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A conduta consiste no movimento humano voluntário e possui basicamente dois elementos: a) Comportamento voluntário (dirigido a um fim, ninguém a forçou); b) Exteriorização da vontade (mecanismos mecânicos); As causas que excluem a conduta Caso Fortuito ou de Força Maior: Caso fortuito: tem origem em causa desconhecida Ex. cabo elétrico aéreo que sem saber o motivo se rompe e cai sobre fio telefônicos causando incêndio e explosão de caldeira de usina); - o que deu causa a morte não é a conduta da pessoa; Força maior: trata-se de um fato da natureza, e portanto, pode-se conhecer o motivo ou a causa que deu origem ao acontecimento Ex. reio que provoca incêndio, forte chuva que causa alagamento, etc. - não tive conduta mecânica nem comportamento voluntário; Involuntaridade Trata-se da ausência de capacidade por parte do agente, de dirigir sua conduta conforme uma finalidade predeterminadas. São casos de involuntariedade: a) Estado de inocência completa: como o sonambulismo e a hipnose, não pratica o crime por falta de conduta, porque estava no estado completo de involuntariedade; b) Movimentos reflexo: apesar de ter movimento mecânico do corpo não há voluntariedade, porque o movimento foi causado por algum estimulo externo. Ex. estou na fila do banco, alguém chega atrás de mim e me dá um susto, ao levar o susto acabo dando um tapa na mulher que estava atrás de mim, causando lesão corporal; Não responderei por lesão corporal, pois não houve voluntariedade, por mais que houve a ação mecânica; - Não confundir com ação em curto circuitos (crime praticado por ímpeto de fúria e em fração de segundos); Coação Física Irresistível Aqui exclui a parte física, a exteriorização física do comportamento, os movimentos mecânicos do comportamento; Ex. menina termina o namoro e já arruma outro, o ex-namorado descobre e fica furioso, vai até a casa dela, encontra ela com o namorado novo, pega a mão dela segurando ela, e faz ela apartar o gatilho e matar o novo namorado, neste caso não foi ela quem matou, ela não pode responder por homicídio; -somente coação física deve ser irresistível, a moral não!! Anotações ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ Crimes Comissivos: crime praticado por ação, por um fazer. O crime comissivo nada mais é do que a realização (ação) de uma conduta desvaliosa proibida pelo tipo penal incriminador. Viola um tipo penal proibitivo. Exemplos: homicídio, furto, roubou, falsificação de documento público etc. Viola o tipo penal proibitivo: cuidado com essa frase, pois artigo é diferente de norma (tipo), o artigo é o texto descrito na lei, ex. art. 121 – matar alguém, meu comportamento se encaixou ao artigo (tipicidade formal), a norma ou tipo é o espirito proibitivo, pois a norma fala não matar; Crimes omissivos: é a não realização (não fazer) de determinada conduta valiosa (comportamento ideal) a que o agente estava juridicamente obrigado e que lhe era possível concretizar. Viola um tipo mandamental. - te manda fazer algo e você não fez, ex. omissão de socorro; Divide-se em duas espécies: Crime Omissivo Próprios ou Puros/Propriamente ditos: no crime omissivo próprio ocorre o descumprimento de norma imperativa que determina a atuação do agente. Existe um dever genérico de agir que não é observado pelo destinatário da norma. Este dever, aliás, é dirigido a todos indistintamente (dever de solidariedade). Ex. Omissão de Socorro – art. 135 O próprio legislador escreve a conduta omissiva, ex. deixar de, não fazer etc... Se ninguém fizer nada todos respondem, agora se um fazer livra todos; Crime omissivo Impróprios ou Impuros/ Impropriamente ditos: chamado também de comissivos por omissão ou crime do garantidor. Nos crimes omissivos impróprios não basta a simples abstenção de comportamento. Aqui, o não fazer será penalmente relevante apenas quando o omitente possuir a obrigação de agir para impedir a ocorrência do resultado (dever jurídico). Mais do que o dever genérico de agir, aqui o omitente tem o dever jurídico de evitar a produção do evento; Tem o dever de enfrentar o perigo, de evitar a produção de um evento mais drástico; O legislador traz 3 personagens que deve de fato impedir; Decorre de cláusula geral, prevista no artigo 13, §1º do CP: a) Tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância, ex. policial; b) De outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado; ex. contrato, eu contrato babá para cuidar dos meus filhos e ela fica só assistindo novela, ele cai e morre, ela responde pelo resultado; c) Com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado; ex. se você coloca a vida de outras pessoas em risco, ascendo um cigarro no cinema e começa a pegar fogo, eu me torno garantidor tenho dever de salvar todo mundo; Ex. três pessoas estão na praia, sendo uma mulher, o salva vidas e um cadeirante que estava com um celular, eles avistam uma pessoa no mar pedindo socorro, mas não o ajudam, o moço morre afogado, qual será a responsabilidade de cada um? - a mulher responde por omissão de socorro; - o salva vida tinha a obrigação de salvar, então ele responderá por homicídio doloso é um crime de omissão impropria; No plano fático ele e a mulher praticaram a mesma conduta omissiva, só que ele é garantidor ele responde pelo resultado e ela pelo dever de solidariedade simples; - o cadeirante responderá por omissão de socorro, mesmo que ele não tinha a possibilidade de nadar, ele estava com o celular, então ele deveria ter chamado o resgate e ele não acionou. - a lei não exige o heroísmo de ninguém, mas se ele podia e devia fazer e não fez, ai ele responde; As pessoas respondem como se tivesse praticado o crime se tinham a obrigação de impedir; ANOTAÇÕES ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________O crime doloso, e suas principais espécies, está previsto no artigo 18, inciso I do CP; “Art. 18 – Diz-se o crime: I- Doloso, quando o agente quis o resultado (dolo direto) ou assumiu o risco de produzi-lo (dolo eventual)”. A doutrina conceitua dolo como: a vontade consciente dirigida a realizar (ou aceitar realizar) a conduta descrita no tipo penal incriminador; Do Crime Doloso - eu consigo prever a possibilidade de alcançar o resultado, ex. se eu atirar o gatilho eu mato; - ou eu dirijo a minha conduta para atingi-lo, eu realmente quero matar; - ou eu assumo o risco de produzi-lo; Elementos do dolo - Elemento volitivo; - Elemento intelectivo; Cuidado: a liberdade da vontade não é elemento do dolo, mas circunstância a ser analisada na culpabilidade (exigibilidade de conduta diversa). Ex. coação moral irresistível. Para eu ter dolo não preciso ter liberdade de escolha; Ex. gerente de banco trabalhando e entra dois criminosos apontando a arma em sua cabeça, mandando ele encher as mochilas com dinheiro, neste caso a banca pergunta sobre a conduta do gerente, esse gerente praticou um fato típico, uma conduta dolosa de subtração de coisa alheia móvel? -sim, praticou um fato típico, uma conduta dolosa, ele não responderá porque não há culpabilidade, pois houve a inexigibilidade de conduta diversa referente a coação moral irresistível, então eu não preciso da liberdade, apenas da consciência; Espécies de dolo: Dolo direto ou determinado: configura-se quando o agente prevê um resultado, dirigindo a sua conduta na busca de realizar esse evento. Ex. quero matar meu desafeto, eu consigo prever se eu atirar eu vou matar; Importante: A doutrina começa a trabalhar uma subdivisão em graus de dolo direto: 1º grau: é a vontade de praticar crime sobre o alvo principal (alvo vítima desejada); ex. presidente da república; 2º grau: alcança as vítimas que devem necessariamente serem atingidas para alcançar o dolo de primeiro grau; ex. pessoas que estão dentro do avião com o presidente, aereomoça, piloto, copiloto... 3º grau: consequências possíveis para atingir o dolo de primeiro grau. Ex. pessoas atingidas pela queda do avião; Ex. terroristas quer matar o Presidente da República, ele prepara uma bomba no avião que o presidente irá viajar, o dolo direto de primeiro grau recai sobre o presidente, mas dentro do avião terá outras pessoas, e não há chance delas sobreviverem, o resultado é certo, não tem como atingir o dolo de primeiro grau sem atingir o de segundo grau, se este avião cai e atinge pessoas que estão lá em baixo será dolo direto de terceiro grau; São consequências que pode acontecer e também pode não acontecer; Dolo indireto ou indeterminado: o agente, com a sua conduta, não busca resultado certo e determinado. Possui duas modalidades: Dolo alternativo: agente prevê a pluralidade de resultados, dirigindo a sua conduta para realizar qualquer deles. Tem a mesma intensidade de vontade de realizar os resultados previstos; Eu quero praticar um comportamento criminoso, e esse comportamento vai colocar em risco as pessoas, e eu prevejo pluralidade de resultados, no meu comportamento eu posso atingir vários crimes. Ex. briga de torcida organizada, o corintiano quer atirar no flamenguista, só que ele sabe que atirando e acertando ele pode causar lesão corporal ou morte, ele está preocupado em atirar, se ele matar vai sair satisfeito, se ele causar lesão corporal também vai sair satisfeito, então é 50% de vontade de matar e 50% de causar lesão corporal, esse é o dolo alternativo; Dolo eventual: O agente prevê pluralidades de resultados, dirigindo a sua conduta para realizar um deles, assumindo o risco de realizar outro. A intensidade da vontade em relação aos resultados previstos é diferente. Esse assumir o risco é tratar com indiferença, ele não se importa; Dolo eventual com o resultado mais grave: Ex. estou armado e quero atirar em um torcedor do flamengo, e quero causar lesão corporal, mas eu não sei manusear arma de fogo e sou ruim de mira e posso matar se eu errar, mas ele não liga. Então, tenho o dolo direito sobre a lesão corporal e o dolo eventual sobre a morte; Ex. sujeito chega no bar querendo encher a cara, e vai sair com o carro, era previsível pra ele que se ele enchesse a cara ficando completamente embriagado, poderia acontecer um acidente, neste tempo ele sai embriagado e atropela uma pessoa, então ele irá responder por dolo eventual pois ele assumiu o risco, ignorou, tratou com indiferença; Do Crime Culposo “Art. 18 – diz-se o crime: I- (...) II- Culposo, quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligencia ou imperícia; Conceito: o crime culposo consiste numa conduta voluntária que realiza um evento ilícito não querido ou aceito pelo agente, mas que lhe era previsível (culpa inconsciente) ou excepcionalmente previsto (culpa consciente) e que poderia ser evitado se empregasse a cautela necessária. Elementos da culpa: 1- Conduta humana voluntária, - ex. saio do trabalho para ir para casa mas vou com pressa em alta velocidade, então eu quis estar em alta velocidade mas não quis praticar um crime; 2- Violação de um dever de diligencia; ex. se o juiz perceber que uma pessoa de inteligência média tivesse evitado o crime não é perdoável, mas se ele entender que qualquer pessoa também erraria naquela situação ele perdoa; Modalidades de Culpa: a) Imprudência: culpa positiva (é um fazer em excesso) sinônimo de afoiteza, sempre está presente durante a conduta; Ex. sujeito em alta velocidade, passa um pedestre na frente e não dar tempo de frear e mata a pessoa; b) Negligencia: culpa negativa (deixar de fazer), ocorre antes da conduta; Ex. sujeito vai sair de carro, o carro está sem freio, sem pastilha, pneu careca, ele sai em baixo de chuva, sem estar acima do limite de velocidade, mas ao tentar frear o carro não responde e atropela a vítima, caso de negligencia; c) Imperícia: falta de aptidão técnica; ex. suborna o cara do detram e não sabe dirigir, compra a carteira de motorista e começa a dirigir na rua, ele se apavora, troca os pedais e acaba atropelando uma pessoa, não possui capacidade técnica alguma para dirigir, então será imperícia; As três modalidades podem acontecer no mesmo contexto; 3- Resultado naturalístico involuntário: é todo resultado que causa modificação no mundo externo, no mundo nos fatos; 4- Nexo entra a conduta e resultado: Relação de causalidade: “Art. 13 – o resultado de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se causa ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido”. 5- Resultado involuntário previsível: Eu não consegui prever o que era previsível para uma pessoa com o mínimo de cuidado, então agi com culpa; 6- Tipicidade: depende de previsão legal especifica, o legislador prevê, ex. homicídio culposo, é previsto as hipóteses; “Art. 18- diz-se o crime: Parágrafo único: salvo os casos expressos em lei, ninguém pode ser punido por fato previsto como crime, senão quando o pratica dolosamente” Espécies de Culpa - Culpa Inconsciente: o agente não prevê o resultado que, entretanto, era previsível. Aqui, qualquer pessoa de diligencia mediana tinha condições de prever o risco; Ex. indivíduo que atinge involuntariamente a pessoa que passava pela rua, porque atirou um objeto pela janela por acreditar que ninguém passaria naquele horário - o agente age de forma inconsciente com o resultado, ele não enxerga o que qualquer pessoa enxergaria; - Culpas Consciente: o agente prevê o resulta, mas espera que ele não ocorra, suponde ter opoder de evita-lo com suas habilidades ou com a sorte. Aqui, mais que mera previsibilidade, o agente tem previsão. Ex. caçador que, avistando um companheiro próximo ao animal que deseja abater, confia em sua condição de perito atirador para não atingi-lo quando disparar, causando ao final, lesões ou morte da vítima ao disparar o tiro; - neste caso tem previsão concreta; - neste caso eu não tratei com indiferença a morte do meu amigo, eu confiei em mim, mas eu consegui prevê, muito parecido com o dolo eventual; - Culpa própria: á aquela em que o agente não quer e não assume o risco de produzir o resultado, mas acaba lhe dando causa por negligencia, imprudência ou imperícia; - Culpa imprópria: chamada desse jeito por que na verdade é um crime doloso, mas são casos específicos onde o legislador dá um voto de confiança para o criminoso; - é aquela em que o agente, por erro evitável, imagina certa situação de fato que, se presente, excluiria a ilicitude do seu comportamento. Provoca intencionalmente determinado resultado típico, mas responde por culpa por razões de política criminal. Assim anuncia o artigo 20, §1, do CP; §1 – é isento de pena, quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato que, se existisse, tornaria a ação legitima. Não há isenção de pena quando o erro deriva de culpa e o fato é punível como crime culposo”. Ex. legitima defesa putativa, sujeito caloteiro jurado de morte, ele andando na rua ve uma das pessoas que ameaçaram ele se antecipa e atira em seu desafeto, ele quis atirar, foi doloso, mas ele agiu em erro evitável, ele não é um delinquente, ele agiu em erro, no caso a legitima defesa putativa, então responderá por homicídio culposo e caso o desafeto sobrevivesse responderia por lesão corporal culposa, porque o crime culposo não admite tentativa; Quais as diferenças entre culpa consciente e dolo eventual? Dolo eventual: foda-se Culpa consciente: fodeu Em ambos o agente consegue prever o resultado como possível, há uma previsão concreta; Mas no dolo eventual o agente assume o risco, trata com indiferença/descaso de produzir o resulta. Mas na culpa consciente o agente acredita poder evitar o resultado com base nas: - próprias habilidades; - com base na sorte; No concurso devemos analisar o ponto da conduta, pois o dolo eventual vem sempre antes da conduta (foda-se), já a culpa consciente vem depois da conduta (fodeu); Ex. sujeito chega no condomínio em que ele mora, com dois duas torres, ele quer soltar um rojão porque seu time ganhou, o sindico ao ver que o condômino quer fazer isso, alerta ele para não fazer pois pode acertar alguma pessoa ou algum apartamento, ai ele fala “ah não to nem aí, ali só mora corintiano e se acertar não ligo”, a bomba acaba acertando uma criança causando lesão corporal leve, ele irá responder por lesão corporal dolosa, a título de dolo eventual, porque antes veio o foda-se e depois vem a produção da culpa e do resultado; Ex. atirador de facas, coloca uma pessoa no meio, ele sabe que se ele errar ele pode matar ou causar alguma lesão, mas ele confia no seu talento porque ele nunca errou, mas um certo dia acaba acertando na pessoa que está lá sentada, quando ele tira a venda ele fala “nossa fodeu”, ele vai responder por lesão corporal culposa, agiu de forma imprudente causando um resultado naturalísticos; Do Crime Preterdoloso No crime preterdoloso, o agente pratica distinto do que haja projetado cometer, advindo da conduta dolosa resultado culposo mais grave do que projetada. O comportamento é doloso, mas o resultado (mais grave) é involuntário. - antes vem o dolo e após o culpa; - trata-se de figura hibrida, havendo verdadeiro concurso de dolo e culpa no mesmo fato (dolo no antecedente – conduta – e culpa no consequente – resultado). Ex. só quero agredir, mas acabo matando, ex. briga na balada, começo a bater na pessoa, mas ela é levada para o hospital e morre por traumatismo craniano, eu vou responder porque eu dei causa, é um exemplo de crime preterdoloso; Ex. lesão corporal seguida de morte – art. 129, §3º do CP (lesão dolosa + morte culposa): “Art. 129. Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem: §3º- se resulta morte e as circunstancias evidenciam que o agente não quis o resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo: - pena – reclusão de quatro a doze anos; - o resultado mais grave é a título de conduta culposa; Exercício: “X” estaciona seu automóvel regularmente em uma via pública com o objetivo de deixar seu filho, “Z”, na pré- escola, entretanto, ao descer do veículo para abrir a porta para “Z”, não percebe que, durante esse instante, a criança havia soltado o freio de mão, o suficiente para que o veículo se deslocasse e derrubasse um idoso, que vem a falecer em razão do traumatismo craniano causado pela queda. Em tese, “X”. - não responde por crime algum, uma vez que não agiu com dolo ou culpa. ANOTAÇÕES ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ Não confundir com erro de proibição. Erro de tipo em alguma das suas espécies, tem previsão legal, outras não, a doutrina discute e a jurisprudência aceita. Artigo 20 do Código Penal: “Erro sobre elementos do tipo, Art. 20 – O erro sobre elemento constitutivos do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei”. Ex. a) mulher que sai às pressas da sala de aula e, por engano, leva a bolsa de sua colega, muito parecida com a sua – erro de tipo; Ex. b) caçador que atira e mata o seu colega de caça, depois que este, sem avisar, se disfarça de urso para pregar-lhe uma peça; Espécies de Erro de Tipo: Dividido em duas espécies, sendo Erro de tipo Essencial e Erro de tipo Acidental; No essencial, o erro recai sobre os dados principais do tipo penal (elementares), enquanto que no acidental, recai sobre dados secundários (periféricos); Quando falamos em erro de tipo, significa que o agente representa errado a realidade, ele se engana em relação a realidade; No essencial, o agente se equivoca sobre elementares do crime, podemos considerar como qualquer elemento previsto expressamente no crime; No acidental o sujeito sabe que vai praticar um crime, só que ela representa errado sobre peculiaridades que não estão no tipo penal, ex. eu quero matar meu vizinho, só que eu atiro e acabo matando meu cunhado; No essencial ele não quer praticar um crime, mais ao praticar ele se encaixa num tipo penal. No acidental fica claro que ele quer praticar só corrige o percurso se ele ver que é o cunhado e vai atrás do vizinho; ESSENCIAL ACIDENTAL -Inevitável (escusável, perdoável) -Sobre o objeto; -Sobre a pessoa; -Evitável (inescusável, imperdoável) -Na execução; -Resultado diverso do pretendido; -Sobre o nexo causal Erro de Tipo Essencial - o erro de tipo essencial recai sobre elementares, circunstâncias ou quaisquer dados que se agregam a determinada figura típica; As consequências dessa modalidade dependerá se o erro é inevitável ou evitável: Se inevitável (justificável, escusável ou invencível- não tinha como não errar, ele iria errar de qualquer jeito) excluirá o dolo por ausência de consciência, e a culpa por ausência de previsibilidade, não responde por crime nenhum; Ex. estou na sala de aula, e um amigo coloca o celular dele na minha carteia junto com o meu, e o celular dele é idêntico ao meu, eu representei errado sobre o objeto na conduta de furto, achando que era objeto meu maisna verdade era objeto alheio, qualquer pessoa cometeria esse erro; Se evitável (injustificável, inescusável ou vencível), cuidando-se de erro previsível, só excluirá o dolo, mas será punido a título de culpa, se previsto o crime nessa modalidade, pois havia a possibilidade de o agente reconhecer o perigo; Um dos elementos da culpa é a tipicidade, para responder pela culpa deve estar fixado em lei como culpa; Ex. se o amigo vestido de urso, sempre fazia esse tipo de brincadeira e mesmo assim eu atirei nele, ele vai responder por homicídio culposo, pois prevê essa tipificação; Outros tipos que não possui a modalidade culposa, serão considerados atípicos, ex. do furto, não tem modalidade culposa, então não responderei por crime nenhum, mesmo se eu podia evitar de pegar o celular do meu amigo; Como aferir a (in) evitabilidade do erro? - A corrente tradicional invoca a figura no “homem médio”, entendendo que a previsibilidade deve ser avaliada apenas sob o enfoque objetivo; Esse raciocínio acima está um pouco ultrapassado, o que vem prevalecendo é que nós devemos fazer uma substituição hipotética considerando todas as peculiaridades do caso concreto. Ex. voltando ao exemplo do caçador, se o caçador agiu em mata densa/selvagem, longe do centro urbano, certamente seu erro será considerados inevitável, ficando isento de pena. Se no entanto, agiu em mata próxima ao centro habitado, ciente de que outros acidentes ocorreram na região, não observando o seu dever de cuidado, seu erro será etiquetado como evitável, respondendo por crime culposo. Erro de Tipo Acidental O sujeito é criminoso, ele quer praticar o crime; É o erro que recai sobre dados secundários, periféricos do tipo. A intensão criminoso é manifesta, incidindo naturalmente a responsabilidade penal. Vale estudarmos em separado cada uma das espécies de erro de tipo acidental e suas respectivas consequências; Quando não tem previsão legal, temos olhar de forma mais benéfica ao réu; Erro de tipo acidental SOBRE O OBJETO: - Não possui previsão legal, mas é aceito pela doutrina. Ocorre quando o agente confunde o objeto material (coisa) visado, atingindo outro que não o pretendido; Ex. quero furtar um celular da Samsung, mas furtei um iphone; Ex. sujeito quer furtar um relógio de ouro que custa 30 mil real, só que ele se confunde e pega um de latão que custa 30 reais; Se eu considero o relógio de 30 mil seria furto, se eu considero o relógio de 30 reais entra o princípio da insignificância, ou seja, não tem crime; Mas será que ele vai responder pelo pretendido ou pelo que ele pegou de verdade? Consequência prevalece que o agente deverá responder considerando as características do objeto efetivamente atingido, ou seja, o latão; Não podemos fazer analogia in malam partam. E vice e versa, se ele vai querendo pegar o de 30 reais sabendo que não vai dar em nada, mas acaba pegando o de ouro, ele vai responder pelo de ouro, ou seja, por furto; SOBRE A PESSOA Está previsto no artigo 20, §3; - §3º: o erro quanto a pessoa contra a qual o crime é praticado não isenta de pena. Não se consideram, neste caso, as condições ou qualidades da vítima, senão as da pessoa contra quem o agente queria praticar o crime”. Ex. eu Ana quero atirar no João (vítima pretendida), mas acabo atirando em Pedro (vítima real), neste caso eu vou responder pela vítima pretendida, mesmo que eu tenha acertado quem eu não queria, pois não cabe o princípio da insignificância aqui; Nesta espécie, há uma equivocada representação do objeto material (pessoa) visado pelo agente. Por conta desse erro, o agente acaba por atingir pessoa diversa. Aqui, percebe-se a existência de ao menos dois personagens como vítima: vítima real (pessoa realmente atingida) e a vítima virtual (pessoa que se pretendia atingir). Quando da execução, o agente confunde ambas; Ex. fulano quer matar seu próprio pai, porém, representando equivocadamente a pessoa que entra em casa, acaba por matar seu tio. Fulano será punido por parricídio, embora seu pai permaneça vivo; Consequência: o agente será responsabilizado pelo crime, com a ressalva de que serão consideradas as qualidades e características da vítima pretendida. Então, se eu queria matar meu pai para ficar com a herança e mato meu tio, eu serei deserdado e não serei mais herdeiro da herança do meu pai e responderei por homicídio qualificado por motivo torpe. Agora se eu queria matar meu tio, mais acabo matando meu pai, eu vou responder por homicídio simples, e ainda continuarei sendo herdeiro, tendo direito a herança de meu pai; ERRO NA EXECUÇÃO (ABERRATIO ICTUS) Previsto no artigo 73 do Código Penal: Art. 73 – Quando, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, o agente ao invés de atingir a pessoa que pretendia ofender, atinge pessoa diversa, responde como se tivesse praticado o crime contra aquela, atendendo-se ao disposto no §3º do artigo 20 deste Código. No caso de ser também atingida a pessoa que o agente pretendia ofender, aplica-se a regra do art. 70 deste código”; Ex. se eu quero acertar meu pai e o tiro passa perto do pescoço dele e acerta meu tio, irei responder igual sobre o erro da pessoa, ou seja, responderei pela vítima atingida; Agora se, eu quero matar meu pai atirei o disparo pegou o pescoço dele e matou e acabou acertando a perna do meu tio causando lesão, terei concurso formal de crimes eu mediante uma única conduta eu acerto dois resultados/crimes diferentes, responderei por homicídio doloso em concurso formal com lesão corporal culposa; Vou considerar as características da vítima pretendida, não pode ser a que foi acertada; Em síntese, trata-se do acidente ou erro no uso dos meios de execução e, por conseguinte, o agente acaba atingindo pessoa diversa da pretendida (embora corretamente representada). Ex. fulano mira seu pai entretanto, por falta da habilidade no uso da arma, acaba atingindo vizinho que passava do outro lado da rua. Consequências: Se o agente atingir apenas a pessoa diversa da pretendida, será punido pelo crime, considerando-se, contudo, as condições e qualidades da vítima desejada, e não da vítima efetivamente atingida; 2- Se o agente atingir também a pessoa diversa, será punido pelos dois crimes, em concurso formal. No exemplo anterior se “fulando atingir seu pai, ceifando sua vida e sem querer também seu vizinho, que sofre lesões será punido por homicídio doloso do pai e lesões culposas do vizinho, aplicando- se a regra do concurso formal de crimes (art.70); Resultado Diverso do Pretendido (ABERRATIO CRIMINIS) Quero praticar um crime contra o patrimônio e acabo acidentalmente atingido uma pessoa, bens jurídicos diversos, o agente responde por culpa uma modalidade de erro acidental que afastaremos o dolo; Art. 74 – Fora dos casos do artigo anterior, quando por acidente ou erro na execução do crime, sobrevém resultado diverso do pretendido, o agente responde por culpa se o fato é previsto como crime culposo; se ocorre também o resultado pretendido, aplica-se a regra do art. 70 deste código”. Ex. estou com inveja do meu vizinho pois ele comprou uma BMW, aí eu pego um tijolo para acertar no carro dele (dano ao patrimônio), e ao tacar no carro pega na cabeça do meu vizinho e acabo matando, por erro no golpe, erro na execução, resultado diverso do pretendido, pois eu queria atingir o carro não ele. Se o resultado era previsível eu responderei pelo resultado atingido, porém por culpa, ou seja, homicídio culposo, se não era previsível, afasta-se culpa, afasta-se dolo, não há culpa. E se eu atinjo os dois resultados? Dano ao patrimônio e homicídio, se eu falar que era previsível tereiconcurso formal de crimes, homicídio culposo em concurso formal com dano ao patrimônio. Ou respondo por crime mais grave que eu atingi a título de culpa se tiver a modalidade culposa, ou se atingir os dois bens jurídicos eu responderei por concurso formal. E se eu quero atingir pessoa mais eu acerto o carro? - se eu aplicar o art. 74 será injusto, prevalece na doutrina, como o legislador disse menos do que gostaria vamos fazer uma interpretação extensiva, peso de bens jurídicos: - se eu quero atingir um bem jurídico pequeno mais acabo acertando um alto aberratio criminis, resultado diverso do pretendido, afasta o dolo e respondo por culpa sobre o resultado mais grave (ao invés de responder por dano ao patrimônio que a pena é minúscula eu respondo por homicídio culposo); - agora, se inverter o peso dos bens jurídicos, responderemos por tentativa (ex. quero acertar a cabeça do meu vizinho mas acabo acertando o carro) vou responder por tentativa de homicídio; Erro de Tipo Acidental Resultado Pretendido Resultado Produzido Erro sobre o objeto Coisa Coisa (diversa) Erro sobre a pessoa Pessoa Pessoa (diversa) Erro na execução Pessoa Pessoa (diversa) Resultado diverso do pretendido Coisa Pessoa Tentativa (erro na execução com o resultado atingido menos valioso que o resultado pretendido) Pessoa Coisa Erro sobre o nexo causal (ABERRATIO CAUSA) Não possui previsão legal (doutrina). É o caso em que o resultado desejado se produz, mas com nexo diverso, de maneira diferente da planeja pelo agente. Divide-se em duas espécies: - erro sobre o nexo causal em sentido estrito: ocorre quando o agente, mediante um só ato, provoca o resultado visado, porém com outro nexo de causalidade Ex. A empurra B de um penhasco para que ele morra afogado, porém, durante a queda, B bate a cabeça contra uma rocha e morre em razão de um traumatismo craniano. Resultado homicídio doloso, uma única conduta, ele quer matar afogado, mas ocorre que morre por outro motivo; - dolo geral ou aberratio causae: ocorre quando o agente, mediante pluralidade de atos, provoca resultado pretendido, porém com outro nexo causal. Ex. A atira em B (1º ato) e, imaginando que B está morto, joga o corpo no mar, vindo B a morrer por afogamento. Consequência: homicídio doloso, será punido por um só crime, dolo geral, queria matar eu matei, mais por nexo causal diferente. Estamos falando de pluralidades de delinquentes. Plurisubjetiva: exige mais de um agente para cometer o crime, ex. organização criminosa. O nosso código penal adotou uma teoria, e a jurisprudência adotou outra, mas elas se complementam. Teoria objetivo formal: autor é quem realização a ação nuclear típica e partícipe quem concorre de qualquer forma para o crime. Ex. matar, roubar. Teoria adota pelo código penal, artigo 29 do CP. Teoria do domínio do fato: idealizada pelo alemão Hans Welzel no final da década de 1930. Para essa teoria, autor é quem controla finalisticamente o fato, ou seja, quem decide a sua forma de execução, seu início, cessação e demais condições. Partícipe, por sua vez, será aquele que, embora colabore dolosamente para o alcance do resultado, não exerça domínio sobre a ação. Autor é aquele de domina a situação do crime, é aquele mandante. Como desdobramento lógico desta teoria, é possível afirmar que possui o controle final do fato: - aquele que, por sua vontade, executa o núcleo do tipo (autor propriamente dito); - aquele que planeja a empreitada criminosa para ser executada por outras pessoas (autor intelectual); - aquele que se vale de um não culpável ou de pessoa que atua sem dolo ou culpa para executar o tipo, utilizada como seu instrumento (autor mediato); Autoria Mediata: o autor mediato é o sujeito que, sem realizar diretamente a conduta descrita no tipo penal comete o fato típico por ato de outra pessoa, utilizada como seu instrumento. Não se confunde com o conceito de partícipe, tendo em vista que partícipe é conduta acessaria, além de não possuir o domínio do fato. Nesse sentido, podemos diferenciar: O autor mediato se vale, como seu instrumento, de pessoa não culpável (não imputável, sem potencial consciência da ilicitude ou inexigível dele conduta diversa) ou que atua sem dolo ou culpa. Embora o CP não contenha previsão expressa a respeito do conceito de autoria mediata, apresenta 5 hipóteses em que o instituto é aplicável: 1- Inimputabilidade penal; 2- Coação moral irresistível; 3- Obediência hierárquica 4- Erro de tipo escusável provocado por terceiro; 5- Erro de proibição escusável provocado por terceiro. Partícipe Temos duas modalidade de participação: a) Participação moral - instigação: reforça ideia criminosa já existente; - induzimento: faz nascer a ideia criminosa sobre o autor b) Participação material: Fornece instrumentos ou meios para viabilizar ou facilitar o crime praticado pelo autor. Eles podem acontecer no mesmo contexto. A participação pode ser prestada durante os atos preparatórios ou executórios, mas, se consumado o crime, somente se considera eventual a assistência se previamente acordada entre os agentes. Além disso, a participação é conduta acessória, que depende, para ter relevância, da conduta principal. Como o participe não pratica a ação nuclear típica (o verbo do crime), sua ação só será punível, em regra, se o autor iniciar os atos executórios do fato a que havia se proposto. A participação só é punível se pratica for ao menos tentada, se não chegar a tentar o crime, não será punido. Temos 4 teorias que discutem a possibilidade de punição do participe: 1- Acessoriedade mínima: para que a conduta do participe seja punida é necessário que a conduta do autor seja um fato típico. Crítica: permite a punição do participe mesmo quando o autor está amparado por excludente de ilicitude. 2- Acessoriedade limitada (ou média): para que a conduta do partícipe seja punida é necessário que a conduta do autor seja um fato típico e ilícito. Essa teoria é adotada pelo Brasil. 3- Acessoriedade máxima: para que a conduta do participe seja punida é necessário que a conduta do autor seja um fato típico, ilícito e culpável. Crítica: permite a impunidade do participe de alguém sem culpabilidade. 4- Hiperacessoriedade: para que a conduta do partícipe seja punida é necessário eu a conduta do autor seja fato típico, ilícito, culpável e punível. Para falarmos em curso de pessoas é necessário 4 requisitos cumulativamente: a) Pluralidade de agentes e de condutas: duas ou mais pessoas para praticarem crimes; b) Relevância causal das condutas. c) Liame subjetiva entre os agentes: concordância dos agentes para praticar o crime. d) Identidade da infração penal: todo mundo deve responder pelo menos delito; Todos os concorrentes do evento criminoso responderão pela mesma infração penal? Temos 3 teorias discutindo esse tema, e o Brasil adotou uma como regra e as outras duas como exceções. Teoria monista (unitária ou igualitária): mesmo que o fato criminoso tenha sido praticado por vários agentes, conserva-se único. Não estabelece distinções entre os personagens e a gravidade do ato praticado por cada um. Crítica: dificulta o estabelecimento material da equivalência das condições, ignorando, também as próprias exceções previstas em lei, que estabelecem penas maiores ou menores de acordo com a função efetivamente desempenhada por cada um dos agentes. Brasil adota a monista temperada, mitigada, igualitária, todos respondem na medida da sua culpabilidade. Teoria pluralista: a cada um dos agentes se atribui conduta, elemento psicológico e resultado específicos.Haverá tantos crimes autônomos para quantos forem os agentes. Crítica: o papel de cada um dos agentes não é autônomo, o elemento subjetivo não é destacado do todo e o resultado também não será fracionado. Brasil não adotou, mas temos exceções para aplicar essa teoria, ex. aborto com consentimento. Há, todavia exceções em que o legislador aplicou a teoria pluralista: Aborto provocado por terceiros com o consentimento da gestante (art. 124 e 126 do CP); Corrupção (passiva: art. 317; ativa: art. 333). Teoria dualista: separa os autores (que praticam o núcleo do tipo) dos partícipes (que auxiliam de qualquer forma). Há um crime para os autores e outro para os partícipes. Crítica: muitas vezes a atuação do executor é menor relevante do que a desempenhada pelo partícipe, como ocorre por exemplo no homicídio praticado por mandato. Autoria Colateral (não é hipótese de concurso de pessoa, mas no concurso é cobrado dentro desse tema): verifica-se a autoria colateral quando dois ou mais agentes, um ignorando a contribuição do outro, concentram suas condutas para o cometimento da mesma infração penal. Nota- se, no caso, a ausência de vínculo subjetivo entre os agentes, que, se presente, faria incidir as regras do concurso de pessoas. O que fazer quando não é possível identificar quem foi o efetivo causado do resultado criminoso (daí surgindo a chamada autoria incerta)? Aplicaremos o princípio do in dubio pró réu, na dúvida favorece o réu. Se não for possível detectar quem é o autor do crime, temos que aplicar o in dubio pró réu, na dúvida absolve. Punibilidade no Concurso de Pessoas Segundo o artigo 29 do CP, ao menos abstratamente, autor e partícipe incorrem na mesma pena: Art. 29 - Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade. Teoria monista temperada, cada um responde na medida de sua culpabilidade. § 1º - Se a participação for de menor importância, a pena pode ser diminuída de um sexto a um terço. Trata-se de participação de pouca relevância, só podendo ser aferida na prática. Cuidado: aplica-se exclusivamente ao partícipe; § 2º - Se algum dos concorrentes (coautores e partícipes) quis participar de crime menos grave, ser-lhe-á aplicada a pena deste; essa pena será aumentada até metade, na hipótese de ter sido previsível o resultado mais grave. Se refere a coautoria e a participação. Ex. dois sujeitos acordam de fazer um furto na casa de uma família que havia saído para viajar. Um dos assaltantes ficou no andar de baixo da casa e outro foi para o segundo andar. Ao chegar no segundo andar se deparou com a filha da família dormindo no quarto e com isso ele acabou estuprando ela. Os agentes combinaram apenas de praticar o furto e não o estupro. Se o cara de baixo não sabia do estupro ele vai responder somente pelo furto e não pelo estupro. Mas essa pena será aumentada pela metade, se os elementos do caso concreto era previsível, ex. o agente que só cometeu o furto sabia que o outro era conhecido por estupro. Art. 30 - Não se comunicam as circunstâncias e as condições de caráter pessoal, salvo quando elementares do crime. Ex. um sujeito de 30 anos e um de 18 anos praticam um roubo, o sujeito de 30 anos cumprirá a pena normal, mas o sujeito de 18 anos terá sua pena reduzida pela metade por ser menor de 21 anos. Salvo, quando elementares do crime, ex. crime de infanticídio, somente mãe pode responder por crime, é uma elementar do crime. Ex. crime de peculato furto. O diretor da escola pública vai realizar um furto e chama seu cunhado (particular) para ajuda-lo, o cunhado sabe que ele é diretor da escola e que está se aproveitando da função para realizar o peculato furto. Qual será o crime para cada um deles? Cuidado!!! Se funcionário público é elementar do crime de peculato furto, vai se comunicar ao coautor, esse cunhado que não era nada, vai responder como se funcionário público fosse. A conduta do participe é acessório a conduta do autor. Art. 31 – o ajuste, a determinação ou instigação e o auxílio, salvo disposição expressa em contrário, não são puníveis, se o crime não chega pelo menos, a ser tentado. O participe é punido se o autor tiver pelo menos tentado o crime, o início dos atos executórios, salvo disposição em contrário é raro acontecer, mas temos alguns crimes que o participe é punido como se fosse autor. Ex. induzimento, instigação e auxilio ao suicídio e a automutilação. Então na regra, para o participe ser punido é necessário que autor tenha ao menos começado a executar o crime. Pluralidade de delitos que ocorrem no mesmo delito. Ex. matei alguém, roubei, e xinguei pessoas. No brasil foi criado 3 espécies de concurso de crimes. Concurso Material: Art. 69 - Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplicam-se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido. No caso de aplicação cumulativa de penas de reclusão e de detenção, executa-se primeiro aquela. Ou seja, duas ou mais condutas e dois ou mais crimes = somam-se as penas. Reclusão é mais grave, iniciando-se o regime em fechado, depois semiaberto e aberto. Detenção inicia-se em semiaberto. Ex. matei, roubei e injuria, irei somar as penas, 3 comportamentos, 3 crimes, e 3 penas, somam-se tudo. Dá-se o concurso material (ou real) quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplicando-se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido. São requisitos do concurso material: - Pluralidade de condutas; - Pluralidade de crimes; Condenação a penas de reclusão e detenção: Nos termos da parte final do art. 69 do CP, em caso de aplicação cumulativa de penas de reclusão e detenção, deverá ser executada primeiramente a pena de reclusão. Ex. homicídio e crime contra a honra. Cumpro primeiro a reclusão (homicídio +grave) e depois a detenção (crime contra a honra – grave). Condenação a pena privativa de liberdade e restritiva de direitos: Quando ao agente tiver sido aplicada pena privativa de liberdade, não suspensa, por um dos crimes, para os demais será incabível a substituição por penas restritivas de direito, conforme o §1º, do art. 69 do CP: § 1º - Na hipótese deste artigo, quando ao agente tiver sido aplicada pena privativa de liberdade, não suspensa, por um dos crimes, para os demais será incabível a substituição de que trata o art. 44 deste Código. Ou seja, se você pratica um crime muito grave que não dá parra substituir a pena privativa de liberdade, em concurso material com o crime que dá, por conta desse crime mais grave você perde esse benefício, ambas iremos considerar a pena privativa de liberdade e somá-las. Concurso material e penas restritivas de direito: Sendo aplicadas duas penas restritivas de direitos, é possível que o condenado cumpra ambas simultaneamente, desde que seja compatíveis entre si. Não sendo, deverá cumpri-las sucessivamente. Eis o §2, do art. 69: § 2º - Quando forem aplicadas penas restritivas de direitos, o condenado cumprirá simultaneamente as que forem compatíveis entre si e sucessivamente as demais. Ex. pratiquei um crime que autoriza a pena restritiva de direito em concurso material com outro crime que autoriza também, agora também dá, se forem compatíveis entre si. Ex. um dos crimes o juiz me condena ao pagamento de 5 cestas básicas e pelo outro crime a 48 horas de trabalho comunitário, eu consigo realizar essas duas simultaneamente. Mas se eu fui condenado a cumprir 48hr de trabalho comunitário por um crime e pelo outro também, é incompatível,não vou conseguir realizar simultaneamente. Então eu cumpro uma e depois a outra. Concurso Formal/Ideal Chamado de concurso ideal, surge de políticas criminal para quando possível beneficiar o criminoso. O concurso formal ou ideal está previsto no artigo 70 do CP. Art. 70 - Quando o agente, mediante uma só ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplica-se-lhe a mais grave das penas cabíveis ou, se iguais, somente uma delas, mas aumentada, em qualquer caso, de um sexto até metade. As penas aplicam-se, entretanto, cumulativamente, se a ação ou omissão é dolosa e os crimes concorrentes resultam de desígnios autônomos, consoante o disposto no artigo anterior. Chamamos de exasperação da pena, pegarei a pena de um só dos crimes e aumentarei de um sexto até a metade. Essa é a regra, e essa regra é cabível quando um dos crimes é doloso ou quando todos são culposos. Ex. quero matar um sujeito e dou um tiro nele levando a óbito em um local público, este tiro acerta a perna de uma pessoa desconhecida também, então tenho um crime doloso e um crime culposo, crime formal próprio. Pegarei a pena do homicídio e aumentar de um sexto até a metade. Eu aplico a pena de um crime só e aumento simbolicamente, o que é favorável para o sujeito que praticou outras condutas. Ex. ou pode ser crimes culposos. Ex. estou dirigindo imprudente meu carro, subo na calçada e atropelo 5 pessoas, 3 morreram e 2 sobreviveram. 3 homicídios culposos e 2 lesões corporais grave, pegarei a pena de um só e aumentar de um sexto até a metade, aqui não soma as penas. Esse é o benefício do concurso formal de crimes. Mas temos a exceção: as penas serão somadas quando os resultados decorrerem de desígnios autônomos, ou seja, dolo em cada crime, neste caso as penas serão somadas. Ex. a pessoa quer matar duas pessoas de uma só vez, o cara dá um tiro de fuzil e mata as duas pessoas. Uma conduta e dois resultados, mas há dolo intenção em cada resultado. O SJT diz que quando alguém entra em um transporte público, onde tem motorista e as pessoas, por exemplo 22 pessoas dentro do ônibus, entende que esse assalto é um único crime desdobrado em vários atos, sendo concurso formal. Mas há desígnios autônomos, ou seja, pegar o celular de um, pegar a carteira de outro, então há concurso formal impróprio, neste caso eu iriei somar as penas, mesmo o STJ falando que seria caso de concurso formal normal. Aplicação da pena no concurso formal perfeito ou próprio: no concurso formal perfeito incide o sistema da exasperação: o juiz aplica uma só pena se idênticas, ou a maior, se diferentes, aumentada de um sexto até metade. Quanto maior o número de infrações, maior deve ser o aumento. Ex. motorista reincidente que, negligentemente, atropela e mata casal. Análise da fixação da pena: Concurso material benéfico Não se descarta a hipótese de o sistema da exasperação se revelar prejudicial ao réu. Neste caso, lembrando que o concurso formal foi criado para beneficiar o agente, deve o magistrado preferir o cumulo das penas. Trata-se de denominado concurso material benéfico, estabelecido no parágrafo único do CP: Parágrafo único - Não poderá a pena exceder a que seria cabível pela regra do art. 69 deste Código. Se você for aplicar o benefício do concurso formal esse benefício não pode resultar em pena maior do que o concurso material. Toda vez que na pratica de concurso formal própria se a exasperação resultar em pena mais grave ao cumulo de pena, aplica-se o cumulo das penas. Crime Continuado/ Continuidade Delitiva Verifica-se a continuidade delitiva (ou crime continuado, estampada no art. 71 do CP, quando o sujeito, mediante pluralidades de condutas, realiza uma série de crimes da mesma espécie, aguardando entre si um elo de continuidade (em especial, as mesmas condições de tempo, lugar e maneira de execução). Art. 71 - Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, devem os subseqüentes ser havidos como continuação do primeiro (fixão jurídica), aplica-se-lhe a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em qualquer caso, de um sexto a dois terços. De 1/6 a 2/3 é outra forma de exasperação da pena. Ex. imagine que em um intervalo de 30 dias o sujeito pratique 12 crimes de furto (pena mínima de 1 a 4 anos), segundo esse artigo 71 devem todos os subsequentes serem considerados como continuidade do primeiro furto, a consequência disso é: que ao invés do sujeito responder por 12 furtos responderá apenas por 1 furto mais 1/6 até 2/3, favorável para o criminoso. Requisitos: - Pluralidade de condutas; ex. roubou 12 furtos. - Pluralidade de crimes da mesma espécie, ou seja, mesmo tipo penal. Ex. 12 furtos iguais. - Elo de continuidade: é também requisito do crime continuado o ele de continuidade entre as condutas. Esse elo se revela através: Das condições de tempo: a lei não anuncia qual o hiato temporal máximo que deve existir entre o primeiro e o último delito de cadeia, alertando a jurisprudência que não pode suplantar 30 dias. Das mesmas condições de lugar: para a jurisprudência, haverá as mesas condições de lugar quando os crimes são praticados na mesma comarca (ou em comarcas vizinhas). Da mesma maneira de execução (modus operandi): bem como alerta BITENCOURT: a lei exige semelhança e não identidade. A semelhança na maneira de execução se traduz no modus operandi de realizar a conduta delitiva. Maneira de execução é o modo, a forma, o estilo de praticar o crime, que, na verdade, é apenas mais um dos requisitos objetivos da continuação criminosa. Outras circunstâncias semelhantes: abrangendo quaisquer outras circunstancias das quais se possa concluir pela continuidade. Crime continuado especifico Parágrafo único - Nos crimes dolosos, contra vítimas diferentes, cometidos com violência ou grave ameaça à pessoa, poderá o juiz, considerando a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias, aumentar a pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, até o triplo (ou seja, pena de um crime X 3), observadas as regras do parágrafo único do art. 70 e do art. 75 deste Código. Ex. um estuprador, ele comete 12 estupro no mesmo mês, ele poderá responder até 3 estupros e não pelos doze que ele cometeu. E caso a pena somada seja mais benéfica que a multiplicada, aplica-se a soma. Qual lei deve ser aplicada se, no decorrer da prática de um crime continuado, sobrevém lei mais grave? Ex. em 30 dias sujeito praticou 12 furtos (pena de 1 a 4 anos), este é o código penal vigente, mas imagine que no meio do caminho vem uma lei nova que fala que o furto tem a pena agora de 2 a 6 anos. Ou seja, estamos falando de leis vigentes, porque ela foi implementada DURANTE a prática dos crimes. A partir daí ocorreu uma lacuna a qual foi objeto de súmula do STF. Súmula nº 711 do STF: a lei penal mais grave aplica-se ao crime continuado ou permanente, se a sua vigência é anterior à cessação (antes de acabar o crime) da continuidade ou da permanência”. Se vem lei nova no meio da continuidade ou do permanente, aplica-se a lei mais grave. Isso porque o Código Penal não apresenta qual seria o conceito de crime. A doutrina apresenta algumas definições de crime com enfoques diversos. Vejamos cada um, separadamente: Conceito formal Crime é aquilo que assim está rotulado em uma norma penal incriminadora, sob ameaça de pena. Perceba que sobo enfoque formal a prioridade é analisar o fato de tal comportamento ter sido previsto em lei como crime. Conceito material Crime é comportamento humano, causador de relevante e intolerável lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico tutelado, passível de sanção penal. Sob o enfoque material, a prioridade se dá sobre o fato de tal comportamento criminoso atingir bens jurídicos. Conceito analítico Considera a estrutura do crime, ou seja, os elementos que integram o delito, prevalecendo que crime é todo fato típico, ilícito e culpável. Trata-se da Teoria Tripartida (ou tripartite) do Delito, prevalecendo na doutrina, segundo a qual estrutura o crime com os mencionados substratos e necessariamente nessa ordem: FATO TÍPICO, ILICITUDE (ou antijuridicidade) e CULPABILIDADE. Observação: somente no Brasil existe corrente contrária entendendo que crime é composto apenas pelo Fato Típico e Ilicitude (Corrente Bipartida ou Bipartite), se apegando à expressões utilizadas pelo legislador no Código Penal ao se referir às excludentes de culpabilidade (“isenção de pena”). Para os adeptos desta corrente, a culpabilidade seria apenas mero pressuposto de aplicação da pena. Já para os adeptos da corrente tripartida, a culpabilidade constitui verdadeiro juízo de reprovabilidade da conduta do agente. A seguir, analisaremos de forma mapeada a Teoria do Crime segundo a corrente majoritária: Tripartida. Fato típico: Observação: A punibilidade não constitui elemento do crime, mas mera consequência jurídica, ou seja, presentes os três elementos do crime, o direito de punir do Estado se concretiza, surgindo a punibilidade. Art. 121 – HOMICÍDIO. A – Homicídio simples: “Art. 121. Matar alguém: Pena - reclusão, de seis a vinte anos”. Conceito: é a injusta morte de alguém (vida extrauterina) praticada por pessoa física. Bem jurídico tutelado (objeto jurídico): vida humana. Sujeitos do crime: sujeito ativo pode ser qualquer pessoa (crime comum), assim como o sujeito passivo também pode ser qualquer pessoa (crime comum). Consumação e tentativa: atinge a consumação com a morte da vítima (crime material). Como a execução do crime pode ser fracionada (crime plurissubsistente), a tentativa é perfeitamente admissível, até mesmo quando praticado por dolo eventual. Ação Penal: independentemente da modalidade de homicídio, a ação penal será pública incondicionada. B – Homicídio privilegiado (§1º - caso de diminuição de pena): “§ 1º Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço”. - Motivo de relevante valor social: diz respeito aos interesses de toda uma coletividade, ou seja, altruístico e nobre (ex: indignação contra um traidor da pátria); - Relevante valor moral: ao contrário da anterior, refere-se à interesses individuais, particulares, pessoais do agente, entre eles os sentimentos de piedade, misericórdia e compaixão (ex: homicídio praticado para livrar enfermo terminal das dores – eutanásia). - Sob domínio de violenta emoção com a injusta provocação da vítima - Requisitos: (a) Domínio de violenta emoção: a emoção não pode ser leve e passageira ou momentânea. Deve ser intensa e permanente ao menos durante a conduta. Obs: a frieza de espírito, obviamente, exclui a emoção tratada. (b) Reação imediata (“logo em seguida a injusta provocação da vítima”): exige-se que o revide seja imediato. A demora na reação exclui a causa minorante, transformando-se em vingança. Para identificar o possível momento para o rebate deve-se considerar rebate toda reação praticada durante o período de domínio da violenta emoção (dependerá do caso concreto). (c) Injusta provocação da vítima: a provocação não significa, necessariamente, agressão, mas compreende qualquer comportamento incitante, injuriosa e desafiadora. Ex: violenta emoção do marido que flagra a esposa em adultério – não é o caso do marido que já sabe da infidelidade da esposa e prepara para colhê-la em flagrante com a finalidade de matá-la. C – Homicídio qualificado (§2º): O §2º do art. 121 descreve qualificadoras, sendo que umas estão ligadas aos motivos determinantes do crime, indicativos de depravação espiritual do agente (incisos I, II, V, VI e VII – circunstâncias subjetivas), e outras com o modo perverso que acompanham o ato ou fato em prática (incisos III e IV – circunstâncias objetivas). Tais formas de homicídio qualificado estão etiquetados como hediondas (art. 1º, inciso I, da Lei nº 8.072/90). # - Existe Homicídio Privilegiado-qualificado? Seria possível combinar as privilegiadoras com as qualificadoras? E, por fim, em caso positivo, seria crime hediondo? R: ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ ____________________________________ Vamos às qualificadoras em espécie: I – Mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro motivo torpe; Trata-se de homicídio praticado por motivo torpe (ignóbil, vil, repugnante, abjeto), já trazendo em sua redação dois exemplos de motivo torpe, sendo o homicídio mercenário e por mandato remunerado. Aqui o agente pratica o delito motivado pela ganância do lucro ou motivado pela expectativa do seu recebimento (ex: matador profissional). É crime de concurso necessário (exige-se pluralidade de agentes), no qual é indispensável a participação de, no mínimo, duas pessoas (mandante e executor). # - A qualificadora em estudo se comunica ao mandante? É circunstância simples ou elementar do crime? R: 1ª C: Não necessariamente se comunica ao mandante. Ex: pai que manda matar traficante da região que estuprou sua filha de 15 anos – pai responderá por homicídio simples, com a diminuição de pena relativa ao motivo de relevante valor moral; já o executor pela modalidade qualificada em estudo (Rogério Greco); 2ª C: Entende que é elementar do crime e, portanto, se comunica ao mandante (Tribunais Superiores). # - A vingança é motivo torpe? R: Depende. A constatação de vingança, por si só, não tem o condão de aplicar a qualificadora em estudo, necessitando de análise das peculiaridades do caso concreto (STJ e STF). II – Por motivo fútil; O motivo fútil simboliza real desproporção entre o crime e a sua motivação (causa moral). É aquele pequeno demais para que na sua insignificância possa parecer capaz de explicar o crime que dele resulta. Não se confunde com motivo injusto (presente em todos os crimes). Para que haja futilidade na motivação, é necessário que, além de injusto, o motivo seja de fato insignificante. São exemplos: homicídio por rompimento de namoro; por esbarro em balada; vítima ter rido do homicida; etc. III – Com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo comum: É qualificado o homicídio quando cometido com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso (dissimulado) ou cruel (aumenta inutilmente o sofrimento da vítima), ou de que possa resultar perigo comum (capaz de atingir número indeterminado de pessoas). Este inciso também utiliza fórmula casuística inicial e, em seguida, utiliza fórmula genérica, permitindo ao aplicador do direito encontrar outros casos que denotem insídia, crueldade ou perigo comum advindo da conduta do agente (interpretação analógica). Não obstante, vejamos cada um dos exemplos apresentados pelo inciso III: (a) Emprego de veneno: o agente, na buscado intento criminoso, utiliza substância capaz de perturbar ou destruir as funções vitais do organismo humano. Obs1: qualquer substância poderá configurar veneno, a depender do caso concreto, ao exemplo do açúcar ministrado a um diabético (o agente deve ter ciência da condição de diabético da vítima); Obs2: só incidirá a qualificadora se a vítima não perceber que está ingerindo veneno, pois, caso seja forçada à ingerir veneno, estaremos diante de outro meio cruel, alcançado pela expressão genérica trazida pelo inciso em comento. (b) Emprego de fogo ou asfixia: utilização de qualquer objeto capaz de causar explosão como meio de alcançar a morte da vítima, pois revela meio especialmente perverso escolhido pelo agente, podendo, inclusive, colocar número indeterminado de pessoas em risco. Exemplo verídico: jovens de Brasília que atearam fogo em índio que dormia num banco nas proximidades do Esplanada, aguardando o sol para reivindicar direitos junto aos Poderes Constituídos. (c) Emprego de asfixia: é o impedimento, por qualquer meio (mecânico – afogamento, enforcamento, estrangulamento, esganadura ou sufocação – ou tóxico – gases deletérios) da passagem do ar pelas vias respiratórias ou pulmões da pessoa, acarretando a falta de oxigênio no sangue, podendo, a depender do tempo de interrupção da respiração, causar a morte. (d) Emprego de tortura: somente qualifica o homicídio se a morte era a finalidade do agente, tendo escolhido a tortura como meio, ou seja, se o agente atua com o dolo apenas de torturar a vítima, alcançando a morte diante de excesso culposo (imprudência), responderá pelo crime de tortura qualificado pelo resultado (art. 1º, §3º, da Lei nº 9.455/97 – crime preterdoloso). IV – À traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido: Qualifica o homicídio a utilização de qualquer recurso que dificulte ou impossibilite a defesa da vítima, sendo que o próprio Código Penal apresenta alguns exemplos, tais como a traição, emboscada e dissimulação, cabendo, novamente, interpretação analógica. (a) Traição: é ataque desleal, repentino e inesperado (ex: atirar pelas costas ou durante o sono). (b) Emboscada: pressupõe ocultamento do agente, que ataca a vítima com surpresa. Denota maior covardia e perversidade por parte do agente. (c) Dissimulação: fingimento, disfarçando o agente a sua intenção criminosa, surpreendendo a vítima desatenta e indefesa. V – Para assegurar a execução, ocultação, a impunidade ou vantagem de outro crime; Apresenta hipótese de conexão entre o homicídio e outro(s) crime(s), no qual o agente mata para garantir a perfeição de crime anterior ou concomitante. Obs: se o homicídio foi praticado para assegurar a execução, ocultação, impunidade ou vantagem de uma contravenção penal, descabida a presente qualificadora, podendo configurar, conforme o caso, motivo torpe ou fútil. VI – Feminicídio; A Lei 13.104/15 incluiu o feminicídio como qualificadora do homicídio, entendido como a morte de mulher em razão da condição do sexo feminino (violência de gênero). O §2º-A foi acrescentado para informar quando a morte da mulher deve ser considerada em razão da condição do sexo feminino: “I – violência doméstica e familiar; II – menosprezo ou discriminação à condição de mulher”. O significado de violência doméstica e familiar (inciso I) é encontrado no art. 5º da Lei nº 11.340/06 (Lei Maria da Penha). Assim, violência doméstica pode ser considerada como qualquer ação ou omissão baseada no gênero que cause a morte da mulher: (a) no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas; (b) no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa; (c) em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação. Já no inciso II, a identificação do menosprezo e da discriminação à condição feminina ficará por conta do juiz analisando as peculiaridades do caso concreto. VII – Contra autoridade ou agente de segurança pública (homicídio funcional): A Lei nº 13.142/15 acrescentou o inciso VII ao §2º do art. 121 com a seguinte redação: “VII – contra autoridade ou agente descrito nos arts. 142 e 144 da Constituição Federal, integrantes do sistema prisional e da Força Nacional de Segurança Pública, no exercício da função ou em decorrência dela, ou contra seu cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo até terceiro grau, em razão dessa condição: Pena - reclusão, de doze a trinta anos”. Personagens mencionados no inciso VII: (a) Art. 142 da CF/88: abrange as Forças Armadas, constituídas pela Marinha, Exército e pela Aeronáutica; (b) Art. 144 da CF/88: disciplina os órgãos de segurança pública: polícia federal, polícia rodoviária federal, polícia ferroviária federal, polícias civis, polícias militares e corpos de bombeiros militardes. (c) Integrantes do sistema prisional: abrangidos, além dos agentes presentes no dia a dia da execução penal (diretor da penitenciária, agentes penitenciários, guardas, etc.), mas também aqueles que atuam em certas etapas da execução penal (comissão técnica de classificação, comissão de exame criminológico, conselho penitenciário, etc.). (d) Integrantes da Força Nacional de Segurança Pública: o Departamento da Força Nacional de Segurança Pública (FNSP) é, em resumo, um agrupamento de polícia da União, composta pelos quadros mais destacados das polícias de cada Estado e da Polícia Federal, que assume o papel de polícia militar em distúrbios sociais ou em situações excepcionais nos estados brasileiros, sempre que a ordem pública é posta em situação concreta de risco. Obs: nas hipóteses acima, é necessário que o crime tenha sido cometido contra o agente no exercício da função ou em decorrência dela (ex: agente mata policial de folga pelo simples fatode ser policial). (e) Contra cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo até o 3º grau de algum dos agentes acima mencionados. Obs: para estes personagens, é indispensável que o crime tenha sido praticado em razão da ligação familiar com o agente de segurança pública (ex: morte de senhora pelo simples fato de ser mãe de policial militar). VIII - com emprego de arma de fogo de uso restrito ou proibido: Essa qualificadora do crime de homicídio foi introduzida pelo Pacote Anticrime. Havia sido vetada pelo presidente da República, porém, posteriormente alguns vetos foram cassados pelo Congresso Nacional. Parcela da doutrina entende que os guardas civis (municipais ou metropolitanos) também estão protegidos pela mencionada norma. Trata-se de qualificadora objetiva, incidindo quando o sujeito ativo utilizar arma de fogo de uso restrito ou proibido para matar alguém. Estamos diante de norma penal em branco na medida em que as definições de armas de fogo de uso restrito ou proibido são extraídas do art. 2º do Decreto nº 9.847/2019 (tema trabalhado nas aulas sobre o Estatuto do Desarmamento). IX - contra menor de 14 (quatorze) anos. Pena - reclusão, de doze a trinta anos”. A última qualificadora do crime de homicídio foi introduzida pela Lei “Henry Borel” (Lei nº 14.344/2022). Trata-se de qualificadora de natureza objetiva na medida em que leva em conta apenas a idade do sujeito passivo. A finalidade é tratar com maior reprovação o homicídio contra personagens em condição presumidamente vulnerável. D – Homicídio culposo (§3º): “§ 3º Se o homicídio é culposo: Pena - detenção,de um a três anos”. Ocorre homicídio culposo quando o agente, com manifesta imprudência, negligência ou imperícia, deixa de empregar a atenção ou cuidado de que era capaz, provocando, com sua conduta, resultado morte, previsto (culpa consciente) ou previsível (culpa inconsciente), porém jamais aceito ou querido. E – Causas de aumento de pena: §2º-B – Lei “Henry Borel”: A Lei 14.344/2022 acrescentou as seguintes causas de aumento de pena: § 2º-B. A pena do homicídio contra menor de 14 (quatorze) anos é aumentada de: I - 1/3 (um terço) até a metade se a vítima é pessoa com deficiência ou com doença que implique o aumento de sua vulnerabilidade; II - 2/3 (dois terços) se o autor é ascendente, padrasto ou madrasta, tio, irmão, cônjuge, companheiro, tutor, curador, preceptor ou empregador da vítima ou por qualquer outro título tiver autoridade sobre ela. §4º, primeira parte – homicídio culposo majorado: (a) Inobservância de regra técnica de profissão, arte ou ofício: nesta hipótese, diferentemente da imperícia (modalidade de culpa), o agente tem aptidão técnica para desempenhar o seu trabalho, porém acaba por causar a morte de alguém em razão do seu descaso, deliberadamente desatendendo aos conhecimentos técnicos que possui. Ex: médico especialista em cirurgia cardíaca que, por descuido, corta um nervo do paciente, causando-lhe a morte; (b) Omissão de socorro: se o agente, agindo com culpa, deixa de prestar socorro à vítima, podendo fazê-lo e não havendo qualquer risco pessoal a ele, responderá por homicídio culposo com o presente aumento de pena. Obs1: se a vítima é socorrida imediatamente por terceiros ou morre instantaneamente, tornando indiferente ou inviável a assistência, não incidirá o aumento; Obs2: se o agente, no caso concreto, não agiu com culpa, mas, mesmo assim, deixa de prestar socorro à vítima, responderá apenas pelo crime de omissão de socorro (art. 135 do CP); (c) Não procurar diminuir as consequências do comportamento: trata-se de expressão redundante, na medida em que não deixa de ser uma forma de omitir socorro; (d) Foge para evitar a prisão em flagrante: Obs1: a doutrina moderna entende que tal causa é inconstitucional, pois, não sendo o agente obrigado a produzir prova contra si mesmo, não poderá sofrer aumento de pena ao utilizar-se da mencionada garantia constitucional; Obs2: não incide a presente causa, ou a causa da omissão de socorro, quando o agente foge para evitar linchamento. §4º, segunda parte – homicídio doloso majorado: A pena será aumentada de 1/3 se o homicídio é praticado contra pessoa menor de 14 (quatorze) ou maior de 60 (sessenta) anos. É indispensável que o agente tenha conhecimento da idade da vítima, evitando- se a responsabilidade penal objetiva. Além disso, seguindo orientação da Teoria da Atividade (art. 4º do CP), a presente majorante considera a idade da vítima quando da prática do crime. §6º - Milícia privada ou grupo de extermínio: A pena é aumentada de 1/3 (um terço) até a metade se o crime for praticado por milícia privada, sob o pretexto de prestação de serviço de segurança, ou por grupo de extermínio. Grupo de extermínio: reunião de pessoas, matadores, “justiceiros” (civis ou não) que atuam na ausência do poder público, cuja finalidade é a matança generalizada, chacina de pessoas supostamente etiquetadas como marginais ou perigosas; Milícia armada: grupo de pessoas armado (civis ou não), tendo como finalidade anunciada desenvolver a segurança retirada das comunidades mais carentes, “restaurando a paz” §7º Feminicídio: §7º A pena do feminicídio é aumentada de 1/3 (um terço) até a metade se o crime for praticado: I - durante a gestação ou nos 3 (três) meses posteriores ao parto; II - contra pessoa maior de 60 (sessenta) anos, com deficiência ou com doenças degenerativas que acarretem condição limitante ou de vulnerabilidade física ou mental; III - na presença física ou virtual de descendente ou de ascendente da vítima; IV - em descumprimento das medidas protetivas de urgência previstas nos incisos I, II e III do caput do art. 22 da Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. (Incluído pela Lei nº 13.771, de 2018) F – Perdão judicial (§5º): “§ 5º - Na hipótese de homicídio culposo, o juiz poderá deixar de aplicar a pena, se as consequências da infração atingirem o próprio agente de forma tão grave que a sanção penal se torne desnecessária”. Perdão Judicial é o instituto pelo qual o juiz, não obstante a prática de um crime, deixa de lhe aplicar pena, nas hipóteses expressamente previstas em lei, levando em consideração determinadas circunstâncias que concorrem para o evento. É causa extintiva da punibilidade (art. 107, inciso V, do CP). Cabe à defesa demonstrar que as consequências do crime atingiram o próprio agente de forma tão grave que a sanção penal se mostra desnecessária. Ex1: pai que de forma culposa vem a matar a filha/esposa/filho, etc.; Ex2: causador de acidente que, apesar de causar a morte da vítima, ficou tetraplégico, permitindo presumir que a pena, no caso em tela, se tornou desnecessária. Art. 122 – induzimento, instigação ou auxílio a suicídio ou a automutilação (Redação dada pela Lei nº 13.968, de 2019). “Art. 122. Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou a praticar automutilação ou prestar-lhe auxílio material para que o faça: Pena - reclusão, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos. § 1º Se da automutilação ou da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave ou gravíssima, nos termos dos §§ 1º e 2º do art. 129 deste Código: Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos. § 2º Se o suicídio se consuma ou se da automutilação resulta morte: Pena - reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos. § 3º A pena é duplicada: I - se o crime é praticado por motivo egoístico, torpe ou fútil; II - se a vítima é menor ou tem diminuída, por qualquer causa, a capacidade de resistência. § 4º A pena é aumentada até o dobro se a conduta é realizada por meio da rede de computadores, de rede social ou transmitida em tempo real. § 5º Aumenta-se a pena em metade se o agente é líder ou coordenador de grupo ou de rede virtual. § 6º Se o crime de que trata o § 1º deste artigo resulta em lesão corporal de natureza gravíssima e é cometido contra menor de 14 (quatorze) anos ou contra quem, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência, responde o agente pelo crime descrito no § 2º do art. 129 deste Código. § 7º Se o crime de que trata o § 2º deste artigo é cometido contra menor de 14 (quatorze) anos ou contra quem não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência, responde o agente pelo crime de homicídio, nos termos do art. 121 deste Código”. Bem jurídico tutelado (objeto jurídico): vida humana, na maior parte, e a integridade física nos casos específicos de automutilação. Vale frisar que com a alteração legislativa, quando se visar apenas a automutilação não estaremos diante de um crime doloso contra a vida, mas apenas contra a integridade física, afastando, portanto (e apenas nesse caso) a competência do Tribunal do Júri para o processo e julgamento. Sujeitos do crime: sujeito ativo pode ser qualquer pessoa (crime comum), já o sujeito passivo pode ser, em regra, qualquer pessoa, existindo circunstâncias especiais que majoram a pena ou que podem mudar a figura típica (crime comum). Consumação e tentativa: o crime é formal em relação aos verbos “induzir” e “instigar”, consumando-se independentemente de efetivo resultado lesivo sobre a vítima. Vale destacar que não há mais a condição objetivade punibilidade que existia antes da recente alteração legislativa, com isso haverá crime mesmo que a vítima não sofra nenhum dano. Já em relação ao verbo “auxiliar”, consuma-se com a prática de algum auxílio concreto e efetivo no sentido de viabilizar o suicídio da vítima ou da automutilação. A tentativa é admissível. Voluntariedade: só é punido a título de dolo. Vítimas vulneráveis: os §§ 6º e 7º concretizam entendimento que já prevalecia na doutrina e na jurisprudência, no sentido de que, quando se tratar de vítimas absolutamente incapazes (vulneráveis por presunção), o agente responderá como se tivesse causado o resultado de forma direta, valendo-se da vítima como instrumento (crimes de homicídio ou lesão corporal, respectivamente). Ação Penal: ação penal pública incondicionada. Art. 123 – INFANTICÍDIO “Art. 123 - Matar, sob a influência do estado puerperal, o próprio filho, durante o parto ou logo após: Pena - detenção, de dois a seis anos.”. Bem jurídico tutelado (objeto jurídico): vida humana. Sujeitos do crime: sujeito ativo somente pode ser a mãe parturiente sob influência do estado puerperal (crime próprio), já o sujeito passivo deve ser o ser humano logo após o parto, ou seja, o nascente ou recém-nascido (crime próprio). Consumação e tentativa: o crime é material, consumando-se com a morte do recém nascido. A tentativa é admissível. Voluntariedade: só é punido a título de dolo. Ação Penal: ação penal pública incondicionada. A – Conduta: A ação criminosa consiste em causar a mãe a morte do próprio filho, durante ou logo após o parto (critério cronológico), sob a influência do estado puerperal (critério etiológico). A morte pode ser causada de forma livre (ação ou omissão). A circunstância de tempo (durante ou logo após) deve ser compreendida como todo o período em que perdurar o estado puerperal. Estado puerperal “é aquele que envolve a parturiente durante a expulsão da criança do ventre materno. Neste momento, há intensas alterações psíquicas e físicas, que chegam a transformar a mãe, deixando-a sem plenas condições de entender o que está fazendo, razão pela qual se trata de situação de semi- imputabilidade”. OBSERVAÇÃO: não basta a presença do estado puerperal, pois é preciso que haja relação de causalidade entre tal estado e o crime, pois nem sempre o estado puerperal produz perturbações psíquicas na parturiente. Arts. 124 A 128 – INTRODUÇÃO AO ABORTO Conceito: trata-se da interrupção da gravidez com a destruição do produto da concepção. Bem jurídico tutelado (objeto material): a vida intrauterina. A doutrina classifica o aborto em: (a) natural (interrupção espontânea da gravidez, geralmente causados por problemas de saúde – indiferente penal); (b) acidental (quedas, traumatismos, etc., em regra, é atípico); (c) criminoso (arts. 124 a 127 do CP); e, (d) legal ou permitido (art. 128 do CP). Art. 124 do CP: Aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento: “Art. 124 - Provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lho provoque: Pena - detenção, de um a três anos” Sujeitos do crime: sujeito ativo somente pode ser a mulher grávida (crime próprio), já o sujeito passivo a doutrina diverge. Parcela entende que é o Estado, pois o feto não seria titular de direitos, entretanto prevalece que o sujeito passivo é mesmo o produto da concepção (crime próprio). Consumação e tentativa: o crime é material, consumando-se com a morte do feto ou a destruição do produto da concepção, decorrente de manobras abortivas. A tentativa é admissível. Voluntariedade: só é punido a título de dolo. Conduta: na primeira conduta descrita no tipo penal, a mulher gestante, por intermédio de meios executivos químicos, físicos ou mecânicos, provoca nela mesma, mediante ação ou omissão, a interrupção da gravidez, destruindo a vida endouterina. A segunda conduta típica é a de consentir a gestante no aborto, exigindo-se, assim, a figura do provocador, o qual responderá pelo crime previsto no art. 126 do CP. Art. 125 do CP: Aborto provocado por terceiro, sem o consentimento da gestante: “Art. 125 - Provocar aborto, sem o consentimento da gestante: Pena - reclusão, de três a dez anos”. Sujeitos do crime: sujeito ativo pode ser qualquer pessoa (crime comum). Já em relação ao sujeito passivo, trata-se de crime de dupla subjetividade passiva, figurando como vítimas a gestante e o produto da concepção (óvulo, embrião ou feto). Consumação e tentativa: o crime é material, consumando-se com a morte do feto ou a destruição do produto da concepção, decorrente de manobras abortivas. A tentativa é admissível. Voluntariedade: só é punido a título de dolo. Conduta: interromper, violenta e intencionalmente, uma gravidez, destruindo o produto da concepção. Ex: agente que desfere pontapé violento no ventre de mulher sabidamente grávida. Art. 126 do CP: Aborto provocado por terceiro, com o consentimento da gestante: “Art. 126 - Provocar aborto com o consentimento da gestante: Pena - reclusão, de um a quatro anos.”. Sujeitos do crime: sujeito ativo pode ser qualquer pessoa (crime comum). Já em relação ao sujeito passivo, só o produto da concepção (óvulo, embrião ou feto) poderá figurar como vítima. Consumação e tentativa: o crime é material, consumando-se com a morte do feto ou a destruição do produto da concepção, decorrente de manobras abortivas. A tentativa é admissível. Voluntariedade: só é punido a título de dolo. Conduta: interromper, violenta e intencionalmente, uma gravidez, destruindo o produto da concepção, com o consentimento da gestante. Ex: agente que desfere pontapé violento no ventre de mulher sabidamente grávida. Não consentimento presumido: o parágrafo único do art. 126 desconsidera a vontade positiva da gestante quando menor de 14 anos, “alienada ou débil mental, ou se o consentimento é obtido mediante fraude, grave ameaça ou violência”. Nessa hipótese, o terceiro provocador responderá pelo crime do art. 125, ficando a gestante isenta de sanção penal por não ter responsabilidade. Art. 127 do CP: Aborto majorado pelo resultado: “Art. 127 - As penas cominadas nos dois artigos anteriores são aumentadas de um terço, se, em consequência do aborto ou dos meios empregados para provocá-lo, a gestante sofre lesão corporal de natureza grave; e são duplicadas, se, por qualquer dessas causas, lhe sobrevém a morte”. O crime de aborto será majorado: (a) Se, em consequência do aborto ou das manobras abortivas, a gestante sofre lesão corporal de natureza grave: (art. 129, §§ 1º e 2º, do CP); (b) Se, por qualquer dessas causas (aborto ou meios empregados) lhe sobrevém a morte: obviamente tal causa de aumento aplica-se apenas aos artigos 125 e 126, isso porque o Direito Penal não pune a autolesão, tampouco o ato de matar-se. Em todo o caso, trata-se de figura preterdolosa, ou seja, o resultado morte deve ter sido alcançado de maneira culposa, pois se foi a vontade ou aceito pelo agente, estaremos diante do crime de homicídio em concurso formal com o aborto Art. 128 do CP: Aborto legal – causas especiais de exclusão da ilicitude. “Art. 128 - Não se pune o aborto praticado por médico: Aborto necessário I - se não há outro meio de salvar a vida da gestante; Aborto no caso de gravidez resultante de estupro II - se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal”. I – Aborto necessário: Para a presente modalidade, indispensável o preenchimento de três requisitos: (a) Aborto praticado por médico: não é necessário que o médico seja especialista na área de ginecologia-obstetrícia. No caso do aborto ser necessário e, diante da impossibilidadede se procurar um médico por conta da urgência, o aborto vir a ser praticado por pessoa sem habilitação profissional de médico (parteira, farmacêutico, particular, etc.), apesar de o fato ser típico, o agente estará acobertado pelo estado de necessidade, aplicando-se a mesma solução no caso da própria gestante praticar o aborto para salvar a própria vida; (b) Perigo de vida da gestante: não basta o perigo para a saúde; (c) Impossibilidade do uso de outro meio para salvar a gestante: não pode o médico optar pelo meio mais fácil, pois, se existir outra maneira que não a interrupção da gravidez para salvar a vida da gestante, o médico responderá pelo crime. Prevalece na doutrina que não é necessário o consentimento da gestante para realizar o aborto necessário. II – Aborto sentimental: Ao contrário da modalidade anterior que protege a vida da gestante, nesta o motivo consiste na falta de justificativa em impor à vítima de estupro, ofendida em sua honra, uma maternidade que talvez lhe fosse odiosa e sempre lhe trouxesse à memória o triste acontecimento da violência sexual. Depende de três requisitos: (a) Que o aborto seja praticado por médico: diferente da hipótese anterior, nesta, como a gestante não sofre perigo atual, caso o aborto seja provocado por terceiro não médico, este responderá pelo crime. Caso seja praticado pela gestante, a mesma poderá responder pelo crime ou, a depender das circunstâncias, poderá se caracterizar hipótese de inexigibilidade de conduta diversa (causa supralegal de exclusão da culpabilidade). (b) Que a gravidez seja proveniente de estupro: proveniente de conjunção carnal, atos libidinosos diversos da conjunção carnal e nos casos de estupro de vulnerável (consentimento da vítima ou de seu representante legal). (c) Prévio consentimento da gestante ou seu representante legal: preferencialmente formal (acompanhado de boletim de ocorrência), inclusive com testemunhas. Não são necessárias a sentença condenatória do crime de estupro ou a autorização judicial. # - e o aborto do feto anencefálico? R: Feto anencefálico: embrião, feto ou recém-nascido que, por malformação congênita, não possui a parte do sistema nervoso central, faltando-lhe os hemisférios cerebrais e possui apenas parcela do tronco encefálico. Após anos de muitos debates doutrinários e decisões conflituosas, o STF se manifestou de forma a permitir o aborto e tal caso, seguido por diretrizes estabelecidas pelo Conselho Federal de Medicina. Atualmente, no caso de diagnóstico de anencefalia, o laudo terá que ser assinado, obrigatoriamente, por dois médicos. A gestante será informada do resultado e poderá optar livremente por fazer o aborto ou manter a gravidez e, ainda, se gostaria de ouvir a opinião de uma junta médica ou de outro profissional. O aborto poderá ser realizado em hospital privado ou público e em clínicas, desde que haja estrutura adequada. Art. 129 DO CP: LESÃO CORPORAL: “Art. 129. Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem: Pena - detenção, de três meses a um ano”. Por um critério de exclusão, trata-se da chamada lesão corporal de natureza leve. Conceito: é a injusta ofensa à integridade física ou saúde de outrem. Bem jurídico tutelado (objeto jurídico): incolumidade pessoal, protegendo-o na sua saúde corporal, fisiológica e mental. Sujeitos do crime: na forma simples (caput), o sujeito ativo pode ser qualquer pessoa (crime comum), assim como o sujeito passivo também pode ser qualquer pessoa (crime comum). Consumação e tentativa: consuma-se no instante em que ocorre a ofensa à integridade corporal ou à saúde física ou mental da vítima (crime material). Como a dor não é elementar do tipo, não é necessário que a vítima sofra para a consumação do delito (ex: cortar o cabelo da vítima, desde que provoque uma alteração desfavorável no aspecto exterior da vítima, conforme os padrões sociais médios). Apesar da dificuldade probatória em alguns casos, a tentativa nas modalidades dolosas é perfeitamente possível (crime plurissubsistente) Voluntariedade: as modalidades de lesão corporal são dolosas, com exceção de hipótese prevista no §6º (lesão culposa). A – Qualificadoras: A1 – Lesão corporal de natureza grave (§1º): Anuncia o §1º que a pena será de reclusão, de um a cinco anos, se da lesão resulta: (a) Incapacidade para as ocupações habituais, por mais de 30 (trinta) dias: por ocupação habitual entende-se qualquer atividade corporal costumeira, tradicional, não necessariamente ligada a trabalho ou ocupação lucrativa, devendo ser lícita, não importando de moral ou imoral, podendo ser intelectual, econômica, esportiva, etc. Assim, até um bebê pode ser vítima desta modalidade, vez que tem de estar confortável para dormir, mamar, tomar banho, ter suas vestes trocadas, etc.; (b) Perigo de vida: consistente na probabilidade séria, concreta e imediata do êxito letal, devidamente comprovado por perícia, ou seja, o perigo deve ser real, e não presumido. Além disso, só admite o preterdolo, pois, se o agente quis ou assumiu o risco do resultado morte, não o alcançando por circunstâncias alheias à sua vontade, estaremos diante de tentativa de homicídio; (c) Debilidade permanente de membro, sentido ou função: entende-se por membro cada um dos quatro apêndices do troco, ligado a este por meio de articulações, sendo dois superiores e dois inferiores, e que realizam movimentos diversos, entre os quais a locomoção (braços, antebraços, pernas, mãos, coxas e pés); já o sentido é a faculdade de experimentar certa classe de sensações, e de perceber as coisas externas e o meio pelo qual essa faculdade se exercita (visão, audição, tato, paladar e olfato); a função consiste na atividade própria ou natural de um órgão (respiratória, circulatória, digestiva, etc.). Se a debilidade de membro, sentido ou função ocorrer por tempo indeterminado, também incidirá a presente qualificadora, ainda que seus efeitos possam ser reduzidos com o uso de aparelhos de próteses; (d) Aceleração de parto: ocorre quando, em decorrência da lesão, o feto é expulso, com vida, de forma precoce (parto prematuro). Obviamente, a condição de gravidez da vítima deve estar presente na esfera de conhecimento do agente. A2 – Lesão corporal de natureza gravíssima (§2º): Anuncia o §1º que a pena será de reclusão, de dois a oito anos, se da lesão resulta: (a) Incapacidade permanente para o trabalho: aqui a incapacidade é para o trabalho, de forma permanente, absoluta, e sem previsibilidade de cessação. Entende a maioria que deve ser incapacidade para qualquer trabalho. Entretanto, minoria da doutrina entende que basta que cause incapacidade para o trabalho até então exercido pela vítima; (b) Enfermidade incurável: trata-se de alteração permanente de saúde em geral por processo patológico, ou seja, transmissão intencional de uma doença para a qual não existe cura no estágio atual da medicina (ex: vítima, depois das lesões, passa a apresentar convulsões ocasionadas por disritmia cerebral decorrente de traumatismo cranioencefálico). Além disso, a doutrina também considera incurável a enfermidade cujo restabelecimento depende de cirurgia arriscada ou tratamento incerto, pois a vítima não está obrigada a aventurar-se por caminhos para os quais a própria medicina ainda não reconhece sucesso; (c) Perda ou inutilização de membro, sentido ou função: diferente do parágrafo anterior, aqui exige-se a perda ou inutilização de membro, sentido ou função em decorrência da lesão sofrida (ex: amputação de membro). A perda impotência sexual decorrente de lesão também é gravíssima. Não obstante, prevalece na doutrina que se tratar-se de órgãos duplos (olhos, rim, testículos, etc.), a lesãopara ser gravíssima deve atingir ambos; (d) Deformidade permanente: trata-se do dano estético, aparente, considerável, irreparável pela força da natureza e capaz de provocar impressão vexatória (ex: cicatriz). Segundo o STJ, a realização de cirurgia estética que repare os efeitos da lesão não afasta a qualificadora da deformidade permanente, pois “o dato criminoso é valorado no momento de sua consumação, não afetando providências posteriores, notadamente quando não usuais e promovidas a critério exclusivo da vítima”; (e) Aborto: exige-se o preterdolo (lesão dolosa e aborto culposo), pois, caso o agente queira o aborto, estaremos diante do crime de aborto praticado por terceiro, com ou sem o consentimento da gestante. Além disso, vale lembrar que deve o agente ter conhecimento da condição de gestante da vítima. Obs: É perfeitamente possível a coexistência de lesão grave com lesão gravíssima no mesmo contexto fático, como quando, por exemplo, além de ficar a vítima incapacitada para as ocupações habituais por mais de trinta dias (lesão grave), sofre também deformidade permanente (lesão gravíssima). Nesse caso, o crime permanece único, aplicando-se as penas da lesão gravíssima (§2º), devendo o juiz, quando da fixação da pena-base, considerar as demais consequências sofridas pela vítima. A3 – Lesão corporal seguida de morte (§3º): “§ 3°. Se resulta morte e as circunstâncias evidenciam que o agente não quis o resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo: Pena - reclusão, de quatro a doze anos”. Trata-se de modalidade preterdolosa de crime, exigindo dolo na lesão corporal e culpa em relação ao resultado morte, pois, do contrário, havendo dolo também do resultado morte, estaremos diante do crime de homicídio (e, nesse caso, a lesão estaria absorvida pelo crime mais grave). Além disso, deve haver nexo entre a conduta e o resultado. Nesse sentido, o caso fortuito, ou imprevisibilidade do resultado, elimina a configuração do crime preterdoloso, respondendo o agente apenas pelas lesões corporais. Se o antecedente doloso consiste em simples gesto de ameaça (art. 147) oi em meras vias de fato (LCP, art. 21), o resultado morte só pode ser imputado ao agente a título de homicídio culposo (desde que previsível), que absorve a ameaça ou a contravenção. Por se tratar de crime preterintencional, não admite tentativa. B – Diminuição de pena (§4º): ”§ 4° Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço”. A redação do §4º acima destacado é idêntica à do §1º do art. 121, cabendo as mesmas considerações feitas ao crime de homicídio. C – Substituição da Pena (§5º): “§ 5° O juiz, não sendo graves as lesões, pode ainda substituir a pena de detenção pela de multa [...]:” I – se ocorre qualquer das hipóteses do parágrafo anterior: se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima, e a lesão é leve o juiz poderá aplicar a pena de multa ao invés da pensa de detenção; II – se as lesões são recíprocas: apesar de não existir a compensação de culpas em matéria de Direito Penal, nesta hipótese, havendo lesões mútuas, ambos serão condenados, mas, com a incidência do presente privilégio. Obs: tal benefício perdeu destaque com o advento da Lei nº 9.714/98, que alterou o art. 44 do CP para permitir a aplicação da pena de multa isoladamente em substituição a pena de um ano privativa de liberdade. D – Lesão corporal culposa (§6º): Prescreve o § 6º que se a lesão resulta de comportamento negligente, imprudente ou imperito, a pena será de detenção de dois meses a um ano. Temos aqui a mesma sistemática do homicídio culposo, alterando- se apenas o resultado, logo, as considerações constantes no homicídio culposo se aplicam aqui. Vale observar, porém, que o grau de lesões sofridas não interfere no tipo penal, mas apenas na fixação da pena-base (art. 59 do CP). E – Causa de aumento de pena (§7º): “§ 7º. Aumenta-se a pena de 1/3 (um terço) se ocorrer qualquer das hipóteses dos §§ 4º e 6º do art. 121 deste Código”. No caso de lesão dolosa (ou mesmo preterdoloso), incide a causa de aumento acima se o crime “e praticado contra pessoa menor de catorze ou maior de sessenta anos” ou se “o crime for praticado por milícia privada, sob o pretexto de prestação de serviço de segurança, ou por grupo de extermínio”, cabendo as mesmas considerações feitas no estudo do crime de homicídio. F – Perdão judicial (§8º): Apenas à lesão culposa (§6º), há a possibilidade de se reconhecer o perdão judicial, nas mesmas hipóteses cabíveis ao homicídio culposo (§5º do art. 121), ou seja, “se as consequências da infração atingirem o próprio agente de forma tão grave que a sanção penal se torne desnecessária”. G – Lesão corporal leve qualificada pela violência doméstica e familiar (§9º): “§ 9º. Se a lesão for praticada contra ascendente, descendente, irmão, cônjuge ou companheiro, ou com quem conviva ou tenha convivido, ou, ainda, prevalecendose o agente das relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade: (Redação dada pela Lei nº 11.340, de 2006) Pena - detenção, de 3 (três) meses a 3 (três) anos”. A Lei Maria da Penha alterou a redação do §9º, tornando mais rigorosa (em tese) a punição nos casos de violência doméstica e familiar. Assim, incidirá tal qualificadora quando o crime for praticado contra: (a) Ascendente, descendente ou irmão: aqui não comporta se o parentesco é legítimo ou ilegítimo, ou seja, reconhece-se a figura do padrasto, madrasta, enteado(a) e irmão/irmã, filho(a) por adoção. Nesses casos, é dispensável a coabitação entre o autor e a vítima, bastando a relação de parentesco; (b) Cônjuge ou companheiro: tal majorando, apesar de resistência de parcela da doutrina, prevalece mesmo diante da separação de fato ou judicial (até porque seria alcançado pela hipótese seguinte); (c) Com quem conviva ou tenha convivido: a lesão deve ser causada em razão da vivência, atual ou pretérita (ex: república de estudantes); (d) Prevalecendo-se o agente das relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade: o agente deve se valer da vantagem doméstica, de coabitação ou hospitalidade em relação à vítima, merecendo interpretação restritiva (ex: agressões praticadas pela babá contra criança, desde que não se revista de requintes de tortura). H – Lesão corporal grave, gravíssima ou seguida de morte majorada pela violência doméstica e familiar (§10º): Se presentes as mesmas circunstâncias do §9º (crime praticado contra ascendente, descendente, irmão, cônjuge ou companheiro, ou com quem conviva ou tenha convivido, ou, ainda, prevalecendo-se o agente das relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade), aumenta-se em 1/3 a pena da lesão corporal de natureza grave (§1º), gravíssima (§2º) e seguida de morte (§3º). I – Lesão corporal leve no ambiente doméstico e familiar contra pessoa portadora de deficiência (§11): Se, além das hipóteses previstas no §9º (violência doméstica e familiar), a vítima for portadora de deficiência, incidirá aumento de pena de 1/3. Para incidir a incidência do aumento de pena é imprescindível que o agente tenha conhecimento de que a vítima é portadora de deficiência. O conceito de pessoa portadora de deficiência é trazido pelo art. 2º da Lei nº 13.146/15, in verbis: “Art. 2º. Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, podeobstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. § 1º. A avaliação da deficiência, quando necessária, será biopsicossocial, realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar e considerará: I - os impedimentos nas funções e nas estruturas do corpo; II - os fatores socioambientais, psicológicos e pessoais; III - a limitação no desempenho de atividades; e IV - a restrição de participação”. J – Lesão corporal contra autoridade ou agente de segurança pública (§12): “§12. Se a lesão for praticada contra autoridade ou agente descrito nos arts. 142 e 144 da Constituição Federal, integrantes do sistema prisional e da Força Nacional de Segurança Pública, no exercício da função ou em decorrência dela, ou contra seu cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo até terceiro grau, em razão dessa condição, a pena é aumentada de um a dois terços. Aqui, cabem as mesmas considerações feitas quando do estudo do homicídio funcional, com exceção do resultado lesivo (morte e lesão corporal). J – Lesão corporal contra autoridade ou agente de segurança pública (§12): “§13. Se a lesão for praticada contra a mulher, por razões da condição do sexo feminino, nos termos do § 2º-A do art. 121 deste Código: Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro anos). (Incluído pela Lei nº 14.188/2021). Motivado pelas mesmas razões do feminicídio, se o sujeito ativo causar lesão corporal contra a mulher apenas pelo fato dela ser mulher ou com preconceito à condição do sexo feminino (bem como diante do vínculo doméstico ou familiar que guarda com a vítima) incidirá a qualificadora em estudo. K – Ação penal: Em regra, é cabível ação penal pública incondicionada. Excepcionalmente, porém, no caso de lesão dolosa de natureza leve (art. 129, caput, do CP) e culposa (§6º), o oferecimento da ação penal dependerá de representação da vítima ou de seu representante legal, ou seja, ação penal pública condicionada a representação do ofendido (art. 88 da Lei nº 9.099/95). Nos casos de violência doméstica e familiar, será publica condicionada apenas se a vítima for homem, nas hipóteses dos §§ 9º e 11, pois, apesar de não mais de menor potencial ofensivo, a lesão continuará leve. Ver dos crimes contra a honra, art. 138 a 145. ANOTAÇÕES _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________