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DOS CRIMES CONTRA A VIDA 1.1. DOS CRIMES CONTRA A VIDA A vida é o mais valioso dos bens jurídicos de que dispõe o ser humano, de modo que o primeiro crime previsto na Parte Especial do Código é o homicídio. Além dele, prevê a lei punição ao infanticídio, modalidade mais branda de homicídio, porém, descrita no Código como crime autônomo, em que a mãe mata o próprio filho durante ou logo após o parto em razão de alterações em seu estado físico e emocional. O suicídio não é e nem poderia ser elencado como crime, mas quem induz, instiga ou auxilia outra pessoa a se matar comete crime contra a vida conhecido como participação em suicídio. Por fim, nosso legislador tutelou a vida do nascituro, estabelecendo como crime a provocação dolosa de aborto. DOS CRIMES CONTRA A VIDA • Homicídio (doloso e culposo) (art. 121); • Participação em suicídio (art. 122); • Infanticídio (art. 123); • Aborto (arts. 124 a 128). Os crimes previstos nesse Capítulo, à exceção da modalidade culposa de homicídio, são julgados pelo Tribunal do Júri, na medida em que o art. 5º, XXXVIII, d, da Constituição Federal, confere ao Tribunal Popular competência para julgar os crimes dolosos contra a vida. 1.1.1. Homicídio Pode ser doloso ou culposo. 1.1.1.1. Homicídio doloso Subdivide-se em três modalidades: 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 71 11/4/2011 17:24:07 72 Direito Penal Esquematizado — Parte Especial Victor Eduardo Rios Gonçalves Espécies de homicídio Simples (art. 121, caput) Privilegiado (art. 121, § 1º) Qualificado (art. 121, § 2º) I Dos Crimes Contra a Pessoa 73 de execução, aliás, tornam o crime qualificado, como, por exemplo, o fogo, o explosivo, o veneno, a asfixia etc. De qualquer modo, o fato de admitir qualquer meio de execução faz com que o homicídio seja classificado como crime de ação livre. É até mesmo possível que o homicídio seja praticado por omissão, como no famoso exemplo da mãe que, querendo a morte do filho pequeno, deixa de alimentá-lo. Temos, nesse caso, um crime comissivo por omissão, em que a mãe tinha o dever jurídico de evitar o resultado e podia fazê-lo, porém, querendo a morte do filho, se omitiu. Em tal caso, a mãe é a única envolvida, sendo a autora do crime. Existe, ainda, a participação por omissão. Suponha-se que um policial, ao dobrar uma esquina, veja um homem desconhecido estrangulando uma mulher. Ele está armado e pode evitar o resultado, tendo, inclusive, o dever jurídico de fazê-lo. Contudo, ao perceber que a vítima é uma pessoa de quem ele não gosta, resolve se omitir, permitindo que o homicídio se consume. O desconhecido é autor do homicídio e o policial, partícipe por omissão (porque tinha o dever jurídico de evitar o crime e não o fez). • Crime impossível por absoluta ineficácia do meio Quando o agente realiza um ato agressivo visando matar a vítima mas esta sobrevive, ele só pode ser responsabilizado por tentativa de homicídio se ficar demonstrado que o meio executório por ele empregado poderia ter causado a morte e que isso só não ocorreu por circunstâncias alheias à sua vontade. É que o art. 17 do Código Penal estabelece que não se pune a tentativa quando a consumação se mostrar impossível no caso concreto por absoluta ineficácia do meio. A exclusão da modalidade tentada se dá mesmo que se prove que o agente desconhecia referida ineficácia absoluta do meio. Desse modo, se uma pessoa diz a outra que quer cometer um homicídio e pede a ela uma arma emprestada e esta última entrega uma arma de brinquedo, dizendo ao executor que ela é verdadeira, mas este se aproxima da vítima e aperta o gatilho, sem conseguir, evidentemente, causar-lhe qualquer arranhão, não responde por qualquer ilícito penal, muito embora tenha apertado o gatilho da arma de brinquedo querendo matar a vítima. A doutrina, por outro lado, entendeu que é meramente relativa a ineficácia do meio e que, portanto, o agente deve responder pela tentativa, quando ele não consegue efetuar os disparos por se tratar de projétil antigo que não detona ou pelo fato de a arma, embora apta a efetuar disparos, apresentar defeito mecânico no momento em que acionada. Se, todavia, a perícia constatar que o revólver era totalmente inapto a realizar disparos pela falta de alguma peça, haverá crime impossível. Quando se trata de arma descarregada ou com as respectivas cápsulas previamente deflagradas, o entendimento é de que configura-se também crime impossível. Nesse sentido se manifestou Celso Delmanto:1 “o revólver sem munição é absolutamente inidôneo para matar alguém a tiro; já o revólver com balas velhas (que podem ou não disparar de acordo com a sorte) é meio relativamente ineficaz e seu uso permite configurar tentativa punível”. 1 Celso Delmanto, Código Penal comentado, 4. ed., p. 28. 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 73 11/4/2011 17:24:08 74 Direito Penal Esquematizado — Parte Especial Victor Eduardo Rios Gonçalves Fernando Capez,2 por sua vez, salienta que, se “uma arma apta a efetuar disparos mas que, às vezes, falha, picotando o projétil e, com isso, vindo a vítima a sobreviver, ocorre tentativa, pois o meio era relativamente eficaz”. Na jurisprudência podemos encontrar: “Estando o revólver empunhado pelo réu desmuniciado, com todas as balas I Dos Crimes Contra a Pessoa 75 outra, sendo que o resultado morte decorre da ação de apenas uma delas. Esses requisitos são indispensáveis para que se fale em autoria colateral pois, quando os envolvidos estão agindo previamente ajustados no sentido de matar a mesma pessoa, eles são considerados coautores e, nessa condição, caso a vítima morra, ambos responderão por crime consumado, ainda que não se descubra qual dos dois realizou o ato executório fatal. Na autoria colateral, como os envolvidos não sabem um da intenção do outro, a análise deve ser feita de maneira individualizada, procurando-se descobrir qual deles causou a morte. Um responderá por crime consumado, enquanto o outro responderá por tentativa. Ex.: duas pessoas estão em uma festa onde também se encontra a vítima que ambas pretendem exterminar, porém, uma nada sabe a respeito do intento da outra. Uma delas coloca veneno em um whisky e o serve para a vítima que toma um grande gole. Nesse momento, o outro homicida se aproxima e desfere um tiro mortal na cabeça da vítima que ainda estava viva e morre em razão do disparo sofrido. Este último responde por homicídio consumado. O outro responde por tentativa de homicídio qualificada pelo emprego de veneno. A autoria incerta, por sua vez, ocorre quando estiverem presentes os requisitos da autoria colateral, mas não for possível estabelecer qual dos envolvidos deu causa à morte. Ex.: João e Pedro querem matar a vítima Luiz. Um não sabe da intenção do outro e atiram ao mesmo tempo contra a vítima, que morre recebendo apenas um disparo, mas a perícia, bem como o restante da prova colhida é insuficiente para se saber quem efetuou o disparo fatal. Em tal caso não é viável que ambos sejam condenados pelo crime consumado, sendo que a solução apontada por toda doutrina é no sentido de que ambos respondam por tentativa de homicídio, apesar de a vítima ter morrido. • Autoria mediata Esta é a denominação que se dá às hipóteses em que o agente serve-se de pessoa sem discernimento para executar para ele o homicídio. O executor é mero instrumento por atuar sem vontade própria ou sem consciência do que está fazendo e, por isso, só o autor mediato responde pelo delito. É o que ocorre, por exemplo, quando o sujeito induz um doente mental ou menor de idade a matar alguém, ou quando coage outra pessoa a cometer para ele o crime (coação moral irresistível). 1.1.1.1.1.5. Sujeito passivo Pode ser qualquer ser humano. Após o nascimento toda e qualquer pessoa que tenha vida pode ser vítima do crime de homicídio. Dependendo de certas características do sujeito passivo, haverá deslocamento do crime de homicídio para outros previstos em leis especiais. Assim,quem mata dolosamente o Presidente da República, do Senado Federal, da Câmara dos Deputados ou o Presidente do Supremo Tribunal Federal, comete o crime do art. 29 da Lei de Segurança Nacional (Lei n. 7.170/83). Por sua vez, comete o crime de genocídio, previsto no art. 1º, da Lei n. 2.889/56, quem mata, com intenção de destruir, no todo em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso. 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 75 11/4/2011 17:24:08 76 Direito Penal Esquematizado — Parte Especial Victor Eduardo Rios Gonçalves O assassinato de gêmeos siameses (xifópagos) configura dois crimes de homicídio, ainda que o agente tenha atingido o corpo de apenas um deles, pois a morte de um leva, inexoravelmente, à morte do outro. Pessoas condenadas à morte podem ser sujeito passivo de homicídio caso assassinadas antes da execução oficial pelo Estado. Lembre-se de que a Constituição Federal só prevê pena de morte em caso de determinados crimes militares em tempo de guerra (art. 5º, XLVII, a). • Crime impossível por absoluta impropriedade do objeto De acordo com o art. 17 do Código Penal, o agente não responde por tentativa de homicídio caso realize ato de execução visando matar determinada pessoa sem saber que ela já havia falecido. É o que ocorre, por exemplo, quando alguém, simulando tratar-se de um presente, coloca uma caixa contendo uma bomba na porta da casa de uma pessoa que, minutos antes, havia morrido no interior de tal residência. Nesse caso, estamos diante de crime impossível por absoluta impropriedade do objeto. Considerando, entretanto, que o art. 4º do Código Penal, ao tratar do “tempo do crime”, estabelece que se considera cometida a infração penal no momento da ação ou omissão, ainda que outro seja o momento do resultado, deve-se considerar existente a tentativa de homicídio quando se prova que o agente colocou uma carta-bomba no correio (ato de execução do homicídio) quando a vítima ainda estava viva e que ela morreu por causas naturais no período posterior à postagem e anterior à entrega da carta em sua casa. Observação: Em qualquer dos exemplos citados, se outra pessoa abrir o pacote ou a carta contendo a bomba e morrer, o agente responderá por homicídio em relação a ela, pois, no mínimo, agiu com dolo eventual. Um exemplo muito citado de crime impossível por absoluta impropriedade do objeto é aquele em que o agente desfere facadas ou tiros em pessoa que está deitada em uma cama, sem saber que ela morrera horas antes em decorrência de ataque cardíaco. Nesse caso, o agente não responde por tentativa de homicídio e tampouco por crime de destruição ou vilipêndio a cadáver, na medida em que estes últimos crimes são dolosos e não havia por parte do agente intenção de destruir ou desrespeitar um cadáver. Sua intenção era a de matar uma pessoa, mas, como o Código Penal não pune a tentativa nesse caso, o agente não receberá qualquer punição. 1.1.1.1.1.6. Consumação O crime de homicídio, por óbvio, consuma-se no momento da morte decorrente da conduta dolosa do agente. • Momento da morte e sua definição legal Na área médica, havia grande controvérsia em torno da definição do momento exato da morte. Para alguns, bastava a morte encefálica, mas, para outros, seria necessário aguardar a cessação completa dos movimentos respiratórios e da circulação I Dos Crimes Contra a Pessoa 77 sanguínea. Em razão da falta de definição em torno do tema, os médicos se recusavam a efetuar a retirada, para fim de transplante, de órgãos ou tecidos de pessoas com morte encefálica, mas ainda com movimentos cardíacos e respiratórios, com receio de serem acusados de homicídio. O atraso na retirada desses órgãos ou tecidos, contudo, comprometia a qualidade deles e, muitas vezes, a própria viabilidade do transplante. O nosso legislador, preocupado com as imensas filas de pacientes aguardando transplantes, e fundado em estudos conclusivos de que a morte encefálica é irreversível, aprovou a Lei n. 9.434/97, que, em seu art. 3º, declara considerar-se morta a pessoa no momento da cessação da atividade encefálica. Referida lei dispõe, outrossim, que a remoção e retirada dos órgãos, aprovada pelo falecido ou pelos parentes, será permitida após a constatação e registro da morte encefálica por dois médicos que não façam parte da equipe de remoção e transplante. Dessa forma, tendo sido verificada e declarada a morte encefálica, não há nenhuma chance de ser acusado por homicídio aquele que tenha desligado os aparelhos que mantinham artificialmente os batimentos cardíacos e os movimentos respiratórios. Em tal hipótese, a pessoa já está legalmente morta, e, portanto, não se confunde com a eutanásia, em que uma pessoa está doente, porém viva, e outrem provoca sua morte para abreviar o sofrimento. Sem que tenha havido morte encefálica, não há que se falar em homicídio consumado, por mais grave que sejam as sequelas sofridas em decorrência do ato agressivo. Assim, se o agente efetuou disparos na cabeça da vítima que, em razão disso, há anos permanece em vida vegetativa, sem reconhecer familiares e sem apresentar movimentos corporais, porém, com vida encefálica, ela, juridicamente, está viva, de modo que o autor da agressão só pode ser responsabilizado por tentativa de homicídio. O homicídio classifica-se como crime de dano, pois sua verificação pressupõe efetiva lesão ao bem jurídico tutelado — a vida. • Classificações No que tange ao momento consumativo, o homicídio classifica-se como crime material, categoria de ilícitos penais que exigem a superveniência do resultado previsto no texto legal para estarem consumados. Como o resultado morte é necessário para a consumação, não há dúvida de que o homicídio é crime material. Por sua vez, no que se refere à duração do momento consumativo, é classificado como crime instantâneo, uma vez que o evento morte ocorre em um momento exato. Considerando, entretanto, que a morte é irreversível, costuma-se dizer que o homicídio é crime instantâneo de efeitos permanentes. • Prova da materialidade A materialidade do homicídio é demonstrada pelo exame necroscópico em que o médico legista atesta a ocorrência da morte e suas causas. A autópsia deve ser feita pelo menos seis horas após o óbito (art. 162 do CPP). Se a autópsia não tiver sido realizada antes de o corpo ser enterrado ou se surgirem dúvidas em torno da conclusão do perito, poderá ser determinada a exumação do corpo para a sua realização ou para exames complementares, tudo na forma dos arts. 163 e 164 do CPP. 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 77 11/4/2011 17:24:08 78 Direito Penal Esquematizado — Parte Especial Victor Eduardo Rios Gonçalves Se não for possível o exame do corpo por ter ele desaparecido, a materialidade do homicídio pode ser demonstrada por prova testemunhal (art. 167 do CPP). É o que ocorre quando o corpo da vítima do homicídio é lançado ao mar e depois não é recuperado, mas testemunhas afirmam ter visto a pessoa morta. 1.1.1.1.1.7. Tentativa A tentativa de homicídio é plenamente possível e, aliás, muito comum. Para o seu reconhecimento, são exigidos três fatores: 1. Que exista prova inequívoca de que o agente queria matar a vítima. O que diferencia uma tentativa de homicídio em que a vítima tenha sofrido lesão de um crime de lesão corporal é unicamente o dolo do agente. Na tentativa, ele quer matar e não consegue, enquanto na lesão corporal a intenção é apenas de ferir a vítima. Essa distinção, em termos teóricos, é extremamente simples. Na prática, entretanto, tal aspecto causa calorosos debates nos julgamentos em Plenário do Júri, pois, normalmente, o Ministério Público procura provar a existência do dolo de matar para que seja reconhecida a tentativa de homicídio, enquanto a defesa sustenta que o réu queria meramente machucar a vítima, pretendendo, com isso, a desclassificação do crime para o de lesões corporais, que possui pena menor. Nesses casos, para que possam decidir com acerto,os Jurados devem analisar fatores que normalmente indicam a existência ou inexistência da intenção homicida, como, por exemplo, o tipo e a potência da arma utilizada, eventuais ameaças de morte proferidas pelo agente contra a vítima, local em que esta foi alvejada, quantidade de golpes desferidos etc. 2. Que tenha havido início de execução do homicídio. Só é possível reconhecer a existência de tentativa se o agente já deu início à execução do crime, exigência expressa do art. 14, II, do Código Penal. Antes disso, eventuais atos perpetrados pelo agente são meramente preparatórios e ainda não constituem infração penal. Existe mero ato preparatório nas ações que não podem provocar, por si só, como sua consequência imediata, o resultado morte. Assim, se alguém compra um veneno para preparar em sua casa um bolo envenenado a fim levá-lo à casa da vítima para presenteá-la, mas o bolo estraga por ficar tempo demais no forno, temos mero ato preparatório, pois, ainda havia uma ação imprescindível para que o resultado morte pudesse se verificar, qual seja, a entrega do bolo, já que, até tal momento, o agente poderia se arrepender e não o encaminhar. Se o homicida, contudo, concretizasse a entrega do bolo envenenado, já estaríamos diante de ato executório, pois a partir desse instante a vítima poderia consumi-lo independentemente de novas ações do homicida. No exemplo acima, houve circunstância alheia à vontade do agente que impediu o encaminhamento do doce (o fato de o bolo ter queimado), mas ele não responde por tentativa porque houve mero ato preparatório. 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 78 11/4/2011 17:24:08 I Dos Crimes Contra a Pessoa 79 Da mesma forma, constitui mero ato preparatório comprar uma arma com a qual se pretende matar a vítima, ou mais, ficar aguardando a vítima passar por determinado local para emboscá-la, mas não conseguir efetuar disparos por ter a vítima alterado seu trajeto nesse dia. Nas hipóteses, faltava ainda uma ação imprescindível por parte do agente para se ter o início de execução, qual seja, a de efetuar disparo com a arma de fogo. Entende-se que o agente poderia desistir, ou não ter efetiva coragem de iniciar os disparos, de modo que tudo deve ser interpretado como ato preparatório do homicídio. Assim, em se tratando de arma de fogo, o início de execução se dá pelo ato de apertar o gatilho em direção à vítima. Em se tratando de arma branca, o início de execução se dá pelo movimento corpóreo a fim de atingi-la. Quando se trata de ação homicida a ser realizada em dois atos seguidos (jogar gasolina e depois atear fogo), considera-se ter havido início de execução com o primeiro ato, de modo que haverá tentativa de homicídio se o agente jogar o combustível na vítima, mas for impedido de atirar o fósforo aceso sobre ela. Em suma, existe início de execução com a prática do primeiro ato idôneo e inequívoco que pode levar à consumação. Ato idôneo é aquele apto a produzir o resultado consumativo. Ato inequívoco é aquele indubitavelmente ligado à consumação. 3. Que o resultado morte não tenha ocorrido por circunstâncias alheias à vontade do agente. Caso realizado ato de execução, haverá tentativa de homicídio qualquer que tenha sido a causa da sobrevivência da vítima, desde que alheia à vontade do agente. Ex.: vítima que conseguiu se esquivar dos disparos ou facadas dados pelo agente; vítima que foi jogada de um penhasco, mas ficou presa em uma árvore; vítima que bebeu apenas um pequeno gole do copo de cerveja envenenada servida pelo agente porque amigos chegaram ao bar onde ela estava e a convidaram para ir em uma festa; disparo na cabeça que não penetrou a calota craniana por ter atingido parte mais consistente do osso; vítima que foi imediatamente socorrida e recebeu tratamento de emergência; intervenção de terceira pessoa que desviou a mão do homicida no exato instante em que efetuava disparo mirando no coração da vítima etc. Ressalte-se, porém, que os casos mais comuns de tentativa são aqueles em que o agente não consegue atingir a vítima em parte vital de seu corpo — por seu nervosismo ou por falta de preparo no manuseio da arma — fatores que, embora inerentes ao agente, são alheios à sua vontade, porque fogem de seu controle. Na denúncia por crime de tentativa de homicídio é necessário que o promotor de justiça descreva a circunstância alheia à vontade do agente que impediu a consumação. • Pluralidade de tentativas em relação à mesma vítima É plenamente possível que uma pessoa responda por duas tentativas de homicídio contra a mesma vítima, desde que os atos agressivos que visavam a sua morte tenham sido realizados em contextos fáticos distintos. Se, entretanto, o agente, no mesmo 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 79 11/4/2011 17:24:08 80 Direito Penal Esquematizado — Parte Especial Victor Eduardo Rios Gonçalves episódio, tenta matar a vítima com disparos de arma de fogo e, sem conseguir alvejá-la de forma fatal, apodera-se imediatamente de uma faca e desfere golpes contra ela sem conseguir causar a morte, responde por uma só tentativa de homicídio. • Homicídio consumado e tentado contra a mesma vítima Se o agente tenta matar a vítima em uma oportunidade e, cessada a execução deste crime, em outro contexto fático, realiza novo ato agressivo conseguindo matá-la, responde por dois crimes, um tentado e outro consumado. Ex.: após alvejar a vítima com disparos de arma de fogo, esta é internada em um hospital. O homicida, ao saber que ela não morreu, vai até o hospital de madrugada, rende os seguranças do estabelecimento e mata a vítima com novos disparos. De ver-se, entretanto, que, se as duas ações ocorrerem no mesmo contexto fático, a consumação do homicídio absorverá a tentativa. É o que ocorre se o agente tenta tirar a vida da vítima com uma faca e, após ser desarmado, apodera-se de uma enxada com a qual consegue consumar o delito desferindo golpes na cabeça dela. • Espécies de tentativa em razão do resultado Dependendo de a vítima ter sido ou não atingida, a tentativa pode ser branca ou cruenta. • Tentativa branca Ocorre quando o golpe ou disparo efetuados não atingem o corpo da vítima de modo que esta não sofre nenhuma lesão. É necessário que se prove que o agente pretendia atingir a vítima, mas que não conseguiu. Nesse caso, a diminuição referente à tentativa será feita em seu grau máximo (2/3), já que esse redutor deve ser aplicado de acordo com a maior ou menor proximidade da consumação. É também chamada de tentativa incruenta. • Tentativa cruenta É aquela em que a vítima sofre lesão corporal como consequência do ato agressivo perpetrado pelo agente. Conforme já estudado, diferencia-se do crime de lesão I Dos Crimes Contra a Pessoa 81 pela prática de meros atos preparatórios. Nos exemplos acima, não é errado dizer que o agente desistiu de cometer o crime, contudo, essa desistência se deu antes mesmo de ele iniciar sua execução, razão pela qual não se mostra presente, tecnicamente, o instituto da desistência voluntária. No crime de homicídio, a desistência voluntária se mostra presente quando o agente dá início à execução, mas não consegue, de imediato, a morte da vítima, contudo, tendo ainda ao seu dispor formas de prosseguir no ataque e concretizar a morte, resolve, voluntariamente, não o fazer. É o que ocorre, por exemplo, quando o homicida possui seis cápsulas em seu revólver e, após efetuar um primeiro disparo e perceber que não atingiu a vítima de forma fatal, resolve não apertar o gatilho novamente, embora pudesse tranquilamente fazê-lo por estar a vítima à sua mercê. Em tais casos, apesar de ter havido dolo de matar por parte do agente no instante em que efetuou o primeiro disparo e até mesmo uma circunstância alheia à sua vontade que impediu o resultado — o erro de pontaria —, o legislador entendeu que o agente não poderia ser responsabilizado por tentativa de homicídio porque a circunstância impeditiva do resultado,e alheia à sua vontade, deveria se mostrar presente durante todo o contexto fático, e não apenas em face da primeira ação. Assim, se analisarmos o fato como um todo, perceberemos inexistir circunstância que tenha impedido o agente de efetuar outros disparos e consumar o homicídio, razão pela qual o art. 15, do Código Penal, até mesmo com o fim de premiar o sujeito pela desistência, estabelece que ele só responde pelos atos anteriores já praticados (e não por tentativa de homicídio). Dessa forma, no exemplo anterior, se o disparo atingiu a vítima sobrevivente, o sujeito responderá por lesão leve ou grave, dependendo do que o disparo nela tenha causado, ou por crime de periclitação da vida (art. 132), caso o disparo não a tenha atingido. A propósito: “Mesmo que a intenção do acusado fosse de matar a vítima, não se configura a tentativa de homicídio se voluntariamente desiste da ação delituosa, após atingi-la com dois disparos, abandonando o local com três balas intactas no tambor de seu revólver” (TJSP — Rel. Camargo Sampaio — RT 544/346). Para que haja o reconhecimento da desistência voluntária, é necessário que o agente tenha percebido que não alvejou a vítima de modo fatal. Por isso, se ele deixou de disparar novos projéteis por pensar que a vítima já estava morta, responde por tentativa de homicídio. É necessário, outrossim, que a atitude de desistir de prosseguir na execução tenha sido voluntária, ainda que não espontânea, ou seja, o não prosseguimento nos atos executórios há de ser consequência da própria vontade do agente, mesmo que a ideia de desistir tenha sido sugestão de terceiro ou de pedido de clemência da vítima. Não haverá, contudo, desistência voluntária se ele, por exemplo, deixar de efetuar novos disparos para colocar-se em fuga ante à inesperada chegada de policiais ao local em que estava sendo praticado o crime. 1.1.1.1.1.9. Arrependimento eficaz Ao passo que na desistência voluntária o agente, já tendo realizado algum ato executório, porém, ciente de não ter conseguido realizar ato fatal, resolve se omitir, 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 81 11/4/2011 17:24:08 82 Direito Penal Esquematizado — Parte Especial Victor Eduardo Rios Gonçalves no arrependimento eficaz o sujeito já tinha realizado todos os atos executórios ao seu alcance, que, como decorrência causal, já seriam suficientes para ocasionar a morte, porém, se arrepende e pratica novo ato para salvar a vida da vítima. Os exemplos mais comuns de arrependimento eficaz são aqueles em que o agente atinge a vítima em área nobre de seu corpo, mas a socorre de imediato, conseguindo salvá-la; ou quando a envenena e, em seguida, fornece o antídoto. É possível, todavia, que exista arrependimento eficaz ainda que a vítima não tenha sido lesionada. É o que ocorre quando o agente envia pelo correio uma carta-bomba para a vítima. Seus atos executórios já estão encerrados, bastando aguardar que a vítima abra a carta e morra pelo efeito dos explosivos. Se, todavia, o agente for até a casa dela e resgatar a carta antes de ela ser recebida ou caso a avise para não abrir a correspondência, teremos arrependimento eficaz. Igualmente, se o agente deu forte sonífero para uma pessoa e a deixou trancada no quarto de uma casa e ateou fogo à residência, já realizou os atos necessários a provocar o evento morte, bastando aguardar que o fogo siga seu curso natural. Se ele próprio apagar o fogo, ou acionar os bombeiros para fazê-lo, ou caso entre na casa e retire dali a vítima, teremos hipóteses de arrependimento eficaz. Em todos os exemplos mencionados, o agente já havia realizados os atos executórios ao seu alcance e, em seguida, realizou nova ação que evitou o resultado. Pode-se, portanto, dizer que, se houver uma ação impeditiva do resultado, estará presente o arrependimento eficaz, e se houver uma omissão no prosseguimento dos atos executórios que estavam em andamento, haverá desistência voluntária. Nesse sentido: “A distinção entre desistência e arrependimento eficaz depende do momento em que ocorre a interrupção do processo executivo. Se o agente ainda não havia feito tudo o que era objetivamente necessário para a consumação (...) há desistência: o agente não prossegue na execução. Exemplo: o agente alveja a vítima e não a atinge; podendo prosseguir com outros disparos, desiste. Se o agente já havia concluído os atos de execução necessários (ex.: lançar a vítima ao mar) há arrependimento”, caso ele resgate a vítima da água (TAMG — Rel. Costa e Silva — ADV 7.239/745). A consequência do arrependimento eficaz é a mesma, ou seja, que o agente só responda pelos atos já cometidos. No último exemplo, ele responderia por crime de incêndio e não por tentativa de homicídio. Para que seja reconhecido o arrependimento eficaz, é também exigido que tenha ele sido decorrente de ato voluntário do agente — mesmo que não espontâneo — e que a nova ação realizada para salvar a vítima tenha sido exitosa. Daí o nome arrependimento eficaz. 1.1.1.1.1.10. Elemento subjetivo É o dolo, direto ou eventual. No dolo direto existe vontade livre e consciente de eliminar a vida humana alheia. É também chamado de animus necandi ou animus occidendi. É o que ocorre na maioria dos homicídios em que fica patente que o agente queria mesmo provocar a morte da vítima. 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 82 11/4/2011 17:24:08 I Dos Crimes Contra a Pessoa 83 O tipo penal do homicídio simples não exige qualquer finalidade específica para sua configuração. Ao contrário, o motivo do crime pode fazer com que passe a ser considerado privilegiado (motivo de relevante valor social ou moral) ou qualificado (motivo fútil ou torpe). Se, entretanto, a motivação do homicida não se enquadrar em nenhuma das hipóteses que tornam o crime qualificado ou privilegiado, automaticamente será ele considerado simples. É também admissível o dolo eventual quando o agente, com sua conduta, assume o risco de provocar a morte. É o que ocorre quando alguém faz roleta-russa mirando o revólver para outra pessoa e, apesar de haver uma só cápsula no tambor, acaba havendo o disparo e a morte. Nossa jurisprudência, inclusive dos Tribunais Superiores, tem admitido a existência de dolo eventual em mortes que decorrem de disputa não autorizada de veículos em via pública — “rachas”. Nesse sentido: “A conduta social desajustada daquele que, agindo com intensa reprovabilidade ético-jurídica, participa, com o seu veículo automotor, de inaceitável disputa automobilística realizada em plena via pública, nesta desenvolvendo velocidade exagerada — além de ensejar a possibilidade de reconhecimento do dolo eventual inerente a esse comportamento do agente —, justifica a especial exasperação da pena, motivada pela necessidade de o Estado responder, grave e energicamente, a atitude de quem, em assim agindo, comete os delitos de homicídio doloso e de lesões corporais (STF — HC 71.800/RS — Rel. Celso de Mello, DJ 03.05.1996, p. 13899). • Diferença entre a tentativa de homicídio e a lesão corporal seguida de morte O elemento subjetivo serve também para diferenciar a tentativa de homicídio do crime de lesão corporal seguida de morte (art. 129, § 3º, do CP). Com efeito, na tentativa o agente quer matar e não consegue, enquanto na lesão seguida de morte ocorre exatamente o oposto, ou seja, o agente quer apenas lesionar, mas, culposamente, acaba provocando a morte. • Progressão criminosa Verifica-se o instituto da progressão criminosa quando o agente inicia uma agressão exclusivamente com intenção de lesionar a vítima, porém, durante a agressão, muda de ideia e resolve matá-la. Nesse caso, ainda que o agente tenha resolvido cometer o homicídio somente depois de já haver provocado a lesão na vítima, considera-se absorvido esse delito, respondendo ele apenas pelo homicídio, já que ambos os atos agressivos ocorreram no mesmo contexto fático. 1.1.1.1.1.11. CLASSIFICAÇÃO DOUTRINÁRIA Simples e de dano quantoà objetividade jurídica Comum e de concurso eventual quanto ao sujeito ativo De ação livre, comissivo ou omissivo quanto aos meios de execução Material e instantâneo de efeitos permanentes quanto ao momento consumativo Doloso quanto ao elemento subjetivo 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 83 11/4/2011 17:24:09 84 Direito Penal Esquematizado — Parte Especial Victor Eduardo Rios Gonçalves 1.1.1.1.1.12. Ação penal e competência O crime de homicídio apura-se mediante ação pública incondicionada, sendo a iniciativa da ação exclusiva do Ministério Público. A análise do mérito da acusação, que resultará em condenação ou absolvição do réu, cabe aos Jurados, pois, de acordo com o art. 5º, XXXVIII, da Constituição Federal, os crimes dolosos contra a vida são julgados pelo Tribunal do Júri. A competência é a do local da consumação do delito. De ver-se, todavia, que a jurisprudência acabou criando uma exceção no caso de homicídio doloso quando a vítima é alvejada em uma cidade e levada para hospital de outro município, normalmente grandes centros onde há melhores condições de atendimento, e acaba falecendo nesta última localidade. Teoricamente, o julgamento deveria se dar no local onde a vítima morreu, contudo, isso dificultaria sobremaneira o julgamento no Plenário do Júri, já que as testemunhas do crime estão no local onde a vítima foi alvejada e não são obrigadas a se deslocar para serem ouvidas no dia do julgamento. Nesses casos, o julgamento é feito no local em que ocorreu a ação delituosa, e não no lugar em que a vítima morreu. Em regra a competência é da Justiça Estadual, salvo se presente alguma circunstância capaz de provocar o deslocamento para a esfera federal, como, por exemplo, o fato de o homicídio ter sido cometido a bordo de navio ou aeronave (art. 109, IX, da Constituição), ou contra servidor público federal em virtude de suas funções (art. 109, IV, da Magna Carta). Dessa forma, o assassinato de um Delegado Federal em razão das investigações que preside deve ser julgado por Tribunal do Júri organizado na Justiça Federal. O homicídio praticado por um militar contra outro é de competência da Justiça Militar, porém, se a vítima for civil, o julgamento será feito pelo Júri, na Justiça Comum. Com efeito, a Lei n. 9.299/96 alterou a redação do art. 9º do Código Penal Militar, estabelecendo que os crimes dolosos contra a vida cometidos contra civil serão de competência da Justiça Comum. Posteriormente, a emenda Constitucional n. 45/2004 alterou a redação do art. 125, § 4º, da Constituição, passando a conter regra idêntica. • Curiosidades a) É famosa na doutrina a discussão em torno do homicídio cometido por apenas um dos irmãos siameses (xifópagos). Suponha-se que eles estejam sentados em um sofá e um deles, sem o conhecimento do outro, traga escondido um revólver e, repentinamente, efetue disparos matando outra pessoa. A questão gira em torno da forma de punição, já que, não sendo possível separá-los, é injusto que ambos sejam presos, como também não é correto deixar o homicida totalmente impune (seria uma espécie de autorização para matar). Como o Código Penal não tem solução específica para a hipótese, e tampouco há notícia de caso concreto que tenha sido julgado em nosso país, a solução mais adequada é aplicar algum tipo de pena alternativa que recaia somente sobre o responsável pelo delito. b) Suponha-se que uma pessoa foi condenada pelo homicídio da ex-namorada, cujo corpo não foi encontrado, e já cumpriu a pena. Posteriormente, a namorada reaparece e o sujeito, alegando que já cumpriu pena por tê-la matado (e que ela já 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 84 11/4/2011 17:24:09 I Dos Crimes Contra a Pessoa 85 está legalmente morta), comete realmente o homicídio. A solução é que responda novamente pelo delito, podendo, entretanto, obter indenização por erro judiciário quanto à primeira punição. 1.1.1.1.2. Homicídio privilegiado Art. 121, § 1º — Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço. • Introdução As hipóteses de privilégio têm natureza jurídica de causa de diminuição de pena, pois, quando presentes, fazem com que a pena seja reduzida de um sexto a um terço. A denominação privilégio, embora amplamente consagrada, não consta do texto legal. É pacífico o entendimento de que, apesar de a lei mencionar que o juiz pode diminuir a pena se reconhecido o privilégio, tal redução é obrigatória, na medida em que o art. 483, inc. IV, do Código de Processo Penal, diz que as causas de diminuição de pena devem ser apreciadas pelos jurados na votação dos quesitos e, assim, se estes votarem favoravelmente ao reconhecimento do privilégio, a redução deverá ser aplicada pelo juiz em decorrência do princípio constitucional da soberania dos vereditos do júri (art. 5º, XXXVIII, c, da Constituição Federal). Por isso é que se diz que a redução da pena decorrente do privilégio — se reconhecido pelos jurados — é direito subjetivo do réu. Ao juiz cabe apenas escolher o índice de diminuição entre um sexto e um terço. • Motivo de relevante valor social Essa primeira hipótese de privilégio está ligada à motivação do agente, no sentido de imaginar que, com a morte da vítima, estará beneficiando a coletividade. Fora das hipóteses em que o sujeito age acobertado por excludente de ilicitude, a morte de alguém é sempre ato considerado contrário aos interesses sociais. Daí por que ser o homicídio considerado crime. A lei, todavia, permite que os Jurados, representando a coletividade, condenem o réu, por considerar o ato criminoso, mas permitam a redução de sua pena porque ele, ao matar, imaginava estar beneficiando o corpo social. O exemplo clássico é o do homicídio do traidor da nação. • Motivo de relevante valor moral Diz respeito a sentimentos pessoais do agente aprovados pela moral média, como piedade, compaixão etc. No dizer de Heleno Cláudio Fragoso, são os motivos tidos como nobres ou altruístas.3 A própria exposição de motivos do Código Penal cita a eutanásia como exemplo de homicídio cometido por motivo de relevante valor moral. 3 Heleno Cláudio Fragoso, Lições de direito penal, Parte especial, v. I, p. 47. 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 85 11/4/2011 17:24:09 86 Direito Penal Esquematizado — Parte Especial Victor Eduardo Rios Gonçalves A eutanásia se verifica quando o agente tira a vida da vítima para acabar com o grave sofrimento decorrente de alguma enfermidade. Pode se dar por ação, como no caso de sufocação de pessoa com grave cirrose hepática, ou por omissão, ao não providenciar alimento, por exemplo, à pessoa tetraplégica. Alguns mencionam como exemplo de eutanásia omissiva desligar os aparelhos que mantêm viva uma pessoa que se encontra em estado vegetativo. Tal pessoa não consegue respirar sem a ajuda de aparelhos, mas não tem uma enfermidade (patologia) que a levará à morte, podendo sobreviver por muitos anos. Nesse caso, desligar os aparelhos constitui eutanásia. Trata-se, entretanto, de uma ação e não de uma omissão. A ortotanásia não constitui crime. Nesta o médico deixa de lançar mão de tratamentos paliativos que só prolongariam por pouco tempo a vida de pessoa com doença irreversível e fatal, como em caso de grave câncer em que o médico desiste de tratamento quimioterápico, que só traria mais sofrimento à vítima em razões dos seus efeitos colaterais, quando já se sabe que o quadro não reverterá. Nesse caso, a morte da vítima decorre do câncer e não da ação ou omissão do médico. Possível também o reconhecimento do relevante valor moral em casos de homicídio consentido para abreviar o sofrimento da vítima. 4 Pai que mata o estuprador da filha Esse é um dos casos mais citados como exemplo de homicídio privilegiado em que o pai, algum tempo depois do fato, descobrequem foi o autor do crime sexual contra sua filha, e, então, comete homicídio. Alguns entendem que se trata de relevante valor moral, porque o motivo do pai é defender a honra da filha — sentimento individual relevante. Para outros, se trata de relevante valor social, porque sua intenção é eliminar um marginal, beneficiando a coletividade. Embora existam duas correntes quanto ao fundamento, é pacífico que se trata de caso de homicídio privilegiado. • Crime praticado sob o domínio de violenta emoção logo em seguida à injusta provocação da vítima PRIVILÉGIO Injusta provocação da vítima Violenta emoção do agente Ato homicida logo em seguida ao ato provocador § Injusta provocação Por uma série de razões, é possível que uma pessoa provoque a outra, fazendo-o, por exemplo, por meio de xingamentos, de brincadeiras de mau gosto, riscando seu carro, jogando lixo ou pichando sua casa etc. Basicamente o que diferencia o privilégio da legítima defesa é o fato de que, no primeiro, ocorre mera provocação da vítima, enquanto, na segunda, há ato de injusta agressão. Não se pode, contudo, esquecer de que a legítima defesa possui vários outros requisitos. Ela exige, ainda, que o agente use moderadamente dos meios necessários 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 86 11/4/2011 17:24:09 I Dos Crimes Contra a Pessoa 87 para repelir a injusta agressão. Esse requisito não se mostra presente, por exemplo, quando alguém empurra outra pessoa, ou lhe dá um tapa no rosto, ou, ainda lhe joga alguma bebida no rosto, e o agente, em contrapartida, efetua vários disparos contra ela. Não obstante tenha havido uma agressão por parte desta, a reação homicida foi desproporcional, não sendo possível falar-se em legítima defesa. Não se pode negar, contudo, o caráter provocativo da vítima, o que permitirá o reconhecimento do privilégio. Da mesma forma, exige a excludente da legítima defesa que a agressão seja atual ou iminente. Na prática, contudo, se uma pessoa agrediu outra com socos e chutes e, cessada a agressão, foi até seu veículo para deixar o local, sendo, neste momento, alvejada pela vítima da agressão, que conseguira pegar um revólver com amigo que estava próximo, não estará configurada a legítima defesa porque a agressão inicial contra ela já havia cessado. Poderá, todavia, ser reconhecido o privilégio. Conclui-se, portanto, que, se houver ato de provocação, só pode ser reconhecido o privilégio. Se, entretanto, houver injusta agressão por parte da vítima, poderá ser reconhecida a legítima defesa se presentes os demais requisitos do art. 25 do Código Penal, sendo o réu absolvido. Se ausente algum deles, abre-se a possibilidade do reconhecimento do privilégio, pois o ato de agressão não deixa de ser uma provocação. O contrário, porém, não é verdadeiro. Quando alguém mata em razão de ter flagrado cônjuge ou companheiro em ato de adultério, é possível o reconhecimento do privilégio, pois é inegável que a situação do flagrante provoca violenta emoção e que o adultério é considerado ato de injusta provocação. Não se trata aqui de morte baseada em mero ciúme, e sim de violenta emoção decorrente do flagrante de adultério. No passado alguns homens que cometeram crimes em tal situação foram absolvidos por legítima defesa da honra. Os Tribunais, todavia, há muitos anos, rechaçaram tal possibilidade de absolvição, alegando que existe completa desproporção entre o homicídio e o ato de adultério, o que inviabiliza a absolvição por legítima defesa. O privilégio, porém, tem sido plenamente aceito em tais casos. Nota-se, por consequência, que, para o reconhecimento do privilégio, não é necessário que a vítima tenha tido a específica intenção de provocar, bastando que o agente se sinta provocado. No caso do adultério, por exemplo, o cônjuge traidor sequer pretendia que o outro tomasse conhecimento disso. § Domínio de violenta emoção O texto legal é bastante exigente, já que, para o reconhecimento do benefício, não basta a violenta emoção, sendo necessário que o agente fique sob o domínio desta. Exige-se, portanto, uma fortíssima alteração no ânimo do agente, isto é, que fique irado, revoltado, perturbado em decorrência do ato provocativo. Trata-se de situação em que o sujeito fica tão intensamente alterado que acaba fazendo uma bobagem, que não faria se estivesse calmo. Daí a razão da diminuição da pena, tendo em vista que tal estado emocional foi causado por provocação da vítima. O art. 28 do Código Penal dispõe que a emoção não exclui o crime, mas, na hipótese em análise, se acompanhada de outros requisitos, gera a redução da pena, em razão do disposto no art. 121, § 1º, do Código Penal. 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 87 11/4/2011 17:24:09 88 Direito Penal Esquematizado — Parte Especial Victor Eduardo Rios Gonçalves § Ato homicida logo em seguida à injusta provocação Para a aplicação do benefício, mostra-se necessária a chamada reação imediata, ou seja, que o ato homicida ocorra logo em seguida à provocação. Não existe uma definição exata em torno da expressão “logo em seguida”, sendo ela normalmente reconhecida quando o homicídio ocorre no mesmo contexto fático da provocação ou minutos depois. Assim, se a vítima xinga o agente dentro de um bar e este imediatamente saca um revólver e a mata, não há dúvida de que o fato se deu logo após a provocação. Esse requisito, contudo, mostra-se ainda presente, se a pessoa xingada vai até seu carro ou até sua casa, que fica nas proximidades, retorna ao bar minutos depois e mata a vítima. É possível que a provocação tenha ocorrido há muito tempo mas o agente só tenha tomado conhecimento pouco antes do homicídio e, nessa hipótese, há privilégio. Deve-se, pois, levar em conta o momento em que o sujeito ficou sabendo da injusta provocação e não aquele em que esta efetivamente ocorreu. Ex.: uma pessoa, em reunião de amigos, difama gravemente outra que não está presente. Alguns dias depois, uma das pessoas presentes à reunião encontra-se com aquele que foi difamado e lhe conta sobre o ocorrido. Este, ao ouvir a narrativa, fica extremamente irritado e, de imediato, vai à casa do difamador e comete homicídio. • Diferença entre o privilégio da violenta emoção e a atenuante genérica homônima (de mesmo nome) Nota-se no próprio texto legal duas diferenças. No privilégio, exige-se que o agente esteja sob o domínio de violenta emoção porque o ato se dá logo em seguida à injusta provocação. Na atenuante (art. 65, III, c), basta que ele esteja sob influência de violenta emoção decorrente de ato injusto, sem a necessidade de que o ato homicida ocorra logo em seguida àquele. Por isso, se o agente matou a vítima em face de perturbadora emoção ao flagrar o adultério, aplica-se o privilégio. Se ele, todavia, flagra a relação extraconjugal, mas comete o homicídio somente alguns dias depois, mostra-se possível apenas a atenuante genérica. O agente comete o crime sob a influência de violenta emoção, provocada por ato injusto da vítima. Privilégio Atenuante O agente mata sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida à injusta provocação da vítima. 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 88 11/4/2011 17:24:09 I Dos Crimes Contra a Pessoa 89 Fácil concluir, portanto, que, como os requisitos são diversos, caso os jurados reconheçam o privilégio, que tem requisitos maiores, não poderá ser aplicada a atenuante. Caso, todavia, recusem o privilégio, o juiz poderá aplicar a atenuante, se presentes seus requisitos. • Caráter subjetivo das hipóteses de privilégio Todas as figuras de privilégio são de caráter subjetivo, porque ligadas à motivação do agente (relevante valor social ou moral) ou à motivação somada à violenta emoção. Assim, nos termos do art. 30 do Código Penal, não se comunicam a coautores e partícipes do homicídio. Ex.: pai encontra o estuprador da filha e começa a desferir golpes para matá-lo. Nesse momento, um amigo chega ao local e, sem saber que se trata do estuprador,ajuda-o a matar o malfeitor. O pai responde por homicídio privilegiado, o amigo não. É evidente, contudo, que, se a motivação dos agentes for a mesma, será possível o reconhecimento do privilégio para ambos. Ex.: pai e mãe que matam o estuprador da filha. 1.1.1.1.3. Homicídio qualificado • Introdução Existem aproximadamente vinte qualificadoras do crime de homicídio, hipóteses em que o legislador entendeu ser o agente merecedor de maior reprimenda. Em todos esses casos a pena passa a ser de 20 a 30 anos de reclusão. Ademais, em sendo qualificado o homicídio, passa ele a ter natureza hedionda, o que altera sensivelmente o regime de cumprimento da pena. • Classificação das qualificadoras Em análise aos cinco incisos em que estão previstas as figuras qualificadas do homicídio, foi possível à doutrina perceber que estão elas agrupadas de acordo com características comuns. Pela leitura do texto legal, é fácil notar que algumas se referem ao motivo do crime, outras ao meio ou modo de execução, e, por fim, algumas que decorrem da conexão do homicídio com outro crime. Veja-se o quadro abaixo, em que as qualificadoras são classificadas: 1. Quanto aos motivos Paga, promessa de recompensa ou outro motivo torpe, e motivo fútil. 2. Quanto ao meio empregado Veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar em perigo comum. 3. Quanto ao modo de execução Traição, emboscada, dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido. 4. Por conexão Para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou vantagem 90 Direito Penal Esquematizado — Parte Especial Victor Eduardo Rios Gonçalves Na primeira modalidade, o delito é considerado mais grave em decorrência de o motivo do crime ser considerado imoral ou desproporcional. Na segunda, o legislador elencou formas de provocar a morte da vítima que lhe causam grande sofrimento, ou em que o agente atua de maneira velada, ou, ainda, com a provocação de perigo a outras pessoas, o que, inegavelmente, justifica maior reprimenda. Na terceira, o legislador considerou mais graves os crimes praticados de tal maneira que a vítima tenha ficado à mercê do homicida, sem possibilidade de defesa. Por fim, o homicídio foi considerado qualificado quando cometido em razão de outro crime (conexão). • Qualificadoras de caráter subjetivo e objetivo Além da classificação já estudada, existe outra que subdivide as qualificadoras entre aquelas que possuem caráter subjetivo e as que têm caráter objetivo. Essa distinção é de suma importância para a compreensão de muitos temas que serão a seguir analisados. As qualificadoras de caráter subjetivo são aquelas ligadas à motivação do agente, sendo de suma importância ressaltar que, além das hipóteses de motivo torpe e fútil, as qualificadoras decorrentes da conexão também inserem-se nesse conceito. Com efeito, embora possuam uma classificação autônoma decorrente do vínculo (conexão) do homicídio com outro crime, é inegável que, quando um homicídio é cometido, por exemplo, para assegurar a execução ou a impunidade de outro crime, o que está tornando o delito qualificado é o motivo pelo qual o agente matou a vítima — assegurar a execução ou impunidade. Já as qualificadoras de caráter objetivo são aquelas referentes a meio e modo de execução. Qualificadoras de caráter objetivo Veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar em perigo comum Traição, emboscada, dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido Qualificadoras de caráter subjetivo Paga, promessa de recompensa ou outro motivo torpe, e motivo fútil Finalidade de assegurar a execução, ocultação, impunidade ou vantagem de outro crime 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 90 11/4/2011 17:24:09 I Dos Crimes Contra a Pessoa 91 1.1.1.1.3.1. Qualificadoras quanto aos motivos Art. 121, § 2º, I — Se o homicídio é cometido mediante paga ou promessa de recompensa ou outro motivo torpe; Art. 121, § 2º, II — Se o homicídio é cometido por motivo fútil. • Paga ou promessa de recompensa Essa modalidade de homicídio qualificado é conhecida como homicídio mercenário porque uma pessoa contrata outra para executar a vítima mediante pagamento em dinheiro ou qualquer outra vantagem econômica, como a entrega de bens, promoção no emprego etc. A paga é prévia em relação ao homicídio, enquanto a promessa de recompensa é para entrega posterior, como no caso em que o contratante é filho da vítima e promete dividir o dinheiro da herança com a pessoa contratada para matar o pai. Concordamos com Nélson Hungria4 e Heleno Cláudio Fragoso5 quando dizem que a promessa de recompensa deve estar relacionada com prestação econômica (entrega de dinheiro, bens, perdão de dívida, promoção no emprego etc.) e não de outra natureza. Com efeito, não constitui paga uma mulher oferecer relação sexual a um homem para que ele, em seguida, mate outra pessoa. Igualmente não constitui promessa de recompensa a promessa de sexo futuro para o agente matar a vítima. Em tais casos configura-se a qualificadora prevista na parte final do dispositivo — outro motivo torpe. No sentido de que a promessa de recompensa só se refere à prestação econômica, temos ainda as opiniões de Cezar Roberto Bitencourt6 e Júlio Fabbrini Mirabete,7 enquanto em sentido contrário podemos apontar o entendimento de Damásio de Jesus.8 No caso de promessa de recompensa, a qualificadora existe ainda que o mandante, após a prática do crime, não cumpra a promessa e não entregue os valores combinados, pois o que importa é que o executor tenha matado em razão da promessa recebida. É comum que exista, em um mesmo caso, paga e promessa de recompensa, ou seja, que o contratante adiante uma parte em dinheiro e prometa entregar uma segunda parcela após a prática do crime. Nesse caso, a motivação é uma só (receber dinheiro para matar) e a vítima a mesma, de modo que não se configuram duas qualificadoras. 4 Nélson Hungria, Comentários ao Código Penal, v. V, p. 164. 5 Heleno Cláudio Fragoso, Lições de direito penal, Parte especial, v. I, p. 55. 6 Cezar Roberto Bitencourt, Tratado de direito penal, v. 2, p. 56. 7 Julio Fabbrini Mirabete, Manual de direito penal, v. 2, p. 70. 8 Damásio de Jesus, Direito penal, v. 2, p. 67. 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 91 11/4/2011 17:24:09 92 Direito Penal Esquematizado — Parte Especial Victor Eduardo Rios Gonçalves O homicídio, como regra, classifica-se como crime de concurso eventual, pois, normalmente, pode ser cometido por uma só pessoa ou por duas em concurso. A figura qualificada em análise, todavia, constitui exceção, na medida em que pressupõe o envolvimento mínimo de duas pessoas, sendo, por isso, classificada como crime de concurso necessário. A pessoa que contrata é chamada de mandante e a pessoa contratada de executora. É comum, outrossim, a existência de mais de um mandante e, ainda mais comum, a de vários executores. Também existe a possibilidade de existirem intermediários — pessoas que, a pedido do mandante, entram em contato com o “matador” e o contratam para matar a vítima — e que também respondem pelo crime. A punição de um independe da identificação e punição do outro, desde que exista prova da paga ou promessa de recompensa. É plenamente corriqueiro que o executor não conheça o mandante e que receba dinheiro adiantado para matar a vítima. Ao ser preso em flagrante, no momento em que mata a vítima, policiais encontram quantidade considerável de dinheiro com ele, que confessa ter recebido a quantia de um desconhecido para praticar o homicídio. Em tal caso, o executor será condenado pelo crime qualificado, embora não se tenha identificado o mandante. De se ver, aliás, que, se o executor recebe o dinheiro adiantado e desaparece com os valores, sequer procurando a vítima para iniciar o crime de homicídio,temos a hipótese do art. 31 do Código Penal em que nenhum dos envolvidos será punido. Esse dispositivo diz que o ajuste, a determinação ou instigação e o auxílio, salvo disposição expressa em sentido contrário, não são puníveis, se o crime não chega, pelo menos, a ser tentado. Assim, ainda que o homicídio não tenha sido tentado por razões que estão fora do controle do mandante, não será ele punido. Da mesma forma, se, após o pacto, o executor for atropelado e morrer antes de sair no encalço da vítima. São muitos os casos em que a qualificadora em estudo foi reconhecida: fazendeiros que contrataram pistoleiros para matar missionária que defendia e conscientizava os colonos acerca de seus direitos trabalhistas; companheira de ganhador de prêmio lotérico sem familiares que contratou amigos para matá-lo para dividirem o dinheiro do falecido; suplente de deputado e vice-prefeito que contrataram assassinos para matar os titulares do cargo e, com isso, assumirem sua cadeira; esposa que contratou executor para matar o marido e viver com o amante etc. ü Comunicabilidade da qualificadora ao mandante O executor do homicídio comete o delito por razões altamente imorais, ou seja, pelo lucro, não havendo, de sua parte, motivos pessoais para eliminar a vítima, que, na maioria das vezes, até lhe é desconhecida. Daí a razão de o crime ser qualificado para ele. O que causa acalorada discussão no âmbito doutrinário e jurisprudencial é definir se a qualificadora em tela se aplica também ao mandante, pessoa responsável pela contratação do matador. A polêmica, basicamente, gira em torno de se definir se a qualificadora da paga ou promessa de recompensa é ou não elementar do homicídio mercenário, uma vez 02 - Direito Penal Esquematizado - 059 - 558.indd 92 11/4/2011 17:24:10 I Dos Crimes Contra a Pessoa 93 que o art. 30 do Código Penal dispõe que as circunstâncias de caráter pessoal não se comunicam aos comparsas, salvo se elementares do crime. O ato de matar em troca de dinheiro ou outros valores é circunstância de caráter pessoal em face do executor porque se refere à sua motivação: matar por dinheiro ou outros valores. Assim, caso se entenda que esse aspecto pessoal é elementar do homicídio mercenário, ele se comunica ao mandante, e, caso se entenda o contrário, não. Conforme se verá abaixo, cada uma das correntes procura justificar seu entendimento pautada por argumentos técnicos e lógicos. Senão vejamos: 1ª Corrente — Não se comunica a qualificadora. Para os seguidores dessa corrente, deve-se respeitar o entendimento, praticamente pacífico na doutrina, de que elementares são apenas os requisitos essenciais do crime elencados no tipo básico, sendo chamadas de circunstâncias os fatores que alteram o montante da pena, tais como as qualificadoras. Esse é o aspecto técnico dessa orientação. O aspecto lógico que sempre é ressalvado pelos defensores dessa tese é de que o mandante tem seus próprios motivos para querer a morte da vítima, pois apenas o executor mata por dinheiro, de modo que deve ter sua conduta avaliada sob o prisma de sua própria motivação. Assim, o vice-prefeito que contrata um pistoleiro para matar o prefeito a fim de ficar com seu cargo responde pela qualificadora genérica do motivo torpe, e o executor por ter matado em razão da paga. Por outro lado, o pai que descobre quem foi o estuprador de sua filha e contrata outrem para matá-lo incorre em homicídio privilegiado, devendo apenas o executor incidir na figura qualificada da paga. Em suma, para esta corrente, a paga ou promessa de recompensa não é elementar e, por ser de caráter pessoal, não se estende ao mandante, que deve ser responsabilizado de acordo com os motivos que o levaram a contratar o executor. Nesse sentido, as opiniões de Heleno Cláudio Fragoso,9 Fernando Capez,10 Flávio Monteiro de Barros11 e Rogério Greco.12 Na jurisprudência podemos apontar os seguintes julgados: “I — Os dados que compõem o tipo básico ou fundamental (inserido no caput) são elementares (essentialia delicti); aqueles que integram o acréscimo, estruturando o tipo derivado (qualificado ou privilegiado) são circunstâncias (acidentalia delicti). II — No homicídio, a qualificadora de ter sido o delito praticado mediante paga ou promessa de recompensa é circunstância de caráter pessoal e, portanto, ex vi do art. 30 do CP, incomunicável; III — É nulo o julgamento pelo Júri em que o Conselho de Sentença acolhe a comunicabilidade automática de circunstância pessoal, com desdobramento na fixação da resposta penal in concreto” (STJ — 5ª Turma — Rel. Min. Félix Fischer, DJ 19.12.2003)