem” por “sem que”, na primeira vez, e por
“mesmo não”, na segunda.
RESOLUÇÃO:
O trecho reescrito ficaria em 1) “é menor pecadoelogiar um mau livro sem
que o tenha lido”, e em 2) “é menor pecado elogiar um mau livro mesmo não
o tendo lido”. Trata-se, portanto, de uma questão sobre sintaxe de colocação
e emprego de verbos em tempos compostos. Em 1, a próclise ocorre em função
da locução subordinativa “sem que”, e em 2, a próclise ocorre devido ao
advérbio de negação “não”.
É menor pecado elogiar um mau livro, sem lê-lo, do que depois
de o haver lido. Por isso, agradeço imedia tamente depois de
receber o volume.
(Carlos Drummond de Andrade, Passeios na ilha)
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Leia a fábula “A raposa e o lenhador”, do escritor grego Esopo (620
a.C.?-564 a.C.?), para responder às questões de 6 a 9.
6. (UNIFESP-2017) – A moral mais apropriada para fechar a fábula
seria:
a) Esta fábula pode ser dita a propósito de homens desventurados que,
quando estão em situações embaraçosas, rezam para encontrar uma
saída, mas assim que encontram procuram evitá-las.
b) Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito daqueles
homens que nitidamente proclamam ações nobres, mas na prática
realizam atos vis.
c) Esta fábula mostra que os homens desatentos prestam atenção nas
coisas de que esperam tirar proveito, mas permanecem apáticos em
relação àquelas que não lhes agradam.
d) Assim, alguns homens se entregam a tarefas arriscadas, na
esperança de obter ganhos, mas se arruínam antes mesmo de chegar
perto do que almejam.
e) Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito de um homem
frouxo que reclama de ínfimas desgraças, enquanto ela própria
suporta, sem dificuldade, desgraças enormes.
RESOLUÇÃO:
É nítida, na fábula “A raposa e o lenhador”, de Esopo, o ensinamento moral
acerca de pessoas que, com hipocrisia, escondem suas práticas vis,
mascarando-as por meio de um discurso em que buscam apresentar
nobreza de caráter.
Resposta: B
7. (UNIFESP-2017) – “Entretanto, como eles não prestaram
atenção nos seus gestos, deram crédito às suas palavras.”
Em relação à oração que a sucede, a oração destacada tem sentido de
a) causa.
b) conclusão.
c) proporção.
d) consequência.
e) comparação.
RESOLUÇÃO:
A oração destacada estabelece relação de causa com a oração posterior, que
é a sua consequência.
Resposta: A
8. (UNIFESP-2017) – Os trechos “Ele sugeriu que ela entrasse em
sua cabana” e “vieram os caçadores e perguntaram ao lenhador se ele
tinha visto uma raposa” foram construídos em discurso indireto. Ao se
transpor tais trechos para o discurso direto, o verbo “entrasse” e a
locução verbal “tinha visto” assumem, respectivamente, as seguintes
formas:
a) “entrai” e “vira”.
b) “entrou” e “viu”.
c) “entre” e “vira”.
d) “entre” e “viu”.
e) “entrai” e “viu”.
RESOLUÇÃO:
No discurso indireto, a forma verbal “entrasse”, no imperfeito do
subjuntivo, passa, no discurso direto, para o imperativo: “entre”. O
pretérito mais-que-perfeito composto “tinha visto”, no discurso indireto,
passa para o pretérito perfeito no discurso direto: “viu”.
Resposta: D
9. (UNIFESP-2017) – “Quanto à inveja, pregou friamente que era
a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa,
que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.” (4.°
parágrafo)
Os termos em destaque constituem, respectivamente,
a) um pronome e um artigo.
b) uma conjunção e um artigo.
c) um artigo e uma preposição.
d) um pronome e uma preposição.
e) um artigo e uma conjunção.
RESOLUÇÃO:
Em “a virtude”, o a é artigo definido porque antecede um substantivo. Em
“chegava a suprir”, o a é preposição, uma vez que se encontra em uma
locução verbal.
Resposta: C
Enquanto fugia de caçadores, uma raposa viu um lenhador e lhe
pediu que a escondesse. Ele sugeriu que ela entrasse em sua cabana
e se ocultasse lá dentro. Não muito tempo depois, vieram os
caçadores e perguntaram ao lenhador se ele tinha visto uma raposa
passar por ali. Em voz alta ele negou tê-la visto, mas com a mão fez
gestos indicando onde ela estava escondida. Entretanto, como eles
não prestaram atenção nos seus gestos, deram crédito às suas
palavras. Ao constatar que eles já estavam longe, a raposa saiu em
silêncio e foi indo embora. E o lenhador se pôs a repreendê-la, pois
ela, salva por ele, não lhe dera nem uma palavra de gratidão. A
raposa respondeu: “Mas eu seria grata, se os gestos de sua mão
fossem condizentes com suas palavras.”
(Fábulas completas, 2013.)
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1. (FUVEST-2018) – Leia o texto.
a) No texto, que ideia é sintetizada pela palavra “crise”?
RESOLUÇÃO
O termo “crise”, no texto, sintetiza todo e qual quer conflito matrimonial,
o que poderia levar inclusive ao assassinato, o que desmente a con cepção
do caráter indissolúvel do matrimônio.
b) Reescreva a oração “tal como ele era concebido pela Igreja
Católica”, empregando a voz ativa e fazendo as adaptações
necessárias.
RESOLUÇÃO
Passando-se a frase na voz passiva para a ativa, tem-se: “tal como a Igreja
Católica o concebia (ou concebia-o). O pronome oblíquo “o” refere-se a
“vínculo do matrimônio”.
2. (FUVEST-2017) – Leia o seguinte texto, extraído de uma matéria
jornalística sobre supercomputadores:
a) Reescreva o trecho “é a de simulação climática: com quatrilhões
por segundo de processamento”, levando em conta a correção e a
clareza.
RESOLUÇÃO:
Reescrevendo o trecho, considerando correção e clareza, tem-se: Um
exemplo recorrente do uso desse tipo de equipamento, com (ou que tem)
capa cidade de processar quatrilhões de informações por segundo, é o de
simulação climática.
b) A palavra “cenários” (sublinhada no texto) foi empregada com o
mesmo sentido em suas duas ocorrências? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
Não. Na primeira ocorrência, a palavra “cenários” refere-se a simulações
de situações climáticas, por exemplo, de seca prolongada ou de excesso de
chuva. Na segunda ocorrência, a palavra “ce ná rios” tem sentido mais
genérico que a anterior, re fe rindo-se à capacidade de os
supercomputadores cria rem situações simuladas para estudos cientí ficos
das mais variadas áreas do conhecimento.
No Brasil colonial, o indissolúvel vínculo do matri mônio, tal
como ele era concebido pela Igreja Católica, nem sempre
terminava com a morte natural de um dos cônjuges. A crise do
casamento assumia várias formas: a clausura das mulheres,
enquanto os maridos continuavam suas vidas; a separação ou a
anulação do matrimônio decretadas pela Igreja; a transgressão
pela bigamia ou mesmo pelo assassínio do cônjuge.
Maria Beatriz Nizza da Silva, História da Família no Brasil
Colonial. Adaptado.
Supercomputadores são usados para cálculos de simulação
pesada. Um exemplo recorrente do uso desse tipo de equipamento
é a de simulação climática: com quatrilhões por segundo de
processamento, torna-se possível que um computador tenha
capacidade de calcular as oscilações meteorológicas. Isso ajuda a
prevenir desastres, ou a preparar políticas de apoio à agricultura,
se antecipando a cenários os mais variados.
Evidentemente, há outros usos, como pesquisas científicas que
precisam também simular cenários, com uma ampla gama de
variáveis. Estudos militares e de desenvolvimento de tecnologia
também se beneficiam do poder computacional desse tipo de
equipamento.
www.techtudo.com.br, 24.06.2016.
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MÓDULO 22 Sintaxe (II)
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3. (FUVEST-2018) – Examine a propaganda.
a) Considerando o contexto da propaganda, existe alguma relação de
sentido entre a imagem estilizada dos dedos e as palavras “digital”
e “diferença”? Explique.
RESOLUÇÃO
Digital é um adjetivo substantivadorelativo a “dedos”, figurados na
imagem como pessoas, ou seja, representando as individualidades de cada
eleitor, assim como de suas impressões digitais. Quanto ao termo
“diferença”, ele se refere tanto a essa individualidade quanto à importância
de cada voto para a manutenção da democracia. Cabe lembrar que o
anúncio publicitário é de utilidade pública, pois divulga a necessidade de
os eleitores fazerem o cadastro biométrico que será utilizado nas próximas
eleições.
b) Sem alterar o modo verbal, reescreva o trecho “Venha para a
biometria. Cadastre suas digitais.”, passando os verbos para a
primeira pessoa do plural e fazendo as modificações necessárias.
RESOLUÇÃO
Reescrevendo a frase do anúncio, tem-se: “Venha mos para a biometria.
Cadastremos nossas digi tais”, pois os verbos de ambas as frases se en con -
tram no modo imperativo afirmativo, os quais, trans postos para a primeira
pessoa do plural, são derivados do presente do subjuntivo.
4. (FUVEST-2018) – Leia o texto.
Um tema frequente em culturas variadas é o do desafio à
ordem divina, a apropriação do fogo pelos mortais. Nos mitos
gregos, Prometeu é quem rouba o fogo dos deuses. Diz Vernant
que Prometeu representa no Olimpo uma vozinha de contestação,
espécie de movimento estudantil de maio de 1968. Zeus decide
esconder dos homens o fogo, antes disponível para todos, mortais
e imortais, na copa de certas árvores — os freixos — porque
Prometeu tentara tapeá-lo numa repartição da carne de um touro
entre deuses e homens.
——————-——————————————————————
Na mitologia dos Yanomami, o dono do fogo era o jacaré, que
cuidadosamente o escondia dos outros, comendo taturanas
assadas com sua mulher sapo, sem que ninguém soubesse. Ao
resto do povo – animais que naquela época eram gente – eles só
davam as taturanas cruas. O jacaré costumava esconder o fogo na
boca. Os outros decidem fazer uma festa para fazê-lo rir e soltar
as chamas. Todos fazem coisas engraçadas, mas o jacaré fica
firme, no máximo dá um sorrisinho.
Betty Mindlin, O fogo e as chamas dos mitos. 
Revista Estudos Avançados. Adaptado.
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a) O emprego do diminutivo nas palavras “vozinha” e “sorrisinho”,
consideradas no contexto, produz o mesmo efeito de sentido nos
dois casos? Justifique.
RESOLUÇÃO
O emprego do diminutivo não produz o mesmo efeito de sentido nas
palavras indicadas. Em “vozinha”, minimiza-se a contestação de Prometeu
à ordem vigente no Olimpo, comparando essa rebeldia à do movimento
estudantil de maio de 1968. Quanto a “sorrizinho”, o di minutivo evi dencia
que o jacaré percebeu a cilada prepa rada pelos outros animais e, de forma
irô nica, não gargalha, apenas sorri, quebrando a expectativa de seus
provocadores.
b) Reescreva o trecho “Os outros decidem fazer uma festa para fazê-
lo rir (...). Todos fazem coisas engraçadas”, substituindo o verbo
“fazer” por sinônimos adequados ao contexto em duas de suas três
ocorrências.
RESOLUÇÃO
Reescrevendo, tem-se: “Os outros decidem promo ver (produzir, efetuar)
uma festa para levá-lo (estimulá-lo, incentivá-lo) a rir (…). Todos rea lizam
(praticam, elaboram) coisas engraçadas”. Há outras possibilidades e
somente dois verbos deve riam ser substituídos.
Texto para as questões de 5 a 10.
5. (UNIFESP) – As informações do texto permitem afirmar que
a) a edição artesanal, como a praticada por João Cabral de Melo Neto,
permitiu que a cultura nacional fosse enriquecida com obras de
expressivos escritores.
b) as edições artesanais, como as de João Cabral de Melo Neto,
raramente se destinam à produção de obras literárias para pessoas
dos círculos íntimos de convi vência dos autores.
c) a edição artesanal é uma realidade específica do Brasil, retratando
a dificuldade que autores como Vinícius de Moraes e Guimarães
Rosa tiveram para publicar suas obras.
d) a venda de uma edição artesanal se dá com um grande volume de
livros, razão pela qual desperta grande interesse comercial e cultural
dos editores no Brasil.
e) os livreiros normalmente têm pouco interesse por livros artesanais,
como os de Manuel Bandeira e Cecília Meireles, por conside rarem-
nos uma forma menor de expressão artística.
RESOLUÇÃO:
Segundo o texto, João Cabral de Melo Neto fazia “ginástica poética” para
curar uma dor de cabeça. Como editor artesanal, publicou pequenos livros
divulgando a obra de grandes escritores brasileiros e estrangeiros.
Resposta: A
POETAS E TIPÓGRAFOS
Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta João
Cabral de Melo Neto foi a um médico por causa de sua crônica dor
de cabeça. Ele lhe receitou exercícios físicos, para “canalizar a
tensão”. João Cabral seguiu o conselho. Comprou uma prensa
manual e passou a produzir à mão, domesticamente, os próprios
livros e os dos amigos. E, com tal “ginástica poética”, como a cha -
mava, tornou-se essa ave rara e fascinante: um editor artesanal.
Um livro recém-lançado, “Editores Artesanais Brasileiros”, de
Gisela Creni, conta a história de João Cabral e de outros sonha -
dores que, desde os anos 50, enriqueceram a cultura brasileira a
partir de seu quarto dos fundos ou de um galpão no quintal.
O editor artesanal dispõe de uma minitipografia e faz tudo: escolhe
a tipologia, compõe o texto, diagrama-o, produz as ilustrações, tira
provas, revisa, compra o papel e imprime – em folhas soltas, não
costuradas – 100 ou 200 lindos exemplares de um livrinho que, se não
fosse por ele, nunca seria publicado. Daí, distribui-os aos subscritores
(amigos que se comprometeram a comprar um exemplar). O resto, dá
ao autor. Os livreiros não querem nem saber.
Foi assim que nasceram, em pequenos livros, poemas de –
acredite ou não – João Cabral, Manuel Bandeira, Drummond,
Cecília Meireles, Joaquim Cardozo, Vinicius de Moraes, Lêdo Ivo,
Paulo Mendes Campos, Jorge de Lima e até o conto “Com o
Vaqueiro Mariano” (1952), de Guimarães Rosa. E de Donne,
Baudelaire, Lautréamont, Rimbaud, Mallarmé, Keats, Rilke, Eliot,
Lorca, Cummings e outros, traduzidos por amor. 
João Cabral não se curou da dor de cabeça, mas valeu.
(Ruy Castro. Folha de S.Paulo, 17.08.2013. Adaptado.)
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6. (UNIFESP) – Com a frase – tornou-se essa ave rara e fascinante
– (1.º parágrafo), o autor vale-se de uma
a) hipérbole para sugerir que João Cabral melhorou após a prensa.
b) redundância para afirmar que João Cabral poderia dispensar a
prensa.
c) ironia para questionar João Cabral como editor arte sanal.
d) metáfora para externar uma avaliação positiva de João Cabral.
e) metonímia para atribuir uma ideia de genialidade a João Cabral.
RESOLUÇÃO:
Ruy Castro utilizou uma metáfora “ave rara e fas ci nante” para referir-se
a João Cabral, atribuindo a este a qualidade de ser extraordinário e
admirável. 
Resposta: D
7. (UNIFESP) – Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o
poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico por causa de sua
crônica dor de cabeça.
O trecho pode ser reescrito, sem prejuízo de sentido ao texto, por:
a) Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, tão logo sentiu sua
crônica dor de cabeça, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um
médico.
b) Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, como sentia dor de
cabeça crônica, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico.
c) Embora fosse vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta
João Cabral de Melo Neto foi a um médico sentindo crônica dor de
cabeça.
d) Por ser vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta João
Cabral de Melo Neto foi a um médico com crônica dor de cabeça.
e) Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta João Cabral
de Melo Neto foi a um médico, mas era vítima de uma crônica dor
de cabeça.
RESOLUÇÃO:
A locução prepositivapor causa de pode ser substi tuída, sem prejuízo de
sentido, pela conjunção como, que também indica causa. 
Resposta: B
8. (UNIFESP) – Na oração – como a chamava – (1.º parágrafo), o
pro nome retoma:
a) ave rara e fascinante. b) tensão.
c) ginástica poética. d) crônica dor de cabeça.
e) prensa manual.
RESOLUÇÃO:
O pronome oblíquo a refere-se à prensa manual citada no período anterior. 
Resposta: E
9. (UNIFESP) – Na passagem – O editor artesanal dispõe de uma
minitipografia e faz tudo: escolhe a tipologia, compõe o texto,
diagrama-o, produz as ilustrações –, se a expressão editor artesanal
for para o plural, a sequência em destaque assume a seguinte redação,
de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa:
a) compõe o texto, diagrama-no, produz as ilustrações.
b) compõem o texto, diagrama-lo, produz as ilustrações.
c) compõem o texto, diagramam-no, produzem as ilus trações.
d) compõe o texto, diagramam-o, produzem as ilustra ções.
e) compõem o texto, diagramam ele, produz as ilustra ções.
RESOLUÇÃO:
Com o sujeito no plural “editores artesanais”, os verbos assumem a 3.ª
pessoa do plural, como consta da alternativa c. 
Resposta: C
10.(UNIFESP) – Assinale a alternativa em que se analisa corretamente
o fato linguístico do texto.
a) No trecho – O resto, dá ao autor. – (3.º parágrafo), a vírgula está
indevidamente empregada, pois não se separam termos imediatos,
no caso, sujeito e verbo da oração.
b) No trecho – João Cabral não se curou da dor de cabeça, mas valeu.
– (5.º parágrafo), o verbo valer está flexionado, concordando com
a expressão João Cabral.
c) No trecho – enriqueceram a cultura brasileira a partir de seu
quarto – (2.º parágrafo), o pronome em desta que refere-se ao poeta
João Cabral de Melo Neto.
d) No trecho – Comprou uma prensa manual e passou a produzir à
mão – (1.º parágrafo), a expressão em destaque indica circunstância
de conformidade.
e) No trecho – 100 ou 200 lindos exemplares de um livrinho – (3.º
parágrafo), o diminutivo do substantivo em destaque carrega-o de
conotação afetiva.
RESOLUÇÃO:
O emprego do diminutivo livrinho conota o sentimento de apreço e carinho
pela publicação. Em a, a vírgula está adequadamente empregada porque
ficou elíptica a expressão “dos exemplares”; em b, o sujeito está implícito:
isso valeu; em c, o pronome possessivo seu refere-se aos “Editores
Artesanais Brasileiros”, em d, a locução à mão indica circunstância de
modo. 
Resposta: E
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1. (FUVEST-2017) – Leia este texto, publicado em 1905.
a) O sentido que se atribui, no texto, à palavra “retórica” é o de “arte
da eloquência, arte de bem argumentar; arte da palavra” (Houaiss)?
Justifique.
RESOLUÇÃO:
Não. O termo “retórica” está inserido em um contexto dominado por
vocábulos de carga semântica negativa: “verbiagem”, “oca”, “inútil”, “vã”.
Dessa forma, ele não pode ser entendido no sentido positivo consignado na
citação extraída do Houaiss. Na verdade, essa palavra assume valor
pejorativo, significando discurso afetado, de acessórios inúteis e conteúdo
vazio.
b) Mantendo-se o sentido que eles têm no contexto, que outra forma
os verbos “se encontrem” e “houvera” poderiam assumir?
RESOLUÇÃO:
A primeira frase está na voz passiva sintética, que tem como sujeito
composto “nem uma ideia original, nem uma só observação própria”.
Mantendo-se o sentido, pode-se passá-la para a voz passiva analítica:
Embora não sejam encontradas nos seus longos discursos e muitos volumes
nem uma ideia original, nem uma só observação própria. A segunda frase
apresenta um uso clássico literário do pretérito mais-que-perfeito do
indicativo, “houvera”, no lugar do pretérito imperfeito do modo
subjuntivo, “houvesse”: O escândalo viria se houvesse originalidade.
Por toda parte, a verbiagem,* oca, inútil e vã, a retórica [...]
pomposa, a erudição míope, o aparato de sabedoria resumem toda
a elaboração intelectual. [...] Aceitam-se e proclamam-se os mais
altos representantes da intelectualidade: os retóricos inveterados,
cuja palavra abundante e preciosa impõe-se como sinal de gênio,
embora não se encontrem nos seus longos discursos e muitos
volumes nem uma ideia original, nem uma só observação própria.
E disto ninguém se escandaliza; o escândalo viria se houvera
originalidade.
(Manoel Bomfim, A América Latina: 
males de origem. Adaptado.)
*verbiagem: falatório longo mas com pouco sentido ou utilidade;
verborragia.
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MÓDULO 33 Sintaxe (III)
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2. (FUVEST-2018) – Leia o texto e responda ao que se pede.
a) No texto, o autor retifica o que corriqueiramente se entende por
“morte natural”? Justifique.
RESOLUÇÃO
O autor argumenta que a ideia de morte natural (“morrer de esgotamento
em virtude uma extre ma velhice”) é na verdade uma exceção, pou cas vezes
acontece, sendo, portanto, pouco na tural. Também salienta que é natural
morrer de aci den tes ou de doenças, já que não vai contra a natureza do
homem sucumbir ao sofrer algum trauma físico.
b) A que palavra ou expressão se referem, respecti vamente, os
pronomes destacados no trecho “Vejo que os filósofos lhe assinam
um limite bem menor do que o fazemos comumente”?
RESOLUÇÃO
O pronome pessoal oblíquo “lhe” refere-se a “du ração da vida”; o pronome
demonstrativo “o” refere-se a “limite”.
3. (UNICAMP-2017) – Leia o excerto abaixo, adaptado do ensaio
Para que servem as humanidades?, de Leyla Perrone-Moisés.
a) As expressões “agregar valorˮ e “cultivo de valoresˮ, embora
aparentemente próximas pelo uso da mesma palavra, produzem
efeitos de sentido distintos. Explique-os.
RESOLUÇÃO:
“Agregar valor”, no contexto, tem sentido quan titativo, pois se refere às
informações e conhecimento que o indivíduo adquire sem apro fun da men -
to. “Cultivo de valores” implica a aquisição de saberes por meio de
posicionamentos críticos e reflexivos constantes, que se desenvol vem não
apenas ao longo da vida acadêmica, mas por toda a existência.
b) Na última oração do texto, são utilizados dois elemen tos coesivos:
“elesˮ e “à qualˮ. Aponte a que se refere, respectivamente, cada um
desses elementos.
RESOLUÇÃO:
Os elementos coesivos “eles” e “à qual” referem-se, respecti vamente, a “os
cursos de humanidades” e “sociedade”, assim a ideia que se estabelece é a
de que os cursos de humanidades estudam a socie dade e a ela servem.
As humanidades servem para pensar a finalidade e a qualidade
da existência humana, para além do simples alongamento de sua
duração ou do bem-estar baseado no consumo. Servem para
estudar os problemas de nosso país e do mundo, para humanizar
a globalização. Tendo por objeto e objetivo o homem, a capacidade
que este tem de entender, de imaginar e de criar, esses estudos
servem à vida tanto quanto a pesquisa sobre o genoma. Num
mundo informatizado, servem para preservar, de forma articulada,
o saber acumulado por nossa cultura e por outras, estilhaçado no
imediatismo da mídia e das redes. Em tempos de informação
excessiva e superficial, servem para produzir conhecimento; para
“agregar valorˮ, como se diz no jargão mercadológico. Os cursos
de humani dades são um espaço de pensamento livre, de busca
desinteressada do saber, de cultivo de valores, sem os quais a
própria ideia de universidade perde sentido. Por isso merecem o
apoio firme das autoridades universitárias e da sociedade, que eles
estudam e à qual servem.
(Adaptado de Leyla Perrone-Moisés, Para que servem as
humanidades? Folha de São Paulo, São Paulo, 30 jun. 2002,
Caderno Mais!.)
Da idade
Não posso aprovar a maneira por que entendemos a duração
da vida. Vejo que os filósofos lhe assinam* um limite bem menor
do que o fazemos comumente. (...) Os [homens] que falam de uma
certa duraçãonormal da vida, estabelecem-na pouco além. Tais
ideias seriam admissíveis se existisse algum privilégio capaz de os
colocar fora do alcance dos acidentes, tão numerosos, a que
estamos todos expostos e que podem interromper essa duração
com que nos acenam. E é pura fantasia imaginar que podemos
morrer de esgotamento em virtude de uma extrema velhice, e
assim fixar a duração da vida, pois esse gênero de morte é o mais
raro de todos. E a isso chamamos morte natural como se fosse
contrário à natureza um homem quebrar a cabeça numa queda,
afogar-se em algum naufrágio, morrer de peste ou de pleurisia;
como se na vida comum não esbarrássemos a todo instante com
esses acidentes. Não nos iludamos com belas palavras; não
denominemos natural o que é apenas exceção e guardemos o
qualificativo para o comum, o geral, o universal.
Morrer de velhice é coisa que se vê raramente, singular e
extraordinária e portanto menos natural do que qualquer outra.
É a morte que nos espera ao fim da existência, e quanto mais
longe de nós menos direito temos de a esperar.
Michel de Montaigne, Ensaios. Editora 34. Trad. de Sérgio Milliet.
*assinar: fixar, indicar.
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Texto para a questão 4.
4. (FUVEST)
a) Reescreva os dois primeiros períodos, substi tuindo os verbos
“chamar” e “reconhecer” por substan tivos que não sejam da mesma
família desses verbos. Faça apenas as adaptações neces sárias,
mantendo o sentido original.
RESOLUÇÃO: 
A designação (ou qualificação) do dicionário de (como) pai-dos-burros é
que é burrice. A confissão (ou aceitação) de um desconhecimento não é uma
virtude?
No texto, chamar equivale a "designar", "qualificar"; reconhecer está
empregado no sentido de "confessar", "aceitar".
b) Reescreva o último período do texto, utilizando agora as formas
“não costuma” e “dispensa”. Faça apenas as alterações neces sárias,
mantendo o sentido original.
RESOLUÇÃO: 
Se a inteligência não costuma vir sempre acompanhada da inso lên cia, a
burrice dispensa a força da humildade.
Tirinha para a questão 5.
5. (FUVEST-2017)
a) A dificuldade explicitada no último quadrinho verifica-se apenas
na redação de cartas ou ocorre também na redação dos gêneros
textuais romance e conto? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
Para o personagem da tirinha, escrever uma carta é difícil em razão dos
sistemas eletrônicos de comunicação. Pode-se interir que essa dificuldade
ocorre porque a linguagem utilizada na internet, no e-mail, apesar de
escrita, está mais próxima da oralidade do que a linguagem das cartas, que
normalmente exige maior formalidade. Portanto, essa dificuldade deve
ocorrer também na elaboração de outros gêneros textuais, como romance
e conto, por haver maior preocupação com as normas gramaticais e exigir
maior formalidade em sua elaboração.
b) O texto que compõe as falas dos quadrinhos pertence inteiramente
à modalidade escrita da língua portuguesa? Justifique sua resposta,
com base em elementos presentes no texto.
RESOLUÇÃO:
Não, ainda que as falas dos quadrinhos privilegiem a modalidade escrita da
língua portuguesa, apresentam expressões coloquiais como “você sabe”,
como toda essa coisa de internet”, “é escrever uma coisa”.
Chamar o dicionário de pai-dos-burros é que é burrice.
Reconhecer um desconhe cimento não é uma virtude? Se a burrice
costuma vir sempre acompanhada da insolência, a inteligência não
dispensa a força da humildade.
LAERTEVISÃO
ESCREVER CARTAS,
HOJE EM DIA, É BEM
DIFÍCIL, MEU CARO
AMIGO.
VOCÊ SABE – COM
TODA ESSA COISA DE
INTERNET, E-MAIL...
PORÉM, O MAIS DIFÍCIL,
MESMO, NÃO É (PARA
MIM, PELO MENOS)
ESCREVER
EM SI.
É ESCREVER UMA
COISA ENQUANTO
FALO OUTRA.
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1. (UNICAMP-SP-2018) – O trecho abaixo corresponde à parte final
do primeiro Sermão de Quarta-Feira de Cinza, pregado em 1672 pelo
Padre Antônio Vieira.
a) Levando em conta o trecho e o propósito argumentativo do Sermão,
explique por que, segundo Vieira, se deve preservar “a memória da
morte”.
RESOLUÇÃO:
O primeiro Sermão de Quarta-Feira de Cinza desenvolve o tema da
vaidade e do desengano da vida, fatores perigosos para quem almeja a
salvação da alma. No trecho acima, o objetivo do orador é convencer o
receptor de que, para que se consiga a salvação, é preciso sempre ter em
mente a extrema importância da hora da sua morte, pois é nesse momento
em que se dará conta das escolhas feitas em vida e que se arcará com as
consequências dessas escolhas. Em resumo, é o momento em que se
assegurará a salvação no Paraíso ou a danação no Inferno. O verdadeiro
seguidor dos preceitos divinos deve afastar-se dos valores mundanos, da
vaidade, pois são efêmeros e enganosos e causam a perdição da alma.
b) Considere as perguntas presentes no trecho e explique sua função
para a mensagem final do Sermão.
RESOLUÇÃO:
As interrogações presentes no trecho funcionam como perguntas retóricas
e têm como objetivo provocar a reflexão do receptor e induzi-lo a ter
comportamento adequado para a salvação da alma. A intenção de todas
essas perguntas, portanto, é fazer com que aquele que queira ser um bom
cristão avalie a forma como vive e busque orientar sua existência de
maneira a assegurar o Paraíso.
Em que cuidamos, e em que não cuidamos? Homens mortais,
homens imortais, se todos os dias podemos morrer, se cada dia nos
imos chegando mais à morte, e ela a nós; não se acabe com este dia
a memória da morte. Resolução, resolução uma vez, que sem
resolução nada se faz. E para que esta resolução dure, e não seja
como outras, tomemos cada dia uma hora em que cuidemos bem
naquela hora. De vinte e quatro horas que tem o dia, por que se não
dará uma hora à triste alma? Esta é a melhor devoção e mais útil
penitência, e mais agradável a Deus, que podeis fazer nesta
Quaresma. (...) Torno a dizer para que vos fique na memória:
Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é
bem que viva? Memento homo.
(VIEIRA, Antônio. Sermões de Quarta-Feira de Cinza.
Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2016, p.102.)
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MÓDULO 44 Literatura e Análise de Textos Literários – I
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Texto para a questão 2.
2. Vieira afirma que “duas coisas prega hoje a Igreja”. Com base no
exposto pelo autor:
a) Aponte a semelhança entre essas duas coisas.
RESOLUÇÃO:
As duas coisas que a Igreja prega são certas, ou seja, são indubitáveis,
inquestionáveis, têm sua existência garantida. Além disso, há a palavra pó
como característica intrínseca à condição humana. 
b) Indique as diferenças entre elas.
RESOLUÇÃO:
Uma das coisas que a Igreja prega é evidente e futura, ou seja, fácil de
perceber que acontecerá em tempos vindouros. A outra é dificultosa e
presente, ou seja, é difícil perceber que esteja ocorrendo no presente
momento. 
Texto para as questões de 3 a 5.
3. (UFSCar-SP – adaptada)
a) De que forma o autor reproduz, no texto escrito, características
próprias do discurso falado?
RESOLUÇÃO:
No texto de Vieira, percebem-se várias construções em que o orador se
dirige ao receptor, ao ouvinte do sermão: “Ora, (...) perguntar-me-eis”,
“Não é assim?”. Essas expressões, que buscam o contato com o receptor, são
bem próprias do discurso falado. A própria série de orações interrogativas
pressupõe um receptor de um discurso falado.
b) Antes de iniciar sua pregação, Vieira fundamenta-se num
argumento que, do ponto de vista religioso, se mostra incontestável.
Transcreva esse argumento e explique-o.
RESOLUÇÃO:
A afirmação “pois Deus o disse” corresponde ao argumento de fé utilizado
por Vieira. Como se trata de uma afirmação de Deus, deve então, do ponto
de vista religioso, ser tomada como um fato inquestionável,dogmático.
Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas
gratuitas, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma
de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento
para a crer; outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum
entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura;
mas a futura veem-na os olhos; a presente não a alcança o
entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es,
et in pulverem reverteris. Sois pó, e em pó vos haveis de converter.
Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura. O
pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, veem-no os
olhos: o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o veem, nem
o entendimento o alcança. Que me diga a Igreja que hei de ser
pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento
para o crer. Naquelas sepulturas, ou abertas, ou cerradas, o estão
vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas
pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali
há, é o nada que havemos de ser: tudo pó.
(VIEIRA, Antônio.
“Sermão da Quarta-Feira de Cinza: ano de 1672”.
In: A Arte de Morrer. São Paulo: Nova Alexandria, 1994, p. 47.)
Ora, suposto que já somos pó, e não pode deixar de ser, pois
Deus o disse, perguntar-me-eis, e com muita razão, em que nos
distinguimos logo os vivos dos mortos? Os mortos são pó, nós
também somos pó; em que nos distinguimos um dos outros?
Distinguimo-nos os vivos dos mortos, assim como se distingue o
pó do pó. Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído; os
vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz. Hic jacet. Estão
essas praças no Verão cobertas de pó: dá um pé de vento, levanta-se
o pó no ar, e que faz? O que faz os vivos, e muitos vivos. Não
aquieta o pó, nem pode estar quedo; anda, corre, voa; entra por
esta rua, sai por aquela; já vai adiante, já torna atrás; tudo enche,
tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo toma, tudo cega, tudo
penetra, em tudo e por tudo se mete, sem aquietar nem sossegar um
momento, enquanto o vento dura. Acalmou o vento: cai o pó, e onde
o vento parou, ali fica; ou dentro de casa, ou na rua, ou em cima
de um telhado, ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na campanha.
Não é assim? Assim é.
(VIEIRA, Antônio.
“Sermão da Quarta-Feira de Cinza: ano de 1672”.
In: A Arte de Morrer. São Paulo: Nova Alexandria, 1994, p. 54.)
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4. “Distinguimo-nos os vivos dos mortos, assim como se distingue o pó
do pó.”
a) O trecho acima contém uma afirmação aparentemente absurda, um
paradoxo. Explique.
RESOLUÇÃO:
O paradoxo consiste na afirmação de que o pó se distingue do pó. Na
verdade, trata-se de um absurdo aparente, pois a palavra pó não tem o
mesmo sentido nas duas ocorrências. Num caso, ela representa a
insignificância do homem, tem sentido conotativo; no outro, o que resultará
do homem após a morte, sendo o sentido literal.
b) Reescreva o trecho com seus termos na ordem direta.
RESOLUÇÃO:
Os vivos distinguimo-nos dos mortos, assim como o pó se distingue do pó.
5. Vieira contrasta duas realidades: a do pó levantado e a do pó caído.
a) Como, sintaticamente, essa oposição se realiza no texto?
RESOLUÇÃO:
A realidade do pó levantado é expressa por meio de uma sequência de
orações coordenadas assindéticas curtas, o que conota o dinamismo da
vida: “anda, corre, voa; entra por esta rua, sai por aquela; já vai adiante,
já torna atrás; tudo enche, tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo
toma, tudo cega, tudo penetra”. Já a realidade do pó caído é expressa por
uma sequência de expressões em que se diminui a incidência de verbos que
semanticamente expressam intenso dinamismo: “Acalmou o vento: cai o
pó e onde o vento parou, ali fica, dentro de casa, ou na rua, ou em cima de
um telhado, ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na campanha.”
b) “Não aquieta o pó, nem pode estar quedo; anda, corre, voa; entra
por esta rua, sai por aquela; já vai adiante, já torna atrás; tudo
enche, tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo toma, tudo
cega, tudo penetra, em tudo e por tudo se mete, sem aquietar nem
sossegar um momento, enquanto o vento dura.”
Considerando-se a relação de movimento e estaticidade entre o pó
levantado e o pó caído, indique qual dessas ideias (movimento ou
estaticidade) prevalece no trecho em análise e as figuras de linguagem
utilizadas para exprimi-la.
RESOLUÇÃO:
No trecho, prevalece a ideia de movimento (“anda, corre, voa”). A
construção desse trecho, visando-se à expressão de movimento, contém
gradação e assíndeto (“anda, corre, voa”), antítese (“entra por esta rua”,
“sai por aquela”; “já vai adiante, já torna atrás” e a anáfora do pronome
tudo (“tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba...”). Há várias passagens
que podem servir de exemplos.
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1. Leia o trecho a seguir e responda ao que se pede:
a) No trecho transcrito, parte da nota de rodapé inserida pelo editor
ficcional das memórias de Silvestre da Silva, há uma crítica em
relação à sociedade lusa. Comente-a.
RESOLUÇÃO:
A crítica camiliana dirige-se ao representante de uma nobreza decadente,
que faz das mulheres objeto de prazer e de dominação oportunista.
b) A parte final do texto apresenta forte ironia do autor. Explique-a.
RESOLUÇÃO:
O conde envelhece pleno de saúde e na companhia de uma (recente)
amante, talvez não tão recente assim, já que tinha sido expulsa pela
condessa. O homem desfruta de regalias e não sofre punição por suas
atitudes, reforçando-se a crítica ao comportamento machista e sexista. 
2. Considerando as obras Coração, Cabeça e Estômago, de Camilo
Castelo Branco, e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de
Assis, responda ao que se pede:
a) Silvestre da Silva e Brás Cubas, personagens, respectivamente, de
Coração, Cabeça e Estômago e de Memórias Póstumas de Brás
Cubas, superestimam ironicamente dois curiosos órgãos do corpo
humano em suas narrativas. Quais são eles e o que simbolizam?
RESOLUÇÃO:
Silvestre da Silva elege o estômago como guia de vida, pois libertaria o
homem dos sonhos do coração e do sofrimento que a racionalidade
provoca, e Brás Cubas exalta o poder do nariz, pois “Essa sublimação do
ser pela ponta do nariz é o fenômeno mais excelso do espírito. Cada homem
tem necessidade e poder de contemplar o próprio nariz (...) cujo efeito é a
subordinação do universo a um nariz somente”, constituindo “o equilíbrio
da sociedade”. O estômago simboliza a imposição dos prazeres
gastronômicos e irracionais na vida humana, e o nariz conota a
autoidolatria que impede o indivíduo de notar a existência do outro e do
jogo social.
b) Comparando-se os romances Coração, Cabeça e Estômago e
Memórias Póstumas de Brás Cubas quanto aos narradores, quais
semelhanças podem ser estabelecidas?
RESOLUÇÃO:
Os dois romances são memórias narradas pelas personagens centrais, mas,
em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o relato é feito por um defunto
autor, Brás Cubas, que, depois de sua morte, relata sua trajetória de vida.
Em Coração, Cabeça e Estômago, Silvestre da Silva é um escritor defunto
que deixou suas memórias para serem publicadas por um amigo, o editor
do livro.
Chamava-se Margarida a dama. Viveu ainda até 1857 e morreu
da febre amarela, e o filho também. Conta-se que o conde, receoso
do contágio, não ousara vir a Lisboa, das Caldas da Rainha, onde
estava, quando Margarida o mandou chamar para despedir-se.
Morreu contemplando os paroxismos do filho. Os criados
abandonaram-na no último dia. Estava sozinha quando expirou.
O conde está ótimo de saúde e transferiu a mobília de Margarida
para os aposentos de uma criada,que a condessa expulsou de
casa...
(Camilo Castelo Branco,
Coração, Cabeça e Estômago)
MÓDULO 55 Literatura e Análise de Textos Literários – II
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3. (FUVEST-SP-2018) – Leia o texto e responda ao que se pede:
1 – Murta: arbusto, árvore pequena.
a) É possível relacionar a imagem da murta ao destino de Iracema no
romance? Explique.
RESOLUÇÃO:
Na passagem, há um encadeamento de metáforas, que forma uma alegoria.
Iracema é simbolizada pela murta, que morre. O jacarandá frondoso
conota o colonizador Martim. É possível relacionar a imagem da murta
que morre ao destino de Iracema, pois, assim como a raiz da planta morre
para a árvore crescer, Iracema morre de paixão por Martim; é mártir do
amor.
b) A frase “Se ela não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer
tão alto” pode ser entendida como uma alegoria do processo de
colonização do Brasil?
Explique.
RESOLUÇÃO:
Sim, essa frase pode ser entendida como uma alegoria do processo de
colonização do País. Iracema, anagrama de América, simboliza a terra
primitiva e edênica. Martim, cujo sentido etimológico é “o filho do
guerreiro”, conota o colonizador luso, idealizado, com moral rigidamente
cristã, segundo o narrador. A metrópole portuguesa, simbolizada por
Martim, domina a terra, Iracema, aproveita-se dela, fazendo com que esse
mundo primitivo seja exterminado, ocasionando a extinção de uma raça,
conforme José de Alencar afirma na carta após o término do livro, que
elabora o mito da formação do Brasil.
4. (FUVEST-SP) – Considere os dois trechos de Machado de Assis,
relacionados a Iracema e publicados na época em que apareceu esse
romance de Alencar, e responda ao que se pede:
a) A poesia americana está completamente nobilitada; os maus poetas
já não podem conseguir o descrédito desse movimento, que venceu
com o autor de “I-Juca-Pirama”, e acaba de vencer com o autor
de Iracema.
(Adaptado de Machado de Assis, Crítica Literária)
Machado de Assis refere-se, neste trecho, a um movimento literário
chamado, na época, de “poesia americana” ou “escola americana”. Sob
que outro nome veio a ser conhecido esse movimento? Quais eram seus
principais objetivos?
RESOLUÇÃO:
Machado de Assis refere-se ao Indianismo, tendência romântica brasileira
cujo objetivo central era nobilitar o passado nacional, associando-o a mitos
heroicos elaborados por meio da idealização dos indígenas e de sua cultura,
assimilados a padrões europeus de excelência física e moral.
b) Tudo em Iracema nos parece primitivo; a ingenuidade dos
sentimentos, o pitoresco da linguagem, tudo, até a parte narrativa
do livro, que nem parece obra de um poeta moderno, mas uma
história de bardo1 indígena, contada aos irmãos, à porta da
cabana, aos últimos raios do sol que se entristece.
(Adaptado de Machado de Assis, Crítica Literária)
1 – Bardo: poeta heroico, entre os celtas e gaélicos; por extensão, qualquer
poeta, trovador etc.
No trecho, Machado de Assis afirma que a narração de Iracema não
parece ter sido feita por um “poeta moderno”, mas, sim, por um “bardo
indígena”. Essa afirmação se justifica? Explique sucintamente.
RESOLUÇÃO:
A afirmação é pertinente, pois o estilo de Iracema procura incorporar a
linguagem e a cosmovisão indígena. A tentativa de simular a cosmovisão
aborígene é visível, por exemplo, na marcação temporal, que toma como
parâmetro os ciclos da natureza. A apropriação da linguagem indígena
ocorre nos nomes próprios, nas aglutinações lexicais, nas perífrases e nas
comparações com elementos da natureza.
— Não veem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vai subindo
às nuvens? A seus pés ainda está a seca raiz da murta1 frondosa,
que todos os invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para
abraçar o tronco irmão. Se ela não morresse, o jacarandá não teria
sol para crescer tão alto.
(José de Alencar, Iracema)
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5. Leia o texto a seguir e responda ao que se pede:
a) Todo o enredo de Iracema gira em torno do núcleo do amor interdito
entre a virgem tabajara e o português desbravador das terras
brasileiras. Por que razão o amor deles é proibido e por que Martim
repele todas as circunstâncias favoráveis ao encontro sexual entre
eles? 
RESOLUÇÃO:
Iracema e Martim sentem forte atração entre si, no entanto Iracema é uma
virgem consagrada ao deus indígena Tupã e, portanto, uma sacerdotisa.
Como no mito cristão, a virgindade de Iracema não poderia ser maculada
por homem algum, para que o serviço da virgem fosse aceito pelo deus. Por
outro lado, o forte caráter moral do guerreiro cristão repelia todas as
circunstâncias favoráveis ao sexo, por sentir-se comprometido com a
hospitalidade que recebera de Araquém, pai de Iracema e autoridade
sacerdotal entre os tabajaras. Além disso, não queria colocar Iracema
numa situação em que a tribo a condenaria mortalmente.
b) Embora proibido, o encontro sexual entre Martim e Iracema
acontece. De que maneira isso foi possível?
RESOLUÇÃO:
O encontro sexual entre Martim e Iracema só se consuma porque ela lhe
fornece a bebida sagrada e alucinógena, o segredo da jurema. A
concretização do ato sexual, portanto, só é possível porque Martim está sob
efeito da droga. Para ele, as visões e sensações do corpo de Iracema não
passam de fantasia erótica, de “sonho”. Só mais adiante Martim perceberá
o que houve, quando Iracema lhe diz que não é mais a virgem de Tupã. 
c) A morte de Iracema pode ser prevista pelo leitor atento, se tiver
conhecimento das principais características românticas. Explique
em que a morte da protagonista pode ser considerada moralizante,
do ponto vista dessa escola literária.
RESOLUÇÃO:
A morte de Iracema acaba se tornando previsível no contexto, pois, além da
profecia de Araquém, no início do livro, pode-se notar que as escolhas da
protagonista a levarão a ser punida pelas profanações que cometeu. Tendo
traído o deus Tupã e se entregado sexualmente a um homem, ela paga por
esses erros. Tal punição, além de ser condizente com o contexto do romance,
também tem respaldo no caráter moralizante do Romantismo, escola em
que o desvio moral é geralmente punido exemplarmente, ainda que esse
desvio de conduta seja gerado por um motivo irrefreável, humana e
romanticamente compreensível, o amor. 
(...) tirou a virgem do seio o vaso que ali trazia oculto (...)
Martim lho arrebatou das mãos e libou as gotas do verde e amargo
licor. 
Agora podia viver com Iracema e colher em seus lábios o beijo
que ali viçava entre sorrisos como o fruto na corola da flor. Podia
amá-la e sugar desse amor o mel e o perfume, sem deixar veneno
no seio da virgem. 
(...) 
Quando veio a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada
qual borboleta que dormiu no seio do formoso cacto. 
(...) Vendo Martim a virgem unida a seu coração, cuidou que o
sonho continuava; cerrou os olhos para torná-los a abrir. 
(...) 
A filha de Araquém escondeu no coração a sua ventura. Ficou
tímida e inquieta, como a ave que pressente a borrasca no
horizonte. Afastou-se rápida e partiu. 
As águas do rio banharam o corpo casto da recente esposa. 
Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras.
(José de Alencar, Iracema)
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1. (UNICAMP-SP) – Em A Relíquia, de Eça de Queirós, várias são as
mulheres com quem Teodorico Raposo, o herói e narrador, se vê
envolvido. Entre elas, podemos citar Mary, Adélia, Titi, Jesuína, Cibele.
a) Uma dessas personagens é importantíssima para a trama do
romance, já que acompanha o narrador desde a infância, e deve-se
a ela a origem de todos os seus infortúnios posteriores. Quem é e o
que fez ela para que o plano de Raposo não desse certo? 
RESOLUÇÃO:
Entreas diversas personagens femininas citadas no enunciado da questão,
apenas uma acompanhou Teodorico Raposo desde a infância. Trata-se de
titi, sua tia D. Maria do Patrocínio das Neves, a cuja herança ele teria
direito, caso se comportasse como um perfeito católico (segundo a
perspectiva da tia). Como tal não acontece, e tendo sido descoberto o
engodo que Raposo lhe preparava, titi expulsa-o da casa e deserda-o.
b) A qual delas Raposo se refere quando diz “Tinha trinta e dois anos
e era zarolha”? Que relações tem essa personagem com Crispim, a
quem o narrador denomina “a firma”?
RESOLUÇÃO:
Trata-se de Jesuína, com quem Teodorico se casa. Trata-se da irmã de
Crispim, o próspero amigo, herdeiro da firma Crispim & Cia. Não sem
ironia, Teodorico chama-o “a firma”, para sugerir que a identidade do
amigo se sustenta mais no valor financeiro do que no afetivo. A nomeação
“a firma” corresponde à figura de palavra denominada metonímia, que se
baseia na relação de contiguidade.
2. No romance A Relíquia, de Eça de Queirós, logo após saber que o
Padre Negrão herdara o melhor da fortuna de G. Godinho e ainda tem
Adélia como amante, Teodorico Raposo chega a uma amarga
conclusão. 
a) Qual é essa conclusão? Comente-a.
RESOLUÇÃO:
Teodorico conclui que “fora esbulhado dos contos de G. Godinho
simplesmente” porque faltou no oratório da tia Patrocínio a coragem de
afirmar que aquela relíquia, a “camisa de dormir de Miss Mary”, era
melhor que a forjada coroa de espinhos de Cristo. Deveria ter dito: “é a
camisa de Santa Maria Madalena”. Acrescentando ainda que estava
acompanhada de uma carta sobre o gozo celestial que Maria Madalena
sentiu. Faltou-lhe, portanto, o descaramento de mentir com convicção,
alterando, assim, os fatos.
b) Pode-se dizer que essa conclusão sobre o que se considera verdade
se refere apenas ao elemento místico? Por quê?
RESOLUÇÃO:
Não se pode dizer isso, porque, como consta do último parágrafo do
romance, “‘esse descarado heroísmo de afirmar’, que batendo na Terra
com pé forte, ou palidamente elevando os olhos ao Céu, cria, através da
universal ilusão, ciências e religiões”.
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MÓDULO 66 Literatura e Análise de Textos Literários – III
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3. É correto afirmar que, além de crítica social, o romance A Relíquia
também contém o elemento fantástico? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
Sim, além de crítica social — a hipocrisia religiosa —, o romance A Relíquia
também inclui o elemento fantástico, como indica a legenda do livro:
“Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”, base da
narrativa, que propicia o elemento alegórico ou fantástico. No sonho de
Teodorico em Jerusalém, tem-se não só a revelação da personalidade de
Teodorico, mergulhada em dilemas insolúveis, como também uma
“reconstituição histórica, erudita, altamente racional da morte de Jesus.
No seu sonho, fundem-se Realidade e Fantasia, Imaginação e Realismo, o
Fantástico e Naturalismo, e Teodorico, turista maganão, cético e algo
enfastiado, sempre a lamentar a falta dos prazeres mundanos da cidade de
Salomão, descobre a antiga cidade judaica, sendo repentinamente
testemunha inesperada do drama cristão, feito o Teodorico Evangelista,
autor de um novo evangelho, narrado na primeira pessoa” (extraído do
verbete sobre A Relíquia no Dicionário de Eça de Queirós). Há críticos que
chegam a classificar o capítulo 3 de A Relíquia como um pseudossonho.
4. (FUVEST-SP-2018) – Leia o texto e responda ao que se pede:
a) Pode-se afirmar que, neste excerto, além de resumir a existência de
D. Plácida, o narrador expressa uma certa concepção de trabalho?
Justifique.
RESOLUÇÃO:
Sim, o narrador não só resume a existência de D. Plácida, como também
expressa uma certa concepção de trabalho, já que ela, mulher livre e pobre,
trabalha arduamente, exercendo várias funções, e acaba, posteriormente
na narrativa, até mediando a relação adúltera da patroa Virgília com Brás
Cubas. Na trajetória existencial de D. Plácida, percebe-se que o trabalho
não enobrece, nem dá, no Segundo Reinado, condição decente ao homem
na sociedade patriarcal e escravagista do Brasil.
b) De que maneira o ritmo textual, que caracteriza a possível resposta
dos sacristãos, colabora para a caracterização de D. Plácida?
RESOLUÇÃO:
O ritmo textual é obtido pela extensa enumeração de breves orações
reduzidas de infinitivo, com ideia de finalidade, e de gerúndio, com ideia de
ação durativa. Em ambos os casos, esse andamento colabora para mostrar
que D. Plácida é submetida a uma vida subalterna e pobre, por imposição
social. O ritmo e o sentido do texto vão ao encontro da atarefada e dura
vida de D. Plácida.
5. Com base no trecho a seguir e no conto “O Espelho” como um todo,
responda ao que se pede:
É de crer que D. Plácida não falasse ainda quando nasceu,
mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: — Aqui estou.
Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente
lhe responderiam: — Chamamos-te para queimar os dedos nos
tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um
lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de
tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada,
amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos
na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para
isso que te chamamos, num momento de simpatia.
(Machado de Assis,
Memórias Póstumas de Brás Cubas)
— Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que
ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção
deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um
receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa
solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a
contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta
de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois.
Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do
universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga,
esfumada, difusa, sombra de sombra.
(...)
— Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de
todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não
lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral;
nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo,
o alferes, que achava, enfim, a alma exterior.
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a) Por que a concepção do caráter humano no conto “O Espelho” é
realista?
RESOLUÇÃO:
É realista porque, além da análise psicológica aguda, há a concepção de
que a nossa personalidade se forma a partir de valores externos, sociais. O
caráter deriva de uma atitude, de um status que a sociedade valoriza, e o
indivíduo procura se amoldar a isso, anulando a personalidade mais
profunda. Enfim, os elementos materiais e sociais formatam a
personalidade. A análise da imposição dos valores sociais e materiais sobre
os individuais é característica do Realismo.
b) O espelho reflete apenas a imagem da personagem que se olha? O
que conota o espelho, no conto homônimo de Machado de Assis? 
RESOLUÇÃO:
O espelho não reflete apenas a imagem de quem se olha, ele reflete o olhar
da sociedade, do outro formatando o caráter de quem se observa. Quando
falta esse olhar social, o narrador não se vê. Sem a farda, Jacobina não
aparece integralmente no vidro. O espelho conota o valor social a que o
indivíduo se submete para ser reconhecido e valorizado. O que Jacobina
busca no espelho “é a imagem de si tal qual a vê o olho do outro que o
agracia como alguém que subiu na vida. A opinião era o seu único espelho
fidedigno; ausente ela, quebrado este, a imagem que resta é o lado do
sujeito emenigma” (Alfredo Bosi), difusa, sem integridade. 
6. (FUVEST-SP) – Considere o excerto em que Araripe Júnior, crítico
associado ao Naturalismo, refere-se ao “estilo” praticado “nesta terra”,
isto é, no Brasil:
a) O modo pelo qual o crítico explica a feição que o “estilo” assume
“nesta terra” indica que ele compartilha com o Naturalismo um
postulado fundamental. Qual é esse postulado? Explique
resumidamente.
RESOLUÇÃO:
[FUVEST-SP-2017] Araripe Júnior defende a tese de que o Naturalismo,
estética de origem francesa, foi estilisticamente adaptado ao contexto
brasileiro. A referência a frutos que, nesta terra, deformam-se, como a
pinha, ou que provocam feridas na língua, é índice de uma doutrina
fundamental do Naturalismo: o determinismo, formulado por Hippolyte
Taine, que via o homem submetido inevitavelmente ao condicionamento de
raça, meio e momento. No texto de Araripe Júnior, há referência ao
determinismo do meio.
b) As características de estilo sugeridas pelo crítico, no excerto,
aplicam-se ao romance O Cortiço, de Aluísio Azevedo? Justifique
sucintamente sua resposta.
RESOLUÇÃO:
[FUVEST-SP-2017] Sim, a doutrina determinista, na qual se baseia Aluísio
Azevedo, justifica-se, dada a influência que o meio social do cortiço e a
natureza do Brasil exercem sobre as personagens, moldando-lhes o caráter
e a forma de vida. Exemplo notável disso é o caso de Jerônimo, imigrante
português, trabalhador, que se transforma completamente: abandona a
esposa e a filha, envolve-se com Rita Baiana (símbolo da terra e da
sexualidade brasileiras). Jerônimo foi vencido pelo sol e pelo calor do
Brasil: substitui os costumes alimentares e a música portugueses pelos
brasileiros, culminando o seu abrasileiramento na vagabundagem
embriagada. Jerônimo cede, portanto, à força do meio e é vencido por ele,
de forma semelhante ao que ocorre com Pombinha, menina educada em
meio abastado e que é influenciada pelo meio social, o cortiço, a partir da
absorção das intimidades dos moradores para os quais ela lia e escrevia
cartas. O sol tropical é também visto como elemento fertilizador, como
ocorre no momento da menarca de Pombinha.
O estilo, nesta terra, é como o sumo da pinha, que, quando viça,
lasca, deforma-se, e, pelas fendas irregulares, poreja o mel
dulcíssimo, que as aves vêm beijar; ou como o ácido do ananás do
Amazonas, que desespera de sabor, deixando a língua a verter
sangue, picada e dolorida.
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1. (FUVEST-SP-2018) – Leia o texto e atenda ao que se pede:
1 – Carpir-se: lamentar-se.
a) O ponto de vista do eu lírico em relação à “máquina do mundo”
ilustra as principais características de Claro Enigma? Justifique.
RESOLUÇÃO:
O livro Claro Enigma (1951), pertencente à terceira fase da obra de Carlos
Drummond de Andrade, caracteriza-se pelo questionamento metafísico e
pela crise existencial, afastando-se da temática social e da poética
iconoclasta das fases anteriores. Em “A Máquina do Mundo”, cuja forma
e conteúdo dialogam com a poesia do poeta renascentista Dante Alighieri,
há a possibilidade de o eu lírico desvendar “a total explicação da vida, /
esse nexo primeiro e singular”, pois a máquina fez-lhe esse convite, que é
surpreendentemente rejeitado. Penúltimo poema de Claro Enigma, “A
Máquina do Mundo” sintetiza um percurso reflexivo e insolúvel recorrente
no livro. O tom sombrio é evidenciado, nas quatro estrofes transcritas, nas
expressões “de chumbo”, “escuridão” e, principalmente, “desenganado”.
Esse sentido de perplexidade, de isolamento, é recorrente em Claro
Enigma, como se nota já nos dois versos iniciais do primeiro poema do
livro, “Dissolução”: “Escurece, e não me seduz / tatear sequer uma
lâmpada”.
b) Transcreva o verso que sintetiza o evento sublime de que trata o
texto.
RESOLUÇÃO:
O verso que sintetiza o evento sublime é “a máquina do mundo se
entreabriu”. 
A MÁQUINA DO MUNDO
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia1.
(...)
(Carlos Drummond de Andrade,
Claro Enigma)
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MÓDULO 77 Literatura e Análise de Textos Literários – IV
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Texto para as questões de 2 a 4.
2. Os poemas de Claro Enigma (1951) foram compostos durante a
disputa ideológica entre capitalismo e comunismo, no período da
chamada Guerra Fria, em que Estados Unidos e União Soviética
revelavam caminhos igualmente questionáveis em seus métodos de
ação. Drummond passa por um relativo esvaziamento de suas crenças
políticas — de tendência socialista —, que o faziam ter uma postura
poética compromissada com as questões sociais. A epígrafe de Claro
Enigma é um verso de Paul Valéry: “les événements m’ennuient” (os
acontecimentos me entediam).
a) Nas duas primeiras estrofes do poema “Dissolução”, como reage o
eu lírico diante da escuridão que se estabelece? Pode-se afirmar que
o poeta continua com a mesma postura engajada nas questões
sociais que revelou em livros anteriores?
RESOLUÇÃO:
Diante da escuridão, o eu lírico permanece de braços cruzados, sem ímpeto
de reagir: “não me seduz / tatear sequer uma lâmpada”, “aceito a noite”.
Portanto, depois de um período de engajamento político mais explícito,
Drummond recolhe-se a uma autorreflexão da maturidade. O abandono
da militância conduz o poeta a uma introspecção mais acentuada e à adoção
de formas poéticas mais tradicionais, como demonstram vários poemas de
Claro Enigma.
b) “Dissolução” é o primeiro poema de Claro Enigma e dá a tônica a
partir da qual se desenvolvem os poemas do livro, cuja parte inicial
é intitulada “Entre Lobo e Cão”. Pode-se dizer que a palavra
“escurece”, que inicia o poema, é a representação do nada?
Explique.
RESOLUÇÃO:
Não, pois a escuridão traz uma nova disposição das coisas, já que, com a
noite, o eu lírico não consegue delinear as figuras: “seres e coisas não
figuradas” que se apresentam agora numa nova disposição, organização
— “ordem outra de seres / e coisas não figuradas”.
3. Embora a definição de melancolia seja imprecisa, há um consenso
quanto a algumas de suas características, desde estudiosos antigos,
sendo entendida como: vazio interior, sensação de profundo desânimo
em relação à vida, reação à possível perda de um objeto e, a partir de
Freud, como sendo, talvez, a perda do próprio eu, a depressão diante
da impossível reação, a falta de noção de si mesmo.
a) Com base nas informações apresentadas, é correto afirmar que o eu
lírico de “Dissolução” está melancólico? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
Sim, é correto, pois nota-se o vazio interior do eu lírico, explicitado
sobretudo na terceira estrofe: “Vazio de quanto amávamos”, verso que
reflete profundo desânimo em relação ao mundo externo, que não o atrai,
é desinteressante e mais “vasto” do que o “eu” — “mais vasto é o céu” (que
escurece tudo). 
DISSOLUÇÃO
Escurece, e não me seduz
tatear sequer uma lâmpada.
Pois que aprouve ao dia findar,
aceito a noite.
E com ela aceito que brote 
uma ordem outra de seres
e coisas não figuradas.
Braços cruzados.
Vazio de quanto amávamos,
mais vasto é o céu. Povoações
surgem do vácuo.
Habito alguma?
E nem destaco minha pele
da confluente escuridão.
Um fim unânime concentra-se
e pousa no ar. Hesitando.
E aquele agressivo espírito
que o dia carreia consigo,
já não oprime. Assim a paz,
destroçada.
Vai durar mil anos, ou
extinguir-se na cor do galo?Esta rosa é definitiva,
ainda que pobre.
Imaginação, falsa demente,
já te desprezo. E tu, palavra.
No mundo, perene trânsito,
calamo-nos.
E sem alma, corpo, és suave.
(Carlos Drummond de Andrade,
Claro Enigma)
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b) O primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, Alguma Poesia
(1930), apresenta um eu lírico definido, no primeiro poema, como
gauche — palavra da língua francesa que significa “canhoto,
esquerdo”, mas, metaforicamente, adquiriu o significado de
“diferente, estranho, deslocado em relação ao mundo”. Pode-se
afirmar que, no poema “Dissolução”, o eu lírico continua sendo
gauche, no sentido metafórico?
RESOLUÇÃO:
Sim, a afirmação procede, pois o eu lírico sente-se deslocado em relação à
nova situação, não se identifica nem com as pessoas, nem com qualquer
lugar, o que se nota no fato de ele não saber se habita alguma dessas novas
povoações: “... Povoações / surgem no vácuo. / Habito alguma?”. Ressalte-
se ainda a diferença de linguagem entre o primeiro livro, seguidor das
inovações vanguardistas modernistas, e Claro Enigma, cuja linguagem
ganha dimensão mais clássica, sem cortes abruptos. José Guilherme
Merquior classifica a terceira fase de Drummond como a do “Modernismo
classicizante”.
4. Apesar de a noite parecer um dado exterior, não se trata de algo
objetivo, mas de uma indicação da subjetividade, um índice de
desilusão, de falta de perspectivas em relação à realidade.
a) A afirmação está correta em relação à quarta estrofe? Justifique sua
resposta.
RESOLUÇÃO:
Sim, essa afirmação é pertinente, pois a exterioridade e a interioridade do
eu poético unem-se a tal ponto, que ele não pode destacar sua pele da
“confluente escuridão”. Impera a visão subjetiva nesse “fim unânime”.
b) Qual o significado da palavra “dissolução”, título do poema?
Relacione-a com o conteúdo da quarta estrofe.
RESOLUÇÃO:
Dissolução significa “decomposição, desagregação, deterioração”. O
indivíduo vê suas expectativas e esperanças dissolverem-se na noite e
percebe que se anuncia um término, retomado na quarta estrofe: “Um fim
unânime concentra-se / e pousa no ar. Hesitando.” A palavra “hesitando”
traz um caráter oscilante a esse epílogo, uma mistura de pressentimento e
ameaça real.
Leia o poema “Sonetilho do Falso Fernando Pessoa”, de Carlos
Drummond de Andrade (1902-1987), que integra o livro Claro
Enigma, publicado em 1951:
1 – Fausto: personagem do poema trágico homônimo de Goethe e que fez um
pacto com o diabo.
2 – Mefisto (ou Mefistófeles): personagem satânica da Idade Média, também
presente em Fausto, de Goethe.
3 – Oaristo: conversa carinhosa e familiar.
5. (UNESP) – Carlos Drummond de Andrade intitulou seu poema de
“Sonetilho do Falso Fernando Pessoa”. Por que razão o poeta se refere
a seu poema como “sonetilho”? Transcreva um verso em que a
referência aos heterônimos do escritor português Fernando Pessoa se
mostra evidente. Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
[UNESP-2017] Sonetilho é um soneto com versos curtos. No soneto clássico
petrarquista, há quatro estrofes (dois quartetos e dois tercetos) e o verso
tem dez sílabas métricas (versos decassílabos). O sonetilho de Drummond
também tem quatro estrofes (dois quartetos e dois tercetos), mas versos de
apenas seis sílabas métricas (versos hexassílabos). O poema mantém um
diálogo intertextual com a poesia de Fernando Pessoa e seus heterônimos,
e o verso que torna isso mais evidente é o último (“mas não sou eu, nem
isto”), a chave de ouro, a síntese do poema. Nesse verso, há referência à
despersonalização de Fernando Pessoa (“não sou eu”) e aos vários pontos
de vista de suas máscaras poéticas.
Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.
Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.
Nem Fausto1 nem Mefisto2,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo3,
eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.
(Carlos Drummond de Andrade,
Claro Enigma)
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1. (UNICAMP-SP-2018) – Na “Nota preliminar” escrita para a
primeira edição do livro Poemas Negros, de Jorge de Lima, o
antropólogo Gilberto Freyre afirma que, graças à “interpenetração de
culturas, entre nós tão livre”, e graças ao “cruzamento de raças, o Brasil
vai-se adoçando numa das comunidades mais genuinamente
democráticas e cristãs do nosso tempo”. Com base no poema
“Democracia”, responda às questões que se seguem:
a) A ideia de “adoçamento” social está presente tanto no poema de
Jorge de Lima quanto no texto de Gilberto Freyre. Aponte dois
episódios da formação do poeta, referidos no poema, que
exemplificam essa interpretação. Justifique sua escolha.
RESOLUÇÃO:
Pode-se entender a ideia de “adoçamento social” como um processo de
convívio interétnico, que escamoteia o choque social e cultural ocorrido na
formação da nação brasileira e que se prolongou na nossa sociedade. Essa
visão aparece também em Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, em
que se nota um orgulho por termos essa democracia mítica, tida como única
e diversa de outras culturas, em virtude desse elemento de convívio no
engenho. No poema “Democracia”, a interpenetração cultural ocorre em:
I) “Mãe-negra me contou histórias de bicho” (há influência da cultura
negra, da ama que cuidava do filho do senhor de engenho); II) “tocando
maracá” (há influência da cultura indígena, pois o maracá é um
instrumento musical de origem nativa); III) “brincando com as crioulas”
(há referência à relação erótica do filho do senhor de engenho com as
mulheres negras agregadas, e o convívio sexual aparece também em
“emprenhando tudo que encontrava”). A resposta admite também outros
versos, desde que tratem da interpenetração de culturas.
b) Considerando elementos da composição do poema, explique de que
maneira a ideia de “democracia”, presente no título, manifesta-se no
texto.
RESOLUÇÃO:
A palavra “democracia”, no poema, tem o sentido de convívio entre classes
e etnias e vai ao encontro do excerto de Gilberto Freyre: “a interpenetração
de culturas, entre nós tão livre” ao lado do “cruzamento de raças”. Esse
convívio é evidenciado no contexto do poema (o engenho de cana-de-açúcar
em Alagoas) pela referência à cultura negra (“Mãe- negra me contou
histórias de bicho”), à cultura indígena (“meu corpo pintado de urucu”) e
pela influência da cultura da religião do colonizador luso (“catecismo me
ensinou a abraçar os hóspedes”), culminando nesse convívio intercultural
e interétnico nos versos finais do poema (“me misturando, me sumindo, me
acabando… / tatuado de cruzes, de corações, de mãos-ligadas, / de nomes
de amor em todas as línguas de branco, de mouro ou de pagão”).
Enaltecem-se, assim, a miscigenação e o convívio nessa democracia. Frise-
se que a interpenetração de culturas, a democracia, é recorrente no texto e
já visível nos primeiros versos, na alusão à rede para dormir, proveniente
da cultura indígena, e na invocação a Walt Whitman, poeta norte-
americano que também apregoava esse ideal.
DEMOCRACIA
Punhos de rede embalaram o meu canto
para adoçar o meu país, ó Whitman.
Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,
catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,
carumã me alimentou quando eu era criança,
Mãe-negra me contou histórias de bicho,
moleque me ensinou safadezas,
massoca, tapioca, pipoca, tudo comi,
bebi cachaça com caju para limpar-me,
tive maleita, catapora e ínguas,
bicho-de-pé, saudade, poesia;
fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá,
dizendo coisas, brincando com as crioulas,
vendo espíritos, abusões, mães-d’água,
conversando com os malucos, conversando sozinho,
emprenhando tudo que encontrava,
abraçandoas cobras pelos matos,
me misturando, me sumindo, me acabando,
para salvar a minha alma benzida
e meu corpo pintado de urucu,
tatuado de cruzes, de corações, de mãos-ligadas,
de nomes de amor em todas as línguas de branco,
[de mouro ou de pagão.
(LIMA, Jorge de.
Poesias Completas. v. I. Rio de Janeiro / Brasília:
J. Aguilar / INL, 1974, p.160, 164-165.)
MÓDULO 88 Literatura e Análise de Textos Literários – V
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2. Neste poema, pode-se observar o sincretismo linguístico. Dê
exemplos desse sincretismo e evidencie quais culturas estão presentes.
RESOLUÇÃO:
O sincretismo cultural e linguístico pode ser observado no uso de palavras
como massoca, tapioca, pipoca, jenipapo, carumã etc., de origem indígena;
catecismo, saudades, cruzes etc., de origem europeia; e moleque, da cultura
africana. 
Texto para a questão 3.
1 – Pajeú (?-1897): Revolucionário brasileiro nascido em Pernambuco e
falecido em Canudos, Bahia. Um dos líderes militares da Guerra de Canudos,
foi hábil estrategista, derrotando várias vezes, com táticas de guerrilha, as forças
federais.
2 – Cabeleira (1751-1776): Considerado por muitos pesquisadores como o
primeiro grande cangaceiro. Ao lado do pai, assombrou Pernambuco com
assaltos e mortes. Sua história foi contada no livro O Cabeleira, de Franklin
Távora, precursor do romance regionalista brasileiro. Personagem também
presente na literatura de cordel.
3. De que trata o poema “Nordeste”?
RESOLUÇÃO:
Trata da apresentação de uma espécie de painel das peculiaridades que
diferenciam o Nordeste das demais regiões brasileiras e também, do ponto
de vista do eu lírico, das características da região merecedoras de louvação.
São elas: o clima marcado pelas temidas secas e pelas abençoadas estações
chuvosas; algumas das mais relevantes personagens históricas do Nordeste:
Pajeú, Cabeleira e Lampião; a paisagem nordestina (“Sertão”, “Pedra
Bonita”), além da religiosidade onipresente da população, na qual se inclui
o próprio eu lírico (“vamos dar graças a Nosso Senhor”, “Terra de Deus”). 
Texto para a questão 4.
4. Segundo o poema, qual é a causa da perda da identidade da negra
Joaquina Maluca?
RESOLUÇÃO:
Essa escrava enlouqueceu para esquecer toda a experiência dolorosa por
que passou na condição de objeto sexual. 
NORDESTE
Nordeste, terra de São Sol!
Irmã enchente, vamos dar graças a Nosso Senhor,
que a minha madrasta Seca torrou seus anjinhos
para os comer.
São Tomé passou por aqui?
Passou, sim senhor!
Pajeú1! Pajeú!
Vamos lavar Pedra Bonita, meus irmãos,
com o sangue de mil meninos, amém!
D. Sebastião ressuscitou!
S. Tomé passou por aqui?
Passou, sim senhor.
Terra de Deus! Terra de minha bisavó
que dançou uma valsa com D. Pedro II.
São Tomé passou por aqui?
Tranca a porta, gente, Cabeleira2 aí vem!
Sertão! Pedra Bonita!
Tragam uma virgem para D. Lampião!
(Jorge de Lima, Poemas Negros)
JOAQUINA MALUCA
Joaquina Maluca, você ficou lesa
não sei por que foi!
Você tem um resto de graça menina,
na boca, nos peitos,
não sei onde é...
Joaquina Maluca, você ficou lesa,
não é?
Talvez para não ver
o que o mundo lhe faz.
Você ficou lesa, não foi?
Talvez pra não ver o que o mundo lhe fez.
Joaquina Maluca, você foi bonita, não foi?
Você tem um resto de graça menina
não sei onde é...
Tão suja de vício,
nem sabe o que o foi.
Tão lesa, tão pura, tão limpa de culpa,
nem sabe o que é!
(Jorge de Lima, Poemas Negros)
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Leia o poema de Murilo Mendes (1901-1975) para responder às
questões 5 e 6:
1 – Apascentar: vigiar no pasto; pastorear.
5. (UNESP-2018)
a) Explique por que se pode afirmar que o verso inicial desse poema
opera uma perturbação ou quebra do discurso lógico.
RESOLUÇÃO:
O verso inicial quebra o discurso lógico porque os pianos foram
considerados como seres animados, passíveis de terem liberdade e se
movimentarem numa planície deserta, como animais que correm quando
soltos.
b) Na segunda estrofe, verifica-se a personificação dos pianos. Que
outro elemento também é personificado nessa estrofe? Justifique
sua resposta.
RESOLUÇÃO:
Ocorre personificação das rosas, pois, além de essas flores serem
migradoras, elas acompanham o eu lírico na função de pastorear os pianos
no campo.
6. (UNESP-2018)
a) O crítico literário Antônio Cândido caracterizou esse poema como
uma “pastoral fantástica”. Tal caracterização alude a qual escola
literária? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
A expressão “pastoral fantástica” remete tanto ao Arcadismo ou
Neoclassicismo (e, antes dele, à poesia bucólica greco-latina), quanto ao
Surrealismo. O gênero pastoral consiste na abordagem idealizada da vida
de pastores e o Surrealismo, vanguarda do Modernismo, apresenta como
característica o ilógico, o nonsense, com elementos visionários e oníricos,
como se observa nos versos “Vejo ao longe com alegria meus pianos /
recortarem vultos monumentais / contra a lua”.
b) Identifique duas características que permitem vincular esse poema
ao movimento modernista.
RESOLUÇÃO:
Os versos livres, sem métrica, a paródia da tradição literária (a retomada
da poesia bucólica do Arcadismo ou Neoclassicismo) e a influência da teoria
psicanalítica freudiana na literatura, rompendo com a lógica, são
características da vanguarda modernista, iconoclasta não só em relação ao
passado literário, como também quanto ao uso da razão para captar a
realidade. Embora muitos candidatos possam ter mencionado os versos
brancos (sem rima), esse tipo de verso já era usado na poesia do século
XVIII, como exemplifica a obra O Uraguai, de Basílio da Gama, publicada
em 1769. 
O PASTOR PIANISTA
Soltaram os pianos na planície deserta
Onde as sombras dos pássaros vêm beber.
Eu sou o pastor pianista,
Vejo ao longe com alegria meus pianos
Recortarem os vultos monumentais
Contra a lua.
Acompanhado pelas rosas migradoras
Apascento1 os pianos: gritam
E transmitem o antigo clamor do homem
Que reclamando a contemplação,
Sonha e provoca a harmonia,
Trabalha mesmo à força,
E pelo vento nas folhagens,
Pelos planetas, pelo andar das mulheres,
Pelo amor e seus contrastes,
Comunica-se com os deuses.
(As Metamorfoses)
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1. (FUVEST-SP) – Leia o trecho de Vidas Secas, de Graciliano Ramos,
para, em seguida, responder ao que se pede:
a) O trecho pertence à parte de Vidas Secas intitulada “Festa”, na qual
se narra a ida da família de sertanejos, acompanhada da cachorra
Baleia, à cidade, onde deve participar de uma festividade pública.
Considerada esta questão no contexto do livro, como se passa essa
participação e o que ela mostra a respeito da socialização da
família?
RESOLUÇÃO:
[FUVEST-SP-2017] O trecho em análise apresenta a família de Fabiano
indo à cidade para acompanhar os festejos de Natal. O primeiro fato que
chama a atenção é o caráter inusitado dessa participação, pois Fabiano e
família não se socializam, ou seja, não interagem com os outros. Essa
inadaptação reforça a marginalidade da família. Um dos exemplos é a
incapacidade dos meninos de articularem uma linguagem e até de
entenderem o que se passa à volta deles. Outro exemplo que ganha
destaque, no excerto, é o protagonista sofrer muito para calçar suas botinas.
Tais fatores servem para criar um contexto que revela a dificuldade de
socialização das personagens de Vidas Secas, o que contribui para
caracterizá-las como párias, vítimas de exclusão social. É por causa disso
tudo que, no decorrer da festa, há um anticlímax. Fabiano e família estão
alienados em relação ao festejo e até a cadela Baleia considera estranhaa
quantidade de pessoas.
b) O tratamento narrativo dado aos eventos apresentados no trecho
confere a ele um tom que contrasta com o que é dominante, no
conjunto de Vidas Secas. Qual é esse tom? Explique sucintamente.
RESOLUÇÃO:
[FUVEST-SP-2017] O excerto destacado apresenta a família de Fabiano
preparando-se para o festejo de Natal num povoado nordestino. Assim, esse
evento acaba servindo para mostrar essas personagens no esforço de
assumir elementos civilizadores: a prática de higiene pessoal e a
preocupação com a indumentária. Essa tentativa de integração social e
civilizatória contrasta com a secura existencial a que estão submetidos os
protagonistas no conjunto do romance, já que são apresentados como
párias, seres alijados da sociedade.
Aí Fabiano parou, sentou-se, lavou os pés duros, procurando
retirar das gretas fundas o barro que lá havia. Sem se enxugar,
tentou calçar-se — e foi uma dificuldade: os calcanhares das meias
de algodão formaram bolos nos peitos dos pés e as botinas de
vaqueta resistiram como virgens. Sinha Vitória levantou a saia,
sentou-se no chão e limpou-se também. Os dois meninos entraram
no riacho, esfregaram os pés, saíram, calçaram as chinelinhas e
ficaram espiando os movimentos dos pais. Sinha Vitória aprontava-
se e erguia-se, mas Fabiano soprava arreliado. Tinha vencido a
obstinação de uma daquelas amaldiçoadas botinas; a outra
emperrava, e ele, com os dedos nas alças, fazia esforços inúteis.
Sinha Vitória dava palpites que irritavam o marido. Não havia
meio de introduzir o diabo do calcanhar no tacão. A um arranco
mais forte, a alça de trás rebentou-se, e o vaqueiro meteu as mãos
pela borracha, energicamente. Nada conseguindo, levantou-se
resolvido a entrar na rua assim mesmo, coxeando, uma perna mais
comprida que a outra. Com raiva excessiva, a que se misturava
alguma esperança, deu uma patada violenta no chão. A carne
comprimiu-se, os ossos estalaram, a meia molhada rasgou-se e o
pé amarrotado se encaixou entre as paredes de vaqueta. Fabiano
soltou um suspiro largo de satisfação e dor.
MÓDULO 99 Literatura e Análise de Textos Literários – VI
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Texto para a questão 2.
2. (FUVEST-SP) – Considere as seguintes afirmações sobre este
trecho de Vidas Secas, entendido no contexto da obra, e responda ao
que se pede:
a) No trecho, torna-se claro que a escassez vocabular do menino
contribui de modo decisivo para ampliar as diferenças que
distinguem homens de animais. Você concorda com essa
afirmação? Justifique, com base no trecho, sua resposta.
RESOLUÇÃO:
A afirmação não é procedente, pois, ao contrário, a escassez vocabular do
menino contribui de modo decisivo para diminuir as diferenças que
distinguem homens de animais, como se evidencia tanto na passagem
“tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio”, como no
fato de o menino se comunicar por meio de “exclamações e de gestos”, tal
como a cadela que lhe abana o rabo.
b) Neste trecho, como em outros do mesmo livro, é por exprimir suas
emoções e sentimentos pessoais a respeito da pobreza sertaneja que
o narrador obtém o efeito de contagiar o leitor, fazendo com que
ele também se emocione. Você concorda com a afirmação?
Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
Não há apelo à emoção, pois o narrador de Vidas Secas não se envolve
emocionalmente com os fatos que representa. Seu relato, segundo os
princípios realistas (o romance de Graciliano Ramos filia-se ao
Neorrealismo, que substituiu o experimentalismo modernista da Primeira
Geração), é objetivo e mantém neutralidade com relação aos fatos
relatados, a qual, em vez de diminuir, intensifica a análise racional do leitor
perante o quadro representado. 
3. (FUVEST-SP – adaptada) – Leia os itens seguintes e responda ao
que se pede:
a) Apesar de quase atrofiadas na sua rusticidade, as personagens de
Vidas Secas, de Graciliano Ramos, conservam um filete de
investigação da interioridade: cada uma delas se perscruta, reflete,
tenta compreender a si e ao mundo, ajustando-o à sua visão. Você
considera essa afirmação correta? Justifique brevemente a sua
resposta.
RESOLUÇÃO:
A afirmação é correta, pois esse “filete de investigação da interioridade” é
um recurso de que se vale o narrador, por meio do uso do discurso indireto
livre, para trazer à tona a linguagem mental de Fabiano e de sua família.
b) A dureza do clima, que se manifesta principalmente nas grandes
secas periódicas, explica todas as aflições de Fabiano e de sinha
Vitória, ao longo da narrativa de Vidas Secas? Justifique a sua
resposta.
RESOLUÇÃO:
A dureza do clima não explica todas as aflições de Fabiano e família, pois
as dificuldades que enfrentam não se restringem ao clima e à paisagem.
Tais dificuldades decorrem de uma “secura” existencial, linguística e social,
advinda de fatores políticos, econômicos e culturais. As aflições de Fabiano
derivam, por exemplo, da violência que sofre por parte do Soldado Amarelo
(símbolo da autoridade opressora), assim como da incapacidade de
comunicação do vaqueiro. 
O pequeno sentou-se, acomodou nas pernas a cabeça da
cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história. Tinha um
vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morrera
no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de gestos, e
Baleia respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis
de entender.
(Graciliano Ramos, Vidas Secas)
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4. (UNICAMP-SP) – Leia os seguintes trechos de O Cortiço e Vidas
Secas:
a) Ambos os trechos são narrados em terceira pessoa. Apesar disso, há
uma diferença de pontos de vista na aproximação das personagens
com o mundo animal e vegetal. Que diferença é essa? 
RESOLUÇÃO:
Em O Cortiço, a aproximação entre o mundo humano e o mundo animal e
vegetal decorre unicamente da perspectiva do narrador, pois as
personagens são completamente alheias a tal relação. Em Vidas Secas, ao
contrário, procede da própria consciência da personagem a sua
identificação com o mundo animal, expressa por meio do discurso indireto
livre.
b) Explique como essa diferença se associa à visão de mundo expressa
em cada romance.
RESOLUÇÃO:
Na visão naturalista, presente em O Cortiço, trata-se de uma visão
degradante da humanidade, cujos instintos e apetites são invariavelmente
associados a formas “baixas” da natureza. Em Vidas Secas, diferentemente,
o rebaixamento da personagem, sua assimilação ao mundo animal, não é
visto como algo inerente à humanidade, mas como produto de uma
sociedade degradante em sua injustiça. Para Fabiano, porém, chega a ser
motivo de orgulho reconhecer-se como “um bicho, capaz de vencer
dificuldades”.
O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias
acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só
ruído compacto que enchia todo o cortiço. (...) Sentia-se naquela
fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras
que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida,
o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre
a terra.
(AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. Ficção Completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 462.)
Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara
naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes.
Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta
da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à
camarinha escura, pareciam ratos — e a lembrança dos
sofrimentos passados esmorecera. 
(...) 
— Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. 
Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza
iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era
homem: era apenas um cabra ocupado em guardarcoisas dos
outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os
cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de
animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos
e julgava-se cabra.
Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém
tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: 
— Você é um bicho, Fabiano. 
Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho,
capaz de vencer dificuldades. 
Chegara naquela situação medonha — e ali estava, forte, até
gordo, fumando seu cigarro de palha. 
— Um bicho, Fabiano. 
(...)
Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali.
Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara
raízes, estava plantado
(RAMOS, Graciliano. Vidas Secas.
Rio de Janeiro: Editora Record, 2007, p. 18-19.)
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5. (UNICAMP-SP) – Leia os textos a seguir e responda ao que se
pede:
a) Nos excertos citados, a seca e a falta de educação formal afetam a
existência das personagens. Levando em conta o caráter crítico e
político do romance, relacione o problema da seca com a questão da
escolarização no que diz respeito à personagem Fabiano.
RESOLUÇÃO:
Fabiano é um sertanejo nordestino, miserável e flagelado pela seca, que o
força periodicamente a se tornar nômade, retirante. Nesse contexto, a
questão mais importante para ele é lutar por sua sobrevivência em um
ambiente marcado pela injusta distribuição de terra (e de renda). Nessas
condições, a educação formal acaba sendo deixada de lado, o que, de acordo
com o enredo de Vidas Secas, atrofia a capacidade intelectual dessa
personagem, assim como a de seus familiares. A consequência final desses
sofrimentos é a incapacidade de compreensão do mundo em que se
encontra, o que abre caminho para a exploração e a opressão a que Fabiano
e seus familiares se veem recorrentemente submetidos.
b) “Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar
as coisas nos seus lugares.” Descreva uma passagem do romance
em que, por não saber ler e escrever, Fabiano é prejudicado e não
consegue se defender.
RESOLUÇÃO:
Conforme explicitado no item anterior, as condições sociais a que Fabiano
fora submetido impediram-no de obter uma educação formal, o que, na
lógica de Vidas Secas, atrofiou sua capacidade intelectual e,
consequentemente, seu domínio da linguagem. Dessa forma, essa
personagem acaba sendo prejudicada por não saber argumentar e
defender-se de maneira eficiente. Um exemplo disso está no capítulo
“Cadeia”, em que a personagem não consegue desvencilhar-se do
desentendimento com o Soldado Amarelo, que não só humilhou o vaqueiro,
como também foi responsável pelo fato de o protagonista ter apanhado e
passado a noite na prisão. Outro exemplo está no capítulo “Contas”, em
que Fabiano, ao perceber que recebera do patrão bem menos do que
esperava, não consegue fazer valer a sua reivindicação, deixando-se ser
explorado. 
Um dia... Sim, quando as secas desaparecessem e tudo
andasse direito... Seria que as secas iriam desaparecer e tudo
andar certo? Não sabia.
(RAMOS, Graciliano. Vidas Secas.
118. ed., Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 25.)
Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se,
botar as coisas nos seus lugares. O demônio daquela história
entrava-lhe na cabeça e saía. Era para um cristão endoidecer. Se
lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la.
Impossível, só sabia lidar com bichos.
(RAMOS, Graciliano. Vidas Secas.
118. ed., Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 35.)
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1. (UNICAMP-SP) – Leia o soneto abaixo, de Luís de Camões:
a) Uma oposição espacial configura o tema e o significado deste
poema de Camões. Identifique essa oposição, indicando o seu
significado para o conjunto dos versos.
RESOLUÇÃO:
Há oposição espacial e de sentido entre Babilônia e Sião. Babilônia, o local
onde o eu lírico se encontra (“Cá nesta Babilônia donde mana / matéria a
quanto mal o mundo cria”), refere-se à passagem bíblica que relata o exílio
e a escravidão dos judeus. No contexto do poema, simboliza o mal, o mundo
materialista, profanado, vil. Sião, o local sublime, é também passagem
bíblica do Velho Testamento. É a terra prometida, a Jerusalém celestial.
No contexto do poema, metaforiza o mundo ideal, nobre, sublime. Frise-se
que o eu lírico, situado no mundo inferior, Babilônia, aspira ao mundo
ideal, Sião. Esse soneto, estruturado numa alegoria bíblica, retoma o
conflito central da poesia camoniana: a oposição entre o mundo platônico,
ideal, do conhecimento, e o mundo inferior, o da realidade sensorial.
b) Identifique nos tercetos duas expressões que contemplam a noção
de desconcerto, fundamental para a compreensão do tema do soneto
e da lírica camoniana.
RESOLUÇÃO:
A noção de desconcerto pode ser observada nas expressões “labirinto” e
“caos”, que remetem ao mundo sombrio, sensorial, decadente, onde valores
de toda a ordem são aviltados.
Leia o soneto “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, do poeta
português Luís Vaz de Camões (1525?-1580), para responder às
questões de 2 a 5:
1 – Esperança: esperado.
2 – Mor: maior.
3 – Soer: costumar (soía: costumava).
Cá nesta Babilônia, donde mana
matéria a quanto mal o mundo cria;
cá donde o puro Amor não tem valia,
que a Mãe, que manda mais, tudo profana;
cá, onde o mal se afina e o bem se dana,
e pode mais que a honra a tirania;
cá, onde a errada e cega Monarquia
cuida que um nome vão a desengana;
cá, neste labirinto, onde a nobreza
com esforço e saber pedindo vão
às portas da cobiça e da vileza;
cá neste escuro caos de confusão,
cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!
(Disponível em:
http:/www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000164.pdf.
Acesso em: 08 set. 2015.)
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança1;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem — se algum houve —, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e enfim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor2 espanto:
que não se muda já como soía3.
(Sonetos)
MÓDULO 11 00 Análise de Texto – I
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2. (UNESP) – Considere as seguintes citações:
Quais das citações aproximam-se tematicamente do soneto camoniano?
Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
[UNESP-2017] As citações que se aproximam do tema do soneto camoniano
são a 1 e a 4. No texto de Heráclito (1), há referência à mutabilidade do
meio e do próprio homem. Essa instabilidade aparece no tema do soneto já
na primeira estrofe. A frase de Sêneca (4) também converge para o sentido
do poema. O vaivém das coisas e seres em geral acaba, pelo capricho da
sorte, transformando uma situação no seu oposto, como se constata, por
exemplo, nos versos “Continuamente vemos novidades / diferentes em tudo
da esperança” (...); “o tempo cobre o chão de verde manto / que já coberto
foi de neve fria / e enfim converte em choro o doce canto”.
3. (UNESP) – Em um determinado trecho do soneto, o eu lírico
assinala a passagem de uma estação do ano para outra. Transcreva os
versos em que isso ocorre e identifique as estações a que eles fazem
referência. Para o eu lírico, tal passagem constitui um evento aprazível?
Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
[UNESP-2017] O trecho do soneto no qual se assinala a passagem de uma
estação do ano para outra é: “O tempo cobreo chão de verde manto, / que
já coberto foi de neve fria”. A expressão “verde manto” refere-se à
primavera, subsequente ao inverno, representado pelas palavras “neve
fria”. A mudança de estação indicada pelo eu lírico não ilustra uma
alteração aprazível, pois o terceiro verso da terceira estrofe afirma que a
passagem do tempo “converte em choro o doce canto”.
4. (UNESP) – Elipse: figura de sintaxe pela qual se omite um termo da
oração que o contexto permite subentender. (Domingos Paschoal
Cegalla, Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, 2009.
Adaptado.)
Transcreva o verso em que se verifica a elipse do verbo. Identifique o
verbo omitido nesse verso. Para o eu lírico, qual das mudanças
assinaladas ao longo do soneto lhe causa maior perplexidade?
Justifique sua resposta, com base no texto.
RESOLUÇÃO:
[UNESP-2017] A omissão mais flagrante do verbo ocorre no quarto verso
da segunda estrofe: “e do bem — se algum houve —, as saudades”. Trata-
se de zeugma, pois o verbo ficar, que aparece no verso anterior, foi omitido
e, em seu lugar, foi empregada uma vírgula: e do bem — se algum houve
— [ficam] as saudades. Pode-se também considerar a elipse do verbo no
segundo verso da segunda estrofe, “diferentes em tudo da esperança”, em
que o verbo ser, que aparece na estrofe anterior, foi omitido: “novidades /
[que são] diferentes em tudo da esperança”. A mudança que causa maior
espanto ao eu lírico aparece no último verso: “que não se muda já como
soía”, ou seja, a mudança já não ocorre como costumava, indicando que até
a própria mudança está à mercê de transformação.
5. (UNESP) – A sinestesia (do grego syn, que significa “reunião”,
“junção”, “ao mesmo tempo”, e aisthesis, “sensação”, “percepção”)
designa a transferência de percepção de um sentido para outro, isto é,
a fusão, num só ato perceptivo, de dois sentidos ou mais. (Massaud
Moisés, Dicionário de Termos Literários, 2004. Adaptado.) 
Transcreva o verso em que se verifica a ocorrência de sinestesia.
Justifique sua resposta. Reescreva o verso da terceira estrofe “que já
coberto foi de neve fria”, adaptando-o para a ordem direta e
substituindo o pronome “que” pelo seu referente.
RESOLUÇÃO:
[UNESP-2017] O verso em que ocorre sinestesia é “e enfim converte em
choro o doce canto”. Na expressão “doce canto”, há fusão da sensação
gustativa (“doce”) com a auditiva (“canto”). Na ordem direta, substituindo-
se o pronome relativo “que” pelo seu referente, tem-se: “o chão já foi
coberto de neve fria”. [Para o professor: numa ordem rigorosamente
direta, tem-se: “o chão foi coberto de neve fria já”.] 
1. “Não podemos entrar duas vezes no mesmo rio: suas águas não
são nunca as mesmas e nós não somos nunca os mesmos.” –
Heráclito (550 a.C.-480 a.C.)
2. “A breve duração da vida não nos permite alimentar longas
esperanças.” – Horácio (65 a.C.-8 a.C.)
3. “O melhor para o homem é viver com o máximo de alegria e o
mínimo de tristeza, o que acontece quando não se procura o
prazer em coisas perecíveis.” – Demócrito (460 a.C.-370 a.C.)
4. “Toda e qualquer coisa tem seu vaivém e se transforma no contrário
ao capricho tirânico da fortuna.” – Sêneca (4 a.C.-65 d.C.)
5. “Uma vez que a vida é um tormento, a morte acaba sendo para o
homem o refúgio mais desejável.” – Heródoto (484 a.C.-430 a.C.)
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Texto para as questões 6 e 7.
1 – De que valerá tanto sofrimento pelo pouco viver que ainda tenho?
6. O tema dos versos é o sofrimento amoroso causado pela saudade da
amada falecida.
a) Quem é o interlocutor do eu lírico na primeira e na última estrofe?
RESOLUÇÃO:
A princípio, o eu lírico dirige-se à interlocutora: “Ah, minha Dinamene” ou
“Ah, Ninfa minha”. Entretanto, na terceira estrofe, ele parece
conscientizar-se de que a morte o impede de comunicar-se com ela: “Nem
falar-te somente a dura morte / me deixou”. A partir de então, na quarta
estrofe, dilui seu interlocutor entre elementos simbólicos como o “mar”,
onde ela morreu; o “céu”, onde ela está, e a “escura sorte”, o destino cruel:
“Ó mar, ó Céu, ó minha escura sorte!”.
b) A partir do texto, é correto afirmar que a lírica de Camões se insere
no Maneirismo, tendência artística do momento em que o homem
renascentista, aos poucos, vai substituindo a euforia, o colorido, a
autoconfiança pela consciência da brevidade da vida, pela dúvida e
pela angústia presentes no estilo barroco?
RESOLUÇÃO:
Sim, essa afirmação é pertinente, pois a temática do texto é a impotência
diante do destino. O eu lírico mostra-se depressivo, pessimista diante de
opostos inconciliáveis, como o eterno amor que cultiva e a efêmera
existência da mulher amada. As tensões existenciais e amorosas
aproximam-se do maneirismo.
7. O neoplatonismo associa o mundo das ideias de Platão ao saber
cognitivo. Essa idealização encontra respaldo na espiritualidade, na
metafísica do cristianismo. Segundo Platão, a alma pertenceria a outro
mundo — o inteligível: onde há ideias puras, beleza plena, felicidade
absoluta, perfeição — e seria, temporariamente, prisioneira do corpo,
sujeita à existência material — mundo sensível: um flagelo, pois o
homem está entregue às contingências do destino (desastres, doenças,
perdas, paixões etc.). Assim, a dor é inevitável neste mundo, o que
torna o ser humano melancólico: a alma vive a nostalgia do suposto
“paraíso” de onde veio.
a) Na primeira estrofe, como o poeta vê o amor e a amada? Cite
expressões do poema que justifiquem sua resposta.
RESOLUÇÃO:
Mesmo ao tratar de um caso particular, biográfico, Camões interpreta suas
experiências amorosas à luz do neoplatonismo, pois tanto a mulher como
o amor pertencem ao campo semântico do mundo inteligível, da eternidade.
A amada é envolvida por uma aura de beleza e perfeição que a tornam
sobre-humana, idealizada, uma “Ninfa”. Também o amor pertence ao
mundo das ideias, do absoluto, do infinito, segundo se vê no modo como o
eu lírico se apresenta, como possuidor de um amor que duraria para
sempre: “Quem não deixara nunca de querer-te!” (o pretérito mais-que-
perfeito foi empregado como futuro do pretérito do indicativo).
b) O eu lírico sente-se, de algum modo, traído pelo destino da amada,
ao supor que ela se teria deixado levar pelas ondas e pela morte. De
que modo esse infortúnio se opõe à visão que o eu poético tem do
amor e da amada na primeira estrofe?
RESOLUÇÃO:
O eterno amor que o eu lírico cultiva por Dinamene choca-se com a
realidade: a efêmera existência da mulher amada. Por isso, sente-se traído.
Em sua concepção neoplatônica, ela, tão perfeita e sobre-humana, não
poderia morrer, principalmente não poderia ignorar a dor que causaria a
ele. Daí seus questionamentos na segunda e terceira estrofes: “Puderam
estas ondas defender-te / que não visses quem tanto magoaste?”; “tão cedo
o negro manto / em teus olhos deitado consentiste!”
Ah, minha Dinamene, assi deixaste
quem não deixara nunca de querer-te!
Ah, Ninfa minha, já não posso ver-te,
tão asinha esta vida desprezaste! depressa
Como já para sempre te apartaste
de quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te
que não visses quem tanto magoaste?
Nem falar-te somente a dura morte
me deixou, que tão cedo o negro manto
em teus olhos deitado consentiste!
Ó mar, ó Céu, ó minha escura sorte!
Que pena sentirei que valha tanto,
que ainda tenho por pouco o viver triste1?
(Camões)
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1. (FUVEST-SP) – No breve “Prólogo da 3.ª edição” das Memórias
Póstumas de Brás Cubas, assinado pelo autor, Machado de Assis,
constava o seguinte trecho:
Considerando este trecho no contexto da obra à qual se incorpora,
atenda ao que se pede:
a) Identifique um aspecto das Memórias Póstumas de Brás Cubas
capazde ter suscitado a dúvida expressa por Capistrano de Abreu.
Explique resumidamente.
RESOLUÇÃO:
O conceito tradicional de romance — ao qual Capistrano de Abreu parece
ter-se apegado — é o de um texto em prosa no qual se narram fatos que
giram em torno de uma aventura. Memórias Póstumas de Brás Cubas,
entretanto, livro que se caracteriza por um estilo digressivo, desvia-se desse
padrão. Além disso, a autobiografia de Brás Cubas resulta no relato de
uma vida vazia, supostamente sem acontecimentos suficientemente
interessantes para uma narrativa convencional.
b) Em que consistem os “lavores de igual escola”, a que se refere o
autor, no final do trecho? Explique sucintamente.
RESOLUÇÃO:
Machado de Assis chama “lavores de igual escola” as técnicas narrativas
que também se encontram em Laurence Sterne, Xavier de Maistre e
Almeida Garrett, sobretudo o estilo digressivo — em que não há
compromisso com a linearidade narrativa — e o diálogo com o leitor, no
qual o emissor assume um tom irônico, zombeteiro, às vezes inferiorizando
o seu receptor.
Capistrano de Abreu, noticiando a publicação do livro,
perguntava: “As Memórias Póstumas de Brás Cubas são um
romance?” Macedo Soares, em carta que me escreveu por esse
tempo, recordava amigamente as Viagens na Minha Terra. Ao
primeiro respondia já o defunto Brás Cubas (como o leitor viu e
verá no prólogo dele que vai adiante) que sim e que não, que era
romance para uns e não o era para outros. Quanto ao segundo,
assim se explicou o finado: “Trata-se de uma obra difusa, na qual
eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um
Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de
pessimismo”. Toda essa gente viajou: Xavier de Maistre à roda do
quarto, Garrett na terra dele, Sterne na terra dos outros. De Brás
Cubas se pode talvez dizer que viajou à roda da vida.
O que faz do meu Brás Cubas um autor particular é o que ele
chama “rabugens de pessimismo”. Há na alma deste livro, por
mais risonho que pareça, um sentimento amargo e áspero, que está
longe de vir dos seus modelos. É taça que pode ter lavores de igual
escola, mas leva outro vinho.
Machado de Assis
MÓDULO 11 11 Análise de Texto – II
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2. (FUVEST-SP) – No excerto abaixo, narra-se parte do encontro de
Brás Cubas com Quincas Borba, quando este, reduzido à miséria,
mendigava nas ruas do Rio de Janeiro:
1 – “In hoc signo vinces!”: citação em latim que significa “Com este sinal,
vencerás” (frase que teria aparecido no céu, junto de uma cruz, ao imperador
Constantino, antes de uma batalha).
a) Tendo em vista a autobiografia de Brás Cubas e as considerações
que ao longo de suas Memórias Póstumas ele tece a respeito do
tema do trabalho, comente o conselho que, no excerto, ele dá a
Quincas Borba: “— Trabalhando, concluí eu.”
RESOLUÇÃO:
É um conselho meramente retórico e hipócrita, não correspondendo à
trajetória de vida de Brás Cubas. Constata-se, nas memórias do narrador,
que ele é membro da elite brasileira do Segundo Reinado, totalmente avessa
ao trabalho. Vive dos privilégios e vale-se da influência do pai. No último
capítulo, Brás Cubas gaba-se da vida no ócio: “coube-me a boa fortuna de
não comprar o pão com o suor do meu rosto.”
b) Tendo agora como referência a história de D. Plácida, contada no
livro, discuta sucintamente o mencionado conselho de Brás Cubas.
RESOLUÇÃO:
D. Plácida trabalhara com afinco durante toda a vida e nunca conseguira
sair da pobreza, chegando até a cair na miséria. Dessa forma, o conselho de
Brás Cubas, além de hipócrita do ponto de vista pessoal, revela-se
insuficiente do ponto de vista social.
Texto para as questões de 3 a 8.
3. (FUVEST-SP)
a) Este trecho remete a episódio anterior, da mesma obra, no qual
interagem Brás Cubas e Prudêncio, então crianças. Compare
sucintamente os papéis que as personagens desempenham nesses
episódios.
RESOLUÇÃO:
O trecho apresentado (capítulo LXVIII, “O Vergalho”) faz referência ao
capítulo XI, “O Menino é Pai do Homem”, em que Brás Cubas, ao relatar
sua infância, conta-nos que humilhava o então escravo Prudêncio, fazendo-
o de montaria. No primeiro episódio, o narrador era o opressor, enquanto
Prudêncio era o oprimido. Já liberto, Prudêncio compra um escravo,
tornando-se agora o opressor, pois passa a “descontar” no infeliz tudo o
que havia sofrido quando criança. Curiosamente, chega até a usar a mesma
frase — “Cala a boca, besta!” — que havia ouvido na sua época de
cativeiro. Dessa forma, nota-se que Prudêncio, vítima de um sistema
escravista, acaba fortalecendo-o, ao reproduzir as injustiças a que fora
submetido.
CAPÍTULO LXVIII / O VERGALHO
Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele
Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas
um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O
outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras:
— “Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!” Mas o
primeiro não fazia caso e, a cada súplica, respondia com uma
vergalhada nova.
— Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado! 
— Meu senhor! gemia o outro.
— Cala a boca, besta! replicava o vergalho.
Parei, olhei... Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho?
Nada menos que o meu moleque Prudêncio, — o que meu pai
libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-
me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.
— É, sim, nhonhô.
— Fez-te alguma cousa?
— É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei
ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou
a quitanda para ir na venda beber.
— Está bom, perdoa-lhe, disse eu.
— Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para
casa, bêbado!
Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas
conjeturas. Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões,
que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um
bom capítulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos alegres; é o
meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só
exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio,
achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que
o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, —
transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um
freio na boca e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria.
Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das
pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga
condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-
lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam
as sutilezas do maroto!
(Machado de Assis,
Memórias Póstumas de Brás Cubas)
Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil-réis, — a
menos limpa, — e dei-lha [a Quincas Borba]. Ele recebeu-ma com
os olhos cintilantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a
entusiasmado.
— In hoc signo vinces!1 bradou. 
E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão
ruidosa expansão, que me produziu um sentimento misto de nojo e
lástima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou sério,
grotescamente sério, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que
era alegria de pobre que não via, desde muitos anos, uma nota de
cinco mil-réis. 
— Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu. 
— Sim? acudiu ele, dando um bote para mim. 
— Trabalhando, concluí eu.
(Machado de Assis,
Memórias Póstumas de Brás Cubas)
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b) Neste trecho, a variedade linguística utilizada pelas personagens
contribui para caracterizá-las? Explique brevemente.
RESOLUÇÃO:
As variedades linguísticas empregadas conseguem de fato caracterizar onível social das personagens. Brás Cubas demonstra pertencer à classe alta
quando utiliza a norma culta, bem percebida pela ênclise em “Fez-te” e
“Perdoa-lhe”. Prudêncio demonstra pertencer à classe baixa, ao empregar
a variante coloquial, em termos como nhonhô; no emprego do pronome
pessoal ele em “deixei ele na quitanda”, quando o padrão gramatical pede
“deixei-o na quitanda”; na utilização da preposição em como regime do
verbo ir (“para ir na venda”), quando a norma culta exige a (“para ir à
venda”). 
4. Brás Cubas é o Nhonhô em questão. Qual a origem e o significado
da palavra nhonhô?
RESOLUÇÃO:
A palavra nhonhô é uma corruptela da forma senhor, tratamento que os
escravos davam a seus donos. A forma nhonhô revela submissão e
afetividade.
5. (FUVEST-SP)
a) O capítulo em questão mostra um autor preocupado com a
instituição escravista ou apenas preocupado em revelar formas do
comportamento humano?
RESOLUÇÃO:
O narrador revela as formas do comportamento humano, mostrando a
maldade, o sadismo, o ressentimento, a violência, acentuados pela sociedade
escravista. A história narrada exemplifica um mecanismo perverso já
observado em outras situações: o ex-escravo comporta-se segundo uma
lógica aparentemente contraditória: o indivíduo oprimido, quando obtém
poder, reproduz o comportamento do opressor.
b) Justifique sua resposta com elementos do texto.
RESOLUÇÃO:
No texto, as passagens, entre outras, que poderiam ser citadas como
justificativas ao item anterior são: “era um preto que vergalhava outro na
praça” e “Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas
recebidas, — transmitindo-as a outro. (...) Agora, porém, que era livre,
dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar,
dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava:
comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de
mim recebera.”
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6. (FUVEST-SP) – O narrador diz que gosta dos capítulos alegres.
a) O capítulo em questão é alegre?
RESOLUÇÃO:
O narrador-personagem considera “o miolo” deste capítulo gaiato, alegre.
Pode-se notar, portanto, o humor machadiano, revestido de certa
melancolia, resvalando para a ironia.
b) Fundamente sua resposta.
RESOLUÇÃO:
A atitude de Prudêncio é paradoxal, absurda. Um ex-escravo compra um
negro e inflige-lhe maus-tratos. Essa atitude, como se fosse uma regressão
neurótica à infância, reveste-se de um ar maroto, com essência gaiata,
chegando ao nonsense e ao sorriso melancólico, ao humor negro.
7. (FUVEST-SP) – “Segui caminho, a desfiar uma infinidade de
reflexões, que sinto haver inteiramente perdido...”
a) A forma verbal sinto seria mais bem compreendida como percebo
ou como lamento?
RESOLUÇÃO:
A forma verbal sinto seria mais bem compreendida como lamento.
b) Qual a fundamentação que o contexto oferece para sua resposta?
RESOLUÇÃO:
O narrador lamenta ter perdido aquilo que poderia ter sido matéria para
um bom capítulo, e “talvez alegre”.
8. (FUVEST-SP) – O dicionário informa que vergalho é o órgão
genital dos bois e dos cavalos; depois de cortado e seco, é também o
azorrague feito desse órgão. Qual o sentido que a palavra vergalho
assume em cada uma destas frases?
a) “— Cala a boca, besta! replicava o vergalho.”
RESOLUÇÃO:
A palavra vergalho foi empregada em sentido abrangente, indicando a
pessoa que empunha o chicote, traduzindo a ideia de que o vergalho e o
homem tornam-se o mesmo, numa relação metonímica.
b) “Quem havia de ser o do vergalho?”
RESOLUÇÃO:
A palavra vergalho tem sentido próprio de “chicote, açoite”.
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Para responder às questões de 1 a 2, leia o segundo capítulo do romance
Iracema, do escritor José de Alencar (1829-1877), publicado em 1865:
1 – Graúna: pássaro de cor negra.
2 – Jati: pequena abelha que fabrica delicioso mel.
3 – Oiticica: árvore frondosa.
4 – Aljôfar: pérola; por extensão: gota.
5 – Rorejar: banhar.
6 – Mangaba: fruto da mangabeira.
7 – Gará: ave de cor vermelha.
8 – Ará: periquito.
9 – Uru: pequeno cesto.
10 – Crautá: bromélia.
11 – Juçara: palmeira de grandes espinhos.
12 – Ignoto: que ou o que é desconhecido.
13 – Lesto: ágil, veloz.
14 – Uiraçaba: estojo em que se guardavam e transportavam as flechas.
1. (UNESP) – O modo como o narrador descreve a personagem
Iracema está de acordo com os preceitos da estética romântica?
Justifique sua resposta, valendo-se de três expressões retiradas do texto.
RESOLUÇÃO:
[UNESP-2017] No romance Iracema, de José de Alencar, a personagem
homônima é descrita conforme as tendências idealizadoras e nacionalistas
do Romantismo. No fragmento, Iracema é aproximada dos elementos da
natureza brasileira, refletindo a edênica paisagem em que está inserida, ela
é a “virgem dos lábios de mel”, caracterizada pelos “cabelos mais negros
que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira”, pelo “sorriso
mais doce do que o favo da jati”, por ser “mais rápida que a ema selvagem”
e por ter “o pé grácil e nu” deslizando suavemente pela “verde pelúcia que
vestia a terra com as primeiras águas”. Enfim, Iracema é calcada no mito
do bom selvagem de Rousseau, símbolo da América primitiva, e na
extensão da beleza e da sensibilidade da terra brasileira. Os exemplos dessa
idealização podem ser retirados de várias passagens do fragmento que vai
do segundo até o sexto parágrafo.
Além, muito além daquela serra, que ainda azula no
horizonte, nasceu Iracema.
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais
negros que a asa da graúna1, e mais longos que seu talhe de
palmeira.
O favo da jati2 não era doce como seu sorriso, nem a baunilha
recendia no bosque como seu hálito perfumado.
Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o
sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da
grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava
apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.
Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta.
Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica3, mais fresca do que o
orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores
sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros
ameigavam o canto.
Iracema saiu do banho: o aljôfar4 d’água ainda a roreja5, como
à doce mangaba6 que corou em manhã de chuva. Enquanto
repousa, empluma das penas do gará7 as flechas de seu arco e
concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto
agreste.
A graciosa ará8, sua companheira e amiga, brinca junto dela.
Às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo
nome; outras, remexe o uru9 de palha matizada, onde traz a
selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá10, as agulhas da
juçara11 com que tece a renda e as tintas de que matiza o algodão.
Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a
virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.
Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho,
se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces
o branco das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das
águas profundas. Ignotas12 armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o
corpo.
Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha
embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do
desconhecido.
De primeiro ímpeto, a mão lesta13 caiu sobre a cruz da espada;
mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe,
onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que
da ferida.
O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu.
Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba14 e correu para
o guerreiro, sentida da mágoa que causara.A mão que rápida ferira estancou mais rápida e compassiva o
sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha15 homicida;
deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.
O guerreiro falou:
— Quebras comigo a flecha da paz?
— Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus
irmãos? Donde vieste a estas matas, que nunca viram outro
guerreiro como tu?
— Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que
teus irmãos já possuíram e hoje têm os meus.
— Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras,
senhores das aldeias, e à cabana de Araquém, pai de Iracema.
(Iracema)
MÓDULO 11 22 Análise de Texto – III
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2. (UNESP) – Examine o seguinte trecho: “O sentimento que ele pôs
nos olhos e no rosto, não o sei eu” (12.° parágrafo). A quem se refere
o pronome “eu”? Reescreva este trecho em ordem direta, substituindo
o pronome “o” pelo seu referente.
RESOLUÇÃO:
[UNESP-2017] O pronome “eu” refere-se ao narrador, que no romance
aparece, eventualmente, em primeira pessoa, ainda que, ao longo da
narrativa, o foco seja de terceira pessoa. Em ordem direta, substituindo-se
o pronome “o” pelo seu referente, “sentimento”, tem-se: Eu não sei o
sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto.
3. (UNICAMP-SP) – Pensando nos pares amorosos, já se afirmou
que “há n’O Cortiço um pouco de Iracema coada pelo Naturalismo”
(Antônio Cândido, “De Cortiço em Cortiço”, em O Discurso e a
Cidade, São Paulo: Duas Cidades, 1993, p. 142). 
Partindo desse comentário, leia o trecho a seguir e responda ao que se
pede:
a) Na descrição transcrita, identifique dois aspectos que permitem
aproximar Rita Baiana de Iracema, mostrando os limites dessa
semelhança. 
RESOLUÇÃO:
Iracema, protagonista do romance homônimo de José de Alencar, e Rita
Baiana, personagem de O Cortiço, assemelham-se porque são construídas
como sínteses da natureza brasileira. Entretanto, se a primeira, como típica
heroína romântica, é associada apenas a características enaltecedoras,
idealizadas (“o favo da jati não era doce como o seu sorriso”, “mais rápida
que a ema selvagem”), a segunda é ligada a elementos tanto positivos
quanto negativos (“cobra amaldiçoada”, “voz arrogante”, “veneno”,
O chorado arrastava-os a todos, despoticamente, desesperando
aos que não sabiam dançar. Mas ninguém como a Rita; só ela, só
aquele demônio tinha o mágico segredo daqueles movimentos de
cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o
cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada,
harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante. (...) Naquela mulata
estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu
chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor
vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e
das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a
palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra
planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce
que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu
azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa,
a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do
corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras
embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para
lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor
setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer,
uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da
Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência
afrodisíaca. Isto era o que Jerônimo sentia, mas o que o tonto não
podia conceber. De todas as impressões daquele resto de domingo
só lhe ficou no espírito o entorpecimento de uma desconhecida
embriaguez, não de vinho, mas de mel chuchurreado no cálice de
flores americanas, dessas muito alvas, cheirosas e úmidas, que ele
na fazenda via debruçadas confidencialmente sobre os limosos
pântanos sombrios, onde as oiticicas trescalam um aroma que
entristece de saudade. (...) 
E ela só foi ter com ele, levando-lhe a chávena fumegante da
perfumosa bebida que tinha sido a mensageira dos seus amores;
assentou-se ao rebordo da cama e, segurando com uma das mãos
o pires e com a outra a xícara, ajudava-o a beber, gole por gole,
enquanto seus olhos o acarinhavam, cintilantes de impaciência no
antegozo daquele primeiro enlace. Depois, atirou fora a saia e, só
de camisa, lançou-se contra o seu amado, num frenesi de desejo
doido.
(AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. Ficção Completa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 498 e 581.)
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“cobra verde e traiçoeira”). Outro ponto comum entre as duas personagens
está na utilização que fazem de uma “poção” para consumar um processo
de sedução: a primeira emprega o vinho da jurema; a segunda, o café. Há
que se lembrar, no entanto, que a índia comete um sacrilégio ao usar a
droga, pois a bebida era restrita a um ritual tabajara. O mesmo caráter
pecaminoso não pode ser imputado a Rita Baiana. Pode-se ainda lembrar
que a índia e a mulata, com seu “mel” (“lábios de mel”, no romance
romântico, e “mel chuchurreado no cálice de flores americanas”, no
naturalista), seduzem portugueses cujas “fibras” se encontram
“embambecidas pela saudade da terra”. 
b) Identifique uma semelhança e uma diferença entre Jerônimo e
Martim. 
RESOLUÇÃO:
Martim e Jerônimo são portugueses que têm, pelo menos em parte da
narrativa, saudade de sua terra natal, mas que acabam se radicando no
Brasil. Esse processo de fixação é consequência do encantamento que
sentem pelo novo mundo, metaforizado nas qualidades sedutoras das
brasileiras que encontram, Iracema e Rita Baiana, respectivamente.
Entretanto, Martim é uma personagem de estrato social nobre, pois é um
grande guerreiro, ao contrário de Jerônimo, que é cavouqueiro, isto é, um
simples quebrador de pedra. Além disso, o primeiro tem um caráter
eminentemente passivo: não reage ao ser flechado por Iracema, é protegido
por ela e Caubi diante da sanha ciumenta de Irapuã, e sua primeira relação
sexual com a heroína se dá enquanto está drogado. O segundo,
diferentemente, é bastante ativo: prepara uma emboscada para assassinar
Firmo, namorado de Rita Baiana, e une-se conscientemente a ela. Por fim,
pode-se ainda lembrar que Martim é um herói que luta para manter a
integridade de seu caráter, enquanto Jerônimo, vencido pelo meio, torna-
se alcoólatra e vagabundo, enche-se de dívidas e abandona esposa e filha à
miséria.
4. (FUVEST-SP) – Leia o texto a seguir e responda ao que se pede:
1 – Rosbife: tipo de assado ou fritura de alcatra ou filé bovinos, bem tostado
externamente e sangrante na parte central, servido em fatias.
a) A imagem do “rosbife naturalista” — empregada, com humor, por
Machado de Assis, para evocar determinadas características do
Naturalismo — poderia ser utilizada também para se referir a certos
aspectos do romance O Cortiço? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
O Cortiço, como é de esperar de uma obra naturalista, apresenta
preocupação de exibir, sem eufemismo, rodeio ou censura, os aspectos mais
degradantes do ser humano, o que é compatível com a imagem do rosbife,
que é sangrento.
Gente que mamou leite romântico pode meter o dente no
rosbife1 naturalista; mas em lhe cheirando a teta gótica e oriental,
deixa logo o melhor pedaço de carne para correr à bebida da
infância. Oh! Meu doce leite romântico!
(Machado de Assis, Crônicas)
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b) A imagem do “doce leite romântico”, que se refere a certos traços
do Romantismo, pode remeter também a alguns aspectos do
romance Iracema? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:A expressão “doce leite romântico” refere-se à idealização da realidade,
característica do Romantismo e presente em diversos aspectos de Iracema:
a fidelidade extrema a um ideal de amor, a nobreza e a bravura dos
guerreiros indígenas (que mais parecem cavaleiros medievais), o
enaltecimento da natureza brasileira, o engrandecimento da amizade entre
Martim e Poti, o convívio harmonioso entre portugueses e pitiguaras.
5. (FUVEST-SP) – Responda ao que se pede:
a) Qual é a relação entre o “sistema de filosofia” do Humanitismo, tal
como figurado nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, de
Machado de Assis, e as correntes de pensamento filosófico e
científico presentes no contexto histórico-cultural em que essa obra
foi escrita? Explique resumidamente.
RESOLUÇÃO: 
O Humanitismo, sistema filosófico destinado a arruinar todos os outros,
segundo Quincas Borba, é uma crítica satírica às correntes filosóficas e
científicas da segunda metade do século XIX, como o Evolucionismo e o
Positivismo. Segundo Quincas Borba, a sobrevivência dos mais aptos é a
força propulsora de todos os fenômenos humanos, daí a guerra ser uma
calamidade conveniente, e a fome, uma provação. A máxima filosófica da
Humanitas é “Vida é luta” e, desse combate, apenas os mais fortes saem
vencedores, selecionando-se os aptos à vida, o que remete à teoria
evolucionista de Darwin. Além disso, o Humanitismo ou Humanitas satiriza
o Positivismo, segundo o qual o conhecimento científico é a única forma de
saber verdadeiro, isto é, apenas os métodos científicos são válidos. Machado
de Assis desconstrói o cientificismo da segunda metade do século XIX.
b) De que maneira, em O Cortiço, de Aluísio Azevedo, são encaradas
as correntes de pensamento filosófico e científico de grande
prestígio na época em que o romance foi escrito? Explique
sucintamente.
RESOLUÇÃO: 
O Cortiço é apontado como exemplo bem acabado do Naturalismo, o que
se percebe pela incorporação do pensamento filosófico e científico da época.
Nota-se, nesse romance, a vinculação ao Determinismo, teoria que afirmava
que a personalidade do homem seria condicionada por fatores como raça,
meio e momento. O Determinismo rege a narrativa. Há ainda referências
à Biologia Experimental, de Claude Bernard, nas imagens escatológicas,
na concepção do homem como prisioneiro dos impulsos sexuais. O romance
de tese ou experimental, narrativa que serve como demonstração de um
caso a ser analisado cientificamente, dá-se, por exemplo, na história de
Jerônimo como prova de que o meio seria capaz de comandar a natureza
humana. Em certos casos, O Cortiço obedece a essa doutrina (Rita Baiana,
como mestiça, seria “naturalmente” leviana); outras vezes, subverte-a
(João Romão e Jerônimo, ambos brancos, portugueses e da segunda
metade do século XIX, encontram destinos opostos: o primeiro continua, no
Brasil, com caráter de europeu e de explorador; o segundo, abrasileira-se).
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Examine a tira do cartunista argentino Quino (1932- ) para responder à questão 1.
1. (UNESP-2018)
a) Na tira, o que cada um dos dois grupos de pessoas representa?
RESOLUÇÃO
A dupla à esquerda da tira representa os ricos obcecados por consumo, os que dispõem de capi tal abundante, como indica a montanha de di nheiro onde
estão sentados, são os “potentes e os prepotentes”. O grupo à direita é o dos pobres, aquele que não tem capital e vive da sobra, dos detritos que os ricos
descartam. Esse grupo é o dos “impotentes” e marginalizados em relação aos bens de consumo.
MÓDULO 11 33 Morfologia e Redação (I)
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b) Em português, empregamos a seguinte expressão: “o tiro saiu pela
culatra”. Explicite o sentido dessa expressão e a relacione com a
crítica veiculada pela tira.
RESOLUÇÃO
“Culatra” é a parte posterior ou o fecho do cano da arma de
fogo"(Houaiss). A expressão “o tiro saiu pela culatra” é metafórica, tem
o sentido de que algo saiu ao contrário do que se esperava. Há analogia
com o fato de a bala de revólver não ir em direção ao alvo, mas sim no
sentido de quem efetuou o disparo. Na tira, nota-se que o excesso de
consumo e descarte por parte dos que têm dinheiro causa continuamente
lixo e a consequente deterioração do meio ambiente, prejudicando os
próprios ricos, que deitados, com roupa de banho, só podem contemplar
a montanha de lixo que produziram, sem resolver as graves questões de
desequilíbrio ambiental e social. Perdem inclusive o sol, porque só
conseguem visualizar a miséria que ajudaram a produzir, o que acaba indo
ao encontro do sentido das frase “o tiro saiu pela culatra”.
2. (UNESP-2017) – Examine a tira do cartunista argentino Quino
(1932 - ).
(Quino. A pequena filosofia da Mafalda, 2015. Adaptado.)
Pelo conteúdo de sua redação, depreende-se que o personagem Manuel
Goreiro (o “Manolito”), além de estudar, exerce outra atividade.
Transcreva o trecho em que esta outra atividade se mostra mais
evidente. No trecho “As lojas fecham mais tarde por quê não escurese
mais tamcedo”, verificam-se alguns desvios em relação à norma-
padrão da língua. Reescreva este trecho, fazendo as correções
necessárias. Por fim, reescreva o trecho final da redação (“nós ficamos
muito mais contentes com a primavera com a chegada dela”),
desfazendo a redundância nele contida.
RESOLUÇÃO:
O trecho que evidencia de modo mais claro a profissão de Manolito é “a
gente não vende mais nada”, em que ele se inclui como alguém que trabalha
como atendente em um estabelecimento comercial. 
Em norma culta, o trecho deve ser assim reescrito: As lojas fecham mais
tarde porque não escurece mais tão cedo.
Desfazendo-se a redundância do trecho, tem-se: nós ficamos muito mais
contentes com a chegada da primavera.
Redação
Tema: A Primavera
A primavera pega e
começa no dia 21 de
setembro e termina
quando todos começam
as compras de Natal e
Ano-Novo
As plantas dão folhas
e muitas flores e as
Redação
Tema: A Primavera
A primavera pega e
começa no dia 21 de
setembro e termina
quando todos começam
as compras de Natal e
Ano-Novo
As plantas dão folhas
e muitas flores e as
pessoas já pedem mais
ocacola e Pepsi etc... eC
outras bebidas e cerveja
e presunto também. As
lojas fecham mais tarde
por quê não escurese mais
tamcedo como no inverno
que as setemeia a gente
não vende mais nada e em
compensasão
pessoas já pedem mais
ocacola e Pepsi etc... eC
outras bebidas e cerveja
e presunto também. As
lojas fecham mais tarde
por quê não escurese mais
tamcedo como no inverno
que as setemeia a gente
não vende mais nada e em
compensasão
a Primavera é a
melhor estasão e
todos nós ficamos
muito mais contentes
com a primavera
com a chegada dela
a Primavera é a
melhor estasão e
todos nós ficamos
muito mais contentes
com a primavera
com a chegada dela
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Leia o trecho do conto O alienista1, de Machado de Assis (1839-1908),
para responder às questões 3 e 4.
3. (UNESP- junho-2018)
a) Cite os referentes dos pronomes sublinhados no primeiro e no
segundo parágrafos.
RESOLUÇÃO
O pronome oblíquo “se” refere-se a “Simão Bacamarte”; o pronome
oblíquo “lhe” refere-se a “um modesto”.
b) Transcreva dois pequenos excertos em que o narrador se dirige
diretamente ao leitor.
RESOLUÇÃO
Nas passagens " Agora, se imaginais", " mostrais com isso que ainda não
conheceis " e "Vede a diferença", o narrador dirige-se diretamente ao
leitor, pois os verbos estão na segunda pessoa do plural, promovendo a
interlocução com o receptor.
4. (UNESP- junho-2018)a) Transcreva o trecho “ele [vereador Galvão] obteve uma boa
interpretação, corrompendo os juízes, e embaçando os outros
herdeiros” (5.o parágrafo), substituindo os termos sublinhados por
outros de sentido equivalente.
RESOLUÇÃO
“Corrompendo”, no contexto, pode ser substituído por “subornando,
aliciando”; “embaçando”, por “atrapalhando, dificultando, complicando”.
b) Transcreva o trecho “— Foi um santo remédio, contava a mãe do
infeliz a uma comadre” (3.o parágrafo) em discurso indireto e em
ordem direta.
RESOLUÇÃO
Transpondo para discurso indireto o trecho em ordem direta tem-se:
A mãe do infeliz contava a uma comadre que fora (ou tinha sido) um santo
remédio.
Era a vez da terapêutica. Simão Bacamarte, ativo e sagaz em
descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligência e penetração
com que principiou a tratá-los. Neste ponto todos os cronistas estão
de pleno acordo: o ilustre alienista fez curas pasmosas, que
excitaram a mais viva admiração em Itaguaí.
Com efeito, era difícil imaginar mais racional sistema
terapêutico. Estando os loucos divididos por classes, segundo a
perfeição moral que em cada um deles excedia às outras, Simão
Bacamarte cuidou em atacar de frente a qualidade predominante.
Suponhamos um modesto. Ele aplicava a medicação que pudesse
incutir-lhe o sentimento oposto; e não ia logo às doses máximas, —
graduava-as, conforme o estado, a idade, o temperamento, a posição
social do enfermo. Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma
cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado; em outros
casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de
brilhantes, às distinções honoríficas, etc. Houve um doente, poeta,
que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar da
cura, quando teve ideia de mandar correr matraca, para o fim de o
apregoar como um rival de Garção2 e de Píndaro3.
— Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a uma
comadre; foi um santo remédio.
[...]
Tal era o sistema. Imagina-se o resto. Cada beleza moral ou
mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida;
e o efeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a
qualidade predominante resistia a tudo; então, o alienista atacava
outra parte, aplicando à terapêutica o método da estratégia militar,
que toma uma fortaleza por um ponto, se por outro o não pode
conseguir.No fim de cinco meses e meio estava vazia a Casa Verde;
todos curados! O vereador Galvão, tão cruelmente afligido de
moderação e equidade, teve a felicidade de perder um tio; digo
felicidade, porque o tio deixou um testamento ambíguo, e ele obteve
uma boa interpretação, corrompendo os juízes, e embaçando os
outros herdeiros. 
[...]
Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o
último hóspede da Casa Verde, mostrais com isso que ainda não
conheceis o nosso homem. Plus ultra!4 era a sua divisa. Não lhe
bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o
contentava ter estabelecido em Itaguaí o reinado da razão. Plus
ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogitativo; alguma coisa
lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima
teoria. — Vejamos, pensava ele; vejamos se chego enfim à última
verdade. 
Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde fulgurava a
mais rica biblioteca dos domínios ultramarinos de Sua Majestade.
Um amplo chambre de damasco, preso à cintura por um cordão de
seda, com borlas de ouro (presente de uma Universidade) envolvia
o corpo majestoso e austero do ilustre alienista. A cabeleira cobria-
lhe uma extensa e nobre calva adquirida nas cogitações cotidianas
da ciência. Os pés, não delgados e femininos, não graúdos e
mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram resguardados por um
par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto
latão. Vede a diferença: — só se lhe notava luxo naquilo que era de
origem científica; o que propriamente vinha dele trazia a cor da
moderação e da singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um
sábio.
(O alienista, 2014.)
1alienista: médico especialista em doenças mentais.
2Garção: um dos principais poetas do Neoclassicismo português.
3Píndaro: considerado o maior poeta lírico da antiga Grécia.
4Plus ultra!: expressão latina que significa “Mais além!”.
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Para responder às questões de 5 a 7, leia a letra da canção “Deus lhe
pague”, do compositor Chico Buarque (1944- ), composta em 1971.
5. (UNESP-2017) – “Deus lhe pague”: pedido a Deus para que
abençoe alguém por algo bom que esse alguém praticou.
(Carlos Alberto de M. Rocha e Carlos Eduardo P. de M. Rocha.
Dicionário de locuções e expressões da língua portuguesa, 2011.)
Considerando a definição da expressão “Deus lhe pague”, é correto
afirmar que o compositor se apropriou ironicamente dessa expressão
em sua canção? Justifique sua resposta, valendo-se de três versos da
letra da canção.
RESOLUÇÃO:
A expressão “Deus lhe pague” é uma apropriação irônica de uma expressão
coloquial, que foi usada como estribilho na letra da música de Chico
Buarque, composta em 1971, durante a ditadura militar. A ironia da
expressão se deve ao fato de que a letra denuncia a situação de miséria do
povo “pão pra comer, por esse chão pra dormir”, a repressão em
“concessão pra sorrir”, a política do pão e circo em “piada no bar e o
futebol pra aplaudir”, entre outros exemplos de situações de penúria e de
restrição à liberdade por que passava o povo brasileiro, sendo o
agradecimento uma zombaria dirigida às autoridades da época.
6. (UNESP-2017) – Considere as definições dos seguintes conceitos:
1. Autonomia: direito de um indivíduo tomar decisões
livremente; independência moral ou intelectual; capacidade de
governar-se pelos próprios meios.
2. Heteronomia: sujeição de um indivíduo a uma instân cia
externa ou à vontade de outrem; ausência de autonomia.
Qual dos conceitos mostra-se mais adequado para descrever a
existência retratada pela letra da canção? Justifique sua resposta, com
base no texto.
Considerando o contexto histórico-social em que a canção foi
composta, a quem ou a que se refere o pronome “lhe” em “Deus lhe
pague”?
RESOLUÇÃO:
A existência retratada pela letra define-se pelo con ceito da heteronomia,
uma vez que o eu lírico descreve uma vida à mercê das vontades e
permissões de outrem, “ a concessão pra sorrir / por me deixar respirar /
por me deixar existir”.
A música foi composta em 1971, durante o regime militar, sendo uma forma
de protesto contra os abusos da ditadura então vigente. De forma irônica,
portanto, o “lhe”, objeto indireto do verbo “pagar”, refere-se aos
governantes.
7. (UNESP-2017) – O eufemismo consiste em atenuar o sentido
desagradável de uma palavra ou expressão, substituindo-a por outra,
capaz de suavizar seu significado.
(Celso Cunha. Gramática essencial, 2013. Adaptado.)
Transcreva o verso em que se verifica a ocorrência de eufemismo.
Justifique sua resposta.
Reescreva, em linguagem formal, o trecho destacado do seguinte verso:
“Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair”.
RESOLUÇÃO:
Um exemplo de eufemismo está em “e pela paz derradeira que enfim vai
nos redimir”, em que a ideia de paz e redenção atenua a ideia de morte.
Reescrevendo o verso em linguagem formal, tem-se:
“Pelos andaimes, pingentes, de que (dos quais) nós temos de (que) cair.”
Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague
Pelo prazer de chorar e pelo “estamos aí”
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Deus lhe pague
Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça,que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Deus lhe pague
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague
(www.chicobuarque.com.br)
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Leia o trecho do livro O maior espetáculo da Terra, do biólogo
britânico Richard Dawkins (1941- ), para responder às questões 1 e 2.
1. (UNESP- junho-2018)
a) Explique sucintamente o que o autor entende por “corrida
armamentista evolucionária”.
RESOLUÇÃO
“Corrida armamentista evolucionária” é a disputa entre o predador e a
presa. Ela é evolucionária, porque tanto o agressor quanto a vítima vão,
ao longo do tempo, incorporando melhores recursos para o ataque e para
a defesa. Embora haja uma série de transformações em ambos, elas não
alteram a base da diferença original.
b) De que forma a fala da Rainha de Copas a Alice – “eles correm o
mais rápido possível para não sair do lugar” (1.o parágrafo) –
relaciona-se com a “marca registrada das corridas armamentistas”
(1.o parágrafo)?
RESOLUÇÃO
A “marca registrada das corridas armamentistas” é o aprimoramento tanto
do predador como também da presa, mas o poder de ataque e o de defesa
não sofreram desequilíbrio. Por isso, essa competição armamentista, que
não se modifica substancialmente em relação ao início da disputa, equivale
à fala da Rainha de Copas a Alice: “Eles correm o mais rápido possível
para não sair do lugar”.
2. (UNESP- junho-2018)
a) A frase “Darwin tinha plena noção das corridas armamentistas
evolucionárias, embora não usasse essa expressão” (2.o parágrafo)
pode ser considerada ambígua? Justifique sua resposta. 
RESOLUÇÃO
A frase apresenta duplo sentido porque não se sabe se Darwin desconhecia
a expressão “corrida armamentista evolucionária” ou se a expressão
“corrida armamentista evolucionária” não era empregada na época, pois,
segundo o autor, essa expressão só foi usada pela primeira vez por Hugh
Cott, em 1940, posterior , portanto, à morte de Darwin em 1882. 
b) Oximoro: figura de retórica em que se combinam palavras de
sentido oposto que parecem excluir-se mutuamente, mas que, no
contexto, reforçam a expressão; paradoxismo.
(Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 2009.)
Há na citação de Hugh Cott uma expressão que pode ser considerada
exemplo de oximoro. Identifique-a e justifique sua resposta..
RESOLUÇÃO
Há paradoxismo ou oximoro na expressão “refinamentos da guerra
civilizada”, já que uma guerra não é refinada nem tampouco civilizada, ou
seja, as duas palavras “refinamento” e “civilizada” apresentam sentido
oposto a “guerra”.
A seleção natural impele espécies predadoras a tornarem-se cada
vez melhores em apanhar presas, e simultaneamente impele
espécies que são caçadas a tornarem-se cada vez melhores em
escapar dos caçadores. Predadores e presas apostam uma corrida
armamentista evolucionária, disputada no tempo evolucionário. O
resultado tem sido uma constante escalada na quantidade de
recursos econômicos que os animais, dos dois lados, despendem na
corrida armamentista, em detrimento de outros departamentos de
sua economia corporal. Caçadores e caçados tornam-se cada vez
mais bem equipados para correr mais do que (ou surpreender, ou
sobrepujar em astúcia etc.) o outro lado. Mas um equipamento
aprimorado para correr mais não se traduz obviamente em mais
sucesso numa corrida, pela simples razão de que, numa corrida
armamentista, o outro lado também está aprimorando seu
equipamento: essa é a marca registrada das corridas armamentistas.
Poderíamos dizer, como explicou a Rainha de Copas a Alice, que
eles correm o mais rápido possível para não sair do lugar.
Darwin tinha plena noção das corridas armamentistas evolu -
cionárias, embora não usasse essa expressão. Meu colega John Krebs
e eu publicamos um artigo sobre o tema em 1979, no qual atribuímos
a expressão “corrida armamentista” ao biólogo britânico Hugh Cott.
Talvez significativamente, Cott publicou seu livro, Adaptive
coloration in animals, em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial:
Antes de afirmar que a aparência enganosa de um gafanhoto ou
borboleta é desnecessariamente detalhada, devemos verificar primeiro
quais são os poderes de percepção e discriminação dos inimigos
naturais desses insetos. Não fazê-lo é como dizer que a blindagem de
um cruzador é pesada demais ou que seu conjunto de canhões é
demasiado grande, sem investigar a natureza e a eficácia do
armamento do inimigo. O fato é que, na primeva1 luta da selva, assim
como nos refinamentos da guerra civilizada, vemos em progresso uma
grande corrida armamentista evolucionária — cujos resultados, para a
defesa, manifestam-se em recursos como velocidade, estado de alerta,
couraça, coloração, hábitos subterrâneos, hábitos noturnos, secreções
venenosas e gosto nauseante; e, para o ataque, em atributos
compensadores como velocidade, surpresa, emboscada, atração,
acuidade visual, garras, dentes, ferrões, presas venenosas e coloração
atrativa. Assim como a velocidade do perseguido desenvolveu-se em
relação a um aumento na velocidade do perseguidor, ou uma couraça
defensiva em relação a armas ofensivas, também a perfeição de
recursos de disfarce evoluiu em resposta a poderes crescentes de
percepção.
Saliento que a corrida armamentista é disputada no tempo
evolucionário. Não deve ser confundida com as corridas entre, por
exemplo, um guepardo individual e uma gazela individual, que é
disputada em tempo real. A corrida no tempo evolucionário é uma
corrida que desenvolve equipamento para as corridas em tempo real.
E o que isso realmente significa é que os genes para produzir o
equipamento destinado a vencer o adversário em esperteza ou
velocidade acumulam-se nos reservatórios gênicos de ambos os lados.
(O maior espetáculo da Terra, 2009. Adaptado.)
1primevo: antigo, primitivo.
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Leia o excerto do conto “A cartomante”, de Machado de Assis, para
responder às questões 3 e 4.
3. ( UNESP) – O trecho do quinto parágrafo “[Ele] disse-lhe que era
imprudente andar por essas casas” foi construído em discurso indireto.
Reescreva-o em discurso direto, substituindo os pronomes sublinhados
pelos nomes das personagens e efetuando os demais ajustes necessários.
RESOLUÇÃO:
Camilo disse a Rita:
– É imprudente andar por essas casas.
4. (UNESP) – Há, no penúltimo parágrafo, o emprego de uma figura
de retórica que consiste no alargamento semântico de termos que
designam dois entes abstratos pela atribuição a eles de traços próprios
do ser humano.
Quais são os dois entes abstratos que passam por tal processo?
Justifique sua resposta. Como se denomina tal figura de retórica?
RESOLUÇÃO:
Trata-se das palavras “virtude” e “interesse”. O narrador, ao registrar o
pensamento de Rita, atribui à virtude a característica humana da preguiça
e da avareza; e ao “interesse”, a atividade e a prodiga li da de. Esse processo
de atribuir características humanas a entes abstratos denomina-se
prosopopeia ou personi ficação.
5. Identifique as figuras presentes nos trechos a seguir: extraídos de
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis:
a) Quê? Uma criatura tão dócil, tão meiga, tão santa, que nunca
jamais fizera verter uma lágrima de desgosto, mãe carinhosa,
esposa imaculada, era força que morresse assim, trateada, mordida
pelo dente tenaz de uma doença sem misericórdia?
RESOLUÇÃO
Anáfora a gradaçãoascendente “tão dócil, tão meiga, tão santa”.
Pleonasmo “nunca jamais”. Metáfora: “dente tenaz de uma doença”.
b) Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos,
nem conhecidos, nem estranhos: não há platéia.
RESOLUÇÃO
Polissíndeto: “nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos”
(conjunção aditiva) e antíteses.
c) Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação única,
uma coisa a que poderia chamar volúpia do aborrecimento.
RESOLUÇÃO
Paradoxo: “volúpia” (=grande prazer) e “aborrecimento” (fastio, tédio).
d) O próprio tio João, guloso de escândalos, não tratou de outro
assunto na carta, aliás de muitas folhas.
RESOLUÇÃO
Metáfora: “guloso de escândalos”. Catacrese: “carta de muitas folhas”.
Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra
do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava
a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de
1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma
cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois
saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta antes
mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as
cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma pessoa...” Confessei
que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e
no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse,
mas que não era verdade... 
— Errou! interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho
andado, por sua causa. Você sabe, já lhe disse. Não ria de mim,
não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou
que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em
todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era
ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente
andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
[...]
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe
chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de
todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a
rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências.
Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz.
Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas
cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um
pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios
do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato. 
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à
cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do
procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a
confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez.
Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou
três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser
advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi
a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas,
formulou este pensamento: – a virtude é preguiçosa e avara, não
gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o
anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem
remédio.
(Contos: uma antologia, 1998.)
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1. (UNICAMP-2018) – Enquanto viveu em Portugal, o escritor Mário
Prata reuniu centenas de vocábulos e expressões usados no português
falado na Europa que são diferentes dos termos correspondentes usados
no português do Brasil. Reproduzimos abaixo um dos verbetes de seu
dicionário.
Descapotável
É outra palavra que em português faz muito mais sentido do que em
brasileiro. Não é mais claro dizer que um carro é descapotável, do que
conversível?
(Mário Prata, Dicionário de português: schifaizfavoire. 
São Paulo: Editora Globo, 1993, p. 48.)
a) Identifique os dois afixos que formam a palavra “descapotável” a
partir do substantivo “capota” (cober tura de um automóvel) e
explique a função de cada um.
RESOLUÇÃO
A palavra “descapotável”, a partir do substantivo “capota”, apresenta o
prefixo “des-”, que significa negação, e o sufixo “-vel”, formador de
adjetivo, que significa “passível de”.
Ressalve-se que, de acordo com o dicionário Houaiss, “descapo tável”
forma-se por derivação sufixal (descapotar + vel) e “descapotar”, por
derivação parassintética (des + capota + ar). A formação etimológica desse
vocábulo difere daquela dada pelo examinador.
b) Explique por que o autor considera, com certo humor, que a palavra
“descapotável” do português europeu faz mais sentido de que o
termo“conversível”, usado no português brasileiro.
RESOLUÇÃO
O adjetivo “descapotável”, usado no português europeu, significa “carro
cuja capota, flexível ou rígida, pode ser baixada e recolhida, ou retirada”
(Houaiss). O adjetivo “conversível”, usado no Brasil, significa o “que se
pode converter, convertível” ou ainda “cuja capota se pode dobrar ou
remover” (Houaiss). Apesar de os adjetivos poderem ser sinônimos, o autor
do texto considera “descapotável” mais adequado por ser mais específico,
já que literalmente significa “sem capota”; en quanto “conversível”, de
sentido mais amplo, significa também tudo aquilo que pode ser mudado,
convertido.
2. (UNICAMP-2018) – Leia a seguir trechos das entrevistas
concedidas pelo escritor chileno Alejandro Zambra ao jornal Folha de
São Paulo e à revista Cult sobre seu livro Múltipla Escolha, lançado no
Brasil em 2017. A obra imita o formato da Prova de Aptidão Verbal
aplicada de 1966 a 2002 aos candidatos a vagas em universidades no
Chile.
a) Cite dois fatores que levaram Zambra a adotar a forma narrativa
empregada em Múltipla Escolha.
RESOLUÇÃO
Um dos fatores que levou Zambra a adotar essa forma narrativa foi o
descontentamento no que tange à enunciação unívoca, isto é, uma voz única
e impositiva que limita a interpretação. Esse tipo de narrativa assemelha-
se à de Estados ditatoriais. O outro fator que levou Zambra a querer incor -
porar esse tipo de texto foi a “postura crítica e autocrítica, o humor e a
dor”. Assim, desnuda-se o autorita rismo do enunciador e des mis tifica-se a
resposta dada como correta pelo arbítrio de quem a pretende como tal.
Falando à Folha, Zambra afirma que havia na prova de múltipla
escolha “uma grande sintonia com a ditadura chilena. Para entrar na
universidade, teríamos que saber eliminar as orações. Havia censura,
e nos aconselhavam a censurar”. E acrescenta que osistema
educacional moldava o pensamento dos alunos com“a ideia de que
só existe uma resposta correta.”
Abordando o sentido crítico da escolha desse formato para a
narrativa, o autor explica à Cult que, tendo sido criado nesse sistema,
interessava-lhe mais a autocrítica. Escrevendo uma espécie de
novela, lembrou-se da prova e começou a brincar com esse formato.
“No começo foi divertido, como imitar as vozes das pessoas, mas
logo me dei conta de que também imitava minha própria voz, até
que de repente entendi que esse era o livro. A paródia e a
autoparódia, a crítica e a autocrítica, o humor e a dor...” O formato
de prova oferece diversas opções para completar e interpretar cada
resposta, mas pede ao leitor um movimento duplo de leitura: testar
possibilidades de respostas e erigir uma opção única e arbitrária.
Zambra esclarece: “me interessam todos esses movimentos da
autoridade. A ilusão de uma resposta, por exemplo. Creio que este
é um livro sobre a ilusão de uma resposta. Nos ensinaram isso, que
havia uma resposta única, e logo descobrimos que havia muitas e
isso às vezes foi libertador e outras vezes foi terrível. Quem sabe
algumas vezes nós também quisemos que houvesse uma resposta
única.”
(Adaptado de entrevistas de Alejandro Zambra concedidas ao
jornal Folha de São Paulo e à revista Cult em maiode 2017.
Disponíveis em https://revistacult.uol.com.br/home/alejandro-
zambra-multipla-escolha/ e em
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/05/1885551 -
literatura-esta-ligada-a-desordem-diz-escritor-chileno-alejandro-
zambra.shtml. Acessados em 11/12/2017.
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b) Por que Múltipla Escolha não funciona como a Prova de Aptidão
Verbal chilena? Justifique sua resposta com base no tipo de leitor
solicitado pela obra.
RESOLUÇÃO
A Prova de Aptidão Verbal chilena é autoritária, foi aplicada inclusive na
vigência da ditadura de Augusto Pinochet, que se inicia em 11 de setembro
de 1973, e impõe um tipo de abordagem dos pro blemas e admite
arbritrariamente uma única resposta.
Múltipla Escolha não tem as características da Prova de Aptidão Verbal
chilena porque pede uma leitura múltipla, aberta a interpretações críticas
e auto críticas, não permitindo uma recepção única, fechada.
3. (FUVEST-2018) – Leia o texto.
a) Segundo a concepção do autor, como a poesia pode ser entendida?
RESOLUÇÃO
Rubem Alves conta um episódio em que uma per sonagem, antes
acostumada com a função prag mática da cebola como mero alimento,
surpreende-se ao descobrir a beleza nunca antes vista nesse vegetal, com
seus “anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles”. Essa
narrativa permite inferir o conceito de arte defendida pelo autor: a
produção de um olhar diferente, inusitado sobre a realidade, destacando
não o aspecto prático, utilitário, mas a disposição para o espanto diante da
beleza. A arte passa a ser, portanto, fruto de uma nova percepção do
convencional, do banal, do co tidiano.
A complicada arte de ver
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando
louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os
sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para
a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões é uma
alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer
aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal
sem surpresa. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um
susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis
perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão
de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De
repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra
de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando
cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa
espanto."
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui
à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementares", de Pablo
Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação
ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que
Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou
assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não
está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a
ver".
Rubem Alves, Folha de S.Paulo, 26/10/2004. Adaptado.
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b) Reescreva o trecho “Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”,
substituindo o termo sublinhado por “Naquela época” e
empregando a primeira pessoa do plural. Faça as adaptações
necessárias.
RESOLUÇÃO
O trecho apresentado, reescrito, passa a ser “Naquela época, tudo o que
víamos nos causava espanto”.
Texto para a questão 4.
4. (FUVEST)
a) Transcreva o trecho do texto em que o autor explora, com fins
expressivos, o emprego de termos contra ditórios, sublinhando-os. 
RESOLUÇÃO:
Trata-se do fragmento “(...) um grupo de cientistas construiu uma
traquitana simples, mas extrema mente sofisticada (...)”
O adjetivo simples refere-se a algo “descom pli cado”, e sofisticado, ao
contrário, a algo “com plexo”.
b) Esse excerto provém de um artigo de divulgação científica. Aponte
duas características da linguagem nele empregada que o
diferenciam de um artigo científico especializado. 
RESOLUÇÃO:
O artigo científico prima por terminologia espe cífica de determinada área
do conhecimento em linguagem denotativa e objetiva.
Esse excerto distancia-se de um artigo científico convencional na medida
em que o autor utiliza linguagem acessível a leigos, com imagens corri -
queiras. Além disso, ao usar a 1.a pessoa do plural, o autor refere-se a
experiências compartilhadas entre ele e os seus leitores. Isso fica evidente,
por exemplo, no trecho: “Somos capazes de andar dezenas de quilômetros
por quilo de feijão ingerido.” Há também o emprego de uma me táfora,
“haste... espécie de embreagem”, recurso pouco comum em textos
científicos.
Nosso andar é elegante e gracioso, e também extremamente
eficiente do ponto de vista energético. Somos capazes de andar
dezenas de quilômetros por quilo de feijão ingerido. Ate agora,
nenhum sapato, nenhuma técnica especial de balançar os braços,
ou qualquer outro truque foram capazes de melhorar o número de
quilômetros caminhados por quilo de feijão consumido. Mas,
agora, depois de anos investigando o funcionamento de nossas
pernas, um grupo de cientistas construiu uma traquitana simples,
mas extremamente sofisticada, que é capaz de diminuir o consumo
de energia de uma caminhada em até 10%. 
Trata-se de um pequeno exoesqueleto que recobre nosso pé e
fica preso logo aboixo do joelho. Ele mimetiza o funcionamento do
tendão de Aquiles e dos músculos ligados ao tendão. Uma haste
no altura do tornozelo, a qual se projeta para trás, segura uma
ponta de uma mola. Outra haste, logo abaixo do joelho, segura
uma espécie de embreagem (...). 
Fernando Reinach, 
www.estadao.com.br, 13/06/2015. Adaptado.
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Português
Curso Extensivo – B
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Para responder às questões de 1 a 2, leia o soneto de Raimundo Correia
(1859-1911).
1. (Unesp-2018)
a) Que processo o soneto de Raimundo Correia retrata?
RESOLUÇÃO
O soneto retrata o crepúsculo, o anoitecer. O escurecimento da natureza
ocorre, pouco a pouco, como se nota, por exemplo, no último terceto:
A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece.
b) A primeira estrofe do soneto é composta por três períodos simples
em ordem indireta (“Esbraseia o Ocidente na agonia / O sol”; “Aves
em bandos destacados, / Por céus de ouro e de púrpura raiados, /
Fogem”; e “Fecha-se a pálpebra do dia”). Reescreva esses três
períodos em ordem direta.
RESOLUÇÃO
Colocando-se os versos em ordem direta, tem-se:
1) O sol esbraseia o Ocidente na agonia.
2) Aves fogem em bandos destacados por céus raiados de outro e de
púrpura.
3) A pálpebra do dia fecha-se.
2. (Unesp-2018)
a) Há no soneto menção a um sentimento que permeia e circunda a
natureza retratada. Que sentimento é esse? Do que decorre tal
sentimento?
RESOLUÇÃO
A descrição do anoitecer está associada à melan colia causada pelo declínio
do sol, o qual se assemelha à agonia crescente proporcionada pela sombra
resultante do recuo da luz do dia.
b) Verifica-se na terceira estrofe a ocorrência de uma antítese. Que
termos configuram essa antítese?
RESOLUÇÃO
Há antítese no verso: “A sombra à proporção que a luz recua...”, em que
os termos “sombra” e “luz” apresentam ideias opostas.
Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol... Aves em bandos destacados,
Por céus de ouro e de púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...
Delineiam-se, além, da serrania
Os vértices de chama aureolados,
E em tudo, emtorno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia...
Um mundo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua...
A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece. 
(Poesia completa e prosa, 1961.)
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Revisão PORTUGUÊS
MÓDULO 11 Sintaxe (I)
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Leia o trecho inicial do artigo “Artifícios da inteligência”, do físico
brasileiro Marcelo Gleiser (1959- ), para responder às questões 3 e 4.
3. (Unesp-2018)
a) Para o físico Marcelo Gleiser, o que distingue as tecnologias
transumanas daquelas apenas corretivas? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO
Segundo o texto, as tecnologias corretivas regula rizam deficiências físicas
existentes, não têm como objetivo a ampliação de características cognitivas,
como é o caso do transumanismo.
b) Cite dois termos empregados em sentido figurado no primeiro
parágrafo do artigo.
RESOLUÇÃO
São exemplos de termos empregados em sentido figurado: “engavetado”,
metáfora que se refere a estar preso no congestionamento, e “navegar”,
também metáfora, referindo-se a passar de um sítio para outro na internet.
Considere a seguinte situação: você acorda atrasado para o
trabalho e, na pressa, esquece o celular em casa. Só quando
engavetado no tráfego ou amassado no metrô você se dá conta.
E agora é tarde para voltar. Olhando em volta, você vê pessoas
com celular em punho conversando, mandando mensagens,
navegando na internet. Aos poucos, você vai sendo possuído por
uma sensação de perda, de desconexão. Sem o seu celular, você
não é mais você.
A junção do humano com a máquina é conhecida como
“transumanismo”. Tema de vários livros e filmes de ficção
científica, hoje é um tópico essencial na pesquisa de muitos
cientistas e filósofos. A questão que nos interessa aqui é até que
ponto essa junção pode ocorrer e o que isso significa para o
futuro da nossa espécie.
Será que, ao inventarmos tecnologias que nos permitam
ampliar nossas capacidades físicas e mentais, ou mesmo
máquinas pensantes, estaremos decretando nosso próprio fim?
Será esse nosso destino evolucionário, criar uma nova espécie
além do humano?
É bom começar distinguindo tecnologias transumanas
daquelas que são apenas corretivas, como óculos ou aparelhos
para surdez. Tecnologias corretivas não têm como função ampliar
nossa capacidade cognitiva: só regularizam alguma deficiência
existente.
A diferença ocorre quando uma tecnologia não apenas corrige
uma deficiência como leva seu portador a um novo patamar, além
da capacidade normal da espécie humana. Por exemplo, braços
robóticos que permitem que uma pessoa levante 300 quilos, ou
óculos com lentes que dotam o usuário de visão no infravermelho.
No caso de atletas com deficiência física, a questão se torna bem
interessante: a partir de que ponto uma prótese como uma perna
artificial de fibra de carbono cria condições além da capacidade
humana? Nesse caso, será que é justo que esses atletas compitam
com humanos sem próteses?
Poderia parecer que esse tipo de hibridização entre tecnologia
e biologia é coisa de um futuro distante. Ledo engano. Como no
caso do celular, está acontecendo agora. Estamos redefinindo a
espécie humana através da interação – na maior parte ainda
externa – com tecnologias que ampliam nossa capacidade.
Sem nossos aparelhos digitais – celulares, tabletes, laptops –
já não somos os mesmos. Criamos personalidades virtuais, ativas
apenas na internet, outros eus que interagem em redes sociais
com selfies arranjados para impressionar; criações remotas,
onipresentes. Cientistas e engenheiros usam computadores para
ampliar sua habilidade cerebral, enfrentando problemas que, há
apenas algumas décadas, eram considerados impossíveis. Como
resultado, a cada dia surgem questões que antes nem podíamos
contemplar.
(Folha de S.Paulo, 01.02.2015. Adaptado.)
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4. (Unesp-2018)
a) De acordo com o físico, nós já podemos ser considerados
transumanos? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO
Segundo o autor, o transumanismo, “hibridismo entre tecnologia e
biologia”, já está ocorrendo. Marcelo Gleiser considera que os seres
humanos estão ampliando sua capacidade por meio de tecnologias que os
redefinem de modo que as pessoas já não são as mesmas, caso percam o
acesso aos aparelhos eletrônicos, tal como acontece no caso do celular.
b) Dêiticos: expressões linguísticas cuja interpretação depende da
pessoa, do lugar e do momento em que são enunciadas. Por
exemplo: “eu” designa a pessoa que fala “eu”. 
(Ernani Terra. Leitura do texto literário, 2014.)
Cite dois dêiticos empregados nos dois primeiros parágrafos do
texto.
RESOLUÇÃO
O pronome de tratamento “você” foi empregado em sentido generalizante,
pois não se refere a uma pessoa em particular, mas a todos os que já
vivenciaram as situações descritas no primeiro parágrafo. No segundo
parágrafo, o pronome pessoal oblíquo “nos” refere-se ao próprio autor do
texto, é usado como plural de modéstia. O pronome possessivo “nossa”
refere-se à espécie humana.
Texto para questão 5.
5. (FUVEST-2017)
a) Explique por que o autor agradece “imediatamente depois de
receber o volume”.
RESOLUÇÃO:
Segundo o autor, o agradecimento prescinde da leitura do livro recebido de
presente. Assim, o escritor se esquivaria da possibilidade de elogiar um
livro que poderia não lhe agradar.
b) Levando em conta o contexto, reescreva duas vezes o trecho “sem
lê-lo”, substituindo “sem” por “sem que”, na primeira vez, e por
“mesmo não”, na segunda.
RESOLUÇÃO:
O trecho reescrito ficaria em 1) “é menor pecado elogiar um mau livro sem
que o tenha lido”, e em 2) “é menor pecado elogiar um mau livro mesmo não
o tendo lido”. Trata-se, portanto, de uma questão sobre sintaxe de colocação
e emprego de verbos em tempos compostos. Em 1, a próclise ocorre em função
da locução subordinativa “sem que”, e em 2, a próclise ocorre devido ao
advérbio de negação “não”.
É menor pecado elogiar um mau livro, sem lê-lo, do que depois
de o haver lido. Por isso, agradeço imedia tamente depois de
receber o volume.
(Carlos Drummond de Andrade, Passeios na ilha)
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Leia a fábula “A raposa e o lenhador”, do escritor grego Esopo (620
a.C.?-564 a.C.?), para responder às questões de 6 a 9.
6. (UNIFESP-2017) – A moral mais apropriada para fechar a fábula
seria:
a) Esta fábula pode ser dita a propósito de homens desventurados que,
quando estão em situações embaraçosas, rezam para encontrar uma
saída, mas assim que encontram procuram evitá-las.
b) Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito daqueles
homens que nitidamente proclamam ações nobres, mas na prática
realizam atos vis.
c) Esta fábula mostra que os homens desatentos prestam atenção nas
coisas de que esperam tirar proveito, mas permanecem apáticos em
relação àquelas que não lhes agradam.
d) Assim, alguns homens se entregam a tarefas arriscadas, na
esperança de obter ganhos, mas se arruínam antes mesmo de chegar
perto do que almejam.
e) Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito de um homem
frouxo que reclama de ínfimas desgraças, enquanto ela própria
suporta, sem dificuldade, desgraças enormes.
RESOLUÇÃO:
É nítida, na fábula “A raposa e o lenhador”, de Esopo, o ensinamento moral
acerca de pessoas que, com hipocrisia, escondem suas práticas vis,
mascarando-as por meio de um discurso em que buscam apresentar
nobreza de caráter.
Resposta: B
7. (UNIFESP-2017) – “Entretanto, como eles não prestaram
atenção nos seus gestos, deram crédito às suas palavras.”Em relação à oração que a sucede, a oração destacada tem sentido de
a) causa.
b) conclusão.
c) proporção.
d) consequência.
e) comparação.
RESOLUÇÃO:
A oração destacada estabelece relação de causa com a oração posterior, que
é a sua consequência.
Resposta: A
8. (UNIFESP-2017) – Os trechos “Ele sugeriu que ela entrasse em
sua cabana” e “vieram os caçadores e perguntaram ao lenhador se ele
tinha visto uma raposa” foram construídos em discurso indireto. Ao se
transpor tais trechos para o discurso direto, o verbo “entrasse” e a
locução verbal “tinha visto” assumem, respectivamente, as seguintes
formas:
a) “entrai” e “vira”.
b) “entrou” e “viu”.
c) “entre” e “vira”.
d) “entre” e “viu”.
e) “entrai” e “viu”.
RESOLUÇÃO:
No discurso indireto, a forma verbal “entrasse”, no imperfeito do
subjuntivo, passa, no discurso direto, para o imperativo: “entre”. O
pretérito mais-que-perfeito composto “tinha visto”, no discurso indireto,
passa para o pretérito perfeito no discurso direto: “viu”.
Resposta: D
9. (UNIFESP-2017) – “Quanto à inveja, pregou friamente que era
a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa,
que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.” (4.°
parágrafo)
Os termos em destaque constituem, respectivamente,
a) um pronome e um artigo.
b) uma conjunção e um artigo.
c) um artigo e uma preposição.
d) um pronome e uma preposição.
e) um artigo e uma conjunção.
RESOLUÇÃO:
Em “a virtude”, o a é artigo definido porque antecede um substantivo. Em
“chegava a suprir”, o a é preposição, uma vez que se encontra em uma
locução verbal.
Resposta: C
Enquanto fugia de caçadores, uma raposa viu um lenhador e lhe
pediu que a escondesse. Ele sugeriu que ela entrasse em sua cabana
e se ocultasse lá dentro. Não muito tempo depois, vieram os
caçadores e perguntaram ao lenhador se ele tinha visto uma raposa
passar por ali. Em voz alta ele negou tê-la visto, mas com a mão fez
gestos indicando onde ela estava escondida. Entretanto, como eles
não prestaram atenção nos seus gestos, deram crédito às suas
palavras. Ao constatar que eles já estavam longe, a raposa saiu em
silêncio e foi indo embora. E o lenhador se pôs a repreendê-la, pois
ela, salva por ele, não lhe dera nem uma palavra de gratidão. A
raposa respondeu: “Mas eu seria grata, se os gestos de sua mão
fossem condizentes com suas palavras.”
(Fábulas completas, 2013.)
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1. (FUVEST-2018) – Leia o texto.
a) No texto, que ideia é sintetizada pela palavra “crise”?
RESOLUÇÃO
O termo “crise”, no texto, sintetiza todo e qual quer conflito matrimonial,
o que poderia levar inclusive ao assassinato, o que desmente a con cepção
do caráter indissolúvel do matrimônio.
b) Reescreva a oração “tal como ele era concebido pela Igreja
Católica”, empregando a voz ativa e fazendo as adaptações
necessárias.
RESOLUÇÃO
Passando-se a frase na voz passiva para a ativa, tem-se: “tal como a Igreja
Católica o concebia (ou concebia-o). O pronome oblíquo “o” refere-se a
“vínculo do matrimônio”.
2. (FUVEST-2017) – Leia o seguinte texto, extraído de uma matéria
jornalística sobre supercomputadores:
a) Reescreva o trecho “é a de simulação climática: com quatrilhões
por segundo de processamento”, levando em conta a correção e a
clareza.
RESOLUÇÃO:
Reescrevendo o trecho, considerando correção e clareza, tem-se: Um
exemplo recorrente do uso desse tipo de equipamento, com (ou que tem)
capa cidade de processar quatrilhões de informações por segundo, é o de
simulação climática.
b) A palavra “cenários” (sublinhada no texto) foi empregada com o
mesmo sentido em suas duas ocorrências? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
Não. Na primeira ocorrência, a palavra “cenários” refere-se a simulações
de situações climáticas, por exemplo, de seca prolongada ou de excesso de
chuva. Na segunda ocorrência, a palavra “ce ná rios” tem sentido mais
genérico que a anterior, re fe rindo-se à capacidade de os
supercomputadores cria rem situações simuladas para estudos cientí ficos
das mais variadas áreas do conhecimento.
No Brasil colonial, o indissolúvel vínculo do matri mônio, tal
como ele era concebido pela Igreja Católica, nem sempre
terminava com a morte natural de um dos cônjuges. A crise do
casamento assumia várias formas: a clausura das mulheres,
enquanto os maridos continuavam suas vidas; a separação ou a
anulação do matrimônio decretadas pela Igreja; a transgressão
pela bigamia ou mesmo pelo assassínio do cônjuge.
Maria Beatriz Nizza da Silva, História da Família no Brasil
Colonial. Adaptado.
Supercomputadores são usados para cálculos de simulação
pesada. Um exemplo recorrente do uso desse tipo de equipamento
é a de simulação climática: com quatrilhões por segundo de
processamento, torna-se possível que um computador tenha
capacidade de calcular as oscilações meteorológicas. Isso ajuda a
prevenir desastres, ou a preparar políticas de apoio à agricultura,
se antecipando a cenários os mais variados.
Evidentemente, há outros usos, como pesquisas científicas que
precisam também simular cenários, com uma ampla gama de
variáveis. Estudos militares e de desenvolvimento de tecnologia
também se beneficiam do poder computacional desse tipo de
equipamento.
www.techtudo.com.br, 24.06.2016.
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MÓDULO 22 Sintaxe (II)
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3. (FUVEST-2018) – Examine a propaganda.
a) Considerando o contexto da propaganda, existe alguma relação de
sentido entre a imagem estilizada dos dedos e as palavras “digital”
e “diferença”? Explique.
RESOLUÇÃO
Digital é um adjetivo substantivado relativo a “dedos”, figurados na
imagem como pessoas, ou seja, representando as individualidades de cada
eleitor, assim como de suas impressões digitais. Quanto ao termo
“diferença”, ele se refere tanto a essa individualidade quanto à importância
de cada voto para a manutenção da democracia. Cabe lembrar que o
anúncio publicitário é de utilidade pública, pois divulga a necessidade de
os eleitores fazerem o cadastro biométrico que será utilizado nas próximas
eleições.
b) Sem alterar o modo verbal, reescreva o trecho “Venha para a
biometria. Cadastre suas digitais.”, passando os verbos para a
primeira pessoa do plural e fazendo as modificações necessárias.
RESOLUÇÃO
Reescrevendo a frase do anúncio, tem-se: “Venha mos para a biometria.
Cadastremos nossas digi tais”, pois os verbos de ambas as frases se en con -
tram no modo imperativo afirmativo, os quais, trans postos para a primeira
pessoa do plural, são derivados do presente do subjuntivo.
4. (FUVEST-2018) – Leia o texto.
Um tema frequente em culturas variadas é o do desafio à
ordem divina, a apropriação do fogo pelos mortais. Nos mitos
gregos, Prometeu é quem rouba o fogo dos deuses. Diz Vernant
que Prometeu representa no Olimpo uma vozinha de contestação,
espécie de movimento estudantil de maio de 1968. Zeus decide
esconder dos homens o fogo, antes disponível para todos, mortais
e imortais, na copa de certas árvores — os freixos — porque
Prometeu tentara tapeá-lo numa repartição da carne de um touro
entre deuses e homens.
——————-——————————————————————
Na mitologia dos Yanomami, o dono do fogo era o jacaré, que
cuidadosamente o escondia dos outros, comendo taturanas
assadas com sua mulher sapo, sem que ninguém soubesse. Ao
resto do povo – animais que naquela época eram gente – eles só
davam as taturanas cruas. O jacaré costumava esconder o fogo na
boca. Os outros decidem fazer uma festa para fazê-lo rir e soltar
as chamas. Todos fazem coisas engraçadas, mas o jacaré fica
firme, no máximo dá um sorrisinho.
Betty Mindlin, O fogo e as chamas dos mitos. 
Revista Estudos Avançados. Adaptado.
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a) O empregodo diminutivo nas palavras “vozinha” e “sorrisinho”,
consideradas no contexto, produz o mesmo efeito de sentido nos
dois casos? Justifique.
RESOLUÇÃO
O emprego do diminutivo não produz o mesmo efeito de sentido nas
palavras indicadas. Em “vozinha”, minimiza-se a contestação de Prometeu
à ordem vigente no Olimpo, comparando essa rebeldia à do movimento
estudantil de maio de 1968. Quanto a “sorrizinho”, o di minutivo evi dencia
que o jacaré percebeu a cilada prepa rada pelos outros animais e, de forma
irô nica, não gargalha, apenas sorri, quebrando a expectativa de seus
provocadores.
b) Reescreva o trecho “Os outros decidem fazer uma festa para fazê-
lo rir (...). Todos fazem coisas engraçadas”, substituindo o verbo
“fazer” por sinônimos adequados ao contexto em duas de suas três
ocorrências.
RESOLUÇÃO
Reescrevendo, tem-se: “Os outros decidem promo ver (produzir, efetuar)
uma festa para levá-lo (estimulá-lo, incentivá-lo) a rir (…). Todos rea lizam
(praticam, elaboram) coisas engraçadas”. Há outras possibilidades e
somente dois verbos deve riam ser substituídos.
Texto para as questões de 5 a 10.
5. (UNIFESP) – As informações do texto permitem afirmar que
a) a edição artesanal, como a praticada por João Cabral de Melo Neto,
permitiu que a cultura nacional fosse enriquecida com obras de
expressivos escritores.
b) as edições artesanais, como as de João Cabral de Melo Neto,
raramente se destinam à produção de obras literárias para pessoas
dos círculos íntimos de convi vência dos autores.
c) a edição artesanal é uma realidade específica do Brasil, retratando
a dificuldade que autores como Vinícius de Moraes e Guimarães
Rosa tiveram para publicar suas obras.
d) a venda de uma edição artesanal se dá com um grande volume de
livros, razão pela qual desperta grande interesse comercial e cultural
dos editores no Brasil.
e) os livreiros normalmente têm pouco interesse por livros artesanais,
como os de Manuel Bandeira e Cecília Meireles, por conside rarem-
nos uma forma menor de expressão artística.
RESOLUÇÃO:
Segundo o texto, João Cabral de Melo Neto fazia “ginástica poética” para
curar uma dor de cabeça. Como editor artesanal, publicou pequenos livros
divulgando a obra de grandes escritores brasileiros e estrangeiros.
Resposta: A
POETAS E TIPÓGRAFOS
Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta João
Cabral de Melo Neto foi a um médico por causa de sua crônica dor
de cabeça. Ele lhe receitou exercícios físicos, para “canalizar a
tensão”. João Cabral seguiu o conselho. Comprou uma prensa
manual e passou a produzir à mão, domesticamente, os próprios
livros e os dos amigos. E, com tal “ginástica poética”, como a cha -
mava, tornou-se essa ave rara e fascinante: um editor artesanal.
Um livro recém-lançado, “Editores Artesanais Brasileiros”, de
Gisela Creni, conta a história de João Cabral e de outros sonha -
dores que, desde os anos 50, enriqueceram a cultura brasileira a
partir de seu quarto dos fundos ou de um galpão no quintal.
O editor artesanal dispõe de uma minitipografia e faz tudo: escolhe
a tipologia, compõe o texto, diagrama-o, produz as ilustrações, tira
provas, revisa, compra o papel e imprime – em folhas soltas, não
costuradas – 100 ou 200 lindos exemplares de um livrinho que, se não
fosse por ele, nunca seria publicado. Daí, distribui-os aos subscritores
(amigos que se comprometeram a comprar um exemplar). O resto, dá
ao autor. Os livreiros não querem nem saber.
Foi assim que nasceram, em pequenos livros, poemas de –
acredite ou não – João Cabral, Manuel Bandeira, Drummond,
Cecília Meireles, Joaquim Cardozo, Vinicius de Moraes, Lêdo Ivo,
Paulo Mendes Campos, Jorge de Lima e até o conto “Com o
Vaqueiro Mariano” (1952), de Guimarães Rosa. E de Donne,
Baudelaire, Lautréamont, Rimbaud, Mallarmé, Keats, Rilke, Eliot,
Lorca, Cummings e outros, traduzidos por amor. 
João Cabral não se curou da dor de cabeça, mas valeu.
(Ruy Castro. Folha de S.Paulo, 17.08.2013. Adaptado.)
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6. (UNIFESP) – Com a frase – tornou-se essa ave rara e fascinante
– (1.º parágrafo), o autor vale-se de uma
a) hipérbole para sugerir que João Cabral melhorou após a prensa.
b) redundância para afirmar que João Cabral poderia dispensar a
prensa.
c) ironia para questionar João Cabral como editor arte sanal.
d) metáfora para externar uma avaliação positiva de João Cabral.
e) metonímia para atribuir uma ideia de genialidade a João Cabral.
RESOLUÇÃO:
Ruy Castro utilizou uma metáfora “ave rara e fas ci nante” para referir-se
a João Cabral, atribuindo a este a qualidade de ser extraordinário e
admirável. 
Resposta: D
7. (UNIFESP) – Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o
poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico por causa de sua
crônica dor de cabeça.
O trecho pode ser reescrito, sem prejuízo de sentido ao texto, por:
a) Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, tão logo sentiu sua
crônica dor de cabeça, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um
médico.
b) Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, como sentia dor de
cabeça crônica, o poeta João Cabral de Melo Neto foi a um médico.
c) Embora fosse vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta
João Cabral de Melo Neto foi a um médico sentindo crônica dor de
cabeça.
d) Por ser vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta João
Cabral de Melo Neto foi a um médico com crônica dor de cabeça.
e) Vice-cônsul do Brasil em Barcelona em 1947, o poeta João Cabral
de Melo Neto foi a um médico, mas era vítima de uma crônica dor
de cabeça.
RESOLUÇÃO:
A locução prepositiva por causa de pode ser substi tuída, sem prejuízo de
sentido, pela conjunção como, que também indica causa. 
Resposta: B
8. (UNIFESP) – Na oração – como a chamava – (1.º parágrafo), o
pro nome retoma:
a) ave rara e fascinante. b) tensão.
c) ginástica poética. d) crônica dor de cabeça.
e) prensa manual.
RESOLUÇÃO:
O pronome oblíquo a refere-se à prensa manual citada no período anterior. 
Resposta: E
9. (UNIFESP) – Na passagem – O editor artesanal dispõe de uma
minitipografia e faz tudo: escolhe a tipologia, compõe o texto,
diagrama-o, produz as ilustrações –, se a expressão editor artesanal
for para o plural, a sequência em destaque assume a seguinte redação,
de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa:
a) compõe o texto, diagrama-no, produz as ilustrações.
b) compõem o texto, diagrama-lo, produz as ilustrações.
c) compõem o texto, diagramam-no, produzem as ilus trações.
d) compõe o texto, diagramam-o, produzem as ilustra ções.
e) compõem o texto, diagramam ele, produz as ilustra ções.
RESOLUÇÃO:
Com o sujeito no plural “editores artesanais”, os verbos assumem a 3.ª
pessoa do plural, como consta da alternativa c. 
Resposta: C
10.(UNIFESP) – Assinale a alternativa em que se analisa corretamente
o fato linguístico do texto.
a) No trecho – O resto, dá ao autor. – (3.º parágrafo), a vírgula está
indevidamente empregada, pois não se separam termos imediatos,
no caso, sujeito e verbo da oração.
b) No trecho – João Cabral não se curou da dor de cabeça, mas valeu.
– (5.º parágrafo), o verbo valer está flexionado, concordando com
a expressão João Cabral.
c) No trecho – enriqueceram a cultura brasileira a partir de seu
quarto – (2.º parágrafo), o pronome em desta que refere-se ao poeta
João Cabral de Melo Neto.
d) No trecho – Comprou uma prensa manual e passou a produzir à
mão – (1.º parágrafo), a expressão em destaque indica circunstância
de conformidade.
e) No trecho – 100 ou 200 lindos exemplares de um livrinho – (3.º
parágrafo), o diminutivo do substantivo em destaque carrega-o de
conotação afetiva.
RESOLUÇÃO:
O emprego do diminutivo livrinho conota o sentimento de apreço e carinho
pela publicação. Em a, a vírgula está adequadamente empregadaporque
ficou elíptica a expressão “dos exemplares”; em b, o sujeito está implícito:
isso valeu; em c, o pronome possessivo seu refere-se aos “Editores
Artesanais Brasileiros”, em d, a locução à mão indica circunstância de
modo. 
Resposta: E
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1. (FUVEST-2017) – Leia este texto, publicado em 1905.
a) O sentido que se atribui, no texto, à palavra “retórica” é o de “arte
da eloquência, arte de bem argumentar; arte da palavra” (Houaiss)?
Justifique.
RESOLUÇÃO:
Não. O termo “retórica” está inserido em um contexto dominado por
vocábulos de carga semântica negativa: “verbiagem”, “oca”, “inútil”, “vã”.
Dessa forma, ele não pode ser entendido no sentido positivo consignado na
citação extraída do Houaiss. Na verdade, essa palavra assume valor
pejorativo, significando discurso afetado, de acessórios inúteis e conteúdo
vazio.
b) Mantendo-se o sentido que eles têm no contexto, que outra forma
os verbos “se encontrem” e “houvera” poderiam assumir?
RESOLUÇÃO:
A primeira frase está na voz passiva sintética, que tem como sujeito
composto “nem uma ideia original, nem uma só observação própria”.
Mantendo-se o sentido, pode-se passá-la para a voz passiva analítica:
Embora não sejam encontradas nos seus longos discursos e muitos volumes
nem uma ideia original, nem uma só observação própria. A segunda frase
apresenta um uso clássico literário do pretérito mais-que-perfeito do
indicativo, “houvera”, no lugar do pretérito imperfeito do modo
subjuntivo, “houvesse”: O escândalo viria se houvesse originalidade.
Por toda parte, a verbiagem,* oca, inútil e vã, a retórica [...]
pomposa, a erudição míope, o aparato de sabedoria resumem toda
a elaboração intelectual. [...] Aceitam-se e proclamam-se os mais
altos representantes da intelectualidade: os retóricos inveterados,
cuja palavra abundante e preciosa impõe-se como sinal de gênio,
embora não se encontrem nos seus longos discursos e muitos
volumes nem uma ideia original, nem uma só observação própria.
E disto ninguém se escandaliza; o escândalo viria se houvera
originalidade.
(Manoel Bomfim, A América Latina: 
males de origem. Adaptado.)
*verbiagem: falatório longo mas com pouco sentido ou utilidade;
verborragia.
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MÓDULO 33 Sintaxe (III)
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2. (FUVEST-2018) – Leia o texto e responda ao que se pede.
a) No texto, o autor retifica o que corriqueiramente se entende por
“morte natural”? Justifique.
RESOLUÇÃO
O autor argumenta que a ideia de morte natural (“morrer de esgotamento
em virtude uma extre ma velhice”) é na verdade uma exceção, pou cas vezes
acontece, sendo, portanto, pouco na tural. Também salienta que é natural
morrer de aci den tes ou de doenças, já que não vai contra a natureza do
homem sucumbir ao sofrer algum trauma físico.
b) A que palavra ou expressão se referem, respecti vamente, os
pronomes destacados no trecho “Vejo que os filósofos lhe assinam
um limite bem menor do que o fazemos comumente”?
RESOLUÇÃO
O pronome pessoal oblíquo “lhe” refere-se a “du ração da vida”; o pronome
demonstrativo “o” refere-se a “limite”.
3. (UNICAMP-2017) – Leia o excerto abaixo, adaptado do ensaio
Para que servem as humanidades?, de Leyla Perrone-Moisés.
a) As expressões “agregar valorˮ e “cultivo de valoresˮ, embora
aparentemente próximas pelo uso da mesma palavra, produzem
efeitos de sentido distintos. Explique-os.
RESOLUÇÃO:
“Agregar valor”, no contexto, tem sentido quan titativo, pois se refere às
informações e conhecimento que o indivíduo adquire sem apro fun da men -
to. “Cultivo de valores” implica a aquisição de saberes por meio de
posicionamentos críticos e reflexivos constantes, que se desenvol vem não
apenas ao longo da vida acadêmica, mas por toda a existência.
b) Na última oração do texto, são utilizados dois elemen tos coesivos:
“elesˮ e “à qualˮ. Aponte a que se refere, respectivamente, cada um
desses elementos.
RESOLUÇÃO:
Os elementos coesivos “eles” e “à qual” referem-se, respecti vamente, a “os
cursos de humanidades” e “sociedade”, assim a ideia que se estabelece é a
de que os cursos de humanidades estudam a socie dade e a ela servem.
As humanidades servem para pensar a finalidade e a qualidade
da existência humana, para além do simples alongamento de sua
duração ou do bem-estar baseado no consumo. Servem para
estudar os problemas de nosso país e do mundo, para humanizar
a globalização. Tendo por objeto e objetivo o homem, a capacidade
que este tem de entender, de imaginar e de criar, esses estudos
servem à vida tanto quanto a pesquisa sobre o genoma. Num
mundo informatizado, servem para preservar, de forma articulada,
o saber acumulado por nossa cultura e por outras, estilhaçado no
imediatismo da mídia e das redes. Em tempos de informação
excessiva e superficial, servem para produzir conhecimento; para
“agregar valorˮ, como se diz no jargão mercadológico. Os cursos
de humani dades são um espaço de pensamento livre, de busca
desinteressada do saber, de cultivo de valores, sem os quais a
própria ideia de universidade perde sentido. Por isso merecem o
apoio firme das autoridades universitárias e da sociedade, que eles
estudam e à qual servem.
(Adaptado de Leyla Perrone-Moisés, Para que servem as
humanidades? Folha de São Paulo, São Paulo, 30 jun. 2002,
Caderno Mais!.)
Da idade
Não posso aprovar a maneira por que entendemos a duração
da vida. Vejo que os filósofos lhe assinam* um limite bem menor
do que o fazemos comumente. (...) Os [homens] que falam de uma
certa duração normal da vida, estabelecem-na pouco além. Tais
ideias seriam admissíveis se existisse algum privilégio capaz de os
colocar fora do alcance dos acidentes, tão numerosos, a que
estamos todos expostos e que podem interromper essa duração
com que nos acenam. E é pura fantasia imaginar que podemos
morrer de esgotamento em virtude de uma extrema velhice, e
assim fixar a duração da vida, pois esse gênero de morte é o mais
raro de todos. E a isso chamamos morte natural como se fosse
contrário à natureza um homem quebrar a cabeça numa queda,
afogar-se em algum naufrágio, morrer de peste ou de pleurisia;
como se na vida comum não esbarrássemos a todo instante com
esses acidentes. Não nos iludamos com belas palavras; não
denominemos natural o que é apenas exceção e guardemos o
qualificativo para o comum, o geral, o universal.
Morrer de velhice é coisa que se vê raramente, singular e
extraordinária e portanto menos natural do que qualquer outra.
É a morte que nos espera ao fim da existência, e quanto mais
longe de nós menos direito temos de a esperar.
Michel de Montaigne, Ensaios. Editora 34. Trad. de Sérgio Milliet.
*assinar: fixar, indicar.
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Texto para a questão 4.
4. (FUVEST)
a) Reescreva os dois primeiros períodos, substi tuindo os verbos
“chamar” e “reconhecer” por substan tivos que não sejam da mesma
família desses verbos. Faça apenas as adaptações neces sárias,
mantendo o sentido original.
RESOLUÇÃO: 
A designação (ou qualificação) do dicionário de (como) pai-dos-burros é
que é burrice. A confissão (ou aceitação) de um desconhecimento não é uma
virtude?
No texto, chamar equivale a "designar", "qualificar"; reconhecer está
empregado no sentido de "confessar", "aceitar".
b) Reescreva o último período do texto, utilizando agora as formas
“não costuma” e “dispensa”. Faça apenas as alterações neces sárias,
mantendo o sentido original.
RESOLUÇÃO: 
Se a inteligência não costuma vir sempre acompanhada da inso lên cia, a
burrice dispensa a força da humildade.
Tirinha para a questão 5.
5. (FUVEST-2017)
a) A dificuldade explicitada no último quadrinho verifica-se apenas
na redação de cartas ou ocorre também na redação dos gênerostextuais romance e conto? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
Para o personagem da tirinha, escrever uma carta é difícil em razão dos
sistemas eletrônicos de comunicação. Pode-se interir que essa dificuldade
ocorre porque a linguagem utilizada na internet, no e-mail, apesar de
escrita, está mais próxima da oralidade do que a linguagem das cartas, que
normalmente exige maior formalidade. Portanto, essa dificuldade deve
ocorrer também na elaboração de outros gêneros textuais, como romance
e conto, por haver maior preocupação com as normas gramaticais e exigir
maior formalidade em sua elaboração.
b) O texto que compõe as falas dos quadrinhos pertence inteiramente
à modalidade escrita da língua portuguesa? Justifique sua resposta,
com base em elementos presentes no texto.
RESOLUÇÃO:
Não, ainda que as falas dos quadrinhos privilegiem a modalidade escrita da
língua portuguesa, apresentam expressões coloquiais como “você sabe”,
como toda essa coisa de internet”, “é escrever uma coisa”.
Chamar o dicionário de pai-dos-burros é que é burrice.
Reconhecer um desconhe cimento não é uma virtude? Se a burrice
costuma vir sempre acompanhada da insolência, a inteligência não
dispensa a força da humildade.
LAERTEVISÃO
ESCREVER CARTAS,
HOJE EM DIA, É BEM
DIFÍCIL, MEU CARO
AMIGO.
VOCÊ SABE – COM
TODA ESSA COISA DE
INTERNET, E-MAIL...
PORÉM, O MAIS DIFÍCIL,
MESMO, NÃO É (PARA
MIM, PELO MENOS)
ESCREVER
EM SI.
É ESCREVER UMA
COISA ENQUANTO
FALO OUTRA.
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1. (UNICAMP-SP-2018) – O trecho abaixo corresponde à parte final
do primeiro Sermão de Quarta-Feira de Cinza, pregado em 1672 pelo
Padre Antônio Vieira.
a) Levando em conta o trecho e o propósito argumentativo do Sermão,
explique por que, segundo Vieira, se deve preservar “a memória da
morte”.
RESOLUÇÃO:
O primeiro Sermão de Quarta-Feira de Cinza desenvolve o tema da
vaidade e do desengano da vida, fatores perigosos para quem almeja a
salvação da alma. No trecho acima, o objetivo do orador é convencer o
receptor de que, para que se consiga a salvação, é preciso sempre ter em
mente a extrema importância da hora da sua morte, pois é nesse momento
em que se dará conta das escolhas feitas em vida e que se arcará com as
consequências dessas escolhas. Em resumo, é o momento em que se
assegurará a salvação no Paraíso ou a danação no Inferno. O verdadeiro
seguidor dos preceitos divinos deve afastar-se dos valores mundanos, da
vaidade, pois são efêmeros e enganosos e causam a perdição da alma.
b) Considere as perguntas presentes no trecho e explique sua função
para a mensagem final do Sermão.
RESOLUÇÃO:
As interrogações presentes no trecho funcionam como perguntas retóricas
e têm como objetivo provocar a reflexão do receptor e induzi-lo a ter
comportamento adequado para a salvação da alma. A intenção de todas
essas perguntas, portanto, é fazer com que aquele que queira ser um bom
cristão avalie a forma como vive e busque orientar sua existência de
maneira a assegurar o Paraíso.
Em que cuidamos, e em que não cuidamos? Homens mortais,
homens imortais, se todos os dias podemos morrer, se cada dia nos
imos chegando mais à morte, e ela a nós; não se acabe com este dia
a memória da morte. Resolução, resolução uma vez, que sem
resolução nada se faz. E para que esta resolução dure, e não seja
como outras, tomemos cada dia uma hora em que cuidemos bem
naquela hora. De vinte e quatro horas que tem o dia, por que se não
dará uma hora à triste alma? Esta é a melhor devoção e mais útil
penitência, e mais agradável a Deus, que podeis fazer nesta
Quaresma. (...) Torno a dizer para que vos fique na memória:
Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é
bem que viva? Memento homo.
(VIEIRA, Antônio. Sermões de Quarta-Feira de Cinza.
Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2016, p.102.)
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MÓDULO 44 Literatura e Análise de Textos Literários – I
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Texto para a questão 2.
2. Vieira afirma que “duas coisas prega hoje a Igreja”. Com base no
exposto pelo autor:
a) Aponte a semelhança entre essas duas coisas.
RESOLUÇÃO:
As duas coisas que a Igreja prega são certas, ou seja, são indubitáveis,
inquestionáveis, têm sua existência garantida. Além disso, há a palavra pó
como característica intrínseca à condição humana. 
b) Indique as diferenças entre elas.
RESOLUÇÃO:
Uma das coisas que a Igreja prega é evidente e futura, ou seja, fácil de
perceber que acontecerá em tempos vindouros. A outra é dificultosa e
presente, ou seja, é difícil perceber que esteja ocorrendo no presente
momento. 
Texto para as questões de 3 a 5.
3. (UFSCar-SP – adaptada)
a) De que forma o autor reproduz, no texto escrito, características
próprias do discurso falado?
RESOLUÇÃO:
No texto de Vieira, percebem-se várias construções em que o orador se
dirige ao receptor, ao ouvinte do sermão: “Ora, (...) perguntar-me-eis”,
“Não é assim?”. Essas expressões, que buscam o contato com o receptor, são
bem próprias do discurso falado. A própria série de orações interrogativas
pressupõe um receptor de um discurso falado.
b) Antes de iniciar sua pregação, Vieira fundamenta-se num
argumento que, do ponto de vista religioso, se mostra incontestável.
Transcreva esse argumento e explique-o.
RESOLUÇÃO:
A afirmação “pois Deus o disse” corresponde ao argumento de fé utilizado
por Vieira. Como se trata de uma afirmação de Deus, deve então, do ponto
de vista religioso, ser tomada como um fato inquestionável, dogmático.
Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas
gratuitas, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma
de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento
para a crer; outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum
entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura;
mas a futura veem-na os olhos; a presente não a alcança o
entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es,
et in pulverem reverteris. Sois pó, e em pó vos haveis de converter.
Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura. O
pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, veem-no os
olhos: o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o veem, nem
o entendimento o alcança. Que me diga a Igreja que hei de ser
pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento
para o crer. Naquelas sepulturas, ou abertas, ou cerradas, o estão
vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas
pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali
há, é o nada que havemos de ser: tudo pó.
(VIEIRA, Antônio.
“Sermão da Quarta-Feira de Cinza: ano de 1672”.
In: A Arte de Morrer. São Paulo: Nova Alexandria, 1994, p. 47.)
Ora, suposto que já somos pó, e não pode deixar de ser, pois
Deus o disse, perguntar-me-eis, e com muita razão, em que nos
distinguimos logo os vivos dos mortos? Os mortos são pó, nós
também somos pó; em que nos distinguimos um dos outros?
Distinguimo-nos os vivos dos mortos, assim como se distingue o
pó do pó. Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído; os
vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz. Hic jacet. Estão
essas praças no Verão cobertas de pó: dá um pé de vento, levanta-se
o pó no ar, e que faz? O que faz os vivos, e muitos vivos. Não
aquieta o pó, nem pode estar quedo; anda, corre, voa; entra por
esta rua, sai por aquela; já vai adiante, já torna atrás; tudo enche,
tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo toma, tudo cega, tudo
penetra, em tudo e por tudo se mete, sem aquietar nem sossegar um
momento, enquanto o vento dura. Acalmou o vento: cai o pó, e onde
o vento parou, ali fica; ou dentro de casa, ou na rua, ou em cima
de um telhado, ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na campanha.
Não é assim? Assim é.
(VIEIRA,Antônio.
“Sermão da Quarta-Feira de Cinza: ano de 1672”.
In: A Arte de Morrer. São Paulo: Nova Alexandria, 1994, p. 54.)
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4. “Distinguimo-nos os vivos dos mortos, assim como se distingue o pó
do pó.”
a) O trecho acima contém uma afirmação aparentemente absurda, um
paradoxo. Explique.
RESOLUÇÃO:
O paradoxo consiste na afirmação de que o pó se distingue do pó. Na
verdade, trata-se de um absurdo aparente, pois a palavra pó não tem o
mesmo sentido nas duas ocorrências. Num caso, ela representa a
insignificância do homem, tem sentido conotativo; no outro, o que resultará
do homem após a morte, sendo o sentido literal.
b) Reescreva o trecho com seus termos na ordem direta.
RESOLUÇÃO:
Os vivos distinguimo-nos dos mortos, assim como o pó se distingue do pó.
5. Vieira contrasta duas realidades: a do pó levantado e a do pó caído.
a) Como, sintaticamente, essa oposição se realiza no texto?
RESOLUÇÃO:
A realidade do pó levantado é expressa por meio de uma sequência de
orações coordenadas assindéticas curtas, o que conota o dinamismo da
vida: “anda, corre, voa; entra por esta rua, sai por aquela; já vai adiante,
já torna atrás; tudo enche, tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo
toma, tudo cega, tudo penetra”. Já a realidade do pó caído é expressa por
uma sequência de expressões em que se diminui a incidência de verbos que
semanticamente expressam intenso dinamismo: “Acalmou o vento: cai o
pó e onde o vento parou, ali fica, dentro de casa, ou na rua, ou em cima de
um telhado, ou no mar, ou no rio, ou no monte, ou na campanha.”
b) “Não aquieta o pó, nem pode estar quedo; anda, corre, voa; entra
por esta rua, sai por aquela; já vai adiante, já torna atrás; tudo
enche, tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba, tudo toma, tudo
cega, tudo penetra, em tudo e por tudo se mete, sem aquietar nem
sossegar um momento, enquanto o vento dura.”
Considerando-se a relação de movimento e estaticidade entre o pó
levantado e o pó caído, indique qual dessas ideias (movimento ou
estaticidade) prevalece no trecho em análise e as figuras de linguagem
utilizadas para exprimi-la.
RESOLUÇÃO:
No trecho, prevalece a ideia de movimento (“anda, corre, voa”). A
construção desse trecho, visando-se à expressão de movimento, contém
gradação e assíndeto (“anda, corre, voa”), antítese (“entra por esta rua”,
“sai por aquela”; “já vai adiante, já torna atrás” e a anáfora do pronome
tudo (“tudo cobre, tudo envolve, tudo perturba...”). Há várias passagens
que podem servir de exemplos.
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1. Leia o trecho a seguir e responda ao que se pede:
a) No trecho transcrito, parte da nota de rodapé inserida pelo editor
ficcional das memórias de Silvestre da Silva, há uma crítica em
relação à sociedade lusa. Comente-a.
RESOLUÇÃO:
A crítica camiliana dirige-se ao representante de uma nobreza decadente,
que faz das mulheres objeto de prazer e de dominação oportunista.
b) A parte final do texto apresenta forte ironia do autor. Explique-a.
RESOLUÇÃO:
O conde envelhece pleno de saúde e na companhia de uma (recente)
amante, talvez não tão recente assim, já que tinha sido expulsa pela
condessa. O homem desfruta de regalias e não sofre punição por suas
atitudes, reforçando-se a crítica ao comportamento machista e sexista. 
2. Considerando as obras Coração, Cabeça e Estômago, de Camilo
Castelo Branco, e Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de
Assis, responda ao que se pede:
a) Silvestre da Silva e Brás Cubas, personagens, respectivamente, de
Coração, Cabeça e Estômago e de Memórias Póstumas de Brás
Cubas, superestimam ironicamente dois curiosos órgãos do corpo
humano em suas narrativas. Quais são eles e o que simbolizam?
RESOLUÇÃO:
Silvestre da Silva elege o estômago como guia de vida, pois libertaria o
homem dos sonhos do coração e do sofrimento que a racionalidade
provoca, e Brás Cubas exalta o poder do nariz, pois “Essa sublimação do
ser pela ponta do nariz é o fenômeno mais excelso do espírito. Cada homem
tem necessidade e poder de contemplar o próprio nariz (...) cujo efeito é a
subordinação do universo a um nariz somente”, constituindo “o equilíbrio
da sociedade”. O estômago simboliza a imposição dos prazeres
gastronômicos e irracionais na vida humana, e o nariz conota a
autoidolatria que impede o indivíduo de notar a existência do outro e do
jogo social.
b) Comparando-se os romances Coração, Cabeça e Estômago e
Memórias Póstumas de Brás Cubas quanto aos narradores, quais
semelhanças podem ser estabelecidas?
RESOLUÇÃO:
Os dois romances são memórias narradas pelas personagens centrais, mas,
em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o relato é feito por um defunto
autor, Brás Cubas, que, depois de sua morte, relata sua trajetória de vida.
Em Coração, Cabeça e Estômago, Silvestre da Silva é um escritor defunto
que deixou suas memórias para serem publicadas por um amigo, o editor
do livro.
Chamava-se Margarida a dama. Viveu ainda até 1857 e morreu
da febre amarela, e o filho também. Conta-se que o conde, receoso
do contágio, não ousara vir a Lisboa, das Caldas da Rainha, onde
estava, quando Margarida o mandou chamar para despedir-se.
Morreu contemplando os paroxismos do filho. Os criados
abandonaram-na no último dia. Estava sozinha quando expirou.
O conde está ótimo de saúde e transferiu a mobília de Margarida
para os aposentos de uma criada, que a condessa expulsou de
casa...
(Camilo Castelo Branco,
Coração, Cabeça e Estômago)
MÓDULO 55 Literatura e Análise de Textos Literários – II
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3. (FUVEST-SP-2018) – Leia o texto e responda ao que se pede:
1 – Murta: arbusto, árvore pequena.
a) É possível relacionar a imagem da murta ao destino de Iracema no
romance? Explique.
RESOLUÇÃO:
Na passagem, há um encadeamento de metáforas, que forma uma alegoria.
Iracema é simbolizada pela murta, que morre. O jacarandá frondoso
conota o colonizador Martim. É possível relacionar a imagem da murta
que morre ao destino de Iracema, pois, assim como a raiz da planta morre
para a árvore crescer, Iracema morre de paixão por Martim; é mártir do
amor.
b) A frase “Se ela não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer
tão alto” pode ser entendida como uma alegoria do processo de
colonização do Brasil?
Explique.
RESOLUÇÃO:
Sim, essa frase pode ser entendida como uma alegoria do processo de
colonização do País. Iracema, anagrama de América, simboliza a terra
primitiva e edênica. Martim, cujo sentido etimológico é “o filho do
guerreiro”, conota o colonizador luso, idealizado, com moral rigidamente
cristã, segundo o narrador. A metrópole portuguesa, simbolizada por
Martim, domina a terra, Iracema, aproveita-se dela, fazendo com que esse
mundo primitivo seja exterminado, ocasionando a extinção de uma raça,
conforme José de Alencar afirma na carta após o término do livro, que
elabora o mito da formação do Brasil.
4. (FUVEST-SP) – Considere os dois trechos de Machado de Assis,
relacionados a Iracema e publicados na época em que apareceu esse
romance de Alencar, e responda ao que se pede:
a) A poesia americana está completamente nobilitada; os maus poetas
já não podem conseguir o descrédito desse movimento, que venceu
com o autor de “I-Juca-Pirama”, e acaba de vencer com o autor
de Iracema.
(Adaptado de Machado de Assis, Crítica Literária)
Machado de Assis refere-se, neste trecho, a um movimento literário
chamado, na época, de “poesia americana” ou “escola americana”. Sob
que outro nome veio a ser conhecido esse movimento? Quais eram seus
principais objetivos?
RESOLUÇÃO:
Machado de Assis refere-se ao Indianismo, tendência românticabrasileira
cujo objetivo central era nobilitar o passado nacional, associando-o a mitos
heroicos elaborados por meio da idealização dos indígenas e de sua cultura,
assimilados a padrões europeus de excelência física e moral.
b) Tudo em Iracema nos parece primitivo; a ingenuidade dos
sentimentos, o pitoresco da linguagem, tudo, até a parte narrativa
do livro, que nem parece obra de um poeta moderno, mas uma
história de bardo1 indígena, contada aos irmãos, à porta da
cabana, aos últimos raios do sol que se entristece.
(Adaptado de Machado de Assis, Crítica Literária)
1 – Bardo: poeta heroico, entre os celtas e gaélicos; por extensão, qualquer
poeta, trovador etc.
No trecho, Machado de Assis afirma que a narração de Iracema não
parece ter sido feita por um “poeta moderno”, mas, sim, por um “bardo
indígena”. Essa afirmação se justifica? Explique sucintamente.
RESOLUÇÃO:
A afirmação é pertinente, pois o estilo de Iracema procura incorporar a
linguagem e a cosmovisão indígena. A tentativa de simular a cosmovisão
aborígene é visível, por exemplo, na marcação temporal, que toma como
parâmetro os ciclos da natureza. A apropriação da linguagem indígena
ocorre nos nomes próprios, nas aglutinações lexicais, nas perífrases e nas
comparações com elementos da natureza.
— Não veem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vai subindo
às nuvens? A seus pés ainda está a seca raiz da murta1 frondosa,
que todos os invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para
abraçar o tronco irmão. Se ela não morresse, o jacarandá não teria
sol para crescer tão alto.
(José de Alencar, Iracema)
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5. Leia o texto a seguir e responda ao que se pede:
a) Todo o enredo de Iracema gira em torno do núcleo do amor interdito
entre a virgem tabajara e o português desbravador das terras
brasileiras. Por que razão o amor deles é proibido e por que Martim
repele todas as circunstâncias favoráveis ao encontro sexual entre
eles? 
RESOLUÇÃO:
Iracema e Martim sentem forte atração entre si, no entanto Iracema é uma
virgem consagrada ao deus indígena Tupã e, portanto, uma sacerdotisa.
Como no mito cristão, a virgindade de Iracema não poderia ser maculada
por homem algum, para que o serviço da virgem fosse aceito pelo deus. Por
outro lado, o forte caráter moral do guerreiro cristão repelia todas as
circunstâncias favoráveis ao sexo, por sentir-se comprometido com a
hospitalidade que recebera de Araquém, pai de Iracema e autoridade
sacerdotal entre os tabajaras. Além disso, não queria colocar Iracema
numa situação em que a tribo a condenaria mortalmente.
b) Embora proibido, o encontro sexual entre Martim e Iracema
acontece. De que maneira isso foi possível?
RESOLUÇÃO:
O encontro sexual entre Martim e Iracema só se consuma porque ela lhe
fornece a bebida sagrada e alucinógena, o segredo da jurema. A
concretização do ato sexual, portanto, só é possível porque Martim está sob
efeito da droga. Para ele, as visões e sensações do corpo de Iracema não
passam de fantasia erótica, de “sonho”. Só mais adiante Martim perceberá
o que houve, quando Iracema lhe diz que não é mais a virgem de Tupã. 
c) A morte de Iracema pode ser prevista pelo leitor atento, se tiver
conhecimento das principais características românticas. Explique
em que a morte da protagonista pode ser considerada moralizante,
do ponto vista dessa escola literária.
RESOLUÇÃO:
A morte de Iracema acaba se tornando previsível no contexto, pois, além da
profecia de Araquém, no início do livro, pode-se notar que as escolhas da
protagonista a levarão a ser punida pelas profanações que cometeu. Tendo
traído o deus Tupã e se entregado sexualmente a um homem, ela paga por
esses erros. Tal punição, além de ser condizente com o contexto do romance,
também tem respaldo no caráter moralizante do Romantismo, escola em
que o desvio moral é geralmente punido exemplarmente, ainda que esse
desvio de conduta seja gerado por um motivo irrefreável, humana e
romanticamente compreensível, o amor. 
(...) tirou a virgem do seio o vaso que ali trazia oculto (...)
Martim lho arrebatou das mãos e libou as gotas do verde e amargo
licor. 
Agora podia viver com Iracema e colher em seus lábios o beijo
que ali viçava entre sorrisos como o fruto na corola da flor. Podia
amá-la e sugar desse amor o mel e o perfume, sem deixar veneno
no seio da virgem. 
(...) 
Quando veio a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada
qual borboleta que dormiu no seio do formoso cacto. 
(...) Vendo Martim a virgem unida a seu coração, cuidou que o
sonho continuava; cerrou os olhos para torná-los a abrir. 
(...) 
A filha de Araquém escondeu no coração a sua ventura. Ficou
tímida e inquieta, como a ave que pressente a borrasca no
horizonte. Afastou-se rápida e partiu. 
As águas do rio banharam o corpo casto da recente esposa. 
Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras.
(José de Alencar, Iracema)
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1. (UNICAMP-SP) – Em A Relíquia, de Eça de Queirós, várias são as
mulheres com quem Teodorico Raposo, o herói e narrador, se vê
envolvido. Entre elas, podemos citar Mary, Adélia, Titi, Jesuína, Cibele.
a) Uma dessas personagens é importantíssima para a trama do
romance, já que acompanha o narrador desde a infância, e deve-se
a ela a origem de todos os seus infortúnios posteriores. Quem é e o
que fez ela para que o plano de Raposo não desse certo? 
RESOLUÇÃO:
Entre as diversas personagens femininas citadas no enunciado da questão,
apenas uma acompanhou Teodorico Raposo desde a infância. Trata-se de
titi, sua tia D. Maria do Patrocínio das Neves, a cuja herança ele teria
direito, caso se comportasse como um perfeito católico (segundo a
perspectiva da tia). Como tal não acontece, e tendo sido descoberto o
engodo que Raposo lhe preparava, titi expulsa-o da casa e deserda-o.
b) A qual delas Raposo se refere quando diz “Tinha trinta e dois anos
e era zarolha”? Que relações tem essa personagem com Crispim, a
quem o narrador denomina “a firma”?
RESOLUÇÃO:
Trata-se de Jesuína, com quem Teodorico se casa. Trata-se da irmã de
Crispim, o próspero amigo, herdeiro da firma Crispim & Cia. Não sem
ironia, Teodorico chama-o “a firma”, para sugerir que a identidade do
amigo se sustenta mais no valor financeiro do que no afetivo. A nomeação
“a firma” corresponde à figura de palavra denominada metonímia, que se
baseia na relação de contiguidade.
2. No romance A Relíquia, de Eça de Queirós, logo após saber que o
Padre Negrão herdara o melhor da fortuna de G. Godinho e ainda tem
Adélia como amante, Teodorico Raposo chega a uma amarga
conclusão. 
a) Qual é essa conclusão? Comente-a.
RESOLUÇÃO:
Teodorico conclui que “fora esbulhado dos contos de G. Godinho
simplesmente” porque faltou no oratório da tia Patrocínio a coragem de
afirmar que aquela relíquia, a “camisa de dormir de Miss Mary”, era
melhor que a forjada coroa de espinhos de Cristo. Deveria ter dito: “é a
camisa de Santa Maria Madalena”. Acrescentando ainda que estava
acompanhada de uma carta sobre o gozo celestial que Maria Madalena
sentiu. Faltou-lhe, portanto, o descaramento de mentir com convicção,
alterando, assim, os fatos.
b) Pode-se dizer que essa conclusão sobre o que se considera verdade
se refere apenas ao elemento místico? Por quê?
RESOLUÇÃO:
Não se pode dizer isso, porque, como consta do último parágrafo do
romance, “‘esse descarado heroísmo de afirmar’, que batendo na Terra
com pé forte, ou palidamente elevando os olhos ao Céu, cria, através da
universal ilusão, ciências e religiões”.
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MÓDULO 66 Literatura e Análise de Textos Literários – III
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3. É correto afirmar que, além de críticasocial, o romance A Relíquia
também contém o elemento fantástico? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
Sim, além de crítica social — a hipocrisia religiosa —, o romance A Relíquia
também inclui o elemento fantástico, como indica a legenda do livro:
“Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”, base da
narrativa, que propicia o elemento alegórico ou fantástico. No sonho de
Teodorico em Jerusalém, tem-se não só a revelação da personalidade de
Teodorico, mergulhada em dilemas insolúveis, como também uma
“reconstituição histórica, erudita, altamente racional da morte de Jesus.
No seu sonho, fundem-se Realidade e Fantasia, Imaginação e Realismo, o
Fantástico e Naturalismo, e Teodorico, turista maganão, cético e algo
enfastiado, sempre a lamentar a falta dos prazeres mundanos da cidade de
Salomão, descobre a antiga cidade judaica, sendo repentinamente
testemunha inesperada do drama cristão, feito o Teodorico Evangelista,
autor de um novo evangelho, narrado na primeira pessoa” (extraído do
verbete sobre A Relíquia no Dicionário de Eça de Queirós). Há críticos que
chegam a classificar o capítulo 3 de A Relíquia como um pseudossonho.
4. (FUVEST-SP-2018) – Leia o texto e responda ao que se pede:
a) Pode-se afirmar que, neste excerto, além de resumir a existência de
D. Plácida, o narrador expressa uma certa concepção de trabalho?
Justifique.
RESOLUÇÃO:
Sim, o narrador não só resume a existência de D. Plácida, como também
expressa uma certa concepção de trabalho, já que ela, mulher livre e pobre,
trabalha arduamente, exercendo várias funções, e acaba, posteriormente
na narrativa, até mediando a relação adúltera da patroa Virgília com Brás
Cubas. Na trajetória existencial de D. Plácida, percebe-se que o trabalho
não enobrece, nem dá, no Segundo Reinado, condição decente ao homem
na sociedade patriarcal e escravagista do Brasil.
b) De que maneira o ritmo textual, que caracteriza a possível resposta
dos sacristãos, colabora para a caracterização de D. Plácida?
RESOLUÇÃO:
O ritmo textual é obtido pela extensa enumeração de breves orações
reduzidas de infinitivo, com ideia de finalidade, e de gerúndio, com ideia de
ação durativa. Em ambos os casos, esse andamento colabora para mostrar
que D. Plácida é submetida a uma vida subalterna e pobre, por imposição
social. O ritmo e o sentido do texto vão ao encontro da atarefada e dura
vida de D. Plácida.
5. Com base no trecho a seguir e no conto “O Espelho” como um todo,
responda ao que se pede:
É de crer que D. Plácida não falasse ainda quando nasceu,
mas se falasse podia dizer aos autores de seus dias: — Aqui estou.
Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente
lhe responderiam: — Chamamos-te para queimar os dedos nos
tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um
lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de
tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada,
amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos
na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para
isso que te chamamos, num momento de simpatia.
(Machado de Assis,
Memórias Póstumas de Brás Cubas)
— Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que
ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção
deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um
receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa
solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a
contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta
de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois.
Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do
universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga,
esfumada, difusa, sombra de sombra.
(...)
— Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de
todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não
lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral;
nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo,
o alferes, que achava, enfim, a alma exterior.
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a) Por que a concepção do caráter humano no conto “O Espelho” é
realista?
RESOLUÇÃO:
É realista porque, além da análise psicológica aguda, há a concepção de
que a nossa personalidade se forma a partir de valores externos, sociais. O
caráter deriva de uma atitude, de um status que a sociedade valoriza, e o
indivíduo procura se amoldar a isso, anulando a personalidade mais
profunda. Enfim, os elementos materiais e sociais formatam a
personalidade. A análise da imposição dos valores sociais e materiais sobre
os individuais é característica do Realismo.
b) O espelho reflete apenas a imagem da personagem que se olha? O
que conota o espelho, no conto homônimo de Machado de Assis? 
RESOLUÇÃO:
O espelho não reflete apenas a imagem de quem se olha, ele reflete o olhar
da sociedade, do outro formatando o caráter de quem se observa. Quando
falta esse olhar social, o narrador não se vê. Sem a farda, Jacobina não
aparece integralmente no vidro. O espelho conota o valor social a que o
indivíduo se submete para ser reconhecido e valorizado. O que Jacobina
busca no espelho “é a imagem de si tal qual a vê o olho do outro que o
agracia como alguém que subiu na vida. A opinião era o seu único espelho
fidedigno; ausente ela, quebrado este, a imagem que resta é o lado do
sujeito em enigma” (Alfredo Bosi), difusa, sem integridade. 
6. (FUVEST-SP) – Considere o excerto em que Araripe Júnior, crítico
associado ao Naturalismo, refere-se ao “estilo” praticado “nesta terra”,
isto é, no Brasil:
a) O modo pelo qual o crítico explica a feição que o “estilo” assume
“nesta terra” indica que ele compartilha com o Naturalismo um
postulado fundamental. Qual é esse postulado? Explique
resumidamente.
RESOLUÇÃO:
[FUVEST-SP-2017] Araripe Júnior defende a tese de que o Naturalismo,
estética de origem francesa, foi estilisticamente adaptado ao contexto
brasileiro. A referência a frutos que, nesta terra, deformam-se, como a
pinha, ou que provocam feridas na língua, é índice de uma doutrina
fundamental do Naturalismo: o determinismo, formulado por Hippolyte
Taine, que via o homem submetido inevitavelmente ao condicionamento de
raça, meio e momento. No texto de Araripe Júnior, há referência ao
determinismo do meio.
b) As características de estilo sugeridas pelo crítico, no excerto,
aplicam-se ao romance O Cortiço, de Aluísio Azevedo? Justifique
sucintamente sua resposta.
RESOLUÇÃO:
[FUVEST-SP-2017] Sim, a doutrina determinista, na qual se baseia Aluísio
Azevedo, justifica-se, dada a influência que o meio social do cortiço e a
natureza do Brasil exercem sobre as personagens, moldando-lhes o caráter
e a forma de vida. Exemplo notável disso é o caso de Jerônimo, imigrante
português, trabalhador, que se transforma completamente: abandona a
esposa e a filha, envolve-se com Rita Baiana (símbolo da terra e da
sexualidade brasileiras). Jerônimo foi vencido pelo sol e pelo calor do
Brasil: substitui os costumes alimentares e a música portugueses pelos
brasileiros, culminando o seu abrasileiramento na vagabundagem
embriagada. Jerônimo cede, portanto, à força do meio e é vencido por ele,
de forma semelhante ao que ocorre com Pombinha, menina educada em
meio abastado e que é influenciada pelo meio social, o cortiço, a partir da
absorção das intimidades dos moradores para os quais ela lia e escrevia
cartas. O sol tropical é também visto como elemento fertilizador, como
ocorre no momento da menarca de Pombinha.
O estilo, nesta terra, é como o sumo da pinha, que, quando viça,
lasca, deforma-se, e, pelas fendas irregulares, poreja o mel
dulcíssimo, que as aves vêm beijar; ou como o ácido do ananás do
Amazonas, que desespera de sabor, deixando a língua a verter
sangue, picada e dolorida.
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1. (FUVEST-SP-2018) – Leia o texto e atenda ao que se pede:
1 – Carpir-se: lamentar-se.
a) O ponto de vista do eu lírico em relação à “máquina do mundo”
ilustra as principais características de Claro Enigma? Justifique.
RESOLUÇÃO:
O livro Claro Enigma (1951), pertencente à terceira fase da obra de Carlos
Drummond de Andrade, caracteriza-se pelo questionamento metafísico e
pela crise existencial, afastando-se da temática social e da poética
iconoclasta das fases anteriores. Em “A Máquina do Mundo”, cuja forma
e conteúdo dialogam com a poesia do poeta renascentista Dante Alighieri,
há a possibilidade de o eu lírico desvendar “a total explicação da vida, /
esse nexo primeiro e singular”, pois a máquina fez-lhe esse convite, que é
surpreendentemente rejeitado. Penúltimo poema de Claro Enigma, “A
Máquina do Mundo” sintetiza um percurso reflexivo e insolúvel recorrente
no livro. O tom sombrio é evidenciado, nas quatro estrofes transcritas, nas
expressões “de chumbo”, “escuridão” e, principalmente, “desenganado”.
Esse sentido de perplexidade, de isolamento, é recorrente em Claro
Enigma, como se nota já nos dois versos iniciais do primeiro poema do
livro, “Dissolução”: “Escurece, e não me seduz / tatear sequer uma
lâmpada”.
b) Transcreva o verso que sintetiza o evento sublime de que trata o
texto.
RESOLUÇÃO:
O verso que sintetiza o evento sublime é “a máquina do mundo se
entreabriu”. 
A MÁQUINA DO MUNDO
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia1.
(...)
(Carlos Drummond de Andrade,
Claro Enigma)
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MÓDULO 77 Literatura e Análise de Textos Literários – IV
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Texto para as questões de 2 a 4.
2. Os poemas de Claro Enigma (1951) foram compostos durante a
disputa ideológica entre capitalismo e comunismo, no período da
chamada Guerra Fria, em que Estados Unidos e União Soviética
revelavam caminhos igualmente questionáveis em seus métodos de
ação. Drummond passa por um relativo esvaziamento de suas crenças
políticas — de tendência socialista —, que o faziam ter uma postura
poética compromissada com as questões sociais. A epígrafe de Claro
Enigma é um verso de Paul Valéry: “les événements m’ennuient” (os
acontecimentos me entediam).
a) Nas duas primeiras estrofes do poema “Dissolução”, como reage o
eu lírico diante da escuridão que se estabelece? Pode-se afirmar que
o poeta continua com a mesma postura engajada nas questões
sociais que revelou em livros anteriores?
RESOLUÇÃO:
Diante da escuridão, o eu lírico permanece de braços cruzados, sem ímpeto
de reagir: “não me seduz / tatear sequer uma lâmpada”, “aceito a noite”.
Portanto, depois de um período de engajamento político mais explícito,
Drummond recolhe-se a uma autorreflexão da maturidade. O abandono
da militância conduz o poeta a uma introspecção mais acentuada e à adoção
de formas poéticas mais tradicionais, como demonstram vários poemas de
Claro Enigma.
b) “Dissolução” é o primeiro poema de Claro Enigma e dá a tônica a
partir da qual se desenvolvem os poemas do livro, cuja parte inicial
é intitulada “Entre Lobo e Cão”. Pode-se dizer que a palavra
“escurece”, que inicia o poema, é a representação do nada?
Explique.
RESOLUÇÃO:
Não, pois a escuridão traz uma nova disposição das coisas, já que, com a
noite, o eu lírico não consegue delinear as figuras: “seres e coisas não
figuradas” que se apresentam agora numa nova disposição, organização
— “ordem outra de seres / e coisas não figuradas”.
3. Embora a definição de melancolia seja imprecisa, há um consenso
quanto a algumas de suas características, desde estudiosos antigos,
sendo entendida como: vazio interior, sensação de profundo desânimo
em relação à vida, reação à possível perda de um objeto e, a partir de
Freud, como sendo, talvez, a perda do próprio eu, a depressão diante
da impossível reação, a falta de noção de si mesmo.
a) Com base nas informações apresentadas, é correto afirmar que o eu
lírico de “Dissolução” está melancólico? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
Sim, é correto, pois nota-se o vazio interior do eu lírico, explicitado
sobretudo na terceira estrofe: “Vazio de quanto amávamos”, verso que
reflete profundo desânimo em relação ao mundo externo, que não o atrai,
é desinteressante e mais “vasto” do que o “eu” — “mais vasto é o céu” (que
escurece tudo). 
DISSOLUÇÃO
Escurece, e não me seduz
tatear sequer uma lâmpada.
Pois que aprouve ao dia findar,
aceito a noite.
E com ela aceito que brote 
uma ordem outra de seres
e coisas não figuradas.
Braços cruzados.
Vazio de quanto amávamos,
mais vasto é o céu. Povoações
surgem do vácuo.
Habito alguma?
E nem destaco minha pele
da confluente escuridão.
Um fim unânime concentra-se
e pousa no ar. Hesitando.
E aquele agressivo espírito
que o dia carreia consigo,
já não oprime. Assim a paz,
destroçada.
Vai durar mil anos, ou
extinguir-se na cor do galo?
Esta rosa é definitiva,
ainda que pobre.
Imaginação, falsa demente,
já te desprezo. E tu, palavra.
No mundo, perene trânsito,
calamo-nos.
E sem alma, corpo, és suave.
(Carlos Drummond de Andrade,
Claro Enigma)
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b) O primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, Alguma Poesia
(1930), apresenta um eu lírico definido, no primeiro poema, como
gauche — palavra da língua francesa que significa “canhoto,
esquerdo”, mas, metaforicamente, adquiriu o significado de
“diferente, estranho, deslocado em relação ao mundo”. Pode-se
afirmar que, no poema “Dissolução”, o eu lírico continua sendo
gauche, no sentido metafórico?
RESOLUÇÃO:
Sim, a afirmação procede, pois o eu lírico sente-se deslocado em relação à
nova situação, não se identifica nem com as pessoas, nem com qualquer
lugar, o que se nota no fato de ele não saber se habita alguma dessas novas
povoações: “... Povoações / surgem no vácuo. / Habito alguma?”. Ressalte-
se ainda a diferença de linguagem entre o primeiro livro, seguidor das
inovações vanguardistas modernistas, e Claro Enigma, cuja linguagem
ganha dimensão mais clássica, sem cortes abruptos. José Guilherme
Merquior classifica a terceira fase de Drummond como a do “Modernismo
classicizante”.
4. Apesar de a noite parecer um dado exterior, não se trata de algo
objetivo, mas de uma indicação da subjetividade, um índice de
desilusão, de falta de perspectivas em relação à realidade.
a) A afirmação está correta em relação à quarta estrofe? Justifique sua
resposta.
RESOLUÇÃO:
Sim, essa afirmação é pertinente, pois a exterioridade e a interioridade do
eu poético unem-se a tal ponto, que ele não pode destacar sua pele da
“confluente escuridão”. Impera a visão subjetiva nesse “fim unânime”.
b) Qual o significado da palavra “dissolução”, título do poema?
Relacione-a com o conteúdo da quarta estrofe.
RESOLUÇÃO:
Dissolução significa “decomposição, desagregação, deterioração”. O
indivíduo vê suas expectativas e esperanças dissolverem-se na noite e
percebe que se anuncia um término, retomado na quarta estrofe: “Um fim
unânime concentra-se / e pousa no ar. Hesitando.” A palavra “hesitando”
traz um caráter oscilante a esse epílogo, uma mistura de pressentimento e
ameaça real.
Leia o poema “Sonetilho do Falso Fernando Pessoa”, de Carlos
Drummond de Andrade (1902-1987), que integra o livro Claro
Enigma, publicado em 1951:
1 – Fausto: personagem do poematrágico homônimo de Goethe e que fez um
pacto com o diabo.
2 – Mefisto (ou Mefistófeles): personagem satânica da Idade Média, também
presente em Fausto, de Goethe.
3 – Oaristo: conversa carinhosa e familiar.
5. (UNESP) – Carlos Drummond de Andrade intitulou seu poema de
“Sonetilho do Falso Fernando Pessoa”. Por que razão o poeta se refere
a seu poema como “sonetilho”? Transcreva um verso em que a
referência aos heterônimos do escritor português Fernando Pessoa se
mostra evidente. Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
[UNESP-2017] Sonetilho é um soneto com versos curtos. No soneto clássico
petrarquista, há quatro estrofes (dois quartetos e dois tercetos) e o verso
tem dez sílabas métricas (versos decassílabos). O sonetilho de Drummond
também tem quatro estrofes (dois quartetos e dois tercetos), mas versos de
apenas seis sílabas métricas (versos hexassílabos). O poema mantém um
diálogo intertextual com a poesia de Fernando Pessoa e seus heterônimos,
e o verso que torna isso mais evidente é o último (“mas não sou eu, nem
isto”), a chave de ouro, a síntese do poema. Nesse verso, há referência à
despersonalização de Fernando Pessoa (“não sou eu”) e aos vários pontos
de vista de suas máscaras poéticas.
Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.
Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.
Nem Fausto1 nem Mefisto2,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo3,
eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.
(Carlos Drummond de Andrade,
Claro Enigma)
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1. (UNICAMP-SP-2018) – Na “Nota preliminar” escrita para a
primeira edição do livro Poemas Negros, de Jorge de Lima, o
antropólogo Gilberto Freyre afirma que, graças à “interpenetração de
culturas, entre nós tão livre”, e graças ao “cruzamento de raças, o Brasil
vai-se adoçando numa das comunidades mais genuinamente
democráticas e cristãs do nosso tempo”. Com base no poema
“Democracia”, responda às questões que se seguem:
a) A ideia de “adoçamento” social está presente tanto no poema de
Jorge de Lima quanto no texto de Gilberto Freyre. Aponte dois
episódios da formação do poeta, referidos no poema, que
exemplificam essa interpretação. Justifique sua escolha.
RESOLUÇÃO:
Pode-se entender a ideia de “adoçamento social” como um processo de
convívio interétnico, que escamoteia o choque social e cultural ocorrido na
formação da nação brasileira e que se prolongou na nossa sociedade. Essa
visão aparece também em Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, em
que se nota um orgulho por termos essa democracia mítica, tida como única
e diversa de outras culturas, em virtude desse elemento de convívio no
engenho. No poema “Democracia”, a interpenetração cultural ocorre em:
I) “Mãe-negra me contou histórias de bicho” (há influência da cultura
negra, da ama que cuidava do filho do senhor de engenho); II) “tocando
maracá” (há influência da cultura indígena, pois o maracá é um
instrumento musical de origem nativa); III) “brincando com as crioulas”
(há referência à relação erótica do filho do senhor de engenho com as
mulheres negras agregadas, e o convívio sexual aparece também em
“emprenhando tudo que encontrava”). A resposta admite também outros
versos, desde que tratem da interpenetração de culturas.
b) Considerando elementos da composição do poema, explique de que
maneira a ideia de “democracia”, presente no título, manifesta-se no
texto.
RESOLUÇÃO:
A palavra “democracia”, no poema, tem o sentido de convívio entre classes
e etnias e vai ao encontro do excerto de Gilberto Freyre: “a interpenetração
de culturas, entre nós tão livre” ao lado do “cruzamento de raças”. Esse
convívio é evidenciado no contexto do poema (o engenho de cana-de-açúcar
em Alagoas) pela referência à cultura negra (“Mãe- negra me contou
histórias de bicho”), à cultura indígena (“meu corpo pintado de urucu”) e
pela influência da cultura da religião do colonizador luso (“catecismo me
ensinou a abraçar os hóspedes”), culminando nesse convívio intercultural
e interétnico nos versos finais do poema (“me misturando, me sumindo, me
acabando… / tatuado de cruzes, de corações, de mãos-ligadas, / de nomes
de amor em todas as línguas de branco, de mouro ou de pagão”).
Enaltecem-se, assim, a miscigenação e o convívio nessa democracia. Frise-
se que a interpenetração de culturas, a democracia, é recorrente no texto e
já visível nos primeiros versos, na alusão à rede para dormir, proveniente
da cultura indígena, e na invocação a Walt Whitman, poeta norte-
americano que também apregoava esse ideal.
DEMOCRACIA
Punhos de rede embalaram o meu canto
para adoçar o meu país, ó Whitman.
Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,
catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,
carumã me alimentou quando eu era criança,
Mãe-negra me contou histórias de bicho,
moleque me ensinou safadezas,
massoca, tapioca, pipoca, tudo comi,
bebi cachaça com caju para limpar-me,
tive maleita, catapora e ínguas,
bicho-de-pé, saudade, poesia;
fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá,
dizendo coisas, brincando com as crioulas,
vendo espíritos, abusões, mães-d’água,
conversando com os malucos, conversando sozinho,
emprenhando tudo que encontrava,
abraçando as cobras pelos matos,
me misturando, me sumindo, me acabando,
para salvar a minha alma benzida
e meu corpo pintado de urucu,
tatuado de cruzes, de corações, de mãos-ligadas,
de nomes de amor em todas as línguas de branco,
[de mouro ou de pagão.
(LIMA, Jorge de.
Poesias Completas. v. I. Rio de Janeiro / Brasília:
J. Aguilar / INL, 1974, p.160, 164-165.)
MÓDULO 88 Literatura e Análise de Textos Literários – V
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2. Neste poema, pode-se observar o sincretismo linguístico. Dê
exemplos desse sincretismo e evidencie quais culturas estão presentes.
RESOLUÇÃO:
O sincretismo cultural e linguístico pode ser observado no uso de palavras
como massoca, tapioca, pipoca, jenipapo, carumã etc., de origem indígena;
catecismo, saudades, cruzes etc., de origem europeia; e moleque, da cultura
africana. 
Texto para a questão 3.
1 – Pajeú (?-1897): Revolucionário brasileiro nascido em Pernambuco e
falecido em Canudos, Bahia. Um dos líderes militares da Guerra de Canudos,
foi hábil estrategista, derrotando várias vezes, com táticas de guerrilha, as forças
federais.
2 – Cabeleira (1751-1776): Considerado por muitos pesquisadores como o
primeiro grande cangaceiro. Ao lado do pai, assombrou Pernambuco com
assaltos e mortes. Sua história foi contada no livro O Cabeleira, de Franklin
Távora, precursor do romance regionalista brasileiro. Personagem também
presente na literatura de cordel.
3. De que trata o poema “Nordeste”?
RESOLUÇÃO:
Trata da apresentação de uma espécie de painel das peculiaridades que
diferenciam o Nordeste das demais regiões brasileiras e também, do ponto
de vista do eu lírico, das características da região merecedoras de louvação.
São elas: o clima marcado pelas temidas secas e pelas abençoadas estações
chuvosas; algumas das mais relevantes personagens históricas do Nordeste:
Pajeú, Cabeleira e Lampião; a paisagem nordestina (“Sertão”, “Pedra
Bonita”), além da religiosidade onipresente da população, na qual se inclui
o próprio eu lírico (“vamos dar graças a Nosso Senhor”, “Terra de Deus”). 
Texto para a questão 4.
4. Segundo o poema, qual é a causa da perda da identidade da negra
Joaquina Maluca?
RESOLUÇÃO:
Essa escrava enlouqueceu para esquecer toda a experiência dolorosa por
que passou na condição de objeto sexual. 
NORDESTE
Nordeste, terra de São Sol!
Irmã enchente, vamos dar graças a Nosso Senhor,
que a minha madrasta Seca torrou seus anjinhos
para os comer.
São Tomépassou por aqui?
Passou, sim senhor!
Pajeú1! Pajeú!
Vamos lavar Pedra Bonita, meus irmãos,
com o sangue de mil meninos, amém!
D. Sebastião ressuscitou!
S. Tomé passou por aqui?
Passou, sim senhor.
Terra de Deus! Terra de minha bisavó
que dançou uma valsa com D. Pedro II.
São Tomé passou por aqui?
Tranca a porta, gente, Cabeleira2 aí vem!
Sertão! Pedra Bonita!
Tragam uma virgem para D. Lampião!
(Jorge de Lima, Poemas Negros)
JOAQUINA MALUCA
Joaquina Maluca, você ficou lesa
não sei por que foi!
Você tem um resto de graça menina,
na boca, nos peitos,
não sei onde é...
Joaquina Maluca, você ficou lesa,
não é?
Talvez para não ver
o que o mundo lhe faz.
Você ficou lesa, não foi?
Talvez pra não ver o que o mundo lhe fez.
Joaquina Maluca, você foi bonita, não foi?
Você tem um resto de graça menina
não sei onde é...
Tão suja de vício,
nem sabe o que o foi.
Tão lesa, tão pura, tão limpa de culpa,
nem sabe o que é!
(Jorge de Lima, Poemas Negros)
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Leia o poema de Murilo Mendes (1901-1975) para responder às
questões 5 e 6:
1 – Apascentar: vigiar no pasto; pastorear.
5. (UNESP-2018)
a) Explique por que se pode afirmar que o verso inicial desse poema
opera uma perturbação ou quebra do discurso lógico.
RESOLUÇÃO:
O verso inicial quebra o discurso lógico porque os pianos foram
considerados como seres animados, passíveis de terem liberdade e se
movimentarem numa planície deserta, como animais que correm quando
soltos.
b) Na segunda estrofe, verifica-se a personificação dos pianos. Que
outro elemento também é personificado nessa estrofe? Justifique
sua resposta.
RESOLUÇÃO:
Ocorre personificação das rosas, pois, além de essas flores serem
migradoras, elas acompanham o eu lírico na função de pastorear os pianos
no campo.
6. (UNESP-2018)
a) O crítico literário Antônio Cândido caracterizou esse poema como
uma “pastoral fantástica”. Tal caracterização alude a qual escola
literária? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
A expressão “pastoral fantástica” remete tanto ao Arcadismo ou
Neoclassicismo (e, antes dele, à poesia bucólica greco-latina), quanto ao
Surrealismo. O gênero pastoral consiste na abordagem idealizada da vida
de pastores e o Surrealismo, vanguarda do Modernismo, apresenta como
característica o ilógico, o nonsense, com elementos visionários e oníricos,
como se observa nos versos “Vejo ao longe com alegria meus pianos /
recortarem vultos monumentais / contra a lua”.
b) Identifique duas características que permitem vincular esse poema
ao movimento modernista.
RESOLUÇÃO:
Os versos livres, sem métrica, a paródia da tradição literária (a retomada
da poesia bucólica do Arcadismo ou Neoclassicismo) e a influência da teoria
psicanalítica freudiana na literatura, rompendo com a lógica, são
características da vanguarda modernista, iconoclasta não só em relação ao
passado literário, como também quanto ao uso da razão para captar a
realidade. Embora muitos candidatos possam ter mencionado os versos
brancos (sem rima), esse tipo de verso já era usado na poesia do século
XVIII, como exemplifica a obra O Uraguai, de Basílio da Gama, publicada
em 1769. 
O PASTOR PIANISTA
Soltaram os pianos na planície deserta
Onde as sombras dos pássaros vêm beber.
Eu sou o pastor pianista,
Vejo ao longe com alegria meus pianos
Recortarem os vultos monumentais
Contra a lua.
Acompanhado pelas rosas migradoras
Apascento1 os pianos: gritam
E transmitem o antigo clamor do homem
Que reclamando a contemplação,
Sonha e provoca a harmonia,
Trabalha mesmo à força,
E pelo vento nas folhagens,
Pelos planetas, pelo andar das mulheres,
Pelo amor e seus contrastes,
Comunica-se com os deuses.
(As Metamorfoses)
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1. (FUVEST-SP) – Leia o trecho de Vidas Secas, de Graciliano Ramos,
para, em seguida, responder ao que se pede:
a) O trecho pertence à parte de Vidas Secas intitulada “Festa”, na qual
se narra a ida da família de sertanejos, acompanhada da cachorra
Baleia, à cidade, onde deve participar de uma festividade pública.
Considerada esta questão no contexto do livro, como se passa essa
participação e o que ela mostra a respeito da socialização da
família?
RESOLUÇÃO:
[FUVEST-SP-2017] O trecho em análise apresenta a família de Fabiano
indo à cidade para acompanhar os festejos de Natal. O primeiro fato que
chama a atenção é o caráter inusitado dessa participação, pois Fabiano e
família não se socializam, ou seja, não interagem com os outros. Essa
inadaptação reforça a marginalidade da família. Um dos exemplos é a
incapacidade dos meninos de articularem uma linguagem e até de
entenderem o que se passa à volta deles. Outro exemplo que ganha
destaque, no excerto, é o protagonista sofrer muito para calçar suas botinas.
Tais fatores servem para criar um contexto que revela a dificuldade de
socialização das personagens de Vidas Secas, o que contribui para
caracterizá-las como párias, vítimas de exclusão social. É por causa disso
tudo que, no decorrer da festa, há um anticlímax. Fabiano e família estão
alienados em relação ao festejo e até a cadela Baleia considera estranha a
quantidade de pessoas.
b) O tratamento narrativo dado aos eventos apresentados no trecho
confere a ele um tom que contrasta com o que é dominante, no
conjunto de Vidas Secas. Qual é esse tom? Explique sucintamente.
RESOLUÇÃO:
[FUVEST-SP-2017] O excerto destacado apresenta a família de Fabiano
preparando-se para o festejo de Natal num povoado nordestino. Assim, esse
evento acaba servindo para mostrar essas personagens no esforço de
assumir elementos civilizadores: a prática de higiene pessoal e a
preocupação com a indumentária. Essa tentativa de integração social e
civilizatória contrasta com a secura existencial a que estão submetidos os
protagonistas no conjunto do romance, já que são apresentados como
párias, seres alijados da sociedade.
Aí Fabiano parou, sentou-se, lavou os pés duros, procurando
retirar das gretas fundas o barro que lá havia. Sem se enxugar,
tentou calçar-se — e foi uma dificuldade: os calcanhares das meias
de algodão formaram bolos nos peitos dos pés e as botinas de
vaqueta resistiram como virgens. Sinha Vitória levantou a saia,
sentou-se no chão e limpou-se também. Os dois meninos entraram
no riacho, esfregaram os pés, saíram, calçaram as chinelinhas e
ficaram espiando os movimentos dos pais. Sinha Vitória aprontava-
se e erguia-se, mas Fabiano soprava arreliado. Tinha vencido a
obstinação de uma daquelas amaldiçoadas botinas; a outra
emperrava, e ele, com os dedos nas alças, fazia esforços inúteis.
Sinha Vitória dava palpites que irritavam o marido. Não havia
meio de introduzir o diabo do calcanhar no tacão. A um arranco
mais forte, a alça de trás rebentou-se, e o vaqueiro meteu as mãos
pela borracha, energicamente. Nada conseguindo, levantou-se
resolvido a entrar na rua assim mesmo, coxeando, uma perna mais
comprida que a outra. Com raiva excessiva, a que se misturava
alguma esperança, deu uma patada violenta no chão. A carne
comprimiu-se, os ossos estalaram, a meia molhada rasgou-se e o
pé amarrotado se encaixou entre as paredes de vaqueta. Fabiano
soltou um suspiro largo de satisfação e dor.
MÓDULO 99 Literatura e Análise de Textos Literários – VI
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Texto para a questão 2.
2. (FUVEST-SP) – Considere as seguintes afirmações sobre este
trecho de Vidas Secas, entendido no contexto da obra, e responda ao
que se pede:
a) No trecho, torna-se claro que a escassez vocabular do menino
contribui de modo decisivo para ampliar as diferenças que
distinguem homens de animais. Você concordacom essa
afirmação? Justifique, com base no trecho, sua resposta.
RESOLUÇÃO:
A afirmação não é procedente, pois, ao contrário, a escassez vocabular do
menino contribui de modo decisivo para diminuir as diferenças que
distinguem homens de animais, como se evidencia tanto na passagem
“tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio”, como no
fato de o menino se comunicar por meio de “exclamações e de gestos”, tal
como a cadela que lhe abana o rabo.
b) Neste trecho, como em outros do mesmo livro, é por exprimir suas
emoções e sentimentos pessoais a respeito da pobreza sertaneja que
o narrador obtém o efeito de contagiar o leitor, fazendo com que
ele também se emocione. Você concorda com a afirmação?
Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
Não há apelo à emoção, pois o narrador de Vidas Secas não se envolve
emocionalmente com os fatos que representa. Seu relato, segundo os
princípios realistas (o romance de Graciliano Ramos filia-se ao
Neorrealismo, que substituiu o experimentalismo modernista da Primeira
Geração), é objetivo e mantém neutralidade com relação aos fatos
relatados, a qual, em vez de diminuir, intensifica a análise racional do leitor
perante o quadro representado. 
3. (FUVEST-SP – adaptada) – Leia os itens seguintes e responda ao
que se pede:
a) Apesar de quase atrofiadas na sua rusticidade, as personagens de
Vidas Secas, de Graciliano Ramos, conservam um filete de
investigação da interioridade: cada uma delas se perscruta, reflete,
tenta compreender a si e ao mundo, ajustando-o à sua visão. Você
considera essa afirmação correta? Justifique brevemente a sua
resposta.
RESOLUÇÃO:
A afirmação é correta, pois esse “filete de investigação da interioridade” é
um recurso de que se vale o narrador, por meio do uso do discurso indireto
livre, para trazer à tona a linguagem mental de Fabiano e de sua família.
b) A dureza do clima, que se manifesta principalmente nas grandes
secas periódicas, explica todas as aflições de Fabiano e de sinha
Vitória, ao longo da narrativa de Vidas Secas? Justifique a sua
resposta.
RESOLUÇÃO:
A dureza do clima não explica todas as aflições de Fabiano e família, pois
as dificuldades que enfrentam não se restringem ao clima e à paisagem.
Tais dificuldades decorrem de uma “secura” existencial, linguística e social,
advinda de fatores políticos, econômicos e culturais. As aflições de Fabiano
derivam, por exemplo, da violência que sofre por parte do Soldado Amarelo
(símbolo da autoridade opressora), assim como da incapacidade de
comunicação do vaqueiro. 
O pequeno sentou-se, acomodou nas pernas a cabeça da
cachorra, pôs-se a contar-lhe baixinho uma história. Tinha um
vocabulário quase tão minguado como o do papagaio que morrera
no tempo da seca. Valia-se, pois, de exclamações e de gestos, e
Baleia respondia com o rabo, com a língua, com movimentos fáceis
de entender.
(Graciliano Ramos, Vidas Secas)
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4. (UNICAMP-SP) – Leia os seguintes trechos de O Cortiço e Vidas
Secas:
a) Ambos os trechos são narrados em terceira pessoa. Apesar disso, há
uma diferença de pontos de vista na aproximação das personagens
com o mundo animal e vegetal. Que diferença é essa? 
RESOLUÇÃO:
Em O Cortiço, a aproximação entre o mundo humano e o mundo animal e
vegetal decorre unicamente da perspectiva do narrador, pois as
personagens são completamente alheias a tal relação. Em Vidas Secas, ao
contrário, procede da própria consciência da personagem a sua
identificação com o mundo animal, expressa por meio do discurso indireto
livre.
b) Explique como essa diferença se associa à visão de mundo expressa
em cada romance.
RESOLUÇÃO:
Na visão naturalista, presente em O Cortiço, trata-se de uma visão
degradante da humanidade, cujos instintos e apetites são invariavelmente
associados a formas “baixas” da natureza. Em Vidas Secas, diferentemente,
o rebaixamento da personagem, sua assimilação ao mundo animal, não é
visto como algo inerente à humanidade, mas como produto de uma
sociedade degradante em sua injustiça. Para Fabiano, porém, chega a ser
motivo de orgulho reconhecer-se como “um bicho, capaz de vencer
dificuldades”.
O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias
acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só
ruído compacto que enchia todo o cortiço. (...) Sentia-se naquela
fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras
que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida,
o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de respirar sobre
a terra.
(AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. Ficção Completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 462.)
Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se. Chegara
naquele estado, com a família morrendo de fome, comendo raízes.
Caíra no fim do pátio, debaixo de um juazeiro, depois tomara conta
da casa deserta. Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à
camarinha escura, pareciam ratos — e a lembrança dos
sofrimentos passados esmorecera. 
(...) 
— Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta. 
Conteve-se, notou que os meninos estavam perto, com certeza
iam admirar-se ouvindo-o falar só. E, pensando bem, ele não era
homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos
outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os
cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de
animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos
e julgava-se cabra.
Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém
tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando: 
— Você é um bicho, Fabiano. 
Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho,
capaz de vencer dificuldades. 
Chegara naquela situação medonha — e ali estava, forte, até
gordo, fumando seu cigarro de palha. 
— Um bicho, Fabiano. 
(...)
Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali.
Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara
raízes, estava plantado
(RAMOS, Graciliano. Vidas Secas.
Rio de Janeiro: Editora Record, 2007, p. 18-19.)
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5. (UNICAMP-SP) – Leia os textos a seguir e responda ao que se
pede:
a) Nos excertos citados, a seca e a falta de educação formal afetam a
existência das personagens. Levando em conta o caráter crítico e
político do romance, relacione o problema da seca com a questão da
escolarização no que diz respeito à personagem Fabiano.
RESOLUÇÃO:
Fabiano é um sertanejo nordestino, miserável e flagelado pela seca, que o
força periodicamente a se tornar nômade, retirante. Nesse contexto, a
questão mais importante para ele é lutar por sua sobrevivência em um
ambiente marcado pela injusta distribuição de terra (e de renda). Nessas
condições, a educação formal acaba sendo deixada de lado, o que, de acordo
com o enredo de Vidas Secas, atrofia a capacidade intelectual dessa
personagem, assim como a de seus familiares. A consequência final desses
sofrimentos é a incapacidade de compreensão do mundo em que se
encontra, o que abre caminho para a exploração e a opressão a que Fabiano
e seus familiares se veem recorrentemente submetidos.
b) “Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar
as coisas nos seus lugares.” Descreva uma passagem do romance
em que, por não saber ler e escrever, Fabiano é prejudicado e não
consegue se defender.
RESOLUÇÃO:
Conforme explicitado no item anterior, as condições sociais a que Fabiano
fora submetido impediram-no de obter uma educação formal, o que, na
lógica de Vidas Secas, atrofiou sua capacidade intelectual e,
consequentemente, seu domínio da linguagem. Dessa forma, essa
personagem acaba sendo prejudicada por não saber argumentar e
defender-se de maneira eficiente. Um exemplo disso está no capítulo
“Cadeia”,em que a personagem não consegue desvencilhar-se do
desentendimento com o Soldado Amarelo, que não só humilhou o vaqueiro,
como também foi responsável pelo fato de o protagonista ter apanhado e
passado a noite na prisão. Outro exemplo está no capítulo “Contas”, em
que Fabiano, ao perceber que recebera do patrão bem menos do que
esperava, não consegue fazer valer a sua reivindicação, deixando-se ser
explorado. 
Um dia... Sim, quando as secas desaparecessem e tudo
andasse direito... Seria que as secas iriam desaparecer e tudo
andar certo? Não sabia.
(RAMOS, Graciliano. Vidas Secas.
118. ed., Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 25.)
Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se,
botar as coisas nos seus lugares. O demônio daquela história
entrava-lhe na cabeça e saía. Era para um cristão endoidecer. Se
lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la.
Impossível, só sabia lidar com bichos.
(RAMOS, Graciliano. Vidas Secas.
118. ed., Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 35.)
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1. (UNICAMP-SP) – Leia o soneto abaixo, de Luís de Camões:
a) Uma oposição espacial configura o tema e o significado deste
poema de Camões. Identifique essa oposição, indicando o seu
significado para o conjunto dos versos.
RESOLUÇÃO:
Há oposição espacial e de sentido entre Babilônia e Sião. Babilônia, o local
onde o eu lírico se encontra (“Cá nesta Babilônia donde mana / matéria a
quanto mal o mundo cria”), refere-se à passagem bíblica que relata o exílio
e a escravidão dos judeus. No contexto do poema, simboliza o mal, o mundo
materialista, profanado, vil. Sião, o local sublime, é também passagem
bíblica do Velho Testamento. É a terra prometida, a Jerusalém celestial.
No contexto do poema, metaforiza o mundo ideal, nobre, sublime. Frise-se
que o eu lírico, situado no mundo inferior, Babilônia, aspira ao mundo
ideal, Sião. Esse soneto, estruturado numa alegoria bíblica, retoma o
conflito central da poesia camoniana: a oposição entre o mundo platônico,
ideal, do conhecimento, e o mundo inferior, o da realidade sensorial.
b) Identifique nos tercetos duas expressões que contemplam a noção
de desconcerto, fundamental para a compreensão do tema do soneto
e da lírica camoniana.
RESOLUÇÃO:
A noção de desconcerto pode ser observada nas expressões “labirinto” e
“caos”, que remetem ao mundo sombrio, sensorial, decadente, onde valores
de toda a ordem são aviltados.
Cá nesta Babilônia, donde mana
matéria a quanto mal o mundo cria;
cá donde o puro Amor não tem valia,
que a Mãe, que manda mais, tudo profana;
cá, onde o mal se afina e o bem se dana,
e pode mais que a honra a tirania;
cá, onde a errada e cega Monarquia
cuida que um nome vão a desengana;
cá, neste labirinto, onde a nobreza
com esforço e saber pedindo vão
às portas da cobiça e da vileza;
cá neste escuro caos de confusão,
cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!
(Disponível em:
http:/www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000164.pdf.
Acesso em: 08 set. 2015.)
MÓDULO 11 00 Análise de Texto – I
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Leia o soneto “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, do poeta
português Luís Vaz de Camões (1525?-1580), para responder às
questões de 2 a 5:
1 – Esperança: esperado.
2 – Mor: maior.
3 – Soer: costumar (soía: costumava).
2. (UNESP) – Considere as seguintes citações:
Quais das citações aproximam-se tematicamente do soneto camoniano?
Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
[UNESP-2017] As citações que se aproximam do tema do soneto camoniano
são a 1 e a 4. No texto de Heráclito (1), há referência à mutabilidade do
meio e do próprio homem. Essa instabilidade aparece no tema do soneto já
na primeira estrofe. A frase de Sêneca (4) também converge para o sentido
do poema. O vaivém das coisas e seres em geral acaba, pelo capricho da
sorte, transformando uma situação no seu oposto, como se constata, por
exemplo, nos versos “Continuamente vemos novidades / diferentes em tudo
da esperança” (...); “o tempo cobre o chão de verde manto / que já coberto
foi de neve fria / e enfim converte em choro o doce canto”.
3. (UNESP) – Em um determinado trecho do soneto, o eu lírico
assinala a passagem de uma estação do ano para outra. Transcreva os
versos em que isso ocorre e identifique as estações a que eles fazem
referência. Para o eu lírico, tal passagem constitui um evento aprazível?
Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
[UNESP-2017] O trecho do soneto no qual se assinala a passagem de uma
estação do ano para outra é: “O tempo cobre o chão de verde manto, / que
já coberto foi de neve fria”. A expressão “verde manto” refere-se à
primavera, subsequente ao inverno, representado pelas palavras “neve
fria”. A mudança de estação indicada pelo eu lírico não ilustra uma
alteração aprazível, pois o terceiro verso da terceira estrofe afirma que a
passagem do tempo “converte em choro o doce canto”.
1. “Não podemos entrar duas vezes no mesmo rio: suas águas não
são nunca as mesmas e nós não somos nunca os mesmos.” –
Heráclito (550 a.C.-480 a.C.)
2. “A breve duração da vida não nos permite alimentar longas
esperanças.” – Horácio (65 a.C.-8 a.C.)
3. “O melhor para o homem é viver com o máximo de alegria e o
mínimo de tristeza, o que acontece quando não se procura o
prazer em coisas perecíveis.” – Demócrito (460 a.C.-370 a.C.)
4. “Toda e qualquer coisa tem seu vaivém e se transforma no contrário
ao capricho tirânico da fortuna.” – Sêneca (4 a.C.-65 d.C.)
5. “Uma vez que a vida é um tormento, a morte acaba sendo para o
homem o refúgio mais desejável.” – Heródoto (484 a.C.-430 a.C.)
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança1;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem — se algum houve —, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e enfim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor2 espanto:
que não se muda já como soía3.
(Sonetos)
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4. (UNESP) – Elipse: figura de sintaxe pela qual se omite um termo da
oração que o contexto permite subentender. (Domingos Paschoal
Cegalla, Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, 2009.
Adaptado.)
Transcreva o verso em que se verifica a elipse do verbo. Identifique o
verbo omitido nesse verso. Para o eu lírico, qual das mudanças
assinaladas ao longo do soneto lhe causa maior perplexidade?
Justifique sua resposta, com base no texto.
RESOLUÇÃO:
[UNESP-2017] A omissão mais flagrante do verbo ocorre no quarto verso
da segunda estrofe: “e do bem — se algum houve —, as saudades”. Trata-
se de zeugma, pois o verbo ficar, que aparece no verso anterior, foi omitido
e, em seu lugar, foi empregada uma vírgula: e do bem — se algum houve
— [ficam] as saudades. Pode-se também considerar a elipse do verbo no
segundo verso da segunda estrofe, “diferentes em tudo da esperança”, em
que o verbo ser, que aparece na estrofe anterior, foi omitido: “novidades /
[que são] diferentes em tudo da esperança”. A mudança que causa maior
espanto ao eu lírico aparece no último verso: “que não se muda já como
soía”, ou seja, a mudança já não ocorre como costumava, indicando que até
a própria mudança está à mercê de transformação.
5. (UNESP) – A sinestesia (do grego syn, que significa “reunião”,
“junção”, “ao mesmo tempo”, e aisthesis, “sensação”, “percepção”)
designa a transferência de percepção de um sentido para outro, isto é,
a fusão, num só ato perceptivo, de dois sentidos ou mais. (MassaudMoisés, Dicionário de Termos Literários, 2004. Adaptado.) 
Transcreva o verso em que se verifica a ocorrência de sinestesia.
Justifique sua resposta. Reescreva o verso da terceira estrofe “que já
coberto foi de neve fria”, adaptando-o para a ordem direta e
substituindo o pronome “que” pelo seu referente.
RESOLUÇÃO:
[UNESP-2017] O verso em que ocorre sinestesia é “e enfim converte em
choro o doce canto”. Na expressão “doce canto”, há fusão da sensação
gustativa (“doce”) com a auditiva (“canto”). Na ordem direta, substituindo-
se o pronome relativo “que” pelo seu referente, tem-se: “o chão já foi
coberto de neve fria”. [Para o professor: numa ordem rigorosamente
direta, tem-se: “o chão foi coberto de neve fria já”.] 
Texto para as questões 6 e 7.
1 – De que valerá tanto sofrimento pelo pouco viver que ainda tenho?
Ah, minha Dinamene, assi deixaste
quem não deixara nunca de querer-te!
Ah, Ninfa minha, já não posso ver-te,
tão asinha esta vida desprezaste! depressa
Como já para sempre te apartaste
de quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te
que não visses quem tanto magoaste?
Nem falar-te somente a dura morte
me deixou, que tão cedo o negro manto
em teus olhos deitado consentiste!
Ó mar, ó Céu, ó minha escura sorte!
Que pena sentirei que valha tanto,
que ainda tenho por pouco o viver triste1?
(Camões)
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6. O tema dos versos é o sofrimento amoroso causado pela saudade da
amada falecida.
a) Quem é o interlocutor do eu lírico na primeira e na última estrofe?
RESOLUÇÃO:
A princípio, o eu lírico dirige-se à interlocutora: “Ah, minha Dinamene” ou
“Ah, Ninfa minha”. Entretanto, na terceira estrofe, ele parece
conscientizar-se de que a morte o impede de comunicar-se com ela: “Nem
falar-te somente a dura morte / me deixou”. A partir de então, na quarta
estrofe, dilui seu interlocutor entre elementos simbólicos como o “mar”,
onde ela morreu; o “céu”, onde ela está, e a “escura sorte”, o destino cruel:
“Ó mar, ó Céu, ó minha escura sorte!”.
b) A partir do texto, é correto afirmar que a lírica de Camões se insere
no Maneirismo, tendência artística do momento em que o homem
renascentista, aos poucos, vai substituindo a euforia, o colorido, a
autoconfiança pela consciência da brevidade da vida, pela dúvida e
pela angústia presentes no estilo barroco?
RESOLUÇÃO:
Sim, essa afirmação é pertinente, pois a temática do texto é a impotência
diante do destino. O eu lírico mostra-se depressivo, pessimista diante de
opostos inconciliáveis, como o eterno amor que cultiva e a efêmera
existência da mulher amada. As tensões existenciais e amorosas
aproximam-se do maneirismo.
7. O neoplatonismo associa o mundo das ideias de Platão ao saber
cognitivo. Essa idealização encontra respaldo na espiritualidade, na
metafísica do cristianismo. Segundo Platão, a alma pertenceria a outro
mundo — o inteligível: onde há ideias puras, beleza plena, felicidade
absoluta, perfeição — e seria, temporariamente, prisioneira do corpo,
sujeita à existência material — mundo sensível: um flagelo, pois o
homem está entregue às contingências do destino (desastres, doenças,
perdas, paixões etc.). Assim, a dor é inevitável neste mundo, o que
torna o ser humano melancólico: a alma vive a nostalgia do suposto
“paraíso” de onde veio.
a) Na primeira estrofe, como o poeta vê o amor e a amada? Cite
expressões do poema que justifiquem sua resposta.
RESOLUÇÃO:
Mesmo ao tratar de um caso particular, biográfico, Camões interpreta suas
experiências amorosas à luz do neoplatonismo, pois tanto a mulher como
o amor pertencem ao campo semântico do mundo inteligível, da eternidade.
A amada é envolvida por uma aura de beleza e perfeição que a tornam
sobre-humana, idealizada, uma “Ninfa”. Também o amor pertence ao
mundo das ideias, do absoluto, do infinito, segundo se vê no modo como o
eu lírico se apresenta, como possuidor de um amor que duraria para
sempre: “Quem não deixara nunca de querer-te!” (o pretérito mais-que-
perfeito foi empregado como futuro do pretérito do indicativo).
b) O eu lírico sente-se, de algum modo, traído pelo destino da amada,
ao supor que ela se teria deixado levar pelas ondas e pela morte. De
que modo esse infortúnio se opõe à visão que o eu poético tem do
amor e da amada na primeira estrofe?
RESOLUÇÃO:
O eterno amor que o eu lírico cultiva por Dinamene choca-se com a
realidade: a efêmera existência da mulher amada. Por isso, sente-se traído.
Em sua concepção neoplatônica, ela, tão perfeita e sobre-humana, não
poderia morrer, principalmente não poderia ignorar a dor que causaria a
ele. Daí seus questionamentos na segunda e terceira estrofes: “Puderam
estas ondas defender-te / que não visses quem tanto magoaste?”; “tão cedo
o negro manto / em teus olhos deitado consentiste!”
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1. (FUVEST-SP) – No breve “Prólogo da 3.ª edição” das Memórias
Póstumas de Brás Cubas, assinado pelo autor, Machado de Assis,
constava o seguinte trecho:
Considerando este trecho no contexto da obra à qual se incorpora,
atenda ao que se pede:
a) Identifique um aspecto das Memórias Póstumas de Brás Cubas
capaz de ter suscitado a dúvida expressa por Capistrano de Abreu.
Explique resumidamente.
RESOLUÇÃO:
O conceito tradicional de romance — ao qual Capistrano de Abreu parece
ter-se apegado — é o de um texto em prosa no qual se narram fatos que
giram em torno de uma aventura. Memórias Póstumas de Brás Cubas,
entretanto, livro que se caracteriza por um estilo digressivo, desvia-se desse
padrão. Além disso, a autobiografia de Brás Cubas resulta no relato de
uma vida vazia, supostamente sem acontecimentos suficientemente
interessantes para uma narrativa convencional.
b) Em que consistem os “lavores de igual escola”, a que se refere o
autor, no final do trecho? Explique sucintamente.
RESOLUÇÃO:
Machado de Assis chama “lavores de igual escola” as técnicas narrativas
que também se encontram em Laurence Sterne, Xavier de Maistre e
Almeida Garrett, sobretudo o estilo digressivo — em que não há
compromisso com a linearidade narrativa — e o diálogo com o leitor, no
qual o emissor assume um tom irônico, zombeteiro, às vezes inferiorizando
o seu receptor.
Capistrano de Abreu, noticiando a publicação do livro,
perguntava: “As Memórias Póstumas de Brás Cubas são um
romance?” Macedo Soares, em carta que me escreveu por esse
tempo, recordava amigamente as Viagens na Minha Terra. Ao
primeiro respondia já o defunto Brás Cubas (como o leitor viu e
verá no prólogo dele que vai adiante) que sim e que não, que era
romance para uns e não o era para outros. Quanto ao segundo,
assim se explicou o finado: “Trata-se de uma obra difusa, na qual
eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um
Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de
pessimismo”. Toda essa gente viajou: Xavier de Maistre à roda do
quarto, Garrett na terra dele, Sterne na terra dos outros. De Brás
Cubas se pode talvez dizer que viajou à roda da vida.
O que faz do meu Brás Cubas um autor particular é o que ele
chama “rabugens de pessimismo”. Há na alma deste livro, por
mais risonho que pareça, um sentimento amargo e áspero, que está
longe de vir dos seus modelos. É taça que pode ter lavores de igual
escola, mas leva outro vinho.
Machado de Assis
MÓDULO 11 11 Análise de Texto – II
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2. (FUVEST-SP) – No excerto abaixo, narra-se parte do encontro de
Brás Cubas com Quincas Borba, quando este, reduzido à miséria,
mendigava nas ruas do Rio de Janeiro:
1 – “In hoc signo vinces!”: citação em latim que significa “Com este sinal,
vencerás” (frase que teria aparecido no céu, juntode uma cruz, ao imperador
Constantino, antes de uma batalha).
a) Tendo em vista a autobiografia de Brás Cubas e as considerações
que ao longo de suas Memórias Póstumas ele tece a respeito do
tema do trabalho, comente o conselho que, no excerto, ele dá a
Quincas Borba: “— Trabalhando, concluí eu.”
RESOLUÇÃO:
É um conselho meramente retórico e hipócrita, não correspondendo à
trajetória de vida de Brás Cubas. Constata-se, nas memórias do narrador,
que ele é membro da elite brasileira do Segundo Reinado, totalmente avessa
ao trabalho. Vive dos privilégios e vale-se da influência do pai. No último
capítulo, Brás Cubas gaba-se da vida no ócio: “coube-me a boa fortuna de
não comprar o pão com o suor do meu rosto.”
b) Tendo agora como referência a história de D. Plácida, contada no
livro, discuta sucintamente o mencionado conselho de Brás Cubas.
RESOLUÇÃO:
D. Plácida trabalhara com afinco durante toda a vida e nunca conseguira
sair da pobreza, chegando até a cair na miséria. Dessa forma, o conselho de
Brás Cubas, além de hipócrita do ponto de vista pessoal, revela-se
insuficiente do ponto de vista social.
Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil-réis, — a
menos limpa, — e dei-lha [a Quincas Borba]. Ele recebeu-ma com
os olhos cintilantes de cobiça. Levantou a nota ao ar, e agitou-a
entusiasmado.
— In hoc signo vinces!1 bradou. 
E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e tão
ruidosa expansão, que me produziu um sentimento misto de nojo e
lástima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou sério,
grotescamente sério, e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que
era alegria de pobre que não via, desde muitos anos, uma nota de
cinco mil-réis. 
— Pois está em suas mãos ver outras muitas, disse eu. 
— Sim? acudiu ele, dando um bote para mim. 
— Trabalhando, concluí eu.
(Machado de Assis,
Memórias Póstumas de Brás Cubas)
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Texto para as questões de 3 a 8.
3. (FUVEST-SP)
a) Este trecho remete a episódio anterior, da mesma obra, no qual
interagem Brás Cubas e Prudêncio, então crianças. Compare
sucintamente os papéis que as personagens desempenham nesses
episódios.
RESOLUÇÃO:
O trecho apresentado (capítulo LXVIII, “O Vergalho”) faz referência ao
capítulo XI, “O Menino é Pai do Homem”, em que Brás Cubas, ao relatar
sua infância, conta-nos que humilhava o então escravo Prudêncio, fazendo-
o de montaria. No primeiro episódio, o narrador era o opressor, enquanto
Prudêncio era o oprimido. Já liberto, Prudêncio compra um escravo,
tornando-se agora o opressor, pois passa a “descontar” no infeliz tudo o
que havia sofrido quando criança. Curiosamente, chega até a usar a mesma
frase — “Cala a boca, besta!” — que havia ouvido na sua época de
cativeiro. Dessa forma, nota-se que Prudêncio, vítima de um sistema
escravista, acaba fortalecendo-o, ao reproduzir as injustiças a que fora
submetido.
b) Neste trecho, a variedade linguística utilizada pelas personagens
contribui para caracterizá-las? Explique brevemente.
RESOLUÇÃO:
As variedades linguísticas empregadas conseguem de fato caracterizar o
nível social das personagens. Brás Cubas demonstra pertencer à classe alta
quando utiliza a norma culta, bem percebida pela ênclise em “Fez-te” e
“Perdoa-lhe”. Prudêncio demonstra pertencer à classe baixa, ao empregar
a variante coloquial, em termos como nhonhô; no emprego do pronome
pessoal ele em “deixei ele na quitanda”, quando o padrão gramatical pede
“deixei-o na quitanda”; na utilização da preposição em como regime do
verbo ir (“para ir na venda”), quando a norma culta exige a (“para ir à
venda”). 
CAPÍTULO LXVIII / O VERGALHO
Tais eram as reflexões que eu vinha fazendo, por aquele
Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas
um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na praça. O
outro não se atrevia a fugir; gemia somente estas únicas palavras:
— “Não, perdão, meu senhor; meu senhor, perdão!” Mas o
primeiro não fazia caso e, a cada súplica, respondia com uma
vergalhada nova.
— Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdão, bêbado! 
— Meu senhor! gemia o outro.
— Cala a boca, besta! replicava o vergalho.
Parei, olhei... Justos céus! Quem havia de ser o do vergalho?
Nada menos que o meu moleque Prudêncio, — o que meu pai
libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se logo e pediu-
me a bênção; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.
— É, sim, nhonhô.
— Fez-te alguma cousa?
— É um vadio e um bêbado muito grande. Ainda hoje deixei
ele na quitanda, enquanto eu ia lá embaixo na cidade, e ele deixou
a quitanda para ir na venda beber.
— Está bom, perdoa-lhe, disse eu.
— Pois não, nhonhô. Nhonhô manda, não pede. Entra para
casa, bêbado!
Saí do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas
conjeturas. Segui caminho, a desfiar uma infinidade de reflexões,
que sinto haver inteiramente perdido; aliás, seria matéria para um
bom capítulo, e talvez alegre. Eu gosto dos capítulos alegres; é o
meu fraco. Exteriormente, era torvo o episódio do Valongo; mas só
exteriormente. Logo que meti mais dentro a faca do raciocínio,
achei-lhe um miolo gaiato, fino, e até profundo. Era um modo que
o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas, —
transmitindo-as a outro. Eu, em criança, montava-o, punha-lhe um
freio na boca e desancava-o sem compaixão; ele gemia e sofria.
Agora, porém, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braços, das
pernas, podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga
condição, agora é que ele se desbancava: comprou um escravo, e ia-
lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim recebera. Vejam
as sutilezas do maroto!
(Machado de Assis,
Memórias Póstumas de Brás Cubas)
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4. Brás Cubas é o Nhonhô em questão. Qual a origem e o significado
da palavra nhonhô?
RESOLUÇÃO:
A palavra nhonhô é uma corruptela da forma senhor, tratamento que os
escravos davam a seus donos. A forma nhonhô revela submissão e
afetividade.
5. (FUVEST-SP)
a) O capítulo em questão mostra um autor preocupado com a
instituição escravista ou apenas preocupado em revelar formas do
comportamento humano?
RESOLUÇÃO:
O narrador revela as formas do comportamento humano, mostrando a
maldade, o sadismo, o ressentimento, a violência, acentuados pela sociedade
escravista. A história narrada exemplifica um mecanismo perverso já
observado em outras situações: o ex-escravo comporta-se segundo uma
lógica aparentemente contraditória: o indivíduo oprimido, quando obtém
poder, reproduz o comportamento do opressor.
b) Justifique sua resposta com elementos do texto.
RESOLUÇÃO:
No texto, as passagens, entre outras, que poderiam ser citadas como
justificativas ao item anterior são: “era um preto que vergalhava outro na
praça” e “Era um modo que o Prudêncio tinha de se desfazer das pancadas
recebidas, — transmitindo-as a outro. (...) Agora, porém, que era livre,
dispunha de si mesmo, dos braços, das pernas, podia trabalhar, folgar,
dormir, desagrilhoado da antiga condição, agora é que ele se desbancava:
comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de
mim recebera.”
6. (FUVEST-SP) – O narrador diz que gosta dos capítulos alegres.
a) O capítulo em questão é alegre?
RESOLUÇÃO:
O narrador-personagem considera “o miolo” deste capítulo gaiato, alegre.
Pode-se notar, portanto, o humor machadiano, revestido de certa
melancolia, resvalando para a ironia.
b) Fundamente sua resposta.
RESOLUÇÃO:
A atitude de Prudêncio é paradoxal, absurda. Um ex-escravo compra um
negro e inflige-lhe maus-tratos. Essa atitude, como se fosse uma regressão
neurótica à infância, reveste-se de um ar maroto, com essência gaiata,
chegando ao nonsense e ao sorriso melancólico, ao humor negro.
7.(FUVEST-SP) – “Segui caminho, a desfiar uma infinidade de
reflexões, que sinto haver inteiramente perdido...”
a) A forma verbal sinto seria mais bem compreendida como percebo
ou como lamento?
RESOLUÇÃO:
A forma verbal sinto seria mais bem compreendida como lamento.
b) Qual a fundamentação que o contexto oferece para sua resposta?
RESOLUÇÃO:
O narrador lamenta ter perdido aquilo que poderia ter sido matéria para
um bom capítulo, e “talvez alegre”.
8. (FUVEST-SP) – O dicionário informa que vergalho é o órgão
genital dos bois e dos cavalos; depois de cortado e seco, é também o
azorrague feito desse órgão. Qual o sentido que a palavra vergalho
assume em cada uma destas frases?
a) “— Cala a boca, besta! replicava o vergalho.”
RESOLUÇÃO:
A palavra vergalho foi empregada em sentido abrangente, indicando a
pessoa que empunha o chicote, traduzindo a ideia de que o vergalho e o
homem tornam-se o mesmo, numa relação metonímica.
b) “Quem havia de ser o do vergalho?”
RESOLUÇÃO:
A palavra vergalho tem sentido próprio de “chicote, açoite”.
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Para responder às questões de 1 a 2, leia o segundo capítulo do romance
Iracema, do escritor José de Alencar (1829-1877), publicado em 1865:
1 – Graúna: pássaro de cor negra.
2 – Jati: pequena abelha que fabrica delicioso mel.
3 – Oiticica: árvore frondosa.
4 – Aljôfar: pérola; por extensão: gota.
5 – Rorejar: banhar.
6 – Mangaba: fruto da mangabeira.
7 – Gará: ave de cor vermelha.
8 – Ará: periquito.
9 – Uru: pequeno cesto.
10 – Crautá: bromélia.
11 – Juçara: palmeira de grandes espinhos.
12 – Ignoto: que ou o que é desconhecido.
13 – Lesto: ágil, veloz.
14 – Uiraçaba: estojo em que se guardavam e transportavam as flechas.
1. (UNESP) – O modo como o narrador descreve a personagem
Iracema está de acordo com os preceitos da estética romântica?
Justifique sua resposta, valendo-se de três expressões retiradas do texto.
RESOLUÇÃO:
[UNESP-2017] No romance Iracema, de José de Alencar, a personagem
homônima é descrita conforme as tendências idealizadoras e nacionalistas
do Romantismo. No fragmento, Iracema é aproximada dos elementos da
natureza brasileira, refletindo a edênica paisagem em que está inserida, ela
é a “virgem dos lábios de mel”, caracterizada pelos “cabelos mais negros
que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira”, pelo “sorriso
mais doce do que o favo da jati”, por ser “mais rápida que a ema selvagem”
e por ter “o pé grácil e nu” deslizando suavemente pela “verde pelúcia que
vestia a terra com as primeiras águas”. Enfim, Iracema é calcada no mito
do bom selvagem de Rousseau, símbolo da América primitiva, e na
extensão da beleza e da sensibilidade da terra brasileira. Os exemplos dessa
idealização podem ser retirados de várias passagens do fragmento que vai
do segundo até o sexto parágrafo.
2. (UNESP) – Examine o seguinte trecho: “O sentimento que ele pôs
nos olhos e no rosto, não o sei eu” (12.° parágrafo). A quem se refere
o pronome “eu”? Reescreva este trecho em ordem direta, substituindo
o pronome “o” pelo seu referente.
RESOLUÇÃO:
[UNESP-2017] O pronome “eu” refere-se ao narrador, que no romance
aparece, eventualmente, em primeira pessoa, ainda que, ao longo da
narrativa, o foco seja de terceira pessoa. Em ordem direta, substituindo-se
o pronome “o” pelo seu referente, “sentimento”, tem-se: Eu não sei o
sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto.
Além, muito além daquela serra, que ainda azula no
horizonte, nasceu Iracema.
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais
negros que a asa da graúna1, e mais longos que seu talhe de
palmeira.
O favo da jati2 não era doce como seu sorriso, nem a baunilha
recendia no bosque como seu hálito perfumado.
Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o
sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da
grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava
apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.
Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta.
Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica3, mais fresca do que o
orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores
sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros
ameigavam o canto.
Iracema saiu do banho: o aljôfar4 d’água ainda a roreja5, como
à doce mangaba6 que corou em manhã de chuva. Enquanto
repousa, empluma das penas do gará7 as flechas de seu arco e
concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto
agreste.
A graciosa ará8, sua companheira e amiga, brinca junto dela.
Às vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo
nome; outras, remexe o uru9 de palha matizada, onde traz a
selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá10, as agulhas da
juçara11 com que tece a renda e as tintas de que matiza o algodão.
Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a
virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.
Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho,
se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces
o branco das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das
águas profundas. Ignotas12 armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o
corpo.
Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha
embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do
desconhecido.
De primeiro ímpeto, a mão lesta13 caiu sobre a cruz da espada;
mas logo sorriu. O moço guerreiro aprendeu na religião de sua mãe,
onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu mais d’alma que
da ferida.
O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu.
Porém a virgem lançou de si o arco e a uiraçaba14 e correu para
o guerreiro, sentida da mágoa que causara.
A mão que rápida ferira estancou mais rápida e compassiva o
sangue que gotejava. Depois Iracema quebrou a flecha15 homicida;
deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta farpada.
O guerreiro falou:
— Quebras comigo a flecha da paz?
— Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus
irmãos? Donde vieste a estas matas, que nunca viram outro
guerreiro como tu?
— Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que
teus irmãos já possuíram e hoje têm os meus.
— Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras,
senhores das aldeias, e à cabana de Araquém, pai de Iracema.
(Iracema)
MÓDULO 11 22 Análise de Texto – III
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3. (UNICAMP-SP) – Pensando nos pares amorosos, já se afirmou
que “há n’O Cortiço um pouco de Iracema coada pelo Naturalismo”
(Antônio Cândido, “De Cortiço em Cortiço”, em O Discurso e a
Cidade, São Paulo: Duas Cidades, 1993, p. 142). 
Partindo desse comentário, leia o trecho a seguir e responda ao que se
pede:
a) Na descrição transcrita, identifique dois aspectos que permitem
aproximar Rita Baiana de Iracema, mostrando os limites dessa
semelhança. 
RESOLUÇÃO:
Iracema, protagonista do romance homônimo de José de Alencar, e Rita
Baiana, personagem de O Cortiço, assemelham-se porque são construídas
como sínteses da natureza brasileira. Entretanto, se a primeira, como típica
heroína romântica, é associada apenas a características enaltecedoras,
idealizadas (“o favo da jati não era doce como o seu sorriso”, “mais rápida
que a ema selvagem”), a segunda é ligada a elementos tanto positivos
quanto negativos (“cobra amaldiçoada”, “voz arrogante”, “veneno”,
“cobra verde e traiçoeira”). Outro ponto comum entre as duas personagens
está na utilização que fazem de uma “poção” para consumar um processo
de sedução: a primeira emprega o vinho da jurema; a segunda, o café. Há
que se lembrar, no entanto, que a índia comete um sacrilégio ao usar a
droga, pois a bebida era restrita a um ritual tabajara. O mesmocaráter
pecaminoso não pode ser imputado a Rita Baiana. Pode-se ainda lembrar
que a índia e a mulata, com seu “mel” (“lábios de mel”, no romance
romântico, e “mel chuchurreado no cálice de flores americanas”, no
naturalista), seduzem portugueses cujas “fibras” se encontram
“embambecidas pela saudade da terra”. 
b) Identifique uma semelhança e uma diferença entre Jerônimo e
Martim. 
RESOLUÇÃO:
Martim e Jerônimo são portugueses que têm, pelo menos em parte da
narrativa, saudade de sua terra natal, mas que acabam se radicando no
Brasil. Esse processo de fixação é consequência do encantamento que
sentem pelo novo mundo, metaforizado nas qualidades sedutoras das
brasileiras que encontram, Iracema e Rita Baiana, respectivamente.
Entretanto, Martim é uma personagem de estrato social nobre, pois é um
grande guerreiro, ao contrário de Jerônimo, que é cavouqueiro, isto é, um
simples quebrador de pedra. Além disso, o primeiro tem um caráter
eminentemente passivo: não reage ao ser flechado por Iracema, é protegido
por ela e Caubi diante da sanha ciumenta de Irapuã, e sua primeira relação
sexual com a heroína se dá enquanto está drogado. O segundo,
diferentemente, é bastante ativo: prepara uma emboscada para assassinar
Firmo, namorado de Rita Baiana, e une-se conscientemente a ela. Por fim,
pode-se ainda lembrar que Martim é um herói que luta para manter a
integridade de seu caráter, enquanto Jerônimo, vencido pelo meio, torna-
se alcoólatra e vagabundo, enche-se de dívidas e abandona esposa e filha à
miséria.
O chorado arrastava-os a todos, despoticamente, desesperando
aos que não sabiam dançar. Mas ninguém como a Rita; só ela, só
aquele demônio tinha o mágico segredo daqueles movimentos de
cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o
cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada,
harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante. (...) Naquela mulata
estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu
chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor
vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e
das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a
palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra
planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce
que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu
azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa,
a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do
corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras
embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para
lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor
setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer,
uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da
Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência
afrodisíaca. Isto era o que Jerônimo sentia, mas o que o tonto não
podia conceber. De todas as impressões daquele resto de domingo
só lhe ficou no espírito o entorpecimento de uma desconhecida
embriaguez, não de vinho, mas de mel chuchurreado no cálice de
flores americanas, dessas muito alvas, cheirosas e úmidas, que ele
na fazenda via debruçadas confidencialmente sobre os limosos
pântanos sombrios, onde as oiticicas trescalam um aroma que
entristece de saudade. (...) 
E ela só foi ter com ele, levando-lhe a chávena fumegante da
perfumosa bebida que tinha sido a mensageira dos seus amores;
assentou-se ao rebordo da cama e, segurando com uma das mãos
o pires e com a outra a xícara, ajudava-o a beber, gole por gole,
enquanto seus olhos o acarinhavam, cintilantes de impaciência no
antegozo daquele primeiro enlace. Depois, atirou fora a saia e, só
de camisa, lançou-se contra o seu amado, num frenesi de desejo
doido.
(AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. Ficção Completa. 
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 498 e 581.)
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4. (FUVEST-SP) – Leia o texto a seguir e responda ao que se pede:
1 – Rosbife: tipo de assado ou fritura de alcatra ou filé bovinos, bem tostado
externamente e sangrante na parte central, servido em fatias.
a) A imagem do “rosbife naturalista” — empregada, com humor, por
Machado de Assis, para evocar determinadas características do
Naturalismo — poderia ser utilizada também para se referir a certos
aspectos do romance O Cortiço? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
O Cortiço, como é de esperar de uma obra naturalista, apresenta
preocupação de exibir, sem eufemismo, rodeio ou censura, os aspectos mais
degradantes do ser humano, o que é compatível com a imagem do rosbife,
que é sangrento.
b) A imagem do “doce leite romântico”, que se refere a certos traços
do Romantismo, pode remeter também a alguns aspectos do
romance Iracema? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO:
A expressão “doce leite romântico” refere-se à idealização da realidade,
característica do Romantismo e presente em diversos aspectos de Iracema:
a fidelidade extrema a um ideal de amor, a nobreza e a bravura dos
guerreiros indígenas (que mais parecem cavaleiros medievais), o
enaltecimento da natureza brasileira, o engrandecimento da amizade entre
Martim e Poti, o convívio harmonioso entre portugueses e pitiguaras.
5. (FUVEST-SP) – Responda ao que se pede:
a) Qual é a relação entre o “sistema de filosofia” do Humanitismo, tal
como figurado nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, de
Machado de Assis, e as correntes de pensamento filosófico e
científico presentes no contexto histórico-cultural em que essa obra
foi escrita? Explique resumidamente.
RESOLUÇÃO: 
O Humanitismo, sistema filosófico destinado a arruinar todos os outros,
segundo Quincas Borba, é uma crítica satírica às correntes filosóficas e
científicas da segunda metade do século XIX, como o Evolucionismo e o
Positivismo. Segundo Quincas Borba, a sobrevivência dos mais aptos é a
força propulsora de todos os fenômenos humanos, daí a guerra ser uma
calamidade conveniente, e a fome, uma provação. A máxima filosófica da
Humanitas é “Vida é luta” e, desse combate, apenas os mais fortes saem
vencedores, selecionando-se os aptos à vida, o que remete à teoria
evolucionista de Darwin. Além disso, o Humanitismo ou Humanitas satiriza
o Positivismo, segundo o qual o conhecimento científico é a única forma de
saber verdadeiro, isto é, apenas os métodos científicos são válidos. Machado
de Assis desconstrói o cientificismo da segunda metade do século XIX.
b) De que maneira, em O Cortiço, de Aluísio Azevedo, são encaradas
as correntes de pensamento filosófico e científico de grande
prestígio na época em que o romance foi escrito? Explique
sucintamente.
RESOLUÇÃO: 
O Cortiço é apontado como exemplo bem acabado do Naturalismo, o que
se percebe pela incorporação do pensamento filosófico e científico da época.
Nota-se, nesse romance, a vinculação ao Determinismo, teoria que afirmava
que a personalidade do homem seria condicionada por fatores como raça,
meio e momento. O Determinismo rege a narrativa. Há ainda referências
à Biologia Experimental, de Claude Bernard, nas imagens escatológicas,
na concepção do homem como prisioneiro dos impulsos sexuais. O romance
de tese ou experimental, narrativa que serve como demonstração de um
caso a ser analisado cientificamente, dá-se, por exemplo, na história de
Jerônimo como prova de que o meio seria capaz de comandar a natureza
humana. Em certos casos, O Cortiço obedece a essa doutrina (Rita Baiana,
como mestiça, seria “naturalmente” leviana); outras vezes, subverte-a
(João Romão e Jerônimo, ambos brancos, portugueses e da segunda
metade do século XIX, encontram destinos opostos: o primeiro continua, no
Brasil, com caráter de europeu e de explorador; o segundo, abrasileira-se).
Gente que mamou leite romântico pode meter o dente no
rosbife1 naturalista; mas em lhe cheirando a teta gótica e oriental,
deixa logo o melhor pedaço de carne para correrà bebida da
infância. Oh! Meu doce leite romântico!
(Machado de Assis, Crônicas)
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Examine a tira do cartunista argentino Quino (1932- ) para responder à questão 1.
1. (UNESP-2018)
a) Na tira, o que cada um dos dois grupos de pessoas representa?
RESOLUÇÃO
A dupla à esquerda da tira representa os ricos obcecados por consumo, os que dispõem de capi tal abundante, como indica a montanha de di nheiro onde
estão sentados, são os “potentes e os prepotentes”. O grupo à direita é o dos pobres, aquele que não tem capital e vive da sobra, dos detritos que os ricos
descartam. Esse grupo é o dos “impotentes” e marginalizados em relação aos bens de consumo.
MÓDULO 11 33 Morfologia e Redação (I)
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b) Em português, empregamos a seguinte expressão: “o tiro saiu pela
culatra”. Explicite o sentido dessa expressão e a relacione com a
crítica veiculada pela tira.
RESOLUÇÃO
“Culatra” é a parte posterior ou o fecho do cano da arma de
fogo"(Houaiss). A expressão “o tiro saiu pela culatra” é metafórica, tem
o sentido de que algo saiu ao contrário do que se esperava. Há analogia
com o fato de a bala de revólver não ir em direção ao alvo, mas sim no
sentido de quem efetuou o disparo. Na tira, nota-se que o excesso de
consumo e descarte por parte dos que têm dinheiro causa continuamente
lixo e a consequente deterioração do meio ambiente, prejudicando os
próprios ricos, que deitados, com roupa de banho, só podem contemplar
a montanha de lixo que produziram, sem resolver as graves questões de
desequilíbrio ambiental e social. Perdem inclusive o sol, porque só
conseguem visualizar a miséria que ajudaram a produzir, o que acaba indo
ao encontro do sentido das frase “o tiro saiu pela culatra”.
2. (UNESP-2017) – Examine a tira do cartunista argentino Quino
(1932 - ).
(Quino. A pequena filosofia da Mafalda, 2015. Adaptado.)
Pelo conteúdo de sua redação, depreende-se que o personagem Manuel
Goreiro (o “Manolito”), além de estudar, exerce outra atividade.
Transcreva o trecho em que esta outra atividade se mostra mais
evidente. No trecho “As lojas fecham mais tarde por quê não escurese
mais tamcedo”, verificam-se alguns desvios em relação à norma-
padrão da língua. Reescreva este trecho, fazendo as correções
necessárias. Por fim, reescreva o trecho final da redação (“nós ficamos
muito mais contentes com a primavera com a chegada dela”),
desfazendo a redundância nele contida.
RESOLUÇÃO:
O trecho que evidencia de modo mais claro a profissão de Manolito é “a
gente não vende mais nada”, em que ele se inclui como alguém que trabalha
como atendente em um estabelecimento comercial. 
Em norma culta, o trecho deve ser assim reescrito: As lojas fecham mais
tarde porque não escurece mais tão cedo.
Desfazendo-se a redundância do trecho, tem-se: nós ficamos muito mais
contentes com a chegada da primavera.
Redação
Tema: A Primavera
A primavera pega e
começa no dia 21 de
setembro e termina
quando todos começam
as compras de Natal e
Ano-Novo
As plantas dão folhas
e muitas flores e as
Redação
Tema: A Primavera
A primavera pega e
começa no dia 21 de
setembro e termina
quando todos começam
as compras de Natal e
Ano-Novo
As plantas dão folhas
e muitas flores e as
pessoas já pedem mais
ocacola e Pepsi etc... eC
outras bebidas e cerveja
e presunto também. As
lojas fecham mais tarde
por quê não escurese mais
tamcedo como no inverno
que as setemeia a gente
não vende mais nada e em
compensasão
pessoas já pedem mais
ocacola e Pepsi etc... eC
outras bebidas e cerveja
e presunto também. As
lojas fecham mais tarde
por quê não escurese mais
tamcedo como no inverno
que as setemeia a gente
não vende mais nada e em
compensasão
a Primavera é a
melhor estasão e
todos nós ficamos
muito mais contentes
com a primavera
com a chegada dela
a Primavera é a
melhor estasão e
todos nós ficamos
muito mais contentes
com a primavera
com a chegada dela
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Leia o trecho do conto O alienista1, de Machado de Assis (1839-1908),
para responder às questões 3 e 4.
3. (UNESP- junho-2018)
a) Cite os referentes dos pronomes sublinhados no primeiro e no
segundo parágrafos.
RESOLUÇÃO
O pronome oblíquo “se” refere-se a “Simão Bacamarte”; o pronome
oblíquo “lhe” refere-se a “um modesto”.
b) Transcreva dois pequenos excertos em que o narrador se dirige
diretamente ao leitor.
RESOLUÇÃO
Nas passagens " Agora, se imaginais", " mostrais com isso que ainda não
conheceis " e "Vede a diferença", o narrador dirige-se diretamente ao
leitor, pois os verbos estão na segunda pessoa do plural, promovendo a
interlocução com o receptor.
4. (UNESP- junho-2018)
a) Transcreva o trecho “ele [vereador Galvão] obteve uma boa
interpretação, corrompendo os juízes, e embaçando os outros
herdeiros” (5.o parágrafo), substituindo os termos sublinhados por
outros de sentido equivalente.
RESOLUÇÃO
“Corrompendo”, no contexto, pode ser substituído por “subornando,
aliciando”; “embaçando”, por “atrapalhando, dificultando, complicando”.
b) Transcreva o trecho “— Foi um santo remédio, contava a mãe do
infeliz a uma comadre” (3.o parágrafo) em discurso indireto e em
ordem direta.
RESOLUÇÃO
Transpondo para discurso indireto o trecho em ordem direta tem-se:
A mãe do infeliz contava a uma comadre que fora (ou tinha sido) um santo
remédio.
Era a vez da terapêutica. Simão Bacamarte, ativo e sagaz em
descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligência e penetração
com que principiou a tratá-los. Neste ponto todos os cronistas estão
de pleno acordo: o ilustre alienista fez curas pasmosas, que
excitaram a mais viva admiração em Itaguaí.
Com efeito, era difícil imaginar mais racional sistema
terapêutico. Estando os loucos divididos por classes, segundo a
perfeição moral que em cada um deles excedia às outras, Simão
Bacamarte cuidou em atacar de frente a qualidade predominante.
Suponhamos um modesto. Ele aplicava a medicação que pudesse
incutir-lhe o sentimento oposto; e não ia logo às doses máximas, —
graduava-as, conforme o estado, a idade, o temperamento, a posição
social do enfermo. Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma
cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado; em outros
casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de
brilhantes, às distinções honoríficas, etc. Houve um doente, poeta,
que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar da
cura, quando teve ideia de mandar correr matraca, para o fim de o
apregoar como um rival de Garção2 e de Píndaro3.
— Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a uma
comadre; foi um santo remédio.
[...]
Tal era o sistema. Imagina-se o resto. Cada beleza moral ou
mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida;
e o efeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a
qualidade predominante resistia a tudo; então, o alienista atacava
outra parte, aplicando à terapêutica o método da estratégia militar,
que toma uma fortaleza por um ponto, se por outro o não pode
conseguir.No fim de cinco meses e meio estava vazia a Casa Verde;
todos curados! O vereador Galvão, tão cruelmente afligido de
moderação e equidade, teve a felicidade de perder um tio; digo
felicidade, porque o tio deixou um testamento ambíguo, e ele obteve
uma boa interpretação, corrompendo os juízes, e embaçando os
outros herdeiros. 
[...]
Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o
último hóspede da Casa Verde, mostrais com isso que ainda não
conheceis o nosso homem. Plus ultra!4 era a sua divisa. Não lhe
bastava terdescoberto a teoria verdadeira da loucura; não o
contentava ter estabelecido em Itaguaí o reinado da razão. Plus
ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogitativo; alguma coisa
lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima
teoria. — Vejamos, pensava ele; vejamos se chego enfim à última
verdade. 
Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde fulgurava a
mais rica biblioteca dos domínios ultramarinos de Sua Majestade.
Um amplo chambre de damasco, preso à cintura por um cordão de
seda, com borlas de ouro (presente de uma Universidade) envolvia
o corpo majestoso e austero do ilustre alienista. A cabeleira cobria-
lhe uma extensa e nobre calva adquirida nas cogitações cotidianas
da ciência. Os pés, não delgados e femininos, não graúdos e
mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram resguardados por um
par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto
latão. Vede a diferença: — só se lhe notava luxo naquilo que era de
origem científica; o que propriamente vinha dele trazia a cor da
moderação e da singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um
sábio.
(O alienista, 2014.)
1alienista: médico especialista em doenças mentais.
2Garção: um dos principais poetas do Neoclassicismo português.
3Píndaro: considerado o maior poeta lírico da antiga Grécia.
4Plus ultra!: expressão latina que significa “Mais além!”.
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Para responder às questões de 5 a 7, leia a letra da canção “Deus lhe
pague”, do compositor Chico Buarque (1944- ), composta em 1971.
5. (UNESP-2017) – “Deus lhe pague”: pedido a Deus para que
abençoe alguém por algo bom que esse alguém praticou.
(Carlos Alberto de M. Rocha e Carlos Eduardo P. de M. Rocha.
Dicionário de locuções e expressões da língua portuguesa, 2011.)
Considerando a definição da expressão “Deus lhe pague”, é correto
afirmar que o compositor se apropriou ironicamente dessa expressão
em sua canção? Justifique sua resposta, valendo-se de três versos da
letra da canção.
RESOLUÇÃO:
A expressão “Deus lhe pague” é uma apropriação irônica de uma expressão
coloquial, que foi usada como estribilho na letra da música de Chico
Buarque, composta em 1971, durante a ditadura militar. A ironia da
expressão se deve ao fato de que a letra denuncia a situação de miséria do
povo “pão pra comer, por esse chão pra dormir”, a repressão em
“concessão pra sorrir”, a política do pão e circo em “piada no bar e o
futebol pra aplaudir”, entre outros exemplos de situações de penúria e de
restrição à liberdade por que passava o povo brasileiro, sendo o
agradecimento uma zombaria dirigida às autoridades da época.
6. (UNESP-2017) – Considere as definições dos seguintes conceitos:
1. Autonomia: direito de um indivíduo tomar decisões
livremente; independência moral ou intelectual; capacidade de
governar-se pelos próprios meios.
2. Heteronomia: sujeição de um indivíduo a uma instân cia
externa ou à vontade de outrem; ausência de autonomia.
Qual dos conceitos mostra-se mais adequado para descrever a
existência retratada pela letra da canção? Justifique sua resposta, com
base no texto.
Considerando o contexto histórico-social em que a canção foi
composta, a quem ou a que se refere o pronome “lhe” em “Deus lhe
pague”?
RESOLUÇÃO:
A existência retratada pela letra define-se pelo con ceito da heteronomia,
uma vez que o eu lírico descreve uma vida à mercê das vontades e
permissões de outrem, “ a concessão pra sorrir / por me deixar respirar /
por me deixar existir”.
A música foi composta em 1971, durante o regime militar, sendo uma forma
de protesto contra os abusos da ditadura então vigente. De forma irônica,
portanto, o “lhe”, objeto indireto do verbo “pagar”, refere-se aos
governantes.
7. (UNESP-2017) – O eufemismo consiste em atenuar o sentido
desagradável de uma palavra ou expressão, substituindo-a por outra,
capaz de suavizar seu significado.
(Celso Cunha. Gramática essencial, 2013. Adaptado.)
Transcreva o verso em que se verifica a ocorrência de eufemismo.
Justifique sua resposta.
Reescreva, em linguagem formal, o trecho destacado do seguinte verso:
“Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair”.
RESOLUÇÃO:
Um exemplo de eufemismo está em “e pela paz derradeira que enfim vai
nos redimir”, em que a ideia de paz e redenção atenua a ideia de morte.
Reescrevendo o verso em linguagem formal, tem-se:
“Pelos andaimes, pingentes, de que (dos quais) nós temos de (que) cair.”
Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague
Pelo prazer de chorar e pelo “estamos aí”
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Deus lhe pague
Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Deus lhe pague
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague
(www.chicobuarque.com.br)
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Leia o trecho do livro O maior espetáculo da Terra, do biólogo
britânico Richard Dawkins (1941- ), para responder às questões 1 e 2.
1. (UNESP- junho-2018)
a) Explique sucintamente o que o autor entende por “corrida
armamentista evolucionária”.
RESOLUÇÃO
“Corrida armamentista evolucionária” é a disputa entre o predador e a
presa. Ela é evolucionária, porque tanto o agressor quanto a vítima vão,
ao longo do tempo, incorporando melhores recursos para o ataque e para
a defesa. Embora haja uma série de transformações em ambos, elas não
alteram a base da diferença original.
b) De que forma a fala da Rainha de Copas a Alice – “eles correm o
mais rápido possível para não sair do lugar” (1.o parágrafo) –
relaciona-se com a “marca registrada das corridas armamentistas”
(1.o parágrafo)?
RESOLUÇÃO
A “marca registrada das corridas armamentistas” é o aprimoramento tanto
do predador como também da presa, mas o poder de ataque e o de defesa
não sofreram desequilíbrio. Por isso, essa competição armamentista, que
não se modifica substancialmente em relação ao início da disputa, equivale
à fala da Rainha de Copas a Alice: “Eles correm o mais rápido possível
para não sair do lugar”.
A seleção natural impele espécies predadoras a tornarem-se cada
vez melhores em apanhar presas, e simultaneamente impele
espécies que são caçadas a tornarem-se cada vez melhores em
escapar dos caçadores. Predadores e presas apostam uma corrida
armamentista evolucionária, disputada no tempo evolucionário. O
resultado tem sido uma constante escalada na quantidade de
recursos econômicos que os animais, dos dois lados, despendem na
corrida armamentista, em detrimento de outros departamentos de
sua economia corporal. Caçadores e caçados tornam-se cada vez
mais bem equipados para correr mais do que (ou surpreender, ou
sobrepujar em astúcia etc.) o outro lado. Mas um equipamento
aprimorado para correr mais não se traduz obviamente em mais
sucesso numa corrida, pela simples razão de que, numa corrida
armamentista, o outro lado também está aprimorando seu
equipamento: essa é a marca registrada das corridas armamentistas.
Poderíamos dizer, como explicou a Rainha de Copas a Alice, que
eles correm o mais rápido possível para não sair do lugar.
Darwin tinha plena noção das corridas armamentistas evolu-
cionárias, embora não usasse essa expressão. Meu colega John Krebs
e eu publicamos um artigo sobre o tema em 1979, no qual atribuímos
a expressão “corrida armamentista” ao biólogo britânico Hugh Cott.
Talvez significativamente, Cott publicou seu livro, Adaptive
coloration in animals, em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial:
Antes de afirmar que a aparência enganosa de um gafanhoto ou
borboleta é desnecessariamente detalhada, devemos verificar primeiro
quais são os poderes de percepção e discriminação dos inimigos
naturais desses insetos. Não fazê-lo é como dizer que a blindagem de
um cruzador é pesada demais ou que seu conjunto de canhões é
demasiado grande, sem investigar a natureza e a eficácia do
armamento do inimigo. O fato é que, na primeva1 luta da selva, assim
como nos refinamentos da guerra civilizada, vemos em progresso uma
grande corrida armamentista evolucionária — cujos resultados, para a
defesa, manifestam-se em recursos como velocidade, estado de alerta,
couraça, coloração, hábitos subterrâneos, hábitos noturnos, secreções
venenosas e gosto nauseante; e, para o ataque, em atributos
compensadores como velocidade, surpresa, emboscada, atração,
acuidade visual, garras, dentes, ferrões, presas venenosas e coloração
atrativa. Assim como a velocidade do perseguido desenvolveu-se em
relação a um aumento na velocidade do perseguidor, ou uma couraça
defensiva em relação a armas ofensivas, também a perfeição de
recursos de disfarce evoluiu em resposta a poderes crescentes de
percepção.
Saliento que a corrida armamentista é disputada no tempo
evolucionário. Não deve ser confundida com as corridas entre, por
exemplo, um guepardo individual e uma gazela individual, que é
disputada em tempo real. A corrida no tempo evolucionário é uma
corrida que desenvolve equipamento para as corridas em tempo real.
E o que isso realmente significa é que os genes para produzir o
equipamento destinado a vencer o adversário em esperteza ou
velocidade acumulam-se nos reservatórios gênicos de ambos os lados.
(O maior espetáculo da Terra, 2009. Adaptado.)
1primevo: antigo, primitivo.
MÓDULO 11 44 Morfologia e Redação (II)
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2. (UNESP- junho-2018)
a) A frase “Darwin tinha plena noção das corridas armamentistas
evolucionárias, embora não usasse essa expressão” (2.o parágrafo)
pode ser considerada ambígua? Justifique sua resposta. 
RESOLUÇÃO
A frase apresenta duplo sentido porque não se sabe se Darwin desconhecia
a expressão “corrida armamentista evolucionária” ou se a expressão
“corrida armamentista evolucionária” não era empregada na época, pois,
segundo o autor, essa expressão só foi usada pela primeira vez por Hugh
Cott, em 1940, posterior , portanto, à morte de Darwin em 1882. 
b) Oximoro: figura de retórica em que se combinam palavras de
sentido oposto que parecem excluir-se mutuamente, mas que, no
contexto, reforçam a expressão; paradoxismo.
(Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 2009.)
Há na citação de Hugh Cott uma expressão que pode ser considerada
exemplo de oximoro. Identifique-a e justifique sua resposta..
RESOLUÇÃO
Há paradoxismo ou oximoro na expressão “refinamentos da guerra
civilizada”, já que uma guerra não é refinada nem tampouco civilizada, ou
seja, as duas palavras “refinamento” e “civilizada” apresentam sentido
oposto a “guerra”.
Leia o excerto do conto “A cartomante”, de Machado de Assis, para
responder às questões 3 e 4.
3. ( UNESP) – O trecho do quinto parágrafo “[Ele] disse-lhe que era
imprudente andar por essas casas” foi construído em discurso indireto.
Reescreva-o em discurso direto, substituindo os pronomes sublinhados
pelos nomes das personagens e efetuando os demais ajustes necessários.
RESOLUÇÃO:
Camilo disse a Rita:
– É imprudente andar por essas casas.
Hamlet observa a Horácio que há mais coisas no céu e na terra
do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava
a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de
1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma
cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois
saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta antes
mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as
cartas, disse-me: “A senhora gosta de uma pessoa...” Confessei
que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e
no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse,
mas que não era verdade... 
— Errou! interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho
andado, por sua causa. Você sabe, já lhe disse. Não ria de mim,
não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou
que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em
todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era
ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente
andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
[...]
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe
chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de
todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a
rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências.
Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz.
Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas
cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um
pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios
do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato. 
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à
cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do
procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a
confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez.
Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou
três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser
advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi
a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas,
formulou este pensamento: – a virtude é preguiçosa e avara, não
gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o
anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem
remédio.
(Contos: uma antologia, 1998.)
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4. (UNESP) – Há, no penúltimo parágrafo, o emprego de uma figura
de retórica que consiste no alargamento semântico de termos que
designam dois entes abstratos pela atribuição a eles de traços próprios
do ser humano.
Quais são os dois entes abstratos que passam por tal processo?
Justifique sua resposta. Como se denomina tal figura de retórica?
RESOLUÇÃO:
Trata-se das palavras “virtude” e “interesse”. O narrador, ao registrar o
pensamento de Rita, atribui à virtude a característica humana da preguiça
e da avareza; e ao “interesse”, a atividade e a prodiga li da de. Esse processo
de atribuir características humanas a entes abstratos denomina-se
prosopopeia ou personi ficação.
5. Identifique as figuras presentes nos trechos a seguir: extraídos de
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis:
a) Quê? Uma criatura tão dócil, tão meiga, tão santa, que nunca
jamais fizera verter uma lágrima de desgosto, mãe carinhosa,
esposa imaculada, era força que morresse assim, trateada, mordida
pelo dente tenaz de uma doença sem misericórdia?
RESOLUÇÃO
Anáfora a gradação ascendente “tão dócil, tão meiga, tão santa”.
Pleonasmo “nunca jamais”. Metáfora: “dente tenaz de uma doença”.
b) Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos,
nem conhecidos, nem estranhos: não há platéia.
RESOLUÇÃO
Polissíndeto: “nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nemestranhos”
(conjunção aditiva) e antíteses.
c) Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação única,
uma coisa a que poderia chamar volúpia do aborrecimento.
RESOLUÇÃO
Paradoxo: “volúpia” (=grande prazer) e “aborrecimento” (fastio, tédio).
d) O próprio tio João, guloso de escândalos, não tratou de outro
assunto na carta, aliás de muitas folhas.
RESOLUÇÃO
Metáfora: “guloso de escândalos”. Catacrese: “carta de muitas folhas”.
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1. (UNICAMP-2018) – Enquanto viveu em Portugal, o escritor Mário
Prata reuniu centenas de vocábulos e expressões usados no português
falado na Europa que são diferentes dos termos correspondentes usados
no português do Brasil. Reproduzimos abaixo um dos verbetes de seu
dicionário.
Descapotável
É outra palavra que em português faz muito mais sentido do que em
brasileiro. Não é mais claro dizer que um carro é descapotável, do que
conversível?
(Mário Prata, Dicionário de português: schifaizfavoire. 
São Paulo: Editora Globo, 1993, p. 48.)
a) Identifique os dois afixos que formam a palavra “descapotável” a
partir do substantivo “capota” (cober tura de um automóvel) e
explique a função de cada um.
RESOLUÇÃO
A palavra “descapotável”, a partir do substantivo “capota”, apresenta o
prefixo “des-”, que significa negação, e o sufixo “-vel”, formador de
adjetivo, que significa “passível de”.
Ressalve-se que, de acordo com o dicionário Houaiss, “descapo tável”
forma-se por derivação sufixal (descapotar + vel) e “descapotar”, por
derivação parassintética (des + capota + ar). A formação etimológica desse
vocábulo difere daquela dada pelo examinador.
b) Explique por que o autor considera, com certo humor, que a palavra
“descapotável” do português europeu faz mais sentido de que o
termo“conversível”, usado no português brasileiro.
RESOLUÇÃO
O adjetivo “descapotável”, usado no português europeu, significa “carro
cuja capota, flexível ou rígida, pode ser baixada e recolhida, ou retirada”
(Houaiss). O adjetivo “conversível”, usado no Brasil, significa o “que se
pode converter, convertível” ou ainda “cuja capota se pode dobrar ou
remover” (Houaiss). Apesar de os adjetivos poderem ser sinônimos, o autor
do texto considera “descapotável” mais adequado por ser mais específico,
já que literalmente significa “sem capota”; en quanto “conversível”, de
sentido mais amplo, significa também tudo aquilo que pode ser mudado,
convertido.
MÓDULO 11 55 Morfologia e Redação (III)
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2. (UNICAMP-2018) – Leia a seguir trechos das entrevistas
concedidas pelo escritor chileno Alejandro Zambra ao jornal Folha de
São Paulo e à revista Cult sobre seu livro Múltipla Escolha, lançado no
Brasil em 2017. A obra imita o formato da Prova de Aptidão Verbal
aplicada de 1966 a 2002 aos candidatos a vagas em universidades no
Chile.
a) Cite dois fatores que levaram Zambra a adotar a forma narrativa
empregada em Múltipla Escolha.
RESOLUÇÃO
Um dos fatores que levou Zambra a adotar essa forma narrativa foi o
descontentamento no que tange à enunciação unívoca, isto é, uma voz única
e impositiva que limita a interpretação. Esse tipo de narrativa assemelha-
se à de Estados ditatoriais. O outro fator que levou Zambra a querer incor -
porar esse tipo de texto foi a “postura crítica e autocrítica, o humor e a
dor”. Assim, desnuda-se o autorita rismo do enunciador e des mis tifica-se a
resposta dada como correta pelo arbítrio de quem a pretende como tal.
b) Por que Múltipla Escolha não funciona como a Prova de Aptidão
Verbal chilena? Justifique sua resposta com base no tipo de leitor
solicitado pela obra.
RESOLUÇÃO
A Prova de Aptidão Verbal chilena é autoritária, foi aplicada inclusive na
vigência da ditadura de Augusto Pinochet, que se inicia em 11 de setembro
de 1973, e impõe um tipo de abordagem dos pro blemas e admite
arbritrariamente uma única resposta.
Múltipla Escolha não tem as características da Prova de Aptidão Verbal
chilena porque pede uma leitura múltipla, aberta a interpretações críticas
e auto críticas, não permitindo uma recepção única, fechada.
Falando à Folha, Zambra afirma que havia na prova de múltipla
escolha “uma grande sintonia com a ditadura chilena. Para entrar na
universidade, teríamos que saber eliminar as orações. Havia censura,
e nos aconselhavam a censurar”. E acrescenta que osistema
educacional moldava o pensamento dos alunos com“a ideia de que
só existe uma resposta correta.”
Abordando o sentido crítico da escolha desse formato para a
narrativa, o autor explica à Cult que, tendo sido criado nesse sistema,
interessava-lhe mais a autocrítica. Escrevendo uma espécie de
novela, lembrou-se da prova e começou a brincar com esse formato.
“No começo foi divertido, como imitar as vozes das pessoas, mas
logo me dei conta de que também imitava minha própria voz, até
que de repente entendi que esse era o livro. A paródia e a
autoparódia, a crítica e a autocrítica, o humor e a dor...” O formato
de prova oferece diversas opções para completar e interpretar cada
resposta, mas pede ao leitor um movimento duplo de leitura: testar
possibilidades de respostas e erigir uma opção única e arbitrária.
Zambra esclarece: “me interessam todos esses movimentos da
autoridade. A ilusão de uma resposta, por exemplo. Creio que este
é um livro sobre a ilusão de uma resposta. Nos ensinaram isso, que
havia uma resposta única, e logo descobrimos que havia muitas e
isso às vezes foi libertador e outras vezes foi terrível. Quem sabe
algumas vezes nós também quisemos que houvesse uma resposta
única.”
(Adaptado de entrevistas de Alejandro Zambra concedidas ao
jornal Folha de São Paulo e à revista Cult em maio de 2017.
Disponíveis em https://revistacult.uol.com.br/home/alejandro-
zambra-multipla-escolha/ e em
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/05/1885551 -
literatura-esta-ligada-a-desordem-diz-escritor-chileno-alejandro-
zambra.shtml. Acessados em 11/12/2017.
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3. (FUVEST-2018) – Leia o texto.
a) Segundo a concepção do autor, como a poesia pode ser entendida?
RESOLUÇÃO
Rubem Alves conta um episódio em que uma per sonagem, antes
acostumada com a função prag mática da cebola como mero alimento,
surpreende-se ao descobrir a beleza nunca antes vista nesse vegetal, com
seus “anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles”. Essa
narrativa permite inferir o conceito de arte defendida pelo autor: a
produção de um olhar diferente, inusitado sobre a realidade, destacando
não o aspecto prático, utilitário, mas a disposição para o espanto diante da
beleza. A arte passa a ser, portanto, fruto de uma nova percepção do
convencional, do banal, do co tidiano.
b) Reescreva o trecho “Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”,
substituindo o termo sublinhado por “Naquela época” e
empregando a primeira pessoa do plural. Faça as adaptações
necessárias.
RESOLUÇÃO
O trecho apresentado, reescrito, passa a ser “Naquela época, tudo o que
víamos nos causava espanto”.
Texto para a questão 4.
4. (FUVEST)
a) Transcreva o trecho do texto em que o autor explora, com fins
expressivos, o emprego de termos contra ditórios, sublinhando-os. 
RESOLUÇÃO:
Trata-se do fragmento “(...) um grupo de cientistas construiu uma
traquitana simples, mas extrema mente sofisticada (...)”
O adjetivo simples refere-se a algo “descom pli cado”, e sofisticado, ao
contrário, a algo “com plexo”.
b) Esse excerto provém de um artigo de divulgação científica. Aponte
duas características da linguagem nele empregada que o
diferenciam de um artigo científico especializado. 
RESOLUÇÃO:
O artigo científico prima por terminologia espe cífica de determinada áreado conhecimento em linguagem denotativa e objetiva.
Esse excerto distancia-se de um artigo científico convencional na medida
em que o autor utiliza linguagem acessível a leigos, com imagens corri -
queiras. Além disso, ao usar a 1.a pessoa do plural, o autor refere-se a
experiências compartilhadas entre ele e os seus leitores. Isso fica evidente,
por exemplo, no trecho: “Somos capazes de andar dezenas de quilômetros
por quilo de feijão ingerido.” Há também o emprego de uma me táfora,
“haste... espécie de embreagem”, recurso pouco comum em textos
científicos.
A complicada arte de ver
Ela entrou, deitou-se no divã e disse: "Acho que estou ficando
louca". Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os
sinais da sua loucura. "Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para
a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões é uma
alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer
aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal
sem surpresa. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um
susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis
perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão
de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De
repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra
de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando
cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa
espanto."
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui
à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementares", de Pablo
Neruda. Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação
ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que
Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou
assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não
está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a
ver".
Rubem Alves, Folha de S.Paulo, 26/10/2004. Adaptado.
Nosso andar é elegante e gracioso, e também extremamente
eficiente do ponto de vista energético. Somos capazes de andar
dezenas de quilômetros por quilo de feijão ingerido. Ate agora,
nenhum sapato, nenhuma técnica especial de balançar os braços,
ou qualquer outro truque foram capazes de melhorar o número de
quilômetros caminhados por quilo de feijão consumido. Mas,
agora, depois de anos investigando o funcionamento de nossas
pernas, um grupo de cientistas construiu uma traquitana simples,
mas extremamente sofisticada, que é capaz de diminuir o consumo
de energia de uma caminhada em até 10%. 
Trata-se de um pequeno exoesqueleto que recobre nosso pé e
fica preso logo aboixo do joelho. Ele mimetiza o funcionamento do
tendão de Aquiles e dos músculos ligados ao tendão. Uma haste
no altura do tornozelo, a qual se projeta para trás, segura uma
ponta de uma mola. Outra haste, logo abaixo do joelho, segura
uma espécie de embreagem (...). 
Fernando Reinach, 
www.estadao.com.br, 13/06/2015. Adaptado.
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As questões de números 1 a 4 tomam por base o poema Livros, do
parnasiano brasileiro Afonso Celso (1860-1938) e uma passagem do
livro Elementos de bibliologia, do filólogo e lexicógrafo brasileiro An -
tonio Houaiss (1915-1999).
1. (UNESP) – Considerando que o poema Livros surge num livro pu -
blicado em 1904 e é uma bem-humorada crítica à cultura livresca,
sintetize a opinião sobre a utilidade dos livros manifestada pelo eu
lírico no poema de Afonso Celso.
RESOLUÇÃO:
Segundo o autor, os livros não têm nenhuma utilidade prática. Não tornam
quem os lê “nem menos mau, nem mais feliz” e nem trazem “paz e
conforto”. Ade mais, a leitura não responde as perguntas essenciais sobre a
existência humana: “Nenhum me diz se eu amanhã / Vivo estarei ou se, já
morto, / Terá cessado o meu afã”. De forma bem-humorada, o poeta
conclui, nos últimos versos, que a destruição da cultura livres ca alteraria
em nada a experiência de viver.
LIVROS
De livros mil vivo cercado,
Dias e noites passo a ler,
Mas, francamente, o resultado
Coisa não é de agradecer.
Nenhum me dá – paz e conforto,
Nenhum me diz se eu amanhã
Vivo estarei ou se, já morto,
Terá cessado o meu afã.
Nada afinal sabeis ao certo
Sobre das almas o tropel...
Do vosso cume vê-se perto,
Chatas montanhas de papel.
Vãs pretensões! Orgulho fofo!
Do ser mesquinho que voz fez
Tendes o mesmo vil estofo,
Tendes a mesma pequenez.
Cada vez mais, debalde, avulta
Vossa maré... Tudo invadis;
Mas não tornais quem vos consulta
Nem menos mau, nem mais feliz.
Que um cataclismo vos destrua,
Mal não fará... Sem o sentir,
Serena a vida continua:
Lutar, sofrer, sonhar, mentir.
(Afonso Celso. Poesias escolhidas. Rio de Janeiro: 
H. Garnier Livreiro-Editor, 1904, p. 03-04. Adaptado.)
O LIVRO E A DOCUMENTAÇÃO
Nas condições do atual desenvolvimento histórico da humani -
da de, o conhecimento de primeira mão não pode progredir sem o de
se gunda mão. Conhecimento de pri meira mão é o decorrente,
digamos assim, da integração do homem na natureza, para dela
haurir continuidade específica e felicidade individual; essa inte -
gração, para consolidar-se, foi condicionada pela e condicionou a
comunicação verbal, implicadora do conhecimento de segunda
mão, a linguagem, no que ela encerra de transmissão cognitiva.
Esse conhecimento de segunda mão multiplicou de importância a
partir do momento em que o homem pôde mantê-lo em conserva,
graficamente, para uso de seus contemporâneos e de seus pósteros.
A noosfera, gerando a grafosfe ra, aumentou os poderes e potências
do homem. E hoje a matéria mentada e em conserva gráfica é tão 
imensa e se renova em ritmo tão intenso, que um dos mais graves
problemas da civilização e da cultura humanas é conseguir torná-
la relativamente acessível a quantos queiram ou possam acres cen -
tar seu esforço ao herdado das gerações anteriores, na luta pelo
aumento do saber, vale dizer, do conhecer, vale dizer, do fazer, vale
dizer, do conhecer-fazer-conhecer-fazer, vale dizer, da perpetuação
espe cífica e da felicidade individual. Uma “documentação ativa” é
condição e imperativo, nesta altura, do progresso. Forma privile gia -
da da mensagem gráfica, o livro se insere, necessaria mente, na
documentação, como um dos meios espe cí ficos mais poderosos e
eficazes da mesma documentação; mas não ape nas o livro, é óbvio,
senão que quantas coisas realizadas, execu tadas, interpretadas,
achadas, orde nadas, nominadas pelo homem.
(Antonio Houaiss. Elementos de bibliologia. Rio de Janeiro:
Instituto Nacional do Livro, 1967, vol II, p. 36-37.)
MÓDULO 11 66 Interpretação de Textos (I)
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2. (UNESP) – Ao demonstrar a utilidade dos livros, Houaiss estabe -
lece dois conceitos: conhecimento de primeira mão e conhe cimento de
segunda mão. Releia o texto e explique a diferença entre esses dois
conceitos.
RESOLUÇÃO:
O conhecimento de primeira mão diz respeito à “integração do homem na
natureza”, isto é, resulta da experiência adquirida pelo contato direto com
os elementos naturais. Essa integração promoveu o surgimento da lin gua -
gem, da comunicação verbal, que é o conhecimento de segunda mão.
Derivada desse conhecimento, surgiu a escrita, que possibilitou a
transmissão dos saberes para outros indivíduos, contemporâneos ou das
gerações seguintes.
3. (UNESP) – Mas não tornais quem vos consulta / Nem menos mau,
nem mais feliz.
Nestes versos, o eu lírico se serve ao mesmo tempo de dois proce di -
mentos tradicionais da poesia e da oratória, a personificação (ou pro -
so popeia), atribuição de vida, ação, movimento e voz a coisas
inani madas, e a apóstrofe, recurso que consiste em o orador ou o eu
lírico dirigir-se a uma pessoa ou coisa real ou fictícia. Identifique a pre -
sençada personificação e da apóstrofe nos versos citados e aponte as
palavras que, por suas características gra maticais, permitem detectar
esses procedimentos.
RESOLUÇÃO:
O autor do poema personifica os livros e dialoga com eles a partir da
terceira estrofe. As ações que ele atribui aos livros, por meio do verbo tornar
(tornar menos mau, tornar mais feliz), podem implicar (mas não
necessariamente) um agente animado, personi ficado. A prosopopeia se
configura mais claramente com a presença da apóstrofe, pois tais agentes
são tratados como interlocutores, por meio do verbo – tornais – e do
pronome – vos – na segunda pessoa, isto é, o eu lírico se dirige a eles como
se fossem pessoas.
4. (UNESP) – Um conceito lógico pode ser expresso figu ra damente,
para ser melhor entendido. É o que ocorre no texto de Houaiss na
passagem o homem pôde mantê-lo em conserva. Explique o signifi -
cado lógico dessa imagem no contexto em que surge.
RESOLUÇÃO:
A metáfora utilizada pelo autor sugere que a escrita possibilitou que os
conhecimentos adquiridos pela humanidade fossem preservados.
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Texto para as questões 5 e 6.
5. (FGV-Economia) – Analise as informações, extraídas e adap ta das
da Moder na Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, e res ponda
ao solicitado.
a) Os substantivos apresentam-se com a sua significação diminuída,
auxiliados por sufixos derivacionais. Além disso, a ideia de peque -
nez se associa facilmente à de carinho que transparece nas formas
diminutas.
Transcreva do texto um exemplo para cada uma das descrições
apresentadas.
RESOLUÇÃO:
Os substantivos que apresentam sufixos derivacio nais e têm sentido de
“pequeno, de tamanho reduzido” são cavalinho, saquinhos e pacotinhos. As
formas que no diminutivo conotam afetividade são olhinhos, em que o
personagem Alonso demonstra seu carinho pelo cachorro; e casaquinho,
forma carinhosa de se referir a um tipo de vestuário.
b) Em algumas ocasiões, o possessivo “seu” pode dar lugar a dú vi das,
a respeito do possuidor. Remedeia-se o mal com a substi tui ção de
seu, sua, seus, suas, pelas formas dele, dela, deles, delas, de você,
do senhor, etc., conforme convier.
Transcreva do texto uma passagem em que um eventual emprego do
pronome seu geraria ambiguidade e explique quais seriam os
potenciais referentes do pronome, nesse caso.
RESOLUÇÃO:
A única passagem que poderia provocar ambi gui da de caso o pronome
possessivo dele fosse trocado por seu é “Quando ele acordar amanhã vai
en contrar o cavalinho dentro do sapato dele”. Se fosse empregado o
pronome seu, ele poderia referir-se tanto ao filho de Leduína, quanto ao
personagem Alonso, que dialoga com ela. 
6. (FGV-Economia) – Com base nos tipos de discurso pre sen tes no
texto,
a) reescreva, em discurso indireto, o trecho do diálogo entre Alonso e
Leduína, constante nos terceiro e quarto parágrafos, dando
sequência à última frase do segundo parágrafo.
Alonso voltou-se para Leduína e...
RESOLUÇÃO:
Alonso voltou-se para Leduína e perguntou o que o filho dela ia (ou iria)
ganhar. A mulher respondeu que era um cavalinho e completou com a voz
suave que quando ele acordasse no dia seguinte ia (ou iria) encontrar o
cavalinho dentro do sapato, e que ele a vivia atormentando que queria um
cavalinho...
b) transcreva duas passagens que exemplifiquem o discurso indireto
livre, justificando essa seleção.
RESOLUÇÃO:
As frases em discurso indireto livre são “pois não prometera levá-lo? Não
prometera?” e “Ah, se ela pudesse ouvi-lo!”, pois nelas se misturam o
pensa men to do personagem Alonso e o discurso do narrador. 
— Hoje é dia de Natal, menino. Eles vão jantar fora, eu também
tenho a minha festa, você vai jantar sozinho.
Alonso inclinou-se. E espiou apreensivo debaixo do fogão. Dois
olhinhos brilharam no escuro. [O cachorro] Biruta ainda estava lá
e Alonso suspirou. Era tão bom quando Biruta resolvia se sentar!
Melhor ainda quando dormia. Tinha então a certeza de que não
estava acontecendo nada, era a trégua. Voltou-se para Leduína.
— O que seu filho vai ganhar?
— Um cavalinho – disse a mulher. A voz suavizou. – Quando ele
acordar amanhã vai encontrar o cavalinho dentro do sapato dele.
Vivia me atormentando que queria um cavalinho, que queria um
cavalinho...
Alonso pegou uma batata cozida, morna ainda. Fechou-a nas
mãos arroxeadas.
— Lá no orfanato, no Natal, apareciam umas moças com uns
saquinhos de balas e roupas. Tinha uma moça que já me conhecia,
me dava sempre dois pacotinhos em lugar de um. Era a madrinha.
Um dia ela me deu sapatos, um casaquinho de malha e uma
camisa...
— Por que ela não adotou você?
— Ela disse uma vez que ia me levar, ela disse. Depois não sei
por que ela não apareceu mais, sumiu...
Deixou cair na caçarola a batata já fria. E ficou em silêncio, as
mãos abertas em torno da vasilha. Apertou os olhos. Deles
irradiou-se para todo o rosto uma expressão dura. Dois anos
seguidos esperou por ela, pois não prometera levá-lo? Não
prometera? Nem sabia o seu nome, não sabia nada a seu respeito,
era apenas a Madrinha. Inutilmente a procurava entre as moças
que apareciam no fim do ano com os pacotes de presentes.
Inutilmente cantava mais alto do que todos no fim da festa na
capela. Ah, se ela pudesse ouvi-lo!
(Lygia Fagundes Telles, Um Coração Ardente)
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As questões de números 1 a 4 tomam por base um trecho do artigo
Horror a aprender (06.01.1957), escrito pelo historiador e crítico lite -
rário Afrânio Coutinho (1911-2000), e uma tira do blogue Blogloides.
(www.blogloides.blogger.com.br. Adaptado.)
1. (UNESP) – No primeiro parágrafo, Afrânio Coutinho acusa uma
inversão de valores no meio intelectual brasileiro. Explique em que
consiste essa inversão e qual a sua con sequência, segundo o autor
sugere, em termos de ensino.
RESOLUÇÃO:
A “inversão de valores” deriva do preconceito, apon tado pelo autor, que
associa aprender a uma condição de inferioridade intelectual, quando o
correto deveria ser o contrário. Daí derivariam o autodidatismo, que o
autor considera “enraizado” nos meios literários brasileiros, e, como
consequência, o fraco espírito universitário, ou seja, a falta de método e
rigor que caracterizaria a intelectualidade referida pelo autor (e talvez
naquela época – 1963 – “nossa falta de hábito universitário” fosse ainda
maior). 
2. (UNESP) – No segundo parágrafo, para reforçar sua argumentação,
Coutinho se vale de duas expressões idiomáticas que apresentam
praticamente o mesmo sentido. Identifique estas duas expressões
idiomáticas e, com base no sentido comum a ambas, esclareça o
argumento do autor.
RESOLUÇÃO:
As expressões em questão são arrombar portas abertas e chover no
molhado, ambas com o sentido de “resolver o resolvido”, “explicar o que
está claro” ou ainda “inventar o que já foi inventado”. Trata-se da atitude
que o autor atribui aos “jovens intelectuais” pedantes e avessos ao
aprendizado, que, por igno rância, repetem ideias consabidas como se se
tratasse de grande novidade.
HORROR A APRENDER
Se quiséssemos numa fórmula definir a mentalidade mais ou
menos generalizada dos que militam na vida literária brasileira,
não lograríamos descobrir outra que melhor se prestasse do que
esta: horror a aprender. Nosso autodidatismo enraizado, nossa falta
de hábito universi tário, fazem com que aprender, entre nós, seja
motivo de inferioridade intelectual. Ninguém gosta de aprender.
Ninguém se quer dar ao trabalho de aprender. Porque já se nasce
sabendo. Todos somos mestres antes de ser discípulos. Aprender o
quê? Pois já sabemos tudo de nascença! Ignoramos essa verdade de
extrema sabedoria: só os bons discípulos dão grandes mestres, e só
é bom mestre quem foi um dia bom discípulo e continuacom o
espírito aberto a um perpétuo aprendizado. Quem sabe aprender
sabe ensinar, e só quem gosta de aprender tem o direito de dar
lições. Como pode divulgar e orientar conhecimentos quem mantém
o espírito impermeável a qualquer aprendizagem?
Nossos jovens intelectuais, em sua maioria, primam pelo
pedantismo, autossuficiência e falta de humildade de espírito. São
mestres antes de ter sido discípulos. Saber não os preocupa, estudar,
ninguém lhes viu os estudos. É só meter-lhes na mão uma pena e
cair-lhes ao alcance uma coluna de jornal, e lá vem doutrinação
leviana e prosa de meia-tigela. Não lhes importa verificar se estão
arrom bando portas abertas ou chovendo no molhado.
(No hospital das letras, 1963.)
MÓDULO 11 77 Interpretação de Textos (II)
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3. (UNESP) – Indique a contradição da personagem mais nova da tira
em pretender criar um blogue intelectual sobre Saramago.
RESOLUÇÃO:
Com a pretensão ignorante dos jovens intelectuais que Afrânio Coutinho
condena, a personagem mais nova, demonstrando rematada insuficiência
intelectual e cultural, pretende fazer um “blog intelectual” sobre José
Saramago sem sequer saber de quem se trata. 
4. (UNESP) – Considerando a natureza dos respectivos gêneros
textuais, estabeleça a diferença entre o artigo e a tira quanto ao modo
de manifestarem seus julgamentos críticos.
RESOLUÇÃO:
O artigo de Afrânio Coutinho é do um artigo de opinião (dissertação):
apresenta dados e argumentos, implícitos (a impor tância do “hábito
universitário” de método e rigor no trabalho intelectual) e explícitos (as
carências e vícios da intelectualidade literária brasileira), para fun -
damentar seu julgamento. A tira reproduzida, dife rentemente, é um “texto”
(visual) narrativo de na tu re za satírica, pois apresenta uma situação em que
se ridiculariza o comportamento da personagem objeto do “julgamento
crítico” implícito. 
Texto para as questões 5 e 6.
5. (UERJ) – As imagens positivas presentes na 1.a estro fe do poema,
como Frases calmas (v. 2), opõem-se às ima gens negativas da 3.ª
estrofe, como confusão odienta (v. 11). Explique a que se referem as
imagens positivas da 1.ª estrofe e a que se referem as imagens ne ga -
tivas da 3.ª estrofe.
RESOLUÇÃO:
As imagens positivas se referem à idealização que se fará, no futuro, do
presente em que o poeta vive.
As imagens negativas se referem a acontecimentos reais do presente em
que o poeta vive.
6. (UERJ) – No poema, observa-se uma tentativa de interlo cução
entre o eu poético e as pessoas do futuro. Identifique a marca linguística
que revela essa tentativa de interlocução. Em seguida, in di que a quem
o eu poético se refere com o emprego do pronome nós.
RESOLUÇÃO:
Marca linguística é o emprego dos verbos na 2.a pessoa do plural: falareis,
sonhareis. O pronome nós se refere às pessoas do presente.
ODE1 PARA O FUTURO
1 Falareis de nós como de um sonho.
2 Crepúsculo dourado. Frases calmas.
3 Gestos vagarosos. Música suave.
4 Pensamento arguto2. Sutis sorrisos.
5 Paisagens deslizando na distância.
6 Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
7 e amávamos serena e docemente.
8 Uma angústia delida3, melancólica,
9 sobre ela sonhareis.
10 E as tempestades, as desordens, gritos,
11 violência, escárnio4, confusão odienta5,
12 primaveras morrendo ignoradas
13 nas encostas vizinhas, as prisões,
14 as mortes, o amor vendido,
15 as lágrimas e as lutas,
16 o desespero da vida que nos roubam
17 – apenas uma angústia melancólica,
18 sobre a qual sonhareis a idade de ouro.
19 E, em segredo, saudosos, enlevados6,
20 falareis de nós – de nós! – como de um sonho.
(Jorge de Sena. www.letras.ufrj.br)
1 ode: tipo de poema
2 arguto: capaz de perceber as coisas mais sutis
3 delida: apagada
4 escárnio: desdém, menosprezo
5 odienta: que inspira aversão, ódio
6 enlevados: maravilhados, extasiados
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1. (UNICAMP-SP) – Na sua coluna diária do Jornal Folha de
S.Paulo de 17 de agosto de 2005, José Simão escreve: “No Brasil nem
a esquerda é direita!”. 
a) Nessa afirmação, a polissemia da língua produz ironia. Em que
palavras está ancorada essa ironia? 
RESOLUÇÃO:
A ironia está presente nas palavras “esquerda” e “direita”.
b) Quais os sentidos de cada uma das palavras envol vidas na polisse -
mia acima referida? 
RESOLUÇÃO:
Esquerda significa “tendência política ligada a rei vin dicações populares,
trabalhistas, socialistas ou comu nistas”. Direita designa, como substantivo,
“tendência política conser vadora ou reacionária em relação às reformas
sociais” e, como adjetivo, significa “cor reta, honesta”.
A polissemia criada pelo autor ironiza os partidos de esquerda que não
agem com honestidade, inte gridade, probidade.
c) Comparando a afirmação “No Brasil nem a esquerda é direita” com
“No Brasil a esquerda não é direita”, qual a diferença de sentido
estabelecida pela substituição de “nem” por “não”? 
RESOLUÇÃO:
Nem, no contexto, expressa a ideia de adição e significa “inclusive não”,
“também não”, ou seja, implica a ideia de que todos não agem com
honestidade, inclusive a esquerda. Já o sentido de não é apenas de negação
e entende-se que a esquerda não é honesta.
2. (FUVEST) – Examine esta propaganda de uma empresa de
certificação digital (mecanismo de segurança que garante autentici -
dade, confidenciabilidade e integridade às informações eletrônicas).
a) Aponte a relação de sentido que existe entre a men sagem verbal e
a imagem.
RESOLUÇÃO:
A tecla delete representa o avanço tecnológico, que seria respon sável pelo
fim próximo dos métodos de organização e trabalho representados pelo
carim bo, símbolo da burocracia.
b) Forme uma frase correta e coerente com base em um verbo deri vado
da palavra burocracia.
RESOLUÇÃO:
O verbo derivado do substantivo burocracia é buro cratizar.
Exemplo: Os planos de saúde burocratizam o acesso a exa mes médicos
mais complexos.
c) Estar com os dias contados é uma das dezenas de locuções for ma -
das a partir do substantivo dia. Crie uma frase em que apa reça uma
dessas locuções (sem repetir, é claro, a locução utilizada na
propaganda acima).
RESOLUÇÃO:
Seria possível construir frases com as locuções todo dia, dia a dia, dia e noite.
Exemplo: Dia a dia crescem os congestionamentos no trân sito de São Paulo.
MÓDULO 11 88 Interpretação de Textos (III)
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Texto para a questão 3.
3. (FGV-Economia) – No primeiro parágrafo do texto, o narrador
afirma que Ana Terra “... sentia o tempo passar, escutava vozes, via
caras e lembrava-se de coisas...”
a) Como se organiza no texto a ideia de passagem do tempo? Como
isso está relacionado à percepção que a personagem tem da sua
vida?
RESOLUÇÃO:
O trecho indicado na questão se constrói por meio de orações coordenadas.
A organização dá ideia de passagem do tempo é associada “ao vento de
outros tempos”, que traz para a personagem Ana Terra a rememoração de
fatos marcantes e tristes que ocorreram em sua vida. O próprio título da
obra O tempo e o Vento sugere essa associação.
b) Há duas perspectivas temporais bastante marcadas no texto, com o
emprego de verbos no pretérito imperfeito e no pretérito mais-que-
perfeito. Explique a relação de sentido que há entre elas no texto.
RESOLUÇÃO:
Os verbos no pretérito imperfeito “costumava”, “ouvia”, “sentia”,
“escutava”, “via” “lembrava-se” indicam ações durativas no passado. Os
fatos narrados no pretérito mais-que-perfeito “trouxe ra”, “deixara”,
“fora”, “casara” e “estabelecera” indicam ações anteriores ao pretérito
imperfeito.
Texto para a questão 4.
4. (UNICAMP)
a) Tendo em vista que esse poema faz parte de uma série intituladaTempo-morte, indique de que maneira a primeira estrofe exprime
certo sentido de absoluto associado ao título.
RESOLUÇÃO:
Na primeira estrofe, o verbo passar aparece no fu turo do presente
(Passará), pretérito perfeito composto do indicativo (Tem passado) e
presente do indicativo (Passa). O examinador quis que se relacionasse a
abrangência do tempo (passado, presente e futuro) com certo sentido de
absoluto associado ao título da série (Tempo-morte).
b) Nesse poema há pronomes de segunda e terceira pessoas. Trans cre -
va uma estrofe em que constem ambas as pessoas pronominais e
diga a que se referem.
RESOLUÇÃO:
Há pronomes de segunda e terceira pessoas na terceira e última estrofes.
“Fecha feridas, é unguento.
Mas pode abrir a tua mágoa
Com a sua fina faca.”
“No corpo da tua água passará
Tem passado
Passa com a sua fina faca.”
O pronome tua refere-se ao receptor (leitor) do texto; sua refere-se ao
Tempo-morte.
Muitos anos mais tarde, Ana Terra costumava sentar-se na frente de sua
casa para pensar no passado. E no pensamento como que ouvia o vento de
outros tempos e sentia o tempo passar, escutava vozes, via caras e lembrava-
se de coisas... O ano de 81 trouxera um acontecimento triste para o velho
Maneco: Horácio deixara a fazenda, a contragosto do pai, e fora para o Rio
Pardo, onde se casara com a filha dum tanoeiro e se estabelecera com uma
pequena venda. Em compensação nesse mesmo ano Antônio casou-se com
Eulália Moura, filha dum colono açoriano dos arredores do Rio Pardo, e
trouxe a mulher para a estância, indo ambos viver num puxado que tinham
feito no rancho.
Em 85 uma nuvem de gafanhotos desceu sobre a lavoura deitando a
perder toda a colheita. Em 86, quando Pedrinho se aproximava dos oito
anos, uma peste atacou o gado e um raio matou um dos escravos.
Foi em 86 mesmo ou no ano seguinte que nasceu Rosa, a primeira filha
de Antônio e Eulália? Bom. A verdade era que a criança tinha nascido
pouco mais de um ano após o casamento. Dona Henriqueta cortara-lhe o
cordão umbilical com a mesma tesoura de podar com que separara
Pedrinho da mãe.
E era assim que o tempo se arrastava, o sol nascia e se sumia, a lua
passava por todas as fases, as estações iam e
vinham, deixando sua marca nas árvores, na terra, nas coisas e nas pessoas.
E havia períodos em que Ana perdia a conta dos dias. Mas entre as
cenas que nunca mais lhe saíram da memória estavam as da tarde em que
dona Henriqueta fora para a cama com uma dor aguda no lado direito,
ficara se retorcendo durante horas, vomitando tudo o que engolia, gemendo
e suando de frio.
(Érico Veríssimo. O tempo e o Vento, “O Continente”, 1956)
Passará
Tem passado
Passa com a sua fina faca.
Tem nome de ninguém.
Não faz ruído. Não fala.
Mas passa com a sua fina faca.
Fecha feridas, é unguento.
Mas pode abrir a tua mágoa
Com a sua fina faca.
Estanca ventura e voz
Silêncio e desventura.
Imóvel
Garrote
Algoz
No corpo da tua água passará
Tem passado
Passa com a sua fina faca.
(HILST, Hilda. “Da morte”. Odes mínimas.
São Paulo: Globo, 2003. p. 72.)
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Português
Curso Extensivo – D
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Leia o trecho inicial do artigo “Artifícios da inteligência”, do físico
brasileiro Marcelo Gleiser (1959- ), para responder às questões 1 e 2.
1. (Unesp-2018)
a) Para o físico Marcelo Gleiser, o que distingue as tecnologias
transumanas daquelas apenas corretivas? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO
Segundo o texto, as tecnologias corretivas regula rizam deficiências físicas
existentes, não têm como objetivo a ampliação de características cognitivas,
como é o caso do transumanismo.
b) Cite dois termos empregados em sentido figurado no primeiro
parágrafo do artigo.
RESOLUÇÃO
São exemplos de termos empregados em sentido figurado: “engavetado”,
metáfora que se refere a estar preso no congestionamento, e “navegar”,
também metáfora, referindo-se a passar de um sítio para outro na internet.
2. (Unesp-2018)
a) De acordo com o físico, nós já podemos ser considerados
transumanos? Justifique sua resposta.
RESOLUÇÃO
Segundo o autor, o transumanismo, “hibridismo entre tecnologia e
biologia”, já está ocorrendo. Marcelo Gleiser considera que os seres
humanos estão ampliando sua capacidade por meio de tecnologias que os
redefinem de modo que as pessoas já não são as mesmas, caso percam o
acesso aos aparelhos eletrônicos, tal como acontece no caso do celular.
Considere a seguinte situação: você acorda atrasado para o
trabalho e, na pressa, esquece o celular em casa. Só quando
engavetado no tráfego ou amassado no metrô você se dá conta.
E agora é tarde para voltar. Olhando em volta, você vê pessoas
com celular em punho conversando, mandando mensagens,
navegando na internet. Aos poucos, você vai sendo possuído por
uma sensação de perda, de desconexão. Sem o seu celular, você
não é mais você.
A junção do humano com a máquina é conhecida como
“transumanismo”. Tema de vários livros e filmes de ficção
científica, hoje é um tópico essencial na pesquisa de muitos
cientistas e filósofos. A questão que nos interessa aqui é até que
ponto essa junção pode ocorrer e o que isso significa para o
futuro da nossa espécie.
Será que, ao inventarmos tecnologias que nos permitam
ampliar nossas capacidades físicas e mentais, ou mesmo
máquinas pensantes, estaremos decretando nosso próprio fim?
Será esse nosso destino evolucionário, criar uma nova espécie
além do humano?
É bom começar distinguindo tecnologias transumanas
daquelas que são apenas corretivas, como óculos ou aparelhos
para surdez. Tecnologias corretivas não têm como função ampliar
nossa capacidade cognitiva: só regularizam alguma deficiência
existente.
A diferença ocorre quando uma tecnologia não apenas corrige
uma deficiência como leva seu portador a um novo patamar, além
da capacidade normal da espécie humana. Por exemplo, braços
robóticos que permitem que uma pessoa levante 300 quilos, ou
óculos com lentes que dotam o usuário de visão no infravermelho.
No caso de atletas com deficiência física, a questão se torna bem
interessante: a partir de que ponto uma prótese como uma perna
artificial de fibra de carbono cria condições além da capacidade
humana? Nesse caso, será que é justo que esses atletas compitam
com humanos sem próteses?
Poderia parecer que esse tipo de hibridização entre tecnologia
e biologia é coisa de um futuro distante. Ledo engano. Como no
caso do celular, está acontecendo agora. Estamos redefinindo a
espécie humana através da interação – na maior parte ainda
externa – com tecnologias que ampliam nossa capacidade.
Sem nossos aparelhos digitais – celulares, tabletes, laptops –
já não somos os mesmos. Criamos personalidades virtuais, ativas
apenas na internet, outros eus que interagem em redes sociais
com selfies arranjados para impressionar; criações remotas,
onipresentes. Cientistas e engenheiros usam computadores para
ampliar sua habilidade cerebral, enfrentando problemas que, há
apenas algumas décadas, eram considerados impossíveis. Como
resultado, a cada dia surgem questões que antes nem podíamos
contemplar.
(Folha de S.Paulo, 01.02.2015. Adaptado.)
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Revisão PORTUGUÊS
MÓDULO 11 Sintaxe e Morfologia (I)
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b) Dêiticos: expressões linguísticas cuja interpretação depende da
pessoa, do lugar e do momento em que são enunciadas. Por
exemplo: “eu” designa a pessoa que fala “eu”. 
(Ernani Terra. Leitura do texto literário, 2014.)
Cite dois dêiticos empregados nos dois primeiros parágrafos do
texto.
RESOLUÇÃO
O pronomede tratamento “você” foi empregado em sentido generalizante,
pois não se refere a uma pessoa em particular, mas a todos os que já
vivenciaram as situações descritas no primeiro parágrafo. No segundo
parágrafo, o pronome pessoal oblíquo “nos” refere-se ao próprio autor do
texto, é usado como plural de modéstia. O pronome possessivo “nossa”
refere-se à espécie humana.
Leia a fábula “A raposa e o lenhador”, do escritor grego Esopo (620
a.C.?-564 a.C.?), para responder às questões de 3 a 6.
3. (UNIFESP-2017) – A moral mais apropriada para fechar a fábula
seria:
a) Esta fábula pode ser dita a propósito de homens desventurados que,
quando estão em situações embaraçosas, rezam para encontrar uma
saída, mas assim que encontram procuram evitá-las.
b) Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito daqueles
homens que nitidamente proclamam ações nobres, mas na prática
realizam atos vis.
c) Esta fábula mostra que os homens desatentos prestam atenção nas
coisas de que esperam tirar proveito, mas permanecem apáticos em
relação àquelas que não lhes agradam.
d) Assim, alguns homens se entregam a tarefas arriscadas, na
esperança de obter ganhos, mas se arruínam antes mesmo de chegar
perto do que almejam.
e) Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito de um homem
frouxo que reclama de ínfimas desgraças, enquanto ela própria
suporta, sem dificuldade, desgraças enormes.
RESOLUÇÃO:
É nítida, na fábula “A raposa e o lenhador”, de Esopo, o ensinamento moral
acerca de pessoas que, com hipocrisia, escondem suas práticas vis,
mascarando-as por meio de um discurso em que buscam apresentar
nobreza de caráter.
Resposta: B
4. (UNIFESP-2017) – “Entretanto, como eles não prestaram
atenção nos seus gestos, deram crédito às suas palavras.”
Em relação à oração que a sucede, a oração destacada tem sentido de
a) causa.
b) conclusão.
c) proporção.
d) consequência.
e) comparação.
RESOLUÇÃO:
A oração destacada estabelece relação de causa com a oração posterior, que
é a sua consequência.
Resposta: A
5. (UNIFESP-2017) – Os trechos “Ele sugeriu que ela entrasse em
sua cabana” e “vieram os caçadores e perguntaram ao lenhador se ele
tinha visto uma raposa” foram construídos em discurso indireto. Ao se
transpor tais trechos para o discurso direto, o verbo “entrasse” e a
locução verbal “tinha visto” assumem, respectivamente, as seguintes
formas:
a) “entrai” e “vira”.
b) “entrou” e “viu”.
c) “entre” e “vira”.
d) “entre” e “viu”.
e) “entrai” e “viu”.
RESOLUÇÃO:
No discurso indireto, a forma verbal “entrasse”, no imperfeito do
subjuntivo, passa, no discurso direto, para o imperativo: “entre”. O
pretérito mais-que-perfeito composto “tinha visto”, no discurso indireto,
passa para o pretérito perfeito no discurso direto: “viu”.
Resposta: D
6. (UNIFESP-2017) – “Quanto à inveja, pregou friamente que era a
virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa,
que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.” (4.°
parágrafo)
Os termos em destaque constituem, respectivamente,
a) um pronome e um artigo.
b) uma conjunção e um artigo.
c) um artigo e uma preposição.
d) um pronome e uma preposição.
e) um artigo e uma conjunção.
RESOLUÇÃO:
Em “a virtude”, o a é artigo definido porque antecede um substantivo. Em
“chegava a suprir”, o a é preposição, uma vez que se encontra em uma
locução verbal.
Resposta: C
Enquanto fugia de caçadores, uma raposa viu um lenhador e lhe
pediu que a escondesse. Ele sugeriu que ela entrasse em sua cabana
e se ocultasse lá dentro. Não muito tempo depois, vieram os
caçadores e perguntaram ao lenhador se ele tinha visto uma raposa
passar por ali. Em voz alta ele negou tê-la visto, mas com a mão fez
gestos indicando onde ela estava escondida. Entretanto, como eles
não prestaram atenção nos seus gestos, deram crédito às suas
palavras. Ao constatar que eles já estavam longe, a raposa saiu em
silêncio e foi indo embora. E o lenhador se pôs a repreendê-la, pois
ela, salva por ele, não lhe dera nem uma palavra de gratidão. A
raposa respondeu: “Mas eu seria grata, se os gestos de sua mão
fossem condizentes com suas palavras.”
(Fábulas completas, 2013.)
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Leia o trecho do conto O alienista1, de Machado de Assis (1839-1908),
para responder às questões 7 e 8.
7. (UNESP- junho-2018)
a) Cite os referentes dos pronomes sublinhados no primeiro e no
segundo parágrafos.
RESOLUÇÃO
O pronome oblíquo “se” refere-se a “Simão Bacamarte”; o pronome
oblíquo “lhe” refere-se a “um modesto”.
b) Transcreva dois pequenos excertos em que o narrador se dirige
diretamente ao leitor.
RESOLUÇÃO
Nas passagens " Agora, se imaginais", " mostrais com isso que ainda não
conheceis " e "Vede a diferença", o narrador dirige-se diretamente ao
leitor, pois os verbos estão na segunda pessoa do plural, promovendo a
interlocução com o receptor.
8. (UNESP- junho-2018)
a) Transcreva o trecho “ele [vereador Galvão] obteve uma boa
interpretação, corrompendo os juízes, e embaçando os outros
herdeiros” (5.o parágrafo), substituindo os termos sublinhados por
outros de sentido equivalente.
RESOLUÇÃO
“Corrompendo”, no contexto, pode ser substituído por “subornando,
aliciando”; “embaçando”, por “atrapalhando, dificultando, complicando”.
b) Transcreva o trecho “— Foi um santo remédio, contava a mãe do
infeliz a uma comadre” (3.o parágrafo) em discurso indireto e em
ordem direta.
RESOLUÇÃO
Transpondo para discurso indireto o trecho em ordem direta tem-se:
A mãe do infeliz contava a uma comadre que fora (ou tinha sido) um santo
remédio.
Era a vez da terapêutica. Simão Bacamarte, ativo e sagaz em
descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligência e penetração
com que principiou a tratá-los. Neste ponto todos os cronistas estão
de pleno acordo: o ilustre alienista fez curas pasmosas, que
excitaram a mais viva admiração em Itaguaí.
Com efeito, era difícil imaginar mais racional sistema
terapêutico. Estando os loucos divididos por classes, segundo a
perfeição moral que em cada um deles excedia às outras, Simão
Bacamarte cuidou em atacar de frente a qualidade predominante.
Suponhamos um modesto. Ele aplicava a medicação que pudesse
incutir-lhe o sentimento oposto; e não ia logo às doses máximas, —
graduava-as, conforme o estado, a idade, o temperamento, a posição
social do enfermo. Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma
cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado; em outros
casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de
brilhantes, às distinções honoríficas, etc. Houve um doente, poeta,
que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar da
cura, quando teve ideia de mandar correr matraca, para o fim de o
apregoar como um rival de Garção2 e de Píndaro3.
— Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a uma
comadre; foi um santo remédio.
[...]
Tal era o sistema. Imagina-se o resto. Cada beleza moral ou
mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida;
e o efeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a
qualidade predominante resistia a tudo; então, o alienista atacava
outra parte, aplicando à terapêutica o método da estratégia militar,
que toma uma fortaleza por um ponto, se por outro o não pode
conseguir.No fim de cinco meses e meio estava vazia a Casa Verde;
todos curados! O vereador Galvão, tão cruelmente afligido de
moderação e equidade, teve a felicidade de perder um tio; digo
felicidade, porque o tio deixou um testamento ambíguo, e ele obteve
uma boa interpretação, corrompendo os juízes, e embaçando os
outros herdeiros. 
[...]
Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o
último hóspede da Casa Verde, mostrais com isso que ainda não
conheceis o nosso homem. Plus ultra!4 era a sua divisa. Não lhe
bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o
contentava ter estabelecidoem Itaguaí o reinado da razão. Plus
ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogitativo; alguma coisa
lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima
teoria. — Vejamos, pensava ele; vejamos se chego enfim à última
verdade. 
Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde fulgurava a
mais rica biblioteca dos domínios ultramarinos de Sua Majestade.
Um amplo chambre de damasco, preso à cintura por um cordão de
seda, com borlas de ouro (presente de uma Universidade) envolvia
o corpo majestoso e austero do ilustre alienista. A cabeleira cobria-
lhe uma extensa e nobre calva adquirida nas cogitações cotidianas
da ciência. Os pés, não delgados e femininos, não graúdos e
mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram resguardados por um
par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto
latão. Vede a diferença: — só se lhe notava luxo naquilo que era de
origem científica; o que propriamente vinha dele trazia a cor da
moderação e da singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um
sábio.
(O alienista, 2014.)
1alienista: médico especialista em doenças mentais.
2Garção: um dos principais poetas do Neoclassicismo português.
3Píndaro: considerado o maior poeta lírico da antiga Grécia.
4Plus ultra!: expressão latina que significa “Mais além!”.
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1. (FUVEST-2018) – Leia o texto.
a) No texto, que ideia é sintetizada pela palavra “crise”?
RESOLUÇÃO
O termo “crise”, no texto, sintetiza todo e qual quer conflito matrimonial,
o que poderia levar inclusive ao assassinato, o que desmente a con cepção
do caráter indissolúvel do matrimônio.
b) Reescreva a oração “tal como ele era concebido pela Igreja
Católica”, empregando a voz ativa e fazendo as adaptações
necessárias.
RESOLUÇÃO
Passando-se a frase na voz passiva para a ativa, tem-se: “tal como a Igreja
Católica o concebia (ou concebia-o). O pronome oblíquo “o” refere-se a
“vínculo do matrimônio”.
2. (FUVEST-2018) – Examine a propaganda.
a) Considerando o contexto da propaganda, existe alguma relação de
sentido entre a imagem estilizada dos dedos e as palavras “digital”
e “diferença”? Explique.
RESOLUÇÃO
Digital é um adjetivo substantivado relativo a “dedos”, figurados na
imagem como pessoas, ou seja, representando as individualidades de cada
eleitor, assim como de suas impressões digitais. Quanto ao termo
“diferença”, ele se refere tanto a essa individualidade quanto à importância
de cada voto para a manutenção da democracia. Cabe lembrar que o
anúncio publicitário é de utilidade pública, pois divulga a necessidade de
os eleitores fazerem o cadastro biométrico que será utilizado nas próximas
eleições.
No Brasil colonial, o indissolúvel vínculo do matri mônio, tal
como ele era concebido pela Igreja Católica, nem sempre
terminava com a morte natural de um dos cônjuges. A crise do
casamento assumia várias formas: a clausura das mulheres,
enquanto os maridos continuavam suas vidas; a separação ou a
anulação do matrimônio decretadas pela Igreja; a transgressão
pela bigamia ou mesmo pelo assassínio do cônjuge.
Maria Beatriz Nizza da Silva, História da Família no Brasil
Colonial. Adaptado.
MÓDULO 22 Sintaxe e Morfologia (II)
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b) Sem alterar o modo verbal, reescreva o trecho “Venha para a
biometria. Cadastre suas digitais.”, passando os verbos para a
primeira pessoa do plural e fazendo as modificações necessárias.
RESOLUÇÃO
Reescrevendo a frase do anúncio, tem-se: “Venha mos para a biometria.
Cadastremos nossas digi tais”, pois os verbos de ambas as frases se en con -
tram no modo imperativo afirmativo, os quais, trans postos para a primeira
pessoa do plural, são derivados do presente do subjuntivo.
3. (FUVEST-2018) – Leia o texto.
a) O emprego do diminutivo nas palavras “vozinha” e “sorrisinho”,
consideradas no contexto, produz o mesmo efeito de sentido nos
dois casos? Justifique.
RESOLUÇÃO
O emprego do diminutivo não produz o mesmo efeito de sentido nas
palavras indicadas. Em “vozinha”, minimiza-se a contestação de Prometeu
à ordem vigente no Olimpo, comparando essa rebeldia à do movimento
estudantil de maio de 1968. Quanto a “sorrizinho”, o di minutivo evi dencia
que o jacaré percebeu a cilada prepa rada pelos outros animais e, de forma
irô nica, não gargalha, apenas sorri, quebrando a expectativa de seus
provocadores.
b) Reescreva o trecho “Os outros decidem fazer uma festa para fazê-
lo rir (...). Todos fazem coisas engraçadas”, substituindo o verbo
“fazer” por sinônimos adequados ao contexto em duas de suas três
ocorrências.
RESOLUÇÃO
Reescrevendo, tem-se: “Os outros decidem promo ver (produzir, efetuar)
uma festa para levá-lo (estimulá-lo, incentivá-lo) a rir (…). Todos rea lizam
(praticam, elaboram) coisas engraçadas”. Há outras possibilidades e
somente dois verbos deve riam ser substituídos.Um tema frequente em culturas variadas é o do desafio à
ordem divina, a apropriação do fogo pelos mortais. Nos mitos
gregos, Prometeu é quem rouba o fogo dos deuses. Diz Vernant
que Prometeu representa no Olimpo uma vozinha de contestação,
espécie de movimento estudantil de maio de 1968. Zeus decide
esconder dos homens o fogo, antes disponível para todos, mortais
e imortais, na copa de certas árvores — os freixos — porque
Prometeu tentara tapeá-lo numa repartição da carne de um touro
entre deuses e homens.
——————-——————————————————————
Na mitologia dos Yanomami, o dono do fogo era o jacaré, que
cuidadosamente o escondia dos outros, comendo taturanas
assadas com sua mulher sapo, sem que ninguém soubesse. Ao
resto do povo – animais que naquela época eram gente – eles só
davam as taturanas cruas. O jacaré costumava esconder o fogo na
boca. Os outros decidem fazer uma festa para fazê-lo rir e soltar
as chamas. Todos fazem coisas engraçadas, mas o jacaré fica
firme, no máximo dá um sorrisinho.
Betty Mindlin, O fogo e as chamas dos mitos. 
Revista Estudos Avançados. Adaptado.
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Leia o trecho do livro O maior espetáculo da Terra, do biólogo
britânico Richard Dawkins (1941- ), para responder às questões 4 e 5
.
4. (UNESP- junho-2018)
a) Explique sucintamente o que o autor entende por “corrida
armamentista evolucionária”.
RESOLUÇÃO
“Corrida armamentista evolucionária” é a disputa entre o predador e a
presa. Ela é evolucionária, porque tanto o agressor quanto a vítima vão,
ao longo do tempo, incorporando melhores recursos para o ataque e para
a defesa. Embora haja uma série de transformações em ambos, elas não
alteram a base da diferença original.
b) De que forma a fala da Rainha de Copas a Alice – “eles correm o
mais rápido possível para não sair do lugar” (1.o parágrafo) –
relaciona-se com a “marca registrada das corridas armamentistas”
(1.o parágrafo)?
RESOLUÇÃO
A “marca registrada das corridas armamentistas” é o aprimoramento
tanto do predador como também da presa, mas o poder de ataque e o de
defesa não sofreram desequilíbrio. Por isso, essa competição
armamentista, que não se modifica substancialmente em relação ao início
da disputa, equivale à fala da Rainha de Copas a Alice: “Eles correm o
mais rápido possível para não sair do lugar”.
A seleção natural impele espécies predadoras a tornarem-se cada
vez melhores em apanhar presas, e simultaneamente impele
espécies que são caçadas a tornarem-se cada vez melhores em
escapar dos caçadores. Predadores e presas apostam uma corrida
armamentista evolucionária, disputada no tempo evolucionário. O
resultado tem sido uma constante escalada na quantidade de
recursos econômicos que os animais, dos dois lados, despendem na
corrida armamentista, em detrimentode outros departamentos de
sua economia corporal. Caçadores e caçados tornam-se cada vez
mais bem equipados para correr mais do que (ou surpreender, ou
sobrepujar em astúcia etc.) o outro lado. Mas um equipamento
aprimorado para correr mais não se traduz obviamente em mais
sucesso numa corrida, pela simples razão de que, numa corrida
armamentista, o outro lado também está aprimorando seu
equipamento: essa é a marca registrada das corridas armamentistas.
Poderíamos dizer, como explicou a Rainha de Copas a Alice, que
eles correm o mais rápido possível para não sair do lugar.
Darwin tinha plena noção das corridas armamentistas evolu -
cionárias, embora não usasse essa expressão. Meu colega John Krebs
e eu publicamos um artigo sobre o tema em 1979, no qual atribuímos
a expressão “corrida armamentista” ao biólogo britânico Hugh Cott.
Talvez significativamente, Cott publicou seu livro, Adaptive
coloration in animals, em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial:
Antes de afirmar que a aparência enganosa de um gafanhoto ou
borboleta é desnecessariamente detalhada, devemos verificar primeiro
quais são os poderes de percepção e discriminação dos inimigos
naturais desses insetos. Não fazê-lo é como dizer que a blindagem de
um cruzador é pesada demais ou que seu conjunto de canhões é
demasiado grande, sem investigar a natureza e a eficácia do
armamento do inimigo. O fato é que, na primeva1 luta da selva, assim
como nos refinamentos da guerra civilizada, vemos em progresso uma
grande corrida armamentista evolucionária — cujos resultados, para a
defesa, manifestam-se em recursos como velocidade, estado de alerta,
couraça, coloração, hábitos subterrâneos, hábitos noturnos, secreções
venenosas e gosto nauseante; e, para o ataque, em atributos
compensadores como velocidade, surpresa, emboscada, atração,
acuidade visual, garras, dentes, ferrões, presas venenosas e coloração
atrativa. Assim como a velocidade do perseguido desenvolveu-se em
relação a um aumento na velocidade do perseguidor, ou uma couraça
defensiva em relação a armas ofensivas, também a perfeição de
recursos de disfarce evoluiu em resposta a poderes crescentes de
percepção.
Saliento que a corrida armamentista é disputada no tempo
evolucionário. Não deve ser confundida com as corridas entre, por
exemplo, um guepardo individual e uma gazela individual, que é
disputada em tempo real. A corrida no tempo evolucionário é uma
corrida que desenvolve equipamento para as corridas em tempo real.
E o que isso realmente significa é que os genes para produzir o
equipamento destinado a vencer o adversário em esperteza ou
velocidade acumulam-se nos reservatórios gênicos de ambos os lados.
(O maior espetáculo da Terra, 2009. Adaptado.)
1primevo: antigo, primitivo.
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5. (UNESP- junho-2018)
a) A frase “Darwin tinha plena noção das corridas armamentistas
evolucionárias, embora não usasse essa expressão” (2.o parágrafo)
pode ser considerada ambígua? Justifique sua resposta. 
RESOLUÇÃO
A frase apresenta duplo sentido porque não se sabe se Darwin desconhecia
a expressão “corrida armamentista evolucionária” ou se a expressão
“corrida armamentista evolucionária” não era empregada na época, pois,
segundo o autor, essa expressão só foi usada pela primeira vez por Hugh
Cott, em 1940, posterior , portanto, à morte de Darwin em 1882. 
b) Oximoro: figura de retórica em que se combinam palavras de
sentido oposto que parecem excluir-se mutuamente, mas que, no
contexto, reforçam a expressão; paradoxismo.
(Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 2009.)
Há na citação de Hugh Cott uma expressão que pode ser considerada
exemplo de oximoro. Identifique-a e justifique sua resposta..
RESOLUÇÃO
Há paradoxismo ou oximoro na expressão “refinamentos da guerra
civilizada”, já que uma guerra não é refinada nem tampouco civilizada, ou
seja, as duas palavras “refinamento” e “civilizada” apresentam sentido
oposto a “guerra”.
6. Identifique as figuras presentes nos trechos a seguir: extraídos de
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis:
a) Quê? Uma criatura tão dócil, tão meiga, tão santa, que nunca
jamais fizera verter uma lágrima de desgosto, mãe carinhosa,
esposa imaculada, era força que morresse assim, trateada, mordida
pelo dente tenaz de uma doença sem misericórdia?
RESOLUÇÃO
Anáfora a gradação ascendente “tão dócil, tão meiga, tão santa”.
Pleonasmo “nunca jamais”. Metáfora: “dente tenaz de uma doença”.
b) Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos,
nem conhecidos, nem estranhos: não há platéia.
RESOLUÇÃO
Polissíndeto: “nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos”
(conjunção aditiva) e antíteses.
c) Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação única,
uma coisa a que poderia chamar volúpia do aborrecimento.
RESOLUÇÃO
Paradoxo: “volúpia” (=grande prazer) e “aborrecimento” (fastio, tédio).
d) O próprio tio João, guloso de escândalos, não tratou de outro
assunto na carta, aliás de muitas folhas.
RESOLUÇÃO
Metáfora: “guloso de escândalos”. Catacrese: “carta de muitas folhas”.
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1. (FUVEST-2018) – Leia o texto e responda ao que se pede.
a) No texto, o autor retifica o que corriqueiramente se entende por
“morte natural”? Justifique.
RESOLUÇÃO
O autor argumenta que a ideia de morte natural (“morrer de esgotamento
em virtude uma extre ma velhice”) é na verdade uma exceção, pou cas vezes
acontece, sendo, portanto, pouco na tural. Também salienta que é natural
morrer de aci den tes ou de doenças, já que não vai contra a natureza do
homem sucumbir ao sofrer algum trauma físico.
b) A que palavra ou expressão se referem, respecti vamente, os
pronomes destacados no trecho “Vejo que os filósofos lhe assinam
um limite bem menor do que o fazemos comumente”?
RESOLUÇÃO
O pronome pessoal oblíquo “lhe” refere-se a “du ração da vida”; o pronome
demonstrativo “o” refere-se a “limite”.
2. (UNICAMP-2017) – Leia o excerto abaixo, adaptado do ensaio
Para que servem as humanidades?, de Leyla Perrone-Moisés.
a) As expressões “agregar valorˮ e “cultivo de valoresˮ, embora
aparentemente próximas pelo uso da mesma palavra, produzem
efeitos de sentido distintos. Explique-os.
RESOLUÇÃO:
“Agregar valor”, no contexto, tem sentido quan titativo, pois se refere às
informações e conhecimento que o indivíduo adquire sem apro fun da men -
to. “Cultivo de valores” implica a aquisição de saberes por meio de
posicionamentos críticos e reflexivos constantes, que se desenvol vem não
apenas ao longo da vida acadêmica, mas por toda a existência.
b) Na última oração do texto, são utilizados dois elemen tos coesivos:
“elesˮ e “à qualˮ. Aponte a que se refere, respectivamente, cada um
desses elementos.
RESOLUÇÃO:
Os elementos coesivos “eles” e “à qual” referem-se, respecti vamente, a “os
cursos de humanidades” e “sociedade”, assim a ideia que se estabelece é a
de que os cursos de humanidades estudam a socie dade e a ela servem.
Da idade
Não posso aprovar a maneira por que entendemos a duração
da vida. Vejo que os filósofos lhe assinam* um limite bem menor
do que o fazemos comumente. (...) Os [homens] que falam de uma
certa duração normal da vida, estabelecem-na pouco além. Tais
ideias seriam admissíveis se existisse algum privilégio capaz de os
colocar fora do alcance dos acidentes, tão numerosos, a que
estamos todos expostos e que podem interromper essa duração
com que nos acenam. E é pura fantasia imaginar que podemos
morrer de esgotamento em virtude de uma extrema velhice, e
assim fixar a duração da vida, pois esse gênero de morte é o mais
raro de todos. E a isso chamamos morte natural como se fosse
contrário à natureza um homem quebrar a cabeça numa queda,
afogar-se em algum

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