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Curso de Direito Processual Civil – Vol. II - Humberto Theodoro Junior - Capítulo VIII EMBARGOS DE TERCEIRO § 20. GENERALIDADES Sumário: 200. Conceito. 201. Natureza jurídica. 202. Requisitos. 203. Ato judicial atacável. 203-A. Posse direta e posse indireta, em embargos de terceiro. 204. Penhora de bem alienado em fraude contra credores. 205. Embargos a atos do juízo divisório. 205-A. Embargos de terceiro e desconsideração da personalidade jurídica. 206. Embargos do credor com garantia real. 206-A. Embargos do credor com garantia de alienação fiduciária. 207. Embargos e mandado de segurança. 200. Conceito O processo consiste numa relação jurídica que liga entre si o autor, o réu e o Estado-juiz, de sorte que a sujeição aos efeitos dessa relação, evidentemente, não devem se fazer sentir além das pessoas que a compõem. Nessa ordem de ideias, a sentença, que corresponde à prestação jurisdicional no processo de conhecimento, só faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não prejudicando terceiros (NCPC, art.5061). Res inter alios iudicata tertio neque nocet neque prodest. Se isto é verdade quanto ao comando direto do julgado, o mesmo não se pode dizer das suas consequências indiretas ou reflexas, que frequentemente atingem relações outras da parte com terceiro, cuja eficácia prática estaria a depender justamente do direito discutido no processo. Daí a permissão para que o terceiro, mesmo não tendo sua relação jurídica discutida no processo, nele possa intervir por meio de remédios como a assistência (art. 1192) e o recurso de terceiro interessado (art. 9963), com o fito de coadjuvar uma das partes a obter sentença favorável, e, com isso, indiretamente, buscar preservar seu interesse na conservação de situação jurídica necessária à boa execução de seu direito (não litigioso) contra a parte assistida. Da mesma forma, no processo de execução, a atividade satisfativa do Estado posta à disposição do credor se desenvolve por meio de uma relação jurídica em cujo polo passivo figura o devedor. São, pois, os bens do devedor que haverão de ser atingidos pelas medidas constritivas voltadas para a preparação e realização da prestação a que faz jus o credor. Só ele, em princípio, há de sujeitar-se por meio de seus bens, presentes e futuros, à atividade sancionatória desenvolvida na execução forçada. Ultrapassando o limite da responsabilidade executiva do devedor (art. 7894), e sendo atingidos bens de quem não é sujeito do processo, comete o poder jurisdicional esbulho judicial, que, evidentemente, não haverá de prevalecer em detrimento de quem se viu, ilegitimamente, prejudicado pela execução forçada movida contra outrem. Daí a existência dos embargos de terceiro, remédio processual que a lei põe à disposição de quem, não sendo parte no processo, sofrer constrição ou ameaça de constrição sobre bens que possua ou sobre os quais tenha direito incompatível com o ato constritivo (art. 6745). Enquanto na intervenção assistencial, o terceiro se intromete em processo alheio para tutelar direito de outrem, na esperança de, indiretamente, obter uma sentença que seja útil a seu interesse dependente do sucesso da parte assistida, nos embargos, o que o terceiro divisa é uma ofensa direta ao seu direito ou à sua posse, ilegitimamente atingidos num processo entre estranhos. Na intervenção, portanto, o assistente apresenta-se como titular de um direito dependente, que, sem estar em jogo no processo, pode ser indiretamente prejudicado pela derrota da parte assistida. Nos embargos, a defesa é de um direito autônomo do terceiro, estranho à relação jurídica litigiosa das partes do processo primitivo e que, a nenhum título, poderia ser atingido ou prejudicado pela atividade jurisdicional. Trata-se de remédio processual que o embargante utiliza para tutelar uma posição jurídica material autônoma, distinta e incompatível com aquela que envolve os primitivos litigantes.6 Aproximam-se os embargos de terceiro da ação especial denominada “oposição” (art. 6827). Distinguem-se dela, todavia, porque a oposição é típica ação interligada de conhecimento, voltada diretamente a discutir o direito ou a coisa disputada pelas partes da causa primitiva. O opoente ataca diretamente a pretensão daquelas partes e procura contrapor-lhe um outro direito capaz de excluir, em caráter prejudicial, tanto o do autor como o do réu. Já nos embargos de terceiro, o objetivo visado não é o direito das partes em litígio, mas o ato estatal do juiz que indevidamente constringiu ou ameaçou constringir bem de quem não era parte no processo. Não há ataque ao direito nem do autor nem do réu, que poderão continuar a ser atuados, normalmente, mesmo após o sucesso dos embargos de terceiro, o que não se passa quando é procedente a oposição, já que a sentença aniquila todas as pretensões deduzidas pelas partes do processo primitivo. Deve, destarte, o embargo de terceiro ser conceituado como a “ação proposta por terceiro em defesa de seus bens contra execuções alheias”.8 Em outras palavras, trata-se de uma ação de conhecimento ajuizada com o intuito de evitar ou de desfazer uma constrição judicial indevida, não se confundindo com as ações próprias para a defesa do domínio.9 201. Natureza jurídica Como sempre ocorre com os procedimentos especiais, a ação de embargos de terceiro engloba elementos heterogêneos, apresentando-se como figura complexa, onde se mesclam traços de natureza jurídica múltipla. Há, entre eles, uma natural carga declaratória, em torno da ilegitimidade do ato executivo impugnado. Há, também, um notável peso constitutivo, pois, reconhecido o direito do embargante, revogado terá de ser o ato judicial que atingiu ou ameaçou atingir seus bens. Há, enfim, uma carga de executividade igualmente intensa, porquanto a atividade jurisdicional não se limita a declarar e constituir. Vai além e, tão logo reconhecido o direito do embargante, atos materiais do juízo são postos em prática para liberar o bem constrito e pô-lo novamente sob a posse e disponibilidade efetivas do terceiro. A atividade material – característica dos procedimentos executivos lato sensu, como o da ação de despejo e dos interditos possessórios – está presente nos embargos de terceiro, já que, independentemente de uma posterior actio iudicati, medidas concretas de efetivação do comando jurisdicional em prol do embargante são atuadas de imediato, até mesmo em caráter liminar (NCPC, art.67810). Assim, os embargos de terceiro configuram ação autônoma, com aptidão para acertamento definitivo e exauriente da lide neles debatida, bem como com força capaz de gerar coisa julgada material em torno do direito dominial ou da posse reconhecida ou negada ao embargante (art. 681).11 202. Requisitos Os embargos de terceiro são manejáveis por proprietário, inclusive fiduciário, ou por possuidor (NCPC, art.674, §1º). Requisitos dessa medida, portanto, são o direito ou a posse do terceiro a justificar a exclusão dos bens da medida executiva que se processa entre estranhos ao embargante.12 Há quem veja nessa ação uma espécie de interdito possessório utilizável no âmbito das turbações ou esbulhos judiciais. Seu âmbito, porém, é maior do que o dos interditos. Não se limita à tutela puramente possessória. Na verdade, qualquer direito material incompatível com o ato executivo pode ser arguido e protegido por meio da ação especial do art.674 do novo Código de Processo Civil. Como ensina Pontes de Miranda, “os embargos de terceiro são a ação do terceiro que pretende ter direito ao domínio ou outro direito, inclusive a posse, sobre os bens penhorados ou por outro modo constritos”.13 Enquanto os interditos se restringem à questãopossessória, sendo-lhes estranha a questão dominial, a sistemática dos embargos expressamente abrange o domínio ou qualquer outro direito, real ou pessoal, que assegure ao embargante a posse sobre o bem indevidamente atingido pela execução alheia.14 Seguindo esse entendimento, a jurisprudência tem assentado que “são cabíveis embargos de terceiro em favor de quem, embora não tendo a posse, é titular inquestionável do domínio de bem que, por tal circunstância, não pode sofrer, no processo, apreensão judicial”.15 Principalmente quando o ato impugnado tende à alienação judicial, como é o caso da penhora, não teria sentido consentir na sua manutenção apenas pelo fato de o dono não contar com a posse atual sobre o bem constrito. É, sem dúvida, o seu domínio que estará sendo ameaçado com a perspectiva da expropriação judicial, e o remédio a seu alcance não pode ser outro senão os embargos de terceiro.16 Não cabe ao embargante, porém, imiscuir-se no processo alheio para discutir o direito das partes ou os atos ali praticados. A função dos embargos é tão somente a de demonstrar o direito do embargante e sua incompatibilidade com a medida judicial em curso no processo alheio. Assim, o terceiro, não sendo parte na execução, não pode, por exemplo, alegar nulidade desta nem irregularidade do título do exequente.17 Em suma, o sucesso dos embargos subordina-se aos seguintes requisitos: (a)existência de medida executiva em processo alheio; (b)atingimento de bens de quem tenha direito ou posse incompatível com a medida; e (c)tempestividade: interposição: (i) no processo de conhecimento, enquanto não transitada em julgado a sentença; (ii) no cumprimento da sentença ou no processo de execução, até cinco dias depois da adjudicação, da alienação por iniciativa particular ou da arrematação, mas sempre antes da assinatura da respectiva carta.18 Não basta, outrossim, ao embargante provar que não é parte no processo em que ocorreu a constrição judicial atacada, pois há na lei casos em que se dá a chamada responsabilidade executiva de terceiro. Cumpre-lhe, pois, comprovar que não é parte da execução nem seus bens se acham legalmente alcançáveis pela atividade executiva alheia, ou seja, que não se acha incluído nas situações previstas nos arts.790 e 792.19 O que haverá de restar positivado é a incompatibilidade do direito do embargante com a execução pendente. 203. Ato judicial atacável Destinam-se os embargos de terceiro a impedir ou fazer cessar a constrição ou ameaça de constrição sobre bens que possua ou sobre os quais tenha direito incompatível com o ato constritivo, por ato de apreensão judicial derivado de processo alheio (art. 674). Esses atos eram arrolados no CPC/1973 (art. 1.046, caput) como a penhora, o depósito, o arresto, o sequestro, a alienação judicial, a arrecadação, o arrolamento, o inventário e a partilha. O novo Código, diferentemente do anterior, optou por não enumerar, nem mesmo exemplificativamente, as hipóteses em que podem ocorrer as constrições. E, no art.674, faz referência expressa a terceiro que tenha “direito incompatível com o ato constritivo”, a sugerir a possibilidade de os embargos serem manejados em situações que envolvam bens imateriais, prática, aliás, constante nos tribunais do país, nos últimos anos.20 Por essa razão, mesmo antes da reforma do Código processual, já defendíamos que não haveria motivo para justificar certa postura restritiva que busca limitar aos atos de apreensão e depósitos judiciais (arresto, sequestro, penhora etc.) o cabimento dos embargos de terceiro, excluindo de seu alcance casos como o dos mandados possessórios e de despejo. Esse entendimento, há muito tempo francamente minoritário, agride a mens legis, que outra não é, segundo a tradição de nosso direito, que a de impedir qualquer turbação ou esbulho judicial contra domínio ou posse de quem não figura como parte no processo. A melhor doutrina e a jurisprudência dominante andam certas, portanto, quando admitem os embargos de terceiro, entre outros casos, para impedir o cumprimento de mandados possessórios e de despejo sempre que se demonstrar que estranhos ao processo estarão ameaçados pelo ato executivo.21 Ora, o fim do instituto é preservar a incolumidade dos bens de terceiro em face do processo de que não participa, podendo ser atacado por via dos embargos de terceiro qualquer ato executivo realizado ou ameaçado, indevidamente. O dano temido é o que provém da atividade executiva da jurisdição. Com os embargos impedem- se atos materiais do juízo na esfera do patrimônio de quem não deve suportar a eficácia do processo alheio. Não é função desse remédio permitir a intromissão do terceiro no processo de conhecimento para influir no julgamento da lide. Para tanto, o caminho disponível é o da “oposição”. Mas atacar ato executivo pode ocorrer não apenas no processo de execução forçada, pois também no processo de conhecimento o juiz, eventualmente, pode determinar medidas constritivas ou que tendem imediatamente à constrição de bens. Não importa, destarte, o tipo de processo; o que é importante é definir a possibilidade de a medida ordenada pelo juiz influir sobre o patrimônio alheio, afetando o direito ou a posse sobre bens de estranho à relação processual. O art.675,22 ao cuidar do cabimento temporal dos embargos, menciona expressamente a possibilidade de seu manejo ainda no curso do processo de conhecimento. A própria sentença, com que se encerra o processo de conhecimento, pode ela mesma ser um ato executivo, como nas ações constitutivas e nas executivas lato sensu (v.g., ações possessórias e de despejo). Se o terceiro se sente ameaçado, em seus bens, pela sentença proferida contra outrem, não precisa aguardar o ato concreto de execução do julgado. A ameaça, em si, já leva o terceiro a se avizinhar, diante da sentença, da sua natural eficácia constritiva. No caso de sentença constitutiva, ela mesma produz de imediato o prejuízo ao direito do terceiro, representado pela invasão, indevida, de sua esfera jurídica. Pela natureza dos embargos – remédio apenas de defesa do terceiro – é bom lembrar que por seu intermédio não se invalida ou se desconstitui a sentença dada em processo alheio. Apenas se impede que sua eficácia atinja o patrimônio de quem não foi parte na relação processual. Nesse sentido é irrelevante a circunstância de haver ou não passado em julgado a sentença. A res iudicata é fenômeno que só diz respeito aos sujeitos do processo, pelo que não representa empecilho algum à defesa do terceiro contra os efeitos da sentença.23 203-A. Posse direta e posse indireta, em embargos de terceiro Quando, em virtude de direito pessoal ou real, a posse de um mesmo bem se desdobra em direta e indireta, entre pessoas distintas, o exercício de uma delas não anula o da outra, como expressamente dispõe o art.1.197 do Código Civil. A tutela possessória, por isso, pode ser deferida até mesmo em favor do possuidor direto contra o indireto, segundo o mesmo dispositivo legal. A questão se complica quando terceiro obtém reintegração de posse contra o possuidor indireto, e pretende executar a sentença, despojando o possuidor direto do bem que se acha em seu poder, sem que tenha sido parte no processo em fase de execução. Imagine-se o caso de compromisso de compra e venda cujo promissário comprador tenha contratado locação com terceiro. Na pendência da relação locatícia, o locador deixa de cumprir o compromisso e o alienante obtém rescisão da promessa de contratar e, em consequência, é-lhe deferida, por sentença, a reintegração de posse sobre o bem compromissado. Poder-se-ia pensar que o mandado reintegratório expedido contra o ex-promissário comprador seria exequível contrao terceiro locatário? Já defendeu-se a tese de que, sendo a posse do locatário cedida pelo promissário, não o credenciaria a resistir à execução da sentença de reintegração, porque, “resolvida a posse do locador”, resolvida também ficaria a do locatário.24 O entendimento, todavia, não prevalece nem na jurisprudência dominante, nem na doutrina. É irrecusável o direito do possuidor direto (locatário, comodatário etc.) de se valer dos embargos de terceiro para a defesa de sua posse, oponível até mesmo contra o possuidor indireto (locador, comodante etc.). Sendo lícita a contratação do arrendamento, não pode a posse dele derivada legitimamente ser ignorada em execução de reintegração de posse, em processo do qual não foi parte o inquilino. Não se trata de um sucessor do promissário comprador (o locador), mas de alguém que adquiriu situação jurídica própria, que somente se sujeita a desconstituição em processo contra ele regularmente movido:25 “O que não foi parte em ação possessória, reivindicatória ou de despejo e possuir pode embargar para o fim de continuar na posse, até que seja proferida sentença eficaz contra ele”.26 A inoponibilidade da reintegração de posse ao inquilino que não foi parte na ação de resolução do compromisso de compra e venda não quer dizer que o vencedor naquela demanda não tenha como despejar o possuidor direto (locatário). De fato, não está obrigado a manter a locação ajustada pelo promissário comprador. Mas, para fazê-lo, terá de lançar mão da necessária ação de despejo, pois só assim obterá título executivo contra o locatário, que não se acha ao alcance da coisa julgada formada inter alios. Enquanto não existir sentença contra o possuidor direto legítimo, não pode a sentença de reintegração de posse pronunciada contra o promissário comprador ser executada contra o locatário estranho ao processo possessório, porque é elementar a regra de que “a sentença faz coisa julgada às partes entre as quais é dada, não beneficiando, nem prejudicando terceiro”.27 Se não foi ilícita a contratação da locação pelo promissário comprador, não há como recusar ao locatário acesso aos embargos de terceiro, para impedir que a sentença proferida em processo de que não foi parte venha a excluir, drasticamente, sua posse legítima. Essa sistemática processual é a que decorre da garantia fundamental ao devido processo, outorgada pela Constituição (art. 5º, LIV). Sua aplicação se dá não apenas ao inquilino do bem litigioso. Estende-se a todos os casos de possuidor direto, quando a sentença seja pronunciada perante o possuidor indireto, tão somente. 204. Penhora de bem alienado em fraude contra credores Muito se discutiu sobre a possibilidade de manter a penhora sobre o bem fraudulentamente alienado pelo devedor insolvente, mediante comprovação da fraude contra credores no próprio bojo da ação de embargos de terceiro manejada pelo adquirente. Depois de muita vacilação, finalmente pacificou-se a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal no sentido de que a fraude à execução, por ato ineficaz (NCPC, art.790,28 V), pode ser incidentemente alegada e reconhecida no bojo dos embargos de terceiro. Não, porém, a fraude contra credores, visto que, na sistemática do direito positivo brasileiro, cuida-se apenas de negócio jurídico anulável (CC, arts.158, 159 e 171, II). Se a aquisição, na espécie, não é nem nula nem ineficaz, a propriedade do bem cabe, de fato e de direito, ao terceiro adquirente, enquanto não ocorrer a anulação do negócio fraudulento por meio da competente ação pauliana (CC, art.161). Ficando a responsabilidade executiva restrita aos bens do devedor (NCPC, art.78929), não se sujeitam à penhora os bens anteriormente alienados, ainda que em fraude dos credores existentes. E se os bens, antes da ação pauliana, integram patrimônio diverso do sujeito à execução, irregular é a penhora feita antes da adequada revogação do ato de disposição. Ajuizados os embargos de terceiro, não seria possível ao credor invocar em singela contestação o que, pela lei, depende de anterior ação e sentença constitutiva. Daí que, inquestionavelmente, não cabe, sem quebra da sistemática do próprio tratamento legal da fraude, pretender solucionar semelhante conflito no campo acanhado dos embargos de terceiro. Pode não ser esta a orientação mais simples e mais barata, mas é a que corresponde ao direito positivo brasileiro. De tal sorte correta é a orientação atual do Pretório Excelso: “A ação própria para anular o ato viciado por fraude contra credores é a pauliana, sendo incabível a pretensão em via de embargos de terceiro, conforme se firmou na mais recente jurisprudência do Plenário e das Turmas do STF”.30 No STJ, a matéria já está sumulada (Súmula nº 195). 205. Embargos a atos do juízo divisório Pondo fim a uma antiga polêmica sobre serem ou não admissíveis os embargos de terceiro em face do juízo de divisão e demarcação, o Código de 1973, esposando a teoria da melhor doutrina, dispôs, de forma expressa, que se prestam ditos embargos, além dos ataques aos atos executivos comuns, também “para defesa da posse, quando, nas ações de divisão ou de demarcação, for o imóvel sujeito a atos materiais, preparatórios ou definitivos, da partilha ou da fixação de rumos” (art. 1.047, I). O NCPC não repetiu expressamente a regra, mas ela ainda é aplicável, uma vez que o art.674 determina, de forma ampla, serem os embargos admissíveis contra “constrição ou ameaça de constrição sobre bens que possua ou sobre os quais tenha direito incompatível com o ato constritivo”. Ora, os atos materiais, que preparam ou realizam a divisão e a demarcação, embora não sejam atos propriamente de constrição judicial, são, sem dúvida, suficientes para molestar a posse de terceiro sobre o terreno, não só pela presença física dos agentes do juízo e sua atividade técnica no local, como também pela iminência de se transformarem em atos definitivos de adjudicação de domínio e posse em favor de comunheiros e confrontantes pela conclusão do procedimento. Basta, pois, existir um processo de divisão ou demarcação, envolvendo uma área de terceiro, para que se considere ocorrente a ameaça à sua posse, ou ao seu domínio, de forma a legitimar a reação do molestado, pela via dos embargos de terceiro. No processo divisório, que é abrangente de atos executivos e de conhecimento, e que, depois da sentença, ainda admite execução forçada para entrega de coisa certa, os embargos podem ser admitidos desde o estágio de cognição até a consumação da execução forçada, pela efetiva imissão de posse em favor do quinhoeiro ou da parte que promoveu a demarcação. O terceiro pode, desde logo, impedir o início dos trabalhos de campo, como pode, depois do julgado, impedir a execução de entrega de coisa certa, tudo isso por meio de oposição dos embargos. Exaurido, porém, o procedimento, com a efetiva imissão de posse, só pelas vias ordinárias poderá o terceiro prejudicado agir contra a violação que lhe acarretou o juízo divisório. Admitem-se os embargos tanto sobre todo o imóvel dividendo ou demarcando como sobre uma porção certa e localizada dele. Têm legitimidade para propô-los os confinantes, nas hipóteses dos arts.57231e 594,32 bem como quaisquer outros estranhos que mantenham posse ad interdicta sobre o imóvel ou parte dele. Em se tratando de comunheiro do prédio dividendo, sua posse pro diviso não é suficiente para justificar os embargos de terceiro, visto que não impede a partilha nem é contrária à natureza da própria comunhão a dissolver. Será essa posse localizada simplesmente levada em conta entre os vários critérios de formação dos quinhões. Não se consideram, outrossim, terceiros os sucessores, a título singular ou universal, dos comunheirosdo imóvel submetido ao juízo divisório. Sobre o tema dos embargos de terceiros em face das ações de divisão e demarcação, consulte-se, ainda, nosso Terras Particulares – Demarcação, Divisão e Tapumes. 5. ed. São Paulo, Saraiva, 2009, nos 124, 214 e 327, p. 215, 360 e 541. 205-A. Embargos de terceiro e desconsideração da personalidade jurídica Pelo incidente de desconsideração da personalidade jurídica, é viável desviar-se a execução movida contra pessoa jurídica para alcançar, em penhora, bens particulares do sócio. Por isso, afirmada e reconhecida a responsabilidade patrimonial do sócio, a eventual disposição de bens por ele praticada, reduzindo-o à insolvência e inviabilizando a penhora, após a desconsideração, configura fraude à execução, mantida a sujeição do bem alienado à execução pendente (NCPC, art.137). Ao adquirente, todavia, cabe defender-se por meio dos embargos de terceiro, quando a alienação tiver ocorrido em circunstâncias que a excluam dos efeitos da fraude prevista no aludido art.137, conforme disposição expressa do art.792, §4º, todos do CPC. O problema que tem surgido refere-se às alienações efetuadas pelo sócio antes do reconhecimento judicial da procedência da pretensão de desconsiderar a personalidade jurídica da empresa executada. Controvertia-se quanto ao momento em que se tornava configurável a fraude de execução, se desde o ajuizamento da execução contra a pessoa jurídica ou se a partir da citação do sócio na arguição incidental da desconsideração (momento processual em que o redirecionamento da execução teria se dado). Dirimindo a questão, decidiu o STJ que “a fraude à execução só poderá ser reconhecida se o ato de disposição do bem for posterior à citação válida do sócio devedor, quando redirecionada a execução que fora originariamente proposta em face da pessoa jurídica”.33 O entendimento daquela Corte Superior foi firmado em um caso concreto em que, ao tempo da alienação questionada, corria demanda executiva apenas contra a empresa da qual os alienantes eram sócios, tendo, porém, a desconsideração da personalidade jurídica ocorrido mais de três anos após a venda do bem. Com isso, o reconhecimento da fraude à execução se tornou inviável, assegurando ao adquirente a procedência dos embargos de terceiro. 206. Embargos do credor com garantia real É velha e ainda não inteiramente solucionada a polêmica sobre a penhorabilidade, ou não, do bem hipotecado ou gravado de outra garantia real, em ação do credor quirografário. Procurando tomar posição diante do conflito, o Código de 1973 adotou algumas premissas, que foram mantidas pelo NCPC: (a)não incluiu o bem hipotecado ou gravado com outras garantias reais entre os bens impenhoráveis (NCPC, arts.833 e 83434); (b)previu a obrigação do credor de promover a intimação do credor hipotecário, pignoratício ou anticrético, sempre que o bem gravado fosse atingido pela penhora (art. 799, I35); (c)conferiu ao credor com garantia real embargos de terceiro para “obstar expropriação judicial do objeto de direito real de garantia” (art. 674, §2º, IV36); e (d)finalmente, limitou a defesa do exequente embargado, perante o credor com garantia real, às alegações de “insolvência” do devedor, “nulidade” ou “inoponibilidade a terceiro” do título do embargante e não alcance do gravame real sobre a coisa penhorada (art. 68037). Desse conjunto normativo fácil é concluir que o novo Código se mantém filiado à corrente antiga que procura preservar da execução quirografária o objeto da garantia real dada a outro credor. Isto porque a experiência da vida nos ensina que nem todo momento é adequado para uma útil venda judicial, sendo mesmo frequentes os casos de arrematação ruinosa, a preços muito inferiores às cotações de mercado, simplesmente por influência das circunstâncias da execução forçada. Procurou o legislador, por isso, preservar, quanto possível, o credor com garantia real das vicissitudes da execução alheia, conferindo-lhe remédio processual para obstar a venda judicial, quando não fosse ela do interesse do titular do direito real. Não deixou, porém, a venda judicial ao puro alvedrio do credor hipotecário, pignoratício ou anticrético pois permitiu ao credor quirografário exequente impugnar os embargos dos primeiros mediante invocação do estado de insolvência do devedor comum (art. 680, I38). Isto quer dizer que o credor hipotecário ou pignoratício, em princípio, pode impedir a execução alheia sobre sua garantia real. Mas não pode fazê-lo se o devedor estiver em dificuldades financeiras, de molde a evidenciar a inexistência de outros bens livres para responder pela obrigação quirografária. Essa, a meu ver, é a única forma de conciliar sistematicamente os dispositivos do CPC/1973, mantidos pelo NCPC, os quais, ao mesmo tempo que não incluem os bens da garantia real entre os impenhoráveis, conferem também embargos de terceiro ao titular daquela garantia para obstar a arrematação dos mesmos bens quando penhorados por outrem.39 É que, provando-se a insolvência do devedor executado, rejeitados serão os embargos do credor com garantia real. Sendo, contudo, normal a situação do patrimônio do devedor, e podendo o credor quirografário contar com outros bens para realizar a execução forçada, serão preservados aqueles vinculados à garantia real. A insolvência de que fala o art.680, inc. I, não é necessariamente a proveniente da sentença de falência ou da sentença que abre a execução coletiva do devedor civil. Para repelir os embargos do credor hipotecário ou pignoratício, bastará ao embargado demonstrar a situação patrimonial deficitária do executado, ou a inexistência de outros bens livres a penhorar. Aliás, pelo próprio Código, o simples fato de só possuir o devedor bens gravados já funciona como presunção legal de insolvência (CPC/1973, art.750, I, que permanecerá vigente até a edição de lei específica, nos termos do art.1.05240 do NCPC). Em suma, “ainda que não esteja vencida a hipoteca, podem os credores quirografários penhorar o bem gravado, se há insolvência ou se não há outros bens”, como sempre ensinou a melhor doutrina.41 Nesse sentido foi a exegese a que chegou o STF quando assentou que, tendo sido o credor hipotecário regularmente intimado do praceamento promovido pelo credor quirografário, “não poderá impedir que se faça a arrematação, salvo se tiver alegado nos embargos e comprovado que o devedor possui outros bens sobre os quais poderá incidir a penhora”.42 Vale dizer que o pressuposto da penhorabilidade, na espécie, é justamente não contar o credor quirografário com outros bens do devedor para excutir. Desde que se demonstre a existência desses bens livres, o credor hipotecário consegue êxito nos embargos destinados a liberar sua garantia real da execução alheia. 206-A. Embargos do credor com garantia de alienação fiduciária Quando se estabelece a alienação fiduciária em garantia, o credor fiduciário adquire a propriedade resolúvel sobre o bem gravado, enquanto não for solvida a obrigação contraída pelo exproprietário (devedor fiduciante). A este cabe apenas o direito de recuperar a propriedade quando do resgate do débito garantido. Ou seja: “com a constituição da propriedade fiduciária, dá-se o desdobramento da posse, tornando-se o devedor [apenas] possuidor direto da coisa” (CC, art. 1.361, § 2º). Possuirá, desde então, coisa alheia. A propriedade, sem embargo de resolúvel, é toda do credor (C. Civ., art.1.361, caput), a quem cabe a posse indireta, a qual se tornará direta, se o devedor inadimplir a obrigação. Ocorrendo esta hipótese, a propriedade fiduciária se transformará em definitiva, permitindo ao credor alienar o bem para se pagar com o preço apurado (C. Civ., art.1.364).Diante dessa situação de direito material, forçoso é reconhecer que o bem alienado fiduciariamente não pode ser objeto de penhora em execução ajuizada contra o devedor fiduciante. Com efeito, em tais circunstâncias, não integrando o patrimônio do executado, o bem por ele alienado fiduciariamente não pode, à evidência, ser objeto de penhora.43 Portanto, se ocorrer penhora em tais circunstâncias, terá havido, no entender do Supremo Tribunal Federal, violação, em nível constitucional, do direito de propriedade. Não só a garantia do devido processo legal teria sido ofendida, como também “a propriedade do credor garantido pela alienação fiduciária de bens determinados”. Ainda segundo a Suprema Corte, em defesa desse direito fundamental (mesmo que circunstancialmente se apresente resolúvel), não se pode recusar ao credor fiduciário o uso dos embargos de terceiro, sob pena de ser-lhe denegado o acesso à justiça.44 Induvidoso, como se vê, o direito do credor fiduciário de defender sua propriedade por meio dos embargos de terceiro, quando o bem gravado por alienação fiduciária em garantia for indevidamente alcançado por penhora em execução movida contra o devedor fiduciante.45 207. Embargos e mandado de segurança A apreensão judicial de bem que não pertença às partes do processo, ou que afete a posse legítima de terceiro, é, em si, um ato de autoridade ilegítimo ou abusivo. A relação jurídica processual não autoriza o juiz, em princípio, ir além dos seus limites subjetivos e objetivos. Portanto, se alguém que não é parte do processo sofrer turbação ou esbulho por decorrência de ato judicial, e se contar com prova documental para demonstrar, de plano, a ilicitude de que foi vítima, estará exatamente na hipótese em que a Constituição da República assegura a proteção por mandado de segurança (CF, art.5º, LXIX). Com efeito, o que dispõe a Carta Magna, a propósito desse remédio processual enérgico, é que ele será concedido (i) para proteger direito líquido e certo, (ii) quando o responsável pela ilegalidade ou abuso de poder for autoridade pública. Diante, portanto, de um quadro como o exposto, o terceiro que sofreu constrição ou ameaça de constrição por decisão judicial reunirá condições para se defender tanto pela via dos embargos de terceiros (NCPC, art.674) como do mandado de segurança (CF, art.5º, LXIX). A hipótese é uma daquelas em que a ordem jurídica põe à disposição da parte tutelas jurisdicionais diferenciadas, todas aptas a proporcionar-lhe o mesmo resultado jurídico. Ao interessado caberá optar por uma delas, segundo suas conveniências e as particularidades do caso concreto. A lei processual ao instituir um procedimento, nem sempre o faz com o fito de transformá-lo na única via de acesso à justiça. Mais de um remédio processual pode estar ao alcance do titular do direito lesado ou ameaçado para buscar a tutela devida. A jurisprudência, por isso mesmo, tem assentado que “é lícito ao terceiro prejudicado requerer mandado de segurança contra ato judicial, em lugar de interpor, conta ele, embargos de terceiro”.46 Nessa mesma linha, é de jurisprudência sumulada que “a impetração de segurança por terceiro, contra ato judicial, não se condiciona à interposição de recurso” (Súmula nº 202 do STJ). Mutatis mutandis, a situação é a mesma: o terceiro prejudicado pode impetrar mandado de segurança, sem ser obrigado a se valer dos embargos do art.674 do NCPC, desde, é claro, que reúna todos os requisitos previstos no art.5º, LXIX, da Constituição. Além de tudo, é importante lembrar que o tempo útil para manejo dos embargos de terceiro é diminuto e pode exaurir-se antes daquele previsto para a ação de segurança: (i) no processo de conhecimento, os embargos só podem ser opostos antes do trânsito em julgado da sentença, e, (ii) no cumprimento da sentença ou no processo de execução só até cinco dias depois da adjudicação, da alienação por iniciativa própria ou da arrematação, sempre antes da assinatura da respectiva carta (art. 67547). O acesso à justiça para o terceiro, se ficasse sempre restrito aos embargos, restaria desnecessariamente prejudicado, quando estivessem presentes os requisitos constitucionais do mandado de segurança. Mas, se o terceiro já opôs embargos, faltar-lhe-á interesse de agir para justificar a impetração de mandado de segurança contra o mesmo ato judicial.48 Ademais, é preciso estar atento a que o mandado de segurança é ação especialíssima, que não conta com dilação probatória ao longo de seu processamento. A prova das alegações do impetrante tem de ser pré- constituída, para conferir liquidez e certeza, ao direito para o qual se postula a tutela. Logo, se o interessado não conta com esse tipo de prova, somente pela via dos embargos de terceiro poderá atacar o ato judicial abusivo.49 § 21. PROCEDIMENTO Sumário: 208. Legitimação ativa. 209. Legitimação ativa do prestador de garantia real a dívida de terceiro. 210. Legitimação ativa de quem participou do processo primitivo. 211. Legitimação passiva. 212. Oportunidade. 213. Competência. 214. Procedimento. 215. Sentença. 215-A. Verbas sucumbenciais. Princípio da causalidade. 208. Legitimação ativa I – Legitimados pelo NCPC Conforme o texto do art.674, a legitimidade para propor embargos de terceiro cabe a quem não figura como parte no processo pendente e, não obstante, sofre constrição ou ameaça de constrição sobre bens que possua ou sobre os quais tenha direito incompatível com o ato de apreensão judicial. A questão, porém, não se restringe à singela verificação de estar ou não o embargante figurando em um dos polos da relação processual preexistente, pois a própria Lei, no §2º do art.674, indica quem é considerado terceiro, para ajuizamento dos embargos. Ou seja, várias são as situações em que uma pessoa se sujeita a atos executivos sem ter sido parte no processo em que se emitiu a ordem de constrição judicial (sucessor, sócio solidário etc.). Correta, portanto, a lição de Pontes de Miranda, para quem aquele que não foi parte no processo, a que alude o art.674, deve ser entendido como “aquele que não participa da eficácia do ato judicial”.50 Em outras palavras, “é preciso, para embargar como terceiro, que não tenha ele participado do juízo, nem a respeito dele tenha força ou efeito o julgado”.51 “No fundo, os embargos de terceiro são ação para que o juiz respeite os princípios concernentes à eficácia das sentenças, notadamente aos seus limites”.52 Feitas essas considerações, passamos a identificar aqueles que, para fins do NCPC, em situações especiais, são considerados terceiros. Assim é que são, expressamente autorizados, pelo art.674, §2º,53 a manejar os embargos de terceiro: (a) O cônjuge ou companheiro, quando defende a posse de bens próprios ou de sua meação, ressalvando-se a situação de penhora de bem indivisível, de que trata o art.84354 do NCPC55 (inciso I). 209. Legitimação ativa do prestador de garantia real a dívida de terceiro Quando alguém oferece bem próprio para garantir dívida de outrem, o credor passa a dispor de duas ações; (i) uma ação pessoal contra o devedor e (ii) uma ação real contra o terceiro garante, limitada à excussão do bem gravado, que podem ser exercidas cumulativa ou separadamente. Mas, se a pretensão é fazer cumprir a responsabilidade patrimonial que recai sobre o bem gravado de ônus real, é indispensável que o terceiro garante figure como parte passiva da execução, seja esta movida apenas contra ele ou em litisconsórcio com o devedor pessoal.62 Portanto, se o bem hipotecado é penhorado e submetido à expropriação executiva sem que o garante tenha sido citado, a constrição judicial terá alcançado bem de quem não é parte do processo. Logo, não figurandona relação processual, terá o terceiro hipotecante “legitimidade para opor embargos de terceiro”, como reiteradamente decide o STJ.63 Advirta-se que para o terceiro garante se tornar parte da execução não basta sua mera intimação, sendo necessária a citação na qualidade de executado, pois só assim poderá integrar o polo passivo da relação processual e suportar, legitimamente, a expropriação sobre o bem próprio dado em garantia da dívida de outrem. Ausente a citação, irrecusável é o reconhecimento de sua legitimação à propositura dos embargos de terceiro, na espécie. 210. Legitimação ativa de quem participou do processo primitivo Importante ressaltar, por oportuno, alguns exemplos de pessoas que conservam a legitimidade para os embargos, embora tenham participado do processo primitivo: (a) O substituto processual, i.e., aquele que litiga em nome próprio, mas na defesa de direito alheio, já que a eficácia do julgado deverá atingir a parte em sentido material (o titular do direito defendido pelo terceiro).64 A jurisprudência antiga do STJ entendia não ter legitimidade ativa para opor embargos de terceiro aquele que sucedeu a parte litigante, ainda que ignorasse o vício litigioso.65 Isso porque, nos termos do art. 42, § 3º, do CPC/1973,66 seria ele considerado parte e, não, terceiro. O NCPC adotou orientação diversa, na medida em que, ao tratar da fraude à execução admite, expressamente, que o terceiro adquirente oponha embargos de terceiro para discutir a licitude da alienação ou a sua boa-fé no ato de aquisição (art. 792, §4º).67 (b) O assistente, que figura no processo, mas defende direito apenas do assistido.68 (c) A mulher casada que, na execução do marido, foi intimada da penhora, e nos embargos defende, em nome próprio, sua meação e os bens próprios. A par dos casos de partes do processo executivo que se legitimam a propor os embargos de terceiro, há também aqueles em que a pessoa, mesmo sem ter figurado diretamente no processo, não se considera terceiro para impedir o ato executivo. São exemplos dessa hipótese: (a)o sucessor da parte, a título universal ou singular, que tenha adquirido o bem litigioso no curso do processo (NCPC, art.790,69 V);70 (b)o sócio solidário, na execução de sentença contra a sociedade (NCPC, art.790, II). Com relação ao sócio, é bom de ver que, não havendo corresponsabilidade, legítima será sua atuação por meio de embargos de terceiro para impedir que sejam penhorados bens particulares na execução de débito da sociedade.71 Também o contrário é verdadeiro: a sociedade pode embargar de terceiro para defender bens sociais atingidos pela execução contra o sócio. A pessoa da sociedade, seu patrimônio e suas responsabilidades normalmente não se confundem com a pessoa do sócio, seus bens particulares e sua responsabilidade. Um caso muito frequente na jurisprudência é o do promissário comprador de imóvel. Se dispõe de título inscrito no Registro Imobiliário, acha-se na titularidade de direito real e, assim, pode opor essa posição jurídica ao exequente que penhora o bem por dívida do promitente vendedor, visto que a oponibilidade erga omnes é característica de todo direito real. Se, todavia, o compromisso não foi levado a registro, uma antiga jurisprudência do Supremo Tribunal Federal entendia que a relação meramente pessoal estabelecida entre os contratantes não poderia ser utilmente invocada em embargos de terceiro, por sua inoponibilidade ao exequente. Nem mesmo a posse do promissário comprador era tida como capaz de legitimar a oposição à penhora formalizada sobre a propriedade do promitente vendedor. Nesse sentido, dispunham a Súmula nº 621 do STF e numerosos precedentes jurisprudenciais.72 Dentro da mesma orientação, a Suprema Corte considerava ser inviável o uso de embargos de terceiros pelo comprador que, mesmo contando com escritura pública anterior à penhora, não tivesse providenciado a transcrição no Registro de Imóveis.73 Porém, com a instalação do Superior Tribunal de Justiça, a exegese pretoriana sofreu radical mudança de rumo. A tese que passou a vigorar é a que consta da Súmula nº 84 do STJ, segundo a qual “é admissível a oposição de embargos de terceiro fundados em alegação de posse advinda do compromisso de compra e venda de imóvel, ainda que desprovido do registro”. O fundamento dessa exegese, que hoje vigora plenamente, é que o confronto entre a penhora e a posse não atinge o nível do direito real, já que tanto o credor como o promissário comprador agem em juízo com base em relações obrigacionais apenas. Por isso, não há razão para prevalecer a constrição judicial diante da posse do terceiro embargante, se esta for anterior à penhora.74 Segundo a mesma linha de argumentação, fixou-se o entendimento no STJ de que o comprador, com posse efetiva sobre o imóvel adquirido, tem legitimidade para invocar a tutela dos embargos de terceiro, “independentemente da circunstância de que a escritura pública de compra e venda não tenha ainda sido levada a registro”.75 Igual orientação tem sido aplicada em favor do cônjuge, do herdeiro e do donatário, quando se opõem à penhora ocorrida antes do registro da partilha76 ou da escritura de doação.77 Urge, porém, atentar para um detalhe: a posse do promissário comprador, do adquirente e de qualquer outro titular sem título inscrito no Registro Imobiliário pressupõe que o ato constritivo embargado esteja fundado em direito pessoal. Se se tratar de execução hipotecária, não haverá lugar para arguir posse meramente contratual, visto que os direitos reais são oponíveis erga omnes e contra tal eficácia não prevalecem os direitos pessoais, nem tampouco a posse deles oriunda. Nada obstante, o STJ tem decidido que “a hipoteca firmada entre a construtora e o agente financeiro, anterior ou posterior à celebração da promessa de compra e venda, não tem eficácia perante os adquirentes do imóvel’ (Súmula nº 308 do STJ)”.78 211. Legitimação passiva Os embargos de terceiro visam a neutralizar a eficácia de ato judicial emanado de outro processo. São, pois, sujeitos passivos dessa ação todos os que, no processo originário, têm interesse nos efeitos da medida impugnada. Em princípio, não há de se distinguir entre autor e réu, para esse fim. Na execução, por exemplo, os atos executivos são de imediato interesse do credor, pelo que não se pode atacá-los sem que o exequente seja citado a defender-se. Para que não haja dúvida, o NCPC fez a opção pelo credor como legitimado passivo, pois é ele quem se beneficia do ato constritório, não o devedor. É o que determina a parte inicial da norma contida no §4º do art.677: “será legitimado passivo o sujeito a quem o ato de constrição aproveita (...)”. Mas pode acontecer que o ato de garantia da execução se fez por nomeação do próprio devedor, que, assim, também terá legitimidade para figurar no polo passivo da ação de embargos de terceiro.79 Para dirimir qualquer dúvida, o NCPC positivou essa situação, indicando que também será legitimado passivo o adversário do credor no processo principal, quando for daquele (adversário) a indicação do bem para a constrição judicial (§4º, in fine). Em cada caso, portanto, haverá de pesquisar-se a quem interessa a medida atacada, para fixar-se o polo passivo dos embargos, não sendo raro o caso de litisconsórcio passivo entre todos os sujeitos do processo primitivo.80 A participação do devedor, em qualquer hipótese, é de ser sempre admitida, desde que postulada como assistente, a forma dos arts.119 a 124 do NCPC.81 Se a oposição de embargos de terceiro ocorrer depois da expropriação (adjudicação, alienação por iniciativa particular ou arrematação; art.675), haverá de figurar no polo passivo, em litisconsórcionecessário, o exequente e o adquirente, por aplicação analógica do art.903, §4º. 212. Oportunidade Dispõe o art.67582 sobre a oportunidade de que dispõe o terceiro para fazer uso dos embargos, tratando separadamente as hipóteses de atos derivados do processo de conhecimento e de atos próprios do processo de execução: (a)se a constrição ocorre no curso de processo de conhecimento, o terceiro pode opor embargos enquanto não ocorrer o trânsito em julgado da sentença; (b)se a moléstia aos bens do estranho se dá na fase de cumprimento de sentença ou em processo de execução, a oportunidade dos embargos vai até cinco dias depois da arrematação, adjudicação ou alienação por iniciativa particular, mas nunca após a assinatura da respectiva carta. O trânsito em julgado é apontado pelo art.675 apenas como marco temporal, já que para o estranho à relação processual não se forma a res iudicata. Assim, mesmo depois de ultrapassado o dies ad quemassinalado na lei, ao terceiro sempre estará facultado o uso das vias ordinárias para reivindicar o bem constrito judicialmente. Apenas não poderá se valer da via especial dos embargos disciplinados pelo art.674. Por isso, está assente na doutrina o entendimento de que nenhum terceiro está jungido à obrigação ou ônus de usar dos embargos. Trata-se de simples faculdade que a lei lhe confere, cuja não utilização em nada afeta o direito material do interessado.83 Quanto ao cumprimento da sentença ou processo de execução, o art.675 referiu-se expressamente aos atos de expropriação próprios da execução por quantia certa (arrematação, adjudicação e alienação por iniciativa própria). Mas é claro que os embargos cabem também nas execuções de obrigação de dar. E nesse caso o dies ad quem para uso desse remédio processual irá até cinco dias do ato final de entrega do bem ao credor, isto é, do termo de entrega definitiva do bem, a que alude o art.807.84 Quando for o caso de procedimentos mistos, como os interditos possessórios e a ação de despejo85 em que a cognição e a execução se mesclam numa única relação processual, o trânsito em julgado da sentença nem sempre será o marco final da utilização dos embargos de terceiro. É que, se não houver medida liminar, a ação não se encerra enquanto não for expedido e cumprido o mandado cuja expedição determinou a sentença. Aí, cumprido esse mandado, contar-se-ão os cinco dias referidos no art.675 para as execuções forçadas. Se, porém, houve a liminar e a sentença final se limitou a tornar definitiva a reintegração ou manutenção promovida initio litis, o prazo útil do manejo dos embargos se extinguirá com o trânsito em julgado, porque aí a relação processual se exaurirá em tal momento. É de lembrar-se que, nas execuções forçadas, o retardamento da expedição da carta de arrematação ou adjudicação não dilata o prazo do art.675, que será sempre vencível no quinto dia após a lavratura do respectivo auto. Mas, se houver antecipação da carta, dar-se-á o abreviamento do prazo. É de ver-se, por importante, que os prazos do art.675 são objetivamente traçados pelo legislador em função de atos ou termos do processo, de sorte que é irrelevante saber se e quando o terceiro tomou conhecimento da medida constritiva de seus bens. A fluência e exaustão desses prazos legais independem da ciência efetiva do terceiro interessado.86 Uma importante inovação do NCPC é a possibilidade de o juiz, identificando a existência de terceiro titular de interesse em embargar o ato, mandar intimá-lo pessoalmente (NCPC, art.675, parágrafo único). Essa norma, que não constava do CPC/1973, favorece o princípio da economia processual, já que pode o juiz determinar que o terceiro seja intimado antes mesmo da constrição. A intimação não é para que o terceiro oponha, necessariamente, embargos de terceiro. O objetivo é dar oportunidade para que o terceiro se manifeste. E essa manifestação poderá ensejar que o juiz se abstenha de determinar a constrição do bem.87 “Cria-se, assim, não apenas mais um dever de atenção e cooperação para o juízo constritor, como também um pressuposto de validade de constrição. Logo, o seu descumprimento poderá gerar a nulidade do ato, a qual poderá ser convalidado por simples petição ou pelos próprios embargos, caso opostos dentro do prazo legal”.88 213. Competência Constituem os embargos de terceiro uma nova ação e uma nova relação processual. Não se trata de simples interferência do terceiro prejudicado no processo pendente. Há, porém, um vínculo de acessoriedade entre os embargos e o feito onde ocorreu o esbulho judicial sobre bens do estranho ao processo. Por isso, dispõe o art.67689 que os embargos de terceiro são distribuídos por dependência ao mesmo juiz que ordenou a constrição e autuado em apartado. Em se tratando de causa derivada de outra, quer a lei que o ato judicial impugnado seja revisto pelo próprio juiz que o determinou. Surge uma certa dificuldade de aplicação prática do art.676 quando a apreensão judicial se dá por meio do cumprimento de carta precatória. Quem seria o juiz competente para os embargos de terceiro: o deprecante ou o deprecado? O problema tem de ser solucionado à luz do caso concreto, pois a apreensão de determinado bem tanto pode ser atribuída à ordem do deprecante como do deprecado. Se a ordem deprecada por meio da carta foi genérica, como a de citação do devedor para pagar em vinte e quatro horas sob pena de penhora, a escolha e apreensão de certos e determinados bens do devedor é, sem dúvida, ato ordenado e presidido pelo juiz que dá cumprimento à deprecação. Logo, se houver violação à posse ou domínio de terceiro, os embargos deverão ser dirimidos pelo juiz deprecado, pois o ato de apreensão partiu dele. Quando, porém, a carta precatória já é expedida pelo deprecante com a especificação do bem a ser apreendido, como, v.g., nas execuções hipotecárias e nas buscas e apreensões, o deprecado age, na verdade, como simples executor material de deliberação do deprecante. Então, os embargos de terceiro terão de ser aforados e dirimidos perante o juízo de origem.90 Em qualquer caso, se os autos da precatória retornaram ao juízo deprecante com a diligência cumprida, sem que o terceiro tivesse manifestado seus embargos, a competência, então, se firma no juízo da causa, visto que o juízo deprecado já exauriu sua função no processo.91 214. Procedimento I – Petição inicial A petição inicial dos embargos, como acontece com as ações em geral, deve satisfazer as exigências do art.319. Para obtenção de medida liminar, a inicial será instruída com documentos que comprovem sumariamente a posse ou domínio do autor,92 sua qualidade de terceiro e o rol de testemunhas,93 se necessário (NCPC, art.67794). O NCPC corrigiu uma omissão do Código anterior, que não dizia expressamente que a concessão da liminar dependeria de pedido do autor, ao dispor, que a suspensão das medidas constritivas ocorrerá “se o embargante a houver requerido” (art. 678, caput, in fine). O valor da causa é o dos bens cuja posse ou domínio disputa o embargante e não o valor dado à causa onde foram eles objeto de apreensão judicial. Não poderá, entretanto, superar o valor do débito exequendo, já que, em caso de eventual alienação judicial, o que ultrapassar esse valor será destinado ao embargante e não ao exequente embargado.95 Se a penhora impugnada já se acha consumada, o valor dos embargos levará em conta a avaliação constante do processo executivo. Se isto ainda não ocorreu, o embargante estimará o valor do bem, podendo, conforme o caso, basear-se na avaliação oficial para lançamento do imposto que sobre ele recaia. Trata-se de ação acessória, mas de conteúdo próprio, pelo que correrão os embargos em autos apartadosda ação originária (art. 676, in fine). II – Concessão da liminar Como ocorre com os interditos possessórios, a ação de embargos de terceiro admite medida liminar de manutenção ou reintegração provisória de posse em favor do embargante, que, no entanto, poderá ser condicionada à prestação de caução, ressalvada a impossibilidade da parte economicamente hipossuficiente (art. 678, parágrafo único). Essa medida visa assegurar a devolução dos bens com os respectivos rendimentos, na hipótese de final improcedência do pedido do terceiro. Os bens permanecerão sob a medida judicial constritiva até a sentença, mas não se realizarão atos de alienação ou de execução que importem transferência definitiva de domínio ou de outro direito real sobre eles. Se os embargos atingem todos os bens ligados ao processo principal, o curso deste ficará suspenso enquanto não se julgar o pedido do terceiro. Sendo apenas parciais, o processo originário poderá prosseguir, mas limitado aos bens não alcançados pelos embargos de terceiro. Entretanto, para que a suspensão se dê initio litis, é preciso que o embargante a requeria e que o juiz reconheça, por decisão fundamentada, que o domínio ou a posse estão suficientemente provados. Note-se que a medida liminar é uma faculdade e não uma condição de procedibilidade na ação de embargos. O terceiro pode dispensá-la ou pode prosseguir no feito, para tentar melhor prova de sua posse ou direito, mesmo quando improcedente a justificação inicial. A caução para recebimento inicial dos bens, por parte do embargante, pode ser sumariamente efetuada dentro dos próprios autos dos embargos. Sobre sua pretensão será ouvido o embargado e, não havendo objeção séria, lavrar-se-á o competente termo. III – Citação A citação será pessoal, se o embargado não tiver procurador constituído nos autos da ação principal (NCPC, art.677, §3º96). Trata-se, porém, de hipótese de raríssima ocorrência, visto que o embargado é justamente a parte que, no processo principal, provocou o ato constritivo impugnado. O NCPC mantém a sistemática adotada em 2009 pelo CPC/1973. Antes desse ano, a lei não regulava a forma de citação do réu; por isso, a jurisprudência, por analogia, admitia que a diligência se cumprisse por meio de intimação do advogado que representava o embargado ou os embargados no processo principal. De fato, não havia razão para tratamento mais rigoroso com esta ação acessória do que com os embargos do devedor, com a reconvenção, com a oposição e com a habilitação, casos análogos de ações incidentais ou acessórias em que a lei se contenta com a citação ou intimação do procurador nos autos do processo principal (arts. 740, 316, 57 e 1.057, parágrafo único, do CPC/1973).97 Com a Lei nº 12.125/2009, que acrescentou o §3º ao art.1.050 do CPC/1973, tornou-se certo que a cientificação, nos embargos de terceiro, se faz por intimação do advogado e só será pessoal na raríssima hipótese de não ter ele procurador constituído nos autos da ação principal. A exemplo dos interditos possessórios, a citação do embargado pode ocorrer antes ou após o deferimento da medida liminar (art. 56298). Caso exista prova documental suficiente, o juiz deferirá a manutenção ou reintegração e, após cumprido o mandado, será citado o réu para sua defesa. Inexistindo semelhante prova, a medida liminar dependerá de justificação testemunhal que será precedida da citação, contando-se o prazo de defesa a partir da intimação do decisório a respeito da justificação (art. 564,99 parágrafo único, analogicamente). IV – Contestação O prazo para contestação é de quinze dias e o procedimento que se segue após a litis contestatio é o comum (art. 679100), diferentemente do CPC/1973, que determinava fosse seguido o rito das ações cautelares. Observa-se que o procedimento é especial, ou seja, distinto das demais ações, apenas até a fase da contestação. Essa escolha do legislador se dá especialmente “em razão da decisão provisória de suspensão das medidas constritivas que o próprio rito prevê de antemão”.101 Contra os embargos do credor com garantia real, o embargado somente poderá alegar como matéria de defesa (i) que o devedor comum é insolvente; (ii) que o título é nulo ou não obriga terceiro; ou (iii) que é outra a coisa dada em garantia (art. 680102). Isso quer dizer que o credor hipotecário ou pignoratício, em princípio, pode impedir a execução alheia sobre sua garantia real. Mas não pode fazê-lo se o devedor estiver em dificuldades financeiras de molde a evidenciar a inexistência de outros bens livres para responder pela obrigação quirografária. Provando-se a insolvência do devedor executado, rejeitados serão os embargos do credor com garantia real. Sendo, contudo, normal a situação do patrimônio do devedor, e podendo o credor quirografário contar com outros bens para realizar a execução forçada, serão preservados aqueles vinculados à garantia real. Havendo contestação, o rito a observar é o do procedimento comum, respeitada, inclusive, a fase dos debates ou alegações finais dos litigantes, no caso de produção de prova oral. V – Revelia Não havendo contestação, o juiz decide desde logo, presumindo-se verdadeiros os fatos narrados pelo embargante e proferindo o julgamento antecipado da lide, segundo a prova documental disponível (art. 355103). Uma vez que os embargos seguem, após a resposta do réu, o procedimento comum, não há razão para se recusar a possibilidade de reconvenção. No passado, o entendimento que vetava tal medida prendia-se à sumariedade do respectivo procedimento, técnica que o NCPC não adotou. 215. Sentença A sentença que acolhe os embargos é de eficácia executiva imediata. Se houver medida liminar, transformar- se-á em definitiva, liberando-se a caução em favor do autor. Se não houver, expedir-se-á a ordem para imediata cassação da medida constritiva e liberação dos bens indevidamente apreendidos. No regime do Código anterior, por se tratar de ação sumária que atacava apenas o ato de constrição, o julgamento dos embargos não passava do desfazimento ou proibição do ato impugnado, não chegando à declaração definitiva acerca da existência ou inexistência do domínio ou da posse do embargante. O NCPC inovou, porque o procedimento deixou de ser sumário e passou a ser o comum, permitindo, outrossim, um acertamento exauriente sobre o direito material do autor. Nesse sentido, dispõe o art.681 que “acolhido o pedido inicial, o ato de constrição judicial indevida será cancelado, com o reconhecimento do domínio, da manutenção da posse ou da reintegração definitiva do bem ou do direito ao embargante”. O recurso cabível é a apelação, que não tem efeito suspensivo quando os embargos opostos pelo terceiro à execução são julgados improcedentes (art. 1.012, III104). Versando a causa sobre pretensão litigiosa do terceiro, a sentença que a resolve tem de impor à parte vencida os encargos da sucumbência, ou seja, despesas processuais e honorários advocatícios do vencedor (arts. 82, §2º, e 85).105 Alguma controvérsia tem provocado aqueles casos em que o ato constritivo parte de oficial de justiça, sem anuência ou ciência do exequente. Muitas vezes, o terceiro utiliza os embargos em situação de total desnecessidade, pois, se o credor fosse informado do ocorrido a tempo, evidentemente concordaria com a imediata liberação do bem irregularmente apreendido pelo oficial de justiça. Preferem, no entanto, pessoas inescrupulosas, o pronto ajuizamento dos embargos, com propósito escuso de locupletarem-se com as verbas da sucumbência. Certo que, em princípio, o reconhecimento, por parte do exequente, do direito do terceiro embargante, funciona como hipótese de julgamento da lide pelo mérito, com oconsectário de responder o demandado pelas custas e honorários advocatícios despendidos pelo terceiro (arts. 82, §2º, 85 e 90). Se, porém, nenhuma oportunidade se deu ainda ao embargado para conhecer do ato realizado por iniciativa apenas do oficial de justiça, sem nomeação ou mesmo sem ciência do exequente, e este, logo ao tomar conhecimento da medida impugnada, por meio dos embargos, reconhece prontamente o direito do embargante e pede o levantamento da penhora, não é justo imputar ao primeiro, em tal circunstância, o ônus da sucumbência, porquanto o incidente decorreu de um ato judicial que não lhe pode ser atribuído a título algum. A falha, in casu, seria apenas do aparelhamento judiciário e só o Poder Público haverá de responder por suas consequências.106 Para obviar problemas como esse – já escrevemos alhures – e mesmo para evitar inúteis ou desnecessários ajuizamentos de embargos de terceiro, de lege ferenda seria recomendável condicionar o manejo desse remédio processual a um prévio pedido de liberação do bem, formulado por meio de simples petição nos autos principais. Somente quando o exequente não concordasse com a liberação sumária é que o terceiro estaria legitimado a propor a ação de embargos. Com isso, atender-se-ia ao princípio de economia processual, tão valorizado pelo direito formal de nossos tempos.107 Aliás, mesmo sem expresso tratamento legislativo da matéria, a jurisprudência reconhece que o terceiro, cujo bem foi penhorado por iniciativa exclusiva do oficial de justiça, pode pedir a desconstituição da penhora por meio de simples petição, não sendo, pois, caso de embargos de terceiro.108 215-A. Verbas sucumbenciais. Princípio da causalidade A tese que há bastante tempo vínhamos defendendo e que se acha exposta no item anterior foi acolhida pelo STJ, em regime de recurso repetitivo (Tema 872) e, portanto, com força vinculante, no julgamento do REsp 1.452.840, no qual se aplicou aos encargos sucumbenciais dos embargos de terceiro o princípio da causalidade, com os seguintes fundamentos: (a) “A sucumbência, para fins de arbitramento dos honorários advocatícios, tem por norte a aplicação do princípio da causalidade. Nesse sentido, a Súmula 303/STJ dispôs especificamente: ‘Em embargos de terceiro, quem deu causa à constrição indevida deve arcar com os honorários advocatícios’”. (b) “O adquirente do imóvel, ao não providenciar a transcrição do título na repartição competente, expõe o bem à indevida constrição judicial em demandas ajuizadas contra o antigo proprietário. As diligências realizadas pelo oficial de Justiça ou pela parte credora, destinadas à localização de bens, no caso específico daqueles sujeitos a registro (imóveis, veículos), são feitas mediante consulta aos Cartórios de Imóveis (Detran, no caso de veículos), razão pela qual a desatualização dos dados cadastrais fatalmente acarretará a efetivação da indevida penhora sobre o bem”. (c) “Nessas condições, não é lícito que a omissão no cumprimento de um dever legal implique, em favor da parte negligente, que esta deve ser considerada vencedora na demanda, para efeito de atribuição dos encargos de sucumbência”. (d) “Conforme expressamente concluiu a Corte Especial do STJ, por ocasião do julgamento dos Embargos de Divergência no REsp 490.605/SC: ‘Não pode ser responsabilizado pelos honorários advocatícios o credor que indica à penhora imóvel transferido a terceiro mediante compromisso de compra e venda não registrado no Cartório de Imóveis. Com a inércia do comprador em proceder ao registro não havia como o exequente tomar conhecimento de uma possível transmissão de domínio’”. O acórdão do STJ, por fim, reduziu suas conclusões a uma tese jurisprudencial, para os fins do art.1.040 do NCPC, assim consolidada: “Nos Embargos de Terceiro cujo pedido foi acolhido para desconstituir a constrição judicial, os honorários advocatícios serão arbitrados com base no princípio da causalidade, responsabilizando-se o atual proprietário (embargante), se este não atualizou os dados cadastrais. Os encargos de sucumbência serão suportados pela parte embargada, porém, na hipótese em que esta, depois de tomar ciência da transmissão do bem, apresentar ou insistir na impugnação ou recurso para manter a penhora sobre o bem cujo domínio foi transferido para terceiro”.109 Fluxograma nº 20 – Embargos de terceiro (arts. 674 a 681) Curso de Direito Processual Civil – Vol. II - Humberto Theodoro Junior - Capítulo VIII EMBARGOS DE TERCEIRO § 20. GENERALIDADES 200. Conceito 201. Natureza jurídica 202. Requisitos 203. Ato judicial atacável 203-A. Posse direta e posse indireta, em embargos de terceiro 204. Penhora de bem alienado em fraude contra credores 205. Embargos a atos do juízo divisório 205-A. Embargos de terceiro e desconsideração da personalidade jurídica 206. Embargos do credor com garantia real 206-A. Embargos do credor com garantia de alienação fiduciária 207. Embargos e mandado de segurança § 21. PROCEDIMENTO 208. Legitimação ativa 209. Legitimação ativa do prestador de garantia real a dívida de terceiro 210. Legitimação ativa de quem participou do processo primitivo 211. Legitimação passiva 212. Oportunidade 213. Competência 214. Procedimento 215. Sentença 215-A. Verbas sucumbenciais. Princípio da causalidade