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LITERATURA PORTUGUESA II
PROFA. DRA. MOAMA MARQUES
AS MÚLTIPLAS FACES DE BOCAGE:
Seleção de sonetos
I.
Magro, de olhos azuis, carão moreno, 
Bem servido de pés, meão na altura, 
Triste de facha, o mesmo de figura, 
Nariz alto no meio, e não pequeno; 
Incapaz de assistir num só terreno, 
Mais propenso ao furor do que à ternura, 
Bebendo em níveas mãos por taça escura 
De zelos infernais letal veneno; 
Devoto incensador de mil deidades 
(Digo, de moças mil) num só momento, 
E somente no altar amando os frades; 
Eis Bocage, em quem luz algum talento; 
Saíram dele mesmo estas verdades 
Num dia em que se achou mais pachorrento. 
II.
Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar c'o sacrílego gigante.
Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.
Ludíbrio, como tu, da sorte dura,
Meu fim demando ao céo, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.
Modelo meu tu és, mas... oh tristeza!...
Se te imito nos transes da ventura,
Não te imito nos dons da natureza.
III.
Olha Marília, as flautas dos pastores,
Que bem que soam, como são cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha: não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?
Vê como ali, beijando-se, os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes
As vagas borboletas de mil cores!
Naquele arbusto o rouxinol suspira;
Ora nas folhas a abelhinha pára.
Ora nos ares sussurrando, gira.
Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu não te vira,
Mais tristeza que a morte me causara.
IV.
Filho, Espírito e Pai, três e um somente,
Que extraíste do caos, do pó, do nada
O sol doirado, a Lua Prateada, 
O racional e irracional vivente;
Eterno, justo, imenso, omnipotente,
Que ocupas essa abóboda estrelada,
Grão Ser, de cuja força ilimitada
A máquina do mundo está pendente;
Tu, que se queres, furacão violento,
Sumatra feita, tempestade escura
Desatas e subjugas num momento;
Criador que remiste a criatura,
Quebra o furor do túmido elemento,
Que nos abre no Inferno a sepultura.
V.
Sonhei que, nos meu braços inclinado,
Teu rosto encantador, Gertrúria, via;
Que mil ávidos beijos me sofria
Teu níveo colo, para os mais sagrado.
Sonhei, sonhei que era feliz por ser ousado,
Que o siso, a força, a voz, a cor perdida
Num êxtase suave, em que bebia
O néctar nem por Jove inda libado.
Mas no mais doce, no melhor momento,
Exalando um suspiro de ternura
Acordo, acho-te só no pensamento.
Oh Destino cruel! Oh Sorte escura!
Que nem me dure um vão contentamento!
Que nem me dure em sonhos a ventura!
VI.
Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:
 
Dido foi puta, e puta dum soldado;
Cleópatra por puta alcança a c’roa;
Tu, Lucrecia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:
 
Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que ainda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:
 
Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiqueis pois, oh Nise, duvidosa
Que isto de virgo é honra é tudo peta.
VII.
Não lamentes, Alcino, o teu estado,
Corno tem sido muita gente boa;
Corníssimos fidalgos tem Lisboa,
Milhões de vezes cornos têm reinado.
Siqueu foi corno, e corno de um soldado:
Marco Antonio por corno perdeu a c’roa;
Anfitrião com toda a sua proa
Na Fábula não passa por honrado;
Um rei Fernando foi cabrão famoso
(Segundo a antiga letra da gazeta)
E entre mil cornos expirou vaidoso;
Tudo no mundo é sujeito à greta:
Não fiques mais, Alcino, duvidoso
Que isto de ser corno é tudo peta.
REFERÊNCIAS
BERARDINELLI, Cleonice (seleção). Bocage. 4 ed. São Paulo: Global, 2012.
MATTOSO, Glauco. Bocage, o desboccado. Bocage, o desbancado. Disponível em: http://www.elsonfroes.com.br/bocage.htm Acesso em 20 fev. 2018.

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