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CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU NÚCLEO DE PÓS-GRADUAÇÃO E EXTENSÃO - FAVENI APOSTILA POLÍTICA E RELIGIÃO ESPÍRITO SANTO “POLÍTICA E RELIGIÃO: EMBATES NA INTELECTUALIDADE PAGà E CRISTÔ Texto adaptado de Uiara Barros Otero http://opiniaoenoticia.com.br/wp-content/uploads/placa-indicativa.jpg Esta comunicação terá como principais eixos norteadores, a discussão em torno do processo de cristianização no Império Romano, identificando projetos diferenciados da realidade ou de representações do mundo social, no que diz respeito à relação entre política e religião pela intelectualidade cristã e pagã na antiguidade. Identificamos nos discursos de época (II e II séculos d.C.) temas de intensos debates entre intelectuais pagãos e cristãos, na defesa da tradição que garantia a unidade da autoridade romana e o distanciamento de antigos padrões de identidade, respectivamente. Tomaremos como referência principal, a análise do discurso de Orígenes em Contra Celso (248 d.C), que nos permitirá inserir os cristãos no contexto situacional imediato, no contexto sóciocultural do Império Romano. Desenvolvendo esta análise, gostaríamos de transcrever uma citação de Orígenes, que servirá como orientação inicial às nossas argumentações. Assim expõe aquele que é considerado dentro da patrística grega, como o homem que ocupa o primeiro lugar entre os teólogos dos três primeiros séculos da era cristã, além de exegeta, filósofo, apologista, etc.: “A este respondemos que, para nós, só há uma saída razoável da vida, e é perdê-la por amor da religião e a virtude, quando os que creem ser juízes ou parecem ter poder sobre nosso viver nos põe na alternativa: ou viver infringindo o que Jesus nos manda, ou morrer fiéis às suas palavras.” (Contra Celso, VIII, 55) Nesta fala adentramos num dilema característico da expansão cristã nos seus primeiros séculos: como integrar-se na vida cívica da comunidade romana, ou como fazer valer suas representações num espaço sociocultural tão diversificado e ao mesmo tempo lidar com as autoridades constituídas, com a tradição religiosa, com o paganismo e suas manifestações? No caso específico da religião cristã, nos deteremos em inquirir as implicações sociais da conversão, ou melhor, a identificação do indivíduo como “cristão”, uma vez que isto se tornou motivo de acusações pelos pagãos, de suscitar a desintegração de práticas aceitas e de princípios legitimadores da autoridade do poder romano. O ideal cívico e municipal possuía um forte componente de paganismo. Nesse sentido, “ser cristão” era motivo de vários constrangimentos para a vida ativa de um cidadão romano. As apologias, dão- nos como exemplo as perseguições dirigidas aos cristãos pelos imperadores, suscitadas pela cólera da população, e de certa forma mostram a resistência das elites dirigentes quanto à propagação do cristianismo. Defensoras da tradição romana, como por exemplo, o jurar pelo gênio do imperador, ou a participação nas festas religiosas, às elites municipais e intelectuais reagiram quando os cristãos recusaram-se a realizar tais práticas. http://3.bp.blogspot.com/- HEsCP9ElZmQ/TdgqLTVDF0I/AAAAAAAAA6o/DjGJ_IaOmAI/s1600/politica%2Be%2Breligiao.jpg Uma vez que nossa pesquisa se detém na literatura apologética produzida entre os IIº e IIIº séculos, faz-se importante caracterizar esse gênero discursivo. Basicamente os apologistas cristãos interpretam o encontro entre a fé a cultura, estabelecendo três prerrogativas principais: a) defender o cristianismo contra as calúnias do povo e queixas dos filósofos; b) refutar a idolatria e o politeísmo, afirmando o Deus único, revelado em Jesus Cristo; c) apresentar a fé cristã numa linguagem e em conceitos acessíveis a um público culto (Hamman: 1995, p.25). Algumas apologias são dirigidas a imperadores ou aos senadores romanos, como a dos filósofos cristãos Aristides e Atenágoras de Atenas (IIº séc. d.C), ou ainda dirigidas a pagãos cultos desejosos de conhecer mais a fundo a doutrina cristã, como a Carta a Diogneto. Nessas apologias percebe-se que há dentre outros, um tema recorrente, ponto inicial de extrema controvérsia, que é o fato de se reconhecer cristão e deixar isto bem claro aos seus leitores, ao seu público alvo, e estabelecer através de comparações com as práticas pagãs, uma identidade particular, diferenciada. Nesses discursos, identificamos os valores característicos a essa manifestação religiosa. http://imagemjc.uol.com.br/repositorio/noticia/79c7828466fca8dcc171bb7f77e2798f.jpg Mas, o que se torna significativo nesta linguagem, que se utiliza de argumentos e métodos filosóficos (a dialética, a retórica, a alegoria), muitas vezes fazendo uso de conceitos platônicos, estoicos, etc., é esclarecer a representação de uma determinada prática social que não se identifica com as demais que estão presentes naquele espaço. Os apologistas dirigem-se ao seu interlocutor, buscando interagir, nesta mediação da linguagem verbal, com as diversas falas existentes, dentro de suas condições sócio históricas, e da disputa de poder entre grupos hegemônicos. Assim percebemos que seus textos produzem sentidos (significados) que estão em direta relação com a sua circulação e consumo (Ver, Milton Pinto: 1999). Neste sentido, identificamos em seus discursos a preocupação em definir uma nova representação nas relações sociais vigentes: para os apologistas os cristãos não são gregos, nem bárbaros, no sentido que isto denota em termos de relação com o paganismo, nem tampouco são judeus, com isto querendo indicar um terceiro gênero de vida. Por causa desta mesma nomeação – cristão, a intelectualidade cristã acredita ser este o motivo das perseguições. Eis um breve relato de Atenágoras de Atenas: “Quanto a nós que somos chamados de cristãos, (...) permitis que, sem cometer nenhuma injustiça, mas pelo contrário, como a continuação do nosso discurso demonstrará, comportando-nos de modo mais piedoso e justo do que ninguém, não só diante da divindade, mas também em relação ao vosso império, permitis que sejamos acusados, maltratados e perseguidos, sem outro motivo para que o vulgo nos combata, a não ser apenas o nosso nome” (Petição em favor dos cristãos, 1). Do lado da intelectualidade pagã, podemos colher outra leitura para o mesmo objeto em questão. Para Celso, filósofo pagão que viveu provavelmente no IIº séc., essa turba de gente que se nomeava como cristãos, era motivo de várias preocupações para a unidade política-religiosa do Império. Se dirigiam a qualquer ouvinte, se misturavam a toda gente, às mais rústicas e bárbaras, entravam nas casas a fim de iludir desde pequenos como a grandes (Contra Celso, III), e se permitiam além de tudo recusar determinadas práticas indissociáveis ao reconhecimento do poder público, de obter a benevolência dos deuses e o bom andamento da vida cívica, da comunidade como um todo. É por esta razão que Celso faz um claro chamamento à fidelidade e à piedade para com o imperador e aos deuses, àqueles que estão confiadas as coisas da terra e deles se recebe. Ainda ressalta o dever de prestar ajuda ao imperador no serviço das armas, a combater por ele e a desempenhar cargos públicos quando seja mister fazer isto para salvar as leis e a religião (Contra Celso, VIII). http://2.bp.blogspot.com/-WDA-UQou0-g/UXcvtBsC9_I/AAAAAAAAc5U/tKfZytEFwdk/s1600/Latuffsai-estado-laico.gif A historiografia interpretaessa fala de Celso como um claro chamamento à perseguição aos cristãos, pois, uma vez que subentende-se, que esses a quem ele designou de ralé de gentes, recusavam-se à colaboração política e a sustentação do império, desobrigando-se das práticas cívicas (Daniel Bueno: 1967, p.14). http://www.sermao.com.br/wp-content/uploads/2010/10/charge_serra_dilma_religioso-300x190.jpg O embate estava travado entre intelectuais (quer seja pagão ou cristão), principalmente no campo das ideias, no uso da argumentação filosófica, da exposição dos enunciados, de por tudo à exame e se chegar a uma proposição verdadeira. Estava em questão entre esses filósofos a antiguidade da doutrina cristã ou da tradição religiosa pagã (principalmente quanto aos mitos gregos), para assegurar a representatividade e a legitimidade de tais práticas. E isto se fez com maior propriedade no discurso, na produção de um texto, de sentidos, assumidos neste processo comunicacional. Nesses discursos se distribuem valores – positivos ou negativos, de acordo com as falas envolvidas, com o contexto situacional, definindo os interesses de cada grupo. http://fatosefatos.zip.net/images/papalula.jpg Para resumir, política e religião, entre a intelectualidade cristã e pagã do IIº e IIIº séculos d.C., era uma temática de intensos debates, que implicou no confronto entre práticas aceitas, estabelecidas pela tradição, por representações hegemônicas na sociedade, com fortes raízes no paganismo, e práticas defendidas por um novo agrupamento religioso, que se distancia de antigos padrões de identidade. Concluímos que o discurso, como a produção de um texto, significou um poder de luta, de disputas de fala na sociedade, na construção de identidades, nas relações sociais, de grande representatividade, respondendo às suas conjunturas específicas. RELIGIÃO E POLITICA – CINCO TESES Embora sejam esferas autónomas da ação humana, a política e religião sempre possuíram estreitos laços. A política não pode renunciar plenamente à religião e, em certas circunstâncias, o discurso religioso cumpre uma função claramente política. Com a modernidade tentou romper-se a longa tradição de ligação entre os poderes políticos e religiosos, separando o Estado das amarras da moral religiosa e do poder espiritual representado pelas autoridades eclesiásticas. https://aasaoficial.files.wordpress.com/2014/11/religiao-politica-e1324738974943.jpg Portanto, só na época de Maquiavel (século XV/XVI) é que a política apareceu distinta da moral e da religião, uma vez que a politica possui leis próprias, diferindo da moral e da religião pelos critérios de justificação e de avaliação das ações, daí resultando que aquilo que é obrigatório em política não o é na religião. Maquiavel defendia, assim, que a ação política tinha um status próprio e diferente da moral religiosa, uma vez que a ação política procura resultados; o estadista, ao contrário do profeta, é julgado pela sua eficácia. No entanto, esta ligação entre a política e a religião nem sempre foram benéficas. Basta recordarmo-nos da Inquisição, das perseguições político- religiosas a que assistimos ao longo da História, das deportações, dos assassinatos, entre outras. Este é o corolário inevitável de não se separar a religião da política. Importa portanto, falar da questão da violência na relação entre a política e a religião. http://observatoriocristao.com/wp-content/uploads/2014/08/oc_politica.jpg Os gregos ensinaram que a política é a esfera da pólis, o que pressupõe argumentação e discussão de ideias. Hannah Arendt observou que a política, isto é, o poder político, se refere ao colectivo, pressupõe consenso e se legitima no consentimento do povo. “O poder e a violência opõem-se: onde um predomina de forma absoluta, o outro está ausente”. Porém, se é verdade que o poder, na sua verdadeira essência, se distingue da violência e que não se sustenta única e exclusivamente desta, também é verdade que o poder não prescinde da violência e recorre à mesma sempre que necessário. A política nunca prescindiu da violência, ao longo da história. A ascensão política da burguesia exigiu rupturas fundadas no recurso à guerra e à revolução; do ponto de vista económico, não foi diferente: a burguesia precisou expropriar violentamente os camponeses, transformando-os em prisioneiros do sistema industrial enquanto trabalhadores assalariados. A revolução industrial fez exatamente o mesmo a milhares de pessoas, incluindo mulheres e crianças, que trabalhavam em condições miseráveis, com salários muito reduzidos e habitavam em condições de total insalubridade. O progresso da civilização fez- se á custa de violência (de diversas formas) contra milhões de pessoas. Quando a religião apresenta soluções para os problemas terrenos, sociais, económicos e políticos, também cumpre um papel político: alivia a pressão e funciona como uma espécie de anestesia coletiva. No entanto, este intimismo religioso não questiona a realidade social desigual e desumana, nem inquire sobre os responsáveis por tal situação: apenas induz os crentes ao conformismo. Nada mais ideal para a política que um povo conformado com as desigualdades e com os problemas sociais, económicos e políticos. Portanto, política, religião e violência parecem ter um longo historial. Eles tiveram sempre uma relação próxima e de favorecimentos uns aos outros. Um simples olhar sobre a história da humanidade prova esta simbiose. A Santa Inquisição, a noite de São Bartolomeu, a subjugação religiosa dos povos na época dos Descobrimentos, o colonialismo, a escravidão e a submissão secular da mulher sob pretextos ideológicos como justificação, as guerras por motivos religiosos, entre tantas outras memórias históricas que aliaram a violência, a religião e a política. http://1.bp.blogspot.com/-iuubAINpdXg/VN0YxZfzlqI/AAAAAAAA7TE/EF2WxfNvQuI/s1600/Optimized-Optimized- bancada-evangelica.gif Aliás, há mesmo certos momentos na história em que estas três esferas estão tão interligadas que se torna difícil distingui-las. È o caso da luta entre o Parlamento e a Coroa inglesa no século XVII, o conflito histórico entre protestantes e católicos na Irlanda e entre palestinos e israelitas no Médio Oriente. Em ambos os casos, fatores político-sociais secularmente sedimentados e influenciados pelas mudanças na política internacional produziram realidades complexas com problemas aparentemente insolúveis fora do recurso à violência. Em suma, política e religião sempre se serviram uma da outra para alcançar os seus objetivos. Ambas são manifestações sociais legítimas; que podem referenciar ações humanas que mantêm ou transformam a sociedade – uma apoia-se na outra em busca de atingir os objetivos pretendidos. Porém, quando prisioneiras de raciocínios maniqueístas, tendem a gerar fanatismo e intolerância e acaba por se aliar também ao recurso á violência, tão presente em inúmeros exemplos ao longo da nossa história. Apresentamos agora cinco teses sobre as relações entre a religião e a política: a tese da personalidade, da democracia, macro – micro, do antiparticularismo e do agente perdido. 1 – A tese da personalidade Uma experiência exemplar de ligações pessoais e transformadoras entre os indivíduos constitui parte central das visões desenvolvidas pelas religiões históricas: um ser humano pode salvar outro ser humano mediante a promessa de felicidade. A estrutura narrativa da crença das religiões históricas apresentaum mundo em que a promessa de felicidade faz sentido. O imperativo ético destas religiões mostra que experimentar a reconciliação com o outro sob a promessa de felicidade é também uma forma de alcançar a liberdade. A relação básica da religião com a política decorre do papel formador atribuído às relações pessoais de experiência e visão religiosas. A forma mais significativa de teologia política está nas possíveis associações humanas que se representam na comunidade e nas ações dos crentes. Em suma, a política serve- se da religião através da sua ação junto das pessoas e da ideia de bem – estar que esta pode proporcionar, segundo a o seu imperativo ético de alcançar a felicidade e a libertação por meio da paz existente na comunidade. http://imgs.jusbrasil.com/publications/artigos/images/z-mistura-jpg.jpg 2 – A tese da democracia Os ideais políticos e morais de uma cultura equivalem, muitas vezes, a um acordo entre a visão das relações pessoais expressas por uma religião influente e as preocupações das classes dominantes. Por exemplo, as concepções burguesas do século XIX sobre a felicidade conjugal construíram uma ponte, embora precária, entre as esperanças cristãs e as realidades vitorianas da altura. O elemento religioso do projeto democrático é a busca de disposições sociais que nos disponibilizam uns aos outros como indivíduos, de forma plena, conforme a religião proclama que somos. Porém, há uma clara incapacidade de traduzir numa concepção institucional esta ligação entre a visão religiosa e o progresso democrático. 3 – A tese macro – micro Alguns historiadores consideram que a Revolução Francesa foi importante porque combinou a revolução política com a religiosa. O núcleo místico da ideia da revolução politica na atualidade combina a macropolítica da mudança institucional com a micropolítica da revolução religiosa na mudança dos estilos dominantes de relacionamento e expressão pessoais. Assim, a ligação estimulante entre a macropolítica e a micropolítica é um facto fortemente assegurado. Onde uma dessas formas políticas se torna mais forte, a outra permanece muitas vezes mais fraca. Em consequência disso, programas de mudança institucional têm, geralmente, os seus efeitos revertidos pelo estilo de associação pessoal que não conseguiram mudar. Dissociada de esperanças de reconstrução social, a política cultural – revolucionária das relações pessoais dirige-se para uma tendência de experimentalismo e narcisismo privados. Uma consciência religiosa, quando se liberta do defeito espiritual do abandono do mundo e do defeito político do institucionalismo, consegue resistir a essa separação entre o macro e o micropolítico. O que a religião deve fazer é recordar ao poder político as realidades e necessidades pessoais dos cidadãos, especialmente da necessidade que as pessoas têm umas das outras e de viverem em sociedade. 4 – A tese do antiparticularismo A privatização das religiões nas sociedades democráticas liberais contemporâneas oculta o impulso subversivo e universalizante tipo das religiões seculares. O vazio institucional das teologias políticas dominantes torna estas ideologias incapazes de resistir ao que chamamos de chauvinismo no mundo contemporâneo: a afirmação da vontade abstrata de diferença coletiva, cada vez mais à medida que as diferenças culturais se vão atenuando através da chamada globalização. http://www.pragmatismopolitico.com.br/wp-content/uploads/2014/12/pol%C3%ADtica-profiss%C3%A3o- f%C3%A9-religiosos.jpeg Quanto mais plena e livremente a religião se envolve na política tanto maior será a probabilidade desta entrar num luta a favor do lado setorista. Quanto mais uma teologia política se institucionalizar tanto maior será a sua capacidade de desenvolver formas diferentes de vida e reforçar, com essa experiência de poder coletivo, a confiança das pessoas. 5 – Tese do agente perdido À medida que o conteúdo da crença religiosa muda deve mudar também os agentes da própria ação religiosa. Quem são os agentes de uma prática religiosa que tem no seu centro a experiência pessoal exemplar, que reconhecem a relação de fé com a democracia, que aliam o grande mundo das instituições com o pequeno mundo das relações pessoais mediante uma visão de reconstrução social? A história moderna da religião assistiu à difusão da ideia do sacerdócio de todos os crentes. Mas há dois problemas: a religião descrita nas primeiras quatro teses exige que todos os crentes sejam profetas além de sacerdotes e o segundo problema é que a experiência religiosa se tornou atualmente uma experiência na qual as pessoas são simultaneamente crentes e não – crentes. Nem a igreja, nem a política, nem a parceria entre ambas pode, no mundo atual, compreender adequadamente e expressar-se em nome desta experiência. RELIGIÃO E POLÍTICA SE MISTURAM; IGREJA E ESTADO, NÃO https://semeandopaz.files.wordpress.com/2014/10/politica-e-religiao.jpg A imprensa e alguns políticos criticam a campanha de candidatos ou políticos evangélicos porque estes estariam “misturando religião e política” e ameaçando a separação entre Igreja e Estado. É verdade que as explicações dos candidatos nem sempre ajudam a esclarecer. Mas não devemos acompanhar a música do laicismo militante que deseja excluir Deus e a religião da praça pública. Podemos não concordar com as políticas deste ou daquele candidato e até achar que sua conversão foi oportunista, mas não devemos combatê-lo de tal forma a deslegitimar a razão da nossa própria participação política. A política não deve ser meio de fortalecer uma religião em detrimento de outras, mas dizer que a religião em si nada tem a ver com a conduta da política é lógica e historicamente falso. Falar em “abuso” da religião é seguir uma linha errada. A diferença entre “uso” e “abuso” é muito subjetiva. Um dia, o feitiço pode se virar contra o feiticeiro. Devemos, sim, protestar quando se diz que todos os evangélicos estão com tal candidato, mas não devemos atacar os outros por “abusar” da religião na política. Deixemos que cada um se utilize da religião como quiser — é melhor do que criar um ambiente em que ninguém pode falar sobre religião em praça pública. O Ocidente aprendeu a duras penas, a custo de muito sangue, que religião e política têm de estar separadas, dizem os críticos, e certos candidatos estariam voltando a misturá-las. Em 2002, em resposta à imprensa, o ex-governador Anthony Garotinho declarou que era a favor do Estado secular, e, ao mesmo tempo, disse que não mistura religião com política. Essas duas afirmações não são equivalentes e retratam uma certa confusão. O Estado deve ser não-confessional. Foi justamente essa percepção por parte de alguns dos primeiros protestantes nos séculos 16 e 17 que deu início à separação entre Igreja e Estado. Com bases teológicas, eles perceberam que a visão cristã do Estado é que o Estado não deve ser “cristão”, no sentido de defender e promover uma determinada igreja ou religião. Este não é o papel de Estado nenhum na dispensação da graça. Entretanto, religião e política podem, sim, ser misturadas. Uma pessoa pode ser inspirada por sua fé religiosa a ingressar na política e defender certas propostas. Política confessional, sim; Estado confessional, não. Isso implica reconhecer, entre outras coisas, que há diferença entre ser um legislador evangélico e ser um governante evangélico. Em torno dos candidatos e políticos evangélicos há líderes e membrosde igrejas com uma expectativa “messiânica” de que aquele candidato evangélico canalizará automaticamente as bênçãos de Deus sobre o Brasil, resolvendo todos os problemas que nos afligem. https://malditodiariocartum.files.wordpress.com/2015/04/madito-diario11.gif Esse messianismo é muito perigoso, para o país e para a Igreja. Ao contrário do que muitas vezes se afirma, a última parte do homem a se converter não é o bolso, é o fascínio pelo poder. É verdade que houve um avanço inegável no meio evangélico em relação ao envolvimento e à prática política. Ainda assim, nem sempre é possível recomendar os modelos de atuação política mais visíveis. A atuação da Igreja Universal exemplifica um modelo possível de atuação política evangélica: o modelo institucional. A Igreja, como instituição, entra na política defendendo as suas propostas, as quais podem ser boas ou não. Muitas vezes, trata-se de mera defesa de seus interesses institucionais. Esse modelo apresenta graves problemas. A Igreja, como instituição, não deve se envolver na política dessa forma, pois, quando o faz, ela e os seus líderes se tornam vulneráveis a todas as contingências do mundo político. Assim, sua fala sobre a Bíblia, a fé e a salvação se contagia dessa mesma contingência. Se eu não posso acreditar naquilo que determinado pastor ou determinada igreja falam quando se trata de política, por que vou acreditar quando falam de outros assuntos? Logo, quem sai perdendo com esse modelo é a própria Igreja. Outro modelo de atuação evangélica na política é o que podemos chamar de modelo autogerado ou auto impulsionado. Um indivíduo evangélico que constrói uma projeção política, ou que já a possuía antes de se tornar evangélico, atua de maneira autônoma e faz um apelo aos evangélicos para que votem nele. Há muitos deputados estaduais e federais evangélicos que se enquadram nesse modelo. O problema é que muitas vezes o candidato se apresenta como evangélico para fins de obter votos, mas depois de eleito não vê nenhuma necessidade de responder aos evangélicos que o elegeram. E nós ficamos a coçar a cabeça, nos perguntando: “Como é possível um evangélico que parecia tão bom acabar tão mal?” O modelo autogerado também tem graves limitações. Contra os dois modelos mencionados, a solução é justamente o modelo comunitário. Não é um modelo institucional, corporativo, mas também não é um modelo individual, solto. http://4.bp.blogspot.com/- pkOh0jbXpKA/U7U0II_mXRI/AAAAAAAACEY/y7UlM5xTAdM/s1600/Pol%C3%ADtica,+F%C3%A9+e+Religi%C3%A3o. png O modelo comunitário acredita que os evangélicos devem se envolver politicamente não em nome de suas igrejas ou instituições, mas em grupos de pessoas que pensam politicamente de uma mesma forma, inspiradas pela sua compreensão da fé cristã. Trata-se de um projeto que inclui a abertura para o diálogo e para censuras proféticas. Assim, os que exercem mandatos políticos não ficam soltos, mas interagem e respondem a outras pessoas que podem, se necessário, até mesmo repreendê-los e aconselhar sua saída da política. Embora nenhum modelo ofereça garantias totais, o modelo comunitário de atuação política é o menos arriscado. A fé cristã é, ao mesmo tempo, utópica e bastante realista. A solução para os problemas políticos é sempre política. A solução para a má política é a boa política, e para a má espiritualidade é a boa espiritualidade. Não precisamos fugir para outro campo, porque o Deus bíblico está em todas as áreas da vida humana. POLÍTICA E RELIGIÃO NA AMÉRICA LATINA Texto completo em http://www2.dbd.puc-rio.br/pergamum/tesesabertas/0015624_02_cap_03.pdf A intenção de contribuir com um estudo que busca compreender certos aspectos que dizem respeito às ideias político-religiosas de alguns ativistas do MST se justifica, por um lado, pela consideração de que as comunidades eclesiais de base - desenvolvidas pelas pastorais populares na década de 70 - contribuíram significativamente para o surgimento e desenvolvimento do MST, especialmente através das atividades realizadas e o apoio dado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). Por outro lado, esse estudo se justifica pelo reconhecimento da importância da chamada “religiosidade popular”, pelo fato de estarmos inseridos numa cultura fortemente marcada pelo pensamento religioso cristão. Como se sabe, a Igreja Católica tem exercido uma grande influência na nossa sociedade, e não é sem razão que hoje o Brasil possui uma das mais importantes Igrejas Católicas do mundo. Porém, o campo da religião no Brasil vem se modificando muito devido ao crescimento das igrejas evangélicas e da multiplicação das igrejas pentecostais, o que tem tido implicações e consequências políticas significativas. Mas, além do surgimento das igrejas pentecostais, o campo religioso brasileiro viveu recentemente outra significativa mudança - embora essa mudança tenha ocorrido alguns anos antes, durante os governos da ditadura militar. Tal mudança diz respeito ao profundo envolvimento de certos setores religiosos - principalmente setores da Igreja Católica - com o trabalho de organização e de formação da consciência política da população, e, portanto, com uma prática que era desenvolvida pelos movimentos ditos de esquerda ou progressistas. Dessa forma, vários religiosos, leigos e não leigos, se comprometeram com a luta pela auto emancipação popular, adotando uma postura de oposição explícita à expansão da sociedade capitalista. É em meio a essa mobilização de religiosos, que surgem então as chamadas Comunidades Eclesiais de Base e as pastorais populares, cujos princípios e a prática encontraram a sua expressão, bem como a sua inspiração, na Teologia da Libertação. Michael Löwy, em seu estudo sobre os recentes acontecimentos ocorridos no campo de força político-religioso da América Latina, explica que a “teologia da libertação” não é uma mera corrente teológica, mas a expressão intelectual de um vasto movimento sócio/religioso que surge no começo da década de 60 envolvendo setores significativos da Igreja - padres, bispos, ordens religiosas -, além de movimentos religiosos laicos, como a Juventude Universitária Cristã (JUC), as redes pastorais com base popular, as comunidades eclesiais de base (CEBs), dentre outros. https://rodrigoqueiroz.files.wordpress.com/2012/09/policc81tico-x-eleitor1.jpg A relação entre religião e política nesse vasto movimento social/religioso influenciou as Igrejas latino-americanas que, no entanto, não deixam de se apresentar como uma corporação homogênea. Mas, embora as contradições no interior da Igreja não tenham levado a uma cisão institucional, tendo preservado a Igreja Católica sua unidade, no que diz respeito à Igreja brasileira ela foi a única no continente sobre a qual a Teologia da Libertação e seus seguidores conseguiram exercer uma influência decisiva. Dessa forma, embora a mudança sofrida pela Igreja tenha comprometido poucos religiosos, ela causou grande impacto no Brasil. Para se ter uma ideia, basta considerarmos que mesmo contra as orientações do Vaticano a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não condenou a Teologia da Libertação, pelo menos até a década de 90. (Löwy, 2000, p. 65) Fundamental, também, foi que a teologia da libertação exerceu um papel decisivo na luta contra o regime militar no Brasil. De fato, esse movimento social teve consequências políticas de grande alcance. Até certo ponto, o MST foi, assim como o PT e a CUT, produto da sua atividade, em especial das comunidades eclesiaisde base e das pastorais da Igreja que forneceram grande parte dos membros desses novos movimentos sociais e políticos surgidos no período da gradual redemocratização do país na década de 80. O grande salto dado pela Teologia da Libertação, segundo Löwy, foi justamente o “de ida ao povo”, no sentido de ter se comprometido com a causa dos pobres, reconhecendo-os em sua dignidade humana, como sujeitos, e não como objetos de caridade. A esse movimento corresponde a maior “humanização” do pensamento religioso, no qual a historia “divina” passa a ser compreendida como história concreta dos homens, e a fé religiosa ganha uma dimensão prática, de intervenção na vida social. Assim, essa vertente religiosa encontra pontos de contato ou afinidades com o pensamento político de inspiração marxista. Löwy reconhece que em termos de transformação social um dos fenômenos mais surpreendentes e importantes da história moderna desse hemisfério foi justamente a convergência do cristianismo e do marxismo, especialmente no que diz respeito à Teologia da Libertação, visto que durante meio século os fiéis da Igreja Católica e os movimentos políticos inspirados no marxismo se hostilizaram mutuamente. Mas embora reconheça que conceitos como “trabalho pastoral” ou “libertação” tenham um significado tanto religioso quanto político, ele também adverte para o fato de que a Teologia da Libertação não foi um movimento propriamente político, pois não chegou a formular nenhum programa, nem mesmo objetivos mais definidos no que diz respeito a realidades políticas ou econômicas. Esse é o ponto onde a prática religiosa se distancia da prática política, talvez indicando que a motivação desse movimento social não tenha ido muito além das aspirações de cunho moral e religioso. (Löwy, 2000, p. 62 - 64) No que diz respeito à gênese do cristianismo da libertação, uma das hipóteses levantadas pelo autor é a de que esse movimento social se formou pela convergência de mudanças ocorridas na década de 50 que criaram as condições que possibilitaram a sua emergência. Essas mudanças teriam sido tanto internas quanto externas à Igreja Católica: o desenvolvimento de novas correntes teológicas (especialmente na França e na Alemanha), as novas formas de cristianismo social e sua maior abertura para os estudos das filosofias modernas e ciência sociais, o pontificado de João XXIII, o Concílio Vaticano II (1962-65), o aumento da divisão social na América Latina, o êxodo rural, a revolução Cubana de 1959, o surgimento de movimentos guerrilheiros, a sucessão de golpes militares e uma crise de legitimidade do sistema político. Foram essas as condições sociais e históricas que teriam constituído o contexto no qual um setor significativo da Igreja passou a se comprometer com a luta pela auto emancipação dos pobres Mas é preciso considerar, também, que o sucesso de tal fenômeno deveu- se, em parte, ao fato de nesse continente a grande maioria da população estar imersa, desde seu nascimento, na cultura religiosa do Catolicismo Romano. Por outro lado, a cadeia do Catolicismo se torna “frágil” devido ao contexto de grande pobreza e de dependência econômica, onde se viveu e ainda se vive uma onda de lutas sociais e tentativas revolucionárias que se iniciaram a partir da revolução cubana. http://www.emtempo.com.br/aet/wp-content/uploads/2014/08/ilustra%C3%A7%C3%A3o-pol%C3%ADtica.jpg Outra hipótese levantada por Löwy sobre o Cristianismo da Libertação é que o seu desenvolvido se deu a partir da periferia em direção ao centro da instituição. Quer dizer, o processo de radicalização da cultura católica latino- americana não teria se desenvolvido de cima para baixo, a partir dos níveis superiores da Igreja, segundo uma análise mais funcionalista sugere, e nem de baixo para cima, como argumentam certas interpretações “de orientação popular”: As categorias ou setores sociais envolvidos no campo religioso eclesiástico que iriam se tornar a força impulsora para a renovação eram todos, de um jeito ou de outro, marginais ou periféricos em relação à instituição: movimentos laicos e seus consultores, especialistas laicos, padres estrangeiros, ordens religiosas (Löwy, 2000, p. 71). Dentre os princípios básicos da perspectiva inovadora e radical adotada pelos teólogos da libertação, pode-se destacar o da formação de uma nova Igreja que buscou se constituir pelo desenvolvimento de comunidades de base cristã entre os pobres como uma alternativa ao modo de vida individualista que o sistema capitalista impunha. Contudo, essa corrente cristã que condena o capitalismo e algumas vezes aspira ao socialismo não tem como um tema muito discutido a espécie de socialismo que almeja. http://veja.abril.com.br/assets/images/2012/9/95519/FUTEBOL%20POLITICA%20RELIGIAO-size- 620.jpg?1347057151 Nesse sentido, preferem lidar com as questões éticas de um ponto de vista mais geral em vez de discutir questões estratégicas e táticas. No que diz respeito ao interesse que muitos teólogos da libertação tiveram pelo marxismo, segundo o autor, ele é maior e bem mais profundo que a simples adoção de uns poucos conceitos científicos. Esse interesse envolve também valores, escolhas éticas/políticas e uma visão de futuro utópico, quer dizer, uma aspiração utópica de mudança social. Portanto, o marxismo não fornece somente uma análise científica aos teólogos da libertação. No entanto, Löwy adverte que o reconhecimento dessa afinidade entre utopia religiosa e utopia socialista não significa aceitar a tese de que o marxismo seria apenas a “manifestação secularizada do messianismo judaico-cristão”. É claro que os dois sistemas culturais possuem estruturas diferentes, e fora do Brasil e da América Central os membros da “Igreja dos Pobres” hesitam em se envolver em uma relação mais significativa com o marxismo. CONCEPÇÕES POLÍTICAS E RELIGIOSAS http://bocaderua.com.br/wp-content/uploads/2012/10/RELIGIOSO.jpg Como sugeriu Caldart, se olharmos para o MST compreendendo-o como um espaço que procura alcançar maior coesão cultural e social, podemos perguntar sobre que fontes culturais tal processo se desenvolve. Sem dúvida, uma dessas fontes é a religiosa. E no que diz respeito a ela é possível considerarmos tanto a religiosidade “popular” quanto às ideias provenientes da corrente do pensamento que formou o movimento social conhecido como teologia da libertação. Considera-se, portanto, que através do contato com alguns ativistas destacados do MST seria possível estabelecer uma aproximação com a experiência educativa desse movimento, enfocando a forma pela qual estão sendo adotadas pelos ativistas as concepções religiosas. Seria importante, então, procurar identificar se nesse caso as concepções religiosas são tratadas de uma forma que esteja favorecendo a crítica. Nesse sentido, se buscará recolher alguns subsídios que ajudem a compreender se a religião é um elemento de organização interna para o Movimento, ou se a sua importância se restringe ao nível da atividade política estratégica ou dos acordos táticos. Assim, pode-se procurar identificar se as diferentes denominações religiosas que compõem a base do Movimento tendem a se combinarem em composições superficiais, ecléticas, ou se existe a busca pela maior coesão cultural. No entanto, o que se coloca como questão fundamental, como questão de fundo, é o reconhecimento de que a combinação de ideias religiosas e crítico sociais radicais pode ser problemática, porque se a religião comporta formas ativas, de intervenção práticana vida social, e se essa vertente comprometida com a ação no mundo pode, como efetivamente aconteceu, encontrar afinidades ou pontos de contato com o pensamento político comprometido com a transformação social, por isso mesmo, ainda que de forma ambígua, pode desencadear formas de pensar e de agir exageradamente “diretivas”. A RELIGIÃO E O ESTADO LAICO NO BRASIL No entanto, a influência mútua dessas correntes de pensamento - a religiosa e a política - pode também estar favorecendo a crítica pelo embate das suas diferenças. Foi através de observações de campo, e principalmente de entrevistas realizadas com oito ativistas destacados do MST, que se procurou, então, recolher alguns subsídios que pudessem contribuir no sentido da melhor compreensão da influência das ideias religiosas no processo de formação da consciência política dos sem terras. Porém, devemos sublinhar, o objetivo da pesquisa não é o de uma apreensão global do quadro constituído pela influência das ideias religiosas na atividade das lideranças. O que a pesquisa pretende é tão somente recolher alguns subsídios para uma melhor compreensão inicial do panorama das ideias formadas no confronto delas com a atividade política em ligação com a vida do militante. No século XXI, a religião voltou a ocupar novamente espaço na mídia e nas redes sociais, apesar das previsões do Iluminismo que asseguravam seu desaparecimento e da filosofia da morte de Deus apregoadas pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche em 1882, a religião reapareceu com mais força. Assim, no Brasil, ao contrário destas previsões sobre o eclipse da religião, houve nos últimos anos um interesse considerável pelo tema e ocorreu o surgimento significativo de várias expressões de religiosidade. Este contexto ocasionou uma discussão em torno do papel da religião no Estado laico. Alguns se perguntam: teria a religião função num Estado que não se identifica com um credo religioso? Percebemos que essa questão é abordada de maneira parcial, tendenciosa e confusa sem uma análise acurada. Para algumas pessoas o Estado laico significa rejeição a toda expressão religiosa; em outros termos, segundo essa visão Estado e religião são duas instituições antagônicas. Na realidade, notamos que há uma enorme confusão entre laicidade e laicismo o que pretendemos explicar. O Estado sem dúvida é laico, ele não se identifica com nenhum credo religioso, mas os cidadãos têm o direito de se expressar e praticar sua religiosidade. Nesta perspectiva, podemos perguntar: qual é então a relevância da religião no Estado laico? Esta questão não é nova, uma vez que desde a Proclamação da República quando a religião católica deixou de ser a religião oficial no Brasil ela apareceu e “volta e meia” reaparece na mídia com maior ou menor intensidade. Contudo, nos nossos dias, essa questão reassumiu novas conotações. No Brasil, apesar da religião católica não ser mais a religião oficial e com o surgimento de outras expressões de religiosidade, as pesquisas apontam que 64,6% por cento da população se diz católica. Ao lado desta realidade, existem outras expressões de religiosidade no Brasil que mostram que o povo brasileiro é religioso. Assim, a relevância da religião no cenário nacional é um tema pertinente e atual que merece uma análise e um estudo aprofundado com o objetivo de explicar sua existência, finalidade e posicionamento dentro da política nacional e dirimir preconceitos e eventuais confusões. O objetivo geral e a questão principal será analisar a questão em tela: qual é então a relevância da religião no Estado laico? Os argumentos delineados tiveram a finalidade de demonstrar que laicismo e laicidade não possuem o mesmo significado. Para isso, realizaremos uma análise acurada dos termos: Estado; religião; laicismo e laicidade. Procuraremos fazer uma análise da religião no cenário da nação brasileira. Analisaremos as questões norteadoras associadas à questão principal: O que significa a religião e o que ela representa para o ser humano. Tentamos demonstrar como a religião pode contribuir no processo de implantação da paz e da justiça social. Detivemo-nos a pensar durante essa análise como o bem comum e a ordem social fazem parte do horizonte da religião e do horizonte do Estado. Por isso, defendemos que a religião é um fator unificador. Partindo desta ótica procuramos refletir sobre o papel do Estado e da religião. Assim sendo, impostamos a pergunta: quais são os principais deveres do Estado e porque eles não são antagônicos aos princípios religiosos que norteiam a religião? Tentamos mostrar que embora o Estado e a religião tenham funções e responsabilidades diferentes, um a força, a ordem social e a outra a persuasão, o equilíbrio do ser humano e o respeito pelo próximo, isto não significa que ambos sejam antagônicos. Assim, tentamos demonstrar como e até que ponto a religião pode contribuir para a consolidação da paz e do bem comum A nossa justificativa se pautou no fato de que as questões propostas foram fundamentais em razão de alguns argumentos. O primeiro esteve ligado à trajetória profissional filosófica, teológica do autor como Padre e educador no campo das Ciências Humanas e da religião. Além disso, a participação no Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia (CAEPE) em 2014, na Escola Superior de Guerra (ESG) possibilitou ampliar a visão e exercer a cidadania, traduzindo- se na forma de um trabalho de interesse público. O segundo argumento de natureza social revelou que a sociedade brasileira, que possui sensibilidade religiosa, deseja e precisa ter um esclarecimento acerca do papel da religião e do Estado no contexto atual. O terceiro foi estimulado pela escassez da produção acadêmica sobre o tema, fator esse que nos motivou a dar uma contribuição sobre o assunto. Neste aspecto, novos estudos permitiriam aprofundamento e detalhamento do objeto da pesquisa. A interpretação que serviu de pano de fundo para esclarecer a questão principal e as secundárias aludiu ao campo das discussões nacionais sobre o papel da religião numa sociedade, em especial, a brasileira, onde o Estado se apresenta como laico. Alguns debates sobre esse tema revelaram uma gama de conhecimentos difusa e incompleta, bem como uma confusão dos termos. A fim de reconstruirmos esse debate, conceitos tais como: Estado; religião; laicidade e laicismo foram adotados levando-se em consideração o significado de cada termo a partir de sua etimologia e o constante no Dicionário Aurélio. A Constituição brasileira de 1988 garante que todo cidadão brasileiro deve ter direito de praticar livremente seu credo religioso. A referida Carta Magna assegura a todo cidadão brasileiro ainda a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva como, por exemplo: Forças Armadas e presídios. Segundo a Constituição, a liberdade de consciência e de crença é inviolável. O Estado brasileiro é laico, mas como indica a Carta, ele não é laicista, pois assegura aos seus cidadãos o direito de livremente expressarem e praticarem sua religião. Na hipótese, consideramos que a religião é uma dimensão da vida do ser humano. O ser humano é religioso por natureza, tem uma dimensão transcendente. O Estado existe em função do bem comum e da ordem social. Os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil são: construir uma sociedade livre, justa e solidária; promover o bem de todos; entre outros. Em outros termos, a razão de ser do Estado é o bem do homem, assegurar que seus direitos sejam respeitados.Os princípios religiosos visam também o bem e a paz social. Reconhecemos os limites desta pesquisa em razão dos prazos reduzidos impostos aos estagiários do CAEPE para elaboração da monografia e sendo assim, não foi possível aprofundar a relação entre a Religião e o Estado. A pesquisa se ateve na parte bibliográfica e comportou uma entrevista, mas os instrumentos de coleta de dados; tais como os questionários não foram aplicados. A Metodologia adotada foi a de uma pesquisa bibliográfica de cunho qualitativo sobre as questões delimitadas já apresentadas, à luz da Constituição Brasileira e da posição de alguns especialistas sobre o tema. Assim, de forma preliminar, os conceitos que perpassaram a discussão foram quatro: Estado, religião, laicidade e laicismo. Não obstante, outros conceitos surgiram no desenvolvimento da pesquisa, bem como a inclusão de outros analistas. A monografia encontra-se estruturada em quatro seções. A introdução descreve o problema e sua problemática, as principais finalidades da pesquisa, sua justificativa e as opções teórico-metodológicas empregadas. A primeira seção analisa o conceito de religião e faz um apanhado histórico sintético sobre algumas manifestações da religiosidade em algumas civilizações. A segunda seção aborda o conceito de Estado, sua função e seus princípios norteadores. Neste capitulo se pretende demonstrar que laico e laicista são duas realidades completamente diferentes. A terceira seção versou sobre a importância da religião na formação da sociedade brasileira. Como a religião contribui para a formação do caráter nacional. Veremos que os objetivos fundamentais da Constituição do Brasil não se contrapõem aos princípios que norteiam a religião. Como a religião pode colaborar para a aquisição da ordem e da paz social. A quarta seção examina o Serviço religioso nas Forças Armadas. As razões que justificam o exercício da religiosidade no meio militar, pois a Constituição Brasileira assegura o direito à assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva. A conclusão reúne os principais argumentos e recomendações discorridos no trabalho, enfatizando a necessidade de interação entre o Estado e a Religião respeitando-se suas legítimas competências. RELIGIÃO A palavra religião significa relação-ligação com o Divino, em outras palavras, pode-se dizer: forma de relacionar-se com a Divindade, comunhão com o sagrado. O termo religião vem do latim religio, religare, ligação do ser humano com o Transcendente. A religião através do culto e dos seus ritos expressa o desejo do homem de entrar não só em contato para pedir favores ou proteção, mas ligar-se com uma Instância maior que o Transcende. Em todas as civilizações encontramos sinais de religiosidade. Todos os povos expressaram o desejo de se comunicar com o divino edificando templos e oferecendo sacrifícios a seus respectivos deuses. A crença em um Ser Supremo esteve sempre associada à prestação de um culto de louvor e reconhecimento à divindade. Nós podemos afirmar que o desejo do ser humano de se comunicar com o infinito manifestou-se de modo visível pelos ritos e sinais que evocavam a presença do Sagrado. A história dos povos primitivos revelou a existência de lugares especiais reservados, separados, consagrados aos deuses, destinados às celebrações religiosas, onde o homem se colocava em atitude de prece, invocavam o Ser Supremo e o homenageavam com danças e canções de acordo com Hans Kung (Kung, p.25-27) O senso religioso motivou muitas vezes o homem a sair em peregrinação em direção a lugares que os antigos consideravam santos. Segundo esses relatos, nestes espaços, os peregrinos eram envolvidos por uma atmosfera espiritual que os enlevava até o divino. Em seguida, os participantes voltavam para suas respectivas cidades ou tribos com a mente e o corpo regenerados e revigorados. As viagens para os chamados santuários da fé eram realizadas em datas especiais com intervalos que giravam em torno de um ano ou meses. No entanto, o sentido de pertença ao Sagrado não se limitava apenas a esses momentos. A religiosidade se expressava na maneira como aravam a terra, como eram realizados os pactos matrimoniais e como os mortos eram sepultados. Neste contexto, cabe uma pergunta: o homem primitivo vivia sua religiosidade apenas no âmbito privado? Se partirmos do ponto de vista de que a natureza do ser humano é sociável, seria precipitado responder que sim. Sem negar a individualidade, aspecto por sinal inerente ao homem, não se pode deixar de mencionar que o senso do sagrado é um ponto comum em todas as sociedades organizadas. Sendo assim, se tem observado que o homem, em qualquer civilização, possui esse apelo ao divino. Por vezes, a religiosidade se expressa de modo diverso, mas o sentimento que anima a busca do infinito é o mesmo: o finito anseia pelo Infinito. Pode-se afirmar que o ser humano busca o invisível sozinho e comunitariamente, pois o homem que vive em sociedade leva consigo suas necessidades, seus êxitos e limites. A vida social não elimina, mas reafirma as várias dimensões do homem, inclusive a religiosa. A filosofia da religião, disciplina que se ocupa do estudo do fenômeno religioso formula a seguinte questão: quando surgiu a religião? A resposta é simples. A religião apareceu com o homem. A religiosidade é parte integrante da condição humana. Deste modo, assim como não convém separar e antagonizar a dimensão individual da social, pois ambas fazem parte de uma mesma natureza, parece razoável ter em consideração o fato da religião se manifestar na esfera pública. Neste sentido, os antigos parecem não ter tido nenhum escrúpulo de praticar a religião na sociedade ou de serem consideradas pessoas religiosas. A religião para eles era encarada como algo normal, condizente com a condição humana. Quando analisamos o aspecto cultural presente nos diversos povos da antiguidade se impõe uma pergunta: existiu alguma civilização sem religião? A questão é complexa, mas se levarmos em conta os hábitos e os costumes arraigados nas várias culturas percebemos que a religião enquanto grupo organizado de pessoas que obedecem a certos preceitos e se reúnem frequentemente para prestar um culto, seja difícil afirmar que sim. No entanto, se pensarmos na religião como tentativa de encontro com o mistério, encontramos vestígios da religião em todas as civilizações Os relatos históricos mostram que a religiosidade é um fator que sempre teve ressonância na vida dos seres humanos. Neste sentido convém ainda ressaltar que a dimensão religiosa sempre esteve associada ao desejo de conhecer e explicar os mistérios relacionados à vida como: a morte, as catástrofes naturais e o sofrimento humano. A tentativa de entender e explicar as leis e os fenômenos naturais que envolviam o Cosmo constituíam motivações que reforçavam a religiosidade das civilizações passadas. No entanto, não eram as únicas, pois quando analisamos as razões da busca do Sagrado somente sob este ângulo, poderíamos ser levados a crer que a religião desapareceria com a evolução da ciência e o avanço tecnológico. No entanto, a religiosidade não foi eliminada. Ao contrário, houve nos últimos anos um surto do sagrado, reapareceram novas formas de religiosidade. Assim sendo, pode-se considerar que a religião não é apenas um vago sentimento de dependência do Ser Absoluto. A presença da religiosidade em toda a civilização e a persistência do desejo do Infinito, que se manifesta ainda hoje revelam que a religião é algo intrínseco ao ser humano.A religiosidade não é uma imposição que vem de fora, ela é um imperativo da natureza humana. O CONCEITO DE ESTADO, SUA FUNÇÃO E SEUS PRINCÍPIOS NORTEADORES O conceito de Estado está indubitavelmente ligado à definição de povo. Na verdade, a palavra Estado vem do latim status que significa posição e ordem. Essa posição e ordem transmite a ideia de manifestação de poder, ou seja, podemos conceituar que Estado é uma forma de sociedade organizada politicamente. Nilson Nunes da Silva Junior no seu artigo sobre o conceito de Estado diz: O Estado é uma figura abstrata criada pela sociedade. Também podemos entender que o Estado é uma sociedade política criada pela vontade de unificação e desenvolvimento do homem, com intuito de regulamentar, preservar o interesse público. Quando analisamos esta citação percebemos que o conceito e a definição de Estado estão relacionados com a realização e a preservação do bem comum. Na verdade, Nilson afirma que o Estado originou-se da “vontade de preservação desse interesse ou bem comum”. Segundo essa perspectiva o Estado surgiu porque a sociedade natural não detinha os mecanismos (regulamentação) necessários para promover a paz e o bem estar de seus membros. Assim, a única forma de preservação do bem comum foi a delegação de poder a um único centro, o Estado. O estudo sobre o conceito de Estado suscita uma questão: de onde se originou o Estado? São Tomás de Aquino e Santo Agostinho pregavam que o Estado, assim como tudo foi criado por DEUS, ou seja, o Estado não se originava do homem, da sociedade e da ordem social, e sim de uma figura maior que organizou o homem, transformando-o de homem-natural à homem-social. Hobbes se contrapunha a esse entendimento da origem e formação do Estado defendido por São Tomás de Aquino e por Santo Agostinho. Na concepção de Hobbes o homem viveria sem poder e sem organização, num estágio que ele o denominou de estado de natureza, o qual representava uma condição de guerra. Com intuito de evitar a guerra, Hobbes propôs que haveria à necessidade de se criar o Estado para controlar e reprimir o homem que vivia em estado de natureza. Na visão de Hobbes o Estado seria a única instância capaz de conseguir a paz, e para tanto o homem deveria ser supervisionado pelo Ente Estatal legitimado por um contrato social na concepção de Thomas Hobbes (HOBBES, p. 143) Rousseau defendia que o contrato social tem como objetivo proteger e assegurar os direitos da pessoa. Nesta linha ele afirmava (HOBBES, p. 143): [...] encontrar uma forma de associação que defenda e proteja a pessoa e os bens de cada associação de qualquer força comum, e pela qual, cada um, unindo-se a todos, não obedeça, portanto, senão a si mesmo, ficando assim tão livre como dantes Neste trecho Rousseau deixa claro que o Estado existe para defender a pessoa e promover o bem comum dos cidadãos. Já Emmanuel Kant afirmava que o Estado é o aglutinamento de pessoas, através do contrato social visando, necessariamente, o bem comum. Ele corrobora com esse raciocínio quando diz (KANT, p. 158): O ato pela qual um povo se constitui num Estado é o contrato original. A se expressar rigorosamente, o contrato original é somente a ideia desse ato, com referência ao qual exclusivamente podemos pensar na legitimidade de um Estado. De acordo com o contrato original, todos omnes et singuli no seio de um povo renunciam à sua liberdade externa para reassumi-la imediatamente como membros de uma coisa pública, ou seja, de um povo considerado como um Estado universi. E não se pode dizer: o ser humano num Estado sacrificou uma parte de sua liberdade externa inata a favor de um fim, mas, ao contrário, que ele renunciou inteiramente à sua liberdade selvagem e sem lei para se ver com sua liberdade toda não reduzida numa dependência às leis, ou seja, numa condição jurídica, uma vez que esta dependência surge de sua própria vontade legisladora. Quando analisamos todas essas teorias, entendemos que o Estado é a vontade de unificação de membros do grupo social, visando o bem comum ou bem público. Deste modo podemos afirmar que “[...] o Estado seria uma organização social, dotada de poder e com autoridade para determinar o comportamento de todo o grupo” na visão de Enio Moraes (SILVA, p. 216). O Estado, no entanto não é apenas uma instância de poder. Ele é reconhecido também, por seus elementos constitutivos, tais como povo, território e a soberania. E o que significa povo? O povo é caracterizado pelo conjunto de pessoas que se unem com intuito organizacional e fiscalizador. Darcy Azambuja define o povo assim (AZAMBUJA, p. 19): Povo é a população do Estado, considerada sob o aspecto puramente jurídico, é o grupo humano encarado na sua integração numa ordem estatal determinada, é o conjunto de indivíduos sujeitos às mesmas leis, são os súditos, os cidadãos de um mesmo Estado. Nesta citação percebemos que entre Estado e povo existe uma relação estreita. Neste sentido, é correto afirmar que o Estado tem sua razão de ser na salvaguarda dos interesses e anseios do povo, dentre esses anseios, encontra- se o desejo de exercitar sua religiosidade. Nós, nas páginas precedentes afirmamos que o Estado foi constituído pelo povo, para que esse salvaguardasse seus direitos. A definição de soberania está vinculada a autoridade do Estado que permite o exercício de suas funções. A soberania do Estado encontra-se intrinsecamente no segundo elemento constitutivo e será exercida em seu território e essa transporta a ideia de ordem interna, com poder de impor determinações e condições, isto é: regulamentar a ordem social interna. Hans Kelsen qualifica o papel da soberania do Estado nestes termos: A afirmação de que a soberania é uma qualidade essencial do Estado significa que o Estado é uma autoridade suprema. A “autoridade” costuma ser definida como o direito ou poder de emitir comandos obrigatórios. O poder efetivo de forçar os outros a certa conduta não basta para constituir uma autoridade. A soberania, como algo intrínseco ao Estado é defendida como expressão jurídica. Por isso, Miguel Reale a define assim: Soberania é tanto a força ou o sistema de força que decide o destino dos povos, que dá nascimento ao Estado Moderno e preside ao seu desenvolvimento, quanto a expressão jurídica dessa força no Estado, constituído segundo os imperativos éticos, econômicos, religiosos etc., da comunidade nacional, mas não é nenhum desses elementos separadamente: a soberania é sempre sócio-jurídico-política, ou não é soberania. A partir das análises destas citações podemos dizer que soberania, é a capacidade jurídica e territorial de autodeterminação, fixando competências dentro do território estatal e limitando a invasão de outro Estado. Quando estudamos a função e a missão do Estado junto ao povo, percebemos que o Estado tem o fim de promover e defender os direitos dos cidadãos Entre esses direitos encontra-se a dimensão religiosa. No caso especifico do Brasil, desde o início o governo se uniu a Igreja. A relação entre o Estado e a religião no Brasil, personificado pela aliança Igreja Católica e Império vigorou por muitos anos, de modo muito estreito, desde a época do descobrimento. O Estado cognominado império conseguia harmonizar os seus interesses temporais e políticos com o fim espiritual da Igreja. Nesta época o Império se identificava com o credo católico. O escritor Júlio Maria no seu livro: A Igreja e a República, p. 66 afirma que o Brasil já mesmo antes do período imperial era impregnado da doutrina católicae que a Constituição Política de 1824, conhecida como pacto fundamental do Império não fez senão reconhecer esse fato, prescrevendo no art. 5°: “a religião católica, romana continuará a ser a religião do Império”. Isso significou uma mútua cooperação entre a Igreja e o Império. O imperador se tornou protetor da Igreja. Neste período, o governo do Brasil mantinha a Igreja, concedia subsídio financeiro e por isso fazia ingerências nos assuntos eclesiásticos. Dentre essas prerrogativas do governo imperial na Igreja, destaca-se o direito de escolher os bispos. A proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, separou definitivamente a Igreja do Estado. O início do regime republicano foi o primeiro passo para a concretização do estado laico. A esse propósito é bom recordar que uma boa parte dos membros da Igreja da época recebeu a nova situação com grande entusiasmo. Segundo as crônicas daquele tempo, sobretudo a carta pastoral coletiva do episcopado brasileiro, de 19 de março de 1890, dizia que a separação entre a Igreja e o Estado era necessária, pois o regime de cooperação se tornara dominação do Império sobre a Igreja que sufocava sua liberdade. Segundo Aldir Guedes Soriano, um dos primeiros a reconhecer a utilidade da separação entre a Igreja e o Estado foi Melásporo, pseudônimo utilizado pelo advogado, jornalista e político alagoano Aureliano Cândido Tavares Bastos, que já em 1866 escrevia o panfleto "Exposição dos verdadeiros motivos sobre que se baseia a liberdade religiosa e a separação entre a Igreja e o Estado", onde se lê que "a separação completa da Igreja do Estado, a independência absoluta do poder religioso, na economia, governo e direção dos cultos, é o único meio de tornar satisfatórias as relações dos poderes civis e eclesiásticos” . Neste período muitos intelectuais e políticos se somaram à luta pelo estabelecimento de um Estado laico, dos quais se sobressai o jurista baiano Rui Barbosa, que desde 1876 passou a escrever e pregar contra o consórcio da Igreja com o Estado. Agora, perguntemos. Em que consistiu essa separação? A Igreja passou a ser não mais subsidiada pelo Estado, ou seja, ela deveria sustentar-se sem o apoio do governo. A religião católica passara a não ser mais o credo oficial do Estado. Neste sentido, não podemos deixar de mencionar que já em 1885 o Papa Leão XIII na Encíclica Immortale Dei afirmava que Deus dividiu o governo do gênero humano entre dois poderes: o poder eclesiástico e o poder civil; o primeiro para as coisas divinas, e o segundo para as coisas humanas. Nós percebemos que a distinção entre Igreja e Estado também era um anseio da própria Igreja que, na pessoa do seu representante maior, o Papa reconhecia e defendia a plena separação entre a religião e o Estado. Na referida carta encíclica, o Papa Leão XIII, ao mesmo tempo em que assegura a necessidade da Igreja viver sem a ingerência do Estado, deixa claro que Igreja e Estado não são instituições antagônicas. Isso quer dizer que embora ambas tenham campos distintos de atuação, elas não devem se recusar a mútua cooperação, evidentemente respeitando-se as suas devidas competências. Segundo essa perspectiva, o poder eclesiástico e o poder divino têm sua origem na mesma fonte, ou seja, em Deus. Ambos Estado e Igreja foram estabelecidos para o bem do homem e o progresso da sociedade. Sendo, assim o campo do poder eclesiástico são as coisas divinas e a tarefa do poder civil são as questões humanas. Vejamos as próprias palavras do Papa: “…Cada um deles (religioso e civil) é soberano. Eles estão encerados em limites perfeitamente determinados, e traçados em conformidade com a sua santa natureza e com o seu fim especial”. Nós, a partir deste texto, podemos concluir que a Igreja considera a autonomia da esfera civil e política em relação à esfera religiosa e eclesiástica como um fator positivo. Percebemos que isso significa defesa da liberdade dos cidadãos que, exatamente no exercício de sua liberdade e responsabilidade cooperam para o progresso e a ordem da sociedade sem renunciarem a prática da religião. A neutralidade do Estado em assuntos de cunho religioso não significa aversão a cooperação e ao diálogo entre a esfera civil e a religiosa. O Estado neutro considera o desenvolvimento de todas as potencialidades humanas e o bem da sociedade. Neste sentido, o ordenamento brasileiro adotou uma neutralidade benevolente, tendente a obsequiar o fenômeno religioso e não a expurgá-lo por completo do espaço público. Este aspecto não escapa à acuidade intelectual de Manoel Gonçalves Ferreira Filho, que assim se pronuncia: A Constituição de 1988 segue em princípio o modelo de separação, mas a neutralidade que configura é uma "neutralidade" benevolente, simpática à religião e às igrejas. É o que decorre das normas adiante assinaladas: 1. A Constituição não é ateia. Invoca no Preâmbulo o nome de Deus (o que já fazia a Constituição de 1934), pedindo-lhe a proteção. 2. Aceita como absoluta a liberdade de crença (art. 5º, VI). 3. Consagra a separação entre Igreja e Estado (art. 19, I). 4. Admite, porém, a "colaboração de interesse público" (art. 19, I, in fine). 5. Permite a "escusa de consciência", aceitando que brasileiro se recuse, por motivos de crença, a cumprir obrigação a todos imposta (art. 5º, VIII), desde que aceite obrigação alternativa. (Caso não o faça, ocorrerá a perda dos direitos políticos – arts. 5º, VIII, e 15, IV.) 6. Assegura a liberdade de culto (art. 5º, VI) (subentendida a limitação em razão da ordem pública). 7. Garante a "proteção dos locais de culto e das liturgias", mas na forma da lei". 8. Favorece as Igrejas, assegurando-lhes imunidade quanto a impostos incidentes sobre seus "templos" (art. 150, VI, b). Entretanto, como explica o art. 150, § 4º., está imunidade abrange "o patrimônio, a renda e os serviços relacionados com as (suas) finalidades essenciais" As normas acima estão em consonância com o modelo de Estado laico aberto no qual a religião é vista como algo positivo e agregador de valores. Deste modo podemos pensar que o modelo de laicidade estatal adotado pelo sistema constitucional brasileiro valoriza a religião. Na verdade, existe um Estado laico mais aberto para a manifestação religiosa inclusive no espaço público e um modelo de Estado laico mais fechado, normalmente adotado por alguns países europeus como a França. O preâmbulo da Constituição de 1988 nos dá uma visão de uma laicidade democrática. Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Constatamos que os constituintes invocam a proteção de Deus, deixam claro que a ordem jurídica constitucional não adota uma separação extremada entre Estado e Religião, da espécie a que os doutrinadores europeus denominariam de "laicismo". A invocação da proteção divina não é destituída de significado. Podemos dizer, com efeito, que a referência a Deus no preâmbulo da Carta Magna de 1988 está a revelar que o Estado brasileiro tem em relação ao transcendente, ou seja, à fé religiosa, uma atitude de respeitoe valorização. Nós podemos dizer que o modelo de laicidade, adotado atualmente pelo Estado brasileiro, é do tipo tendente ao favorecimento da expressão religiosa e muito importante quando da interpretação dos preceitos legais do nosso ordenamento jurídico, que se inserem na temática da liberdade de organização religiosa. Isso porque evita que o intérprete do direito incorra no equívoco de, na aplicação das normas que compõem o nosso ordenamento, recorrer a propostas hermenêuticas importadas de países que adotam um modelo que pretende confinar a religião ao foro íntimo dos indivíduos, ante sua flagrante incompatibilidade com o ordenamento constitucional brasileiro. Na verdade, a laicidade do Estado brasileiro, proclamada desde a instauração da República, na forma como é adotada pela atual Constituição Federal, longe de significar uma diminuição do espaço conferido ao fenômeno religioso, presta-se até a ampliá-lo e, sendo assim, a interpretação dos dispositivos constitucionais e infraconstitucionais que tratam da questão da liberdade religiosa não pode ignorar esse viés hermenêutico. Quando comparamos a Constituição de 1988 com a Constituição de 1891 no que diz respeito a posição do Estado com relação a religião notamos que há uma mudança significativa de visão. Na verdade, a carta Magna de 1988 adota uma postura mais flexível e aberta para com a religião que não encontramos na Constituição de 1891. Analisemos no quadro abaixo os pontos principais em que ambas se distanciam: A Constituição de 1988 A Constituição de 1891 Invoca a proteção de Deus no seu Preâmbulo. Não fazia referência em momento algum ao nome de Deus. Assegura, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva (art. 5º, VII). Não previa a prestação de assistência religiosa nas entidades de internação coletiva. No próprio preceito que estabelece o princípio da separação entre Igreja e Estado (art. 19, I), admite, como exceção ao princípio, a "colaboração de interesse público". Rejeitava peremptoriamente quaisquer relações de dependência ou aliança entre o Estado e as organizações religiosas (art. 72, § 7º), não prevendo a "colaboração de interesse público" Dispõe que o ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental (art. 210, § 1º). Previa que seria leigo o ensino ministrado nos estabelecimentos públicos (art. 72 - § 6º), não abrindo exceção para o ensino religioso. Estabelece imunidade tributária quanto aos impostos incidentes sobre os templos religiosos. Não previa qualquer espécie de imunidade tributária em favor das organizações religiosas. Atribui ao casamento religioso o efeito civil (art. 226, § 2º). Somente reconhecia o casamento civil (art. 72, § 4º). Quadro 1: Comparativo Constituição de 1988 x Constituição de 1891 Fonte: O autor (2014) Quando analisamos os dois modelos de Estado laico, notamos que a Constituição de 1988 reconhece e valoriza o fenômeno religioso, sem anular o aconfessionalimo do Estado. Neste aspecto parece ter havido uma evolução da compreensão do conceito de laico, com relação a Carta Magna de 1891.Veremos na próxima seção como a religião pode contribuir para que o Estado atinja seus objetivos, sem ingerência entre as esferas. O quadro acima demonstra também que a Constituição de 1988 se aproxima mais do ideal da liberdade religiosa que constitui uma das prerrogativas principais do Estado laico que a Carta Magna de 1891. Na verdade, nenhum regime de governo pode ser considerado democrático se não oferece aos seus cidadãos o direito de praticar seu credo. Neste sentido, a Constituição de 1988 é mais coerente com o conceito de Estado aconfessional ou Estado laico. Vejamos em que concerne o exercício da religião: Uma vez que o exercício da religião tem significado central para toda crença e toda confissão, esse conceito precisa ser, em face de seu conteúdo histórico, interpretado extensivamente [...] A liberdade religiosa está entre os direitos fundamentais do ser humano. Assim sendo, o fato do Estado zelar pelo respeito aos valores religiosos e culturais dos cidadãos não significa que ele perda sua neutralidade e aconfessionalidade. O verdadeiro Estado é aquele que leva em consideração os anseios e as necessidades do povo, inclusive sua aspiração pelo Transcendente. Mas, agora podemos nos perguntar: em que consiste essa liberdade religiosa? Ela implica: De acordo com sua interpretação extensiva, fazem parte do exercício da religião não somente os procedimentos litúrgicos e a prática e a observância dos usos religiosos, como culto religioso, coleta de contribuições, orações, recebimento dos sacramentos, procissão, hastear as bandeiras das igrejas e tocar os sinos, mas também a educação religiosa, festas laicas e ateias, bem como outras manifestações da vida religiosa. Entende-se pela leitura do texto acima que a religião não é simplesmente algo do fórum interno ou da esfera privada. O cidadão tem o direito de expressar exteriormente sua religiosidade. Jônatas Machado: explica a relação entre o caráter privado e o coletivo da religião nestes termos: A titularidade de direitos fundamentais pelas pessoas coletivas reveste-se de particular importância no caso do fenômeno religioso. A história demonstra a existência e influência de inúmeros grupos que surgem da dinâmica social do homem e da religião. No caso particular do Cristianismo, por exemplo, a ideia de assembleia (eclesiae), marcou tão profundamente os hábitos sociais que se torna hoje difícil conceber a religião desligada de sua dimensão associativa. Acresce que um dos atos mais significativos através dos quais o indivíduo exerce sua liberdade religiosa consiste, justamente, na adesão de uma comunidade moral de natureza religiosa. Assim, dado o caráter eminentemente social do fenómeno religioso, o reconhecimento do direito à liberdade religiosa individual tem como corolário o respeito pela autonomia das formações sociais a que aquele naturalmente dá lugar. O Estado laico se compromete com o bem comum e a aquisição daquelas condições que corroboram para a implantação do bem estar e da paz social. A religião por sua vez transmite esperança e estimula seus adeptos a buscarem com tenacidade os meios para a consolidação da harmonia e da ordem no seio da comunidade humana. Quando o Estado laico se engaja na satisfação dos anseios religiosos e sociais do povo, ele contribui para o fortalecimento dos laços humanos entre os cidadãos, e isso redunda no progresso do próprio Estado. A IMPORTÂNCIA DA RELIGIÃO NA FORMAÇÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA No seu livro: A Igreja e a República o escritor e advogado brasileiro Júlio Cesar de Morais Carneiro afirmava: […] Onde o início e o desenvolvimento de nossa nacionalidade, a formação da pátria, as lutas coloniais, a educação do povo, os usos e costumes- tudo isto está identificado com as crenças religiosas de nossos antepassados. Aliás, o critério que adoto para descrever o fato religioso no Brasil é o critério que se impõe a todo escritor consciencioso; porque, quer se trate do fato religioso na história geral do mundo, quer se trate, como nesta Memória do fato religioso na história particular de um povo, o papel do historiador deve ser sempre o mesmo. Ele não pode impunemente, isto é, sem falar a verdade, violar as leis divinas da História. Este trecho ressaltaque a formação do caráter nacional do povo brasileiro não pode ser compreendida sem referência a experiência religiosa que incutiu princípios e norteou costumes que contribuíram para o desenvolvimento das virtudes cívicas e morais que enaltecem a cultura brasileira. A Constituição da República Federativa do Brasil promulgada em 1988 no seu artigo 3° diz que os objetivos fundamentais são: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional e promover o bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Os fins que a Constituição brasileira visa alcançar não estão em contraposição com a religião cristã. Se levarmos em consideração os valores apregoados pela religião como: respeito pelo próximo, o valor da vida humana, a justiça, liberdade, a concórdia, o bem comum e a paz social e os princípios que norteiam a Carta Magna da nação brasileira encontraremos vários pontos em comum. Os interesses da religião podem entrar em conflito com os objetivos do Estado somente quando a dignidade do homem não é tratada com respeito. Nós sabemos, que quando os valores humanos são pontuados e defendidos na sua integralidade a religião acaba contribuindo e incentivando seus membros a tomarem parte no tecido social. Os cristãos são constantemente motivados a participarem da vida social, pois estão conscientes de serem cidadãos e creem que a sociedade possui fins e objetivos que não são incompatíveis com seus deveres de cristãos. A constituição de 1988, seguindo a mesma linha de pensamento da Carta Magna de 1889 afirma que o Brasil é um Estado laico. O Brasil é oficialmente um Estado laico. Ele não se identifica com nenhum credo religioso, mas a Constituição Brasileira e outras legislações preveem a liberdade de crença religiosa aos cidadãos, além de proteção e respeito às manifestações religiosas. No artigo 5º da Constituição Brasileira (1988) está escrito: VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; A liberdade de consciência e de crença significa que ao cidadão brasileiro é assegurado o direito de praticar sua religião sem deixar de ser cidadão. O cristão sabe que, como membro da sociedade civil, deve colaborar para que o bem comum, a paz e a justiça sejam implantados na comunidade. O cristianismo não isenta seus membros de suas legítimas responsabilidades e deveres sociais. A religião cristã incentiva e estimula seus adeptos a se empenharem para que a comunidade humana desfrute de bem estar material e espiritual. Enquanto o Estado motiva os cidadãos a assumirem seus deveres civis por razões sociais e políticas a religião estimula por razões humanitárias, fundamentadas na dignidade da pessoa humana. Seguindo essa linha de raciocínio se pode seguramente afirmar que a religião e o Estado não são instituições que devem se hostilizar. O papel específico do Estado, guardião da liberdade e dos interesses comuns da coletividade, encontra na religião um forte aliado. Aliás, quando estiver em pauta o bem comum, a religião não pode parecer indiferente, pois se trata sempre da dignidade humana que o cristianismo é chamado a defender e a promover, pois do contrário se distanciaria dos seus próprios princípios. A questão da contribuição da religião na formação do povo brasileiro no contexto de um Estado que se declara laico, suscita a necessidade de esclarecer alguns pontos. Estado laico significa que os governantes não devem se posicionar nem a favor e nem contra a religião, mas os cidadãos têm o direito de praticar seu credo religioso. O fato, ou seja, o direito reconhecido e garantido pela Carta Magna do Brasil, dos brasileiros terem uma religião não os isenta de seus deveres sociais. Vimos anteriormente que o cristianismo, não dispensa seus membros da responsabilidade de atuarem para o progresso e a ordem social. Sendo assim, se pode pensar que o Estado pode ser laico, no entanto, quem governa não pode legislar e governar desconhecendo o direito dos cidadãos de terem sua religião e que esses cidadãos possuem valores e princípios que podem contribuir para a consolidação dos objetivos e fins que o estado se propõe alcançar. No artigo VIII do capítulo primeiro, “Dos direitos e garantias fundamentais dos brasileiros”, da Constituição do Brasil encontramos a seguinte formulação: “Ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política”. Deste modo, se entendemos como um direito, a participação de qualquer brasileiro, independentemente de seu credo, na vida pública; compreendemos que a nação brasileira não exclui ninguém quanto a colaboração de seus cidadãos na aquisição de seus fins como: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Vemos nestes objetivos vários aspectos que se assemelham com valores defendidos pela religião cristã. O cristão se identifica com esses valores. Eles não são alheios a sua formação humana e cristã, por isso se sentem ainda mais motivados a colaborar para que se tornem realidade. Quando analisamos os objetivos do estado e seus fins e os princípios cristãos, constatamos que ao contrário do que afirmam alguns não existem discrepâncias entre eles, mas certa consonância. Essa realidade nos faz pensar que a religião na sua essência não constitui uma ameaça para o Estado. Os cidadãos que ao mesmo tempo são cristãos, respaldam seus deveres sociais nos princípios religiosos que não se opõem aos legítimos interesses do Estado brasileiro. O SERVIÇO RELIGIOSO NAS FORÇAS ARMADAS A Constituição brasileira garante a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva. O direito dos militares e civis em situação de internação coletiva de praticarem seu credo é uma necessidade que o estado deve prover. Mas em que consiste essa assistência religiosa? O Serviço de Assistência Religiosa do Exército (SAREX) tem por finalidade prestar assistência religiosa e espiritual aos militares e aos civis em serviço nas Organizações Militares e às respectivas famílias, bem como atender a encargos relacionados com as atividades de educação moral realizadas no Exército. A garantia da assistência religiosa assegurada às Forças Armadas que o Estado brasileiro reconhece constitucionalmente suscita uma questão: o Estado quando proporciona a realização desse direito estaria ferindo sua laicidade ou neutralidade com relação à religião? Se concebermos o Estado, como a instituição que zela para que as legítimas aspirações dos cidadãos sejam atendidas, podemos seguramente dizer que não, pois uma coisa é o Estado como instituição e outra coisa é o povo que faz parte deste Estado que como declara a carta Magna brasileira tem o direito de praticar seu credo. Deste modo, quando o Estado garante apoio religioso aos militares e as demais categorias de internação coletiva está cumprindo seu dever de detentor dos interesses e anseios dos cidadãos. Assim, nós entendemos que Estado laico como instituição não se identifica com nenhum credo, porém essa posição não o exime de criar as devidas condições para que os cidadãos usufruam de seus direitos, inclusive o da assistência religiosa.Além disso, se faz necessário especificar o que significa de fato essa neutralidade do Estado. Estado laico é Estado leigo, secular (por oposição a eclesiástico). É Estado neutro. Segundo Celso Lafer, “laico significa tanto o que é independente de qualquer confissão religiosa quanto o relativo ao mundo da vida civil”. Todavia ser independente não significa ser hostil a religião. Por isso, Celso Lafer afirma que uma das primeiras dimensões da laicidade é de ordem filosófico-metodológica, com suas implicações para a convivência coletiva. Neste sentido se diz que nesta dimensão, o espírito laico, que caracteriza a modernidade, é um modo de pensar que confia o destino da esfera secular dos homens à razão crítica e ao debate, e não aos impulsos da fé e às asserções de verdades reveladas. Isto não significa desconsiderar o valor e a relevância de uma fé autêntica, mas atribui à livre consciência do indivíduo a adesão, ou não, a uma religião. O modo de pensar laico está na raiz do princípio da tolerância, base da liberdade de crença e da liberdade de opinião e de pensamento. Nós podemos dizer que raiz de um Estado laico está na tolerância e no respeito pela identidade cultural e religiosa de um povo. O advogado Iso Chaitz Scherkerkewitz ao abordar a questão da liberdade religiosa e da neutralidade do Estado com relação à religião escreveu: [...] o critério a ser utilizado para saber se o Estado deve dar proteção aos ritos, costumes e tradições de determinada organização religiosa não pode estar vinculado ao nome da religião, mas sim aos seus objetivos. Se a organização tiver por objetivo o engrandecimento do indivíduo, a busca de seu aperfeiçoamento em prol de toda a sociedade e a prática da filantropia, deve gozar da proteção do Estado. O texto acima parece vir em sintonia com alguns temas propostos pela instrução religiosa que é ministrada aos membros das Forças Armadas, que visam justamente o crescimento humano deles, que mais tarde redundará no progresso e na ordem da sociedade. Dentre esses destacamos os seguintes: Relacionamento humano – expor aos militares os vários ângulos do relacionamento humano que levam à maturidade psicológica, à convivência harmônica e à sadia camaradagem; Vocação e trabalho – explicar aos militares como também é vital ter uma habilitação, um trabalho e(ou) uma profissão que se ajustem ao indivíduo e permitam uma boa remuneração para a sua subsistência e para o estabelecimento de uma família bem estruturada; A fé cristã e a vida militar – sob enfoque ecumênico, explicar aos militares que não há oposição entre ser um bom militar e um bom cristão; 4. O militar e a religião nos dias atuais – esclarecer os militares, com enfoque ecumênico, sobre a importância da prática religiosa como fator atenuante das tensões do mundo moderno; Virtudes militares e virtudes cristãs – sob um prisma ecumênico, apresentar aos militares como muitas das virtudes militares que enobrecem a carreira militar encontram correspondência nas virtudes cristãs; Drogas lícitas e ilícitas – conscientizar os militares sobre os grandes malefícios que elas trazem para a saúde física e mental e, também, que elas se constituem numa das maiores causas de desajustes familiares; mostrar os princípios religiosos que as condenam e a força da fé para combater e afastar os vícios.16 Quando nós analisamos todos esses temas propostos pelo Serviço de Assistência Religiosa do Exército encontramos valores humanos que não derivam diretamente da religião. No entanto, são reforçados pela religião que os reconhece e aprecia e sem eles a sociedade não tem como avançar nem no plano político e nem no plano econômico. O fato dos fins do Estado e da religião serem diversos não representa ameaça, mas complementaridade. A cooperação entre Estado e religião no que diz respeito ao bem comum, não compromete a legitima autonomia da esfera estatal e da religiosa. O serviço religioso que é prestado às Forças tem objetivos que convergem para a paz e o bem da nação. O aspecto psicossocial que constitui uma dimensão significativa do ser humano e que encontra na religião sua principal base de apoio não pode ser negligenciada, caso contrário o militar estaria sujeito ao fracasso da sua missão social. O serviço religioso nas Forças visa o crescimento de todos os aspectos ligados ao ser humano. Ele tem por base, fundamento o homem na sua integralidade. A esse propósito, nós não podemos deixar de destacar que durante a história do Exército Brasileiro nas suas diversas missões, inclusive durante a guerra os capelães desempenharam funções humanitárias e sociais junto aos soldados em missão que foram além da dimensão especificamente religiosa. Os militares distantes de suas famílias, vivendo e enfrentando muitas vezes em situações desafiadoras em consequência de suas tarefas como descreve Ivan Xavier. [ ..} Morte, insegurança, possibilidade de matar, necessidades biológicas e afetivas não atendidas, notícias negativas da família, desgaste no relacionamento social, doenças endêmicas, acidentes, extenuação física, moral e emocional encontraram no serviço de assistência religiosa apoio religioso e psicológico”. (IVAN, p. 12) O capelão militar como vemos deve levar em consideração o contexto real em que vivem os soldados sem descuidar dos aspectos afetivo, psicológico e comportamental deles. Neste sentido, podemos dizer que o trabalho do capelão visa o engrandecimento humano e social dos militares que assim revigorados pelos ideais religiosos e cívicos podem servir a Pátria com maior coragem e abnegação. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICOS ORÍGENES. Contra Celso. (Introducción, versión y notas por Daniel Ruiz Bueno). Madrid: BAC, 1967. Padres Apologistas. Introdução e notas por Roque Frangiotti. São Paulo: Paulus, 1995. HAMMAN, A. Para ler os padres da igreja. São Paulo: Paulus, 1995. PINTO, Milton José. Comunicação e Discurso: introdução à análise de discursos. São Paulo: Hacker Editores, 1999.