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Acadêmica: Gisele Maurer e Victória Antunes Disciplina: Diagnóstico e Intervenção Psicológica I - Lúcia Godinho Texto: Cap. 14 “Avaliação” Fonte: EIZIRIK, Cláudio L.; AGUIAR, Rogério; SCHESTATSKY, Sidnei S. (Org). Psicoterapia de orientação analítica: fundamentos teóricos e clínicos , 2ª. Ed.. Porto Alegre: Artmed, 2005. Resenha: A avaliação de um paciente com a possibilidade de integra-lo em uma psicoterapia de orientação analítica constitui-se de: entrevista inicial, definição do diagnóstico psicodinâmico, indicação ou não de psicoterapia e efetivação do contrato psicoterapêutico. Devido os avanços da ciência, psicofarmacologia e pesquisa sobre os processos terapêuticos, exigem um refinamento nas avaliações e indicações terapêuticas. Kandel (2003) e Fonagy (2003) destacam, a falta de investimento em pesquisas empíricas e a inter-relação com as diferentes áreas da ciência, que trabalham em busca da elucidação dos resultados. Cabe ao terapeuta a responsabilidade de indicar as melhores técnicas e quais benefícios se darão ao paciente que nos procura, tornando a avaliação uma etapa importantíssima e decisiva ao que propormos a realizar. Muitas interrupções de tratamentos devem-se a inadequação da avaliação inicial. Vários autores, estudiosos das psicoterapias desatacam que esta etapa como um momento crítico tanto ao indivíduo que procura ajuda quanto ao terapeuta. O conceito de entrevista inicial trata-se de um encontro combinado entre duas pessoas com a especifica finalidade de decidir se quem consulta deve ou não realizar uma psicoterapia, com quem e de que tipo. Lembrando que a entrevista inicial embora conste no singular não necessariamente é realizada em uma sessão, isso pode variar de indivíduo para indivíduo, e fatores relacionados ao tipo de encaminhamento, experiencia do paciente, motivo da procura e motivação. Bleger (1971) salienta que neste primeiro encontro o que é visado é entender como funciona o indivíduo e não como ele diz funcionar, sendo assim, devemos deixá-lo à vontade para mostrar seu modo de ser e de interagir conosco. Através da escuta atenta, com mínima interrupção é possível observar como a pessoa se expressa, desenvolve seu pensamento, expondo ou não seus sentimentos. A escuta não deve ser entendida como distancia ou frieza, cabendo ao terapeuta demonstrar-se cordial, com discrição e sensibilidade, pois quem recorre a nossa procura certamente tens um sofrimento e busca ajuda. Após esta atividade de escuta é realizado a solicitação de dados de identificação do entrevistado, e é convidado a relatar sobre as razões de sua vinda, a fim de formarmos uma ideia do que lhe aflige. A técnica de entrevista não é diretiva, deixando ao entrevistado a iniciativa, mas sempre o ajudando em momentos difíceis. Alguns autores Cruz (2000) e (Liberman, 1972) pensam que neste momento o terapeuta deve deixar de realizar qualquer intervenção interpretativa, visando que ainda não há o estabelecimento do setting e o indivíduo ainda não é paciente. Outros (Etchegoyen, 1987; e Quionodoz 2002) julgam válido pois podem remover algum obstáculo ou até mesmo promover vínculo entre elementos apresentados, cujo o paciente não compreende. A entrevista inicial como toda situação nova, acaba provocando ansiedade, tanto no terapeuta quanto no indivíduo que busca a ajuda, pois os dois indivíduos serão avaliados. No terapeuta é visto como uma situação nova de um desafio. Visando um ponto importante para os teóricos da psicanálise e psicoterapia: a interação paciente-terapeuta, tendo consciência de que não é todo paciente que podemos atender, fato relevante em que o terapeuta deve conhecer seus limites para assim ter sucesso em seu trabalho. Os instrumentos de avaliação do terapeuta são: reconhecimento do estado da sua mente, teorias, conhecimentos, intuição, empatia, sobretudo sua própria angustia. Na primeira entrevista o terapeuta já pode ter definido sua avaliação e é sugerido que o segundo encontro se dê na semana seguinte, para haver então a observação de como foi a reação do indivíduo neste primeiro momento. O segundo encontro pode esclarecer aspectos e nos surpreender, seja pela nossa angustia ou mesmo por algo que não havíamos percebido. De acordo com Houaiss (2008) o conceito que melhor define motivação é "conjunto de processos que dão ao comportamento uma intensidade, direção determina e uma forma de desenvolvimento próprias da atividade individual", algumas questões podem nos orientar na definição de motivação nas entrevistas iniciais: 1) O paciente busca espontaneamente o tratamento? 2) Mostra capacidade de reconhecer que seus sintomas são de natureza psicológica? Denota sofrimento? 3) Há tendência à introspecção e a relatar os problemas os problemas de modo honesto e verdadeiro? 4) Tem vontade de participar ativamente do processo de tratamento? 5) Expressa curiosidade e desejo de se entender? 6) Assume a responsabilidade de modificar as dificuldades que enfrenta, em vez de externá- las e projetá-las nos outros? 7) Apresenta expectativas realistas em relação à psicoterapia? 8) Há disposição de investir tempo e dinheiro nessa busca? Nas primeiras entrevistas não é possível responder a todas as perguntas, mas é previsto ter em mente estas questões norteadoras, pois elas nos ajudarão neste processo. Outro aspecto a ser observado é a manifestação da motivação consciente, através da expressão verbal. Uma modificação genuína implica em uma motivação interna por meio de insight. A pesquisa feita em 1979 por Dal Zot (1984) relata a motivação dos pacientes em psicoterapia, em um ambulatório de Porto Alegre constatou, que dos 71 pacientes estudados, 51 obtiveram melhoras. Destes, 91,1% foram considerados motivados para a psicoterapia de orientação analítica, verificam-se uma associação significativa entre motivação e resultado de psicoterapia (p<0,05). Através das transferências podemos ter informações sobre a estrutura mental do sujeito e o tipo de relação com outras pessoas. Estes elementos transferenciais podem ser desencadeados desde o primeiro encontro., fatores referentes a figura real do terapeuta como apresentação pessoal idade, sexo convertem o ponto de partida para esta transferência. É também compreendia com uma resistência e um dos sinais é a não exposição espontânea de comunicação dificultando a coleta da história. Como a transferência é um elemento essencial na avaliação isso implica diretamente no processo de cooperação paciente-terapeuta. O entrevistador também não reage neste processo de maneira lógica a todo momento, sendo assim constituindo sua contratransferência. A primeira forma de descarregar a angustia anteriormente falada que consiste por parte do terapeuta um novo desafio e por parte do indivíduo questões relacionadas a efetividade do processo, é amenizada através das comunicações não-verbais via identificação projetiva. Ao avaliar a identificação e necessário pensarmos que, por vezes nos ocorrem apenas dados objetivos como idade sexo endereço, mas subjacentemente encontramos valiosas informações que nos orientam na avaliação. Também incluímos aqui o encaminhamento, especificando como o paciente chegou até nós, estes dados nos trazem pistas sobre sua motivação. O avaliador deve buscar a relação temporal entre a eclosão dos sintomas e a ocorrência de algum evento ou circunstância da vida do paciente. Relação frequentemente ignorada por ele devido a mecanismos de defesa protetores como negação, racionalização, isolamento. Pode também ocorrer através de uma crise vital como nascimento de filhos, aposentadoria entre outros. Ou ainda crise acidental por perda por morte ouseparação de um familiar podem indicar em que direção buscar o conflito. Cordioli (1993) refere que na avaliação psicodinâmica é importante investigar fatores desencadeantes ou não, responsáveis pela ruptura anterior. A ausência de fatores desencadeantes, vitais ou de acidentes sugere fatores de patologia de caráter. Considerando a psicoterapia psicanalítica, são fundamentais para orientar o pensamento do orientador tais como conflitos intrapsíquicos, predominância inconscientes, impulsos instintivos, conflitos psíquicos que são padrões de defesa ou traços de caráter, métodos para manter equilíbrio falham, sintomas revelam elementos de conflito e repetem padrões do passado. Avaliando conforme French (1989), introduziu conceitos de conflito focal e nuclear, advindos dos conceitos freudianos de conflito psíquico. Sendo conflito focal derivativos dos nucleares que são ativados de várias formas. Mais próximos da superfície, pré-conscientes, maior parte do material clínico. Seria adaptação dos conflitos nucleares e passíveis de aproximação por meio da psicoterapia de orientação analítica e não só pela psicanálise. Na avaliação quando identificado um conflito focal expressados por sintomas ou padrões de comportamento estamos em condições de indicar uma POA. Como exemplo a paciente A que em função de uma crise não consegue trabalhar em sua dissertação de mestrado, mesmo sendo medicada com ansiolíticos prescritos por seu psiquiatra. Sendo que até o momento não tivera maiores problemas em sua vida, razão pela qual o terapeuta indicou uma POA (Mabilde, 2001). Mas para pacientes que estão envolvidos nos conflitos nucleares, patologia de caráter seria indicado a psicanálise, propondo modificar conflitos atuais e infantis. Exemplo a paciente B, procura atendimento por indicação da sua ex-terapeuta. Na primeira entrevista chora copiosamente sem que o terapeuta dissesse algo, referindo entre algumas pausas não saber o motivo pela qual está mal, perdida e só. Não releva nada consistente em termos de problemas. Referindo já ter sentido assim outras vezes inclusive na sua infância. O terapeuta percebendo que o conflito infantil, indicou a análise (Mabilde 2001). A distinção de indicação nem sempre é clara (Etchegoyen 1990). A história laboral de um paciente são indicadores da força global do ego. Aqueles que conseguiram estabelecer relações de compromissos por longos períodos provavelmente tem egos mais flexíveis e integrados. A literatura aponta como um bom prognóstico a adaptação prévia do paciente, o bom vínculo com o terapeuta vai depender da qualidade das relações de objeto do passado assim como as posteriores. Investigar na entrevista inicial a relação com familiares e amigos são indicativos da relação terapêutica. O exame do estado mental será feito ao longo das entrevistas de avaliação, a orientação do paciente quanto a tempo, espaço e pessoa esclarece-se no decorrer da coleta da história. Atentos a distorções e alterações da sensopercepção, bem como a presença de alucinações visuais e auditivas importantes na avalição diagnóstica. A linguagem e a comunicação do paciente vão revelar aspectos do inconsciente por meio de lapsos e atos falhos. A personalidade se evidência nas formas de se expressar e também como responde as questões. Observações sobre estados afetivos ganham proeminência na avaliação, o manejo do afeto a mais importante função da defesa. Os pacientes Borderline podem expressar desprezo e hostilidade as figuras significativas da sua vida usando a dissociação para evitar a integração entre sentimento s bons e maus para com os outros. De acordo com Kernberg (1991), dois outros aspectos devem ser avaliados a difusão de identidade e a capacidade de teste de realidade, no Bordeline existe a falta do conceito de self, vazio crônico, autopercepções e comportamentos contraditórios. Já no teste de realidade distinção de sentimentos e emoções como provenientes do mundo interno e externo, essa prejudicada quando há um nível psicótico de funcionamento. O nível de operações defensivas manifesta a organização da personalidade, Borderline e psicóticos apresentam defesas primitivas no mecanismo de dissociação e em outros como identificação projetiva, negação e controle onipotente. A capacidade para estabelecer uma aliança terapêutica é variável e crucial nas psicoterapias Cordioli (1998). A capacidade do paciente de estabelecer uma relação de trabalho com o terapeuta em oposição as reações transferenciais regressivas e a resistência (Eizirik e cols 1998). Essa aliança implica que o paciente possua uma parte racional preservada aliada ao terapeuta. Um critério salientado por Sfineos (1976) que no passado o mesmo tenha uma relação emocionalmente significativa. Em relação ao caso clínico a paciente Maria citada como exemplo, com idade aproximada de 50 anos, menciona não ter filhos, casada e profissional liberal. Paciente menciona estar vivendo uma fase de vários problemas clínicos. Descreve sintomas relacionados ao sistema cardiovascular, taquicardia, tremores e hipotensão. Avaliada por cardiologista, nada foi detectado. Apresenta sintomas da entrada na menopausa. Alguns conflitos com o cônjuge pois o mesmo não pode apoiar ela financeiramente devido a ser mal remunerado, e ter filhos dependentes. Ela perdeu seu pai de infarto e sua mãe teve episódio de angina, refere o medo da perda da mãe e sente que poderia ter acompanhado o seu pai com mais afinco. Algumas reflexões, houve desde a chamada telefônica uma relação positiva paciente/terapeuta. A mesma tinha expectativas em relação a melhora da amiga que a indicou. No decorrer da avaliação identificado a presença dos sintomas da menopausa, evidenciando uma crise vital, a menopausa associada com a perda do pai, somando a isso relacionamento afetivo insatisfatório. Sendo identificado assim manifestações corporais provocadas pela angústia, percepção da passagem do tempo e as perdas correspondentes. A ameaça de perder a mãe, trouxe a necessidade de se confrontar com todos os seus lutos não elaborados, a impossibilidade de ter filhos, a profissão não realizada, a morte do pai. Até o momento conseguira ter uma equilíbrio razoável que nesse momento se rompera, não conseguindo resolver seus problemas sozinha. Através desses sintomas, levantada a hipótese de psicofarmacológico concomitante, porém também havia uma percepção da origem psicológica dos problemas e a motivação da paciente para ir além dos sintomas.A provável origem das dificuldades atuais situada em um passado remoto, tais anteriores a fase do ciclo vital, indicando problemas de estrutura de personalidade. A motivação do paciente é vinculada ao conflito atual e o foco foi circunscrito, sendo indicada a psicoterapia de orientação analítica, não excluindo conforme evolução um tratamento analítico. Há uma tendência atual (Gabbard 1998), traz modalidades de uso continuum que vai de um pólo mais expressivo é outro mais de apoio. A psicoterapia de orientação analítica é indicada nas situações de um conflito atual que desequilibrou o paciente, um conflito neurótico, presença de crise vital, transtornos de personalidade, atrasos ou déficits de desenvolvimento. Em todas as situações os pacientes como condição: compreender-se, que os sintomas são de origem psicológica, presença de sofrimento significativo, tolerância a frustação, controle de impulsos, teste de realidade preservado, capacidade de regressão a serviço do ego, aliança terapêutica, força do ego e nível de inteligência médio. Devem ser levadas em consideração as condições do paciente: tempo, financeiro, limitações geográficas além da avaliação clínica e neurológica.Contra indicações são os quadros psicóticos agudos, depressivos graves (tentativas de suicídio), alcoolismo/drogas, quadros fóbicos, quadros obsessivos compulsivos, personalidade Borderline, síndrome cerebral orgânica, transtornos da alimentação graves. Esses casos obterão maiores benefícios de outras psicoterapias. O capítulo trouxe a maneira de trabalhar fundamentada nas teorias psicanalíticas e o quanto é decisivo mantermos fiéis aos princípios técnicos, sendo que cada terapeuta vai imprimir seu estilo pessoal a questão segundo Etchegoyen (1987). Certamente a abordagem sobre o processo de avaliação para POA não esgota as possibilidades de sua abrangência. Alguns aspectos considerados como novos na atualidade são relação terapeuta/paciente como Central, valorização transferência/contratransferência, especificidade das indicações, mais pesquisas na psicoterapia, pesquisas empíricas, responsabilidade ética em aprofundar conhecimentos, valorização da psicodinâmica, experiência de tratamento analítico ou psicoterápico próprio.