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Universidade Federal do Rio de Janeiro A “MATÉRIA DOS QUINTOS” E OS “HOMENS DO OURO”: A DINÂMICA DA ARRECADAÇÃO DOS QUINTOS REAIS NA CAPITANIA DE MINAS GERAIS E AS ATRIBUIÇÕES, ATUAÇÃO, PERFIL E RELAÇÕES DOS COBRADORES DOS QUINTOS (c. 1700 – c. 1780) Simone Cristina de Faria 2015 2 � A “MATÉRIA DOS QUINTOS” E OS “HOMENS DO OURO”: A DINÂMICA DA ARRECADAÇÃO DOS QUINTOS REAIS NA CAPITANIA DE MINAS GERAIS E AS ATRIBUIÇÕES, ATUAÇÃO, PERFIL E RELAÇÕES DOS COBRADORES DOS QUINTOS (c. 1700 – c. 1780) Simone Cristina de Faria Tese de doutoramento apresentada ao Curso de Doutorado do Programa de Pós-graduação em História Social do Instituto de História da UFRJ como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de doutor em História Social. Linha de pesquisa: Sociedade e Economia Orientador: Antonio Carlos Jucá de Sampaio RIO DE JANEIRO 2015 � 3 � Tese de doutoramento apresentada ao Curso de Doutorado do Programa de Pós-graduação em História Social do Instituto de História da UFRJ como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de doutor em História Social. Aprovada por: ____________________________________________________________ Prof. Dr. Antonio Carlos Jucá de Sampaio - Presidente ____________________________________________________________ Prof. Dr. João Luís Ribeiro Fragoso ____________________________________________________________ Profª. Drª. Carla Maria Carvalho de Almeida ____________________________________________________________ Profª. Drª. Cláudia Maria das Graças Chaves ____________________________________________________________ Prof. Dr. Roberto Guedes Ferreira ____________________________________________________________ Prof. Dr. Angelo Alves Carrara - Suplente ____________________________________________________________ Prof. Dr. William de Souza Martins - Suplente � � 4 � � � � � � � � � � � � � � � ��������� ����� � Faria, Simone Cristina de. A “matéria dos quintos” e “os homens do ouro”: a dinâmica da arrecadação dos quintos reais na Capitania de Minas Gerais e as atribuições, atuação, perfil e relações dos cobradores dos quintos (c. 1700 – c. 1780) / Simone Cristina de Faria, 2015. Vi, 500 f.: il.; 30 cm. Orientador: Antonio Carlos Jucá de Sampaio. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro Programa de Pós-Graduação em História Social, Instituto de História, Rio de Janeiro, 2015. Referências: f. 449-500. 1. Minas Gerais – fiscalidade e sociedade (c. 1700 – c. 1780). 2. Direitos régios (Minas Gerais) – Quintos reais. 3. Sociedade e economia – tese. I. Sampaio, Antonio Carlos Jucá de. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de História, Programa de Pós-graduação em História Social. III. T. � � 5 � RESUMO O presente trabalho apresenta uma pesquisa dedicada ao que denominamos de uma história social da fiscalidade. Em um primeiro momento, o objetivo foi fundamentalmente investigar a dinâmica da arrecadação dos reais quintos na Capitania de Minas Gerais, entre 1700 e 1780, quando a mineração era tida como sua atividade econômica principal. Tal investigação, atenta ao funcionamento cotidiano da atividade de cobrança do direito régio do quinto (como o mesmo era cobrado, guardado, acondicionado, conduzido e remetido ao Reino), buscou demonstrar ainda o complexo jogo de jurisdições no controle da dita função entre a Real Fazenda e as câmaras municipais. Já o segundo grande propósito da pesquisa foi investigar as atribuições, a atuação, o perfil dos cobradores dos quintos reais e as relações que os mesmos estabeleceram com seus escravos, forros, pardos, mulatos e afilhados negros, no quadro da construção de sua autoridade na sociedade mineradora setecentista. Amparados em um rico corpus documental, buscamos repensar o papel da Coroa portuguesa e das elites locais na configuração do poder nas Minas do século XVIII, através do estudo da “matéria dos quintos” e do conhecimento de quem eram os “homens do ouro”. Palavras-chave: Minas Gerais, fiscalidade, quintos reais, elites sociais, cobradores dos quintos, relações sociais. � 6 � ABSTRACT The “matter of fifths” and “the men of the gold”: the royal fifths raising dynamics at Minas Gerais captaincy and the tasks, performance, profile and relationships of the fifths collectors (c. 1700 -1780) Simone Cristina de Faria Orientador: Prof. Dr. Antonio Carlos Jucá de Sampaio Abstract da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em História Social, Instituto de História, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos à obtenção do título de Doutor em História Social. This paper presents a research dedicated to what we call a social history of fiscal system. At first, the goal was to investigate primarily the royal fifths raising at Minas Gerais captaincy, between 1710 and 1780, when mining was regarded as the main economic activity. Such research work, focused on the daily operation of collection activity of the royal fifth right (as it was charged, stored, packaged, conducted and sent to the Kingdom), has also sought to demonstrate the complex jurisdictions scenery to control the mentioned activity between the Royal Treasury and town councils. The second major purpose of the research was to investigate the tasks, performance, profile and relationships established among the royal fifth collectors and their slaves, freed slaves, browns, mulattos and black godchildren, as part of building their authority in eighteenth-century mining society. Supported by a rich documentary corpus, we seek to rethink the Portuguese Crown and local elites roles in power configuration in eighteenth-century Minas Gerais, through the study of “matter of fifths” and the knowledge of who were “the men of the gold”. Key-words: Minas Gerais, fiscal system, royal fifths, social elites, fifths collectors, social relations. Rio de Janeiro Janeiro - 2015 � 7 � Às minhas meninas Lavínia e Júlia, as maiores alegrias da vida da titia. � 8 � Agradecimentos A Capes agradeço pela concessão de uma bolsa de estudos no último ano do curso. Ao ART, o grupo de pesquisa do CNPq Antigo Regime nos Trópicos, agradeço pelo apoio durante todo o período do doutorado. As diversas atividades que desenvolvi no grupo me permitiram permanecer no curso e me garantiram um aprendizado sem medida. Sem o amparo e o cuidado do ART teria sido impossível levar essa pesquisa adiante, e de maneira concreta, finalizar essa tese. Ao ART devo esse trabalho, mas mais do que isso, ao ART devo tudo que aprendi e que me transformei no decorrer desses quatro anos pra que essa tese se tornasse umarealidade. Ao convênio Capes-Cofecub, ainda por intermédio do ART, agradeço a oportunidade única da permanência no exterior pelo período de seis meses, o que trouxe uma contribuição inestimável pra minha formação profissional e experiência cultural. Através de tal convênio pude participar dos seminários, cursos e atividades dos centros de pesquisa da École de Hautes Études en Sciences Sociales – Paris; apresentar a pesquisa em dois congressos internacionais, um em Paris (na EHESS) e um em Lisboa (na Universidade Nova de Lisboa); entrar em contato com vários pesquisadores estrangeiros renomados; coletar bibliografia e documentação pertinente, tanto em Paris quanto nos preciosos arquivos portugueses; além de enriquecer e aprofundar diversas reflexões teóricas e metodólogicas para a pesquisa. Ao meu orientador Antonio Carlos Jucá de Sampaio agradeço por mais quatro anos de uma orientação cuidadosa e precisa. Agradeço imensamente pela alegria com que acompanhou cada etapa de mais essa pesquisa, pelo estímulo constante, pelas dicas preciosas e pela incrível confiança que sempre demonstrou na minha capacidade de trabalho. Como se todos esses fatores já não fossem suficientes e dignos de agradecimento, a ele agradeço ainda pela amizade que já ultrapassa uma década, uma amizade pela qual tenho um carinho muito grande e enorme satisfação de cultivar. Aos professores João Fragoso e Roberto Guedes, muito mais do que o apoio através do ART, e das valiosas e enriquecedoras sugestões para a pesquisa, agradeço pela amizade, pela atenção e pelo carinho que sempre me dedicaram. Agradeço por serem inspirações enquanto pesquisadores e referências historiográficas indiscutíveis para a pesquisa, mas � 9 � também por serem seres humanos extraordinários e por terem literalmente cuidado de mim em momentos importantes da minha vida que tanto precisei de ajuda. Aos professores João Fragoso e Carla Almeida agradeço pela participação e preciosa contribuição à pesquisa no exame de qualificação, quando me ajudaram a refletir sabiamente sobre os rumos que o trabalho ainda estava por tomar. Aos professores João Fragoso, Roberto Guedes, Carla Almeida e Cláudia Chaves agradeço pela composição da banca da defesa, certa da leitura cuidadosa e enriquecedora que certamente farão desse trabalho, como especialistas tão renomados e conhecedores do meu tema e/ou de aspectos que o tangenciam. Ao professor William Martins agradeço pelo gentil auxílio nas questões religiosas que perpassaram a tese. Seu cuidado, atenção e indicações bibliográficas muito me ajudaram. Aos professores Nuno Gonçalo Monteiro, Cláudia Damasceno Fonseca, Leonor Freire Costa e Jean-Frédéric Schaub agradeço pela recepção em Paris e em Lisboa, na ocasião do estágio sanduíche, e pelas inestimáveis sugestões e horizontes que abriram em minha pesquisa. Agradeço especialmente ao acompanhamento quase diário do professor Nuno Monteiro em minha estada no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, e às discussões mais específicas de pesquisas sobre Minas com a professora Cláudia Damasceno. Ao mestre Victor Oliveira agradeço pela cuidadosa ajuda na confecção do banco de dados da pesquisa. Aos funcionários dos vários arquivos do Brasil e de Portugal devo sinceros agradecimentos. Nos arquivos das minhas Minas encontrei uma atenção já característica de anos atrás, um cuidado e uma atenção que já de costume me dedicavam. Nos arquivos no Rio de Janeiro pude contar com pessoas que me ajudaram a encontrar o que precisava e a reproduzir documentos essenciais. Nos arquivos em Portugal também me deparei com pessoas gentis e atenciosas e que me ajudaram a entender a organização dos fundos portugueses tão vastos e a filtrar o que melhor poderia se adequar às necessidades de pesquisa mais imediatas. Também devo lembrar de agradecer aos funcionários do PPGHIS, principalmente Sandra e Ana Beatriz, com seu cuidado diário com questões burocráticas, agradeço a gentileza e dedicação já conhecida de seu trato. Aos meus queridos amigos, verdadeiros anjos na minha vida, devo mais que agradecimentos, mas infelizmente não posso a eles dedicar mais do que essas palavras. A eles agradeço por terem sido meu apoio mais do que certo em momentos felizes e em momentos muito difíceis também. Ana Beatriz, Andréia, Angélica, Daniela, João Rafael, � 10 � Joelma, Lívia, Lucimeire, Luiz Guilherme, Marcello, Mareana, Natiele, Rebeca, Regiane, Tatiana, Victor e Wander, foram, repito, anjos que Deus mandou do céu pra cuidar de mim e me dizer as palavras certas nos momentos certos. Uns mais perto, outros nem tanto, todos eles tiveram e certamente ainda tem um papel inquestionável na minha vida e um lugar especial em meu coração. Não há como não mencionar ainda que durante a temporada em Paris e em Lisboa, Sílvia e Maria foram presentes que a vida reservou pra mim, precisei atravessar o oceano pra ter o privilégio de conhecê-las e de desfrutar de uma amizade tão verdadeira. Por fim, peço perdão se esqueço de mencionar alguém e assumo a culpa pela omissão. A minha irmã repito os agradecimentos que faço quase que diariamente, o primeiro de ser minha melhor amiga e de participar de praticamente todos os melhores e piores momentos da minha vida, me dando apoio, compreensão e um carinho único. O segundo agradecimento é por ter me dado minhas queridas sobrinhas a quem dedico esse trabalho. Lavínia e Júlia são hoje simplesmente as razões da minha vida, a alegria dos meus dias, o colorido das minhas horas. Minhas meninas me cobrem do amor mais verdadeiro e gratuito do mundo e me ensinam que quando tenho o sorriso e o carinho delas é como se não precisasse de mais nada pra ser feliz. Aos meus pais, puxa, aos meus pais é mais difícil ainda agradecer. Além da vida, me deram e continuam me dedicando um amor que não tem tamanho, que não tem limites, que não tem barreiras. São minha base, meu eixo, meu refúgio, meu alicerce, meu tudo. Eu sou o que eles me fizeram, o que eles me ensinaram e até o que não puderam me ensinar. Mesmo não entendendo tanto o que estudo, o que essa tese significa, foram os que mais ajudaram, os que mais estimularam, os que mais se alegraram pelas minhas vitórias, por cada capítulo escrito, por cada ponto final que eu dava nos textos. Torceram junto, transmitiram calma e transbordaram em compreensão. Por eles acredito que posso ser alguém melhor e graças a eles busco isso todo dia, na certeza de que tenho muito ainda o que aprender com seus conselhos e com nossa convivência. A Deus, que conhece meu coração, agradeço pela vida, mas principalmente por ter me permitido me reconstruir e refazer minha vida ao longo de todo esse processo que acompanhou a tese. Nesses quatro anos passei por situações que nunca imaginei passar, por experiências que mesmo que alheias à tese não eram alheias a mim. Se não fosse a presença de Deus jamais teria superado tanta coisa e aprendido a lidar com uma outra � 11 � Simone que foi surgindo, como resultado diário das modificações que às vezes não percebemos que se operam em nós. � 12 � Sumário Lista de Abreviaturas 16 Lista de Tabelas 17 Lista de Gráficos 19 Introdução 20 Capítulo 1 “Para a satisfação dos quintos”: a dinâmica da arrecadação do direito régio do ouro das Minas Gerais 45 1.1 “De que pagou de quintos a fazenda de Sua Majestade que Deus guarde”: como se lançava o ouro dos reais quintos 48 1.1.1 Os primeiros parcos registros (1701-1713, 1713-1721) 49 1.1.2 Os queandavam pelos caminhos (1710-1717) 51 1.1.3 Os róis dos moradores e escravos das Minas e os quintos atrasados (1714-1717, 1719-1720) 53 1.1.4 Fazendo entregas e ajustando contas (1714, 1716, 1720-1725) 57 1.1.5 Os quintos das carregações e os termos de fiança (1709,1715-1721) 60 1.1.6 Os arrolamentos de escravos para o lançamento dos quintos de 1718 a 1720 64 1.1.7 “Nas Casas da Câmara”: os lançamentos dos quintos de 1721 a 1723 68 1.1.8 Os meios quintos, pagamentos restantes antes das Casas de Fundição (1724-1725) 72 1.1.9 Registros dos reais quintos ou dos donativos reais? (1727-1733) 73 1.1.10 Capitação de negros forros, matrículas de escravos e censo de clérigos (1737-1783) 75 1.1.11 O retorno das Casas de Fundição – 1751 em diante 76 1.1.12 Os registros da derrama (1764, 1765, 1770) 83 1.1.13 Livros de cálculos de rendimento do quinto – de 1751 em diante 89 13 � 1.2 Em “cofres com quatro chaves”: como se guardava o ouro dos reais quintos 90 1.3 “Para conduzir, escoltar e entregar na Real Intendência de Vila Rica”: como se acondicionava e conduzia o ouro dos reais quintos 92 1.4 “Em naus de guerra que hão de comboiar a frota”: como se remetia o ouro dos reais quintos para o Rio de Janeiro e de lá para o Reino 100 1.5 Pagando tudo o “necessário para os quintos”: o que se despendia com os reais quintos 107 1.6 O “cair no crime de sonegados”: como se condenavam os desviantes do ouro dos reais quintos 114 1.7 Da forma “que o Senado da Câmara ordenar” ou “em receita da Fazenda Real”: a responsabilidade institucional com a cobrança dos reais quintos 119 1.8 Uma perspectiva renovada para se entender a “matéria dos quintos” 129 Capítulo 2 “Com toda a exatidão e bom modo”, porém “de sorte que venha pago”: atribuições, atuação e poder de mando da elite local ligada aos reais quintos 131 2.1 Os “homens do ouro”: os cobradores/provedores dos reais quintos 134 2.1.1 “Com boas e sãs consciências assim o fariam”: os cobradores dos quintos em atividade 136 2.1.2 Os “homens do ouro” de toda a Capitania de Minas: o mapeamento dos cobradores dos reais quintos 155 2.2 Guardas Mores, Juízes Ordinários, Tabeliães, Procuradores da Câmara e outros envolvidos com os Quintos Reais 161 2.3 Os tesoureiros dos quintos reais 168 2.4 Os escrivães dos quintos reais 170 2.5 Os fiscais dos quintos reais 172 2.6 Os Superintendentes, Intendentes, Ouvidores, Provedores e Desembargadores do Ouro 173 2.7 Por “conduzir, escoltar e entregar todo o ouro pertencente ao Real Quinto”: os condutores dos reais quintos 174 2.8 Os ofícios de “suporte” ao real quinto 176 2.9 Os vários agentes do ouro: os responsáveis por cada etapa do cuidado com o precioso metal 177 14 � Capítulo 3 Esquadrinhando a vida dos “homens do ouro”: o perfil dos cobradores dos quintos da Leal Vila do Carmo (c. 1700 – c. 1780) 227 3.1 “Porque todos os moradores destas Minas são de diversas pátrias”: a naturalidade dos cobradores dos quintos e seus ascendentes 233 3.2 Delimitando o grupo: as pessoas “antigas das Minas” cuidando do ouro do real quinto 244 3.3 Casados, solteiros, com filhos ou “embaraços”: a situação civil dos cobradores dos quintos 249 3.4 “O exercício que tem e teve depois que da sua pátria passou para o Brasil”: as ocupações econômicas dos cobradores dos quintos reais 260 3.5 “Com boa satisfação e honrado procedimento”: as patentes militares dos cobradores dos quintos reais 266 3.6 Pelo “bem comum” e pelo “grande desejo de servir a Sua Majestade”: as demais solicitações ao Conselho Ultramarino 278 3.7 De camarários a encarregados do governo das Minas: os outros tantos cargos ocupados pelos cobradores dos quintos 281 3.8 E eram “muito cristãos velhos, que de longe se via”: os processos de habilitação para familiar do Santo Oficio dos cobradores dos quintos 290 3.9 Por “tão justos motivos, costuma Vossa Majestade sempre por via de graça, dispensar”: os pedidos de hábitos da Ordem de Cristo pelos cobradores 299 3.10 Entre jóias finas de ouro e diamantes e móveis de jacarandá e pau branco: a composição da fortuna dos cobradores dos quintos 308 3.11 “Desejando por a minha alma no caminho da salvação”: a relação com o sagrado – disposições fúnebres, ordens terceiras e irmandades, missas e legados 325 3.12 Dotes e heranças: notas sobre a partilha, mecanismos de reprodução social e estratégias de manutenção do patrimônio 345 3.13 Contendas, fugas, omissões, sequestros e prisões: a obrigação de “dar contas” das legítimas e disposições testamentárias – uma “confusão da Babilônia” 362 3.14 “Falecido nas Minas” ou “viera muito rico do Brasil”: o fim da trajetória dos cobradores dos quintos 370 15 � Capítulo 4 “Para tratar de sua vida tomando estado, e vivendo bem”: as relações dos cobradores dos quintos com seus escravos, forros, pardos, mulatos e afilhados negros 374 4.1 “Entre machos e fêmeas, bons e maus, grandes e pequenos e finalmente os que se acharem”: a composição do plantel dos cobradores dos quintos 377 4.2 Alforrias e legados: “pelos bons serviços prestados”, “pelo haver criado”, “pelo amor que lhe tinha” 395 4.3 O “tronco com sua fechadura”, as “missas pelas almas dos escravos”: o complexo embate entre conflitos e cuidados 418 4.4 “Todos os seus negros armados que são número grande”: os escravos armados dos cobradores dos quintos reais 424 Considerações finais 433 Anexos 438 Referências Bibliográficas 449 16 � Lista de Abreviaturas ACML Arquivo da Casa da Moeda de Lisboa AEAM Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana AHCSM Arquivo Histórico da Casa Setecentista de Mariana AHCMM Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Mariana AHTCP Arquivo Histórico do Tribunal de Contas de Portugal AHU Arquivo Histórico Ultramarino – Minas Gerais AN Arquivo Nacional do Rio de Janeiro ANTT Arquivo Nacional da Torre do Tombo – Portugal APM Arquivo Público Mineiro BN Bibilioteca Nacional do Rio de Janeiro CC Casa dos Contos de Ouro Preto HOC Habilitação da Ordem de Cristo HSO Habilitação do Santo Ofício RGM Registro Geral de Mercês SC Seção Colonial 17 � Lista de Tabelas Tabela 1 - Os cobradores dos quintos reais da Vila do Carmo (Mariana) 180 Tabela 2 - Os cobradores dos quintos reais de Vila Rica (Ouro Preto) 184 Tabela 3 - Os cobradores dos quintos reais da Vila de São João del Rei 185 Tabela 4 - Os cobradores dos quintos reais da Vila Real do Sabará 187 Tabela 5 - Os cobradores dos quintos reais da Vila de São José del Rei (Tiradentes) 189 Tabela 6 - Os cobradores dos quintos reais da Vila Nova da Rainha (Caeté) 190 Tabela 7 - Os cobradores dos quintos reais da Vila do Príncipe (Serro) 192 Tabela 8 - Os cobradores dos quintos reais da Vila de Pitangui193� Tabela 9 – Patentes militares dos cobradores dos quintos reais por vila 156 Tabela 10 - Guardas Mores, Juízes Ordinários, Tabeliães, Procuradores da Câmara e outros envolvidos com os quintos reais 194 Tabela 11 - Tesoureiros dos quintos reais 201 Tabela 12 - Escrivães dos quintos reais 204 Tabela 13 - Fiscais dos quintos reais 208 Tabela 14 - Superintendentes, Intendentes, Ouvidores, Provedores, Desembargadores do Ouro 211 Tabela 15 - Condutores dos quintos reais 213 Tabela 16 - Ofícios de "suporte" ao real quinto 223 Tabela 17 - Naturalidade dos cobradores dos quintos reais 235 Tabela 18 - Naturalidade dos pais e avós dos cobradores dos quintos reais 236 Tabela 19 - Ocupações dos pais, avós paternos e avós maternos dos cobradores dos quintos reais 240 Tabela 20 - Tempo de permanência no cargo de cobrador dos quintos reais 246 Tabela 21 - Idade exata quando cobrador dos quintos reais (para os quais temos informações) 248 Tabela 22 - Situação civil dos cobradores dos quintos reais 249 Tabela 23 - As "donas" esposas dos cobradores dos quintos reais 251 Tabela 24 - Ocupações econômicas dos cobradores dos quintos reais 262 Tabela 25 - Patentes militares dos cobradores dos quintos reais enquanto exerciam o cargo e ao fim da vida 267 18 � Tabela 26 - Tipologia de pedidos ao Conselho Ultramarino e RGM (fora os referentes a postos militares) 278 Tabela 27 - Os outros cargos ocupados pelos cobradores dos quintos reais (fora os postos militares) 283 Tabela 28 - Os outros cargos ocupados pelos cobradores dos quintos reais II (fora os postos militares) 286 Tabela 29 - Tipologia dos bens possuídos pelos cobradores dos quintos reais ao fim da vida 310 Tabela 30 - Composição da fortuna dos cobradores dos quintos reais em réis 317 Tabela 31 - Média de escravos possuídos pelos cobradores dos quintos reais em 1725 318 Tabela 32 - Dívidas ativas e passivas dos cobradores dos quintos reais 319 Tabela 33 - Monte-mores dos cobradores dos quintos reais 321 Tabela 34 - Cabedal presumido em processos de habilitações para o Santo Ofício 323 Tabela 35 - Monte-mor médio por tipos de propriedades dos cobradores dos quintos reais 324 Tabela 36 - Destinação dos legados dos cobradores dos quintos reais em testamentos (para os 31 que temos informações) 329 Tabela 37 - Distinções religiosas dos cobradores dos quintos reais 334 Tabela 38 - Distinções religiosas dos cobradores dos quintos reais 337 Tabela 39 - Pedidos de celebrações de missas, ofícios, bulas e capelas pelos cobradores dos quintos reais 340 Tabela 40 - Herdeiros dos cobradores dos quintos reais 347 Tabela 41 - "Escrituras fantásticas" dos cobradores dos quintos reais 354 Tabela 42 - Composição da escravaria dos cobradores dos quintos reais 380 Tabela 43 - Pedidos de celebração de missas pelas almas dos escravos 421 19 � Lista de Gráficos Gráfico 1 – Tempo de permanência no cargo 246 Gráfico 2 - Situação civil dos cobradores dos quintos reais 250 20 � Introdução “Como o principal desejo de Sua Majestade inteiramente se dirige a encher de felicidade os povos desta Monarquia justamente os de Minas Gerais lhe merecem o maternal cuidado de lhe procurar todos os meios de os fazer felizes e abundantes porquanto eles são como a fonte, da qual se emanam as excessivas riquezas, que constituem a riqueza da maior parte dos seus vassalos, que fazem este Reino respeitado, e atendível aos estranhos, e que aumentam o Erário Régio, (...) e finalmente o Quinto do Ouro (...) o que Legitimamente devem ao Soberano.”1 Tomás Antonio Gonzaga, nas famosas Cartas Chilenas, nos relata que “a nossa Chile”, na verdade Vila Rica, “Em toda parte tinha, à flor da terra, / Extensas e abundantes minas de ouro”.2 No trecho acima, de uma representação de 1783 de um documento do Erário Régio, vê-se a clara referência que as Minas Gerais eram a fonte da qual emanavam enormes riquezas, riquezas estas que tornavam o Reino de Portugal respeitado frente aos demais no século XVIII. Além dessas constatações, tão propagadas à época, de que a região das Minas rendia à Coroa portuguesa rendimentos extraordinários e sem precedentes, pela citação acima se aponta ainda para o fato de que o quinto do ouro, a designação dada ao quinhão devido ao monarca sobre o ouro das minas, era ao soberano rei devido legitimamente, ou seja, por direito. A expressiva quantidade e diversidade de estudos sobre as Minas Gerais no século XVIII dá a falsa impressão que temas como o da arrecadação desse direito régio sobre o ouro da então preciosa região mineradora é assunto já excessivamente consagrado e esgotado pela historiografia. Tal impressão não se sustenta, não obstante o fascínio causado em tantos pesquisadores pelo fenômeno desencadeado pela corrida ao famoso metal amarelo, que segundo Antonil tinha reflexos “que parecem raios do Sol”.3 Apesar da riqueza e abrangência dos variados trabalhos produzidos até o momento, as lacunas da nossa historiografia no que tange ao cotidiano da fiscalidade na formação da sociedade colonial e a uma história dos agentes que a concretizavam são mais do que evidentes e demonstram a relevância de novas perspectivas nesse âmbito. ���������������������������������������� ������������������� 1 AHTCP, Livro 4066, Erário Régio, 1783, f. 86, 87. 2 GONZAGA, Tomás Antônio. Cartas Chilenas. 1789. Site: www.hotbook.com.br, p. 23. 3 ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia Limitada, 1982, p. 135. 21 � Considerando-se a tamanha preocupação que a questão da coleta do ouro adquiriu, principalmente nos reinados de D. João V (1706-1750) e de D. José I (1750-1777), e de ter sido o metal amarelo “de longe o recurso mais vital do império português”4 – constatações estas que dispensam excessiva explicação – , são raros os historiadores que investigaram como a Coroa tentou arrecadar a parte que teria direito nas riquezas naturais, ainda que tenham acentuado a quantidade de ouro e logo depois de diamantes que chegou em Portugal nesse período. Poucos pesquisadores se preocuparam também em conhecer quais foram as diferentes políticas régias discutidas e delineadas para cada tipo de cobrança do ouro.5 Acrescentamos a tais constatações, além disso, que nenhum investigador procurou até o momento entender o funcionamento local dessa atividade na capitania de Minas Gerais, e continua sendo um desafio maior ainda conhecer quem foram aqueles que diretamente estavam envolvidos na cobrança desse ouro. Parte da explicação do desinteresse por essas questões reside nas dificuldades das próprias fontes ligadas à fiscalidade, e também na ausência de estudos críticos sobre elas.6 A fragmentação dessas fontes e seu caráter árido, o pouco conhecimento da organização dessas informações restantes e parciais, bem como os contratempos ligados à organização dos arquivos, são patentes e têm causado significativos obstáculos ao trabalho dos historiadores. Contudo, a explicação para essas lacunas não se resumem obviamente, a nosso ver, apenas a esses contratemposda pesquisa com séries documentais dessa natureza. O tipo de interpretação reinante até a década de 1990 tinha um caráter estrutural marcante e tornava impensável que reflexões como aquelas sobre o papel da Coroa nas regiões de produção aurífera partissem de uma perspectiva local.7 O estudo das cobranças ���������������������������������������� ������������������� 4 PEDREIRA, Jorge M. “As conseqüências econômicas do império: Portugal (1415-1822).” Análise Social, vol. XXXII (146-147), 1998, pp. 433-461, p. 438. 5 NIZZA DA SILVA, Maria Beatriz. “Ouro e diamantes: as dificuldades da cobrança dos Direitos Reais.” Anais de História de Além-Mar. Lisboa: 2007, Vol. VIII, pp. 89-101, p. 89. 6 Com exceção do trabalho sobre o Códice Costa Matoso. FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida, CAMPOS, Maria Verônica (coord.). Códice Costa Matoso. Coleção das notícias dos primeiros descobrimentos das minas na América que fez o doutor Caetano da Costa Matoso sendo ouvidor-geral das do Ouro Preto, de que tomou posse em fevereiro de 1749 & vários papéis. São Paulo: Fundação João Pinheiro, 1999; e ainda dos importantes livros de Angelo Carrara: CARRARA, Angelo Alves. Receitas e despesas da Real Fazenda no Brasil; 1607-1700. Juiz de Fora: Editora da UFJF, 2009; ______. Receitas e despesas da Real Fazenda no Brasil, século XVIII: Minas Gerais, Bahia, Pernambuco. Juiz de Fora: Editora da UFJF, 2009. 7 Entre outros, o clássico estudo de Laura de Mello e Souza, por estes motivos e pelos inerentes às fontes, deixou vazios no que tange às questões ligadas à fiscalidade. É o caso de: MELLO E SOUZA, Laura de. Os desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII. Rio de Janeiro: Graal, 1982, e também de MELLO E SOUZA, Laura de. O sol e a sombra: política e administração na América portuguesa do século XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 22 � dos reais quintos originando-se, portanto, do seu funcionamento mais rudimentar e local não teria significado algum até a bem pouco tempo atrás. Nem muito menos despertaria interesse um estudo do grupo que a essa atividade se dedicava. Recentes trabalhos permitem que esse tipo de tema ganhe espaço de produção.8 Os trabalhos, portanto, que até o momento de certa forma trataram da arrecadação dos quintos do ouro de Sua Majestade privilegiaram, em geral, o fazer conhecer as periodizações dos métodos de cobrança, ou seja, o construir sistematizações dos tipos de coleta por período, geralmente tendo por base a legislação e os regimentos decretados sobre as Minas. Tais estudos, alguns mais indiretamente que outros na abordagem do tema, remontam à década de 1930.9 Desde lá se sucederam várias menções às formas de arrecadação do ouro, considerado o principal aspecto que importava conhecer sobre o assunto. Percebem-se apenas pequenas discordâncias em tais periodizações, que em geral dividem as décadas da mineração em períodos de alternância dos métodos de bateias, ���������������������������������������� ������������������� 8 Destaca-se a importância das atuais perspectivas prosopográficas e suas consequentes inovações nas interpretações sobre o Império português. Para citar apenas alguns trabalhos, entre outros tantos: FRAGOSO, João; BICALHO, Maria Fernanda Baptista; GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. (Orgs.) O Antigo Regime nos trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001; FRAGOSO, João Luís Ribeiro de, ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de, SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de. Conquistadores e negociantes: histórias de elites no Antigo Regime nos trópicos. América lusa, séculos XVI a XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007; ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de; OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Nomes e números: alternativas metodológicas para a história econômica e social. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2006. 9 Os trabalhos mais comumente citados, ainda que não focados exclusivamente na arrecadação dos quintos, são os seguintes, entre outros tantos: BOXER, Charles R. A idade do ouro do Brasil. São Paulo: Editora Nacional, 1969; HOLANDA, Sérgio Buarque de. “Metais e pedras preciosas.” In: História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1973, pp. 259-310; PINTO, Virgílio Noya. O ouro brasileiro e o comércio anglo-português: uma contribuição aos estudos da economia atlântica no século XVIII. 2. ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1979; RUSSEL WOOD, A. J. R. O governo local na América Portuguesa: um estudo de divergência cultural. Revista de História. São Paulo, v. 55, ano XXVIII, 1977, pp. 25-80. Alguns mais específicos podem ser mencionados: CALÓGERAS, João Pandiá. As minas do Brasil e sua legislação. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1935; CARDOSO, Manuel da Silveira Soares. “Os quintos do ouro em Minas Gerais (1721-1732).” Congresso do Mundo Português. Lisboa, vol. 10, 1940, pp. 117-128; CAMPOS, Maria Verônica. Governo de mineiros: “de como meter as minas numa moenda e beber-lhe o caldo dourado” 1693 a 1737. Tese (Doutorado em História) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002; MAGALHÃES, Joaquim Romero. As Câmaras Municipais, a Coroa e a cobrança dos quintos do ouro nas Minas Gerais (1711-1750). In: ______. Labirintos Brasileiros. São Paulo: Alameda, 2011. É importante também destacar que diversos memorialistas e viajantes nos oferecem importantes informações sobre as cobranças, ainda que esparsas: ANTONIL, André João [João Antônio Andreoni]. Cultura e opulência do Brasil. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia Limitada, 1982; ROCHA, José Joaquim da. Geografia histórica da Capitania de Minas Gerais. Descrição geográfica, topográfica, histórica e política da Capitania de Minas Gerais. Memória histórica da Capitania de Minas Gerais (1788). Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1995; entre outros. 23 � capitação, e casas de fundição, com a conclusão de que nunca se chegou durante todo o século a um mecanismo estável de arrecadação dos quintos.10 Devem-se enfatizar ainda alguns trabalhos bem recentes dedicados às políticas de cobrança dos quintos que eram delineadas a cada mudança de modo de arrecadação, que tipo de forças podiam mover essas decisões e debates. Alguns acentuam, através de troca de cartas e defesas de secretários do rei, os projetos de novas formas de cobrança (como o de Alexandre de Gusmão) e suas discussões na Corte.11 As alterações fiscais são relacionadas com a formulação e uma nova percepção sobre a política ultramarina com discussão sobre o exercício da política e a organização do poder na Corte. Discussões sobre projetos se repetem, às quais “além de um método de arrecadação, se discutia, nas entrelinhas deste processo de implementação fiscal a estrutura de mando – o modo de governar.”12 Os circuitos de decisão e de tomadas de decisão acerca dos métodos de arrecadação do ouro podem ser dessa maneira bem melhor conhecidos e problematizados.13 Em um caminho um pouco distinto, mas igualmente inovador, outra série de estudos têm conferido atenção às remessas do ouro da Coroa ou de particulares, bem como o seu transporte, logo após que o precioso metal fizesse essa passagem para o lado de lá do oceano, e assim uma parcela chegasse ao destino dos cofres da realeza de Portugal. Afinal, “fiscalizar bem a entrada de ouro era tão importante quanto registrar os pormenores de sua produção na Colônia e de seu transporte até Portugal.”14 Alguns desses estudos tentam dar um enfoque mais monetário, analisando as emissões de moeda de ouro em Portugal e as ���������������������������������������� ������������������� 10 Para detalhes sobre as formas que a Coroa portuguesa lançou na cobrança dos quintos ver: CARRARA, Angelo Alves. Administração fazendária e conjunturas financeiras da capitania de Minas Gerais – 1700- 1807. (Relatório de Pesquisa). Mariana:UFOP, 2002; CARRARA, Angelo Alves. Produção mineral e circulação mercantil na capitania de Minas Gerais – 1700-1807. (Relatório de pesquisa). Mariana: UFOP, 2002; PAULA, João Antônio de. “A mineração de ouro em Minas Gerais do século XVIII.” In: RESENDE, Maria Efigênia Lage de; VILLATA, Luiz Carlos. História de Minas Gerais: As Minas Setecentistas. Vol. 1. Belo Horizonte: Autêntica, Companhia do Tempo, 2007, pp. 279-301. Essas sistematizações foram feitas com base em uma série de autores desde Simonsen, Pinto, Boxer, Eschwege, entre outros, como se pode verificar nos artigos. 11 NIZZA DA SILVA, Maria Beatriz. “Ouro e diamantes:.. 12 Apud: BICALHO, Maria Fernanda. “Inflexões na política imperial no reinado de D. João V”. Anais de História de Além-Mar. Lisboa: 2007, Vol. VIII, pp. 37-56, p. 54. 13 COSTA, André. Sistemas fiscais no Império: o caso do ouro do Brasil, 1725-1777. Tese (Doutorado em História), Universidade de Lisboa, Instituto Superior de Economia e Gestão, Lisboa, 2013. 14 COSTA, Leonor Freire; ROCHA, Maria Manuela; SOUSA, Rita Martins de. “Primeira parada: Portugal”. Dossiê ouro. Revista de História da Biblioteca Nacional, novembro 2008, ano 4, no 38, pp. 22-25, p. 23. 24 � políticas monetárias no Brasil;15 outros procuram caracterizar o fluxo do ouro sob a forma de pó, barra e moeda entre o Brasil e Portugal como fator para a compreensão das relações econômicas;16 ou ainda visam conferir relevância a questionamentos mais específicos do universo de agentes ligados ao circuito do ouro, buscando conhecer a rede de sujeitos ligados a essa rota, com fontes até então desconhecidas.17 Uma recente publicação engloba grande parte dessas problemáticas, sistematizando conclusões sobre os apontamentos nesses artigos. Esse excelente trabalho preocupou-se, portanto, com a importância dos fatores monetários na prestação da economia portuguesa; com o enquadramento fiscal dos livros de manifesto (fontes principais da pesquisa); com o apuramento dos quantitativos anuais chegados ao Reino; com o estudo das categorias institucionais de receptores desse ouro, Estado e particulares; com a estimativa do ouro acumulado em Portugal; com as características sociológicas dos agentes envolvidos; e com as características organizacionais do comércio transatlântico.18 Como a historiografia sobre os reais quintos padece de um estudo mais sistemático, especialmente afeito ao seu cotidiano e ao que poderíamos chamar de uma história mais social da fiscalidade, porque interessada também nos agentes nela envolvidos, o objetivo principal dessa tese é reparar essas lacunas. O objeto dessa pesquisa, portanto, é o processo de arrecadação dos quintos na capitania de Minas Gerais no que diz respeito ao seu funcionamento mais cotidiano, leia-se, de como se exercia corriqueiramente a cobrança nas vilas, freguesias e variados lugarejos dessa região. Tais preocupações presumem a investigação, além do dia a dia e dos procedimentos da coleta, da responsabilidade institucional na gestão dessa atividade, delimitando em que períodos efetivamente a Real Fazenda ou o Senado da Câmara deviam se incumbir do cuidado com a cobrança, e o que isso significava para um entendimento mais geral da presença da Coroa nas Minas. Além desses propósitos, também é objeto dessa tese, cumprindo a pretensão de se construir uma história social da fiscalidade, investigar aqueles que concretizavam as ���������������������������������������� ������������������� 15 SOUSA, Rita Martins de. “O Brasil e as emissões monetárias de ouro em Portugal (1700-1797).” Penélope, nº 23, 2000, pp. 89-107. 16 COSTA, Leonor Freire; ROCHA, Maria Manuela; SOUSA, Rita Martins de. O ouro do Brasil: transporte e fiscalidade (1720-1764). In: site www.abphe.org.br/congresso2003/Textos/Abphe_2003_83.pdf -, pp. 1-23. 17 COSTA, Leonor Freire; ROCHA, Maria Manuela. “Remessas do ouro brasileiro: organização mercantil e problemas de agência em meados do século XVIII.” Análise Social, Vol. XLII (182), 2007, pp. 77-98. 18 COSTA, Leonor Freire; ROCHA, Maria Manuela; SOUSA, Rita Martins de. O ouro do Brasil. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, S. A., 2013. As análises contidas nesse livro certamente merecerão análises futuras, tanto pela riqueza das suas informações, quanto pelas possibilidades comparativas com nossa pesquisa, já que 31 dos cobradores dos quintos constam entre os emissores de ouro para Portugal. 25 � atividades ligadas ao ouro das Minas, cuidando dela diretamente antes que o metal atravessasse o Atlântico para abastecer os cofres da Coroa portuguesa. As atribuições, atuação, poder de mando de toda uma elite local atrelada aos reais quintos podem ser conhecidas; além do perfil sócio-econômico e político dos cobradores dos quintos reais de Mariana e das relações que os últimos estabeleceram com seus escravos, forros, pardos, mulatos e afilhados negros. Para tanto, o recorte espaço-temporal estabelecido abrange toda a região que ficou conhecida por Minas Gerais entre cerca de 1700 até aproximadamente a década de 1780. De uma forma geral, nossa escolha se legitima por se tratar do período em que a capitania teve a mineração como sua atividade principal. De 1750 a 1770 deu-se o auge minerador, pois apesar do ponto máximo de coleta ter se verificado entre 1735-1739, em 1750 a cota de 100 arrobas fora até excedida. A queda depois foi para 86 arrobas, mas só entre 1774- 1785 com uma arrecadação de 68 arrobas tal declínio teria sido mais marcado. Apesar do decréscimo, até pelo menos 1770 a estrutura produtiva foi conservada sem maiores modificações. Só em meados desta década o declínio começou a provocar uma “rearticulação econômica intencional” que poderia ser percebida a partir de 1780. E assim, de 1780 a 1810 a mineração não mais seria a atividade econômica principal das Minas perdendo espaço para as atividades agropecuárias.19 A delimitação do período de dominância da atividade mineradora nas Minas, e consequentemente de representatividade do montante de ouro arrecadado nesse espaço de tempo, portanto, dá a devida pertinência ao recorte. De forma mais específica, todavia, o marco inicial se justificou ainda pelo princípio das séries de fontes fiscais trabalhadas (livros de receita e lançamento dos quintos, de capitação de escravos, entre outros), e o marco final por coincidir com o período em que os cobradores começam a desaparecer dos diversos registros em que pudemos detectá-los em atuação variada, inclusive devido ao fato de que a maioria já tinha falecido até essa década. Passamos nesse instante para um momento que entendemos por essencial dessa introdução, qual seja a explicitação dos conceitos chave norteadores dessa pesquisa, tanto ���������������������������������������� ������������������� 19 Partilhamos nesse momento da periodização reformulada pela professora Carla Almeida, em trabalho importante onde rompe com mitos da historiografia sobre Minas, ainda que a ideia de decadência já viesse sendo repensada por outros estudos. De forma muito evidente, Almeida chama atenção ainda para o fato de que a decadência da produção aurífera não significou, em medida alguma, uma estagnação econômica da região, mesmo no auge minerador havia a clara concomitância dessa atividade com a agricultura e a pecuária. ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. Homens ricos, homens bons: produção e hierarquização social em Minas Colonial: 1750-1822. Tese de doutorado. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2001, p. 16-33. 26 � mais gerais quanto mais específicos. Os conceitos mais gerais dizem respeito fundamentalmente aos de monarquia pluricontinental, sociedade corporativa e autogoverno, ideias que permitem que essa sociedade ganhe inteligibilidade aos olhos de nós pesquisadores, além de lhe conferira devida complexidade. Já os conceitos mais específicos fazem referência ao que compreendemos por direito régio (em contraposição a imposto) e por elite, noções estas que perpassam todo o trabalho e que guiam muitas de nossas conclusões sobre os dados empíricos encontrados. Iniciamos, portanto, destacando que estudamos um período e uma região caracteristicamente vinculados ao que vem sendo denominado mais recentemente de monarquia pluricontinental. Tal noção foi primeiramente desenvolvida por Nuno Gonçalo Monteiro, em um artigo sobre as redes de parentesco da família dos Távoras. No dito artigo, o autor conclui que a monarquia portuguesa tinha uma dimensão imperial única no contexto da Europa dos séculos XVII e XVIII pela dependência das receitas vindas do império atlântico e por sua experiência de circulação pelo império. Assim, os “domínios ultramarinos” da monarquia portuguesa e a capacidade de autonomia das suas elites lhes conferiam “uma feição decididamente pluricontinental”. Isso por conta dos domínios que conferiam à monarquia sua dimensão territorial.20 Logo depois, João Fragoso e Maria de Fátima Gouvêa trabalharam mais detidamente na formulação do conceito, agregando a ele a concepção corporativa de sociedade e de autogoverno das comunidades. Dessa forma, essa ideia se tornaria, segundo os últimos, uma chave cognitiva importante e capaz de dar conta da dinâmica do império ultramarino português.21 Nessa monarquia pluricontinental, “caracterizada pela presença de um poder central fraco demais para impor-se pela coerção, mas forte o suficiente para negociar seus interesses com os múltiplos poderes existentes no reino e nas conquistas”, os diferentes espaços, Reino e domínios, estariam integrados em uma mesma construção política. Tanto para Portugal quanto para as diversas conquistas extra-europeias, havia um grande conjunto de leis, regras e corporações, que conferiam unidade e significado às ���������������������������������������� ������������������� 20 MONTEIRO, Nuno Gonçalo F. A “tragédia dos Távaras”. Parentesco, redes de poder e facções políticas na monarquia portuguesa em meados do século XVIII. In: FRAGOSO, João e GOUVÊA, Maria de Fátima. (orgs.) Na trama das redes: política e negócios no império português, séculos XVI-XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010, pp. 317-342. 21 FRAGOSO, João e GOUVÊA, Maria de Fátima. Monarquia pluricontinental e repúblicas: algumas reflexões sobre a América lusa nos séculos XVI-XVIII. Tempo. Niterói, v. 14, n. 27, dez/2009, pp. 36-50, p. 38. 27 � variadas áreas vinculadas entre si e ao Reino.22 Esse quadro tornava possível que as ligações entre as partes dessa monarquia fossem muito mais próximas do que em outras monarquias (as monarquias compósitas).23 Segundo Fragoso e Gouvêa, essa monarquia pluricontinental se tornava realidade ainda pela “ação cotidiana de indivíduos que viviam espalhados pelo império em busca de oportunidades de acrescentamento social e material”, e que tais indivíduos “não se colocam passivos diante das regras gerais e que se utilizam das fraturas existentes no permanente diálogo travado entre regras gerais e locais.”24 Esses homens, fosse no Reino, no Rio de Janeiro, ou nas Minas Gerais, comungavam de tal uniformidade mencionada, não significando, no entanto, que não levassem em conta os valores de onde eram provenientes, Portugal, África, ou até os indígenas. Há, para essa concepção, em vista de tudo isso, a ideia de que o Reino não existia sem os seus territórios do ultramar, e que esses territórios, por sua vez, não eram meros apêndices de Portugal e garantiam a centralidade material do mesmo.25 As dimensões da dominação se completavam e se combinavam com as dimensões da negociação, sem as quais é impossível entender as relações nessa monarquia. Afinal, já não é mais cabível entender o período colonial no Brasil com o esquematismo excessivo até há pouco tempo adotado, onde a sociedade se reduzia a senhores e escravos e seria “um simples corolário da expansão mercantil europeia”.26 A construção do conceito de monarquia pluricontinental, após esse estudo detalhado acima, tem sido uma das preocupações atuais, segundo João Fragoso, dos pesquisadores do grupo Antigo Regime nos Trópicos para se compreender melhor o império ultramarino luso. Ressalta-se cada vez mais que no interior da ideia de monarquia pluricontinental deve-se destacar a ação dos municípios entendidos como repúblicas, com as câmaras interferindo na dinâmica do império. E já são vários os estudos nessa direção.27 ���������������������������������������� ������������������� 22 Idem, p. 42. 23 Tais monarquias incorporam territórios já existentes antes, preservando, ao menos no início, suas instituições específicas e essas diversidades pareciam ser mantidas. ELLIOT, John. “A Europe of Composite Monarchies”. Past and Present, nº 137, 1992, pp. 48-71. 24 FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima. Monarquia pluricontinental e repúblicas..., p. 43. 25 Idem, p. 43. 26 Fragoso e Gouvêa mencionam ainda que questionando tais interpretações não se quis negar o fato colonial, mas sim não se reduzir tudo a ele. Ibidem, p. 41. 27 Ver as obras: GUEDES, Roberto (org.). Dinâmica imperial no antigo regime português: escravidão, governos, fronteiras, poderes, legados: séc. XVII-XIX. Rio de Janeiro, Mauad X, 2011; FRAGOSO, João e SAMPAIO, Antonio Carlos Jucá de (orgs.). Monarquia pluricontinental e a governança da terra no ultramar atlântico luso: séculos XVI – XVIII. Rio de Janeiro: Mauad X, 2012. 28 � Além dessas obras, outro artigo revela um importante esforço analítico de aprimoramento dessa concepção. Nele os pressupostos mencionados acima são ainda mais detalhadamente explicitados, nos ajudando a compreender como uma monarquia que abordava muitos continentes vivia em uma dimensão pactuada, policentrada, onde existiam vários corpos que tinham papel e voz diante da Coroa através de constantes negociações com a mesma. Essa monarquia, portanto, que tinha na periferia, ou seja, nas suas conquistas ultramarinas, a sua centralidade e seu sustento, viva fazendo sucessivos acordos com os municípios pertencentes a ela e aos seus domínios, sendo que os últimos tinham capacidade declarada de ingerência na gestão do império ultramarino.28 Bem, como mencionado, o conceito de monarquia pluricontinental se assenta em uma concepção de mundo corporativa e polissinodal com autonomia do poder local. E sobre tais noções competem ainda se fazer algumas considerações. Uma sociedade corporativa pressupunha primeiramente que não houvesse a possibilidade de um poder incompartilhado. A cabeça, ou seja, o rei, deveria manter a harmonia e realizar a justiça, mas seu poder era também distribuído com os demais membros, e só assim se garantia o funcionamento do “bem comum”. Essa indispensabilidade de todos os órgãos da sociedade se desdobra da constatação da impossibilidade de um poder “puro”, “absoluto”, diga-se de passagem, impraticável em qualquer meio social. Hespanha define esse modelo corporativista como um “pensamento social e político medieval dominado pela idéia de uma ordem universal que orientava as criaturas”, cada parte cooperando de uma forma.29 Nuno Monteiro também sustentou que, ao invés de um movimento de centralização, o que prevaleceu foi um modelo corporativo ���������������������������������������� ������������������� 28 FRAGOSO, João. Modelos explicativos da chamada economia colonial e a ideia de Monarquia Pluricontinental: notas de um ensaio. História (São Paulo), v. 31, n. 2, jul/dez 2012, pp. 106-145. Nesse importante artigo é possível ter acesso ainda a um requintado retrospecto da discussão historiográfica em torno dos modelos que explicaram a economia colonial desde as décadas de 1970e 1980. 29 HESPANHA, António Manuel. “A representação da sociedade e do poder.” In: Mattoso, José. (Org.) História de Portugal: o Antigo Regime. Lisboa: Editorial Estampa, 1993, p. 122-125. Hespanha menciona, em outros textos, que a impossibilidade de um poder “puro” e “absoluto” deriva, ou melhor, só foi possível de ser concebida, graças a um progresso das concepções acerca dos diferentes níveis e mecanismos de instauração da ordem nas sociedades pré-contemporâneas, atingido por Michel Foucault, ao provocar uma explosão do conceito de poder, “antes só nos lugares institucionais, agora em todos os nichos do tecido social”. HESPANHA, António Manuel; XAVIER, Ângela Barreto. “As redes clientelares.” In: Mattoso, José. (Org.) História de Portugal: o Antigo Regime. Lisboa: Editorial Estampa, 1993, pp. 381-393; HESPANHA, António Manuel. “Governo, elites e competência social: sugestões para um entendimento renovado da história das elites.” In: BICALHO, Maria Fernanda; FERLINI, Vera Lúcia Amaral. Modos de Governar: idéias e práticas políticas no Império Português, séculos XVI a XIX. São Paulo: Alameda, 2005, pp. 39-44. 29 � no período moderno e a Coroa podia dispor de “poucos meios para se afirmar de maneira exclusiva”.30 Ainda segundo Hespanha, esse modelo corporativo de governo se adapta perfeitamente às fontes da época e é indispensável para “remover algumas distorções muito difundidas na história colonial brasileira”. O autor destaca que se o policentrismo, o pluralismo jurídico-político, a confusão jurisdicional, entre outros, se verificavam no Reino, com seus 89.000 km2, como poderia, segundo ele, deixar de acontecer num imenso território, cujas costas estavam separadas da metrópole por mais de um mês de Oceano, com interiores pouco acessíveis, sertões, rios, florestas, entre outros obstáculos.31 Nesse contexto, todos tripudiavam e faziam tropelias “em nome d’el-rei”, segundo Hespanha. Assim, a própria coroa, “em estado de necessidade e em transe de perder até a face, frequentemente cobria os desmandos, ou com o silêncio de presumida ignorância, ou com o manto do perdão ou mesmo com o alarde de uma mercê por tais serviços”.32 E é importante mencionar ainda, conforme muito bem trabalhado pelo autor, que os escravos compunham essa moldura do sistema corporativo, afinal eles faziam parte da casa, da família, estando para as sociedades coloniais como os criados, camponeses e outros estavam para as sociedades europeias, e eram regidos por um direito fundamentalmente doméstico, controlado pelos pais de família.33 Já a prerrogativa do autogoverno das comunidades, isto é, a legitimação desse poder pela legislação da própria monarquia, deu-se para “reconhecer o papel de liderança local que cabia às “pessoas principais das terras” (1570), aos “melhores dos lugares” (1603, Ordenações), aos “melhores da terra” (1618), às “pessoas da melhor nobreza” (1709)”, e assim “reservando-lhes os “principais ofícios da República” nas diversas povoações do reino, ou seja, os ofícios honorários das câmaras e os postos superiores das ordenanças.”34 Joaquim Romero Magalhães teria sido um dos primeiros a enfatizar a vitalidade e autonomia dos corpos políticos locais “face a um absolutismo declarado desde fins da Idade Média”.35 A realeza, segundo ele, não dispunha de meios para provir ���������������������������������������� ������������������� 30 MONTEIRO, Nuno Gonçalo. Elites e poder entre o Antigo Regime e o Liberalismo. Lisboa: ICS, 2003, p. 26, 27. 31 HESPANHA, António Manuel. Depois do Leviathan. Almanack Braziliense. No 5, maio 2007, pp. 55-66, p. 60, 61. 32 Idem, p. 64. 33 Ibidem, p. 65-66. 34 MONTEIRO, Nuno Gonçalo. Elites e poder..., p. 43. 35 Idem, p. 26, 27. 30 � nomeações em toda parte, e para aprovar e interferir nas escolhas locais, por isso teve que reconhecer os grupos locais prestigiados em quem confiar. Assim, a vida econômica, as questões de abastecimento, o recrutamento militar, a defesa sanitária e parte das imposições fiscais, ou eram atribuições que iam sendo reforçadas, ou eram novamente delegadas aos municípios, ou até para eles transferidas.36 Segundo João Fragoso, a Coroa conferia autonomia aos conselhos nas colônias e assegurava a legitimidade das normas locais e de uma hierarquia social costumeira, possibilitando assim sua grande fluidez. Dessa forma, o autogoverno dos municípios dava aparato institucional a uma monarquia que, segundo ele, “convivia por se espalhar pelo mundo”, com diversas realidades culturais e sociais. Práticas estas que correspondiam a um determinado pensamento cristão e à sua disciplina social, apesar das diferenças dos costumes locais de município a município.37 Encerrando essa parte de nossa introdução, dedicada aos conceitos mais gerais que norteiam esse trabalho, destacamos as palavras de António Manuel Hespanha que parecem ser bem elucidativas das fragilidades de um império que não pode mais ser interpretado rigidamente por absolutista: “A centralidade “do Império” dissolvia-se num emaranhado de relações contraditórias entre uma multiplicidade de pólos, nos quais a coroa ocupava lugares e hierarquias diversas, frequentemente insignificantes, por vezes escandalosamente rebaixadas; e em que, em contrapartida, tanto se alevantavam poderes locais altaneiros, como as tais sombras dos “funcionários” régios se alongavam em dimensões autônomas, cobrindo e dando legitimidade prática a toda sorte de iniciativas e ousadias, que os regimentos rejeitavam e as cartas régias mal podiam coonestar.”38 Passando agora aos conceitos ditos acima como mais específicos a reger esse trabalho, iniciamos pela noção de direito régio, que aplicamos ao real quinto em contraposição à ideia de tributo ou imposto. Segundo Raphael Bluteau o quinto é “a quinta parte de uma fazenda, de uma soma” e a quinta parte “lhe fez doação do Quinto, que ���������������������������������������� ������������������� 36 MAGALHÃES, Joaquim Romero. “Os nobres da governança das terras”. In: MONTEIRO, Nuno; CARDIM, Pedro; CUNHA, Mafalda Soares da (org.). Optima Pars: Elites Ibero-Americanas do Antigo Regime. Lisboa: ICS, 2005, p. 66, 67. 37 FRAGOSO, João e SAMPAIO, Antonio Carlos Jucá de (orgs.). Monarquia pluricontinental e a governança da terra no ultramar atlântico luso: séculos XVI – XVIII. Rio de Janeiro: Mauad X, 2012, p. 11. 38 HESPANHA, António Manuel. Depois do Leviathan..., p. 58. 31 � pertencia a el Rey desta conquista”.39 E principiamos por essa concepção, de ser o quinto pertencente ao monarca português, por sua conquista das Minas Gerais com a descoberta do tão procurado ouro do Brasil. Friedrich Renger acentua, no início de um artigo onde busca sistematizar diversas informações sobre formas de cobranças dos quintos desde seus primeiros regimentos, até anteriores à descoberta das gerais, que o “quinto não é um imposto, nem contribuição ou tributo: na realidade, trata-se do pagamento de um direito”.40 Instituição anterior à descoberta das futuras Minas Gerais, o autor nos leva a compreender como o quinto era tratado como um direito pela legislação portuguesa desde o rei D. Duarte (1433-1438), sendo incorporado depois às Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas. Com acrescentamentos pontuais, é possível acompanhar na leitura do texto o quinto visto como um “direito real” sobre veios de ouro ou prata ou qualquer outro metal e como os reis em diversas ocasiões afirmavam repetidamente seu direito sobre essas extrações. Nas Ordenações Filipinas, que também teriam sido base da legislação do Brasil Colônia até 1916, os direitos reais, segundo destaca Renger, continuavam os mesmos, e é até criado um novo título: Das Minas e Metais, certamente inspirado pelas notícias dos novos descobrimentosde ouro no Brasil, conforme acredita o autor.41 Nesse título das Ordenações Filipinas, o título XXXIV, diz-se que o rendimento dos direitos devia se dar “como sempre se usou nestes Reinos”. O registro de tudo devia ser feito pelas câmaras, e “de todos os metais que se tirarem, depois de fundidos e apurados, nos pagarão o quinto em salvo de todos os custos”.42 Além disso, só depois de pagos os devidos direitos se poderia vender o ouro para quem se quisesse. Fica evidente a questão do costume já empregado de se dar ao rei a quinta parte sobre todos os metais que se tirassem de qualquer solo de seu domínio. E nas Minas Gerais, também regida pelas ditas ordenações, igualmente deveria se compreender que o quinto sobre seu precioso ouro era devido ao rei salvo de seus custos. ���������������������������������������� ������������������� 39 BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez e latino. DINFO: Universidade do Estado de Rio de Janeiro. CR-ROM. 40 RENGER, Friedrich. O quinto do ouro no regime tributário nas Minas Gerais. Revista do Arquivo Público Mineiro, n. 1, jul./dez. 2006, pp. 90-105, p. 92. 41 Idem, p. 92 ss.. 42 ALMEIDA, Cândido Mendes de, ed. Codigo Philippino ou Ordenações e Leis do Reino de Portugal recopiladas por mandado d'El-Rey D. Philippe I. 14ª Edição. Rio de Janeiro: Tipografia do Instituto Filomático, 1870, Livro II, Título XXXIV. In: CARDIM, Pedro; XAVIER, Ângela Barreto e SILVA, Ana Cristina Nogueira da (coord.). Ius Lusitaniae - Fontes Históricas do Direito Português. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, POCTI, Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Disponível em: http://www.iuslusitaniae.fcsh.unl.pt/verlivro.php?id_parte=85&id_obra=65&pagina=69 32 � Antonil, na sua terceira parte de Cultura e Opulência do Brasil, em vários momentos diz dos quintos “devidos à Sua Majestade”. No entanto, há um tópico específico onde ele disserta sobre a obrigação de se “pagar a El-Rey nosso Senhor a quinta parte do Ouro, que se tira das Minas do Brasil”.43 Em tal tópico, o autor começa por tratar de pontos nas ordenações onde fica claro o direito do rei sobre parte os metais retirados das minas, trechos inclusive que já mencionamos acima. Todos os que falaram dessa questão, segundo ele, eram concordantes “serem de tal sorte as Minas do Direito Real, por razão dos gastos, que El-Rey faz em prol da República, que por essa causa não os pode alienar”.44 Citando vários juristas, não só portugueses, Antonil vai comprovando como é patrimônio régio o que se minera, independente do metal, em vários lugares semelhantemente às Minas Gerais e ainda que fossem terras particulares. Contudo, Antonil também levanta a questão de se o quinto seria um tributo, mas ainda assim destaca: “Ou se considerem pois as Minas como parte do Patrimônio Real, ou como justo Tributo para os gastos em prol da República, é certo, que se deve a El-Rey o que para si reservou, que é a quinta parte do Ouro, que delas se tirar, puro, e livre de todos os gastos: e que o que se manda nas Ordenações acima referido, está justamente ordenado: e que prescindindo de qualquer pena, o quinto ex natura rei se lhe deve, não menos, que outro qualquer justo tributo, ordenado para bem da República, ou como cobra a pensão, que impõem sobre qualquer outra parte do seu Patrimônio, como é a que se lhe deve, e se lhe paga dos Feudos.”45 Perceba-se que a distinção entre direito e tributo para Antonil aparentemente parece não ser uma questão importante, mas pelas suas próprias palavras é possível notar que o que considera mais relevante, de ser o quinto devido ao rei por direito dele, legitima o que se entende pela primeira acepção, qual seja, a de direito régio. Continuando seu raciocínio da assertiva acima, Antonil sublinha ainda que dessa matéria não se deveria permitir por dúvida “por ser sentença do Vigário de Cristo na Terra, dada, e publicada legitimamente, depois de maduro conselho, e grande atenção, como pedia a matéria, e defendida por justa, ���������������������������������������� ������������������� 43 ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia Limitada, 1982, p. 146. 44 Idem, p. 147. 45 Ibidem, p. 150. 33 � válida, e lícita de tantos, e tão insignes Doutores”, dúvida esta que não devia ser colocada na própria conquista do Brasil.46 Juntamente à discussão detalhada que Antonil trava em torno dos quintos como direito ou tributo, outro ponto ainda é tratado e diz respeito ao fato dessa quinta parte do ouro tirado das Minas ser obrigação em consciência ao rei ou questão meramente penal. O autor é exato ao dizer que: “E deste fundamento certíssimo se infere também certamente, que os quintos do Ouro, que se tira das Minas do Brasil, se devem a El-Rey em consciência: e que a Lei feita para segurar a cobrança deles, não é meramente penal, ainda que traga anexa a cominação da pena contra os transgressores; mas que é Lei dispositiva, e moral, e que obriga antes da sentença do Juiz em consciência.”47 A obrigação em consciência parece, a nosso ver, endossar ainda mais a concepção do quinto como um direito máximo do rei, a ele devido, e legitimamente, como destacado ainda na primeira citação dessa introdução. Aliás, nos próprios livros dos quintos a palavra direito aparece a eles se referindo, ainda que a natureza dos documentos fiscais não nos permita travar esse tipo de discussão, devido à sua aridez. Mas o uso do termo também era frequente em outros documentos da época que tivemos acesso, ainda que não tenhamos nos detido especificamente em correspondências, pareceres, instruções e outros documentos afins.48 Em um deles se diz claramente do “Direito Senhorial dos Quintos nas cem arrobas de ouro, que os Povos da dita Capitania ofereceram a Sua Majestade para se premirem da Capitação com que eram vexados”.49 O segundo conceito mais específico que gostaríamos de mencionar é o de elite. Ao trabalharmos com um grupo específico, que certamente se localizava no topo da sociedade mineradora, entre seus principais, como veremos, é essencial mencionar o que tratamos nessa pesquisa por elite, sendo esse conceito tão caracteristicamente vago. E fazendo tal afirmação concordamos com António Manuel Hespanha quando discorre sobre a ���������������������������������������� ������������������� 46 Ibidem, p. 150, 151. 47 Ibidem, p. 154. 48 AHTCP, Livro 4066, Erário Régio, 1783, 1784. 49 AHTCP, Livro 4070, Erário Régio, 1790. 34 � imprecisão do termo destacando que todos os grupos são de certa forma elite por ter algum grupo que os reconheçam como detentores de uma legitimidade para dirigir.50 Apesar de reconhecer esses preciosos questionamentos, destacamos que vivemos em um contexto crítico onde as tendências atuais da historiografia brasileira apontam para a colocação do estudo das elites em cena, bem como também da sua relação com os demais grupos sociais que as rodeavam, revelando produção notável e elevada qualidade. Nesse momento deixamos claro que, nos amparando nesses estudos, entendemos por elites aqueles que “controlavam ou pretendiam controlar as artérias da economia colonial”,51 no plural considerando a heterogeneidade desses grupos.52 A nobreza da terra era um desses grupos, um “punhado de famílias que comandaram a conquista da América para a monarquia portuguesa e, entre outros agentes, foram os responsáveis pela organização da sua base produtiva (cana-de-açúcar, pecuária, lavras de ouro etc.) e do governo econômico da res publica”.53 Para as Minas, esses grupos locais, “reconhecidos como parte fundamental do organismo pelo qual o rei devia zelar”54, já começaram a ser satisfatoriamente conhecidos. Os conquistadores, que se tornavam a nobreza da nova terra, faziam surgir, segundoFragoso, uma “nova geografia política”, com novas feições e alianças familiares supracapitanias.55 Trabalhos visando conhecer o perfil econômico, origem e inserção política e social desses grupos, revelam que esses homens em geral se destacavam pelos bens que possuíam, pelas patentes militares que ostentavam, pelos pleitos com o Conselho Ultramarino ou cargos da administração colonial que ocupavam.56 Na sua maioria vindos do norte de Portugal, esses homens tinham feições cosmopolitas, e construíam redes nos ���������������������������������������� ������������������� 50 HESPANHA, António Manuel. “Governo, elites e competência social..., pp. 39-44. 51 FRAGOSO, João Luís Ribeiro; ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de; SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de. “Introdução”. In: ______. Conquistadores e Negociantes..., p. 19. 52 Sobre as múltiplas formas que a nobreza assumir na colônia ver: NIZZA DA SILVA, Maria Beatriz. Ser nobre na colônia. São Paulo: Unesp, 2005. 53 Idem. 54 ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de; OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. “A conquista do Centro-Sul: fundação da Colônia de Sacramento e o “achamento” das Minas.” Texto inédito (em prelo). Rio de Janeiro: 2009, pp. 1-39, p. 38,39. 55 FRAGOSO, João. “Potentados coloniais e circuitos imperiais: notas sobre uma nobreza da terra, supracapitanias, no Setecentos”. In: MONTEIRO, Nuno; CARDIM, Pedro; CUNHA, Mafalda Soares da (org.). Optima Pars: Elites Ibero-Americanas do Antigo Regime. Lisboa: ICS, 2005, pp. 133-168, p. 133. 56 Destaque especial para: ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. Ricos e pobres em Minas Gerais: produção e hierarquização social no mundo colonial, 1750-1822. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2010. 35 � mais distintos pontos do império.57 O conhecimento da imigração e do sistema de casamentos, e assim dos seus entrelaçamentos familiares,58 ajudam a compreender como as relações eram tecidas cotidianamente, quais eram as opções abertas para estes homens, e o que faziam para alcançar o que almejavam.59 No entanto, há de se considerar também o fato desses grupos se encontrarem em Minas em constante formação, devido à fronteira aberta por conta da atividade mineradora que trazia novas levas de população por sucessivas décadas. Destacamos ainda, conforme constatações de Nuno Monteiro, que as elites sociais e institucionais do Brasil, ainda que se estruturassem em hierarquias próprias, e obviamente diferentes por ocasião do espaço em que estavam inseridas, procuravam conquistar os mesmos tipos de distinções que eram importantes no centro do império.60 E o rei as premiaria, pois à custa de seu suor e fazendas serviam das mais diversas formas ao monarca.61 Tais constatações que caracterizam as elites do Brasil também nos serviram de base para compreender como atuavam e qual era o perfil de uma elite ligada ao ouro, os cobradores dos reais quintos. Chegamos a outro momento importante dessa introdução, qual seja, a exposição de nosso suporte metodológico da pesquisa, aqueles pressupostos que guiaram, portanto, a maneira como olhamos e trabalhamos as nossas fontes documentais. Tal suporte diz respeito fundamentalmente a procedimentos microanalíticos e de caráter prosopográfico, técnicas e métodos que se mostraram essenciais e que, a nosso entendimento, se adequaram perfeitamente aos nossos objetos de estudo. Quanto aos primeiros procedimentos, os microanalíticos, há de se destacar que tais pressupostos foram resultado de um conjunto de reflexões decorrentes do questionamento das grandes interpretações, seguido de um movimento de recuperação do sujeito na cena ���������������������������������������� ������������������� 57 ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. “Do Reino às Minas: o “cosmopolitismo” da elite mineira setecentista.” In: FRAGOSO, João... [et al.] (orgs.) Nas rotas do império: eixos mercantis, tráfico e relações sociais no mundo português. Vitória: Edufes; Lisboa: IICT, 2006, pp. 331-354. 58 ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. “Trajetórias imperiais: imigração e sistema de casamentos entre a elite mineira setecentista”. In: ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de; OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Nomes e números: alternativas metodológicas para a história econômica e social. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2006; pp. 71-100. 59 ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. “Uma nobreza da terra com projeto imperial: Maximiliano de Oliveira Leite e seus aparentados.” In: FRAGOSO, João Luís Ribeiro; ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de; SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de. Conquistadores e Negociantes: Histórias de elites no Antigo Regime nos trópicos. América Lusa, séculos XVI a XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, pp. 121-193, p. 129. 60 MONTEIRO, Nuno Gonçalo. Elites e poder..., p. 135. 61 ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. “Uma nobreza da terra com projeto imperial..., p. 144. 36 � histórica. Essa perspectiva alternativa, no que rompe com interpretações estrutural- funcionalistas da sociedade, procura conferir atenção ao estudo da ação social, enquanto relações que os indivíduos verdadeiramente experimentavam e participavam ativamente. Falamos do que ficou conhecido por micro-história. Mais do que uma nova metodologia, a micro-história, em sua vertente italiana, surgiu na década de 1970 com um inovador corpo teórico, ainda que obviamente não homogêneo, respondendo aos problemas vividos pela disciplina histórica naquele determinado momento. Em período de dúvidas e interrogações, de perda da confiança na quantificação, de abandono dos recortes clássicos, e de questionamento de noções, categorias e modelos vigentes,62 as concepções dessa nova abordagem surgiram como uma opção interessante aos estudos dedicados ao conhecimento da sociedade, especialmente as pré-industriais. A diferença estava inicialmente no modo mais refinado de se conceber a própria ideia de sociedade e essa raiz interpretativa nasceria principalmente de um diálogo constante com a antropologia. Deter-nos-emos brevemente nos estudos do antropólogo norueguês Fredrik Barth, devido à sua incontestável influência nos trabalhos da perspectiva mencionada.63 Na busca “por um maior naturalismo na conceptualização das sociedades”,64 Barth entendia que todo comportamento social era interpretado e construído constantemente, já que o mesmo não era “transparente, objetivo e inconteste”.65 Assim, os sistemas sociais que regulam esses comportamentos são consequentemente desordenados, já que repletos de fissuras e incoerências. Para compreender melhor uma sociedade, o caminho era pensar nesse conceito “como o contexto de ações, e não como uma coisa – caso contrário, ele permanecerá como um objeto ossificado no corpo de nossa teoria social em ���������������������������������������� ������������������� 62 CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre incertezas e inquietudes. Porto Alegre: Editora da UFRS, 2002. 63 A obra de Karl Polanyi também foi referência igualmente importante para alguns autores, na medida em que defendeu uma substância humana e natural da sociedade, onde a economia sempre estaria submersa nas relações sociais, sendo assim impossível de se pensar em uma mão invisível a controlar o mercado em qualquer época. POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens da nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 2000. 64 BARTH, Fredrik. O guru, o iniciador e outras variações antropológicas. Rio de Janeiro: Contra-Capa, 2000, p. 167. 65 Idem, p. 173. 37 � desenvolvimento.”66 Para ele, uma sociedade só existiria devido à ação de seus componentes. Como o mundo social é compreendido de forma aberta à ação dos seus agentes, se torna possível a busca pela reconstituição das redes de relações sociais, estratégias, escolhas e recursos possuídos por essas pessoas, ainda queestes tenham evidentemente parâmetros, constrangimentos e incentivos, visto que são presididos por valores, obrigações e recursos que são sempre desiguais. O esforço de apreensão das práticas sociais desses atores deveria ser, portanto, um exame minucioso de suas vidas e interações.67 Os micro-historiadores, através da maior aproximação com essa teoria social,68 passaram a considerar as ambiguidades existentes nas regras das sociedades e isso, por sua vez, teria tornado possível que se admitisse um espaço para a atuação do indivíduo e sua reinterpretação consciente do sistema que normatiza a sua sociedade. Para isso partiam de uma situação local, buscando, através da generalização das perguntas, produzir questões de alcance mais amplo.69 Apropriamo-nos, para nosso trabalho, além de todos esses fundamentos, dos conceitos de “racionalidade seletiva ou limitada” desenvolvido por Giovanni Levi. Em estudo importante onde demonstrou como o comportamento econômico não ocorria num vazio de relações sociais, o autor destacou como se deu a ascensão de um racionalismo específico no mundo camponês do séc. XVII. Tal racionalismo pressupunha que as estratégias existiam vinculadas a contextos específicos, mas não seriam completamente ilimitadas, e sim ligadas a valores e cercadas por limitações desses próprios sistemas.70 Em resumo, reconhecia-se para o comportamento humano um modelo de ação “que reconhece sua relativa liberdade além, mas não fora, das limitações dos sistemas normativos ���������������������������������������� ������������������� 66 Ibidem, p. 186. 67 Como faz Barth em: BARTH, Fredrik. Sohar, culture and Society in an Oman Town. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1983, p. 93. 68 Segundo Edoardo Grendi, tido como o principal responsável pela definição do campo inicial de investigação e pelos fundamentos do debate teórico da micro-história, o historiador deveria se aculturar à teoria social. LIMA FILHO, Henrique Espada Rodrigues. “História Social e microanálise: Edoardo Grendi”. In: A micro-história italiana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, p. 154; e sobre essa sugestão de Grendi: GRENDI, Edoardo. Il Cervo e la repubblica: Il modelo ligure di antico regime. Torino: Giulio Einaudi, 1993, p. VII. 69 Obras recentes no Brasil também tem buscado refletir sobre essas questões: OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de; ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de (org.). Exercícios de micro-história. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009. 70 LEVI, Giovanni. A Herança Imaterial: trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 166. 38 � prescritivos e opressivos”. Assim, toda ação social devia ser vista como “o resultado de uma constante negociação, manipulação, escolhas e decisões do indivíduo, diante de uma realidade normativa que, embora difusa, não obstante oferece muitas possibilidades de interpretações e liberdades pessoais.”71 Apropriamo-nos ainda do caminho de pesquisa desenvolvido por Edoardo Grendi, da análise da unidade doméstica para a comunidade, e da comunidade para a sociedade mais ampla. Compete destacar que a família era interpretada como uma unidade de reprodução, consumo e produção, e representava uma boa perspectiva de partida, “humanizadora”.72 Logo após a comunidade era trabalhada como microcosmo onde as relações de parentesco, clientela e vizinhança eram mais facilmente perceptíveis,73 e dessa maneira, o isolamento da família não tinha sentido algum. E por último, a comunidade também não poderia de forma alguma ser explicada sem que se pudesse transcendê-la,74 sem romper as barreiras de seus limites e relações. Já os procedimentos prosopográficos nos são úteis seguindo as indicações mais básicas propostas por Lawrence Stone. Assim, entendemos por prosopografia, ou biografias coletivas, o que o autor definiu como a investigação das características comuns da experiência de um grupo de atores na história por meio de um estudo coletivo de suas vidas, cujo método empregado é estabelecer um universo a ser estudado e então fazer um conjunto de questões uniformes – sobre nascimento e morte, casamento e família, origens sociais e posição econômica herdada, lugar de residência, educação, quantia e fonte de riqueza pessoal, ocupação, religião, experiência de ofício, e assim por diante. E esses dados são testados por correlações internas e por correlações com outras formas de comportamento ou ação.75 Obviamente tal método apresenta qualidades, bem como fraquezas, apontadas pelo próprio Stone, seja quanto à deficiência nos dados, erros na classificação ou interpretação desses dados, e ainda equívocos de entendimento histórico. E devemos ter cuidado para não incorrer nesses deslizes, produzindo visões simplistas da sociedade estudada, ���������������������������������������� ������������������� 71 LEVI, Giovanni. “Sobre a micro-história”. In: BURKE, Peter (org.). A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Ed. UNESP, 1992, pp. 133-161, p. 135. 72 GRENDI, Edoardo. “La micro-analisi: fra antropologia e storia”. In: Polanyi: dall´antropologia economica alla microanalisi storica. Milão: Etas Libri, 1978, p. 98. 73 Idem, p. 165. 74 Ibidem. 75 STONE, Lawrence. “Prosopography”. Daedalus, Journal of the American Academy of Arts and Sciences, v. 100, 1971, no 1, winter, pp. 46-79, p. 46. 39 � considerando, segundo ele, que “o indivíduo é movido por uma convergência de forças constantemente inconstantes, um bando de influências tais como parentesco, amizade, interesse econômico, princípio político, convicção religiosa, e assim por diante.”76 Diante de tal apreciação de potencialidades e limitações dos estudos prosopográficos, destacamos que nosso objeto de estudo atende às recomendações do autor de que o método funciona melhor quando é aplicado para grupos definidos e relativamente pequenos sobre um período limitado de não muito mais que uns cem anos, quando os dados são retirados de muito ampla variedade de fontes as quais se complementam e se enriquecem mutuamente, e quando o estudo é direcionado para resolver um problema específico.77 Ainda sobre o referido método prosopográfico é interessante destacar algumas considerações de Carlo Ginzburg, no que podemos nos apropriar quando tratamos das relações dos cobradores com seus escravos, forros, pardos, mulatos e afilhados negros. Diante das correntes identificadas por Stone, uma qualitativa, centrada no estudo das elites e outra quantitativa, virada para a investigação de agregados sociais mais amplos, Ginzburg considera interessante combinar a ótica não elitista da segunda com a análise particularizada da primeira, o que seria segundo o autor, a prosopografia a partir de baixo, análoga à proposta por E. P. Thompson.78 Tal proposição parece muito interessante e nos ajuda a refletir melhor sobre essas relações que pretendemos investigar. Além do mais, como também acentuado por Ginzburg, essa análise ao mesmo tempo qualitativa e exaustiva só poderia tomar entidades numericamente circunscritas, onde uma seleção seria essencial.79 Mais uma vez acreditamos que tais recomendações se inserem perfeitamente em nosso objeto de estudo e permitem que esse tipo de proposta se mostre adequado à nossa pesquisa, nos permitindo “tirare in ballo” a sociedade inteira, tomando aqui emprestadas preciosas palavras de Giovanni Levi.80 Encerramos essa parte da exposição teórico-metodológica da pesquisa com palavras igualmente preciosas de João Fragoso, e que já nos dirigem para o ponto seguinte a tratar, as fontes documentais propriamente ditas. ���������������������������������������� ������������������� 76 Idem, p. 65. 77 Ibidem, p. 69. 78 GINZBURG, Carlo. O nome e o como: troca desigual e mercado historiográfico.In: A micro-história e outros ensaios. Lisboa: DIFEL; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989, pp. 169-178, p. 176. 79 Idem. 80 LEVI, Giovanni. Centro e Periferia di uno Stato Assoluto: tre saggi su Piemonte e Liguria in età moderna. Turin: Rosemberg & Seller, 1985, p. 152. 40 � “Para tanto, o método a seguir seria o nome. Escolhidos o objeto de estudo ou os agentes históricos a analisar, caberia segui-los nas múltiplas relações que os formavam, o que significava investigar tais sujeitos em vários tipos de fontes, ou melhor, em todas que retratassem os diversos aspectos – cultural, econômico, político, etc. – do seu cotidiano. Esta técnica, inevitavelmente, leva a mais nomes, a se afogar em nomes. Entretanto, com tal procedimento, poder-se-ia chegar às relações sociais vivenciadas pelos sujeitos e, ao mesmo tempo, seria aberta uma porta para o entendimento de sua sociedade.”81 Agora cumpre mencionar, portanto, o corpus documental da pesquisa, extremamente variado e precioso, característico da riqueza documental dos arquivos de Minas Gerais. Os documentos selecionados buscaram atender aos objetos escolhidos, tanto a permitir o conhecimento da dinâmica da arrecadação dos quintos quanto da atuação, atribuições, perfil e relações dos cobradores do direito régio. O primeiro grande conjunto de fontes diz respeito às fiscais, aproximadamente 400 livros dos quintos para toda a Capitania de Minas no período em questão já mencionado. Tais registros locais de lançamento dos quintos / receita dos quintos / matrículas de escravos, entre outros, tratam-se fundamentalmente de livros e códices da Coleção Casa dos Contos, e se localizam no Arquivo Nacional, na Biblioteca Nacional e no Arquivo Público Mineiro, além de alguns códices no Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Mariana. Para a Biblioteca Nacional alguns outros fundos e coleções foram pesquisados, como a Coleção Morgado de Mateus, a Coleção Minas Gerais, Decimal, entre outros. E, por fim, de maneira a complementar esse corpus, através dos arquivos portugueses, trabalhamos ainda com um livro do Arquivo da Casa da Moeda de Lisboa e nove livros do Arquivo Histórico do Tribunal de Contas de Portugal. O segundo grande conjunto de fontes é aquele composto por todos os documentos que nos forneceram alguma informação da trajetória dos cobradores dos quintos em diferentes fases e aspectos de sua vida. Rastreamos fontes cartoriais, eclesiásticas, administrativas, etc. Encontramos 15 testamentos e contas de testamentaria no Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana, 23 inventários post-mortem e 29 testamentos e ���������������������������������������� ������������������� 81 FRAGOSO, João. Afogando em nomes: temas e experiências em história econômica. Topoi. Revista de História. Rio de Janeiro, dezembro 2002, pp. 41-70, p. 62. Disponível em: www.revistatopoi.org 41 � contas de testamentaria no Arquivo Histórico da Casa Setecentista de Mariana, sendo que em muitos casos havia mais de um processo pra cada pessoa. Identificamos ainda cinco processos de justificações, dois processos crimes, duas devassas, situados também no Arquivo Histórico da Casa Setecentista de Mariana, além de cerca de 90 livros de notas e da guardamoria (que infelizmente não pudemos analisar muito detidamente). Também compõem esse conjunto documental 80 requerimentos, consultas, cartas, e outros do Arquivo Histórico Ultramarino – Minas Gerais. Os arquivos portugueses também foram extremamente ricos, essencialmente o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, onde coletamos 25 processos no Registro Geral de Mercês, sete processos de Habilitações da Ordem de Cristo, 18 processos de Habilitações do Santo Ofício, além de dois documentos no Juízo da Índia e Mina e um processo em Documentos referentes ao Brasil. Por fim, a composição dessa tese. Esse trabalho divide-se em duas partes muito bem delimitadas, quais sejam, aquela preocupada com o processo de arrecadação (capítulo 1) e aquela dedicada aos agentes do ouro (capítulos 2, 3 e 4), ainda que o capítulo 2 também ajude a compreender o funcionamento da coleta do ouro de maneira mais concreta. O tamanho dos capítulos por vezes é um pouco desigual, sendo o capítulo 3 o mais extenso. No entanto, optamos por manter essa divisão porque subdividir cada capítulo retiraria, a nosso ver, suas referidas unidades. O capítulo 1 é resultado de um levantamento exaustivo de todos os registros dos quintos mencionados acima que pudemos localizar para a capitania de Minas Gerais. Seu objetivo principal é visualizar as nuances de todo o processo de cobrança do direito e o que ele nos revela sobre a complexa dinâmica da arrecadação do quinto do ouro devido à Coroa portuguesa, quer quando ela fosse feita pelas câmaras municipais, quer quando ela tivesse sob os cuidados da Real Fazenda, ou mais ainda, quer quando essas duas instâncias compartilhassem tarefas e conjugassem componentes. Esse propósito de abordagem, no entanto, compete essencialmente ao funcionamento mais cotidiano da coleta, guarda, acondicionamento, condução e remessa do ouro do quinto a Portugal, além de apontamentos sobre as despesas com essas tarefas e sobre o desvio do precioso ouro. Não nos interessa aqui, como já afirmamos acima, nos debruçar em análises de números e estatísticas de tal arrecadação. Interessa sim, e esse é o alvo desse capítulo, compreender o cotidiano de tais atividades ligadas à cobrança, nas diversas vilas, freguesias e pequenos 42 � lugarejos da região mineradora e nas diferentes conjunturas da produção aurífera no intervalo de quase um século. Assim, analisamos detalhadamente os parcos registros do início do século, os lançamentos daqueles que andavam pelas Minas, os róis de moradores e de quintos atrasados, os lançamentos de entregas e de ajustes de contas, os quintos de carregações e termos de fianças, os arrolamentos de escravos, os registros feitos pelas câmaras, os lançamentos dos meios quintos, os registros da capitação, os registros das casas de fundição, os lançamentos da derrama e os livros de cálculos de rendimentos, todos variantes das diversas formas que a cobrança do ouro foi tomando ao longo do período estudado. Identificamos ainda o cuidado na guarda e acondicionamento do metal, a cautela nos diferentes estágios do seu transporte pelos caminhos perigosos das Minas, os tipos específicos de despesas feitas com os quintos, os relatos dos seus descaminhos e o complexo choque e jogo de jurisdições e responsabilidades com a cobrança. Tudo isso visando, como já apontado, dar outro enfoque às séries fiscais, essenciais no tratamento do tema, através de uma minuciosa metodologia de trabalho que conferisse a essas fontes um significado diferenciado do que até então lhe foi conferido. O capítulo 2 teve por objetivo investigar os indivíduos que tornaram reais as diversas atividades ligadas ao ouro do quinto. São eles: os cobradores/provedores; os juízes ordinários, os guardas mores, os procuradores da câmara, os tabeliães e outros que desempenharam alguma tarefa direta ligada ao quinto; os tesoureiros; os escrivães; os fiscais; os superintendentes, os intendentes, os ouvidores, os provedores e os desembargadores do ouro; os condutores; e, por fim, aqueles que executaram o que chamamos de ofícios de “suporte” ao real quinto, os sapateiros, os oficiais de carapina, os ferradores, os que vendiam os miúdos para o preparo do ouro, entre outros. O objetivo foi conhecer as atribuições, a atuação e o poder de mando de todos esses agentes, mas principalmente dos provedores ou cobradores dos quintos, dos quais temos maiores informações. Em outras palavras, o propósito foi entender: quais funções foram atribuídas a todos esses oficiais; quais indícios temos de como eles realmente atuarammediante o que se esperava de seu desempenho nos referidos cargos; e qual foi o papel assumido por esses homens frente à sociedade, ou seja, que autoridade eles adquiriram ou maximizaram exercendo cargos de diferentes naturezas ligados ao real quinto de Sua Majestade. Através de um mapeamento detalhado de todos esses nomes, destaca-se ainda 43 � que investigamos a atuação de todos eles, destacadamente dos cobradores, em um percurso rigorosamente cronológico, procurando atentar para as diferentes formas de cobrança do ouro no decorrer do século. Assim, buscamos investigar de que maneira esses indivíduos podiam se conservar em seus postos mesmo quando se alterava a sua forma e instituição (capitação, casas de fundição, etc.; e câmara ou Real Fazenda). O capítulo 3, o mais extenso e detalhado de todos, teve por objetivo esquadrinhar as histórias de vida dos “homens do ouro”, trajetórias individuais e familiares dos cobradores dos quintos reais da Vila do Carmo, traçando o perfil desse grupo social. Tendo o nome como fio condutor da investigação, e nos utilizando praticamente de todos os documentos do segundo corpus documental mencionado, além de informações também do primeiro conjunto de fontes, buscamos examinar sua origem e de seus ascendentes, suas atividades e tempo de permanência no cargo, sua situação civil e aspectos da vida de suas esposas e filhos, suas ocupações econômicas, as patentes militares que ostentaram, as várias solicitações que enviaram ao Conselho Ultramarino, os outros cargos e distinções que ocuparam, seus processos de habilitação para o Santo Ofício e para a Ordem de Cristo, seus indicadores de riqueza e prestígio social, suas práticas religiosas e relações com o sagrado, as diversas estratégias de manutenção do patrimônio que criaram e os mecanismos de reprodução social que lançaram mão, os conflitos em torno das disposições testamentárias e o fim de suas trajetórias nas Minas ou no Reino. Buscamos construir, portanto, a história social de um grupo específico, nomeadamente de 104 cobradores dos quintos, pela delimitação de todos os aspectos de suas vidas que nos foram passíveis de se conhecer. O capítulo 4, por fim, buscou reconstituir, na medida que foi possível pelos documentos existentes, um cotidiano de relações que esses poderosos homens mantiveram com os variados grupos sociais de menor “qualidade” que a sua, a saber, seus escravos, forros, pardos, mulatos e afilhados negros. Critérios de hierarquização social, estratégias, acordos, trocas, escolhas e comportamentos de ambos os lados buscaram ser identificados de acordo com os recursos desiguais disponíveis na delimitação e negociação dos espaços de todos esses atores na sociedade mineradora setecentista. Partimos da hipótese que as relações com outros grupos sociais e a criação de alianças sólidas e diversificadas seriam fundamentais para que os cobradores dos quintos garantissem sua posição destacada de poder, prestígio, autoridade e distinção social. Mas consideramos ainda, diante da premissa 44 � que os grupos se definem na sua interação, que os demais indivíduos a eles ligados também definiam seus espaços e comportamentos tendo, em grande medida, por base essas relações, das quais tiravam o devido proveito como modo de sobrevivência em um mundo tão hostil quanto o da escravidão. Buscamos evidenciar tais pressupostos no decorrer do capítulo analisando a composição da escravaria dos cobradores (com discussões detalhadas sobre sexo, idade, origem dos cativos, doenças, profissões e família escrava), as alforrias e legados deixados a esses indivíduos ao fim da vida de seu senhor, alguns indícios sobre o complexo embate entre os conflitos e os cuidados com esses subalternos, e a prática que muitos cobradores desenvolveram de armar seus escravos para diversos fins. Com tais análises, portanto, acreditamos ter nos aproximado o máximo possível do cotidiano de parcela significativa da sociedade setecentista mineradora, sobretudo aquela que teve ligações com o precioso ouro de Sua Majestade. 45 � Capítulo 1 “Para a satisfação dos quintos”: a dinâmica da arrecadação do direito régio do ouro das Minas Gerais Aos vinte e seis dias do mês de março do ano de 1701, Leonardo Nardes Arzão declarava oitenta e cinco oitavas, sobre as quais se retirava de quinto dezessete. Esse registro encontra-se no Livro 1o da arrecadação do Quinto no 15, localizado no Arquivo Público Mineiro.82 Nesse livro vemos que juntamente com Leonardo Arzão, vários outros nomes preenchem uma grande lista desse primeiro tipo de lançamento do quinto do ouro das Minas que se tem conhecimento. Registro simples, sem muitas informações além da data, nome do declarante (fosse por ele mesmo ou por outra pessoa), valores para quinto, datas ou confiscos na Comarca de Vila Rica, não traz qualquer assinatura de escrivão ou responsável pela arrecadação. Já no Livro de registro de receita do Quinto do ouro e da Capitação de 1714-1716, os dados se ampliam. Nele encontramos, além de outros, o lançamento dos quintos reais dos moradores da freguesia de Nossa Senhora dos Raposos, termo da Vila Real da Conceição do Sabará, para o ano de 1714 até 20 de março de 1715. Nesse assentamento, feito pelos oficiais da câmara da dita vila, aparecem listados os vários nomes dos declarantes da referida localidade, com os valores devidos por cada um e anotações sobre o pagamento dessas quantias. Além do mais, algumas recomendações importantes são registradas sobre o processo da cobrança. Os oficiais da câmara ordenavam, para essa freguesia, que o Sargento Mor Antonio Duarte de Magalhães, dentro do prazo de quinze dias, cobrasse a quantia desse rol, de 3554 oitavas, e, logo após, que as entregasse ao Tesoureiro da repartição, o Sargento Mor Faustino Rabelo Barbosa.83 O Registro da cobrança do quinto do ouro, para a Fazenda Real do Rio das Mortes, de 1755, já é de outra natureza, pois feito nas Casas de Fundição. Em quatorze de março do dito ano, na dita comarca, comparecia na sua casa de fundição, Luis Teixeira, ausente Alexandre Pinto da Fonseca, com dois marcos, três oitavas e dezoito grãos de ouro, dos quais se tirava de quintos para a Fazenda Real, três onças, duas oitavas e dezoito ���������������������������������������� ������������������� 82 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 83 APM, CC-1010; Microfilme 002(2/9) – Livro de registro de receita do Quinto do ouro e da Capitação. 1714-1716. [Vila Rica]. 128 f. 46 � grãos de ouro. O mais do ouro se fundiu e dele se fez uma barra que teria o peso de um marco, cinco onças e uma oitava de vinte quilates, barra essa entregue ao declarante. Esses registros não são totalmente manuscritos como os demais, mas preenchidos em folhas já previamente impressas, com os símbolos da Coroa portuguesa ao lado de um texto padrão.84 Já no período de aplicação da derrama, outro tipo de lançamento do real quinto é encontrado. Livros de manifestos de moradores para lançamento da derrama, como o de São João del Rei, trazem relações com declaração de bens dos habitantes e outros dados dos mesmos. Na lista que o Capitão Roque de Souza Magalhães fez dos moradores da freguesia de Aiuruoca, desde Varadouro até o distrito da Guapiara, por ordem que lhe enviou o “Nobre Senado da Câmara de São João del Rei”, por exemplo, vê-se que Manuel Gomes da Costa, casado e sem filhos, declarou, debaixo de juramento, possuirquatro escravos, trinta cabeças de gado e um sítio, que tudo valeria 466$000. Mas declarava também dever 300$000 e “não ter lucro algum mais do que para comer.” Como ele, outros também faziam declarações semelhantes, e para alguns é possível saber ainda a ocupação desempenhada e detalhes sobre os bens possuídos.85 Uma série de tipos de livros foi confeccionada para registrar as atividades ligadas ao recolhimento do real quinto ao longo de décadas de produção de ouro nas Minas conhecidas como Gerais. Os trechos acima, de variados anos de coleta, são exemplos de tal diversidade. No decorrer desse capítulo analisaremos com cuidado os pormenores desses documentos e de vários outros, que compõem um rico corpus documental de aproximadamente 400 livros dos quintos para toda a Capitania de Minas Gerais.86 O objetivo principal é visualizar as nuances de todo esse processo e o que ele nos revela sobre a complexa dinâmica da arrecadação do quinto do ouro devido à Coroa portuguesa, quer quando ela fosse feita pelas câmaras municipais, quer quando ela tivesse sob os cuidados da Real Fazenda, ou mais ainda, quer quando essas duas instâncias e outros atores compartilhassem tarefas e conjugassem componentes. Esse propósito de abordagem, no ���������������������������������������� ������������������� 84 BN, II-31,25,010 – Registro da cobrança do quinto do ouro, para a Fazenda Real. Rio das Mortes, 00/03/1755. 85 BN, MS-580(54) D.01, I-26,04,001 – Lista da freguesia de Aiuruoca onde constam os bens que seus moradores deram ao manifesto para ao lançamento da derrama ficando o original no arquivo do Senado da Câmara de São João del Rei. [S.l.] [S.d.]. 86 Trata-se fundamentalmente dos documentos da Coleção Casa dos Contos, localizados no Arquivo Nacional, no Arquivo Público Mineiro e na Biblioteca Nacional, além de alguns poucos livros no Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Mariana. As referências completas de todos esses livros encontram-se no fim desse trabalho. 47 � entanto, compete essencialmente ao funcionamento mais cotidiano da coleta, guarda, acondicionamento, condução e remessa do ouro do quinto a Portugal, além de apontamentos sobre as despesas com essas tarefas e sobre o desvio do precioso ouro. Não nos interessa aqui, como já afirmamos na introdução e ainda em outros estudos,87 nos debruçar em análises estatísticas e econômicas de tal arrecadação.88 Interessa sim, e esse é o alvo principal desse capítulo, compreender o cotidiano de tais atividades ligadas à cobrança, nas diversas vilas, freguesias e pequenos lugarejos da região mineradora e nas diferentes conjunturas da produção aurífera no intervalo de quase um século, dando inteligibilidade a esse funcionamento em seu dia a dia e às complexidades institucionais e relacionais que envolviam sua realização. Visar-se-á, assim, como também já foi dito, dar outro enfoque às séries fiscais existentes, essenciais no tratamento do tema, através de uma minuciosa metodologia de trabalho que confira a essas fontes um significado diferenciado do que até então lhe foi conferido. Tal metodologia é uma experimentação que lançamos a esse tipo de documento tão rígido e de natureza tão árida. Na procura de esmiuçar os pormenores dessas fontes, atentando para seu processo de construção e de lançamento de informações, bem como para os atores que as faziam (foco mais concreto dos capítulos 2 e 3), as analisamos de forma exaustiva e microanalítica,89 e tal procedimento ficará visível no decorrer do texto, demonstrando o quanto tais ideias se encontram arraigadas no nosso processo de entendimento dos registros. Assim, com esse olhar diferenciado proposto, já intentado para a Vila do Carmo em período bem menor,90 a ambição agora é investigar as maneiras efetivas de se cobrar o real quinto em toda a Capitania de Minas Gerais Setecentista no período de 1700 a 1780 – quando a mineração era tida como sua atividade econômica principal.91 Deste modo, procuraremos conferir ao conhecimento do processo da arrecadação do quinto uma perspectiva renovada, que busca declaradamente atribuir um caráter mais local e também mais social aos estudos ligados a temais fiscais, fazendo com ���������������������������������������� ������������������� 87 FARIA, Simone Cristina de. Os “homens do ouro”: perfil, atuação e redes dos Cobradores dos Quintos Reais em Mariana Setecentista. Dissertação (Mestrado em História Social) – Programa de Pós-Graduação em História Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010. 88 Isso já foi muito bem trabalhado por outros pesquisadores, com destaque para o trabalho mais recente de Angelo Carrara. Ver: CARRARA, Angelo Alves. Receitas e despesas da Real Fazenda no Brasil; 1607- 1700. Juiz de Fora: Editora da UFJF, 2009; ______. Receitas e despesas da Real Fazenda no Brasil, século XVIII: Minas Gerais, Bahia, Pernambuco. Juiz de Fora: Editora da UFJF, 2009. 89 Utilizando para tanto dos pressupostos teórico-metodológicos da micro-história italiana, já tão utilizados por nós em outros trabalhos e brevemente explicitados na introdução dessa tese. 90 FARIA, Simone Cristina de. op. cit. 91 Ver nota 19. 48 � que o papel e presença da Coroa e das elites locais na configuração do poder nas Minas Setecentistas sejam constantemente colocados à prova. 1.1 “De que pagou de quintos a fazenda de Sua Majestade que Deus guarde”: como se lançava o ouro dos reais quintos Diferentes modos de se arrecadar o quinto92 sobre o ouro das Minas tiveram vigência no decorrer do século e muito já foi escrito sobre essas periodizações. De 1700 a 1710, o quinto era cobrado sobre o ouro em pó, que circulava livremente com guia quando saía da Capitania. De 1710 a 1713, a arrecadação teria passado a ser feita por bateia e até então não teria se efetuado uma cobrança efetiva do direito. De 1714 a 1725 cobram-se por fintas, pela qual os mineiros se comprometiam a remeter 30 arrobas anuais de ouro, em 1718 essa quota teria passado para 25 arrobas e, em 1722, para 52 arrobas (alguns destacam que seria para 37 arrobas). Também em 1718 às câmaras teria sido retirada a administração da cobrança dos quintos, que passava a ser feita pela Real Fazenda. De 1725 a 1730, o quinto fora retirado sob o ouro fundido, instaladas em 1724 as casas de fundição assumem a tarefa de fundir e quintar o metal. De 1730 a 1732, tais casas teriam sido suprimidas e teria se cobrado o quinto sobre 12% do ouro em pó. De 1732 a 1735 estabeleceu-se a quota fixa de 100 arrobas, depois da negação dos mineiros diante da instituição da capitação por escravos e censo das indústrias. Mas em 1735 a capitação teria sido realmente instituída, o ouro em pó voltava a circular livremente e era proibido o uso de moeda. Fosse ou não minerador, sobre o habitante das Minas recaía a mesma cobrança. Tal sistema teria durado até 1751. Por fim, de 1751 a 1803, o quinto volta a ser cobrado sobre o ouro fundido sob quota fixa de 100 arrobas anuais, é reaberta a casa de fundição. Essa quota teria sido completada apenas no exercício de 1763 para 1764, para se alcançar o valor, depois disso foi lançado o método da derrama, que consistia na reafirmação da cobrança sobre os quintos atrasados por base da referida cota.93 ���������������������������������������� ������������������� 92 Utilizamos a partir de agora sempre a palavra “quinto”, como na época, mas é preciso frisar que nem sempre o quinto representou efetivamente a quinta parte do ouro retirado das Minas e enviado aos cofres da Coroa portuguesa. As diferentes formas de cobrança aplicadas, e a partir de agora analisadas, deixarão isso claro. 93 Apesar de termos conhecimento dos inúmeros trabalhos que se dedicam a essas sistematizações, nos utilizamos principalmente para esse resumo de alguns maisrecentes que, em grande medida, apresentam compêndios dos estudos mais tradicionais: PAULA, João Antônio de. A mineração de ouro em Minas Gerais do século XVIII. In: RESENDE, Maria Efigênia Lage de; VILLATA, Luiz Carlos. História de Minas 49 � Os registros dos quintos que abaixo tentaremos agrupar e analisar corroboram, de uma maneira geral, essas padronizações tão reafirmadas pelos pesquisadores sobre as Minas e por isso cumpriu relembrá-las. No entanto, através de um olhar mais detido aos livros dos quintos para toda a Capitania, como já acentuado, constataremos alguns pontos essenciais que merecem destaque, buscando esmiuçar como se lançava o ouro no decorrer de todo o período mencionado. Além das problemáticas apontadas acima, veremos ainda como nos momentos iniciais da mineração os registros não obedeciam a um padrão único de lançamentos, nem ao menos eram muito bem organizados. Só com o decorrer das décadas poderá se constatar uma padronização maior desses registros e ainda um número maior de pessoas envolvidas na organização das tarefas ligadas à arrecadação, demonstrando como as preocupações com o rico direito régio vão se ampliando. Antes de partirmos mais diretamente para a análise dos livros é importante fazer uma observação de como esse corpus se nos apresenta. Constantemente dentro de um mesmo livro e/ou códice podem ser encontrados diversos tipos de registros de várias décadas, inclusive lançamentos que não dos quintos. Tal fato nos faz acreditar primeiramente que os livros eram continuamente reaproveitados, tendo em vista o alto custo do papel na época, mas principalmente que as formas de se lançar iam mudando conforme se detectava a necessidade advinda das mudanças na forma de se cobrar. Assim, além da aparente confusão dos registros, que pode ser percebida em uma primeira leitura deles, é visível ainda, e esse é um segundo ponto importante a ser destacado, que não restaram registros completos para as várias vilas da Capitania. Para certos períodos alguns lugares são mais privilegiados, para outros períodos outros locais contêm mais fontes e/ou conservaram melhor os documentos que chegaram até nossos dias. Tendo em vista esses apontamentos, iniciemos com as análises dos registros propriamente ditos. 1.1.1 Os primeiros parcos registros (1701-1713, 1713-1721) O ano de 1701, cujo registro é mencionado no início desse texto, dá início aos primeiros lançamentos sobre os quintos que temos conhecimento. O registro descrito ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������� Gerais: As Minas Setecentistas. Vol. 1. Belo Horizonte: Autêntica, Companhia do Tempo, 2007. p. 279-301; CARRARA, Angelo Alves. Administração fazendária e conjunturas financeiras da capitania de Minas Gerais – 1700-1807. (Relatório de Pesquisa). Mariana: UFOP, 2002; ______. Produção mineral e circulação mercantil na capitania de Minas Gerais – 1700-1807. (Relatório de pesquisa). Mariana: UFOP, 2002. 50 � integra, como já destacado, o Livro 1o da arrecadação do Quinto no 15.94 Registro similar a vários outros até 1713, ainda que com algumas ausências e particularidades, os dados que podem ser coletados aqui são muito básicos. Temos apenas a data, o nome do declarante (por ele mesmo, às vezes por herança de algum falecido, às vezes por outra pessoa), e valores para o quinto, datas ou confiscos para a Comarca de Vila Rica, em alguns anos as localidades são mais detalhadamente identificadas, em outros não. Não é possível identificar com exatidão a instituição responsável pela confecção desses documentos, não aparece nome de escrivão de Provedoria ou Câmara. A ocupação das Minas ainda estava se efetivando, bem como ainda seriam criados órgãos administrativos para gerir os direitos e impostos régios. Os poderosos locais é que certamente estariam cuidando desses lançamentos, e da cobrança mais efetivamente, como já apontado pela historiografia.95 Como tais registros não existem outros para depois de 1713, do mesmo modo que são únicos outros lançamentos que integram esse mesmo códice. Abrangendo o período de 1713 a 1721, para as diversas comarcas das Minas, o cabeçalho de cada lançamento tinha o seguinte padrão: “Sabará rendimento do Quinto que se pagou na forma praticada até outubro do Dezembro de 1713, e continuou do 1o de Janeiro, até 21 de Julho de 1714 principiando no dia 22 a cobrança do Quinto pelas 30 arrobas que as câmaras ofereceram pelos povos e consta de um termo feito na presença do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Dom Brás Baltazar da Silveira copiado a f. 87 de um Livro de Contas desta Comarca, Confiscos, Datas de terras Minerais, e Condenações.” (grifo nosso)96 Como se pode ler, tal registro era uma espécie de resumo do rendimento do quinto retirado de um Livro de Contas. Depois desse cabeçalho aparecem apenas números distribuídos em duas colunas, de rendimento e recebimento, e não só do quinto, mas de ���������������������������������������� ������������������� 94 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 95 CAMPOS, Maria Verônica. Governo de mineiros: “de como meter as minas numa moenda e beber-lhe o caldo dourado” 1693 a 1737. Tese (Doutorado em História), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002. p. 98. 96 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 51 � outros direitos e arrecadações. O mais interessante a se destacar no trecho acima, mas que trabalharemos melhor mais adiante, é a referência à cobrança ser feita pela câmara de Sabará, já nos anos iniciais de fundação da vila, e a menção de que as câmaras ofereceram as 30 arrobas anuais de quinto já naquele período. Em 1719, os mesmos documentos passam a mencionar as 25 arrobas como um novo valor negociado com as câmaras. 1.1.2 Os que andavam pelos caminhos (1710-1717) Entre 1710 e 1717 é possível encontrar um conjunto de livros que, de forma razoavelmente organizada ainda que não seriada, registra como era feita a cobrança dos quintos daqueles que andavam pelos caminhos das Minas e/ou dela saíam. O primeiro livro é da Comarca do Rio das Mortes, “em o qual se faz o assento do ouro que se quintou das pessoas que vão para o Caminho de São Paulo e Parati”. Os registros, de 1710 a 1717, seguem, em geral, o padrão abaixo: “Aos doze dias do mês de setembro de mil e setecentos e dez anos nessa fortaleza do Rio das Mortes registrou o padre Manuel Fernandes duzentas e cinquenta e seis oitavas de ouro em pó das quais pagou cinquenta e uma oitavas de quintos como consta do seu assento do Livro da Superintendência de f. 6 de que se fez termo que assinou com o Superintendente e o procurador da fazenda Real eu Manuel Dias de Brito escrivão o escrevi do padre Manuel Fernandes da Costa. Oliveira Pereira”97 Feito pela Superintendência e assinado por seus oficiais, esse registro já parece expressar o início da preocupação com a movimentação das pessoas pelas Minas. Trazem mais detalhadamente a data, o nome do declarante, o valor transportado e o valor do quinto sobre esse ouro em pó. Aqueles que andavam pelos caminhos, portanto, pagavam na Superintendência o quinto referente ao ouro transportado.Também para a Vila do Príncipe temos registros parecidos, para 1711 e 1712. O Livro de registro de receita do Quinto do ouro, datas minerais, arrematações e confiscos de escravos vindos da Bahia, apresenta o seguinte padrão de lançamentos: ���������������������������������������� ������������������� 97 APM, CC-1004; Microfilme 1 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Mortes. 1710-1717. São João Del Rei. 250 f. 52 � “Aos vinte e um dias do mês de abril de mil setecentos e onze anos nestas minas do Serro do Frio, e lavras velhas delas, em as casas da Superintendência donde de presente assiste o Sargento Maior Lourenço Carlos Mascarenhas de Araújo Superintendente destas ditas minas, a cujo cargo está a arrecadação da fazenda real delas, aí estando ele presente, o tesoureiro da fazenda Real destas minas Antonio de Almeida Lopes, comigo escrivão quintou Gabriel Gonçalves Pena por Estevão da Cunha que vai para os currais da Bahia [ ] sessenta oitavas de ouro em pó, de que pagou de quintos a fazenda de Sua Majestade que Deus guarde, dez oitavas que logo recebeu o dito tesoureiro, e ficaram quarenta as quais era em pó por não haver ainda fundição nestas Minas, de que fiz este termo que assinou o dito Gabriel Gonçalves Pena, eu Pedro Teixeira Cabral escrivão da Superintendência o escrevi e assinei. Lourenço Carlos Mascarenhas de Araújo Antonio de Azevedo Lopes Pedro Teixeira Cabral Gabriel Gonçalves Pena” (grifo nosso)98 Nesse registro, também feito na Superintendência, é possível encontrar informações mais completas sobre o processo de arrecadação do quinto em ocasiões de saída das Minas, nesse caso para os currais da Bahia. Encontramos a data do lançamento, o nome do Superintendente e do Tesoureiro da Fazenda Real, o nome do declarante e por quem se declarava, o valor em ouro em pó e o valor do quinto retirado sobre esse ouro, e, por fim, o nome do escrivão da Superintendência. Outro registro possui, de certa maneira, o mesmo conjunto de informações que esses dois acima, mas com o importante diferencial de ser feito pela câmara e de se tratar não de pessoas que saíam das Minas, mas que entravam para determinado povoado dela. Trata-se do assento do ouro que recebera o procurador da Câmara o Capitão Manuel Rodrigues de Souza pertencente aos quintos reais “o qual pagam as pessoas que dessas Minas passam para povoado este presente ano de 1715”. Abaixo um trecho, de dois apenas desse assento: “Ano de 1715 Recebeu o procurador da Câmara que serve de tesoureiro o Capitão Manuel Rodrigues de Souza quatorze oitavas de ouro da mão do Reverendo e de João Coelho que tantos ���������������������������������������� ������������������� 98 APM, CC-1005; Microfilme 001(4/7) – Livro de registro de receita do Quinto do ouro, datas minerais, arrematações e confiscos de escravos vindos da Bahia. 1711-1713. Vila do Príncipe. 13 f. 53 � lhe foram lançados antes de ir para povoado e de como os recebeu assinou aqui comigo neste Livro que há de entregar a seu tempo, e eu João Carneiro Pereira escrivão da Câmara que o escrevi. [ ] Se fez cargo no Livro dos quintos destas quatorze oitavas de ouro”99 Pode-se verificar que essas pessoas que entravam no povoado, que não aparece identificado, entregavam ao procurador da câmara uma quantia específica que posteriormente era lançada no Livro dos quintos. Esse registro, portanto, trata-se de um documento avulso que relata uma entrega que, como outras, deviam ser lançadas em ocasião de entrada nas Minas. Para Vila Real do Sabará temos ainda alguns relatos do número de cargas e negros que entravam para as minas pelos registros pagando quintos e dando fiança e que eram lançados também no livro de entradas. Tais registros também foram feitos pelas câmaras em 1716 e 1717.100 No entanto, não temos mais registros que nos ajudem a entender melhor essas ocasiões. O que podemos destacar no momento é que, nesses casos analisados, os registros de pagamento dos quintos são mais detalhados que os anteriores, ainda que esparsos, e são feitos tanto pela Superintendência101 quanto pelas câmaras municipais, praticamente recém criadas. 1.1.3 Os róis dos moradores e escravos das Minas e os quintos atrasados (1714- 1717, 1719-1720) Os livros que apresentam relações de moradores e escravos de determinada região, por vezes também de vendas desse local, são registros um pouco mais seriados e abrangem ���������������������������������������� ������������������� 99 BN, MS-580(50) D.57, I-25,33,057 – Assento de ouro que recebeu o procurador da câmara, Manuel Rodrigues de Souza, referente aos quintos reais o qual pagou as pessoas que passaram por estas minas no ano de 1715. 100 BN, MS-580(3) D. 02, I-10,04,002 – Rol dos moradores e escravos de Vila Real, incluindo as vilas de Comunpandel, Rio das Mortes e Caminho Novo. Vila Real, 1717. 101 Segundo o Códice Costa Matoso, a Superintendência correspondia à jurisdição do superintendente e a ele competia, entre outras tarefas, examinar a riqueza dos ribeiros descobertos, repartir as datas, resolver conflitos, controlar a exploração do ouro, controlar a entrada de pessoas e mercadorias nas áreas mineradoras, e até cobrar os quintos e o tributo da entrada de gado. FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida, CAMPOS, Maria Verônica (coord.). Códice Costa Matoso. Coleção das notícias dos primeiros descobrimentos das minas na América que fez o doutor Caetano da Costa Matoso sendo ouvidor-geral das do Ouro Preto, de que tomou posse em fevereiro de 1749 & vários papéis. São Paulo: Fundação João Pinheiro, 1999, p. 123. 54 � um número maior de vilas e uma quantidade maior de anos que os livros mencionados até agora. Além do mais, são feitos exclusivamente pelas câmaras das vilas, que nesse período, como afirmado anteriormente, havia negociado a quantia de 30 arrobas anuais para o pagamento do quinto. Iniciemos as análises. Para a Vila Real de Conceição do Sabará temos informações de 1714 a 1716. Os lançamentos do primeiro livro trazem o nome dos declarantes e valores devidos, seguido de ordem dos oficiais da câmara nomeando cobradores para cobrar as pessoas desse rol. Um desses registros encontra-se no início desse texto, em que o Sargento Mor Antonio Duarte de Magalhães em quinze dias devia cobrar 3554 oitavas do rol dos moradores da freguesia de Nossa Senhora dos Raposos. Como ele, diversos outros homens foram nomeados pela câmara e entregaram ao tesoureiro dela quantias cobradas do rol de sua freguesia de jurisdição.102 Além dos dados já referidos, destaca-se que aparece aqui também o nome daqueles que diretamente deveriam tratar com a cobrança do quinto real. No capítulo 2 veremos detalhadamente como esses oficiais atuavam. Cabe sublinhar por agora é que os registros vão se enriquecendo na medida em que revelam mais esse dado sobre a efetiva realização da atividade de arrecadação. Ainda para a Vila Real outro livro traz informações um pouco mais completas para o período de 1715 a 1717. Nele encontram-se efetivamente os róis dos moradores dos distritos da dita vila, com sua quantidade de escravos e vendas e indicações do pagamento ou justificação de ausências. Além disso, no fim da lista dão-se recomendações aos cobradores de que se achassem mais pessoas fora desse rol que as lançassem, e que se encontrassem ainda pessoas ausentes, que examinassem com cuidado seus bens e delas fizessem sequestro remetendo-o ao Senado da câmara.103 Para a Vila Rica os dados existentes são apenas para as vendas, ofícios, negócios, entre outros, em 1715. São registros como esses que seguem: “João Francisco pelo que interessa em uma venda que tem pagará doze oitavas de ouro Recebi a conta acima Em Casa dosobredito João Pereira que vive de faiscar com seus negros cinco oitavas de ouro ���������������������������������������� ������������������� 102 APM, CC-1010; Microfilme 002(2/9) – Livro de registro de receita do Quinto do ouro e da Capitação. 1714-1716. [Vila Rica]. 128 f. 103 BN, MS-580(3) D. 02, I-10,04,002 – Rol dos moradores e escravos de Vila Real, incluindo as vilas de Comunpandel, Rio das Mortes e Caminho Novo. Vila Real, 1717. 55 � Recebi a conta acima Antonio Cordeiro pelo que interessa no seu sítio com os seus escravos vinte oitavas de ouro Antonio Cordeiro pagou neste [rodeio] os quintos que são vinte oitavas de ouro”104 Já a Vila de São João del Rei, com registros que cobrem o período de 1715 a 1717 e de 1719 a 1720, apresenta uma riqueza ainda maior de dados. Com localidades detalhadamente especificadas, os lançamentos de São João são bem mais organizados, trazendo o nome do declarante; o número de escravos, escravos de maneio, vendas, roças, grandes roças, algum cabedal em ouro e fazendas de engenho; o valor individual de cada um desses itens e o valor total do quinto. Além disso, no final do rol aparecem recomendações ainda mais detalhadas de como deveriam atuar os cobradores dos quintos, mas isso veremos melhor no capítulo 2. Vejamos um exemplo desse lançamento: “1716 para 1717 Lançamento dos Escravos, Lojas, e Vendas dos Moradores desta Comarca de São João del Rei para Satisfação dos Quintos Reais deste presente ano de 1716 a razão de duas oitavas e três quartos por escravo e de dez oitavas por loja ou venda como saio em a Conta Geral da Repartição que fizeram os Procuradores de todas as Câmaras das Minas, em a última Junta que se celebrou em Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará. Vila Número dos escravos 60 O Brigadier Antonio Francisco da Silva, com sessenta escravos, a duas oitavas e três quartos cada um importa cento e sessenta e cinco oitavas 165”105 No cabeçalho do registro há, como se pode ver, importantes referências à cobrança ser realizada pela câmara por conta de uma repartição feita pelos procuradores das câmaras das Minas em Junta. Logo após vemos um exemplo de lançamento com nome do proprietário dos escravos, com a quantia de negros possuída e o valor que devia ser pago ���������������������������������������� ������������������� 104 APM, CC-1010; Microfilme 002(2/9) – Livro de registro de receita do Quinto do ouro e da Capitação. 1714-1716. [Vila Rica]. 128 f. 105 APM, CC-1012; Microfilme 002(4/9) – Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1716-1720. São João Del Rei. 275 f. 56 � por eles. Abaixo mais um exemplo, do lançamento do Caminho Novo, de como essa declaração podia ser bem detalhada: “100 O Guarda-Mor Garcia Rodrigues Pais, com grande quantidade de escravos, e quatro sítios, dos melhores, e mais ricos de efeitos e plantas, que tem todo o caminho, e portanto, lançado para esta contribuição em cem escravos de posse e maneio, a quatro oitavas e um quarto cada um, importa quatrocentas e vinte e cinco oitavas 425.”106 Para São João del Rei ainda encontramos outro livro para o ano de 1717. Nele os moradores igualmente declaravam a quantidade de escravos, vendas e lojas possuídos, e a contribuição para os quintos era calculada tendo tal declaração por base. Muitas vezes os registros traziam a assinatura do declarante e do cobrador dos quintos, e, frequentemente, anotações do cobrador quanto ao recebimento do valor declarado, se já havia sido pago ou se estava por pagar. É o caso do exemplo abaixo, do lugar de Rio Acima, cujo cobrador era João Pinto do Rego: “10 O Mestre de Campo Damião de Oliveira 27 ½ com doze escravos Recebi as vinte e sete oitavas e meia de ouro de quintos em que foi lançado [osço] mestre de campo Damião de Oliveira e Sousa e para clareza passei o recibo. Damião de Oliveira e Sousa João Pinto do Rego”107 O último rol que analisamos refere-se unicamente à cobrança de quintos atrasados, endereçado a José Correia Lima, “das pessoas que devem quintos para vir escrever a cada um deles”. No dito documento há uma lista de pessoas, inclusive cobradores dos quintos, sua moradia e a quantia devida e logo após vemos uma importante indicação do que devia ser feito quanto à situação do atraso: ���������������������������������������� ������������������� 106 Idem. 107 BN, MS-580(3) D.03, I-10,04,003 No001 – Câmara de São João del Rei. Rol dos moradores de Rio Acima, São João del Rei, Brumado, Villa, Caminho do Campo, Itaberaba, Noruega, Caminho Novo, Lagoa Dourada, Camapão, Congonhas, Ponta do Morro, Prados, Bichinho, Arraial Velho, Corrego, Caminho Velho, Rio das Mortes Pequeno e Rio Abaixo. São João del Rei, 1717. Precedido por um documento datado de 1849 (provavelmente não pertencente ao códice): cobrança dos quintos considerando-se o número de moradores e escravos, lojas e vendas. 57 � “Estas são as pessoas a quem vossa mercê deve escrever em nome do Senado e pedir- lhe sejam servidos remeter o ouro pelos portadores dizendo-lhes pede o Sr. General se lhe ajuste a conta velha das falhas e que estimaremos satisfaçam suas mercês por não irem no Rol que o dito senhores nos pede e tudo [via] faça com os encarecimentos necessários como melhor entender porque com a resposta deles se resolve o Senado a dar o Rol ao Sr. General e se vim for ao Ribeirão procure novas frescas que me dizem as tem o Sr. Conde General do Povoado de várias novidades, mas antes que vá faça estas Cartas a estes homens e as entregue aos oficiais para as entregarem com brevidade e trazerem as respostas e se lhe repugnarem me mande as cartas que eu lhas farei levar logo e para servir a vossa mercê fica muito certo a quem Deus guarde muitos anos. Casa 3 de Setembro de 1718. Muito servo de vossa mercê Manuel Gomes da Silva”108 As indicações são reveladoras da atividade conferida às câmaras em caso de cobrança de quintos em atraso. Não temos maiores informações sobre o remetente e o destinatário desse rol. Mas o fato é que o primeiro remete essa listagem de devedores ao segundo a mando do Senado da câmara, pedindo que lhe enviassem cartas aos mesmos para que fizessem a remessa do ouro devido. Repare-se que a câmara cuida dessa tarefa em 1718, ano que lhe teria sido retirado a responsabilidade com a arrecadação. Trataremos melhor disso adiante. 1.1.4 Fazendo entregas e ajustando contas (1714, 1716, 1720-1725) Três livros, de 1714 para a Vila do Carmo, de 1716 para a Vila de São João del Rei, de 1721-1725 para a Vila Rica, além de um documento de 1720 para Vila Rica, nos dão conta não do lançamento diário do quinto, mas das entregas feitas pelos cobradores das quantias recebidas e do ajustamento das contas dos róis que cobravam. Essas informações por vezes também aparecem no final dos livros com o registro cotidiano, mas por vezes os oficiais das câmaras também faziam livros separados só para esse fim, aos quais agora nos debruçamos. ���������������������������������������� ������������������� 108 BN, MS-580(70) D.63, I-26,22,058 – Rol das pessoas que devem quintos atrasados enviado a José Correia Lima. 03/09/1718. 58 � O primeiro livro de 1714 da Vila Leal do Carmo haveria de servir para as “despesas, e entrega, ao Tesoureiro das seis arrobas de ouro que se prometeram à Sua Majestade que Deus guarde a bem assim do pagamento que se fez ao Capitão Mor Jacinto Barbosa”. Lembremos que nesse ano a câmara tinha acabado de negociar o pagamento das 30 arrobas anuais de quinto. Aqui podemos comprovar, portanto, que a câmara da Vila do Carmo fazia a entrega das seis arrobas que lhe couberam nesse acordo, abrindo livro específico para esseregistro. Vejamos uma das entregas e os atores presentes na conferência desses valores: “Ao primeiro dia do mês de Julho de mil e setecentos e quatorze nesta Leal Vila de Nossa Senhora do Carmo em presença dos oficiais da Câmara dela foi chamado o Capitão Torquato Teixeira de Carvalho nomeado por este Senado e pelo Excelentíssimo Senhor Dom Brás Baltazar da Silveira para servir de Tesoureiro das seis arrobas de ouro que por repartição couberam a esta Vila e seu Termo, este presente ano e em presença de todos os mais oficiais da Câmara se lhe pesaram e contaram a dita quantia acima declarada (24$576) pelo marco do constante e aferidor desta Vila Gregório Gonçalves e de como recebeu a dita quantia das seis arrobas de ouro e assinou com todos os vereadores deste senado e eu André Francisco Torres escrivão da câmara o fiz e escrevi. Torquato Teixeira de Carvalho Pinto Souza Miranda Spinola” (grifo nosso)109 O segundo livro mencionado, para a Vila de São João del Rei, é de Ajustamento de Contas das Cobranças dos Róis dos quintos do Lançamento desta Comarca de São João Del Rei do ano de 1716. Separado por cada localidade da referida vila, o livro parece ser uma espécie de registro de controle das parcelas entregues por devedores dos quintos, mas especialmente pelos cobradores que davam conta de seu rol de jurisdição. O cobrador da Vila João Francisco Pedroso, por exemplo, entregara ao tesoureiro dos quintos, Belchior da Cunha Freire, 2280 oitavas de ouro e dele recebera recibo. Tais cobradores também dariam conta das falhas no recebimento do quinto, falhas estas “por pobreza” do declarante, “por ���������������������������������������� ������������������� 109 BN, MS-580(50) D.58, I-25,33,058 – Livro que consta as seis arrobas de ouro para entregar à Sua Majestade referente aos quintos e ao pagamento feito ao capitão Jacinto Barbosa Lopes. Vila Real do Carmo, 20/06/1714. 59 � mal lançado” havendo erro no lançamento, além das ausências de pagamento sem motivo esclarecido. Para essas falhas faziam uma lista para especificar tudo que ainda se devia de determinado rol.110 Alguns livros de lançamento diário dos quintos para período posterior a esse por vezes também trazem uma relação de falhas no fim dos registros. O terceiro livro, de 1721-1725, é o Livro de registro de expediente da Tesouraria da Fazenda de Minas Gerais, no qual se lançavam vários tipos de recebimentos. Tais entregas eram super detalhadas e advindas dos diversos lugares da Capitania, referente aos quintos trazidos pelas câmaras das variadas vilas, de direitos, rendimentos e contratos diversos ou de particulares. As entregas dos quintos apresentam o seguinte padrão: “Em 2 de Abril, digo de Maio de 1722 anos carrego em Receita ao Tesoureiro da Fazenda Real Lourenço Pereira da Silva doze mil e quatrocentas e trinta oitavas de ouro em pó Que recebeu da Câmara de Vila Nova da Rainha por mão do Sargento Mor José de Miranda Pereira dos quintos vencidos em Julho de 1721 e de como o dito Tesoureiro recebeu a dita quantia de doze mil e quatrocentas e trinta oitavas de ouro assinou comigo Antonio de Seixas escrivão da Fazenda Real e despesa e receita se passou conhecimento. Lourenço Pereira da Silva Antonio de Seixas”111 Por fim, destacamos o documento de 1720 de Vila Rica, que na verdade é referente a uma entrega referente aos quintos da comarca do Rio das Mortes. Menciona-se a quantia entregue ao tesoureiro da Real Fazenda, além da quebra que houve nessa quantia. O documento em questão é um conhecimento dessa entrega. Segue-o abaixo: “A fl.10 verso do Livro, que serve como Tesoureiro da Fazenda Real Francisco de Almeida e Brito lhe ficam carregadas em Receita viva vinte e quatro mil, oitocentas e setenta e duas oitavas e meia de ouro, que recebeu por mão do Sargento Mor Inácio da Costa Montalvão, pertencente aos quintos do Rio das Mortes, na qual quantia houve de quebra cinquenta e quatro oitavas, e meia de ouro, que inteirou de sua fazenda o dito Sargento Mor para ajuste das ditas 24872 ½ e de como o dito Tesoureiro as ���������������������������������������� ������������������� 110 APM, CC-1019; Microfilme 003(4/9) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1716-1721. São João Del Rei. 123 f. 111 AN, 0M 0137 - Livro de registro de expediente da Tesouraria da Fazenda de Minas Gerais. 1722-1725. Vila Rica, 275 f. 60 � recebeu e delas ficou entregue lhe deu este conhecimento em forma tirado do dito Livro que assinou comigo José da Silva de Andrade escrivão da Fazenda Real que o escrevi e assinei em esta Vila Rica ao primeiro dia do mês de Fevereiro de 1720. Francisco de Almeida Brito José da Silva de Andrade”112 1.1.5 Os quintos das carregações e os termos de fiança (1709, 1715-1721) Esses registros de certa forma se parecem com aqueles há pouco analisados dos que andavam pelas Minas. A diferença é que esses documentos trazem especificado o que se carregava para dentro ou fora dos caminhos da Capitania. Nessas ocasiões, ou se “pagava logo” os quintos sobre a dita carregação, ou se nomeava fiador “para a segurança dos quintos”. Tais registros são variados e esparsos para a Vila Real do Sabará, Vila de São João del Rei e Vila do Carmo. Vejamos. Para a Vila Real do Sabará, o primeiro relato que temos é de boiadas que pagaram o quinto em 1715. Segue abaixo um desses registros: “Termo de entrada de uma boiada que dá Manuel Felix Aos doze dias do mês de fevereiro de mil e setecentos e quinze anos nesta Vila Real de Nossa Senhora da Conceição nas Casas donde assiste o Juiz Ordinário o Capitão Francisco Duarte de Meireles e sendo aí, apareceu presente Manuel Felix e por ele foi dito que ele dava entrada de duzentas e treze cabeças de gado das quais lhe abateu o dito Juiz Ordinário vinte e duas cabeças e ficam líquidas cento e noventa e uma que a oitava e quarto cada cabeça pertence para a Fazenda Real duzentas e trinta e oito oitavas e três quartos de ouro das quais ficou por fiador e principal pagador José Ferreira Preto se obrigou a pagar a dita quantia de feitura deste a três meses e tudo fiz este termo que assinaram com o dito Juiz e eu Antônio Pereira [baus] escrivão das entradas o escrevi. Meireles José Ferreira Preto Manuel Felix” (grifo nosso)113 ���������������������������������������� ������������������� 112 BN, MS-580(50) D.59, I-25,33,059 – Folha dez do livro que serve com o tesoureiro da Fazenda Real, Francisco de Almeida e Brito, em que consta a receita dos reais quintos do Rio das Mortes. Vila Rica, 01/02/1720. 113 BN, MS-580(60) D.81, I-26,10,021 – Termos de entrada das boiadas que pagaram o quinto. Vila Real de Nossa Senhora da Conceição, 12/02/1715-16/01/1715. 61 � Como este seguem outros termos de várias pessoas que declaram os quintos que pagavam sobre seu gado. Em tais termos, igualmente pode-se identificar a data da passagem, o nome do declarante, o lugar onde o registro é feito, a quantidade de cabeças de gado que se passa e a quantidade que é abatida para a Fazenda Real, o valor devido, o fiador do declarante e o escrivão das entradas. É importante reparar ainda, e se encontra em grifo no trecho acima, que a cobrança era feita pelo Juiz Ordinário da vila, ou seja, pelo poder local da mesma. Destaca-se também que o fiador nomeado pelo declarante tinha um prazo específico para fazer o pagamento da quantia devida à Fazenda Real. Isso nos revela detalhes sobre a dinâmica dessa cobrança. Mas para a Vila Real do Sabará temos ainda outro livro com termos de entrega, só que agora ao tesoureiro da Fazenda Real, dos quintos de gado para o período de 06/12/1715 a 20/09/1721. Vejamos o modelo de tais registros: “Carga feitasobre o Tesoureiro da Fazenda Real o Sargento Mor João de Souza Souto Maior de sessenta e duas oitavas e meia de ouro Aos vinte e sete dias do mês de Abril de mil e setecentos e dezesseis anos nesta Vila Real de Nossa Senhora da Conceição em casas de morada do Doutor Luis Botelho de Queiroz ouvidor geral e Provedor da Fazenda Real onde eu escrivão adiante nomeado vim e sendo aí apareceu Agostinho Barbosa Ribeiro que feito de pagar sessenta e duas oitavas de digo sessenta e duas oitavas e meia de ouro que deve de quintos como fiador e principal pagador de Antonio Rodrigues Silva digo Antonio Pereira Rodrigues que tenha dado entrada de cinquenta cabeças de gado e como é costume pagou o dito Agostinho Barbosa como consta do Livro das entradas a folhas onze que mandou o dito Doutor Provedor da fazenda Real fazer este termo que assinou com o dito Tesoureiro e eu Francisco Xavier Alves Pereira escrivão da fazenda Real o subscrevi. [Des Gral] João de Souza Souto Maior” (grifo nosso)114 Tal carga para o tesoureiro da Fazenda Real traz, na verdade, praticamente os mesmos dados do termo anterior feito pela câmara da dita vila. A diferença, além dos oficiais da Fazenda que estão presentes, é que essa carga trata-se já do pagamento de uma ���������������������������������������� ������������������� 114 APM, CC-1014; Microfilme 002(6/9) – Livro de registro de rendimentos gerais pelo tesoureiro da Real Fazenda João de Souza Souto Maior. 1715-1721. Vila Rica. 89 f. 62 � entrada feita em período anterior. Nesse caso, o fiador, Agostinho Barbosa Ribeiro, comparece na Real Fazenda, perante o tesoureiro e o ouvidor e faz o pagamento “como é costume”, da quantia da entrada feita por seu fiado, Antonio Pereira Rodrigues. Depois desse registro, seguem várias entradas de diversas pessoas como fiadoras de outras que devem quintos de gados. Também nesse livro podem-se encontrar registros de entregas a esse tesoureiro de ouro dos quintos pelos oficiais da câmara da dita Vila Real, “do ouro dos quintos”, “do resto dos quintos das trinta arrobas”, “de resto que devia a dita câmara para o ajuste dos quintos”. Veremos mais adiante como se davam essas entregas na Real Fazenda. Analisemos agora os registros existentes para a Vila de São João del Rei e eles também tratam de entradas de carregações pagando os quintos nos anos de 1715, 1716 e 1717115, além de alguns poucos lançamentos para o ano de 1709. Segue um dos registros: “Termo de fiança de Antonio Pedroso Leite Aos dez dias do mês de Julho de mil e setecentos e quinze anos nesta Vila de São João Del Rei em casas de morada do Juiz ordinário João Antunes Maciel adonde eu escrivão fui e sendo Antonio Pedroso Leite e por ele foi dito que queria entrar para o povoado com três escravos e por [ ] queria dar fiança para pagar o [quinto] que lhe tocar de contribuição para os quintos Reais e como com efeito deu por fiador ao Capitão Manuel Cardoso e de como o dito se obrigou por sua pessoa assinou com o dito Juiz e eu José da Silveira de Miranda da Câmara que o escrevi. (grifo nosso)”116 Vê-se que em casas de morada do Juiz ordinário da dita vila comparecia Antonio Pedroso Leite para manifestar que queria entrar para o povoado com seus escravos. Para isso nomeava fiador que se obrigaria, na sua falta, ao pagamento do que tocasse de quintos reais. Nos registros similares a esse para a localidade, se vê que ou se “pagava logo os quintos” sobre determinada carregação ou se dava fiador “para a segurança dos quintos”. Se se pagava de pronto se desobrigava a fiança, mas pelo que podemos constatar elas eram muito frequentes. E isso tanto para quem entrasse para as Minas, quanto saísse. Alguns poucos registros do ano de 1709 também podem ser encontrados nesse livro, como dito há pouco. Mas são muito poucos os lançamentos, indicando que o livro foi ���������������������������������������� ������������������� 115 Os termos de fiança para 1717 encontram-se em outro livro: APM, CC-1004; Microfilme 1 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Mortes. 1710-1717. São João Del Rei. 250 f. 116 BN, MS-580(6) D.01, I-10,06,001 – Intendência de São João del Rei. Livro de registro de finanças e pagamento de quintos. São João del Rei, 1715-1718. 63 � reaproveitado e também que boa parte dele provavelmente se perdeu. Segue o tipo de lançamento desse ano: “Aos onze dias do mês de Julho de mil setecentos e nove anos nestas Minas do Rio das Velhas e casas da Superintendência apareceu Custódio da Silva residente nestas Minas e por ele foi dito ao Tenente General Francisco Veloso que a seu Requerimento vinha notificado para dar fiança aos quintos de Sua Majestade do ouro que agenciou nestas Minas quando se recolhesse para povoado e logo apareceu Antonio Carvalho Gomes e por ele foi dito que por sua pessoa e bens se obrigava ao referido para que não saísse o dito Custódio da Silva destas minas sem vir quintar de que mandou o Tenente General fazer este Termo em que assinou com o fiado e fiador eu Manuel de Mendonça e fim o escrevi.” (grifo nosso)117 Esse registro do Rio das Velhas, outra comarca, portanto, já é feito pela Superintendência. Com data, nome do fiado e do fiador, o referido lançamento traz indicações, que destacamos em grifo, similares às que encontraremos décadas à frente. Para a Vila do Carmo encontramos apenas uma menção avulsa em um livro de Assento de ouro que recebeu o procurador da câmara, Manuel Rodrigues de Souza, referente aos quintos reais o qual pagou as pessoas que passaram por estas minas no ano de 1715. Segue essa referência, também a carregações de boiadas: “Recebeu Gabriel Pereira de Sá, como tesoureiro e escrivão das cobranças dos quintos das carregações que entram nessas minas e também das boiadas, vinte e duas oitavas de ouro de um [tomam] que por nome não perca que passou destas Minas para a cidade do Rio digo para a cidade de São Paulo, por despacho do Juiz ordinário o Coronel Rafael da Silva e Souza, e se lhes passou carta de guia em 27 de setembro de 1715, as quais entregará a seu tempo este. Como as recebeu assinou aqui comigo escrivão e eu João Carneiro Pereira escrivão da câmara que o escrevi. Gabriel Pereira de Sá” (grifo nosso)118 ���������������������������������������� ������������������� 117 Ibidem. Na descrição do livro nem há menção de se conter registros de 1709. 118 BN, MS-580(50) D.57, I-25,33,057 – Assento de ouro que recebeu o procurador da câmara, Manuel Rodrigues de Souza, referente aos quintos reais o qual pagou as pessoas que passaram por estas minas no ano de 1715. 64 � Feito na câmara, o registro refere-se, diferentemente dos outros, de carregação que sai das Minas para a cidade de São Paulo. Um novo cargo para tal atividade aparece, o “tesoureiro e escrivão das cobranças dos quintos das carregações que entram nessas minas e também das boiadas”. Esse oficial recebe de uma pessoa, que não se identifica, uma quantia determinada por passar das Minas para São Paulo. O Juiz Ordinário Rafael da Silva e Souza, também cobrador dos quintos, passa carta de guia dessa declaração. Não temos outros registros como este, o que facilitaria uma melhor compreensão desse processo. Mas a informação adicional que identificamos é que após a passagem com determinada carregação o declarante recebia um documento que comprovava seu pagamento, ou termo de fiança. 1.1.6 Os arrolamentos de escravos para o lançamento dos quintos de 1718 a 1720 O ano de 1718 foi tido durante muito tempo como um marco na cronologia da arrecadação dos quintos, um marco do processo de centralização do poder da Coroa nas Minas. Nesse ano teria sido retirado das câmaras a responsabilidade da cobrançados quintos reais, a partir de então geridos pela Real Fazenda. Os pesquisadores responsáveis pelas várias periodizações sobre a cobrança muito reafirmaram esse recorte, sem mencionar quando tal jurisdição teria voltado às mãos do poder local, se é que teria voltado. Em trabalhos anteriores, nos dedicamos bastante a tal discussão, para a Vila do Carmo, refutando a ideia de uma afirmação linear da Real Fazenda, pois já em 1721 a tarefa dos quintos teria voltado para o Senado da Câmara, pelo que nos comprovavam os próprios registros dos quintos, feitos por seus homens e nos seus livros.119 Cumpre a partir de agora analisar todos os registros que se possui para o restante da Capitania de Minas, de modo a colocar nossa hipótese em cheque. Ainda que em momento posterior desse texto debatamos separadamente sobre a questão da responsabilidade institucional com a cobrança em toda a Capitania, nesse momento iniciaremos com a análise dos referidos registros a partir de 1718, lançando alguns primeiros apontamentos que servirão de base para reflexões mais complexas a seguir. ���������������������������������������� ������������������� 119 Idem. 65 � No ano de 1718 realmente os registros de lançamento dos quintos, em geral nomeados por Matrícula de escravos, Arrolamento de escravos para o lançamento dos quintos ou Lançamento para a cobrança do quinto do ouro em determinada localidade, foram feitos pela Real Fazenda. Iniciemos pela Leal Vila de Nossa Senhora do Carmo. Para a Vila do Carmo temos livros para as freguesias de São Sebastião, Guarapiranga, Sumidouro, Bento Rodrigues, Brumado, Inficionado e para a própria Vila, que correspondem, em geral, ao período de 1718 a 1720. No livro de São Sebastião, que haveria de “servir para nele se carregarem os escravos dos moradores da freguesia de São Sebastião do termo da Vila do Carmo desta Comarca do Ouro Preto” se haveriam de “escrever e carregar a ordem do Provedor dos quintos da dita freguesia na forma do regimento” todos os escravos da localidade em questão. Vejamos abaixo um dos trechos mais completos desse livro onde, aliás, o provedor é o próprio declarante. “O Mestre de Campo Francisco Ferreira de Sá Provedor dos Quintos Reais aos nove dias do mês de Maio de mil setecentos e dezoito anos nesta freguesia de São Sebastião, e casas de morada do Mestre de Campo Francisco Ferreira de Sá Provedor dos Quintos Reais desta dita freguesia aí por ele Provedor debaixo do juramento de seu cargo foram dados a escrever neste Livro os Escravos capazes de serviço que possuía seguintes (nomes dos 78 escravos, com sua nação e profissão e descrições físicas) E por esta maneira disse ele Provedor havia dado a escrever neste Livro todos os Escravos capazes de serviço que possuía debaixo do juramento que Recebi do Provedor excetuava os que de portas adentro o serviam como era notória não ter deles lucro algum, que pelo Regimento lhe são concedidos, dos que por doentes eram incapazes de serviço de que fiz este termo que ele assinou e eu Lourenço Pereira da Silva Escrivão dos Quintos Reais o Escrevi. Francisco Ferreira de Sá (grifo nosso)”120 O registro acima compartilha com os demais a recorrência dos seguintes itens: nome do dono do escravo (no caso o declarante), relação dos escravos possuídos, nome do provedor dos quintos, lugar onde era feita a listagem dos escravos (no caso a casa do ���������������������������������������� ������������������� 120 APM, CC-1024; Microfilme 003(9/9) 004(1/5) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1718-1720. São Sebastião. 378 f. 66 � próprio provedor), freguesia sobre a qual incidia a cobrança e nome do escrivão dos quintos. A data exata da cobrança aparece somente em trechos como o exemplificado acima, nos demais o dia e mês não são mencionados. Há ainda, como se pode ver acima, um conjunto de recomendações específicas. Mencionava-se que todos os escravos capazes de serviço deviam ser declarados, exceto os que se dedicassem ao trabalho doméstico, “os que de portas adentro o serviam”, por não se obter lucro com o trabalho deles, e ainda os que estivessem doentes, pois não estariam aptos ao serviço naquele exato momento. Sumidouro também segue o mesmo padrão. Encontramos apenas uma declaração do escrivão dos quintos que revela algo mais sobre um momento específico da confecção dos registros. No ano de 1719 nessa freguesia parece ter havido a necessidade de se fazer nova listagem, para se acrescentarem nela mais escravos. Só depois do novo assentamento a lista é remetida. Vejamos: “Aos vinte e dois dias de março de mil setecentos e dezenove anos tornou a vir a Lista que tinha ido para se irem acrescentando todos os escravos que se forem dando até ordem do Excelentíssimo Senhor Conde General os quais se assentaram os que de mais se deram como consta dos termos deste Livro os quais foram lançados na nova Lista que novamente [seguintes] e se remeteu aos vinte e dois dias do mês de Junho da era acima como consta do Livro de encerramento deste dito Livro a f. 119 v. de que de tudo fiz este termo eu Inácio Rodrigues Alvares escrivão dos reais quintos o escrevi. Inácio Rodrigues Alvares”121 No arrolamento da freguesia de Bento Rodrigues, vemos apenas uma informação adicional. Com registros um pouco mais simplificados, por vezes também aparecia referências a transações de compra de escravos. No dia 17/11/1718 “mandou o Provedor descarregar os dois escravos enfronte por haverem passado por compra que deles fez Martinho Domingues e se acham já carregados nele a f. 6 v.” Os demais registros, que também incluem vendas, e referência sobre fugas, mortes de escravos e abatimentos, mudança, escravos incapazes de trabalho, seguem o mesmo modelo dos demais.122 As ���������������������������������������� ������������������� 121 APM, CC-1029; Microfilme 005(2/7) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1718-1720. Sumidouro. 289 f. 122 APM, CC-1033; Microfilme 005(6/7) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1718-1721. Carmo. 260 f. 67 � demais freguesias e a própria Vila do Carmo, com seus grandes plantéis e muitos proprietários, também seguem o mesmo padrão de lançamentos.123 Os lançamentos de Vila Rica não apresentam maiores novidades, a não ser de serem um pouco mais simplificados. Veja-se o caso de um registro da freguesia de São Bartolomeu: “João Francisco Grangeiro Escravos (nome dos escravos) Declarou ter mais uma escrava que o serve na cozinha, e uma crioulinha menor, e assinou com o dito Provedor e eu João Pereira Souto escrivão dos quintos que o escrevi. Azevedo João Francisco Grangeiro”124 As informações básicas são as mesmas, mas não se vê as recomendações específicas quanto a penas e juramentos como em Vila do Carmo, nem é tão fácil de identificar o nome completo do provedor dos quintos, no caso acima só sabemos que seu sobrenome é Azevedo. No decorrer do livro, por vezes é possível encontrar a referência completa, por vezes não. Esse também é o caso das demais localidades de Vila Rica, da própria vila,125 Itatiaia,126 Antonio Dias127 e Congonhas do Campo e Ouro Branco.128 A Vila de São João del Rei também apresenta registros semelhantes e bem simplificados, como os de Vila Rica. Temos informações para Itaverava,129 Baependi130 e para a dita vila, da qual segue um exemplo abaixo. ���������������������������������������� ������������������� 123 APM, CC-1036; Microfilme 006(3/5) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1718-1721. Carmo. 452 f. 124 APM, CC-1025; Microfilme 004(2/5) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1718. São Bartolomeu. 266 f. 125 APM, CC-1028; Microfilme 004(5/5) 005 (1/7) - Livro deregistro do Quinto do ouro e da Capitação. 1718-1723. Vila Rica. 250 f. 126 APM, CC-1030; Microfilme 005(3/7) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo coronel Pedro da Rocha Gândavo. 1718-1719. Itatiaia. 69 f. 127 APM, CC-1039; Microfilme 007(2/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1719-1723. Antônio Dias. 128 f. 128 APM, CC-1037; Microfilme 006(4/5) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1718-1723. Ouro Branco. 138 f. 129 APM, CC-1026; Microfilme 004(3/5) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo procurador Manuel da Costa de Araújo. 1718-1720. Itaverava. 223 f. 130 APM, CC-1031; Microfilme 005(4/7) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo sargento- mor Tomé Rodrigues. 1718-1720. Baependi. 100 f. 68 � “1719 O Capitão Guilherme de Oliveira Com os negros seguintes A saber Estevão Angola Domingos Angola Ventura Angola Paulo Angola Vicente Angola A Guilherme de Oliveira Lara Miguel Fernandes Serra”131 Os arrolamentos da Vila de Piedade do Pitangui, a última vila da qual temos registros, são como os demais de 1718 a 1720. Mas o livro em questão abrange período maior, até 1724 e é feito por um mesmo cobrador, João Henrique de Alvarenga. Nesse livro podemos ver claramente um momento de mudança no controle dos lançamentos. De 1718 a 1720 os registros parecem ser feitos do mesmo modo que os demais que vimos analisando. Em 1721, no entanto, o cobrador coloca a seguinte explicação: “O ano de 1721 não cobrei os quintos mandou a Câmara cobrar pelo seu escrivão José Rodrigues Santiago.” Aqui fica claro que o ano de 1721, não só para a Vila do Carmo estudada anteriormente,132 também marca a volta dos quintos para as mãos do poder local em outras vilas. E o interessante é que o mesmo cobrador continua suas tarefas com a cobrança depois disso, até 1724, cobrando os meios quintos, antes da instituição das Casas de Fundição.133 1.1.7 “Nas Casas da Câmara”: os lançamentos dos quintos de 1721 a 1723 Continuando a discussão do último parágrafo, reafirmamos então que em 1721 voltam às câmaras o controle da arrecadação dos quintos. Desenvolveremos mais adiante a ���������������������������������������� ������������������� 131 APM, CC-1023; Microfilme 003 (8/9) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo procurador Miguel Fernandes Serra. 1718-1729. São João Del Rei. 98 f. 132 FARIA, Simone Cristina de. op. cit. 133 APM, CC-1038; Microfilme 006(5/5) 007(1/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo cobrador João Henrique de Alvarenga. 1718-1724. Pitangui. 152 f. 69 � hipótese desse retorno estar ligado ao fim dos conflitos da revolta de Vila Rica, quando o Conde de Assumar teria chamado novamente os poderosos locais para atuar em tal matéria e ajudar a se restabelecer a normalidade. No momento, cabe analisar como os registros passam a ser feitos em 1721 em diferentes vilas das Minas. Iniciamos pela Vila do Carmo: “Passagem Em aos sete dias do mês de março de mil setecentos e vinte um anos nesta Leal Vila de Nossa Senhora do Carmo carrego em receita ao Tesoureiro o Capitão Manuel Cardoso Cruz duas mil sessenta e sete oitavas e meia de ouro que lhe entregou o Sargento Mor Jacinto Pinto de Magalhães morador na Passagem procedidas de oitocentos e vinte oito negros, e de quarenta e quatro vendas, que as devia para o cômputo das vinte e cinco arrobas de ouro dos quintos do ano de mil setecentos e dezenove para os de mil setecentos e vinte a respeito de duas oitavas e quatro vinténs que tocou a cada escravo, e de sete oitavas que tocou a cada venda, de que o lhe dito foi cobrador, e assinou aqui comigo e com o juiz mestre de campo Manuel de Queiroz, e a dita parte se lhe passou certidão desta entrega para sua descarga eu Hilário Antônio de Araújo escrivão da Câmara o escrevi.”134 Podem-se retirar de registros como o acima os seguintes dados: data da cobrança, distrito, nome do tesoureiro, valor total recebido, nome do cobrador dos quintos e local de moradia, quantidade de escravos e vendas sobre os quais recaía a cobrança, valor para cada um deles, nome do juiz ou vereador mais velho, e nome do escrivão dos quintos. Por esse excerto vemos que, em determinado dia, o cobrador dos quintos entregava ao tesoureiro dos quintos da câmara uma quantia específica de ouro, tocante ao quinto acordado no período, nesse caso de 25 arrobas, referente ao número de escravos e vendas do distrito de sua jurisdição. E esses escravos e vendas eram referentes à lista que havia feito dos mesmos. O próprio cobrador recebia desses moradores e em ocasião nenhuma vemos assinaturas de proprietários nesses registros. Em algumas ocasiões, quando não aparecia o número de escravos e vendas, mas sim expressões como “por conta de sua lista”, para “ajuste da sua lista”, ou “por importância da sua lista”, fica claro que algumas pessoas ficavam devendo e que o cobrador, em um momento posterior ao primeiro recebimento, provavelmente voltava a ���������������������������������������� ������������������� 134 AHCMM, Códice 648 – Livro de recebimento dos quintos de ouro – 1721-1735, f. 2. Esse livro no catálogo está denominado como de 1721 a 1735, mas só cobre os anos de 1721, 1722, 1727 e 1728. 70 � algumas moradias para receber o que se devia. As justificativas pela não entrega do montante referente à sua lista eram as mais variadas, fazendo com que consigamos sondar o tipo de dificuldades que os cobradores encontravam na sua tarefa. Quando traziam “de menos do que toca pela dita lista”, era porque o senhor estava ausente, porque o senhor fugiu, porque moradores se ausentaram, ou porque o escravo “se ausentou sem saber para onde.”135 Para a Vila de São João del Rei, temos alguns poucos registros. No entanto, eles são suficientes pra corroborar a mesma situação exposta para a Vila do Carmo. Os lançamentos não são semelhantes, mas foram igualmente feitos pela câmara da dita vila de São João. Vejamos: “1721 Escravos que dá a Rol Francisco Alves Rego morador em Rio das Mortes abaixo os seguintes 12 de 1 Antônio Mina Janeiro E declarou debaixo do Juramento dos Santos Evangelhos que pelo dito Juiz lhe foi dado não ter escravo mais algum de que fiz este termo em que assinou o dito Juiz por ele e eu Francisco Ferreira Nobre escrivão da Câmara o escrevi. Sinal [cruz] de Francisco Gonçalves Rego”136 O registro acima apresenta ainda a diferença de não serem os cobradores a entregarem na câmara a quantia referente a seu rol, mas o próprio morador a declarar diante do escrivão da câmara os escravos possuídos, fazendo juramento de que não possuía mais nenhum além daqueles. A Vila Real do Sabará também fez livros para lançar seus quintos em 1721 e 1722, através de sua câmara municipal. E esses são semelhantes aos da Vila do Carmo, intitulados por Livro de receita e despesa dos quintos ouro em Sabará. Vejamos um dos lançamentos: ���������������������������������������� ������������������� 135 Idem. 136 BN, MS-580(3) D.03, I-10,04,003 No001 – Câmara de São João del Rei. Rol dos moradores de Rio Acima, São João del Rei, Brumado, Villa, Caminho do Campo, Itaberaba, Noruega, Caminho Novo, Lagoa Dourada, Camapão, Congonhas, Ponta do Morro, Prados, Bichinho, Arraial Velho, Corrego, Caminho Velho, Rio das Mortes Pequeno e Rio Abaixo. São João del Rei, 1717. Precedido por um documento datado de 1849 (provavelmente não pertencente ao códice): cobrança dos quintos considerando-se o número de moradores e escravos, lojas e vendas. 71 � “Carga ao Tesoureiro Manuel Monteiro Porto de oitocentas e trinta duas oitavas e trêsquartos de ouro que cobrou do Provedor Amaro Soares Lousada e do Provedor José da Silva de Azevedo Aos oito dias do mês de março de mil setecentos e vinte e um anos nesta Vila Real nas Casas da Câmara dela aonde eu escrivão da Câmara vim sendo aí em presença dos oficiais da Câmara apareceu Amaro Soares Lousada Provedor da Cobrança dos quintos e fez entrega ao Tesoureiro Manuel Monteiro Porto de seiscentas vinte oitavas e três quartos de ouro que havia cobrado dos moradores do seu distrito o qual Tesoureiro recebeu o dito ouro. E outrossim apareceu também o Provedor José da Silva de Azevedo a entregar duzentas e doze oitavas de ouro que cobrou do seu distrito de Capão as quais recebeu também o dito Tesoureiro que por tocar fazem nas duas adições oitocentas e trinta e duas oitavas e três quartos de ouro, as quais todas recebeu o dito Manuel Monteiro Porto como Tesoureiro dos Reais quintos eleito pelo Senado da Câmara como consta de um termo do Livro de vereação a fl. e de como recebeu o dito ouro fiz o termo de carga que assinou comigo escrivão da Câmara eu Antonio de Passos Taveira. (rubrica) Manuel Monteiro Porto” (grifo nosso)137 Esse registro, como o da Vila do Carmo, também se trata do recebimento do quinto “para cômputo das vinte e cinco arrobas dos quintos do ano de 1719 para 1720”. Vê-se que dois provedores vão diante do tesoureiro dos reais quintos, nas “Casas da Câmara”, entregar as quantias referentes aos róis de seus distritos de cobrança. Temos ainda a data dessa entrega, os locais sobre os quais recaía essa cobrança, os nomes dos provedores, do tesoureiro e do escrivão dos reais quintos. Repare-se que é destacado inclusive que a câmara era quem elegia os tesoureiros dos reais quintos, mas sobre isso trataremos melhor no capítulo 2. Por fim, temos mais alguns registros para a Vila de São José del Rei, para os anos de 1722 e de 1723. O Lançamento dos escravos para cobrança do quinto dessa vila é muito parecido com o da Vila de São João del Rei, com o nome dos proprietários e a quantidade de escravos possuídos (para 1723 há também o nome desses escravos). Há ainda o nome dos alistadores (cobradores dos quintos) por localidade. Esses homens ���������������������������������������� ������������������� 137 APM, CC-1044; Microfilme 007(7/10) - Livro de registro de receita e despesas dos quintos reais. 1721- 1722. Sabará. 56 f. 72 � lançavam os dados mencionados nessa lista “bem e fielmente de seu próprio original”, segundo relato deles mesmos, por “mandado dos oficiais da Câmara”. Também para a Vila de São José del Rei, portanto, é possível confirmar o papel desempenhado pela câmara, que também coordenava as atividades dos cobradores.138 Ainda nesse livro é possível ter acesso às entregas que os cobradores, nesse momento nomeados como recebedores dos quintos, faziam das quantias recebidas por conta desses róis. Nessa ocasião, esses homens carregavam ao tesoureiro dos reais quintos da vila, Afonso Alves da Costa, quantias sucessivas por “conta das suas listas”. São várias entregas para os variados lugarejos.139 1.1.8 Os meios quintos, pagamentos restantes antes das Casas de Fundição (1724-1725) Como se sabe, em 1725 são finalmente implantadas as casas de fundição nas Minas, depois de algumas tentativas fracassadas. A transição entre os métodos ainda não foi muito bem estudada. Na verdade, não se tem muitos registros dos quintos cobrados nesse período, além das informações trazidas por pesquisadores e viajantes.140 Encontramos apenas duas referências, com as quais tentaremos lançar alguns apontamentos. A primeira é para a Vila do Carmo. Vejamos o padrão dos lançamentos: ���������������������������������������� ������������������� 138 APM, CC-1046; Microfilme 007(9/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1720-1723. São José. 87 f. 139 Idem. 140 Os trabalhos mais comumente citados, não só para esse período, ainda que não focados exclusivamente na arrecadação dos quintos, são os seguintes, entre outros tantos: BOXER, Charles R. A idade do ouro do Brasil. São Paulo: Editora Nacional, 1969; HOLANDA, Sérgio Buarque de. Metais e pedras preciosas. In: História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1973. p. 259-310; PINTO, Virgílio Noya. O ouro brasileiro e o comércio anglo-português: uma contribuição aos estudos da economia atlântica no século XVIII. 2. ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1979. Alguns mais específicos podem ser mencionados: CALÓGERAS, João Pandiá. As minas do Brasil e sua legislação. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1935; CARDOSO, Manuel da Silveira Soares. Os quintos do ouro em Minas Gerais (1721-1732). Congresso do Mundo Português, Lisboa, vol. 10, 1940, p. 117-128. É importante também destacar que diversos memorialistas e viajantes nos oferecem importantes informações sobre as cobranças, ainda que esparsas: ANTONIL, André João [João Antônio Andreoni]. Cultura e opulência do Brasil. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia Limitada, 1982; ROCHA, José Joaquim da. Geografia histórica da Capitania de Minas Gerais. Descrição geográfica, topográfica, histórica e política da Capitania de Minas Gerais. Memória histórica da Capitania de Minas Gerais (1788). Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1995; entre outros. 73 � “Em primeiro de Abril do dito ano (1725) carrego em Receita do dito Capitão e Tesoureiro Manuel Ferraz sessenta e sete oitavas três quartos cento e vinte réis de ouro Que recebeu do Sargento Manuel de Pinho Provedor dos quintos do distrito do Morro o qual ouro foi quintado por receber este recibo depois da Casa de fundição posta e ajustou com este cômputo a sua conta tanto de principal como de quanto de que se lhe passou Receita e de como o Recebeu assinou com o Provedor José Mexia escrivão da Câmara o escrevi. Manuel Ferraz” (grifo nosso)141 Ao que tudo indica, na ocasião acima o provedor dos quintos levou perante o tesoureiro da câmara o ouro quintado, recebendo depois recibo da Casa de Fundição. Mas ainda assim falta clareza quanto à razão pela qual ainda se levava nas câmaras ouro que devia ser entregue nas casas de fundição. Sinal de um período de transição e de que o cobrador/provedor dos quintos ainda desempenhava funções mesmo com a implantação das casas. Mas essas são apenas hipóteses, por enquanto. A segunda referência aos meios quintos que encontramos pertence ao Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo cobrador João Henrique de Alvarenga, da Vila de Pitangui. Trata-se do recebimento dos meios quintos por esse cobrador pela lista do ano de 1724, onde “saiu por negro a oitava e sete vinténs e meia e as lojas e vendas as seis oitavas”, a metade do que geralmente era cobrado nos anos anteriores. O cobrador declarava entregar os valores recebidos aos oficiais da câmara, “para remeterem para a Provedoria Geral da Vila do Ouro Preto”. Mas dessas entregas, segundo ele, ficavam devendo alguns moradores e os que não pagassem a tempo “ordenou o Excelentíssimo Senhor General que o pagassem quintado”.142 Podemos inferir que as quantias ainda restantes do ano de 1724 deviam ser pagas como de costume se fazia, mas haveria um determinado tempo em que deveria se pagar com o ouro já quintado. No entanto, nos faltam mais componentes para entender melhor esse processo. 1.1.9 Registros dos reais quintos ou dos donativos reais? (1727-1733) ���������������������������������������� ������������������� 141 AHCMM, Códice 200 – Livros de quintos: 1723-1726, f. 54. 142 APM, CC-1038; Microfilme 006(5/5) 007(1/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo cobrador João Henrique de Alvarenga. 1718-1724. Pitangui. 152 f. 74 � Um conjuntosignificativo de registros para a Vila do Carmo para o período compreendido entre 1727 e 1733 nos coloca algumas questões intrigantes. Tratam-se de dois livros denominados como Livro de recebimento dos quintos de ouro143 e Livro da receita de cobrança dos reais quintos.144 Esses livros contem registros onde o padrão de lançamentos se assemelha aos anteriormente citados para o período de 1721 até 1724, igualmente feitos pelas câmaras, sendo que o primeiro deles inclusive conjuga esses lançamentos com os que agora apresentamos para o período em questão. Vejamos um desses lançamentos, do segundo livro mencionado: “1728 Passagem e Morro de Mata Cavalos Em dezenove de Fevereiro de 1728 se carregou em Receita ao Tesoureiro geral do Donativo Real o Capitão Manuel Ferraz quinhentas e onze oitavas de ouro -------- 511 que recebeu do Sargento Mor Antonio Gomes da Silva Provedor da Passagem e Morro de que se lhe passou recibo o de como o recebeu assinou Juiz da Fazenda Ribeiro escrivão da Câmara e escreveu. Manuel Ferraz” (grifo nosso)145 Fica claro, pelo trecho acima, que os dados básicos comuns são: o distrito de cobrança, a data da cobrança, o nome do tesoureiro, o valor do quinto entregue, o nome do provedor e o nome do escrivão da câmara que fazia o registro. O primeiro livro traz ainda o número de escravos, vendas, lojas e ofícios mecânicos por proprietário, além da profissão e local de origem dos escravos. Ou seja, tais dados são fundamentalmente os mesmos que já encontramos nos demais lançamentos dos reais quintos. No entanto, existem dúvidas quanto a esses registros, principalmente quanto à menção a “donativo real” que podia significar a cobrança de outro direito que não o quinto, ainda que o quinto por diversas vezes também fosse mencionado como donativo.146 É ���������������������������������������� ������������������� 143 AHCMM, Códice 648 – Livro de recebimento dos quintos de ouro – 1721-1735. 144 AHCMM, Códice 421 – Livro da receita de cobrança dos reais quintos – 1728-1739. 145 Idem, f. 6. 146 Ainda segundo o Códice Costa Matoso, um donativo real era um subsídio exigido pela Coroa, como uma contribuição extra, em circunstâncias especiais ou fortuitas, como guerras e casamentos. FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida, CAMPOS, Maria Verônica (coord.). Códice Costa Matoso..., p. 92. Nessa época, segundo verificamos em muitos registros de mercês, se cobrou um donativo real para suprimento das despesas dos casamentos de suas altesas o Príncipe do Brasil e D. Mariana Vitória em 1727 e do Príncipe das Astúrias e D. Maria Bárbara em 1728. 75 � importante destacar, por exemplo, que essa dúvida surge até pelos enunciados do segundo livro, no qual se encontra o registro acima. Em sua folha de abertura o dito livro diz que “há de servir para a Receita do donativo Real de Sua Majestade que Deus guarde este presente ano de 1728 que se cobra por esta Câmara da Vila de Nossa Senhora do Carmo”, mas na sua folha de encerramento diz que “há de servir de Receita da Cobrança dos Reais Quintos que pela Câmara se cobra para Sua Majestade que Deus guarde”.147 Apesar dessas questões de classificação, é muito importante destacar a existência desses livros porque os atores envolvidos na cobrança desse donativo real eram praticamente os mesmos que se dedicavam às atividades ligadas aos reais quintos, tanto escrivães, tesoureiros, quanto provedores. Se tais registros lançados nesses livros não eram efetivamente dos quintos, o fato é que os mesmos personagens que já cuidavam dos quintos acumulavam mais essa função fiscal à Sua Majestade e quem coordenava essa cobrança era mais uma vez a câmara municipal. 1.1.10 Capitação de negros forros, matrículas de escravos e censo de clérigos (1737-1783) Depois de um eco nos registros com a implantação das casas de fundição, de 1725 a 1736 não encontramos registro algum, 1737 traz um Livro de lançamento da Capitação de negros forros. Nele aparece unicamente o nome do manifestante, mulato forro, seu local de moradia e a quantidade de ouro paga. Não há mais nenhum tipo de informação além desses dados, nem quem fazia o registro, nem quem cobrava.148 A partir do ano de 1738, também época de vigência do sistema da capitação, é possível encontrar outro tipo de registro, os livros de Matrícula de escravos. Tais livros trazem apenas o nome dos proprietários dos escravos, seu local de moradia e o nome dos escravos possuídos. Mais nenhuma informação que nos esclareça algo sobre a dinâmica da cobrança no período, agentes envolvidos ou instituição responsável pela arrecadação. Vila Rica149 e Vila de São João del Rei150 possuem livros como esse para o ano de 1738. Para a Vila do Príncipe o período abrangido é maior, de 1738 a 1783.151 ���������������������������������������� ������������������� 147 AHCMM, Códice 421 – Livro da receita de cobrança dos reais quintos – 1728-1739. 148 APM, CC-2016; Não Microfilmado – Livro de lançamento da Capitação de negros forros. 1737. Vila Rica. 46 f. 149 APM, CC-2013; Microfilme 136(4/5) 137(1/3) – Livro de matrícula de escravos para Capitação. 1738. Vila Rica. 801 f. 76 � Logo após, esses registros aparecem somente na década de 1745, para Mariana152 e na década de 1746 para as vendas e ofícios de Vila Rica.153 Em 1749 há ainda mais um livro, para Conceição do Mato Dentro. Livro no mesmo padrão dos demais, ainda que mais organizado, por ordem alfabética, em determinado momento traz um trecho que merece atenção. No final das listas nominais há uma espécie de resumo de tudo, com assinatura do Comissário Manuel Teixeira da Silveira, com a seguinte anotação do mesmo: “pelo o qual fiz assim por ordem da Intendência Geral por falta de não virem, ou serem poucos do Conselho”.154 É difícil supor o que realmente significa tal afirmação. Esse Conselho seria a Câmara? Ela seria a responsável por fazer os registros e por falta de corpo de oficiais, tal responsabilidade foi transferida para a Intendência?155 Por fim, de 1736 a 1745, localizamos um livro de censo de clérigos para pagamento da capitação. Tais registros trazem a data, o nome dos clérigos, seu local de moradia, e valores recebidos.156 Não conseguimos entender ao certo a razão pela qual os reverendos estavam recebendo tais quantias. Essa questão também deveria ser melhor investigada, mas não temos informações para tanto. 1.1.11 O retorno das Casas de Fundição – 1751 em diante O ano de 1751, segundo apontam tantos pesquisadores,157 marca a volta do método das casas de fundição para a arrecadação do ouro das Minas. No entanto, para esse ano, encontramos apenas um livro, não da casa de fundição, mas de Registro de pagamento de ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������� 150 AN, 0M 3787 – Livro de lançamento da Capitação dos escravos. São João del Rei. 1738. 151 APM, CC-1068; Microfilme 010(4/5) – Livro de matrícula de escravos para a Capitação. 1738-1787. Vila do Príncipe. 468 f. 152 BN, MS-580(3) D.10, I-10,04,006 nº001 – Recibos de pagamento de matrículas de escravos em 1745. [S.L.], 1745. 153 APM, CC-2027; Microfilme 127(6/7) – Livro de lançamento da Capitação, com registro de multas. 1746. Vila Rica. 238 f. 154 APM, CC-1081; Microfilme 012(6/6) 013(1/6) – Livro de matrícula de escravos. 1749. Conceição do Mato Dentro. 147 f. 155 Segundo o Códice Costa Matoso, a Intendência era o lugar onde o intendente despachava e dava audiências. Tal intendente, da Fazenda Real ou do ouro, era provido pelo rei e subordinado ao governador e responsável pela casa de intendência do ouro. Entre outras tarefas, devia acompanhar a matrículade escravos e o pagamento da capitação, punir sonegadores, fiscalizar lavras e livros de registros, etc. FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida, CAMPOS, Maria Verônica (coord.). Códice Costa Matoso..., p. 102, 103. A Intendência, portanto, era um lugar de representação do poder da Coroa, enquanto a câmara seria do poder local. 156 AN, 0M 4178 - Livro de registro de censo dos clérigos atuantes em Minas Gerais, aos quais deverá ser paga a Capitação dos escravos. 1736-1745. Vila Rica, 154 f. 157 Ver nota 145. 77 � capitação referente à primeira matrícula de 1751. O livro se refere a vilas e freguesias da Comarca de Vila Rica: Vila Rica, Bonfim, Catas Altas, São Caetano, Sumidouro e São Sebastião, e traz as seguintes informações: nome do manifestante, preto forro, profissão, local de moradia e valor pago em oitavas, nada mais.158 Os registros das entregas feitas realmente nas casas de fundição só nos restaram a partir de 1755, e são esparsos por localidades. Para Vila Rica temos registros para os anos de 1755-1757, 1759, 1762, 1764.159 Para a Vila de São João del Rei temos dados apenas para o ano de 1755.160 E, finalmente, para a Vila do Príncipe temos registros só para o ano de 1772.161 Mas apesar das expressivas lacunas, com os livros existentes é possível compreender o funcionamento da cobrança nesse período, como a partir de agora discorreremos. Vejamos o modelo do registro: “N. 1998 Meteu nesta Casa Luis Teixeira – ausente Alexandre Pinto da Fonseca dois marcos, ---- onça três oitavas e 18 grão de ouro, de que se tirou de quinto para a Fazenda Real ---- marco três onça 2 duas oitavas e 18 grão de ouro; e o mais se fundiu, e dele se fez uma barra, que pesou um marco, cinco onças e uma oitava e ---- grão de ouro de vinte quilates grão e por ensaio, que nele se fez, e se lhe entregou nesta Casa de Fundição do Rio das Mortes a 14 de Março de 1755.”162 É possível apreender, portanto, em lançamentos como esse, os seguintes dados: número do registro, nome do manifestante (e por vezes por quem ele fazia a entrega), ouro entregue, valor do quinto retirado sobre esse ouro, ouro que restava e que era fundido e feito barra, data e local. Parcialmente impresso, parcialmente manuscrito (trechos que ���������������������������������������� ������������������� 158 APM, CC-2038; Não Microfilmado – Livro de lançamento da Capitação referente à primeira matrícula em Vila Rica, Bonfim, Catas Altas, São Caetano, Sumidouro e São Sebastião. 1751. 14 f. 159 BN, MS-580(1) D.08, I-10,03,004 – Casa de Fundição de Vila Rica. Recibos de entrega de ouro e pagamento de quinto (recibos do número 1969 até 2144). Vila Rica, 1755-1756; APM, CC-2061; Não Microfilmado – Livro de lançamento das entradas de ouro na Real Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1756-1757. Vila Rica. 388 f.; APM, CC-2270; Não Microfilmado – Livro de registro do rendimento do Quinto pela Real Casa de Fundição. 1759. [S.L.]. 190 f.; BN, MS-580(3) D.01, I-10,04,001 – Casa de Fundição de Vila Rica. Recibos de entrega de ouro e pagamento de quintos. Vila Rica, 1754-1762; BN, MS- 580(59) D.27, I-26,09,007 No005 – Certidão de fundição do ouro no Rio das Mortes. Vila Rica, 18/10/1764. 160 BN, I-46,02,002 – Fragmento de documento sobre ouro. Minas Gerais, 03/04/1755; BN, II-31,25,010 – Registro da cobrança do quinto do ouro, para a Fazenda Real. Rio das Mortes, 00/03/1755. 161 BN, MS-580(52) D.48, I-26,01,007 – CADERNO com a cópia das guias das barras que se fundiram na Real Casa de Fundição da comarca do Serro Frio das parcelas de ouro em pó encontradas na busca que se fez na freguesia da Nossa Senhora da Conceição do Arraial da Água Suja, em 02 de março de 1772, por ordem do Conde de Valadares. Arraial Água Suja, 07/04/1772. 162 BN, II-31,25,010 – Registro da cobrança do quinto do ouro, para a Fazenda Real. Rio das Mortes, 00/03/1755. 78 � destacamos em itálico), esses lançamentos eram muito mais padronizados. Isso certamente se devia ao fato de já virem impressos, até com o símbolo das armas da Coroa. Como vimos analisando, os momentos iniciais são muito mais confusos quanto à confecção dos lançamentos do ouro do que esse momento que sinaliza para uma uniformização maior dos registros. Ainda que possamos nos questionar sobre uma racionalidade pombalina para essa padronização, também não acreditamos em uma afirmação linear do poder da Coroa nas Minas por conta desse processo, mas sim em um maior aperfeiçoamento dos oficiais ligados a essas atividades, devido a um aprendizado gradual. Além das entregas mencionadas de ouro para fundir nas casas de fundição, ainda foram feitos outros livros, tanto também ligados ao processo de manifesto dos moradores das diversas vilas do ouro que possuíam e/ou transportavam, quanto ligados aos procedimentos internos de conferência e contagem dos montantes recebidos. Através desses lançamentos, principalmente dos últimos, podemos perceber como as tarefas vinculadas à arrecadação passaram a receber mais registros e um número maior de oficiais passa a delas cuidar. Os primeiros livros mencionados, dos registros dedicados às entregas feitas pelos moradores na casa de fundição, são aqueles denominados por Livros de registro de expediente das Casas de Fundição ou por Livros de registro de receita do quinto do ouro. Diferentemente dos já analisados, tais registros são totalmente manuscritos, e tem em geral o mesmo padrão. Vejamos: “Em 13 de Janeiro de 1758 carrego em receita ao Tesoureiro desta Real Casa de fundição o Capitão José Coelho Barbosa cinco onças, três oitavas, sete grãos, e um quinto. Que recebeu de José Carvalho da Silva por Antonio Pereira Guedes morador nesta Vila de Quinto de 3-2-7-36. Em fé de que se assinou comigo dito escrivão da Receita Felix Marinho de Moura que o escrevi e o assinei. José Coelho Barbosa Felix Marinho de Moura”163 Em determinado dia, portanto, se comparecia à casa de fundição (por si ou por outrem) e levava-se perante o tesoureiro a quantia de ouro pertencida. Sobre esse ouro se ���������������������������������������� ������������������� 163 AN, 0M 0048 - Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca do Serro Frio. Vila do Príncipe, 1758, 195 f. 79 � pagava o quinto. Assinavam no fim o escrivão e o tesoureiro da dita casa. Esse era o registro diário que se repetia no decorrer de todo o livro. De tempos em tempos, geralmente no fim do mês, do trimestre e do ano, havia também um termo de recenseamento sobre o rendimento em tal período. Esse recenseamento se dava perante o ministro, o fiscal e mais oficiais da casa (escrivão da conferência, da receita e despesa, tesoureiro), onde se fazia a conta do rendimento de determinada quantidade de registros, se conferia e se guardava, “o qual ouro se meteu no cofre”. Tais registros só existem para a Vila do Príncipe nos períodos de 1753 a 1758 e de 1766 a 1768.164 Outros livros completam esse conjunto, também se nomeiam por servirem para o expediente da casa de fundição, no entanto, não são do mesmo modelo que os últimos. Trazem apenas o nome das pessoas que dão entrada de ouro na dita casa para se fundirem, depois de se quintar, e o peso das barras resultantes em quilates. Esses livros, muito mais simplificados, se limitam à Comarca do Rio das Mortes para os seguintes anos: 1770, 1777, 1780, 1781-1795 e 1797-1800.165 Não menciona nenhuma espécie de recenseamento, nem traz os nomes dos atores envolvidos na confecção dos registros. O segundo grupo de documentos mencionado acima, que diz respeito aos procedimentos internos de conferência e contagem dos montantes recebidos, é composto por uma série de livros como os Livros de registro de entrada de ouro de particulares da Real Casa de Fundição. Tais livros existemapenas para a Comarca de Vila Rica, para o período de 1754 a 1763.166 Apresentam o seguinte modelo: ���������������������������������������� ������������������� 164 AN, 0M 1626 - Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Serro Frio. 1753-1755. Vila do Príncipe, 195 f.; AN, 0M 0060 - Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1756-1758. Vila Rica, 196 f. (na verdade é do Serro Frio); AN, 0M 0048 - Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca do Serro Frio. Vila do Príncipe, 1758, 195 f.; AN, 0M 3206 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro do Serro Frio. 1767; AN, 0M 3475 – Livro de registro de receita do Quinto da comarca do Serro Frio. 1768. 165 AN, 0M 0652; AN, 0M 0260; AN, 0M 1152; AN, 0M 1104; AN, 0M 0037; AN, 0M 1423; AN, 0M 0393; AN, 0M 0392; AN, 0M 1153; AN, 0M 1562; AN, 0M 1116; AN, 0M 1150; AN, 0M 1121; AN, 0M 1206; AN, 0M 1151; AN, 0M 1107; AN, 0M 1563; AN, 0M 1421; AN, 0M 1882; AN, 0M 0044; AN, 0M 0035; AN, 0M 0073; AN, 0M 0080; AN, 0M 0039; AN, 0M 0040; AN, 0M 0043; AN, 0M 0055; AN, 0M 1875; AN, 0M 0033; AN, 0M 1149; AN, 0M 0049; AN, 0M 0036; AN, 0M 0056; AN, 0M 0250; AN, 0M 0262; AN, 0M 0054; AN, 0M 0046; AN, 0M 2782; AN, 0M 0047; AN, 0M 0053; AN, 0M 0045 e AN, 0M 0253. Todos são: Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca do Rio das Mortes. 166 APM, CC-2267; Não Microfilmado – Livro de registro do Quinto do ouro pela Junta da Real Fazenda. 1754. [S.L.]. 140 f.; APM, CC-1103; Microfilme 016(3/4) – Livro de registro de entrada de ouro de particulares da Real Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1755-1761. Vila Rica. 410 f.; APM, CC- 1111; Microfilme 017(7/12) – Livro de registro da entrada de ouro de particulares na Real Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto por Antônio Soares da Silva. 1757-1760. Vila Rica. 390 f.; APM, CC-2073; Não Microfilmado – Livro de lançamento do ouro entrado na Intendência da Real Casa de Fundição. 1758-1759. Vila Rica. 392 f.; APM, CC-1123; Microfilme 018(6/6) 019(1/2) – Livro de registro da entrada do ouro de particulares na Real Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1760-1761. Vila Rica. 388 f.; APM, CC- 80 � “Ao primeiro dia do mês de Agosto de mil setecentos cinquenta e cinco anos nesta Intendência e Mesa de despacho onde eu escrivão adiante nomeado atualmente escrevo, e sendo aí pelo escrivão da Receita, e despesa, o Capitão Francisco de Almeida Figueiredo me foi apresentado o Livro que serve das entradas do ouro que as partes trazem a Fundição desta Casa e descarga ao Real Quinto que dele se tira para a fazenda Real para efeito de se conferirem as entradas e cargas pertencentes ao dia de hoje o qual sendo por mim examinado e conferido pelo Livro do Registro em que escrevo achei estarem lançadas dez parcelas que juntas fazem a importância de dezenove marcos, sete onças, e quatro oitavas de ouro, de que pertence ao Real quinto três marcos, sete onças, oitavas catorze grãos, e dois quintos, o qual sendo novamente pesado pelo Tesoureiro da Casa se achou pesar a mesma quantia sem acréscimo de que para constar faço este termo Manuel Cardoso de Almeida Escrivão da Conferência que escrevi e assinei. Manuel Cardoso de Almeida.”167 Vemos, pelo trecho acima, feito diariamente, que tais livros serviram ao claro propósito de se registrar a conferência de outros livros, certamente os que analisamos há pouco. O escrivão da receita e da despesa apresentava ao escrivão da Intendência os livros das entradas de ouro que as pessoas traziam para se fundirem e retirar o quinto para se conferirem as entradas e cargas do dia atual. Depois de feita a conferência se contava e registrava essa quantia, bem como o que dela saía de quinto, com seu peso. Tratava-se, portanto, de um registro sobre outro registro, buscando sua averiguação. No final de cada mês fazia-se ainda uma espécie de balanço das “parcelas seguintes de que se tirou o direito senhorial”. Havia uma lista de valores em duas colunas nomeadas por “principal” e “quintos”. ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������� 1125; Microfilme 019(3/5) – Livro de registro da entrada de ouro de particulares proveniente da arrecadação do Quinto na Real Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1761-1762. Vila Rica. 388 f.; APM, CC- 1134; Microfilme 020(8/9) – Livro de registro de entrada do ouro de particulares na Real Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1762-1780. Vila Rica. 349 f.; APM, CC-2085; Não Microfilmado – Livro de lançamento do ouro entrado na Real Casa de Fundição. 1761-1763. Vila Rica. 388 f. As datas das descrições nem sempre correspondem ao conteúdo dos livros. 167 APM, CC-1103; Microfilme 016(3/4) – Livro de registro de entrada de ouro de particulares da Real Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1755-1761. Vila Rica. 410 f. 81 � Além desses livros, também compunham o grupo de registros de conferência outros muito parecidos. O trecho abaixo, da Vila Real do Sabará em 1771, é recorrente para a mesma vila do dito ano até 1775.168 Vejamos: “Janeiro 7 Carrego em receita ao Tesoureiro desta Real Casa de Fundição o Dr. Tomás Coelho de Avelar oito marcos, sete onças, cinco oitavas, vinte o oito grãos e quatro quintos de ouro. Que se tiraram de quintos de quarenta e quatro marcos, seis onças, três oitavas de ouro que no dia de hoje se manifestaram as partes para se lhe fundir em quarenta parcelas desde o número sessenta e oito até o número cento e sete inclusive, cuja quantia recebe o dito Tesoureiro e assinou comigo Escrivão da Receita e despesa que o escrevi e assinei. Tomás Coelho de Avelar José Pereira da Cunha”169 Esse procedimento parece ser anterior à entrega à Intendência em mãos do escrivão da conferência, como acabamos de ver. Aqui se carregava ao tesoureiro da Casa de Fundição os valores de quintos diários sobre determinada quantia de ouro entregue pelas pessoas que os manifestaram para fundir. No fim, o tesoureiro assinava o registro com o escrivão da receita e despesa. Ao término de cada mês e trimestre também havia um recenseamento geral onde o rendimento do real quinto no período era então contabilizado em razão da quantidade de termos de carga. A Vila de São João del Rei também produziu registros idênticos de 1770 a 1775 e nos anos de 1789 e 1791.170 Semelhantes a esses livros, ainda que com algumas informações adicionais, são os Livros de registro de receita do Quinto do ouro, e os temos para a Comarca do Rio das Velhas (Sabará) nos períodos de 1754-1756, 1763-1765 e 1768-1770;171 para a Comarca ���������������������������������������� ������������������� 168 AN, 0M 0252 – Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1771. (na verdade é do Rio das Velhas); AN, 0M 1874 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Velhas. 1772; AN, 0M 1873 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Velhas. 1773; 0M 1872 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Velhas. 1774; AN, 0M 1861 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Velhas. 1775. 169 AN, 0M 0252 – Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1771. (na verdade é do Rio das Velhas). 170 AN, 0M 1614; AN, 0M 1087; AN, 0M 1205; AN, 0M 1210; AN, 0M 1422; AN, 0M 0396; AN, 0M 3387; AN, 0M 3391. Todos são: Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Mortes. 171 AN, 0M 3479; APM, CC-2268; AN, 0M 2521; AN, 0M 1998; AN, 0M 3478; AN, 0M 1674; AN, 0M 3205; AN, 0M 3065; AN, 0M 2000. Todos são: Livro de registro de receita doQuinto do ouro da comarca do Rio das Velhas. 82 � do Serro Frio (Vila do Príncipe) nos anos de 1769, 1771, 1772 e de 1776 a 1794;172 e para a Comarca em 1788.173 Seus registros são como o abaixo: “Rendimento do Real Quinto em 1 de Agosto de 1755 de n° 1 até o 10 Carrega em receita a André Moreira de Carvalho Tesoureiro desta Casa quatrocentas duas onças e duas oitavas Que tanto importou o Real Quinto no dia presente o primeiro de Agosto de mil setecentos cinquenta e cinco anos desde o número primeiro até o número dez inclusive e se guardaram no cofre das quatro chaves e sendo pesados e achados conformes e conferidos pelo Dezembargador Intendente Domingos Nunes Vieira e pelo Fiscal o Capitão José de Souza Porto, e por mim Escrivão da receita e despesa abaixo assinado e pelo Escrivão da Conferência Francisco Xavier Ferraz de Oliveira de que fiz este termo e assinaram o dito Ministro, Fiscal, Tesoureiro e Escrivão sobreditos e eu Luis José Pinto Coelho que o escrevi e assinei. Vieira Porto André Moreira de Carvalho Francisco Xavier Ferraz de Oliveira Luis José Ponto Coelho (grifo nosso)”174 Da mesma natureza que o anterior, apenas traz as informações adicionais em destaque. São duas essas informações. A primeira é quanto ao lugar onde esse ouro permanecia até que fosse conferido: um cofre de quatro chaves. Mais pra frente veremos detalhadamente que informações os livros dos quintos trazem sobre a guarda do ouro. A segunda informação é a mais clara referência sobre quais agentes faziam a dita conferência e eram eles: o intendente, o fiscal, o escrivão da receita e despesa e o escrivão da conferência. ���������������������������������������� ������������������� 172 AN, 0M 2985; AN, 0M 3477; AN, 0M 3476; AN, 0M 1266; AN, 0M 1429; AN, 0M 1430; AN, 0M 3485; AN, 0M 3484; AN, 0M 3483; AN, 0M 3472; AN, 0M 2692; AN, 0M 2699; AN, 0M 2696; AN, 0M 2698; AN, 0M 2697; AN, 0M 2691; AN, 0M 2693. Todos são: Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Serro Frio. Há também dois livros da Contadoria da Fazenda com traslados desses livros: AN, 0M 1627 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca de Ouro Preto. 1786-1788. (na verdade é do Serro Frio); AN, 0M 1431 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Serro Frio. 1786. 173 AN, 0M 4048 - Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca de Ouro Preto. 1788. 174 APM, CC-2268; Não Microfilmado – Livro de registro de receitas do Quinto do ouro da Intendência e Casa de Fundição da comarca de Sabará. 1755-1756. Sabará. 310 f. 83 � Ao término de vários desses registros diários também há um recenseamento do rendimento do mês, do trimestre e do ano, com a presença das mesmas pessoas, “e sendo todos presentes se fez exame, e recenseamento do que rendeu o Real quinto...”. Por vezes, há ainda, na sequência dos registros mensais, resumo e recenseamento dos confiscos, com nomes dos confiscados e valor. As escovilhas175 também são trazidas para serem incluídas no produto dos quintos. Além disso, depois do recenseamento anual em geral havia alguns outros documentos: o termo do peso do ouro dos reais quintos, o mandado de remessa do quinto, o termo de remessa dos quintos, e o registro do conhecimento da entrega do ouro (os três últimos serão melhor utilizados posteriormente). Por fim, também participam desse grupo de registros de conferência, como os nomeamos, alguns outros livros, menos numerosos. São eles: de recebimentos do ouro do tesoureiro anterior (transferências entre tesoureiros quando assumiam o cargo) e de recebimentos de ouro trazidos por condutores dos quintos, para Vila Rica de 1757-1760 e para Vila de São João del Rei em 1770.176 Há também um livro de receitas e despesas, com recebimentos diversos (também dos quintos) de outras comarcas na Intendência de Vila Rica em 1772.177 1.1.12 Os registros da derrama (1764, 1765, 1770) O estabelecimento do método da derrama, que consistia na reafirmação da cobrança sobre os quintos atrasados por base da cota de 100 arrobas também gerou alguns registros. Não se pretende aqui entrar na discussão sobre o caráter impositivo ou injusto desse método, nem menos ainda sobre sua associação com as inúmeras insurreições nas Minas,178 pois tais assuntos fogem aos nossos propósitos. O objetivo agora é tão somente analisar os lançamentos que tivemos acesso feitos na época de vigência dessa cobrança, ���������������������������������������� ������������������� 175 Segundo Bluteau, escovilhar seria “tirar do lixo algum ouro, que caiu nele”. Escovilha, portanto, seria uma espécie de conjunto de restos do ouro. BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez e latino. DINFO: Universidade do Estado de Rio de Janeiro. CR-ROM. 176 AN, 0M 3207 – Livro de registro de receita de ouro nas Casas de Fundição.... 1757-1759; AN, 0M 3395 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca de Ouro Preto. 1760-1761; AN, 0M 1427 – Livro de registro das receitas extraordinárias da Intendência da comarca do Rio das Mortes. 1770. 177 AN, 0M 2830 – Livro de registro de receita e despesas da Tesouraria da Fazenda de Minas Gerais. 1772. 178 Além dos trabalhos citados na nota 64, que também se dedicam ao entendimento desse método, destacam- se trabalhos com uma vertente mais fiscalista, afeitos a essa associação de cobrança dos quintos e revoltas. Citamos apenas um artigo bem ilustrativo desse tipo de reflexão: FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Derrama e política fiscal ilustrada. Dossiê. Revista do Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte, vol. 41, jul. dez. 2005, p. 23-39. 84 � assim como temos feito até então com os demais modos de arrecadação do quinto do ouro.179 O primeiro documento que encontramos é a Lista da freguesia de Aiuruoca onde constam os bens que seus moradores deram ao manifesto para ao lançamento da derrama ficando o original no arquivo do Senado da Câmara de São João del Rei. Ainda que não tenha data, tal lista nos ajuda a entender alguns aspectos importantes da dinâmica dessa cobrança, a começar pelo próprio título. Ele nos revela inicialmente que esta lista se tratava de uma cópia e o original ficaria guardado no arquivo do Senado da Câmara da Vila de São João del Rei. E isso nos revela bem mais do que o cuidado de se guardar a lista primeira em arquivo, cuidado muito significativo por sinal, mas demonstra principalmente que depois de décadas a câmara retorna a ser formalmente responsável pela arrecadação do quinto,180 e em período crítico da produção, já que a derrama se tratava de cobrança sobre quinto atrasado e certamente demandava por parte de quem tomava conta da arrecadação um esforço bem maior para que a mesma se realizasse com sucesso. Vejamos como essas listas eram feitas: “Lista que o Capitão Roque de Souza Magalhães fez dos moradores desta Freguesia de Aiuruoca desde de Varadouro até o distrito da Guapiara tudo na forma da ordem que lhe enviou do Nobre Senado da Câmara de São João del Rei. O Capitão Roque de Souza Manuel Gomes da Costa casado e sem filhos declarou debaixo de Juramento possuir 4 escravos e 30 cabeças de gado e 1 sítio que tudo declarou valer 466$000 Declarou mais dever 300$000 E declarou mais não ter lucro algum mais que para comer.” (grifo nosso)181 ���������������������������������������� ������������������� 179 No mesmo artigo de Luciano Figueiredo da nota anterior, o autor menciona a existência de uma documentação avulsa da Casa dos Contos no Arquivo Nacional, que ainda não disporia de numeração definitiva. Não tivemos acesso a essa documentação. FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Derrama e política...,p. 37. 180 Ainda no artigo acima de Figueiredo, o autor questiona em que lugar se efetuava o pagamento, se na intendência ou se o cobrador percorria cada lugarejo recolhendo as contribuições. Fica claro pelo título da lista da freguesia de Aiuruoca, e ainda pelos trechos que se seguirão, que era o cobrador que fazia as idas e vindas pelos lugares, levando os valores depois às câmaras, que ordenavam que as listas fossem feitas. FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Derrama e política..., p. 33. 181 BN, MS-580(54) D.01, I-26,04,001 – Lista da freguesia de Aiuruoca onde constam os bens que seus moradores deram ao manifesto para ao lançamento da derrama ficando o original no arquivo do Senado da Câmara de São João del Rei. [S.l.] [S.d.]. 85 � Analisemos como tais lançamentos são ricos. Primeiramente, o trecho acima nos faz conhecer o agente responsável pela arrecadação e feitura dessas listas, no caso da freguesia de Aiuruoca, o Capitão Roque de Souza Magalhães. Certamente o Capitão pertencia ao grupo local de poderio e influência da região e fora nomeado pela câmara. Como mencionado acima, ele fizera a lista “na forma da ordem que lhe enviou do Nobre Senado da Câmara de São João del Rei”, ou seja, era a câmara que o instruía e regulava o modo como devia agir na sua tarefa com a derrama. No capítulo 2, refletiremos mais sobre a atuação dos cobradores nesse período. Agora só compete apontar como a câmara volta, através de seus oficiais e por seus livros, a cuidar do lançamento e cobrança do ouro do quinto. Além disso, vemos ainda nesses lançamentos como é feita uma delimitação detalhada do lugar de cobrança desse cobrador, e ainda que os declarantes aparecem com sua situação civil, bens que possuíam e seu valor total e o valor que deviam. Os outros nomes listados, além do acima, ainda declaram sua profissão. Encontramos ainda outra lista da derrama, a Relação dos moradores e lançamentos da derrama e cargas de dinheiro pelo procurador e tesoureiro da câmara Teodósio Pereira da Silva, para a Vila Nova da Rainha, para os anos de 1764 e 1765. Tal relação traz outros pontos interessantes para que possamos refletir sobre o funcionamento do método da derrama. Vejamos como se dava a construção das listas: “Cópia e Registro das quatro Listas da derrama pertencentes a esta Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Vila Nova da Rainha, que pelo Doutor Corregedor e Intendente desta Comarca do Rio das Velhas foram remetidas aos oficiais da Câmara desta vila para a sua arrecadação as quais Listas são as que se seguem = Lista dos moradores de Vila Nova da Rainha O Reverendo Doutor Henrique Pereira vigário da dita Vila ofereceu a quantia de trinta e oito mil e quatrocentos réis 38$400 Domingos da Costa Roriz trezentos e vinte réis $320 O Capitão Lucas de Gouvea doze mil e quinhentos e trinta réis 12$530 O Alferes João José Carneiro com sua Mãe Dona Leonor de Miranda quatro mil e setecentos réis 4$700 (grifo nosso)”182 ���������������������������������������� ������������������� 182 APM, CC-1147; Microfilme 021(13/14) – Relação dos moradores e lançamentos da derrama e cargas de dinheiro pelo procurador e tesoureiro da câmara Teodósio Pereira da Silva. 1762-1765. [Vila Nova da Rainha]. 130 f. 86 � É possível destacar primeiramente que fica claro pelo trecho acima que era o Intendente da Comarca que remetia as ditas listas para os oficiais da câmara para que eles fizessem a arrecadação da dita vila. Ou seja, o Intendente delegava ao corpo local que assumisse as tarefas com a arrecadação.183 Outro ponto é que, diferente da outra lista, essa não traz a declaração dos bens dos moradores, mas a quantia que eles “ofereciam” para o pagamento da derrama. Interessante esse termo, os moradores ofereciam um valor específico, mas será que havia alguma fiscalização se esse valor realmente representava uma parcela relevante do que se possuía? Outras informações importantes que essa lista nos traz podem ser percebidas no trecho abaixo, situado no fim da listagem: “E não continha mais coisa alguma em a dita Lista que o conteúdo aqui escrito, e declarado, que eu escrivão adiante nomeado e assinado por acórdão e mandato dos oficiais da câmara aqui fiz copiar e registrar bem e fielmente e na verdade sem coisa que dúvida faça, e com a própria este Registro conferi subscrevi e assinei é concertei junto com outro oficial de Justiça abaixo assinado, em presença do Juiz ordinário desta Vila o Capitão João Gonçalves Correa, que também assinou nesta Vila Nova da Rainha em os dezesseis dias do mês de Dezembro de mil e setecentos e sessenta e quatro anos e eu Manuel da Silva Leão escrivão da Câmara o sobrescrevi assinei e consertei. (grifo nosso)”184 Os trechos em destaque apontam para duas direções. Primeiro, é reafirmado, mais uma vez, o papel da câmara quando o escrivão declara atuar “por mandato dos oficiais da câmara”, por isso ele cumpria suas tarefas “bem e fielmente”. E, em segundo lugar, é declarado que o registro era conferido junto com outro oficial, o Juiz ordinário da Vila. Veremos no capítulo 2 como esse agente desempenhava importante função na coleta dos reais quintos. Além de todos esses dados, ainda outros puderam ser descobertos referentes à “carga e receita viva” ao tesoureiro da câmara das quantias que os cobradores recebiam das listas que cobravam. Segue um exemplo: ���������������������������������������� ������������������� 183 Luciano Figueiredo também deixa claro que o poder municipal era assessorado pelo ouvidor, pelo responsável pela justiça, pelo intendente, pelo encarregado da Fazenda e pelo fiscal de cada comarca no processo todo da derrama. FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Derrama e política..., p. 32. 184 Idem. 87 � “Aos vinte e sete dias do mês de Dezembro de mil e setecentos e sessenta e quatro anos nesta Vila Nova da Rainha Comarca do Rio das Velhas em casas de morada e cartório de mim escrivão adiante nomeado e sendo aí apareceram presentes o Procurador e Tesoureiro oficial do Senado da Câmara desta vila Teodósio Pereira da Silva e o Capitão Lourenço Gomes de Macedo ambos reconhecidos de mim pelos próprios de que deu fé e sendo aí na minha presença recebeu o dito procurador Tesoureiro Teodósio Pereira da Silva da mão do dito Capitão Lourenço Gomes de Macedo como cobrador que foi da Lista da derrama desta Vila e seus subúrbios a quantia de quatrocentos trinta e seis mil e setecentos réis e da dita Lista deu em aberto uma adição da qual é devedor Bernardo dos Santos Silva da quantia de mil quinhentos e setenta réis que é o que falta por complemento de todo o importe da dita Lista que são quatrocentos trinta e oito mil duzentos e setenta réis e de como recebeu o dito procurador Tesoureiro da mão do dito cobrador a referida quantia acima declarada... que assinou comigo Manuel da Silva Leão escrivão da Câmara que o escrevi e assinei.” (grifo nosso)185 Em determinado dia, portanto, diante do tesoureiro da vila, apresentava o cobrador uma quantia específica recebida de sua lista. Essas entregas eram comuns em registros do início do século. Aqui parecem obedecer à mesma lógica. Declarava-se ainda exatamente quem ficava devendo nessa lista, aqui Bernardo dos Santos Silva, só restava dele receber para completar o “todo o importe da dita Lista”. O terceiro livro com registros sobre a derrama é o Livro de lançamento do ouro relacionado à Derrama. Além de não se conseguir localizar o local, o livro se encontra muito fragmentado e diz cobrir o período de 1760 a 1765, porém só conseguimos identificar lançamentos do ano de 1765, a partir de sua folha 8. Os ditoslançamentos seguem o seguinte padrão: “Em 8 de Janeiro de 1765 recebeu o dito Tesoureiro de João de Moura meia oitava de ouro que vai lançado no Livro da derrama desta Vila no número 1251 e de como recebeu a dita quantia assinou aqui comigo o sobredito Escrivão que o escrevi e assinei. ���������������������������������������� ������������������� 185 Ibidem. 88 � Antonio de Souza Mesquita Silvério Anacleto Vilar e Souza”186 Em determinado dia se entregava ao tesoureiro quantia relativa à derrama, quantia essa que era lançada no Livro da derrama sob determinado número. O escrivão assinava com o tesoureiro no fim do lançamento. Os demais registros seguem assim, e várias pessoas levam para o tesoureiro seu ouro devido à derrama. Por fim, temos mais um documento sobre o método para analisar. É o Livro de registro das receitas extraordinárias da Intendência da comarca do Rio das Mortes, de 1770, onde encontramos lançamento de entregas, não só do Rio das Mortes, mas de várias vilas na Intendência de Vila Rica por valores da derrama. No dia 8 de fevereiro há também uma lista de recebimentos de valores de pessoas que deviam a derrama na Vila de São João del Rei. Além disso, encontramos uma referência interessante para entendermos a dinâmica da cobrança. Vejamos: “Receita da cobrança do acréscimo, que se alcançou ter havido na derrama do ano de 1765 |inteirada a quantia, que se destinou a esta Comarca| pela imposição que fizeram os camaristas da Vila de São José excedendo a cota lançada aos moradores do seu termo, talvez em caução de alguma falta que presumirão na insubsistência de alguns dos mesmos, o qual acréscimo se manda cobrar, e remeter para a Intendência de Vila Rica por cartas de 10, e 23 de Janeiro do presente ano de 1770 de Excelentíssimo Conde General dirigidas ao Ministro desta Real Casa.” (grifo nosso)187 No trecho acima vemos uma situação extraordinária, se cobrara dos moradores da Vila de São José del Rei valor além da cota devida à derrama do ano de 1765. Quem fizera a cobrança foram os camaristas da dita Vila, “pela imposição que fizeram os camaristas”. A câmara mais uma vez cuidara da cobrança, até excedendo as expectativas de valores a serem arrecadados naquele momento. O acréscimo que se cobrara “talvez em caução de alguma falta que presumirão na insubsistência de alguns dos mesmos”, ou seja, por conta ���������������������������������������� ������������������� 186 APM, CC-2269; Não Microfilmado – Livro de lançamento do ouro relacionado à Derrama. 1760-1765. [S.L.]. 126 f. 187 AN, 0M 1427 – Livro de registro das receitas extraordinárias da Intendência da comarca do Rio das Mortes. 1770. 89 � de pensarem que ainda não se teria completado a quantia acordada, era enviado à Intendência de Vila Rica. 1.1.13 Livros de cálculos de rendimento do quinto – de 1751 em diante Os últimos documentos que agora analisamos, também confeccionados para registrar alguma atividade ligada ao quinto do ouro de Sua Majestade, trazem, em geral, cálculos e balanços sobre o rendimento do direito. Por tal razão, não trazem informações muito relevantes para nossos objetivos, mas, de qualquer maneira, cumpre apenas relatar sua existência.188 Primeiramente, temos alguns mapas de rendimentos, com resumos de informações que já constam em outros livros mencionados. O primeiro é referente ao período de 1735 a 1751 “que se cobrou por meio da Capitação dos Escravos, e Censo das Indústrias”.189 O segundo é pelo que “tem rendido o quinto” de 1751 até 1777, incluindo também as quantias da derrama que se lançaram para o complemento da “conta das cem arrobas do quinto”.190 Existem ainda alguns livros de rendimento do quinto, apenas com os números dos registros da entrada desse ouro e o total dele (extrato do principal e do quinto das parcelas do ouro das partes). São para a Comarca do Rio das Mortes, de 1782 a 1784 e para a Comarca do Serro Frio, de 1786 a 1788.191 Outros livros, dessa mesma natureza, são só de conferência do quinto, alguns de conferência com o Livro de receita diária, na Intendência, em 1772, 1776, 1782 e 1785.192 ���������������������������������������� ������������������� 188 Lembramos ainda que o exercício de analisar os montantes da arrecadação, tendo por base também esses livros citados, já foi muito bem realizado por Angelo Alves Carrara. Ver nota 88. 189 BN, I-31,30,035, C.E.H.B. no6.083 – Cálculo do rendimento do Real Quinto do ouro da capitania de Minas Gerais de 01/07/1735 até 31/07/1751 que se cobrou por meio da capitação de escravos, e censo das indústrias. Atentamos apenas que os valores para a Comarca de Vila Rica são sempre os mais expressivos. 190 BN, I-31,30,094, C.E.H.B. no13.376 – Cálculo do que tem rendido o quinto do ouro da capitania de Minas Gerais desde o 1o de agosto de 1751, até 31 de dezembro de 1777. 191 AN, 0M 1213 – Livro de registro do expediente da Casa de Fundição da comarca de [...]. 1783; AN, 0M 4151 – Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca do Rio das Velhas. 1784; AN, 0M 1094 – Livro de registro de partidas de ouro fundidas na Casa de Fundição da comarca do Rio das Mortes. 1784; AN, 0M 1166 – Livro de registro das partidas de ouro fundidas na comarca do Rio das Mortes. 1785; AN, 0M 1093 – Livro de registro de partidas de ouro fundidas na Casa de Fundição da comarca do Rio das Mortes. 1786; AN, 0M 1187 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Mortes. 1782-1784; AN, 0M 4180 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Serro Frio. 1786- 1788. 192 AN, 0M 0773 – Livro de registro de receita e despesas da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1772; AN, 0M 2814 – Livro de registro de receita e despesas da Intendência da comarca do Rio das Mortes. 90 � Por fim, existem algumas certidões e ofícios de rendimento do quinto, resultantes do exame dos livros de receita diária, e que oferecem também apenas valores da arrecadação;193 e algumas ordens e comunicados informando valores desse rendimento e o seu trajeto até que chegasse a Lisboa (da Junta da Administração da Real Fazenda da Capitania de Minas Gerais o ouro do quinto seguia para a Junta da Fazenda da Cidade do Rio de Janeiro e depois para o Real Erário em Lisboa).194 Todos esses documentos abrangem período posterior à segunda metade da década de 1770. 1.2 Em “cofres com quatro chaves”: como se guardava o ouro dos reais quintos Em diferentes conjunturas de arrecadação, o ouro do quinto sempre foi guardado com muito cuidado, até que completasse seu destino aos cofres de El Rei. Uma análise detida dos livros dos quintos também nos revela esse importante aspecto da dinâmica do processo de cobrança do direito. É visível, através dos registros que analisamos acima, a grande atenção conferida a essa etapa de guarda do metal, bem como a preocupação que essa tarefa fosse bem desempenhada. Para as primeiras décadas de cobrança, quando esta era feita pelas câmaras, o ouro ficava guardado em seus cofres, até que fosse para a Intendência de Vila Rica e de lá para ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������� 1776; AN, 0M 4116 – Livro de registro de conferência do Quinto do ouro. 1782; AN, 0M 4069 – Livro de registro de conferência do Quinto do ouro da comarca de Ouro Preto. 1785. 193 BN, MS-580(71) D.10, I-26,23,005 No006 – Certidões sobre o exame do livro da receita diária do real quinto de 1783 e 1789. Vila de São João del Rei, 31/12/1783-05/01/1790; BN, MS-580(72) D.16, I- 26,24,015 No002 – CASTRO, Francisco de Morais e. Ofício a Sua Majestade informando sobre a conduçãodos direitos régios arrecadados pela intendência no segundo trimestre de 1796. São João del Rei, 22/07/1796. Inclui três relações e uma certidão; BN, MS-580(36) D.11, I-25,08,003 No001 – Certidão de Bernardo da Silva Ferrão confirmando constar no livro da receita diária do Real quinto o rendimento deste direito senhorial de 1789. Vila de São João del Rei, 02/01/1791; BN, MS-580(36) D.12, I-25,08,003 No002 – Certidão de Bernardo da Silva Ferrão confirmando constar no livro da receita diária do Real quinto o rendimento deste direito senhorial no último bimestre de 1781. Vila de São João del Rei, 04/01/1791. 194 BN, MS-580(42) D.06, I-25,17,006 – Ordens do Marquês de Angeja à Junta de Administração da Real Fazenda de Minas Gerais para que continuem as remessas dos cabedais que estavam no cobre e dos rendimentos em ouro dos reais quintos para o Rio de Janeiro. Lisboa, 08/05/1787. Em anexo, cópias dos referidos documentos. Registrado a f. 86 do livro 2º de registro de ordens a 11/08/1778. Vila Rica; BN, MS- 580(56) D.04, I-26,06,001 No004 – Ordem do marquês de Angeja à Junta da Administração da Real Fazenda da Capitania de Minas Gerais determinando a cobrança do pagamento dos quintos reais. Lisboa, 18/06/1777. Documento acompanhado de 2ª via, registrado na folha 112 do livro 1º do registro de ordens, escritas pelo contador Luís José de Brito; BN, MS-580(56) D.11, I-26,06,002 No003 – Ordem do marquês de Angeja à Junta da Administração da Real Fazenda da Capitania de Minas Gerais determinando a verificação do recebimento dos cabedais régios e dos quintos das quatro comarcas da capitania. Lisboa, 11/05/1778; MS- 580(56) D.15, I-26,06,002 No007 – Ordem do marquês de Angeja à Junta da Administração da Real Fazenda da Capitania de Minas Gerais determinando a prestação de contas das despesas do subsídio literário e a remessa dos rendimentos do real quinto. Lisboa, 15/05/1778. 91 � Portugal. O poder local, portanto, através das câmaras, cumpria concretamente a tarefa de guarda do metal pelo tempo que fosse necessário, até que as remessas fossem feitas. E esse ouro era guardado com muita segurança, como já comprovamos em estudos anteriores.195 Vê-se no primeiro inventário de bens móveis da câmara da Vila do Carmo de 1718 a referência a “um cofre grande de jacarandá com cantoneiras e dobradiças grandes de ferro com três fechaduras e três chaves que serviu de recolher o ouro dos quintos, no qual se acham ainda de sobras do ano passado de mil e setecentos e dezessete as oitavas que em seu lugar consta”196. Cofre de madeira de ótima qualidade com fechaduras, chaves e toda a segurança possível para receber o ouro dos quintos. Nele ficavam ainda, como se destaca acima, as sobras de um ano para o outro. Nas Contas do ouro que Recebeu o Tesoureiro dos Quintos dos Provedores que o Cobraram em seus distritos, em outro livro para a Vila do Carmo, há relatos de somas de adições de cobranças que ficavam por vezes nos cofres da câmara para lançamentos e cobranças futuras, “pelo ouro que se acha no cofre dos quintos desta câmara 108 oitavas e 1/2”.197 Para o período de vigência das casas de fundição encontramos outra referência de como o ouro era guardado. No Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição de Sabará pelo tesoureiro André Moreira de Carvalho, de 1751, época em que as casas estavam novamente sendo implantadas, vê-se a menção a “um cofre grande chapeado com quatro chaves em que se recolheu o Rendimento do Quinto” e “dois ditos mais pequenos com três chaves que serviram no tempo do método da Capitação”.198 As carregações ao tesoureiro da Casa de Fundição estudadas anteriormente também revelam que as oitavas do real quinto se guardavam mesmo no cofre das quatro chaves, logo após que as partes entregassem o ouro para fundir.199 Conhecemos, dessa forma, que os quintos passam a ser guardados em um cofre grande de quatro chaves, mas que anteriormente ficavam em cofres menores, de três chaves. Os cofres das décadas iniciais de arrecadação, ���������������������������������������� ������������������� 195 FARIA, Simone Cristina de. op. cit. 196 AHCMM, Códice 664 – Miscelânea (Foros, termos de fiança, registro de cartas, treslados de bandos...) – 1711-1750, f. 47v, 48. 197 AHCMM, Códice 200 – Livros de quintos: 1723-1726, f. 25v. 198 APM, CC-1093; Microfilme 014(7/7) 015(1/6) - Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição de Sabará pelo tesoureiro André Moreira de Carvalho. 1751-1758. Sabará. 91 f. 199 APM, CC-2268; Não Microfilmado – Livro de registro de receitas do Quinto do ouro da Intendência e Casa de Fundição da comarca de Sabará. 1755-1756. Sabará. 310 f. 92 � como vimos, eram também de três chaves.200 Percebemos que com as casas de fundição, portanto, mais segurança é imprimida aos instrumentos que deviam receber o rendimento do precioso metal. Nas décadas seguintes, o cofre das quatro chaves continua sendo utilizado. No Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto, de 1771, como também nos outros das demais comarcas, vemos tal confirmação: “E abrindo pelo Tesoureiro desta Casa o cofre das quatro chaves em que se costuma recolher e guardar o rendimento do mesmo Real Quinto.”201 Por certo, como se menciona, essa prática era costumeira, de recolher e guardar o ouro do quinto no dito cofre, e atravessava décadas. Por fim, destacamos, e até já foi mencionado acima para outros fins, que o cuidado de guarda não se dava somente em relação ao ouro, mas com as listas que eram confeccionadas para a coleta desse ouro. Na Lista da freguesia de Aiuruoca onde constam os bens que seus moradores deram ao manifesto para ao lançamento da derrama ficando o original no arquivo do Senado da Câmara de São João del Rei, vemos claramente, através inclusive de seu título, que foram feitas cópias dos róis dos moradores de São João del Rei, mas que os originais ficavam guardados no arquivo da câmara da dita vila. Tal fato nos revela bem mais do que o cuidado em se guardar no arquivo as listagens, cuidado muito significativo por sinal, como já dissemos, mas uma grande atenção e preocupação com o bom funcionamento da cobrança em si, com a preservação das informações que permitiriam o sucesso da mesma.202 1.3 “Para conduzir, escoltar e entregar na Real Intendência de Vila Rica”: como se acondicionava e conduzia o ouro dos reais quintos Os livros dos quintos ainda permitem, uma vez detidamente analisados, que conheçamos informações cotidianas sobre o transporte do ouro do quinto nos seus diferentes estágios. Analisaremos primeiramente o processo de condução, escolta e entrega do dito ouro na Real Intendência de Vila Rica, primeiro destino de todo o metal arrecadado ���������������������������������������� ������������������� 200 Uma representação de 1783 dizia que as três chaves deviam ser entregues uma ao provedor, uma ao tesoureiro e outra ao escrivão. AHTCP, Livro 4066 Erário Régio, 1783, f. 86. 201 AN, 0M 0252 – Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1771. 202 BN, MS-580(54) D.01, I-26,04,001 – Lista da freguesia de Aiuruoca onde constam os bens que seus moradores deram ao manifesto para ao lançamento da derrama ficando o original no arquivo do Senado da Câmara de São João del Rei. [S.l.] [S.d.]. 93 � em quaisquer das vilas das Minas. Veremos, assim, como se fazia o acondicionamento para essa condução, como se levavam os caixotes de ouro pelos áridos e perigosos caminhos mineiros, como se realizava uma escolta segura nesses trajetos e como, finalmente, se entregava o ouro na sede do governo da Capitania. Pretendemos seguir essa análise de forma cronológica, acompanhando, através das décadas de arrecadação do ouro, como se realizouo seu transporte na vigência de cada método de cobrança. Os primeiros relatos que temos conhecimento são do início da segunda década de extração do ouro, período em que os diversos cuidados ligados ao ouro do quinto estavam sob responsabilidade de poderosos locais e das câmaras municipais de cada vila. No Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação, de São José del Rei, feito nas “Casas da Câmara” da dita vila, no período compreendido entre 1720 e 1723, é possível encontrar um traslado de um conhecimento da Real Fazenda da “carregação que fez o juiz ordinário Silvestre Marques da Cunha do importe dos Reais quintos do ano de 1720 para o de 1721 e de 1721 para 1722”. Nesse termo de conhecimento, que ao que tudo indica era uma espécie de recibo feito pela Real Fazenda em Vila Rica na ocasião da entrega de determinada quantia de ouro do quinto, conhecemos que o juiz ordinário de São José é quem entrega os valores do quinto dos anos mencionados. O juiz, representante do poder local da dita vila, é, portanto, o condutor do quinto em mãos do Tesoureiro Geral da Fazenda Real, Lourenço Pereira da Silva. O dito tesoureiro, depois de lhe ser entregue essa receita, fazia esse termo de comprovação da mesma e assinava juntamente com o escrivão da Fazenda, em primeiro de outubro de 1722.203 Em registros de 1723 para a Vila do Carmo, também encontramos informações semelhantes de entregas feitas ao mesmo tesoureiro da Fazenda, Lourenço Pereira da Silva. Vejamos o trecho do conhecimento, transcrito do Livro de quintos – 1723-1726 de Vila do Carmo: “Cópia e Registro dos conhecimentos em forma do recebimento da Fazenda Real no ano de 1723. A folha 30v do Livro que serve como Tesoureiro da Fazenda Real Lourenço Pereira da Silva lhe ficam carregados em receita em vinte e dois de outubro de mil setecentos e vinte e três, trinta e sete mil e noventa e sete oitavas de ouro em pó que recebeu do Procurador da Câmara o Licenciado Manuel Ferraz por conta dos ���������������������������������������� ������������������� 203 APM, CC-1046; Microfilme 007(9/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1720-1723. São José. 87 f. 94 � quintos vencidos em Julho do presente ano de setecentos e vinte e três de cuja receita se lhe passou este conhecimento em forma para a sua conta que o dito Tesoureiro assinou comigo Antônio de Seixas escrivão da Fazenda Real em vinte e dois de outubro de 1723.” (grifo nosso)204 Através do excerto acima, temos notícia que a entrega ao dito tesoureiro, dos quintos vencidos naquele ano de 1723, é feita, dessa vez, pelo procurador da câmara de Vila do Carmo, o Licenciado Manuel Ferraz. Dessa receita também se passava um termo de conhecimento assinado pelo mencionado tesoureiro e pelo mesmo escrivão da Fazenda. Em estudos anteriores detectamos, para a dita vila, que se faziam umas duas remessas como essa por ano para a Real Fazenda em Vila Rica.205 Nesse ano de 1723, no entanto, se levaram o ouro três vezes à dita Provedoria. O Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo cobrador João Henrique de Alvarenga, de Pitangui para o período de 1718-1724, nos revela ainda que o referido cobrador, João Henrique de Alvarenga, entregava aos oficiais daquela câmara, valores referentes a diversas listas “para remeterem para a Provedoria Geral da Vila do Ouro Preto”. Em 1723, por exemplo, entregava quantia referente a 865 escravos e 19 lojas e vendas e dos ditos oficiais da câmara recebia recibo. Assim aconteceu também para os anos de 1724 e 1725.206 Para encerrar a reflexão da condução à Vila Rica nesse período, destacamos apenas mais uma entrega, feita ao tesoureiro da Fazenda Real Francisco de Almeida de Brito em 1721 pela Vila do Carmo: “folha 54 do Livro da Receita que serve como Tesoureiro da Fazenda Real desta Comarca Francisco de Almeida de Brito lhe ficam carregadas em receita trinta e duas mil duzentas e trinta e cinco oitavas de ouro que recebeu dos oficiais da Câmara da Vila do Carmo por mão do Tesoureiro dela Manuel Cardoso Cruz por conta dos quintos da dita Vila e seu termo pertencentes ao ano que findou em julho de mil setecentos e vinte de que lhe passei este conhecimento em forma feito por mim ���������������������������������������� ������������������� 204 AHCMM, Códice 200 – Livros de quintos: 1723-1726, f. 25v. 205 FARIA, Simone Cristina de. op. cit. 206 APM, CC-1038; Microfilme 006(5/5) 007(1/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo cobrador João Henrique de Alvarenga. 1718-1724. Pitangui. 152 f. 95 � escrivão da Fazenda Real, e assinado pelo dito Tesoureiro nesta Vila Rica aos dez dias do mês de julho de 1721 (...)” (grifo nosso)207 Citamos mais esse termo de conhecimento para destacar que, por mais que fosse semelhante aos demais, fora feito de uma entrega ao tesoureiro da Real Fazenda pelos oficiais da câmara por mão do tesoureiro da mesma. Ou seja, além do juiz ordinário, do procurador, também cabia ao tesoureiro da câmara fazer as entregas em Vila Rica dos quintos de sua vila. Passando agora para o período de retorno das casas de fundição, o primeiro documento que analisamos se encontra no Livro de receita e despesas da Real Casa de Fundição de Sabará. Trata-se do recebimento, pelo tesoureiro da Real Casa da Fundição de Sabará, André Moreira de Carvalho, de três caixotes de solimão encourados para o quinto desta casa do Tesoureiro da Casa da Fundição da Comarca de Vila Rica, Domingos de Morais. Quem conduziu esses caixotes fora o Soldado de Dragões Antonio de Azevedo, e da referida entrega se passava recibo, juntamente com o escrivão, em seis de setembro de 1751.208 Alguns detalhes importantes podem ser destacados por conta dessa entrega. Primeiro, que não se tratava exatamente da entrega do rendimento do quinto, mas do envio de caixotes pela Casa de Fundição de Vila Rica para que a Comarca de Sabará conduzisse seu quinto. Segundo, que temos o primeiro indício de como era acondicionado o ouro do quinto para a condução: em caixotes cobertos por couros. Mas prosseguindo, ainda para esse período temos outros registros de como esse ouro seguia para Vila Rica. No Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Serro Frio, de 1753 a 1755, vemos que o ouro da Vila do Príncipe é remetido para Vila Rica pelo Cabo de Esquadra Thomás da Costa Salvado, e por dois soldados, “em seis borrachas cozidas e lacradas com as Armas Reais”. Dessa entrega se fazia um termo de conhecimento.209 O ouro seguia, portanto, também em borrachas costuradas e com o lacre da Coroa, e era levado por soldados dragões. Mais referências nos ajudarão a entender esse processo. ���������������������������������������� ������������������� 207 AHCMM, Códice 648 – Livro de recebimento dos quintos de ouro – 1721-1735, f. 18v. 208 APM, CC-1091; Microfilme 014(5/7) – Livro de receita e despesas da Real Casa de Fundição de Sabará. 1751-1757. Sabará. 54 f. 209 AN, 0M 1626 - Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Serro Frio. 1753-1755. Vila do Príncipe, 195 f. 96 � Vejamos como dados presentes no Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição pelo tesoureiro Tomás de Aquino César de Azevedo, 1752-1756, podem ser valiosos para compreender esse transporte: “Diz Miguel Inácio Giraldes Cabo de Esquadra de Dragões, que ele veio do Serro do Frio a escoltar os Reais quintos daquela Comarca, e do Sabará para esta Vila Rica e fez despesa de seis oitavas, e quatro vinténs de ouro com os cavalos de Sua Majestade da dita partidos como mostra pelo Rol junto (...) Rol dos gastos que fiz com cinco cavalos de Sua Majestade em que vim montado, e os Soldados Francisco José de Almeida, José da Costa, Manuel PeixotoFreire, e um cavalo supra numerário, que vinha nele o Soldado Torquato José com a qual partida saí do Serro Frio a Escoltar os Reais quintos da dita Comarca, e do Sabará para esta Vila Rica e municiei os ditos cinco cavalos desde o dia 21 de Agosto a noite até o dia 27 do dito de manha, e do dia 27 a noite até 2 de Setembro de manhã municiei três cavalos por voltarem para o dito Serro em Caminho na guarda do Senhor Governador, Manuel Peixoto, e o Cavalo supra numarario em que vinha Torquato José tudo no presente ano de 1753 (...)” (grifo nosso)210 O trecho acima nos revela bem mais que procedimentos de remessa, mas detalhes do cotidiano do funcionamento das tarefas ligadas ao ouro. Primeiro, sublinhamos mais uma vez que eram os oficiais de dragões que nesse período faziam a escolta dos reais quintos, nos “cavalos de Sua Majestade” (vemos inclusive informações detalhadas quanto à alimentação desses cavalos usados para a escolta). As referências sobre isso são inúmeras nesse período. No entanto, para se precaver dos perigos dos caminhos, por vezes os poderosos locais foram chamados a prestar ajuda na tarefa. Em certa ocasião, como destaca Pedro Taques de Almeida Paes Leme, estando já pronta a escolta dos soldados dragões “para a conduta das arrobas de ouro do real quinto até Vila Rica, foi avisado o conde que só devia temer um corpo de conspiração traidora, que se ocultava para roubar os quintos desta conduta, para cuja segurança devia reforçar o corpo de guarda”. Assim, o governador ���������������������������������������� ������������������� 210 APM, CC-1096; Microfilme 015(3/6) - Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição pelo tesoureiro Tomás de Aquino César de Azevedo. 1752-1756. Tejuco. 466 f. 97 � mandou chamar o coronel Antônio Pires de Campos, que utilizou de índios bororós para “incorporar com a conduta dos quintos encarregada ao cabo dos dragões.”211 O próximo documento a ser analisado encontra-se no Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Velhas, de 1754-1755. O trecho é longo, mas merece ser citado na íntegra pela riqueza de informações que nos oferece: “Termo de remessa do ouro dos Reais Quintos do quarto ano de Fundição e das Escovilhas do mesmo ano. Aos vinte o oito dias do mês de Agosto de mil setecentos cinquenta e cinco anos nesta Real Intendência e Fundição do Sabará, estando nela o Desembargador Intendente Domingos Nunes Vieira e o Fiscal o Capitão José de Souza Pinto e Tesoureiro André Moreira de Carvalho e o Escrivão da Conferência Francisco Xavier Ferraz de Oliveira eu Escrivão da Receita e da Despesa abaixo nomeado, perante o Ministro, Fiscal e mais oficiais sobreditos vieram [ ] presentes o Cabo de Esquadra Vicente Rodrigues da Guerra e os Soldados Dragões Jerônimo José Machado e Anastácio da Silva que deu fé de serem os próprios e sendo presentes receberam e tomaram entrega de trinta e seis arrobas trinta libras um marco duas onças quatro oitavas e vinte três grãos de ouro importância dos Reais Quintos sendo pesados arroba por arroba, à vista e presença dos ditos soldados pelo marco da Casa, e metidos em trinta e sete borrachas, a saber de número um até trinta e seis com uma arroba cada uma [ ] do número trinta e sete com trinta libras um marco duas onças quatro oitavas e vinte três grãos de ouro em pó limpo em que não tiveram dúvida tanto no peso quanto na limpeza do mesmo ouro e se obrigaram o dito Cabo de Esquadra Vicente Rodrigues da Guerra e os Soldados Dragões Jerônimo José Machado e Anastácio da Silva a conduzirem o dito ouro daqui para a Real Casa da Fundição de Vila Rica (...) para se guardar [ ] no Tesouro geral da dita Real Intendência por ser pertencente o dito ouro aos Reais quintos pelo Rendimento do quarto ano do atual sistema que findou proximamente no dia trinta e um de Julho do presente ano e as ditas trinta e sete borrachas vão cozidas nas bocas e incluídas em dezenove caixotes pregados e encourados. E outrossim receberam mais os ditos soldados condutores (...) uma barra de ouro (...) e a remeterem conhecimento em formas de todo o Recebimento para a conta do Tesoureiro desta Real Casa (...) e descarga deles ditos condutores que foram nomeados para esta condução pelo Ilustríssimo ���������������������������������������� ������������������� 211 PAES LEME, Pedro Taques de Almeida. Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1980, Tomo II, p. 215. 98 � Governador dessa Capitania (...) E para constar de todo referido e da obrigação dos ditos Cabo de Esquadra e Soldados Condutores mandou o Desembargador Intendente fazer este termo que eles assinaram (...)” (grifo nosso)212 Vejamos as informações que podemos deter com a análise desse termo de remessa. A princípio, destaca-se a quantidade de agentes envolvidos em todo esse processo. Na ocasião em que o cabo de esquadra e os soldados dragões comparecem à Casa de Fundição para receberem o material que deviam carregar até Vila Rica, estavam presentes diversos oficiais: o desembargador, o fiscal, o tesoureiro, o escrivão da conferência e o escrivão da receita e despesa. Juntos todos eles conferiam os valores a serem conduzidos, “arroba a arroba”. O cuidado com a conferência antes da condução é evidente. Destaca-se também que esse ouro era acondicionado em “trinta e sete borrachas”. Mencionamos anteriormente que essas borrachas eram usadas para se colocar o quinto, mas aqui algumas referências são mais detalhadas: “as ditas trinta e sete borrachas vão cozidas nas bocas e incluídas em dezenove caixotes pregados e encourados”, ou seja, o ouro ia dentro das borrachas que costuradas nas bocas iam dentro de caixotes, pregados e cobertos de couro por cima. Em outro livro ainda para a vila de Sabará vemos que, por vezes, essas borrachas recebiam identificações do lugar.213 Nesse momento cumpre mencionar que tais procedimentos obedeciam instruções que vinham do Reino, como se pode constatar pelo trecho de um Livro do Erário Régio, onde são lembradas tais recomendações: “Nenhum obstáculo pode haver para que se não pratique o método de que girem em Minas as borrachas, ou cartuchos, com suas guias apensos, como bilhetes de banco porquanto sendo marcadas estas borrachas, ou cartuchos com o sinete Real, no meio, e no fundo, o qual deve ser aberto na Casa da moeda desta Corte, com a isenção no circuito, que declare ser do Quinto Real de tal Vila. Em cada uma das borrachas, ou cartuchos, se deve declarar na sua superfície as oitavas de ouro quintado que tem dentro em si, e que com a tara pesa tanto lavrando-se a fui do modo seguinte.”214 ���������������������������������������� ������������������� 212 AN, 0M 3479 - Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Velhas. 1754-1755. Sabará, 196 f. 213 “Com a marca que diz = Sabará Quinto =”. AN, 0M 1674 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca de Ouro Preto. 1768. 214 AHTCP, Livro 4066 Erário Régio, 1783, f. 95. Em outro documento do mesmo arquivo em Portugal, encontramos ainda representações do Intendente Geral do Rio de Janeiro para o Ouvidor da Capitania 99 � Outro ponto a destacar, ainda com base no longo trecho acima sobre o ouro que devia ser conduzido da vila de Sabará para Vila Rica, é que os oficiais que faziam a condução, soldados dragões, eram nomeados pelo governador. No período de funcionamento das casas de fundição, essa prática parece constante, de soldados dragões conduzirem os quintos e/ou escoltarem a sua condução. Em momentos anteriores não acontecia dessa maneira. Vimos que no período que as câmaras cuidavam da arrecadação eram seus oficiais quem faziam essatarefa de condução. No capítulo 2 trataremos melhor dessas questões. Por fim, é preciso enfatizar que termos de remessa como o acima são comuns a todas as vilas e podem ser encontrados nos diversos livros de registro de receita do quinto do ouro, a partir da segunda metade do século. Esses termos se inserem ainda em uma sequência de outros documentos a ele relacionados, são antecedidos pelos mandados para que se faça a condução, quando o Intendente convoca os referidos condutores para fazer a condução; e são sempre seguidos pelos conhecimentos trazidos pelos condutores dessa entrega em Vila Rica. As referências sobre os que conduziam também podem ser encontradas nos diversos livros de receita e despesa para toda a Capitania. Um mapeamento completo dos condutores dos quintos e demais oficiais envolvidos nesse processo será feito no capítulo 2. Outras fontes, além dos registros seriados dos quintos analisados até o momento, podem também nos trazer informações relevantes sobre esse processo de remessa, quais sejam, ofícios, cartas, entre outros. Não analisamos detidamente esse tipo de documentação, mas podemos apontar algumas delas que trazem informações importantes. Para a Vila do Príncipe, em 15 de outubro de 1771, encontramos uma carta do Ouvidor e Intendente do ouro, Francisco de Souza Guerra e Araújo, defendendo-se da acusação de sonegação de vendas ocultas. O ouvidor diz na referida carta que “estando a expedir a remessa dos quintos” se insinuava que teriam entrado na Intendência várias parcelas de vendas ocultas do ano de 1769 a 1770, e que delas não havia declarações nos conhecimentos da remessa. Segundo ele, nas três remessas feitas estariam incluídos o montante, e que não haveria erro nem dele nem do Capitão João da Costa. O ouvidor ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������� recomendando que as borrachas deviam ir acompanhadas das suas guias e números ainda que pertencessem ao mesmo dono e que o mesmo devia se praticar para as barras das casas de fundição das Minas. AHTCP, Livro 4071 Erário Régio, 1763, n. 35. 100 � arroga-se de “integridade, pureza, e zelo” dizendo não merecer as ditas acusações pois “sabemos procurar, e não demorar um instante o ouro de Sua Majestade”.215 Mais do que indício importante para as investigações afeitas ao tema do descaminho, essa carta revela os possíveis impasses, erros e/ou conflitos existentes no processo de remessa do ouro para a Coroa, nos seus diferentes estágios. Certamente a ocasião da remessa era um momento propício para aqueles que tinham o objetivo de desencaminhar o ouro do quinto e fontes como essa poderiam lançar outras luzes sobre os meandros dessa atividade. 1.4 “Em naus de guerra que hão de comboiar a frota”: como se remetia o ouro dos reais quintos para o Rio de Janeiro e de lá para o Reino As remessas de ouro para a Coroa garantiram grande fatia das receitas do Reino,216 elevando a região no nível das atenções do Império e conferindo centralidade declarada para o futuro econômico português.217 Uma série de estudos têm conferido atenção às remessas do ouro da Coroa ou de particulares, bem como o seu transporte, logo após que o precioso metal fizesse essa passagem para o lado de lá do oceano, e assim uma parcela chegasse ao destino dos cofres da realeza de Portugal. Mas “fiscalizar bem a entrada de ouro era tão importante quanto registrar os pormenores de sua produção na Colônia e de seu transporte até Portugal.”218 No entanto, existem enormes lacunas em estudos que atentem para as remessas e transporte do ouro antes que ele atravessasse o Atlântico. As reflexões que vimos fazendo e que continuaremos agora seguem nessa direção, por acreditarmos o quanto elas são valiosas para o conhecimento mais geral da dinâmica da arrecadação do ouro do quinto. O segundo estágio do transporte do ouro do real quinto, portanto, é o trajeto que ele fazia da Real Intendência de Vila Rica para o Rio de Janeiro, de onde seguia “em naus de ���������������������������������������� ������������������� 215 BN, MS-580(52) D.65, I-26,01,010 – ARAÚJO, Francisco de Souza Guerra e, Ouvidor e Intendente do ouro. Carta defendendo-se da acusação de sonegação das declarações de vendas ocultas. Vila do Príncipe, 15/10/1771. 216 COSTA, Leonor Freire; ROCHA, Maria Manuela; SOUSA, Rita Martins de. O ouro do Brasil: transporte e fiscalidade (1720-1764). Disponível em: www.abphe.org.br/congresso2003/Textos/Abphe_2003_83.pdf -, p. 1-23, p. 1. 217 FURTADO, Júnia Ferreira. Dom Luis da Cunha e a centralidade das minas auríferas brasileiras. Anais de História de Além-Mar, Lisboa, 2007, Vol. VIII, p. 69-87, p. 69. 218 COSTA, Leonor Freire; ROCHA, Maria Manuela; SOUSA, Rita Martins de. Primeira parada: Portugal. Dossiê ouro. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, novembro 2008, ano 4, no 38, p. 22- 25. O estudo mais recente sobre o tema é: COSTA, Leonor Freire; ROCHA, Maria Manuela; SOUSA, Rita Martins de. O ouro do Brasil. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, S. A., 2013. 101 � guerra” para os cofres do rei português. Analisaremos detalhadamente agora, também tendo por base informações coletadas nos diversos livros dos quintos estudados, como todo esse processo se realizava. Cumprirá entender quais procedimentos deveriam ser tomados em todas as etapas dessa condução para que o metal seguisse o rumo que devia seguir. Desde o ano de 1701 podem-se encontrar referências ao processo de remessa do ouro mineiro ao Rio de Janeiro, de onde se encaminharia para os cofres da Coroa portuguesa. Vejamos: “1701 Livro No 15 Remessa f. 68vo Abril 18 Em virtude da Portaria do Senhor Artur de Sá e Menezes Governador da Capitania do Rio de Janeiro e terras do Sul Total da Remessa 2744 oitavas Que procede das datas de Terras Minerais que pertenceram à Real Fazenda 1656 Foi condutor o Secretário do Governo José Rodrigues Perdigão Que procede do Real Quinto 1088 2744 8as Foi condutor o Ajudante Pedro Dias Assinaram o termo de Recebimento a f. 68 em que se obrigaram a fazer entrega na Provedoria do Rio de Janeiro ao Tesoureiro dela à ordem do Provedor da mesma Luis Lopes Pegado Serpa.”219 O trecho acima, o primeiro nesse sentido, é um termo de remessa onde se nomeiam condutores para o transporte do ouro das datas e do real quinto para a Provedoria do Rio de Janeiro. Vê-se que as referidas quantias seguiriam em mãos do Secretário do Governo José Rodrigues Perdigão e do Ajudante Pedro Dias e a eles se obrigavam fazer a dita entrega ao tesoureiro da Provedoria. No mesmo livro onde esse lançamento é feito, existem dados sobre a remessa de 1701 até 1713, com ausências para alguns anos. Em geral, no fim dos lançamentos de cada ano havia um termo como o acima onde se nomeava um condutor ���������������������������������������� ������������������� 219 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 102 � para a entrega na Provedoria da Fazenda do Rio de Janeiro do ouro do rendimento do quinto. Em 1709, encontramos uma indicação interessante sobre essa condução. Nesse ano, por conta da condução do rendimento do quinto do ouro quepagaram os vendedores de gado vindos do sertão, é nomeado Antonio do Rego e Sá por Manuel Nunes Viana.220 Manuel Nunes Viana, como bem se sabe, era homem poderoso e influente nas Minas e, ao que tudo indica, desempenhava também a tarefa de nomear aqueles que deviam levar o ouro do quinto para o Rio de Janeiro. Assim provavelmente fez para todo esse período. Através de uma certidão de entrega de ouro em pó da Alfândega da Capitania do Rio de Janeiro, em 20 de abril de 1718, também temos conhecimento de como o ouro do quinto era conduzido. O Almoxarife da Fazenda Real, João da Costa de Matos, recebera 3206 oitavas de ouro em pó de Antônio Moreira da Cruz “pertencentes aos quintos Reais de Sua Majestade que Deus guarde da dita Comarca do ano de setecentos e dezesseis para o de setecentos e dezessete”. Tratava-se do ouro do quinto da Comarca do Rio das Mortes, que era lançado no Livro da Receita das Cargas Extravagantes no Rio de Janeiro. Além, portanto, de passarem o recibo da entrega, no Rio de Janeiro também havia registros de controle dos montantes dos quintos recebidos das Minas.221 Para o ano de 1723 encontramos uma referência esclarecedora de variados detalhes sobre a condução. Vejamos: “A Fol. 2 do Livro 4 do Manifesto da Nau de Guerra Nossa Senhora da Vitória ____ consta entregar no Cofre dela o Capitão Francisco dos Santos quarenta e nove borrachas encapadas e numeradas ___ embrulho em que diz vão vinte e quatro arrobas e três libras e setenta e três oitavas e dezenove grãos de ouro em pó, e assim mais em dinheiro de contado vinte e dois contos e três mil e duzentos réis ___ com a marca a margem, e declarou fazerem por conta, e risco de Sua Majestade que Deus guarde dos seus Reais quintos que recebeu a entregar por ordem de Conselho Ultramarino ____ de que se lhe fará entrega na Casa da Moeda da Cidade de Lisboa Ocidental levando-nos Deus a salvamento, e à dita Nau, e por ser verdade ���������������������������������������� ������������������� 220 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 221 BN, MS-580(3) D.05, I-10,04,004 No001 – Alfândega da Capitania do Rio de Janeiro. Certidão de entrega de três mil e duzentas e seis oitavas de ouro em pó, entregues por Antônio Francisco da Silva, a mando de Antônio Moreira da Cruz, referentes aos quintos reais do Rio das Mortes. Rio de Janeiro, 20/04/1718. 103 � assinamos três deste teor, na forma do Alvará de Sua Majestade, que um cumprido, os mais não terão efeito em Julho de 1723 de &. Luis de Abreu Prego Rafael Freire de Azevedo [Mardoz] da Silva Antônio Rodrigues”222 Primeiramente é preciso destacar o que mencionamos no início desse item, que o ouro dos quintos seguia em naus de guerra. Na condução mencionada acima, a Nau de Guerra Nossa Senhora da Vitória recebia em seus cofres quarenta e nove borrachas com prováveis “vinte e quatro arrobas e três libras e setenta e três oitavas e dezenove grãos de ouro em pó”, que deviam ser entregues na Casa da Moeda de Lisboa, certamente o destino de todo o ouro do quinto levado a Portugal. Os trechos “por conta, e risco de Sua Majestade que Deus guarde dos seus Reais quintos” e “levando-nos Deus a salvamento”, nos fazem refletir sobre os perigos da travessia e os riscos que o ouro dos quintos poderia correr. Só o fato de serem conduzidos em naus de guerra já expressa o cuidado com sua condução e a segurança que o transporte de tamanha riqueza requeria. Nesse mesmo documento, há ainda outra ordem de 20 de maio de 1725. O Tesoureiro da Fazenda Real, o Sargento Mor Lourenço Pereira da Silva, devia entregar logo a Pedro Clemente, condutor dos Reais Quintos, as “vinte e quatro arrobas três libras setenta e três oitavas e dezenove grãos de ouro” dos quintos “de que remetem para o Rio de Janeiro para se embarcarem na Nau de Nossa Senhora da Vitória”. O dito Pedro Clemente assinava conhecimento de recibo e levava “com conta as sobreditas quantias”. Entende-se, portanto, que Pedro Clemente era o responsável direto por essa condução que ia na dita nau. No Rio de Janeiro ele devia entregar a quantia ao Capitão de Mar e Guerra, Luis de Abreu Prego, e ao Mestre e Capitão Tenente da dita nau “para o receberem aos cofres e levarem a Sua Majestade”. Em 18 de junho de 1729, Pedro Clemente entrega conhecimento dessa condução em Vila Rica.223 Destaca-se o grande intervalo de anos entre ���������������������������������������� ������������������� 222 BN, MS-580(38) D.04, I-25,11,001 No004 – Ordem do Dr. Berquó para que o tesoureiro da Fazenda Real, Lourenço Pereira da Silva, entregue ao condutor dos reais quintos, Pedro Clemente, os mantimentos e ouro a serem enviados pela nau Nossa Senhora da Vitória a Lisboa. Vila Rica, 20/05/1725. 223 BN, MS-580(38) D.04, I-25,11,001 No004 – Ordem do Dr. Berquó para que o tesoureiro da Fazenda Real, Lourenço Pereira da Silva, entregue ao condutor dos reais quintos, Pedro Clemente, os mantimentos e ouro a serem enviados pela nau Nossa Senhora da Vitória a Lisboa. Vila Rica, 20/05/1725. O condutor Pedro Clemente fez outras conduções como essa, e seguindo todos esses procedimentos mencionados, em 1729 104 � a condução e a entrega do conhecimento, a ser melhor investigado. No entanto, parece ter ficado claro a forma como essa entrega se processava. Ainda para tal período, encontramos outra referência que nos revela sobre os procedimentos com o acondicionamento do ouro que seguia nessa etapa de transporte. Vejamos a citação: “O Tesoureiro da Fazenda Real o Sargento Mor Lourenço Pereira da Silva compre as niagens, fio, cera, lacre, e mais aviamentos necessários para se encaparem, cozerem e lacrarem as borrachas do ouro que se há de remeter a El Rei nosso Senhor na presente monção pela Nau de Guerra Nossa Senhora da Vitória, e mande fazer os caixões, e compre os couros necessários para se cobrirem. Vila Rica o 1o de Maio de 1725. Dr. Berquo.”224 Trata-se de uma ordem ao tesoureiro da Fazenda Real para que faça as compras devidas dos produtos para se encaparem, costurarem e lacrarem as borrachas do ouro. Como nas referências acima sobre o transporte das vilas até a Real Fazenda de Vila Rica, nessa fase do transporte o acondicionamento do ouro parece ser o mesmo. As borrachas recebiam o ouro em pó, eram devidamente costuradas e lacradas e depois colocadas em caixões cobertos de couro.225 Além disso, “bandeiras com as armas reais por uma e outra parte delas” foram feitas para acompanhar os reais quintos da Intendência de Vila Rica até o Rio de Janeiro.226 Não localizamos tantas referências sobre os condutores dos quintos nessa etapa, quanto na primeira até Vila Rica, além das que mencionamos há pouco de Pedro Clemente, que certamente já nos esclarecem muitos aspectos sobre esse transporte. Em trabalhos ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������������������������������� ���������������� (BN, MS-580(34) D.72, I-25,05,058 – Ordem do tesoureiro da Fazenda Real, Lourenço Pereira da Silva, informando a entrega ao comandante do real quinto, Pedro Clemente, de vinte arrobas de ouro a serem levadas para o Rio de Janeiro. Vila Rica, 05/07/1729. Em anexo, declaração a f. 42 do livro de receitas entras da quantia que recebeu Lourenço Pereira da Silva datado de 22/08/1729) e em 1732 (BN, D.26, I-26,09,007 No004 – Recibo de entrega de ouro e diamantes referentes aos quintos para serem remetidos ao Rio de Janeiro e dali para Lisboa. Vila Rica, 13/10/1732. Documento acompanhadode lista.). 224 BN, MS-580(38) D.03, I-25,11,001 No003 – Ordem do Dr. Berquó para que o tesoureiro da Fazenda Real, Lourenço Pereira da Silva, compre material para embalagem das borrachas do ouro a serem enviadas ao rei. Vila Rica, 01/05/1725. 225 Em 1733 e em 1762 também encontramos recomendações semelhantes. BN, MS-580(34) D.16, I- 25,05,013 No003 – SILVA, Lourenço Pereira da, tesoureiro da Fazenda Real. Portaria informando a compra dos materiais para o acondicionamento do ouro que se remeterá a Lisboa pela nau de guerra Nossa Senhora das Ondas. Vila Rica, 02/08/1733; AN, 0M 0257 – Livro de registro de traslados da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1764. 226 AN, 0M 0257 – Livro de registro de traslados da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1764. 105 � anteriores, encontramos alguns indícios interessantes que cabe lembrar. O cobrador da Vila do Carmo, Rafael da Silva e Souza, contribuiu significativamente para essa tarefa em 1731. O próprio rei Dom João, em registro de patente ao mesmo, mencionou os vários relevantes serviços que ele teria lhe prestado. Entre esses serviços, estaria ter prestado ajuda na “segurança que fez a José de Souza Raposo, Capitão da Guarnição do Rio de Janeiro quando foi às mesmas Minas buscar os Reais Quintos acompanhando com sua pessoa e escravos armados”. E Rafael da Silva e Souza teria acompanhado José Raposo até o limite que as emboscadas dos seus inimigos não lhe ofereciam mais perigos.227 Com se vê, um poderoso local teve importante participação no transporte do quinto ao Rio de Janeiro, a ponto de acompanhar um representante que buscava esses quintos, colocando seus escravos armados nessa condução. E acompanhara até os limites onde não havia mais perigos nos caminhos. Interessante destacar, ainda por esse trecho, é o fato de um capitão de guarnição ir às Minas para buscar os quintos e levá-los ao Rio de Janeiro. Até então, só tínhamos notícia do contrário, ou seja, dos oficiais da Real Fazenda das Minas, ou poderosos locais delas, enviarem ao Rio de Janeiro as quantias pertencentes ao real quinto. Para o período de vigência das casas de fundição, encontramos mais uma referência do referido processo de transporte, um Assentamento das remessas e entregas feitas do ouro do quinto e barras das escovilhas que fez o Tesoureiro Domingos Fernandes Serra no tempo de sua atuação, de 1757 a 1760. O documento dizia que o tesoureiro remetia à Sua Majestade, pela Provedoria do Rio de Janeiro, as quantias “pertencentes ao rendimento do quinto do sexto ano do estabelecimento das Reais Casas de Fundição destas Minas”, de várias localidades.228 Cabia, portanto, ao tesoureiro fazer os encaminhamentos dessas remessas. Concluindo, para o fim do século encontramos algumas remessas no seguinte padrão: “Senhora Vai desta Intendência o Soldado João Jacob Simões encarregado da Condução do Quinto, e das mais arrecadações que a ela vieram no trimestre, que findou em setembro, tudo segundo os conhecimentos, que acompanham esta Vossa Majestade se ���������������������������������������� ������������������� 227 AHCMM, Códice 774 – Livro de registro de patentes e provisões – 1725-1755, p. 87, 87v. 228 AN, 0M 3207 – Livro de registro de receita de ouro nas Casas de Fundição.... 1757-1759. 106 � dignará de mandar expedir as clarezas necessárias para o Tesoureiro desta Casa. Sabará 16 de outubro de 1796. O Intendente Paulo Fernandes Viana”229 Trata-se de um ofício a Sua Majestade informando sobre a condução do ouro, que nesse trecho é claramente encarregada ao Soldado João Jacob Simões. Ele devia conduzir os quintos e as demais arrecadações, segundo os conhecimentos que também eram remetidos com as quantias. Quando lá chegasse deveria também receber comprovações de que fizera a entrega, as “clarezas necessárias”. Parece que nesse caso o ouro não ia primeiramente para a Intendência de Vila Rica para depois ser conduzido ao Rio de Janeiro e de lá embarcar para Lisboa em naus de guerra. Talvez até fosse. Mas o fato a se destacar é que o condutor já fora nomeado pela Intendência de Sabará para cumprir essa tarefa. Uma declaração do Marquês de Pombal de 1771 nos apresenta queixas de possíveis demoras nas remessas dos quintos e de outros cabedais da Real Fazenda para o Rio de Janeiro “em grandes partidas com ostentação de condutores, e outras fantásticas formalidades que nada concorrem a essência do objeto, quando pelo contrário da referida prática sucede muitas vezes ou não chegarem a tempo as mesmas remessas, ou ser preciso fazerem-se avisos para os Governos desse continente”. Esse documento é importante por constatar as ocasiões em que a atividade de remessa não era vista como realizada a contento. Quando as remessas demoravam, segundo o Marquês, havia muito detrimento para as naus, despesas consideráveis com sua equipagem e ainda perda das monções favoráveis para as viagens. Ele aconselha ainda que as naus só deviam se demorar no porto da cidade do Rio de Janeiro quinze dias.230 E para finalizar esse item, anexamos um exemplo de um documento que comprova a chegada ao Reino, na Casa da Moeda de Lisboa, das quantias referentes ao real quinto. Nele pode-se comprovar as questões do acondicionamento mencionadas anteriormente, bem como a condição de seu transporte em naus de guerra. Trata-se do registro que evidentemente confirma o fim da jornada do precioso metal até os cofres da realeza. “1773 ���������������������������������������� ������������������� 229 MS-580(72) D.57, I-26,24,042 – VIANA, Paulo Fernandes, intendente. Ofícios a Sua Majestade informando sobre a condução do ouro, arrecadações do quinto e a permuta de ouro em pó por moeda provincial. Sabará, 23/01 a 16/10/1776. O documento é de 1796, e não de 1776 como diz na descrição. 230 AHTCP, Livro 4073 Erário Régio. 107 � Entrada N. 44 Junho 21 Recebeu o Tesoureiro da casa da Moeda José Antonio Vieira do Vadre, três mil, e noventa marcos, e quatro Onças de Ouro em pó, em 57 Borrachas de N. 1 a 10; 26 a 45; 48 a 53; 57 a 75; 81 a 82 Remetidas do Rio de Janeiro pelo Tesoureiro Geral daquela Capitania Manuel Ferreira Gomes, e na Nau de Guerra Nossa Senhora de Belém comandada por João da Costa Ataíde, chegada a este porto em 15 do corrente; a entregar no Régio Erário, com o peso de 3:089-2-5-36; procedidos do Rendimento do quinto das Casas de Fundição das quatro Comarcas de Minas Gerais, de todo o ano de 1772... 3:090-4-0-00 Manuel Inácio Bernardes de Araújo José Antonio Vieira do Vadre”231 1.5 Pagando tudo o “necessário para os quintos”: o que se despendia com os reais quintos Outro aspecto muito rico, passível de análise nos livros dos quintos, é o que diz respeito às inúmeras despesas feitas com todo o processo de arrecadação, acondicionamento e transporte do direito régio. E temos muitas relações de tais gastos nos vários livros dos quintos analisados no decorrer do século em toda a Capitania. Analisemos os itens mais recorrentes, e mais do que as quantias que em geral se gastavam, interessa saber com o que se despendia em função dos reais quintos. O primeiro item, extremamente recorrente em diversas relações de despesas, é o aluguel de cavalos e o municiamento deles. Montados em cavalos e bestas, os cobradores e os soldados faziam as diligências, pelos variados lugarejos, e o transporte do real quinto pelos áridos caminhos das Minas, fosse das vilas até a Real Fazenda de Vila Rica, fosse de Vila Rica até o Riode Janeiro. Na Vila do Príncipe, em 1752, por exemplo, despendia-se 12$000 pelo aluguel de um cavalo que José Furtado da Rosa levou o quinto para Vila Rica, 17$100 pelo aluguel de seis cavalos que conduziriam do Arraial do Tejuco os Livros e bilhetes da Capitação, ���������������������������������������� ������������������� 231 ACML, Entrada e Saída de Ouro, n. 348, f. 50. 108 � 16$530 por milho para um cavalo em que foram montados os soldados que foram a diligências da capitação, além de um papel de Tomás da Costa Castacho de alugar um cavalo e um negro para levar a Vila Rica o quinto do ano de 1754 para 1755.232 Essas descrições apenas dão uma ideia dos valores que podiam ser gastos com esse tipo de despesa, mas tais quantias variavam enormemente dependendo do período e do trajeto a ser percorrido. No Livro de registro de receita e despesas da Intendência da comarca do Rio das Velhas, de 1769, podemos ver como os pagamentos eram feitos: “Despendeu mais o dito Tesoureiro doze mil réis Que pagou a Luis Cardoso da Silva de aluguel de dois cavalos com que conduziu desta Real Casa de Fundição (Sabará) para a de Vila Rica o Rendimento dos Reais Quintos e mais efeitos que nela se arrecadam pertencentes ao trimestre Janeiro, Fevereiro e Março de 1769 como consta do mandado e conhecimento de Recibo de 27 de Abril do dito ano de 1769 que vai a linha.”233 Despendia-se ainda com ferragens para esses cavalos e com seu municiamento. Em 1751 e 1752 o Soldado Dragão João da Costa Caldas entregava à Real Fazenda róis detalhados com gastos feitos com esses itens, 52$303 com despesas de ferragem e com despesas que fez com dois cavalos de Sua Majestade “em que eu, e o Soldado João Ribeiro de Miranda fomos montados para Mato Dentro nas Cobranças dos Reais quintos”, de 25 de Março de 1751 até 10 de Julho do dito ano em dois cavalos, e de 10 até 11 de abril de 1752 em um cavalo que ia só o primeiro. Há uma lista detalhada por dia e local da quantidade de pratos de milho que cada cavalo comeu, isso para todos os meses da diligência.234 Destaca-se ainda que, através dessas relações de despesas, é possível conhecer que as conduções ao Rio de Janeiro eram feitas por grandes comboios, certamente dando a segurança que a tarefa requeria. No Livro de registro de traslados da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto, vemos que em 1760 o tesoureiro despendia com João Leite Ribeiro a quantia de 320$000 “de alugar de trinta e duas bestas em que conduziu desta Real Casa para a Cidade do Rio de Janeiro os reais quintos na forma do Requerimento que ���������������������������������������� ������������������� 232 APM, CC-1090; Microfilme 014(4/7) - Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição da comarca do Serro Frio. 1751-1764. Vila do Príncipe. 58 f. 233 AN, 0M 0156 – Livro de registro de receita e despesas da Intendência da comarca do Rio das Velhas. 1769. 234 APM, CC-1096; Microfilme 015(3/6) - Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição pelo tesoureiro Tomás de Aquino César de Azevedo. 1752-1756. Tejuco. 466 f. 109 � vai à linha”; e em 1762 gastava com a mesma pessoa a quantia de 275$000 “de alugar vinte e sete cavalos com que conduzir os reais quintos”.235 Com os oficiais de carapina/carpinteiros se gastavam por fazerem os caixões de madeira onde iam guardados os quintos do ouro de Sua Majestade. Em 1725 cada caixão custava por volta de mil e quinhentos réis, e pelo feitio de quinze deles, José Rodrigues Cardoso recebera em Vila Rica 22$500.236 Após comunicarem a dívida, em geral no dia seguinte já eram pagos pela tarefa. Por vezes também se compravam tábuas para se fabricar os caixões que conduziriam os reais quintos, e não os caixões propriamente. Em 1762, tais caixões diminuem significativamente de valor, e custam 282 réis a unidade. Desconhecemos a razão dessa diminuição.237 Por vezes também, os couros de bois eram comprados em separado para “o encapamento e encouramento dos caixões dos Reais Quintos”.238 Antes de serem acondicionados em caixões, como vimos anteriormente, o ouro era colocado em borrachas que eram devidamente costuradas e enumeradas. Pelo que pudemos perceber, essas borrachas eram usadas principalmente nas épocas em que o ouro em pó circulava livremente. Os responsáveis pelo seu feitio eram os sapateiros. Em 24 de Maio de 1725, o Provedor da Fazenda Real de Vila Rica manda pagar ao oficial de sapateiro Matias de Abreu “a importância das borrachas que fez para o ouro da Sua Majestade”. Teriam sido feitas 78 borrachas a meia oitava cada uma e “mais doze dias de emborrachar o ouro com courar os caixões a ½ oitava cada dia”. O provedor fizera o pagamento do total de 47 oitavas cinco dias após que a dívida era comunicada na Real Fazenda.239 Para 1721 e 1723, nos livros dos quintos da Câmara da Vila do Carmo, também encontramos, nas relações de despesas dos respectivos livros, referências ao gasto feito com as borrachas. Em 1721, gastava-se 8 oitavas “por quatro borrachos grandes para ir o ouro”240 e, em 1723, dependia-se 6 oitavas “por quatro borrachas grandes para os Quintos e ���������������������������������������� ������������������� 235 AN, 0M 0257 – Livro de registro de traslados da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1764. 236 BN, MS-580(38) D.62, I-25,11,027 – Requerimentos solicitando reembolso por despesas feitas com os quintos do ouro. Vila Rica, 24 e 29/05/1725. Datas e local associados aos despachos. Documento com dupla numeração. 237 AN, 0M 0257 – Livro de registro de traslados da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1764. 238 AN, 0M 0257 – Livro de registro de traslados da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1764. 239 BN, MS-580(38) D.62, I-25,11,027 – Requerimentos solicitando reembolso por despesas feitas com os quintos do ouro. Vila Rica, 24 e 29/05/1725. Datas e local associados aos despachos. Documento com dupla numeração. 240 AHCMM, Códice 648 – Livro de recebimento dos quintos de ouro – 1721-1735. 110 � de as coser o sapateiro e preparar”.241 Vê-se que as câmaras também faziam os pagamentos de tais despesas no período que os quintos eram lançados nos seus livros e cobrados por seus homens. Havia gastos também com todo tipo de aviamentos e miúdos para o acondicionamento do ouro do quinto. Em julho de 1729 o Tesoureiro da Fazenda Real, o Sargento Mor Lourenço Pereira da Silva, devia comprar todos “os aviamentos precisos para encapar, e encaixotar o ouro e dinheiro que nesta ocasião se remete desta Provedoria a Sua Majestade pela frota do Rio de Janeiro”. E ele faz isso, pagando a Manuel de Araújo Guimarães 18$350 pelos “aviamentos da remessa da frota deste”.242 Também em 1733, o mesmo tesoureiro paga a Manuel da Silva Areas a quantia de 28$500 por “12 réis de quarenta [veras] de niagem, 5$400 réis de duas libras de lacre, 5$400 réis de dois milheiros de taxas, 1$800 réis de libra e meia de fio... 3$600 réis de feitio dos [salm os] que mandou fazer, e 500 réis de agulhas grandes”, todos materiais usados para encapar o ouro e dinheiro que se remetia da Provedoria de Vila Rica à Sua Majestade na Nau de Guerra Nossa Senhora das Ondas.243 A última referência que temos é que em 1723, em Vila do Carmo, também gastou-se com tais miudezas. No livro dos quintos da câmara deste ano encontra-se o gasto de 2 oitavas “por duas varas denias e para enfardar as borrachas linhas e lacre para as lacrar”.244 A balança também é um item muito importante, mas não encontramos muitas referências sobre compras da mesma, ainda que elas não faltassem nos inventários de bens das câmaras ou das casas de fundição. Apenas sabemos que em 1711 dispendia-se 28 oitavas “pela compra de uma balança para o serviço”.245 No entanto, destaca-seque em 10 dos 24 inventários dos cobradores dos quintos da Vila do Carmo analisados em trabalhos anteriores, pudemos encontrar balanças de pesar ouro entre seus bens. Isso revela que ainda que as instituições (câmara, casa de fundição, intendência, etc.) possuíssem esse ���������������������������������������� ������������������� 241 AHCMM, Códice 200 – Livros de quintos: 1723-1726... 242 BN, MS-580(34) D.15, I-25,05,013 No002 – Portaria do tesoureiro da Fazenda Real, Lourenço Pereira da Silva, informando as providências tomadas para o acondicionamento do ouro remetido a Lisboa pela frota do Rio de Janeiro. Vila Rica, 28/06/1729. 243 BN, MS-580(34) D.16, I-25,05,013 No003 – SILVA, Lourenço Pereira da, tesoureiro da Fazenda Real. Portaria informando a compra dos materiais para o acondicionamento do ouro que se remeterá a Lisboa pela nau de guerra Nossa Senhora das Ondas. Vila Rica, 02/08/1733. 244 AHCMM, Códice 200 – Livros de quintos: 1723-1726... 245 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 111 � instrumento tão utilizado para a cobrança, os próprios agentes que a realizavam também as tinham em suas casas até o fim da vida.246 Os papéis e livros também figuram nas inúmeras listas de despesas com os quintos. Certamente eram produtos caros e de difícil acesso na época, até devido ao fato de serem constantemente reaproveitados, o que se verifica muito nos livros dos quintos. Mas vejamos as informações que temos. Em 1714, na Vila do Carmo, gastava-se 20 oitavas com “três resmas de papel que se gastaram com [estas] cartas e o mais que foi preciso” e 11 oitavas com “dois livros para os asentos dos quintos um para a Receita outro para a despesa”.247 Parece-nos ser mesmo uma quantia significativa gasta com tal item. Também para a Vila do Carmo, nos livros de sua câmara dos anos de 1721, 1723 e 1724 encontramos algumas referências. Em 1721 gastava-se: 8 oitavas com “duas resmas de papel, 2 oitavas com “duas petições que foi necessário fazer-se”, 2 oitavas ¼ “por medida e meia de tinta”, 2 oitavas com “um livro para trasladar todas as contas dos quintos que foi para o Reino” e 30 oitavas “pelo ouro que se deu de trasladar o Livro dos Quintos”.248 Destaca-se aqui alguns detalhes. Primeiro, que o dispêndio com tinta também era considerável e que pagava-se ainda pelo feito de petições e traslados. Segundo, que se fazia cópias de contas dos quintos para se remeter a Portugal, o que demonstra, grosso modo, o cuidado no relato do rendimento do quinto, bem como a existência de registros no Reino enviados pelas câmaras nesse período. Por fim, em 1723, na Vila do Carmo, despendeu-se 7 oitavas com “dois livros para Listas dos Quintos e Receitas” e 6 oitavas ½ com “duas resmas de papel que se gastaram com os Quintos”; e, em 1724, foram gastas 12 oitavas com “duas resmas de papel uma medida de tinta e meia libra de lacre”.249 Todos gastos pagos pela Câmara da Vila do Carmo, no período que cuidaram dos registros dos quintos. Posterior a essas referências, não encontramos mais nada. Alguns gastos foram muito pontuais, dos quais encontramos apenas um registro. O primeiro foi com um serralheiro “de fazer uma chave para o cofre dos quintos que cobrou 3 ���������������������������������������� ������������������� 246 FARIA, Simone Cristina de. op. cit., p. 67. 247 BN, MS-580(50) D.58, I-25,33,058 – Livro que consta as seis arrobas de ouro para entregar à Sua Majestade referente aos quintos e ao pagamento feito ao capitão Jacinto Barbosa Lopes. Vila Real do Carmo, 20/06/1714. 248 AHCMM, Códice 648 – Livro de recebimento dos quintos de ouro – 1721-1735. 249 AHCMM, Códice 200 – Livros de quintos: 1723-1726... 112 � oitavas.250 Não se menciona a razão da necessidade desse feitio. O segundo registro é de se fazer duas bandeiras “com as armas reais por uma e outra parte delas”. As bandeiras que custaram 9$600 para os cofres da Intendência de Vila Rica, deviam acompanhar os reais quintos, servindo na “presente condução dos Reais Quintos que faz desta Intendência para o Rio de Janeiro”.251 Interessante a referência a essa despesa, demonstrando o cuidado com a condução do ouro ao Rio de Janeiro, com a sofisticação de ir acompanhado com bandeiras das armas reais. Por fim, o terceiro registro é sobre gastos com selas, arreios e freios, e com o soldo de alguns oficiais em 1711 e 1712, “para socorrer o Rio de Janeiro” certamente da invasão francesa.252 Essa referência realmente é única, mas demonstra a importância dessa tarefa, já que as receitas do ouro dos quintos raramente eram usadas para fins que não a manutenção da atividade. Passemos agora às análises dos gastos que se tinha com oficiais envolvidos em todo o processo de arrecadação e transporte do ouro do quinto: soldados nas diligências, condutores do quinto, tabeliães, juízes e escrivães do quinto. Quanto aos soldados e condutores dos quintos, algumas referências são mais gerais, como as de 1723 e 1724 para a Vila do Carmo. Em 1723 só aparece “por gastos da condução dos quintos a Vila Rica por três vezes que se levaram, 25 oitavas” e em 1724 a referência é a seguinte: “pelo que gastei com a condução do ouro desta Vila para o cofre da Fazenda Real”.253 Apesar de não se descrever de forma clara, certamente esse gasto era com os oficiais da condução, vistos os outros tipos de gastos possíveis já terem sido nomeados. A partir de 1754, no entanto, as relações são mais diretas, ao menos para a Vila do Príncipe, que foi a vila para a qual tivemos registros. Em 1756, despendeu-se 429$604 com “vários papéis de Livranças e gastos feitos com os Soldados nas diligências da Capitação.254 Ainda que não se nomeie quais soldados estavam recebendo, o fato é que eram pagos pela tarefa desempenhada. Outras referências são ainda mais claras. Em 5 de fevereiro de 1754, pagou-se a Alexandre Ferreira da Fonseca 12$000 de conduzir os reais ���������������������������������������� ������������������� 250 Idem, 1724. 251 AN, 0M 0257 – Livro de registro de traslados da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1764. 252 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 253 AHCMM, Códice 200 – Livros de quintos: 1723-1726... 254 APM, CC-1090; Microfilme 014(4/7) - Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição da comarca do Serro Frio. 1751-1764. Vila do Príncipe. 58 f. 113 � quintos.255 Em 6 de agosto de 1759 pagou-se 16$000 a José Francisco Silva e 38$400 a Custódio Alves, também por conduzirem os quintos.256 E, em 7 de novembro de 1761, pagou-se 32$000 a Manuel da Fonseca Dias de conduzir os quintos.257 A diferença dos valores pagos provavelmente está ligada ao tipo de trajeto percorrido nessas conduções, no entanto, não temos informações para corroborar essa afirmação. Quanto aos tabeliães, encontramos apenas um registro, para a Vila do Carmo em 1714. Pagava-se ao Tabelião Garcia Gomes Pilo “pelo trabalho que teve com as Listas do Lançamento e de tudo o mais que seu serviço para eles feito” 150 oitavas de ouro.258 Essa referência única não deixa de ser intrigante, pois para um período um pouco posterior na mesma vila, fica claro que quem faziam as listas dos quintos eram os cobradores dos quintos de cada freguesia. Mas como os registros para o períodoinicial são parcos, como já dissemos, talvez os tabeliães tenham sido mesmo incumbidos de tal tarefa nesse momento. Passando aos escrivães dos quintos, as referências que temos são também para a Vila do Carmo, para os anos de 1723, 1724 e 1725. Em 1723, pagava-se 64 oitavas ao escrivão da câmara Hilário Antônio por “fazer os Lançamentos e mais escritos necessários para os quintos” e também 128 oitavas a Pedro José Mexia “de escrivão dos quintos”. Vê- se que ao escrivão dos quintos, certamente dedicado mais exclusivamente à tarefa com o ouro dos quintos, se pagava o dobro que para o escrivão da câmara, que pelo que se indica aqui desempenhava algumas funções com tal tarefa. Em 1724 vemos que a mesma pessoa podia desempenhar os dois cargos. O mesmo Pedro José Mexia, escrivão da câmara, recebia 128 oitavas, “por ordem da dita Câmara pelo salário de escrivão dos quintos”. Em 1725, vemos ainda que esse valor sobe consideravelmente, e o “escrivão da Câmara pelo ser dos quintos” recebe 160 oitavas.259 Por fim, no mesmo livro para a Vila do Carmo, em 1723, encontramos ainda indicações de recebimentos dos juízes das câmaras pelo feitio de devassas. Pelas custas da ���������������������������������������� ������������������� 255 APM, CC-2041; Microfilme 130(1/6) – Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição. 1751-1761. Vila do Príncipe. 46 f. 256 APM, CC-1106; Microfilme 017(2/12) – Livro de entrada de ouro de particulares e de receita e despesas da Real Casa de Fundição pelo tesoureiro José Coelho Barbosa. 1756-1759. Vila do Príncipe. 15 f.; APM, CC-2041; Microfilme 130(1/6) – Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição. 1751- 1761. Vila do Príncipe. 46 f. 257 APM, CC-2041; Microfilme 130(1/6) – Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição. 1751-1761. Vila do Príncipe. 46 f. 258 BN, MS-580(50) D.58, I-25,33,058 – Livro que consta as seis arrobas de ouro para entregar à Sua Majestade referente aos quintos e ao pagamento feito ao capitão Jacinto Barbosa Lopes. Vila Real do Carmo, 20/06/1714. 259 AHCMM, Códice 200 – Livros de quintos: 1723-1726... 114 � primeira devassa “que tirou o Capitão Matias Barbosa dos sonegados e ouro que se restituiu a alguns condenados por ordem da Câmara” pagou-se 900 oitavas e 2 vinténs, e pela custa da segunda devassa “que tiraram os juízes dos sonegados no dito ano” pagou-se 452 oitavas ½ e 6 vinténs.260 Tais indicações são muito esparsas mas permitem que conheçamos que os juízes também tinham um rendimento provindo das condenações dos descaminhos do ouro. Encerramos nossas análises sobre as despesas feitas com o ouro do quinto acreditando ter apontado alguns aspectos importantes sobre o cotidiano e a dinâmica dos processos de arrecadação, guarda, acondicionamento e transporte do precioso metal, demonstrando com o que se despendia para a realização de todas essas atividades. 1.6 O “cair no crime de sonegados”: como se condenavam os desviantes do ouro dos reais quintos Esse não é nosso tema de excelência, no entanto, é impossível deixar de ao menos tocá-lo ao analisar os livros dos quintos. O descaminho acompanha o processo de arrecadação do precioso quinto do ouro, durante todo o Setecentos e essa afirmação parece até um pouco óbvia para a época. Ele é a causa das maiores preocupações da Coroa portuguesa com o ouro retirado nas Minas, para ele se voltaram numerosa documentação vinda do Reino ou para lá remetida.261 Mas o objetivo aqui, por hora, é apenas oferecer alguns apontamentos de como se pode encontrar vestígios do tema nas fontes fiscais analisadas até o momento, indicações preciosas que não poderíamos deixar de mencionar. Desde os primeiros registros dos quintos que temos conhecimento, já é possível se deparar com referências a confiscos e condenações. No Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui, encontramos uma lista de confiscados de 1701 a 1713, e ���������������������������������������� ������������������� 260 Idem. 261 Mencionamos apenas um trecho de um documento que se encontra no Reino e que bem expressa as preocupações com os descaminhos do ouro. “Para evitar tão sensível prejuízo, e para reduzir ao seu antigo estado este rendimento, o meio que ocorre, é procurar por todos os modos extirpar este escandaloso procedimento, vigiando com a maior exação, por meio de guardas, e de rondas, todos os caminhos, e varedas, que podem conduzir para as Capitanias de beira mar, cercando com as ditas rondas, e guardas quanto for possível os confins desta Capitania, da que fica sendo indispensável um prévio conhecimento corográfico da sua situação (...)”. AHTCP, Livro 4070 Erário Régio, 1790, f. 2. 115 � de condenados a partir de 1711. No entanto, é possível em tal lista identificar apenas o nome do declarante e o valor confiscado ou condenado. Para os registros de condenações, por vezes temos declarações um pouco mais detalhadas: “pela condenação a uma negra por andar vendendo pelas Lavras contra o Bando que se havia publicado”.262 Ainda que um pouco desordenados e lacunares, o fato é que desde o início da ocupação das minas e exploração do ouro já podemos ter acesso a uma série de nomes de pessoas que recebiam a pena por fraudar o ouro do quinto de Sua Majestade. Já em 1701 mesmo temos informações de ações efetivas contra os desvios desse ouro. Em Carta Precatória do Guarda Mor do distrito do Rio das Velhas (Tenente General Manuel de Borba Gato) para o Guarda Mor das Minas Gerais (Domingos da Silva Bueno), de 20 de dezembro de 1701, em Ribeirão de Sabarabussu de Nossa Senhora de Assunção, vemos um caso de ordem de confisco de bens por conta de gados vindos da Bahia. Como provedor dos quintos reais, Manuel de Borba Gato comunica ao Mestre de Campo Domingos da Silva Bueno que eram culpados Miguel Gonçalves de Siqueira, seu irmão João Gonçalves, e um seu camarada Manuel Cabral, “ora vindos dos currais da Bahia com uma boiada, fazendo com ela jornada para essas Minas Gerais, sem nenhum respeito as ordens, e leis de Sua Majestade que Deus Guarde”. Haveria uma ordem publicada de que nenhuma pessoa trouxesse “das partes da Bahia e Pernambuco nenhum gênero de fazendas, gados, nem outro qualquer mantimento a estas Minas, nem delas se vão buscar aquelas partes”, mas as referidas pessoas, do Sumidouro, teriam desprezado tal ordem e prosseguido jornada com a sua boiada. Dessa maneira, o provedor Manuel Borba Gato determinava que se fizesse sequestro da boiada que levavam àquelas Minas, “em qualquer parte que for achada” e de quaisquer bens que deles encontrassem.263 Infelizmente não temos informações de como a ação se desenrolou. Em 1711, no Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Mortes, que compreende o período de 1710 a 1717, também se pode encontrar vários registros de confiscos. Segue abaixo o padrão desses lançamentos: ���������������������������������������� ������������������� 262 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 263 BN, I-25,16,021 No002-003 – Embargo em ouro e gado pertencentes a Miguel Gonçalves Vieira. Minas Gerais, 14/12/1701-17/12/1701. 116 � “Aos quinze dias do mês de janeiro de mil e setecentos e onze anos nessa fortaleza do Rio das Mortes se confiscou a Antonio Gonçalves noventa oitavas de ouro em pó das quese tirou dezoito oitavas de ouro de quintos e a mais importância que são sessenta e duas oitavas de ouro se tomaram para a fazenda Real como forma de ordem do Senhor Governador e Capitão General Antonio de Albuquerque Coelho de Carvalho de que se fez termo que assinou com o Superintendente Damião de Oliveira e Souza e procurador da fazenda Real eu Manuel Dias de Brito escrivão da Superintendência e quintos o escrevi. Oliveira Pereira De Antonio Gonçalves” (grifo nosso)264 Tais registros são mais completos que os anteriores para esse período. Vemos a data do confisco, o local, o nome do confiscado, o valor confiscado e o valor que se retirou de quintos, e nomes do Superintendente, procurador e escrivão da Superintendência. Conhecemos ainda que os registros são feitos na Superintendência e que o valor declarado na verdade é todo “tomado para a fazenda Real” por ordem do governador. O próximo ano que temos mais registros é o de 1725. No Livro de registro de expediente da Tesouraria da Fazenda de Minas Gerais. 1722-1725, que contem lançamentos variados de toda a Capitania, por vezes se pode localizar registros como o abaixo, com declarações de entregas ao tesoureiro da Fazenda Real de valores que determinada pessoa foi condenada e o motivo dessa condenação. “Em 20 de junho de 1725 carrego em receita ao Tesoureiro da Fazenda Real Lourenço Pereira da Silva setenta e dois mil réis Que recebeu de Mateus Pereira Lima como fiador de Bernardino Pereira e de José Pereira procedidos de sessenta oitavas da condenação em que incorreram de contrabando de Sua Excelência por venderem no Morro e de como recebeu a dita quantia assinou comigo José de Almeida Cardoso escrivão da Fazenda Real o escrevi e assinei. Lourenço Pereira da Silva José de Almeida Cardoso”265 ���������������������������������������� ������������������� 264 APM, CC-1004; Microfilme 1 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Mortes. 1710-1717. São João Del Rei. 250 f. 265 AN, 0M 0137 - Livro de registro de expediente da Tesouraria da Fazenda de Minas Gerais. 1722-1725. Vila Rica, 275 f. 117 � Em Vila do Carmo, as penalizações por descumprimento das recomendações de não sonegação também podem ser encontradas. No fim de todos os anos havia listas de pessoas que eram condenadas por ocultar escravos e vendas da cobrança dos reais quintos, referências de recebimentos diversos de ouro por devassas de sonegados pelos diferentes distritos do Termo. Vejamos dois alguns exemplos desses lançamentos: “Condenações – 30/08/1730 – 137 oitavas e 80 réis que recebeu do escrivão da câmara das condenações das devassas que havia recebido de várias pessoas.” 266 “Em onze do dito digo de dezembro do dito ano (1732) se carregou em Receita ao Tesoureiro Geral o Sargento Mor Manuel Ferraz cinquenta e duas oitavas de ouro---52 Que Recebeu do Capitão Miguel Gomes de Carvalho e de Luiz Moreira e Manuel Domingues por mão do Escrivão da Câmara de condenações a saber do Capitão Miguel Gomes de Carvalho quarenta oitavas de ouro em que foi condenado por sonegar uns escravos // e de Luiz Moreira oficial de ferreiro seis oitavas de ouro – e de Manuel Domingues oficial de carapina seis oitavas de ouro que fazem estas parcelas a sobre dita quantia acima e de como as Recebeu o dito Tesoureiro assinou Pedro Duarte Pereira Escrivão da Câmara que o Escrevi. Manuel Ferraz”267 O primeiro excerto trata-se da entrega de uma determinada quantia pelo escrivão da câmara de condenações de devassas de várias pessoas. Já o segundo excerto é diferente. Trata-se de um carregamento de algumas pessoas, devidamente especificadas, ao tesoureiro da câmara, por condenações que lhe teriam sido feitas. Uma delas é detalhada: “em que foi condenado por sonegar uns escravos”. Destaca-se ainda que os registros são, mais uma vez, feitos nas câmaras municipais. Depois desse período, temos uma lista das pessoas que tiveram os seus escravos denunciados por não pagarem a primeira matrícula de 1744, na freguesia das Catas Altas. Trata-se de uma relação onde encontramos as pessoas que se ausentaram na ocasião de ���������������������������������������� ������������������� 266 AHCMM, Códice 166 – Lançamento dos reais quintos – 1723, f. 44v. 267 AHCMM, Códice 421 – Livro da receita de cobrança dos reais quintos – 1728-1739, f. 63v. 118 � feitura do rol e que por isso foram denunciadas por não pagarem a matrícula de seus escravos.268 Para o período de retorno do funcionamento das casas de fundição, no fim dos registros diários padronizados, por vezes havia resumos e recenseamentos de confiscos pertinentes a cada ano. No Livro de registro de receitas do Quinto do ouro da Intendência e Casa de Fundição da comarca de Sabará. 1755-1756 foram registrados confiscos como o de Frutuoso de Oliveira de Almeida no Paracatu, de uma oitava e um quarto, e dois vinténs de ouro, e o feito a Francisco Martins de Paracatu, de quarenta e cinco grãos de ouro. Tais confiscos eram somados e sentenciados pelo Desembargador Intendente, nesse caso Domingos Nunes Vieira, em 31 de julho de 1756. No mesmo livro, existem outros confiscos que se faziam “a bem do Real Quinto” e se faziam e julgavam por sentença.269 Os Livros de registro de receita do Quinto do ouro também nos trazem algumas indicações importantes. Para Vila Real do Sabará, em 1766 vemos que os confiscos eram feitos por soldados dragões. Além disso, no fim dos vários nomes dos confiscados, aparecia o seguinte: “cujos autos foram sentenciados pelo Dr. Antonio Manuel das Povoas Ouvidor Geral e Intendente desta Casa nas quais se faz verba e de como o dito Tesoureiro recebeu e se recolheu ao cofre das quatro chaves”270 Vê-se que depois que os soldados dragões faziam a cobrança, o ouvidor sentenciava o auto e o tesoureiro recolhia o valor no cofre das quatro chaves, o mesmo que recebia o rendimento do ouro do quinto. Registros de confiscos nesse tipo de livros também podem ser encontrados para a Vila Real do Sabará em 1770271 e para a Vila de São João del Rei em 1771.272 Por fim, mencionamos uma carta e um ofício em que os procedimentos sobre os descaminhos podem ser também visualizados. Fontes como essas não foram completamente analisadas até o momento, visto a urgência maior ser os registros seriados dos quintos. No entanto, não deixamos de mencioná-las por acreditar que apresentam indícios esclarecedores, que poderão ser melhor trabalhados futuramente. A carta referida é de oito de agosto de 1771, em que José Ferreira Vila Nova relata que fez “expedir cartas circulares, a todos os comandantes, cada um do seu distrito, dos ���������������������������������������� ������������������� 268 BN, MS-580 (3) D. 11, I-10,04,006 nº 002 – Relação de devedores e recolhimentos atrasados de matrículas de escravos. Vila Rica, 1741, 1744 e 1746. 269 APM, CC-2268; Não Microfilmado – Livro de registro de receitas do Quinto do ouro da Intendência e Casa de Fundição da comarca de Sabará. 1755-1756. Sabará. 310 f. 270 AN, 0M 1998 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Velhas. 1765-1766. 271 AN, 0M 2000 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Velhas. 1770. 272 AN, 0M 1087 – Livro de registro de receita do Quinto da comarca do Rio das Mortes. 1771. 119 � mineiros desta qualidade” para que cumprissem a ordem de remeter uma lista dos mineiros e do quinto e se encaminhasse o ouro à Real Casa da Fundição. Deviam fazer a lista e lhe remeter, algumas ele já tinha, mas as dos distritos mais distantes ainda não tinham chegado. Encaminhar o ouro à Casa de Fundição era necessário para que “não leve descaminho, o que é devido do Nosso Soberano, em que Vossa Excelência extremosamentese desvela.”273 Veja-se que esse cuidado em confecções de listas se devia à preocupação que o ouro não fosse desencaminhado, e que em tal tarefa havia extremoso desvelo. Finalmente, o ofício que destacamos também é feito com a preocupação de frear os descaminhos e contrabandos de ouro e diamantes, apontando providências para isso. O documento é enviado pelo governador das Minas Luis da Cunha Meneses a Rodrigo José de Meneses em 16 de março de 1786. Diante dos “escandalosos extravios e contrabandos do ouro em pó e mais diamantes que se faz desta Capitania para fora clandestinamente pelas mestrias veredas que tem todos estes sertões”, o governador comunicava que Sua Majestade ordenava a eles dois e também ao Vice Rei que “déssemos as providências mais eficazes, e aplicáveis a cada uma destas Capitanias”. Menciona-se o problema da impossibilidade de se fazer diligências em vários lugares, devia-se encontrar uma forma de se poder defender e guardar seus limites e em “comum acordo desempenhar este importantíssimo serviço de Sua Majestade”.274 1.7 Da forma “que o Senado da Câmara ordenar” ou “em receita da Fazenda Real”: a responsabilidade institucional com a cobrança dos reais quintos O propósito a partir de agora é aprofundar a reflexão sobre a dinâmica do funcionamento da cobrança do quinto do ouro de Sua Majestade, utilizando como principal mote o complexo jogo de tomada de responsabilidades com a “matéria dos quintos”. Não se trata, no entanto, de apenas dizer em que época as câmaras, a Real Fazenda ou outro ���������������������������������������� ������������������� 273 BN, MS-580(52) D.106, I-26,01,010 No052 – VILA NOVA, José Ferreira. Carta relatando o envio de cartas circulares aos comandantes dos distritos para cumprir a ordem de remeter uma lista dos mineiros e do quinto com o objetivo de encaminhar o ouro à Real Casa da Fundição. 08/08/1771. 274 BN, II-36,05,052 – MENESES, Luis da Cunha, governador de Minas Gerais. Ofício a Rodrigo José de Meneses referente ao contrabando e extravio de ouro e diamantes. Vila Rica, 16/03/1786. Além de cartas e ofícios, outras fontes são valiosíssimas para o tratamento do tema, que não registros mais ou menos seriados como são os que até agora analisamos. As devassas são um bom exemplo disso e poderão ser posteriormente melhor aproveitadas, como é o caso de BN, MS-580(4) D.04, I-10,05,003 – Real Casa de Fundição de Vila Rica. Auto da devassa realizado sobre a evasão do ouro em pó. Vila Rica, 1761. 120 � órgão esteve à frente da arrecadação do quinto. Cabe, mais do que isso, enxergar os meandros desse processo e a complexa dinâmica de realização da cobrança e demais atividades ligadas ao precioso quinto de Sua Majestade. E essa não é tarefa fácil. Destacamos que, para cumprir tal intento, julgamos ser necessário conjugar as reflexões com a retomada de alguns pontos das análises dos diferentes conjuntos documentais de livros dos quintos, sistematizando as principais informações que eles nos fornecem quanto aos responsáveis diretos por sua confecção. Quando iniciamos nossas análises dos primeiros escassos registros dos quintos, destacamos o quanto tais registros da exploração do ouro nas Minas eram desordenados e lacunares. Compete recordar que, para tais lançamentos, que vão de 1701 até 1713, não foi possível identificar a instituição responsável pela confecção dos mesmos. Na verdade, nesse período nas Minas as instituições responsáveis pela administração ainda nem tinham se constituído e restava aos poderosos locais cuidar de tudo o necessário para a ocupação e exploração do território, como já tão apontado pela historiografia.275 A partir de 1713, no entanto, as câmaras são verdadeiramente mencionadas como responsáveis pelos lançamentos dos quintos. Com a análise dos registros dos róis dos moradores e escravos das Minas e dos lançamentos dos quintos atrasados, pudemos constatar isso. Um pouco mais seriados e abrangendo um número maior de vilas e uma quantidade maior de anos, tais documentos foram feitos exclusivamente pelas câmaras das vilas, que nesse período, havia negociado a quantia de 30 arrobas anuais para o pagamento do quinto (que passa para 25 arrobas em 1718). Esses documentos abrangem o período de 1714 até 1718, como vimos, sendo que os róis dos quintos atrasados chegam até o ano de 1720. Inclusive em 1718, marco tão importante como enfatizaremos a seguir, a listagem de devedores é feita em nome do Senado da Câmara. É fato visível como os registros vão se enriquecendo na medida em que revelam mais e mais dados sobre a efetiva realização da atividade de arrecadação. Aos poucos vão surgindo livros e mais livros visando abranger todas as tarefas desempenhadas com o precioso metal. Tanto as câmaras quanto a Real Fazenda, para alguns anos do período mencionado, abrem livros para se fazer entregas e ajustar contas. As câmaras registram em livros específicos as entregas de ouro que lhe coubera no acordo das 30 arrobas, onde se destaca que todos os oficiais dela estariam presentes para a conferência do valor entregue ���������������������������������������� ������������������� 275 Ver nota 93. 121 � pelo ajuste. A Provedoria da Real Fazenda, por sua vez, confecciona livros com uma espécie de registros de controle das parcelas entregues por devedores dos quintos e mais especialmente pelos cobradores que davam conta de seu rol de jurisdição. Assim também acontecia com os relatos daqueles que andavam pelos caminhos das Minas e/ou dela saíam, pagando quinto sobre o ouro que transportavam. Como vimos, existem registros de 1710 a 1717 com tal intuito, feitos tanto pela Superintendência quanto pelas câmaras, as últimas registrando especialmente as pessoas que entravam em determinado povoado. Muito parecidos com esses registros estavam os de pagamentos de quintos de carregações, que especificavam o produto que se carregava para dentro ou fora dos caminhos da Capitania. Nessas ocasiões, como vimos, ou se “pagava logo” os quintos sobre a dita carregação, ou se nomeava fiador “para a segurança dos quintos”. Também foram feitos quer pela Provedoria da Fazenda (1715 a 1721) quer pelas câmaras (1709, 1715 a 1717). É possível constatar até esse momento que os poderosos locais e as câmaras municipais foram os grandes responsáveis pelos registros diários da coleta do precioso ouro devido por direito à Coroa portuguesa. No entanto, algumas atividades a ele ligadas também foram registradas pela Superintendência e pela Provedoria da Real Fazenda, quando lhes cabia receber o ouro em seus cofres, que logo após seriam conduzidos para o Reino. Cabe aqui, portanto, começar a atentar para a complexidade de todas essas tarefas e para as nuances de seus lançamentos, entendendo esses diferentes corpos com variados papéis e voz diante da Coroa como pertencentes a uma mesma dimensão pactuada e policentrada da monarquia portuguesa. Chegamos ao ano de 1718. Mencionamos na ocasião da análise dos registros desse período o quanto esse ano foi tido durante muito tempo como um marco do processo de centralização do poder da Coroa nas Minas. Segundo afirmado pela vasta historiografia sobre Minas, em 1718 teria sido retirado das câmaras o papel de cobrar os reais quintos. As consequências do regimento feito aos provedores de freguesia nessa ocasião teriam sido evidentes: “as câmaras perdiam o controle da arrecadação do quinto, da elaboração das listas de escravos e administração do tributo sobre as importações e da nomeação e fiscalização dos provedores do quinto.” Tal fato teria sido comunicado aos ouvidores e as câmaras teriam se queixado dessa redução de competências, pois ficariam apenas com a 122 � concessão de licenças às tabernas. As reclamações não teriam surtido efeito e o governador se justificavaaos camaristas dizendo que o rei queria aliviá-los da função de arrecadar quintos.276 Acreditamos, no entanto, que esse marco foi sempre muito superestimado pelos pesquisadores com estudos fiscais sobre Minas. Muito se destacou o rompimento que ele teria causado para as câmaras municipais em questões de poder e controle da cobrança, sem se mencionar quando tal jurisdição teria voltado às mãos do poder local, se é que teria voltado. Com isso, perdeu-se de vista a complexidade do funcionamento da cobrança, de suas idas e vindas, e supervalorizou-se o episódio para um avanço quase que linear do poder da Coroa em Minas. Em trabalhos anteriores, nos dedicamos bastante a tal discussão, refutando tais afirmações para a Vila do Carmo, pois já em 1721, na dita vila, a “matéria dos quintos” teria voltado para o Senado da Câmara, pelo que nos comprovavam os próprios registros dos quintos, feitos por seus homens e nos seus livros.277 No período de 1718 a 1720, para as diversas vilas das Minas, realmente constatamos que os registros foram feitos pela Real Fazenda, mas também é evidente, para todas elas, a volta em 1721 das câmaras no controle dessa tarefa. Antes de tratarmos desse retorno em si, analisemos um pouco mais algumas ideias sobre tal transição. Nossa hipótese para esse retorno tão breve das câmaras no controle dos reais quintos, como já mencionamos brevemente em outros momentos, é sua ligação com o fim dos conflitos da revolta de Vila Rica, quando o Conde de Assumar teria chamado novamente os poderosos locais para atuar em tal matéria e ajudar a se restabelecer a normalidade da região.278 Bem antes disso, em 30 de dezembro de 1717, o próprio Conde de Assumar já reconhecia, em carta ao Marquês de Angeja, o quanto se necessitava desses homens influentes das Minas, inclusive para a cobrança dos quintos: “(...) se estes homens [os poderosos] por uma parte, em algumas coisas, abusam do seu poder, em outras, são muito essenciais ao mesmo serviço de Nosso Rei, pois ���������������������������������������� ������������������� 276 CAMPOS, Maria Verônica. op. cit., p. 171, 172. 277 FARIA, Simone Cristina de. op. cit. 278 Alguns livros dos quintos até desapareceram no levante. APM, CC-1028; Microfilme 004(5/5) 005 (1/7) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1718-1723. Vila Rica. 250 f. 123 � servem aos governadores de instrumento para conseguirem cobrar os quintos, para reprimir os revoltosos de menos poder; para prender criminosos (...)”.279 Fica claro como o governador atestava precisar dos homens poderosos das Minas, e eles também seriam essenciais depois dessa sua declaração. Muito se insiste ainda que com o fim do levante “o poder régio saiu fortalecido”,280 mas todos os indícios nos levam a discordar dessa afirmação. Os livros dos quintos, como há pouco mencionamos, cujos registros voltam a ser feitos pelas câmaras em 1721, justamente depois do fim da revolta, nos levam a acreditar que para que os ânimos se mantivessem tranquilos nas Minas, se continuaria a ter que contar com o apoio dos poderosos locais. Dois trechos, coletados em Livros de registro do Quinto do ouro e da Capitação, podem ser mencionados para reforçar essa afirmação. O primeiro é da Vila de São João del Rei: “1719 para 1720 Lançamento dos escravos lojas e vendas dos moradores desta Vila de São João Del Rei e seu termo para satisfação dos quintos reais do ano passado de mil e setecentos e vinte cuja administração passou dos Provedores às Câmaras destas Minas por nova resolução do seu Governador e Conde de Assumar tomada em Junta Geral que se celebrou em Vila Rica em o mês de outubro do dito ano de mil e setecentos e vinte sairão os escravos a oitava e meia de ouro cada um e as lojas a seis oitavas porém deve-se admitir que na conta pela qual se fez este Lançamento, ouve um erro muito grande que se emendou depois na soma que se declara no fim das Listas que se segue.” (grifo nosso)281 É possível perceber como na ocasião do feitio dos lançamentos dos escravos, lojas e vendas dos moradores da dita vila, se declara uma nova situação quanto à cobrança. Uma nova resolução do próprio Conde de Assumar, de outubro de 1720, diz que a administração ���������������������������������������� ������������������� 279 APM SC 11 fls. 8-8v. Apud: KELMER MATHIAS, Carlos Leonardo. Jogos de interesses e estratégias de ação no contexto da revolta mineira de Vila Rica, c. 1709 – c. 1736. Dissertação (Mestrado em História Social) – Programa de Pós-Graduação em História Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005. p. 95. 280 CAMPOS, Maria Verônica. op. cit. 281 APM, CC-1012; Microfilme 002(4/9) – Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1716-1720. São João Del Rei. 275 f. 124 � dos quintos “passou dos Provedores às Câmaras destas Minas”. Nesse momento, portanto, as câmaras voltavam com sua administração do real quinto por ordens do governador. O outro trecho mencionado é de Vila Rica. Vejamos: “E as declarações dos escravos que se acham feitas neste livro pelos senhores deles e por outras pessoas que os davam na sua ausência se hão de achar com algumas declarações excesso e com outras diminuição o que procede dos escravos que se tomaram a Rol para pagarem os quintos para o ano de 1719 para o ano de 1720 cuja importância em parte se achava já cobrada em o dito ano na ocasião do levante a qual se tornou a o entregar a seus donos por ordem que para isso houve do Excelentíssimo Senhor Governador que foi o Conde de Assumar expedida ao Juiz Ordinário desta Vila João Domingues de Carvalho Ouvidor por ordenação para o que se puseram [idios] nos lugares públicos desta dita Vila e para que a todo o tempo conste do referido e não faça dúvida o dito excesso ou diminuição no número dos escravos fiz esta declaração. Vila Rica 9 de novembro de 1723. Domingos Francisco Oliveira”282 Por ocasião do levante, teria havido a confusão nos pagamentos relatada e uns teriam pagado mais do que deviam. Mas as quantias pagas em excesso seriam restituídas aos senhores dos escravos por ordem que o Conde de Assumar passara ao Juiz Ordinário da dita vila. Ou seja, o governador passara ao juiz a responsabilidade de cuidar dessas restituições, ordenação essa que devia ser exposta “nos lugares públicos desta dita Vila”. O último ponto que gostaríamos de destacar, e que deve nos fazer refletir melhor sobre a complexidade do processo de cobrança do quinto, diz respeito a algumas tarefas que continuam a ser desempenhadas pelas câmaras, mesmo no afamado ano de 1718, a saber, as nomeações de cobradores dos quintos. Rafael da Silva e Souza, cobrador na Vila do Carmo, em pedido de carta patente onde narrou toda sua trajetória de serviços, diz que “foi nomeado por esta Câmara em vinte e um de Março de mil setecentos e dezoito no lugar de Provedor dos Quintos de Sua Majestade dos distritos do Gama e Bento Rodrigues que serviu até fins de Julho de mil setecentos e vinte.”283 Se a câmara nomeava ainda alguém como provedor em 1718 para atuar até 1720, era sinal que não tinha perdido todas ���������������������������������������� ������������������� 282 APM, CC-1039; Microfilme 007(2/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1719-1723. Antônio Dias. 128 f. 283 AHCMM, Códice 219 – Livro de registro de Provisões e Patentes – 1736-1740, f. 107v-111. 125 � as prerrogativas sobre a questão dos quintos. Esse registro nos ajuda a olhar com mais cuidado para esse período de administração dos quintos de Sua Majestade. De 1721 a 1724, portanto, os quintos foram cobrados nas “Casas da Câmara”. Quando da implantação das casas de fundição em 1725, depois de algumas tentativas fracassadas, sãoainda cobrados pelas câmaras os meios quintos. Não temos muitos registros sobre isso, mas parece que nessa ocasião de transição entre os métodos, algumas quantias ainda restantes do ano de 1724 deviam ser pagas como de costume se fazia, mas depois haveria um determinado tempo em que deveria se pagar com o ouro já quintado. Após esse período, como também já mencionado, há um eco nos registros com a implantação das casas de fundição, de 1725 a 1736 não encontramos registro seriado algum sobre a cobrança dos reais quintos. No entanto, as análises que dedicamos aos registros de condenações e confiscos há pouco podem nos ajudar a sondar algumas situações. Ainda que a cobrança a partir de então devesse ser feita nas casas de fundição, os registros daqueles que foram condenados e/ou tiveram seus bens confiscados pela falta de pagamento do quinto, são feitos pelas câmaras das vilas, além do período que as ditas estariam cuidando da cobrança, de 1728 a 1739. Vemos mais uma vez o quanto é complexa a relação entre as atividades realmente desempenhadas pelos diversos corpos e instituições frente aos métodos de vigência da arrecadação. Mais um indício merece ser destacado nessa direção: “Cópia da petição feita ao Senado da Câmara de Vila Rica, e certidão que passou em cumprimento do despacho dela de 21/07/1727 Senhores do Senado diz o Doutor Bernardo Pereira de Gusmão e Noronha que para certo requerimento que tem com Sua Majestade que Deus guarde lhe é necessário que o escrivão da Câmara lhe passe por certidão o que importaram os quintos do Lançamento dos anos de 1718 e 1719, e com especialidade e o que tocou pela repartição que se fez a Comarca de Vila Real = (...) Passe do que constar Vila Rica 21 de julho de 1727 (...) = Certifico que provendo os Livros do Registro desta Câmara, nele a f. 9 – f. 31 v. se acha registrado o Lançamento dos quintos dos anos de 1717 126 � para o de 1718 e deste para o de 1719, do qual Lançamento consta importar (...) (registro dos valores)” (grifo nosso)284 Vemos que se trata de uma petição feita ao Senado da Câmara de Vila Rica no ano de 1727, ano de funcionamento das casas de fundição, para que o escrivão da câmara, e não o da dita casa, passasse certidão de rendimentos dos quintos de anos anteriores. E o mais curioso, a certidão a ser passada seria referente aos anos de 1718 e 1719, quando a Real Fazenda cuidava da coleta. E as câmaras tinham livros de registros para esses anos, como o excerto bem destaca. Novamente é patente como somente dizer em que períodos tal ou qual instituição cobrava o quinto não é suficiente. Só uma análise detida, verdadeiramente microanalítica desses registros, pode revelar meandros até então não considerados. Há de se lembrar ainda os registros para os quais levantamos dúvidas de serem dos quintos ou de outro “donativo real”, para o período compreendido entre 1727 e 1733. Com o mesmo padrão de lançamentos, ainda que não fossem efetivamente registros dos reais quintos, vimos como é importante destacar a sua existência por conta dos mesmos atores estarem envolvidos em sua coleta (os escrivães, tesoureiros e provedores eram praticamente os mesmos que se dedicavam aos quintos). Além do fato desses indivíduos acumularem mais essa função fiscal, vimos que quem organizava essa cobrança era mais uma vez a câmara municipal. Em 1735, data que marca o início da capitação e período para o qual também não temos registros seriados dos quintos, outro registro de patente, também de Rafael da Silva e Souza, revela detalhes interessantes. O referido cobrador, homem poderoso de Vila do Carmo, também cuidara da arrecadação nesse ano, como diz em sua patente: “com inteligência do que lhe for encarregado nele como experimentei quando se comutou o pagamento do Quinto Real do Ouro destas Minas em capacitação que se comutou em praticar em Julho de mil e setecentos e trinta e cinco.”285 Posterior a esse período, os registros encontrados são apenas de matrículas de escravos para 1737, 1738-1783, 1745, 1746, 1749; além de um censo de clérigos para o período de 1736 a 1745. Tais lançamentos em si, como vimos, não nos revelam mais do ���������������������������������������� ������������������� 284 APM, CC-1039; Microfilme 007(2/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1719-1723. Antônio Dias. 128 f. 285 AHCMM, Códice 219 – Livro de registro de Provisões e Patentes – 1736-1740, f. 102v, 103. 127 � que o nome dos escravos e de seus proprietários, sem dados que nos esclareçam algo mais específico sobre a dinâmica da cobrança. No entanto, há indícios dos responsáveis institucionais pelos registros nesse período, lembrando que de 1735 a 1751 o sistema vigente era o da capitação. Friedrich Renger é um dos que menciona que no tempo de vigência da capitação foram as câmaras das vilas as responsáveis pelas matrículas e pagamentos semestrais dos quintos, pagamento este feito em pó.286 Vemos, assim, que até esse momento o poder de arrecadação dos quintos estava nas mãos dos poderosos locais, por intermédio de suas câmaras municipais, na maior parte da primeira metade do século, comprovando a vitalidade e grande autonomia desses corpos em tal questão fiscal. Esses poderes locais, em tantas ocasiões reconhecidos pela legislação portuguesa, como vimos na introdução, também em relação ao direito régio do quinto tiveram importância fundamental enquanto grupos essenciais para a organização da república na região. O ano de 1751, como também vimos, marca o retorno do método das casas de fundição para a arrecadação do ouro das Minas. Para o ano de 1751 em si, só encontramos livros de matrículas de escravos, mas os registros das entregas feitas realmente nas casas de fundição aparecem a partir de 1755, para as diversas vilas da Capitania. De diversas naturezas, foram abertos livros para o processo de manifesto dos moradores do ouro que possuíam e/ou transportavam, como também livros para os procedimentos internos de conferência e contagem dos montantes recebidos. Em geral, existem registros para toda a segunda metade do século. Os lançamentos muito mais padronizados que na primeira metade do Setecentos indicam como se processa uma crescente uniformização dos registros dos quintos. Alguns eram impressos com o símbolo das armas da Coroa. Mas o aperfeiçoamento dos oficiais, longe de significar outro possível marco de afirmação linear do poder da Coroa nas Minas, demonstra uma progressiva preocupação com a organização da atividade. Apesar de uma maior racionalidade e centralização, característica do período em que governava o Marquês de Pombal (1750-1777), os órgãos da Coroa não se estabeleceram de maneira absoluta a dispensar de auxílio dos corpos locais. Uma evidência disso é que, mesmo na época da Casa de Fundição, a ajuda dos poderosos locais, ainda subsistia. Em 8 de junho de 1771, em Vila Rica, o Tenente José Pinto da Silva fazia várias listas e relações de ouro de várias freguesias que lhe ordenou o ���������������������������������������� ������������������� 286 RENGER, Friedrich. O quinto do ouro no regime tributário nas Minas Gerais. Revista do Arquivo Público Mineiro, n. 1, jul./dez. 2006, pp. 90-105, p. 101. 128 � Senhor Capitão Mor José da Silva Pontes (Conde de Valadares). Esse tenente devia fazer as listas dessas pessoas e as “notificar para o meterem na Real Casa de Fundição até 25 de Setembro de 1771”. Vários moradores da Vila do Carmo e de Vila Rica são listados: “a cuja diligência deu princípio em 20 de Setembro de 1771”, das parcelas de ouro em pó que achou nas buscas que fez “a todas as pessoas moradoras nos arraiais abaixo declarados e suas circunvizinhanças cujas foram notificadas para meterem na Real Casa da Fundição de Vila Rica até fim de Junho do presenteano o seguinte”. 287 Vê-se, portanto, que medidas complementares à entrega do ouro nas casas de fundição eram tomadas, por poderosos nomeados para isso e do auxílio deles se necessitava em várias ocasiões. Nesse momento há de se destacar ainda, conforme nos informa Maria Beatriz Nizza da Silva, que paralelamente ao retorno das casas de fundição em 1750, de modo a estimular aqueles que se dedicavam à mineração a fazer o correto pagamento do real quinto, se determinou uma recompensa aos que recolhessem nas casas de fundição, no espaço de um ano, oito arrobas de ouro ou mais, próprio ou alheio. Os benefícios, mercês e honras que esses indivíduos gozariam viriam principalmente com a concessão de hábitos da ordem de Cristo.288 Segundo a autora, foram 51 os pedidos do hábito, inclusive do poeta Cláudio Manuel da Costa, filho de um cobrador por nós estudado, João Gonçalves da Costa. Essas entregas de ouro nas casas de fundição por particulares seguem até o século XIX, segundo Nizza da Silva, demonstrando mais uma vez que se necessitava de outros expedientes que não apenas a forma vigente de arrecadação do momento.289 Por fim, destacamos pontos igualmente importantes sobre o estabelecimento do método da derrama, também no contexto da administração pombalina. Vimos, na ocasião das análises dos registros que do método nos restaram, que todas as listas dos devedores das 100 arrobas foram feitas pelos senados das câmaras das vilas das Minas. Fizeram-se as listas de 1760 a 1765 e em 1770 nas formas das ordens que enviavam o “Nobre Senado da Câmara”. O próprio Intendente remetia as listas para que os oficiais da câmara fizessem a arrecadação, e também volta a aparecer um cobrador para a derrama, que fazia as entregas no órgão das quantias recebidas de suas listas. ���������������������������������������� ������������������� 287 BN, MS-580(63) D.81, I-26,14,071 – Certidão declarando a entrada do ouro para ser fundido na Real Casa de Fundição. Vila Rica, 15/11/1771. Certidão passada pelo escrivão Bernardo José de Carvalho. Em anexo, listas referentes ao assunto. 288 NIZZA DA SILVA, Maria Beatriz. Ser nobre na colônia. São Paulo: Unesp, 2005, p. 198-202. 289 E é interessante destacar que isso se dá apesar da mudança no método de arrecadação do quinto em 1750 ter sido sob orientação de Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, com suas medidas centralizadoras. FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Derrama e política..., p. 28. 129 � Depois de décadas, portanto, a câmara retorna a ser formalmente a responsável exclusiva pela arrecadação do quinto, e em período crítico da produção, já que a derrama se tratava de cobrança sobre os quintos atrasados, mediante a implantação de uma cota fixa. Pombal teria interferido bastante na instituição desse método e recomendado em suas instruções a necessidade de se combater os descaminhos. Segundo a concepção pombalina, todos os moradores da capitania deviam servir como fiscais dos contrabandos, assim, os mesmos deviam ser considerados como colaboradores da execução da política colonial. As reformas pombalinas teriam alterado, assim, a maneira de se estruturar as relações entre a metrópole e a colônia, segundo Figueiredo.290 Mas independente disso, foi imprescindível recorrer a antigos expedientes, quais sejam, o apoio das elites locais na cobrança dos quintos, através das câmaras municipais, mais uma vez. 1.8 Uma perspectiva renovada para se entender a “matéria dos quintos” A gestão da república em algo tido certamente como de mais importante para a Real Fazenda no Setecentos teve, como procuramos destacar nesse capítulo, um complexo tratamento ao longo de praticamente todo o século. Os quintos reais de Sua Majestade foram objeto, no período estudado, de diversos métodos de cobrança, de diversos tipos de registros, e foram geridos por várias instituições e atores. Alvo de tantas preocupações, não chegou a se estabelecer um mecanismo estável de arrecadação para o precioso ouro, negociações e ordens quanto à política de sua gestão foram constantes. Tentar deslumbrar esses meandros analisando os registros diários da arrecadação foi nosso desafio. A falta de padronização dos registros, a aridez característica das fontes fiscais, as lacunas de alguns anos, as idas e vindas na confecção dos livros e a diversidade de situações e métodos de cobrança, certamente apresentaram alguns obstáculos que não deixamos de admitir. No entanto, e apesar dessas questões, a riqueza das informações que coletamos em registros tão variados nos levou a conhecer de maneira bem detalhada a real dinâmica da arrecadação, guarda, acondicionamento, condução e remessa do real quinto à Coroa portuguesa. Nessas análises, acreditamos ter conseguido questionar e complexificar as tão recortadas periodizações da cobrança do real quinto, destacando o quanto é preciso olhar ���������������������������������������� ������������������� 290 FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Derrama e política..., p. 29, 30, 34. 130 � para esses lançamentos com uma perspectiva verdadeiramente renovada, porque microanalítica e exaustiva. Só através de tal tratamento foi possível ultrapassar o simplismo de sistematizações tão afixadas, e destacar que independente do método que o quinto fosse cobrado e da instituição formal que em determinado período dele cuidasse, a ingerência dos outros poderes e instituições não desaparecia de repente só por delimitações de regimentos. Pelo contrário, tantos poderes e ambições se entrecruzavam, negociavam e tinham de dialogar, de forma a conter os descaminhos, tornar efetivo o envio do quinto, mas mais do que isso, fazer com que a atividade de arrecadação se efetivasse ali, no seu dia a dia. Esperamos no decorrer desse capítulo ter feito conhecer tais meandros da responsabilidade efetiva da arrecadação; o cuidado cotidiano com a atividade; a forma como os lançamentos se processavam diariamente nos variados lugares; o intrincado funcionamento das conduções do ouro até a Provedoria de Vila Rica, seguindo depois para o Rio de Janeiro e logo após para o Reino; os detalhes sobre o que se despendia com tudo o necessário para os reais quintos; e ainda os indícios sobre as condenações e confiscos aos que sonegavam o quinto real. Ao fim dessas análises nos vemos refletindo sobre as importantes chaves cognitivas para entender essa sociedade do ouro, expostas brevemente na introdução dessa tese, quais sejam, os conceitos de autogoverno, negociação, sociedade corporativa e monarquia pluricontinental. Tendo as bases desses conceitos como ponto norteador, constatar as câmaras e seus poderosos locais pensando e atuando em questões imperiais, de importância central à Coroa como o quinto; bem como verificar a Real Fazenda ou a Superintendência atuando, ainda que em muitos momentos solicitando o auxílio dos primeiros, não foge à lógica de como essa monarquia e essa sociedade se entendiam. As insistências das câmaras e das elites locais em controlar a arrecadação do quinto, década após década, não obstante as tentativas do poder central de se buscar outros modos de cobrança, demonstram persistências de práticas de autogoverno, que a própria monarquia legitimava constantemente no decorrer do século. Afinal, era patente a incapacidade da realeza e estar em toda parte e dominar todas as esferas da vida colonial. Conjugando responsabilidades com órgãos centrais, estruturando pactos sociais intrincados, os corpos locais ajudaram a tecer um complexo jogo de relações e de tomadas de responsabilidades que se concretizavam em seus oficiais, como trabalharemos melhor no próximo capítulo. 131 � Capítulo 2 “Com toda a exatidão e bom modo”, porém “de sorte que venha pago”: atribuições, atuação e poder de mando da elitelocal ligada aos reais quintos Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará, 5 de abril de mil e setecentos e dezoito. No livro que haveria de servir para os termos de juramentos dos provedores dos quintos reais, eleitos para a melhor arrecadação dessa cobrança, o escrivão da Fazenda Real, Antonio Narcizo, fazia o lançamento da nomeação e juramento do Sargento Mor Lourenço Henriques do Prado. O registro era feito nas casas de morada do Doutor Bernardo Pereira de Gusmão e Noronha, Ouvidor Geral e Corregedor da Comarca do Rio das Velhas. Nesse local teria comparecido o dito Sargento Mor, onde foi nomeado como Provedor dos Quintos Reais da freguesia do Rio das Pedras por provisão do Excelentíssimo Senhor Dom Pedro de Almeida e Portugal, Governador das Minas. O dito Doutor Ouvidor lhe dera o juramento dos Santos Evangelhos para que bem servisse tal cargo “guardando em tudo o serviço de Sua Majestade que Deus guarde, em prejuízo das partes”, e para isso devia seguir o Regimento feito para o dito ofício, que lhe teria sido entregue pelo Ouvidor, juntamente com o livro para o assento dos negros e bando do dito Senhor. Por fim, o provedor prometia, debaixo do dito juramento, fazer tudo conforme o solicitado e guardar o que o Ouvidor lhe mandara.291 O Regimento mencionado acima, bem como em diversos outros livros dos quintos analisados no capítulo 1, se trata do Regimento de que hão de usar os Provedores dos Quintos dos distritos destas Minas (na íntegra, ver anexo 1), feito um mês antes desse lançamento, na Leal Vila de Nossa Senhora do Carmo.292 Tal regimento, segundo alguns, foi representativo da tão aclamada retirada de responsabilidade das câmaras municipais da cobrança dos quintos em 1718. As consequências dele teriam sido, como já dissemos, que “as câmaras perdiam o controle da arrecadação do quinto, da elaboração das listas de escravos e administração do tributo sobre as importações e da nomeação e fiscalização dos ���������������������������������������� ������������������� 291 BN, MS-580(71) D.21, I-26,23,014 – LIVRO dos termos de juramento dos provedores dos quintos reais na comarca do Rio das Velhas. Vila Real de Nossa Senhora da Conceição, 04/04/1718. Folhas numeradas e rubricadas por Bernardo Pereira de Gusmão e Noronha. No livro não constam as folhas 6 e 7. 292 Retirado de: BN, I-11,02,028 – Memória da Contadoria Geral do território da Relação do Rio de Janeiro, África Oriental e Ásia Portuguesa, a propósito da cobrança do quinto e de outros assuntos ligados à mineração, 1790. 132 � provedores do quinto.”293 No entanto, uma análise detida do regimento não nos confirma exatamente isso. Nele é possível encontrar dezesseis itens e/ou capítulos que discorrem sobre detalhes da atuação dos provedores dos quintos, quais sejam: sobre o processo de tomada de juramento dos Santos Evangelhos, juntamente com o escrivão, para o bom serviço de seu ofício; sobre a recolha ao seu distrito de jurisdição e a confecção dos assentos dos negros e das vendas; sobre as penas para aqueles que comprassem ou vendessem escravos e os ocultassem ou os que mudassem de distrito; sobre os escravos que deviam ser excetuados da cobrança; sobre as medidas que deviam ser tomadas contra os descaminhos através da comunicação entre provedores; sobre as ajudas que os provedores poderiam obter de diversos oficiais para a melhor realização de suas tarefas e diligências; sobre os privilégios que os provedores gozariam no dito cargo; e, por fim, sobre as atribuições que a câmara teria em todo o processo de cobrança, seja de recebimento de listas ou de escolha de oficiais. O documento é assinado por diversos oficiais camarários já bem conhecidos por nós, muitos cobradores dos quintos. A complexidade de toda essa situação será mais evidenciada no decorrer desse texto, bem como toda a dinâmica do processo de arrecadação, guarda, acondicionamento, condução e remessa dos reais quintos tendo agora por alvo os oficiais que concretizaram todas essas funções. O trecho acima só testemunha o tamanho do cuidado analítico que devemos ter ao nos debruçar sobre esses problemas da “matéria dos quintos”. No capítulo 1 analisamos detalhadamente como essas tarefas eram desempenhadas nas diferentes conjunturas de cobrança do ouro no Setecentos, quais órgãos por elas se responsabilizavam, além de apresentar indícios de como tais instituições conjugavam deveres e incumbências. Agora cumpre investigar essas atividades ligadas ao ouro do quinto atentando para os sujeitos que verdadeiramente as materializavam, ou seja, para os homens que, dia a dia, permitiam que elas acontecessem e que, por fim, o ouro devido a El Rei seguisse o destino que devia seguir. O foco desse capítulo, portanto, são os indivíduos que tornaram reais as diversas atividades ligadas ao ouro do quinto. São eles: os cobradores/provedores; os juízes ordinários, os guardas mores, os procuradores da câmara, os tabeliães e outros que desempenharam alguma tarefa direta ligada ao quinto; os tesoureiros; os escrivães; os ���������������������������������������� ������������������� 293 CAMPOS, Maria Verônica. Governo de mineiros: “de como meter as minas numa moenda e beber-lhe o caldo dourado” 1693 a 1737. Tese (Doutorado em História), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002. p. 171, 172. 133 � fiscais; os superintendentes, os intendentes, os ouvidores, os provedores e os desembargadores do ouro; os condutores; e ainda aqueles que desempenharam o que chamamos de ofícios de “suporte” ao real quinto, os sapateiros, os oficiais de carapina, os ferradores, os que vendiam os miúdos para o preparo do ouro, entre outros. Através da análise de todos os livros dos quintos da Capitania para o período aproximado de 1700 a 1780, livros estes trabalhados no capítulo 1, foi possível fazer um mapeamento completo de todos estes oficiais (que pode ser analisado pelo conjunto de tabelas anexo a este capítulo, a partir da página 180). Apesar das lacunas das ditas fontes, já mencionadas em outras ocasiões, acreditamos que o levantamento de nomes realizado é bem expressivo do corpo total de oficiais que atuaram nas mais variadas tarefas que tinham como principal objeto o ouro do real quinto. O objetivo é conhecer as atribuições, a atuação e o poder de mando de todos esses agentes. Em outras palavras, o propósito é entender: quais funções foram atribuídas a todos esses oficiais; quais indícios temos de como eles realmente atuaram mediante o que se esperava de seu desempenho nos referidos cargos; e qual foi o papel assumido por esses homens frente à sociedade, ou seja, que autoridade eles adquiriram ou maximizaram exercendo cargos de diferentes naturezas ligados ao real quinto de Sua Majestade. Ampliando o já descoberto em estudos anteriores,294 procuraremos detalhar as ações desses homens com as atividades diárias de cobrança, com a escrituração e recebimento das quantias em ouro, com as diligências pelo ouro devido, com suas idas e vindas pelos lugarejos mais variados (usando como suporte soldados e escravos armados), com as cobranças em casos de sonegação, com os conflitos ligados às suas tarefas, com o acondicionamento do ouro para as sucessivas conduções, com o cuidado necessário nos transportes pelos caminhos áridos das Minas, com os procedimentos com as remessas para o Rio de Janeiro e para Portugal, entre outros aspectos. Destaca-se ainda que a atuação desses homens procurará ser evidenciada nas diferentes formas de cobrança do ouro no decorrer do século, ou seja, buscaremos investigar de que maneira esses indivíduos podiam se conservar em seus postos mesmo quando se alterava a sua forma e instituição (capitação, casas de fundição, etc.; e câmara ou Real Fazenda). A hipótese que buscaremos desenvolver é que, independente do período ����������������������������������������������������������� 294 FARIA, Simone Cristina de. Os “homens do ouro”: perfil, atuação e redes dos Cobradores dos Quintos Reais em Mariana Setecentista. Dissertação (Mestrado em História Social) – Programa de Pós-Graduação em História Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010. 134 � e da instituição a cuidar da arrecadação, os homens influentes da localidade tendiam a permanecer em suas funções e se inserir no novo contexto, mantendo suas responsabilidades com o ouro do quinto. Por fim, destacamos que os cobradores dos quintos certamente receberão tratamento privilegiado nesse capítulo em relação aos outros, até por conta de já terem sido alvos de estudos anteriores. Mas outro fato é evidente, para tais oficiais, que acreditamos ter estado no centro do processo de cobrança em grande parte do século, temos muito mais informações do que para os outros a serem estudados. Entretanto, o descompasso de dados coletados não nos fará simplesmente desconsiderar os demais atores. Tentaremos, na medida do possível, conferir a devida atenção analítica a todos os agentes envolvidos com o real quinto. 2.1 Os “homens do ouro”: os cobradores/provedores dos reais quintos “E que os oficiais deputados por El-Rei à cobrança dos quintos e a cunhar o ouro, tem obrigação grave, em consciência, de fazer bem, e fielmente, o seu ofício, e que não podem dissimular os gravíssimos prejuízos que se fazem ao patrimônio real, defraudado por culpa deles, de muito lucro, recebendo estipêndio do mesmo rei, que tem a sua atenção bem fundada, para que com fidelidade façam seu ofício.” (grifo nosso)295 Em trabalho anterior296 tomamos a liberdade de rotular os cobradores dos reais quintos da Vila do Carmo de “homens do ouro”, por termos concluído serem eles aqueles que verdadeiramente se ocupavam do cuidado cotidiano com o ouro arrecadado para a Coroa Portuguesa, por conta do direito régio do quinto. Continuamos utilizando tal designação por acreditar que esses indivíduos eram realmente os agentes com responsabilidade central, direta e efetiva com o precioso ouro do quinto durante quase todo o século nas Minas. Naquele momento, procuramos investigar um pouco da atuação e atribuições desses homens, além de traçar um perfil social básico do grupo. Agora cumpre estender a investigação às demais vilas da Capitania e aprofundar as análises, detalhando melhor as tarefas que se esperavam que fossem desenvolvidas pelos indivíduos que ���������������������������������������� ������������������� 295 ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia Limitada, 1982. p. 182. 296 FARIA, Simone Cristina de. op. cit. 135 � ocupassem tão importante cargo, as atividades que eles realmente desempenharam no dia a dia do trabalho com o ouro, bem como o poder de mando que provavelmente exerceram em sua localidade em decorrência dessa honrosa ocupação. Desde 1695 esses indivíduos já estariam atuando na colônia, quando Carlos Pedroso da Silveira foi nomeado guarda-mor das minas e depois provedor dos quintos na casa de fundição de Taubaté.297 Nas Minas, em 1700 já poderiam ser encontrados os primeiros provedores para a cobrança dos quintos reais.298 Já eram nomeados para o ofício: “efetivamente, como fosse descoberto o metal em Minas Gerais, no ano de 1690, e os mineiros se multiplicassem, nomearam-se, em 1700, provedores e escrivães, encarregados da arrecadação do quinto.”299 O governador Artur de Sá, durante sua visita às Minas entre 1701 e 1702, nomeou vários indivíduos que deviam zelar pelos interesses da Coroa em assuntos tais como a cobrança dos quintos reais.300 Esses homens ainda deviam ser responsáveis pela arrecadação da finta, controle do ouro recebido e remessa à Provedoria da Fazenda Real, além da fiscalização da sonegação de escravos.301 Algumas referências esparsas como essas sobre a presença de cobradores dos quintos nas Minas podem ser encontradas em estudos de alguns pesquisadores, ainda que em trabalhos que apenas tangenciem o tema da arrecadação dos quintos. Algumas dessas indicações podem ser encontradas em trabalhos anteriores.302 No entanto, o objetivo nesse momento não é retomá-las e sim procurar outras indicações, em todos os livros dos quintos estudados para a Capitania. O propósito do texto nesse instante segue nessa direção. Primeiramente cabe mencionar que, por mais que rotulemos esses indivíduos por “homens do ouro”, não era esse o termo atribuído ao seu cargo pela sociedade em que se inseriam. O ofício recebeu diferentes denominações no decorrer do tempo e nas diferentes ���������������������������������������� ������������������� 297 HOLANDA, Sérgio Buarque de. Metais e pedras preciosas. In: História Geral da Civilização Brasileira – A época colonial – Administração, economia, sociedade. Vol. 2. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1973. p. 259-310. 298 GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. Dos poderes de Vila Rica do Ouro Preto: notas preliminares sobre a organização político-administrativa na primeira metade do século XVIII. Varia História, Belo Horizonte, n. 31, janeiro 2004. p. 120-140, p. 123. 299 ESCHWEGE, Wilhelm L. Von. O quinto do ouro. In: Pluto Brasiliensis. Vol. 1. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1979. p. 133. 300 BOXER, Charles Ralph. A idade de ouro do Brasil: dores de uma sociedade colonial. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. p. 75. 301 FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida, CAMPOS, Maria Verônica (coord.). Códice Costa Matoso. Coleção das notícias dos primeiros descobrimentos das minas na América que fez o doutor Caetano da Costa Matoso sendo ouvidor-geral das do Ouro Preto, de que tomou posse em fevereiro de 1749 & vários papéis. São Paulo: Fundação João Pinheiro, 1999. p. 116. 302 FARIA, Simone Cristina de. op. cit. 136 � localidades, todas comprovadamente referindo-se ao mesmo cargo pelas fontes que tivemos acesso. As denominações mais recorrentes foram as de cobrador dos reais quintos e provedor dos reais quintos. Mas, por vezes, também apareceram: cobrador da lista da derrama, provedor da cobrança dos quintos, provedor da arrecadação dos quintos, arrecadador dos reais quintos, alistador e recebedor dos quintos. É importante iniciar fazendo alusão a esse detalhe de classificação para evitar possíveis incertezas quanto a essas denominações não se tratarem da mesma natureza de atividade. Pelos vários indícios que encontramos, podemos afirmar que todos os termos acima se referiam ao mesmo grupo responsável pela arrecadação do real quinto do ouro das Minas. Passemos agora propriamente às analises das fontes que nos permitiram conhecer os pormenores do funcionamento do cargo de cobrador dos quintos nos variados lugarejos das Minas. Em um primeiro momento, portanto, percorreremos cronologicamente tais fontes que nos trouxeram detalhes sobre o referido ofício. Em um segundo momento, trabalharemos com as oito tabelas resultantes do mapeamento de todos os cobradores dos quintos da Capitania, buscando encontrar algumas primeiras evidências sobre a composição desse corpo de oficiais ligado ao ouro de Sua Majestade. (tabelas essas anexas a esse capítulo, a partir da página 180) 2.1.1 “Com boas e sãs consciências assim o fariam”: os cobradores dos quintos em atividade Iniciamos nossas análises com algumas vagas referências dos primeiros anos de ocupação das Minas. Ainda que, como visto, a historiografia nos informe que desde o ano de 1700 já possam ser encontrados nas Minas os primeiros cobradores dos quintos, pelos livros trabalhados encontramos uma primeira indicação somente em 1709. Em tal período, como vimos no capítulo 1, os registros dos quintos eram feitos de maneira muitodesordenada e os documentos restantes são muito lacunares. Ainda assim, em 22 de abril do dito ano, em um registro da Vila Real do Sabará, encontramos um lançamento que dava a informação que Francisco Velozo havia cobrado de várias pessoas 1251 oitavas de ouro. Certamente o dito Francisco Velozo fora responsável pela cobrança na vila nesse ano. No mesmo livro, em 1713, fora recebedor da comarca Antonio Soares Ferreira de 811 ½ 137 � oitavas de ouro.303 Tais indicações, portanto, só trazem o nome dos possíveis cobradores e o valor que receberam, mais nada. No entanto, já nos permite verificar esses oficiais em atividade. O ano de 1714 já inaugura um período de informações muito mais detalhadas. Como também vimos no capítulo 1, nesse ano as câmaras municipais já cuidavam da arrecadação, antes a cargo somente de alguns poderosos locais. Vejamos o primeiro trecho com informações importantes sobre a tarefa dos cobradores: “Nós os Oficiais da Câmara desta Vila ordenamos ao Capitão Domingos Ferreira da Costa cobre das pessoas conteúdas neste Rol as quantias em que por ele conste estarem lançados dos quintos Reais e não pagando logo prenderá a todos e os mande a Cadeia desta Vila a nossa ordem e lhes tomem bens que bastem para as ditas quantias de que fossem lançados e são devedores e poderá executar da mesma sorte a todos os vizinhos e camaradas daquelas pessoas que lhe constará se tem ausentado, e para esta cobrança poderá ocupar todos os oficiais de justiça e Milícia que lhe forem necessários e outras quaisquer pessoas e os que lhe não obedecerem os prenderá a nossa ordem que se proceder contra eles e serem remetidos ao Senhor General para os castigar como for servido e a importância deste rol que são duzentas e dezoito oitavas entregará neste Senado dentro do termo de oito dias de que mandarmos passar o presente por nós assinado. Vila Real doze de Julho de mil setecentos e catorze anos. Lourenço de Souza Roussado o escrivão da câmara o sobrescrevi. Antônio de Sáa Barbosa Antonio Mendes Teixeira João Velho Barbosa” (grifo nosso)304 Como se pode ver, o registro acima, pertencente ao Livro de registro de receita do Quinto do ouro e da Capitação. 1714-1716 da Vila Real do Sabará, traz ricas informações sobre as funções que o cobrador dos quintos devia desempenhar. Primeiramente, destaca- se que eram os oficiais da câmara que passavam uma ordem a determinado indivíduo, ���������������������������������������� ������������������� 303 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 304 APM, CC-1010; Microfilme 002(2/9) – Livro de registro de receita do Quinto do ouro e da Capitação. 1714-1716. [Vila Rica]. 128 f. 138 � nesse caso o Capitão Domingos Ferreira da Costa, para que fizesse a cobrança dos quintos na referida vila. Se houvesse recusa no pagamento, o dito capitão devia prender tais pessoas, levá-las à cadeia e fazer sequestro dos bens que cobrissem a quantia devida. Assim devia fazer com todos os que se “ausentassem” de seu pagamento. Logo depois, os camarários também instruem o Capitão Domingos de que para esta cobrança poderiam contar com oficiais de justiça, de milícia, e quaisquer outras pessoas que fossem necessárias, que, por sua vez, não deviam se negar a prover ajuda. Nesse momento, fica evidente o quão importante era a tarefa e que os instrumentos ao alcance dos cobradores deviam ser muitos. Por fim, os oficiais da câmara ainda estabelecem o prazo em que a cobrança devia ser feita: oito dias.305 Outro registro da mesma vila nos esclarece alguns outros detalhes sobre esse prazo. Após um lançamento de devedores, encontramos o mesmo modelo de ordem de cobrança, dessa vez ao Capitão Manuel Pereira do Rosário, em 01/08/1714. O dito capitão também recebia as mesmas recomendações que o Capitão Domingos, também ele poderia “usar de todos os poderes que nos concede o Senhor General e ocupar nesta diligência todos os oficiais” que fossem necessários. Igualmente deveria, dentro do termo de oito dias que principiavam daquela data, cobrar as pessoas do seu rol, que somava 755 oitavas de ouro. Logo após a ordem encontramos, no entanto, as entregas feitas pelo referido capitão, duas em 14/08/1714 e uma em 25/08/1714, ou seja, a quatorze e vinte e cinco dias da ordenação.306 Para outras freguesias da vila o prazo podia chegar a doze ou quinze dias.307 Mas o que é possível depreender, enfim, é que as entregas eram feitas, ainda que em várias parcelas, mas não necessariamente no prazo estipulado pelos oficiais camarários. Certamente isso se devia aos percalços dos caminhos e às próprias dificuldades de receber de todos os devedores já na primeira visita. Mas essas são apenas suposições. Para o ano de 1715 nos deparamos com um trecho onde efetivamente se nomeiam cobradores para a cobrança dos reais quintos. Vejamos como eram feitos esses lançamentos: “Freguesia de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto ���������������������������������������� ������������������� 305 Idem. 306 Ibidem. 307 Doze dias para a frequesia de Santo Antonio do Rio das Velhas Acima até Itaubira, e quinze dias para as freguesias de Nossa Senhora dos Raposos e Curral del Rei. 139 � Aos vinte e três dias do mês de Novembro de mil setecentos e quinze anos na dita Casa da Câmara aí os ditos Juízes e Vereadores e Procurador do Concelho mandaram vir perante si Francisco Viana Farto, Bento Martins, João Monteiro Santiago, José da Costa Freitas, o Capitão Manuel Gomes, João Gonçalves Batista todos moradores na dita freguesia os quais haviam sido eleitos em câmara para com eles se fazer este Lançamento e sendo presentes os ditos Juízes lhe deram o Juramento dos Santos Evangelhos que cada um deles recebeu e encarregaram que debaixo do dito Juramento declarassem as pessoas e moradores da dita freguesia, Lavras, negros, e roças que cada um deles tem, e se estão ou não empenhados para conforme suas posses se fazer o Lançamento declarado no princípio deste Livro e sendo pelos sobreditos assisto o dito Juramento debaixo dele prometeram que com boas e sãs consciências assim o fariam, em virtude de que os ditos Juízes e mais oficiais da Câmara fizeram este Lançamento com a informação e pareceres dos sobreditos pela forma e teor seguinte de que os ditos Juízes mandaram fazer este termo que assinaram com os mais oficiais da Câmara e Lançadores Miguel de Andrade Ferreira escrivão da Câmara e quintos o escrevi = Gama = Gandabo = Viegas = Menezes = Oliveira = Lopes = Francisco Viana Farto = João Monteiro Santiago = Manuel Gomes da Silva = João Gonçalves Batista = José da Costa Fristes =” (grifo nosso)308 Vê-se claramente que o trecho acima se trata de uma nomeação de cobradores para a Vila Rica do Ouro Preto em 23/11/1715. Quem os elege para fazer os lançamentos dos quintos é a câmara da dita vila, através de seus juízes, vereadores e procurador. Alguns indivíduos aparecem nesse dia, todos moradores da dita freguesia, para tomar o juramento dos Santos Evangelhos, prometendo “com boas e sãs consciências” se encarregar de declarar os moradores da localidade, lavras, negros e roças de cada um. Perceba-se que todos eram moradores da região, por certo homens conhecidos pelos demais e entre os mais influentes para exercer o cargo em sua freguesia. O fato de residirem na localidade de cobrança também nos faz inferir, como já investigamos em outro momento,309 que fossem os mais aptos para fazer a cobrança devido às variadas distâncias que tinham quepercorrer para receber o quinto do ouro. Além do mais, fazer a cobrança do próprio lugar de residência trazia a vantagem de já conhecerem o território e aqueles que nele habitavam. ���������������������������������������� ������������������� 308 APM, CC-1010; Microfilme 002(2/9) – Livro de registro de receita do Quinto do ouro e da Capitação. 1714-1716. [Vila Rica]. 128 f. 309 FARIA, Simone Cristina de. op. cit. 140 � Essas hipóteses também deverão ser melhor desenvolvidas quando nos debruçarmos sobre outros tipos de fontes. Em 1716 temos outras indicações relevantes. Em registro de 25/01/1716 de Vila Rica, para o “Lançamento dos quintos de Sua Majestade”, o Capitão Manuel Gomes da Silva e o Alferes João Pires Duarte são reconhecidos como “pessoas fidedignas e capazes e serem os sobreditos nomeados neste Senado para a dita cobrança”.310 Vimos há pouco, na famosa citação de Antonil, que os cobradores dos quintos deviam agir com fidelidade para exercer “bem e fielmente” seu ofício. Agora nos é esclarecido que também deviam ser pessoas fidedignas e capazes. Além do mais, quando faziam seus juramentos, como também vimos, prometiam “com boas e sãs consciências” que assim cumpririam as funções a eles confiadas. A tarefa de arrecadar o quinto devia ser, portanto, desenvolvida como ato de consciência, como bons e fiéis vassalos os cobradores deviam preservar valores de uma monarquia católica e sua função devia lhes conduzir a uma fidelidade moral ao rei, como a Deus. Menciona-se ainda no registro acima que esses homens deviam cobrar do lançamento do Arraial do Ouro Preto doze assentos que faziam a importância de 2.129 oitavas de ouro. Essa quantia devia ser cobrada “logo metade de cada um dos ditos assentos” e a outra metade dentro no período de três meses a partir daquela data.311 Vê-se um prazo muito maior do que o acima mencionado, talvez por conta da quantia ser maior, certamente referente a uma quantidade maior de pessoas a serem cobradas. Em 1716 também conhecemos que, por vezes, o cobrador podia recusar o posto que lhe era concedido. Em 18 de março do dito ano, em Vila Rica, João Monteiro Santiago é absolvido da cobrança dos quintos no Rodeio da Itatiaia “por justas causas”. Assume a cobrança Francisco da Rocha Barboza. Infelizmente não temos como saber quais seriam essas “justas causas”, mas o fato é que essa referência é única. Pelo menos não encontramos mais nenhum pedido, até o momento, de afastamento do cargo de cobrador dos quintos. Certamente seu significado social e/ou outro tipo de benefício e distinção era muito expressivo para que pudesse não ser desejado.312 ���������������������������������������� ������������������� 310 APM, CC-1010; Microfilme 002(2/9) – Livro de registro de receita do Quinto do ouro e da Capitação. 1714-1716. [Vila Rica]. 128 f. 311 Idem. 312 Ibidem. 141 � No mesmo ano ainda, no Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1716-1721, de São João Del Rei, encontramos uma referência interessante sobre possíveis pagamentos feitos aos cobradores dos quintos. Esse tipo de informação é muito raro e realmente não se tem notícias que o cargo recebesse uma remuneração fixa e mensal como muitos outros nesse período. A referência, do distrito de Lagoa Dourada e Congonhas, é a seguinte: “Graça que se fez ao cobrador do que devia deste Lançamento, que importa 21 ¼ em remuneração da despesa, e trabalho, que teve com esta cobrança”.313 Reconhece-se, portanto, o trabalho e os gastos do cobrador com a cobrança através dessa pequena gratificação de pouco mais de 21 oitavas de ouro. No capítulo 1, quando nos dedicamos a estudar as despesas feitas com o real quinto, vimos apenas algumas indicações de pagamentos feitos a condutores e soldados em diligências pelo ouro; a tabeliães e juízes por tarefas pontuais com lançamentos e cobrança do quintos; e aos escrivães dos quintos, os únicos com salários realmente determinados por fazerem os lançamentos dos quintos. Mas ao cobrador tal lançamento é mesmo uma novidade, e certamente não se refere a uma remuneração fixa pela atividade realizada que, ao que tudo indica, era muito mais sinônimo de distinção do que fonte de rendimentos. Não que essas duas esferas pudessem ser incompatíveis, até porque não temos como mensurar quaisquer outros benefícios econômicos do exercício da função que não fossem esses devidamente registrados formalmente. O ano de 1717 também traz documentos muito expressivos e detalhados sobre as atribuições e atuação dos cobradores dos quintos. Apesar da sua extensão, acreditamos que o trecho abaixo mereça ser citado na íntegra, pela riqueza das informações que oferece. Trata-se de um registro da Vila de São João del Rei: “Os oficiais da Câmara desta Vila de São João del Rei, que servimos este presente ano de 1717. Encarregamos a João Pinto do Rego e à João de Oliveira, a cobrança e arrecadação das adições conteúdas neste Rol que importam quatrocentas e setenta oitavas, e um quarto de ouro, que é o em que foram lançados para os Quintos Reais os Moradores de Rio acima, este presente ano de mil e setecentos e dezessete: e os ditos Cobradores terão cuidado, de logo logo, sem demora, fazerem logo esta cobrança, em razão ���������������������������������������� ������������������� 313 APM, CC-1019; Microfilme 003(4/9) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1716-1721. São João Del Rei. 123 f. 142 � de estar no Rio de Janeiro uma Nau de Sua Majestade que Deus guarde; esperando pelo ouro de seus Reais Quintos, para os levar para a Corte, e ter por este respeito, este Senado apertadas ordens do senhor General, para se fazer logo Remessa dos Quintos desta Comarca. Os ditos Cobradores examinarão se se acha no dito Bairro, algum Morador demais, que escapasse de ser tomado à Rol, ou viesse para aí morar, depois de se ter tirado o Rol e achando-se algum ou alguns lhes lançarão os Escravos que tiverem na forma dos mais. Vila de São João del Rei, em Câmara, 14 de Agosto de 1717. Eu José da Silveira de Miranda escrivão da Câmara e quintos que o saber escrevi. José Matol Vilas Boas da Cunha Manuel de Carvalho Botelho Manuel Simões de Azevedo João Andrade de Matos” (grifo nosso)314 O rol de moradores, onde se encontra esse lançamento, traz dados para os diversos distritos da Vila de São João. Na lista de cada localidade vamos encontrando sucessivos pormenores que nos ajudam a visualizar a ação desses homens. No trecho acima, do distrito de Rio Acima, vimos como mais uma vez a câmara encarregava pessoas para a arrecadação e cobrança do real quinto em cada distrito de suas vilas. Aqui a informação complementar que temos acesso é que os cobradores deviam fazer a cobrança sem demora por já se encontrar no Rio de Janeiro uma nau aguardando para levar os ditos quintos para a Corte. A remessa dos quintos, dessa forma, devia ser feita com toda a brevidade possível e exigia que esses cobradores fossem muito eficazes. As recomendações seguintes iam na direção de se evitar o descaminho que pudesse ocorrer. Os cobradores deviam examinar com cuidado se faltava alguém que escapasse de se declarar e assim proceder ao dito lançamento. Assinavam o registro vários oficiais da câmara, dando fé à referida ordem. As relações das demais localidades, como dissemos, vão trazendo instruções ainda mais detalhadas da ação dos cobradores, em ordens da câmara como essas. No Rol do ���������������������������������������� ������������������� 314 BN, MS-580(3) D.03, I-10,04,003 No001 – Câmara de São João del Rei. Rol dos moradores de Rio Acima, São João del Rei, Brumado, Villa, Caminho do Campo, Itaberaba, Noruega, Caminho Novo, Lagoa Dourada, Camapão, Congonhas, Ponta do Morro, Prados, Bichinho, Arraial Velho,Corrego, Caminho Velho, Rio das Mortes Pequeno e Rio Abaixo. São João del Rei, 1717. Precedido por um documento datado de 1849 (provavelmente não pertencente ao códice): cobrança dos quintos considerando-se o número de moradores e escravos, lojas e vendas. 143 � Bairro de Brumado atenta-se que o cobrador deveria ter cuidado de examinar se se achavam mais moradores “que escapassem de serem tomados a Rol” para que com o lançamento destes se compensasse o que se perdia: “para que este pequeno acréscimo possa suprir as grandes falhas que a experiência dos anos passados tem mostrado serem inevitáveis nesta Cobrança dos Quintos, e especialmente nos Longes que esta comarca abrange com sua jurisdição”.315 Vê-se aqui o reconhecimento da impossibilidade de se conter o descaminho do ouro e os prejuízos dele resultantes, bem como os obstáculos gerados pelas distâncias da comarca. Entretanto, se os cobradores se esforçassem em fazer bem seu ofício, buscando cercar os que tentavam escapar da declaração, poderia se diminuir tamanhas falhas com a cobrança. No rol de Itaverava e Noruega vemos ainda outras recomendações. Os cobradores deviam fazer sua diligência “com toda a exatidão e bom modo”, mas se alguma pessoa não pagasse deviam fazer apreensão de seus bens, e se fossem estes “de capa em colo”, pobres, portanto, deviam os prender para que a justiça da vila procedesse como fosse justo. No Rol do Caminho Novo, declara-se de forma ainda mais clara que os cobradores deviam fazer a cobrança “com toda a exatidão, e bom modo; porém de sorte que venham pagos”, ou seja, se com bom modo não se conseguisse receber o ouro dos quintos devia-se recorrer a outros instrumentos para que fossem pagos. Se moradores se opusessem e os cobradores não conseguissem superar essa resistência, recomendava-se ainda que deviam fazer um auto contra o resistente “em que especificarão o Termo de Palavras e Obras com que o dito se opor a esta Cobrança”.316 No Rol da Ponta do Morro e Prados, encontramos uma referência parecida com aquela que há pouco mencionamos sobre uma remuneração, ou melhor, uma gratificação concedida a um cobrador dos quintos. Nesse ano de 1717 nessa localidade, o cobrador André Francisco Coelho é que recebe 8 ¼ oitavas de ouro “pelo trabalho e despesa que teve nesta Cobrança”.317 Mais uma vez trata-se, acreditamos, de uma quantia muito simbólica pelo que o cobrador gastara quando fora fazer a cobrança. Por fim, estes róis da Vila de São João del Rei de 1717, para a localidade de Itaberava e Noruega, ainda nos fazem conhecer outro aspecto muito importante da realização das atividades do cobrador, quanto à ajuda que lhe devia ser conferida. Há ���������������������������������������� ������������������� 315 Idem. 316 Ibidem. 317 Ibidem. 144 � pouco vimos que eles podiam recorrer aos oficiais de justiça e milícia e quaisquer outras pessoas que fossem capazes de oferecer alguma ajuda. O trecho abaixo já nomeia todos aqueles “principais vassalos” que deviam colaborar para o “bem” da cobrança: “E porque a execução da diligência desta cobrança dos Reais Quintos, carece na dita paragem de Itaberava, e Noruega, ou pode carecer do Adjutório, e zelo dos principais vassalos que Sua Majestade tem na dita paragem havemos por muito encarregado aos ditos e especialmente ao Capitão Antônio Bueno da Veiga; ao Capitão Mateus de Matos; ao Capitão Rafael de Oliveira Cordeiro; ao Capitão Antônio Dias Ferreira; ao Capitão Manuel da Costa de Araújo; ao Capitão Francisco Bueno; ao Capitão Francisco Jorge da Silva, e mais senhores principais que na dita paragem habitam, dêem aos ditos Cobradores todo o Adjutório que para o bem desta cobrança lhes for pedido; e concorram para o bom sucesso dela, com tudo o que estiver nas suas mãos, por ser assim serviço del Rei tão relevante como é a arrecadação dos seus Reais Quintos. Dado nesta Vila de São João del Rei em Câmara aos 11 de Agosto de 1717. E eu José da Silveira e Miranda escrivão da Câmara e quintos que o subscrevi.” (grifo nosso)318 No Rol do Caminho Velho também se menciona que devia ser dado ao cobrador “todo o adjutório que para o bem desta cobrança lhes for pedido” e ainda se enfatiza a razão de que essa ajuda fosse concedida “por ser assim serviço del Rei, tão Relevante, como é a arrecadação de seus Reais Quintos”, mesma razão mencionada acima. Continuando nosso percurso cronológico pelos livros dos quintos, esmiuçando seus registros em busca de maiores informações sobre os cobradores dos quintos, chegamos ao ano de 1718 e ao lançamento do Regimento de que hão de usar os Provedores dos Quintos dos distritos destas Minas, mencionado no início desse texto.319 Naquele instante apenas mencionamos as principais matérias tratadas pelo regimento: a confecção dos assentos, as penas por sonegação, as medidas contra os descaminhos, etc. Agora analisaremos melhor alguns itens do afamado documento que teria marcado a tomada pela Real Fazenda do controle da cobrança dos reais quintos, até por conta de ter buscado estabelecer as ���������������������������������������� ������������������� 318 Ibidem. 319 Dom Rodrigo Castelo Branco estabeleceu um regimento para o provedor das minas, já em 13 de agosto de 1679, buscando regular a atuação desses homens e seus substitutos. Mas uma regulamentação maior viria apenas com esse regimento que agora analisamos. CAMPOS, Maria Verônica. op. cit., p. 37, 38. 145 � principais diretrizes de funcionamento do cargo. Não retomaremos todos os capítulos do documento, que podem ser consultados no anexo, mas sim analisaremos alguns dos itens que podem trazer componentes adicionais à análise que vimos desenvolvendo. Veremos ainda até que ponto tais instruções foram seguidas ou se já eram praticadas antes da emissão desse regimento. Os pontos mais básicos apontados pelo regimento, quanto ao levantamento do número de escravos e vendas de cada proprietário, à arrecadação da taxa por cabeça em sua área de jurisdição, às penas a serem aplicadas em ocasiões de descaminhos, entre outros, já eram obedecidos por esses oficiais, bem como instruções para o seu bom cumprimento já eram seguidas pelas câmaras, como vimos acima. Tais pontos, com o regimento de 1718, são apenas mais destacados, centralizando na figura do provedor as diversas atividades com os quintos, agora a ele deveriam prestar contas todos aqueles que desempenhassem qualquer ação que repercutisse na cobrança, como os que comprassem ou vendessem escravos. O décimo terceiro capítulo do regimento, inclusive, destaca que o provedor dos quintos, no exercício de seu ofício “gozará as honras, privilégios, e isenções, que são concedidas em Portugal aos Almoxarifes, e Tesoureiros da Fazenda Real, e terão os mesmos despachos que pelo Regimento das mercês pertencem aos Oficiais da Fazenda Real”.320 Confere-se a esse oficial, portanto, honras importantes, reservadas também a oficiais da Real Fazenda do Reino. Destacamos agora dois capítulos importantes sobre a comunicação entre os provedores dos quintos e a ajuda que lhes devia ser oferecida de diversos oficiais. O capítulo décimo nos informa que o provedor que tivesse notícia de que no distrito de outro provedor houvesse negros sendo sonegados deveria avisá-lo. Essa comunicação mútua seria importante para se evitarem os descaminhos, pois se castigando pessoas que isso fizessem tornar-se-ia mais suave a “contribuição dos quintos”.321 Não encontramos, até o momento, nenhum indício dessa comunicação, mas acreditamos que ela realmente tenha acontecido. Em trabalhos anteriores, vimos como os provedores dos quintos em Mariana se conheciam e teciam redes de relações das mais diversas naturezas.322 ���������������������������������������� ������������������� 320 Retirado de:BN, I-11,02,028 – Memória da Contadoria Geral do território da Relação do Rio de Janeiro, África Oriental e Ásia Portuguesa, a propósito da cobrança do quinto e de outros assuntos ligados à mineração, 1790. 321 Idem. 322 FARIA, Simone Cristina de. op. cit., cap. 3. 146 � O capítulo décimo segundo já regulamenta uma prática que, pelo que pudemos constatar, se verifica desde 1714. Tal capítulo determina que todos os oficiais de justiça e de guerra de qualquer graduação deviam dar favor e ajuda aos provedores dos quintos no que fosse preciso, por conta “do bom efeito das diligências dos seus Oficiais”. Se assim não fizessem, ou tivessem alguma dúvida de conceder esse favor, deviam ser presos e privados de seu posto, a não ser que estivessem ocupados com alguma outra diligência de Sua Majestade.323 Vimos há pouco que ao que tudo indica essa ordem já era cumprida. Em 1717 constatamos, inclusive, que se indicam os nomes daqueles que deviam ajudar os cobradores. Ou seja, bem antes dessa regulamentação já é possível ver que todo um corpo de poderosos locais atuava conjuntamente para o sucesso de tão importante arrecadação. Sublinhamos agora uma série de capítulos que nos fazem questionar o fato do regimento ter significado um marco da tomada de responsabilidades da Real Fazenda com a cobrança dos quintos. O intrigante é que, apesar desse fato ser constantemente afirmado pela historiografia,324 o próprio texto do regimento aponta para funções que a câmara ainda devia desempenhar. Vejamos. O capítulo nono diz que o provedor era obrigado a mandar fazer a lista de todas as vendas e lojas do distrito de sua jurisdição e as remeter, juntamente com a lista dos escravos “aos Oficiais da Câmara onde tocar, quando por eles lhe forem pedidas”.325 Ora, se as câmaras não deviam mais cuidar da cobrança a partir desse momento, por que se deveriam enviar a elas as listas dos quintos? Com que propósito os oficiais das câmaras pediriam as listas aos provedores se não fosse para coordenar a arrecadação? Outro capítulo que intensifica essas nossas considerações é o décimo quinto, dedicado ao processo de escolha dos provedores. Vejamos: “As Câmaras escolherão para os distritos de seu Termo, as pessoas que neles forem mais abonadas, e sem empenhos para senão valham do Ouro dos Quintos, e outrossim tenham prudência, autoridade, e respeito, e deles escolherão três que me consultarão para eu nomear a que me parecer mais conveniente entre os da dita Consulta, ou de ���������������������������������������� ������������������� 323 Retirado de: BN, I-11,02,028 – Memória da Contadoria Geral do território da Relação do Rio de Janeiro, África Oriental e Ásia Portuguesa, a propósito da cobrança do quinto e de outros assuntos ligados à mineração, 1790. 324 CAMPOS, Maria Verônica. Governo de mineiros... 325 Retirado de: BN, I-11,02,028 – Memória da Contadoria Geral do território da Relação do Rio de Janeiro, África Oriental e Ásia Portuguesa, a propósito da cobrança do quinto e de outros assuntos ligados à mineração, 1790. 147 � fora conforme a melhor opinião que tiver do sujeito mais capaz de exercer este Ofício.”326 Nesse capítulo fica claro, como se pode ver, que as câmaras deveriam escolher pessoas influentes, abonadas, com prudência, autoridade e respeito para exercer o ofício. Reparem-se quantos atributos deveriam ser considerados. Desses indivíduos três passariam ainda pela consulta do governador para que ele fizesse as nomeações. Novamente é visível que as câmaras conservavam mais essa atribuição, já tão sistematicamente executada, o que nos leva a crer que mesmo depois de 1718 os poderosos locais, através do referido órgão, se mantinham cuidando do real quinto. Se o poder local continuava presente dessa forma, atuando com os mesmos agentes ou com agentes tão poderosos na localidade quanto no período anterior, que sentido teria essa “retirada” de responsabilidades da câmara? Por fim, o décimo sexto capítulo nos dá mais uma vez a dimensão do poder atribuído a esse oficial e quem eram aqueles os que assinavam o regimento, junto com o governador. O texto desse último capítulo diz que frente às inconstâncias e imprevistos dos descaminhos e feitos contrários ao “bem Comum” e à “Fazenda Real”, deixava-se “ao prudente arbítrio do dito Provedor tudo o que neste Regimento não vai disposto, para que com a sua inteligência, zelo, e atividade obre o que for mais conveniente sobre esta matéria”, ainda que devesse dar conta de tudo o que aparecesse de novo para que o governador desse a providência necessária. É mais uma vez notável como se centralizam no provedor as incumbências mais incertas que fossem sobre a cobrança. E mais atributos, além dos citados, deviam ser característicos de seu agir: inteligência, zelo e atividade em qualquer matéria. Documento feito na Leal Vila de Nossa Senhora do Carmo aos quatro dias do mês de março de 1718, era assinado pelo governador Dom Pedro de Almeida e seu Secretário do Governo Domingos da Silva. No entanto alguns oficiais da câmara também assinavam, eram eles: Guilherme Mainarde da Silva, Paulo Martins da Gama, Manuel Dias de Menezes, Faustino Rebelo Barbosa, Feliciano Pinto de Vasconcelos, Manuel Rodrigues Soares, Teodózio José Duarte Crespo, Bento Fernandes Furtado, Silvestre Marques da Cunha e Pedro de Araújo e Azevedo.327 Vários desses indivíduos foram cobradores dos ���������������������������������������� ������������������� 326 Idem. 327 Ibidem. 148 � quintos em período anterior e posterior a esse, como se pode verificar nas tabelas que seguem em anexo. Depois da emissão do regimento passam a ser constantes as referências a ele nos registros dos quintos seguintes, com a informação de que tudo se fazia em conformidade com esse documento. As recomendações que o regimento faz parecem ser seguidas e os provedores dos quintos continuam desempenhando suas tarefas como já vinham fazendo, ainda que de 1718 a 1720 prestassem contas diretamente à Real Fazenda, como vimos no capítulo 1. Os proprietários iam perante o provedor, por vezes na sua própria casa, e declaravam a quantidade de negros possuída. Também mencionavam quando tinham escravos domésticos ou os que não estivessem aptos para o serviço, para que não entrassem na soma sobre os quais pagariam o direito. Nessa ocasião, prestavam juramento e assinavam o termo para atestar que diziam a verdade, juntamente com o provedor, e o escrivão registrava toda essa operação. O interessante a se destacar mais uma vez, e que merecerá maior atenção em outros capítulos, é que os oficiais a exercer o cargo continuam entre os poderosos da localidade. Relembramos o caso de Rafael da Silva e Souza, cobrador da Vila do Carmo, que em pedido de carta patente onde narrou toda sua trajetória de serviços, diz que “foi nomeado por esta Câmara em vinte e um de Março de mil setecentos e dezoito no lugar de Provedor dos Quintos de Sua Majestade dos distritos do Gama e Bento Rodrigues que serviu até fins de Julho de mil setecentos e vinte.”328 Perceba-se: Rafael da Silva e Souza foi nomeado pela câmara em 21/03/1718, 17 dias após a emissão do regimento, e em conformidade a ele, já que também instruía que a câmara continuasse com a nomeação. Sigamos, no entanto, mais adiante. E vejamos o que mais os próximos registros revelam sobre as atribuições, atuação e poder de mando dos cobradores dos quintos. Ainda em 1718 temos um documento muito interessante relatando um processo de mudança de distrito, de conhecimento do provedor, aliás, do próprio Rafael da Silva e Souza. Aos dezessete dias de outubro do referido ano aparecia diante do provedor dos quintos, o referido Coronel Rafael da Silva e Souza, Caetano de Melo. O último solicitava ao provedor que dessebaixa no seu livro dos seus escravos, pois “por não ter neste distrito conveniência nenhuma nem lavra de que viver a tinha solicitado nas cabeceiras do Ribeiro de Santo Barbosa donde estava de viagem”. No entanto, depois dessa baixa, Caetano de ���������������������������������������� ������������������� 328 AHCMM, Códice 219 – Livro de registro de Provisões e Patentes – 1736-1740, f. 107v-111. 149 � Melo teria obrigação de se apresentar, em oito dias, perante o provedor dos quintos do outro distrito, o Capitão Mor Manuel Antunes de Azevedo, ou outro que estivesse presente naquele lugar, e se não o fizesse estaria sujeito às penas previstas pelo regimento. Rafael da Silva e Souza, perante o escrivão dos quintos João de Andrade Rabelo, concede a descarga dos ditos escravos e manda que se faça o termo dessa concessão. O provedor assina o registro e Caetano de Melo coloca uma cruz, certamente por não saber escrever.329 Vê-se nesse registro um exemplo de situação, como o regimento previa, onde se devia dar conta ao provedor de uma mudança. E a ocasião narrada demonstra mais uma das funções desempenhadas por esse oficial, de controle dos que entravam ou saíam dos locais de sua jurisdição. Em registros de 1719 para a Comarca do Rio das Velhas tomamos conhecimento de outra situação, um cobrador servindo por outro. Em 31 de janeiro, encontramos a declaração do Tenente Coronel Antonio Pereira de Macedo, morador na Vila Real do Sabará, “em lugar do Capitão Manuel Lopes Machado que o estava servindo”. E em oito de fevereiro o Capitão Hipólito de Barros Leitão, morador na freguesia da Vila Nova da Rainha, servia “em lugar do Mestre de Campo Manuel Rodrigues Soares”.330 Nada é mencionado sobre os motivos dessas substituições e é difícil supor sobre quais seriam. O fato é que era possível pedir-se ajuda para outra pessoa na ocasião de alguma(s) diligência(s) e uma substituição temporária podia acontecer. Encerrando as discussões em torno desse período, destacamos mais uma função desempenhada pelos cobradores, as entregas à Provedoria da Fazenda das quantias cobradas de quinto. Mencionamos o caso do Tenente Coronel Antonio Pereira de Macedo, provedor dos quintos da freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Vila Real, que entregava na Fazenda Real, em 06/11/1719, 5253 oitavas e ½ de ouro “por conta dos escravos e lojas de sua provedoria”. O provedor declara que nesse valor entrava ainda “o que cobraram outros provedores de pessoas que se mudaram para suas provedorias”. Da entrega se passava conhecimento assinado pelo Provedor da Fazenda Real, o Doutor Bernardo Pereira de Gusmão, e pelo escrivão da fazenda Real, Francisco Xavier Alves ���������������������������������������� ������������������� 329 APM, CC-1033; Microfilme 005(6/7) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1718-1721. Carmo. 260 f. 330 BN, MS-580(71) D.21, I-26,23,014 – LIVRO dos termos de juramento dos provedores dos quintos reais na comarca do Rio das Velhas. Vila Real de Nossa Senhora da Conceição, 04/04/1718. Folhas numeradas e rubricadas por Bernardo Pereira de Gusmão e Noronha. No livro não constam as folhas 6 e 7. 150 � Pereira.331 Esse tipo de conhecimento se passava a todo provedor que fizesse entrega na dita comarca e nos atesta mais uma responsabilidade que cabia a esse oficial, logo após que cumprisse a arrecadação em seu distrito de jurisdição. Alcançamos o ano de 1721 quando, como também visto no capítulo 1, as câmaras voltam a cuidar da arrecadação do quinto. O que mudaria nas tarefas dos cobradores nesse momento? No que compete à sua nomeação, como vimos, parece certo que em 1718 não houve um rompimento das atribuições do órgão municipal, e os provedores continuaram, grosso modo, desempenhando suas funções como faziam antes da emissão do documento. No entanto, no que compete à gerência de suas atividades, os registros sublinham que esses homens passam a responder novamente às ordens diretas dos oficiais das câmaras em 1721. Vejamos com calma. A partir desse ano, continuava cabendo aos cobradores dos quintos o alistamento dos escravos e vendas de cada proprietário e a coleta dos mesmos do quinto real em sua área de jurisdição. E eles lançavam os dados nessas listas “bem e fielmente de seu próprio original”, mas segundo relato deles mesmos, por “mandado dos oficiais da Câmara”.332 As entregas do ouro arrecadado eram feitas, portanto, na câmara, nas mãos do tesoureiro dela, onde ficava guardado nos seus cofres até que continuasse seu destino aos cofres de El Rei. Nesse período também fica claro o quanto os cobradores atuavam em casos de sonegação ou qualquer tipo de ausência dos declarantes e que comunicavam essas ocasiões à câmara. Na verdade as referências a condenações aparecem em 1701 e vão se detalhando melhor ao longo das décadas, como também já vimos no capítulo anterior. Nesse período, até por volta de 1732, ao fim das listas de escravos e vendas que os provedores entregavam às câmaras, por vezes havia uma relação de pessoas condenadas ou com bens confiscados. Vejamos um exemplo de entrega do ouro arrecadado que faziam os provedores às câmaras nesse período: “Passagem Em aos sete dias do mês de março de mil setecentos e vinte um anos nesta Leal Vila de Nossa Senhora do Carmo carrego em receita ao Tesoureiro o Capitão Manuel Cardoso Cruz duas mil sessenta e sete oitavas e meia de ouro que lhe ���������������������������������������� ������������������� 331 APM, CC-1039; Microfilme 007(2/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1719-1723. Antônio Dias. 128 f. 332 APM, CC-1046; Microfilme 007(9/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1720-1723. São José. 87 f. 151 � entregou o Sargento Mor Jacinto Pinto de Magalhães morador na Passagem procedidas de oitocentos e vinte oito negros, e de quarenta e quatro vendas, que as devia para o cômputo das vinte e cinco arrobas de ouro dos quintos do ano de mil setecentos e dezenove para os de mil setecentos e vinte a respeito de duas oitavas e quatro vinténs que tocou a cada escravo, e de sete oitavas que tocou a cada venda, de que o lhe dito foi cobrador, e assinou aqui comigo e com o juiz mestre de campo Manuel de Queiroz, e a dita parte se lhe passou certidão desta entrega para sua descarga eu Hilário Antônio de Araújo escrivão da Câmara o escrevi.”333 Esse trecho já foi citado em outro momento, mas o mencionamos agora visando corroborar o que acabamos de mencionar sobre o tipo de entrega que o cobrador fazia do ouro do quinto que recebia a partir do ano de 1721. Vê-se nele que, em determinado dia, o cobrador comparecia diante do tesoureiro da câmara e lhe entregava uma quantia específica de ouro de sua área de cobrança, referente a uma quantidade de negros e vendas desse local. Junto com o juiz e o escrivão da câmara, o provedor dos quintos assinava a dita entrega. Até 1724 temos registros como esse, nos quais os cobradores continuam atuando da referida forma. Além dessas entregas, por vezes os provedores dos quintos nesse período, iam diante do provedor da Fazenda Real para prestar contas. Esse foi o caso do provedor do Caminho Velho, o Sargento Mor Tomé Rodrigues Nogueira, que em 21/03/1721 compareceu nas casas do Provedor da Fazenda Real, o Doutor Jerônimo Correia de Amaral, “para efeito de dar contas das cobranças que fez dos quintos do dito caminho nos anos de 1718 e 1719”.334 Anexamos abaixo agora uma provisão ao cargo de provedor dos quintos, feita pelo Governador Dom Lourenço de Almeida a José Ferreira Pinto, cobrador do distrito dos Gualachos do Sul em 1723 e de 1729 a 1732, onde aparecem sistematizados muitos dos aspectos que vimos mencionando sobre as atribuições esperadas desse oficial e das responsabilidades comsua eleição. Na dita provisão, de 18/01/1723, fica claro como o governador o nomeava na função, mas deixava dito que à câmara cabia dar posse e juramento dos Santos Evangelhos. É interessante ainda atentar para as recomendações detalhadas dadas pelo governador, que colocamos em destaque, onde ressaltamos ���������������������������������������� ������������������� 333 AHCMM, Códice 648 – Livro de recebimento dos quintos de ouro – 1721-1735, f. 2. Esse livro no catálogo está denominado como de 1721 a 1735, mas só cobre os anos de 1721, 1722, 1727 e 1728. 334 APM, CC-1031; Microfilme 005(4/7) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo sargento- mor Tomé Rodrigues. 1718-1720. Baependi. 100 f. 152 � principalmente o que enfatiza sobre a obrigação do provedor de executar em tudo as ordens da câmara, além da atenção que devia ter com as obrigações mais específicas da sua função. “Dom Lourenço de Almeida do Conselho de Sua Majestade que Deus guarde Governador e Capitão General das Minas do ouro. & Faço saber aos que esta minha provisão virem que tendo respeito aos merecimentos e capacidade do Capitão José Ferreira Pinto, e confiar dele que em tudo o de que encarregar servirá com grande satisfação, hei por bem de o nomear, e prover no ofício de Provedor dos quintos reais do distrito de Gualachos termo desta Vila de Nossa Senhora do Carmo, que servirá enquanto eu o houver por bem, ou Sua Majestade não mandar o contrário, e a Câmara da dita vila lhe dará posse, e juramento dos Santos Evangelhos para bem servir o dito ofício, e as ordens e regimento do que deve observar nas obrigações dele, que observará pontualmente, e lhe recomendo que tenha grandíssimo cuidado na averiguação dos negros, para que se façam bem as Listas com toda a inteireza e não haja subnegados, havendo os porém dará parte à dita câmara, executando em tudo as suas ordens, como acima lhe ordeno; e para firmeza de tudo lhe mandei passar esta provisão por mim assinada, e selada com o sinete das minhas armas que se cumprirá como nela se contém; registrando-se nos Livros da Secretaria deste governo e nos mais que tocar. Dada nesta Vila do Carmo aos 18 de Janeiro de 1723. O Secretário Manoel de Fonseca de Azevedo o subescrevi. Dom Lourenço de Almeida” (grifo nosso)335 Concluindo os indicativos que essa época nos dispôs, acrescentamos algo sobre o tempo que desprendiam os cobradores no cumprimento de suas tarefas, tendo por base também outros documentos, que não apenas os seriados livros dos quintos. Para alistar todos os escravos e vendas da Passagem do Ribeirão e Morro de Mata Cavalos, distrito da Vila do Carmo, em 1723, Domingos Mendes dos Santos levou exatos 33 dias. Pela sua lista verifica-se que começou a relação em 16 de fevereiro e acabou no dia 29 do mês ���������������������������������������� ������������������� 335 ANTT, José Ferreira Pinto – HOC, Letra J, m. 96, n. 55. Nomeação semelhante também encontramos para Nicolau da Silva Bragança, cobrador no distrito do Furquim por longos 10 anos. AHU, Cons. Ultra.- Brasil/MG, manuscrito 8, caixa 1, documento 9, 1705, 0, 0. VÁRIOS documentos relativos aos serviços prestados por Nicolau da Silva Bragança, sargento-mor da Cavalaria de Ordenança da Vila do Ribeirão do Carmo e seu termo. 153 � seguinte do dito ano.336 Já Rafael da Silva e Souza, também cobrador da Vila do Carmo, correu o distrito “fazendo lista dos escravos e notificando os mineiros para pagarem os quintos antes de satisfazerem com o ouro aos credores gastando nisto quarenta dias fora de sua casa e à sua custa, resultando desta diligência muito aumento nos mesmos quintos que andavam muito extraviados.”337 E isso só para fazer as relações. Para a cobrança dos montantes do quinto, tinham de voltar várias vezes a locais já visitados, para receber o restante das suas listas, como já mencionamos. O período de 1725 a 1736 é uma lacuna nos registros dos quintos. Não há lançamento algum para essa década, tanto que nos permitam conhecer a dinâmica da arrecadação, como destacamos no capítulo 1, quanto que nos tragam indícios da presença ou não de cobradores dos quintos em atuação. No entanto, documentos de outra natureza nos trazem alguns indícios, mais uma vez do cobrador da Vila do Carmo, Rafael da Silva e Souza. Em 1735, o referido cobrador, também cuidara da arrecadação do real quinto, como diz em sua patente: “com inteligência do que lhe for encarregado nele como experimentei quando se comutou o pagamento do Quinto Real do Ouro destas Minas em capacitação que se comutou em praticar em Julho de mil e setecentos e trinta e cinco.”338 Nesse ano, portanto, de instituição da capitação, existiam cobradores para o real quinto, e que ainda eram dos mais poderosos da localidade, já atuantes desde décadas anteriores. Há que se lembrar ainda, conforme mencionamos no capítulo 1, a dúvida colocada sobre os provedores do donativo real atuando de 1727 a 1733, indivíduos estes que seriam ou não provedores dos reais quintos. Ainda que não se tratasse da cobrança do real quinto, mas do donativo para os casamentos dos príncipes do Brasil e das Astúrias, como já acentuamos, o fato é que praticamente os mesmos indivíduos estavam cuidando de mais essa cobrança fiscal em prol da Coroa. E para esse efeito, desempenhavam praticamente a mesma função de alistamento de escravos, vendas, lojas, etc. e entrega nos cofres das câmaras dos valores recebidos de cada distrito de sua jurisdição.339 Após esses registros, as referências aos cobradores são bem pontuais, também por conta da falta de fontes que nos permitam saber mais sobre os agentes em atividade. Como ���������������������������������������� ������������������� 336 AHCMM, Códice 652 – Reunião de listas de escravos – 1735, f. 1v, 62v. 337 AHCMM, Códice 774 – Livro de registro de patentes e provisões – 1725-1755, f. 150-152. 338 AHCMM, Códice 219 – Livro de registro de Provisões e Patentes – 1736-1740, f. 102v, 103. 339 Na Tabela 1 dos cobradores dos quintos reais da Vila do Carmo, optamos por incluir os nomes desses provedores do donativo real, até por conta de serem praticamente os mesmos indivíduos que cobravam os reais quintos. A inclusão se justifica também porque há possibilidades dessa cobrança ser efetivamente do real quinto, já que um dos livros dizia isso em seu enunciado. 154 � vimos no capítulo 1, para esse período praticamente só temos livros de matrículas de forros, mais nada. Quando se inicia o ano de 1751 e são novamente instituídas as casas de fundição, as referências também são poucas, e só voltam a revelar uma atuação efetiva desses homens quando a derrama é cobrada. Mas vejamos com calma. Para 1751, em Vila Rica, encontramos uma procuração do governador Dom Gomes Freire de Andrada a Domingos de Morais. O último devia “cobrar na Provedoria da Fazenda Real, destas Minas, os meus soldos propinas, e Capitações de Escravos, que como Governador, e Capitão General que sou desta Capitania me pertence passando as quitações Recibos, e ressalvas necessárias”.340 Repare-se que nesse ano foram instituídas as casas de fundição e, mesmo assim, o governador nomeia um cobrador para os quintos, para “capitações de escravos”, demonstrando que apesar do retorno das casas de fundição, se podia necessitar de outros apoios de particulares poderosos. Em 1771 também temos algumas referências pontuais de pessoas que deviam cobrar de outras o ouro que devia ser metido na Casa de Fundição de Vila Rica. O Tenente José Pinto da Silva fazia lista do ouro que achou nas freguesias que lhe ordenou o Conde de Valadares, Senhor Capitão Mor José da Silva Pontes. Ele devia notificar às várias pessoas constantes nessa lista de entregar o ouro para o meterem na Real Casa de Fundição até 25 de Setembro