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2 Passados sensíveis Escravidão, política e tempo presente na história do Brasil* Hebe Mattos** A questão da escravidão no tempo presente é parcialmente (e talvez crescentemente) uma questão de justiça, uma discussão sobre a reparação pelos crimes do passado. A emergência das discussões sobre justiça reparatória, como parte de um debate mais amplo sobre a reso- lução de injustiças históricas relativas a genocídio, tortura, limpeza étnica, entre outros cri- mes coletivos, renovou a discussão contemporânea sobre a escravidão no Novo Mundo, pa- ra além das abordagens mais correntes sobre diáspora, racismo, memória e identidade. A questão fundamental da possibilidade de reparação – moral, política, cultural, e econômica – também ocorre para injustiças históricas de caráter “sistêmico”, como a captura e o geno- cídio ameríndio e a escravização de africanos no Brasil, Caribe e Estados Unidos. Uma insti- tuição de injustiça não apenas perpetrada e usufruída por indivíduos ou mesmo um Estado isoladamente por algumas décadas, mas perpetrada por centenas de anos por vários esta- dos europeus ou americanos ilustrados ou baseados em constituições liberais. Uma institui- ção de injustiça que ajudou a criar a riqueza que deu origem às estruturas fundadoras do mundo contemporâneo [SCOTT; MATTOS, 2014, p. 1]. Como em todas as demais sociedades pós-escravistas das Américas, a memória da escravidão se apresenta hoje como questão sensível nas tensões políticas do Brasil contem- porâneo. Neste mês de setembro de 2017, em que escrevo esta conferência, o livro recém- lançado de Beatriz Mamigonian, Africanos livres: a abolição do tráfico de escravos no Brasil (MAMIGONIAN, 2017), suscitou inúmeras resenhas, entrevistas e matérias jornalísticas, em sua maioria privilegiando as evidências nele apresentadas sobre racismo institucional e a extensão da ilegalidade como costume no sistema político-jurídico brasileiro, desde os tem- pos do imperador Pedro II. A relevância política dessas questões no Brasil de hoje esteve na base da recepção do livro para além dos círculos de especialistas. O livro não apresenta, entretanto, qualquer abordagem explícita sobre as origens do racismo ou da tolerância com a ilegalidade na vida política brasileira, ainda que suscite re- flexões a respeito. A densa narrativa de Mamigonian constrói, fundamentalmente, uma ex- plicação histórica complexa e não linear para o processo de abolição do tráfico de escravos no Brasil. * Este texto foi elaborado a partir de uma série de conferências proferidas em 2017, a primeira delas no Encontro Nacional do GT de História Política da ANPUH, em João Pessoa, em maio, e apresenta- do originalmente, na forma de conferência escrita, como requisito ao Concurso de Professor Titular Livre da Universidade Federal de Juiz de Fora, em outubro do mesmo ano. ** Professora Titular de História do Brasil da Universidade Federal Fluminense, coordenadora do La- boratório de História Oral e Imagem (LABHOI/UFF) 3 Apesar disso, a percepção de que a ilegalidade do contrabando de africanos no sécu- lo XIX possui desdobramentos políticos no tempo presente não é somente um produto da leitura de jornalistas políticos do livro de Mamigonian. O reconhecimento da constituciona- lidade das cotas raciais nas universidades federais, pelo Supremo Tribunal Federal, se fez após audiência pública em que o historiador Luiz Felipe Alencastro afirmou, em parecer, a dívida histórica do Estado brasileiro com os descendentes de africanos, em função, sobretu- do, da entrada de centenas de milhares de africanos escravizados ilegalmente no país nas décadas que se seguiram à independência política, com o beneplácito do primeiro Estado Nacional brasileiro (ALENCASTRO, 2010). Ilegalidade e costume estão no subtítulo da obra e são os eixos estruturadores do livro A força da escravidão, de Sidney Chalhoub (CHALHOUB, 2012). O ethos senhorial das elites políticas brasileiras e o papel da hipocrisia como cultura política, desde então, são argumentos importantes em textos escritos por mim, Sidney Cha- lhoub e pela própria Beatriz, no livro Historiadores pela democracia: o golpe de 2016 e a força do passado, que organizamos juntamente com Tânia Bessone (MATTOS; BESSONE; MAMIGONIAN, 2016). Pelo menos formalmente, a monarquia constitucional brasileira era adepta da lógica do livre mercado, bem como da linguagem dos direitos e da cidadania para a legitimação da ordem política. Manteve a legalidade da escravidão como instituição histórica, em nome do direito de propriedade. Ao fechar os olhos para a continuidade do tráfico negreiro tornado ilegal desde os tratados assinados para o reconhecimento da sua independência pela Ingla- terra, o Estado brasileiro perpetrou crime contra suas próprias leis, hoje considerado tam- bém um crime contra a humanidade, conforme tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. O livro Africanos livres não conecta a hipocrisia, o racismo ou a tolerância com a ile- galidade do passado e seus congêneres, porventura ainda presentes na vida política brasilei- ra. E talvez este seja o seu maior trunfo. A aproximação do passado com o presente suscita- da pela leitura de Africanos livres é uma operação interpretativa do leitor. Os paralelos de- correm dos muitos registros factuais sobre a atuação de políticos e agentes da justiça para que a lei de 1831, que aboliu o tráfico de escravos africanos no Brasil, se tornasse letra mor- ta. Segundo o banco de dados do The Trans-Atlantic Slave Trade Database, (www. slavevoyages.org/), pelo menos mais 750.000 africanos foram ilegalmente escravizados no Brasil depois de sua aprovação, até a supressão definitiva do contrabando, alguns anos de- 4 pois da aprovação de uma segunda lei de extinção do tráfico de cativos africanos, em 1850. O livro mostra, também, que muitos lutaram por sua aprovação e depois para que fosse respeitada. E, por isso, convida a refletir como a amnésia sobre este processo de disputa foi posteriormente construída. Silenciada por quase todo século XX, a memória dessa última geração de africanos ilegalmente escravizada no país emergiu com força viva no movimento de etnogênese ori- undo da implementação do artigo 68 das Disposições Constitucionais Transitórias da atual Constituição Federal, que declara: “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Esta- do emitir-lhes os títulos respectivos”. Movimento que acompanhei de perto, por força de entrevistas realizadas com camponeses negros descendentes da última geração de africanos escravizados no Rio de Janeiro, iniciadas nos anos 1990, para o projeto Memórias do Cati- veiro do LABHOI/UFF (RIOS; MATTOS, 2005). Muitos dos nossos entrevistados passaram a reivindicar serem reconhecidos como “remanescentes das comunidades de quilombo” para efeitos de titulação coletiva de terras tradicionais ou constitutivas de lugares de memória (ABREU; MATTOS, 2011). Em 2006, alguns milhares de grupos já se encontravam oficialmen- te reconhecidos em todo o país (MATTOS, 2006). Número que só fez crescer nos últimos dez anos, redefinindo patrimônios, memórias coletivas e engendrando novas narrativas públicas sobre o tempo da escravidão. Um passado que se recusa a passar e, ainda hoje, produz con- sequências. Este diálogo entre memória e história da escravidão, ou simplesmente entre passado e presente, é tema de fundo desta conferência e também de minhas inquietações como historiadora profissional nos últimos 12 anos. Os últimos africanos: memóriae amnésia Paradoxalmente, o tráfico negreiro para o Brasil conheceu o seu auge quantitativo em um momento em que a escravidão como instituição passava a ser moralmente questionada – e o abolicionismo inglês emergia como o primeiro grande movimento social do mundo globa- lizado (BLACKBURN, 2011). O século XIX começou com uma expansão sem precedente do tráfico negreiro para as Américas e o oceano Índico, ainda que sob o manto da ilegalidade, e terminou com a crescente interiorização da prática na África (FERREIRA, 2013; MATTOS; GRINBERG, 2003), apesar (e por causa) da colonização do continente por países europeus. 5 Este movimento mais amplo foi abordado no livro Além da Escravidão. Investigações sobre raça, trabalho e cidadania em sociedades pós-emancipação, de Rebecca Scott, Tho- mas Holt e Frederick Cooper, publicado no Brasil em 2004, com um prefácio de minha auto- ria sobre o caso brasileiro (COOPER; HOLT; SCOTT, 2004). Os ensaios do livro, sobre as expe- riências pós-emancipação nos Estados Unidos, Jamaica, África oriental e também Brasil, discutiam as múltiplas interações entre expansão capitalista, escravidão e a construção de sistemas jurídicos de legitimação e deslegitimação da escravidão, a partir de uma releitura da questão de fundo proposta no livro clássico de Frank Tannenbaum, Slave and citizen / Escravo e cidadão (TANNENBAUM, 1947). Afinal, uma sociedade escravista só se constrói, como tal, a partir de um sistema jurídico que legitima a propriedade escrava, definindo, le- galmente, a diferença entre aqueles que podem ou não podem ser escravizados, bem como as formas de trânsito (se elas existem) entre as condições jurídicas de escravos e livres. Des- ta perspectiva, a relação entre modernidade capitalista e deslegitimação da escravidão é tema central em todos os ensaios do livro. Ainda é bastante comum a associação entre o surgimento do abolicionismo inglês, a partir da segunda metade do século XVIII, com o avanço do capitalismo e o mercado de tra- balho livre. A Inglaterra pós-revolução industrial transformou o combate ao tráfico atlântico de escravos em política de Estado, após os defensores da liberdade de comércio vencerem internamente antigos interesses monopolistas com assento no Parlamento britânico. A des- peito da riquíssima produção historiográfica sobre a questão, ressaltando a imensa comple- xidade do tema e a multiplicidade de atores e variáveis a serem considerados para analisá-lo (BLACKBURN, 2002, 2011), a ideia de que o combate ao tráfico atlântico atendeu a interes- ses da nova ideologia liberal sobre o trabalho livre ainda predomina em grande parte das abordagens do tema, sobretudo em manuais escolares e livros de divulgação. Nesta moldu- ra, a expansão escravista brasileira em pleno século XIX, bem como a sobrevida da institui- ção no Sul dos Estados Unidos, seriam fruto de uma cultura política de inspiração antiliberal das classes senhoriais estadunidense e brasileira, que permitiria a sobrevida da legalidade e legitimidade da escravidão nessas sociedades, como as obras de Eugene Genovese (GENO- VESE, 1969, 1988), nos Estados Unidos, ou de João Fragoso e Manolo Florentino (FRAGOSO; FLORENTINO, 2001 [1993]), no Brasil, enfatizaram. Mais recentemente, o clássico de Eric Williams (WIILIAMS, 2012 [1944]), Capitalismo e Escravidão tem sido retomado. A partir, sobretudo, do livro de Dale Tomich, Sob o prisma 6 da escravidão (TOMICH, 2011), as releituras recentes da obra de Williams – e também da noção de sistema mundo de Immanuel Wallerstein (WALLERSTEIN, 1974) – vão enfatizar o conceito de “segunda escravidão”. Na perspectiva da segunda escravidão, ou do “segundo escravismo”, como prefere Sidney Chalhoub (2012, p. 43), o crescimento exponencial do tráfico de escravos para Brasil e Cuba e o fortalecimento da escravidão nos Estados Unidos no século XIX seriam consequências diretas da expansão do capitalismo e, portanto, um processo da modernidade capitalista e não o contrário. Constructo do novo mercado mun- dial de algodão para as fábricas inglesas e de café e açúcar para as novas metrópoles indus- triais (MARQUESE; TOMICH, 2011). O livro Além da escravidão... filia-se a uma terceira tradição historiográfica e é a par- tir dela que construo meu lugar de fala. A polarização sobre o caráter “tradicional” ou “mo- derno” da escravidão atlântica tem em comum um olhar de fundo estruturalista, que atribui coerência e sentido à dinâmica da expansão escravista no século XIX, determinada por uma espécie de ethos capitalista ou arcaizante, dependendo da perspectiva adotada. Por que não a combinação de ambos? Além da Escravidão... formula a questão por este ângulo, enfatizando mais a imprevisibilidade do que os sentidos dos processos. Sua questão de base é pensar o passado sem seu futuro, nosso conhecido, reconstituindo os agentes sociais em atuação, com seus limites, conflitos, perspectivas, possibilidades, inten- ções e interações, de modo a descortinar o surpreendente, a história como fluxo. Ainda que reconhecendo a riqueza conceitual e o valor explicativo eventual de conceitos como capita- lismo, escravismo, sociedades de antigo regime, economia mundo, e outras metáforas que buscam caracterizar determinados tipos de articulação de relações desiguais de cultura, riqueza ou poder historicamente delimitadas, interessa-me mobilizar o processo de estrutu- ração, sempre precária, de tais configurações. *** Desde finais do século XVIII, o comércio negreiro, até então legal e amplamente pra- ticado pelos países europeus envolvidos na colonização americana, começou a perder pro- gressivamente legitimidade, até tornar-se ilegal na maioria dos países que o praticavam, nas primeiras décadas do século XIX. Nesse contexto, o próprio reconhecimento da indepen- dência do Brasil pela Inglaterra esteve condicionado ao cumprimento de antigos tratados de restrição ao “ilícito comércio”, firmados por Portugal, e à realização de novo acordo, estabe- 7 lecendo uma data final para a interrupção do comércio infame, como começava a ser cha- mado, como destacou Jaime Rodrigues (RODRIGUES, 2000). A aprovação da lei de abolição do tráfico, de 1831, é consequência disso. As pesquisas recentes confluem ao propor “um modelo conflituoso que reconhece o contrabando negreiro como objeto de debate e dissenso na esfera pública brasileira” para a compreensão do processo de abolição do tráfico de escravizados africanos no Brasil (PAR- RON, 2007, p. 94). As autoridades imperiais atuaram na repressão ao contrabando nos pri- meiros anos que se seguiram à aprovação da lei de 1831 (MAMIGONIAN, 2017, cap. 3), mas a medida legal se tornou alvo de um vigoroso processo de desobediência por parte de seto- res da classe senhorial que, em nome da liberdade de mercado e de uma leitura utilitarista do liberalismo, sustentavam a expansão escravista da lavoura cafeeira (LOURENÇO, 2015). Ainda assim, a lei de 1831 produziu alguns efeitos duradouros, como o fechamento do porto do Valongo na cidade do Rio de Janeiro e o redirecionamento das atividades de contraban- do para pequenas praias do litoral mais próximas das regiões compradoras (CARVALHO: 2012; MATTOS, 2013; LOURENÇO, 2013). A partir de 1834, diversas vozes começaram a se posicionar contra a insegurança jurídica trazida pela lei aos proprietários de escravos, pro- pondo sua revogação ou, pelo menos, a garantia da propriedade escrava após a compra realizada. O processo como um todo deslizou de medidas de resgate e libertação de africa- nos contrabandeados comprados por particulares, comuns nosprimeiros anos após a apro- vação da lei, à busca de garantir a segurança jurídica desse tipo de “propriedade”, predomi- nante nas discussões legislativas depois de 1835. As discussões parlamentares do período têm sido revisitadas em diversas pesquisas para afirmar o sentido de política de Estado que o descumprimento da lei de 1831 passa a ter a partir de 1837, apesar do insucesso das propostas de revogação da medida legal. Tâmis Parron, Sidney Chalhoub, Beatriz Mamigonian, a despeito das diferenças entre suas aborda- gens, convergem sobre este ponto (PARRON, 2007, pp. 91-121; MAMIGONIAN, 2017, cap. 3). Estou plenamente de acordo com esses autores, que têm afirmado a retomada do tráfico atlântico como substrato econômico central do movimento político autodenominado Re- gresso, amplamente hegemônico após 1837.. Bem como sobre o compromisso do ministro da Justiça Eusébio de Queirós em dar segurança jurídica ao contrabando anterior à lei de 1850, como pedra de toque para o sucesso da repressão ao tráfico que a ela se seguiu. 8 O projeto de revogação da lei de 1831, apresentado pelo senador Caldeira Brant, marquês de Barbacena, chegou a ser aprovado no senado, em 1837 (PROJETO 133). Dizia o artigo 14: “Nenhuma ação poderá ser tentada contra os que tiverem comprado escravos, depois de desembarcados, e fica revogada a lei de 7 de novembro de 1831, e todas as ou- tras em contrário”, mas não chegou a ser votado na Câmara dos Deputados. Na continuidade desta conferência, a partir de dois discursos parlamentares de An- tônio Pereira Rebouças, buscarei iluminar alguns desdobramentos desse movimento que acabaram por definir a amnésia sobre a última geração de africanos ilegalmente escraviza- dos como política de memória – ou de não memória, bem como algumas características do racismo institucional brasileiro de longa presença na vida política do país. Antônio Pereira Rebouças é tema do livro O fiador dos brasileiros, de Keila Grinberg (GRINBERG, 2002), originalmente tese de doutorado, defendida sob minha orientação no ano de 2000. Comecei a me interessar por seus discursos parlamentares nessa mesma épo- ca, quando escrevi o ensaio “Escravidão e cidadania no Brasil monárquico” (2000), depois aprofundado no texto “Racialização e cidadania no Império do Brasil” (2009). Desde então, a tese e depois o livro de Keila Grinberg construíram base sólida a partir da qual tenho revisi- tado os discursos parlamentares e escritos autobiográficos do personagem, como caso es- tratégico para uma história do racismo no Brasil e dos processos de subjetivação racializada na experiência histórica brasileira (COTTIAS; MATTOS, 2016; MATTOS, 2007; MATTOS; GRINBERG, 2004). Antônio Rebouças era filho de um alfaiate português com uma mulher negra, prova- velmente liberta. Destacou-se nas lutas de independência na Bahia, tendo sido eleito por duas vezes deputado, na Assembleia Geral, por aquela província. Jurista autodidata, tornou- se um dos maiores especialistas em direito civil do país, tendo recebido autorização para advogar em todo o país, em 1847, quando também encerrou sua atuação parlamentar. Como deputado, combateu a continuidade do tráfico negreiro, mas apoiou a propos- ta conservadora de revogação da lei de 1831. A lógica de sua argumentação é ambígua e permaneceu em grande medida opaca para a maioria dos seus intérpretes. Seus discursos parlamentares, publicados em livro (REBOUÇAS, 1870), ganham novos sentidos, porém, quando revisitados à luz das novas pesquisas sobre a generalização do contrabando de afri- canos. Eu os retomo aqui, também, a partir de argumentos presentes no meu Das cores do 9 silêncio (MATTOS, 2013a) e de evidências trazidas por Wlamyra Albuquerque no livro O jogo da dissimulação (ALBUQUERQUE, 2009, cap. 1). O discurso de Antônio Rebouças, em 2 de setembro de 1837, a favor da revogação da lei de 1831 é iluminador da amplitude da virada conservadora dos legisladores brasileiros em relação à continuidade do tráfico, mas a conciliação de Rebouças com a proposta con- servadora é apenas aparente. Em seu discurso, apesar de não confrontar os novos consen- sos da elite parlamentar da qual sentia fazer parte, ele quebrava com o pacto de silêncio sobre a cumplicidade generalizada como o contrabando que presidia a maior parte dos de- mais discursos e propostas. Segundo ele: [...] penas acerbas [da lei de 1831], tem servido de argumento para a impunidade, não em presença daqueles, que se subornam pelos interesses sórdidos e vis, mas pelos que são le- vados por sentimentos de equidade, e por outras razões, que calam nas almas mais gene- rosas e mais bem formadas. Apreende-se um navio com Africanos, ou uma carregação é en- contrada nas nossas praias, ou em alguma propriedade, quem é o apreensor? Suponhamos [...] que está convencido das más consequências do mesmo comércio, e que, de mais a mais, está ilustrado com as provas que tem tido o Brasil de sua existência ominosa. Vendo o apre- ensor que da apreensão resulta não só perda de família, pelos interesses que são aliena- dos pela apreensão de Africanos, mas de mais o pai é condenado à prisão, e à perda dos Africanos e de todo o cabedal empregado nesse comércio, e a tudo quanto possui, ficando sujeito à uma pena pessoal pelo que não puder satisfazer da pena pecuniária; pode o apreensor levar avante a apreensão em toda a extensão? Não. [...]. Todo o mundo sabe qual é o escândalo que d’aqui resulta [REBOUÇAS, 1870, vol. I, pp. 370-371, grifos nossos]. Buscando empatia com seus pares escravistas, considerava a severidade das penas da lei de 1831 “um caminho para a impunidade”, porque incidia sobre “pais de família”, comprometidos com o contrabando. Na contramão das proposições em curso, porém, para Rebouças, a revogação da lei não deveria significar segurança jurídica à escravização ilegal, pelo contrário: Tendo considerado sobre o modo de se fazer efetiva a proibição do comércio de escravos, não tenho descoberto outro meio de tornar eficaz esta proibição, senão do modo seguinte: uma grande imposição na importação dos escravos, ou penas pecuniárias sobre os importa- dores, que lhes tirasse toda a possibilidade de interessarem no comércio; e, determinando- se ao mesmo tempo que o Governo tomasse conta dos Africanos que por cálculo de dura- ção (termo médio) da vida dos escravos africanos, desde 1828, se considerasse ilicitamen- te adquiridos [REBOUÇAS, 1870, p. 361, grifos meus]. Enquanto a tendência da maioria das proposições era de garantir a segurança jurídi- ca da propriedade dos africanos ilegalmente escravizados (PARRON, 2009; MAMIGONIAN, 10 2017), a proposta de Rebouças os considerava todos livres e sob custódia do Estado, por “cálculo de estimativa de vida”. Ainda que o Estado não devesse reprimir diretamente as relações de compra e venda, segundo ele, todos os africanos ingressados no país após os tratados com a Inglaterra deveriam ser considerados “africanos livres”! Proposta de teor similar seria aventada pelo abolicionista britânico David Turnbull, ao primeiro-ministro britânico, Lord Palmerson, em 1840. Segundo Mamigonian, ele propu- nha “destruir” o valor monetário dos escravos contrabandeados para Brasil e Cuba, sim- plesmente a partir da permissão, às comissões mistas inglesas no Rio de Janeiro e em Hava- na, de aplicarem em seus julgamentos as leis vigentes na Espanha e no Brasil. Nessa propo- sição, não apenas os apreendidos em embarcações suspeitas de tráfico ilegal estariam sujei- tos à jurisdição dos tribunais das comissões mistas, mas todos os escravizados ilegalmente segundo as leis do localonde estavam situadas as comissões. Turnbull seria expulso de Cuba em 1842 e seu nome se tornaria “sinônimo de abolicionismo radical” (MAMIGONIAN, 2017, p. 184). Um epíteto que poucos atribuiriam ao velho Rebouças, talvez injustamente. A pro- posição de Rebouças de que a liberdade dos africanos independia da lei de 1831 pode estar na base da desistência dos deputados de revogá-la oficialmente. De fato, uma segunda batalha então se decidia nos debates parlamentares brasilei- ros, menos presente nas análises dos historiadores preocupados com a extinção do tráfico. Como destacaram Wlamyra Albuquerque, Sidney Chalhoub e Beatriz Mamigonian, o artigo 7o da Lei de 1831, que proibia a entrada de africanos nascidos livres ou libertos no Brasil, foi o único que “pegou” (ALBUQUERQUE, 2009, cap. 1). Este artigo reforçava outro artigo 7o, de outra lei, aprovada um ano antes, que proibia a contratação de africanos como colonos li- vres, que Rebouças se empenhava em revogar. A lei de 13 de setembro de 1830, que pela primeira vez regulou a admissão de es- trangeiros sob serviço de contrato, proibiu expressamente, em seu artigo 7o, que eles fos- sem celebrados “a qualquer pretexto que seja com os africanos bárbaros, à exceção daque- les que atualmente existem no Brasil”. Rebouças foi derrotado em suas propostas de revo- gação dessa restrição, em 1843 e 1846. Apesar da retórica antitráfico, as pesquisas que se debruçaram sobre a atuação par- lamentar do deputado Rebouças enfatizam o liberalismo comportado do personagem, ávido por manter-se como “fiador dos brasileiros”, interlocutor pardo da sociedade senhorial (GRINBERG, 2002, cap. IV). Keila Grinberg ressalta que a defesa da colonização com africa- 11 nos livres que ele viria fazer não se incomodava com a continuidade dos sequestros e da escravização no continente africano que produziam os novos “colonos” (GRINBERG, 2002, p. 172). Após o levante dos Malês, em 1835, Sidney Chalhoub e Beatriz Mamigonian dão ênfa- se à sua proposta de taxar os libertos africanos dedicados ao comércio a retalho e de panos da costa nas cidades brasileiras (MAMIGONIAN, 2017, p. 73), sobretudo Salvador, como forma de estimulá-los a deixar o país. Segundo o baiano Rebouças, “não queriam trabalhar” (CHALHOUB, 2012, p. 213). Estão todos parcialmente com razão, mas é preciso ter em mente os interlocutores parlamentares do nosso personagem para melhor decodificar a intenção de seus discursos e propostas. Seus companheiros liberais no combate ao tráfico de escravizados eram tam- bém, e cada vez mais, declaradamente racistas. Incorporavam o pensamento pseudocientí- fico do tempo e, desde 1835, quase todos defendiam a reexportação maciça dos africanos livres. Nesse contexto, as propostas de taxação do comércio a retalho, formuladas por Re- bouças, procuravam reduzir as restrições crescentes aos africanos livres a um problema econômico. Rebouças conciliava com o elitismo, buscando, porém, evitar legislar com base em característica de cor ou origem (MATTOS, 2000; GRINBERG, 2002, cap. V). À medida que se acentuava a crise com a Inglaterra em função da continuidade do contrabando de africanos, diversas vozes conservadoras propuseram como opção o traba- lho sob contrato, com africanos, indianos ou chineses (MAMIGONIAN, 2017, cap. 5), como vinha ocorrendo no Caribe inglês e francês. Foram, porém, derrotados por uma oposição liberal que se fazia mais forte quando a questão racial se apresentava. Em 1846, mais uma vez Rebouças se alinharia aos conservadores, encampando a proposta de trazer africanos como colonos, para propor a revogação do artigo 7o. da lei de 1830 que proibia a contrata- ção deles como trabalhadores livres. Na corda bamba, seu discurso se esforçava por combi- nar os interesses da lavoura com a condenação moral do tráfico de escravizados, vocalizan- do forte denúncia das atrocidades do comércio humano, acentuadas pelo contrabando que traficava crianças desacompanhadas e sobrecarregava os navios, aumentando a letalidade da travessia. Segundo ele: O que de fato o Brasil carece é de braços, que sirvam à agricultura e a todos os outros miste- res a que são apropriados os Africanos; porém não quer nem deve querer que os Africanos nos venham cativos mediante o tráfico vedado. Isso se conseguirá uma vez que seja derro- gada a proibição do artigo 7o da lei que venho de ler; e a sua derrogação é o que proponho em primeiro lugar no projeto, que ofereço a esta Augusta Câmara. 12 Alguém me dirá: mas os Africanos, vindos a título de colonos, serão de fato sujeitos à escravidão, como eram os que vinham e adquirimos cativos. [...] Dando mesmo o caso de que alguns compreendendo mal seus verdadeiros interesses, hajam de transgredir a Lei, curamos ao menos um mal maior, o da mais flagrante inobser- vância dela com a mais sensível perversão dos bons costumes do país [...] com o vício da cor- rupção na escala de seus empregos às maiores posições sociais! [APOIADOS] Tendo de vir os Africanos por colonos, quem os houver de contratar em África prin- cipiará por fazer deles a melhor escolha; [...] Mas os que chegam contra a Lei, não poucas vezes compreendem crianças desacompanhadas de suas mães, [....] Como é precipitada- mente feito o embarque e em qualquer ensejo morrem afogados ao embarcar, na viagem acumulados uns aos outros e ao desembarcar; tendo acontecido morrerem cinquenta e mais no curto espaço de vinte dias de viagem. Se ela fosse de mais duração, morreriam todos [...].[REBOUÇAS, 1870, vol. II, pp. 236-243, grifos nossos]. Como em relação à permissão do acesso de libertos ao oficialato da Guarda Nacio- nal, mais uma vez ele perderia a batalha (MATTOS, 2000). A elevação do teor das discussões em relação à continuidade do contrabando após o Ato Aberdeen (1845) da Inglaterra não teve forças para desarmar a bomba de efeito retardado que a manutenção da lei de 1831 poderia significar. Sugiro que isso se fez, em grande parte, em função de um empate de for- ças entre conservadores pragmáticos, que continuavam a só cogitar na extinção do tráfico se substituída por novo fluxo de trabalhadores sob contrato, e liberais que se queriam filan- tropos, mas eram majoritariamente racistas ao fazerem planos de futuro para a demografia e a identidade nacional brasileiras, como a análise de Beatriz Mamigonian do jornal liberal O Philantropo, publicado a partir de 1849, nos deixa ver (MAMIGONIAN, 2017, pp. 230-238). A manutenção da escravidão, mesmo que com base apenas no direito de proprieda- de, a restrição legal ao gozo pleno dos direitos políticos aos libertos (MATTOS, 2000) e a impossibilidade de os africanos livres se tornarem cidadãos brasileiros (MAMIGONIAN, 2017, cap. 1) tornavam juridicamente precária a liberdade das populações não brancas, transformando a experiência da cor como marca da escravidão em uma questão crucial na vida de amplas camadas das populações urbanas e rurais do período. A generalização do contrabando, seguida da extinção definitiva do tráfico em 1850, tornaria a percepção de risco de reescravização ou de escravização ilegal ainda mais aguda, como destacou Cha- lhoub, no seu A força da escravidão (CHALHOUB, 2012, cap. 1). O racismo científico cada vez mais presente entre os liberais tornava a posição de intelectuais pardos, como o Rebouças, extremamente delicada. Em sua biografia manuscrita, escrita em 1838, ele nos informa que ao viajar de Sal- vador até o Rio de Janeiro, em 1823, para ser condecorado pelo imperador em função de 13 sua participação nas lutas pela independência da Bahia, quase foi embaraçado de continuar a viagem,só tendo sido autorizado a prosseguir pelo juiz municipal, valendo-se do conhecimento que já aí tinham de seu nome e a persuasão de sua identidade pelo conheci- mento pessoal que manifestou ter das mais notáveis ocorrências patrióticas e profissional- mente da legislação em matéria forense (apud GRINBERG, 2002, p. 77). Na prática, a cor mantinha-se como estigma, marca da escravidão presente ou pas- sada. Cidadãos brasileiros não brancos continuavam a ter até mesmo o direito de ir e vir dramaticamente dependente do reconhecimento costumeiro da condição de liberdade. Fora de suas redes de relações ficavam sob suspeita de serem escravos fugidos – sujeitos, então, a todo tipo de arbitrariedade, se não pudessem apresentar carta de alforria. Se fos- sem tomados por libertos teriam seus direitos políticos drasticamente restringidos. Se afri- canos, estariam sujeitos à deportação ou ao trabalho compulsório, ainda que provisório. Neste processo, corpos pretos e pardos, quando não inseridos em redes de reconhe- cimento social, ficavam suscetíveis à escravização ilegal. Em 1851, um primeiro regulamento para instituição do registro civil de nascimento e óbito, em que devia constar a cor dos re- gistrados, associado à iniciativa de organizar um recenseamento geral da população, provo- cou revoltas armadas em vários municípios, em especial em Pernambuco, baseadas na crença de que o regulamento, chamado Lei do Cativeiro, teria por objetivo escravizar a gen- te de cor. O motim popular, conhecido como levante dos Marimbondos é sem dúvida tes- temunho eloquente do caráter costumeiro das práticas de escravização ilegal, como bem lembrou Sidney Chalhoub (CHALHOUB, 2012, cap. 1). Para uma plena apreensão dos significados do levante, porém, é preciso enfatizar também o atendimento de suas reivindicações, em um recuo rápido e estratégico do gover- no imperial. O governo recuou do censo e do registro civil, que só foram estabelecidos de- pois de completamente abolida a escravidão, em 1888. Mais ainda, nos anos que se segui- ram, a maioria da documentação pública imperial passou, de forma sistemática, a não men- cionar a cor de homens e mulheres livres (MATTOS, 2013 [1995], cap. 5). Se o racismo reescravizava pretos e pardos em situação de fragilidade social, o silên- cio sancionava a hipocrisia, homenagem que o vício presta à virtude, como regra na convi- vência entre os que conseguiam alguma respeitabilidade. A invisibilidade racial era o preço a ser pago. 14 A nova lei que colocaria fim ao tráfico atlântico de escravizados, em 1850, sem revo- gar oficialmente a lei de 1831, o fez com o compromisso tácito das autoridades de manter o silêncio sobre a ilegalidade anterior, transformando a amnésia sobre os últimos africanos ilegalmente escravizados em política de Estado e em projeto nacional. Sem o tráfico atlântico, cresceu o tráfico interno. Como a revolta contra o registro ci- vil antecipara, pretos e pardos livres continuaram informalmente dependentes de reconhe- cimento e proteção da sociedade branca para não estarem sujeitos à escravização ilegal. Esta situação só iria mudar com a aprovação da lei de 1871, que instituiu a matrícula geral dos escravos para fins de indenização e libertou o ventre da mulher cativa. A ética do silên- cio (MATTOS, 2004) em situações de igualdade continuou, entretanto, muito tempo depois, reiterando a hipocrisia como solução para lidar com a continuidade do preconceito “de cor” – expressão atualizada da memória da escravidão como estigma social. Tese de doutorado em literatura de André Boucinhas, ao analisar cerca de 400 ro- mances de autores brasileiros do período, ambientados na cidade do Rio de Janeiro, atesta, de forma impressionante, o descompasso entre o conhecimento historiográfico sobre a pre- sença dos africanos e da escravidão, bem como de libertos e descendentes de africanos li- vres, na vida da cidade, e sua sub-representação na literatura que a sociedade imperial pro- duziu sobre o tema (BOUCINHAS, 2016, p. 123, 162, 179). O silêncio oficial sobre a cor da população livre mostrar-se-ia tradição duradoura na nossa história administrativa e um dos principais alicerces do nosso racismo institucional, apenas recentemente quebrado, com a aprovação do estatuto da igualdade racial (2010). Não tenho dúvidas em afirmar que as decisões de silêncio do Regresso estão na base do racismo institucional brasileiro, vertente política do preconceito de ter preconceito, con- forme sugeriu Florestan Fernandes (FERNANDES, 1966), ou do racismo no Brasil como um crime perfeito, nas palavras de Kabengele Munanga (MUNANGA, 2012). Um racismo escan- carado sobre o qual se devia silenciar, como um tabu verticalmente compartilhado. Escravidão, política e tempo presente: novas narrativas Entre o reconhecimento da escravidão como crime contra a humanidade na Conferência de Durban em 2001, com expressiva participação da delegação brasileira, e a decretação pela ONU da década de 2015-2024 como década internacional do afrodescendente, acontece- ram mudanças significativas nas políticas memoriais do Brasil em relação ao passado escra- 15 vista (SAILLANT, 2016; ABREU e MATTOS, 2016). Além do reconhecimento como patrimônio imaterial de inúmeras manifestações culturais de matriz africana, a indicação e o reconhe- cimento do Cais do Valongo como patrimônio da humanidade pela UNESCO, neste ano de 2017, marca talvez a mais importante inflexão neste sentido. Estou convencida de que o vigoroso processo de expansão da cidadania engendrado a partir da Constituição de 1988 (hoje infelizmente ameaçado) está na gênese da emergên- cia de novas formas de interrogar um passado que, até então, por diversas e diferentes ra- zões, se preferira esquecer. O movimento social quilombola, a política de reconhecimento de patrimônios imateriais e também a pesquisa histórica sobre a escravidão no país são produtos desse deslocamento político, e muito do que vou apresentar aqui, daqui por dian- te, é resultado das novas pautas historiográficas que emergiram desde então. Mas não vou mais me concentrar nas discussões historiográficas, para privilegiar as transformações nas políticas de memória. Nas palavras do embaixador e historiador Alberto da Costa e Silva, na sessão de ins- talação do Conselho Consultivo para elaboração da proposta de candidatura do Cais do Va- longo a patrimônio da humanidade, em 30 de setembro de 2014: O Cais do Valongo merece ser considerado pela UNESCO patrimônio da humanidade porque é o sítio de memória da escravidão mais completo que se conhece. Ele tem importância não apenas para a história brasileira e, portanto, para a nossa vida como nação, mas também para a história do mundo. Dizia o escritor nigeriano Chinua Achebe que a história não é boa nem má; que a história é, e nós somos esta história, com seus momentos luminosos e demo- rados e terríveis pesadelos, como este que parecia interminável e que nos deixou como cica- trizes profundas monumentos como o Valongo, monumentos vivos, que não precisam de nenhum texto a elucidá-los, que são pelo que são, e nos comovem pelas pedras que pisamos e pelas pedras que olhamos, pedras que receberam, depois de uma medonha viagem, os pés de muitos de nossos antepassados, e que contam um pouco desse longo capítulo trágico e espantoso da história dos homens sobre a face da Terra [SILVA, 2014]. O Cais do Valongo foi redescoberto em 2011, durante as obras de remodelação da área portuária da cidade para a série de eventos internacionais que teriam o Rio como palco nos anos seguintes, sobretudo a Copa do Mundo de 2014 e as olimpíadas de 2016. Em 2008, o antropólogo italianoAndré Cicalo, em pesquisa de campo no Rio sobre as primeiras expe- riências de ação afirmativa no país, realizou um interessantíssimo documentário chamado Memórias do Esquecimento, disponível na internet (https://vimeo.com/41609298), que ver- sava sobre a ausência de memória do tráfico negreiro na região. 16 Cinco anos depois, o mesmo André passou os anos de 2013 e 2014 como pesquisa- dor visitante no Laboratório de História Oral e Imagem da UFF, acompanhando o ressurgi- mento da memória da escravidão na área portuária do Rio, que culminou em expressiva transformação do discurso público – do movimento negro, das autoridades municipais e da sociedade brasileira, de uma maneira geral –, em relação ao trauma e à dor associados a essa memória (CICALO, 2016). O espetáculo da violência e o horror racial foram partes essenciais da vida brasileira, com instrumentos de tortura à venda nas lojas de vilas e cidades, como bem lembrou o es- critor Machado de Assis no conto Pai contra Mãe, escrito apenas em 1906. Em suas pala- vras: A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições so- ciais […] Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. […] Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à ven- da, na porta das lojas. Apesar disso, até muito recentemente, o silêncio racial, estabelecido nos anos 30 e 40 do século XIX, manteve-se como forma predominantemente adotada pela sociedade brasileira para lidar com a memória do tema. Já a construção do complexo do Valongo para recebimento, quarentena e venda dos pretos novos, em finais do século XVIII, foi tributo escravista às novas sensibilidades criadas pelo iluminismo. Buscava resguardar os habitantes da cidade do espetáculo de horror que o comércio negreiro necessariamente implicava. O espaço do Valongo foi instituído pelo marquês de Lavradio, vice-rei do Brasil, em 1779, por meio de um decreto que dizia: Os negros novos que vêm dos portos da Guiné e da África, [...] depois de dada a visita da sa- úde, se soltarem a terra, sejam imediatamente levados ao sítio do Valongo, onde se conser- varão desde a Pedra da Prainha até a Gamboa. E lá se listará a saída, serão curados os doen- tes e se enterrarão os mortos, sem poderem jamais sair daquele lugar para essa cidade por mais justificados motivos que hajam [sic] e nem ainda depois de mortos para se enterrarem nos cemitérios da cidade [apud HONORATO, 2008, cap. 2, p. 74]. O Valongo era um complexo no qual, em primeiro lugar, se enterravam os que não sobreviviam à travessia. Ali, o sepultamento dos recém-chegados, em suposto campo santo, ocultava práticas de incineração sumária em covas coletivas, em escala difícil de ser imagi- 17 nada, como descortinou o trabalho de Júlio Cesar Medeiros da Silva, sobre o cemitério dos pretos novos (SILVA, 2007). Esquecido durante mais de um século, os vestígios arqueológicos do Cemitério dos Pretos Novos foram localizados nos anos 1990 durante obras em uma casa particular, que se estruturou como sítio arqueológico e lugar de memória, em grande parte, graças à incia- tiva da proprietária, Merced Guimarães, com apoio de alguns historiadores e arqueólogos, dando origem ao IPN (Instituto dos Pretos Novos), instituição de memória aberta à visita- ção, incluída no complexo do Valongo oficialmente reconhecido como patrimônio da huma- nidade pela UNESCO. Mas não apenas de morte se fazia o complexo do Valongo. Ali eram recuperados os sobreviventes, ministrando-lhes rudimentos da língua portuguesa e de treinamento para o trabalho antes de serem vendidos. As trocas culturais entre “escravos ladinos” (nos termos da época) e africanos de diversas procedências chegados à região foram iconizadas pelo olhar romântico (SLENES, 1995) do artista bávaro Johan Moritz Rugendas (ABREU; MATTOS, 2012). MARCHÉS AUX NÈGRES – LITOGRAFIA, 1835 (MOURA,2000, p. 449). 18 O Valongo era o lugar da tragédia do tráfico negreiro, mas também espaço primeiro do milagre da crioulização, expressão cunhada por Richard Price (PRICE, 2003). Sem entrar nas mil e uma implicações da afirmativa, a expressão exprime empiricamente o deslumbra- mento do pesquisador diante do processo que fez pessoas completamente desenraizadas dos seus lugares de origem, por vezes culturalmente distantes, sujeitas à mais terrível vio- lência, conseguirem se comunicar e se reinventar nas sociedades escravistas das Américas. Após a primeira lei de extinção do tráfico negreiro, em 1831, o complexo do Valongo foi literalmente soterrado para dar origem ao chamado “Cais da Imperatriz”, construído em 1843, para receber a princesa napolitana Tereza Cristina de Bourbon, esposa do imperador Pedro II. Riscava-se do mapa o antigo porto negreiro. Apesar da continuidade e mesmo am- pliação sem precedentes do tráfico negreiro nas décadas de 1830 e 1840, o espetáculo traumático da chegada dos pretos novos era definitivamente retirado do coração da Corte imperial. Como já visto, o que praticamente não aparecia nos discursos de época, e se mante- ve desde então ausente da maioria das narrativas memoriais e historiográficas, é a extensão da escravização ilegal que a isso se seguiu e a nova logística que surgiria a partir daí. Apesar da não revogação da lei de 1831, africanos sequestrados continuaram a cru- zar clandestinamente o Atlântico e a serra do Mar, para serem ilegalmente incorporados como trabalhadores escravizados às plantações de café, principal produto de exportação do novo país. Os recém-chegados morriam nas praias a vistas de todos. Um relatório inglês de 1839 relata mais de 4.000 pessoas desembarcadas entre Copacabana e a Ilha Grande ape- nas em janeiro de 1838 (FLETCHER, 1839). Fechado o Valongo, pouco se sabe sobre o funcionamento da logística de recepção dos recém-chegados após a lei de 1831. Nos poucos registros de época sobre esses lugares de quarentena e morte, registros produzidos por iniciativas tardias de repressão surgidas depois da segunda lei de proibição do tráfico, em 1850, há impressionantes descrições de recém-chegados mortos ou abandonados para morrer em áreas próximas a paradisíacas praias do litoral. Segundo Daniela Yabeta, escrevendo sobre as diligências em torno do de- sembarque de um patacho negreiro na Ilha da Marambaia, em 1851: 19 Suspeitava-se que o número de desembarcados fosse de 500 africanos. Na praia da Armação foram encontrados cerca de 140, no Engenho d’Agua as autoridades se depararam com aproximadamente 330 africanos, “incluindo 4 crias”, sendo a maior parte destes últimos compostas por mulheres. [...] Ao retornar à ilha, acompanhado dos oficiais e de seu escrivão interino, Antonio Maria Morais de Carvalho, o juiz municipal deparou-se com o cadáver de um africano, do qual de- terminou exame imediato. Os peritos encarregados declararam que se tratava de um jovem africano de 20 anos e “supunham que tivesse morrido de inanição”. Acreditavam que estava bastante magro por ter sido abandonado junto com os outros e ter-se perdido as matas da fazenda da Armação depois de o patacho ter encalhado na Marambaia. Outro cadáver exa- minado foi de um africano do sexo masculino ainda moço que tinha uma perna quebrada devido a uma “coisa com que viera apreendido” e muito provavelmente falecera em decor- rência da fratura [YABETA, 2013, p. 50]. Em 2012, o Laboratório de História Oral e Imagem mobilizou uma rede de historia- dores da escravidão das universidades brasileiraspara organizar um inventário com 100 lugares de memória da história dos africanos escravizados no Brasil, em colaboração com o Comitê Científico do Projeto Rota do Escravo da UNESCO (ABREU; GURAN; MATTOS, 2014). As praias de desembarque ilegal foram uma das categorias que compuseram a lista e a que mais refletia novas tendências das pesquisas historiográficas. Nessas praias, além de sítios arqueológicos ainda pouco explorados, o maior monumento ainda é a própria memória co- letiva do campesinato negro residente nas proximidades. A tradição oral de comunidades negras descendentes dos trabalhadores cativos de antigas fazendas de recepção no litoral fluminense e paulista foi a ponte que me levou a uma nova agenda de pesquisa, com um conjunto de orientandos, incorporando história oral, arqueologia e as fontes da repressão ao contrabando de africanos, que apresentou seus primeiros resultados no livro Diáspora negra e lugares de memória: a história oculta das propriedades voltadas para o tráfico ilegal de africanos escravizados no Brasil (MATTOS, 2013b) e, depois, na premiada tese de Thiago Campos Pessoa Lourenço sobre o complexo de fazendas da família Souza Breves (LOURENÇO, 2015), e no texto, também premiado, so- bre as ruínas do tráfico ilegal no litoral fluminense, da arqueóloga Camilia Agostini (AGOS- TINI, 2017). Na antiga fazenda do Bracuí, em Angra dos Reis, onde hoje se localiza o quilombo do mesmo nome, foi construído um dos memoriais do projeto de história pública Passados Presentes, que coordenei com Martha Abreu e Keila Grinberg, em parceria com comunida- des quilombolas do Rio de Janeiro. A imagem a seguir é uma foto da exposição memorial construída nesse quilombo em especial, local onde foi a pique o brigue negreiro Camargo, 20 em 1852, comandado pelo capitão americano Nathanael Gordon, que depois viria a ser en- forcado nos Estados Unidos por crime de contrabando negreiro, no governo de Abraham Lincoln (SOODALTER, 2006; ABREU, 1995). A história do naufrágio está na tradição oral do grupo. Como também a memória da doação, em testamento do proprietário, da antiga fa- zenda negreira aos seus antepassados, que ali foram trabalhadores cativos, libertos depois de 1850. Na foto, Marilda de Souza, uma das lideranças do movimento quilombola, recebe a visita de uma escola pública da região e refaz a narrativa tradicional do naufrágio diante dos nomes dos sobreviventes, encontrados por historiadores nas fontes do século XIX. A antiga propriedade possuía uma capela e um cemitério para os cativos residentes. Os recém-chegados que não sobreviviam eram enterrados no “Morro do Cabral”, na fazen- da vizinha do Grataú, segundo as narrativas tradicionais. A construção do memorial, a partir da tradição oral do grupo em diálogo com a pesquisa histórica, produziu um reenquadra- mento dessas duas experiências, fazendo, dos descendentes dos libertos herdeiros da anti- ga fazenda negreira, guardiões da memória do crime ali perpetrado. 21 Epílogo O livro didático História, sociedade e cidadania, voltado para o ensino médio, de Alfredo Boulos Junior, citou uma frase minha sobre a abolição em uma de suas questões, contra- pondo a uma afirmação de Emília Viotti da Costa, uma das referências em minha formação como historiadora. Reproduzo aqui: DEBATES DA HISTORIA: A abolição tem sido alvo de constantes debates entre os historiado- res. Para alguns, como Emília Viotti da Costa, professora da Universidade de São Paulo (USP), “a abolição libertou os escravos do pesado fardo da escravidão e abandonou os ne- gros à sua própria sorte”. Para outros, como a historiadora Hebe Maria Mattos, professora da Universidade Federal Fluminense, “a abolição foi um acontecimento ímpar. Pela primeira vez se reconheceu a igualdade civil de todos os brasileiros […]”. Qual delas, em sua opinião, tem um argumento mais convincente? Justifique [BOULOS JUNIOR, 2013, apud conversade- historiadoras.com/2016/12/12/escravidao-e-subjetividades/]. Li a questão e fiquei pensando: serão as duas afirmações realmente opostas? A his- tória da experiência do racismo, entendido como memória/estigma da escravidão, aproxi- ma, me parece, as duas assertivas. Por que (e como) o acontecimento ímpar da abolição (que reconheceu a igualdade civil entre todos os brasileiros, libertando os escravizados do fardo pesado da escravidão) não implicou a superação do racismo no Brasil, abandonando os “negros”, categoria socialmente construída, à sua própria sorte? Esta é a questão que as duas afirmativas tomadas em conjunto provocam. Pensar a experiência da escravidão, do racismo e da violência colonial como trauma, individual e coletivo, é um campo de reflexão que tem se expandido nos últimos anos. Faço parte da geração que, nos anos 1980, fez mais profundamente a crítica da influência das chamadas teorias da patologia social na obra de Florestan Fernandes e seus muitos discípu- los, por transformarem a experiência da escravidão em um quase completo aniquilamento cultural e moral para escravizados e libertos. A centralidade da agência social de escravizados e libertos não deve obscurecer, en- tretanto, as desvantagens sociais e psicológicas reproduzidas pelo racismo, problema de base nos trabalhos seminais de Florestan Fernandes (FERNANDES: 2013) e Emília Viotti da Costa (COSTA, 2012). É importante revisitá-los de perspectivas que integrem o problema da agência social à questão das subjetividades subalternizadas, entendidas não como déficit, mas como trauma (COTTIAS; MATTOS, 2016). A mestiçagem latino-americana é filha da de- sigualdade e não do congraçamento racial. A memória genealógica curta de grande parte 22 das famílias no Brasil frequentemente esbarra em situações de extrema violência, de difícil rememoração. Trata-se fundamentalmente de descolonizar narrativas, de imaginar formas de desconstruir e desnaturalizar imagens coloniais e escravistas no espaço público, sem apagar a memória da injustiça histórica que as engendrou. Bibliografia ABREU, Martha. O caso do Bracuí. In: MATTOS, Hebe; SCHNOOR, Eduardo. Resgate: uma janela para o oitocentos. Rio de Janeiro. Top Books, 1995, p 165-197. ______. Remanescentes das comunidades dos quilombos: memória do cativeiro, pa- trimônio cultural e direito à reparação. Iberoamericana, Madrid, p. 147-160, 2011. ______. Relatório histórico-antropológico sobre o quilombo da Pedra do Sal: em tor- no do samba, do santo e do porto. In: O'DWYER, Eliane Cantarino (Org.). 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