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� História Medieval Aula: 01 Temática: Visões sobre a Idade Média A aula de hoje tem como objetivo apontar os principais problemas para o estudo da Idade Média, desde as questões que envolvem as fontes de pesquisa, passando pelos preconceitos sobre a “Idade das Trevas” até as diferentes abordagens do período. Para começar, pense no nome dado ao período que começa no século V e termina no século XV : o que significa Idade Média? Por que denominá-la assim? Num primeiro momento, o que vale destacar é que essa definição é dada em relação a outros períodos: pois “média” é aquela que fica no meio. Simplificadamente, então, esse período fica entre outros dois, a Antigüidade e a Modernidade ou Idade Moderna. Esse nome sugere que a Idade Média não tem uma identidade própria, uma vez que ela está definida por oposição ao que vem antes e ao que veio depois. Uma outra expressão, cunhada pelos renascentistas do século .XVI, aumentou o “desprestígio” desse período histórico. Eles chamavam a Idade Média de “Idade das Trevas”, considerando-a um tempo marcado pela ignorância e pela superstição em contraste com a antiguidade greco-romana, cujas tradições tentavam recuperar. A Idade Média foi marcada também pelo domínio absoluto da Igreja Católica na Europa. O movimento iluminista do século XVIII, seguindo a opinião dos renascentistas, também mostrava menosprezo por um período que julgavam de baixo desenvolvimento tecnológico e cultural. A recuperação do “prestígio” medieval acontece somente no século XIX. Porém, por outro lado, o romantismo do século XIX idealizou a Idade Média como um período marcado pela integração entre homem e natureza, mais rural e espiritualizado. Temerosos com as convulsões sociais do período em que viveram (Revolução Francesa, Primavera dos Povos etc), os românticos idealizam a Idade Média com um período de ordem e hierarquia sob o comando do cristianismo. Todavia, não deve ser motivo para surpresas, o fato de que o período que abrange o século V até o XV tenha sido visto de diferentes maneiras. Na verdade, cada época olha o passado a sua maneira. De certo modo o passado é sempre filho do presente. Simplificadamente, entre essas duas correntes de interpretação, uma pejorativa e outra valorativa, a historiografia tradicional optou por aquela influenciada pelo Renascimento e pelo Iluminismo. Não por acaso, pois uma época urbanizada e desenvolvida tecnologicamente tende a ver com distanciamento a Idade Média. Os historiadores tinham bons argumentos para corroborar a visão depreciativa da Idade Média. E isso porque o conhecimento no mundo ocidental está marcado pela palavra escrita e a vida na Idade Média estava marcada pela palavra falada. E quando os historiadores tentavam compreender o período medieval buscando textos sobre o período eles encontravam um grande vazio, pois a esmagadora maioria da população era iletrada. O domínio da escrita ficava praticamente reduzido aos religiosos. Havia então uma “ausência” de fontes que acabava por corroborar a Idade Media como a época da ignorância, das “trevas”. As primeiras abordagens historiográficas da Idade Média estiveram muito centradas no aspecto econômico, nas relações de trabalho, avançando nas questões relacionadas ao feudo, ao senhorio e as relações de soberania e vassalagem. Esta corrente estava preocupada com a questão da servidão, entendida como uma melhoria da condição das pessoas em relação à escravidão, mas ainda um estágio inferior em relação à liberdade do trabalho assalariado, fruto do desenvolvimento do capitalismo - e muito distante daquela que sonhavam os marxistas. Todavia, os novos estudos sobre o período, enfatizam o que se convencionou chamar de “mentalidade”, isto é, a história cultural, nesse sentido, a história medieval é tão rica quanto qualquer outra. Embora absorva as melhores interpretações da macro-história, entrando no debate sobre o feudalismo e as relações de trabalho, a história das mentalidades também busca inovar na busca e no tratamento das fontes. Assim, para conhecer o período medieval, devemos ir além da palavra escrita, dos textos, e analisar também objetos, igrejas, vitrais etc, enfim, a cultura material do período. Não é por acaso que a renovação dos estudos históricos, a chamada Escola dos Annales, foi encabeçada por dois medievalistas, Lucien Fevre e Marc Bloch, e continua contando com medievalistas como Jacques Le Goff e Georges Duby. Nessa aula você conheceu os principais estereótipos e preconceitos que predominam esse período histórico, chegando mesmo a nomeá-lo pejorativamente. Conheceu também a influência que esses preconceitos exerceram na historiografia e as novas abordagens para superar essas questões. Aula: 02 Temática: Periodização medieval Na aula de hoje abordaremos a periodização medieval, demonstrando a dificuldade de marcar o início e o fim de um momento histórico. Você também vai conhecer as principais opções de marcos para o “começo” e o “fim” da Idade Média. Imagine que ao final da sua vida você tenta descrever para alguém qual foi o melhor período da sua história. Ou, então, qual da data precisa em que você deixou a juventude e virou adulto. Há uma data específica para isso? Você foi dormir jovem e acordou adulto? Ou foi a sua vida que mudou do dia para a noite: era ótima e de repente os problemas começaram “do nada”? Assim como é difícil estabelecer uma data específica para as transformações da sua vida porque em geral, as mudanças ocorrem aos poucos, como um processo, também é difícil demarcar o começo e o fim exato de um período histórico. A história não vem em pacote, rigidamente demarcada. Os historiadores é que elaboraram periodizações coerentes para fins de estudo e, posteriormente, os professores o fazem para fins didáticos. No caso específico da Idade Media são muitas as opções de demarcação para o seu “início” e “fim”. Como resumiu Hilário Franco Junior “ [...] já se falou, dentre outras datas, em 476 (deposição do último imperador romano), 392 (oficialização do cristianismo) ou 330 (reconhecimento da liberdade de culto aos cristãos) como o ponto de partida da Idade Média. Para seu término já se pensou em 1453 (queda de Constantinopla e fim da guerra dos cem anos), 1492 descoberta da América) e 1517 (início da reforma protestante)” Vemos que não só a data, mas também o século é controverso. Todavia, para uma abordagem inicial como a nossa, vamos utilizar a periodização tradicional, que considera o início no século V com as invasões “bárbaras” e o término no século XV, período das Grandes Navegações e da chegada à América. Dessa maneira, evitaremos um ano específico e aconselhamos a você consultar a bibliografia do curso para aprofundar a questão. Definidos esses cerca de 1000 anos de história como referência, outro problema relacionado à periodização é saber a abrangência geográfica e as subdivisões do período. Quanto ao primeiro aspecto você vai conhecer principalmente o desenvolvimento da Europa Ocidental, mas também, brevemente, a expansão do Islã e o Império Bizantino. Tamanha abrangência geográfica acarreta, sem dúvida, alguns problemas, pois uma das características do período medieval é justamente a fragmentação política e o desenvolvimento particular das instituições em cada região — na medida do possível você vai ser alertado para essas especificidades. Quanto à subdivisão desse período, a mais consagrada é a que o divide em Alta Idade Média e Baixa Idade Média, cada um com as características discutidas mais detalhadamente nas páginas seguintes. Simplificadamente, na Alta Idade Média foram conjugados a herança do Império Romano e as tradições oriundas das invasões bárbaras. A partir do século XI, com o recuo das invasões, entre outras coisas, surgiram um conjunto de transformações que marcaram o ápice da cultura medieval e também apontaram, ao mesmo tempo para a sua superação. Esse “subperíodo” foi denominado Baixa Idade Média. Contudo, vale destacar que essa subdivisão deixaem segundo plano alguns aspectos culturais mais profundos e que permaneceram, atuando nos dois períodos, ou então processos que começaram em um período e só terminaram no outro. A religiosidade é um exemplo de aspecto cultural profundo que permaneceu por toda a Idade Média, estendendo-se para além, do período, na Idade Moderna. Nessa aula você refletiu sobre as características e limitações da periodização, completando um panorama sobre as principais dificuldades para o estudo do período. A partir de agora você está preparado para conhecer esse milenar período da história. � Aula: 03 Temática: A queda do Império Romano Na aula de hoje você vai conhecer a decadência do Império Romano, o desenrolar e as causas do processo, e o período posterior que inicia a Idade Média e é marcado pelo intercâmbio entre as culturas “bárbaras” e a romana. Como um império com o esplendor e riqueza de Roma, cujos vestígios ainda impressionam, simplesmente sucumbiu? A explicação usual e pontual para o fim do império romano seria a invasão dos “bárbaros”, o que, de certa maneira, faz aumentar a perplexidade: como “bárbaros” poderiam acabar com “civilizados”? Historicamente, a queda de Roma pode ser explicada por motivos internos, inerentes à sociedade romana, mas também por fatores externos. A crise romana já pode ser notada no século III e, basicamente, o próprio tamanho e forma de desenvolvimento do Império Romano contribuiu para seu colapso. O império romano se alimentava de conquistas externas. Eram elas que forneciam a mão-de-obra (escrava), tributos, soldados para os exércitos e os materiais dos saques usados para recompensar os soldados. Roma exigia cada vez mais tributos para alimentar a burocracia, o exército, a própria guerra, o luxo do império, sem falar da corrupção. O sólido império entrava em crise. No ambiente de crise, houve uma forte diminuição das atividades urbanas e, como conseqüência, uma forte migração para o campo ou, como dizemos, houve um processo de ruralização do Império. Sem dúvida a crise era maior na parte ocidental do Império do que na oriental, pois esta, constituída mais recentemente, ainda possuía os despojos das guerras de conquista. Percebendo esse descompasso, o império foi divido em dois e Constantino transferiu a sede imperial para a parte oriental, para a cidade que ele construiu entre os anos de 324 até 336 — que vai ser tema de aula posterior. Internamente o império estava em crise e externamente ele também passava a sofrer pressão. A fim de minorar os problemas, os romanos fizeram acordos com alguns povos “bárbaros” que viviam as margens do império para defendê-lo da invasão de outros povos. Assim, alguns bárbaros foram entrando lentamente no império, ultrapassando as suas fronteiras. Vê-se, portanto, que não faz sentido supor que as invasões aconteceram de um momento para o outro, repentinamente. Na verdade a expansão do império romano foi tão expressiva que a população imperial não dava conta de colonizar as terras conquistadas, função para a qual muitos povos ditos bárbaros foram convidados, principalmente nas regiões fronteiriças. Todavia, devemos nos perguntar, qual o interesse desses povos no império? Primeiramente, eles foram pressionados a entrar no império, às vezes, em busca de proteção, devido aos movimentos dos nômades das estepes orientais, os terríveis e temidos hunos. Os hunos eram cavaleiros exemplares, atacaram toda a Europa e chegaram à porta de Roma. Em segundo lugar, a riqueza de Roma, funcionava como uma força de sedução e atração. Muitas populações bárbaras estavam mais interessadas em fazer parte do império do que propriamente em derrubá-lo. O clima mais quente e as terras férteis do sul da Europa também atuavam como força de atração para essas populações de agricultores. Convém chamar a atenção para o termo “bárbaro” que possui uma carga negativa, pois além de agrupar na mesma denominação um número grande de povos culturalmente diferentes, também possui uma carga depreciativa em relação à língua falada por esses povos, uma espécie de “balbuciar” infantil, segundo os romanos. Para eles, “bárbaros” era uma miríade de outros povos — godos, visigodos, ostrogodos, vândalos, francos, anglos, saxões etc — a maioria germanos, que possuíam uma tradição e língua aproximadas entre si. Quando esses povos, finalmente, derrotaram o poderio romano, começou um longo processo de trocas culturais entre o “vencedor” e o “vencido”, desenvolvendo-se um período de formação de uma nova sociedade, que não era nem romana, nem bárbara. Muitos fatores contribuíram para o amalgamento das sociedades germânicas, dentre eles a hierarquização social semelhante à do império e, principalmente, o papel exercido pela Igreja como unificadora religiosa e ideológica. A Igreja, grande herdeira do poderio simbólico do Império Romano e de seu saber, vai, paulatinamente, unificando as duas culturas. O colapso político de Roma foi substituído por uma pluralidade de reinos germânicos até o século VIII. Nestes reinos,acelerou-se o processo de ruralização do Império Romano com a distribuição de terras levadas a cabo pela aristocracia germânica entre os guerreiros vitoriosos, aumentando a fragmentação política e a concentração populacional nas áreas rurais. Nesse período de formação da sociedade feudal, a insegurança física e econômica eram grandes. Os trabalhadores passaram a se colocar sob a proteção dos senhores proprietários e guerreiros, fortalecendo a instituição da servidão como regime majoritário de trabalho, em detrimento da escravidão e do trabalho livre. A servidão tornou-se o regime de mão-de-obra característico do feudalismo, mas esse é assunto para aulas posteriores. De qualquer maneira, os diversos reinos bárbaros alimentavam a nostalgia e o sonho de restauração do Império. Foram vários os líderes que tentaram restabelecer a centralização política, inclusive Carlos Magno do Reino Franco — assunto para a próxima unidade. Nessa aula você conheceu o processo que levou ao fim do Império Romano, conheceu suas causas internas — a própria característica da expansão — e suas causas externas, as pressões dos povos “bárbaros”. E vislumbrou também a formação de um novo mundo com características dos dois outros mundo que o formaram. Antes de você conhecer os novos reinos bárbaros, vai conhecer a parte oriental do Império. Aula: 04 Temática: A fundação e a geopolítica de Constantinopla Hoje — e por mais duas aulas — você vai estudar o Impé- rio Bizantino, formado na parte oriental do Império Romano que não sucumbiu à invasão bárbara. Inicialmente você vai conhecer a história da cidade de Constantinopla, atual Istambul na Turquia, a partir de sua fundação e de sua importância geopolítica para o Império Romano. Constantinopla foi reconstruída entre 324 e 336 por Constantino no local onde havia uma antiga colônia grega, chamada Bizâncio.. A cidade foi edificada segundo o modelo romano e logo após a inauguração foi denominada “Nova Roma”, ou seja, aquela que viria a ser a capital do Império Bizantino na verdade surgiu como uma cidade do Império Romano. A simbologia da refundação mostra claramente a idéia de recriar Roma às margens do estreito de Bósforo. Essa refundação tinha várias razões. Como afirmou Paul Lemerle, havia as razões estratégicas: [...] as ameaças mais graves que pesavam sobre o império vinham dos godos e dos persas; Roma, ela própria álias vulnerável às tribos da Germânia ou da Ilíria, estava extremamente afastada desses dois teatros de operações; Constantinopla, fortaleza inexpugnável, era ao mesmo tempo uma excelente base de partida, terrestre e marítima, contra os bárbaros do norte e do leste. Econômicas: a necessidade, em tempos tumultuados, de manter livre a rota dos estreitos e de assegurar as trocas comerciais entre o Mediterrâneo e os países da costa do Mar Negro, entre a Europa e a Ásia. Políticas, por fim: a decadência geral da Itália, já tão nítida no século II, tinha se precipitado; Romaorgulhosamente petrificada em seus velhos privilégios era uma cidade morta: o Oriente grego parecia claramente, por sua riqueza e civilização, a parte viva do império” Todavia foi só em 404, com a pressão dos Visigodos — um dos povos germanos que invadiu o Império, que Constantinopla foi declarada a capital do Império Romano. Muitos dos aspectos ressaltados por Lemerle têm como base o aspecto geopolítico da cidade. E, nesse sentido, podemos fazer um paralelo com a situação atual, pois muito da importância geopolítica está relacionada ao fato de Constantinopla, atual Istambul, estar localizada exatamente na encruzilhada entre o Oriente e o Ocidente, fazendo a ponte entre as duas regiões, sem ter uma definição clara se a cidade é ocidental ou oriental. Esse hibridismo atinge a própria Turquia, país em que, atualmente, se localiza Istambul. A Turquia está negociando a sua participação como membro da União Européia. Entretanto, essa participação não encontra consenso nem interna nem externamente. Do ponto de vista econômico a localização de Constantinopla favorecia o rico comércio entre o Ocidente e o Oriente, — o comercio de especiarias e de seda da China e Índia. Conseqüentemente, essa era uma área muito cobiçada. Uma das principais rotas comerciais, a da seda, estava na mão dos vizinhos persas com quem Bizâncio tinha que negociar e, por vezes, guerrear. Os bizantinos tentaram contornar a questão persa buscando novas rotas de comércio, mas fracassaram, muito embora tenham conseguido fundar colônias em outras regiões. Posteriormente, a fim de se livrar dos persas, aliaram-se com os turcos que terminaram por dominar a cidade. E, finalmente, por meio da aculturação dos produtos do Oriente, Bizâncio passou a produzir a seda. Sob o reinado de Justiniano (527-565), Bizâncio conheceu o apogeu cultural e econômico. O imperador conseguiu conter o avanço búlgaro e estabeleceu a paz com os persas. Por outro lado, deu início a uma política expansionista em direção à África e outras regiões da Ásia e da Europa, que acarretou um terrível aumento de imposto e descontentamento da população. Nos séculos seguintes, as dificuldades cresceram com as tentativas de dominação dos búlgaros e dos árabes e, principalmente com a questão religiosa que, por trás da questão da proibição dos ícones, escondia a disputa de poder entre o papado de Roma e o imperador Bizantino, autoridade política e, ao mesmo tempo, religiosa. Além das lutas internas, após o século XIII, o império passou a sofrer ataques dos sérvios e, posteriormente, dos turcos-otomanos, que, finalmente, tomaram Constantinopla, em 1453. Assim, quase mil anos depois, caía nas mãos dos turcos, a capital do império romano do oriente. Na aula de hoje você conheceu um pouco da fundação e da importância geopolítica de Constantinopla, capital do Império Romano e depois do Império Bizantino, fazendo a ponte entre Ocidente e Oriente não só no campo político e econômico, mas também cultural, como você vai ver nas próximas aulas. Aula: 05 Temática: O Império Bizantino: as questões religiosas Como na aula anterior, você vai ter contato com a porção oriental do Império Romano, o chamado Império Bizantino, que, por 1000 anos manteve um rico legado cultural. Hoje, especificamente, você vai conhecer as querelas religiosas que envolveram Bizâncio. “Essa discussão é bizantina”, você provavelmente já ouviu essa expressão sendo utilizada para descrever diálogos em que o resultado é inócuo. A origem dessa expressão está justamente nas discussões teológicas travadas nesse império. Essas querelas religiosas tiveram grande importância e estão na raiz da formação da Igreja Ortodoxa. Dentre as disputas teológicas, a de maior importância versava sobre a questão do duplo caráter de Jesus Cristo, divino e humano, estabelecido no Concílio de Nicéia. Se Cristo era Homem e Deus como ocorria a relação entre ambas? A partir dessas questão surgem duas correntes com respostas diferentes: a nestoriana e a monofisita. Para os nestorianos — seguidores de Nestório, patriarca de Constantinopla — Jesus tinha duas naturezas distintas: nasceu como homem e se tornou divino posteriormente. Já a doutrina monofisita estava interessada em defender a unidade divina e para isso, defendia que a encarnação (Cristo) não passava de aparência, simulacro. Simplificadamente, tendo em vista a dupla essência de Cristo, uma corrente ressalta o lado divino, o monofisismo, e a outra a humana, o nestorianismo. Essas discussões também expressavam conflitos sociais e aspirações nacionais.. O conflito tinha várias implicações. No ano de 381 foi realizado o primeiro concílio de Constantinopla — e o segundo concílio ecumênico da Igreja. Essa primazia de Constantinopla causava inveja aos bispos da rica Alexandria, celeiro de grãos de Bizâncio, daí os ataques às teses defendidas pelo bispo de Constantinopla. No fundo, essas desavenças abriam espaço para um “nacionalismo” cuja expressão aflorava na religião. Sem suportar a carga de impostos de Constantinopla, várias províncias bizantinas são cooptadas por essas dissidências que acabam por dar forma às novas igrejas (Síria, Egípcia, Armêna etc), num primeiro momento e depois acabam por incrementar a independência dessas regiões. Outra discussão fundamental no aspecto teológico ocorrida no Império Bizantino foi a questão iconoclasta: uma querela sobre imagens ocorrida entre os meados do século VIII e o segundo quartel do século IX. A iconoclastia era um movimento que propunha a destruição das imagens, pois acusava a devoção aos santos de idólatra, com base numa interpretação do Antigo Testamento. Em Bizâncio, as imagens santos recebiam uma devoção que era vista como deturpação, pois os devotos estariam mais preocupados com a representação em si do que com a pessoa representada. Na verdade, novamente, por trás de uma disputa religiosa também havia outros interesses: uma luta entre o Império e os monges. Bizâncio queria dominar os monges e seu poder econômico, pois eles eram donos das imagens e dos locais de devoção o que rendia grandes afluxos de doações. Todavia, o Império capitulou, pois a força dos monges e da devoção popular foi mais forte. Na aula de hoje você conheceu um pouco sobre a fundação de Bizâncio e suas discussões teológicas sobre a natureza dupla de Cristo e o papel da iconoclastia. Aula: 06 Temática: Império Bizantino: ascensão e queda Na aula de hoje você vai conhecer o período de governo de Justiniano (518 – 610) marcado pela máxima expansão do Império Bizantino e o de Heráclito (610 – 641), marcado pela separação de Bizâncio em relação à parte ocidental do Império Romano.. No governo de Justiniano foi compilada a legislação romana, dando origem ao Código Justiniano, importante feito, pois manteve um dos aspectos fundamentais da estrutura romana. Todavia a grandeza de Bizâncio nesse período estava ligada à expansão militar e a suntuosidade do governo. Como imperador cristão, Justiniano acreditava justo moldar e interferir nos assuntos religiosos. Essa união entre a política e a religião ficou conhecida como “cesaropapismo”: Termo empregado para indicar um tipo de relacionamento entre Estado e a Igreja, cabendo ao primeiro o exercício de poderes tradicionalmente atribuídos à segunda, tais como a regulamentação da doutrina religiosa, a disciplina e a organização dos fiéis. O cesaropapismo implica reconhecer a subordinação da Igreja ao Estado. Justiniano também tentou reconquistar as antigas regiões do império romano para retomar o ímpeto e o glamour da antiga civilização. Essas conquistas são importantes porque juntam o Ocidente e o Oriente, dando novamente unidade ao império. Nesse sentido vale destacar que os próprios bizantinos chamavam a região de “România” e a si mesmos como “Romaioi”. De certa maneira sua tarefa de reconquista foi facilitada, pois a região por ele conquistada, a Mediterrânea, era justamente a que mantinha a maior porcentagem de romanos em relação ao número de povosbárbaros. Para a reconquista, ele contava com um exército de 150 mil homens. Todavia muitos eram bárbaros confederados, considerados indisciplinados e ávidos por recompensas: um exército de mercenários. As guerras provocaram excessivo aumento de impostos. Em 532, explodiu a revolta de Nika, apoiada pelos dois principais partidos políticos e pelos aristocratas. Em 541, o império é ainda mais abalado por um surto de peste bubônica. O esplendor do período pode ser visto na igreja de Santa Sofia, a catedral do império, que, pela magnificência, marca o reinado de Justiniano. Durante toda a Idade Média ela era chamada de a Grande Igreja e a simplicidade externa esconde a exuberância de mosaicos e mármores no seu interior; um estilo de arte que conciliava elementos romanos, gregos, orientais e cristãos. Ao inaugurar o monumento, Justiniano teria dito “Eu te venci, Salomão!”— uma referência ao templo de Jerusalém cuja construção é atribuída ao antigo rei dos judeus. A expansão e a exuberância das construções de Justiniano em Constantinopla davam a impressão de que Oriente e Ocidente estavam unidos. Todavia as contradições de Bizâncio e a ameaça dos reinos vizinhos promoveu uma continua pressão sobre o Império que paulatinamente foi perdendo territórios, até ser tomado pelos turcos otomanos, no século XV. A partir do reinado de Heráclito, 610-641, ocorreu um processo de helenização do Império, isto é de paulatina ascensão da influência grega. Nesse período, de uma certa maneira, Bizâncio deixa de ser o Império Romano do Oriente para ser o Império Grego do Oriente: a língua grega substituiu o latim como língua oficial. Assim, o que antes estava unido, sob Justiniano, Ocidente e Oriente, foi separado, e isso só fez o antagonismo Ocidente/ Oriente crescer. A Igreja com base em Roma percebeu que precisava converter os bárbaros se quisesse ter influência, pois estava perdendo a parte oriental em disputas religiosas. Desse modo a helenização abriu uma fenda entra as duas partes do antigo Império Romano, a ponto de, com o tempo, elas deixarem de se reconhecer como unidade histórica ou cultural. No século XIII, os guerreiros cristãos conhecidos como cruzados, invadiram e saquearam Constantinopla, declara inimiga em sua guerra santa. Após, a invasão dos turcos, dois séculos depois, internamente a antiga influência romana e cristã na cidade foi sendo “apagada” e, externamente, essa influência foi sendo apagada pelos registros históricos feitos pela cristandade européia. No século XV, finalmente, Constantinopla foi invadida pelos turcos otomanos e transformada na capital de um novo império islâmico. No século XX, com a fundação da República Turca, a capital foi transferida para Ancara e a antiga Constantinopla passou a ser oficialmente denominada Istambul. Na aula de hoje você conheceu a ligação entre Oriente e Ocidente por meio do império bizantino e a posterior separação, relegando ao esquecimento o passado comum vivido por essas duas regiões do planeta. Resumo - Unidade I Nessa unidade você viu que, assim como para entender o nosso mundo é necessário estudar as questões mais amplas, tais como a política e a economia, também é necessário estudar o cotidiano e o modo como as questões mais abrangentes interagem no dia a dia. Assim, ao lado do estudo da sucessão de reis, das datas, das relações sociais e da estrutura econômica — a macro-história — também é necessário conhecer a alimentação, o vestuário, o pensamento e as construções do homem medievo, sua “micro-história”. Para isso a nova historiografia faz uso de fontes inusitadas, superando as dificuldades documentais do período, como objetos do dia a dia, ferramentas, vitrais, igrejas etc. Essas novas pesquisas permitem olhar o período com outros olhos, questionando os preconceitos Renascentistas e Iluministas, que viam no período um marco da ignorância e do atraso, e a idealização Romântica, que enxergava a Idade Média como fonte de ordem e espiritualidade. Nessa unidade você também estudou o declínio do Império Romano, sobre o qual se desenvolveu a sociedade feudal que caracteriza o período medieval. E estudou também o Império Bizantino, que se formou a partir da margem oriental do Império Romano e que constituiu um importante repositório da cultura grega e romana. Referências Bibliográficas ANDERSON, P. Passagens da antiguidade ao feudalismo. São. Paulo: Editora Brasiliense, 1974. FRANCO, H. Jr..A Idade Média e o nascimento do Ocidente. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988. PARKER, G. Atlas da História do Mundo. São Paulo: Folha de São Paulo/ Times Book, 1993. PERROY, Édouard (org.). A Idade Média. In: História Geral das Civilizações, vol. I,II, III tomo III, , São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1957. Consulte os sites abaixo, que contêm vários textos e algumas imagens sobre os temas abordados nessa unidade: http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=295 http://www.brasilescola.com/historiag/conceito-idade-media.htm http://www.saberhistoria.hpg.ig.com.br/mapa_do_site.htm Aula: 07 Temática: A ascensão do Reino Franco Na aula de hoje você vai conhecer um dos reinos bárbaros formados na Europa, após a queda de Roma, o reino franco, que obteve sucesso em termos de expansão militar. Vamos estudar o reino Franco e compreender a sua expansão e fragilidade. O reino Franco foi o mais poderoso da Alta Idade Média. Podemos dizer que ele teve início com Clóvis, o fundador da dinastia Merovíngia (481-751). Até então, os francos estavam dispersos sob vários domínios e foi ele que, aliado à Igreja, submeteu os outros líderes francos e impôs a unificação. A expansão de Clóvis também alcançou as terras vizinhas ocupados por outros povos germânicos. No processo de centralização do poder Clovis se converteu ao catolicismo, em 496, e tentou unir princípios romanos e francos. Enquanto a expansão territorial ocorria, os guerreiros eram agraciados com o butim das guerras por sua lealdade. Todavia, quando elas ficaram escassas o reino teve que conceder os benefícios com recursos de suas próprias terras e rendas, diminuindo a centralização. Na verdade, os reis da dinastia Merovíngia tratavam o reino como uma propriedade particular. Em 751, instaurou-se um a nova dinastia, a Carolíngia, com os descendentes de Carlos Martel. O primeiro rei dessa dinastia foi o Pepino, o Breve — assim chamado por causa da sua baixa estatura. Pepino obteve a sagração da Igreja como rei e consolidou o poder dos francos. A dinastia Carolíngia combateu a expansão muçulmana na península ibérica, o que fortaleceu o papel dessa dinastia como defensora da Cristandade contra os “infiéis”, como eram chamados os muçulmanos. Pepino também acatou um pedido do papa e interveio na península Itálica, doando posteriormente à Igreja as terras que dominou em Roma e adjacências - origem do Estado Papal, que, depois de sucessivas perdas territoriais, é hoje o Estado do Vaticano. O filho de Pepino, Carlos Magno (768-814), conquistou vitórias militares importantes contra os saxões da Germânia, acabando por convertê-los ao catolicismo, além de criar uma zona fortemente militarizada na fronteira oeste de seu império para evitar ataques muçulmanos. O já tradicional símbolo de defensor do Cristianismo adquirido pelos francos somado ao poder militar fabuloso de Carlos Magno chamou a atenção do papado que via nele uma forma de se proteger militarmente e de expandir o poder da Igreja. Assim, em 800, Carlos Magno foi sagrado imperador do Ocidente em Roma pelo papa Leão III. O Imperador de Bizâncio, após algumas negociações, aceitou e reconheceu o nova posição de Carlos Magno. O reino franco era dividido em centenas de condados, o que favorecia a fragmentação, mas Carlos Magno tomou medidas para centralização dentro do próprio reino como o juramento de fidelidade e a nomeação dos bispos dentro de seu Império, tentando fundir a Igreja ao Estado. Em uma época de grande instabilidade, a segurança do reinadode Carlos Magno possibilitou o florescimento de um pequeno comércio e um florescimento cultural (com construção de Igrejas, escolas para a nobreza e a tradução de obras clássicas). A tradição franca era de dividir o império entre os filhos, Carlos Magno já havia herdado o poder assim, mas dois de seus três filhos morreram e Luis, o Piedoso (814-840) herdou o Império. Com a morte de Luis, seus três filhos entraram em conflito e a disputa só se resolveu com a divisão do Império em três: França Oriental, França Ocidental e França Central, que após outros desdobramentos deram origem à Alemanha, França e Itália. Ao mesmo tempo em que disputavam o legado de Luis Piedoso, os três ainda tiveram que enfrentar a invasão normanda que contribuiu muito para a descentralização do poder, uma vez que muitos nobres se destacaram na defesa das invasões, obtendo o poder de fato nos territórios de suas posses. Com o tempo também os bispos que haviam se submetido a Carlos Magno vão tomando o poder em seus territórios e deixam ao poder imperial um caráter apenas simbólico. Como resumiu Hilário Franco Junior o império Carolíngio acabou por sucumbir a uma “contradição entre o universalismo da tradição romana e cristã versus o particularismo germânico” . Por exemplo, as condições precárias das estradas herdadas de Roma restringiam a ação dos Carolíngios, algo que não preocupava a maior parte dos povos bárbaros, preocupados somente com o poder local, mas era um grave empecilho a constituição de um poder centralizado, que se expande militarmente. Essas características de fragmentação política, importante papel da igreja e predomínio das atividades agrícolas têm todos os traços do feudalismo, o que veremos em aulas posteriores. Nessa aula você aprendeu um pouco da história política do reino franco, o mais poderoso da Alta Idade Média, conheceu seu desenvolvimento, caráter simbólico, apogeu e crise. Aula: 08 Temática: Expansão do Islamismo Na aula de hoje você estudará a expansão do Islamismo no século VII, suas principais características e o impacto na Europa medieval. O Islã é a terceira religião monoteísta surgida no Oriente, ao lado do Judaísmo e do Cristianismo, e hoje é uma das grandes religiões do mundo. O islamismo se originou na península arábica pela pregação do profeta Maomé. A doutrina islâmica está contida no livro sagrado dos muçulmanos, o Corão, escrito após a morte do profeta e mantido até hoje, com poucas alterações. Maomé nasceu em 570, na cidade árabe Meca, um dos principais centros comerciais da região. Órfão, foi levado pelo avô para o deserto onde conheceu o estilo de vida dos beduínos (com suas guerras tribais e códigos de honra e vingança) e teve contato com várias religiões sendo influenciado pelo monoteísmo judaico e cristão. Aos 40 anos, em 610, em uma de suas meditações, passou a propagar que recebia revelações divinas. A pregação logo obteve acolhida entre os beduínos seduzidos pelas visões do paraíso difundidas pelo profeta. Com o crescimento do número de seus seguidores, a elite de Meca temeu que sua cidade sagrada perdesse a atração para os beduínos e proibiram a pregação de Maomé, passando a persegui-lo. Maomé fugiu para Medina onde formou uma pequena comunidade de seguidores A partida de Maomé para Medina é chamada de Hégira e marca o início do calendário muçulmano. Perseguido mesmo em Medina, os conflitos se acirraram e Maomé passou a ordenar ataques às caravanas para Meca, o que o reforçava financeiramente e prejudicava a economia da cidade que, finalmente, aceita a sua mensagem. Maomé volta então para Meca destrói os ídolos das outras religiões e transforma Meca no centro de sua religião. Unindo força diplomática e a jihad — guerra santa em nome de Alá — Maomé expandiu a nova doutrina por grande parte da península arábica. No período de um século, os exércitos árabes se expandiram para além da península, atingindo o norte da África, o sul da península ibérica e também o extremo leste da Pérsia e Índia. A expansão da fé islâmica continuou também pelas mãos dos comerciantes, chegando à Indonésia no século XIII, hoje o maior país islâmico. Entretanto, nesta aula estudaremos a expansão islâmica em seus primeiros movimentos. Uma primeira questão que você deve ter em mente é : como foi possível uma expansão tão avassaladora num espaço de tempo relativamente curto? Vários são os fatores que explicam a expansão islâmica. Em primeiro lugar, os impérios Bizantino e Persa, perpetuamente em luta, estavam enfraquecidos, abrindo espaço para ascensão de outra potência na região. A guerra baseada na jihad oferecia como atrativo o paraíso para aqueles que tombassem em seu nome, mas também novas terras e os materiais obtidos nos saques de caravanas. Ademais, o domínio muçulmano era relativamente tolerante para com aqueles que aceitavam o seu poder: na maior parte das vezes não forçando a conversão ao islã, os muçulmanos se limitavam a cobrar um imposto maior dos povos que não professavam a fé de Maomé. A permanência de cristãos e judeus em seus domínios demonstra isso, pois muitas das cidades sob o domínio muçulmano possuíam construções das três religiões, como Toledo e Córdoba, na Espanha. Embora a expansão tenha sido rápida, após a morte de Maomé as subdivisões do império acabaram por desintegrá-lo em diversos califados, palavra que significa “sucessores”. Como Maomé não havia especificado os critérios para a escolha de seus sucessores, grandes questões envolvendo a continuidade do império começaram a aparecer. A maior subdivisão ocorreu entre sunitas e xiitas. Os primeiros, são os seguidores da “suna”, isto é, da tradição, equiparada ao próprio Corão, o texto sagrado. Os sunitas se opunham a sucessão dos descendentes de Ali, genro do profeta. Os xiitas, por sua vez, eram minoria, mas defendiam o direito de sucessão de Ali. Essas e outras divisões acabaram por fragmentar o império. Todavia, o importante a destacar nesse contexto é que os muçulmanos dominaram as rotas de comércio pelo mediterrâneo e a ligação do Ocidente com o Oriente, o que contribuiu para seu enriquecimento e o desenvolvimento de uma rica cultura. Além de empurrar a Europa para a ruralização praticamente “fechando” o comércio mediterrâneo. Para a Europa cristã era um duplo problema: espiritual, pois eles dominavam boa parte da península ibérica e possuíam o controle da Terra Santa, e, econômico, as rotas do comércio oriental estavam sob o domínio dos seguidores Alá. Na aula de hoje você conheceu a origem da religião islâmica, seu método de expansão e conseqüências econômicas e religiosas para a Europa Cristã. Saiba Mais O NASCIMENTO DE UMA CIDADE: CONSTANTINOPLA E SUA HERANÇA PAGà E CRISTà Gilvan Ventura da Silva[1] Ao longo da história, a fundação de poucas cidades desempenhou um papel tão significativo para os séculos posteriores quanto Constantinopla, a capital do Império Romano do Oriente situada na margem ocidental do Bósforo, sobre um promontório servido a norte por uma magnífica baía, curva como uma foice ou um chifre, de cerca de onze quilômetros de extensão conhecida como o Chifre de Ouro. A criação de Constantinopla se deu a partir da reconstrução da cidade de Bizâncio, fundada provavelmente em meados do século VII a.C. por colonos oriundos da polis de Mégara, os mesmos que alguns anos antes haviam se estabelecido em Calcedônia, do outro lado do Bósforo. O controle da rota do trigo proveniente da Trácia e que era escoado por intermédio do Ponto Euxino conferiu a Bizâncio uma posição estratégica no contexto do mundo grego, razão pela qual a sua conquista por Alexandre representou uma etapa preliminar fundamental para a construção da Oikoumene alexandrina. Mais tarde, com a expansão romana em direção ao Oriente, Bizâncio celebra com os novos conquistadores um tratado de auxílio mútuo, passando então a receber proteção contra os ataques rotineiros desencadeados pelos habitantes da Trácia. Em 73, a cidade é definitivamente incorporada ao Impériopor Vespasiano, o qual suprime os seus privilégios, anexando-a inicialmente à província da Bitínia e depois à da Trácia. Na guerra civil desencadeada em 193 com o assassinato de Pertinace, Bizâncio converteu-se na base de operações do então governador da Síria, Pescênio Nigro, na sua cruzada rumo ao Império, o que lhe valeu um tratamento desfavorável da parte de Septímio Severo após a derrota de Nigro em 194 (Norwich, 1989:62). Ao término de um sítio de quase três anos, Severo não apenas destruiu as imponentes muralhas que protegiam a cidade como também rebaixou o seu status, tornando-a dependente de Perinto em termos administrativos, punição que não durou muito tempo. Ainda sob Severo, as fortificações de Bizâncio foram reconstruídas, ao passo que Caracala, sucedendo o pai, cuidou de restabelecer a sua autonomia. Em meados do século III, em plena Anarquia Militar, Bizâncio foi invadida por Galieno, o que facilitou o deslocamento dos piratas godos, os quais se aproveitaram da situação vulnerável da cidade para atravessar o Bósforo e o Dardanelos, lançando-se sobre o Egeu. Sob a Tetrarquia, tornou-se evidente a necessidade de melhorar a defesa da cidade, o que foi feito mediante a construção de novas muralhas (Gwatkin, 1936:17). A posição estratégica de Bizâncio, situada na confluência entre o Oriente e o Ocidente, fez dela a principal fortaleza de Licínio na guerra movida contra Constantino a partir de 323. Em 18 de setembro de 324, Licínio foi definitivamente derrotado em Crisópolis, tornando-se Constantino senhor de todo o Império. Bizâncio e Calcedônia imediatamente abriram suas portas ao novo imperador (Barnes, 1981:77). Cerca de dois meses depois, em 8 de novembro de 324, Constantino iniciou a ampliação das muralhas da cidade, fato que coincide com a elevação de Constâncio, seu filho, à dignidade de César (Tem. Or. IV, 58B). Nada nos autoriza a concluir, entretanto, que já em 324 Constantino pretendesse fazer de Bizâncio a sede do poder imperial no Oriente. No que diz respeito ao conjunto de reformas empreendidas, devemos considerar dois momentos distintos. Num primeiro momento, tudo leva a crer que Constantino tenha desejado tão somente realizar algumas obras de embelezamento na antiga fortaleza de Licínio. Já num segundo momento, possivelmente após a comemoração das Vicenálias do imperador em Roma, acontecimento que teve lugar em julho de 326, decidiu-se que Bizâncio se transformaria na “Nova Roma”, ou seja, na capital das províncias orientais, como comprova o aumento considerável nas emissões monetárias pelo ateliê da cidade a partir de 327 (Bruun, 1966:562). A adoção do nome de Constantinopla, mesmo em termos oficiosos, deve remontar a 324, uma vez que a reconstrução de cidades pelos imperadores romanos, com a conseqüente alteração do topônimo a fim de perpetuar a memória do evergeta, era uma prática comum no Império, a exemplo do que vemos ocorrer com Trajanópolis e Adrianópolis. De fato, já a partir de 326 as moedas cunhadas em Bizâncio portam no reverso as iniciais CONS, indicando pertencerem ao ateliê de Constantinopla (Bruun, 1966:569). Na realidade, a iniciativa de Constantino em restaurar Bizâncio pode ser compreendida dentro de toda uma tradição segundo a qual a realização de obras públicas era uma das atividades rotineiras dos imperadores, especialmente ao término das guerras civis, quando o poder imperial necessitava reafirmar a sua legitimidade. Disso nos dá testemunho o autor anônimo da Origo Constantini (VI,30), uma curta biografia de Constantino escrita logo após a sua morte em maio de 337, ao declarar que o imperador renomeou Bizâncio em memória da sua vitória sobre Licínio. A construção de uma nova capital destinada a rivalizar em dimensão e beleza com a cidade de Roma, no entanto, é um fato único, merecendo sem dúvida um tratamento mais cuidadoso. Os imperadores da Tetrarquia, é bem verdade, optaram por não fixar residência em Roma, preferindo instalar-se em cidades como Milão, Sírmio e Nicomédia, as quais foram restauradas e embelezadas para abrigarem a sede do poder imperial, ainda que o imperador não permanecesse nelas por muito tempo em função dos múltiplos deslocamentos aos quais estava sujeito por força do cargo. Mesmo assim, não verificamos nesses casos qualquer propósito explícito de tornar tais cidades equivalentes a Roma. A decisão de Constantino em fazer de Constantinopla a réplica de Roma no Oriente deve ser situada, ao que tudo indica, entre 327 e 328, quando o imperador, retornando da celebração das suas Vicenálias, começa a buscar em território oriental um sítio adequado para a nova cidade que planejava fundar. Nesse ponto coincidem as declarações de Eusébio de Nicomédia, Zózimo, Sozomeno e do autor anônimo do Chronicon Pascale, uma obra do século VII que registra ano a ano os principais acontecimentos da História de Roma.[2] O imperador teria começado a edificar a sua nova cidade em Ílion, na Tróade, plano que logo abandonou em favor de Bizâncio, como nos informam Zózimo (II,30,1) e Sozomeno (II,3,2). Infelizmente, as razões que levaram Constantino a mudar de opinião não são tratadas de modo satisfatório por nossos autores. Apenas Sozomeno (II,3,3) nos fornece uma explicação mais detalhada ao pretender que Constantino teria abandonado Ílion por força de um sonho oracular no qual Deus o transportara a Bizâncio, mostrando-lhe que ali deveria ser erigida a sua cidade. Mesmo que não aceitemos a explicação de Sozomeno, não resta dúvida que a decisão de Constantino em transformar Constantinopla na capital do Oriente apresenta uma inequívoca conotação religiosa, havendo duas versões, uma pagã e outra cristã, para o ritual de fundação da cidade. Segundo uma tradição conservada por João Lídio, a data para a realização da consecratio de Constantinopla teria sido fixada por meio de cálculos astrológicos, ocorrendo no dia em que o Sol se encontrava na constelação de Sagitário e na hora regida por Câncer. A cerimônia de lançamento do milion, a pedra fundamental a partir da qual foram demarcadas as fronteiras urbanas, teria sido presidida pelo hierofante Pretextato e pelo neoplatônico Sôpatros (Norwich, 1989:64). Filostórgio, um autor cristão escrevendo cerca de um século mais tarde, nos fornece um relato da consecratio, a consagração religiosa do território da cidade, no qual são eliminados quaisquer indícios genuinamente pagãos, substituídos pela referência a um poder celestial genérico, o que sem dúvida tornaria o ritual mais aceitável para as consciências cristãs. Segundo o autor (Phil. II,9) Constantino, ao traçar o perímetro da cidade, (...) caminhou em torno dela com a lança em suas mãos. Quando os seus assistentes pensaram que ele estava traçando um espaço muito extenso, um deles se dirigiu [ao imperador] e perguntou-lhe: “até onde, ó príncipe?”, ao que o imperador respondeu: “até aquele que vai à minha frente parar”. Por esta resposta, manifestava claramente que algum poder celestial o estava conduzindo e dizendo o que fazer. Uma vez realizada a consecratio, as obras prosseguiram em ritmo acelerado, recebendo Constantinopla inúmeras construções destinadas a fazer dela uma réplica de Roma. Assim como Roma, o novo território da cidade, agora quatro ou cinco vezes maior que o traçado original e gozando do ius italicum, a isenção de impostos sobre a propriedade fundiária, passou a compreender sete colinas e quatorze regiões (Lemerle, 1991:18). A cidade recebeu também um hipódromo, banhos públicos (as termas de Zeuxipo), uma domus imperial, um fórum e uma basílica para as reuniões do Senado (Chron. Pasc. année 328). Um pouco depois, em 332, iniciou-se a distribuição gratuita de trigo à plebe urbana, assim como ocorria em Roma, o que suscitou mais tarde a reprovação de Eunápio (Vit. Soph. p. 381). A despeito da reticência de Millar (1992:55) em atribuir a Constantino o desejo de construir uma cidade que fosse a réplica de Roma no Oriente, considerando que a equiparação entre ambas foi o resultado de uma evolução posterior, parecem subsistir poucas dúvidasacerca das intenções do imperador. Assim é que o seu biógrafo anônimo não hesita em atribuir-lhe o desejo de equiparar Constantinopla a Roma (Orig. Const. VI,30). Do mesmo modo, Aurélio Vítor (Ces. XLI) registra a opinião corrente no IV século segundo a qual Constantino, aos olhos dos seus contemporâneos, foi tido como o fundador de uma Nova Roma. E se dermos crédito ao depoimento tardio de Sócrates (XVI,21), vemos que o imperador determinou que a cidade fosse oficialmente designada como Nova Roma, fazendo gravar a lei em um pilar de pedra erigido no Strategium, próximo a sua estátua eqüestre. Para cumprir uma obra tão grandiosa em tão pouco tempo, Constantino promoveu uma espoliação sistemática dos templos pagãos provinciais, transportando para a nova capital inúmeras estátuas e demais monumentos (Eus. Vit. Const. 54, 1-4). Muito embora as obras de reconstrução de Constantinopla tenham prosseguido até pelo menos 336, estabeleceu-se que a dedicatio dos novos edifícios públicos deveria coincidir com as comemorações dos vinte e cinco anos de reinado do imperador. A data escolhida para a inauguração foi 11 de maio de 330, dia no qual se celebrava o festival em honra a São Mócio, um mártir de Bizâncio sob Diocleciano ou Licínio, o que enfatizava a derrota do último dos perseguidores por Constantino (Barnes, 1981:222), tendo sido a cidade dedicada ao “Deus dos mártires” segundo o depoimento de Eusébio de Cesaréia (Vita. Const. III, 48, 1).[3] A dedicação solene da nova capital ao Deus cristão parecia traduzir o desejo imperial de construir uma cidade inteiramente cristã, isenta de qualquer elemento pagão, o que sem dúvida estaria em contradição flagrante com o epíteto “Nova Roma” a ela atribuído. Na realidade, a matriz intelectual da tradição que concebe Constantinopla como uma cidade erigida para honra e glória do cristianismo pode ser facilmente identificada, possuindo seus fundamentos na biografia de Constantino escrita por Eusébio de Cesaréia, o qual declara que o imperador: impregnado por completo de sabedoria divina, considerou justo purgar de toda idolatria aquela cidade [i.e. Constantinopla] que por decisão sua se destacaria levando seu próprio nome, de modo que em nenhum lugar dela haveria rastro algum de estátuas dos pretensos deuses que costumavam ser objeto de culto nos templos, nem altares sujos com jorros impuros de sangue, nem vítimas devoradas pelo fogo, nem festividades demoníacas, nem nada ao qual poderiam estar acostumadas as pessoas supersticiosas (Eus. Vit. Const. III,48,1-2). A opinião de Eusébio aqui expressa é compartilhada também por Sozomeno (Hist. Eccles. II,3,7), o qual afirma que Constantinopla, tendo se tornado capital num momento em que o cristianismo se encontrava em ascensão, não conheceu a experiência nem dos altares ou sacrifícios pagãos, salvo a que foi tentada mais tarde, durante um breve período, por Juliano, quando foi imperador. Naturalmente que a exposição pública em Constantinopla das estátuas das divindades pagãs arrancadas aos templos, fato impossível de ser ocultado, deveria receber uma justificativa minimamente plausível por parte dos autores cristãos.[4] Assim é que para Eusébio (Vita Const. III,54,1-7), Constantino teria utilizado os espólios dos templos na decoração de sua cidade com a finalidade de dessacralizar os ícones do paganismo, fazendo-os transportar de um lugar para o outro amarrados com cordas, como se fossem escravos. Cerca de um século mais tarde, o mesmo argumento é retomado por Sócrates (Hist. Eccles. I,XVI), sugerindo-se que Constantino destruiu a superstição dos pagãos ao trazer as suas imagens à contemplação pública para ornamentar a cidade de Constantinopla. Na opinião corrente entre os autores cristãos da época, Constantinopla teria nascido sob a égide do cristianismo, fato comprovado não apenas pela dedicação da cidade ao “Deus dos mártires” , como mencionado anteriormente, mas pela instalação do símbolo da cruz, convertido em talismã tutelar do Império por Constantino, no teto da sala principal do palácio (Eus. Vita Const. III,49). O notório apego de Constantino à potência mágica da cruz o levou igualmente a erigir sobre o milion, um quadrilátero formado por arcos do triunfo encimados por uma cúpula, a venerável Cruz de Cristo trazida de Jerusalém por sua mãe, Helena, quando da peregrinação empreendida entre 326 e 327 (Norwich, 1989:65). Por tudo isso, Constantinopla parece ser dotada de uma inequívoca vocação missionária, razão pela qual Sozomeno (II,3,7) declara que ela atrai de modo tão intenso para a fé no Cristo que muitos judeus e quase todos os pagãos aí se tornam cristãos. Que os autores cristãos compreendam a fundação de Constantinopla nestes termos não constitui motivo de admiração. No entanto, a ênfase na mística cristã que envolve a cidade de Constantino é reproduzida sem maiores reservas por diversos historiadores, os quais se apressam a concluir pela filiação cristã da cidade em detrimento das suas permanências pagãs. Essa é a posição adotada por Barnes (1981:212), para quem a nova capital deveria ser uma cidade cristã na qual os imperadores cristãos poderiam residir em um ambiente não maculado pelos edifícios, ritos e práticas de outras religiões. Opiniões semelhantes são compartilhadas por outros autores, como por exemplo Baynes (1996:14), Stein (1959:128) e, em certa medida, Norwich (1989:63). Em oposição frontal a esta tese, há uma corrente historiográfica que advoga a coexistência de tradições religiosas distintas no contexto de fundação da capital, o que nos impediria de atribuir a Constantinopla uma natureza exclusivamente cristã, ao menos para os primeiros tempos da sua criação[5]. A consulta à documentação disponível parece apoiar muito mais os defensores das permanências pagãs em Constantinopla do que os da cristianização plena. Mais que isso, as evidências sugerem, de modo notável, a existência de um autêntico sincretismo entre as duas correntes religiosas, tendo a figura imperial como denominador comum. Vejamos como isso é possível. Em primeiro lugar, tendo sido construída para exaltar a grandeza do poder imperial, Constantinopla expressava em seus monumentos a nova representação da realeza que se afirma na passagem do Principado para o Dominato, conforme sugere muito corretamente Diehl (1961:53). Suas festividades e seus monumentos se ajustam com perfeição ao conjunto de símbolos que configuram a basileia, a realeza sagrada helenístico-cristã, a qual possui como uma das suas características mais significativas a conversão do imperador em uma entidade de natureza divina e sua realeza em algo arquetípico, autêntica mimesis da realeza sobrenatural, com a reestruturação do culto imperial de modo a enfatizar os atributos místicos do soberano reinante em detrimento dos demais divi já falecidos. Nesse sentido, Constantinopla é dominada pela figura de seu criador, o qual faz da cidade um espelho a refletir toda a sua majestade celestial. De fato, no centro do vasto e suntuoso fórum, inteiramente pavimentado em mármore, erguia-se uma coluna de pórfiro vermelho trazida especialmente de Heliópolis, a cidade egípcia do Sol. A coluna se apoiava em um pedestal de mármore no interior do qual Constantino havia introduzido o Paládio, uma antiga estátua de Atená que, segundo a mitologia, havia sido transportada de Tróia para Roma por Enéias e entregue aos cuidados das vestais. Junto da estátua foram colocados também, conforme uma lenda corrente, o machado com o qual Noé havia construído a Arca, as cestas com as sobras do pão multiplicado por Jesus para alimentar a multidão faminta e o jarro da unção utilizado por Maria Madalena. No alto da coluna de pórfiro foi erigida uma grande estátua de Constantino proveniente da Frígia. O imperador aparecia representado aqui com a cabeça rodeada de raios solares confeccionados em bronze, atributo característico das divindades solares. (Chron. Pasc. anée 328). A estátua de Constantino se assemelhava, assim, ao Sol Invictus, expressando a equiparação do imperador comos seus congêneres cósmicos. Muito embora convertido à fé cristã, Constantino nunca abandonou por completo nem a devoção a Apolo que havia marcado os seus primeiros anos de governo nem a tradição familiar que o fazia herdeiro de Cláudio, o Gótico, o qual se acreditava pertencer a uma estirpe solar (Maurice, 1911). Na qualidade de Sol Invictus, ele é não apenas o guardião onipotente, onipresente e invencível da capital, mas também a reatualização de Enéias, o herói fundador de Roma, conjugando-se no monumento todos os elementos que compunham o universo religioso da época. Incrustradas nele, tanto as relíquias cristãs quanto as pagãs são preservadas para a eternidade, postas aos cuidados de um soberano que é o paredro terrestre do Sol Invictus, uma divindade reverenciada por todo o Oriente. A assimilação entre a imagem de Constantino e o Sol Invictus se tornou tão intensa que a estátua logo se converteu em objeto de adoração para os habitantes de Constantinopla. Filostórgio (II,17) declara que os cristãos ofereciam sacrifícios a uma imagem de Constantino colocada sobre uma coluna de pórfiro e a honravam com lâmpadas acesas e incenso, e ofereciam votos a ela como a Deus, e faziam súplicas a ela para desviar as calamidades. Desse modo, na suposta capital cristã do Oriente o culto imperial que durante três séculos havia sido um motivo de tormento permanente para os cristãos recebe um extraordinário impulso. Nesse momento, as oferendas votivas que outrora eram reservadas apenas aos deuses passam a ser consagradas ao próprio imperador. A presença dominante de Constantino na capital não é evocada apenas por intermédio da monumental estátua erguida no fórum, mas pela cerimônia anual de comemoração da dedicatio. No decorrer dessa cerimônia, diante da população reunida no hipódromo, era apresentada para adoração uma estátua do imperador confeccionada em madeira e revestida de ouro. Na mão direita da estátua se encontrava a representação de uma Tyche, a Fortuna da cidade. Conduzida sobre um carro por um cortejo solene de soldados vestidos com a clâmide e portando círios brancos, a estátua se deslocava em torno do hipódromo até parar diante da tribuna imperial, ocasião na qual o imperador se levantava e se prosternava diante da imagem de Constantino e da Fortuna (Chonic. Pasc. Anée 330), no que era acompanhado por todos os espectadores. A cerimônia aqui descrita é a da adoratio, a adoração da pessoa sagrada do imperador, a qual integrava o conjunto de rituais próprios da basileia. Nesse caso específico, a cerimônia tem por finalidade exigir, da parte do imperador reinante, o reconhecimento e a reverência devidos para com o fundador de Constantinopla. Ritual de natureza pagã e cumprido diante das imagens dos deuses pelos suplicantes, a adoratio foi assimilada sem maiores traumas pela elite eclesiástica após a conversão de Constantino, de modo que a sua existência dentro de um Império cada vez mais cristão não deve nos causar surpresa. Já a presença no ritual da imagem da Fortuna, a qual deveria ser reverenciada juntamente com o imperador, representa sem dúvida uma inovação significativa, atestando uma inequívoca permanência das tradições pagãs em Constantinopla. O culto à Fortuna na qualidade de protetora ou fundadora das cidades, e não apenas como a divindade tutelar dos indivíduos, remonta ao início da época helenística, quando os Diádocos dividiram entre si o Império de Alexandre. Deusa caprichosa, responsável pelos imprevistos incoerentes e até mesmo injustos da existência humana, a Fortuna personifica ao mesmo tempo a opulência das cidades, razão pela qual seus atributos principais são a pátena e a cornucópia (Hild, s/d.). No caso de Constantino, a deferência para com o culto à Fortuna é um fato incontestável. Por intermédio da narrativa de Zózimo (II,31,3), temos conhecimento de que o imperador teria feito erguer um templo ou uma êxedra em homenagem à Fortuna próxima a um dos pórticos que integravam o conjunto arquitetônico do fórum. Além disso, em 328 Constantino celebrou também um sacrifício não sangrento no decorrer do qual batizou a Fortuna da cidade com o nome de Anthousa, em grego “Florescente” (Chron. Pasc. Anée 328). Em uma moeda de prata cunhada para as comemorações da dedicatio de 330, vemos a imagem de Antusa portando a cornucópia (Bruun, 1966:578, n º 53). Mediante o culto à Fortuna, associado agora ao próprio culto imperial, Constantino sem dúvida pretendia garantir para a sua nova capital a mesma eternidade da qual gozava Roma, o que o levou a declarar que havia dotado Constantinopla, por mandato de Deus, com um nome eterno (C. Th. XIII,5), muito provavelmente o nome de Flora ou Antusa, denominações sacerdotais secretas de Roma (Burckhardt, 1938:394). A adoração à Fortuna não foi o único culto pagão permitido oficialmente em Constantinopla. Graças ao testemunho de Zózimo (II,31,1-2), sabemos que próximo ao hipódromo foi erguido também um templo aos Dióscuros, os gêmeos mitológicos filhos de Zeus, muito provavelmente como uma referência à irmandade entre Roma e Constantinopla. Outra divindade a receber um templo ou um santuário foi Réia-Cibele, a deusa frígia cujo culto era desde a República um dos mais importantes de Roma. A estátua da deusa, trazida de Cícico, teria sido adulterada por Constantino, que retirou os leões que a ladeavam, convertendo-a em uma orante a velar pela cidade (Zoz. II,31,1-2), o que se adequava melhor ao espírito sincrético da capital. De qualquer modo, as informações contidas em Zózimo contrariam de modo flagrante a afirmação dos autores eclesiásticos segundo a qual Constantinopla teria sido preservada de qualquer influência pagã. De acordo com a mentalidade romana, a conexão entre a ordem visual e o regime político era indissolúvel, necessitando os imperadores que o seu poder fosse evidenciado, de modo duradouro, por intermédio de monumentos e obras públicas (Sennet, 1997:81), razão pela qual se esmeraram sempre em construir ou reconstruir cidades como uma forma de celebrar a sua glória sobre a terra. Disso resulta que as cidades, erigidas em pedra e devotadas à eternidade, representavam um poderoso instrumento de perpetuação da memória imperial, assinalando que a missão civilizadora de Roma diante do mundo bárbaro se cumpria por determinação dos imperadores. A ação de Constantino, nesse caso, não foge à regra, exceto pelo fato de o imperador ter projetado não uma cidade qualquer, mas uma réplica oriental de Roma, o centro do mundo então conhecido, pólo irradiador da romanidade sobre o território circundante. A obra de Constantino o equiparava ao mesmo tempo a Enéias e a Rômulo, não sendo por acaso que a fundação de Constantinopla se encontrava relacionada, desde o início, a Tróia. Nesse aspecto, a Nova Roma recolhia todas as tradições pagãs acerca da criação da Urbs, herança essa da qual, em nossa opinião, Constantino jamais pretendeu se afastar. Por outro lado, a influência cristã em Constantinopla é um fato inegável, tendo a cidade cedo se constituído no mais importante bispado do Oriente, rivalizando com sés antigas e veneráveis, tais como Alexandria, Antioquia e Jerusalém (Angold, 2002:19). Na verdade, a criação de Constantinopla representa um feito espetacular na medida em que o basileus surge, frente à sociedade romana da época, como um ser capaz de dotar o mundo de um novo centro, melhor dizendo, de reordenar o próprio cosmos, delimitando um novo espaço a partir do qual o sagrado se difunde sobre a superfície terrestre, protegendo-a da ameaça permanente do caos (Eliade, 1992:34). No contexto de redefinição dos fundamentos do poder imperial, de construção de uma realeza sagrada eivada de elementos pagãos e cristãos, era necessário que Constantino produzisse uma nova abertura por meio da qual se pudesse realizar a comunicação entre o céu e a terra. Roma não era inadequada aos propósitos de Constantino por ser uma cidade pagã, mas por ser o baluarte de uma concepção política de origem republicana que relutava em reconhecer os imperadores vivoscomo seres sagrados. Já Constantinopla, encravada na fronteira entre o Oriente Próximo e a Grécia, compartilhava de todas as tradições helenísticas sobre a realeza, as quais por sua vez resultavam da reelaboração de símbolos e rituais que remontam sem dúvida à monarquia faraônica, como comprova a perpetuação ao longo de todo o Império do costume de se atribuir aos imperadores a titulatura própria dos antigos soberanos egípcios. Em termos simbólicos, fazia-se necessário encontrar uma nova capital que pudesse expressar o sincretismo e as novas concepções que cercavam a basileia, e a escolha finalmente recaiu sobre Bizâncio, por razões de ordem diversa que não temos condições de discutir aqui. O importante é registrar que em Constantinopla o basileus romano representa, tanto na vida como na morte, uma autêntica epifania, tornando-se o seu corpo, depositado no mausoléu anexo à Igreja dos Santos Apóstolos, objeto de culto e veneração. Desse modo, Constantinopla se convertia em um extraordinário santuário a conservar para a eternidade as relíquias dos seus imperadores embalsamados e depositados em sarcófagos de ouro e madeira, como convinha a membros de uma estirpe sagrada. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Documentação primária impressa ANONYMUS VALESIANUS PARS PRIOR (ORIGO CONSTANTINI). In: LIEU, S. N. C. & MONTSERRAT, D. (Ed.) From Constantin to Julian: Pagan and Byzantine views. London: Routledge, 1996, p. 43-62. AURELIUS VICTOR. Livre des Césars. Texte établi et traduit par Pierre Dufraigne. Paris: Les Belles Letrres, 1975. BRUUN, P. M. Constantine and Licinius (A.D. 313-337) In: SUTHERLAND, C.H.V. & CARSON, R. A. G. The Roman imperial coinage. V. VII. London: Spink & Son, 1966. CHRONICON PASCALE. In: CHASTAGNOL, A. Le Bas-Empire. Paris: Armand Colin, 1969. EUNAPIUS. The lives of sophists. In: PHILOSTRATUS & EUNAPIUS. English translation by Wilmer Cave Wright. London: William Heinemann, 1922. EUSEBIO DE CESÁREA. 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O papel da Igreja num primeiro momento após a queda de Roma foi importante para o processo de fusão entre hábitos romanos e “bárbaros”. Antes das invasões algumas missões cristãs já haviam se dirigido ao território bárbaro e difundido o cristianismo. Todavia, a maioria dos povos bárbaros optou pelo arianismo, doutrina considerada herética pela Igreja que contestava a divindades de Jesus Cristo. Jesus, reconhecido como Filho teria sido um homem orientado à imagem de Deus, sem, contudo compartilhar a sua essência. O combate ao arianismo foi marcante no Concilio de Nicéia de 325. Na seqüência a Igreja utilizou de sua influência não só para lutar contra a heresia, mas para, com o poder da espada e também do martírio, converter os hesitantes ao cristianismo. Segundo John Keegan “a conversão foi muitas vezes imposta pela ponta da espada, mas os cristãos... também morreram como mártires no esforço de implantar o evangelho entre os povos selvagens”1 Por isso apoiou o Reino Franco contra os demais povos bárbaros, mesmo quando ele ainda não era cristão pois já dava sinais claros de que se converteria à ortodoxia. Dentro dessa estratégia, um passo importante foi à conversão dos magiares, da região da atual Hungria, e que invadiram a parte mais ocidental da Europa diversas vezes. Uma vez convertidos, no século X, acabaram servindo como um obstáculo ao avanço dos povos das estepes. Já do ponto de vista territorial, a Igreja era a maior possuidora de terras da Idade Média. No começo fazendo uso da sua prerrogativa de herdeira do Império Romano para manter o que detinha e, posteriormente, conseguindo gradativamente mais aquisições das mais variadas maneiras. Desde doação da elite romana ou bárbara (em vida ou após a morte), passando pela dos ricos mercadores das cidades italianas até as terras conquistadas aos muçulmanos ou aos infiéis. Apesar de boa parte do poder econômico da Igreja estar baseado nas grandes extensões de terra — que era a principal riqueza da época — os tesouros conseguidos nas pilhagens em territórios dentro e fora da Europa, reforçavam a beleza das Igrejas. Além disso, os camponeses eram obrigados a pagar o dízimo. Mas vale ressaltar, conforme explica o historiador da Idade Média, que “os cavaleiros, os camponeses, doam voluntariamente aquilo que possuem porque temem a morte, o julgamento, e os monges os protegem contra os piores perigos: aqueles que não se vêem” A suntuosidade das igrejas e conventos também acabava servindo para contornar problemas monetários. Como o número de moedas na Idade Media era baixo, eram as igrejas que suprimiam a demanda quando ela crescia: derretiam-se as suas riquezas e cunhava-se o ouro. A educação também era praticamente um monopólio dos padres, pois, em geral, eles eram os únicos alfabetizados. Os mosteiros medievais guardavam a maioria das obras da antiguidade, protegendo-as da destruição e da pilhagem bárbara. Ficava a cargo dos mosteiros a reprodução dessas obras manualmente. Por vezes o monge copista sequer compreendia a língua em que estava escrito o texto que ele estava copiando, mas o trabalho era feito com esmero. A grande quantidade de iluminuras e asletras em ouro que iniciavam os textos são prova desse cuidado, embora, alguns textos antigos tenham sido apagados para dar lugar a outros, uma vez que os suportes para a escrita eram caros e raros. Os documentos, geralmente, pergaminhos que eram raspados e reutilizados eram chamados de palimpsestos. Esse monopólio cultural trazia conseqüências não só para a educação do período, extremamente controlada, mas também para a formação dos governos do período. Para fazer funcionar a máquina administrativa os príncipes e reis precisavam utilizar os serviços do clero, únicos com conhecimento suficiente para auxiliá-los. Essa proximidade, especialmente na Alta Idade Média, acabou fazendo com que os religiosos se aproximassem mais dos interesses terrenos do que da vida espiritual, uma promiscuidade entre o poder da Igreja e o poder dos senhores feudais, mostrando uma clara decadência moral e dos hábitos de parte expressiva do clero. Ademais, um nobre ao construir uma Igreja em seus domínios poderia influenciar no campo religioso. Em uma época de grande religiosidade, supomos que a população se sentia desamparada com essas atitudes. O poder da Igreja abarcava também a medicina. Até o século XII não se praticava a dissecação de cadáveres, portanto, não se conhecia em profundidade a anatomia do corpo humano, pois como na doutrina cristã o homem havia sido feito à semelhança de Cristo, de certa, forma, violar o corpo humano seria ofender a Deus. A força do cristianismo é tão clara que abarca a própria concepção de tempo. O nosso calendário está baseado na data que na época se acreditava que Cristo havia nascido, método estabelecido pelo Abade Dionísio em 525. A contagem do tempo na Idade Média seguia as alterações físicas da natureza e eram anunciadas pelo sino da igreja, mostrando o controle do clero sobre a vida das pessoas. A concepção de tempo que tempos hoje “tempo é dinheiro”, em que sempre vivemos na pressa, pois há a possibilidade de ganharmos dinheiro, era estranha à Idade Média. Para demonstrar isso, vale destacar que o relógio, até final do século XVII só tinha o ponteiro das horas, muitas pessoas nem o ano em que nasceram sabiam. Pode parecer algo sem importância, mas controlar o tempo significa determinar quando é correto trabalhar e descansar, quando devemos pagar tributos aos governantes e a Deus, quando podemos nos sociabilizar por meio das festas marcadas pelo calendário cristão, quando devemos guardar abstinência sexual ou nos alimentar ou, até, mesmo guerrear. O controle da Igreja atingia também a dimensão econômica, por meio da proibição da cobrança de juros, por exemplo, como veremos na próxima aula. A ideologia cristão pregava a ordem social medieval como reflexo de uma ordem natural tripartite que dividia os homens entre oratores, bellatores e laboratoes: isto é, os que rezam, os que guerreiam e os que trabalham. Claramente, esses eram os papéis reservados respectivamente à Igreja, aos nobres e aos camponeses. Encerramento Nessa aula você viu conheceu alguns dos aspectos do poder multifacetado da Igreja, que abarca desde a medicina até sua própria posição na ordem natural da sociedade. Um dos métodos mais comuns de tratamento era a sangria, que consistia em retirar sangue do doente acreditando que o mal era originado do desequilíbrio de líquidos no corpo. Aula: 10 Temática: Igreja, bárbaros e o islã na formação da Europa Na aula de hoje você vai conhecer a situação da Europa nesse período de reestruturação, em que a Igreja, o islamismo e os bárbaros estão em um processo de acomodação, conflito e influências mútuas e que acabaram por construir a Europa do período. Sem o poder unificador do Império Romano, foram frágeis as tentativas dos Francos em repetir o poderio romano. A Europa mergulhou em um período marcado pelas relações entre a Igreja, os bárbaros e o islamismo. Essas relações devem ser ressaltadas pois, em geral, a cultura cristã e bárbara sofrem influência recíprocas nesse período, enquanto encontra no islã um inimigo, ainda que por vezes a convivência seja possível como no sul da Espanha. Com relação aos povos chamados bárbaros, vale a pena traçar os pontos em comum, considerados os riscos oriundos de generalizações desse tipo. A estrutura social, política e econômica dessas sociedades guardava analogias, o que pode ser explicado porque muitas delas tinham como traço comum a origem germânica. Seu sistema econômico estava baseado na exploração coletiva da terra e nas trocas entre os produtos agrícolas e de animais. A guerra perpassava toda a sociedade e era elemento importante no sistema econômico para a obtenção de riquezas. A estrutura social era patriarcal, cabia ao chefe tomar as decisões, e politicamente era organizado com base nos clãs familiares. Só havia uma reunião de vários clãs para assuntos de suma importância como a preparação para a guerra. Quando a guerra era declarada, o comandante e o comandado reforçavam laços de lealdade. As aldeias bárbaras possuíam habitações pobres e suas vestimentas eram feitas a partir de couro de animais e tecidos rústicos. Do ponto de vista religioso, eram animistas, isto é, adoravam as forças da natureza como o vento, o sol, a chuva etc. O encontro com o cristianismo transformou essa sociedade, principalmente no quesito cultural. Os povos bárbaros, já nostálgicos do Império Romano, viram na Igreja uma fonte de poder que poderia substituir o domínio de Roma. Afinal, a Igreja tornou-se a guardiã do poderio romano. A absorção da ideologia cristã pelos povos bárbaros não ocorreu de uma hora para outra e sem resistência, pelo contrário, apareceram várias heresias e a Igreja precisou se abrir e adaptar vários ritos e traços da cultura germânica ao ideário católico. O paganismo dos povos bárbaros foi, aos poucos, se revestindo com os traços cristãos e vice-versa: deuses são adaptados, datas pagãs são incorporadas ao calendário cristão, etc. Nesse longo e desigual processo de unificação entre o cristianismo e os povos bárbaros, a invasão da península ibérica acaba desempenhando um papel importante ao transpor os infiéis muçulmanos para uma Europa que se pretendia cristã. Assim, foi possível encontrar um motivo objetivo para os guerreiros bárbaros seguirem o ideal cristão. No entanto, não podemos pensar o mundo muçulmano somente em oposição ao cristão, pois o islamismo trouxe conhecimentos novos à Europa — além de ser, ela mesma, como vimos,uma religião formada pela conciliação das duas outras religiões monoteístas de maneira relativamente tolerante. Também vale destacar que as condições de higiene do mundo muçulmano eram muito superiores ao mundo “cristão” devido ao caráter de purificação que a água adquire para os muçulmanos, levando-os a se manterem limpos para as freqüentes rezas diárias: hábito que muito contribuiu para a redução das doenças nas regiões islâmicas. Sem falar dos avanços nos estudos da física ou medicina levados à cabo por muçulmanos e judeus em algumas cidades antigas do atual Oriente Médio. Nesta aula apresentamos um pouco mais sobre a as relações entre as três culturas — bárbara”, cristã e muçulmana — que, de diferentes maneiras, auxiliaram a formação da Europa no período. O patriarcalismo e a descentralização dos povos bárbaros, a cultura cristã e a “ameaça” muçulmana, estão na base da estrutura que a Europa começa paulatinamente a ter. Resumo - Unidade II Nessa unidade você conheceu o início da reestruturação da Europa após a queda de Roma, e também a expansão do islamismo. Entre os reinos bárbaros que ser formaram com a dissolução do império, o dos Francos foi o mais importante. A Igreja desde cedo o apoiou na perspectiva de criação de um novo império cristão. Por isso os primeiros reis merovíngios receberam o suporte institucional da Igreja que aumentou ainda mais em relação à Carlos Magno que, além da expansão territorial, fortaleceu a centralização política por meio de juramentos de fidelidade e nomeação de membros do clero. Enquanto asrelações Reino Franco/Igreja se estreitam, ocorre o surgimento e posterior expansão de uma nova religião, a muçulmana. O profeta Maomé é influenciado pelo monoteísmo judaico cristão e passa a pregar uma nova doutrina. Sendo perseguido, defende a jihad, a guerra santa. Com vizinhos enfraquecidos, a expansão islâmica se dá a grande velocidade chegando até a península ibérica, marcando uma série de conflitos com o cristianismo, embora a relação de cristãos e judeus dentro do Império islâmico fosse relativamente boa. Com a morte de Maomé, ocorreu uma disputa pela sua sucessão fragmentando o Império. Referências Bibliográficas DUBY, G. A Europa na idade média. Lisboa: Teorema, 1989. DUBY, G & ARIÈS, P. História da vida privada (Da Europa feudal à Renascença). São Paulo: Companhia das Letras, 1991. HEERS, J. Historia medieval. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1974. JUNIOR, H.F. A Idade Média e o nascimento do Ocidente. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988. LE GOFF, J. Mercadores e banqueiros na idade média. São Paulo, 1991. ________. O maravilhoso e o quotidiano no Ocidente Medieval. Lisboa. Edições 70, 1985. ________. Para um novo conceito de Idade Média. Lisboa. Editorial Estampa, 1980. PERROY, Édouard (org.). A Idade Média. In: História Geral das Civiliza- ções, vol. I,II, III tomo III, , São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1957. Consulte os sites abaixo, que contêm vários textos e algumas imagens sobre os temas abordados nessa unidade: http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=295 http://www.brasilescola.com/historiag/conceito-idade-media.htm http://www.saberhistoria.hpg.ig.com.br/mapa_do_site.htm Aula: 11 Temática: As relações sociais e o feudalismo Feudalismo, suserania, vassalagem, servidão, encomenda e feudo são conceitos comuns encontrados nos livros sobre Idade Média. Na aula de hoje você vai conhecer algumas definições desses termos e a partir deles vai compreender um pouco melhor as relações sociais e de produção num determinado período da Idade Média. Como em geral acontece com vários conceitos ou termos históricos, há diferentes definições para cada um deles. Em nossas aulas tentaremos nos ater às definições desses vocábulos feitas por Le Goff e Hilário Franco Junior, autor de um manual universitário para o leitor brasileiro. Segundo Le Goff, o termo feudalismo, “no sentido exacto do termo: vínculos feudo-vassálicos. Conjunto de instituições que criaram obrigações de obediência e de serviço por parte de um homem livre dito vassalo. Em troca de sua fidelidade o vassalo recebia do seu senhor a posse hereditária de um feudo.” Ou seja, um homem livre se tornava fiel a um nobre, o suserano, basicamente para auxiliá-lo na guerra, selando o acordo por meio de uma cerimônia: [...] os laços feudo-vassálicos eram estabelecidos através de três atos ... O primeiro era a homenagem, ato de um indivíduo se tornar “homem” de outro. O segundo era a fidelidade, juramento feito sobre a Bíblia ou relíquias de santos e muitas vezes selados por um beijo entre as partes. O terceiro era a investidura, pela qual o indivíduo que se tornava senhor feudal entregava ao outro, agora vassalo, um objeto (punhado de terra, folhas, ramo de árvore etc.) simbolizador do feudo que lhe concedia. Em troca da fidelidade o suserano dava ao vassalo um feudo. Na palavras de Le Goff um feudo era [...] uma concessão (em geral sob a forma de terra... mas por vezes...de dinheiro) atribuída gratuitamente por um senhor ao seu vassalo com o fim de proporcionar a este a manutenção a que tem direito em troca de sua fidelidade e de o pôr em condições de prestar ao seu senhor o serviço requerido” Assim um nobre dava a um homem livre um feudo, “um bem dado em troca de algo”, segundo a palavra germânica da qual se origina, na maior parte das vezes terra, pois era a principal riqueza do período. Assim quando um texto faz referência a um feudo na maior parte das vezes está se referindo a um pedaço de terra. Porém, o feudo dado pelo suserano poderia ser também o direito de cobrar imposto em determinada ponte ou um tributo de determinada população. Em troca, exigia lealdade, algo necessário principalmente nas guerras. Todavia a palavra feudalismo também remete, segundo Le Goff, ao sentido genérico de “sociedade feudal: ”Sistema de organização econômica, social e polí- tica baseado nos vínculos de homem a homem, no qual uma classe de guerreiros especializados – os senhores — , subordinados uns aos outros por uma hierarquia de vínculos de dependência, domina uma massa campesina que explora a terra e fornece com que viver” Nesse outro sentido, ela se refere, portanto a organização das relações sociais em um período abrangente da Idade Média. Assim enquanto as relações de suserania e vassalagem� eram caracterizadas por um ritual de lealdade em que uma pessoa das classes superiores jurava defender outra em caso de guerra, as relações de servidão ficavam destinadas às classes inferiores. Nesse outro sentido, a ênfase recai nos camponeses, a maioria da população, e a organização do trabalho e da produção que os mantinham ligados ao senhor. Devido ao escasso movimento comercial da Idade Média, as instabilidades geradas pelas guerras e pela fome e o papel preponderante da agricultura a questão da terra era essencial. Os camponeses, em sua maioria eram servos: Vassalagem: “vinculo de dependência privado, criado pela cerimônia de homenagem, que assentava em compromissos recíprocos, embora desiguais. Permitia a um homem livre, mediante a sua fidelidade, uma terra e ter acesso a uma parcela de autoridade pública” JUNIOR, H.F. A Idade Média e o nascimento do Ocidente. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988, pp, 352-353. [...] tipo de trabalhador difícil de ser definido com precisão, pois variava muito de local para local o elemento que o caracterizava. De acordo com sua origem, fala-se em servidão real, que pesava sobre a terra, e servidão pessoal, sobre o indivíduo, ainda que ambas tenham se confundido após o século XI... ser servo implicava não gozar de liberdade, ter incapacidades jurídicas... [mas] podia ter bens e recebia proteção do senhor” A condição geral dos servos nas grandes propriedades era de inferioridade “submetida a cargas materialmente muito pesadas e moralmente infamantes: corvéias, prestações e impostos arbitrariamente aplicados [...]” Assim o sentido genérico de feudalismo é a organização de uma sociedade em que a grande massa de camponeses vivia em regime de servidão, não tendo, portanto, liberdade e devendo obrigações ao senhor em troca de proteção e do uso da terra , do moinho e de outros equipamentos, além de ser obrigado a trabalhar nas terras do senhor por 3 dias da semana gratuitamente (corvéia). O servo estava submetido ao senhor do ponto de vista militar, judicial e econômico (esse conjunto de poderes era conhecido pelo nome de ban) , embora o servo fosse dono de sua vida (ao contrário do escravo) e, ao se submeter ao senhor, garantia uma terra para trabalhar. Em suma, o poder do senhor em seu domínio era o de “julgar, punir e taxar”. Por sua vez, o senhor era vassalo de outro senhor mais poderoso, o suserano, que por sua vez poderia ser vassalo de outro suserano mais forte, relações extremamente hierarquizadas. Além de hierárquicas, as relações sociais na Idade Média, especialmente no período da Baixa Idade Média,, eram dotadas de imobilidade social muito grande, isto é, em geral não havia ascensão social. Em geral um servo seria sempre servo e um nobre seria sempre nobre, uma sociedade assim é chamada estamental. Na aula de hoje você conheceu alguns termos usuais na historiografia da Idade Média e que ajudam a entender as relações sócias e econômicas que caracterizam o período até o momento em que grandes transformações mexem com essa estrutura. Como esses conceitos são muito utilizados, o aluno deve prestar atenção e compreendê-los bem para dar prosseguimento às aulas. Aula:12 Temática: A moradia e o trabalho do medieval Na aula de hoje você irá conhecer o cotidiano, a moradia e alguns dos hábitos da maior parte da população medieval, os camponeses. Em primeiro lugar convém chamar a atenção para uma característica importante dessa população, a sua faixa etária. Em geral, a população da Idade Média possuía um padrão demográfico característico de sociedades agrárias pré-industriais, com alta natalidade e alta mortalidade, sendo que a faixa etária ficava entre 25 e 30 anos. Uma população jovem, portanto, sendo que no campo o infanticídio feminino era grande, pois as mulheres eram consideradas menos aptas ao trabalho. O tempo de trabalho do camponês era determinado por, basicamente, dois ritmos diferentes, o da Igreja e o da Natureza. A sanção contra o trabalho no domingo era estendida e respeitada nos dias de Santos e feriados religiosos. O ritmo de trabalho era determinado pelos ciclos de plantação, crescimento e colheita de cada um dos produtos, que também eram afetados pelos ciclos naturais das estações, das chuvas e sofrendo modificações com invernos rigorosos ou secas. As drásticas transformações climáticas poderiam prejudicar a colheita e a dieta dos medievos, aumentando o período de fome e escassez. Nesses períodos a letalidade era muito grande devido à subnutrição crônica e ao trabalho excessivo. O trabalho nesse período era extenuante devido as condições tecnológicas do trabalho no período. A maioria das ferramentas era construída de madeira, abundante na floresta, porque as de ferro poderiam ser usadas em rebeliões de camponeses, um problema crescente no fim da Idade Média. Ademais, o ferro era um bem escasso e caríssimo, ficando reservado na maior parte das vezes aos guerreiros. A fabricação das próprias ferramentas era natural numa economia não industrializada. Os camponeses também fabricavam os utensílios domésticos como colheres, feitas a partir de chifres de animais. A lã fornecida pelas ovelhas era preparada em casa para o trabalho de tecelagem realizado pelas mulheres. Sapatos, chapéus e móveis também eram fabricados em casa ou nas oficinas de artesãos que trabalhavam sob o regime de mestre e aprendiz. Todavia o camponês não era autônomo e independente e boa parte do seu trabalho, pela própria característica da estrutura de dominação, precisava ser feito nas instalações do senhor feudal. Assim, havia a obrigação de moer o cereal (o trigo era o mais importante) no moinho do senhor, de fabricar a cerveja nas instalações dele, de pisar a uva para produzir o vinho no lagar dele - formas de pagar tributos. Na maior parte das vezes, os produtos eram levados em carroças comandadas pelos próprios camponeses. Assim, o camponês medieval passava boa parte do dia no trabalho nos campos. O espaço doméstico não tinha a importância que tem hoje. A iluminação, era escassa e feita com a queima de um pano velho embebido em gordura animal: as janelas feitas de madeira, não deixavam passar luz. Algumas famílias mais ricas utilizavam janelas feitas com chifres polidos de animais que, embora não deixasse entrar muito ar, permitia um pouco de luminosidade. Não havia banheiros dentro das residências e os espaços internos eram de uso comum. Quase não havia divisões internas e, portanto, praticamente nenhuma privacidade. Na cozinha a maior parte dos alimentos eram cozidos em recipientes de ferro suspensos por ganchos ou então diretamente sobre o fogo, sendo que a fumaça na maior parte das vezes ficava retida, pois boa parte das casas não tinha chaminé, o que garantia o calor, mas tornava o ar insalubre. As refeições eram servidas em simples mesas de madeira. A religiosidade estava presente em todos os momentos no trabalho ou em casa, pois o bem estar do corpo e o das plantações era visto como resultado da providencia divina exigindo, então, esforço espiritual para alcançá-la com orações e bênçãos. Na aula de hoje você conheceu um pouco do cotidiano, da moradia e do trabalho, da maior parte da população medieval. Seria interessante fazer um paralelo com as condições de vida dos trabalhadores na sociedade contemporânea. Aula: 13 Temática: A posse e o uso da terra Nas duas aulas anteriores você conheceu as relações sociais e o cotidiano do camponês medieval, em que a terra era fator determinante. Nesta aula você vai saber como era estruturada a posse e o uso da terra. Primeiramente, convém chamar a atenção para as pastagens e áreas florestais, que, tradicionalmente, eram de uso comum dos senhores e dos servos. Nelas os camponeses colhiam frutos, levavam seus animais para pastar e extraiam a madeira. Já o senhor as utilizava para a caça. Em algumas regiões e em momentos especiais o senhor chegou a cobrar por essa utilização, o que causou revolta camponesa por romper com a tradição. Além das terras de uso comum, havia as terras de uso exclusivo do senhor. Os documentos de época falam em terra indominicata e os historiadores chamam de manso senhorial ou reserva senhorial. Nesse espaço estavam as instalações, tais como estábulos, celeiros, moinhos etc. No centro, em geral, ficava a casa do senhor e ao redor dela a morada do administrador, os alojamentos dos servidores domésticos e amiúde uma igreja. A terra do senhor era trabalhada pelos camponeses, por meio da corvéia, o trabalho gratuito realizado em três dias, como você viu em aula anterior. Os camponeses também ficavam encarregados de manter os edifícios da corte, fazendo os trabalhos necessários. Os camponeses também “possuíam” seu pedaço de terra. A terra mansionaria, manso servil ou mansus era caracterizado pela dupla posse, uma vez que do ponto de vista legal ela era propriedade do senhor feudal, mas na prática era utilizada como se fosse do servo. Era como se fosse uma concessão ao servo, que dela fazia uso para garantir o seu sustento, e que, em média, tinha 15 hectares. O camponês era um trabalhador “livre”, mas havia também uma minoria de escravos, com seus próprios mansus, chamados de mansus servilles, pelos quais deviam encargos mais pesados ao senhor. Entre as obrigações dos camponeses pelo uso dessa terra estava um pagamento anual em moeda, uma quantidade fixa de produtos agrícolas e produtos da indústria doméstica (objetos de madeira e tecido). Porém, as prestações de serviço eram mais importantes para o senhor feudal do que o fornecimento de produtos agrícolas ou moedas. Um grande domínio, como era chamada a junção de todos os diferentes tipos de posse do território, podia possuir centenas de mansus. Essas grandes propriedades, em geral, pertenciam à Coroa, à nobreza ou à Igreja. Com o tempo a Igreja se tornou a maior proprietária de terras pois, enquanto os demais poderiam ser fracionados em partilhas sucessórias ou em guerras, os domínios eclesiásticos ficavam unidos defendidos pelo celibato. A produção nos campos seguira o sistema bienal, principalmente no norte da Europa e no Mediterrâneo, sendo o solo dividido em dois: um ficava em repouso, para evitar o desgaste do solo enquanto o outro era cultivado. No ano subseqüente as posições eram invertidas. Na aula de hoje você conheceu as relações de propriedade da terra. Nesse assunto também seria interessante estabelecer uma comparação com propriedade da terra na sociedade contemporânea, eminentemente capitalista. Aula: 14 Temática: Castelo Medieval Na aula de hoje e na próxima você vai estudar um castelo medieval típico, analisando a sua construção, função e simbologia. Para isso, imagine que você é um guia turístico, analisando cada detalhe da construção e, na aula que vem, imagine-se no papel de um guerreiro que tenta invadir o castelo. Antes de continuar a leitura, olhe atentamente a figura da página seguinte e tente descobrir algo sobre cada uma das partes do castelo que estão numeradas. O que é Para que serve? Qual a razão do formato? Etc. Diante de um castelo medieval, o primeiro aspecto a chamar a atenção é a ponte elevadiça (1). Você deve imaginar que suafunção é evitar invasões, certo? Nos desenhos animados e no cinema ela aparece como porta e, ao mesmo tempo como ponte sobre um fosso(2), que também serve para evitar invasões pois amplia a distância entre o alto muralha do castelo(3) e o solo.. Além disso, o fosso evitava outra maneira bastante comum que os inimigos usavam para entrar na edificação: os túneis. Castelos sem fosso ficavam vulneráveis a esse tipo de invasão. Embora dependendo da região, ele não tivesse água e muito menos jacaré! A porta que dá acesso ao interior das muralhas (4) era alta para permitir a entrada dos guerreiros e cavaleiros com suas montarias, além de carroças para fornecimento de mercadorias. Nos primeiros séculos da Idade Média, os castelos eram de madeira. A partir do século XI, passaram a ser construídos com blocos de pedra e em lugares cada vez mais altos, que possibilitassem a visualização antecipada da chegada dos inimigos. A segurança era um aspecto importante do castelo medieval. Talvez o mais importante, tanto que, facilmente se poderia confundir um castelo com uma fortaleza. As muralhas também eram altas para evitar a entrada de inimigos e equipadas com postos de observação, a partir dos quais os soldados também poderiam defender o castelo (7) (15) Alguns castelos apresentavam as coberturas em forma pontiaguda ou triangular para evitar o acúmulo de neve. (8) Conseguindo impedir a invasão, os moradores do castelo poderiam fazer prisioneiros e, nesse caso, estes eram levados para a masmorra (9), uma cela subterrânea. Um fato comum na Idade Média era o pedido de resgate de um preso, daí a importância de se fazer prisioneiros. A parte exterior do castelo (a) era voltada quase que exclusivamente para a defesa. Uma segunda área do castelo era destinada a sociabilização e a moradia da corte (b), isto é da família nobre, o senhor feudal, e daqueles mais próximos. É importante destacar que na Idade Média os símbolos têm muita importância. Dessa maneira, não é a toa que no topo desse setor estivesse o aposento da família nobre (11) e a Igreja (12), simbolizando o poder secular e o sagrado, respectivamente. Nessa torre principal, logo abaixo dos aposentos dos senhores e da capela, ficava o grande salão onde eram servidas as refeições (13) . Ao contrário do que imaginamos, baseados em filmes ou contos de fadas, os castelos eram lugares de vida rústica, em que havia pouco espaço para a privacidade. Essa rusticidade refletia o temperamento dos nobres da época que eram, essencialmente, guerreiros. Quem imaginar o interior do castelo como um acampamento militar estará muito mais próximo da realidade do que quem imaginar um salão de baile com damas e cavaleiros bem vestidos. Um terceiro setor do castelo, nos fundos, era o de “serviço” (c) responsável por abastecer e manter em funcionamento toda a estrutura do castelo, desde a função de defesa até a de consumo da corte. Um trabalho importante era o dos forjadores. Nesse setor utilizavam fogo intenso para moldar o ferro e transformá-lo em armas e ferraduras. O sistema hídrico do castelo era complexo, a água vinha tanto de poços artesianos (14) quanto da chuva. A água da chuva que escorria pelos telhados era guardada em cisternas (15) e levada por canos (16) até a cozinha (17). Neste local havia uma chaminé (18), sob a lareira onde muitos alimentos eram assados (19). Os primeiros castelos tinham apenas pequenos furos no teto por onde saia a fumaça, o que, de certa maneira, auxiliava a aquecer o recinto no inverno. Um dos principais alimentos era o porco, não só pelo animal ter uma dieta variada, capaz de comer muitos “restos”, mas também por ser um animal do qual aproveitava quase tudo. Ademais consumi-lo era permitido aos cristãos, ao contrário do que ocorria com muçulmanos e judeus. Na cozinha também eram guardados os alimentos que não se estragavam, enquanto aqueles que eram perecíveis ficavam nos porões (20), a zona mais fria do castelo. A armazenagem era fundamental para manter o estoque de suprimentos em períodos de guerra. Era também nessa edificação “de serviço” que se encontrava a fossa, que reunia os dejetos do castelo (21), sendo que parte desse ,material era recolhido e utilizado como adubo. Nessa aula você examinou um esquema arquitetônico genérico de um castelo medieval. Na próxima aula vamos estudar essa fortaleza em ação: a guerra. Aula: 15 Temática: O assédio ao Castelo Na aula anterior você conheceu um castelo medieval. Nesta aula vamos estudar as técnicas e estratégias utilizadas nos cercos aos castelos. Olhe novamente para o desenho da aula anterior e escreva em um papel ou desenhe um pequeno esboço de estratégias ou equipamentos possíveis para conquistar a fortaleza. Pense na viabilidade de cada um deles. Embora você não seja um guerreiro e muito menos medieval, certamente, já viu algumas das técnicas utilizadas na conquistas de fortalezas nos inúmeros filmes que têm a Idade Média ou episódios medievais como tema. Se a estratégia fosse terrestre, um primeiro obstáculo seria, sem dúvida, o fosso, pois a ponte elevadiça estaria recolhida. A solução mais comum era tentar construir uma ponte com tábuas, embora muitas vezes os invasores tentassem subornar alguém de dentro para agir como traidor e descer a passagem. Nesse momento o próximo obstáculo seria transpor a ponte recolhida e para isso era utilizado o aríete. O aríete era uma arma de assédio que variava desde uma simples tora de árvore afiada na ponta até um carro com rodas, tora com ponta de pedra e uma cobertura que protegia os homens que o empurravam. Esses diferentes “modelos” eram utilizados enquanto os arqueiros do castelo disparavam e enquanto o óleo fervendo era derramado. Mesmo quando essa estratégia desse certo, claramente a vantagem ainda era dos defensores. Outra estratégia utilizada era a catapulta para tentar abrir um rombo na muralha e então entrar por ela num local menos protegido. A catapulta funcionava com um contrapeso que, com um movimento de alavanca arremessava pedras. No começo ou então em castelos mal construídos essa estratégia podia funcionar, pois como não havia cimento era uma questão de força: pedra contra pedra. Todavia, rapidamente, os construtores perceberam que se colocassem um suporte inclinado atrás da muralha com terra ou mesmo com pedras seria suficiente para mantê-la em pé mesmo que danificada. Todavia, as catapultas não eram utilizadas somente para arremessar pedras. Muitas vezes, era usada para lançar bolas de fogo, tentando forçar a retirada dos habitantes. Estratégia que funcionava em locais com muita madeira, mas era de pouca eficácia em locais de pedra e com a população preparada para essa possibilidade. Uma outra munição utilizada nas catapultas eram os cadáveres infectados que eram arremessados para dentro como forma de espalhar doenças e vencer a resistência dos sitiados. Embora essa pareça ser a estratégia definitiva, considerando o pânico causado pelas pestes, havia o risco de que a peste fugisse de controle e contaminasse os próprios sitiantes. Sem contar que o cadáver poderia ser arremessado de volta. Escalar as muralhas também era um método utilizado, com escadas ou com cordas. O objetivo era atingir as torres para diminuir o poder de fogo dos arqueiros. Pois, embora ambos os lados utilizassem o arco e flecha, a proteção daqueles no castelo era muito maior. Os arqueiros também utilizavam as bestas. As mais rudimentares podiam ser carregadas com a mão e as mais “modernas” com um mecanismo para puxar a corda e aumentar a distância do disparo, contavam também com uma pontaria mais desenvolvida. Outra estratégia de assédio era torre móvel, que consistia em uma construção sobre rodas da altura da muralha por meio da qual se tentava invadir o castelo por cima, atacando uma das principais vantagens que era justamente os arqueiros na torre e na muralha. Ainda assim a vantagem de quem estava bem estabelecido e apoiado era maior num confronto direto. Na verdade, nenhumadessas táticas era originária da Idade Média, mas todas elas foram utilizadas em maior ou menor grau e com maior ou menor grau de sucesso pelo homem medievo. E quando todas essas estratégias de guerra falhavam, a fome era a mais eficaz. Os sitiantes cercavam o castelo e esperavam pacientemente que os sitiados desistissem pela fome. Um cerco bem sucedido poderia demorar meses e não era imune a adversidades. Além de precisar de um grande número de homens também necessitava de uma enorme quantidade de víveres nem sempre acessíveis, além de manter constante vigilância para evitar fugas e ataques de inimigos pela retaguarda. Em resumo, como apontou John Keegan “fortalezas defendidas com coragem e bem aprovisionadas eram difíceis de serem tomadas antes do advento da pólvora”. Na aula de hoje você aprendeu um pouco sobre uma parte importante da guerra medieval, o assédio aos castelos. Aprendeu as principais estratégias de ataque e suas limitações, dando ao castelo uma segurança relativa em uma época marcada por invasões. Aula: 16 Temática: As invasões e a função social dos castelos Na aula de hoje você vai compreender a importância do castelo no contexto mais amplo da sociedade medieval. Ao esmiuçar as características dos castelos e os mecanismos de assédio, nas duas aulas anteriores, podemos perceber as invasões bárbaras e a instabilidade da segurança na Europa em sua realidade concreta e diária. Além das invasões germânicas do Império Romano, muitos povos continuaram invadindo a Europa, durante todo o período medieval, especialmente na Alta Idade Média. Com isso você não deve pensar que os castelos eram construídos unicamente com a intenção de proteção ante a ameaça externa. Na verdade, com o colapso do poder romano e diante das dificuldades dos reinos bárbaros em reconquistar a força imperial, assistimos à tentativa bem sucedida de dominação territorial e política com o Reino Franco. As guerras eram comuns mesmo entre cristãos ou entre os povos que já habitavam a Europa. Senhores ou guerreiros poderiam utilizar a situação de caos para enriquecer saqueando áreas vizinhas, mosteiros ou nobres rivais. Ademais, uma modalidade muito comum era o seqüestro, pois “acima de tudo a guerra feudal não objetivava a morte do adversário, apenas sua captura. Como uma das obrigações vassálicas era pagar o resgate do senhor aprisionado, e como na pirâmide hierárquica feudal quase todo o nobre, além de ser vassalo de outros, tinha seus próprios vassalos, capturar um inimigo na guerra era obter um rendimento proporcional à importância do prisioneiro” Todavia, a ameaça externa era a que causava o maior pânico. Na época se dizia que os três flagelos do mundo eram a peste, a fome e as guerras. Os dois mapas a seguir mostram os diversos povos que invadiram o continente, bem como a região de sua atuação. São poucas as informações sobre esses povos. Sabemos que os sarracenos, como eram chamados os muçulmanos, depois de sua expansão no século VII, começaram a agir como piratas em várias regiões do sul da Itália, cortando as estradas e rotas de comerciantes e peregrinos no eixo Itália/Gália e pedindo resgate. Sarracenos e eslavos, ainda que menos perigosos, contribuíram para a disseminação do clima de insegurança no período. Muito maior foi a ameaça dos magiares, que contando com os fatores velocidade e surpresa causaram estragos no continente. Segundo Hilário Franco Junior “a cavalaria dos magiares, sem as pesadas couraças ocidentais e aproveitando as planícies da Europa Central, de onde saiam, causava pânico, e antes de qualquer contra-ataque se retirava rapidamente para as suas bases.” Os vikings também invadiram a Europa, pois com excesso demográfico precisavam encontrar novas terras. Num primeiro momento atuaram como piratas, utilizando navios de pequeno calado que permitiam a navegação tanto no mar quanto nos rios. Com o tempo passaram a se fixar no norte, onde teriam condições de extorquir e pilhar. Ao estabelecerem colônias para auxiliar os ataques os vikings perderam a surpresa como elemento estratégico e tornaram-se suscetíveis à pressão de franceses e ingleses, acabando por se converterem ao cristianismo. Hilário Franco Junior afirma: “a rapidez dos vikings, que descendo da Escandinávia penetravam pelos rios com seus barcos leves e ágeis, não permitia a defesa por parte daquele exército difícil de ser convocado, e pesado nas manobras militares”. Dentre os reinos ameaçados, o Franco mostrava sua vulnerabilidade, pois era capaz de lutar com alguém escolhido previamente e cuja realização da batalha fosse indicada antecipadamente Como conseqüência desse conjunto de invasões, “ficava patente a impotência dos soberanos, e cada região, em torno da nobreza local, organizava sua própria defesa. E passava, portanto, a definir seu próprio destino. A Europa cobria-se de castelos que eram construídos próximo de rios, lagos ou no alto das montanhas para dificultar o acesso. Essa multiplicação de castelos trouxe desdobramentos: quanto mais a Europa se organizava na defesa, menos lucrativo fica o negócio do saque. Não por acaso, a multiplicação dos castelos abriu espaço para um paulatino processo de sedentarização desses povos. Os magiares se sedentariazam na planície húngara. Os vikings, como já vimos, também passam a fundar colônias e, aqueles que retornaram a sua terra natal, levaram influências cristãs e ajudaram na conversão de novos adeptos ao unir paganismo e cristianismo. A sedentarização desses povos e a multiplicação dos castelos tiveram como desdobramento uma grande fragmentação do poder no período. O feudalismo, o sistema que nós vimos em funcionamento em aulas passadas, adquiriu sua máxima expressão nos séculos XI-XIII, justamente após esse processo de “castelização”. Mas, ao mesmo tempo, ao garantir uma relativa calma nas guerras e invasões, permitiu um desenvolvimento comercial — assunto para outra unidade, pois já caracteriza o período de renascimento comercial da Europa, ocorrido na Baixa Idade Média. Na aula de hoje você conheceu um pouco mais da relação entre as invasões de diversos povos sobre a Europa e o processo de “castelização” do continente. Relação que dá as bases para o feudalismo do século XI-XIII, já no período da Baixa Idade Média. Aula: 17 Temática: As mudanças da Baixa Idade Média Na aula de hoje você vai conhecer algumas das mudanças ocorridas a partir de meados do século X, e que acabam por dar a base para uma nova subdivisão do período: a Baixa Idade Média. Essa fase contém elementos de superação da sociedade feudal. Transformações que envolveram vários fatores e redundaram em um crescimento populacional. Uma das mudanças importantes ocorreu — como você viu nas aulas anteriores — com a diminuição das invasões no fim do século X, ou pelo menos com a redução do prejuízo dessas invasões. Mas outra transformação deve ser ressaltada. Como a economia da Idade Média era baseada na terra, a população era um componente importante do sistema econômico e, portanto, um crescimento demográfico traria conseqüências para todo o sistema. Foi justamente o que ocorreu no período Entre os indícios de um incremento demográfico podem ser citados vários aspectos. O aumento das migrações internas, que aparecem em documentos. O crescimento do processo de arroteamento, a derrubada das florestas ou drenagem de solos pantanosos para a utilização na agricultura, além do aumento perceptível do preço da terra e do trigo. Na arquitetura também aparecem sinais desse processo com a passagem das construções romanas para as góticas, em geral maiores, como você vai ver nessa apostila. E, por fim, o número de pessoas vivendo em cidades aumentou, embora ainda fossem uma minoria no cômputo geral. Em resumo, o aumento populacional provocado, em parte, pela diminuição das invasões, pode ser observado na ampliação dos templos, das estradas, das terras para o cultivo. A produção de trigo, base da alimentação, tornou-se insuficiente para suprira demanda. Entender as razões que possibilitaram esse crescimento populacional é mais complexo, pois foram muitos os fatores envolvidos. Além da questão militar, deve ser levado em conta a redução das epidemias. Você deve lembrar: os três os três flagelos do mundo medieval eram a “fome, as guerras e a peste”. A redução em qualquer uma delas traria efeitos demográficos imediatos. Todavia, faltaria explicar a razão dessa diminuição epidêmica que supõe-se estar relacionada às mudanças climáticas. Aparentemente, ocorreu no período, uma alteração que tornou o clima da Europa mais seco e temperado..Como muitas doenças eram transmitidas pelo ar, o clima seco diminuiu a incidência de microorganismos. Essa mudança climática também trazia vantagens para a agricultura, beneficiando o plantio do trigo. Todavia, não só o clima melhorou a produção agrícola: alguns incrementos nas técnicas agrícolas devem também ser mencionados. Os medievos passaram a utilizar novas atrelagens que não sufocavam os animais, que eram a principal força motriz. Também começam a utilizar a charrua, ferramenta empregada para revirar o solo preparando-o para o plantio, e que podia ser usada com tração animal ou humana. A charrua permitia um aprofundamento das sementes, aumentando a produção. Por fim, um novo sistema de plantação, trienal, permitia uma utilização mais extensiva do solo. Anteriormente, para evitar o deterioramento do solo, os medievos cultivavam metade da terra, deixando o restante em repouso; no novo sistema, só um terço ficava em repouso. Veja a tabela abaixo: Essas alterações levaram alguns historiadores a classificarem esse processo como a revolução agrícola medieval. Esse revigoramento agrícola, provocou a produção de excedentes e, conseqüentemente, estimulou o comércio, que paulatinamente, colaborou para a transformação da a estrutura feudal. Mas, esse é um assunto para outras páginas dessa apostila. Aula: 18 Temática: Cruzadas O assunto da aula de hoje é o movimento das Cruzadas, episódio fundamental para a compreensão da religiosidade medieval e que teve causas variadas, assim como importantes conseqüências para a Europa medieval. Antes de continuar a leitura, pense em qual a cidade do mundo que tem a maior importância religiosa. Claro que a resposta depende muito de que religião você professa, pois cada uma delas tem a sua própria cidade sagrada. Todavia, não seria surpresa se você optasse por Jerusalém, cidade considerada sagrada pelas três religiões monoteístas (as que acreditam em um único Deus): judaísmo, cristianismo e islamismo — muito embora o centro sagrado do islã seja a cidade de Meca na arábia saudita. Tendo sido ocupada pelos muçulmanos no século VII, Jerusalém ainda hoje é palco de disputas entre israelenses e palestinos pelo seu controle. Pode-se dizer que as disputas pela cidade sagrada se acirraram com as cruzadas, pois antes disso, até o século XII, judeus, cristãos e muçulmanos vivam em paz em Jerusalém. Simplificadamente, o movimento das Cruzadas, iniciado no século XI e que se estendeu até o século XIII, foi a sucessão de oito tentativas militares de “libertar” a Terra Santa (Jerusalém e cidades sagradas para o Cristianismo) do domínio muçulmano, os chamados “infiéis”. O movimento cruzadista servia a vários propósitos: válvula de escape para nobres que haviam ficado sem terras, pois a herança passou a ser concedida ao filho primogênito deixando os irmãos na “ociosidade”; e também para bandidos e mendigos que começavam a proliferar como conseqüência do aumento populacional. Enviar nobres, mendigos e bandidos à Terra Santa era uma maneira de aliviar as tensões sociais crescentes na Europa. Ademais, o mediterrâneo estava sob domínio muçulmano e garantir o domínio sobre ele era do interesse das cidades italianas, empenhadas em participar do rico comércio com o Oriente. O aspecto econômico e social das cruzadas tem que ser destacado, todavia, num período de alta religiosidade, não podemos menosprezar os interesses da Igreja e as motivações do cristão comum. As Cruzadas serviam aos interesses mais gerais da Igreja de pacificar as tensões sociais no continente europeu transferindo-a para um inimigo externo, os infiéis muçulmanos. Somou-se a isso, o interesse de unificar a cristandade, colocando o Império Bizantino na órbita de Roma. Para o cristão comum, homem do povo, não era estranho o ideal de sacrifício religioso., A jornada para Jerusalém podia ser entendida como uma forma de penitência. Entretanto, sem dúvida alguma, a sedução do contato com as relíquias em Jerusalém era fonte de interesse para alguns medievos. Do ponto de vista militar as cruzadas utilizavam o mar para chegar próximo da região, as estradas na Europa estavam arruinadas, e depois faziam uso da estrutura mantida pelo Império Bizantino nas redondezas. Os cruzados capturaram algumas vezes a Terra Santa e “a cristandade ocidental revivia e restaurava periodicamente os estados latinos com novas cruzadas, pelas quais persistia um notável entusiasmo na França e no Sacro Império Romano”, mas os muçulmanos acabaram por prevalecer. As conseqüências das cruzadas, no entanto, são fundamentais para o próprio declínio da sociedade feudal. Uma primeira conseqüência foi o domínio dos mares pelos cristãos, especialmente pelas cidades italianas, que permitiu um incremento significativo do comércio com o Oriente rompendo as limitações do mundo feudal. Para o que também contribuiu o aumento da circulação monetária oriunda dos saques realizados pelos cruzados. Convém destacar também que as cruzadas marcaram a primeira expansão geográfica da cristandade, que havia recuado para o interior com o feudalismo. O marco dessa expansão foi a reconquista da península ibérica aos muçulmanos que se estendeu até o século XV. Do ponto de vista religioso, as Cruzadas abalaram em parte o prestigio e a infalibilidade da Igreja, pois para alguns o fato de a Terra Santa ainda estar em mãos de infiéis era uma prova dos desmandos da Igreja e dos pecados dos homens. Dessa maneira, algumas heresias, movimentos contrários às doutrinas da Igreja, ganharam incremento. Na aula de hoje, você conheceu um pouco do fenômeno das cruzadas, movimento de expedições militares que por oito vezes tentou libertar a Terra Santa. Conheceu suas causas e conseqüências, tanto no aspecto político-econômico como para o homem medievo. Aula: 19 Temática: O renascimento do comércio no Norte e Sul da Europa Na aula de hoje você vai conhecer duas regiões que capitanearam o renascimento comercial europeu, compreendendo suas características e processo de funcionamento. O Norte da Europa, com a Liga Hanseática, e o Sul com as cidades italianas. Em primeiro lugar você deve ter reparado que as duas regiões mecionadas têm em comum o fato de serem zonas costeiras, aptas então ao comércio de navegação, uma característica muito importante por dois motivos principais: a condição dos transportes terrestres e a contato com o estrangeiro. As estradas medievais, mesmo as de origem romana, decaíram muito, pois o pedágio que antes servia para financiar a manutenção das estradas era utilizado pelos senhores feudais em proveito próprio, como fonte de renda. Assim o mar, bem como os próprios rios eram muito utilizados para o comércio, embora o transporte fluvial ficasse sujeito às secas no verão e ao gelo no inverno e às enchentes. Antes da descoberta da América, o contato com o Oriente era a principal fonte de mercadorias. Embora as duas regiões tivessem essa característica geral comum, havia grandes diferenças entre o comércio do Norte e do Sul da Europa. No norte da Europa tanto o Mar do Norte quanto o Báltico tiveram uma importância estratégica muito grande no renascimento do comércio estabelecendo o contato entre as cidades litorâneas. Essa rede comercial teve origem com os vikings que, com barcos velozes para a época, invadiram a Europa continental para saquear e piratear, mas quando param com os saques e se sedentarizamse transformam em mercadores. Vale lembrar que a pirataria também era praticada muitas vezes pelos próprios mercadores, caso tivessem a oportunidade. Após o primeiro impulso viking, a região norte também recebeu o dos alemães, que colonizaram a região eslava. Essa expansão germânica teve um componente militar de dominação, mas também de povoamento por meio de camponeses em um território relativamente despovoado e, ao mesmo tempo, um caráter missionário — a atividade monástica convertendo os últimos pagãos. Todavia também trouxe avanços técnicos: a mineração, plantações de grande produtividade (aproveitando os solos virgens e de grande fecundidade), criação de pequenas cidades germânicas que possibilitavam o escoamento de produtos e a comercialização assegurada com as grandes correntes comercias. Dessa maneira a expansão acabou por incorporar, de certa maneira, regiões menos evoluídas ao espaço econômico europeu facilitando trocas de todos os tipos de produtos. A Liga Hanseática, ou Hansa, surgiu a principio como uma associação de mercadores, aos poucos se transformou em uma associação de cidades oriundas da colonização alemã - cidades de estuário e que desbloqueavam o interior agrícola. A cidade de Lubeck estava no comando da Liga Hanseática, que possuía grandes postos comerciais em Bergen (madeira e pescado); Novgorod (pele); Longdres (lã e tecido) e a principal, Bugres (tecido), esta detinha privilégios para comercializar com diversas regiões. Como os hanseáticos exploravam regiões que estavam em vias de colonização, enquanto outras estavam longe de um desenvolvimento apreciável, os produtos são agrícolas, do mar, minerais e florestais: mel e pele da Rússia, trigo da Prússia, madeiras para construção, pescado seco e arenques salgado. Embora o volume de comércio fosse maior que o italiano, os lucros não eram, pois esses produtos tinham pouco valor agregado. Já as cidade italianas, após as cruzadas, puderam utilizar o mediterrâneo para comercializar com Bizâncio e o mundo muçulmano — civilizações milenares que colocavam ao seu alcance uma grande variedade de produtos. Galeras venezianas traziam especiarias, seda, frutas e vinho e vendiam ao Oriente artesanato, lã e linho, além de fazer a cabotagem entre os portos muçulmanos. Esses produtos eram de alto luxo, com grande valor agregado, o que tornava o lucro muito grande quando não ocorressem prejuízos com perda de mercadorias devido à pirataria ou naufrágios. Os produtos de alto luxo também facilitavam a penetração dos italianos no interior da Europa, pois eram leves, apesar do grande valor, mais fáceis de transportar pelas péssimas estradas medievais. Não por acaso as grandes inovações comerciais e bancárias ocorreram na Itália como uma forma de minorar os possíveis prejuízos e também para dar vazão ao grande afluxo de capitais nas mãos dessas cidades. Em relação às cidades comerciais do norte, as italianas tinham outra diferença fundamental, pois enquanto as cidades marítimas alemãs mantiveram-se na confederação de cidades, a Hansa, as cidades italianas mantinham-se independentes e se digladiavam em lutas fratricidas como veremos em aulas subseqüentes. Na aula de hoje você conheceu duas regiões fundamentais para o comércio nessa fase pré-descoberta da América, cada uma com suas características específicas. Na próxima aula, veremos como se articulam essas regiões nas feiras. Aula: 20 Temática: As feiras e mercados Onde eram feitas as compras na Idade Média? Na aula anterior você viu o comércio nas regiões costeiras. Na aula de hoje você vai ver como funcionavam os mercados e as feiras na Idade Média, destacando algo que para o homem contemporâneo é bastante natural: comprar. Como a economia da Idade Média era basicamente agrícola e de subsistência — isto é, os produtos tinham como finalidade manter a população alimentada — as “compras” não eram uma questão importante para o homem da Idade Média. Foram as mudanças do século XI, que alteraram o panorama. Num primeiro momento, vamos mostrar a diferença entre feira e mercado, pois na Idade Média, estes eventos tinham um caráter diferente do que têm hoje. Os mercados eram eventos semanais, tinham abrangência local e ocorriam nas cidades. Os compradores eram os destinatários finais, isto é, pessoas que iriam consumir os produtos. A maior parte do que se comprava e vendia nos mercados eram alimentos: produtos agrícolas, algum animal capturado na floresta (o nobre era o único que tinha o privilégio de caçar) ou frutos naturais. Vendia-se também algum pequeno artesanato. Os mercados eram locais de encontro e de distração para uma população presa ao trabalho na terra. Nas feiras a organização era diferente. Primeiramente, ao contrário do mercado, ela não era semanal; na maior parte dos casos era anual ou semestral, mas seu impacto podia ser regional ou até internacional. Para a realização das feiras escolhiam-se locais de passagem, rotas comerciais naturais, tanto por terra como por mar ou rios. O motivo da escolha do local não era fortuita, pois a clientela dessas feiras era na maioria das vezes negociantes e comerciantes que se destinavam a comprar no atacado peles, couros ou especiarias, embora não estivesse excluída a possibilidade de alguém tentar comprar no varejo já que os produtos raros só eram encontrados nas feiras. Esses eventos contavam com o apoio da Igreja, que podia proteger os mercadores com sanções espirituais: proibindo os cruzados de assaltá-los, por exemplo. Ela também determinava a periodicidade delas, muitas vezes relacionado com um dia santo: feira vem de feria, dia de festa e, em alemão, a mesma palavra que designa feira também se refere à missa. Mas também conta com o apoio de príncipes que davam proteção para que ela ocorresse em seus domínios, à chamada “paz da feira”, uma espécie de salvo conduto. Além de garantir que infrações e penalidades cometidas fora da área da feira não pudessem ser cobradas nela, o que podia inibir alguns mercadores a participar do evento. Os mercadores, chamados de “pés sujos” por muito caminharem, colocavam os produtos em barracas desmontáveis onde as mercadorias ficavam o mais expostas possível, pois devido ao grande analfabetismo era importante o “cliente” ver a artigo. Não adiantaria escrever qual o produto estava exposto em uma placa. Todavia, nas barracas, na maior parte das vezes, só havia uma amostra do produto, sendo que eles ou poderiam ser encomendados para entrega posterior ou estavam guardados em armazéns nas proximidades. As feiras eram também grandes reuniões de mercadores, onde estes planejavam negócios, reuniam artesãos e peregrinos, embora a maior parte da venda ocorresse no atacado. As negociações poderiam envolver feiras futuras: um mercador poderia pagar por um produto que comprou em uma feira passada ou formular um negócio e propor o pagamento na próxima feira. Uma das principais, a de Champanha ficava na rota do comércio entre Flandres e Itália, regiões que abordamos na aula passada, e que de certa maneira “regulava” o comércio entre o norte e o sul. A região de Flandres trabalhava com panos de qualidade e cores variadas e brilhantes que caíram no gosto da nobreza e eram muito superiores aos construídos nos teares domésticos. As oficinas de tingimento de tecidos se encontravam concentradas em Flandres, pois condes incentivavam continuamente a economia, que já adquire um caráter mais industrial com a produção feita em várias tendas sob o controle de mestres que eram pressionados pelos grandes mercadores. Muitas vezes a remuneração era por peça e o trabalho. A lã vinha da Inglaterra, e do Oriente vinha o alume, matéria prima essencial para lavar a lã, fixar as cores e preparar os estofos. Todavia as feiras marcavam um período de comércio nômade, mas uma paulatina sedentarização reduziu a importância das feiras. A de Champanha, que alcançou o apogeu no século XIII, também foi prejudicada por guerras (Flandres/França e a Guerra dos Cem anos) e pelo estabelecimento de uma rota marítima entreItália e Flandres. A partir de então o comércio se concentra cada vez mais nas cidades, onde os mercadores já podem esperar a vinda dos clientes. Na aula de hoje você conheceu o funcionamento das feiras e dos mercados, sua ascensão e decadência, aspecto embrionário de um mundo comercial um pouco estranho a Idade Média. Aula: 21 Temática: Corporações de ofício Na aula de hoje você vai conhecer as organizações de artesãos e mercadores, as chamadas corporações de ofício ou guildas. Essas corporações estiveram na origem, por exemplo, da maçonaria.. Durante renascimento comercial essas organizações tiveram importância fundamental e você aprenderá suas origens e funcionamento. Como você vem aprendendo, a economia da Idade Média era, fundamentalmente, agrária, mas passou a sofrer transformações com as Cruzadas, com o desenvolvimento comercial e o crescimento das cidades. Uma das organizações surgidas no século XI, na região de Flandres, foram as chamadas corporações de ofício que, resumidamente, eram associações de artesãos, sapateiros, chapeleiros, pedreiros etc, profissões que cresceram nesse novo contexto e que eram, “estranhas” ao contexto econômico anterior. Originalmente, eram organizações de proteção e assistência. Um determinado santo era escolhido como patrono de acordo com cada profissão. Daí pode-se concluir que na verdade as primeiras organizações eram formadas por profissões com alta possibilidade de miserabilidade, pois, sob o manto religioso, os associados auxiliavam aqueles em maiores dificuldades quando de uma fatalidade como doença ou falecimento. As corporações de artesão funcionavam como escolas. O processo de trabalho nas corporações era comandado por um mestre que entrava com a matéria prima, com as ferramentas e utensílios necessários e ficava com o lucro advindo da venda dos produtos. O mestre poderia utilizar um jornaleiro, isto é mão de obra assalariada, para ajudá-lo na confecção dos produtos, mas em atividades com menor qualificação. Mas grande parte do trabalho era executado por um aprendiz que pagava ao mestre para obter qualificação no ofício. Portanto o acesso à qualificação da mão de obra garantia um controle da profissão. Com o tempo as corporações de artesão formaram um verdadeiro monopólio econômico garantindo compra privilegiada de matéria prima, padronizando os produtos e controlando eficazmente o acesso à profissão. As guildas formaram verdadeiros cartéis em que buscavam garantir a igualdade entre os membros da corporação no que se refere à aquisição de matérias primas, aos preços e ao padrão final do produto. Ficava eliminada a concorrência e o comprador ganhava a garantia de que a mercadoria não havia sido fraudada. As regulamentações criadas pelos artesãos foram paulatinamente absorvidas por algumas cidades, que também garantiam o monopólio da profissão aos membros da corporação, numa atitude protecionista e claramente contra a liberdade industrial. Isso representava não só a força que paulatinamente iam adquirindo essas organizações como também o interesse do poder público em controlar e taxar as corporações. Segundo Henri Pirrene: “os regulamentos impõem-se com uma minuciosidade cada vez maior; os processos, de técnica rigorosamente idêntica para todos, fixam as horas de trabalho, impõem os preços e o montante de salários, proíbem toda a espécie de anúncio, determinam o número dos utensílios e o dos trabalhadores nas oficinas, instituem vigilantes encarregados de exercer a inspeção mais minuciosa e inquisitorial”. Com o tempo e esse processo de funcionamento as corporações foram ganhando importância e se tornaram poderosas dentro de algumas cidades. Na aula de hoje você conheceu o funcionamento de uma corporação de artesãos, uma maneira peculiar de organização dos trabalhadores medievais que alcançou relativo poder em algumas cidades. Aula: 22 Temática: A evolução das cidades e suas contradições Na aula de hoje você vai conhecer a evolução das cidades — do tecido urbano — e as contradições que o processo de urbanização criou no mundo medieval. Como você viu em aulas passadas, o homem medieval habitava uma região rural, integrada à natureza, mas a partir de desenvolvimento comercial estudado nessa unidade, as cidades passaram a se desenvolver em algumas regiões da Europa. A origem do desenvolvimento e do enriquecimento das cidades está ligada à expansão do comércio,, atividade econômica capaz de sustentar o desenvolvimento urbano em oposição à agricultura das regiões rurais. As antigas vilas romanas, como você viu, foram abandonadas durante o processo de decadência do Império Romano e em boa parte da Idade Média o cenário urbano se restringiu à poucas cidades, a maioria das quais, sedes religiosas. Embora o desenvolvimento do comércio tenha sido importante para o revigoramento das cidades, vale a pena chamar a atenção para o papel das guerras nesse processo. Como você já observou nas aulas sobre o Castelo Medieval, a segurança era um componente fundamental para a Idade Média, varrida constantemente por invasões e guerras. Em situações como essas, os senhores feudais poderiam colocar as pessoas, animais e ferramentas de seu feudo dentro das muralhas que margeavam o castelo para garantir o seu patrimônio. Paulatinamente, com o enriquecimento e a necessidade de segurança fizeram expandir as muralhas, dentro das quais os camponeses passaram a viver. Evidentemente, as formas de desenvolvimento das cidades foram variadas. A própria burguesia enriquecida construía as muralhas para proteger sua riqueza. Suas cidades exerciam uma atração irresistível para a massa errante de indivíduos sem trabalho e para os servos cansados de abuso, que viam nas muralhas citadinas a chance de fugir do domínio senhorial. Um provérbio alemão afirmava que “o ar da cidade dá liberdade”� pois era fácil para o senhor feudal exercer o domínio nos campos, mas “recuperar” um servo dentro de uma cidade era algo difícil. Todavia o desenvolvimento das cidades não se opunha ao campo só pelo poder de atração delas sobre os camponeses, ela também rivalizava na questão dos lucros e dos juros. Esse é um aspecto importante pois, como já vimos, a Igreja tinha importante papel na definição do que era possível fazer em termos econômicos. A igreja proibia a cobrança de juros nos empréstimos, pois dizia, que o tempo — que durava o empréstimo — pertencia a Deus e, portanto, ninguém pode cobrar por ele. A ideologia cristão pregava que a riqueza não era material e nem deveria ser esperada na vida terrena, considerada palco de sofrimento e privação.. A riqueza verdadeira era de natureza espiritual e seria encontrada no reino dos céus. A ideologia cristã menos prezava os ricos, ao menos no discurso. A Igreja era refratária ao enriquecimento comercial e, principalmente, ao empréstimo a juros, base do sistema bancário, que deve ser analisado no processo de desenvolvimento das cidades. O sistema bancário se desenvolveu nas cidades do sul da Itália devido ao avanço do comércio com o Oriente. Como era um local de passagem de mercadorias e moedas, e não havia uma unificação monetária, o termo banco é bem apropriado para a atividade que então se desenvolvia. Os primeiros banqueiros montavam pequenas bancas em que se trocavam moedas de uma região por moedas de outra região, cobrando uma taxa. Com o tempo e com o incremento da monetarização da economia, os banqueiros foram percebendo que podiam explorar outros serviços tais como o armazenamento do dinheiro, algo importante em uma época de muitos roubos. O dinheiro armazenado poderia ser emprestado com a cobrança de juros. Essas primeiras atividades bancárias contavam com muitos judeus envolvidos. Aos judeus era proibida a propriedade de terras e eles se encontravam dispersos por boa parte da Europa, norte da África e Oriente Médio. Apesar da proibição da Igreja no que diz respeito à cobrança de juros, foram criadas várias inovações comerciais e bancárias que “disfarçavam” a presença dos juros queacabaram por ser toleradas pela Igreja, como por exemplo, a cobrança de porcentagens sobre o risco, uma espécie de seguro. Assim, o surgimento das cidades abriu um novo cenário para o homem medieval, onde ele se encontrava mais seguro contra as guerras e os abusos do senhor. Porém, numa perspectiva mais abrangente, a própria concepção de mundo sofreu uma alteração no que se refere o que passou a ser considerada riqueza. Paulatinamente, todas as categorias de pensamento ligadas ao mundo rural sucumbiram frente às cidades, abrindo caminho para uma disputa política sobre o controle desse território, como veremos nas próximas aulas. Aula: 23 Temática: Os estilos Românico e Gótico Na aula de hoje você vai conhecer a repercussão do desenvolvimento comercial europeu no campo das artes pelo estudo da transição entre dois estilos arquitetônicos, o românico, característico do século XI, e o gótico, predominante a partir do XII, suas características de construção, limitações tecnológicas e simbologia. Como já vimos, um dos problemas para a recuperação da história da Idade Média é a ausência de fontes textuais, algo que foi em parte superado pelos historiadores com muita criatividade, pois eles passaram a ler os documentos materiais, como as igrejas e catedrais. E, em um clima de grande religiosidade, elas podem nos dizer muito. Em um primeiro momento você deve ficar espantado com o tamanho e magnificência das catedrais se comparadas não só à pobreza mais ou menos constante da economia medieval, mas também às dificuldades tecnológicas. Quanto ao investimento financeiro, vale lembrar, o papel e o poder da Igreja. Quanto às limitações tecnológicas, observe nos desenhos as técnicas utilizadas para superar um dos principais obstáculos: suspender grandes blocos de pedra. Os construtores medievais possuíam espécies de guindastes rústicos, na maioria feitos com madeira, em que os trabalhadores andavam dentro de um círculo para levantar as pedras ou então utilizavam alavancas com um contrapeso em pedra e a força conjunta de vários trabalhadores para girar roldanas e levantar as pedras. Em relação ao trabalho na pedra, ela era riscada e cortada no chão e, então, içada. Muitas vezes eram utilizados moldes em madeira para acertar o tamanho das pedras no chão ou, então, os moldes poderiam ser colocados no lugar das pedras no cimo da construção para dar suporte enquanto ainda estava sendo construída a Igreja. Embora a superação dos problemas técnicos seja o mesmo no estilo gótico e romano, há entre eles algumas diferenças. A arte românica surge no século XI, basicamente como expressão do mundo rural e financiada pelos senhores feudais. Do ponto de vista da construção, no estilo românico, as igrejas possuíam paredes extremamente grossas, com pequenas janelas e pouca luz. As paredes grossas também serviam, em parte, para o apoio ao teto - ainda que nesse período já ocorresse à utilização de arcos de descarga e do contraforte, um reforço externo que já permitia um aumento do número de fieis no recinto. A catedral de São Tiago de Compostela na Espanha é um exemplo importante porque faz parte de uma rota de peregrinação tradicional (a do apóstolo Tiago). O edifício é maior que o de costume, conseguindo reunir um grande número de fiéis. Dessa maneira a catedral era capaz de organizar as massas em uma estrutura chamada de ambulatório, em que ficavam expostas as relíquias. Essa catedral é importante, pois o estilo românico estava mais adaptado ao período de guerra e invasões: arquitetonicamente e simbolicamente a igreja parecia mais uma fortaleza contra a ameaça externa —na Espanha essa ameaça era representada pelos muçulmanos. Por sua vez, o estilo gótico foi expressão da cidade, tendo inclusive sido sede de reuniões de confrarias e corporações, por exemplo. Do ponto de vista da construção, o estilo gótico nasceu arquitetura da romana, a partir do século XII, fazendo uso intensivo dos arcobotantes — estruturas de suporte fora do edifício. As paredes não precisavam ser tão grossas, o que possibilitava a construção de catedrais maiores e mais altas, verticalizadas, em oposição às horizontalizadas igrejas romanas. As paredes mais finas também facilitaram a construção de janelas, permitindo muito mais luminosidade. As catedrais góticas se encheram de vitrais. Os vitrais tornaram-se um dos maiores símbolos da mudança representada pela substituição do estilo romântico pelo gótico, pois permitiram a entrada da luz nas igrejas. um símbolo de Deus: “a luz, a perpétua irradiação do Deus luz derramada sobre as criaturas em que imperceptivelmente se reúne a matéria e o espírito. É a gloria do vitral”. Os vitrais possuíam também um importante aspecto didático, muitos reproduzem as histórias de santos e passagens da bíblia, uma importante maneira de passar a doutrina em um mundo de analfabetos. Na aula de hoje você viu um aspecto importante da religiosidade medieval: o avanço do estilo românico e a expansão do estilo gótico, a partir do desenvolvimento das cidades. Aula: 24 Temática: As ordens Mendicantes Na aula de hoje você irá conhecer as chamadas ordens mendicantes, a dos franciscanos e dos dominicanos, organizações da Igreja que pregavam a pobreza e a vida sustentadas por esmolas. Essas ordens estavam relacionadas a uma mudança na atitude religiosa. Aos poucos a mentalidade foi mudando. Entre o povo, especialmente, entre os mais humildes, crescia a necessidade de um Deus mais misericordioso e consolador, uma divindade com quem o povo pudesse falar diretamente. Tal mudança faria diminuir um pouco a intermediação da Igreja no contato com Deus. Além disso, o fausto, a riqueza e a corrupção da Igreja eram criticados, numa contraposição com a pobreza evangélica, sendo muito citado o apóstolo Matheus, XIX,21, “Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu”. Nesse contexto, dentro do clero, surgem movimentos de retorno à pureza e castidade extremada. Alguns desses movimentos passaram a se comunicar com o povo por intermédio da língua vulgar, obtendo adesões. Parte desses movimentos deu origem a heresias. A ordem dos dominicanos foi fundada por São Domingos e surgiu justamente após a luta contra a heresia dos cátaros. Esse heresia retomou as idéias do maniqueísmo e falava da existência do Bem e do Mal em eterna disputa. São Domingos e seus companheiros usaram a pregação e o exemplo de vida como uma forma de combater a heresia, vivendo de maneira disciplinadamente austera e cheia de privações. Com o tempo a ordem assumiu a personalidade de São Domingos que é marcada pela imposição de sua profunda convicção levada à extrema rigorosidade: não por acaso muitos dominicanos comandaram por um período o combate aos hereges. A segunda ordem mendicante a dos Franciscanos, extremamente importante pela popularidade de São Francisco de Assis. Os ideais buscados por São Francisco eram a pobreza e a humildade, além do amor à vida dos animais e das pessoas, pois ele via a participação de Deus em tudo: “o seu panteísmo protestou contra o dualismo cristão” Comparado à São Domingos, ele é um exemplo de humildade, sua trajetória mais comovedora e mais tolerante. Como o ideal de pobreza não pode ser creditado somente a São Francisco ou a Santo Domingos, você deve estar se questionando porque eles não foram perseguidos e acusados de heresia? A resposta é que essas ordens foram enquadradas pela hierarquia da Igreja Católica, ainda que aos poucos: São Domingos se estabeleceu em Roma em 1217 e os franciscanos a partir de 1227, depois da morte de São Francisco. O papa Inocêncio III aceitou a ordem franciscana e a dominicana porque elas estão perfeitamente encaixadas com o ideal de reconquista espiritual: “para responder a expectativa do povo fiel, ávido de ensinamento simples, atormentado pelo enriquecimento e que sonhava escapar à corrupção do dinheiro, e para desarmar também a heresia pululante, invasora, era precisodar rédea solta a dois jovens”. A aceitação decorreu também do fato de que as ordens não foram um movimento de revolta, a sua ação e o discurso de seus monges não continham qualquer critica direta ao papel de primazia da Igreja Católica . Embora fosse inegavelmente uma contestação às doutrinas da Igreja, elas só se tornariam um perigo real e, conseqüentemente, haveria necessidade de perseguição, à medida que elas não se submetessem à hierarquia da igreja. Assim São Francisco foi visto como salvador da fé por Inocêncio III ao tornar a religião mais popular e menos clerical e se submeter à hierarquia da Igreja. O papa teria tido um sonho com ele em que ele salva a Igreja — sonho que foi imortalizado no quadro famoso de Giotto. Porém a ordem franciscana não manteve para sempre o ideal de pobreza. Após a morte de São Francisco a ordem restringiu a pobreza aos frades e não à ordem em si, caminho seguido também pelos dominicanos. Tornaram-se, então, muito ricas, devido a inúmeras doações, e acabaram por se transformar em excelentes mecenas. A arte passou a ser usada: “para exaltar dignamente essas grandes figuras (novos santos), para melhor consolidar a sua fé, para acabar de reunir os fieis, lutando contra a libertinagem e a heresia...admitindo-se cada vez mais, na igreja, o luxo e a magnificência da decoração...”. Os franciscanos que não aceitaram essa nova fase se desligaram da ordem e foram taxados de hereges, são os chamados fratticceli. Mais uma vez ficou demonstrado que o problema da heresia tinha uma ligação estreita com a submissão à hierarquia da Igreja. A burguesia teve um acolhimento entusiasta para com os franciscanos e os dominicanos pois eram os mais ardentes defensores dos mercadores. Isto em virtude de muitos frades terem “contato com os meios urbanos, eles próprios freqüentemente oriundo da classe dos mercadores, fieis servidores do papado, empenhados em fazer valer suas novas crenças (...). Foram eles, apoiados no papado, que nos manuais de confissão e nas grandes obras de teologia e de direito canônico se constituíram no século XIII nos instrumentos da justificação ideológica e religiosa do mercador”. Nas aulas anteriores abordaremos o elo entre arte, burguesia e São Francisco de Assis. Nessa aula você conheceu um pouco sobre as ordens mendicantes, suas praticas e propostas, bem como seu relacionamento com a Igreja Católica e a sociedade medieval. Resumo – Unidade IV Nessa unidade você examinou o funcionamento “ideal” da sociedade medieval, nas relações de poder e também no cotidiano do medievo. A sociedade da Idade Média era estamental: quem nascia nobre ou camponês, permanecai como tal a vida toda. O poder do senhor feudal sobre o camponês envolvia “julgar, punir e taxar”, sendo um poder judiciário, econômico e judiciário, um conjunto chamado de ban. Todavia, o camponês não é escravo, tem direito a própria vida, é servo. A servidão faziam parte do conjunto de relações sociais medievais baseadas em laços de obrigações recíprocas. Tal como os senhores submetido a outro, formando vínculos de vassalidade e suserania. Você viu também que a dimunição das invasões e guerras proporcionou um aumento da população, o retorno do comércio e o crescimento das cidades. Para saber mais Consulte os sites abaixo, que contêm vários textos e algumas imagens sobre os temas abordados nessa unidade: http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=295 http://www.brasilescola.com/historiag/conceito-idade-media.htm http://www.saberhistoria.hpg.ig.com.br/mapa_do_site.htm Referências Bibliográficas LE GOFF, J. Mercadores e banqueiros na idade média. São Paulo, 1991. __________. A civilização do ocidente medieval .2v. Lisboa, Editorial Estampa, 1984. PIRENNE, H. As cidades da Idade Media. São Paulo: Publicações Europa América,.3ed. ____________. História econômica e social da idade média. São Paulo:Editora Mestre Jou, 1968, 6ªed. WOLFF, P. Outono da idade média ou primavera dos tempos modernos? São Paulo: Cia. Das Letras, p. 38. Aula: 25 Temática: Lendo a imagem de São Francisco de Assis: a religiosidade Medieval Depois de Jesus Cristo, a figura mais popular do Cristianismo é São Francisco de Assis, já chamado de o segundo Cristo. Na aula de hoje você vai conhecer mais sobre esse santo e também entender, por meio de uma análise de um quadro, como o tema franciscano foi utilizado pela Igreja. São Francisco nasceu em Assis em 1182, filho de um rico comerciante da cidade. Influenciado pela mãe, com o seu ardor romântico dos trovadores provençais, pensou em uma vida de cavaleiro. Com esse espírito, entrou na luta com Perusia, a grande rival de Assis, e com 19 anos foi preso. Depois de um ano na cadeia, foi libertado e em vez de se dedicar exaustivamente ao comércio, como era de desejo de seu pai, tornou-se o principal cliente dele. “Era habilidoso na arte de ganhar dinheiro, mas também irrefletido a ponto de gastá-lo de novo”, procurando recuperar o tempo perdido na prisão com muitas festas. A narrativa da vida de São Francisco é imbricada de passagens lendárias pois as hagiografias — espécies de biografias em louvor a um santo — eram populares na Idade Média, embora o analfabetismo fosse grande. Porém é certo que a pobreza o comoveu e deu um outro rumo a sua vida, após o fracasso em se tornar cavaleiro. A tradição relata que na capela de São Damião Jesus teria dito a ele: “-Vá Francisco e restaure a minha casa”. Entendendo o significado literalmente, Francisco começou a reformar a igreja. Passou a pedir esmolas e vendeu algumas das propriedades do pai, que não aceitou a atitude do filho e o processou frente aos tribunais. Nos tribunais foi obrigado a restituir as propriedades do pai. Numa cena de sua vida que se tornou clássica porque repleta de significado: São Francisco, então, se desfaz de tudo o que vestia, ficando nu e abandonando tudo o que fora dado por seu pai. O bispo então cobre a sua nudez. Essa passagem capital da vida do santo é retratada na pintura a seguir. LIMA, A. B. G. São Francisco. Rio de Janeiro: ,1973, p.20 LIMA, A. B. G. São Francisco. Rio de Janeiro: ,1973, Qual seriam as razões para se colocar essa pintura numa igreja? Há quem imagine que, com isso, a Igreja pretendia convencer as pessoas da nobreza do ideal de abandonar a vida terrena para se dedicar a Deus. Portanto, a imagem seria um exemplo do que as pessoas deveriam fazer. Essa análise está correta, mas acrescentaríamos um detalhe: essa mensagem é destinada aos burgueses: o exemplo dado por São Francisco é de um burguês se desfazendo de tudo em louvor a Deus, que seria o mesmo que pregar para que os burgueses se desfizessem de seus bens em favor da Igreja. Você já viu em outras aulas, como a Igreja condenava os juros e a ascensão da burguesia no comando da cidade. Em teoria, essas realidades desagradavam a Igreja. Uma vez que “a doutrina da Igreja se formou no meio rural e artesanal judaico, ela só reconhecia o trabalho manual como criador e fonte legitima de ganho e riqueza”. Como conseqüência disso “a influência cristã suscitou muitas vezes reações de aversão ou medo em face do dinheiro e do comércio. (...) (com) filhos de mercadores em ruptura com a atividade e a psicologia paternas.” A figura de São Francisco de Assis se enquadra nessa situação. A retratação dessa parte da trajetória de São Francisco pretendia ensinar ao burguês como “aplacar a sua consciência”, isto é, doando suas riquezas à Ordem. Nesse sentido é importante destacar o local dessa pintura e o artista. Ela faz parte de um painel com 28 passagens da vida de São Francisco que a ordem franciscana encomendou ao pintor Giotto. O conjunto de 28 pinturas foi criado para ficar à altura dos olhos dos fiéis, bem iluminadas, formando um verdadeiro “livro para analfabetos”. A escolha de Giotto foi proposital: seus desenhos mais humanos permitiam que os fiéis se identificassem com ele, reforçando a idéia de seguir o exemplode São Francisco de Assis. Essa pintura se insere, então, num esforço de conciliar a realidade burguesa com a doutrina tradicional da Igreja. Por tudo o que você já viu nessas duas últimas aulas se pode afirmar juntamente com Georges Duby que, “em Assis que se medem em toda a sua envergadura as ambições pontifícias”. Na aula de hoje você analisou o uma pintura como documento histórico da tentativa da Igreja de convencer as pessoas de suas idéias. Em outras palavras, trata-se da pintura como discurso. Aula: 26 Temática: A arte de Giotto Na aula de hoje você aprenderá um pouco sobre a arte do pintor Giotto por meio da análise da obra apresentada na aula anterior. Dessa forma você vai conhecer não só os avanços da pintura levadas a cabo por esse pintor, prenunciando uma nova era, mas também entenderá melhor a visão de mundo expressa nesse quadro. Giotto de Bondone, um dos artistas mais requisitados da época, foi o pintor escolhido pelos franciscanos para fazer os 28 afrescos da vida de São Francisco pintados na Basílica Superior de Assis, entre 1297 e 1299. Alguns críticos de arte questionam a autoria de alguns dos afrescos em especial dos últimos, pois apontam diferentes características e também, em virtude do pouco tempo disponível por Giotto para a realização dessa obra. De qualquer maneira foram feitos sob a direção de Giotto. A basílica foi construída sobre outra que guardava os restos mortais de São Francisco e toda a sua arquitetura foi pensada considerando a inserção das pinturas, de modo a dar a elas uma dimensão espaçosa e luminosa. Do ponto de vista religioso, Giotto inspirou-se na “lenda maior” de São Boa ventura, uma hagiografia famosa na época, cujos textos eram representados abaixo da pintura. Nessa pintura de Giotto podem se destacar importantes características que a distanciam da arte bizantina. Em Giotto se percebem feições mais individuais, enquanto a arte de Bizâncio tendia a uniformizar as feições humanas. Pode-se dizer que, com Giotto, despontava uma das características marcantes do Renascimento, o humanismo. Cabe a nós imaginar o impacto que ocorreria em um visitante medieval da basílica ao encontrar não as formas “padronizadas” de santos a que estava acostumado, mas figuras humanizadas de pessoas com sua individualidade. O visitante se identificaria com a imagem. “A emoção tornar-se-ia também matéria intrínseca da pintura” .A pintura em si já demonstra emoção seja pelos gestos e olhares estarrecidos dos burgueses ou de São Francisco de Assis que demonstra submissão e piedade. Para essa maior humanização deve-se levar em conta também o imaginário, pois “com as transformações feudo-clericais do século XII...o Deus Pai, que prevalecera ate então, cedia lugar na espiritualidade ao Deus filho” : o próprio Deus feito homem. Ocorreu também uma mudança no âmbito filosófico, com a passagem do “mundo platônico das idéias, prioritário no esquema bizantino para uma outra visão em que “o pintor tende a explicitar em cada ser uma energia própria, apreendê-lo de acordo com o que São Tomas denominava principio de individualização” . Ou seja, em vez da idealização e perfeição da pintura bizantina, traços em que aproximam a pintura das feições das pessoas. Uma das inovações de Giotto é que a pintura não é mais composta por um espaço único, pois se percebe a separação entre os espaços, entre os planos. Especificamente, na pintura analisada os espaços são demarcados, “verticalmente”, pela figura de São Francisco em oposição à de seu pai. Já “horizontalmente” a pintura mostra um plano “terrestre” e um plano “divino”, com o segundo influenciando o primeiro. Na pintura de Giotto “... existe um principio superior ao qual tudo deve se referir: essa lei que dirige e compõe todas as energias particulares e a de um cosmos ordenado segundo manifestação de um plano divino através de certos momentos da ação, de drama”. Essa característica pode ser constatada no plano superior, o de Deus (representado por uma mão), justamente para onde se volta o olhar de São Francisco. O dedo apontando para São Francisco daria a legitimação da atitude dele, a de rejeição a uma vida burguesa (“mercantil”), que seria a continuação do negócio do pai. O plano terrestre é dividido entre os cidadãos e as construções típicas de uma cidade. Então, horizontalmente, o espaço esta hierarquizado: Deus, a cidade e os cidadãos. Uma hierarquia que pode ser explicada pela “devoção” que os cidadãos davam à cidade, local de refúgio contra os abusos dos senhores e também do enriquecimento. Ainda na questão do espaço, as figuras não são mais “chapadas” como nas pinturas bizantinas, nota-se o começo da perspectiva - no desenho das construções-, dando uma visão de profundidade à tela. Também se destacam na pintura o caráter da “multidão”, do “agrupamento” de pessoas, característica inovadora, pois se opões às pintura de ideal de cavalaria, em que tendiam a aparecer figuras isoladas. O agrupamento de burgueses, mais uma vez, mostra a proeminência dessa classe na pintura e como ela via neles os destinatários da pintura. Na aula de hoje você conheceu um pouco da arte de Giotto, com características que depois foram predominantes no Renascimento, a partir da análise de um quadro importante para o período. Resumo – Unidade V Nessa unidade você estudou as mudanças que deram origem a Baixa Idade Média, transformações que envolvem diferentes fatores. O homem medieval fez uma “revolução agrícola”, a partir de meados do século X (charrua, plantação trienal etc.), que permitiu maior oferta de alimentos e, assim, um excedente que passou a ser comercializado. Todavia, o impulso do comércio surgiu também a partir das cruzadas que, ao desbloquear o mediterrâneo, permitiu o incremento de rotas comerciais que traziam produtos do rico Oriente. O comércio europeu foi impulsionado a partir de do norte e do sul da Europa. As feiras regulavam esse comércio, sendo a de Champagne a mais famosa. O ressurgimento urbano marcou contradições com a ordem tradicional feudal pois a sociedade foi deixando de ser só “servos e senhores”. Na cidade habitavam artesãos livres que, por meio das corporações de ofício controlavam o produto e o processo de trabalho nas oficinas. Para saber mais Consulte os sites abaixo, que contêm vários textos e algumas imagens sobre os temas abordados nessa unidade. http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=295 http://www.brasilescola.com/historiag/conceito-idade-media.htm http://www.saberhistoria.hpg.ig.com.br/mapa_do_site.htm Referências Bibliográficas CHASTEL, A. A arte italiana . São Paulo,1991.HISTÓRIA DUBY, G. São Bernardo e a arte cisterciense. São Paulo, Martins Fontes, 1990. ____________.. O tempo das catedrais. A arte e a sociedade (980- 1420). Lisboa, FAURE, E. Historia da arte - a arte medieval. Lisboa: Estudos Cor, 1951. GIANDOMENICO, N. Arte e Historia de Assis. Florença: 1995. GINZBURG, Carlo. Mitos, Emblemas e Sinais. Rio de Janeiro: Zahar Editores. 1990. Aula: 27 Temática: A crise dos séculos XIV e XV Na aula de hoje você vai compreender o ocaso da Idade Média, em que suas contradições chegaram a um impasse devido a conjuntura geral de crise do período. Entenderá algumas de suas causas, problemáticas, e superações, com características da Época Moderna. Após o período de expansão demográfica e urbana dos sé- culos XI e XIII, a Europa mergulhou em tempos de crise. Hilário Franco Junior ressalta que a crise era visível no aspecto econômico e resume bem a questão: “as razões disso não são claras, tendo gerado longos debates... estagnação tecnológica, excesso demográfico, fome metálica, depressão moral provocada pela peste, alterações climáticas ou efeitos de guerra prolongadas?” Partindo dessa citação, você vai conhecer algumas dessas razões e outras que acrescentaremos. Uma das contradições do período foi o aumento desmesurado dos gastos da nobreza. Como a renda dos senhores feudais nemsempre acompanhava os gastos, eles recorriam aos empréstimos, o que acarretou um continuo endividamento dos nobres que, para aumentar seus capitais, passaram a libertar os servos em troca de pagamento. Esse recurso acarretou o paulatino rompimento do vínculo de dependência senhor/servo, uma das essências das relações sociais medievais. No setor primário da economia, pode-se dizer que o crescimento populacional não se fez acompanhar de uma oferta ampla de alimentos com base no ganho de produtividade. Ou seja, foi derrubando floresta, trocando pastagens por agricultura e os avanços técnicos já discutidos (charrua, plantação trienal etc) que a produção de alimentos cresceu. Porém, essas mudanças provocaram alterações no clima e escassez de recursos como o adubo, por exemplo.. As áreas recentemente conquistadas careciam ainda de grande suporte tecnológico e ficaram a mercê das oscilações do clima e do equilíbrio ecológico da região. Assim ocorreram crises cíclicas e regionais de fome nesse período. O setor secundário da economia foi influenciado negativamente pelo primeiro. A alta dos preços dos alimentos desviou os recursos da compra de artesanato produzido nas pequenas indústrias citadinas. A crise nessa pequena indústria agravou os conflitos entre os trabalhadores urbanos e rurais. O setor terciário também sofreu com a crise. A rentabilidade dos bancos diminuiu muito e uma das causas foi à postura das recentes monarquias. Estas precisavam de empréstimos recorrentes para saldar os compromissos de guerra e não conseguindo saldá-los, levavam à falência aqueles que os haviam financiado. Ademais, para aumentar a quantidade de moeda em circulação, os governos passaram a reduzir a porcentagem de ouro e prata utilizados na fabricação das mesmas, provocando a desvalorização da moeda e ,conseqüentemente, insegurança na economia. No quesito guerras, a Itália vivia em lutas civis e a Alemanha vivia uma anarquia política permanente (os dois países serão temas das duas próximas aulas), enquanto a França e a Inglaterra se digladiavam na guerra dos cem anos. Além da guerra, a peste voltou a atacar com força total na maior epidemia conhecida na história. O impacto da peste negra (1315 a 1317) pode ser analisado tanto do ponto de vista demográfico (a redução de cerca de 1/3) da população européia, como do ponto de vista econômico. Nesse sentido, a redução drástica da mão de obra provocou a redução da oferta de alimentos e produtos, pois, numa economia como a da Idade Média, a abundante mão de obra é que garantia a produção, uma vez que a produtividade era baixa. Por outro lado, a escassez de mão de obra acabou por valorizá-la. Como era pequeno o numero de trabalhadores, as relações de dependência foram revistas. Assim, num único e contraditório movimento, a peste negra praticamente acabou com a servidão ao provocar a morte de milhares de servos. Nesse clima geral de crise foram muitos os setores da sociedade que entraram em choque e nesse contexto emergiram as bases de um novo mundo. A superação da crise passou pela descoberta da América, com o aumento do fluxo de ouro e prata e outras mercadorias; e passou também pela cultura da batata e do milho que suprimiram boa parte da carência alimentar da Europa. Na aula de hoje você conheceu algumas das características da crise do século XIV e XV, que fez com que as estruturas medievais se transformassem. Aula: 28 Temática: O Império germânico e o papado: a Reforma Gregoriana e a questão das investiduras Na aula de hoje e na subseqüente você vai conhecer as disputas na Alemanha e na Itália, paises que mergulharam na crise do período XIV-XV. Não é a toa que ambos só surgiram como países no século XIX. Nesta aula, você vai conhecer a evolução do conflito entre o papado e o Império Germânico, a chamada Querela das Investiduras — momento em que a idéia imperial voltou ao cenário europeu e a Igreja Católica sofre uma de suas mais profundas reformas. Nesse período, Império e Igreja estiveram tentando mostrar sua força e acabaram entrando em rota de colisão. No fim do século IX, com o declínio do Império Carolíngio, o território do reino foi dividido em três unidades: ocidental (francesa), oriental (alemã) e a parte italiana. Tal divisão, após muitos percalços deu origem aos três Estados nacionais. O império então passou a ser uma abstração sem poder real: na Alemanha e no norte da Itália os reis precisavam viajar para fazer valer seus direitos feudais. Essa situação perdurou até o reinado de Oto I que, com astúcia e perseverança conseguiu conquistar a Itália e submeter os magiares. Estes eram exímios cavaleiros e foi preciso reunir cerca de 8 mil homens e encurralar os magiares contra um rio para vencê-los. Com o feito, Oto I foi coroado Imperador em Roma em 962, mostrando uma superioridade militar a oeste do Adriático que há muito tempo não se via. Diplomaticamente e sem suprimir a dignidade da nobreza, Oto I reduziu progressivamente os seus poderes e buscou ampliar seus poderes de soberano. Carregado de simbologia carolíngia e romana, Oto I conseguiu transmitir seu poder para sua própria família sagrando sua esposa e filho em Roma e constituindo a hereditariedade no trono imperial. O seu neto Oto III (983-1002) transferiu a capital do império para Roma. Ele pretendia dominar sem violência as várias entidades políticas que dividiam a cristandade, constituindo um poder moral, universal e pacifista. O Império Germânico assim fortalecido e imbuído da simbologia imperial retoma uma questão importante: a da base do poder. Uma das justificativas dada por reis e imperadores para a origem do seu poder era o mandato divino, algo que foi questionado pela igreja já em princípios do século V. Todavia, esse conflito entre poder secular e temporal permanecia adormecido, tendo em vista não haver ninguém com poder político e militar para dominar a Europa e fazer ressurgir a idéia de um Império — fato que começou a mudar com Oto I. Assim, ocorreu um recrudescimento das críticas da Igreja ao exercício do poder Imperial, com a Igreja tentando se livrar da influência do Império, advogando a sua supremacia. Antes de esboçar esse conflito retomaremos a conjuntura da Igreja. A situação era marcada pelo nicolaísmo e pela simonia.. Nicolaísmo era o nome dado a degradação do clero, pois a maioria dos religiosos vivia como leigos, carregava armas e não respeitava o celibato. Já a simonia era o espírito de lucro embrenhado nas igrejas, manifesto como o comércio de objetos e relíquias sagradas, o tráfico dos sacramentos ou mesmo o leilão dos cargos eclesiásticos. Essas situações estavam intimamente ligadas ao mesmo problema: a participação de leigos na distribuição dos cargos eclesiásticos. Os senhores feudais, nobres e reis utilizavam a nomeação de religiosos submissos a sua vontade, sem levar em consideração a dignidade moral, como forma de tomar as rendas do altar e obter favores do clero. Para alterar esse estado de coisas ocorreu a chamada Reforma Gregoriana, que tentou exaltar e glorificar a posição da Igreja Romana. Na Reforma Gregoriana, a estrutura da Igreja Católica ganhou um componente centralizado sob a égide do papa, que muito se assemelhou a uma monarquia. A reforma dava ao papa o caráter de infalibilidade e estipulava a livre eleição do pontífice que era escolhido pelo clero romano. Para glorificar a Igreja, o papa recebeu a tiara e o manto púrpura, revivendo o mito imperial. Assim, no mesmo período vemos tanto o Império Germânico quanto o Papado tentando reviver o poder, o esplendor e a simbologia do Império Romano. Assim, os dois poderes ou entravam em acordo sobre o papel de cada um ou se lançavam ao conflito cujas bases estavam dadas. Em 1075 Gregório VII (1073 – 1085) se esforçou para aplicar a idéia de que nenhum leigo poderia interferir na nomeação de clérigos para a Igreja. Ele encontrou resistências entre os soberanos que perderam parte de seus lucros. Esse conflito ficou conhecido como Querela das investiduras e a resistênciamais acirrada foi a do Imperador Germânico, pois este contava justamente com o apoio desses cargos para manter seu poder. O ápice desse conflito entre Império e papado ocorreu, então, sob o pontifício de Gregório VII que, após ter coroado Henrique IV, chegou a excomungá-lo, algo inédito. A questão das investiduras destroçou o Império Germânico, que entrou em guerra civil. Já a Igreja, no pontifício de Inocêncio III (1198-1216) conseguiu resgatar o poder eclesiástico fundando um Estado papal para proteger Roma, utilizando a popularidade das ordens mendicantes, mas também tendo a França como aliada. O novo Estado submeteu a Inglaterra e reformou a Igreja para acabar com os descontentamentos. Todavia, com a morte de Inocêncio III, retornaram as disputas com o império e com o reino francês. Essas últimas desavenças resultaram na transferência do pontifício para Avignon, na França, a partir do que, ocorreu o chamado “afrancesamento” do papado. Na aula de hoje você conheceu o conflito entre duas importantes organizações do período a Igreja e o Império Germânico, tendo como base a Querela das Investiduras. Esse conflito entre papado e império aitngiu a Itália que vai ser o assunto da próxima aula. Aula: 29 Temática: As disputas pela emancipação das cidades italianas Na aula de hoje você vai conhecer os conflitos na Itália por meio do estudo da emancipação das cidades italianas, enquadrando essa disputa no conflito entre Império e Papado, visto na aula anterior. O contexto político das cidades italianas foi marcado pela luta entre o império, o papado e a própria burguesia pelo controle da cidade. A ascensão da burguesia no domínio das cidades se deveu, primeiramente, a luta por uma maior autonomia por parte das comunas citadinas, isto é “a comunidade burguesa que se organizava para defender seus interesses comerciais diante dos abusos feudais, como confiscos ou taxações excessivas”. No século IX, essas comunas pretendiam escapar da arbitrariedade senhorial. Cem anos depois, passaram a buscar a autonomia, que se comprava ou se conquistava pela força. Como resume Philippe Wolff: “Na Itália a propriedade fundiária e as próprias instituições senhoriais estavam perdendo tanto seu vigor econômico como seu papel de geradoras absolutas de valores” As organizações dos burgueses, os ricos mercadores, muitas vezes “compravam” a liberdade da cidade pagando a um senhor feudal ou guerreavam pela autonomia. Com a autonomia conquistada, os burgueses definem a administração da cidade como um reflexo de seu caráter: “o amor do lucro alia-se neles (os burgueses) ao patriotismo local”.O burguês sente que “(...) no seu seio (da cidade) está em segurança e cada um sente por ela uma gratidão que confina com amor. Esta pronto a devotar-se a sua defesa, do mesmo modo que esta sempre pronto a ornamentá-la e fazê-la mais bela que as suas vizinhas”. O embelezamento das cidades e sua riqueza causavam inveja e ameaças de vizinhos poderosos. Essa era a base da rivalidade entre as cidades italianas, “(...) cada cidade chegada ao termo do seu desenvolvimento constitui uma república... [e] não vê nas outras cidades senão rivais ou inimigas”� Essa rivalidade contribuiu para o surgimento dos condottiere, grupos de mercenários encarregados de proteger a cidade. Sem dúvida, entrar em guerra uma contra as outras era uma forma de dominar o comércio da rival ou prejudicá-la a ponto de trazer vantagem para si mesma. Todavia, as rivalidades entre as cidades italianas precisam ser vistas em um contexto mais amplo: a luta entre o papado e o império. Como você viu na aula anterior, havia uma questão de principio, a Questão da Investidura que, em uma análise mais profunda, significava questionar quem governava sob a égide divina: o Império ou o Papado? Essa discussão foi, paulatinamente, desviada para uma disputa permanente pela posse da maior parte possível de territórios da Itália, região fundamental por causa da simbologia de Roma e também pelo enriquecimento de suas cidades. Assim, as cidades italianas lutando para se desvencilhar do poder dos senhores feudais, poderiam utilizar a rivalidade papado e império para se fortalecer. Na Itália, nos séculos XIII e XIV, surgiram duas correntes, a dos Guelfos, partidários do Papa, e a dos Gibelinos, partidários do Império. As duas facções políticas alternaram-se no poder ao longo do tempo, em disputadas armadas, cuja vitória, freqüentemente, levava a expulsão do grupo rival. Na aula de hoje você conheceu o complexo quadro político da península itálica, região que possuía a maior riqueza da Europa e era palco de sangrentos combates entre os diversos grupos disputando o poder. A fragmentação política entre partidários do papa e do Imperador e a própria luta pelo domínio das cidades em relação ao senhor feudal transformou a Itália em um território dividido, que só completou sua unificação no século XIX. Aula: 30 Temática: A ascensão das monarquias feudais Na aula de hoje você vai conhecer a dimensão política da crise da Idade Média; a ascensão das monarquias feudais — aspecto característico do século XII até o início do XIV — com diferentes desdobramentos e velocidades nas diversas regiões da Europa. Você já teve oportunidade de ver como diversos processos históricos convergiram para a fragmentação política da Europa, especialmente na Alta Idade Média, embora os reis ainda tivessem seu poder simbólico e, em alguns casos, grandes extensões de terra. O poder da monarquia foi corroído ainda mais uma vez com as invasões de vikings e magiares. O Movimento oposto, ou seja, o de fortalecimento das monarquias precisa ser visto de acordo com as especificidades regionais. Deve-se levar em conta também o fato de que, muitas vezes, o processo de centralização política ou as contradições entre as classes e o poder central passava despercebido pelos contemporâneos. O avanço das cidades e do comércio esbarrava nas particularidades do mundo feudal. Para a burguesia citadina, as divisões do território Europeu em pequenos feudos submetidos a diferentes condes, duques e senhores, com seus inúmeros impostos e diferentes padrões de medidas, peso e moeda eram um empecilho ao pleno desenvolvimento da capacidade burguesa de buscar o lucro. As transformações ocorridas no final da Idade Média enfraqueceram a nobreza e abriram espaço para monarquia concentrar o poder político, militar e administrativo. As armas fundamentais dos reis medievais eram: • o direito de receber prestação de serviços, na qualidade de líder supremo; • o direito de restituição da propriedade e controle sobre as terras pertencentes aos nobres acusados de traição; • retomada da lei romana que serviu de base para os reis fazerem valer sua autoridade. Antes do fim do século XII os reis já possuíam direitos de tributar e legislar e administrar a justiça. Paulatinamente, as diversas células autônomas que formavam o corpo da cristandade deram lugar a grandes territórios soberanos. Esse processo não pode ser entendido sem o apoio e concurso das cidades, que forneceram seus melhores quadros às monarquias. As monarquias criaram conselhos especializados que auxiliam na administração; criaram a possibilidade de apelação ao rei nas questões jurídicas e enviaram coletores reais para cobrarem impostos. Essas medidas centralizadoras, ao reduzirem as especificidades feudais facilitavam os negócios. Os reis também impunham a ordem no território — ainda que com um alto preço em sangue — trazendo mais segurança ao transporte de mercadorias. Essa questão da ordem nos remete a dois assuntos importantes: as desordens camponesas e a guerra. A autoridade real restabelecida também era uma maneira de reprimir os levantes camponeses que cresciam com a crise generalizada do período, causando temores aos senhores feudais, mas também à burguesia. Tradicionalmente a historiografia ressalta o papel da burguesia no fortalecimento do rei, mas o papel de alguns senhores feudais também precisa serressaltado, pois apoiaram o fortalecimento do rei porque temiam perder suas terras para os camponeses. Com relação à guerra, entramos em um dos aspectos fundamentais do poder do rei: a transformação do “exército” feudo-vassálico em um exército profissional. A quantidade de guerras entre nobres transformava o exército em necessidade premente e os guerreiros deixaram de ser esporádicos para serem regulares. Tradicionalmente os contingentes feudais eram temporários e não se enquadravam na permanência das guerras. Ademais, sua disposição hierárquica dificultava a formação de unidades dotadas de maleabilidade e homogeneidade. Comandadas por nobres e fundadas na cavalaria, a ordem militar tradicional era baseada nas cartas de desafio e requisições de combate. Também havia a dificuldade de conseguir moeda em uma economia agrária para pagar a manutenção da tropa e vencer os empecilhos da infra-estrutura viária, que dificultava a obtenção de informações do inimigo e reduzia a velocidade de ataque. Todavia, paulatinamente, os reis forçaram a transição para um exército regular, ao estabelecerem, por exemplo, o pagamento de uma espécie de indenização de desemprego durante os raros períodos de trégua e a garantia de um soldo regular, alimentação, alojamento sustentado pelos habitantes. Além disso, os reis passam a “comprar informações e remunerar agentes que se movimentam... em meio aos mercadores itinerantes”. A partir do século XIII, com essa profissionalização do exército, já não bastava mais ser nobre para praticar a arte militar; o ofício de militar passou a requerer aprendizado. Houve também uma sofisticação das armas. Os europeus aprenderam a utilizar o salitre misturado ao enxofre e ao carvão de madeira para produzir a pólvora. A pólvora passou a ter um importante papel no sítio aos castelos provocando um duplo fenômeno, por um lado à construção de muitos castelos reais, por outro um processo “descastelização” como forma de resistir aos particularismos de nobres que resistiam à centralização monárquica. A importância do exército na unificação européia pode ser vista na reconquista do sul da península Ibérica, onde a luta contra os muçulmanos. Lá, a formação do exército contou com o apoio da Igreja e da Inquisição, permitindo a aceleração do processo monárquico e ajudando na posterior expansão ultramarina. A França e o Reino Unido travaram inúmeros combates, entre as quais a Guerra dos Cem anos. A extensão dos domínios britânicos chegava à Normandia na França. Os franceses queriam recuperar seu direito de suserania sobre essa região, enquanto os ingleses também reclamavam os mesmos direitos dos gauleses e escoceses. Todavia a monarquia avançou na França, na Espanha e na Inglaterra por meio de casamentos, incorporação de feudos e apanágios. Já a Itália com a formação da Liga Itálica (1455) montou uma confederação instável de territórios, sem liderança, mantida, na maior parte das vezes, pela força. Na aula de hoje você conheceu o processo de surgimento das monarquias feudais tanto no seu aspecto geral como em algumas particularidades. Essa formação política vai ser fundamental para o mundo moderno, pois alia autoridade com liberdade, a do comércio e da burguesia. Aula: 31 Temática: A expansão Otomana Na aula de hoje você vai conhecer a ascensão do Império Otomano, um novo poder muçulmano, que pôs fim ao Império Bizantino e perdurou até o século XX. A tomada de Constantinopla, para muitos historiadores, marca o fim da Idade Média. Os turcos eram exímios cavaleiros, como a maior parte dos povos da estepe, e assim tinham a vantagem de avanços rápidos nas terras conquistadas, ao qual pilhavam. As suas qualidades na montaria faziam com que fossem contratados como guerreiros “profissionais” por diversos impérios ao longo da história. A relação com o cavalo é intensa, segundo John Keegan “os turcos montavam-no como se fosse parte deles – diz à lenda que as mulheres turcas concebiam e davam à luz a cavalo”. A região do Oriente Médio vivia um conflito entre latinos, bizantinos, mu- çulmanos e mongóis, o que abriu espaço para a ascensão do Império Otomano, similarmente com o que ocorreu com a expansão muçulmana do século VII, quando os impérios vizinhos também estavam em dificuldade. O próprio mundo muçulmano não se encontrava mais unificado, como você viu, após a morte de Maomé. Dentre esses conflitos, o avanço dos mongóis conturbou a ordem político-social da parte muçulmana oriental. Imperador Mongol Gengis Khan foi importante, pois acabou por empurrar para oeste a então pequena tribo otomana, entre os séculos XII e começo do XIII. Um fato aparentemente sem importância, mas de conseqüências duradouras para a região. O Império foi fundado na fronteira entre bizântinos e os seljucidas e recebeu o nome inspirado em Otomão, que assumiu a dinastia por volta de 1280, iniciando uma significativa expansão do Império. A política expansionista continuou com seus sucessores Orkan (c.1324-1362) e Murad (1362-1389). Aparentemente, as primeiras vitórias foram conquistadas por guerreiros turcos semi-independentes, uma vez que o Império Otomano era baseado no poder militar e administrativo e não em fronteiras nacionais ou étnicas. Assim, o primeiro grupo turcomano primitivo acrescentou muçulmanos e não muçulmanos. Já sob o governo de Bajazeto I (1389 – 1402) estavam sob o comando otomano: a Bulgária e boa parte da Anatólia, mas em 1402 o mongol Tamerlão destrói seu exército e vários estados da região do Bálcãs e da Anatólia aproveitam para se libertar do domínio otomano. Foi com Mehmed I (1413-1412) e seu filho Murad II (1421 – 1451) que os otomanos reconquistaram essas áreas, sendo visto como libertadores pelos povos dos Bálcãs e parte da Anatólia, pois os camponeses estavam sobrecarregados com trabalhos forçados e impostos. Mas foi Mehmed II (1451- 1481) que, ao conquistar Constantinopla em 1453, acabou com o último empecilho para os otomanos conquistarem os dois importantes estreitos, de Bosforos e Dardanelos, e abrir caminho para a anexação da Bósnia, Servia e Herzegovina. Seu avanço só foi contido pelos húngaros em Belgrado. Sua expansão comprometeu o poder de Veneza no Mar Negro, com ambos entrando em guerra pelo esse mar. A influência xiita do Irã e as disputas pela sucessão entre Bajazeto II e Jem reduziram o ritmo das conquistas, mas não foram suficientes para sérvios, búlgaros e gregos acabarem com o estado muçulmano. Essa inércia ou incapacidade de fazer frente ao poder Otomano permitiu a sua reorganização. Uma das instituições importantes do Império Otomano, que ajudava na expansão, era o recrutamento de crianças. Esse sistema era feito por meio de uma seleção entre a juventude indígena (muitos dos quais cristãos), que era então educada como muçulmano para trabalharem como escravos pessoais para o soberano ou no exército de janízaros, uma guarda militar pessoal. Algo que a primeira vista poderia parecer bárbaro e cruel, mas, para a massa dos habitantes do período e dessas regiões, não e por vários motivos: havia um sentimento contra o clero que acabava por favorecer a conversão ao islã; os eslavos também utilizavam escravos; ser escravo era ter mais valor que qualquer um dos homens livres; a serviço do soberano eles poderiam fazer uma carreira mais promissora do que como camponeses livres, podendo manter contato com a família e utilizar sua influencia ara ajudá-la. A expansão assombrosa dos exímios cavaleiros turcos, tradicionalmente guerreiros mercenários, avançando sobre a cristã Constantinopla e subindo Europa acima pelos Bálcãs trouxe modificações importantes. Simbolicamente, ao conquistar Constantinopla, o império unia o Ocidente e o Oriente. Ao mesmo tempo, ao derrotar vários povos de infiéis cristãos, o Império Otomano passa a se definir cada vez mais como muçulmano. Um resquício do poder Imperial de Roma, materializada na cristã Bizâncio, finalmente solapava e, a partir de então, a Europa passa a olhar com receio para um Império poderoso fincado nacristandade e que, “rapta” crianças cristãs. Foram essas as questões que você estudou na aula de hoje. Nessa apostila, a Idade Média acaba, mas espero que ela tenha sido um convite para que você aprofunde seu conhecimento sobre o período por meio de livros e filmes. Pra já, devemos fazer um balanço do período. Aula: 32 Temática: Idade Média, um balanço Depois de 31 aulas sobre Idade Média nessa última você vai ter um balanço do período, numa tentativa de discutir as mudanças e as permanências dessa era em relação aos períodos posteriores. Que comparações podem ser feitas entre o homem medieval e o home contemporâneo? O mais comum é definir o mundo moderno a partir de uma série de movimentos. Entre eles, o Renascimento, porque buscou os modelos clássicos da cultura greco-romana valorizando o indivíduo; o Protestantismo, porque acabou com o “monopólio” cristão católico na Europa ocidental e lançou as bases de uma nova religiosidade que combinava com o desenvolvimento do capitalismo; os Descobrimentos que aliaram o conhecimento científico com a ampliação do horizonte geográfico e humano ao colocar os cristãos em contato com outras culturas e riquezas; a centralização política, que colocou os particularismos em seguindo plano em nome de uma unidade territorial, lingüística e legal comum. Ainda que a liberdade religiosa, o individualismo, a liberdade de ir e vir, o Estado centralizado e a relação sem culpa com o dinheiro estejam na base do nosso pensamento e do mundo em que vivemos não estamos nós completamente afastados da Idade Média. Você, que acompanhou a vida do homem medievo nesse semestre, concordaria com essa afirmação? Você consegue ver algumas das características acima já presentes no mundo medieval? Pense nas características do mundo de hoje, a partir do resumo feito acima, e responda se não há nada de “medieval” nos dias de hoje? Esperamos que você tenha pensado em uma resposta elaborada, ressaltando a complexidade do assunto, pois algumas dessas características já germinaram no mundo medieval. O protestantismo de certa maneira não deixou de ser uma heresia que obteve apoio e prosperou. As grandes navegações tiveram precursores nos cruzados, assim como nas viagens de Marco Polo à China, aguçando a curiosidade e o gosto pelo risco tão característico dos tempos modernos. Ademais, o próprio Colombo era um homem imerso no mundo medieval com seu objetivo de conseguir encontrar um reino mitológico abundante em ouro para financiar a tomada da Terra Santa. A centralização estatal começou com as monarquias medievais e foi o grande anseio de parte da burguesia mesmo em regiões onde ela foi menos desenvolvida. Já o próprio Renascimento só conseguiu retomar os clássicos antigos porque os mosteiros medievais guardaram e reproduziram boa parte desses escritos. Assim, o mundo dito moderno tem algumas de suas características já despontando na Idade Média. Todavia você provavelmente também pensou nas diferenças entre o cotidiano medieval e o cotidiano no mundo moderno. Pensou sem dúvida nos avanços da medicina e da tecnologia da informação, no processo de urbanização, na iluminação elétrica — progressos que derrubaram muitos mitos, superstições e antigas tradições. E também nas construções urbanas como sua residência, tão distante de um castelo medieval, ou a sua Igreja, não mais o local de referência da paisagem urbana. Mas ainda nesse aspecto, não poderíamos ver influências do período medieval? A casa de muitas pessoas ou os prédios da cidade não tem uma estrutura de segurança importante e logo na frente da habitação, com grandes muros, parecidos com muralhas, e torres de segurança onde guardas observam o movimento das ruas, algo que lembra a função das torres medievais? Por sua vez as Igrejas já deixaram de ser um local de freqüência assídua, além de terem deixado de serem os edifícios mais altos da cidade, que agora ostentam grandes prédios, símbolos do capital, do poder e do dinheiro. Mas a Igreja ainda hoje é importante para parcelas significativas da população; você não tem visto o crescimento de grandes templos na sua cidade? E a própria construção de grandes edifícios, simbolizando a força do capital não era o que os burgueses faziam nas suas casas nas cidades? Esses questionamentos e ponderações servem para livrar a Idade Média dos preconceitos e estereótipos que sempre a acompanharam, mas, também servem para você perceber que a história serve, sempre, como uma forma de entender e analisar o presente e moldar o futuro. Resumo - Unidade VI Nessa unidade estudamos as principais transformações ocorridas no período entre os séculos XIV e XV, procurando reconhecer aquelas que apontam o caminho em direção ao mundo moderno. O medievo viveu nesse período final o horror da peste negra e guerras prolongadas, mas também viu o rei readquirindo o seu antigo poder. Nesse processo, a Alemanha e a Itália estavam atrasadas, dilaceradas pelos conflitos entre o papado e os poderes locais. Nessa mesma época em que a Igreja tentava conter o Nicolaismo e a Simonia por meio da reforma gregoriana, numa tentativa de manter a centralização do poder. Você estudou também o surgimento de um novo império muçulmano, o otomano, que ser fortaleceu no espaço aberto pelas disputas de poder na Europa e pelo enfraquecimento do vizinhos. A tomada de Constantinopla pelos otomanos, marca, para muitos, o final da Idade Média. Para saber mais Consulte os sites abaixo, que contêm vários textos e algumas imagens sobre os temas abordados nessa unidade http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=295 http://www.brasilescola.com/historiag/conceito-idade-media.htm http://www.saberhistoria.hpg.ig.com.br/mapa_do_site.htm Referências Bibliográficas WOLFF, P. Outono da idade média ou primavera dos tempos modernos? São Paulo: Cia. Das Letras, p. 38. LE GOFF, J.. Para um novo conceito de Idade Média. Lisboa. Editorial Estampa, 1980. PIRENNE, H. As cidades da Idade Media. São Paulo: Publicações Europa América,.3ed. LANGLEY, A. Medieval life. London, Dorling Kindersley, 1996 . LIMA, A. B. G. São Francisco. Rio de Janeiro: ,1973. LOYN, H.R. Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1997. PARKER, G. Atlas da História do Mundo. São Paulo: Folha de São Paulo/ Times Book, 1993. QUEIROZ, T. A. P. O Renascimento. São Paulo: 1995.