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Prévia do material em texto

Ficha	catalográfica	elaborada	pela	Biblioteca	Reitora	Nadir	Gouvêa	Kfouri/PUC-SP
Antunes,	Mitsuko	Aparecida	Makino
				A	psicologia	no	Brasil:	leitura	histórica	sobre	sua	constituição	/	Mitsuko	Aparecida	Makino	Antunes.	5.	ed.	–	São	Paulo:	EDUC,	2014.
				Bibliografia.
	
				ISBN	978-85-283-0494-7
	
				1.	Psicologia	–	Brasil	–	História.	I.	Título.
	
	 CDD	150.981
	
	
Conselho	Editorial:	Anna	Maria	Marques	Cintra	(Presidente),	Cibele	Isaac	Saad	Rodrigues,	Ladislau	Dowbor,	Mary	Jane	Paris	Spink,
Maura	Pardini	Bicudo	Véras,	Norval	Baitello	Junior,	Rosa	Maria	B.	B.	de	Andrade	Nery,	Sonia	Barbosa	Camargo	Igliori.
	
	
	
	
EDUC	–	Editora	da	PUC-SP
	
Direção:	Miguel	Wady	Chaia
Produção	Editorial:	Sonia	Montone
Revisão:	Siméia	Mello
Editoração	Eletrônica:	Waldir	Alves,	Gabriel	Moraes
Administração	e	Vendas:	Ronaldo	Decicino
Produção	do	ebook:	Schäffer	Editorial
	
	
	
Rua	Monte	Alegre,	984	–	Sala	S16
CEP	05014-901	–	São	Paulo	–	SP
Tel./Fax:	(11)	3670-8085	e	3670-8558
E-mail:	educ@pucsp.br	–	Site:	www.pucsp.br/educ
A
Nena	e	Luís,	in	memoriam
Ana	Carolina
e	Hermenegildo
Sumário
Apresentação
Introdução
PARTE	I
Antecedentes
Capítulo	1
A	preocupação	com	os	fenômenos	psicológicos	no	período	colonial
Capítulo	2
A	preocupação	com	os	fenômenos	psicológicos	no	século	XIX
2.1.	O	Pensamento	Psicológico	na	Educação
2.2.	O	Pensamento	Psicológico	na	Medicina
2.3.	À	Guisa	de	Síntese
PARTE	II
A	psicologia	científica	e	seu	processo	de	autonomização	no	Brasil
Capítulo	1
A	psicologia	em	instituições	médicas
1.1.	Os	hospícios	e	algumas	instituições	correlatas
1.2.	Medicina	Legal,	Psiquiatria	Forense	e	Criminologia
1.3.	Teses	de	Doutoramento	das	Faculdades	de	Medicina
1.4.	À	Guisa	de	Síntese
Capítulo	2
A	Psicologia	em	Instituições	Educacionais
2.1.	Algumas	instituições	educacionais
2.2.	A	Psicologia	nas	obras	pedagógicas	e	psicológicas
2.3.	À	Guisa	de	Síntese
Capítulo	3
A	Psicologia	na	organização	do	trabalho
PARTE	III
Conclusão
APÊNDICE
BIBLIOGRAFIA	CITADA
E
Apresentação
ste	é	um	excelente	livro.	Serve	a	muitos	e	diferentes	leitores,	de	estudantes	e	profissionais	da	área	de
Psicologia	 a	 simples	 interessados	 em	 psicologia	 e	 história	 do	 Brasil.	 Tem	 um	 objeto	 claro	 –	 a
história	da	Psicologia	no	Brasil	–,	mas	que	resulta	de	cuidadosa	pesquisa	baseada	no	princípio	segundo	o
qual	 uma	 “abordagem	 social”	 nesta	 área	 possibilita	 a	 apreensão	 do	 diálogo	que	 se	 estabelece	 entre	 a
Psicologia	 e	 a	 formação	 social	 na	 qual	 ela	 se	 produz,	 considerado	 o	 conhecimento	 como	 produto
fundamentalmente	histórico	e	 social.	Por	outro	 lado,	 é	apresentada	em	 texto	bem	escrito	e	muito	vivo,
envolvente,	o	que	o	torna	de	fácil	e	agradável	leitura.
Particularmente,	 é	 um	 excelente	 livro	 para	 professores	 e	 es​​tu​dantes	 em	 História	 da	 Psicologia.
Acostumados	a	conhecer	a	história	da	psicologia	em	manuais	escritos	a	partir	de	ou	para	cursos	na	área,
mesmo	assim	em	geral	apenas	os	traduzidos	e,	entre	estes,	mais	freqüentemente	aqueles	escolhidos	para
atender	 ao	 entendimento	 da	 área	 como	 um	 conjunto	 de	 teorias	 e	 sistemas	 em	 psicologia,	 os	 leitores
encontrarão	neste	livro	duas	importantes	novidades.
A	primeira	tem	a	ver	com	a	questão:	de	onde	começar?	Repassando	a	história	desta	História,	desde
o	Baldwin,	de	1913,	ou	o	Brett,	de	1921,	mas	também	a	maioria	dos	livros	escritos	especialmente	como
literatura	pedagógica	 (Brock,	1998)	–,	 encontramos	uma	Psicologia	que	 freqüentemente	começa	na	era
pré-socrática.	 Mas	 há	 quem	 entenda	 que,	 para	 melhor	 compreendê-la,	 é	 preciso	 ir	 mais	 longe,
encontrando	suas	raízes	no	pensamento	oriental	que	a	precedeu.	Este	livro	pode	atender	a	uma	proposta
diferente:	por	que	não	começar	de	onde	estamos?	É	o	que	Mitsuko	nos	traz	neste	livro:	uma	história	da
Psicologia	no	Brasil.
A	 segunda	novidade	 responde	a	uma	questão	 relacionada	ao	objetivo	mesmo	do	ensino	 superior.
Como	estudar?	Este	livro	corresponde	a	uma	particular	maneira	de	entendê-la.	Trabalhando	diretamente
com	pesquisa	na	área,	professor	e	aluno	familiarizam-se	com	o	fazer	histórico,	preparando-se	para	 ler
criticamente	qualquer	livro	em	história	da	psicologia.
Em	 linguagem	 muito	 agradável,	 a	 autora	 –	 apaixonada	 pesquisadora	 do	 tema	 –	 leva	 o	 leitor	 a
compreender	como	a	Psicologia	conquistou	seu	espaço	próprio	como	área	de	conhecimento	e	campo	de
práticas	no	Brasil.	E	o	faz	pesquisando	não	só	o	desenvolvimento	de	idéias	e	práticas	psicológicas	e	suas
bases	epistemológicas,	como	os	fatores	contextuais	–	sociais,	políticos,	culturais,	no	interior	dos	quais
esta	história	se	constrói.
Finalmente,	 cabe	 lembrar	 que,	 correspondendo	 a	 uma	 expecta-tiva	 da	 autora,	 este	 livro	 deve
contribuir	também	para	estimular	novos	estudos	na	área,	para	o	que	muito	concorrerá	uma	cronologia	de
fatos	significativos	que,	em	Apêndice,	completa	a	obra.
Maria	do	Carmo	Guedes
BALDWIN,	J.	M.	(1913).	A	history	of	Psychology:	a	sketch	and	a	 interpretation	(2	vols.).	New	York,
Putnan.
BRETT,	G.	S.	(1912-1921).	A	history	of	Psychology	(3	vols.).	New	York,	Macmillan.
BROCK,	 A.	 (1998).	 Pedagogia	 e	 pesquisa.	 The	 Psychologist	 (Bulletin	 of	 The	 British	 Psychological
Society),	vol.11,	n.4	(Special	issue	“History	and	philosophy.	Out	of	margins”),	p.	169/72.
A
Introdução
psicologia	 constitui-se	 numa	 ciência	 que,	 reconhecidamente,	 tem	 exercido	 uma	 função	 social	 de
grande	 relevância,	 quer	 como	 área	 de	 conhecimento	 que	 tem	 contribuído	 para	 ampliar	 a
compreensão	 dos	 problemas	 humanos,	 quer	 como	 campo	de	 atuação	 cada	 vez	mais	 vasto	 e	 efetivo	 na
intervenção	sobre	estes.
No	mundo	atual,	o	desenvolvimento	científico	e	tecnológico	tem	alcançado	patamares	nunca	antes
imaginados.	Tempo	e	espaço	adquirem	novos	significados	com	a	eliminação	das	distâncias	pelas	redes
informatizadas.	Novos	conhecimentos	vêm	transformar	profundamente	a	estrutura	produtiva,	a	educação,
a	assistência	à	 saúde,	 as	artes,	 as	 relações	humanas.	Alguns	velhos	problemas,	no	entanto,	não	apenas
permanecem	como	tendem	a	agravar-se:	a	miséria,	a	exclusão	social,	a	violência,	a	limitação	do	acesso
ao	 saber	 e	 à	 saúde,	 o	 desemprego,	 a	 xenofobia,	 o	 racismo,	 as	 guerras	 imperialistas,	 a	 escassez	 de
perspectivas	existenciais.
Nesse	panorama,	os	problemas	do	presente	e	os	que	vislumbramos	para	um	futuro	próximo	impõem
à	Psicologia	 tarefas	cada	vez	maiores	e	mais	desafiadoras;	disso	decorre	a	 imperativa	necessidade	de
reflexão	sobre	seu	significado	e	sua	responsabilidade	na	construção	do	devir	histórico.
É	preciso,	pois,	que	tenhamos	uma	compreensão	mais	ampla	da	Psicologia	e	de	sua	relação	com	a
sociedade;	nesse	quadro,	o	conhecimento	da	História	da	Psicologia	torna-se	particularmente	importante.
A	compreensão	do	processo	de	construção	histórica	de	uma	área	de	conhecimento	é	tão	imprescindível
quanto	o	conteúdo	de	suas	teorias	e	o	domínio	de	suas	técnicas	que,	tomados	atem-poralmente,	são	meros
fragmentos	de	uma	totalidade	que	não	se	consegue	efetivamente	apreender.
Para	se	compreender	a	Psicologia	como	construção	histórica	devem	ser	considerados	três	aspectos:
o	desenvolvimento	específico	das	 idéias	 e	práticas	psicológicas,	 sua	base	epistemológica	e	os	 fatores
contextuais	 (aspectos	estes	 só	 separáveis	como	 recurso	didático).	O	conhecimento	de	 tais	 elementos	 é
condição	 necessária	 para	 uma	 reflexão	 profunda	 e	 para	 o	 estabelecimento	 de	 parâmetros	 a	 fim	 de
responder	aos	desafios	que	se	colocam	hoje	para	esta	ciência.
Paradoxalmente,	pouco	se	tem	investido	em	estudos	e	na	difusão	desse	conhecimento.	A	História	da
Psicologia	em	geral	e	da	História	da	Psicologia	no	Brasil	em	particular	têm	sido	relegadas	a	um	plano
secundário.	 Poucos	 são	 os	 cursos	 de	 Psicologia	 que	 têm	 essa	 disciplina	 em	 seu	 currículo,são	 ainda
escassos	 os	 estudos	 e	 pesquisas	 nessa	 área	 e	 a	 bibliografia	 é	 restrita.	 Essa	 situação	 agrava-se
sensivelmente	 quando	 a	 referência	 é	 a	 História	 da	 Psicologia	 no	 Brasil.	 É	 possível	 afirmar	 que	 é
generalizado	 o	 desconhecimento	 do	 processo	 de	 construção	 histórica	 da	 Psicologia	 em	 nosso	 país,
reflexo	possível	do	próprio	desconhecimento	da	História	do	Brasil	pela	maioria	da	população	brasileira.
Esse	quadro	começa	a	se	alterar	com	o	incremento	de	pesquisas	na	área,	particularmente	por	núcleos	e
grupos	de	pesquisadores	de	várias	universidades	brasileiras,	na	sua	maioria	pertencentes	ao	Grupo	de
Trabalho	 em	 História	 da	 Psicologia	 da	 Associação	 Nacional	 de	 Pesquisa	 e	 Pós-Graduação	 em
Psicologia	–	ANPEPP.
Dessa	 constatação	 originou-se	 a	 motivação	 para	 o	 empreendimento	 do	 presente	 trabalho,
inicialmente	 elaborado	 como	 tese	 de	 doutoramento1.	 Buscou-se	 compreender	 como	 a	 Psicologia
conquistou	seu	espaço	próprio	como	área	de	conhecimento	e	campo	de	práticas	no	Brasil,	atingindo	sua
autonomia	e	reconhecimento	como	ciência	específica,	em	conseqüência	da	produção	de	idéias	e	práticas
psicológicas	 no	 interior	 de	 outras	 áreas	 do	 saber.	 Assim,	 o	 foco	 desta	 obra	 incide	 de	 maneira	 mais
privilegiada	no	período	que	vai	da	última	década	do	século	XIX	à	terceira	década	do	século	XX;	perío​-
do	 de	 grandes	 transformações	 sociais,	 econômicas	 e	 políticas	 no	 Brasil	 e,	 particularmente,	 de
significativa	produção	cultural.
Para	 dar	 sustentação	 histórica	 a	 este	 estudo,	 procurou-se	 ex​pli​citar	 seus	 antecedentes,	 isto	 é,	 as
bases	sobre	as	quais	a	Psicologia	conquistou	sua	autonomia	no	Brasil.	Nesse	quadro,	os	conteúdos	serão
apresentados	 em	 partes,	 a	 saber:	 Parte	 I:	 Antecedentes,	 composta	 por	 dois	 capítulos	 referentes	 à
produção	 psicológica	 no	 período	 colonial	 e	 no	 século	 XIX;	 Parte	 II:	 A	 conquista	 da	 autonomia	 da
Psicologia	no	Brasil,	composta	por	três	capítulos	referentes	à	produção	de	conhecimento	psicológico	por
instituições	médicas,	instituições	educacionais	e	pela	aplicação	da	Psicologia	à	organização	do	trabalho;
Parte	 III:	Conclusão	e	um	apêndice,	composto	por	uma	cronologia	dos	 fatos	mais	significativos	para	a
História	da	Psicologia	no	Brasil	–	1890	/	1930.
Deve-se	destacar	ainda	a	impossibilidade	da	escrita	da	história	ser	definitiva,	sobretudo	quando	os
estudos	 são	 iniciais,	 como	é	 este.	Em	outras	 palavras,	 o	 processo	 será	 sempre	 inacabado	 e	 a	 história
deverá	ser	continuamente	escrita.	Nesse	sentido,	solicita-se	a	todos	aqueles	que	puderem	contribuir	com
sugestões,	correções,	críticas	e	dados	/	fontes	para	o	desenvolvimento	deste	e	de	outros	trabalhos	nessa
área,	que	o	remetam	à	autora	que,	desde	já,	se	manifesta	profundamente	agradecida.
Pretende-se,	assim,	que	este	trabalho	possa	contribuir,	naquilo	que	lhe	cabe,	para	ampliar	o	pouco
conhecimento	que	se	tem	sobre	a	Psicologia	no	Brasil.	Não	há,	pois,	a	pretensão	de	esgotar	o	assunto	ou
considerá-lo	definitivo,	uma	vez	que,	desde	o	início,	a	pesquisa	apontava	para	a	imensidão	de	estudos	a
serem	feitos	nesse	campo	praticamente	intocado.
Há,	no	entanto,	na	publicação	deste	trabalho,	a	imodesta	ex​pec​tativa	de	que	ele	possa	estimular	o
debate	e	a	produção	de	novos	estudos	e	pesquisas	na	área.
1	 ANTUNES,	M.	 A.	M.	O	 processo	 de	 autonomização	 da	 Psicologia	 no	 Brasil	 –	 1890/1930:	 uma	 contribuição	 aos	 estudos	 em
História	da	Psicologia.	São	Paulo,	tese	de	doutoramento,	Psicologia	Social	PUC/SP,	1991.
Parte	I
A
Antecedentes
finalidade	 desta	 parte	 é	 expor	 brevemente	 a	 preocupação	 com	 os	 fenômenos	 psicológicos	 no
período	 anterior	 à	 penetração	 da	 Psicologia	 científica	 no	 Brasil.	 Falaremos	 em	 pensamento
psicológico	 e	 não	 em	 Psicologia,	 sendo	 esta	 última	 expressão	 utilizada	 para	 se	 refe​rir	 à	 ciência
psicológica.	 Deve-se	 lembrar	 que	 a	 Psicologia	 alcançou	 o	 estatuto	 de	 ciência	 autônoma	 somente	 no
último	quartel	do	século	XIX,	tendo	como	marco	o	estabelecimento	de	sua	definição,	objeto	de	estudo,
métodos	 e	 objetivos	 por	 Wilhelm	Wundt,	 na	 Alemanha,	 segundo	 interpretação	 de	 vários	 autores	 em
História	da	Psicologia.
A	 preocupação	 com	 os	 fenômenos	 psicológicos	 faz-se	 presente	 no	 Brasil	 desde	 os	 tempos	 da
colônia,	aparecendo	em	obras	escritas	nas	diferentes	áreas	do	saber	e,	mais	tarde,	durante	o	século	XIX,
em	produções	advindas	de	instituições	como	faculdades	de	medicina,	hospícios,	escolas	e	seminários.
A	abordagem	desses	antecedentes	tem	por	objetivo	demonstrar	como	o	pensamento	psicológico	foi
produzido	por	outras	áreas	do	saber,	sendo	que	seu	desenvolvimento	no	seio	destas	foi	fundamental	para
a	absorção	dos	avanços	que,	no	final	do	século	passado,	os	estudos	psicológicos	alcançaram	na	Europa.
Criaram-se	 assim	 as	 condições	 para	 a	 penetração	 e	 conseqüente	 desenvolvimento	 da	 Psicologia	 no
Brasil,	a	qual	permaneceu	ligada	a	outras	áreas	do	saber	por	muitos	anos	ainda,	e	só	gradativamente	foi
delas	se	se​pa​​rando	e	assumindo	seu	espaço	próprio.
A
Capítulo	1
A	preocupação	com	os	fenômenos	psicológicos	no
período	colonial
lgumas	 informações	 sobre	 o	 pensamento	 psicológico	 produzido	 no	 período	 colonial	 podiam	 ser
encontradas	 no	 artigo	 de	 Samuel	 Pfromm	Netto,	 intitulado	 “A	 Psicologia	 no	Brasil”2.	 Entretanto,
somente	 a	 pesquisa	 pioneira	 realizada	 por	 Marina	 Massimi3,	 concluída	 em	 1984,	 trouxe	 extenso	 e
minucioso	 estudo	 sobre	 essa	 temática.	 Com	 base	 nesse	 trabalho,	 procuraremos,	 neste	 capítulo,	 tão
somente	 traçar	 uma	 breve	 caracterização	 da	 produção	 referente	 aos	 fenômenos	 psicológicos	 nesse
período.
As	mais	antigas	bases	sobre	as	quais,	mais	tarde,	veio	a	Psicologia	a	se	estabelecer	no	Brasil	são
reveladas	 pelo	 pensamento	 psicológico	 produzido	 nesse	 momento,	 denominado	 por	 Pessotti4	 como
período	pré-institucional	da	Psicologia,	por	não	 terem	as	obras	então	produzidas	vínculos	diretos	com
instituições	específicas,	como	viria	a	acontecer	posteriormente.
A	 preocupação	 com	 os	 fenômenos	 psicológicos	 aparece	 em	 obras	 oriundas	 de	 outras	 áreas	 do
saber,	tais	como:	Teologia,	Moral,	Pedagogia,	Medicina,	Política	e	até	mesmo	Arquitetura;	encontram-se,
nestas,	partes	dedicadas	ao	estudo,	análise	e	discussão	de	formas	de	atuação	sobre	os	fatos	psíquicos.
Os	autores	são	brasileiros,	com	exceção	de	alguns	que,	embora	tenham	nascido	em	Portugal,	aqui
passaram	a	maior	parte	de	 suas	vidas.	Em	geral,	 tiveram	 formação	 jesuítica	 e	 cursaram	universidades
européias,	 particularmente	 a	 Universidade	 de	 Coimbra.	 A	 maioria	 desses	 autores	 exercia	 função
religiosa	—	 eram	 preponderantemente	 jesuítas	 –	 ou	 política,	 tendo	 vários	 deles	 ocupado	 importantes
cargos	na	colônia	ou	na	metrópole.
As	obras	são	impressas	na	Europa,	sobretudo	em	Portugal,	pois	ainda	não	havia	imprensa	no	Brasil.
Encontram-se	nessas	obras	preocupações	com	os	seguintes	temas:	emoções,	sentidos,	auto-conhecimento,
educação	 de	 crianças	 e	 jovens,	 características	 do	 sexo	 feminino,	 trabalho,	 adaptação	 ao	 ambiente,
processos	psicológicos,	diferenças	raciais,	aculturação	e	técnicas	de	persuasão	de	“selvagens”,	controle
político	e	aplicação	do	conhecimento	psicológico	à	prática	médica5.
São	 encontradas	 referências	 sobre	 emoções	 e	 prática	 de	 seu	 controle	 ou	 “cura”,	 geralmente	 em
sermões	de	edificação	ético-religiosa,	de	autores	como	Padre	Vieira,	Frei	Mateus	da	Encarnação	Pinna	e
Padre	Angelo	Ribeiro	de	Sequeira;	em	obras	de	Filosofia	Moral,	como	a	de	Mathias	Aires	Ramos	da
Silva	de	Eça,	e	obras	médicas,	como	as	de	Francisco	de	Mello	Franco.	Tais	obras	apontam	para	análises
de	âmbito	comportamental	e	 tratam	de	assuntos	como:	amor,	 saudade,	vaidade,	ódio	ou	 tristeza.	Sobre
isso,	Massimi	 (1987,	 p.	 100)	 afirma:	“Asemoções,	 chamadas	 de	 ‘paixões’,	 são	 consideradas	 pelos
autores	 ‘forças’	 potentes	 e	 cegas	 que,	 se	 excessivas,	 podem	 afetar	 o	 equilíbrio	 do	 organismo,
tornando-se	‘enfermidades’.”
Sob	diferentes	 enfoques,	 escreveram	sobre	o	 “conhecimento	de	 si”,	 autores	 como	Padre	Vieira	 e
Encarnação	 Pinna	 (obtenção	 de	 conhecimento	 de	 si	 pelo	 sujeito),	 Azeredo	 Coutinho	 (objetivação	 da
experiência	interior)	e	Mathias	Aires	(estudo	da	vaidade,	com	base	no	auto-conhecimento).	Essa	temática
guarda	 íntima	 relação	 com	 questões	 posteriormente	 abordadas	 pela	 Psicologia,	 sendo	 o	 auto-
conhecimento	assunto	que	permanece	como	objetivo	da	ciência	psicológica	e	de	sua	prática,	enquanto	a
preocupação	com	a	“objetivação	da	experiência	interior”	constitui	ainda	hoje	uma	questão	fundamental
para	a	pesquisa	psicológica.
As	sensações	e	os	sentidos	foram	abordados	principalmente	no	século	XVIII	e	tiveram	relação	com
o	desenvolvimento	das	idéias	empiristas.	Muitos	dos	estudos	então	realizados	valeram-se	da	observação
e	 até	 mesmo	 de	 resultados	 obtidos	 pela	 experimentação.	 Nesses	 estudos,	 temas	 característicos	 da
Psicologia	 que	 viria	 a	 se	 desenvolver	 já	 estavam	 prenunciados:	 loucura,	 fatores	 de	 natureza	 sexual,
fantasias,	instintos	e	ilusão	de	ótica.	Trataram	desses	assuntos:	Padre	Vieira,	Encarnação	Pinna,	Mathias
Aires,	Sequeira	e	Mello	Franco.
A	pesquisa	de	Massini	revela	que	foram	freqüentes	e	recorrentes	as	preocupações	com	a	criança	e
seu	 processo	 educativo,	 tendo	 sido	 encontrados	 os	 seguintes	 temas:	 formação	 da	 personalidade;
desenvolvimento	 da	 criança;	 controle	 e	manipulação	 do	 comportamento;	 aprendizagem;	 influência	 dos
pais	etc.	Trataram	desse	tema:	Alexandre	de	Gusmão,	Mathias	Aires,	Mello	Franco,	Americus,	Manoel
de	Andrade	Figueiredo,	Azeredo	Coutinho	e	Fernão	Cardim.
O	 papel	 da	 mulher	 foi	 também	 abordado	 por	 diversos	 autores,	 como:	 Feliciano	 Souza	 Nunes,
Alexandre	de	Gusmão,	Azeredo	Coutinho	e	Mello	Franco.	Várias	obras	 tratam	do	papel	da	mulher	na
sociedade,	 abordando	 elementos	 de	 natureza	 psicológica	 ou	 a	 eles	 relacionados,	 tais	 como:	 gravidez,
amamentação,	comportamento	maternal,	sexualidade	e	seus	desvios.	Segundo	Massimi	(1984,	p.	272):
“...	O	interesse	pela	psicologia	da	mulher	nasce	como	parte	da	tentativa	de	definição	do	papel	da
mulher	na	sociedade	colonial	e	pós-colonial.	Há	uma	diferença	muito	grande	entre	a	função	ou
valores	atribuídos	à	mulher	índia	e	os	que	se	atribuem	à	mulher	‘colonizada’	de	acordo	com	os
hábitos	da	cultura	portuguesa.”
Vale	a	pena	destacar,	no	trabalho	de	Massimi,	a	referência	às	idéias	de	Alexandre	de	Gusmão,	que
defende	 a	 instrução	 feminina;	 de	 Feliciano	 de	 Souza	 Nunes,	 que	 refuta	 a	 afirmação	 corrente	 sobre	 a
inferioridade	mental	da	mulher	e	de	Azeredo	Coutinho	que	desenvolve	uma	metodologia	específica	para
a	 instrução	 feminina,	 nos	 “Estatutos	 do	Recolhimento	 de	Nossa	 Senhora	 da	Glória”,	 primeiro	 colégio
feminino	 brasileiro,	 fundado	 em	 1802	 e	 que	 custou	 a	 seu	 idealizador	 a	 retirada	 compulsória	 para
Portugal.
Várias	 obras	 estudadas	 por	Massimi	 abordam	 a	 problemática	 do	 trabalho,	 principalmente	 sob	 a
perspectiva	 moral,	 social	 e	 psicológica.	 É	 recorrente	 a	 condenação	 do	 ócio,	 especialmente	 nas	 suas
relações	 com	 o	 vício,	 ao	 qual	 o	 trabalho	 se	 contrapõe.	 Nessa	 questão,	 o	 indígena	 é	 especialmente
considerado,	sendo	visto	como	preguiçoso	e	ocioso	e,	por	isso,	propenso	ao	pecado;	nessa	perspectiva,	o
trabalho	é	visto	como	meio	de	cura	e	instrumento	para	sua	“civilização”.	São	discutidas	questões	sobre:
adaptação	 ao	 trabalho,	 importância	do	 trabalho	para	 a	 criança,	 controle	 sobre	 a	 atividade	produtiva	 e
trabalho	como	instrumento	de	controle.	Mello	Franco,	Alexandre	de	Gusmão	e	Mathias	Aires	são	autores
que	abordam	esse	tema.
O	tema	“adaptação	ao	ambiente”	aborda	a	questão	do	“caráter	brasileiro”,	o	que	pode	prenunciar
elementos	relacionados	à	Psicologia	Social.	Para	vários	autores,	o	ambiente	é	considerado	como	um	dos
fatores	 determinantes	 do	 comportamento;	 para	 Padre	 Vieira,	 o	 clima	 brasileiro	 favorece	 o	 ócio	 e	 a
dissimulação,	assim	como	para	Mello	Franco,	para	quem	a	natureza	dispensa	o	homem	da	luta,	levando-o
ao	 ócio.	 Concepções	 como	 estas	 serão	 freqüentes	 até	 meados	 do	 século	 XX	 e	 terão	 relações	 muito
próximas	com	o	pensamento	psicológico-psiquiátrico	desenvolvido	no	Brasil.	Ainda	sob	esse	tema	são
abordadas	questões	relativas	à	aculturação	e	ao	aprimoramento	do	domínio	sobre	os	índios.
A	 aplicação	 de	 conhecimentos	 psicológicos	 à	 Medicina	 é	 tema	 tratado	 já	 no	 final	 do	 período
colonial	 por	 Mello	 Franco,	 o	 qual	 aborda	 questões	 relativas	 a:	 teorias	 sobre	 relação	 mente-corpo;
estudos	sobre	os	nervos	e	o	sistema	nervoso;	psicopatologia;	temperamentos;	terapêuticas;	teorias	sobre
o	sono	e	os	 sonhos	e,	vale	destacar,	dentre	 suas	contribuições,	a	concepção	a	 respeito	da	 sexualidade
como	determinante	da	loucura.
O	processo	de	colonização	do	Brasil	por	Portugal,	no	contexto	da	expansão	econômica	européia,	foi
pautado	fundamentalmente	na	exploração.	A	metrópole	decidia	o	que	deveria	ser	produzido,	a	maneira	de
fazê-lo	e	tinha	seu	monopólio,	tendo	como	finalidade	exclusiva	o	lucro.	Não	houve	preocupação	de	fato
com	a	colonização	propriamente	dita,	o	que	caracteriza	o	Brasil	meramente	como	colônia	de	exploração.
Essa	 situação	 exigiu	 a	 organização	 de	 um	 forte	 aparelho	 repressivo	 de	 um	 lado	 e,	 de	 outro,	 um
sólido	 aparato	 ideológico,	 sustentado	 principalmente	 pela	 Igreja	 Católica,	 cuja	 função	 precípua	 era
transmitir	e	manter	uma	ideologia	que,	em	última	instância,	legitimasse	a	exploração	da	colônia.
Nesse	contexto,	a	Companhia	de	Jesus	exerceu	papel	fundamental	e	manteve	sua	influência	mesmo
após	sua	expulsão	de	Portugal	e,	conseqüentemente,	do	Brasil,	pelas	Reformas	Pombalinas.
A	articulação	entre	o	pensamento	psicológico	produzido	no	Brasil	 e	os	 interesses	metropolitanos
revela-se	 em	 muitos	 dos	 conteúdos	 das	 obras	 estudadas	 por	 Massimi.	 Destes,	 deve-se	 destacar	 a
preocupação	com	os	índios,	sobretudo	no	que	diz	respeito	ao	trabalho	e	à	aculturação.	Soma-se	a	isso	a
preocupação	com	o	controle	ou	“cura”	das	emoções	que,	em	algumas	obras,	sugere	a	busca	de	soluções
para	 problemas	 enfrentados	 pela	 colônia,	 cuja	 natureza	 era	 fundamentalmente	 de	 ordem	 moral.	 As
preocupações	 com	 a	 educação	 eram	 também	 relacionadas	 aos	 interesses	 metropolitanos,	 quer	 pela
difusão	da	ideologia	dominante,	quer	pela	necessidade	de	formação	de	quadros	destinados	à	organização
da	empresa	colonial.
Entretanto,	 se	 de	 um	 lado	 é	 patente	 a	 condição	 de	 dependência	 do	 pensamento	 psicológico
produzido	 no	 Brasil	 em	 relação	 aos	 interesses	 metropolitanos,	 por	 outro	 lado	 é	 impossível	 negar	 o
caráter	 de	 originalidade	 em	 muitas	 obras,	 particularmente	 no	 que	 se	 refere	 às	 idéias	 psicológicas
propriamente	 ditas,	 o	 que	 pode	 ser	 constatado	 em	 muitos	 elementos	 apontados	 por	 Massimi	 em	 sua
pesquisa.	 Destes,	 vale	 destacar	 os	 prenúncios	 da	 psicoterapia,	 os	 estudos	 sobre	 as	 crianças	 e	 sua
educação,	 a	 determinação	 do	 ambiente	 sobre	 o	 comportamento,	 as	 concepções	 contrárias	 à	 completa
submissão	da	mulher,	 sobretudo	o	 reconhecimento	da	capacidade	 intelectual	 feminina	e,	 finalmente,	 as
relações	entre	a	prática	médica	e	o	saber	psicológico.
Percebe-se,	 assim,	 que	 a	 produção	 de	 idéias	 psicológicas	 na	 colônia	 refletia	 as	 contradições	 da
sociedade	 colonial	 e,	 por	 decorrência,	 da	 metrópole,	 na	 medida	 em	 que	 a	 primeira	 constituía-se	 em
função	 das	 relações	 determinadas	 pela	 segunda.	Nesse	 sentido,	 é	 possível	 compreender	 que	 as	 idéias
psicológicas	 produzidas	 apresentassem	 concomitantemente	 articulaçõescom	 os	 interesses
metropolitanos,	posições	de	confronto	com	estes	e,	por	outro	lado,	originalidade	do	ponto	de	vista	dos
estudos	psicológicos.	Essas	idéias	são	faces	de	uma	mesma	realidade,	pois	refletem	as	contradições	da
formação	 social	 em	 questão.	 Assim,	 é	 possível	 compreender	 a	 originalidade	 de	 várias	 idéias
psicológicas	 como	 tendo	 surgido	 do	 fato	 de	 que,	 em	 busca	 de	 soluções	 para	 alguns	 problemas,	 a
criatividade	tornou-se	um	imperativo;	as	necessidades	impostas	pela	realidade	exigiram	soluções	que,	ao
mesmo	 tempo	 que	 buscavam	 a	 manutenção	 da	 ordem	 estabelecida,	 também	 se	 constituíam	 em	 forças
impulsionadoras	 do	 real	 em	 direção	 ao	 futuro,	 ou	 ainda,	 poderiam	 estar	 articuladas	 às	 forças	 que
colocavam	em	questão	o	próprio	“status	quo”,	no	sentido	da	busca	de	uma	nova	ordem,	o	que	pode	ser
confirmado	 pelo	 fato	 de	 que	 vários	 autores	 estudados	 por	Massimi	 tiveram	 em	 uma	 ou	 outra	 ocasião
problemas	com	o	poder	metropolitano	ou	com	a	Inquisição.
O	 pensamento	 psicológico	 produzido	 no	 período	 colonial	 é	 de	 extrema	 importância	 para	 a
compreensão	 da	 construção	 histórica	 da	 Psicologia	 no	Brasil,	 pois	 explicita	 suas	mais	 antigas	 raízes,
muitas	das	quais	referentes	a	assuntos	que	permaneceram	em	pauta,	às	vezes	com	profundas	mudanças	nas
formas	 de	 abordagem	 e	 outras	 vezes	mantendo,	 ao	 longo	 do	 tempo,	 sua	 forma	 e	 conteúdo,	 como	 será
demonstrado	adiante.
2	PFROMM	NETTO,	S.	A	Psicologia	no	Brasil,	in:	FERRI,	M.	G.	e	MOTOYAMA,	S.	(orgs.)	História	das	Ciências	no	Brasil.	São	Paulo,
EPU	e	EDUSP,	1978-1981,	pp.	325/276.
3	MASSIMI,	M.	História	das	 Idéias	Psicológicas	no	Brasil	 em	obras	do	período	colonial.	São	Paulo,	dissertação	de	mestrado,	USP,
1984.
4	PESSOTTI,	I.	Notas	para	uma	História	da	Psicologia	brasileira,	in:	Quem	é	o	psicólogo	bra​sileiro?	São	Paulo,	Edicon	e	CFP,	1988,	pp.
17/31.
5	Sugere-se	também	a	leitura	de:	MASSIMI,	M.	História	da	Psicologia	Brasileira.	São	Paulo,	EPU,	1990	e	MASSIMI,	M.	As	origens	da
psicologia	brasileira	em	obras	do	período	colonial,	in:	História	da	Psicologia	–	Cadernos	PUC,	nº	23.	São	Paulo,	EDUC,	1987,	pp.	95/117.
O
Capítulo	2
A	preocupação	com	os	fenômenos	psicológicos	no
século	XIX
Brasil	sofreu	grandes	mudanças	no	século	XIX,	deixando	a	condição	de	colônia	e	transformando-se
em	império,	ainda	que	se	mantendo	sob	o	poder	da	realeza	portuguesa.	A	condição	de	autonomia,
mesmo	que	 relativa,	 trouxe	profundas	 transformações	à	sociedade	brasileira,	entre	as	quais	 incluem-se
significativas	mudanças	no	 plano	 cultural,	 inserindo-se	 aí	 a	 produção	de	 idéias	 e	 práticas	 de	 natureza
psicológica.	 Nesse	 contexto,	 o	 pensamento	 psicológico	 produzido	 nesse	 período	 diferenciou-se	 do
precedente,	 particularmente	 pela	 vinculação	 às	 instituições	 então	 criadas.	 A	 produção	 do	 saber
psicológico	ainda	foi	gerada,	no	entanto,	no	interior	de	outras	áreas	de	conhecimento,	fundamentalmente
na	Medicina	e	na	Educação,	que	serão	tratadas	a	seguir,	tendo	em	vista	a	explicitação	da	maneira	como
se	deu,	a	partir	delas,	o	de​sen​volvimento	do	pensamento	psicológico	no	período	em	questão.
Para	 melhor	 organizar	 a	 exposição,	 dividiu-se	 este	 capítulo	 em	 duas	 partes:	 o	 pensamento
psicológico	na	Educação	e	o	pensamento	psicológico	na	Medicina.	No	primeiro	item	serão	abordados	os
aspectos	gerais	da	Educação	no	período,	os	conteúdos	psicológicos	no	ensino	e	as	idéias	psicológicas	na
Pedagogia.	Em	relação	à	Medicina,	serão	abordadas	as	produções	relativas	às	Faculdades	de	Medicina
do	Rio	de	Janeiro	e	da	Bahia,	do	Hospício	Pedro	II	e	do	Asilo	Provisório	de	Alienados	da	Cidade	de
São	Paulo.
2.1.	O	Pensamento	Psicológico	na	Educação
Preocupações	 com	 o	 processo	 educativo	 na	 colônia	 permaneceram	 no	 século	 XIX,	 guardando
muitas	 das	 características	 do	 período	precedente,	 porém,	 assumindo	um	caráter	mais	 sistemático,	 seja
pela	gradativa	vinculação	institucional,	seja	pela	maior	elaboração	no	trato	de	seus	conteúdos.
Com	 a	 transferência	 da	 Corte	 para	 o	 Brasil,	 em	 1808,	 novas	 necessidades	 surgiram,	 tornando
necessária	a	formação	de	quadros	para	os	aparatos	repressivo	e	administrativo	do	governo,	demandando
uma	maior	preocupação	com	a	Educação	e	 com	o	ensino.	Assim,	pode-se	dizer	que	 foi	 a	partir	 desse
momento	que	 efetivamente	 foram	criados	 os	 cursos	 superiores	 no	país,	 embora	 tendo	 como	 finalidade
quase	 exclusiva	 a	 formação	 profissional,	 praticamente	 inexistindo	 preocupação	 com	 a	 produção	 de
conhecimento.	O	ensino	 secundário	manteve	 ainda	por	um	bom	 tempo	a	herança	das	 aulas	 avulsas,	 de
caráter	precipuamente	propedêutico,	voltado	para	o	ensino	quase	exclusivo	dos	alunos	do	sexo	masculino
e	sob	o	domínio	da	iniciativa	privada,	sobretudo	da	Igreja	Católica;	a	exceção	foi	o	Colégio	Pedro	II,	de
caráter	 universalista	 e	 enciclopédico,	 caracterizado	 por	 ser	 elitista	 e	 aristocrático,	 apesar	 de	 ter
finalidade	modelar.	Na	década	de	30	foi	criada,	em	Niterói,	a	primeira	Escola	Normal,	seguida	de	muitas
outras,	oferecendo	cursos	de	no	máximo	dois	anos,	sem	garantia	de	formação	profissional	e	com	docentes
pouco	preparados;	somente	em	1880,	em	São	Paulo,	o	curso	passou	para	três	anos	de	duração.	Em	1890,
no	Rio	de	Janeiro,	foi	criado	o	“Pedagogium”,	com	a	finalidade	de	constituir-se	em	centro	de	pesquisas
educacionais	e	museu	pedagógico,	sob	a	inspiração	de	Rui	Barbosa.
No	 que	 diz	 respeito	 ao	 pensamento	 brasileiro	 no	 século	XIX,	 extensivo	 à	 Educação,	 sofreu	 este
profunda	 influência	 européia.	 As	 principais	 correntes	 de	 pensamento	 que	 aqui	 penetraram	 foram	 o
liberalismo	 e	 o	 positivismo,	 embora	 houvesse	 ainda,	 no	 pensamento	 filosófico,	 forte	 presença	 do
tomismo	e	do	empirismo,	além	de	influências	do	espiritualismo	francês	e	do	idealismo	alemão.
Essas	idéias	tiveram	grande	influência	sobre	o	pensamento	psicológico,	não	apenas	como	tendência
geral,	mas	por	constituírem-se	como	conteúdos	relacionados	às	questões	de	natureza	psicológica.	Esses
conteúdos	 são	 revelados	 particularmente	 pelos	 programas	 de	 vários	 cursos,	 sobretudo	 pelas	 obras
filosóficas	então	difundidas6.
Teólogos,	professores	e	médicos	são	freqüentemente	os	autores	de	tais	obras	filosóficas	e	tendem	a
considerar	a	Psicologia	como	parte	integrante	da	metafísica,	tendo	como	objeto	de	estudo	geralmente	a
“alma”,	o	“espírito”	e	o	“eu”.
Em	pesquisa	empreendida	por	Massimi	 (1989),	os	assuntos	encontrados	em	tais	obras	 filosóficas
são	divididos	pela	autora	em	duas	categorias:	os	conceitos	relativos	aos	fundamentos	da	vida	psíquica
(alma,	 eu,	 consciência,	 identidade,	 caráter,	 faculdades	 etc.)	 e	 os	 conceitos	 referentes	 a	 fenômenos
psíquicos	 específicos	 (percepção,	 emoção,	 cognição,	 motricidade	 etc.).	 Esses	 assuntos	 aparecem
freqüentemente	 em	 obras	 psicológicas	 e	 pedagógicas	 das	 primeiras	 décadas	 do	 século	 XX,	 porém
abordados	mais	cientificamente.	Obras	de	Teologia	Moral,	nessa	época,	 abordam	 também	questões	de
ordem	psicológica.
Além	dos	conteúdos	de	ensino,	a	preocupação	especificamente	pedagógica	foi	também	fonte	para	o
desenvolvimento	 do	 pensamento	 psicológico.	 Há	 uma	 crescente	 preocupação	 com	 os	 fenômenos
psíquicos,	especialmente	no	que	diz	respeito	aos	métodos	de	ensino,	pois	estes	remetem	à	necessidade	de
conhecimento	sobre	o	educando	e	à	formação	do	educador,	o	qual	deve	dominar	esse	saber	para	realizar
mais	 eficazmente	 sua	 ação	 pedagógica.	 Esses	 conteúdos	 são	 encontrados	 nos	 programas	 da	 disciplina
Pedagogia	das	Escolas	Normais,	os	quais	tratam	geralmente	de	questões	como:	educação	das	faculdades
psíquicas,	aprendizagem	e	utilização	de	recompensas	e	castigos	como	instrumentos	educativos.	Há	evi​-
dente	influência	de	pensadores	como	Locke,	Rousseau,	Pestalozzi,	Herbart	e	Spencer,	além	da	presença
do	dualismo	interacionistade	Descartes,	conforme	demonstra	Massimi	(1989).
Há	 grande	 preocupação	 pedagógica	 com	 a	 educação	 ou	 com	 o	 desenvolvimento	 das	 faculdades
psíquicas	 da	 criança,	 especialmente	 a	 inteligência,	 seguida	 das	 sensações	 e	 da	 vontade.	 Encontra
Massimi	 (1989),	 em	 sua	 análise,	 a	 concepção	 de	 inteligência	 “...	 como	 uma	 faculdade	 complexa,
composta	 de	 várias	 funções:	 atenção,	 percepção,	 imaginação,	 intuição,	 abstração	 e	 generalização,
associação	de	idéias,	comparação,	juízo,	raciocínio,	razão,	memória	e	linguagem.”	(p.	361)
As	preocupações	com	as	questões	de	ordem	psicológica	pela	Pedagogia,	no	século	XIX,	esboçam	a
sistematização	 que	 será	 empreendida	 a	 partir	 de	 seu	 final	 e	 início	 do	 século	 seguinte,	 com	 maior
aprofundamento	e	especialmente	maior	rigor	metodológico	em	seu	estudo.	Os	temas	pouco	diferem	nos
dois	 períodos,	 o	 que	 permite	 afirmar	 que	 não	 há	 ruptura,	 mas	 uma	 evolução	 no	 tratamento	 dessas
questões,	confirmando	a	importância	da	relação	entre	Psicologia	e	Pedagogia.
Acrescenta-se	 a	 isso	 que	 a	 relação	 entre	 Psicologia	 e	 Pedagogia	 guarda	 íntima	 relação	 com	 o
pensamento	 escolanovista,	 cuja	 penetração	 no	 Brasil	 inicia-se	 no	 século	 XIX,	 mas	 cuja	 efetiva
explicitação	e	consolidação	somente	ocorrerá	no	século	XX.
2.2.	O	Pensamento	Psicológico	na	Medicina
As	Faculdades	de	Medicina	do	Rio	de	Janeiro	e	da	Bahia	foram	criadas	em	1832,	tendo	sua	origem
nas	Cadeiras	de	Cirurgia,	na	Bahia,	e	de	Cirurgia	e	Anatomia,	no	Rio	de	Janeiro,	 instaladas	em	1808.
Nessas	 faculdades,	 como	exigência	para	a	conclusão	do	curso,	o	aluno	deveria	defender	publicamente
uma	tese	de	douto​ra​mento	ou	inaugural,	que	lhe	conferia	o	título	de	doutor.	Grande	parte	dos	trabalhos
sobre	assuntos	psicológicos,	nessa	época,	é	proveniente	dessas	teses,	que	tratavam	de	temas	relacionados
a:	Psiquiatria,	Neurologia,	Neuriatria,	Medicina	Social	e	Medicina	Legal.	Muitas	dessas	teses	antecedem
a	 criação	 formal	 de	 uma	 cátedra	 afim	 às	 questões	 psicológicas,	 pois	 a	 primeira	 delas,	 denominada
“Clínica	das	Moléstias	Mentais”,	 foi	criada	em	1881	e,	desde	1836,	encontram-se	 teses	que	 tratam	do
fenômeno	psicológico.	Os	 assuntos	 tratados	 são	muito	variados,	 dentre	os	quais:	 paixões	ou	 emoções,
diagnóstico	 e	 tratamento	 das	 alucinações	 mentais,	 epilepsia,	 histeria,	 ninfomania,	 hipocondria,
psicofisiologia,	 instrução	 e	 educação	 física	 e	 moral,	 higiene	 escolar,	 sexualidade	 e	 temas	 de	 caráter
psicossocial.
Os	mesmos	 assuntos	 foram	 também	 tratados	 em	 artigos	 publicados	 nos	 “Annaes	 Brasilienses	 de
Medicina”	e	em	outras	revistas	médicas,	em	obras	isoladas	e	mesmo	em	teses	de	alunos	brasileiros	que
fizeram	sua	formação	na	Europa.
A	primeira	tese	que	trata	do	fenômeno	psicológico	foi	defendida	em	1836,	por	Manoel	Ignacio	de
Figueiredo	 Jaime,	 denominada	 “As	 paixões	 e	 afetos	 d’alma	 em	 geral,	 e	 em	 particular	 sobre	 o	 amor,
amizade,	gratidão	e	o	amor	da	pátria”,	de	influência	cartesiana	e	muito	próxima	das	temáticas	abordadas
no	 período	 colonial.	Outras,	 além	 desta,	 tratam	 assunto	 semelhante,	 sendo	 que,	 no	 final	 do	 século,	 as
expressões	por	elas	usadas	já	não	mais	aparecem,	dando	lugar	à	palavra	“emoção”.
Temas	relativos	à	sexualidade	são	muito	freqüentes,	como:	cópula,	onanismo,	histeria,	ninfomania,
prostituição	etc.,	valendo	ressaltar	que,	em	1914,	a	tese	de	Genserico	Aragão	de	Souza	Pinto	evolui	para
um	tratamento	teórico	baseado	na	Psicanálise.
Crescente	 interesse	 pela	 Medicina	 Legal	 é	 observado,	 assim	 como	 sua	 proximidade	 com	 a
Psicologia	Social.	A	 tese	de	 Júlio	Afrânio	Peixoto,	denominada	“Epilepsia	e	Crime”,	 é	demonstrativa
desse	fato.
Nos	anos	finais	desse	período,	temas	bastante	próximos	da	Psicologia	propriamente	dita	começam	a
aparecer	 de	 maneira	 significativa,	 revelando	 maior	 rigor	 metodológico	 e	 uma	 base	 científica	 mais
apurada.	 Vale	 lembrar	 que	 a	 Psicologia	 conquistou	 o	 estatuto	 de	 ciência	 autônoma	 no	 último	 quartel
daquele	século,	momento	em	que	aparecem	teses	que	podem	ser	identificadas	com	a	ciência	psicológica.
No	final	do	século	XIX	é	defendida	a	tese	“Duração	dos	Atos	Psíquicos	Elementares”,	de	Henrique
Roxo,	considerada	por	Lourenço	Filho,	Pessotti	e	Pfromm	Netto	como	o	primeiro	trabalho	de	Psicologia
Experimental,	 baseado	 em	 número	 significativo	 de	 dados	 obtidos	 experimentalmente,	 com	 o	 uso	 do
“psicômetro	de	Buccola”.
Muitas	 teses	podem	ser	consideradas	como	pertencentes	à	Medicina	Social7	 e	 tratam	de	questões
relacionadas	à	higiene	e	àquilo	que	hoje	consideramos	como	fatores	ou	fenômenos	psicossociais.
As	condições	de	 saneamento	das	cidades	e	de	 saúde	da	população	eram	extremamente	precárias,
sobretudo	nas	 cidades	 e	 para	 as	 camadas	mais	 pobres.	A	presença	de	 “leprosos,	 loucos,	 prostitutas	 e
mendigos”	 nas	 ruas,	 aliada	 ao	 clima	 quente	 e	 à	 posição	 geográfica	 da	 cidade	 (principalmente	Rio	 de
Janeiro)	 eram	 questões	 preocupantes	 para	 os	 médicos,	 para	 quem	 as	 “sujeiras”	 e	 “imundícies”	 —
materiais	 e	 morais	—	 que	 grassavam	 nas	 cidades	 deveriam	 ser	 eliminadas.	 É	 nesse	 contexto	 que	 se
origina,	segundo	Roberto	Machado	(1978),	a	Medicina	Social	no	Brasil,	preocupada	mais	com	a	“saúde”
do	 que	 com	 a	 “doença”,	 buscando	 as	 causas	 das	 moléstias	 para	 preveni-las.	 Busca-se,	 pois,	 a
normalização	da	sociedade,	com	vistas	a	uma	formação	social	sadia,	composta	por	indivíduos	sadios;	ou
seja,	 é	 preciso	que	 a	 sociedade	 seja	organizada,	 livre	da	 “desordem”	e	dos	 “desvios”	que	devem	ser
eliminados	por	meio	de	um	projeto	profilático.
A	 Medicina	 Social,	 nesse	 quadro,	 elaborará	 propostas	 para	 as	 várias	 instituições	 sociais,	 com
finalidade	 de	 higienizá-las,	 preocupando-se	 com	 hospitais,	 cemitérios,	 quartéis,	 bordéis,	 prisões,
fábricas	e,	de	maneira	especial,	com	as	escolas,	tema	esse	muito	freqüente	nas	teses	de	doutoramento.
Para	 a	 higienização	 das	 escolas	 são	 propostas	 formas	 de	 controle	 do	 comportamento,	 em	que	 se
discute	 o	 uso	 de	 recompensas	 e	 castigos	 para	 eliminar,	 por	 exemplo,	 a	 desobediência	 e	 a	 prática	 da
masturbação.	 Esta	 última,	 segundo	 Machado	 (1978),	 é	 vista	 como	 algo	 que	 “...	 provoca	 a	 tísica,	 a
loucura,	a	epilepsia,	a	hipocondria,	a	flegmasia	crônica	de	todos	os	órgãos	e	finalmente	a	morte”	(p.
304);	acrescenta	ainda	o	autor	que	uma	das	medidas	preventivas	para	o	onanismo	é	a	prática	da	ginástica.
Deve	ser	lembrado	que	a	Sociedade	de	Medicina	e	Cirurgia	do	Rio	de	Janeiro	esteve	articulada	às
Faculdades	de	Medicina	na	defesa	da	Medicina	Social.
A	Medicina	 Social	 contribuiu	 também	no	 plano	 da	 intervenção	 social,	 o	 que	 remete	 à	 defesa	 da
criação	de	hospícios,	uma	necessidade	imperativa	para	a	higienização	e	a	normalização	da	sociedade.
Até	meados	do	século	XIX,	não	havia	qualquer	forma	de	assistência	específica	aos	doentes	mentais.
Os	 “loucos”	 erravam	 pelas	 ruas,	 eram	 encarcerados	 nas	 prisões	 ou	 reclusos	 em	 celas	 especiais	 das
Santas	Casas	de	Misericórdia,	sendo	que	algumas	destas	possuíam	suas	“casinhas	de	doudos”.
Por	 volta	 de	 1830	 começam	 a	 aparecer	 as	 reivindicações	 para	 a	 criação	 de	 hospícios,	 partindo
principalmente	dos	médicos,	sobretudo	os	higienistas	ligados	à	Sociedade	de	Medicina	e	Cirurgia	do	Rio
de	 Janeiro,	 por	 meio	 de	 artigos	 em	 que	 eram	 criticadas	 as	 condições	 de	 abandono	 dos	 “loucos”,
propondo	 a	 criação	de	 um	asilo	 higiênico	 e	 tratamento	moral.	Essa	 proposta	 vincula-se	 ao	projeto	 da
referida	sociedade	para	organizar,	disciplinar	e	normalizar	a	cidade,	em	busca	da	salubridade	geral	do
espaço	urbano.
Para	Machado	(1978),	a	constituição	da	Psiquiatria	no	Brasil	inicia-se	com	a	criação	dos	hospícios,
articulada	às	finalidades	da	Medicina	Social;	afirma	ele:
“Coube	à	medicina	sociala	tarefa	de	isolar	preventivamente	o	louco	com	o	objetivo	de	reduzir	o
perigo	e	impossibilitar	o	efeito	destrutivo	que	ela	viu	caracterizada	em	sua	doença.	Nasce	assim,
no	Brasil	dos	meados	do	século	XIX,	não	uma	‘psiquiatria	preventiva’,	mas	a	psiquiatria	como
instrumento	da	prevenção.”	(p.	380)
Assim,	 em	 1842,	 é	 inaugurado	 no	 Rio	 de	 Janeiro	 o	 Hospício	 Pedro	 II,	 cujas	 práticas	 foram
fundamentadas	 nas	 idéias	 de	 Pinel	 e	 Esquirol.	 Seu	 funcionamento	 guiava-se	 pelos	 princípios	 de
isolamento,	 vigilância,	 distribuição	 e	 organização	 do	 tempo	 dos	 internos,	 com	 vistas	 à	 repressão,
controle	e	 individualização.	Considerava-se	a	necessidade	de	afastar	o	“louco”	das	causas	da	 loucura,
isto	 é,	 da	 sociedade	 e	 da	 família,	 e	 romper	 com	 seus	 hábitos	 para	 realizar-se	 o	 tratamento.	Via-se	 o
trabalho	 como	 excelente	 terapêutica,	 por	 sua	 necessidade	 de	 disciplina,	 sendo	 o	 trabalho	 agrícola
especialmente	 recomendado;	 entretanto,	 essa	 terapia	 não	 era	 igualmente	 aplicada,	 sendo	 prescrita
sobretudo	aos	internos	pobres.
Nesse	sentido,	a	Psiquiatria	brasileira	evoluiu	de	uma	concepção	que	propunha	a	cura	da	“loucura”
com	sangrias	e	banhos	para	uma	preocupação	de	natureza	comportamental,	em	que	o	tratamento	passou	a
basear-se	em	intervenções	no	plano	moral.
Em	 1848	 é	 aprovada	 por	 lei	 provincial	 a	 criação	 de	 um	 hospício	 em	 São	 Paulo	 e,	 em	 1852,	 é
inaugurado	 o	 Asilo	 Provisório	 de	 Alienados	 da	 Cidade	 de	 São	 Paulo8,	 na	 Av.	 São	 João,	 nas
proximidades	da	Av.	Ipiranga,	tendo	ficado	conhecido	como	Hospício	Velho.	Sua	ação	ficou	limitada	à
reclusão,	objetivando	excluir	os	“loucos”	das	ruas	da	cidade.	Sua	direção	ficou	a	cargo	de	um	alferes,
Tomé	de	Alvarenga,	tendo	negros	libertos	e	egressos	das	prisões	como	funcionários,	os	quais	eram	mal
vistos	socialmente,	o	que	explica	a	aceitação	de	um	trabalho	que	era	considerado	repugnante	e	aviltante.
Muitos	dos	internos	eram	estrangeiros,	geralmente	imigrantes	italianos	ou	negros	alforriados;	a	maioria
era	 do	 sexo	masculino.	 O	 hospício	 sofreu	 muitas	 rebeliões	 e	 vários	 surtos	 de	 epidemia.	 Para	 Cunha
(1986),	o	hospício
“causava	incômodo	ou	escândalo	–	quando	não	medo	puro	e	simples	–	aos	seus	seletos	vizinhos
do	 centro	 da	 cidade.	 Seu	 administrador	 não	 cessa	 de	 enfatizar,	 em	 seus	 relatórios,	 a
impossibilidade	 de	 conter	 a	 loucura	 naqueles	 exíguos	 sete	 cômodos,	 sem	 ventilação,	 sem
condições	 sanitárias,	 sem	 condições	 de	 segurança.	 O	 espaço	 do	 internamento	 produz	 o	 medo
constante	 da	 contaminação	 da	 cidade,	 e	 tenderá	 a	 ser	 deslocado	 para	 longe	 das	 vistas
temerosas.”	(p.	61)
Assim,	em	1862,	o	Hospício	Velho	mudou-se	para	a	Ladeira	Tabatinguera.	Essa	mudança	ocorre	em
função	 da	 problemática	 disciplinar,	 não	 havendo	 preocupação	 terapêutica	 específica.	 Permanecem,	 no
entanto,	 os	 problemas	 de	 superlotação,	 altas	 taxas	 de	mortalidade	 e	morbidade,	 fugas	 e	 violência.	Os
métodos	disciplinares	não	são	mudados.
Somente	com	o	ingresso	do	médico	alienista	Francisco	Franco	da	Rocha,	o	hospício	paulista	passa
para	uma	fase	em	que	a	preocupação	é	de	caráter	médico-terapêutico.
Vê-se,	pois,	que	havia	diferenças	profundas	entre	os	hospícios	do	Rio	de	Janeiro	e	de	São	Paulo.	O
primeiro	teve,	desde	seu	início,	uma	preocupação	médico-psiquiátrica,	com	base	em	teorias	e	práticas	da
Psiquiatria	 estrangeira.	 O	 hospício	 paulista,	 ao	 contrário,	 funcionou	 tão	 somente	 como	 espaço	 de
reclusão,	aparecendo	uma	concepção	psiquiátrica	apenas	no	final	do	século,	com	Franco	da	Rocha.	Tal
diferença	pode	ser	em	parte	explicada	pelo	fato	de	que	o	Rio	de	Janeiro	 tinha,	nessa	época,	um	clima
bastante	 propício	 à	 discussão	 e	 ao	 desenvolvimento	 do	 pensamento	 psiquiátrico,	 contando	 com	 a
Sociedade	de	Medicina	e	Cirurgia	e	a	Faculdade	de	Medicina,	instituições	estas	que	foram	fundamentais
para	a	evolução	do	pensamento	e	da	prática	alienista	no	Rio	de	Janeiro.
Ainda	 nesse	 século	 foram	 criados:	 o	 Hospício	 São	 João	 de	 Deus,	 em	 1861,	 em	 Recife;	 um	 em
Salvador,	em	1874	e	outro	em	Porto	Alegre,	em	1884.
2.3.	À	Guisa	de	Síntese
As	transformações	históricas	por	que	passou	a	sociedade	brasileira,	no	seio	da	qual	foi	produzido	o
pensamento	 psicológico	 aqui	 em	 estudo	 e	 o	 desenvolvimento	 das	 idéias	 psicológicas	 na	 Europa,	 que
caminhavam	para	o	estabelecimento	de	sua	autonomia,	são	fatores	fundamentais	para	a	compreensão	da
História	da	Psicologia	no	Brasil.
O	 fim	 da	 condição	 colonial	 permitiu	 o	 desenvolvimento	 de	 várias	 instâncias	 da	 formação	 social
brasileira,	dentre	as	quais	as	de	âmbito	cultural.	A	criação	de	cursos	superiores,	a	impressão	de	livros	e
o	surgimento	de	várias	instituições	são	exemplos	dessa	mudança.	A	busca	de	uma	“identidade	nacional”,
principalmente	 advin​da	 de	 intelectuais	 que	 buscavam	 a	 compreensão	 e	 a	 solução	 dos	 problemas
nacionais,	 deve	 também	 ser	 destacada;	 a	 preocupação	 com	 a	 saúde	 e	 a	 educação	 encontram-se	 nesse
plano.	Ao	mesmo	tempo,	é	possível	dizer	que	o	Brasil,	agora	nação	autônoma,	adquiria	maior	facilidade
de	contato	com	o	resto	da	Europa,	isento	da	mediação	de	Portugal,	o	que	facilitava	a	penetração	de	idéias
correntes	no	Velho	Mundo,	especialmente	na	França,	indiscutível	centro	intelectual	da	época.
A	 produção	 de	 idéias	 psicológicas	 foi	 também	 produto	 dessa	 sociedade	 em	 transformação,
sobretudo	 na	 busca	 de	 respostas	 às	 necessidades	 que	 se	 diversificavam	 e	 se	 impunham	 pelos	 novos
tempos.	 As	 transformações	 econômicas,	 com	 suas	 conseqüências	 para	 o	 incremento	 do	 processo	 de
urbanização,	acabaram	por	trazer	à	tona	novos	problemas	ou	a	explicitação	de	problemas	antigos,	que	o
país	 não	 se	 encontrava	 preparado	 para	 resolver.	 Nesse	 contexto,	 a	 Medicina	 e	 a	 Educação	 foram
chamadas	 a	 contribuir	 para	 a	 solução	 dos	 problemas,	 incluindo-se	 aí	 a	 preocupação	 com	o	 fenômeno
psicológico	em	várias	de	suas	dimensões.
O	desenvolvimento	do	pensamento	psicológico	no	Brasil,	no	século	XIX,	não	pode	ser	visto	porém
apenas	 na	 sua	 dimensão	 local.	 É	 necessário	 considerar	 que	 a	 preocupação	 com	 os	 fenômenos
psicológicos	vinha,	durante	 séculos,	 se	desenvolvendo;	entretanto,	 é	no	século	XIX	que	a	evolução	da
Filosofia,	de	um	lado,	e	dos	conhecimentos	produzidos	pela	Fisiologia,	de	outro,	começaram	a	caminhar
em	direção	a	uma	possível	síntese.	É	possível	dizer	que	o	século	XIX	foi,	para	a	Psicologia,	o	momento
fundamental	 que	 preparou	 as	 condições	 para	 sua	 autonomia.	 Esse	 período	 não	 apenas	 sintetizou	 e
aprofundou	 o	 conhecimento	 a	 respeito	 dos	 fenômenos	 psicológicos,	mas,	mais	 que	 isso,	 as	mudanças
ocorridas	na	Europa	do	século	XVIII	criaram	desafios	e	necessidades	que	precisavam	ser	 respondidas
pelo	 conhecimento	 produzido	 no	 século	XIX.	Aparece	 aqui	 também	 a	 problemática	 do	 incremento	 do
processo	de	urbanização	decorrente,	na	Europa,	do	avanço	do	modo-de-produção	capitalista.	Assim,	uma
sociedade	que	enfrentava,	de	um	lado,	os	problemas	relativos	à	saúde,	saneamento,	habitação	e	outros,
criados	pela	densidade	demográfica	e,	por	outro	lado,	os	movimentos	sociais	que	questionavam	as	bases
sobre	 as	 quais	 aquela	 sociedade	 se	 erigia,	 precisava	 de	 instrumentos	 para	 melhor	 compreender	 tais
problemas	 e	 sobre	 eles	 intervir.	 Era	 necessário	 buscar	 o	 controle,	 não	 apenas	 de	 problemas	 como
epidemias,	mas	também	da	conduta	humana.	A	isso	acrescenta-se	que	a	ideologia	burguesa	colocava	no
indivíduo	 o	 fundamento	 de	 uma	 sociedade	 baseada	 na	 propriedade	 privada,	 portanto	 pessoal	 e
individual;	 fazia-se	 necessário,	 pois,	 compreender	 o	 homem	 nessa	 dimensão.	 De	 resto,	 é	 preciso
considerar	que	uma	formação	social	baseada	na	divisão	social	do	trabalho	e	no	avanço	técnico	apontava
para	a	especialização	do	conhecimento.Nesse	 panorama,	 o	 contato	 de	 muitos	 brasileiros	 com	 os	 movimentos	 intelectuais	 europeus
inevitavelmente	 fez	 com	 que	 essas	 idéias,	 lá	 em	 franca	 expansão,	 mais	 cedo	 ou	 mais	 tarde	 aqui
chegassem	 também.	A	profusão	de	 idéias	na	Europa,	 somada	às	necessidades	da	 sociedade	brasileira,
permitiu	 que	 aqui	 se	 desenvolvessem,	 dentre	 várias	 áreas	 de	 conhecimento,	 também	 as	 idéias
psicológicas.
6	Marina	Massimi	realiza	em	sua	tese	de	doutoramento	um	extenso	estudo	sobre	as	idéias	psicológicas	difundidas	em	instituições	de	ensino	de
São	Paulo	e	Rio	de	Janeiro,	no	século	XIX,	encontrando	um	material	revelador	da	preocupação	com	os	fenômenos	psicológicos	no	período	em
questão.	Ver	MASSIMI,	M.	A	Psicologia	em	Instituições	de	Ensino	brasileiras	do	século	XIX.	São	Paulo,	 tese	de	doutoramento,	USP,
1989.
7	Para	aprofundamento	nessa	questão,	ver:	MACHADO,	R.	e	outros.	Danação	da	norma:	Medicina	Social	e	Constituição	da	Psiquiatria
no	Brasil.	Rio	de	Janeiro,	Graal,	1978.
8	Para	aprofundamento	sobre	o	hospício	de	São	Paulo,	ver:	CUNHA,	M.	C.	P.	O	espelho	do	mundo:	Juquery,	a	história	de	um	asilo.	Rio
de	Janeiro,	Paz	e	Terra,	1986.
Parte	II
N
A	psicologia	científica	e	seu	processo	de
autonomização	no	Brasil
ovas	e	significativas	transformações	ocorreram,	a	partir	do	final	do	século	XIX,	tanto	na	sociedade
brasileira	quanto	na	Psi​cologia.
O	Brasil	 adotou	 o	modelo	 republicano,	 ao	mesmo	 tempo	 em	 que	 se	 consolidava	 e	 atingia	 pleno
desenvolvimento	 a	 economia	 de	 base	 agrário-comercial-exportadora,	 vinculada	 fundamentalmente	 à
produção	 cafeeira,	 o	 que	 contribuiu	 para	 a	 geração	 de	 condições	 que	 possibilitaram	 a	 efetivação	 do
processo	 de	 industrialização	 do	 país.	 Tais	 fatores	 concorreram	 para	 a	 expansão	 do	 processo	 de
urbanização	e	para	a	definição	do	pólo	econômico-político-cultural	do	país	na	região	Sudeste.	Assistiu-
se,	 nesse	 momento,	 à	 expansão	 do	 ideário	 liberal	 entre	 os	 intelectuais	 brasileiros,	 cuja	 participação
política	e	cultural	tornou-se	intensa,	trazendo	à	tona	a	preocupação	com	a	“questão	nacional”	e	a	busca
de	caminhos	para	o	progresso	e	a	modernidade.
A	 Psicologia,	 por	 sua	 vez,	 adquiriu	 no	 final	 do	 século	 passado	 o	 estatuto	 de	 ciência	 autônoma;
processo	esse	originado	na	Europa	e	 seguido	de	acelerada	evolução	dessa	ciência	não	apenas	em	seu
solo	original,	mas	também	nos	Estados	Unidos.	Na	virada	do	século,	ocorreu	intenso	desenvolvimento	da
ciência	 psicológica	 em	 todas	 as	 instâncias,	 quer	 no	 plano	 teórico	 –	 destacando-se	 a	 diversidade	 de
abordagens	surgidas	nessa	época	e	o	aumento	significativo	da	produção	de	pesquisas	–,	quer	no	plano
prático,	em	que	esta	ciência	penetrou	e	ampliou	seu	potencial	de	aplicação.
A	concomitância	desses	dois	conjuntos	de	fatores	e	a	possibilidade	efetiva	de	estabelecimento	de
relações	entre	eles,	em	função	da	articulação	entre	potencialidades	e	necessidades,	passíveis	de	serem
mutuamente	realizadas,	permitiram	um	avanço	sem	precedentes	na	história	da	Psicologia	no	Brasil.
Os	problemas	que	o	Brasil	enfrentava	no	século	XIX	tenderam,	com	a	virada	do	século,	a	agravar-
se	e	outros	vieram	a	eles	se	somar,	de	tal	maneira	que	o	pensamento	psicológico,	já	em	franco	processo
de	 desenvolvimento	 no	 país,	 encontrou	 terreno	 fértil	 para	 penetrar	 e	 estabelecer-se	 na	 sua	 dimensão
científica	e	caminhando	para	sua	autonomia	teórica	e	prática	em	relação	às	áreas	do	saber	no	interior	das
quais	 havia	 se	 desenvolvido	 até	 então,	 como	 a	 Medicina	 e	 a	 Educação.	 Ao	 mesmo	 tempo,	 o
desenvolvimento	 da	 ciência	 psicológica	 e	 a	 ampliação	 de	 seu	 campo	 de	 ação	 maximizavam	 as
possibilidades	 concretas	 de	 a	 Psicologia	 contribuir	 com	 possíveis	 respostas	 para	 as	 questões	 que	 se
impunham.
A	Psicologia	e	outras	áreas	de	conhecimento	foram	buscadas	no	sentido	de	contribuir	com	soluções
para	 os	 problemas	 relacionados	 à	 saúde,	 à	 educação	 e	 à	 organização	 de	 trabalho,	 no	 interior	 de	 uma
formação	social	dependente	e	atrasada,	em	busca	da	mo-dernidade	representada	pela	concretização	do
ingresso	do	Brasil	no	mundo	industrializado.
Nesse	 contexto	 e	 em	 face	 de	 tais	 problemas	 ocorreram	 importantes	 realizações	 da	Psicologia	 no
Brasil,	cujas	principais	produções	são	ainda	oriundas	das	instituições	médicas	e	educacionais.	A	partir
dessa	base	e	em	seu	interior	é	que	a	Psicologia	se	desenvolveu,	conquistando	sua	autonomia	em	relação
às	áreas	do	saber	no	interior	das	quais	evoluíra	até	então,	por	meio	da	definição	e	da	delimitação	cada
vez	mais	explícitas	de	seu	objeto	de	estudo	e	de	seu	campo	próprio	de	ação.	Tentaremos	demonstrar	que
a	produção	psicológica	no	interior	de	algumas	instituições	delineia-se	cada	vez	com	maior	clareza,	de	um
lado	pela	diferenciação	gradativa	de	outras	áreas	de	conhecimento,	como	a	Psiquiatria	por	exemplo,	e	de
outro	 lado	pela	penetração	das	 idéias	e	práticas	 já	constitutivas	da​quilo	que,	na	Europa	e	nos	Estados
Unidos,	era	considerado	como	Psicologia	científica.
As	personagens	dessa	história	são	principalmente	médicos,	educadores,	bacharéis	em	direito	e	até
engenheiros,	sendo	que	muitos	deles	acabaram	por	dedicar-se	exclusivamente	à	Psicologia	e	podem	ser
considerados	 como	 os	 primeiros	 psicólogos	 brasileiros.	 Acrescentam-se	 a	 eles	 vários	 psicólogos
estrangeiros	 que	 para	 cá	 vieram	 ministrar	 cursos,	 proferir	 palestras	 ou	 prestar	 assistências	 técnicas
específicas,	dos	quais	muitos	aqui	permaneceram	e	se	radicaram	definitivamente	no	país.
Abordaremos,	 a	 seguir,	 a	 produção	 psicológica	 na	Medicina,	 na	 Educação	 e	 na	 sua	 aplicação	 à
organização	 do	 trabalho,	 no	 período	 compreendido	 entre	 a	 última	 década	 do	 século	 XIX	 e	 as	 três
primeiras	décadas	do	século	XX.
A
Capítulo	1
A	psicologia	em
instituições	médicas
tendência	do	século	XIX	manteve-se	por	algum	tempo,	diferenciando-se	gradativamente,	sendo	que
as	 preocupações	 estritamente	 psiquiátricas	 foram	 se	 delineando	 com	maior	 clareza	 e	 delimitando
mais	 explicitamente	 suas	 fronteiras	 com	 a	 Psicologia.	 Tais	 fatos	 ocorreram	 ainda	 no	 interior	 da
Medicina,	mas	já	caracterizada	como	especialidade	psiquiátrica,	particularmente	nas	instituições	asilares
e	 em	 seu	 correlatos,	 como	 a	Medicina	 Legal	 ou	 a	Higiene	Mental.	 A	 principal	 evidência	 disso	 foi	 a
criação	 de	 laboratórios	 de	 Psicologia	 em	 diversas	 instituições	 psiquiátricas,	 cuja	 produção	 foi
principalmente	de	natureza	psicológica.	O	desenvolvimento	dos	saberes	psiquiátrico	e	psicológico	e	suas
decorrências	práticas	 foram	fatores	 fundamentais	para	que	ambas	as	áreas	adquirissem	contornos	mais
nítidos	e,	conseqüentemente,	uma	maior	delimitação	entre	si.
O	país	 encontrava-se	 ainda	na	mesma	 (e	 talvez	pior)	 situação	que	no	 século	 anterior,	 no	que	diz
respeito	 às	 precárias	 condições	 de	 saneamento	 e	 saúde	 do	 povo	 brasileiro.	 Intelectuais	 e	 políticos
reclamavam	da	Medicina	intervenções	concretas	por	meio	de	um	projeto	profilático,	com	a	finalidade	de
erradicar,	ou	pelo	menos	minimizar,	as	inúmeras	doenças	infecto-contagiosas	que	assolavam	o	país.	Esse
movimento,	no	âmbito	da	Medicina	Geral,	estava	intimamente	relacionado	à	questão	da	Higiene	que,	nos
anos	iniciais	do	século	XX,	estava	revestido	de	ampla	responsabilidade	frente	à	realidade.	É	no	bojo	de
tais	fatos	que	tanto	o	pensamento	psiquiátrico	quanto	o	psicológico	encontraram	fértil	terreno	para	seus
estudos	 e	 para	 a	 aplicação	de	 seus	 conhecimentos	por	meio	da	Higiene	Mental,	 instância	derivada	da
Higiene	 em	 sua	 expressão	 geral.	 As	 ligas	 de	 Higiene	 Mental	 foram,	 assim,	 importantes	 fontes	 de
produção	de	pesquisa	e	de	práticas	relacionadas	à	Psicologia.
Para	 expor	 essa	 linha	 de	 desenvolvimento	 histórico	 da	 Psicologia,	 abordaremos	 a	 seguir	 as
produções	 dos	 hospícios,incluindo	 a	 Liga	 Brasileira	 de	 Higiene	 Mental;	 as	 produções	 relativas	 às
intermediações	entre	Psiquiatria	e	Direito,	que	foi	um	importante	veio	de	desenvolvimento	da	Psicologia,
principalmente	por	meio	da	Me​dicina	Legal,	e	das	teses	de	doutoramento	das	Faculdades	de	Medicina.
1.1.	Os	hospícios	e	algumas	instituições	correlatas
O	 sustentáculo	 das	 produções	 que	 serão	 apresentadas	 a	 seguir	 foi	 o	 alienismo.	 Surgiu	 este	 na
Europa,	 como	 área	 que	 se	 auto​nomizou	 em	 relação	 à	 Medicina	 tradicional,	 estabelecendo	 como	 seu
objeto	 de	 estudo	 a	 “razão”,	 cuja	 compreensão	 não	 poderia,	 segundo	 seus	 defensores,	 situar-se	 na
Anatomia	ou	na	Fisiologia,	 pois	 teria	 aquela	uma	natureza	diversa.	Ao	alienismo	veio	 somar-se,	mais
tarde,	o	organicismo,	que	trazia	a	concepção	de	loucura	como	organicamente	determinada.
O	pensamento	psiquiátrico	brasileiro	da	época	tinha	como	principal	característica	o	ecletismo,	que
conjugava	o	alienismo	clássico,	especialmente	de	Pinel	e	Tuke,	com	o	organicismo,	em	particular	numa
de	 suas	 vertentes,	 a	 teoria	 da	 degenerescência,	 fortemente	 calcada	 na	 concepção	 da	 determinação
hereditária	da	loucura.
A	 teoria	 da	 degenerescência	 propunha	 ações	 que	 extra​polavam	 os	 muros	 asilares,	 propondo	 a
higienização	 e	 a	 discipli​na​rização	 da	 sociedade.	 Considerava	 ainda	 a	 existência	 de	 uma	 hierarquia
racial,	estando	no	ápice	a	raça	ariana	e	na	base	a	raça	negra;	muitos	teóricos	acreditavam	ser	os	negros
mais	propensos	à	degeneração	por	sua	inferioridade	biológica.
No	 Brasil,	 essas	 duas	 correntes	 juntam-se	 numa	 só	 experiência,	 em	 que	 a	 exclusão	 do	 “louco”
deveria	ser	compartilhada	com	a	prevenção	“social”	da	loucura.
O	 alienismo	 havia	 sido,	 no	 século	 anterior,	 expressão	 da	 Medicina	 Social,	 que	 incluía	 em	 seu
projeto	 profilático	 a	 preocupação	 com	 a	 pobreza,	 a	marginalidade	 social,	 o	 crime	 e	 a	 loucura.	Como
solução	 apresentava-se	 a	 necessidade	 de	 um	 efetivo	 controle	 sobre	 a	massa	 urbana,	 com	 vistas	 à	 sua
disciplinarização.	Nesse	contexto,	ganha	força	a	teoria	da	degenerescência.
Essas	idéias	são	incrementadas	na	virada	do	século,	com	o	agravamento	dos	problemas	urbanos,	de
tal	maneira	que	o	controle	das	massas	impunha-se	como	premente	necessidade	para	uma	sociedade	que
almejava	 ingressar	 num	 efetivo	 processo	 de	 industrialização,	 sobretudo	 no	 que	 diz	 respeito	 ao
proletariado.	 Assim,	 a	 articulação	 entre	 pensamento	 psiquiátrico	 e	 controle	 do	 processo	 produtivo
revela-se	explicitamente.
A	 preocupação	 com	 a	 “ordem”	 urbana	 e	 com	 o	 “progresso”	 baseia-se	 também	 nos	 princípios
positivistas,	 ainda	 fortemente	 arraigados	 no	 ideário	 brasileiro.	 A	 questão	 da	 “ordem”	 assume	 grande
importância	nessa	conjuntura,	devendo	o	asilo	excluir	do	convívio	social	aqueles	que	não	se	adaptassem
às	 normas	 estabelecidas,	 isto	 é,	 os	 “desordeiros”,	 estando	 incluídos	 nessa	 categoria	 os	 indivíduos
engajados	nos	movimentos	sociais	organizados.
Tais	 concepções,	 embora	majoritárias,	 não	 foram	 unânimes,	 o	 que	 demonstraremos	 adiante	 pela
experiência	 de	 Ulysses	 Pernambuco	 em	 Recife.	 Além	 desta,	 apresentaremos	 a	 seguir	 algumas
considerações	sobre	o	Hospício	do	Juquery,	o	Hospital	Nacional	de	Alienados,	a	Colônia	de	Psicopatas
do	Engenho	de	Dentro	e	as	Ligas	de	Higiene	Mental.
Hospício	do	Juquery9
Os	primórdios	do	Hospício	do	Juquery	situam-se	no	Asilo	Provisório	de	Alienados	da	Cidade	de
São	 Paulo.	 Sua	 criação	 é	 obra	 de	 Franco	 da	 Rocha,	 que	 empreendeu	 a	 reforma	 psiquiátrica	 em	 São
Paulo,	denunciando	a	precariedade	da	assistência	aos	doentes	mentais	e	defendendo	uma	nova	instituição,
baseada	em	práticas	científicas,	sobretudo	no	“asilamento	racional”.
O	 Hospício	 do	 Juquery	 foi	 construído	 fora	 da	 zona	 urbana,	 sendo	 seu	 projeto	 arquitetônico	 de
autoria	de	Ramos	de	Azevedo.	Em	1898	já	funcionavam	as	colônias	agrícolas;	e	suas	dependências	foram
várias	 vezes	 ampliadas	 ao	 longo	 do	 tempo,	 sendo	 anexados	 o	 pavilhão	 para	 “crianças	 anormais”,	 o
laboratório	histoquímico	e	o	Manicômio	Judiciário.
Franco	 da	 Rocha	 e	 seu	 sucessor,	 Pacheco	 e	 Silva,	 defendiam	 a	 centralização	 da	 assistência
psiquiátrica	 como	 forma	 de	 gerar	 condições	 para	 o	 estudo	 da	 loucura,	 com	 base	 na	 descrição,
comparação	e	classificação,	revelando	concomitantemente	a	preocupação	em	demonstrar	a	pertinência	da
teoria	da	degenerescência.
Segundo	Cunha,	a	produção	do	hospício	demonstrava	que:
“o	 interesse	 se	 desdobra	 a	 partir	 de	 quadros	 nosológicos	 já	 configurados	 e	 volta-se	 para	 a
identificação	 das	 formas	 particulares	 das	 ‘doenças’	 naquela	 sociedade	 particular,	 como
decorrência	de	uma	herança	genética	onde	amalgamavam-se	imigrantes,	escravos	e	todo	tipo	de
sangue	degenerado:	o	impacto	do	crescimento	urbano	no	crescimento	da	sífilis,	deflagradora	de
um	tipo	determinado	de	patologia	mental	(...);	a	loucura	associada	às	caracteristicas	raciais	e	o
significado	 disto	 em	 sua	 apresentação	 na	 sociedade	 miscigenada	 do	 país;	 a	 correspondência
entre	 loucura	 e	 crime;	 a	 relação	 entre	 as	 formas	 de	 doença	 mental	 e	 os	 padrões	 culturais
‘atrasados’	como	(...)	as	religiões	‘primitivas’	dos	negros	e	dos	pobres”	(1986,	p.	77).
O	Juquery	representou	em	São	Paulo	o	pensamento	psiquiátrico	hegemônico	no	Brasil,	nessa	época.
Sua	prática	articulou-se	às	necessidades	trazidas	pelo	processo	de	industrialização	que	se	acelerava	na
cidade	e	teve	uma	dimensão	política	que	era	a	de
“conferir	 legitimidade	 à	 exclusão	 de	 indivíduos	 ou	 setores	 sociais	 não	 enquadráveis	 nos
dispositivos	 penais;	 permitir	 a	 guarda	 (...)	 e	 a	 regeneração	 ou	 disciplinarização	 de	 ind/
resistentes	às	disciplinas	do	trabalho,	da	família	e	da	vida	urbana;	reforçar	papéis	socialmente
importantes	 para	 o	 resguardo	 da	 ordem	 e	 da	 disciplina,	 medicalizando	 comportamentos
desviantes	(	...)	e	permitindo	que	sua	reclusão	possa	ser	lida	como	um	ato	em	favor	do	louco,	e
não	contra	ele”	(Cunha,	1986,	p.	80).
O	hospício	vai	gradativamente	abandonando	sua	preocupação	com	a	loucura	individual	e	assumindo
tarefas	de	ordem	social,	sobretudo	no	que	diz	respeito	ao	controle	da	força	de	trabalho.
Do	 ponto	 de	 vista	 prático,	 as	 técnicas	 “científicas”	 utilizadas	 consistiam,	 por	 exemplo,	 em:
alternância	 de	 banhos	 frios	 e	 quentes,	 malarioterapia,	 traumaterapia,	 laborterapia	 e	 terapias	 me​dica​-
mentosas.
A	 produção	 do	 Juquery	 circunscreve-se	 especificamente	 no	 âmbito	 da	 Psiquiatria,	 não	 trazendo
contribuição	direta	para	o	conhecimento	e	 a	prática	da	Psicologia.	Entretanto,	 sua	preocupação	 com	a
loucura	abarca,	sem	sombra	de	dúvidas,	o	fenômeno	psicológico,	embora	sua	maior	contribuição	seja	a
de	 demarcar	 mais	 nitidamente	 as	 fronteiras	 entre	 a	 Psicologia	 e	 a	 Psiquiatria	 e,	 conseqüen​temente,
demonstrar	nesse	caso	um	fator	relevante	para	a	compreensão	do	processo	de	autonomização	da	ciência
psico​ló​gica.
É	 necessário	 reconhecer,	 entretanto,	 que	 ambas	 as	 áreas	 tratam,	 sob	 enfoques	 e	 fundamentos
diversos,	 fenômenos	 de	 uma	 mesma	 natureza	 e	 que	 é	 inquestionável	 que,	 apesar	 das	 fronteiras,	 há
intersecções	tanto	do	ponto	de	vista	do	objeto	de	estudo	quanto	do	ponto	de	vista	prático.	Soma-se	a	isso
que	suas	produções	situam-se	numa	dada	realidade,	sendo	que	cada	uma,	a	seu	modo,	busca	responder	às
suas	demandas.
Hospital	Nacional	dos	Alienados
Após	a	proclamação	da	república,	o	Hospício	Pedro	II	passou	a	ser	chamado	Hospital	Nacional	dos
Alienados10	e	sua	administração	transferida	ao	Estado,	em	substituição	à	Santa	Casa	de	Misericórdia.	Em
1902,	 após	 a	 detecção	 de	 inúmeros	 problemas	 na	 instituição,	 foi	 nomeado	 para	 sua	 direção	 Juliano
Moreira,	cuja	prática	inaugura	“uma	psiquiatria	cujosfundamentos	 teóricos,	práticos	e	 institucionais
constituíram	um	sistema	psiquiátrico	coerente”	(Costa,	1976,	p.	26).	Esse	hospício	pode	ser	visto	como
o	primeiro	no	Brasil	que	tratou	a	loucura	do	ponto	de	vista	eminentemente	médico.	Nomes	consagrados
como	 Henrique	 Roxo,	 Afrânio	 Peixoto	 e	 Mauricio	 de	 Medeiros	 contribuíram	 com	 a	 constituição	 da
prática	psiquiátrica	instalada	na	instituição.
Em	1907,	sob	a	direção	de	Juliano	Moreira,	é	criado	o	provável	segundo	laboratório	de	Psicologia
no	 Brasil	 (o	 primeiro	 teria	 sido	 no	 “Pedagogium”,	 em	 1906),	 denominado	 Laboratório	 de	 Psicologia
Experimental	 da	 Clínica	 Psiquiátrica	 do	 Hospital	 Nacional	 dos	 Alienados11.	 Esse	 laboratório	 foi
chefiado	por	Maurício	de	Medeiros,	construído	sob	a	influência	de	Georges	Dumas,	com	quem	Medeiros
trabalhou	em	Paris,	no	laboratório	de	Psicologia	do	Hospital	de	Saint’Anne.
Nesse	hospício,	também	sob	a	direção	de	Juliano	Moreira,	res​ponsabilizou-se	Heitor	Carrilho	pelo
setor	que	deveria	abrigar	os	“criminosos	loucos”,	gérmen	do	Manicômio	Judiciário,	criado	em	1921.
O	 Hospital	 Nacional	 dos	 Alienados	 foi,	 como	 o	 Juquery,	 um	 asilo	 modelo	 para	 o	 pensamento
psiquiátrico	 da	 época,	 representando	 a	 tendência	 vigente	 em	 que	 o	 ecletismo	 tornou-se	 posição
praticamente	hegemônica.	Para	ele	confluíram	médicos	cariocas	e	baianos,	representando	as	orientações
de	 Teixeira	 Brandão	 e	 Raimundo	 Nina	 Rodrigues	 respectivamente,	 sendo	 que	 ambas	 as	 tendências
tiveram,	 apesar	 de	 suas	 particularidades,	 como	 seu	 principal	 fundamento	 a	 Medicina	 Social	 e	 seus
motivos	de	natureza	sócio-política.
Ao	 contrário	 do	 Juquery,	 no	 entanto,	 nesse	 hospício	 é	 explícito	 o	 vínculo	 com	 a	 Psicologia,
concretizado	na	existência	do	 laboratório.	Nesse	sentido,	o	Hospital	Nacional	dos	Alienados	pode	ser
visto	como	uma	instância	produtora	de	conhecimento	psicológico,	tendo	abrigado	profissionais	que,	em
seu	 laboratório	ou	fora	dele,	produziram	relevantes	obras	psicológicas,	como	Maurício	de	Me​deiros	e
Plínio	Olinto.	 Isso	 remete	 à	questão	de	que	a	Psiquiatria	no	Brasil,	 em	sua	manifestação	 institucional,
assumiu	 parcela	 da	 produção	 psicológica,	 vinda	 não	 somente	 da	 tradição	 passada,	 quando	 não	 havia
qualquer	forma	de	delimitação	entre	as	duas	áreas	de	saber,	mas	também	pelo	fato	de	que	a	Psiquiatria
necessita	do	intercâmbio	com	o	conhecimento	psicológico,	fomentando	e	sediando	sua	pesquisa.
Por	fim,	deve-se	dizer	que	a	impossibilidade	de	acesso	aos	documentos	que	registram	a	produção
do	laboratório,	pois	esses	encontram-se	perdidos,	compromete	sobremaneira	a	avaliação	mais	profunda
da	participação	desse	hospício	e	de	seu	laboratório	na	história	da	Psicologia	no	Brasil.
Colônia	de	Psicopatas	do	Engenho	de	Dentro
Fundada	no	Rio	de	Janeiro	na	década	de	10,	a	Colônia	produziu	extensa	contribuição	à	Psicologia
por	meio	de	seu	fértil	laboratório12,	criado	em	1923.
Esse	 laboratório	 foi	 transformado	 em	 Instituto	 de	 Psicologia,	 subordinado	 ao	 Ministério	 de
Educação	e	Saúde	Pública,	em	1932.	Em	1937	foi	incorporado	à	Universidade	do	Brasil,	para	contribuir,
segundo	 Penna,	 com	 as	 Faculdades	 de	 Filosofia,	 Ciências	 e	 Letras,	 de	 Educação	 e	 de	 Política	 e
Economia.
Havia	 também	 na	 Colônia	 a	 Escola	 de	 Enfermagem,	 que	 continha	 em	 seu	 currículo	 a	 disciplina
Psicologia,	ministrada	por	Gustavo	Rezende	e	Nilton	Campos.
Criado	 por	 Gustavo	 Riedel,	 diretor	 da	 Colônia,	 o	 laboratório	 foi	 patrocinado	 pela	 Fundação
Gaffrée-Guinle.	Sua	finalidade,	juntamente	com	uma	exposição	de	motivos	e	até	mesmo	uma	definição	da
função	do	psicólogo,	foi	assim	expressa	por	Osvaldo	N.	de	Souza	Guimarães:	“atualmente	todo	Instituto
destinado	ao	estudo,	cura	e	profilaxia	das	moléstias	mentais	deve	ter,	como	auxiliar	indispensável,	um
laboratório	 de	 psicologia,	 a	 cargo	 de	 um	 psicólogo	 profissional.	 Este	 torna-se,	 então,	 valioso
colaborador	do	médico,	para	eficiência	de	tal	Instituto”	(Guimarães,	apud	Penna,	1985,	p.	28).	Para	a
direção	do	laboratório	foi	chamado	o	psicólogo	polonês	Waclaw	Radecki.
O	laboratório,	que	contava	com	sofisticados	equipamentos	vindos	de	Paris	e	Leipzig,	“funcionava
como	 instituição	 auxiliar	médica;	 (2)	 como	 auxiliar	 das	 necessidades	 sociais	 e	 práticas;	 (3)	 como
núcleo	de	pesquisas	científicas;	(4)	como	centro	didático	para	formação	de	psicólogos”.	(Penna,	1985,
p.	30).
A	 extensa	 produção	 do	 laboratório	 demonstra,	 em	 relação	 aos	 asilos	 já	 estudados,	 um	 imenso
avanço	 em	 direção	 ao	 reconhecimento	 da	 autonomia	 científica	 e	 prática	 da	 Psicologia	 no	 Brasil.
Explicita-se	aí,	com	clareza,	que	a	Psicologia	é	vista	como	campo	próprio	de	conhecimento	e	ação,	ao
mesmo	tempo	em	que	é	reconhecida	sua	íntima	relação	com	a	Psiquiatria.
Do	 ponto	 de	 vista	 da	 produção	 do	 laboratório,	 além	 da	 quantidade	 de	 pesquisas	 e	 ensaios,	 três
elementos	 apresentam-se	 como	 particularmente	 significativos:	 a	 preocupação	 com	 a	 formação	 de
psicólogos	 e	 a	difusão	do	 conhecimento	psicológico;	o	 trabalho	 clínico	 e	 a	 aplicação	da	Psicologia	 a
questões	relativas	ao	trabalho.
O	laboratório	da	Colônia	contribuiu	com	uma	das	primeiras	referências,	no	Brasil,	da	perspectiva
psicoterápica,	 num	 momento	 em	 que	 tal	 campo	 de	 ação,	 quando	 existia,	 limitava-se	 à	 Psiquiatria.	 É
possível	 tomar	 como	 hipótese	 que	 esse	 tipo	 de	 trabalho,	 ainda	 que	 incipiente,	 tenha	 lançado	 algumas
bases	para,	mais	 tarde,	 tornar-se	um	dos	mais	 importantes	campos	de	atuação	da	Psicologia	no	país,	o
qual	 só	 nas	 décadas	 seguintes	 viria	 a	 ter	 contornos	 mais	 definidos	 como	 possibilidade	 de	 aplicação
psicológica.
Merece	referência	também	a	contribuição	do	laboratório	à	organização	do	trabalho,	que	se	mostra
claramente	 definida,	 particularmente	 no	 que	 se	 refere	 à	 utilização	 de	 testes	 para	 fins	 de	 seleção	 e
orientação	profissional.	Foram	realizados	estudos	e	pesquisas	sobre	fadiga	em	“trabalhadores	menores“,
seleção	 de	 candidatos	 à	 aviação	 militar,	 psicometria	 e	 questões	 profissionais	 etc.	 Além	 disso,	 é
necessário	dizer	que	o	trabalho	no	laboratório,	junto	com	outros	que	se	realizavam	em	outras	instituições,
traz	 uma	 nova	 característica	 às	 contribuições	 que	 até	 então	 as	 instituições	 psiquiátricas	 davam	 à
problemática	 do	 trabalho,	 cuja	 principal	 finalidade	 era	 exercer	 o	 controle	 e	 a	 disciplinarização	 do
proletariado	urbano	fora	dos	muros	da	fábrica.	A	partir	daí,	a	Psicologia	penetra	no	interior	do	processo
produtivo,	com	um	caráter	estritamente	técnico-científico,	por	meio	da	intervenção	direta	nos	processos
seletivos	e	no	estabelecimento	de	contingências	e	normas	nas	relações	de	produção,	com	base	no	saber
psicológico.
Um	destaque	especial	deve	ser	dado	à	importância	da	presença	de	Radecki	nesse	laboratório	e,	por
decorrência,	na	história	da	Psicologia	no	Brasil.	Foi	ele	o	autor	de	grande	parte	dos	trabalhos	produzidos
no	 laboratório,	 quando	 não	 colaborador	 ou	 orientador.	 Foi	 ele	 quem	 ministrou	 inúmeros	 cursos	 e
conferências,	 com	 influência	 significativa	 na	 divulgação	 e	 difusão	 da	 Psicologia	 no	 país.	 Suas
realizações	 constituem-se	 na	 quase	 totalidade	 da	 produção	 do	 laboratório,	 devendo-se	 a	 ele	 também,
provavelmente,	a	marcante	cultura	psicológica	presente	nos	trabalhos	produzidos,	em	que	são	freqüentes
citações	e	referências	a:	Ribot,	Claparède,	William	James,	Janet,	Forel,	Babinski,	Bernheim,	Kräepelin,
Bleuler,	 Minkowski	 e	 Kretschemer,	 dentre	 outros,	 devendo-se	 salientar	 a	 significativa	 presença	 da
Psicanálise.
Finalmente,	deve-se	reafirmar	que	a	Colônia	de	Psicopatas	do	Engenho	de	Dentro	foi	uma	das	mais
importantes	instituições	que	geraram	condições	para	o	estabelecimento	da	Psicologia	no	Brasil,	quer	pela
consolidação	desta	área	do	 sabercomo	ciência,	quer	em	 relação	ao	 reconhecimento	de	 sua	autonomia
teórica	e	prática.
Liga	Brasileira	de	Higiene	Mental	e	instituições	correlatas
A	 Liga	 Brasileira	 de	 Higiene	Mental	 foi	 fundada	 em	 1923,	 por	 Gustavo	 Riedel,	 tendo	 em	 seus
quadros	os	mais	eminentes	psiquiatras	e	intelectuais	da	época.	Segundo	Jurandir	Freire	Costa,	o	objetivo
inicial	da	Liga	idealizada	por	Riedel	era	a	melhoria	da	assistência	ao	doente	mental.
A	 partir	 de	 1926,	 porém,	 esse	 objetivo	 foi	 cedendo	 lugar	 ao	 ideal	 eugênico13,	 à	 profilaxia	 e	 à
educação	dos	indivíduos.	A	preocupação	transferiu-se	do	indivíduo	“doente”	para	o	“normal”,	da	cura
para	 a	 prevenção,	 ampliando	 seu	 raio	 de	 ação	 para	 a	 sociedade	 como	 um	 todo,	 definindo	 a	 ação
psiquiátrica	como	prática	higiênica,	apoiada	na	noção	de	eugenia.
Essa	 concepção	 contribuiu	 para	 uma	 interpretação	 racista	 da	 sociedade	 brasileira,	 que	 tendia	 a
atribuir	 os	 problemas	 sócio-econômicos	 às	 questões	 raciais,	 especialmente	 à	 presença	 de	 “raças
inferiores”,	numa	explícita	referência	aos	negros	que,	junto	com	o	clima	quente,	eram	responsabilizados
pelo	atraso	do	país.	Essas	idéias	desembocaram	na	defesa	do	“embran​queci​mento	da	raça	brasileira”	e,
posteriormente,	na	busca	da	“pureza	racial”.
No	 bojo	 dessa	 discussão,	 a	 problemática	 educacional	 ocupou	 lugar	 privilegiado,	 sendo	 que	 a
ignorância	 era	vista	 como	uma	das	mais	graves	doenças	 sociais.	 Juntamente	 com	essa	questão	 e	 a	 ela
relacionada	 integra-se	 a	 problemática	 das	 relações	 de	 trabalho;	 temas	 que	 estiveram	 diretamente
articulados	ao	pensamento	da	Liga	e	constituíram-se	em	objetos	de	estudo	e	alvos	de	ação.
A	Liga	reconhecia	a	Psicologia	como	ciência	afim	à	Psiquiatria	e	estimulava	sua	produção.	Nesse
sentido,	foi	criado	um	laboratório	de	Psicologia,	cuja	direção	foi	inicialmente	confiada	ao	francês	Alfred
Fessard	e	posteriormente	a	Plínio	Olinto,	que	foi	sucedido	por	Brasília	Leme	Lopes.	Além	disso,	a	Liga
propôs	em	1932,	ao	Mi​nistério	da	Educação	e	Saúde	Pública,	a	presença	obrigatória	de	“gabinetes	de
Psicologia”	 junto	 às	 clínicas	 psiquiátricas,	 sendo	 a	 proposta	 acolhida	 em	 instruções	 do	 referido
ministério.	 Anualmente	 a	 Liga	 realizava	 as	 “Jornadas	 Brasileiras	 de	 Psicologia”,	 cujo	 objetivo	 era
difundir	pesquisas	puras	e	aplicadas	nessa	área	do	conhecimento.
Preocupação	com	a	Psicologia	teve	também	a	Liga	Paulista	de	Higiene	Mental,	fundada	em	1926,
por	 Pacheco	 e	 Silva,	 funcionando	 em	 moldes	 semelhantes	 à	 sua	 correspondente	 nacional.	 Na	 Liga
Paulista,	 a	 Psicologia	 aparecia	 explicitamente	 articulad4a	 às	 questões	 relativas	 à	 organização	 do
trabalho,	como	instrumento	de	obtenção	de	conhecimento	a	respeito	das	funções	psicológicas	presentes
no	 exercício	 profissional,	 tais	 como:	 funções	 psicomotoras,	 memória,	 atenção	 e	 julgamento;	 tais
elementos	 articulavam-se,	 na	 prática,	 à	 aplicação	 da	 Psicologia	 à	 seleção	 e	 orientação	 profissional.
Como	ilustração,	vale	a	pena	citar	um	trecho	de	Bonifácio	Castro	Filho14:
“A	higiene	mental	nas	oficinas	e	nas	profissões	em	geral	é	um	fator	de	grande	prosperidade	para
a	 indústria,	 porque	 assegura	 um	 melhor	 rendimento.	 Ela	 pode	 ser	 realizada	 pela	 orientação
profissional	e	pela	seleção	psicológica	dos	operários,	tendo	por	efeito:
1º)	 a	 eliminação	nas	oficinas	de	 certas	 classes	de	profissionais	 psicopatas	que	 constituem	um
peso	morto	e	um	grave	prejuízo	para	a	coletividade;
2º)	colocar	os	indivíduos	em	seus	devidos	lugares,	de	acordo	com	as	aptidões	mentais,	condições
que	favorecem	o	êxito	do	trabalho”	(Castro	Filho,	apud	Cunha,	1986,	p.	189).
Essas	idéias	buscavam	na	Psicologia	não	apenas	fundamentação	teórica	e	corpo	de	técnicas	úteis	às
suas	finalidades	de	higienização	social	do	trabalho	e	da	família,	como	também	prenunciavam	um	outro
tipo	 de	 prática	 que	 se	 aproximava	 da	 prática	 clínica	 da	 Psicologia	 no	 momento	 subseqüente,	 pelas
denominadas	“clínicas	de	higiene	mental”,	cuja	finalidade	era	de	origem	profilática	e,	portanto,	voltada
para	o	indivíduo	“normal”.
A	isso	deve-se	acrescentar	o	papel	desempenhado	pelo	Instituto	de	Higiene	de	São	Paulo,	cuja	ação
foi	semelhante	à	da	Liga	Brasileira	de	Higiene	Mental.	Esse	instituto	foi	dirigido,	a	partir	de	1926,	por
Geraldo	Paula	Sousa,	que	organizou	um	grupo	de	estudos	de	Psicologia	Aplicada,	do	qual	participaram
médicos,	educadores	e	engenheiros;	os	estudos	aí	realizados	versaram	sobre	a	Psicologia	do	Trabalho	e
deram	também	origem	ao	“Serviço	de	Inspeção	Médico-Escolar”,	no	qual	foi	criada	uma	escola	especial
para	crianças	com	deficiência	mental	e,	em	1938,	uma	clínica	de	orientação	infantil,	provavelmente	uma
das	primeiras	no	país,	chefiada	por	Durval	Marcondes.
A	 concepção	 psiquiátrica	 das	 Ligas	 de	 Higiene	Mental,	 embora	 fortemente	 arraigada	 nas	 idéias
correntes	na	Psiquiatria	brasileira,	não	era	contudo	unânime.	Segundo	Freire	Costa,
“na	 mesma	 época,	 Odilon	 Galotti,	 no	 Rio,	 James	 Ferraz	 Alvim,	 em	 São	 Paulo,	 e	 Ulisses
Pernambucano	 em	 Recife	 (...)	 orientavam	 suas	 pesquisas	 numa	 direção	 totalmente	 oposta	 à
higiene	social	da	raça.	Para	esses	psiquiatras,	que	mantinham	também	ligações	com	a	L.B.H.M.,
a	higiene	mental	continuava	a	ser	aquilo	que	Riedel	havia	desejado	que	fosse:	melhoramento	e
humanização	da	assistência	psiquiátrica	aos	doentes	mentais”	(1976,	p.	63).
O	 pensamento	 e	 a	 ação	 das	 ligas	 são	 expressões	 de	 uma	 concepção	 autoritária	 de	 mundo,
representada	na	Psiquiatria	principalmente	pelo	pensamento	alemão,	nas	 figuras	de	Rudin,	Hoffmann	e
Meggen​dorfer,	continuadores	do	organicismo	de	Kräepelin.	Pretendia-se,	em	nome	da	ciência,	abarcar	o
controle	da	 sociedade	 e,	 para	 tal,	 defendia-se	 e	 estimulava-se	 a	 pesquisa	 e	 a	 aplicação	da	Psicologia
como	meio	 auxiliar	 para	 seus	 fins.	 É	 interessante	 notar	 que	 a	 Psicologia	 encontra-se,	 nesse	 contexto,
como	detentora	de	um	saber	 e	de	um	corpo	de	 técnicas,	particularmente	 a	psicometria,	 rela​cionada	às
práticas	especificamente	psicológicas,	numa	versão	bastante	próxima	das	atuais.
O	Movimento	Psiquiátrico	de	Recife
Esse	 movimento	 erigiu-se	 sobre	 o	 alicerce	 representado	 pelas	 idéias	 e	 ações	 de	 Ulysses
Pernambucano,	caminhando	na	contramão	do	pensamento	psiquiátrico	corrente	na	época	e	contribuindo
significativamente	para	a	Educação	(que	será	especificamente	abordada	no	próximo	capítulo).
Formado	 na	 Faculdade	 de	Medicina	 do	 Rio	 de	 Janeiro,	 Pernambucano	 foi	 discípulo	 de	 Juliano
Moreira;	 porém,	 sua	 prática	 distanciou-se	 da	 Psiquiatria	 organicista	 preponderante	 nos	 meios
acadêmicos	e	 institucionais	de	então.	Nomeado,	em	1924,	diretor	do	Hospital	de	Doenças	Nervosas	 e
Mentais	 de	 Recife,	 aboliu	 os	 calabouços	 e	 as	 camisas-de-força,	 implantou	 a	 praxiterapia,	 criou	 o
Pavilhão	de	Observações,	o	Laboratório	de	Análises	e	o	Pavilhão	de	Hidroterapia,	tendo	também	criado
o	sistema	de	“internato	acadêmico”	para	os	jovens	médicos	estagiarem.
Teve	 Pernambucano	 participação	 fundamental	 na	 implantação	 da	 “Assistência	 a	 Psicopatas	 de
Pernambuco”,	assim	composta:	serviços	para	doentes	mentais	não	alienados,	com	ambulatório	e	hospital
aberto;	 serviços	 para	 doentes	 mentais	 alienados,	 com	 hospital	 para	 doentes	 agudos	 e	 colônia	 para
doentes	 crônicos;	Manicômio	 Judiciário;	 Serviço	 de	 Higiene	Mental,	 com	 Serviço	 de	 Prevenção	 das
Doenças	Mentais	e	Instituto	de	Psicologia.	Sobre	o	Serviço	de	Higiene	Mental,	afirma	João	Marques	de
Sá15:
“Creio	 mesmo	 que	 o	 Serviço	 de	 Higiene	 Mental	 foi	 o	 responsável	 pela	 suspensão	 da
interferência	da	polícia	sobre	os	cultos	afro-brasileiros.	As	seitas	africanas	tiveram	em	Ulysses	e
no	 mestre	 Gilberto	 Freyre	 os	 mais	 ardentes	 defensores,	 passando	 a	 receber	 certo	 grau	 de
controle	científico	doserviço	de	Higiene	Mental”	(1978,	p.	20).
A	referência	acima	a	“controle	científico”	relaciona-se	prova​velmente	aos	estudos	realizados	por
Pernambucano	 sobre	 os	 africanos	 no	 Brasil	 e	 que	 o	 fez	 conhecido	 também	 como	 antropólogo.	 Esses
estudos	 foram	 inicialmente	 influenciados	 por	 Nina	 Rodrigues,	 cujo	 teor	 era	 marcadamente	 racista,
considerando	as	manifestações	culturais	negras	como	sintomas	da	degenerescência	mental,	em	função	da
inferioridade	 racial.	 Ulysses	 Pernambucano,	 entretanto,	 distanciou-se	 dessa	 concepção,	 passando	 a
repudiá-la	e	dirigindo	seus	estudos	para	caminhos	opostos	ao	pensamento	de	Raimundo	Nina	Rodrigues.
Pernambucano	 fundou	 a	Liga	 de	Higiene	Mental	 de	 Pernam​buco	 que,	 segundo	Freire	Costa,	 teve
caráter	 bastante	 diferente	 das	 demais	 ligas,	 sendo	 essa	 fiel	 aos	 objetivos	 inicialmente	 propostos	 por
Riedel	para	a	Liga	Brasileira	de	Higiene	Mental,	ou	seja,	a	busca	de	melhoria	na	assistência	aos	doentes
mentais.	Na	Liga,	Pernambucano	criou	uma	“Escola	para	Anormais”	que,	em	1964,	passou	a	ser	dirigida
pela	APAE.	Em	1936,	ele	criou	o	Sanatório	de	Recife,	no	qual	foi	também	instalada	uma	“Escola	para
Anormais”.
Preocupou-se	 também	 Pernambucano	 com	 a	 formação	 de	 profissionais	 da	 área	 de	 saúde	mental,
tendo	 realizado	vários	 cursos	 intensivos	de	 especialização,	 com	a	 finalidade	de	promover	 a	 formação
prática	 de	 “monitores	 de	 saúde	mental”	 e	 “auxiliares	 psicólogos”,	 sendo	 essa	 última	 função	 ocupada
principalmente	 por	 professoras	 diplomadas	 pela	 Escola	 Normal.	 Acrescenta-se	 a	 isso	 o	 serviço	 de
estágio	que	levou	inúmeros	discípulos	de	Ulysses	à	atuação	na	área	de	saúde	mental.
Pernambucano	 pode	 ser	 considerado	 como	 pioneiro	 do	 movi​mento	 que	 mais	 tarde	 veio	 a	 ser
conhecido	como	Anti-Psiquiatria,	muito	embora	a	pouca	divulgação	sobre	seu	pensamento	e	obra,	em	seu
próprio	país,	não	tenha	permitido	que	tal	movimento	pudesse	reconhecê-lo.
A	 doença	 mental	 era	 por	 ele	 concebida	 como	 situação	 existencial,	 resultante	 da	 dinâmica	 do
processo	psicológico,	considerando	o	sujeito	como	agente	desse	processo	e	admitindo	os	fatores	sociais
como	co-determinantes.	Opunha-se	 esta	 visão	 ao	 orga​nicismo,	 que	 via	 a	 doença	mental	 como	 causada
pela	 constituição	 orgânico-genética	 do	 sujeito,	 e	 que	 era	 antes	 determinante	 que	 determinada	 pelas
condições	 sociais.	Essa	 concepção	 justifica	 a	 denominação	 de	 “Psiquiatria	Humanista”,	 conferida	 por
Jamesson	Freire	Lima	ao	trabalho	de	Pernambucano.
Do	ponto	de	vista	da	produção	especificamente	psicológica,	o	movimento	de	Recife	veio	contribuir
em	particular	com	seu	Instituto	de	Psicologia,	mais	tarde	denominado	Instituto	de	Seleção	e	Orientação
Profissional.	Do	que	foi	aqui	exposto,	é	possível	apontar	elementos	que	se	ligam	direta	ou	indiretamente
à	 Psicologia	 propriamente	 dita,	 devendo	 destacar-se	 a	 preocupação	 de	 Ulysses	 Pernambuco	 com	 a
formação	 de	 profissionais	 na	 área	 psicológica	 que,	 inclusive,	 teve	 relação	 com	 seus	 propósitos
educacionais.	Acrescenta-se	a	 isso	a	preocupação	educacional	em	geral	e	psicológica	em	especial	que
teve	com	crianças	com	deficiência	mental.
De	forma	geral,	podemos	dizer	que	esse	psiquiatra	adotou	em	seu	trabalho	uma	perspectiva	muito
próxima	à	Psicologia	na	sua	maneira	de	conceber	e	atuar	sobre	a	doença	mental.
Seus	 estudos	 sobre	 a	 cultura	 afro-brasileira	 foram	não	 apenas	 contribuições	 à	Antropologia,	mas
podem	 ser	 também	admitidos	 como	Psicologia	Social,	 na	medida	 em	que	buscaram	articular	 cultura	 e
psiquismo.
1.2.	Medicina	Legal,	Psiquiatria	Forense	e	Criminologia
A	concepção	psiquiátrica	vigente	na	época,	como	já	visto,	pretendia	abarcar	as	questões	sociais	e
sobre	 elas	 exercer	 seu	 controle,	 com	 vistas	 ao	 estabelecimento	 da	 ordem	 no	 espaço	 urbano,
costumeiramente	 palco	 de	 conflitos,	 o	 que	 implicava	 na	 eliminação	 da	 “desordem”	 que,	 por	 sua	 vez,
significava	identificar	e	envidar	meios	efetivos	de	controle	sobre	os	elementos	“desordeiros”.	É	por	esse
motivo	 que	 o	 combate	 ao	 alcoolismo,	 jogo,	 prostituição	 e	 crime	 ganharam	 terreno	 no	 interior	 da
Psiquiatria,	 que	 procurou	 articular	 doença	 mental	 e	 criminalidade,	 com	 base	 na	 teoria	 da	 dege​ne​-
rescência.
Assim,	Psiquiatria	e	Direito	integraram-se	por	meio	da	Medicina	Legal,	da	Psiquiatria	Forense	e	da
Criminologia,	 sob	 a	 influência	 do	 organicismo,	 além	 das	 idéias	 de	 Spencer,	 Darwin,	 Galton,	 Comte,
Wundt	e,	especialmente,	de	Lombroso.
Médicos	 como	Oscar	 Freire,	 Afrânio	 Peixoto,	 Artur	 Ramos	 e	 o	 jurista	 Evaristo	 de	Moraes	 são
alguns	 daqueles	 que	 dedicaram	 grande	 parte	 de	 seus	 trabalhos	 à	 Medicina	 Legal,	 com	 significativa
produção	bibliográfica.	Deve-se	destacar	o	papel	de	Heitor	Carrilho,	cuja	contribuição	foi	não	apenas
teórica,	mas	fundamentalmente	no	campo	da	prática	institucional	da	Psiquiatria	Forense.
Carrilho	iniciou	seu	trabalho	como	psiquiatra	no	Hospital	Nacional	dos	Alienados,	encarregando-se
da	Seção	Lombroso,	que	abrigava	os	“criminosos	loucos”.	Por	seu	esforço,	foi	criado	em	1921,	no	Rio
de	Janeiro,	o	Manicômio	Judiciário,	do	qual	foi	diretor;	além	disso,	contribuiu	com	a	criação	de	outras
instituições	semelhantes	em	vários	pontos	do	país.	Foi	ainda	membro	do	Conselho	Penitenciário,	diretor
do	Serviço	Nacional	de	Doenças	Mentais,	presidente	da	Sociedade	Brasileira	de	Neurologia,	Psiquiatria
e	Medicina	Legal	e	catedrático	de	Clínica	Psiquiátrica	na	Faculdade	Flu​mi​nense	de	Medicina.
Heitor	Carrilho	foi	contundente	crítico	do	Direito	Clássico	e	grande	defensor	do	Direito	Positivo16,
que	procurava	 enfocar	o	 crime	 sob	o	 foco	da	determinação	 individual	 e	não	 social.	Dessa	maneira,	 o
Direito	Positivo	acabava,	em	última	instância,	psicologi-zando	ou	individualizando	o	ato	criminoso	e	sua
interpretação.	Nas	palavras	de	Carrilho:
“Não	é	possível	 fazer	direito	penal	sem	o	concurso	dos	médicos	e	dos	psychiatras	que,	com	os
seus	conhecimentos	de	bio-anthropologia	e	de	psychologia,	podem	penetrar	toda	a	personalidade
dos	 delinqüentes,	 exhaminando-lhes	 as	 differentes	 taras,	 definindo-lhes	 o	 feito	 mental,
mostrando	a	 fatalidade	biológica	que	os	 levou	à	prática	de	reações	anti-sociais,	desvendando-
lhe	a	constituição,	o	temperamento	e	o	caracter,	para	a	obra	admiravel	da	regeneração	de	que
lhes	carecem,	em	benefício	próprio	e	no	da	collectividade”	(Carrilho,	apud	Fry,	1985,	p.	123).
Essa	 interpretação	 psicologizada	 do	 crime	 articulava-se	 às	 idéias	 correntes,	 imputando	 ao
criminoso	 a	 etiologia	 da	 criminalidade	 e	 isentando	 de	 responsabilidade	 as	 condições	 sociais;	 a
sociedade	era	vista	como	vítima	do	indivíduo	criminoso,	com	isso	referendando	a	noção	de	saneamento
da	sociedade	pela	exclusão	dos	“desordeiros”	e	pela	regeneração	dos	indivíduos.
Carrilho	desenvolveu	em	seus	artigos	uma	série	de	elementos	necessários	para	a	prática	do	Direito
Positivo,	 particularmente	 no	 que	 diz	 respeito	 à	 interpretação	 psicológica	 e	 psiquiátrica	 do	 crime,	 tais
como:	taxonomias,	categorias	e	classificações	das	doenças	mentais,	com	base	na	idéia	de	que	cada	caso
é	 singular	 e	 único,	 devendo	 assim	 ser	 individualmente	 estudado	 e,	 da	 mesma	 maneira,	 decidida	 sua
penalidade.	Defendia	ele	a	elaboração	de	um	“psychobio​gramma”,	isto	é,	uma	ficha	de	informações	bio-
psíquicas,	para	cada	preso;	indo	mais	longe,	defendeu	a	idéia	de	que	todo	cidadão	deveria	ter	essa	ficha,
justificando	 a	 medida	 como	 meio	 de	 prevenção	 da	 criminalidade,	 sendo	 que	 esta,	 junto	 com	 a	 ficha
datiloscópica,	poderia	servir	como	elemento	de	identificação	do	indivíduo	criminoso.
Carrilho	 contribuiu	 também	 no	 exame	 e	 no	 relatório	 que	 fundamentaram	 o	 primeiro	 caso	 de
inimputabilidade	de	um	criminoso,	Febrônio	Índio	do	Brasil,	por	ter	sido	este	considerado“louco”.
Grande	 contribuição	 a	 essas	 áreas	 do	 saber	 veio	 também	 de	 Afrânio	 Peixoto.	 Sua	 tese	 de
doutoramento	 já	apontava	para	 essa	 temática:	 “Epilepsia	 e	Crime”,	 orientada	por	Nina	Rodrigues.	Do
vasto	 e	 amplo	 conjunto	 de	 obras	 de	 Peixoto,	 destacam-se:	 “Elementos	 de	 Medicina	 Legal”	 (1910);
“Psicopatologia	Forense”	(1916);	“Sexologia	Forense”	(1934)	e	“Novos	Rumos	da	Medicina	Legal”	e
“Criminologia”,	ambos	sem	referência	precisa	de	data.
Pode-se	 dizer,	 em	 termos	 gerais,	 que	 a	Medicina	 Legal,	 a	 Psiquiatria	 Forense	 e	 a	 Criminologia
demonstram	 a	 importância	 da	 Psicologia	 como	 uma	 de	 suas	 ciências	 auxiliares	 e,	 nesse	 sentido,
contribuíram	para	seu	desenvolvimento.	Entretanto,	apesar	do	reconhecimento,	a	Psicologia	permanecia
como	instância	pertinente	à	Psiquiatria;	pode-se	dizer	que,	se	de	um	lado,	a	Psicologia	desenvolveu-se	no
interior	dessas	áreas,	por	outro	lado,	só	indiretamente	essas	aplicações	contribuíram	para	o	processo	de
auto-nomização	da	prática	psicológica,	 tanto	que	 só	 recentemente	a	Psicologia	e	o	psicólogo	 têm	sido
reconhecidos	no	âmbito	do	poder	judiciário.
1.3.	Teses	de	Doutoramento	das	Faculdades	de	Medicina
Muitas	 teses	 vistas	 na	 parte	 I	 deste	 trabalho,	 as	 quais	 tratavam	 de	 temas	 psicológicos,	 foram
gradativamente	aumentando	em	número	com	a	aproximação	do	final	do	século.	Nelas,	salientam-se	temas
como:	inteligência,	emoção	e	psicofisiologia.
Esse	aumento	no	número	de	teses	que	tratavam	de	questões	psicológicas	ocorreu	principalmente	a
partir	 de	 1890,	 quando	 já	 se	 percebem	 claramente	 delineadas	 as	 tendências	 da	 Psicologia	 da	 época,
nesse	momento	já	considerada	ciência	autônoma.
Em	 1890,	 foi	 apresentada	 a	 tese	 “Psicofisiologia	 da	 percepção	 e	 das	 representações”,	 por	 José
Estelita	Tapajós,	em	que	a	tendência	psicofisiológica	da	época	aparece	evidenciada.
Pelo	 menos	 três	 teses	 são	 apresentadas	 com	 a	 denominação	 “Das	 Emoções”,	 apresentadas	 por
Veríssimo	 Dias	 de	 Castro	 (1890),	 Manuel	 Pereira	 de	 Melo	 Morais	 (1891)	 e	 Adolfo	 Porchat	 Assis
(1892).	Segundo	Pessotti17,	 a	 primeira	 delas	 destaca-se	 por	 tratar	mais	 objetivamente	 os	 dados	 e	 por
utilizar-se	de	uma	linguagem	mais	rigorosa	que	as	demais.
A	 tese	 de	Odilon	Goulart,	 “Estudo	 psicoclínico	 da	 afasia”,	 de	 1891,	 é	 talvez	 o	 primeiro	 estudo
relacionado	à	Psicologia	Clínica,	segundo	Pessotti.
De	 Alberto	 Seabra,	 a	 tese	 “A	 memória	 e	 a	 personalidade”,	 de	 1894,	 constituiu-se	 num	 estudo
pioneiro	sobre	a	memória,	anunciando	a	preocupação	com	uma	temática	que	seria	largamente	pesquisada
nos	anos	subseqüentes,	particularmente	pelos	laboratórios	de	Psicologia.
Nesse	 contexto,	 não	 se	 pode	 deixar	 de	 fazer	 referência	 à	 figura	 de	 Raimundo	 Nina	 Rodrigues,
médico	baiano,	professor	da	Faculdade	de	Medicina	da	Bahia	e	grande	produtor	de	pesquisas,	que	fez
com	que	essa	faculdade	fosse	considerada,	na	época,	como	um	dos	mais	importantes	centros	de	pesquisa
do	país.	Exerceu	ele	forte	influência	sobre	toda	uma	geração	de	médicos,	os	quais,	de	uma	maneira	ou	de
outra,	contribuíram	para	o	desenvolvimento	da	Psiquiatria	e	Psicologia	no	Brasil,	dentre	eles:	Afrânio
Peixoto,	 Juliano	 Moreira,	 Oscar	 Freire	 de	 Carvalho,	 Flamínio	 Fávero	 e	 Artur	 Ramos.	 Foi	 Nina
Rodrigues	 um	 dos	 mais	 importantes	 e	 veementes	 defensores	 da	 teoria	 da	 degenerescência,	 tendo
produzido	 uma	 vasta	 obra	 em	 que	 procurava	 demonstrar	 as	 articulações	 entre	 inferioridade	 racial	 e
degeneração	psíquica,	abordando,	dentre	uma	grande	amplitude	de	temas,	as	manifestações	religiosas	de
base	afro-brasileira,	que	eram	vistas	como	manifestação	de	primitivismo,	inferioridade	e	degeneração.
Nessa	 linha,	 e	 orientada	 por	 Nina	 Rodrigues,	 encontra-se	 a	 tese	 de	 Oscar	 Freire,	 defendida	 em
1902,	denominada	“Etiologia	das	formas	concretas	da	religiosidade	do	norte	do	Brasil”.
A	 tese	 de	Henrique	Roxo,	 “Duração	 dos	 atos	 psíquicos	 elementares”,	 de	 1900,	 traz	 a	 defesa	 da
Psicologia	como	propedêutica	da	Psiquiatria,	o	que	mostra	o	reconhecimento	da	autonomia	entre	as	duas
áreas	de	conhecimento,	além	de	estabelecer	um	parâmetro	definidor	das	relações	entre	elas.	Essa	idéia
justifica	a	presença	de	laboratórios	de	Psicologia	nos	hospícios,	o	que	viria	a	ocorrer	logo	depois.
Defendida	 em	 1907,	 a	 tese	 de	 Maurício	 Campos	 de	 Medeiros,	 “Métodos	 em	 Psicologia”,	 veio
demonstrar	a	penetração	da	Psicologia	científica	no	país	e	a	preocupação	metodológica	com	a	produção
de	conhecimento	nos	patamares	do	rigor	científico.
A	 tese	 de	 Plínio	 Olinto,	 de	 1911,	 denominada	 “Associação	 de	 idéias”,	 é	 demonstrativa	 da	 já
indubitável	produção	científica	da	Psicologia	no	Brasil.
Em	1931	findou	a	obrigatoriedade	da	defesa	de	teses	de	dou​to​ramento	em	Medicina,	sendo	que	do
início	 do	 século	 até	 essa	 data,	 foram	 apresentadas	 pelo	 menos	 vinte	 e	 duas	 teses	 referentes	 a	 temas
psicológicos	só	na	Faculdade	de	Medicina	do	Rio	de	Janeiro.
Deve-se	também	destacar,	dentre	essas	teses,	o	primeiro	trabalho	fundamentado	na	Psicanálise,	que
foi	a	tese	“Da	Psicanálise:	a	sexualidade	nas	neuroses”,	de	Genserico	Aragão	de	Sousa	Pinto,	defendida
em	1914.
Essas	 teses,	 particularmente	 após	 1890,	 constituem-se	 numa	 das	mais	 importantes	 evidências	 da
conquista	 gradativa	 de	 autonomia	 da	 produção	 psicológica	 no	 Brasil,	 assim	 como	 explicita	 o	 caráter
científico	de	que	são	revestidas.	Embora	produzidas	como	teses	em	Medicina,	pode-se	dizer	que	muitas
delas	constituíram-se	em	estudo	de	natureza	estritamente	psicológica,	diferenciadas	da	psiquiatria	e,	mais
que	 isso,	contribuindo	para	a	defesa	da	Psicologia	e	para	o	esforço	de	demonstrar	sua	especificidade,
estabelecendo	os	meios	para	produzi-la.
Muitos	dos	autores	dessas	teses,	como	Maurício	Campos	de	Medeiros	e	Plínio	Olinto,	tornaram-se,
posteriormente,	 reconhecidos	 pela	 vasta	 contribuição	 teórica	 e	 prática	 para	 o	 estabelecimento	 da
Psicologia	como	ciência	e	profissão	no	Brasil.
1.4.	À	Guisa	de	Síntese
Do	ponto	de	vista	global,	é	possível	dizer	que	a	Medicina	veio	a	ser,	nesse	período,	um	importante
substrato	 para	 o	 desenvolvimento	 da	 Psicologia	 no	Brasil,	mantendo	 uma	 tradição	 iniciada	 no	 fim	 do
período	colonial	e	ao	mesmo	tempo	a	superando.	A	evolução	do	pensamento	psicológico	no	interior	da
Medicina	 até	 o	 século	XIX	 preparou	 o	 terreno	 para	 que	 o	 conhecimento	 e	 a	 prática	 da	 Psicologia	 se
desenvolvessem	 a	 tal	 ponto	 que	 fizeram	 delinear-se	 com	 maior	 clareza	 seus	 contornos,	 tendo	 assim
contribuído	 para	 a	 penetração	 da	 Psicologia	 científica	 e	 sua	 definição	 como	 campo	 autônomo	 de
conhecimento	e	ação,	o	que	veio	a	se	concretizar	nas	décadas	iniciais	do	século	XX.
A	criação	de	laboratórios	de	Psicologia	nos	hospícios	é	uma	das	mais	importantes	evidências	desse
processo,	 sendo	 que	 estes,	 na	 condição	 de	 instâncias	 auxiliares	 à	 Psiquiatria,	 vieram	 a	 ser	 relevantes
produtores	 de	 estudos	 e	 pesquisas	 eminentemente	 psicológicos.	 Esse	 fato	 demonstra	 que	 a	Medicina,
produzindo	conhecimento	psicológico	em	seu	interior,	veio	contribuir	para	que	a	Psicologia	construísse
seu	próprio	espaço.
À	produção	dos	hospícios	somam-se	as	teses	de	douto​ramento	das	Faculdades	de	Medicina,	muitas
das	 quais	 foram	 de	 autoria	 de	 médicos	 que	 se	 dedicaram,	 mais	 tarde,	 à	 pesquisa	 psicológica	 nos
referidos	 laboratórios.	 A	 contribuição	 trazida	 pelas	 teses	 foi,	 com	 efeito,	 muito	 semelhante	 à	 dos
hospícios,	 na	 medida	 em	 que,	 por	 dentro	 da	 Medicina,	 trabalhos	 cada	 vez	 mais	 característicos	 da
Psicologia	 foram	 produzidos.	 Isso	 se	 revela,	 por	 exemplo,	 pelas	 preocupações	 específicas	 com	 as
condições	que	definiram	a	autonomia	científica	da	Psicologia,	dentre	elas,	a	questão	metodológica.Por	outro	lado,	percebe-se	a	importância	dada	ao	conhecimento	psicológico	como	instrumental	para
a	Medicina	Legal,	a	Psiquiatria	Forense	e	a	Criminologia.	Entretanto,	se	aí	a	Psicologia	foi	considerada
por	sua	contribuição,	não	se	a	vê,	contudo,	como	área	autônoma	em	relação	à	Medicina,	particularmente
na	sua	dimensão	prática.
Podemos	dizer,	portanto,	que	a	Psicologia	produzida	no	interior	da	Medicina	o	foi	essencialmente
sob	 o	 enfoque	 de	 ciência	 auxiliar	 à	 Psiquiatria;	 todavia,	 nesse	 contexto,	 já	 ficava	 reconhecida,	 pelo
menos	em	tese,	sua	condição	de	ciência	e,	conseqüentemente,	sua	autonomia.	Não	se	pode	afirmar	que	a
conquista	de	autonomia	da	Psicologia	em	relação	à	Medicina	tenha	ocorrido	por	um	projeto	estabelecido
“a	 priori”;	 antes,	 foi	 seu	 próprio	 desenvolvimento	 e	 sua	 adequação	 às	 necessidades	 geradas	 pelos
problemas	sociais	brasileiros	que	estabeleceram	as	condições	para	que	tal	ocorresse.
9	Sobre	o	Hospício	do	Juquery,	sugere-se	a	leitura	do	valioso	estudo	constante	do	livro:	CUNHA,	M.	C.	P.	O	espelho	do	mundo:	Juquery,	a
história	de	um	asilo.	Rio	de	Janeiro,	Paz	e	Terra,	1986.
10	Sugere-se	a	leitura	de:	COSTA,	J.	F.	História	da	Psiquiatria	no	Brasil.	Rio	de	Janeiro,	Documentário,	1976.
11	 Sobre	 isso,	 ver:	 PENNA,	A.	 G.	Apontamentos	 sobre	 as	 fontes	 e	 sobre	 algumas	 das	 figuras	 mais	 expressivas	 da	 Psicologia	 na
cidade	do	Rio	de	Janeiro.	Rio	de	Janeiro,	FGV,	1986.
12	Sobre	esse	laboratório,	ver:	PENNA,	A.	G.	Sobre	a	produção	científica	do	Laboratório	de	Psicologia	da	Colônia	de	Psicopatas,	no	Engenho
de	Dentro,	in:	História	da	Psicologia,	nº	1,	Rio	de	Janeiro,	FGV,	1985.
13	Eugenia,	conceito	criado	por	Galton,	significa	o	estudo	dos	fatores	responsáveis	pela	elevação	ou	rebaixamento	das	características	raciais,
do	ponto	de	vista	físico	e	mental.
14	CASTRO	FILHO,	B.	Higiene	Mental	nas	fábricas,	apud	CUNHA,	M.	C.	P.,	obra	citada.
15	 SÁ,	 J.	 M.	 Abertura	 do	 Ciclo	 de	 Estudos	 Ulysses	 Pernambucano,	 in:	Ciclo	 de	 Estudos	 Ulysses	 Pernambucano.	 Recife,	 Academia
Pernambucana	de	Medicina,	1978.
16	 Sobre	 isso,	 ver:	 FRY,	 P.	 Direito	 Positivo	 Direito	 Clássico:	 a	 psicologização	 do	 crime	 no	 Brasil	 no	 pensamento	 de	 Heitor	 Carrilho,	 in:
FIGUEIRA,	S.	A.	(org.)	Cultura	da	Psicanálise.	São	Paulo,	Brasiliense,	1985.
17	PESSOTTI,	I.	Dados	para	uma	História	a	Psicologia	no	Brasil,	in:	Psicologia,	ano	1,	nº	1,	maio	de	1975.	Sobre	esse	assunto,	ver	também:
LOURENÇO	FILHO,	M.	B.	A	Psicologia	no	Brasil,	in:	Arquivos	Brasileiros	de	Psicologia	Aplicada,	v.	23,	nº	3,	setembro	de	1971.
A
Capítulo	2
A	Psicologia	em	Instituições	Educacionais
conquista	 de	 autonomia	 pela	 Psicologia	 no	 Brasil	 teve	 na	 Educação	 um	 dos	 mais	 importantes
substratos	para	sua	realização.	As	transformações	históricas	da	sociedade	brasileira	impuseram	uma
maior	preocupação	com	as	questões	educacionais	e,	conseqüentemente,	com	a	problemática	pedagógica.
Nesse	âmbito,	a	Psicologia	tornou-se	necessária	como	ciência	básica	e	instrumental	para	a	Pedagogia,	o
que	acarretou	seu	desenvolvimento,	quer	no	plano	teórico,	quer	no	plano	prático.	Esse	desenvolvimento
foi	 de	 tal	maneira	 relevante	 que,	 da	 Educação,	 ampliou-se	 para	 outras	 áreas,	 como	 a	 organização	 do
trabalho	e	o	atendimento	clínico	nos	Serviços	de	Orientação	Infantil.
Desde	o	final	do	século	passado	a	preocupação	com	o	sistema	educacional	do	país	ocupou	vários
setores	 da	 sociedade.	 Tal	 preocupação	 não	 foi	 homogênea	 e	 seus	 motivos	 guardavam	 diferenças
fundamentais,	articulando-se	a	interesses	diversos	e	diferentes	concepções	sobre	a	sociedade	brasileira	e
seus	rumos.
Nos	 anos	 iniciais	 da	 república	 permaneceu	 grande	 a	 influência	 das	 idéias	 positivistas	 e	 liberais
sobre	 o	 pensamento	 brasileiro	 em	 geral	 e	 sobre	 o	 pensamento	 educacional	 em	 especial.	 Essas	 idéias
fizeram-se	 presentes	 no	 plano	 educacional,	 sucessivamente	 no	 cientificismo	 e	 no	 humanismo,	 tendo
penetrado	largamente	nos	fundamentos	e	na	organização	escolar.
Os	 defensores	 do	 positivismo	 tinham	 como	 objetivo	 difundir	 suas	 idéias	 por	 meio	 da	 educação
escolarizada,	 que	 deveria	 organizar-se	 segundo	 seus	 princípios.	 Assim,	 foi	 realizada,	 em	 1890,	 a
Reforma	Benjamim	 Constant,	 que	 levou	 o	 nome	 do	 titular	 do	 então	 Ministério	 da	 Instrução	 Pública,
Correios	e	Telégrafos.	Essa	reforma	propunha	a	liberdade,	a	laicidade	e	a	gratuidade	do	ensino	primário,
em	 consonância	 com	 a	 orientação	 constitucional.	 Sua	 tônica	 foi	 a	 substituição	 da	 tendência	 humanista
clássica	 pela	 tendência	 cientificista,	 que	 introduziu	 disciplinas	 de	 natureza	 científica	 na	 seqüência
determinada	 pela	 orientação	 positivista.	 Merece	 destaque	 nessa	 reforma	 a	 substituição	 da	 disciplina
Filosofia	pelas	disciplinas	Psicologia	e	Lógica.
A	essa	reforma	seguiram-se	outras	que	se	caracterizaram	pela	oscilação	entre	a	tendência	humanista
clássica	 e	 a	 tendência	 cien​tificista,	 fundamentadas	 em	 idéias	 européias	 e	 norte-americanas,	 fre​-
qüentemente	 divorciadas	 das	 necessidades	 concretas	 da	 realidade	 brasileira,	 caracterizando-se	 como
meros	transplantes	culturais18.
Os	 grandes	 problemas	 educacionais,	 no	 entanto,	 permaneceram:	 o	 índice	 de	 analfabetismo	 não
sofreu	 alterações	percentuais	 e	 aumentou	 em	número	 absoluto;	 dois	 terços	da	população	brasileira	 em
idade	 escolar	 permaneciam	 fora	 da	 escola	 primária;	 a	 ampliação	 do	 ensino	 secundário	 deu-se
basicamente	na	rede	particular,	mantendo	seu	caráter	propedêutico	e	sua	vocação	aristocrática,	da	mesma
maneira	que	o	ensino	superior,	cujo	crescimento	ocorreu	também	apenas	na	rede	privada,	sendo	que	em
1900	havia	apenas	0,05%	de	matrículas	nesse	grau	de	ensino,	em	relação	à	população	do	país	(Ribeiro,
1979).
Todavia,	 as	 primeiras	 décadas	 do	 século	 XX	 foram	 marcadas	 por	 um	 maior	 desenvolvimento
urbano-industrial,	que	 se	constituiu	na	base	para	 o	 incremento	da	 industrialização	massiva	que	viria	 a
seguir	e	que	teve,	mais	tarde,	a	finalidade	de	substituir	importações.	Tais	condições	exigiam	indivíduos
capacitados	nas	técnicas	escolares	mínimas:	ler,	escrever	e	contar.
Nesse	 contexto,	 emergiu	 uma	 veemente	 defesa	 da	 instrução,	 que	 reivindicava	 a	 ampliação	 do
número	 de	 escolas	 elementares	 e	 o	 combate	 ao	 analfabetismo;	 posteriormente	 surgiram	 os	 primeiros
“profissionais	da	educação”,	 ligados	principalmente	ao	 ideário	escolanovista.	Ocorreu,	nesse	período,
uma	ampla	e	rica	profusão	de	idéias,	que	objetivavam	a	solução	dos	problemas	educacionais	brasileiros
e	 até,	 por	 essa	 via,	 a	 solução	 de	 todos	 os	 problemas	 nacionais.	 Foi	 nessa	 época	 que	 as	 teorias
pedagógicas,	 preocupadas	 com	 o	 processo	 ensino-aprendizagem,	 sobretudo	 o	 escolanovismo,	 tiveram
uma	penetração	sistemática	no	Brasil	e,	 junto	com	elas,	as	teorias	e	técnicas	da	Psicologia,	produzidas
nos	centros	europeus	e	norte-americanos	de	pesquisa	e	aplicação.
É	 possível	 destacar,	 nesse	 período,	 dois	 grandes	 movimentos	 educacionais:	 o	 movimento	 pela
difusão	da	educação	e	a	influência	escolanovista	no	pensamento	pedagógico.
O	movimento	em	defesa	da	difusão	da	educação	teve	em	Manoel	Bonfim	seu	provável	precursor,	de
um	lado	pelo	fato	de	suas	idéias	terem	sido	anteriores	ao	momento	em	que	esse	movimento	eclodiu	com
força	e,	por	outro	lado,	por	terem	sido	elas	incorporadas	pelos	seus	mais	eminentes	representantes.
Bomfim19,	 num	 esforço	 de	 análise	 sobre	 a	 sociedade	 brasileira,	 adotou	 uma	 perspectiva	 em	 que
procurava	 demonstrar	 que	 os	 problemas	 enfrentados	 pelo	 país	 deveriam	 ser	 buscados	 em	 suas	 raízes
históricas,	 particularmente	 na	 sua	 formação	 colonial,	 baseada	 na	 exploração	 imposta	 rudemente	 pela
metrópole.	Em	sua	análise,	considera	que	uma	das	mais	nefastas	conseqüências	da	exploraçãosobre	a
colônia	 incidiu	 sobre	 a	 cultura	 e	 aponta	 nessa	 direção	 a	 possibilidade	 de	 superação	 dos	 problemas
nacionais;	 para	 o	 autor,	 um	 dos	 principais	 determinantes	 do	 atraso	 do	 país	 era	 a	 ignorância
historicamente	 imposta	pelas	classes	dominantes	ao	povo	brasileiro,	estando	na	difusão	da	educação	a
solução	 para	 os	 problemas,	 não	 apenas	 como	 remédio	 para	 o	 atraso	 econômico	mas,	 principalmente,
como	meio	de	conquista	da	liberdade	pelo	povo	brasileiro,	caminhando	de	fato	para	a	democratização	da
sociedade.	Em	outras	 palavras,	 a	 educação	 deveria	 ser	 antes	 um	 instrumento	 contra	 a	 opressão	 e	 não
simplesmente	meio	para	superar	o	atraso	econômico	em	relação	aos	outros	países,	o	que	seria	defendido
alguns	anos	depois	por	outros	intelectuais.
Paralelamente,	 deve-se	 acrescentar	 que,	 para	 alguns	 intelectuais,	 o	 atraso	 do	 país	 devia-se	 à
diversidade	de	raças,	sobretudo	à	presença	da	raça	negra,	considerada	inferior,	porque,	segundo	eles,	ela
trazia	 em	 si	 os	 germes	 da	 apatia,	 da	 indolência	 e	 da	 preguiça,	 além	 de	 sua	 propensão	 à	 degeneração
psíquica	 e,	 assim	 sendo,	 constituía-se	 como	 entrave	 ao	 progresso.	 Diametralmente	 oposta	 era	 a
concepção	de	Bomfim,	para	quem	essas	idéias	eram	equivocadas	e,	ao	contrário	de	contribuírem	para	a
solução	dos	problemas	do	país,	tendiam	a	perpetuá-los.
A	defesa	da	 educação	 foi	 compartilhada	por	muitos	 intelectuais	 e	 políticos,	 sustentada	 entretanto
por	 outras	 idéias	 e	 vinculadas	 a	 interesses	 diferentes.	 Salientam-se	 nesse	 movimento	 figuras	 como
Miguel	Couto	e	Mário	Pinto	Serva,	que	identificavam	a	ignorância	como	causa	do	atraso	do	Brasil	e	o
analfabetismo	como	vergonha	nacional.	Buscava-se	a	formação	de	uma	nação	forte,	baseada	num	“povo
forte	mental	e	fisicamente”,	o	que	se	aproxima	dos	ideais	eugênicos	e	do	pensamento	psiquiátrico	vigente
em	 busca	 da	 higienização	 da	 raça.	 Tais	 idéias	 articulavam-se	 à	 pregação	 nacionalista,	 à	 defesa	 do
fortalecimento	militar	e	ao	anticomunismo.	Havia	também	o	interesse	em	tornar	o	analfabeto	eleitor,	com
finalidade	de	reverter	o	quadro	político	a	favor	dos	grupos	alijados	do	poder	e	que	almejavam	tomá-lo
das	mãos	da	oligarquia	cafeeira;	projeto	este	que	só	mais	tarde	e	por	outros	meios	viria	a	se	realizar.
Antonio	Carneiro	Leão	defendia	a	idéia	de	que	não	deveria	ser	difundida	qualquer	instrução	e	sim	a
instrução	profissional	ligada	ao	comércio	e	à	indústria,	cujo	desenvolvimento	poderia	elevar	o	Brasil	ao
mesmo	patamar	das	nações	prósperas.	A	mera	alfabetização,	segundo	ele,	poderia	até	ser	perigosa,	pois
aqueles	que	até	então	estavam	conformados	com	suas	condições	de	vida,	alfabetizados,	poderiam	almejar
melhor	situação	e	gerar	problemas	sociais.
Sampaio	 Dória	 partilhava	 dessa	 idéia,	 defendendo	 a	 instrução	 técnica	 do	 operariado	 juntamente
com	 a	 organização	 científica	 do	 trabalho.	 Isso	 se	 relaciona	 à	 sua	 preocupação	 com	 a	 Psicologia,
sobretudo	na	ênfase	dada	às	 relações	entre	processo	produtivo	e	diferenças	 individuais,	assim	como	 a
Higiene,	 que	 deveria	 preservar	 a	 saúde	 e	 o	 vigor	 físico	 do	 operariado,	 que	 se	 vinculava	 ao	 ideal	 de
melhoria	da	raça,	incluindo	a	preservação	do	caráter	e	da	capacidade	mental.
É	explícita	a	articulação	entre	a	defesa	da	instrução	e	as	forças	industriais	emergentes,	sobretudo	no
pensamento	de	Carneiro	Leão	e	Sampaio	Dória,	para	quem	a	instrução	deveria	ser	um	meio	para	suprir	a
indústria	com	uma	força	de	trabalho	preparada	e	racionalizada,	com	vistas	à	produtividade,	sendo	Taylor
freqüentemente	 citado.	 O	 tripé	 Educação-Trabalho-Psicologia	 fazia-se	 necessário	 para	 o	 processo	 de
industrialização	massiva	que	se	planejava	para	a	sociedade	brasileira,	sob	a	égide	da	modernidade	que
se	almejava	para	o	país.
Nesse	 quadro,	 um	 outro	 movimento	 educacional,	 em	 verdade	 um	 movimento	 mais	 propriamente
pedagógico,	 ganhou	 força	 e	 estabeleceu-se	 como	 pensamento	 hegemônico:	 o	 escolanovismo.	 Essa
concepção	não	se	contrapunha	à	defesa	da	difusão	da	instrução,	mas	vinha	dar-lhe	sustentação	teórico-
prática.	O	escolanovismo	fazia	parte	de	um	projeto	de	sociedade,	baseado	nas	 idéias	de	modernidade,
em	que	se	fazia	necessário	um	“homem	novo”,	esculpido	pela	educação.	Soma-se	a	isso	o	fato	de	que,	no
esco​lan​o​vismo,	a	Psicologia	constituía-se	como	uma	das	mais	importantes	ciências	que	fundamentavam
sua	pretensão	de	ser	Pedagogia	Científica.
Nesse	 panorama,	 mudanças	 substantivas	 ocorreram	 na	 organização	 escolar	 brasileira,
principalmente	por	meio	das	reformas	estaduais	do	ensino	realizadas	na	década	de	20,	em	que	foi	o	es​co​-
lanovismo	o	principal	substrato	pedagógico.	Surgiram	os	primeiros	profissionais	voltados	especialmente
para	a	Educação,	como	Lourenço	Filho,	Fernando	de	Azevedo,	Anísio	Teixeira	e	outros.	Não	por	acaso,
Lourenço	Filho	pode	 também	ser	 considerado	um	dos	primeiros	psicólogos	brasileiros	e	um	dos	mais
importantes	protagonistas	do	processo	que	levou	ao	estabelecimento	definitivo	da	Psicologia	científica	e
da	profissão	de	psicólogo	no	Brasil.
A	 Psicologia	 tornou-se,	 então,	 exigência	 vital	 para	 a	 Educação,	 principalmente	 na	 vertente
escolanovista,	pois	esta	ciência	deveria	ser	capaz	de	fornecer	muitos	dos	subsídios	teóricos	e	todo	um
arsenal	técnico	para	instrumentalizar	a	ação	educativa.	É	possível	afirmar	que	a	Psicologia	foi	o	pilar	de
sustentação	 científica	 para	 essa	 concepção	 pedagógica,	 pois	 era	 ela	 que	 cuidava	 do	 indivíduo	 e	 das
diferenças	 individuais	 (representada	 pela	 Psicologia	 Diferencial	 e	 suas	 técnicas,	 principalmente	 a
psicometria),	 do	 processo	 de	 desenvolvimento	 psíquico,	 da	 aprendizagem,	 da	 dinâmica	 das	 relações
inter​pessoais,	da	personalidade,	das	vocações,	aptidões,	motivações	etc.
Nesse	 quadro	 da	Educação	 brasileira,	 a	 Psicologia	 ganhou	 seu	mais	 importante	 alicerce	 para	 se
estabelecer	 na	 condição	 de	 ciência,	 explicitar-se	 como	 área	 específica	 de	 saber	 e	 de	 prática	 e,
conseqüentemente,	definir-se	como	campo	profissional	específico.
Procuraremos	demonstrar	tais	fatos,	expondo	brevemente	a	produção	psicológica	no	“Pedagogium”,
no	Instituto	de	Psicologia	de	Pernambuco,	na	Escola	de	Aperfeiçoamento	Pedagógico	de	Belo	Horizonte,
nas	Escolas	Normais	e	nos	conteúdos	de	algumas	obras	editadas	no	período.
2.1.	Algumas	instituições	educacionais
“Pedagogium”
O	“Pedagogium”	foi	constituído	inicialmente	como	Museu	Pedagógico,	cuja	idéia	inicial	partiu	de
Rui	Barbosa.	Criado	em	1890,	sua	finalidade	seria	a	de	funcionar	como	“centro	propulsor	das	reformas	e
melhoramentos	de	que	carecesse	a	educação	nacional”	(Penna,	1986,	p.	7)20.
Em	1897,	Medeiros	e	Albuquerque	foi	nomeado	diretor	da	Instrução	Pública	do	Distrito	Federal,
promovendo	 uma	 mudança	 na	 natureza	 do	 “Pedagogium”,	 passando	 este	 a	 ser	 um	 “centro	 de	 cultura
superior	 aberto	 ao	 público”.	 Foi	 nessa	 condição	 que,	 em	 1906,	 foi	 aí	 criado	 um	 Laboratório	 de
Psicologia	Experimental,	muito	provavelmente	o	primeiro	laboratório	de	psicologia	no	país.	Planejado
por	Alfred	Binet	e	Manoel	Bomfim,	em	Paris,	o	laboratório	foi	organizado	e	dirigido	por	este	último,	que
aí	permaneceu	por	doze	anos.
Os	mais	importantes	dados	a	respeito	da	produção	do	Laboratório	provêm	das	obras	de	Bomfim21,
que	não	os	apresenta	sistematicamente,	mas	são	antes	elementos	que	o	autor	 insere	em	suas	discussões
sobre	a	Psicologia.	Nessas	obras	fica	demonstrada	a	singularidade	desse	autor,	incluída	a	crítica	que	faz
às	pesquisas	 realizadas	em	laboratórios,	sobretudo	quando	se	estuda	o	pensamento.	Sobre	 isso,	afirma
Bomfim:	“Durante	12	anos,	tive	a	minha	disposição	um	laboratório	de	psychologia;	nas	pastas,	ainda
estão	acumuladas	anotações,	traçados,	fileiras	de	cifras	(...)	e	nunca	tive	coragem	para	organisar	uma
parte	 qualquer	 desses	 dados,	 e	 de	 ospublicar,	 porque	 nunca	 obtive	 uma	 elucidação	 satisfactória”
(1923,	p.	27).
Encontra-se	nessa	citação	a	discussão	sobre	as	possibilidades	de	um	laboratório	ser	capaz	de	dar
conta	 do	 estudo	 dos	 fenômenos	 psicológicos.	 O	 longo	 texto	 do	 autor,	 a	 seguir,	 demonstra	 suas
inquietações:
“A	 dynamica	 do	 pensamento	 humano	 não	 poderia	 conter-se	 na	 estreiteza	 do	 laboratorio;
deforma-se,	 annula-se.	 Mesmo	 as	 simples	 associações	 de	 ideias:	 melhor	 as	 conhecemos	 na
analyse	 de	 uma	 obra	 qualquer,	 naturalmente	 pensada	 e	 escripta,	 do	 que	 nos	 milhares	 de
pesquizas	que,	para	esse	fim,	se	fizeram.	Tomem	do	albatroz,	ou	mesmo	do	tico-tico,	atem-n’o,	já
encerrado	numa	gaiola,	e,	agora,	tentem	estudar-lhe	a	dynamica	do	vôo!	(...)	Pois,	foi	mil	vezes
mais	insensata	a	pretensão	de	conhecer	o	conjuncto	do	espirito,	pelo	que	se	obtem	nas	simples
pesquizas	a	lapis	e	apparelhos.	(...)	o	mais	complexo	a	que	se	pode	dedicar	a	mente	humana,	tem
de	 ser	 apurado	 à	 luz	 de	 todos	 os	 methodos,	 com	 a	 contribuição	 de	 todos	 os	 recursos;	 mas
evidentemente,	 dos	 methodos	 possiveis	 e	 applicaveis,	 o	 mais	 insufficiente	 será	 sempre	 este:
tomar	um	 individuo,	 consideral-o	 isoladamente,	 impor-lhe	as	 condições	 restrictas	 e	artificiaes
do	 laboratorio,	 para	 inferir	 da	 sua	 cons​ciencia	 deturpada	 o	 regimen	 normal	 no	 commum	 das
consciencias	(...)	o	espirito	humano,	complexo,	essencialmente	activo	e	instavel	como	é,	tem	de
ser	estudado	e	comprehendido	nas	formas	normaes	e	completas	da	sua	realização	natural.	Elle
existe,	 e	 produz,	 e	 se	 manifesta,	 como	 actividade	 conjuncta	 e	 collectiva;	 assim	 tem	 de	 ser
comprehendido	 e	 estudado.	A	 introspecção,	 somente,	 pura	 observação	 individual,	 que	 seja,	 ou
não,	trabalho	de	laboratorio,	nunca	poderia	dar	a	base	completa	das	leis	do	espirito”	(1923,	pp.
26	e	27).
Essa	 concepção	 de	 Bomfim	 diferenciava-se	 radicalmente	 da	 concepção	 de	 pesquisa	 de	 outros
brasileiros,	 que	 defendiam	 o	 laboratório	 como	 expressão	 máxima	 de	 produção	 de	 conhecimento
psicológico.	Em	Manoel	Bomfim,	menos	que	o	êxtase	provocado	pela	possibilidade	de	controle	e	rigor
científico	que	o	laboratório	representava,	pareciam	mais	importantes	os	limites	impostos	por	este	tipo	de
pesquisa.	 Buscava	 ele	 compreender	 determinados	 fenômenos	 em	 outras	 bases,	 considerando	 a
importância	 da	 natureza	 social	 do	 psiquismo	 em	 sua	 complexidade	 e	 concreticidade.	 Posteriormente,
vários	 estudiosos	 da	 Psicologia	 empreenderam	 críticas	 semelhantes	 às	 de	 Bomfim,	 assim	 como
elaboraram	concepções	de	Psicologia	e	de	fenômeno	psíquico	muito	próximas	daquelas	que	esse	autor
brasileiro	formulou	pioneiramente.
O	laboratório	do	“Pedagogium”,	embora	não	tenha	registros	sistemáticos	de	sua	produção,	pode	ser
considerado	um	celeiro	riquíssimo	de	reflexões	sobre	a	Psicologia,	por	meio	das	obras	publicadas	por
seu	genial	diretor.
O	“Pedagogium”	funcionou	até	1919,	quando	foi	extinto	por	decreto	municipal.	Segundo	Penna,	essa
instituição	perpetuou-se	com	a	criação	em	1938,	do	Instituto	Nacional	de	Estudos	Pedagógicos	—	INEP.
Instituto	de	Psicologia	de	Pernambuco
Essa	 instituição	 foi	 criada	 em	1925,	 por	Ulysses	Pernambucano,	 como	diretor	 da	Escola	Normal
Oficial	 de	 Pernambuco.	 Foi	 transferido,	 em	 1929,	 para	 o	 Setor	 de	 Educação,	 anexo	 à	 Secretaria	 de
Justiça	e	Instrução	de	Pernambuco,	passando	a	chamar-se	Instituto	de	Seleção	e	Orientação	Profissional	–
ISOP.	Em	1931,	 era	Per​nam​​​bu​​cano	o	diretor	do	Hospital	 de	Alienados	de	Recife,	 quando	o	 ISOP	 foi
anexado	ao	Serviço	de	Higiene	Mental	do	referido	hospital.
Muitos	 estudos	 foram	 aí	 realizados,	 devendo	 ser	 ressaltadas	 as	 produções	 referentes	 a:	 testes
psicológicos	de	nível	mental,	aptidão	e	outros,	assim	como	sua	padronização	para	a	realidade	brasileira;
vocabulário	das	crianças	das	escolas	primárias	de	Recife;	elaboração	de	testes	pedagógicos;	revisão	da
escola	 Binet-Simon	 para	 aplicação	 em	Recife;	 técnicas	 projetivas;	 padronização	 do	 teste	 coletivo	 de
inteligência	de	Ballard,	para	utilização	na	Escola	Normal	com	finalidade	de	seleção	de	alunos,	além	de
muitas	pesquisas	experimentais	 e	de	 iniciação	à	pesquisa	com	o	objetivo	de	 formar	pesquisadores	em
Psicologia.
Sob	 a	 orientação	 de	 Pernambucano,	 muitos	 pesquisadores	 se	 formaram,	 sendo	 que	 muitos	 deles
tornaram-se	 eminentes	 em	 seus	 campos	 de	 atuação,	 como	 Nelson	 Pires,	 Anita	 Paes	 Barreto,	 Silvio
Rabello	e	vários	outros.
A	esse	trabalho	devem	ser	somadas	as	realizações	de	Ulysses	Pernambucano	no	campo	da	educação
para	 crianças	 com	 deficiência	mental,	 cujo	 pioneirismo	 é	 inconteste,	 sendo	 reconhecido	 pela	 própria
Helena	 Antipoff,	 a	 quem	 muitos	 atribuíam	 as	 ações	 pioneiras	 nessa	 área.	 Criou	 ele	 a	 “Escola	 para
Anormais”,	 anexa	 ao	Curso	de	Aplicação	da	Escola	Normal,	 na	qual	 surgiram	as	primeiras	pesquisas
com	 testes	 de	 aptidão,	 pedagógicos	 e	 mentais,	 implantação	 de	 processos	 pedagógicos	 com	 base	 na
Psicologia	e	formação	de	professores	e	pesquisadores.	Além	dessa	escola,	Ulysses	Pernambucano	criou
várias	 outras	 instituições	 de	 ensino	 para	 crianças	 com	 deficiência	 mental.	 Uma	 das	 finalidades	 do
Instituto	era	subsidiar	o	trabalho	nessas	escolas	e	formar	pessoal	especializado	para	elas.
O	Instituto	contribuiu	também	para	o	serviço	psiquiátrico	de	Recife,	em	especial	no	que	se	refere	ao
emprego	 de	 técnicas	 psicológicas	 em	 questões	 de	 psicopatologia	 clínica	 que,	 segundo	 Anita	 Paes
Barreto,	acabou	por	tornar-se	tal	prática	uma	das	marcas	da	“Escola	Psiquiátrica	do	Recife”.
Do	 ponto	 de	 vista	 teórico	 da	 Psicologia,	 Ulysses	 Pernam-bucano	 foi	 assim	 retratado	 por	 José
Lucena22:
“a	 psicologia	 que	 adotava,	 buscava	 predominantemente	 modelos	 objetivos.	 Embora	 houvesse
manifestado	simpatia	pela	reflexologia	estrita	de	Pavlov	e	Bechterew,	não	se	 filiou	a	qualquer
behaviorismo,	preferindo	 antes	 a	 psicologia	 do	 comportamento,	 como	 a	 entendia	H.	 Pierón,	 e
sobretudo	 a	 orientação	 dita	 funcionalista	 que	 representavam	 então	 (...)	 Claparède,	 James,
Dewey,	etc.	e	a	produção	dos	experimentadores	rigorosos	que	punham	em	marcha	o	movimento
dos	testes	mentais:	Binet,	Terman,	Yerkes,	Burt	e	outros”	(1978,	p.	156).
Embora	fique	patente	a	forte	presença	da	psicometria	na	produção	do	Instituto,	é	de	se	notar	também
que	sua	finalidade	vinculava-se	à	educação	de	“deficientes	mentais”,	ao	subsídio	à	ação	psiquiátrica,	às
questões	 escolares	 e	 à	 formação	 de	 professores,	 o	 que	 contrastava	 com	 o	 que	 ocorria	 em	 outros
laboratórios	de	instituições	psiquiátricas.
A	 tudo	 isso	deve-se	 acrescentar	que	Ulysses	Pernambucano	 sofreu	muitas	perseguições	políticas,
tendo	sido	preso	várias	vezes,	sob	a	acusação	de	subversão,	por	sua	luta	por	melhorias	nas	condições	de
assistência	 ao	 doente	 mental.	 Em	 1935,	 com	 Gilberto	 Freyre,	 Olivio	 Montenegro	 e	 Sílvio	 Rabelo,
assinou	um	manifesto	que	solicitava	um	inquérito	social	 sobre	as	condições	de	vida	dos	 trabalhadores
brasileiros,	sobretudo	aqueles	do	campo.
Escola	de	Aperfeiçoamento	Pedagógico	de	Belo	Horizonte23
Embora	 já	 no	 limite	 do	 período	 em	 estudo,	 a	 apresentação	 da	 produção	 dessa	 instituição	 é
importante	por	demonstrar	a	conquista	da	autonomia	da	Psicologia	no	Brasil.	Fundada	no	final	da	década
de	20,	tornou-se	ela	referência	para	a	caracterização	dos	rumos	que	a	Psicologia	tomou	posteriormente.
A	Escola	de	Aperfeiçoamento	foi	uma	realização	pertinente	à	Reforma	do	Ensino	de	Minas	Gerais,
empreendida	por	Francisco	Campos.	Nessa	reforma,	a	Psicologia	assumiu	papel	de	destaque,	em	que	a
Escola	 de	 Aperfeiçoamento	 deveria	 tornar-se	 o	 principal	 núcleo	 difusor	 das	 bases	 pedagógicas	 que
deveriam	ser	implementadas	no	estado.
Antes	de	sua	criação,	 já	a	preocupaçãocom	a	Psicologia	e	suas	 técnicas	 faziam-se	presentes	nos
meios	 educacionais	 de	 Belo	 Horizonte.	 Cursos	 ministrados	 por	 C.	 A.	 Baker,	 Iago	 Pimentel,	 Alberto
Álvares	e	Alexandre	Drummond	abordavam	assuntos	como	Psicologia	Educacional	e	testes,	temas	estes
também	presentes	em	artigos	da	“Revista	do	Ensino”.
A	 Escola	 de	 Aperfeiçoamento	 promoveu	 vários	 cursos,	 para	 os	 quais	 foram	 chamados	 como
docentes	 personalidades	 eminentes	 da	 Psicologia	 na	 época,	 como	 Th.	 Simon	 (colaborador	 de	 Binet),
Léon	Walther	e	Helena	Antipoff	(assistente	de	Claparède).	Helena	Antipoff	permaneceu	no	Brasil	e	aqui
realizou	extensa	obra	em	Educação	e	Psicologia,	abrangendo	pesquisa,	ensino	e	prática	educa​cional.
Sob	 a	 responsabilidade	 de	 Antipoff,	 foi	 criado	 um	 Laboratório	 de	 Psicologia	 para	 subsidiar	 os
rumos	educacionais	de	Minas	Gerais,	fundamentalmente	pela	formação	docente.
Esse	 laboratório	 produziu	 um	 extenso	 rol	 de	 pesquisas,	 abordando	 uma	 ampla	 variedade	 de
assuntos:	 inteligência;	 relações	 entre	 produção	 escolar	 e	 meio	 social	 da	 criança;	 relações	 entre
inteligência	 e	 vocabulário;	 seleção	 e	 orientação	 profissional;	 homo​ge​neização	 de	 classes	 escolares;
personalidade	 e	 tipos	 de	 crianças;	 memória,	 aprendizagem	 e	 testemunho;	 motricidade	 e	 fadiga;
julgamento	moral	e	social,	além	de	revisão	e	adaptação	de	testes	de	inteligência	e	aptidão	e	preparação
de	testes	originais	para	medida	psicológica	e	verificação	do	rendimento	escolar.
A	perspicácia	da	análise	de	Antipoff	sobre	os	 resultados	que	obtinha	nas	pesquisas	 lançou	novas
luzes	sobre	a	realidade	social	brasileira	e	sua	relação	com	os	fenômenos	de	natureza	psicológica,	como
por	 exemplo,	 a	 relação	 entre	 condições	 de	 vida	 e	 desenvolvimento	 psicológico.	 Vale	 dizer	 que	 suas
concepções	guardam	evidente	atualidade.
É	interessante	notar,	pela	descrição	de	Regina	Helena	de	Freitas	Campos	(1980),	que	as	pesquisas
realizadas	por	Antipoff	 foram	 fundamentalmente	pesquisas	de	campo,	 cujos	dados	 foram	coletados	em
situação	 ordinária	 de	 sala	 de	 aula;	 além	 disso,	 grande	 importância	 era	 dada	 à	 consideração	 do	meio
social	do	qual	provinham	as	crianças.	Para	caracterizar	 seu	 trabalho,	Campos	bem	o	qualifica	 quando
denomina	um	item	de	sua	dissertação	assim:	“O	Laboratório	de	Psicologia	vai	conhecer	as	crianças	de
Belo	Horizonte”.
Anexa	 à	 Escola	 de	 Aperfeiçoamento	 foi	 criada	 uma	 classe	 especial	 para	 “deficientes	 mentais”,
germe	de	várias	escolas	desse	tipo	e	da	Sociedade	Pestalozzi	de	Minas	Gerais.	Helena	Antipoff	prestou	a
esse	campo	de	atuação	uma	das	maiores	contribuições	realizadas	no	Brasil,	não	apenas	participando	da
criação	 de	 várias	 instituições,	 mas	 também	 lutando	 pela	 melhoria	 do	 atendimento	 a	 essa	 população.
Propôs	ela	a	denominação	“indivíduo	excepcional”	em	lugar	de	“deficiente	mental”,	por	considerar	esta
última	expressão	inadequada.
Partindo	 dos	 resultados	 das	 pesquisas	 que	 realizou,	 Helena	 Antipoff	 propôs	 o	 conceito	 de
“inteligência	civilizada”,	pois	considerava	a	 inteligência	como	algo	mais	 complexo	do	que	aquilo	que
aparecia	 nas	 definições	 correntes;	 a	 inteligência	 seria	 multi​de​ter​minada	 e,	 junto	 com	 disposições
intelectuais	inatas	e	maturidade	bio​lógica,	também	os	fatores	sociais	e	culturais	presentes	no	ambiente	em
que	a	criança	se	desenvolve	e	a	ação	pedagógica	seriam	fatores	determinantes.
Assim	 como	 o	 Instituto	 de	 Psicologia	 de	 Recife,	 o	 Laboratório	 da	 Escola	 de	 Aperfeiçoamento
trabalhou	 com	 testes	 mentais,	 pedagógicos	 e	 de	 aptidão,	 além	 de	 outra	 semelhança:	 a	 preocupação
educacional	com	o	sujeito	com	deficiência	mental.	A	psicometria	foi	aí	estudada	em	contraste	com	o	que
ocorria	no	resto	do	país.	Em	Belo	Horizonte,	foi	utilizada	como	um	instrumento	para	coleta	de	dados	nas
pesquisas,	 sendo	 seus	 resultados	 relacionados	 com	 outros	 provenientes	 das	 condições	 de	 vida	 dos
sujeitos,	o	que	permitiu	uma	visão	mais	totalizadora	das	funções	psicológicas	estudadas.	É	possível	até
dizer	 que	Antipoff	 avançou	 a	partir	 do	ponto	 em	que	Pernambucano	parou,	 dando	 continuidade	 a	 suas
preocupações.
Na	década	de	40,	a	Escola	de	Aperfeiçoamento	de	Belo	Horizonte	fundiu-se	com	a	Escola	Normal,
gerando	o	Instituto	de	Educação,	ao	qual	foi	incorporado	também	o	Laboratório	de	Psicologia.
Escolas	Normais
A	 produção	 das	 Escolas	 Normais	 consistiu,	 provavelmente,	 numa	 das	 mais	 importantes
contribuições	para	o	estabelecimento	da	Psicologia	científica	no	Brasil,	quer	no	âmbito	teórico,	quer	no
âmbito	da	aplicação	prática	de	seus	conhecimentos.	Sua	importância	reside	também	no	fato	de	muitos	dos
primeiros	 profissionais	 da	 Psicologia	 terem	 iniciado	 sua	 formação	 nessas	 escolas	 e	 terem	 sido	 elas
incentivadoras	da	publicação	das	primeiras	obras	específicas	de	Psicologia	no	país.
Para	Annita	Cabral24:
“Foi	nestas	que	se	formaram	os	primeiros	núcleos	de	estudiosos	das	teorias	gerais	e	aplicadas,
que	 os	 primeiros	 ‘laboratórios’	 de	 psicologia	 se	 fundaram	 e	 que	 professores	 nacionais
receberam	 de	 Th.	 Simon,	 Ed.	 Claparède,	 Hélène	 Antipoff,	 H.	 Piéron,	 Fauconnet,	 L.	 Walther,
Köhler	 e	outros	 estrangeiros,	 curtos	mas	estimulantes	 cursos	de	conferências.	A	 formação	dos
mais	 destacados	 psicólogos	 educacionais	 brasileiros	 da	 atualidade	 [1950]	 tem	 suas	 raízes
naquelas	escolas	normais”	(1950,	p.	31).
As	primeiras	Escolas	Normais	 surgiram	no	Brasil	 na	primeira	me​tade	do	 século	XIX,	 sendo	que
somente	no	século	XX	a	disciplina	Psicologia	apareceu	de	maneira	mais	sistemática	em	seus	currículos,
com	o	desdobramento	da	disciplina	Pedagogia	em	Pedagogia	e	Psicologia.	Esse	desdobramento	não	foi,
porém,	generalizado,	nem	definitivamente	incorporado;	sendo	certo,	no	entanto,	que	a	Escola	Normal	de
São	Paulo	o	adotou	em	1912,	e	que	o	mesmo	ocorreu	no	Rio	de	Janeiro,	mas	de	forma	descontínua.
Em	 1928,	 por	 decreto,	 a	 disciplina	 Psicologia	 foi	 inserida	 no	 currículo	 das	 Escolas	 Normais,
juntamente	com	Pedagogia,	História	da	Educação,	Didática,	Sociologia,	Higiene	e	Puericultura.	Podemos
com	isso	afirmar,	sem	sombra	de	dúvidas,	que	o	ensino	sistemático	da	Psicologia	ocorreu	originalmente
nas	Escolas	Normais.
Essas	 escolas	 contribuíram	 também	 com	 a	 produção	 de	 conhecimento,	 por	 meio	 de	 pesquisas	 e
estudos	realizados	em	seus	 laboratórios,	e	com	as	experiências	postas	em	prática	nas	salas	de	aula.	A
isso	somam-se	as	obras	psicológicas	publicadas	para	uso	da	disciplina,	no	início	em	geral	compêndios	e
traduções	de	clássicos	estrangeiros	e,	mais	tarde,	obras	sobre	assuntos	específicos	da	Psi​cologia.
Das	Escolas	Normais	brasileiras	merecem	destaque	as	de	Belo	Horizonte,	Recife,	Salvador,	Rio	de
Janeiro,	Fortaleza	e	São	Paulo,	pela	significativa	acolhida	às	questões	psicológicas.
As	 Escolas	 Normais	 de	 Belo	 Horizonte	 e	 Recife	 tiveram	 grande	 relevância	 pela	 articulação,
respectivamente,	com	a	Escola	de	Aperfeiçoamento	Pedagógico	e	com	o	Instituto	de	Psicologia	já	vistos
anteriormente.
A	 Escola	Normal	 de	 Salvador	 teve	 em	 Isaias	Alves	 um	 dos	mais	 expressivos	 representantes	 da
Psicologia	 na	 época;	 foi	 ele	 um	 dos	 pioneiros	 na	 difusão,	 aplicação,	 revisão	 e	 adaptação	 de	 testes
pedagógicos	 e	 psicológicos	 no	 Brasil,	 sendo	 um	 dos	 principais	 difusores	 da	 nova	 técnica,	 quer	 pela
publicação	de	livros	ou	realização	de	cursos	sobre	esse	tema.
Da	mesma	maneira,	a	Escola	Normal	do	Rio	de	Janeiro	teve	sua	produção	psicológica	intimamente
ligada	a	seu	professor	de	Pedagogia	e	Psicologia,	Manoel	Bomfim,	cujas	idéias	e,	conseqüentemente,	os
conteúdos	abordados	em	seus	cursos,	encontram-se	registrados	em	seus	livros:	“Lições	de	Pedagogia”	e
“Noções	de	Psychologia”,	especialmente	elaborados	para	uso	de	seus	alunos	nor​malistas,	além	de	outras
obras	 porele	 publicadas,	 dentre	 as	 quais	 a	 já	 mencionada	 “Pensar	 e	 Dizer:	 estudo	 do	 symbolo	 no
pensamento	e	na	linguagem”.	Vale	ressaltar	que	muitos	elementos	apresentados	pelo	autor	nessas	obras
guardam	surpreendente	atualidade.
A	Escola	Normal	de	Fortaleza	trouxe	uma	contribuição	especial	à	Psicologia	por	sua	participação
no	contexto	da	Reforma	do	Ensino	do	Ceará,	empreendida	por	Lourenço	Filho,	entre	os	anos	de	1922	e
1923,	quando	essa	escola	assumiu	 importante	 tarefa	e	nela	 foi	criado	um	 laboratório	de	Psicologia.	A
Escola	Normal	deveria	cuidar	da	formação	dos	professores,	que	seriam	os	principais	protagonistas	das
transformações	que	Lourenço	Filho	idealizara	para	o	cotidiano	das	salas	de	aula.	A	Psicologia	exerceu
função	 central	 nessa	 reforma	 que	 pode	 ser	 considerada	 como	 a	 primeira	 realização	 de	 vulto	 do
escolanovismo	no	país;	nesse	sentido,	podemos	afirmar	que,	em	busca	de	 implementar	a	Escola	Nova,
baseada	numa	Pedagogia	científica,	a	Psicologia	assumiu	papel	 fundamental,	pois	 seu	domínio	deveria
ser	o	principal	instrumental	do	professor	em	sala	de	aula.	Lourenço	Filho	procurou	dar	continuidade	no
Ceará	ao	seu	trabalho	na	Escola	Normal	de	Piracicaba,	em	que	era	catedrático	de	Psicologia,	 tendo	aí
pesquisado	atenção,	maturidade	para	a	leitura	e	a	escrita	e	emprego	de	testes.	Retornando	a	São	Paulo,
continuou	sua	atuação	na	Escola	Normal	dessa	cidade,	vindo	a	assumir	aí	 a	cátedra	de	Psicologia	e	a
direção	de	seu	laboratório	que,	por	sua	importância,	serão,	a	seguir,	especialmente	tratados.
A	Escola	Normal	de	São	Paulo
As	 principais	 contribuições	 dessa	 escola	 sustentam-se	 no	 ensino	 –	 pela	 cátedra	 de	 Pedagogia	 e
Psicologia	e	pelos	cursos	ministrados	por	especialistas	estrangeiros	–	e	na	produção	de	seu	laboratório.
Segundo	Pessotti,	em	1932	a	 responsabilidade	sobre	o	 laboratório	e	a	cátedra	passa	a	Noemi	Silveira
Rudolfer,	 assistente	 de	 Lourenço	 Filho;	 dois	 anos	 depois,	 o	 laboratório	 foi	 incorporado	 à	 cátedra	 de
Psicologia	da	então	criada	Universidade	de	São	Paulo;	em	1936,	Rudolfer	 foi	nomeada	catedrática	de
Psicologia	Educacional	da	referida	universidade.
No	que	diz	respeito	ao	ensino	de	Psicologia,	a	Escola	Normal	foi	responsável	pela	divulgação	das
teorias	 psicológicas	 em	 voga	 na	 Europa	 e	 nos	 Estados	Unidos	 e,	 por	 decorrência,	 das	 técnicas	 delas
derivadas,	em	especial,	a	psicometria.
Em	1914,	a	cátedra	de	Pedagogia	e	Psicologia	foi	assumida	por	Sampaio	Dória	que,	para	subsidiar
suas	 aulas,	 publicou	 um	 volumoso	 compêndio	 de	 Psicologia,	 baseado	 nas	 idéias	 de	 Spencer,	 Bain	 e
Stuart	Mill	e	divulgando	os	pensamentos	de	William	James,	Binet	e	Van	Biervliet.
Em	1925,	Lourenço	Filho	sucedeu	Sampaio	Dória	na	cátedra,	realizando	um	relevante	trabalho	na
escola:	 revitalizou	o	Laboratório	 de	Psicologia,	 que	 estava	praticamente	 abandonado,	 contando	 com	a
colaboração	de	vários	professores,	dentre	eles	Noemi	Silveira	Rudolfer,	que	viria	mais	tarde	sucedê-lo
nessa	cátedra.
O	laboratório	 foi	 criado	 na	 gestão	 de	Oscar	 Thompson	 na	 direção	 da	 Escola	Normal,	 em	 1914,
tendo	 recebido	 ao	 longo	 do	 tempo	 várias	 denominações:	 “Gabinete	 de	 Psychologia	 e	 Anthro​pologia
Pedagógica”,	 “Laboratorio	de	Pedagogia	Experimental”	 e	 “Laboratorio	de	Psychologia	Experimental”.
Para	 organizar	 e	 dirigir	 o	 laboratório,	 foi	 contratado	 o	 psicólogo	 italiano	Ugo	 Pizzoli,	 catedrático	 da
Universidade	de	Módena	e	diretor	da	Escola	Normal	da	mesma	cidade.
Além	da	organização	e	da	direção	do	laboratório,	Pizzoli	realizou	outros	trabalhos	na	escola,	dos
quais	 destacam-se:	 curso	 teórico	 e	 prático	 de	 Psicologia,	 orientação	 de	 pesquisas	 e	 elaboração	 da
“carteira	 biographica	 escolar”	 para	 ser	 adotada	 pelas	 escolas	 do	 Estado	 de	 São	 Paulo.	 Em	 1914,	 o
laboratório	edita	o	livro	“O	Laboratório	de	Pedagogia	Experimental”25,	o	qual	expõe	detalhadamente	as
atividades	 realizadas,	 tendo	 como	 elemento	 introdutório	 uma	 palestra	 proferida	 por	 Thompson,
denominada	 “O	 futuro	 da	 pedagogia	 é	 scientifico”,	 tendo	 aí	 a	 Psicologia	 posição	 privilegiada	 como
ciência	que	deveria	dar	base	à	Pedagogia;	nesse	contexto,	a	palestra	é	finalizada	com	a	justificativa	da
criação	 da	 cadeira	 de	 Psicologia	 Experimental	 Aplicada	 à	 Educação	 e	 do	 Laboratório	 de	 Pedagogia
Experimental.	Diz	Thompson:
“Entendeu,	por	 isso,	o	Governo	actual	a	conveniencia	de	 se	ampliarem	os	estudos	 theoricos	e
praticos	da	pedagogia,	para	o	que	a	cadeira	de	psychologia	experimental	applicada	à	educação.
Iniciou	ainda,	annexo	à	Escola,	a	organisação	de	um	gabinete	de	anthropologia	e	psychologia
pedagogica”	(1914,	p.	17).
O	 “Gabinete”	 era	 constituído	 de	 duas	 salas,	 sendo	 uma	 destinada	 aos	 exames	 “somato-
anthropologicos”	 e	 aos	 de	 natureza	 “esthe​siometrica	 e	 esthesioscopica”	 e	 a	 outra	 sala	 ao	 exame
psicológico	 das	 funções	 mentais	 elevadas.	 Na	 primeira	 sala	 realizavam-se	 exames	 antropométricos	 e
sensoriais;	 na	 segunda	 sala	 estudavam-se	 atenção,	 tempo	 de	 reação,	 imaginação,	 associações,
perspicácia	intelectual,	movimento,	memória,	raciocínio	etc.	Esses	estudos	objetivavam	subsidiar	a	ação
educacional,	 preocupados	muito	mais	 com	a	 classificação	 das	 crianças	 do	 que	 com	a	 busca	 de	meios
mais	 efetivos	 para	 a	 melhoria	 do	 processo	 de	 ensino	 e	 aprendizagem,	 conforme	 se	 apreende	 pela
descrição	dos	aparelhos	e	dos	estudos	realizados.
Articulado	 aos	 fins	 do	 laboratório,	 Pizzoli	 ministrou	 o	 curso	 denominado	 “Curso	 de	 Cultura
Pedagógica”,	 destinado	 a	 professores	 de	 Pedagogia,	 inspetores	 escolares	 e	 diretores	 de	 Grupos
Escolares.	 Vinculado	 ao	 curso,	 os	 alunos	 realizaram	 pesquisas	 no	 laboratório,	 sob	 a	 forma	 de	 teses,
dentre	as	quais	“Contribuição	para	os	methodos	de	estudo	do	raciocinio	nas	creanças”,	de	Ruy	de	Paula
Souza;	“Notas	sobre	o	graphismo	infantil”,	de	Adalgiso	Pereira;	“Experiencias	sobre	a	memória	cinética
nas	creanças”,	de	Carlos	A.	Gomes	Cardim;	“Subsidios	para	o	estudo	da	memoria”,	de	Roldão	Lopes	de
Barros;	“O	raciocinio	nas	creanças”,	de	Clemente	Quaglio;	“Contribuição	experimental	e	classificação
dos	typos	intellectuaes”,	de	Saverio	Cristofaro,	e	“Notas	sobre	a	associação	de	ideias”,	de	Joaquim	A.
de	Sant’Anna.	O	programa	do	curso	abordou	os	exames:	anamnéstico,	físico,	antropológico,	fisiológico	e
psicológico;	neste	último,	 foram	trabalhados	os	conteúdos	referentes	a:	sensibilidade	 interna	e	externa,
audição,	tato	e	senso	muscular,	gosto	e	olfato,	atenção,	memória,	associação	e	volição.
Pela	exposição	sobre	o	Laboratório	da	Escola	Normal	de	São	Paulo,	especialmente	pelos	conteúdos
tratados	no	curso	ministrado	por	Pizzoli,	pelos	equipamentos	e	pesquisas	realizadas,	dá	para	apreender	a
orientação	que	 teve	sua	produção,	vinculada	essencialmente	à	medida	das	 funções	psicológicas,	 sendo
destas	o	fenômeno	perceptivo	o	mais	estudado.	Essa	concepção	de	Psicologia	e	de	pesquisa	psicológica,
corrente	na	época,	 trouxe	para	o	ensino	paulista	o	conhecimento	científico	que	a	Pedagogia	 reclamava
como	base	de	sustentação	e	que	lhe	permitisse	proclamar-se	“Pedagogia	Científica”.
Esses	fatos	inserem-se	claramente	no	contexto	educacional	da	época,	em	que	a	defesa	da	ampliação
da	escolarização	começava	a	ceder	 lugar	à	defesa	da	melhoria	qualitativa	do	ensino,	definida	 logo	em
seguida	pela	 incorporação	das	 idéias	 escolanovistas.	Nessa	perspectiva,	 essa	melhoria	 relacionava-se
com	a	modernização	das	técnicas	e	dos	métodos	empregados	na	escola,	em	que	a	Psicologia	poderia	vir
a	contribuir	para	o	estatuto	científico	que	a	Pedagogia	almejava,	ao	mesmo	tempo	em	que	a	colocava	em
evidência.
A	 produção	 da	 Escola	 Normal	 de	 São	 Paulo	 foi,	 em	 todos	 os	 aspectos,	 fundamental	 para	 a
autonomização	 da	 Psicologia	 no	 Brasil,	 na	 medida	 em	 que,	 por	 meio	 dela,	 vê-se	 com	 clareza	 apenetração	 das	 teorias	 e	 práticas	 da	Psicologia	 então	 vigentes	 nos	 centros	 avançados	 de	 produção	 do
saber,	percebe-se	a	busca	de	definição	do	papel	profissional	dos	especialistas	em	Psicologia	e	a	marca
da	 presença	 paulista	 nos	 esforços	 para	 dar	 lugar	 a	 esta	 ciência;	 tudo	 isso	 ocorrendo	 a	 par	 com	 o
desenvolvimento	urbano-industrial	que,	por	sua	vez,	viria	a	necessitar	de	seus	conhecimentos.	São	Paulo
tornar-se-ia	um	dos	mais	importantes	centros	para	o	desenvolvimento	da	Psicologia.
Percebe-se,	 pelo	 exposto,	 que	 a	 Psicologia	 encontrou	 nas	 Escolas	Normais	 o	mais	 fértil	 terreno
para	 seu	 desenvolvimento,	 não	 somente	 por	 serem	 estas	 campos	 potenciais	 de	 aplicação	 de
conhecimentos	e	técnicas	derivadas	da	ciência	psicológica,	mas	também	por	permitirem	a	produção	de
pesquisas.	 É	 possível	 dizer	 que	 essas	 escolas	 foram	 uma	 das	 principais	 portas	 para	 a	 penetração	 da
Psicologia	científica	no	país	e	para	a	definição	do	perfil	dos	profissionais	que	se	tornariam	especialistas
em	Psicologia,	além	de,	no	caso	da	Escola	Normal	de	São	Paulo,	ter	sido	ela	uma	das	mais	importantes
bases	para	que	a	Psicologia	se	tornasse	mais	tarde	disciplina	universitária.
2.2.	A	Psicologia	nas	obras	pedagógicas	e	psicológicas
As	obras	que	tratam	da	Psicologia	estão	relacionadas	ao	ensino	normal,	sendo	seus	autores	muitas
vezes	professores	que	as	escreveram	para	uso	dos	normalistas.	Essas	obras	são	fontes	importantes	para	a
compreensão	 da	 Psicologia	 no	 Brasil,	 pois	 constituem-se	 em	 documentos	 preciosos	 sobre	 as	 idéias
psicológicas	que	eram	aqui	difundidas.
Do	conjunto	de	obras	editadas	no	período,	distinguem-se:	traduções	de	obras	estrangeiras	e	obras
de	 autores	 brasileiros,	 quer	 de	 caráter	 pedagógico	 que	 abordam	 a	 Psicologia,	 quer	 de	 caráter
especificamente	psicológico.
No	que	diz	 respeito	às	 traduções,	 encontram-se	obras	clássicas	do	pensamento	escolanovista,	 em
que	a	Psicologia	é	considerada	como	um	dos	mais	importantes	sustentáculos	do	processo	pedagógico	e,	a
estas	 relacionadas,	 encontram-se	 também	 obras	 eminentemente	 psicológicas.	Destacam-se	 nesse	 grupo
obras	 de	 Claparède,	 Binet-Simon,	 Piéron	 e	 Léon	Walther,	 sendo	 estas	 pertencentes	 à	 “Biblioteca	 de
Educação”,	 criada	em	1927,	pela	Cia.	Melhoramentos,	 e	dirigida	por	Lourenço	Filho,	que	 também	foi
tradutor	de	muitas	delas.
Outro	grupo,	constituído	de	obras	pedagógicas	de	caráter	geral,	de	autores	brasileiros,	 tem	como
principal	 característica	 expor	 questões	 gerais	 sobre	 a	 Educação,	 sendo,	 portanto,	 expressão	 de
determinadas	 concepções	 sobre	 o	 processo	 educativo.	 Sua	 tônica	 é	 a	 proposição	 de	 mudanças	 no
processo	pedagógico,	em	busca	de	sua	modernização.	São	obras	geralmente	de	tendência	escolanovista
ou	que,	expondo	certos	princípios,	antecipam	ou	preparam	o	terreno	para	sua	inserção	futura	no	contexto
educacional	brasileiro;	essa	característica	já	define,	de	certa	maneira,	a	 importância	dada	à	Psicologia
como	ciência	de	base	para	a	ação	pedagógica	que	se	pretendia	difundir.	Deve-se	salientar,	todavia,	que,
dentre	essas	obras,	as	de	Manoel	Bomfim	não	podem	ser	consideradas	como	expressão	do	pensamento
escolanovista,	 embora	 seja	 patente	 a	 importância	 dada	 à	 Psicologia	 como	 fundamento	 do	 processo
pedagógico,	o	que	as	torna	especialmente	importantes	como	objeto	de	análise.
O	outro	grupo	compõe-se	de	obras	que	podem	ser	consideradas	como	explicitamente	psicológicas,
não	 apenas	 por	 seus	 títulos,	 mas	 principalmente	 pelos	 conteúdos	 tratados.	 Foram	 muitas	 as	 obras
produzidas,	dentre	elas:	“Compendio	de	Paidologia”	e	“Educação	da	Infancia	Anormal	de	Intelligencia
no	Brasil”,	de	Clemente	Quaglio,	editadas	em	1911	e	1913	respectivamente;	“Noções	de	Psychologia”,
de	 Manoel	 Bomfim,	 1916	 e,	 do	 mesmo	 autor,	 “Pensar	 e	 Dizer”,	 de	 1923;	 “Tests”,	 de	 Medeiros	 e
Albuquerque,	de	1924;	Psychologia”,	de	Sampaio	Dória,	1926;	“Joazeiro	de	Padre	Cícero”,	de	Lourenço
Filho,	 1926;	 “Teste	 Individual	 de	 Intelligencia”,	 de	 autoria	 de	 Isaias	Alves,	 de	 1927;	 “Psychologia	 e
Psychotechnica”,	 Piéron,	 1927;	 “O	 método	 dos	 testes”,	 de	 Manoel	 Bomfim,	 1928;	 “Tratado	 de
Psychologia”,	 de	 Waclaw	 Radecki,	 1928;	 “Psicoterapia	 e	 suas	 modalidades”,	 Maurício	 Campos	 de
Medeiros,	 1929;	 “Tese	 sobre	 Supranormais”,	 também	 de	Maurício	 Campos	 de	Medeiros,	 1930;	 “Os
testes	e	a	reorganização	escolar”,	de	Isaias	Alves,	1930;	há	ainda	algumas	obras	publicadas	logo	após
1930:	 “O	 teste	 ABC”,	 de	 Lourenço	 Filho,	 1933;	 “Psicologia”,	 de	 Plínio	 Olinto,	 1934;	 “Psicologia
Social”,	 de	 Raul	 Briquet,	 1935	 e	 “Psicologia	 do	Desenho	 Infantil”,	 de	 Silvio	 Rabelo,	 1935.	 A	 estas
devem	 ser	 acrescentadas	 algumas	 obras	 cujas	 datas	 não	 puderam	 ser	 identificadas,	 a	 saber:	 “O	 facto
psychico”	 e	 “O	 respeito	 à	 criança”,	 ambas	 de	 Bomfim.	 Essa	 imprecisão	 deve-se	 ao	 lamentável	 fato
dessas	obras	encontrarem-se	perdidas.
2.3.	À	Guisa	de	Síntese
A	Educação	foi,	sobretudo	nas	décadas	iniciais	do	século	XX,	fundamental	para	o	desenvolvimento
da	 Psicologia	 no	Brasil.	 Foi	 ela	 a	 principal	 base	 sobre	 a	 qual	 a	 Psicologia	 emergiu	 na	 condição	 de
ciência,	tendo	sido	por	seu	intermédio	que,	em	grande	parte,	os	conhecimentos	produzidos	na	Europa	e
nos	 Estados	 Unidos	 chegaram	 ao	 Brasil	 e,	 por	 suas	 características,	 foi	 no	 seu	 interior	 que	 mais
claramente	a	Psicologia	revelou-se	na	sua	autonomia	teórica	e	prática.
Na	Medicina	 e	 principalmente	 na	 Psiquiatria	 esse	 processo	 não	 foi	 tão	 explícito	 como	 o	 foi	 na
Educação.	Isso	pode	ser	explicado,	provavelmente,	pelas	naturezas	diversas	desses	campos.
A	Educação,	como	conjunto	de	práticas	sociais	que	visam	à	formação	dos	homens	e	a	Pedagogia,
sistematização	 teórico-prática	 que	 busca	 fundamentar,	 subsidiar	 e	 orientar	 as	 ações	 educativas,	 não
podem	ser	consideradas	como	ciências	específicas.	Buscam	elas	as	ciências	afins	que	possam	dar-lhes
base	de	sustentação,	como	é	o	caso	da	Psicologia,	considerada	“a	priori”	como	ciência	autônoma	que	tem
grande	 potencial	 de	 contribuição,	 o	 que	 lhe	 permite	 mostrar-se	 plenamente	 como	 área	 específica	 de
saber.
Com	a	Psiquiatria,	no	entanto,	o	tipo	de	relação	que	se	estabelece	é	de	natureza	diversa.	São	ambas,
Psiquiatria	e	Psicologia,	não	apenas	campos	de	saber	e	de	prática,	mas	também	seus	objetos	de	estudo	e
de	 intervenção	 não	 são,	 até	 hoje,	 claramente	 definidos	 e	 delimitados.	 Entretanto,	 pode-se	 perceber	 já
nesse	período	a	definição	de	contornos	mais	nítidos	entre	o	que	viria	a	ser	estabelecido	como	áreas	da
Psiquiatria	e	da	Psicologia.
Outro	fato	a	ser	salientado	é	que	a	Educação	trouxe,	por	meio	das	Escolas	Normais,	dos	Institutos,
de	 seus	 laboratórios	 e	 de	 seus	 intelectuais,	 uma	 produção	 a	 par	 com	 o	 que	 se	 realizava	 nos	 grandes
centros	 culturais	 do	 mundo.	 Houve,	 para	 isso,	 grandes	 investimentos,	 como	 pode	 ser	 constatado	 em
Minas	 Gerais,	 Rio	 de	 Janeiro	 e	 São	 Paulo,	 em	 que	 laboratórios	 foram	 montados,	 cursos	 foram
organizados	e	eminentes	psicólogos	da	época	para	cá	vieram	ministrá-los	e	contribuir	com	a	criação	de
condições	 para	 que	 aqui	 também	 houvesse	 possibilidade	 de	 produção	 de	 pesquisa	 e,	 sobretudo,
ampliação	do	raio	de	ação	da	Psicologia.
Esses	fatos	guardam	íntima	relação	com	o	escolanovismo	que,	nesse	momento,	se	estabelecia	com
força	 no	 país	 e	 viria	 a	 tornar-se	 pensamento	 hegemônico	 na	 Educação.	 As	 relações	 entre	 o	 escola​-
novismo	 e	 a	 Psicologia,	 particularmente	 no	 Brasil,	 são	 imensas;	 a	 Psicologia	 deveria	 subsidiar	 as
transformações	 da	 escola:	 as	 relações	 entre	 professor	 e	 aluno,	 o	 processo	 de	 ensino-aprendizagem,	 a
modernização	metodológica,	a	organização	das	classes,	o	conhecimento	e	o	respeito	ao	desenvolvimentoda	criança,	enfim,	deveria	a	Psicologia	 tornar-se	o	mais	 importante	braço	científico	e	 técnico	da	nova
concepção	de	Educação.
Vistos	 sob	 o	 prisma	 de	 uma	 concepção	 mais	 ampla	 da	 sociedade,	 escolanovismo	 e	 Psicologia
foram,	em	verdade,	manifestações	de	um	projeto	social	para	o	Brasil,	calcado	no	ideal	da	modernização
e	da	elevação	do	país	ao	patamar	das	nações	 ricas	e	poderosas.	Em	outras	palavras,	escolanovismo	e
Psicologia	 eram,	 no	 seu	 próprio	 âmbito,	 manifestações	 de	 modernidade	 e	 sinais	 de	 avanço	 social	 e
cultural,	 capazes	 de	 colaborar	 com	 a	 formação	 de	 um	 “homem	 novo”	 para	 uma	 “nova	 sociedade”.	A
formação	 desse	 “homem	 novo”	 estava,	 portanto,	 condicionada	 a	 uma	 “nova	 escola”,	 baseada	 nos
princípios	de	racionalização	e	organização	científica,	a	qual	trazia,	por	seu	turno,	um	novo	conceito	de
disciplina,	 já	 não	 mais	 baseada	 nos	 pressupostos	 coercitivos	 da	 Medicina	 e	 da	 Hi-giene,	 mas
determinada	por	fatores	interiores	ao	indivíduo,	cabendo	à	Psicologia	instrumentalizar	a	Educação	para
que	 esta	 pudesse	 desenvolver	 tal	 processo;	 essa	 disciplina	 baseava-se,	 por	 sua	 vez,	 na	 concepção
política	de	“colaboração	de	classe”,	eliminando	as	contradições	e	conflitos	presentes	na	 relação	entre
capital	e	trabalho.	Essa	relação	explicita-se	plenamente	na	aplicação	da	Psicologia	às	questões	relativas
ao	trabalho,	que	veremos	a	seguir	e	quando	então	poderemos	completar	o	quadro	aqui	ini​​​cia​​do.
Entretanto,	 é	 necessário	 reiterar	 que	 nem	 tudo	 o	 que	 a	 Psicologia	 produziu	 e	 tampouco	 todas	 as
iniciativas	 foram	 homoge​nea​mente	 articuladas	 ao	 processo	 acima	 citado;	 é	 possível	 afirmar	 que,	 no
interior	 desse	 quadro	 geral,	 havia	 iniciativas	 de	 natureza	 diversa,	 como	 foram	 aquelas	 relativas	 ao
Instituto	de	Psicologia	de	Recife	e	as	concepções	de	Educação	e	Psicologia	representadas	por	Manoel
Bomfim	e	por	Helena	Antipoff.
18	Sobre	esse	assunto,	ver:	RIBEIRO,	M.	L.	S.	História	da	Educação	Brasileira.	São	Paulo,	Cortez	e	Moraes,	1979.
19	BOMFIM,	M.	A.	América	Latina:	males	de	origem.	Rio	de	Janeiro,	Topbooks,	1993.
20	PENNA,	A.	G.	Apontamentos	sobre	as	 fontes	e	sobre	algumas	das	 figuras	mais	expressivas	da	Psicologia	na	cidade	do	Rio	de
Janeiro.	Rio	de	Janeiro,	FGV,	1986.
21	Dentre	as	várias	obras	de	BOMFIM,	vale	a	pena	ver:	Bomfim,	M.	Pensar	e	Dizer:	estudo	do	symbolo	no	pensamento	e	na	linguagem.
Rio	de	Janeiro,	Casa	Electros,	1923.
22	Sobre	Ulysses	Pernambucano,	ver:	AA.VV.	Ciclo	de	Estudos	Ulysses	Pernambucano.	Recife,	Academia	Pernambucana	de	Medicina,
1978.
23	Sobre	a	Escola	de	Aperfeiçoamento	e	a	produção	de	Helena	Antipoff,	ver:	CAMPOS,	R.	H.	de	F.	Psicologia	e	Ideologia:	um	estudo	da
formação	da	Psicologia	Educacional	em	Minas	Gerais.	Belo	Horizonte,	UFMG,	dissertação	de	mestrado,	1980.
24	CABRAL,	A.	de	C.	M.	A	Psicologia	no	Brasil,	 in:	Psicologia,	 nº	 3,	Boletim,	CXIX,	pp.	 9/51.	USP,	Faculdade	de	Filosofia,	Ciências	 e
Letras,	São	Paulo,	1950.
25	Escola	Normal	de	São	Paulo.	O	Laboratório	de	Pedagogia	Experimental.	São	Paulo,	Typ.	Siqueira,	1914.
A
Capítulo	3
A	Psicologia	na	organização	do	trabalho
preocupação	com	a	questão	do	trabalho	do	ponto	de	vista	psicológico	remonta,	como	já	foi	visto,
aos	 tempos	 da	 colônia.	 Algumas	 obras	 abordam	 o	 trabalho	 sob	 o	 foco	 da	Moral,	 concebendo-o
como	 atividade	 preventiva	 de	 perversões	 (como	 o	 ócio,	 a	 preguiça	 e	 o	 vício),	 estando	 aí	 incluída	 a
preocupação	com	os	indígenas;	também	aparecem	elementos	que	visam	ao	exercício	de	controle	sobre	o
processo	produtivo.
No	século	XIX,	assiste-se	a	uma	ampliação	dessa	preocupação,	referente	sobretudo	ao	incremento
do	 processo	 de	 urbanização,	 que	 traz	 no	 seu	 bojo	 a	 emergência	 de	 novas	 camadas	 sociais,	 com	 a
ampliação	 e	 a	 diversificação	 das	 atividades	 produtivas.	 Essa	 configuração	 social	 gerou	 conflitos	 e
situações	que	exigiam	do	poder	vigente	ações	controladoras,	com	a	finalidade	de	reprimir	movimentos
contestatórios.	 Como	 já	 foi	 visto,	 a	 Medicina	 Social	 veio,	 nesse	 contexto,	 exercer	 importante	 papel,
propondo	modelos	higiênicos	de	vida	social,	enquadrando	em	categorias	patológicas	os	comportamentos
considerados	“desviantes”.
As	primeiras	experiências	sistemáticas	de	aplicação	da	Psicologia	às	questões	do	trabalho	datam,
porém,	da	década	de	20	do	século	XX;	foram	aí	lançadas	as	bases	para	o	desenvolvimento	desse	campo
de	atuação,	cuja	aceleração	deu-se	principalmente	a	partir	dos	anos	30.
Nesse	momento,	a	Psicologia	estabeleceu-se	definitivamente	no	pensamento	brasileiro,	ampliando-
se	 em	 várias	 direções	 e	 explicitando	 suas	 possibilidades	 de	 aplicação	 às	 necessidades	 impostas	 pela
vida	social.	Tal	situação	confirma	o	estabelecimento	da	ciência	psicológica	no	país	como	conjunto	de
conhecimentos	 e	 práticas	 capazes	 de	 dar	 respostas	 e	 subsidiar	 ações	 que	 interviessem	 nos	 problemas
sociais,	demonstrando	pela	sua	aplicação	sistemática	uma	etapa	já	avançada	da	referida	ciência.
Compreender	o	estabelecimento	e	o	desenvolvimento	da	Psicologia	a	sua	aplicação	às	questões	do
trabalho	implica	não	somente	a	compreensão	das	vicissitudes	dessa	ciência,	mas	também	das	condições
históricas	em	que	isso	se	tornou	possível.
A	Psicologia	veio	inserir-se	num	panorama	em	que	a	preocupação	com	a	maximização	da	produção
tornava-se	 um	 imperativo,	 contribuindo	 com	 a	 produção	 de	 conhecimentos	 e	 técnicas	 necessária	 ao
empreendimento	da	“racionalização	do	trabalho”	e	da	“administração	científica”	do	processo	produtivo.
Assiste-se	nesse	momento	a	um	acelerado	processo	de	expansão	da	indústria	brasileira,	ao	mesmo
tempo	em	que	uma	parcela	da	burguesia	industrial	busca	a	implementação	de	processos	administrativos
modernos,	fundamentados	nos	progressos	da	ciência.	Jorge	Street,	Roberto	Simonsen	e	Paulo	Nogueira
Filho	 foram	 alguns	 dos	mais	 destacados	 representantes	 do	 empresariado	 brasileiro	 que	 defenderam	 e
adotaram	 tais	 idéias.	 É	 necessário	 compreender	mais	 amplamente	 esse	movimento	 e	 suas	motivações
mais	profundas,	para	que	se	possa	avaliar	mais	concretamente	o	papel	da	Psicologia.
A	década	de	10	caracterizou-se	por	uma	progressiva	organização	da	classe	trabalhadora,	sobretudo
do	operariado	urbano-industrial.	Ocorre	nesse	momento	um	fortalecimento	dos	sindicatos	e	associações
de	trabalhadores;	a	difusão	dos	ideários	anarquistas,	anarco-sindicalistas	e	socialistas;	o	surgimento	de
várias	publicações	operárias;	a	eclosão	de	um	sem	número	de	manifestações,	incluindo	várias	greves	e,
além	disso,	 a	 elaboração	de	propostas	 sistemáticas	de	 intervenção	 sobre	os	problemas	que	afligiam	o
país,	dentre	os	quais	a	gestão	da	produção.
Sentindo-se	 ameaçados,	 buscam	os	 empresários	 formas	 de	 contenção	desse	 processo.	 Embora	 se
mantivesse	 o	 esquema	 vigente	 de	 repressão	 à	 organização	 proletária,	 explicitava-se	 a	 necessidade	 de
elaboração	 de	 novas	 práticas	 de	 controle.	Nesse	 sentido,	 a	 racionalização	 do	 processo	 produtivo	 e	 a
adoção	de	princípios	“científicos”	na	administração	apontavam	para	a	possibilidade	de	enfrentamento	do
problema;	essas	ações	tinham	na	sutileza	e	na	abordagem	indireta	seus	melhores	trunfos.	Assim,	na
“passagem	para	a	década	de	20,	assiste	[se]	a	uma	mudança	nos	regimes	disciplinares:	anuncia-
se	 um	 projeto	 racional	 de	 produção	 do	 novo	 trabalhador,	 dissolvido	 enquanto	 ato	 e	 sujeito	 e
redefinido	enquanto	objeto	de	investimento	do	poder.	A	nova	fábrica	(...)	deveria	então	constituir
o	 palco	 formador	 da	 nova	 figura	 produtiva,	 através	 de	 formas	 cada	 vez	 mais	 insidiosas	 e
sofisticadas	de	dominação.	Mas,	ao	mesmo	tempo,	deveria	figurar	como	o	lugar	da	atuação	de
um	 outro	 tipo	 de	 patrão,	 moderno	 e	 agilizado,	 em	 oposição	 à	 antiga	 figura	 do	 proprietário
despótico,	arbitrário	e	rude	do	passado”	(Rago,	1987,	pp.18	e	19).26
Segundo	 Rago,	 tais	mudanças	 antecedem	 a	 penetração	 das	 idéias	 tayloristas	 e	 fordistas	 no	 país.
Contudo,	 serão	 essas	 idéias	 a	 principal	 base	 sobre	 a	 qual	 as	 mudanças	 propostas	 encontrarão	 suas
diretrizes	 e	 sua	 justificativa.	 Sobre	 o	 taylorismo	 e	 já	 apontando	 suas	 articulações	 com	 a	 Psicologia,
afirma	Lourenço	Filho27:
“A	racionalização	do	 trabalho,	 iniciada	com	Taylor,	 passa	a	apresentar	assim	novos	aspectos
(...)	A	phisiologia	e	a	psychologia	foram	chamadas	a	cooperar	na	organização	das	fábricas,	para
maior	 efficiencia	 economica	 e	 melhoria	 das	 condições	 do	 trabalho	 operario	 (...)	 Por	 ella	 se
accentúa,	cada	vez	mais,	a	convicção	de	que,	para	produzir	muito	e	barato,	não	basta	o	apuro
technico	 do	 machinario,	 o	 aproveitamento	 dos	 residuos	 e	 a	 divisão	 das	 tarefas.	 É	 preciso	 a
adaptação	psychologica	do	 trabalho	ao	homem,	e	a	adaptação	do	motor	humano	ao	 trabalho”
(1929,	p.	13).
Vê-se,	 pois,	 que	 a	 ciência	 é	 concebida	 como	 neutra	 e	 o	 conhecimento	 por	 ela	 produzido
inquestionável	na	sua	autoridade;	assim,	a	utilização	da	ciência	na	administração	industrial	justifica-se	e
é	 legitimada.	Ciência,	 técnica	e	progresso	 tornam-se	o	 tripé	sobre	o	qual	se	sustentam	as	novas	 idéias
sobre	 a	 gestão	 da	 força	 de	 trabalho.	 Em	 nome	 do	 progresso	 e	 da	 proteção	 ao	 “bom	 trabalhador”
justificar-se-ia	a	administração	baseada	na	inquestionabilidade	da	ciência,	na	neutralidade	da	técnica	e
na	valorização	da	competência	individual.	Dissolviam-se	assim	os	conflitos	de	interesse	entre	capital	e
trabalho,	com	base	no	argumento	da	autonomia	da	ciência.
Segundo	Antonacci28,	a
“individualização	da	competência”	tinha	como	objetivo	não	apenas	a	produtividade,	mas	ela	era
também	sutil	promotora	da	dissociação	dos	laços	de	solidariedade	de	classe	dos	trabalhadores,
com	 vistas	 ao	 controle	 mais	 efetivo	 sobre	 a	 força	 de	 trabalho.	 Para	 além	 disso,	 fazia-se
necessário	que	esse	controle	 transcendesse	os	 limites	da	própria	 fábrica,	ampliando-se	para	a
vida	do	operário	como	um	 todo,	no	 sentido	de	 se	obter	 indivíduos	 integralmente	adaptados	às
necessidades	 e	 exigências	 da	 disciplina	 imposta	 pelo	 sistema	 fabril	 e	 por	 sua	 ‘acomodação
pacífica’	 a	 ele.	 Para	 Rago,	 ‘a	 leitura	 aparece	 como	 ameaça	 de	 perigo,	 assim	 como	 toda
circulação	 de	 informação,	 discussões	 políticas	 ou	 propaganda,	 porque	 podem	 significar	 uma
tomada	de	consciência	por	parte	do	trabalhador	(...)	A	repressão	ao	álcool,	ao	fumo,	aos	jogos,
às	diversões	e	aos	‘papos’	revela,	por	sua	vez,	a	tentativa	de	negar	o	sentido	conflitual	da	ação
operária,	desqualificada	como	manifestação	 instintiva,	 selvagem,	 descontrolada	 e	 desviante.’”
(1987,	pp.	24	e	25)
Nessa	perspectiva,	parte	do	empresariado	brasileiro	percebeu	a	necessidade	de	institucionalização
desse	 projeto	 de	 modernização	 e	 cientifização	 dos	 processos	 administrativos.	 Esse	 projeto	 estava
intimamente	 ligado	 à	Psicologia,	 fornecedora	 de	 conhecimento	 e	 técnicas	 para	 a	 concretização	de	 tais
fins.
Tiveram	grande	 impacto	 sobre	 esse	 processo	 as	 conferências	 proferidas	 por	Léon	Walther	 sobre
Psicotécnica,	 instrumental	 fundamental	 para	 a	 materialização	 das	 finalidades	 enunciadas	 pela
administração	 científica.	 Sob	 tal	 influência,	 um	 grupo	 de	 interessados	 tomou	 a	 iniciativa	 de	 criar	 um
instituto	que	fornecesse	o	sustentáculo	para	as	 inovações,	assim	definido	por	Lourenço	Filho	(1929,	p.
24),	um	de	seus	membros:
“Cogita,	actualmente,	a	Associação	Commercial	de	São	Paulo	 (...)	de	promover	a	 fundação	de
um	 ‘Instituto	 de	Organização	 Scientifica	 do	Trabalho’,	 com	differentes	 sessões	 de	 sellecção	 e
educação	profissionaes,	de	organisação	psychologica	do	trabalho,	e	de	estudos	de	legislação	e
estatistica	que	a	esses	assumptos	se	prendam.”
Tal	 iniciativa	 não	 se	 concretizou,	 pois,	 segundo	 Antonacci	 (1987),	 a	 crise	 de	 29	 interrompeu,
embora	momentaneamente,	 esse	projeto.	Entretanto,	 sob	a	 liderança	de	Aldo	Mario	de	Azevedo,	outro
grupo	 começou	 a	 se	 formar	 no	 final	 de	 1930,	 com	 a	 finalidade	 de	 criar	 o	 “Instituto	 Paulista	 de
Eficiência”,	que	foi	o	elemento-chave	para	a	fundação	do	Instituto	de	Organização	Racional	do	Trabalho
–	 IDORT,	 posteriormente.	 A	 partir	 do	 IDORT,	 outros	 desdobramentos	 ocorreram,	 tendo	 cada	 qual	 o
desenvolvimento	de	enfoques	específicos,	como	foi	o	caso	das	instituições:	Associação	Brasileira	para
Prevenção	 de	 Acidentes,	 Conselho	 de	 Higiene	 e	 Segurança	 do	 Trabalho,	 Instituto	 de	 Administração,
Fundação	Getúlio	Vargas,	DASP,	SENAI	e	Escola	Livre	de	Sociologia	e	Política.	Todas	essas	instâncias
tiveram,	em	maior	ou	menor	grau,	relações	com	a	Psicologia	e	com	as	práticas	dela	decorrentes.
Nesse	panorama,	a	Psicologia	assumiu,	ao	lado	de	outras	áreas	do	saber,	a	função	de	sustentáculo
científico	 dos	 novos	 métodos	 administrativos.	 Foi	 ela	 de	 importância	 fundamental	 para	 justificar	 e
legitimar	as	novas	medidas	no	plano	teórico	e	subsidiar	as	novas	práticas	com	o	conjunto	de	técnicas	por
ela	 fornecidos.	Nesse	 sentido,	 percebe-se	 que,	 por	 um	 lado,	 são	 criadas	 condições	 favoráveis	 para	 o
desenvolvimento	 da	 Psicologia	 e,	 por	 outro	 lado,	 esta	 ciência,	 ampliando	 seu	 campo	 de	 ação,	 veio
fortalecer	e	referendar	determinadas	práticas	sociais.
A	Psicologia	agiu	essencialmente	sobre	o	“fator	humano”	da	administração	industrial,	sobretudo	na
seleção	de	pessoal	e	orientação	e	instrução	profissionais.	Com	isso,	a	ciência	psicológica	tornou-se	não
apenas	 fundamentação	 teórica,	 mas	 também	 produtora	 de	 técnicas	 auxiliares	 à	 aplicação	 da
administração	científica	e	da	racionalização	do	trabalho.
Vários	elementos	confluíram	para	a	definitiva	sistematização	da	aplicação	da	Psicologia	à	gestão	da
força	 de	 trabalho.	 Nesse	 âmbito	 foi	 especialmente	 importante	 o	 “movimento	 dos	 testes”,	 iniciado	 na
década	de	20,	tendo	como	marco	o	curso	sobre	Psicotécnica,	ministrado	por	Piéron,	na	Escola	Normal	de
São	Paulo.
A	experiência	pioneira	com	a	utilização	de	testes	ocorreu	em	1924,	no	Liceu	de	Artes	e	Ofícios	de
São	Paulo,	sob	a	coordenação	do	engenheiro	suíço	Roberto	Mange,	em	que	pela	primeira	vez	no	Brasil
foram	 utilizados	 testes	 com	 a	 finalidade	 de	 seleção.	A	 isso	 acrescenta-se	 a	 contribuição	 de	Lourenço
Filho,	a	influência	exercida	por	Leon	Walther	e	as	pesquisas	realizadas	no	Laboratório	de	Psicologia	da
Colônia	 de	 Psicopatas	 do	 Engenho	 de	 Dentro	 para	 subsidiar	 a	 seleção	 de	 aviadores	 por	 meio	 da
psicotécnica.
O	provável	primeiro	livro	sobre	testes	no	Brasil,	intitulado	“Tests:	Introdução	ao	estudo	dos	meios
scientificos	de	julgar	a	intelligencia	e	a	applicação	dos	alumnos”,	de	Medeiros	e	Albu​querque,	embora
enfoque	 a	 situação	 educacional,	 cita	 sua	 aplicação	 à	 indústria	 e	 ao	 comércio.	 Sobre	 isso,	 afirma	 o
autor29:
“Na	instrucção,	o	candidato	approvado	ou	reprovado	injustamente	vê	o	seu	futuro	sacrificado.
No	commercio	ou	na	 industria,	o	empregado,	si	é	rejeitado	sem	razão,	soffre	 tambem	o	mesmo
sacrificio;	mas	se	é	admitido	por	uma	opinião	errada,	vai	estragar	material,	desacreditar	a	casa
que	 o	 escolheu,	 fazer	 com	 que	 perca	 clientes	 talvez	 preciosos,	 até	 que	 sua	 incapacidade	 seja
reconhecida	e	se	resolvam	a	despedil-o.”	(1925,	p.	24)
Nesta	e	em	outras	obras	da	época	são	freqüentes	as	referências	às	inovações	norte-americanas	nas
diversas	áreas,	em	que	vão	sendo	demonstradas	as	utilidades	dos	testes,	destacando-se	os	“Army	Mental
Tests”	e	a	Orientação	Profissional.
Os	 “Army	Mental	 Tests”	 foram	 os	 testes	 de	 inteligência	 construídos	 por	 Yoakum	 e	 Yerkes,	 em
tempo	recorde,	para	a	seleção	de	recrutas	para	a	1ª	Guerra	Mundial,	em	1917;	sua	criação	deu	grande
impulso	 ao	desenvolvimento	dos	 testes	 e,	 sobretudo,à	 sua	 aplicação	para	 fins	de	 seleção	de	pessoal.
Isaias	 Alves30	 considera	 que	 esse	 episódio	 foi	 fundamental	 para	 a	 criação	 dos	 testes	 coletivos	 de
inteligência,	abrindo	caminho	para	o	progresso	de	várias	ações,	dentre	as	quais	a	orientação	para	a	“boa
escolha”	das	profissões	e	 a	 “higiênica	aplicação	da	atividade	 industrial”.	Fica	assim	 implícito	que	os
esforços	de	guerra	tiveram	também	influência	sobre	o	desenvolvimento	da	Psicologia,	sobretudo	no	que
diz	respeito	aos	processos	seletivos,	o	que	se	articula	com	a	aplicação	da	Psicologia	à	organização	do
trabalho.
Outra	 questão	 abordada	 e	 também	 relacionada	 ao	 trabalho	 é	 a	 Orientação	 Profissional,	 na	 qual
busca-se	demonstrar	a	lucra-tividade	da	aplicação	da	Psicologia,	principalmente	em	relação	à	idéia	de
se	 encontrar	 “the	 right	 man	 in	 the	 right	 place”,	 pensamento	 tipicamente	 norte-americano	 que	 é,	 a
propósito,	o	modelo	almejado,	como	afirma	Isaias	Alves:
“O	valor	economico	dos	testes	surge	então	sob	nova	luz.	Primeiro	se	vê	a	escolha	appropriada
de	 profissão	 para	 cada	 individuo,	 lucrando	 a	 sociedade	 da	 plena	 expansão	 da	 actividade
pessoal.	E	 este	aspecto	 é	 importantissimo,	porque	os	 calculos	americanos	approximam	de	500
milhões	de	contos	de	reis	a	vantagem	que	teria	a	riqueza	do	pais,	se	todos	os	homens	occupassem
os	logares	para	que	teem	capacidade.
Em	 segundo	 logar,	 tornando-se	 de	 facto	 primeiro	 no	 decorrer	 dos	 annos,	 vem	 a	 orientação
vocacional	dos	rapazes.	Esta	é	a	forte	caracteristica	da	actividade	psychotechnica	dos	Estados
Unidos,	cujas	Universidades	são	laboratorios	de	formar	almas	praticas	e	efficientes.”	(1930,	p.
6)
Surgem,	então,	os	testes	vocacionais,	cuja	principal	finalidade	seria	a	de	orientar	profissionalmente
os	 jovens,	para	que	suas	escolhas	 fossem	compatíveis	com	suas	aptidões,	principalmente	com	vistas	à
maior	eficiência	do	processo	produtivo,	tal	como	afirma	Isaias	Alves:
“Já	 é	muito	 generalizado	 o	 exame	 psychotechnico	 nas	 fabricas,	 bancos,	 casas	 de	 commercio,
emprezas	e	transportes,	enfim	em	todas	as	organizações	economicas,	onde	é	forçoso	não	perder
os	 ordenados	 com	 individuos	 que	 não	 tenham	 capacidade	 para	 exercer	 efficien​temente	 as
funcções.”	(1930,	p.	229)
É	 importante	 lembrar	 que	 as	 obras	 de	 Medeiros	 e	 Albur​querque	 e	 Isaias	 Alves	 relacionam-se
diretamente	 com	 as	 primeiras	 aplicações	 da	 Psicologia	 à	 organização	 do	 trabalho,	 pois	 são	 elas	 co-
responsáveis	pela	introdução	dos	testes	no	país	e	são	estes	os	principais	recursos	técnicos	da	Psicologia
de	que	necessita	a	administração	científica.	Por	outro	lado,	tanto	a	aplicação	da	Psicologia	ao	trabalho
como	a	utilização	dos	testes	nas	escolas	refletem	um	movimento	mais	amplo	da	sociedade	brasileira	em
busca	 da	 racionalização	 dos	 processos	 que	 ocorrem	 em	 várias	 de	 suas	 instâncias.	 A	 racionalização
assume	 o	 dever	 de	 promover	 uma	 maior	 produtividade,	 tem	 um	 claro	 sentido	 econômico	 e,
fundamentalmente,	 representa	a	modernização	almejada	por	setores	da	sociedade,	cuja	aspiração	é,	em
última	 instância,	 inserir	 o	Brasil	 no	 seio	 do	 capitalismo,	 expan​dindo-se	 no	 campo	 da	 industrialização
massiva.	 No	 interior	 desse	 pro​cesso,	 os	 testes	 tiveram	 papel	 privilegiado,	 não	 apenas	 por	 sua
potencialidade	 de	 selecionar	 indivíduos,	 mas	 também	 por	 sua	 função	 intrínseca	 de	 diferenciar
individualidades,	 cujos	 determinantes	 são	 antes	 sociais	 que	 individuais.	 Isso	 é	 demonstrado,	 por
exemplo,	 na	 Orientação	 Profissional	 que,	 de	 certa	 maneira,	 direcionaria	 indivíduos	 para	 diferentes
profissões	pelas	suas	capacidades,	sem	considerar	que	estas	últimas	têm	íntima	relação	com	a	história	de
vida	do	sujeito	e	aca​baria,	por	seu	turno,	endossando	determinações	estabelecidas	pela	origem	de	classe
e	não	por	características	inerentes	ao	indivíduo.
É	 interessante	 notar,	 a	 respeito	 da	 questão	 da	 racionalização,	 que	 são	 análogas	 as	 propostas	 de
reorganização	escolar	e	de	administração	científica	da	indústria	e	do	comércio,	ambas	buscando	métodos
e	 processos,	 ao	 mesmo	 tempo	 de	 seleção	 e	 de	 avaliação,	 por	 meio	 de	 técnicas	 que	 se	 pretendiam
objetivas	 e	 isentas	 de	 valoração	 subjetiva,	 prendendo-se	 à	 mensuração	 e	 à	 quantificação.	 Os	 testes
trazem	exatamente	a	argumentação	de	sua	“inequívoca	objetividade”,	o	que	vem	referendar	a	noção	de
“neutralidade”	que	caracterizaria	a	 técnica	derivada	do	conhecimento	científico.	Assim,	propondo-se	a
medir	objetivamente	conhecimento,	inteligência,	aptidão	e	caráter,	em	verdade	os	testes	acabaram	por	ter
a	 função	de	segregar	elementos	 indesejáveis	aos	 interesses	dos	detentores	do	poder	econômico.	Sobre
isso,	Antonacci	afirma:
“Propondo	 dispor	 cada	 operário	 na	 tarefa	 onde	 se	 mostrasse	 mais	 produtivo	 e	 onde	 fossem
reduzidas	as	insatisfações,	o	absenteísmo,	a	negligência,	a	rotatividade,	o	‘freio’	e	as	inúmeras
hostilidades	aos	novos	ritmos,	natureza	e	condições	de	trabalho,	os	princípios	e	instrumentos	da
Fisiologia	e	da	Psicologia	Industrial	secundaram	os	objetivos	do	taylorismo.	E	mais,	produzindo
tão	 somente	 trabalhadores	 para	 o	 novo	 tipo	 de	 trabalho,	 discriminaram	 e	 segregaram	 os
‘inapro​veitáveis’,	ou	seja,	aqueles	que	não	se	enquadram	social,	política	e	moralmente	às	novas
normas	e	padrões	de	produção.”	(1987,	p.	69)
Outra	característica	importante	das	obras	sobre	testes	é	uma	certa	ingenuidade	de	que	vem	revestida
a	tentativa	de	demonstração	da	aplicabilidade	destes	às	questões	relativas	ao	trabalho.	A	leitura	de	tais
obras	sugere	que	seus	autores,	imbuídos	puramente	do	“espírito	científico”,	procuravam	mostrar	como	a
ciência	e	suas	técnicas	comportavam	inúmeras	e	relevantes	aplicações,	sem	que	houvesse	um	exercício
mais	 profundo	 de	 reflexão	 a	 propósito	 dos	 interesses	 e	 das	 conseqüências	 de	 sua	 utilização.	 Pode-se
supor	que	o	pioneirismo	dessas	obras,	ao	abordarem	assunto	tão	novo,	seja	responsável	por	esse	limite
reflexivo.	Por	outro	lado,	o	fato	de	se	tratar	de	questões	de	natureza	técnico-científica,	numa	perspectiva
em	que	a	ciência	era	considerada	neutra,	isentava	por	si	só	a	necessidade	de	reflexões	de	caráter	ético-
social,	uma	vez	que	tudo	deveria	fundamentar-se	na	autoridade	da	ciência.
Pode-se,	pois,	afirmar	terem	tido	os	testes	ou,	mais	amplamente,	a	Psicotécnica,	papel	fundamental
no	 grande	 projeto	 de	 modernização	 do	 processo	 produtivo	 brasileiro,	 como	 instrumental	 técnico	 que
serviu	com	propriedade	às	finalidades	estabelecidas	para	o	conjunto	de	medidas	do	qual	faziam	parte,
articulado	aos	interesses	daqueles	que	dele	fizeram	uso.
Do	 ponto	 de	 vista	 prático,	 como	 já	 referido	 anteriormente,	 a	 experiência	 pioneira	 de	 aplicação
sistemática	da	Psicologia	ao	trabalho	ocorreu	em	1924,	no	Liceu	de	Artes	e	Ofícios	de	São	Paulo,	sob	a
direção	 de	Roberto	Mange.	Consistiu	 ela	 na	 seleção	 de	 alunos	 para	 o	Curso	 de	Mecânica	 Prática	 da
escola	citada,	por	meio	da	aplicação	das	“provas	de	Giese”	e	da	introdução	da	aprendizagem	racional,
com	base	nos	pressupostos	da	Psicotécnica.	Nas	palavras	de	Mange31,	a	instrução	racional	consiste	em:
“(...)	 conseguir	 o	máximo	 rendimento	 do	menor	 tempo	 possível	 e	 com	 o	mínimo	 dispêndio	 de
energia	e	de	dinheiro.	Mas,	será	isso	realizável	perfeitamente	com	material	humano	de	qualquer
natureza,	 bastando	 que	 os	 indivíduos	 tenham	 uma	 base	 de	 conhecimentos	 fundamentais
indispensáveis	e	que	não	haja	sintomas	aberrantes	contra-indicados?	(...)	Devemos,	antes,	exigir
compulsoriamente,	 senão	 um	 acentuado	 grau	 de	 aptidão,	 ao	 menos	 um	 mínimo	 indispensável
aliado	a	marcado	poder	de	educabilidade.
Estende	assim	a	instrução	racional	suas	exigências	ao	período	pré-vocacional.	Aí	é	que	poderá
avaliar	 das	 tendência	 e	 julgar	 das	 aptidões,	 seja	 por	 simples	 observação,	 sejapor	 seleção
profissional	pela	psicotécnica,	o	que	é	sempre	mais	rápido.	Se	selecionamos	matérias	primas	na
indústria,	sementes	e	plantas	na	agricultura,	espécimes	animais	na	pecuária,	sempre	para	obter
progresso	evolutivo	eficiente,	não	é	de	estranhar	que	o	material	humano	–	que	 também	não	se
presta	 de	 igual	 modo	 para	 determinado	 fim	 –	 tenha	 de	 ser	 selecionado.	 Aliás,	 o	 homem	 não
escapa	às	leis	genéticas	e	biológicas,	e	como	tal	é	que	a	psicologia	aplicada	lhe	segue	os	passos.
O	processo	de	seleção	profissional	é	bastante	complexo.	Se,	de	um	lado,	aptidões	profissionais
constituem	indícios	de	alto	valor	para	o	êxito	na	profissão,	não	menos	importante	será	levar-se
na	devida	consideração	um	exame	psico-fisiológico,	o	poder	de	adaptação	ao	meio,	as	condições
sociais,	as	tendências	caracterológicas,	enfim	–	o	conjunto	da	personalidade”	(Mange,	1935).
Essa	longa	citação	bem	demonstra	como	a	Psicologia	e	as	técnicas	dela	derivadas	são	incorporadas
pelos	interesses	industriais.	Explicita-se	aí	o	modo	como	a	ciência	psicológica	deve	servir	à	causa	da
eficiência	 industrial,	 selecionando	 os	 sujeitos	 adequados	 aos	 resultados	 esperados,	 considerando-os
como	 “material	 humano”,	 à	 semelhança	 dos	 demais	 “materiais”	 usados	 pela	 indústria,	 agricultura	 e
pecuária.	Mais	que	isso,	esse	 trecho	mostra	uma	abordagem	mais	complexa	da	Psicologia,	em	que	não
somente	a	aptidão,	mas	a	personalidade	como	um	 todo	deve	 ser	 considerada	para	que	 sejam	atingidas
plenamente	as	finalidades	impostas	pelo	processo	produtivo.
A	 essa	 experiência	 muitas	 outras	 se	 seguiram,	 na	 mesma	 direção	 e	 com	 participação,	 direta	 ou
indireta,	de	Roberto	Mange;	destas	devem-se	destacar	as	relativas	às	empresas	ferroviárias	que	foram,
sem	dúvida,	um	dos	principais	alicerces	da	Psicologia	aplicada	ao	trabalho	no	Brasil.
Em	 1930,	 foi	 criado	 o	 “Curso	 de	 Ferroviários	 de	 Sorocaba”	 e	 o	 “Serviço	 de	 Ensino	 e	 Seleção
Profissional”	 da	 Estrada	 de	 Ferro	 Sorocabana,	 sendo	 esta	 uma	 das	 principais	 bases	 sobre	 a	 qual
ampliou-se	esse	tipo	de	serviço	para	o	conjunto	das	estradas	de	ferro	de	São	Paulo,	consubstanciado	no
Centro	 Ferroviário	 de	 Ensino	 e	 Seleção	 Profissional	 –	 CFESP,	 em	 1934,	 para	 cuja	 criação	 teve
fundamental	 colaboração	 o	 IDORT.	Deve-se	 acrescentar	 que	 essa	 instituição	 teve	 grande	 importância,
não	somente	para	as	empresas	ferroviárias,	mas	foi	ela	um	centro	irradiador	da	Psicologia	Industrial	em
todas	as	direções.
A	essas	experiências	devem	ser	somadas	as	pesquisas	e	processos	de	seleção	de	aviadores	para	a
Aviação	Militar,	 realizadas	 pelo	 Laboratório	 de	 Psicologia	 da	Colônia	 de	 Psicopatas	 do	 Engenho	 de
Dentro	em	conjunto	com	os	Ministérios	da	Guerra	e	da	Justiça,	com	a	participação	de	médicos	militares
e	a	coordenação	de	Waclaw	Radecki.
Foram	 estas	 as	 principais	 experiências	 que	 deram	 início	 à	 aplicação	 da	 Psicologia	 às	 questões
relativas	ao	trabalho	que,	a	partir	de	1930,	teve	um	progresso	acelerado,	expandindo-se	para	um	grande
número	de	empresas,	incrementando	seu	potencial	técnico	e	inserindo-se	definitivamente	como	um	campo
aplicado	da	ciência	psicológica	no	Brasil.	Após	a	experiência	do	Liceu	de	Artes	e	Ofícios	de	São	Paulo,
seguida	pelo	Centro	Ferroviário	e	pelo	IDORT,	merecem	destaque	os	trabalhos	realizados	nas	décadas
de	 30	 e	 40	 nas	 seguintes	 organizações:	 SENAI,	 SENAC,	CMTC,	Estrada	 de	Ferro	Central	 do	Brasil,
ISOP-FGV,	Instituto	de	Administração	da	Faculdade	de	Ciências	Econômicas	e	Administrativas	da	USP,
dentre	as	mais	importantes.
Percebe-se	aqui	que	a	Psicologia	não	se	desenvolveu	no	interior	de	outra	área	de	saber,	mas	penetra
ela	 já	 na	 condição	 de	 ciência	 autônoma	 para	 colaborar	 num	 projeto	 amplo,	 para	 o	 qual	 convergem
diversas	áreas	de	conhecimento.	Nesse	processo,	a	Psicologia	ganhou	impulso	para	seu	desenvolvimento
e,	principalmente,	para	definir	com	clareza	seu	campo	de	ação	profissional.
26	RAGO,	L.	M.	Do	cabaré	ao	lar:	a	utopia	da	cidade	disciplinar	-	Brasil:	1890-1930.	Rio	de	Janeiro,	Paz	e	Terra,	1987.
27	LOURENÇO	FILHO,	M.	B.	 Prefácio,	 in:	WALTHER,	L.	Techno-Psychologia	 do	 Trabalho	 Industrial.	 São	 Paulo,	Melhoramentos,
1929.
28	ANTONACCI,	M.	A.	M.	Institucionalizar	ciência	e	 tecnologia	-	em	torno	da	fundação	do	IDORT	(São	Paulo,	1918-1931).	 São
Paulo,	Rev.	Brasileira	de	História,	v.	7,	nº	14,	pp.	59/78,	mar-ago,	1987.
29	MEDEIROS	E	ALBUQUERQUE.	Tests.	4ª	ed.,	Rio	de	Janeiro,	Liv.	Francisco	Alves,	1925.
30	 ALVES,	 I.	 Os	 testes	 e	 a	 reorganização	 escolar.	 Bahia,	 A	 Nova	 Graphia,	 1930.	 Ver	 também:	 ALVES,	 I.	 Teste	 individual	 de
intelligencia,	2ª	ed.,	Bahia,	Officinas	Graphicas	da	Luva,	1928.
31	MANGE,	R.	Tese	apresentada	ao	1º	Congresso	de	Engenharia	e	Legislação	Ferroviárias	em	Campinas.	São	Paulo,	CFFSP,	1935.
Sobre	esse	laboratório,	ver:	PENNA,	A.	G.	Sobre	a	produção	científica	do	Laboratório	de	Psicologia	da	Colônia	de	Psicopatas,	no	Engenho	de
Dentro,	in:	História	da	Psicologia,	nº	1,	Rio	de	Janeiro,	FGV,	1985.
Parte	III
A
Conclusão
penetração	da	Psicologia	como	ciência	autônoma	no	âmbito	da	cultura	brasileira	deve	ser	vista	sob
o	 ângulo	 de	 suas	 determinações	 locais	 e	 de	 seu	 desenvolvimento	 em	 termos	 gerais.	 Essas	 duas
dimensões	constituem-se	em	instâncias	que,	juntas,	geraram	as	condições	para	que	tal	fato	ocorresse	no
Brasil.
Do	 ponto	 de	 vista	 das	 determinações	 locais,	 foram	 elas	 demonstradas	 ao	 longo	 deste	 livro,
particularmente	 pelos	 fatos	 deno​tativos	 da	 existência	 de	 pensamento	 psicológico	 no	 país,	 suas
características	e	as	condições	nas	quais	deu-se	tal	produção.
Viu-se,	 pois,	 que	 desde	 os	 tempos	 da	 colônia	 há	 preocupação	 com	 o	 fenômenos	 psicológicos,
revelada	pelos	conteúdos	de	obras	oriundas	de	diversas	áreas	do	saber,	 tais	como	Teologia,	Filosofia
Moral,	Pedagogia	ou	Medicina.	Nessas	obras,	vários	assuntos	relativos	aos	fenômenos	psicológicos	são
tratados,	assim	como	o	são	as	possibilidades	de	sua	utilização	para	fins	práticos.	Os	conteúdos	de	várias
dessas	obras	revelam	grande	originalidade,	não	apenas	pelos	conteúdos	abordados	—	muitos	dos	quais
até	 hoje	 tratados	 pela	 Psicologia	 —	 como	 pelas	 concepções	 sobre	 vários	 fenômenos,	 às	 vezes
prenunciando	 idéias	 que	 só	 mais	 tarde	 viriam	 a	 ser	 plenamente	 desenvolvidas	 pela	 Psicologia.	 É
necessário	 também	 reiterar	 que	 muitas	 das	 preocupações	 articulam-se	 explicitamente	 aos	 interesses
metropolitanos,	 revelando-se	 como	 instrumentos	 de	 controle	 sobre	 a	 população	 colonial,	 o	 que	 se
evidencia	 com	 particular	 clareza	 nos	 escritos	 sobre	 o	 processo	 de	 aculturação	 de	 indígenas,	 dentre
outros.	 Não	 se	 pode,	 porém,	 ver	 a	 sociedade	 colonial	 e	 sua	 produção	 psicológica	 como	 um	 bloco
homogêneo,	isento	de	conflitos	e	contradições,	pois	algumas	manifestações,	como	a	defesa	da	instrução
feminina,	traziam	não	apenas	interessantes	concepções	sobre	a	mulher,	como	trouxeram	também,	a	alguns
pensadores	da	época,	problemas	com	a	Santa	Inquisição.
Em	síntese,	pode-se	dizer	que	a	produção	psicológica	do	período	colonial	refletia	as	condições	da
sociedade	na	qual	se	inseria,	não	apenas	por	incorporar	seu	pensamento	dominante,	como	também	seus
conflitos.	Sobre	o	pensamento	psicológico	propriamente	dito,	sua	principal	característica	é	ser	tratado	no
interior	de	outras	áreas	do	saber,	não	se	vinculando	explicitamente	a	instituições	específicas,	como	viria
a	ocorrer	no	período	subseqüente.
Essa	 tendência	 prolonga-se	 no	 século	 XIX,	 principalmente	 nas	 obras	 filosóficas	 e	 teológicas
utilizadas	 nos	 seminários	 e	 nas	 escolas	 secundárias.	 Entretanto,	 nesse	 período,	 novos	 matizes	 são
adquiridos	 pela	 produção	 de	 pensamento	 psicológico,	 caracterizado	 pelo	 aumento	 quantitativo	 e
qualitativo	dessa	produção	e,	essencialmente,	por	suagradativa	vinculação	a	instituições	criadas	a	partir
de	1808,	com	a	vinda	da	Corte	portuguesa	para	o	Brasil	e	ao	longo	do	Im​pério.
Das	instituições	acima	citadas,	 tiveram	grande	importância	as	Faculdades	de	Medicina	do	Rio	de
Janeiro	e	da	Bahia.	Nessas	escolas,	sobressaem-se	especialmente	as	teses	de	doutoramento,	muitas	das
quais	 abordando	 assuntos	 de	 interesse	 psicológico	 e	 consistindo	 em	 importantes	 fontes	 de	 produção
sobre	fenômenos	psíquicos	no	século	XIX.
Além	das	Faculdades	de	Medicina	e	a	elas	relacionadas,	surgiram	os	hospícios.	A	criação	dessas
instituições	 começou	 a	 ser	 reivindicada	 por	 volta	 de	 1930,	 principalmente	 pelos	 médicos	 ligados	 à
Sociedade	 de	Medicina	 e	Cirurgia	 do	Rio	 de	 Janeiro	 e	 da	 Faculdade	 de	Medicina	 da	mesma	 cidade.
Ocorreu	 essa	 reivindicação	 no	 contexto	 do	 desenvolvimento	 do	 processo	 de	 urbanização,	 em	 que	 as
condições	de	salubridade	eram	extremamente	precárias,	ao	mesmo	tempo	em	que	se	impunha,	do	ponto
de	 vista	 do	 interesse	 das	 classes	 dominantes,	 a	 disciplinarização	 e	 o	 controle	 da	 população	 urbana.
Buscava	a	Medicina	o	saneamento	da	cidade,	o	que	significava	limpá-la	das	“sujeiras	e	imundícies”	que
a	 infestavam,	 tanto	 no	 plano	 material	 quanto	 social.	 Nesse	 panorama,	 fazia-se	 necessário	 excluir	 do
convívio	social	o	“louco”,	que	até	então	vivia	errando	pelas	ruas	ou	era	simplesmente	enclausurado	nas
Santas	 Casas	 de	 Misericórdia	 ou	 prisões.	 A	 defesa	 da	 criação	 dos	 hospícios	 fundamentava-se	 na
argumentação	da	necessidade	de	prestação	de	 assistência	médica	 específica	 ao	 “louco”.	Em	1842,	 foi
inaugurado	 no	Rio	 de	 Janeiro	 o	Hospício	 Pedro	 II	 e,	 em	1852,	 em	São	Paulo,	 o	Asilo	 Provisório	 de
Alienados	 da	Cidade	 de	 São	 Paulo.	 Principalmente	 no	Hospício	 Pedro	 II,	 eram	 as	 teorias	 de	 Pinel	 e
Esquirol	 seus	 sustentáculos	 básicos,	 visando	 principalmente	 à	 repressão	 e	 ao	 controle.	 Somente	 com
Nuno	de	Andrade,	em	1881,	no	Pedro	II,	e	Franco	da	Rocha,	em	1896,	no	hospício	paulista,	alienistas
passaram	a	 integrar	os	quadros	de	 tais	 instituições.	A	experiência	dos	hospícios	 trouxe	uma	dimensão
prática	 no	 trato	 com	 o	 fenômeno	 psicológico,	 caracterizada	 essencialmente	 como	 instrumento	 de
intervenção	 social,	 no	 contexto	 de	 uma	 formação	 social	 em	 processo	 de	 incremento	 do	 processo	 de
urbanização	e	palco	para	uma	série	de	conflitos,	em	que	necessidades	fundamentais	para	o	ser	humano
não	 estavam	disponíveis	 para	 a	maioria	 da	população,	 que	vivia	 em	extremo	estado	de	pobreza	 e,	 ao
mesmo	tempo,	a	coexistência	com	uma	classe	dominante	conservadora	e	à	qual	o	pensamento	médico	se
vinculava.
Ao	lado	das	instituições	médicas	havia	também	as	instituições	educacionais,	sobretudo	seminários,
escolas	 secundárias	 e	 escolas	normais,	nas	quais	 eram	 realizados	estudos	 sobre	assuntos	 relacionados
aos	 fenômenos	 psicológicos,	 tratados	 particularmente	 pela	 disciplina	 Filosofia.	Nessa	 disciplina	 eram
abordados	 autores	 como:	 Aristóteles,	 Bacon,	 Leibniz,	 Locke,	 Condillac,	 Cousin,	 Maine	 de	 Biran,
Malebranche,	 Cabanis	 e	 outros.	 Os	 estudos	 psicológicos	 eram	 aí	 tratados,	 em	 geral,	 como	 parte	 da
Metafísica.
Pode-se	dizer	 que,	 em	 resumo,	 houve	nesse	período	um	grande	desenvolvimento	da	preocupação
com	 o	 fenômeno	 psicológico,	 ultrapassando	 mesmo	 a	 dimensão	 quase	 exclusivamente	 teórica	 para
tentativas	de	 intervenção	prática,	devendo-se	a	 isso	somar	o	 fato	de	que	a	vinculação	 institucional	 foi
uma	 ocorrência	 marcante	 na	 direção	 de	 uma	 maior	 sistematização	 no	 trato	 com	 tais	 fenômenos.	 A
articulação	 dessa	 produção,	 sobretudo	 no	 que	 diz	 respeito	 aos	 hospícios,	 com	 a	 intervenção	 social
planejada,	 foi	um	fato	 revelador	da	vinculação	entre	a	produção	de	saber	e	os	 interesses	das	camadas
mais	 privilegiadas	 da	 sociedade.	 Finalmente,	 é	 necessário	 reiterar	 que,	 embora	 tenha	 sido	 grande	 a
produção	 de	 idéias	 psicológicas	 nesse	 período,	 havia	 uma	 explícita	 dependência	 desta	 em	 relação	 às
outras	 áreas	 de	 conhecimento,	 na	medida	 em	 que	 o	 pensamento	 psicológico,	 tal	 como	 na	 colônia,	 era
produzido	no	interior	de	outras	áreas	do	saber.	Por	outro	lado,	embora	dependente,	foi	essa	produção	que
se	constituiu	na	base	sobre	a	qual	foi	possível	a	Psicologia	desenvolver-se	no	período	subseqüente,	tendo
sido	 por	 esse	 meio	 que	 a	 preocupação	 com	 os	 fenômenos	 psicológicos	 obteve	 tal	 grau	 de
desenvolvimento	que	preparou	o	terreno,	a	partir	do	incremento	de	seus	estudos,	para	que	a	Psicologia
conquistasse	 as	 condições	 para	 tornar-se	 autônoma	 e	 com	 um	 grau	 de	 desenvolvimento	 que	 a	 tornava
preparada	para	aqui	ser	incorporada	na	condição	de	ciência,	tal	como	vinha	ocorrendo	na	Europa	e	nos
Estados	Unidos.
A	 partir	 da	 última	 década	 do	 século	 XIX,	 significativas	 mudanças	 vieram	 a	 ocorrer	 no	 cenário
nacional,	sendo	adotado	o	regime	republicano,	aprofundando-se	o	processo	de	urbanização	e	iniciando-
se	 um	 processo,	 mesmo	 que	 precário,	 de	 industrialização,	 num	 país	 que	 dependia	 de	 importações,
sobretudo	 de	 produtos	manufaturados,	 para	 suprir	 suas	 necessidades.	 Isso	 ocorre	 no	 contexto	 de	 uma
efusão	 de	 idéias	 modernizantes	 que	 vão,	 gradati​va​mente,	 tomando	 o	 ideário	 nacional.	 Nesse	 cenário,
grandes	transformações	vieram	a	ocorrer	também	no	âmbito	das	idéias	psicológicas,	que	lançam	as	bases
para	que	possamos	nos	referir	à	Psicologia	como	ciência	autônoma.
A	Medicina	continuou	sendo	um	espaço	dentro	do	qual	a	preocupação	com	o	fenômeno	psicológico
continuou	a	existir;	porém,	nesse	momento,	iniciou-se	o	processo	de	delimitação	mais	explícito	entre	os
conteúdos	pertinentes	mais	propriamente	a	uma	área	e	outra	do	saber.	Esse	fato	pode	ser	percebido	nas
teses	de	doutora-mento	das	Faculdades	de	Medicina	que	continuaram	a	tratar	de	fenômenos	psicológicos,
adotando	 porém	 um	 prisma	mais	 característico	 da	 ciência	 psicológica	 e	 não	mais	 de	 forma	 genérica,
transitando	entre	aquilo	que	viria	mais	tarde	constituir-se	em	Psiquiatria	ou	Psicologia.	Nesse	momento,
são	defendidas	teses	que	podem	ser	consideradas	como	obras	de	Psicologia.	Também	os	hospícios	vêm
demonstrar	processo	semelhante,	continuando	com	a	preocupação	com	os	fenômenos	psicológicos,	porém
de	maneira	 diferenciada	 do	que	havia	 até	 então	ocorrido;	 em	outras	 palavras,	 pode-se	 afirmar	 que	 os
hospícios	vêm,	eles	próprios,	reconhecer	a	autonomia	da	Psicologia	em	relação	à	Medicina,	uma	vez	que
vários	deles	criaram	laboratórios	de	Psicologia	como	instâncias	auxiliares	ao	trabalho	médico;	ora,	tal
posicionamento	demonstra	com	clareza	o	 reconhecimento	da	autonomia	entre	as	duas	áreas,	 ao	mesmo
tempo	que	admite	as	relações	que	se	estabelecem	entre	elas.
Vale	a	pena	destacar	aqui	o	trabalho	de	Ulysses	Pernam​bu​cano,	que	produziu	extensa	obra	na	área
propriamente	psiquiátrica,	porém	concebendo	a	“loucura”	sob	um	ponto	de	vista	mais	psicológico	que
médico,	além	de	 ter	sido	ele	o	pioneiro	no	projeto	de	educação	para	crianças	com	deficiência	mental,
produtor	de	pesquisas	psicológicas	e	formador	de	muitos	pesquisadores	nessa	área.
Já	 era	 possível	 nesse	 momento	 ver	 um	 processo	 de	 delimitação	 entre	 Psicologia	 e	 Psiquiatria,
evidenciado	 por	 fatores	 como:	 (1)	 uma	 nítida	 diferenciação	 entre	 os	 autores	 tratados	 por	 uma	 e	 outra
áreas	de	conhecimento,	como	por	exemplo,	Wundt	e	William	James	de	um	lado	e	Kraepelin	de	outro;	(2)
a	 preocupação	 com	 fenômenos	 psicológicos	 propriamente	 ditos	 e	 não	 apenas	 com	 alguns	 fenômenos
relacionados	à	psicopatologia	e	por	esse	prisma	 tratados;	 (3)	 a	 caracterização	de	 alguns	profissionais
como	 produtores	 de	 conhecimento	 psicológico	 e	 aplicadores	 da	 Psicologia	 em	 diversos	 campos	 de
atuação,	 os	 quais	 já	 aparecem	 descaracterizados	 daquiloque	 se	 considera	 como	 especificamente
Psiquiatria.
Deve	 ser	 também	 lembrado	 que	 a	 produção	 de	 conhecimento	 no	 interior	 da	 Medicina	 esteve
bastante	ligada	à	intervenção	social,	mantendo	a	função	de	disciplinarização	e	controle	da	massa	urbana,
tal	 como	 ocorria	 no	 século	 anterior,	 tendo	 porém	 seu	 substrato	 mais	 na	 Psiquiatria	 alemã	 do	 que	 na
francesa,	 sofisticando-se,	 portanto,	 e	 colocando-se	 a	 par	 com	 o	 que	 se	 realizava	 particularmente	 na
Alemanha,	 e	 que	 viria	 a	 ser	 a	 base	 para	 a	 Psiquiatria	 nazista.	 Aqui,	 esse	 pensamento	 articulava-se
diretamente	 às	 ações	 racistas,	 em	 especial	 as	 dirigidas	 aos	 negros,	 com	 vistas	 ao	 embranquecimento
racial	 do	 povo	 brasileiro.	 Nesse	 ponto,	 Psicologia	 e	 Psiquiatria	 já	 estão	 claramente	 divorciadas	 em
termos	 teóricos	 e	 de	 atuação	 prática,	 na	 medida	 em	 que	 tal	 posição	 é	 explicitamente	 assumida	 pela
Psiquiatria,	que	 incorpora	 e	defende	 tais	 idéias.	A	Psicologia,	no	entanto,	não	entra	diretamente	nessa
questão,	 embora	 venha	 tangencialmente	 a	 contribuir	 com	 ela,	 principalmente	 por	meio	 dos	 testes	 que,
como	“técnicas	científicas”	e	portanto	“neutras”,	não	assumiam	o	posicionamento	 racista,	embora	para
ele	 contribuíssem,	 na	 medida	 em	 que,	 procurando	medir	 diferenças	 individuais,	 acabavam	 por	 medir
diferenças	 sociais,	 sendo	 que	 a	 questão	 racial	 era	 antes	 social	 que	 biológica.	 Percebe-se,	 pois,	 que
ambas	as	áreas	já	se	encontram	delimitadas,	assumindo-se	a	existência	de	relação	entre	elas,	não	apenas
do	ponto	de	vista	formal,	mas	principalmente	na	integração	que	se	torna	possível	a	partir	de	um	projeto
comum	de	intervenção	social,	ainda	que	não	claramente	explicitado.
O	 pensamento	 educacional,	 por	 sua	 vez,	 traçou	 um	 caminho	 diferente	 daquele	 do	 pensamento
médico-psiquiátrico,	embora	coincidissem	num	ponto:	a	tentativa	de	empreendimento	de	 transfor​mações
na	sociedade	brasileira	—	com	base	em	diferentes	propostas	—	em	direção	a	uma	maior	efetividade	no
controle	 das	 massas	 urbanas,	 “locus”	 de	 agitação	 e	 desordem	 e,	 concomitantemente,	 em	 direção	 à
formação	de	um	“novo	homem”	para	a	nova	 sociedade.	Entretanto,	o	meio	escolhido	pelo	pensamento
educacional	acabou	por	firmar-se,	obtendo	a	hegemonia	no	pensamento	brasileiro,	tomando	o	lugar	que
até	então	pertencia	à	Medicina,	qual	seja,	o	de	instrumento	mais	importante	no	controle	e	moldagem	do
povo	 brasileiro,	 pelo	 menos	 teoricamente.	 A	 Medicina,	 insistindo	 em	 algo	 que	 fazia	 parte	 de	 sua
tradição,	permaneceu	no	plano	do	pensamento	autoritário,	chegando	mesmo,	alguns	anos	depois,	por	seus
higienistas,	a	aplaudir	medidas	tomadas	por	Hitler	no	que	diz	respeito	à	Higiene	Mental,	reivindicando
sua	 adoção	 no	Brasil.	Contudo,	 o	Brasil	 vinha	 sofrendo	 transformações	 profundas,	 de	maneira	 que	 se
fazia	necessário	que	os	meios	de	ação	controladora	se	fizessem	adequados	aos	novos	tempos,	nos	quais
“modernização”	era	a	palavra	de	ordem.	Nesse	contexto,	o	auto​ritarismo	explícito	teria	que	ceder	lugar
ao	 exercício	 sutil	 de	 poder	 e,	 de	 certa	maneira,	 consentido.	 É	 nesse	 panorama	 que	 o	 ideário	 liberal,
novamente	em	afluxo	no	pensamento	brasileiro,	introduziu-se	por	meio	do	discurso	baseado	na	liberdade
e	na	democracia	que,	juntamente	com	o	desenvolvimento	econômico	com	base	na	industrialização,	viriam
a	significar	a	entrada	do	país	na	“modernidade”.
Assim,	 o	 pensamento	 educacional,	 incorporando	 o	 escola​novismo,	 veio	 a	 tornar-se	 um	 dos
instrumentos	para	esse	projeto	mais	amplo	de	 fazer	o	Brasil	 ingressar,	 ainda	que	depen​den​temente,	no
mundo	industrializado.	A	propósito,	mudaram	os	argumentos	e	os	meios,	mas	a	relação	de	dominação	se
manteve	 e	 as	 camadas	 populares	 permaneceram	 sob	 o	 jugo	 de	 grupos	 dominantes,	 reforçados	 por
elementos	 emergentes	 da	 burguesia	 industrial,	 mais	 sofisticados	 nas	 suas	 ações	 e	 em	 seus
empreendimentos.
No	 contexto	 da	 ascensão	 do	 pensamento	 escolanovista,	 a	 Psicologia	 ganhou	 forte	 incentivo	 para
desenvolver-se,	 na	 medida	 em	 que	 tal	 tendência,	 ao	 colocar	 no	 indivíduo	 seu	 núcleo	 central	 de
preocupação	e	ação,	ao	mesmo	tempo	que	reivindicava	sua	cien​tificização,	encontrou	nessa	ciência	um
de	seus	mais	importantes	pilares	de	sustentação.
Vê-se	assim	como	o	desenvolvimento	de	uma	dada	concepção	educacional,	articulada	a	um	projeto
social	maior,	necessitou	do	desenvolvimento	de	uma	determinada	ciência	 (dentre	outras)	e	vice-versa;
escolanovismo	e	Psicologia	foram,	portanto,	fatores	mutuamente	determinantes.	Isso	é	demonstrado	pelo
fato	 de	 que,	 a	 partir	 das	 décadas	 iniciais	 do	 século	 XX,	 a	 Educação	 tornou-se	 um	 dos	 principais
substratos	para	o	desenvolvimento	da	Psicologia	em	termos	teóricos,	práticos	e	de	formação	profissional
no	 Brasil.	 Não	 é	 por	 acaso	 que	 os	 laboratórios	 criados	 nas	 instâncias	 educacionais,	 a	 disciplina
Psicologia	nas	Escolas	Normais	ou	outras	instituições	formadoras	de	educadores	e	as	obras	pedagógicas
foram	os	mais	importantes	núcleos	de	difusão	e	desenvolvimento	da	Psicologia	considerada	científica.
Neste	ponto	é	necessário	diferenciar	a	maneira	como	a	Psicologia	conquistou	sua	autonomia	a	partir
da	Medicina	e	a	partir	da	Educação,	pois	tal	processo	deu-se	de	maneira	diversa	nessas	duas	áreas	de
conhecimento.
Em	 relação	 ao	 pensamento	 médico-psiquiátrico,	 viu-se	 que,	 gradativamente,	 no	 decorrer	 das
décadas	iniciais	do	século	XX,	a	Psicologia	foi	se	definindo	e	se	delimitando,	embora	mantendo	com	ele
um	expresso	intercâmbio.	Todavia,	aos	poucos	ambas	as	áreas	de	conhecimento	foram	se	distanciando,
chegando	mesmo	a	uma	relação	de	oposição,	em	muitos	aspectos	manifestada	até	hoje,	cujos	fundamentos
situam-se	na	diversidade	dos	modelos	teóricos	adotados,	dos	quais	decorrem	práticas	diferenciadas;	isso
se	demonstra	principalmente	pelo	fato	de	que,	a	partir	da	década	de	30,	a	Psicologia	e	seus	especialistas
estiveram	ausentes	das	 instituições	psiquiátricas,	 sendo	que	 só	muito	 recentemente	 o	 psicólogo	 tem	 se
inserido	 nessas	 instituições	 para	 o	 exercício	 de	 atividades	 caracteristicamente	 relacionadas	 à	 sua
formação.	 Embora	 não	 caiba	 aqui	 a	 discussão,	 deve-se	 destacar	 que	 hoje	 grupos	 de	 psicólogos	 e
psiquiatras	têm	lutado	juntos	pela	causa	antimanicomial,	o	que	vem	demonstrar	uma	evolução	na	direção
de	 uma	 perspectiva	 em	 que,	 resguardadas	 as	 autonomias	 de	 uma	 e	 outra	 áreas	 do	 saber,	 a	 busca	 de
soluções	 para	 os	 problemas	 enfrentados	 por	 uma	 parcela	 da	 população	 impõe	 uma	 integração	 entre
conhecimentos	 específicos	 e	 profissionais	 diversos,	 a	 partir	 de	 diferentes	 focos	 disciplinares,	 mas
baseada	 numa	 concepção	 comum	 de	 homem	 e	 sociedade	 e,	 a	 partir	 daí,	 de	 uma	 prática	 social
determinada.
A	Pedagogia,	 por	 seu	 turno,	 não	 sendo	uma	 ciência	 específica,	mas	 corpo	de	 conhecimentos	 que
procura	sistematizar	uma	prática	determinada	—	a	Educação	—	e	em	busca	de	cientificidade,	necessitou
recorrer	às	ciências	afins	às	suas	necessidades	para	obter	as	bases	de	que	necessitava,	principalmente
num	 contexto	 em	 que	 crescia	 a	 influência	 do	 pensamento	 escolanovista.	 Foi	 nessa	 perspectiva	 que	 o
pensamento	 pedagógico	 procurou	 criar	 condições	 para	 que	 a	 Psicologia,	 explicitamente	 reconhecida
como	ciência	autônoma,	pudesse	desenvolver-se	no	sentido	de	se	constituir	como	instrumental	técnico	e
conhecimento	 científico	 que,	 junto	 com	 outras	 ciências,	 pudesse	 dar	 as	 bases	 para	 a	 ação	 educativa.
Nesse	quadro,	a	Pedagogia	 tornou-se	o	espaço	privilegiado	para	que	a	Psicologia	se	desenvolvesse	e,
mais	 que	 isso,	 propiciou	 condições	 para	 que	 cada	 vez	mais	 ficasse	 explícita	 sua	 condição	 de	 ciência
autônoma,	ao	mesmo	tempo	em	que	tomou	para	si	parte	do	encargo	de	para	cá	trazer	o	que	seproduzia	no
mundo	 em	 termos	 de	 ciência	 psicológica,	 difundi-la	 e,	 fundamentalmente,	 preparar	 profissionais	 que
pudessem	vir	a	tornar-se	especialistas	nessa	área	de	conhecimento.
Todavia,	é	preciso	também	destacar	que	as	diferenças	que	caracterizaram	esse	período	não	foram
exclusivas,	havendo	exceções	que	devem	ser	consideradas,	principalmente	no	que	diz	respeito	ao	fato	de
muitos	 “especialistas”	 em	 Psicologia,	 nesse	momento	 e	 em	momentos	 ulteriores,	 serem	 originalmente
médicos	 ou	 profissionais	 oriundos	 de	 outras	 áreas;	 entretanto,	 é	 necessário	 considerar	 que	 estes,	 pela
atuação	 que	 tiveram,	 não	 podem	 ser	 considerados	 pelas	 suas	 formações	 originais,	 mas	 pela	 atuação
profissional	que	assumiram.
No	 campo	 da	 Educação,	 a	 Psicologia	 foi,	 pois,	 ciência	 fundamental,	 o	 que	 lhe	 permitiu
desenvolver-se	de	tal	maneira	que,	a	partir	daí	pôde	ela	ampliar-se	para	outros	campos	de	ação,	dentre
os	quais	a	aplicação	às	questões	relativas	ao	trabalho	e	à	psicoterapia.
A	aplicação	da	Psicologia	à	administração	e	gestão	do	trabalho	aparece	de	forma	clara	já	na	década
de	 20	 e	 suas	 raízes	 revelam	 influência	 não	 apenas	 da	 tradição	 médica,	 mas	 fundamentalmente	 da
Educação,	 especialmente	 por	 sua	 articulação	 com	 a	 orientação	 profissional	 e	 sobretudo	 pela
incorporação	da	Psicotécnica,	representada	em	particular	pelos	testes	psicológicos,	cuja	penetração	no
país	 deu-se	 pelas	 portas	 da	 Educação.	 Entretanto,	 à	 parte	 essas	 raízes,	 alguns	 engenheiros	 foram
pioneiros	nesse	campo,	como	Roberto	Mange,	que	também	teve	significativa	ação	educacional.
Nesse	âmbito,	 revela-se	explicitamente	a	questão	anteriormente	discutida,	sobre	a	necessidade	de
mudança	dos	meios	de	controle	da	classe	trabalhadora,	assumindo	a	Psicologia	e	suas	técnicas	a	tarefa
de	 selecionar	 e	 orientar	 profissionalmente	 o	 trabalhador.	 Sua	 finalidade	 incorporou-se	 ao	 ideal	 de
organização	e	 racionalização	do	 trabalho,	 com	vistas	 a	uma	maior	produtividade	que,	 estava	provado,
não	se	poderia	obter	com	a	coerção,	mas	essencialmente	por	formas	sutis	e	sofisticadas	de	controle	sobre
o	comportamento	do	operariado	que	deveria,	para	tal,	ser	adequadamente	selecionado	(“o	homem	certo
para	o	lugar	certo”)	e	cuidadosamente	orien​tado.
A	aplicação	da	Psicologia	ao	processo	produtivo	articulava-se	às	 idéias	modernizantes	 então	em
voga.	 Nesse	 contexto,	 a	 modernização	 das	 relações	 de	 trabalho	 foi	 condição	 fundamental	 para	 esse
processo,	 uma	 vez	 que	 por	 esse	 meio	 buscava-se	 a	 construção	 de	 uma	 indústria	 cuja	 produção	 seria
racionalizada	e	organizada	 segundo	os	princípios	 “científicos”,	baseados	principalmente	nas	 idéias	de
Taylor.
Vê-se,	pois,	que	a	Psicologia	aplicada	à	Educação	e	a	Psicologia	aplicada	às	relações	de	trabalho
constituem-se	 ambas	 em	 campos	 diversos,	 porém	 voltados,	 pelo	 menos	 em	 última	 instância,	 para
objetivos	comuns,	num	mesmo	contexto	histórico.	É	 interessante	notar,	nesse	aspecto,	pelo	menos	dois
pontos	 que	 demonstram	 essa	 aproximação.	 Em	 primeiro	 lugar,	 a	 busca	 da	 organização	 científica	 do
processo	 produtivo	 na	 indústria	 equipara-se	 à	 busca	 de	 uma	 pedagogia	 científica	 para	 a	 escola;	 em
segundo	 lugar,	 um	dos	mais	 destacados	 educadores	 escolanovistas	 e	 destes	 o	mais	 preocupado	 com	a
Psicologia,	Lourenço	Filho,	foi	um	dos	mais	 importantes	contribuidores	para	o	movimento	que	gerou	a
aplicação	da	Psicologia	ao	trabalho.
A	prática	psicoterápica	 aparece	nesse	momento	apenas	 eventualmente	 e	de	maneira	 fragmentária,
sendo	 raras	 as	 alusões	 a	 essa	 prática	 e	 indistinta	 sua	 pertinência	 à	 Psicologia	 ou	 à	 Psiquiatria,	 com
exceção	de	alguns	casos	que	ora	se	afinam	mais	a	uma	ou	outra	área	do	saber.	Sabe-se	que	as	primeiras
manifestações	explícitas	da	Psicologia	Clínica	aparecem	só	mais	 tarde,	com	as	Clínicas	de	Orientação
Infantil	 no	 Rio	 de	 Janeiro	 e	 em	 São	 Paulo,	 dirigidas	 respectivamente	 por	 Arthur	 Ramos	 e	 Durval
Marcondes.	A	 isso	deve-se	acrescentar	que	o	pensamento	de	Freud	foi	pela	primeira	vez	abordado	no
país	em	1914,	na	tese	de	doutoramento	de	Genserico	Aragão	de	Souza	Pinto,	por	Franco	da	Rocha,	na
Faculdade	de	Medicina	de	São	Paulo	e	por	Júlio	Porto	Carrero	em	algumas	obras,	ao	que	se	soma	uma
conferência	 proferida	 por	 Medeiros	 e	 Albuquerque;	 em	 1927	 foi	 fundada	 a	 Sociedade	 Brasileira	 de
Psicanálise,	tendo	esta	curta	duração;	entretanto,	não	há	indícios	de	que,	por	esse	caminho,	tenha	havido
qualquer	 movimento	 em	 direção	 a	 uma	 Psicologia	 de	 natureza	 clínica,	 nessa	 época,	 no	 Brasil.	 Essa
modalidade	 de	 atuação	 do	 psicólogo	 só	 viria	 a	 se	 definir	 algum	 tempo	 depois,	 podendo	 isso	 ser
explicado	pela	natureza,	de	certa	maneira	ambígua,	desse	campo	de	atuação	do	psicólogo,	principalmente
em	função	da	questão	antes	discutida,	sobre	as	fronteiras	entre	Psicologia	e	Psiquiatria.
Nesse	 panorama	geral	 apresentado,	 procurou-se	 expor	 as	 realizações	 que	demonstram	o	 caminho
percorrido	para	que	a	Psicologia	adquirisse	autonomia	em	relação	às	outras	áreas	do	saber	e,	na	medida
do	possível,	procurou-se	 também	demonstrar	 sua	articulação	com	o	movimento	histórico	da	 sociedade
brasileira	de	então.	Entretanto,	embora	esse	cenário	histórico	fosse	o	dominante	e,	em	certo	sentido,	o
projeto	 “historicamente	 vencedor”,	 é	 necessário	 considerar	 que	 a	 sociedade	 brasileira	 não	 era
homogênea	e	comportava	concepções	diferentes	de	mundo	e	de	Brasil,	e	por	essa	via,	pode-se	dizer	que,
no	que	se	refere	às	concepções	de	Psicologia	e	sua	prática,	isso	também	viria	a	ocorrer.	De	fato,	há	pelo
menos	três	produções	específicas	que	podem	ser	situadas	nesse	caso	e	que	se	diferenciam	das	demais;
são	elas	as	contribuições	de	Manoel	Bomfim,	Ulysses	Pernambucano	e	Helena	Antipoff.
Dentre	 uma	 infinidade	 de	 contribuições	 para	 a	 compreensão	 do	 fenômeno	 psicológico	 e	 para	 a
aplicação	 de	 seu	 conhecimento	 às	 necessidades	 da	 população	 brasileira,	 produzidas	 por	 estes	 três
intelectuais,	podem-se	destacar	alguns	elementos	que	ilustram	bem	suas	peculiaridades.
Manoel	Bomfim	concebe	o	fenômeno	psicológico	como	indissociável	do	processo	de	socialização	e
mediatizado	pela	 linguagem,	entendendo	o	psiquismo	como	sendo	determinado	por	 fatores	históricos	e
sociais.	Assume	uma	postura	metodológica	crítica	em	relação	às	restrições	impostas	pela	artificialidade
dos	laboratórios	no	estudo	dos	fenômenos	psicológicos	complexos,	que	não	deveriam	ser	abordados	de
maneira	 isolada,	 mas	 apreendidos	 em	 sua	 totalidade,	 por	 meio	 de	 todas	 as	 formas	 pelas	 quais	 se
manifestam	no	processo	histórico-social.
Ulysses	Pernambucano	concebe	a	“loucura”	como	 fenômeno	existencial,	 além	de	 ter	 sido	um	dos
pioneiros	na	luta	pela	humanização	da	assistência	aos	“doentes	mentais”.	Foi	também	pioneiro	na	criação
de	 instituições	 educacionais	para	 “deficientes	mentais”.	Posicionou-se	 contrariamente	 às	 teses	 racistas
que	proliferavam	na	época,	opondo-se	às	 idéias	de	Nina	Rodrigues.	Suas	posições	o	 levaram	a	sofrer
perseguições	políticas,	inclusive	prisões.
Helena	 Antipoff	 foi	 também	 uma	 grande	 empreendedora	 na	 criação	 de	 instituições	 educacionais
para	 “deficientes	 mentais”,	 assim	 como	 para	 “menores	 abandonados”	 e	 crianças	 das	 zonas	 rurais,
somando-se	a	isso	suas	pesquisas,	dentre	as	quais	algumas	que	concluem	que	a	inteligência	é	determinada
também	pelas	condições	sócio-econômico-culturais.
Essas	 produções	 não	 fazem	 par	 com	 as	 demais	 obras	 do	 período;	 revelam	 uma	 concepção	 de
Psicologia	bastante	diversa	da	de	seus	contemporâneos.	A	principal	característica	das	obras	de	Bomfim,
Pernambucano	e	Antipoff,	resguardando	suas	especificidades,	é	a	compreensão	do	fenômeno	psicológico
como	fenômeno	social	e	a	busca	de	uma	prática	vinculada	às	necessidades	e	interesses	deuma	parcela	da
população	que	não	tinha	acesso	à	assistência	psicológica.	Nesse	sentido,	é	curioso	o	fato	de	que	alguns
dos	 poucos	 trabalhos	 sobre	 a	 História	 da	 Psicologia	 no	 Brasil	 passam	 por	 esses	 três	 pensadores
indistintamente,	colocando-os	num	amplo	rol	de	personagens,	trabalhos	realizados	e	datas,	sem	nenhum
esforço	mais	profundo	de	análise,	que	traga	ao	debate	suas	diferenças	em	relação	ao	que	foi	produzido	no
período;	 exceção	 deve	 ser	 feita	 aos	 trabalhos	 de	 Regina	 Helena	 de	 Freitas	 Campos	 sobre	 Helena
Antipoff	e	aos	artigos	agrupados	na	publicação	referente	ao	Ciclo	de	Estudos	Ulysses	Pernambucano.
Esse	é,	em	síntese,	o	quadro	histórico	hoje	possível	da	Psicologia	no	Brasil,	nesse	período	em	que
por	caminhos	diversos	e	processos	diferentes,	esta	ciência	conquistou	seu	espaço	próprio	como	área	de
conhecimento	e	campo	de	ação,	concomitante	e	diretamente	relacionado	à	penetração	de	teorias,	modelos
de	atuação	e	técnicas	da	Psicologia,	já	na	condição	de	ciência	autônoma	tal	como	concebida	na	Europa	e
nos	 Estados	Unidos.	 Esse	 processo	 foi	 determinado	 por	 fatores	 presentes	 na	 sociedade	 brasileira,	 os
quais	 constituíram-se	 como	 condições	 necessárias	 para	 que	 tal	 desenvolvimento	 pudesse	 ocorrer.
Entretanto,	 esse	 conjunto	 de	 determinantes	 não	 foi	 o	 único,	 nem	 ocorreu	 de	 forma	 isolada,	 pois	 a
evolução	geral	da	Psicologia	na	Europa	e	nos	Estados	Unidos	constituiu-se	como	elemento	fundamental
para	que,	 integrando-se	aos	 fatores	 locais,	pudessem	orgânica	e	conjuntamente	gerar	 as	 condições	que
possibilitaram	à	Psicologia	efetivar-se	como	ciência	e	prática	no	cenário	social	brasileiro.	Procurar-se-
á,	 a	 seguir,	 expor	 sinteticamente	 alguns	 elementos	 sobre	 o	 processo	 constitutivo	 da	 Psicologia	 como
ciência	independente,	no	sentido	de	apontar	alguns	fatores	que	permitam	ampliar	a	compreensão	histórica
da	Psicologia	no	Brasil.
A	 constituição	 da	 Psicologia	 como	 ciência	 autônoma	 deve	 ser	 vista	 sob	 o	 foco	 das	 condições
histórico-sociais	que	permitiram	e,	em	parte,	determinaram	a	ocorrência	de	tal	processo	e	sob	o	foco	do
desenvolvimento	 do	 conhecimento,	 sobretudo	 da	 Filosofia	 e	 da	 Fisiologia,	 que	 deram	 as	 bases
epistemológicas	e	científicas	para	a	Psicologia.
Do	ponto	de	vista	histórico-social,	pode-se	dizer	que	o	século	XIX	constituiu-se	no	momento	em
que	 se	 concretizaram	 as	 transformações	 que	 vinham	 sendo	 gestadas	 desde	 a	 segunda	metade	 da	 Idade
Média	 e	que	 se	 consolidaram	entre	os	 séculos	XVI	 e	XVIII	 na	Europa.	O	elemento	primordial	 dessas
transformações	 foi	 a	 longa	 transição	 de	 uma	 formação	 social	 e	 econômica	 de	 base	 rural	 para	 uma
sociedade	 urbano-industrial,	 em	 que	 o	 senhor	 feudal	 foi	 substituído	 pelo	 burguês	 e	 o	 servo	 pelo
proletário,	os	quais	 vieram	a	 se	 constituir	 como	pertencentes	 às	 classes	 sociais	 fundamentais	 do	novo
bloco	 histórico.	 Nesse	 contexto,	 mudanças	 profundas	 ocorreram	 também	 no	 plano	 da	 produção	 de
conhecimento,	dentre	as	quais	um	acelerado	processo	de	desenvolvimento	científico	e	tecnológico,	assim
como	 sua	 especialização,	 isto	 é,	 a	 constituição	 de	 áreas	 específicas	 de	 conhecimento	 que	 foram	 se
tornando	autônomas	e	independentes	da	Filosofia.
Assim,	no	século	XIX,	o	modo	de	produção	capitalista	já	se	encontra	consolidado	em	alguns	países
europeus	 e,	 em	 contrapartida,	 seu	 proletariado	 já	 alcançou	 suficiente	 maturidade	 para	 adquirir
consciência	de	classe	que,	a	partir	de	suas	condições	materiais	de	existência,	começou	a	compreender	as
intrincadas	 relações	 sociais	 que	 dão	 base	 ao	 capitalismo,	 sua	 inserção	 em	 tais	 relações	 e,	 por
decorrência,	 a	 consciência	 da	 força	 acumulada	 que	 possui	 e	 a	 possibi​lidade	 de	 luta	 coletiva	 pela
transformação	histórica.
Nesse	contexto,	 a	burguesia,	 como	classe	 social	no	poder,	passou	a	necessitar	de	um	cabedal	de
conhecimentos	que	fosse	além	daquele	necessário	para	estruturar	e	organizar	 tecnicamente	a	produção,
mas	conhecimentos	que	lhe	servissem	como	fundamento	teórico	de	legitimação	e	justificação	do	poder	e
instrumental	 para	 sua	manutenção.	 Foi	 nesse	 panorama	 que	 se	 fizeram	 necessários	 conhecimentos	 que
viriam	 a	 dar	 respaldo	 para	 que,	 entendidos	 alguns	 mecanismos	 da	 sociedade,	 se	 tornasse	 possível	 a
predição	e	o	controle	de	determinados	 fenômenos,	além	de	se	conformarem	 também,	no	plano	de	 seus
pressupostos,	com	ideários	de	legitimação	e	justificação	do	poder	burguês	de	dominação;	a	Sociologia
de	Comte	foi	elemento	privilegiado	nesse	cenário.
A	 especialização	 e	 a	 autonomia	 contribuíram	 para	 a	 fragmentação	 do	 conhecimento,	 sobretudo
daquele	 relativo	 ao	homem,	o	que	permitiu	que	 sua	 totalidade	pudesse	 ser	 dissolvida	 em	partes,	 cada
qual	 de	 responsabilidade	 de	 uma	 área	 específica	 do	 conhecimento,	muitas	 das	 quais	 se	 desconheciam
mutuamente,	 embora	 o	 objeto	 global	 de	 estudo	 fosse	 único.	 Concomitantemente,	 e	 não	 por	 acaso,	 tais
fatos	 ocorreram	 junto	 à	 transformação	 da	 base	 econômica	 da	 sociedade	 que	 destruiu	 o	 antigo	modelo
produtivo	 em	que	o	operário	dominava	 a	 totalidade	do	processo	de	 fabricação,	 substituindo-o	por	um
processo	segmentado,	cuja	diretriz	era	a	divisão	social	do	trabalho.	Pode-se	dizer	que	a	divisão	social
do	 trabalho	 e	 a	 divisão	 das	 ciências	 do	 homem	 em	 aspectos	 específicos	 como	 objeto	 de	 estudo,	 não
somente	não	foram	coincidência	e	acaso,	mas	duas	facetas	de	uma	mesma	questão:	as	necessidades	do
desenvolvimento	capitalista.
Disso	decorre	que	a	Psicologia,	como	área	do	conhecimento	que	procura	dar	conta	de	um	conjunto
específico	de	aspectos	do	homem,	situa-se	no	seio	dessa	discussão,	o	que	permite	afirmar	que	os	fatores
acima	expostos	constituíram-se	também	em	determinantes	no	estabelecimento	da	Psicologia	como	ciência
autônoma.
Se	se	considerar,	portanto,	que	o	desenvolvimento	do	capitalismo	contribuiu	com	as	condições	para
que	as	ciências	humanas,	e	dentre	elas	a	Psicologia,	se	desenvolvessem,	não	se	pode,	 todavia,	afirmar
que	tal	fator	tenha	sido	o	único	determinante	desse	processo.	O	desenvolvimento	capitalista	foi	o	terreno
fértil	e	propício	que	deu	o	substrato	para	que	a	Psicologia	se	desenvolvesse	e	pudesse	alçar	à	condição
de	 ciência	 independente.	Entretanto,	 não	 se	 pode	 considerar	 que	 tal	 ocorrência	 tenha	 sido	mecânica	 e
exclusivamente	 determinada	 por	 esse	 fator.	 O	 processo	 de	 constituição	 da	 Psicologia	 foi
multideterminado	e,	dentre	seus	vários	determinantes,	é	preciso	considerar	também	a	preocupação	com
os	 fenômenos	 psicológicos,	 cujas	 raízes	 mais	 antigas	 situam-se	 na	 Antigüidade	 Grega,	 quando	 são
manifestadas	preocupações	 sistemáticas	 com	aquilo	que	hoje	 é	 considerado	como	objeto	de	 estudo	da
ciência	psicológica;	preocupações	estas	que	permearam	os	séculos,	modificando-se	e	desenvolvendo-se,
culminando	 com	 uma	 evolução	 tal	 que	 permitiu	 a	 conquista	 da	 autonomia	 científica	 da	 Psicologia.	 É
necessário,	no	entanto,	esclarecer	que	tais	aspectos	não	são	dicotômicos	e	isolados,	mas	aspectos	que	se
integram	e	se	relacionam	organicamente,	fazendo	todos	parte	de	um	mesmo	e	complexo	movimento.
Constituiu-se	a	Filosofia	não	apenas	como	área	de	conhecimento	que	se	preocupou	com	o	fenômeno
psicológico	ao	longo	dos	séculos,	como	foi	ela	–	por	esse	mesmo	motivo	–	que	gerou	condições	para	um
desenvolvimento	 tal	 dessa	 área	 de	 estudo,	 tornando	 possível	 que,	 integrada	 a	 outras	 áreas	 de
conhecimento	 –	 particularmente	 a	 Fisiologia	 –,	 a	 Psicologia	 pudesse	 constituir-se	 como	 ciência
autônoma.
A	integração	de	múltiplos	determinantes	—	sejam	aqueles	de	natureza	social,	econômica	e	política,
sejam	 aqueles	 de	 âmbito	 filosófico-científico	 –	 compõe	 o	 quadro	 geral	 a	 partir	 do	 qual	 a	 Psicologia
conquistou	o	estatuto	de	ciênciaautônoma.
Esse	processo	 relacionou-se	diretamente	com	o	desenvolvimento	da	Psicologia	no	Brasil.	De	um
lado,	porque	a	evolução	da	Psicologia	em	sua	dimensão	universal	exerceu	influência	sobre	o	pensamento
brasileiro,	nesse	momento	em	intercâmbio	constante	com	o	que	se	produzia	na	Europa	e	um	pouco	mais
tarde	também	com	os	Estados	Unidos.	Por	outro	lado,	e	de	maneira	menos	explícita,	houve	na	Psicologia,
no	Brasil	e	no	resto	do	mundo,	uma	vinculação	com	o	movimento	mais	amplo	da	sociedade,	incorporando
inclusive	suas	contribuições.
Nesse	contexto,	é	possível	dizer	que	o	período	que	vai	da	última	década	do	século	XIX	à	terceira
década	do	século	XX,	no	Brasil,	foi	o	momento	histórico	em	que	a	Psicologia	alcançou	sua	autonomia	em
relação	 às	 outras	 áreas	 de	 conhecimento,	 tornando-se	 reconhecida	 como	 ciência	 independente	 e,
principalmente,	 integrada	 a	 vários	 e	 importantes	 campos	 da	 vida	 social	 brasileira,	 quer	 pela	 sua
produção	teórica,	por	sua	prática	ou	até	mesmo	pelo	fornecimento	de	técnicas	aplicáveis	a	situações	mais
amplas	que	a	própria	Psicologia.	Nesse	momento,	não	apenas	a	Psicologia	se	estabelece	como	ciência
autônoma	no	Brasil,	mas	a	partir	daí	inicia-se	o	processo	de	sua	efetivação	como	profissão,	aparecendo
já	mais	ou	menos	delimitados	aqueles	que	seriam	os	campos	tradicionais	de	atuação	da	Psicologia;	assim
como	foi	nesse	momento	que	foram	lançadas	as	bases	para	as	cátedras	universitárias	de	Psicologia,	que
viriam,	mais	tarde,	constituir-se	como	origem	de	seus	cursos	superiores,	após	a	Lei	nº	4.119,	de	27	de
agosto	de	1962,	que	regulamentou	a	profissão	e	estabeleceu	o	currículo	mínimo	do	curso.
Finalmente,	 deve-se	 reiterar	 que	 este	 trabalho	 constituiu-se	 numa	 tentativa	 de	 compreender	 o
processo	histórico	da	Psicologia	no	Brasil,	porém	de	forma	geral.	A	escassez	de	estudos	nessa	área,	no
entanto,	 exige	 que	 estudos	 sobre	 o	 assunto	 venham	 a	 ser	 estimulados,	 pois	 constata-se	 com	 especial
clareza	a	imensidão	de	elementos,	praticamente	intocados,	que	pedem	sistematização	e	divulgação.	Pelas
características	de	que	 se	 revestiu	o	conteúdo	deste	 livro,	não	 foi	obviamente	possível	dar-se	conta	de
todos	 os	 elementos	 que	 foram	 encontrados,	 sem	 considerar	 que	 há	 ainda	 inúmeras	 fontes	 a	 serem
identificadas,	localizadas	e	estudadas.	Há	para	cada	tópico	tratado	a	possibilidade	de	infindáveis	estudos
e	pesquisas,	quer	pelo	seu	conteúdo,	quer	pela	necessidade	de	aprofundamento,	quer	pela	possibilidade
de	 tratamento	 dos	 dados	 sob	 vários	 enfoques,	 como	 por	 exemplo,	 pelos	 pontos	 de	 vista	 institucional,
profissional,	epistemológico,	sócio-político	etc.	São	imensas	as	possibilidades	para	os	estudos	sobre	a
História	a	Psicologia	no	Brasil	e	começar	a	realizá-los	é	condição	para	que,	junto	com	outros	focos	de
análise,	seja	possível	pensar	a	Psicologia	brasileira	concretamente	e	realizar	sua	história	futura.
APÊNDICE
Cronologia	dos	fatos
mais	significativos	para	a	História	da	Psicologia	no
Brasil	–	1890	/	1930
1890	 A	 Reforma	 Benjamin	 Constant	 transforma	 a	 disciplina	 “Filosofia”	 em	 “Psicologia	 e	 Lógica”	 e
desdobra	a	disciplina	“Pedagogia	em	“Pedagogia	e	Psicologia”.
1890	Criação	do	“Pedagogium”	no	Rio	de	Janeiro,	que	funcionou	até	1897	como	Museu	Pedagógico.
1890	Transformação	do	Hospício	Pedro	II	em	Hospital	Nacional	de	Alienados.
1890	José	Estelita	Tapajós	defende	tese	de	doutoramento	na	Faculdade	de	Medicina	do	Rio	de	Janeiro,
denominada	“Psicofi​siologia	da	percepção	e	das	representações”.
1890	 Veríssimo	 Dias	 de	 Castro	 defende	 tese	 de	 doutoramento	 na	 Faculdade	 de	Medicina	 do	 Rio	 de
Janeiro,	denominada	“Das	emoções”.
1890	Raimundo	Nina	Rodrigues	publica	“Antropologia	Patológica:	os	mestiços”.
1891	Manuel	Pereira	de	Melo	Morais	defende	tese	de	doutoramento	na	Faculdade	de	Medicina	do	Rio	de
Janeiro,	denominada	“Das	emoções”.
1891	 Odilon	 Goulart	 defende	 tese	 de	 doutoramento	 na	 Faculdade	 de	 Medicina	 do	 Rio	 de	 Janeiro,
denominada	“Estudo	psi​coclínico	da	afasia”.
1892	Adolfo	Porchat	Assis	defende	tese	de	doutoramento	na	Faculdade	de	Medicina	do	Rio	de	Janeiro,
denominada	“Das	emoções”.
1893	 Francisco	 Franco	 da	 Rocha	 é	 admitido	 no	 Hospício	 de	 Alienados	 de	 São	 Paulo,	 sendo	 aí	 o
primeiro	alienista.
1894	 Alberto	 Seabra	 defende	 tese	 de	 doutoramento	 na	 Faculdade	 de	 Medicina	 do	 Rio	 de	 Janeiro,
denominada	“A	memória	e	a	personalidade”.
1894	Raimundo	Nina	Rodrigues	publica	“As	raças	humanas	e	a	responsabilidade	penal	no	Brasil”.
1896	Francisco	Franco	da	Rocha	é	nomeado	diretor	clínico	do	Hospício	de	Alienados	de	São	Paulo.
1897	 Júlio	 Afrânio	 Peixoto	 defende	 tese	 de	 doutoramento	 na	 Faculdade	 de	 Medicina	 da	 Bahia,
denominada	“Epilepsia	e	Crime”.
1897	Raimundo	Nina	Rodrigues	publica	“A	loucura	epidêmica	de	Canudos”.
1897	Medeiros	 e	Albuquerque	 é	 nomeado	Diretor	 da	 Instrução	 Pública	 do	Distrito	 Federal	 e	muda	 o
caráter	do	“Pedagogium”	para	“Centro	de	Cultura	Superior	aberto	ao	público”.
1898	Raimundo	Nina	Rodrigues	publica	“Epidémie	de	folie	religieuse	au	Brèsil”.
1898	É	criado	por	Franco	da	Rocha	o	Hospício	do	Juquery.
1899	 Raimundo	 Nina	 Rodrigues	 publica	 “Metissage,	 dégéne​rescen​ce	 et	 crime”.1900	 Raimundo	 Nina
Rodrigues	publica	“L’Ani​mis​me	Fetichiste	des	nègres	de	Bahia”.
1900	 Henrique	 Roxo	 defende	 tese	 de	 doutoramento	 na	 Faculdade	 de	 Medicina	 do	 Rio	 de	 Janeiro,
denominada	“Duração	dos	atos	psíquicos	elementares”.
1901	Raimundo	Nina	Rodrigues	publica	“La	folie	des	foules.	Nouvelle	contribuition	à	l’étude	des	folies
épidemiques	au	Brèsil”.
1902	 Oscar	 Freire	 de	 Carvalho	 defende	 tese	 de	 doutoramento	 na	 Faculdade	 de	 Medicina	 da	 Bahia,
denominada	“Etiologia	das	formas	concretas	da	religiosidade	no	norte	do	Brasil”.
1903	É	aprovada	a	primeira	lei	federal	sobre	a	“assistência	aos	alienados”,	sob	a	influência	de	Juliano
Moreia.
1904	Franco	da	Rocha	publica	obra	sobre	Psiquiatria	Forense.
1905	É	criado	o	periódico	“Arquivos	Brasileiros	de	Psiquiatria,	Neurologia	e	Ciências	Afins”.
1906	É	criado	o	Laboratório	de	Psicologia	Pedagógica	no	“Pedagogium”,	tendo	sido	planejado	por	Binet
e	 dirigido	 por	 Manoel	 Bomfim,	 contando	 com	 a	 colaboração	 de	 Antonio	 Austregésilo	 e	 Plínio
Olinto.
1907	 É	 criado,	 provavelmente	 nesse	 ano,	 um	 laboratório	 de	 Psicologia	 no	 Hospital	 Nacional	 de
Alienados.
1907	É	criada	a	Sociedade	Brasileira	de	Psiquiatria,	Neurologia	e	Medicina	Legal.
1907	Maurício	de	Medeiros	defende	tese	de	doutoramento	na	Faculdade	de	Medicina	do	Rio	de	Janeiro,
denominada	“Métodos	em	Psicologia”.
1909	 Teria	 siso	 criado	 um	 laboratório	 de	 Psicologia	 no	 Grupo	 Escolar	 de	 Amparo,	 São	 Paulo,	 por
Clemente	Quaglio.
1911	 Plínio	 Olinto	 defende	 tese	 de	 doutoramento	 na	 Faculdade	 de	 Medicina	 do	 Rio	 de	 Janeiro,
denominada	“Associação	de	Idéias”.
1911	Clemente	Quaglio	publica	“Compendio	de	Paidologia”.
1912	A	Escola	Normal	de	São	Paulo	desdobra	a	disciplina	“Pedagogia”	em	“Pedagogia	e	Psicologia”.
1913	Clemente	Quaglio	publica	“Educação	da	Infância	Anormal	de	Inteligência	no	Brasil”.
1913	Plínio	Olinto	 publica	 um	ensaio	 denominado	 “A	 fadiga	 intelectual	 em	 escolares”,	 na	Revista	 de
Pedagogia,	Educação	e	Pediatria;	esse	artigo	foi	citado	por	Claparède	numa	de	suas	obras.
1913	É	 criada	 a	 Faculdade	 de	Medicina	 de	 São	 Paulo,	 na	 qual	 Franco	 da	Rocha	 ocupa	 a	 cátedra	 de
Clínica	Psiquiátrica	e	Neuriátrica	até	1923.
1914	Genserico	Aragão	de	Sousa	Pinto	defende	tese	de	doutoramento	na	Faculdade	de	Medicina	do	Rio
de	Janeiro,	denominada	“Da	Psicanálise:	a	sexualidade	nas	neuroses”.
1914	É	criado	o	Laboratório	de	Pedagogia	Experimental	na	Escola	Normal	de	São	Paulo,	sob	a	direção
do	psicólogo	italiano	Ugo	Pizzoli,	mais	tarde	denominado	Laboratório	de	Psicologia	da	Educaçãode	 São	 Paulo,	 e	 depois	 Laboratório	 de	 Psicologia	 da	 cátedra	 de	 Psicologia	 da	 Faculdade	 de
Filosofia,	Ciências	e	Letras	da	Universidade	de	São	Paulo.
1914	É	publicado	“O	Laboratório	de	Pedagogia	Experimental”,	organizado	por	Ugo	Pizzoli,	pela	Escola
Normal	de	São	Paulo.
1914	Sampaio	Dória	assume	a	cátedra	de	Psicologia	e	Pedagogia	da	Escola	Normal	de	São	Paulo.
1914	Sampaio	Dória	publica	“Princípios	de	Pedagogia:	Ensáios”,	obra	contendo	importantes	referências
à	Psicologia.
1915	Manoel	Bomfim	publica	“Lições	de	Pedagogia”.
1916	Manoel	Bomfim	publica	“Noções	de	Psychologia”.
1918	Plínio	Olinto	publica	“Notas	de	Pedagogia	e	de	Psicologia	Normal	e	Patológica”.
1918	 Ulysses	 Pernambucano	 defende	 tese	 na	 Escola	 Normal	 de	 Pernambuco,	 para	 a	 cátedra	 de
Psicologia	 e	 Pedologia,	 denominada	 “Classificação	 das	 crianças	 anormais”,	 em	 que	 defende	 a
necessidade	da	promoção	de	educação	para	“deficientes	mentais”.
1918	Henrique	Roxo	realiza	estudos	com	o	teste	Binet-Simon	no	Hospital	Nacional	de	Alienados.
1918	Franco	da	Rocha	aborda	a	teoria	freudiana	em	seus	cursos	na	Faculdade	de	Medicina	de	São	Paulo.
1919	Franco	da	Rocha	publica	“A	doutrina	de	Freud”.
1919	O	“Pedagogium”	é	extinto	por	decreto	municipal.
1920	Lourenço	filho	começa	a	lecionar	na	Escola	Normal	de	Piracicaba.
1921	A	Psicologia	é	adotada	no	currículo	das	Escolas	Normais	como	disciplina	optativa.
1921	Henri	Piéron	ministra	curso	de	Psicologia	na	Policlínica	do	Rio	de	Janeiro,	na	qual	Plínio	Olinto
assume	a	função	de	assistente.
1921	Lourenço	Filho	publica	resultados	de	pesquisa	sobre	emprego	de	testes.
1921	Henrique	Roxo	publica	“Manual	de	Psiquiatria”,	no	qual	há	um	capítulo	sobre	a	Psicanálise.
1921	É	inaugurado	o	Manicômio	Judiciário	do	Rio	de	Janeiro,	sendo	nomeado	Heitor	Carrilho	como	seu
diretor.
1922	Lourenço	Filho	é	chamado	ao	Ceará	para	realizar	uma	reforma	do	ensino,	em	que	a	Psicologia	terá
lugar	privilegiado.
1923	Lourenço	Filho	cria	um	laboratório	de	Psicologia	na	Escola	Normal	de	Fortaleza,	com	a	finalidade
de	subsidiar	o	trabalho	pedagógico.
1923	 É	 criada	 a	 Liga	 Brasileira	 de	 Higiene	 Mental,	 por	 Gustavo	 Riedel,	 com	 um	 laboratório	 de
Psicologia	dirigido	pelo	 francês	Alfred	Fessard	e,	mais	 tarde,	por	Plínio	Olinto	e	Brasília	Leme
Lopes.
1923	Manoel	Bomfim	publica	“Pensar	e	Dizer:	estudo	do	symbolo	no	pensamento	e	na	linguagem”.
1923	 Pacheco	 e	 Silva	 assume	 a	 direção	 do	Hospício	 do	 Juquery,	 substituindo	 Franco	 da	 Rocha,	 por
ocasião	de	sua	aposentadoria.
1923	 É	 criado	 o	 Laboratório	 de	 Psicologia	 da	 Colônia	 de	 Psicopatas	 do	 Engenho	 de	 Dentro,	 por
iniciativa	 de	 Gustavo	 Riedel	 e	 dirigido	 por	 Waclaw	 Radecki;	 em	 1932,	 tornou-se	 Instituto	 de
Psicologia	 do	Ministério	 da	Educação	 e	Saúde	Pública,	 tornando-se	 centro	 de	 pesquisa	 pura	 em
Psicologia.
1924	Medeiros	e	Albuquerque	publica	“Os	tests”,	primeiro	livro	sobre	o	assunto	publicado	no	país.
1924	 É	 fundada	 a	 Associação	 Brasileira	 de	 Educação	 –	 A.B.E.,	 por	 Heitor	 Lira,	 sendo	 que	 esta
promoveu	cursos	de	conferências	sobre	aplicação	de	testes.
1924	 Ugo	 Pizzoli	 retorna	 à	 Itália	 e	 o	 Laboratório	 da	 Escola	 Normal	 de	 São	 Paulo	 fica	 a	 cargo	 de
Clemente	Quaglio	e	Sampaio	Dória.
1924	Isaias	Chaves	inicia	trabalho	de	aplicação	de	testes	mentais	em	escolares	na	Bahia.
1924	Ulysses	Pernambucano	é	nomeado	diretor	do	Hospital	de	Doenças	Nervosas	e	Mentais	de	Recife,
no	qual,	dentre	outras	iniciativas,	abole	o	uso	de	camisas-de-força	e	adota	a	“praxiterapia”.
1924	Roberto	Mange	organiza	o	Curso	de	Mecânica	Prática	no	Liceu	de	Artes	e	Ofícios	de	São	Paulo,
aplicando	as	provas	de	Giese	para	seleção	de	aprendizes	e	implementando	o	“ensino	racional”.
1925	É	criado	o	Instituto	de	Psicologia	de	Pernambuco,	em	Recife,	por	Ulysses	Pernambucano;	em	1929,
esta	 instituição	passa	a	ser	chamada	de	 Instituto	de	Seleção	e	Orientação	Profissional	–	 ISOP	de
Recife.
1925	Ulysses	Pernambucano	cria,	em	Recife,	uma	Escola	para	Anormais,	anexa	à	Escola	de	Aplicação
da	Escola	Normal	Oficial	de	Pernambuco.
1925	C.	A.	Baker	ministra	um	curso	de	conferências	sobre	testes,	em	Belo	Horizonte.
1925	Lourenço	Filho	assume	a	cátedra	e	o	 laboratório	de	Psicologia	da	Escola	Normal	de	São	Paulo.
Com	 ele	 colaboraram,	 no	 laboratório,	 Noemi	 Silveira,	 Branca	 Caldeira,	 Irene	 Muniz,	 Odalívia
Toledo	e	João	Batista	Damasco	Pena.
1926	Sampaio	Dória	publica	“Psychologia”.
1926	 Geraldo	 Paula	 Sousa	 organiza	 grupos	 de	 estudos	 em	 Psicologia	 Aplicada,	 com	 médicos,
educadores	e	engenheiros,	no	Instituto	de	Higiene	de	São	Paulo;	desse	trabalho	derivaria	mais	tarde
o	 Serviço	 de	 Inspeção	 Médico-Escolar	 que,	 dentre	 outras	 coisas,	 organizou	 uma	 escola	 para
“deficientes	mentais”.
1926	 Isaias	 Alves	 publica	 nos	 “Annais	 Médico-Sociaes	 da	 Bahia”	 resultados	 de	 experiências	 de
adaptação	da	escala	Binet-Simon	para	a	realidade	brasileira.
1926	 Sampaio	Dória	 e	 Roldão	 Lopez	 de	 Barros	ministram	 cursos	 de	 Psicologia,	 nos	 quais	 difundem
idéias	de	William	James,	Claparède	e	Dewey.
1926	 Lourenço	 Filho	 publica	 “Joazeiro	 de	 Padre	 Cícero”,	 obra	 que	 pode	 ser	 considerada	 como	 de
Psicologia	Social.
1926	Lourenço	Filho	 organiza	 a	 “Biblioteca	 de	Educação”	 para	 a	Editora	Melhoramentos,	 com	obras
direta	ou	indiretamente	relacionadas	à	Psicologia,	de	autores	brasileiros	e	estrangeiros.
1926	É	criada,	por	Pacheco	e	Silva,	a	Liga	Paulista	de	Higiene	Mental.
1927	É	criado	o	Manicômio	Judiciário	de	São	Paulo,	no	Hospício	do	Juquery.
1927	Isaias	Alves	publica	“Teste	individual	de	intelligencia	–	noções	geraes	sobre	testes”.
1927	 É	 fundada	 a	 Associação	 Brasileira	 de	 Psicanálise,	 por	 Franco	 da	 Rocha,	 Raul	 Briquet,	 Durval
Marcondes,	A.	Almeida	Júnior,	Getúlio	Moura	Santos	e	Lourenço	Filho.	Essa	associação	teve	curta
duração,	mas	promoveu	vários	cursos	em	São	Paulo	e	publicou	algumas	revistas.
1927	Lourenço	Filho	realiza	as	primeiras	experiências	com	o	teste	ABC.
1927	Lourenço	Filho	publica	“Contribuição	ao	estudo	experimental	do	hábito”.
1927	Lourenço	Filho	publica	“A	escola	nova”.
1927	Lourenço	Filho	inicia	traduções	das	obras	de	Claparède,	Durkheim,	Ferrière,	Binet-Simon,	Dewey
e	Kilpatrick.
1927	 Henri	 Piéron	 chega	 à	 Escola	 Normal	 de	 São	 Paulo	 para	 lecionar	 Psicologia	 Experimental	 e
Psicometria.
1927	 O	 Laboratório	 de	 Psicologia	 da	 Escola	 Normal	 de	 São	 Paulo	 publica	 “Psychologia	 e
Psychotechnica”,	contendo	conferências	proferidas	por	Piéron	em	seu	curso.
1928	Wolfgang	Köhler	profere	conferência	em	São	Paulo	e	Rio	de	Janeiro.
1928	Waclaw	Radecki	publica	“Tratado	de	Psychologia”.
1928	Júlio	Porto	Carrero	difunde	as	idéias	psicanalíticas	em	suas	obras.
1928	Isaias	Alves	ministra	o	“Curso	de	Medidas	da	Inteligência	e	dos	resultados	escolares	(testes)”	na
Escola	Normal	da	Capital	do	Estado	da	Bahia.
1928	É	instalado	o	Serviço	de	Seleção	Psicossomática	dos	candidatos	à	aviação	militar,	no	Laboratório
da	Colônia	de	Psicopatas	do	Engenho	de	Dentro.
1928	Nilton	Campos	publica	“Relatório	de	uma	viagem	realizada	à	Europa	para	estudos	psicológicos”,
nos	Annaes	da	Colônia	de	Psicopatas	do	Engenho	de	Dentro.
1928	É	proferido	um	curso	de	aperfeiçoamento	para	professores,	com	conteúdos	de	Psicologia,	em	Belo
Horizonte.
1928	Por	decreto,	a	disciplina	Psicologia	passa	a	ser	obrigatória	nas	Escolas	Normais.
1928	Radecki	apresenta	o	trabalho	“O	estado	atual	da	psico-técnica	e	os	meios	práticos	de	aplicá-la”,	no
IV	Congresso	Brasileiro	de	Higiene.
1928	 Fernando	 de	 Azevedo	 promove	 a	 Reforma	 do	 Ensino	 do	 Distrito	 Federal,	 reformulando	 os
programas	de	Psicologia	da	Escola	Normal	local,	estabelecendo	classes	diferenciadas	em	diversas
escolas	e	lançando	as	bases	para	a	orientação	profissional.
1929	Medeiros	e	Albuquerque	publica“A	Psicoterapia	e	suas	modalidades”.
1929	 A	 Associação	 Comercial	 de	 São	 Paulo	 tenta	 criar	 um	 Instituto	 de	 Organização	 Científica	 do
Trabalho,	impedida	pela	crise	de	1929.
1929	Léon	Walther	ministra	curso	de	Psicologia	Aplicada	à	Organização	do	Trabalho	em	São	Paulo.
1929	Lourenço	Filho	traduz	a	obra	“Techno-Psychologia	do	Trabalho	Industrial”,	de	Léon	Walther.
1929	 Francisco	 Campos	 promove	 a	 Reforma	 do	 Ensino	 de	 Minas	 Gerais,	 criando	 a	 Escola	 de
Aperfeiçoamento	 para	 professores	 do	 ensino	 primário,	 em	 Belo	 Horizonte,	 contando	 com	 a
colaboração	de	Claparède,	Th.	Simon	e	Léon	Walther.	Aí	foi	criado	um	laboratório	de	Psicologia,
idealizado	 pelos	 psicólogos	 acima.	 No	 final	 desse	 ano,	 o	 curso	 e	 o	 laboratório	 passam	 a	 ser
dirigidos	por	Helena	Antipoff,	ex-assistente	de	Claparède,	que	acaba	se	radicando	no	Brasil.
1930	Isaias	Alves	publica	“Os	testes	e	a	reorganização	escolar”.
1930	Medeiros	e	Albuquerque	escreve	tese	sobre	“superdotados”.
1930	Helena	Antipoff	publica	“Escolalogia:	ensino	de	Pedagogia	Experimental”.
1930	Plínio	Olinto	publica	“Introdução	à	Psiquiatria”.
1930	Roberto	Mange	inicia	trabalhos	mais	sistemáticos	de	Psicologia	Aplicada	ao	Trabalho.
1930	Lourenço	Filho	é	nomeado	para	a	Direção	Geral	do	Ensino	do	Estado	de	São	Paulo.
1930	Lourenço	Filho	publica	“Introdução	ao	Estudo	da	Escola	Nova”,	obra	que	trata	em	profundidade	da
aplicação	da	Psicologia	à	Educação.
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	Folha de rosto
	Créditos
	Sumário
	Apresentação
	Introdução
	Parte I
	Antecedentes
	Capítulo 1 A preocupação com os fenômenos psicológicos no período colonial
	Capítulo 2 A preocupação com os fenômenos psicológicos no século XIX
	2.1. O Pensamento Psicológico na Educação
	2.2. O Pensamento Psicológico na Medicina
	2.3. À Guisa de Síntese
	Parte II
	A psicologia científica e seu processo de autonomização no Brasil
	Capítulo 1 A psicologia em instituições médicas
	1.1. Os hospícios e algumas instituições correlatas
	1.2. Medicina Legal, Psiquiatria Forense e Criminologia
	1.3. Teses de Doutoramento das Faculdades de Medicina
	1.4. À Guisa de Síntese
	Capítulo 2 A Psicologia em Instituições Educacionais
	2.1. Algumas instituições educacionais
	2.2. A Psicologia nas obras pedagógicas e psicológicas
	2.3. À Guisa de Síntese
	Capítulo 3 A Psicologia na organização do trabalho
	Parte III
	Conclusão
	Apêndice
	Bibliografia citada

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