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Tese de doutorado Simone Cristina de Faria

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Universidade Federal do Rio de Janeiro 
 
 
A “MATÉRIA DOS QUINTOS” E OS “HOMENS DO OURO”: 
A DINÂMICA DA ARRECADAÇÃO DOS QUINTOS REAIS 
NA CAPITANIA DE MINAS GERAIS E AS ATRIBUIÇÕES, 
ATUAÇÃO, PERFIL E RELAÇÕES DOS COBRADORES 
DOS QUINTOS (c. 1700 – c. 1780) 
 
 
 
Simone Cristina de Faria 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
2015 
 
 
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A “MATÉRIA DOS QUINTOS” E OS “HOMENS DO OURO”: 
A DINÂMICA DA ARRECADAÇÃO DOS QUINTOS REAIS 
NA CAPITANIA DE MINAS GERAIS E AS ATRIBUIÇÕES, 
ATUAÇÃO, PERFIL E RELAÇÕES DOS COBRADORES 
DOS QUINTOS 
(c. 1700 – c. 1780) 
 
Simone Cristina de Faria 
 
 
Tese de doutoramento apresentada ao Curso de Doutorado do 
Programa de Pós-graduação em História Social do Instituto de 
História da UFRJ como parte dos requisitos necessários à obtenção 
do título de doutor em História Social. 
Linha de pesquisa: Sociedade e Economia 
Orientador: Antonio Carlos Jucá de Sampaio 
 
RIO DE JANEIRO 
2015 
 
 
 
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Tese de doutoramento apresentada ao Curso de 
Doutorado do Programa de Pós-graduação em 
História Social do Instituto de História da UFRJ 
como parte dos requisitos necessários à obtenção do 
título de doutor em História Social. 
 
 
 
Aprovada por: 
____________________________________________________________ 
Prof. Dr. Antonio Carlos Jucá de Sampaio - Presidente 
____________________________________________________________ 
Prof. Dr. João Luís Ribeiro Fragoso 
____________________________________________________________ 
Profª. Drª. Carla Maria Carvalho de Almeida 
____________________________________________________________ 
Profª. Drª. Cláudia Maria das Graças Chaves 
____________________________________________________________ 
Prof. Dr. Roberto Guedes Ferreira 
____________________________________________________________ 
Prof. Dr. Angelo Alves Carrara - Suplente 
____________________________________________________________ 
Prof. Dr. William de Souza Martins - Suplente 
 
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 Faria, Simone Cristina de. 
 A “matéria dos quintos” e “os homens do ouro”: a dinâmica da 
arrecadação dos quintos reais na Capitania de Minas Gerais e as 
atribuições, atuação, perfil e relações dos cobradores dos quintos 
(c. 1700 – c. 1780) / Simone Cristina de Faria, 2015. 
 Vi, 500 f.: il.; 30 cm. 
 Orientador: Antonio Carlos Jucá de Sampaio. 
 Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro 
 Programa de Pós-Graduação em História Social, Instituto de 
 História, Rio de Janeiro, 2015. 
 Referências: f. 449-500. 
 
 1. Minas Gerais – fiscalidade e sociedade (c. 1700 – c. 1780). 
2. Direitos régios (Minas Gerais) – Quintos reais. 3. Sociedade e 
economia – tese. I. Sampaio, Antonio Carlos Jucá de. II. 
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de História, 
Programa de Pós-graduação em História Social. III. T. 
 
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RESUMO 
 
 
O presente trabalho apresenta uma pesquisa dedicada ao que denominamos de uma história 
social da fiscalidade. Em um primeiro momento, o objetivo foi fundamentalmente 
investigar a dinâmica da arrecadação dos reais quintos na Capitania de Minas Gerais, entre 
1700 e 1780, quando a mineração era tida como sua atividade econômica principal. Tal 
investigação, atenta ao funcionamento cotidiano da atividade de cobrança do direito régio 
do quinto (como o mesmo era cobrado, guardado, acondicionado, conduzido e remetido ao 
Reino), buscou demonstrar ainda o complexo jogo de jurisdições no controle da dita 
função entre a Real Fazenda e as câmaras municipais. Já o segundo grande propósito da 
pesquisa foi investigar as atribuições, a atuação, o perfil dos cobradores dos quintos reais e 
as relações que os mesmos estabeleceram com seus escravos, forros, pardos, mulatos e 
afilhados negros, no quadro da construção de sua autoridade na sociedade mineradora 
setecentista. Amparados em um rico corpus documental, buscamos repensar o papel da 
Coroa portuguesa e das elites locais na configuração do poder nas Minas do século XVIII, 
através do estudo da “matéria dos quintos” e do conhecimento de quem eram os “homens 
do ouro”. 
 
 
Palavras-chave: Minas Gerais, fiscalidade, quintos reais, elites sociais, cobradores dos 
quintos, relações sociais. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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ABSTRACT 
 
 
The “matter of fifths” and “the men of the gold”: the royal fifths raising 
dynamics at Minas Gerais captaincy and the tasks, performance, profile and 
relationships of the fifths collectors (c. 1700 -1780) 
 
 
 
Simone Cristina de Faria 
 
 
 
Orientador: Prof. Dr. Antonio Carlos Jucá de Sampaio 
 
 
 
Abstract da Tese de Doutorado submetida ao Programa de Pós-graduação em 
História Social, Instituto de História, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, 
como parte dos requisitos à obtenção do título de Doutor em História Social. 
 
 
This paper presents a research dedicated to what we call a social history of fiscal 
system. At first, the goal was to investigate primarily the royal fifths raising at Minas 
Gerais captaincy, between 1710 and 1780, when mining was regarded as the main 
economic activity. Such research work, focused on the daily operation of collection 
activity of the royal fifth right (as it was charged, stored, packaged, conducted and sent to 
the Kingdom), has also sought to demonstrate the complex jurisdictions scenery to control 
the mentioned activity between the Royal Treasury and town councils. The second major 
purpose of the research was to investigate the tasks, performance, profile and relationships 
established among the royal fifth collectors and their slaves, freed slaves, browns, mulattos 
and black godchildren, as part of building their authority in eighteenth-century mining 
society. Supported by a rich documentary corpus, we seek to rethink the Portuguese Crown 
and local elites roles in power configuration in eighteenth-century Minas Gerais, through 
the study of “matter of fifths” and the knowledge of who were “the men of the gold”. 
 
 
Key-words: Minas Gerais, fiscal system, royal fifths, social elites, fifths collectors, social 
relations. 
 
 
 
 
 
 
 
Rio de Janeiro 
Janeiro - 2015 
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Às minhas meninas Lavínia e Júlia, 
as maiores alegrias da vida da titia. 
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Agradecimentos 
 
 A Capes agradeço pela concessão de uma bolsa de estudos no último ano do curso. 
 Ao ART, o grupo de pesquisa do CNPq Antigo Regime nos Trópicos, agradeço pelo 
apoio durante todo o período do doutorado. As diversas atividades que desenvolvi no 
grupo me permitiram permanecer no curso e me garantiram um aprendizado sem medida. 
Sem o amparo e o cuidado do ART teria sido impossível levar essa pesquisa adiante, e de 
maneira concreta, finalizar essa tese. Ao ART devo esse trabalho, mas mais do que isso, ao 
ART devo tudo que aprendi e que me transformei no decorrer desses quatro anos pra que 
essa tese se tornasse umarealidade. 
 Ao convênio Capes-Cofecub, ainda por intermédio do ART, agradeço a 
oportunidade única da permanência no exterior pelo período de seis meses, o que trouxe 
uma contribuição inestimável pra minha formação profissional e experiência cultural. 
Através de tal convênio pude participar dos seminários, cursos e atividades dos centros de 
pesquisa da École de Hautes Études en Sciences Sociales – Paris; apresentar a pesquisa em 
dois congressos internacionais, um em Paris (na EHESS) e um em Lisboa (na 
Universidade Nova de Lisboa); entrar em contato com vários pesquisadores estrangeiros 
renomados; coletar bibliografia e documentação pertinente, tanto em Paris quanto nos 
preciosos arquivos portugueses; além de enriquecer e aprofundar diversas reflexões 
teóricas e metodólogicas para a pesquisa. 
 Ao meu orientador Antonio Carlos Jucá de Sampaio agradeço por mais quatro anos 
de uma orientação cuidadosa e precisa. Agradeço imensamente pela alegria com que 
acompanhou cada etapa de mais essa pesquisa, pelo estímulo constante, pelas dicas 
preciosas e pela incrível confiança que sempre demonstrou na minha capacidade de 
trabalho. Como se todos esses fatores já não fossem suficientes e dignos de agradecimento, 
a ele agradeço ainda pela amizade que já ultrapassa uma década, uma amizade pela qual 
tenho um carinho muito grande e enorme satisfação de cultivar. 
 Aos professores João Fragoso e Roberto Guedes, muito mais do que o apoio através 
do ART, e das valiosas e enriquecedoras sugestões para a pesquisa, agradeço pela amizade, 
pela atenção e pelo carinho que sempre me dedicaram. Agradeço por serem inspirações 
enquanto pesquisadores e referências historiográficas indiscutíveis para a pesquisa, mas 
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também por serem seres humanos extraordinários e por terem literalmente cuidado de mim 
em momentos importantes da minha vida que tanto precisei de ajuda. 
Aos professores João Fragoso e Carla Almeida agradeço pela participação e 
preciosa contribuição à pesquisa no exame de qualificação, quando me ajudaram a refletir 
sabiamente sobre os rumos que o trabalho ainda estava por tomar. Aos professores João 
Fragoso, Roberto Guedes, Carla Almeida e Cláudia Chaves agradeço pela composição da 
banca da defesa, certa da leitura cuidadosa e enriquecedora que certamente farão desse 
trabalho, como especialistas tão renomados e conhecedores do meu tema e/ou de aspectos 
que o tangenciam. Ao professor William Martins agradeço pelo gentil auxílio nas questões 
religiosas que perpassaram a tese. Seu cuidado, atenção e indicações bibliográficas muito 
me ajudaram. Aos professores Nuno Gonçalo Monteiro, Cláudia Damasceno Fonseca, 
Leonor Freire Costa e Jean-Frédéric Schaub agradeço pela recepção em Paris e em Lisboa, 
na ocasião do estágio sanduíche, e pelas inestimáveis sugestões e horizontes que abriram 
em minha pesquisa. Agradeço especialmente ao acompanhamento quase diário do 
professor Nuno Monteiro em minha estada no Instituto de Ciências Sociais da 
Universidade de Lisboa, e às discussões mais específicas de pesquisas sobre Minas com a 
professora Cláudia Damasceno. Ao mestre Victor Oliveira agradeço pela cuidadosa ajuda 
na confecção do banco de dados da pesquisa. 
 Aos funcionários dos vários arquivos do Brasil e de Portugal devo sinceros 
agradecimentos. Nos arquivos das minhas Minas encontrei uma atenção já característica de 
anos atrás, um cuidado e uma atenção que já de costume me dedicavam. Nos arquivos no 
Rio de Janeiro pude contar com pessoas que me ajudaram a encontrar o que precisava e a 
reproduzir documentos essenciais. Nos arquivos em Portugal também me deparei com 
pessoas gentis e atenciosas e que me ajudaram a entender a organização dos fundos 
portugueses tão vastos e a filtrar o que melhor poderia se adequar às necessidades de 
pesquisa mais imediatas. Também devo lembrar de agradecer aos funcionários do 
PPGHIS, principalmente Sandra e Ana Beatriz, com seu cuidado diário com questões 
burocráticas, agradeço a gentileza e dedicação já conhecida de seu trato. 
 Aos meus queridos amigos, verdadeiros anjos na minha vida, devo mais que 
agradecimentos, mas infelizmente não posso a eles dedicar mais do que essas palavras. A 
eles agradeço por terem sido meu apoio mais do que certo em momentos felizes e em 
momentos muito difíceis também. Ana Beatriz, Andréia, Angélica, Daniela, João Rafael, 
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Joelma, Lívia, Lucimeire, Luiz Guilherme, Marcello, Mareana, Natiele, Rebeca, Regiane, 
Tatiana, Victor e Wander, foram, repito, anjos que Deus mandou do céu pra cuidar de mim 
e me dizer as palavras certas nos momentos certos. Uns mais perto, outros nem tanto, todos 
eles tiveram e certamente ainda tem um papel inquestionável na minha vida e um lugar 
especial em meu coração. Não há como não mencionar ainda que durante a temporada em 
Paris e em Lisboa, Sílvia e Maria foram presentes que a vida reservou pra mim, precisei 
atravessar o oceano pra ter o privilégio de conhecê-las e de desfrutar de uma amizade tão 
verdadeira. Por fim, peço perdão se esqueço de mencionar alguém e assumo a culpa pela 
omissão. 
 A minha irmã repito os agradecimentos que faço quase que diariamente, o primeiro 
de ser minha melhor amiga e de participar de praticamente todos os melhores e piores 
momentos da minha vida, me dando apoio, compreensão e um carinho único. O segundo 
agradecimento é por ter me dado minhas queridas sobrinhas a quem dedico esse trabalho. 
Lavínia e Júlia são hoje simplesmente as razões da minha vida, a alegria dos meus dias, o 
colorido das minhas horas. Minhas meninas me cobrem do amor mais verdadeiro e gratuito 
do mundo e me ensinam que quando tenho o sorriso e o carinho delas é como se não 
precisasse de mais nada pra ser feliz. 
 Aos meus pais, puxa, aos meus pais é mais difícil ainda agradecer. Além da vida, 
me deram e continuam me dedicando um amor que não tem tamanho, que não tem limites, 
que não tem barreiras. São minha base, meu eixo, meu refúgio, meu alicerce, meu tudo. Eu 
sou o que eles me fizeram, o que eles me ensinaram e até o que não puderam me ensinar. 
Mesmo não entendendo tanto o que estudo, o que essa tese significa, foram os que mais 
ajudaram, os que mais estimularam, os que mais se alegraram pelas minhas vitórias, por 
cada capítulo escrito, por cada ponto final que eu dava nos textos. Torceram junto, 
transmitiram calma e transbordaram em compreensão. Por eles acredito que posso ser 
alguém melhor e graças a eles busco isso todo dia, na certeza de que tenho muito ainda o 
que aprender com seus conselhos e com nossa convivência. 
 A Deus, que conhece meu coração, agradeço pela vida, mas principalmente por ter 
me permitido me reconstruir e refazer minha vida ao longo de todo esse processo que 
acompanhou a tese. Nesses quatro anos passei por situações que nunca imaginei passar, 
por experiências que mesmo que alheias à tese não eram alheias a mim. Se não fosse a 
presença de Deus jamais teria superado tanta coisa e aprendido a lidar com uma outra 
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Simone que foi surgindo, como resultado diário das modificações que às vezes não 
percebemos que se operam em nós. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Sumário 
 
Lista de Abreviaturas 16 
 
Lista de Tabelas 17 
 
Lista de Gráficos 19 
 
Introdução 20 
 
Capítulo 1 “Para a satisfação dos quintos”: a dinâmica da arrecadação do direito régio do 
ouro das Minas Gerais 45 
 1.1 “De que pagou de quintos a fazenda de Sua Majestade que Deus guarde”: 
como se lançava o ouro dos reais quintos 48 
 1.1.1 Os primeiros parcos registros (1701-1713, 1713-1721) 49 
 1.1.2 Os queandavam pelos caminhos (1710-1717) 51 
1.1.3 Os róis dos moradores e escravos das Minas e os quintos atrasados 
(1714-1717, 1719-1720) 53 
1.1.4 Fazendo entregas e ajustando contas (1714, 1716, 1720-1725) 57 
1.1.5 Os quintos das carregações e os termos de fiança (1709,1715-1721) 60 
1.1.6 Os arrolamentos de escravos para o lançamento dos quintos de 1718 a 
1720 64 
1.1.7 “Nas Casas da Câmara”: os lançamentos dos quintos de 1721 
a 1723 68 
1.1.8 Os meios quintos, pagamentos restantes antes das Casas de Fundição 
(1724-1725) 72 
1.1.9 Registros dos reais quintos ou dos donativos reais? (1727-1733) 73 
1.1.10 Capitação de negros forros, matrículas de escravos e censo de 
clérigos (1737-1783) 75 
1.1.11 O retorno das Casas de Fundição – 1751 em diante 76 
1.1.12 Os registros da derrama (1764, 1765, 1770) 83 
1.1.13 Livros de cálculos de rendimento do quinto – de 1751 em diante 89 
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1.2 Em “cofres com quatro chaves”: como se guardava o ouro dos reais quintos 90 
1.3 “Para conduzir, escoltar e entregar na Real Intendência de Vila Rica”: como 
se acondicionava e conduzia o ouro dos reais quintos 92 
1.4 “Em naus de guerra que hão de comboiar a frota”: como se remetia o ouro dos 
reais quintos para o Rio de Janeiro e de lá para o Reino 100 
1.5 Pagando tudo o “necessário para os quintos”: o que se despendia com os reais 
quintos 107 
1.6 O “cair no crime de sonegados”: como se condenavam os desviantes do ouro 
dos reais quintos 114 
1.7 Da forma “que o Senado da Câmara ordenar” ou “em receita da Fazenda 
Real”: a responsabilidade institucional com a cobrança dos reais quintos 119 
1.8 Uma perspectiva renovada para se entender a “matéria dos quintos” 129 
 
Capítulo 2 “Com toda a exatidão e bom modo”, porém “de sorte que venha pago”: 
atribuições, atuação e poder de mando da elite local ligada aos reais quintos 131 
2.1 Os “homens do ouro”: os cobradores/provedores dos reais quintos 134 
2.1.1 “Com boas e sãs consciências assim o fariam”: os cobradores dos 
quintos em atividade 136 
2.1.2 Os “homens do ouro” de toda a Capitania de Minas: o mapeamento 
dos cobradores dos reais quintos 155 
2.2 Guardas Mores, Juízes Ordinários, Tabeliães, Procuradores da Câmara e outros 
envolvidos com os Quintos Reais 161 
2.3 Os tesoureiros dos quintos reais 168 
2.4 Os escrivães dos quintos reais 170 
2.5 Os fiscais dos quintos reais 172 
2.6 Os Superintendentes, Intendentes, Ouvidores, Provedores e Desembargadores 
do Ouro 173 
2.7 Por “conduzir, escoltar e entregar todo o ouro pertencente ao Real Quinto”: os 
condutores dos reais quintos 174 
2.8 Os ofícios de “suporte” ao real quinto 176 
2.9 Os vários agentes do ouro: os responsáveis por cada etapa do cuidado com o 
precioso metal 177 
14 
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Capítulo 3 Esquadrinhando a vida dos “homens do ouro”: o perfil dos cobradores dos 
quintos da Leal Vila do Carmo (c. 1700 – c. 1780) 227 
3.1 “Porque todos os moradores destas Minas são de diversas pátrias”: a 
naturalidade dos cobradores dos quintos e seus ascendentes 233 
3.2 Delimitando o grupo: as pessoas “antigas das Minas” cuidando do ouro do real 
quinto 244 
3.3 Casados, solteiros, com filhos ou “embaraços”: a situação civil dos cobradores 
dos quintos 249 
3.4 “O exercício que tem e teve depois que da sua pátria passou para o Brasil”: as 
ocupações econômicas dos cobradores dos quintos reais 260 
3.5 “Com boa satisfação e honrado procedimento”: as patentes militares dos 
cobradores dos quintos reais 266 
3.6 Pelo “bem comum” e pelo “grande desejo de servir a Sua Majestade”: as 
demais solicitações ao Conselho Ultramarino 278 
3.7 De camarários a encarregados do governo das Minas: os outros tantos cargos 
ocupados pelos cobradores dos quintos 281 
3.8 E eram “muito cristãos velhos, que de longe se via”: os processos de 
habilitação para familiar do Santo Oficio dos cobradores dos quintos 290 
3.9 Por “tão justos motivos, costuma Vossa Majestade sempre por via de graça, 
dispensar”: os pedidos de hábitos da Ordem de Cristo pelos cobradores 299 
3.10 Entre jóias finas de ouro e diamantes e móveis de jacarandá e pau branco: a 
composição da fortuna dos cobradores dos quintos 308 
3.11 “Desejando por a minha alma no caminho da salvação”: a relação com o 
sagrado – disposições fúnebres, ordens terceiras e irmandades, missas e legados 325 
3.12 Dotes e heranças: notas sobre a partilha, mecanismos de reprodução social e 
estratégias de manutenção do patrimônio 345 
3.13 Contendas, fugas, omissões, sequestros e prisões: a obrigação de “dar contas” 
das legítimas e disposições testamentárias – uma “confusão da Babilônia” 362 
3.14 “Falecido nas Minas” ou “viera muito rico do Brasil”: o fim da trajetória dos 
cobradores dos quintos 370 
 
15 
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Capítulo 4 “Para tratar de sua vida tomando estado, e vivendo bem”: as relações dos 
cobradores dos quintos com seus escravos, forros, pardos, mulatos e afilhados negros 374 
4.1 “Entre machos e fêmeas, bons e maus, grandes e pequenos e finalmente os que 
se acharem”: a composição do plantel dos cobradores dos quintos 377 
4.2 Alforrias e legados: “pelos bons serviços prestados”, “pelo haver criado”, 
“pelo amor que lhe tinha” 395 
4.3 O “tronco com sua fechadura”, as “missas pelas almas dos escravos”: o 
complexo embate entre conflitos e cuidados 418 
4.4 “Todos os seus negros armados que são número grande”: os escravos armados 
dos cobradores dos quintos reais 424 
 
Considerações finais 433 
 
Anexos 438 
 
Referências Bibliográficas 449 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
16 
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Lista de Abreviaturas 
 
ACML Arquivo da Casa da Moeda de Lisboa 
AEAM Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana 
AHCSM Arquivo Histórico da Casa Setecentista de Mariana 
AHCMM Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Mariana 
AHTCP Arquivo Histórico do Tribunal de Contas de Portugal 
AHU Arquivo Histórico Ultramarino – Minas Gerais 
AN Arquivo Nacional do Rio de Janeiro 
ANTT Arquivo Nacional da Torre do Tombo – Portugal 
APM Arquivo Público Mineiro 
BN Bibilioteca Nacional do Rio de Janeiro 
CC Casa dos Contos de Ouro Preto 
HOC Habilitação da Ordem de Cristo 
HSO Habilitação do Santo Ofício 
RGM Registro Geral de Mercês 
SC Seção Colonial 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
17 
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Lista de Tabelas 
 
Tabela 1 - Os cobradores dos quintos reais da Vila do Carmo (Mariana) 180 
Tabela 2 - Os cobradores dos quintos reais de Vila Rica (Ouro Preto) 184 
Tabela 3 - Os cobradores dos quintos reais da Vila de São João del Rei 185 
Tabela 4 - Os cobradores dos quintos reais da Vila Real do Sabará 187 
Tabela 5 - Os cobradores dos quintos reais da Vila de São José del Rei (Tiradentes) 189 
Tabela 6 - Os cobradores dos quintos reais da Vila Nova da Rainha (Caeté) 190 
Tabela 7 - Os cobradores dos quintos reais da Vila do Príncipe (Serro) 192 
Tabela 8 - Os cobradores dos quintos reais da Vila de Pitangui193�
Tabela 9 – Patentes militares dos cobradores dos quintos reais por vila 156 
Tabela 10 - Guardas Mores, Juízes Ordinários, Tabeliães, Procuradores da Câmara e outros 
envolvidos com os quintos reais 194 
Tabela 11 - Tesoureiros dos quintos reais 201 
Tabela 12 - Escrivães dos quintos reais 204 
Tabela 13 - Fiscais dos quintos reais 208 
Tabela 14 - Superintendentes, Intendentes, Ouvidores, Provedores, Desembargadores do 
Ouro 211 
Tabela 15 - Condutores dos quintos reais 213 
Tabela 16 - Ofícios de "suporte" ao real quinto 223 
Tabela 17 - Naturalidade dos cobradores dos quintos reais 235 
Tabela 18 - Naturalidade dos pais e avós dos cobradores dos quintos reais 236 
Tabela 19 - Ocupações dos pais, avós paternos e avós maternos dos cobradores dos quintos 
reais 240 
Tabela 20 - Tempo de permanência no cargo de cobrador dos quintos reais 246 
Tabela 21 - Idade exata quando cobrador dos quintos reais (para os quais temos 
informações) 248 
Tabela 22 - Situação civil dos cobradores dos quintos reais 249 
Tabela 23 - As "donas" esposas dos cobradores dos quintos reais 251 
Tabela 24 - Ocupações econômicas dos cobradores dos quintos reais 262 
Tabela 25 - Patentes militares dos cobradores dos quintos reais enquanto exerciam o cargo 
e ao fim da vida 267 
18 
�
 
 
Tabela 26 - Tipologia de pedidos ao Conselho Ultramarino e RGM (fora os referentes a 
postos militares) 278 
Tabela 27 - Os outros cargos ocupados pelos cobradores dos quintos reais (fora os postos 
militares) 283 
Tabela 28 - Os outros cargos ocupados pelos cobradores dos quintos reais II (fora os postos 
militares) 286 
Tabela 29 - Tipologia dos bens possuídos pelos cobradores dos quintos reais ao fim 
da vida 310 
Tabela 30 - Composição da fortuna dos cobradores dos quintos reais em réis 317 
Tabela 31 - Média de escravos possuídos pelos cobradores dos quintos reais em 1725 318 
Tabela 32 - Dívidas ativas e passivas dos cobradores dos quintos reais 319 
Tabela 33 - Monte-mores dos cobradores dos quintos reais 321 
Tabela 34 - Cabedal presumido em processos de habilitações para o Santo Ofício 323 
Tabela 35 - Monte-mor médio por tipos de propriedades dos cobradores dos quintos 
reais 324 
Tabela 36 - Destinação dos legados dos cobradores dos quintos reais em testamentos (para 
os 31 que temos informações) 329 
Tabela 37 - Distinções religiosas dos cobradores dos quintos reais 334 
Tabela 38 - Distinções religiosas dos cobradores dos quintos reais 337 
Tabela 39 - Pedidos de celebrações de missas, ofícios, bulas e capelas pelos cobradores dos 
quintos reais 340 
Tabela 40 - Herdeiros dos cobradores dos quintos reais 347 
Tabela 41 - "Escrituras fantásticas" dos cobradores dos quintos reais 354 
Tabela 42 - Composição da escravaria dos cobradores dos quintos reais 380 
Tabela 43 - Pedidos de celebração de missas pelas almas dos escravos 421 
 
 
 
 
 
 
 
19 
�
 
 
Lista de Gráficos 
 
Gráfico 1 – Tempo de permanência no cargo 246 
Gráfico 2 - Situação civil dos cobradores dos quintos reais 250 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
20 
�
 
 
Introdução 
 
 “Como o principal desejo de Sua Majestade inteiramente se dirige a encher de 
felicidade os povos desta Monarquia justamente os de Minas Gerais lhe merecem o 
maternal cuidado de lhe procurar todos os meios de os fazer felizes e abundantes 
porquanto eles são como a fonte, da qual se emanam as excessivas riquezas, que 
constituem a riqueza da maior parte dos seus vassalos, que fazem este Reino 
respeitado, e atendível aos estranhos, e que aumentam o Erário Régio, (...) e 
finalmente o Quinto do Ouro (...) o que Legitimamente devem ao Soberano.”1 
 
Tomás Antonio Gonzaga, nas famosas Cartas Chilenas, nos relata que “a nossa 
Chile”, na verdade Vila Rica, “Em toda parte tinha, à flor da terra, / Extensas e abundantes 
minas de ouro”.2 No trecho acima, de uma representação de 1783 de um documento do 
Erário Régio, vê-se a clara referência que as Minas Gerais eram a fonte da qual emanavam 
enormes riquezas, riquezas estas que tornavam o Reino de Portugal respeitado frente aos 
demais no século XVIII. Além dessas constatações, tão propagadas à época, de que a 
região das Minas rendia à Coroa portuguesa rendimentos extraordinários e sem 
precedentes, pela citação acima se aponta ainda para o fato de que o quinto do ouro, a 
designação dada ao quinhão devido ao monarca sobre o ouro das minas, era ao soberano 
rei devido legitimamente, ou seja, por direito. 
A expressiva quantidade e diversidade de estudos sobre as Minas Gerais no século 
XVIII dá a falsa impressão que temas como o da arrecadação desse direito régio sobre o 
ouro da então preciosa região mineradora é assunto já excessivamente consagrado e 
esgotado pela historiografia. Tal impressão não se sustenta, não obstante o fascínio 
causado em tantos pesquisadores pelo fenômeno desencadeado pela corrida ao famoso 
metal amarelo, que segundo Antonil tinha reflexos “que parecem raios do Sol”.3 Apesar da 
riqueza e abrangência dos variados trabalhos produzidos até o momento, as lacunas da 
nossa historiografia no que tange ao cotidiano da fiscalidade na formação da sociedade 
colonial e a uma história dos agentes que a concretizavam são mais do que evidentes e 
demonstram a relevância de novas perspectivas nesse âmbito. 
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1
 AHTCP, Livro 4066, Erário Régio, 1783, f. 86, 87. 
2
 GONZAGA, Tomás Antônio. Cartas Chilenas. 1789. Site: www.hotbook.com.br, p. 23. 
3
 ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia Limitada, 1982, p. 135. 
21 
�
 
 
Considerando-se a tamanha preocupação que a questão da coleta do ouro adquiriu, 
principalmente nos reinados de D. João V (1706-1750) e de D. José I (1750-1777), e de ter 
sido o metal amarelo “de longe o recurso mais vital do império português”4 – constatações 
estas que dispensam excessiva explicação – , são raros os historiadores que investigaram 
como a Coroa tentou arrecadar a parte que teria direito nas riquezas naturais, ainda que 
tenham acentuado a quantidade de ouro e logo depois de diamantes que chegou em 
Portugal nesse período. Poucos pesquisadores se preocuparam também em conhecer quais 
foram as diferentes políticas régias discutidas e delineadas para cada tipo de cobrança do 
ouro.5 Acrescentamos a tais constatações, além disso, que nenhum investigador procurou 
até o momento entender o funcionamento local dessa atividade na capitania de Minas 
Gerais, e continua sendo um desafio maior ainda conhecer quem foram aqueles que 
diretamente estavam envolvidos na cobrança desse ouro. 
Parte da explicação do desinteresse por essas questões reside nas dificuldades das 
próprias fontes ligadas à fiscalidade, e também na ausência de estudos críticos sobre elas.6 
A fragmentação dessas fontes e seu caráter árido, o pouco conhecimento da organização 
dessas informações restantes e parciais, bem como os contratempos ligados à organização 
dos arquivos, são patentes e têm causado significativos obstáculos ao trabalho dos 
historiadores. Contudo, a explicação para essas lacunas não se resumem obviamente, a 
nosso ver, apenas a esses contratemposda pesquisa com séries documentais dessa 
natureza. O tipo de interpretação reinante até a década de 1990 tinha um caráter estrutural 
marcante e tornava impensável que reflexões como aquelas sobre o papel da Coroa nas 
regiões de produção aurífera partissem de uma perspectiva local.7 O estudo das cobranças 
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4
 PEDREIRA, Jorge M. “As conseqüências econômicas do império: Portugal (1415-1822).” Análise Social, 
vol. XXXII (146-147), 1998, pp. 433-461, p. 438. 
5
 NIZZA DA SILVA, Maria Beatriz. “Ouro e diamantes: as dificuldades da cobrança dos Direitos Reais.” 
Anais de História de Além-Mar. Lisboa: 2007, Vol. VIII, pp. 89-101, p. 89. 
6
 Com exceção do trabalho sobre o Códice Costa Matoso. FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida, 
CAMPOS, Maria Verônica (coord.). Códice Costa Matoso. Coleção das notícias dos primeiros 
descobrimentos das minas na América que fez o doutor Caetano da Costa Matoso sendo ouvidor-geral das 
do Ouro Preto, de que tomou posse em fevereiro de 1749 & vários papéis. São Paulo: Fundação João 
Pinheiro, 1999; e ainda dos importantes livros de Angelo Carrara: CARRARA, Angelo Alves. Receitas e 
despesas da Real Fazenda no Brasil; 1607-1700. Juiz de Fora: Editora da UFJF, 2009; ______. Receitas e 
despesas da Real Fazenda no Brasil, século XVIII: Minas Gerais, Bahia, Pernambuco. Juiz de Fora: Editora 
da UFJF, 2009. 
7
 Entre outros, o clássico estudo de Laura de Mello e Souza, por estes motivos e pelos inerentes às fontes, 
deixou vazios no que tange às questões ligadas à fiscalidade. É o caso de: MELLO E SOUZA, Laura de. Os 
desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII. Rio de Janeiro: Graal, 1982, e também de 
MELLO E SOUZA, Laura de. O sol e a sombra: política e administração na América portuguesa do século 
XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 
22 
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dos reais quintos originando-se, portanto, do seu funcionamento mais rudimentar e local 
não teria significado algum até a bem pouco tempo atrás. Nem muito menos despertaria 
interesse um estudo do grupo que a essa atividade se dedicava. Recentes trabalhos 
permitem que esse tipo de tema ganhe espaço de produção.8 
Os trabalhos, portanto, que até o momento de certa forma trataram da arrecadação 
dos quintos do ouro de Sua Majestade privilegiaram, em geral, o fazer conhecer as 
periodizações dos métodos de cobrança, ou seja, o construir sistematizações dos tipos de 
coleta por período, geralmente tendo por base a legislação e os regimentos decretados 
sobre as Minas. Tais estudos, alguns mais indiretamente que outros na abordagem do tema, 
remontam à década de 1930.9 Desde lá se sucederam várias menções às formas de 
arrecadação do ouro, considerado o principal aspecto que importava conhecer sobre o 
assunto. Percebem-se apenas pequenas discordâncias em tais periodizações, que em geral 
dividem as décadas da mineração em períodos de alternância dos métodos de bateias, 
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8
 Destaca-se a importância das atuais perspectivas prosopográficas e suas consequentes inovações nas 
interpretações sobre o Império português. Para citar apenas alguns trabalhos, entre outros tantos: FRAGOSO, 
João; BICALHO, Maria Fernanda Baptista; GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. (Orgs.) O Antigo Regime nos 
trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001; 
FRAGOSO, João Luís Ribeiro de, ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de, SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá 
de. Conquistadores e negociantes: histórias de elites no Antigo Regime nos trópicos. América lusa, séculos 
XVI a XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007; ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de; OLIVEIRA, 
Mônica Ribeiro de. Nomes e números: alternativas metodológicas para a história econômica e social. Juiz 
de Fora: Ed. UFJF, 2006. 
9
 Os trabalhos mais comumente citados, ainda que não focados exclusivamente na arrecadação dos quintos, 
são os seguintes, entre outros tantos: BOXER, Charles R. A idade do ouro do Brasil. São Paulo: Editora 
Nacional, 1969; HOLANDA, Sérgio Buarque de. “Metais e pedras preciosas.” In: História Geral da 
Civilização Brasileira. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1973, pp. 259-310; PINTO, Virgílio Noya. O 
ouro brasileiro e o comércio anglo-português: uma contribuição aos estudos da economia atlântica no 
século XVIII. 2. ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1979; RUSSEL WOOD, A. J. R. O governo local na América 
Portuguesa: um estudo de divergência cultural. Revista de História. São Paulo, v. 55, ano XXVIII, 1977, pp. 
25-80. Alguns mais específicos podem ser mencionados: CALÓGERAS, João Pandiá. As minas do Brasil e 
sua legislação. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1935; CARDOSO, Manuel da Silveira Soares. “Os 
quintos do ouro em Minas Gerais (1721-1732).” Congresso do Mundo Português. Lisboa, vol. 10, 1940, pp. 
117-128; CAMPOS, Maria Verônica. Governo de mineiros: “de como meter as minas numa moenda e 
beber-lhe o caldo dourado” 1693 a 1737. Tese (Doutorado em História) – Universidade de São Paulo, São 
Paulo, 2002; MAGALHÃES, Joaquim Romero. As Câmaras Municipais, a Coroa e a cobrança dos quintos 
do ouro nas Minas Gerais (1711-1750). In: ______. Labirintos Brasileiros. São Paulo: Alameda, 2011. É 
importante também destacar que diversos memorialistas e viajantes nos oferecem importantes informações 
sobre as cobranças, ainda que esparsas: ANTONIL, André João [João Antônio Andreoni]. Cultura e 
opulência do Brasil. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia Limitada, 1982; ROCHA, José Joaquim da. Geografia 
histórica da Capitania de Minas Gerais. Descrição geográfica, topográfica, histórica e política da Capitania 
de Minas Gerais. Memória histórica da Capitania de Minas Gerais (1788). Belo Horizonte: Fundação João 
Pinheiro, 1995; entre outros. 
23 
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capitação, e casas de fundição, com a conclusão de que nunca se chegou durante todo o 
século a um mecanismo estável de arrecadação dos quintos.10 
Devem-se enfatizar ainda alguns trabalhos bem recentes dedicados às políticas de 
cobrança dos quintos que eram delineadas a cada mudança de modo de arrecadação, que 
tipo de forças podiam mover essas decisões e debates. Alguns acentuam, através de troca 
de cartas e defesas de secretários do rei, os projetos de novas formas de cobrança (como o 
de Alexandre de Gusmão) e suas discussões na Corte.11 As alterações fiscais são 
relacionadas com a formulação e uma nova percepção sobre a política ultramarina com 
discussão sobre o exercício da política e a organização do poder na Corte. Discussões 
sobre projetos se repetem, às quais “além de um método de arrecadação, se discutia, nas 
entrelinhas deste processo de implementação fiscal a estrutura de mando – o modo de 
governar.”12 Os circuitos de decisão e de tomadas de decisão acerca dos métodos de 
arrecadação do ouro podem ser dessa maneira bem melhor conhecidos e 
problematizados.13 
Em um caminho um pouco distinto, mas igualmente inovador, outra série de 
estudos têm conferido atenção às remessas do ouro da Coroa ou de particulares, bem como 
o seu transporte, logo após que o precioso metal fizesse essa passagem para o lado de lá do 
oceano, e assim uma parcela chegasse ao destino dos cofres da realeza de Portugal. Afinal, 
“fiscalizar bem a entrada de ouro era tão importante quanto registrar os pormenores de sua 
produção na Colônia e de seu transporte até Portugal.”14 Alguns desses estudos tentam dar 
um enfoque mais monetário, analisando as emissões de moeda de ouro em Portugal e as 
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10
 Para detalhes sobre as formas que a Coroa portuguesa lançou na cobrança dos quintos ver: CARRARA, 
Angelo Alves. Administração fazendária e conjunturas financeiras da capitania de Minas Gerais – 1700-
1807. (Relatório de Pesquisa). Mariana:UFOP, 2002; CARRARA, Angelo Alves. Produção mineral e 
circulação mercantil na capitania de Minas Gerais – 1700-1807. (Relatório de pesquisa). Mariana: UFOP, 
2002; PAULA, João Antônio de. “A mineração de ouro em Minas Gerais do século XVIII.” In: RESENDE, 
Maria Efigênia Lage de; VILLATA, Luiz Carlos. História de Minas Gerais: As Minas Setecentistas. Vol. 1. 
Belo Horizonte: Autêntica, Companhia do Tempo, 2007, pp. 279-301. Essas sistematizações foram feitas 
com base em uma série de autores desde Simonsen, Pinto, Boxer, Eschwege, entre outros, como se pode 
verificar nos artigos. 
11
 NIZZA DA SILVA, Maria Beatriz. “Ouro e diamantes:.. 
12
 Apud: BICALHO, Maria Fernanda. “Inflexões na política imperial no reinado de D. João V”. Anais de 
História de Além-Mar. Lisboa: 2007, Vol. VIII, pp. 37-56, p. 54. 
13
 COSTA, André. Sistemas fiscais no Império: o caso do ouro do Brasil, 1725-1777. Tese (Doutorado em 
História), Universidade de Lisboa, Instituto Superior de Economia e Gestão, Lisboa, 2013. 
14
 COSTA, Leonor Freire; ROCHA, Maria Manuela; SOUSA, Rita Martins de. “Primeira parada: Portugal”. 
Dossiê ouro. Revista de História da Biblioteca Nacional, novembro 2008, ano 4, no 38, pp. 22-25, p. 23. 
24 
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políticas monetárias no Brasil;15 outros procuram caracterizar o fluxo do ouro sob a forma 
de pó, barra e moeda entre o Brasil e Portugal como fator para a compreensão das relações 
econômicas;16 ou ainda visam conferir relevância a questionamentos mais específicos do 
universo de agentes ligados ao circuito do ouro, buscando conhecer a rede de sujeitos 
ligados a essa rota, com fontes até então desconhecidas.17 Uma recente publicação engloba 
grande parte dessas problemáticas, sistematizando conclusões sobre os apontamentos 
nesses artigos. Esse excelente trabalho preocupou-se, portanto, com a importância dos 
fatores monetários na prestação da economia portuguesa; com o enquadramento fiscal dos 
livros de manifesto (fontes principais da pesquisa); com o apuramento dos quantitativos 
anuais chegados ao Reino; com o estudo das categorias institucionais de receptores desse 
ouro, Estado e particulares; com a estimativa do ouro acumulado em Portugal; com as 
características sociológicas dos agentes envolvidos; e com as características 
organizacionais do comércio transatlântico.18 
Como a historiografia sobre os reais quintos padece de um estudo mais sistemático, 
especialmente afeito ao seu cotidiano e ao que poderíamos chamar de uma história mais 
social da fiscalidade, porque interessada também nos agentes nela envolvidos, o objetivo 
principal dessa tese é reparar essas lacunas. O objeto dessa pesquisa, portanto, é o processo 
de arrecadação dos quintos na capitania de Minas Gerais no que diz respeito ao seu 
funcionamento mais cotidiano, leia-se, de como se exercia corriqueiramente a cobrança nas 
vilas, freguesias e variados lugarejos dessa região. Tais preocupações presumem a 
investigação, além do dia a dia e dos procedimentos da coleta, da responsabilidade 
institucional na gestão dessa atividade, delimitando em que períodos efetivamente a Real 
Fazenda ou o Senado da Câmara deviam se incumbir do cuidado com a cobrança, e o que 
isso significava para um entendimento mais geral da presença da Coroa nas Minas. 
Além desses propósitos, também é objeto dessa tese, cumprindo a pretensão de se 
construir uma história social da fiscalidade, investigar aqueles que concretizavam as 
���������������������������������������� �������������������
15
 SOUSA, Rita Martins de. “O Brasil e as emissões monetárias de ouro em Portugal (1700-1797).” 
Penélope, nº 23, 2000, pp. 89-107. 
16
 COSTA, Leonor Freire; ROCHA, Maria Manuela; SOUSA, Rita Martins de. O ouro do Brasil: transporte e 
fiscalidade (1720-1764). In: site www.abphe.org.br/congresso2003/Textos/Abphe_2003_83.pdf -, pp. 1-23. 
17
 COSTA, Leonor Freire; ROCHA, Maria Manuela. “Remessas do ouro brasileiro: organização mercantil e 
problemas de agência em meados do século XVIII.” Análise Social, Vol. XLII (182), 2007, pp. 77-98. 
18
 COSTA, Leonor Freire; ROCHA, Maria Manuela; SOUSA, Rita Martins de. O ouro do Brasil. Lisboa: 
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, S. A., 2013. As análises contidas nesse livro certamente merecerão 
análises futuras, tanto pela riqueza das suas informações, quanto pelas possibilidades comparativas com 
nossa pesquisa, já que 31 dos cobradores dos quintos constam entre os emissores de ouro para Portugal. 
25 
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atividades ligadas ao ouro das Minas, cuidando dela diretamente antes que o metal 
atravessasse o Atlântico para abastecer os cofres da Coroa portuguesa. As atribuições, 
atuação, poder de mando de toda uma elite local atrelada aos reais quintos podem ser 
conhecidas; além do perfil sócio-econômico e político dos cobradores dos quintos reais de 
Mariana e das relações que os últimos estabeleceram com seus escravos, forros, pardos, 
mulatos e afilhados negros. 
Para tanto, o recorte espaço-temporal estabelecido abrange toda a região que ficou 
conhecida por Minas Gerais entre cerca de 1700 até aproximadamente a década de 1780. 
De uma forma geral, nossa escolha se legitima por se tratar do período em que a capitania 
teve a mineração como sua atividade principal. De 1750 a 1770 deu-se o auge minerador, 
pois apesar do ponto máximo de coleta ter se verificado entre 1735-1739, em 1750 a cota 
de 100 arrobas fora até excedida. A queda depois foi para 86 arrobas, mas só entre 1774-
1785 com uma arrecadação de 68 arrobas tal declínio teria sido mais marcado. Apesar do 
decréscimo, até pelo menos 1770 a estrutura produtiva foi conservada sem maiores 
modificações. Só em meados desta década o declínio começou a provocar uma 
“rearticulação econômica intencional” que poderia ser percebida a partir de 1780. E assim, 
de 1780 a 1810 a mineração não mais seria a atividade econômica principal das Minas 
perdendo espaço para as atividades agropecuárias.19 
A delimitação do período de dominância da atividade mineradora nas Minas, e 
consequentemente de representatividade do montante de ouro arrecadado nesse espaço de 
tempo, portanto, dá a devida pertinência ao recorte. De forma mais específica, todavia, o 
marco inicial se justificou ainda pelo princípio das séries de fontes fiscais trabalhadas 
(livros de receita e lançamento dos quintos, de capitação de escravos, entre outros), e o 
marco final por coincidir com o período em que os cobradores começam a desaparecer dos 
diversos registros em que pudemos detectá-los em atuação variada, inclusive devido ao 
fato de que a maioria já tinha falecido até essa década. 
Passamos nesse instante para um momento que entendemos por essencial dessa 
introdução, qual seja a explicitação dos conceitos chave norteadores dessa pesquisa, tanto 
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19
 Partilhamos nesse momento da periodização reformulada pela professora Carla Almeida, em trabalho 
importante onde rompe com mitos da historiografia sobre Minas, ainda que a ideia de decadência já viesse 
sendo repensada por outros estudos. De forma muito evidente, Almeida chama atenção ainda para o fato de 
que a decadência da produção aurífera não significou, em medida alguma, uma estagnação econômica da 
região, mesmo no auge minerador havia a clara concomitância dessa atividade com a agricultura e a pecuária. 
ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. Homens ricos, homens bons: produção e hierarquização social em 
Minas Colonial: 1750-1822. Tese de doutorado. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2001, p. 16-33. 
26 
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mais gerais quanto mais específicos. Os conceitos mais gerais dizem respeito 
fundamentalmente aos de monarquia pluricontinental, sociedade corporativa e 
autogoverno, ideias que permitem que essa sociedade ganhe inteligibilidade aos olhos de 
nós pesquisadores, além de lhe conferira devida complexidade. Já os conceitos mais 
específicos fazem referência ao que compreendemos por direito régio (em contraposição a 
imposto) e por elite, noções estas que perpassam todo o trabalho e que guiam muitas de 
nossas conclusões sobre os dados empíricos encontrados. 
 Iniciamos, portanto, destacando que estudamos um período e uma região 
caracteristicamente vinculados ao que vem sendo denominado mais recentemente de 
monarquia pluricontinental. Tal noção foi primeiramente desenvolvida por Nuno Gonçalo 
Monteiro, em um artigo sobre as redes de parentesco da família dos Távoras. No dito 
artigo, o autor conclui que a monarquia portuguesa tinha uma dimensão imperial única no 
contexto da Europa dos séculos XVII e XVIII pela dependência das receitas vindas do 
império atlântico e por sua experiência de circulação pelo império. Assim, os “domínios 
ultramarinos” da monarquia portuguesa e a capacidade de autonomia das suas elites lhes 
conferiam “uma feição decididamente pluricontinental”. Isso por conta dos domínios que 
conferiam à monarquia sua dimensão territorial.20 
Logo depois, João Fragoso e Maria de Fátima Gouvêa trabalharam mais 
detidamente na formulação do conceito, agregando a ele a concepção corporativa de 
sociedade e de autogoverno das comunidades. Dessa forma, essa ideia se tornaria, segundo 
os últimos, uma chave cognitiva importante e capaz de dar conta da dinâmica do império 
ultramarino português.21 Nessa monarquia pluricontinental, “caracterizada pela presença de 
um poder central fraco demais para impor-se pela coerção, mas forte o suficiente para 
negociar seus interesses com os múltiplos poderes existentes no reino e nas conquistas”, os 
diferentes espaços, Reino e domínios, estariam integrados em uma mesma construção 
política. Tanto para Portugal quanto para as diversas conquistas extra-europeias, havia um 
grande conjunto de leis, regras e corporações, que conferiam unidade e significado às 
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20
 MONTEIRO, Nuno Gonçalo F. A “tragédia dos Távaras”. Parentesco, redes de poder e facções políticas na 
monarquia portuguesa em meados do século XVIII. In: FRAGOSO, João e GOUVÊA, Maria de Fátima. 
(orgs.) Na trama das redes: política e negócios no império português, séculos XVI-XVIII. Rio de Janeiro: 
Civilização Brasileira, 2010, pp. 317-342. 
21
 FRAGOSO, João e GOUVÊA, Maria de Fátima. Monarquia pluricontinental e repúblicas: algumas 
reflexões sobre a América lusa nos séculos XVI-XVIII. Tempo. Niterói, v. 14, n. 27, dez/2009, pp. 36-50, p. 
38. 
27 
�
 
 
variadas áreas vinculadas entre si e ao Reino.22 Esse quadro tornava possível que as 
ligações entre as partes dessa monarquia fossem muito mais próximas do que em outras 
monarquias (as monarquias compósitas).23 
Segundo Fragoso e Gouvêa, essa monarquia pluricontinental se tornava realidade 
ainda pela “ação cotidiana de indivíduos que viviam espalhados pelo império em busca de 
oportunidades de acrescentamento social e material”, e que tais indivíduos “não se 
colocam passivos diante das regras gerais e que se utilizam das fraturas existentes no 
permanente diálogo travado entre regras gerais e locais.”24 Esses homens, fosse no Reino, 
no Rio de Janeiro, ou nas Minas Gerais, comungavam de tal uniformidade mencionada, 
não significando, no entanto, que não levassem em conta os valores de onde eram 
provenientes, Portugal, África, ou até os indígenas. 
Há, para essa concepção, em vista de tudo isso, a ideia de que o Reino não existia 
sem os seus territórios do ultramar, e que esses territórios, por sua vez, não eram meros 
apêndices de Portugal e garantiam a centralidade material do mesmo.25 As dimensões da 
dominação se completavam e se combinavam com as dimensões da negociação, sem as 
quais é impossível entender as relações nessa monarquia. Afinal, já não é mais cabível 
entender o período colonial no Brasil com o esquematismo excessivo até há pouco tempo 
adotado, onde a sociedade se reduzia a senhores e escravos e seria “um simples corolário 
da expansão mercantil europeia”.26 
A construção do conceito de monarquia pluricontinental, após esse estudo 
detalhado acima, tem sido uma das preocupações atuais, segundo João Fragoso, dos 
pesquisadores do grupo Antigo Regime nos Trópicos para se compreender melhor o 
império ultramarino luso. Ressalta-se cada vez mais que no interior da ideia de monarquia 
pluricontinental deve-se destacar a ação dos municípios entendidos como repúblicas, com 
as câmaras interferindo na dinâmica do império. E já são vários os estudos nessa direção.27 
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22
 Idem, p. 42. 
23
 Tais monarquias incorporam territórios já existentes antes, preservando, ao menos no início, suas 
instituições específicas e essas diversidades pareciam ser mantidas. ELLIOT, John. “A Europe of Composite 
Monarchies”. Past and Present, nº 137, 1992, pp. 48-71. 
24
 FRAGOSO, João; GOUVÊA, Maria de Fátima. Monarquia pluricontinental e repúblicas..., p. 43. 
25
 Idem, p. 43. 
26
 Fragoso e Gouvêa mencionam ainda que questionando tais interpretações não se quis negar o fato colonial, 
mas sim não se reduzir tudo a ele. Ibidem, p. 41. 
27
 Ver as obras: GUEDES, Roberto (org.). Dinâmica imperial no antigo regime português: escravidão, 
governos, fronteiras, poderes, legados: séc. XVII-XIX. Rio de Janeiro, Mauad X, 2011; FRAGOSO, João e 
SAMPAIO, Antonio Carlos Jucá de (orgs.). Monarquia pluricontinental e a governança da terra no ultramar 
atlântico luso: séculos XVI – XVIII. Rio de Janeiro: Mauad X, 2012. 
28 
�
 
 
Além dessas obras, outro artigo revela um importante esforço analítico de aprimoramento 
dessa concepção. Nele os pressupostos mencionados acima são ainda mais detalhadamente 
explicitados, nos ajudando a compreender como uma monarquia que abordava muitos 
continentes vivia em uma dimensão pactuada, policentrada, onde existiam vários corpos 
que tinham papel e voz diante da Coroa através de constantes negociações com a mesma. 
Essa monarquia, portanto, que tinha na periferia, ou seja, nas suas conquistas ultramarinas, 
a sua centralidade e seu sustento, viva fazendo sucessivos acordos com os municípios 
pertencentes a ela e aos seus domínios, sendo que os últimos tinham capacidade declarada 
de ingerência na gestão do império ultramarino.28 
Bem, como mencionado, o conceito de monarquia pluricontinental se assenta em 
uma concepção de mundo corporativa e polissinodal com autonomia do poder local. E 
sobre tais noções competem ainda se fazer algumas considerações. 
Uma sociedade corporativa pressupunha primeiramente que não houvesse a 
possibilidade de um poder incompartilhado. A cabeça, ou seja, o rei, deveria manter a 
harmonia e realizar a justiça, mas seu poder era também distribuído com os demais 
membros, e só assim se garantia o funcionamento do “bem comum”. Essa 
indispensabilidade de todos os órgãos da sociedade se desdobra da constatação da 
impossibilidade de um poder “puro”, “absoluto”, diga-se de passagem, impraticável em 
qualquer meio social. Hespanha define esse modelo corporativista como um “pensamento 
social e político medieval dominado pela idéia de uma ordem universal que orientava as 
criaturas”, cada parte cooperando de uma forma.29 Nuno Monteiro também sustentou que, 
ao invés de um movimento de centralização, o que prevaleceu foi um modelo corporativo 
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28
 FRAGOSO, João. Modelos explicativos da chamada economia colonial e a ideia de Monarquia 
Pluricontinental: notas de um ensaio. História (São Paulo), v. 31, n. 2, jul/dez 2012, pp. 106-145. Nesse 
importante artigo é possível ter acesso ainda a um requintado retrospecto da discussão historiográfica em 
torno dos modelos que explicaram a economia colonial desde as décadas de 1970e 1980. 
29
 HESPANHA, António Manuel. “A representação da sociedade e do poder.” In: Mattoso, José. (Org.) 
História de Portugal: o Antigo Regime. Lisboa: Editorial Estampa, 1993, p. 122-125. Hespanha menciona, 
em outros textos, que a impossibilidade de um poder “puro” e “absoluto” deriva, ou melhor, só foi possível 
de ser concebida, graças a um progresso das concepções acerca dos diferentes níveis e mecanismos de 
instauração da ordem nas sociedades pré-contemporâneas, atingido por Michel Foucault, ao provocar uma 
explosão do conceito de poder, “antes só nos lugares institucionais, agora em todos os nichos do tecido 
social”. HESPANHA, António Manuel; XAVIER, Ângela Barreto. “As redes clientelares.” In: Mattoso, José. 
(Org.) História de Portugal: o Antigo Regime. Lisboa: Editorial Estampa, 1993, pp. 381-393; HESPANHA, 
António Manuel. “Governo, elites e competência social: sugestões para um entendimento renovado da 
história das elites.” In: BICALHO, Maria Fernanda; FERLINI, Vera Lúcia Amaral. Modos de Governar: 
idéias e práticas políticas no Império Português, séculos XVI a XIX. São Paulo: Alameda, 2005, pp. 39-44. 
29 
�
 
 
no período moderno e a Coroa podia dispor de “poucos meios para se afirmar de maneira 
exclusiva”.30 
Ainda segundo Hespanha, esse modelo corporativo de governo se adapta 
perfeitamente às fontes da época e é indispensável para “remover algumas distorções muito 
difundidas na história colonial brasileira”. O autor destaca que se o policentrismo, o 
pluralismo jurídico-político, a confusão jurisdicional, entre outros, se verificavam no 
Reino, com seus 89.000 km2, como poderia, segundo ele, deixar de acontecer num imenso 
território, cujas costas estavam separadas da metrópole por mais de um mês de Oceano, 
com interiores pouco acessíveis, sertões, rios, florestas, entre outros obstáculos.31 
Nesse contexto, todos tripudiavam e faziam tropelias “em nome d’el-rei”, segundo 
Hespanha. Assim, a própria coroa, “em estado de necessidade e em transe de perder até a 
face, frequentemente cobria os desmandos, ou com o silêncio de presumida ignorância, ou 
com o manto do perdão ou mesmo com o alarde de uma mercê por tais serviços”.32 E é 
importante mencionar ainda, conforme muito bem trabalhado pelo autor, que os escravos 
compunham essa moldura do sistema corporativo, afinal eles faziam parte da casa, da 
família, estando para as sociedades coloniais como os criados, camponeses e outros 
estavam para as sociedades europeias, e eram regidos por um direito fundamentalmente 
doméstico, controlado pelos pais de família.33 
Já a prerrogativa do autogoverno das comunidades, isto é, a legitimação desse 
poder pela legislação da própria monarquia, deu-se para “reconhecer o papel de liderança 
local que cabia às “pessoas principais das terras” (1570), aos “melhores dos lugares” 
(1603, Ordenações), aos “melhores da terra” (1618), às “pessoas da melhor nobreza” 
(1709)”, e assim “reservando-lhes os “principais ofícios da República” nas diversas 
povoações do reino, ou seja, os ofícios honorários das câmaras e os postos superiores das 
ordenanças.”34 Joaquim Romero Magalhães teria sido um dos primeiros a enfatizar a 
vitalidade e autonomia dos corpos políticos locais “face a um absolutismo declarado desde 
fins da Idade Média”.35 A realeza, segundo ele, não dispunha de meios para provir 
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30
 MONTEIRO, Nuno Gonçalo. Elites e poder entre o Antigo Regime e o Liberalismo. Lisboa: ICS, 2003, p. 
26, 27. 
31
 HESPANHA, António Manuel. Depois do Leviathan. Almanack Braziliense. No 5, maio 2007, pp. 55-66, 
p. 60, 61. 
32
 Idem, p. 64. 
33
 Ibidem, p. 65-66. 
34
 MONTEIRO, Nuno Gonçalo. Elites e poder..., p. 43. 
35
 Idem, p. 26, 27. 
30 
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nomeações em toda parte, e para aprovar e interferir nas escolhas locais, por isso teve que 
reconhecer os grupos locais prestigiados em quem confiar. Assim, a vida econômica, as 
questões de abastecimento, o recrutamento militar, a defesa sanitária e parte das 
imposições fiscais, ou eram atribuições que iam sendo reforçadas, ou eram novamente 
delegadas aos municípios, ou até para eles transferidas.36 
Segundo João Fragoso, a Coroa conferia autonomia aos conselhos nas colônias e 
assegurava a legitimidade das normas locais e de uma hierarquia social costumeira, 
possibilitando assim sua grande fluidez. Dessa forma, o autogoverno dos municípios dava 
aparato institucional a uma monarquia que, segundo ele, “convivia por se espalhar pelo 
mundo”, com diversas realidades culturais e sociais. Práticas estas que correspondiam a um 
determinado pensamento cristão e à sua disciplina social, apesar das diferenças dos 
costumes locais de município a município.37 
Encerrando essa parte de nossa introdução, dedicada aos conceitos mais gerais que 
norteiam esse trabalho, destacamos as palavras de António Manuel Hespanha que parecem 
ser bem elucidativas das fragilidades de um império que não pode mais ser interpretado 
rigidamente por absolutista: 
 
“A centralidade “do Império” dissolvia-se num emaranhado de relações contraditórias 
entre uma multiplicidade de pólos, nos quais a coroa ocupava lugares e hierarquias 
diversas, frequentemente insignificantes, por vezes escandalosamente rebaixadas; e 
em que, em contrapartida, tanto se alevantavam poderes locais altaneiros, como as tais 
sombras dos “funcionários” régios se alongavam em dimensões autônomas, cobrindo 
e dando legitimidade prática a toda sorte de iniciativas e ousadias, que os regimentos 
rejeitavam e as cartas régias mal podiam coonestar.”38 
 
Passando agora aos conceitos ditos acima como mais específicos a reger esse 
trabalho, iniciamos pela noção de direito régio, que aplicamos ao real quinto em 
contraposição à ideia de tributo ou imposto. Segundo Raphael Bluteau o quinto é “a quinta 
parte de uma fazenda, de uma soma” e a quinta parte “lhe fez doação do Quinto, que 
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36
 MAGALHÃES, Joaquim Romero. “Os nobres da governança das terras”. In: MONTEIRO, Nuno; 
CARDIM, Pedro; CUNHA, Mafalda Soares da (org.). Optima Pars: Elites Ibero-Americanas do Antigo 
Regime. Lisboa: ICS, 2005, p. 66, 67. 
37
 FRAGOSO, João e SAMPAIO, Antonio Carlos Jucá de (orgs.). Monarquia pluricontinental e a 
governança da terra no ultramar atlântico luso: séculos XVI – XVIII. Rio de Janeiro: Mauad X, 2012, p. 11. 
38
 HESPANHA, António Manuel. Depois do Leviathan..., p. 58. 
31 
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pertencia a el Rey desta conquista”.39 E principiamos por essa concepção, de ser o quinto 
pertencente ao monarca português, por sua conquista das Minas Gerais com a descoberta 
do tão procurado ouro do Brasil. 
Friedrich Renger acentua, no início de um artigo onde busca sistematizar diversas 
informações sobre formas de cobranças dos quintos desde seus primeiros regimentos, até 
anteriores à descoberta das gerais, que o “quinto não é um imposto, nem contribuição ou 
tributo: na realidade, trata-se do pagamento de um direito”.40 Instituição anterior à 
descoberta das futuras Minas Gerais, o autor nos leva a compreender como o quinto era 
tratado como um direito pela legislação portuguesa desde o rei D. Duarte (1433-1438), 
sendo incorporado depois às Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas. Com 
acrescentamentos pontuais, é possível acompanhar na leitura do texto o quinto visto como 
um “direito real” sobre veios de ouro ou prata ou qualquer outro metal e como os reis em 
diversas ocasiões afirmavam repetidamente seu direito sobre essas extrações. Nas 
Ordenações Filipinas, que também teriam sido base da legislação do Brasil Colônia até 
1916, os direitos reais, segundo destaca Renger, continuavam os mesmos, e é até criado um 
novo título: Das Minas e Metais, certamente inspirado pelas notícias dos novos 
descobrimentosde ouro no Brasil, conforme acredita o autor.41 
Nesse título das Ordenações Filipinas, o título XXXIV, diz-se que o rendimento dos 
direitos devia se dar “como sempre se usou nestes Reinos”. O registro de tudo devia ser 
feito pelas câmaras, e “de todos os metais que se tirarem, depois de fundidos e apurados, 
nos pagarão o quinto em salvo de todos os custos”.42 Além disso, só depois de pagos os 
devidos direitos se poderia vender o ouro para quem se quisesse. Fica evidente a questão 
do costume já empregado de se dar ao rei a quinta parte sobre todos os metais que se 
tirassem de qualquer solo de seu domínio. E nas Minas Gerais, também regida pelas ditas 
ordenações, igualmente deveria se compreender que o quinto sobre seu precioso ouro era 
devido ao rei salvo de seus custos. 
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39
 BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez e latino. DINFO: Universidade do Estado de Rio de Janeiro. 
CR-ROM. 
40
 RENGER, Friedrich. O quinto do ouro no regime tributário nas Minas Gerais. Revista do Arquivo Público 
Mineiro, n. 1, jul./dez. 2006, pp. 90-105, p. 92. 
41
 Idem, p. 92 ss.. 
42
 ALMEIDA, Cândido Mendes de, ed. Codigo Philippino ou Ordenações e Leis do Reino de Portugal 
recopiladas por mandado d'El-Rey D. Philippe I. 14ª Edição. Rio de Janeiro: Tipografia do Instituto 
Filomático, 1870, Livro II, Título XXXIV. In: CARDIM, Pedro; XAVIER, Ângela Barreto e SILVA, Ana 
Cristina Nogueira da (coord.). Ius Lusitaniae - Fontes Históricas do Direito Português. Lisboa: Universidade 
Nova de Lisboa, POCTI, Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Disponível em: 
http://www.iuslusitaniae.fcsh.unl.pt/verlivro.php?id_parte=85&id_obra=65&pagina=69 
32 
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Antonil, na sua terceira parte de Cultura e Opulência do Brasil, em vários 
momentos diz dos quintos “devidos à Sua Majestade”. No entanto, há um tópico específico 
onde ele disserta sobre a obrigação de se “pagar a El-Rey nosso Senhor a quinta parte do 
Ouro, que se tira das Minas do Brasil”.43 Em tal tópico, o autor começa por tratar de pontos 
nas ordenações onde fica claro o direito do rei sobre parte os metais retirados das minas, 
trechos inclusive que já mencionamos acima. Todos os que falaram dessa questão, segundo 
ele, eram concordantes “serem de tal sorte as Minas do Direito Real, por razão dos gastos, 
que El-Rey faz em prol da República, que por essa causa não os pode alienar”.44 Citando 
vários juristas, não só portugueses, Antonil vai comprovando como é patrimônio régio o 
que se minera, independente do metal, em vários lugares semelhantemente às Minas Gerais 
e ainda que fossem terras particulares. Contudo, Antonil também levanta a questão de se o 
quinto seria um tributo, mas ainda assim destaca: 
 
“Ou se considerem pois as Minas como parte do Patrimônio Real, ou como justo 
Tributo para os gastos em prol da República, é certo, que se deve a El-Rey o que para 
si reservou, que é a quinta parte do Ouro, que delas se tirar, puro, e livre de todos os 
gastos: e que o que se manda nas Ordenações acima referido, está justamente 
ordenado: e que prescindindo de qualquer pena, o quinto ex natura rei se lhe deve, não 
menos, que outro qualquer justo tributo, ordenado para bem da República, ou como 
cobra a pensão, que impõem sobre qualquer outra parte do seu Patrimônio, como é a 
que se lhe deve, e se lhe paga dos Feudos.”45 
 
Perceba-se que a distinção entre direito e tributo para Antonil aparentemente parece 
não ser uma questão importante, mas pelas suas próprias palavras é possível notar que o 
que considera mais relevante, de ser o quinto devido ao rei por direito dele, legitima o que 
se entende pela primeira acepção, qual seja, a de direito régio. Continuando seu raciocínio 
da assertiva acima, Antonil sublinha ainda que dessa matéria não se deveria permitir por 
dúvida “por ser sentença do Vigário de Cristo na Terra, dada, e publicada legitimamente, 
depois de maduro conselho, e grande atenção, como pedia a matéria, e defendida por justa, 
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43
 ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia Limitada, 1982, p. 146. 
44
 Idem, p. 147. 
45
 Ibidem, p. 150. 
33 
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válida, e lícita de tantos, e tão insignes Doutores”, dúvida esta que não devia ser colocada 
na própria conquista do Brasil.46 
Juntamente à discussão detalhada que Antonil trava em torno dos quintos como 
direito ou tributo, outro ponto ainda é tratado e diz respeito ao fato dessa quinta parte do 
ouro tirado das Minas ser obrigação em consciência ao rei ou questão meramente penal. O 
autor é exato ao dizer que: 
 
“E deste fundamento certíssimo se infere também certamente, que os quintos do Ouro, 
que se tira das Minas do Brasil, se devem a El-Rey em consciência: e que a Lei feita 
para segurar a cobrança deles, não é meramente penal, ainda que traga anexa a 
cominação da pena contra os transgressores; mas que é Lei dispositiva, e moral, e que 
obriga antes da sentença do Juiz em consciência.”47 
 
A obrigação em consciência parece, a nosso ver, endossar ainda mais a concepção 
do quinto como um direito máximo do rei, a ele devido, e legitimamente, como destacado 
ainda na primeira citação dessa introdução. Aliás, nos próprios livros dos quintos a palavra 
direito aparece a eles se referindo, ainda que a natureza dos documentos fiscais não nos 
permita travar esse tipo de discussão, devido à sua aridez. Mas o uso do termo também era 
frequente em outros documentos da época que tivemos acesso, ainda que não tenhamos nos 
detido especificamente em correspondências, pareceres, instruções e outros documentos 
afins.48 Em um deles se diz claramente do “Direito Senhorial dos Quintos nas cem arrobas 
de ouro, que os Povos da dita Capitania ofereceram a Sua Majestade para se premirem da 
Capitação com que eram vexados”.49 
O segundo conceito mais específico que gostaríamos de mencionar é o de elite. Ao 
trabalharmos com um grupo específico, que certamente se localizava no topo da sociedade 
mineradora, entre seus principais, como veremos, é essencial mencionar o que tratamos 
nessa pesquisa por elite, sendo esse conceito tão caracteristicamente vago. E fazendo tal 
afirmação concordamos com António Manuel Hespanha quando discorre sobre a 
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46
 Ibidem, p. 150, 151. 
47
 Ibidem, p. 154. 
48
 AHTCP, Livro 4066, Erário Régio, 1783, 1784. 
49
 AHTCP, Livro 4070, Erário Régio, 1790. 
34 
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imprecisão do termo destacando que todos os grupos são de certa forma elite por ter algum 
grupo que os reconheçam como detentores de uma legitimidade para dirigir.50 
Apesar de reconhecer esses preciosos questionamentos, destacamos que vivemos 
em um contexto crítico onde as tendências atuais da historiografia brasileira apontam para 
a colocação do estudo das elites em cena, bem como também da sua relação com os demais 
grupos sociais que as rodeavam, revelando produção notável e elevada qualidade. Nesse 
momento deixamos claro que, nos amparando nesses estudos, entendemos por elites 
aqueles que “controlavam ou pretendiam controlar as artérias da economia colonial”,51 no 
plural considerando a heterogeneidade desses grupos.52 A nobreza da terra era um desses 
grupos, um “punhado de famílias que comandaram a conquista da América para a 
monarquia portuguesa e, entre outros agentes, foram os responsáveis pela organização da 
sua base produtiva (cana-de-açúcar, pecuária, lavras de ouro etc.) e do governo econômico 
da res publica”.53 
Para as Minas, esses grupos locais, “reconhecidos como parte fundamental do 
organismo pelo qual o rei devia zelar”54, já começaram a ser satisfatoriamente conhecidos. 
Os conquistadores, que se tornavam a nobreza da nova terra, faziam surgir, segundoFragoso, uma “nova geografia política”, com novas feições e alianças familiares 
supracapitanias.55 Trabalhos visando conhecer o perfil econômico, origem e inserção 
política e social desses grupos, revelam que esses homens em geral se destacavam pelos 
bens que possuíam, pelas patentes militares que ostentavam, pelos pleitos com o Conselho 
Ultramarino ou cargos da administração colonial que ocupavam.56 Na sua maioria vindos 
do norte de Portugal, esses homens tinham feições cosmopolitas, e construíam redes nos 
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50
 HESPANHA, António Manuel. “Governo, elites e competência social..., pp. 39-44. 
51
 FRAGOSO, João Luís Ribeiro; ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de; SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de. 
“Introdução”. In: ______. Conquistadores e Negociantes..., p. 19. 
52
 Sobre as múltiplas formas que a nobreza assumir na colônia ver: NIZZA DA SILVA, Maria Beatriz. Ser 
nobre na colônia. São Paulo: Unesp, 2005. 
53
 Idem. 
54
 ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de; OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. “A conquista do Centro-Sul: 
fundação da Colônia de Sacramento e o “achamento” das Minas.” Texto inédito (em prelo). Rio de Janeiro: 
2009, pp. 1-39, p. 38,39. 
55
 FRAGOSO, João. “Potentados coloniais e circuitos imperiais: notas sobre uma nobreza da terra, 
supracapitanias, no Setecentos”. In: MONTEIRO, Nuno; CARDIM, Pedro; CUNHA, Mafalda Soares da 
(org.). Optima Pars: Elites Ibero-Americanas do Antigo Regime. Lisboa: ICS, 2005, pp. 133-168, p. 133. 
56
 Destaque especial para: ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. Ricos e pobres em Minas Gerais: produção 
e hierarquização social no mundo colonial, 1750-1822. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2010. 
35 
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mais distintos pontos do império.57 O conhecimento da imigração e do sistema de 
casamentos, e assim dos seus entrelaçamentos familiares,58 ajudam a compreender como as 
relações eram tecidas cotidianamente, quais eram as opções abertas para estes homens, e o 
que faziam para alcançar o que almejavam.59 No entanto, há de se considerar também o 
fato desses grupos se encontrarem em Minas em constante formação, devido à fronteira 
aberta por conta da atividade mineradora que trazia novas levas de população por 
sucessivas décadas. 
Destacamos ainda, conforme constatações de Nuno Monteiro, que as elites sociais e 
institucionais do Brasil, ainda que se estruturassem em hierarquias próprias, e obviamente 
diferentes por ocasião do espaço em que estavam inseridas, procuravam conquistar os 
mesmos tipos de distinções que eram importantes no centro do império.60 E o rei as 
premiaria, pois à custa de seu suor e fazendas serviam das mais diversas formas ao 
monarca.61 Tais constatações que caracterizam as elites do Brasil também nos serviram de 
base para compreender como atuavam e qual era o perfil de uma elite ligada ao ouro, os 
cobradores dos reais quintos. 
Chegamos a outro momento importante dessa introdução, qual seja, a exposição de 
nosso suporte metodológico da pesquisa, aqueles pressupostos que guiaram, portanto, a 
maneira como olhamos e trabalhamos as nossas fontes documentais. Tal suporte diz 
respeito fundamentalmente a procedimentos microanalíticos e de caráter prosopográfico, 
técnicas e métodos que se mostraram essenciais e que, a nosso entendimento, se 
adequaram perfeitamente aos nossos objetos de estudo. 
Quanto aos primeiros procedimentos, os microanalíticos, há de se destacar que tais 
pressupostos foram resultado de um conjunto de reflexões decorrentes do questionamento 
das grandes interpretações, seguido de um movimento de recuperação do sujeito na cena 
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57
 ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. “Do Reino às Minas: o “cosmopolitismo” da elite mineira 
setecentista.” In: FRAGOSO, João... [et al.] (orgs.) Nas rotas do império: eixos mercantis, tráfico e relações 
sociais no mundo português. Vitória: Edufes; Lisboa: IICT, 2006, pp. 331-354. 
58
 ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. “Trajetórias imperiais: imigração e sistema de casamentos entre a 
elite mineira setecentista”. In: ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de; OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Nomes 
e números: alternativas metodológicas para a história econômica e social. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2006; pp. 
71-100. 
59
 ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. “Uma nobreza da terra com projeto imperial: Maximiliano de 
Oliveira Leite e seus aparentados.” In: FRAGOSO, João Luís Ribeiro; ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de; 
SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de. Conquistadores e Negociantes: Histórias de elites no Antigo Regime 
nos trópicos. América Lusa, séculos XVI a XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, pp. 121-193, 
p. 129. 
60
 MONTEIRO, Nuno Gonçalo. Elites e poder..., p. 135. 
61
 ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. “Uma nobreza da terra com projeto imperial..., p. 144. 
36 
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histórica. Essa perspectiva alternativa, no que rompe com interpretações estrutural-
funcionalistas da sociedade, procura conferir atenção ao estudo da ação social, enquanto 
relações que os indivíduos verdadeiramente experimentavam e participavam ativamente. 
Falamos do que ficou conhecido por micro-história. 
Mais do que uma nova metodologia, a micro-história, em sua vertente italiana, 
surgiu na década de 1970 com um inovador corpo teórico, ainda que obviamente não 
homogêneo, respondendo aos problemas vividos pela disciplina histórica naquele 
determinado momento. Em período de dúvidas e interrogações, de perda da confiança na 
quantificação, de abandono dos recortes clássicos, e de questionamento de noções, 
categorias e modelos vigentes,62 as concepções dessa nova abordagem surgiram como uma 
opção interessante aos estudos dedicados ao conhecimento da sociedade, especialmente as 
pré-industriais. 
A diferença estava inicialmente no modo mais refinado de se conceber a própria 
ideia de sociedade e essa raiz interpretativa nasceria principalmente de um diálogo 
constante com a antropologia. Deter-nos-emos brevemente nos estudos do antropólogo 
norueguês Fredrik Barth, devido à sua incontestável influência nos trabalhos da perspectiva 
mencionada.63 
Na busca “por um maior naturalismo na conceptualização das sociedades”,64 Barth 
entendia que todo comportamento social era interpretado e construído constantemente, já 
que o mesmo não era “transparente, objetivo e inconteste”.65 Assim, os sistemas sociais 
que regulam esses comportamentos são consequentemente desordenados, já que repletos 
de fissuras e incoerências. Para compreender melhor uma sociedade, o caminho era pensar 
nesse conceito “como o contexto de ações, e não como uma coisa – caso contrário, ele 
permanecerá como um objeto ossificado no corpo de nossa teoria social em 
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62
 CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre incertezas e inquietudes. Porto Alegre: Editora da 
UFRS, 2002. 
63
 A obra de Karl Polanyi também foi referência igualmente importante para alguns autores, na medida em 
que defendeu uma substância humana e natural da sociedade, onde a economia sempre estaria submersa nas 
relações sociais, sendo assim impossível de se pensar em uma mão invisível a controlar o mercado em 
qualquer época. POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens da nossa época. Rio de Janeiro: 
Campus, 2000. 
64
 BARTH, Fredrik. O guru, o iniciador e outras variações antropológicas. Rio de Janeiro: Contra-Capa, 
2000, p. 167. 
65
 Idem, p. 173. 
37 
�
 
 
desenvolvimento.”66 Para ele, uma sociedade só existiria devido à ação de seus 
componentes. 
Como o mundo social é compreendido de forma aberta à ação dos seus agentes, se 
torna possível a busca pela reconstituição das redes de relações sociais, estratégias, 
escolhas e recursos possuídos por essas pessoas, ainda queestes tenham evidentemente 
parâmetros, constrangimentos e incentivos, visto que são presididos por valores, 
obrigações e recursos que são sempre desiguais. O esforço de apreensão das práticas 
sociais desses atores deveria ser, portanto, um exame minucioso de suas vidas e 
interações.67 
Os micro-historiadores, através da maior aproximação com essa teoria social,68 
passaram a considerar as ambiguidades existentes nas regras das sociedades e isso, por sua 
vez, teria tornado possível que se admitisse um espaço para a atuação do indivíduo e sua 
reinterpretação consciente do sistema que normatiza a sua sociedade. Para isso partiam de 
uma situação local, buscando, através da generalização das perguntas, produzir questões de 
alcance mais amplo.69 
Apropriamo-nos, para nosso trabalho, além de todos esses fundamentos, dos 
conceitos de “racionalidade seletiva ou limitada” desenvolvido por Giovanni Levi. Em 
estudo importante onde demonstrou como o comportamento econômico não ocorria num 
vazio de relações sociais, o autor destacou como se deu a ascensão de um racionalismo 
específico no mundo camponês do séc. XVII. Tal racionalismo pressupunha que as 
estratégias existiam vinculadas a contextos específicos, mas não seriam completamente 
ilimitadas, e sim ligadas a valores e cercadas por limitações desses próprios sistemas.70 Em 
resumo, reconhecia-se para o comportamento humano um modelo de ação “que reconhece 
sua relativa liberdade além, mas não fora, das limitações dos sistemas normativos 
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66
 Ibidem, p. 186. 
67
 Como faz Barth em: BARTH, Fredrik. Sohar, culture and Society in an Oman Town. Baltimore: Johns 
Hopkins University Press, 1983, p. 93. 
68
 Segundo Edoardo Grendi, tido como o principal responsável pela definição do campo inicial de 
investigação e pelos fundamentos do debate teórico da micro-história, o historiador deveria se aculturar à 
teoria social. LIMA FILHO, Henrique Espada Rodrigues. “História Social e microanálise: Edoardo Grendi”. 
In: A micro-história italiana. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006, p. 154; e sobre essa sugestão de 
Grendi: GRENDI, Edoardo. Il Cervo e la repubblica: Il modelo ligure di antico regime. Torino: Giulio 
Einaudi, 1993, p. VII. 
69
 Obras recentes no Brasil também tem buscado refletir sobre essas questões: OLIVEIRA, Mônica Ribeiro 
de; ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de (org.). Exercícios de micro-história. Rio de Janeiro: Editora FGV, 
2009. 
70
 LEVI, Giovanni. A Herança Imaterial: trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII. Rio de 
Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 166. 
38 
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prescritivos e opressivos”. Assim, toda ação social devia ser vista como “o resultado de 
uma constante negociação, manipulação, escolhas e decisões do indivíduo, diante de uma 
realidade normativa que, embora difusa, não obstante oferece muitas possibilidades de 
interpretações e liberdades pessoais.”71 
 Apropriamo-nos ainda do caminho de pesquisa desenvolvido por Edoardo Grendi, 
da análise da unidade doméstica para a comunidade, e da comunidade para a sociedade 
mais ampla. Compete destacar que a família era interpretada como uma unidade de 
reprodução, consumo e produção, e representava uma boa perspectiva de partida, 
“humanizadora”.72 Logo após a comunidade era trabalhada como microcosmo onde as 
relações de parentesco, clientela e vizinhança eram mais facilmente perceptíveis,73 e dessa 
maneira, o isolamento da família não tinha sentido algum. E por último, a comunidade 
também não poderia de forma alguma ser explicada sem que se pudesse transcendê-la,74 
sem romper as barreiras de seus limites e relações. 
Já os procedimentos prosopográficos nos são úteis seguindo as indicações mais 
básicas propostas por Lawrence Stone. Assim, entendemos por prosopografia, ou 
biografias coletivas, o que o autor definiu como a investigação das características comuns 
da experiência de um grupo de atores na história por meio de um estudo coletivo de suas 
vidas, cujo método empregado é estabelecer um universo a ser estudado e então fazer um 
conjunto de questões uniformes – sobre nascimento e morte, casamento e família, origens 
sociais e posição econômica herdada, lugar de residência, educação, quantia e fonte de 
riqueza pessoal, ocupação, religião, experiência de ofício, e assim por diante. E esses dados 
são testados por correlações internas e por correlações com outras formas de 
comportamento ou ação.75 
Obviamente tal método apresenta qualidades, bem como fraquezas, apontadas pelo 
próprio Stone, seja quanto à deficiência nos dados, erros na classificação ou interpretação 
desses dados, e ainda equívocos de entendimento histórico. E devemos ter cuidado para 
não incorrer nesses deslizes, produzindo visões simplistas da sociedade estudada, 
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71
 LEVI, Giovanni. “Sobre a micro-história”. In: BURKE, Peter (org.). A escrita da história: novas 
perspectivas. São Paulo: Ed. UNESP, 1992, pp. 133-161, p. 135. 
72
 GRENDI, Edoardo. “La micro-analisi: fra antropologia e storia”. In: Polanyi: dall´antropologia economica 
alla microanalisi storica. Milão: Etas Libri, 1978, p. 98. 
73
 Idem, p. 165. 
74
 Ibidem. 
75
 STONE, Lawrence. “Prosopography”. Daedalus, Journal of the American Academy of Arts and Sciences, 
v. 100, 1971, no 1, winter, pp. 46-79, p. 46. 
39 
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considerando, segundo ele, que “o indivíduo é movido por uma convergência de forças 
constantemente inconstantes, um bando de influências tais como parentesco, amizade, 
interesse econômico, princípio político, convicção religiosa, e assim por diante.”76 
Diante de tal apreciação de potencialidades e limitações dos estudos 
prosopográficos, destacamos que nosso objeto de estudo atende às recomendações do autor 
de que o método funciona melhor quando é aplicado para grupos definidos e relativamente 
pequenos sobre um período limitado de não muito mais que uns cem anos, quando os 
dados são retirados de muito ampla variedade de fontes as quais se complementam e se 
enriquecem mutuamente, e quando o estudo é direcionado para resolver um problema 
específico.77 
Ainda sobre o referido método prosopográfico é interessante destacar algumas 
considerações de Carlo Ginzburg, no que podemos nos apropriar quando tratamos das 
relações dos cobradores com seus escravos, forros, pardos, mulatos e afilhados negros. 
Diante das correntes identificadas por Stone, uma qualitativa, centrada no estudo das elites 
e outra quantitativa, virada para a investigação de agregados sociais mais amplos, 
Ginzburg considera interessante combinar a ótica não elitista da segunda com a análise 
particularizada da primeira, o que seria segundo o autor, a prosopografia a partir de baixo, 
análoga à proposta por E. P. Thompson.78 Tal proposição parece muito interessante e nos 
ajuda a refletir melhor sobre essas relações que pretendemos investigar. Além do mais, 
como também acentuado por Ginzburg, essa análise ao mesmo tempo qualitativa e 
exaustiva só poderia tomar entidades numericamente circunscritas, onde uma seleção seria 
essencial.79 Mais uma vez acreditamos que tais recomendações se inserem perfeitamente 
em nosso objeto de estudo e permitem que esse tipo de proposta se mostre adequado à 
nossa pesquisa, nos permitindo “tirare in ballo” a sociedade inteira, tomando aqui 
emprestadas preciosas palavras de Giovanni Levi.80 
Encerramos essa parte da exposição teórico-metodológica da pesquisa com palavras 
igualmente preciosas de João Fragoso, e que já nos dirigem para o ponto seguinte a tratar, 
as fontes documentais propriamente ditas. 
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76
 Idem, p. 65. 
77
 Ibidem, p. 69. 
78
 GINZBURG, Carlo. O nome e o como: troca desigual e mercado historiográfico.In: A micro-história e 
outros ensaios. Lisboa: DIFEL; Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989, pp. 169-178, p. 176. 
79
 Idem. 
80
 LEVI, Giovanni. Centro e Periferia di uno Stato Assoluto: tre saggi su Piemonte e Liguria in età moderna. 
Turin: Rosemberg & Seller, 1985, p. 152. 
40 
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“Para tanto, o método a seguir seria o nome. Escolhidos o objeto de estudo ou os 
agentes históricos a analisar, caberia segui-los nas múltiplas relações que os 
formavam, o que significava investigar tais sujeitos em vários tipos de fontes, ou 
melhor, em todas que retratassem os diversos aspectos – cultural, econômico, político, 
etc. – do seu cotidiano. Esta técnica, inevitavelmente, leva a mais nomes, a se afogar 
em nomes. Entretanto, com tal procedimento, poder-se-ia chegar às relações sociais 
vivenciadas pelos sujeitos e, ao mesmo tempo, seria aberta uma porta para o 
entendimento de sua sociedade.”81 
 
Agora cumpre mencionar, portanto, o corpus documental da pesquisa, 
extremamente variado e precioso, característico da riqueza documental dos arquivos de 
Minas Gerais. Os documentos selecionados buscaram atender aos objetos escolhidos, tanto 
a permitir o conhecimento da dinâmica da arrecadação dos quintos quanto da atuação, 
atribuições, perfil e relações dos cobradores do direito régio. 
O primeiro grande conjunto de fontes diz respeito às fiscais, aproximadamente 400 
livros dos quintos para toda a Capitania de Minas no período em questão já mencionado. 
Tais registros locais de lançamento dos quintos / receita dos quintos / matrículas de 
escravos, entre outros, tratam-se fundamentalmente de livros e códices da Coleção Casa 
dos Contos, e se localizam no Arquivo Nacional, na Biblioteca Nacional e no Arquivo 
Público Mineiro, além de alguns códices no Arquivo Histórico da Câmara Municipal de 
Mariana. Para a Biblioteca Nacional alguns outros fundos e coleções foram pesquisados, 
como a Coleção Morgado de Mateus, a Coleção Minas Gerais, Decimal, entre outros. E, 
por fim, de maneira a complementar esse corpus, através dos arquivos portugueses, 
trabalhamos ainda com um livro do Arquivo da Casa da Moeda de Lisboa e nove livros do 
Arquivo Histórico do Tribunal de Contas de Portugal. 
O segundo grande conjunto de fontes é aquele composto por todos os documentos 
que nos forneceram alguma informação da trajetória dos cobradores dos quintos em 
diferentes fases e aspectos de sua vida. Rastreamos fontes cartoriais, eclesiásticas, 
administrativas, etc. Encontramos 15 testamentos e contas de testamentaria no Arquivo 
Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana, 23 inventários post-mortem e 29 testamentos e 
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81
 FRAGOSO, João. Afogando em nomes: temas e experiências em história econômica. Topoi. Revista de 
História. Rio de Janeiro, dezembro 2002, pp. 41-70, p. 62. Disponível em: www.revistatopoi.org 
41 
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contas de testamentaria no Arquivo Histórico da Casa Setecentista de Mariana, sendo que 
em muitos casos havia mais de um processo pra cada pessoa. Identificamos ainda cinco 
processos de justificações, dois processos crimes, duas devassas, situados também no 
Arquivo Histórico da Casa Setecentista de Mariana, além de cerca de 90 livros de notas e 
da guardamoria (que infelizmente não pudemos analisar muito detidamente). Também 
compõem esse conjunto documental 80 requerimentos, consultas, cartas, e outros do 
Arquivo Histórico Ultramarino – Minas Gerais. Os arquivos portugueses também foram 
extremamente ricos, essencialmente o Arquivo Nacional da Torre do Tombo, onde 
coletamos 25 processos no Registro Geral de Mercês, sete processos de Habilitações da 
Ordem de Cristo, 18 processos de Habilitações do Santo Ofício, além de dois documentos 
no Juízo da Índia e Mina e um processo em Documentos referentes ao Brasil. 
Por fim, a composição dessa tese. Esse trabalho divide-se em duas partes muito 
bem delimitadas, quais sejam, aquela preocupada com o processo de arrecadação (capítulo 
1) e aquela dedicada aos agentes do ouro (capítulos 2, 3 e 4), ainda que o capítulo 2 
também ajude a compreender o funcionamento da coleta do ouro de maneira mais 
concreta. O tamanho dos capítulos por vezes é um pouco desigual, sendo o capítulo 3 o 
mais extenso. No entanto, optamos por manter essa divisão porque subdividir cada capítulo 
retiraria, a nosso ver, suas referidas unidades. 
 O capítulo 1 é resultado de um levantamento exaustivo de todos os registros dos 
quintos mencionados acima que pudemos localizar para a capitania de Minas Gerais. Seu 
objetivo principal é visualizar as nuances de todo o processo de cobrança do direito e o que 
ele nos revela sobre a complexa dinâmica da arrecadação do quinto do ouro devido à 
Coroa portuguesa, quer quando ela fosse feita pelas câmaras municipais, quer quando ela 
tivesse sob os cuidados da Real Fazenda, ou mais ainda, quer quando essas duas instâncias 
compartilhassem tarefas e conjugassem componentes. Esse propósito de abordagem, no 
entanto, compete essencialmente ao funcionamento mais cotidiano da coleta, guarda, 
acondicionamento, condução e remessa do ouro do quinto a Portugal, além de 
apontamentos sobre as despesas com essas tarefas e sobre o desvio do precioso ouro. Não 
nos interessa aqui, como já afirmamos acima, nos debruçar em análises de números e 
estatísticas de tal arrecadação. Interessa sim, e esse é o alvo desse capítulo, compreender o 
cotidiano de tais atividades ligadas à cobrança, nas diversas vilas, freguesias e pequenos 
42 
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lugarejos da região mineradora e nas diferentes conjunturas da produção aurífera no 
intervalo de quase um século. 
Assim, analisamos detalhadamente os parcos registros do início do século, os 
lançamentos daqueles que andavam pelas Minas, os róis de moradores e de quintos 
atrasados, os lançamentos de entregas e de ajustes de contas, os quintos de carregações e 
termos de fianças, os arrolamentos de escravos, os registros feitos pelas câmaras, os 
lançamentos dos meios quintos, os registros da capitação, os registros das casas de 
fundição, os lançamentos da derrama e os livros de cálculos de rendimentos, todos 
variantes das diversas formas que a cobrança do ouro foi tomando ao longo do período 
estudado. Identificamos ainda o cuidado na guarda e acondicionamento do metal, a cautela 
nos diferentes estágios do seu transporte pelos caminhos perigosos das Minas, os tipos 
específicos de despesas feitas com os quintos, os relatos dos seus descaminhos e o 
complexo choque e jogo de jurisdições e responsabilidades com a cobrança. Tudo isso 
visando, como já apontado, dar outro enfoque às séries fiscais, essenciais no tratamento do 
tema, através de uma minuciosa metodologia de trabalho que conferisse a essas fontes um 
significado diferenciado do que até então lhe foi conferido. 
O capítulo 2 teve por objetivo investigar os indivíduos que tornaram reais as 
diversas atividades ligadas ao ouro do quinto. São eles: os cobradores/provedores; os juízes 
ordinários, os guardas mores, os procuradores da câmara, os tabeliães e outros que 
desempenharam alguma tarefa direta ligada ao quinto; os tesoureiros; os escrivães; os 
fiscais; os superintendentes, os intendentes, os ouvidores, os provedores e os 
desembargadores do ouro; os condutores; e, por fim, aqueles que executaram o que 
chamamos de ofícios de “suporte” ao real quinto, os sapateiros, os oficiais de carapina, os 
ferradores, os que vendiam os miúdos para o preparo do ouro, entre outros. 
O objetivo foi conhecer as atribuições, a atuação e o poder de mando de todos esses 
agentes, mas principalmente dos provedores ou cobradores dos quintos, dos quais temos 
maiores informações. Em outras palavras, o propósito foi entender: quais funções foram 
atribuídas a todos esses oficiais; quais indícios temos de como eles realmente atuarammediante o que se esperava de seu desempenho nos referidos cargos; e qual foi o papel 
assumido por esses homens frente à sociedade, ou seja, que autoridade eles adquiriram ou 
maximizaram exercendo cargos de diferentes naturezas ligados ao real quinto de Sua 
Majestade. Através de um mapeamento detalhado de todos esses nomes, destaca-se ainda 
43 
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que investigamos a atuação de todos eles, destacadamente dos cobradores, em um percurso 
rigorosamente cronológico, procurando atentar para as diferentes formas de cobrança do 
ouro no decorrer do século. Assim, buscamos investigar de que maneira esses indivíduos 
podiam se conservar em seus postos mesmo quando se alterava a sua forma e instituição 
(capitação, casas de fundição, etc.; e câmara ou Real Fazenda). 
O capítulo 3, o mais extenso e detalhado de todos, teve por objetivo esquadrinhar as 
histórias de vida dos “homens do ouro”, trajetórias individuais e familiares dos cobradores 
dos quintos reais da Vila do Carmo, traçando o perfil desse grupo social. Tendo o nome 
como fio condutor da investigação, e nos utilizando praticamente de todos os documentos 
do segundo corpus documental mencionado, além de informações também do primeiro 
conjunto de fontes, buscamos examinar sua origem e de seus ascendentes, suas atividades e 
tempo de permanência no cargo, sua situação civil e aspectos da vida de suas esposas e 
filhos, suas ocupações econômicas, as patentes militares que ostentaram, as várias 
solicitações que enviaram ao Conselho Ultramarino, os outros cargos e distinções que 
ocuparam, seus processos de habilitação para o Santo Ofício e para a Ordem de Cristo, 
seus indicadores de riqueza e prestígio social, suas práticas religiosas e relações com o 
sagrado, as diversas estratégias de manutenção do patrimônio que criaram e os 
mecanismos de reprodução social que lançaram mão, os conflitos em torno das disposições 
testamentárias e o fim de suas trajetórias nas Minas ou no Reino. Buscamos construir, 
portanto, a história social de um grupo específico, nomeadamente de 104 cobradores dos 
quintos, pela delimitação de todos os aspectos de suas vidas que nos foram passíveis de se 
conhecer. 
O capítulo 4, por fim, buscou reconstituir, na medida que foi possível pelos 
documentos existentes, um cotidiano de relações que esses poderosos homens mantiveram 
com os variados grupos sociais de menor “qualidade” que a sua, a saber, seus escravos, 
forros, pardos, mulatos e afilhados negros. Critérios de hierarquização social, estratégias, 
acordos, trocas, escolhas e comportamentos de ambos os lados buscaram ser identificados 
de acordo com os recursos desiguais disponíveis na delimitação e negociação dos espaços 
de todos esses atores na sociedade mineradora setecentista. Partimos da hipótese que as 
relações com outros grupos sociais e a criação de alianças sólidas e diversificadas seriam 
fundamentais para que os cobradores dos quintos garantissem sua posição destacada de 
poder, prestígio, autoridade e distinção social. Mas consideramos ainda, diante da premissa 
44 
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que os grupos se definem na sua interação, que os demais indivíduos a eles ligados também 
definiam seus espaços e comportamentos tendo, em grande medida, por base essas 
relações, das quais tiravam o devido proveito como modo de sobrevivência em um mundo 
tão hostil quanto o da escravidão. 
Buscamos evidenciar tais pressupostos no decorrer do capítulo analisando a 
composição da escravaria dos cobradores (com discussões detalhadas sobre sexo, idade, 
origem dos cativos, doenças, profissões e família escrava), as alforrias e legados deixados a 
esses indivíduos ao fim da vida de seu senhor, alguns indícios sobre o complexo embate 
entre os conflitos e os cuidados com esses subalternos, e a prática que muitos cobradores 
desenvolveram de armar seus escravos para diversos fins. Com tais análises, portanto, 
acreditamos ter nos aproximado o máximo possível do cotidiano de parcela significativa da 
sociedade setecentista mineradora, sobretudo aquela que teve ligações com o precioso ouro 
de Sua Majestade. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
45 
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Capítulo 1 
“Para a satisfação dos quintos”: a dinâmica da arrecadação do direito régio do ouro 
das Minas Gerais 
 
Aos vinte e seis dias do mês de março do ano de 1701, Leonardo Nardes Arzão 
declarava oitenta e cinco oitavas, sobre as quais se retirava de quinto dezessete. Esse 
registro encontra-se no Livro 1o da arrecadação do Quinto no 15, localizado no Arquivo 
Público Mineiro.82 Nesse livro vemos que juntamente com Leonardo Arzão, vários outros 
nomes preenchem uma grande lista desse primeiro tipo de lançamento do quinto do ouro 
das Minas que se tem conhecimento. Registro simples, sem muitas informações além da 
data, nome do declarante (fosse por ele mesmo ou por outra pessoa), valores para quinto, 
datas ou confiscos na Comarca de Vila Rica, não traz qualquer assinatura de escrivão ou 
responsável pela arrecadação. 
Já no Livro de registro de receita do Quinto do ouro e da Capitação de 1714-1716, 
os dados se ampliam. Nele encontramos, além de outros, o lançamento dos quintos reais 
dos moradores da freguesia de Nossa Senhora dos Raposos, termo da Vila Real da 
Conceição do Sabará, para o ano de 1714 até 20 de março de 1715. Nesse assentamento, 
feito pelos oficiais da câmara da dita vila, aparecem listados os vários nomes dos 
declarantes da referida localidade, com os valores devidos por cada um e anotações sobre o 
pagamento dessas quantias. Além do mais, algumas recomendações importantes são 
registradas sobre o processo da cobrança. Os oficiais da câmara ordenavam, para essa 
freguesia, que o Sargento Mor Antonio Duarte de Magalhães, dentro do prazo de quinze 
dias, cobrasse a quantia desse rol, de 3554 oitavas, e, logo após, que as entregasse ao 
Tesoureiro da repartição, o Sargento Mor Faustino Rabelo Barbosa.83 
O Registro da cobrança do quinto do ouro, para a Fazenda Real do Rio das 
Mortes, de 1755, já é de outra natureza, pois feito nas Casas de Fundição. Em quatorze de 
março do dito ano, na dita comarca, comparecia na sua casa de fundição, Luis Teixeira, 
ausente Alexandre Pinto da Fonseca, com dois marcos, três oitavas e dezoito grãos de 
ouro, dos quais se tirava de quintos para a Fazenda Real, três onças, duas oitavas e dezoito 
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82
 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, confiscos 
de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro e outros 
rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 
83
 APM, CC-1010; Microfilme 002(2/9) – Livro de registro de receita do Quinto do ouro e da Capitação. 
1714-1716. [Vila Rica]. 128 f. 
46 
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grãos de ouro. O mais do ouro se fundiu e dele se fez uma barra que teria o peso de um 
marco, cinco onças e uma oitava de vinte quilates, barra essa entregue ao declarante. Esses 
registros não são totalmente manuscritos como os demais, mas preenchidos em folhas já 
previamente impressas, com os símbolos da Coroa portuguesa ao lado de um texto 
padrão.84 
 Já no período de aplicação da derrama, outro tipo de lançamento do real quinto é 
encontrado. Livros de manifestos de moradores para lançamento da derrama, como o de 
São João del Rei, trazem relações com declaração de bens dos habitantes e outros dados 
dos mesmos. Na lista que o Capitão Roque de Souza Magalhães fez dos moradores da 
freguesia de Aiuruoca, desde Varadouro até o distrito da Guapiara, por ordem que lhe 
enviou o “Nobre Senado da Câmara de São João del Rei”, por exemplo, vê-se que Manuel 
Gomes da Costa, casado e sem filhos, declarou, debaixo de juramento, possuirquatro 
escravos, trinta cabeças de gado e um sítio, que tudo valeria 466$000. Mas declarava 
também dever 300$000 e “não ter lucro algum mais do que para comer.” Como ele, outros 
também faziam declarações semelhantes, e para alguns é possível saber ainda a ocupação 
desempenhada e detalhes sobre os bens possuídos.85 
Uma série de tipos de livros foi confeccionada para registrar as atividades ligadas 
ao recolhimento do real quinto ao longo de décadas de produção de ouro nas Minas 
conhecidas como Gerais. Os trechos acima, de variados anos de coleta, são exemplos de tal 
diversidade. No decorrer desse capítulo analisaremos com cuidado os pormenores desses 
documentos e de vários outros, que compõem um rico corpus documental de 
aproximadamente 400 livros dos quintos para toda a Capitania de Minas Gerais.86 O 
objetivo principal é visualizar as nuances de todo esse processo e o que ele nos revela 
sobre a complexa dinâmica da arrecadação do quinto do ouro devido à Coroa portuguesa, 
quer quando ela fosse feita pelas câmaras municipais, quer quando ela tivesse sob os 
cuidados da Real Fazenda, ou mais ainda, quer quando essas duas instâncias e outros atores 
compartilhassem tarefas e conjugassem componentes. Esse propósito de abordagem, no 
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84
 BN, II-31,25,010 – Registro da cobrança do quinto do ouro, para a Fazenda Real. Rio das Mortes, 
00/03/1755. 
85
 BN, MS-580(54) D.01, I-26,04,001 – Lista da freguesia de Aiuruoca onde constam os bens que seus 
moradores deram ao manifesto para ao lançamento da derrama ficando o original no arquivo do Senado da 
Câmara de São João del Rei. [S.l.] [S.d.]. 
86
 Trata-se fundamentalmente dos documentos da Coleção Casa dos Contos, localizados no Arquivo 
Nacional, no Arquivo Público Mineiro e na Biblioteca Nacional, além de alguns poucos livros no Arquivo 
Histórico da Câmara Municipal de Mariana. As referências completas de todos esses livros encontram-se no 
fim desse trabalho. 
47 
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entanto, compete essencialmente ao funcionamento mais cotidiano da coleta, guarda, 
acondicionamento, condução e remessa do ouro do quinto a Portugal, além de 
apontamentos sobre as despesas com essas tarefas e sobre o desvio do precioso ouro. Não 
nos interessa aqui, como já afirmamos na introdução e ainda em outros estudos,87 nos 
debruçar em análises estatísticas e econômicas de tal arrecadação.88 Interessa sim, e esse é 
o alvo principal desse capítulo, compreender o cotidiano de tais atividades ligadas à 
cobrança, nas diversas vilas, freguesias e pequenos lugarejos da região mineradora e nas 
diferentes conjunturas da produção aurífera no intervalo de quase um século, dando 
inteligibilidade a esse funcionamento em seu dia a dia e às complexidades institucionais e 
relacionais que envolviam sua realização. 
Visar-se-á, assim, como também já foi dito, dar outro enfoque às séries fiscais 
existentes, essenciais no tratamento do tema, através de uma minuciosa metodologia de 
trabalho que confira a essas fontes um significado diferenciado do que até então lhe foi 
conferido. Tal metodologia é uma experimentação que lançamos a esse tipo de documento 
tão rígido e de natureza tão árida. Na procura de esmiuçar os pormenores dessas fontes, 
atentando para seu processo de construção e de lançamento de informações, bem como 
para os atores que as faziam (foco mais concreto dos capítulos 2 e 3), as analisamos de 
forma exaustiva e microanalítica,89 e tal procedimento ficará visível no decorrer do texto, 
demonstrando o quanto tais ideias se encontram arraigadas no nosso processo de 
entendimento dos registros. Assim, com esse olhar diferenciado proposto, já intentado para 
a Vila do Carmo em período bem menor,90 a ambição agora é investigar as maneiras 
efetivas de se cobrar o real quinto em toda a Capitania de Minas Gerais Setecentista no 
período de 1700 a 1780 – quando a mineração era tida como sua atividade econômica 
principal.91 Deste modo, procuraremos conferir ao conhecimento do processo da 
arrecadação do quinto uma perspectiva renovada, que busca declaradamente atribuir um 
caráter mais local e também mais social aos estudos ligados a temais fiscais, fazendo com 
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87
 FARIA, Simone Cristina de. Os “homens do ouro”: perfil, atuação e redes dos Cobradores dos Quintos 
Reais em Mariana Setecentista. Dissertação (Mestrado em História Social) – Programa de Pós-Graduação em 
História Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010. 
88
 Isso já foi muito bem trabalhado por outros pesquisadores, com destaque para o trabalho mais recente de 
Angelo Carrara. Ver: CARRARA, Angelo Alves. Receitas e despesas da Real Fazenda no Brasil; 1607-
1700. Juiz de Fora: Editora da UFJF, 2009; ______. Receitas e despesas da Real Fazenda no Brasil, século 
XVIII: Minas Gerais, Bahia, Pernambuco. Juiz de Fora: Editora da UFJF, 2009. 
89
 Utilizando para tanto dos pressupostos teórico-metodológicos da micro-história italiana, já tão utilizados 
por nós em outros trabalhos e brevemente explicitados na introdução dessa tese. 
90
 FARIA, Simone Cristina de. op. cit. 
91
 Ver nota 19. 
48 
�
 
 
que o papel e presença da Coroa e das elites locais na configuração do poder nas Minas 
Setecentistas sejam constantemente colocados à prova. 
 
1.1 “De que pagou de quintos a fazenda de Sua Majestade que Deus guarde”: como se 
lançava o ouro dos reais quintos 
 
Diferentes modos de se arrecadar o quinto92 sobre o ouro das Minas tiveram 
vigência no decorrer do século e muito já foi escrito sobre essas periodizações. De 1700 a 
1710, o quinto era cobrado sobre o ouro em pó, que circulava livremente com guia quando 
saía da Capitania. De 1710 a 1713, a arrecadação teria passado a ser feita por bateia e até 
então não teria se efetuado uma cobrança efetiva do direito. De 1714 a 1725 cobram-se por 
fintas, pela qual os mineiros se comprometiam a remeter 30 arrobas anuais de ouro, em 
1718 essa quota teria passado para 25 arrobas e, em 1722, para 52 arrobas (alguns 
destacam que seria para 37 arrobas). Também em 1718 às câmaras teria sido retirada a 
administração da cobrança dos quintos, que passava a ser feita pela Real Fazenda. De 1725 
a 1730, o quinto fora retirado sob o ouro fundido, instaladas em 1724 as casas de fundição 
assumem a tarefa de fundir e quintar o metal. De 1730 a 1732, tais casas teriam sido 
suprimidas e teria se cobrado o quinto sobre 12% do ouro em pó. De 1732 a 1735 
estabeleceu-se a quota fixa de 100 arrobas, depois da negação dos mineiros diante da 
instituição da capitação por escravos e censo das indústrias. Mas em 1735 a capitação teria 
sido realmente instituída, o ouro em pó voltava a circular livremente e era proibido o uso 
de moeda. Fosse ou não minerador, sobre o habitante das Minas recaía a mesma cobrança. 
Tal sistema teria durado até 1751. Por fim, de 1751 a 1803, o quinto volta a ser cobrado 
sobre o ouro fundido sob quota fixa de 100 arrobas anuais, é reaberta a casa de fundição. 
Essa quota teria sido completada apenas no exercício de 1763 para 1764, para se alcançar o 
valor, depois disso foi lançado o método da derrama, que consistia na reafirmação da 
cobrança sobre os quintos atrasados por base da referida cota.93 
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92
 Utilizamos a partir de agora sempre a palavra “quinto”, como na época, mas é preciso frisar que nem 
sempre o quinto representou efetivamente a quinta parte do ouro retirado das Minas e enviado aos cofres da 
Coroa portuguesa. As diferentes formas de cobrança aplicadas, e a partir de agora analisadas, deixarão isso 
claro. 
93
 Apesar de termos conhecimento dos inúmeros trabalhos que se dedicam a essas sistematizações, nos 
utilizamos principalmente para esse resumo de alguns maisrecentes que, em grande medida, apresentam 
compêndios dos estudos mais tradicionais: PAULA, João Antônio de. A mineração de ouro em Minas Gerais 
do século XVIII. In: RESENDE, Maria Efigênia Lage de; VILLATA, Luiz Carlos. História de Minas 
49 
�
 
 
 Os registros dos quintos que abaixo tentaremos agrupar e analisar corroboram, de 
uma maneira geral, essas padronizações tão reafirmadas pelos pesquisadores sobre as 
Minas e por isso cumpriu relembrá-las. No entanto, através de um olhar mais detido aos 
livros dos quintos para toda a Capitania, como já acentuado, constataremos alguns pontos 
essenciais que merecem destaque, buscando esmiuçar como se lançava o ouro no decorrer 
de todo o período mencionado. Além das problemáticas apontadas acima, veremos ainda 
como nos momentos iniciais da mineração os registros não obedeciam a um padrão único 
de lançamentos, nem ao menos eram muito bem organizados. Só com o decorrer das 
décadas poderá se constatar uma padronização maior desses registros e ainda um número 
maior de pessoas envolvidas na organização das tarefas ligadas à arrecadação, 
demonstrando como as preocupações com o rico direito régio vão se ampliando. 
Antes de partirmos mais diretamente para a análise dos livros é importante fazer 
uma observação de como esse corpus se nos apresenta. Constantemente dentro de um 
mesmo livro e/ou códice podem ser encontrados diversos tipos de registros de várias 
décadas, inclusive lançamentos que não dos quintos. Tal fato nos faz acreditar 
primeiramente que os livros eram continuamente reaproveitados, tendo em vista o alto 
custo do papel na época, mas principalmente que as formas de se lançar iam mudando 
conforme se detectava a necessidade advinda das mudanças na forma de se cobrar. Assim, 
além da aparente confusão dos registros, que pode ser percebida em uma primeira leitura 
deles, é visível ainda, e esse é um segundo ponto importante a ser destacado, que não 
restaram registros completos para as várias vilas da Capitania. Para certos períodos alguns 
lugares são mais privilegiados, para outros períodos outros locais contêm mais fontes e/ou 
conservaram melhor os documentos que chegaram até nossos dias. Tendo em vista esses 
apontamentos, iniciemos com as análises dos registros propriamente ditos. 
 
1.1.1 Os primeiros parcos registros (1701-1713, 1713-1721) 
 
O ano de 1701, cujo registro é mencionado no início desse texto, dá início aos 
primeiros lançamentos sobre os quintos que temos conhecimento. O registro descrito 
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Gerais: As Minas Setecentistas. Vol. 1. Belo Horizonte: Autêntica, Companhia do Tempo, 2007. p. 279-301; 
CARRARA, Angelo Alves. Administração fazendária e conjunturas financeiras da capitania de Minas Gerais 
– 1700-1807. (Relatório de Pesquisa). Mariana: UFOP, 2002; ______. Produção mineral e circulação 
mercantil na capitania de Minas Gerais – 1700-1807. (Relatório de pesquisa). Mariana: UFOP, 2002. 
50 
�
 
 
integra, como já destacado, o Livro 1o da arrecadação do Quinto no 15.94 Registro similar 
a vários outros até 1713, ainda que com algumas ausências e particularidades, os dados que 
podem ser coletados aqui são muito básicos. Temos apenas a data, o nome do declarante 
(por ele mesmo, às vezes por herança de algum falecido, às vezes por outra pessoa), e 
valores para o quinto, datas ou confiscos para a Comarca de Vila Rica, em alguns anos as 
localidades são mais detalhadamente identificadas, em outros não. Não é possível 
identificar com exatidão a instituição responsável pela confecção desses documentos, não 
aparece nome de escrivão de Provedoria ou Câmara. A ocupação das Minas ainda estava se 
efetivando, bem como ainda seriam criados órgãos administrativos para gerir os direitos e 
impostos régios. Os poderosos locais é que certamente estariam cuidando desses 
lançamentos, e da cobrança mais efetivamente, como já apontado pela historiografia.95 
Como tais registros não existem outros para depois de 1713, do mesmo modo que 
são únicos outros lançamentos que integram esse mesmo códice. Abrangendo o período de 
1713 a 1721, para as diversas comarcas das Minas, o cabeçalho de cada lançamento tinha o 
seguinte padrão: 
 
“Sabará rendimento do Quinto que se pagou na forma praticada até outubro do 
Dezembro de 1713, e continuou do 1o de Janeiro, até 21 de Julho de 1714 
principiando no dia 22 a cobrança do Quinto pelas 30 arrobas que as câmaras 
ofereceram pelos povos e consta de um termo feito na presença do Ilustríssimo e 
Excelentíssimo Senhor Dom Brás Baltazar da Silveira copiado a f. 87 de um Livro de 
Contas desta Comarca, Confiscos, Datas de terras Minerais, e Condenações.” (grifo 
nosso)96 
 
Como se pode ler, tal registro era uma espécie de resumo do rendimento do quinto 
retirado de um Livro de Contas. Depois desse cabeçalho aparecem apenas números 
distribuídos em duas colunas, de rendimento e recebimento, e não só do quinto, mas de 
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94
 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, confiscos 
de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro e outros 
rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 
95
 CAMPOS, Maria Verônica. Governo de mineiros: “de como meter as minas numa moenda e beber-lhe o 
caldo dourado” 1693 a 1737. Tese (Doutorado em História), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002. p. 
98. 
96
 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, confiscos 
de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro e outros 
rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 
51 
�
 
 
outros direitos e arrecadações. O mais interessante a se destacar no trecho acima, mas que 
trabalharemos melhor mais adiante, é a referência à cobrança ser feita pela câmara de 
Sabará, já nos anos iniciais de fundação da vila, e a menção de que as câmaras ofereceram 
as 30 arrobas anuais de quinto já naquele período. Em 1719, os mesmos documentos 
passam a mencionar as 25 arrobas como um novo valor negociado com as câmaras. 
 
 1.1.2 Os que andavam pelos caminhos (1710-1717) 
 
Entre 1710 e 1717 é possível encontrar um conjunto de livros que, de forma 
razoavelmente organizada ainda que não seriada, registra como era feita a cobrança dos 
quintos daqueles que andavam pelos caminhos das Minas e/ou dela saíam. 
O primeiro livro é da Comarca do Rio das Mortes, “em o qual se faz o assento do 
ouro que se quintou das pessoas que vão para o Caminho de São Paulo e Parati”. Os 
registros, de 1710 a 1717, seguem, em geral, o padrão abaixo: 
 
“Aos doze dias do mês de setembro de mil e setecentos e dez anos nessa fortaleza do 
Rio das Mortes registrou o padre Manuel Fernandes duzentas e cinquenta e seis 
oitavas de ouro em pó das quais pagou cinquenta e uma oitavas de quintos como 
consta do seu assento do Livro da Superintendência de f. 6 de que se fez termo que 
assinou com o Superintendente e o procurador da fazenda Real eu Manuel Dias de 
Brito escrivão o escrevi do padre Manuel Fernandes da Costa. 
Oliveira Pereira”97 
 
 Feito pela Superintendência e assinado por seus oficiais, esse registro já parece 
expressar o início da preocupação com a movimentação das pessoas pelas Minas. Trazem 
mais detalhadamente a data, o nome do declarante, o valor transportado e o valor do quinto 
sobre esse ouro em pó. Aqueles que andavam pelos caminhos, portanto, pagavam na 
Superintendência o quinto referente ao ouro transportado.Também para a Vila do Príncipe temos registros parecidos, para 1711 e 1712. O 
Livro de registro de receita do Quinto do ouro, datas minerais, arrematações e confiscos 
de escravos vindos da Bahia, apresenta o seguinte padrão de lançamentos: 
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97
 APM, CC-1004; Microfilme 1 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das 
Mortes. 1710-1717. São João Del Rei. 250 f. 
52 
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“Aos vinte e um dias do mês de abril de mil setecentos e onze anos nestas minas do 
Serro do Frio, e lavras velhas delas, em as casas da Superintendência donde de 
presente assiste o Sargento Maior Lourenço Carlos Mascarenhas de Araújo 
Superintendente destas ditas minas, a cujo cargo está a arrecadação da fazenda real 
delas, aí estando ele presente, o tesoureiro da fazenda Real destas minas Antonio de 
Almeida Lopes, comigo escrivão quintou Gabriel Gonçalves Pena por Estevão da 
Cunha que vai para os currais da Bahia [ ] sessenta oitavas de ouro em pó, de que 
pagou de quintos a fazenda de Sua Majestade que Deus guarde, dez oitavas que logo 
recebeu o dito tesoureiro, e ficaram quarenta as quais era em pó por não haver ainda 
fundição nestas Minas, de que fiz este termo que assinou o dito Gabriel Gonçalves 
Pena, eu Pedro Teixeira Cabral escrivão da Superintendência o escrevi e assinei. 
Lourenço Carlos Mascarenhas de Araújo Antonio de Azevedo Lopes Pedro 
Teixeira Cabral Gabriel Gonçalves Pena” (grifo nosso)98 
 
 Nesse registro, também feito na Superintendência, é possível encontrar informações 
mais completas sobre o processo de arrecadação do quinto em ocasiões de saída das Minas, 
nesse caso para os currais da Bahia. Encontramos a data do lançamento, o nome do 
Superintendente e do Tesoureiro da Fazenda Real, o nome do declarante e por quem se 
declarava, o valor em ouro em pó e o valor do quinto retirado sobre esse ouro, e, por fim, o 
nome do escrivão da Superintendência. 
 Outro registro possui, de certa maneira, o mesmo conjunto de informações que 
esses dois acima, mas com o importante diferencial de ser feito pela câmara e de se tratar 
não de pessoas que saíam das Minas, mas que entravam para determinado povoado dela. 
Trata-se do assento do ouro que recebera o procurador da Câmara o Capitão Manuel 
Rodrigues de Souza pertencente aos quintos reais “o qual pagam as pessoas que dessas 
Minas passam para povoado este presente ano de 1715”. Abaixo um trecho, de dois apenas 
desse assento: 
 
“Ano de 1715 
Recebeu o procurador da Câmara que serve de tesoureiro o Capitão Manuel Rodrigues 
de Souza quatorze oitavas de ouro da mão do Reverendo e de João Coelho que tantos 
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98
 APM, CC-1005; Microfilme 001(4/7) – Livro de registro de receita do Quinto do ouro, datas minerais, 
arrematações e confiscos de escravos vindos da Bahia. 1711-1713. Vila do Príncipe. 13 f. 
53 
�
 
 
lhe foram lançados antes de ir para povoado e de como os recebeu assinou aqui 
comigo neste Livro que há de entregar a seu tempo, e eu João Carneiro Pereira 
escrivão da Câmara que o escrevi. 
 [ ] 
Se fez cargo no Livro dos quintos 
destas quatorze oitavas de ouro”99 
 
 Pode-se verificar que essas pessoas que entravam no povoado, que não aparece 
identificado, entregavam ao procurador da câmara uma quantia específica que 
posteriormente era lançada no Livro dos quintos. Esse registro, portanto, trata-se de um 
documento avulso que relata uma entrega que, como outras, deviam ser lançadas em 
ocasião de entrada nas Minas. Para Vila Real do Sabará temos ainda alguns relatos do 
número de cargas e negros que entravam para as minas pelos registros pagando quintos e 
dando fiança e que eram lançados também no livro de entradas. Tais registros também 
foram feitos pelas câmaras em 1716 e 1717.100 No entanto, não temos mais registros que 
nos ajudem a entender melhor essas ocasiões. O que podemos destacar no momento é que, 
nesses casos analisados, os registros de pagamento dos quintos são mais detalhados que os 
anteriores, ainda que esparsos, e são feitos tanto pela Superintendência101 quanto pelas 
câmaras municipais, praticamente recém criadas. 
 
1.1.3 Os róis dos moradores e escravos das Minas e os quintos atrasados (1714-
1717, 1719-1720) 
 
Os livros que apresentam relações de moradores e escravos de determinada região, 
por vezes também de vendas desse local, são registros um pouco mais seriados e abrangem 
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99
 BN, MS-580(50) D.57, I-25,33,057 – Assento de ouro que recebeu o procurador da câmara, Manuel 
Rodrigues de Souza, referente aos quintos reais o qual pagou as pessoas que passaram por estas minas no ano 
de 1715. 
100
 BN, MS-580(3) D. 02, I-10,04,002 – Rol dos moradores e escravos de Vila Real, incluindo as vilas de 
Comunpandel, Rio das Mortes e Caminho Novo. Vila Real, 1717. 
101
 Segundo o Códice Costa Matoso, a Superintendência correspondia à jurisdição do superintendente e a ele 
competia, entre outras tarefas, examinar a riqueza dos ribeiros descobertos, repartir as datas, resolver 
conflitos, controlar a exploração do ouro, controlar a entrada de pessoas e mercadorias nas áreas mineradoras, 
e até cobrar os quintos e o tributo da entrada de gado. FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida, 
CAMPOS, Maria Verônica (coord.). Códice Costa Matoso. Coleção das notícias dos primeiros 
descobrimentos das minas na América que fez o doutor Caetano da Costa Matoso sendo ouvidor-geral das 
do Ouro Preto, de que tomou posse em fevereiro de 1749 & vários papéis. São Paulo: Fundação João 
Pinheiro, 1999, p. 123. 
54 
�
 
 
um número maior de vilas e uma quantidade maior de anos que os livros mencionados até 
agora. Além do mais, são feitos exclusivamente pelas câmaras das vilas, que nesse período, 
como afirmado anteriormente, havia negociado a quantia de 30 arrobas anuais para o 
pagamento do quinto. Iniciemos as análises. 
Para a Vila Real de Conceição do Sabará temos informações de 1714 a 1716. Os 
lançamentos do primeiro livro trazem o nome dos declarantes e valores devidos, seguido 
de ordem dos oficiais da câmara nomeando cobradores para cobrar as pessoas desse rol. 
Um desses registros encontra-se no início desse texto, em que o Sargento Mor Antonio 
Duarte de Magalhães em quinze dias devia cobrar 3554 oitavas do rol dos moradores da 
freguesia de Nossa Senhora dos Raposos. Como ele, diversos outros homens foram 
nomeados pela câmara e entregaram ao tesoureiro dela quantias cobradas do rol de sua 
freguesia de jurisdição.102 Além dos dados já referidos, destaca-se que aparece aqui 
também o nome daqueles que diretamente deveriam tratar com a cobrança do quinto real. 
No capítulo 2 veremos detalhadamente como esses oficiais atuavam. Cabe sublinhar por 
agora é que os registros vão se enriquecendo na medida em que revelam mais esse dado 
sobre a efetiva realização da atividade de arrecadação. 
Ainda para a Vila Real outro livro traz informações um pouco mais completas para 
o período de 1715 a 1717. Nele encontram-se efetivamente os róis dos moradores dos 
distritos da dita vila, com sua quantidade de escravos e vendas e indicações do pagamento 
ou justificação de ausências. Além disso, no fim da lista dão-se recomendações aos 
cobradores de que se achassem mais pessoas fora desse rol que as lançassem, e que se 
encontrassem ainda pessoas ausentes, que examinassem com cuidado seus bens e delas 
fizessem sequestro remetendo-o ao Senado da câmara.103 
 Para a Vila Rica os dados existentes são apenas para as vendas, ofícios, negócios, 
entre outros, em 1715. São registros como esses que seguem: 
 
“João Francisco pelo que interessa em uma venda que tem pagará doze oitavas de ouro 
Recebi a conta acima 
Em Casa dosobredito João Pereira que vive de faiscar com seus negros cinco oitavas 
de ouro 
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102
 APM, CC-1010; Microfilme 002(2/9) – Livro de registro de receita do Quinto do ouro e da Capitação. 
1714-1716. [Vila Rica]. 128 f. 
103
 BN, MS-580(3) D. 02, I-10,04,002 – Rol dos moradores e escravos de Vila Real, incluindo as vilas de 
Comunpandel, Rio das Mortes e Caminho Novo. Vila Real, 1717. 
55 
�
 
 
Recebi a conta acima 
Antonio Cordeiro pelo que interessa no seu sítio com os seus escravos vinte oitavas de 
ouro 
Antonio Cordeiro pagou neste [rodeio] os quintos que são vinte oitavas de ouro”104 
 
Já a Vila de São João del Rei, com registros que cobrem o período de 1715 a 1717 e 
de 1719 a 1720, apresenta uma riqueza ainda maior de dados. Com localidades 
detalhadamente especificadas, os lançamentos de São João são bem mais organizados, 
trazendo o nome do declarante; o número de escravos, escravos de maneio, vendas, roças, 
grandes roças, algum cabedal em ouro e fazendas de engenho; o valor individual de cada 
um desses itens e o valor total do quinto. Além disso, no final do rol aparecem 
recomendações ainda mais detalhadas de como deveriam atuar os cobradores dos quintos, 
mas isso veremos melhor no capítulo 2. Vejamos um exemplo desse lançamento: 
 
“1716 para 1717 
Lançamento dos Escravos, Lojas, e Vendas dos Moradores desta Comarca de São João 
del Rei para Satisfação dos Quintos Reais deste presente ano de 1716 a razão de duas 
oitavas e três quartos por escravo e de dez oitavas por loja ou venda como saio em a 
Conta Geral da Repartição que fizeram os Procuradores de todas as Câmaras das 
Minas, em a última Junta que se celebrou em Vila Real de Nossa Senhora da 
Conceição do Sabará. 
Vila 
Número dos escravos 
60 O Brigadier Antonio Francisco da Silva, com sessenta escravos, a duas oitavas e 
três quartos cada um importa cento e sessenta e cinco oitavas 165”105 
 
No cabeçalho do registro há, como se pode ver, importantes referências à cobrança 
ser realizada pela câmara por conta de uma repartição feita pelos procuradores das câmaras 
das Minas em Junta. Logo após vemos um exemplo de lançamento com nome do 
proprietário dos escravos, com a quantia de negros possuída e o valor que devia ser pago 
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104
 APM, CC-1010; Microfilme 002(2/9) – Livro de registro de receita do Quinto do ouro e da Capitação. 
1714-1716. [Vila Rica]. 128 f. 
105
 APM, CC-1012; Microfilme 002(4/9) – Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1716-1720. 
São João Del Rei. 275 f. 
56 
�
 
 
por eles. Abaixo mais um exemplo, do lançamento do Caminho Novo, de como essa 
declaração podia ser bem detalhada: 
 
“100 O Guarda-Mor Garcia Rodrigues Pais, com grande quantidade de escravos, 
e quatro sítios, dos melhores, e mais ricos de efeitos e plantas, que tem todo o 
caminho, e portanto, lançado para esta contribuição em cem escravos de posse e 
maneio, a quatro oitavas e um quarto cada um, importa quatrocentas e vinte e cinco 
oitavas 425.”106 
 
Para São João del Rei ainda encontramos outro livro para o ano de 1717. Nele os 
moradores igualmente declaravam a quantidade de escravos, vendas e lojas possuídos, e a 
contribuição para os quintos era calculada tendo tal declaração por base. Muitas vezes os 
registros traziam a assinatura do declarante e do cobrador dos quintos, e, frequentemente, 
anotações do cobrador quanto ao recebimento do valor declarado, se já havia sido pago ou 
se estava por pagar. É o caso do exemplo abaixo, do lugar de Rio Acima, cujo cobrador era 
João Pinto do Rego: 
 
“10 O Mestre de Campo Damião de Oliveira 27 ½ 
 com doze escravos 
Recebi as vinte e sete oitavas e meia de ouro de quintos em que foi lançado [osço] 
mestre de campo Damião de Oliveira e Sousa e para clareza passei o recibo. 
Damião de Oliveira e Sousa João Pinto do Rego”107 
 
O último rol que analisamos refere-se unicamente à cobrança de quintos atrasados, 
endereçado a José Correia Lima, “das pessoas que devem quintos para vir escrever a cada 
um deles”. No dito documento há uma lista de pessoas, inclusive cobradores dos quintos, 
sua moradia e a quantia devida e logo após vemos uma importante indicação do que devia 
ser feito quanto à situação do atraso: 
 
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106
 Idem. 
107
 BN, MS-580(3) D.03, I-10,04,003 No001 – Câmara de São João del Rei. Rol dos moradores de Rio 
Acima, São João del Rei, Brumado, Villa, Caminho do Campo, Itaberaba, Noruega, Caminho Novo, Lagoa 
Dourada, Camapão, Congonhas, Ponta do Morro, Prados, Bichinho, Arraial Velho, Corrego, Caminho Velho, 
Rio das Mortes Pequeno e Rio Abaixo. São João del Rei, 1717. Precedido por um documento datado de 1849 
(provavelmente não pertencente ao códice): cobrança dos quintos considerando-se o número de moradores e 
escravos, lojas e vendas. 
57 
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“Estas são as pessoas a quem vossa mercê deve escrever em nome do Senado e pedir-
lhe sejam servidos remeter o ouro pelos portadores dizendo-lhes pede o Sr. General 
se lhe ajuste a conta velha das falhas e que estimaremos satisfaçam suas mercês por 
não irem no Rol que o dito senhores nos pede e tudo [via] faça com os encarecimentos 
necessários como melhor entender porque com a resposta deles se resolve o Senado a 
dar o Rol ao Sr. General e se vim for ao Ribeirão procure novas frescas que me dizem 
as tem o Sr. Conde General do Povoado de várias novidades, mas antes que vá faça 
estas Cartas a estes homens e as entregue aos oficiais para as entregarem com 
brevidade e trazerem as respostas e se lhe repugnarem me mande as cartas que eu 
lhas farei levar logo e para servir a vossa mercê fica muito certo a quem Deus guarde 
muitos anos. Casa 3 de Setembro de 1718. 
 Muito servo de vossa mercê 
 Manuel Gomes da Silva”108 
 
 As indicações são reveladoras da atividade conferida às câmaras em caso de 
cobrança de quintos em atraso. Não temos maiores informações sobre o remetente e o 
destinatário desse rol. Mas o fato é que o primeiro remete essa listagem de devedores ao 
segundo a mando do Senado da câmara, pedindo que lhe enviassem cartas aos mesmos 
para que fizessem a remessa do ouro devido. Repare-se que a câmara cuida dessa tarefa em 
1718, ano que lhe teria sido retirado a responsabilidade com a arrecadação. Trataremos 
melhor disso adiante. 
 
1.1.4 Fazendo entregas e ajustando contas (1714, 1716, 1720-1725) 
 
Três livros, de 1714 para a Vila do Carmo, de 1716 para a Vila de São João del Rei, 
de 1721-1725 para a Vila Rica, além de um documento de 1720 para Vila Rica, nos dão 
conta não do lançamento diário do quinto, mas das entregas feitas pelos cobradores das 
quantias recebidas e do ajustamento das contas dos róis que cobravam. Essas informações 
por vezes também aparecem no final dos livros com o registro cotidiano, mas por vezes os 
oficiais das câmaras também faziam livros separados só para esse fim, aos quais agora nos 
debruçamos. 
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108
 BN, MS-580(70) D.63, I-26,22,058 – Rol das pessoas que devem quintos atrasados enviado a José Correia 
Lima. 03/09/1718. 
58 
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 O primeiro livro de 1714 da Vila Leal do Carmo haveria de servir para as 
“despesas, e entrega, ao Tesoureiro das seis arrobas de ouro que se prometeram à Sua 
Majestade que Deus guarde a bem assim do pagamento que se fez ao Capitão Mor Jacinto 
Barbosa”. Lembremos que nesse ano a câmara tinha acabado de negociar o pagamento das 
30 arrobas anuais de quinto. Aqui podemos comprovar, portanto, que a câmara da Vila do 
Carmo fazia a entrega das seis arrobas que lhe couberam nesse acordo, abrindo livro 
específico para esseregistro. Vejamos uma das entregas e os atores presentes na 
conferência desses valores: 
 
“Ao primeiro dia do mês de Julho de mil e setecentos e quatorze nesta Leal Vila de 
Nossa Senhora do Carmo em presença dos oficiais da Câmara dela foi chamado o 
Capitão Torquato Teixeira de Carvalho nomeado por este Senado e pelo 
Excelentíssimo Senhor Dom Brás Baltazar da Silveira para servir de Tesoureiro das 
seis arrobas de ouro que por repartição couberam a esta Vila e seu Termo, este 
presente ano e em presença de todos os mais oficiais da Câmara se lhe pesaram e 
contaram a dita quantia acima declarada (24$576) pelo marco do constante e 
aferidor desta Vila Gregório Gonçalves e de como recebeu a dita quantia das seis 
arrobas de ouro e assinou com todos os vereadores deste senado e eu André Francisco 
Torres escrivão da câmara o fiz e escrevi. 
 Torquato Teixeira de Carvalho 
 Pinto Souza 
 Miranda Spinola” (grifo nosso)109 
 
 O segundo livro mencionado, para a Vila de São João del Rei, é de Ajustamento de 
Contas das Cobranças dos Róis dos quintos do Lançamento desta Comarca de São João 
Del Rei do ano de 1716. Separado por cada localidade da referida vila, o livro parece ser 
uma espécie de registro de controle das parcelas entregues por devedores dos quintos, mas 
especialmente pelos cobradores que davam conta de seu rol de jurisdição. O cobrador da 
Vila João Francisco Pedroso, por exemplo, entregara ao tesoureiro dos quintos, Belchior da 
Cunha Freire, 2280 oitavas de ouro e dele recebera recibo. Tais cobradores também dariam 
conta das falhas no recebimento do quinto, falhas estas “por pobreza” do declarante, “por 
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109
 BN, MS-580(50) D.58, I-25,33,058 – Livro que consta as seis arrobas de ouro para entregar à Sua 
Majestade referente aos quintos e ao pagamento feito ao capitão Jacinto Barbosa Lopes. Vila Real do Carmo, 
20/06/1714. 
59 
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mal lançado” havendo erro no lançamento, além das ausências de pagamento sem motivo 
esclarecido. Para essas falhas faziam uma lista para especificar tudo que ainda se devia de 
determinado rol.110 Alguns livros de lançamento diário dos quintos para período posterior a 
esse por vezes também trazem uma relação de falhas no fim dos registros. 
 O terceiro livro, de 1721-1725, é o Livro de registro de expediente da Tesouraria 
da Fazenda de Minas Gerais, no qual se lançavam vários tipos de recebimentos. Tais 
entregas eram super detalhadas e advindas dos diversos lugares da Capitania, referente aos 
quintos trazidos pelas câmaras das variadas vilas, de direitos, rendimentos e contratos 
diversos ou de particulares. As entregas dos quintos apresentam o seguinte padrão: 
 
“Em 2 de Abril, digo de Maio de 1722 anos carrego em Receita ao Tesoureiro da 
Fazenda Real Lourenço Pereira da Silva doze mil e quatrocentas e trinta oitavas de 
ouro em pó 
Que recebeu da Câmara de Vila Nova da Rainha por mão do Sargento Mor José de 
Miranda Pereira dos quintos vencidos em Julho de 1721 e de como o dito Tesoureiro 
recebeu a dita quantia de doze mil e quatrocentas e trinta oitavas de ouro assinou 
comigo Antonio de Seixas escrivão da Fazenda Real e despesa e receita se passou 
conhecimento. 
Lourenço Pereira da Silva Antonio de Seixas”111 
 
Por fim, destacamos o documento de 1720 de Vila Rica, que na verdade é referente 
a uma entrega referente aos quintos da comarca do Rio das Mortes. Menciona-se a quantia 
entregue ao tesoureiro da Real Fazenda, além da quebra que houve nessa quantia. O 
documento em questão é um conhecimento dessa entrega. Segue-o abaixo: 
 
“A fl.10 verso do Livro, que serve como Tesoureiro da Fazenda Real Francisco de 
Almeida e Brito lhe ficam carregadas em Receita viva vinte e quatro mil, oitocentas e 
setenta e duas oitavas e meia de ouro, que recebeu por mão do Sargento Mor Inácio da 
Costa Montalvão, pertencente aos quintos do Rio das Mortes, na qual quantia houve 
de quebra cinquenta e quatro oitavas, e meia de ouro, que inteirou de sua fazenda o 
dito Sargento Mor para ajuste das ditas 24872 ½ e de como o dito Tesoureiro as 
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110
 APM, CC-1019; Microfilme 003(4/9) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1716-1721. 
São João Del Rei. 123 f. 
111
 AN, 0M 0137 - Livro de registro de expediente da Tesouraria da Fazenda de Minas Gerais. 1722-1725. 
Vila Rica, 275 f. 
60 
�
 
 
recebeu e delas ficou entregue lhe deu este conhecimento em forma tirado do dito 
Livro que assinou comigo José da Silva de Andrade escrivão da Fazenda Real que o 
escrevi e assinei em esta Vila Rica ao primeiro dia do mês de Fevereiro de 1720. 
Francisco de Almeida Brito José da Silva de Andrade”112 
 
1.1.5 Os quintos das carregações e os termos de fiança (1709, 1715-1721) 
 
Esses registros de certa forma se parecem com aqueles há pouco analisados dos que 
andavam pelas Minas. A diferença é que esses documentos trazem especificado o que se 
carregava para dentro ou fora dos caminhos da Capitania. Nessas ocasiões, ou se “pagava 
logo” os quintos sobre a dita carregação, ou se nomeava fiador “para a segurança dos 
quintos”. Tais registros são variados e esparsos para a Vila Real do Sabará, Vila de São 
João del Rei e Vila do Carmo. Vejamos. 
 Para a Vila Real do Sabará, o primeiro relato que temos é de boiadas que pagaram o 
quinto em 1715. Segue abaixo um desses registros: 
 
 “Termo de entrada de uma boiada que dá Manuel Felix 
Aos doze dias do mês de fevereiro de mil e setecentos e quinze anos nesta Vila Real 
de Nossa Senhora da Conceição nas Casas donde assiste o Juiz Ordinário o Capitão 
Francisco Duarte de Meireles e sendo aí, apareceu presente Manuel Felix e por ele foi 
dito que ele dava entrada de duzentas e treze cabeças de gado das quais lhe abateu o 
dito Juiz Ordinário vinte e duas cabeças e ficam líquidas cento e noventa e uma que a 
oitava e quarto cada cabeça pertence para a Fazenda Real duzentas e trinta e oito 
oitavas e três quartos de ouro das quais ficou por fiador e principal pagador José 
Ferreira Preto se obrigou a pagar a dita quantia de feitura deste a três meses e tudo 
fiz este termo que assinaram com o dito Juiz e eu Antônio Pereira [baus] escrivão das 
entradas o escrevi. 
Meireles José Ferreira Preto Manuel Felix” (grifo nosso)113 
 
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112
 BN, MS-580(50) D.59, I-25,33,059 – Folha dez do livro que serve com o tesoureiro da Fazenda Real, 
Francisco de Almeida e Brito, em que consta a receita dos reais quintos do Rio das Mortes. Vila Rica, 
01/02/1720. 
113
 BN, MS-580(60) D.81, I-26,10,021 – Termos de entrada das boiadas que pagaram o quinto. Vila Real de 
Nossa Senhora da Conceição, 12/02/1715-16/01/1715. 
61 
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Como este seguem outros termos de várias pessoas que declaram os quintos que 
pagavam sobre seu gado. Em tais termos, igualmente pode-se identificar a data da 
passagem, o nome do declarante, o lugar onde o registro é feito, a quantidade de cabeças 
de gado que se passa e a quantidade que é abatida para a Fazenda Real, o valor devido, o 
fiador do declarante e o escrivão das entradas. É importante reparar ainda, e se encontra em 
grifo no trecho acima, que a cobrança era feita pelo Juiz Ordinário da vila, ou seja, pelo 
poder local da mesma. Destaca-se também que o fiador nomeado pelo declarante tinha um 
prazo específico para fazer o pagamento da quantia devida à Fazenda Real. Isso nos revela 
detalhes sobre a dinâmica dessa cobrança. 
Mas para a Vila Real do Sabará temos ainda outro livro com termos de entrega, só 
que agora ao tesoureiro da Fazenda Real, dos quintos de gado para o período de 
06/12/1715 a 20/09/1721. Vejamos o modelo de tais registros: 
 
“Carga feitasobre o Tesoureiro da Fazenda Real o Sargento Mor João de Souza Souto 
Maior de sessenta e duas oitavas e meia de ouro 
Aos vinte e sete dias do mês de Abril de mil e setecentos e dezesseis anos nesta Vila 
Real de Nossa Senhora da Conceição em casas de morada do Doutor Luis Botelho de 
Queiroz ouvidor geral e Provedor da Fazenda Real onde eu escrivão adiante 
nomeado vim e sendo aí apareceu Agostinho Barbosa Ribeiro que feito de pagar 
sessenta e duas oitavas de digo sessenta e duas oitavas e meia de ouro que deve de 
quintos como fiador e principal pagador de Antonio Rodrigues Silva digo Antonio 
Pereira Rodrigues que tenha dado entrada de cinquenta cabeças de gado e como é 
costume pagou o dito Agostinho Barbosa como consta do Livro das entradas a folhas 
onze que mandou o dito Doutor Provedor da fazenda Real fazer este termo que 
assinou com o dito Tesoureiro e eu Francisco Xavier Alves Pereira escrivão da 
fazenda Real o subscrevi. 
 [Des Gral] 
 João de Souza Souto Maior” (grifo nosso)114 
 
 Tal carga para o tesoureiro da Fazenda Real traz, na verdade, praticamente os 
mesmos dados do termo anterior feito pela câmara da dita vila. A diferença, além dos 
oficiais da Fazenda que estão presentes, é que essa carga trata-se já do pagamento de uma 
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114
 APM, CC-1014; Microfilme 002(6/9) – Livro de registro de rendimentos gerais pelo tesoureiro da Real 
Fazenda João de Souza Souto Maior. 1715-1721. Vila Rica. 89 f. 
62 
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entrada feita em período anterior. Nesse caso, o fiador, Agostinho Barbosa Ribeiro, 
comparece na Real Fazenda, perante o tesoureiro e o ouvidor e faz o pagamento “como é 
costume”, da quantia da entrada feita por seu fiado, Antonio Pereira Rodrigues. Depois 
desse registro, seguem várias entradas de diversas pessoas como fiadoras de outras que 
devem quintos de gados. Também nesse livro podem-se encontrar registros de entregas a 
esse tesoureiro de ouro dos quintos pelos oficiais da câmara da dita Vila Real, “do ouro dos 
quintos”, “do resto dos quintos das trinta arrobas”, “de resto que devia a dita câmara para o 
ajuste dos quintos”. Veremos mais adiante como se davam essas entregas na Real Fazenda. 
 Analisemos agora os registros existentes para a Vila de São João del Rei e eles 
também tratam de entradas de carregações pagando os quintos nos anos de 1715, 1716 e 
1717115, além de alguns poucos lançamentos para o ano de 1709. Segue um dos registros: 
 
 “Termo de fiança de Antonio Pedroso Leite 
Aos dez dias do mês de Julho de mil e setecentos e quinze anos nesta Vila de São João 
Del Rei em casas de morada do Juiz ordinário João Antunes Maciel adonde eu 
escrivão fui e sendo Antonio Pedroso Leite e por ele foi dito que queria entrar para o 
povoado com três escravos e por [ ] queria dar fiança para pagar o [quinto] que 
lhe tocar de contribuição para os quintos Reais e como com efeito deu por fiador 
ao Capitão Manuel Cardoso e de como o dito se obrigou por sua pessoa assinou com o 
dito Juiz e eu José da Silveira de Miranda da Câmara que o escrevi. (grifo nosso)”116 
 
 Vê-se que em casas de morada do Juiz ordinário da dita vila comparecia Antonio 
Pedroso Leite para manifestar que queria entrar para o povoado com seus escravos. Para 
isso nomeava fiador que se obrigaria, na sua falta, ao pagamento do que tocasse de quintos 
reais. Nos registros similares a esse para a localidade, se vê que ou se “pagava logo os 
quintos” sobre determinada carregação ou se dava fiador “para a segurança dos quintos”. 
Se se pagava de pronto se desobrigava a fiança, mas pelo que podemos constatar elas eram 
muito frequentes. E isso tanto para quem entrasse para as Minas, quanto saísse. 
Alguns poucos registros do ano de 1709 também podem ser encontrados nesse 
livro, como dito há pouco. Mas são muito poucos os lançamentos, indicando que o livro foi 
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115
 Os termos de fiança para 1717 encontram-se em outro livro: APM, CC-1004; Microfilme 1 – Livro de 
registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Mortes. 1710-1717. São João Del Rei. 250 f. 
116
 BN, MS-580(6) D.01, I-10,06,001 – Intendência de São João del Rei. Livro de registro de finanças e 
pagamento de quintos. São João del Rei, 1715-1718. 
63 
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reaproveitado e também que boa parte dele provavelmente se perdeu. Segue o tipo de 
lançamento desse ano: 
 
“Aos onze dias do mês de Julho de mil setecentos e nove anos nestas Minas do Rio 
das Velhas e casas da Superintendência apareceu Custódio da Silva residente nestas 
Minas e por ele foi dito ao Tenente General Francisco Veloso que a seu Requerimento 
vinha notificado para dar fiança aos quintos de Sua Majestade do ouro que 
agenciou nestas Minas quando se recolhesse para povoado e logo apareceu 
Antonio Carvalho Gomes e por ele foi dito que por sua pessoa e bens se obrigava ao 
referido para que não saísse o dito Custódio da Silva destas minas sem vir quintar de 
que mandou o Tenente General fazer este Termo em que assinou com o fiado e fiador 
eu Manuel de Mendonça e fim o escrevi.” (grifo nosso)117 
 
 Esse registro do Rio das Velhas, outra comarca, portanto, já é feito pela 
Superintendência. Com data, nome do fiado e do fiador, o referido lançamento traz 
indicações, que destacamos em grifo, similares às que encontraremos décadas à frente. 
Para a Vila do Carmo encontramos apenas uma menção avulsa em um livro de 
Assento de ouro que recebeu o procurador da câmara, Manuel Rodrigues de Souza, 
referente aos quintos reais o qual pagou as pessoas que passaram por estas minas no ano 
de 1715. Segue essa referência, também a carregações de boiadas: 
 
“Recebeu Gabriel Pereira de Sá, como tesoureiro e escrivão das cobranças dos 
quintos das carregações que entram nessas minas e também das boiadas, vinte e 
duas oitavas de ouro de um [tomam] que por nome não perca que passou destas 
Minas para a cidade do Rio digo para a cidade de São Paulo, por despacho do 
Juiz ordinário o Coronel Rafael da Silva e Souza, e se lhes passou carta de guia 
em 27 de setembro de 1715, as quais entregará a seu tempo este. Como as recebeu 
assinou aqui comigo escrivão e eu João Carneiro Pereira escrivão da câmara que o 
escrevi. 
 Gabriel Pereira de Sá” (grifo nosso)118 
 
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117
 Ibidem. Na descrição do livro nem há menção de se conter registros de 1709. 
118
 BN, MS-580(50) D.57, I-25,33,057 – Assento de ouro que recebeu o procurador da câmara, Manuel 
Rodrigues de Souza, referente aos quintos reais o qual pagou as pessoas que passaram por estas minas no ano 
de 1715. 
64 
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Feito na câmara, o registro refere-se, diferentemente dos outros, de carregação que 
sai das Minas para a cidade de São Paulo. Um novo cargo para tal atividade aparece, o 
“tesoureiro e escrivão das cobranças dos quintos das carregações que entram nessas minas 
e também das boiadas”. Esse oficial recebe de uma pessoa, que não se identifica, uma 
quantia determinada por passar das Minas para São Paulo. O Juiz Ordinário Rafael da 
Silva e Souza, também cobrador dos quintos, passa carta de guia dessa declaração. Não 
temos outros registros como este, o que facilitaria uma melhor compreensão desse 
processo. Mas a informação adicional que identificamos é que após a passagem com 
determinada carregação o declarante recebia um documento que comprovava seu 
pagamento, ou termo de fiança. 
 
1.1.6 Os arrolamentos de escravos para o lançamento dos quintos de 1718 a 
1720 
 
O ano de 1718 foi tido durante muito tempo como um marco na cronologia da 
arrecadação dos quintos, um marco do processo de centralização do poder da Coroa nas 
Minas. Nesse ano teria sido retirado das câmaras a responsabilidade da cobrançados 
quintos reais, a partir de então geridos pela Real Fazenda. Os pesquisadores responsáveis 
pelas várias periodizações sobre a cobrança muito reafirmaram esse recorte, sem 
mencionar quando tal jurisdição teria voltado às mãos do poder local, se é que teria 
voltado. Em trabalhos anteriores, nos dedicamos bastante a tal discussão, para a Vila do 
Carmo, refutando a ideia de uma afirmação linear da Real Fazenda, pois já em 1721 a 
tarefa dos quintos teria voltado para o Senado da Câmara, pelo que nos comprovavam os 
próprios registros dos quintos, feitos por seus homens e nos seus livros.119 Cumpre a partir 
de agora analisar todos os registros que se possui para o restante da Capitania de Minas, de 
modo a colocar nossa hipótese em cheque. Ainda que em momento posterior desse texto 
debatamos separadamente sobre a questão da responsabilidade institucional com a 
cobrança em toda a Capitania, nesse momento iniciaremos com a análise dos referidos 
registros a partir de 1718, lançando alguns primeiros apontamentos que servirão de base 
para reflexões mais complexas a seguir. 
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119
 Idem. 
65 
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 No ano de 1718 realmente os registros de lançamento dos quintos, em geral 
nomeados por Matrícula de escravos, Arrolamento de escravos para o lançamento dos 
quintos ou Lançamento para a cobrança do quinto do ouro em determinada localidade, 
foram feitos pela Real Fazenda. Iniciemos pela Leal Vila de Nossa Senhora do Carmo. 
 Para a Vila do Carmo temos livros para as freguesias de São Sebastião, 
Guarapiranga, Sumidouro, Bento Rodrigues, Brumado, Inficionado e para a própria Vila, 
que correspondem, em geral, ao período de 1718 a 1720. 
No livro de São Sebastião, que haveria de “servir para nele se carregarem os 
escravos dos moradores da freguesia de São Sebastião do termo da Vila do Carmo desta 
Comarca do Ouro Preto” se haveriam de “escrever e carregar a ordem do Provedor dos 
quintos da dita freguesia na forma do regimento” todos os escravos da localidade em 
questão. Vejamos abaixo um dos trechos mais completos desse livro onde, aliás, o 
provedor é o próprio declarante. 
 
“O Mestre de Campo Francisco Ferreira de Sá Provedor dos Quintos Reais aos 
nove dias do mês de Maio de mil setecentos e dezoito anos nesta freguesia de São 
Sebastião, e casas de morada do Mestre de Campo Francisco Ferreira de Sá 
Provedor dos Quintos Reais desta dita freguesia aí por ele Provedor debaixo do 
juramento de seu cargo foram dados a escrever neste Livro os Escravos capazes de 
serviço que possuía seguintes (nomes dos 78 escravos, com sua nação e profissão e 
descrições físicas) 
E por esta maneira disse ele Provedor havia dado a escrever neste Livro todos os 
Escravos capazes de serviço que possuía debaixo do juramento que Recebi do 
Provedor excetuava os que de portas adentro o serviam como era notória não ter 
deles lucro algum, que pelo Regimento lhe são concedidos, dos que por doentes 
eram incapazes de serviço de que fiz este termo que ele assinou e eu Lourenço 
Pereira da Silva Escrivão dos Quintos Reais o Escrevi. 
Francisco Ferreira de Sá (grifo nosso)”120 
 
O registro acima compartilha com os demais a recorrência dos seguintes itens: 
nome do dono do escravo (no caso o declarante), relação dos escravos possuídos, nome do 
provedor dos quintos, lugar onde era feita a listagem dos escravos (no caso a casa do 
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120
 APM, CC-1024; Microfilme 003(9/9) 004(1/5) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 
1718-1720. São Sebastião. 378 f. 
66 
�
 
 
próprio provedor), freguesia sobre a qual incidia a cobrança e nome do escrivão dos 
quintos. A data exata da cobrança aparece somente em trechos como o exemplificado 
acima, nos demais o dia e mês não são mencionados. Há ainda, como se pode ver acima, 
um conjunto de recomendações específicas. Mencionava-se que todos os escravos capazes 
de serviço deviam ser declarados, exceto os que se dedicassem ao trabalho doméstico, “os 
que de portas adentro o serviam”, por não se obter lucro com o trabalho deles, e ainda os 
que estivessem doentes, pois não estariam aptos ao serviço naquele exato momento. 
 Sumidouro também segue o mesmo padrão. Encontramos apenas uma declaração 
do escrivão dos quintos que revela algo mais sobre um momento específico da confecção 
dos registros. No ano de 1719 nessa freguesia parece ter havido a necessidade de se fazer 
nova listagem, para se acrescentarem nela mais escravos. Só depois do novo assentamento 
a lista é remetida. Vejamos: 
 
“Aos vinte e dois dias de março de mil setecentos e dezenove anos tornou a vir a 
Lista que tinha ido para se irem acrescentando todos os escravos que se forem 
dando até ordem do Excelentíssimo Senhor Conde General os quais se assentaram os 
que de mais se deram como consta dos termos deste Livro os quais foram lançados 
na nova Lista que novamente [seguintes] e se remeteu aos vinte e dois dias do mês de 
Junho da era acima como consta do Livro de encerramento deste dito Livro a f. 119 v. 
de que de tudo fiz este termo eu Inácio Rodrigues Alvares escrivão dos reais quintos o 
escrevi. 
 Inácio Rodrigues Alvares”121 
 
 No arrolamento da freguesia de Bento Rodrigues, vemos apenas uma informação 
adicional. Com registros um pouco mais simplificados, por vezes também aparecia 
referências a transações de compra de escravos. No dia 17/11/1718 “mandou o Provedor 
descarregar os dois escravos enfronte por haverem passado por compra que deles fez 
Martinho Domingues e se acham já carregados nele a f. 6 v.” Os demais registros, que 
também incluem vendas, e referência sobre fugas, mortes de escravos e abatimentos, 
mudança, escravos incapazes de trabalho, seguem o mesmo modelo dos demais.122 As 
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121
 APM, CC-1029; Microfilme 005(2/7) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1718-1720. 
Sumidouro. 289 f. 
122
 APM, CC-1033; Microfilme 005(6/7) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1718-1721. 
Carmo. 260 f. 
67 
�
 
 
demais freguesias e a própria Vila do Carmo, com seus grandes plantéis e muitos 
proprietários, também seguem o mesmo padrão de lançamentos.123 
Os lançamentos de Vila Rica não apresentam maiores novidades, a não ser de 
serem um pouco mais simplificados. Veja-se o caso de um registro da freguesia de São 
Bartolomeu: 
 
“João Francisco Grangeiro 
Escravos 
(nome dos escravos) 
Declarou ter mais uma escrava que o serve na cozinha, e uma crioulinha menor, e 
assinou com o dito Provedor e eu João Pereira Souto escrivão dos quintos que o 
escrevi. 
Azevedo João Francisco Grangeiro”124 
 
 As informações básicas são as mesmas, mas não se vê as recomendações 
específicas quanto a penas e juramentos como em Vila do Carmo, nem é tão fácil de 
identificar o nome completo do provedor dos quintos, no caso acima só sabemos que seu 
sobrenome é Azevedo. No decorrer do livro, por vezes é possível encontrar a referência 
completa, por vezes não. Esse também é o caso das demais localidades de Vila Rica, da 
própria vila,125 Itatiaia,126 Antonio Dias127 e Congonhas do Campo e Ouro Branco.128 
 A Vila de São João del Rei também apresenta registros semelhantes e bem 
simplificados, como os de Vila Rica. Temos informações para Itaverava,129 Baependi130 e 
para a dita vila, da qual segue um exemplo abaixo. 
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123
 APM, CC-1036; Microfilme 006(3/5) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1718-1721. 
Carmo. 452 f. 
124
 APM, CC-1025; Microfilme 004(2/5) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1718. São 
Bartolomeu. 266 f. 
125
 APM, CC-1028; Microfilme 004(5/5) 005 (1/7) - Livro deregistro do Quinto do ouro e da Capitação. 
1718-1723. Vila Rica. 250 f. 
126
 APM, CC-1030; Microfilme 005(3/7) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo coronel 
Pedro da Rocha Gândavo. 1718-1719. Itatiaia. 69 f. 
127
 APM, CC-1039; Microfilme 007(2/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1719-1723. 
Antônio Dias. 128 f. 
128
 APM, CC-1037; Microfilme 006(4/5) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1718-1723. 
Ouro Branco. 138 f. 
129
 APM, CC-1026; Microfilme 004(3/5) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo 
procurador Manuel da Costa de Araújo. 1718-1720. Itaverava. 223 f. 
130
 APM, CC-1031; Microfilme 005(4/7) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo sargento-
mor Tomé Rodrigues. 1718-1720. Baependi. 100 f. 
68 
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“1719 
O Capitão Guilherme de Oliveira 
Com os negros seguintes 
A saber 
Estevão Angola 
Domingos Angola 
Ventura Angola 
Paulo Angola 
Vicente Angola 
A Guilherme de Oliveira Lara 
Miguel Fernandes Serra”131 
 
 Os arrolamentos da Vila de Piedade do Pitangui, a última vila da qual temos 
registros, são como os demais de 1718 a 1720. Mas o livro em questão abrange período 
maior, até 1724 e é feito por um mesmo cobrador, João Henrique de Alvarenga. Nesse 
livro podemos ver claramente um momento de mudança no controle dos lançamentos. De 
1718 a 1720 os registros parecem ser feitos do mesmo modo que os demais que vimos 
analisando. Em 1721, no entanto, o cobrador coloca a seguinte explicação: “O ano de 1721 
não cobrei os quintos mandou a Câmara cobrar pelo seu escrivão José Rodrigues 
Santiago.” Aqui fica claro que o ano de 1721, não só para a Vila do Carmo estudada 
anteriormente,132 também marca a volta dos quintos para as mãos do poder local em outras 
vilas. E o interessante é que o mesmo cobrador continua suas tarefas com a cobrança 
depois disso, até 1724, cobrando os meios quintos, antes da instituição das Casas de 
Fundição.133 
 
1.1.7 “Nas Casas da Câmara”: os lançamentos dos quintos de 1721 a 1723 
 
Continuando a discussão do último parágrafo, reafirmamos então que em 1721 
voltam às câmaras o controle da arrecadação dos quintos. Desenvolveremos mais adiante a 
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131
 APM, CC-1023; Microfilme 003 (8/9) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo 
procurador Miguel Fernandes Serra. 1718-1729. São João Del Rei. 98 f. 
132
 FARIA, Simone Cristina de. op. cit. 
133
 APM, CC-1038; Microfilme 006(5/5) 007(1/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo 
cobrador João Henrique de Alvarenga. 1718-1724. Pitangui. 152 f. 
69 
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hipótese desse retorno estar ligado ao fim dos conflitos da revolta de Vila Rica, quando o 
Conde de Assumar teria chamado novamente os poderosos locais para atuar em tal matéria 
e ajudar a se restabelecer a normalidade. No momento, cabe analisar como os registros 
passam a ser feitos em 1721 em diferentes vilas das Minas. Iniciamos pela Vila do Carmo: 
 
 “Passagem 
Em aos sete dias do mês de março de mil setecentos e vinte um anos nesta Leal 
Vila de Nossa Senhora do Carmo carrego em receita ao Tesoureiro o Capitão 
Manuel Cardoso Cruz duas mil sessenta e sete oitavas e meia de ouro que lhe 
entregou o Sargento Mor Jacinto Pinto de Magalhães morador na Passagem 
procedidas de oitocentos e vinte oito negros, e de quarenta e quatro vendas, que as 
devia para o cômputo das vinte e cinco arrobas de ouro dos quintos do ano de mil 
setecentos e dezenove para os de mil setecentos e vinte a respeito de duas oitavas e 
quatro vinténs que tocou a cada escravo, e de sete oitavas que tocou a cada 
venda, de que o lhe dito foi cobrador, e assinou aqui comigo e com o juiz mestre de 
campo Manuel de Queiroz, e a dita parte se lhe passou certidão desta entrega para sua 
descarga eu Hilário Antônio de Araújo escrivão da Câmara o escrevi.”134 
 
Podem-se retirar de registros como o acima os seguintes dados: data da cobrança, 
distrito, nome do tesoureiro, valor total recebido, nome do cobrador dos quintos e local de 
moradia, quantidade de escravos e vendas sobre os quais recaía a cobrança, valor para cada 
um deles, nome do juiz ou vereador mais velho, e nome do escrivão dos quintos. Por esse 
excerto vemos que, em determinado dia, o cobrador dos quintos entregava ao tesoureiro 
dos quintos da câmara uma quantia específica de ouro, tocante ao quinto acordado no 
período, nesse caso de 25 arrobas, referente ao número de escravos e vendas do distrito de 
sua jurisdição. E esses escravos e vendas eram referentes à lista que havia feito dos 
mesmos. O próprio cobrador recebia desses moradores e em ocasião nenhuma vemos 
assinaturas de proprietários nesses registros. 
Em algumas ocasiões, quando não aparecia o número de escravos e vendas, mas 
sim expressões como “por conta de sua lista”, para “ajuste da sua lista”, ou “por 
importância da sua lista”, fica claro que algumas pessoas ficavam devendo e que o 
cobrador, em um momento posterior ao primeiro recebimento, provavelmente voltava a 
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134
 AHCMM, Códice 648 – Livro de recebimento dos quintos de ouro – 1721-1735, f. 2. Esse livro no 
catálogo está denominado como de 1721 a 1735, mas só cobre os anos de 1721, 1722, 1727 e 1728. 
70 
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algumas moradias para receber o que se devia. As justificativas pela não entrega do 
montante referente à sua lista eram as mais variadas, fazendo com que consigamos sondar 
o tipo de dificuldades que os cobradores encontravam na sua tarefa. Quando traziam “de 
menos do que toca pela dita lista”, era porque o senhor estava ausente, porque o senhor 
fugiu, porque moradores se ausentaram, ou porque o escravo “se ausentou sem saber para 
onde.”135 
Para a Vila de São João del Rei, temos alguns poucos registros. No entanto, eles são 
suficientes pra corroborar a mesma situação exposta para a Vila do Carmo. Os lançamentos 
não são semelhantes, mas foram igualmente feitos pela câmara da dita vila de São João. 
Vejamos: 
 
“1721 Escravos que dá a Rol Francisco Alves Rego morador em 
Rio das Mortes abaixo os seguintes 
12 de 1 Antônio Mina 
Janeiro E declarou debaixo do Juramento dos Santos Evangelhos 
que pelo dito Juiz lhe foi dado não ter escravo mais algum 
de que fiz este termo em que assinou o dito Juiz por ele e 
eu Francisco Ferreira Nobre escrivão da Câmara o escrevi. 
 Sinal [cruz] de Francisco Gonçalves Rego”136 
 
 O registro acima apresenta ainda a diferença de não serem os cobradores a 
entregarem na câmara a quantia referente a seu rol, mas o próprio morador a declarar 
diante do escrivão da câmara os escravos possuídos, fazendo juramento de que não possuía 
mais nenhum além daqueles. 
A Vila Real do Sabará também fez livros para lançar seus quintos em 1721 e 1722, 
através de sua câmara municipal. E esses são semelhantes aos da Vila do Carmo, 
intitulados por Livro de receita e despesa dos quintos ouro em Sabará. Vejamos um dos 
lançamentos: 
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135
 Idem. 
136
 BN, MS-580(3) D.03, I-10,04,003 No001 – Câmara de São João del Rei. Rol dos moradores de Rio 
Acima, São João del Rei, Brumado, Villa, Caminho do Campo, Itaberaba, Noruega, Caminho Novo, Lagoa 
Dourada, Camapão, Congonhas, Ponta do Morro, Prados, Bichinho, Arraial Velho, Corrego, Caminho Velho, 
Rio das Mortes Pequeno e Rio Abaixo. São João del Rei, 1717. Precedido por um documento datado de 1849 
(provavelmente não pertencente ao códice): cobrança dos quintos considerando-se o número de moradores e 
escravos, lojas e vendas. 
71 
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“Carga ao Tesoureiro Manuel Monteiro Porto de oitocentas e trinta duas oitavas e trêsquartos de ouro que cobrou do Provedor Amaro Soares Lousada e do Provedor 
José da Silva de Azevedo 
Aos oito dias do mês de março de mil setecentos e vinte e um anos nesta Vila Real nas 
Casas da Câmara dela aonde eu escrivão da Câmara vim sendo aí em presença dos 
oficiais da Câmara apareceu Amaro Soares Lousada Provedor da Cobrança dos 
quintos e fez entrega ao Tesoureiro Manuel Monteiro Porto de seiscentas vinte 
oitavas e três quartos de ouro que havia cobrado dos moradores do seu distrito o 
qual Tesoureiro recebeu o dito ouro. E outrossim apareceu também o Provedor José da 
Silva de Azevedo a entregar duzentas e doze oitavas de ouro que cobrou do seu 
distrito de Capão as quais recebeu também o dito Tesoureiro que por tocar fazem nas 
duas adições oitocentas e trinta e duas oitavas e três quartos de ouro, as quais todas 
recebeu o dito Manuel Monteiro Porto como Tesoureiro dos Reais quintos eleito 
pelo Senado da Câmara como consta de um termo do Livro de vereação a fl. e de 
como recebeu o dito ouro fiz o termo de carga que assinou comigo escrivão da 
Câmara eu Antonio de Passos Taveira. 
(rubrica) Manuel Monteiro Porto” (grifo nosso)137 
 
Esse registro, como o da Vila do Carmo, também se trata do recebimento do quinto 
“para cômputo das vinte e cinco arrobas dos quintos do ano de 1719 para 1720”. Vê-se que 
dois provedores vão diante do tesoureiro dos reais quintos, nas “Casas da Câmara”, 
entregar as quantias referentes aos róis de seus distritos de cobrança. Temos ainda a data 
dessa entrega, os locais sobre os quais recaía essa cobrança, os nomes dos provedores, do 
tesoureiro e do escrivão dos reais quintos. Repare-se que é destacado inclusive que a 
câmara era quem elegia os tesoureiros dos reais quintos, mas sobre isso trataremos melhor 
no capítulo 2. 
Por fim, temos mais alguns registros para a Vila de São José del Rei, para os anos 
de 1722 e de 1723. O Lançamento dos escravos para cobrança do quinto dessa vila é 
muito parecido com o da Vila de São João del Rei, com o nome dos proprietários e a 
quantidade de escravos possuídos (para 1723 há também o nome desses escravos). Há 
ainda o nome dos alistadores (cobradores dos quintos) por localidade. Esses homens 
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137
 APM, CC-1044; Microfilme 007(7/10) - Livro de registro de receita e despesas dos quintos reais. 1721-
1722. Sabará. 56 f. 
72 
�
 
 
lançavam os dados mencionados nessa lista “bem e fielmente de seu próprio original”, 
segundo relato deles mesmos, por “mandado dos oficiais da Câmara”. Também para a Vila 
de São José del Rei, portanto, é possível confirmar o papel desempenhado pela câmara, 
que também coordenava as atividades dos cobradores.138 
Ainda nesse livro é possível ter acesso às entregas que os cobradores, nesse 
momento nomeados como recebedores dos quintos, faziam das quantias recebidas por 
conta desses róis. Nessa ocasião, esses homens carregavam ao tesoureiro dos reais quintos 
da vila, Afonso Alves da Costa, quantias sucessivas por “conta das suas listas”. São várias 
entregas para os variados lugarejos.139 
 
1.1.8 Os meios quintos, pagamentos restantes antes das Casas de Fundição 
(1724-1725) 
 
Como se sabe, em 1725 são finalmente implantadas as casas de fundição nas 
Minas, depois de algumas tentativas fracassadas. A transição entre os métodos ainda não 
foi muito bem estudada. Na verdade, não se tem muitos registros dos quintos cobrados 
nesse período, além das informações trazidas por pesquisadores e viajantes.140 
Encontramos apenas duas referências, com as quais tentaremos lançar alguns 
apontamentos. 
 A primeira é para a Vila do Carmo. Vejamos o padrão dos lançamentos: 
 
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138
 APM, CC-1046; Microfilme 007(9/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1720-1723. 
São José. 87 f. 
139
 Idem. 
140
 Os trabalhos mais comumente citados, não só para esse período, ainda que não focados exclusivamente na 
arrecadação dos quintos, são os seguintes, entre outros tantos: BOXER, Charles R. A idade do ouro do 
Brasil. São Paulo: Editora Nacional, 1969; HOLANDA, Sérgio Buarque de. Metais e pedras preciosas. In: 
História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1973. p. 259-310; PINTO, 
Virgílio Noya. O ouro brasileiro e o comércio anglo-português: uma contribuição aos estudos da economia 
atlântica no século XVIII. 2. ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1979. Alguns mais específicos podem ser 
mencionados: CALÓGERAS, João Pandiá. As minas do Brasil e sua legislação. Rio de Janeiro: Imprensa 
Nacional, 1935; CARDOSO, Manuel da Silveira Soares. Os quintos do ouro em Minas Gerais (1721-1732). 
Congresso do Mundo Português, Lisboa, vol. 10, 1940, p. 117-128. É importante também destacar que 
diversos memorialistas e viajantes nos oferecem importantes informações sobre as cobranças, ainda que 
esparsas: ANTONIL, André João [João Antônio Andreoni]. Cultura e opulência do Brasil. 3. ed. Belo 
Horizonte: Itatiaia Limitada, 1982; ROCHA, José Joaquim da. Geografia histórica da Capitania de Minas 
Gerais. Descrição geográfica, topográfica, histórica e política da Capitania de Minas Gerais. Memória 
histórica da Capitania de Minas Gerais (1788). Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1995; entre outros. 
73 
�
 
 
“Em primeiro de Abril do dito ano (1725) carrego em Receita do dito Capitão e 
Tesoureiro Manuel Ferraz sessenta e sete oitavas três quartos cento e vinte réis de ouro 
Que recebeu do Sargento Manuel de Pinho Provedor dos quintos do distrito do Morro 
o qual ouro foi quintado por receber este recibo depois da Casa de fundição posta 
e ajustou com este cômputo a sua conta tanto de principal como de quanto de que se 
lhe passou Receita e de como o Recebeu assinou com o Provedor José Mexia escrivão 
da Câmara o escrevi. 
Manuel Ferraz” (grifo nosso)141 
 
Ao que tudo indica, na ocasião acima o provedor dos quintos levou perante o 
tesoureiro da câmara o ouro quintado, recebendo depois recibo da Casa de Fundição. Mas 
ainda assim falta clareza quanto à razão pela qual ainda se levava nas câmaras ouro que 
devia ser entregue nas casas de fundição. Sinal de um período de transição e de que o 
cobrador/provedor dos quintos ainda desempenhava funções mesmo com a implantação 
das casas. Mas essas são apenas hipóteses, por enquanto. 
A segunda referência aos meios quintos que encontramos pertence ao Livro de 
registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo cobrador João Henrique de Alvarenga, da 
Vila de Pitangui. Trata-se do recebimento dos meios quintos por esse cobrador pela lista do 
ano de 1724, onde “saiu por negro a oitava e sete vinténs e meia e as lojas e vendas as seis 
oitavas”, a metade do que geralmente era cobrado nos anos anteriores. O cobrador 
declarava entregar os valores recebidos aos oficiais da câmara, “para remeterem para a 
Provedoria Geral da Vila do Ouro Preto”. Mas dessas entregas, segundo ele, ficavam 
devendo alguns moradores e os que não pagassem a tempo “ordenou o Excelentíssimo 
Senhor General que o pagassem quintado”.142 Podemos inferir que as quantias ainda 
restantes do ano de 1724 deviam ser pagas como de costume se fazia, mas haveria um 
determinado tempo em que deveria se pagar com o ouro já quintado. No entanto, nos 
faltam mais componentes para entender melhor esse processo. 
 
1.1.9 Registros dos reais quintos ou dos donativos reais? (1727-1733) 
 
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141
 AHCMM, Códice 200 – Livros de quintos: 1723-1726, f. 54. 
142
 APM, CC-1038; Microfilme 006(5/5) 007(1/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo 
cobrador João Henrique de Alvarenga. 1718-1724. Pitangui. 152 f. 
74 
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Um conjuntosignificativo de registros para a Vila do Carmo para o período 
compreendido entre 1727 e 1733 nos coloca algumas questões intrigantes. Tratam-se de 
dois livros denominados como Livro de recebimento dos quintos de ouro143 e Livro da 
receita de cobrança dos reais quintos.144 Esses livros contem registros onde o padrão de 
lançamentos se assemelha aos anteriormente citados para o período de 1721 até 1724, 
igualmente feitos pelas câmaras, sendo que o primeiro deles inclusive conjuga esses 
lançamentos com os que agora apresentamos para o período em questão. Vejamos um 
desses lançamentos, do segundo livro mencionado: 
 
 “1728 
 Passagem e Morro de Mata Cavalos 
Em dezenove de Fevereiro de 1728 se carregou em Receita ao Tesoureiro geral do 
Donativo Real o Capitão Manuel Ferraz quinhentas e onze oitavas de ouro -------- 511 
que recebeu do Sargento Mor Antonio Gomes da Silva Provedor da Passagem e 
Morro de que se lhe passou recibo o de como o recebeu assinou Juiz da Fazenda 
Ribeiro escrivão da Câmara e escreveu. 
 Manuel Ferraz” (grifo nosso)145 
 
Fica claro, pelo trecho acima, que os dados básicos comuns são: o distrito de 
cobrança, a data da cobrança, o nome do tesoureiro, o valor do quinto entregue, o nome do 
provedor e o nome do escrivão da câmara que fazia o registro. O primeiro livro traz ainda o 
número de escravos, vendas, lojas e ofícios mecânicos por proprietário, além da profissão e 
local de origem dos escravos. Ou seja, tais dados são fundamentalmente os mesmos que já 
encontramos nos demais lançamentos dos reais quintos. 
No entanto, existem dúvidas quanto a esses registros, principalmente quanto à 
menção a “donativo real” que podia significar a cobrança de outro direito que não o quinto, 
ainda que o quinto por diversas vezes também fosse mencionado como donativo.146 É 
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143
 AHCMM, Códice 648 – Livro de recebimento dos quintos de ouro – 1721-1735. 
144
 AHCMM, Códice 421 – Livro da receita de cobrança dos reais quintos – 1728-1739. 
145
 Idem, f. 6. 
146
 Ainda segundo o Códice Costa Matoso, um donativo real era um subsídio exigido pela Coroa, como uma 
contribuição extra, em circunstâncias especiais ou fortuitas, como guerras e casamentos. FIGUEIREDO, 
Luciano Raposo de Almeida, CAMPOS, Maria Verônica (coord.). Códice Costa Matoso..., p. 92. Nessa 
época, segundo verificamos em muitos registros de mercês, se cobrou um donativo real para suprimento das 
despesas dos casamentos de suas altesas o Príncipe do Brasil e D. Mariana Vitória em 1727 e do Príncipe das 
Astúrias e D. Maria Bárbara em 1728. 
75 
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importante destacar, por exemplo, que essa dúvida surge até pelos enunciados do segundo 
livro, no qual se encontra o registro acima. Em sua folha de abertura o dito livro diz que 
“há de servir para a Receita do donativo Real de Sua Majestade que Deus guarde este 
presente ano de 1728 que se cobra por esta Câmara da Vila de Nossa Senhora do Carmo”, 
mas na sua folha de encerramento diz que “há de servir de Receita da Cobrança dos Reais 
Quintos que pela Câmara se cobra para Sua Majestade que Deus guarde”.147 
Apesar dessas questões de classificação, é muito importante destacar a existência 
desses livros porque os atores envolvidos na cobrança desse donativo real eram 
praticamente os mesmos que se dedicavam às atividades ligadas aos reais quintos, tanto 
escrivães, tesoureiros, quanto provedores. Se tais registros lançados nesses livros não eram 
efetivamente dos quintos, o fato é que os mesmos personagens que já cuidavam dos 
quintos acumulavam mais essa função fiscal à Sua Majestade e quem coordenava essa 
cobrança era mais uma vez a câmara municipal. 
 
1.1.10 Capitação de negros forros, matrículas de escravos e censo de clérigos 
(1737-1783) 
 
Depois de um eco nos registros com a implantação das casas de fundição, de 1725 a 
1736 não encontramos registro algum, 1737 traz um Livro de lançamento da Capitação de 
negros forros. Nele aparece unicamente o nome do manifestante, mulato forro, seu local de 
moradia e a quantidade de ouro paga. Não há mais nenhum tipo de informação além desses 
dados, nem quem fazia o registro, nem quem cobrava.148 
 A partir do ano de 1738, também época de vigência do sistema da capitação, é 
possível encontrar outro tipo de registro, os livros de Matrícula de escravos. Tais livros 
trazem apenas o nome dos proprietários dos escravos, seu local de moradia e o nome dos 
escravos possuídos. Mais nenhuma informação que nos esclareça algo sobre a dinâmica da 
cobrança no período, agentes envolvidos ou instituição responsável pela arrecadação. Vila 
Rica149 e Vila de São João del Rei150 possuem livros como esse para o ano de 1738. Para a 
Vila do Príncipe o período abrangido é maior, de 1738 a 1783.151 
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147
 AHCMM, Códice 421 – Livro da receita de cobrança dos reais quintos – 1728-1739. 
148
 APM, CC-2016; Não Microfilmado – Livro de lançamento da Capitação de negros forros. 1737. Vila 
Rica. 46 f. 
149
 APM, CC-2013; Microfilme 136(4/5) 137(1/3) – Livro de matrícula de escravos para Capitação. 1738. 
Vila Rica. 801 f. 
76 
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 Logo após, esses registros aparecem somente na década de 1745, para Mariana152 e 
na década de 1746 para as vendas e ofícios de Vila Rica.153 Em 1749 há ainda mais um 
livro, para Conceição do Mato Dentro. Livro no mesmo padrão dos demais, ainda que mais 
organizado, por ordem alfabética, em determinado momento traz um trecho que merece 
atenção. No final das listas nominais há uma espécie de resumo de tudo, com assinatura do 
Comissário Manuel Teixeira da Silveira, com a seguinte anotação do mesmo: “pelo o qual 
fiz assim por ordem da Intendência Geral por falta de não virem, ou serem poucos do 
Conselho”.154 É difícil supor o que realmente significa tal afirmação. Esse Conselho seria a 
Câmara? Ela seria a responsável por fazer os registros e por falta de corpo de oficiais, tal 
responsabilidade foi transferida para a Intendência?155 
 Por fim, de 1736 a 1745, localizamos um livro de censo de clérigos para pagamento 
da capitação. Tais registros trazem a data, o nome dos clérigos, seu local de moradia, e 
valores recebidos.156 Não conseguimos entender ao certo a razão pela qual os reverendos 
estavam recebendo tais quantias. Essa questão também deveria ser melhor investigada, mas 
não temos informações para tanto. 
 
1.1.11 O retorno das Casas de Fundição – 1751 em diante 
 
O ano de 1751, segundo apontam tantos pesquisadores,157 marca a volta do método 
das casas de fundição para a arrecadação do ouro das Minas. No entanto, para esse ano, 
encontramos apenas um livro, não da casa de fundição, mas de Registro de pagamento de 
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150
 AN, 0M 3787 – Livro de lançamento da Capitação dos escravos. São João del Rei. 1738. 
151
 APM, CC-1068; Microfilme 010(4/5) – Livro de matrícula de escravos para a Capitação. 1738-1787. Vila 
do Príncipe. 468 f. 
152
 BN, MS-580(3) D.10, I-10,04,006 nº001 – Recibos de pagamento de matrículas de escravos em 1745. 
[S.L.], 1745. 
153
 APM, CC-2027; Microfilme 127(6/7) – Livro de lançamento da Capitação, com registro de multas. 1746. 
Vila Rica. 238 f. 
154
 APM, CC-1081; Microfilme 012(6/6) 013(1/6) – Livro de matrícula de escravos. 1749. Conceição do 
Mato Dentro. 147 f. 
155
 Segundo o Códice Costa Matoso, a Intendência era o lugar onde o intendente despachava e dava 
audiências. Tal intendente, da Fazenda Real ou do ouro, era provido pelo rei e subordinado ao governador e 
responsável pela casa de intendência do ouro. Entre outras tarefas, devia acompanhar a matrículade escravos 
e o pagamento da capitação, punir sonegadores, fiscalizar lavras e livros de registros, etc. FIGUEIREDO, 
Luciano Raposo de Almeida, CAMPOS, Maria Verônica (coord.). Códice Costa Matoso..., p. 102, 103. A 
Intendência, portanto, era um lugar de representação do poder da Coroa, enquanto a câmara seria do poder 
local. 
156
 AN, 0M 4178 - Livro de registro de censo dos clérigos atuantes em Minas Gerais, aos quais deverá ser 
paga a Capitação dos escravos. 1736-1745. Vila Rica, 154 f. 
157
 Ver nota 145. 
77 
�
 
 
capitação referente à primeira matrícula de 1751. O livro se refere a vilas e freguesias da 
Comarca de Vila Rica: Vila Rica, Bonfim, Catas Altas, São Caetano, Sumidouro e São 
Sebastião, e traz as seguintes informações: nome do manifestante, preto forro, profissão, 
local de moradia e valor pago em oitavas, nada mais.158 
 Os registros das entregas feitas realmente nas casas de fundição só nos restaram a 
partir de 1755, e são esparsos por localidades. Para Vila Rica temos registros para os anos 
de 1755-1757, 1759, 1762, 1764.159 Para a Vila de São João del Rei temos dados apenas 
para o ano de 1755.160 E, finalmente, para a Vila do Príncipe temos registros só para o ano 
de 1772.161 Mas apesar das expressivas lacunas, com os livros existentes é possível 
compreender o funcionamento da cobrança nesse período, como a partir de agora 
discorreremos. Vejamos o modelo do registro: 
 
“N. 1998 Meteu nesta Casa Luis Teixeira – ausente Alexandre Pinto da Fonseca dois 
marcos, ---- onça três oitavas e 18 grão de ouro, de que se tirou de quinto para a 
Fazenda Real ---- marco três onça 2 duas oitavas e 18 grão de ouro; e o mais se 
fundiu, e dele se fez uma barra, que pesou um marco, cinco onças e uma oitava e ---- 
grão de ouro de vinte quilates grão e por ensaio, que nele se fez, e se lhe entregou 
nesta Casa de Fundição do Rio das Mortes a 14 de Março de 1755.”162 
 
É possível apreender, portanto, em lançamentos como esse, os seguintes dados: 
número do registro, nome do manifestante (e por vezes por quem ele fazia a entrega), ouro 
entregue, valor do quinto retirado sobre esse ouro, ouro que restava e que era fundido e 
feito barra, data e local. Parcialmente impresso, parcialmente manuscrito (trechos que 
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158
 APM, CC-2038; Não Microfilmado – Livro de lançamento da Capitação referente à primeira matrícula em 
Vila Rica, Bonfim, Catas Altas, São Caetano, Sumidouro e São Sebastião. 1751. 14 f. 
159
 BN, MS-580(1) D.08, I-10,03,004 – Casa de Fundição de Vila Rica. Recibos de entrega de ouro e 
pagamento de quinto (recibos do número 1969 até 2144). Vila Rica, 1755-1756; APM, CC-2061; Não 
Microfilmado – Livro de lançamento das entradas de ouro na Real Casa de Fundição da comarca de Ouro 
Preto. 1756-1757. Vila Rica. 388 f.; APM, CC-2270; Não Microfilmado – Livro de registro do rendimento 
do Quinto pela Real Casa de Fundição. 1759. [S.L.]. 190 f.; BN, MS-580(3) D.01, I-10,04,001 – Casa de 
Fundição de Vila Rica. Recibos de entrega de ouro e pagamento de quintos. Vila Rica, 1754-1762; BN, MS-
580(59) D.27, I-26,09,007 No005 – Certidão de fundição do ouro no Rio das Mortes. Vila Rica, 18/10/1764. 
160
 BN, I-46,02,002 – Fragmento de documento sobre ouro. Minas Gerais, 03/04/1755; BN, II-31,25,010 – 
Registro da cobrança do quinto do ouro, para a Fazenda Real. Rio das Mortes, 00/03/1755. 
161
 BN, MS-580(52) D.48, I-26,01,007 – CADERNO com a cópia das guias das barras que se fundiram na 
Real Casa de Fundição da comarca do Serro Frio das parcelas de ouro em pó encontradas na busca que se fez 
na freguesia da Nossa Senhora da Conceição do Arraial da Água Suja, em 02 de março de 1772, por ordem 
do Conde de Valadares. Arraial Água Suja, 07/04/1772. 
162
 BN, II-31,25,010 – Registro da cobrança do quinto do ouro, para a Fazenda Real. Rio das Mortes, 
00/03/1755. 
78 
�
 
 
destacamos em itálico), esses lançamentos eram muito mais padronizados. Isso certamente 
se devia ao fato de já virem impressos, até com o símbolo das armas da Coroa. Como 
vimos analisando, os momentos iniciais são muito mais confusos quanto à confecção dos 
lançamentos do ouro do que esse momento que sinaliza para uma uniformização maior dos 
registros. Ainda que possamos nos questionar sobre uma racionalidade pombalina para 
essa padronização, também não acreditamos em uma afirmação linear do poder da Coroa 
nas Minas por conta desse processo, mas sim em um maior aperfeiçoamento dos oficiais 
ligados a essas atividades, devido a um aprendizado gradual. 
 Além das entregas mencionadas de ouro para fundir nas casas de fundição, ainda 
foram feitos outros livros, tanto também ligados ao processo de manifesto dos moradores 
das diversas vilas do ouro que possuíam e/ou transportavam, quanto ligados aos 
procedimentos internos de conferência e contagem dos montantes recebidos. Através 
desses lançamentos, principalmente dos últimos, podemos perceber como as tarefas 
vinculadas à arrecadação passaram a receber mais registros e um número maior de oficiais 
passa a delas cuidar. 
 Os primeiros livros mencionados, dos registros dedicados às entregas feitas pelos 
moradores na casa de fundição, são aqueles denominados por Livros de registro de 
expediente das Casas de Fundição ou por Livros de registro de receita do quinto do ouro. 
Diferentemente dos já analisados, tais registros são totalmente manuscritos, e tem em geral 
o mesmo padrão. Vejamos: 
 
“Em 13 de Janeiro de 1758 carrego em receita ao Tesoureiro desta Real Casa de 
fundição o Capitão José Coelho Barbosa cinco onças, três oitavas, sete grãos, e um 
quinto. 
Que recebeu de José Carvalho da Silva por Antonio Pereira Guedes morador nesta 
Vila de Quinto de 3-2-7-36. Em fé de que se assinou comigo dito escrivão da Receita 
Felix Marinho de Moura que o escrevi e o assinei. 
José Coelho Barbosa Felix Marinho de Moura”163 
 
 Em determinado dia, portanto, se comparecia à casa de fundição (por si ou por 
outrem) e levava-se perante o tesoureiro a quantia de ouro pertencida. Sobre esse ouro se 
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163
 AN, 0M 0048 - Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca do Serro Frio. Vila do 
Príncipe, 1758, 195 f. 
79 
�
 
 
pagava o quinto. Assinavam no fim o escrivão e o tesoureiro da dita casa. Esse era o 
registro diário que se repetia no decorrer de todo o livro. De tempos em tempos, 
geralmente no fim do mês, do trimestre e do ano, havia também um termo de 
recenseamento sobre o rendimento em tal período. Esse recenseamento se dava perante o 
ministro, o fiscal e mais oficiais da casa (escrivão da conferência, da receita e despesa, 
tesoureiro), onde se fazia a conta do rendimento de determinada quantidade de registros, se 
conferia e se guardava, “o qual ouro se meteu no cofre”. Tais registros só existem para a 
Vila do Príncipe nos períodos de 1753 a 1758 e de 1766 a 1768.164 
 Outros livros completam esse conjunto, também se nomeiam por servirem para o 
expediente da casa de fundição, no entanto, não são do mesmo modelo que os últimos. 
Trazem apenas o nome das pessoas que dão entrada de ouro na dita casa para se fundirem, 
depois de se quintar, e o peso das barras resultantes em quilates. Esses livros, muito mais 
simplificados, se limitam à Comarca do Rio das Mortes para os seguintes anos: 1770, 
1777, 1780, 1781-1795 e 1797-1800.165 Não menciona nenhuma espécie de 
recenseamento, nem traz os nomes dos atores envolvidos na confecção dos registros. 
O segundo grupo de documentos mencionado acima, que diz respeito aos 
procedimentos internos de conferência e contagem dos montantes recebidos, é composto 
por uma série de livros como os Livros de registro de entrada de ouro de particulares da 
Real Casa de Fundição. Tais livros existemapenas para a Comarca de Vila Rica, para o 
período de 1754 a 1763.166 Apresentam o seguinte modelo: 
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164
 AN, 0M 1626 - Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Serro Frio. 1753-1755. Vila 
do Príncipe, 195 f.; AN, 0M 0060 - Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca de Ouro 
Preto. 1756-1758. Vila Rica, 196 f. (na verdade é do Serro Frio); AN, 0M 0048 - Livro de registro de 
expediente da Casa de Fundição da comarca do Serro Frio. Vila do Príncipe, 1758, 195 f.; AN, 0M 3206 – 
Livro de registro de receita do Quinto do ouro do Serro Frio. 1767; AN, 0M 3475 – Livro de registro de 
receita do Quinto da comarca do Serro Frio. 1768. 
165
 AN, 0M 0652; AN, 0M 0260; AN, 0M 1152; AN, 0M 1104; AN, 0M 0037; AN, 0M 1423; AN, 0M 0393; 
AN, 0M 0392; AN, 0M 1153; AN, 0M 1562; AN, 0M 1116; AN, 0M 1150; AN, 0M 1121; AN, 0M 1206; 
AN, 0M 1151; AN, 0M 1107; AN, 0M 1563; AN, 0M 1421; AN, 0M 1882; AN, 0M 0044; AN, 0M 0035; 
AN, 0M 0073; AN, 0M 0080; AN, 0M 0039; AN, 0M 0040; AN, 0M 0043; AN, 0M 0055; AN, 0M 1875; 
AN, 0M 0033; AN, 0M 1149; AN, 0M 0049; AN, 0M 0036; AN, 0M 0056; AN, 0M 0250; AN, 0M 0262; 
AN, 0M 0054; AN, 0M 0046; AN, 0M 2782; AN, 0M 0047; AN, 0M 0053; AN, 0M 0045 e AN, 0M 0253. 
Todos são: Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca do Rio das Mortes. 
166
 APM, CC-2267; Não Microfilmado – Livro de registro do Quinto do ouro pela Junta da Real Fazenda. 
1754. [S.L.]. 140 f.; APM, CC-1103; Microfilme 016(3/4) – Livro de registro de entrada de ouro de 
particulares da Real Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1755-1761. Vila Rica. 410 f.; APM, CC-
1111; Microfilme 017(7/12) – Livro de registro da entrada de ouro de particulares na Real Casa de Fundição 
da comarca de Ouro Preto por Antônio Soares da Silva. 1757-1760. Vila Rica. 390 f.; APM, CC-2073; Não 
Microfilmado – Livro de lançamento do ouro entrado na Intendência da Real Casa de Fundição. 1758-1759. 
Vila Rica. 392 f.; APM, CC-1123; Microfilme 018(6/6) 019(1/2) – Livro de registro da entrada do ouro de 
particulares na Real Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1760-1761. Vila Rica. 388 f.; APM, CC-
80 
�
 
 
 
“Ao primeiro dia do mês de Agosto de mil setecentos cinquenta e cinco anos nesta 
Intendência e Mesa de despacho onde eu escrivão adiante nomeado atualmente 
escrevo, e sendo aí pelo escrivão da Receita, e despesa, o Capitão Francisco de 
Almeida Figueiredo me foi apresentado o Livro que serve das entradas do ouro que as 
partes trazem a Fundição desta Casa e descarga ao Real Quinto que dele se tira para a 
fazenda Real para efeito de se conferirem as entradas e cargas pertencentes ao dia de 
hoje o qual sendo por mim examinado e conferido pelo Livro do Registro em que 
escrevo achei estarem lançadas dez parcelas que juntas fazem a importância de 
dezenove marcos, sete onças, e quatro oitavas de ouro, de que pertence ao Real quinto 
três marcos, sete onças, oitavas catorze grãos, e dois quintos, o qual sendo novamente 
pesado pelo Tesoureiro da Casa se achou pesar a mesma quantia sem acréscimo de 
que para constar faço este termo Manuel Cardoso de Almeida Escrivão da Conferência 
que escrevi e assinei. Manuel Cardoso de Almeida.”167 
 
Vemos, pelo trecho acima, feito diariamente, que tais livros serviram ao claro 
propósito de se registrar a conferência de outros livros, certamente os que analisamos há 
pouco. O escrivão da receita e da despesa apresentava ao escrivão da Intendência os livros 
das entradas de ouro que as pessoas traziam para se fundirem e retirar o quinto para se 
conferirem as entradas e cargas do dia atual. Depois de feita a conferência se contava e 
registrava essa quantia, bem como o que dela saía de quinto, com seu peso. Tratava-se, 
portanto, de um registro sobre outro registro, buscando sua averiguação. No final de cada 
mês fazia-se ainda uma espécie de balanço das “parcelas seguintes de que se tirou o direito 
senhorial”. Havia uma lista de valores em duas colunas nomeadas por “principal” e 
“quintos”. 
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1125; Microfilme 019(3/5) – Livro de registro da entrada de ouro de particulares proveniente da arrecadação 
do Quinto na Real Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1761-1762. Vila Rica. 388 f.; APM, CC-
1134; Microfilme 020(8/9) – Livro de registro de entrada do ouro de particulares na Real Casa de Fundição 
da comarca de Ouro Preto. 1762-1780. Vila Rica. 349 f.; APM, CC-2085; Não Microfilmado – Livro de 
lançamento do ouro entrado na Real Casa de Fundição. 1761-1763. Vila Rica. 388 f. As datas das descrições 
nem sempre correspondem ao conteúdo dos livros. 
167
 APM, CC-1103; Microfilme 016(3/4) – Livro de registro de entrada de ouro de particulares da Real Casa 
de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1755-1761. Vila Rica. 410 f. 
81 
�
 
 
Além desses livros, também compunham o grupo de registros de conferência outros 
muito parecidos. O trecho abaixo, da Vila Real do Sabará em 1771, é recorrente para a 
mesma vila do dito ano até 1775.168 Vejamos: 
 
“Janeiro 7 Carrego em receita ao Tesoureiro desta Real Casa de Fundição o Dr. 
Tomás Coelho de Avelar oito marcos, sete onças, cinco oitavas, vinte o oito grãos e 
quatro quintos de ouro. 
Que se tiraram de quintos de quarenta e quatro marcos, seis onças, três 
oitavas de ouro que no dia de hoje se manifestaram as partes para se lhe fundir em 
quarenta parcelas desde o número sessenta e oito até o número cento e sete inclusive, 
cuja quantia recebe o dito Tesoureiro e assinou comigo Escrivão da Receita e despesa 
que o escrevi e assinei. 
Tomás Coelho de Avelar José Pereira da Cunha”169 
 
 Esse procedimento parece ser anterior à entrega à Intendência em mãos do escrivão 
da conferência, como acabamos de ver. Aqui se carregava ao tesoureiro da Casa de 
Fundição os valores de quintos diários sobre determinada quantia de ouro entregue pelas 
pessoas que os manifestaram para fundir. No fim, o tesoureiro assinava o registro com o 
escrivão da receita e despesa. Ao término de cada mês e trimestre também havia um 
recenseamento geral onde o rendimento do real quinto no período era então contabilizado 
em razão da quantidade de termos de carga. A Vila de São João del Rei também produziu 
registros idênticos de 1770 a 1775 e nos anos de 1789 e 1791.170 
 Semelhantes a esses livros, ainda que com algumas informações adicionais, são os 
Livros de registro de receita do Quinto do ouro, e os temos para a Comarca do Rio das 
Velhas (Sabará) nos períodos de 1754-1756, 1763-1765 e 1768-1770;171 para a Comarca 
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168
 AN, 0M 0252 – Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1771. (na 
verdade é do Rio das Velhas); AN, 0M 1874 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do 
Rio das Velhas. 1772; AN, 0M 1873 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das 
Velhas. 1773; 0M 1872 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Velhas. 
1774; AN, 0M 1861 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Velhas. 1775. 
169
 AN, 0M 0252 – Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1771. (na 
verdade é do Rio das Velhas). 
170
 AN, 0M 1614; AN, 0M 1087; AN, 0M 1205; AN, 0M 1210; AN, 0M 1422; AN, 0M 0396; AN, 0M 3387; 
AN, 0M 3391. Todos são: Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Mortes. 
171
 AN, 0M 3479; APM, CC-2268; AN, 0M 2521; AN, 0M 1998; AN, 0M 3478; AN, 0M 1674; AN, 0M 
3205; AN, 0M 3065; AN, 0M 2000. Todos são: Livro de registro de receita doQuinto do ouro da comarca do 
Rio das Velhas. 
82 
�
 
 
do Serro Frio (Vila do Príncipe) nos anos de 1769, 1771, 1772 e de 1776 a 1794;172 e para 
a Comarca em 1788.173 Seus registros são como o abaixo: 
 
“Rendimento do Real Quinto em 1 de Agosto de 1755 de n° 1 até o 10 
Carrega em receita a André Moreira de Carvalho Tesoureiro desta Casa quatrocentas 
duas onças e duas oitavas 
Que tanto importou o Real Quinto no dia presente o primeiro de Agosto de mil 
setecentos cinquenta e cinco anos desde o número primeiro até o número dez inclusive 
e se guardaram no cofre das quatro chaves e sendo pesados e achados conformes 
e conferidos pelo Dezembargador Intendente Domingos Nunes Vieira e pelo Fiscal 
o Capitão José de Souza Porto, e por mim Escrivão da receita e despesa abaixo 
assinado e pelo Escrivão da Conferência Francisco Xavier Ferraz de Oliveira de que 
fiz este termo e assinaram o dito Ministro, Fiscal, Tesoureiro e Escrivão sobreditos e 
eu Luis José Pinto Coelho que o escrevi e assinei. 
Vieira Porto 
André Moreira de Carvalho 
Francisco Xavier Ferraz de Oliveira 
Luis José Ponto Coelho (grifo nosso)”174 
 
 Da mesma natureza que o anterior, apenas traz as informações adicionais em 
destaque. São duas essas informações. A primeira é quanto ao lugar onde esse ouro 
permanecia até que fosse conferido: um cofre de quatro chaves. Mais pra frente veremos 
detalhadamente que informações os livros dos quintos trazem sobre a guarda do ouro. A 
segunda informação é a mais clara referência sobre quais agentes faziam a dita conferência 
e eram eles: o intendente, o fiscal, o escrivão da receita e despesa e o escrivão da 
conferência. 
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172
 AN, 0M 2985; AN, 0M 3477; AN, 0M 3476; AN, 0M 1266; AN, 0M 1429; AN, 0M 1430; AN, 0M 3485; 
AN, 0M 3484; AN, 0M 3483; AN, 0M 3472; AN, 0M 2692; AN, 0M 2699; AN, 0M 2696; AN, 0M 2698; 
AN, 0M 2697; AN, 0M 2691; AN, 0M 2693. Todos são: Livro de registro de receita do Quinto do ouro da 
comarca do Serro Frio. Há também dois livros da Contadoria da Fazenda com traslados desses livros: AN, 
0M 1627 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca de Ouro Preto. 1786-1788. (na verdade 
é do Serro Frio); AN, 0M 1431 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Serro Frio. 
1786. 
173
 AN, 0M 4048 - Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca de Ouro Preto. 1788. 
174
 APM, CC-2268; Não Microfilmado – Livro de registro de receitas do Quinto do ouro da Intendência e 
Casa de Fundição da comarca de Sabará. 1755-1756. Sabará. 310 f. 
83 
�
 
 
Ao término de vários desses registros diários também há um recenseamento do 
rendimento do mês, do trimestre e do ano, com a presença das mesmas pessoas, “e sendo 
todos presentes se fez exame, e recenseamento do que rendeu o Real quinto...”. Por vezes, 
há ainda, na sequência dos registros mensais, resumo e recenseamento dos confiscos, com 
nomes dos confiscados e valor. As escovilhas175 também são trazidas para serem incluídas 
no produto dos quintos. Além disso, depois do recenseamento anual em geral havia alguns 
outros documentos: o termo do peso do ouro dos reais quintos, o mandado de remessa do 
quinto, o termo de remessa dos quintos, e o registro do conhecimento da entrega do ouro 
(os três últimos serão melhor utilizados posteriormente). 
Por fim, também participam desse grupo de registros de conferência, como os 
nomeamos, alguns outros livros, menos numerosos. São eles: de recebimentos do ouro do 
tesoureiro anterior (transferências entre tesoureiros quando assumiam o cargo) e de 
recebimentos de ouro trazidos por condutores dos quintos, para Vila Rica de 1757-1760 e 
para Vila de São João del Rei em 1770.176 Há também um livro de receitas e despesas, com 
recebimentos diversos (também dos quintos) de outras comarcas na Intendência de Vila 
Rica em 1772.177 
 
1.1.12 Os registros da derrama (1764, 1765, 1770) 
 
O estabelecimento do método da derrama, que consistia na reafirmação da cobrança 
sobre os quintos atrasados por base da cota de 100 arrobas também gerou alguns registros. 
Não se pretende aqui entrar na discussão sobre o caráter impositivo ou injusto desse 
método, nem menos ainda sobre sua associação com as inúmeras insurreições nas 
Minas,178 pois tais assuntos fogem aos nossos propósitos. O objetivo agora é tão somente 
analisar os lançamentos que tivemos acesso feitos na época de vigência dessa cobrança, 
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175
 Segundo Bluteau, escovilhar seria “tirar do lixo algum ouro, que caiu nele”. Escovilha, portanto, seria uma 
espécie de conjunto de restos do ouro. BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez e latino. DINFO: 
Universidade do Estado de Rio de Janeiro. CR-ROM. 
176
 AN, 0M 3207 – Livro de registro de receita de ouro nas Casas de Fundição.... 1757-1759; AN, 0M 3395 – 
Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca de Ouro Preto. 1760-1761; AN, 0M 1427 – Livro 
de registro das receitas extraordinárias da Intendência da comarca do Rio das Mortes. 1770. 
177
 AN, 0M 2830 – Livro de registro de receita e despesas da Tesouraria da Fazenda de Minas Gerais. 1772. 
178
 Além dos trabalhos citados na nota 64, que também se dedicam ao entendimento desse método, destacam-
se trabalhos com uma vertente mais fiscalista, afeitos a essa associação de cobrança dos quintos e revoltas. 
Citamos apenas um artigo bem ilustrativo desse tipo de reflexão: FIGUEIREDO, Luciano Raposo de 
Almeida. Derrama e política fiscal ilustrada. Dossiê. Revista do Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte, 
vol. 41, jul. dez. 2005, p. 23-39. 
84 
�
 
 
assim como temos feito até então com os demais modos de arrecadação do quinto do 
ouro.179 
O primeiro documento que encontramos é a Lista da freguesia de Aiuruoca onde 
constam os bens que seus moradores deram ao manifesto para ao lançamento da derrama 
ficando o original no arquivo do Senado da Câmara de São João del Rei. Ainda que não 
tenha data, tal lista nos ajuda a entender alguns aspectos importantes da dinâmica dessa 
cobrança, a começar pelo próprio título. Ele nos revela inicialmente que esta lista se tratava 
de uma cópia e o original ficaria guardado no arquivo do Senado da Câmara da Vila de São 
João del Rei. E isso nos revela bem mais do que o cuidado de se guardar a lista primeira 
em arquivo, cuidado muito significativo por sinal, mas demonstra principalmente que 
depois de décadas a câmara retorna a ser formalmente responsável pela arrecadação do 
quinto,180 e em período crítico da produção, já que a derrama se tratava de cobrança sobre 
quinto atrasado e certamente demandava por parte de quem tomava conta da arrecadação 
um esforço bem maior para que a mesma se realizasse com sucesso. Vejamos como essas 
listas eram feitas: 
 
“Lista que o Capitão Roque de Souza Magalhães fez dos moradores desta 
Freguesia de Aiuruoca desde de Varadouro até o distrito da Guapiara tudo na forma 
da ordem que lhe enviou do Nobre Senado da Câmara de São João del Rei. 
 O Capitão Roque de Souza 
Manuel Gomes da Costa casado e sem filhos declarou debaixo de Juramento possuir 4 
escravos e 30 cabeças de gado e 1 sítio que tudo declarou valer 466$000 
Declarou mais dever 300$000 
E declarou mais não ter lucro algum mais que para comer.” (grifo nosso)181 
 
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179
 No mesmo artigo de Luciano Figueiredo da nota anterior, o autor menciona a existência de uma 
documentação avulsa da Casa dos Contos no Arquivo Nacional, que ainda não disporia de numeração 
definitiva. Não tivemos acesso a essa documentação. FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Derrama 
e política...,p. 37. 
180
 Ainda no artigo acima de Figueiredo, o autor questiona em que lugar se efetuava o pagamento, se na 
intendência ou se o cobrador percorria cada lugarejo recolhendo as contribuições. Fica claro pelo título da 
lista da freguesia de Aiuruoca, e ainda pelos trechos que se seguirão, que era o cobrador que fazia as idas e 
vindas pelos lugares, levando os valores depois às câmaras, que ordenavam que as listas fossem feitas. 
FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Derrama e política..., p. 33. 
181
 BN, MS-580(54) D.01, I-26,04,001 – Lista da freguesia de Aiuruoca onde constam os bens que seus 
moradores deram ao manifesto para ao lançamento da derrama ficando o original no arquivo do Senado da 
Câmara de São João del Rei. [S.l.] [S.d.]. 
85 
�
 
 
 Analisemos como tais lançamentos são ricos. Primeiramente, o trecho acima nos 
faz conhecer o agente responsável pela arrecadação e feitura dessas listas, no caso da 
freguesia de Aiuruoca, o Capitão Roque de Souza Magalhães. Certamente o Capitão 
pertencia ao grupo local de poderio e influência da região e fora nomeado pela câmara. 
Como mencionado acima, ele fizera a lista “na forma da ordem que lhe enviou do Nobre 
Senado da Câmara de São João del Rei”, ou seja, era a câmara que o instruía e regulava o 
modo como devia agir na sua tarefa com a derrama. No capítulo 2, refletiremos mais sobre 
a atuação dos cobradores nesse período. Agora só compete apontar como a câmara volta, 
através de seus oficiais e por seus livros, a cuidar do lançamento e cobrança do ouro do 
quinto. Além disso, vemos ainda nesses lançamentos como é feita uma delimitação 
detalhada do lugar de cobrança desse cobrador, e ainda que os declarantes aparecem com 
sua situação civil, bens que possuíam e seu valor total e o valor que deviam. Os outros 
nomes listados, além do acima, ainda declaram sua profissão. 
 Encontramos ainda outra lista da derrama, a Relação dos moradores e lançamentos 
da derrama e cargas de dinheiro pelo procurador e tesoureiro da câmara Teodósio 
Pereira da Silva, para a Vila Nova da Rainha, para os anos de 1764 e 1765. Tal relação 
traz outros pontos interessantes para que possamos refletir sobre o funcionamento do 
método da derrama. Vejamos como se dava a construção das listas: 
 
“Cópia e Registro das quatro Listas da derrama pertencentes a esta Freguesia de Nossa 
Senhora do Bom Sucesso de Vila Nova da Rainha, que pelo Doutor Corregedor e 
Intendente desta Comarca do Rio das Velhas foram remetidas aos oficiais da 
Câmara desta vila para a sua arrecadação as quais Listas são as que se seguem = 
Lista dos moradores de Vila Nova da Rainha 
O Reverendo Doutor Henrique Pereira vigário da dita Vila ofereceu a quantia de 
trinta e oito mil e quatrocentos réis 38$400 
Domingos da Costa Roriz trezentos e vinte réis $320 
O Capitão Lucas de Gouvea doze mil e quinhentos e trinta réis 12$530 
O Alferes João José Carneiro com sua Mãe Dona Leonor de Miranda quatro mil e 
setecentos réis 4$700 (grifo nosso)”182 
 
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182
 APM, CC-1147; Microfilme 021(13/14) – Relação dos moradores e lançamentos da derrama e cargas de 
dinheiro pelo procurador e tesoureiro da câmara Teodósio Pereira da Silva. 1762-1765. [Vila Nova da 
Rainha]. 130 f. 
86 
�
 
 
 É possível destacar primeiramente que fica claro pelo trecho acima que era o 
Intendente da Comarca que remetia as ditas listas para os oficiais da câmara para que eles 
fizessem a arrecadação da dita vila. Ou seja, o Intendente delegava ao corpo local que 
assumisse as tarefas com a arrecadação.183 Outro ponto é que, diferente da outra lista, essa 
não traz a declaração dos bens dos moradores, mas a quantia que eles “ofereciam” para o 
pagamento da derrama. Interessante esse termo, os moradores ofereciam um valor 
específico, mas será que havia alguma fiscalização se esse valor realmente representava 
uma parcela relevante do que se possuía? 
 Outras informações importantes que essa lista nos traz podem ser percebidas no 
trecho abaixo, situado no fim da listagem: 
 
“E não continha mais coisa alguma em a dita Lista que o conteúdo aqui escrito, e 
declarado, que eu escrivão adiante nomeado e assinado por acórdão e mandato dos 
oficiais da câmara aqui fiz copiar e registrar bem e fielmente e na verdade sem 
coisa que dúvida faça, e com a própria este Registro conferi subscrevi e assinei é 
concertei junto com outro oficial de Justiça abaixo assinado, em presença do Juiz 
ordinário desta Vila o Capitão João Gonçalves Correa, que também assinou nesta 
Vila Nova da Rainha em os dezesseis dias do mês de Dezembro de mil e setecentos e 
sessenta e quatro anos e eu Manuel da Silva Leão escrivão da Câmara o sobrescrevi 
assinei e consertei. (grifo nosso)”184 
 
 Os trechos em destaque apontam para duas direções. Primeiro, é reafirmado, mais 
uma vez, o papel da câmara quando o escrivão declara atuar “por mandato dos oficiais da 
câmara”, por isso ele cumpria suas tarefas “bem e fielmente”. E, em segundo lugar, é 
declarado que o registro era conferido junto com outro oficial, o Juiz ordinário da Vila. 
Veremos no capítulo 2 como esse agente desempenhava importante função na coleta dos 
reais quintos. 
 Além de todos esses dados, ainda outros puderam ser descobertos referentes à 
“carga e receita viva” ao tesoureiro da câmara das quantias que os cobradores recebiam das 
listas que cobravam. Segue um exemplo: 
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183
 Luciano Figueiredo também deixa claro que o poder municipal era assessorado pelo ouvidor, pelo 
responsável pela justiça, pelo intendente, pelo encarregado da Fazenda e pelo fiscal de cada comarca no 
processo todo da derrama. FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Derrama e política..., p. 32. 
184
 Idem. 
87 
�
 
 
 
“Aos vinte e sete dias do mês de Dezembro de mil e setecentos e sessenta e quatro 
anos nesta Vila Nova da Rainha Comarca do Rio das Velhas em casas de morada e 
cartório de mim escrivão adiante nomeado e sendo aí apareceram presentes o 
Procurador e Tesoureiro oficial do Senado da Câmara desta vila Teodósio Pereira da 
Silva e o Capitão Lourenço Gomes de Macedo ambos reconhecidos de mim pelos 
próprios de que deu fé e sendo aí na minha presença recebeu o dito procurador 
Tesoureiro Teodósio Pereira da Silva da mão do dito Capitão Lourenço Gomes de 
Macedo como cobrador que foi da Lista da derrama desta Vila e seus subúrbios a 
quantia de quatrocentos trinta e seis mil e setecentos réis e da dita Lista deu em 
aberto uma adição da qual é devedor Bernardo dos Santos Silva da quantia de mil 
quinhentos e setenta réis que é o que falta por complemento de todo o importe da 
dita Lista que são quatrocentos trinta e oito mil duzentos e setenta réis e de como 
recebeu o dito procurador Tesoureiro da mão do dito cobrador a referida quantia 
acima declarada... que assinou comigo Manuel da Silva Leão escrivão da Câmara que 
o escrevi e assinei.” (grifo nosso)185 
 
 Em determinado dia, portanto, diante do tesoureiro da vila, apresentava o cobrador 
uma quantia específica recebida de sua lista. Essas entregas eram comuns em registros do 
início do século. Aqui parecem obedecer à mesma lógica. Declarava-se ainda exatamente 
quem ficava devendo nessa lista, aqui Bernardo dos Santos Silva, só restava dele receber 
para completar o “todo o importe da dita Lista”. 
 O terceiro livro com registros sobre a derrama é o Livro de lançamento do ouro 
relacionado à Derrama. Além de não se conseguir localizar o local, o livro se encontra 
muito fragmentado e diz cobrir o período de 1760 a 1765, porém só conseguimos 
identificar lançamentos do ano de 1765, a partir de sua folha 8. Os ditoslançamentos 
seguem o seguinte padrão: 
 
“Em 8 de Janeiro de 1765 recebeu o dito Tesoureiro de João de Moura meia oitava de 
ouro que vai lançado no Livro da derrama desta Vila no número 1251 e de como 
recebeu a dita quantia assinou aqui comigo o sobredito Escrivão que o escrevi e 
assinei. 
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185
 Ibidem. 
88 
�
 
 
Antonio de Souza Mesquita Silvério Anacleto Vilar e Souza”186 
 
 Em determinado dia se entregava ao tesoureiro quantia relativa à derrama, quantia 
essa que era lançada no Livro da derrama sob determinado número. O escrivão assinava 
com o tesoureiro no fim do lançamento. Os demais registros seguem assim, e várias 
pessoas levam para o tesoureiro seu ouro devido à derrama. 
 Por fim, temos mais um documento sobre o método para analisar. É o Livro de 
registro das receitas extraordinárias da Intendência da comarca do Rio das Mortes, de 
1770, onde encontramos lançamento de entregas, não só do Rio das Mortes, mas de várias 
vilas na Intendência de Vila Rica por valores da derrama. No dia 8 de fevereiro há também 
uma lista de recebimentos de valores de pessoas que deviam a derrama na Vila de São João 
del Rei. Além disso, encontramos uma referência interessante para entendermos a 
dinâmica da cobrança. Vejamos: 
 
“Receita da cobrança do acréscimo, que se alcançou ter havido na derrama do 
ano de 1765 |inteirada a quantia, que se destinou a esta Comarca| pela imposição que 
fizeram os camaristas da Vila de São José excedendo a cota lançada aos 
moradores do seu termo, talvez em caução de alguma falta que presumirão na 
insubsistência de alguns dos mesmos, o qual acréscimo se manda cobrar, e remeter 
para a Intendência de Vila Rica por cartas de 10, e 23 de Janeiro do presente ano de 
1770 de Excelentíssimo Conde General dirigidas ao Ministro desta Real Casa.” (grifo 
nosso)187 
 
 No trecho acima vemos uma situação extraordinária, se cobrara dos moradores da 
Vila de São José del Rei valor além da cota devida à derrama do ano de 1765. Quem fizera 
a cobrança foram os camaristas da dita Vila, “pela imposição que fizeram os camaristas”. 
A câmara mais uma vez cuidara da cobrança, até excedendo as expectativas de valores a 
serem arrecadados naquele momento. O acréscimo que se cobrara “talvez em caução de 
alguma falta que presumirão na insubsistência de alguns dos mesmos”, ou seja, por conta 
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186
 APM, CC-2269; Não Microfilmado – Livro de lançamento do ouro relacionado à Derrama. 1760-1765. 
[S.L.]. 126 f. 
187
 AN, 0M 1427 – Livro de registro das receitas extraordinárias da Intendência da comarca do Rio das 
Mortes. 1770. 
89 
�
 
 
de pensarem que ainda não se teria completado a quantia acordada, era enviado à 
Intendência de Vila Rica. 
 
1.1.13 Livros de cálculos de rendimento do quinto – de 1751 em diante 
 
Os últimos documentos que agora analisamos, também confeccionados para 
registrar alguma atividade ligada ao quinto do ouro de Sua Majestade, trazem, em geral, 
cálculos e balanços sobre o rendimento do direito. Por tal razão, não trazem informações 
muito relevantes para nossos objetivos, mas, de qualquer maneira, cumpre apenas relatar 
sua existência.188 
Primeiramente, temos alguns mapas de rendimentos, com resumos de informações 
que já constam em outros livros mencionados. O primeiro é referente ao período de 1735 a 
1751 “que se cobrou por meio da Capitação dos Escravos, e Censo das Indústrias”.189 O 
segundo é pelo que “tem rendido o quinto” de 1751 até 1777, incluindo também as 
quantias da derrama que se lançaram para o complemento da “conta das cem arrobas do 
quinto”.190 
 Existem ainda alguns livros de rendimento do quinto, apenas com os números dos 
registros da entrada desse ouro e o total dele (extrato do principal e do quinto das parcelas 
do ouro das partes). São para a Comarca do Rio das Mortes, de 1782 a 1784 e para a 
Comarca do Serro Frio, de 1786 a 1788.191 Outros livros, dessa mesma natureza, são só de 
conferência do quinto, alguns de conferência com o Livro de receita diária, na Intendência, 
em 1772, 1776, 1782 e 1785.192 
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188
 Lembramos ainda que o exercício de analisar os montantes da arrecadação, tendo por base também esses 
livros citados, já foi muito bem realizado por Angelo Alves Carrara. Ver nota 88. 
189
 BN, I-31,30,035, C.E.H.B. no6.083 – Cálculo do rendimento do Real Quinto do ouro da capitania de 
Minas Gerais de 01/07/1735 até 31/07/1751 que se cobrou por meio da capitação de escravos, e censo das 
indústrias. Atentamos apenas que os valores para a Comarca de Vila Rica são sempre os mais expressivos. 
190
 BN, I-31,30,094, C.E.H.B. no13.376 – Cálculo do que tem rendido o quinto do ouro da capitania de Minas 
Gerais desde o 1o de agosto de 1751, até 31 de dezembro de 1777. 
191
 AN, 0M 1213 – Livro de registro do expediente da Casa de Fundição da comarca de [...]. 1783; AN, 0M 
4151 – Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca do Rio das Velhas. 1784; AN, 0M 
1094 – Livro de registro de partidas de ouro fundidas na Casa de Fundição da comarca do Rio das Mortes. 
1784; AN, 0M 1166 – Livro de registro das partidas de ouro fundidas na comarca do Rio das Mortes. 1785; 
AN, 0M 1093 – Livro de registro de partidas de ouro fundidas na Casa de Fundição da comarca do Rio das 
Mortes. 1786; AN, 0M 1187 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Mortes. 
1782-1784; AN, 0M 4180 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Serro Frio. 1786-
1788. 
192
 AN, 0M 0773 – Livro de registro de receita e despesas da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 
1772; AN, 0M 2814 – Livro de registro de receita e despesas da Intendência da comarca do Rio das Mortes. 
90 
�
 
 
 Por fim, existem algumas certidões e ofícios de rendimento do quinto, resultantes 
do exame dos livros de receita diária, e que oferecem também apenas valores da 
arrecadação;193 e algumas ordens e comunicados informando valores desse rendimento e o 
seu trajeto até que chegasse a Lisboa (da Junta da Administração da Real Fazenda da 
Capitania de Minas Gerais o ouro do quinto seguia para a Junta da Fazenda da Cidade do 
Rio de Janeiro e depois para o Real Erário em Lisboa).194 Todos esses documentos 
abrangem período posterior à segunda metade da década de 1770. 
 
1.2 Em “cofres com quatro chaves”: como se guardava o ouro dos reais quintos 
 
Em diferentes conjunturas de arrecadação, o ouro do quinto sempre foi guardado 
com muito cuidado, até que completasse seu destino aos cofres de El Rei. Uma análise 
detida dos livros dos quintos também nos revela esse importante aspecto da dinâmica do 
processo de cobrança do direito. É visível, através dos registros que analisamos acima, a 
grande atenção conferida a essa etapa de guarda do metal, bem como a preocupação que 
essa tarefa fosse bem desempenhada. 
Para as primeiras décadas de cobrança, quando esta era feita pelas câmaras, o ouro 
ficava guardado em seus cofres, até que fosse para a Intendência de Vila Rica e de lá para 
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1776; AN, 0M 4116 – Livro de registro de conferência do Quinto do ouro. 1782; AN, 0M 4069 – Livro de 
registro de conferência do Quinto do ouro da comarca de Ouro Preto. 1785. 
193
 BN, MS-580(71) D.10, I-26,23,005 No006 – Certidões sobre o exame do livro da receita diária do real 
quinto de 1783 e 1789. Vila de São João del Rei, 31/12/1783-05/01/1790; BN, MS-580(72) D.16, I-
26,24,015 No002 – CASTRO, Francisco de Morais e. Ofício a Sua Majestade informando sobre a conduçãodos direitos régios arrecadados pela intendência no segundo trimestre de 1796. São João del Rei, 22/07/1796. 
Inclui três relações e uma certidão; BN, MS-580(36) D.11, I-25,08,003 No001 – Certidão de Bernardo da 
Silva Ferrão confirmando constar no livro da receita diária do Real quinto o rendimento deste direito 
senhorial de 1789. Vila de São João del Rei, 02/01/1791; BN, MS-580(36) D.12, I-25,08,003 No002 – 
Certidão de Bernardo da Silva Ferrão confirmando constar no livro da receita diária do Real quinto o 
rendimento deste direito senhorial no último bimestre de 1781. Vila de São João del Rei, 04/01/1791. 
194
 BN, MS-580(42) D.06, I-25,17,006 – Ordens do Marquês de Angeja à Junta de Administração da Real 
Fazenda de Minas Gerais para que continuem as remessas dos cabedais que estavam no cobre e dos 
rendimentos em ouro dos reais quintos para o Rio de Janeiro. Lisboa, 08/05/1787. Em anexo, cópias dos 
referidos documentos. Registrado a f. 86 do livro 2º de registro de ordens a 11/08/1778. Vila Rica; BN, MS-
580(56) D.04, I-26,06,001 No004 – Ordem do marquês de Angeja à Junta da Administração da Real Fazenda 
da Capitania de Minas Gerais determinando a cobrança do pagamento dos quintos reais. Lisboa, 18/06/1777. 
Documento acompanhado de 2ª via, registrado na folha 112 do livro 1º do registro de ordens, escritas pelo 
contador Luís José de Brito; BN, MS-580(56) D.11, I-26,06,002 No003 – Ordem do marquês de Angeja à 
Junta da Administração da Real Fazenda da Capitania de Minas Gerais determinando a verificação do 
recebimento dos cabedais régios e dos quintos das quatro comarcas da capitania. Lisboa, 11/05/1778; MS-
580(56) D.15, I-26,06,002 No007 – Ordem do marquês de Angeja à Junta da Administração da Real Fazenda 
da Capitania de Minas Gerais determinando a prestação de contas das despesas do subsídio literário e a 
remessa dos rendimentos do real quinto. Lisboa, 15/05/1778. 
91 
�
 
 
Portugal. O poder local, portanto, através das câmaras, cumpria concretamente a tarefa de 
guarda do metal pelo tempo que fosse necessário, até que as remessas fossem feitas. E esse 
ouro era guardado com muita segurança, como já comprovamos em estudos anteriores.195 
Vê-se no primeiro inventário de bens móveis da câmara da Vila do Carmo de 1718 a 
referência a “um cofre grande de jacarandá com cantoneiras e dobradiças grandes de ferro 
com três fechaduras e três chaves que serviu de recolher o ouro dos quintos, no qual se 
acham ainda de sobras do ano passado de mil e setecentos e dezessete as oitavas que em 
seu lugar consta”196. 
Cofre de madeira de ótima qualidade com fechaduras, chaves e toda a segurança 
possível para receber o ouro dos quintos. Nele ficavam ainda, como se destaca acima, as 
sobras de um ano para o outro. Nas Contas do ouro que Recebeu o Tesoureiro dos Quintos 
dos Provedores que o Cobraram em seus distritos, em outro livro para a Vila do Carmo, há 
relatos de somas de adições de cobranças que ficavam por vezes nos cofres da câmara para 
lançamentos e cobranças futuras, “pelo ouro que se acha no cofre dos quintos desta câmara 
108 oitavas e 1/2”.197 
Para o período de vigência das casas de fundição encontramos outra referência de 
como o ouro era guardado. No Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de 
Fundição de Sabará pelo tesoureiro André Moreira de Carvalho, de 1751, época em que 
as casas estavam novamente sendo implantadas, vê-se a menção a “um cofre grande 
chapeado com quatro chaves em que se recolheu o Rendimento do Quinto” e “dois ditos 
mais pequenos com três chaves que serviram no tempo do método da Capitação”.198 As 
carregações ao tesoureiro da Casa de Fundição estudadas anteriormente também revelam 
que as oitavas do real quinto se guardavam mesmo no cofre das quatro chaves, logo após 
que as partes entregassem o ouro para fundir.199 Conhecemos, dessa forma, que os quintos 
passam a ser guardados em um cofre grande de quatro chaves, mas que anteriormente 
ficavam em cofres menores, de três chaves. Os cofres das décadas iniciais de arrecadação, 
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195
 FARIA, Simone Cristina de. op. cit. 
196
 AHCMM, Códice 664 – Miscelânea (Foros, termos de fiança, registro de cartas, treslados de bandos...) – 
1711-1750, f. 47v, 48. 
197
 AHCMM, Códice 200 – Livros de quintos: 1723-1726, f. 25v. 
198
 APM, CC-1093; Microfilme 014(7/7) 015(1/6) - Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de 
Fundição de Sabará pelo tesoureiro André Moreira de Carvalho. 1751-1758. Sabará. 91 f. 
199
 APM, CC-2268; Não Microfilmado – Livro de registro de receitas do Quinto do ouro da Intendência e 
Casa de Fundição da comarca de Sabará. 1755-1756. Sabará. 310 f. 
92 
�
 
 
como vimos, eram também de três chaves.200 Percebemos que com as casas de fundição, 
portanto, mais segurança é imprimida aos instrumentos que deviam receber o rendimento 
do precioso metal. 
Nas décadas seguintes, o cofre das quatro chaves continua sendo utilizado. No 
Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto, de 1771, 
como também nos outros das demais comarcas, vemos tal confirmação: “E abrindo pelo 
Tesoureiro desta Casa o cofre das quatro chaves em que se costuma recolher e guardar o 
rendimento do mesmo Real Quinto.”201 Por certo, como se menciona, essa prática era 
costumeira, de recolher e guardar o ouro do quinto no dito cofre, e atravessava décadas. 
Por fim, destacamos, e até já foi mencionado acima para outros fins, que o cuidado 
de guarda não se dava somente em relação ao ouro, mas com as listas que eram 
confeccionadas para a coleta desse ouro. Na Lista da freguesia de Aiuruoca onde constam 
os bens que seus moradores deram ao manifesto para ao lançamento da derrama ficando 
o original no arquivo do Senado da Câmara de São João del Rei, vemos claramente, 
através inclusive de seu título, que foram feitas cópias dos róis dos moradores de São João 
del Rei, mas que os originais ficavam guardados no arquivo da câmara da dita vila. Tal fato 
nos revela bem mais do que o cuidado em se guardar no arquivo as listagens, cuidado 
muito significativo por sinal, como já dissemos, mas uma grande atenção e preocupação 
com o bom funcionamento da cobrança em si, com a preservação das informações que 
permitiriam o sucesso da mesma.202 
 
1.3 “Para conduzir, escoltar e entregar na Real Intendência de Vila Rica”: como se 
acondicionava e conduzia o ouro dos reais quintos 
 
 Os livros dos quintos ainda permitem, uma vez detidamente analisados, que 
conheçamos informações cotidianas sobre o transporte do ouro do quinto nos seus 
diferentes estágios. Analisaremos primeiramente o processo de condução, escolta e entrega 
do dito ouro na Real Intendência de Vila Rica, primeiro destino de todo o metal arrecadado 
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200
 Uma representação de 1783 dizia que as três chaves deviam ser entregues uma ao provedor, uma ao 
tesoureiro e outra ao escrivão. AHTCP, Livro 4066 Erário Régio, 1783, f. 86. 
201
 AN, 0M 0252 – Livro de registro de expediente da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1771. 
202
 BN, MS-580(54) D.01, I-26,04,001 – Lista da freguesia de Aiuruoca onde constam os bens que seus 
moradores deram ao manifesto para ao lançamento da derrama ficando o original no arquivo do Senado da 
Câmara de São João del Rei. [S.l.] [S.d.]. 
93 
�
 
 
em quaisquer das vilas das Minas. Veremos, assim, como se fazia o acondicionamento para 
essa condução, como se levavam os caixotes de ouro pelos áridos e perigosos caminhos 
mineiros, como se realizava uma escolta segura nesses trajetos e como, finalmente, se 
entregava o ouro na sede do governo da Capitania. Pretendemos seguir essa análise de 
forma cronológica, acompanhando, através das décadas de arrecadação do ouro, como se 
realizouo seu transporte na vigência de cada método de cobrança. 
Os primeiros relatos que temos conhecimento são do início da segunda década de 
extração do ouro, período em que os diversos cuidados ligados ao ouro do quinto estavam 
sob responsabilidade de poderosos locais e das câmaras municipais de cada vila. No Livro 
de registro do Quinto do ouro e da Capitação, de São José del Rei, feito nas “Casas da 
Câmara” da dita vila, no período compreendido entre 1720 e 1723, é possível encontrar um 
traslado de um conhecimento da Real Fazenda da “carregação que fez o juiz ordinário 
Silvestre Marques da Cunha do importe dos Reais quintos do ano de 1720 para o de 1721 e 
de 1721 para 1722”. Nesse termo de conhecimento, que ao que tudo indica era uma espécie 
de recibo feito pela Real Fazenda em Vila Rica na ocasião da entrega de determinada 
quantia de ouro do quinto, conhecemos que o juiz ordinário de São José é quem entrega os 
valores do quinto dos anos mencionados. O juiz, representante do poder local da dita vila, 
é, portanto, o condutor do quinto em mãos do Tesoureiro Geral da Fazenda Real, Lourenço 
Pereira da Silva. O dito tesoureiro, depois de lhe ser entregue essa receita, fazia esse termo 
de comprovação da mesma e assinava juntamente com o escrivão da Fazenda, em primeiro 
de outubro de 1722.203 
Em registros de 1723 para a Vila do Carmo, também encontramos informações 
semelhantes de entregas feitas ao mesmo tesoureiro da Fazenda, Lourenço Pereira da Silva. 
Vejamos o trecho do conhecimento, transcrito do Livro de quintos – 1723-1726 de Vila do 
Carmo: 
 
“Cópia e Registro dos conhecimentos em forma do recebimento da Fazenda Real no 
ano de 1723. A folha 30v do Livro que serve como Tesoureiro da Fazenda Real 
Lourenço Pereira da Silva lhe ficam carregados em receita em vinte e dois de outubro 
de mil setecentos e vinte e três, trinta e sete mil e noventa e sete oitavas de ouro em pó 
que recebeu do Procurador da Câmara o Licenciado Manuel Ferraz por conta dos 
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203
 APM, CC-1046; Microfilme 007(9/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1720-1723. 
São José. 87 f. 
94 
�
 
 
quintos vencidos em Julho do presente ano de setecentos e vinte e três de cuja receita 
se lhe passou este conhecimento em forma para a sua conta que o dito Tesoureiro 
assinou comigo Antônio de Seixas escrivão da Fazenda Real em vinte e dois de 
outubro de 1723.” (grifo nosso)204 
 
Através do excerto acima, temos notícia que a entrega ao dito tesoureiro, dos 
quintos vencidos naquele ano de 1723, é feita, dessa vez, pelo procurador da câmara de 
Vila do Carmo, o Licenciado Manuel Ferraz. Dessa receita também se passava um termo 
de conhecimento assinado pelo mencionado tesoureiro e pelo mesmo escrivão da Fazenda. 
Em estudos anteriores detectamos, para a dita vila, que se faziam umas duas remessas 
como essa por ano para a Real Fazenda em Vila Rica.205 Nesse ano de 1723, no entanto, se 
levaram o ouro três vezes à dita Provedoria. 
O Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo cobrador João 
Henrique de Alvarenga, de Pitangui para o período de 1718-1724, nos revela ainda que o 
referido cobrador, João Henrique de Alvarenga, entregava aos oficiais daquela câmara, 
valores referentes a diversas listas “para remeterem para a Provedoria Geral da Vila do 
Ouro Preto”. Em 1723, por exemplo, entregava quantia referente a 865 escravos e 19 lojas 
e vendas e dos ditos oficiais da câmara recebia recibo. Assim aconteceu também para os 
anos de 1724 e 1725.206 
Para encerrar a reflexão da condução à Vila Rica nesse período, destacamos apenas 
mais uma entrega, feita ao tesoureiro da Fazenda Real Francisco de Almeida de Brito em 
1721 pela Vila do Carmo: 
 
“folha 54 do Livro da Receita que serve como Tesoureiro da Fazenda Real desta 
Comarca Francisco de Almeida de Brito lhe ficam carregadas em receita trinta e duas 
mil duzentas e trinta e cinco oitavas de ouro que recebeu dos oficiais da Câmara da 
Vila do Carmo por mão do Tesoureiro dela Manuel Cardoso Cruz por conta dos 
quintos da dita Vila e seu termo pertencentes ao ano que findou em julho de mil 
setecentos e vinte de que lhe passei este conhecimento em forma feito por mim 
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204
 AHCMM, Códice 200 – Livros de quintos: 1723-1726, f. 25v. 
205
 FARIA, Simone Cristina de. op. cit. 
206
 APM, CC-1038; Microfilme 006(5/5) 007(1/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo 
cobrador João Henrique de Alvarenga. 1718-1724. Pitangui. 152 f. 
95 
�
 
 
escrivão da Fazenda Real, e assinado pelo dito Tesoureiro nesta Vila Rica aos dez dias 
do mês de julho de 1721 (...)” (grifo nosso)207 
 
Citamos mais esse termo de conhecimento para destacar que, por mais que fosse 
semelhante aos demais, fora feito de uma entrega ao tesoureiro da Real Fazenda pelos 
oficiais da câmara por mão do tesoureiro da mesma. Ou seja, além do juiz ordinário, do 
procurador, também cabia ao tesoureiro da câmara fazer as entregas em Vila Rica dos 
quintos de sua vila. 
Passando agora para o período de retorno das casas de fundição, o primeiro 
documento que analisamos se encontra no Livro de receita e despesas da Real Casa de 
Fundição de Sabará. Trata-se do recebimento, pelo tesoureiro da Real Casa da Fundição 
de Sabará, André Moreira de Carvalho, de três caixotes de solimão encourados para o 
quinto desta casa do Tesoureiro da Casa da Fundição da Comarca de Vila Rica, Domingos 
de Morais. Quem conduziu esses caixotes fora o Soldado de Dragões Antonio de Azevedo, 
e da referida entrega se passava recibo, juntamente com o escrivão, em seis de setembro de 
1751.208 Alguns detalhes importantes podem ser destacados por conta dessa entrega. 
Primeiro, que não se tratava exatamente da entrega do rendimento do quinto, mas do envio 
de caixotes pela Casa de Fundição de Vila Rica para que a Comarca de Sabará conduzisse 
seu quinto. Segundo, que temos o primeiro indício de como era acondicionado o ouro do 
quinto para a condução: em caixotes cobertos por couros. 
Mas prosseguindo, ainda para esse período temos outros registros de como esse 
ouro seguia para Vila Rica. No Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca 
do Serro Frio, de 1753 a 1755, vemos que o ouro da Vila do Príncipe é remetido para Vila 
Rica pelo Cabo de Esquadra Thomás da Costa Salvado, e por dois soldados, “em seis 
borrachas cozidas e lacradas com as Armas Reais”. Dessa entrega se fazia um termo de 
conhecimento.209 O ouro seguia, portanto, também em borrachas costuradas e com o lacre 
da Coroa, e era levado por soldados dragões. Mais referências nos ajudarão a entender esse 
processo. 
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207
 AHCMM, Códice 648 – Livro de recebimento dos quintos de ouro – 1721-1735, f. 18v. 
208
 APM, CC-1091; Microfilme 014(5/7) – Livro de receita e despesas da Real Casa de Fundição de Sabará. 
1751-1757. Sabará. 54 f. 
209
 AN, 0M 1626 - Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Serro Frio. 1753-1755. Vila 
do Príncipe, 195 f. 
96 
�
 
 
Vejamos como dados presentes no Livro de registro de receita e despesas da Real 
Casa de Fundição pelo tesoureiro Tomás de Aquino César de Azevedo, 1752-1756, podem 
ser valiosos para compreender esse transporte: 
 
“Diz Miguel Inácio Giraldes Cabo de Esquadra de Dragões, que ele veio do Serro 
do Frio a escoltar os Reais quintos daquela Comarca, e do Sabará para esta Vila 
Rica e fez despesa de seis oitavas, e quatro vinténs de ouro com os cavalos de Sua 
Majestade da dita partidos como mostra pelo Rol junto (...) 
Rol dos gastos que fiz com cinco cavalos de Sua Majestade em que vim montado, e os 
Soldados Francisco José de Almeida, José da Costa, Manuel PeixotoFreire, e um 
cavalo supra numerário, que vinha nele o Soldado Torquato José com a qual partida 
saí do Serro Frio a Escoltar os Reais quintos da dita Comarca, e do Sabará para esta 
Vila Rica e municiei os ditos cinco cavalos desde o dia 21 de Agosto a noite até o dia 
27 do dito de manha, e do dia 27 a noite até 2 de Setembro de manhã municiei três 
cavalos por voltarem para o dito Serro em Caminho na guarda do Senhor Governador, 
Manuel Peixoto, e o Cavalo supra numarario em que vinha Torquato José tudo no 
presente ano de 1753 (...)” (grifo nosso)210 
 
O trecho acima nos revela bem mais que procedimentos de remessa, mas detalhes 
do cotidiano do funcionamento das tarefas ligadas ao ouro. Primeiro, sublinhamos mais 
uma vez que eram os oficiais de dragões que nesse período faziam a escolta dos reais 
quintos, nos “cavalos de Sua Majestade” (vemos inclusive informações detalhadas quanto 
à alimentação desses cavalos usados para a escolta). As referências sobre isso são inúmeras 
nesse período. No entanto, para se precaver dos perigos dos caminhos, por vezes os 
poderosos locais foram chamados a prestar ajuda na tarefa. Em certa ocasião, como destaca 
Pedro Taques de Almeida Paes Leme, estando já pronta a escolta dos soldados dragões 
“para a conduta das arrobas de ouro do real quinto até Vila Rica, foi avisado o conde que 
só devia temer um corpo de conspiração traidora, que se ocultava para roubar os quintos 
desta conduta, para cuja segurança devia reforçar o corpo de guarda”. Assim, o governador 
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210
 APM, CC-1096; Microfilme 015(3/6) - Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição 
pelo tesoureiro Tomás de Aquino César de Azevedo. 1752-1756. Tejuco. 466 f. 
97 
�
 
 
mandou chamar o coronel Antônio Pires de Campos, que utilizou de índios bororós para 
“incorporar com a conduta dos quintos encarregada ao cabo dos dragões.”211 
O próximo documento a ser analisado encontra-se no Livro de registro de receita 
do Quinto do ouro da comarca do Rio das Velhas, de 1754-1755. O trecho é longo, mas 
merece ser citado na íntegra pela riqueza de informações que nos oferece: 
 
“Termo de remessa do ouro dos Reais Quintos do quarto ano de Fundição e das 
Escovilhas do mesmo ano. 
Aos vinte o oito dias do mês de Agosto de mil setecentos cinquenta e cinco anos nesta 
Real Intendência e Fundição do Sabará, estando nela o Desembargador Intendente 
Domingos Nunes Vieira e o Fiscal o Capitão José de Souza Pinto e Tesoureiro André 
Moreira de Carvalho e o Escrivão da Conferência Francisco Xavier Ferraz de 
Oliveira eu Escrivão da Receita e da Despesa abaixo nomeado, perante o Ministro, 
Fiscal e mais oficiais sobreditos vieram [ ] presentes o Cabo de Esquadra 
Vicente Rodrigues da Guerra e os Soldados Dragões Jerônimo José Machado e 
Anastácio da Silva que deu fé de serem os próprios e sendo presentes receberam e 
tomaram entrega de trinta e seis arrobas trinta libras um marco duas onças quatro 
oitavas e vinte três grãos de ouro importância dos Reais Quintos sendo pesados 
arroba por arroba, à vista e presença dos ditos soldados pelo marco da Casa, e 
metidos em trinta e sete borrachas, a saber de número um até trinta e seis com uma 
arroba cada uma [ ] do número trinta e sete com trinta libras um marco duas onças 
quatro oitavas e vinte três grãos de ouro em pó limpo em que não tiveram dúvida tanto 
no peso quanto na limpeza do mesmo ouro e se obrigaram o dito Cabo de Esquadra 
Vicente Rodrigues da Guerra e os Soldados Dragões Jerônimo José Machado e 
Anastácio da Silva a conduzirem o dito ouro daqui para a Real Casa da Fundição 
de Vila Rica (...) para se guardar [ ] no Tesouro geral da dita Real Intendência por 
ser pertencente o dito ouro aos Reais quintos pelo Rendimento do quarto ano do atual 
sistema que findou proximamente no dia trinta e um de Julho do presente ano e as 
ditas trinta e sete borrachas vão cozidas nas bocas e incluídas em dezenove 
caixotes pregados e encourados. E outrossim receberam mais os ditos soldados 
condutores (...) uma barra de ouro (...) e a remeterem conhecimento em formas de 
todo o Recebimento para a conta do Tesoureiro desta Real Casa (...) e descarga deles 
ditos condutores que foram nomeados para esta condução pelo Ilustríssimo 
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211
 PAES LEME, Pedro Taques de Almeida. Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica. Belo 
Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1980, Tomo II, p. 215. 
98 
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Governador dessa Capitania (...) E para constar de todo referido e da obrigação dos 
ditos Cabo de Esquadra e Soldados Condutores mandou o Desembargador Intendente 
fazer este termo que eles assinaram (...)” (grifo nosso)212 
 
 Vejamos as informações que podemos deter com a análise desse termo de remessa. 
A princípio, destaca-se a quantidade de agentes envolvidos em todo esse processo. Na 
ocasião em que o cabo de esquadra e os soldados dragões comparecem à Casa de Fundição 
para receberem o material que deviam carregar até Vila Rica, estavam presentes diversos 
oficiais: o desembargador, o fiscal, o tesoureiro, o escrivão da conferência e o escrivão da 
receita e despesa. Juntos todos eles conferiam os valores a serem conduzidos, “arroba a 
arroba”. O cuidado com a conferência antes da condução é evidente. Destaca-se também 
que esse ouro era acondicionado em “trinta e sete borrachas”. Mencionamos anteriormente 
que essas borrachas eram usadas para se colocar o quinto, mas aqui algumas referências 
são mais detalhadas: “as ditas trinta e sete borrachas vão cozidas nas bocas e incluídas em 
dezenove caixotes pregados e encourados”, ou seja, o ouro ia dentro das borrachas que 
costuradas nas bocas iam dentro de caixotes, pregados e cobertos de couro por cima. Em 
outro livro ainda para a vila de Sabará vemos que, por vezes, essas borrachas recebiam 
identificações do lugar.213 
 Nesse momento cumpre mencionar que tais procedimentos obedeciam instruções 
que vinham do Reino, como se pode constatar pelo trecho de um Livro do Erário Régio, 
onde são lembradas tais recomendações: 
 
“Nenhum obstáculo pode haver para que se não pratique o método de que girem em 
Minas as borrachas, ou cartuchos, com suas guias apensos, como bilhetes de banco 
porquanto sendo marcadas estas borrachas, ou cartuchos com o sinete Real, no meio, e 
no fundo, o qual deve ser aberto na Casa da moeda desta Corte, com a isenção no 
circuito, que declare ser do Quinto Real de tal Vila. Em cada uma das borrachas, ou 
cartuchos, se deve declarar na sua superfície as oitavas de ouro quintado que tem 
dentro em si, e que com a tara pesa tanto lavrando-se a fui do modo seguinte.”214 
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212
 AN, 0M 3479 - Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Velhas. 1754-1755. 
Sabará, 196 f. 
213
 “Com a marca que diz = Sabará Quinto =”. AN, 0M 1674 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro 
da comarca de Ouro Preto. 1768. 
214
 AHTCP, Livro 4066 Erário Régio, 1783, f. 95. Em outro documento do mesmo arquivo em Portugal, 
encontramos ainda representações do Intendente Geral do Rio de Janeiro para o Ouvidor da Capitania 
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 Outro ponto a destacar, ainda com base no longo trecho acima sobre o ouro que 
devia ser conduzido da vila de Sabará para Vila Rica, é que os oficiais que faziam a 
condução, soldados dragões, eram nomeados pelo governador. No período de 
funcionamento das casas de fundição, essa prática parece constante, de soldados dragões 
conduzirem os quintos e/ou escoltarem a sua condução. Em momentos anteriores não 
acontecia dessa maneira. Vimos que no período que as câmaras cuidavam da arrecadação 
eram seus oficiais quem faziam essatarefa de condução. No capítulo 2 trataremos melhor 
dessas questões. 
Por fim, é preciso enfatizar que termos de remessa como o acima são comuns a 
todas as vilas e podem ser encontrados nos diversos livros de registro de receita do quinto 
do ouro, a partir da segunda metade do século. Esses termos se inserem ainda em uma 
sequência de outros documentos a ele relacionados, são antecedidos pelos mandados para 
que se faça a condução, quando o Intendente convoca os referidos condutores para fazer a 
condução; e são sempre seguidos pelos conhecimentos trazidos pelos condutores dessa 
entrega em Vila Rica. As referências sobre os que conduziam também podem ser 
encontradas nos diversos livros de receita e despesa para toda a Capitania. Um 
mapeamento completo dos condutores dos quintos e demais oficiais envolvidos nesse 
processo será feito no capítulo 2. 
 Outras fontes, além dos registros seriados dos quintos analisados até o momento, 
podem também nos trazer informações relevantes sobre esse processo de remessa, quais 
sejam, ofícios, cartas, entre outros. Não analisamos detidamente esse tipo de 
documentação, mas podemos apontar algumas delas que trazem informações importantes. 
 Para a Vila do Príncipe, em 15 de outubro de 1771, encontramos uma carta do 
Ouvidor e Intendente do ouro, Francisco de Souza Guerra e Araújo, defendendo-se da 
acusação de sonegação de vendas ocultas. O ouvidor diz na referida carta que “estando a 
expedir a remessa dos quintos” se insinuava que teriam entrado na Intendência várias 
parcelas de vendas ocultas do ano de 1769 a 1770, e que delas não havia declarações nos 
conhecimentos da remessa. Segundo ele, nas três remessas feitas estariam incluídos o 
montante, e que não haveria erro nem dele nem do Capitão João da Costa. O ouvidor 
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recomendando que as borrachas deviam ir acompanhadas das suas guias e números ainda que pertencessem 
ao mesmo dono e que o mesmo devia se praticar para as barras das casas de fundição das Minas. AHTCP, 
Livro 4071 Erário Régio, 1763, n. 35. 
100 
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arroga-se de “integridade, pureza, e zelo” dizendo não merecer as ditas acusações pois 
“sabemos procurar, e não demorar um instante o ouro de Sua Majestade”.215 Mais do que 
indício importante para as investigações afeitas ao tema do descaminho, essa carta revela 
os possíveis impasses, erros e/ou conflitos existentes no processo de remessa do ouro para 
a Coroa, nos seus diferentes estágios. Certamente a ocasião da remessa era um momento 
propício para aqueles que tinham o objetivo de desencaminhar o ouro do quinto e fontes 
como essa poderiam lançar outras luzes sobre os meandros dessa atividade. 
 
1.4 “Em naus de guerra que hão de comboiar a frota”: como se remetia o ouro dos 
reais quintos para o Rio de Janeiro e de lá para o Reino 
 
As remessas de ouro para a Coroa garantiram grande fatia das receitas do Reino,216 
elevando a região no nível das atenções do Império e conferindo centralidade declarada 
para o futuro econômico português.217 Uma série de estudos têm conferido atenção às 
remessas do ouro da Coroa ou de particulares, bem como o seu transporte, logo após que o 
precioso metal fizesse essa passagem para o lado de lá do oceano, e assim uma parcela 
chegasse ao destino dos cofres da realeza de Portugal. Mas “fiscalizar bem a entrada de 
ouro era tão importante quanto registrar os pormenores de sua produção na Colônia e de 
seu transporte até Portugal.”218 No entanto, existem enormes lacunas em estudos que 
atentem para as remessas e transporte do ouro antes que ele atravessasse o Atlântico. As 
reflexões que vimos fazendo e que continuaremos agora seguem nessa direção, por 
acreditarmos o quanto elas são valiosas para o conhecimento mais geral da dinâmica da 
arrecadação do ouro do quinto. 
O segundo estágio do transporte do ouro do real quinto, portanto, é o trajeto que ele 
fazia da Real Intendência de Vila Rica para o Rio de Janeiro, de onde seguia “em naus de 
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215
 BN, MS-580(52) D.65, I-26,01,010 – ARAÚJO, Francisco de Souza Guerra e, Ouvidor e Intendente do 
ouro. Carta defendendo-se da acusação de sonegação das declarações de vendas ocultas. Vila do Príncipe, 
15/10/1771. 
216
 COSTA, Leonor Freire; ROCHA, Maria Manuela; SOUSA, Rita Martins de. O ouro do Brasil: transporte 
e fiscalidade (1720-1764). Disponível em: www.abphe.org.br/congresso2003/Textos/Abphe_2003_83.pdf -, 
p. 1-23, p. 1. 
217
 FURTADO, Júnia Ferreira. Dom Luis da Cunha e a centralidade das minas auríferas brasileiras. Anais de 
História de Além-Mar, Lisboa, 2007, Vol. VIII, p. 69-87, p. 69. 
218
 COSTA, Leonor Freire; ROCHA, Maria Manuela; SOUSA, Rita Martins de. Primeira parada: Portugal. 
Dossiê ouro. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, novembro 2008, ano 4, no 38, p. 22-
25. O estudo mais recente sobre o tema é: COSTA, Leonor Freire; ROCHA, Maria Manuela; SOUSA, Rita 
Martins de. O ouro do Brasil. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, S. A., 2013. 
101 
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guerra” para os cofres do rei português. Analisaremos detalhadamente agora, também 
tendo por base informações coletadas nos diversos livros dos quintos estudados, como todo 
esse processo se realizava. Cumprirá entender quais procedimentos deveriam ser tomados 
em todas as etapas dessa condução para que o metal seguisse o rumo que devia seguir. 
 Desde o ano de 1701 podem-se encontrar referências ao processo de remessa do 
ouro mineiro ao Rio de Janeiro, de onde se encaminharia para os cofres da Coroa 
portuguesa. Vejamos: 
 
 “1701 
Livro No 15 Remessa 
f. 68vo Abril 18 Em virtude da Portaria do Senhor Artur de Sá e Menezes 
Governador da Capitania do Rio de Janeiro e terras do Sul 
 Total da Remessa 2744 oitavas 
Que procede das datas de Terras Minerais que pertenceram à 
Real Fazenda 1656 
Foi condutor o Secretário do Governo José Rodrigues 
Perdigão 
 Que procede do Real Quinto 1088 2744 8as 
 Foi condutor o Ajudante Pedro Dias 
Assinaram o termo de Recebimento a f. 68 em que se 
obrigaram a fazer entrega na Provedoria do Rio de Janeiro ao 
Tesoureiro dela à ordem do Provedor da mesma Luis Lopes 
Pegado Serpa.”219 
 
 O trecho acima, o primeiro nesse sentido, é um termo de remessa onde se nomeiam 
condutores para o transporte do ouro das datas e do real quinto para a Provedoria do Rio de 
Janeiro. Vê-se que as referidas quantias seguiriam em mãos do Secretário do Governo José 
Rodrigues Perdigão e do Ajudante Pedro Dias e a eles se obrigavam fazer a dita entrega ao 
tesoureiro da Provedoria. No mesmo livro onde esse lançamento é feito, existem dados 
sobre a remessa de 1701 até 1713, com ausências para alguns anos. Em geral, no fim dos 
lançamentos de cada ano havia um termo como o acima onde se nomeava um condutor 
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219
 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, 
confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro 
e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 
102 
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para a entrega na Provedoria da Fazenda do Rio de Janeiro do ouro do rendimento do 
quinto. 
 Em 1709, encontramos uma indicação interessante sobre essa condução. Nesse ano, 
por conta da condução do rendimento do quinto do ouro quepagaram os vendedores de 
gado vindos do sertão, é nomeado Antonio do Rego e Sá por Manuel Nunes Viana.220 
Manuel Nunes Viana, como bem se sabe, era homem poderoso e influente nas Minas e, ao 
que tudo indica, desempenhava também a tarefa de nomear aqueles que deviam levar o 
ouro do quinto para o Rio de Janeiro. Assim provavelmente fez para todo esse período. 
 Através de uma certidão de entrega de ouro em pó da Alfândega da Capitania do 
Rio de Janeiro, em 20 de abril de 1718, também temos conhecimento de como o ouro do 
quinto era conduzido. O Almoxarife da Fazenda Real, João da Costa de Matos, recebera 
3206 oitavas de ouro em pó de Antônio Moreira da Cruz “pertencentes aos quintos Reais 
de Sua Majestade que Deus guarde da dita Comarca do ano de setecentos e dezesseis para 
o de setecentos e dezessete”. Tratava-se do ouro do quinto da Comarca do Rio das Mortes, 
que era lançado no Livro da Receita das Cargas Extravagantes no Rio de Janeiro. Além, 
portanto, de passarem o recibo da entrega, no Rio de Janeiro também havia registros de 
controle dos montantes dos quintos recebidos das Minas.221 
 Para o ano de 1723 encontramos uma referência esclarecedora de variados detalhes 
sobre a condução. Vejamos: 
 
“A Fol. 2 do Livro 4 do Manifesto da Nau de Guerra Nossa Senhora da Vitória 
____ consta entregar no Cofre dela o Capitão Francisco dos Santos quarenta e nove 
borrachas encapadas e numeradas ___ embrulho em que diz vão vinte e quatro 
arrobas e três libras e setenta e três oitavas e dezenove grãos de ouro em pó, e assim 
mais em dinheiro de contado vinte e dois contos e três mil e duzentos réis ___ com a 
marca a margem, e declarou fazerem por conta, e risco de Sua Majestade que Deus 
guarde dos seus Reais quintos que recebeu a entregar por ordem de Conselho 
Ultramarino ____ de que se lhe fará entrega na Casa da Moeda da Cidade de 
Lisboa Ocidental levando-nos Deus a salvamento, e à dita Nau, e por ser verdade 
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220
 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, 
confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro 
e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 
221
 BN, MS-580(3) D.05, I-10,04,004 No001 – Alfândega da Capitania do Rio de Janeiro. Certidão de entrega 
de três mil e duzentas e seis oitavas de ouro em pó, entregues por Antônio Francisco da Silva, a mando de 
Antônio Moreira da Cruz, referentes aos quintos reais do Rio das Mortes. Rio de Janeiro, 20/04/1718. 
103 
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assinamos três deste teor, na forma do Alvará de Sua Majestade, que um cumprido, os 
mais não terão efeito em Julho de 1723 de &. 
Luis de Abreu Prego 
Rafael Freire de Azevedo 
[Mardoz] da Silva 
Antônio Rodrigues”222 
 
 Primeiramente é preciso destacar o que mencionamos no início desse item, que o 
ouro dos quintos seguia em naus de guerra. Na condução mencionada acima, a Nau de 
Guerra Nossa Senhora da Vitória recebia em seus cofres quarenta e nove borrachas com 
prováveis “vinte e quatro arrobas e três libras e setenta e três oitavas e dezenove grãos de 
ouro em pó”, que deviam ser entregues na Casa da Moeda de Lisboa, certamente o destino 
de todo o ouro do quinto levado a Portugal. Os trechos “por conta, e risco de Sua 
Majestade que Deus guarde dos seus Reais quintos” e “levando-nos Deus a salvamento”, 
nos fazem refletir sobre os perigos da travessia e os riscos que o ouro dos quintos poderia 
correr. Só o fato de serem conduzidos em naus de guerra já expressa o cuidado com sua 
condução e a segurança que o transporte de tamanha riqueza requeria. 
 Nesse mesmo documento, há ainda outra ordem de 20 de maio de 1725. O 
Tesoureiro da Fazenda Real, o Sargento Mor Lourenço Pereira da Silva, devia entregar 
logo a Pedro Clemente, condutor dos Reais Quintos, as “vinte e quatro arrobas três libras 
setenta e três oitavas e dezenove grãos de ouro” dos quintos “de que remetem para o Rio 
de Janeiro para se embarcarem na Nau de Nossa Senhora da Vitória”. O dito Pedro 
Clemente assinava conhecimento de recibo e levava “com conta as sobreditas quantias”. 
Entende-se, portanto, que Pedro Clemente era o responsável direto por essa condução que 
ia na dita nau. No Rio de Janeiro ele devia entregar a quantia ao Capitão de Mar e Guerra, 
Luis de Abreu Prego, e ao Mestre e Capitão Tenente da dita nau “para o receberem aos 
cofres e levarem a Sua Majestade”. Em 18 de junho de 1729, Pedro Clemente entrega 
conhecimento dessa condução em Vila Rica.223 Destaca-se o grande intervalo de anos entre 
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222
 BN, MS-580(38) D.04, I-25,11,001 No004 – Ordem do Dr. Berquó para que o tesoureiro da Fazenda Real, 
Lourenço Pereira da Silva, entregue ao condutor dos reais quintos, Pedro Clemente, os mantimentos e ouro a 
serem enviados pela nau Nossa Senhora da Vitória a Lisboa. Vila Rica, 20/05/1725. 
223
 BN, MS-580(38) D.04, I-25,11,001 No004 – Ordem do Dr. Berquó para que o tesoureiro da Fazenda Real, 
Lourenço Pereira da Silva, entregue ao condutor dos reais quintos, Pedro Clemente, os mantimentos e ouro a 
serem enviados pela nau Nossa Senhora da Vitória a Lisboa. Vila Rica, 20/05/1725. O condutor Pedro 
Clemente fez outras conduções como essa, e seguindo todos esses procedimentos mencionados, em 1729 
104 
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a condução e a entrega do conhecimento, a ser melhor investigado. No entanto, parece ter 
ficado claro a forma como essa entrega se processava. 
 Ainda para tal período, encontramos outra referência que nos revela sobre os 
procedimentos com o acondicionamento do ouro que seguia nessa etapa de transporte. 
Vejamos a citação: 
 
“O Tesoureiro da Fazenda Real o Sargento Mor Lourenço Pereira da Silva compre as 
niagens, fio, cera, lacre, e mais aviamentos necessários para se encaparem, cozerem e 
lacrarem as borrachas do ouro que se há de remeter a El Rei nosso Senhor na presente 
monção pela Nau de Guerra Nossa Senhora da Vitória, e mande fazer os caixões, e 
compre os couros necessários para se cobrirem. Vila Rica o 1o de Maio de 1725. 
 Dr. Berquo.”224 
 
 Trata-se de uma ordem ao tesoureiro da Fazenda Real para que faça as compras 
devidas dos produtos para se encaparem, costurarem e lacrarem as borrachas do ouro. 
Como nas referências acima sobre o transporte das vilas até a Real Fazenda de Vila Rica, 
nessa fase do transporte o acondicionamento do ouro parece ser o mesmo. As borrachas 
recebiam o ouro em pó, eram devidamente costuradas e lacradas e depois colocadas em 
caixões cobertos de couro.225 Além disso, “bandeiras com as armas reais por uma e outra 
parte delas” foram feitas para acompanhar os reais quintos da Intendência de Vila Rica até 
o Rio de Janeiro.226 
 Não localizamos tantas referências sobre os condutores dos quintos nessa etapa, 
quanto na primeira até Vila Rica, além das que mencionamos há pouco de Pedro Clemente, 
que certamente já nos esclarecem muitos aspectos sobre esse transporte. Em trabalhos 
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(BN, MS-580(34) D.72, I-25,05,058 – Ordem do tesoureiro da Fazenda Real, Lourenço Pereira da Silva, 
informando a entrega ao comandante do real quinto, Pedro Clemente, de vinte arrobas de ouro a serem 
levadas para o Rio de Janeiro. Vila Rica, 05/07/1729. Em anexo, declaração a f. 42 do livro de receitas entras 
da quantia que recebeu Lourenço Pereira da Silva datado de 22/08/1729) e em 1732 (BN, D.26, I-26,09,007 
No004 – Recibo de entrega de ouro e diamantes referentes aos quintos para serem remetidos ao Rio de 
Janeiro e dali para Lisboa. Vila Rica, 13/10/1732. Documento acompanhadode lista.). 
224
 BN, MS-580(38) D.03, I-25,11,001 No003 – Ordem do Dr. Berquó para que o tesoureiro da Fazenda Real, 
Lourenço Pereira da Silva, compre material para embalagem das borrachas do ouro a serem enviadas ao rei. 
Vila Rica, 01/05/1725. 
225
 Em 1733 e em 1762 também encontramos recomendações semelhantes. BN, MS-580(34) D.16, I-
25,05,013 No003 – SILVA, Lourenço Pereira da, tesoureiro da Fazenda Real. Portaria informando a compra 
dos materiais para o acondicionamento do ouro que se remeterá a Lisboa pela nau de guerra Nossa Senhora 
das Ondas. Vila Rica, 02/08/1733; AN, 0M 0257 – Livro de registro de traslados da Casa de Fundição da 
comarca de Ouro Preto. 1764. 
226
 AN, 0M 0257 – Livro de registro de traslados da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1764. 
105 
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anteriores, encontramos alguns indícios interessantes que cabe lembrar. O cobrador da Vila 
do Carmo, Rafael da Silva e Souza, contribuiu significativamente para essa tarefa em 1731. 
O próprio rei Dom João, em registro de patente ao mesmo, mencionou os vários relevantes 
serviços que ele teria lhe prestado. Entre esses serviços, estaria ter prestado ajuda na 
“segurança que fez a José de Souza Raposo, Capitão da Guarnição do Rio de Janeiro 
quando foi às mesmas Minas buscar os Reais Quintos acompanhando com sua pessoa e 
escravos armados”. E Rafael da Silva e Souza teria acompanhado José Raposo até o limite 
que as emboscadas dos seus inimigos não lhe ofereciam mais perigos.227 Com se vê, um 
poderoso local teve importante participação no transporte do quinto ao Rio de Janeiro, a 
ponto de acompanhar um representante que buscava esses quintos, colocando seus 
escravos armados nessa condução. E acompanhara até os limites onde não havia mais 
perigos nos caminhos. Interessante destacar, ainda por esse trecho, é o fato de um capitão 
de guarnição ir às Minas para buscar os quintos e levá-los ao Rio de Janeiro. Até então, só 
tínhamos notícia do contrário, ou seja, dos oficiais da Real Fazenda das Minas, ou 
poderosos locais delas, enviarem ao Rio de Janeiro as quantias pertencentes ao real quinto. 
 Para o período de vigência das casas de fundição, encontramos mais uma referência 
do referido processo de transporte, um Assentamento das remessas e entregas feitas do 
ouro do quinto e barras das escovilhas que fez o Tesoureiro Domingos Fernandes Serra 
no tempo de sua atuação, de 1757 a 1760. O documento dizia que o tesoureiro remetia à 
Sua Majestade, pela Provedoria do Rio de Janeiro, as quantias “pertencentes ao rendimento 
do quinto do sexto ano do estabelecimento das Reais Casas de Fundição destas Minas”, de 
várias localidades.228 Cabia, portanto, ao tesoureiro fazer os encaminhamentos dessas 
remessas. 
 Concluindo, para o fim do século encontramos algumas remessas no seguinte 
padrão: 
 
“Senhora 
Vai desta Intendência o Soldado João Jacob Simões encarregado da Condução 
do Quinto, e das mais arrecadações que a ela vieram no trimestre, que findou em 
setembro, tudo segundo os conhecimentos, que acompanham esta Vossa Majestade se 
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227
 AHCMM, Códice 774 – Livro de registro de patentes e provisões – 1725-1755, p. 87, 87v. 
228
 AN, 0M 3207 – Livro de registro de receita de ouro nas Casas de Fundição.... 1757-1759. 
106 
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dignará de mandar expedir as clarezas necessárias para o Tesoureiro desta Casa. 
Sabará 16 de outubro de 1796. 
O Intendente Paulo Fernandes Viana”229 
 
 Trata-se de um ofício a Sua Majestade informando sobre a condução do ouro, que 
nesse trecho é claramente encarregada ao Soldado João Jacob Simões. Ele devia conduzir 
os quintos e as demais arrecadações, segundo os conhecimentos que também eram 
remetidos com as quantias. Quando lá chegasse deveria também receber comprovações de 
que fizera a entrega, as “clarezas necessárias”. Parece que nesse caso o ouro não ia 
primeiramente para a Intendência de Vila Rica para depois ser conduzido ao Rio de Janeiro 
e de lá embarcar para Lisboa em naus de guerra. Talvez até fosse. Mas o fato a se destacar 
é que o condutor já fora nomeado pela Intendência de Sabará para cumprir essa tarefa. 
 Uma declaração do Marquês de Pombal de 1771 nos apresenta queixas de possíveis 
demoras nas remessas dos quintos e de outros cabedais da Real Fazenda para o Rio de 
Janeiro “em grandes partidas com ostentação de condutores, e outras fantásticas 
formalidades que nada concorrem a essência do objeto, quando pelo contrário da referida 
prática sucede muitas vezes ou não chegarem a tempo as mesmas remessas, ou ser preciso 
fazerem-se avisos para os Governos desse continente”. Esse documento é importante por 
constatar as ocasiões em que a atividade de remessa não era vista como realizada a 
contento. Quando as remessas demoravam, segundo o Marquês, havia muito detrimento 
para as naus, despesas consideráveis com sua equipagem e ainda perda das monções 
favoráveis para as viagens. Ele aconselha ainda que as naus só deviam se demorar no porto 
da cidade do Rio de Janeiro quinze dias.230 
E para finalizar esse item, anexamos um exemplo de um documento que comprova 
a chegada ao Reino, na Casa da Moeda de Lisboa, das quantias referentes ao real quinto. 
Nele pode-se comprovar as questões do acondicionamento mencionadas anteriormente, 
bem como a condição de seu transporte em naus de guerra. Trata-se do registro que 
evidentemente confirma o fim da jornada do precioso metal até os cofres da realeza. 
 
 “1773 
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229
 MS-580(72) D.57, I-26,24,042 – VIANA, Paulo Fernandes, intendente. Ofícios a Sua Majestade 
informando sobre a condução do ouro, arrecadações do quinto e a permuta de ouro em pó por moeda 
provincial. Sabará, 23/01 a 16/10/1776. O documento é de 1796, e não de 1776 como diz na descrição. 
230
 AHTCP, Livro 4073 Erário Régio. 
107 
�
 
 
 Entrada 
 N. 44 
Junho 21 Recebeu o Tesoureiro da casa da Moeda José Antonio Vieira do 
Vadre, três mil, e noventa marcos, e quatro Onças de Ouro em pó, 
em 57 Borrachas de N. 1 a 10; 26 a 45; 48 a 53; 57 a 75; 81 a 82 
Remetidas do Rio de Janeiro pelo Tesoureiro Geral daquela 
Capitania Manuel Ferreira Gomes, e na Nau de Guerra Nossa 
Senhora de Belém comandada por João da Costa Ataíde, chegada a 
este porto em 15 do corrente; a entregar no Régio Erário, com o 
peso de 3:089-2-5-36; procedidos do Rendimento do quinto das 
Casas de Fundição das quatro Comarcas de Minas Gerais, de todo 
o ano de 1772... 3:090-4-0-00 
 Manuel Inácio Bernardes de Araújo 
 José Antonio Vieira do Vadre”231 
 
1.5 Pagando tudo o “necessário para os quintos”: o que se despendia com os reais 
quintos 
 
Outro aspecto muito rico, passível de análise nos livros dos quintos, é o que diz 
respeito às inúmeras despesas feitas com todo o processo de arrecadação, 
acondicionamento e transporte do direito régio. E temos muitas relações de tais gastos nos 
vários livros dos quintos analisados no decorrer do século em toda a Capitania. Analisemos 
os itens mais recorrentes, e mais do que as quantias que em geral se gastavam, interessa 
saber com o que se despendia em função dos reais quintos. 
O primeiro item, extremamente recorrente em diversas relações de despesas, é o 
aluguel de cavalos e o municiamento deles. Montados em cavalos e bestas, os cobradores e 
os soldados faziam as diligências, pelos variados lugarejos, e o transporte do real quinto 
pelos áridos caminhos das Minas, fosse das vilas até a Real Fazenda de Vila Rica, fosse de 
Vila Rica até o Riode Janeiro. 
 Na Vila do Príncipe, em 1752, por exemplo, despendia-se 12$000 pelo aluguel de 
um cavalo que José Furtado da Rosa levou o quinto para Vila Rica, 17$100 pelo aluguel de 
seis cavalos que conduziriam do Arraial do Tejuco os Livros e bilhetes da Capitação, 
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231
 ACML, Entrada e Saída de Ouro, n. 348, f. 50. 
108 
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16$530 por milho para um cavalo em que foram montados os soldados que foram a 
diligências da capitação, além de um papel de Tomás da Costa Castacho de alugar um 
cavalo e um negro para levar a Vila Rica o quinto do ano de 1754 para 1755.232 
Essas descrições apenas dão uma ideia dos valores que podiam ser gastos com esse 
tipo de despesa, mas tais quantias variavam enormemente dependendo do período e do 
trajeto a ser percorrido. No Livro de registro de receita e despesas da Intendência da 
comarca do Rio das Velhas, de 1769, podemos ver como os pagamentos eram feitos: 
 
“Despendeu mais o dito Tesoureiro doze mil réis 
Que pagou a Luis Cardoso da Silva de aluguel de dois cavalos com que conduziu 
desta Real Casa de Fundição (Sabará) para a de Vila Rica o Rendimento dos Reais 
Quintos e mais efeitos que nela se arrecadam pertencentes ao trimestre Janeiro, 
Fevereiro e Março de 1769 como consta do mandado e conhecimento de Recibo de 27 
de Abril do dito ano de 1769 que vai a linha.”233 
 
Despendia-se ainda com ferragens para esses cavalos e com seu municiamento. Em 
1751 e 1752 o Soldado Dragão João da Costa Caldas entregava à Real Fazenda róis 
detalhados com gastos feitos com esses itens, 52$303 com despesas de ferragem e com 
despesas que fez com dois cavalos de Sua Majestade “em que eu, e o Soldado João Ribeiro 
de Miranda fomos montados para Mato Dentro nas Cobranças dos Reais quintos”, de 25 de 
Março de 1751 até 10 de Julho do dito ano em dois cavalos, e de 10 até 11 de abril de 1752 
em um cavalo que ia só o primeiro. Há uma lista detalhada por dia e local da quantidade de 
pratos de milho que cada cavalo comeu, isso para todos os meses da diligência.234 
Destaca-se ainda que, através dessas relações de despesas, é possível conhecer que 
as conduções ao Rio de Janeiro eram feitas por grandes comboios, certamente dando a 
segurança que a tarefa requeria. No Livro de registro de traslados da Casa de Fundição da 
comarca de Ouro Preto, vemos que em 1760 o tesoureiro despendia com João Leite 
Ribeiro a quantia de 320$000 “de alugar de trinta e duas bestas em que conduziu desta 
Real Casa para a Cidade do Rio de Janeiro os reais quintos na forma do Requerimento que 
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232
 APM, CC-1090; Microfilme 014(4/7) - Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição 
da comarca do Serro Frio. 1751-1764. Vila do Príncipe. 58 f. 
233
 AN, 0M 0156 – Livro de registro de receita e despesas da Intendência da comarca do Rio das Velhas. 
1769. 
234
 APM, CC-1096; Microfilme 015(3/6) - Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição 
pelo tesoureiro Tomás de Aquino César de Azevedo. 1752-1756. Tejuco. 466 f. 
109 
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vai à linha”; e em 1762 gastava com a mesma pessoa a quantia de 275$000 “de alugar 
vinte e sete cavalos com que conduzir os reais quintos”.235 
Com os oficiais de carapina/carpinteiros se gastavam por fazerem os caixões de 
madeira onde iam guardados os quintos do ouro de Sua Majestade. Em 1725 cada caixão 
custava por volta de mil e quinhentos réis, e pelo feitio de quinze deles, José Rodrigues 
Cardoso recebera em Vila Rica 22$500.236 Após comunicarem a dívida, em geral no dia 
seguinte já eram pagos pela tarefa. Por vezes também se compravam tábuas para se 
fabricar os caixões que conduziriam os reais quintos, e não os caixões propriamente. Em 
1762, tais caixões diminuem significativamente de valor, e custam 282 réis a unidade. 
Desconhecemos a razão dessa diminuição.237 Por vezes também, os couros de bois eram 
comprados em separado para “o encapamento e encouramento dos caixões dos Reais 
Quintos”.238 
 Antes de serem acondicionados em caixões, como vimos anteriormente, o ouro era 
colocado em borrachas que eram devidamente costuradas e enumeradas. Pelo que pudemos 
perceber, essas borrachas eram usadas principalmente nas épocas em que o ouro em pó 
circulava livremente. Os responsáveis pelo seu feitio eram os sapateiros. Em 24 de Maio de 
1725, o Provedor da Fazenda Real de Vila Rica manda pagar ao oficial de sapateiro Matias 
de Abreu “a importância das borrachas que fez para o ouro da Sua Majestade”. Teriam sido 
feitas 78 borrachas a meia oitava cada uma e “mais doze dias de emborrachar o ouro com 
courar os caixões a ½ oitava cada dia”. O provedor fizera o pagamento do total de 47 
oitavas cinco dias após que a dívida era comunicada na Real Fazenda.239 
Para 1721 e 1723, nos livros dos quintos da Câmara da Vila do Carmo, também 
encontramos, nas relações de despesas dos respectivos livros, referências ao gasto feito 
com as borrachas. Em 1721, gastava-se 8 oitavas “por quatro borrachos grandes para ir o 
ouro”240 e, em 1723, dependia-se 6 oitavas “por quatro borrachas grandes para os Quintos e 
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235
 AN, 0M 0257 – Livro de registro de traslados da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1764. 
236
 BN, MS-580(38) D.62, I-25,11,027 – Requerimentos solicitando reembolso por despesas feitas com os 
quintos do ouro. Vila Rica, 24 e 29/05/1725. Datas e local associados aos despachos. Documento com dupla 
numeração. 
237
 AN, 0M 0257 – Livro de registro de traslados da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1764. 
238
 AN, 0M 0257 – Livro de registro de traslados da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1764. 
239
 BN, MS-580(38) D.62, I-25,11,027 – Requerimentos solicitando reembolso por despesas feitas com os 
quintos do ouro. Vila Rica, 24 e 29/05/1725. Datas e local associados aos despachos. Documento com dupla 
numeração. 
240
 AHCMM, Códice 648 – Livro de recebimento dos quintos de ouro – 1721-1735. 
110 
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de as coser o sapateiro e preparar”.241 Vê-se que as câmaras também faziam os pagamentos 
de tais despesas no período que os quintos eram lançados nos seus livros e cobrados por 
seus homens. 
 Havia gastos também com todo tipo de aviamentos e miúdos para o 
acondicionamento do ouro do quinto. Em julho de 1729 o Tesoureiro da Fazenda Real, o 
Sargento Mor Lourenço Pereira da Silva, devia comprar todos “os aviamentos precisos 
para encapar, e encaixotar o ouro e dinheiro que nesta ocasião se remete desta Provedoria a 
Sua Majestade pela frota do Rio de Janeiro”. E ele faz isso, pagando a Manuel de Araújo 
Guimarães 18$350 pelos “aviamentos da remessa da frota deste”.242 
 Também em 1733, o mesmo tesoureiro paga a Manuel da Silva Areas a quantia de 
28$500 por “12 réis de quarenta [veras] de niagem, 5$400 réis de duas libras de lacre, 
5$400 réis de dois milheiros de taxas, 1$800 réis de libra e meia de fio... 3$600 réis de 
feitio dos [salm os] que mandou fazer, e 500 réis de agulhas grandes”, todos materiais 
usados para encapar o ouro e dinheiro que se remetia da Provedoria de Vila Rica à Sua 
Majestade na Nau de Guerra Nossa Senhora das Ondas.243 A última referência que temos é 
que em 1723, em Vila do Carmo, também gastou-se com tais miudezas. No livro dos 
quintos da câmara deste ano encontra-se o gasto de 2 oitavas “por duas varas denias e para 
enfardar as borrachas linhas e lacre para as lacrar”.244 
 A balança também é um item muito importante, mas não encontramos muitas 
referências sobre compras da mesma, ainda que elas não faltassem nos inventários de bens 
das câmaras ou das casas de fundição. Apenas sabemos que em 1711 dispendia-se 28 
oitavas “pela compra de uma balança para o serviço”.245 No entanto, destaca-seque em 10 
dos 24 inventários dos cobradores dos quintos da Vila do Carmo analisados em trabalhos 
anteriores, pudemos encontrar balanças de pesar ouro entre seus bens. Isso revela que 
ainda que as instituições (câmara, casa de fundição, intendência, etc.) possuíssem esse 
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241
 AHCMM, Códice 200 – Livros de quintos: 1723-1726... 
242
 BN, MS-580(34) D.15, I-25,05,013 No002 – Portaria do tesoureiro da Fazenda Real, Lourenço Pereira da 
Silva, informando as providências tomadas para o acondicionamento do ouro remetido a Lisboa pela frota do 
Rio de Janeiro. Vila Rica, 28/06/1729. 
243
 BN, MS-580(34) D.16, I-25,05,013 No003 – SILVA, Lourenço Pereira da, tesoureiro da Fazenda Real. 
Portaria informando a compra dos materiais para o acondicionamento do ouro que se remeterá a Lisboa pela 
nau de guerra Nossa Senhora das Ondas. Vila Rica, 02/08/1733. 
244
 AHCMM, Códice 200 – Livros de quintos: 1723-1726... 
245
 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, 
confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro 
e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 
111 
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instrumento tão utilizado para a cobrança, os próprios agentes que a realizavam também as 
tinham em suas casas até o fim da vida.246 
 Os papéis e livros também figuram nas inúmeras listas de despesas com os quintos. 
Certamente eram produtos caros e de difícil acesso na época, até devido ao fato de serem 
constantemente reaproveitados, o que se verifica muito nos livros dos quintos. Mas 
vejamos as informações que temos. Em 1714, na Vila do Carmo, gastava-se 20 oitavas 
com “três resmas de papel que se gastaram com [estas] cartas e o mais que foi preciso” e 
11 oitavas com “dois livros para os asentos dos quintos um para a Receita outro para a 
despesa”.247 Parece-nos ser mesmo uma quantia significativa gasta com tal item. 
 Também para a Vila do Carmo, nos livros de sua câmara dos anos de 1721, 1723 e 
1724 encontramos algumas referências. Em 1721 gastava-se: 8 oitavas com “duas resmas 
de papel, 2 oitavas com “duas petições que foi necessário fazer-se”, 2 oitavas ¼ “por 
medida e meia de tinta”, 2 oitavas com “um livro para trasladar todas as contas dos quintos 
que foi para o Reino” e 30 oitavas “pelo ouro que se deu de trasladar o Livro dos 
Quintos”.248 Destaca-se aqui alguns detalhes. Primeiro, que o dispêndio com tinta também 
era considerável e que pagava-se ainda pelo feito de petições e traslados. Segundo, que se 
fazia cópias de contas dos quintos para se remeter a Portugal, o que demonstra, grosso 
modo, o cuidado no relato do rendimento do quinto, bem como a existência de registros no 
Reino enviados pelas câmaras nesse período. 
 Por fim, em 1723, na Vila do Carmo, despendeu-se 7 oitavas com “dois livros para 
Listas dos Quintos e Receitas” e 6 oitavas ½ com “duas resmas de papel que se gastaram 
com os Quintos”; e, em 1724, foram gastas 12 oitavas com “duas resmas de papel uma 
medida de tinta e meia libra de lacre”.249 Todos gastos pagos pela Câmara da Vila do 
Carmo, no período que cuidaram dos registros dos quintos. Posterior a essas referências, 
não encontramos mais nada. 
 Alguns gastos foram muito pontuais, dos quais encontramos apenas um registro. O 
primeiro foi com um serralheiro “de fazer uma chave para o cofre dos quintos que cobrou 3 
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246
 FARIA, Simone Cristina de. op. cit., p. 67. 
247
 BN, MS-580(50) D.58, I-25,33,058 – Livro que consta as seis arrobas de ouro para entregar à Sua 
Majestade referente aos quintos e ao pagamento feito ao capitão Jacinto Barbosa Lopes. Vila Real do Carmo, 
20/06/1714. 
248
 AHCMM, Códice 648 – Livro de recebimento dos quintos de ouro – 1721-1735. 
249
 AHCMM, Códice 200 – Livros de quintos: 1723-1726... 
112 
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oitavas.250 Não se menciona a razão da necessidade desse feitio. O segundo registro é de se 
fazer duas bandeiras “com as armas reais por uma e outra parte delas”. As bandeiras que 
custaram 9$600 para os cofres da Intendência de Vila Rica, deviam acompanhar os reais 
quintos, servindo na “presente condução dos Reais Quintos que faz desta Intendência para 
o Rio de Janeiro”.251 Interessante a referência a essa despesa, demonstrando o cuidado com 
a condução do ouro ao Rio de Janeiro, com a sofisticação de ir acompanhado com 
bandeiras das armas reais. Por fim, o terceiro registro é sobre gastos com selas, arreios e 
freios, e com o soldo de alguns oficiais em 1711 e 1712, “para socorrer o Rio de Janeiro” 
certamente da invasão francesa.252 Essa referência realmente é única, mas demonstra a 
importância dessa tarefa, já que as receitas do ouro dos quintos raramente eram usadas para 
fins que não a manutenção da atividade. 
 Passemos agora às análises dos gastos que se tinha com oficiais envolvidos em todo 
o processo de arrecadação e transporte do ouro do quinto: soldados nas diligências, 
condutores do quinto, tabeliães, juízes e escrivães do quinto. 
 Quanto aos soldados e condutores dos quintos, algumas referências são mais gerais, 
como as de 1723 e 1724 para a Vila do Carmo. Em 1723 só aparece “por gastos da 
condução dos quintos a Vila Rica por três vezes que se levaram, 25 oitavas” e em 1724 a 
referência é a seguinte: “pelo que gastei com a condução do ouro desta Vila para o cofre da 
Fazenda Real”.253 Apesar de não se descrever de forma clara, certamente esse gasto era 
com os oficiais da condução, vistos os outros tipos de gastos possíveis já terem sido 
nomeados. 
 A partir de 1754, no entanto, as relações são mais diretas, ao menos para a Vila do 
Príncipe, que foi a vila para a qual tivemos registros. Em 1756, despendeu-se 429$604 com 
“vários papéis de Livranças e gastos feitos com os Soldados nas diligências da 
Capitação.254 Ainda que não se nomeie quais soldados estavam recebendo, o fato é que 
eram pagos pela tarefa desempenhada. Outras referências são ainda mais claras. Em 5 de 
fevereiro de 1754, pagou-se a Alexandre Ferreira da Fonseca 12$000 de conduzir os reais 
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250
 Idem, 1724. 
251
 AN, 0M 0257 – Livro de registro de traslados da Casa de Fundição da comarca de Ouro Preto. 1764. 
252
 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, 
confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro 
e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 
253
 AHCMM, Códice 200 – Livros de quintos: 1723-1726... 
254
 APM, CC-1090; Microfilme 014(4/7) - Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição 
da comarca do Serro Frio. 1751-1764. Vila do Príncipe. 58 f. 
113 
�
 
 
quintos.255 Em 6 de agosto de 1759 pagou-se 16$000 a José Francisco Silva e 38$400 a 
Custódio Alves, também por conduzirem os quintos.256 E, em 7 de novembro de 1761, 
pagou-se 32$000 a Manuel da Fonseca Dias de conduzir os quintos.257 A diferença dos 
valores pagos provavelmente está ligada ao tipo de trajeto percorrido nessas conduções, no 
entanto, não temos informações para corroborar essa afirmação. 
 Quanto aos tabeliães, encontramos apenas um registro, para a Vila do Carmo em 
1714. Pagava-se ao Tabelião Garcia Gomes Pilo “pelo trabalho que teve com as Listas do 
Lançamento e de tudo o mais que seu serviço para eles feito” 150 oitavas de ouro.258 Essa 
referência única não deixa de ser intrigante, pois para um período um pouco posterior na 
mesma vila, fica claro que quem faziam as listas dos quintos eram os cobradores dos 
quintos de cada freguesia. Mas como os registros para o períodoinicial são parcos, como já 
dissemos, talvez os tabeliães tenham sido mesmo incumbidos de tal tarefa nesse momento. 
 Passando aos escrivães dos quintos, as referências que temos são também para a 
Vila do Carmo, para os anos de 1723, 1724 e 1725. Em 1723, pagava-se 64 oitavas ao 
escrivão da câmara Hilário Antônio por “fazer os Lançamentos e mais escritos necessários 
para os quintos” e também 128 oitavas a Pedro José Mexia “de escrivão dos quintos”. Vê-
se que ao escrivão dos quintos, certamente dedicado mais exclusivamente à tarefa com o 
ouro dos quintos, se pagava o dobro que para o escrivão da câmara, que pelo que se indica 
aqui desempenhava algumas funções com tal tarefa. Em 1724 vemos que a mesma pessoa 
podia desempenhar os dois cargos. O mesmo Pedro José Mexia, escrivão da câmara, 
recebia 128 oitavas, “por ordem da dita Câmara pelo salário de escrivão dos quintos”. Em 
1725, vemos ainda que esse valor sobe consideravelmente, e o “escrivão da Câmara pelo 
ser dos quintos” recebe 160 oitavas.259 
 Por fim, no mesmo livro para a Vila do Carmo, em 1723, encontramos ainda 
indicações de recebimentos dos juízes das câmaras pelo feitio de devassas. Pelas custas da 
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255
 APM, CC-2041; Microfilme 130(1/6) – Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição. 
1751-1761. Vila do Príncipe. 46 f. 
256
 APM, CC-1106; Microfilme 017(2/12) – Livro de entrada de ouro de particulares e de receita e despesas 
da Real Casa de Fundição pelo tesoureiro José Coelho Barbosa. 1756-1759. Vila do Príncipe. 15 f.; APM, 
CC-2041; Microfilme 130(1/6) – Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição. 1751-
1761. Vila do Príncipe. 46 f. 
257
 APM, CC-2041; Microfilme 130(1/6) – Livro de registro de receita e despesas da Real Casa de Fundição. 
1751-1761. Vila do Príncipe. 46 f. 
258
 BN, MS-580(50) D.58, I-25,33,058 – Livro que consta as seis arrobas de ouro para entregar à Sua 
Majestade referente aos quintos e ao pagamento feito ao capitão Jacinto Barbosa Lopes. Vila Real do Carmo, 
20/06/1714. 
259
 AHCMM, Códice 200 – Livros de quintos: 1723-1726... 
114 
�
 
 
primeira devassa “que tirou o Capitão Matias Barbosa dos sonegados e ouro que se 
restituiu a alguns condenados por ordem da Câmara” pagou-se 900 oitavas e 2 vinténs, e 
pela custa da segunda devassa “que tiraram os juízes dos sonegados no dito ano” pagou-se 
452 oitavas ½ e 6 vinténs.260 Tais indicações são muito esparsas mas permitem que 
conheçamos que os juízes também tinham um rendimento provindo das condenações dos 
descaminhos do ouro. 
 Encerramos nossas análises sobre as despesas feitas com o ouro do quinto 
acreditando ter apontado alguns aspectos importantes sobre o cotidiano e a dinâmica dos 
processos de arrecadação, guarda, acondicionamento e transporte do precioso metal, 
demonstrando com o que se despendia para a realização de todas essas atividades. 
 
1.6 O “cair no crime de sonegados”: como se condenavam os desviantes do ouro dos 
reais quintos 
 
Esse não é nosso tema de excelência, no entanto, é impossível deixar de ao menos 
tocá-lo ao analisar os livros dos quintos. O descaminho acompanha o processo de 
arrecadação do precioso quinto do ouro, durante todo o Setecentos e essa afirmação parece 
até um pouco óbvia para a época. Ele é a causa das maiores preocupações da Coroa 
portuguesa com o ouro retirado nas Minas, para ele se voltaram numerosa documentação 
vinda do Reino ou para lá remetida.261 Mas o objetivo aqui, por hora, é apenas oferecer 
alguns apontamentos de como se pode encontrar vestígios do tema nas fontes fiscais 
analisadas até o momento, indicações preciosas que não poderíamos deixar de mencionar. 
 Desde os primeiros registros dos quintos que temos conhecimento, já é possível se 
deparar com referências a confiscos e condenações. No Livro de registro de arrematações 
de ofícios e passagens, confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento 
das minas, datas de terras, Quinto do ouro e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila 
Rica, Vila do Carmo e Pitangui, encontramos uma lista de confiscados de 1701 a 1713, e 
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260
 Idem. 
261
 Mencionamos apenas um trecho de um documento que se encontra no Reino e que bem expressa as 
preocupações com os descaminhos do ouro. “Para evitar tão sensível prejuízo, e para reduzir ao seu antigo 
estado este rendimento, o meio que ocorre, é procurar por todos os modos extirpar este escandaloso 
procedimento, vigiando com a maior exação, por meio de guardas, e de rondas, todos os caminhos, e varedas, 
que podem conduzir para as Capitanias de beira mar, cercando com as ditas rondas, e guardas quanto for 
possível os confins desta Capitania, da que fica sendo indispensável um prévio conhecimento corográfico da 
sua situação (...)”. AHTCP, Livro 4070 Erário Régio, 1790, f. 2. 
115 
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de condenados a partir de 1711. No entanto, é possível em tal lista identificar apenas o 
nome do declarante e o valor confiscado ou condenado. Para os registros de condenações, 
por vezes temos declarações um pouco mais detalhadas: “pela condenação a uma negra por 
andar vendendo pelas Lavras contra o Bando que se havia publicado”.262 Ainda que um 
pouco desordenados e lacunares, o fato é que desde o início da ocupação das minas e 
exploração do ouro já podemos ter acesso a uma série de nomes de pessoas que recebiam a 
pena por fraudar o ouro do quinto de Sua Majestade. 
 Já em 1701 mesmo temos informações de ações efetivas contra os desvios desse 
ouro. Em Carta Precatória do Guarda Mor do distrito do Rio das Velhas (Tenente 
General Manuel de Borba Gato) para o Guarda Mor das Minas Gerais (Domingos da 
Silva Bueno), de 20 de dezembro de 1701, em Ribeirão de Sabarabussu de Nossa Senhora 
de Assunção, vemos um caso de ordem de confisco de bens por conta de gados vindos da 
Bahia. Como provedor dos quintos reais, Manuel de Borba Gato comunica ao Mestre de 
Campo Domingos da Silva Bueno que eram culpados Miguel Gonçalves de Siqueira, seu 
irmão João Gonçalves, e um seu camarada Manuel Cabral, “ora vindos dos currais da 
Bahia com uma boiada, fazendo com ela jornada para essas Minas Gerais, sem nenhum 
respeito as ordens, e leis de Sua Majestade que Deus Guarde”. Haveria uma ordem 
publicada de que nenhuma pessoa trouxesse “das partes da Bahia e Pernambuco nenhum 
gênero de fazendas, gados, nem outro qualquer mantimento a estas Minas, nem delas se 
vão buscar aquelas partes”, mas as referidas pessoas, do Sumidouro, teriam desprezado tal 
ordem e prosseguido jornada com a sua boiada. Dessa maneira, o provedor Manuel Borba 
Gato determinava que se fizesse sequestro da boiada que levavam àquelas Minas, “em 
qualquer parte que for achada” e de quaisquer bens que deles encontrassem.263 
Infelizmente não temos informações de como a ação se desenrolou. 
 Em 1711, no Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das 
Mortes, que compreende o período de 1710 a 1717, também se pode encontrar vários 
registros de confiscos. Segue abaixo o padrão desses lançamentos: 
 
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262
 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, 
confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro 
e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 
263
 BN, I-25,16,021 No002-003 – Embargo em ouro e gado pertencentes a Miguel Gonçalves Vieira. Minas 
Gerais, 14/12/1701-17/12/1701. 
116 
�
 
 
“Aos quinze dias do mês de janeiro de mil e setecentos e onze anos nessa fortaleza do 
Rio das Mortes se confiscou a Antonio Gonçalves noventa oitavas de ouro em pó das 
quese tirou dezoito oitavas de ouro de quintos e a mais importância que são 
sessenta e duas oitavas de ouro se tomaram para a fazenda Real como forma de 
ordem do Senhor Governador e Capitão General Antonio de Albuquerque Coelho 
de Carvalho de que se fez termo que assinou com o Superintendente Damião de 
Oliveira e Souza e procurador da fazenda Real eu Manuel Dias de Brito escrivão da 
Superintendência e quintos o escrevi. 
Oliveira Pereira De Antonio Gonçalves” (grifo nosso)264 
 
 Tais registros são mais completos que os anteriores para esse período. Vemos a data 
do confisco, o local, o nome do confiscado, o valor confiscado e o valor que se retirou de 
quintos, e nomes do Superintendente, procurador e escrivão da Superintendência. 
Conhecemos ainda que os registros são feitos na Superintendência e que o valor declarado 
na verdade é todo “tomado para a fazenda Real” por ordem do governador. 
 O próximo ano que temos mais registros é o de 1725. No Livro de registro de 
expediente da Tesouraria da Fazenda de Minas Gerais. 1722-1725, que contem 
lançamentos variados de toda a Capitania, por vezes se pode localizar registros como o 
abaixo, com declarações de entregas ao tesoureiro da Fazenda Real de valores que 
determinada pessoa foi condenada e o motivo dessa condenação. 
 
“Em 20 de junho de 1725 carrego em receita ao Tesoureiro da Fazenda Real 
Lourenço Pereira da Silva setenta e dois mil réis 
Que recebeu de Mateus Pereira Lima como fiador de Bernardino Pereira e de José 
Pereira procedidos de sessenta oitavas da condenação em que incorreram de 
contrabando de Sua Excelência por venderem no Morro e de como recebeu a dita 
quantia assinou comigo José de Almeida Cardoso escrivão da Fazenda Real o escrevi 
e assinei. 
Lourenço Pereira da Silva José de Almeida Cardoso”265 
 
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264
 APM, CC-1004; Microfilme 1 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das 
Mortes. 1710-1717. São João Del Rei. 250 f. 
265
 AN, 0M 0137 - Livro de registro de expediente da Tesouraria da Fazenda de Minas Gerais. 1722-1725. 
Vila Rica, 275 f. 
117 
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Em Vila do Carmo, as penalizações por descumprimento das recomendações de não 
sonegação também podem ser encontradas. No fim de todos os anos havia listas de pessoas 
que eram condenadas por ocultar escravos e vendas da cobrança dos reais quintos, 
referências de recebimentos diversos de ouro por devassas de sonegados pelos diferentes 
distritos do Termo. Vejamos dois alguns exemplos desses lançamentos: 
 
“Condenações – 30/08/1730 – 137 oitavas e 80 réis que recebeu do escrivão da câmara 
das condenações das devassas que havia recebido de várias pessoas.” 266 
 
“Em onze do dito digo de dezembro do dito ano (1732) se carregou em Receita ao 
Tesoureiro Geral o Sargento Mor Manuel Ferraz cinquenta e duas oitavas de ouro---52 
Que Recebeu do Capitão Miguel Gomes de Carvalho e de Luiz Moreira e Manuel 
Domingues por mão do Escrivão da Câmara de condenações a saber do Capitão 
Miguel Gomes de Carvalho quarenta oitavas de ouro em que foi condenado por 
sonegar uns escravos // e de Luiz Moreira oficial de ferreiro seis oitavas de ouro – e 
de Manuel Domingues oficial de carapina seis oitavas de ouro que fazem estas 
parcelas a sobre dita quantia acima e de como as Recebeu o dito Tesoureiro assinou 
Pedro Duarte Pereira Escrivão da Câmara que o Escrevi. 
Manuel Ferraz”267 
 
O primeiro excerto trata-se da entrega de uma determinada quantia pelo escrivão da 
câmara de condenações de devassas de várias pessoas. Já o segundo excerto é diferente. 
Trata-se de um carregamento de algumas pessoas, devidamente especificadas, ao 
tesoureiro da câmara, por condenações que lhe teriam sido feitas. Uma delas é detalhada: 
“em que foi condenado por sonegar uns escravos”. Destaca-se ainda que os registros são, 
mais uma vez, feitos nas câmaras municipais. 
 Depois desse período, temos uma lista das pessoas que tiveram os seus escravos 
denunciados por não pagarem a primeira matrícula de 1744, na freguesia das Catas Altas. 
Trata-se de uma relação onde encontramos as pessoas que se ausentaram na ocasião de 
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266
 AHCMM, Códice 166 – Lançamento dos reais quintos – 1723, f. 44v. 
267
 AHCMM, Códice 421 – Livro da receita de cobrança dos reais quintos – 1728-1739, f. 63v. 
118 
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feitura do rol e que por isso foram denunciadas por não pagarem a matrícula de seus 
escravos.268 
 Para o período de retorno do funcionamento das casas de fundição, no fim dos 
registros diários padronizados, por vezes havia resumos e recenseamentos de confiscos 
pertinentes a cada ano. No Livro de registro de receitas do Quinto do ouro da Intendência 
e Casa de Fundição da comarca de Sabará. 1755-1756 foram registrados confiscos como 
o de Frutuoso de Oliveira de Almeida no Paracatu, de uma oitava e um quarto, e dois 
vinténs de ouro, e o feito a Francisco Martins de Paracatu, de quarenta e cinco grãos de 
ouro. Tais confiscos eram somados e sentenciados pelo Desembargador Intendente, nesse 
caso Domingos Nunes Vieira, em 31 de julho de 1756. No mesmo livro, existem outros 
confiscos que se faziam “a bem do Real Quinto” e se faziam e julgavam por sentença.269 
 Os Livros de registro de receita do Quinto do ouro também nos trazem algumas 
indicações importantes. Para Vila Real do Sabará, em 1766 vemos que os confiscos eram 
feitos por soldados dragões. Além disso, no fim dos vários nomes dos confiscados, 
aparecia o seguinte: “cujos autos foram sentenciados pelo Dr. Antonio Manuel das Povoas 
Ouvidor Geral e Intendente desta Casa nas quais se faz verba e de como o dito Tesoureiro 
recebeu e se recolheu ao cofre das quatro chaves”270 Vê-se que depois que os soldados 
dragões faziam a cobrança, o ouvidor sentenciava o auto e o tesoureiro recolhia o valor no 
cofre das quatro chaves, o mesmo que recebia o rendimento do ouro do quinto. Registros 
de confiscos nesse tipo de livros também podem ser encontrados para a Vila Real do 
Sabará em 1770271 e para a Vila de São João del Rei em 1771.272 
 Por fim, mencionamos uma carta e um ofício em que os procedimentos sobre os 
descaminhos podem ser também visualizados. Fontes como essas não foram 
completamente analisadas até o momento, visto a urgência maior ser os registros seriados 
dos quintos. No entanto, não deixamos de mencioná-las por acreditar que apresentam 
indícios esclarecedores, que poderão ser melhor trabalhados futuramente. 
 A carta referida é de oito de agosto de 1771, em que José Ferreira Vila Nova relata 
que fez “expedir cartas circulares, a todos os comandantes, cada um do seu distrito, dos 
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268
 BN, MS-580 (3) D. 11, I-10,04,006 nº 002 – Relação de devedores e recolhimentos atrasados de 
matrículas de escravos. Vila Rica, 1741, 1744 e 1746. 
269
 APM, CC-2268; Não Microfilmado – Livro de registro de receitas do Quinto do ouro da Intendência e 
Casa de Fundição da comarca de Sabará. 1755-1756. Sabará. 310 f. 
270
 AN, 0M 1998 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Velhas. 1765-1766. 
271
 AN, 0M 2000 – Livro de registro de receita do Quinto do ouro da comarca do Rio das Velhas. 1770. 
272
 AN, 0M 1087 – Livro de registro de receita do Quinto da comarca do Rio das Mortes. 1771. 
119 
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mineiros desta qualidade” para que cumprissem a ordem de remeter uma lista dos mineiros 
e do quinto e se encaminhasse o ouro à Real Casa da Fundição. Deviam fazer a lista e lhe 
remeter, algumas ele já tinha, mas as dos distritos mais distantes ainda não tinham 
chegado. Encaminhar o ouro à Casa de Fundição era necessário para que “não leve 
descaminho, o que é devido do Nosso Soberano, em que Vossa Excelência 
extremosamentese desvela.”273 Veja-se que esse cuidado em confecções de listas se devia 
à preocupação que o ouro não fosse desencaminhado, e que em tal tarefa havia extremoso 
desvelo. 
 Finalmente, o ofício que destacamos também é feito com a preocupação de frear os 
descaminhos e contrabandos de ouro e diamantes, apontando providências para isso. O 
documento é enviado pelo governador das Minas Luis da Cunha Meneses a Rodrigo José 
de Meneses em 16 de março de 1786. Diante dos “escandalosos extravios e contrabandos 
do ouro em pó e mais diamantes que se faz desta Capitania para fora clandestinamente 
pelas mestrias veredas que tem todos estes sertões”, o governador comunicava que Sua 
Majestade ordenava a eles dois e também ao Vice Rei que “déssemos as providências mais 
eficazes, e aplicáveis a cada uma destas Capitanias”. Menciona-se o problema da 
impossibilidade de se fazer diligências em vários lugares, devia-se encontrar uma forma de 
se poder defender e guardar seus limites e em “comum acordo desempenhar este 
importantíssimo serviço de Sua Majestade”.274 
 
1.7 Da forma “que o Senado da Câmara ordenar” ou “em receita da Fazenda Real”: a 
responsabilidade institucional com a cobrança dos reais quintos 
 
O propósito a partir de agora é aprofundar a reflexão sobre a dinâmica do 
funcionamento da cobrança do quinto do ouro de Sua Majestade, utilizando como principal 
mote o complexo jogo de tomada de responsabilidades com a “matéria dos quintos”. Não 
se trata, no entanto, de apenas dizer em que época as câmaras, a Real Fazenda ou outro 
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273
 BN, MS-580(52) D.106, I-26,01,010 No052 – VILA NOVA, José Ferreira. Carta relatando o envio de 
cartas circulares aos comandantes dos distritos para cumprir a ordem de remeter uma lista dos mineiros e do 
quinto com o objetivo de encaminhar o ouro à Real Casa da Fundição. 08/08/1771. 
274
 BN, II-36,05,052 – MENESES, Luis da Cunha, governador de Minas Gerais. Ofício a Rodrigo José de 
Meneses referente ao contrabando e extravio de ouro e diamantes. Vila Rica, 16/03/1786. Além de cartas e 
ofícios, outras fontes são valiosíssimas para o tratamento do tema, que não registros mais ou menos seriados 
como são os que até agora analisamos. As devassas são um bom exemplo disso e poderão ser posteriormente 
melhor aproveitadas, como é o caso de BN, MS-580(4) D.04, I-10,05,003 – Real Casa de Fundição de Vila 
Rica. Auto da devassa realizado sobre a evasão do ouro em pó. Vila Rica, 1761. 
120 
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órgão esteve à frente da arrecadação do quinto. Cabe, mais do que isso, enxergar os 
meandros desse processo e a complexa dinâmica de realização da cobrança e demais 
atividades ligadas ao precioso quinto de Sua Majestade. E essa não é tarefa fácil. 
Destacamos que, para cumprir tal intento, julgamos ser necessário conjugar as reflexões 
com a retomada de alguns pontos das análises dos diferentes conjuntos documentais de 
livros dos quintos, sistematizando as principais informações que eles nos fornecem quanto 
aos responsáveis diretos por sua confecção. 
 Quando iniciamos nossas análises dos primeiros escassos registros dos quintos, 
destacamos o quanto tais registros da exploração do ouro nas Minas eram desordenados e 
lacunares. Compete recordar que, para tais lançamentos, que vão de 1701 até 1713, não foi 
possível identificar a instituição responsável pela confecção dos mesmos. Na verdade, 
nesse período nas Minas as instituições responsáveis pela administração ainda nem tinham 
se constituído e restava aos poderosos locais cuidar de tudo o necessário para a ocupação e 
exploração do território, como já tão apontado pela historiografia.275 
A partir de 1713, no entanto, as câmaras são verdadeiramente mencionadas como 
responsáveis pelos lançamentos dos quintos. Com a análise dos registros dos róis dos 
moradores e escravos das Minas e dos lançamentos dos quintos atrasados, pudemos 
constatar isso. Um pouco mais seriados e abrangendo um número maior de vilas e uma 
quantidade maior de anos, tais documentos foram feitos exclusivamente pelas câmaras das 
vilas, que nesse período, havia negociado a quantia de 30 arrobas anuais para o pagamento 
do quinto (que passa para 25 arrobas em 1718). Esses documentos abrangem o período de 
1714 até 1718, como vimos, sendo que os róis dos quintos atrasados chegam até o ano de 
1720. Inclusive em 1718, marco tão importante como enfatizaremos a seguir, a listagem de 
devedores é feita em nome do Senado da Câmara. 
É fato visível como os registros vão se enriquecendo na medida em que revelam 
mais e mais dados sobre a efetiva realização da atividade de arrecadação. Aos poucos vão 
surgindo livros e mais livros visando abranger todas as tarefas desempenhadas com o 
precioso metal. Tanto as câmaras quanto a Real Fazenda, para alguns anos do período 
mencionado, abrem livros para se fazer entregas e ajustar contas. As câmaras registram em 
livros específicos as entregas de ouro que lhe coubera no acordo das 30 arrobas, onde se 
destaca que todos os oficiais dela estariam presentes para a conferência do valor entregue 
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275
 Ver nota 93. 
121 
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pelo ajuste. A Provedoria da Real Fazenda, por sua vez, confecciona livros com uma 
espécie de registros de controle das parcelas entregues por devedores dos quintos e mais 
especialmente pelos cobradores que davam conta de seu rol de jurisdição. 
Assim também acontecia com os relatos daqueles que andavam pelos caminhos das 
Minas e/ou dela saíam, pagando quinto sobre o ouro que transportavam. Como vimos, 
existem registros de 1710 a 1717 com tal intuito, feitos tanto pela Superintendência quanto 
pelas câmaras, as últimas registrando especialmente as pessoas que entravam em 
determinado povoado. 
Muito parecidos com esses registros estavam os de pagamentos de quintos de 
carregações, que especificavam o produto que se carregava para dentro ou fora dos 
caminhos da Capitania. Nessas ocasiões, como vimos, ou se “pagava logo” os quintos 
sobre a dita carregação, ou se nomeava fiador “para a segurança dos quintos”. Também 
foram feitos quer pela Provedoria da Fazenda (1715 a 1721) quer pelas câmaras (1709, 
1715 a 1717). 
É possível constatar até esse momento que os poderosos locais e as câmaras 
municipais foram os grandes responsáveis pelos registros diários da coleta do precioso 
ouro devido por direito à Coroa portuguesa. No entanto, algumas atividades a ele ligadas 
também foram registradas pela Superintendência e pela Provedoria da Real Fazenda, 
quando lhes cabia receber o ouro em seus cofres, que logo após seriam conduzidos para o 
Reino. Cabe aqui, portanto, começar a atentar para a complexidade de todas essas tarefas e 
para as nuances de seus lançamentos, entendendo esses diferentes corpos com variados 
papéis e voz diante da Coroa como pertencentes a uma mesma dimensão pactuada e 
policentrada da monarquia portuguesa. 
Chegamos ao ano de 1718. Mencionamos na ocasião da análise dos registros desse 
período o quanto esse ano foi tido durante muito tempo como um marco do processo de 
centralização do poder da Coroa nas Minas. Segundo afirmado pela vasta historiografia 
sobre Minas, em 1718 teria sido retirado das câmaras o papel de cobrar os reais quintos. As 
consequências do regimento feito aos provedores de freguesia nessa ocasião teriam sido 
evidentes: “as câmaras perdiam o controle da arrecadação do quinto, da elaboração das 
listas de escravos e administração do tributo sobre as importações e da nomeação e 
fiscalização dos provedores do quinto.” Tal fato teria sido comunicado aos ouvidores e as 
câmaras teriam se queixado dessa redução de competências, pois ficariam apenas com a 
122 
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concessão de licenças às tabernas. As reclamações não teriam surtido efeito e o governador 
se justificavaaos camaristas dizendo que o rei queria aliviá-los da função de arrecadar 
quintos.276 
Acreditamos, no entanto, que esse marco foi sempre muito superestimado pelos 
pesquisadores com estudos fiscais sobre Minas. Muito se destacou o rompimento que ele 
teria causado para as câmaras municipais em questões de poder e controle da cobrança, 
sem se mencionar quando tal jurisdição teria voltado às mãos do poder local, se é que teria 
voltado. Com isso, perdeu-se de vista a complexidade do funcionamento da cobrança, de 
suas idas e vindas, e supervalorizou-se o episódio para um avanço quase que linear do 
poder da Coroa em Minas. Em trabalhos anteriores, nos dedicamos bastante a tal discussão, 
refutando tais afirmações para a Vila do Carmo, pois já em 1721, na dita vila, a “matéria 
dos quintos” teria voltado para o Senado da Câmara, pelo que nos comprovavam os 
próprios registros dos quintos, feitos por seus homens e nos seus livros.277 
 No período de 1718 a 1720, para as diversas vilas das Minas, realmente 
constatamos que os registros foram feitos pela Real Fazenda, mas também é evidente, para 
todas elas, a volta em 1721 das câmaras no controle dessa tarefa. Antes de tratarmos desse 
retorno em si, analisemos um pouco mais algumas ideias sobre tal transição. 
Nossa hipótese para esse retorno tão breve das câmaras no controle dos reais 
quintos, como já mencionamos brevemente em outros momentos, é sua ligação com o fim 
dos conflitos da revolta de Vila Rica, quando o Conde de Assumar teria chamado 
novamente os poderosos locais para atuar em tal matéria e ajudar a se restabelecer a 
normalidade da região.278 
Bem antes disso, em 30 de dezembro de 1717, o próprio Conde de Assumar já 
reconhecia, em carta ao Marquês de Angeja, o quanto se necessitava desses homens 
influentes das Minas, inclusive para a cobrança dos quintos: 
 
“(...) se estes homens [os poderosos] por uma parte, em algumas coisas, abusam do 
seu poder, em outras, são muito essenciais ao mesmo serviço de Nosso Rei, pois 
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276
 CAMPOS, Maria Verônica. op. cit., p. 171, 172. 
277
 FARIA, Simone Cristina de. op. cit. 
278
 Alguns livros dos quintos até desapareceram no levante. APM, CC-1028; Microfilme 004(5/5) 005 (1/7) - 
Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1718-1723. Vila Rica. 250 f. 
123 
�
 
 
servem aos governadores de instrumento para conseguirem cobrar os quintos, para 
reprimir os revoltosos de menos poder; para prender criminosos (...)”.279 
 
Fica claro como o governador atestava precisar dos homens poderosos das Minas, e 
eles também seriam essenciais depois dessa sua declaração. Muito se insiste ainda que com 
o fim do levante “o poder régio saiu fortalecido”,280 mas todos os indícios nos levam a 
discordar dessa afirmação. Os livros dos quintos, como há pouco mencionamos, cujos 
registros voltam a ser feitos pelas câmaras em 1721, justamente depois do fim da revolta, 
nos levam a acreditar que para que os ânimos se mantivessem tranquilos nas Minas, se 
continuaria a ter que contar com o apoio dos poderosos locais. 
 Dois trechos, coletados em Livros de registro do Quinto do ouro e da Capitação, 
podem ser mencionados para reforçar essa afirmação. O primeiro é da Vila de São João del 
Rei: 
 
“1719 para 1720 
Lançamento dos escravos lojas e vendas dos moradores desta Vila de São João Del 
Rei e seu termo para satisfação dos quintos reais do ano passado de mil e 
setecentos e vinte cuja administração passou dos Provedores às Câmaras destas 
Minas por nova resolução do seu Governador e Conde de Assumar tomada em 
Junta Geral que se celebrou em Vila Rica em o mês de outubro do dito ano de mil 
e setecentos e vinte sairão os escravos a oitava e meia de ouro cada um e as lojas a 
seis oitavas porém deve-se admitir que na conta pela qual se fez este Lançamento, 
ouve um erro muito grande que se emendou depois na soma que se declara no fim das 
Listas que se segue.” (grifo nosso)281 
 
 É possível perceber como na ocasião do feitio dos lançamentos dos escravos, lojas e 
vendas dos moradores da dita vila, se declara uma nova situação quanto à cobrança. Uma 
nova resolução do próprio Conde de Assumar, de outubro de 1720, diz que a administração 
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279
 APM SC 11 fls. 8-8v. Apud: KELMER MATHIAS, Carlos Leonardo. Jogos de interesses e estratégias de 
ação no contexto da revolta mineira de Vila Rica, c. 1709 – c. 1736. Dissertação (Mestrado em História 
Social) – Programa de Pós-Graduação em História Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de 
Janeiro, 2005. p. 95. 
280
 CAMPOS, Maria Verônica. op. cit. 
281
 APM, CC-1012; Microfilme 002(4/9) – Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1716-1720. 
São João Del Rei. 275 f. 
124 
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dos quintos “passou dos Provedores às Câmaras destas Minas”. Nesse momento, portanto, 
as câmaras voltavam com sua administração do real quinto por ordens do governador. 
 O outro trecho mencionado é de Vila Rica. Vejamos: 
 
“E as declarações dos escravos que se acham feitas neste livro pelos senhores deles e 
por outras pessoas que os davam na sua ausência se hão de achar com algumas 
declarações excesso e com outras diminuição o que procede dos escravos que se 
tomaram a Rol para pagarem os quintos para o ano de 1719 para o ano de 1720 cuja 
importância em parte se achava já cobrada em o dito ano na ocasião do levante a 
qual se tornou a o entregar a seus donos por ordem que para isso houve do 
Excelentíssimo Senhor Governador que foi o Conde de Assumar expedida ao Juiz 
Ordinário desta Vila João Domingues de Carvalho Ouvidor por ordenação para o 
que se puseram [idios] nos lugares públicos desta dita Vila e para que a todo o 
tempo conste do referido e não faça dúvida o dito excesso ou diminuição no número 
dos escravos fiz esta declaração. Vila Rica 9 de novembro de 1723. 
 Domingos Francisco Oliveira”282 
 
Por ocasião do levante, teria havido a confusão nos pagamentos relatada e uns 
teriam pagado mais do que deviam. Mas as quantias pagas em excesso seriam restituídas 
aos senhores dos escravos por ordem que o Conde de Assumar passara ao Juiz Ordinário 
da dita vila. Ou seja, o governador passara ao juiz a responsabilidade de cuidar dessas 
restituições, ordenação essa que devia ser exposta “nos lugares públicos desta dita Vila”. 
O último ponto que gostaríamos de destacar, e que deve nos fazer refletir melhor 
sobre a complexidade do processo de cobrança do quinto, diz respeito a algumas tarefas 
que continuam a ser desempenhadas pelas câmaras, mesmo no afamado ano de 1718, a 
saber, as nomeações de cobradores dos quintos. Rafael da Silva e Souza, cobrador na Vila 
do Carmo, em pedido de carta patente onde narrou toda sua trajetória de serviços, diz que 
“foi nomeado por esta Câmara em vinte e um de Março de mil setecentos e dezoito no 
lugar de Provedor dos Quintos de Sua Majestade dos distritos do Gama e Bento Rodrigues 
que serviu até fins de Julho de mil setecentos e vinte.”283 Se a câmara nomeava ainda 
alguém como provedor em 1718 para atuar até 1720, era sinal que não tinha perdido todas 
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282
 APM, CC-1039; Microfilme 007(2/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1719-1723. 
Antônio Dias. 128 f. 
283
 AHCMM, Códice 219 – Livro de registro de Provisões e Patentes – 1736-1740, f. 107v-111. 
125 
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as prerrogativas sobre a questão dos quintos. Esse registro nos ajuda a olhar com mais 
cuidado para esse período de administração dos quintos de Sua Majestade. 
 De 1721 a 1724, portanto, os quintos foram cobrados nas “Casas da Câmara”. 
Quando da implantação das casas de fundição em 1725, depois de algumas tentativas 
fracassadas, sãoainda cobrados pelas câmaras os meios quintos. Não temos muitos 
registros sobre isso, mas parece que nessa ocasião de transição entre os métodos, algumas 
quantias ainda restantes do ano de 1724 deviam ser pagas como de costume se fazia, mas 
depois haveria um determinado tempo em que deveria se pagar com o ouro já quintado. 
Após esse período, como também já mencionado, há um eco nos registros com a 
implantação das casas de fundição, de 1725 a 1736 não encontramos registro seriado 
algum sobre a cobrança dos reais quintos. No entanto, as análises que dedicamos aos 
registros de condenações e confiscos há pouco podem nos ajudar a sondar algumas 
situações. 
Ainda que a cobrança a partir de então devesse ser feita nas casas de fundição, os 
registros daqueles que foram condenados e/ou tiveram seus bens confiscados pela falta de 
pagamento do quinto, são feitos pelas câmaras das vilas, além do período que as ditas 
estariam cuidando da cobrança, de 1728 a 1739. Vemos mais uma vez o quanto é 
complexa a relação entre as atividades realmente desempenhadas pelos diversos corpos e 
instituições frente aos métodos de vigência da arrecadação. 
Mais um indício merece ser destacado nessa direção: 
 
“Cópia da petição feita ao Senado da Câmara de Vila Rica, e certidão que passou 
em cumprimento do despacho dela de 21/07/1727 
Senhores do Senado diz o Doutor Bernardo Pereira de Gusmão e Noronha que para 
certo requerimento que tem com Sua Majestade que Deus guarde lhe é necessário que 
o escrivão da Câmara lhe passe por certidão o que importaram os quintos do 
Lançamento dos anos de 1718 e 1719, e com especialidade e o que tocou pela 
repartição que se fez a Comarca de Vila Real = (...) Passe do que constar Vila Rica 21 
de julho de 1727 (...) = Certifico que provendo os Livros do Registro desta Câmara, 
nele a f. 9 – f. 31 v. se acha registrado o Lançamento dos quintos dos anos de 1717 
126 
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para o de 1718 e deste para o de 1719, do qual Lançamento consta importar (...) 
(registro dos valores)” (grifo nosso)284 
 
 Vemos que se trata de uma petição feita ao Senado da Câmara de Vila Rica no ano 
de 1727, ano de funcionamento das casas de fundição, para que o escrivão da câmara, e 
não o da dita casa, passasse certidão de rendimentos dos quintos de anos anteriores. E o 
mais curioso, a certidão a ser passada seria referente aos anos de 1718 e 1719, quando a 
Real Fazenda cuidava da coleta. E as câmaras tinham livros de registros para esses anos, 
como o excerto bem destaca. Novamente é patente como somente dizer em que períodos 
tal ou qual instituição cobrava o quinto não é suficiente. Só uma análise detida, 
verdadeiramente microanalítica desses registros, pode revelar meandros até então não 
considerados. 
Há de se lembrar ainda os registros para os quais levantamos dúvidas de serem dos 
quintos ou de outro “donativo real”, para o período compreendido entre 1727 e 1733. Com 
o mesmo padrão de lançamentos, ainda que não fossem efetivamente registros dos reais 
quintos, vimos como é importante destacar a sua existência por conta dos mesmos atores 
estarem envolvidos em sua coleta (os escrivães, tesoureiros e provedores eram 
praticamente os mesmos que se dedicavam aos quintos). Além do fato desses indivíduos 
acumularem mais essa função fiscal, vimos que quem organizava essa cobrança era mais 
uma vez a câmara municipal. 
Em 1735, data que marca o início da capitação e período para o qual também não 
temos registros seriados dos quintos, outro registro de patente, também de Rafael da Silva 
e Souza, revela detalhes interessantes. O referido cobrador, homem poderoso de Vila do 
Carmo, também cuidara da arrecadação nesse ano, como diz em sua patente: “com 
inteligência do que lhe for encarregado nele como experimentei quando se comutou o 
pagamento do Quinto Real do Ouro destas Minas em capacitação que se comutou em 
praticar em Julho de mil e setecentos e trinta e cinco.”285 
 Posterior a esse período, os registros encontrados são apenas de matrículas de 
escravos para 1737, 1738-1783, 1745, 1746, 1749; além de um censo de clérigos para o 
período de 1736 a 1745. Tais lançamentos em si, como vimos, não nos revelam mais do 
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284
 APM, CC-1039; Microfilme 007(2/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1719-1723. 
Antônio Dias. 128 f. 
285
 AHCMM, Códice 219 – Livro de registro de Provisões e Patentes – 1736-1740, f. 102v, 103. 
127 
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que o nome dos escravos e de seus proprietários, sem dados que nos esclareçam algo mais 
específico sobre a dinâmica da cobrança. No entanto, há indícios dos responsáveis 
institucionais pelos registros nesse período, lembrando que de 1735 a 1751 o sistema 
vigente era o da capitação. Friedrich Renger é um dos que menciona que no tempo de 
vigência da capitação foram as câmaras das vilas as responsáveis pelas matrículas e 
pagamentos semestrais dos quintos, pagamento este feito em pó.286 Vemos, assim, que até 
esse momento o poder de arrecadação dos quintos estava nas mãos dos poderosos locais, 
por intermédio de suas câmaras municipais, na maior parte da primeira metade do século, 
comprovando a vitalidade e grande autonomia desses corpos em tal questão fiscal. Esses 
poderes locais, em tantas ocasiões reconhecidos pela legislação portuguesa, como vimos na 
introdução, também em relação ao direito régio do quinto tiveram importância fundamental 
enquanto grupos essenciais para a organização da república na região. 
 O ano de 1751, como também vimos, marca o retorno do método das casas de 
fundição para a arrecadação do ouro das Minas. Para o ano de 1751 em si, só encontramos 
livros de matrículas de escravos, mas os registros das entregas feitas realmente nas casas 
de fundição aparecem a partir de 1755, para as diversas vilas da Capitania. De diversas 
naturezas, foram abertos livros para o processo de manifesto dos moradores do ouro que 
possuíam e/ou transportavam, como também livros para os procedimentos internos de 
conferência e contagem dos montantes recebidos. Em geral, existem registros para toda a 
segunda metade do século. 
Os lançamentos muito mais padronizados que na primeira metade do Setecentos 
indicam como se processa uma crescente uniformização dos registros dos quintos. Alguns 
eram impressos com o símbolo das armas da Coroa. Mas o aperfeiçoamento dos oficiais, 
longe de significar outro possível marco de afirmação linear do poder da Coroa nas Minas, 
demonstra uma progressiva preocupação com a organização da atividade. Apesar de uma 
maior racionalidade e centralização, característica do período em que governava o Marquês 
de Pombal (1750-1777), os órgãos da Coroa não se estabeleceram de maneira absoluta a 
dispensar de auxílio dos corpos locais. 
 Uma evidência disso é que, mesmo na época da Casa de Fundição, a ajuda dos 
poderosos locais, ainda subsistia. Em 8 de junho de 1771, em Vila Rica, o Tenente José 
Pinto da Silva fazia várias listas e relações de ouro de várias freguesias que lhe ordenou o 
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286
 RENGER, Friedrich. O quinto do ouro no regime tributário nas Minas Gerais. Revista do Arquivo Público 
Mineiro, n. 1, jul./dez. 2006, pp. 90-105, p. 101. 
128 
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Senhor Capitão Mor José da Silva Pontes (Conde de Valadares). Esse tenente devia fazer 
as listas dessas pessoas e as “notificar para o meterem na Real Casa de Fundição até 25 de 
Setembro de 1771”. Vários moradores da Vila do Carmo e de Vila Rica são listados: “a 
cuja diligência deu princípio em 20 de Setembro de 1771”, das parcelas de ouro em pó que 
achou nas buscas que fez “a todas as pessoas moradoras nos arraiais abaixo declarados e 
suas circunvizinhanças cujas foram notificadas para meterem na Real Casa da Fundição de 
Vila Rica até fim de Junho do presenteano o seguinte”. 287 Vê-se, portanto, que medidas 
complementares à entrega do ouro nas casas de fundição eram tomadas, por poderosos 
nomeados para isso e do auxílio deles se necessitava em várias ocasiões. 
 Nesse momento há de se destacar ainda, conforme nos informa Maria Beatriz Nizza 
da Silva, que paralelamente ao retorno das casas de fundição em 1750, de modo a 
estimular aqueles que se dedicavam à mineração a fazer o correto pagamento do real 
quinto, se determinou uma recompensa aos que recolhessem nas casas de fundição, no 
espaço de um ano, oito arrobas de ouro ou mais, próprio ou alheio. Os benefícios, mercês e 
honras que esses indivíduos gozariam viriam principalmente com a concessão de hábitos 
da ordem de Cristo.288 Segundo a autora, foram 51 os pedidos do hábito, inclusive do poeta 
Cláudio Manuel da Costa, filho de um cobrador por nós estudado, João Gonçalves da 
Costa. Essas entregas de ouro nas casas de fundição por particulares seguem até o século 
XIX, segundo Nizza da Silva, demonstrando mais uma vez que se necessitava de outros 
expedientes que não apenas a forma vigente de arrecadação do momento.289 
Por fim, destacamos pontos igualmente importantes sobre o estabelecimento do 
método da derrama, também no contexto da administração pombalina. Vimos, na ocasião 
das análises dos registros que do método nos restaram, que todas as listas dos devedores 
das 100 arrobas foram feitas pelos senados das câmaras das vilas das Minas. Fizeram-se as 
listas de 1760 a 1765 e em 1770 nas formas das ordens que enviavam o “Nobre Senado da 
Câmara”. O próprio Intendente remetia as listas para que os oficiais da câmara fizessem a 
arrecadação, e também volta a aparecer um cobrador para a derrama, que fazia as entregas 
no órgão das quantias recebidas de suas listas. 
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287
 BN, MS-580(63) D.81, I-26,14,071 – Certidão declarando a entrada do ouro para ser fundido na Real 
Casa de Fundição. Vila Rica, 15/11/1771. Certidão passada pelo escrivão Bernardo José de Carvalho. Em 
anexo, listas referentes ao assunto. 
288
 NIZZA DA SILVA, Maria Beatriz. Ser nobre na colônia. São Paulo: Unesp, 2005, p. 198-202. 
289
 E é interessante destacar que isso se dá apesar da mudança no método de arrecadação do quinto em 1750 
ter sido sob orientação de Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, com suas medidas 
centralizadoras. FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Derrama e política..., p. 28. 
129 
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Depois de décadas, portanto, a câmara retorna a ser formalmente a responsável 
exclusiva pela arrecadação do quinto, e em período crítico da produção, já que a derrama 
se tratava de cobrança sobre os quintos atrasados, mediante a implantação de uma cota 
fixa. Pombal teria interferido bastante na instituição desse método e recomendado em suas 
instruções a necessidade de se combater os descaminhos. Segundo a concepção pombalina, 
todos os moradores da capitania deviam servir como fiscais dos contrabandos, assim, os 
mesmos deviam ser considerados como colaboradores da execução da política colonial. As 
reformas pombalinas teriam alterado, assim, a maneira de se estruturar as relações entre a 
metrópole e a colônia, segundo Figueiredo.290 Mas independente disso, foi imprescindível 
recorrer a antigos expedientes, quais sejam, o apoio das elites locais na cobrança dos 
quintos, através das câmaras municipais, mais uma vez. 
 
1.8 Uma perspectiva renovada para se entender a “matéria dos quintos” 
 
A gestão da república em algo tido certamente como de mais importante para a 
Real Fazenda no Setecentos teve, como procuramos destacar nesse capítulo, um complexo 
tratamento ao longo de praticamente todo o século. Os quintos reais de Sua Majestade 
foram objeto, no período estudado, de diversos métodos de cobrança, de diversos tipos de 
registros, e foram geridos por várias instituições e atores. Alvo de tantas preocupações, não 
chegou a se estabelecer um mecanismo estável de arrecadação para o precioso ouro, 
negociações e ordens quanto à política de sua gestão foram constantes. Tentar deslumbrar 
esses meandros analisando os registros diários da arrecadação foi nosso desafio. 
A falta de padronização dos registros, a aridez característica das fontes fiscais, as 
lacunas de alguns anos, as idas e vindas na confecção dos livros e a diversidade de 
situações e métodos de cobrança, certamente apresentaram alguns obstáculos que não 
deixamos de admitir. No entanto, e apesar dessas questões, a riqueza das informações que 
coletamos em registros tão variados nos levou a conhecer de maneira bem detalhada a real 
dinâmica da arrecadação, guarda, acondicionamento, condução e remessa do real quinto à 
Coroa portuguesa. 
Nessas análises, acreditamos ter conseguido questionar e complexificar as tão 
recortadas periodizações da cobrança do real quinto, destacando o quanto é preciso olhar 
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290
 FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida. Derrama e política..., p. 29, 30, 34. 
130 
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para esses lançamentos com uma perspectiva verdadeiramente renovada, porque 
microanalítica e exaustiva. Só através de tal tratamento foi possível ultrapassar o 
simplismo de sistematizações tão afixadas, e destacar que independente do método que o 
quinto fosse cobrado e da instituição formal que em determinado período dele cuidasse, a 
ingerência dos outros poderes e instituições não desaparecia de repente só por delimitações 
de regimentos. Pelo contrário, tantos poderes e ambições se entrecruzavam, negociavam e 
tinham de dialogar, de forma a conter os descaminhos, tornar efetivo o envio do quinto, 
mas mais do que isso, fazer com que a atividade de arrecadação se efetivasse ali, no seu dia 
a dia. 
Esperamos no decorrer desse capítulo ter feito conhecer tais meandros da 
responsabilidade efetiva da arrecadação; o cuidado cotidiano com a atividade; a forma 
como os lançamentos se processavam diariamente nos variados lugares; o intrincado 
funcionamento das conduções do ouro até a Provedoria de Vila Rica, seguindo depois para 
o Rio de Janeiro e logo após para o Reino; os detalhes sobre o que se despendia com tudo o 
necessário para os reais quintos; e ainda os indícios sobre as condenações e confiscos aos 
que sonegavam o quinto real. 
Ao fim dessas análises nos vemos refletindo sobre as importantes chaves cognitivas 
para entender essa sociedade do ouro, expostas brevemente na introdução dessa tese, quais 
sejam, os conceitos de autogoverno, negociação, sociedade corporativa e monarquia 
pluricontinental. Tendo as bases desses conceitos como ponto norteador, constatar as 
câmaras e seus poderosos locais pensando e atuando em questões imperiais, de importância 
central à Coroa como o quinto; bem como verificar a Real Fazenda ou a Superintendência 
atuando, ainda que em muitos momentos solicitando o auxílio dos primeiros, não foge à 
lógica de como essa monarquia e essa sociedade se entendiam. As insistências das câmaras 
e das elites locais em controlar a arrecadação do quinto, década após década, não obstante 
as tentativas do poder central de se buscar outros modos de cobrança, demonstram 
persistências de práticas de autogoverno, que a própria monarquia legitimava 
constantemente no decorrer do século. Afinal, era patente a incapacidade da realeza e estar 
em toda parte e dominar todas as esferas da vida colonial. Conjugando responsabilidades 
com órgãos centrais, estruturando pactos sociais intrincados, os corpos locais ajudaram a 
tecer um complexo jogo de relações e de tomadas de responsabilidades que se 
concretizavam em seus oficiais, como trabalharemos melhor no próximo capítulo. 
131 
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Capítulo 2 
“Com toda a exatidão e bom modo”, porém “de sorte que venha pago”: atribuições, 
atuação e poder de mando da elitelocal ligada aos reais quintos 
 
Vila Real de Nossa Senhora da Conceição do Sabará, 5 de abril de mil e setecentos 
e dezoito. No livro que haveria de servir para os termos de juramentos dos provedores dos 
quintos reais, eleitos para a melhor arrecadação dessa cobrança, o escrivão da Fazenda 
Real, Antonio Narcizo, fazia o lançamento da nomeação e juramento do Sargento Mor 
Lourenço Henriques do Prado. O registro era feito nas casas de morada do Doutor 
Bernardo Pereira de Gusmão e Noronha, Ouvidor Geral e Corregedor da Comarca do Rio 
das Velhas. Nesse local teria comparecido o dito Sargento Mor, onde foi nomeado como 
Provedor dos Quintos Reais da freguesia do Rio das Pedras por provisão do 
Excelentíssimo Senhor Dom Pedro de Almeida e Portugal, Governador das Minas. O dito 
Doutor Ouvidor lhe dera o juramento dos Santos Evangelhos para que bem servisse tal 
cargo “guardando em tudo o serviço de Sua Majestade que Deus guarde, em prejuízo das 
partes”, e para isso devia seguir o Regimento feito para o dito ofício, que lhe teria sido 
entregue pelo Ouvidor, juntamente com o livro para o assento dos negros e bando do dito 
Senhor. Por fim, o provedor prometia, debaixo do dito juramento, fazer tudo conforme o 
solicitado e guardar o que o Ouvidor lhe mandara.291 
 O Regimento mencionado acima, bem como em diversos outros livros dos quintos 
analisados no capítulo 1, se trata do Regimento de que hão de usar os Provedores dos 
Quintos dos distritos destas Minas (na íntegra, ver anexo 1), feito um mês antes desse 
lançamento, na Leal Vila de Nossa Senhora do Carmo.292 Tal regimento, segundo alguns, 
foi representativo da tão aclamada retirada de responsabilidade das câmaras municipais da 
cobrança dos quintos em 1718. As consequências dele teriam sido, como já dissemos, que 
“as câmaras perdiam o controle da arrecadação do quinto, da elaboração das listas de 
escravos e administração do tributo sobre as importações e da nomeação e fiscalização dos 
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291
 BN, MS-580(71) D.21, I-26,23,014 – LIVRO dos termos de juramento dos provedores dos quintos reais 
na comarca do Rio das Velhas. Vila Real de Nossa Senhora da Conceição, 04/04/1718. Folhas numeradas e 
rubricadas por Bernardo Pereira de Gusmão e Noronha. No livro não constam as folhas 6 e 7. 
292
 Retirado de: BN, I-11,02,028 – Memória da Contadoria Geral do território da Relação do Rio de Janeiro, 
África Oriental e Ásia Portuguesa, a propósito da cobrança do quinto e de outros assuntos ligados à 
mineração, 1790. 
132 
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provedores do quinto.”293 No entanto, uma análise detida do regimento não nos confirma 
exatamente isso. Nele é possível encontrar dezesseis itens e/ou capítulos que discorrem 
sobre detalhes da atuação dos provedores dos quintos, quais sejam: sobre o processo de 
tomada de juramento dos Santos Evangelhos, juntamente com o escrivão, para o bom 
serviço de seu ofício; sobre a recolha ao seu distrito de jurisdição e a confecção dos 
assentos dos negros e das vendas; sobre as penas para aqueles que comprassem ou 
vendessem escravos e os ocultassem ou os que mudassem de distrito; sobre os escravos 
que deviam ser excetuados da cobrança; sobre as medidas que deviam ser tomadas contra 
os descaminhos através da comunicação entre provedores; sobre as ajudas que os 
provedores poderiam obter de diversos oficiais para a melhor realização de suas tarefas e 
diligências; sobre os privilégios que os provedores gozariam no dito cargo; e, por fim, 
sobre as atribuições que a câmara teria em todo o processo de cobrança, seja de 
recebimento de listas ou de escolha de oficiais. O documento é assinado por diversos 
oficiais camarários já bem conhecidos por nós, muitos cobradores dos quintos. 
 A complexidade de toda essa situação será mais evidenciada no decorrer desse 
texto, bem como toda a dinâmica do processo de arrecadação, guarda, acondicionamento, 
condução e remessa dos reais quintos tendo agora por alvo os oficiais que concretizaram 
todas essas funções. O trecho acima só testemunha o tamanho do cuidado analítico que 
devemos ter ao nos debruçar sobre esses problemas da “matéria dos quintos”. No capítulo 
1 analisamos detalhadamente como essas tarefas eram desempenhadas nas diferentes 
conjunturas de cobrança do ouro no Setecentos, quais órgãos por elas se 
responsabilizavam, além de apresentar indícios de como tais instituições conjugavam 
deveres e incumbências. Agora cumpre investigar essas atividades ligadas ao ouro do 
quinto atentando para os sujeitos que verdadeiramente as materializavam, ou seja, para os 
homens que, dia a dia, permitiam que elas acontecessem e que, por fim, o ouro devido a El 
Rei seguisse o destino que devia seguir. 
O foco desse capítulo, portanto, são os indivíduos que tornaram reais as diversas 
atividades ligadas ao ouro do quinto. São eles: os cobradores/provedores; os juízes 
ordinários, os guardas mores, os procuradores da câmara, os tabeliães e outros que 
desempenharam alguma tarefa direta ligada ao quinto; os tesoureiros; os escrivães; os 
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293
 CAMPOS, Maria Verônica. Governo de mineiros: “de como meter as minas numa moenda e beber-lhe o 
caldo dourado” 1693 a 1737. Tese (Doutorado em História), Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002. p. 
171, 172. 
133 
�
 
 
fiscais; os superintendentes, os intendentes, os ouvidores, os provedores e os 
desembargadores do ouro; os condutores; e ainda aqueles que desempenharam o que 
chamamos de ofícios de “suporte” ao real quinto, os sapateiros, os oficiais de carapina, os 
ferradores, os que vendiam os miúdos para o preparo do ouro, entre outros. Através da 
análise de todos os livros dos quintos da Capitania para o período aproximado de 1700 a 
1780, livros estes trabalhados no capítulo 1, foi possível fazer um mapeamento completo 
de todos estes oficiais (que pode ser analisado pelo conjunto de tabelas anexo a este 
capítulo, a partir da página 180). Apesar das lacunas das ditas fontes, já mencionadas em 
outras ocasiões, acreditamos que o levantamento de nomes realizado é bem expressivo do 
corpo total de oficiais que atuaram nas mais variadas tarefas que tinham como principal 
objeto o ouro do real quinto. 
O objetivo é conhecer as atribuições, a atuação e o poder de mando de todos esses 
agentes. Em outras palavras, o propósito é entender: quais funções foram atribuídas a todos 
esses oficiais; quais indícios temos de como eles realmente atuaram mediante o que se 
esperava de seu desempenho nos referidos cargos; e qual foi o papel assumido por esses 
homens frente à sociedade, ou seja, que autoridade eles adquiriram ou maximizaram 
exercendo cargos de diferentes naturezas ligados ao real quinto de Sua Majestade. 
Ampliando o já descoberto em estudos anteriores,294 procuraremos detalhar as 
ações desses homens com as atividades diárias de cobrança, com a escrituração e 
recebimento das quantias em ouro, com as diligências pelo ouro devido, com suas idas e 
vindas pelos lugarejos mais variados (usando como suporte soldados e escravos armados), 
com as cobranças em casos de sonegação, com os conflitos ligados às suas tarefas, com o 
acondicionamento do ouro para as sucessivas conduções, com o cuidado necessário nos 
transportes pelos caminhos áridos das Minas, com os procedimentos com as remessas para 
o Rio de Janeiro e para Portugal, entre outros aspectos. 
Destaca-se ainda que a atuação desses homens procurará ser evidenciada nas 
diferentes formas de cobrança do ouro no decorrer do século, ou seja, buscaremos 
investigar de que maneira esses indivíduos podiam se conservar em seus postos mesmo 
quando se alterava a sua forma e instituição (capitação, casas de fundição, etc.; e câmara 
ou Real Fazenda). A hipótese que buscaremos desenvolver é que, independente do período 
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294
 FARIA, Simone Cristina de. Os “homens do ouro”: perfil, atuação e redes dos Cobradores dos Quintos 
Reais em Mariana Setecentista. Dissertação (Mestrado em História Social) – Programa de Pós-Graduação em 
História Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010. 
134 
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e da instituição a cuidar da arrecadação, os homens influentes da localidade tendiam a 
permanecer em suas funções e se inserir no novo contexto, mantendo suas 
responsabilidades com o ouro do quinto. 
Por fim, destacamos que os cobradores dos quintos certamente receberão 
tratamento privilegiado nesse capítulo em relação aos outros, até por conta de já terem sido 
alvos de estudos anteriores. Mas outro fato é evidente, para tais oficiais, que acreditamos 
ter estado no centro do processo de cobrança em grande parte do século, temos muito mais 
informações do que para os outros a serem estudados. Entretanto, o descompasso de dados 
coletados não nos fará simplesmente desconsiderar os demais atores. Tentaremos, na 
medida do possível, conferir a devida atenção analítica a todos os agentes envolvidos com 
o real quinto. 
 
2.1 Os “homens do ouro”: os cobradores/provedores dos reais quintos 
 
“E que os oficiais deputados por El-Rei à cobrança dos quintos e a cunhar o ouro, tem 
obrigação grave, em consciência, de fazer bem, e fielmente, o seu ofício, e que não 
podem dissimular os gravíssimos prejuízos que se fazem ao patrimônio real, 
defraudado por culpa deles, de muito lucro, recebendo estipêndio do mesmo rei, que 
tem a sua atenção bem fundada, para que com fidelidade façam seu ofício.” (grifo 
nosso)295 
 
Em trabalho anterior296 tomamos a liberdade de rotular os cobradores dos reais 
quintos da Vila do Carmo de “homens do ouro”, por termos concluído serem eles aqueles 
que verdadeiramente se ocupavam do cuidado cotidiano com o ouro arrecadado para a 
Coroa Portuguesa, por conta do direito régio do quinto. Continuamos utilizando tal 
designação por acreditar que esses indivíduos eram realmente os agentes com 
responsabilidade central, direta e efetiva com o precioso ouro do quinto durante quase todo 
o século nas Minas. Naquele momento, procuramos investigar um pouco da atuação e 
atribuições desses homens, além de traçar um perfil social básico do grupo. Agora cumpre 
estender a investigação às demais vilas da Capitania e aprofundar as análises, detalhando 
melhor as tarefas que se esperavam que fossem desenvolvidas pelos indivíduos que 
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295
 ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia Limitada, 1982. p. 182. 
296
 FARIA, Simone Cristina de. op. cit. 
135 
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ocupassem tão importante cargo, as atividades que eles realmente desempenharam no dia a 
dia do trabalho com o ouro, bem como o poder de mando que provavelmente exerceram 
em sua localidade em decorrência dessa honrosa ocupação. 
Desde 1695 esses indivíduos já estariam atuando na colônia, quando Carlos 
Pedroso da Silveira foi nomeado guarda-mor das minas e depois provedor dos quintos na 
casa de fundição de Taubaté.297 Nas Minas, em 1700 já poderiam ser encontrados os 
primeiros provedores para a cobrança dos quintos reais.298 Já eram nomeados para o ofício: 
“efetivamente, como fosse descoberto o metal em Minas Gerais, no ano de 1690, e os 
mineiros se multiplicassem, nomearam-se, em 1700, provedores e escrivães, encarregados 
da arrecadação do quinto.”299 O governador Artur de Sá, durante sua visita às Minas entre 
1701 e 1702, nomeou vários indivíduos que deviam zelar pelos interesses da Coroa em 
assuntos tais como a cobrança dos quintos reais.300 Esses homens ainda deviam ser 
responsáveis pela arrecadação da finta, controle do ouro recebido e remessa à Provedoria 
da Fazenda Real, além da fiscalização da sonegação de escravos.301 
Algumas referências esparsas como essas sobre a presença de cobradores dos 
quintos nas Minas podem ser encontradas em estudos de alguns pesquisadores, ainda que 
em trabalhos que apenas tangenciem o tema da arrecadação dos quintos. Algumas dessas 
indicações podem ser encontradas em trabalhos anteriores.302 No entanto, o objetivo nesse 
momento não é retomá-las e sim procurar outras indicações, em todos os livros dos quintos 
estudados para a Capitania. O propósito do texto nesse instante segue nessa direção. 
Primeiramente cabe mencionar que, por mais que rotulemos esses indivíduos por 
“homens do ouro”, não era esse o termo atribuído ao seu cargo pela sociedade em que se 
inseriam. O ofício recebeu diferentes denominações no decorrer do tempo e nas diferentes 
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297
 HOLANDA, Sérgio Buarque de. Metais e pedras preciosas. In: História Geral da Civilização Brasileira – 
A época colonial – Administração, economia, sociedade. Vol. 2. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 
1973. p. 259-310. 
298
 GOUVÊA, Maria de Fátima Silva. Dos poderes de Vila Rica do Ouro Preto: notas preliminares sobre a 
organização político-administrativa na primeira metade do século XVIII. Varia História, Belo Horizonte, n. 
31, janeiro 2004. p. 120-140, p. 123. 
299
 ESCHWEGE, Wilhelm L. Von. O quinto do ouro. In: Pluto Brasiliensis. Vol. 1. Belo Horizonte: Ed. 
Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1979. p. 133. 
300
 BOXER, Charles Ralph. A idade de ouro do Brasil: dores de uma sociedade colonial. 3. ed. Rio de 
Janeiro: Nova Fronteira, 2000. p. 75. 
301
 FIGUEIREDO, Luciano Raposo de Almeida, CAMPOS, Maria Verônica (coord.). Códice Costa Matoso. 
Coleção das notícias dos primeiros descobrimentos das minas na América que fez o doutor Caetano da 
Costa Matoso sendo ouvidor-geral das do Ouro Preto, de que tomou posse em fevereiro de 1749 & vários 
papéis. São Paulo: Fundação João Pinheiro, 1999. p. 116. 
302
 FARIA, Simone Cristina de. op. cit. 
136 
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localidades, todas comprovadamente referindo-se ao mesmo cargo pelas fontes que 
tivemos acesso. As denominações mais recorrentes foram as de cobrador dos reais quintos 
e provedor dos reais quintos. Mas, por vezes, também apareceram: cobrador da lista da 
derrama, provedor da cobrança dos quintos, provedor da arrecadação dos quintos, 
arrecadador dos reais quintos, alistador e recebedor dos quintos. É importante iniciar 
fazendo alusão a esse detalhe de classificação para evitar possíveis incertezas quanto a 
essas denominações não se tratarem da mesma natureza de atividade. Pelos vários indícios 
que encontramos, podemos afirmar que todos os termos acima se referiam ao mesmo grupo 
responsável pela arrecadação do real quinto do ouro das Minas. 
Passemos agora propriamente às analises das fontes que nos permitiram conhecer 
os pormenores do funcionamento do cargo de cobrador dos quintos nos variados lugarejos 
das Minas. Em um primeiro momento, portanto, percorreremos cronologicamente tais 
fontes que nos trouxeram detalhes sobre o referido ofício. Em um segundo momento, 
trabalharemos com as oito tabelas resultantes do mapeamento de todos os cobradores dos 
quintos da Capitania, buscando encontrar algumas primeiras evidências sobre a 
composição desse corpo de oficiais ligado ao ouro de Sua Majestade. (tabelas essas anexas 
a esse capítulo, a partir da página 180) 
 
2.1.1 “Com boas e sãs consciências assim o fariam”: os cobradores dos quintos 
em atividade 
 
Iniciamos nossas análises com algumas vagas referências dos primeiros anos de 
ocupação das Minas. Ainda que, como visto, a historiografia nos informe que desde o ano 
de 1700 já possam ser encontrados nas Minas os primeiros cobradores dos quintos, pelos 
livros trabalhados encontramos uma primeira indicação somente em 1709. Em tal período, 
como vimos no capítulo 1, os registros dos quintos eram feitos de maneira muitodesordenada e os documentos restantes são muito lacunares. Ainda assim, em 22 de abril 
do dito ano, em um registro da Vila Real do Sabará, encontramos um lançamento que dava 
a informação que Francisco Velozo havia cobrado de várias pessoas 1251 oitavas de ouro. 
Certamente o dito Francisco Velozo fora responsável pela cobrança na vila nesse ano. No 
mesmo livro, em 1713, fora recebedor da comarca Antonio Soares Ferreira de 811 ½ 
137 
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oitavas de ouro.303 Tais indicações, portanto, só trazem o nome dos possíveis cobradores e 
o valor que receberam, mais nada. No entanto, já nos permite verificar esses oficiais em 
atividade. 
O ano de 1714 já inaugura um período de informações muito mais detalhadas. 
Como também vimos no capítulo 1, nesse ano as câmaras municipais já cuidavam da 
arrecadação, antes a cargo somente de alguns poderosos locais. Vejamos o primeiro trecho 
com informações importantes sobre a tarefa dos cobradores: 
 
“Nós os Oficiais da Câmara desta Vila ordenamos ao Capitão Domingos Ferreira 
da Costa cobre das pessoas conteúdas neste Rol as quantias em que por ele conste 
estarem lançados dos quintos Reais e não pagando logo prenderá a todos e os 
mande a Cadeia desta Vila a nossa ordem e lhes tomem bens que bastem para as 
ditas quantias de que fossem lançados e são devedores e poderá executar da mesma 
sorte a todos os vizinhos e camaradas daquelas pessoas que lhe constará se tem 
ausentado, e para esta cobrança poderá ocupar todos os oficiais de justiça e Milícia 
que lhe forem necessários e outras quaisquer pessoas e os que lhe não 
obedecerem os prenderá a nossa ordem que se proceder contra eles e serem 
remetidos ao Senhor General para os castigar como for servido e a importância deste 
rol que são duzentas e dezoito oitavas entregará neste Senado dentro do termo de 
oito dias de que mandarmos passar o presente por nós assinado. Vila Real doze de 
Julho de mil setecentos e catorze anos. Lourenço de Souza Roussado o escrivão da 
câmara o sobrescrevi. 
 Antônio de Sáa Barbosa 
 Antonio Mendes Teixeira 
 João Velho Barbosa” (grifo nosso)304 
 
Como se pode ver, o registro acima, pertencente ao Livro de registro de receita do 
Quinto do ouro e da Capitação. 1714-1716 da Vila Real do Sabará, traz ricas informações 
sobre as funções que o cobrador dos quintos devia desempenhar. Primeiramente, destaca-
se que eram os oficiais da câmara que passavam uma ordem a determinado indivíduo, 
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303
 APM, CC-1001; Microfilme 001(1/7) – Livro de registro de arrematações de ofícios e passagens, 
confiscos de escravos vindos da Bahia, extratos de descobrimento das minas, datas de terras, Quinto do ouro 
e outros rendimentos de Sabará, Serro, Vila Rica, Vila do Carmo e Pitangui. [17- ]. Vila Rica. 68 f. 
304
 APM, CC-1010; Microfilme 002(2/9) – Livro de registro de receita do Quinto do ouro e da Capitação. 
1714-1716. [Vila Rica]. 128 f. 
138 
�
 
 
nesse caso o Capitão Domingos Ferreira da Costa, para que fizesse a cobrança dos quintos 
na referida vila. Se houvesse recusa no pagamento, o dito capitão devia prender tais 
pessoas, levá-las à cadeia e fazer sequestro dos bens que cobrissem a quantia devida. 
Assim devia fazer com todos os que se “ausentassem” de seu pagamento. Logo depois, os 
camarários também instruem o Capitão Domingos de que para esta cobrança poderiam 
contar com oficiais de justiça, de milícia, e quaisquer outras pessoas que fossem 
necessárias, que, por sua vez, não deviam se negar a prover ajuda. Nesse momento, fica 
evidente o quão importante era a tarefa e que os instrumentos ao alcance dos cobradores 
deviam ser muitos. Por fim, os oficiais da câmara ainda estabelecem o prazo em que a 
cobrança devia ser feita: oito dias.305 
 Outro registro da mesma vila nos esclarece alguns outros detalhes sobre esse prazo. 
Após um lançamento de devedores, encontramos o mesmo modelo de ordem de cobrança, 
dessa vez ao Capitão Manuel Pereira do Rosário, em 01/08/1714. O dito capitão também 
recebia as mesmas recomendações que o Capitão Domingos, também ele poderia “usar de 
todos os poderes que nos concede o Senhor General e ocupar nesta diligência todos os 
oficiais” que fossem necessários. Igualmente deveria, dentro do termo de oito dias que 
principiavam daquela data, cobrar as pessoas do seu rol, que somava 755 oitavas de ouro. 
Logo após a ordem encontramos, no entanto, as entregas feitas pelo referido capitão, duas 
em 14/08/1714 e uma em 25/08/1714, ou seja, a quatorze e vinte e cinco dias da 
ordenação.306 Para outras freguesias da vila o prazo podia chegar a doze ou quinze dias.307 
Mas o que é possível depreender, enfim, é que as entregas eram feitas, ainda que em várias 
parcelas, mas não necessariamente no prazo estipulado pelos oficiais camarários. 
Certamente isso se devia aos percalços dos caminhos e às próprias dificuldades de receber 
de todos os devedores já na primeira visita. Mas essas são apenas suposições. 
 Para o ano de 1715 nos deparamos com um trecho onde efetivamente se nomeiam 
cobradores para a cobrança dos reais quintos. Vejamos como eram feitos esses 
lançamentos: 
 
 “Freguesia de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto 
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305
 Idem. 
306
 Ibidem. 
307
 Doze dias para a frequesia de Santo Antonio do Rio das Velhas Acima até Itaubira, e quinze dias para as 
freguesias de Nossa Senhora dos Raposos e Curral del Rei. 
139 
�
 
 
Aos vinte e três dias do mês de Novembro de mil setecentos e quinze anos na dita 
Casa da Câmara aí os ditos Juízes e Vereadores e Procurador do Concelho 
mandaram vir perante si Francisco Viana Farto, Bento Martins, João Monteiro 
Santiago, José da Costa Freitas, o Capitão Manuel Gomes, João Gonçalves Batista 
todos moradores na dita freguesia os quais haviam sido eleitos em câmara para 
com eles se fazer este Lançamento e sendo presentes os ditos Juízes lhe deram o 
Juramento dos Santos Evangelhos que cada um deles recebeu e encarregaram que 
debaixo do dito Juramento declarassem as pessoas e moradores da dita freguesia, 
Lavras, negros, e roças que cada um deles tem, e se estão ou não empenhados para 
conforme suas posses se fazer o Lançamento declarado no princípio deste Livro e 
sendo pelos sobreditos assisto o dito Juramento debaixo dele prometeram que com 
boas e sãs consciências assim o fariam, em virtude de que os ditos Juízes e mais 
oficiais da Câmara fizeram este Lançamento com a informação e pareceres dos 
sobreditos pela forma e teor seguinte de que os ditos Juízes mandaram fazer este termo 
que assinaram com os mais oficiais da Câmara e Lançadores Miguel de Andrade 
Ferreira escrivão da Câmara e quintos o escrevi = Gama = Gandabo = Viegas = 
Menezes = Oliveira = Lopes = Francisco Viana Farto = João Monteiro Santiago = 
Manuel Gomes da Silva = João Gonçalves Batista = José da Costa Fristes =” (grifo 
nosso)308 
 
 Vê-se claramente que o trecho acima se trata de uma nomeação de cobradores para 
a Vila Rica do Ouro Preto em 23/11/1715. Quem os elege para fazer os lançamentos dos 
quintos é a câmara da dita vila, através de seus juízes, vereadores e procurador. Alguns 
indivíduos aparecem nesse dia, todos moradores da dita freguesia, para tomar o juramento 
dos Santos Evangelhos, prometendo “com boas e sãs consciências” se encarregar de 
declarar os moradores da localidade, lavras, negros e roças de cada um. Perceba-se que 
todos eram moradores da região, por certo homens conhecidos pelos demais e entre os 
mais influentes para exercer o cargo em sua freguesia. O fato de residirem na localidade de 
cobrança também nos faz inferir, como já investigamos em outro momento,309 que fossem 
os mais aptos para fazer a cobrança devido às variadas distâncias que tinham quepercorrer 
para receber o quinto do ouro. Além do mais, fazer a cobrança do próprio lugar de 
residência trazia a vantagem de já conhecerem o território e aqueles que nele habitavam. 
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308
 APM, CC-1010; Microfilme 002(2/9) – Livro de registro de receita do Quinto do ouro e da Capitação. 
1714-1716. [Vila Rica]. 128 f. 
309
 FARIA, Simone Cristina de. op. cit. 
140 
�
 
 
Essas hipóteses também deverão ser melhor desenvolvidas quando nos debruçarmos sobre 
outros tipos de fontes. 
Em 1716 temos outras indicações relevantes. Em registro de 25/01/1716 de Vila 
Rica, para o “Lançamento dos quintos de Sua Majestade”, o Capitão Manuel Gomes da 
Silva e o Alferes João Pires Duarte são reconhecidos como “pessoas fidedignas e capazes e 
serem os sobreditos nomeados neste Senado para a dita cobrança”.310 Vimos há pouco, na 
famosa citação de Antonil, que os cobradores dos quintos deviam agir com fidelidade para 
exercer “bem e fielmente” seu ofício. Agora nos é esclarecido que também deviam ser 
pessoas fidedignas e capazes. Além do mais, quando faziam seus juramentos, como 
também vimos, prometiam “com boas e sãs consciências” que assim cumpririam as 
funções a eles confiadas. A tarefa de arrecadar o quinto devia ser, portanto, desenvolvida 
como ato de consciência, como bons e fiéis vassalos os cobradores deviam preservar 
valores de uma monarquia católica e sua função devia lhes conduzir a uma fidelidade 
moral ao rei, como a Deus. 
Menciona-se ainda no registro acima que esses homens deviam cobrar do 
lançamento do Arraial do Ouro Preto doze assentos que faziam a importância de 2.129 
oitavas de ouro. Essa quantia devia ser cobrada “logo metade de cada um dos ditos 
assentos” e a outra metade dentro no período de três meses a partir daquela data.311 Vê-se 
um prazo muito maior do que o acima mencionado, talvez por conta da quantia ser maior, 
certamente referente a uma quantidade maior de pessoas a serem cobradas. 
 Em 1716 também conhecemos que, por vezes, o cobrador podia recusar o posto que 
lhe era concedido. Em 18 de março do dito ano, em Vila Rica, João Monteiro Santiago é 
absolvido da cobrança dos quintos no Rodeio da Itatiaia “por justas causas”. Assume a 
cobrança Francisco da Rocha Barboza. Infelizmente não temos como saber quais seriam 
essas “justas causas”, mas o fato é que essa referência é única. Pelo menos não 
encontramos mais nenhum pedido, até o momento, de afastamento do cargo de cobrador 
dos quintos. Certamente seu significado social e/ou outro tipo de benefício e distinção era 
muito expressivo para que pudesse não ser desejado.312 
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310
 APM, CC-1010; Microfilme 002(2/9) – Livro de registro de receita do Quinto do ouro e da Capitação. 
1714-1716. [Vila Rica]. 128 f. 
311
 Idem. 
312
 Ibidem. 
141 
�
 
 
 No mesmo ano ainda, no Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 
1716-1721, de São João Del Rei, encontramos uma referência interessante sobre possíveis 
pagamentos feitos aos cobradores dos quintos. Esse tipo de informação é muito raro e 
realmente não se tem notícias que o cargo recebesse uma remuneração fixa e mensal como 
muitos outros nesse período. A referência, do distrito de Lagoa Dourada e Congonhas, é a 
seguinte: “Graça que se fez ao cobrador do que devia deste Lançamento, que importa 21 ¼ 
em remuneração da despesa, e trabalho, que teve com esta cobrança”.313 Reconhece-se, 
portanto, o trabalho e os gastos do cobrador com a cobrança através dessa pequena 
gratificação de pouco mais de 21 oitavas de ouro. No capítulo 1, quando nos dedicamos a 
estudar as despesas feitas com o real quinto, vimos apenas algumas indicações de 
pagamentos feitos a condutores e soldados em diligências pelo ouro; a tabeliães e juízes 
por tarefas pontuais com lançamentos e cobrança do quintos; e aos escrivães dos quintos, 
os únicos com salários realmente determinados por fazerem os lançamentos dos quintos. 
Mas ao cobrador tal lançamento é mesmo uma novidade, e certamente não se refere a uma 
remuneração fixa pela atividade realizada que, ao que tudo indica, era muito mais 
sinônimo de distinção do que fonte de rendimentos. Não que essas duas esferas pudessem 
ser incompatíveis, até porque não temos como mensurar quaisquer outros benefícios 
econômicos do exercício da função que não fossem esses devidamente registrados 
formalmente. 
O ano de 1717 também traz documentos muito expressivos e detalhados sobre as 
atribuições e atuação dos cobradores dos quintos. Apesar da sua extensão, acreditamos que 
o trecho abaixo mereça ser citado na íntegra, pela riqueza das informações que oferece. 
Trata-se de um registro da Vila de São João del Rei: 
 
“Os oficiais da Câmara desta Vila de São João del Rei, que servimos este presente 
ano de 1717. 
Encarregamos a João Pinto do Rego e à João de Oliveira, a cobrança e arrecadação 
das adições conteúdas neste Rol que importam quatrocentas e setenta oitavas, e um 
quarto de ouro, que é o em que foram lançados para os Quintos Reais os Moradores de 
Rio acima, este presente ano de mil e setecentos e dezessete: e os ditos Cobradores 
terão cuidado, de logo logo, sem demora, fazerem logo esta cobrança, em razão 
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313
 APM, CC-1019; Microfilme 003(4/9) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1716-1721. 
São João Del Rei. 123 f. 
142 
�
 
 
de estar no Rio de Janeiro uma Nau de Sua Majestade que Deus guarde; 
esperando pelo ouro de seus Reais Quintos, para os levar para a Corte, e ter por este 
respeito, este Senado apertadas ordens do senhor General, para se fazer logo 
Remessa dos Quintos desta Comarca. 
Os ditos Cobradores examinarão se se acha no dito Bairro, algum Morador 
demais, que escapasse de ser tomado à Rol, ou viesse para aí morar, depois de se ter 
tirado o Rol e achando-se algum ou alguns lhes lançarão os Escravos que tiverem na 
forma dos mais. Vila de São João del Rei, em Câmara, 14 de Agosto de 1717. Eu 
José da Silveira de Miranda escrivão da Câmara e quintos que o saber escrevi. 
 José Matol 
 Vilas Boas da Cunha 
 Manuel de Carvalho Botelho 
 Manuel Simões de Azevedo 
 João Andrade de Matos” (grifo nosso)314 
 
O rol de moradores, onde se encontra esse lançamento, traz dados para os diversos 
distritos da Vila de São João. Na lista de cada localidade vamos encontrando sucessivos 
pormenores que nos ajudam a visualizar a ação desses homens. No trecho acima, do 
distrito de Rio Acima, vimos como mais uma vez a câmara encarregava pessoas para a 
arrecadação e cobrança do real quinto em cada distrito de suas vilas. Aqui a informação 
complementar que temos acesso é que os cobradores deviam fazer a cobrança sem demora 
por já se encontrar no Rio de Janeiro uma nau aguardando para levar os ditos quintos para 
a Corte. A remessa dos quintos, dessa forma, devia ser feita com toda a brevidade possível 
e exigia que esses cobradores fossem muito eficazes. As recomendações seguintes iam na 
direção de se evitar o descaminho que pudesse ocorrer. Os cobradores deviam examinar 
com cuidado se faltava alguém que escapasse de se declarar e assim proceder ao dito 
lançamento. Assinavam o registro vários oficiais da câmara, dando fé à referida ordem. 
As relações das demais localidades, como dissemos, vão trazendo instruções ainda 
mais detalhadas da ação dos cobradores, em ordens da câmara como essas. No Rol do 
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314
 BN, MS-580(3) D.03, I-10,04,003 No001 – Câmara de São João del Rei. Rol dos moradores de Rio 
Acima, São João del Rei, Brumado, Villa, Caminho do Campo, Itaberaba, Noruega, Caminho Novo, Lagoa 
Dourada, Camapão, Congonhas, Ponta do Morro, Prados, Bichinho, Arraial Velho,Corrego, Caminho Velho, 
Rio das Mortes Pequeno e Rio Abaixo. São João del Rei, 1717. Precedido por um documento datado de 1849 
(provavelmente não pertencente ao códice): cobrança dos quintos considerando-se o número de moradores e 
escravos, lojas e vendas. 
143 
�
 
 
Bairro de Brumado atenta-se que o cobrador deveria ter cuidado de examinar se se 
achavam mais moradores “que escapassem de serem tomados a Rol” para que com o 
lançamento destes se compensasse o que se perdia: “para que este pequeno acréscimo 
possa suprir as grandes falhas que a experiência dos anos passados tem mostrado serem 
inevitáveis nesta Cobrança dos Quintos, e especialmente nos Longes que esta comarca 
abrange com sua jurisdição”.315 Vê-se aqui o reconhecimento da impossibilidade de se 
conter o descaminho do ouro e os prejuízos dele resultantes, bem como os obstáculos 
gerados pelas distâncias da comarca. Entretanto, se os cobradores se esforçassem em fazer 
bem seu ofício, buscando cercar os que tentavam escapar da declaração, poderia se 
diminuir tamanhas falhas com a cobrança. 
No rol de Itaverava e Noruega vemos ainda outras recomendações. Os cobradores 
deviam fazer sua diligência “com toda a exatidão e bom modo”, mas se alguma pessoa não 
pagasse deviam fazer apreensão de seus bens, e se fossem estes “de capa em colo”, pobres, 
portanto, deviam os prender para que a justiça da vila procedesse como fosse justo. No Rol 
do Caminho Novo, declara-se de forma ainda mais clara que os cobradores deviam fazer a 
cobrança “com toda a exatidão, e bom modo; porém de sorte que venham pagos”, ou seja, 
se com bom modo não se conseguisse receber o ouro dos quintos devia-se recorrer a outros 
instrumentos para que fossem pagos. Se moradores se opusessem e os cobradores não 
conseguissem superar essa resistência, recomendava-se ainda que deviam fazer um auto 
contra o resistente “em que especificarão o Termo de Palavras e Obras com que o dito se 
opor a esta Cobrança”.316 
No Rol da Ponta do Morro e Prados, encontramos uma referência parecida com 
aquela que há pouco mencionamos sobre uma remuneração, ou melhor, uma gratificação 
concedida a um cobrador dos quintos. Nesse ano de 1717 nessa localidade, o cobrador 
André Francisco Coelho é que recebe 8 ¼ oitavas de ouro “pelo trabalho e despesa que 
teve nesta Cobrança”.317 Mais uma vez trata-se, acreditamos, de uma quantia muito 
simbólica pelo que o cobrador gastara quando fora fazer a cobrança. 
Por fim, estes róis da Vila de São João del Rei de 1717, para a localidade de 
Itaberava e Noruega, ainda nos fazem conhecer outro aspecto muito importante da 
realização das atividades do cobrador, quanto à ajuda que lhe devia ser conferida. Há 
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315
 Idem. 
316
 Ibidem. 
317
 Ibidem. 
144 
�
 
 
pouco vimos que eles podiam recorrer aos oficiais de justiça e milícia e quaisquer outras 
pessoas que fossem capazes de oferecer alguma ajuda. O trecho abaixo já nomeia todos 
aqueles “principais vassalos” que deviam colaborar para o “bem” da cobrança: 
 
“E porque a execução da diligência desta cobrança dos Reais Quintos, carece na dita 
paragem de Itaberava, e Noruega, ou pode carecer do Adjutório, e zelo dos principais 
vassalos que Sua Majestade tem na dita paragem havemos por muito encarregado aos 
ditos e especialmente ao Capitão Antônio Bueno da Veiga; ao Capitão Mateus de 
Matos; ao Capitão Rafael de Oliveira Cordeiro; ao Capitão Antônio Dias Ferreira; ao 
Capitão Manuel da Costa de Araújo; ao Capitão Francisco Bueno; ao Capitão 
Francisco Jorge da Silva, e mais senhores principais que na dita paragem habitam, 
dêem aos ditos Cobradores todo o Adjutório que para o bem desta cobrança lhes 
for pedido; e concorram para o bom sucesso dela, com tudo o que estiver nas suas 
mãos, por ser assim serviço del Rei tão relevante como é a arrecadação dos seus 
Reais Quintos. Dado nesta Vila de São João del Rei em Câmara aos 11 de Agosto de 
1717. E eu José da Silveira e Miranda escrivão da Câmara e quintos que o subscrevi.” 
(grifo nosso)318 
 
No Rol do Caminho Velho também se menciona que devia ser dado ao cobrador 
“todo o adjutório que para o bem desta cobrança lhes for pedido” e ainda se enfatiza a 
razão de que essa ajuda fosse concedida “por ser assim serviço del Rei, tão Relevante, 
como é a arrecadação de seus Reais Quintos”, mesma razão mencionada acima. 
 Continuando nosso percurso cronológico pelos livros dos quintos, esmiuçando seus 
registros em busca de maiores informações sobre os cobradores dos quintos, chegamos ao 
ano de 1718 e ao lançamento do Regimento de que hão de usar os Provedores dos Quintos 
dos distritos destas Minas, mencionado no início desse texto.319 Naquele instante apenas 
mencionamos as principais matérias tratadas pelo regimento: a confecção dos assentos, as 
penas por sonegação, as medidas contra os descaminhos, etc. Agora analisaremos melhor 
alguns itens do afamado documento que teria marcado a tomada pela Real Fazenda do 
controle da cobrança dos reais quintos, até por conta de ter buscado estabelecer as 
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318
 Ibidem. 
319
 Dom Rodrigo Castelo Branco estabeleceu um regimento para o provedor das minas, já em 13 de agosto de 
1679, buscando regular a atuação desses homens e seus substitutos. Mas uma regulamentação maior viria 
apenas com esse regimento que agora analisamos. CAMPOS, Maria Verônica. op. cit., p. 37, 38. 
145 
�
 
 
principais diretrizes de funcionamento do cargo. Não retomaremos todos os capítulos do 
documento, que podem ser consultados no anexo, mas sim analisaremos alguns dos itens 
que podem trazer componentes adicionais à análise que vimos desenvolvendo. Veremos 
ainda até que ponto tais instruções foram seguidas ou se já eram praticadas antes da 
emissão desse regimento. 
 Os pontos mais básicos apontados pelo regimento, quanto ao levantamento do 
número de escravos e vendas de cada proprietário, à arrecadação da taxa por cabeça em sua 
área de jurisdição, às penas a serem aplicadas em ocasiões de descaminhos, entre outros, já 
eram obedecidos por esses oficiais, bem como instruções para o seu bom cumprimento já 
eram seguidas pelas câmaras, como vimos acima. Tais pontos, com o regimento de 1718, 
são apenas mais destacados, centralizando na figura do provedor as diversas atividades 
com os quintos, agora a ele deveriam prestar contas todos aqueles que desempenhassem 
qualquer ação que repercutisse na cobrança, como os que comprassem ou vendessem 
escravos. O décimo terceiro capítulo do regimento, inclusive, destaca que o provedor dos 
quintos, no exercício de seu ofício “gozará as honras, privilégios, e isenções, que são 
concedidas em Portugal aos Almoxarifes, e Tesoureiros da Fazenda Real, e terão os 
mesmos despachos que pelo Regimento das mercês pertencem aos Oficiais da Fazenda 
Real”.320 Confere-se a esse oficial, portanto, honras importantes, reservadas também a 
oficiais da Real Fazenda do Reino. 
 Destacamos agora dois capítulos importantes sobre a comunicação entre os 
provedores dos quintos e a ajuda que lhes devia ser oferecida de diversos oficiais. O 
capítulo décimo nos informa que o provedor que tivesse notícia de que no distrito de outro 
provedor houvesse negros sendo sonegados deveria avisá-lo. Essa comunicação mútua 
seria importante para se evitarem os descaminhos, pois se castigando pessoas que isso 
fizessem tornar-se-ia mais suave a “contribuição dos quintos”.321 Não encontramos, até o 
momento, nenhum indício dessa comunicação, mas acreditamos que ela realmente tenha 
acontecido. Em trabalhos anteriores, vimos como os provedores dos quintos em Mariana se 
conheciam e teciam redes de relações das mais diversas naturezas.322 
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320
 Retirado de:BN, I-11,02,028 – Memória da Contadoria Geral do território da Relação do Rio de Janeiro, 
África Oriental e Ásia Portuguesa, a propósito da cobrança do quinto e de outros assuntos ligados à 
mineração, 1790. 
321
 Idem. 
322
 FARIA, Simone Cristina de. op. cit., cap. 3. 
146 
�
 
 
 O capítulo décimo segundo já regulamenta uma prática que, pelo que pudemos 
constatar, se verifica desde 1714. Tal capítulo determina que todos os oficiais de justiça e 
de guerra de qualquer graduação deviam dar favor e ajuda aos provedores dos quintos no 
que fosse preciso, por conta “do bom efeito das diligências dos seus Oficiais”. Se assim 
não fizessem, ou tivessem alguma dúvida de conceder esse favor, deviam ser presos e 
privados de seu posto, a não ser que estivessem ocupados com alguma outra diligência de 
Sua Majestade.323 Vimos há pouco que ao que tudo indica essa ordem já era cumprida. Em 
1717 constatamos, inclusive, que se indicam os nomes daqueles que deviam ajudar os 
cobradores. Ou seja, bem antes dessa regulamentação já é possível ver que todo um corpo 
de poderosos locais atuava conjuntamente para o sucesso de tão importante arrecadação. 
Sublinhamos agora uma série de capítulos que nos fazem questionar o fato do 
regimento ter significado um marco da tomada de responsabilidades da Real Fazenda com 
a cobrança dos quintos. O intrigante é que, apesar desse fato ser constantemente afirmado 
pela historiografia,324 o próprio texto do regimento aponta para funções que a câmara ainda 
devia desempenhar. Vejamos. 
O capítulo nono diz que o provedor era obrigado a mandar fazer a lista de todas as 
vendas e lojas do distrito de sua jurisdição e as remeter, juntamente com a lista dos 
escravos “aos Oficiais da Câmara onde tocar, quando por eles lhe forem pedidas”.325 Ora, 
se as câmaras não deviam mais cuidar da cobrança a partir desse momento, por que se 
deveriam enviar a elas as listas dos quintos? Com que propósito os oficiais das câmaras 
pediriam as listas aos provedores se não fosse para coordenar a arrecadação? 
Outro capítulo que intensifica essas nossas considerações é o décimo quinto, 
dedicado ao processo de escolha dos provedores. Vejamos: 
 
“As Câmaras escolherão para os distritos de seu Termo, as pessoas que neles forem 
mais abonadas, e sem empenhos para senão valham do Ouro dos Quintos, e outrossim 
tenham prudência, autoridade, e respeito, e deles escolherão três que me consultarão 
para eu nomear a que me parecer mais conveniente entre os da dita Consulta, ou de 
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323
 Retirado de: BN, I-11,02,028 – Memória da Contadoria Geral do território da Relação do Rio de Janeiro, 
África Oriental e Ásia Portuguesa, a propósito da cobrança do quinto e de outros assuntos ligados à 
mineração, 1790. 
324
 CAMPOS, Maria Verônica. Governo de mineiros... 
325
 Retirado de: BN, I-11,02,028 – Memória da Contadoria Geral do território da Relação do Rio de Janeiro, 
África Oriental e Ásia Portuguesa, a propósito da cobrança do quinto e de outros assuntos ligados à 
mineração, 1790. 
147 
�
 
 
fora conforme a melhor opinião que tiver do sujeito mais capaz de exercer este 
Ofício.”326 
 
Nesse capítulo fica claro, como se pode ver, que as câmaras deveriam escolher 
pessoas influentes, abonadas, com prudência, autoridade e respeito para exercer o ofício. 
Reparem-se quantos atributos deveriam ser considerados. Desses indivíduos três passariam 
ainda pela consulta do governador para que ele fizesse as nomeações. Novamente é visível 
que as câmaras conservavam mais essa atribuição, já tão sistematicamente executada, o 
que nos leva a crer que mesmo depois de 1718 os poderosos locais, através do referido 
órgão, se mantinham cuidando do real quinto. Se o poder local continuava presente dessa 
forma, atuando com os mesmos agentes ou com agentes tão poderosos na localidade 
quanto no período anterior, que sentido teria essa “retirada” de responsabilidades da 
câmara? 
Por fim, o décimo sexto capítulo nos dá mais uma vez a dimensão do poder 
atribuído a esse oficial e quem eram aqueles os que assinavam o regimento, junto com o 
governador. O texto desse último capítulo diz que frente às inconstâncias e imprevistos dos 
descaminhos e feitos contrários ao “bem Comum” e à “Fazenda Real”, deixava-se “ao 
prudente arbítrio do dito Provedor tudo o que neste Regimento não vai disposto, para que 
com a sua inteligência, zelo, e atividade obre o que for mais conveniente sobre esta 
matéria”, ainda que devesse dar conta de tudo o que aparecesse de novo para que o 
governador desse a providência necessária. É mais uma vez notável como se centralizam 
no provedor as incumbências mais incertas que fossem sobre a cobrança. E mais atributos, 
além dos citados, deviam ser característicos de seu agir: inteligência, zelo e atividade em 
qualquer matéria. Documento feito na Leal Vila de Nossa Senhora do Carmo aos quatro 
dias do mês de março de 1718, era assinado pelo governador Dom Pedro de Almeida e seu 
Secretário do Governo Domingos da Silva. No entanto alguns oficiais da câmara também 
assinavam, eram eles: Guilherme Mainarde da Silva, Paulo Martins da Gama, Manuel Dias 
de Menezes, Faustino Rebelo Barbosa, Feliciano Pinto de Vasconcelos, Manuel Rodrigues 
Soares, Teodózio José Duarte Crespo, Bento Fernandes Furtado, Silvestre Marques da 
Cunha e Pedro de Araújo e Azevedo.327 Vários desses indivíduos foram cobradores dos 
���������������������������������������� �������������������
326
 Idem. 
327
 Ibidem. 
148 
�
 
 
quintos em período anterior e posterior a esse, como se pode verificar nas tabelas que 
seguem em anexo. 
Depois da emissão do regimento passam a ser constantes as referências a ele nos 
registros dos quintos seguintes, com a informação de que tudo se fazia em conformidade 
com esse documento. As recomendações que o regimento faz parecem ser seguidas e os 
provedores dos quintos continuam desempenhando suas tarefas como já vinham fazendo, 
ainda que de 1718 a 1720 prestassem contas diretamente à Real Fazenda, como vimos no 
capítulo 1. Os proprietários iam perante o provedor, por vezes na sua própria casa, e 
declaravam a quantidade de negros possuída. Também mencionavam quando tinham 
escravos domésticos ou os que não estivessem aptos para o serviço, para que não 
entrassem na soma sobre os quais pagariam o direito. Nessa ocasião, prestavam juramento 
e assinavam o termo para atestar que diziam a verdade, juntamente com o provedor, e o 
escrivão registrava toda essa operação. 
O interessante a se destacar mais uma vez, e que merecerá maior atenção em outros 
capítulos, é que os oficiais a exercer o cargo continuam entre os poderosos da localidade. 
Relembramos o caso de Rafael da Silva e Souza, cobrador da Vila do Carmo, que em 
pedido de carta patente onde narrou toda sua trajetória de serviços, diz que “foi nomeado 
por esta Câmara em vinte e um de Março de mil setecentos e dezoito no lugar de Provedor 
dos Quintos de Sua Majestade dos distritos do Gama e Bento Rodrigues que serviu até fins 
de Julho de mil setecentos e vinte.”328 Perceba-se: Rafael da Silva e Souza foi nomeado 
pela câmara em 21/03/1718, 17 dias após a emissão do regimento, e em conformidade a 
ele, já que também instruía que a câmara continuasse com a nomeação. 
Sigamos, no entanto, mais adiante. E vejamos o que mais os próximos registros 
revelam sobre as atribuições, atuação e poder de mando dos cobradores dos quintos. Ainda 
em 1718 temos um documento muito interessante relatando um processo de mudança de 
distrito, de conhecimento do provedor, aliás, do próprio Rafael da Silva e Souza. 
Aos dezessete dias de outubro do referido ano aparecia diante do provedor dos 
quintos, o referido Coronel Rafael da Silva e Souza, Caetano de Melo. O último solicitava 
ao provedor que dessebaixa no seu livro dos seus escravos, pois “por não ter neste distrito 
conveniência nenhuma nem lavra de que viver a tinha solicitado nas cabeceiras do Ribeiro 
de Santo Barbosa donde estava de viagem”. No entanto, depois dessa baixa, Caetano de 
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328
 AHCMM, Códice 219 – Livro de registro de Provisões e Patentes – 1736-1740, f. 107v-111. 
149 
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Melo teria obrigação de se apresentar, em oito dias, perante o provedor dos quintos do 
outro distrito, o Capitão Mor Manuel Antunes de Azevedo, ou outro que estivesse presente 
naquele lugar, e se não o fizesse estaria sujeito às penas previstas pelo regimento. Rafael 
da Silva e Souza, perante o escrivão dos quintos João de Andrade Rabelo, concede a 
descarga dos ditos escravos e manda que se faça o termo dessa concessão. O provedor 
assina o registro e Caetano de Melo coloca uma cruz, certamente por não saber escrever.329 
Vê-se nesse registro um exemplo de situação, como o regimento previa, onde se devia dar 
conta ao provedor de uma mudança. E a ocasião narrada demonstra mais uma das funções 
desempenhadas por esse oficial, de controle dos que entravam ou saíam dos locais de sua 
jurisdição. 
Em registros de 1719 para a Comarca do Rio das Velhas tomamos conhecimento de 
outra situação, um cobrador servindo por outro. Em 31 de janeiro, encontramos a 
declaração do Tenente Coronel Antonio Pereira de Macedo, morador na Vila Real do 
Sabará, “em lugar do Capitão Manuel Lopes Machado que o estava servindo”. E em oito 
de fevereiro o Capitão Hipólito de Barros Leitão, morador na freguesia da Vila Nova da 
Rainha, servia “em lugar do Mestre de Campo Manuel Rodrigues Soares”.330 Nada é 
mencionado sobre os motivos dessas substituições e é difícil supor sobre quais seriam. O 
fato é que era possível pedir-se ajuda para outra pessoa na ocasião de alguma(s) 
diligência(s) e uma substituição temporária podia acontecer. 
Encerrando as discussões em torno desse período, destacamos mais uma função 
desempenhada pelos cobradores, as entregas à Provedoria da Fazenda das quantias 
cobradas de quinto. Mencionamos o caso do Tenente Coronel Antonio Pereira de Macedo, 
provedor dos quintos da freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Vila Real, que 
entregava na Fazenda Real, em 06/11/1719, 5253 oitavas e ½ de ouro “por conta dos 
escravos e lojas de sua provedoria”. O provedor declara que nesse valor entrava ainda “o 
que cobraram outros provedores de pessoas que se mudaram para suas provedorias”. Da 
entrega se passava conhecimento assinado pelo Provedor da Fazenda Real, o Doutor 
Bernardo Pereira de Gusmão, e pelo escrivão da fazenda Real, Francisco Xavier Alves 
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329
 APM, CC-1033; Microfilme 005(6/7) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1718-1721. 
Carmo. 260 f. 
330
 BN, MS-580(71) D.21, I-26,23,014 – LIVRO dos termos de juramento dos provedores dos quintos reais 
na comarca do Rio das Velhas. Vila Real de Nossa Senhora da Conceição, 04/04/1718. Folhas numeradas e 
rubricadas por Bernardo Pereira de Gusmão e Noronha. No livro não constam as folhas 6 e 7. 
150 
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Pereira.331 Esse tipo de conhecimento se passava a todo provedor que fizesse entrega na 
dita comarca e nos atesta mais uma responsabilidade que cabia a esse oficial, logo após que 
cumprisse a arrecadação em seu distrito de jurisdição. 
 Alcançamos o ano de 1721 quando, como também visto no capítulo 1, as câmaras 
voltam a cuidar da arrecadação do quinto. O que mudaria nas tarefas dos cobradores nesse 
momento? No que compete à sua nomeação, como vimos, parece certo que em 1718 não 
houve um rompimento das atribuições do órgão municipal, e os provedores continuaram, 
grosso modo, desempenhando suas funções como faziam antes da emissão do documento. 
No entanto, no que compete à gerência de suas atividades, os registros sublinham que esses 
homens passam a responder novamente às ordens diretas dos oficiais das câmaras em 
1721. Vejamos com calma. 
A partir desse ano, continuava cabendo aos cobradores dos quintos o alistamento 
dos escravos e vendas de cada proprietário e a coleta dos mesmos do quinto real em sua 
área de jurisdição. E eles lançavam os dados nessas listas “bem e fielmente de seu próprio 
original”, mas segundo relato deles mesmos, por “mandado dos oficiais da Câmara”.332 As 
entregas do ouro arrecadado eram feitas, portanto, na câmara, nas mãos do tesoureiro dela, 
onde ficava guardado nos seus cofres até que continuasse seu destino aos cofres de El Rei. 
Nesse período também fica claro o quanto os cobradores atuavam em casos de sonegação 
ou qualquer tipo de ausência dos declarantes e que comunicavam essas ocasiões à câmara. 
Na verdade as referências a condenações aparecem em 1701 e vão se detalhando melhor ao 
longo das décadas, como também já vimos no capítulo anterior. Nesse período, até por 
volta de 1732, ao fim das listas de escravos e vendas que os provedores entregavam às 
câmaras, por vezes havia uma relação de pessoas condenadas ou com bens confiscados. 
Vejamos um exemplo de entrega do ouro arrecadado que faziam os provedores às 
câmaras nesse período: 
 
 “Passagem 
Em aos sete dias do mês de março de mil setecentos e vinte um anos nesta Leal 
Vila de Nossa Senhora do Carmo carrego em receita ao Tesoureiro o Capitão 
Manuel Cardoso Cruz duas mil sessenta e sete oitavas e meia de ouro que lhe 
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331
 APM, CC-1039; Microfilme 007(2/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1719-1723. 
Antônio Dias. 128 f. 
332
 APM, CC-1046; Microfilme 007(9/10) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação. 1720-1723. 
São José. 87 f. 
151 
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entregou o Sargento Mor Jacinto Pinto de Magalhães morador na Passagem 
procedidas de oitocentos e vinte oito negros, e de quarenta e quatro vendas, que as 
devia para o cômputo das vinte e cinco arrobas de ouro dos quintos do ano de mil 
setecentos e dezenove para os de mil setecentos e vinte a respeito de duas oitavas e 
quatro vinténs que tocou a cada escravo, e de sete oitavas que tocou a cada 
venda, de que o lhe dito foi cobrador, e assinou aqui comigo e com o juiz mestre de 
campo Manuel de Queiroz, e a dita parte se lhe passou certidão desta entrega para sua 
descarga eu Hilário Antônio de Araújo escrivão da Câmara o escrevi.”333 
 
 Esse trecho já foi citado em outro momento, mas o mencionamos agora visando 
corroborar o que acabamos de mencionar sobre o tipo de entrega que o cobrador fazia do 
ouro do quinto que recebia a partir do ano de 1721. Vê-se nele que, em determinado dia, o 
cobrador comparecia diante do tesoureiro da câmara e lhe entregava uma quantia 
específica de ouro de sua área de cobrança, referente a uma quantidade de negros e vendas 
desse local. Junto com o juiz e o escrivão da câmara, o provedor dos quintos assinava a 
dita entrega. Até 1724 temos registros como esse, nos quais os cobradores continuam 
atuando da referida forma. Além dessas entregas, por vezes os provedores dos quintos 
nesse período, iam diante do provedor da Fazenda Real para prestar contas. Esse foi o caso 
do provedor do Caminho Velho, o Sargento Mor Tomé Rodrigues Nogueira, que em 
21/03/1721 compareceu nas casas do Provedor da Fazenda Real, o Doutor Jerônimo 
Correia de Amaral, “para efeito de dar contas das cobranças que fez dos quintos do dito 
caminho nos anos de 1718 e 1719”.334 
 Anexamos abaixo agora uma provisão ao cargo de provedor dos quintos, feita pelo 
Governador Dom Lourenço de Almeida a José Ferreira Pinto, cobrador do distrito dos 
Gualachos do Sul em 1723 e de 1729 a 1732, onde aparecem sistematizados muitos dos 
aspectos que vimos mencionando sobre as atribuições esperadas desse oficial e das 
responsabilidades comsua eleição. Na dita provisão, de 18/01/1723, fica claro como o 
governador o nomeava na função, mas deixava dito que à câmara cabia dar posse e 
juramento dos Santos Evangelhos. É interessante ainda atentar para as recomendações 
detalhadas dadas pelo governador, que colocamos em destaque, onde ressaltamos 
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333
 AHCMM, Códice 648 – Livro de recebimento dos quintos de ouro – 1721-1735, f. 2. Esse livro no 
catálogo está denominado como de 1721 a 1735, mas só cobre os anos de 1721, 1722, 1727 e 1728. 
334
 APM, CC-1031; Microfilme 005(4/7) - Livro de registro do Quinto do ouro e da Capitação pelo sargento-
mor Tomé Rodrigues. 1718-1720. Baependi. 100 f. 
152 
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principalmente o que enfatiza sobre a obrigação do provedor de executar em tudo as ordens 
da câmara, além da atenção que devia ter com as obrigações mais específicas da sua 
função. 
 
“Dom Lourenço de Almeida do Conselho de Sua Majestade que Deus guarde 
Governador e Capitão General das Minas do ouro. & 
Faço saber aos que esta minha provisão virem que tendo respeito aos merecimentos e 
capacidade do Capitão José Ferreira Pinto, e confiar dele que em tudo o de que 
encarregar servirá com grande satisfação, hei por bem de o nomear, e prover no 
ofício de Provedor dos quintos reais do distrito de Gualachos termo desta Vila de 
Nossa Senhora do Carmo, que servirá enquanto eu o houver por bem, ou Sua 
Majestade não mandar o contrário, e a Câmara da dita vila lhe dará posse, e 
juramento dos Santos Evangelhos para bem servir o dito ofício, e as ordens e 
regimento do que deve observar nas obrigações dele, que observará 
pontualmente, e lhe recomendo que tenha grandíssimo cuidado na averiguação 
dos negros, para que se façam bem as Listas com toda a inteireza e não haja 
subnegados, havendo os porém dará parte à dita câmara, executando em tudo as 
suas ordens, como acima lhe ordeno; e para firmeza de tudo lhe mandei passar esta 
provisão por mim assinada, e selada com o sinete das minhas armas que se cumprirá 
como nela se contém; registrando-se nos Livros da Secretaria deste governo e nos 
mais que tocar. Dada nesta Vila do Carmo aos 18 de Janeiro de 1723. O Secretário 
Manoel de Fonseca de Azevedo o subescrevi. 
 Dom Lourenço de Almeida” (grifo nosso)335 
 
Concluindo os indicativos que essa época nos dispôs, acrescentamos algo sobre o 
tempo que desprendiam os cobradores no cumprimento de suas tarefas, tendo por base 
também outros documentos, que não apenas os seriados livros dos quintos. Para alistar 
todos os escravos e vendas da Passagem do Ribeirão e Morro de Mata Cavalos, distrito da 
Vila do Carmo, em 1723, Domingos Mendes dos Santos levou exatos 33 dias. Pela sua 
lista verifica-se que começou a relação em 16 de fevereiro e acabou no dia 29 do mês 
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335
 ANTT, José Ferreira Pinto – HOC, Letra J, m. 96, n. 55. Nomeação semelhante também encontramos para 
Nicolau da Silva Bragança, cobrador no distrito do Furquim por longos 10 anos. AHU, Cons. Ultra.-
Brasil/MG, manuscrito 8, caixa 1, documento 9, 1705, 0, 0. VÁRIOS documentos relativos aos serviços 
prestados por Nicolau da Silva Bragança, sargento-mor da Cavalaria de Ordenança da Vila do Ribeirão do 
Carmo e seu termo. 
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seguinte do dito ano.336 Já Rafael da Silva e Souza, também cobrador da Vila do Carmo, 
correu o distrito “fazendo lista dos escravos e notificando os mineiros para pagarem os 
quintos antes de satisfazerem com o ouro aos credores gastando nisto quarenta dias fora de 
sua casa e à sua custa, resultando desta diligência muito aumento nos mesmos quintos que 
andavam muito extraviados.”337 E isso só para fazer as relações. Para a cobrança dos 
montantes do quinto, tinham de voltar várias vezes a locais já visitados, para receber o 
restante das suas listas, como já mencionamos. 
 O período de 1725 a 1736 é uma lacuna nos registros dos quintos. Não há 
lançamento algum para essa década, tanto que nos permitam conhecer a dinâmica da 
arrecadação, como destacamos no capítulo 1, quanto que nos tragam indícios da presença 
ou não de cobradores dos quintos em atuação. No entanto, documentos de outra natureza 
nos trazem alguns indícios, mais uma vez do cobrador da Vila do Carmo, Rafael da Silva e 
Souza. Em 1735, o referido cobrador, também cuidara da arrecadação do real quinto, como 
diz em sua patente: “com inteligência do que lhe for encarregado nele como experimentei 
quando se comutou o pagamento do Quinto Real do Ouro destas Minas em capacitação que 
se comutou em praticar em Julho de mil e setecentos e trinta e cinco.”338 Nesse ano, 
portanto, de instituição da capitação, existiam cobradores para o real quinto, e que ainda 
eram dos mais poderosos da localidade, já atuantes desde décadas anteriores. 
 Há que se lembrar ainda, conforme mencionamos no capítulo 1, a dúvida colocada 
sobre os provedores do donativo real atuando de 1727 a 1733, indivíduos estes que seriam 
ou não provedores dos reais quintos. Ainda que não se tratasse da cobrança do real quinto, 
mas do donativo para os casamentos dos príncipes do Brasil e das Astúrias, como já 
acentuamos, o fato é que praticamente os mesmos indivíduos estavam cuidando de mais 
essa cobrança fiscal em prol da Coroa. E para esse efeito, desempenhavam praticamente a 
mesma função de alistamento de escravos, vendas, lojas, etc. e entrega nos cofres das 
câmaras dos valores recebidos de cada distrito de sua jurisdição.339 
 Após esses registros, as referências aos cobradores são bem pontuais, também por 
conta da falta de fontes que nos permitam saber mais sobre os agentes em atividade. Como 
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336
 AHCMM, Códice 652 – Reunião de listas de escravos – 1735, f. 1v, 62v. 
337
 AHCMM, Códice 774 – Livro de registro de patentes e provisões – 1725-1755, f. 150-152. 
338
 AHCMM, Códice 219 – Livro de registro de Provisões e Patentes – 1736-1740, f. 102v, 103. 
339
 Na Tabela 1 dos cobradores dos quintos reais da Vila do Carmo, optamos por incluir os nomes desses 
provedores do donativo real, até por conta de serem praticamente os mesmos indivíduos que cobravam os 
reais quintos. A inclusão se justifica também porque há possibilidades dessa cobrança ser efetivamente do 
real quinto, já que um dos livros dizia isso em seu enunciado. 
154 
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vimos no capítulo 1, para esse período praticamente só temos livros de matrículas de 
forros, mais nada. Quando se inicia o ano de 1751 e são novamente instituídas as casas de 
fundição, as referências também são poucas, e só voltam a revelar uma atuação efetiva 
desses homens quando a derrama é cobrada. Mas vejamos com calma. 
Para 1751, em Vila Rica, encontramos uma procuração do governador Dom Gomes 
Freire de Andrada a Domingos de Morais. O último devia “cobrar na Provedoria da 
Fazenda Real, destas Minas, os meus soldos propinas, e Capitações de Escravos, que como 
Governador, e Capitão General que sou desta Capitania me pertence passando as quitações 
Recibos, e ressalvas necessárias”.340 Repare-se que nesse ano foram instituídas as casas de 
fundição e, mesmo assim, o governador nomeia um cobrador para os quintos, para 
“capitações de escravos”, demonstrando que apesar do retorno das casas de fundição, se 
podia necessitar de outros apoios de particulares poderosos. 
Em 1771 também temos algumas referências pontuais de pessoas que deviam 
cobrar de outras o ouro que devia ser metido na Casa de Fundição de Vila Rica. O Tenente 
José Pinto da Silva fazia lista do ouro que achou nas freguesias que lhe ordenou o Conde 
de Valadares, Senhor Capitão Mor José da Silva Pontes. Ele devia notificar às várias 
pessoas constantes nessa lista de entregar o ouro para o meterem na Real Casa de Fundição 
até 25 de Setembro

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