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1 
 
EDUCAÇÃO E TRABALHO – 2018.2 
CONTEÚDOS DAS UNIDADE I & II 
R E V I S Ã O & S Í N T E S E 
 
Prof. Dr. Dalton Alves 
Coordenador de Educação e Trabalho 
LIPEAD/UNIRIO/CEDERJ 
 
 
 
UNIDADE I – GÊNESE HISTÓCIA E CONCEITUAL DO TRABALHO, DA 
EDUCAÇÃO E DA ESCOLA: APROXIMAÇÕES E 
CONTRADIÇÕES 
 
 
INTRODUÇÃO 
 
Prezados/as discentes, nesta revisão iremos pontuar, comentar e explicar alguns 
dos temas e conceitos principais que vocês devem ter bem claros e compreendidos para 
o aproveitamento e o desenvolvimento dos conhecimentos relacionados a esta Unidade 
do Programa da Disciplina. 
Os temas e conceitos chaves desta parte do nosso curso/disciplina são os conceitos 
de trabalho, educação, escola em seu desenvolvimento histórico e social, da antiguidade 
até o Período Moderno e inícios da Época Contemporânea (Séculos XVI ao XIX). 
Então, partiremos da compreensão do que é trabalho e processo de trabalho e do 
seu significado e importância no processo de humanização, ou seja, no processo de 
formação do ser humano, de como o animal humano se torna um ser humano e qual o 
papel do trabalho neste processo. Liga-se a isto a razão do surgimento da educação e da 
escola, de como isto está associado necessariamente às formas de trabalho que os seres 
humanos construíram ao longo da história. Em outras palavras, podemos afirmar, por 
assim dizer, que a educação é ato segundo e a escola é ato terceiro decorrentes dos modos 
de os seres humanos se organizarem para o trabalho. 
Em havendo mudanças no processo de trabalho, alteram-se, consequentemente, 
os modos de se entender e realizar a educação e a escola. Todavia, esta não é uma via de 
2 
 
mão única, na qual a educação e a escola apenas são determinadas pelo trabalho, servindo 
apenas como veículos de reprodução e submissão às formas históricas do trabalho em 
dado momento histórico, não lhes cabendo nenhum protagonismo no movimento da 
história. Ao contrário disto, se verá que a educação e a escola têm também um importante 
papel na criação e no desenvolvimento das conformações sociais historicamente 
existentes. Num processo dialético e contraditório as formas de educação e de escola, 
depois de condicionadas pelo trabalho, retornam sobre este intervindo e condicionando 
sua forma de organização provocando novas alterações no processo de trabalho, que 
retornam, por sua vez, novamente, sobre a educação e a escola provocando novas 
mudanças nestas num processo ininterrupto, dialético, de implicações mútuas no devir da 
história, das quais irão emergir as sociedades tais quais as conhecemos hoje. 
 
 
CONCEITO DE TRABALHO / PROCESSO DE 
TRABALHO: 
 
 
a) Conceito e gênese histórica do Trabalho e do seu papel como atividade central 
de produção da existência humana no processo de humanização. 
 
Bem, feitas estas ressalvas, o que podemos entender por trabalho ou processo de 
trabalho? Vejam, em primeiro lugar, devemos esclarecer que os usos dos termos 
“trabalho” e “processo de trabalho”, tem por objetivo enfatizar que o termo “trabalho”, 
isoladamente, não oferece uma compreensão adequada para aquilo que deve ser entendido 
por este termo. Isoladamente, o termo “trabalho” é uma abstração. O termo “processo de 
trabalho”, por sua vez, oferece uma noção mais objetiva daquilo que se quer significar 
com o uso do termo “trabalho”, pois, em última instância, trata-se sempre do processo de 
trabalho, isto é, do método de organização e de realização da produção, do processo 
produtivo. 
Por exemplo, o processo de trabalho dos primeiros grupos humanos na face da 
terra, na Pré-História, tinham como método a coleta, caça e pesca, não dominavam ainda 
a habilidade de produzir o próprio alimento e não domesticavam os animais, não 
fabricavam o próprio abrigo etc. Eram totalmente dependentes do que o ambiente que os 
3 
 
cercava, a natureza, lhes provinha. Por isto, migravam de uma região para outra sempre 
que as condições de sobrevivência em dado território ficavam escassas ou 
comprometidas. Eram nômades. 
Por outro lado, quando desenvolveram a capacidade de cultivar e de domesticar 
os animais puderam se fixar em determinado território, tornaram-se sedentários e, ao 
contrário do período do nomadismo, os seres humanos passaram a “forçar” a natureza a 
produzir segundo as suas necessidades, quantidades e de acordo com o tempo humano. 
Assim, passaram a depender cada vez menos da “vontade” da natureza. Eles passam a 
interferir e alterar o curso natural das coisas, instituindo o “tempo humano”. E conforme 
avançavam no conhecimento do ciclo da natureza, do metabolismo dos animais e de si 
mesmos, na criação de instrumentos de trabalho e de técnicas para a realização das ações 
as quais precisavam para atender às suas necessidades de subsistência, aumentava, 
também, a sua capacidade produtiva, extraindo da natureza toda matéria-prima disponível 
e depois transformando-a, modificando-a, adaptando-a ao seu modo de vida e às suas 
necessidades humanas. 
É neste sentido que Saviani (Texto 05, 06 e Vídeo 01) irá dizer que ao contrário 
dos animais, que se adaptam à natureza, os seres humanos adaptam a natureza a si. E isto 
só foi possível à espécie humana devido ao processo de trabalho. Ora, afinal, o que é 
então trabalho? Trabalho/processo de trabalho é, nesta acepção, uma atividade de 
transformação da natureza em benefício da existência humana. 
Conforme afirma Saviani, 
A medida em que determinado ser natural se destaca da natureza e é 
obrigado, para existir, a produzir sua própria vida é que ele se constitui 
propriamente enquanto homem. Em outros termos, diferentemente dos 
animais, que se adaptam à natureza, os homens têm que fazer o 
contrário: eles adaptam a natureza a si. O ato de agir sobre a natureza, 
adaptando-a às necessidades humanas, é o que conhecemos pelo 
nome de trabalho. Por isto podemos dizer que o trabalho define a 
essência humana. Portanto, o homem, para continuar existindo, precisa 
estar continuamente produzindo sua própria existência através do 
trabalho. Isto faz com que a vida do homem seja determinada pelo modo 
como ele produz sua existência. (SAVIANI, Texto 05, p. 02, grifos 
nossos). 
Esta “atividade” é uma ação criativa, própria dos seres humanos, de fazer existir 
o que não existia, de criar o novo. Essa ação de trans-forma-ação nada mais é do que esta 
capacidade humana de, pela sua “ação” direta, poder “transcender”, “ir além” da “forma” 
natural dada e atribuir-lhe outro formato, mais adequado aos interesses e necessidades 
4 
 
humanas. Pense na árvore, que na natureza em estado bruto, in natura, é derrubada pelo 
homem e dela ele faz uma mesa, uma canoa, madeiramento para construção de abrigos 
etc. A matéria continua sendo a árvore, mas, na forma, ela foi trans-formada em outra 
coisa, distinta e imprevista pela natureza, porém, mais adequada aos seres humanos. 
Imprevista pela natureza pois não se viu até hoje uma cadeira, mesa ou canoa brotando 
do chão da terra ou como fruto de uma árvore qualquer. Trata-se de algo que para existir 
precisou da intervenção humana, do seu trabalho e que sem isto ela não existiria. 
Faça um exercício e olhe a sua volta, neste momento, e de tudo que você pode 
observar o que aí é totalmente natural, espontâneo, gerado pela natureza, sem intervenção 
humana alguma. A água é encanada, a luz é artificial, até o ar é condicionado, se possuir 
aparelho de ar-condicionado ou ventilador etc.. Por isto tudo se percebe o quanto os seres 
humanos rompem com o padrão natural das coisas, impondo o seu padrão: humano. É 
bom que se diga que “artificial” significa, em linhas gerais, o que se faz por arte ou 
indústria; produzidopelo homem; que não é natural. Neste caso podemos afirmar que o 
mundo artificial é o mundo propriamente humano, criado por ele e é o que o diferencia 
dos demais seres da natureza. Porém, vale lembrar, que nunca o ser humano irá se desligar 
totalmente da natureza, pois sempre ele será parte dela também. Os seres humanos são 
sim diferentes, mas não completamente independentes da natureza. 
Então, todo tipo de trabalho é uma ação de “trans-forma-ação” (ação de modificar 
a forma natural de algo), ação de criação. Daí que podemos afirmar que o trabalho é o 
processo pelo qual o homem ser-biológico/natural se transforma em homem ser-
social/cultural. O processo de trabalho, assim, é o meio pelo qual o animal humano se 
torna propriamente ser-humano. Ele transcende o seu padrão natural herdado da natureza 
e o transforma em algo “imprevisto” pela natureza, o ser-social, donde irá surgir a 
Sociedade. 
O homem sempre enfrentou problemas em sua luta pela sobrevivência, 
para solucioná-los ele foi criando e inventando soluções a partir dos 
recursos da própria natureza [...] Para se defender do frio e o ataque de 
outros animais, o homem teve que aprender a produzir e a controlar o 
fogo, todo o planeta era muito frio, todos os diferentes grupos 
espalhados pela terra do planeta precisavam de fogo. É provável que 
cada grupo tenha descoberto diferentes técnicas de produzir fogo com 
os recursos e conhecimentos de que dispunham. Tudo o que o homem 
inventava, criava e aprendia ia sendo aplicado na solução de outros 
problemas, na criação de novas soluções. O domínio do fogo, por 
exemplo, surgiu da necessidade que o homem tinha de se proteger do 
frio, mais tarde o fogo passou a ser utilizado para coser alimentos, 
transformar metais, fabricar peças mais resistentes. Aos poucos o 
5 
 
homem foi transformando o ambiente, criando novos elementos que 
antes não existiam na natureza. Sempre que o homem assimilava novas 
técnicas e soluções ele e seu grupo se transformavam. O homem pré-
histórico, por exemplo, era caçador nômade e não possuía abrigo fixo, 
abrigava grutas e cavernas, e dependiam de atividades de caça, pesca e 
coleta. (FONTE: Vídeo-Aula: “O Homem e a Cultura”. Telecurso 2º. 
Grau, s/d.). 
O homem sempre extraiu da natureza tudo aquilo que precisava para 
sobreviver. Seu alimento, seu abrigo, suas vestimentas. Mas as 
maneiras de extrair os elementos da natureza mudaram muito ao longo 
do tempo. Nos primeiros tempos de sua vida na terra os homens viviam 
unicamente da coleta, da caça e da pesca. Eles se alimentavam somente 
de animais e plantas que ocorriam na natureza. Com o tempo o homem 
foi desenvolvendo instrumentos que facilitavam o seu trabalho na busca 
da sobrevivência. Eram instrumentos feitos de pedra, osso e madeira 
talhados e lascados. (FONTE: Vídeo-Aula: “Pré-História e História”. 
Telecurso 2º. Grau, s/d.). 
A concepção ontocriativa do trabalho e o seu papel no processo de humanização 
não é outra coisa senão isto. E é este processo de criação de si, de autoprodução do próprio 
ser, da sua essência, um processo também pedagógico-educativo. Isto será retomado e 
desenvolvido mais adiante. Por ora fiquemos com a noção da importância do trabalho na 
formação do Ser do Homem. 
Trata-se do trabalho como princípio ontológico de formação do Ser/Essência do 
Homem em seu processo de humanização. O termo processo de humanização, é bom que 
esclareçamos, implica que o homem não nasce ser humano, ele torna-se humano. Ao 
nascer a criança tem as pré-condições biológicas para se tornar humana, mas ela somente 
se tornará humana efetivamente se receber os condicionamentos sociais, necessários, para 
isto. Pense, o que aconteceria com um bebê humano se ao nascer fosse abandonado à 
própria sorte? Sem outro humano para alimentá-lo, cuidar dele, protegê-lo do frio, calor 
etc., o que aconteceria? Mesmo passada esta fase inicial, se depois a criança não contar 
com outro humano para ensiná-la a andar, falar, se alimentar, como seria o 
desenvolvimento dessa criança? Conforme Paulo Freire, “Ninguém nasce feito. Vamos 
nos fazendo aos poucos, na prática social de que tornamos parte” (FREIRE, 2001, p. 40)1. 
E mais ainda: segundo Immanuel Kant, 
O homem é a única criatura que precisa ser educada. Por educação 
entende-se o cuidado de sua infância (a conservação, o trato), a 
disciplina e a instrução com a formação. Consequentemente, o homem 
é infante, educando e discípulo [...] A espécie humana é obrigada a 
extrair de si mesma pouco a pouco, com suas próprias forças, todas as 
 
1 Cf. FREIRE, Paulo. Política e educação: ensaios. 5ª. ed. São Paulo: Cortez, 2001. 
6 
 
qualidades naturais, que pertencem à humanidade [...] O homem não 
pode se tornar um verdadeiro homem senão pela educação. Ele é aquilo 
que a educação dele faz. Note-se que ele só pode receber tal educação 
de outros homens, os quais a receberam igualmente de outros. (KANT, 
1999, p. 11-15)2. 
Em outros termos, podemos afirmar, com base nisto, que o homem nasce 
inacabado e somente se faz Ser Humano pela cultura. Por cultura entendemos tudo aquilo 
que é feito pelos seres humanos, que não deriva de geração espontânea, natural. Por 
exemplo, uma árvore na floresta é natureza, uma árvore no jardim é cultura, está ali para 
atender a uma necessidade humana, seja ela estética ou qualquer outra. 
 
 
 
2 Cf. KANT, Immanuel. Sobre a pedagogia. 2ª. ed. Piracicaba, SP: Editora UNIMEP, 1999. 
7 
 
 
 
 
E ainda no vídeo-aula: O Homem e a Cultura, vemos que 
No processo de desenvolvimento da espécie humana cada grupo teve 
uma produção cultural específica, como instrumentos, costumes, 
crenças e modos de vida diferentes. É que desde os tempos mais 
remotos cada grupo humano, em ambientes diferentes, enfrentou 
problemas diferentes e criou diferentes soluções. Cada grupo humano 
acumulou os seus próprios conhecimentos de diferentes maneiras. 
8 
 
Assim, quando pensamos na formação de uma cultura podemos 
compreender que este processo não depende do tipo físico de cada 
grupo, nem da raça a qual pertence. Portanto, brancos, negros, asiáticos, 
índios, são apenas tipos humanos fisicamente diferentes, que 
desenvolveram culturas diferentes, nem superiores, nem inferiores uns 
aos outros, apenas diferentes. (FONTE: Vídeo-Aula: “O Homem e a 
Cultura”. Telecurso 2º. Grau, s/d.). 
 
Esses homens que viveram num período de quinhentos mil e vinte mil 
anos atrás dependiam inteiramente da natureza, dos ambientes que os 
cercavam. Sua vida era uma luta diária contra a fome, o frio e a fúria de 
outros animais. 
Os grupos humanos que viviam próximo ao mar acabaram 
desenvolvendo técnicas e instrumentos específicos para pesca. Grupos 
que viviam na floresta desenvolveram melhor utensílios para a caça. 
Sendo totalmente dependentes do ambiente que os cercavam, os 
homens foram desenvolvendo técnicas e culturas bastante 
diversificadas. 
Hoje, homens de diferentes civilizações sabem que num solo seco e 
duro uma semente não pode germinar e crescer, mas para os primeiros 
homens que viveram na face da terra a milhares de anos atrás este era 
um fato novo. Foi muito lentamente, observando, experimentando, 
aprimorando suas técnicas e ferramentas que os homens aprenderam a 
plantar e a produzir o seu próprio alimento. (FONTE: Vídeo-Aula: 
“Pré-História e História”. Telecurso 2º. Grau, s/d.). 
É neste ponto que ocorre a diferença entre os homens e os animais. Os homens 
são a única espécie que vive do seu trabalho. Os animais exercem atividades de 
9 
 
sobrevivência,de busca de alimentos, de construção como as formigas, aranhas, abelhas, 
castores, joão-de-barro, mas isto não é trabalho. 
 
Segundo Marx, 
 
 
10 
 
 
 
Qual é afinal a diferença entre os homens e os animais? Por que não podemos denominar 
de “trabalho” a atividade de sobrevivência os animais? 
 
 
Fonte: NETTO, J.P.; BRAZ, M. “Trabalho, sociedade e valor”. In: _______. Economia política: uma 
introdução crítica. 6ª ed. São Paulo: Cortez, 2010, p.29-53. 
11 
 
 
 
Fonte: NETTO, J.P.; BRAZ, M. “Trabalho, sociedade e valor”. In: _______. Economia política: uma 
introdução crítica. 6ª ed. São Paulo: Cortez, 2010, p.29-53. 
 
 
 
12 
 
 
 
 
 
13 
 
 
 
 
 
Entender a liberdade como “o poder de criar o possível”, proposta por Marilena 
Chauí, alarga os horizontes e permite ir além na compreensão do papel do trabalho em 
nossas vidas. Vez que o processo de trabalho é uma ação humana de criação do novo, que 
faz existir o que não existia, pode-se recuperar assim o sentido originário do trabalho, 
14 
 
sentido ontocriativo e confrontá-lo com a experiência atual de trabalho e analisar e criticar 
até que ponto a vivência que se tem do trabalho na atualidade corresponde aquilo que 
deveria ser. E aí isto pode conduzir a formas de luta e engajamento por melhores 
condições de trabalho. Para que se exerça com dignidade o próprio trabalho, de forma 
criativa, livre e emancipadora. 
Isto conduz à reflexão sobre o tipo de trabalho que se exerce hoje, na sociedade 
atual, capitalista. E pode-se partir da afirmação de que o trabalhador na sociedade 
capitalista exerce um trabalho alienado, estranhado. O qual pode ser tudo, menos 
criativo, livre e emancipador. Não é criativo porque se faz o que é determinado pela 
empresa; não é livre porque o trabalhador não tem ingerência alguma ou quase nenhuma 
sobre a forma de organização do processo produtivo e nem da jornada de trabalho; e não 
é emancipador porque o produto do seu trabalho não é seu, mas de um outro e por ele 
exercer o seu trabalho, na maior parte dos casos, por necessidade e não por opção, ou 
seja, trabalha-se no que for possível, no que aparecer, o negócio é estar empregado etc. 
Para melhor elucidar esta questão devemos analisar e compreender o conceito de 
trabalho alienado ou de alienação do trabalhador no trabalho. Passamos agora a tratar 
deste assunto. 
 
 
15 
 
ALIENAÇÃO, TRABALHO ALIENADO/ESTRANHADO 
 
 
 
 
Marx irá mostrar que sob a lógica do Capital o trabalhador é submetido 
ao “reino da necessidade” e o trabalho assume um aspecto 
profundamente negativo para o trabalhador (de alienação e 
estranhamento) à medida que ele passa a não mais reconhecer no 
processo de trabalho que realiza a fonte e a base da sua existência, a 
razão de ser do seu bem-estar no mundo, ao contrário, ele enxerga no 
trabalho a fonte de todos os seus males, a razão de todo o seu 
sofrimento. (ALVES e RODRIGUES, Texto 04, p. 66). 
 
Para bem entender o significado do conceito de alienação em Marx é preciso 
recuperar, mesmo que brevemente, a origem etimológica da palavra trabalho. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
16 
 
Imagens do Tripalium: 
 
 
Deste modo essa atividade humana de transformação da natureza pela qual o 
homem se faz plenamente homem, produzindo sua própria vida, conhecida como 
trabalho, é sentida pelo trabalhador como sofrimento, dor, castigo. Esta percepção é 
correta, mas devemos salientar que esta noção está associada ao surgimento da 
propriedade privada e à divisão da sociedade em classes sociais, principalmente a divisão 
entre os proprietários e os não proprietários. Cabendo aos não proprietários a incumbência 
de trabalhar para sustentar a si e aos proprietários. Este sofrimento vem daí. Desde então 
toda a experiência histórica que se tem de trabalho produtivo está associada a exploração 
de muitos seres humanos por uns poucos homens, beneficiados pelo trabalho daqueles. 
Esta situação irá provocar nos produtores diretos, nos trabalhadores, uma sensação 
de estranhamento com o trabalho que executam, pois nada nele, ou quase nada, tem que 
seja positivo e agradável. Realizam o seu trabalho por pura necessidade e obrigação, por 
uma questão de sobrevivência. Perdeu-se a noção do trabalho como uma atividade de 
satisfação de uma carência, como meio de produção da existência humana. O ser 
humano que precisa trabalhar para sobreviver não vê satisfação no que faz, no seu 
trabalho. Por isto ele irá buscar essa satisfação fora do trabalho. Vejamos, quanto a isto, 
o que nos diz Marx: 
17 
 
 
 
E mais ainda: 
 
 
18 
 
 
Podemos recordar aqui do Mito de Sísifo, muito ilustrativo do tipo de relação 
que se tem com o trabalho nas sociedades baseadas na exploração do trabalhador. 
 
 
19 
 
 
 
Conforme afirmam ALVES e RODRIGUES (Texto 04, p. 66), 
O trabalhador, no Capitalismo, não vê a hora que chegue o final de 
semana para fazer o que gosta e se angustia no domingo à noite quando 
percebe que a segunda-feira se aproxima. Por isto, dirá Marx, o 
trabalhador se sente mais humano (livre e ativo) fora do trabalho, posto 
que no trabalho ele se sente uma espécie de animal, um “burro-de-
carga”. Daí o caráter desumanizador do trabalho nas condições atuais, 
capitalistas. 
Além do sofrimento que representa o ter que trabalhar para um outro por sua 
sobrevivência e da sua família, o trabalho, nestas condições, o trabalho como exploração, 
tem o aspecto de ser um trabalho alienado, o que se opõe ao trabalho como criação e 
produção do novo, que faz existir o que não existia, mas feito por opção e não por 
obrigação. 
Para entender o sentido de estranhamento ou de trabalho estranhado atribuído 
por Marx precisamos explicitar melhor o significado do conceito de alienado. Este vem 
de alienação e a palavra alienação significa, etimologicamente, tornar-se estranho a si 
próprio. Deriva do latim “alienare”, “alienus”, que significa que pertence a um outro. 
Alienar também é um termo muito utilizado no mercado imobiliário e de automóveis, no 
sentido de alienar um imóvel ou carro, ou seja, vender ou passar para um outro a 
propriedade do seu imóvel ou carro. Está associada, portanto, ao direito de propriedade. 
20 
 
Esta enfim que é questão. O trabalhador e o capitalista, perante a lei, ambos são 
proprietários e livres. Ocorre que o capitalista é o proprietário dos meios de produção 
(fábrica, loja, maquinários, terras etc) e do capital. O trabalhador, por sua vez, é também 
proprietário, mas apenas da sua própria força de trabalho, da sua capacidade de trabalhar, 
manual e intelectualmente. Nas relações de produção que se estabelecem sob a lógica do 
capital, o capitalista compra a força de trabalho do trabalhador, por exemplo, na indústria 
para movimentar as máquinas. E o trabalhador vende livremente para o capitalista da sua 
escolha esta sua capacidade de operar tais máquinas por uma quantidade “x” de salário. 
Esta venda da força de trabalho do trabalhador para o capitalista é o que se chama de 
alienação. O trabalhador “aliena” sua capacidade de trabalhar em troca de um salário. 
Neste processo, o trabalhador não é dono, proprietário, de mais nada. Não é o dono dos 
instrumentos de trabalho, da matéria prima, dos produtos por ele produzidos com o seu 
trabalho, bem como não tem mais o domínio sobre o regime, o ritmo e a jornada de 
trabalho. Todo o controle sobre o processo produtivo e a posse dos produtos produzidos 
é de quem o contratou, do capitalista. 
Antes do capitalismo, o trabalhador, por exemplo, o Mestre Artesão, “(...) se 
constitui em produtorindependente, dono da matéria-prima e das ferramentas de 
produção, que vende diretamente o produto de seu trabalho e não sua força de trabalho” 
(SAVIANI apud ALVES, Texto 08 e 10, p. 02). 
O trabalhador do campo, no ambiente rural, o servo no feudalismo, 
também detinha certa propriedade sobre os meios de produção, mesmo 
que “emprestada”, por assim dizer, pois em última instância era o 
Senhor Feudal o fiel proprietário de tais meios, o servo tinha o direito 
de ter sua casa, sua oficina, pequenos animais, um quinhão de terra onde 
poderia cultivar produtos de subsistência para si e sua família etc. A 
jornada de trabalho, o ritmo, as decisões sobre o processo de trabalho 
em si era ele quem decidia, não havia em geral ingerência externa sobre 
isto. [...] A partir de então alteram-se radicalmente estas condições e as 
relações de produção vigentes. Opera-se uma expropriação do 
trabalhador, retirando dele a propriedade de quaisquer meios de 
produção, o domínio sobre as decisões em relação ao conjunto do 
processo produtivo, passando o controle para as mãos do capitalista, o 
dono dos meios de produção. (ALVES, Texto 08 e 10, p. 03). 
 
E mais ainda: 
A classe trabalhadora foi reduzida no capitalismo à essa condição de 
quase completamente expropriada de quaisquer meios de produção do 
trabalho num processo histórico que compreende a expulsão dos 
pequenos proprietários rurais de suas terras e a falência das oficinas de 
artesanato, do Mestre-Artesão, do sistema doméstico, levando a um 
21 
 
aumento significativo de uma população sem dinheiro, sem 
propriedade, apenas possuindo seu corpo e cérebro, ou seja, sua 
capacidade de trabalhar (força-de-trabalho) a qual passou a oferecer ao 
capitalista, dono das fábricas, das terras, em troca de um salário, para a 
sua subsistência. (ALVES, Texto 08 e 10, p. 04, grifos nossos). 
Como isto é possível? Para responder precisamos recuperar as características da 
produção capitalista, baseadas na manufatura/maquinofatura, divisão do trabalho e 
heterogestão. 
 
 
22 
 
 
 
 
 
23 
 
 
 
 
Fonte dos slides supracitados: TEXTO 04 – ALVES e RODRIGUES, do Cronograma. 
 
Então vejamos, o trabalhador alienado estranha o trabalho que executa, não o 
reconhece mais como seu, pois, de fato, não é mais seu. O processo produtivo não é ele 
quem decide, a jornada de trabalho também não e nem mesmo o produto do trabalho é 
seu. Tudo é de outro. 
24 
 
Em relação a isto, dirá Marx: 
Se minha própria atividade não me pertence, é uma atividade estranha, 
forçada, a quem ela pertence então? A outro ser que não eu. Quem é 
este ser? Os deuses? [...] O ser estranho ao qual pertence o trabalho e o 
produto do trabalho, para o qual o trabalho está a serviço e para a fruição 
do qual (está) o produto do trabalho, só pode ser o homem mesmo. Se o 
produto do trabalho não pertence ao trabalhador, um poder estranho 
(que) está diante dele então isto só é possível pelo fato de (o produto do 
trabalho) pertencer a um outro homem fora o trabalhador. Se sua 
atividade lhe é martírio, então ela tem de ser fruição para um outro e 
alegria de viver para um outro. Não os deuses, não a natureza, apenas o 
homem mesmo pode ser este poder estranho sobre o homem. [...] Se ele 
se relaciona, portanto, com o produto do seu trabalho, com o seu 
trabalho objetivado, enquanto objeto estranho, hostil, poderoso, 
independente dele, então se relaciona com ele de forma tal que um outro 
homem estranho a ele, inimigo, poderoso, independente dele, é o senhor 
deste objeto. Se ele se relaciona com a sua própria atividade como uma 
(atividade) não-livre, então ele se relaciona com ela como a atividade a 
serviço de, sob o domínio, a violência e o jugo de um outro homem (o 
capitalista) [...] ou como se queira nomear o senhor do trabalho. 
(MARX, 2006, p. 86-87)3. 
Daí a razão de afirmarmos que o trabalho alienado se configura como o aspecto 
negativo e desumanizador do trabalho. O processo de trabalho, de uma forma criativa de 
produção da existência humana como uma atividade positiva, ontológica, definidora do 
ser do homem, foi transformado em negação da própria vida a partir do momento que 
passou a se basear na exploração do homem sobre o homem. Cumpre agora recuperar o 
sentido originário do trabalho como princípio ontológico da existência humana, onde seja 
abolida toda forma de exploração de uns sobre os outros, e instaurar um novo tempo em 
que todos vivam do trabalho de todos e que todos tenham acesso aos produtos do trabalho 
de uns e de outros em igualdade de condições. 
 
 
3 Cf. MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2006. 
25 
 
 
ORIGEM DA EDUCAÇÃO E SURGIMENTO DA ESCOLA 
E DA SUA FINALIDADE 
 
 
 
Em que e como a educação e a escola estão associadas ao processo de trabalho? 
Saviani irá dizer, na Parte 1 do Vídeo 1: 
Nós sabemos que a educação coincide com a origem dos homens. No 
momento em que o homem surgiu no universo, surgiu também a 
EDUCAÇÃO. Isto porque, o que diferencia o homem dos demais 
animais, é exatamente o fato de que o homem não tem sua existência 
garantida pela natureza. O homem precisa produzir constantemente a 
sua existência, em outros termos, se os animais em geral se adaptam à 
natureza, o homem tem que fazer o contrário, ele tem que adaptar a 
natureza a si, ele tem que agir sobre a natureza transformando-a. Se ele 
não fizer isto, ele perece, quer dizer, ele não subsiste enquanto homem. 
Este ato de transformar a natureza é exatamente o que nós conhecemos 
pelo o nome de TRABALHO. É por isto que, comumente, se entende 
que o homem não pode viver sem trabalhar 
O homem vive do trabalho, ou seja, vive do processo de produção dos 
meios da sua própria existência, vive do processo de transformação da 
natureza para satisfazer as suas necessidades. Portanto, no momento em 
que surge o homem, surge a questão dele se formar a si mesmo, dele se 
constituir a si mesmo, dele se produzir a si mesmo e do aprendizado das 
formas de sua própria produção. 
É neste sentido que nas origens do homem, a educação coincidia com o 
próprio processo de existência, com a própria vida. Aí era verdade 
prática a frase: ¨Educação é Vida¨. [...]. Ou seja, o homem aprendia a 
viver, vivendo; aprendia a trabalhar, trabalhando; aprendia a lidar com 
a natureza, lidando com a natureza. E isto era feito coletivamente [...] 
aí não existia então escola, existia educação, mas não existia escola. 
(SAVIANI, Vídeo 01, parte 1, grifos nossos). 
Estas ideias mostram que há uma relação intrínseca entre a educação ou o processo 
educativo e a necessidade de o ser humano trabalhar para extrair da natureza tudo do que 
precisa para sobreviver. A educação aparece aqui como ato segundo, derivado, porque a 
sua função social é a de reproduzir para as novas gerações os conhecimentos 
desenvolvidos pelas gerações mais velhas no passado até o presente momento. 
Em outros termos, 
Além de todos os objetos e técnicas que desenvolveu, o homem criou 
maneiras de transmitir e ensinar o que criava. Os conhecimentos 
acumulados podiam ser passados dos mais velhos para os mais jovens, 
sem que fosse preciso iniciar tudo de novo a cada geração. Assim, as 
26 
 
descobertas se somavam. (FONTE: Vídeo-Aula: “O Homem e a 
Cultura”. Telecurso 2º. Grau, s/d., grifos nossos). 
A criança será inserida na vida social do grupo onde nasceu e deste grupo irá 
aprender os elementos fundamentais para poder viver neste mundo, conforme as 
considerações, costumes e tradições desse seu grupo social. Cada grupo social somentepode ensinar ao novo membro, recém-chegado, à criança, aquilo que esse grupo 
efetivamente conhece e reconhece como o modo mais adequado de se viver e sobreviver. 
O que, por sua vez, aprenderam dos grupos antes deles, ao qual acrescentaram as suas 
próprias experiências, invenções e criações desde as gerações dos seus antepassados até 
o nascimento desse novo membro, ao qual será repassado pelo grupo conforme o processo 
educativo que lhe é próprio, tais conhecimentos, costumes, técnicas etc. 
Todavia, Saviani esclarece que temos aí um processo educacional, pedagógico, de 
aprendizado, mais ainda não temos escola. 
Como e por que, então, irá surgir a escola? 
Fazendo uma breve retomada da origem da escola podemos perguntar como a 
escola foi pensada? Quando? Ela foi criada para atender quais finalidades? Recordar o 
processo histórico de criação das escolas, mesmo que brevemente, é fundamental para 
podermos analisar e entender mais concretamente o fenômeno e os problemas da 
educação contemporânea, os quais têm relação estreita com os princípios que nortearam 
o surgimento da escola como modalidade específica de educação e que de certa forma 
continuam a norteá-la até hoje e, sobretudo, devido à realidade contemporânea na qual 
as sociedades atuais tem na escola a sua principal modalidade de educação para todos. 
Então aqui já temos um primeiro ponto, qual seja, a escola surge em determinado 
momento histórico e social como uma modalidade específica de educação diferenciada 
da educação em geral pela qual passavam as gerações anteriores. 
Neste aspecto tomamos como referência os textos (05 e 06) e o vídeo 01 do 
professor Dermeval Saviani (vide Cronograma). O professor Saviani trata da relação 
intrínseca entre o processo de trabalho, a educação e a escola, da antiguidade aos dias 
atuais. Diz ele, retomando resumidamente o que já foi dito, que o trabalho e a educação 
são tão antigos quanto os seres humanos, ou seja, desde que o homem existe ele teve a 
necessidade de trabalhar, isto é, de agir sobre a natureza para transformá-la e de criar 
coisas úteis para o consumo e o bem-estar humanos, bem como teve a necessidade de se 
27 
 
educar, ou seja, de passar para as novas gerações o domínio dos conhecimentos adquiridos 
pelos humanos em cada momento da sua história. 
E mais ainda: diz Saviani que nesta fase existia educação, mas não existia ainda a 
escola. Tratava-se de uma educação prática, empírica, adquirida com a experiência. 
Aprendia-se a trabalhar, trabalhando; aprendia-se a viver, vivendo. A escola irá surgir 
muito muito tempo depois, ela surge mais recentemente na história da humanidade, em 
especial no mundo grego e romano, e a sua origem está associada ao surgimento da 
propriedade privada. 
Com isto temos agora o segundo ponto, o mais importante para entendermos o 
que é a escola, ou melhor, o que ela foi, por quê e para quê foi criada. E até que ponto 
podemos afirmar que a escola de hoje guarda ainda certas semelhanças com a “escola das 
origens”. 
Saviani afirma que a origem da escola está associada ao surgimento da 
propriedade privada. E esta como surge? A propriedade privada surge quando se passa 
das sociedades nômades para as sociedades sedentárias. No nomadismo, quando se vivia 
da caça, coleta e pesca, os grupos humanos ainda não tinham aprendido a produzir o seu 
próprio alimento e nem a domesticar os animais. Viviam daquilo que a natureza provinha. 
Era o denominado modo de produção comunal, quando se tinha tudo em comum, isto é, 
neste tipo de sociedade os produtos do trabalho individual de cada membro da 
comunidade eram colocados à disposição de todos, partilhados em comum, daí a 
afirmação de Saviani de que neste modo de produção “todos viviam do trabalho de todos”. 
Ao passar para o período sedentário, quando os seres humanos aprendem a 
cultivar alimentos e a domesticar os animais, eles precisam se fixar em determinado 
território para cuidar da lavoura e dos animais. Neste processo passaram a ter mais tempo 
livre e aproveitavam esse tempo para aperfeiçoar os seus instrumentos e as suas técnicas 
de trabalho. Isto com o tempo ajudou a melhorar a capacidade produtiva do grupo ao 
ponto de produzirem mais do que a capacidade de consumo de toda a comunidade. 
As sobras se estragavam e foi neste momento que surgiu a ideia de trocar o seu 
excedente de produção (as suas sobras) com outras comunidades vizinhas por outras 
coisas que não possuíam ou tinham em menor quantidade. E isto é o que se conhece pelo 
nome de “escambo”, ou seja, a troca de um produto por outro, o que dá origem às 
primeiras formas de mercado. No mercado se efetua a troca de mercadorias. O que é uma 
28 
 
mercadoria? Mercadoria é todo o produto destinado à venda (troca). Um produto feito 
para o consumo próprio do seu grupo pode ser chamado de produto de subsistência. 
Porém, um produto que desde antes já se prepara a sua produção com a intenção de vendê-
lo (ou trocá-lo por outro produto) e não necessariamente para o próprio consumo, a isto 
se chama de mercadoria. Toda mercadoria tem um duplo valor, chamado de valor-de-uso 
e valor-de-troca. Valor-de-uso é aquilo que tem alguma utilidade para as pessoas, seja 
esta vital (do estômago) ou supérflua (da fantasia). E o valor-de-troca é aquilo que pode 
gerar algum ganho, lucro, na sua troca ou venda. Por exemplo, numa sapataria um calçado 
qualquer tem para o cliente um valor-de-uso, pois ele o está comprando para usar. Já para 
o dono da sapataria os calçados têm valor-de-troca, ele é o dono de todos aqueles 
calçados, mas não pretende usá-los, e sim, vendê-los. E com o lucro da venda destes 
calçados ele irá comprar outras coisas que ele deseja ou precisa. 
Com o passar o tempo, à medida que os mercados foram sendo criados e 
ampliados, foi surgindo na antiguidade a necessidade de ampliar a quantidade dos 
excedentes de produção para aumentar consequentemente as possibilidades de trocas por 
mais coisas que gostariam de ter ou tinham em menor quantidade. Quanto mais produto 
excedente, mais coisas podiam adquirir (trocar ou comprar). É o que ocorre hoje com 
quem tem muito dinheiro. Quanto mais tem, mais pode comprar, correto? 
Mas, o que é o dinheiro? Dinheiro é uma mercadoria como outra qualquer, porém, 
sem valor-de-uso imediato, ele tem apenas valor-de-troca. É o que os economistas 
chamam de “equivalente geral”, uma mercadoria que equivale a qualquer outra, 
proporcionalmente. Antes do dinheiro se tornar o equivalente geral, tinha-se, por 
exemplo, em determinado tempo, o sal como equivalente geral. Ou seja, pagava-se as 
mercadorias por uma quantidade “x” do seu peso em sal. Até os serviços prestados 
costumavam a ser pagos pelo seu valor em sal. Disto é que se originou a palavra “salário’. 
Mas, voltando ao nosso tema central. Ainda nesta fase os ganhos alcançados com 
a produção dos excedentes econômicos, as mercadorias que eram vendidas ou trocadas 
nos mercados, o que se conseguia em troca era posto a serviço e para o consumo de toda 
a comunidade em igualdade de condições. Só para lembrar o que já disse Saviani, nesta 
fase “todos viviam do trabalho de todos”. A propriedade era coletiva, ou seja, os meios 
de produção tais como a terra, os animais, os instrumentos de trabalho etc. eram de todos, 
ninguém se dizia dono disto ou daquilo, portanto, sendo a propriedade dos meios de 
produção coletiva, os produtos criados por estes meios, as mercadorias, também eram de 
29 
 
todos. Aqui devemos esclarecer um aspecto que gera muita confusão quando se trata de 
falar de “propriedade privada”, o que era coletivo eram os meios de produção e não os 
bens de produção. Isto é, a terra, os animais e os instrumentos de trabalho é queeram 
propriedade coletiva, mas os bens produzidos, roupas, alimentos, abrigo etc., estes que 
eram privados, cada um deveria ter o seu, em igualdade de condições aos demais. 
Bem, então, quando se fala da origem da propriedade privada, se quer dizer do 
processo de quando na história, além dos bens de produção privados, os meios de 
produção também passaram a ser privados. Passaram a pertencer apenas a uma família 
ou pequeno grupo, deixando o restante da comunidade sem tais meios de sobrevivência. 
Chega-se a um ponto que algumas famílias começaram a concentrar para si as melhores 
faixas de terras e os melhores animais e, consequentemente, a exigir uma parcela maior 
para si da partilha dos produtos adquiridos com a troca proveniente do excedente 
produzido, alegando que eles contribuíram mais então teriam mais direito do que a 
maioria. Ou simplesmente impuseram pela força sua vontade e retiraram a propriedade 
do conjunto do grupo, apropriando-se privadamente dos meios de produção. Como 
consequência detinham também o domínio sobre os bens de produção e passaram a 
distribuí-los aos demais da comunidade a partir dos seus interesses e conveniências. 
Disto irá resultar aos poucos a noção de “propriedade privada”, particular, dos 
principais meios de produção da época. E muito rapidamente as terras e os animais que 
antes eram de todos passaram a ser a propriedade particular de apenas alguns e a 
comunidade ao invés agora de trabalhar e ver os produtos do seu trabalho gerarem 
recursos para todos, passou a trabalhar e gerar recursos apenas para alguns poucos que se 
apoderaram da propriedade, antes coletiva agora privada. 
Aqui é importante salientar uma diferença entre o regime de propriedade coletiva, 
o qual gera relações de cooperação e ajuda mútua e, por outro lado, o regime de 
propriedade privada que, por sua vez, gera relações de oposição e antagonismo, pois, os 
produtores diretos são, neste caso, constrangidos a trabalhar para um outro por 
necessidade ou pela força e não por opção, estes são explorados por aqueles. 
Aqueles que se apoderaram dos meios de produção fundamentais são comumente 
denominados de “proprietários” e aqueles que passaram a ficar sem tais meios são 
chamados de “não-proprietários”. Assim, os proprietários passaram a dominar a 
comunidade e, por conseguinte, o excedente de produção, passaram também a se sentir 
no direito de não mais precisarem trabalhar na terra para o próprio sustento, forçando 
30 
 
toda a comunidade, depois de subjugada, a trabalhar para o seu próprio sustento e para 
sustentar os novos donos da terra. Se antes todos viviam do trabalho de todos, a partir 
deste momento “alguns passaram a poder viver do trabalho dos outros”. Surge a partir 
daí trabalho como exploração e não mais como meio próprio de vida e de subsistência. E 
a maior exploração de todas que foi o trabalho forçado, trabalho escravo, conhecido 
como Modo de Produção Escravista. 
Relembrando a compreensão de “trabalho” e “processo de trabalho”, notem que 
ao surgir a propriedade privada dos meios de produção, surge também uma nova 
modalidade ou forma de organizar o próprio trabalho, ou seja, alterou-se 
significativamente o processo (o método) produtivo. De um trabalho livre e por opção, 
surge o trabalho forçado, de exploração de um homem sobre outros. 
Nestas condições, os proprietários passaram a ter mais tempo livre para se 
dedicarem a outras coisas, vez que estavam livres do trabalho produtivo, agora realizado 
por outros seres humanos escravizados. 
Bem, veremos agora como o surgimento da propriedade privada dos meios de 
produção relaciona-se com o surgimento da escola. Dando um salto na história, passados 
alguns milhares de anos, dentre as muitas coisas as quais os proprietários passaram a se 
dedicar em seu tempo livre irá surgir a scholé (lugar do ócio). Mas não era um lugar de 
não se fazer nada, ao contrário, era o lugar para onde eram enviadas as crianças que 
não precisavam trabalhar para viver. Os filhos dos proprietários. Lá eles aprendiam e 
dominavam os conhecimentos e técnicas necessários para dirigirem os trabalhos da 
mente, os quais exigiam esforço mental e intelectual. Não se exerciam atividades 
manuais, consideradas indignas do homem livre, vez que eram atividades próprias de 
escravos ou serviçais. 
As demais crianças, filhas dos não-proprietários, estavam impedidas de frequentar 
a scholé, restrita aos nobres e aristocratas, mas também passavam por um processo de 
educação pelo qual aprendiam e dominavam os conhecimentos e técnicas necessários 
para dirigirem os trabalhos das mãos, os quais exigiam esforço físico e manual, para o 
trabalho produtivo que deveriam exercer a serviço dos nobres e proprietários. 
A seguir disponibilizamos duas imagens que ilustram isto que foi dito. Durante a 
Idade Média cunhou-se o termo “Artes Liberais” e “Artes Mecânicas” para representar o 
31 
 
que seriam os conhecimentos próprios dos proprietários, nobres e aristocratas e dos não-
proprietários, trabalhadores e serviçais. 
 
 
 
 
32 
 
 
 
É neste contexto que teve origem a escola, como scholé, uma modalidade restrita 
de educação, destinada apenas para aqueles que viviam do trabalho de outros homens, 
pois, a maioria continuava a se educar como sempre se fez, no próprio trabalho e na vida. 
A escola nasce com esta marca congênita baseada na divisão entre trabalho intelectual e 
trabalho manual, resultante da divisão de classe da sociedade entre proprietários e não 
proprietários, fruto do surgimento da propriedade privada dos meios de produção. Isto 
perdurou até o fim da Idade Média, sofrendo drástica mudança durante as Revoluções 
Burguesas no Período Moderno. Todavia, para a classe trabalhadora, os não proprietários, 
na essência, as coisas não mudaram tanto assim. O que será evidenciado mais adiante. 
 
33 
 
UNIDADE II – DUALIDADE ESTRUTURAL EDUCACIONAL E O MODELO 
DE ESCOLA “PARA” A CLASSE TRABALHADORA. 
 
 
 
A ESCOLA COMO NOVA MODALIDADE PRINCIPAL DE 
EDUCAÇÃO PARA TODOS 
 
No Período Moderno, entre os séculos XVI e XIX, principalmente após a 
Revolução Industrial, surge a necessidade de capacitar técnica e cientificamente a mão-
de-obra que deveria realizar os trabalhos na indústria, vez que as máquinas tinham 
engastadas nelas fundamentos dos conhecimentos científicos, sobretudo, da física e da 
matemática. Mas, estes conhecimentos não eram passíveis de serem desenvolvidos 
espontaneamente, precisavam de ser apreendidos de forma sistemática. A exigência de 
dar acesso aos conhecimentos intelectuais surge com força e determinação levando o 
sistema burguês de produção, que ficou conhecido como modo de produção capitalista (o 
qual não vamos explicitar aqui neste momento, mas apenas indicar), levou-os a colocar a 
necessidade da escolarização dessa mão-de-obra para atender aos seus objetivos na 
produção. E a scholé, que antes era uma modalidade restrita de educação apenas aos 
nobres e aristocratas se generaliza e torna-se com o passar do tempo na modalidade 
principal de educação de toda a sociedade, consubstanciada na bandeira empunhada pela 
burguesia em sua fase revolucionária da “luta pela escola pública para todos”, inclusive 
para os trabalhadores. 
Segundo Dermeval Saviani é nesse período histórico, Período Moderno, que a 
escola se torna uma necessidade geral convertendo-se na modalidade principal de 
educação para todos e isto irá ocorrer com mais força, sobretudo, depois da Revolução 
Industrial e da Revolução Francesa, também conhecidas como Revoluções Burguesas. O 
surgimento da indústria no Século XVIII, a expulsão dos camponeses de suas terras, o 
crescimento das cidades, a vidaurbana, a invenção da imprensa, dentre outros fatores, 
são algumas das causas da necessidade de as pessoas dominarem os códigos escritos 
desenvolvidos pela escola. Após a Revolução Francesa e a instituição da República como 
forma de governo, centrada na observância da Lei escrita (Constituição), no direito 
positivo, nos contratos, casamento civil etc. evidenciou o problema do analfabetismo. 
Como cobrar a observância da Lei se as pessoas não sabem ler e escrever? 
(...) a sociedade contratual, baseada nas relações formais, centrada na 
cidade e na indústria, vai trazer consigo a exigência de generalização da 
34 
 
escola. A produção centrada na cidade e na indústria implica que o 
conhecimento, a ciência que é uma potência espiritual, se converta, 
através da indústria, em potência material. Então, o conhecimento - 
Bacon assim colocava no início da Época Moderna - é poder, conhecer 
é poder. Todo o desenvolvimento científico da Época Moderna se 
dirigia ao domínio da natureza: sujeitar a natureza aos desígnios do 
homem, transformar os conhecimentos em meios de produção material. 
E a indústria não é outra coisa senão o processo pelo qual se incorpora 
a ciência, como potência material, no processo produtivo. Se se trata de 
uma sociedade baseada na cidade e na indústria, se a cidade é algo 
construído, artificial, não mais algo natural, isto vai implicar que esta 
sociedade organizada à base do direito positivo também vai trazer 
consigo a necessidade de generalização da escrita. Até a Idade Média, 
a escrita era algo secundário e subordinado a formas de produção que 
não implicavam o domínio da escrita. Na Época Moderna, a 
incorporação da ciência ao processo produtivo envolve a exigência da 
disseminação dos códigos formais, do código da escrita. O direito 
positivo é um direito registrado por escrito, muito diferente do direito 
natural que é espontâneo, transmitido pelos costumes. O domínio da 
escrita se converte, assim, numa necessidade generalizada. Com efeito, 
já que não existe ciência oral (a ciência implica em registro escrito), ao 
incorporar a ciência a cidade incorpora, na sua forma de organização, a 
exigência do domínio da escrita. Esta é uma questão que ainda hoje está 
presente, ou seja, o desenvolvimento da escola vinculado ao 
desenvolvimento das relações urbanas. O que por vezes se chama de 
vínculo entre a escola e os padrões urbanos. Quanto mais avança o 
processo urbano-industrial, mais se desloca a exigência da expansão 
escolar. Por aí é possível compreender exatamente por que esta 
sociedade moderna e burguesa levanta a bandeira da escolarização 
universal, gratuita, obrigatória e leiga. A escolaridade básica deve ser 
estendida a todos. (SAVIANI, Texto 05, p. 05). 
E mais ainda: o domínio dos códigos escritos e a importância da alfabetização 
ligam-se à nova relação que se estabelecerá entre Ciência e Técnica, onde a Ciência pura 
torna-se-á ciência aplicada à produção – tecnologia – e colocará a exigência de um 
domínio teórico, por mínimo que seja, dos fundamentos científicos dos instrumentos e 
técnicas necessários à indústria. E uma vez que são os trabalhadores quem deveriam 
operar tais maquinários, precisavam dar aos trabalhadores algum domínio do saber 
científico engendrados nas técnicas e máquinas da indústria. É assim que irá surgir como 
uma necessidade objetiva o problema do acesso dos trabalhadores à Scholé, local por 
excelência do desenvolvimento e acesso aos conhecimentos científicos e teóricos. 
A mudança principal realizada pela Revolução Industrial foi a substituição da 
mão-de-obra humana pela máquina no processo produtivo. Se antes, na manufatura, o 
homem era a força produtiva central, se era ele (o trabalhador) quem agia sobre a matéria 
para transformá-la em algo útil para o consumo humano, agora, na indústria, transferiu-
se para as máquinas as atividades manuais. Esta é a grande revolução industrial que se 
35 
 
operou a partir de então, que colocou a máquina no centro do processo produtivo 
deslocando o homem (o trabalhador) transformando-o num “adendo” da máquina, que 
está ali apenas para garantir que esta continue funcionando bem e de modo eficiente. Não 
é mais ele (o trabalhador) quem age sobre a matéria para transformá-la (o trabalhador não 
mais o produtor direto), e sim, é a máquina que agora ocupa esta função. De produtor o 
trabalhador foi reduzido a servo da máquina. 
Além disso a produção mecanizada é muito mais eficiente e uniforme do que o 
corpo humano. Por esta razão é que a substituição do homem pela máquina apresenta 
inegáveis vantagens para o capital, tanto na redução do custo, como na redução do tempo 
de produção, com a qual o trabalhador manual não pode competir. Daí porque o modo de 
produção anterior baseado na manufatura tenha sido abandonado e superado pela 
produção industrial (maquinofatura), devido as vantagens objetivas deste novo modo de 
produção. 
A indústria tendo o seu processo produtivo centrado nas máquinas e não mais no 
trabalho humano direto e sendo a máquina resultado de conhecimentos científicos da 
física, da mecânica, da matemática etc., passou a exigir gradativamente dos trabalhadores 
que as operavam algum nível de conhecimento científico-tecnológico, mas, estes 
conhecimentos, teóricos, não podiam ser desenvolvidos somente pela observação 
empírica, como antes no trabalho manual, precisavam de estudos mais complexos que só 
eram acessíveis e veiculados por instituições específicas conhecidas como escolas ou 
academias. Assim, neste contexto, aos poucos é que a escola irá se converter na principal 
forma de educação da maioria em substituição a educação empírica e espontânea das 
épocas anteriores, nas quais a educação escolar estava restrita aos nobres e aristocratas. 
Atualmente a educação escolar é tão natural e óbvia que muitos nem têm a noção de que 
nem sempre ela foi uma necessidade para todos da sociedade. 
Todavia, para os trabalhadores estas mudanças não foram tão vantajosas conforme 
fora prometido. Segundo Saviani, estas mudanças poderiam ser vantajosas aos 
trabalhadores ao liberar os trabalhos das atividades manuais pesados, sobrando mais 
tempo livre para os trabalhadores se dedicarem a outras coisas. Mas na prática isto acaba 
não ocorrendo porque a máquina não é dos trabalhadores, elas têm um dono (o capitalista) 
e estão a serviço deste, por isto a Revolução Industrial para o trabalhador irá trazer muitos 
prejuízos, principalmente o desemprego, vez que uma máquina poderia exercer a função 
36 
 
de muitos trabalhadores manuais ao mesmo tempo, necessitando-se apenas de alguns 
poucos trabalhadores para o manuseio dessas máquinas. 
Outra desvantagem dos trabalhadores é em relação ao acesso à Scholé. A escola 
ao surgir no cenário das Revoluções Burguesas como uma necessidade objetiva e 
erigindo-se na forma principal de educação para todos, para desenvolver o domínio do 
saber ler, escrever e contar, bem como dos conhecimentos científicos e teóricos, apareceu 
como uma grande conquista, o que de fato foi, mas não sem contradições e limites. Em 
relação a educação, a escola, para a classe trabalhadora, surge o problema de que em que 
medida deveria isto ser feito? Até onde deveria ir o domínio por parte dos trabalhadores 
desses conhecimentos científicos e teóricos, do saber ler, escrever e contar? A solução 
será organizar um tipo de escola para a classe trabalhadora, por quem não é 
trabalhador, mas dele precisa. Assim essa escola é planejada e oferecida aos 
trabalhadores, em sua forma e conteúdo, de acordo com as necessidades dos seus 
idealizadores. (ALVES, Texto 08 e 10, p. 15). Surge então a tese da educação escolar 
em “doses homeopáticas” paraos trabalhadores como a solução mais adequada aos 
interesses em jogo naquele momento visando adaptar os trabalhadores à nova ordem 
social nascente, à ordem burguesa e capitalista. A qual irá determinar o sentido real do 
lema e da defesa de uma ESCOLA PÚBLICA PARA TODOS levantada e defendida pela 
burguesia. Ou seja, tratar-se-á de uma escola pública, mas não igual e nem do mesmo tipo 
para todos. 
 
37 
 
 
DUALIDADE EDUCACIONAL 
 
 
Esta discussão nos remete ao tema da dualidade educacional, a qual, segundo Ana 
Margarida Campello, Texto 09, do Cronograma, se define a partir da ideia de que 
a escola não é única, nem unificadora, mas constituída pela unidade 
contraditória de duas redes de escolarização: a rede de formação dos 
trabalhadores manuais e a rede de formação dos trabalhadores 
intelectuais [...] Essa diferenciação se concretizou pela oferta de escolas 
de formação profissional e escolas de formação acadêmica para o 
atendimento de populações com diferentes origens e destinação social 
[...] A escola de formação das elites e a escola de formação do 
proletariado [...] A educação profissional destinada àqueles que estão 
sendo preparados para executar o processo de trabalho, e a educação 
científico-acadêmica destinada àqueles que vão conceber e controlar 
este processo” (CAMPELLO, Texto 07, p.136 ss). 
A dualidade educacional se caracteriza, portanto, pela oferta de um tipo de 
escolarização de excelência para as classes ricas e dirigentes, com enfoque no 
desenvolvimento intelectual destinado a preparação para o ingresso no ensino superior e 
para assumir posteriormente os cargos de direção e comando no mercado de trabalho e 
na sociedade. E outro tipo de escolarização minimalista, destinada às classes pobres e 
subalternas, para o ingresso imediato no mercado de trabalho, num emprego qualquer, de 
baixa remuneração e que exige menos do desenvolvimento intelectual para atuar na 
produção em trabalhos manuais. 
É por isto que podemos afirmar que apesar dos ganhos para a classe trabalhadora 
que representou a generalização do acesso à educação escolar, científica, intelectual e 
técnica, esta ainda não foi conquistada plenamente como se imaginava. Daí podermos 
afirmar que a dualidade educacional aparece como o fundamento da escola para a classe 
trabalhadora. Entender isto é essencial para compreender o papel e as condições da escola 
pública sob a lógica do capitalismo. Bem como de que forma isto também se associa à 
noção e finalidade da escola das origens (a Scholé). 
Percebe-se que já na origem a educação prevista para o trabalhador está 
condicionada às necessidades da produção capitalista. Desde o início a 
educação requerida, pensada e oferecida à classe trabalhadora é 
concebida apenas como a formação de um “meio de produção” para o 
mercado de trabalho capitalista e não como uma educação para a 
formação humana, do ser humano que há no trabalhador (ALVES, 
Texto 08, p.05) 
38 
 
Ao contrário, trata-se de um modelo de educação que visa a formação do 
trabalhador no ser humano, daí desenvolver-se mais os aspectos operacionais na sua 
formação em detrimento dos aspectos humanistas e de formal geral. 
Manacorda recorda de um escrito dirigido ao barão Francesco Pertusato, gentil-
homem de Sua Majestade Imperial Régia austríaca, nos seguintes termos: 
Uma das manias que podemos considerar dominante em nossos dias na 
Europa é aquela de querer difundir as luzes sobre todas as classes da 
sociedade... Mas quem pode conter as risadas perante a louca ideia de fazer 
participar do benefício dessas luzes o simples e morigerado morador dos 
campos? E a classe dos artesãos, a este respeito, não é absolutamente diferente 
daquela dos camponeses... Faz-se necessário, portanto, que se prescrevam 
limites à comunicação das luzes na sociedade... porque a ignorância parece 
reivindicar com autoridade o seu império... É conveniente, portanto, não 
ocupar-se da instrução científica daquelas classes da população, condenadas 
pela indigência a um trabalho mecânico e diuturno. Para elas basta que sejam 
imbuídas de uma moral pura e santa. O que seria realmente vergonhoso é 
descuidar da educação da classe nobre, confortada e rica” [sic]. 
(MANACORDA, 2001, p.276)4. 
E mais ainda: Em dois trechos citados por Aníbal Ponce5, um escrito por Voltaire 
em 1757 e outro por Diderot, vinte anos depois, expressam como era forte esta percepção 
sobre o tipo de educação que se deve prover aos trabalhadores, bem como havia quem 
pensasse diferente e numa perspectiva contra-hegemônica, por assim dizer. 
Ponce retoma um escrito de Voltaire para Vossa Majestade, seu amigo, o Rei da 
Prússica, em 1757, o qual dizia: “prestará um serviço imortal à Humanidade se conseguir 
destruir essa infame superstição (a religião cristã), não digo na canalha, indigna de ser 
esclarecida e para a qual todos os jugos são bons, mas na gente de peso” (VOLTAIR, 
apud PONCE, 2001, p.133, grifos do autor). 
E numa visão contrária a esta, cita Diderot, que escreve para a Imperatriz 
Catarina da Rússia sobre o plano de uma universidade para todos, no qual dizia: 
É bom que todos saibam ler, escrever e contar, desde o Primeiro-
Ministro ao mais humilde dos camponeses”. E pouco adiante, depois de 
indagar por que a nobreza se havia oposto à instrução dos camponeses, 
respondia – segundo Ponce – nestes termos: “Porque é mais difícil 
explorar um camponês que sabe ler do que um analfabeto” [...] “Quando 
não se quer enganar ninguém, quando não se têm paixões ou interesses 
 
4 Cf. MANACORDA, Mario. História da educação: da antiguidade aos nossos dias. 9ª ed. São Paulo: 
Cortez, 2001. 
5 PONCE, Aníbal. Educação e luta de classes. 19ª. ed. São Paulo: Cortez, 2001. 
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a disfarçar – dizia também Helvetius –, não se teme o saber e o bom 
senso populares [sic]. (DIDEROT apud PONCE, 2001, p. 133). 
Enfim, a forma como foi pensada a escola PARA a classe trabalhadora inaugura 
uma nova modalidade de educação ao transformar a educação escolar na modalidade 
principal de educação para todos, mas também cria uma diferenciação da formação 
destinada aos proprietários e não-proprietários, a qual reeditará sob nova roupagem a 
dicotomia entre trabalho intelectual e trabalho manual, presente desde o surgimento da 
propriedade privada dos meios de produção, conforme já mencionado. 
A escola para os trabalhadores não será a mesma da classe dirigente, capitalista, 
os novos “proprietários” no poder. A escola para os proprietários irá continuar a sua 
função de desenvolver os aspectos intelectuais e a capacidade de “mando” para o qual 
estão destinados apenas aqueles que irão ocupar as funções de direção geral da sociedade 
e/ou das empresas. E a escola para os trabalhadores nasce assim como uma forma de 
veicular o conhecimento em “doses homeopáticas” e tal como a educação dos não-
proprietários na antiguidade, a escola foi pensada na Época Moderna no que diz respeito 
à formação dos trabalhadores como uma forma limitada de educação para desenvolver 
apenas os conhecimentos práticos e manuais e que pouco exijam da capacidade intelectual 
dos seus aprendizes. Visa desenvolver no trabalhador apenas o domínio operacional da 
técnica, sem o domínio da teoria. 
 
 
40 
 
Do modelo de escola “para” a classe trabalhadora no 
Capitalismo: contradições; 
 
Relacionar o que foi exposto até o momento sobre o trabalho, a educação e a 
escola, em especial a questão de o trabalhador exercer uma atividade alienada e tudo que 
isto implica, já comentado, brevemente, representa um desafio para aqueles/as que estão 
no “chão” da escola. Saber que a escola, em especiala escola pública, que atende 
geralmente os filhos da classe trabalhadora e que esta foi pensada historicamente para 
minimizar o acesso dos trabalhadores à cultura sistematizada e aos instrumentos de 
produção do conhecimento teórico, pode levar a um sentimento de desânimo e apatia. 
Todavia, apesar da situação adversa, devemos ter em mente que “a realidade 
concreta apresenta contradições neste processo as quais podem converter-se em 
conquistas e avanços para a classe trabalhadora rumo a sua emancipação humana” 
(ALVES, Texto 08, p. 06). 
Conforme considera Dermeval Saviani, a este respeito, 
(...) na sociedade moderna, o saber é força produtiva. A sociedade 
converte a ciência em potência material. Bacon afirmava: "saber é 
poder". E meio de produção. A sociedade capitalista é baseada na 
propriedade privada dos meios de produção. Se os meios de produção 
são propriedade privada, isto significa que são exclusivos da classe 
dominante, da burguesia, dos capitalistas. Se o saber é força produtiva 
deve ser propriedade privada da burguesia. Na medida em que o saber 
se generaliza e é apropriado por todos, então os trabalhadores passam a 
ser proprietários de meios de produção. Mas é da essência da sociedade 
capitalista que o trabalhador só detenha a força de trabalho. Aí está a 
contradição que se insere na essência do capitalismo: o trabalhador não 
pode ter meio de produção, não pode deter o saber, mas, sem o saber, 
ele também não pode produzir, porque para transformar a matéria 
precisa dominar algum tipo de saber. Sim, é preciso, mas "em doses 
homeopáticas", apenas aquele mínimo para poder operar a produção. É 
difícil fixar limite, daí por que a escola entra nesse processo 
contraditório: ela é reivindicada pelas massas trabalhadoras, mas as 
camadas dominantes relutam em expandi-la (SAVIANI, Texto 05, p. 
09, grifos nossos). 
No Texto 08 comentamos estas considerações de Saviani, dizendo: 
Note-se que o capitalismo tem aí uma das suas principais contradições, 
as quais podem, se devidamente exploradas, constituírem-se em 
caminho de superação desta realidade, ou seja, a realidade concreta do 
capitalismo apresenta contradições que podem voltar-se contra ele 
próprio, como é esta necessidade de o Capital precisar manter os 
trabalhadores numa situação de desqualificação e sem propriedade, sem 
meios de produção de sua própria existência, enquanto ao mesmo tempo 
41 
 
necessita que ele tenha algum domínio do saber elaborado, sistemático, 
sobretudo à medida que os instrumentos de produção evoluem e novas 
tecnologias são aplicadas na indústria capitalista (sic). (ALVES, Texto, 
08, p. 06). 
Nesta perspectiva, apesar dos limites da escola como veículo de transformação 
social, dado aos seus condicionantes políticos, econômicos e ideológicos, as contradições 
apontadas dão margem para ações rumo a constituição de uma escola emancipadora, à 
medida que se lute por melhores condições de trabalho dos profissionais da educação, dos 
professores e dos alunos que atuam na escola; à medida que se consiga melhorar a 
qualidade do ensino e da aprendizagem, com professores bem formados, escolas bem 
equipadas, novas didáticas e novas metodologias de ensino que despertem o interesse dos 
jovens pelo estudo etc. Ao melhorar a qualidade da escola pública, garante-se um melhor 
aproveitamento dos estudos por parte dos estudantes e, quiçá, além dos limites desejados 
e impostos pelo mercado e para além dos interesses do capital. Vez que “é difícil fixar 
este limite”, de acordo com Saviani, então, o caminho, parece, é forçar a escola a 
ultrapassá-lo.

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