Prévia do material em texto
Cadernos de Pesquisa do CDHIS Caderno de Pesquisa do CDHIS Uberlândia, MG n. 40 ano 22 p. 1-174 1º semestre 2009 ISSN 15187640 CADERNOS DE PESQUISA DO CDHIS REVISTA DO CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA EM HISTÓRIA – CDHIS INSTITUTO DE HISTÓRIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA Av. João Naves de Ávila, 2121 – Bloco 1Q – CDHIS – Campus Santa Mônica – Uberlândia – MG Cep 38400-902 – Telefones: (34) 3239 4204 | 4236 | 4240 | 4501 E-mail: cdhis@ufu.br – www.cdhis.ufu.br EDITORA Vera Lúcia Puga COMITÊ EDITORIAL EXECUTIVO Dulcina Tereza Bonati Borges (UFU/MG) Ivanilda Aparecida Junqueira (UFU/MG) Maucia Vieira dos Reis (UFU/MG) Velso Carlos de Sousa (UFU/MG) CONSELHO EDITORIAL Artur César Isaia (UFSC/SC) Dilma Andrade de Paula (UFU/MG) Luciene Lehmkuhl (UFU/MG) Lúcia Lippi (CPDOC/FGV/RJ) Maria Beatriz Pinheiro Machado (Arquivo Histórico Municipal/Caxias do Sul/RS) Maria Clara Tomaz Machado (UFU/MG) Raquel Glezer (USP/SP) Yara Koury (PUC/SP) CONSELHO CONSULTIVO Ana Maria Said (UFU/MG) Carlos Henrique de Carvalho (UFU/MG) Jane de Fátima Silva Rodrigues (UNIMINAS/MG) Mário Anacleto (CECOR/UFMG/MG) Marcos Antônio de Menezes (UFG/GO) Maria Cristina Nunes F. Neto (PUC/GO) Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero (PROEDS-UFRJ/RJ) Newton Dângelo (UFU/MG) Regma Maria dos Santos (UFG/GO) Robson Laverdi (CEPEDAL/SC) Wenceslau Gonçalves Neto (UFU/MG) Yonissa Marmitt Wadi (UNIOESTE/PR) DIREÇÃO EDUFU: Humberto Aparecido de Oliveira Guido TIRAGEM: 1000 exemplares FICHA CATALOGRÁFICA Elaborada pelo Sistema de Bibliotecas da UFU ISSN 15187640 Cadernos de Pesquisa do CDHIS, n. 40, ano 22, 1º Semestre de 2009. Universidade Federal de Uberlândia, Instituto de História. Centro de Documentação e Pesquisa em História – CDHIS. Uberlândia, MG: EDUFU. Semestral 1. Arquivo, Memória, Documento 2. História Local 3. Estudos Históricos. DIAGRAMAÇÃO Eduardo Moraes Warpechowski TÉCNICA EM LÍNGUA INGLESA Sandra Chaves Gardellari SETOR DE PUBLICAÇÕES Dulcina Tereza Bonati Borges ARTE FINAL Maria José da Silva INDEXAÇÕES: LATINDEX (Portal Iberoamericano); SUMARIOS (http://www.sumarios.org) Apresentação ................................................................................................................................ 5 K A R Q U I V O , D O C U M E N T O E M E M Ó R I A J Usos do passado e arquivos: questões em torno da pesquisa histórica ..................................... 9 Paulo Knauss de Mendonça K A R T I G O S J Nas margens da política: trajetória, narrativa e mediação na Baixada Fluminense (RJ/Brasil) ............................................................................................... 17 Alessandra Siqueira Barreto O problema da compilação na cronística medieval portuguesa do limiar do século XVI (Rui de Pina) .................................................................................................... 33 Leandro Teodoro Alves Manutenção da ordem: (re)contextualização de tópicas mitológicas à luz de uma economia cristã. ......................................................................................................................................... 41 Cleber Vinícius do Amaral Felipe Ética e Sociedade Afluente: intelectuais e a agenda para uma esquerda reformista .............. 59 Daniel de Pinho Barreiros As características da experiência socialista na agricultura de Angola após a independência .... 69 Rodrigo de Souza Pain Ivan Arruda Entre preconceitos, vitimização e incapacidade: os deficientes e as imagens que reforçam a segregação social .................................................................................................... 79 Eliete Antônia da Silva O cinema como registro. Cenas de violência e gênero no documentário brasileiro ............... 93 Renata Soares da Costa Santos As recepções do filme Macunaíma pela crítica Ely Azevedo ................................................. 105 Leandro Maia Marques Sumário K D O S S I Ê : E N S I N O D E H I S T Ó R I A J Educação: o que a História nos ensina? .................................................................................. 115 Beatriz Lemos Stutz Carlos Alberto Lucena Refletindo sobre o vivido: o cotidiano, o saber escolar e a formação histórica ...................... 127 Cláudia Rodrigues O jovem e sua concepção de História: patrimônio, museu e memória como mediadores da construção do conhecimento histórico ........................................................... 133 Joana D’arc Germano Hollerbach Leituras sobre a África Contemporânea. Representações e abordagens do continente africano nos livros didáticos de História ................................................................................................ 143 Anderson Oliva Diversidade e inclusão. Relato de Experiência didática interdisciplinar de aplicação da Lei n. 10.639 ................................................................................................... 155 Jeanne Silva K R E S E N H A J Ofício de historiador: passado e presente. Tétart, Philippe. Pequena História dos historiadores. Trad. Maria Leonor Loureiro. Bauru/ são Paulo: Edusc, 2000, 166p. ................................................................................................. 167 Diogo da Silva Roiz É com entusiasmo que apresentamos às/aos leitores o número 40 – jan./jul. de 2009 – Ano 22 dos Cadernos de Pesquisa do CDHIS (ISSN 15187640). Esta edição reune várias contribuições, abrimos com a sessão ARQUIVO, DOCUMENTO E MEMÓRIA com um artigo especial do prof. Dr. Paulo Knauss de Mendonça*. Na sessão “Artigos” os temas são relacionados à política, ética, cinema e literatura medieval. Destaca-se ainda, nesta edição, um dossiê especial, “Ensino de História”. A discussão inicia-se especificando o papel dos arquivos, especialmente os das universidades, como uma construção das formas contemporâneas de promoção de memórias, registro este que distingue o viver dos tempos anteriores. Nos arquivos, organiza-se o encontro com o presente pela ruptura com o passado e não pela continuidade. Na diferença dos tempos é que se dá conta da própria historicidade. Passando-se para os artigos, Alessandra Siqueira Barreto aborda a construção do campo político fluminense, particularmente da Baixada Fluminense (RJ), uma área conhecida pela pobreza e violência, a partir da trajetória de um conhecido, e ativo, político local: Jorge Gama. Leandro Alves Teodoro propõe perceber a mudança de perspectiva da Crônica de D. Afonso IV do cronista Rui de Pina para a Crônica de D. João II, feita a partir do seu levantamento de dados. Cleber Vinicius do Amaral Felipe, busca mapear a utilização de figuras de ornato e tópicas de invenção em Prosopopéia, obra atribuída a Bento Teixeira, e nas sátiras de Gregório de Matos Guerra. Daniel de Pinho Barreiros analisa comparativamente as idéias sociais de importantes intelectuais ligados ao debate político norte-americano, engajados na crítica ao Welfare State e ao capitalismo de crescimento acelerado, trazendo um momento importante da história intelectual do séc. XX, que se refere ao surgimento do conceito de sustentabilidade. Rodrigo de Souza Pain e Ivan Arruda, discutem as características da experiência socialista na agricultura de Angola após a independência. Eliete Antônia da Silva aborda a marginalização e a segregação das pessoas com deficiência como resultado de violências e coerções que operam no plano simbólico do imaginário e das representações. Renata Soares da Costa Santos questiona, por meio do filme Terra para Rose, o complexo problema da questão agrária no Brasil. E, Leandro Maia Marques, trabalha com a recepção do filme Macunaíma através das leituras críticas do jornalista Ely Azeredo.O dossiê Ensino de História aborda a educação enquanto uma construção em constante transformação. Reflete sobre alguns problemas concernentes ao ensino e à prática em sala de aula na formação histórica dos indivíduos inclusive trazendo à tona a necessidade de discutir no espaço escolar conceitos e temas como História da África Contemporânea; diversidade e inclusão; patrimônio histórico, memória e museu como alternativa para a construção do conhecimento histórico. Os intelectuais que se dedicaram a discutir a temática da educação são eles: Beatriz Lemos Stutz, Carlos Alberto Lucena, Cláudia Rodrigues, Joana D’arc Germano Hollerbach, Anderson Oliva e Jeanne Silva. A edição se completa com a resenha do livro Ofício de historiador: passado e presente, feita por Diogo da Silva Roiz. Boa leitura! O Comitê Editorial Executivo Apresentação (*) Professor da UFF, diretor do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Esteve presente na UFU e prestigiou o CDHIS visitando a nós e conferindo nosso acervo. Arquivo, Documento e Memória 9Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 9-16 — 1º sem. 2009 Arquivos do nosso tempo De diferentes formas, o passado sempre ocupou as sociedades ao longo dos tempos. As sociedades contemporâneas, segundo a fórmula de Pierre Nora, inventaram os lugares de memória, distinguindo-se das sociedades tradicionais que vivem na memória e justificam seus atos cotidianos a partir da lembrança dos seus mitos e repetindo seus antepassados.1 Diante da aceleração do tempo e do compromisso com o progresso, as sociedades contemporâneas trataram de localizar o passado em museus, bibliotecas, arquivos, catálogos, datas, festas e comemorações, testemunhando a sua própria transformação. Nesse tempo em que vivemos, procuramos sempre inovar e transformar o mundo, distanciando-nos de nossos ancestrais. Nossa distância é a medida de nossa evolução. Como outros lugares de memória, os arquivos são uma construção das formas contemporâneas de promoção de memórias, registro de que nós vivemos num tempo distinto dos tempos anteriores. Nos arquivos, organiza-se o encontro com nosso tempo pela ruptura com o passado e não pela continuidade. Na diferença dos tempos é que nos damos conta da nossa própria historicidade. Assim, diante de cartas antigas de uma mapoteca, descobrimos como o mesmo território foi representado diversas vezes de modos distintos, mas diante deles, observando o mesmo território, nos Usos do passado, arquivos e universidade Paulo Knauss Professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense e Diretor-Geral do Arquivo Púbico do Estado do Rio de Janeiro. Resumo: O artigo aborda a função dos arquivos na atualidade, especialmente os das universidades, como uma construção das formas contemporâneas de promoção de memórias, registro de que vive-se num tempo distinto dos tempos anteriores. Nos arquivos, organiza-se o encontro com o presente pela ruptura com o passado e não pela continuidade. Na diferença dos tempos é que se dá conta da própria historicidade. Enquanto equipamento cultural, os arquivos públicos são sempre encarados como recursos de conhecimento e de animação do espírito e da curiosidade pela ciência e pela educação. A cultura e o conhecimento são dimensões da cidadania contemporânea, por serem domínios da livre expressão e de afirmação de identidades, além de movimentar uma economia peculiar de proporções significativas. Palavras-chave: Arquivos Públicos. Arquivos Universitários. Documentos. Cidadania. Abstract: This paper is about the current role of files, especially in universities while being a construction of contemporary ways of memory promotion. This way they are recordings showing that we live in a different time. The encounter with the present time is organized through the rupture with the past but not through continuity. Times’ differences allow one to feel his own history. While a cultural tool, public files are always faced both as knowledge and spiritual happiness resources. They also help science and education. Culture and knowledge are dimensions of contemporary citizenship, for they are domains of free expression and identity confirmation, besides moving a peculiar economy of significant proportions. Keywords: Public Files. University Files. Documents. Citizenship. 1 NORA, Pierre. Entre mémoire et histoire: la problématique des lieux. In: Les lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1984. v. 1. 10 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 9-16 — 1º sem. 2009 convencemos de que nosso espaço é outro. Podemos reconhecer o Brasil numa carta colonial, contudo, diante dela nos convencemos de que a nossa terra não é mais daquele jeito. Ocorre que, antes disso, há outra constatação a ser feita. Os documentos de caráter permanente, que encontramos nos arquivos públicos dos nossos dias, não foram sempre vestígios de outro tempo. Conforme a teoria do ciclo de vida dos documentos é possível demarcar as fases corrente e intermediária, anteriores à fase permanente de vida dos documentos. Como documentos correntes eles serviram ao instante do presente, no aguardo do despacho necessário. A espera da realização de ações decorrentes da decisão inscrita nos documentos caracteriza a fase intermediária da vida documental. Sua terceira fase de vida, a fase permanente, é a memória da ação produzida e consumada. Alguns diriam que nessa fase os documentos se tornam inativos, ou deixam de ter caráter utilitário. Melhor seria falar de valor primário, próprio da consecução da ação, e de valor secundário, que envolve novos usos dos documentos, pois é diante de sua condição permanente que os documentos afirmam sua dimensão histórica, propriamente dita.2 Importa salientar que durante os ciclos de sua vida, os documentos sofrem uma transmutação de sentido que os desloca da produção de um ato para a recordação do mesmo ato. Considerando que os documentos nascem correntes, sobrevivem como intermediários, e se redefinem como permanentes, entre a primeira e a última fase de sua vida eles continuam sempre sendo os mesmos suportes materiais de informação, mas o seu sentido é transformado. Nessa passagem é que os usos dos documentos são redefinidos, e nesse momento eles deixam de transportar ações do presente, para transportar ações do passado. Há uma mudança de inserção temporal em torno da transmutação de sentido dos documentos. Nesse caso, os usos do passado fazem a diferença, pois os documentos passam a ganhar outra razão de ser e se instalam nos arquivos. No início de sua vida, o documento é registro do presente, na terceira fase de sua vida ele passa a ser registro do passado e se afirma como patrimônio cultural. Sem dúvida, um dos melhores exemplos dessa transmutação dos documentos ao longo de sua vida são os arquivos das polícias políticas do século XX. Isso vale para o Brasil, para os países do Cone Sul, ou para a Alemanha oriental, ou para onde quer que os regimes policialescos tenham sido substituídos por regimes abertos. Isso porque os documentos da polícia política nasceram para perseguir os cidadãos, considerando-os inimigos de Estado, ou “inimigos internos”. Contudo, hoje eles são instrumentos da garantia de direitos dos cidadãos frente ao Estado. Trata-se do mesmo papel, do mesmo suporte material e do mesmo conteúdo, mas sua razão de ser mudou diante da presença do passado na sociedade. Mudou seu sentido, porque a sociedade e suas instituições mudaram, substituindo velhas estruturas por outras. Os mesmos papéis ganham assim novo interesse, o que implica em novos usos. Desse modo, os documentos da polícia política são reconhecidoscomo fontes de outra época e, assim, localizam o passado. Sua difusão e publicidade reafirmam as nossas diferenças históricas e atestam que estamos noutro tempo em que a relação do Estado e do cidadão se transformou. Sua preservação atesta a transformação da sociedade. Portanto, esse uso contemporâneo do passado não nos situa na continuidade do passado e de gerações anteriores, mas, ao contrário, nos coloca na desconti- nuidade do tempo. Nossa época se define pela alteridade em relação a outras épocas. Revisitar os documentos históricos de arquivo, nesse caso, significa sempre reafirmar a particularidade do presente frente aos outros tempos. Portanto, os usos do passado se organizam no presente. Assim, a transmutação do sentido do docu- mento acompanha de fato um deslocamento dos tempos, pois é no presente que o passado se define. O passado não é dado, mas construção atualizada do presente. Arquivos no campo da cidadania Enquanto equipamento cultural, os arquivos públicos são sempre encarados como recursos de conhecimento e de animação do espírito e da curiosidade pela ciência e pela educação. Por isso, cada dia mais os arquivos se dedicam à produção de exposições, publicações, cursos e eventos. Essa dimensão é fundamental, mas ela não deve ser vista como marginal à cidadania ou epifenômeno da vida. A cultura e o conhecimento são dimensões da cidadania contemporânea, por serem domínios da livre 2 Para uma caracterização do ciclo de vida dos documentos, veja-se, por exemplo, BELLOTTO, Heloisa. Arquivos permanentes: tratamento documental. 4ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2007. Cap. 1. 11Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 9-16 — 1º sem. 2009 expressão e de afirmação de identidades, além de movimentar uma economia peculiar de proporções significativas. De outra parte, porém, é importante notar que o cidadão só percebe que o arquivo é um equipamento fundamental na sua vida social, quando descobre que ali se encontra o papel que pode servir para garantir o seu direito almejado. Essa é uma cena comum ao dia-a- dia dos arquivos públicos, espaços de dor e alegria diante da possibilidade de conquistas sociais individuais. Isso diz respeito tanto a acervos que documentam a história das propriedades, como os registros de terra do século XIX, introduzidos pela Lei de Terras de 1850, como os documentos do Instituto Médico Legal criado na capital federal em 1907, entre outros. Todos os dias, os arquivos recebem cidadãos em busca de uma certidão que ateste a informação decisiva para sua demanda legal. No caso dos documentos das polícias políticas, eles são instrumentos fundamentais para reparação de danos às vitimas do autoritarismo, por exemplo. Do mesmo modo, é por meio da gestão documental, que os Estados podem atender às demandas de transparência social, dando conta de suas realizações à sociedade. O sistema de arquivos é base da superação da opacidade do Estado. Interessa sublinhar, que diante desse duplo caráter os arquivos são expressão da democracia e se afirmam no campo da garantia de direitos e da cidadania. Assim, os arquivos exercem papel importante, especialmente, no campo dos direitos de quarta geração, em especial, o direito à informação, à cultura e à memória. Não sem razão os arquivos públicos no Ocidente se fortaleceram, sobretudo, depois da Segunda Guerra Mundial e a derrocada dos regimes totalitários do nazi- fascismo, marcados pela discriminação étnica e a política de homogeneização cultural. Há um vínculo na história contemporânea entre a informação dos arquivos e a crítica do Estado de exceção. Os arquivos são, assim, componente fundamental do Estado de direito. No quadro de Estado de direito se definem, também, as condições de uma política nacional de arquivos na atualidade nacional. Ao lado do direito à cultura, a Constituição da República Federativa Brasileira de 1988 estabelece dispositivos destinados a garantir os direitos individuais e, ao mesmo tempo, resguardar o direito a informações contidas nos órgãos públicos. Esta foi a primeira e única Constituição do Brasil a estabelecer parâmetros gerais de uma política nacional de gestão de documentos da administração pública visando a franquear sua consulta, corroborada pelas disposições federais da Lei n.º 8.159, de 08 de janeiro de 1991, que trata dos Arquivos públicos e privados, regulamentando o acesso a documentos públicos, prazos de sigilo, emissão de certidões e rito processual do habeas data — instrumento pelo qual todo cidadão tem direito de conhecer as informações que o Estado produz sobre ele — abrindo assim os arquivos aos indivíduos da sociedade. Desse marco jurídico geral, decorrem as condições de uso dos arquivos e suas fontes. Há que se balancear o interesse público diante do privado, os direitos difusos e os individuais. Especificamente neste âmbito, dois princípios constitucionais basilares necessariamente são sopesados: o direito à informação e a inviolabilidade da intimidade.3 O direito à informação tem a característica de ser um direito difuso, ou seja, que perpassa toda a sociedade, sendo um pressuposto da democracia que os cidadãos tenham conhecimento dos atos, das atividades da administração para que possam atuar, fiscalizando, controlando e participando do Poder Público. Nesse sentido, o direito à informação é da mesma natureza do direito à cultura e à memória. A esta questão deve também ser aplicada a norma inserta no inciso XXXIII, do artigo 5º da Constituição Federal de 1988, no que tange o direito de sigilo de informações relevantes à segurança da sociedade e o Estado. A Lei Federal de Arquivos (n.º 8.159/91) dispõe, ainda, no artigo 4º que todos têm o direito de receber dos órgãos públicos informações, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado, bem como a inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das pessoas. Neste mesmo diapasão, no artigo 5º e inciso X da Lei Maior, se encontra o preceito constitucional de inviola- bilidade da intimidade, da honra, da vida privada e da imagem das pessoas, que constitui garantia de direito individual. O que a história dos documentos no Brasil demonstra é que os usos do passado não são exclusividade dos historiadores. Aliás, eles trafegam na trilha que a ordem social estabelece como marcos legais e pelos direitos 3 Para esse debate, veja-se: COSTA, Célia Maria Leite. Intimidade versus interesse público: a problemática dos arquivos. Estudos Históricos, Rio de Janeiro: n. 21, 1998/1. 12 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 9-16 — 1º sem. 2009 garantidos pelo trabalho dos arquivos públicos. Além disso, é muito freqüente o uso destas fontes pelo mundo do jornalismo, da produção áudio-visual, de massa ou não, ao lado dos usos para fins probatórios por cidadãos comuns. O que se pode dizer é que os documentos de arquivo são objeto de um espaço público que não se circunscreve ao mundo dos profissionais de história. Tal como apontam François Hartog e Jacques Revel, em torno dos usos políticos do passado se torna possível observar que no campo da história contemporânea foi se estabelecendo um campo próprio para a história recente, explicitando uma particularidade da nossa era.4 Cabe lembrar sempre que as relações entre política e usos do passado estão na origem da historiografia no Ocidente. Heródoto é tido até hoje como ‘pai da história’, depois de ter escrito o livro que ganhou o título de História. De fato sua obra, lança a idéia da história como investigação, tal como a etimologia da palavra grega sugere. No entanto, essa idéia da origem do conheci-mento a partir da obra do famoso autor grego da Anti- güidade despreza o fato de que as sociedades sempre conviveram de algum modo com formas de construção do conhecimento de suas histórias. Mas por que Heródoto, e depois Tucídides – com a História da Guerra do Peloponeso – fizeram a diferença na Antigüidade. Moses I. Finley, o historiador britânico da Antigüidade clássica, apresenta o argumento de que o aparecimento da História como investigação e como conhecimento, na Grécia Antiga, está relacionado com o advento da polis, que representa a afirmação do campo da política e da discussão pública.5 A interrogação proposta questiona as relações entre poder e conhecimento como uma marca da História. Não sem razão, Heródoto e Tucídides, per- sonagens emblemáticos da historiografia antiga foram exilados políticos. Heródoto foi obrigado a fugir de sua terra natal, Helicarnasso, no contexto das guerras persas e depois de uma revolta. Foi também um homem do tempo de Péricles e que esteve ao lado de suas forças na fundação da colônia de Turios, nos anos de 440 a.C. Tucídides, por sua vez, chegou a ser o estrataga de sua cidade, Atenas, assumindo assim uma função pública de destaque social. Após o fracasso de uma missão militar e a perda do poder em sua cidade, foi condenado ao exílio. Nesse sentido, há na historiografia fundadora uma manifestação de consciência provocada pela condição política de seus autores e a possibilidade de participar da discussão pública a partir da escrita. Essa condição definiu uma moral sob a marca do exílio para o estudo da história.6 De todo modo, o que se abre diante de nós como debate é o fato de que os usos do passado organizam as formas da lembrança, mas igualmente do esquecimento. Talvez, melhor seria dizer que toda forma de lembrança é sempre também uma forma de produzir amnésia.7 Arquivos na universidade No universo dos arquivos da atualidade existe uma espécie ímpar: os centros de documentação univer- sitários. Estes centros se formaram como núcleos de apoio à pesquisa no campo das humanidades e possuem um perfil diversificado. Ora se definem como custodia- dores de acervos arquivísticos, bibliográficos e museo- lógicos, ora se caracterizam como centro de referência que organiza bases de dados, repertórios e guias de fontes ou mantêm coleções documentais microfilmadas ou digitalizadas, combinando essas duas vertentes de modos variados. O Instituto de Estudos Brasileiros – IEB da Univer- sidade de São Paulo é o exemplo pioneiro criado em 1962 sob a liderança de Sergio Buarque de Holanda. Ao longo dos anos, afirmou-se com um centro multidisciplinar de pesquisa e documentação sobre história e cultura no Brasil, reunindo arquivos e bibliotecas pessoais de artistas e intelectuais brasileiros, com destaque para os acervos de Mario de Andrade e Alberto Lamego. No início, o centro se organizou em torno da biblioteca a partir da coleção do intelectual paulista Yan de Almeida Prado, mas a partir de 1968 o arquivo da instituição começou a se constituir e definir o modelo de centro de docu- mentação.8 Como indica Célia Camargo Reis, é a partir dos anos 70 do século XX, que se estabelece um contexto particular que permitiu a construção desses centros e 4 HARTOG, François & REVEL, Jacques (dir.). Les usages politiques du passé. Paris, Ed. EHESS, 2001. 5 Cf., FINLEY, Moses I. Usos e abusos da história. São Paulo: Martins Fontes, 1989. 6 Para essa discussão, veja-se: KNAUSS, Paulo. Uma história para o nosso tempo: historiografia como fato moral. História Unisinos. São Leopoldo-RS: v. 12, n. 2, p. 140-147, mai/ago 2008. 7 Para um debate sobre memória e esquecimento, veja-se: RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Ed. Unicamp, 2007. 8 CALDEIRA, João Ricardo de Castro. IEB: origem e significados. São Paulo, Imprensa, Oficial, 2002. 13Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 9-16 — 1º sem. 2009 levou à sua constituição, especialmente, ao redor de cursos de História e Ciências Sociais das universidades brasileiras.9 Há, de um lado, um movimento oficial que reconheceu a contribuição que a universidade pode dar à proteção do patrimônio documental e, por outro lado, há um outro movimento que buscou proteger o que as forças oficiais da época não admitiam. A origem, do Arquivo Edgar Leuenroth, da Universidade de Campinas – Unicamp, se relaciona a esse segundo movimento a partir da incorporação, em 1974, do acervo pessoal que deu nome a um dos maiores centros de documentação universitários do Brasil. Usualmente, estes centros de documentação uni- versitários tendem a ocupar um espaço não trabalhado por outras instituições arquivísticas públicas de re- ferência. Por vezes, tornam-se centros de resgate de documentos de valor histórico, cuja integridade é ameaçada. Em Alagoas, durante alguns anos, os do- cumentos da polícia política estadual terminaram sendo tratados e guardados pela Universidade Federal do estado, diante do fato de que nenhuma outra instituição esta- dual assumiu a custódia do acervo. Recentemente, no âmbito do Projeto Memórias Reveladas, coordenado pelo Arquivo Nacional, houve a entrega da documentação ao Arquivo Público de Alagoas, devolvendo os docu- mentos ao lugar de referência institucional desse tipo de fundo arquivístico. Outro exemplo conhecido é o do Centro de Documentação Histórica da Universidade Severino Sombra – USS, criado em 1987 na cidade de Vassouras do estado do Rio de Janeiro, que tem a cus- tódia de documentos cartorários da região do vale do Paraíba fluminense e da Prefeitura Municipal. Nessa mesma linha, pode-se citar também o Centro de Do- cumentação e Apoio à Pesquisa – CEDAP, da Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP, criado em 1973, que integrou ao seu acervo os documentos cartorários do Fórum de Assis e os documentos do Poder Legislativo e Executivo municipais. No Paraná, pode-se mencionar também o Centro de Documentação e Pesquisa Histórica da Universidade Estadual de Londrina – UEL, originado da criação de uma iniciativa universitária do ano de 1973. Em todos estes casos, o que se observa é que os centros de documentação universitários têm um papel decisivo na proteção do patrimônio documental local e regional. Por vezes, as iniciativas universitárias provocam a ação do poder público no sentido de constituir a instituição arquivística de referência local. É assim, que na cidade de Guarapuava, no estado do Paraná, a mobilização em torno do trabalho do Centro de Documentação e Me- mória da Universidade Estadual do Centro-Oeste – Unicentro, originado de iniciativas comunitárias e uni- versitárias nos anos de 1970, conduziram ao estabe- lecimento do Arquivo Público Municipal no espaço da universidade. Ao lado disso, os centros de documentação uni- versitários com freqüência se tornam instituições importantes na preservação e difusão de arquivos pes- soais.10 Desse modo, dão reconhecimento social ao uni- verso privado de documentos, garantindo sua visibili- dade. Um dos exemplos mais conhecidos nacionalmen- te é o caso do Centro de Documentação e Informação Científica – CEDIC/PUC- SP, criado em 1980. No seu acervo se encontra a coleção CLAMOR – Arquivo do Comitê de Defesa dos Direitos Humanos para os Países do Cone Sul, cuja importância foi reconhecida, em 2007, pelo registro nacional no Programa Memória do Mundo da UNESCO. O valor social desse acervo é tamanho que muitas vezes se esquece que sua história decorre do papel da universidade na promoção do conhecimento histórico. Mas os exemplos poderiam ser multiplicados em torno da história política do Brasil. Apenas a título de ilustração, no campodos arquivos privados, podemos lembrar o caso do fundo do Partido Comunista Brasileiro, dis- ponível para consulta no Centro de Documentação e Memória da UNESP (instituição criada em 1987); e o Arquivo Ana Lagôa, situado na Universidade Federal de São Carlos – UFSC, criado em 1996, que é constituído do arquivo pessoal da jornalista que teve atividade destacada na grande imprensa nacional e que reúne pastas temáticas sobre os grandes fatos da política nacional do período de 1968 a 1985. Ambos os acervos são importantes para a história política recente do Brasil. No caso da história da imigração no Sul do Brasil, há dois acervos valiosos, especialmente de documentos 9 CAMARGO, Célia Reis. Centros de documentação das universidades: tendências e perspectivas. IN: SILVA, Zélia Lopes da (Org.). Arquivos, patrimônio e memória: trajetórias e perspectivas. São Paulo: UNESP, 1999. Neste livro, encontram-se várias referências sobre a constituição de centros de documentação universitários do estado de São Paulo, como o Arquivo Edgar Leuenroth – Unicamp, Arquivo Ana Lagôa – UFSC, Centro de Documentação e Memória – UNESP. 10 Para uma boa discussão sobre os arquivos pessoais, veja-se: CAMARGO, Ana Maria de Almeida & GOULART, Silvana. Tempo e circunstância: a abordagem contextual dos arquivos pessoais. São Paulo, IFHC, 2007. 14 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 9-16 — 1º sem. 2009 fotográficos: Museu Antropológico Diretor Pestana, que se constituiu e 1961, em torno do trabalho da Uni- versidade de Ijuí, no Rio Grande do Sul, e o atual CEPEDAL – Núcleo de Pesquisa e Documentação sobre o Oeste do Paraná (originado do Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina – CEDHAL, criado em 1989) da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Unioeste. O Centro de Documentação Histó- rica – CDHIS da Universidade Federal de Uberlândia – UFU, criado em 1985, é outro exemplo de como a ação das universidades envolve tanto a promoção de arquivos públicos e privados, pois reúne um acervo valioso de processos criminais do fórum local, ao lado de coleções e arquivos de inúmeras personalidades da história regional. Nesse caso, há que se destacar o valor da coleção fonográfica, com discos de diferentes épocas e gêneros, de uma das antigas rádios locais. Há ainda uma ação importante das universidades no processo de constituição de arquivos especializados em história oral. O caso do arquivo do Laboratório de His- tória Oral da Universidade de Joinville e do Laboratório de História Oral e Imagem da Universidade Federal Fluminense – LABHOI-UFF, criado em 1982, são pro- vavelmente os exemplos mais antigos e continuados de atuação especializada nas universidades brasileiras. Vários dos centros citados anteriormente também possuem coleções de história oral no seu acervo. Nesse campo, é preciso observar que se trata de preservação de material documental originado das pesquisas aca- dêmicas na própria universidade, resultado da espe- cificidade dessa documentação.11 Nos casos citados, fica evidente o compromisso social da universidade que termina por ampliar as possi- bilidades de promoção do patrimônio documental, reforçando o sentido social dos acervos a partir do caráter público das instituições de ensino superior. Cabe observar, ainda, que ao lado do papel dos centros de documentação universitários de preservar arquivos e coleções, muitas vezes eles cumprem a valiosa função de difundir acervos, constituindo-se em núcleos de referência regionais de informação. Talvez, essa seja uma missão a ser fortalecida por essas instituições uni- versitárias. O melhor exemplo é dado pelo Arquivo Edgar Leuenroth, da Unicamp, que possui uma grande coleção de documentos microfilmados de outros arquivos e bibliotecas. Desse modo, ele se torna um centro regional de consulta de acervos estrangeiros e nacionais, exer- cendo uma função fundamental para a difusão docu- mental e promovendo a infra-estrutura da pesquisa nacional no campo das ciências humanas e sociais. Por vezes, suas boas condições de consulta oferecem maior conforto e serviços mais eficientes de atendimento à pesquisa que o das instituições de origem da docu- mentação. Mas outros exemplos se multiplicam no país, como é o caso do Laboratório de Pesquisa e Ensino de História, do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco – LABPEH-UFPE, que reúne coleção de microfilmes de documentação manuscrita colonial, de cartórios e da imprensa estadual, por exem- plo. Desse modo, a experiência institucional demonstra que como núcleos de referência, os centros de docu- mentação universitários podem exercer um papel fun- damental na difusão de informação. Desse modo, o que se observa é uma configuração diversificada dos centros de documentação universitários. Ora concentram acervos bibliográficos, hemerotecas, fundos arquivísticos públicos e privados, coleções ico- nográficas, fonográficas e/ou de entrevistas de história oral, constituindo-se em guardiões da preservação de acervos valiosos. Mas, ao lado disso, por vezes, os centros de documentação universitários se afirmam antes como núcleo de referência de informação, reunindo acervo de documentos repoduzidos para consulta local, privi- legiando a difusão da informação. Contudo, uma função não exclui a outra, podendo se combinar, como no exemplo do Núcleo de Documentação Cultural da Uni- versidade Federal do Ceará – NUDOC-UFCE, existente desde 1983 e ligado ao Departamento de História da instituição, assim como em muitos dos outros casos citados. Por fim, é preciso observar que há uma construção intrínseca entre organização de arquivos e formação de profissionais de investigação social e histórica, fazendo do trabalho de preservação e difusão de acervos do- cumentais campo de ensino para a pesquisa. Além de servir como instrumento de acesso e difusão da in- 11 É preciso apontar que internacionalmente há uma forte tendência para concentrar arquivos de história oral em universidade, considerando a especificidade de sua natureza de documentação produzida pela pesquisa. Nesse sentido, serve de exemplo os programas da Universidade Columbia e da Universidade de Berkeley nos Estados Unidos da América, considerados entre os maiores do mundo. 15Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 9-16 — 1º sem. 2009 formação, os centros de documentação universitários se constituem também em espaço de formação dos pro- fissionais de arquivo e da pesquisa arquivística. Assim, de modo original, os centros universitários de docu- mentação traduzem o compromisso das universidades com a indissociação entre ensino e pesquisa. A ordem dos termos nem sempre foi a mesma para todas as instituições. Os exemplos do Centro de Docu- mentação e História do Brasil Contemporâneo – CPDOC da Fundação Getúlio Vargas – FGV, no Rio de Janeiro, criado em 1973, e da Casa de Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz, criado em 1986, demonstram que, por vezes, o centro de documentação antecede o trabalho de ensino, ainda que o modelo predominante seja o inverso. Mas o que importa é frisar que em torno de centros de documentação se constitui um espaço institucional da promoção de acervos documentais que confirma a missão contemporânea das universidades. Não há dúvida da importância desses centros de documentação para o ensino de história, no nível su- perior. Eles têm assim um papel inusitado de experi- mentação didática, que anda junto com o trabalho de promoção de documentos históricos. Com freqüência, tornam-se laboratórios em diversas áreas — educação básica, educação patrimonial, história oral, produção editorial, produção videográfica, produção deexposições etc., construindo pontes originais entre os documentos e o ensino. Nesse sentido, recorrentemente, tornam-se espaços de inovação acadêmica, porque se dedicam a campos que a ordem curricular formal não consegue realizar plenamente, tornando-se, assim, espaços de atividades curriculares complementares. A novidade da ação permite também que os alunos assumam uma posição mais protagonista na produção de conheci- mento, promovendo uma integração entre docentes e discentes. Desse modo, revelam também sua capacidade de enriquecer o ambiente acadêmico de formação pro- fissional universitária e de renovar o ensino e a apren- dizagem. A base do processo de ensino-aprendizagem, nesses casos, tem como base a criatividade por meio do desafio de encontrar soluções para problemas con- textualizados. No mesmo sentido, os centros de docu- mentação permitem experimentar a diversidade dos canteiros do ofício de profissionais da história e do pa- trimônio. A interdisciplinaridade se afirma também como uma marca desses centros de documentação universitários. A complexidade do trabalho de tratamento da infor- mação documental conduz, igualmente, a diferentes domínios, como o da preservação de documentos e difusão da informação, levando o trabalho institucional a se ampliar para diferentes áreas que ultrapassam o universo específico de estudo da história e das ciências sociais. Desse modo, os centros de documentação his- tórica se abrem para a colaboração interdisciplinar. Os professores e alunos envolvidos terminam tendo contato com outras áreas de conhecimento especializado, cons- truindo pontes para a redefinição da própria inserção do profissional de história e ciências sociais no universo do patrimônio documental. Nesse processo, adquirem uma consciência patrimonial que os caracteriza para além do papel de usuários de arquivos e leitores de documentos. Dito de outro modo, esse vínculo entre ensino e pesquisa define o caráter dos centros de documentação universitários, ao mesmo tempo, que são o produto do aprofundamento de um modelo de universidade que assume o compromisso com a construção de conhe- cimento sem se dissociar de seu contexto social. O maior dos desafios é fazer com que as universidades entendam a importância destes espaços institucionais, conseguindo viabilizar sua base operacional — o que exige recursos materiais e humanos. Seu reconhe- cimento, certamente, decorre da capacidade de apro- fundar estes vínculos com a sociedade que abriga a uni- versidade, mas igualmente com a comunidade acadê- mica, a partir da pesquisa e do ensino, tendo a experi- mentação e a inovação como referência fundamental para a valorização das instituições universitárias. Referências BELLOTTO, Heloisa. Arquivos permanentes: tratamento documental. 4ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2007. Cap. 1. CALDEIRA, João Ricardo de Castro. IEB: origem e signi- ficados. São Paulo, Imprensa, Oficial, 2002. CAMARGO, Ana Maria de Almeida & GOULART, Silvana. Tempo e circunstância: a abordagem contextual dos ar- quivos pessoais. São Paulo, IFHC, 2007. CAMARGO, Célia Reis. Centros de documentação das uni- versidades: tendências e perspectivas. In: COSTA, Célia Maria Leite. Intimidade versus interesse público: a problemática dos arquivos. Estudos Históricos, Rio de Janeiro: n. 21, 1998/1. FINLEY, Moses I. Usos e abusos da história. São Paulo: Martins Fontes, 1989. HARTOG, François & REVEL, Jacques (dir.). Les usages 16 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 9-16 — 1º sem. 2009 politiques du passé. Paris, Ed. EHESS, 2001. KNAUSS, Paulo. Uma história para o nosso tempo: histo- riografia como fato moral. História Unisinos. São Leopoldo- RS: v. 12, n. 2, p. 140-147, mai/ago 2008. NORA, Pierre. Entre mémoire et histoire: la problématique des lieux. In: Les lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1984. v. 1. RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Ed. Unicamp, 2007. SILVA, Zélia Lopes da (Org.). Arquivos, patrimônio e memó- ria: trajetórias e perspectivas. São Paulo: UNESP, 1999. 17Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009 De perto e de longe: a Baixada e suas relações com o Rio de Janeiro Usualmente ancorada na definição de Geiger e Santos1, a Baixada Fluminense é identificada como uma área de planícies baixas constantemente alagadas entre o litoral e a Serra do Mar, e distribui-se pelos municípios ao longo da Rodovia Presidente Dutra, numa extensão de aproximadamente 80 km a partir da cidade do Rio de Janeiro. Sua ocupação ocorreu de forma lenta desde o século XVI, período em que a região foi fornecedora e distri- buidora de matérias-primas diversas (cana-de-açúcar, café, etc) à capital (Rio de Janeiro). No entanto, um dos processos mais significativos de ocupação da Baixada teve início com a construção da estrada de ferro D. Pedro II já no século XIX. A ampliação da linha férrea até Queimados, em 1858, promoveu a atração e fixação da população que se deslocou para a região às margens da linha do trem, estabelecendo um padrão que ainda hoje é marcante em quase a totalidade das cidades que a compõem. Tal processo implicou no abandono das vias fluviais, até então fundamentais para a economia local, que acabaram tornando-se obsoletas. Um segundo momento crucial foi, já na década de 1930, a criação da Comissão de Saneamento da Baixada e o Departamento Nacional de Obras de Saneamento que trouxeram mudanças e repercutiram no novo fluxo Nas margens da política: trajetória, narrativa e mediação na Baixada Fluminense (RJ/Brasil) Alessandra Siqueira Barreto É professora adjunta do Departamento de Ciências Sociais, da Universidade Federal de Uberlândia/Brasil. Doutora em Antropologia Social pelo PPGTAS/Musue Nacional /UFRJ e Pós-doutora em Antropologia pelo Departamento de Antropologia do ISCTE/ Portugal (bolsa do CNPq 2008/2009). E-mail: alessandrabarre@fafcs.ufu.br Resumo Neste artigo pretendo abordar a construção do campo político fluminense, particularmente da Baixada Fluminense (RJ), uma área conhecida pela pobreza e violência, a partir da trajetória de um conhecido, e ativo, político local: Jorge Gama. Sua trajetória permite-nos perceber ao longo da história local e regional como as imagens e representações sobre a região Baixada alteram e re-inventam as diversas concepções acerca da política e do fazer político. A mediação política e cultural é trazida como uma das características de sua persona e condição de possibilidade de sua manutenção no mundo da política. Palavras-chave: Política. Trajetória. Mediação política e cultural. Baixada Fluminense. Abstract In this article I intend to present the construction of the Fluminense political field, particularly the Baixada Fluminense (RJ), an area known for poverty and violence, from the trajectory of a known and active local political: Jorge Gama. His trajectory allows us to understand the local and regional history as the images and representations on the Baixada change and re-invent the different conceptions of politics. The political and cultural mediation is brought as one of the characteristics of his persona and condition of possibility of his maintaining in the political world. Keywords: Politics. Trajectory. Cultural and political mediation. Baixada Fluminense. 1 GEIGER, Pedro Pichas e SANTOS, Ruth Lira. Notas sobre a evolução da ocupação humana da Baixada Fluminense. Rio de Janeiro, IBGE, 1956. 18 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009 a partir de 19402. Algumas obras também contribuíram nesse processo, como por exemplo, a construção da Avenida Brasilem 1946, da Rodovia Presidente Dutra (inaugurada em 1951) e os investimentos que, graças aos loteamentos, surgiram a partir daí, atraindo mi- grantes de várias regiões do país e do estado, mas prin- cipalmente de nordestinos, em busca da possibilidade de adquirir um lote e de morar próximo ao seu local de trabalho — o município do Rio de Janeiro. Com isso, as décadas de 1950 e 1960 representaram o período de maior crescimento populacional da região, bastante superior ao restante do estado (crescimentos de mais de 100% só na década de 1950)3. Aos loteamentos, que determinaram um tipo de ocupação marcado pela presença majoritária das ca- madas populares em áreas que não apresentavam as mínimas condições de infra-estrutura4, somaram-se as disputas pela terra, desencadeando um violento processo que teve à sua frente jagunços e capatazes dos grandes proprietários da região que, na grande maioria dos casos, jamais residiram nessas localidades5. As narrativas de moradores locais confirmam os dados e retomam a saga — desde a cidade de origem, passando pela viagem de muitas horas em ônibus precários ou em paus-de-arara, sozinhos ou com toda a família; o sol e a chuva enfrentados pelo caminho e, por fim, a chegada ao Rio de Janeiro6. O desembarque, mencionado em muitos dos relatos que escutei, ocorria, por exemplo, no bairro carioca de Campo de São Cris- tóvão — local onde os homens eram avaliados para possível trabalho na construção civil — e o destino final era, geralmente, uma das favelas do município ou al- guma cidade da Baixada Fluminense. As redes familiares e de amizade apresentavam-se como fatores decisivos no momento da escolha do local de moradia. Contar com o auxílio, ainda que temporário, de um irmão, cunhado, prima ou amigo era essencial para quem não tinha casa, dinheiro ou mesmo uma ocupação. Alguns poucos já chegavam empregados — via de regra, por intermédio desses parentes/ amigos — mas nem todos tinham a mesma sorte. Minha família, é uma família humilde, né? Meus pais são analfabetos, vieram do Nordeste [Pernambuco] tentar a vida no Rio de Janeiro e sempre trabalhando pra que pudesse[m] nos sustentar e dar estudo para a gente, né? Mas as condições […] como é normal no Rio de Janeiro, acho que no país todo […] É difícil para as pessoas que não têm condições e a vida muito sacri- ficada. É pai trabalhando em feira, é […] ajudante de caminhão, eu, meu irmão, minha irmã também trabalhamos em feira, em barraca, enfim nós traba- lhamos muito pra chegar onde nós chegamos” (Waldir Zito, ex-prefeito de Belford Roxo, 03/02/2004). Minha família veio pra Nova Iguaçu sem nada, só com a coragem mesmo. [...] Porque senão, iam passar fome, né? Eu nasci aqui, sou daqui da Baixada mesmo, mas já fui lá pro Norte, lá pra casa dos meus parentes [Sergipe], mas eu não troco isso aqui por lá, não (M., 36 anos, casada, professora primária, 09/06/ 2004). Outra característica marcante da Baixada é o seu fluxo constante. Apesar de algumas de suas represen- tações estarem ancoradas construções a partir de um “universo rural”, “cidade pequena”, o movimento é incessante e as estradas que atravessam e cortam a Baixada demonstram esse fluxo permanente. Duas principais a atravessam diametralmente: a Estrada de Ferro D. Pedro II (atualmente, SUPERVIA) e a Rodovia Presidente Dutra (BR 116). A circulação incessante de gente, de carros, de imagens aponta, ao mesmo tempo, para uma estética homogeneizante e para a multi- plicidade de significados em jogo. Haveria, assim, o olhar seqüencial e indistinto de quem simplesmente passa por ali e a percepção matizada de quem se atreve a parar, a desvendá-la7. Sua ligação com o município do Rio de Janeiro não 2 Na década de 1930 já percebemos tal migração devida fundamentalmente à citricultura em Nova Iguaçu que terá seu declínio com o início da Segunda Grande Guerra. 3 Fonte IBGE, 1996. 4 As primeiras áreas loteadas localizavam-se nos distritos, hoje municípios, de Duque de Caxias, São João de Meriti e Nilópolis devido à sua proximidade com a cidade do Rio de Janeiro. 5 GRYNSZPAN, Mário. “Os idiomas da patronagem: um estudo da trajetória de Tenório Cavalcanti”, In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, n.14. Rio de Janeiro: Vértice, ANPOCS, outubro, 1990. ALVES, José Cláudio Souza. Dos barões ao extermínio. Uma história da violência na Baixada Fluminense. Duque de Caxias: APPH, CLIO, 2003. 6 BARRETO, Alessandra Siqueira. Cartografia Política: as faces e fases da política na Baixada Fluminense. Tese (Doutorado em Antropologia)Rio de Janeiro: PPGAS/ Museu Nacional/ UFRJ, 2006. 7 Ibidem. “Um olhar sobre a Baixada: usos e representações sobre o poder local e seus atores”. In: Campos, 5 (2), 2004,p.45-64. 19Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009 se dá apenas pela proximidade. As fronteiras entre os dois não são sequer tão rígidas e alguns bairros do subúrbio carioca são por vezes “incorporados” à Baixada ou vice-versa. Um outro fator representativo dessa relação refere-se ao número expressivo de moradores da região que faz diariamente o trajeto Baixada — Rio de Janeiro — Baixada para trabalhar ou estudar. Os trens e ônibus lotados em direção ao Rio no horário da manhã e no sentido oposto à tarde marcam o contato diário de cerca de 300 mil pessoas da Baixada com a capital carioca em uma viagem (e esta é uma categoria nativa) que pode durar de uma a quatro horas, dependendo do dia da semana, do município de origem e do horário de saída8. Esta circulação é mais que o movimento pendular de trabalhadores das regiões periféricas, ela acaba por propiciar o contato com mundos sociais diferentes e as situações de co-presença são marcadas ora pelo inter- câmbio, ora pelo conflito. Há certa ambigüidade na cons- trução das representações sobre o Rio e os cariocas por parte dos moradores da Baixada, assim como o con- trário, dependendo do contexto. No entanto, a troca de acusações recíprocas marca essa relação: aos moradores da Baixada cabem os qualificativos de “bregas”, “pobres”, “gentinha”, “cafonas”, “perigosos”; aos cariocas “esno- bes”, “bestas”, “filhinhos de papai”, “patricinhas”. A construção de uma “fala política”: trajetória e mediação A política na Baixada Fluminense9 não pode, de modo algum, ser entendida à parte das representações sobre o lugar. Para compreendermos este quadro, devemos excluir o ponto de vista estático para pensar tais repre- sentações assim como a política em processos constantes de abertura e fechamento, aglutinação e reformulação, densidade e esvaziamento. Nesse sentido, as imagens e representações acerca do lugar misturam-se a personalidades políticas e aos estigmas, atribuindo um caráter especial à “perso- nalização” enquanto uma das dinâmicas constitutivas das redes políticas da região, operada a partir de indiví- duos-chave e da busca por seus interesses particulares, ora valendo-se de partidos, ora de redes mais amplas para atingir seus objetivos10. Desse modo, ao transformar Jorge Gama em narrador de uma das versões sobre a Baixada, pretendemos trazer à tona um olhar sobre a política local e seu modus operandi, ao mesmo tempo em que lançar luz às possibilidades de re-invenção sobre a Baixada. Jorge Gama nasceu em 19 de setembro de 1942. Carioca “do Rocha” (subúrbio do Rio de Janeiro), mudou- se para Nova Iguaçu com seis anos de idade, juntamente com o pai, a mãe e os três irmãos. Seu pai, Manuel de Barros, era imigrante português nascido durante o regime salazarista. Era comerciante, dono de uma car- voaria em Nova Iguaçu e de um botequim, localizado onde hoje situa-se o município de Mesquita. Sua mãe, Noêmia de OliveiraGama de Barros, era dona de casa. Jorge fez o primário (hoje chamado de ensino funda- mental) no Colégio Iguaçuano — na época, uma das melhores e mais tradicionais instituições educacionais privadas da cidade e referência local, ainda hoje. Aos 12 anos, foi trabalhar no Fórum, estudando à noite no Colégio Monteiro Lobato (uma tradicional escola da rede pública). Continuou trabalhando no cartório e, aos 18 anos, foi nomeado escrevente. Quando concluiu o curso de direito pela Universidade Federal Fluminense, em 1969, optou por não fazer concurso e permanecer no cartório onde “ganhava bem”. Sua fase adulta transcorreu durante os anos de ditadura no Brasil. Em um primeiro momento, o regime autoritário cassou mandatos parlamentares e instituiu o AI-2 (que implicou a extinção dos partidos políticos) e, logo em seguida, o bipartidarismo (ARENA e MDB), permitindo o funcionamento, ainda que parcial, da so- ciedade política e garantindo sua legitimidade com base na percepção de que tal situação seria transitória11. 8 Alguns municípios fazem divisa com a cidade do Rio: Duque de Caxias, São João de Meriti e Itaguaí. O município mais perto é Duque de Caxias que fica a 13 km do centro Rio, enquanto que o mais distante fica a cerca de 80 km. 9 Hoje, a configuração mais ampla da região (da qual me utilizo) abrange 13 municípios — Itaguaí, Seropédica, Paracambi, Japeri, Queimados, Nova Iguaçu, Mesquita, Nilópolis, Belford Roxo, São João do Meriti, Duque de Caxias, Magé e Guapimirim — contando com uma população de mais de 3 milhões de habitantes. 10 GRYNSZPAN, Mário. “Os idiomas da patronagem: um estudo da trajetória de Tenório Cavalcanti”, In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, n.14. Rio de Janeiro: Vértice, ANPOCS, outubro, 1990. FERREIRA, Marieta de Moraes. Em busca da Idade de Ouro: as elites políticas fluminenses na Primeira Repúblia (1889-1930). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994. ALVES, José Cláudio Souza. Dos barões ao extermínio. Uma história da violência na Baixada Fluminense. Duque de Caxias: APPH, CLIO, 2003. 11 O MDB surgia, oficialmente (registrado na Justiça Eleitoral, apesar de existir desde finais de 1965), em 24 de março de 1966. Nascido sob o signo da oposição ao regime — e “batizado” por Tancredo Neves (Ulysses Guimarães preferia a palavra ação a 20 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009 Assim, a estratégia de manter dois partidos políticos visava evitar a desconfiança e o descrédito gerados por um sistema autoritário strito sensu12. No entanto, o processo político implementado pelo novo regime não conseguiu diferir das antigas relações patrimonialistas e clientelistas13 já que necessitava angariar apoio, nego- ciando cargos e privilégios com os antigos — e tradi- cionais — donos do poder14. Este é o momento posterior da “abertura” são significativos para o entendimento da política na Baixada Fluminense, além de constituírem o contexto de surgimento de algumas trajetórias políticas expressivas em termos mais gerais. Nessa época, entraram em cena novos atores que, vinculados ou não aos militares, perpetuaram-se na vida política local e ainda demonstram sua influência e prestígio, mesmo após 20 anos de democracia. Apesar de uma análise da situação sobre o município de Nova Iguaçu estar ausente da narrativa de Jorge Gama durante a primeira entrevista que me concedeu, na Baixada Fluminense como um todo tal situação explicitava-se pelo grau de intervenção nos municípios15. Nas cidades adjacentes, a situação de ingerência era a mesma. Duque de Caxias, após a lei 5.449, de 4 de junho de 1968, tornou-se área de segurança nacional devido à presença de uma refinaria de petróleo e de uma rodovia interestadual (a Rodovia Washington Luís). Foi sob esse clima político que teve início a vida pública de Jorge Gama. Filiado ao MDB desde 1967, a política lhe inte- ressava, mas ainda com certa distância e muito ligada às suas relações pessoais e a um “estilo contestador”. Aqui, em Nova Iguaçu, tinha um fato interessante. Lançava-se um candidato, assim, da nossa patota, da nossa turma e aí, nós apoiávamos. Vamos votar no cara, vamos botar ele na Câmara. Era uma coisa muito des- politizada, muito eleitoral. Era um modismo. Pegava um nome, uma espécie de liderança na turma e botava ele na Câmara. Nós fizemos isso com o Mauro Miguel, amigo, boêmio. Demos uma força e o elegemos. Bom, depois com a ditadura começou a ter um grupo que pensava, que conversava, que trocava idéias. E esse grupo se reunia, informalmente, perto do Fórum, num bar que tinha na esquina, em frente à estação [ferro- viária], era o bar do Zuza. Todo mundo ia pra lá de noite tomar cerveja, conversar e trocar idéia. Era quase se- melhante àquele grupo do Pasquim, um pouco influ- enciado pelo grupo do Pasquim16. Era o Robson, que é dono do Correio da Lavoura17; eu, o Sérgio Fonseca, o Eliasar Diniz, o Roque Bone (Roque da Paraíba, com- positor e pintor), Hugo Freitas (artista), Paulo Faria, Paulo Amaral. Aquilo era um centro de debate, de contestação ao prefeito, à política da ditadura. E aí se criou, no Correio da Lavoura, uma coluna chamada ‘O Negócio é o seguinte’. Era uma coluna livre e cada um movimento) — o partido foi inicialmente presidido por um general, Oscar Passos, Senador pelo Acre e, a princípio, pouco defrontava o partido do governo, a ARENA. (DHBB, 2001). Segundo Diniz (1982), o MDB fluminense caracterizava-se (no período de 1965- 1979) por um alto grau de heterogeneidade, congregando diferentes facções que disputariam a hegemonia interna pelo poder no partido. A autora faz uma análise da máquina chaguista — desde sua estruturação e ascensão, até a articulação de suas bases de apoio — demonstrando a construção de um aparato ligado essencialmente ao clientelismo, suas implicações dentro da estrutura urbana e sua relação com as massas. 12 Segundo Avritzer, “o regime autoritário permitiu o funcionamento parcial da sociedade política, contanto que esta se sujeitasse aos objetivos primordiais do regime (...) O regime autoritário entendia que a vitória nas urnas dar-lhes-ia legitimidade, mas não porque seus programas políticos fossem ao encontro do desejo da maioria do eleitorado, e sim porque isso lhe possibilitaria manipular o processo eleitoral de modo a assegurar o controle a longo prazo do aparelho estatal. O problema dessa estratégia foi que ela criou um processo político que não levava à legitimidade, e sim ao autoritarismo”. AVRITZER, Leonardo. “Conflito entre a sociedade civil e a sociedade política no Brasil pós-autoritário: uma análise do impeachment de Fernando Collor de Melo”. In: ROSENN, K. e DOWNES, R. Corrupção e reforma política no Brasil: o impacto do impeachment de Collor. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2000. p. 170- 1 7 1 . 13 FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1975. LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto. O município e o regime representativo no Brasil. São Paulo: Alfa-Ômega, [1949] 1975. 14 FERREIRA, op. cit.; ALVES, op. cit. 15 Entre 1963 e 1969, a região passou por significativas mudanças políticas. Em Nova Iguaçu, mais especificamente, tais mudanças resultaram na nomeação de/ ou na eleição de oito prefeitos diferentes, fato que, diante da situação política conturbada que se estabeleceu após a instauração do regime militar, culminou na interferência direta sobre o poder local, com cassações de prefeitos e vereadores da oposição e a imposição de interventores na região. A cidade teve como chefes do executivo, nesse período, dois interventores, dois presidentes da Câmara Municipal, dois prefeitos eleitos e dois vice-prefeitos. 16 O Pasquim — assim como Opinião, Movimento, Em Tempo, Coojornal e Versus — era umjornal alternativo, em formato de tablóide e com circulação irregular; um jornal de protesto e de oposição. Editado no Rio de Janeiro, foi lançado em 1969, tornando-se um dos principais jornais do gênero. Teve em seu quadro de redatores nomes como os de Sérgio Cabral, Jaguar, Tarso de Castro, Carlos Propseri, Claudius Ceccon etc. Durante os anos 1980 sua tiragem foi se tornando extremamente rarefeita. Os últimos números do jornal saíram no final dessa década.” (p.23). 17 O jornal Correio da Lavoura, de circulação local, foi criado em 22 de março de 1917. Atualmente, sua periodicidade é semanal. 21Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009 fazia uma frase, e foi um sucesso muito grande. O jornal era semanal e todo mundo comprava pra ver as piadas e as críticas. Eu usava pseudônimos: ‘o Transeunte’ e ‘Maria Auxiliadora da Paz’. Depois criei um outro personagem, o ‘Geraldinho boca de trombone’, que escu- lhambava todo mundo. Enfim... Fazia uns artigos uma vez ou outra. Aquilo ali era um cenário, ninguém tinha um projeto eleitoral. Era um cenário meio boêmio e meio contestador. Aos domingos, o jornal publicava o que saía dali, mais ou menos. (Jorge Gama, 10/08/2003) Os personagens criados trazem à tona o papel dos jornais como um dos poucos espaços possíveis para a crítica ao regime. A relação e as implicações entre as diversas mídias e a política perpassam a análise da trajetória de Jorge Gama e conferem tons distintos aos marcos temporais, aos “momentos históricos” por ele vivenciados. O período da ditadura apresenta-se como basilar para a constituição de sua identidade política a partir do viés da expressão artística, do humor (sar- casmo), da crítica e do engajamento, ainda não pro- priamente vinculado a uma adesão ideológica. Mani- festa-se, simplesmente, o escritor livre, indignado com o cerceamento, com o medo, com a incapacidade de agir. Primeiramente o “Transeunte” e “Maria Auxiliadora da Paz”, depois “Geraldinho boca de trombone” vão com- pondo e divulgando discussões políticas e informações proibidas e censuradas como alternativa às notícias dos jornais tradicionais, limitadas pelas exigências do regime e do mercado. Estes novos veículos trazem para o cenário local (Nova Iguaçu) uma forma de mobilização e de pro- vocação (aos políticos locais) marcada pela criativida- de, pela coragem e pela imprudência. Os codinomes utilizados são emblemáticos: “Transeunte”, aquele que se move, sem paradeiro fixo, sem destino. O marginal (e marginalizado) por excelência. “Maria Auxiliadora da Paz”, mulher, portanto pertencente a uma minoria, que carrega no próprio nome um apelo. E, por fim, o es- cracho: “Geraldinho boca de trombone”, o homem comum que fala; que fala sem que o detenham, sem limites; em suma, o agitador. A conjuntura política do país transformou o papel das mídias — principalmente do jornal e dos jornalistas — gerando, conforme ressaltou Abreu18, uma valorização simbólica da ligação entre jovens quadros a partidos, principalmente o PCB. Assim, “a escolha do jornalismo como profissão era uma forma de exercer o engajamento político, divulgar uma ideologia e atuar politicamente”. Na época de sua atuação como colunista no Correio da Lavoura, Jorge Gama era um advogado recém-formado que, de alguma forma, traduziu esse espírito de seu tempo como porta-voz local da insatisfação, da con- testação e do anseio pela mudança. Este “movimento” (como Jorge o denomina) teve início na década de 1970, influenciando em sua entrada na vida político-eleitoral local com a candidatura pelo MDB do advogado Humberto dos Santos, considerada “mais conseqüente, mais de esquerda”. Jorge coordenou a campanha vitoriosa de Betinho (como Humberto era conhecido). Um candidato “mistura de boêmio e con- testador, mas inorgânico”, que fez um mandato “com- bativo” sem, no entanto, manter uma relação de proxi- midade com o partido. Em 1972 (ano em que se casou e residiu no bairro carioca da Ilha do Governador), deu prosseguimento à sua atuação como articulador e coor- denador de campanhas, no interior do estado pelo MDB. O primeiro turning point de Jorge Gama deu-se, contu- do, apenas dois anos depois. De seu escritório, foi um dos responsáveis pela articulação da campanha de Fran- cisco Amaral à Alerj — apoiada pela esquerda (segundo Jorge, “uma esquerda independente, uma parte do “Par- tidão”, além de setores da Igreja”) — que foi eleito e tornou-se um dos principais nomes da “esquerda local”19. O escritório de Jorge figura, em sua narrativa, como o espaço no qual se deu sua formação ideológica. É a partir da criação desta prestadora de serviço, do contato com os dois advogados que trabalhavam no escritório e com Francisco Amaral que Jorge marca sua passagem para a “política de verdade”. Se a “origem” dessa ligação localiza-se nas “conversas políticas” com os amigos boêmios e contestadores, a mudança de seu estatuto político foi conferida por intermédio da relação com 18 ABREU, Alzira. “Jornalistas e jornalismo econômico na transição democrática”. In: ______, LATTMAN-WELTMAN, F. e KORNIS, M. 2003. Mídia e política no Brasil. Jornalismo e Ficção. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003. p.21. 19 Nesse ano, a eleição para governador deu-se por meio de eleição indireta, realizada pelo sufrágio de um Colégio Eleitoral nas Assembléias Legislativas, na forma do artigo único, caput e § 1º da Emenda Constitucional n.º 2, de 9 de Maio de 1972. Da mesma forma ocorreu a eleição para Presidente da República, realizada pelo Colégio Eleitoral (composto de membros do Congresso Nacional e de delegados das Assembléias Legislativas dos Estados), na forma dos arts. 1º e 2º, da Lei Complementar n.º 15, de 13-08-1973. (Tribunal Superior Eleitoral) 22 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009 nomes “mais da esquerda” e se apresenta como fun- dadora de um novo ciclo: sua entrada como ator político na arena local. “Eu tinha uma formação crítica, no máximo. Depois eu adquiri uma formação ideológica. Uma formação mais social”. Havia, sem dúvida, um significativo peso simbólico em classificar-se (e/ ou ser classificado) como “de esquerda”. De um lado, havia a preocupação em não ser vinculado a uma postura radical (“esquerdista”), ao mesmo tempo em que era desconfortável (para alguns atores sociais) ser rotulado de conservador. Grosso modo, “ser de esquerda” aludia a um rol de atributos, conhe- cimentos e práticas remetidos fundamentalmente à postura de crítica ao regime militar. A relação com Francisco Amaral, anterior à sua vinculação com eleições, estreitou-se a partir de sua entrada no cenário eleitoral de Nova Iguaçu e das possibilidades abertas por um contato direto com a Assembléia Legislativa. A atuação no cartório (“desde criança”) e sua profissão foram decisivas para o esta- belecimento de contatos com diferentes segmentos sociais, assim como a vida boêmia e o estilo contestador. Juntos, estes atributos compunham a imagem de um profissional responsável, ao mesmo tempo em que o associavam a um tipo de sociabilidade e de trânsito entre a classe média (na qual se incluía) e setores populares, em algum nível mediado pelos locais por ele fre- qüentados, pelos “personagens” que criou e por seus escritos nos jornais locais. Forjavam-se, assim, algumas das características que o distinguiriam e o tornaria um candidato vitorioso naquele momento. Estavam em jogo os processos de identificação que resultariam na cons- tituição de sua persona pública. Nessa época, na verdade, estava surgindo uma classe média em Nova Iguaçu. Já não era mais aquela aristocracia rural. Ali, eu apareço em [19]76 como um personagem que transitavaentre todo mundo, que con- versava com todo mundo, que tinha as idéias. Não era esquerdista, mas não era conservador. Eu também esta- va buscando uma identidade. (Jorge Gama, 05/10/2003) Jorge Gama disputou, em 1976, sua primeira eleição para a Câmara Municipal de Nova Iguaçu, embora o partido pretendesse lançá-lo como candidato à pre- feitura20. Preferiu, no entanto, novamente apoiar Francisco Amaral que, contudo, não conseguiu se eleger, sendo perseguido, tendo sua candidatura ameaçada de impugnação e seus colaboradores coagidos21. Jorge, por sua vez, foi eleito vereador pela legenda do MDB (Movi- mento Democrático Brasileiro) como o segundo mais votado do partido — com 3.847 votos — graças à sua inserção junto às camadas médias de Nova Iguaçu e, segundo o próprio, ao voto expressivo dos “servidores da Justiça”, em uma alusão direta a seu vínculo profissio- nal. Nesse mandato, durante o governo do prefeito da ARENA, ex-interventor agora eleito, Rui Queirós pre- sidiu a Comissão de Justiça e a de Redação da Câmara Municipal e foi um opositor do governo municipal e das políticas administrativas que o executivo implementava. Nesse primeiro momento, ainda não havia delineada uma geografia eleitoral de contornos nítidos. Jorge Gama não tinha como reduto eleitoral um bairro ou área da cidade específicos, e sim uma determinada camada social e um grupo profissional mais facilmente identificável. A representação espacial, tão cara à política em geral — como, por exemplo, à política dos vereadores22 — não era predominante e tornava possível ao candidato (Jorge Gama) ampliar suas possibilidades eleitorais por inter- médio de uma “bandeira” que, apesar de representar interesses específicos, perpassava, no caso de Nova Iguaçu, diferentes áreas da cidade. A dinâmica das relações pessoais é outro fator que merece atenção. Desde o período de sua “formação polí- tica”, as relações de Jorge com algumas pessoas em Nova Iguaçu foram fundamentais para sua decisão de ingres- sar no cenário político-eleitoral. A noção de rede é aqui retomada privilegiando-se seu aspecto mais centrado no 20 As eleições de 15 de novembro, de âmbito nacional, foram reguladas na forma da Resolução n.º 10.041, do Tribunal Superior Eleitoral, de 16-06-1976. As eleições para prefeito, vice-prefeito e vereadores deram-se em 20 de dezembro, nos municípios em que não foram realizadas em 15-11-1976. Consoante disposto no art. 1º da Resolução n.º 10.242, do Tribunal Superior Eleitoral, de 10- 12-1976. (Tribunal Superior Eleitoral) 21 Jorge Gama foi intimado — “convidado para ter uma conversa” — pelo major Carneiro, no Regimento Sampaio, não somente por estar à frente da campanha de Francisco Amaral, mas essencialmente por sua ligação com o jornal O Pontual, que pertencia ao empresário Manuel Góes Teles. Na ocasião, Jorge foi inquirido a respeito do jornal e de sua ligação com Manuel Góes Teles e depois liberado. 22 LOPEZ Jr., Feliz Gracia . As relações entre executivo e legislativo no município de Araruama. Dissertação (Mestrado em Antropologia)Rio de Janeiro: PPGAS/MN/UFRJ, 2001. 23Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009 ego, o ator político, interessando refletir sobre a forma como as relações diádicas são travadas e operaciona- lizadas para a prática da política local23. Tais relações não foram constitutivas apenas dos processos de iden- tificação política de Jorge Gama, mas qualificaram sua inserção local a partir da rede a que resolveu aderir. Sua aproximação com as camadas populares foi, no entanto, posterior à primeira eleição e deu-se por meio de sua relação com membros da Igreja Católica da Diocese de Nova Iguaçu — também por intermédio de Francisco Amaral que o apresentou a Dom Adriano Hipólito24, o que permitiu sua inserção no universo dos movimentos populares. Essa ligação — e o reconhecimento de seu lugar legítimo como político na cidade — favoreceu sua eleição para deputado federal, pelo MDB, em 1978 — com 25 mil votos, apenas em Nova Iguaçu (totalizando cerca de 38 mil votos), tendo sido um dos mais votados da região (TRE/RJ). Em seu relato, Jorge Gama enfatizou sua independência com relação aos nomes mais importantes do partido na cidade — como o de Francisco Amaral — assumindo a responsabilidade pelas despesas da campanha com a ajuda de alguns parentes, de conhecidos (“um ou outro me dava alguma coisa...”) e, só mais tarde, de sua legenda. A minha eleição, repito, foi pela classe média, [fui] o segundo mais votado. Mas, logo depois de eleito, o movimento popular estava começando a ter um crescimento aqui; esse crescimento, muito ligado à Diocese de Nova Iguaçu — a Dom Adriano, e aí o Francisco Amaral, que nós já tínhamos feito a eleição dele em (19)74, já estava na política antes de mim. Então, peguei o meu mandato e coloquei o meu mandato à disposição do movimento popular. Eu me engajei totalmente no movimento popular, na formação das associações de moradores, na sua organização do ponto de vista legal. Nós dávamos uma assessoria [sobre] como fazer e tal; política, principalmente política. Nós tínhamos reuniões intermináveis aí, em todo o município de Nova Iguaçu, que antigamente era Queimados, Mesquita, Japeri […] era bem maior. E depois teve uma luta específica que também fortaleceu muito o movimento popular. (Jorge Gama, idem) A partir de sua relação com as associações, a bandeira política de Jorge Gama passou a ser a da “casa própria”. Assim como o lote25, a “casa própria” não representava somente um sonho de consumo, mas a própria incorporação social, tornando possível aos indivíduos perceberem-se como cidadãos ao expressarem relações de significação entre espaço e política e sua dimensão na configuração de modos de vida. Em Nova Iguaçu, e na Baixada de modo geral, tal problemática mobilizou discursos políticos e organizações civis, possibilitando a Jorge a operacionalização de um fazer político informado por seu fazer profissional: o Direito. Os despejos em massa consistiram acontecimentos decisivos para solidificar essa aproximação e reformular as imagens que compunham sua identidade política. Para Jorge, ainda que se partisse de uma questão pessoal — como a casa da família A ou B — o mecanismo de articulação desenvolvido junto às associações conseguia originar debates de natureza política. Segundo ele, aquele era o momento oportuno para “plantar a crítica e a conscientização” e mobilizar as pessoas para a ação política. A centralidade da “casa própria” para os envolvidos nos movimentos sociais refletia-se na dinâmica local, nos símbolos adotados e no discurso tornado público pelos atores legitimamente constituídos (investidos) durante o processo. A “casa própria” aparece então como palavra-de-ordem para criar e organizar a ação. Através dela (e por ela), esta última se realizava. Reuniões eram articuladas no escritório de Jorge nos domingos à noite; fomentava-se o debate; construía-se a mobilização. O escritório funcionava como ponto de encontro para falar de política, conversar com as lide- ranças das associações de moradores. Era freqüentado também por artistas e boêmios, ao mesmo tempo em que funcionava para o atendimento ao eleitor26. 23 MITCHELL, J. Clyde. Social Networks in Urban Situations. Manchester: Manchester University Press, 1971. BEZERRA, Marcos Otavio. Corrupção: um estudo sobre poder público e relações pessoais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume-Dumará/ANPOCS,1994. 24 Dom Adriano Hipólito foi um personagem marcante na Baixada entre 1966 e 1981. Foi Bispo de Nova Iguaçu e atuou junto aos movimentos sociais, auxiliando a formação das Comunidades Eclesiais de Base na região. Foi seqüestrado em 1976e torturado, tornando-se um símbolo pela luta contra a repressão e a ditadura. Dom Adriano morreu em 1996. 25 BORGES, Antonádia. Tempo de Brasilia. Etnografando lugares-eventos da política. Rio de Janeiro: Relume Dumará, Núcleo de Antropología da política, UFRJ, 2003. 26 KUSCHNIR, Karina. Política e sociabilidade: um estudo de antropologia social. Tese (Doutorado em Antropologia).Rio de Janeiro: PPGAS, Museu Nacional/UFRJ, 1998. 24 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009 Durante o mandato de deputado federal, Jorge Gama costumava voltar às quintas-feiras à Nova Iguaçu para atender os eleitores e reunir-se com as lideranças locais em seu escritório. Na sua ausência, seu irmão ou algum assessor conduzia as reuniões e os atendimentos até a chegada do deputado, organizando as prioridades. “A gente também convivia no escritório com o cara que ia pedir uma ajuda, uma coisinha […]”. Neste contexto, o “eleitor tradicional” é concebido como aquele que corro- bora a “política dos vereadores”, ou seja, o atendimento como uma atividade eleitoral, de troca. Para Jorge, tal troca não consistiria uma dimensão política, “de crítica”, visando apenas a maximização de votos por parte do político e sua continuação no campo político, em contra- partida à satisfação de necessidades e interesses indi- viduais, por parte do eleitor. Assim, a capacidade do político de obter o bem desejado pelo eleitor lhe ga- rantiria, em algum nível, retribuição em termos de voto e apoio27. Tal explicitação é, no entanto, evitada e, ao se pensar a relação de “generosidade” e de “benfeitoria” do político com seu(s) eleitor(es), o foco recai sobre algo já observado por Bordieu28: […] o caráter primordial da experiência do dom é, sem dúvida, sua ambigüidade: de um lado, essa expe- riência é (ou pretende ser) vivida como uma rejeição do interesse, do cálculo egoísta, como exaltação da genero- sidade, do dom gratuito e sem retribuição; de outro, nun- ca exclui completamente a consciência lógica da troca. Em todas as entrevistas que me concedeu, Jorge Gama atribuiu um juízo de valor negativo à “política de resultados”, conferindo à sua identidade política a marca da opção ideológica e da ‘função de fiscal’ do Executivo — mais presente em seu mandato como vereador. Diferentemente do exposto por Kuschnir29 sobre a concepção de política dos Silveira (seus interlocutores: Fernando e Marta), Jorge Gama — ao falar de si e de sua prática política —afirma não priorizar o atendimento, que estaria ligado a interesses individuais, em detrimento do que considera o real fazer político: a doação desin- teressada, o bem da coletividade. A doação (do tempo do político, da atividade política, da “bandeira”) é pensada então em relação diametralmente oposta à troca (rei- ficada em termos do caráter imediato do bem). No entanto, mesmo atribuindo um caráter negativo a tal sistema, reconhece sua necessidade, justificando-o pelo argumento da “tradição”. Tradição mantida por verea- dores, prefeitos, deputados, eleitores (“eleitores tra- dicionais”) enfim, por todos os atores sociais envolvidos no processo político. Segundo Jorge, a carência de aparatos e serviços públicos somada à pobreza em que vivem muitos dos moradores da região promovem a utilização desse tipo de recurso político, possibilitando sua reprodução. É interessante notar que o político benfeitor e/ ou doador nos termos de Chavess30 pode tanto atender aos pedidos de pessoas de camadas populares (por remédio, lotes ou gasolina), quanto intermediar concessões políticas a empresários, render homenagens públicas a “cidadãos ilustres” etc.31. Colo- car-se como doador significa, então, apresentar-se como ator legítimo, socialmente investido para atender às demandas da população por meio dos canais gerados pelo próprio status do político e por acessos angariados no exercício dessa função. Nesse sentido, “ter acesso é o que diferencia os políticos e, em especial, os parlamentares, das demais pessoas. O acesso é um bem escasso e que não pode ser comprado, mesmo por quem tem muito dinheiro. Para se obter acesso, é preciso entrar para a política”32 Em seu primeiro mandato como deputado federal, as invasões de terra ocuparam boa parte das preocu- pações e ações de Jorge Gama. Consideradas “um pro- blema da coletividade”33, o auxílio prestado aos grupos 27 BEZERRA, Marcos Otavio. Em nome das “bases”. Política, clientelismo e corrupção na liberação de recursos federais. Tese (Doutorado em Antropologia). Rio de Janeiro: UFRJ/MN/PPGAS, 1998. KUSCHNIR, op.cit; BORGES, op. cit.; LOPEZ Jr., op.cit.; 28 BOURDIEU, Pierre. “A ilusão biográfica”, In: Razões Práticas. Sobre a teoria da ação. Tradução Mariza Corrêa. Campinas: Papirus, 1996. p.7. 29 KUSCHNIR, op. cit. 30 CHAVES, Christine A. Festas da política. Uma etnografia da modernidade no sertão (Buritis, MG). Rio de Janeiro: Relume Dumará, Núcleo de Antropología da política, UFRJ,1996. 31 VIEGAS, Ana Claudia Coutinho. Trocas, facções e partidos: um estudo da vida política em Araruama – RJ. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social). Rio de Janeiro: PPGAS/MN/UFRJ, 1997. LOPEZ, op. cit. 32 KUSCHNIR, op. cit. p.237. 33 É interessante notar como Jorge Gama diferencia a “casa” ou o “lote” de um bem em termos mais gerais. Tal diferenciação passa pela construção de um discurso coletivo sobre o bem em questão — que envolve a constituição de um “movimento” — autorizando- o, portanto, a tomá-lo como demanda coletiva. A relação entre “movimento” e interesse é fundamental para entendermos as formas de classificação operacionalizadas por Jorge Gama com relação ao seu fazer político. 25Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009 nelas envolvidos era tanto político, quanto técnico. Político, uma vez que remetia à negociação entre par- celas da população e esferas do poder público. Já o saber técnico, que remetia à formação profissional de Jorge, configurava um aspecto distintivo, singularizando-o frente a outros atores políticos locais. Nova Aurora e Monte Líbano são algumas das áreas invadidas — hoje áreas majoritariamente ocupadas por conjuntos habi- tacionais — cujos processos de ocupação tiveram, em algum nível, a participação de Jorge Gama. Sua atuação nestes episódios proporcionou sua aparição na mídia e a conexão de seu nome ao de outras personalidades de grande carisma, como Dom Adriano Hipólito. Os atores políticos engajados nesses movimentos originavam-se de diversos segmentos sociais: políticos profissionais, moradores da periferia, lideranças de bairros, membros da Igreja Católica etc. Para os políticos profissionais, tais movimentos sociais configuram loci de atuação privilegiados, propiciando um espaço de visibilidade e de exaltação da mediação como ferramenta necessária, permitindo que algumas pessoas se coloquem em evidência devido à singularidade de seu potencial de trânsito por distintos segmentos. A mediação coloca-se então como uma atividade porque — conforme ressaltou Castro34 — relaciona-se a um “projeto pessoal de se tor- nar mediador”. No entanto, diferentemente da análise elaborada por este autor, defendo que o político pro- fissional não é um mediador apenas ou mais facilmente em períodos de transição e de mudança — apesar de tais momentos potencializarem sua visibilidade e seus atos. Ela não é o extraordinário, mas o cotidiano. É a execu- ção constante do projeto pessoal e não uma qualidade “natural” de certos indivíduos. Esta especialização na articulação e/ ou negociação, como enfatiza Castro35, singulariza determinados indivíduos, mas realça a di- mensão “voluntarista” assim como a condição necessária para essa atuação: gostarde desempenhar tal papel. Este gostar é definido por sensações tanto quanto pela crença no sucesso ou na possibilidade de conquistá-lo. A vontade de atuar como mediador e a aptidão em desenvolver tal atividade são proporcionais à capacidade de lidar com a diversidade de códigos, símbolos e interesses envolvidos — neste caso, no processo político. No entanto, podemos dizer que seria mais apropriado pensar no mediador como uma situação (estar mediador) e não, necessariamente, como uma qualidade ou propriedade (ser mediador). Não é garantia, portanto, para a reprodução incessante dessa atividade apenas o desejo do ator ou algum atributo inato, mas um complexo de significados, ações e motivações intersubjetivas; interessando-nos mais especificamente o between, do que a suposta origem ou finalidade da mediação. No caso específico de Jorge Gama, há uma grande ênfase em tal atuação. “Quem marcou a primeira au- diência de Dom Adriano com um membro da ditadura fui eu”. Atuando como mediador em um determinado segmento da população, Jorge demonstrou possuir algum trânsito entre as diferentes esferas e atores públicos, conseguindo expor suas reivindicações — mesmo em um espaço cerceado pela insegurança e pelo medo da exposição, característicos dos anos de regime militar. O episódio em que teria agendado uma audiên- cia para Dom Adriano com o então Ministro do Interior, Mário Andreazza, para que tratassem de um novo mo- delo de financiamento habitacional que melhor aten- desse às necessidades e restrições econômicas da população de baixa renda de Nova Iguaçu, apresenta-se como uma demonstração de sua capacidade de arti- culação e mediação. Jorge presenciou tal reunião em Brasília, juntamente com Francisco Amaral, Paulo Amaral e Ubaldo Rodrigues. O político, assim como qualquer outra liderança, precisa constituir seu espaço legítimo de atuação e conformar seu discurso a um público específico — seu eleitorado. O processo de investidura requer dos atores políticos a demonstração de seu capital simbólico, de seu poder e prestígio. Em um universo político no qual a mobilização era vigiada e os direitos políticos, sociais e civis restringidos, tal demonstração passava, necessa- riamente, pelo trânsito entre os militares (nas institui- ções de direito), tanto quanto entre as associações civis e a Igreja Católica — que passou a ter uma postura de contestação e crítica aos militares com o recrudesci- mento do regime, a partir da década de 1970. Apesar dos limites, o campo de possibilidades de indivíduos-chave é sempre colocado em evidência por meio de suas ações e projetos. Ou seja, as delimitações sócio-históricas implicam uma estrutura mais ou menos rígida que, no 34 CASTRO, Celso. “Comentários”. In: VELHO, Gilberto e KUSCHNIR, Karina (orgs.). Mediação, cultura e política. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001. p.210. 35 Idem. Op. cit. 26 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009 entanto, pode ser flexibilizada a partir da atuação dos sujeitos (alguns mais, outros menos) no mundo social. Esse “atuar” ou “agir no mundo” leva em consideração o potencial de metamorfose36 dos atores em questão para a concretização de seus projetos (individuais ou coletivos). Assim sendo, os projetos políticos individuais deman- davam conciliação, conformando projetos coletivos em alguns momentos e circunstâncias específicos, dentre os quais o da redemocratização brasileira que conseguiu aglutinar, em torno de um objetivo comum, um grande número de atores individuais e entidades civis. Foi justamente a partir de 1979, com o fim do bipar- tidarismo e o início do processo de organização e criação dos partidos políticos, que Jorge Gama filiou-se ao PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), sucessor direto do MDB. E com este panorama surgiu o “outro político”, o inimigo: em um primeiro momento, o PT; logo em seguida, o PDT. A aproximação de partidos de esquerda e das CEB’s com as associações de moradores é o mote desse conflito, narrado com desconfiança e descrédito por Jorge Gama — e coincidindo com seu afastamento do “movimento”. A legitimidade na con- dução dos movimentos sociais em Nova Iguaçu aparece como um dos nichos de maior disputa pelo poder político no momento em que a sociedade civil começa a se orga- nizar e a se manifestar. A contenda em torno de quem seria o porta-voz autorizado desses movimentos au- mentava as rivalidades ideológicas, tendo as siglas par- tidárias — agora passíveis de expressão e visibilidade — entrado em cena, disputando cada qual o seu quinhão. O multipartidarismo provocou uma fissura interna na frente de oposição ao regime militar e sua pulverização em uma gama de partidos que agora disputavam a arena política37. O MDB, que congregou em sua sigla frentes ideológicas diversas desde a exigência do bipartidarismo, sofreu um grande impacto eleitoral com tal dissenso. Apesar de ter mantido nomes importantes em seus quadros, como Ulysses Guimarães38, seu vice-presidente, a impossibilidade de entendimento entre alguns deles possibilitou a criação de outros partidos — dada a inca- pacidade de atrair para si políticos que se apresentavam como adversários. Tal foi, por exemplo, a forma como se deu a criação do PP — congregando nomes como Tan- credo Neves39 e Chagas Freitas40 — do PDT de Brizola41; do PTB; do PCdoB etc. Em 1982, já findado seu primeiro mandato de deputado federal, Jorge Gama foi escolhido para con- correr como vice-governador do Rio de Janeiro ao lado de Miro Teixeira, com a “missão” de desempenhar o papel de “governador da Baixada”. Essa “escolha” não se deu sem disputas dentro do partido. No entanto, foi Leonel Brizola quem se elegeu governador; a chapa composta por Miro Teixeira e Jorge Gama tendo ficado em terceiro lugar 42. Após a derrota nas urnas, em 1983, Jorge Gama afirma ter percebido ser aquela “a hora do partido político”. Fez, então, a opção pela máquina par- tidária e começou as articulações para concorrer à presi- dência regional do PMDB. “Comecei a trabalhar esta possibilidade”, diz. As reuniões tiveram início e come- çaram a discutir a reformulação do partido no estado. Em seu relato, Jorge oscila entre duas alternativas. Ao mesmo tempo em que diz ter tomado as rédeas da situ- ação, fazendo da presidência do partido seu projeto político naquele momento, afirma que sua candidatura foi cogitada por seus pares, “tendo surgido” nas reuniões e começado a ganhar força a partir daí. Esta aparente 36 VELHO, Gilberto. Projeto e metamorfose: antropologia das sociedades complexas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. 37 Segundo Skidmore: “a legislação eleitoral altamente permissiva, redigida no final dos anos 1970 e início dos 1980, levara à rápida criação de 40 partidos políticos, dos quais 17 tinham representação no Congresso. Essa tolerância exagerada com a proliferação partidária podia ser em parte explicada como uma reação retardada à manipulação anterior da legislação eleitoral pelo regime militar, visando a garantir a vitória do partido governamental.” SKIDMORE, Thomas. “A queda de Collor: uma perspectiva histórica”. In: ROSENN, K. e DOWNES, R. Corrupção e reforma política no Brasil: o impacto do impeachment de Collor. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2000. p. 27-28. 38 Sobre Ulysses Silveira Guimarães, c.f. ABREU, Alzira. “Jornalistas e jornalismo econômico na transição democrática”. In: ______, LATTMAN-WELTMAN, F. e KORNIS, M.; Mídia e política no Brasil. Jornalismo e Ficção. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003. 39 Sobre Tancredo Neves, c.f. Ibid. op.cit. 40 Para mais informações ver Ibid. op.cit e DINIZ, E. Voto e máquina política: patronagem e clientelismo no Rio de Janeiro. Riode Janeiro: Paz e Terra, 1982. 41 C.f. SENTO-SÉ, João Trajano. Brizolismo: estetização da política e carisma. Janeiro. Rio de Janeiro: Edtora FGV, 1999. 42 Essa eleição foi regulada na forma da Resolução n.º 11.455, do Tribunal Superior Eleitoral, de 16-09-1982 e teve o seguinte resultado: Brizola (PDT) em 1º. Lugar, com 34,19% dos votos; Moreira Franco (PDS), em 2º., com 30,60%; Miro Teixeira (PMDB), em 3º., com 21,45%; Sandra Cavalcante (PTB), em 4º., com 10,71% e Lysâneas Maciel (PT), em 5º, com 3,05% (Tribunal Superior Eleitoral). Nessas eleições, o voto vinculado gerou a obrigatoriedade de se votar na mesma legenda partidária para todos os cargos, o que acabou desencadeando o chamado “fenômeno Brizola”, abalando a estrutura do poder vigente até então na Baixada, devido ao número de cadeiras obtido pela oposição nas Câmaras Municipais da região. Para a política desenvolvida pelo PMDB na localidade, tal “arranjo” foi um dos principais obstáculos à consolidação de sua imagem e a seus avanços como “partido de oposição”. 27Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009 ambigüidade entre fazer a escolha (um projeto) e ser escolhido (investido) deve ser compreendida, tendo em vista uma apresentação de si a posteriori, que marca a construção de uma memória e de uma identidade política ancoradas na idéia de vocação43. Tal idéia estabeleceria uma relação entre sujeito político, valor ético (de con- vicção) e valor de eficiência (de sucesso), em contraponto com a lógica da política do poder44, do poder em si. O verdadeiro político de vocação seria, portanto, o político responsável. Aquele político capaz de sacrificar algumas de suas convicções, se assim o contexto exigir, mas que em determinado momento, no limite de seus princípios, pode vir a dizer: “Não posso fazer de outro modo; detenho-me aqui”45. Na verdade, na ação política não estão em jogo apenas o poder ou a paz e a satisfação individuais — embora estes existam — mas, sim, esforços responsáveis por uma causa que, apesar de trans- cendente ao indivíduo, requer convicções pessoais. A política não é em si o reino das intenções e da força, a política é por excelência o mundo das realizações com- prometidas em contexto.46 Naquele momento, o partido simbolizava justamente essa adesão. Simbolizava a crença na possibilidade de construção de uma unidade ideológica que o fortificaria politicamente e, conseqüentemente, eleitoralmente dentro do panorama estadual. A disputa pela presidência do PMDB pôs, no entanto, em evidência as nuances e matizes internas ao partido, bem como a cristalização do novo inimigo político pós-eleições de 1982: Brizola. A justaposição da figura de Brizola à do partido é de tal ordem que a sigla pouco é mencionada nas entrevistas realizadas com Jorge Gama47. É sempre o nome de seu líder que aparece e se apresenta como grande opositor do PMDB no estado do Rio de Janeiro. Para Jorge Gama, Brizola tornara-se um empecilho na conquista da presidência do partido, pois ao gover- nador não interessava um “PMDB hostil”48. A chapa con- corrente era composta por Miro Teixeira e majori- tariamente pelos chamados “euros”, os “intelectuais de Ipanema”. Como aliados, Jorge Gama contava com membros do “Partidão”, com os “chaguistas”, com os prefeitos e com setores de uma esquerda dividida — liderados por Paulo Rattes, que figura sempre como aliado político e amigo de confiança. A vitória (por 66%), marcou mais um episódio em que ficou evidenciada também a capacidade de trânsito e articulação de Jorge Gama por intermédio das alianças por ele costuradas. Seu vice, por exemplo, era o deputado federal Jorge Leite — personagem político conhecido por sua forte vin- culação ao “chaguismo”, que mantinha uma máquina política eficiente em todo o estado49. Os problemas, no entanto, não haviam cessado com a conquista da presi- dência do partido, em 20 de outubro de 1983. Lidar com a diversidade das frentes de apoio que tornaram possível tal empreendimento e, principalmente, com o estilo político de seu vice transformou o mandato de Jorge em uma constante mediação e negociação de conflitos — além da fragilidade de sua condição de político sem mandato. O Deputado federal Jorge Leite e o Prefeito de Petró- polis, Paulo Rattes — líderes da chapa “Unidade” — confirmaram ontem seu favoritismo, na convenção do PMDR-RJ, derrotando, com 66 por cento dos votos para o diretório, a chapa de Arthur da Távala, do jornalista Paulo Alberto Monteiro de Barros, de Marcelo Cerqueira e Cláudio Moacyr, entre outros. [...] Devido à impugnação na justiça eleitoral de alguns Diretórios zonais e ao impedimento do voto plural, a chapa de Arthur da Távola também perdeu na compo- sição da no va Comissão Executiva, que tem agora como Presidente o ex-Deputado Jorge Gama. A convenção do PMDB-RJ transcorreu em clima de muita disputa e a tônica foi a troca de provocações e de ameaças de agressão entre militantes das duas chapas. (O Globo, 21/11/1983) 43 WEBER, Max. “Politics as a vocation”, In: PIZZORNO, Alessandro (ed.). Political sociology. Selected readings. England: Peguin Books Ltd., 1971. 44 Idem. op. cit. p.108. 45 WEBER apud TEIXEIRA, Carla Costa. A honra da política: decoro parlamentar e cassação de mandato no Congresso Nacional (1949- 1994). Rio de Janeiro: Relume-Dumará/Núcleo de Antropologia Política, 1998. 46 TEIXEIRA, op. cit. p.5. 47 Sento-Sé em sua análise sobre o brizolismo, enfatiza tal colocação, demonstrando como o conceito de carisma é fundamental para a compreensão da construção da persona Brizola. C.f. SENTO-SÉ, op.cit. 48 Segundo Jorge Gama, o chefe do executivo estadual promoveu um governo de coalizão ou, nos termos de Jorge, “de cooptação”, pois “trocou” secretarias por apoio além de ter conseguido aliar-se a alguns deputados estaduais “brizolistas”. 49 DINIZ, op. cit. 28 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009 Naquele dia — eu não vou esquecer — eu cheguei no partido, na Almirante Barroso no. 82, e meia hora depois, chegou o advogado do Jorge Leite, que era um advogado da Assembléia, um advogado experimentado, chamado Francisco Romão de Lima […], com uma procuração pra eu assinar, para expulsar o vereador Jorge Felipe que tinha traído o Jorge Leite na eleição. Olha que coisa! Ele diz: ‘O Jorge Leite mandou isso daqui, que nós vamos expulsar o Jorge Felipe porque ele traiu a gente lá em Bangu, na Zona Oeste.’ […] Eu pensei, analisei. Se eu assinar isso daí, eu sou um escravo do Jorge Leite. Se eu não assinar, ele é meu maior inimigo. De qualquer maneira, se eu assinar perco a minha independência, se não assinar vou pro enfrentamento. Disse: ‘Não assino’. Olha Romão, você avisa ao Jorge que eu vou evitar levar o partido para o Judiciário. Isso é uma questão política, eleitoral e vamos resolver isso aqui. O partido só irá pra Justiça em último caso. E, mais ainda, quem vai repre- sentar o partido na Justiça, sou eu mesmo. Não vou assinar, não é nada contra o Jorge, peça a ele desculpas, mas não vai acontecer aqui levar o partido pra Justiça, sobretudo por causa de acerto eleitoral […] Foi um sinal de guerra. Depois, fui embora pensando que não ia ficar mais dez dias. (Jorge Gama, 07/09/2004) Os confrontos foram constantes. De um lado, com Jorge Leite e, de outro, com os “intelectuais”. Segundo Jorge, as acusações de suburbano, “da Baixada” e “sem muita expressão política” constituíam a tônica dos discursos oposicionistas por parte dos “intelectuais”. “Fizeram uma reunião pra me dizer que eu não podia ser o presidente do partido. Já entrei na presidência do partido estigmatizado”. A acusação aparece, aqui, como uma das principais formas devinculação a uma iden- tidade deteriorada50. Jorge vinha da Baixada, uma região vinculada a símbolos de violência e pobreza. Indepen- dentemente de outras possíveis pertenças sociais, naque- le momento em particular, seu pertencimento deter- minante dava-se pela associação a uma imagem que denunciava, incriminava e segregava, corroborada pela mídia51. Para ele, o maior problema não era, no entanto, o discurso acusatório e sim o “chaguismo”, representado principalmente por Jorge Leite, que tentou, inclusive, promover a destituição da executiva. Todavia, em 1983, um acontecimento marcou a história política nacional e definiu um lugar para Jorge Gama dentro do partido. A articulação pelas “Diretas Já” teve seu pontapé inicial, ainda em março de 1983, por intermédio da apresentação de uma emenda constitu- cional para o restabelecimento das eleições diretas, feita pelo deputado federal do PMDB/MT, Dante de Oliveira (emenda esta que ficaria conhecida pelo nome de seu autor). Tal iniciativa, no entanto, teve pouca repercussão em um primeiro momento, sendo noticiada apenas pelo jornal Folha de São Paulo — em um artigo assinado por Tristão de Athayde, em 18 de março, e no editorial do dia 27 de março daquele ano, no qual o jornal colocava- se a favor do retorno do pleito direto em todos os níveis. O ano de 1984 começa com intensa mobilização. Tancre- do Neves, Ulysses Guimarães, Miguel Arraes (do PMDB), além de Lula, entre outros, tornaram-se figuras-chave nesse movimento, que contou ainda com a participação de vários intelectuais e artistas, percorrendo o país em diversos comícios e shows em prol da campanha. Jorge Gama, na época presidente regional do PMDB/ RJ, relata sua inserção e seu papel neste processo como uma espécie de “revelação”. Nesse sentido, volta-se para a construção de um discurso visionário, segundo o qual seu potencial de observador atento aos fatos e hábil articulador lhe garante o privilégio de estar um passo à frente dos demais atores políticos — dentro e fora de seu próprio partido — o que lhe assegura um lugar na histó- ria (como denota a narrativa na primeira pessoa do singular). À frente da presidência regional do partido, Jorge Gama viajou por todo o estado do Rio de Janeiro, estabelecendo contatos, firmando ou consolidando alianças. Estava “em campanha” pela busca de uma possível (e desejada) unidade para o partido, como também “preparando o terreno” para as eleições futuras. Para o político profissional, o tempo da política não se restringe ao período eleitoral, como assinalam diversos autores que se debruçam sobre este tema52. A dinâmica temporal de quem “vive da política” é reinventada pela necessidade de angariar apoios (de outros políticos, de 50 GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, [1963] 1975b. 51 É importante relembrar que nesse período — e até a década de 1990 — as imagens veiculadas pelas mídias televisiva e impressa sobre a Baixada Fluminense faziam referência constante a questões sobre violência, criminalidade e pobreza, pouca atenção sendo dada às notícias políticas que não estivessem a tais temas relacionadas. E as matérias de jornais que traziam o nome de Jorge Gama geralmente enfatizavam sua origem: filho de carvoeiro, morador de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. 52 PALMEIRA, Moacir e HEREDIA, Beatriz. “Os comícios e a política de facções”. Anuário Antropológico 94, 1995. VIEGAS, op.cit. KUSCHNIR, op.cit. BORGES, op.cit. CHAVES, op.cit. 29Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009 empresários e dos eleitores) e conseguir acessos. Nesse sentido, presidir o partido significava não somente manter seu status, mas também dispor de recursos (humanos e financeiros) — além de alguma visibilidade. Representava também a possibilidade de se fazer notar pelas lideranças mais importantes do partido em nível nacional e, desse modo, afiançar apoio para uma possível candidatura. Em 1986 (sem mandato eletivo desde 1982), Jorge Gama foi o articulador da campanha de Moreira Franco para o governo do estado do Rio de Janeiro. No mesmo ano, disputou uma vaga na Câmara dos Deputados, ficando com a primeira suplência. Tal resultado foi atribuído à falta de (ou pouca) dedicação à sua própria campanha, dado seu envolvimento na coordenação da campanha de Moreira, e as inúmeras atividades que lhe ocupavam no partido (em 1986 passou o cargo de Pre- sidente para o Senador Nelson Carneiro, ficando com o cargo de secretário geral do partido no estado). Em conseqüência dos argumentos anteriores, o afastamento de suas bases (a Baixada) acabou revelando-se muito longo para quem tinha pretensões eleitorais. Seu projeto político havia suplantado sua expectativa eleitoral. Ainda assim, foi nomeado Sub-secretário de Governo em maio de 1987 e, depois da extinção da pasta, assumiu a Secretaria de Trabalho, corroborando a identidade de articulador e mediador político — e sendo recompensado pelo trabalho durante a campanha do governador eleito (Moreira Franco) com um cargo que viabilizava contatos e acessos. Jorge Gama: Só por ser o ocupante da Secretaria de Governo, já teria um considerável poder de influência: ao contrário dos demais secretários, que despacham com Moreira só de quinze em quinze dias, despacha todo dia. É um político de centro esquerda. Jorge Gama amortece os conflitos que surgem entre as centenas de políticos da Aliança Popular Democrática. É ele, em suma, que administra a distribuição dos melhores chu- veirinhos de Moreira, os que vêm em forma de emprego. Chuveirinho, no universo vocabular do governador, é um afago, um agrado que se dá a todos os tipos de insatisfeitos. (Jornal do Brasil, 23/08/1987). A mediação aparece, novamente, como um conceito- chave para a compreensão da trajetória de Jorge Gama. A construção de sua persona pública não é remetida ao carisma individual ou a algo que o designe um líder nato, ligando-se preferencialmente ao desempenho de um papel político específico — crucial para a consolidação de projetos e de sua própria existência política — e pos- sibilitado por seu potencial de metamorfose e mediação. A habilidade com as palavras e a postura de “distinção” foram atributos selecionados em momentos cruciais e diferentemente utilizados segundo os contextos em questão. A composição de sua fachada, de sua apre- sentação de si53 e sua aptidão como mediador trans- formaram-no em político singular na Baixada, apesar das derrotas nas urnas. Em sua atuação junto aos mo- vimentos sociais, às características anteriormente aludidas somava-se a prudência na escolha do repertório de símbolos — dada sua origem social e profissional — ora referindo-se à origem “popular”, “do Rocha”, “da Baixada”, ora à profissão de advogado. Nesse sentido, há alguns turning points na trajetória de Jorge Gama. Evidenciados, ao longo da narrativa, nota-se como seu discurso foi re-semantizado, suas “bandeiras” recons- truídas e — ao mesmo tempo em que se manteve fiel a uma determinada facção — suas alianças internas e externas edificadas em etapas capitais para o partido a que pertencia. Os múltiplos processos de identificação acionados em contextos sociais específicos demonstram o grau de percepção de Jorge Gama acerca de sua própria capacidade de atuação no mundo político, bem como a consciência na aplicação de determinados meios para atingir os objetivos desejados. Sua sobrevivência enquanto figura pública deve-se fundamentalmente à sua “função” (de articulador/ mediador) e à sua manu- tenção dentro da arena política por intermédio do exercício de cargos públicos (administrativos ou de assessoria).Estar apartado deste meio e de suas relações implicaria sua morte política e, talvez, a impossibilidade de um ressurgimento, dada as características particulares de sua atuação. Em 1990, Jorge voltou a substituir Aluísio Teixeira na Câmara dos Deputados (primeira substituição tendo ocorrido em 1989) e, em outubro deste mesmo ano, concorreu às eleições, não conseguindo, no entanto, se reeleger. Nessa eleição, novamente a ligação entre 53 GOFFMAN, Erving. A representação do Eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, [1959] 1975a. 30 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009 política e corrupção foi trazida à tona. Segundo o Jornal do Brasil, de 13 de novembro de 1990, o nome de Jorge Gama aparecia entre os citados pelo relatório final do TRE/RJ54. Em 1993, saiu do partido e disputou as eleições de 1994 já pelo PP. Um novo escândalo vinculou-o à contravenção do jogo do bicho. Em uma lista, apreendida pelo Ministério Público, nomes de vários políticos apareceram como receptadores de doações do bicheiro Castor de Andrade. Nesse mesmo ano, as eleições no es- tado do Rio de Janeiro foram anuladas devido a suspei- tas de fraude e remarcadas para dezembro, mas Jorge Gama não voltou a concorrer. A distância relativa da imagem de Jorge Gama dos estereótipos acionados para falar de política na Baixada dessa vez não se concretizou. Mesmo minimizando os efeitos políticos da associação com o jogo do bicho em termos gerais (a partir de uma percepção não-negativa sobre o seu papel na região), a projeção política de Jorge não se restringia aos limites territoriais da Baixada, motivo pelo qual talvez tal ligação tenha repercutido negativamente em esferas mais amplas. Tal episódio não significou, no entanto, que as portas do mundo da política fecharam-se para ele. Dedicou-se ao escritório de advocacia, situado no Centro do Rio de Janeiro, onde prestava consultorias diversas a deputados e vereadores, mantendo assim seus vínculos com políticos profissionais e retornando ao partido de origem. Em 1998, a convite do então prefeito de Nova Iguaçu Nelson Bornier foi para a sub-secretaria de Desenvolvimento da Baixada e Municípios Adjacentes. Este cargo significava a possi- bilidade de novamente dispor dos acessos. Jorge per- maneceu neste cargo até receber o convite do então prefeito de nova Iguaçu Mário Marques para assumir a secretaria de governo do município em 200255. Com a derrota de Mário Marques para a prefeitura de Nova Iguaçu em 2004, foi ocupar novamente o cargo que já ocupara anteriormente na Secretaria de Desenvolvi- mento da Baixada — cujo secretário era seu “afilhado” político, o ex-prefeito de Paracambi por dois mandatos e atualmente deputado estadual em quarto mandato, Délio César Leal (PMDB). No fim de março de 2006, com a desincompatibilização de Délio Leal, Jorge Gama foi indicado para assumir a Secretaria da Baixada. Em 2007 foi nomeado assessor especial no gabinete do Secretário estadual de governo de Sergio Cabral (PMDB). Considerações finais Com uma trajetória política marcada por altos e baixos, Jorge conseguiu permanecer no campo político. As práticas necessárias para perpetuar-se no mundo político da Baixada remetem ao assistencialismo/ clien- telismo de um lado e/ou ao sistema de visibilidade/ marketing político, de outro. Em ambos os casos, Jorge Gama coloca-se à parte. No primeiro caso, por opção e, no segundo, por falta de recursos. A mediação tornou- se, portanto, o único modo de efetivar sua permanência na política. Criando espaços de visibilidade, circulando entre diferentes atores políticos, tendo trânsito livre em diferentes esferas do poder (Executivo e Legislativo) — desde presidentes nacionais de partidos a vereadores de cidades do interior do estado — em uma palavra, con- seguindo manter os acessos. Seu trajetória política foi analisado tendo-se em vista a vocação de mediador tanto quanto a dedicação à tal atividade. Apesar de estar mais próximo da classificação de ideológico do que de assis- tencialista, não me parece que essa dicotomia dê conta satisfatoriamente da trajetória de Jorge Gama. Ele pró- prio não se define nem como uma coisa, e muito menos como a outra. Sempre esteve muito ligado ao intrincado processo de constituição de seu partido e das mudanças pelas quais ele passou — desde o vínculo com os inde- pendentes, a aproximação com Moreira Franco e a de- voção a Ulysses Guimarães, até a configuração mais recente, com a entrada de Anthony Garotinho e da go- vernadora Rosinha Matheus e com a vitória do PMDB para o executivo estadual. A adesão a uma determinada facção não o impediu de galgar posições e constituir alianças diversas dentro do partido como forma de manter as condições para sua sobrevivência política. Suas ligações com chaguistas como Jorge Leite, por exemplo, e com a própria Fundação Leão XIII, que desde o governo de Chagas Freitas, esteve vinculada a notícias de uso político, empreguismo e clientelismo nos mais diversos contextos (fundamentalmente eleitorais) foram ilustrativas dessa atuação. 54 Entre os demais nomes de políticos de Nova Iguaçu citados estavam o de Nelson Bornier (PL), que teria sido beneficiado com 381 votos; José Távora (PFL), com 418 votos; Ernani Boldrim (PMDB), com 248 votos. 55 Jorge Gama foi convidado primeiramente para assumir a Secretaria de Saúde no lugar de Gilberto Badaró em outubro de 2002, mas acabou permanecendo apenas na Secretaria de governo. A notícia foi veiculada pelo Jornal O Globo, no Caderno Baixada, em 27/10/2002 (p.9). 31Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009 Assim, as formulações de uma história ou de suas versões (como prefiro) são determinadas pelos discursos e transformadas pela possibilidade de recontar e reinventar, num mover-se constante entre diversos campos, numa fluidez relacional na qual não só o tempo, mas o espaço e os possíveis interlocutores configuram distintos planos para a construção narrativa. Dentro dessa composição relacional, e portanto dinâmica, o universo político é conformado, através da apreensão de práticas próprias e de formas de experiência significa- tivas e as mudanças das imagens da Baixada acabam também por ter impactos em sua trajetória. A tentativa de apreender as relações políticas travadas na Baixada por intermédio da narrativa de alguns de seus atores merece algumas considerações. Lidar com trajetórias implica, decerto, operar com a idéia de sucessão temporal dos acontecimentos pertinente a um (ou mais) ator (es), em alguma medida, remetida a “um deslocamento linear, unidirecional”56. Entretanto, neste caso em par- ticular, é a partir da construção narrativa sobre eventos de uma memória da política nacional — e de suas implicações locais — que se encontram os elementos que possibilitam recompor um quadro de forças no qual os atores em questão disputam espaço, poder, cargos e mandatos. Entremeado de emoção, satisfação e críticas, o depoimento de Jorge Gama ilumina a posteriori aspectos da trajetória de nomes importantes da política na Baixada, em termos de visibilidade nacional e regional. Reestruturado, o discurso sobre si funde-se com a história da nação, da cidade, da Baixada, a justifica- tiva de sua transformação/ conversão em ator político aparecendo como uma seqüência de proposições ver- dadeiras e significativas para além do âmbito de uma escolha individual e/ ou egoísta, ou seja, surgindo como vocação. Nesse sentido, há uma lógica retrospectiva e prospectiva no relato do entrevistado que é organizada a partir de fatos significativos para si e para quem o “interroga”. O antropólogo, como o inquisidor, contribuipara o condicionamento da produção desta “fala” tanto quanto a relacionada a uma acusação de feitiçaria57, ou ainda àquela ligada à narrativa de acontecimentos nacionais como as Diretas Já, a partir da perspectiva de Jorge Gama. O sujeito da narrativa constrói seu próprio romance, atribuindo constância e conseqüência aos momentos selecionados, marcando passagens, omitindo outras, revelando assim a preocupação em apresentá-lo como um continuum coerente e conciso. No entanto, a percepção de que o mundo social é marcado por acontecimentos cuja sucessão no tempo não é unilinear evidencia a multiplicidade e a profusão das relações que perpassam os indivíduos, pensados aqui como sujeitos fracionados, mas interligados no interior do campo social. Apresentar as intrincadas relações políticas na Baixada a partir da versão de Jorge Gama não significa retirá-las de seu campo e das relações de poder aí existentes, mas antes, afirmar o caráter de artefato da narrativa e, ao mesmo tempo, encará-la como potencialmente produtora de realidades. Referências ABREU, Alzira. “Jornalistas e jornalismo econômico na transição democrática”. In: ______, LATTMAN-WELTMAN, F. e KORNIS, M.; Mídia e política no Brasil. Jornalismo e Ficção. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003. ______ et al. Dicionário Histórico e Biográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: CPDOC/ FGV, 2001. BARRETO, Alessandra Siqueira. Cartografia Política: as faces e fases da política na Baixada Fluminense. Tese (Dou- torado em Antropologia). Rio de Janeiro: PPGAS/Museu Nacional/ UFRJ, 2006. ______. “Um olhar sobre a Baixada: usos e representações sobre o poder local e seus atores”. In: Campos, 5 (2), 2004, p.45-64. ALVES, José Cláudio Souza. Dos barões ao extermínio. Uma história da violência na Baixada Fluminense. Duque de Caxias: APPH, CLIO, 2003. ______. Igreja Católica: opção pelos pobres, política e poder. O caso da paróquia Pilar. Dissertação (Mestrado em Sociologia e Política). Rio de Janeiro: PUC RJ, 1991. AVRITZER, Leonardo. “Conflito entre a sociedade civil e a sociedade política no Brasil pós-autoritário: uma análise do impeachment de Fernando Collor de Melo.” In: ROSENN, K. e DOWNES, R. Corrupção e reforma política no Brasil: o impacto do impeachment de Collor. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2000. BEZERRA, Marcos Otavio. Em nome das “bases”. Política, clientelismo e corrupção na liberação de recursos federais. 56 BOURDIEU, op. cit. p.183. 57 GINZBURG, C. “O inquisidor como antropólogo: uma analogia e suas implicações”. In: A Micro-História e Outros Ensaios. Lisboa: Difel, (Memória e Sociedade), 1989. 32 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009 Tese (Doutorado em Antropologia). Rio de Janeiro: UFRJ/ MN/PPGAS, 1998. ______. Corrupção: um estudo sobre poder público e rela- ções pessoais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume-Dumará/ ANPOCS,1994. BORGES, Antonádia. Tempo de Brasilia. Etnografando lugares-eventos da política. Rio de Janeiro: Relume-Duma- rá, Núcleo de Antropología da política, UFRJ, 2003. BOURDIEU, Pierre. “A ilusão biográfica”. In: Razões Práti- cas. Sobre a teoria da ação. Tradução Mariza Corrêa. Cam- pinas: Papirus, 1996. _____. O poder simbólico. São Paulo: DIFEL, 1989. CASTRO, Celso. “Comentários”. In: VELHO, Gilberto e KUS- CHNIR, Karina (orgs.). Mediação, cultura e política. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2001. CHAVES, Christine A. Festas da política. Uma etnografia da modernidade no sertão (Buritis, MG). Rio de Janeiro: Relu- me-Dumará, Núcleo de Antropología da política, UFRJ, 1996. CORADINI, Odaci Luiz. Em nome de quem? Recursos sociais no recrutamento de elites políticas. Rio de Janeiro: Relume- Dumará (Coleção Antropologia da Política), 2001. DINIZ, E. Voto e máquina política: patronagem e cliente- lismo no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do pa- tronato político brasileiro. São Paulo: Editora da Universi- dade de São Paulo, 1975. FERREIRA, Marieta de Moraes. Em busca da Idade de Ouro: as elites políticas fluminenses na Primeira Repúblia (1889- 1930). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994. GINZBURG, C. “O inquisidor como antropólogo: uma ana- logia e suas implicações”. In: A Micro-História e Outros Ensaios. Lisboa: Difel, (Memória e Sociedade), 1989. GOFFMAN, Erving. A representação do Eu na vida coti- diana. Petrópolis: Vozes, [1959] 1975a. _____. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, [1963] 1975b. GRYNSZPAN, Mário. “Os idiomas da patronagem: um estudo da trajetória de Tenório Cavalcanti”, In: Revista Brasileira de Ciências Sociais, n.14. Rio de Janeiro: Vértice, ANPOCS, outubro, 1990. KUSCHNIR, Karina. Política e sociabilidade: um estudo de antropologia social. Tese (Doutorado em Antropologia). Rio de Janeiro: PPGAS, Museu Nacional/UFRJ, 1998. LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto. O muni- cípio e o regime representativo no Brasil. São Paulo: Alfa- Ômega, [1949] 1975. LOPEZ Jr., Feliz Gracia. As relações entre executivo e legis- lativo no município de Araruama. Dissertação (Mestrado em Antropologia). Rio de Janeiro: PPGAS/MN/UFRJ, 2001. MITCHELL, J. Clyde. Social Networks in Urban Situations. Manchester: Manchester University Press, 1971. PALMEIRA, Moacir e HEREDIA, Beatriz. “Os comícios e a política de facções”. Anuário Antropológico, 94, 1995. SARMENTO, Carlos Eduardo. “A morte e a morte de Chagas Freitas. A (des)construção de uma imagem pública: traje- tória individual e reelaboração memorialística”. Rio de Ja- neiro: CPDOC, 1999. SENTO-SÉ, João Trajano. Brizolismo: estetização da política e carisma. Rio de Janeiro: Edtora FGV, 1999. SKIDMORE, Thomas. “A queda de Collor: uma perspectiva histórica”. in: ROSENN, K. e DOWNES, R. Corrupção e refor- ma política no Brasil: o impacto do impeachment de Collor. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2000. TEIXEIRA, Carla Costa. A honra da política: decoro parla- mentar e cassação de mandato no Congresso Nacional (1949- 1994). Rio de Janeiro: Relume-Dumará/Núcleo de Antro- pologia Política, 1998. VELHO, Gilberto. Projeto e metamorfose: antropologia das sociedades complexas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. VIEGAS, Ana Claudia Coutinho. Trocas, facções e partidos: um estudo da vida política em Araruama – RJ. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social). Rio de Janeiro: PPGAS/ MN/UFRJ, 1997. WEBER, Max. “Politics as a vocation”, In: PIZZORNO, Ales- sandro (ed.). Political sociology. Selected readings. England: Peguin Books Ltd., 1971. 33Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 33-40 — 1º sem. 2009 E ho Marques que no Castello, que eram suas proprias casas, estava já por isso reteudo, tanto que este Acordo D’ElRey lhe foy pobricado, logo na mesma ora o comprio, e segundo palavras, nam sem muita paixam, mostrando que o avia por grande abatimento, e agravo. E dentro do termo se foy a Castello Branco, onde esteve algus dias, em que com a danada vontade que pêra ElRey tynha, compillou, e formou hua instru- çam muito desnonesta, e de Capitolos muy falsos, e muy defamatorios da vida, honra, e Estado D’ElRey, a qual logo emviou a ElRey, e aa Raynha de Castella, que pola pouca autoridade do messegeiro, ou pola desnonesti- dade da sustancia, a dicta instruçam nom foy recebida, nem vista com aquelle credito, que ho Marques de- sejava.1 Esta parte da Crónica de D. João II do cronista Rui de Pina (1440-1522)2, é uma das que compõem o episódio da rivalidade formada no território português entre o monarca D. João II e o Duque de Bragança, pelo fato, segundo o cronista, de esse nobre ter traído seu rei ao aliar-se aoreino de Castela. Pina declarou, ao longo desta crônica, a importância da fidelidade nas relações estabelecidas na Corte como elemento chave para o poder régio, em Portugal, se consolidar. Portanto, a traição do Duque ofende, de acordo com a leitura ética realizada por Pina, toda a estrutura de poder constituída na época. Nota-se, pois, que o objetivo de Pina nesta crônica, bem como na Crónica de D. Afonso IV é precisamente registrar a magnitude de Portugal, através das proezas administrativas de cada monarca, enfatizando princi- palmente os acontecimentos que impulsionaram o reino a se fortalecer. Desde Fernão Lopes, a propósito, a história do reino aparece no enredo das crônicas, deixando transparecer que o poder régio estava legitimado a partir da vontade dos povos. E porem este degrado do Marques assi riguroso, e acelerado, acrescentou muita parte na maa vontade do O problema da compilação no ofício dos cronistas portugueses (limiar do século XVI) Leandro Alves Teodoro Mestrando em História pelo programa de pós-graduação da UNESP – campus de Franca – sob orientação da profª drª Susani Silveira Lemos França. Bolsista FAPESP. E-mail: teodoro400@yahoo.com.br Resumo A proposta deste artigo é perceber a mudança de perspectiva da Crónica de D. Afonso IV do cronista Rui de Pina — compilada de uma crônica elaborada por Fernão Lopes — para a Crónica de D. João II, feita a partir do seu próprio levantamento de dados e, especialmente, sua própria memória dos acontecimentos. Palavras-chave: Idade Média. Portugal. Crônicas. Corte. Rui de Pina. Abstract The proposal of this articles is to understand the change of perspectives of the Crónica de Afonso IV — compiled of a chronicle elaborated for Fernão Lopes — for the Crónica de D. João II, of this first chronicler, done from its proper data-collecting and, especially, its proper memory of events. Keywords: Middle Ages. Portugal. Chronicles. Court. Rui de Pina. 1 PINA, R. de. Crônicas, ed. M. Lopes de Almeida. Porto: Lello & Irmão, 1977, p.904. 2 D. Duarte — monarca da dinastia de Avis — criou o cargo de cronista-mor da Torre do Tombo, cargo responsável pela escrita da história do reino, ocupado inicialmente por Fernão Lopes e depois por Gomes Eanes de Zurara e Rui de Pina. 34 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 33-40 — 1º sem. 2009 Duque que já tynha pera ElRey, creendo que o fezera por abatimentoseu, e de seu irmaão, a quem se devia outro resguardo. Em que nom mingou nada a de- trimaçam que ElRey, a requerimento dos povoos, em todos os lugares, e terras do Regno, sem algua excep- çam... ... como também porque era razam, que em principio de seu regnado nom lhe ficasse por saber a justiça que em seus Regnos avia, e se em suas terras, e nas dos outros se faziam alguns insultos, e desmandos, que dereito se ouvessem de proyeer, e remdiar.3 As crônicas, dessa forma, mostram como se situava a Corte no espaço régio, bem como os procedimentos que legitimavam o poder temporal. Portanto, Pina preocupou-se em ressaltar que as ações do rei eram garantidas pela vontade dos povos, que reconhecia a figura do monarca no centro do poder, pois, a boa governança de seus Regnos, vassallos, e naturaaes delle, em que pareceo mui claro, que era o proprio, e verda- deiro coraçam da Republica4. Pina considera que o rei e a corte encontravam-se posicionados estrategicamente no coração da República, mantendo viva a monarquia e toda a grandeza do povo português. Com efeito, segundo este cronista, as atitudes do Duque de Bragança com- prometeram a estabilidade do reino, do coração da Repú- blica. Em razão de preservar as façanhas históricas da dinastia de Avis, o cronista narrou o percurso que D. João II fez para reverter a situação a favor do lado português, condenando um nobre que ele tinha como um familiar. Vale ressaltar que esse episódio entre o rei D. João II e o Duque de Bragança, mostrando a fidelidade como princípio motor da relação entre o rei e a Corte, também levanta a possibilidade de notar que Pina menciona o termo compilar e a questão da falsificação. Levando isso em consideração, a crônica de D. João II, ao mesmo tempo que narra o curso da história, defende um ponto de vista para observá-la, pois Pina, narrando uma rede de acontecimentos que envolvem a figura do rei, aponta a verdade como seu guia, em detrimento da falsificação e das mentiras que podem estar presentes na compilação de documentos. No que diz respeito à composição textual do século XV, a compilação manifestou-se como ferramenta fundamental que propiciava um mecanismo apto para o cronista reunir um número significante de docu- mentos.5 Os modelos e práticas da cultura medieval no universo do conhecimento tendiam a ser respeitados. O historiador na Idade Média valorizava mais o tradicio- nalismo do que a originalidade. A erudição correspondia à repetição, reafirmando exemplos a serem imitados, “exemplum vitae”. Em outras palavras, o historiador, o artista de uma maneira geral, preservava o modelo estabelecido por Deus, ao continuar o serviço de seus predecessores mantendo os mesmos objetivos de tra- balho. A história estava submetida à providência divina, apresentando o mundo de uma forma estável e esfor- çando-se para captar essa harmonia do mundo e traduzir para o plano dos homens os ensinamentos do mundo superior. Fernão Lopes buscou em suas crônicas justi- ficar que o governo de D. João I não rompia com a ordem natural da história; com igual finalidade, Rui de Pina teceu argumentos na crônica de D. João II de legitimação de D. Manuel, porque o sucessor direto deste havia morrido. Neste sentido, houve a existência na Idade Média uma relação de dependência da história com a moral, a retórica da Antigüidade foi bem conhecida nesse período graças ao empreendimento dos monges em traduzir os ensinamentos dos clássicos, principalmente de Cícero.6 Os escritos medievais podem ser comparados a um grande tratado retórico e moralizante, cujo objetivo maior era a repetição da verdade, sem qualquer pretexto de originalidade. As mesmas práticas de compilação do cronista Rui de Pina são encontradas inclusive na pro- dução monástica e senhorial. Vale ressaltar que, em Portugal, entre esses três momentos de escrita7 percebe- 3 PINA. Op. cit., p.904. 4 Idem , p.1032. 5 Sobre compilação ver: GUNENÈE. Histoire et Culture Historique dans l’Occident Médiéval. Paris: Aubier-Montaigne, 1980, p.211- 2 1 4 . 6 GUENÉE. Op. cit. p.27-29. 7 Os escritos históricos em prosa que tratam da realeza de Afonso Henriques à consolidação do reino português podem ser divididos em três momentos: monástico, senhorial e institucional. Conforme o espaço senhorial e da corte concorrem para o registro da história, esta ganha um lugar relevante nas repartições burocráticas, visto que a monarquia de Avis cria um cargo somente com a função de assentar a memória do reino. Antes da criação do cargo de cronista-mor, em 1434, que teve como conseqüência a institucionalização da história, já se produzia nos mosteiros portugueses volumosos cronições8. Além desse acervo monástico, também anterior ao projeto de oficialização da história, surge, no século XIV, graças ao esforço do Conde de Barcelos, a Crónica de 1344, primeira crônica com objetivo universalista elaborada em solo português. Entre o século XIV e XV, ocorreu uma mudança no olhar que os governantes davam para a história, que passou a ser escrita menos intensamente nos mosteiros e mais regularmente nos círculos régios. 35Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 33-40 — 1º sem. 2009 se a compilação como o grande recurso para manter a continuação da verdade e da preservação da moral. ...louvados, santos, e vertuosos eixemplos, e segura doutrina, que na estória como em vida e imagem se nos representam sômos assi ensinados, que naõ sómente em nossos erros, e vícios naturaes nos esfriam, e refream pêra com menos lembrança hos obramos, mas ainda pêra as vertudes e craro nome, em tanto amôr, e desejo nos acendem, que com dobrado coraçaõ, e huã vertuosa enveja nos esforçam e obriguam pera conseguirmos a final tençaõ porque nacemos, que he vivermos sempre bem, porque moiramos melhor, e acabemos como devemos.8 Pela história, para Pina, somos ensinados a seguir o curso certo da vida, bem como encontrar os bons exemplos, santos e louvados, que comportam como uma segura doutrina. Para viver bem e morrer melhor, a estoria serve de guia, pois a bondade e a prudência Divina a protege. Deus faz a história e os homens a contemplam com a finalidade prática de observar os bons exemplos para a vida. O offico estórial, como Pina escreve corresponde, portanto, a uma atividade de contemplação das excelências divinas através da história. Só existia uma história, uma única verdade, a partir do mesmo ponto de vista, sem que houvesse mudanças na forma que esta era sempre reinterpretada. Pina, no prólogo da Crónica de D. João II, faz questão de evidenciar o papel da história, ou seja, trazer para o presente os bons exemplos, sem fantasiar. Sua tarefa dizia respeito à imortalização na escrita de algo já dado pelo plano divino, impedindo, assim, que os exemplos passados e as virtudes do rei e do reino fiquem apagados. Com efeito, entre os cronistas eclesiásticos e leigos era aceitável a idéia de cópia, pois na atividade do registro da memória escrevia-se sem a meta de compor um trabalho fora do modelo textual que já estava sendo utilizado. Dessa forma, não havia a pretensão de se fazer um trabalho, nos scriptorium monásticos ou na Torre do Tombo, original, buscando para todos os fins ser único ou precursor de uma nova escrita. A concepção realista, entender que existia uma verdade pré-existente ao desdobramento da própria história, fundamentava o procedimento da compilação, isto é, retomar aquilo que já foi escrito indicava um recurso comum para os cronistas monásticos, senhoriais e oficiais. Até meados do século XVII, o historiador tinha por tarefa estabelecer a grande compilação dos documentos e dos signos- de tudo o que, através do mundo, podia construir como que uma marca. Era ele o encarregado de restituir linguagem a todas as palavras encobertas. Sua existência se definia menos pelo olhar que pela repetição, por uma palavra segunda que pronunciava de novo tantas palavras ensurdecidas. A idade clássica confere à história um sentido totalmente diferente: o de pousar pela primeira vez um olhar minucioso sobre as coisas e de transcrever em seguida, o que em palavras lisas, neutralizadas e fiéis.9 No século XVIII século, estabeleceu-se na linguagem uma ordem renovada, desassociando os elementos, crenças, fábulas e lendas, dos significados das palavras, houve uma separação, segundo Foucault, das palavras e das coisas que a ela antes se referiam. Na Idade Média, diferentemente, atribuía-se a palavra uma representação única, ela condizia com uma verdade sem qualquer questionamento de sua natureza. Portanto, conforme Foucaut, compilar, além de ter sido uma prática legítima, também era associado a uma leitura de mundo. A finalidade do compilador, no momento que realizava sua cópia era preservar documentos e a própria linguagem que moldurava as formas de decodificação das palavras e do mundo.10 Essa relação das palavras com as coisas ilustra uma característica da historiografia medieval, pois sustenta o estatuto de uma concepção de verdade. Quanto ao cronista Rui de Pina, ele tinha uma concepção de compilação que era pactuada por seus contemporâneo. Pina escreve ao irmão do Duque, dizendo que ele compilou e falsificou documentos a respeito do rei, afirmando que essa compilação foi falsa por ter sido criada sem provas concretas, a verdade, ter- se-ia corrompido em razão de uma mentira. De tal modo, o cronista traçou critérios para considerar os documentos como verdadeiros ou falsos11, visto que ele buscou 9 PINA. Op. cit. p. 889. 9 FOUCAULT, M. As Palavras e as Coisas. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p.179. 10 FOUCAULT. Op. cit., p.171-181. 11 PINA. Op. cit., p.904. 36 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 33-40 — 1º sem. 2009 justificar que os documentos difamatórios da imagem do monarca, forjados pelo irmão do Conde, não tinham qualquer correspondência com a realidade. Assim, nas próprias crônicas, percebe-se uma concepção realista que fundamenta o manejo de documentos. Portanto, o labor cronístico do século XV tomou a precaução de partir de um levantamento de fontes, de materiais que permitem o resgate do passado. Por isso, evitando falsificar a história, ou torná-la mentirosa, Pina, em certas situações, pela pouca quantidade de documentos disponíveis sobre os primeiros reis de Portugal, baseou seu ofício na compilação de uma única fonte, na crônica de 1419. No entanto, as suas primeiras crônicas, de D. Afonso IV e D. João II, tiveram outro ponto de partida, isto é, se, por um lado, as crônicas relativas aos reis da dinastia de Borgonha são refundições de outras crônicas; por outro lado Pina, como possuía em mãos uma diversidade de documentos a respeito da época em que vivia e também por presenciar vários acontecimentos narrados do reinado de D. Afonso V e de D. João II, fez delas um conjunto diferenciado por um estilo próprio de um admirador dos reis que ele viu governar. ...El Rey emcomendou e mandou, que com muito cuidado, e estudo procurassem e defendessem a causa do Duque, e que por isso lhes faria muita mercee. Foy fecto, e dado Libello contra ho Duque, que logo pro- cedeo, com vinte e dous artygos fundados naquellas cousas em que parecia elle ser culpado; os quaes pelo Juiz lhe foram logo levados onde estava, e Lydos todos; de que ho Duque logo mostrou alguma torvaçam, porque na sustância delles conheceo logo craramente, que muitas cousas suas eram revelladas, e descubertas, que elle avia por mui responder, emcomendou a Ruy de Pina, que era presente, que fosse dizer a El Rey seu Senhor, que aaquellas cousas nom tynham respostas mais propria, nem que mais conviesse aa sua grandeza, vertudes,... 12 Na própria Crónica de D. João II, o cronista Rui de Pina menciona sua participação nos eventos oficiais, nesse caso, no julgamento do Duque de Bragança. O testemunho de Pina colaborou para que essa crônica fosse preenchida com maiores detalhes e com o uso de várias fontes em sua elaboração. Pina recebeu dois encargos diferentes, primeiro, em 1490, escrever a crônica do governo de D. Afonso IV e de D. João II, posteriormente, em 1513, ele foi respon- sável pela redação das crônicas de D. Sancho, D. Afonso II, D. Sancho II, D. Afonso II, D. Dinis e de D. Afonso IV. Este cronista levou mais tempo para escrever as crônicas dos reis contemporâneos a ele do que para elaborar as outras crônicas. A diferença no tempo gasto entre um conjunto de crônicas e o outro é de aproxi- madamente seis anos, essa variação explica-se, segundo Radulet, pela tipologia da pesquisa histórica imple- mentada em cada crônica, visto que: tratando-se de acontecimentos recentes para os quais existia uma grande quantidade de documentos de arquivo e de testemunhos directos o cronista teve de efectuar uma escolha programática dos materiais, estrutur-á-la de maneira orgânica e elaborar esquemas interpretativos inteiramente originais.13 Portanto, para essa mesma Radulet, o que explica o maior tempoinvestido na redação das crônicas dos reis contemporâneos ao cronista são os procedimentos de pesquisa, que representam um cuidado com o passado diferente daquele dado nas crônicas feitas a partir da compilação de uma única fonte. A prioridade da com- pilação era, no caso das crônicas dos reis passados, trazer uma nova versão, revisada, de uma história distante. Já na elaboração de uma história recente outros problemas podem ser colocados. Em Pina, bem como em Lopes, é perceptível a di- ferença na elaboração das crônicas quando elas dizem respeito a um rei passado ou a um rei contemporâneo a ele. Portanto, dentro da produção oficial portuguesa, vê- se uma divisão clara entre as crônicas dos primeiros reis, cuja elaboração baseou-se quase que por completo na compilação, e dos reis contemporâneos aos cronistas. Além de conseguirem reunir um número mais elevado de fontes por ser uma história recente, há os laços de fidelidade entre o cronista e a própria Dinastia de Avis que fazem com que as crônicas dos reis contemporâneos tenham um valor diferencial. Uma das marcas da historiografia a serviço do rei é a reverência de cronistas ao monarca. Dessa forma, a fidelidade construída entre o rei e o cronista fez das crônicas dos monarcas contem- 12 PINA. Op. cit., p.92. 13 RADULET, M. C. O Cronista Rui de Pina e a “Relação do Reino do Congo”. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, s.d, p.36. 37Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 33-40 — 1º sem. 2009 plados na obra de um rei contemporâneo uma referência às glórias recentes de Portugal. Das coronicas dos primeiros reys de Portugal, primeiramente à Coronica delRey D. Sancho deste nome ho primeiro, e dos Reys de Portugal ho segundo, dirigido aho muito Alto, e Excellente, e Poderoso Príncipe ElRey D. Manoel Nosso Senhor, por Ruy de Pina, seu Coronista mor, e Fidalguo de sua Caza.14 Esse é o início do prólogo da Crónica Delrey D. Sancho I, que anuncia uma concepção linear do governo dos primeiros reis portugueses. Para Pina, o último rei seria D. Manoel, que mantinha laços de fidelidade com esse cronista. D. Manoel aparece com maior destaque que o rei D. Sancho, monarca que serve de personagem principal para essa crônica. Os reis passados têm seus méritos reconhecidos no conjunto de crônicas de Pina, contudo, os reis do seu tempo, pela fidelidade do cronista podem ser pensados em um outro conjunto da escrita oficial do quatrocentos e na obra desse cronista. Uma das semelhanças entre Crónica de D. Afonso IV e a Crónica de D. João II é a contemplação das perfeyçoens de ambos os monarcas, isto é, da sabedoria dos reis na condução do país, procurando acima de qualquer interesse pessoal a paz e a harmonia do reino. Logo no início da crônica de Afonso IV, Pina menciona: ... perfeito Rey, porque logo amou muyto seu povo, & sempre o regeo com inteyra justiça, & o emparou, & sustentava os malfeytores, contra toda a honestidade, & consciência, & justiça (...)15 pera boa, & justa gover- nança de seus povos, &vassalos, fez muytas, & boas leys, & ordenaçoens, que em seu tempo mandou sempre muy bem guardar.16 Percebe-se que Pina, na Crónica de D. Afonso IV, segue um modelo de escrita semelhante à Crónica de D. João II, uma vez que os acontecimentos narrados foram escolhidos devido à proporção por eles adquirida na consolidação do reino português. Comparando ambas as crônicas, a função do rei sábio, além de manter a estabilidade já alcançada, era também aumentar as glórias da monarquia, garantindo a paz e conservando o maior número de nobres fiéis à segurança do regno; nesse sentido, Pina, nessas duas crônicas, procurou apresentar as glórias alcançadas em diferentes momentos da história de Portugal. Contudo, apesar de na construção da memória dos monarcas, D. João II e D. Afonso IV, eles serem apresentados com propósitos parecidos, há uma diferença, pois o trato dado por Pina ao passado revela uma diferença quanto à aproximação entre ele e o rei. No conjunto de crônicas de Pina, o aspecto emotivo da fidelidade ao rei parece apagada na história da primeira dinastia. Essa mudança no trato do passado, devida à aproximação do rei enfocado na crônica é um aspecto que não se restringe ao trabalho de Pina, ao contrário, pode ser notado na produção cronística desde o início da institucionalização da história em Portugal até o limiar do século XVI. A despeito dessa dicotomia rei passado/contemporâneo, cabe considerar que as crônicas de Rui de Pina aproximaram-se do fazer história característico do século XV, apesar de maior parte da produção desse cronista pertencer ao século XVI. Dessa forma a obra de Pina, estava de acordo com um modelo de escrita quatrocentrista, que sofre alterações em meados do século XVI, quando a escrita movida pela história dos reis às façanhas inéditas dos portugueses, ou seja, a expansão marítima. Os Descobrimentos forneceram, entretanto, uma nova perspectiva sobre a construção da memória. O grande processo de expansão marítima se integrou ao registro da história de Portugal, em razão do lugar de destaque que as navegações ocuparam na trajetória do país17. Contudo, Pina e Zurara continuaram com a lógica de escrita implementada por Fernão Lopes, a aborda- gem das navegações realizada por eles foi feita a partir das normas de escrita já existentes, ou seja, os dois últi- mos cronistas oficiais trataram a história de uma ma- neira bem similar, pensando a expansão marítima como evento quase secundário, pois o enfoque era a escrita da conduta moral dos personagens destacados da história de Portugal. Ocorreu, contudo, uma mudança intelectual na 14 PINA. Op. cit., p.9. 15 Idem , p.335. 16 Ibid., p.36. 17 REBELO In: GIL, F. e MACEDO, H. Viagens do olhar. Campo das Letras, 1998, p.175-177. 38 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 33-40 — 1º sem. 2009 passagem do século XV ao XVI principalmente na percepção de arte, porque, apesar de no quinhentismo os aspectos éticos e religiosos da escrita da história não terem sido alterados, sobretudo na questão moralizante, surgiram novas preocupações18. Na cultura portuguesa do século XVI, procurou-se “uma nova fórmula na relação da arte e da moral”19 (visto que se exige uma maior probidade intelectual, os conhecimentos dos letrados se alargam, há uma maior contato com o florescimento da cultura italiana do momento e apa- recem os bolseiros del rei, além da construção em solo português de centros educacionais voltados para o en- sino da retórica, dialética e do latim. Durante o reinado de D. João II, tornou-se mais freqüente o contato entre humanistas italianos com os portugueses, o que mais possibilitou essa troca cultural foi a iniciativa régia de se aproximar do conhecimento humanista, uma vez que os descobrimentos abriram contatos de Portugal com o resto da Europa. A chegada às Índias foi um passo importante dado pela nação portuguesa para mudar sua visão sobre a arte e buscar uma reforma profunda do estilo de se fazer o registro da história. O contato com a Itália despertou a curiosidade, a vontade pelo novo e a necessidade de alterar a expressão artística. Essa mudança na forma de enxergar a arte contribui decisivamente para que Damião Góis acusasse Rui de Pina de ter roubado os méritos de escrita de Fernão Lopes. Góis, na Crónica de Dom Manuel, critica a compilação feita por Rui de Pina de parte da obra de Fernão Lopes, inclusive da Crónica de D. Afonso IV, contudo a prática da compilação que deixa de ser tão corrente no século XVI era imprescindível para os cronistas do quatro- centos. Levando em consideração as práticas utilizadas pelo cronista Rui de Pina nãose pode dizer que ele ao compilar tinha intenção de roubar o mérito literário de Lopes como mencionou Damião de Góis. Em razão da formação de Pina dentro da Corte e sua grande aproximação da forma como Zurara e Lopes faziam a história, a escrita desse cronista perpetuou traços de uma época para a escrita da história iniciada no começo do século XV. Já, no século seguinte, Barros, cronista da expansão marítima, trouxe para a escrita da história portuguesa novos contornos e influências e, a partir dele, começa uma nova formação para os homens que assentavam a memória da nação. Damião de Góis, por sua vez, pelo fato de estar em outro momento da historiografia portuguesa, bem como por gozar de uma nova formação dos homens das letras, cria um diálogo com a escrita de Pina. A partir das críticas tecidas por Góis a Pina, percebe-se, pois, a consolidação de outra tradição. Vale lembrar que há, segundo Radulet, uma grande possibilidade de Pina não ter sequer tomado consciência de que o material que ele utilizava na refundição da história dos primeiros reis de Portugal era de Lopes20. Nota-se uma lógica de escrita comum aos três pri- meiros cronistas, a forma como eles fizeram a história sustenta-se em procedimentos semelhantes. Lopes compilou da crônica de 1344 para guardar a memória dos reis passados, todavia, na elaboração da crônica de D. João I, rei contemporâneo a esse cronista, ele abusa de suas qualidades de historiador, submetendo a histó- ria dessa crônica a um enredo complexo, propondo uma história legitimadora21 do Mestre de Avis. Lopes consultou os arquivos com a finalidade prática de fazer uma história exata do processo histórico que levou a Dinastia de Avis à sua consolidação no cenário nacional. Assim Lopes fundamentou sua obra em materiais do Arquivo Régio e em testemunhos orais da época, articulando várias fontes para efetuar seu trabalho. Os cronistas oficiais dos Quatrocentos selecionavam os assuntos de suas crônicas de acordo com a magnitu- de dos fatos na história de Portugal, revelando uma pre- ferência pelas glórias recentes. Em suma, os cronistas empreenderam duas formas de se tratar o passado: documentar a história dos reis passados e enaltecer a memória dos monarcas recentes. D. Duarte, ao oficializar a história, revela um interesse pela reconstituição do passado nacional, da história de um povo vitorioso na revolução de 1383-1385. Cap. VIII. De como se tratou ho casamento do Imfante D. Pedro com a Ifamte Da Costamça Manuel. A este tempo elRei D. Afomso de Portugual, por este trato que a Rainha Da Maria sua filha recebia del Rei de 18 Estudos sobre a cultura portuguesa do século XVI. Lisboa: Por ordem da Universidade, 1949. 19 CARVALHO, J. Estudos sobre a cultura portuguesa do século XVI. Lisboa: Por ordem da Universidade, 1949. p. 2. 20 RADULET. Op. cit. 21 SERRÃO, J. V. A Historiografia portuguesa. Lisboa: Verbo, 1972, p. 57. 39Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 33-40 — 1º sem. 2009 Castdla seu marido, era posto em muito cuidado e gramde semtimemto, espicallmemte que com gramdes roturas e periguos, em caso que hamtre eles ouuese, ajmda ho remedyo era douidoso. E por isto, nom menos o hafortunaua ho dezejo que tinha de uer casado seu filho que auya já XVII annos.22 Como se contratou o casamento do Infante D. Pedro com a Infanta Dona Constança Manoel. Neste tempo el Rey D. Afonso de Castella seu marido era posto em muyto cudado, & grande sentimento, espe- cialmente que com grandes roturas, & perigo em cazo que antre elles os ouvesse, ainda era duuidoso. E apos isto não menos o afortunava o desejo que tinha de ver casado seu filho que via já desasete annos...23 O primeiro trecho corresponde à Crónica de D. Afonso IV de Fernão Lopes e o outro é uma parte da Crónica de D. Afonso IV de Rui de Pina. Pina compilou da obra de Lopes, reproduzindo um texto cuja primeira elaboração não lhe pertencia. No século XVI, Damião de Góis ao acusar Pina de ter usurpado os méritos literários do cronista Fernão Lopes, esquecendo-se de que a compilação foi livremente utilizada entre os cronistas oficiais quatrocentristas e nem colocando em questão que as crônicas dos primeiros reis de Portugal de Fernão Lopes também foram compiladas. Lopes refundiu partes da Crónica de 1344 que já tratavam de uma história exclusiva dos monarcas portugueses. Dos casos de compilação da cronística oficial do século XV, o conjunto de crônicas dos reis passados de Pina pode ser visto como o que mais se apropriou do recurso da refundição para documentar a história, uma vez que nos episódios de compilação dos outros dois cronistas não se percebe a mesma intensidade na reprodução de outro texto. É mais incomodativa a compilação em Pina para os historiadores do Quinhentos, porém, isso não justifica o fato de ele ser considerado um plagiador, antes desse século a cópia parcial ou quase total estava legitimada pelos proce- dimentos de escrita utilizados. O termo plágio ou a acu- sação de plágio chega a ser anacrônia quanto se refere ao labor de Rui de Pina, pois os mecanismos que efetuavam seu ofício eram práticas correntes. No século XV, a retomada da Crónica de Afonso IV por Pina teve um valor documental, o ofício desse cronista preservava a memória do povo portuguesa, por isso, havia a preocupação de escrever-se sobre a história dos reis passados, contudo, a crônica de D. João II, além do caráter documental expressa o carisma que Pina reco- nhece no rei D. João II. O labor cronístico do século XV mostra este trato do passado: de um lado, crônicas com- piladas com o papel de lembrar as primeiras histórias da formação do reino português, de outro, crônicas que re- gistram, segundo os cronistas, o auge da história de Portugal, isto é, o presente deles. Em Lopes, o governo de D. João I abre a Sétima Idade, época, segundo Rebe- lo, de quietude e repouso, na qual Deus e o homem descansam24. Pina, na crônica de D. João II, apesar de não ter o mesmo labor de Lopes destaca em sua obra a serventia do rei D. João II para a solidificação do poder, num momento em que o curso das navegações come- çava. A história dos reis contemporâneos possui uma importância legitimadora maior que a história dos reis passados, pois, além transparecerem a fidelidade deles com os reis, os cronistas, Lopes e Pina, nas crônicas registradas pela primeira vez, assumem o compromisso de deixar para a posterioridade o que se passou naquela época. Eles são os primeiros a imortalizar os aconte- cimentos daquele período e reconhecendo de alguma forma o valor do material que estavam criando, busca- ram sempre enxergar as proezas em detrimento dos fracassos dos governos do seu tempo. Deste modo, a diferença entre a Crónica de D. Afonso IV e a Crónica de D. João II diz respeito a uma variação de método, isto é, muda-se a forma de organização dos documentos utilizados na composição de cada crônica. A Crónica de D. Afonso IV que foi compilada de uma crônica de Fernão Lopes sendo um material que cuja temática e forma de escrita aproxima-se do original, contudo a outra crônica aqui abordada não se refere a uma única fonte. Assim, apesar dos temas entre ambas as crônicas serem semelhantes há uma diferença quanto ao trato dado ao passado. Além disso, o cronista Rui de Pina estava autorizado a refundir parte do trabalho de Lopes, pois a compilação 22 Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal, ed. crítica de Carlos da Silva Tarouca, 3 vols. Lisboa: Academia Portuguesa da História, 1952, p.171. 23 PINA. Op. cit., p.356. 24 REBELO, L. de S. A concepção de poder em Fernão Lopes. Livros Horizonte, 1983, p.65. 40 Cadernos de Pesquisa do CDHIS— n. 40 — ano 22 — p. 33-40 — 1º sem. 2009 mostrou ser uma prática usada livremente pelos cro- nistas do Quatrocentos. A compilação foi o principal recurso que Pina utilizou na montagem da Crónica de D. Afonso IV, já a escrita da Crónica de D. João II revela na sua estrutura uma combinação mais complexa dos documentos, mostrando também a relação de afetividade entre o cronista e o próprio monarca. Referências Fontes: Crónica de Cinco Reis de Portugal, ed. diplomática de A. Magalhães Basto. Porto: Liv. Civilização, 1945. Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal, ed. crítica de Carlos da Silva Tarouca, 3 vols. Lisboa: Academia Portuguesa da História, 1952. PINA, R. de. Crônicas, ed. M. Lopes de Almeida. Porto: Lello & Irmão, 1977. ______. Crônica de El-Rei D. João II. Coimbra: Atlântida, 1950. Bibliografia: AMADO, T. Fernão Lopes contador de história. Sobre a crónica de D. João I. Lisboa: Estampa, 1991. BARRETO, L. F. Os Descobrimentos e a ordem do saber. Lisboa: Gradiva: 1989. BASTO, A. M. Estudos: Cronistas e Crônicas Antigas. Fernão Lopes e a Crônica de 1419. Coimbra: Oficinas Atlântida. 1960. CARVALHO, J. Estudos sobre a cultura portuguesa do século XV. Lisboa: Por ordem da Universidade, 1948. ______. Estudos sobre a cultura portuguesa do século XVI. Lisboa: Por ordem da Universidade, 1949. DIAS, J. S. Os descobrimentos e a problemática cultural do século XVI. Lisboa: Presença, s.d. FRANÇA, S. S. L. Os Reinos dos Cronistas Medievais. São Paulo: Annablume, 2006. FOUCAUL. M. As Palavras e as Coisas. São Paulo: Martins Fontes, 2002. GIL, F. e MACEDO, H. Viagens do olhar. Campo das Letras, 1998. GOMES, R. C. A Corte dos reis de Portugal no Final da Idade Média. Lisboa: Difel, 1995. GUENÉE, B. O Ocidente nos séculos XIV e XV. Os Estados. São Paulo: EDUSP, 1971/1981. ______. Histoire et culture historique dans l’occident médiéval. Paris : Aubier Montaigne, 1980. ______. Chancelleries et monastères. La mémoire de la Frence au Moyen Âge. In : Les Lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1997, p.587-606. LANCIANI, G e TAVANI, G. Dicionário da Literatura Medieval Galega e portuguesa. Lisboa: Caminho, 1993. LOYON, H.R. Dicionário da Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997. MARQUES. A. P. A historiografia dos descobrimentos e expansão portuguesa. Coimbra: Livraria Minerva, 1991. MARQUES, O.A.H. A Expansão quatrocentrista. Lisboa: Estampa, 1998. ______. A sociedade medieval português. Lisboa: Sá da costa, 1971. RADULET, M. C. O Cronista Rui de Pina e a “Relação do Reino do Congo”. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, s.d. REBELO, L. de S. A concepção de poder em Fernão Lopes. Livros Horizonte, 1983. SERRÃO, J. V. A Historiografia portuguesa. Lisboa: Verbo, 1972. VENTURA, M. G. O Messias de Lisboa. Um Estudo de Mitologia Política Medieval (1383-1415). Lisboa: Cosmo, 1992. 41Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 Introdução Neste artigo, procuramos sondar o uso de elementos potencialmente heterodoxos (ou contrários à ortodoxia cristã) em Prosopopéia1, exemplar retórico-poético de teor encomiástico atribuído a Bento Teixeira2, e na obra satírica atribuída a Gregório de Matos Guerra (fazendo uma seleção de poemas profícuos a esta pesquisa). Em termos gerais, são três as justificativas desta escolha: (1) poderemos problematizar o uso de tais referências em ambas as vertentes do gênero epidítico3 (encômio e vitupério); (2) devido à presença de um alto teor de imagens, conceitos e símbolos em voga nos séculos XVI/ XVII da América portuguesa que, originalmente, contrariam a dogmática cristã; (3) optamos por tra- balhar com Bento Teixeira e Gregório de Matos por ambos tratarem de temáticas diversas e, ao mesmo tempo, por terem vivido e produzido sob a custódia de Manutenção da ordem: (re)contextualização de tópicas mitológicas à luz de uma economia cristã* Cleber Vinicius do Amaral Felipe Graduando do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). E-mail: clebervafe@gmail.com Resumo Neste artigo, buscamos mapear a utilização de figuras de ornato (incluindo representações mitológicas, heréticas e pagãs) e tópicas de invenção (entendidas como construções poéticas recorrentes e usuais) em Prosopopéia, obra atribuída a Bento Teixeira, e nas sátiras atribuídas a Gregório de Matos Guerra. Ocupamo-nos, mais detidamente, em sondar elementos engenhosos que, por sua origem pagã ou potencialmente herética, poderiam contrariar os dogmas cristãos, mas que, ao serem (re)contextualizados e (re)significados, passam a ser aceitos e aprovados pelas autoridades competentes do Império português e da Igreja Católica. Palavras-Chave: Prosopopéia. Gregório de Matos. Heterodoxia. Representação. Abstract In this article, we search to map the use of figures of ornament (including mythological, heretical and pagan’s representations) and topical invention (understood as recurrent poetic and usual constructions) in Prosopopéia, text assigned to Bento Teixeira, and the satire attributed to Gregório de Matos Guerra. Dealing us more depth in sound ingenious elements which, in its essence, go against to Christian’s dogma, but, to be (re)contextualized and (re)meanings, will be accepted and approved by the competent authorities, namely: portuguese Empire and the Catholic Church. Keywords: Prosopopéia. Gregório de Matos. Heterodoxy, Representation. * Este artigo é resultado parcial da pesquisa de Iniciação Científica “Em defesa da ordem: poética epidítica e saberes heterodoxos. América portuguesa (1580-1750)”, de nº: G-047/2008, financiada pelo PIBIC/CNPq/UFU, que compõe o projeto “Retórica, Poética e Representação Política na América Portuguesa (séculos XVI–XVIII)”, coordenado pelo Prof. Dr. Guilherme Amaral Luz, com auxílio da FAPEMIG. 1 Sua primeira edição data de 1601, mas é provável que esta obra já se encontrasse em circulação desde a década de 1580. 2 A “autoria”, no caso de Prosopopéia, é controvertida e imprecisa na fortuna crítica da obra. Não tomamos posição no que diz respeito à identidade de Bento Teixeira, dado que sua relevância não é significativa na presente análise. Para aqueles que buscam discussões a respeito do “autor”, sugere-se: VERÍSSIMO, J. História da Literatura Brasileira: de Bento Teixeira, 1601 a Machado de Assis, 1908, Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1981; ABREU, J. C. de. Ensaios e estudos: crítica e história, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975; CASTELLO, J. A. Manifestações Literárias no Período Colonial (1500-1808/1836), São Paulo: Cultrix, 1981. 3 O discurso epidítico caracteriza-se por seu objetivo de louvar valores e atitudes considerados nobres (encômios) ou censurar aqueles considerados vis (vitupério), a fim de persuadir seu auditório a compartilhar de um mesmo ethos e orientar suas atitudes e valores. Ver: REBOUL, O. Introdução à retórica. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 43-54. 42 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 um sistema sócio-político semelhante, no esteio do Antigo Regime. Feitas tais considerações, daremos contorno à pro- blemática central deste artigo: perceber as possíveis formas de interação entre a dogmática cristã — que fornece princípios e elementos para a representação teológico-política do Estado Moderno — e referências que, de alguma forma, poderiam contrariá-la, como é o caso de recursos retóricos vinculados a tradições pagãs, judaicas ou heréticas. A partir deste trabalho, almejamos sondar os sentidos historicamente verossímeis da mobi- lização poética dessas referências em textos que não circularam marginalmente em seu espaço/tempo, mas, pelo contrário,foram editados com todas as autorizações, seja da coroa luso-espanhola seja do Santo Ofício. Reflexão historiográfica Segundo Laura de Mello e Souza, desde o Descobri- mento, teorias (apreciativas ou depreciativas) pautadas no miraculoso, no “sobrenatural” e no maravilhoso circundavam as colônias portuguesas na América4. Assim, a novidade acomodava representações que articulavam o estranho e o nunca antes visto com as projeções imaginárias (fossem monstruosas ou edênicas) familiares à cristandade européia. Não obstante, o imaginário social da passagem do século XVI ao XVII parece comportar manifestações das “novidades”, apesar de resguardar os valores tradicionais que lhes dão sentido. De acordo com Maravall, o período que se convencionou chamar de barroco5 (1600-1680) cultivava e exaltava as novidades. Convencido da atração exercida pelo extraordinário, o autor afirma que o barroco oferecia um ambiente propício para a profusão do “novo”, do “extravagante”, recepcionado de formas diversificadas: o novo agrada, o nunca antes visto atrai, a invenção que estréia embeleza; mas todas as aparentes audácias serão permitidas desde que não afetem a base das crenças sobre as quais se assenta a estrutura social da monarquia absolutista; ao contrário, servindo-se des- sas novidades como veículos, introduz-se mais facil- mente a propaganda persuasiva a favor do estabe- lecido.6 Neste ambiente ambíguo, em que a novidade convive com o status quo e ainda o serve, há que ser pensado o uso de elementos pagãos (quando não judaicos ou heréticos) em obras poéticas quinhentistas e seiscen- tistas, ainda mais quando se considera um período em que a tradição cultural greco-latina goza de enorme prestígio nos meios letrados da Europa e de suas perife- rias. Não se trata aqui, evidentemente, de tolerância das autoridades cristãs no que se refere a saberes poten- cialmente indesejáveis ou heréticos. Recorrer às “fábulas clássicas” não constituia, necessariamente, um perigo para a ortodoxia cristã dos séculos XVI e XVII, salvo nos casos em que o fiel se deixava levar pelas “crendices” pagãs, rompendo os laços com a ordem cristã. A Igreja aceitava e mesmo fazia uso dessas manifestações ex- teriores, mas sob vigília constante. Delumeau reforça este argumento quando afirma que: Como o cristianismo tinha impregnado quinze sé- culos de história européia, a mitologia já não podia ser senão um álbum de imagens, de resto singularmente rico, e um repertório de alegorias. Os deuses tinham abandonado os templos.7 Esses elementos pagãos, ao serem interpretados como linguagem metafórica ou, antes, como formas “simbó- licas” de reconhecimento, não constituíam mais qualquer perigo, agindo como acessórios ornamentais com obje- tivo de deleitar os leitores mais instruídos (ou “discretos”8) que, conhecendo as fábulas, conseguiriam interpretar as mensagens “implícitas” ou alegóricas nelas veiculadas à 4 SOUZA, L. M. O Diabo e a Terra de Santa Cruz, São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p. 44. 5 O barroco, na concepção do autor, não designa conceitos morfológicos ou estilísticos, repetíveis em culturas cronológica e geograficamente separadas. Trata-se de um conceito de época, que se estende, em princípio, a todas as manifestações integradas na cultura da mesma. Essa definição visa alcançar um conhecimento o mais sistemático possível de cada um dos períodos que submete a estudo, sem que com isso renuncie a compará-los, depois, com todo rigor. Ver: MARAVALL, J. A. A cultura do Barroco: Análise de uma Estrutura Histórica, São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1997, pp. 42-49. 6 Idem, p. 356. 7 DELUMEAU, J. A Civilização do Renascimento, volume 1, Lisboa: Editorial Estampa, 1984, p. 119. 8 Hansen identifica duas formas de destinatários: o discreto e o néscio. O discreto distingue-se pelo engenho e pela prudência, que fazem dele um tipo “agudo” e racional, capacitado sempre para distinguir o melhor em todas as ocasiões. O néscio, ou vulgo, designa indivíduos com falta de juízo, rústico ou confuso. Trata-se, portanto, de uma oposição intelectual, cujo critério fundamental é a agudeza. Ver: HANSEN, J. A. A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII, São Paulo: Ateliê Editorial, Campinas: Editora da Unicamp, 2004, pp. 93-103. 43Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 luz de uma economia cristã9. A ortodoxia, portanto, admite a sobrevivência de manifestações heterodoxas que a moral cristã, por outro lado, poderia desaprovar ou desacreditar. Esses elementos, “desativados” de sua po- tencialidade original e re-contextualizados, são manu- seados pelo próprio cristianismo10. Admitimos, como hipótese, que dogmas ortodoxos e elementos heterodoxos, quando ocupam o mesmo ce- nário no campo poético, podem interagir de maneiras diferenciadas: podem implicar exclusão recíproca, se sua interação for tomada como intolerável; podem se con- fundir e, por acréscimo, obscurecer o provável sentido atribuído pelo poeta; podem se separar, como lugares distintos ou divergentes; podem se confundir na forma de alegorias ou simbolismos complexos, em que um sentido prevalece sobre o outro. Em todos esses casos, sejam incompatíveis ou sincrônicas, as figuras e tópicas elegidas podem determinar a eficácia poética e, no mais das vezes, provar, por efeito de amplificação, a lição moral transmitida pelo poeta. No caso da poesia con- temporânea à Bento Teixeira e Gregório de Matos, pa- rece prevalecer esta última forma de interação que apresentamos (apesar de não podermos excluir as outras). Nela, vemos algo de semelhante ao que afirma Jean Starobinski, quando propõe que: Sendo o mundo da fábula, por decreto do poder espiritual, um mundo profano, sem verdadeiro conteúdo sagrado, não pode haver blasfêmia nem lesa-majestade quando o desfiguramos11. Bianca Morganti, em sua dissertação Mitologia n’Os Lusíadas: balanço histórico-crítico, analisando a fortuna crítica de Os Lusíadas, especialmente a controvérsia envolvendo o uso da mitologia na epopéia cristã, admite duas formas de recepção: o auditório poderia acolher a obra de bom grado, considerando as figuras mitológicas como acessórios eruditos e ornamentais que geravam deleite e acentuavam a agudeza do poema, deixando-o solene; por outro lado, o público poderia criticá-la, aludindo à natureza potencial dos mitos e, portanto, contraditórios à mística cristã12. O controle dessa polissemia denota ambigüidade quanto ao uso da mitologia no interior de uma cultura cristã. É por esta razão que devemos nos preocupar com a retomada e com a legitimidade de tópicas e referências poéticas e textuais. O percurso entre o posicionamento de quem escreve e a acepção de quem lê pode assumir vias diversas, que variam entre caminhos certeiros e oblíquos, traçados conforme a interpretação do objeto (lê-se texto). Optamos, especificadamente, por mapear e analisar algumas das apropriações de elementos “heterodoxos”, conduzidas tanto por Bento Teixeira quanto por Gregório de Matos, para, então, poder inquirir a respeito de seus efeitos, naturais à poesia dos séculos XVI e XVII. A retórica em Prosopopéia: discussões e resultados No domínio da invenção retórico-poética, Bento Teixeira emula modelos próprios da tradição “clássica”; isto é: ao mesmo tempo, imita-os e procura superá-los, recorrendo a argumentos que intencionam aproximar os modelos prestigiosos antigos da trajetória histórica do Império católico lusitano. A verossimilhança da narra- tiva depende dos recursos estilísticos e das tópicas retóricas elegidas pelo aedo. Um desses recursos, estra- tégico em seu exórdio, é, por exemplo, quando o poeta assumeuma posição de modéstia afetada, adquirindo confiabilidade, como veremos adiante, sob a máscara do rústico, por traz da qual o autor mostra-se incapaz de fingir, dissimular ou florear a verdade, seja no domínio da elocução seja na capacidade de “mentir” convin- centemente. No prólogo, arquitetando a dedicatória a Jorge d’Albuquerque, Bento Teixeira faz alusão implícita à Ars Poetica horaciana: sua intenção é comparar a forma com a qual poetas e pintores lidam com seus “ins- trumentos” de trabalho. No caso dos pintores, um 9 Delumeau nos lembra que as imagens retiradas das fábulas antigas produziam ensinamentos que podiam ser traduzidos em duas linguagens diferentes: a da Antiguidade greco-romana e a do cristianismo. Este último caso é o mais recorrente e, segundo o autor, a Igreja estava longe de reprová-lo. A Europa do Renascimento, dessa forma, se paganizou e descristianizou menos do que durante muito tempo se pensou. Ver: DELUMEAU, J. A Civilização do Renascimento, volume 2, Lisboa: Editorial Estampa, 1984, p. 116. 10 Ver: STAROBINSKI, J. As máscaras da civilização: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 237. 11 Idem, p. 244. 12 Interpretar tópicas retóricas como fato é postular a obra como expressão, o que causa conflito em termos de aceitação. Essas figuras desempenham papel lexical e, habitualmente, são traduzíveis, contando com leitores discretos capazes de fazer essa “mediação”. Se os artifícios retóricos não forem compreendidos, o discurso perde sua eficácia poética. Ver: HANSEN, J. A. A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII, São Paulo: Ateliê Editorial, Campinas: Editora da Unicamp, 2004, p. 34. 44 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 rascunho antecede a conclusão da obra, como um “pré- requisito” artístico. O autor de Prosopopéia, acatando a essa idéia, considera que sua obra é um rascunho que, posteriormente, com o consentimento do Governador de Pernambuco, seria “aperfeiçoada” e ampliada, alme- jando compor um “retrato poético” original e completo. Ao assumir uma posição modesta, como que diminuindo sua imagem perante a do herói, Bento Teixeira apela para a boa vontade do homenageado, que deveria valorizar a “intenção” do presente e não as formas e o seu conteúdo. Neste caso, há duas tópicas em jogo: a persona do rústico, que é lugar de humildade adequado às circunstâncias hierárquicas entre o aedo e o herói13, e um lugar de amizade, próprio dos encômios, a partir do qual mais se valoriza o motivo da oferta (o desejo ou a obrigação de agradar ou servir) do que o próprio resultado final da obra. Em ambas, o que se busca é, pelo ethos do orador/aedo, a docilidade do leitor/ouvinte, sustentando uma relação de cumplicidade, e sua boa disposição para o que está a ser narrado. Assumindo a “modéstia afetada”, o poeta rústico exige um leitor necessariamente discreto14, onde a persona do orador/aedo assume, ao mesmo tempo, duas posições: uma inferior (indicando suposta deficiência ou incom- pletude em relação ao leitor discreto) e outra superior (e, portanto, apreciativa, indicando possuir a humildade que falta aos poetas vaidosos que, louvando heróis, bus- cam as glórias somente para si). Este “lugar humilde”, entendido como um lugar-comum em que o orador assume uma “modéstia afetada”, além de configurar um ethos favorável ao orador/aedo, ao mesmo tempo, am- plifica a grandiosidade dos feitos a serem narrados. Outro artifício utilizado pelo autor, para oferecer “autoridade” e veracidade à narrativa, diz respeito a uma “fronteira” que demarca o lugar dos homenageados e o lugar dos heróis antigos. Sua intenção é enaltecer os Albuquerques, enquanto modelos exemplares, ao con- trário dos heróis clássicos que integram uma narrativa supostamente irreal ou fabulosa. Afirmando a superio- ridade de seus homenageados, em comparação com os antigos, o poeta similarmente se coloca acima dos poetas pagãos, uma vez que a suposta precisão de seus relatos oferece ao discurso algo que os antigos, em meio a narrativas fantásticas e sobrenaturais, não teriam conse- guido alcançar: a “verdade”. Logo no início do exórdio — cujo objetivo é tornar o auditório dócil (em situação de compreender e aprender), atento e benevolente — Bento Teixeira deixa claro seu posicionamento em relação aos “poetas antigos”: Cantem Poetas o Poder Romano, Submetendo Nações ao jugo Duro; O Mantuano pinte o Rei Troiano, Descendo à confusão do Reino escuro; Que eu canto um Albuquerque soberano, Da Fé, da cara Pátria firme muro, Cujo valor e ser, que o Ceo lhe inspira, Pode estancar a Lácia e Grega lira. (Bento Teixeira, Prosopopéia, Canto I) À maneira de Camões, o aedo de Prosopopéia elege, portanto, “lugares” distintos para poetas “antigos” e “modernos”, deixando claro duas vantagens dos segundos sobre os primeiros: a veracidade dos fatos narrados (ao contrário das “fábulas” pagãs) e a superioridade moral dos seus heróis: seja pela sua natureza cristã ou pelo seu altruísmo, que os transforma em um nobre modelo “pa- triótico”, essencial na expansão e defesa do Império lusitano. Estes feitos, nobres e “verídicos”, podem estan- car os feitos gregos e latinos. Segundo os padrões épicos, as “fábulas dos antigos” são evocadas para sustentar/reforçar um determinado argumento-tipo ou juízo moral, atribuindo-lhe consis- tência e veracidade15. Sua função é incrementar um 13 A persona rústica, segundo Alcir Pécora, “favorece a que a qualificação de sua autoridade para dizer o que diz repouse mais em sua boa intenção de dizer a verdade e dar ao homenageado os atributos a que faz jus, do que na exata maneira de dizê-lo, na justeza de sua elocução diante da prescrição elevada do gênero”. PÉCORA, A. “A história como colheita rústica de excelências”. In: As excelências do governador: o panegírico fúnebre a d. Afonso Furtado, de Juan Lopes Sierra (Bahia, 1676). São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 63. 14 Hansen afirma que os tipos do discreto e do vulgar funcionam como mecanismos políticos de constituição de unidades de excelência e de não-unidades viciosas. A discrição implica a técnica da agudeza e, por extensão do “saber agir” conforme as circunstâncias. Sendo assim, o discreto deve saber “simular” e “dissimular”: a dissimulação é entendida como uma técnica de fingimento moralmente virtuoso que oculta o que realmente existe, enquanto a simulação finge a existência do que não há. Ver: HANSEN, J. A. “O Discreto”. In: NOVAES, A. Libertinos e libertários. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, pp. 77-102. 15 É necessário considerar as limitações tanto da narrativa histórica quanto das narrativas literárias sem, necessariamente, confundi- las ou hierarquizá-las, e reconhecer o apoio mútuo (e metódico) que uma pode oferecer à outra. Ver: PÉCORA, A. Máquina de gêneros, novamente descoberta e aplicada a Castiglione, Della Casa, Nóbrega, Camões, Vieira, La Rochefoucauld, Gonzaga, Silva Avarenga e Bocage, São Paulo: EdUSP, 2001, pp. 14-15. 45Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 discurso atribuindo-lhe autoridade e eloqüência. A in- vocação das Musas16 é um artifício comumente encon- trado em epopéias da Antigüidade, como é o caso das obras de Homero e Virgílio. Sua função poética é oferecer acesso às realidades “originais”, recuperando aconteci- mentos primordiais17. Em Prosopopéia, tal invocação assume diferentes tons: As Délficas irmãs chamar não quero, Que tal invocação é vão estudo; Aquêle chamo só, de quem espero A vida que se espera em fim de tudo. Êle fará meu Verso tão sincero, Quanto fôra sem ele tosco e rudo, Que per rezão negar não deve o menos Quem deu o mais a míseros terrenos. (Bento Teixeira, Prosopopéia,Canto II). O autor dispensa os serviços das musas, assumindo que essa invocação resulta em “vão estudo”. Sua proposta é oferecer a “verdade”, e não narrativas fabulosas e inverossímeis. A energia poética da verdade, nesse sentido, superaria o fingimento ficcional dos antigos versos. Bento Teixeira, por isso, requisita a ajuda de Deus, entidade suprema do Cristianismo, que daria acesso às verdades históricas. A interação entre dois elementos potencialmente contraditórios não oferece aos versos, necessariamente, um teor conflituoso. Recusar a auto- ridade das musas amplia a importância de Deus en- quanto único ser detentor de todas as verdades. Se a eficácia dos versos de Prosopopéia depende da sua veracidade, dispensar as “Délficas irmãs” e invocar o Deus cristão evita que o poema se torne “tôsco e rudo”. No campo da elocução — avaliando a redação do discurso e as figuras de estilo — Bento Teixeira enaltece a figura dos Albuquerques, remetendo a antigos per- sonagens ilustres, reconhecidos como modelos tradi- cionais dignos e renomados18. Existe, portanto, uma correlação entre dois tempos: o tempo mítico do herói e o tempo contemporâneo à obra. As virtudes dos varões portugueses, homenageados de Prosopopéia, são espelhadas em personagens cujos feitos, imortalizados, ecoam com o passar das gerações. No entanto, faz-se necessária uma ressalva: essas “qualificações” épicas, realizadas por meio de comparações, alusões, analogias, atuam como figuras de elocução (léxis), cujo intento é enobrecer a figura dos Albuquerques e, ao mesmo tempo, estabelecer modelos que sirvam de referência para os leitores coevos. A eficácia dessas figuras é simbólica, uma vez que a comparação respeita aos padrões tradicionais, enfatizando as “virtudes heróicas” próprias dos perso- nagens épicos, e não ao indivíduo por trás do herói: Outro Troiano Pio, que em Dardânea Os Penates livrou e o padre caro; Um Públio Cipião, na continência; Outro Nestor e Fábio, na prudência. (Bento Teixeira, Prosopopéia, Canto XXVII) Duarte Coelho possui suas virtudes espelhadas nos antigos: apresenta a continência de Públio Cornélio Cipião (236 a.C. – 183 a.C.), general romano virtuoso, símbolo de coragem e perseverança bélica, características que lhe renderam reconhecimento “mítico”. Em seguida, Duarte é comparado a Nestor19 e a Quinto Fábio Máximo (275 a.C. – 203 a.C.), no quesito prudência: o primeiro é um ícone “homérico”: peça fundamental na empresa dos gregos contra os troianos; o segundo teria sido grande estrategista bélico, cujo “faro” na batalha debilitou moral e fisicamente Aníbal e seus exércitos durante a Segunda Guerra Púnica. Esses personagens exercem uma função dupla no poema: como modelos memoriais, enaltecem as qualidades de Duarte Coelho, pois são personagens “virtuosamente” qualificadas; como figuras de elocução, 16 Filhas de Zeus e da deusa Memória, as nove musas (Glória, Alegria, Festa, Dançarina, Alegra-coro, Amorosa, Hinária, Celeste e Belavoz) habitam o monte Parnaso, em Delfos. Sua natureza profética é constantemente requisitada pelos poetas da antiguidade. Elas agiam como “intermediadoras” entre os homens e os deuses. Ver: ELIADE, M. Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva, 1972, pp. 107-112. 17 Idem, p. 110. 18 A eficácia de Prosopopéia dependia da capacidade do aedo em mobilizar, tanto como um orador, “lugares comuns” retóricos, ou tópicas de invenção, para usar um vocabulário mais técnico. Este aedo necessita “imortalizar” as personagens, enumerando e qualificando suas virtudes e, dependendo do engenho poético, oferecendo sobrevida à própria poesia. De acordo com Trajano Vieira, “os prodígios heróicos são uma necessidade poética” e, nesse sentido, poeta e herói trabalham juntos para superar a transitoriedade. Vieira admite que a poesia épica, além de conferir glória imperecível aos heróis, possui um caráter educativo e formador, oferecendo modelos de conduta a serem seguidos, edificando virtudes exemplares e indispensáveis para o reconhecimento permanente. Ver: VIEIRA, T. “Introdução”. In: CAMPOS, Haroldo de. Ilíada de Homero, vol. 1. São Paulo: Arx, 2003, pp. 12-14. 19 Nestor foi rei de Pilo, filho de Neleu, casado com Eurídice. Muito célebre na Ilíada, aparecendo como um velho prudente e portador de grandes conselhos. Trata-se do arquétipo da sabedoria, da continência e da prudência. 46 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 causam deleite e, por se tratar de grandes referências a obras prestigiosas da Antigüidade, acentuam a distinção e agudeza do poema, afetando um auditório que, com tais referências épicas, entendem a gravidade da exaltação. Similar a Duarte Coelho, sua prole, composta, se- gundo o poema, por varões ilustríssimos (“Cada qual a seu Tronco respondente”, Canto XXIX), dará prosse- guimento aos grandes feitos do pai. Jorge e seu irmão, no canto XXXI, são identificados como “Martes”, hipér- bole20 que engrandece os atributos bélicos por fazer menção ao deus da guerra, reconhecido pelas habilidades com as armas e o espírito guerreiro. No canto seguinte, são comparados a “dous soberbos Rios espumosos”, que designam a fúria, inquietude e força incessante dos homenageados21. Estas metáforas são parâmetros amplificadores, que instruem (docere) e agradam (de- lectere), e são capazes de persuadir (movere) através dos artifícios retóricos emprestados da mitologia clássica. Outro exemplo interessante está no canto XLII. Nas palavras de Proteu, Jorge d’Albuquerque é mais invicto do que Enéias, que “desceu ao Reino de Cocito”. Enéias, protagonista da grande epopéia de Virgílio, importante guerreiro na batalha de Tróia, é reconhecido por sua coragem, astúcia e eloqüência. Não é por acaso que conseguiu enganar o “cão infernal” e invadir as “terras” de Hades, retornando com vida depois de cumprir sua missão. Jorge d’Albuquerque, portanto, supera aquele que desceu ao “Reino escuro”, personagem fundamental na “fundação mítica” do Império Romano, varão pio que porta as mais diversas virtudes. O jogo de figuras antagônicas, tal como claro/escuro, luz/sombra, acen- tuam a distinção entre os bons e maus costumes, ou entre vícios e virtudes. No presente caso, o “Reino escuro” está associado ao mundo de Hades, o mundo da perdição. Em outros momentos, Bento Teixeira compara Jorge d’Albuquerque ao “Sol luzente” (Canto XLII), indicando a luz como metáfora da virtude. Esse jogo de cores e efeitos, presentes em Prosopopéia, nos parece ser recurso retórico para a construção de heróis “iluminados”, afastados da vil “escuridão”. A referência ao “Reino de Cocito” pode suscitar nos leitores uma associação ao “Reino” dos Infernos. Jorge, portanto, supera o mundo do pecado e da danação, estando, assim, invicto dos castigos eternos. Proteu: um “profeta” do passado Além de recorrer a heróis “clássicos”, com vistas a enaltecer a figura dos Albuquerques, Bento Teixeira invoca a presença de deuses mitológicos no decorrer de sua obra. O autor requisita, inicialmente, os serviços de Proteu, divindade própria do panteão grego, descendente de Tétis, filha de Nereu, e do titã Oceano. Integrava o Conselho de Anciões, em virtude de sua sabedoria e da capacidade de prever o futuro. Possuía, ainda, a habil- idade de metamorfosear, adquirindo o aspecto de figuras monstruosas, cujo objetivo seria afugentar os mortais que o abordam para ouvir suas profecias. Vem o velho Proteu, que vaticina (Se fé damos à velha antiguidade) Os males a que a sorte nos destina, Nascidos de mortal temeridade. Vem nua e noutra forma peregrina, Mudando a natural propriedade. Não troque a forma, venha confiado, Se não quer de Aristeu22 ser sojigado. (BentoTeixeira, Prosopopéia, Canto XV) Após a leitura das duas primeiras linhas do canto XV, percebemos novamente o posicionamento do poeta que insiste no desapego fidedigno às tradições “clássicas”. Proteu só vaticina se dermos “fé” à velha antiguidade e isso mostra, por sua vez, os efeitos figurativos de sua construção poética. Sem qualquer retomada dos valores 20 A hipérbole indica uma figura de exagero, que amplifica o argumento. Baseia-se numa metáfora ou numa sinédoque; sua função semântica é invocada quando não se encontra um termo apropriado que dê conta da “grandiloqüência” ou “vulgaridade” da narrativa, tentando “exprimir o inexprimível”. Ver: REBOUL, O. Introdução à retórica, São Paulo: Martins Fontes, 1998, pp. 123- 1 2 4 . 21 Estratégia poética, as perífrases são requisitadas nos casos em que o poeta, ao descrever um ser ou enaltecer sua conduta, simula não dispor de palavras à altura da homenagem e, por isso, busca contemplar suas características, utilizando termos ou palavras que, no conjunto, assumem as pretensões retórico-poéticas do orador. Esse artifício assume uma natureza dupla: pode designar algo que teria sido perigoso nomear abertamente e, por outro lado, pode desmistificar ou vulgarizar objetos ou seres míticos, aludindo a eles com linguagem profana, abolindo figuras prestigiosas a partir de “máscaras” mitológicas. Ver: STAROBINSKI, J. As máscaras da civilização: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, pp. 231-260. 22 Para informações sobre o mito de Aristeu, ver: BULFINCH, T. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. São Paulo: Martin Claret, 2006, pp. 251-254. 47Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 mitológicos, em sua potencialidade, ou culto à tradição e cultura pagãs, a invocação de Proteu não se assenta em perigos doutrinários e, por isso, pouco abala a ortodoxia cristã. A narrativa de Proteu oferece autoridade aos versos de Prosopopéia, visto que, sendo um sábio profeta, re- conhece os grandes feitos que mereçam ser guardados na memória. Quando o autor de Prosopopéia abre mão de ocupar a persona de narrador, ele assume uma posição de modéstia, mostrando-se impotente frente a feitos de heróis tão grandiosos. A presença de Proteu personifica a sabedoria épica e sua fala, com ares de profecia, reforça e incrementa o discurso, tornando-o convincente e “legítimo”. O deus profeta, por sua vez, assume ares solenes e reforça a posição modesta dispensada pelo poeta, no afã de narrar os “indescritíveis” feitos de Jorge d’Albuquer- que, conforme indica o trecho abaixo: Seus heróicos feitos extremados Afinarão a dissoante prima, Que não é muito tão gentil subjeito Suplir com seus quilates meu defeito. (Bento Teixeira, Prosopopéia, Canto XXIII) Pensando na tradição de leitura da epopéia camo- niana, Bianca Morganti afirma que, nos séculos XVI e XVII, havia basicamente três formas de entender a presença da mitologia em Os Lusíadas: como orna- mento, com a intenção de causar deleite em seus leitores; entender os deuses como heróis, cujos feitos foram imor- talizados nos textos épicos; como alegoria23, compreen- dendo o mito em analogia com a mística cristã. Gui- lherme Amaral Luz cogita a hipótese de essas três interpretações também terem sido as que dirigiram o uso da mitologia em Prosopopéia. Segundo o autor, neste caso, Proteu poderia: (...) personificar, ao mesmo tempo, uma figura de ornato, um herói sábio e um profeta cristão. Como figura de ornato, com suas transmutações monstruosas, ele é a própria metáfora da metáfora ou da pluralidade de formas sensíveis imperfeitas assumidas pela verdade. Como sábio, detém o conhecimento da virtude dos heróis e dos desafios impostos pela fortuna. Como profeta cristão, anuncia a fatalidade das ações na direção dos seus resultados já sabidos de antemão.24 Resta lembrar, ainda, que os dotes proféticos de Proteu vaticinam um futuro que, para o leitor, já é passado. Método similar é encontrado n’Os Lusíadas, quando Júpiter, para alívio de Vênus, profetiza feitos gloriosos aos portugueses (Canto II, est. 44). Este recurso “profético” reforça a autoridade imposta pela memória reerguida. Cantar a grandeza dos home- nageados com ares proféticos não constitui perigo algum para as autoridades religiosas, partindo do pressuposto de que os fatos são eventos passados, mas que, no entanto, são dignos de lembrança e memória. Nesse sentido, “não há qualquer profecia no canto de proteu que não seja figura de elocução”25. A figura de Proteu é artifício épico duplamente peri- goso, seja pela sua natureza pagã, seja pelos seus atribu- tos proféticos, saberes potencialmente contrários aos dogmas cristãos. O caráter profético pode ser relacionado a um movimento político-cultural português típico da virada do século XVI para o XVII: o sebastianismo. Este fenômeno é uma (re)apropriação portuguesa do mito do “Encoberto”, descrito nas Trovas do sapateiro Gonçalo Annes Bandarra, entre 1530-1540. Em suas trovas, é possível encontrar referências da Sagrada Escritura, preceitos judaicos e elementos próprios do maravilhoso medieval, tratando-se, portanto, de um “hibridismo literário”. Este documento postula as glórias, dificuldades e o destino imperial do reino português e se tornaria, cerca de um século depois, a “Bíblia do sebastianismo”. De acordo com Jacqueline Hermann: Se Bandarra acabou sendo o “profeta” eleito para a pregação messiânica e real que ganharia corpo e adeptos a partir do início do século XVII, d. Sebastião emprestou sua própria vida para a confirmação final dessa “revelação”.26 23 Entendendo a alegoria como uma modalidade da elocução ou ornamento do discurso, que age como um dispositivo retórico cujo procedimento fundamental é a técnica da substituição. Ver: HANSEN, J. A. Alegoria: Construção e interpretação da metáfora, São Paulo: Atual, 1986, pp. 1-2. 24 LUZ, G. A. “O canto de Proteu ou a corte na colônia em Prosopopéia (1601), de Bento Teixeira”. In: Tempo, Niterói-RJ: UFF, v. 25, 2008, p. 211. 25 Idem, p. 212. 26 HERMANN, J. No reino do desejado, São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 121. 48 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 O sebastianismo oferecia aos portugueses uma dou- trina baseada na esperança, almejando o retorno de um rei salvador, (con)fundindo luta política e profecia mes- siânica. Tomando como base a análise crítica de Jacqueline Hermann, a profecia era um recurso para aqueles que estavam dominados pelo medo e des- contentes devido à perda de autonomia do Império português. A esperança se esvaecia e tudo o que restava era uma crença na qual se apoiar, na tentativa deses- perada de retomar a identidade política e resistir ao surto de descontentamento e nostalgia: Profecia inacabada, sua consumação se daria através da ressurreição do rei e do reino, revelando um sentido muito próprio para a sacralidade do monarca da Lusitânia, eleito por Deus para a direção de seu Império na terra.27 Num ambiente de insegurança e medo, muitas pessoas se prendem a uma crença ou doutrina de caráter profético, atribuindo importância desmedida às “adi- vinhações”28, enquanto premeditação de acontecimen- tos, longínquos ou próximos. O retorno do rei Desejado exprimia as esperanças de um corpo político sem “cabeça”, entregue aos domínios castelhanos, correndo o risco de perder sua identidade imperial. Esperança, essa, que almejava recobrar a autonomia do Império português que se manteve hibernada por sessenta longos anos sem, no entanto, deixar de viver um horrível pesadelo. Lémnio: personificação do vil(ão) em Prosopopéia Lémnio29, epíteto que designa o deus Vulcano, tam- bémé evocado por Bento Teixeira. Em Prosopopéia, ele assume o papel de figura de elocução que representa a natureza vil, por fazer resistência ao “nobre” caminho trilhado por Jorge d’Albuquerque e sua tripulação. Admitido como o “pai” da barbárie, o deus do fogo oferece ao aedo ares trágicos por representar os “pagãos”, indivíduos que fazem resistência à expansão da fé e, por extensão, do Império português. A presença da alteridade encontra-se expressamente presente na terminologia barbárie30, que sustenta uma densa carga toponímica: essa nomenclatura, portadora de significados diversos e convencionais, é dificilmente definida, senão por tópicos negativos. Tal como o mal, que se define pela ausência de bondade, termos como “bárbaro”, “pagão”, “herege”, “gentio”, “mouro”, são definidos pela ausência de alguma virtude configurada como excelente. Sendo assim, o bárbaro pode ser o “não-grego”, o “não-civilizado” ou, no caso de Prosopopéia, pode designar o “não-cristão”. A noção de barbárie depende do ponto de referência de quem designa; determina-se, portanto, uma fronteira convencional e negociável, que homogeneíza o “outro”, traçando uma caricatura pouco delineada do mesmo. De acordo com Francis Wolff31, várias são as apli- cabilidades da terminologia barbárie: pode implicar alguém em estágio arcaico de socialização — remetendo àqueles que ignoram as boas maneiras, portando-se rudemente, de forma grosseira —, pode designar um estágio arcaico, no quesito cultura — composto por indi- víduos insensíveis ao saber e, por isso, “culturalmente” inferiores — e pode, por fim, denunciar um estágio “pré- humano”, ou seja, composto de povos selvagens, que lidam com a ausência de qualquer sentimento huma- nitário. Em todos esses casos, o bárbaro é definido pela ausência de algo que remete à civilidade/civilização. Em todos os casos citados, os valores tidos como “baixos” o são baseados em padrões “evoluídos” da humanidade. “Levar” a civilização aos povos bárbaros significa diluir sua cultura, efetivando um processo de “aculturação”. Recorramos à metáfora do espelho: para arrancá-los de sua barbárie, faz-se necessário que eles se espelhem em uma sociedade/humanidade civilizada. Como artifício retórico, a figura de Lémnio é duplo signo de paganismo: por um lado, é fruto da fábula pagã e, por isso, potencialmente contraditória à mística cristã; por outro, sua “prole” é composta por “pagãos”. O deus 27 Idem, p. 307. 28 Segundo Jean Delumeau, a adivinhação “em seu sentido mais amplo, era — e é ainda para aqueles que a praticam — uma reação de medo diante do amanhã. Na civilização de outrora, o amanhã era mais objeto de temor do que de esperança”. DELUMEAU, J. História do medo no ocidente, 1300-1800: uma cidade sitiada, São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 397. 29 Quanto à versão mitológica apropriada pelo autor, ver: TEIXEIRA, B. Prosopopéia, Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1972, pp. 122-123. 30 Como Starobinski nos lembra, “um termo carregado de sagrado demoniza o seu antônimo”. Neste caso, o bárbaro se opõe ao cristão. STAROBINSKI, J. As máscaras da civilização: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 33. 31 Ver: WOLFF, F. “Quem é bárbaro?” In: NOVAES, A. Civilização e barbárie. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 49Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 ferreiro assume não somente a personificação de um deus pagão, mas do próprio paganismo. Como argu- mento-tipo, Lémnio amplifica a vileza combatida pelos Albuquerques; como figura de elocução, oferece ao aedo uma voz dissonante que, por sua vez, tende a mover ânimos, dado que esta divindade trama contra os ho- menageados e mobiliza todo um arsenal de infortúnios, como será mostrado mais adiante. A “aparência” de Lémnio, descrita por Proteu, parece condizer com sua natureza/essência vil. Ao narrar sua compleição, o poeta anuncia a fisionomia dos infortúnios que virão. Como esta descrição parte de Proteu, é total- mente viável que ares proféticos norteiem a sua fala: E com rosto cruel e furibundo, Dos encovados olhos cintilantes, Férvido, impaciente, (...). (Bento Teixeira, Prosopopéia, Canto XLVII) Retomando os conceitos utilizados por Bianca Mor- ganti, são três as possibilidades de recepção da figura de Lémnio pelo auditório de Prosopopéia: como figura de ornato, reforçando o estilo épico e valorizando a estrutura estética pautada na mitologia greco-romana, compondo as “belas maneiras” e a fala depurada; metafórica, en- tendendo os deuses como grandes heróis reconhecidos na Antiguidade, dignos de referência e imortalidade; e alegórica, remetendo, intrinsecamente, a uma realidade mística cristã ou, no mínimo, que não se oponha a ela32. Enquanto peça ornamental, Lémnio é artifício empre- gado com vistas a aprimorar o engenho poético e o caráter estético de Prosopopéia; simboliza, por outro lado, a figura do anti-herói, sendo responsável pelos infortúnios que dificultaram e que, por pouco, não impediram a empresa de Jorge d’Albuquerque e à sua tripulação. O sentido alegórico33, por sua vez, não é claro (a alegoria impõe esta dificuldade interpretativa), mas abre espaço para possíveis interpretações. Em uma das versões mitológicas, Vulcano foi arremessado do Olimpo pela mãe (Juno) por ter nascido com a aparência disforme. Devido à queda, que durou um dia e meio, o deus do fogo tornou-se coxo, sobrevivendo tão somente por ser imortal. Essa deformidade, portanto, pode indicar a natureza “coxa” dos pagãos que, por falta da fé cristã, são “incompletos”, “disformes”. Por outro lado, na tradição cristã, Lúcifer e os “anjos caídos” sofreram queda semelhante, por se rebelarem contra Deus, e foram precipitados para o Inferno. Esta analogia não seria estranha em uma sociedade fortemente “cristianizada”, como é o caso de Portugal e suas extensões coloniais. O deus ferreiro e, portanto, do fogo, poderia ser, assim, uma clara metáfora de seres infernais. Sendo “pai” da barbárie, ou personificação da mesma, Lémnio se sente ofendido ao perceber que sua “prole” estava sendo convertida e/ou dizimada por varões por- tugueses. Persuadindo Netuno, senhor das águas, Vul- cano requisitou uma tempestade que pudesse impedir o regresso de Jorge e seus homens, utilizando, para isso, argumentos que apelam à vaidade34. No seu discurso, Lémnio convence Netuno através de soberbas conside- rações que reafirmam sua posição entre as divindades pagãs, como importante membro e habitante do Olimpo: Em preço, ser, valor, ou em nobreza, Qual dos supremos é mais qu’eu altivo? Se Neptuno do Mar tem a braveza, Eu tenho a região do fogo activo. Se Dite aflige as almas com crueza, E vós, Ciclopes três, com fogo vivo, Se os raios vibra Jove, irado e fero, Eu na forja do monte lhos tempero. (Bento Teixeira, Prosopopéia, Canto LI) Netuno, como bom irmão, atende às suas vontades (ao final da obra, ele se arrepende desta escolha). A resistência do deus do fogo aos feitos dos Albuquerques pode ser entendida, por extensão, como a resistência dos 32 Ver: MORGANTI, B. F. A Mitologia n’Os Lusíadas – Balanço Histórico-Crítico. Dissertação (Mestrado). São Paulo: IEL/Unicamp, 2004, pp. 156-171. 33 Segundo Hansen, existe duas opções de recepção para o leitor: analisar os procedimentos formais que produzem a significação figurada, lendo-a apenas como convenção lingüística que ornamenta um discurso próprio, ou analisar a significação figurada nela pesquisando seu sentido primeiro, tido como preexistente nas coisas e, assim, revelado na alegoria. Ver: HANSEN, J. A. Alegoria: Construção e interpretação da metáfora, São Paulo: Atual, 1986, p. 2. 34 De forma semelhante, Baco, emOs Lusíadas, convence os deuses marinhos a lançarem uma tormenta contra a embarcação de Vasco da Gama. Baco e Vulcano, nessa concepção, ocupam posições similares: ambos tentam impedir o progresso da virtude, resistindo à empresa de nobres varões portugueses. Tanto Baco quanto Vulcano assumem a postura de anti-heróis. Ver: CAMÕES, L. V. de. Os Lusíadas. Porto Alegre: L&PM, 2008, pp. 173-198. 50 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 “nativos” brasílicos aos colonizadores lusos, não acatando a fé cristã e impedindo a expansão da cristandade e do Império português. Enquanto figura de linguagem, Lémnio representa a resistência a duas metas (indis- sociáveis naquele ambiente político e cultural) próprias às ações de varões tidos como excelentes: a difusão da fé e a expansão do reino português. A divindade do fogo, o bárbaro, o demônio, o infortúnio ou, simplesmente, Lémnio conspirava contra guerreiros prudentes e cora- josos que contribuíam na expansão do Império lusitano. Ao conjurar maus agouros contra a embarcação de Jorge, Lémnio busca interromper a Fortuna, até então favorável, dos irmãos Albuquerque. O poema apresenta, neste momento, um “suspense” que mobiliza o leitor, pois o desfecho supostamente sofrerá uma inversão, já que a Fortuna se volta contra a Virtude, categorias que, até aquele instante da narrativa, coabitaram pacifi- camente. Quando o curso da história tende a mudar (para pior), o ânimo dos leitores acompanha essas mudanças. Jorge, contudo, oferecendo mostras de eloqüência e virtuosidade, ofusca seu temor e busca (re)animar a sua tripulação contra os riscos do infortúnio: Per perigos cruéis, per casos vários, Hemos d’entrar no porto Lusitano, E suposto que temos mil contrários Que se parcialidam com Vulcano, De nossa parte os meios ordinários Não faltem, que não falta o Soberano, Poupai-vos pera a próspera fortuna, E, adversa, não temais por importuna. (Bento Teixeira, Prosopopéia, Canto LXI) Dessa forma, o curso da narrativa, que parecia tomar um rumo trágico, recobra o caminho da vitória da virtude contra a má fortuna (infortúnio). Lémnio vê seus desígnios fracassados. Acentuar a “vileza” de Vulcano amplifica a “nobreza” de Jorge, quando este não apenas resiste, como também recobra o alento de sua tripulação, tal como se deve proceder alguém que ocupa uma posição de prestígio35. Na embarcação, Jorge mostrou-se perso- nagem valorosa, pois enfrentou o risco do infortúnio, indevidamente manipulado por Lémnio. Em seguida, assumindo conduta exemplar, ofereceu sua vida, para que outros pudessem sobreviver. Esse ato evitou o ímpeto da vaidade, mostrando que Jorge d’Albuquerque reivin- dicava a responsabilidade e agia, portanto, tendo em vistas o corpo coletivo, e não suas vontades particulares: E se determinais a cega fúria Executar de tão feroz intento, A mim fazei o mal, a mim a injúria, Fiquem livres os mais de tal tormento. Mas o senhor que assiste na alta Cúria Um mal atalhará tão violento, Dando-nos brando Mar, vento galerno, Com que vamos no Minho entrar paterno. (Bento Teixeira, Prosopopéia, Canto LXVI) No parecer dos moralistas de fins dos quinhentos, a vaidade impede que o indivíduo obre em favor do bem- comum, requisito primordial na construção de exemplos nobres. Deve-se ter em mente o todo, e não as partes. As decisões devem privilegiar o corpo social; Jorge assumia a responsabilidade de “conduzir” o organismo cívico sob sua responsabilidade, atuando de modo análogo aos governantes prudentes, cujo valor estaria na sua posição relativa ao conjunto que comanda, tal como entende, por exemplo, Luz: O todo vive por meio das relações complementares entre as suas partes. A parte não tem significado e valor em si, quando isoladas, mas apenas como meio comple- mentar de realização da ordem do todo. O valor está na posição que cada parte ocupa no conjunto de relações que compõem o corpo místico.36 A sátira e sua repercussão: discussões e apontamentos Através de um humor-trágico (ou, talvez, de uma dramatização via escárnio), as sátiras atribuídas a Gre- gório de Matos demonstram um apurado teor crítico, o que atribui aos versos uma tendência moralista, a julgar 35 A utilização de tópicas retóricas tradicionais que recorrem às antíteses, tal como “vício/virtude”, ou “bárbaro/civilizado”, são recursos indispensáveis na composição de retratos biográficos encomiásticos. A presença de virtudes “exemplares” e vícios “condenáveis”, no decorrer da narrativa, amplificam o contraste entre atos bons e maus. A composição de modelos públicos de conduta depende desses artifícios retóricos para ser eficaz. 36 LUZ, G. A. “A morte-vida do corpo místico: espetáculo fúnebre e a ordem cósmica da política em Vida ou Panegírico Fúnebre a Afonso Furtado de Mendonça (1676)”. In: ArtCultura, Uberlândia: UFU, no prelo (2008), p. 19. 51Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 pela intolerância latente às práticas de determinados estratos da sociedade. Desde o século XIX, uma gama de autores coloca em xeque a autoria e originalidade dos versos atribuídos a Gregório de Matos: Varnhagen (1850), por exemplo, considera-o um “escravo imitador” que plagia grandes nomes castelhanos como Gôngora e Quevedo, para obter reconhecimento e prestígio. Não obstante, João Ribeiro parece compartilhar de posição similar, apesar de considerar os modismos da imitação um processo legítimo nos tempos de Gregório. Críticos como Paulo Rónai e Sílvio Júlio parecem investir ainda mais na desmoralização dos poemas gregorianos. Oscar Mendes, sob influência dessa censura, chega a se referir ao poeta como o “padroeiro dos plagiários”37. Constatamos a existência, no entanto, de autores que não buscam generalizar/relativizar as contribuições do poeta baiano, tais como Pedro Calmon e Afrânio Coutinho. O primeiro não admite que esta confusão autoral possa ser atribuída ao poeta, em detrimento da própria organização dos apó- grafos. O segundo, atento às práticas comuns à poesia seiscentista, divulga a legitimidade da imitação, enquan- to recurso ainda latente, herdado nos moldes renas- centistas38. Não ansiamos em tomar partido neste debate polê- mico, tampouco seguir os rumos desta discussão, pois, para nossa proposta, pouco valem considerações re- ferentes à “autoria” ou “plágio”, termos que reconhe- cemos como exteriores e posteriores à época de Gre- gório39. A preocupação que norteia esta pesquisa se volta muito mais para o conteúdo satírico seiscentista do que para os possíveis epítetos poéticos que comumente são tomados por “autores”, no sentido romântico do termo. Araripe Júnior se refere a Gregório de Matos como “toda a poesia do século XVII no Brasil”, ou seja, este nome próprio deixou de designar um indivíduo para qualificar uma época. Por esse motivo, nos agrada a expressão “poeta coletivo”, utilizada por Wilson Martins, o que supõe a superficialidade de se considerar uma “indi- vidualidade” autoral40. A sátira de codinome Gregório de Matos escancara os vícios da sociedade através de encenações irônicas e/ ou dramáticas. Em síntese, ela “fere para curar”, pois amplifica o mal e, implicitamente, propõe uma correção. Nos encômios, o homenageado detém, enquanto modelo referencial e exemplar, as virtudes tidas como excelentes e ideais; no caso da sátira, através da antítese vício/ virtude, acentua-se a “deformidade” do satirizado que, de alguma forma, impede a manutenção da ordem pública. O vício, portanto, deturpa o organismo cívico, e a crítica satírica solicita, indiretamente, a intervenção de virtudes que, além de suplantar os vícios, restaurariam a ordem socialalmejada. Segundo Hansen, a sátira é sempre dupla quanto ao seu efeito de sentido, afirmando uma ausente plenitude do bem comum, iden- tificada com a boa política e a boa religião, oposta à decadência do presente mau e corrupto, negado como teatro da falha, falta e culpa.41 A eficácia satírica conta com o conhecimento de seus auditórios, ou seja, a “deformação” dos indivíduos de- pende de um prévio conhecimento de suas falhas e faltas. Assim como o encômio, a sátira também depende da conciliação entre o útil e o agradável. Objetivando o re- púdio, o riso, o escárnio42, a sátira trabalha com inver- sões, moldando conceitos virtuosos que, na verdade, são mostruários de vícios que contaminam a sociedade. Tal como afirma Hansen, “dois conceitos distantes e opos- tos são aproximados e fundidos num único gênero metafórico”43, o que proporciona aprendizagem e prazer. Apresentar uma caricatura disforme, além de convenção 37 GOMES, J. C. T. Gregório de Matos, o Boca de Brasa: Um Estudo de Plágio e Criação Intertextual. Rio de Janeiro: Vozes, 1985, pp. 54- 8 3 . 38 Idem, pp. 86-87. 39 Ver: HANSEN, J. A. A sátira e o engenho. Gregório de Matos e a Bahia do século XVII. São Paulo: Ateliê Editorial, 2004, p. 32. 40 Ver: GOMES, J. C. T. Gregório de Matos, o Boca de Brasa: Um Estudo de Plágio e Criação Intertextual. Rio de Janeiro: Vozes, 1985, pp. 14-15. 41 HANSEN, J. A. A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII, São Paulo: Ateliê Editorial, Campinas: Editora da Unicamp, 2004, p. 201. 42 Há que se pensar, portanto, no efeito do cômico enquanto procedimento instrutivo, que concilia educação e deleite. José Macedo nos lembra que “os mecanismos de fabricação do cômico, mesmo sendo intemporais, produzem efeitos distintos, cujo nexo encontra-se nos códigos culturais partilhados”. A risibilidade, no caso da sátira, deve ser resultado de uma crítica histórica, de tal forma que o leitor identifique a ironia e, através das fórmulas “baixas”, repudie os vícios do satirizado. O auditório precisa conhecer a fábula para, então, entender os efeitos da inversão. Ver: MACEDO, J. R. Riso, cultura e sociedade na Idade Média. São Paulo: Editora Unesp, 2000, p. 26. 43 HANSEN, J. A. A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII, São Paulo: Ateliê Editorial, Campinas: Editora da Unicamp, 2004, pp. 54-55. 52 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 engenhosa, é uma forma de repudiar vícios então into- leráveis. Trata-se de uma aprendizagem inversa e/ou reversa, na qual se privilegia a falha, subtendendo sua correção. O teatro satírico, em suma, faz do vício uma virtude, pretendendo o inverso: transformar em virtude os vícios. Quanto aos dispositivos de elocução adotados pelo poeta, optamos por analisar, inicialmente, a apropriação das Parcas, recorrente no universo poético colonial. Na mitologia, as Parcas (muitas vezes reconhecidas como as Moiras, ou Destinos), filhas da Noite, são divindades responsáveis pela sorte dos homens. Num total de três, as Parcas habitam as regiões olímpicas: Cloto porta o fio do destino humano; Láquesis coloca o fio em fuso; Átropos, por fim, corta o fio, sendo a responsável direta pela morte dos homens44. Não é por acaso que são reconhecidas como as “fiandeiras”. Gregório de Matos se apropria dessas figuras, por exemplo, para indicar momentos trágicos, cuja morte é conseqüência der- radeira. Segue uma de suas apropriações: Neste túmulo a cinzas reduzido Da virtude o Herói mais portentoso Se oculta, feito estrago lastimoso Da dura Parca, de que foi vencido. De um incêndio cruel ficou rendido Aquele peito forte, e valeroso, Que por Deus tantas vezes amoroso Tinha grandes incêndios padecido. Porém a Parca andou muito advertida Em lhe tirar a vida desta sorte, E tirana não foi, sendo homicida. Que se o matou em um incêndio forte, Foi, porque se de incêndios teve a vida, De incêndios era bem tivesse a morte. (Gregório de Matos)45 O poeta, em sua narrativa, anuncia a “dura Parca” que, vencedora, tomou a vida de Manuel da Ressurrei- ção. Ao atribuir à Parca adjetivos depreciativos, como “tirana” ou “homicida”, o poeta procura demonstrar seu suposto pesar, devido ao destino trágico e desmerecido deste “Herói”. Uma vida de incêndios, ou seja, de espírito inflamado, deve ter seu término em meio a um incêndio (podendo ser entendido literalmente como fogo, ou alegoricamente como a perdição da alma, que queima no Inferno). A “tirania” da Parca, portanto, é um falso e irônico predicado para designar uma morte devida e supostamente “conveniente”. Segue outro exemplo, dessa vez referente à morte de José de Mello, assassinado por Luís Ferreira de Noronha, capitão da guarda do gover- nador Câmara Coutinho (1690-1694): Brilha em seu auge a mais luzida estrela, Em sua pompa existe a flor mais pura, Se esta do prado frágil formosura, Brilhante ostentação do céu aquela. Quando ousada uma nuvem a atropela, Se a outra troca em lástima a candura, Que há também para estrelas sombra escura, Se para flores há, quem as não zela. Estrela e flor, José, em ti se encerra, Porque ser flor, e estrela mereceu Teu garbo, a quem a Parca hoje desterra. E para se admirar o indulto teu, Como flor te sepultas cá na terra, Como estrela ressurges lá no céu. (Gregório de Matos)46 Comparar o homenageado à estrela e à flor (re)a- firma, indiretamente, as duas naturezas humanas (sob uma lente cristã): uma terrena e outra celeste. A flor, formosa em sua textura, possui uma existência finita, irrisória e vulnerável. A estrela, no entanto, brilha por tempo indeterminado, se fazendo presente a nossos olhos mesmo após seu desaparecimento. A distinção e o garbo de José são “desterrados” pela Parca que, aqui, parece simbolizar a morte honrosa, apesar de triste. Ao ser sepultado como flor, aqui na terra, ele perde sua natureza mortal. No entanto, ressurge como uma estrela, o que supõe uma ascendência, um acolhimento da bem-aven- turança. O brilho e posicionamento das estrelas parecem metaforizar uma transcendência celeste, divina, gloriosa. A morte, nesse sentido, não compartilha da mesma crueza denotada na morte de Manuel da Ressurreição. 44 Ver: COMMELIN, P. Mitologia grega e romana. São Paulo: Martins Fontes, 1997, pp. 82-84. 45 MATOS, G. Gregório de Matos: obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1999, p. 198. 46 Idem, pp. 204-205. 53Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 Gregório de Matos, ao narrar a morte do governador Matias da Cunha, utiliza expressões e recursos retóricos que, além de demonstrar lamento, ilustram uma morte “exemplar”, mas deve-se levar em conta o teor satírico de suas palavras. Segue o trecho a ser analisado: Ó caso o mais fatal da triste sorte! Ó terrível pesar! ó dor imensa! Quem viu, que em breves dias de doença Acabasse valor, que era tão forte! Quem viu prostrar-se a gala de Mavorte, Que hoje em cinza se ve à morte apensa! Que como se prostrou, logo a licença Concedeu livremente ousada à morte. Já se vê o valor, que esclarecido Foi, em urnas de pedra sepultado Do sujeito mais grave, e entendido. À Parca rigorosa sujeitado, Acabado já, e em cinzas consumido o esforço, que se viu mais alentado. (Gregório de Matos Guerra)47 A “triste sorte”, da qual se refere Gregório, pode ser traduzida como o “destino”, ou talvez a providência. O poeta fica ressentido ao testemunhar homem tão “forte” perecer, sem qualquer possibilidade de reagir à doença que o afligia (febre amarela). Comparado a “Mavorte” (variação/epíteto que designa Marte), o homenageado acaba reduzido a cinzas, sujeitado à “Parca rigorosa”, à morte severa,iminente. Mais uma vez, a figura da Parca metaforiza a morte, amplificando sua malignidade e precisão. Ao atribuir à morte uma imagem (mesmo que mitológica), o poeta “humaniza-a”, a ponto de atribuir- lhe características próprias do homem: o rigor, o aprumo, a sujeição. A personificação da morte acaba acomodando adjetivos que expressam seu efeito e/ou intensidade, à maneira do poeta. A próxima estrofe condensa o que podemos nomear de “lamento”, como se a morte, im- prescindível, pudesse operar num tempo impróprio, ou errar os cálculos, tomando a vida de um indivíduo precipitadamente: Teu alto esforço, e valentia forte Tanto a outro nenhum valor iguala, Que teve o céu cobiça de lográ-lo, Que teve inveja de vencê-la a morte. O céu veio a lográ-la, mas por sorte, Que por poder não pôde conquistá-la; A morte por haver de contrastá-la Vigor de lei tomou, e deu-lhe o corte. Prêmios, que mereceste, e nunca viste, Todos com teu valor os desprezaste, E com os merecer lhe resististe. O cargo, que na vida não lograste, Esse o mofino é, órfão, e triste, Pois te não falta a ti, tu lhe faltaste. (Gregório de Matos Guerra)48 Inicialmente, destacam-se as falsas virtudes do homenageado: valentia, esforço e fortaleza inigualá- veis. Tanto a morte quanto o céu pecam para possuir o satirizado: a primeira o inveja, o segundo o cobiça. O embate entre o céu e a morte indica a luta de Matias da Cunha pela vida, mas, como se sabe, a morte é indo- mável, imbatível. Mais adiante, o poeta faz menção aos prêmios que o protagonista recusara, dado o seu brio e altivez. Neste caso, o governador “resiste” ao mere- cimento, visto que suas proezas mundanas não lhes renderam frutos benéficos. Na estrofe seguinte, o poeta reforça sua posição, quanto à morte do mesmo: Quem há de alimentar de luz ao dia? Quem de esplendor ilustrará a Nobreza? Quem há de dar lições de gentileza A toda a gentileza da Bahia? Já feneceu do mundo a galhardia, Melancólica jaz a natureza, Vendo em pó reduzida a fortaleza, E em cinzas desatada a fidalguia. O Marte (digo), que ao combate expunha O peito sem temor, que ao mundo assombra, Sendo da paz terror, da guerra espanto. Foi este o Senhor Matias da Cunha, Que hoje nos dá tornado em fria sombra Ao discurso pesar, aos olhos pranto. (Gregório de Matos Guerra)49 “Quem de esplendor ilustrará a Nobreza?”, inquire o 47 Idem, p. 137. 48 Idem, pp. 137-138. 49 Idem, p. 138. 54 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 poeta, apesar de esta falsa-pergunta denotar ironia, já que a resposta está intrínseca na própria pergunta. Junto ao governador, perece a galhardia, o brio, o garbo. A fortaleza se converte em pó, e a nobreza em cinzas. O “Marte” Matias da Cunha, que “causava” espanto na guerra e terror em tempos de paz, na troça de Gregório torna-se “fria sombra”, digna de pranto e pesar. Como a sátira opera com inversões, há que se perceber o duplo sentido de seus versos. Sem qualquer dificuldade, o poeta poderia fazer desses versos uma homenagem, um louvor, pois opera com tópicas e requintes próprios do encômio. O processo de inversão, no qual a sátira amplifica a desonra do homenageado, é um requisito básico para o sucesso da mesma, supondo, é claro, que o auditório (re)conheça o perfil do satirizado e a ironia dos versos em pauta. Em outro episódio, ao censurar o suicídio cometido pelo Conde de Ericeyra, D. Luís de Meneses (1632-1690), Gregório faz menção ao mito de Ícaro que, junto a Dédalo, foram os responsáveis pela construção do la- birinto que asseguraria o cárcere do Minotauro, nos limites de Creta. Ao se perderem no labirinto, Dédalo arquiteta dois pares de asas de cera, para fugirem. Antes de alçarem vôo, Dédalo pede ao seu filho, Ícaro, que não se aproxime do sol, mantendo dele uma distância segura e seguindo seus passos. Ícaro, imprudente e encantado pelo brilho solar, acaba se entregando à tentação de se aproximar do astro, derretendo suas asas, o que ocasiona sua queda e morte. É esta queda que serve de referência para o uso metafórico de Gregório, nos versos seguintes: Ícaro da nossa guerra ares corta o Conde só, Ícaro caiu no Pó, e o Conde caiu na terra: se, porque o rio o enterra, o nome lhe ficou dado de Ícaro ser sepultado: assim porque a terra dura deu ao Conde sepultura, ficou a terra um condado. De cera, e pluma se val Ícaro para viver, e o Conde para morrer valeu-se do natural: quanto à força artificial da natureza é sobrada fica a do Conde adiantada, porque Ícaro quando bóia faz tragédia de tramóia, e o Conde de capa, e espada. (Gregório de Matos)50 Gregório de Matos, para ridicularizar o suicídio cometido pelo Conde de Ericeyra, que se joga da janela de seu jardim, utiliza a queda de uma personagem mitológica bem conhecida: a imprudência de Ícaro e sua conseqüente morte. Gregório contrapõe o ardil de Ícaro, no ímpeto de sobreviver com base em uma “força ar- tificial” de asas artesanais, e da naturalidade com que o Conde antecipa sua própria morte. A tragédia de um, que luta pela sobrevivência (apesar de ser um impulso fraudulento, conforme o poeta) se contrapõe ao desapego do outro, que se mata. Concluímos, portanto, que o uso de referências mi- tológicas não causa qualquer prejuízo às sátiras atribuídas a Gregório de Matos, mas, pelo contrário, torna seus versos mais engenhosos, supondo um estilo loquaz que faz uso de figuras pagãs e/ou heterodoxas na busca por efeitos moralizantes afinados com os padrões de uma Monarquia corporativa cristã. Estas estimativas, soma- das às analises que reverberam no decorrer de nosso trabalho, já dão margem a considerações significativas, que, no entanto, não se vêem privadas de novas interro- gações e inquéritos. Considerações finais Nossa proposta, nesse artigo, foi realizar uma leitura retórico-histórica, considerando as convenções retóricas (tópicas de invenção, figuras de elocução...) e sua eficá- cia em discursos históricos destinados a um auditório particular. Em exemplares poéticos quinhentistas e seiscentistas, é fundamental sondar essas convenções, próprias do contexto histórico da época. Esta forma de leitura busca evitar anacronismos, interpretando textos datados metodicamente, com a devida atenção crítica. Como já se alegou, o uso de elementos “externos” à mística cristã geraram debates acirrados e dissonantes. Sondando a fortuna crítica de Os Lusíadas, Morganti 50 Idem, p. 131. 55Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 percebe que nos três séculos que procederam à edição da obra, as interpretações a respeito da mitologia eram polêmicas e controvertidas. No século XVII, Manuel Pires de Almeida e seus adversários, chamados “apo- logistas” de Camões, foram peças-chave nesse debate. O primeiro considerava o uso de “fábulas pagãs” incon- veniente em um poema que cantava a expansão da fé cristã. De acordo com esse autor, esses recursos estilís- ticos não contribuíam para o fim último da poesia: mover, deleitar e instruir. Pires de Almeida afirma que Camões desconsidera a crença do povo para quem escreve, deixando a verossimilhança em segundo plano. Já os apologistas autorizam o emprego da mitologia clássica, destacando a utilidade das “ficções poéticas” e afirmando que a “epopéia portuguesa” ensina e move os leitores à emulação dos grandes feitos, tidos como excelentes51. Não há dúvidas de que o novo — ou seja, o atípico — gera certa intolerância e estranhamento por parte dos homens que o recepciona, mas a valorização da cultura greco-latina em obras poéticas remonta a uma postura bemquista e tradicional entre os poetas da época, convencionalmente chamada de barroca. Nosso estra- nhamento, ao nos deparar com uma cultura pagã imersa em obras de cunho cristão não se equipara às impressões causadas durante os séculos XVI e XVII. Como Delu- meau apontou, a mitologia era um “álbum de imagens” incapacitado de abalar os alicerces de quinze séculos de tradição cristã. Apesar da dupla possibilidade de recep- ção por parte da audiência, a fábula mitológica não subjugava a dogmática cristã, mas, antes, como nos assevera Starobinski, sobrevive sob sua tutela. Gregório de Matos e Bento Teixeira investem no resgate de elementos “pré-cristãos” para a construção de retratos poéticos em suas obras, seja de heróis seja de anti-heróis cristãos. Não nos parece provável afirmar que a retomada de elementos pagãos seja por ocasião de um momento histórico conturbado ou que os poetas se sen- tiam obrigados a “reproduzir” servilmente categorias próprias das épicas da Antigüidade. Recusamo-nos, mais ainda, a admitir que o uso de mitologia contradiga necessariamente uma obra de cunho cristão, tendo em vista as inúmeras possibilidades de interpretação que comporta. Bento Teixeira, no decorrer de sua obra, invoca a ajuda do Deus cristão, afirmando que não “bebe” do licor ou compartilha a “falsa pompa” dos antigos poetas. Gregório de Matos nem precisa reforçar esse posicionamento, pois suas eventuais apropriações mitológicas não deixam sequer suspeitas de adesão ao paganismo. Nesse sentido, os elementos mitológicos, “descarnados” de seu sentido primeiro, agem como instrumentos artísticos ou técnicos que enriquecem o propósito de ambos os poetas: longe de qualquer impedimento, os recursos mitológicos intensificam as finalidades retóricas últimas da poética barroca: docere, movere et delectare. As tópicas heterodoxas, portanto, são apropriadas tanto no encômio quanto no vitupério, resgatando igualmente seus significados originais, ou seja, exige-se (e supõe-se) do leitor a mesma perícia e assimilação destes recursos, a mesma discrição. Mas uma dúvida ainda se coloca: como a apropriação pode ser similar, se os efeitos da sátira e do encômio são opostos? Se atentarmos para os caminhos trilhados nesta pesquisa, perceberemos que é possível a conciliação destes aspectos, que longe estão de serem contraditórios. Defenderemos esta afirmação com um exemplo: se a figura de Marte, deus da guerra, é apropriada em um texto encomiástico, tal como o é em Prosopopéia, possivelmente (e prova- velmente) são seus atributos louváveis que serão res- gatados, tais como suas habilidades bélicas ou sua perícia com armas. Na sátira, por sua vez, Marte faria parte de uma paródia ou ironia, para acionar atributos que o satirizado não apresenta, podendo ser (e geralmente são) os mesmos atributos comuns aos anúncios encomiás- ticos. Desta forma, se o leitor (re)conhece as façanhas do deus Marte, possivelmente compreenderá sua apropriação tanto nos domínios da sátira quanto nos domínios do encômio. A diferença entre estas apro- priações deve ser levantada no ato da leitura, ou seja, é o auditório que deve ler os anúncios como sérios ou irônicos, fator responsável pela inversão de sentidos nas construções poéticas. A mesma figura de elocução, portanto, poderá ser utilizada para fins diversos, mas a atenção do leitor não deve se voltar para a tradição recuperada (que é a mesma), e sim para sua finalidade, após ser (re)contextualizada. No caso da apropriação das Parcas, a situação é similar: o poeta não evidencia qualquer apego às tradições mitológicas, tampouco crença numa tríade de fiandeiras 51 Ver: MORGANTI, B. F. A Mitologia n’Os Lusíadas – Balanço Histórico-Crítico. Dissertação (Mestrado). São Paulo: IEL/Unicamp, 2004, pp. 156-159. 56 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 que tecem uma linha cujos extremos são a vida e a morte. Quando se refere à “dura Parca” ele, analogicamente, remonta à dura morte, injusta e inevitável. Se o auditório reconhece o significado dessas tópicas, ele assimila não a tradição mitológica (que supostamente é comum à audiência), mas o engenho no qual ela se constitui e para o qual ela se (re)figura. Da mesma forma, um anúncio encomiástico poderia se apropriar dessas figuras, com a finalidade de rebuscar o engenho, exigindo-se do público a mesma assimilação da tradição, mas não dos critérios de recepção, que são inversos. Com um propósito educativo-político, Bento Teixeira e Gregório de Matos pretendem deleitar, ensinar preceitos morais e normas de conduta através do retrato poético dos homenageados, exortando seus auditórios a emulá- los (no caso dos encômios) ou a repudiá-los (no caso das sátiras). Para isso, é exigida dos poetas certa destreza no emprego de procedimentos “elocutivos”, assim como na eleição dos episódios mais (in)expressivos da vida dos homenageados/satirizados. A aceitação dessas obras (cunhadas em arranjo político) dependia da “distinção” argumentativa, das habilidades retóricas e da capacidade que o poeta tinha de mobilizar seu público. Em suma, a eficácia do efeito “educativo” dependia das habilidades do orador em moldar seus argumentos de acordo com o auditório, inspirando confiança, suscitando afetos e moldando posicionamentos; elementos fundamentais da retórica e, por extensão, das práticas poéticas seis- centistas. Dessa forma, os recursos estilísticos que retomam elementos da tradição pagã ampliam o alcance das obras e os valores morais que integram as “biografias” encomiásticas e satíricas. Nesse sentido, não admitimos que o uso dessas referências tenha um significado puramente ornamental em seu sentido mais pueril. O destaque de modelos (para fins elegíacos ou irônicos) depende do arsenal de referências que o poeta dispõe para intensificar e amplificar os requisitos que se espera ou não de um indivíduo. Apontar as glórias e vanglórias dos protagonistas levanta um quadro de qualidades e virtudes a serem espelhadas e uma relação de vícios e práticas a serem evitadas a todo custo. A eficácia e sucesso da propaganda política estão vinculados ao labor poético dispensado pelo autor e aos artifícios retóricos mobilizados pelo mesmo. As figuras de elocução, portanto, longe de atender somente às intenções particulares e “ornamentais” dos poetas, mobilizavam aspectos do imaginário e da cultura letrada da época, o que era fator decisivo na eficácia “propagandística” da obra e da sua verossimilhança para o público. Referências ABREU, J. C. de. Ensaios e estudos: crítica e história, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. BULFINCH, T. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. São Paulo: Martin Claret, 2006. CAMÕES, L. V. de. Os Lusíadas. Porto Alegre: L&PM, 2008. CASTELLO, J. A. Manifestações Literárias no Período Colo- nial (1500-1808/1836), São Paulo: Cultrix, 1981. COMMELIN, P. Mitologia grega e romana. São Paulo: Mar- tins Fontes, 1997. DELUMEAU, J. A Civilização do Renascimento, Lisboa: Es- tampa, 1994. 2 vols. DELUMEAU, J. História do medo no ocidente, 1300-1800: uma cidade sitiada, São Paulo: Companhia das Letras, 1993. ELIADE, M. Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva, 1972. GOMES, J. C. T. Gregório de Matos, o Boca de Brasa: Um Estudo de Plágio e Criação Intertextual. Rio de Janeiro: Vozes, 1985. HANSEN, J. A. Alegoria: Construção e interpretação da metáfora, São Paulo: Atual, 1986. HANSEN, J. A. A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII, São Paulo: Ateliê Editorial, Campinas: Editora da Unicamp, 2004. HANSEN, J. A. “O Discreto”. In: NOVAES, A. Libertinos e li- bertários.São Paulo: Companhia das Letras, 1996, pp. 77-102. HERMANN, J. No reino do desejado, São Paulo: Companhia das Letras, 1999. LUZ, G. A. “O canto de Proteu ou a corte na colônia em Proso- popéia (1601), de Bento Teixeira”. In: Tempo, Niterói-RJ: UFF, v. 25, pp. 193-215, 2008. LUZ, G. A. “A morte-vida do corpo místico: espetáculo fúnebre e a ordem cósmica da política em Vida ou Panegíri- co Fúnebre a Afonso Furtado de Mendonça (1676)”. In: ArtCultura, Uberlândia: UFU, no prelo (2008). MACEDO, J. R. Riso, cultura e sociedade na Idade Média. São Paulo: Editora Unesp, 2000. MARAVALL, J. A. A cultura do Barroco: Análise de uma Estrutura Histórica, São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1997. MATOS, G. Gregório de Matos: obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1999. MORGANTI, B. F. A Mitologia n’Os Lusíadas – Balanço His- tórico-Crítico. Dissertação (Mestrado). São Paulo: IEL/ Unicamp, 2004. 57Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009 WOLFF, F. “Quem é bárbaro?” In: NOVAES, A. Civilização e barbárie. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. PÉCORA, A. “A história como colheita rústica de exce- lências”. In: As excelências do governador: o panegírico fúnebre a d. Afonso Furtado, de Juan Lopes Sierra (Bahia, 1676). São Paulo: Companhia das Letras, 2002 PÉCORA, A. Máquina de gêneros, novamente descoberta e aplicada a Castiglione, Della Casa, Nóbrega, Camões, Vieira, La Rochefoucauld, Gonzaga, Silva Avarenga e Bocage, São Paulo: EdUSP, 2001. REBOUL, O. Introdução à retórica, São Paulo: Martins Fontes, 1998. STAROBINSKI, J. As máscaras da civilização: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. SOUZA, L. M. O Diabo e a Terra de Santa Cruz, São Paulo: Companhia das Letras, 1986. TEIXEIRA, B. Prosopopéia, Rio de Janeiro: Instituto Na- cional do Livro, 1972. VERÍSSIMO, J. História da Literatura Brasileira: de Bento Teixeira, 1601 a Machado de Assis, 1908, Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1981. VIEIRA, T. “Introdução”. In: CAMPOS, Haroldo de. Ilíada de Homero, vol. 1. São Paulo: Arx, 2003. 59Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67 — 1º sem. 2009 Das cinzas do Welfare State emergiam os principais temas que conformariam a agenda de discussões da esquerda “renovada”, nos anos 1980-2000. Em meados da década de 1970, o modelo de economia e sociedade consolidado após a Segunda Guerra Mundial fora intensamente criticado por uma fração dinâmica das elites intelectuais ocidentais, de orientação claramente reformista. Renunciavam tanto ao capitalismo acelerado de economia mista quanto ao comunismo do bloco soviético sem, contudo, aderir à “revolução do mercado” pregada já nestes tempos por Sir Keith Joseph que, retomando dos escombros de 1929 o pensamento do polêmico Friedrich A. Hayek através da influência de Milton Friedman, se tornaria o pai do Thatcherismo1. Sob a ótica destes intelectuais, o capitalismo do Welfare State, baseado nos pressupostos keynesianos de intervenção do Estado na atividade econômica e na promoção do pleno emprego e do “bem-estar social”, encontrava-se em uma encruzilhada criada pelas contradições de seus próprios fundamentos. Em outras palavras, para esta elite intelectual reformista, a cons- trução de uma “sociedade afluente”, onde as restrições materiais e espirituais pudessem ser sanadas através do consumo privado, dos serviços sociais públicos e do pleno emprego, naufragava sob o peso de suas próprias insuficiências, deixando para trás um rastro de desilusão — causada às massas, esperançosas de serem incluídas —, de destruição — dados os alegados danos ambientais e sociais provocados pela idéia do “crescimento como meio e fim” — e de desperdício — considerando a suposta incapacidade do Estado de atuar como empresário e regulador da atividade econômica. Para estes intelectuais, se nos anos 1930-1940 a intervenção do Estado teria sido importante para sanar dificuldades emergenciais, relacionadas a um contexto de crise econômica e de destruição material, a institucionalização deste inter- vencionismo nos anos 1950 teria demonstrado ser impraticável a longo prazo. Limites para o Crescimento A denúncia dos chamados “limites para o Ética e Sociedade Afluente: intelectuais e a agenda para uma esquerda reformista (anos 1970) Daniel de Pinho Barreiros Pós-Doutor em História pela UFF. Professor Civil do Colégio Militar do Rio de Janeiro. E-mail: barreiros.cmrj@gmail.com Resumo O artigo analisa comparativamente as idéias sociais de importantes intelectuais ligados ao debate político norte- americano, engajados na crítica ao Welfare State e ao capitalismo de crescimento acelerado, bem como traz à tona um momento importante da história intelectual do século XX, que se refere ao surgimento do conceito de sustentabilidade. Palavras-chave: Welfare State. Intelectuais. Sustentabilidade. Abstract The article analyses the social thought of some remarkable intelectuals that were engaged in the American political debate in the seventies. These thinkers were recognized for their partisan discourse against the Welfare State and the accelerated capitalism as well. Furthermore, the article sheds some light on the arousal of the concept of sustainability. Keywords: Welfare State. Intellectuals. Sustainability. 1 YERGIN, Daniel e STALINSLAW, Joseph, The Commanding Heights: the battle for the world economy. New York: Touchstone, 2002, p. 74-81. 60 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67 — 1º sem. 2009 crescimento” foi o ponto de cruzamento entre as principais linhas argumentativas contrárias à perma- nência do paradigma intervencionista keynesiano nas políticas econômicas nacionais. Muitos dos intelectuais envolvidos no debate — ligados ou não à “nova esquerda” — criticaram uma suposta orientação “produtivista” do capitalismo do pós-guerra, no qual os aumentos no PNB e a expansão do consumo privado seriam os índices de bem-estar por excelência, em detrimento de valores “não- econômicos” tais como o meio ambiente, a vivência social comunitária, a saúde e a cultura. Assim, várias foram as críticas à “ideologia do crescimento econômico acelerado” dos anos 1950-1960, diferindo entre si em aspectos gerais ou específicos. Elas convergem, no entanto, na rejeição ao capitalismo dirigido e a um padrão de desenvolvimento econômico considerado inadequado para os “novos tempos”. Fred Hirsch2, em seu trabalho Social Limits to Growth3, elaborado com apoio financeiro do Twentieth Century Fund e publicado em 19764, defendeu que as “sociedades afluentes” nos anos setenta — ou seja, aquelas marcadas pelo crescimento acelerado do pós- guerra e do Welfare State — apareciam como vítimas do que chamou de “paradoxo da afluência”: quanto mais o crescimento econômico tornava-se um objetivo premente, e quanto mais indivíduos aproximavam-se do “padrão de consumo”, mais decepcionantes seriam os frutos desta expansão econômica, e menor a satisfação e bem-estar obtidos com os mesmos. “Assim, a frustra- ção na afluência resulta de seu êxito em satisfazer ne- cessidades materiais previamente dominantes”5. Para Hirsch, uma sociedade cujo fim último reside na ex- pansão total do produto econômico — tal como defendi- do pela “ideologia do crescimento” dos anos 1950 — demonstra um amplo potencial de instabilidade social, tendo em vista que a disputa pelos chamados “bens posicionais” — produtos e serviços que conferem status ao indivíduo — torna-se mais agressiva na medida em que uma parte substancial da população ultrapassa o nível da subsistência básica. Em suma, o crescimento econômico e a difusão do consumoexpandiriam propor- cionalmente os níveis de conflito na sociedade, ao invés de reduzi-los6. Uma versão mais radical da idéia de “limites do crescimento econômico” pode ser encontrada na obra do economista E. F. Schumacher7, cujas propostas e diagnósticos quanto à crise do Welfare State tiveram ampla repercussão no seio do ativismo social dos anos 1970, em especial ligado a temas ambientais e à chamada “revolução do local”. Em Small is Beautiful8, publicado em 1973, Schumacher afirmava que as sociedades capitalistas de crescimento acelerado haviam alcançado seu ponto de inviabilidade, para o qual a única saída seria a revisão de todos os princípios ligados à vida social e econômica do ocidente, começando pela rejeição à ideologia do crescimento e aos valores sociais prove- nientes da Revolução Industrial. O problema residiria justamente na ainda ampla aceitação da idéia de uma 2 Fred Hirsch (1931-1978) nasceu na Áustria e graduou-se pela London School of Economics em 1952. Foi jornalista econômico e economista do Fundo Monetário Internacional. Tornou-se professor de Economia na Universidade de Warwick em 1975, poucos anos antes de sua morte. Foi autor de uma vasta quantidade de trabalhos sobre assuntos monetários internacionais e sobre questões inflacionárias, mas seu posicionamento liberal-esquerdista ganhou notoriedade ao final dos setenta com o livro Limites Sociais do Crescimento, elaborado durante sua permanência no Nuffield College, Oxford, entre os anos de 1972 e 1974. 3 A primeira edição de Social Limits to Growth foi publicada em 1976 pela Harvard University Press Cambridge, Massachussets, Estados Unidos. A tradução brasileira foi feita com base na terceira edição americana, pela mesma editora. HIRSCH, Fred. Limites Sociais do Crescimento. Trad. Waltersir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. 4 O Twentieth Century Fund foi, nos anos 1970, uma fundação independente, de orientação liberal-esquerdista, sem fins lucrativos, que tinha como missão financiar e elaborar estudos sobre instituições, questões econômicas, políticas e sociais. Atualmente chama- se The Century Foundation, tendo incluído em sua pauta de investigações os temas da desigualdade social, da previdência social, reformas eleitorais, estudos sobre a mídia e suas implicações sociais, segurança interna e assuntos internacionais. Possui escritórios em Nova Iorque e em Washington, D.C. 5 HIRSCH. Op. cit., p. 21. 6 Idem , p. 13-14; 20-21. 7 Ernst Friedrich Schumacher (1911-1977) nasceu na Alemanha e foi Rhodes Scholar em Oxford durante os anos 1930, onde estudou Economia, tendo sido acolhido como um “protegido” por Lord Keynes. Lecionou na Universidade de Colúmbia, Nova Iorque, antes de dedicar-se aos negócios, à agricultura e ao jornalismo. Durante a Segunda Guerra Mundial, retornou à Inglaterra onde retomou brevemente a vida acadêmica em Oxford. Terminado o conflito, entre 1946 e 1950, atuou como conselheiro da British Control Comission dedicada à recuperação da economia alemã. Entre 1950 e 1970, foi Chief Economic Advisor do British Coal Board, quando teria previsto a ascensão da OPEP e os problemas concernentes à energia nuclear. Em 1955, em visita à Burma como consultor, desenvolveu seu conceito de “Economia Budista”, rompendo com os paradigmas da Modernidade ocidental. 8 A primeira edição de Small is Beautiful no Brasil foi publicada pela Editora Zahar, Rio de Janeiro, em 1977, com o título O Negócio é Ser Pequeno: um estudo de Economia que leva em conta as pessoas. A primeira edição em inglês foi publicada na Grã-Bretanha por Blond & Briggs Ltd. No presente trabalho utilizamos a edição de 1974, publicada por Sphere Books Ltd, Londres, Inglaterra. SCHUMACHER, E. F. Small is Beautiful: a study of economics as if people mattered. London: Abacus, 1974. 61Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67 — 1º sem. 2009 “desejável afluência”, ou seja, de que o problema da produção havia sido resolvido com base no planejamen- to e no industrialismo. As sociedades industriais avan- çadas, na verdade, padeceriam de uma crise moral, autodestrutiva, que soterrava o “bem-viver” sob os cál- culos do PNB e da expansão do consumo de duráveis. A substância humana — dizia Schumacher — não pode ser medida pelos ganhos quantitativos proporcionados pela economia, e sim, pelos sintomas de perda obser- vados, com a expansão da criminalidade, do consumo de drogas e do vandalismo. Assim, “(...) nós temos que incisivamente entender o problema e começar a vis- lumbrar a possibilidade de desenvolver um novo estilo de vida, com novos métodos de produção e novos pa- drões de consumo; um estilo de vida voltado para a permanência”9. Mas por que a expansão econômica acelerada do pós- guerra não poderia prosseguir? Schumacher foi além da idéia de “limites físicos” para o crescimento econômico, denunciando também suas conseqüências morais. Condenou Keynes e os fomentadores do capitalismo dirigido por orientarem os homens e os sistemas econômicos no caminho da cobiça, desprezando assim todas as possíveis implicações éticas de uma expansão desenfreada do produto. Rejeitou ainda a idéia de que a construção da paz e do desenvolvimento social — pretensos frutos do Welfare State e do keynesianismo — seria possível por meio do incentivo à avareza, restando à ética contentar-se em vigorar tão somente no final deste processo, quando uma “sociedade plena” tivesse sido erigida. “Imediatamente encontramos uma séria difi- culdade: o que é “suficiente”? Quem pode nos dizer? Certamente não o economista que busca o ‘crescimento econômico’ como o mais nobre de todos os valores (...) onde está a sociedade rica que diz: ‘Chega! Temos o suficiente”? Ela não existe”.10 A “plenitude” e a “prosperidade” do Welfare State significavam, para Schumacher, a exaustão energética e ambiental do planeta, sendo portanto uma promessa impossível de ser cumprida. Assim, uma sociedade que buscasse valores voltados para a “vida humana” sim- plesmente não poderia prosseguir no caminho da busca de riquezas, tendo em vista que este não seria compatível com a realidade de um meio ambiente limitado. “O Produto Interno Bruto pode crescer rapidamente: tal como medido pelos estatísticos, mas não do modo como é vivenciado pela população, que encontra-se oprimida pela crescente frustração, alienação, insegurança, entre outros”11. Assim, na medida em que as nações tornam- se industrialmente “bem sucedidas”, se defrontam com problemas morais e espirituais que devem passar a ocupar uma posição central no espectro de atenções da sociedade. Toda expansão das necessidades tende a expandir a dependência em relação à forças externas que não se pode controlar, assim aumentando o temor existencial. Apenas pela redução das necessidades é que se pode promover uma genuína redução nestas tensões que são as causas últimas do conflito e da guerra.12 Estas questões morais estariam ligadas, portanto, à busca da sabedoria, ou em outras palavras, da perma- nência, da sustentabilidade da vida no planeta13. A materialidade dos Limites para o Crescimento Hirsch rejeitou a preponderância dos “limites físicos” para o crescimento, afirmando que as conclusões obtidas por Meadows em The Limits to Growth não expressavam o verdadeiro dilema do capitalismo ocidental nos anos 197014. Os entraves à expansão econômica não estariam ligados necessariamente à escassez de recursos naturais — considerando-se a inovação tecnológica e a capacidade de substituição destes insumos por outros —, e uma situação de inviabilidade do sistema não estaria situada num horizonte “distante” de um século. Para Hirsch, os entraves já estariam plenamente presentes naquela década, com conseqüências menos apocalípticas que as vislumbradaspela equipe do MIT. “Nesse sentido, a preocupação com os limites do crescimento expressada 9 SCHUMACHER. Op. cit., p. 10-11; 16-17. 10 Id., p. 19. 11 Ibid., p. 25. 12 Ibid. , p. 26-27. 13 Ibid., p. 18-27. 14 Refere-se ao o relatório “The Limits to Growth”, elaborado pela equipe do ambientalista Dennis L. Meadows, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), e apresentado ao Clube de Roma em 1972, no âmbito do projeto “On The Predicament of Mankind” (“Sobre o Desafio da Humanidade”). 62 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67 — 1º sem. 2009 pelo Clube de Roma está notavelmente mal colocada”15. O cerne do problema estaria na “falsa promessa” do Welfare State, de que o crescimento econômico ace- lerado e a intervenção do Estado no pós-guerra gerariam uma nova sociedade, materialmente afluente, com renda democratizada, paz social e bem-estar garantidos. Ao contrário, os valores tidos como hegemônicos sob o Welfare State teriam aguçado o conflito social e a com- petitividade entre os indivíduos, provocando assim diversas fontes de frustração e mal-estar existencial. A disseminação da economia material e do acesso aos bens de primeira necessidade nas sociedades indus- triais — portanto, a elevação do nível de consumo privado individual — teria deslocado o significado do “bem-estar” para além das condições de vida “dignas”, depositando- o no consumo cada vez mais intenso dos chamados “bens posicionais”, ou seja, a) passíveis de escassez física ou social (jóias, obras de arte, produtos industriais de tira- gem limitada, artesanato de luxo); ou b) impassíveis de consumo generalizado, sob pena de congestionamento e desvalorização (manufaturados de altíssima tecnolo- gia, veículos de luxo, turismo, vários serviços pessoais, serviços educacionais “especiais”, etc). Em suma, era o acesso aos chamados “bens de status” que determinaria, na sociedade do Welfare State, os vencedores e os per- dedores. Ocorre que a elevação geral das rendas nacio- nais por meio do crescimento econômico — e como conseqüência, a expansão do poder aquisitivo da popu- lação como um todo — não permitiria, por definição, que a “riqueza oligárquica” — a aquisição de bens posicionais —, fosse difundida pela sociedade. O acesso a estes bens de status seria determinado pela renda relativa, isto é, pela posição hierárquica atingida pelo indivíduo no conjunto das rendas pessoais, e não pela renda absoluta. Uma pessoa pode aumentar sua capacidade de adquirir [bens posicionais] melhorando sua posição na distribuição de renda e riqueza, isto é, tornando-se mais rica em relação aos seus próximos. O mesmo resultado não será obtido se ela tornar-se mais rica juntamente com aqueles que a cercam (...).16 O crescimento econômico geraria expectativas de uma completa distribuição do acesso aos bens posicionais em toda a sociedade; tal possibilidade seria, no entanto, uma completa mistificação, na medida em que os meca- nismos de preços tenderiam a encarecer os bens de status de acordo com os níveis de crescimento da renda global, conservando assim a hierarquia de consumo. “As esco- lhas oferecidas pelas oportunidades de mercado são celebradas como um elemento libertador para o indi- víduo. Infelizmente, a libertação individual não se faz para todos os indivíduos em conjunto” 17. Em suma, o crescimento econômico acirraria o conflito distributivo, ao invés de amenizá-lo. Hirsch enfatizou as implicações coletivas das deci- sões individuais, sob orientação da lógica de mercado. Tomando como exemplo a crença, generalizada nos anos sessenta e setenta, de que o investimento pessoal em capital humano (educação e treinamento) seria um dos principais vetores de difusão do bem-estar material (através de empregos de maior remuneração), afirmou que a expansão desenfreada da demanda por serviços educacionais de todo o tipo reduziu, e não expandiu, a possibilidade de prosperidade econômica para uma maior parcela da população. Na medida em que o acesso à educação desempenha uma notória função hierarqui- zadora nas sociedades de capitalismo avançado — fun- cionando, portanto, como um bem posicional —, e a elevação do número de diplomados não é acompanhada pela mesma expansão de postos de trabalho de alta renda, os critérios de seleção tornam-se cada vez mais proibitivos, preservando-se a hierarquia no acesso aos bens de status. Assim, a tomada de decisões individuais em um ambiente de acirrada competição provoca gran- des perdas sociais, ao invés de ganhos. “(...) o desperdício social resultará das expectativas decepcionadas dos indivíduos e da frustração que experimentam em terem de aceitar empregos em que não podem usar plena- mente o conhecimento adquirido”18. “O valor, para mim, da minha educação depende não só do seu grau, mas também do grau de educação do homem que está à minha frente na fila de candidatos a um emprego”19. O mesmo raciocínio valeria para o consumo de todos os 15 HIRSCH. Op. cit., p. 17. 16 Id., p. 58-59. 17 Ibid., p. 46. 18 Ibid., p. 81. 19 Ibid., p. 16. 63Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67 — 1º sem. 2009 bens posicionais, condição de obtenção do “bem-estar” sob o Welfare State: “Em lugar de aliviar a procura insatisfeita no sistema econômico, o crescimento ma- terial a exacerba, a esta altura. O centro da instabilida- de é a divergência entre o que é possível ao indivíduo e o que é possível para todos”20. Quanto maior a renda mé- dia na sociedade, maiores seriam as frustrações pela preservação das hierarquias. O progresso geral sob o capitalismo acelerado seria, portanto, para Hirsch, uma ilusão21. Hirsch e Schumacher não foram os porta-vozes privilegiados de uma vanguarda, e sim, exemplos de um ambiente intelectual em transformação nos anos setenta. Suas críticas não foram únicas, e as especificidades de suas análises não representavam espécie alguma de discurso comum. Suas preocupações gerais faziam coro com uma gama de outras, demonstradas por intelectuais progressistas e ativistas sociais. Gradualmente, o resul- tado deste esforço intelectual em conjunto foi o bastante para transformar os parâmetros nos quais o problema do desenvolvimento econômico era pensado por forças políticas no campo dos partidos de esquerda reformistas. Limites Conceituais para o Crescimento Além dos limites físicos e dos limites sociais, foi comum entre as elites intelectuais reformistas a idéia de limites conceituais e teóricos para o crescimento eco- nômico; ao desconsiderar questões basilares e enfatizar outras, deletérias ou desnecessárias, a ciência econômica — referência intelectual das lideranças políticas e empre- sariais — viria transformando a interação entre Socie- dade e Economia em uma relação de submissão da primeira em relação à segunda. Assim, mais uma vez, o capitalismo de crescimento acelerado revelaria outra de suas “perversas” faces, ao descumprir as promessas do Welfare State de uma vida plena e livre. É do economista tcheco Eugen Löbl22 uma im- portante critica setentista à ciência econômica ocidental. Em Humanomics23, de 1976, Löbl atacou dois séculos de pensamento econômico ao rejeitar os pressupostos da economia clássica, bem como da economia neoclássica, da revisão keynesiana e do marxismo, entendidos todos eles como frutos de uma concepção de ciência inadequada, e portanto, indesejável pelas suas conseqüências. Para Löbl, parte substancial dos problemas pro- vocados pelo capitalismo acelerado e pelo Welfare State provém de uma concepção de Economia que descon- sidera o Homem em sua condição fundamental de criatura pensante, na medida em que adota princípios mecanicistase objetivistas como instrumentos de explicação da dinâmica econômica. Para que o sistema econômico sirva ao Homem, e não o inverso — o Homem seja escravo de sua própria criação —, é preciso que este mesmo sistema seja regido por concepções cientifico- filosóficas que valorizem o emprego das capacidades intelectuais de cada indivíduo, bem como o poder hu- mano de escolher e direcionar o destino das sociedades. Entretanto, desde Quesnay e Smith, a Economia teria sido constituída como uma ciência tipicamente new- toniana, que considera a dinâmica econômica de forma mecânica, regulada por leis objetivas e invariáveis, externas portanto ao controle humano. Marx também teria respondido a esta mesma lógica objetivista ao formular os princípios do materialismo dialético, e Key- 20 Ibid., p. 103. 21 Ibid., p. 15-16; 50-51; 61-64; 74-84; 101-103. 22 Eugen Löbl (1907-1987) nasceu em Holitz, Império Austro-Húngaro (atualmente Holíè, República Eslovaca). Formou-se em Engenharia, tendo prosseguido seus estudos em Viena. Na juventude participou de grupos de intelectuais esquerdistas. Sob a influência destes grupos ingressou no Partido Comunista de Tchecoslováquia em 1931. Em 1937 tornou-se Secretário da União de Amigos da União Soviética. Em 1939, migrou para Londres sob ordens do Partido, atuando no Fundo para Refugiados Tchecos. Em 1943 foi indicado pelo governo tcheco, no exílio em Londres, como Conselheiro do Ministro da Economia Ján Masaryk, e ocupou cargo de destaque no Ministério para Renovação Econômica da Tchecoeslováquia. Foi Ministro do Comércio Exterior de 1945 até 1949, quando foi preso sob influência do governo soviético e expulso do Partido, acusado de traição e de reformismo (defendia a intensificação do comércio com o Ocidente, por exemplo). Foi condenado à prisão perpétua em 1952 por traição, espionagem e sabotagem, e em 1955, escreveu testemunho sobre os métodos de investigação, interrogatório e julgamento do governo comunista tcheco. Em 1960, Löbl foi solto, e em 1963, “reabilitado”. Atuou no Banco Estatal da Tchecoeslováquia como Diretor Regional. Insatisfeito pelo cargo ocupado, e cioso por tornar práticas suas idéias de reforma econômica, desejava retomar o cargo de Ministro do Comércio Exterior, mas sem sucesso. Convidado a palestrar em países capitalistas, teve várias permissões negadas pelo governo. Em 1967, a Academia Eslovaca de Ciências publicou um de seus libelos contra o marxismo e a favor de transformações políticas e econômicas em seu país (“Úvahy o Duševnej Prácia Bohatstve Národa”, ou “Reflexões sobre o Trabalho Intelectual e a Riqueza das Nações”). Com a Primavera de Praga e a repressão soviética a partir de 1968, Löbl deixa seu país e migra para os Estados Unidos, tendo atuado como Professor de Economia e Ciência Política no Vassar College, de Nova Iorque, até 1976. 23 Humanomics: how we can make the economy serve us, not destroy us foi publicado pela primeira vez em 1976, pela Random House de Nova Iorque, Estados Unidos. Foi publicado no Brasil como LOEBL, Eugen. A Humanoeconomia: como poderemos fazer com que a economia nos sirva e não nos destrua. Trad. César Tozzi. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978. 64 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67 — 1º sem. 2009 nes não teria oferecido qualquer alternativa aos prin- cípios positivistas presentes no pensamento econômico neoclássico. A orientação geral da ciência econômica contem- porânea teria sido, para Löbl, a ênfase em aspectos quan- tificáveis, fazendo cristalizar-se a idéia, por exemplo, de que a Economia não é nada mais que o conflito em torno da distribuição de recursos escassos. Todos os demais aspectos que efetivamente movem os sistemas econô- micos — aqueles que não podem ser quantificados — seriam sumariamente desprezados. A Economia mo- derna seria também uma ciência desprovida de noção de tempo e espaço. Na medida em que se limita a analisar “o que produzir, como e para quem”, o pensamento econômico ocidental do mainstream permitir-se-ia comparações absurdas, tais como entre economias tri- bais e o turbo-capitalismo norte-americano, vistas como “diferentes” somente no que diz respeito à quantidade de conhecimento acumulado em uma e em outra. Ape- sar, portanto, de sua ênfase no “quantificável” e no “com- provável”, a ciência econômica ocidental, para Löbl, estaria desligada de toda a complexidade da realidade social. A crise da economia, responsável pela crise socio- econômica de nossos dias, não se deve a qualquer de- ficiência dos economistas, nem à falta de seu conhe- cimento ou sofisticação. Deve-se a estes princípios básicos da economia, inclusive seus sistemas de referência.24 As relações de mercado, a determinação dos preços e a idéia de Equilíbrio, todas elas concebidas como ex- pressões de forças para além do Homem, seriam na verdade concepções falaciosas ou totalmente desprovidas de sentido25. Hirsch e Schumacher também criticaram a ênfase nos aspectos “quantificáveis” por parte da ciência eco- nômica tradicional, em especial no que diz respeito aos procedimentos de cálculo do Produto Nacional Bruto, medida “por excelência” do bem-estar sob o capitalismo acelerado do Welfare State. Para Hirsch, o PNB repre- sentaria um ícone do reducionismo e da ineficiência da teoria econômica, na medida em que contabiliza indis- criminadamente “toda” a produção e o consumo em uma sociedade, não levando em conta o essencial, que seriam as especificidades do mesmo processo de consumo e de produção. Sob este raciocínio, a expansão do uso pessoal de combustível para aquecimento em um inverno rigo- roso significaria “aumento de consumo”, que por sua vez indicaria uma absoluta melhoria do bem-estar da po- pulação. Da mesma forma, a expansão dos gastos posi- cionais com educação indicariam uma elevação do bem- estar da população. A expansão da produção e consumo de automóveis também seria um importante índice nos cálculos do Produto Nacional, bem como a elevação dos gastos governamentais na contenção da poluição. Entretanto, em nenhum destes casos o cálculo do PNB revelaria realmente algo sobre a “felicidade” e o bem- viver em uma dada sociedade: a maior utilização de combustível representou mais despesas para o consu- midor, a contratação de dispendiosos serviços educa- cionais representou um “gasto defensivo” contra a concorrência, mais veículos em circulação provocam maior emissão de poluentes e congestionamento urbano, com conseqüências para a saúde humana. Assim, con- cluía que “(...) a noção de bem-estar se relaciona com a qualidade das necessidades, e não apenas com a diferen- ça algébrica entre necessidades subjetivas e sua satis- fação (...)” 26. Assim, a orientação benthamita na concei- tuação do bem-estar nas sociedades capitalistas ociden- tais — onde a capacidade aquisitiva é o critério mais im- portante — provocaria distorções graves; seria insufi- ciente para apreender o fato de que quanto mais necessi- dades básicas são atendidas pela indústria, novas e mais refinadas necessidades são criadas, gerando uma espécie de consumo que é antes defensivo — ou seja, uma forma de preservar o lugar na hierarquia social — que real- mente um índice de melhoria de vida27. Segundo Schumacher, a Economia teria ultrapassado os limites em que uma ciência poder ser socialmente benéfica, na medida em que pretendia normatizar toda a realidade. A teoria econômica convencional, quando enfatiza o cálculo do Produto Nacional Bruto como índice de bem-estar, deixa de responder a questões morais e éticas. Seria o crescimento do PNB algo “bom” ou 24 Id., p. 30. 25 Ibid., p. 26-44. 26 HIRSCH. Op. cit., p. 93. 27 Ibid., p. 85-97. 65Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67— 1º sem. 2009 “ruim”? Quem se beneficia dele e como? “A idéia de que pode existir um crescimento patológico, um crescimen- to insalubre, desagregador e destruidor é para ele [o economista tradicional] uma idéia perversa que não deve ser permitida de emergir” 28. A desmedida influência da teoria econômica sobre as sociedades e governos modernos expressar-se-ia pela sua capacidade em determinar aquilo que é “econômico” (ou seja, válido de ser buscado) e o que é “não-econômico”. Assim, os economistas viriam utilizando-se da relação custo- benefício e do valor monetário como uma forma de analisar qualquer aspecto da vida humana, mesmo a exploração do “capital natural” consubstanciado nos recursos renováveis e não-renováveis. Não levar-se-ia em conta que a expansão do consumo e da produção requer suprimentos de recursos escassos, que não poderiam ser disponibilizados “magicamente” por meio do mercado. “O único critério para determinar a im- portância relativa destes diferentes bens é a taxa de lu- cro que pode ser obtida disponibilizando-os”29. “Em outras palavras, nós devemos esperar que a Economia estabeleça suas metas e objetivos a partir de um estudo do Homem, e que a metodologia para este estudo deve, ao menos em grande parte, se estabelecer a partir do estudo da Natureza” 30. Assim, as distorções provocadas pela compreensão equivocada dos economistas deveriam ser revertidas através de uma ciência econômica mais reflexiva31. Considerações finais: por um novo modelo de desenvolvimento nos anos 1970 Apontando, portanto, limites sociais e conceituais para o crescimento econômico, estes intelectuais reformistas deram, nos anos 1970, um importante passo rumo à conceituação de um novo padrão de desenvolvimento, que buscava oferecer uma alternativa de superação do capitalismo do Welfare State. Estas alternativas va- riaram conforme o diagnóstico da crise assumido por cada um dos intelectuais envolvidos no debate sobre os limites para o crescimento. Schumacher destacou a importância das pequenas unidades produtivas, do emprego de trabalho humano e de métodos e processos poupadores de recursos naturais. Ao reconhecer os limites morais do crescimento eco- nômico, buscou conceber alternativas para um padrão de desenvolvimento baseado em “(...) uma nova orien- tação de ciência e tecnologia em direção ao orgânico, ao gentil, ao não-violento, ao elegante e ao belo”32. Acreditou que um futuro próspero e sustentável para a civilização dependia da produção e difusão de maqui- nário e instrumentos de trabalho com baixo custo, fomentando assim o deslocamento da ênfase na grande indústria — erro fatal do capitalismo acelerado do Welfare State — em direção à redução das unidades produtivas até atingir-se a completa disseminação do auto-emprego. Um sistema econômico baseado em produtores autônomos e servido por bens de capital compatíveis garantiria o resgate do trabalhador como sujeito de seu próprio destino, bem como teria impactos positivos na eliminação do desemprego estrutural. Métodos e técnicas voltados para o auto-emprego valorizariam a criatividade humana, contribuindo para consolidar uma filosofia do trabalho que não o enten- desse como uma atividade automática e alienada, e sim como algo “decretado pela Providência”, para o bem do corpo e da alma. O ponto de partida de um novo padrão de desenvolvimento estaria em “(...) um planejamento para o pleno emprego, e o seu propósito principal seria o emprego para todos que precisam de um emprego “externo”: isto não seria a maximização do emprego, nem a maximização da produção”33. Além disso, pequenas unidades produtivas e produção em pequena escala tenderiam a ter um menor impacto sobre o meio ambiente que aquele provocado pelas grandes in- dústrias34. A preocupação ambiental é marcante no padrão de desenvolvimento desenhado por Schumacher, em especial através de suas concepções sobre a relação entre o homem e a terra nas práticas agrícolas. Em uma so- ciedade voltada para a permanência e para a susten- tabilidade, o uso adequado do solo não deveria ser 28 SCHUMACHER. Op. cit., p. 40. 29 Ibid., p. 40-41. 30 Ibid., p. 38. 31 Ibid., p. 33-42. 32 Ibid. , p. 26-27. 33 Ibid., p. 47. Schumacher entendia que as mulheres não precisariam de “trabalho externo”, uma vez que suas tarefas em cuidar dos mais jovens já seriam trabalho suficiente e necessário. 34 Ibid., p.26-31. 66 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67 — 1º sem. 2009 entendido como uma questão de ordem econômica, e sim, antes de tudo, metafísica. Em outras palavras, a transposição da lógica industrial para a agricultura — redução de custos e elevação da eficiência produtiva — estaria levando a uma ruptura danosa na harmonia existente entre a humanidade e o Planeta, entendidos como uma unidade no ciclo da vida. A agricultura, que representaria o manejo de processos vitais, estaria sendo paulatinamente moldada de acordo com os parâmetros da indústria, que simbolizaria a eliminação do “fator vivo” da produção através da automação e do uso de insumos sintéticos. Desta forma, o balanço entre o “natural” e o “criado” estaria sendo corrompido, amea- çando a permanência da civilização. Os recursos na- turais (...) são fins em si mesmos; são meta-econômicos, e por isso é racionalmente justificável dizer que (...) são sagrados de alguma forma. O homem não os fez, e seria irracional para o homem tratar coisas que não foram e nem podem ser feitas ou recriadas por ele após des- truídas da mesma forma que trataria obras de sua pró- pria criação.35 Um novo padrão de desenvolvimento, portanto, não poderia prescindir de uma agricultura sustentável, onde fosse possível manter o homem em contato com a natureza viva, enobrecer o habitat e produzir alimentos e materiais necessários para uma vida digna. “Podemos dizer que o manejo da terra pelo homem deve ser prioritariamente orientado na direção de três objetivos — saúde, beleza e permanência. O quarto objetivo (...), produtividade, será então obtido quase como um sub- produto”36. A sustentabilidade deveria ser fomentada por meio de políticas públicas que viabilizassem a recons- trução da cultura rural, a difusão do acesso à terra, e o desenvolvimento territorial local (ou seja, a agricultura sustentável da localidade produzindo alimentos e materiais com mão-de-obra e insumos locais, para o consumo da população local). Produção através de recursos locais para necessida- des locais é a forma mais racional de vida econômica, enquanto a dependência de importações e a conseqüente necessidade de produzir para exportar para pessoas distantes e desconhecidas é não-econômica e justificada somente em casos excepcionais, e em pequena escala.37 Assim, um melhor caminho para a obtenção da permanência seria o abandono completo da idéia de crescimento econômico e o apoio a atitudes modestas de “não-violência”, como aquelas demonstradas pelos conservacionistas, ecologistas, promotores da agricultura orgânica, entre outros. O conhecimento, a ciência e a tecnologia também cumprem um papel fundamental na análise de Löbl. Acreditava que uma nova sociedade e um novo padrão de desenvolvimento deveriam contemplar ou adviriam das “novas” tecnologias da informação e das comu- nicações, entendendo-as como a chave de um mundo pós-industrial. Para Löbl, o conhecimento humano é a origem de toda a riqueza, e não a terra, ou o capital, ou o trabalho, tal como postulado em diferentes momentos pela teoria clássica, neoclássica e marxista. Em um tempo no qual a ciência aplicada havia substituído o trabalho manual na transformação das forças naturais em forçasprodutivas, a capacidade intelectual apareceria como elemento chave na viabilização do desenvolvimento econômico. O pensamento seria o principal motor do “ganho” em uma sociedade, que consistiria da elevação dos padrões de vida, relativamente desconexo em rela- ção ao processo de crescimento econômico em si. Um medicamento qualquer, por exemplo, poderia ser inter- pretado como um produto de avançados processos industriais, ou como um fator de “ganho” para a socie- dade, na medida em que permitiria expandir o bem-estar e a expectativa de vida, bem como reduzir o sofrimento advindo de uma moléstia. Remédios, assim como muitos outros “fatores de ganho”, seriam produtos do intelecto humano antes de serem fruto do output industrial. “‘Ganho’ se materializa em riqueza, num padrão mais elevado de vida, e num grau mais elevado de inde- pendência da natureza, para citar algumas mani- festações”38. Concluindo, um novo padrão de desenvolvimento demandaria uma nova tecnologia, que pudesse superar 35 Ibid., p. 88. 36 Ibid., p. 93. 37 Ibid., p. 49. 38 LOEBL. Op. cit., p. 10. 67Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67 — 1º sem. 2009 a degradação dos recursos ambientais e o desemprego, e não agravá-los, tal como aconteceria sob o capitalismo acelerado. Além de dimensões econômicas e sociais evidentes, a tecnologia poupadora de trabalho — e con- sumidora de energia — teria conseqüências existenciais graves, na medida em que o homem ver-se-ia cada vez mais privado do trabalho criativo, com intensas impli- cações lúdicas, que lhe permitiria um contato saudável com o mundo material. “A quantidade de satisfação real de que uma sociedade desfruta tende a ser inversamente proporcional à quantidade de maquinaria poupadora de trabalho empregada nela”39. Assim, a tecnologia deveria ser utilizada de forma “sábia” e “não-destrutiva”, de modo a auxiliar no aumento do tempo social gasto com tra- balho manual; tal orientação não implicaria a redução do bem-estar, haja visto que o labor tenderia, desta forma, a aproximar-se cada vez mais do lazer, perdendo paulatinamente sua dimensão rotineira e alienada, aproximando-se do emprego pleno da criatividade e das potencialidades individuais. “Poderíamos chamar isso de tecnologia de auto-ajuda, ou tecnologia popular, ou democrática — uma tecnologia em que todos são permitidos e que não está reservada aos que já são ricos e poderosos”40. As sociedades ocidentais — inclusive aquelas em processo de “desenvolvimento — não neces- sitariam de produção em massa, mas sim, “produção para a massa e pela massa”, através de métodos ecoló- gicos e descentralizados.41 Referências BELL, Daniel. O Advento da Sociedade Pós-Industrial: uma tentativa de previsão social. Trad. Heloísa de Lima Dantas. São Paulo: Cultrix, 1977. DRUCKER, Peter. Uma Era de Descontinuidade: orientações para uma sociedade em mudança. Trad. J.R. Brandão Aze- vedo. Rio de Janeiro: Zahar, 1970. HIRSCH, Fred. Limites Sociais do Crescimento. Trad. Waltersir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. LOEBL, Eugen. A Humanoeconomia: como poderemos fazer com que a economia nos sirva e não nos destrua. Trad. César Tozzi. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978. MEADOWS, Dennis et al. The Limits to Growth: a report for the Club of Rome’s project on the predicament of mankind. 2. ed. New York: New American Library, 1975. SCHUMACHER, E. F. Small is Beautiful: a study of economics as if people mattered. London: Abacus, 1974. WOODWARD, Herbert N. Capitalismo Sem Crescimento. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1977. YERGIN, Daniel e STALINSLAW, Joseph, The Commanding Heights: the battle for the world economy. New York, Tou- chstone, 2002. 39 SCHUMACHER. Op. cit., p. 124. 40 Ibid., p. 128. 41 Ibid. , p. 84-95; 122-132. 69Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009 Introdução O presente artigo pretende apontar as característi- cas dos caminhos seguidos pelo governo angolano após a independência em relação à questão do desenvolvi- mento agrário. O ideal marxista-leninista assumido oficialmente pelo MPLA teve impacto importante nas políticas para o setor da agricultura. Na primeira parte do artigo apresentamos o am- biente político no contexto da independência de Angola, e o desequilíbrio instalado no país. A seguir, procura- mos chamar atenção para a estrutura do Estado que nascia, e direcionamos posteriormente para as difi- culdades da experiência agrícola em Angola. Os desdobramentos políticos após a independência de Angola em 11 de novembro de 1975 Os movimentos de libertação colonial em Angola (MPLA1, FNLA2 e UNITA3) estavam divididos e enfraque- cidos na altura da Revolução dos Cravos (25 de abril de 1974), no qual o Movimento das Forças Armadas de Portugal derrubou o regime salazarista de Marcelo Caetano. As características da experiência socialista na agricultura de Angola após a independência Rodrigo de Souza Pain Doutor pelo Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA /UFRRJ). Membro do Centro Angolano de Altos Estudos Internacionais (CAAEI). E-mail: rodrigo_pain@ig.com.br Ivan Arruda Mestrando em Educação pela Pontifícia Universidade Católica da Campinas. Professor da Faculdade de Pindamonhagaba-SP (FAPI). E-mail: profivanarruda@hotmail.com Resumo As dificuldades encontradas na recém independente República Popular de Angola, principalmente no desenvolvimento agrário está no centro do artigo. Desta forma, apresentamos a criação de instituições no seio do governo socialista do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), a instabilidade política vivida no país, o conflito armado e suas implicações para a agricultura. Palavras-chave: Agricultura. Angola. Socialismo e Desenvolvimento Agrário. Abstract The difficulties found in just the independent Popular Republic of Angola, mainly in the agrarian development are in the center of the article. In such a way, we present the creation of institutions in the socialist government of the Popular Movement of Release of Angola (MPLA), the instability politics lived in the country, the armed conflict and its implications for agriculture. Keywords: Agriculture. Angola. Socialism and Agrarian Development. 1 A origem do MPLA data-se como partido político em 10 de dezembro de 1956, fundado como resultado da fusão de outras organizações. Sua base de apoio saiu das comunidades de brancos, mestiços e Kimbundu. 2 A FNLA surgiu entre o povo Bacongo, do norte de Angola. Suas origens vêm da fundação da UPNA (União dos Povos do Norte de Angola) e UPA (excluindo a referência do norte) em julho de 1955. Inicialmente o idealismo da UPA partia da idéia de reativar o antigo Reino do Congo. Em março de 1962, forma a FNLA com a unificação da UPA com o Partido Democrático de Angola (PDA). 3 A UNITA foi o último dos três movimentos a ser fundado. Jonas Savimbi, seu líder, acusou Holden Roberto, líder da FNLA de regionalismo e faccionismo quando trabalhavam juntos. Sua base de apoio principal é entre o povo Ovimbundu do Planalto Central, e principal grupo étnico de Angola. Sua fundação data o dia 13 de março de 1966. 70 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009 Após diversas negociações, chegou-se ao Acordo de Alvor, que previa um governo de transição com repre- sentantes do governo português e dos três movimentos até a independência, prevista para 11 de novembro de 1975. No entanto, esse governo de transição não consegue por fim as hostilidades entre esses três movimentos, que aumentam o contingente militar, continuandoa guerrear entre si, colocando Portugal, que passava por uma instabilidade política interna, sem condições suficientes para impor o previsto no Acordo. Destarte, a guerra civil instala-se no país e o MPLA vence a “batalha de Luanda”, em Julho de 1975 passando a ser o único movimento no governo, controlando militarmente doze das então dezesseis províncias do país. Próximo ao dia marcado para a independência, o Alto Comissário e demais membros portugueses de gover- nação e do exército se retiram de Angola, entregando o poder de soberania “nas mãos do povo angolano”. O MPLA proclama então a independência, em Luanda, sob a liderança de Agostinho Neto, no meio de conflitos armados generalizados, com duas invasões estrangeiras (África do Sul e Zaire) e intervenção cubana. Dessa ma- neira, a independência, conforme aponta o sociólogo José Maria Nunes Pereira Conceição, em sua tese de dou- torado, nasce no interior de uma crise generalizada4. Uma das conseqüências do período da guerra da independência foi o abandono maciço dos portugueses de terras angolanas. As terras ocupadas por eles, e por alguns estrangeiros foram deixadas de lado quase na totalidade. Como a política agrícola que surgia no seio do Partido Único naquele momento não encorajava a ini- ciativa privada, muito menos familiar, as áreas efetiva- mente agricultáveis foram drasticamente reduzidas, au- mentando por outro lado, as terras efetivamente vagas. Nesse contexto, é importante salientar que o perío- do anterior à independência e caracterizado da luta de libertação nacional (a partir dos meados dos anos 1950) não provocou danos substantivos à produção agrária da colônia, pois ela foi travada basicamente em áreas sem grande importância econômica e jamais alcançou níveis de alta intensidade como nos conflitos armados que se seguiram5. Devido ao clima de instabilidade na época da independência, Angola sentiu com o êxodo de mais de 300.000 colonos brancos6. Estrutura política angolana pós-independência Em parte da Angola independente, o movimento de libertação que assumiu o controle do poder, o MPLA, tornou-se partido único e, dois anos depois, adotou o marxismo-leninismo como sua doutrina e de Estado, transformando-se em MPLA-PT (Partido do Trabalho)7. Assim, o centro de todas as decisões importantes da sociedade e do Estado estava localizado no partido. Isto significa, pelo menos na teoria, que é o partido quem comanda o Estado8. O governo esteve formalmente subordinado ao MPLA. A política econômica foi con- duzida por um “partido-Estado” que via na naciona- lização dos meios de produção uma forma de demo- cratização das estruturas econômicas do país. Os órgãos governamentais em funcionamento ao nível nacional eram o Comitê Central, a Divisão Política do MPLA e o Conselho de Ministros, responsável pela implementação das políticas do partido. No que diz respeito ao judiciário9, a Constituição adotada em 1975 estipulava um judiciário independente, mas de 1976 até o início dos anos 1990, a principal instância jurídica foi o Tribunal Revolucionário do Povo que interrogava prisioneiro acusado de por em perigo a segurança do Estado, ou de algum tipo de sabotagem econômica10. 4 CONCEIÇÃO, José Maria Nunes. Angola: uma política externa em contexto de crise (1975-1994). Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo, 2002, p.14. No próprio dia 11 de novembro de 1975 eram criados dois Estados: a República Popular de Angola, com capital em Luanda e dirigido pelo MPLA; e a República Democrática de Angola, com capital em Huambo e encabeçada pela FNLA e UNITA (essa aliança durou apenas oitenta dias). 5 Idem , p. 60-61. 6 GALLI, Rosemary E. A crise alimentar e o Estado socialista na África Lusófona. Revista Internacional de Estudos Africanos, n. 6-7, Lisboa, 1987, p.146. 7 O MPLA podia ser considerado como uma coalização de várias forças nacionalistas e socialistas, e era fortemente influenciado pelo marxismo. No entanto, a construção de uma economia e sociedade socialista não consta na versão original da Lei Constitucional de 1 9 7 5 . 8 Simbolicamente ao analisar a bandeira do país recém independente e do partido, já nota-se semelhanças; assim como a idéia socialista presente no hino angolano. 9 A dificuldade para desenvolver o sistema judiciário foi muito grande, em Angola tinham apenas 4 advogados e 2 juizes no exato momento da independência. 10 TVEDTEN apud LIBERATTI, Marco Antonio. A guerra civil em Angola: dimensões históricas e contemporâneas. Dissertação de Mestrado, Universidade de São Paulo, 1999, p. 62. 71Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009 Também foram criados grupos políticos filiados ao MPLA, organizações que congregam de formas abran- gentes categorias sociais, considerados genericamente como organizações de massa, e serviam de elo entre o aparato burocrático -administrativo do Estado angolano — e sua sociedade. Como exemplos podemos citar, a Organização das Mulheres Angolanas (OMA), a Ju- ventude do Movimento Popular de Libertação de Angola JMPLA), a União dos Jornalistas de Angola, e na área sindical, União Nacional dos Trabalhadores Angolanos (UNTA)11. No campo econômico seguindo a teoria marxista, a estruturação do setor industrial estatal foi criada a partir de confiscos, nacionalizações e da construção das uni- dades econômicas marcou o início da Primeira Repú- blica. As mais diversas formas de organização criadas em substituição ao aparelho do Estado colonial portu- guês não encontravam dinamismo necessário à conso- lidação e desenvolvimento das estruturas do Estado, objetivando a construção do socialismo12. Na área educacional, na altura da independência, apenas 85 % da população era iletrada e a saída radical dos colonos significava também a fuga de professores. Na verdade, a educação colonial herdada, no qual um dos principais objetivos, segundo o educador brasileiro Paulo Freire, era a “desafricanização” das populações autóctones, sendo discriminadora e em nada poderia concorrer no sentido da reconstrução nacional, pois era para isto não fora construído13. A escola colonial era antidemocrática nos seus objetivos, no seu conteúdo, nos seus métodos, divorciada da realidade do país, era, por isso mesmo, uma escola de poucos, para poucos e contra as grades maiorias. Selecionava até mesmo a pequena minoria dos que a ela tinham acesso, expulsando grande parte deles após os primeiros encontros com ela, e, conti- nuando a sua filtragem seletiva, aumentando o número dos renegados. Esses renegados em quem enfatizavam o sentimento de inferioridade, de incapacidade, em face do seu “fracasso”14. Dessa forma, o setor educacional converteu-se na grande prioridade nacional para o novo governo socialista. Ao mesmo tempo, numerosos centros de alfabetização foram ligados a empresas, mercados e outras zonas de trabalho onde se concentrava a po- pulação adulta. Porém, o grande crescimento alfa- betizador desvaneceu progressivamente com a chegada cada vez mais agressiva da guerra civil. A violenta conjunção dos legados coloniais e bélicos deixou as infra- estruturas educacionais devastadas, uma contínua falta de professores, muitas crianças fora da escola, e claro, uma profunda incapacidade do governo na solução destes problemas. No campo político, a tentativa de golpe de Nito Alves abala a sociedade luandina. Em maio de 1977, con- tradições sobre as formas da construção do socialismo conduziram a uma tentativa de golpe de Estado, cuja resposta em defesa da “causa socialista” acaba com uma parte significativa da “burguesia nacionalista angolana”, o que viria a fazer de Angola um país mais fragilizado nas vertentes políticae militar. O número exato daqueles que foram mortos ainda é desconhecido, mas estimado em dezenas de milhares. A Assembléia do Povo é estabelecida em 1980 e era eleita por um sistema de voto indireto por membros do MPLA. Com 350 membros, tinha pouca influência, e não representava adequadamente as mulheres, camponeses e trabalhadores. Marco Antonio Liberatti, em sua dis- sertação de mestrado, afirma que as maiorias dos mem- bros eleitos eram provenientes das áreas urbanas e eram, em grande medida de alto escalão militar e funcionários do governo. Além disso, a característica mais acentua- da do sistema político vigente em Angola era a forte concentração de poder nas mãos do Presidente, que era líder do Partido, Chefe do Estado e Comandante — chefe das Forças Armadas.15 A instabilidade que se seguiu no período de inde- 11 A UNTA talvez tenha sido a organização mais relevante em face ao desafio da reconstrução nacional e da transição para economia socialista. Era importante para o MPLA ter uma força de trabalho eficiente e organizada. No entanto, seu impacto foi limitado pelas tarefas contraditórias de criar um sistema sindical forte e independente e de manter a produtividade e a disciplina no trabalho de acordo com as diretivas do partido (Tvedten apud Liberatti, Op.cit., p. 63). 12 AMARAL, José G. Dias. Angola: a crise econômica na Primeira República. Lucere. Revista Académica da Universidade Católica de Angola. Ano 1, número 1, Luanda, 2004, p. 53-54. 13 Apesar do autor analisar a experiência na “Guiné portuguesa” (hoje Guiné Bissau), pode-se muito bem falar na semelhança da política colonial em Angola. 14 FREIRE, Paulo. Cartas à Guiné-Bissau. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p. 15. 15 Fernando Pacheco comenta que é freqüente hoje (2004) atribuir todos os malefícios da vida política, social e econômica ao período do facista-colonial e ao Leninismo, o que para ele não é verdadeiro. Tanto as práticas facistas (como culto ao chefe, por exemplo), como as leninistas (submissão à direção centralizadora), complementam a matriz cultural bantu e, hoje, isso têm efeitos perniciosos na sociedade. Também não faz parte das práticas angolanas a prestação de contas, no sentido de dar satisfação, apresentar resultados 72 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009 pendência não permitiu que os processos de indus- trialização e crescimento econômico tivessem conti- nuidade. O sistema dualista de uso da propriedade de terras e do desenvolvimento da agricultura continuou a influenciar socialmente e politicamente o contexto angolano mesmo após a independência16. Os governos do MPLA (Agostinho Neto até 1979 e José Eduardo dos Santos em diante) têm-se vindo a pautar por uma posição que privilegia os centros urbanos, remetendo as populações rurais para uma crescente situação de exclusão que se traduz em vários domínios, sejam políticos, sociais, econômicos, institucionais, territoriais, ou de referências simbólicas. Isso explica, para o Presidente da ONG angolana Acção para o Desenvol- vimento Rural e Ambiente (ADRA), Fernando Pacheco, o desenvolvimento da guerrilha da UNITA entre 1976 e 199117. Situação da agricultura angolana em uma conjuntura de crise A Lei Constitucional de 1975, em seu artigo número 8, apontava “a República Popular de Angola considera a agricultura como base e a indústria como fator decisivo no seu desenvolvimento”. Em 1978, o governo decidiu chamar de ano da “ano da agricultura”, com a finalidade de aumentar a produção agrícola, com todas as van- tagens que daí poderiam ocorrer para a satisfação das necessidades alimentares da população, para o abas- tecimento de matérias primas para a indústria ou ainda para melhorar a balança comercial (pela diminuição das importações e pelo aumento dos produtos agrícolas exportáveis). Procurou-se, desta forma, mobilizar toda a força de trabalho disponível.18 No entanto, a partir da independência percebe-se uma queda acentuada na produção agrícola. De acordo com a FAO, estima-se que a produção agrícola tenha decaído sucessivamente desde 1974/1975. Não se possuem dados relativos às produções de 1974, 1975 e 1976 devido à situação de guerra. Em 1977 começaram as primeiras informações estatísticas ainda insuficientes para uma análise mais precisa19. Em 1983, por exemplo, as co- lheitas atingiram o índice 77 (para 100) quando com- paradas a 1973. A mesma tendência se verificou na produção de cereais, índice 66 em 1983.20 O MPLA instituiu um sistema estatal de comercialização que, segundo a acadêmica Rosemary Galli, não oferecia preços convenientes para estimular a produção, nem era capaz de fornecer aos camponeses transportes ou abastecimentos regulares quer de bens de consumo, quer de bens de capitais21. Portanto, as políticas econômicas traçadas ao longo do período que sucede a independência de Angola mos- traram-se em práticas desajustadas aos objetivos pre- conizados e à realidade concreta do país, com reflexos mais acentuados no campo. O acesso à terra urbana e rural não foi uma fonte de preocupação em Angola nos primeiros anos após a independência. A nacionalização foi o caminho encontrado. O documento produzido pelas ONGs ACORD (Association Pour la Cooperation, re- cherche et developement) e ADRA (Acção para o Desen- volvimento Rural e Ambiente), elaborado por Júlio de Morais e Fernando Pacheco, apontam que tal fato foi agravado pelo distanciamento entre as estruturas de de uma ação de que se é incumbido, por parte dos líderes, dos chefes, aos liderados. Isso tanto acontece ao nível da família, como na comunidade ou na nação. PACHECO, Fernando. Uma proposta de valorização da tradição e da cultura e favor do desenvolvimento e da modernidade. Lucere. Revista Acadêmica da Universidade Católica de Angola. Ano 1, número 1, Luanda, 2004, p. 79a. 16 O sistema dualista era rigorosamente dividido (inclusive em termos de estatística) no período colonial, entre a agricultura tradi- cional e empresarial. A primeira, grosso modo, estava ligada aos autóctones (sendo o meio de vida da maioria do povo angolano), fornecendo elementos básicos para o mercado interno (mas com participação na exportação) e com recursos bem limitados de investimento; a segunda, em oposição a tradicional, seguiu um modelo europeu, produzia bens de exportação, com significativos investimento na produzia bens de exportação, com significativos investimentos na produção e com número limitados de produtos. Segundo Pacheco, a sociedade angolana ainda não se livrou desse dualismo. 17 PACHECO, Fernando. Caminhos para a cidadania: poder e desenvolvimento ao nível local na perspectiva de uma Angola nova. ADRA, Luanda, 2004, mimeo, p. 02b. 18 FERREIRA, Manuel Ennes. A indústria em tempo de guerra (Angola, 1975-1991). Instituto de Defesa Nacional, Cosmos, Lisboa, 1999, p. 33-34. 19 MINPLAN apud AMARAL, J. G. D. Angola: a crise econômica na Primeira República. Lucere. Revista Acadêmica da Universidade Católica de Angola. Ano 1, n. 1, Luanda, 2004. p.56. 20 Em face de 1973, de forma marcante: sisal, tabaco, café e algodão atingiram 10%, 2%, 5% e 0,35% em 1987. FERREIRA, Op. cit., p.35. Conforme o MPLA / PT, já em 1980, a produção mercantil controlada pelo Estado não tem permitido senão satisfazer cerca de 12% das necessidades alimentares da população urbana e dos operários agrícolas e de cerca de 15% das necessidades da indústria de matérias primas. (Idem.) 21 GALLI, R. E. A crise alimentar e o estado socialista na África Lusófona. Revista Internacional de Estudos Africanos, n. 6-7, Lisboa, dez. 1987. p. 146. 73Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009 concepção e de orientação global e as de execução, mostrando-se essas últimas incapazes de seguire materializar as políticas traçadas. Esta situação, no caso concreto do setor agrário, conduziu à marginalização dos camponeses em relação à vida econômica, social e política do país. Além disso, as medidas de política agrária foram condicionadas pelas distorções de caráter macroeconômico traduzidas pelas falta de incentivos à produção, na inadequação dos preços, na falta de prioridade e oportunidade dos meios de produção e dos investimentos, na política de quadros e também na ausência de uma legislação fundiária que permitisse um correto ordenamento das diferentes formas de pro- priedade ou usufruto da terra22. Outro elemento muito importante depois da in- dependência foi a crescente migração para as cidades, especialmente para Luanda. O colapso da economia pouco depois da independência, que abrangeu plantações coloniais e as redes de comerciantes “do mato” (do interior), levou, tal como a intensificação da guerra no país, um número considerável de habitantes das áreas rurais para as cidades. O conflito militar agravou o isolamento e a crise econômica nas zonas rurais e, sobretudo os jovens deixaram as áreas rurais pelas cidades, mesmo onde a segurança física não estava em causa. No entanto, a deteriorização gradual da situação militar e o aumento da insegurança nas zonas rurais tornaram-se a principal razão da migração para as cidades23. Em suma, o declínio da agricultura angolana teve início logo após a sua independência. No entanto, vale dizer, não só angolana. Como salienta o escritor moçambicano José Negrão, embora a questão da apropriação da terra africana pelos africanos estivesse na ordem do dia dos recém criados Estados modernos, as problemáticas da dimensão da exploração agrícola e do papel do mercado internacional, foram ignoradas pela maioria dos políticos das décadas de 1960 e 70. As terras foram desprezadas, os saberes produtivos e mercantis das populações rurais foram ignorados, a substituição das elites coloniais pelas emergentes africanas tomou corpo através da hiper- intervenção do Estado e a rápida transformação dos camponeses em trabalhadores rurais foi tida como a única alternativa para se fazer face à crescente de de- terioração dos termos de troca. Nesse contexto, o dualismo colonial foi mantido e os Estados continuaram a selecionar as melhores terras ou para elites locais ou estrangeiras ou para empresas geridas por esse mesmo Estado24. São quatro os elementos apontados pelo Professor da Universidade Católica de Angola, António Cardoso, e que caracterizam o declínio da agricultura angolana. Para o autor, logo após a independência, a população rural, com baixos índices de formação profissional, ficou sem o apoio das infraestruturas científicas, técnicas econômicas e de formação profissional, devido à fuga maciça dos técnicos agrários qualificados e dos colonos que detinham a rede de comercialização e drenagem dos produtos agro- pecuários25; outro elemento está associado aos colonos que abandonaram as fazendas e a maior parte foi na- cionalizada. O Estado procurou assumir a sua gestão sob a forma socialista, tentando garantir, no mínimo, o salário dos trabalhadores que lá se haviam mantido e assegurar a continuidade do fluxo produtivo, princi- palmente em relação ao café. Mas tudo isso resultou em fracasso; o terceiro ponto foi o aumento geral da popu- lação, que depois da independência cresceu em cerca de cinqüenta por cento, conjugado com as quebras da pro- dução de culturas alimentares essenciais, veio acentuar o desequilíbrio produção / necessidade de consumo; e por fim, as áreas rurais, mesmo quando relativamente auto-suficientes em produtos agrícolas, não encontravam estímulos para a produção de excedentes, devido não só a acentuada deficiência nas comunicações e transportes, como à inadequada política de preços e mercados26. Diante disso, Angola perdeu completamente a sua po- sição no mercado internacional dos produtos agrícolas de exportação. Passou de exportador líquido de produ- 22 ACORD – ADRA. Programa de apoio às comunidades agro-pastoris dos Gambos. Relatório do workshop sobre a terra e o poder. Lubango, 1996, p. 67. 23 DEVELOPMENT WORKSHOP. Terra. Reforma sobre a terra urbana em Angola no período pós-guerra: pesquisa, advocacia e políticas de desenvolvimento. Luanda, 2005, p. 67. 24 NEGRÃO, José. A indispensável terra africana para o aumento da riqueza dos pobres. Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, 2002, p.03-04. 25 Até 1975, Angola dispunha de bons estudos relacionados com a sua disponibilidade de recursos naturais, como o Instituto de Investigação Agronómica de Angola (IIAA), o Instituto de Investigação Científica de Angola(IICA), A Missão de Inquéritos Agrícolas de Angola(MIAA), entre outros. 26 CARDOSO, António. A análise da situação do sector agrário em Angola. Conferência Nacional: o papel da agricultura no desenvolvimento sócio-económico de Angola. Luanda, 2004, p.06-07. 74 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009 tos agrícolas para importador de grande parte dos produtos que consome. O que marcou esse contexto foi à incapacidade do setor estatal responder às necessidades básicas do país. O setor agrícola, apesar de contar com 80% da popu- lação, foi o menos beneficiado em termos de inves- timento. Como aconteceu em muitos países subde- senvolvidos, as cooperativas e associações foram vistas basicamente como instrumentos a serviço do Estado e não como estruturas de autopromoção, geridas pelos próprios camponeses na base da voluntariedade e da participação. Mesmo como instrumentos a serviço do Estado, as organizações camponesas apresentavam-se como uma realidade apenas para as instituições di- retamente ligadas ao processo, estabelecendo-se, de acordo com as ONGs ACORD e ADRA, a contradição entre as organizações camponesas e as estruturas de direção global, para as quais as associações tinham uma compreensão pouco clara, e preteridas na concepção e priorização de programas27. Nos primeiros anos de independência, mais de 92.000 camponeses tinham respondido ao apelo do governo para formar cooperativas. Gerou-se grande entusiasmo, mas o governo não forneceu nenhum apoio de fato.28 Conforme traz Conceição, de acordo com um cooperante brasileiro em Angola: “a opção cooperativa inicial foi angolana, mas depois, os assessores (búlgaros) a tro- caram pelas fazendas estatais (...). Para eles, as coope- rativas agrícolas eram suspeitas na medida em que mantém o processo de comercialização nas mãos dos camponeses (...) que passam a ter não somente força econômica, como política29. O controle estatal atingia não somente as empresas industriais, agrícolas e de comércio, mas igualmente os pequenos camponeses individuais que não estavam organizados em coope- rativas e empresas estatais, conforme se depreende das afirmações do Presidente angolano, Agostinho Neto, em sintonia com as teorias marxistas, “o camponês tem em si, um gérmen capitalista. O sonho de um camponês qual é? É ter uma grande propriedade (...) para ter muitos lucros. E o seu lucro aumenta à custa dos trabalhadores que ele assalariou. É um explorador”.30 Ao caracterizar o movimento cooperativo e asso- ciativo da agricultura angola, as ONGs ACORD e ADRA diferem momentos de ação nos primeiros anos da independência. Durante os primeiros meses após no- vembro de 1975, e no seguimento do que havia acon- tecido na última fase de transição, a responsabilidade do movimento cooperativo esteve a cargo da CADCO (Comissão de Apoio e Dinamização de Cooperativas, criadas pelo Governo de Transição) como estrutura multisetorial. As primeiras ações da CADCO com relação às cooperativasnas áreas rurais visaram o apoio às iniciativas em curso caracterizadas, de forma genérica, pela existência de “uniões” de cooperativas viradas para o abastecimento em bens de consumo e geridas por funcionários públicos, responsáveis políticos ou pessoas ligadas às instituições sociais e religiosas. As cooperativas integrantes dessas “uniões” eram constituídas por camponeses que não tinham praticamente intervenção na gestão da mesma nem qualquer outro tipo de participação. Assim, constituiu prioridade da CADCO procurar, através da prática da participação, modificar a situação vigente o que provocou obviamente contra- dições com as direções das “uniões”, acabando estas desaparecendo por dificuldades de gestão ou imposição administrativa31. Com a extinção dessa instituição logo após a inde- pendência, a responsabilidade passou para os vários Ministérios, assumindo a pasta da Agricultura, a tarefa de não só tutelar o setor cooperativo, mas também de apoiar a sua ampliação, organização e consolidação. Assim foi criado a DNACA (Direcção Nacional de Coope- rativização Agrícola e Apoio aos Camponeses Indi- viduais), que revela através de estatísticas oficiais, um crescimento contínuo do número de associações e asso- ciados até 1981. Contudo, tal evolução não correspon- deu a um aumento da importância das cooperativas e 27 ACORD – ADRA, 1991, p.68. 28 Wolfer e Bergerl apud Galli, Op. cit., p. 148. 29 SARAPU apud CONCEIÇÃO, J. M. N. P. Angola: uma política externa em contexto de crise (1975-1994). Tese de doutorado. Universidade de São Paulo, 1999. p. 142. 30 Manuel Ennes Ferreira salienta que esta forma de entender tal problema não é do que a transposição direta e acrítica do discurso soviético. No caso africano um tal discurso revela, em muitos aspectos, um desconhecimento da realidade e está em contradição com os estudos de antropologia e economia africana, onde o camponês e a sociedade tradicional se regem por princípios e no quadro de estruturas que só em parte têm a ver com a propriedade privada e os mecanismos “puros” do mercado. (NETO apud FERREIRA, Op. cit., p.24.). 31 ACCORD – ADRA. Programa de Apoio as Comunidades Agro-Pastoris dos Gambos. Relatório do workshop sobre a terra e o poder. Lubango, agosto, 1996. p. 11. 75Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009 associações tanto ao nível das comunidades rurais, como na participação do Produto Agrícola Bruto do país32. Entretanto, ao nível de base, a intervenção por parte do Estado foi atribuída as EDA (Estações de Desenvol- vimento Agrário) que, tuteladas pela DNACA e mais tarde pelo IDA (Instituto de Desenvolvimento Agrário), ficaram dessa maneira com a responsabilidade do apoio técnico-material aos camponeses e suas associações. Num período em que o setor estatal deixou de ter significado (com exceção do setor do café), era tarefa da EDA promover a produção camponesa destinada aos circuitos mercantis33 e também de chegar até os camponeses os serviços encarregados da distribuição de meios, incluindo sementes, fertilizantes, maquinarias, pesticidas, entre outros. Além disso, consistia também na mobilização e agrupamento das cerca de 700 000 famílias camponesas em associações pré-cooperativas fundamentalmente com o objetivo de receber assistência técnica34. A mais importante inovação das EDAs, conforme aponta Galli, foi a tentativa do governo em descentralizar os serviços em lugar de confiar exclusivamente nas entidades nacionais e provinciais que tinham ignorado os camponeses35(1987:148). Nas áreas de intervenção das EDAs36 assistiu-se a uma relativa melhoria do apoio técnico e material às associações que ganharam uma nova dinâmica e passaram a apresentar resultados produtivos significativos, como no caso das culturas de milho, algodão e tabaco. No entanto, as EDAs basearam a sua intervenção num esforço de modernização da agricultura cam- ponesa, para a qual não havia a necessária capacidade em termos de organização, gestão e recursos. Recorria- se muitas vezes à mecanização e promovendo os blo- cos culturas como forma de organização da produção, as EDAs não providenciaram outras medidas com- plementares de caráter técnico e organizativo que permitisse a modernização pretendida. Criou-se, dessa maneira, um ambiente de dependência mais pautado nas associações em relação ao Estado, o que foi, agravado por uma degradação progressiva das outras estruturas do setor agrário. Com intuito de preencher um vazio político, o MPLA-PT decidiu pela criação da UNACA (União Nacional dos Camponeses Angolanos), com a idéia de permitir uma maior participação dos campo- neses na vida econômica, social e política do país, o que veio a acontecer em fevereiro de 199037. A criação da UNACA, apesar de ser uma emanação do MPLA -Partido do Trabalho, e não o resultado de um processo de organização a partir da base gerou de- terminadas expectativas. No ato de sua constituição, a UNACA definiu atitudes e traçou programas de ação que poderiam resultar numa maior aproximação aos pro- blemas do campo e, conseqüentemente, a uma maior aproximação dos camponeses na resolução de assuntos do seu interesse. Todavia, na prática não se cumpriam essas intenções, tendo aumento a burocracia e o distanciamento em relação ao campo(Acord e Adra, 1991: 20-21). Portanto, com a independência, Angola ficou liberta dos condicionalismos legais (lei do condicionamento industrial, regime de pagamentos externos, entre outros) impostos pela ex-metrópole ao seu desenvolvimento industrial. Porém, eram então considerados pelo novo poder instituído como a causa da situação caótica do caos econômico, situações objetivas como: a guerra de agressão imperialista e o eclodir da guerra civil, a pilhagem efetuada pelos exércitos invasores (África do Sul, por exemplo), a conseqüente política de confiscos e nacionalizações levado ao extremo, a ausência de estruturas administrativas, o êxodo dos portugueses que detinham o poder econômico, entre outros aspectos menos relevantes38. Ferreira aponta outras causas que foram fundamentais para a baixa da produção e de produtividade em quase todos os setores foram sendo oficialmente atribuídos à: fraca capacidade organizati- va das empresas39; carência generalizada de quadros qualificados; decrescente disciplina laboral; deficiente 32 Idem, p.13-14 33 Idem, p. 20. 34 GALLI, Op. cit. , p. 147. 35 Idem, p. 148. 36 Inicialmente em Malanje, esse movimento alarga-se para outras províncias, principalmente Huíla, enquanto em Huambo, a situação de segurança já era bastante precária, foi constituída apenas uma EDA (Acord e Adra, Op. cit. p.16). 37 Era estruturada ao nível nacional, na província e nos municípios, tentou orientar e dirigir o movimento cooperativo dinamizando seu desenvolvimento e promovendo a realização de assembléias camponesas. 38 AMARAL, Op. cit., p. 52. 39 O índice de industrialização passou de 100 em 1974 (base de partida) para 24,3 em 1989 e para 13,2 em 2000 (Rocha, 2004:65). 76 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009 abastecimento de matérias-primas e outros meios necessários às empresas; falta de engajamento no domínio da direção da economia, particularmente no que respeita às empresas do Estado, e finalmente, especulação dos preços no mercado negro40. É claro que a agricultura sofreu de modo direto e intenso os efeitos da situação de guerra. Esses efeitos fizeram-se sentir em diversos níveis, impedindo o trabalho agrícola direto, que impossibilitava o fun- cionamento dos mecanismos de comercialização e distribuição, e dificultava o acesso de meios de produção, fertilizantes, entre outros, ao campo. Portanto,não é de estranhar, de acordo com Ferreira, o impacto deses- tabilizador da situação de guerra. Se por um lado criaram-se enormes dificuldades às grandes produções agrícolas para exportação (café, sisal, algodão, bananas, etc), por outro, a pequena produção comercializável não encontrou canais de escoamento (mercados rurais ou outras formas de comercialização/distribuição). A quebra dos níveis de produção e o autoconsumo são, desta maneira, duas conseqüências inevitáveis. A produção alimentar desceu em 26% em 1981, sendo preciso importar 200.000 toneladas de milho. Enquanto nas cidades se faziam sentir carências, no campo passou a haver fome41. Assim, com o abandono dos campos agrícolas e a paralisação da quase totalidade da indústria trans- formadora e extrativa, subsistiram, apenas, o café, o petróleo e o diamante, que viriam a suportar a estratégia de uma “economia de resistência” centralmente dirigida, cujos reflexos, no desenvolvimento econômico e social do país, não se fizeram sentir, além do fato do esforço de guerra que a situação exigia42. O café teve resultados catastróficos por parte do governo, que não conseguiu atingir os níveis de produção obtidos em 1973. O declínio do setor estatal a favor do setor privado na comercialização do café torna-se latente no final da década de 198043. Em 1992, o Estado deixa de ter o monopólio das exportações do café. O diamante também entrou em declínio após a independência. A Companhia de Diamantes de Angola, (DIAMANG) não conseguiu se reabilitar durante a Primeira República. Amaral aponta que os investimentos efetuados nesse setor obedeciam mais a critérios de natureza política e militar do que econômica, quer por razões do exercício da soberania em áreas de ações de guerra, quer por se tratar de um recurso estratégico que era necessário preservá-lo do acesso ao inimigo, pela sua importância como fonte de financiamento de ações armadas da UNITA contra o Governo44 . Depois da independência, o Governo considerou prioritária a formulação de uma política nacional para o setor petrolífero. A gestão do setor petrolífero não obedeceu aos desígnios de uma estratégia para a construção do “socialismo científico”45, pois, por força dos acordos existentes com as empresas multinacionais, assistiu-se à implementação de uma estratégia su- bordinada aos interesses do capitalismo, por isso mesmo, contrária à criação de uma sociedade de cunho socialista em Angola46. Essa situação, Conceição chamou de “paradoxo angolano”, pois sua economia dependeu, desde o tempo colonial, basicamente do Ocidente, tanto em termos de mercado, quanto de investimentos e tecnologia. O petróleo (nunca inferior a 80% na aquisição de divisa no período pós-independência) tinha, e continua a ter, nos Estados, o seu maior comprador e investidor, através das petrolíferas americanas como a Chevron, Texaco e outras, incluindo também as européias47. O curioso é que os centros de decisão das multinacionais petrolíferas estavam sediados em países capitalistas que apoiavam a guerra contra o governo que proclamara a indepen- dência do país. Estes financiavam “o desenvolvimento econômico e social do Angola” em troca de garantias 40 FERREIRA. Op. cit., p. 35-36. 41 GALLI. Op. cit., p. 146. 42 AMARAL. Op. cit., p. 56. 43 Nos cinco anos que antecederam 2ª República, o setor estatal comercializou 56,9% contra 43,1% do setor privado. Já no ano de 1992, a comercialização do privado foi de 92,9% contra apenas 7,2% do setor estatal. Pode-se pensar que esses números se devem à estratégia do Governo, consubstanciada no Programa de Redimensionamento Empresarial do Setor Cefeícula, cujos efeitos práticos se traduziram na restituição do setor privado de cerca de 300 fazendas com uma área superior a 100.000ha. (Amaral, Op. cit., p. 6 2 ) . 44 Idem, p. 64. 45 O socialismo científico foi desenvolvido no século XIX por Karl Marx e Friedrich Engels. Suas idéias rompem com o socialismo utópico por apresentar uma análise crítica da realidade política e econômica, da evolução da história, das sociedades e do capitalismo. Eles defendem uma ação mais prática e direta contra o capitalismo através da organização revolucionária da classe proletária. 46 Idem, p. 67. 47 CONCEIÇÃO. Op. cit., p. 42. 77Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009 dadas pelo potencial de produção petrolífera (reservas), inviabilizando, dessa maneira, o “socialismo científico”, e hipotecando para o futuro das gerações angolanas vindouras, ficando o país aprisionado aos interesses estratégicos e vitais do capitalismo48 . O agravamento constante da situação política, eco- nômica, social e, sobretudo militar produziu uma conjuntura favorável à intervenção na regulação social de outros atores, para além do partido-Estado e das suas projeções organizativas de massas. O colapso do modelo socialista no final dos anos 1980 provocou várias mudanças na política e na estratégia do MPLA. A construção de uma economia de mercado passou a exigir uma classe empresarial dinâmica que pretendeu criar a partir das elites políticas e militares. Foi nesse contexto que se decidiu redimensionar as propriedades do Estado, com a privatização e o adequar a dimensão das empresas às capacidades técnicas e de gestão de novos proprietários. No entanto, para Fernando Pacheco, esse segundo componente foi esquecido. No caso das empresas agrícolas, a ausência de um cadastro atualizado foi determinante para que as propriedades fossem privatizadas de acordo com a situação e a dimensão anteriores, ainda que as terras fossem cedidas apenas em termos de direito de uso.49 Considerações finais O presente artigo apresentou de forma simplificada as características que direcionaram as ações do MPLA com relação ao seu projeto de desenvolver a agricultura após a independência. A dificuldade com a saída de quadros técnicos portugueses foi sentida, e a tentativa da superação dos problemas do jovem país que surgia veio com programas de inspiração marxista. No entanto, Angola perdeu rapidamente sua posição no contexto de grande exportador de culturas como o café, para ficar dependente de exportação de produtos primários, como também de ajuda alimentar. O artigo mostrou a turbulenta conjuntura política vivida por Angola naquele contexto para a melhor compreensão da dificuldade enfrentada na questão agrária, e a dificuldade do povo naquele momento. As implicações do modelo socialista, numa sociedade marcada pela instabilidade política e administrativa, foram fundamentais para o fracasso da agricultura logo após a independência. Referências ACCORD – ADRA. Programa de Apoio as Comunidades Agro- Pastoris dos Gambos. Relatório do workshop sobre a terra e o poder. Lubango, agosto, 1996. AMARAL, José G. Dias. Angola: a crise económica na Primeira República. Lucere. Revista académica da Univer- sidade Católica de Angola. Ano 1, nº1, Luanda, 2004. CARDOSO, António. A análise da situação do sector agrário em Angola. Conferência Nacional: o papel da agricultura no desenvolvimento sócio-econômico de Angola. Luanda, 2004 CONCEIÇÃO, José Maria Nunes Pereira. Angola: uma polí- tica externa em contexto de crise (1975-1994). Tese de dou- torado. Universidade de São Paulo, 1999. DEVELOPMENT WORKSHOP (DW). Terra. Reforma sobre a terra urbana em Angola no período pós-guerra: pesquisa, advocacia e políticas de desenvolvimento. Luanda, 2005. FERREIRA, Manuel Ennes. Angola: da política às relações econômicas com Portugal. Cadernos econômicos Portugal. Angola- Lisboa, 1993. ______. A indústria em tempo de guerra (Angola, 1975- 1991). Instituto de Defesa Nacional, Ed. Cosmos, Lisboa, 1999.FREIRE, Paulo. Cartas à Guiné-Bisssau. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. GALLI, Rosemary E. A crise alimentar e o estado socialista na África Lusófona. Revista Internacional de Estudos Africanos, n. 6-7, Lisboa, dez, 1987. LIBERATTI, Marco Antonio. A guerra civil em Angola: dimensões históricas e contemporâneas. Dissertação de 48 AMARAL. Op. cit., p. 67-68. 49 PACHECO. Caminhos para a cidadania: poder e desenvolvimento a nível local na perspectiva de uma Angola nova. ADRA, Luanda, 2004b, mimeo. P. 2. 78 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009 Mestrado. USP, São Paulo, 1999. NEGRÃO, José. A indispensável terra africana para o aumento da riqueza dos pobres. UEM, Maputo,2002. OLIVEIRA, Hermes de A. Povoamento e promoção social em África. Lisboa, 1971. PACHECO, Fernando. Uma proposta de valorização da tradição e da cultura em favor do desenvolvimento e da mo- dernidade. Lucere. Revista académica da Universidade Católica de Angola. Ano 1, Vol.1, Luanda, 2004a. ______. Caminhos para a cidadania: poder e desenvolvi- mento a nível local na perspectiva de uma Angola nova. ADRA, Luanda, 2004b, mimeo. ROCHA, Alves da. Documento informativo sobre a actual situação econômica em Angola. Fundação Friedrich Ebert. Luanda, 2004. 79Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009 Um dos objetivos deste artigo é refletir sobre as condições de inclusão social das pessoas com deficiências. Para isso, faz um breve apanhado das relações sociais que possibilitará ocorrer a referida inclusão. Outra preocupação diz respeito às representações sociais, na sociedade brasileira, em relação a essas pessoas. Uma tentativa de explicitar os muitos obstáculos enfrentados por elas requer que se leve em consideração a dimensão cultural, sobretudo no que diz respeito às imagens preconceituosas (inválidos) ou de piedade (coitadinhos), assimiladas no decorrer do processo his- tórico por grande parte da população brasileira, assim como em diversas outras sociedades. Esses são valores impregnados, muitas vezes até inconscientemente, nos indivíduos, que alimentam estereótipos e estigmas, tendo, como conseqüência, a exclusão social, até mesmo por desconhecimento da realidade e da potencialidade destas pessoas. Portanto, ao ditar normas e estabelecer padrões de competência de forma cristalizada a sociedade brasileira coloca os indivíduos com deficiência em po- sição de inferioridade. Resta-lhes, assim, enquadrar-se dentro do que está estabelecido por este modelo de “nor- malidade produtiva” na tentativa de alcançar algum grau de aceitabilidade e, por conseguinte, reduzirem-se a marginalização e segregação em que se encontram. Entretanto, só é possível falar em inclusão porque conhecemos e convivemos com a exclusão. Por isso mesmo, as respostas para as indagações que envolvem inclusão social dos mesmos demandam compreender, também, a situação de exclusão, seu processo histórico, atores e movimentos. Entre preconceitos, vitimização e incapacidade: os deficientes e as imagens que reforçam a segregação social* Eliete Antônia da Silva Mestranda em História pela Universidade Federal de Uberlândia na linha de pesquisa Imaginário e Política, sob orientação do Prof. Dr. Antônio de Almeida. Professora de História da rede estadual de ensino. E-mail: elieteantonia@yahoo.com.br Resumo Este artigo aborda a marginalização e a segregação das pessoas com deficiência, como resultado de violências e coerções que operam no plano simbólico do imaginário e das representações e se manifestam nas mais variadas formas de preconceitos. Visando compreender as relações entre os estigmas e estereótipos dessas pessoas como modo de funcionamento das suas práticas e, as dos outros em relação a eles. Palavras-chave: Marginalização. Segregação. Imaginário. Abstract This article deals with the marginalization and the segregation of the people handicapped as a result of violence and coercion that are manifested in the symbolic plan of imaginary and of representations and are present in the most varied forms of prejudice. To understand the relations between the stigmas and the stereotypes of these people as a way of operation of its own practices and the other’s in relation to it. Keywords: Marginalization. Segregation. Imaginary. * Este artigo originou-se das pesquisas realizadas para a produção da monografia: “DOS LIMITES DA LEI AOS PRECONCEITOS: os portadores de deficiência e o difícil caminho da inclusão social no Brasil”, requisito parcial para conclusão do curso de História da Universidade Federal de Uberlândia. As reflexões aqui apresentadas foram desenvolvidas no primeiro capítulo da referida monografia. 80 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009 O preconceito é forma mais conhecida e presente na vida das pessoas com “deficiência”, e está incutido no intimo dos indivíduos que compõe as sociedades, e o efeito deste sentimento, é a exclusão, presente na vida dessas pessoas, como reflexo de atitudes da sociedade as quais pertenceram e pertencem. Distintos processos foram vivenciados pela história humana. Encontramos relatos de abandono, extermínio de recém-nascidos com deficiências, como exemplo na Grécia antes de Cristo, no livro IV, 460c, de Platão A Republica. [...] Pegarão então os filhos dos homens superiores, e levá-los-ão para o aprisco, para junto de amas que moram à parte num bairro da cidade; os dos homens inferiores, e qualquer dos outros que seja disforme, escondê-los-ão num lugar interdito e oculto, como con- vém.1 Bem como, no livro VII, 1335 b, A Política de Aristóteles. [...] Quanto a rejeitar ou criar os recém-nascidos, terá de haver uma lei segundo a qual nenhuma criança disforme será criada; com vistas a evitar o excesso de crianças, se os costumes das cidades impedem o aban- dono de recém-nascidos deve haver um dispositivo legal limitando a procriação se alguém tiver um filho contra- riamente a tal dispositivo, deverá ser provocado o aborto antes que comecem as sensações e a vida (a lega- lidade ou ilegalidade do aborto será definida pelo cri- tério de haver ou não sensação e vida.2 os escritos de (temporalidade?), por mais absurdo que isso possa parecer ao nosso olhar e compreensão do momento histórico em que vivemos. Em tais registros esses extermínios, eram fatos legítimos praticados por suas comunidades. Perfeitamente aceitável a rejeição, por parte de seus familiares, de crianças que nascessem com qualquer tipo de deficiência, física ou mental. Perseguições, negligências, explorações, eram atos comuns a diferentes sociedades: européias, asiáticas, africanas, americanas. Distinguindo-se apenas o grau de omissão e negligência entre as sociedades, Nas culturas primitivas que sobreviviam basica- mente da caça e da pesca, os idosos, doentes e porta- dores de deficiência eram geralmente abandonados, por um considerável número de tribos, em ambientes agrestes e perigosos, e a morte se dava por inanição ou por ataque de animais ferozes. O estilo de vida nômade dificultava a aceitação e a manutenção destas pessoas, consideradas dependentes, como também colocava em risco todo o grupo, face aos perigos da época. É inte- ressante ressaltar que a atitude de abandono e morte dos idosos, doentes e (df), não era comum a todos os povos.3 Algumas sociedades primitivas mantinham seus “deficientes” com vida, suportava-os, complacentes com seus “problemas”, por acreditarem que os maus espíritos habitavam os corpos desses indivíduos, possibilitando desse modo, aos demais membros da comunidade a “normalidade”. Com o desenvolvimento do cristianismoessas pessoas, são então, percebidas como cristãos, e como tal, possuidores da caridade dos demais. Porém, essa sociedade é ambígua, pois ora acreditava ser a presença de Deus, manifestada em sua criatura, para testar a fé da família que recebeu este cristão “deficiente”; ora, ao contrário, entendia tratar-se de um castigo de Deus, por algum ato cometido pela família que está recebendo es- te “deficiente”, reforçado pela comunidade e pelos emissários de Deus na terra, estigmatizando-os e rotulando-os. É nesse contexto, durante as conquistas do Império Romano, onde inúmeros soldados retornavam muti- lados das batalhas, forçando com isso o início a um atendimento hospitalar, que apesar dos vastos problemas, tinham em vista recuperar os “heróis” das batalhas de conquistas. Contudo, foi no Império Romano que surgiu o cristianismo, com novos dogmas dirigidos para ca- ridade entre as pessoas, mas também faziam rejeições, dentre essas rejeições estava o extermínio das crianças com deficiência. Porém, os cristãos foram perseguidos, mas mesmo assim, contribuíram para formular novas 1 GUGEL, Maria Aparecida. Pessoa com Deficiência e o Direito ao Trabalho: Reserva de Cargos em Empresas, Emprego Apoiado. Florianópolis: Obra Jurídica, 2007. p. 63. 2 GUGEL, Maria Aparecida. Pessoa com Deficiência e o Direito ao Trabalho: Reserva de Cargos em Empresas, Emprego Apoiado. Florianópolis: Obra Jurídica, 2007. p. 63. 3 CARMO, Apolônio Abadio do. Deficiência Física: a sociedade brasileira cria, “recupera e discrimina”. Sec. Dos Desportos/PR, Brasília – 1991. p. 21. 81Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009 concepções romanas a partir do século IV, e foi também por este motivo, dos dogmas cristãos, que neste período sugiram os primeiros hospitais de caridade, destinados acolher indigentes e pessoas com deficiência. Entretanto, no século XV dá-se o fim do Império Romano e Queda de Constantinopla, e o início da Idade Média, marcada pela decadente qualidade de vida e saúde das pessoas. E assim, temos um retrocesso, as pessoas acreditavam ser o castigo de Deus ter um filho deficiente, e as crianças que conseguiam sobreviver eram destinadas a “lugares” específicos a elas, e eram mantidas separadas de suas famílias, surgi assim, as primeiras instituições assisten- cialistas. Tais instituições isolavam — algumas ainda isolam — as pessoas com deficiências do convívio social, e como conseqüência, surge um novo período e novo modelo de exclusão, a segregação, que se fortalece e permanece ainda, em menor grau, até nossos dias. Todavia, o tipo de assistência não é questionado, e os “deficientes” são submetidos a lugares — na maioria dos casos — sem condições de vida, sem higiene, ambientes insalubres, desumanos, não propiciando nenhum tipo de dignidade; prevalecendo neste tipo de instituições, o descaso. Mas para algumas famílias, é conveniente manter enclausurados nas instituições, longe dos olhos da sociedade, o membro da família com “deficiência”, por considerar, ser algo vergonhoso, e às vezes, desonroso. Mas bem como temos famílias que preferem manter nas instituições, temos aquelas que preferem acompanhar e manter no convívio familiar e social o membro da família com deficiência, por entender e respeitar como indivíduo igual em direitos, sentimentos, desejos, diferente em seu eu e com algumas limitações. Assim, nos mais diversos paises, as sociedades optam, então, pela política da segregação, através das instituições assistencialistas, religiosas ou filantrópicas, separam e, às vezes, isolam do seio da sociedade a sua minoria, sim- plesmente por serem diferentes. Por meio da ignorân- cia, desconhecimentos ou mesmo visões pragmáticas e utilitaristas, ocorrem discriminações, prevalecendo às atitudes preconceituosas. Como afirma Ligia Assumpção Amaral, política tão antiga, quanto à humanidade, a segre- gação apóia-se no tripé: preconceito, estereótipo e estigma. Tentando sintetizar a dinâmica entre eles: um preconceito gera um estereótipo, que cristaliza o pre- conceito, que fortalece o estereótipo, que atualiza o preconceito... Circulo vicioso levando ao infinito. Para- lelamente o estigma (marca, sinal) colabora com essa perpetuação.4 Mas o que vem a ser segregação? Segundo dicionário Aurélio — e seguindo ao pé da letra — é o ato ou efeito de segregar; isolamento; ação de separar as pessoas de raças ou origens diferentes, dentro de um mesmo país. Não podemos dizer que se trata de uma raça ou origem dife- rente, os deficientes em relação à própria família, em- bora, também nesse âmbito, ocorra com freqüência a ação de isolá-los da sociedade. Assim, o termo segregação é sempre correto mesmo no momento histórico que vivemos, pois elas estão frequentemente sendo isoladas, segregadas, e assim, privadas do convívio social. Do ponto de vista de Antônio Muniz Resende, a segregação é, portanto uma “patologia cultural”, ao separar o homem do mundo, desestruturando a sua humanidade e levando-o a uma animalidade que não é sua, mas que lhe é instituída através de preconceitos, estereótipos e estigmas que a sociedade foi construindo em torno dessas pessoas ao longo do tempo. [...] uma situação e um processo de desestru- turação, [...] uma tendência reducionista simplifica- dora. O subjetivismo criticista apresenta-se como sintoma de patologia cultural, na medida em que, separando o homem e o mundo, e privilegiando o primeiro em detrimento do segundo, desestruturando o fenômeno humano (ser-no-mundo), eliminando a multiplicidade fundamentalmente constitutiva da es- trutura cultural. [...] privilegia o mundo em detrimento do homem.5 Para Resende, tais atitudes podem ser compreendidas como “patologia cultural”, pois uma sociedade, uma cultura, tem suas bases no sentido da existência do homem, que por sua vez se dá na relação de um homem com outro homem, isto é, na dinâmica da história dos 4 AMARAL, Lígia Assumpção. Pensar a diferença: Deficiência. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, Brasília, 1994, p.40 5 REZENDE, Antônio Muniz. Pistas para um diagnóstico da patologia cultural. In: Morais, J.F. Regis de (Org.). Construção social da enfermidade. São Paulo: Cortez & Moraes, 1978, pp. 157-179, p.163. 82 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009 homens desta cultura. Portanto, ao retirar do convívio social as pessoas portadoras de deficiências estamos ocasionando uma perda do sentido de existência das mesmas e resultando em uma “esquizofrenia e uma esclerose cultural”. Nas palavras de Resende, a “patologia cultural se caracteriza como uma cristalização do modelo não dinamizado pelo sentido”, mediante tal situação questionamos: qual a imagem de homem, de sociedade e de mundo que estamos construindo? Amaral traz para o debate a questão da Psicologia Social. Segundo ela, trata-se “de conhecer o homem na totalidade de suas relações”, e “cabe também a Psicologia Social debruçar-se sobre a questão da deficiência”. Seguindo essa mesma linha argumentativa, podemos afirmar que é papel da história, enquanto área do conhecimento, também debruçar-se sobre a questão da inclusão social das pessoas com deficiência. Nesse sentido, e considerando os primeiros relatos históricos, essas pessoas, estão à margem da sociedade e da história (Todas essas pessoas? Não houve nenhuma exceção? não), sendo, portanto, uma dessas minorias sociais excluídas do processo histórico, assunto sobre o qual fala Fontana, A história de um grupo humano é sua memória cole- tiva, e a seu respeito, cumpre a mesma função que a me- mória pessoal em relação a um indivíduo: dar-lheum sen- tido de identidade que o faz ser ele mesmo e não outro.6 Entretanto, vem-se tentando mudar a alguns anos esse quadro historiográfico da humanidade e, timi- damente, a história das pessoas com deficiências está sendo escrita, como podemos constar, alguns intectuais escrevendo sobre a temática, como Ligia Amaral, Mar- cus Othon, Maria Gugel. E como Amaral e Fontana destacam, devemos voltar nosso olhar para aqueles em minoria, de pouca representação. Porém, há que se tomar o cuidado no sentido respeitar e permitir que as vozes dessas pessoas apareçam, evitando nos tornar seus “porta-vozes”. Deixá-los falar e se expressar, por si mesmos, é reconhecê-los como sujeitos da história, com suas dificuldades e lutas para sair da extremidade, das margens da sociedade. Essa marginalização trouxe consigo variados estigmas, tanto no que diz respeito à sociedade para com elas, quanto elas próprias tem por si mesma. Do ponto de vista de Goffman7, a sociedade classifica os indivíduos e atribui-lhes valores de acordo com ambiente no qual estão inseridos nesta sociedade. Assim estes indivíduos recebem atributos de acordo com sua categoria social: As rotinas de relação em ambientes estabelecidos permitem um relacionamento com “outras pessoas” previstas sem atenção ou reflexão particular. Então, quando um estranho nos é apresentado, os primeiros aspectos nos permitem prever a sua categoria e os seus atributos, a sua “identidade social” — para usar um termo melhor do que “status social”, já que nele se incluem atributos como “honestidade” da mesma forma que atributos estruturais, como “ocupação”.8 Pressupõem-se algumas afirmativas concernentes ao indivíduo que por ventura possa estar a nossa frente e, desse modo atribuímos a ele características que não são suas, ou seja, damos-lhe uma “identidade social virtual”. Tal procedimento é uma maneira de se construir um estigma, que na maioria dos casos reduz o indivíduo, substituindo a “identidade social real” pela “identidade social virtual” e criando estereótipos incoerentes com o indivíduo em questão, pois um estigma é sempre depreciativo. Todavia, o que é negativo para uns significa a exaltação de outro, neste caso, isso significa depreciação das pessoas com deficiência para exaltação dos ditos “normais”. Ainda acompanhando a linha de raciocínio de Goffman, um estigma tem como sinônimo dois panoramas relativos ao estigmatizado, o desacreditado e o desacreditável. [...] um indivíduo que poderia ter sido facilmente recebido na relação social quotidiana possui um traço que se pode impor à atenção e afastar aqueles que ele encontra, destruindo a possibilidade de atenção para outros atributos seus. Ele possui um estigma, uma ca- racterística diferente da que havíamos previsto.9 6 FONTANA. Josep. A história dos homens. Tradução: REICHEL, Heloisa Jochims e COSTA, Marcelo Fernando da. Bauru, SP: EDUSC, 2004, p.11. 7 GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara S.A., 1988, p. 11-12. 8 Idem, p. 5. 9 GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara S.A., 1988. p. 14. 83Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009 Desse modo ao estigmatizar alguém estamos re- duzindo suas chances e possibilidades de vida, pois podemos levá-lo a se sentir desacreditado e incapaz. Utilizamos termos depreciativos, pejorativos e específicos de estigmas, quando, por exemplo, atribuímos apelidos com objetivos de destacar e ridicularizar a sua deficiên- cia. Não pensamos como isto pode estar ferindo os sentimentos destas pessoas, que estão recebendo esses termos pejorativos, isto é claramente uma forma de exclusão, e principalmente uma “violência simbólica”. Nos dizeres de Bourdieu, [...] todo poder de violência simbólica, isto é, todo poder que chega a impor significações e a impô-las como legítimas, dissimulando as relações de força que estão na base de sua força, acrescenta sua própria força, isto é, propriamente simbólica, a essas relações de força10. Uma pessoa que carrega um estigma por toda a sua existência pode ocorrer de incorporar essa estigmatiza- ção a ponto de explicar alguns modos, estilos de vida, acompanhados das considerações e respeitos que lhes são atribuídos, tendo como conseqüência uma predisposição para a autovitimização. Neste sentido a visão da mesma transforma-se assim como a visão da sociedade, de animalidade de antes, para uma visão paternalista, de coitadinhos e, portanto incapazes. Isso pode ser entendi- do como resultado das tentativas de integração social, iniciada com as instituições assistencialistas mais recentes, que visam a integração social e não a inclu- são, ou seja, a inclusão requer esforços maiores que, simplismente colocar essas pessoas em contato com a sociedade, elas precisando ser recebidas sem preconceitos ou rejeições por parte da sociedade. Este problema social deve ser enfrentado em suas múltiplas dimensões, é necessário romper com as barreiras sociais e culturais, para que assim, aconteça a inclusão social das pessoas com deficiência. Uma visão paternalista que traz consigo uma vitimização social e uma redução do potencial do indivíduo com deficiência. Mas o problema aumenta quando esta vitimização está enraizada no seio da família — e indo mais longe — podendo ser considerado um preconceito internalizado, implícito, no interior das pessoas. Um preconceito que vem de um processo histórico tão longo quanto à existência da humanidade, construído no imaginário social, e constituindo um dos grandes percalços para as pessoas com deficiência, um obstáculo gigantesco a ser rompido. Como coloca Amaral, Para a família trata-se da “perda” do filho idea- lizado, pois, admita ou não, a idealização é um reves- timento universalmente presente na gestação e em todos os aspectos relacionados à maternidade/pa- ternidade.11 Atualmente discute-se muito a inclusão social das pessoas com deficiência, porém é pouco comentada essa questão da exclusão no interior da família, aumentando e dificultando a inclusão social destes indivíduos, pois em muitos casos o “deficiente”, conta com sua família para que essa inclusão aconteça, através de apoio em suas lutas por seus direitos, e/ou sendo o próprio agente da luta, como no caso dos deficientes mentais. A família ao se deparar com este novo componente familiar portador de deficiência, e totalmente ignorante sobre o assunto, isto é, não conhecendo a deficiência na qual a criança nasceu se vê em total desespero, e parte em uma busca frenética para tornar esse indivíduo “normal”. Essa é uma convicção que habitualmente os leva a procurar as instituições que realizarão tal tarefa. Ideali- za-se um ambiente isento de problemas e repleto de capacidades e facilitações, lugar perfeito onde não acontecerá discriminação e preconceito, o que na rea- lidade não acontece. Dessa forma, as famílias deposi- tam nas instituições todas as suas esperanças e expecta- tivas, acreditando que será somente este lugar que poderá contribuir efetivamente no processo de desenvolvimento pessoal e social de seu indivíduo com deficiência. Contudo existem outras famílias com atitudes extre- mamente opostas, e que ainda hoje, encontram nas instituições o lugar ideal para depositar o indivíduo deficiente, e sem nenhum interesse por ele, em acom- panhá-lo, em saber o que acontece com ele dentro dessas instituições, repassando a responsabilidade dos cuidados a terceiros. Ou seja, constata-se a exclusão e rejeição 10 BOURDIEU, Pierre & PASSEREN, Jean Claude. A reprodução; elementos parauma teoria do sistema de ensino. Rio de Janeiro, 1982, p.19. 11 AMARAL, Lígia Assumpção. Pensar a diferença: deficiência. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, Brasília, 1994, p. 24 84 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009 dentro das próprias famílias dos deficientes, conseqüên- cia do choque, do trauma não superado. Da não aceita- ção promove-se a segregação de seu membro familiar com deficiência, isolando-o até mesmo do convívio familiar, não lhe dando nenhum direito. Infelizmente esse último modelo familiar é o mais comum, em maior número, alterando apenas o nível da segregação e da exclusão familiar, uma espécie de fuga para não vivenciar a própria realidade. É neste contexto que as intuições passam a ser a solução para as famílias e para o próprio deficiente, que encontram neste lugar o único ambiente de sobrevida, assim como o contato físico com outras pessoas, e até mesmo a possibilidade de receber atenção e carinho de alguém. O preconceito, a exclusão e a segregação familiar, é um processo que se inicia a partir do nascimento da criança. A família, por não saber lidar com a situação ou até mesmo por ter gerado expectativas às quais essa criança não poderá corresponder, vê esvair todos seus sonhos, desejos e expectativas em relação ao novo membro da família. [...] Eles enfrentam dificuldades desde o nascimen- to, já que alguns são rejeitados pelos próprios pais. Para integrar-se a sociedade sem problemas, são poucos os lugares que têm áreas adaptadas a eles [...]12. Essa atitude de segregação familiar afeta essa criança desde seus primeiro dias de vida, por ser a primeira instituição onde ela irá conviver, e isso é um reflexo da segregação social, pois, a família não se encontra isolada pairando no ar, como uma nave, ela se encontra inserida dentro da sociedade. Portanto, não é característica própria de uma família em particular, mas é resultante de um complexo processo social. Nesses termos, a deficiência é compreendida como uma dificuldade individual e familiar, e o seu ajustamento e adequação a sociedade é um problema que não diz respeito a esta, e sim a quem o possui, indicativo de que essa sociedade não sabe lidar com suas diferenças. Ela apóia-se nos princípios de desenvolvimento livre, da capacidade de realização “natural” do indivíduo, que por sua vez, se orienta pelo sentimento de segregação enraizado e, às vezes, inconsciente dos indivíduos que compõe a so- ciedade. Todavia, se temos o preconceito explícito, como citamos acima, temos também aquele implícito, que quando praticado pode ser transformado em vitimização social, e possivelmente ocasionar uma assimilação pelo próprio indivíduo com deficiência. Este por sua vez, se fecha para o mundo e acredita realmente ser uma pessoa incapaz, inapto ao convívio social. É a segregação com uma nova roupagem, onde familiares isolam este in- divíduo, utilizando-se do argumento da proteção, em suas casas negando a eles o direito do convívio social. Não percebem que essa atitude é preconceituosa e discri- minatória, é a exclusão social praticada pela família. O abandono não se caracteriza necessariamente por uma forma literal podendo ocorrer pelo simples não investimento — seja de amor, de dedicação, de tempo etc. Também em relação à super-proteção apenas um assinalamento: uma das decorrências desse fenômeno é o deslocamento do centro da relação para o protetor, como a conseqüente desvitalização do protegido.13 Tal preconceito então se instala no íntimo, isto é, no inconsciente dos indivíduos, portanto, não é reconhecido e aceito como tal, pois não se pode ter um sentimento tão negativo com relação ao membro de sua família — que muitas das vezes é seu próprio filho, ou irmão — e quando não o é, sustenta esse preconceito implícito, através da visão de coitadinho, incapaz, devendo ser ajudado em todas as suas tarefas, que por ventura tenha que realizar. A incapacidade de percepção de tal atitude acontece por fazer parte de um imaginário social. Esse imaginário traçou um destino para as pessoas com deficiência, onde elas devem estar dentro de seus lares, entre sua família, responsáveis e porta-vozes dos desejos e ansiedades dos mesmos, negando assim, até os próprios sentimentos das pessoas ditas “deficientes”. Comportamento este con- siderado por Foucault14 como o “exercício dos micro- poderes ao nível do quotidiano”. A família julga-se porta- 12 Entrevistada A. Em atenção ao pedido de alguns entrevistados, parte dos depoentes será aqui identificada por meio de letras do alfabeto. 13 AMARAL, Lígia Assumpção. Pensar a diferença: Deficiência. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, Brasília, 1994, p. 21-22 14 FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder; tradução Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1985, p. 85. 85Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009 voz de seu ente “deficiente” e exerce sobre ele o poder de decisão respondendo por ele em todas as situações, fazendo uma confusão na mente do mesmo, a ponto dele não distinguir o que lhe é inato do que foi imposto, ampliando sua limitação para além da sua realidade e do necessário. Com esses “mecanismos sutis” de controle ocorre à dominação e a sujeição como forma de proteção emocional, e o efeito deste comportamento sutil pode ser duplo através da saturação ou submissão. A saturação levará o sujeito “deficiente” à resistência e a buscar o respeito a suas capacidades exigindo seus direitos de escolha e de ir e vir da maneira que melhor lhe convier. Contrapondo-se ao comportamento de saturação temos o comportamento de submissão, este por sua vez, aceita a proteção, a estigmatização e as privações como algo bom, procurando usufruir das vantagens desta situação em benefício próprio. Independentemente das condições físicas ou mentais as pessoas encontram dificuldades e obstáculos ao lon- go da vida e, limitação é algo comum a todas as pessoas, não importando se tenham ou não qualquer tipo de “deficiência”. E a incapacidade está presente na vida de todos, exatamente por ser um estado e não uma con- dição, uma vez que o corpo humano pode não estar saudável ou não estar apto para a realização de uma atividade, sem que isso implique necessariamente que a pessoa seja portadora de uma “deficiência”. Portanto, não existe nenhuma ligação diretamente e necessariamente de incapacidade com “deficiência”, até porque uma limitação não incapacita as pessoas com deficiência. Por isso, a luta dessas pessoas para que seus direitos, inclu- sive aqueles que constam da Constituição Federal, se- jam respeitados e praticados. Ou seja, elas não querem viver como se fossem um “peso” na vida de seus fa- miliares, querem ter o direito de viver em sociedade como todo ser humano, algo que, embora pareça simples, tem requerido muita luta. Como precisou Puhlmann: [...] A mulher portadora de deficiência física tem o direito a maternidade [...] Quando grávida a mulher portadora de deficiência física, se depara com a atitu- de de surpresa e espanto e até revolta das pessoas, que não a percebiam como sexuadas. A mulher portadora de deficiência física apresenta os mesmos medos de qualquer mulher frente a fragilidade e dependência do filho, tendo de enfrentar suas limitações físicas e con- tornar dificuldades operacionais com mais freqüên- cias. [...]15 Vejamos algumas experiências que refletem essa questão: A jornalista Flávia Cintra, 34 anos poderia ser uma mãe como qualquer outra. Apaixonada pelo advogado Pedro Corradino e bem-sucedida profissionalmente, há dois anos ela achouque era hora de formar família. Mas a decisão de Flávia de ser mãe gerou surpresa. Mais até: dúvidas sobre sua capacidade de gerar uma criança e, depois, de assumir a maternidade. O motivo? Ela é tetraplégica. [...] Quando Flávia foi à primeira consulta com o obstetra, chegou com uma longa lista de per- guntas. Não teve chance de fazê-las. Antes mesmo de examiná-la, o médico aconselhou que aguardasse três meses para ter certeza de que a gravidez evoluiria. “Eu estava ali como qualquer mulher que engravida pela primeira vez”, recorda Flávia. “Ele disse estar preo- cupado com a minha situação e teve o cuidado de baixar minhas expectativas. Depois de meu acidente, porém, aprendi que médicos têm uma especialidade e nem sempre conhecimento de outras. Por terem limites, po- dem ter preconceitos. “Uma pessoa mais frágil, no meu lugar, sairia dali devastada.” [...] Célia, 52 anos, paraplégica, quando decidiu ter filhos após três anos de casamento. O que demonstra que, apesar dos avanços sociais e científicos, o tempo não mudou alguns conceitos — e preconceitos. Célia consultou cinco obstetras, em São Paulo, antes de en- contrar o que denomina “fantástico”. Três deles a aconselharam a não engravidar, “por causa dos riscos”. Dois foram taxativos: afirmaram que ela não poderia. “Sempre fui teimosa e procurei mais uma opinião”, conta Célia. “Ele pediu alguns exames e disse que nós dois — meu marido, Daniel, e eu — estavámos bem e que não havia nenhum impedimento.” Era tudo o que Célia precisava escutar. Menos de um mês depois, engravidou do primeiro filho, Rodrigo, 20, que cursa o segundo ano de medicina. Depois, teve Diogo, hoje com 17, e 15 PUHLMANN. Fabiano. A sexualidade da mulher portadora de deficiência física. Revista Brasileira de Sexualidade Humana – SBRASH, ISSN 0103-6122, vol. 6, n. 2, p. 197-203, jul. a dez. de 1995. Disponível em: <http://www.adolec.br/bvs/adolec>. Acesso em: 26 fev. 2007. 86 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009 Stephanie Vitória, de 13. Todos de parto normal, sem indução ou outro artifício. [...]16 Como podemos perceber na experiência da jornalista Flávia Cintra, umas das conseqüências do estigma em relação às pessoas com deficiência, está associado ao fato de muitos acreditarem que são pessoas que não devem constituir uma relação afetiva, como se os deficientes fossem assexuados e não tivessem sentimentos. E quando se depara com um casal em que, um ou ambos são deficientes, muitos ficam sempre chocados, ou, no mínimo, curiosos. Mas, felizmente existem sempre aqueles dispostos a lutarem contra a rejeição e o preconceito social, lutam por seus sonhos, para que prevaleçam também suas vontades, como é caso das pessoas envolvidas na reportagem acima, e do casal Beto e Márcia, comentados a seguir, moradores no bairro Laranjeiras, periferia da cidade de Uberlândia, Minas Gerais: Márcia: eu senti um sonho, [...] eu fiquei muito surpresa, foi uma coisa maravilhosa um sonho que eu nunca pensava que havia de realizar, porque eu nunca me vi como mãe, eu pensava em adotar um filho, quando eu soube da notícia, eu fiquei muito feliz parecendo que eu estava sonhando, foi nove meses de sonho. Eu fiquei tão ansiosa que passei mal os nove meses, com ansiedade, vomitava muito, fiquei ansiosa para ver a carinha dele. Beto: eu fiquei maravilhado, porque uma família tem que ter um filho para completar. Eu cheguei a vomitar com ela, vomitava, eu também, eu também vomitava. A minha família ficou muito preocupada no começo, mais muito mesmo, chegou até me dar bronca, falou que eu era um irresponsável, de tanta preocupação, porque eles achavam que nós não seriamos capazes de criar uma criança. Hoje minha família baba com ele, todo mundo. Márcia: A minha família até que aceito razoável né, a família do Beto pensava que eu não ia da conta de pegar a criança, amamentar. O tio do Beto, que meio contra, falou assim comigo, que eu não ia dá conta de segurar o bebe, não ia da leite, que a mulher dele é normal e não deu leite, falou tudo isso, até hoje o muleque mama, não ta me atrapalhando com nada, é amor e carinho que eu to dando para ele. Foi cesárea né, e eu cheguei a sentar na mesa para ver a carinha dele, e o médico fez eu deitar de novo, eu tava com a barriga aberta, para poder ver ele, uai. Beto: eu fiquei muito emocionado, cheguei a chorar. Ele é tudo; é carinhoso, ele é cuidadoso. Márcia: ele levanta de madrugada para mim da água, no escuro vem aqui na cozinha, e leva na cama pra mim d’agua, e ele só tem 3 anos, ele é muito carinhoso com nós, muito, muito mesmo.17 Como se nota, tanto na reportagem anterior, quanto na entrevista de Márcia e Beto, a descriminação, a negação da sexualidade das pessoas deficientes se faz fundamentada em uma estética corporal. Nesse sentido, um importante ponto a ser observado diz respeito às conseqüências dessa cultura visual: trata-se do jul- gamento da imagem, do exterior daquele corpo, que carrega as marcas não só de sua deficiência, mas tam- bém de seu estigma. Não são aceitas aquelas pessoas que não estão dentro dos padrões de beleza ou de capacitação cristalizados no imaginário social, porque a cultura predominante não abre espaços para o diferente. En- quanto a deficiência é ressaltada o ser humano existen- te por traz daquela deladeficiência é negligenciado. Essa ditadura corporal traz embutida, uma padronização até mesmo para os sentimentos — como se fosse possível estabelecer marcos regulatórios para essa dimensão humana —, esquecendo-se de que aquele corpo carrega também subjetividades e um histórico de vida a ser respeitado. No interior dessa cultura mercadológica, cujos pa- drões de beleza estão fundamentados nos paradigmas capitalistas do consumismo, o corpo torna-se, então, mais um objeto de consumo que pode ser “comprado”, “feito”, nas clínicas de cirurgias plásticas, tendo como objetivo maior a ser atingido o modelo ideal de beleza largamente difundido pela mídia. Do mesmo modo, essa sociedade dita comportamentos que devem ser seguidos por seus componentes, com o rigor de uma normalidade estabelecida que se pretende universal. De acordo com Foucault, 16 PERRI, Adriana. Direito de ser mãe. Sou mãe de Gêmeos. Revista Sentidos. Edição Especial, São Paulo, Ano 8, n. 44, p, 28-34, dez. 2007. Disponível em: < http://sentidos.uol.com.br/revista>. Acesso em: 23 dez. 2007. 17 SILVA, Márcia e SILVA, Roberto. 87Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009 esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição cons- tante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as “disciplinas”. [...] Mas as disciplinas se tornaram no decorrer dos séculos XVII e XVIII fórmulas gerais de dominação [...] que visa [...] a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obedien- te quanto é mais útil, e inversamente. Forma-se então uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo hu- mano entra numa maquinaria de poder que o esqua- drinha, o desarticula e o recompõe. Uma “anatomia política”, que é também igualmente uma “mecânica do poder”, está nascendo; ela define como se pode ter domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para que façam o que se quer, mas para que operem como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a eficácia que se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos “dóceis”.18 Mas quem é normal ou a quem pode ser creditadoesse atributo? Se não é possível fundamentar o conceito de normalidade em nenhuma base patológica, genética ou neurológica, resta, portanto, fundamentá-lo em valores culturais de um determinado momento, esta- belecido dentro de um contexto e de acordo com as de- mandas sociais. Sobre essa questão, Carmo afirma que as pessoas fazem enorme confusão “do que é normal com o que é comum”, pois o que é comum em deter- minado lugar pode não ser em outro. Por isso, para o autor, “se comum fosse normal, o incomum seria anor- mal” 19. Nesse sentido, a sociedade também estabelece quem são os “anormais” que os excluem. Configura-se, assim, aquilo que Bourdieu chama de “poder simbólico”, uma vez que tais valores são ditadores de comportamentos sociais e por meio desse poder surgem as “produções simbólicas” por ele determinadas: As diferentes classes e fracções estão envolvidas em uma luta propriamente simbólica para imporem a definição do mundo social mais conforme aos interesses, e imporem o campo das tomadas de posições ideoló- gicas reproduzindo em forma transfigurada o campo das posições sociais.20 As reflexões de Bourdieu nos permitem inferir que são esses poderes que, através de uma luta no campo simbólico, constroem suas produções, elas também simbólicas, de dominação, difundindo determinados valores que, penetrando na cultura, contribuem para que as pessoas desenvolvam conceitos pejorativos. Esses conceitos que são por si só excludentes, ao serem assi- milados pelos indivíduos, considerando a força que os valores sociais possuem passam a ser transmitidos por longos períodos, tornando-se parte do imaginário social. Os resultados desse “caldo cultural” tornam-se bastante visíveis, quando analisados à luz dos obstácu- los enfrentados cotidianamente. Um notório exemplo disso são os espaços de circulação pública, que geral- mente são planejados à revelia das necessidades das pessoas deficientes. Ou seja, a sociedade, de um modo geral, desconsidera e os exclui. É como se elas não existissem, como se fossem totalmente invisíveis ou, o que é ainda pior, quando reconhecidas, cumprem o desagradável papel de atrapalhar a funcionalidade das “coisas”, pensadas a partir dos valores e referências dos ditos “normais”. Portanto, a inacessibilidade aos espaços públicos, externa outra forma de representação social sobre a exclusão das pessoas com deficiências, como os prédios; os transportes urbanos, as ruas, as praças e tantos outros espaços que impossibilitam o direito básico de todo cidadão: o direito de ir e vir, que entre outras conse- qüências, tornou-se um empecilho ao tráfego, ao acesso e, a circulação dos mesmos. Como decorrência, o que se nota é uma grande ausência dessas pessoas nos diferentes espaços públicos existentes na sociedade, apesar de que, no Brasil, nos últimos tempos, tenha ocorrido uma pequena melhoria, nesse aspecto, embora absolutamente insuficiente tendo em vista a magnitude do problema. E isso pode ser notado até mesmo nos centros urbanos mais desenvolvidos do país, como demonstram os estudos de Perri, analisando a realidade da cidade de São Paulo: 18 FOUCAULT. Vigiar e Punir. Petrópolis, Vozes, 1977, p. 117- 118 19 CARMO, Apolônio Abadio do. Deficiência física: a sociedade brasileira cria, “recupera” e descrimina. Brasília: Secretaria dos Desportos/ PR, 1991, p. 10. 20 BOURDIEU. Pierre. Poder Simbólico. Tradução: Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989, p. 11. 88 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009 [...] as barreiras que ainda impedem pessoas com deficiência e mobilidade reduzida de circular livre- mente, como as da Paulista: buracos, desníveis, de- graus, guias rebaixadas íngremes ou que levam a uma escada, barraquinhas de camelôs... Para cegos e ca- deirantes, andar ali equivale a um verdadeiro Rali dos Sertões. [...]21 Um bom exemplo na cidade de Uberlândia a ser citado de prédio público que inviabiliza o acesso de pessoas deficientes, até mesmo por tratar-se de uma instituição que poderia assumir a responsabilidade de auxiliar na busca de alternativas para esse grave pro- blema social, é o da própria Universidade Federal de Uberlândia – UFU. Construída já há algum tempo, sua arquitetura revela o descaso com os deficientes. Embora quase todos os seus prédios possuam um segundo piso, os mesmos foram projetados sem rampas ou elevadores. Com isso, muitos deficientes, vários deles estudantes da própria universidade, para ter acesso a várias das suas dependências, como o caso os dependentes de cadeiras de roda, passam por situações constrangedoras e hu- milhantes, ao serem carregados nos braços, algumas vezes até mesmo por estranhos. Essas pessoas rei- vindicam, enquanto cidadãos, os seus direitos de se movimentar de acordo com suas limitações e possi- bilidades, sem que para isso tenha que estar solicitando ajuda de terceiros. É bem verdade que, nos últimos nos, esse quadro da UFU vem melhorando significativamente. Os últimos prédios que estão sendo construídos foram planejados de forma a assegurar condições que garantam o acesso em todos os seus níveis, inclusive nos banheiros, e os prédios antigos começam a passar por reformulações que objetivam minimizar os problemas existentes. Tais providências, seja por iniciativas dos gestores ou por exigências contidas em lei, apenas reforçam o descaso anteriormente existente e os resultados alcançados têm relação direta com as lutas e os embates travados pelos próprios deficientes e seus familiares engajados em suas causas, bem como por órgãos e pessoas inseridas dentro da Universidade, simpatizantes e/ou envolvidos direto ou indiretamente, como é o caso do CEPAE22. Ainda com relação à cidade de Uberlândia, apesar de que no seu centro comercial — tido como cartão de visita da cidade e lugar de propaganda dos grandes “feitos” políticos —, algumas reformas tenham sido promovidas com vistas a oferecer condições para a acessibilidade, por vezes, não é difícil encontrarmos lugares onde isso ainda não ocorreu. Sobre essa questão, é interessante notar o comportamento paradoxal das autoridades municipais: as medidas adotadas com vista a “vender” uma imagem de preocupação com as pessoas com deficiência, não são traduzidas em cuidados que externem uma efetiva preocupação com o enfrentamento do problema, como pode ser notado através da reportagem abaixo: Os idosos e deficientes físicos de Uberlândia que precisam utilizar o Posto de Serviços Integrados Ur- banos (Psiu) vão continuar enfrentando constrangi- mentos para ter acesso ao prédio do órgão. Há quase um ano (que será completado em janeiro), a Justiça de Uberlândia concedeu uma liminar na ação civil pública impetrada pela Promotoria Especializada na Defesa da Saúde, do Deficiente e do Idoso, com o intuito de garan- tir acessibilidade aos usuários. Contudo, até agora, nenhuma modificação para adequação da estrutura do edifício, que fica na Praça Tubal Vilela, foi feita. Como não existem rampas nem elevadores de acesso, algumas pessoas acabam encontrando dificuldades para buscar os serviços oferecidos no estabelecimento. O problema deve continuar persistindo por mais um ano, pois as obras de modificação só devem ser iniciadas em abril ou maio de 2008, de acordo com a previsão do coor- denador regional da Secretaria de Estado de Plane- jamento e Gestão de Minas Gerais (Seplag) e interino do Psiu, Elci Filho de Oliveira. [...]23 Ou seja, quando um veículo estaciona em algum lugar não permitido, atrapalhando o trânsito das pessoas ditas “normais”, as providências são rápidas e o seu proprietário com certeza será multado, correndo o riscode ter seu veículo guinchado ou até mesmo aprendido. Mas, esse mesmo veículo pode estacionar em lugar que 21 PERRI, Adriana. Capa Acessibilidade 100%. Revista Sentidos. Acessibilidade 100%. Edição de Aniversário, São Paulo, Ano 8, n. 43, p. 28-34, out./nov. 2007. 22 CEPAE – Centro de Pesquisa, Ensino, Extensão e Atendimento em Educação Especial. Pró-Reitoria de Graduação da Universidade Federal de Uberlândia. 23 BARBOSA, Lucas. Obras de acessibilidade começam em até 5 meses. Jornal Correio de Uberlândia. Uberlândia, 28 dez. 2007. Cidade. Disponível em: http://www.correiodeuberlandia.com.br. Acesso em: 28 dez. 2007. 89Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009 visivelmente atrapalha a acessibilidade das pessoas deficientes, porém, nada acontecendo com o seu condutor. Isso instiga, no mínimo, uma pergunta: por que essa diferenciação no cumprimento da lei? Com isso, deduz-se que as pessoas com deficiência continuam enfrentando diversas dificuldades que vão desde a locomoção passam pela educação e chegam ao preconceito. Este último, tanto pode se expressar de maneira direta como indireta, por meio de um olhar, uma palavra mal expressada, ou na falta de tolerância. Nesse sentido as barreiras físicas também representam preconceitos. Por isso, as ruas, os meios de transportes, os estabelecimentos comerciais, entre tanto outros, na maioria das vezes, não estão preparados para recebê- los. A sociedade geralmente esquece que as pessoas com deficiência também são consumidoras, e necessitam de condições para adentrar os estabelecimentos. Esse descaso é uma representação “simbólica”, que explícita, na prática, a segregação, afastando ainda mais as pessoas deficientes do convívio social. As pequenas, porém relativamente consideráveis mudanças que têm ocorrido no Brasil, são resultados, sobretudo, da conscientização das pessoas deficientes, que de alguma forma conseguiram fazer ouvir a sua voz e valer os seus direitos. Mas isso, só foi possível com muita luta e embates. Daí surgiu às alterações e avanços no plano formal, com alterações nas leis ou criação de outras específicas, tendo como desdobramentos as mudanças e adaptações nos espaços públicos e privados. Por conseguinte, isso também se reflete no plano social provocando uma ainda modesta “conscientização” das pessoas de que elas também são pessoas aptas, com determinadas limitações. A rigor, trata-se de embates de seres humanos contra seres humanos, que podem ser entendidos como con- seqüência de um modelo social e cultural, que investe pesadamente no individualismo e na competição entre as pessoas. Mais do que isso, essa cultura que tem prevalecido projeta a imagem de corpo perfeito e, com ela, a visualização para as possibilidades de conquistas dentro daquilo que o próprio sistema pode oferecer, de- pendendo apenas dos esforços e das potencialidades individuais. Por isso mesmo, dentro desse modelo ideal, o sistema capitalista fabrica e estimula, formam um segmento social com seus direitos de cidadania com- prometidos. Esse é um terreno perverso no qual as pessoas com deficiência são tolhidas até mesmo de expressar as suas emoções e/ou reações, muitas vezes entendidas como atípicas ou próprias da sua “anorma- lidade”, os padrões estéticos instituídos, que constan- temente os julga como incapacitados, como se sua deficiência fosse um fator definidor deste ou daquele comportamento. Portanto, para que as iniciativas em curso no Brasil gerem frutos em termos de um efetivo enfrentamento desse grave problema social, questão que deve ser enfrentada em suas múltiplas dimensões. Para isso, uma legislação que force a ruptura das inúmeras barreiras físicas cumpre, sem dúvida, um significativo papel. Mais do que isso, entretanto, tornam-se necessárias as rup- turas das barreiras sociais e culturais, uma vez que, somente a partir do enfrentamento dos preconceitos, estigmas e estereótipos seria possível a promoção de uma inclusão social das pessoas com deficiência, capaz de criar raízes, ampliar-se e desenvolver-se com bases para solidificações que evitem possíveis retrocessos. Referências AMARAL, Lígia Assumpção. Pensar a diferença: Deficiência. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Porta- dora de Deficiência, Brasília, 1994. BOURDIEU, Pierre & PASSEREN, Jean Claude. A reprodução; elementos para uma teoria do sistema de ensino. Tradução: Reynaldo Barão. Rio de Janeiro: F. Alves, 1982. ______. Poder Simbólico. Tradução: Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. BRASIL. SEPLAN – Pr. CORDE. Primeiro Plano de Ação da Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Porta- dora de Deficiência. Brasília, 1987. CARMO, Apolônio Abadio do. Deficiência Física: a sociedade brasileira cria, “recupera e discrimina”. Sec. Dos Desportos/ PR, Brasília – 1991. FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Tradução Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1985. ______. Vigiar e Punir. Petrópolis, Vozes, 1977. FREITAS, Giovanina Gomes de. O esquema corporal, a ima- gem corporal, a consciência corporal e a corporeidade. São Paulo: Unijui, 1999. GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4. ed. Rio de janeiro: Guanabara S.A., 1988. GUGEL, Maria Aparecida. Pessoa com Deficiência e o Direito ao Trabalho: Reserva de Cargos em Empresas, Emprego Apoiado. Florianópolis: Obra Jurídica, 2007. MARQUES, Carlos Alberto. Implicações políticas da insti- 90 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009 tucionalização da deficiência. In: Educação & Sociedade. ISSN 0101-7330 versão impressa. Educ. Soc. v. 19 n. 62 Campinas Abr. 1998. Acesso: 15/06/2007. SILVA, Otto Marques da. A Epopéia Ignorada: A pessoa Deficiente na História do Mundo de Ontem e de Hoje. São Paulo: CEDAS, 1986. PUHLMANN. Fabiano. A sexualidade da mulher portadora de deficiência física. Revista Brasileira de Sexualidade Humana – SBRASH, ISSN 0103-6122, vol. 6, n. 2, p. 197- 203, jul. a dez. de 1995. Disponível em: <http://www.adolec. br/bvs/adolec>. Acesso em: 26 fev. 2007. REZENDE, Antônio Muniz. Pistas para um diagnóstico da patologia cultural. In: Morais, J.F. Regis de (Org.). Cons- trução social da enfermidade. São Paulo: Cortez & Moraes, 1978, p. 157-179. 91Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 91-101 — 1º sem. 2009 Introdução “Para que o acontecimento mais banal se torne uma aventura, é necessário e suficiente que o narremos.” Jean Paul Sartre O historiador Marc Ferro, no clássico Cinema e história, expõe que um filme diz mais sobre o momento em que foi produzido que o momento ao qual objetiva retratar.1 Além disso, nos diz que “todo filme tem uma história que é História”.2 É com base nesta reflexão que buscamos discutir, através do entrecruzamento de dois temas, violência e gênero, o complexo problema da questão agrária no Brasil. Para isso, esboçaremos uma análise histórica do filme Terra para Rose, atentando para a conjuntura de sua produção e a construção de sua narrativa focada na figura de uma mulher: Rose. O documentário Terra para Rose foi dirigido pela cineasta Tetê Moraes. No que diz respeito à parte técnica, roteiro e texto, tem a assinatura de José Joffily e Tetê Moraes e a fotografia foi feita por Walter Carvalho e Fernando Duarte. A película é um longa-metragem com duração de 84 minutos e é pertencente ao gênero documentário. Sua filmagem foi iniciada e terminada no ano de 1987 (em apenas seis meses). Trata-se de um filme que contou com pouquíssimo apoio financeiro. Além dessas informações iniciais, é importante apontar que o filme ganhou doze prêmios em festivaisde cinema nacionais e internacionais. No entanto, não foi um filme “acolhido” pelo grande circuito cinematográfico da época, estando restrito a espaços culturais mais alter- nativos e a um público específico — os interessados em problemáticas sociais da época. Quanto ao tema principal, aborda a questão da Reforma Agrária no Brasil, principalmente no período pós-regime militar, denominado Nova República. Mas muitas outras temáticas são privilegiadas, sendo tra- balhadas, ou mesmo apontadas, dentre elas: a questão O cinema como registro. Cenas de violência e gênero no documentário brasileiro* Renata Soares da Costa Santos Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da Cultura na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Bolsista do CNPq. E-mail: renatadahistoria@yahoo.com.br Resumo O artigo busca discutir, através do entrecruzamento de dois temas, violência e gênero, o complexo problema da questão agrária no Brasil. Para isso, esboçaremos uma análise histórica do filme Terra para Rose, atentando para a conjuntura de sua produção e a construção de sua narrativa focada na figura de uma mulher: Rose. Palavras-chave: Cinema. Violência. Gênero. Reforma Agrária. Abstract This article aims to discuss, through the interweaving of two themes, violence and gender, the complex problem of agrarian issue in Brazil. To do so, we will make a historical analysis of the film “Terra para Rose”, paying attention to the situation of their production and the construction of its narrative focus on the figure of a woman: Rose. Keywords: Movie. Violence. Gender. Land reform. * Este artigo é parte do trabalho de conclusão de Pós-Graduação Latu senso em Ensino de História e Ciências Sociais apresentado na Universidade Federal Fluminense. 1 Ferro, Marc. Cinema e História. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. 2 Ibidem, p.17. 92 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 91-101 — 1º sem. 2009 de gênero; violência; saúde; educação; fome; religião; solidariedade e outras. No caso deste artigo, a primeira temática enumerada, a questão de gênero, terá uma atenção particular, pois será uma espécie de fio condutor para compreendermos os nódulos da problemática do filme e seu momento histórico. A protagonista e os protagonistas Partindo da história verídica de Rose, uma agricultora sem-terra, a proposta do documentário é retratar o caso específico da ocupação da fazenda Annoni, localizada no estado do Rio Grande do Sul. Esta ocupação foi re- alizada por 1.500 famílias de sem-terras e foi considerada a primeira grande ocupação de uma extensa área im- produtiva. Neste contexto, é enfatizado e memorializado o início de atuação de um dos mais importantes e po- lêmicos movimentos sociais do Brasil ainda hoje, o Movi- mento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) 3. A diretora entrecruza as possibilidades de abordar uma discussão macro (nacional) associada a uma dis- cussão cotidiana dos indivíduos que participaram de uma ocupação específica (a da Fazenda Annoni). A autora e diretora enfatiza a história de Rose, embora não deixe de privilegiar a vida de outras famílias que fizeram parte diretamente deste momento histórico. Acreditamos que a cineasta Tetê Moraes, assim como outros documentaristas atuantes neste período de aber- tura política, utilizou este tipo de abordagem e dedicou- se a costurar junto a uma problemática ampla, “tramas aparentemente banais, envolvendo gente comum”.4 O que significa dar valor ao ponto-de-vista e às experiên- cias da vida cotidiana5 de indivíduos comuns, acreditando na importância de seus discursos para a construção do registro histórico. Gênero — uma escolha narrativa Podemos refletir sobre o sentido político da escolha da diretora ao escolher sua protagonista. Tetê Moraes, antes de filmar Terra para Rose, tinha um projeto de filmar o cotidiano de mulheres brasileiras, mas abriu mão ao ter notícias dos conflitos de ocupação da fazenda Annoni. Isto nos demonstra que a diretora já se in- quietava com as questões de gênero anteriormente às filmagens, e atribuímos a esta inquietação o fato de ter optado por uma ênfase no cotidiano feminino no decorrer do documentário e até mesmo ter escolhido uma mulher para “protagonizar” o filme. No entanto, não podemos afirmar que existiam relações diretas entre a cineasta e o movimento feminista, mas, que existia indiretamente, não nos resta muitas dúvidas. A escolha de Rose para “protagonizar” o filme vem a representar um aspecto simbólico, que tentaremos expor cuidadosamente. Rose deu à luz em 1985 à primeira criança nascida no acampamento da fazenda Annoni, Marcos Tiaraju, criança retratada em diversos momentos do filme como um símbolo de vida e de esperança. Mas não pensamos que a escola de Rose tenha sido apenas pelo aspecto simbólico. Tendemos a lembrar da fala de Tetê Moraes, em entrevistas presentes no DVD do filme, enfatizando a forma ativa de Rose e seu envolvimento nas discussões. De acordo com o olhar da diretora, Rose, além de ser uma mulher6, participativa efetivamente no movimento e nos protestos. Rose, a “protagonista” do filme, no ano de 1987, morreu em um acidente que gerou polêmica naquele momento. Ela foi atropelada, juntamente com outros três acampados, por um caminhão próximo à entrada do acampamento (onde estava sendo realizada uma manifestação). O motorista fugiu, deixando vários fe- 3 O Movimento foi criado em 1984 em um Encontro em Cascavel, no Paraná, com lideranças desse estado, do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul — com colonos que se haviam transferido da região Sul (os atingidos por barragens). Segundo o historiador Mario Grynszpan, em 1985 foi realizado o Primeiro Congresso Nacional do MST de onde foram retiradas as seguintes resoluções: extinção do Estatuto da Terra e edição de novas leis que levassem em conta a luta dos trabalhadores; expropriação de terras em mãos de multinacionais; desapropriação de áreas superiores a 500 hectares; ocupação de terras improdutivas ou públicas, adotando o lema “Ocupação é a única solução”. In: GRYNSZPAN, Mario. “A questão agrária no Brasil pós-1964 e o MST”. Apud, O Brasil Republicano – O tempo da ditadura: regime militar e movimentos socias em fins do século XX / organização Jorge Ferreira e Lucilia de Almeida Neves Delgado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p.337. 4 VAINFAS, Ronaldo. Os protagonistas anônimos da história: micro-história. Rio de Janeiro: Campus, 2002, p.106-115. 5 Estamos trabalhando com o conceito de vida cotidiana formulado por Agnes Heller. De acordo com a autora, “A vida cotidiana é a vida do homem inteiro; ou seja, o homem participa na vida cotidiana em todos os aspectos de sua individualidade, de sua personalidade. Nela, colocam-se ‘em funcionamento’ todos os seus sentidos, todas as suas capacidades intelectuais, suas habilidades manipulativas, seus sentimentos, paixões, idéias, ideologias. O fato de que todas as suas capacidades se coloquem em funcionamento determina também naturalmente, que nenhuma delas possa realizar-se, nem de longe, em toda sua intensidade”. In: HELLER, Agnes. O Cotidiano e a História. São Paulo: Paz e Terra, 2004, p.17. 6 Devemos levar em consideração que o final do regime militar foi marcado por grandes pressões dos movimentos sociais (rurais e urbanos), dentre eles, o surgimento da imprensa alternativa, onde passou a veicular os ideais de diversos movimentos: feminista, gay, negro, etc. 93Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 91-101 — 1º sem. 2009 ridos no local. Segundo a empresa responsável pelo caminhão, o veículo perdeu a direção e teve problemas com o freio, que não funcionou. No entanto, após a perícia feita comtécnicos da Ford de São Paulo, foi constatado que o veículo estava em perfeito estado e não apresentava nenhum defeito nos três sistemas de freios. O caso, ainda que tenha ganhado repercussão na mídia, não obteve maiores averiguações. Segundo o relato do filme, o processo na justiça ainda estava em aberto até o término das filmagens. Um filme é uma montagem Acreditamos que as escolhas da diretora ao realizar a montagem do filme é fruto de sua sensibilidade inicial, mas também de uma estratégia para construir os argumentos da película. Com relação à definição de montagem, Rosália Duarte nos diz que Entendida em um sentido amplo, a montagem é a ordem em que os planos se sucedem em uma seqüência temporal, assim como a forma como os elementos que compõem um mesmo plano são apresentados — si- multânea ou sucessivamente. Colocadas juntas, as imagens se unem em uma nova idéia; estendemos fios invisíveis entre elas, de modo que façam sentido para nós. O cinema soube disso desde o início e se utiliza da montagem para sugerir essas ligações.7 Consideramos que o som é um elemento funda- mental na composição de um filme e que, em geral, é utilizado para ampliar o estado emocional para reforçar as emoções que se espera de determinadas cenas. Assim, com referência à trilha sonora de Terra para Rose, podemos observar a presença de músicas que nos con- duzem a uma sensibilização do tema discutido. Trata-se de músicas instrumentais; de hinos e cantorias dos próprios sem-terra (enfatizando a realidade em que vivem e quais os seus objetivos); de hinos da igreja católica — como sabemos, alguns segmentos da instituição tiveram papel de destaque neste período histórico em defesa da causa da realização da Reforma Agrária. A trilha sonora que predominou no filme foi a Nona Sinfonia de Beethoven — a que se refere a todos os homens como irmãos. Neste sentido, a escolha da sonoplastia está em harmonia com o objetivo do filme, pois articula as causas que o movimento defende e a questão ampla da solidariedade. Com relação à solidariedade, nos diz João Pedro Stédile: Essa solidariedade deve ocorrer em coisas práticas, como por exemplo estabelecer um banco de doadores de sangue para os hospitais públicos das cidades pró- ximas aos assentamentos. Devemos ser os primeiros voluntários a prestar ajuda em casos de catástrofes naturais, como enchentes, temporais, secas, etc. os assentamentos devem fazer brigadas de solidariedade para atender esses casos.8 De forma geral, as cenas do filme transitam entre o cotidiano do acampamento da Fazenda Annoni; entrevista com os sem-terra; com o proprietário da Fazenda Annoni e ministros, deputados, padres, intelectuais e artistas; cenas televisivas; passeata para pressionar o governo a realizar um projeto de Reforma Agrária e sua concretização; e a notoriedade midiática e a solidariedade por parte da população, conquistadas pela visibilidade do movimento e da causa em questão. Neste âmbito, consideramos que o documentário apresenta um importante diálogo entre as opiniões divergentes do movimento dos acampados na fazenda, colocando em cena os discursos de autoridades e do dono da fazenda. Ao contrapor estas entrevistas, o filme direciona o nosso olhar, na medida em que mostra os depoimentos dos sem-terra sempre de forma engajada enquanto as cenas mostradas do fazendeiro são inex- pressivas e vacilantes (como se o fazendeiro não tivesse argumentos ou estivesse nervoso). Assim, o docu- mentário confere legitimidade ao discurso dos sem-terra através das estratégias de edição e montagem — não podemos esquecer que as imagens são selecionadas e editadas, logo, estão, até certo ponto, indissociadas da singularidade fílmica (de quem produz e por que produz). Comentar Terra para Rose — uma tarefa árdua Partimos do princípio de que comentar um filme através do olhar do historiador não é uma tarefa fácil. Portanto, como nosso objeto de análise é um filme da 7 DUARTE, Rosália. Cinema e Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2002, p.50. 8 STÉDILE, João Pedro e FERNANDES, Bernardo Mançano. Brava Gente: A trajetória do MST e a luta pela terra no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001, p.123. 94 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 91-101 — 1º sem. 2009 década de 1980, atribuímos grande atenção às palavras de alerta da historiadora Ana Maria Mauad em análise ao filme Bye, Bye Brasil: “sendo um filme recente, corre- se o perigo de cair nas armadilhas do devaneio, ou até mesmo do impressionismo de uma pseudocrítica cine- matográfica”.9 No entanto, ainda que correndo o risco, não podemos nos privar de assumir o papel de historiador que age não apenas enquanto cientista, mas também como artista10. Isto significa que devemos assumir a tarefa de realizar a narrativa fílmica e que devemos constatar as diferentes formas que esta narrativa pode vir a assumir — o que está intrinsecamente ligado aos ideais dos indivíduos que se propõem a realizar tal tarefa. Para assumir esta em- preitada de narrar um filme, pautamo-nos na concepção de narração de Mariza de Carvalho Soares: A forma narrativa, segundo a concebo, diz respeito ao modo como o filme apresenta uma determinada temática, envolvendo aí o gênero (ficção ou documen- tário, por exemplo), o tratamento dado à fotografia, o ritmo da narrativa, a música, o tempo de duração, o tratamento dado à cronologia e até mesmo a opção entre película e fita magnética.11 A partir desta exposição, julgamos que podemos iniciar a análise de nossa fonte/documento/testemunho histórico. Seguiremos os conselhos de Marc Ferro ao nos incentivar a “Partir da Imagem”, mas não deixar de fazer uso de outros saberes, sempre que necessário12, para enriquecer e aprofundar o estudo minucioso do do- cumento. Assim, tentaremos identificar no filme Terra para Rose elementos que possam nos ajudar a com- preender a conjuntura da década de 1980, especialmente no que diz respeito à Questão Agrária. Para realizar de forma lúdica esta análise, dividiremos a observação em sub-tópicos, correspondentes à própria “organização” do filme, marcados pelas seguintes separações: A promessa; A pressão; A espera; O con- fronto; O Sonho; A Trégua. Logo, faremos a análise buscando levantar as principais problemáticas abordadas em cada um dos “quadros narrativos”.13 A primeira cena do filme apresenta seus protagonistas em passeata cantando. Rose aparece com seu filho no colo junto a inúmeros outros indivíduos sem-terra. A cena é musicada apenas pela cantoria dos manifestantes. Em seguida, os manifestantes encontram-se organizados em torno de uma grande faixa (não muito legível) onde aparentemente está escrito “CAMINHADA PELA PAZ”. Juntos cantam o hino nacional. Neste momento, obser- vamos no filme uma primeira mudança brusca de cena14 que dará início ao nosso primeiro recorte textual. A promessa A câmera focaliza a bandeira nacional enfatizando o seu escrito Ordem e Progresso. Ao fundo, uma melodia instrumental do hino nacional e uma narrativa com sucessão de dados estatísticos: Brasil: 8.5000.000 Km2, 140 milhões de habitantes, 8ª economia do mundo capitalista, 5º exportador de armas, estrutura fundiária arcaica. Dos 4.500.000 de proprietários rurais, apenas 170 mil são donos de quase metade da área agrícola do país e contribuem só com 16% da produção agropecuária do Brasil. Há pelo menos 12 milhões de famílias de trabalhadores rurais sem terra. Foram assassinados mais de mil camponeses nos últimos 20 anos. Entre 1970 e 1980, 24 milhões de brasileiros migraram do campo para as cidades. Esse quadro é de tal forma absurdo que hoje em dia quase praticamente