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Cadernos de Pesquisa do CDHIS
Caderno de Pesquisa do CDHIS Uberlândia, MG n. 40 ano 22 p. 1-174 1º semestre 2009
ISSN 15187640
CADERNOS DE PESQUISA DO CDHIS
REVISTA DO CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E PESQUISA EM HISTÓRIA – CDHIS
INSTITUTO DE HISTÓRIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
Av. João Naves de Ávila, 2121 – Bloco 1Q – CDHIS – Campus Santa Mônica – Uberlândia – MG
Cep 38400-902 – Telefones: (34) 3239 4204 | 4236 | 4240 | 4501
E-mail: cdhis@ufu.br – www.cdhis.ufu.br
EDITORA
Vera Lúcia Puga
COMITÊ EDITORIAL EXECUTIVO
Dulcina Tereza Bonati Borges (UFU/MG)
Ivanilda Aparecida Junqueira (UFU/MG)
Maucia Vieira dos Reis (UFU/MG)
Velso Carlos de Sousa (UFU/MG)
CONSELHO EDITORIAL
Artur César Isaia (UFSC/SC)
Dilma Andrade de Paula (UFU/MG)
Luciene Lehmkuhl (UFU/MG)
Lúcia Lippi (CPDOC/FGV/RJ)
Maria Beatriz Pinheiro Machado (Arquivo Histórico Municipal/Caxias do Sul/RS)
Maria Clara Tomaz Machado (UFU/MG)
Raquel Glezer (USP/SP)
Yara Koury (PUC/SP)
CONSELHO CONSULTIVO
Ana Maria Said (UFU/MG)
Carlos Henrique de Carvalho (UFU/MG)
Jane de Fátima Silva Rodrigues (UNIMINAS/MG)
Mário Anacleto (CECOR/UFMG/MG)
Marcos Antônio de Menezes (UFG/GO)
Maria Cristina Nunes F. Neto (PUC/GO)
Maria de Lourdes de Albuquerque Fávero (PROEDS-UFRJ/RJ)
Newton Dângelo (UFU/MG)
Regma Maria dos Santos (UFG/GO)
Robson Laverdi (CEPEDAL/SC)
Wenceslau Gonçalves Neto (UFU/MG)
Yonissa Marmitt Wadi (UNIOESTE/PR)
DIREÇÃO EDUFU: Humberto Aparecido de Oliveira Guido
TIRAGEM: 1000 exemplares
FICHA CATALOGRÁFICA
Elaborada pelo Sistema de Bibliotecas da UFU ISSN 15187640
Cadernos de Pesquisa do CDHIS, n. 40, ano 22, 1º Semestre de 2009.
Universidade Federal de Uberlândia, Instituto de História. Centro de Documentação e
Pesquisa em História – CDHIS. Uberlândia, MG: EDUFU.
Semestral
1. Arquivo, Memória, Documento 2. História Local 3. Estudos Históricos.
DIAGRAMAÇÃO
Eduardo Moraes Warpechowski
TÉCNICA EM LÍNGUA INGLESA
Sandra Chaves Gardellari
SETOR DE PUBLICAÇÕES
Dulcina Tereza Bonati Borges
ARTE FINAL
Maria José da Silva
INDEXAÇÕES: LATINDEX (Portal Iberoamericano); SUMARIOS (http://www.sumarios.org)
Apresentação ................................................................................................................................ 5
K A R Q U I V O , D O C U M E N T O E M E M Ó R I A J
Usos do passado e arquivos: questões em torno da pesquisa histórica ..................................... 9
Paulo Knauss de Mendonça
K A R T I G O S J
Nas margens da política: trajetória, narrativa e mediação na
Baixada Fluminense (RJ/Brasil) ............................................................................................... 17
Alessandra Siqueira Barreto
O problema da compilação na cronística medieval portuguesa do limiar
do século XVI (Rui de Pina) .................................................................................................... 33
Leandro Teodoro Alves
Manutenção da ordem: (re)contextualização de tópicas mitológicas à luz de uma economia 
cristã. ......................................................................................................................................... 41
Cleber Vinícius do Amaral Felipe
Ética e Sociedade Afluente: intelectuais e a agenda para uma esquerda reformista .............. 59
Daniel de Pinho Barreiros
As características da experiência socialista na agricultura de Angola após a independência .... 69
Rodrigo de Souza Pain
Ivan Arruda
Entre preconceitos, vitimização e incapacidade: os deficientes e as imagens que
reforçam a segregação social .................................................................................................... 79
Eliete Antônia da Silva
O cinema como registro. Cenas de violência e gênero no documentário brasileiro ............... 93
Renata Soares da Costa Santos
As recepções do filme Macunaíma pela crítica Ely Azevedo ................................................. 105
Leandro Maia Marques
Sumário
K D O S S I Ê : E N S I N O D E H I S T Ó R I A J
Educação: o que a História nos ensina? .................................................................................. 115
Beatriz Lemos Stutz
Carlos Alberto Lucena
Refletindo sobre o vivido: o cotidiano, o saber escolar e a formação histórica ...................... 127
Cláudia Rodrigues
O jovem e sua concepção de História: patrimônio, museu e memória como
mediadores da construção do conhecimento histórico ........................................................... 133
Joana D’arc Germano Hollerbach
Leituras sobre a África Contemporânea. Representações e abordagens do continente africano
nos livros didáticos de História ................................................................................................ 143
Anderson Oliva
Diversidade e inclusão. Relato de Experiência didática interdisciplinar
de aplicação da Lei n. 10.639 ................................................................................................... 155
Jeanne Silva
K R E S E N H A J
Ofício de historiador: passado e presente.
Tétart, Philippe. Pequena História dos historiadores. Trad. Maria Leonor Loureiro. Bauru/
são Paulo: Edusc, 2000, 166p. ................................................................................................. 167
Diogo da Silva Roiz
É com entusiasmo que apresentamos às/aos leitores o número 40 – jan./jul. de 2009 – Ano 22 dos Cadernos de
Pesquisa do CDHIS (ISSN 15187640). Esta edição reune várias contribuições, abrimos com a sessão ARQUIVO,
DOCUMENTO E MEMÓRIA com um artigo especial do prof. Dr. Paulo Knauss de Mendonça*. Na sessão “Artigos”
os temas são relacionados à política, ética, cinema e literatura medieval. Destaca-se ainda, nesta edição, um dossiê
especial, “Ensino de História”.
A discussão inicia-se especificando o papel dos arquivos, especialmente os das universidades, como uma construção
das formas contemporâneas de promoção de memórias, registro este que distingue o viver dos tempos anteriores.
Nos arquivos, organiza-se o encontro com o presente pela ruptura com o passado e não pela continuidade. Na
diferença dos tempos é que se dá conta da própria historicidade.
Passando-se para os artigos, Alessandra Siqueira Barreto aborda a construção do campo político fluminense,
particularmente da Baixada Fluminense (RJ), uma área conhecida pela pobreza e violência, a partir da trajetória de
um conhecido, e ativo, político local: Jorge Gama. Leandro Alves Teodoro propõe perceber a mudança de perspectiva
da Crônica de D. Afonso IV do cronista Rui de Pina para a Crônica de D. João II, feita a partir do seu levantamento
de dados. Cleber Vinicius do Amaral Felipe, busca mapear a utilização de figuras de ornato e tópicas de invenção em
Prosopopéia, obra atribuída a Bento Teixeira, e nas sátiras de Gregório de Matos Guerra. Daniel de Pinho Barreiros
analisa comparativamente as idéias sociais de importantes intelectuais ligados ao debate político norte-americano,
engajados na crítica ao Welfare State e ao capitalismo de crescimento acelerado, trazendo um momento importante
da história intelectual do séc. XX, que se refere ao surgimento do conceito de sustentabilidade. Rodrigo de Souza Pain
e Ivan Arruda, discutem as características da experiência socialista na agricultura de Angola após a independência.
Eliete Antônia da Silva aborda a marginalização e a segregação das pessoas com deficiência como resultado de
violências e coerções que operam no plano simbólico do imaginário e das representações. Renata Soares da Costa
Santos questiona, por meio do filme Terra para Rose, o complexo problema da questão agrária no Brasil. E, Leandro
Maia Marques, trabalha com a recepção do filme Macunaíma através das leituras críticas do jornalista Ely Azeredo.O dossiê Ensino de História aborda a educação enquanto uma construção em constante transformação. Reflete
sobre alguns problemas concernentes ao ensino e à prática em sala de aula na formação histórica dos indivíduos
inclusive trazendo à tona a necessidade de discutir no espaço escolar conceitos e temas como História da África
Contemporânea; diversidade e inclusão; patrimônio histórico, memória e museu como alternativa para a construção
do conhecimento histórico. Os intelectuais que se dedicaram a discutir a temática da educação são eles: Beatriz
Lemos Stutz, Carlos Alberto Lucena, Cláudia Rodrigues, Joana D’arc Germano Hollerbach, Anderson Oliva e Jeanne
Silva.
A edição se completa com a resenha do livro Ofício de historiador: passado e presente, feita por Diogo da Silva
Roiz.
Boa leitura!
O Comitê Editorial Executivo
Apresentação
(*) Professor da UFF, diretor do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Esteve presente na UFU e prestigiou o CDHIS visitando a
nós e conferindo nosso acervo.
Arquivo, Documento e Memória
9Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 9-16 — 1º sem. 2009
Arquivos do nosso tempo
De diferentes formas, o passado sempre ocupou as
sociedades ao longo dos tempos. As sociedades
contemporâneas, segundo a fórmula de Pierre Nora,
inventaram os lugares de memória, distinguindo-se das
sociedades tradicionais que vivem na memória e
justificam seus atos cotidianos a partir da lembrança dos
seus mitos e repetindo seus antepassados.1 Diante da
aceleração do tempo e do compromisso com o progresso,
as sociedades contemporâneas trataram de localizar o
passado em museus, bibliotecas, arquivos, catálogos,
datas, festas e comemorações, testemunhando a sua
própria transformação. Nesse tempo em que vivemos,
procuramos sempre inovar e transformar o mundo,
distanciando-nos de nossos ancestrais. Nossa distância
é a medida de nossa evolução.
Como outros lugares de memória, os arquivos são
uma construção das formas contemporâneas de
promoção de memórias, registro de que nós vivemos num
tempo distinto dos tempos anteriores. Nos arquivos,
organiza-se o encontro com nosso tempo pela ruptura
com o passado e não pela continuidade. Na diferença
dos tempos é que nos damos conta da nossa própria
historicidade. Assim, diante de cartas antigas de uma
mapoteca, descobrimos como o mesmo território foi
representado diversas vezes de modos distintos, mas
diante deles, observando o mesmo território, nos
Usos do passado,
arquivos e universidade
Paulo Knauss
Professor do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense
e Diretor-Geral do Arquivo Púbico do Estado do Rio de Janeiro.
Resumo: O artigo aborda a função dos arquivos na
atualidade, especialmente os das universidades, como
uma construção das formas contemporâneas de promoção
de memórias, registro de que vive-se num tempo distinto
dos tempos anteriores. Nos arquivos, organiza-se o
encontro com o presente pela ruptura com o passado e
não pela continuidade. Na diferença dos tempos é que se
dá conta da própria historicidade. Enquanto equipamento
cultural, os arquivos públicos são sempre encarados como
recursos de conhecimento e de animação do espírito e da
curiosidade pela ciência e pela educação. A cultura e o
conhecimento são dimensões da cidadania
contemporânea, por serem domínios da livre expressão e
de afirmação de identidades, além de movimentar uma
economia peculiar de proporções significativas.
Palavras-chave: Arquivos Públicos. Arquivos
Universitários. Documentos. Cidadania.
Abstract: This paper is about the current role of files,
especially in universities while being a construction of
contemporary ways of memory promotion. This way they
are recordings showing that we live in a different time. The
encounter with the present time is organized through the
rupture with the past but not through continuity. Times’
differences allow one to feel his own history. While a
cultural tool, public files are always faced both as
knowledge and spiritual happiness resources. They also
help science and education. Culture and knowledge are
dimensions of contemporary citizenship, for they are
domains of free expression and identity confirmation,
besides moving a peculiar economy of significant
proportions.
Keywords: Public Files. University Files. Documents.
Citizenship.
1 NORA, Pierre. Entre mémoire et histoire: la problématique des lieux. In: Les lieux de mémoire. Paris: Gallimard, 1984. v. 1.
10 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 9-16 — 1º sem. 2009
convencemos de que nosso espaço é outro. Podemos
reconhecer o Brasil numa carta colonial, contudo, diante
dela nos convencemos de que a nossa terra não é mais
daquele jeito.
Ocorre que, antes disso, há outra constatação a ser
feita. Os documentos de caráter permanente, que
encontramos nos arquivos públicos dos nossos dias, não
foram sempre vestígios de outro tempo. Conforme a
teoria do ciclo de vida dos documentos é possível
demarcar as fases corrente e intermediária, anteriores à
fase permanente de vida dos documentos. Como
documentos correntes eles serviram ao instante do
presente, no aguardo do despacho necessário. A espera
da realização de ações decorrentes da decisão inscrita
nos documentos caracteriza a fase intermediária da vida
documental. Sua terceira fase de vida, a fase permanente,
é a memória da ação produzida e consumada. Alguns
diriam que nessa fase os documentos se tornam inativos,
ou deixam de ter caráter utilitário. Melhor seria falar de
valor primário, próprio da consecução da ação, e de valor
secundário, que envolve novos usos dos documentos, pois
é diante de sua condição permanente que os documentos
afirmam sua dimensão histórica, propriamente dita.2
Importa salientar que durante os ciclos de sua vida,
os documentos sofrem uma transmutação de sentido que
os desloca da produção de um ato para a recordação do
mesmo ato. Considerando que os documentos nascem
correntes, sobrevivem como intermediários, e se
redefinem como permanentes, entre a primeira e a última
fase de sua vida eles continuam sempre sendo os mesmos
suportes materiais de informação, mas o seu sentido é
transformado. Nessa passagem é que os usos dos
documentos são redefinidos, e nesse momento eles
deixam de transportar ações do presente, para
transportar ações do passado. Há uma mudança de
inserção temporal em torno da transmutação de sentido
dos documentos. Nesse caso, os usos do passado fazem
a diferença, pois os documentos passam a ganhar outra
razão de ser e se instalam nos arquivos. No início de sua
vida, o documento é registro do presente, na terceira fase
de sua vida ele passa a ser registro do passado e se afirma
como patrimônio cultural.
Sem dúvida, um dos melhores exemplos dessa
transmutação dos documentos ao longo de sua vida são
os arquivos das polícias políticas do século XX. Isso vale
para o Brasil, para os países do Cone Sul, ou para a
Alemanha oriental, ou para onde quer que os regimes
policialescos tenham sido substituídos por regimes
abertos. Isso porque os documentos da polícia política
nasceram para perseguir os cidadãos, considerando-os
inimigos de Estado, ou “inimigos internos”. Contudo,
hoje eles são instrumentos da garantia de direitos dos
cidadãos frente ao Estado. Trata-se do mesmo papel, do
mesmo suporte material e do mesmo conteúdo, mas sua
razão de ser mudou diante da presença do passado na
sociedade. Mudou seu sentido, porque a sociedade e suas
instituições mudaram, substituindo velhas estruturas por
outras. Os mesmos papéis ganham assim novo interesse,
o que implica em novos usos. Desse modo, os documentos
da polícia política são reconhecidoscomo fontes de outra
época e, assim, localizam o passado. Sua difusão e
publicidade reafirmam as nossas diferenças históricas e
atestam que estamos noutro tempo em que a relação do
Estado e do cidadão se transformou. Sua preservação
atesta a transformação da sociedade.
Portanto, esse uso contemporâneo do passado não
nos situa na continuidade do passado e de gerações
anteriores, mas, ao contrário, nos coloca na desconti-
nuidade do tempo. Nossa época se define pela alteridade
em relação a outras épocas. Revisitar os documentos
históricos de arquivo, nesse caso, significa sempre
reafirmar a particularidade do presente frente aos outros
tempos.
Portanto, os usos do passado se organizam no
presente. Assim, a transmutação do sentido do docu-
mento acompanha de fato um deslocamento dos tempos,
pois é no presente que o passado se define. O passado
não é dado, mas construção atualizada do presente.
Arquivos no campo da cidadania
Enquanto equipamento cultural, os arquivos públicos
são sempre encarados como recursos de conhecimento
e de animação do espírito e da curiosidade pela ciência e
pela educação. Por isso, cada dia mais os arquivos se
dedicam à produção de exposições, publicações, cursos e
eventos. Essa dimensão é fundamental, mas ela não deve
ser vista como marginal à cidadania ou epifenômeno da
vida. A cultura e o conhecimento são dimensões da
cidadania contemporânea, por serem domínios da livre
2 Para uma caracterização do ciclo de vida dos documentos, veja-se, por exemplo, BELLOTTO, Heloisa. Arquivos permanentes:
tratamento documental. 4ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2007. Cap. 1.
11Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 9-16 — 1º sem. 2009
expressão e de afirmação de identidades, além de
movimentar uma economia peculiar de proporções
significativas.
De outra parte, porém, é importante notar que o
cidadão só percebe que o arquivo é um equipamento
fundamental na sua vida social, quando descobre que
ali se encontra o papel que pode servir para garantir o
seu direito almejado. Essa é uma cena comum ao dia-a-
dia dos arquivos públicos, espaços de dor e alegria diante
da possibilidade de conquistas sociais individuais. Isso
diz respeito tanto a acervos que documentam a história
das propriedades, como os registros de terra do século
XIX, introduzidos pela Lei de Terras de 1850, como os
documentos do Instituto Médico Legal criado na capital
federal em 1907, entre outros. Todos os dias, os arquivos
recebem cidadãos em busca de uma certidão que ateste
a informação decisiva para sua demanda legal. No caso
dos documentos das polícias políticas, eles são
instrumentos fundamentais para reparação de danos às
vitimas do autoritarismo, por exemplo. Do mesmo modo,
é por meio da gestão documental, que os Estados podem
atender às demandas de transparência social, dando
conta de suas realizações à sociedade. O sistema de
arquivos é base da superação da opacidade do Estado.
Interessa sublinhar, que diante desse duplo caráter
os arquivos são expressão da democracia e se afirmam
no campo da garantia de direitos e da cidadania. Assim,
os arquivos exercem papel importante, especialmente,
no campo dos direitos de quarta geração, em especial, o
direito à informação, à cultura e à memória.
Não sem razão os arquivos públicos no Ocidente se
fortaleceram, sobretudo, depois da Segunda Guerra
Mundial e a derrocada dos regimes totalitários do nazi-
fascismo, marcados pela discriminação étnica e a política
de homogeneização cultural. Há um vínculo na história
contemporânea entre a informação dos arquivos e a
crítica do Estado de exceção. Os arquivos são, assim,
componente fundamental do Estado de direito.
No quadro de Estado de direito se definem, também,
as condições de uma política nacional de arquivos na
atualidade nacional. Ao lado do direito à cultura, a
Constituição da República Federativa Brasileira de 1988
estabelece dispositivos destinados a garantir os direitos
individuais e, ao mesmo tempo, resguardar o direito a
informações contidas nos órgãos públicos. Esta foi a
primeira e única Constituição do Brasil a estabelecer
parâmetros gerais de uma política nacional de gestão de
documentos da administração pública visando a
franquear sua consulta, corroborada pelas disposições
federais da Lei n.º 8.159, de 08 de janeiro de 1991, que
trata dos Arquivos públicos e privados, regulamentando
o acesso a documentos públicos, prazos de sigilo, emissão
de certidões e rito processual do habeas data —
instrumento pelo qual todo cidadão tem direito de
conhecer as informações que o Estado produz sobre ele
— abrindo assim os arquivos aos indivíduos da sociedade.
Desse marco jurídico geral, decorrem as condições
de uso dos arquivos e suas fontes. Há que se balancear o
interesse público diante do privado, os direitos difusos e
os individuais. Especificamente neste âmbito, dois
princípios constitucionais basilares necessariamente são
sopesados: o direito à informação e a inviolabilidade da
intimidade.3
O direito à informação tem a característica de ser
um direito difuso, ou seja, que perpassa toda a sociedade,
sendo um pressuposto da democracia que os cidadãos
tenham conhecimento dos atos, das atividades da
administração para que possam atuar, fiscalizando,
controlando e participando do Poder Público. Nesse
sentido, o direito à informação é da mesma natureza do
direito à cultura e à memória.
A esta questão deve também ser aplicada a norma
inserta no inciso XXXIII, do artigo 5º da Constituição
Federal de 1988, no que tange o direito de sigilo de
informações relevantes à segurança da sociedade e o
Estado. A Lei Federal de Arquivos (n.º 8.159/91) dispõe,
ainda, no artigo 4º que todos têm o direito de receber
dos órgãos públicos informações, ressalvadas aquelas
cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade
e do Estado, bem como a inviolabilidade da intimidade,
da vida privada, da honra e da imagem das pessoas.
Neste mesmo diapasão, no artigo 5º e inciso X da Lei
Maior, se encontra o preceito constitucional de inviola-
bilidade da intimidade, da honra, da vida privada e da
imagem das pessoas, que constitui garantia de direito
individual.
O que a história dos documentos no Brasil demonstra
é que os usos do passado não são exclusividade dos
historiadores. Aliás, eles trafegam na trilha que a ordem
social estabelece como marcos legais e pelos direitos
3 Para esse debate, veja-se: COSTA, Célia Maria Leite. Intimidade versus interesse público: a problemática dos arquivos. Estudos
Históricos, Rio de Janeiro: n. 21, 1998/1.
12 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 9-16 — 1º sem. 2009
garantidos pelo trabalho dos arquivos públicos. Além
disso, é muito freqüente o uso destas fontes pelo mundo
do jornalismo, da produção áudio-visual, de massa ou
não, ao lado dos usos para fins probatórios por cidadãos
comuns. O que se pode dizer é que os documentos de
arquivo são objeto de um espaço público que não se
circunscreve ao mundo dos profissionais de história. Tal
como apontam François Hartog e Jacques Revel, em
torno dos usos políticos do passado se torna possível
observar que no campo da história contemporânea foi
se estabelecendo um campo próprio para a história
recente, explicitando uma particularidade da nossa era.4
Cabe lembrar sempre que as relações entre política e
usos do passado estão na origem da historiografia no
Ocidente. Heródoto é tido até hoje como ‘pai da história’,
depois de ter escrito o livro que ganhou o título de
História. De fato sua obra, lança a idéia da história como
investigação, tal como a etimologia da palavra grega
sugere. No entanto, essa idéia da origem do conheci-mento a partir da obra do famoso autor grego da Anti-
güidade despreza o fato de que as sociedades sempre
conviveram de algum modo com formas de construção
do conhecimento de suas histórias. Mas por que
Heródoto, e depois Tucídides – com a História da Guerra
do Peloponeso – fizeram a diferença na Antigüidade.
Moses I. Finley, o historiador britânico da Antigüidade
clássica, apresenta o argumento de que o aparecimento
da História como investigação e como conhecimento,
na Grécia Antiga, está relacionado com o advento da
polis, que representa a afirmação do campo da política e
da discussão pública.5 A interrogação proposta questiona
as relações entre poder e conhecimento como uma marca
da História. Não sem razão, Heródoto e Tucídides, per-
sonagens emblemáticos da historiografia antiga foram
exilados políticos. Heródoto foi obrigado a fugir de sua
terra natal, Helicarnasso, no contexto das guerras persas
e depois de uma revolta. Foi também um homem do
tempo de Péricles e que esteve ao lado de suas forças na
fundação da colônia de Turios, nos anos de 440 a.C.
Tucídides, por sua vez, chegou a ser o estrataga de sua
cidade, Atenas, assumindo assim uma função pública
de destaque social. Após o fracasso de uma missão militar
e a perda do poder em sua cidade, foi condenado ao exílio.
Nesse sentido, há na historiografia fundadora uma
manifestação de consciência provocada pela condição
política de seus autores e a possibilidade de participar da
discussão pública a partir da escrita. Essa condição
definiu uma moral sob a marca do exílio para o estudo
da história.6
De todo modo, o que se abre diante de nós como
debate é o fato de que os usos do passado organizam as
formas da lembrança, mas igualmente do esquecimento.
Talvez, melhor seria dizer que toda forma de lembrança
é sempre também uma forma de produzir amnésia.7
Arquivos na universidade
No universo dos arquivos da atualidade existe uma
espécie ímpar: os centros de documentação univer-
sitários. Estes centros se formaram como núcleos de
apoio à pesquisa no campo das humanidades e possuem
um perfil diversificado. Ora se definem como custodia-
dores de acervos arquivísticos, bibliográficos e museo-
lógicos, ora se caracterizam como centro de referência
que organiza bases de dados, repertórios e guias de fontes
ou mantêm coleções documentais microfilmadas ou
digitalizadas, combinando essas duas vertentes de modos
variados.
O Instituto de Estudos Brasileiros – IEB da Univer-
sidade de São Paulo é o exemplo pioneiro criado em 1962
sob a liderança de Sergio Buarque de Holanda. Ao longo
dos anos, afirmou-se com um centro multidisciplinar de
pesquisa e documentação sobre história e cultura no
Brasil, reunindo arquivos e bibliotecas pessoais de artistas
e intelectuais brasileiros, com destaque para os acervos
de Mario de Andrade e Alberto Lamego. No início, o
centro se organizou em torno da biblioteca a partir da
coleção do intelectual paulista Yan de Almeida Prado,
mas a partir de 1968 o arquivo da instituição começou a
se constituir e definir o modelo de centro de docu-
mentação.8
 Como indica Célia Camargo Reis, é a partir dos anos
70 do século XX, que se estabelece um contexto
particular que permitiu a construção desses centros e
4 HARTOG, François & REVEL, Jacques (dir.). Les usages politiques du passé. Paris, Ed. EHESS, 2001.
5 Cf., FINLEY, Moses I. Usos e abusos da história. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
6 Para essa discussão, veja-se: KNAUSS, Paulo. Uma história para o nosso tempo: historiografia como fato moral. História Unisinos.
São Leopoldo-RS: v. 12, n. 2, p. 140-147, mai/ago 2008.
7 Para um debate sobre memória e esquecimento, veja-se: RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Ed.
Unicamp, 2007.
8 CALDEIRA, João Ricardo de Castro. IEB: origem e significados. São Paulo, Imprensa, Oficial, 2002.
13Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 9-16 — 1º sem. 2009
levou à sua constituição, especialmente, ao redor de
cursos de História e Ciências Sociais das universidades
brasileiras.9 Há, de um lado, um movimento oficial que
reconheceu a contribuição que a universidade pode dar
à proteção do patrimônio documental e, por outro lado,
há um outro movimento que buscou proteger o que as
forças oficiais da época não admitiam. A origem, do
Arquivo Edgar Leuenroth, da Universidade de Campinas
– Unicamp, se relaciona a esse segundo movimento a
partir da incorporação, em 1974, do acervo pessoal que
deu nome a um dos maiores centros de documentação
universitários do Brasil.
Usualmente, estes centros de documentação uni-
versitários tendem a ocupar um espaço não trabalhado
por outras instituições arquivísticas públicas de re-
ferência. Por vezes, tornam-se centros de resgate de
documentos de valor histórico, cuja integridade é
ameaçada. Em Alagoas, durante alguns anos, os do-
cumentos da polícia política estadual terminaram sendo
tratados e guardados pela Universidade Federal do estado,
diante do fato de que nenhuma outra instituição esta-
dual assumiu a custódia do acervo. Recentemente, no
âmbito do Projeto Memórias Reveladas, coordenado pelo
Arquivo Nacional, houve a entrega da documentação
ao Arquivo Público de Alagoas, devolvendo os docu-
mentos ao lugar de referência institucional desse tipo de
fundo arquivístico. Outro exemplo conhecido é o do
Centro de Documentação Histórica da Universidade
Severino Sombra – USS, criado em 1987 na cidade de
Vassouras do estado do Rio de Janeiro, que tem a cus-
tódia de documentos cartorários da região do vale do
Paraíba fluminense e da Prefeitura Municipal. Nessa
mesma linha, pode-se citar também o Centro de Do-
cumentação e Apoio à Pesquisa – CEDAP, da Faculdade
de Ciências e Letras de Assis – UNESP, criado em 1973,
que integrou ao seu acervo os documentos cartorários
do Fórum de Assis e os documentos do Poder Legislativo
e Executivo municipais. No Paraná, pode-se mencionar
também o Centro de Documentação e Pesquisa Histórica
da Universidade Estadual de Londrina – UEL, originado
da criação de uma iniciativa universitária do ano de 1973.
Em todos estes casos, o que se observa é que os centros
de documentação universitários têm um papel decisivo
na proteção do patrimônio documental local e regional.
Por vezes, as iniciativas universitárias provocam a ação
do poder público no sentido de constituir a instituição
arquivística de referência local. É assim, que na cidade
de Guarapuava, no estado do Paraná, a mobilização em
torno do trabalho do Centro de Documentação e Me-
mória da Universidade Estadual do Centro-Oeste –
Unicentro, originado de iniciativas comunitárias e uni-
versitárias nos anos de 1970, conduziram ao estabe-
lecimento do Arquivo Público Municipal no espaço da
universidade.
Ao lado disso, os centros de documentação uni-
versitários com freqüência se tornam instituições
importantes na preservação e difusão de arquivos pes-
soais.10 Desse modo, dão reconhecimento social ao uni-
verso privado de documentos, garantindo sua visibili-
dade. Um dos exemplos mais conhecidos nacionalmen-
te é o caso do Centro de Documentação e Informação
Científica – CEDIC/PUC- SP, criado em 1980. No seu
acervo se encontra a coleção CLAMOR – Arquivo do
Comitê de Defesa dos Direitos Humanos para os Países
do Cone Sul, cuja importância foi reconhecida, em 2007,
pelo registro nacional no Programa Memória do Mundo
da UNESCO. O valor social desse acervo é tamanho que
muitas vezes se esquece que sua história decorre do papel
da universidade na promoção do conhecimento histórico.
Mas os exemplos poderiam ser multiplicados em torno
da história política do Brasil. Apenas a título de ilustração,
no campodos arquivos privados, podemos lembrar o
caso do fundo do Partido Comunista Brasileiro, dis-
ponível para consulta no Centro de Documentação e
Memória da UNESP (instituição criada em 1987); e o
Arquivo Ana Lagôa, situado na Universidade Federal de
São Carlos – UFSC, criado em 1996, que é constituído
do arquivo pessoal da jornalista que teve atividade
destacada na grande imprensa nacional e que reúne
pastas temáticas sobre os grandes fatos da política
nacional do período de 1968 a 1985. Ambos os acervos
são importantes para a história política recente do Brasil.
No caso da história da imigração no Sul do Brasil, há
dois acervos valiosos, especialmente de documentos
9 CAMARGO, Célia Reis. Centros de documentação das universidades: tendências e perspectivas. IN: SILVA, Zélia Lopes da (Org.).
Arquivos, patrimônio e memória: trajetórias e perspectivas. São Paulo: UNESP, 1999. Neste livro, encontram-se várias referências
sobre a constituição de centros de documentação universitários do estado de São Paulo, como o Arquivo Edgar Leuenroth – Unicamp,
Arquivo Ana Lagôa – UFSC, Centro de Documentação e Memória – UNESP.
10 Para uma boa discussão sobre os arquivos pessoais, veja-se: CAMARGO, Ana Maria de Almeida & GOULART, Silvana. Tempo e
circunstância: a abordagem contextual dos arquivos pessoais. São Paulo, IFHC, 2007.
14 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 9-16 — 1º sem. 2009
fotográficos: Museu Antropológico Diretor Pestana, que
se constituiu e 1961, em torno do trabalho da Uni-
versidade de Ijuí, no Rio Grande do Sul, e o atual
CEPEDAL – Núcleo de Pesquisa e Documentação sobre
o Oeste do Paraná (originado do Centro de Estudos de
Demografia Histórica da América Latina – CEDHAL,
criado em 1989) da Universidade Estadual do Oeste do
Paraná – Unioeste. O Centro de Documentação Histó-
rica – CDHIS da Universidade Federal de Uberlândia –
UFU, criado em 1985, é outro exemplo de como a ação
das universidades envolve tanto a promoção de arquivos
públicos e privados, pois reúne um acervo valioso de
processos criminais do fórum local, ao lado de coleções
e arquivos de inúmeras personalidades da história
regional. Nesse caso, há que se destacar o valor da coleção
fonográfica, com discos de diferentes épocas e gêneros,
de uma das antigas rádios locais.
Há ainda uma ação importante das universidades no
processo de constituição de arquivos especializados em
história oral. O caso do arquivo do Laboratório de His-
tória Oral da Universidade de Joinville e do Laboratório
de História Oral e Imagem da Universidade Federal
Fluminense – LABHOI-UFF, criado em 1982, são pro-
vavelmente os exemplos mais antigos e continuados de
atuação especializada nas universidades brasileiras.
Vários dos centros citados anteriormente também
possuem coleções de história oral no seu acervo. Nesse
campo, é preciso observar que se trata de preservação
de material documental originado das pesquisas aca-
dêmicas na própria universidade, resultado da espe-
cificidade dessa documentação.11
Nos casos citados, fica evidente o compromisso social
da universidade que termina por ampliar as possi-
bilidades de promoção do patrimônio documental,
reforçando o sentido social dos acervos a partir do caráter
público das instituições de ensino superior.
Cabe observar, ainda, que ao lado do papel dos centros
de documentação universitários de preservar arquivos e
coleções, muitas vezes eles cumprem a valiosa função
de difundir acervos, constituindo-se em núcleos de
referência regionais de informação. Talvez, essa seja uma
missão a ser fortalecida por essas instituições uni-
versitárias. O melhor exemplo é dado pelo Arquivo Edgar
Leuenroth, da Unicamp, que possui uma grande coleção
de documentos microfilmados de outros arquivos e
bibliotecas. Desse modo, ele se torna um centro regional
de consulta de acervos estrangeiros e nacionais, exer-
cendo uma função fundamental para a difusão docu-
mental e promovendo a infra-estrutura da pesquisa
nacional no campo das ciências humanas e sociais. Por
vezes, suas boas condições de consulta oferecem maior
conforto e serviços mais eficientes de atendimento à
pesquisa que o das instituições de origem da docu-
mentação. Mas outros exemplos se multiplicam no país,
como é o caso do Laboratório de Pesquisa e Ensino de
História, do Departamento de História da Universidade
Federal de Pernambuco – LABPEH-UFPE, que reúne
coleção de microfilmes de documentação manuscrita
colonial, de cartórios e da imprensa estadual, por exem-
plo. Desse modo, a experiência institucional demonstra
que como núcleos de referência, os centros de docu-
mentação universitários podem exercer um papel fun-
damental na difusão de informação.
Desse modo, o que se observa é uma configuração
diversificada dos centros de documentação universitários.
Ora concentram acervos bibliográficos, hemerotecas,
fundos arquivísticos públicos e privados, coleções ico-
nográficas, fonográficas e/ou de entrevistas de história
oral, constituindo-se em guardiões da preservação de
acervos valiosos. Mas, ao lado disso, por vezes, os centros
de documentação universitários se afirmam antes como
núcleo de referência de informação, reunindo acervo de
documentos repoduzidos para consulta local, privi-
legiando a difusão da informação. Contudo, uma função
não exclui a outra, podendo se combinar, como no
exemplo do Núcleo de Documentação Cultural da Uni-
versidade Federal do Ceará – NUDOC-UFCE, existente
desde 1983 e ligado ao Departamento de História da
instituição, assim como em muitos dos outros casos
citados.
Por fim, é preciso observar que há uma construção
intrínseca entre organização de arquivos e formação de
profissionais de investigação social e histórica, fazendo
do trabalho de preservação e difusão de acervos do-
cumentais campo de ensino para a pesquisa. Além de
servir como instrumento de acesso e difusão da in-
11 É preciso apontar que internacionalmente há uma forte tendência para concentrar arquivos de história oral em universidade,
considerando a especificidade de sua natureza de documentação produzida pela pesquisa. Nesse sentido, serve de exemplo os
programas da Universidade Columbia e da Universidade de Berkeley nos Estados Unidos da América, considerados entre os maiores
do mundo.
15Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 9-16 — 1º sem. 2009
formação, os centros de documentação universitários se
constituem também em espaço de formação dos pro-
fissionais de arquivo e da pesquisa arquivística. Assim,
de modo original, os centros universitários de docu-
mentação traduzem o compromisso das universidades
com a indissociação entre ensino e pesquisa.
A ordem dos termos nem sempre foi a mesma para
todas as instituições. Os exemplos do Centro de Docu-
mentação e História do Brasil Contemporâneo – CPDOC
da Fundação Getúlio Vargas – FGV, no Rio de Janeiro,
criado em 1973, e da Casa de Oswaldo Cruz, da Fundação
Oswaldo Cruz, criado em 1986, demonstram que, por
vezes, o centro de documentação antecede o trabalho de
ensino, ainda que o modelo predominante seja o inverso.
Mas o que importa é frisar que em torno de centros de
documentação se constitui um espaço institucional da
promoção de acervos documentais que confirma a
missão contemporânea das universidades.
Não há dúvida da importância desses centros de
documentação para o ensino de história, no nível su-
perior. Eles têm assim um papel inusitado de experi-
mentação didática, que anda junto com o trabalho de
promoção de documentos históricos. Com freqüência,
tornam-se laboratórios em diversas áreas — educação
básica, educação patrimonial, história oral, produção
editorial, produção videográfica, produção deexposições
etc., construindo pontes originais entre os documentos e
o ensino. Nesse sentido, recorrentemente, tornam-se
espaços de inovação acadêmica, porque se dedicam a
campos que a ordem curricular formal não consegue
realizar plenamente, tornando-se, assim, espaços de
atividades curriculares complementares. A novidade da
ação permite também que os alunos assumam uma
posição mais protagonista na produção de conheci-
mento, promovendo uma integração entre docentes e
discentes. Desse modo, revelam também sua capacidade
de enriquecer o ambiente acadêmico de formação pro-
fissional universitária e de renovar o ensino e a apren-
dizagem. A base do processo de ensino-aprendizagem,
nesses casos, tem como base a criatividade por meio do
desafio de encontrar soluções para problemas con-
textualizados. No mesmo sentido, os centros de docu-
mentação permitem experimentar a diversidade dos
canteiros do ofício de profissionais da história e do pa-
trimônio.
A interdisciplinaridade se afirma também como uma
marca desses centros de documentação universitários.
A complexidade do trabalho de tratamento da infor-
mação documental conduz, igualmente, a diferentes
domínios, como o da preservação de documentos e
difusão da informação, levando o trabalho institucional
a se ampliar para diferentes áreas que ultrapassam o
universo específico de estudo da história e das ciências
sociais. Desse modo, os centros de documentação his-
tórica se abrem para a colaboração interdisciplinar. Os
professores e alunos envolvidos terminam tendo contato
com outras áreas de conhecimento especializado, cons-
truindo pontes para a redefinição da própria inserção do
profissional de história e ciências sociais no universo do
patrimônio documental. Nesse processo, adquirem uma
consciência patrimonial que os caracteriza para além do
papel de usuários de arquivos e leitores de documentos.
Dito de outro modo, esse vínculo entre ensino e
pesquisa define o caráter dos centros de documentação
universitários, ao mesmo tempo, que são o produto do
aprofundamento de um modelo de universidade que
assume o compromisso com a construção de conhe-
cimento sem se dissociar de seu contexto social.
O maior dos desafios é fazer com que as universidades
entendam a importância destes espaços institucionais,
conseguindo viabilizar sua base operacional — o que
exige recursos materiais e humanos. Seu reconhe-
cimento, certamente, decorre da capacidade de apro-
fundar estes vínculos com a sociedade que abriga a uni-
versidade, mas igualmente com a comunidade acadê-
mica, a partir da pesquisa e do ensino, tendo a experi-
mentação e a inovação como referência fundamental
para a valorização das instituições universitárias.
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documental. 4ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2007. Cap. 1.
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17Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009
De perto e de longe: a Baixada e suas
relações com o Rio de Janeiro
 Usualmente ancorada na definição de Geiger e
Santos1, a Baixada Fluminense é identificada como uma
área de planícies baixas constantemente alagadas entre
o litoral e a Serra do Mar, e distribui-se pelos municípios
ao longo da Rodovia Presidente Dutra, numa extensão
de aproximadamente 80 km a partir da cidade do Rio de
Janeiro.
Sua ocupação ocorreu de forma lenta desde o século
XVI, período em que a região foi fornecedora e distri-
buidora de matérias-primas diversas (cana-de-açúcar,
café, etc) à capital (Rio de Janeiro). No entanto, um dos
processos mais significativos de ocupação da Baixada
teve início com a construção da estrada de ferro D. Pedro
II já no século XIX. A ampliação da linha férrea até
Queimados, em 1858, promoveu a atração e fixação da
população que se deslocou para a região às margens da
linha do trem, estabelecendo um padrão que ainda hoje
é marcante em quase a totalidade das cidades que a
compõem. Tal processo implicou no abandono das vias
fluviais, até então fundamentais para a economia local,
que acabaram tornando-se obsoletas.
Um segundo momento crucial foi, já na década de
1930, a criação da Comissão de Saneamento da Baixada
e o Departamento Nacional de Obras de Saneamento
que trouxeram mudanças e repercutiram no novo fluxo
Nas margens da política: trajetória, narrativa e
mediação na Baixada Fluminense (RJ/Brasil)
Alessandra Siqueira Barreto
É professora adjunta do Departamento de Ciências Sociais, da Universidade Federal de Uberlândia/Brasil. Doutora em Antropologia
Social pelo PPGTAS/Musue Nacional /UFRJ e Pós-doutora em Antropologia pelo Departamento de Antropologia do ISCTE/ Portugal (bolsa
do CNPq 2008/2009). E-mail: alessandrabarre@fafcs.ufu.br
Resumo
Neste artigo pretendo abordar a construção do campo
político fluminense, particularmente da Baixada
Fluminense (RJ), uma área conhecida pela pobreza e
violência, a partir da trajetória de um conhecido, e ativo,
político local: Jorge Gama. Sua trajetória permite-nos
perceber ao longo da história local e regional como as
imagens e representações sobre a região Baixada alteram e
re-inventam as diversas concepções acerca da política e
do fazer político. A mediação política e cultural é trazida
como uma das características de sua persona e condição
de possibilidade de sua manutenção no mundo da política.
Palavras-chave: Política. Trajetória. Mediação política e
cultural. Baixada Fluminense.
Abstract
In this article I intend to present the construction of the
Fluminense political field, particularly the Baixada
Fluminense (RJ), an area known for poverty and violence,
from the trajectory of a known and active local political:
Jorge Gama. His trajectory allows us to understand the
local and regional history as the images and
representations on the Baixada change and re-invent the
different conceptions of politics. The political and cultural
mediation is brought as one of the characteristics of his
persona and condition of possibility of his maintaining in
the political world.
Keywords: Politics. Trajectory. Cultural and political
mediation. Baixada Fluminense.
1 GEIGER, Pedro Pichas e SANTOS, Ruth Lira. Notas sobre a evolução da ocupação humana da Baixada Fluminense. Rio de Janeiro,
IBGE, 1956.
18 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009
a partir de 19402. Algumas obras também contribuíram
nesse processo, como por exemplo, a construção da
Avenida Brasilem 1946, da Rodovia Presidente Dutra
(inaugurada em 1951) e os investimentos que, graças
aos loteamentos, surgiram a partir daí, atraindo mi-
grantes de várias regiões do país e do estado, mas prin-
cipalmente de nordestinos, em busca da possibilidade de
adquirir um lote e de morar próximo ao seu local de
trabalho — o município do Rio de Janeiro. Com isso, as
décadas de 1950 e 1960 representaram o período de
maior crescimento populacional da região, bastante
superior ao restante do estado (crescimentos de mais de
100% só na década de 1950)3.
Aos loteamentos, que determinaram um tipo de
ocupação marcado pela presença majoritária das ca-
madas populares em áreas que não apresentavam as
mínimas condições de infra-estrutura4, somaram-se as
disputas pela terra, desencadeando um violento processo
que teve à sua frente jagunços e capatazes dos grandes
proprietários da região que, na grande maioria dos casos,
jamais residiram nessas localidades5.
As narrativas de moradores locais confirmam os
dados e retomam a saga — desde a cidade de origem,
passando pela viagem de muitas horas em ônibus
precários ou em paus-de-arara, sozinhos ou com toda a
família; o sol e a chuva enfrentados pelo caminho e, por
fim, a chegada ao Rio de Janeiro6. O desembarque,
mencionado em muitos dos relatos que escutei, ocorria,
por exemplo, no bairro carioca de Campo de São Cris-
tóvão — local onde os homens eram avaliados para
possível trabalho na construção civil — e o destino final
era, geralmente, uma das favelas do município ou al-
guma cidade da Baixada Fluminense. As redes familiares
e de amizade apresentavam-se como fatores decisivos
no momento da escolha do local de moradia. Contar com
o auxílio, ainda que temporário, de um irmão, cunhado,
prima ou amigo era essencial para quem não tinha casa,
dinheiro ou mesmo uma ocupação. Alguns poucos já
chegavam empregados — via de regra, por intermédio
desses parentes/ amigos — mas nem todos tinham a
mesma sorte.
Minha família, é uma família humilde, né? Meus pais
são analfabetos, vieram do Nordeste [Pernambuco]
tentar a vida no Rio de Janeiro e sempre trabalhando
pra que pudesse[m] nos sustentar e dar estudo para a
gente, né? Mas as condições […] como é normal no Rio
de Janeiro, acho que no país todo […] É difícil para as
pessoas que não têm condições e a vida muito sacri-
ficada. É pai trabalhando em feira, é […] ajudante de
caminhão, eu, meu irmão, minha irmã também
trabalhamos em feira, em barraca, enfim nós traba-
lhamos muito pra chegar onde nós chegamos” (Waldir
Zito, ex-prefeito de Belford Roxo, 03/02/2004).
Minha família veio pra Nova Iguaçu sem nada, só
com a coragem mesmo. [...] Porque senão, iam passar
fome, né? Eu nasci aqui, sou daqui da Baixada mesmo,
mas já fui lá pro Norte, lá pra casa dos meus parentes
[Sergipe], mas eu não troco isso aqui por lá, não
(M., 36 anos, casada, professora primária, 09/06/
2004).
Outra característica marcante da Baixada é o seu
fluxo constante. Apesar de algumas de suas represen-
tações estarem ancoradas construções a partir de um
“universo rural”, “cidade pequena”, o movimento é
incessante e as estradas que atravessam e cortam a
Baixada demonstram esse fluxo permanente. Duas
principais a atravessam diametralmente: a Estrada de
Ferro D. Pedro II (atualmente, SUPERVIA) e a Rodovia
Presidente Dutra (BR 116). A circulação incessante de
gente, de carros, de imagens aponta, ao mesmo tempo,
para uma estética homogeneizante e para a multi-
plicidade de significados em jogo. Haveria, assim, o olhar
seqüencial e indistinto de quem simplesmente passa por
ali e a percepção matizada de quem se atreve a parar, a
desvendá-la7.
Sua ligação com o município do Rio de Janeiro não
2 Na década de 1930 já percebemos tal migração devida fundamentalmente à citricultura em Nova Iguaçu que terá seu declínio
com o início da Segunda Grande Guerra.
3 Fonte IBGE, 1996.
4 As primeiras áreas loteadas localizavam-se nos distritos, hoje municípios, de Duque de Caxias, São João de Meriti e Nilópolis devido
à sua proximidade com a cidade do Rio de Janeiro.
5 GRYNSZPAN, Mário. “Os idiomas da patronagem: um estudo da trajetória de Tenório Cavalcanti”, In: Revista Brasileira de Ciências
Sociais, n.14. Rio de Janeiro: Vértice, ANPOCS, outubro, 1990. ALVES, José Cláudio Souza. Dos barões ao extermínio. Uma história
da violência na Baixada Fluminense. Duque de Caxias: APPH, CLIO, 2003.
6 BARRETO, Alessandra Siqueira. Cartografia Política: as faces e fases da política na Baixada Fluminense. Tese (Doutorado em
Antropologia)Rio de Janeiro: PPGAS/ Museu Nacional/ UFRJ, 2006.
7 Ibidem. “Um olhar sobre a Baixada: usos e representações sobre o poder local e seus atores”. In: Campos, 5 (2), 2004,p.45-64.
19Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009
se dá apenas pela proximidade. As fronteiras entre os
dois não são sequer tão rígidas e alguns bairros do
subúrbio carioca são por vezes “incorporados” à Baixada
ou vice-versa. Um outro fator representativo dessa
relação refere-se ao número expressivo de moradores da
região que faz diariamente o trajeto Baixada — Rio de
Janeiro — Baixada para trabalhar ou estudar. Os trens e
ônibus lotados em direção ao Rio no horário da manhã
e no sentido oposto à tarde marcam o contato diário de
cerca de 300 mil pessoas da Baixada com a capital
carioca em uma viagem (e esta é uma categoria nativa)
que pode durar de uma a quatro horas, dependendo do
dia da semana, do município de origem e do horário de
saída8.
Esta circulação é mais que o movimento pendular
de trabalhadores das regiões periféricas, ela acaba por
propiciar o contato com mundos sociais diferentes e as
situações de co-presença são marcadas ora pelo inter-
câmbio, ora pelo conflito. Há certa ambigüidade na cons-
trução das representações sobre o Rio e os cariocas por
parte dos moradores da Baixada, assim como o con-
trário, dependendo do contexto. No entanto, a troca de
acusações recíprocas marca essa relação: aos moradores
da Baixada cabem os qualificativos de “bregas”, “pobres”,
“gentinha”, “cafonas”, “perigosos”; aos cariocas “esno-
bes”, “bestas”, “filhinhos de papai”, “patricinhas”.
A construção de uma “fala política”:
trajetória e mediação
A política na Baixada Fluminense9 não pode, de modo
algum, ser entendida à parte das representações sobre o
lugar. Para compreendermos este quadro, devemos
excluir o ponto de vista estático para pensar tais repre-
sentações assim como a política em processos constantes
de abertura e fechamento, aglutinação e reformulação,
densidade e esvaziamento.
Nesse sentido, as imagens e representações acerca
do lugar misturam-se a personalidades políticas e aos
estigmas, atribuindo um caráter especial à “perso-
nalização” enquanto uma das dinâmicas constitutivas
das redes políticas da região, operada a partir de indiví-
duos-chave e da busca por seus interesses particulares,
ora valendo-se de partidos, ora de redes mais amplas
para atingir seus objetivos10. Desse modo, ao transformar
Jorge Gama em narrador de uma das versões sobre a
Baixada, pretendemos trazer à tona um olhar sobre a
política local e seu modus operandi, ao mesmo tempo
em que lançar luz às possibilidades de re-invenção sobre
a Baixada.
Jorge Gama nasceu em 19 de setembro de 1942.
Carioca “do Rocha” (subúrbio do Rio de Janeiro), mudou-
se para Nova Iguaçu com seis anos de idade, juntamente
com o pai, a mãe e os três irmãos. Seu pai, Manuel de
Barros, era imigrante português nascido durante o
regime salazarista. Era comerciante, dono de uma car-
voaria em Nova Iguaçu e de um botequim, localizado
onde hoje situa-se o município de Mesquita. Sua mãe,
Noêmia de OliveiraGama de Barros, era dona de casa.
Jorge fez o primário (hoje chamado de ensino funda-
mental) no Colégio Iguaçuano — na época, uma das
melhores e mais tradicionais instituições educacionais
privadas da cidade e referência local, ainda hoje. Aos 12
anos, foi trabalhar no Fórum, estudando à noite no
Colégio Monteiro Lobato (uma tradicional escola da rede
pública). Continuou trabalhando no cartório e, aos 18
anos, foi nomeado escrevente. Quando concluiu o curso
de direito pela Universidade Federal Fluminense, em
1969, optou por não fazer concurso e permanecer no
cartório onde “ganhava bem”.
Sua fase adulta transcorreu durante os anos de
ditadura no Brasil. Em um primeiro momento, o regime
autoritário cassou mandatos parlamentares e instituiu
o AI-2 (que implicou a extinção dos partidos políticos)
e, logo em seguida, o bipartidarismo (ARENA e MDB),
permitindo o funcionamento, ainda que parcial, da so-
ciedade política e garantindo sua legitimidade com base
na percepção de que tal situação seria transitória11.
8 Alguns municípios fazem divisa com a cidade do Rio: Duque de Caxias, São João de Meriti e Itaguaí. O município mais perto é Duque
de Caxias que fica a 13 km do centro Rio, enquanto que o mais distante fica a cerca de 80 km.
9 Hoje, a configuração mais ampla da região (da qual me utilizo) abrange 13 municípios — Itaguaí, Seropédica, Paracambi, Japeri,
Queimados, Nova Iguaçu, Mesquita, Nilópolis, Belford Roxo, São João do Meriti, Duque de Caxias, Magé e Guapimirim — contando
com uma população de mais de 3 milhões de habitantes.
10 GRYNSZPAN, Mário. “Os idiomas da patronagem: um estudo da trajetória de Tenório Cavalcanti”, In: Revista Brasileira de Ciências
Sociais, n.14. Rio de Janeiro: Vértice, ANPOCS, outubro, 1990. FERREIRA, Marieta de Moraes. Em busca da Idade de Ouro: as elites
políticas fluminenses na Primeira Repúblia (1889-1930). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994. ALVES, José Cláudio Souza. Dos barões
ao extermínio. Uma história da violência na Baixada Fluminense. Duque de Caxias: APPH, CLIO, 2003.
11 O MDB surgia, oficialmente (registrado na Justiça Eleitoral, apesar de existir desde finais de 1965), em 24 de março de 1966.
Nascido sob o signo da oposição ao regime — e “batizado” por Tancredo Neves (Ulysses Guimarães preferia a palavra ação a
20 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009
Assim, a estratégia de manter dois partidos políticos
visava evitar a desconfiança e o descrédito gerados por
um sistema autoritário strito sensu12. No entanto, o
processo político implementado pelo novo regime não
conseguiu diferir das antigas relações patrimonialistas e
clientelistas13 já que necessitava angariar apoio, nego-
ciando cargos e privilégios com os antigos — e tradi-
cionais — donos do poder14. Este é o momento posterior
da “abertura” são significativos para o entendimento da
política na Baixada Fluminense, além de constituírem o
contexto de surgimento de algumas trajetórias políticas
expressivas em termos mais gerais. Nessa época,
entraram em cena novos atores que, vinculados ou não
aos militares, perpetuaram-se na vida política local e
ainda demonstram sua influência e prestígio, mesmo
após 20 anos de democracia.
Apesar de uma análise da situação sobre o município
de Nova Iguaçu estar ausente da narrativa de Jorge
Gama durante a primeira entrevista que me concedeu,
na Baixada Fluminense como um todo tal situação
explicitava-se pelo grau de intervenção nos municípios15.
Nas cidades adjacentes, a situação de ingerência era a
mesma. Duque de Caxias, após a lei 5.449, de 4 de junho
de 1968, tornou-se área de segurança nacional devido à
presença de uma refinaria de petróleo e de uma rodovia
interestadual (a Rodovia Washington Luís). Foi sob esse
clima político que teve início a vida pública de Jorge
Gama. Filiado ao MDB desde 1967, a política lhe inte-
ressava, mas ainda com certa distância e muito ligada
às suas relações pessoais e a um “estilo contestador”.
Aqui, em Nova Iguaçu, tinha um fato interessante.
Lançava-se um candidato, assim, da nossa patota, da
nossa turma e aí, nós apoiávamos. Vamos votar no cara,
vamos botar ele na Câmara. Era uma coisa muito des-
politizada, muito eleitoral. Era um modismo. Pegava
um nome, uma espécie de liderança na turma e botava
ele na Câmara. Nós fizemos isso com o Mauro Miguel,
amigo, boêmio. Demos uma força e o elegemos. Bom,
depois com a ditadura começou a ter um grupo que
pensava, que conversava, que trocava idéias. E esse
grupo se reunia, informalmente, perto do Fórum, num
bar que tinha na esquina, em frente à estação [ferro-
viária], era o bar do Zuza. Todo mundo ia pra lá de noite
tomar cerveja, conversar e trocar idéia. Era quase se-
melhante àquele grupo do Pasquim, um pouco influ-
enciado pelo grupo do Pasquim16. Era o Robson, que é
dono do Correio da Lavoura17; eu, o Sérgio Fonseca, o
Eliasar Diniz, o Roque Bone (Roque da Paraíba, com-
positor e pintor), Hugo Freitas (artista), Paulo Faria,
Paulo Amaral. Aquilo era um centro de debate, de
contestação ao prefeito, à política da ditadura. E aí se
criou, no Correio da Lavoura, uma coluna chamada ‘O
Negócio é o seguinte’. Era uma coluna livre e cada um
movimento) — o partido foi inicialmente presidido por um general, Oscar Passos, Senador pelo Acre e, a princípio, pouco defrontava
o partido do governo, a ARENA. (DHBB, 2001). Segundo Diniz (1982), o MDB fluminense caracterizava-se (no período de 1965-
1979) por um alto grau de heterogeneidade, congregando diferentes facções que disputariam a hegemonia interna pelo poder no
partido. A autora faz uma análise da máquina chaguista — desde sua estruturação e ascensão, até a articulação de suas bases de
apoio — demonstrando a construção de um aparato ligado essencialmente ao clientelismo, suas implicações dentro da estrutura
urbana e sua relação com as massas.
12 Segundo Avritzer, “o regime autoritário permitiu o funcionamento parcial da sociedade política, contanto que esta se sujeitasse aos
objetivos primordiais do regime (...) O regime autoritário entendia que a vitória nas urnas dar-lhes-ia legitimidade, mas não
porque seus programas políticos fossem ao encontro do desejo da maioria do eleitorado, e sim porque isso lhe possibilitaria manipular
o processo eleitoral de modo a assegurar o controle a longo prazo do aparelho estatal. O problema dessa estratégia foi que ela criou
um processo político que não levava à legitimidade, e sim ao autoritarismo”. AVRITZER, Leonardo. “Conflito entre a sociedade civil
e a sociedade política no Brasil pós-autoritário: uma análise do impeachment de Fernando Collor de Melo”. In: ROSENN, K. e
DOWNES, R. Corrupção e reforma política no Brasil: o impacto do impeachment de Collor. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2000. p. 170-
1 7 1 .
13 FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo,
1975. LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto. O município e o regime representativo no Brasil. São Paulo: Alfa-Ômega,
[1949] 1975.
14 FERREIRA, op. cit.; ALVES, op. cit.
15 Entre 1963 e 1969, a região passou por significativas mudanças políticas. Em Nova Iguaçu, mais especificamente, tais mudanças
resultaram na nomeação de/ ou na eleição de oito prefeitos diferentes, fato que, diante da situação política conturbada que se
estabeleceu após a instauração do regime militar, culminou na interferência direta sobre o poder local, com cassações de prefeitos
e vereadores da oposição e a imposição de interventores na região. A cidade teve como chefes do executivo, nesse período, dois
interventores, dois presidentes da Câmara Municipal, dois prefeitos eleitos e dois vice-prefeitos.
16 O Pasquim — assim como Opinião, Movimento, Em Tempo, Coojornal e Versus — era umjornal alternativo, em formato de tablóide
e com circulação irregular; um jornal de protesto e de oposição. Editado no Rio de Janeiro, foi lançado em 1969, tornando-se um dos
principais jornais do gênero. Teve em seu quadro de redatores nomes como os de Sérgio Cabral, Jaguar, Tarso de Castro, Carlos
Propseri, Claudius Ceccon etc. Durante os anos 1980 sua tiragem foi se tornando extremamente rarefeita. Os últimos números do
jornal saíram no final dessa década.” (p.23).
17 O jornal Correio da Lavoura, de circulação local, foi criado em 22 de março de 1917. Atualmente, sua periodicidade é semanal.
21Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009
fazia uma frase, e foi um sucesso muito grande. O jornal
era semanal e todo mundo comprava pra ver as piadas
e as críticas. Eu usava pseudônimos: ‘o Transeunte’ e
‘Maria Auxiliadora da Paz’. Depois criei um outro
personagem, o ‘Geraldinho boca de trombone’, que escu-
lhambava todo mundo. Enfim... Fazia uns artigos uma
vez ou outra. Aquilo ali era um cenário, ninguém tinha
um projeto eleitoral. Era um cenário meio boêmio e meio
contestador. Aos domingos, o jornal publicava o que
saía dali, mais ou menos. (Jorge Gama, 10/08/2003)
Os personagens criados trazem à tona o papel dos
jornais como um dos poucos espaços possíveis para a
crítica ao regime. A relação e as implicações entre as
diversas mídias e a política perpassam a análise da
trajetória de Jorge Gama e conferem tons distintos aos
marcos temporais, aos “momentos históricos” por ele
vivenciados. O período da ditadura apresenta-se como
basilar para a constituição de sua identidade política a
partir do viés da expressão artística, do humor (sar-
casmo), da crítica e do engajamento, ainda não pro-
priamente vinculado a uma adesão ideológica. Mani-
festa-se, simplesmente, o escritor livre, indignado com o
cerceamento, com o medo, com a incapacidade de agir.
Primeiramente o “Transeunte” e “Maria Auxiliadora da
Paz”, depois “Geraldinho boca de trombone” vão com-
pondo e divulgando discussões políticas e informações
proibidas e censuradas como alternativa às notícias dos
jornais tradicionais, limitadas pelas exigências do regime
e do mercado. Estes novos veículos trazem para o cenário
local (Nova Iguaçu) uma forma de mobilização e de pro-
vocação (aos políticos locais) marcada pela criativida-
de, pela coragem e pela imprudência. Os codinomes
utilizados são emblemáticos: “Transeunte”, aquele que
se move, sem paradeiro fixo, sem destino. O marginal (e
marginalizado) por excelência. “Maria Auxiliadora da
Paz”, mulher, portanto pertencente a uma minoria, que
carrega no próprio nome um apelo. E, por fim, o es-
cracho: “Geraldinho boca de trombone”, o homem
comum que fala; que fala sem que o detenham, sem
limites; em suma, o agitador.
A conjuntura política do país transformou o papel
das mídias — principalmente do jornal e dos jornalistas
— gerando, conforme ressaltou Abreu18, uma valorização
simbólica da ligação entre jovens quadros a partidos,
principalmente o PCB. Assim, “a escolha do jornalismo
como profissão era uma forma de exercer o engajamento
político, divulgar uma ideologia e atuar politicamente”.
Na época de sua atuação como colunista no Correio da
Lavoura, Jorge Gama era um advogado recém-formado
que, de alguma forma, traduziu esse espírito de seu
tempo como porta-voz local da insatisfação, da con-
testação e do anseio pela mudança.
Este “movimento” (como Jorge o denomina) teve
início na década de 1970, influenciando em sua entrada
na vida político-eleitoral local com a candidatura pelo
MDB do advogado Humberto dos Santos, considerada
“mais conseqüente, mais de esquerda”. Jorge coordenou
a campanha vitoriosa de Betinho (como Humberto era
conhecido). Um candidato “mistura de boêmio e con-
testador, mas inorgânico”, que fez um mandato “com-
bativo” sem, no entanto, manter uma relação de proxi-
midade com o partido. Em 1972 (ano em que se casou e
residiu no bairro carioca da Ilha do Governador), deu
prosseguimento à sua atuação como articulador e coor-
denador de campanhas, no interior do estado pelo MDB.
O primeiro turning point de Jorge Gama deu-se, contu-
do, apenas dois anos depois. De seu escritório, foi um
dos responsáveis pela articulação da campanha de Fran-
cisco Amaral à Alerj — apoiada pela esquerda (segundo
Jorge, “uma esquerda independente, uma parte do “Par-
tidão”, além de setores da Igreja”) — que foi eleito e
tornou-se um dos principais nomes da “esquerda local”19.
O escritório de Jorge figura, em sua narrativa, como
o espaço no qual se deu sua formação ideológica. É a
partir da criação desta prestadora de serviço, do contato
com os dois advogados que trabalhavam no escritório e
com Francisco Amaral que Jorge marca sua passagem
para a “política de verdade”. Se a “origem” dessa ligação
localiza-se nas “conversas políticas” com os amigos
boêmios e contestadores, a mudança de seu estatuto
político foi conferida por intermédio da relação com
18 ABREU, Alzira. “Jornalistas e jornalismo econômico na transição democrática”. In: ______, LATTMAN-WELTMAN, F. e KORNIS,
M. 2003. Mídia e política no Brasil. Jornalismo e Ficção. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003. p.21.
19 Nesse ano, a eleição para governador deu-se por meio de eleição indireta, realizada pelo sufrágio de um Colégio Eleitoral nas
Assembléias Legislativas, na forma do artigo único, caput e § 1º da Emenda Constitucional n.º 2, de 9 de Maio de 1972. Da mesma
forma ocorreu a eleição para Presidente da República, realizada pelo Colégio Eleitoral (composto de membros do Congresso Nacional
e de delegados das Assembléias Legislativas dos Estados), na forma dos arts. 1º e 2º, da Lei Complementar n.º 15, de 13-08-1973.
(Tribunal Superior Eleitoral)
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nomes “mais da esquerda” e se apresenta como fun-
dadora de um novo ciclo: sua entrada como ator político
na arena local.
“Eu tinha uma formação crítica, no máximo. Depois
eu adquiri uma formação ideológica. Uma formação
mais social”. Havia, sem dúvida, um significativo peso
simbólico em classificar-se (e/ ou ser classificado) como
“de esquerda”. De um lado, havia a preocupação em não
ser vinculado a uma postura radical (“esquerdista”), ao
mesmo tempo em que era desconfortável (para alguns
atores sociais) ser rotulado de conservador. Grosso modo,
“ser de esquerda” aludia a um rol de atributos, conhe-
cimentos e práticas remetidos fundamentalmente à
postura de crítica ao regime militar.
A relação com Francisco Amaral, anterior à sua
vinculação com eleições, estreitou-se a partir de sua
entrada no cenário eleitoral de Nova Iguaçu e das
possibilidades abertas por um contato direto com a
Assembléia Legislativa. A atuação no cartório (“desde
criança”) e sua profissão foram decisivas para o esta-
belecimento de contatos com diferentes segmentos
sociais, assim como a vida boêmia e o estilo contestador.
Juntos, estes atributos compunham a imagem de um
profissional responsável, ao mesmo tempo em que o
associavam a um tipo de sociabilidade e de trânsito entre
a classe média (na qual se incluía) e setores populares,
em algum nível mediado pelos locais por ele fre-
qüentados, pelos “personagens” que criou e por seus
escritos nos jornais locais. Forjavam-se, assim, algumas
das características que o distinguiriam e o tornaria um
candidato vitorioso naquele momento. Estavam em jogo
os processos de identificação que resultariam na cons-
tituição de sua persona pública.
Nessa época, na verdade, estava surgindo uma
classe média em Nova Iguaçu. Já não era mais aquela
aristocracia rural. Ali, eu apareço em [19]76 como um
personagem que transitavaentre todo mundo, que con-
versava com todo mundo, que tinha as idéias. Não era
esquerdista, mas não era conservador. Eu também esta-
va buscando uma identidade. (Jorge Gama, 05/10/2003)
Jorge Gama disputou, em 1976, sua primeira eleição
para a Câmara Municipal de Nova Iguaçu, embora o
partido pretendesse lançá-lo como candidato à pre-
feitura20. Preferiu, no entanto, novamente apoiar
Francisco Amaral que, contudo, não conseguiu se eleger,
sendo perseguido, tendo sua candidatura ameaçada de
impugnação e seus colaboradores coagidos21. Jorge, por
sua vez, foi eleito vereador pela legenda do MDB (Movi-
mento Democrático Brasileiro) como o segundo mais
votado do partido — com 3.847 votos — graças à sua
inserção junto às camadas médias de Nova Iguaçu e,
segundo o próprio, ao voto expressivo dos “servidores da
Justiça”, em uma alusão direta a seu vínculo profissio-
nal. Nesse mandato, durante o governo do prefeito da
ARENA, ex-interventor agora eleito, Rui Queirós pre-
sidiu a Comissão de Justiça e a de Redação da Câmara
Municipal e foi um opositor do governo municipal e das
políticas administrativas que o executivo implementava.
Nesse primeiro momento, ainda não havia delineada
uma geografia eleitoral de contornos nítidos. Jorge Gama
não tinha como reduto eleitoral um bairro ou área da
cidade específicos, e sim uma determinada camada social
e um grupo profissional mais facilmente identificável. A
representação espacial, tão cara à política em geral —
como, por exemplo, à política dos vereadores22 — não
era predominante e tornava possível ao candidato (Jorge
Gama) ampliar suas possibilidades eleitorais por inter-
médio de uma “bandeira” que, apesar de representar
interesses específicos, perpassava, no caso de Nova
Iguaçu, diferentes áreas da cidade.
A dinâmica das relações pessoais é outro fator que
merece atenção. Desde o período de sua “formação polí-
tica”, as relações de Jorge com algumas pessoas em Nova
Iguaçu foram fundamentais para sua decisão de ingres-
sar no cenário político-eleitoral. A noção de rede é aqui
retomada privilegiando-se seu aspecto mais centrado no
20 As eleições de 15 de novembro, de âmbito nacional, foram reguladas na forma da Resolução n.º 10.041, do Tribunal Superior
Eleitoral, de 16-06-1976. As eleições para prefeito, vice-prefeito e vereadores deram-se em 20 de dezembro, nos municípios em que
não foram realizadas em 15-11-1976. Consoante disposto no art. 1º da Resolução n.º 10.242, do Tribunal Superior Eleitoral, de 10-
12-1976. (Tribunal Superior Eleitoral)
21 Jorge Gama foi intimado — “convidado para ter uma conversa” — pelo major Carneiro, no Regimento Sampaio, não somente por
estar à frente da campanha de Francisco Amaral, mas essencialmente por sua ligação com o jornal O Pontual, que pertencia ao
empresário Manuel Góes Teles. Na ocasião, Jorge foi inquirido a respeito do jornal e de sua ligação com Manuel Góes Teles e depois
liberado.
22 LOPEZ Jr., Feliz Gracia . As relações entre executivo e legislativo no município de Araruama. Dissertação (Mestrado em Antropologia)Rio
de Janeiro: PPGAS/MN/UFRJ, 2001.
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ego, o ator político, interessando refletir sobre a forma
como as relações diádicas são travadas e operaciona-
lizadas para a prática da política local23. Tais relações
não foram constitutivas apenas dos processos de iden-
tificação política de Jorge Gama, mas qualificaram sua
inserção local a partir da rede a que resolveu aderir.
Sua aproximação com as camadas populares foi, no
entanto, posterior à primeira eleição e deu-se por meio
de sua relação com membros da Igreja Católica da
Diocese de Nova Iguaçu — também por intermédio de
Francisco Amaral que o apresentou a Dom Adriano
Hipólito24, o que permitiu sua inserção no universo dos
movimentos populares. Essa ligação — e o
reconhecimento de seu lugar legítimo como político na
cidade — favoreceu sua eleição para deputado federal,
pelo MDB, em 1978 — com 25 mil votos, apenas em
Nova Iguaçu (totalizando cerca de 38 mil votos), tendo
sido um dos mais votados da região (TRE/RJ). Em seu
relato, Jorge Gama enfatizou sua independência com
relação aos nomes mais importantes do partido na cidade
— como o de Francisco Amaral — assumindo a
responsabilidade pelas despesas da campanha com a
ajuda de alguns parentes, de conhecidos (“um ou outro
me dava alguma coisa...”) e, só mais tarde, de sua
legenda.
A minha eleição, repito, foi pela classe média, [fui]
o segundo mais votado. Mas, logo depois de eleito, o
movimento popular estava começando a ter um
crescimento aqui; esse crescimento, muito ligado à
Diocese de Nova Iguaçu — a Dom Adriano, e aí o
Francisco Amaral, que nós já tínhamos feito a eleição
dele em (19)74, já estava na política antes de mim. Então,
peguei o meu mandato e coloquei o meu mandato à
disposição do movimento popular. Eu me engajei
totalmente no movimento popular, na formação das
associações de moradores, na sua organização do ponto
de vista legal. Nós dávamos uma assessoria [sobre]
como fazer e tal; política, principalmente política. Nós
tínhamos reuniões intermináveis aí, em todo o
município de Nova Iguaçu, que antigamente era
Queimados, Mesquita, Japeri […] era bem maior. E
depois teve uma luta específica que também fortaleceu
muito o movimento popular. (Jorge Gama, idem)
A partir de sua relação com as associações, a bandeira
política de Jorge Gama passou a ser a da “casa própria”.
Assim como o lote25, a “casa própria” não representava
somente um sonho de consumo, mas a própria
incorporação social, tornando possível aos indivíduos
perceberem-se como cidadãos ao expressarem relações
de significação entre espaço e política e sua dimensão
na configuração de modos de vida. Em Nova Iguaçu, e
na Baixada de modo geral, tal problemática mobilizou
discursos políticos e organizações civis, possibilitando a
Jorge a operacionalização de um fazer político
informado por seu fazer profissional: o Direito. Os
despejos em massa consistiram acontecimentos decisivos
para solidificar essa aproximação e reformular as
imagens que compunham sua identidade política. Para
Jorge, ainda que se partisse de uma questão pessoal —
como a casa da família A ou B — o mecanismo de
articulação desenvolvido junto às associações conseguia
originar debates de natureza política. Segundo ele, aquele
era o momento oportuno para “plantar a crítica e a
conscientização” e mobilizar as pessoas para a ação
política. A centralidade da “casa própria” para os
envolvidos nos movimentos sociais refletia-se na
dinâmica local, nos símbolos adotados e no discurso
tornado público pelos atores legitimamente constituídos
(investidos) durante o processo. A “casa própria” aparece
então como palavra-de-ordem para criar e organizar a
ação. Através dela (e por ela), esta última se realizava.
Reuniões eram articuladas no escritório de Jorge nos
domingos à noite; fomentava-se o debate; construía-se
a mobilização. O escritório funcionava como ponto de
encontro para falar de política, conversar com as lide-
ranças das associações de moradores. Era freqüentado
também por artistas e boêmios, ao mesmo tempo em
que funcionava para o atendimento ao eleitor26.
23 MITCHELL, J. Clyde. Social Networks in Urban Situations. Manchester: Manchester University Press, 1971. BEZERRA, Marcos
Otavio. Corrupção: um estudo sobre poder público e relações pessoais no Brasil. Rio de Janeiro: Relume-Dumará/ANPOCS,1994.
24 Dom Adriano Hipólito foi um personagem marcante na Baixada entre 1966 e 1981. Foi Bispo de Nova Iguaçu e atuou junto aos
movimentos sociais, auxiliando a formação das Comunidades Eclesiais de Base na região. Foi seqüestrado em 1976e torturado,
tornando-se um símbolo pela luta contra a repressão e a ditadura. Dom Adriano morreu em 1996.
25 BORGES, Antonádia. Tempo de Brasilia. Etnografando lugares-eventos da política. Rio de Janeiro: Relume Dumará, Núcleo de
Antropología da política, UFRJ, 2003.
26 KUSCHNIR, Karina. Política e sociabilidade: um estudo de antropologia social. Tese (Doutorado em Antropologia).Rio de Janeiro:
PPGAS, Museu Nacional/UFRJ, 1998.
24 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009
Durante o mandato de deputado federal, Jorge Gama
costumava voltar às quintas-feiras à Nova Iguaçu para
atender os eleitores e reunir-se com as lideranças locais
em seu escritório. Na sua ausência, seu irmão ou algum
assessor conduzia as reuniões e os atendimentos até a
chegada do deputado, organizando as prioridades. “A
gente também convivia no escritório com o cara que ia
pedir uma ajuda, uma coisinha […]”. Neste contexto, o
“eleitor tradicional” é concebido como aquele que corro-
bora a “política dos vereadores”, ou seja, o atendimento
como uma atividade eleitoral, de troca. Para Jorge, tal
troca não consistiria uma dimensão política, “de crítica”,
visando apenas a maximização de votos por parte do
político e sua continuação no campo político, em contra-
partida à satisfação de necessidades e interesses indi-
viduais, por parte do eleitor. Assim, a capacidade do
político de obter o bem desejado pelo eleitor lhe ga-
rantiria, em algum nível, retribuição em termos de voto
e apoio27. Tal explicitação é, no entanto, evitada e, ao se
pensar a relação de “generosidade” e de “benfeitoria” do
político com seu(s) eleitor(es), o foco recai sobre algo já
observado por Bordieu28:
 […] o caráter primordial da experiência do dom é,
sem dúvida, sua ambigüidade: de um lado, essa expe-
riência é (ou pretende ser) vivida como uma rejeição do
interesse, do cálculo egoísta, como exaltação da genero-
sidade, do dom gratuito e sem retribuição; de outro, nun-
ca exclui completamente a consciência lógica da troca.
Em todas as entrevistas que me concedeu, Jorge
Gama atribuiu um juízo de valor negativo à “política de
resultados”, conferindo à sua identidade política a marca
da opção ideológica e da ‘função de fiscal’ do Executivo
— mais presente em seu mandato como vereador.
Diferentemente do exposto por Kuschnir29 sobre a
concepção de política dos Silveira (seus interlocutores:
Fernando e Marta), Jorge Gama — ao falar de si e de
sua prática política —afirma não priorizar o atendimento,
que estaria ligado a interesses individuais, em detrimento
do que considera o real fazer político: a doação desin-
teressada, o bem da coletividade. A doação (do tempo do
político, da atividade política, da “bandeira”) é pensada
então em relação diametralmente oposta à troca (rei-
ficada em termos do caráter imediato do bem). No
entanto, mesmo atribuindo um caráter negativo a tal
sistema, reconhece sua necessidade, justificando-o pelo
argumento da “tradição”. Tradição mantida por verea-
dores, prefeitos, deputados, eleitores (“eleitores tra-
dicionais”) enfim, por todos os atores sociais envolvidos
no processo político. Segundo Jorge, a carência de
aparatos e serviços públicos somada à pobreza em que
vivem muitos dos moradores da região promovem a
utilização desse tipo de recurso político, possibilitando
sua reprodução. É interessante notar que o político
benfeitor e/ ou doador nos termos de Chavess30 pode
tanto atender aos pedidos de pessoas de camadas
populares (por remédio, lotes ou gasolina), quanto
intermediar concessões políticas a empresários, render
homenagens públicas a “cidadãos ilustres” etc.31. Colo-
car-se como doador significa, então, apresentar-se como
ator legítimo, socialmente investido para atender às
demandas da população por meio dos canais gerados pelo
próprio status do político e por acessos angariados no
exercício dessa função. Nesse sentido, “ter acesso é o que
diferencia os políticos e, em especial, os parlamentares,
das demais pessoas. O acesso é um bem escasso e que
não pode ser comprado, mesmo por quem tem muito
dinheiro. Para se obter acesso, é preciso entrar para a
política”32
Em seu primeiro mandato como deputado federal,
as invasões de terra ocuparam boa parte das preocu-
pações e ações de Jorge Gama. Consideradas “um pro-
blema da coletividade”33, o auxílio prestado aos grupos
27 BEZERRA, Marcos Otavio. Em nome das “bases”. Política, clientelismo e corrupção na liberação de recursos federais. Tese (Doutorado
em Antropologia). Rio de Janeiro: UFRJ/MN/PPGAS, 1998. KUSCHNIR, op.cit; BORGES, op. cit.; LOPEZ Jr., op.cit.;
28 BOURDIEU, Pierre. “A ilusão biográfica”, In: Razões Práticas. Sobre a teoria da ação. Tradução Mariza Corrêa. Campinas: Papirus,
1996. p.7.
29 KUSCHNIR, op. cit.
30 CHAVES, Christine A. Festas da política. Uma etnografia da modernidade no sertão (Buritis, MG). Rio de Janeiro: Relume Dumará,
Núcleo de Antropología da política, UFRJ,1996.
31 VIEGAS, Ana Claudia Coutinho. Trocas, facções e partidos: um estudo da vida política em Araruama – RJ. Dissertação (Mestrado
em Antropologia Social). Rio de Janeiro: PPGAS/MN/UFRJ, 1997. LOPEZ, op. cit.
32 KUSCHNIR, op. cit. p.237.
33 É interessante notar como Jorge Gama diferencia a “casa” ou o “lote” de um bem em termos mais gerais. Tal diferenciação passa
pela construção de um discurso coletivo sobre o bem em questão — que envolve a constituição de um “movimento” — autorizando-
o, portanto, a tomá-lo como demanda coletiva. A relação entre “movimento” e interesse é fundamental para entendermos as
formas de classificação operacionalizadas por Jorge Gama com relação ao seu fazer político.
25Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009
nelas envolvidos era tanto político, quanto técnico.
Político, uma vez que remetia à negociação entre par-
celas da população e esferas do poder público. Já o saber
técnico, que remetia à formação profissional de Jorge,
configurava um aspecto distintivo, singularizando-o
frente a outros atores políticos locais. Nova Aurora e
Monte Líbano são algumas das áreas invadidas — hoje
áreas majoritariamente ocupadas por conjuntos habi-
tacionais — cujos processos de ocupação tiveram, em
algum nível, a participação de Jorge Gama. Sua atuação
nestes episódios proporcionou sua aparição na mídia e a
conexão de seu nome ao de outras personalidades de
grande carisma, como Dom Adriano Hipólito.
Os atores políticos engajados nesses movimentos
originavam-se de diversos segmentos sociais: políticos
profissionais, moradores da periferia, lideranças de
bairros, membros da Igreja Católica etc. Para os políticos
profissionais, tais movimentos sociais configuram loci
de atuação privilegiados, propiciando um espaço de
visibilidade e de exaltação da mediação como ferramenta
necessária, permitindo que algumas pessoas se coloquem
em evidência devido à singularidade de seu potencial de
trânsito por distintos segmentos. A mediação coloca-se
então como uma atividade porque — conforme ressaltou
Castro34 — relaciona-se a um “projeto pessoal de se tor-
nar mediador”. No entanto, diferentemente da análise
elaborada por este autor, defendo que o político pro-
fissional não é um mediador apenas ou mais facilmente
em períodos de transição e de mudança — apesar de tais
momentos potencializarem sua visibilidade e seus atos.
Ela não é o extraordinário, mas o cotidiano. É a execu-
ção constante do projeto pessoal e não uma qualidade
“natural” de certos indivíduos. Esta especialização na
articulação e/ ou negociação, como enfatiza Castro35,
singulariza determinados indivíduos, mas realça a di-
mensão “voluntarista” assim como a condição necessária
para essa atuação: gostarde desempenhar tal papel. Este
gostar é definido por sensações tanto quanto pela crença
no sucesso ou na possibilidade de conquistá-lo. A vontade
de atuar como mediador e a aptidão em desenvolver tal
atividade são proporcionais à capacidade de lidar com a
diversidade de códigos, símbolos e interesses envolvidos
— neste caso, no processo político. No entanto, podemos
dizer que seria mais apropriado pensar no mediador como
uma situação (estar mediador) e não, necessariamente,
como uma qualidade ou propriedade (ser mediador). Não
é garantia, portanto, para a reprodução incessante dessa
atividade apenas o desejo do ator ou algum atributo inato,
mas um complexo de significados, ações e motivações
intersubjetivas; interessando-nos mais especificamente
o between, do que a suposta origem ou finalidade da
mediação.
No caso específico de Jorge Gama, há uma grande
ênfase em tal atuação. “Quem marcou a primeira au-
diência de Dom Adriano com um membro da ditadura
fui eu”. Atuando como mediador em um determinado
segmento da população, Jorge demonstrou possuir
algum trânsito entre as diferentes esferas e atores
públicos, conseguindo expor suas reivindicações —
mesmo em um espaço cerceado pela insegurança e pelo
medo da exposição, característicos dos anos de regime
militar. O episódio em que teria agendado uma audiên-
cia para Dom Adriano com o então Ministro do Interior,
Mário Andreazza, para que tratassem de um novo mo-
delo de financiamento habitacional que melhor aten-
desse às necessidades e restrições econômicas da
população de baixa renda de Nova Iguaçu, apresenta-se
como uma demonstração de sua capacidade de arti-
culação e mediação. Jorge presenciou tal reunião em
Brasília, juntamente com Francisco Amaral, Paulo
Amaral e Ubaldo Rodrigues.
 O político, assim como qualquer outra liderança,
precisa constituir seu espaço legítimo de atuação e
conformar seu discurso a um público específico — seu
eleitorado. O processo de investidura requer dos atores
políticos a demonstração de seu capital simbólico, de seu
poder e prestígio. Em um universo político no qual a
mobilização era vigiada e os direitos políticos, sociais e
civis restringidos, tal demonstração passava, necessa-
riamente, pelo trânsito entre os militares (nas institui-
ções de direito), tanto quanto entre as associações civis e
a Igreja Católica — que passou a ter uma postura de
contestação e crítica aos militares com o recrudesci-
mento do regime, a partir da década de 1970. Apesar dos
limites, o campo de possibilidades de indivíduos-chave é
sempre colocado em evidência por meio de suas ações e
projetos. Ou seja, as delimitações sócio-históricas
implicam uma estrutura mais ou menos rígida que, no
34 CASTRO, Celso. “Comentários”. In: VELHO, Gilberto e KUSCHNIR, Karina (orgs.). Mediação, cultura e política. Rio de Janeiro:
Aeroplano, 2001. p.210.
35 Idem. Op. cit.
26 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009
entanto, pode ser flexibilizada a partir da atuação dos
sujeitos (alguns mais, outros menos) no mundo social.
Esse “atuar” ou “agir no mundo” leva em consideração
o potencial de metamorfose36 dos atores em questão para
a concretização de seus projetos (individuais ou coletivos).
Assim sendo, os projetos políticos individuais deman-
davam conciliação, conformando projetos coletivos em
alguns momentos e circunstâncias específicos, dentre os
quais o da redemocratização brasileira que conseguiu
aglutinar, em torno de um objetivo comum, um grande
número de atores individuais e entidades civis.
Foi justamente a partir de 1979, com o fim do bipar-
tidarismo e o início do processo de organização e criação
dos partidos políticos, que Jorge Gama filiou-se ao PMDB
(Partido do Movimento Democrático Brasileiro), sucessor
direto do MDB. E com este panorama surgiu o “outro
político”, o inimigo: em um primeiro momento, o PT;
logo em seguida, o PDT. A aproximação de partidos de
esquerda e das CEB’s com as associações de moradores
é o mote desse conflito, narrado com desconfiança e
descrédito por Jorge Gama — e coincidindo com seu
afastamento do “movimento”. A legitimidade na con-
dução dos movimentos sociais em Nova Iguaçu aparece
como um dos nichos de maior disputa pelo poder político
no momento em que a sociedade civil começa a se orga-
nizar e a se manifestar. A contenda em torno de quem
seria o porta-voz autorizado desses movimentos au-
mentava as rivalidades ideológicas, tendo as siglas par-
tidárias — agora passíveis de expressão e visibilidade —
entrado em cena, disputando cada qual o seu quinhão.
O multipartidarismo provocou uma fissura interna na
frente de oposição ao regime militar e sua pulverização
em uma gama de partidos que agora disputavam a arena
política37. O MDB, que congregou em sua sigla frentes
ideológicas diversas desde a exigência do bipartidarismo,
sofreu um grande impacto eleitoral com tal dissenso.
Apesar de ter mantido nomes importantes em seus
quadros, como Ulysses Guimarães38, seu vice-presidente,
a impossibilidade de entendimento entre alguns deles
possibilitou a criação de outros partidos — dada a inca-
pacidade de atrair para si políticos que se apresentavam
como adversários. Tal foi, por exemplo, a forma como
se deu a criação do PP — congregando nomes como Tan-
credo Neves39 e Chagas Freitas40 — do PDT de Brizola41;
do PTB; do PCdoB etc.
Em 1982, já findado seu primeiro mandato de
deputado federal, Jorge Gama foi escolhido para con-
correr como vice-governador do Rio de Janeiro ao lado
de Miro Teixeira, com a “missão” de desempenhar o
papel de “governador da Baixada”. Essa “escolha” não
se deu sem disputas dentro do partido. No entanto, foi
Leonel Brizola quem se elegeu governador; a chapa
composta por Miro Teixeira e Jorge Gama tendo ficado
em terceiro lugar 42. Após a derrota nas urnas, em 1983,
Jorge Gama afirma ter percebido ser aquela “a hora do
partido político”. Fez, então, a opção pela máquina par-
tidária e começou as articulações para concorrer à presi-
dência regional do PMDB. “Comecei a trabalhar esta
possibilidade”, diz. As reuniões tiveram início e come-
çaram a discutir a reformulação do partido no estado.
Em seu relato, Jorge oscila entre duas alternativas. Ao
mesmo tempo em que diz ter tomado as rédeas da situ-
ação, fazendo da presidência do partido seu projeto
político naquele momento, afirma que sua candidatura
foi cogitada por seus pares, “tendo surgido” nas reuniões
e começado a ganhar força a partir daí. Esta aparente
36 VELHO, Gilberto. Projeto e metamorfose: antropologia das sociedades complexas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
37 Segundo Skidmore: “a legislação eleitoral altamente permissiva, redigida no final dos anos 1970 e início dos 1980, levara à rápida
criação de 40 partidos políticos, dos quais 17 tinham representação no Congresso. Essa tolerância exagerada com a proliferação
partidária podia ser em parte explicada como uma reação retardada à manipulação anterior da legislação eleitoral pelo regime
militar, visando a garantir a vitória do partido governamental.” SKIDMORE, Thomas. “A queda de Collor: uma perspectiva
histórica”. In: ROSENN, K. e DOWNES, R. Corrupção e reforma política no Brasil: o impacto do impeachment de Collor. Rio de
Janeiro: FGV Editora, 2000. p. 27-28.
38 Sobre Ulysses Silveira Guimarães, c.f. ABREU, Alzira. “Jornalistas e jornalismo econômico na transição democrática”. In: ______,
LATTMAN-WELTMAN, F. e KORNIS, M.; Mídia e política no Brasil. Jornalismo e Ficção. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003.
39 Sobre Tancredo Neves, c.f. Ibid. op.cit.
40 Para mais informações ver Ibid. op.cit e DINIZ, E. Voto e máquina política: patronagem e clientelismo no Rio de Janeiro. Riode
Janeiro: Paz e Terra, 1982.
41 C.f. SENTO-SÉ, João Trajano. Brizolismo: estetização da política e carisma. Janeiro. Rio de Janeiro: Edtora FGV, 1999.
42 Essa eleição foi regulada na forma da Resolução n.º 11.455, do Tribunal Superior Eleitoral, de 16-09-1982 e teve o seguinte
resultado: Brizola (PDT) em 1º. Lugar, com 34,19% dos votos; Moreira Franco (PDS), em 2º., com 30,60%; Miro Teixeira (PMDB),
em 3º., com 21,45%; Sandra Cavalcante (PTB), em 4º., com 10,71% e Lysâneas Maciel (PT), em 5º, com 3,05% (Tribunal Superior
Eleitoral). Nessas eleições, o voto vinculado gerou a obrigatoriedade de se votar na mesma legenda partidária para todos os cargos,
o que acabou desencadeando o chamado “fenômeno Brizola”, abalando a estrutura do poder vigente até então na Baixada, devido
ao número de cadeiras obtido pela oposição nas Câmaras Municipais da região. Para a política desenvolvida pelo PMDB na localidade,
tal “arranjo” foi um dos principais obstáculos à consolidação de sua imagem e a seus avanços como “partido de oposição”.
27Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009
ambigüidade entre fazer a escolha (um projeto) e ser
escolhido (investido) deve ser compreendida, tendo em
vista uma apresentação de si a posteriori, que marca a
construção de uma memória e de uma identidade política
ancoradas na idéia de vocação43. Tal idéia estabeleceria
uma relação entre sujeito político, valor ético (de con-
vicção) e valor de eficiência (de sucesso), em contraponto
com a lógica da política do poder44, do poder em si.
O verdadeiro político de vocação seria, portanto, o
político responsável. Aquele político capaz de sacrificar
algumas de suas convicções, se assim o contexto exigir,
mas que em determinado momento, no limite de seus
princípios, pode vir a dizer: “Não posso fazer de outro
modo; detenho-me aqui”45. Na verdade, na ação política
não estão em jogo apenas o poder ou a paz e a satisfação
individuais — embora estes existam — mas, sim, esforços
responsáveis por uma causa que, apesar de trans-
cendente ao indivíduo, requer convicções pessoais. A
política não é em si o reino das intenções e da força, a
política é por excelência o mundo das realizações com-
prometidas em contexto.46
Naquele momento, o partido simbolizava justamente
essa adesão. Simbolizava a crença na possibilidade de
construção de uma unidade ideológica que o fortificaria
politicamente e, conseqüentemente, eleitoralmente
dentro do panorama estadual. A disputa pela presidência
do PMDB pôs, no entanto, em evidência as nuances e
matizes internas ao partido, bem como a cristalização
do novo inimigo político pós-eleições de 1982: Brizola. A
justaposição da figura de Brizola à do partido é de tal
ordem que a sigla pouco é mencionada nas entrevistas
realizadas com Jorge Gama47. É sempre o nome de seu
líder que aparece e se apresenta como grande opositor
do PMDB no estado do Rio de Janeiro.
 Para Jorge Gama, Brizola tornara-se um empecilho
na conquista da presidência do partido, pois ao gover-
nador não interessava um “PMDB hostil”48. A chapa con-
corrente era composta por Miro Teixeira e majori-
tariamente pelos chamados “euros”, os “intelectuais de
Ipanema”. Como aliados, Jorge Gama contava com
membros do “Partidão”, com os “chaguistas”, com os
prefeitos e com setores de uma esquerda dividida —
liderados por Paulo Rattes, que figura sempre como
aliado político e amigo de confiança. A vitória (por 66%),
marcou mais um episódio em que ficou evidenciada
também a capacidade de trânsito e articulação de Jorge
Gama por intermédio das alianças por ele costuradas.
Seu vice, por exemplo, era o deputado federal Jorge Leite
— personagem político conhecido por sua forte vin-
culação ao “chaguismo”, que mantinha uma máquina
política eficiente em todo o estado49. Os problemas, no
entanto, não haviam cessado com a conquista da presi-
dência do partido, em 20 de outubro de 1983. Lidar com
a diversidade das frentes de apoio que tornaram possível
tal empreendimento e, principalmente, com o estilo
político de seu vice transformou o mandato de Jorge em
uma constante mediação e negociação de conflitos —
além da fragilidade de sua condição de político sem
mandato.
O Deputado federal Jorge Leite e o Prefeito de Petró-
polis, Paulo Rattes — líderes da chapa “Unidade” —
confirmaram ontem seu favoritismo, na convenção do
PMDR-RJ, derrotando, com 66 por cento dos votos para
o diretório, a chapa de Arthur da Távala, do jornalista
Paulo Alberto Monteiro de Barros, de Marcelo Cerqueira
e Cláudio Moacyr, entre outros. [...]
Devido à impugnação na justiça eleitoral de alguns
Diretórios zonais e ao impedimento do voto plural, a
chapa de Arthur da Távola também perdeu na compo-
sição da no va Comissão Executiva, que tem agora como
Presidente o ex-Deputado Jorge Gama. A convenção do
PMDB-RJ transcorreu em clima de muita disputa e a
tônica foi a troca de provocações e de ameaças de
agressão entre militantes das duas chapas. (O Globo,
21/11/1983)
43 WEBER, Max. “Politics as a vocation”, In: PIZZORNO, Alessandro (ed.). Political sociology. Selected readings. England: Peguin Books
Ltd., 1971.
44 Idem. op. cit. p.108.
45 WEBER apud TEIXEIRA, Carla Costa. A honra da política: decoro parlamentar e cassação de mandato no Congresso Nacional (1949-
1994). Rio de Janeiro: Relume-Dumará/Núcleo de Antropologia Política, 1998.
46 TEIXEIRA, op. cit. p.5.
47 Sento-Sé em sua análise sobre o brizolismo, enfatiza tal colocação, demonstrando como o conceito de carisma é fundamental para a
compreensão da construção da persona Brizola. C.f. SENTO-SÉ, op.cit.
48 Segundo Jorge Gama, o chefe do executivo estadual promoveu um governo de coalizão ou, nos termos de Jorge, “de cooptação”, pois
“trocou” secretarias por apoio além de ter conseguido aliar-se a alguns deputados estaduais “brizolistas”.
49 DINIZ, op. cit.
28 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009
Naquele dia — eu não vou esquecer — eu cheguei no
partido, na Almirante Barroso no. 82, e meia hora depois,
chegou o advogado do Jorge Leite, que era um advogado
da Assembléia, um advogado experimentado, chamado
Francisco Romão de Lima […], com uma procuração
pra eu assinar, para expulsar o vereador Jorge Felipe
que tinha traído o Jorge Leite na eleição. Olha que coisa!
Ele diz: ‘O Jorge Leite mandou isso daqui, que nós vamos
expulsar o Jorge Felipe porque ele traiu a gente lá em
Bangu, na Zona Oeste.’ […] Eu pensei, analisei. Se eu
assinar isso daí, eu sou um escravo do Jorge Leite. Se eu
não assinar, ele é meu maior inimigo. De qualquer
maneira, se eu assinar perco a minha independência, se
não assinar vou pro enfrentamento. Disse: ‘Não assino’.
Olha Romão, você avisa ao Jorge que eu vou evitar levar
o partido para o Judiciário. Isso é uma questão política,
eleitoral e vamos resolver isso aqui. O partido só irá pra
Justiça em último caso. E, mais ainda, quem vai repre-
sentar o partido na Justiça, sou eu mesmo. Não vou
assinar, não é nada contra o Jorge, peça a ele desculpas,
mas não vai acontecer aqui levar o partido pra Justiça,
sobretudo por causa de acerto eleitoral […] Foi um sinal
de guerra. Depois, fui embora pensando que não ia ficar
mais dez dias. (Jorge Gama, 07/09/2004)
Os confrontos foram constantes. De um lado, com
Jorge Leite e, de outro, com os “intelectuais”. Segundo
Jorge, as acusações de suburbano, “da Baixada” e “sem
muita expressão política” constituíam a tônica dos
discursos oposicionistas por parte dos “intelectuais”.
“Fizeram uma reunião pra me dizer que eu não podia
ser o presidente do partido. Já entrei na presidência do
partido estigmatizado”. A acusação aparece, aqui, como
uma das principais formas devinculação a uma iden-
tidade deteriorada50. Jorge vinha da Baixada, uma região
vinculada a símbolos de violência e pobreza. Indepen-
dentemente de outras possíveis pertenças sociais, naque-
le momento em particular, seu pertencimento deter-
minante dava-se pela associação a uma imagem que
denunciava, incriminava e segregava, corroborada pela
mídia51. Para ele, o maior problema não era, no entanto,
o discurso acusatório e sim o “chaguismo”, representado
principalmente por Jorge Leite, que tentou, inclusive,
promover a destituição da executiva.
Todavia, em 1983, um acontecimento marcou a
história política nacional e definiu um lugar para Jorge
Gama dentro do partido. A articulação pelas “Diretas Já”
teve seu pontapé inicial, ainda em março de 1983, por
intermédio da apresentação de uma emenda constitu-
cional para o restabelecimento das eleições diretas, feita
pelo deputado federal do PMDB/MT, Dante de Oliveira
(emenda esta que ficaria conhecida pelo nome de seu
autor). Tal iniciativa, no entanto, teve pouca repercussão
em um primeiro momento, sendo noticiada apenas pelo
jornal Folha de São Paulo — em um artigo assinado por
Tristão de Athayde, em 18 de março, e no editorial do
dia 27 de março daquele ano, no qual o jornal colocava-
se a favor do retorno do pleito direto em todos os níveis.
O ano de 1984 começa com intensa mobilização. Tancre-
do Neves, Ulysses Guimarães, Miguel Arraes (do PMDB),
além de Lula, entre outros, tornaram-se figuras-chave
nesse movimento, que contou ainda com a participação
de vários intelectuais e artistas, percorrendo o país em
diversos comícios e shows em prol da campanha.
Jorge Gama, na época presidente regional do PMDB/
RJ, relata sua inserção e seu papel neste processo como
uma espécie de “revelação”. Nesse sentido, volta-se para
a construção de um discurso visionário, segundo o qual
seu potencial de observador atento aos fatos e hábil
articulador lhe garante o privilégio de estar um passo à
frente dos demais atores políticos — dentro e fora de seu
próprio partido — o que lhe assegura um lugar na histó-
ria (como denota a narrativa na primeira pessoa do
singular). À frente da presidência regional do partido,
Jorge Gama viajou por todo o estado do Rio de Janeiro,
estabelecendo contatos, firmando ou consolidando
alianças. Estava “em campanha” pela busca de uma
possível (e desejada) unidade para o partido, como
também “preparando o terreno” para as eleições futuras.
Para o político profissional, o tempo da política não se
restringe ao período eleitoral, como assinalam diversos
autores que se debruçam sobre este tema52. A dinâmica
temporal de quem “vive da política” é reinventada pela
necessidade de angariar apoios (de outros políticos, de
50 GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, [1963] 1975b.
51 É importante relembrar que nesse período — e até a década de 1990 — as imagens veiculadas pelas mídias televisiva e impressa
sobre a Baixada Fluminense faziam referência constante a questões sobre violência, criminalidade e pobreza, pouca atenção sendo
dada às notícias políticas que não estivessem a tais temas relacionadas. E as matérias de jornais que traziam o nome de Jorge Gama
geralmente enfatizavam sua origem: filho de carvoeiro, morador de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense.
52 PALMEIRA, Moacir e HEREDIA, Beatriz. “Os comícios e a política de facções”. Anuário Antropológico 94, 1995. VIEGAS, op.cit.
KUSCHNIR, op.cit. BORGES, op.cit. CHAVES, op.cit.
29Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009
empresários e dos eleitores) e conseguir acessos. Nesse
sentido, presidir o partido significava não somente
manter seu status, mas também dispor de recursos
(humanos e financeiros) — além de alguma visibilidade.
Representava também a possibilidade de se fazer notar
pelas lideranças mais importantes do partido em nível
nacional e, desse modo, afiançar apoio para uma possível
candidatura.
 Em 1986 (sem mandato eletivo desde 1982), Jorge
Gama foi o articulador da campanha de Moreira Franco
para o governo do estado do Rio de Janeiro. No mesmo
ano, disputou uma vaga na Câmara dos Deputados,
ficando com a primeira suplência. Tal resultado foi
atribuído à falta de (ou pouca) dedicação à sua própria
campanha, dado seu envolvimento na coordenação da
campanha de Moreira, e as inúmeras atividades que lhe
ocupavam no partido (em 1986 passou o cargo de Pre-
sidente para o Senador Nelson Carneiro, ficando com o
cargo de secretário geral do partido no estado). Em
conseqüência dos argumentos anteriores, o afastamento
de suas bases (a Baixada) acabou revelando-se muito
longo para quem tinha pretensões eleitorais. Seu projeto
político havia suplantado sua expectativa eleitoral. Ainda
assim, foi nomeado Sub-secretário de Governo em maio
de 1987 e, depois da extinção da pasta, assumiu a
Secretaria de Trabalho, corroborando a identidade de
articulador e mediador político — e sendo recompensado
pelo trabalho durante a campanha do governador eleito
(Moreira Franco) com um cargo que viabilizava contatos
e acessos.
Jorge Gama: Só por ser o ocupante da Secretaria de
Governo, já teria um considerável poder de influência:
ao contrário dos demais secretários, que despacham
com Moreira só de quinze em quinze dias, despacha todo
dia. É um político de centro esquerda. Jorge Gama
amortece os conflitos que surgem entre as centenas de
políticos da Aliança Popular Democrática. É ele, em
suma, que administra a distribuição dos melhores chu-
veirinhos de Moreira, os que vêm em forma de emprego.
Chuveirinho, no universo vocabular do governador, é
um afago, um agrado que se dá a todos os tipos de
insatisfeitos. (Jornal do Brasil, 23/08/1987).
A mediação aparece, novamente, como um conceito-
chave para a compreensão da trajetória de Jorge Gama.
A construção de sua persona pública não é remetida ao
carisma individual ou a algo que o designe um líder nato,
ligando-se preferencialmente ao desempenho de um
papel político específico — crucial para a consolidação
de projetos e de sua própria existência política — e pos-
sibilitado por seu potencial de metamorfose e mediação.
A habilidade com as palavras e a postura de “distinção”
foram atributos selecionados em momentos cruciais e
diferentemente utilizados segundo os contextos em
questão. A composição de sua fachada, de sua apre-
sentação de si53 e sua aptidão como mediador trans-
formaram-no em político singular na Baixada, apesar
das derrotas nas urnas. Em sua atuação junto aos mo-
vimentos sociais, às características anteriormente
aludidas somava-se a prudência na escolha do repertório
de símbolos — dada sua origem social e profissional —
ora referindo-se à origem “popular”, “do Rocha”, “da
Baixada”, ora à profissão de advogado. Nesse sentido,
há alguns turning points na trajetória de Jorge Gama.
Evidenciados, ao longo da narrativa, nota-se como seu
discurso foi re-semantizado, suas “bandeiras” recons-
truídas e — ao mesmo tempo em que se manteve fiel a
uma determinada facção — suas alianças internas e
externas edificadas em etapas capitais para o partido a
que pertencia.
Os múltiplos processos de identificação acionados em
contextos sociais específicos demonstram o grau de
percepção de Jorge Gama acerca de sua própria
capacidade de atuação no mundo político, bem como a
consciência na aplicação de determinados meios para
atingir os objetivos desejados. Sua sobrevivência
enquanto figura pública deve-se fundamentalmente à
sua “função” (de articulador/ mediador) e à sua manu-
tenção dentro da arena política por intermédio do
exercício de cargos públicos (administrativos ou de
assessoria).Estar apartado deste meio e de suas relações
implicaria sua morte política e, talvez, a impossibilidade
de um ressurgimento, dada as características particulares
de sua atuação.
Em 1990, Jorge voltou a substituir Aluísio Teixeira
na Câmara dos Deputados (primeira substituição tendo
ocorrido em 1989) e, em outubro deste mesmo ano,
concorreu às eleições, não conseguindo, no entanto, se
reeleger. Nessa eleição, novamente a ligação entre
53 GOFFMAN, Erving. A representação do Eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, [1959] 1975a.
30 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009
política e corrupção foi trazida à tona. Segundo o Jornal
do Brasil, de 13 de novembro de 1990, o nome de Jorge
Gama aparecia entre os citados pelo relatório final do
TRE/RJ54. Em 1993, saiu do partido e disputou as eleições
de 1994 já pelo PP. Um novo escândalo vinculou-o à
contravenção do jogo do bicho. Em uma lista, apreendida
pelo Ministério Público, nomes de vários políticos
apareceram como receptadores de doações do bicheiro
Castor de Andrade. Nesse mesmo ano, as eleições no es-
tado do Rio de Janeiro foram anuladas devido a suspei-
tas de fraude e remarcadas para dezembro, mas Jorge
Gama não voltou a concorrer.
A distância relativa da imagem de Jorge Gama dos
estereótipos acionados para falar de política na Baixada
dessa vez não se concretizou. Mesmo minimizando os
efeitos políticos da associação com o jogo do bicho em
termos gerais (a partir de uma percepção não-negativa
sobre o seu papel na região), a projeção política de Jorge
não se restringia aos limites territoriais da Baixada,
motivo pelo qual talvez tal ligação tenha repercutido
negativamente em esferas mais amplas. Tal episódio não
significou, no entanto, que as portas do mundo da política
fecharam-se para ele. Dedicou-se ao escritório de
advocacia, situado no Centro do Rio de Janeiro, onde
prestava consultorias diversas a deputados e vereadores,
mantendo assim seus vínculos com políticos profissionais
e retornando ao partido de origem. Em 1998, a convite
do então prefeito de Nova Iguaçu Nelson Bornier foi
para a sub-secretaria de Desenvolvimento da Baixada e
Municípios Adjacentes. Este cargo significava a possi-
bilidade de novamente dispor dos acessos. Jorge per-
maneceu neste cargo até receber o convite do então
prefeito de nova Iguaçu Mário Marques para assumir a
secretaria de governo do município em 200255. Com a
derrota de Mário Marques para a prefeitura de Nova
Iguaçu em 2004, foi ocupar novamente o cargo que já
ocupara anteriormente na Secretaria de Desenvolvi-
mento da Baixada — cujo secretário era seu “afilhado”
político, o ex-prefeito de Paracambi por dois mandatos e
atualmente deputado estadual em quarto mandato, Délio
César Leal (PMDB). No fim de março de 2006, com a
desincompatibilização de Délio Leal, Jorge Gama foi
indicado para assumir a Secretaria da Baixada. Em 2007
foi nomeado assessor especial no gabinete do Secretário
estadual de governo de Sergio Cabral (PMDB).
Considerações finais
Com uma trajetória política marcada por altos e
baixos, Jorge conseguiu permanecer no campo político.
As práticas necessárias para perpetuar-se no mundo
político da Baixada remetem ao assistencialismo/ clien-
telismo de um lado e/ou ao sistema de visibilidade/
marketing político, de outro. Em ambos os casos, Jorge
Gama coloca-se à parte. No primeiro caso, por opção e,
no segundo, por falta de recursos. A mediação tornou-
se, portanto, o único modo de efetivar sua permanência
na política. Criando espaços de visibilidade, circulando
entre diferentes atores políticos, tendo trânsito livre em
diferentes esferas do poder (Executivo e Legislativo) —
desde presidentes nacionais de partidos a vereadores de
cidades do interior do estado — em uma palavra, con-
seguindo manter os acessos. Seu trajetória política foi
analisado tendo-se em vista a vocação de mediador tanto
quanto a dedicação à tal atividade. Apesar de estar mais
próximo da classificação de ideológico do que de assis-
tencialista, não me parece que essa dicotomia dê conta
satisfatoriamente da trajetória de Jorge Gama. Ele pró-
prio não se define nem como uma coisa, e muito menos
como a outra. Sempre esteve muito ligado ao intrincado
processo de constituição de seu partido e das mudanças
pelas quais ele passou — desde o vínculo com os inde-
pendentes, a aproximação com Moreira Franco e a de-
voção a Ulysses Guimarães, até a configuração mais
recente, com a entrada de Anthony Garotinho e da go-
vernadora Rosinha Matheus e com a vitória do PMDB
para o executivo estadual. A adesão a uma determinada
facção não o impediu de galgar posições e constituir
alianças diversas dentro do partido como forma de
manter as condições para sua sobrevivência política.
Suas ligações com chaguistas como Jorge Leite, por
exemplo, e com a própria Fundação Leão XIII, que desde
o governo de Chagas Freitas, esteve vinculada a notícias
de uso político, empreguismo e clientelismo nos mais
diversos contextos (fundamentalmente eleitorais) foram
ilustrativas dessa atuação.
54 Entre os demais nomes de políticos de Nova Iguaçu citados estavam o de Nelson Bornier (PL), que teria sido beneficiado com 381
votos; José Távora (PFL), com 418 votos; Ernani Boldrim (PMDB), com 248 votos.
55 Jorge Gama foi convidado primeiramente para assumir a Secretaria de Saúde no lugar de Gilberto Badaró em outubro de 2002,
mas acabou permanecendo apenas na Secretaria de governo. A notícia foi veiculada pelo Jornal O Globo, no Caderno Baixada, em
27/10/2002 (p.9).
31Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 17-32 — 1º sem. 2009
Assim, as formulações de uma história ou de suas
versões (como prefiro) são determinadas pelos discursos
e transformadas pela possibilidade de recontar e
reinventar, num mover-se constante entre diversos
campos, numa fluidez relacional na qual não só o tempo,
mas o espaço e os possíveis interlocutores configuram
distintos planos para a construção narrativa. Dentro
dessa composição relacional, e portanto dinâmica, o
universo político é conformado, através da apreensão de
práticas próprias e de formas de experiência significa-
tivas e as mudanças das imagens da Baixada acabam
também por ter impactos em sua trajetória. A tentativa
de apreender as relações políticas travadas na Baixada
por intermédio da narrativa de alguns de seus atores
merece algumas considerações. Lidar com trajetórias
implica, decerto, operar com a idéia de sucessão temporal
dos acontecimentos pertinente a um (ou mais) ator (es),
em alguma medida, remetida a “um deslocamento
linear, unidirecional”56. Entretanto, neste caso em par-
ticular, é a partir da construção narrativa sobre eventos
de uma memória da política nacional — e de suas
implicações locais — que se encontram os elementos que
possibilitam recompor um quadro de forças no qual os
atores em questão disputam espaço, poder, cargos e
mandatos. Entremeado de emoção, satisfação e críticas,
o depoimento de Jorge Gama ilumina a posteriori
aspectos da trajetória de nomes importantes da política
na Baixada, em termos de visibilidade nacional e
regional. Reestruturado, o discurso sobre si funde-se com
a história da nação, da cidade, da Baixada, a justifica-
tiva de sua transformação/ conversão em ator político
aparecendo como uma seqüência de proposições ver-
dadeiras e significativas para além do âmbito de uma
escolha individual e/ ou egoísta, ou seja, surgindo como
vocação. Nesse sentido, há uma lógica retrospectiva e
prospectiva no relato do entrevistado que é organizada
a partir de fatos significativos para si e para quem o
“interroga”. O antropólogo, como o inquisidor, contribuipara o condicionamento da produção desta “fala” tanto
quanto a relacionada a uma acusação de feitiçaria57, ou
ainda àquela ligada à narrativa de acontecimentos
nacionais como as Diretas Já, a partir da perspectiva de
Jorge Gama. O sujeito da narrativa constrói seu próprio
romance, atribuindo constância e conseqüência aos
momentos selecionados, marcando passagens, omitindo
outras, revelando assim a preocupação em apresentá-lo
como um continuum coerente e conciso.
No entanto, a percepção de que o mundo social é
marcado por acontecimentos cuja sucessão no tempo
não é unilinear evidencia a multiplicidade e a profusão
das relações que perpassam os indivíduos, pensados aqui
como sujeitos fracionados, mas interligados no interior
do campo social. Apresentar as intrincadas relações
políticas na Baixada a partir da versão de Jorge Gama
não significa retirá-las de seu campo e das relações de
poder aí existentes, mas antes, afirmar o caráter de
artefato da narrativa e, ao mesmo tempo, encará-la como
potencialmente produtora de realidades.
Referências
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33Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 33-40 — 1º sem. 2009
E ho Marques que no Castello, que eram suas
proprias casas, estava já por isso reteudo, tanto que
este Acordo D’ElRey lhe foy pobricado, logo na mesma
ora o comprio, e segundo palavras, nam sem muita
paixam, mostrando que o avia por grande abatimento,
e agravo. E dentro do termo se foy a Castello Branco,
onde esteve algus dias, em que com a danada vontade
que pêra ElRey tynha, compillou, e formou hua instru-
çam muito desnonesta, e de Capitolos muy falsos, e muy
defamatorios da vida, honra, e Estado D’ElRey, a qual
logo emviou a ElRey, e aa Raynha de Castella, que pola
pouca autoridade do messegeiro, ou pola desnonesti-
dade da sustancia, a dicta instruçam nom foy recebida,
nem vista com aquelle credito, que ho Marques de-
sejava.1
Esta parte da Crónica de D. João II do cronista Rui
de Pina (1440-1522)2, é uma das que compõem o
episódio da rivalidade formada no território português
entre o monarca D. João II e o Duque de Bragança,
pelo fato, segundo o cronista, de esse nobre ter traído
seu rei ao aliar-se aoreino de Castela. Pina declarou, ao
longo desta crônica, a importância da fidelidade nas
relações estabelecidas na Corte como elemento chave
para o poder régio, em Portugal, se consolidar. Portanto,
a traição do Duque ofende, de acordo com a leitura ética
realizada por Pina, toda a estrutura de poder constituída
na época.
Nota-se, pois, que o objetivo de Pina nesta crônica,
bem como na Crónica de D. Afonso IV é precisamente
registrar a magnitude de Portugal, através das proezas
administrativas de cada monarca, enfatizando princi-
palmente os acontecimentos que impulsionaram o reino
a se fortalecer. Desde Fernão Lopes, a propósito, a história
do reino aparece no enredo das crônicas, deixando
transparecer que o poder régio estava legitimado a partir
da vontade dos povos.
E porem este degrado do Marques assi riguroso, e
acelerado, acrescentou muita parte na maa vontade do
O problema da compilação no ofício dos cronistas
portugueses (limiar do século XVI)
Leandro Alves Teodoro
Mestrando em História pelo programa de pós-graduação da UNESP – campus de Franca – sob orientação
da profª drª Susani Silveira Lemos França. Bolsista FAPESP. E-mail: teodoro400@yahoo.com.br
Resumo
A proposta deste artigo é perceber a mudança de
perspectiva da Crónica de D. Afonso IV do cronista Rui de
Pina — compilada de uma crônica elaborada por Fernão
Lopes — para a Crónica de D. João II, feita a partir do seu
próprio levantamento de dados e, especialmente, sua
própria memória dos acontecimentos.
Palavras-chave: Idade Média. Portugal. Crônicas. Corte.
Rui de Pina.
Abstract
The proposal of this articles is to understand the change of
perspectives of the Crónica de Afonso IV — compiled of a
chronicle elaborated for Fernão Lopes — for the Crónica
de D. João II, of this first chronicler, done from its proper
data-collecting and, especially, its proper memory of
events.
Keywords: Middle Ages. Portugal. Chronicles. Court. Rui
de Pina.
1 PINA, R. de. Crônicas, ed. M. Lopes de Almeida. Porto: Lello & Irmão, 1977, p.904.
2 D. Duarte — monarca da dinastia de Avis — criou o cargo de cronista-mor da Torre do Tombo, cargo responsável pela escrita da
história do reino, ocupado inicialmente por Fernão Lopes e depois por Gomes Eanes de Zurara e Rui de Pina.
34 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 33-40 — 1º sem. 2009
Duque que já tynha pera ElRey, creendo que o fezera
por abatimentoseu, e de seu irmaão, a quem se devia
outro resguardo. Em que nom mingou nada a de-
trimaçam que ElRey, a requerimento dos povoos, em
todos os lugares, e terras do Regno, sem algua excep-
çam... ... como também porque era razam, que em
principio de seu regnado nom lhe ficasse por saber a
justiça que em seus Regnos avia, e se em suas terras, e
nas dos outros se faziam alguns insultos, e desmandos,
que dereito se ouvessem de proyeer, e remdiar.3
As crônicas, dessa forma, mostram como se situava
a Corte no espaço régio, bem como os procedimentos
que legitimavam o poder temporal. Portanto, Pina
preocupou-se em ressaltar que as ações do rei eram
garantidas pela vontade dos povos, que reconhecia a
figura do monarca no centro do poder, pois, a boa
governança de seus Regnos, vassallos, e naturaaes delle,
em que pareceo mui claro, que era o proprio, e verda-
deiro coraçam da Republica4. Pina considera que o rei e
a corte encontravam-se posicionados estrategicamente
no coração da República, mantendo viva a monarquia e
toda a grandeza do povo português. Com efeito, segundo
este cronista, as atitudes do Duque de Bragança com-
prometeram a estabilidade do reino, do coração da Repú-
blica. Em razão de preservar as façanhas históricas da
dinastia de Avis, o cronista narrou o percurso que D. João
II fez para reverter a situação a favor do lado português,
condenando um nobre que ele tinha como um familiar.
Vale ressaltar que esse episódio entre o rei D. João II
e o Duque de Bragança, mostrando a fidelidade como
princípio motor da relação entre o rei e a Corte, também
levanta a possibilidade de notar que Pina menciona o
termo compilar e a questão da falsificação. Levando isso
em consideração, a crônica de D. João II, ao mesmo
tempo que narra o curso da história, defende um ponto
de vista para observá-la, pois Pina, narrando uma rede
de acontecimentos que envolvem a figura do rei, aponta
a verdade como seu guia, em detrimento da falsificação
e das mentiras que podem estar presentes na compilação
de documentos.
No que diz respeito à composição textual do século
XV, a compilação manifestou-se como ferramenta
fundamental que propiciava um mecanismo apto para
o cronista reunir um número significante de docu-
mentos.5 Os modelos e práticas da cultura medieval no
universo do conhecimento tendiam a ser respeitados. O
historiador na Idade Média valorizava mais o tradicio-
nalismo do que a originalidade. A erudição correspondia
à repetição, reafirmando exemplos a serem imitados,
“exemplum vitae”. Em outras palavras, o historiador, o
artista de uma maneira geral, preservava o modelo
estabelecido por Deus, ao continuar o serviço de seus
predecessores mantendo os mesmos objetivos de tra-
balho. A história estava submetida à providência divina,
apresentando o mundo de uma forma estável e esfor-
çando-se para captar essa harmonia do mundo e traduzir
para o plano dos homens os ensinamentos do mundo
superior. Fernão Lopes buscou em suas crônicas justi-
ficar que o governo de D. João I não rompia com a
ordem natural da história; com igual finalidade, Rui de
Pina teceu argumentos na crônica de D. João II de
legitimação de D. Manuel, porque o sucessor direto deste
havia morrido.
Neste sentido, houve a existência na Idade Média
uma relação de dependência da história com a moral, a
retórica da Antigüidade foi bem conhecida nesse período
graças ao empreendimento dos monges em traduzir os
ensinamentos dos clássicos, principalmente de Cícero.6
Os escritos medievais podem ser comparados a um
grande tratado retórico e moralizante, cujo objetivo maior
era a repetição da verdade, sem qualquer pretexto de
originalidade. As mesmas práticas de compilação do
cronista Rui de Pina são encontradas inclusive na pro-
dução monástica e senhorial. Vale ressaltar que, em
Portugal, entre esses três momentos de escrita7 percebe-
3 PINA. Op. cit., p.904.
4 Idem , p.1032.
5 Sobre compilação ver: GUNENÈE. Histoire et Culture Historique dans l’Occident Médiéval. Paris: Aubier-Montaigne, 1980, p.211-
2 1 4 .
6 GUENÉE. Op. cit. p.27-29.
7 Os escritos históricos em prosa que tratam da realeza de Afonso Henriques à consolidação do reino português podem ser divididos em
três momentos: monástico, senhorial e institucional. Conforme o espaço senhorial e da corte concorrem para o registro da história,
esta ganha um lugar relevante nas repartições burocráticas, visto que a monarquia de Avis cria um cargo somente com a função
de assentar a memória do reino. Antes da criação do cargo de cronista-mor, em 1434, que teve como conseqüência a institucionalização
da história, já se produzia nos mosteiros portugueses volumosos cronições8. Além desse acervo monástico, também anterior ao
projeto de oficialização da história, surge, no século XIV, graças ao esforço do Conde de Barcelos, a Crónica de 1344, primeira crônica
com objetivo universalista elaborada em solo português. Entre o século XIV e XV, ocorreu uma mudança no olhar que os governantes
davam para a história, que passou a ser escrita menos intensamente nos mosteiros e mais regularmente nos círculos régios.
35Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 33-40 — 1º sem. 2009
se a compilação como o grande recurso para manter a
continuação da verdade e da preservação da moral.
...louvados, santos, e vertuosos eixemplos, e segura
doutrina, que na estória como em vida e imagem se nos
representam sômos assi ensinados, que naõ sómente em
nossos erros, e vícios naturaes nos esfriam, e refream
pêra com menos lembrança hos obramos, mas ainda
pêra as vertudes e craro nome, em tanto amôr, e desejo
nos acendem, que com dobrado coraçaõ, e huã vertuosa
enveja nos esforçam e obriguam pera conseguirmos a
final tençaõ porque nacemos, que he vivermos sempre
bem, porque moiramos melhor, e acabemos como
devemos.8
Pela história, para Pina, somos ensinados a seguir o
curso certo da vida, bem como encontrar os bons
exemplos, santos e louvados, que comportam como uma
segura doutrina. Para viver bem e morrer melhor, a
estoria serve de guia, pois a bondade e a prudência Divina
a protege. Deus faz a história e os homens a contemplam
com a finalidade prática de observar os bons exemplos
para a vida. O offico estórial, como Pina escreve
corresponde, portanto, a uma atividade de contemplação
das excelências divinas através da história. Só existia uma
história, uma única verdade, a partir do mesmo ponto
de vista, sem que houvesse mudanças na forma que esta
era sempre reinterpretada. Pina, no prólogo da Crónica
de D. João II, faz questão de evidenciar o papel da
história, ou seja, trazer para o presente os bons exemplos,
sem fantasiar. Sua tarefa dizia respeito à imortalização
na escrita de algo já dado pelo plano divino, impedindo,
assim, que os exemplos passados e as virtudes do rei e do
reino fiquem apagados.
Com efeito, entre os cronistas eclesiásticos e leigos
era aceitável a idéia de cópia, pois na atividade do registro
da memória escrevia-se sem a meta de compor um
trabalho fora do modelo textual que já estava sendo
utilizado. Dessa forma, não havia a pretensão de se fazer
um trabalho, nos scriptorium monásticos ou na Torre
do Tombo, original, buscando para todos os fins ser único
ou precursor de uma nova escrita. A concepção realista,
entender que existia uma verdade pré-existente ao
desdobramento da própria história, fundamentava o
procedimento da compilação, isto é, retomar aquilo que
já foi escrito indicava um recurso comum para os
cronistas monásticos, senhoriais e oficiais.
Até meados do século XVII, o historiador tinha por
tarefa estabelecer a grande compilação dos documentos
e dos signos- de tudo o que, através do mundo, podia
construir como que uma marca. Era ele o encarregado
de restituir linguagem a todas as palavras encobertas.
Sua existência se definia menos pelo olhar que pela
repetição, por uma palavra segunda que pronunciava
de novo tantas palavras ensurdecidas. A idade clássica
confere à história um sentido totalmente diferente: o de
pousar pela primeira vez um olhar minucioso sobre as
coisas e de transcrever em seguida, o que em palavras
lisas, neutralizadas e fiéis.9
No século XVIII século, estabeleceu-se na linguagem
uma ordem renovada, desassociando os elementos,
crenças, fábulas e lendas, dos significados das palavras,
houve uma separação, segundo Foucault, das palavras
e das coisas que a ela antes se referiam. Na Idade Média,
diferentemente, atribuía-se a palavra uma representação
única, ela condizia com uma verdade sem qualquer
questionamento de sua natureza. Portanto, conforme
Foucaut, compilar, além de ter sido uma prática legítima,
também era associado a uma leitura de mundo. A
finalidade do compilador, no momento que realizava sua
cópia era preservar documentos e a própria linguagem
que moldurava as formas de decodificação das palavras
e do mundo.10 Essa relação das palavras com as coisas
ilustra uma característica da historiografia medieval, pois
sustenta o estatuto de uma concepção de verdade.
Quanto ao cronista Rui de Pina, ele tinha uma
concepção de compilação que era pactuada por seus
contemporâneo. Pina escreve ao irmão do Duque,
dizendo que ele compilou e falsificou documentos a
respeito do rei, afirmando que essa compilação foi falsa
por ter sido criada sem provas concretas, a verdade, ter-
se-ia corrompido em razão de uma mentira. De tal modo,
o cronista traçou critérios para considerar os documentos
como verdadeiros ou falsos11, visto que ele buscou
9 PINA. Op. cit. p. 889.
9 FOUCAULT, M. As Palavras e as Coisas. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p.179.
10 FOUCAULT. Op. cit., p.171-181.
11 PINA. Op. cit., p.904.
36 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 33-40 — 1º sem. 2009
justificar que os documentos difamatórios da imagem
do monarca, forjados pelo irmão do Conde, não tinham
qualquer correspondência com a realidade. Assim, nas
próprias crônicas, percebe-se uma concepção realista que
fundamenta o manejo de documentos. Portanto, o labor
cronístico do século XV tomou a precaução de partir de
um levantamento de fontes, de materiais que permitem
o resgate do passado. Por isso, evitando falsificar a
história, ou torná-la mentirosa, Pina, em certas situações,
pela pouca quantidade de documentos disponíveis sobre
os primeiros reis de Portugal, baseou seu ofício na
compilação de uma única fonte, na crônica de 1419. No
entanto, as suas primeiras crônicas, de D. Afonso IV e
D. João II, tiveram outro ponto de partida, isto é, se, por
um lado, as crônicas relativas aos reis da dinastia de
Borgonha são refundições de outras crônicas; por outro
lado Pina, como possuía em mãos uma diversidade de
documentos a respeito da época em que vivia e também
por presenciar vários acontecimentos narrados do
reinado de D. Afonso V e de D. João II, fez delas um
conjunto diferenciado por um estilo próprio de um
admirador dos reis que ele viu governar.
...El Rey emcomendou e mandou, que com muito
cuidado, e estudo procurassem e defendessem a causa
do Duque, e que por isso lhes faria muita mercee. Foy
fecto, e dado Libello contra ho Duque, que logo pro-
cedeo, com vinte e dous artygos fundados naquellas
cousas em que parecia elle ser culpado; os quaes pelo
Juiz lhe foram logo levados onde estava, e Lydos todos;
de que ho Duque logo mostrou alguma torvaçam,
porque na sustância delles conheceo logo craramente,
que muitas cousas suas eram revelladas, e descubertas,
que elle avia por mui responder, emcomendou a Ruy de
Pina, que era presente, que fosse dizer a El Rey seu
Senhor, que aaquellas cousas nom tynham respostas
mais propria, nem que mais conviesse aa sua grandeza,
vertudes,... 12
Na própria Crónica de D. João II, o cronista Rui de
Pina menciona sua participação nos eventos oficiais,
nesse caso, no julgamento do Duque de Bragança. O
testemunho de Pina colaborou para que essa crônica fosse
preenchida com maiores detalhes e com o uso de várias
fontes em sua elaboração.
 Pina recebeu dois encargos diferentes, primeiro, em
1490, escrever a crônica do governo de D. Afonso IV e
de D. João II, posteriormente, em 1513, ele foi respon-
sável pela redação das crônicas de D. Sancho, D. Afonso
II, D. Sancho II, D. Afonso II, D. Dinis e de D. Afonso
IV. Este cronista levou mais tempo para escrever as
crônicas dos reis contemporâneos a ele do que para
elaborar as outras crônicas. A diferença no tempo gasto
entre um conjunto de crônicas e o outro é de aproxi-
madamente seis anos, essa variação explica-se, segundo
Radulet, pela tipologia da pesquisa histórica imple-
mentada em cada crônica, visto que:
tratando-se de acontecimentos recentes para os
quais existia uma grande quantidade de documentos
de arquivo e de testemunhos directos o cronista teve de
efectuar uma escolha programática dos materiais,
estrutur-á-la de maneira orgânica e elaborar esquemas
interpretativos inteiramente originais.13
Portanto, para essa mesma Radulet, o que explica o
maior tempoinvestido na redação das crônicas dos reis
contemporâneos ao cronista são os procedimentos de
pesquisa, que representam um cuidado com o passado
diferente daquele dado nas crônicas feitas a partir da
compilação de uma única fonte. A prioridade da com-
pilação era, no caso das crônicas dos reis passados, trazer
uma nova versão, revisada, de uma história distante. Já
na elaboração de uma história recente outros problemas
podem ser colocados.
Em Pina, bem como em Lopes, é perceptível a di-
ferença na elaboração das crônicas quando elas dizem
respeito a um rei passado ou a um rei contemporâneo a
ele. Portanto, dentro da produção oficial portuguesa, vê-
se uma divisão clara entre as crônicas dos primeiros reis,
cuja elaboração baseou-se quase que por completo na
compilação, e dos reis contemporâneos aos cronistas.
Além de conseguirem reunir um número mais elevado
de fontes por ser uma história recente, há os laços de
fidelidade entre o cronista e a própria Dinastia de Avis
que fazem com que as crônicas dos reis contemporâneos
tenham um valor diferencial. Uma das marcas da
historiografia a serviço do rei é a reverência de cronistas
ao monarca. Dessa forma, a fidelidade construída entre
o rei e o cronista fez das crônicas dos monarcas contem-
12 PINA. Op. cit., p.92.
13 RADULET, M. C. O Cronista Rui de Pina e a “Relação do Reino do Congo”. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, s.d, p.36.
37Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 33-40 — 1º sem. 2009
plados na obra de um rei contemporâneo uma referência
às glórias recentes de Portugal.
Das coronicas dos primeiros reys de Portugal,
primeiramente à Coronica delRey D. Sancho deste nome
ho primeiro, e dos Reys de Portugal ho segundo, dirigido
aho muito Alto, e Excellente, e Poderoso Príncipe ElRey
D. Manoel Nosso Senhor, por Ruy de Pina, seu Coronista
mor, e Fidalguo de sua Caza.14
Esse é o início do prólogo da Crónica Delrey D.
Sancho I, que anuncia uma concepção linear do governo
dos primeiros reis portugueses. Para Pina, o último rei
seria D. Manoel, que mantinha laços de fidelidade com
esse cronista. D. Manoel aparece com maior destaque
que o rei D. Sancho, monarca que serve de personagem
principal para essa crônica. Os reis passados têm seus
méritos reconhecidos no conjunto de crônicas de Pina,
contudo, os reis do seu tempo, pela fidelidade do cronista
podem ser pensados em um outro conjunto da escrita
oficial do quatrocentos e na obra desse cronista.
 Uma das semelhanças entre Crónica de D. Afonso
IV e a Crónica de D. João II é a contemplação das
perfeyçoens de ambos os monarcas, isto é, da sabedoria
dos reis na condução do país, procurando acima de
qualquer interesse pessoal a paz e a harmonia do reino.
Logo no início da crônica de Afonso IV, Pina
menciona:
... perfeito Rey, porque logo amou muyto seu povo,
& sempre o regeo com inteyra justiça, & o emparou, &
sustentava os malfeytores, contra toda a honestidade,
& consciência, & justiça (...)15 pera boa, & justa gover-
nança de seus povos, &vassalos, fez muytas, & boas leys,
& ordenaçoens, que em seu tempo mandou sempre muy
bem guardar.16
Percebe-se que Pina, na Crónica de D. Afonso IV,
segue um modelo de escrita semelhante à Crónica de D.
João II, uma vez que os acontecimentos narrados foram
escolhidos devido à proporção por eles adquirida na
consolidação do reino português. Comparando ambas
as crônicas, a função do rei sábio, além de manter a
estabilidade já alcançada, era também aumentar as
glórias da monarquia, garantindo a paz e conservando
o maior número de nobres fiéis à segurança do regno;
nesse sentido, Pina, nessas duas crônicas, procurou
apresentar as glórias alcançadas em diferentes momentos
da história de Portugal. Contudo, apesar de na construção
da memória dos monarcas, D. João II e D. Afonso IV,
eles serem apresentados com propósitos parecidos, há
uma diferença, pois o trato dado por Pina ao passado
revela uma diferença quanto à aproximação entre ele e
o rei.
No conjunto de crônicas de Pina, o aspecto emotivo
da fidelidade ao rei parece apagada na história da
primeira dinastia. Essa mudança no trato do passado,
devida à aproximação do rei enfocado na crônica é um
aspecto que não se restringe ao trabalho de Pina, ao
contrário, pode ser notado na produção cronística desde
o início da institucionalização da história em Portugal
até o limiar do século XVI. A despeito dessa dicotomia
rei passado/contemporâneo, cabe considerar que as
crônicas de Rui de Pina aproximaram-se do fazer história
característico do século XV, apesar de maior parte da
produção desse cronista pertencer ao século XVI. Dessa
forma a obra de Pina, estava de acordo com um modelo
de escrita quatrocentrista, que sofre alterações em
meados do século XVI, quando a escrita movida pela
história dos reis às façanhas inéditas dos portugueses,
ou seja, a expansão marítima.
Os Descobrimentos forneceram, entretanto, uma
nova perspectiva sobre a construção da memória. O
grande processo de expansão marítima se integrou ao
registro da história de Portugal, em razão do lugar de
destaque que as navegações ocuparam na trajetória do
país17. Contudo, Pina e Zurara continuaram com a lógica
de escrita implementada por Fernão Lopes, a aborda-
gem das navegações realizada por eles foi feita a partir
das normas de escrita já existentes, ou seja, os dois últi-
mos cronistas oficiais trataram a história de uma ma-
neira bem similar, pensando a expansão marítima como
evento quase secundário, pois o enfoque era a escrita da
conduta moral dos personagens destacados da história
de Portugal.
 Ocorreu, contudo, uma mudança intelectual na
14 PINA. Op. cit., p.9.
15 Idem , p.335.
16 Ibid., p.36.
17 REBELO In: GIL, F. e MACEDO, H. Viagens do olhar. Campo das Letras, 1998, p.175-177.
38 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 33-40 — 1º sem. 2009
passagem do século XV ao XVI principalmente na
percepção de arte, porque, apesar de no quinhentismo
os aspectos éticos e religiosos da escrita da história não
terem sido alterados, sobretudo na questão moralizante,
surgiram novas preocupações18. Na cultura portuguesa
do século XVI, procurou-se “uma nova fórmula na
relação da arte e da moral”19 (visto que se exige uma
maior probidade intelectual, os conhecimentos dos
letrados se alargam, há uma maior contato com o
florescimento da cultura italiana do momento e apa-
recem os bolseiros del rei, além da construção em solo
português de centros educacionais voltados para o en-
sino da retórica, dialética e do latim.
Durante o reinado de D. João II, tornou-se mais
freqüente o contato entre humanistas italianos com os
portugueses, o que mais possibilitou essa troca cultural
foi a iniciativa régia de se aproximar do conhecimento
humanista, uma vez que os descobrimentos abriram
contatos de Portugal com o resto da Europa. A chegada
às Índias foi um passo importante dado pela nação
portuguesa para mudar sua visão sobre a arte e buscar
uma reforma profunda do estilo de se fazer o registro da
história. O contato com a Itália despertou a curiosidade,
a vontade pelo novo e a necessidade de alterar a expressão
artística.
Essa mudança na forma de enxergar a arte contribui
decisivamente para que Damião Góis acusasse Rui de
Pina de ter roubado os méritos de escrita de Fernão Lopes.
Góis, na Crónica de Dom Manuel, critica a compilação
feita por Rui de Pina de parte da obra de Fernão Lopes,
inclusive da Crónica de D. Afonso IV, contudo a prática
da compilação que deixa de ser tão corrente no século
XVI era imprescindível para os cronistas do quatro-
centos. Levando em consideração as práticas utilizadas
pelo cronista Rui de Pina nãose pode dizer que ele ao
compilar tinha intenção de roubar o mérito literário de
Lopes como mencionou Damião de Góis.
Em razão da formação de Pina dentro da Corte e sua
grande aproximação da forma como Zurara e Lopes
faziam a história, a escrita desse cronista perpetuou traços
de uma época para a escrita da história iniciada no
começo do século XV. Já, no século seguinte, Barros,
cronista da expansão marítima, trouxe para a escrita da
história portuguesa novos contornos e influências e, a
partir dele, começa uma nova formação para os homens
que assentavam a memória da nação. Damião de Góis,
por sua vez, pelo fato de estar em outro momento da
historiografia portuguesa, bem como por gozar de uma
nova formação dos homens das letras, cria um diálogo
com a escrita de Pina. A partir das críticas tecidas por
Góis a Pina, percebe-se, pois, a consolidação de outra
tradição. Vale lembrar que há, segundo Radulet, uma
grande possibilidade de Pina não ter sequer tomado
consciência de que o material que ele utilizava na
refundição da história dos primeiros reis de Portugal era
de Lopes20.
Nota-se uma lógica de escrita comum aos três pri-
meiros cronistas, a forma como eles fizeram a história
sustenta-se em procedimentos semelhantes. Lopes
compilou da crônica de 1344 para guardar a memória
dos reis passados, todavia, na elaboração da crônica de
D. João I, rei contemporâneo a esse cronista, ele abusa
de suas qualidades de historiador, submetendo a histó-
ria dessa crônica a um enredo complexo, propondo uma
história legitimadora21 do Mestre de Avis. Lopes consultou
os arquivos com a finalidade prática de fazer uma
história exata do processo histórico que levou a Dinastia
de Avis à sua consolidação no cenário nacional. Assim
Lopes fundamentou sua obra em materiais do Arquivo
Régio e em testemunhos orais da época, articulando
várias fontes para efetuar seu trabalho.
Os cronistas oficiais dos Quatrocentos selecionavam
os assuntos de suas crônicas de acordo com a magnitu-
de dos fatos na história de Portugal, revelando uma pre-
ferência pelas glórias recentes. Em suma, os cronistas
empreenderam duas formas de se tratar o passado:
documentar a história dos reis passados e enaltecer a
memória dos monarcas recentes. D. Duarte, ao oficializar
a história, revela um interesse pela reconstituição do
passado nacional, da história de um povo vitorioso na
revolução de 1383-1385.
Cap. VIII. De como se tratou ho casamento do
Imfante D. Pedro com a Ifamte Da Costamça Manuel.
A este tempo elRei D. Afomso de Portugual, por este
trato que a Rainha Da Maria sua filha recebia del Rei de
18 Estudos sobre a cultura portuguesa do século XVI. Lisboa: Por ordem da Universidade, 1949.
19 CARVALHO, J. Estudos sobre a cultura portuguesa do século XVI. Lisboa: Por ordem da Universidade, 1949. p. 2.
20 RADULET. Op. cit.
21 SERRÃO, J. V. A Historiografia portuguesa. Lisboa: Verbo, 1972, p. 57.
39Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 33-40 — 1º sem. 2009
Castdla seu marido, era posto em muito cuidado e
gramde semtimemto, espicallmemte que com gramdes
roturas e periguos, em caso que hamtre eles ouuese,
ajmda ho remedyo era douidoso. E por isto, nom menos
o hafortunaua ho dezejo que tinha de uer casado seu
filho que auya já XVII annos.22
Como se contratou o casamento do Infante D. Pedro
com a Infanta Dona Constança Manoel.
Neste tempo el Rey D. Afonso de Castella seu marido
era posto em muyto cudado, & grande sentimento, espe-
cialmente que com grandes roturas, & perigo em cazo
que antre elles os ouvesse, ainda era duuidoso.
E apos isto não menos o afortunava o desejo que
tinha de ver casado seu filho que via já desasete
annos...23
O primeiro trecho corresponde à Crónica de D.
Afonso IV de Fernão Lopes e o outro é uma parte da
Crónica de D. Afonso IV de Rui de Pina. Pina compilou
da obra de Lopes, reproduzindo um texto cuja primeira
elaboração não lhe pertencia. No século XVI, Damião
de Góis ao acusar Pina de ter usurpado os méritos
literários do cronista Fernão Lopes, esquecendo-se de que
a compilação foi livremente utilizada entre os cronistas
oficiais quatrocentristas e nem colocando em questão
que as crônicas dos primeiros reis de Portugal de Fernão
Lopes também foram compiladas. Lopes refundiu partes
da Crónica de 1344 que já tratavam de uma história
exclusiva dos monarcas portugueses. Dos casos de
compilação da cronística oficial do século XV, o conjunto
de crônicas dos reis passados de Pina pode ser visto como
o que mais se apropriou do recurso da refundição para
documentar a história, uma vez que nos episódios de
compilação dos outros dois cronistas não se percebe a
mesma intensidade na reprodução de outro texto. É mais
incomodativa a compilação em Pina para os historiadores
do Quinhentos, porém, isso não justifica o fato de ele ser
considerado um plagiador, antes desse século a cópia
parcial ou quase total estava legitimada pelos proce-
dimentos de escrita utilizados. O termo plágio ou a acu-
sação de plágio chega a ser anacrônia quanto se refere
ao labor de Rui de Pina, pois os mecanismos que
efetuavam seu ofício eram práticas correntes.
No século XV, a retomada da Crónica de Afonso IV
por Pina teve um valor documental, o ofício desse cronista
preservava a memória do povo portuguesa, por isso,
havia a preocupação de escrever-se sobre a história dos
reis passados, contudo, a crônica de D. João II, além do
caráter documental expressa o carisma que Pina reco-
nhece no rei D. João II. O labor cronístico do século XV
mostra este trato do passado: de um lado, crônicas com-
piladas com o papel de lembrar as primeiras histórias da
formação do reino português, de outro, crônicas que re-
gistram, segundo os cronistas, o auge da história de
Portugal, isto é, o presente deles. Em Lopes, o governo
de D. João I abre a Sétima Idade, época, segundo Rebe-
lo, de quietude e repouso, na qual Deus e o homem
descansam24. Pina, na crônica de D. João II, apesar de
não ter o mesmo labor de Lopes destaca em sua obra a
serventia do rei D. João II para a solidificação do poder,
num momento em que o curso das navegações come-
çava. A história dos reis contemporâneos possui uma
importância legitimadora maior que a história dos reis
passados, pois, além transparecerem a fidelidade deles
com os reis, os cronistas, Lopes e Pina, nas crônicas
registradas pela primeira vez, assumem o compromisso
de deixar para a posterioridade o que se passou naquela
época. Eles são os primeiros a imortalizar os aconte-
cimentos daquele período e reconhecendo de alguma
forma o valor do material que estavam criando, busca-
ram sempre enxergar as proezas em detrimento dos
fracassos dos governos do seu tempo.
Deste modo, a diferença entre a Crónica de D. Afonso
IV e a Crónica de D. João II diz respeito a uma variação
de método, isto é, muda-se a forma de organização dos
documentos utilizados na composição de cada crônica.
A Crónica de D. Afonso IV que foi compilada de uma
crônica de Fernão Lopes sendo um material que cuja
temática e forma de escrita aproxima-se do original,
contudo a outra crônica aqui abordada não se refere a
uma única fonte. Assim, apesar dos temas entre ambas
as crônicas serem semelhantes há uma diferença quanto
ao trato dado ao passado.
Além disso, o cronista Rui de Pina estava autorizado
a refundir parte do trabalho de Lopes, pois a compilação
22 Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal, ed. crítica de Carlos da Silva Tarouca, 3 vols. Lisboa: Academia Portuguesa da História,
1952, p.171.
23 PINA. Op. cit., p.356.
24 REBELO, L. de S. A concepção de poder em Fernão Lopes. Livros Horizonte, 1983, p.65.
40 Cadernos de Pesquisa do CDHIS— n. 40 — ano 22 — p. 33-40 — 1º sem. 2009
mostrou ser uma prática usada livremente pelos cro-
nistas do Quatrocentos. A compilação foi o principal
recurso que Pina utilizou na montagem da Crónica de
D. Afonso IV, já a escrita da Crónica de D. João II revela
na sua estrutura uma combinação mais complexa dos
documentos, mostrando também a relação de afetividade
entre o cronista e o próprio monarca.
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41Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009
Introdução
Neste artigo, procuramos sondar o uso de elementos
potencialmente heterodoxos (ou contrários à ortodoxia
cristã) em Prosopopéia1, exemplar retórico-poético de
teor encomiástico atribuído a Bento Teixeira2, e na obra
satírica atribuída a Gregório de Matos Guerra (fazendo
uma seleção de poemas profícuos a esta pesquisa). Em
termos gerais, são três as justificativas desta escolha: (1)
poderemos problematizar o uso de tais referências em
ambas as vertentes do gênero epidítico3 (encômio e
vitupério); (2) devido à presença de um alto teor de
imagens, conceitos e símbolos em voga nos séculos XVI/
XVII da América portuguesa que, originalmente,
contrariam a dogmática cristã; (3) optamos por tra-
balhar com Bento Teixeira e Gregório de Matos por
ambos tratarem de temáticas diversas e, ao mesmo
tempo, por terem vivido e produzido sob a custódia de
Manutenção da ordem: (re)contextualização de
tópicas mitológicas à luz de uma economia cristã*
Cleber Vinicius do Amaral Felipe
Graduando do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
E-mail: clebervafe@gmail.com
Resumo
Neste artigo, buscamos mapear a utilização de figuras de
ornato (incluindo representações mitológicas, heréticas e
pagãs) e tópicas de invenção (entendidas como
construções poéticas recorrentes e usuais) em
Prosopopéia, obra atribuída a Bento Teixeira, e nas sátiras
atribuídas a Gregório de Matos Guerra. Ocupamo-nos,
mais detidamente, em sondar elementos engenhosos que,
por sua origem pagã ou potencialmente herética,
poderiam contrariar os dogmas cristãos, mas que, ao
serem (re)contextualizados e (re)significados, passam a
ser aceitos e aprovados pelas autoridades competentes do
Império português e da Igreja Católica.
Palavras-Chave: Prosopopéia. Gregório de Matos.
Heterodoxia. Representação.
Abstract
In this article, we search to map the use of figures of
ornament (including mythological, heretical and pagan’s
representations) and topical invention (understood as
recurrent poetic and usual constructions) in Prosopopéia,
text assigned to Bento Teixeira, and the satire attributed
to Gregório de Matos Guerra. Dealing us more depth in
sound ingenious elements which, in its essence, go against
to Christian’s dogma, but, to be (re)contextualized and
(re)meanings, will be accepted and approved by the
competent authorities, namely: portuguese Empire and
the Catholic Church.
Keywords: Prosopopéia. Gregório de Matos.
Heterodoxy, Representation.
* Este artigo é resultado parcial da pesquisa de Iniciação Científica “Em defesa da ordem: poética epidítica e saberes heterodoxos.
América portuguesa (1580-1750)”, de nº: G-047/2008, financiada pelo PIBIC/CNPq/UFU, que compõe o projeto “Retórica, Poética
e Representação Política na América Portuguesa (séculos XVI–XVIII)”, coordenado pelo Prof. Dr. Guilherme Amaral Luz, com
auxílio da FAPEMIG.
1 Sua primeira edição data de 1601, mas é provável que esta obra já se encontrasse em circulação desde a década de 1580.
2 A “autoria”, no caso de Prosopopéia, é controvertida e imprecisa na fortuna crítica da obra. Não tomamos posição no que diz
respeito à identidade de Bento Teixeira, dado que sua relevância não é significativa na presente análise. Para aqueles que buscam
discussões a respeito do “autor”, sugere-se: VERÍSSIMO, J. História da Literatura Brasileira: de Bento Teixeira, 1601 a Machado de
Assis, 1908, Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1981; ABREU, J. C. de. Ensaios e estudos: crítica e história, Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1975; CASTELLO, J. A. Manifestações Literárias no Período Colonial (1500-1808/1836), São Paulo:
Cultrix, 1981.
3 O discurso epidítico caracteriza-se por seu objetivo de louvar valores e atitudes considerados nobres (encômios) ou censurar aqueles
considerados vis (vitupério), a fim de persuadir seu auditório a compartilhar de um mesmo ethos e orientar suas atitudes e valores.
Ver: REBOUL, O. Introdução à retórica. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 43-54.
42 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009
um sistema sócio-político semelhante, no esteio do
Antigo Regime.
 Feitas tais considerações, daremos contorno à pro-
blemática central deste artigo: perceber as possíveis
formas de interação entre a dogmática cristã — que
fornece princípios e elementos para a representação
teológico-política do Estado Moderno — e referências que,
de alguma forma, poderiam contrariá-la, como é o caso
de recursos retóricos vinculados a tradições pagãs,
judaicas ou heréticas. A partir deste trabalho, almejamos
sondar os sentidos historicamente verossímeis da mobi-
lização poética dessas referências em textos que não
circularam marginalmente em seu espaço/tempo, mas,
pelo contrário,foram editados com todas as autorizações,
seja da coroa luso-espanhola seja do Santo Ofício.
Reflexão historiográfica
Segundo Laura de Mello e Souza, desde o Descobri-
mento, teorias (apreciativas ou depreciativas) pautadas
no miraculoso, no “sobrenatural” e no maravilhoso
circundavam as colônias portuguesas na América4.
Assim, a novidade acomodava representações que
articulavam o estranho e o nunca antes visto com as
projeções imaginárias (fossem monstruosas ou edênicas)
familiares à cristandade européia. Não obstante, o
imaginário social da passagem do século XVI ao XVII
parece comportar manifestações das “novidades”, apesar
de resguardar os valores tradicionais que lhes dão sentido.
De acordo com Maravall, o período que se convencionou
chamar de barroco5 (1600-1680) cultivava e exaltava
as novidades. Convencido da atração exercida pelo
extraordinário, o autor afirma que o barroco oferecia
um ambiente propício para a profusão do “novo”, do
“extravagante”, recepcionado de formas diversificadas:
o novo agrada, o nunca antes visto atrai, a invenção
que estréia embeleza; mas todas as aparentes audácias
serão permitidas desde que não afetem a base das
crenças sobre as quais se assenta a estrutura social da
monarquia absolutista; ao contrário, servindo-se des-
sas novidades como veículos, introduz-se mais facil-
mente a propaganda persuasiva a favor do estabe-
lecido.6
Neste ambiente ambíguo, em que a novidade convive
com o status quo e ainda o serve, há que ser pensado o
uso de elementos pagãos (quando não judaicos ou
heréticos) em obras poéticas quinhentistas e seiscen-
tistas, ainda mais quando se considera um período em
que a tradição cultural greco-latina goza de enorme
prestígio nos meios letrados da Europa e de suas perife-
rias. Não se trata aqui, evidentemente, de tolerância das
autoridades cristãs no que se refere a saberes poten-
cialmente indesejáveis ou heréticos. Recorrer às “fábulas
clássicas” não constituia, necessariamente, um perigo
para a ortodoxia cristã dos séculos XVI e XVII, salvo
nos casos em que o fiel se deixava levar pelas “crendices”
pagãs, rompendo os laços com a ordem cristã. A Igreja
aceitava e mesmo fazia uso dessas manifestações ex-
teriores, mas sob vigília constante. Delumeau reforça este
argumento quando afirma que:
Como o cristianismo tinha impregnado quinze sé-
culos de história européia, a mitologia já não podia ser
senão um álbum de imagens, de resto singularmente
rico, e um repertório de alegorias. Os deuses tinham
abandonado os templos.7
Esses elementos pagãos, ao serem interpretados como
linguagem metafórica ou, antes, como formas “simbó-
licas” de reconhecimento, não constituíam mais qualquer
perigo, agindo como acessórios ornamentais com obje-
tivo de deleitar os leitores mais instruídos (ou “discretos”8)
que, conhecendo as fábulas, conseguiriam interpretar as
mensagens “implícitas” ou alegóricas nelas veiculadas à
4 SOUZA, L. M. O Diabo e a Terra de Santa Cruz, São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p. 44.
5 O barroco, na concepção do autor, não designa conceitos morfológicos ou estilísticos, repetíveis em culturas cronológica e
geograficamente separadas. Trata-se de um conceito de época, que se estende, em princípio, a todas as manifestações integradas na
cultura da mesma. Essa definição visa alcançar um conhecimento o mais sistemático possível de cada um dos períodos que submete
a estudo, sem que com isso renuncie a compará-los, depois, com todo rigor. Ver: MARAVALL, J. A. A cultura do Barroco: Análise de
uma Estrutura Histórica, São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1997, pp. 42-49.
6 Idem, p. 356.
7 DELUMEAU, J. A Civilização do Renascimento, volume 1, Lisboa: Editorial Estampa, 1984, p. 119.
8 Hansen identifica duas formas de destinatários: o discreto e o néscio. O discreto distingue-se pelo engenho e pela prudência, que
fazem dele um tipo “agudo” e racional, capacitado sempre para distinguir o melhor em todas as ocasiões. O néscio, ou vulgo, designa
indivíduos com falta de juízo, rústico ou confuso. Trata-se, portanto, de uma oposição intelectual, cujo critério fundamental é a
agudeza. Ver: HANSEN, J. A. A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII, São Paulo: Ateliê Editorial,
Campinas: Editora da Unicamp, 2004, pp. 93-103.
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luz de uma economia cristã9. A ortodoxia, portanto,
admite a sobrevivência de manifestações heterodoxas que
a moral cristã, por outro lado, poderia desaprovar ou
desacreditar. Esses elementos, “desativados” de sua po-
tencialidade original e re-contextualizados, são manu-
seados pelo próprio cristianismo10.
Admitimos, como hipótese, que dogmas ortodoxos e
elementos heterodoxos, quando ocupam o mesmo ce-
nário no campo poético, podem interagir de maneiras
diferenciadas: podem implicar exclusão recíproca, se sua
interação for tomada como intolerável; podem se con-
fundir e, por acréscimo, obscurecer o provável sentido
atribuído pelo poeta; podem se separar, como lugares
distintos ou divergentes; podem se confundir na forma
de alegorias ou simbolismos complexos, em que um
sentido prevalece sobre o outro. Em todos esses casos,
sejam incompatíveis ou sincrônicas, as figuras e tópicas
elegidas podem determinar a eficácia poética e, no mais
das vezes, provar, por efeito de amplificação, a lição
moral transmitida pelo poeta. No caso da poesia con-
temporânea à Bento Teixeira e Gregório de Matos, pa-
rece prevalecer esta última forma de interação que
apresentamos (apesar de não podermos excluir as
outras). Nela, vemos algo de semelhante ao que afirma
Jean Starobinski, quando propõe que:
Sendo o mundo da fábula, por decreto do poder
espiritual, um mundo profano, sem verdadeiro conteúdo
sagrado, não pode haver blasfêmia nem lesa-majestade
quando o desfiguramos11.
Bianca Morganti, em sua dissertação Mitologia n’Os
Lusíadas: balanço histórico-crítico, analisando a fortuna
crítica de Os Lusíadas, especialmente a controvérsia
envolvendo o uso da mitologia na epopéia cristã, admite
duas formas de recepção: o auditório poderia acolher a
obra de bom grado, considerando as figuras mitológicas
como acessórios eruditos e ornamentais que geravam
deleite e acentuavam a agudeza do poema, deixando-o
solene; por outro lado, o público poderia criticá-la,
aludindo à natureza potencial dos mitos e, portanto,
contraditórios à mística cristã12. O controle dessa
polissemia denota ambigüidade quanto ao uso da
mitologia no interior de uma cultura cristã.
É por esta razão que devemos nos preocupar com a
retomada e com a legitimidade de tópicas e referências
poéticas e textuais. O percurso entre o posicionamento
de quem escreve e a acepção de quem lê pode assumir
vias diversas, que variam entre caminhos certeiros e
oblíquos, traçados conforme a interpretação do objeto
(lê-se texto). Optamos, especificadamente, por mapear
e analisar algumas das apropriações de elementos
“heterodoxos”, conduzidas tanto por Bento Teixeira
quanto por Gregório de Matos, para, então, poder
inquirir a respeito de seus efeitos, naturais à poesia dos
séculos XVI e XVII.
A retórica em Prosopopéia:
discussões e resultados
No domínio da invenção retórico-poética, Bento
Teixeira emula modelos próprios da tradição “clássica”;
isto é: ao mesmo tempo, imita-os e procura superá-los,
recorrendo a argumentos que intencionam aproximar
os modelos prestigiosos antigos da trajetória histórica do
Império católico lusitano. A verossimilhança da narra-
tiva depende dos recursos estilísticos e das tópicas
retóricas elegidas pelo aedo. Um desses recursos, estra-
tégico em seu exórdio, é, por exemplo, quando o poeta
assumeuma posição de modéstia afetada, adquirindo
confiabilidade, como veremos adiante, sob a máscara
do rústico, por traz da qual o autor mostra-se incapaz
de fingir, dissimular ou florear a verdade, seja no domínio
da elocução seja na capacidade de “mentir” convin-
centemente.
No prólogo, arquitetando a dedicatória a Jorge
d’Albuquerque, Bento Teixeira faz alusão implícita à Ars
Poetica horaciana: sua intenção é comparar a forma
com a qual poetas e pintores lidam com seus “ins-
trumentos” de trabalho. No caso dos pintores, um
9 Delumeau nos lembra que as imagens retiradas das fábulas antigas produziam ensinamentos que podiam ser traduzidos em duas
linguagens diferentes: a da Antiguidade greco-romana e a do cristianismo. Este último caso é o mais recorrente e, segundo o autor,
a Igreja estava longe de reprová-lo. A Europa do Renascimento, dessa forma, se paganizou e descristianizou menos do que durante
muito tempo se pensou. Ver: DELUMEAU, J. A Civilização do Renascimento, volume 2, Lisboa: Editorial Estampa, 1984, p. 116.
10 Ver: STAROBINSKI, J. As máscaras da civilização: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 237.
11 Idem, p. 244.
12 Interpretar tópicas retóricas como fato é postular a obra como expressão, o que causa conflito em termos de aceitação. Essas figuras
desempenham papel lexical e, habitualmente, são traduzíveis, contando com leitores discretos capazes de fazer essa “mediação”. Se
os artifícios retóricos não forem compreendidos, o discurso perde sua eficácia poética. Ver: HANSEN, J. A. A sátira e o engenho:
Gregório de Matos e a Bahia do século XVII, São Paulo: Ateliê Editorial, Campinas: Editora da Unicamp, 2004, p. 34.
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rascunho antecede a conclusão da obra, como um “pré-
requisito” artístico. O autor de Prosopopéia, acatando a
essa idéia, considera que sua obra é um rascunho que,
posteriormente, com o consentimento do Governador
de Pernambuco, seria “aperfeiçoada” e ampliada, alme-
jando compor um “retrato poético” original e completo.
Ao assumir uma posição modesta, como que diminuindo
sua imagem perante a do herói, Bento Teixeira apela
para a boa vontade do homenageado, que deveria
valorizar a “intenção” do presente e não as formas e o
seu conteúdo. Neste caso, há duas tópicas em jogo: a
persona do rústico, que é lugar de humildade adequado
às circunstâncias hierárquicas entre o aedo e o herói13, e
um lugar de amizade, próprio dos encômios, a partir do
qual mais se valoriza o motivo da oferta (o desejo ou a
obrigação de agradar ou servir) do que o próprio resultado
final da obra. Em ambas, o que se busca é, pelo ethos do
orador/aedo, a docilidade do leitor/ouvinte, sustentando
uma relação de cumplicidade, e sua boa disposição para
o que está a ser narrado.
Assumindo a “modéstia afetada”, o poeta rústico exige
um leitor necessariamente discreto14, onde a persona do
orador/aedo assume, ao mesmo tempo, duas posições:
uma inferior (indicando suposta deficiência ou incom-
pletude em relação ao leitor discreto) e outra superior
(e, portanto, apreciativa, indicando possuir a humildade
que falta aos poetas vaidosos que, louvando heróis, bus-
cam as glórias somente para si). Este “lugar humilde”,
entendido como um lugar-comum em que o orador
assume uma “modéstia afetada”, além de configurar um
ethos favorável ao orador/aedo, ao mesmo tempo, am-
plifica a grandiosidade dos feitos a serem narrados.
Outro artifício utilizado pelo autor, para oferecer
“autoridade” e veracidade à narrativa, diz respeito a uma
“fronteira” que demarca o lugar dos homenageados e o
lugar dos heróis antigos. Sua intenção é enaltecer os
Albuquerques, enquanto modelos exemplares, ao con-
trário dos heróis clássicos que integram uma narrativa
supostamente irreal ou fabulosa. Afirmando a superio-
ridade de seus homenageados, em comparação com os
antigos, o poeta similarmente se coloca acima dos poetas
pagãos, uma vez que a suposta precisão de seus relatos
oferece ao discurso algo que os antigos, em meio a
narrativas fantásticas e sobrenaturais, não teriam conse-
guido alcançar: a “verdade”.
Logo no início do exórdio — cujo objetivo é tornar o
auditório dócil (em situação de compreender e aprender),
atento e benevolente — Bento Teixeira deixa claro seu
posicionamento em relação aos “poetas antigos”:
Cantem Poetas o Poder Romano,
Submetendo Nações ao jugo Duro;
O Mantuano pinte o Rei Troiano,
Descendo à confusão do Reino escuro;
Que eu canto um Albuquerque soberano,
Da Fé, da cara Pátria firme muro,
Cujo valor e ser, que o Ceo lhe inspira,
Pode estancar a Lácia e Grega lira.
(Bento Teixeira, Prosopopéia, Canto I)
À maneira de Camões, o aedo de Prosopopéia elege,
portanto, “lugares” distintos para poetas “antigos” e
“modernos”, deixando claro duas vantagens dos segundos
sobre os primeiros: a veracidade dos fatos narrados (ao
contrário das “fábulas” pagãs) e a superioridade moral
dos seus heróis: seja pela sua natureza cristã ou pelo seu
altruísmo, que os transforma em um nobre modelo “pa-
triótico”, essencial na expansão e defesa do Império
lusitano. Estes feitos, nobres e “verídicos”, podem estan-
car os feitos gregos e latinos.
Segundo os padrões épicos, as “fábulas dos antigos”
são evocadas para sustentar/reforçar um determinado
argumento-tipo ou juízo moral, atribuindo-lhe consis-
tência e veracidade15. Sua função é incrementar um
13 A persona rústica, segundo Alcir Pécora, “favorece a que a qualificação de sua autoridade para dizer o que diz repouse mais em sua
boa intenção de dizer a verdade e dar ao homenageado os atributos a que faz jus, do que na exata maneira de dizê-lo, na justeza de
sua elocução diante da prescrição elevada do gênero”. PÉCORA, A. “A história como colheita rústica de excelências”. In: As
excelências do governador: o panegírico fúnebre a d. Afonso Furtado, de Juan Lopes Sierra (Bahia, 1676). São Paulo: Companhia
das Letras, 2002, p. 63.
14 Hansen afirma que os tipos do discreto e do vulgar funcionam como mecanismos políticos de constituição de unidades de excelência
e de não-unidades viciosas. A discrição implica a técnica da agudeza e, por extensão do “saber agir” conforme as circunstâncias.
Sendo assim, o discreto deve saber “simular” e “dissimular”: a dissimulação é entendida como uma técnica de fingimento moralmente
virtuoso que oculta o que realmente existe, enquanto a simulação finge a existência do que não há. Ver: HANSEN, J. A. “O
Discreto”. In: NOVAES, A. Libertinos e libertários. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, pp. 77-102.
15 É necessário considerar as limitações tanto da narrativa histórica quanto das narrativas literárias sem, necessariamente, confundi-
las ou hierarquizá-las, e reconhecer o apoio mútuo (e metódico) que uma pode oferecer à outra. Ver: PÉCORA, A. Máquina de
gêneros, novamente descoberta e aplicada a Castiglione, Della Casa, Nóbrega, Camões, Vieira, La Rochefoucauld, Gonzaga, Silva
Avarenga e Bocage, São Paulo: EdUSP, 2001, pp. 14-15.
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discurso atribuindo-lhe autoridade e eloqüência. A in-
vocação das Musas16 é um artifício comumente encon-
trado em epopéias da Antigüidade, como é o caso das
obras de Homero e Virgílio. Sua função poética é oferecer
acesso às realidades “originais”, recuperando aconteci-
mentos primordiais17. Em Prosopopéia, tal invocação
assume diferentes tons:
As Délficas irmãs chamar não quero,
Que tal invocação é vão estudo;
Aquêle chamo só, de quem espero
A vida que se espera em fim de tudo.
Êle fará meu Verso tão sincero,
Quanto fôra sem ele tosco e rudo,
Que per rezão negar não deve o menos
Quem deu o mais a míseros terrenos.
(Bento Teixeira, Prosopopéia,Canto II).
O autor dispensa os serviços das musas, assumindo
que essa invocação resulta em “vão estudo”. Sua proposta
é oferecer a “verdade”, e não narrativas fabulosas e
inverossímeis. A energia poética da verdade, nesse
sentido, superaria o fingimento ficcional dos antigos
versos. Bento Teixeira, por isso, requisita a ajuda de Deus,
entidade suprema do Cristianismo, que daria acesso às
verdades históricas. A interação entre dois elementos
potencialmente contraditórios não oferece aos versos,
necessariamente, um teor conflituoso. Recusar a auto-
ridade das musas amplia a importância de Deus en-
quanto único ser detentor de todas as verdades. Se a
eficácia dos versos de Prosopopéia depende da sua
veracidade, dispensar as “Délficas irmãs” e invocar o Deus
cristão evita que o poema se torne “tôsco e rudo”.
No campo da elocução — avaliando a redação do
discurso e as figuras de estilo — Bento Teixeira enaltece
a figura dos Albuquerques, remetendo a antigos per-
sonagens ilustres, reconhecidos como modelos tradi-
cionais dignos e renomados18. Existe, portanto, uma
correlação entre dois tempos: o tempo mítico do herói e
o tempo contemporâneo à obra. As virtudes dos varões
portugueses, homenageados de Prosopopéia, são
espelhadas em personagens cujos feitos, imortalizados,
ecoam com o passar das gerações. No entanto, faz-se
necessária uma ressalva: essas “qualificações” épicas,
realizadas por meio de comparações, alusões, analogias,
atuam como figuras de elocução (léxis), cujo intento é
enobrecer a figura dos Albuquerques e, ao mesmo tempo,
estabelecer modelos que sirvam de referência para os
leitores coevos. A eficácia dessas figuras é simbólica, uma
vez que a comparação respeita aos padrões tradicionais,
enfatizando as “virtudes heróicas” próprias dos perso-
nagens épicos, e não ao indivíduo por trás do herói:
Outro Troiano Pio, que em Dardânea
Os Penates livrou e o padre caro;
Um Públio Cipião, na continência;
Outro Nestor e Fábio, na prudência.
(Bento Teixeira, Prosopopéia, Canto XXVII)
Duarte Coelho possui suas virtudes espelhadas nos
antigos: apresenta a continência de Públio Cornélio
Cipião (236 a.C. – 183 a.C.), general romano virtuoso,
símbolo de coragem e perseverança bélica, características
que lhe renderam reconhecimento “mítico”. Em seguida,
Duarte é comparado a Nestor19 e a Quinto Fábio Máximo
(275 a.C. – 203 a.C.), no quesito prudência: o primeiro
é um ícone “homérico”: peça fundamental na empresa
dos gregos contra os troianos; o segundo teria sido grande
estrategista bélico, cujo “faro” na batalha debilitou moral
e fisicamente Aníbal e seus exércitos durante a Segunda
Guerra Púnica. Esses personagens exercem uma função
dupla no poema: como modelos memoriais, enaltecem
as qualidades de Duarte Coelho, pois são personagens
“virtuosamente” qualificadas; como figuras de elocução,
16 Filhas de Zeus e da deusa Memória, as nove musas (Glória, Alegria, Festa, Dançarina, Alegra-coro, Amorosa, Hinária, Celeste e
Belavoz) habitam o monte Parnaso, em Delfos. Sua natureza profética é constantemente requisitada pelos poetas da antiguidade.
Elas agiam como “intermediadoras” entre os homens e os deuses. Ver: ELIADE, M. Mito e Realidade. São Paulo: Perspectiva, 1972,
pp. 107-112.
17 Idem, p. 110.
18 A eficácia de Prosopopéia dependia da capacidade do aedo em mobilizar, tanto como um orador, “lugares comuns” retóricos, ou
tópicas de invenção, para usar um vocabulário mais técnico. Este aedo necessita “imortalizar” as personagens, enumerando e
qualificando suas virtudes e, dependendo do engenho poético, oferecendo sobrevida à própria poesia. De acordo com Trajano Vieira,
“os prodígios heróicos são uma necessidade poética” e, nesse sentido, poeta e herói trabalham juntos para superar a transitoriedade.
Vieira admite que a poesia épica, além de conferir glória imperecível aos heróis, possui um caráter educativo e formador, oferecendo
modelos de conduta a serem seguidos, edificando virtudes exemplares e indispensáveis para o reconhecimento permanente. Ver:
VIEIRA, T. “Introdução”. In: CAMPOS, Haroldo de. Ilíada de Homero, vol. 1. São Paulo: Arx, 2003, pp. 12-14.
19 Nestor foi rei de Pilo, filho de Neleu, casado com Eurídice. Muito célebre na Ilíada, aparecendo como um velho prudente e portador
de grandes conselhos. Trata-se do arquétipo da sabedoria, da continência e da prudência.
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causam deleite e, por se tratar de grandes referências a
obras prestigiosas da Antigüidade, acentuam a distinção
e agudeza do poema, afetando um auditório que, com
tais referências épicas, entendem a gravidade da
exaltação.
Similar a Duarte Coelho, sua prole, composta, se-
gundo o poema, por varões ilustríssimos (“Cada qual a
seu Tronco respondente”, Canto XXIX), dará prosse-
guimento aos grandes feitos do pai. Jorge e seu irmão,
no canto XXXI, são identificados como “Martes”, hipér-
bole20 que engrandece os atributos bélicos por fazer
menção ao deus da guerra, reconhecido pelas habilidades
com as armas e o espírito guerreiro. No canto seguinte,
são comparados a “dous soberbos Rios espumosos”, que
designam a fúria, inquietude e força incessante dos
homenageados21. Estas metáforas são parâmetros
amplificadores, que instruem (docere) e agradam (de-
lectere), e são capazes de persuadir (movere) através
dos artifícios retóricos emprestados da mitologia clássica.
Outro exemplo interessante está no canto XLII. Nas
palavras de Proteu, Jorge d’Albuquerque é mais invicto
do que Enéias, que “desceu ao Reino de Cocito”. Enéias,
protagonista da grande epopéia de Virgílio, importante
guerreiro na batalha de Tróia, é reconhecido por sua
coragem, astúcia e eloqüência. Não é por acaso que
conseguiu enganar o “cão infernal” e invadir as “terras”
de Hades, retornando com vida depois de cumprir sua
missão. Jorge d’Albuquerque, portanto, supera aquele
que desceu ao “Reino escuro”, personagem fundamental
na “fundação mítica” do Império Romano, varão pio
que porta as mais diversas virtudes. O jogo de figuras
antagônicas, tal como claro/escuro, luz/sombra, acen-
tuam a distinção entre os bons e maus costumes, ou
entre vícios e virtudes. No presente caso, o “Reino escuro”
está associado ao mundo de Hades, o mundo da perdição.
Em outros momentos, Bento Teixeira compara Jorge
d’Albuquerque ao “Sol luzente” (Canto XLII), indicando
a luz como metáfora da virtude. Esse jogo de cores e
efeitos, presentes em Prosopopéia, nos parece ser recurso
retórico para a construção de heróis “iluminados”,
afastados da vil “escuridão”. A referência ao “Reino de
Cocito” pode suscitar nos leitores uma associação ao
“Reino” dos Infernos. Jorge, portanto, supera o mundo
do pecado e da danação, estando, assim, invicto dos
castigos eternos.
Proteu: um “profeta” do passado
Além de recorrer a heróis “clássicos”, com vistas a
enaltecer a figura dos Albuquerques, Bento Teixeira
invoca a presença de deuses mitológicos no decorrer de
sua obra. O autor requisita, inicialmente, os serviços de
Proteu, divindade própria do panteão grego, descendente
de Tétis, filha de Nereu, e do titã Oceano. Integrava o
Conselho de Anciões, em virtude de sua sabedoria e da
capacidade de prever o futuro. Possuía, ainda, a habil-
idade de metamorfosear, adquirindo o aspecto de figuras
monstruosas, cujo objetivo seria afugentar os mortais
que o abordam para ouvir suas profecias.
Vem o velho Proteu, que vaticina
(Se fé damos à velha antiguidade)
Os males a que a sorte nos destina,
Nascidos de mortal temeridade.
Vem nua e noutra forma peregrina,
Mudando a natural propriedade.
Não troque a forma, venha confiado,
Se não quer de Aristeu22 ser sojigado.
(BentoTeixeira, Prosopopéia, Canto XV)
Após a leitura das duas primeiras linhas do canto XV,
percebemos novamente o posicionamento do poeta que
insiste no desapego fidedigno às tradições “clássicas”.
Proteu só vaticina se dermos “fé” à velha antiguidade e
isso mostra, por sua vez, os efeitos figurativos de sua
construção poética. Sem qualquer retomada dos valores
20 A hipérbole indica uma figura de exagero, que amplifica o argumento. Baseia-se numa metáfora ou numa sinédoque; sua função
semântica é invocada quando não se encontra um termo apropriado que dê conta da “grandiloqüência” ou “vulgaridade” da
narrativa, tentando “exprimir o inexprimível”. Ver: REBOUL, O. Introdução à retórica, São Paulo: Martins Fontes, 1998, pp. 123-
1 2 4 .
21 Estratégia poética, as perífrases são requisitadas nos casos em que o poeta, ao descrever um ser ou enaltecer sua conduta, simula
não dispor de palavras à altura da homenagem e, por isso, busca contemplar suas características, utilizando termos ou palavras
que, no conjunto, assumem as pretensões retórico-poéticas do orador. Esse artifício assume uma natureza dupla: pode designar algo
que teria sido perigoso nomear abertamente e, por outro lado, pode desmistificar ou vulgarizar objetos ou seres míticos, aludindo a
eles com linguagem profana, abolindo figuras prestigiosas a partir de “máscaras” mitológicas. Ver: STAROBINSKI, J. As máscaras
da civilização: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, pp. 231-260.
22 Para informações sobre o mito de Aristeu, ver: BULFINCH, T. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. São Paulo:
Martin Claret, 2006, pp. 251-254.
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mitológicos, em sua potencialidade, ou culto à tradição
e cultura pagãs, a invocação de Proteu não se assenta
em perigos doutrinários e, por isso, pouco abala a
ortodoxia cristã.
A narrativa de Proteu oferece autoridade aos versos
de Prosopopéia, visto que, sendo um sábio profeta, re-
conhece os grandes feitos que mereçam ser guardados
na memória. Quando o autor de Prosopopéia abre mão
de ocupar a persona de narrador, ele assume uma posição
de modéstia, mostrando-se impotente frente a feitos de
heróis tão grandiosos. A presença de Proteu personifica
a sabedoria épica e sua fala, com ares de profecia, reforça
e incrementa o discurso, tornando-o convincente e
“legítimo”.
O deus profeta, por sua vez, assume ares solenes e
reforça a posição modesta dispensada pelo poeta, no afã
de narrar os “indescritíveis” feitos de Jorge d’Albuquer-
que, conforme indica o trecho abaixo:
Seus heróicos feitos extremados
Afinarão a dissoante prima,
Que não é muito tão gentil subjeito
Suplir com seus quilates meu defeito.
(Bento Teixeira, Prosopopéia, Canto XXIII)
Pensando na tradição de leitura da epopéia camo-
niana, Bianca Morganti afirma que, nos séculos XVI e
XVII, havia basicamente três formas de entender a
presença da mitologia em Os Lusíadas: como orna-
mento, com a intenção de causar deleite em seus leitores;
entender os deuses como heróis, cujos feitos foram imor-
talizados nos textos épicos; como alegoria23, compreen-
dendo o mito em analogia com a mística cristã. Gui-
lherme Amaral Luz cogita a hipótese de essas três
interpretações também terem sido as que dirigiram o uso
da mitologia em Prosopopéia. Segundo o autor, neste
caso, Proteu poderia:
(...) personificar, ao mesmo tempo, uma figura de
ornato, um herói sábio e um profeta cristão. Como figura
de ornato, com suas transmutações monstruosas, ele é
a própria metáfora da metáfora ou da pluralidade de
formas sensíveis imperfeitas assumidas pela verdade.
Como sábio, detém o conhecimento da virtude dos heróis
e dos desafios impostos pela fortuna. Como profeta
cristão, anuncia a fatalidade das ações na direção dos
seus resultados já sabidos de antemão.24
Resta lembrar, ainda, que os dotes proféticos de Proteu
vaticinam um futuro que, para o leitor, já é passado.
Método similar é encontrado n’Os Lusíadas, quando
Júpiter, para alívio de Vênus, profetiza feitos gloriosos
aos portugueses (Canto II, est. 44).
Este recurso “profético” reforça a autoridade imposta
pela memória reerguida. Cantar a grandeza dos home-
nageados com ares proféticos não constitui perigo algum
para as autoridades religiosas, partindo do pressuposto
de que os fatos são eventos passados, mas que, no
entanto, são dignos de lembrança e memória. Nesse
sentido, “não há qualquer profecia no canto de proteu
que não seja figura de elocução”25.
A figura de Proteu é artifício épico duplamente peri-
goso, seja pela sua natureza pagã, seja pelos seus atribu-
tos proféticos, saberes potencialmente contrários aos
dogmas cristãos. O caráter profético pode ser relacionado
a um movimento político-cultural português típico da
virada do século XVI para o XVII: o sebastianismo. Este
fenômeno é uma (re)apropriação portuguesa do mito
do “Encoberto”, descrito nas Trovas do sapateiro Gonçalo
Annes Bandarra, entre 1530-1540. Em suas trovas, é
possível encontrar referências da Sagrada Escritura,
preceitos judaicos e elementos próprios do maravilhoso
medieval, tratando-se, portanto, de um “hibridismo
literário”. Este documento postula as glórias, dificuldades
e o destino imperial do reino português e se tornaria,
cerca de um século depois, a “Bíblia do sebastianismo”.
De acordo com Jacqueline Hermann:
Se Bandarra acabou sendo o “profeta” eleito para a
pregação messiânica e real que ganharia corpo e
adeptos a partir do início do século XVII, d. Sebastião
emprestou sua própria vida para a confirmação final
dessa “revelação”.26
23 Entendendo a alegoria como uma modalidade da elocução ou ornamento do discurso, que age como um dispositivo retórico cujo
procedimento fundamental é a técnica da substituição. Ver: HANSEN, J. A. Alegoria: Construção e interpretação da metáfora, São
Paulo: Atual, 1986, pp. 1-2.
24 LUZ, G. A. “O canto de Proteu ou a corte na colônia em Prosopopéia (1601), de Bento Teixeira”. In: Tempo, Niterói-RJ: UFF, v. 25,
2008, p. 211.
25 Idem, p. 212.
26 HERMANN, J. No reino do desejado, São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 121.
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O sebastianismo oferecia aos portugueses uma dou-
trina baseada na esperança, almejando o retorno de um
rei salvador, (con)fundindo luta política e profecia mes-
siânica. Tomando como base a análise crítica de
Jacqueline Hermann, a profecia era um recurso para
aqueles que estavam dominados pelo medo e des-
contentes devido à perda de autonomia do Império
português. A esperança se esvaecia e tudo o que restava
era uma crença na qual se apoiar, na tentativa deses-
perada de retomar a identidade política e resistir ao surto
de descontentamento e nostalgia:
Profecia inacabada, sua consumação se daria
através da ressurreição do rei e do reino, revelando um
sentido muito próprio para a sacralidade do monarca
da Lusitânia, eleito por Deus para a direção de seu
Império na terra.27
Num ambiente de insegurança e medo, muitas
pessoas se prendem a uma crença ou doutrina de caráter
profético, atribuindo importância desmedida às “adi-
vinhações”28, enquanto premeditação de acontecimen-
tos, longínquos ou próximos. O retorno do rei Desejado
exprimia as esperanças de um corpo político sem
“cabeça”, entregue aos domínios castelhanos, correndo
o risco de perder sua identidade imperial. Esperança,
essa, que almejava recobrar a autonomia do Império
português que se manteve hibernada por sessenta longos
anos sem, no entanto, deixar de viver um horrível
pesadelo.
Lémnio: personificação do vil(ão)
em Prosopopéia
Lémnio29, epíteto que designa o deus Vulcano, tam-
bémé evocado por Bento Teixeira. Em Prosopopéia, ele
assume o papel de figura de elocução que representa a
natureza vil, por fazer resistência ao “nobre” caminho
trilhado por Jorge d’Albuquerque e sua tripulação.
Admitido como o “pai” da barbárie, o deus do fogo oferece
ao aedo ares trágicos por representar os “pagãos”,
indivíduos que fazem resistência à expansão da fé e, por
extensão, do Império português. A presença da alteridade
encontra-se expressamente presente na terminologia
barbárie30, que sustenta uma densa carga toponímica:
essa nomenclatura, portadora de significados diversos e
convencionais, é dificilmente definida, senão por tópicos
negativos. Tal como o mal, que se define pela ausência
de bondade, termos como “bárbaro”, “pagão”, “herege”,
“gentio”, “mouro”, são definidos pela ausência de alguma
virtude configurada como excelente. Sendo assim, o
bárbaro pode ser o “não-grego”, o “não-civilizado” ou,
no caso de Prosopopéia, pode designar o “não-cristão”.
A noção de barbárie depende do ponto de referência de
quem designa; determina-se, portanto, uma fronteira
convencional e negociável, que homogeneíza o “outro”,
traçando uma caricatura pouco delineada do mesmo.
De acordo com Francis Wolff31, várias são as apli-
cabilidades da terminologia barbárie: pode implicar
alguém em estágio arcaico de socialização — remetendo
àqueles que ignoram as boas maneiras, portando-se
rudemente, de forma grosseira —, pode designar um
estágio arcaico, no quesito cultura — composto por indi-
víduos insensíveis ao saber e, por isso, “culturalmente”
inferiores — e pode, por fim, denunciar um estágio “pré-
humano”, ou seja, composto de povos selvagens, que
lidam com a ausência de qualquer sentimento huma-
nitário. Em todos esses casos, o bárbaro é definido pela
ausência de algo que remete à civilidade/civilização. Em
todos os casos citados, os valores tidos como “baixos” o
são baseados em padrões “evoluídos” da humanidade.
“Levar” a civilização aos povos bárbaros significa diluir
sua cultura, efetivando um processo de “aculturação”.
Recorramos à metáfora do espelho: para arrancá-los de
sua barbárie, faz-se necessário que eles se espelhem em
uma sociedade/humanidade civilizada.
Como artifício retórico, a figura de Lémnio é duplo
signo de paganismo: por um lado, é fruto da fábula pagã
e, por isso, potencialmente contraditória à mística cristã;
por outro, sua “prole” é composta por “pagãos”. O deus
27 Idem, p. 307.
28 Segundo Jean Delumeau, a adivinhação “em seu sentido mais amplo, era — e é ainda para aqueles que a praticam — uma reação
de medo diante do amanhã. Na civilização de outrora, o amanhã era mais objeto de temor do que de esperança”. DELUMEAU, J.
História do medo no ocidente, 1300-1800: uma cidade sitiada, São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p. 397.
29 Quanto à versão mitológica apropriada pelo autor, ver: TEIXEIRA, B. Prosopopéia, Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro,
1972, pp. 122-123.
30 Como Starobinski nos lembra, “um termo carregado de sagrado demoniza o seu antônimo”. Neste caso, o bárbaro se opõe ao cristão.
STAROBINSKI, J. As máscaras da civilização: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 33.
31 Ver: WOLFF, F. “Quem é bárbaro?” In: NOVAES, A. Civilização e barbárie. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
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ferreiro assume não somente a personificação de um
deus pagão, mas do próprio paganismo. Como argu-
mento-tipo, Lémnio amplifica a vileza combatida pelos
Albuquerques; como figura de elocução, oferece ao aedo
uma voz dissonante que, por sua vez, tende a mover
ânimos, dado que esta divindade trama contra os ho-
menageados e mobiliza todo um arsenal de infortúnios,
como será mostrado mais adiante.
A “aparência” de Lémnio, descrita por Proteu, parece
condizer com sua natureza/essência vil. Ao narrar sua
compleição, o poeta anuncia a fisionomia dos infortúnios
que virão. Como esta descrição parte de Proteu, é total-
mente viável que ares proféticos norteiem a sua fala:
E com rosto cruel e furibundo,
Dos encovados olhos cintilantes,
Férvido, impaciente, (...).
(Bento Teixeira, Prosopopéia, Canto XLVII)
Retomando os conceitos utilizados por Bianca Mor-
ganti, são três as possibilidades de recepção da figura de
Lémnio pelo auditório de Prosopopéia: como figura de
ornato, reforçando o estilo épico e valorizando a estrutura
estética pautada na mitologia greco-romana, compondo
as “belas maneiras” e a fala depurada; metafórica, en-
tendendo os deuses como grandes heróis reconhecidos
na Antiguidade, dignos de referência e imortalidade; e
alegórica, remetendo, intrinsecamente, a uma realidade
mística cristã ou, no mínimo, que não se oponha a ela32.
Enquanto peça ornamental, Lémnio é artifício empre-
gado com vistas a aprimorar o engenho poético e o
caráter estético de Prosopopéia; simboliza, por outro
lado, a figura do anti-herói, sendo responsável pelos
infortúnios que dificultaram e que, por pouco, não
impediram a empresa de Jorge d’Albuquerque e à sua
tripulação.
O sentido alegórico33, por sua vez, não é claro (a
alegoria impõe esta dificuldade interpretativa), mas abre
espaço para possíveis interpretações. Em uma das versões
mitológicas, Vulcano foi arremessado do Olimpo pela
mãe (Juno) por ter nascido com a aparência disforme.
Devido à queda, que durou um dia e meio, o deus do
fogo tornou-se coxo, sobrevivendo tão somente por ser
imortal. Essa deformidade, portanto, pode indicar a
natureza “coxa” dos pagãos que, por falta da fé cristã,
são “incompletos”, “disformes”. Por outro lado, na
tradição cristã, Lúcifer e os “anjos caídos” sofreram queda
semelhante, por se rebelarem contra Deus, e foram
precipitados para o Inferno. Esta analogia não seria
estranha em uma sociedade fortemente “cristianizada”,
como é o caso de Portugal e suas extensões coloniais. O
deus ferreiro e, portanto, do fogo, poderia ser, assim, uma
clara metáfora de seres infernais.
Sendo “pai” da barbárie, ou personificação da mesma,
Lémnio se sente ofendido ao perceber que sua “prole”
estava sendo convertida e/ou dizimada por varões por-
tugueses. Persuadindo Netuno, senhor das águas, Vul-
cano requisitou uma tempestade que pudesse impedir o
regresso de Jorge e seus homens, utilizando, para isso,
argumentos que apelam à vaidade34. No seu discurso,
Lémnio convence Netuno através de soberbas conside-
rações que reafirmam sua posição entre as divindades
pagãs, como importante membro e habitante do Olimpo:
Em preço, ser, valor, ou em nobreza,
Qual dos supremos é mais qu’eu altivo?
Se Neptuno do Mar tem a braveza,
Eu tenho a região do fogo activo.
Se Dite aflige as almas com crueza,
E vós, Ciclopes três, com fogo vivo,
Se os raios vibra Jove, irado e fero,
Eu na forja do monte lhos tempero.
(Bento Teixeira, Prosopopéia, Canto LI)
Netuno, como bom irmão, atende às suas vontades
(ao final da obra, ele se arrepende desta escolha). A
resistência do deus do fogo aos feitos dos Albuquerques
pode ser entendida, por extensão, como a resistência dos
32 Ver: MORGANTI, B. F. A Mitologia n’Os Lusíadas – Balanço Histórico-Crítico. Dissertação (Mestrado). São Paulo: IEL/Unicamp,
2004, pp. 156-171.
33 Segundo Hansen, existe duas opções de recepção para o leitor: analisar os procedimentos formais que produzem a significação
figurada, lendo-a apenas como convenção lingüística que ornamenta um discurso próprio, ou analisar a significação figurada nela
pesquisando seu sentido primeiro, tido como preexistente nas coisas e, assim, revelado na alegoria. Ver: HANSEN, J. A. Alegoria:
Construção e interpretação da metáfora, São Paulo: Atual, 1986, p. 2.
34 De forma semelhante, Baco, emOs Lusíadas, convence os deuses marinhos a lançarem uma tormenta contra a embarcação de
Vasco da Gama. Baco e Vulcano, nessa concepção, ocupam posições similares: ambos tentam impedir o progresso da virtude,
resistindo à empresa de nobres varões portugueses. Tanto Baco quanto Vulcano assumem a postura de anti-heróis. Ver: CAMÕES,
L. V. de. Os Lusíadas. Porto Alegre: L&PM, 2008, pp. 173-198.
50 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009
“nativos” brasílicos aos colonizadores lusos, não acatando
a fé cristã e impedindo a expansão da cristandade e do
Império português. Enquanto figura de linguagem,
Lémnio representa a resistência a duas metas (indis-
sociáveis naquele ambiente político e cultural) próprias
às ações de varões tidos como excelentes: a difusão da fé
e a expansão do reino português. A divindade do fogo, o
bárbaro, o demônio, o infortúnio ou, simplesmente,
Lémnio conspirava contra guerreiros prudentes e cora-
josos que contribuíam na expansão do Império lusitano.
Ao conjurar maus agouros contra a embarcação de
Jorge, Lémnio busca interromper a Fortuna, até então
favorável, dos irmãos Albuquerque. O poema apresenta,
neste momento, um “suspense” que mobiliza o leitor,
pois o desfecho supostamente sofrerá uma inversão, já
que a Fortuna se volta contra a Virtude, categorias que,
até aquele instante da narrativa, coabitaram pacifi-
camente. Quando o curso da história tende a mudar (para
pior), o ânimo dos leitores acompanha essas mudanças.
Jorge, contudo, oferecendo mostras de eloqüência e
virtuosidade, ofusca seu temor e busca (re)animar a sua
tripulação contra os riscos do infortúnio:
Per perigos cruéis, per casos vários,
Hemos d’entrar no porto Lusitano,
E suposto que temos mil contrários
Que se parcialidam com Vulcano,
De nossa parte os meios ordinários
Não faltem, que não falta o Soberano,
Poupai-vos pera a próspera fortuna,
E, adversa, não temais por importuna.
(Bento Teixeira, Prosopopéia, Canto LXI)
Dessa forma, o curso da narrativa, que parecia tomar
um rumo trágico, recobra o caminho da vitória da
virtude contra a má fortuna (infortúnio). Lémnio vê seus
desígnios fracassados. Acentuar a “vileza” de Vulcano
amplifica a “nobreza” de Jorge, quando este não apenas
resiste, como também recobra o alento de sua tripulação,
tal como se deve proceder alguém que ocupa uma posição
de prestígio35. Na embarcação, Jorge mostrou-se perso-
nagem valorosa, pois enfrentou o risco do infortúnio,
indevidamente manipulado por Lémnio. Em seguida,
assumindo conduta exemplar, ofereceu sua vida, para
que outros pudessem sobreviver. Esse ato evitou o ímpeto
da vaidade, mostrando que Jorge d’Albuquerque reivin-
dicava a responsabilidade e agia, portanto, tendo em
vistas o corpo coletivo, e não suas vontades particulares:
E se determinais a cega fúria
Executar de tão feroz intento,
A mim fazei o mal, a mim a injúria,
Fiquem livres os mais de tal tormento.
Mas o senhor que assiste na alta Cúria
Um mal atalhará tão violento,
Dando-nos brando Mar, vento galerno,
Com que vamos no Minho entrar paterno.
(Bento Teixeira, Prosopopéia, Canto LXVI)
No parecer dos moralistas de fins dos quinhentos,
a vaidade impede que o indivíduo obre em favor do bem-
comum, requisito primordial na construção de exemplos
nobres. Deve-se ter em mente o todo, e não as partes. As
decisões devem privilegiar o corpo social; Jorge assumia
a responsabilidade de “conduzir” o organismo cívico sob
sua responsabilidade, atuando de modo análogo aos
governantes prudentes, cujo valor estaria na sua posição
relativa ao conjunto que comanda, tal como entende,
por exemplo, Luz:
O todo vive por meio das relações complementares
entre as suas partes. A parte não tem significado e valor
em si, quando isoladas, mas apenas como meio comple-
mentar de realização da ordem do todo. O valor está na
posição que cada parte ocupa no conjunto de relações
que compõem o corpo místico.36
A sátira e sua repercussão:
discussões e apontamentos
Através de um humor-trágico (ou, talvez, de uma
dramatização via escárnio), as sátiras atribuídas a Gre-
gório de Matos demonstram um apurado teor crítico, o
que atribui aos versos uma tendência moralista, a julgar
35 A utilização de tópicas retóricas tradicionais que recorrem às antíteses, tal como “vício/virtude”, ou “bárbaro/civilizado”, são
recursos indispensáveis na composição de retratos biográficos encomiásticos. A presença de virtudes “exemplares” e vícios
“condenáveis”, no decorrer da narrativa, amplificam o contraste entre atos bons e maus. A composição de modelos públicos de
conduta depende desses artifícios retóricos para ser eficaz.
36 LUZ, G. A. “A morte-vida do corpo místico: espetáculo fúnebre e a ordem cósmica da política em Vida ou Panegírico Fúnebre a
Afonso Furtado de Mendonça (1676)”. In: ArtCultura, Uberlândia: UFU, no prelo (2008), p. 19.
51Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009
pela intolerância latente às práticas de determinados
estratos da sociedade.
Desde o século XIX, uma gama de autores coloca
em xeque a autoria e originalidade dos versos atribuídos
a Gregório de Matos: Varnhagen (1850), por exemplo,
considera-o um “escravo imitador” que plagia grandes
nomes castelhanos como Gôngora e Quevedo, para
obter reconhecimento e prestígio. Não obstante, João
Ribeiro parece compartilhar de posição similar, apesar
de considerar os modismos da imitação um processo
legítimo nos tempos de Gregório. Críticos como Paulo
Rónai e Sílvio Júlio parecem investir ainda mais na
desmoralização dos poemas gregorianos. Oscar Mendes,
sob influência dessa censura, chega a se referir ao poeta
como o “padroeiro dos plagiários”37. Constatamos a
existência, no entanto, de autores que não buscam
generalizar/relativizar as contribuições do poeta baiano,
tais como Pedro Calmon e Afrânio Coutinho. O primeiro
não admite que esta confusão autoral possa ser atribuída
ao poeta, em detrimento da própria organização dos apó-
grafos. O segundo, atento às práticas comuns à poesia
seiscentista, divulga a legitimidade da imitação, enquan-
to recurso ainda latente, herdado nos moldes renas-
centistas38.
Não ansiamos em tomar partido neste debate polê-
mico, tampouco seguir os rumos desta discussão, pois,
para nossa proposta, pouco valem considerações re-
ferentes à “autoria” ou “plágio”, termos que reconhe-
cemos como exteriores e posteriores à época de Gre-
gório39. A preocupação que norteia esta pesquisa se volta
muito mais para o conteúdo satírico seiscentista do que
para os possíveis epítetos poéticos que comumente são
tomados por “autores”, no sentido romântico do termo.
Araripe Júnior se refere a Gregório de Matos como “toda
a poesia do século XVII no Brasil”, ou seja, este nome
próprio deixou de designar um indivíduo para qualificar
uma época. Por esse motivo, nos agrada a expressão
“poeta coletivo”, utilizada por Wilson Martins, o que
supõe a superficialidade de se considerar uma “indi-
vidualidade” autoral40.
A sátira de codinome Gregório de Matos escancara
os vícios da sociedade através de encenações irônicas e/
ou dramáticas. Em síntese, ela “fere para curar”, pois
amplifica o mal e, implicitamente, propõe uma correção.
Nos encômios, o homenageado detém, enquanto modelo
referencial e exemplar, as virtudes tidas como excelentes
e ideais; no caso da sátira, através da antítese vício/
virtude, acentua-se a “deformidade” do satirizado que,
de alguma forma, impede a manutenção da ordem
pública. O vício, portanto, deturpa o organismo cívico, e
a crítica satírica solicita, indiretamente, a intervenção
de virtudes que, além de suplantar os vícios, restaurariam
a ordem socialalmejada. Segundo Hansen, a sátira
é sempre dupla quanto ao seu efeito de sentido,
afirmando uma ausente plenitude do bem comum, iden-
tificada com a boa política e a boa religião, oposta à
decadência do presente mau e corrupto, negado como
teatro da falha, falta e culpa.41
A eficácia satírica conta com o conhecimento de seus
auditórios, ou seja, a “deformação” dos indivíduos de-
pende de um prévio conhecimento de suas falhas e faltas.
Assim como o encômio, a sátira também depende da
conciliação entre o útil e o agradável. Objetivando o re-
púdio, o riso, o escárnio42, a sátira trabalha com inver-
sões, moldando conceitos virtuosos que, na verdade, são
mostruários de vícios que contaminam a sociedade. Tal
como afirma Hansen, “dois conceitos distantes e opos-
tos são aproximados e fundidos num único gênero
metafórico”43, o que proporciona aprendizagem e prazer.
Apresentar uma caricatura disforme, além de convenção
37 GOMES, J. C. T. Gregório de Matos, o Boca de Brasa: Um Estudo de Plágio e Criação Intertextual. Rio de Janeiro: Vozes, 1985, pp. 54-
8 3 .
38 Idem, pp. 86-87.
39 Ver: HANSEN, J. A. A sátira e o engenho. Gregório de Matos e a Bahia do século XVII. São Paulo: Ateliê Editorial, 2004, p. 32.
40 Ver: GOMES, J. C. T. Gregório de Matos, o Boca de Brasa: Um Estudo de Plágio e Criação Intertextual. Rio de Janeiro: Vozes, 1985,
pp. 14-15.
41 HANSEN, J. A. A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII, São Paulo: Ateliê Editorial, Campinas: Editora da
Unicamp, 2004, p. 201.
42 Há que se pensar, portanto, no efeito do cômico enquanto procedimento instrutivo, que concilia educação e deleite. José Macedo nos
lembra que “os mecanismos de fabricação do cômico, mesmo sendo intemporais, produzem efeitos distintos, cujo nexo encontra-se
nos códigos culturais partilhados”. A risibilidade, no caso da sátira, deve ser resultado de uma crítica histórica, de tal forma que o
leitor identifique a ironia e, através das fórmulas “baixas”, repudie os vícios do satirizado. O auditório precisa conhecer a fábula
para, então, entender os efeitos da inversão. Ver: MACEDO, J. R. Riso, cultura e sociedade na Idade Média. São Paulo: Editora Unesp,
2000, p. 26.
43 HANSEN, J. A. A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII, São Paulo: Ateliê Editorial, Campinas: Editora da
Unicamp, 2004, pp. 54-55.
52 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009
engenhosa, é uma forma de repudiar vícios então into-
leráveis. Trata-se de uma aprendizagem inversa e/ou
reversa, na qual se privilegia a falha, subtendendo sua
correção. O teatro satírico, em suma, faz do vício uma
virtude, pretendendo o inverso: transformar em virtude
os vícios.
Quanto aos dispositivos de elocução adotados pelo
poeta, optamos por analisar, inicialmente, a apropriação
das Parcas, recorrente no universo poético colonial. Na
mitologia, as Parcas (muitas vezes reconhecidas como
as Moiras, ou Destinos), filhas da Noite, são divindades
responsáveis pela sorte dos homens. Num total de três,
as Parcas habitam as regiões olímpicas: Cloto porta o
fio do destino humano; Láquesis coloca o fio em fuso;
Átropos, por fim, corta o fio, sendo a responsável direta
pela morte dos homens44. Não é por acaso que são
reconhecidas como as “fiandeiras”. Gregório de Matos
se apropria dessas figuras, por exemplo, para indicar
momentos trágicos, cuja morte é conseqüência der-
radeira. Segue uma de suas apropriações:
Neste túmulo a cinzas reduzido
Da virtude o Herói mais portentoso
Se oculta, feito estrago lastimoso
Da dura Parca, de que foi vencido.
De um incêndio cruel ficou rendido
Aquele peito forte, e valeroso,
Que por Deus tantas vezes amoroso
Tinha grandes incêndios padecido.
Porém a Parca andou muito advertida
Em lhe tirar a vida desta sorte,
E tirana não foi, sendo homicida.
Que se o matou em um incêndio forte,
Foi, porque se de incêndios teve a vida,
De incêndios era bem tivesse a morte.
(Gregório de Matos)45
O poeta, em sua narrativa, anuncia a “dura Parca”
que, vencedora, tomou a vida de Manuel da Ressurrei-
ção. Ao atribuir à Parca adjetivos depreciativos, como
“tirana” ou “homicida”, o poeta procura demonstrar seu
suposto pesar, devido ao destino trágico e desmerecido
deste “Herói”. Uma vida de incêndios, ou seja, de espírito
inflamado, deve ter seu término em meio a um incêndio
(podendo ser entendido literalmente como fogo, ou
alegoricamente como a perdição da alma, que queima
no Inferno). A “tirania” da Parca, portanto, é um falso e
irônico predicado para designar uma morte devida e
supostamente “conveniente”. Segue outro exemplo, dessa
vez referente à morte de José de Mello, assassinado por
Luís Ferreira de Noronha, capitão da guarda do gover-
nador Câmara Coutinho (1690-1694):
Brilha em seu auge a mais luzida estrela,
Em sua pompa existe a flor mais pura,
Se esta do prado frágil formosura,
Brilhante ostentação do céu aquela.
Quando ousada uma nuvem a atropela,
Se a outra troca em lástima a candura,
Que há também para estrelas sombra escura,
Se para flores há, quem as não zela.
Estrela e flor, José, em ti se encerra,
Porque ser flor, e estrela mereceu
Teu garbo, a quem a Parca hoje desterra.
E para se admirar o indulto teu,
Como flor te sepultas cá na terra,
Como estrela ressurges lá no céu.
(Gregório de Matos)46
Comparar o homenageado à estrela e à flor (re)a-
firma, indiretamente, as duas naturezas humanas (sob
uma lente cristã): uma terrena e outra celeste. A flor,
formosa em sua textura, possui uma existência finita,
irrisória e vulnerável. A estrela, no entanto, brilha por
tempo indeterminado, se fazendo presente a nossos olhos
mesmo após seu desaparecimento. A distinção e o garbo
de José são “desterrados” pela Parca que, aqui, parece
simbolizar a morte honrosa, apesar de triste. Ao ser
sepultado como flor, aqui na terra, ele perde sua natureza
mortal. No entanto, ressurge como uma estrela, o que
supõe uma ascendência, um acolhimento da bem-aven-
turança. O brilho e posicionamento das estrelas parecem
metaforizar uma transcendência celeste, divina, gloriosa.
A morte, nesse sentido, não compartilha da mesma
crueza denotada na morte de Manuel da Ressurreição.
44 Ver: COMMELIN, P. Mitologia grega e romana. São Paulo: Martins Fontes, 1997, pp. 82-84.
45 MATOS, G. Gregório de Matos: obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1999, p. 198.
46 Idem, pp. 204-205.
53Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009
Gregório de Matos, ao narrar a morte do governador
Matias da Cunha, utiliza expressões e recursos retóricos
que, além de demonstrar lamento, ilustram uma morte
“exemplar”, mas deve-se levar em conta o teor satírico
de suas palavras. Segue o trecho a ser analisado:
Ó caso o mais fatal da triste sorte!
Ó terrível pesar! ó dor imensa!
Quem viu, que em breves dias de doença
Acabasse valor, que era tão forte!
Quem viu prostrar-se a gala de Mavorte,
Que hoje em cinza se ve à morte apensa!
Que como se prostrou, logo a licença
Concedeu livremente ousada à morte.
Já se vê o valor, que esclarecido
Foi, em urnas de pedra sepultado
Do sujeito mais grave, e entendido.
À Parca rigorosa sujeitado,
Acabado já, e em cinzas consumido
o esforço, que se viu mais alentado.
(Gregório de Matos Guerra)47
A “triste sorte”, da qual se refere Gregório, pode ser
traduzida como o “destino”, ou talvez a providência. O
poeta fica ressentido ao testemunhar homem tão “forte”
perecer, sem qualquer possibilidade de reagir à doença
que o afligia (febre amarela). Comparado a “Mavorte”
(variação/epíteto que designa Marte), o homenageado
acaba reduzido a cinzas, sujeitado à “Parca rigorosa”, à
morte severa,iminente. Mais uma vez, a figura da Parca
metaforiza a morte, amplificando sua malignidade e
precisão. Ao atribuir à morte uma imagem (mesmo que
mitológica), o poeta “humaniza-a”, a ponto de atribuir-
lhe características próprias do homem: o rigor, o aprumo,
a sujeição. A personificação da morte acaba acomodando
adjetivos que expressam seu efeito e/ou intensidade, à
maneira do poeta. A próxima estrofe condensa o que
podemos nomear de “lamento”, como se a morte, im-
prescindível, pudesse operar num tempo impróprio, ou
errar os cálculos, tomando a vida de um indivíduo
precipitadamente:
Teu alto esforço, e valentia forte
Tanto a outro nenhum valor iguala,
Que teve o céu cobiça de lográ-lo,
Que teve inveja de vencê-la a morte.
O céu veio a lográ-la, mas por sorte,
Que por poder não pôde conquistá-la;
A morte por haver de contrastá-la
Vigor de lei tomou, e deu-lhe o corte.
Prêmios, que mereceste, e nunca viste,
Todos com teu valor os desprezaste,
E com os merecer lhe resististe.
O cargo, que na vida não lograste,
Esse o mofino é, órfão, e triste,
Pois te não falta a ti, tu lhe faltaste.
(Gregório de Matos Guerra)48
Inicialmente, destacam-se as falsas virtudes do
homenageado: valentia, esforço e fortaleza inigualá-
veis. Tanto a morte quanto o céu pecam para possuir o
satirizado: a primeira o inveja, o segundo o cobiça. O
embate entre o céu e a morte indica a luta de Matias da
Cunha pela vida, mas, como se sabe, a morte é indo-
mável, imbatível. Mais adiante, o poeta faz menção aos
prêmios que o protagonista recusara, dado o seu brio e
altivez. Neste caso, o governador “resiste” ao mere-
cimento, visto que suas proezas mundanas não lhes
renderam frutos benéficos. Na estrofe seguinte, o poeta
reforça sua posição, quanto à morte do mesmo:
Quem há de alimentar de luz ao dia?
Quem de esplendor ilustrará a Nobreza?
Quem há de dar lições de gentileza
A toda a gentileza da Bahia?
Já feneceu do mundo a galhardia,
Melancólica jaz a natureza,
Vendo em pó reduzida a fortaleza,
E em cinzas desatada a fidalguia.
O Marte (digo), que ao combate expunha
O peito sem temor, que ao mundo assombra,
Sendo da paz terror, da guerra espanto.
Foi este o Senhor Matias da Cunha,
Que hoje nos dá tornado em fria sombra
Ao discurso pesar, aos olhos pranto.
(Gregório de Matos Guerra)49
“Quem de esplendor ilustrará a Nobreza?”, inquire o
47 Idem, p. 137.
48 Idem, pp. 137-138.
49 Idem, p. 138.
54 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009
poeta, apesar de esta falsa-pergunta denotar ironia, já
que a resposta está intrínseca na própria pergunta. Junto
ao governador, perece a galhardia, o brio, o garbo. A
fortaleza se converte em pó, e a nobreza em cinzas. O
“Marte” Matias da Cunha, que “causava” espanto na
guerra e terror em tempos de paz, na troça de Gregório
torna-se “fria sombra”, digna de pranto e pesar. Como a
sátira opera com inversões, há que se perceber o duplo
sentido de seus versos. Sem qualquer dificuldade, o poeta
poderia fazer desses versos uma homenagem, um louvor,
pois opera com tópicas e requintes próprios do encômio.
O processo de inversão, no qual a sátira amplifica a
desonra do homenageado, é um requisito básico para o
sucesso da mesma, supondo, é claro, que o auditório
(re)conheça o perfil do satirizado e a ironia dos versos
em pauta.
Em outro episódio, ao censurar o suicídio cometido
pelo Conde de Ericeyra, D. Luís de Meneses (1632-1690),
Gregório faz menção ao mito de Ícaro que, junto a
Dédalo, foram os responsáveis pela construção do la-
birinto que asseguraria o cárcere do Minotauro, nos
limites de Creta. Ao se perderem no labirinto, Dédalo
arquiteta dois pares de asas de cera, para fugirem. Antes
de alçarem vôo, Dédalo pede ao seu filho, Ícaro, que não
se aproxime do sol, mantendo dele uma distância segura
e seguindo seus passos. Ícaro, imprudente e encantado
pelo brilho solar, acaba se entregando à tentação de se
aproximar do astro, derretendo suas asas, o que ocasiona
sua queda e morte.
É esta queda que serve de referência para o uso
metafórico de Gregório, nos versos seguintes:
Ícaro da nossa guerra
ares corta o Conde só,
Ícaro caiu no Pó,
e o Conde caiu na terra:
se, porque o rio o enterra,
o nome lhe ficou dado
de Ícaro ser sepultado:
assim porque a terra dura
deu ao Conde sepultura,
ficou a terra um condado.
De cera, e pluma se val
Ícaro para viver,
e o Conde para morrer
valeu-se do natural:
quanto à força artificial
da natureza é sobrada
fica a do Conde adiantada,
porque Ícaro quando bóia
faz tragédia de tramóia,
e o Conde de capa, e espada.
(Gregório de Matos)50
Gregório de Matos, para ridicularizar o suicídio
cometido pelo Conde de Ericeyra, que se joga da janela
de seu jardim, utiliza a queda de uma personagem
mitológica bem conhecida: a imprudência de Ícaro e sua
conseqüente morte. Gregório contrapõe o ardil de Ícaro,
no ímpeto de sobreviver com base em uma “força ar-
tificial” de asas artesanais, e da naturalidade com que o
Conde antecipa sua própria morte. A tragédia de um,
que luta pela sobrevivência (apesar de ser um impulso
fraudulento, conforme o poeta) se contrapõe ao desapego
do outro, que se mata.
Concluímos, portanto, que o uso de referências mi-
tológicas não causa qualquer prejuízo às sátiras atribuídas
a Gregório de Matos, mas, pelo contrário, torna seus
versos mais engenhosos, supondo um estilo loquaz que
faz uso de figuras pagãs e/ou heterodoxas na busca por
efeitos moralizantes afinados com os padrões de uma
Monarquia corporativa cristã. Estas estimativas, soma-
das às analises que reverberam no decorrer de nosso
trabalho, já dão margem a considerações significativas,
que, no entanto, não se vêem privadas de novas interro-
gações e inquéritos.
Considerações finais
Nossa proposta, nesse artigo, foi realizar uma leitura
retórico-histórica, considerando as convenções retóricas
(tópicas de invenção, figuras de elocução...) e sua eficá-
cia em discursos históricos destinados a um auditório
particular. Em exemplares poéticos quinhentistas e
seiscentistas, é fundamental sondar essas convenções,
próprias do contexto histórico da época. Esta forma de
leitura busca evitar anacronismos, interpretando textos
datados metodicamente, com a devida atenção crítica.
Como já se alegou, o uso de elementos “externos” à
mística cristã geraram debates acirrados e dissonantes.
Sondando a fortuna crítica de Os Lusíadas, Morganti
50 Idem, p. 131.
55Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009
percebe que nos três séculos que procederam à edição da
obra, as interpretações a respeito da mitologia eram
polêmicas e controvertidas. No século XVII, Manuel
Pires de Almeida e seus adversários, chamados “apo-
logistas” de Camões, foram peças-chave nesse debate. O
primeiro considerava o uso de “fábulas pagãs” incon-
veniente em um poema que cantava a expansão da fé
cristã. De acordo com esse autor, esses recursos estilís-
ticos não contribuíam para o fim último da poesia:
mover, deleitar e instruir. Pires de Almeida afirma que
Camões desconsidera a crença do povo para quem
escreve, deixando a verossimilhança em segundo plano.
Já os apologistas autorizam o emprego da mitologia
clássica, destacando a utilidade das “ficções poéticas” e
afirmando que a “epopéia portuguesa” ensina e move os
leitores à emulação dos grandes feitos, tidos como
excelentes51.
Não há dúvidas de que o novo — ou seja, o atípico —
gera certa intolerância e estranhamento por parte dos
homens que o recepciona, mas a valorização da cultura
greco-latina em obras poéticas remonta a uma postura
bemquista e tradicional entre os poetas da época,
convencionalmente chamada de barroca. Nosso estra-
nhamento, ao nos deparar com uma cultura pagã imersa
em obras de cunho cristão não se equipara às impressões
causadas durante os séculos XVI e XVII. Como Delu-
meau apontou, a mitologia era um “álbum de imagens”
incapacitado de abalar os alicerces de quinze séculos de
tradição cristã. Apesar da dupla possibilidade de recep-
ção por parte da audiência, a fábula mitológica não
subjugava a dogmática cristã, mas, antes, como nos
assevera Starobinski, sobrevive sob sua tutela.
Gregório de Matos e Bento Teixeira investem no
resgate de elementos “pré-cristãos” para a construção
de retratos poéticos em suas obras, seja de heróis seja de
anti-heróis cristãos. Não nos parece provável afirmar que
a retomada de elementos pagãos seja por ocasião de um
momento histórico conturbado ou que os poetas se sen-
tiam obrigados a “reproduzir” servilmente categorias
próprias das épicas da Antigüidade. Recusamo-nos, mais
ainda, a admitir que o uso de mitologia contradiga
necessariamente uma obra de cunho cristão, tendo em
vista as inúmeras possibilidades de interpretação que
comporta. Bento Teixeira, no decorrer de sua obra,
invoca a ajuda do Deus cristão, afirmando que não
“bebe” do licor ou compartilha a “falsa pompa” dos
antigos poetas. Gregório de Matos nem precisa reforçar
esse posicionamento, pois suas eventuais apropriações
mitológicas não deixam sequer suspeitas de adesão ao
paganismo. Nesse sentido, os elementos mitológicos,
“descarnados” de seu sentido primeiro, agem como
instrumentos artísticos ou técnicos que enriquecem o
propósito de ambos os poetas: longe de qualquer
impedimento, os recursos mitológicos intensificam as
finalidades retóricas últimas da poética barroca: docere,
movere et delectare.
As tópicas heterodoxas, portanto, são apropriadas
tanto no encômio quanto no vitupério, resgatando
igualmente seus significados originais, ou seja, exige-se
(e supõe-se) do leitor a mesma perícia e assimilação
destes recursos, a mesma discrição. Mas uma dúvida
ainda se coloca: como a apropriação pode ser similar, se
os efeitos da sátira e do encômio são opostos? Se
atentarmos para os caminhos trilhados nesta pesquisa,
perceberemos que é possível a conciliação destes aspectos,
que longe estão de serem contraditórios. Defenderemos
esta afirmação com um exemplo: se a figura de Marte,
deus da guerra, é apropriada em um texto encomiástico,
tal como o é em Prosopopéia, possivelmente (e prova-
velmente) são seus atributos louváveis que serão res-
gatados, tais como suas habilidades bélicas ou sua perícia
com armas. Na sátira, por sua vez, Marte faria parte de
uma paródia ou ironia, para acionar atributos que o
satirizado não apresenta, podendo ser (e geralmente são)
os mesmos atributos comuns aos anúncios encomiás-
ticos. Desta forma, se o leitor (re)conhece as façanhas
do deus Marte, possivelmente compreenderá sua
apropriação tanto nos domínios da sátira quanto nos
domínios do encômio. A diferença entre estas apro-
priações deve ser levantada no ato da leitura, ou seja, é o
auditório que deve ler os anúncios como sérios ou
irônicos, fator responsável pela inversão de sentidos nas
construções poéticas. A mesma figura de elocução,
portanto, poderá ser utilizada para fins diversos, mas a
atenção do leitor não deve se voltar para a tradição
recuperada (que é a mesma), e sim para sua finalidade,
após ser (re)contextualizada.
No caso da apropriação das Parcas, a situação é
similar: o poeta não evidencia qualquer apego às tradições
mitológicas, tampouco crença numa tríade de fiandeiras
51 Ver: MORGANTI, B. F. A Mitologia n’Os Lusíadas – Balanço Histórico-Crítico. Dissertação (Mestrado). São Paulo: IEL/Unicamp,
2004, pp. 156-159.
56 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 41-57 — 1º sem. 2009
que tecem uma linha cujos extremos são a vida e a morte.
Quando se refere à “dura Parca” ele, analogicamente,
remonta à dura morte, injusta e inevitável. Se o auditório
reconhece o significado dessas tópicas, ele assimila não
a tradição mitológica (que supostamente é comum à
audiência), mas o engenho no qual ela se constitui e para
o qual ela se (re)figura. Da mesma forma, um anúncio
encomiástico poderia se apropriar dessas figuras, com a
finalidade de rebuscar o engenho, exigindo-se do público
a mesma assimilação da tradição, mas não dos critérios
de recepção, que são inversos.
Com um propósito educativo-político, Bento Teixeira
e Gregório de Matos pretendem deleitar, ensinar preceitos
morais e normas de conduta através do retrato poético
dos homenageados, exortando seus auditórios a emulá-
los (no caso dos encômios) ou a repudiá-los (no caso
das sátiras). Para isso, é exigida dos poetas certa destreza
no emprego de procedimentos “elocutivos”, assim como
na eleição dos episódios mais (in)expressivos da vida dos
homenageados/satirizados. A aceitação dessas obras
(cunhadas em arranjo político) dependia da “distinção”
argumentativa, das habilidades retóricas e da capacidade
que o poeta tinha de mobilizar seu público. Em suma, a
eficácia do efeito “educativo” dependia das habilidades
do orador em moldar seus argumentos de acordo com o
auditório, inspirando confiança, suscitando afetos e
moldando posicionamentos; elementos fundamentais da
retórica e, por extensão, das práticas poéticas seis-
centistas.
Dessa forma, os recursos estilísticos que retomam
elementos da tradição pagã ampliam o alcance das obras
e os valores morais que integram as “biografias”
encomiásticas e satíricas. Nesse sentido, não admitimos
que o uso dessas referências tenha um significado
puramente ornamental em seu sentido mais pueril. O
destaque de modelos (para fins elegíacos ou irônicos)
depende do arsenal de referências que o poeta dispõe para
intensificar e amplificar os requisitos que se espera ou
não de um indivíduo. Apontar as glórias e vanglórias
dos protagonistas levanta um quadro de qualidades e
virtudes a serem espelhadas e uma relação de vícios e
práticas a serem evitadas a todo custo. A eficácia e
sucesso da propaganda política estão vinculados ao labor
poético dispensado pelo autor e aos artifícios retóricos
mobilizados pelo mesmo. As figuras de elocução,
portanto, longe de atender somente às intenções
particulares e “ornamentais” dos poetas, mobilizavam
aspectos do imaginário e da cultura letrada da época, o
que era fator decisivo na eficácia “propagandística” da
obra e da sua verossimilhança para o público.
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Das cinzas do Welfare State emergiam os principais
temas que conformariam a agenda de discussões da
esquerda “renovada”, nos anos 1980-2000. Em meados
da década de 1970, o modelo de economia e sociedade
consolidado após a Segunda Guerra Mundial fora
intensamente criticado por uma fração dinâmica das
elites intelectuais ocidentais, de orientação claramente
reformista. Renunciavam tanto ao capitalismo acelerado
de economia mista quanto ao comunismo do bloco
soviético sem, contudo, aderir à “revolução do mercado”
pregada já nestes tempos por Sir Keith Joseph que,
retomando dos escombros de 1929 o pensamento do
polêmico Friedrich A. Hayek através da influência de
Milton Friedman, se tornaria o pai do Thatcherismo1.
Sob a ótica destes intelectuais, o capitalismo do
Welfare State, baseado nos pressupostos keynesianos de
intervenção do Estado na atividade econômica e na
promoção do pleno emprego e do “bem-estar social”,
encontrava-se em uma encruzilhada criada pelas
contradições de seus próprios fundamentos. Em outras
palavras, para esta elite intelectual reformista, a cons-
trução de uma “sociedade afluente”, onde as restrições
materiais e espirituais pudessem ser sanadas através do
consumo privado, dos serviços sociais públicos e do pleno
emprego, naufragava sob o peso de suas próprias
insuficiências, deixando para trás um rastro de desilusão
— causada às massas, esperançosas de serem incluídas
—, de destruição — dados os alegados danos ambientais
e sociais provocados pela idéia do “crescimento como
meio e fim” — e de desperdício — considerando a suposta
incapacidade do Estado de atuar como empresário e
regulador da atividade econômica. Para estes intelectuais,
se nos anos 1930-1940 a intervenção do Estado teria sido
importante para sanar dificuldades emergenciais,
relacionadas a um contexto de crise econômica e de
destruição material, a institucionalização deste inter-
vencionismo nos anos 1950 teria demonstrado ser
impraticável a longo prazo.
Limites para o Crescimento
A denúncia dos chamados “limites para o
Ética e Sociedade Afluente: intelectuais e a
agenda para uma esquerda reformista (anos 1970)
Daniel de Pinho Barreiros
Pós-Doutor em História pela UFF. Professor Civil do Colégio Militar do Rio de Janeiro.
E-mail: barreiros.cmrj@gmail.com
Resumo
O artigo analisa comparativamente as idéias sociais de
importantes intelectuais ligados ao debate político norte-
americano, engajados na crítica ao Welfare State e ao
capitalismo de crescimento acelerado, bem como traz à
tona um momento importante da história intelectual do
século XX, que se refere ao surgimento do conceito de
sustentabilidade.
Palavras-chave: Welfare State. Intelectuais.
Sustentabilidade.
Abstract
The article analyses the social thought of some remarkable
intelectuals that were engaged in the American political
debate in the seventies. These thinkers were recognized
for their partisan discourse against the Welfare State and
the accelerated capitalism as well. Furthermore, the
article sheds some light on the arousal of the concept of
sustainability.
Keywords: Welfare State. Intellectuals. Sustainability.
1 YERGIN, Daniel e STALINSLAW, Joseph, The Commanding Heights: the battle for the world economy. New York: Touchstone,
2002, p. 74-81.
60 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67 — 1º sem. 2009
crescimento” foi o ponto de cruzamento entre as
principais linhas argumentativas contrárias à perma-
nência do paradigma intervencionista keynesiano nas
políticas econômicas nacionais. Muitos dos intelectuais
envolvidos no debate — ligados ou não à “nova esquerda”
— criticaram uma suposta orientação “produtivista” do
capitalismo do pós-guerra, no qual os aumentos no PNB
e a expansão do consumo privado seriam os índices de
bem-estar por excelência, em detrimento de valores “não-
econômicos” tais como o meio ambiente, a vivência social
comunitária, a saúde e a cultura. Assim, várias foram
as críticas à “ideologia do crescimento econômico
acelerado” dos anos 1950-1960, diferindo entre si em
aspectos gerais ou específicos. Elas convergem, no
entanto, na rejeição ao capitalismo dirigido e a um padrão
de desenvolvimento econômico considerado inadequado
para os “novos tempos”.
Fred Hirsch2, em seu trabalho Social Limits to
Growth3, elaborado com apoio financeiro do Twentieth
Century Fund e publicado em 19764, defendeu que as
“sociedades afluentes” nos anos setenta — ou seja,
aquelas marcadas pelo crescimento acelerado do pós-
guerra e do Welfare State — apareciam como vítimas
do que chamou de “paradoxo da afluência”: quanto mais
o crescimento econômico tornava-se um objetivo
premente, e quanto mais indivíduos aproximavam-se do
“padrão de consumo”, mais decepcionantes seriam os
frutos desta expansão econômica, e menor a satisfação
e bem-estar obtidos com os mesmos. “Assim, a frustra-
ção na afluência resulta de seu êxito em satisfazer ne-
cessidades materiais previamente dominantes”5. Para
Hirsch, uma sociedade cujo fim último reside na ex-
pansão total do produto econômico — tal como defendi-
do pela “ideologia do crescimento” dos anos 1950 —
demonstra um amplo potencial de instabilidade social,
tendo em vista que a disputa pelos chamados “bens
posicionais” — produtos e serviços que conferem status
ao indivíduo — torna-se mais agressiva na medida em
que uma parte substancial da população ultrapassa o
nível da subsistência básica. Em suma, o crescimento
econômico e a difusão do consumoexpandiriam propor-
cionalmente os níveis de conflito na sociedade, ao invés
de reduzi-los6.
Uma versão mais radical da idéia de “limites do
crescimento econômico” pode ser encontrada na obra
do economista E. F. Schumacher7, cujas propostas e
diagnósticos quanto à crise do Welfare State tiveram
ampla repercussão no seio do ativismo social dos anos
1970, em especial ligado a temas ambientais e à chamada
“revolução do local”. Em Small is Beautiful8, publicado
em 1973, Schumacher afirmava que as sociedades
capitalistas de crescimento acelerado haviam alcançado
seu ponto de inviabilidade, para o qual a única saída seria
a revisão de todos os princípios ligados à vida social e
econômica do ocidente, começando pela rejeição à
ideologia do crescimento e aos valores sociais prove-
nientes da Revolução Industrial. O problema residiria
justamente na ainda ampla aceitação da idéia de uma
2 Fred Hirsch (1931-1978) nasceu na Áustria e graduou-se pela London School of Economics em 1952. Foi jornalista econômico e
economista do Fundo Monetário Internacional. Tornou-se professor de Economia na Universidade de Warwick em 1975, poucos
anos antes de sua morte. Foi autor de uma vasta quantidade de trabalhos sobre assuntos monetários internacionais e sobre questões
inflacionárias, mas seu posicionamento liberal-esquerdista ganhou notoriedade ao final dos setenta com o livro Limites Sociais do
Crescimento, elaborado durante sua permanência no Nuffield College, Oxford, entre os anos de 1972 e 1974.
3 A primeira edição de Social Limits to Growth foi publicada em 1976 pela Harvard University Press Cambridge, Massachussets,
Estados Unidos. A tradução brasileira foi feita com base na terceira edição americana, pela mesma editora. HIRSCH, Fred. Limites
Sociais do Crescimento. Trad. Waltersir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
4 O Twentieth Century Fund foi, nos anos 1970, uma fundação independente, de orientação liberal-esquerdista, sem fins lucrativos,
que tinha como missão financiar e elaborar estudos sobre instituições, questões econômicas, políticas e sociais. Atualmente chama-
se The Century Foundation, tendo incluído em sua pauta de investigações os temas da desigualdade social, da previdência social,
reformas eleitorais, estudos sobre a mídia e suas implicações sociais, segurança interna e assuntos internacionais. Possui escritórios
em Nova Iorque e em Washington, D.C.
5 HIRSCH. Op. cit., p. 21.
6 Idem , p. 13-14; 20-21.
7 Ernst Friedrich Schumacher (1911-1977) nasceu na Alemanha e foi Rhodes Scholar em Oxford durante os anos 1930, onde
estudou Economia, tendo sido acolhido como um “protegido” por Lord Keynes. Lecionou na Universidade de Colúmbia, Nova Iorque,
antes de dedicar-se aos negócios, à agricultura e ao jornalismo. Durante a Segunda Guerra Mundial, retornou à Inglaterra onde
retomou brevemente a vida acadêmica em Oxford. Terminado o conflito, entre 1946 e 1950, atuou como conselheiro da British
Control Comission dedicada à recuperação da economia alemã. Entre 1950 e 1970, foi Chief Economic Advisor do British Coal Board,
quando teria previsto a ascensão da OPEP e os problemas concernentes à energia nuclear. Em 1955, em visita à Burma como
consultor, desenvolveu seu conceito de “Economia Budista”, rompendo com os paradigmas da Modernidade ocidental.
8 A primeira edição de Small is Beautiful no Brasil foi publicada pela Editora Zahar, Rio de Janeiro, em 1977, com o título O Negócio
é Ser Pequeno: um estudo de Economia que leva em conta as pessoas. A primeira edição em inglês foi publicada na Grã-Bretanha por
Blond & Briggs Ltd. No presente trabalho utilizamos a edição de 1974, publicada por Sphere Books Ltd, Londres, Inglaterra.
SCHUMACHER, E. F. Small is Beautiful: a study of economics as if people mattered. London: Abacus, 1974.
61Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67 — 1º sem. 2009
“desejável afluência”, ou seja, de que o problema da
produção havia sido resolvido com base no planejamen-
to e no industrialismo. As sociedades industriais avan-
çadas, na verdade, padeceriam de uma crise moral,
autodestrutiva, que soterrava o “bem-viver” sob os cál-
culos do PNB e da expansão do consumo de duráveis. A
substância humana — dizia Schumacher — não pode
ser medida pelos ganhos quantitativos proporcionados
pela economia, e sim, pelos sintomas de perda obser-
vados, com a expansão da criminalidade, do consumo
de drogas e do vandalismo. Assim, “(...) nós temos que
incisivamente entender o problema e começar a vis-
lumbrar a possibilidade de desenvolver um novo estilo
de vida, com novos métodos de produção e novos pa-
drões de consumo; um estilo de vida voltado para a
permanência”9.
Mas por que a expansão econômica acelerada do pós-
guerra não poderia prosseguir? Schumacher foi além da
idéia de “limites físicos” para o crescimento econômico,
denunciando também suas conseqüências morais.
Condenou Keynes e os fomentadores do capitalismo
dirigido por orientarem os homens e os sistemas
econômicos no caminho da cobiça, desprezando assim
todas as possíveis implicações éticas de uma expansão
desenfreada do produto. Rejeitou ainda a idéia de que a
construção da paz e do desenvolvimento social —
pretensos frutos do Welfare State e do keynesianismo —
seria possível por meio do incentivo à avareza, restando
à ética contentar-se em vigorar tão somente no final deste
processo, quando uma “sociedade plena” tivesse sido
erigida. “Imediatamente encontramos uma séria difi-
culdade: o que é “suficiente”? Quem pode nos dizer?
Certamente não o economista que busca o ‘crescimento
econômico’ como o mais nobre de todos os valores (...)
onde está a sociedade rica que diz: ‘Chega! Temos o
suficiente”? Ela não existe”.10
A “plenitude” e a “prosperidade” do Welfare State
significavam, para Schumacher, a exaustão energética
e ambiental do planeta, sendo portanto uma promessa
impossível de ser cumprida. Assim, uma sociedade que
buscasse valores voltados para a “vida humana” sim-
plesmente não poderia prosseguir no caminho da busca
de riquezas, tendo em vista que este não seria compatível
com a realidade de um meio ambiente limitado. “O
Produto Interno Bruto pode crescer rapidamente: tal
como medido pelos estatísticos, mas não do modo como
é vivenciado pela população, que encontra-se oprimida
pela crescente frustração, alienação, insegurança, entre
outros”11. Assim, na medida em que as nações tornam-
se industrialmente “bem sucedidas”, se defrontam com
problemas morais e espirituais que devem passar a
ocupar uma posição central no espectro de atenções da
sociedade.
Toda expansão das necessidades tende a expandir a
dependência em relação à forças externas que não se
pode controlar, assim aumentando o temor existencial.
Apenas pela redução das necessidades é que se pode
promover uma genuína redução nestas tensões que são
as causas últimas do conflito e da guerra.12
Estas questões morais estariam ligadas, portanto, à
busca da sabedoria, ou em outras palavras, da perma-
nência, da sustentabilidade da vida no planeta13.
A materialidade dos Limites
para o Crescimento
Hirsch rejeitou a preponderância dos “limites físicos”
para o crescimento, afirmando que as conclusões obtidas
por Meadows em The Limits to Growth não expressavam
o verdadeiro dilema do capitalismo ocidental nos anos
197014. Os entraves à expansão econômica não estariam
ligados necessariamente à escassez de recursos naturais
— considerando-se a inovação tecnológica e a capacidade
de substituição destes insumos por outros —, e uma
situação de inviabilidade do sistema não estaria situada
num horizonte “distante” de um século. Para Hirsch, os
entraves já estariam plenamente presentes naquela
década, com conseqüências menos apocalípticas que as
vislumbradaspela equipe do MIT. “Nesse sentido, a
preocupação com os limites do crescimento expressada
9 SCHUMACHER. Op. cit., p. 10-11; 16-17.
10 Id., p. 19.
11 Ibid., p. 25.
12 Ibid. , p. 26-27.
13 Ibid., p. 18-27.
14 Refere-se ao o relatório “The Limits to Growth”, elaborado pela equipe do ambientalista Dennis L. Meadows, do Massachusetts
Institute of Technology (MIT), e apresentado ao Clube de Roma em 1972, no âmbito do projeto “On The Predicament of Mankind”
(“Sobre o Desafio da Humanidade”).
62 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67 — 1º sem. 2009
pelo Clube de Roma está notavelmente mal colocada”15.
O cerne do problema estaria na “falsa promessa” do
Welfare State, de que o crescimento econômico ace-
lerado e a intervenção do Estado no pós-guerra gerariam
uma nova sociedade, materialmente afluente, com renda
democratizada, paz social e bem-estar garantidos. Ao
contrário, os valores tidos como hegemônicos sob o
Welfare State teriam aguçado o conflito social e a com-
petitividade entre os indivíduos, provocando assim
diversas fontes de frustração e mal-estar existencial.
A disseminação da economia material e do acesso
aos bens de primeira necessidade nas sociedades indus-
triais — portanto, a elevação do nível de consumo privado
individual — teria deslocado o significado do “bem-estar”
para além das condições de vida “dignas”, depositando-
o no consumo cada vez mais intenso dos chamados “bens
posicionais”, ou seja, a) passíveis de escassez física ou
social (jóias, obras de arte, produtos industriais de tira-
gem limitada, artesanato de luxo); ou b) impassíveis de
consumo generalizado, sob pena de congestionamento
e desvalorização (manufaturados de altíssima tecnolo-
gia, veículos de luxo, turismo, vários serviços pessoais,
serviços educacionais “especiais”, etc). Em suma, era o
acesso aos chamados “bens de status” que determinaria,
na sociedade do Welfare State, os vencedores e os per-
dedores. Ocorre que a elevação geral das rendas nacio-
nais por meio do crescimento econômico — e como
conseqüência, a expansão do poder aquisitivo da popu-
lação como um todo — não permitiria, por definição,
que a “riqueza oligárquica” — a aquisição de bens
posicionais —, fosse difundida pela sociedade. O acesso
a estes bens de status seria determinado pela renda
relativa, isto é, pela posição hierárquica atingida pelo
indivíduo no conjunto das rendas pessoais, e não pela
renda absoluta.
Uma pessoa pode aumentar sua capacidade de
adquirir [bens posicionais] melhorando sua posição na
distribuição de renda e riqueza, isto é, tornando-se mais
rica em relação aos seus próximos. O mesmo resultado
não será obtido se ela tornar-se mais rica juntamente
com aqueles que a cercam (...).16
O crescimento econômico geraria expectativas de
uma completa distribuição do acesso aos bens posicionais
em toda a sociedade; tal possibilidade seria, no entanto,
uma completa mistificação, na medida em que os meca-
nismos de preços tenderiam a encarecer os bens de status
de acordo com os níveis de crescimento da renda global,
conservando assim a hierarquia de consumo. “As esco-
lhas oferecidas pelas oportunidades de mercado são
celebradas como um elemento libertador para o indi-
víduo. Infelizmente, a libertação individual não se faz
para todos os indivíduos em conjunto” 17. Em suma, o
crescimento econômico acirraria o conflito distributivo,
ao invés de amenizá-lo.
Hirsch enfatizou as implicações coletivas das deci-
sões individuais, sob orientação da lógica de mercado.
Tomando como exemplo a crença, generalizada nos
anos sessenta e setenta, de que o investimento pessoal
em capital humano (educação e treinamento) seria um
dos principais vetores de difusão do bem-estar material
(através de empregos de maior remuneração), afirmou
que a expansão desenfreada da demanda por serviços
educacionais de todo o tipo reduziu, e não expandiu, a
possibilidade de prosperidade econômica para uma maior
parcela da população. Na medida em que o acesso à
educação desempenha uma notória função hierarqui-
zadora nas sociedades de capitalismo avançado — fun-
cionando, portanto, como um bem posicional —, e a
elevação do número de diplomados não é acompanhada
pela mesma expansão de postos de trabalho de alta
renda, os critérios de seleção tornam-se cada vez mais
proibitivos, preservando-se a hierarquia no acesso aos
bens de status. Assim, a tomada de decisões individuais
em um ambiente de acirrada competição provoca gran-
des perdas sociais, ao invés de ganhos. “(...) o desperdício
social resultará das expectativas decepcionadas dos
indivíduos e da frustração que experimentam em terem
de aceitar empregos em que não podem usar plena-
mente o conhecimento adquirido”18. “O valor, para mim,
da minha educação depende não só do seu grau, mas
também do grau de educação do homem que está à
minha frente na fila de candidatos a um emprego”19. O
mesmo raciocínio valeria para o consumo de todos os
15 HIRSCH. Op. cit., p. 17.
16 Id., p. 58-59.
17 Ibid., p. 46.
18 Ibid., p. 81.
19 Ibid., p. 16.
63Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67 — 1º sem. 2009
bens posicionais, condição de obtenção do “bem-estar”
sob o Welfare State: “Em lugar de aliviar a procura
insatisfeita no sistema econômico, o crescimento ma-
terial a exacerba, a esta altura. O centro da instabilida-
de é a divergência entre o que é possível ao indivíduo e o
que é possível para todos”20. Quanto maior a renda mé-
dia na sociedade, maiores seriam as frustrações pela
preservação das hierarquias. O progresso geral sob o
capitalismo acelerado seria, portanto, para Hirsch, uma
ilusão21.
Hirsch e Schumacher não foram os porta-vozes
privilegiados de uma vanguarda, e sim, exemplos de um
ambiente intelectual em transformação nos anos setenta.
Suas críticas não foram únicas, e as especificidades de
suas análises não representavam espécie alguma de
discurso comum. Suas preocupações gerais faziam coro
com uma gama de outras, demonstradas por intelectuais
progressistas e ativistas sociais. Gradualmente, o resul-
tado deste esforço intelectual em conjunto foi o bastante
para transformar os parâmetros nos quais o problema
do desenvolvimento econômico era pensado por forças
políticas no campo dos partidos de esquerda reformistas.
Limites Conceituais para o Crescimento
Além dos limites físicos e dos limites sociais, foi
comum entre as elites intelectuais reformistas a idéia de
limites conceituais e teóricos para o crescimento eco-
nômico; ao desconsiderar questões basilares e enfatizar
outras, deletérias ou desnecessárias, a ciência econômica
— referência intelectual das lideranças políticas e empre-
sariais — viria transformando a interação entre Socie-
dade e Economia em uma relação de submissão da
primeira em relação à segunda. Assim, mais uma vez, o
capitalismo de crescimento acelerado revelaria outra de
suas “perversas” faces, ao descumprir as promessas do
Welfare State de uma vida plena e livre.
É do economista tcheco Eugen Löbl22 uma im-
portante critica setentista à ciência econômica ocidental.
Em Humanomics23, de 1976, Löbl atacou dois séculos de
pensamento econômico ao rejeitar os pressupostos da
economia clássica, bem como da economia neoclássica,
da revisão keynesiana e do marxismo, entendidos todos
eles como frutos de uma concepção de ciência
inadequada, e portanto, indesejável pelas suas
conseqüências.
Para Löbl, parte substancial dos problemas pro-
vocados pelo capitalismo acelerado e pelo Welfare State
provém de uma concepção de Economia que descon-
sidera o Homem em sua condição fundamental de
criatura pensante, na medida em que adota princípios
mecanicistase objetivistas como instrumentos de
explicação da dinâmica econômica. Para que o sistema
econômico sirva ao Homem, e não o inverso — o Homem
seja escravo de sua própria criação —, é preciso que este
mesmo sistema seja regido por concepções cientifico-
filosóficas que valorizem o emprego das capacidades
intelectuais de cada indivíduo, bem como o poder hu-
mano de escolher e direcionar o destino das sociedades.
Entretanto, desde Quesnay e Smith, a Economia teria
sido constituída como uma ciência tipicamente new-
toniana, que considera a dinâmica econômica de forma
mecânica, regulada por leis objetivas e invariáveis,
externas portanto ao controle humano. Marx também
teria respondido a esta mesma lógica objetivista ao
formular os princípios do materialismo dialético, e Key-
20 Ibid., p. 103.
21 Ibid., p. 15-16; 50-51; 61-64; 74-84; 101-103.
22 Eugen Löbl (1907-1987) nasceu em Holitz, Império Austro-Húngaro (atualmente Holíè, República Eslovaca). Formou-se em
Engenharia, tendo prosseguido seus estudos em Viena. Na juventude participou de grupos de intelectuais esquerdistas. Sob a
influência destes grupos ingressou no Partido Comunista de Tchecoslováquia em 1931. Em 1937 tornou-se Secretário da União de
Amigos da União Soviética. Em 1939, migrou para Londres sob ordens do Partido, atuando no Fundo para Refugiados Tchecos. Em
1943 foi indicado pelo governo tcheco, no exílio em Londres, como Conselheiro do Ministro da Economia Ján Masaryk, e ocupou
cargo de destaque no Ministério para Renovação Econômica da Tchecoeslováquia. Foi Ministro do Comércio Exterior de 1945 até
1949, quando foi preso sob influência do governo soviético e expulso do Partido, acusado de traição e de reformismo (defendia a
intensificação do comércio com o Ocidente, por exemplo). Foi condenado à prisão perpétua em 1952 por traição, espionagem e
sabotagem, e em 1955, escreveu testemunho sobre os métodos de investigação, interrogatório e julgamento do governo comunista
tcheco. Em 1960, Löbl foi solto, e em 1963, “reabilitado”. Atuou no Banco Estatal da Tchecoeslováquia como Diretor Regional.
Insatisfeito pelo cargo ocupado, e cioso por tornar práticas suas idéias de reforma econômica, desejava retomar o cargo de Ministro
do Comércio Exterior, mas sem sucesso. Convidado a palestrar em países capitalistas, teve várias permissões negadas pelo governo.
Em 1967, a Academia Eslovaca de Ciências publicou um de seus libelos contra o marxismo e a favor de transformações políticas e
econômicas em seu país (“Úvahy o Duševnej Prácia Bohatstve Národa”, ou “Reflexões sobre o Trabalho Intelectual e a Riqueza das
Nações”). Com a Primavera de Praga e a repressão soviética a partir de 1968, Löbl deixa seu país e migra para os Estados Unidos,
tendo atuado como Professor de Economia e Ciência Política no Vassar College, de Nova Iorque, até 1976.
23 Humanomics: how we can make the economy serve us, not destroy us foi publicado pela primeira vez em 1976, pela Random House
de Nova Iorque, Estados Unidos. Foi publicado no Brasil como LOEBL, Eugen. A Humanoeconomia: como poderemos fazer com que
a economia nos sirva e não nos destrua. Trad. César Tozzi. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978.
64 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67 — 1º sem. 2009
nes não teria oferecido qualquer alternativa aos prin-
cípios positivistas presentes no pensamento econômico
neoclássico.
A orientação geral da ciência econômica contem-
porânea teria sido, para Löbl, a ênfase em aspectos quan-
tificáveis, fazendo cristalizar-se a idéia, por exemplo, de
que a Economia não é nada mais que o conflito em torno
da distribuição de recursos escassos. Todos os demais
aspectos que efetivamente movem os sistemas econô-
micos — aqueles que não podem ser quantificados —
seriam sumariamente desprezados. A Economia mo-
derna seria também uma ciência desprovida de noção
de tempo e espaço. Na medida em que se limita a analisar
“o que produzir, como e para quem”, o pensamento
econômico ocidental do mainstream permitir-se-ia
comparações absurdas, tais como entre economias tri-
bais e o turbo-capitalismo norte-americano, vistas como
“diferentes” somente no que diz respeito à quantidade
de conhecimento acumulado em uma e em outra. Ape-
sar, portanto, de sua ênfase no “quantificável” e no “com-
provável”, a ciência econômica ocidental, para Löbl,
estaria desligada de toda a complexidade da realidade
social.
A crise da economia, responsável pela crise socio-
econômica de nossos dias, não se deve a qualquer de-
ficiência dos economistas, nem à falta de seu conhe-
cimento ou sofisticação. Deve-se a estes princípios
básicos da economia, inclusive seus sistemas de
referência.24
As relações de mercado, a determinação dos preços e
a idéia de Equilíbrio, todas elas concebidas como ex-
pressões de forças para além do Homem, seriam na
verdade concepções falaciosas ou totalmente desprovidas
de sentido25.
Hirsch e Schumacher também criticaram a ênfase
nos aspectos “quantificáveis” por parte da ciência eco-
nômica tradicional, em especial no que diz respeito aos
procedimentos de cálculo do Produto Nacional Bruto,
medida “por excelência” do bem-estar sob o capitalismo
acelerado do Welfare State. Para Hirsch, o PNB repre-
sentaria um ícone do reducionismo e da ineficiência da
teoria econômica, na medida em que contabiliza indis-
criminadamente “toda” a produção e o consumo em uma
sociedade, não levando em conta o essencial, que seriam
as especificidades do mesmo processo de consumo e de
produção. Sob este raciocínio, a expansão do uso pessoal
de combustível para aquecimento em um inverno rigo-
roso significaria “aumento de consumo”, que por sua vez
indicaria uma absoluta melhoria do bem-estar da po-
pulação. Da mesma forma, a expansão dos gastos posi-
cionais com educação indicariam uma elevação do bem-
estar da população. A expansão da produção e consumo
de automóveis também seria um importante índice nos
cálculos do Produto Nacional, bem como a elevação dos
gastos governamentais na contenção da poluição.
Entretanto, em nenhum destes casos o cálculo do PNB
revelaria realmente algo sobre a “felicidade” e o bem-
viver em uma dada sociedade: a maior utilização de
combustível representou mais despesas para o consu-
midor, a contratação de dispendiosos serviços educa-
cionais representou um “gasto defensivo” contra a
concorrência, mais veículos em circulação provocam
maior emissão de poluentes e congestionamento urbano,
com conseqüências para a saúde humana. Assim, con-
cluía que “(...) a noção de bem-estar se relaciona com a
qualidade das necessidades, e não apenas com a diferen-
ça algébrica entre necessidades subjetivas e sua satis-
fação (...)” 26. Assim, a orientação benthamita na concei-
tuação do bem-estar nas sociedades capitalistas ociden-
tais — onde a capacidade aquisitiva é o critério mais im-
portante — provocaria distorções graves; seria insufi-
ciente para apreender o fato de que quanto mais necessi-
dades básicas são atendidas pela indústria, novas e mais
refinadas necessidades são criadas, gerando uma espécie
de consumo que é antes defensivo — ou seja, uma forma
de preservar o lugar na hierarquia social — que real-
mente um índice de melhoria de vida27.
Segundo Schumacher, a Economia teria ultrapassado
os limites em que uma ciência poder ser socialmente
benéfica, na medida em que pretendia normatizar toda
a realidade. A teoria econômica convencional, quando
enfatiza o cálculo do Produto Nacional Bruto como índice
de bem-estar, deixa de responder a questões morais e
éticas. Seria o crescimento do PNB algo “bom” ou
24 Id., p. 30.
25 Ibid., p. 26-44.
26 HIRSCH. Op. cit., p. 93.
27 Ibid., p. 85-97.
65Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67— 1º sem. 2009
“ruim”? Quem se beneficia dele e como? “A idéia de que
pode existir um crescimento patológico, um crescimen-
to insalubre, desagregador e destruidor é para ele [o
economista tradicional] uma idéia perversa que não deve
ser permitida de emergir” 28. A desmedida influência da
teoria econômica sobre as sociedades e governos
modernos expressar-se-ia pela sua capacidade em
determinar aquilo que é “econômico” (ou seja, válido de
ser buscado) e o que é “não-econômico”. Assim, os
economistas viriam utilizando-se da relação custo-
benefício e do valor monetário como uma forma de
analisar qualquer aspecto da vida humana, mesmo a
exploração do “capital natural” consubstanciado nos
recursos renováveis e não-renováveis. Não levar-se-ia
em conta que a expansão do consumo e da produção
requer suprimentos de recursos escassos, que não
poderiam ser disponibilizados “magicamente” por meio
do mercado. “O único critério para determinar a im-
portância relativa destes diferentes bens é a taxa de lu-
cro que pode ser obtida disponibilizando-os”29. “Em
outras palavras, nós devemos esperar que a Economia
estabeleça suas metas e objetivos a partir de um estudo
do Homem, e que a metodologia para este estudo deve,
ao menos em grande parte, se estabelecer a partir do
estudo da Natureza” 30. Assim, as distorções provocadas
pela compreensão equivocada dos economistas deveriam
ser revertidas através de uma ciência econômica mais
reflexiva31.
Considerações finais: por um novo modelo
de desenvolvimento nos anos 1970
Apontando, portanto, limites sociais e conceituais para
o crescimento econômico, estes intelectuais reformistas
deram, nos anos 1970, um importante passo rumo à
conceituação de um novo padrão de desenvolvimento,
que buscava oferecer uma alternativa de superação do
capitalismo do Welfare State. Estas alternativas va-
riaram conforme o diagnóstico da crise assumido por
cada um dos intelectuais envolvidos no debate sobre os
limites para o crescimento.
Schumacher destacou a importância das pequenas
unidades produtivas, do emprego de trabalho humano e
de métodos e processos poupadores de recursos naturais.
Ao reconhecer os limites morais do crescimento eco-
nômico, buscou conceber alternativas para um padrão
de desenvolvimento baseado em “(...) uma nova orien-
tação de ciência e tecnologia em direção ao orgânico,
ao gentil, ao não-violento, ao elegante e ao belo”32.
Acreditou que um futuro próspero e sustentável para a
civilização dependia da produção e difusão de maqui-
nário e instrumentos de trabalho com baixo custo,
fomentando assim o deslocamento da ênfase na grande
indústria — erro fatal do capitalismo acelerado do
Welfare State — em direção à redução das unidades
produtivas até atingir-se a completa disseminação do
auto-emprego. Um sistema econômico baseado em
produtores autônomos e servido por bens de capital
compatíveis garantiria o resgate do trabalhador como
sujeito de seu próprio destino, bem como teria impactos
positivos na eliminação do desemprego estrutural.
Métodos e técnicas voltados para o auto-emprego
valorizariam a criatividade humana, contribuindo para
consolidar uma filosofia do trabalho que não o enten-
desse como uma atividade automática e alienada, e sim
como algo “decretado pela Providência”, para o bem do
corpo e da alma. O ponto de partida de um novo padrão
de desenvolvimento estaria em “(...) um planejamento
para o pleno emprego, e o seu propósito principal seria
o emprego para todos que precisam de um emprego
“externo”: isto não seria a maximização do emprego,
nem a maximização da produção”33. Além disso,
pequenas unidades produtivas e produção em pequena
escala tenderiam a ter um menor impacto sobre o meio
ambiente que aquele provocado pelas grandes in-
dústrias34.
A preocupação ambiental é marcante no padrão de
desenvolvimento desenhado por Schumacher, em
especial através de suas concepções sobre a relação entre
o homem e a terra nas práticas agrícolas. Em uma so-
ciedade voltada para a permanência e para a susten-
tabilidade, o uso adequado do solo não deveria ser
28 SCHUMACHER. Op. cit., p. 40.
29 Ibid., p. 40-41.
30 Ibid., p. 38.
31 Ibid., p. 33-42.
32 Ibid. , p. 26-27.
33 Ibid., p. 47. Schumacher entendia que as mulheres não precisariam de “trabalho externo”, uma vez que suas tarefas em cuidar dos
mais jovens já seriam trabalho suficiente e necessário.
34 Ibid., p.26-31.
66 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67 — 1º sem. 2009
entendido como uma questão de ordem econômica, e
sim, antes de tudo, metafísica. Em outras palavras, a
transposição da lógica industrial para a agricultura —
redução de custos e elevação da eficiência produtiva —
estaria levando a uma ruptura danosa na harmonia
existente entre a humanidade e o Planeta, entendidos
como uma unidade no ciclo da vida. A agricultura, que
representaria o manejo de processos vitais, estaria sendo
paulatinamente moldada de acordo com os parâmetros
da indústria, que simbolizaria a eliminação do “fator
vivo” da produção através da automação e do uso de
insumos sintéticos. Desta forma, o balanço entre o
“natural” e o “criado” estaria sendo corrompido, amea-
çando a permanência da civilização. Os recursos na-
turais
(...) são fins em si mesmos; são meta-econômicos, e
por isso é racionalmente justificável dizer que (...) são
sagrados de alguma forma. O homem não os fez, e seria
irracional para o homem tratar coisas que não foram e
nem podem ser feitas ou recriadas por ele após des-
truídas da mesma forma que trataria obras de sua pró-
pria criação.35
Um novo padrão de desenvolvimento, portanto, não
poderia prescindir de uma agricultura sustentável, onde
fosse possível manter o homem em contato com a
natureza viva, enobrecer o habitat e produzir alimentos
e materiais necessários para uma vida digna. “Podemos
dizer que o manejo da terra pelo homem deve ser
prioritariamente orientado na direção de três objetivos
— saúde, beleza e permanência. O quarto objetivo (...),
produtividade, será então obtido quase como um sub-
produto”36. A sustentabilidade deveria ser fomentada por
meio de políticas públicas que viabilizassem a recons-
trução da cultura rural, a difusão do acesso à terra, e o
desenvolvimento territorial local (ou seja, a agricultura
sustentável da localidade produzindo alimentos e
materiais com mão-de-obra e insumos locais, para o
consumo da população local).
Produção através de recursos locais para necessida-
des locais é a forma mais racional de vida econômica,
enquanto a dependência de importações e a conseqüente
necessidade de produzir para exportar para pessoas
distantes e desconhecidas é não-econômica e justificada
somente em casos excepcionais, e em pequena escala.37
Assim, um melhor caminho para a obtenção da
permanência seria o abandono completo da idéia de
crescimento econômico e o apoio a atitudes modestas de
“não-violência”, como aquelas demonstradas pelos
conservacionistas, ecologistas, promotores da agricultura
orgânica, entre outros.
O conhecimento, a ciência e a tecnologia também
cumprem um papel fundamental na análise de Löbl.
Acreditava que uma nova sociedade e um novo padrão
de desenvolvimento deveriam contemplar ou adviriam
das “novas” tecnologias da informação e das comu-
nicações, entendendo-as como a chave de um mundo
pós-industrial. Para Löbl, o conhecimento humano é a
origem de toda a riqueza, e não a terra, ou o capital, ou
o trabalho, tal como postulado em diferentes momentos
pela teoria clássica, neoclássica e marxista. Em um tempo
no qual a ciência aplicada havia substituído o trabalho
manual na transformação das forças naturais em forçasprodutivas, a capacidade intelectual apareceria como
elemento chave na viabilização do desenvolvimento
econômico. O pensamento seria o principal motor do
“ganho” em uma sociedade, que consistiria da elevação
dos padrões de vida, relativamente desconexo em rela-
ção ao processo de crescimento econômico em si. Um
medicamento qualquer, por exemplo, poderia ser inter-
pretado como um produto de avançados processos
industriais, ou como um fator de “ganho” para a socie-
dade, na medida em que permitiria expandir o bem-estar
e a expectativa de vida, bem como reduzir o sofrimento
advindo de uma moléstia. Remédios, assim como muitos
outros “fatores de ganho”, seriam produtos do intelecto
humano antes de serem fruto do output industrial.
“‘Ganho’ se materializa em riqueza, num padrão mais
elevado de vida, e num grau mais elevado de inde-
pendência da natureza, para citar algumas mani-
festações”38.
Concluindo, um novo padrão de desenvolvimento
demandaria uma nova tecnologia, que pudesse superar
35 Ibid., p. 88.
36 Ibid., p. 93.
37 Ibid., p. 49.
38 LOEBL. Op. cit., p. 10.
67Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 59-67 — 1º sem. 2009
a degradação dos recursos ambientais e o desemprego, e
não agravá-los, tal como aconteceria sob o capitalismo
acelerado. Além de dimensões econômicas e sociais
evidentes, a tecnologia poupadora de trabalho — e con-
sumidora de energia — teria conseqüências existenciais
graves, na medida em que o homem ver-se-ia cada vez
mais privado do trabalho criativo, com intensas impli-
cações lúdicas, que lhe permitiria um contato saudável
com o mundo material. “A quantidade de satisfação real
de que uma sociedade desfruta tende a ser inversamente
proporcional à quantidade de maquinaria poupadora de
trabalho empregada nela”39. Assim, a tecnologia deveria
ser utilizada de forma “sábia” e “não-destrutiva”, de modo
a auxiliar no aumento do tempo social gasto com tra-
balho manual; tal orientação não implicaria a redução
do bem-estar, haja visto que o labor tenderia, desta
forma, a aproximar-se cada vez mais do lazer, perdendo
paulatinamente sua dimensão rotineira e alienada,
aproximando-se do emprego pleno da criatividade e das
potencialidades individuais. “Poderíamos chamar isso de
tecnologia de auto-ajuda, ou tecnologia popular, ou
democrática — uma tecnologia em que todos são
permitidos e que não está reservada aos que já são ricos
e poderosos”40. As sociedades ocidentais — inclusive
aquelas em processo de “desenvolvimento — não neces-
sitariam de produção em massa, mas sim, “produção
para a massa e pela massa”, através de métodos ecoló-
gicos e descentralizados.41
Referências
BELL, Daniel. O Advento da Sociedade Pós-Industrial: uma
tentativa de previsão social. Trad. Heloísa de Lima Dantas.
São Paulo: Cultrix, 1977.
DRUCKER, Peter. Uma Era de Descontinuidade: orientações
para uma sociedade em mudança. Trad. J.R. Brandão Aze-
vedo. Rio de Janeiro: Zahar, 1970.
HIRSCH, Fred. Limites Sociais do Crescimento. Trad.
Waltersir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
LOEBL, Eugen. A Humanoeconomia: como poderemos fazer
com que a economia nos sirva e não nos destrua. Trad. César
Tozzi. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978.
MEADOWS, Dennis et al. The Limits to Growth: a report for
the Club of Rome’s project on the predicament of mankind.
2. ed. New York: New American Library, 1975.
SCHUMACHER, E. F. Small is Beautiful: a study of economics
as if people mattered. London: Abacus, 1974.
WOODWARD, Herbert N. Capitalismo Sem Crescimento.
Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.
YERGIN, Daniel e STALINSLAW, Joseph, The Commanding
Heights: the battle for the world economy. New York, Tou-
chstone, 2002.
39 SCHUMACHER. Op. cit., p. 124.
40 Ibid., p. 128.
41 Ibid. , p. 84-95; 122-132.
69Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009
Introdução
 O presente artigo pretende apontar as característi-
cas dos caminhos seguidos pelo governo angolano após
a independência em relação à questão do desenvolvi-
mento agrário. O ideal marxista-leninista assumido
oficialmente pelo MPLA teve impacto importante nas
políticas para o setor da agricultura.
Na primeira parte do artigo apresentamos o am-
biente político no contexto da independência de Angola,
e o desequilíbrio instalado no país. A seguir, procura-
mos chamar atenção para a estrutura do Estado que
nascia, e direcionamos posteriormente para as difi-
culdades da experiência agrícola em Angola.
Os desdobramentos políticos
após a independência de Angola
em 11 de novembro de 1975
Os movimentos de libertação colonial em Angola
(MPLA1, FNLA2 e UNITA3) estavam divididos e enfraque-
cidos na altura da Revolução dos Cravos (25 de abril de 1974),
no qual o Movimento das Forças Armadas de Portugal
derrubou o regime salazarista de Marcelo Caetano.
As características da experiência socialista na
agricultura de Angola após a independência
Rodrigo de Souza Pain
Doutor pelo Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento,
Agricultura e Sociedade pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA /UFRRJ).
Membro do Centro Angolano de Altos Estudos Internacionais (CAAEI). E-mail: rodrigo_pain@ig.com.br
Ivan Arruda
Mestrando em Educação pela Pontifícia Universidade Católica da Campinas.
Professor da Faculdade de Pindamonhagaba-SP (FAPI). E-mail: profivanarruda@hotmail.com
Resumo
As dificuldades encontradas na recém independente
República Popular de Angola, principalmente no
desenvolvimento agrário está no centro do artigo. Desta
forma, apresentamos a criação de instituições no seio do
governo socialista do Movimento Popular de Libertação
de Angola (MPLA), a instabilidade política vivida no país,
o conflito armado e suas implicações para a agricultura.
 Palavras-chave: Agricultura. Angola. Socialismo e
Desenvolvimento Agrário.
Abstract
The difficulties found in just the independent Popular
Republic of Angola, mainly in the agrarian development
are in the center of the article. In such a way, we present
the creation of institutions in the socialist government of
the Popular Movement of Release of Angola (MPLA), the
instability politics lived in the country, the armed conflict
and its implications for agriculture.
Keywords: Agriculture. Angola. Socialism and Agrarian
Development.
1 A origem do MPLA data-se como partido político em 10 de dezembro de 1956, fundado como resultado da fusão de outras organizações.
Sua base de apoio saiu das comunidades de brancos, mestiços e Kimbundu.
2 A FNLA surgiu entre o povo Bacongo, do norte de Angola. Suas origens vêm da fundação da UPNA (União dos Povos do Norte de
Angola) e UPA (excluindo a referência do norte) em julho de 1955. Inicialmente o idealismo da UPA partia da idéia de reativar o
antigo Reino do Congo. Em março de 1962, forma a FNLA com a unificação da UPA com o Partido Democrático de Angola (PDA).
3 A UNITA foi o último dos três movimentos a ser fundado. Jonas Savimbi, seu líder, acusou Holden Roberto, líder da FNLA de
regionalismo e faccionismo quando trabalhavam juntos. Sua base de apoio principal é entre o povo Ovimbundu do Planalto
Central, e principal grupo étnico de Angola. Sua fundação data o dia 13 de março de 1966.
70 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009
Após diversas negociações, chegou-se ao Acordo de
Alvor, que previa um governo de transição com repre-
sentantes do governo português e dos três movimentos
até a independência, prevista para 11 de novembro de
1975.
No entanto, esse governo de transição não consegue
por fim as hostilidades entre esses três movimentos, que
aumentam o contingente militar, continuandoa guerrear
entre si, colocando Portugal, que passava por uma
instabilidade política interna, sem condições suficientes
para impor o previsto no Acordo. Destarte, a guerra civil
instala-se no país e o MPLA vence a “batalha de Luanda”,
em Julho de 1975 passando a ser o único movimento no
governo, controlando militarmente doze das então
dezesseis províncias do país.
Próximo ao dia marcado para a independência, o Alto
Comissário e demais membros portugueses de gover-
nação e do exército se retiram de Angola, entregando o
poder de soberania “nas mãos do povo angolano”. O
MPLA proclama então a independência, em Luanda, sob
a liderança de Agostinho Neto, no meio de conflitos
armados generalizados, com duas invasões estrangeiras
(África do Sul e Zaire) e intervenção cubana. Dessa ma-
neira, a independência, conforme aponta o sociólogo José
Maria Nunes Pereira Conceição, em sua tese de dou-
torado, nasce no interior de uma crise generalizada4.
Uma das conseqüências do período da guerra da
independência foi o abandono maciço dos portugueses
de terras angolanas. As terras ocupadas por eles, e por
alguns estrangeiros foram deixadas de lado quase na
totalidade. Como a política agrícola que surgia no seio
do Partido Único naquele momento não encorajava a ini-
ciativa privada, muito menos familiar, as áreas efetiva-
mente agricultáveis foram drasticamente reduzidas, au-
mentando por outro lado, as terras efetivamente vagas.
Nesse contexto, é importante salientar que o perío-
do anterior à independência e caracterizado da luta de
libertação nacional (a partir dos meados dos anos 1950)
não provocou danos substantivos à produção agrária da
colônia, pois ela foi travada basicamente em áreas sem
grande importância econômica e jamais alcançou níveis
de alta intensidade como nos conflitos armados que se
seguiram5. Devido ao clima de instabilidade na época da
independência, Angola sentiu com o êxodo de mais de
300.000 colonos brancos6.
Estrutura política angolana
pós-independência
Em parte da Angola independente, o movimento de
libertação que assumiu o controle do poder, o MPLA,
tornou-se partido único e, dois anos depois, adotou o
marxismo-leninismo como sua doutrina e de Estado,
transformando-se em MPLA-PT (Partido do Trabalho)7.
Assim, o centro de todas as decisões importantes da
sociedade e do Estado estava localizado no partido. Isto
significa, pelo menos na teoria, que é o partido quem
comanda o Estado8. O governo esteve formalmente
subordinado ao MPLA. A política econômica foi con-
duzida por um “partido-Estado” que via na naciona-
lização dos meios de produção uma forma de demo-
cratização das estruturas econômicas do país.
Os órgãos governamentais em funcionamento ao
nível nacional eram o Comitê Central, a Divisão Política
do MPLA e o Conselho de Ministros, responsável pela
implementação das políticas do partido. No que diz
respeito ao judiciário9, a Constituição adotada em 1975
estipulava um judiciário independente, mas de 1976 até
o início dos anos 1990, a principal instância jurídica foi
o Tribunal Revolucionário do Povo que interrogava
prisioneiro acusado de por em perigo a segurança do
Estado, ou de algum tipo de sabotagem econômica10.
4 CONCEIÇÃO, José Maria Nunes. Angola: uma política externa em contexto de crise (1975-1994). Tese de Doutorado, Universidade de
São Paulo, 2002, p.14. No próprio dia 11 de novembro de 1975 eram criados dois Estados: a República Popular de Angola, com
capital em Luanda e dirigido pelo MPLA; e a República Democrática de Angola, com capital em Huambo e encabeçada pela FNLA
e UNITA (essa aliança durou apenas oitenta dias).
5 Idem , p. 60-61.
6 GALLI, Rosemary E. A crise alimentar e o Estado socialista na África Lusófona. Revista Internacional de Estudos Africanos, n. 6-7,
Lisboa, 1987, p.146.
7 O MPLA podia ser considerado como uma coalização de várias forças nacionalistas e socialistas, e era fortemente influenciado pelo
marxismo. No entanto, a construção de uma economia e sociedade socialista não consta na versão original da Lei Constitucional de
1 9 7 5 .
8 Simbolicamente ao analisar a bandeira do país recém independente e do partido, já nota-se semelhanças; assim como a idéia
socialista presente no hino angolano.
9 A dificuldade para desenvolver o sistema judiciário foi muito grande, em Angola tinham apenas 4 advogados e 2 juizes no exato
momento da independência.
10 TVEDTEN apud LIBERATTI, Marco Antonio. A guerra civil em Angola: dimensões históricas e contemporâneas. Dissertação de
Mestrado, Universidade de São Paulo, 1999, p. 62.
71Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009
Também foram criados grupos políticos filiados ao
MPLA, organizações que congregam de formas abran-
gentes categorias sociais, considerados genericamente
como organizações de massa, e serviam de elo entre o
aparato burocrático -administrativo do Estado angolano
— e sua sociedade. Como exemplos podemos citar, a
Organização das Mulheres Angolanas (OMA), a Ju-
ventude do Movimento Popular de Libertação de Angola
JMPLA), a União dos Jornalistas de Angola, e na área
sindical, União Nacional dos Trabalhadores Angolanos
(UNTA)11.
No campo econômico seguindo a teoria marxista, a
estruturação do setor industrial estatal foi criada a partir
de confiscos, nacionalizações e da construção das uni-
dades econômicas marcou o início da Primeira Repú-
blica. As mais diversas formas de organização criadas
em substituição ao aparelho do Estado colonial portu-
guês não encontravam dinamismo necessário à conso-
lidação e desenvolvimento das estruturas do Estado,
objetivando a construção do socialismo12.
Na área educacional, na altura da independência,
apenas 85 % da população era iletrada e a saída radical
dos colonos significava também a fuga de professores.
Na verdade, a educação colonial herdada, no qual um
dos principais objetivos, segundo o educador brasileiro
Paulo Freire, era a “desafricanização” das populações
autóctones, sendo discriminadora e em nada poderia
concorrer no sentido da reconstrução nacional, pois era
para isto não fora construído13. A escola colonial era
antidemocrática nos seus objetivos, no seu conteúdo, nos
seus métodos, divorciada da realidade do país, era, por
isso mesmo, uma escola de poucos, para poucos e contra
as grades maiorias. Selecionava até mesmo a pequena
minoria dos que a ela tinham acesso, expulsando grande
parte deles após os primeiros encontros com ela, e, conti-
nuando a sua filtragem seletiva, aumentando o número
dos renegados. Esses renegados em quem enfatizavam
o sentimento de inferioridade, de incapacidade, em face
do seu “fracasso”14.
Dessa forma, o setor educacional converteu-se na
grande prioridade nacional para o novo governo
socialista. Ao mesmo tempo, numerosos centros de
alfabetização foram ligados a empresas, mercados e
outras zonas de trabalho onde se concentrava a po-
pulação adulta. Porém, o grande crescimento alfa-
betizador desvaneceu progressivamente com a chegada
cada vez mais agressiva da guerra civil. A violenta
conjunção dos legados coloniais e bélicos deixou as infra-
estruturas educacionais devastadas, uma contínua falta
de professores, muitas crianças fora da escola, e claro,
uma profunda incapacidade do governo na solução destes
problemas.
No campo político, a tentativa de golpe de Nito Alves
abala a sociedade luandina. Em maio de 1977, con-
tradições sobre as formas da construção do socialismo
conduziram a uma tentativa de golpe de Estado, cuja
resposta em defesa da “causa socialista” acaba com uma
parte significativa da “burguesia nacionalista angolana”,
o que viria a fazer de Angola um país mais fragilizado
nas vertentes políticae militar. O número exato daqueles
que foram mortos ainda é desconhecido, mas estimado
em dezenas de milhares.
A Assembléia do Povo é estabelecida em 1980 e era
eleita por um sistema de voto indireto por membros do
MPLA. Com 350 membros, tinha pouca influência, e não
representava adequadamente as mulheres, camponeses
e trabalhadores. Marco Antonio Liberatti, em sua dis-
sertação de mestrado, afirma que as maiorias dos mem-
bros eleitos eram provenientes das áreas urbanas e eram,
em grande medida de alto escalão militar e funcionários
do governo. Além disso, a característica mais acentua-
da do sistema político vigente em Angola era a forte
concentração de poder nas mãos do Presidente, que era
líder do Partido, Chefe do Estado e Comandante — chefe
das Forças Armadas.15
A instabilidade que se seguiu no período de inde-
11 A UNTA talvez tenha sido a organização mais relevante em face ao desafio da reconstrução nacional e da transição para economia
socialista. Era importante para o MPLA ter uma força de trabalho eficiente e organizada. No entanto, seu impacto foi limitado pelas
tarefas contraditórias de criar um sistema sindical forte e independente e de manter a produtividade e a disciplina no trabalho de
acordo com as diretivas do partido (Tvedten apud Liberatti, Op.cit., p. 63).
12 AMARAL, José G. Dias. Angola: a crise econômica na Primeira República. Lucere. Revista Académica da Universidade Católica de
Angola. Ano 1, número 1, Luanda, 2004, p. 53-54.
13 Apesar do autor analisar a experiência na “Guiné portuguesa” (hoje Guiné Bissau), pode-se muito bem falar na semelhança da
política colonial em Angola.
14 FREIRE, Paulo. Cartas à Guiné-Bissau. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p. 15.
15 Fernando Pacheco comenta que é freqüente hoje (2004) atribuir todos os malefícios da vida política, social e econômica ao período
do facista-colonial e ao Leninismo, o que para ele não é verdadeiro. Tanto as práticas facistas (como culto ao chefe, por exemplo),
como as leninistas (submissão à direção centralizadora), complementam a matriz cultural bantu e, hoje, isso têm efeitos perniciosos
na sociedade. Também não faz parte das práticas angolanas a prestação de contas, no sentido de dar satisfação, apresentar resultados
72 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009
pendência não permitiu que os processos de indus-
trialização e crescimento econômico tivessem conti-
nuidade. O sistema dualista de uso da propriedade de
terras e do desenvolvimento da agricultura continuou a
influenciar socialmente e politicamente o contexto
angolano mesmo após a independência16. Os governos
do MPLA (Agostinho Neto até 1979 e José Eduardo dos
Santos em diante) têm-se vindo a pautar por uma
posição que privilegia os centros urbanos, remetendo as
populações rurais para uma crescente situação de
exclusão que se traduz em vários domínios, sejam
políticos, sociais, econômicos, institucionais, territoriais,
ou de referências simbólicas. Isso explica, para o
Presidente da ONG angolana Acção para o Desenvol-
vimento Rural e Ambiente (ADRA), Fernando Pacheco,
o desenvolvimento da guerrilha da UNITA entre 1976 e
199117.
Situação da agricultura angolana em uma
conjuntura de crise
A Lei Constitucional de 1975, em seu artigo número
8, apontava “a República Popular de Angola considera a
agricultura como base e a indústria como fator decisivo
no seu desenvolvimento”. Em 1978, o governo decidiu
chamar de ano da “ano da agricultura”, com a finalidade
de aumentar a produção agrícola, com todas as van-
tagens que daí poderiam ocorrer para a satisfação das
necessidades alimentares da população, para o abas-
tecimento de matérias primas para a indústria ou ainda
para melhorar a balança comercial (pela diminuição das
importações e pelo aumento dos produtos agrícolas
exportáveis). Procurou-se, desta forma, mobilizar toda
a força de trabalho disponível.18
No entanto, a partir da independência percebe-se uma
queda acentuada na produção agrícola. De acordo com
a FAO, estima-se que a produção agrícola tenha decaído
sucessivamente desde 1974/1975. Não se possuem dados
relativos às produções de 1974, 1975 e 1976 devido à
situação de guerra. Em 1977 começaram as primeiras
informações estatísticas ainda insuficientes para uma
análise mais precisa19. Em 1983, por exemplo, as co-
lheitas atingiram o índice 77 (para 100) quando com-
paradas a 1973. A mesma tendência se verificou na
produção de cereais, índice 66 em 1983.20 O MPLA
instituiu um sistema estatal de comercialização que,
segundo a acadêmica Rosemary Galli, não oferecia
preços convenientes para estimular a produção, nem era
capaz de fornecer aos camponeses transportes ou
abastecimentos regulares quer de bens de consumo, quer
de bens de capitais21.
Portanto, as políticas econômicas traçadas ao longo
do período que sucede a independência de Angola mos-
traram-se em práticas desajustadas aos objetivos pre-
conizados e à realidade concreta do país, com reflexos
mais acentuados no campo. O acesso à terra urbana e
rural não foi uma fonte de preocupação em Angola nos
primeiros anos após a independência. A nacionalização
foi o caminho encontrado. O documento produzido pelas
ONGs ACORD (Association Pour la Cooperation, re-
cherche et developement) e ADRA (Acção para o Desen-
volvimento Rural e Ambiente), elaborado por Júlio de
Morais e Fernando Pacheco, apontam que tal fato foi
agravado pelo distanciamento entre as estruturas de
de uma ação de que se é incumbido, por parte dos líderes, dos chefes, aos liderados. Isso tanto acontece ao nível da família, como na
comunidade ou na nação. PACHECO, Fernando. Uma proposta de valorização da tradição e da cultura e favor do desenvolvimento
e da modernidade. Lucere. Revista Acadêmica da Universidade Católica de Angola. Ano 1, número 1, Luanda, 2004, p. 79a.
16 O sistema dualista era rigorosamente dividido (inclusive em termos de estatística) no período colonial, entre a agricultura tradi-
cional e empresarial. A primeira, grosso modo, estava ligada aos autóctones (sendo o meio de vida da maioria do povo angolano),
fornecendo elementos básicos para o mercado interno (mas com participação na exportação) e com recursos bem limitados de
investimento; a segunda, em oposição a tradicional, seguiu um modelo europeu, produzia bens de exportação, com significativos
investimento na produzia bens de exportação, com significativos investimentos na produção e com número limitados de produtos.
Segundo Pacheco, a sociedade angolana ainda não se livrou desse dualismo.
17 PACHECO, Fernando. Caminhos para a cidadania: poder e desenvolvimento ao nível local na perspectiva de uma Angola nova.
ADRA, Luanda, 2004, mimeo, p. 02b.
18 FERREIRA, Manuel Ennes. A indústria em tempo de guerra (Angola, 1975-1991). Instituto de Defesa Nacional, Cosmos, Lisboa,
1999, p. 33-34.
19 MINPLAN apud AMARAL, J. G. D. Angola: a crise econômica na Primeira República. Lucere. Revista Acadêmica da Universidade
Católica de Angola. Ano 1, n. 1, Luanda, 2004. p.56.
20 Em face de 1973, de forma marcante: sisal, tabaco, café e algodão atingiram 10%, 2%, 5% e 0,35% em 1987. FERREIRA, Op. cit.,
p.35. Conforme o MPLA / PT, já em 1980, a produção mercantil controlada pelo Estado não tem permitido senão satisfazer cerca de
12% das necessidades alimentares da população urbana e dos operários agrícolas e de cerca de 15% das necessidades da indústria de
matérias primas. (Idem.)
21 GALLI, R. E. A crise alimentar e o estado socialista na África Lusófona. Revista Internacional de Estudos Africanos, n. 6-7, Lisboa,
dez. 1987. p. 146.
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concepção e de orientação global e as de execução,
mostrando-se essas últimas incapazes de seguire
materializar as políticas traçadas. Esta situação, no caso
concreto do setor agrário, conduziu à marginalização
dos camponeses em relação à vida econômica, social e
política do país. Além disso, as medidas de política agrária
foram condicionadas pelas distorções de caráter
macroeconômico traduzidas pelas falta de incentivos à
produção, na inadequação dos preços, na falta de
prioridade e oportunidade dos meios de produção e dos
investimentos, na política de quadros e também na
ausência de uma legislação fundiária que permitisse um
correto ordenamento das diferentes formas de pro-
priedade ou usufruto da terra22.
Outro elemento muito importante depois da in-
dependência foi a crescente migração para as cidades,
especialmente para Luanda. O colapso da economia
pouco depois da independência, que abrangeu plantações
coloniais e as redes de comerciantes “do mato” (do
interior), levou, tal como a intensificação da guerra no
país, um número considerável de habitantes das áreas
rurais para as cidades.
O conflito militar agravou o isolamento e a crise
econômica nas zonas rurais e, sobretudo os jovens
deixaram as áreas rurais pelas cidades, mesmo onde a
segurança física não estava em causa. No entanto, a
deteriorização gradual da situação militar e o aumento
da insegurança nas zonas rurais tornaram-se a principal
razão da migração para as cidades23. Em suma, o declínio
da agricultura angolana teve início logo após a sua
independência. No entanto, vale dizer, não só angolana.
Como salienta o escritor moçambicano José Negrão,
embora a questão da apropriação da terra africana pelos
africanos estivesse na ordem do dia dos recém criados
Estados modernos, as problemáticas da dimensão da
exploração agrícola e do papel do mercado internacional,
foram ignoradas pela maioria dos políticos das décadas
de 1960 e 70. As terras foram desprezadas, os saberes
produtivos e mercantis das populações rurais foram
ignorados, a substituição das elites coloniais pelas
emergentes africanas tomou corpo através da hiper-
intervenção do Estado e a rápida transformação dos
camponeses em trabalhadores rurais foi tida como a
única alternativa para se fazer face à crescente de de-
terioração dos termos de troca. Nesse contexto, o
dualismo colonial foi mantido e os Estados continuaram
a selecionar as melhores terras ou para elites locais ou
estrangeiras ou para empresas geridas por esse mesmo
Estado24.
São quatro os elementos apontados pelo Professor da
Universidade Católica de Angola, António Cardoso, e que
caracterizam o declínio da agricultura angolana. Para o
autor, logo após a independência, a população rural, com
baixos índices de formação profissional, ficou sem o
apoio das infraestruturas científicas, técnicas econômicas
e de formação profissional, devido à fuga maciça dos
técnicos agrários qualificados e dos colonos que detinham
a rede de comercialização e drenagem dos produtos agro-
pecuários25; outro elemento está associado aos colonos
que abandonaram as fazendas e a maior parte foi na-
cionalizada. O Estado procurou assumir a sua gestão
sob a forma socialista, tentando garantir, no mínimo, o
salário dos trabalhadores que lá se haviam mantido e
assegurar a continuidade do fluxo produtivo, princi-
palmente em relação ao café. Mas tudo isso resultou em
fracasso; o terceiro ponto foi o aumento geral da popu-
lação, que depois da independência cresceu em cerca de
cinqüenta por cento, conjugado com as quebras da pro-
dução de culturas alimentares essenciais, veio acentuar
o desequilíbrio produção / necessidade de consumo; e
por fim, as áreas rurais, mesmo quando relativamente
auto-suficientes em produtos agrícolas, não encontravam
estímulos para a produção de excedentes, devido não só
a acentuada deficiência nas comunicações e transportes,
como à inadequada política de preços e mercados26.
Diante disso, Angola perdeu completamente a sua po-
sição no mercado internacional dos produtos agrícolas
de exportação. Passou de exportador líquido de produ-
22 ACORD – ADRA. Programa de apoio às comunidades agro-pastoris dos Gambos. Relatório do workshop sobre a terra e o poder.
Lubango, 1996, p. 67.
23 DEVELOPMENT WORKSHOP. Terra. Reforma sobre a terra urbana em Angola no período pós-guerra: pesquisa, advocacia e políticas
de desenvolvimento. Luanda, 2005, p. 67.
24 NEGRÃO, José. A indispensável terra africana para o aumento da riqueza dos pobres. Universidade Eduardo Mondlane, Maputo,
2002, p.03-04.
25 Até 1975, Angola dispunha de bons estudos relacionados com a sua disponibilidade de recursos naturais, como o Instituto de
Investigação Agronómica de Angola (IIAA), o Instituto de Investigação Científica de Angola(IICA), A Missão de Inquéritos Agrícolas
de Angola(MIAA), entre outros.
26 CARDOSO, António. A análise da situação do sector agrário em Angola. Conferência Nacional: o papel da agricultura no
desenvolvimento sócio-económico de Angola. Luanda, 2004, p.06-07.
74 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009
tos agrícolas para importador de grande parte dos
produtos que consome.
O que marcou esse contexto foi à incapacidade do
setor estatal responder às necessidades básicas do país.
O setor agrícola, apesar de contar com 80% da popu-
lação, foi o menos beneficiado em termos de inves-
timento. Como aconteceu em muitos países subde-
senvolvidos, as cooperativas e associações foram vistas
basicamente como instrumentos a serviço do Estado e
não como estruturas de autopromoção, geridas pelos
próprios camponeses na base da voluntariedade e da
participação. Mesmo como instrumentos a serviço do
Estado, as organizações camponesas apresentavam-se
como uma realidade apenas para as instituições di-
retamente ligadas ao processo, estabelecendo-se, de
acordo com as ONGs ACORD e ADRA, a contradição
entre as organizações camponesas e as estruturas de
direção global, para as quais as associações tinham uma
compreensão pouco clara, e preteridas na concepção e
priorização de programas27.
Nos primeiros anos de independência, mais de 92.000
camponeses tinham respondido ao apelo do governo para
formar cooperativas. Gerou-se grande entusiasmo, mas
o governo não forneceu nenhum apoio de fato.28
Conforme traz Conceição, de acordo com um cooperante
brasileiro em Angola: “a opção cooperativa inicial foi
angolana, mas depois, os assessores (búlgaros) a tro-
caram pelas fazendas estatais (...). Para eles, as coope-
rativas agrícolas eram suspeitas na medida em que
mantém o processo de comercialização nas mãos dos
camponeses (...) que passam a ter não somente força
econômica, como política29. O controle estatal atingia
não somente as empresas industriais, agrícolas e de
comércio, mas igualmente os pequenos camponeses
individuais que não estavam organizados em coope-
rativas e empresas estatais, conforme se depreende das
afirmações do Presidente angolano, Agostinho Neto, em
sintonia com as teorias marxistas, “o camponês tem em
si, um gérmen capitalista. O sonho de um camponês qual
é? É ter uma grande propriedade (...) para ter muitos
lucros. E o seu lucro aumenta à custa dos trabalhadores
que ele assalariou. É um explorador”.30
Ao caracterizar o movimento cooperativo e asso-
ciativo da agricultura angola, as ONGs ACORD e ADRA
diferem momentos de ação nos primeiros anos da
independência. Durante os primeiros meses após no-
vembro de 1975, e no seguimento do que havia acon-
tecido na última fase de transição, a responsabilidade do
movimento cooperativo esteve a cargo da CADCO
(Comissão de Apoio e Dinamização de Cooperativas,
criadas pelo Governo de Transição) como estrutura
multisetorial. As primeiras ações da CADCO com relação
às cooperativasnas áreas rurais visaram o apoio às
iniciativas em curso caracterizadas, de forma genérica,
pela existência de “uniões” de cooperativas viradas para
o abastecimento em bens de consumo e geridas por
funcionários públicos, responsáveis políticos ou pessoas
ligadas às instituições sociais e religiosas. As cooperativas
integrantes dessas “uniões” eram constituídas por
camponeses que não tinham praticamente intervenção
na gestão da mesma nem qualquer outro tipo de
participação. Assim, constituiu prioridade da CADCO
procurar, através da prática da participação, modificar
a situação vigente o que provocou obviamente contra-
dições com as direções das “uniões”, acabando estas
desaparecendo por dificuldades de gestão ou imposição
administrativa31.
Com a extinção dessa instituição logo após a inde-
pendência, a responsabilidade passou para os vários
Ministérios, assumindo a pasta da Agricultura, a tarefa
de não só tutelar o setor cooperativo, mas também de
apoiar a sua ampliação, organização e consolidação.
Assim foi criado a DNACA (Direcção Nacional de Coope-
rativização Agrícola e Apoio aos Camponeses Indi-
viduais), que revela através de estatísticas oficiais, um
crescimento contínuo do número de associações e asso-
ciados até 1981. Contudo, tal evolução não correspon-
deu a um aumento da importância das cooperativas e
27 ACORD – ADRA, 1991, p.68.
28 Wolfer e Bergerl apud Galli, Op. cit., p. 148.
29 SARAPU apud CONCEIÇÃO, J. M. N. P. Angola: uma política externa em contexto de crise (1975-1994). Tese de doutorado.
Universidade de São Paulo, 1999. p. 142.
30 Manuel Ennes Ferreira salienta que esta forma de entender tal problema não é do que a transposição direta e acrítica do discurso
soviético. No caso africano um tal discurso revela, em muitos aspectos, um desconhecimento da realidade e está em contradição
com os estudos de antropologia e economia africana, onde o camponês e a sociedade tradicional se regem por princípios e no quadro
de estruturas que só em parte têm a ver com a propriedade privada e os mecanismos “puros” do mercado. (NETO apud FERREIRA,
Op. cit., p.24.).
31 ACCORD – ADRA. Programa de Apoio as Comunidades Agro-Pastoris dos Gambos. Relatório do workshop sobre a terra e o poder.
Lubango, agosto, 1996. p. 11.
75Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009
associações tanto ao nível das comunidades rurais, como
na participação do Produto Agrícola Bruto do país32.
Entretanto, ao nível de base, a intervenção por parte
do Estado foi atribuída as EDA (Estações de Desenvol-
vimento Agrário) que, tuteladas pela DNACA e mais
tarde pelo IDA (Instituto de Desenvolvimento Agrário),
ficaram dessa maneira com a responsabilidade do apoio
técnico-material aos camponeses e suas associações.
Num período em que o setor estatal deixou de ter
significado (com exceção do setor do café), era tarefa da
EDA promover a produção camponesa destinada aos
circuitos mercantis33 e também de chegar até os
camponeses os serviços encarregados da distribuição de
meios, incluindo sementes, fertilizantes, maquinarias,
pesticidas, entre outros. Além disso, consistia também
na mobilização e agrupamento das cerca de 700 000
famílias camponesas em associações pré-cooperativas
fundamentalmente com o objetivo de receber assistência
técnica34.
A mais importante inovação das EDAs, conforme
aponta Galli, foi a tentativa do governo em descentralizar
os serviços em lugar de confiar exclusivamente nas
entidades nacionais e provinciais que tinham ignorado
os camponeses35(1987:148). Nas áreas de intervenção
das EDAs36 assistiu-se a uma relativa melhoria do apoio
técnico e material às associações que ganharam uma
nova dinâmica e passaram a apresentar resultados
produtivos significativos, como no caso das culturas de
milho, algodão e tabaco.
No entanto, as EDAs basearam a sua intervenção
num esforço de modernização da agricultura cam-
ponesa, para a qual não havia a necessária capacidade
em termos de organização, gestão e recursos. Recorria-
se muitas vezes à mecanização e promovendo os blo-
cos culturas como forma de organização da produção,
as EDAs não providenciaram outras medidas com-
plementares de caráter técnico e organizativo que
permitisse a modernização pretendida. Criou-se, dessa
maneira, um ambiente de dependência mais pautado nas
associações em relação ao Estado, o que foi, agravado
por uma degradação progressiva das outras estruturas
do setor agrário. Com intuito de preencher um vazio
político, o MPLA-PT decidiu pela criação da UNACA
(União Nacional dos Camponeses Angolanos), com a
idéia de permitir uma maior participação dos campo-
neses na vida econômica, social e política do país, o que
veio a acontecer em fevereiro de 199037.
A criação da UNACA, apesar de ser uma emanação
do MPLA -Partido do Trabalho, e não o resultado de um
processo de organização a partir da base gerou de-
terminadas expectativas. No ato de sua constituição, a
UNACA definiu atitudes e traçou programas de ação que
poderiam resultar numa maior aproximação aos pro-
blemas do campo e, conseqüentemente, a uma maior
aproximação dos camponeses na resolução de assuntos
do seu interesse. Todavia, na prática não se cumpriam
essas intenções, tendo aumento a burocracia e o
distanciamento em relação ao campo(Acord e Adra,
1991: 20-21).
Portanto, com a independência, Angola ficou liberta
dos condicionalismos legais (lei do condicionamento
industrial, regime de pagamentos externos, entre outros)
impostos pela ex-metrópole ao seu desenvolvimento
industrial. Porém, eram então considerados pelo novo
poder instituído como a causa da situação caótica do caos
econômico, situações objetivas como: a guerra de
agressão imperialista e o eclodir da guerra civil, a
pilhagem efetuada pelos exércitos invasores (África do
Sul, por exemplo), a conseqüente política de confiscos e
nacionalizações levado ao extremo, a ausência de
estruturas administrativas, o êxodo dos portugueses que
detinham o poder econômico, entre outros aspectos
menos relevantes38. Ferreira aponta outras causas que
foram fundamentais para a baixa da produção e de
produtividade em quase todos os setores foram sendo
oficialmente atribuídos à: fraca capacidade organizati-
va das empresas39; carência generalizada de quadros
qualificados; decrescente disciplina laboral; deficiente
32 Idem, p.13-14
33 Idem, p. 20.
34 GALLI, Op. cit. , p. 147.
35 Idem, p. 148.
36 Inicialmente em Malanje, esse movimento alarga-se para outras províncias, principalmente Huíla, enquanto em Huambo, a
situação de segurança já era bastante precária, foi constituída apenas uma EDA (Acord e Adra, Op. cit. p.16).
37 Era estruturada ao nível nacional, na província e nos municípios, tentou orientar e dirigir o movimento cooperativo dinamizando
seu desenvolvimento e promovendo a realização de assembléias camponesas.
38 AMARAL, Op. cit., p. 52.
39 O índice de industrialização passou de 100 em 1974 (base de partida) para 24,3 em 1989 e para 13,2 em 2000 (Rocha, 2004:65).
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abastecimento de matérias-primas e outros meios
necessários às empresas; falta de engajamento no
domínio da direção da economia, particularmente no que
respeita às empresas do Estado, e finalmente, especulação
dos preços no mercado negro40.
É claro que a agricultura sofreu de modo direto e
intenso os efeitos da situação de guerra. Esses efeitos
fizeram-se sentir em diversos níveis, impedindo o
trabalho agrícola direto, que impossibilitava o fun-
cionamento dos mecanismos de comercialização e
distribuição, e dificultava o acesso de meios de produção,
fertilizantes, entre outros, ao campo. Portanto,não é de
estranhar, de acordo com Ferreira, o impacto deses-
tabilizador da situação de guerra. Se por um lado
criaram-se enormes dificuldades às grandes produções
agrícolas para exportação (café, sisal, algodão, bananas,
etc), por outro, a pequena produção comercializável não
encontrou canais de escoamento (mercados rurais ou
outras formas de comercialização/distribuição). A
quebra dos níveis de produção e o autoconsumo são,
desta maneira, duas conseqüências inevitáveis. A
produção alimentar desceu em 26% em 1981, sendo
preciso importar 200.000 toneladas de milho. Enquanto
nas cidades se faziam sentir carências, no campo passou
a haver fome41.
Assim, com o abandono dos campos agrícolas e a
paralisação da quase totalidade da indústria trans-
formadora e extrativa, subsistiram, apenas, o café, o
petróleo e o diamante, que viriam a suportar a estratégia
de uma “economia de resistência” centralmente dirigida,
cujos reflexos, no desenvolvimento econômico e social
do país, não se fizeram sentir, além do fato do esforço de
guerra que a situação exigia42.
O café teve resultados catastróficos por parte do
governo, que não conseguiu atingir os níveis de produção
obtidos em 1973. O declínio do setor estatal a favor do
setor privado na comercialização do café torna-se latente
no final da década de 198043. Em 1992, o Estado deixa
de ter o monopólio das exportações do café.
O diamante também entrou em declínio após a
independência. A Companhia de Diamantes de Angola,
(DIAMANG) não conseguiu se reabilitar durante a
Primeira República. Amaral aponta que os investimentos
efetuados nesse setor obedeciam mais a critérios de
natureza política e militar do que econômica, quer por
razões do exercício da soberania em áreas de ações de
guerra, quer por se tratar de um recurso estratégico que
era necessário preservá-lo do acesso ao inimigo, pela sua
importância como fonte de financiamento de ações
armadas da UNITA contra o Governo44 .
Depois da independência, o Governo considerou
prioritária a formulação de uma política nacional para
o setor petrolífero. A gestão do setor petrolífero não
obedeceu aos desígnios de uma estratégia para a
construção do “socialismo científico”45, pois, por força
dos acordos existentes com as empresas multinacionais,
assistiu-se à implementação de uma estratégia su-
bordinada aos interesses do capitalismo, por isso mesmo,
contrária à criação de uma sociedade de cunho socialista
em Angola46.
Essa situação, Conceição chamou de “paradoxo
angolano”, pois sua economia dependeu, desde o tempo
colonial, basicamente do Ocidente, tanto em termos de
mercado, quanto de investimentos e tecnologia. O
petróleo (nunca inferior a 80% na aquisição de divisa no
período pós-independência) tinha, e continua a ter, nos
Estados, o seu maior comprador e investidor, através das
petrolíferas americanas como a Chevron, Texaco e
outras, incluindo também as européias47. O curioso é que
os centros de decisão das multinacionais petrolíferas
estavam sediados em países capitalistas que apoiavam a
guerra contra o governo que proclamara a indepen-
dência do país. Estes financiavam “o desenvolvimento
econômico e social do Angola” em troca de garantias
40 FERREIRA. Op. cit., p. 35-36.
41 GALLI. Op. cit., p. 146.
42 AMARAL. Op. cit., p. 56.
43 Nos cinco anos que antecederam 2ª República, o setor estatal comercializou 56,9% contra 43,1% do setor privado. Já no ano de
1992, a comercialização do privado foi de 92,9% contra apenas 7,2% do setor estatal. Pode-se pensar que esses números se devem
à estratégia do Governo, consubstanciada no Programa de Redimensionamento Empresarial do Setor Cefeícula, cujos efeitos práticos
se traduziram na restituição do setor privado de cerca de 300 fazendas com uma área superior a 100.000ha. (Amaral, Op. cit., p.
6 2 ) .
44 Idem, p. 64.
45 O socialismo científico foi desenvolvido no século XIX por Karl Marx e Friedrich Engels. Suas idéias rompem com o socialismo
utópico por apresentar uma análise crítica da realidade política e econômica, da evolução da história, das sociedades e do capitalismo.
Eles defendem uma ação mais prática e direta contra o capitalismo através da organização revolucionária da classe proletária.
46 Idem, p. 67.
47 CONCEIÇÃO. Op. cit., p. 42.
77Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 69-78 — 1º sem. 2009
dadas pelo potencial de produção petrolífera (reservas),
inviabilizando, dessa maneira, o “socialismo científico”,
e hipotecando para o futuro das gerações angolanas
vindouras, ficando o país aprisionado aos interesses
estratégicos e vitais do capitalismo48 .
O agravamento constante da situação política, eco-
nômica, social e, sobretudo militar produziu uma
conjuntura favorável à intervenção na regulação social
de outros atores, para além do partido-Estado e das suas
projeções organizativas de massas.
O colapso do modelo socialista no final dos anos 1980
provocou várias mudanças na política e na estratégia do
MPLA. A construção de uma economia de mercado
passou a exigir uma classe empresarial dinâmica que
pretendeu criar a partir das elites políticas e militares.
Foi nesse contexto que se decidiu redimensionar as
propriedades do Estado, com a privatização e o adequar
a dimensão das empresas às capacidades técnicas e de
gestão de novos proprietários. No entanto, para
Fernando Pacheco, esse segundo componente foi
esquecido. No caso das empresas agrícolas, a ausência
de um cadastro atualizado foi determinante para que as
propriedades fossem privatizadas de acordo com a
situação e a dimensão anteriores, ainda que as terras
fossem cedidas apenas em termos de direito de uso.49
Considerações finais
O presente artigo apresentou de forma simplificada
as características que direcionaram as ações do MPLA
com relação ao seu projeto de desenvolver a agricultura
após a independência.
A dificuldade com a saída de quadros técnicos
portugueses foi sentida, e a tentativa da superação dos
problemas do jovem país que surgia veio com programas
de inspiração marxista. No entanto, Angola perdeu
rapidamente sua posição no contexto de grande
exportador de culturas como o café, para ficar
dependente de exportação de produtos primários, como
também de ajuda alimentar.
O artigo mostrou a turbulenta conjuntura política
vivida por Angola naquele contexto para a melhor
compreensão da dificuldade enfrentada na questão
agrária, e a dificuldade do povo naquele momento. As
implicações do modelo socialista, numa sociedade
marcada pela instabilidade política e administrativa,
foram fundamentais para o fracasso da agricultura logo
após a independência.
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79Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009
Um dos objetivos deste artigo é refletir sobre as
condições de inclusão social das pessoas com deficiências.
Para isso, faz um breve apanhado das relações sociais
que possibilitará ocorrer a referida inclusão. Outra
preocupação diz respeito às representações sociais, na
sociedade brasileira, em relação a essas pessoas.
Uma tentativa de explicitar os muitos obstáculos
enfrentados por elas requer que se leve em consideração
a dimensão cultural, sobretudo no que diz respeito às
imagens preconceituosas (inválidos) ou de piedade
(coitadinhos), assimiladas no decorrer do processo his-
tórico por grande parte da população brasileira, assim
como em diversas outras sociedades. Esses são valores
impregnados, muitas vezes até inconscientemente, nos
indivíduos, que alimentam estereótipos e estigmas, tendo,
como conseqüência, a exclusão social, até mesmo por
desconhecimento da realidade e da potencialidade destas
pessoas. Portanto, ao ditar normas e estabelecer padrões
de competência de forma cristalizada a sociedade
brasileira coloca os indivíduos com deficiência em po-
sição de inferioridade. Resta-lhes, assim, enquadrar-se
dentro do que está estabelecido por este modelo de “nor-
malidade produtiva” na tentativa de alcançar algum grau
de aceitabilidade e, por conseguinte, reduzirem-se a
marginalização e segregação em que se encontram.
Entretanto, só é possível falar em inclusão porque
conhecemos e convivemos com a exclusão. Por isso
mesmo, as respostas para as indagações que envolvem
inclusão social dos mesmos demandam compreender,
também, a situação de exclusão, seu processo histórico,
atores e movimentos.
Entre preconceitos, vitimização e incapacidade:
os deficientes e as imagens que reforçam
a segregação social*
Eliete Antônia da Silva
Mestranda em História pela Universidade Federal de Uberlândia na linha de pesquisa Imaginário e Política,
sob orientação do Prof. Dr. Antônio de Almeida. Professora de História da rede estadual de ensino.
E-mail: elieteantonia@yahoo.com.br
Resumo
Este artigo aborda a marginalização e a segregação das
pessoas com deficiência, como resultado de violências e
coerções que operam no plano simbólico do imaginário e
das representações e se manifestam nas mais variadas
formas de preconceitos. Visando compreender as relações
entre os estigmas e estereótipos dessas pessoas como
modo de funcionamento das suas práticas e, as dos outros
em relação a eles.
Palavras-chave: Marginalização. Segregação.
Imaginário.
Abstract
This article deals with the marginalization and the
segregation of the people handicapped as a result of
violence and coercion that are manifested in the symbolic
plan of imaginary and of representations and are present
in the most varied forms of prejudice. To understand the
relations between the stigmas and the stereotypes of these
people as a way of operation of its own practices and the
other’s in relation to it.
Keywords: Marginalization. Segregation. Imaginary.
* Este artigo originou-se das pesquisas realizadas para a produção da monografia: “DOS LIMITES DA LEI AOS PRECONCEITOS: os
portadores de deficiência e o difícil caminho da inclusão social no Brasil”, requisito parcial para conclusão do curso de História da
Universidade Federal de Uberlândia. As reflexões aqui apresentadas foram desenvolvidas no primeiro capítulo da referida
monografia.
80 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009
O preconceito é forma mais conhecida e presente na
vida das pessoas com “deficiência”, e está incutido no
intimo dos indivíduos que compõe as sociedades, e o
efeito deste sentimento, é a exclusão, presente na vida
dessas pessoas, como reflexo de atitudes da sociedade as
quais pertenceram e pertencem. Distintos processos
foram vivenciados pela história humana. Encontramos
relatos de abandono, extermínio de recém-nascidos com
deficiências, como exemplo na Grécia antes de Cristo,
no livro IV, 460c, de Platão A Republica.
[...] Pegarão então os filhos dos homens superiores,
e levá-los-ão para o aprisco, para junto de amas que
moram à parte num bairro da cidade; os dos homens
inferiores, e qualquer dos outros que seja disforme,
escondê-los-ão num lugar interdito e oculto, como con-
vém.1
Bem como, no livro VII, 1335 b, A Política de
Aristóteles.
[...] Quanto a rejeitar ou criar os recém-nascidos,
terá de haver uma lei segundo a qual nenhuma criança
disforme será criada; com vistas a evitar o excesso de
crianças, se os costumes das cidades impedem o aban-
dono de recém-nascidos deve haver um dispositivo legal
limitando a procriação se alguém tiver um filho contra-
riamente a tal dispositivo, deverá ser provocado o
aborto antes que comecem as sensações e a vida (a lega-
lidade ou ilegalidade do aborto será definida pelo cri-
tério de haver ou não sensação e vida.2
 os escritos de (temporalidade?), por mais absurdo
que isso possa parecer ao nosso olhar e compreensão do
momento histórico em que vivemos. Em tais registros
esses extermínios, eram fatos legítimos praticados por
suas comunidades. Perfeitamente aceitável a rejeição,
por parte de seus familiares, de crianças que nascessem
com qualquer tipo de deficiência, física ou mental.
Perseguições, negligências, explorações, eram atos
comuns a diferentes sociedades: européias, asiáticas,
africanas, americanas. Distinguindo-se apenas o grau
de omissão e negligência entre as sociedades,
Nas culturas primitivas que sobreviviam basica-
mente da caça e da pesca, os idosos, doentes e porta-
dores de deficiência eram geralmente abandonados,
por um considerável número de tribos, em ambientes
agrestes e perigosos, e a morte se dava por inanição ou
por ataque de animais ferozes. O estilo de vida nômade
dificultava a aceitação e a manutenção destas pessoas,
consideradas dependentes, como também colocava em
risco todo o grupo, face aos perigos da época. É inte-
ressante ressaltar que a atitude de abandono e morte
dos idosos, doentes e (df), não era comum a todos os
povos.3
Algumas sociedades primitivas mantinham seus
“deficientes” com vida, suportava-os, complacentes com
seus “problemas”, por acreditarem que os maus espíritos
habitavam os corpos desses indivíduos, possibilitando
desse modo, aos demais membros da comunidade a
“normalidade”. Com o desenvolvimento do cristianismoessas pessoas, são então, percebidas como cristãos, e como
tal, possuidores da caridade dos demais. Porém, essa
sociedade é ambígua, pois ora acreditava ser a presença
de Deus, manifestada em sua criatura, para testar a fé
da família que recebeu este cristão “deficiente”; ora, ao
contrário, entendia tratar-se de um castigo de Deus, por
algum ato cometido pela família que está recebendo es-
te “deficiente”, reforçado pela comunidade e pelos
emissários de Deus na terra, estigmatizando-os e
rotulando-os.
É nesse contexto, durante as conquistas do Império
Romano, onde inúmeros soldados retornavam muti-
lados das batalhas, forçando com isso o início a um
atendimento hospitalar, que apesar dos vastos problemas,
tinham em vista recuperar os “heróis” das batalhas de
conquistas. Contudo, foi no Império Romano que surgiu
o cristianismo, com novos dogmas dirigidos para ca-
ridade entre as pessoas, mas também faziam rejeições,
dentre essas rejeições estava o extermínio das crianças
com deficiência. Porém, os cristãos foram perseguidos,
mas mesmo assim, contribuíram para formular novas
1 GUGEL, Maria Aparecida. Pessoa com Deficiência e o Direito ao Trabalho: Reserva de Cargos em Empresas, Emprego Apoiado.
Florianópolis: Obra Jurídica, 2007. p. 63.
2 GUGEL, Maria Aparecida. Pessoa com Deficiência e o Direito ao Trabalho: Reserva de Cargos em Empresas, Emprego Apoiado.
Florianópolis: Obra Jurídica, 2007. p. 63.
3 CARMO, Apolônio Abadio do. Deficiência Física: a sociedade brasileira cria, “recupera e discrimina”. Sec. Dos Desportos/PR, Brasília
– 1991. p. 21.
81Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009
concepções romanas a partir do século IV, e foi também
por este motivo, dos dogmas cristãos, que neste período
sugiram os primeiros hospitais de caridade, destinados
acolher indigentes e pessoas com deficiência. Entretanto,
no século XV dá-se o fim do Império Romano e Queda
de Constantinopla, e o início da Idade Média, marcada
pela decadente qualidade de vida e saúde das pessoas. E
assim, temos um retrocesso, as pessoas acreditavam ser
o castigo de Deus ter um filho deficiente, e as crianças
que conseguiam sobreviver eram destinadas a “lugares”
específicos a elas, e eram mantidas separadas de suas
famílias, surgi assim, as primeiras instituições assisten-
cialistas. Tais instituições isolavam — algumas ainda
isolam — as pessoas com deficiências do convívio social,
e como conseqüência, surge um novo período e novo
modelo de exclusão, a segregação, que se fortalece e
permanece ainda, em menor grau, até nossos dias.
Todavia, o tipo de assistência não é questionado, e os
“deficientes” são submetidos a lugares — na maioria dos
casos — sem condições de vida, sem higiene, ambientes
insalubres, desumanos, não propiciando nenhum tipo
de dignidade; prevalecendo neste tipo de instituições, o
descaso. Mas para algumas famílias, é conveniente
manter enclausurados nas instituições, longe dos olhos
da sociedade, o membro da família com “deficiência”,
por considerar, ser algo vergonhoso, e às vezes, desonroso.
Mas bem como temos famílias que preferem manter nas
instituições, temos aquelas que preferem acompanhar e
manter no convívio familiar e social o membro da família
com deficiência, por entender e respeitar como indivíduo
igual em direitos, sentimentos, desejos, diferente em seu
eu e com algumas limitações.
Assim, nos mais diversos paises, as sociedades optam,
então, pela política da segregação, através das instituições
assistencialistas, religiosas ou filantrópicas, separam e,
às vezes, isolam do seio da sociedade a sua minoria, sim-
plesmente por serem diferentes. Por meio da ignorân-
cia, desconhecimentos ou mesmo visões pragmáticas e
utilitaristas, ocorrem discriminações, prevalecendo às
atitudes preconceituosas. Como afirma Ligia Assumpção
Amaral,
política tão antiga, quanto à humanidade, a segre-
gação apóia-se no tripé: preconceito, estereótipo e
estigma. Tentando sintetizar a dinâmica entre eles: um
preconceito gera um estereótipo, que cristaliza o pre-
conceito, que fortalece o estereótipo, que atualiza o
preconceito... Circulo vicioso levando ao infinito. Para-
lelamente o estigma (marca, sinal) colabora com essa
perpetuação.4
Mas o que vem a ser segregação? Segundo dicionário
Aurélio — e seguindo ao pé da letra — é o ato ou efeito de
segregar; isolamento; ação de separar as pessoas de raças
ou origens diferentes, dentro de um mesmo país. Não
podemos dizer que se trata de uma raça ou origem dife-
rente, os deficientes em relação à própria família, em-
bora, também nesse âmbito, ocorra com freqüência a
ação de isolá-los da sociedade. Assim, o termo segregação
é sempre correto mesmo no momento histórico que
vivemos, pois elas estão frequentemente sendo isoladas,
segregadas, e assim, privadas do convívio social.
Do ponto de vista de Antônio Muniz Resende, a
segregação é, portanto uma “patologia cultural”, ao
separar o homem do mundo, desestruturando a sua
humanidade e levando-o a uma animalidade que não é
sua, mas que lhe é instituída através de preconceitos,
estereótipos e estigmas que a sociedade foi construindo
em torno dessas pessoas ao longo do tempo.
[...] uma situação e um processo de desestru-
turação, [...] uma tendência reducionista simplifica-
dora. O subjetivismo criticista apresenta-se como
sintoma de patologia cultural, na medida em que,
separando o homem e o mundo, e privilegiando o
primeiro em detrimento do segundo, desestruturando
o fenômeno humano (ser-no-mundo), eliminando a
multiplicidade fundamentalmente constitutiva da es-
trutura cultural. [...] privilegia o mundo em detrimento
do homem.5
Para Resende, tais atitudes podem ser compreendidas
como “patologia cultural”, pois uma sociedade, uma
cultura, tem suas bases no sentido da existência do
homem, que por sua vez se dá na relação de um homem
com outro homem, isto é, na dinâmica da história dos
4 AMARAL, Lígia Assumpção. Pensar a diferença: Deficiência. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de
Deficiência, Brasília, 1994, p.40
5 REZENDE, Antônio Muniz. Pistas para um diagnóstico da patologia cultural. In: Morais, J.F. Regis de (Org.). Construção social da
enfermidade. São Paulo: Cortez & Moraes, 1978, pp. 157-179, p.163.
82 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009
homens desta cultura. Portanto, ao retirar do convívio
social as pessoas portadoras de deficiências estamos
ocasionando uma perda do sentido de existência das
mesmas e resultando em uma “esquizofrenia e uma
esclerose cultural”. Nas palavras de Resende, a “patologia
cultural se caracteriza como uma cristalização do modelo
não dinamizado pelo sentido”, mediante tal situação
questionamos: qual a imagem de homem, de sociedade
e de mundo que estamos construindo?
Amaral traz para o debate a questão da Psicologia
Social. Segundo ela, trata-se “de conhecer o homem na
totalidade de suas relações”, e “cabe também a Psicologia
Social debruçar-se sobre a questão da deficiência”.
Seguindo essa mesma linha argumentativa, podemos
afirmar que é papel da história, enquanto área do
conhecimento, também debruçar-se sobre a questão da
inclusão social das pessoas com deficiência. Nesse
sentido, e considerando os primeiros relatos históricos,
essas pessoas, estão à margem da sociedade e da história
(Todas essas pessoas? Não houve nenhuma exceção?
não), sendo, portanto, uma dessas minorias sociais
excluídas do processo histórico, assunto sobre o qual fala
Fontana,
A história de um grupo humano é sua memória cole-
tiva, e a seu respeito, cumpre a mesma função que a me-
mória pessoal em relação a um indivíduo: dar-lheum sen-
tido de identidade que o faz ser ele mesmo e não outro.6
Entretanto, vem-se tentando mudar a alguns anos
esse quadro historiográfico da humanidade e, timi-
damente, a história das pessoas com deficiências está
sendo escrita, como podemos constar, alguns intectuais
escrevendo sobre a temática, como Ligia Amaral, Mar-
cus Othon, Maria Gugel. E como Amaral e Fontana
destacam, devemos voltar nosso olhar para aqueles em
minoria, de pouca representação. Porém, há que se
tomar o cuidado no sentido respeitar e permitir que as
vozes dessas pessoas apareçam, evitando nos tornar seus
“porta-vozes”. Deixá-los falar e se expressar, por si
mesmos, é reconhecê-los como sujeitos da história, com
suas dificuldades e lutas para sair da extremidade, das
margens da sociedade.
Essa marginalização trouxe consigo variados
estigmas, tanto no que diz respeito à sociedade para com
elas, quanto elas próprias tem por si mesma. Do ponto
de vista de Goffman7, a sociedade classifica os indivíduos
e atribui-lhes valores de acordo com ambiente no qual
estão inseridos nesta sociedade. Assim estes indivíduos
recebem atributos de acordo com sua categoria social:
As rotinas de relação em ambientes estabelecidos
permitem um relacionamento com “outras pessoas”
previstas sem atenção ou reflexão particular. Então,
quando um estranho nos é apresentado, os primeiros
aspectos nos permitem prever a sua categoria e os seus
atributos, a sua “identidade social” — para usar um
termo melhor do que “status social”, já que nele se
incluem atributos como “honestidade” da mesma forma
que atributos estruturais, como “ocupação”.8
Pressupõem-se algumas afirmativas concernentes ao
indivíduo que por ventura possa estar a nossa frente e,
desse modo atribuímos a ele características que não são
suas, ou seja, damos-lhe uma “identidade social virtual”.
Tal procedimento é uma maneira de se construir um
estigma, que na maioria dos casos reduz o indivíduo,
substituindo a “identidade social real” pela “identidade
social virtual” e criando estereótipos incoerentes com o
indivíduo em questão, pois um estigma é sempre
depreciativo. Todavia, o que é negativo para uns significa
a exaltação de outro, neste caso, isso significa depreciação
das pessoas com deficiência para exaltação dos ditos
“normais”. Ainda acompanhando a linha de raciocínio
de Goffman, um estigma tem como sinônimo dois
panoramas relativos ao estigmatizado, o desacreditado
e o desacreditável.
[...] um indivíduo que poderia ter sido facilmente
recebido na relação social quotidiana possui um traço
que se pode impor à atenção e afastar aqueles que ele
encontra, destruindo a possibilidade de atenção para
outros atributos seus. Ele possui um estigma, uma ca-
racterística diferente da que havíamos previsto.9
6 FONTANA. Josep. A história dos homens. Tradução: REICHEL, Heloisa Jochims e COSTA, Marcelo Fernando da. Bauru, SP: EDUSC,
2004, p.11.
7 GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara S.A., 1988,
p. 11-12.
8 Idem, p. 5.
9 GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara S.A., 1988.
p. 14.
83Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009
Desse modo ao estigmatizar alguém estamos re-
duzindo suas chances e possibilidades de vida, pois
podemos levá-lo a se sentir desacreditado e incapaz.
Utilizamos termos depreciativos, pejorativos e específicos
de estigmas, quando, por exemplo, atribuímos apelidos
com objetivos de destacar e ridicularizar a sua deficiên-
cia. Não pensamos como isto pode estar ferindo os
sentimentos destas pessoas, que estão recebendo esses
termos pejorativos, isto é claramente uma forma de
exclusão, e principalmente uma “violência simbólica”.
Nos dizeres de Bourdieu,
[...] todo poder de violência simbólica, isto é, todo
poder que chega a impor significações e a impô-las como
legítimas, dissimulando as relações de força que estão
na base de sua força, acrescenta sua própria força, isto
é, propriamente simbólica, a essas relações de força10.
Uma pessoa que carrega um estigma por toda a sua
existência pode ocorrer de incorporar essa estigmatiza-
ção a ponto de explicar alguns modos, estilos de vida,
acompanhados das considerações e respeitos que lhes são
atribuídos, tendo como conseqüência uma predisposição
para a autovitimização. Neste sentido a visão da mesma
transforma-se assim como a visão da sociedade, de
animalidade de antes, para uma visão paternalista, de
coitadinhos e, portanto incapazes. Isso pode ser entendi-
do como resultado das tentativas de integração social,
iniciada com as instituições assistencialistas mais
recentes, que visam a integração social e não a inclu-
são, ou seja, a inclusão requer esforços maiores que,
simplismente colocar essas pessoas em contato com a
sociedade, elas precisando ser recebidas sem preconceitos
ou rejeições por parte da sociedade. Este problema social
deve ser enfrentado em suas múltiplas dimensões, é
necessário romper com as barreiras sociais e culturais,
para que assim, aconteça a inclusão social das pessoas
com deficiência. Uma visão paternalista que traz consigo
uma vitimização social e uma redução do potencial do
indivíduo com deficiência. Mas o problema aumenta
quando esta vitimização está enraizada no seio da família
— e indo mais longe — podendo ser considerado um
preconceito internalizado, implícito, no interior das
pessoas. Um preconceito que vem de um processo
histórico tão longo quanto à existência da humanidade,
construído no imaginário social, e constituindo um dos
grandes percalços para as pessoas com deficiência, um
obstáculo gigantesco a ser rompido. Como coloca
Amaral,
Para a família trata-se da “perda” do filho idea-
lizado, pois, admita ou não, a idealização é um reves-
timento universalmente presente na gestação e em
todos os aspectos relacionados à maternidade/pa-
ternidade.11
Atualmente discute-se muito a inclusão social das
pessoas com deficiência, porém é pouco comentada essa
questão da exclusão no interior da família, aumentando
e dificultando a inclusão social destes indivíduos, pois
em muitos casos o “deficiente”, conta com sua família
para que essa inclusão aconteça, através de apoio em
suas lutas por seus direitos, e/ou sendo o próprio agente
da luta, como no caso dos deficientes mentais. A família
ao se deparar com este novo componente familiar
portador de deficiência, e totalmente ignorante sobre o
assunto, isto é, não conhecendo a deficiência na qual a
criança nasceu se vê em total desespero, e parte em uma
busca frenética para tornar esse indivíduo “normal”.
Essa é uma convicção que habitualmente os leva a
procurar as instituições que realizarão tal tarefa. Ideali-
za-se um ambiente isento de problemas e repleto de
capacidades e facilitações, lugar perfeito onde não
acontecerá discriminação e preconceito, o que na rea-
lidade não acontece. Dessa forma, as famílias deposi-
tam nas instituições todas as suas esperanças e expecta-
tivas, acreditando que será somente este lugar que poderá
contribuir efetivamente no processo de desenvolvimento
pessoal e social de seu indivíduo com deficiência.
Contudo existem outras famílias com atitudes extre-
mamente opostas, e que ainda hoje, encontram nas
instituições o lugar ideal para depositar o indivíduo
deficiente, e sem nenhum interesse por ele, em acom-
panhá-lo, em saber o que acontece com ele dentro dessas
instituições, repassando a responsabilidade dos cuidados
a terceiros. Ou seja, constata-se a exclusão e rejeição
10 BOURDIEU, Pierre & PASSEREN, Jean Claude. A reprodução; elementos parauma teoria do sistema de ensino. Rio de Janeiro,
1982, p.19.
11 AMARAL, Lígia Assumpção. Pensar a diferença: deficiência. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de
Deficiência, Brasília, 1994, p. 24
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dentro das próprias famílias dos deficientes, conseqüên-
cia do choque, do trauma não superado. Da não aceita-
ção promove-se a segregação de seu membro familiar
com deficiência, isolando-o até mesmo do convívio
familiar, não lhe dando nenhum direito. Infelizmente
esse último modelo familiar é o mais comum, em maior
número, alterando apenas o nível da segregação e da
exclusão familiar, uma espécie de fuga para não vivenciar
a própria realidade. É neste contexto que as intuições
passam a ser a solução para as famílias e para o próprio
deficiente, que encontram neste lugar o único ambiente
de sobrevida, assim como o contato físico com outras
pessoas, e até mesmo a possibilidade de receber atenção
e carinho de alguém.
O preconceito, a exclusão e a segregação familiar, é
um processo que se inicia a partir do nascimento da
criança. A família, por não saber lidar com a situação
ou até mesmo por ter gerado expectativas às quais essa
criança não poderá corresponder, vê esvair todos seus
sonhos, desejos e expectativas em relação ao novo
membro da família.
[...] Eles enfrentam dificuldades desde o nascimen-
to, já que alguns são rejeitados pelos próprios pais. Para
integrar-se a sociedade sem problemas, são poucos os
lugares que têm áreas adaptadas a eles [...]12.
Essa atitude de segregação familiar afeta essa criança
desde seus primeiro dias de vida, por ser a primeira
instituição onde ela irá conviver, e isso é um reflexo da
segregação social, pois, a família não se encontra isolada
pairando no ar, como uma nave, ela se encontra inserida
dentro da sociedade. Portanto, não é característica
própria de uma família em particular, mas é resultante
de um complexo processo social. Nesses termos, a
deficiência é compreendida como uma dificuldade
individual e familiar, e o seu ajustamento e adequação a
sociedade é um problema que não diz respeito a esta, e
sim a quem o possui, indicativo de que essa sociedade
não sabe lidar com suas diferenças. Ela apóia-se nos
princípios de desenvolvimento livre, da capacidade de
realização “natural” do indivíduo, que por sua vez, se
orienta pelo sentimento de segregação enraizado e, às
vezes, inconsciente dos indivíduos que compõe a so-
ciedade.
Todavia, se temos o preconceito explícito, como
citamos acima, temos também aquele implícito, que
quando praticado pode ser transformado em vitimização
social, e possivelmente ocasionar uma assimilação pelo
próprio indivíduo com deficiência. Este por sua vez, se
fecha para o mundo e acredita realmente ser uma pessoa
incapaz, inapto ao convívio social. É a segregação com
uma nova roupagem, onde familiares isolam este in-
divíduo, utilizando-se do argumento da proteção, em suas
casas negando a eles o direito do convívio social. Não
percebem que essa atitude é preconceituosa e discri-
minatória, é a exclusão social praticada pela família.
O abandono não se caracteriza necessariamente por
uma forma literal podendo ocorrer pelo simples não
investimento — seja de amor, de dedicação, de tempo
etc. Também em relação à super-proteção apenas um
assinalamento: uma das decorrências desse fenômeno
é o deslocamento do centro da relação para o protetor,
como a conseqüente desvitalização do protegido.13
Tal preconceito então se instala no íntimo, isto é, no
inconsciente dos indivíduos, portanto, não é reconhecido
e aceito como tal, pois não se pode ter um sentimento
tão negativo com relação ao membro de sua família —
que muitas das vezes é seu próprio filho, ou irmão — e
quando não o é, sustenta esse preconceito implícito,
através da visão de coitadinho, incapaz, devendo ser
ajudado em todas as suas tarefas, que por ventura tenha
que realizar.
A incapacidade de percepção de tal atitude acontece
por fazer parte de um imaginário social. Esse imaginário
traçou um destino para as pessoas com deficiência, onde
elas devem estar dentro de seus lares, entre sua família,
responsáveis e porta-vozes dos desejos e ansiedades dos
mesmos, negando assim, até os próprios sentimentos das
pessoas ditas “deficientes”. Comportamento este con-
siderado por Foucault14 como o “exercício dos micro-
poderes ao nível do quotidiano”. A família julga-se porta-
12 Entrevistada A. Em atenção ao pedido de alguns entrevistados, parte dos depoentes será aqui identificada por meio de letras do
alfabeto.
13 AMARAL, Lígia Assumpção. Pensar a diferença: Deficiência. Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de
Deficiência, Brasília, 1994, p. 21-22
14 FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder; tradução Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1985, p. 85.
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voz de seu ente “deficiente” e exerce sobre ele o poder de
decisão respondendo por ele em todas as situações,
fazendo uma confusão na mente do mesmo, a ponto
dele não distinguir o que lhe é inato do que foi imposto,
ampliando sua limitação para além da sua realidade e
do necessário.
Com esses “mecanismos sutis” de controle ocorre à
dominação e a sujeição como forma de proteção
emocional, e o efeito deste comportamento sutil pode
ser duplo através da saturação ou submissão. A saturação
levará o sujeito “deficiente” à resistência e a buscar o
respeito a suas capacidades exigindo seus direitos de
escolha e de ir e vir da maneira que melhor lhe convier.
Contrapondo-se ao comportamento de saturação temos
o comportamento de submissão, este por sua vez, aceita
a proteção, a estigmatização e as privações como algo
bom, procurando usufruir das vantagens desta situação
em benefício próprio.
Independentemente das condições físicas ou mentais
as pessoas encontram dificuldades e obstáculos ao lon-
go da vida e, limitação é algo comum a todas as pessoas,
não importando se tenham ou não qualquer tipo de
“deficiência”. E a incapacidade está presente na vida de
todos, exatamente por ser um estado e não uma con-
dição, uma vez que o corpo humano pode não estar
saudável ou não estar apto para a realização de uma
atividade, sem que isso implique necessariamente que a
pessoa seja portadora de uma “deficiência”. Portanto, não
existe nenhuma ligação diretamente e necessariamente
de incapacidade com “deficiência”, até porque uma
limitação não incapacita as pessoas com deficiência. Por
isso, a luta dessas pessoas para que seus direitos, inclu-
sive aqueles que constam da Constituição Federal, se-
jam respeitados e praticados. Ou seja, elas não querem
viver como se fossem um “peso” na vida de seus fa-
miliares, querem ter o direito de viver em sociedade como
todo ser humano, algo que, embora pareça simples, tem
requerido muita luta. Como precisou Puhlmann:
[...] A mulher portadora de deficiência física tem o
direito a maternidade [...] Quando grávida a mulher
portadora de deficiência física, se depara com a atitu-
de de surpresa e espanto e até revolta das pessoas, que
não a percebiam como sexuadas. A mulher portadora
de deficiência física apresenta os mesmos medos de
qualquer mulher frente a fragilidade e dependência do
filho, tendo de enfrentar suas limitações físicas e con-
tornar dificuldades operacionais com mais freqüên-
cias. [...]15
Vejamos algumas experiências que refletem essa
questão:
A jornalista Flávia Cintra, 34 anos poderia ser uma
mãe como qualquer outra. Apaixonada pelo advogado
Pedro Corradino e bem-sucedida profissionalmente, há
dois anos ela achouque era hora de formar família. Mas
a decisão de Flávia de ser mãe gerou surpresa. Mais
até: dúvidas sobre sua capacidade de gerar uma criança
e, depois, de assumir a maternidade. O motivo? Ela é
tetraplégica. [...] Quando Flávia foi à primeira consulta
com o obstetra, chegou com uma longa lista de per-
guntas. Não teve chance de fazê-las. Antes mesmo de
examiná-la, o médico aconselhou que aguardasse três
meses para ter certeza de que a gravidez evoluiria. “Eu
estava ali como qualquer mulher que engravida pela
primeira vez”, recorda Flávia. “Ele disse estar preo-
cupado com a minha situação e teve o cuidado de baixar
minhas expectativas. Depois de meu acidente, porém,
aprendi que médicos têm uma especialidade e nem
sempre conhecimento de outras. Por terem limites, po-
dem ter preconceitos. “Uma pessoa mais frágil, no meu
lugar, sairia dali devastada.”
[...] Célia, 52 anos, paraplégica, quando decidiu ter
filhos após três anos de casamento. O que demonstra
que, apesar dos avanços sociais e científicos, o tempo
não mudou alguns conceitos — e preconceitos. Célia
consultou cinco obstetras, em São Paulo, antes de en-
contrar o que denomina “fantástico”. Três deles a
aconselharam a não engravidar, “por causa dos riscos”.
Dois foram taxativos: afirmaram que ela não poderia.
“Sempre fui teimosa e procurei mais uma opinião”, conta
Célia. “Ele pediu alguns exames e disse que nós dois —
meu marido, Daniel, e eu — estavámos bem e que não
havia nenhum impedimento.” Era tudo o que Célia
precisava escutar. Menos de um mês depois, engravidou
do primeiro filho, Rodrigo, 20, que cursa o segundo ano
de medicina. Depois, teve Diogo, hoje com 17, e
15 PUHLMANN. Fabiano. A sexualidade da mulher portadora de deficiência física. Revista Brasileira de Sexualidade Humana – SBRASH,
ISSN 0103-6122, vol. 6, n. 2, p. 197-203, jul. a dez. de 1995. Disponível em: <http://www.adolec.br/bvs/adolec>. Acesso em: 26
fev. 2007.
86 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009
Stephanie Vitória, de 13. Todos de parto normal, sem
indução ou outro artifício. [...]16
Como podemos perceber na experiência da jornalista
Flávia Cintra, umas das conseqüências do estigma em
relação às pessoas com deficiência, está associado ao fato
de muitos acreditarem que são pessoas que não devem
constituir uma relação afetiva, como se os deficientes
fossem assexuados e não tivessem sentimentos. E
quando se depara com um casal em que, um ou ambos
são deficientes, muitos ficam sempre chocados, ou, no
mínimo, curiosos. Mas, felizmente existem sempre
aqueles dispostos a lutarem contra a rejeição e o
preconceito social, lutam por seus sonhos, para que
prevaleçam também suas vontades, como é caso das
pessoas envolvidas na reportagem acima, e do casal Beto
e Márcia, comentados a seguir, moradores no bairro
Laranjeiras, periferia da cidade de Uberlândia, Minas
Gerais:
Márcia: eu senti um sonho, [...] eu fiquei muito
surpresa, foi uma coisa maravilhosa um sonho que eu
nunca pensava que havia de realizar, porque eu nunca
me vi como mãe, eu pensava em adotar um filho, quando
eu soube da notícia, eu fiquei muito feliz parecendo que
eu estava sonhando, foi nove meses de sonho. Eu fiquei
tão ansiosa que passei mal os nove meses, com
ansiedade, vomitava muito, fiquei ansiosa para ver a
carinha dele.
Beto: eu fiquei maravilhado, porque uma família tem
que ter um filho para completar. Eu cheguei a vomitar
com ela, vomitava, eu também, eu também vomitava.
A minha família ficou muito preocupada no começo,
mais muito mesmo, chegou até me dar bronca, falou
que eu era um irresponsável, de tanta preocupação,
porque eles achavam que nós não seriamos capazes de
criar uma criança. Hoje minha família baba com ele,
todo mundo.
Márcia: A minha família até que aceito razoável né,
a família do Beto pensava que eu não ia da conta de
pegar a criança, amamentar. O tio do Beto, que meio
contra, falou assim comigo, que eu não ia dá conta de
segurar o bebe, não ia da leite, que a mulher dele é
normal e não deu leite, falou tudo isso, até hoje o
muleque mama, não ta me atrapalhando com nada, é
amor e carinho que eu to dando para ele.
Foi cesárea né, e eu cheguei a sentar na mesa para
ver a carinha dele, e o médico fez eu deitar de novo, eu
tava com a barriga aberta, para poder ver ele, uai.
Beto: eu fiquei muito emocionado, cheguei a chorar.
Ele é tudo; é carinhoso, ele é cuidadoso.
Márcia: ele levanta de madrugada para mim da
água, no escuro vem aqui na cozinha, e leva na cama
pra mim d’agua, e ele só tem 3 anos, ele é muito
carinhoso com nós, muito, muito mesmo.17
Como se nota, tanto na reportagem anterior, quanto
na entrevista de Márcia e Beto, a descriminação, a
negação da sexualidade das pessoas deficientes se faz
fundamentada em uma estética corporal. Nesse sentido,
um importante ponto a ser observado diz respeito às
conseqüências dessa cultura visual: trata-se do jul-
gamento da imagem, do exterior daquele corpo, que
carrega as marcas não só de sua deficiência, mas tam-
bém de seu estigma. Não são aceitas aquelas pessoas que
não estão dentro dos padrões de beleza ou de capacitação
cristalizados no imaginário social, porque a cultura
predominante não abre espaços para o diferente. En-
quanto a deficiência é ressaltada o ser humano existen-
te por traz daquela deladeficiência é negligenciado. Essa
ditadura corporal traz embutida, uma padronização até
mesmo para os sentimentos — como se fosse possível
estabelecer marcos regulatórios para essa dimensão
humana —, esquecendo-se de que aquele corpo carrega
também subjetividades e um histórico de vida a ser
respeitado.
No interior dessa cultura mercadológica, cujos pa-
drões de beleza estão fundamentados nos paradigmas
capitalistas do consumismo, o corpo torna-se, então,
mais um objeto de consumo que pode ser “comprado”,
“feito”, nas clínicas de cirurgias plásticas, tendo como
objetivo maior a ser atingido o modelo ideal de beleza
largamente difundido pela mídia. Do mesmo modo, essa
sociedade dita comportamentos que devem ser seguidos
por seus componentes, com o rigor de uma normalidade
estabelecida que se pretende universal. De acordo com
Foucault,
16 PERRI, Adriana. Direito de ser mãe. Sou mãe de Gêmeos. Revista Sentidos. Edição Especial, São Paulo, Ano 8, n. 44, p, 28-34, dez.
2007. Disponível em: < http://sentidos.uol.com.br/revista>. Acesso em: 23 dez. 2007.
17 SILVA, Márcia e SILVA, Roberto.
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esses métodos que permitem o controle minucioso
das operações do corpo, que realizam a sujeição cons-
tante de suas forças e lhes impõem uma relação de
docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as
“disciplinas”. [...] Mas as disciplinas se tornaram no
decorrer dos séculos XVII e XVIII fórmulas gerais de
dominação [...] que visa [...] a formação de uma relação
que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obedien-
te quanto é mais útil, e inversamente. Forma-se então
uma política das coerções que são um trabalho sobre o
corpo, uma manipulação calculada de seus elementos,
de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo hu-
mano entra numa maquinaria de poder que o esqua-
drinha, o desarticula e o recompõe. Uma “anatomia
política”, que é também igualmente uma “mecânica do
poder”, está nascendo; ela define como se pode ter
domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente
para que façam o que se quer, mas para que operem
como se quer, com as técnicas, segundo a rapidez e a
eficácia que se determina. A disciplina fabrica assim
corpos submissos e exercitados, corpos “dóceis”.18
Mas quem é normal ou a quem pode ser creditadoesse atributo? Se não é possível fundamentar o conceito
de normalidade em nenhuma base patológica, genética
ou neurológica, resta, portanto, fundamentá-lo em
valores culturais de um determinado momento, esta-
belecido dentro de um contexto e de acordo com as de-
mandas sociais. Sobre essa questão, Carmo afirma que
as pessoas fazem enorme confusão “do que é normal
com o que é comum”, pois o que é comum em deter-
minado lugar pode não ser em outro. Por isso, para o
autor, “se comum fosse normal, o incomum seria anor-
mal” 19.
Nesse sentido, a sociedade também estabelece quem
são os “anormais” que os excluem. Configura-se, assim,
aquilo que Bourdieu chama de “poder simbólico”, uma
vez que tais valores são ditadores de comportamentos
sociais e por meio desse poder surgem as “produções
simbólicas” por ele determinadas:
As diferentes classes e fracções estão envolvidas em
uma luta propriamente simbólica para imporem a
definição do mundo social mais conforme aos interesses,
e imporem o campo das tomadas de posições ideoló-
gicas reproduzindo em forma transfigurada o campo
das posições sociais.20
As reflexões de Bourdieu nos permitem inferir que
são esses poderes que, através de uma luta no campo
simbólico, constroem suas produções, elas também
simbólicas, de dominação, difundindo determinados
valores que, penetrando na cultura, contribuem para que
as pessoas desenvolvam conceitos pejorativos. Esses
conceitos que são por si só excludentes, ao serem assi-
milados pelos indivíduos, considerando a força que os
valores sociais possuem passam a ser transmitidos por
longos períodos, tornando-se parte do imaginário social.
Os resultados desse “caldo cultural” tornam-se
bastante visíveis, quando analisados à luz dos obstácu-
los enfrentados cotidianamente. Um notório exemplo
disso são os espaços de circulação pública, que geral-
mente são planejados à revelia das necessidades das
pessoas deficientes. Ou seja, a sociedade, de um modo
geral, desconsidera e os exclui. É como se elas não
existissem, como se fossem totalmente invisíveis ou, o
que é ainda pior, quando reconhecidas, cumprem o
desagradável papel de atrapalhar a funcionalidade das
“coisas”, pensadas a partir dos valores e referências dos
ditos “normais”.
Portanto, a inacessibilidade aos espaços públicos,
externa outra forma de representação social sobre a
exclusão das pessoas com deficiências, como os prédios;
os transportes urbanos, as ruas, as praças e tantos outros
espaços que impossibilitam o direito básico de todo
cidadão: o direito de ir e vir, que entre outras conse-
qüências, tornou-se um empecilho ao tráfego, ao acesso
e, a circulação dos mesmos. Como decorrência, o que se
nota é uma grande ausência dessas pessoas nos diferentes
espaços públicos existentes na sociedade, apesar de que,
no Brasil, nos últimos tempos, tenha ocorrido uma
pequena melhoria, nesse aspecto, embora absolutamente
insuficiente tendo em vista a magnitude do problema. E
isso pode ser notado até mesmo nos centros urbanos mais
desenvolvidos do país, como demonstram os estudos de
Perri, analisando a realidade da cidade de São Paulo:
18 FOUCAULT. Vigiar e Punir. Petrópolis, Vozes, 1977, p. 117- 118
19 CARMO, Apolônio Abadio do. Deficiência física: a sociedade brasileira cria, “recupera” e descrimina. Brasília: Secretaria dos Desportos/
PR, 1991, p. 10.
20 BOURDIEU. Pierre. Poder Simbólico. Tradução: Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989, p. 11.
88 Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 79-92 — 1º sem. 2009
[...] as barreiras que ainda impedem pessoas com
deficiência e mobilidade reduzida de circular livre-
mente, como as da Paulista: buracos, desníveis, de-
graus, guias rebaixadas íngremes ou que levam a uma
escada, barraquinhas de camelôs... Para cegos e ca-
deirantes, andar ali equivale a um verdadeiro Rali dos
Sertões. [...]21
Um bom exemplo na cidade de Uberlândia a ser
citado de prédio público que inviabiliza o acesso de
pessoas deficientes, até mesmo por tratar-se de uma
instituição que poderia assumir a responsabilidade de
auxiliar na busca de alternativas para esse grave pro-
blema social, é o da própria Universidade Federal de
Uberlândia – UFU. Construída já há algum tempo, sua
arquitetura revela o descaso com os deficientes. Embora
quase todos os seus prédios possuam um segundo piso,
os mesmos foram projetados sem rampas ou elevadores.
Com isso, muitos deficientes, vários deles estudantes da
própria universidade, para ter acesso a várias das suas
dependências, como o caso os dependentes de cadeiras
de roda, passam por situações constrangedoras e hu-
milhantes, ao serem carregados nos braços, algumas
vezes até mesmo por estranhos. Essas pessoas rei-
vindicam, enquanto cidadãos, os seus direitos de se
movimentar de acordo com suas limitações e possi-
bilidades, sem que para isso tenha que estar solicitando
ajuda de terceiros.
É bem verdade que, nos últimos nos, esse quadro da
UFU vem melhorando significativamente. Os últimos
prédios que estão sendo construídos foram planejados
de forma a assegurar condições que garantam o acesso
em todos os seus níveis, inclusive nos banheiros, e os
prédios antigos começam a passar por reformulações que
objetivam minimizar os problemas existentes. Tais
providências, seja por iniciativas dos gestores ou por
exigências contidas em lei, apenas reforçam o descaso
anteriormente existente e os resultados alcançados têm
relação direta com as lutas e os embates travados pelos
próprios deficientes e seus familiares engajados em suas
causas, bem como por órgãos e pessoas inseridas dentro
da Universidade, simpatizantes e/ou envolvidos direto
ou indiretamente, como é o caso do CEPAE22.
Ainda com relação à cidade de Uberlândia, apesar de
que no seu centro comercial — tido como cartão de visita
da cidade e lugar de propaganda dos grandes “feitos”
políticos —, algumas reformas tenham sido promovidas
com vistas a oferecer condições para a acessibilidade, por
vezes, não é difícil encontrarmos lugares onde isso ainda
não ocorreu. Sobre essa questão, é interessante notar o
comportamento paradoxal das autoridades municipais:
as medidas adotadas com vista a “vender” uma imagem
de preocupação com as pessoas com deficiência, não são
traduzidas em cuidados que externem uma efetiva
preocupação com o enfrentamento do problema, como
pode ser notado através da reportagem abaixo:
Os idosos e deficientes físicos de Uberlândia que
precisam utilizar o Posto de Serviços Integrados Ur-
banos (Psiu) vão continuar enfrentando constrangi-
mentos para ter acesso ao prédio do órgão. Há quase
um ano (que será completado em janeiro), a Justiça de
Uberlândia concedeu uma liminar na ação civil pública
impetrada pela Promotoria Especializada na Defesa da
Saúde, do Deficiente e do Idoso, com o intuito de garan-
tir acessibilidade aos usuários. Contudo, até agora,
nenhuma modificação para adequação da estrutura do
edifício, que fica na Praça Tubal Vilela, foi feita. Como
não existem rampas nem elevadores de acesso, algumas
pessoas acabam encontrando dificuldades para buscar
os serviços oferecidos no estabelecimento. O problema
deve continuar persistindo por mais um ano, pois as
obras de modificação só devem ser iniciadas em abril
ou maio de 2008, de acordo com a previsão do coor-
denador regional da Secretaria de Estado de Plane-
jamento e Gestão de Minas Gerais (Seplag) e interino do
Psiu, Elci Filho de Oliveira. [...]23
Ou seja, quando um veículo estaciona em algum
lugar não permitido, atrapalhando o trânsito das pessoas
ditas “normais”, as providências são rápidas e o seu
proprietário com certeza será multado, correndo o riscode ter seu veículo guinchado ou até mesmo aprendido.
Mas, esse mesmo veículo pode estacionar em lugar que
21 PERRI, Adriana. Capa Acessibilidade 100%. Revista Sentidos. Acessibilidade 100%. Edição de Aniversário, São Paulo, Ano 8, n. 43,
p. 28-34, out./nov. 2007.
22 CEPAE – Centro de Pesquisa, Ensino, Extensão e Atendimento em Educação Especial. Pró-Reitoria de Graduação da Universidade
Federal de Uberlândia.
23 BARBOSA, Lucas. Obras de acessibilidade começam em até 5 meses. Jornal Correio de Uberlândia. Uberlândia, 28 dez. 2007.
Cidade. Disponível em: http://www.correiodeuberlandia.com.br. Acesso em: 28 dez. 2007.
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visivelmente atrapalha a acessibilidade das pessoas
deficientes, porém, nada acontecendo com o seu
condutor. Isso instiga, no mínimo, uma pergunta: por
que essa diferenciação no cumprimento da lei?
Com isso, deduz-se que as pessoas com deficiência
continuam enfrentando diversas dificuldades que vão
desde a locomoção passam pela educação e chegam ao
preconceito. Este último, tanto pode se expressar de
maneira direta como indireta, por meio de um olhar,
uma palavra mal expressada, ou na falta de tolerância.
Nesse sentido as barreiras físicas também representam
preconceitos. Por isso, as ruas, os meios de transportes,
os estabelecimentos comerciais, entre tanto outros, na
maioria das vezes, não estão preparados para recebê-
los. A sociedade geralmente esquece que as pessoas com
deficiência também são consumidoras, e necessitam de
condições para adentrar os estabelecimentos. Esse
descaso é uma representação “simbólica”, que explícita,
na prática, a segregação, afastando ainda mais as pessoas
deficientes do convívio social.
As pequenas, porém relativamente consideráveis
mudanças que têm ocorrido no Brasil, são resultados,
sobretudo, da conscientização das pessoas deficientes, que
de alguma forma conseguiram fazer ouvir a sua voz e
valer os seus direitos. Mas isso, só foi possível com muita
luta e embates. Daí surgiu às alterações e avanços no
plano formal, com alterações nas leis ou criação de outras
específicas, tendo como desdobramentos as mudanças e
adaptações nos espaços públicos e privados. Por
conseguinte, isso também se reflete no plano social
provocando uma ainda modesta “conscientização” das
pessoas de que elas também são pessoas aptas, com
determinadas limitações.
A rigor, trata-se de embates de seres humanos contra
seres humanos, que podem ser entendidos como con-
seqüência de um modelo social e cultural, que investe
pesadamente no individualismo e na competição entre
as pessoas. Mais do que isso, essa cultura que tem
prevalecido projeta a imagem de corpo perfeito e, com
ela, a visualização para as possibilidades de conquistas
dentro daquilo que o próprio sistema pode oferecer, de-
pendendo apenas dos esforços e das potencialidades
individuais. Por isso mesmo, dentro desse modelo ideal,
o sistema capitalista fabrica e estimula, formam um
segmento social com seus direitos de cidadania com-
prometidos. Esse é um terreno perverso no qual as
pessoas com deficiência são tolhidas até mesmo de
expressar as suas emoções e/ou reações, muitas vezes
entendidas como atípicas ou próprias da sua “anorma-
lidade”, os padrões estéticos instituídos, que constan-
temente os julga como incapacitados, como se sua
deficiência fosse um fator definidor deste ou daquele
comportamento.
Portanto, para que as iniciativas em curso no Brasil
gerem frutos em termos de um efetivo enfrentamento
desse grave problema social, questão que deve ser
enfrentada em suas múltiplas dimensões. Para isso, uma
legislação que force a ruptura das inúmeras barreiras
físicas cumpre, sem dúvida, um significativo papel. Mais
do que isso, entretanto, tornam-se necessárias as rup-
turas das barreiras sociais e culturais, uma vez que,
somente a partir do enfrentamento dos preconceitos,
estigmas e estereótipos seria possível a promoção de uma
inclusão social das pessoas com deficiência, capaz de criar
raízes, ampliar-se e desenvolver-se com bases para
solidificações que evitem possíveis retrocessos.
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91Cadernos de Pesquisa do CDHIS — n. 40 — ano 22 — p. 91-101 — 1º sem. 2009
Introdução
“Para que o acontecimento mais banal se torne uma
aventura, é necessário e suficiente que o narremos.”
Jean Paul Sartre
O historiador Marc Ferro, no clássico Cinema e
história, expõe que um filme diz mais sobre o momento
em que foi produzido que o momento ao qual objetiva
retratar.1 Além disso, nos diz que “todo filme tem uma
história que é História”.2 É com base nesta reflexão que
buscamos discutir, através do entrecruzamento de dois
temas, violência e gênero, o complexo problema da
questão agrária no Brasil. Para isso, esboçaremos uma
análise histórica do filme Terra para Rose, atentando
para a conjuntura de sua produção e a construção de
sua narrativa focada na figura de uma mulher: Rose.
O documentário Terra para Rose foi dirigido pela
cineasta Tetê Moraes. No que diz respeito à parte técnica,
roteiro e texto, tem a assinatura de José Joffily e Tetê
Moraes e a fotografia foi feita por Walter Carvalho e
Fernando Duarte. A película é um longa-metragem com
duração de 84 minutos e é pertencente ao gênero
documentário. Sua filmagem foi iniciada e terminada
no ano de 1987 (em apenas seis meses). Trata-se de um
filme que contou com pouquíssimo apoio financeiro.
Além dessas informações iniciais, é importante apontar
que o filme ganhou doze prêmios em festivaisde cinema
nacionais e internacionais. No entanto, não foi um filme
“acolhido” pelo grande circuito cinematográfico da
época, estando restrito a espaços culturais mais alter-
nativos e a um público específico — os interessados em
problemáticas sociais da época.
Quanto ao tema principal, aborda a questão da
Reforma Agrária no Brasil, principalmente no período
pós-regime militar, denominado Nova República. Mas
muitas outras temáticas são privilegiadas, sendo tra-
balhadas, ou mesmo apontadas, dentre elas: a questão
O cinema como registro.
Cenas de violência e gênero
no documentário brasileiro*
Renata Soares da Costa Santos
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da Cultura na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
Bolsista do CNPq. E-mail: renatadahistoria@yahoo.com.br
Resumo
O artigo busca discutir, através do entrecruzamento de
dois temas, violência e gênero, o complexo problema da
questão agrária no Brasil. Para isso, esboçaremos uma
análise histórica do filme Terra para Rose, atentando para
a conjuntura de sua produção e a construção de sua
narrativa focada na figura de uma mulher: Rose.
Palavras-chave: Cinema. Violência. Gênero. Reforma
Agrária.
Abstract
This article aims to discuss, through the interweaving of
two themes, violence and gender, the complex problem of
agrarian issue in Brazil. To do so, we will make a historical
analysis of the film “Terra para Rose”, paying attention to
the situation of their production and the construction of
its narrative focus on the figure of a woman: Rose.
Keywords: Movie. Violence. Gender. Land reform.
* Este artigo é parte do trabalho de conclusão de Pós-Graduação Latu senso em Ensino de História e Ciências Sociais apresentado na
Universidade Federal Fluminense.
1 Ferro, Marc. Cinema e História. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
2 Ibidem, p.17.
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de gênero; violência; saúde; educação; fome; religião;
solidariedade e outras. No caso deste artigo, a primeira
temática enumerada, a questão de gênero, terá uma
atenção particular, pois será uma espécie de fio condutor
para compreendermos os nódulos da problemática do
filme e seu momento histórico.
A protagonista e os protagonistas
Partindo da história verídica de Rose, uma agricultora
sem-terra, a proposta do documentário é retratar o caso
específico da ocupação da fazenda Annoni, localizada
no estado do Rio Grande do Sul. Esta ocupação foi re-
alizada por 1.500 famílias de sem-terras e foi considerada
a primeira grande ocupação de uma extensa área im-
produtiva. Neste contexto, é enfatizado e memorializado
o início de atuação de um dos mais importantes e po-
lêmicos movimentos sociais do Brasil ainda hoje, o Movi-
mento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) 3.
A diretora entrecruza as possibilidades de abordar
uma discussão macro (nacional) associada a uma dis-
cussão cotidiana dos indivíduos que participaram de uma
ocupação específica (a da Fazenda Annoni).
A autora e diretora enfatiza a história de Rose, embora
não deixe de privilegiar a vida de outras famílias que
fizeram parte diretamente deste momento histórico.
Acreditamos que a cineasta Tetê Moraes, assim como
outros documentaristas atuantes neste período de aber-
tura política, utilizou este tipo de abordagem e dedicou-
se a costurar junto a uma problemática ampla, “tramas
aparentemente banais, envolvendo gente comum”.4 O
que significa dar valor ao ponto-de-vista e às experiên-
cias da vida cotidiana5 de indivíduos comuns, acreditando
na importância de seus discursos para a construção do
registro histórico.
Gênero — uma escolha narrativa
Podemos refletir sobre o sentido político da escolha
da diretora ao escolher sua protagonista. Tetê Moraes,
antes de filmar Terra para Rose, tinha um projeto de
filmar o cotidiano de mulheres brasileiras, mas abriu mão
ao ter notícias dos conflitos de ocupação da fazenda
Annoni. Isto nos demonstra que a diretora já se in-
quietava com as questões de gênero anteriormente às
filmagens, e atribuímos a esta inquietação o fato de ter
optado por uma ênfase no cotidiano feminino no decorrer
do documentário e até mesmo ter escolhido uma mulher
para “protagonizar” o filme. No entanto, não podemos
afirmar que existiam relações diretas entre a cineasta e
o movimento feminista, mas, que existia indiretamente,
não nos resta muitas dúvidas.
A escolha de Rose para “protagonizar” o filme vem a
representar um aspecto simbólico, que tentaremos expor
cuidadosamente. Rose deu à luz em 1985 à primeira
criança nascida no acampamento da fazenda Annoni,
Marcos Tiaraju, criança retratada em diversos momentos
do filme como um símbolo de vida e de esperança. Mas
não pensamos que a escola de Rose tenha sido apenas
pelo aspecto simbólico. Tendemos a lembrar da fala de
Tetê Moraes, em entrevistas presentes no DVD do filme,
enfatizando a forma ativa de Rose e seu envolvimento
nas discussões. De acordo com o olhar da diretora, Rose,
além de ser uma mulher6, participativa efetivamente no
movimento e nos protestos.
Rose, a “protagonista” do filme, no ano de 1987,
morreu em um acidente que gerou polêmica naquele
momento. Ela foi atropelada, juntamente com outros
três acampados, por um caminhão próximo à entrada
do acampamento (onde estava sendo realizada uma
manifestação). O motorista fugiu, deixando vários fe-
3 O Movimento foi criado em 1984 em um Encontro em Cascavel, no Paraná, com lideranças desse estado, do Rio Grande do Sul,
Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul — com colonos que se haviam transferido da região Sul (os atingidos por barragens).
Segundo o historiador Mario Grynszpan, em 1985 foi realizado o Primeiro Congresso Nacional do MST de onde foram retiradas as
seguintes resoluções: extinção do Estatuto da Terra e edição de novas leis que levassem em conta a luta dos trabalhadores;
expropriação de terras em mãos de multinacionais; desapropriação de áreas superiores a 500 hectares; ocupação de terras
improdutivas ou públicas, adotando o lema “Ocupação é a única solução”. In: GRYNSZPAN, Mario. “A questão agrária no Brasil
pós-1964 e o MST”. Apud, O Brasil Republicano – O tempo da ditadura: regime militar e movimentos socias em fins do século XX /
organização Jorge Ferreira e Lucilia de Almeida Neves Delgado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p.337.
4 VAINFAS, Ronaldo. Os protagonistas anônimos da história: micro-história. Rio de Janeiro: Campus, 2002, p.106-115.
5 Estamos trabalhando com o conceito de vida cotidiana formulado por Agnes Heller. De acordo com a autora, “A vida cotidiana é a
vida do homem inteiro; ou seja, o homem participa na vida cotidiana em todos os aspectos de sua individualidade, de sua
personalidade. Nela, colocam-se ‘em funcionamento’ todos os seus sentidos, todas as suas capacidades intelectuais, suas habilidades
manipulativas, seus sentimentos, paixões, idéias, ideologias. O fato de que todas as suas capacidades se coloquem em funcionamento
determina também naturalmente, que nenhuma delas possa realizar-se, nem de longe, em toda sua intensidade”. In: HELLER,
Agnes. O Cotidiano e a História. São Paulo: Paz e Terra, 2004, p.17.
6 Devemos levar em consideração que o final do regime militar foi marcado por grandes pressões dos movimentos sociais (rurais e
urbanos), dentre eles, o surgimento da imprensa alternativa, onde passou a veicular os ideais de diversos movimentos: feminista,
gay, negro, etc.
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ridos no local. Segundo a empresa responsável pelo
caminhão, o veículo perdeu a direção e teve problemas
com o freio, que não funcionou. No entanto, após a
perícia feita comtécnicos da Ford de São Paulo, foi
constatado que o veículo estava em perfeito estado e não
apresentava nenhum defeito nos três sistemas de freios.
O caso, ainda que tenha ganhado repercussão na mídia,
não obteve maiores averiguações. Segundo o relato do
filme, o processo na justiça ainda estava em aberto até o
término das filmagens.
Um filme é uma montagem
Acreditamos que as escolhas da diretora ao realizar
a montagem do filme é fruto de sua sensibilidade inicial,
mas também de uma estratégia para construir os
argumentos da película. Com relação à definição de
montagem, Rosália Duarte nos diz que
Entendida em um sentido amplo, a montagem é a
ordem em que os planos se sucedem em uma seqüência
temporal, assim como a forma como os elementos que
compõem um mesmo plano são apresentados — si-
multânea ou sucessivamente. Colocadas juntas, as
imagens se unem em uma nova idéia; estendemos fios
invisíveis entre elas, de modo que façam sentido para
nós. O cinema soube disso desde o início e se utiliza da
montagem para sugerir essas ligações.7
Consideramos que o som é um elemento funda-
mental na composição de um filme e que, em geral, é
utilizado para ampliar o estado emocional para reforçar
as emoções que se espera de determinadas cenas. Assim,
com referência à trilha sonora de Terra para Rose,
podemos observar a presença de músicas que nos con-
duzem a uma sensibilização do tema discutido. Trata-se
de músicas instrumentais; de hinos e cantorias dos
próprios sem-terra (enfatizando a realidade em que vivem
e quais os seus objetivos); de hinos da igreja católica —
como sabemos, alguns segmentos da instituição tiveram
papel de destaque neste período histórico em defesa da
causa da realização da Reforma Agrária.
A trilha sonora que predominou no filme foi a Nona
Sinfonia de Beethoven — a que se refere a todos os
homens como irmãos. Neste sentido, a escolha da
sonoplastia está em harmonia com o objetivo do filme,
pois articula as causas que o movimento defende e a
questão ampla da solidariedade. Com relação à
solidariedade, nos diz João Pedro Stédile:
Essa solidariedade deve ocorrer em coisas práticas,
como por exemplo estabelecer um banco de doadores
de sangue para os hospitais públicos das cidades pró-
ximas aos assentamentos. Devemos ser os primeiros
voluntários a prestar ajuda em casos de catástrofes
naturais, como enchentes, temporais, secas, etc. os
assentamentos devem fazer brigadas de solidariedade
para atender esses casos.8
De forma geral, as cenas do filme transitam entre o
cotidiano do acampamento da Fazenda Annoni;
entrevista com os sem-terra; com o proprietário da
Fazenda Annoni e ministros, deputados, padres,
intelectuais e artistas; cenas televisivas; passeata para
pressionar o governo a realizar um projeto de Reforma
Agrária e sua concretização; e a notoriedade midiática e
a solidariedade por parte da população, conquistadas pela
visibilidade do movimento e da causa em questão.
Neste âmbito, consideramos que o documentário
apresenta um importante diálogo entre as opiniões
divergentes do movimento dos acampados na fazenda,
colocando em cena os discursos de autoridades e do dono
da fazenda. Ao contrapor estas entrevistas, o filme
direciona o nosso olhar, na medida em que mostra os
depoimentos dos sem-terra sempre de forma engajada
enquanto as cenas mostradas do fazendeiro são inex-
pressivas e vacilantes (como se o fazendeiro não tivesse
argumentos ou estivesse nervoso). Assim, o docu-
mentário confere legitimidade ao discurso dos sem-terra
através das estratégias de edição e montagem — não
podemos esquecer que as imagens são selecionadas e
editadas, logo, estão, até certo ponto, indissociadas da
singularidade fílmica (de quem produz e por que produz).
Comentar Terra para Rose
— uma tarefa árdua
Partimos do princípio de que comentar um filme
através do olhar do historiador não é uma tarefa fácil.
Portanto, como nosso objeto de análise é um filme da
7 DUARTE, Rosália. Cinema e Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2002, p.50.
8 STÉDILE, João Pedro e FERNANDES, Bernardo Mançano. Brava Gente: A trajetória do MST e a luta pela terra no Brasil. São Paulo:
Editora Fundação Perseu Abramo, 2001, p.123.
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década de 1980, atribuímos grande atenção às palavras
de alerta da historiadora Ana Maria Mauad em análise
ao filme Bye, Bye Brasil: “sendo um filme recente, corre-
se o perigo de cair nas armadilhas do devaneio, ou até
mesmo do impressionismo de uma pseudocrítica cine-
matográfica”.9
No entanto, ainda que correndo o risco, não podemos
nos privar de assumir o papel de historiador que age não
apenas enquanto cientista, mas também como artista10.
Isto significa que devemos assumir a tarefa de realizar a
narrativa fílmica e que devemos constatar as diferentes
formas que esta narrativa pode vir a assumir — o que
está intrinsecamente ligado aos ideais dos indivíduos que
se propõem a realizar tal tarefa. Para assumir esta em-
preitada de narrar um filme, pautamo-nos na concepção
de narração de Mariza de Carvalho Soares:
A forma narrativa, segundo a concebo, diz respeito
ao modo como o filme apresenta uma determinada
temática, envolvendo aí o gênero (ficção ou documen-
tário, por exemplo), o tratamento dado à fotografia, o
ritmo da narrativa, a música, o tempo de duração, o
tratamento dado à cronologia e até mesmo a opção entre
película e fita magnética.11
A partir desta exposição, julgamos que podemos
iniciar a análise de nossa fonte/documento/testemunho
histórico. Seguiremos os conselhos de Marc Ferro ao nos
incentivar a “Partir da Imagem”, mas não deixar de fazer
uso de outros saberes, sempre que necessário12, para
enriquecer e aprofundar o estudo minucioso do do-
cumento. Assim, tentaremos identificar no filme Terra
para Rose elementos que possam nos ajudar a com-
preender a conjuntura da década de 1980, especialmente
no que diz respeito à Questão Agrária.
Para realizar de forma lúdica esta análise, dividiremos
a observação em sub-tópicos, correspondentes à própria
“organização” do filme, marcados pelas seguintes
separações: A promessa; A pressão; A espera; O con-
fronto; O Sonho; A Trégua. Logo, faremos a análise
buscando levantar as principais problemáticas abordadas
em cada um dos “quadros narrativos”.13
A primeira cena do filme apresenta seus protagonistas
em passeata cantando. Rose aparece com seu filho no
colo junto a inúmeros outros indivíduos sem-terra. A
cena é musicada apenas pela cantoria dos manifestantes.
Em seguida, os manifestantes encontram-se organizados
em torno de uma grande faixa (não muito legível) onde
aparentemente está escrito “CAMINHADA PELA PAZ”.
Juntos cantam o hino nacional. Neste momento, obser-
vamos no filme uma primeira mudança brusca de cena14
que dará início ao nosso primeiro recorte textual.
A promessa
A câmera focaliza a bandeira nacional enfatizando o
seu escrito Ordem e Progresso. Ao fundo, uma melodia
instrumental do hino nacional e uma narrativa com
sucessão de dados estatísticos:
Brasil: 8.5000.000 Km2, 140 milhões de habitantes,
8ª economia do mundo capitalista, 5º exportador de
armas, estrutura fundiária arcaica. Dos 4.500.000 de
proprietários rurais, apenas 170 mil são donos de quase
metade da área agrícola do país e contribuem só com
16% da produção agropecuária do Brasil. Há pelo
menos 12 milhões de famílias de trabalhadores rurais
sem terra. Foram assassinados mais de mil camponeses
nos últimos 20 anos. Entre 1970 e 1980, 24 milhões de
brasileiros migraram do campo para as cidades. Esse
quadro é de tal forma absurdo que hoje em dia quase
praticamente

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