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1 EDUCAÇÃO E TRABALHO – 2018.2 CONTEÚDOS DAS UNIDADE I & II R E V I S Ã O & S Í N T E S E Prof. Dr. Dalton Alves Coordenador de Educação e Trabalho LIPEAD/UNIRIO/CEDERJ UNIDADE I – GÊNESE HISTÓCIA E CONCEITUAL DO TRABALHO, DA EDUCAÇÃO E DA ESCOLA: APROXIMAÇÕES E CONTRADIÇÕES INTRODUÇÃO Prezados/as discentes, nesta revisão iremos pontuar, comentar e explicar alguns dos temas e conceitos principais que vocês devem ter bem claros e compreendidos para o aproveitamento e o desenvolvimento dos conhecimentos relacionados a esta Unidade do Programa da Disciplina. Os temas e conceitos chaves desta parte do nosso curso/disciplina são os conceitos de trabalho, educação, escola em seu desenvolvimento histórico e social, da antiguidade até o Período Moderno e inícios da Época Contemporânea (Séculos XVI ao XIX). Então, partiremos da compreensão do que é trabalho e processo de trabalho e do seu significado e importância no processo de humanização, ou seja, no processo de formação do ser humano, de como o animal humano se torna um ser humano e qual o papel do trabalho neste processo. Liga-se a isto a razão do surgimento da educação e da escola, de como isto está associado necessariamente às formas de trabalho que os seres humanos construíram ao longo da história. Em outras palavras, podemos afirmar, por assim dizer, que a educação é ato segundo e a escola é ato terceiro decorrentes dos modos de os seres humanos se organizarem para o trabalho. Em havendo mudanças no processo de trabalho, alteram-se, consequentemente, os modos de se entender e realizar a educação e a escola. Todavia, esta não é uma via de 2 mão única, na qual a educação e a escola apenas são determinadas pelo trabalho, servindo apenas como veículos de reprodução e submissão às formas históricas do trabalho em dado momento histórico, não lhes cabendo nenhum protagonismo no movimento da história. Ao contrário disto, se verá que a educação e a escola têm também um importante papel na criação e no desenvolvimento das conformações sociais historicamente existentes. Num processo dialético e contraditório as formas de educação e de escola, depois de condicionadas pelo trabalho, retornam sobre este intervindo e condicionando sua forma de organização provocando novas alterações no processo de trabalho, que retornam, por sua vez, novamente, sobre a educação e a escola provocando novas mudanças nestas num processo ininterrupto, dialético, de implicações mútuas no devir da história, das quais irão emergir as sociedades tais quais as conhecemos hoje. CONCEITO DE TRABALHO / PROCESSO DE TRABALHO: a) Conceito e gênese histórica do Trabalho e do seu papel como atividade central de produção da existência humana no processo de humanização. Bem, feitas estas ressalvas, o que podemos entender por trabalho ou processo de trabalho? Vejam, em primeiro lugar, devemos esclarecer que os usos dos termos “trabalho” e “processo de trabalho”, tem por objetivo enfatizar que o termo “trabalho”, isoladamente, não oferece uma compreensão adequada para aquilo que deve ser entendido por este termo. Isoladamente, o termo “trabalho” é uma abstração. O termo “processo de trabalho”, por sua vez, oferece uma noção mais objetiva daquilo que se quer significar com o uso do termo “trabalho”, pois, em última instância, trata-se sempre do processo de trabalho, isto é, do método de organização e de realização da produção, do processo produtivo. Por exemplo, o processo de trabalho dos primeiros grupos humanos na face da terra, na Pré-História, tinham como método a coleta, caça e pesca, não dominavam ainda a habilidade de produzir o próprio alimento e não domesticavam os animais, não fabricavam o próprio abrigo etc. Eram totalmente dependentes do que o ambiente que os 3 cercava, a natureza, lhes provinha. Por isto, migravam de uma região para outra sempre que as condições de sobrevivência em dado território ficavam escassas ou comprometidas. Eram nômades. Por outro lado, quando desenvolveram a capacidade de cultivar e de domesticar os animais puderam se fixar em determinado território, tornaram-se sedentários e, ao contrário do período do nomadismo, os seres humanos passaram a “forçar” a natureza a produzir segundo as suas necessidades, quantidades e de acordo com o tempo humano. Assim, passaram a depender cada vez menos da “vontade” da natureza. Eles passam a interferir e alterar o curso natural das coisas, instituindo o “tempo humano”. E conforme avançavam no conhecimento do ciclo da natureza, do metabolismo dos animais e de si mesmos, na criação de instrumentos de trabalho e de técnicas para a realização das ações as quais precisavam para atender às suas necessidades de subsistência, aumentava, também, a sua capacidade produtiva, extraindo da natureza toda matéria-prima disponível e depois transformando-a, modificando-a, adaptando-a ao seu modo de vida e às suas necessidades humanas. É neste sentido que Saviani (Texto 05, 06 e Vídeo 01) irá dizer que ao contrário dos animais, que se adaptam à natureza, os seres humanos adaptam a natureza a si. E isto só foi possível à espécie humana devido ao processo de trabalho. Ora, afinal, o que é então trabalho? Trabalho/processo de trabalho é, nesta acepção, uma atividade de transformação da natureza em benefício da existência humana. Conforme afirma Saviani, A medida em que determinado ser natural se destaca da natureza e é obrigado, para existir, a produzir sua própria vida é que ele se constitui propriamente enquanto homem. Em outros termos, diferentemente dos animais, que se adaptam à natureza, os homens têm que fazer o contrário: eles adaptam a natureza a si. O ato de agir sobre a natureza, adaptando-a às necessidades humanas, é o que conhecemos pelo nome de trabalho. Por isto podemos dizer que o trabalho define a essência humana. Portanto, o homem, para continuar existindo, precisa estar continuamente produzindo sua própria existência através do trabalho. Isto faz com que a vida do homem seja determinada pelo modo como ele produz sua existência. (SAVIANI, Texto 05, p. 02, grifos nossos). Esta “atividade” é uma ação criativa, própria dos seres humanos, de fazer existir o que não existia, de criar o novo. Essa ação de trans-forma-ação nada mais é do que esta capacidade humana de, pela sua “ação” direta, poder “transcender”, “ir além” da “forma” natural dada e atribuir-lhe outro formato, mais adequado aos interesses e necessidades 4 humanas. Pense na árvore, que na natureza em estado bruto, in natura, é derrubada pelo homem e dela ele faz uma mesa, uma canoa, madeiramento para construção de abrigos etc. A matéria continua sendo a árvore, mas, na forma, ela foi trans-formada em outra coisa, distinta e imprevista pela natureza, porém, mais adequada aos seres humanos. Imprevista pela natureza pois não se viu até hoje uma cadeira, mesa ou canoa brotando do chão da terra ou como fruto de uma árvore qualquer. Trata-se de algo que para existir precisou da intervenção humana, do seu trabalho e que sem isto ela não existiria. Faça um exercício e olhe a sua volta, neste momento, e de tudo que você pode observar o que aí é totalmente natural, espontâneo, gerado pela natureza, sem intervenção humana alguma. A água é encanada, a luz é artificial, até o ar é condicionado, se possuir aparelho de ar-condicionado ou ventilador etc.. Por isto tudo se percebe o quanto os seres humanos rompem com o padrão natural das coisas, impondo o seu padrão: humano. É bom que se diga que “artificial” significa, em linhas gerais, o que se faz por arte ou indústria; produzidopelo homem; que não é natural. Neste caso podemos afirmar que o mundo artificial é o mundo propriamente humano, criado por ele e é o que o diferencia dos demais seres da natureza. Porém, vale lembrar, que nunca o ser humano irá se desligar totalmente da natureza, pois sempre ele será parte dela também. Os seres humanos são sim diferentes, mas não completamente independentes da natureza. Então, todo tipo de trabalho é uma ação de “trans-forma-ação” (ação de modificar a forma natural de algo), ação de criação. Daí que podemos afirmar que o trabalho é o processo pelo qual o homem ser-biológico/natural se transforma em homem ser- social/cultural. O processo de trabalho, assim, é o meio pelo qual o animal humano se torna propriamente ser-humano. Ele transcende o seu padrão natural herdado da natureza e o transforma em algo “imprevisto” pela natureza, o ser-social, donde irá surgir a Sociedade. O homem sempre enfrentou problemas em sua luta pela sobrevivência, para solucioná-los ele foi criando e inventando soluções a partir dos recursos da própria natureza [...] Para se defender do frio e o ataque de outros animais, o homem teve que aprender a produzir e a controlar o fogo, todo o planeta era muito frio, todos os diferentes grupos espalhados pela terra do planeta precisavam de fogo. É provável que cada grupo tenha descoberto diferentes técnicas de produzir fogo com os recursos e conhecimentos de que dispunham. Tudo o que o homem inventava, criava e aprendia ia sendo aplicado na solução de outros problemas, na criação de novas soluções. O domínio do fogo, por exemplo, surgiu da necessidade que o homem tinha de se proteger do frio, mais tarde o fogo passou a ser utilizado para coser alimentos, transformar metais, fabricar peças mais resistentes. Aos poucos o 5 homem foi transformando o ambiente, criando novos elementos que antes não existiam na natureza. Sempre que o homem assimilava novas técnicas e soluções ele e seu grupo se transformavam. O homem pré- histórico, por exemplo, era caçador nômade e não possuía abrigo fixo, abrigava grutas e cavernas, e dependiam de atividades de caça, pesca e coleta. (FONTE: Vídeo-Aula: “O Homem e a Cultura”. Telecurso 2º. Grau, s/d.). O homem sempre extraiu da natureza tudo aquilo que precisava para sobreviver. Seu alimento, seu abrigo, suas vestimentas. Mas as maneiras de extrair os elementos da natureza mudaram muito ao longo do tempo. Nos primeiros tempos de sua vida na terra os homens viviam unicamente da coleta, da caça e da pesca. Eles se alimentavam somente de animais e plantas que ocorriam na natureza. Com o tempo o homem foi desenvolvendo instrumentos que facilitavam o seu trabalho na busca da sobrevivência. Eram instrumentos feitos de pedra, osso e madeira talhados e lascados. (FONTE: Vídeo-Aula: “Pré-História e História”. Telecurso 2º. Grau, s/d.). A concepção ontocriativa do trabalho e o seu papel no processo de humanização não é outra coisa senão isto. E é este processo de criação de si, de autoprodução do próprio ser, da sua essência, um processo também pedagógico-educativo. Isto será retomado e desenvolvido mais adiante. Por ora fiquemos com a noção da importância do trabalho na formação do Ser do Homem. Trata-se do trabalho como princípio ontológico de formação do Ser/Essência do Homem em seu processo de humanização. O termo processo de humanização, é bom que esclareçamos, implica que o homem não nasce ser humano, ele torna-se humano. Ao nascer a criança tem as pré-condições biológicas para se tornar humana, mas ela somente se tornará humana efetivamente se receber os condicionamentos sociais, necessários, para isto. Pense, o que aconteceria com um bebê humano se ao nascer fosse abandonado à própria sorte? Sem outro humano para alimentá-lo, cuidar dele, protegê-lo do frio, calor etc., o que aconteceria? Mesmo passada esta fase inicial, se depois a criança não contar com outro humano para ensiná-la a andar, falar, se alimentar, como seria o desenvolvimento dessa criança? Conforme Paulo Freire, “Ninguém nasce feito. Vamos nos fazendo aos poucos, na prática social de que tornamos parte” (FREIRE, 2001, p. 40)1. E mais ainda: segundo Immanuel Kant, O homem é a única criatura que precisa ser educada. Por educação entende-se o cuidado de sua infância (a conservação, o trato), a disciplina e a instrução com a formação. Consequentemente, o homem é infante, educando e discípulo [...] A espécie humana é obrigada a extrair de si mesma pouco a pouco, com suas próprias forças, todas as 1 Cf. FREIRE, Paulo. Política e educação: ensaios. 5ª. ed. São Paulo: Cortez, 2001. 6 qualidades naturais, que pertencem à humanidade [...] O homem não pode se tornar um verdadeiro homem senão pela educação. Ele é aquilo que a educação dele faz. Note-se que ele só pode receber tal educação de outros homens, os quais a receberam igualmente de outros. (KANT, 1999, p. 11-15)2. Em outros termos, podemos afirmar, com base nisto, que o homem nasce inacabado e somente se faz Ser Humano pela cultura. Por cultura entendemos tudo aquilo que é feito pelos seres humanos, que não deriva de geração espontânea, natural. Por exemplo, uma árvore na floresta é natureza, uma árvore no jardim é cultura, está ali para atender a uma necessidade humana, seja ela estética ou qualquer outra. 2 Cf. KANT, Immanuel. Sobre a pedagogia. 2ª. ed. Piracicaba, SP: Editora UNIMEP, 1999. 7 E ainda no vídeo-aula: O Homem e a Cultura, vemos que No processo de desenvolvimento da espécie humana cada grupo teve uma produção cultural específica, como instrumentos, costumes, crenças e modos de vida diferentes. É que desde os tempos mais remotos cada grupo humano, em ambientes diferentes, enfrentou problemas diferentes e criou diferentes soluções. Cada grupo humano acumulou os seus próprios conhecimentos de diferentes maneiras. 8 Assim, quando pensamos na formação de uma cultura podemos compreender que este processo não depende do tipo físico de cada grupo, nem da raça a qual pertence. Portanto, brancos, negros, asiáticos, índios, são apenas tipos humanos fisicamente diferentes, que desenvolveram culturas diferentes, nem superiores, nem inferiores uns aos outros, apenas diferentes. (FONTE: Vídeo-Aula: “O Homem e a Cultura”. Telecurso 2º. Grau, s/d.). Esses homens que viveram num período de quinhentos mil e vinte mil anos atrás dependiam inteiramente da natureza, dos ambientes que os cercavam. Sua vida era uma luta diária contra a fome, o frio e a fúria de outros animais. Os grupos humanos que viviam próximo ao mar acabaram desenvolvendo técnicas e instrumentos específicos para pesca. Grupos que viviam na floresta desenvolveram melhor utensílios para a caça. Sendo totalmente dependentes do ambiente que os cercavam, os homens foram desenvolvendo técnicas e culturas bastante diversificadas. Hoje, homens de diferentes civilizações sabem que num solo seco e duro uma semente não pode germinar e crescer, mas para os primeiros homens que viveram na face da terra a milhares de anos atrás este era um fato novo. Foi muito lentamente, observando, experimentando, aprimorando suas técnicas e ferramentas que os homens aprenderam a plantar e a produzir o seu próprio alimento. (FONTE: Vídeo-Aula: “Pré-História e História”. Telecurso 2º. Grau, s/d.). É neste ponto que ocorre a diferença entre os homens e os animais. Os homens são a única espécie que vive do seu trabalho. Os animais exercem atividades de 9 sobrevivência,de busca de alimentos, de construção como as formigas, aranhas, abelhas, castores, joão-de-barro, mas isto não é trabalho. Segundo Marx, 10 Qual é afinal a diferença entre os homens e os animais? Por que não podemos denominar de “trabalho” a atividade de sobrevivência os animais? Fonte: NETTO, J.P.; BRAZ, M. “Trabalho, sociedade e valor”. In: _______. Economia política: uma introdução crítica. 6ª ed. São Paulo: Cortez, 2010, p.29-53. 11 Fonte: NETTO, J.P.; BRAZ, M. “Trabalho, sociedade e valor”. In: _______. Economia política: uma introdução crítica. 6ª ed. São Paulo: Cortez, 2010, p.29-53. 12 13 Entender a liberdade como “o poder de criar o possível”, proposta por Marilena Chauí, alarga os horizontes e permite ir além na compreensão do papel do trabalho em nossas vidas. Vez que o processo de trabalho é uma ação humana de criação do novo, que faz existir o que não existia, pode-se recuperar assim o sentido originário do trabalho, 14 sentido ontocriativo e confrontá-lo com a experiência atual de trabalho e analisar e criticar até que ponto a vivência que se tem do trabalho na atualidade corresponde aquilo que deveria ser. E aí isto pode conduzir a formas de luta e engajamento por melhores condições de trabalho. Para que se exerça com dignidade o próprio trabalho, de forma criativa, livre e emancipadora. Isto conduz à reflexão sobre o tipo de trabalho que se exerce hoje, na sociedade atual, capitalista. E pode-se partir da afirmação de que o trabalhador na sociedade capitalista exerce um trabalho alienado, estranhado. O qual pode ser tudo, menos criativo, livre e emancipador. Não é criativo porque se faz o que é determinado pela empresa; não é livre porque o trabalhador não tem ingerência alguma ou quase nenhuma sobre a forma de organização do processo produtivo e nem da jornada de trabalho; e não é emancipador porque o produto do seu trabalho não é seu, mas de um outro e por ele exercer o seu trabalho, na maior parte dos casos, por necessidade e não por opção, ou seja, trabalha-se no que for possível, no que aparecer, o negócio é estar empregado etc. Para melhor elucidar esta questão devemos analisar e compreender o conceito de trabalho alienado ou de alienação do trabalhador no trabalho. Passamos agora a tratar deste assunto. 15 ALIENAÇÃO, TRABALHO ALIENADO/ESTRANHADO Marx irá mostrar que sob a lógica do Capital o trabalhador é submetido ao “reino da necessidade” e o trabalho assume um aspecto profundamente negativo para o trabalhador (de alienação e estranhamento) à medida que ele passa a não mais reconhecer no processo de trabalho que realiza a fonte e a base da sua existência, a razão de ser do seu bem-estar no mundo, ao contrário, ele enxerga no trabalho a fonte de todos os seus males, a razão de todo o seu sofrimento. (ALVES e RODRIGUES, Texto 04, p. 66). Para bem entender o significado do conceito de alienação em Marx é preciso recuperar, mesmo que brevemente, a origem etimológica da palavra trabalho. 16 Imagens do Tripalium: Deste modo essa atividade humana de transformação da natureza pela qual o homem se faz plenamente homem, produzindo sua própria vida, conhecida como trabalho, é sentida pelo trabalhador como sofrimento, dor, castigo. Esta percepção é correta, mas devemos salientar que esta noção está associada ao surgimento da propriedade privada e à divisão da sociedade em classes sociais, principalmente a divisão entre os proprietários e os não proprietários. Cabendo aos não proprietários a incumbência de trabalhar para sustentar a si e aos proprietários. Este sofrimento vem daí. Desde então toda a experiência histórica que se tem de trabalho produtivo está associada a exploração de muitos seres humanos por uns poucos homens, beneficiados pelo trabalho daqueles. Esta situação irá provocar nos produtores diretos, nos trabalhadores, uma sensação de estranhamento com o trabalho que executam, pois nada nele, ou quase nada, tem que seja positivo e agradável. Realizam o seu trabalho por pura necessidade e obrigação, por uma questão de sobrevivência. Perdeu-se a noção do trabalho como uma atividade de satisfação de uma carência, como meio de produção da existência humana. O ser humano que precisa trabalhar para sobreviver não vê satisfação no que faz, no seu trabalho. Por isto ele irá buscar essa satisfação fora do trabalho. Vejamos, quanto a isto, o que nos diz Marx: 17 E mais ainda: 18 Podemos recordar aqui do Mito de Sísifo, muito ilustrativo do tipo de relação que se tem com o trabalho nas sociedades baseadas na exploração do trabalhador. 19 Conforme afirmam ALVES e RODRIGUES (Texto 04, p. 66), O trabalhador, no Capitalismo, não vê a hora que chegue o final de semana para fazer o que gosta e se angustia no domingo à noite quando percebe que a segunda-feira se aproxima. Por isto, dirá Marx, o trabalhador se sente mais humano (livre e ativo) fora do trabalho, posto que no trabalho ele se sente uma espécie de animal, um “burro-de- carga”. Daí o caráter desumanizador do trabalho nas condições atuais, capitalistas. Além do sofrimento que representa o ter que trabalhar para um outro por sua sobrevivência e da sua família, o trabalho, nestas condições, o trabalho como exploração, tem o aspecto de ser um trabalho alienado, o que se opõe ao trabalho como criação e produção do novo, que faz existir o que não existia, mas feito por opção e não por obrigação. Para entender o sentido de estranhamento ou de trabalho estranhado atribuído por Marx precisamos explicitar melhor o significado do conceito de alienado. Este vem de alienação e a palavra alienação significa, etimologicamente, tornar-se estranho a si próprio. Deriva do latim “alienare”, “alienus”, que significa que pertence a um outro. Alienar também é um termo muito utilizado no mercado imobiliário e de automóveis, no sentido de alienar um imóvel ou carro, ou seja, vender ou passar para um outro a propriedade do seu imóvel ou carro. Está associada, portanto, ao direito de propriedade. 20 Esta enfim que é questão. O trabalhador e o capitalista, perante a lei, ambos são proprietários e livres. Ocorre que o capitalista é o proprietário dos meios de produção (fábrica, loja, maquinários, terras etc) e do capital. O trabalhador, por sua vez, é também proprietário, mas apenas da sua própria força de trabalho, da sua capacidade de trabalhar, manual e intelectualmente. Nas relações de produção que se estabelecem sob a lógica do capital, o capitalista compra a força de trabalho do trabalhador, por exemplo, na indústria para movimentar as máquinas. E o trabalhador vende livremente para o capitalista da sua escolha esta sua capacidade de operar tais máquinas por uma quantidade “x” de salário. Esta venda da força de trabalho do trabalhador para o capitalista é o que se chama de alienação. O trabalhador “aliena” sua capacidade de trabalhar em troca de um salário. Neste processo, o trabalhador não é dono, proprietário, de mais nada. Não é o dono dos instrumentos de trabalho, da matéria prima, dos produtos por ele produzidos com o seu trabalho, bem como não tem mais o domínio sobre o regime, o ritmo e a jornada de trabalho. Todo o controle sobre o processo produtivo e a posse dos produtos produzidos é de quem o contratou, do capitalista. Antes do capitalismo, o trabalhador, por exemplo, o Mestre Artesão, “(...) se constitui em produtorindependente, dono da matéria-prima e das ferramentas de produção, que vende diretamente o produto de seu trabalho e não sua força de trabalho” (SAVIANI apud ALVES, Texto 08 e 10, p. 02). O trabalhador do campo, no ambiente rural, o servo no feudalismo, também detinha certa propriedade sobre os meios de produção, mesmo que “emprestada”, por assim dizer, pois em última instância era o Senhor Feudal o fiel proprietário de tais meios, o servo tinha o direito de ter sua casa, sua oficina, pequenos animais, um quinhão de terra onde poderia cultivar produtos de subsistência para si e sua família etc. A jornada de trabalho, o ritmo, as decisões sobre o processo de trabalho em si era ele quem decidia, não havia em geral ingerência externa sobre isto. [...] A partir de então alteram-se radicalmente estas condições e as relações de produção vigentes. Opera-se uma expropriação do trabalhador, retirando dele a propriedade de quaisquer meios de produção, o domínio sobre as decisões em relação ao conjunto do processo produtivo, passando o controle para as mãos do capitalista, o dono dos meios de produção. (ALVES, Texto 08 e 10, p. 03). E mais ainda: A classe trabalhadora foi reduzida no capitalismo à essa condição de quase completamente expropriada de quaisquer meios de produção do trabalho num processo histórico que compreende a expulsão dos pequenos proprietários rurais de suas terras e a falência das oficinas de artesanato, do Mestre-Artesão, do sistema doméstico, levando a um 21 aumento significativo de uma população sem dinheiro, sem propriedade, apenas possuindo seu corpo e cérebro, ou seja, sua capacidade de trabalhar (força-de-trabalho) a qual passou a oferecer ao capitalista, dono das fábricas, das terras, em troca de um salário, para a sua subsistência. (ALVES, Texto 08 e 10, p. 04, grifos nossos). Como isto é possível? Para responder precisamos recuperar as características da produção capitalista, baseadas na manufatura/maquinofatura, divisão do trabalho e heterogestão. 22 23 Fonte dos slides supracitados: TEXTO 04 – ALVES e RODRIGUES, do Cronograma. Então vejamos, o trabalhador alienado estranha o trabalho que executa, não o reconhece mais como seu, pois, de fato, não é mais seu. O processo produtivo não é ele quem decide, a jornada de trabalho também não e nem mesmo o produto do trabalho é seu. Tudo é de outro. 24 Em relação a isto, dirá Marx: Se minha própria atividade não me pertence, é uma atividade estranha, forçada, a quem ela pertence então? A outro ser que não eu. Quem é este ser? Os deuses? [...] O ser estranho ao qual pertence o trabalho e o produto do trabalho, para o qual o trabalho está a serviço e para a fruição do qual (está) o produto do trabalho, só pode ser o homem mesmo. Se o produto do trabalho não pertence ao trabalhador, um poder estranho (que) está diante dele então isto só é possível pelo fato de (o produto do trabalho) pertencer a um outro homem fora o trabalhador. Se sua atividade lhe é martírio, então ela tem de ser fruição para um outro e alegria de viver para um outro. Não os deuses, não a natureza, apenas o homem mesmo pode ser este poder estranho sobre o homem. [...] Se ele se relaciona, portanto, com o produto do seu trabalho, com o seu trabalho objetivado, enquanto objeto estranho, hostil, poderoso, independente dele, então se relaciona com ele de forma tal que um outro homem estranho a ele, inimigo, poderoso, independente dele, é o senhor deste objeto. Se ele se relaciona com a sua própria atividade como uma (atividade) não-livre, então ele se relaciona com ela como a atividade a serviço de, sob o domínio, a violência e o jugo de um outro homem (o capitalista) [...] ou como se queira nomear o senhor do trabalho. (MARX, 2006, p. 86-87)3. Daí a razão de afirmarmos que o trabalho alienado se configura como o aspecto negativo e desumanizador do trabalho. O processo de trabalho, de uma forma criativa de produção da existência humana como uma atividade positiva, ontológica, definidora do ser do homem, foi transformado em negação da própria vida a partir do momento que passou a se basear na exploração do homem sobre o homem. Cumpre agora recuperar o sentido originário do trabalho como princípio ontológico da existência humana, onde seja abolida toda forma de exploração de uns sobre os outros, e instaurar um novo tempo em que todos vivam do trabalho de todos e que todos tenham acesso aos produtos do trabalho de uns e de outros em igualdade de condições. 3 Cf. MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2006. 25 ORIGEM DA EDUCAÇÃO E SURGIMENTO DA ESCOLA E DA SUA FINALIDADE Em que e como a educação e a escola estão associadas ao processo de trabalho? Saviani irá dizer, na Parte 1 do Vídeo 1: Nós sabemos que a educação coincide com a origem dos homens. No momento em que o homem surgiu no universo, surgiu também a EDUCAÇÃO. Isto porque, o que diferencia o homem dos demais animais, é exatamente o fato de que o homem não tem sua existência garantida pela natureza. O homem precisa produzir constantemente a sua existência, em outros termos, se os animais em geral se adaptam à natureza, o homem tem que fazer o contrário, ele tem que adaptar a natureza a si, ele tem que agir sobre a natureza transformando-a. Se ele não fizer isto, ele perece, quer dizer, ele não subsiste enquanto homem. Este ato de transformar a natureza é exatamente o que nós conhecemos pelo o nome de TRABALHO. É por isto que, comumente, se entende que o homem não pode viver sem trabalhar O homem vive do trabalho, ou seja, vive do processo de produção dos meios da sua própria existência, vive do processo de transformação da natureza para satisfazer as suas necessidades. Portanto, no momento em que surge o homem, surge a questão dele se formar a si mesmo, dele se constituir a si mesmo, dele se produzir a si mesmo e do aprendizado das formas de sua própria produção. É neste sentido que nas origens do homem, a educação coincidia com o próprio processo de existência, com a própria vida. Aí era verdade prática a frase: ¨Educação é Vida¨. [...]. Ou seja, o homem aprendia a viver, vivendo; aprendia a trabalhar, trabalhando; aprendia a lidar com a natureza, lidando com a natureza. E isto era feito coletivamente [...] aí não existia então escola, existia educação, mas não existia escola. (SAVIANI, Vídeo 01, parte 1, grifos nossos). Estas ideias mostram que há uma relação intrínseca entre a educação ou o processo educativo e a necessidade de o ser humano trabalhar para extrair da natureza tudo do que precisa para sobreviver. A educação aparece aqui como ato segundo, derivado, porque a sua função social é a de reproduzir para as novas gerações os conhecimentos desenvolvidos pelas gerações mais velhas no passado até o presente momento. Em outros termos, Além de todos os objetos e técnicas que desenvolveu, o homem criou maneiras de transmitir e ensinar o que criava. Os conhecimentos acumulados podiam ser passados dos mais velhos para os mais jovens, sem que fosse preciso iniciar tudo de novo a cada geração. Assim, as 26 descobertas se somavam. (FONTE: Vídeo-Aula: “O Homem e a Cultura”. Telecurso 2º. Grau, s/d., grifos nossos). A criança será inserida na vida social do grupo onde nasceu e deste grupo irá aprender os elementos fundamentais para poder viver neste mundo, conforme as considerações, costumes e tradições desse seu grupo social. Cada grupo social somentepode ensinar ao novo membro, recém-chegado, à criança, aquilo que esse grupo efetivamente conhece e reconhece como o modo mais adequado de se viver e sobreviver. O que, por sua vez, aprenderam dos grupos antes deles, ao qual acrescentaram as suas próprias experiências, invenções e criações desde as gerações dos seus antepassados até o nascimento desse novo membro, ao qual será repassado pelo grupo conforme o processo educativo que lhe é próprio, tais conhecimentos, costumes, técnicas etc. Todavia, Saviani esclarece que temos aí um processo educacional, pedagógico, de aprendizado, mais ainda não temos escola. Como e por que, então, irá surgir a escola? Fazendo uma breve retomada da origem da escola podemos perguntar como a escola foi pensada? Quando? Ela foi criada para atender quais finalidades? Recordar o processo histórico de criação das escolas, mesmo que brevemente, é fundamental para podermos analisar e entender mais concretamente o fenômeno e os problemas da educação contemporânea, os quais têm relação estreita com os princípios que nortearam o surgimento da escola como modalidade específica de educação e que de certa forma continuam a norteá-la até hoje e, sobretudo, devido à realidade contemporânea na qual as sociedades atuais tem na escola a sua principal modalidade de educação para todos. Então aqui já temos um primeiro ponto, qual seja, a escola surge em determinado momento histórico e social como uma modalidade específica de educação diferenciada da educação em geral pela qual passavam as gerações anteriores. Neste aspecto tomamos como referência os textos (05 e 06) e o vídeo 01 do professor Dermeval Saviani (vide Cronograma). O professor Saviani trata da relação intrínseca entre o processo de trabalho, a educação e a escola, da antiguidade aos dias atuais. Diz ele, retomando resumidamente o que já foi dito, que o trabalho e a educação são tão antigos quanto os seres humanos, ou seja, desde que o homem existe ele teve a necessidade de trabalhar, isto é, de agir sobre a natureza para transformá-la e de criar coisas úteis para o consumo e o bem-estar humanos, bem como teve a necessidade de se 27 educar, ou seja, de passar para as novas gerações o domínio dos conhecimentos adquiridos pelos humanos em cada momento da sua história. E mais ainda: diz Saviani que nesta fase existia educação, mas não existia ainda a escola. Tratava-se de uma educação prática, empírica, adquirida com a experiência. Aprendia-se a trabalhar, trabalhando; aprendia-se a viver, vivendo. A escola irá surgir muito muito tempo depois, ela surge mais recentemente na história da humanidade, em especial no mundo grego e romano, e a sua origem está associada ao surgimento da propriedade privada. Com isto temos agora o segundo ponto, o mais importante para entendermos o que é a escola, ou melhor, o que ela foi, por quê e para quê foi criada. E até que ponto podemos afirmar que a escola de hoje guarda ainda certas semelhanças com a “escola das origens”. Saviani afirma que a origem da escola está associada ao surgimento da propriedade privada. E esta como surge? A propriedade privada surge quando se passa das sociedades nômades para as sociedades sedentárias. No nomadismo, quando se vivia da caça, coleta e pesca, os grupos humanos ainda não tinham aprendido a produzir o seu próprio alimento e nem a domesticar os animais. Viviam daquilo que a natureza provinha. Era o denominado modo de produção comunal, quando se tinha tudo em comum, isto é, neste tipo de sociedade os produtos do trabalho individual de cada membro da comunidade eram colocados à disposição de todos, partilhados em comum, daí a afirmação de Saviani de que neste modo de produção “todos viviam do trabalho de todos”. Ao passar para o período sedentário, quando os seres humanos aprendem a cultivar alimentos e a domesticar os animais, eles precisam se fixar em determinado território para cuidar da lavoura e dos animais. Neste processo passaram a ter mais tempo livre e aproveitavam esse tempo para aperfeiçoar os seus instrumentos e as suas técnicas de trabalho. Isto com o tempo ajudou a melhorar a capacidade produtiva do grupo ao ponto de produzirem mais do que a capacidade de consumo de toda a comunidade. As sobras se estragavam e foi neste momento que surgiu a ideia de trocar o seu excedente de produção (as suas sobras) com outras comunidades vizinhas por outras coisas que não possuíam ou tinham em menor quantidade. E isto é o que se conhece pelo nome de “escambo”, ou seja, a troca de um produto por outro, o que dá origem às primeiras formas de mercado. No mercado se efetua a troca de mercadorias. O que é uma 28 mercadoria? Mercadoria é todo o produto destinado à venda (troca). Um produto feito para o consumo próprio do seu grupo pode ser chamado de produto de subsistência. Porém, um produto que desde antes já se prepara a sua produção com a intenção de vendê- lo (ou trocá-lo por outro produto) e não necessariamente para o próprio consumo, a isto se chama de mercadoria. Toda mercadoria tem um duplo valor, chamado de valor-de-uso e valor-de-troca. Valor-de-uso é aquilo que tem alguma utilidade para as pessoas, seja esta vital (do estômago) ou supérflua (da fantasia). E o valor-de-troca é aquilo que pode gerar algum ganho, lucro, na sua troca ou venda. Por exemplo, numa sapataria um calçado qualquer tem para o cliente um valor-de-uso, pois ele o está comprando para usar. Já para o dono da sapataria os calçados têm valor-de-troca, ele é o dono de todos aqueles calçados, mas não pretende usá-los, e sim, vendê-los. E com o lucro da venda destes calçados ele irá comprar outras coisas que ele deseja ou precisa. Com o passar o tempo, à medida que os mercados foram sendo criados e ampliados, foi surgindo na antiguidade a necessidade de ampliar a quantidade dos excedentes de produção para aumentar consequentemente as possibilidades de trocas por mais coisas que gostariam de ter ou tinham em menor quantidade. Quanto mais produto excedente, mais coisas podiam adquirir (trocar ou comprar). É o que ocorre hoje com quem tem muito dinheiro. Quanto mais tem, mais pode comprar, correto? Mas, o que é o dinheiro? Dinheiro é uma mercadoria como outra qualquer, porém, sem valor-de-uso imediato, ele tem apenas valor-de-troca. É o que os economistas chamam de “equivalente geral”, uma mercadoria que equivale a qualquer outra, proporcionalmente. Antes do dinheiro se tornar o equivalente geral, tinha-se, por exemplo, em determinado tempo, o sal como equivalente geral. Ou seja, pagava-se as mercadorias por uma quantidade “x” do seu peso em sal. Até os serviços prestados costumavam a ser pagos pelo seu valor em sal. Disto é que se originou a palavra “salário’. Mas, voltando ao nosso tema central. Ainda nesta fase os ganhos alcançados com a produção dos excedentes econômicos, as mercadorias que eram vendidas ou trocadas nos mercados, o que se conseguia em troca era posto a serviço e para o consumo de toda a comunidade em igualdade de condições. Só para lembrar o que já disse Saviani, nesta fase “todos viviam do trabalho de todos”. A propriedade era coletiva, ou seja, os meios de produção tais como a terra, os animais, os instrumentos de trabalho etc. eram de todos, ninguém se dizia dono disto ou daquilo, portanto, sendo a propriedade dos meios de produção coletiva, os produtos criados por estes meios, as mercadorias, também eram de 29 todos. Aqui devemos esclarecer um aspecto que gera muita confusão quando se trata de falar de “propriedade privada”, o que era coletivo eram os meios de produção e não os bens de produção. Isto é, a terra, os animais e os instrumentos de trabalho é queeram propriedade coletiva, mas os bens produzidos, roupas, alimentos, abrigo etc., estes que eram privados, cada um deveria ter o seu, em igualdade de condições aos demais. Bem, então, quando se fala da origem da propriedade privada, se quer dizer do processo de quando na história, além dos bens de produção privados, os meios de produção também passaram a ser privados. Passaram a pertencer apenas a uma família ou pequeno grupo, deixando o restante da comunidade sem tais meios de sobrevivência. Chega-se a um ponto que algumas famílias começaram a concentrar para si as melhores faixas de terras e os melhores animais e, consequentemente, a exigir uma parcela maior para si da partilha dos produtos adquiridos com a troca proveniente do excedente produzido, alegando que eles contribuíram mais então teriam mais direito do que a maioria. Ou simplesmente impuseram pela força sua vontade e retiraram a propriedade do conjunto do grupo, apropriando-se privadamente dos meios de produção. Como consequência detinham também o domínio sobre os bens de produção e passaram a distribuí-los aos demais da comunidade a partir dos seus interesses e conveniências. Disto irá resultar aos poucos a noção de “propriedade privada”, particular, dos principais meios de produção da época. E muito rapidamente as terras e os animais que antes eram de todos passaram a ser a propriedade particular de apenas alguns e a comunidade ao invés agora de trabalhar e ver os produtos do seu trabalho gerarem recursos para todos, passou a trabalhar e gerar recursos apenas para alguns poucos que se apoderaram da propriedade, antes coletiva agora privada. Aqui é importante salientar uma diferença entre o regime de propriedade coletiva, o qual gera relações de cooperação e ajuda mútua e, por outro lado, o regime de propriedade privada que, por sua vez, gera relações de oposição e antagonismo, pois, os produtores diretos são, neste caso, constrangidos a trabalhar para um outro por necessidade ou pela força e não por opção, estes são explorados por aqueles. Aqueles que se apoderaram dos meios de produção fundamentais são comumente denominados de “proprietários” e aqueles que passaram a ficar sem tais meios são chamados de “não-proprietários”. Assim, os proprietários passaram a dominar a comunidade e, por conseguinte, o excedente de produção, passaram também a se sentir no direito de não mais precisarem trabalhar na terra para o próprio sustento, forçando 30 toda a comunidade, depois de subjugada, a trabalhar para o seu próprio sustento e para sustentar os novos donos da terra. Se antes todos viviam do trabalho de todos, a partir deste momento “alguns passaram a poder viver do trabalho dos outros”. Surge a partir daí trabalho como exploração e não mais como meio próprio de vida e de subsistência. E a maior exploração de todas que foi o trabalho forçado, trabalho escravo, conhecido como Modo de Produção Escravista. Relembrando a compreensão de “trabalho” e “processo de trabalho”, notem que ao surgir a propriedade privada dos meios de produção, surge também uma nova modalidade ou forma de organizar o próprio trabalho, ou seja, alterou-se significativamente o processo (o método) produtivo. De um trabalho livre e por opção, surge o trabalho forçado, de exploração de um homem sobre outros. Nestas condições, os proprietários passaram a ter mais tempo livre para se dedicarem a outras coisas, vez que estavam livres do trabalho produtivo, agora realizado por outros seres humanos escravizados. Bem, veremos agora como o surgimento da propriedade privada dos meios de produção relaciona-se com o surgimento da escola. Dando um salto na história, passados alguns milhares de anos, dentre as muitas coisas as quais os proprietários passaram a se dedicar em seu tempo livre irá surgir a scholé (lugar do ócio). Mas não era um lugar de não se fazer nada, ao contrário, era o lugar para onde eram enviadas as crianças que não precisavam trabalhar para viver. Os filhos dos proprietários. Lá eles aprendiam e dominavam os conhecimentos e técnicas necessários para dirigirem os trabalhos da mente, os quais exigiam esforço mental e intelectual. Não se exerciam atividades manuais, consideradas indignas do homem livre, vez que eram atividades próprias de escravos ou serviçais. As demais crianças, filhas dos não-proprietários, estavam impedidas de frequentar a scholé, restrita aos nobres e aristocratas, mas também passavam por um processo de educação pelo qual aprendiam e dominavam os conhecimentos e técnicas necessários para dirigirem os trabalhos das mãos, os quais exigiam esforço físico e manual, para o trabalho produtivo que deveriam exercer a serviço dos nobres e proprietários. A seguir disponibilizamos duas imagens que ilustram isto que foi dito. Durante a Idade Média cunhou-se o termo “Artes Liberais” e “Artes Mecânicas” para representar o 31 que seriam os conhecimentos próprios dos proprietários, nobres e aristocratas e dos não- proprietários, trabalhadores e serviçais. 32 É neste contexto que teve origem a escola, como scholé, uma modalidade restrita de educação, destinada apenas para aqueles que viviam do trabalho de outros homens, pois, a maioria continuava a se educar como sempre se fez, no próprio trabalho e na vida. A escola nasce com esta marca congênita baseada na divisão entre trabalho intelectual e trabalho manual, resultante da divisão de classe da sociedade entre proprietários e não proprietários, fruto do surgimento da propriedade privada dos meios de produção. Isto perdurou até o fim da Idade Média, sofrendo drástica mudança durante as Revoluções Burguesas no Período Moderno. Todavia, para a classe trabalhadora, os não proprietários, na essência, as coisas não mudaram tanto assim. O que será evidenciado mais adiante. 33 UNIDADE II – DUALIDADE ESTRUTURAL EDUCACIONAL E O MODELO DE ESCOLA “PARA” A CLASSE TRABALHADORA. A ESCOLA COMO NOVA MODALIDADE PRINCIPAL DE EDUCAÇÃO PARA TODOS No Período Moderno, entre os séculos XVI e XIX, principalmente após a Revolução Industrial, surge a necessidade de capacitar técnica e cientificamente a mão- de-obra que deveria realizar os trabalhos na indústria, vez que as máquinas tinham engastadas nelas fundamentos dos conhecimentos científicos, sobretudo, da física e da matemática. Mas, estes conhecimentos não eram passíveis de serem desenvolvidos espontaneamente, precisavam de ser apreendidos de forma sistemática. A exigência de dar acesso aos conhecimentos intelectuais surge com força e determinação levando o sistema burguês de produção, que ficou conhecido como modo de produção capitalista (o qual não vamos explicitar aqui neste momento, mas apenas indicar), levou-os a colocar a necessidade da escolarização dessa mão-de-obra para atender aos seus objetivos na produção. E a scholé, que antes era uma modalidade restrita de educação apenas aos nobres e aristocratas se generaliza e torna-se com o passar do tempo na modalidade principal de educação de toda a sociedade, consubstanciada na bandeira empunhada pela burguesia em sua fase revolucionária da “luta pela escola pública para todos”, inclusive para os trabalhadores. Segundo Dermeval Saviani é nesse período histórico, Período Moderno, que a escola se torna uma necessidade geral convertendo-se na modalidade principal de educação para todos e isto irá ocorrer com mais força, sobretudo, depois da Revolução Industrial e da Revolução Francesa, também conhecidas como Revoluções Burguesas. O surgimento da indústria no Século XVIII, a expulsão dos camponeses de suas terras, o crescimento das cidades, a vidaurbana, a invenção da imprensa, dentre outros fatores, são algumas das causas da necessidade de as pessoas dominarem os códigos escritos desenvolvidos pela escola. Após a Revolução Francesa e a instituição da República como forma de governo, centrada na observância da Lei escrita (Constituição), no direito positivo, nos contratos, casamento civil etc. evidenciou o problema do analfabetismo. Como cobrar a observância da Lei se as pessoas não sabem ler e escrever? (...) a sociedade contratual, baseada nas relações formais, centrada na cidade e na indústria, vai trazer consigo a exigência de generalização da 34 escola. A produção centrada na cidade e na indústria implica que o conhecimento, a ciência que é uma potência espiritual, se converta, através da indústria, em potência material. Então, o conhecimento - Bacon assim colocava no início da Época Moderna - é poder, conhecer é poder. Todo o desenvolvimento científico da Época Moderna se dirigia ao domínio da natureza: sujeitar a natureza aos desígnios do homem, transformar os conhecimentos em meios de produção material. E a indústria não é outra coisa senão o processo pelo qual se incorpora a ciência, como potência material, no processo produtivo. Se se trata de uma sociedade baseada na cidade e na indústria, se a cidade é algo construído, artificial, não mais algo natural, isto vai implicar que esta sociedade organizada à base do direito positivo também vai trazer consigo a necessidade de generalização da escrita. Até a Idade Média, a escrita era algo secundário e subordinado a formas de produção que não implicavam o domínio da escrita. Na Época Moderna, a incorporação da ciência ao processo produtivo envolve a exigência da disseminação dos códigos formais, do código da escrita. O direito positivo é um direito registrado por escrito, muito diferente do direito natural que é espontâneo, transmitido pelos costumes. O domínio da escrita se converte, assim, numa necessidade generalizada. Com efeito, já que não existe ciência oral (a ciência implica em registro escrito), ao incorporar a ciência a cidade incorpora, na sua forma de organização, a exigência do domínio da escrita. Esta é uma questão que ainda hoje está presente, ou seja, o desenvolvimento da escola vinculado ao desenvolvimento das relações urbanas. O que por vezes se chama de vínculo entre a escola e os padrões urbanos. Quanto mais avança o processo urbano-industrial, mais se desloca a exigência da expansão escolar. Por aí é possível compreender exatamente por que esta sociedade moderna e burguesa levanta a bandeira da escolarização universal, gratuita, obrigatória e leiga. A escolaridade básica deve ser estendida a todos. (SAVIANI, Texto 05, p. 05). E mais ainda: o domínio dos códigos escritos e a importância da alfabetização ligam-se à nova relação que se estabelecerá entre Ciência e Técnica, onde a Ciência pura torna-se-á ciência aplicada à produção – tecnologia – e colocará a exigência de um domínio teórico, por mínimo que seja, dos fundamentos científicos dos instrumentos e técnicas necessários à indústria. E uma vez que são os trabalhadores quem deveriam operar tais maquinários, precisavam dar aos trabalhadores algum domínio do saber científico engendrados nas técnicas e máquinas da indústria. É assim que irá surgir como uma necessidade objetiva o problema do acesso dos trabalhadores à Scholé, local por excelência do desenvolvimento e acesso aos conhecimentos científicos e teóricos. A mudança principal realizada pela Revolução Industrial foi a substituição da mão-de-obra humana pela máquina no processo produtivo. Se antes, na manufatura, o homem era a força produtiva central, se era ele (o trabalhador) quem agia sobre a matéria para transformá-la em algo útil para o consumo humano, agora, na indústria, transferiu- se para as máquinas as atividades manuais. Esta é a grande revolução industrial que se 35 operou a partir de então, que colocou a máquina no centro do processo produtivo deslocando o homem (o trabalhador) transformando-o num “adendo” da máquina, que está ali apenas para garantir que esta continue funcionando bem e de modo eficiente. Não é mais ele (o trabalhador) quem age sobre a matéria para transformá-la (o trabalhador não mais o produtor direto), e sim, é a máquina que agora ocupa esta função. De produtor o trabalhador foi reduzido a servo da máquina. Além disso a produção mecanizada é muito mais eficiente e uniforme do que o corpo humano. Por esta razão é que a substituição do homem pela máquina apresenta inegáveis vantagens para o capital, tanto na redução do custo, como na redução do tempo de produção, com a qual o trabalhador manual não pode competir. Daí porque o modo de produção anterior baseado na manufatura tenha sido abandonado e superado pela produção industrial (maquinofatura), devido as vantagens objetivas deste novo modo de produção. A indústria tendo o seu processo produtivo centrado nas máquinas e não mais no trabalho humano direto e sendo a máquina resultado de conhecimentos científicos da física, da mecânica, da matemática etc., passou a exigir gradativamente dos trabalhadores que as operavam algum nível de conhecimento científico-tecnológico, mas, estes conhecimentos, teóricos, não podiam ser desenvolvidos somente pela observação empírica, como antes no trabalho manual, precisavam de estudos mais complexos que só eram acessíveis e veiculados por instituições específicas conhecidas como escolas ou academias. Assim, neste contexto, aos poucos é que a escola irá se converter na principal forma de educação da maioria em substituição a educação empírica e espontânea das épocas anteriores, nas quais a educação escolar estava restrita aos nobres e aristocratas. Atualmente a educação escolar é tão natural e óbvia que muitos nem têm a noção de que nem sempre ela foi uma necessidade para todos da sociedade. Todavia, para os trabalhadores estas mudanças não foram tão vantajosas conforme fora prometido. Segundo Saviani, estas mudanças poderiam ser vantajosas aos trabalhadores ao liberar os trabalhos das atividades manuais pesados, sobrando mais tempo livre para os trabalhadores se dedicarem a outras coisas. Mas na prática isto acaba não ocorrendo porque a máquina não é dos trabalhadores, elas têm um dono (o capitalista) e estão a serviço deste, por isto a Revolução Industrial para o trabalhador irá trazer muitos prejuízos, principalmente o desemprego, vez que uma máquina poderia exercer a função 36 de muitos trabalhadores manuais ao mesmo tempo, necessitando-se apenas de alguns poucos trabalhadores para o manuseio dessas máquinas. Outra desvantagem dos trabalhadores é em relação ao acesso à Scholé. A escola ao surgir no cenário das Revoluções Burguesas como uma necessidade objetiva e erigindo-se na forma principal de educação para todos, para desenvolver o domínio do saber ler, escrever e contar, bem como dos conhecimentos científicos e teóricos, apareceu como uma grande conquista, o que de fato foi, mas não sem contradições e limites. Em relação a educação, a escola, para a classe trabalhadora, surge o problema de que em que medida deveria isto ser feito? Até onde deveria ir o domínio por parte dos trabalhadores desses conhecimentos científicos e teóricos, do saber ler, escrever e contar? A solução será organizar um tipo de escola para a classe trabalhadora, por quem não é trabalhador, mas dele precisa. Assim essa escola é planejada e oferecida aos trabalhadores, em sua forma e conteúdo, de acordo com as necessidades dos seus idealizadores. (ALVES, Texto 08 e 10, p. 15). Surge então a tese da educação escolar em “doses homeopáticas” paraos trabalhadores como a solução mais adequada aos interesses em jogo naquele momento visando adaptar os trabalhadores à nova ordem social nascente, à ordem burguesa e capitalista. A qual irá determinar o sentido real do lema e da defesa de uma ESCOLA PÚBLICA PARA TODOS levantada e defendida pela burguesia. Ou seja, tratar-se-á de uma escola pública, mas não igual e nem do mesmo tipo para todos. 37 DUALIDADE EDUCACIONAL Esta discussão nos remete ao tema da dualidade educacional, a qual, segundo Ana Margarida Campello, Texto 09, do Cronograma, se define a partir da ideia de que a escola não é única, nem unificadora, mas constituída pela unidade contraditória de duas redes de escolarização: a rede de formação dos trabalhadores manuais e a rede de formação dos trabalhadores intelectuais [...] Essa diferenciação se concretizou pela oferta de escolas de formação profissional e escolas de formação acadêmica para o atendimento de populações com diferentes origens e destinação social [...] A escola de formação das elites e a escola de formação do proletariado [...] A educação profissional destinada àqueles que estão sendo preparados para executar o processo de trabalho, e a educação científico-acadêmica destinada àqueles que vão conceber e controlar este processo” (CAMPELLO, Texto 07, p.136 ss). A dualidade educacional se caracteriza, portanto, pela oferta de um tipo de escolarização de excelência para as classes ricas e dirigentes, com enfoque no desenvolvimento intelectual destinado a preparação para o ingresso no ensino superior e para assumir posteriormente os cargos de direção e comando no mercado de trabalho e na sociedade. E outro tipo de escolarização minimalista, destinada às classes pobres e subalternas, para o ingresso imediato no mercado de trabalho, num emprego qualquer, de baixa remuneração e que exige menos do desenvolvimento intelectual para atuar na produção em trabalhos manuais. É por isto que podemos afirmar que apesar dos ganhos para a classe trabalhadora que representou a generalização do acesso à educação escolar, científica, intelectual e técnica, esta ainda não foi conquistada plenamente como se imaginava. Daí podermos afirmar que a dualidade educacional aparece como o fundamento da escola para a classe trabalhadora. Entender isto é essencial para compreender o papel e as condições da escola pública sob a lógica do capitalismo. Bem como de que forma isto também se associa à noção e finalidade da escola das origens (a Scholé). Percebe-se que já na origem a educação prevista para o trabalhador está condicionada às necessidades da produção capitalista. Desde o início a educação requerida, pensada e oferecida à classe trabalhadora é concebida apenas como a formação de um “meio de produção” para o mercado de trabalho capitalista e não como uma educação para a formação humana, do ser humano que há no trabalhador (ALVES, Texto 08, p.05) 38 Ao contrário, trata-se de um modelo de educação que visa a formação do trabalhador no ser humano, daí desenvolver-se mais os aspectos operacionais na sua formação em detrimento dos aspectos humanistas e de formal geral. Manacorda recorda de um escrito dirigido ao barão Francesco Pertusato, gentil- homem de Sua Majestade Imperial Régia austríaca, nos seguintes termos: Uma das manias que podemos considerar dominante em nossos dias na Europa é aquela de querer difundir as luzes sobre todas as classes da sociedade... Mas quem pode conter as risadas perante a louca ideia de fazer participar do benefício dessas luzes o simples e morigerado morador dos campos? E a classe dos artesãos, a este respeito, não é absolutamente diferente daquela dos camponeses... Faz-se necessário, portanto, que se prescrevam limites à comunicação das luzes na sociedade... porque a ignorância parece reivindicar com autoridade o seu império... É conveniente, portanto, não ocupar-se da instrução científica daquelas classes da população, condenadas pela indigência a um trabalho mecânico e diuturno. Para elas basta que sejam imbuídas de uma moral pura e santa. O que seria realmente vergonhoso é descuidar da educação da classe nobre, confortada e rica” [sic]. (MANACORDA, 2001, p.276)4. E mais ainda: Em dois trechos citados por Aníbal Ponce5, um escrito por Voltaire em 1757 e outro por Diderot, vinte anos depois, expressam como era forte esta percepção sobre o tipo de educação que se deve prover aos trabalhadores, bem como havia quem pensasse diferente e numa perspectiva contra-hegemônica, por assim dizer. Ponce retoma um escrito de Voltaire para Vossa Majestade, seu amigo, o Rei da Prússica, em 1757, o qual dizia: “prestará um serviço imortal à Humanidade se conseguir destruir essa infame superstição (a religião cristã), não digo na canalha, indigna de ser esclarecida e para a qual todos os jugos são bons, mas na gente de peso” (VOLTAIR, apud PONCE, 2001, p.133, grifos do autor). E numa visão contrária a esta, cita Diderot, que escreve para a Imperatriz Catarina da Rússia sobre o plano de uma universidade para todos, no qual dizia: É bom que todos saibam ler, escrever e contar, desde o Primeiro- Ministro ao mais humilde dos camponeses”. E pouco adiante, depois de indagar por que a nobreza se havia oposto à instrução dos camponeses, respondia – segundo Ponce – nestes termos: “Porque é mais difícil explorar um camponês que sabe ler do que um analfabeto” [...] “Quando não se quer enganar ninguém, quando não se têm paixões ou interesses 4 Cf. MANACORDA, Mario. História da educação: da antiguidade aos nossos dias. 9ª ed. São Paulo: Cortez, 2001. 5 PONCE, Aníbal. Educação e luta de classes. 19ª. ed. São Paulo: Cortez, 2001. 39 a disfarçar – dizia também Helvetius –, não se teme o saber e o bom senso populares [sic]. (DIDEROT apud PONCE, 2001, p. 133). Enfim, a forma como foi pensada a escola PARA a classe trabalhadora inaugura uma nova modalidade de educação ao transformar a educação escolar na modalidade principal de educação para todos, mas também cria uma diferenciação da formação destinada aos proprietários e não-proprietários, a qual reeditará sob nova roupagem a dicotomia entre trabalho intelectual e trabalho manual, presente desde o surgimento da propriedade privada dos meios de produção, conforme já mencionado. A escola para os trabalhadores não será a mesma da classe dirigente, capitalista, os novos “proprietários” no poder. A escola para os proprietários irá continuar a sua função de desenvolver os aspectos intelectuais e a capacidade de “mando” para o qual estão destinados apenas aqueles que irão ocupar as funções de direção geral da sociedade e/ou das empresas. E a escola para os trabalhadores nasce assim como uma forma de veicular o conhecimento em “doses homeopáticas” e tal como a educação dos não- proprietários na antiguidade, a escola foi pensada na Época Moderna no que diz respeito à formação dos trabalhadores como uma forma limitada de educação para desenvolver apenas os conhecimentos práticos e manuais e que pouco exijam da capacidade intelectual dos seus aprendizes. Visa desenvolver no trabalhador apenas o domínio operacional da técnica, sem o domínio da teoria. 40 Do modelo de escola “para” a classe trabalhadora no Capitalismo: contradições; Relacionar o que foi exposto até o momento sobre o trabalho, a educação e a escola, em especial a questão de o trabalhador exercer uma atividade alienada e tudo que isto implica, já comentado, brevemente, representa um desafio para aqueles/as que estão no “chão” da escola. Saber que a escola, em especiala escola pública, que atende geralmente os filhos da classe trabalhadora e que esta foi pensada historicamente para minimizar o acesso dos trabalhadores à cultura sistematizada e aos instrumentos de produção do conhecimento teórico, pode levar a um sentimento de desânimo e apatia. Todavia, apesar da situação adversa, devemos ter em mente que “a realidade concreta apresenta contradições neste processo as quais podem converter-se em conquistas e avanços para a classe trabalhadora rumo a sua emancipação humana” (ALVES, Texto 08, p. 06). Conforme considera Dermeval Saviani, a este respeito, (...) na sociedade moderna, o saber é força produtiva. A sociedade converte a ciência em potência material. Bacon afirmava: "saber é poder". E meio de produção. A sociedade capitalista é baseada na propriedade privada dos meios de produção. Se os meios de produção são propriedade privada, isto significa que são exclusivos da classe dominante, da burguesia, dos capitalistas. Se o saber é força produtiva deve ser propriedade privada da burguesia. Na medida em que o saber se generaliza e é apropriado por todos, então os trabalhadores passam a ser proprietários de meios de produção. Mas é da essência da sociedade capitalista que o trabalhador só detenha a força de trabalho. Aí está a contradição que se insere na essência do capitalismo: o trabalhador não pode ter meio de produção, não pode deter o saber, mas, sem o saber, ele também não pode produzir, porque para transformar a matéria precisa dominar algum tipo de saber. Sim, é preciso, mas "em doses homeopáticas", apenas aquele mínimo para poder operar a produção. É difícil fixar limite, daí por que a escola entra nesse processo contraditório: ela é reivindicada pelas massas trabalhadoras, mas as camadas dominantes relutam em expandi-la (SAVIANI, Texto 05, p. 09, grifos nossos). No Texto 08 comentamos estas considerações de Saviani, dizendo: Note-se que o capitalismo tem aí uma das suas principais contradições, as quais podem, se devidamente exploradas, constituírem-se em caminho de superação desta realidade, ou seja, a realidade concreta do capitalismo apresenta contradições que podem voltar-se contra ele próprio, como é esta necessidade de o Capital precisar manter os trabalhadores numa situação de desqualificação e sem propriedade, sem meios de produção de sua própria existência, enquanto ao mesmo tempo 41 necessita que ele tenha algum domínio do saber elaborado, sistemático, sobretudo à medida que os instrumentos de produção evoluem e novas tecnologias são aplicadas na indústria capitalista (sic). (ALVES, Texto, 08, p. 06). Nesta perspectiva, apesar dos limites da escola como veículo de transformação social, dado aos seus condicionantes políticos, econômicos e ideológicos, as contradições apontadas dão margem para ações rumo a constituição de uma escola emancipadora, à medida que se lute por melhores condições de trabalho dos profissionais da educação, dos professores e dos alunos que atuam na escola; à medida que se consiga melhorar a qualidade do ensino e da aprendizagem, com professores bem formados, escolas bem equipadas, novas didáticas e novas metodologias de ensino que despertem o interesse dos jovens pelo estudo etc. Ao melhorar a qualidade da escola pública, garante-se um melhor aproveitamento dos estudos por parte dos estudantes e, quiçá, além dos limites desejados e impostos pelo mercado e para além dos interesses do capital. Vez que “é difícil fixar este limite”, de acordo com Saviani, então, o caminho, parece, é forçar a escola a ultrapassá-lo.