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PRODUÇÃO TEXTUAL 
AULA 6 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Jeferson Ferro 
 
 
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CONVERSA INICIAL 
Olá, alunas e alunos! Chegamos na reta final desta disciplina. Isso quer 
dizer que está na hora de revisitarmos alguns dos conceitos centrais para a 
elaboração de textos jornalísticos. Nosso maior objetivo aqui é desenvolver sua 
capacidade de avaliação crítica da linguagem, por isso o tema central dessa 
unidade será a ideia de revisão textual. 
Vamos lá?! 
CONTEXTUALIZAÇÃO 
Antes de mergulhar na revisão textual, começaremos pelo gênero que é 
metalinguístico por sua própria natureza reflexiva: a crítica. Sendo assim, nossos 
temas e objetivos para esta aula são: 
1. Como fazer uma crítica textual 
A crítica é, antes de tudo, uma tomada de posição. Uma de suas 
manifestações, a mais relevante para a prática jornalística, é seu uso como 
método para analisar um objeto, em geral artístico. 
2. Processos de revisão de textos literários: conto e 
crônica 
A crônica é o gênero textual brasileiro por excelência. O conto, um 
exercício de contenção. Vamos rever os dois gêneros, pontuar suas diferenças 
e articular similaridades, retomando reflexões de outras aulas. 
3. Processos de revisão de textos opinativos 
Falamos muito de estilo e opinião ao longo deste curso, mas agora é hora 
de fazer um mergulho mais profundo no estilo opinativo. Sempre lembrando que 
um texto com opinião não é menos objetivo. 
 
 
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4. Processos de revisão e copidescagem de sinopse e 
argumento 
Vamos retomar os conceitos de sinopse e argumento e articular com o 
copidesque, que é muito mais do que um simples revisor. 
5. O processo de autocrítica: cases literários 
Por fim, vamos buscar um pouco de inspiração no trabalho de grandes 
escritores a fim de saber como eles trabalham seus próprios textos em busca da 
frase perfeita! 
Esperamos que, ao final desta aula, seu senso crítico tenha ficado um 
pouco mais apurado e você possa olhar para seus próprios textos de maneira 
mais crítica. Vamos juntos nessa jornada de reflexão e prática! 
TEMA 1 - COMO FAZER UMA CRÍTICA TEXTUAL 
Na aula de hoje iniciamos o processo de reavaliação do conteúdo do 
semestre. Por isso, nada mais natural do que começar com uma reflexão sobre 
o exercício da crítica textual. Mas o que é a crítica? Como se articula como 
discurso independente? E, afinal, qual a sua importância para a prática 
jornalística. 
Leitura obrigatória 
 Acesse na Biblioteca Virtual o livro Jornalismo Cultural, de Daniel 
Piza, e leia o capítulo que fala sobre crítica: “3. Contraclichê”. 
 Acesse na Biblioteca Virtual o livro Jornalismo Literário, de Felipe 
Pena, e leia o capítulo “3. A crítica literária”. 
Michel Foucault, um dos filósofos mais importantes do século XX, liga o 
pensamento crítico à emergência da razão (pensamento racional), o qual surge 
em meados do século XV na Europa, em contraponto ao autoritarismo e 
repressão da Igreja Católica e do sistema feudal. As pessoas começaram a 
 
 
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questionar o determinismo religioso e aristocrático: Tenho que ser pobre a vida 
inteira porque nasci pobre? Os nobres são nobres por direito de nascença? É 
por isso que o filósofo francês define a crítica como a "arte de não ser de tal 
forma governado". Isso quer dizer que toda crítica, quando manifestada em um 
exercício textual, envolve um confronto ideológico, um exercício de dúvida e 
questionamento. 
A crítica textual é o resultado do processo que inicia com o crítico se 
colocando diante de um objeto (seja um sistema de governo, um fato, um texto 
ou uma obra de arte). Sua sensibilidade e capacidade de percepção irão produzir 
toda uma relação de sentidos que pretende ressignificar e reconduzir a leitura 
desta obra, o que implica em não se deixar levar pela superficialidade e pelo 
óbvio. Se fosse dizer o que todo mundo já sabe e pensa sobre um determinado 
objeto (um show, um livro, um filme etc.), qual seria o valor do texto crítico? 
A definição de Foucault é um tanto generalista, o que facilita sua aplicação 
em diversos campos do conhecimento. A rigor, qualquer texto jornalístico ou 
acadêmico é um exercício de crítica. Afinal, dado um determinado objeto em 
questão, ele será colocado em perspectiva sob diferentes óticas. Jornalismo é 
um ato crítico na medida em que busca sempre questionar algo - em geral, a 
pauta. 
É, em parte, por isso que a crítica enquanto postura diante do mundo se 
confunde com a crítica enquanto gênero textual, em geral aplicado às artes. Há, 
claro, uma série de sobreposições entre um e outro. Mas, em parte pelas 
transformações do conceito através do século XX, qualquer texto sobre um 
objeto artístico com caráter opinativo publicado em jornal acabou por ser 
considerado uma “crítica”. 
A designação “crítico”, por outro lado, se tornou sinônimo de pessoa mal-
humorada e que não gosta de nada – você convidaria um “crítico” de qualquer 
coisa para sua festa de aniversário? Ainda que boa parte das críticas publicadas 
em jornal sejam textos que se dedicam a rejeitar as propostas artísticas sob 
análise, isso não quer dizer que a crítica tenha que ser obrigatoriamente 
 
 
5 
negativa, ou que seu trabalho seja apenas o de desconstruir o objeto analisado. 
Note que não foi apontado como uma característica da crítica a avaliação e 
hierarquização das obras, vício textual muito presente em textos que apenas 
evocam o título de "crítica". 
O jornalismo opera em uma lógica de auto alimentação, na corda bamba 
entre interesse público e interesse do público. Se algo é popular, se torna notícia. 
Mas, ao mesmo tempo, ao se tornar notícia, se torna popular. Por isso a arte, 
mais notadamente a música, a literatura e o cinema, foram alvos de tantos e 
tantos ensaios críticos publicados em jornais ao longo do século XX. São as 
manifestações artístico-culturais que mais atraíram o público e, portanto, 
ganharam a honra de serem vistas sob o viés crítico. 
A crítica de arte, portanto, não deve ser um mero exercício vazio de 
rabugice, mas um importante instrumento tanto para criar pontes de contato 
entre as obras e o público, quanto para instruir o leitor e trazer a ele novos 
conceitos que o levem a desenvolver sua percepção artística, para longe da 
alienação. É diferente de colocar a arte como um alvo, ou um inimigo. Pelo 
contrário. Trata-se de trazê-la para mais perto das pessoas. Para isso, é óbvio, 
é preciso que quem escreve crítica procure se aprofundar sobre o assunto, pois, 
como já dissemos, de nada vale escrever sobre o óbvio. 
É a crítica que eleva o cinema ao status de arte, por exemplo, quando a 
revista alemã Newe Zürcher Zeitung publica um texto sobre a primeira versão de 
"Quo Vadis", de 1913. É a crítica francesa que irá reabilitar o cinema clássico 
hollywoodiano, conferindo a nomes como John Ford e Alfred Hitchcock o título 
de "autores", além de ter sido a faísca que desencadeou a Nouvelle Vague. É 
impossível medir o impacto dos escritos de Pauline Kael para o cinema 
hollywoodiano dos anos 70 (a Nova Hollywood) ou o de Paulo Emílio Salles 
Gomes para o Cinema Novo brasileiro. Isso para ficar apenas no cinema, a 
grande arte do século XX. A arte se alimenta da crítica e vice-versa em um 
movimento contínuo e perpétuo. 
 
 
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Em linhas gerais, podemos dizer que o texto de crítica sobre um filme ou 
livro deve entregar ao leitor algumas informações básicas: sinopse, 
contextualização da obra e avaliação de seus elementos estético-estilísticos. 
Frequentemente, jornalistas culturais podem aproveitar um filme, por exemplo, 
para discutir temasmaiores, produzindo um texto que vai além disso. Leia a 
seguir trechos da coluna de Michel Laub, jornalista cultural e escritor, sobre o 
filme "O Grande Hotel Budapeste", do cineasta Wes Anderson: 
Ironia e horror no hotel 
Hipóteses para explicar o sucesso dos filmes de Wes Anderson: 1) porque eles são bons; 
2) porque são bons ao imitar algo que não seria "bom" segundo os parâmetros correntes; 3) 
porque percebemos a sutileza do item 2 fingindo que estamos tratando do 1, e nossos amigos 
fazem o mesmo, e essa piada interna em cima da piada externa nos faz sentir inteligentes e 
cultivados. 
"The Grand Budapest Hotel", seu mais recente trabalho, embaralha um pouco as 
explicações. É a reação 3, a princípio, que nos faz acompanhar com interesse as peripécias 
mirabolantes de um concierge (Ralph Fiennes), seu ajudante (Tony Revolori), idosas lúbricas e 
uma família cheia de vilões num país fictício entre o que parecem ser as duas guerras mundiais. 
De fato, na maior parte do filme a impressão é de estarmos diante do "camp". Num ensaio 
de 1964, Susan Sontag escreveu sobre este conceito de difícil definição, que se alastrou sob 
diferentes roupagens nas últimas décadas. Algo como um consumo irônico, uma sensibilidade 
baseada mais no artifício que na natureza, mais no estilo que no conteúdo, estendendo-se a 
noção de estilo a ideias, pessoas e objetos. 
A diferença é que Anderson não é apenas um apreciador do "camp", como os exemplos 
que inspiraram o ensaio de Sontag —os dândis da cultura de massa que enxergam "bom gosto 
entre o mau gosto" e reverenciam produtos artísticos originalmente ingênuos, cheios de paixão 
inocente. 
Na obra do diretor, qualquer possível paixão é mediada pelo cálculo. Suas citações são 
precisas fingindo ser aleatórias. Suas piadas são sofisticadas fingindo ser pueris. Seu desprezo 
culto à seriedade, à relevância, a uma certa estética que faz força para ser atual, é tanto um 
mérito quanto um limite. 
(...) 
 
 
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Ocorre que "The Grand Budapest Hotel" é um ponto fora dessa curva. Nominalmente 
baseado na obra de Stefan Zweig, o escritor que viu o nazismo destruir seu velho mundo 
europeu, liberal e burguês (ou tardiamente aristocrático), e que se suicidou no Brasil acreditando 
que "cada dia que raia na janela pode esmagar nossa vida", o filme lida com material mais 
sombrio que o de praxe na cultura da ironia. 
O resultado é uma comédia ambígua, com toques crescentes de amargor à medida que 
se aproxima do desfecho. Em outros títulos de Anderson, a nostalgia era uma espécie de jogo 
entre cínicos charmosamente afetados. Agora, o contexto em que se passa a trama exige mais 
que um fascínio paródico por roupas, cores, figuras humanas e convenções narrativas de um 
mundo que não existe mais. 
(...) 
Como ser "camp" ao mostrar o impacto do horror histórico na vida privada? É uma 
pergunta que Wes Anderson parece se fazer em "The Grand Budapest Hotel". Nas cenas 
derradeiras, ao preferir a abordagem direta à proteção das piscadelas de olho, sua resposta não 
deixa de ser inédita: a melancolia que fica quando sobem os créditos é —palavra talvez nunca 
usada numa crítica ao diretor – emocionante. 
Fonte: Folha de S.Paulo. Disponível em: 
<http://www1.folha.uol.com.br/colunas/michellaub/2014/03/1432227-ironia-e-horror-no-
hotel.shtml> Acesso em 09/06/2016. 
 
O texto é, mais do que uma simples crítica do filme, uma reflexão sobre 
"O Grande Hotel Budapeste" em relação ao conjunto da obra de seu diretor, Wes 
Anderson. Para isso ele parte de seu estilo peculiar, que envolve a evocação de 
um tipo particular de humor (envolvendo a ideia de uma outra autora, o "camp" 
de Sontag) e a subsequente quebra deste paradigma interno. Ao colocar todo o 
cinema do autor em perspectiva, ele é capaz de extrair uma leitura única e 
particular da obra que não está pairando na superfície do filme. 
Laub lança mão de sua erudição sem alienar ou desrespeitar o leitor. 
Quando usa o conceito do “camp”, por exemplo, toma o cuidado de explicá-lo 
dentro de um contexto amigável, apontando que é uma questão complexa ao 
mesmo tempo em que oferece uma definição que atenda aos seus propósitos. 
 
 
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O resultado é um texto que amplia as relações de sentido criadas por Wes 
Anderson em seu filme. Explica a maturidade do diretor e mostra como ela foi 
alcançada, justificando as escolhas estéticas como éticas (no caso, a 
ambientação do entre guerras). A crítica de Laub não se preocupa em dizer se 
o filme é bom ou ruim, nem mesmo em colocá-lo em uma escala hierárquica. A 
preocupação está em colocar "O Grande Hotel Budapeste" em perspectiva, o 
que o autor faz brilhantemente. 
TEMA 2 - PROCESSOS DE REVISÃO DE TEXTOS LITERÁRIOS: CONTO E 
CRÔNICA 
Neste tema, vamos retomar dois gêneros textuais que já foram bastante 
discutidos ao longo desta disciplina: o conto e a crônica. Ambos são formas que 
literatos brasileiros dominaram com maestria, configurando boa parte de nossa 
excelência literária. Ambos também se viram paulatinamente publicados em 
jornais diários (até hoje a Revista Piauí reserva espaço para contos ou trechos 
de romances), ainda que o último, a crônica, tenha uma presença muito maior 
no jornalismo. 
Leitura obrigatória 
 Para aprofundar seu conhecimento sobre a relação entre ficção e 
jornalismo, acesse, na Biblioteca Virtual, o livro Jornalismo Literário, 
de Felipe Pena, e leia o capítulo “7. A ficção jornalística”: 
Retomando a discussão sobre a crônica e o conto, por partes: 
1. A crônica é o gênero textual típico brasileiro. Ensaístico por 
natureza, costuma possuir características narrativas ou descritivas. 
Guarda relação com o cotidiano, na medida em que se posiciona no limite 
entre o jornalismo e a literatura. Obrigatoriamente publicado em jornais, 
mas também frequentemente organizado em antologias literárias. 
2. Do ponto de vista jornalístico, a crônica tem menos compromisso 
com os fatos e com as informações e mais com os “afetos”. O cronista 
 
 
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imprime toda a sua subjetividade pessoal no texto. A vida ordinária, que 
ganha uma perspectiva ampliada pelo olhar de quem a observa, costuma 
ser o tema das crônicas. 
3. A tradição também prega que o texto de uma crônica deve ser leve, 
com frases simples e diretas. O que não quer dizer que seja simplista, já 
que as relações sociais do dia a dia, objeto de análise das crônicas, 
podem ser bastante complexas. 
4. O conto é um gênero literário mais tradicional, caracterizado pela 
narrativa curta, que concentra sua ação em um único núcleo, no que se 
difere do romance, que poderá trabalhar com diversos arcos narrativos. A 
definição exata do que é o conto fica um pouco fugidia por conta da 
novela, um gênero que se coloca entre o conto e o romance em matéria 
de escopo e extensão. 
5. A diferença central entre um conto e uma crônica está na relação 
com o factual, com o acontecimento. A crônica sempre irá se debruçar 
sobre algo que aconteceu ou está acontecendo, uma observação do 
cotidiano que o autor traz para nossa atenção, enquanto o conto não tem 
necessariamente essa preocupação e pode “viajar na fantasia”. A crônica 
trata do ponto de vista específico do autor. Já o conto permite que o foco 
narrativo tenha maior liberdade, podendo ser em terceira pessoa, 
construído apenas por diálogos etc. 
Leitura obrigatória 
 Acesse, na Biblioteca Virtual, o livro A teoria do conto, de Nádia 
Batela Gotlib, e leia o capítulo “3. O conto: um gênero?”. 
Um dos aspectos mais importantes sobre a escrita do conto é a economia 
de espaço. Como se trata de uma narrativa curta, o autor tem de ser preciso e 
econômico – você se lembra dos textos de Dalton Trevisan?Esse aspecto fica 
mais claro quando vemos como alguns autores trabalharam com isso. Observe 
abaixo as primeiras linhas de um conto do autor norte-americano Ernest 
Hemingway: 
 
 
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Um gato à chuva 
Apenas dois americanos estavam hospedados no hotel. Eles não conheciam nenhuma 
das pessoas com quem tinham cruzado pelas escadas, no movimento de “entra e sai” do quarto. 
Estavam hospedados no segundo andar, num apartamento que ficava de frente para o mar e 
também de frente para a praça e o monumento de guerra. Havia enormes palmeiras e bancos 
verdes na praça. Quando o tempo estava bom havia sempre um pintor com o seu cavalete por 
lá. Os artistas gostavam das formas das palmeiras e das cores brilhantes dos hotéis, de frente 
para os jardins e para o mar. Italianos vinham de longe para ver o monumento de guerra. 
Fonte: O Sincericida. Disponível em: <http://www.osincericida.com.br/2008/12/23/um-gato-a-
chuva-ernest-hemingway/> Acesso em 09/06/2016. 
O texto de Hemingway é famoso pelo seu anedotário. Reza a lenda que 
o escritor americano foi desafiado em um bar a contar uma história em poucas 
palavras, o que, no fundo, é a essência de um conto. O autor acabou se tornando 
um exemplo de textos curtos e rápidos. O que temos nesse texto comprova a 
tese: uma sequência de frases curtas, diretas, com raríssimos adjetivos e 
advérbios, por exemplo. É como se tudo fosse informação na história. 
Atividade 
Agora que revisamos os dois gêneros textuais de forma comparativa, a 
crônica e o conto, é hora de ver como suas diferenças se manifestam nos textos 
por meio da prática. Compare sua produção da última rota de forma crítica, 
buscando compreender como cada um dos textos que você produziu se 
manifesta enquanto gênero. 
Sua crônica poderia ser considerada um conto? E vice-versa? Por quê? 
Como é sua linguagem: clara e direta, ou é mais indireta e subjetiva? 
Você empregou muitos adjetivos? 
Em seguida, compare seus textos com os dos colegas. 
 
 
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Saiba mais 
É preciso ter um bom domínio da língua portuguesa para escrever 
qualquer tipo de texto, não é mesmo? O livro Escrever Melhor – guia para 
passar textos a limpo, de Dad Squarisi e Arlete Salvador, que você encontra 
na Biblioteca Virtual, está cheio de dicas práticas para melhorar sua redação. 
Em especial, o último capítulo, “Passo a passo da edição”, que pode te ajudar a 
revisar e editar seus textos, de qualquer gênero. Não deixe de consultá-lo. 
TEMA 3 - PROCESSOS DE REVISÃO DE TEXTOS OPINATIVOS 
Neste tema, vamos tratar diretamente de um assunto que foi central em 
muitos de nossos encontros: o texto opinativo. A terceira aula encerrou-se com 
uma abordagem sobre esse assunto, mas, no fundo, sempre que tratamos de 
variações de gênero como a crônica ou a crítica, ou quando discutimos a 
possibilidade de informalidade de um texto, estamos pensando sobre a questão 
da opinião. 
É importante lembrar que um texto opinativo não é contrário a um texto 
objetivo. Afinal, uma das formas de perceber a objetividade está em deixar claro 
ao leitor que aquelas informações são escritas por uma pessoa que tem 
determinada visão de mundo. 
Leitura obrigatória 
 Acesse na Biblioteca Virtual o livro Para escrever bem, de Maria 
Elena e Maria Otília, e leia o capítulo "Suas ideias em ordem” (pág. 76 
a 83). 
 Acesse na Biblioteca Virtual o livro O texto sem mistério – leitura e 
escrita na universidade, de Norma Goldstein et al., e leia o capítulo 
“8. Artigo de opinião”. 
 
 
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O aspecto central aqui é que um texto jornalístico, em sua definição 
clássica, vai tentar balancear diversos pontos de vista, eventualmente até 
mesmo o do próprio autor, buscando uma aproximação com uma realidade 
objetiva (por mais fugidio que seja o conceito de "realidade objetiva"). O texto 
que é opinativo por excelência, por outro lado, poderá usar esses mesmos 
pontos de vista para corroborar o pensamento do autor sobre um determinado 
tema. 
Leia os dois primeiros parágrafos da coluna da jornalista Eliane Brum, 
reproduzidos abaixo: 
É política sim, Geraldo 
O Brasil no final de 2015: a bacia do Rio Doce foi destruída, e a lama avança sobre o 
oceano; o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), um homem 
investigado por crimes de lavagem de dinheiro e corrupção, que escondeu contas na Suíça, dá 
início ao processo que pode resultar no impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), depois 
de constatar que deputados petistas votariam contra ele no Conselho de Ética, numa ação que 
pode cassar seu mandato; a Polícia Militar do Rio de Janeiro dispara 111 tiros e fuzila cinco 
jovens negros porque passeavam de carro à noite; as brasileiras não podem engravidar porque 
há um surto de microcefalia causado por vírus transmitido pelo Aedes aegypti e aquelas que 
estão grávidas foram condenadas a viver em pânico diante do zumbido de um mosquito; o 
governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), autoriza a PM a jogar bombas de gás e a 
bater em estudantes de escolas públicas. 
Obscenidade é a palavra que chega mais perto, mas é fraca demais para representar o 
Brasil atual. E também ela fracassa. Procuram-se palavras que deem conta do excesso real da 
realidade. A crise de representação assumiu proporções inéditas. E o ano ainda não acabou. 
 
Fonte: El País. Disponível em: 
<http://brasil.elpais.com/brasil/2015/12/07/opinion/1449493768_665059.html> Acesso em 
09/06/2016. 
 
 
 
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A estrutura textual não poderia ser mais objetiva. O primeiro parágrafo é 
uma coletânea de fatos amplamente noticiados pela mídia nacional ao longo de 
2015. Todas essas informações são repassadas para dar suporte à opinião da 
colunista, que é a de que o país chegou em um patamar ainda inédito de acúmulo 
de calamidades, que passam por diversas instâncias e esferas. 
Seria possível contestar a argumentação de Brum usando o mesmo 
modelo, escolhendo uma série de fatos noticiados em 2015 para indicar que esse 
é um bom momento para o país, com oportunidades únicas surgindo? Em tese, 
sim (esta é uma estratégia frequentemente utilizada pelos políticos.) Alguém 
poderia argumentar, por exemplo, que a Lava Jato está limpando o Congresso, 
que os problemas ambientais que estamos vivendo são as dores do progresso 
econômico e que vamos superá-los etc. Nesse sentido, o texto opinativo prova 
que a informação em si é neutra, mas pode ser inclinada para qualquer direção, 
dependendo da intenção de quem escreve. 
O texto de Brum ainda demonstra elegância ao evitar fazer uma afirmação 
categórica de que o Brasil vai mal por conta dos fatos elencados. Ela opta, ao 
contrário, por trabalhar a ideia de que não há palavras para definir o mal-estar 
que se sente ao diagnosticar o estado das coisas levando para uma crise de 
representação. O processo argumentativo leva à opinião, inevitável, de que 
estamos em um péssimo momento. 
Portanto, podemos dizer que há dois aspectos fundamentais a serem 
verificados em um texto opinativo: 1. A opinião do autor está clara? 2. Há 
argumentos convincentes para embasar a opinião defendida? Com relação à 
argumentação, uma boa estratégia é partir de fatos inquestionáveis – no texto 
de Brum, por exemplo, ela cita uma lista grande deles, sem fazer qualquer 
comentário apreciativo: os fatos falam por si próprios. Como o objetivo deste tipo 
de texto é convencer os outros de um determinado ponto de vista, partir de fatos 
com os quais seu leitor não pode discordar é uma ótima abordagem. Porém, 
tome cuidado: lembre-se de que pessoas que não concordam com você podem 
ler seu texto. Por isso, é de bom tom respeitar os que pensam diferente, sem 
menosprezá-loscom palavras agressivas – isso faria com que você perdesse 
 
 
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totalmente a capacidade de influenciá-las. Grande parte dos “textos de opinião” 
que circulam pelas redes sociais hoje são “pregação para convertidos”, ou seja, 
estão mais preocupados em ridicularizar os que pensam diferente do que em 
efetivamente construir uma argumentação para influenciá-los a mudar de 
opinião. 
Atividade 
Agora é sua vez! Escreva um texto opinativo em qualquer um dos gêneros 
abordados nas últimas aulas. O importante é que a sua opinião, embasada com 
fatos verificáveis, seja fundamentada e coerente ao longo do texto. Depois, 
lembre-se de compartilhar com os colegas e discutir com eles a sua linha 
argumentativa. 
Dicas básicas: 
1. Qual é a opinião que você defende? Por quê? 
2. Lembre-se: seu leitor pode não partilhar de suas crenças, portanto 
é preciso argumentar. 
3. Pense em seus argumentos: eles são puramente opinativos, ou 
tem uma fundamentação factual? 
4. Seu texto respeita a opinião diversa, ou pretende convencer o leitor 
“a marteladas”? 
 
Saiba mais 
Que tal melhorar seu domínio da língua portuguesa e, consequentemente, 
sua capacidade de escrita? Acesse na Biblioteca Virtual o livro Curso de 
Redação, de Antonio Suárez Abreu – para textos de opinião, vale a pena dar 
uma olhada especial no capítulo “3. Articulação sintática do texto”, que fala sobre 
argumentação. 
 
 
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TEMA 4 - PROCESSOS DE REVISÃO E COPIDESCAGEM DE SINOPSE E 
ARGUMENTO 
Neste tema, vamos discutir a revisão e copidescagem de sinopse e 
argumento. A primeira coisa que precisamos fazer, então, é retomar os conceitos 
de sinopse e argumento, que já foram abordados nas aulas passadas. 
Em relação à ordem de detalhamento e quantidade de informação, 
questão central para a conceituação, basta lembrar do seguinte: sinopse > 
argumento > roteiro. 
A sinopse é uma visão bem geral da história, que deixa claro o 
desenvolvimento da trama, seus principais acontecimentos, personagens e 
ambientação. Já o argumento vai detalhar o desenvolvimento da trama, incluindo 
personagens secundários e descrevendo todos os movimentos, totalizando algo 
como 10% da extensão de um roteiro – ou seja, é sua primeira elaboração. 
O argumento não é um roteiro completo. Só terá o esqueleto da narrativa, 
sem falas dos personagens ou maiores detalhes. Estará lá apenas o que for 
essencial para a trama andar. Já o roteiro é o texto que irá se transformar em 
imagem, som e ação: tudo o que vai nele irá, de alguma forma, aparecer na tela. 
Atividade 
A sinopse abaixo, escrita por Rick Polito para o filme “O mágico de OZ”, 
causou polêmica na internet. Por que será? Discuta com seus colegas o que 
teria dado a esse texto um grande impacto. 
“Transportada para um cenário surreal, uma jovem garota mata a primeira 
pessoa que encontra e depois se junta a três estranhos para matar novamente” 
(tradução nossa). 
 
 
 
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Fonte: Zap2it. Disponível em: <http://zap2it.com/2012/10/wizard-of-oz-
synopsis-by-rick-polito-goes-viral-14-years-later/> Acesso em 09/06/2016. 
Agora, tente escrever uma mini sinopse para um filme popular, de forma 
igualmente polêmica. Será que você consegue? 
A palavra "copidesque" tem sua origem no bom e velho 
aportuguesamento de expressões do inglês – neste caso, "copy desk". Há um 
correspondente nacional, mas os jornalistas tradicionalmente chamaram o 
processo de revisão jornalística de copidesque. Não teve vez para a "passagem 
de texto" desde então. Vejamos, então, uma definição do termo: 
Copidescagem: tratamento que uma notícia recebe de um redator 
depois de ser entregue pelo repórter à sua editoria. Vai desde a simples 
titulagem e uma ou outra adequação de vírgulas, até a total 
reestruturação do texto, em função de uma redução no espaço para 
publicação ou de decisão editoriaI de ressaltar aspectos não 
destacados pelo repórter. (Fonte: Dicionário de Jornalismo. Disponível 
em: 
http://dicionariodejornalismo.blogspot.com.br/2010/08/copidescagem.
html > Acesso em 09/06/2016.) 
A copidescagem, afinal, é isso: a revisão jornalística de um texto, que 
implica em bem mais trabalho do que simplesmente retirar as vírgulas que estão 
entre sujeitos e predicados ou corrigir a acentuação de acordo com as novas 
normas ortográficas, mesmo que isso também faça parte do processo. A 
copidescagem vai além da revisão de língua portuguesa e começa com a 
observação das normas editoriais. 
Lembre-se, já discutimos por aqui a questão de como o texto jornalístico 
está sujeito aos ditames editoriais. O mesmo jornalista poderá escrever de forma 
radicalmente diversa em veículos diferentes por conta do que o manual prega. E 
uma das funções do copidesque é de assegurar que uma reportagem esteja 
dentro dessas normas específicas. 
 
 
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Mas talvez a função central de um copidesque seja a da verificação de 
fatos. Para ilustrar melhor como funciona essa função, vale a pena ler o trecho 
abaixo do obituário de Adam Sun, lendário checador do jornalismo brasileiro, 
publicado na revista Piauí: 
Acabou a gargalhada 
(...) empregou-se na Veja como checador. A função era recente e rara, e Adam contribuiu 
muito para defini-la e incrementá-la. A checagem é um ofício paradoxal: se bem-feito, ele não 
aparece. Cabe ao checador conferir todas as informações aferíveis numa reportagem, artigo ou 
ensaio. Ele verifica grafias, datas, distâncias, cálculos e citações por meio de outras fontes, 
escritas ou não. Além disso, também afere a lógica interna de certos dados, ou do cruzamento 
de dados. Uma pessoa não pode sair de Maceió, por exemplo, e chegar ao Rio uma hora depois. 
Um homem não pode medir três metros de altura; 1 milhão de reais não equivale a 2 milhões de 
euros. 
Os checadores trabalhavam sobretudo de madrugada, conferindo as últimas reportagens 
antes de serem enviadas para a gráfica. Adam logo se destacou e foi promovido a chefe do setor. 
A ele cabia a conferência das reportagens mais sensíveis, justamente as feitas na última hora, 
com maior possibilidade de conterem erros. 
Nessas horas, Adam não gargalhava. Nem falava, quase. Trabalhando contra o tempo, 
velozmente, consultava, quieto e concentradíssimo, enciclopédias, almanaques, dicionários, 
recortes de jornais e revistas, cadernos de anotações de repórteres. Não havia ainda a internet, 
e tudo tinha que ser checado em papel, manualmente. 
Adam nos salvou de erros colossais e ridículos. Salvou também a Época, na qual 
trabalhou como chefe da checagem. E, por fim, salvou a Piauí, para a qual foi um dos primeiros 
contratados, e onde trabalhou desde a primeira edição. Viajava de São Paulo para a redação, 
no Rio, todos os meses. Sua chegada era uma festa. (...) 
Fonte: Revista Piauí. Disponível em: http://revistapiaui.estadao.com.br/materia/acabou-
a-gargalhada/> Acesso em 09/06/2016. 
"A checagem (como o copidesque é chamado na redação da Piauí) é um 
ofício paradoxal: se bem-feito, ele não aparece". Esta talvez seja a mais 
interessante forma de pensar a copidescagem: lembrar que seu destino é a 
invisibilidade. Ou seja, existe para que o leitor não a perceba. 
 
 
18 
E daí a importância central do copidesque no processo de construção de 
sinopses, argumentos e roteiros. Cada uma dessas estruturas será trabalhada 
em uma dinâmica de ampliação em relação à seguinte e por isso precisa ser 
revista com atenção e cuidado. Portanto, se há uma regra para o processo de 
revisão deste conjunto específico de textos, podemos dizer que os três textos 
devem ser “cotejados”, ou seja, devem ser comparados, lidos lado a lado, para 
que se possa perceber se há alguma discrepância entreeles. 
 
Para saber mais 
 Que tal apurar ainda mais seu texto para se tornar um bom 
copidesque? O livro Recomendações para escrever bem textos 
fáceis de ler, de Maria Elena Assumpção e Maria Otilia Bocchini, que 
você encontra na Biblioteca Virtual, é um excelente manual de escrita. 
 
TEMA 5 - PROCESSOS DE AUTOCRÍTICA: CASES LITERÁRIOS 
Para começar a pensar sobre o processo da revisão de seus próprios 
textos, sugerimos a leitura do capítulo: “Reescrevendo o próprio texto” (pag. 
227), do livro Práticas de escrita para letramento no ensino superior, de 
Schirley Horácio de Góis Hartmann e Sebastião Donizete Santarosa. 
Inspiração ou expiração: o que conta mais para que alguém se torne um 
bom escritor? Por mais diversas que sejam as opiniões de escritores do mundo 
todo, e de várias épocas, é mais ou menos consensual entre eles e elas que o 
produto final de qualquer desafio da escrita é resultado de um processo 
trabalhoso de reescrita e revisão. Ainda que a inspiração e a criatividade sejam 
a matéria-prima do processo de criação literária, é difícil entregar um bom texto 
sem antes fazê-lo passar por um processo cuidadoso de revisão. Você não 
acredita? 
 
 
19 
Pois é, há muita expiração no trabalho da escrita, não é mesmo? É bom 
saber disso porque significa que a escrita não se resume a uma questão de 
“dom”. Ela depende muito de trabalho e concentração. Mas, afinal de contas, 
como podemos saber se um texto está bem escrito? 
Quando escrevemos, as ideias geralmente parecem claras em nossa 
mente, e por isso a tendência natural é pensar que elas também estão claras no 
papel. Todavia, isso nem sempre é verdade. Você já teve a experiência de ler 
algo que você mesmo escreveu, algum tempo antes, e de não entender o que o 
texto significava? O distanciamento do texto nos possibilita enxergá-lo mais 
como leitores do que como escritores. Esse é, na verdade, um dos grandes 
segredos da escrita: quem escreve precisa desenvolver a capacidade de 
enxergar seu próprio texto como leitor. 
O que dissemos sobre a revisão da escrita até aqui vale para qualquer 
tipo de texto. No caso do texto literário, há mais um aspecto a se considerar, pois 
esse tipo de texto não deseja apenas transmitir uma informação, de maneira 
objetiva e racional. O texto literário está intimamente ligado à esfera da estética 
e de seus efeitos. Você está lembrado dos contos que trabalhamos nessa 
unidade? Lembra-se de como o estilo de Edgar Allan Poe é muito diferente do 
estilo de Machado de Assis, por exemplo? O texto literário é construído de forma 
a causar certos efeitos no leitor, a sugerir sentimentos, dúvidas etc. Assim como 
cada um de nós tem uma forma de expressão oral particular – voz, entonação, 
escolha das palavras etc. – cada escritor desenvolve uma forma de escrever 
também particular. Isso também vale para certas categorias de textos 
jornalísticos, mas no caso da literatura é absolutamente essencial. Um escritor 
deve possuir dicção própria. E como se chega a ela? 
Dalton Trevisan, contista curitibano, é um caso exemplar da busca 
incansável pela forma perfeita de um texto. Vários de seus contos são reescritos 
e republicados ao longo dos anos, revelando o processo de aperfeiçoamento de 
sua escrita. A seguir, tomamos emprestada do professor Carlos Alberto Faraco 
uma análise do conto “Uma vela para Dario”, publicada no livro Estilística e 
Discurso. Ao comparar trechos de duas versões do conto, publicadas com 20 
 
 
20 
anos de diferença entre elas, é como se assistíssemos à mecânica de revisão 
textual do autor. Leia e compare as duas versões abaixo: 
1972 – Cemitério de Elefantes 1992 – Em busca de Curitiba perdida 
 
Dario vinha apressado, o guarda-chuva no 
braço esquerdo e, assim que dobrou a 
esquina, diminuiu o passo até parar, 
encostando-se à parede de uma casa. Foi 
escorregando por ela, sentou-se na calçada, 
ainda úmida da chuva, e descansou na pedra 
o cachimbo. 
 
Dois ou três passantes rodearam-no e 
indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a 
boca, moveu os lábios, mas não se ouviu 
resposta. Um senhor gordo, de branco, sugeriu 
que devia sofrer de ataque. 
 
Ele reclinou-se mais um pouco, estendido 
agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. 
Um rapaz de bigode pediu ao grupo que se 
afastasse e o deixasse respirar. E abriu-se o 
paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando 
lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e 
bolhas de espuma surgiram no canto da boca. 
 
Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta 
dos pés, embora não o pudesse ver. Os 
moradores da rua conversavam de uma porta 
à outra, as crianças foram acordadas e vieram 
de pijama às janelas. O senhor gordo repetia 
que Dario sentara-se na calçada, soprando 
ainda a fumaça do cachimbo e encostando o 
guarda-chuva na parede. Mas não se via 
guarda-chuva ou cachimbo ao lado dele. 
 
Dario vem apressado, guarda-chuva no 
braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, 
diminui o passo até parar, encosta-se a uma 
parede. Por ela escorrega, senta-se na 
calçada, ainda úmida de chuva. Descansa 
na pedra o cachimbo. 
 
 
Dois ou três passantes à sua volta indagam 
se não está bem. Dario abre a boca, move 
os lábios, não se ouve resposta. O senhor 
gordo, de branco, diz que deve sofrer de 
ataque. 
 
Ele reclina-se mais um pouco, estendido na 
calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de 
bigode pede aos outros se afastem e deixem 
respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a 
gravata e a cinta. Quando lhe tiram os 
sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de 
espuma surgem no canto da boca. 
 
Cada pessoa que chega ergue-se na ponta 
dos pés, não o pode ver. Os moradores da 
rua conversam de uma porta à outra, as 
crianças de pijama acodem à janela. O 
senhor gordo repete que Dario sentou-se na 
calçada, soprando a fumaça do cachimbo, 
encostava o guarda-chuva na parede. Mas 
não se vê guarda-chuva ou cachimbo a seu 
lado. 
Fonte: Faraco (In: Henriques, 2011). 
 
 
 
21 
Comparando-se as duas versões do texto, percebe-se uma clara intenção 
do autor em “enxugar o texto”, em dizer a mesma coisa usando menos palavras, 
de forma mais concisa e direta. Há menos preposições, na primeira versão os 
verbos mudam do pretérito para o presente, na versão mais atual, as frases ficam 
mais curtas. 
Faraco entende esse processo de revisão estilística, que se manifesta em 
toda a obra do autor, como uma “obsessão perfeccionista em busca da poética 
da elipse”. Sem mudar o conteúdo do texto – os fatos narrados continuam os 
mesmos – o autor muda a forma de contar, como se quisesse aperfeiçoar sua 
“voz”. Esse é o longo processo de escrita e reescrita literária. 
Saiba mais 
 No capítulo “Falas de gente que escreve livros”, de seu livro A arte de 
escrever histórias, Esther Proença Soares apresenta depoimentos 
de alguns dos escritores brasileiros mais importantes da atualidade 
sobre seu processo de criação. Você acessa o livro na Biblioteca 
Virtual: 
 O capítulo “7 – O discurso narrativo”, do livro A produção literária e 
a formação de leitores em tempos de tecnologia digital, de Ernani 
Terra, é especialmente interessante para se refletir sobre o processo 
de criação de textos literários. Você acessa o livro na Biblioteca Virtual: 
TROCANDO IDEIAS 
Como ao longo desta unidade temática praticamos alguns gêneros 
literários, que tal construirmos um fórum para partilhar nossos textos? O texto só 
ganha vida quando encontra um leitor, não é mesmo? 
Escolha um texto seu, desenvolvido nas unidades anteriores, do qual você 
tenha gostado especialmente, dentre essas três possibilidades:conto, crônica, 
argumento. Publique-o no fórum. Em seguida, leia os textos dos colegas e 
comente. 
 
 
22 
NA PRÁTICA 
Resenha crítica: painel sobre o Oscar 
Você vai construir em grupo (05 a 07 alunos) um painel de resenhas sobre 
a premiação do Oscar. Encontre uma lista da última premiação. Cada aluno deve 
escolher um filme e resenhá-lo, em um texto crítico que tenha entre 500 e 600 
palavras. Os textos devem então ser postados para que todos possam ler. 
Além de escrever seu texto, você deve fazer um comentário sobre ao 
menos um outro texto de um colega. 
Material de apoio 
 Acesse na Biblioteca Virtual o livro O texto sem mistério – leitura e 
escrita na universidade, e leia o capítulo “9. Resenha”. 
 Acesse na Biblioteca Virtual o livro Os melhores filmes novos – 290 
filmes comentados e analisados. 
Mãos à obra! 
SÍNTESE 
Nesta aula, revisitamos gêneros textuais trabalhados anteriormente, 
percorrendo um caminho guiado pelo princípio da revisão textual que foi desde 
a noção de texto crítico à de autocrítica literária. 
Refletimos sobre o texto de crítica a partir do princípio de “tomada de 
posição”, ou seja, posicionar-se criticamente sobre um objeto implica assumir 
uma posição intelectual. Do ponto de vista do jornalismo, um texto crítico precisa 
construir pontes entre o objeto e o leitor, contextualizando-o para promover a 
reflexão crítica, e não apenas limitar-se a emitir um julgamento de valor. 
Sobre o conto e a crônica, pensamos na questão do ponto de vista de 
quem escreve. Na crônica, há um enfoque bastante personalista, partindo de um 
 
 
23 
fato ou informação concreta sobre o mundo. Já no conto, a ficção dá maior 
liberdade ao autor, que poderá empregar focos narrativos distintos. Todavia, é 
preciso lembrar que a crônica também pode empregar linguagem literária, como 
as figuras de linguagem e até mesmo diálogos, o que aponta para uma forma 
híbrida entre jornalismo e ficção. 
Na revisão sobre textos opinativos, discutimos como é importante 
construir a argumentação com fatos e dados. Vimos também que os fatos podem 
ser utilizados para construir argumentações diferentes, é a sua organização que 
constrói o sentido. 
No tema sobre copidescagem revisamos os conceitos de sinopse e 
argumento, dois textos que dão vida a produtos audiovisuais, e trabalhamos esse 
conceito na prática jornalística. Vimos como a copidescagem vai além da simples 
revisão de linguagem, sendo uma prática que implica grande responsabilidade 
sobre o texto por verificar informações, dados, citações e, quando necessário, 
envolver a reescrita do texto. 
Por fim, falamos sobre a autocrítica literária, ou seja, sobre a habilidade 
de um autor em analisar criticamente seus próprios textos. Vimos como o 
processo de refinamento estilístico está intimamente ligado ao fazer literário, e 
como é preciso desenvolver a capacidade de se olhar para o próprio texto 
enquanto leitor. 
Assim, encerramos nosso trabalho nesta disciplina com um 
aprofundamento do olhar sobre o texto. Esperamos que você tenha se tornado 
um leitor mais consciente e um escritor mais qualificado. Não esqueça: o único 
caminho para tornar-se um bom escritor é a prática constante. Por isso, leia, 
escreva, reescreva e ouça a opinião de outras pessoas sobre seus textos sempre 
que possível. 
REFERÊNCIAS 
ABREU, A. S. Curso de redação. São Paulo: Ática, 2004. 
 
 
24 
ASSUMPÇÃO, M. E.; BOCHINNI, M. O. Para escrever bem. Barueri: 
Editora Manole, 2002. 
FARACO, C. A. As reescrituras de Dalton Trevisan: exercício estilístico? 
In HENRIQUES, C. C. (org.). Estilística e Discurso. São Paulo: Elsevier Editora, 
2011. 
GOTLIB, N. B. A Teoria do Conto. São Paulo: Ática, 2006. 
GOLDSTEIN, N.; IVAMOTO, R.; LOUZADA, M. S. O texto sem mistério 
– leitura e escrita na universidade. São Paulo: Ática, 2009. 
HARTMAN, S. H. de G.; SANTAROSA, S. D. Práticas de escrita para 
letramento no ensino superior. Curitiba: Intersaberes, 2013. 
LIMA, R. E.; SANTANA, R. Decálogos da crítica em tempos da crise 
do juízo. Disponível em: <http://www.cult.ufba.br/wordpress/24741.pdf> Acesso 
em 15/01/2016. 
PENA, F. Jornalismo Literário. São Paulo: Editora Contexto, 2006. 
PIZA, D. Jornalismo Cultural. São Paulo: Editora Contexto, 2010. 
SALVADOR, A.; SQUARISI, D. Escrever melhor – guia para passar 
textos a limpo. São Paulo: Editora Contexto, 2008. 
SOARES, E. P. A arte de escrever histórias. Barueri: Editora Manole, 
2010. 
TERRA, E. A produção literária e a formação de leitores em tempos 
de tecnologia digital. Curitiba: Intersaberes, 2015.

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