Prévia do material em texto
UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ FACULDADE DE FARMÁCIA, ODONTOLOGIA E ENFERMAGEM (FFOE) DEPARTAMENTO DE FARMÁCIA DISCIPLINA: INTEGRAÇÃO À PRÁTICA FARMACÊUTICA I RESPONSÁVEL: CLÉBER DOMINGOS CUNHA DA SILVA, EdD FORTALEZA, 2018 BRASIL MÓDULO I UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem (FFOE) Departamento de Farmácia Disciplina: Integração à Prática Farmacêutica I PLANO DA DISCIPLINA – PERÍODO: 2018.1 Horário: Segundas e Quintas-feiras (14:00 as 18hs) Dados de Identificação: Código da disciplina: SI0243 Nº de Créditos: 08 Carga Horária Total: 128 Professor: Cléber Domingos Cunha da Silva, EdD (e-mail: cleberdomingos@ufc.br) 1 – Objetivo Geral: Colaborar na integração do discente com a Universidade, a Faculdade e ao Curso de Farmácia e, posteriormente, aos serviços básicos de saúde dentro de uma visão multidisciplinar. Habilitar o aluno para a formação de um profissional consciente dos seus deveres sociais, no âmbito da Profissão Farmacêutica. 2 – Calendário de encontros e respectivos conteúdos 26/02 – Módulo I (Deontologia farmacêutica): Evolução histórica da profissão farmacêutica. Formação de equipes de pesquisa. Sorteio de temáticas dos seminários (CH: 04) 01/03 – Noções básicas de moral e ética (CH: 08) 05/03 – Código de ética da profissão farmacêutica (CH: 12) 08/03 – Escrevendo introdução, justificativas e objetivos (CH: 16) 12/03 – A profissão farmacêutica na atenção primária da saúde (CH: 20) 15/03 – A profissão farmacêutica em áreas especializadas (CH: 24) 19/03 – Feriado Estadual 22/03 – Encontro com a docência (assistência monitoria) (CH: 28) 26/03 – Avaliação do Módulo I e entrega da Parte I do seminário (CH: 32) 29/03 – Feriando Nacional 02/04 – Módulo II (Sociologia e antropologia da saúde): corpo e sociedade (CH: 36) 05/04 – Concepções culturais sobre o corpo, doença e cuidado (CH: 40) 09/04 – O nascimento da medicina social: corpo, indivíduo e população (CH: 44) 12/04 – Cultura e Medicalização. Pluralismo na Assistência à Saúde (CH: 48) 16/04 – Fundamentos de revisão bibliográfica: construção do corpo teórico (CH: 52) 19/04 – Visita técnica a um espaço social (CH: 56) 23/04 – Revisitando o aprendizado: encontro com o docente (CH: 60) 26/04 – Avaliação do Módulo II e entrega da Parte II do seminário (CH: 64) 30/04 – Módulo III: conceitos e fundamentos de bioestatística (CH: 68) 03/05 – Tipos de estudos epidemiológicos (CH: 72) 07/05 – Variáveis e levantamento de dados. Amostras, amostragem (CH: 76) Integração à Prática Farmacêutica I 1 10/05 – Jornada de Farmácia (CH: 80) 14/05 – Noções sobre Material e métodos (CH: 84) 17/05 – Resolução de exercícios (CH: 88) 21/05 – Revisitando o aprendizado: encontro com o docente (CH: 92) 24/05 – Avaliação do Módulo III e entrega da Parte III do seminário (CH: 96) 28/05 – Módulo IV: Métodos e técnicas em pesquisa (CH: 100) 31/05 – Feriado Nacional 04/06 – Noções Gerais sobre Pesquisa Científica (CH: 104) 07/06 – Do Problema à Hipótese – problema e problemática e construção do objeto (CH: 108) 11/06 – Da Hipótese à Conclusão – estratégias de pesquisa e métodos de análise (CH: 112) 14/06 – Informática em saúde: introdução ao Epi-info (CH: 116) 18/06 – Revisitando o aprendizado: encontro com o docente (CH: 120) 21/06 – Apresentação das propostas de pesquisa (Avaliação do Módulo IV) (CH: 124) 25/06 – Avaliação Final (CH: 128) 3 – Avaliação: A avaliação do aluno será processual, sintetizada em nota de avaliação final constituída pela aplicação de 04 (quatro) avaliações parciais modulares (AP) - (nota – 0 a 10 pontos) A nota final da disciplina parte da média obtida pela média aritmética das notas obtidas nas APs. O estudante que obtiver média final inferior a 7,0 (sete) deverá submeter-se à Avaliação Final. 4 – Bibliografia Recomendada: ARANGO, H G. BIOESTATÍSTICA – Teórica e Computacional. 3ª ed – Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2009; VIEIRA, Sônia - Introdução à Bioestatística. Ed. Campus, RJ HELMAN, C.G. – Cultura, Saúde e Doença. Porto Alegre: Artes Médicas, 2009; VICTORA, C. G.; KNAUTH, D.R.; HASSEN, M. N. A. Pesquisa Qualitativa em saúde. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2000. ILLICH, I. A expropriação da saúde. Editora Nova Fronteira. 1975; CANGUILHEM, G. O Normal e o Patológico. 6.ed. rev. - Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009; ANDRADE, J.T.; MELLO, M.L.; HOLANDA, V.M.S. Saúde e cultura: diversidades terapêuticas e religiosas. Editora UECE. 1a Edição. Fortaleza – CE. 2015; KAUARK, F.; MANHÃES, F.C.; MEDEIROS, C.H. Metodologia da pesquisa: guia prático. Itabuna. Via Litterarum, 2010; BRASIL. Conselho Federal de Farmácia. A organização jurídica da profissão farmacêutica. Brasília, 2003; ZUBIOLI, Arnaldo. Etica farmacêutica. São Paulo: Sociedade Brasileira de Vigilância de Medicamentos, 2004. Integração à Prática Farmacêutica I 2 Rev. Bras. Farm. 92(4): 245-252, 2011 245 Pereira & Nascimento ARTIGO DE REVISÃO / REVIEW Das boticas aos cuidados farmacêuticos: perspectivas do profissional farmacêutico From the apothecary to pharmaceutical care: perspectives of the pharmacist Recebido em 29/10/2011 Aceito em 22/11/2011 Mariana Linhares Pereira1* & Mariana Martins Gonzaga do Nascimento2 1Curso de Farmácia, Campus Centro-Oeste Dona Lindu, Universidade Federal de São João del-Rei (CCO-UFSJ), Av. Sebastião Gonçalves Coelho, 400, Chanadour, CEP 35501-296, Divinópolis, MG, Brasil 2Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, CCO-UFSJ RESUMO O presente estudo apresenta um histórico da farmácia e do perfil do farmacêutico e sua evolução ao longo dos anos até a consolidação da prática da Atenção Farmacêutica e o surgimento de novas demandas sociais para a profissão. Palavras–chave: farmácia, história, atenção farmacêutica ABSTRACT This study presents a historic about pharmacy and the pharmacist and its evolution throughout the years until the pharmaceutical care practice consolidation and the birth of new social demands to the profession. Keywords: Pharmacy, history, pharmaceutical care INTRODUÇÃO Os primórdios da profissão farmacêutica não são conhecidos. Pode-se apenas especular sobre os primeiros indivíduos interessados em produzir e dispensar medicamentos (Deno et al., 1959). Por outro lado, sabe-se que, desde o início da história do homem, as doenças já existiam e, com elas, surge a procura pela cura (Burlage et al., 1944; Rising, 1959). Tendo isto em vista, esse trabalho apresenta um breve histórico da profissão farmacêutica e os passos que levaram ao desenvolvimento dos Cuidados Farmacêuticos, enfatizando sua importância no contexto social, suas características e o método de trabalho que permite a sua realização. O presente estudo tem por objetivo contextualizar histórica e socialmente o surgimento da prática dos Cuidados Farmacêuticos e expor seus princípios metodológicos e filosóficos. MATERIAL E MÉTODOS Trata-se de uma revisão histórica não sistemática da literatura sobre a profissão farmacêutica realizada com base em consultas a livros, monografias, teses e documen- tos com foco histórico na evolução desta profissão. Para a busca, foram utilizadas as seguintes palavras-chave: ‘profissão farmacêutica’, ‘evolução da farmácia’ e ‘cursos de farmácia no Brasil’ na base de dados da biblioteca da Faculdade de Farmácia da UFMG. Em paralelo, foi realizada uma busca por documentos acerca do surgimento, características metodológicas e filosóficas dos Cuidados Farmacêuticos. Para tal, consultou-se livros-texto sobre o tema e realizou-se uma busca por referências na biblioteca Medline com os seguintes unitermos:‘pharmaceutical care’, ‘patient care process’, ‘drug therapy problems’. Foram selecionados os materiais publicados em português, inglês e espanhol. RESULTADOS E DISCUSSÃO Historiadores indicam que a medicina moderna se originou na Grécia, sendo que o nome boticário, ou apotecário, deriva-se do grego apothéke, denominação conferida à uma pequena caixa em que eram guardados os remédios que os médicos gregos antigos traziam sempre * Contato: Mariana Linhares Pereira, Curso de Farmácia, CCO-UFSJ, Av. Sebastião Gonçalves Coelho, 400, Chanadour, 35501-296, Divinópolis, MG, Brasil, e-mail: marianapereira@ufsj.edu.br Rev. Bras. Farm. 92(4): 245-252, 2011 246 Pereira & Nascimento consigo quando visitavam seus doentes (Gomes-Júnior, 1988). Mas, já no Egito, a divindade Anepu, o boticário dos deuses, tinha muita importância, sendo o guardião da casa de medicamentos e do quarto de bálsamos, além de preparador das prescrições dos deuses. As prescrições na antiguidade eram poucas e simples e eram os médicos que preparavam e dispensavam os seus próprios compostos, preparações cercadas de muito mistério e feitas de acordo com ritos supersticiosos (Burlage et al., 1944; Rising, 1959). Ainda na antiguidade, depois da divisão do império de Alexandre, o Grande, surgiu a chamada escola de Alexandria e nessa cidade formou-se um centro intelectual onde floresceu a escola dogmática e, sucessivamente, a escola empírica, no século 3 a.C.. Essa última tinha, por fundamento, o estudo experimental dos medicamentos. Nessa época surgiu, pela primeira vez, a divisão entre médicos, cirurgiões, raizeiros e farmacópolos, que eram aqueles que preparavam remédios compostos. A partir de então, as fórmulas mais complexas começaram a ser apreciadas, chegando a conter 54 ingredientes. Elas serviram de ponto de partida para a polifarmácia (Burlage et al., 1944; Rising, 1959; Gomes-Júnior, 1988). Até o século XI, ensinava-se farmácia como parte do estudo da medicina. A primeira referência que se tem separando a farmácia da medicina data de 1240, quando foi escrita a magna carta da profissão farmacêutica, por Frederico II, imperador romano, criando a farmácia como uma profissão independente. O argumento era "o fato da prática da farmácia requerer conhecimento, habilidades, iniciativas e responsabilidades especiais, com o objetivo de garantir um cuidado adequado às necessidades medicamentosas das pessoas". Depois de Roma, essa regulamentação ocorreu em vários outros locais. Em virtude dessa separação, criaram-se três classes profissionais distintas: médicos, cirurgiões e boticários (Burlage et al., 1944; Rising, 1959; Gomes-Júnior, 1988). Com a descoberta da América, a farmácia dos séculos XVI e XVII tomou grande impulso, e drogas novas, tais como a quina, a ipecacuanha, o café e o cacau, foram introduzidos na terapêutica. No Brasil, nos tempos coloniais, os boticários, que eram na verdade “curandeiros ambulantes”, percorriam as populações montados em burros mascateando remédios e drogas para doenças humanas e animais (Gomes-Júnior, 1988). Os jesuítas também instituíram enfermarias e boticas para prestar assistência em seus colégios, colocando um “irmão” para cuidar dos doentes e outro para preparar remédios. Em São Paulo, o irmão que preparava os remédios era José de Anchieta, por isso podemos considerá-lo o primeiro boticário de Piratininga (Gomes-Júnior, 1988). No Brasil, as boticas só foram autorizadas como comércio em 1640, e a partir deste ano, elas se multiplicaram de norte a sul, e devido à facilidade de abertura, muitos o faziam, principalmente, devido à expectativa de bons lucros com o negócio. Consistiam de casas comerciais ou lojas onde o público se abastecia de remédios. Eram dirigidas por boticários, que nada mais eram que profissionais empíricos, às vezes analfabetos, possuindo apenas conhecimento de medicamentos corriqueiros e possuindo uma carta de aprovação do físico- mor de Coimbra. Botica também era a denominação do compartimento existente nos hospitais, civis e militares, destinado ao preparo e à administração de medicamentos aos doentes internados (Gomes-Júnior, 1988; Filho & Batista, 2011). O ensino de farmácia brasileiro só se iniciou em 1824, como uma cadeira da escola de medicina. Depois, em 1839, em Minas Gerais, foram criadas duas escolas de farmácia, uma em Ouro Preto (então capital da província de Minas Gerais) e outra em São João del Rey (que havia sido elevada do status de vila para cidade no ano anterior). Porém, apesar das diversas instituições de ensino de farmácia distribuídas pelo país, no século XIX, a passagem do comércio de botica para farmácia, com um farmacêutico formado em sua direção, não foi nada fácil. Os farmacêuticos e boticários tinham pouca diferença para a maioria da população e para os legisladores, e o farmacêutico só toma seu espaço exclusivo na produção de medicamentos definitivamente depois de 1886 após diversas batalhas. Já no início do século 20, o farmacêutico tornou-se o profissional de referência para a sociedade nos aspectos do medicamento, dominando não só a prestação de um serviço que visava a “correta utilização do medicamento”, mas também a produção e comercialização d o arsenal terapêutico disponível na época (Valladão et al., 1986). A farmácia também passou a ser um centro de irradiação cultural de destacada importância, congregando não somente indivíduos que buscavam remédios, mas também os demais que procuravam novidades e notícias do mundo quando eram escassos os meios de comunicação dos acontecimentos político-sociais (Gomes-Júnior, 1988). A partir da segunda metade da década de 30, no entanto, com a expansão da indústria farmacêutica, os preparados magistrais foram quase inteiramente substituídos pelas especialidades, ou seja, medicamentos preparados industrialmente com antecedência e apresentados sob uma embalagem particular. Em conseqüência, o papel de "fazer" [o medicamento], pelo qual o farmacêutico era tradicionalmente conhecido, desapareceu quase que por completo. O modelo de prática predominante na farmácia comunitária passou a ser a orientação e dispensação farmacêutica (Dupuy & Karsenty, 1974; Reis, 2003; Filho & Batista, 2011). Esse processo transformou as ações que aproximavam o farmacêutico do médico e de seus clientes em atos vazios de um sentido transcendente às relações comerciais. De farmacêutico a responsável técnico, de liberal a assalariado, eis a trajetória do profissional no âmbito da farmácia propriamente dita, marcada por uma redução na dimensão técnica e social do seu trabalho e um ampliar na dimensão burocrática e comercial. Esta burocratização da profissão é relatada por formandos entrevistados no estudo de Valladão (1981): "hoje em dia, eu só assino documentos". Frente a essa situação, pode-se atestar: “a farmácia é uma combinação exclusiva de profissão e negócios”(Deno et al., 1959). O apelo comercial também é explícito nas publicações que circulavam no meio farmacêutico da época, como o Manual del farmacêutico (publicado em inglês e espanhol) que trazia vários artigos sobre como Rev. Bras. Farm. 92(4): 245-252, 2011 247 Pereira & Nascimento estimular as vendas (Fontoura, 1936). O meio acadêmico também refletia esta etapa de transição na profissão farmacêutica, que se diversificava em busca de outros mercados profissionais. Dessa forma, reestruturações curriculares não tinham foco em uma determinada temática integradora, mas sim na incorporação desconexa de uma grande diversidade de conteúdos e disciplinas (Valladão, 1981). Nesse processo, o farmacêutico “adjetivou-se” e seu título passou a vir acompanhado de identificadores das atribuições conquistadas:farmacêutico-bioquímico, farmacêutico- analista clínico, farmacêutico-industrial, farmacêutico de alimentos (Perini, 1997). No Brasil, especificamente, o farmacêutico enveredou-se, sobretudo, pelos caminhos da bioquímica. Estudos realizados na década de 70 mostravam que, em média, 70% dos profissionais atuavam nessa área, sendo que a maioria deles atuava simultaneamente em farmácias de dispensação, considerando essa uma atividade secundária (Valladão, 1981; Perini, 1997). Hoje, o farmacêutico se ressente da falta de preparo nas faculdades para o exercício na farmácia comunitária e seu afastamento dessa área de atividade, que lhe deveria ser exclusiva. Ele se envolve com questões administrativas e perde sua fixação no serviço comunitário, deixando de participar dos problemas sanitários e in (Gomes-Júnior, 1988; Perini, 1997). A profissão de farmacêutico se aproximou de modo sensível(...) da profissão de comerciante. Instalemo-nos em uma grande farmácia da zona urbana e veremos (...) os clientes desfilarem quase sem interrupção. A maior parte apresentou uma receita para a pessoa de bata branca que está atrás do balcão, a qual se limita a ir buscar os produtos prescritos no armário, repete a posologia indicada pelo médico, embrulha as embalagens em um saco de papel e as fatura. Poucas palavras são trocadas. Às vezes, alguém (...) se apresenta sem receita. Mesmo nestes casos, a troca de palavras revela-se quase sempre sumária; (...) Na maior parte do tempo, o papel do farmacêutico é, pois, o de um simples distribuidor (Dupuy & Karsenty, 1974). Diante disso, (...)o farmacêutico é, em geral, uma pessoa que se aborrece na sua profissão. (...)o exercício cotidiano da profissão raramente lhe proporciona esse tipo de satisfação, e ele sente profundamente o fato de que os seus cinco anos de formação são muito mal rentabilizados (Dupuy & Karsenty, 1974). Paralelamente à falta de preparo dos profissionais para o exercício das atividades na farmácia comunitária e seu distanciamento dos problemas sanitários e sociais, a partir da década de 70 e 80, com o crescente aumento da expectativa de vida ao nascer e o conseqüente envelhecimento da população, cresce também a prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, as quais demandam uma utilização mais prolongada de um número maior de medicamentos para seu tratamento. O consumo de medicamentos também é impulsionado pela persistência e recrudescimento de doenças infecto- parasitárias já conhecidas e surgimento outras, o aumento do número de medicamentos disponíveis no mercado e propagandas, que representam um fator essencial ao uso irracional e desnecessário de medicamentos, além de estímulo à automedicação (Dupuy & Karsenty, 1974; Barros, 1995; Peretta & Ciccia, 2000; Dáder, 2001; Brasil, 2002; Nascimento, 2003; Perini, 2003). Os medicamentos constituem, hoje, a principal arma terapêutica usada, e o objetivo da sua utilização é melhorar a qualidade de vida dos pacientes, curando, retardando o progresso ou tratando sintomas das doenças (Dáder, 2001). No entanto, medicamentos também podem falhar, causando problemas de efetividade (não atingem objetivos terapêuticos) e/ou segurança (reações adversas a medicamentos ou toxicidade) (Funchal-Witzel et al., 2011). Assim, a utilização maciça, e muitas vezes inadequada desses medicamentos, faz com que o risco das ocorrências dos Problemas Farmacoterapêuticos (PFT) aumente. Estudos mostram que 50% dos pacientes que entram na farmácia comunitária, em qualquer lugar do mundo, possuem pelo menos um PFT que precisa ser identificado e resolvido (Simpson, 1997; Peretta & Ciccia, 2000). Porém, é importante salientar que os problemas não são inerentes aos medicamentos, mas à maneira como são prescritos, dispensados e usados pelos pacientes. Esse mau uso e suas conseqüências sanitárias, sociais e econômicas representam hoje um problema sanitário de enorme magnitude (Hepler & Strand, 1990; Barros, 1995; Peretta & Ciccia, 2000; Dáder, 2001; Nascimento, 2003; Perini, 2003). Foi demostrado que menos de 60% dos pacientes que estavam recebendo tratamento medicamentoso não apresentavam PFT, e que cerca de 28% das admissões hospitalares são resultados de morbidade e mortalidade relacionadas ao uso de medicamentos (Johnson & Bootman, 1995). No Brasil, não existem estudos sobre a morbimortalidade relacionada ao uso de medicamentos, apenas levantamentos sobre intoxicação medicamentosa, sendo que os medicamentos ocupam a primeira posição entre os três principais agentes causadores de intoxicações em seres humanos desde 1996 (Brasil, 2009). Sabendo-se que a prevalência e os custos da morbidade e mortalidade relacionada a medicamentos são de grande relevância e que a redução desses índices têm um impacto positivo na qualidade de vida do paciente, na segurança do sistema de saúde e na eficiência no uso dos recursos, pergunta-se, então: por que a sociedade dedica tantos esforços científicos e econômicos para pesquisar, desenvolver, fabricar, prescrever, indicar e dispensar medicamentos enquanto os serviços sanitários responsáveis por controlar, orientar e educar sobre sua utilização são ainda tão incipientes (Dáder, 2001; Reis, 2003)? Além deste panorama preocupante de utilização de medicamentos, à medida que acontecem os avanços do conhecimento científico, o paciente é cada vez mais visualizado como um ser fragmentado, sendo que toda a lógica diagnóstica e terapêutica privilegia a visão das partes em detrimento do todo (Barros, 1995). Ao lado Rev. Bras. Farm. 92(4): 245-252, 2011 248 Pereira & Nascimento disso, nem sempre é possível ao profissional de saúde manter um histórico médico detalhado e completo de cada paciente. Dessa forma, pode ocorrer ao paciente ser atendido por um médico diferente a cada consulta, além de acumular um especialista para cada sintoma. A relação médico-paciente, já prejudicada pelas diferenças de vocabulário, de nível cultural, e de representações do processo saúde-doença, fica ainda mais dificultada pela estrutura de organização dos serviços (Nascimento, 2003). Assim, o que se tem observado, é uma fragmentação na gestão e operacionalização da saúde, com vários setores e profissionais atuando de maneira desarticulada (Acurcio, 2003). Dentro deste cenário, se manifesta a necessidade de buscar racionalidade no uso de medicamentos (Peretta & Ciccia, 2000; Nascimento, 2003). A solução desse problema perpassaria por um melhor controle da farmacoterapia, com oferecimento de alternativas que ofereçam uma melhor relação custo-benefício, considerem cada paciente como um indivíduo, evitem o aparecimento de PFT e proponham sua resolução com o objetivo de otimizar os tratamentos farmacológicos (Peretta & Ciccia, 2000; Nies & Spielberg, 1996). Motivado pelos fatores descritos e para atender essa demanda social, foi desenvolvida a prática dos Cuidados Farmacêuticos, difundidos no Brasil como Atenção Farmacêutica (Oliveira, 2003; Funchal-Witzel et al., 2011). Esse modelo foi criado para prevenir e resolver os PFT caracterizando-se, principalmente, por ser centrado no paciente e não no medicamento (Cipolle et al., 1998). A Atenção Farmacêutica pode contribuir decisivamente para a compreensão e para a adesão do usuário ao tratamento medicamentoso, aumentando sua efetividade, e incrementando a racionalidade no seu uso (Storpirtis et al., 2001; Acurcio, 2003; Cipolle et al., 2004). A expressão “Cuidados Farmacêuticos” foi empregada pela primeira vez por Brodie, em 1984. Entretanto, apenas em 1990 foi mais profundamente definida como "o fornecimento responsável de medicamentos com objetivo de atingir o resultado desejado, que levará a uma melhora naqualidade de vida do paciente" (Hepler & Strand, 1990). De acordo com Strand (1997), essa definição estava incompleta e hoje Atenção Farmacêutica é “a prática na qual o profissional se responsabiliza pelas necessidades relacionadas a medicamentos do paciente e responde por esse compromisso” (Simpson, 1997; Cipolle et al., 1998; Cipolle et al., 2004). Baseado nesse conceito e na definição da Organização Mundial de Saúde (OMS), o conjunto de atitudes, valores éticos, funções, conhecimentos, responsabilidades e habilidades do farmacêutico na prestação da farmacoterapia, com o objetivo de alcançar resultados terapêuticos definidos na saúde e qualidade de vida da população (OMS, 1993). o consenso brasileiro de Atenção Farmacêutica define: Atenção Farmacêutica é o modelo de prática farmacêutica, desenvolvida no contexto da assistência farmacêutica. Compreende atitudes, valores éticos, comportamentos, habilidades, compromissos e co- responsabilidades na prevenção de doenças, promoção e recuperação da saúde, de forma integrada à equipe de saúde. É a interação direta do farmacêutico com o usuário, visando uma farmacoterapia racional e a obtenção de resultados definidos mensuráveis voltados para a melhoria da qualidade de vida. Esta interação também deve envolver as concepções dos seus sujeitos, respeitadas as suas especificidades bio-psico-sociais sob a ótica da integralidade das ações de saúde (Brasil, 2002). Como pode ser percebido nessas definições, praticar Atenção Farmacêutica envolve grandes mudanças de filosofia profissional, de comportamento e de conceitos (Pereira, 2005). O primeiro questionamento a ser feito é portanto: porque o farmacêutico deve ser o profissional desta prática? Primeiramente, porque farmacêutico é o profissional de saúde com maior conhecimento sobre os medicamentos e seus efeitos no organismo humano, sendo tecnicamente preparado e capaz de precisar a posologia, de indicar as incompatibilidades eventuais com outras substâncias e retificar possíveis erros de memória de quem prescreveu (Dupuy & Karsenty, 1974). Combinando a esses conhecimentos, destaca-se a possibilidade de acesso que esse profissional tem a todos os medicamentos que o paciente utiliza e a sua proximidade com o público, sendo a dispensação o último elo entre a complexa cadeia de eventos envolvendo o medicamento e o paciente (Hepler & Strand, 1990; Dáder, 2001; Perini, 2003). Além disso, o farmacêutico vivencia uma crise de identidade profissional, com falta de reconhecimento social e pouca inserção na equipe de saúde. Esse profissional está precisando redefinir seu papel na sociedade e está na posição ideal para assumir o compromisso de ajudar o paciente a obter o melhor resultado possível de seu tratamento medicamentoso (Dupuy & Karsenty, 1974; Dáder, 2001; Brasil, 2002). No entanto, em uma oficina de trabalho promovida pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), a prática do farmacêutico foi caracterizada como sendo excessivamente tecnicista e incipiente na área clínica, existindo um descompasso entre a formação e as demandas dos serviços de atenção à saúde (OPAS, 2002). A prática tem priorizado as atividades administrativas, em detrimento da educação em saúde e da orientação sobre o uso de medicamentos, revelando-se desconectada das políticas de saúde e de medicamentos (Storpirtis et al., 2001; Brasil, 2002; Acurcio, 2003). Sendo assim, aceitar esse novo “mandato” significa ajustar o foco da profissão farmacêutica e aumentar o seu nível de responsabilidade frente aos usuários de medicamentos. Assumir essa responsabilidade requer mudanças filosóficas, organizacionais e funcionais na prática farmacêutica (Hepler & Strand, 1990). Tendo isto em vista, preparar o farmacêutico para o exercício dessa nova atribuição é passo fundamental para o sucesso de qualquer programa de Atenção Farmacêutica (Storpirtis et al., 2001). Deve-se ressaltam ainda que a Atenção Farmacêutica é um processo, sendo possível aprender fazendo (Johnson & Bootman, 1995). Muitos Rev. Bras. Farm. 92(4): 245-252, 2011 249 Pereira & Nascimento farmacêuticos têm demonstrado entusiasmo com este novo mandato, mas sua conceituação entre estes profissionais mostra-se inconsistente. Como retrato disso, grande parte dos farmacêuticos entrevistados em um estudo no interior de São Paulo e outro em João Pessoa disseram realizar Atenção Farmacêutica sem, no entanto, manterem registros ou seguirem metodologia, referindo-se à prática como orientação ou atendimento no momento da dispensação (Farina & Romano-Lieber, 2009; Filho & Batista, 2011). Um modelo de prática bem definido e o sistema de classificação de PFT são elementos-chave para se oferecer um serviço de Atenção Farmacêutica sistematizada e consistente em todo o mundo e, assim, gerar evidências significativas do impacto coletivo dessa prática, contribuindo para a sua expansão e consolidação (ASHP, 1993; Strand et al., 1991; OPAS, 2002; Hepler et al., 2002). Todo profissional da Atenção Farmacêutica tem que entender a filosofia, desenvolver habilidades de comunicação e aplicar os mesmos padrões de cuidado, permitindo o reconhecimento e demanda da prática por pacientes de todo o mundo. A filosofia guia qualquer ação e decisão clínica feita na prática (Hepler et al., 1985; Hepler & Strand, 1990; ASHP, 1993; ASHP, 1996; Nies & Spielberg, 1996; Peretta & Ciccia, 2000; Dáder, 2001; Storpirtis et al., 2001; OPAS, 2002; Brasil, 2002; Perini, 2003; Oliveira, 2003; Reis, 2003; Asadi-Lari et al., 2004; Cipolle et al., 2004; APHA, 2010). A filosofia da Atenção Farmacêutica prevê uma prática centrada no paciente, que busque atender a necessidade social de controlar a morbi-mortalidade relacionada ao uso de medicamentos. Uma prática centrada no paciente deve ter como direção o atendimento das necessidades e os desejos do paciente, e não as preferências do profissional, e o respeito às experiências próprias do paciente com medicamentos. Além disso, o paciente deve participar ativamente do seu processo de cuidado e ser parte de uma estreita relação com seu farmacêutico. Essa relação terapêutica deve proporcionar uma troca mutuamente benéfica, na qual o paciente confere autoridade ao farmacêutico e este, por sua vez, oferece ao paciente conhecimento e comprometimento com a melhoria da sua qualidade de vida. A manutenção e o fortalecimento da relação terapêutica permitem a obtenção de resultados positivos durante o acompanhamento e a conseqüente melhora na qualidade de vida do paciente (Hepler & Strand, 1990; Strand et al., 1991; ASHP, 1993; ASHP, 1996; Nies & Spielberg, 1996; Cipolle et al., 1998; Peretta & Ciccia, 2000; Dáder, 2001; Storpirtis et al., 2001; Espanha, 2002; OPAS, 2002; Oliveira, 2003; Reis, 2003; Asadi-Lari et al., 2004; Cipolle et al., 2004; APHA, 2010). Durante o acompanhamento, sem nunca perder o foco na filosofia da prática, o profissional da Atenção Farmacêutica deve aplicar seus conhecimento e habilidades utilizando o processo lógico, racional e ordenado de tomada de decisões para avaliar o paciente, acessar suas necessidades e identificar seus PFT. O profissional trabalha para garantir que todas as necessidades relacionadas a medicamentos sejam atendidas e todos os PFT prevenidos, identificados e resolvidos. Seu objetivo é garantir que a terapia medica- mentosa seja indicada, efetiva, segura e conveniente para cada paciente acompanhado (ASHP, 1993; ASHP, 1996; Peretta & Ciccia, 2000; OPAS, 2002; Oliveira, 2003; Reis, 2003; Cipolle et al., 2004; APHA, 2010). O processo de cuidado ao paciente envolve um encontro face a face entre um profissional qualificado e um paciente. Uma avaliação inicial é realizada duranteo primeiro encontro. Ela é conduzida de forma a identificar todas as necessidades farmacoterapêuticas do paciente e qualquer PFT. Avaliando as informações obtidas, um plano de cuidado é elaborado. Este inclui objetivos terapêuticos bem definidos para cada problema de saúde que o paciente apresenta e determina quais intervenções serão recomendadas para resolver os PFT e atingir os objetivos terapêuticos. O paciente deve ser consultado na elaboração do plano e, como parte essencial para obtenção de bons resultados, deve ser devidamente esclarecido sobre seus aspectos principais. Nessa etapa, deve-se assegurar que o paciente tenha todas as informações e conhecimentos necessários para seguir o plano de cuidado estabelecido. Na avaliação de resultados, a última etapa, o profissional e o paciente avaliam se os objetivos terapêuticos foram atingidos, determinando a situação ou melhora da condição do paciente, e registram-se os novos dados experimentados pelo paciente. A partir daí, um novo plano de cuidado é desenvolvido e o processo se repete ciclicamente (Cipolle et al., 2004). O paradigma do cuidado é a base da Atenção Farmacêutica. Todos os profissionais envolvidos no cuidado do paciente cooperam entre si, visando o benefício do mesmo. O farmacêutico vai cuidar especificamente para que se obtenham os melhores resultados do uso dos medicamentos, mas precisa trabalhar de forma interdependente com médicos, com outros profissionais da saúde e com seus colegas na farmácia, inclusive funcionários e gerentes. Também é imprescindível que ele disponha do tempo necessário para obter as informações relacionadas a farmacoterapia, entender os desejos, preferências, necessidades e expectativas do paciente relacionadas com sua saúde e, além disso, que ele se comprometa a continuar a atenção uma vez iniciada. O comprometimento e a responsabilidade são necessários em tempo integral (Storpirtis et al., 2001; Asadi-Lari et al., 2004; Cipolle et al., 2004). A primeira atitude do profissional que vai iniciar um programa de Atenção Farmacêutica é identificar outros profissionais com interesse na prática. Deve-se montar um grupo de até seis pessoas, que se encontre pelo menos uma vez a cada três semanas. O objetivo desses encontros será a discussão do processo de implantação do serviço e a apresentação de casos clínicos. Deve-se estabelecer quais atividades serão desenvolvidas e de que forma o serviço será documentado. O próximo passo é conseguir os recursos necessários: pessoal; espaço físico; bibliografia adequada; sistemas de coleta de dados, documentação e transferência de informações; processo eficiente de fluxo de serviços e o comprometimento da equipe envolvida com a qualidade do serviço prestado. Em seguida é fundamental apresentar o serviço para os pacientes e outros profissionais de saúde. Para desenvolver uma prática de sucesso é necessário estabelecer um bom relaci- Rev. Bras. Farm. 92(4): 245-252, 2011 250 Pereira & Nascimento onamento com os demais integrantes da equipe multidisciplinar do cuidado à saúde, elaborar um processo para a gestão do serviço e planejar a sua divulgação junto aos usuários e aos outros profisisonais. Para garantir a consolidação e expansão do serviço, deve-se coletar evidências de qualidade e de impacto positivo (Storpirtis et al., 2001; APHA, 2010; Bonal, 2002). Na prática da Atenção Farmacêutica, também é necessário documentar todos os passos do processo de cuidado da prática, essa é uma das regras do cuidado em saúde. A documentação deve ser clara, precisa e completa, registrando a experiência, as necessidades específicas do paciente e as intervenções realizadas. As informações devem ser mantidas sob sigilo e registradas de forma a garantir um fácil acesso e a atualização quando for necessário. A documentação também é útil para avaliar o impacto do serviço (Strand et al., 1988; Peretta & Ciccia, 2000; Dáder, 2001; Bonal, 2002; Cipolle et al., 2004; APHA, 2010). A prática da Atenção Farmacêutica tem grande impacto positivo para os pacientes ao reduzir erros na utilização de medicamentos, RAM (reações adversas a medicamentos), admissão hospitalar e custo de tratamento, promovendo uma melhor qualidade de vida. Oferece também a possibilidade do paciente participar de decisões terapêuticas, saber mais sobre sua doença, obter maiores informações e, consequentemente, cumprir melhor seu tratamento e obter melhores resultados (Zelmer, 2001; Paulos, 2002). Para o farmacêutico, a Atenção Farmacêutica representa uma possibilidade de melhorar a sua imagem, incentivar a educação continuada, recuperar seu papel social e desenvolver a prestação de um serviço de excelência. A Atenção Farmacêutica contribui para o uso racional de medicamentos, na medida que desenvolve um acompanhamento sistemático da terapia medicamentosa utilizada pelo indivíduo, buscando avaliar a necessidade, a segurança e a efetividade no processo de utilização de medicamentos (Faus & Martinez, 1999). A Atenção Farmacêutica beneficia, ainda, os outros profissionais da saúde, ao melhorar o seu acesso a informação sobre medicamentos e ao auxiliar na detecção de PFT em seus pacientes e na detecção de pacientes sem diagnóstico e/ou tratamento (Paulos, 2002). Além disso, a implantação desta prática profissional também contribui para obtenção de resultados clínicos positivos (Nascimento, 2004; Lyra- Júnior, 2005). CONCLUSÃO Partindo do panorama histórico e atual exposto, a Atenção Farmacêutica é necessária e dirigida a atender uma nova demanda social, sendo portanto, um elemento essencial nos serviços de saúde. Pode acontecer em todos os cenários da prática profissional integrando-se às outras partes do sistema de saúde e com os demais profissionai, e deve ser incentivada. Fica, então, para os farmacêuticos, o desafio de “fazer o ideal virar realidade” e deixar de ser “entregador” de medicamentos, passando a desempenhar o papel de "dispensador de atenção sanitária". AGRADECIMENTOS As autoras agradecem às bibliotecárias da Faculdade de Farmácia da UFMG pela disponibilidade e atenção. REFERÊNCIAS Acurcio FA. Política de medicamentos e assistência farmacêutica no sistema único de saúde. In: ______. Medicamentos e Assistência Farmacêutica. Belo Horizonte: COOPMED, 2003. cap. 50, p. 31-60. American Pharmacists Association (APHA). Principles of Practice for Pharmaceutical Care. Disponível em: <http://www.aphanet.org/pharmcare/prinprac.html>. Acesso em março de 2010. American Society of Hospital Pharmacists (ASHP). Draft statement on pharmaceutical care. Am. J. Hosp. Pharm. 50(1): 126-128, 1993. American Society of Health-System Pharmacists (ASHP). ASHP guidelines on a standardized method for pharmaceutical care. Am. J. Health Syst. Pharm. 53(14): 1713-1716, 1996. Asadi-Lari M, Tamburini M, Gray D. Patient's needs, satisfaction, and health related quality of life: towards a comprehensive model. Health Qual. Life Outcomes. 2(32), 2004. Barros JAC. Propaganda de medicamentos – atentado à saúde? São Paulo: Hucitec/Sobravime, 1995. 222 p. Bonal J, Alerany C, Bassons T & Gascón P. Farmacia Clínica y Atención Farmacêutica. In: Falgas JB et al. Farmacia Hospitalaria: planificación, organización, gestión e funciones. 3. ed. [s.l.]: Sociedade Espanhola de Farmácia Hospitalar (SEFH), 2002. Brasil. Ministério da Saúde. Organização da assistência farmacêutica nos municípios brasileiros: disponibilidade e utilização de medicamentos do no SUS. Brasília, DF, 2002. 160 p. Brasil. Fundação Oswaldo Cruz. Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINITOX). Estatística anual de casos de intoxicação e envenenamento, Brasil. Rio de Janeiro, RJ, 2009. BurlageHM, Burt JB, Lee CO & Rising LW. Fundamental principles and process of pharmacy. New York: McGraw Hill, 1944. 615 p. Cipolle RJ, Strand LM & Morley PC. Pharmaceutical care practice. New York: Mc Graw Hill, 1998. 359 p. Cipolle RJ, Strand LM & Morley PC. Pharmaceutical care practice: the clinician’s guide. 2. ed. New York: Mc Graw Hill, 2004. 394 p. Dáder MJF. Introduccion prática a la Atención Farmacêutica. Módulo 2: Introducción a la Atención Farmacêutica. Granada: Universidad de Granada, 2001. 27 p. Deno RA, Rowe TD & Brodie DC. The profession of pharmacy – an introductory textbook. Philadelphia: JB Rev. Bras. Farm. 92(4): 245-252, 2011 251 Pereira & Nascimento Lippincott Company, 1959. 256 p. Dupuy JP & Karsenty S. A invasão farmacêutica. Rio de Janeiro: Graal, 1974. 269 p. Espanha. Ministerio de Sanidad y Consumo. Consenso sobre Atención Farmacéutica. Madrid, ES, 2002. Disponível em: <http://www.msc.es/profesionales/farmacia/consenso/cons enso.htm#indice> Acesso em dezembro de 2010. Farina SS & Romano-Lieber NS. Atenção Farmacêutica em farmácias e drogarias: existe um processo de mudança? Saúde Soc. 18(1): 7-18, 2009. Faus MJ & Martinez F. La atención farmacéutica en farmacia comunitaria: evolución de conceptos, necessidades de formación, modalidades y estrategias para su puesta en marcha. Pharm. Care España. 1: 56-61, 1999. Filho JR & Batista LM. Perfil da atenção farmacéutica nas farmácias comerciais no municipio de João Pessoa-PB. Rev. Braz. J. Pharm. 92(3): 137-141, 2011. Fontoura C. A profissão e o comércio da farmácia no Brasil. São Paulo: Instituto Medicamenta, 1936. 195 p. Funchal-Witzel MDR, Castro LLC, Romano-Lieber NS, Narvai PC. Brazilian scientific production on pharmaceutical care from 1990 to 2009. Braz. J. Pharm. Sci. 47(2): 409-420, 2011. Gomes-Júnior MS. ABC da Farmácia. São Paulo: Org. Andrei, 1988. 215 p. Hepler CD, Lucarotti RL, Rheder TL, Slotfeld ML. Improving patient-oriented pharmacy services: panel discussion. Am. J. Hosp. Pharm. 42(9): 1950-1956, 1985. Hepler CD, Strand LM, Tromp D, Sakolchai S. Critically examining pharmaceutical care. J. Am. Pharm. Assoc. 42(05 sup 1):18-19, 2002. Hepler CD & Strand LM. Opportunities and responsibilities in pharmaceutical care. Am. J. Hosp. Pharm. 47(3): 533-542, 1990. Johnson JA & Bootman LJ. Drug-Related morbidity and mortality: a cost-of-illness model. Arch. Intern. Med. 155(18): 1949-1956, 1995. Johnson JA & Bootman LJ. Drug-related morbidity and mortality and the economic impact of pharmaceutical care. Am. J. Health Syst. Pharm. 54(5): 5554-5558, 1997. Lyra-Júnior DP. Impacto de um programa de Atenção Farmacêutica no cuidado de um grupo de idosos atendidos na Unidade Básica Distrital de Saúde Dr. Ítalo Baruffi, Ribeirão Preto (SP). 2005. Ribeirão Preto. 156 p. Tese (Doutorado em Ciências Farmacêuticas), Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto. Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto. Manual del Farmacéutico. Nova York: Mc Graw Hill, 1948. 128 p. Nascimento MC. Medicamentos: ameaça ou apoio à saúde? Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2003. 197 p. Nascimento YA. Avaliação de resultados de um serviço de Atenção Farmacêutica em Belo Horizonte. 2004. Belo Horizonte. 130 p. Dissertação (Mestrado em Ciências Farmacêuticas), Faculdade de Farmácia,Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte. Nies AS & Spielberg SP. Princípios da Terapêutica. In: Hardman JG & Limbird LE. Goodman & Gilman - As bases farmacológicas da terapêutica. 9. ed. Rio de Janeiro: McGraw-Hill, 1996. p. 31-33. Oliveira DR. Pharmaceutical care uncovered: an ethnographic study of pharmaceutical care practice. 2003. Mineapolis. 425 p. Tese (Doutorado em Filosofia), Graduate School, University of Minnesota. Mineapolis. Organização Mundial da Saúde (OMS). El papel del farmacéutico en la atención a la salud: declaración de Tokio. Genebra, 1993. 37 p. Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS). Consenso Brasileiro de Atenção Farmacêutica. Atenção Farmacêutica no Brasil: trilhando caminhos - Relatório 2001-2002. Fortaleza, CE, 2002. 46 p. Paulos C. Atenção Farmacêutica aplicada: como gerenciar rotinas e informações. São Paulo: Racine, 2002. 94 p. Pereira MLP (coord.). Atenção Farmacêutica implantação passo-a-passo. Belo Horizonte: Faculdade de Farmácia, 2005. 104 p. Peretta MD & Ciccia G. Reengenharia farmacêutica: guia para implementar a Atenção Farmacêutica. Brasília: Ethosfarma, 2000. 276 p. Perini E. A questão do farmacêutico: remédio ou discurso? In: Bonfim JBA & Mercucci VL (Org.). A construção da política de medicamentos. São Paulo: Hucitec/Sobravime, 1997. Apêndice 1. p. 323-334. Perini E. Assistência farmacêutica: fundamentos teóricos e conceituais. In: Acurcio FA (Org.) Medicamentos e assistência farmacêutica. Belo Horizonte: COOPMED, 2003. p. 9-30. Reis AMM. Atenção Farmacêutica e promoção do uso racional de medicamentos. Revista Espaço para a Saúde. 4(2), 2003. Disponível em: <www.ccs.vel.br/espacoparasaude/v4n2/doc/atencaofarma uso-resumo.html>. Acesso em outubro de 2010. Rising LW. Pharmacy in a Changing World. In: Burlage HM, Lee CO & Rising LW. Orientation to pharmacy. New York: McGraw Hill, 1959. cap. 2, p. 48-59. Simpson D. Pharmaceutical care: the Minnesota model. Pharm. J. 258(6949): 899-904, 1997. Storpirtis S, Ribeiro E. & Marcolongo R. Novas diretrizes para a assistência farmacêutica hospitalar: a Atenção Farmacêutica/ farmácia clínica. In: Gomes MJVM & Reis AMM (Org). Ciências Farmacêuticas – uma abordagem em farmácia hospitalar. São Paulo: Atheneu, 2001. p. 521- 533. Strand LM. Palestra proferida. In: I Reunião Estendida do Rev. Bras. Farm. 92(4): 245-252, 2011 252 Pereira & Nascimento Grupo de Estudos em Atenção Farmacêutica da Faculdade de Farmácia da UFMG (GEAF), 2005, Belo Horizonte. Strand LM, Cipolle RJ & Morley PC. Documenting the clinical pharmacist’s activities: back to basics. Drug Intell. Clin. Pharm. 22(1): 63-67, 1988. Strand LM, Cipolle RJ, Morley PC, Perrier DG. Leves of pharmaceutical care: a needs-based approach. Am. J. Hosp. Pharm. 48(3): 547-550, 1991. Valladão MLF. A profissão e o ensino de farmácia na visão dos novos profissionais mineiros. Belo Horizonte: Faculdade de Farmácia - UFMG. 1981. 28p. Relatório de Pesquisa do Projeto de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino Superior (PADES) Valladão MLF, Celso C, Nunan EA, Prado MAF, Mintz ML, Lopes HJJ. Os (des)Caminhos do ensino de farmácia no Brasil. Rev. Farm. Bioquim. 7(n. único): 63-74, 1986. Zelmer WA. The role of pharmacy organizations in transforming the profession: the case of pharmaceutical care. Pharm. Hist. 43(2-3): 75-85, 2001. Literatura, história e farmácia: um diálogo possível v.20, n.2, abr.-jun. 2013, p.653-673 813 813v.22, n.3, jul.-set. 2015, p.813-828 813 Irene Nogueira de Rezende Pós-doutoranda, Programa de Pós-graduação de História da Ciência/Universidade Federal de Minas Gerais. Av. Antonio Carlos, 6.627 31270-901 – Belo Horizonte – MG – Brasil inrezende@uol.com.br Literatura, história e farmácia: um diálogo possível Literature, history and pharmacy: a possible dialogue Recebido para publicação em março de 2013. Aprovado para publicação em dezembro de 2013. http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702015000300009 REZENDE, Irene Nogueira de. Literatura, história e farmácia: um diálogo possível. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.22, n.3, jul.-set. 2015, p.813-828. Resumo No Centro de Memória da Faculdade de Farmácia da UFMG encontram-se documentos relativos à passagem de Carlos Drummond de Andrade pela instituição, fato que levou à reflexão sobre a presença da farmáciae do farmacêutico na literatura. Por meio de diálogo interdisciplinar e de pesquisa sobre elementos que comprovassem essa presença, sua efetiva participação e presença na literatura, buscou-se historicizar essa vinculação não só do poeta de Itabira, mas de outros homens de letras, sendo profissionais farmacêuticos ou inspirados por eles. Objetivou-se, igualmente, apontar alguns elementos que fundamentem e demonstrem a importância desse profissional na sociedade brasileira do final do século XIX e primeira metade do XX. Palavras-chave: farmácia; literatura; história da ciência; interdisciplinaridade. Abstract In the Memory Center of the Pharmacy School of UFMG there are documents relating to the passage of Carlos Drummond de Andrade through the institution, a fact that has led to reflection on the presence of the pharmacy and the pharmaceutical expert in literature. By means of interdisciplinary dialogue and research into elements that prove this presence, active participation and presence in the literature, an attempt was made to historicize these ties, not only of the poet from Itabira, but other men of letters, be they pharmaceutical professionals or people inspired by them. The objective was also to highlight some evidence that supports and demonstrates the importance of this professional in Brazilian society of the late-nineteenth century and early-twentieth century. Keywords: Pharmacy; literature; history of science; interdisciplinarity. Irene Nogueira de Rezende 814 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro814 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro Eu quisera que o jovem cronista me informasse desde quando foi declarado o repúdio entre a profissão de farmacêutico e a cultura de letras; desejara que me expusesse os motivos desconhecidos, pelos quais os dedos que enrolam pílulas estão, por esse fato, inibidos de empunhar uma pena ou tanger uma lira (Pires, 29 jun. 1901). Por ocasião das comemorações dos 100 anos de fundação da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), várias cerimônias foram realizadas e talvez a mais expressiva tenha sido a inauguração do Centro de Memória da Faculdade (CMF) de Farmácia. Projeto antigo do professor Gerson Pianetti, o CMF guarda um grande número de objetos que remete, evidentemente, ao mundo das boticas e “pharmacias”, além de documentos gerados ao longo de um século de funcionamento da instituição, fundada em 1911. Em meio ao corpo documental da Faculdade encontram-se – infelizmente poucos – papéis que testemunham a passagem do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) como aluno da casa. Embora tenha recebido seu diploma em 1925, ele jamais exerceu a profissão. Mas essa feliz coincidência, de se ter aquele que é considerado o maior poeta brasileiro como egresso do curso de farmácia, aponta para um tema curioso e recorrente: por que a farmácia teve convivência tão estreita com a literatura e, ainda, por que serviu de inspiração para tantos autores, seja na poesia, seja na prosa? Que artimanhas da cultura, da ciência e da memória uniram a farmácia e a literatura? Como a criatividade e a observação passeavam por frascos e fórmulas, pequenas balanças, almofarizes e drágeas e, ao fim e ao cabo, se concretizando em fontes inspiradoras para obras literárias da mais alta qualidade? E, por fim, há uma interpretação histórica que elucide e fundamente essas questões? Dito de outra forma, examinar a literatura sob esse viés seria uma forma de (re)conhecer a força simbólica da figura do farmacêutico (e do espaço físico da farmácia) que por tanto tempo estimulou a inspiração dos escritores, ocupando um lugar privilegiado na galeria de personagens que frequentavam tão assiduamente romances, contos e novelas. Esses pressupostos conduzem, por outro lado, ao diálogo interativo da história com outras disciplinas, o que já é fato consolidado, mas não se configura num esquema dogmático finalizado e fechado para outras experiências, questionamentos e ampliação de novas abordagens. Tentar-se-á uma análise interdisciplinar entre a história das ciências e a literatura num exercício sobre a força da presença da farmácia e do farmacêutico na literatura brasileira nos séculos XIX e XX. Neste texto busca-se compreender também a imagem da prática científica vista como essencialmente racional, não se levando em consideração outras variáveis que interferem nessa atividade: os aspectos sociais e culturais vividos por aqueles que trabalharam nos vários segmentos científicos. E ainda tentar-se-á evidenciar que a articulação entre ciência e literatura é bem maior do que se poderia pensar. Já se tornou mais que banal a expressão “crise de paradigmas” para explicar a falência de certos modelos explicativos no estudo da história. Dentro do contexto globalizante em que vivemos e do esfacelamento de verdades absolutas é imprescindível buscar novos arsenais de conceitos que se coadunem com a realidade vivida. A consciência de que, a Literatura, história e farmácia: um diálogo possível v.20, n.2, abr.-jun. 2013, p.653-673 815 815v.22, n.3, jul.-set. 2015, p.813-828 815 cada dia, caem por terra normas e teorias tidas como incontestáveis resulta em experiências interdisciplinares na tentativa de soluções e saídas explicativas. A cada geração são colocadas novas indagações e novas maneiras de explicá-las. A esse respeito afirma Bronislaw Baczko (1985, p.309): “com efeito, todas as épocas têm as suas modalidades específicas de imaginar, reproduzir e renovar o imaginário, assim como possuem modalidades específicas de acreditar, sentir e pensar”. Assim, deve-se considerar a literatura uma legítima manifestação da cultura de determinada sociedade. E, se é uma manifestação legítima, é um registro que o historiador pode e deve explorar. Refletindo sobre a ligação entre a história e a literatura, François Hartog declarou em recente entrevista: E me parece que o escritor, o verdadeiro escritor, se posso assim dizer, é aquele que considera o seu trabalho ‘dizer’ o mundo de várias maneiras. Ele pode, não havendo estas amarras que estão no domínio das ciências humanas e sociais, apreender, de modo mais rápido e imediato, as coisas que estão se passando. E, é preciso dizer, que ele pode se equivocar completamente. Todavia, ele pode também, deste modo, dar uma expressão aos fenômenos, uma expressão que eles ainda não possuem. E assim, penso, ele pode ser muito precioso para um historiador ou para homens das ciências humanas e sociais (Rodrigues, Nicolazzi, dez. 2012, p.361). Sem nos estender muito nas considerações teórico-metodológicas, é bom assinalar que há várias décadas o estudo da ciência já vem sendo confrontado pela necessidade do diálogo com outras disciplinas para uma melhor compreensão de certos fenômenos. Do total racionalismo de que se revestiu a ciência a partir dos iluministas, hoje vivemos uma época em que essa postura excessivamente cartesiana é com frequência contestada. O médico e cientista polonês Ludwik Fleck (1896-1961), em livro de 1935, refletia sobre o racionalismo exacerbado da ciência em geral, discutindo aspectos epistemológicos e levando à compreensão de que não se podia estudar a ciência isoladamente e descolada de seu contexto histórico e social, concebendo-a como uma atividade social e coletiva. Embora não seja de leitura fácil, suas reflexões inovadoras são fundamentais para quem se dedica ao estudo da história e da teoria da ciência (Fleck, 2010). O filósofo austríaco, naturalizado inglês, Karl Popper (1902-1994) igualmente se preocupou com a natureza da atividade científica e questões epistemológicas envolvendo o conhecimento científico sob um viésdemasiadamente cartesiano. Ele observou em uma de suas palestras que “deve ser óbvio que a objetividade e a racionalidade do progresso em ciência nada têm a ver com a objetividade e a racionalidade pessoal do cientista. A grande ciência e os grandes cientistas atuam como os grandes poetas, sob a inspiração, muitas vezes, de intuições não racionais” (Popper, 1976, p.103). Neste trabalho considera-se a interdisciplinaridade uma prática que atua na convergência das diversas áreas do saber, ou seja, a interação entre a história, a literatura e as práticas farmacêuticas. Tarefa, talvez, um pouco complicada porque “se trata de apreender o registro das nuanças das sensibilidades de uma época, o seu ‘clima’, o seu ‘ethos’, aquilo que, no passado, corresponderia ao sistema de valores, conceitos e noções que pautaria a vida dos homens e guiaria as práticas sociais” (Pesavento, 1996, p.109). Irene Nogueira de Rezende 816 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro816 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro A literatura é, pois, uma fonte para o historiador, mas privilegiada, porque lhe dará acesso especial ao imaginário, permitindo-lhe enxergar traços e pistas que outras fontes não lhe dariam. Fonte especialíssima, porque lhe dá a ver, de forma por vezes cifrada, as imagens sensíveis do mundo. A literatura é narrativa que, de modo ancestral, pelo mito, pela poesia ou pela prosa romanesca, fala do mundo de forma indireta, metafórica e alegórica. Por vezes, a coerência de sentido que o texto literário apresenta é o suporte necessário para que o olhar do historiador se oriente para outras tantas fontes e nelas consiga enxergar aquilo que ainda não viu (Pesavento, 28 jan. 2006, p.5). A importância das farmácias e a figura do farmacêutico A figura do farmacêutico como salvador de vidas e mitigador de dores teve um vigoroso reforço nas primeiras décadas do século XX com o aumento exponencial da comercialização de medicamentos; afinal, eram esses profissionais responsáveis pelas vendas e muitas vezes pela prescrição. Os estabelecimentos farmacêuticos serviram de cenário físico a esse tipo de comércio no qual, por outro lado, se desenvolveram práticas sociais como as relações de sociabilidade vividas e vivenciadas nas farmácias espalhadas por todo o Brasil, particularmente no final do século XIX até meados do XX, quando essas casas negociantes constituíam um lócus de grande importância dentro das comunidades urbanas. O ambiente físico de uma farmácia antiga é descrito pelo historiador das ciências Flávio Edler (2006, p.94): No final do século XIX, as farmácias ainda mantinham boa parte do instrumental tecnológico herdado das boticas. Na sala da frente, prateleiras repletas de frascos de louça, brancos ou negros, de tamanho uniforme e inscrições douradas a fogo, onde eram guardadas as substâncias postas à venda. Nas dependências dos fundos, vedadas aos clientes, boiões, frascos de vidro e grandes potes de louça ou de barro encerravam o material sólido ou em pó. Lá também ficavam os instrumentos: almofariz para a maceração, cortador de raízes, tachos de bronze e coadores diversos; utensílios fundamentais para o preparo das receitas solicitadas pelos médicos ou muitas vezes indicadas pelos próprios farmacêuticos. Nas últimas décadas do século XX, as farmácias vão passar por um processo de trans- formação de tal porte que eliminará o caráter socialmente agregador que as caracterizou durante todo esse tempo. Os antigos e grandes armários de madeiras de lei e vidros bisotados deram lugar às gôndolas contemporâneas nas quais se vende de goma de mascar até ração para cães, e os remédios foram empurrados para uma modesta parede nos fundos, afastando, assim, qualquer possibilidade de um convívio social mais estreito entre os fregueses. Edler (2006, p.99) observa que: “O desenvolvimento dos laboratórios farmacêuticos e o consequente aumento da utilização de medicamentos prontos nacionais ou importados transformaram, aos poucos, o perfil das farmácias, que, cada vez mais, foram assumindo características próprias dos estabelecimentos comerciais voltados para o varejo”. Ainda segundo Edler, as transformações no modus vivendi das farmácias não se deram de forma homogênea. Nas cidades maiores as farmácias passaram a oferecer produtos de beleza e perfumaria, aumentando consideravelmente o público consumidor feminino. Por outro lado, nas pequenas cidades do interior do país desprovidas de assistência hospitalar adequada, Literatura, história e farmácia: um diálogo possível v.20, n.2, abr.-jun. 2013, p.653-673 817 817v.22, n.3, jul.-set. 2015, p.813-828 817 “muitas farmácias acabaram se transformando em espaços de prática médica, abrigando consultórios clínicos, onde eram oferecidas consultas à população local” (Edler, 2006, p.99). As farmácias de hoje perderam quase todo o apelo que atraía pessoas para seus interiores, estabelecendo laços de sociabilidade e reafirmando o caráter agregador desse tipo de comércio. Afinal, em tempos de poucos médicos e dificuldade de acesso a hospitais – e muitas vezes a inexistência deles – era a farmácia uma espécie de porto seguro para as populações do interior do Brasil, e o farmacêutico, frequentemente, representava de forma digna os discípulos de Hipócrates. Sem contar o grande número de pessoas que se automedicavam e preferiam a opinião do farmacêutico à dos médicos. Tal a força do significado de “ser farmacêutico” – e este detendo o saber das fórmulas que aliviariam as dores e salvariam vidas – que essa representação pairou sobre o imaginário de gerações de escritores, quando não eram os próprios os detentores desse saber científico. Além disso, o fato de lidar com dor, angústia, medo, iminência da morte, sentimentos tão triviais no cotidiano do profissional farmacêutico, certamente serviu de ingrediente precioso para apurar e estimular a criação literária, sentimentos que atuariam como indutores e modelos para a legitimação de personagens a concretizar nas páginas de romances, contos e poesias. A revista O Farmacêutico Brasileiro, publicada desde meados dos anos 1920 até o final dos anos 1940, reforçava, através da propaganda financiada pela multinacional alemã dos medicamentos, a Bayer,1 o caráter íntegro, disponível e caridoso do profissional atrás do balcão. O farmacêutico era revestido, então, de uma função simbólica e representado como o homem que salvava vidas e aliviava as dores mais atrozes, quase um sacerdote, que detinha o saber das manipulações, da eficiência dos medicamentos, das fórmulas dos elixires mitigantes, bem como a ciência da exata medida da cura contida nos cadinhos e frascos. É bom esclarecer que, por essa época, as multinacionais dos medicamentos já estavam instaladas no Brasil, e atrair a simpatia dos farmacêuticos tinha, como consequência lógica, o aumento das vendas de seus produtos. Outra variável interferia ainda na maciça propaganda das empresas: a Segunda Guerra Mundial, que colocou em lados opostos alemães (donos então da maior fatia do mercado brasileiro de medicamentos) e os norte-americanos ansiosos para abocanhar seu quinhão brasileiro e afastar as fábricas “nazistas” dos aliados (Quintaneiro, 2002). De qualquer modo, havia, então, um sistemático reforço na condição simbólica do farmacêutico como o bom amigo a quem recorrer nas aflições e doenças. É o que hoje se chama estratégia de marketing. Já bem longe vai o tempo em que o Farmacêutico – o boticário – não passava de um homem mais ou menos hábil em manipular pílulas e xaropadas. Hoje o Farmacêutico é um profissional cuja arte está intimamente ligada à ciência médica da qual é um precioso colaborador ... E, assim, como o sacerdote dá, com suaoração, que é o remédio da alma, o bom conselho, assim também acompanhados e conselhos salutares dá o Farmacêutico o remédio do corpo (O Farmacêutico..., mar. 1935, p.5).2 O Farmacêutico é, em momentos tais, o sacerdote da providência, o amigo do seu semelhante. Nenhum interesse o guia a não ser o de servir ao próximo (O Farmacêutico..., set. 1938, p.3). Irene Nogueira de Rezende 818 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro818 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro A farmácia na literatura e a literatura na farmácia O perfil anteriormente descrito de nenhuma maneira se enquadrava na figura do farmacêutico Sebastião Veríssimo, morador da cidade gaúcha de Cruz Alta nos primeiros anos do século XX. Proprietário da Farmácia Brasileira e pai do escritor Érico Veríssimo (1905- 1975), Sebastião fazia de seu estabelecimento uma mistura nada ortodoxa de bar, hospital, hospedaria e farmácia de manipulações, com sua nítida preferência pelo bar. Em suas memórias Veríssimo narra como era o dia a dia da farmácia paterna e alerta os leitores para fatos aparentemente inverossímeis que se passavam no local, prevenindo que não se trata de mitomania, mas difícil mesmo de se acreditar tamanhos os absurdos. A farmácia era local de roda de chimarrão, onde se reuniam diariamente “os vadios e aposentados” da cidade. Nos fundos funcionava um mini-hospital, no qual trabalhava um médico-cirurgião italiano que operava numa sala toscamente preparada para o fim a que se destinava. Enquanto extirpava rins e tumores, remexia tripas e suturava abdômens, o doutor cantarolava “Torna a Sorrento” ou assoviava as 14 notas do “Carnaval de Veneza”. A bagunça era tanta, que um dia “um gaiato com um mórbido conceito de humor colocou na soleira da porta de nossa cozinha um rim humano deformado por um tumor, que o Dr. Merlo acabara de extirpar do corpo dum paciente” (Veríssimo, 1978, p.45). Ainda contava a Farmácia Brasileira com alguns quartos ao fundo para hospedar os parentes dos doentes mais graves. O menino Érico obser- vava e registrava os fatos ocorridos nesse mundo de tintas surrealistas. A Farmácia Brasileira de Sebastião Veríssimo serviria de modelo para a Farmácia Popular do doutor Rodrigo Cambará, na saga de O tempo e o vento. O movimento agora era tão grande, que [Rodrigo] tivera de admitir mais dois empregados. Esse progresso se devia em grande parte às operações do Dr. Carlo Carbone. Felicitava-se de ter tido a ideia de trazer aquele italiano para Santa Fé. O diabo do gringo tinha mãos de mago: era indubitavelmente o maior operador que já aparecera no Rio Grande do Sul. Outra grande ideia fora a de construir no quintal da farmácia aqueles pavilhões de madeira com os quartos onde ficavam os doentes após as operações. Era uma espécie de paródia de sua tão sonhada casa de saúde... (Veríssimo, 1985, p.483). Tempos depois, em 1926, o romancista gaúcho se tornaria sócio de uma farmácia, a Farmácia Central, de Érico Veríssimo & Cia., embora nenhum talento tivesse para lidar com “o mundo dos xaropes, emplastros, pílulas e pomadas...” Se a Farmácia Brasileira de meu pai fora das mais estranhas de que tenho notícia, a nossa não lhe ficava muito atrás. Não me seria possível registrar com minúcias os dramas, comédia e farsas de que nossa botica foi teatro – e teatro é a palavra exata. E ainda hoje, recordando aqueles dias, nossos erros, leviandades e falsas esperanças, não posso explicar como uma casa de comércio tão mal administrada como aquela pôde durar quase quatro anos (Veríssimo, 1978, p.200). Como nos mostra o escritor gaúcho, a farmácia era em si um mundo de vivências e convivências e uma fonte riquíssima de elementos inspiradores para personagens, situações e ambientações. O baiano Jorge Amado estudou direito, mas nem por isso deixou de descrever muito apropriadamente a figura do farmacêutico. Quem não se lembra do doutor Teodoro Madureira, Literatura, história e farmácia: um diálogo possível v.20, n.2, abr.-jun. 2013, p.653-673 819 819v.22, n.3, jul.-set. 2015, p.813-828 819 proprietário da Farmácia Científica e segundo marido de dona Flor? Para traçar o perfil do sistemático, esperto e meticuloso boticário, certamente Amado buscou inspiração em algum profissional da área, visto que seus personagens eram sempre calcados em figuras que conhecia e observava em suas andanças. No romance, o doutor Teodoro era o profissional de reputação ilibada, correto e orgulhoso de frequentar a “gente de bem” na sociedade soteropolitana. Como se não bastasse toda sua competência da manipulação de elixires e xaropes, o farmacêutico ainda tocava fagote numa orquestra de amadores e conquistou o coração da cozinheira mais afamada da Bahia. Doutor Teodoro surgiu na hora exata, na precisão de seu cronômetro suíço, numa lordeza que só vendo, flor à botoeira, um figurão esplêndido, a estremecer todas as comadres. Recebido com certa cerimônia por tia Lita, após cumprimentar todos os presentes, dirigiu-se ao lugar que, segundo rígido protocolo, lhe designaram: no sofá ao lado de dona Flor... O farmacêutico percorreu com os olhos a sala cheia, dona Norma sorriu a animá-lo. Então, pondo-se novamente de pé e dirigindo-se à dona Flor e aos tios, disse como ficaria feliz ‘se ela quisesse lhe fazer a mercê de aceitá-lo como noivo, futuro esposo em breve prazo, dispondo-se a ser sua companheira na estrada da vida, estrada pedregosa, feita de obstáculos e tropeços, a transformar-se no entanto em paraíso se ele contasse com seu apoio e bálsamo...’ (Amado, 1989, p.523). O escritor e jornalista mineiro Manoel Lobato, nascido na pequena Assaraí, distrito de Pocrane, na Zona da Mata mineira, estudou farmácia no Rio de Janeiro, onde colou grau em 1949. Mais tarde se formou também em direito e trabalhou como jornalista para pagar os estudos, mas fez da atividade farmacêutica o sustento seu e de sua família. Menino pobre, órfão de pai muito cedo, foi criado vendo a mãe – uma farmacêutica prática – comandar o pequeno estabelecimento deixado pelo finado marido. Autor de inúmeros romances, contos e novelas, com obras traduzidas no exterior, narrou fragmentos biográficos no livro Cartas na mesa: memórias e manteve a Farmácia Lobato num bairro da capital mineira durante décadas (Lobato, 2002). Outro talento que alternou as lides do comércio de remédios com a criação literária foi Antonio Avelino Fóscolo (1864-1944). E aqui vale a pena nos deter um pouco mais em sua curiosa trajetória de vida. Dotado de rara inteligência e de personalidade criativa, atuou em várias frentes: foi ator e autor de teatro, jornalista, escritor, militante da causa anarquista e, ao que consta, excelente farmacêutico prático. Chegou a criar fórmulas eficientes, uma delas destinada aos animais e chamada “O cevador”, que era vendida como pão quente na farmácia, trazendo polpudos lucros ao criador da fórmula. É inexplicável como uma vida tão dinâmica e atuante tenha ficado tanto tempo no ostracismo. A academia o “descobriu” e vários trabalhos3 foram escritos sobre Fóscolo, seja como escritor, seja como líder anarquista. Nascido em Sabará, Minas Gerais, viveu grande parte de sua vida em Taboleiro Grande (antiga denominação da cidade de Paraopeba), por conta do casamento com a filha de um farmacêutico. Tomou gosto pela profissão, aprendeu na prática e ajudou o sogro. Mais tarde tornou-se proprietário do estabelecimento e diversificou suas atividades, publicando um jornal e escrevendo peças e romances. A pequena cidade era próxima da tecelagem Fábrica do Cedro, propriedade da rica família Mascarenhas. Pois foi com os operários dessa fábrica que Fóscolo conviveu e serviu de líder para suas demandas contra os abusos perpetrados Irene Nogueira de Rezende 820História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro820 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro pelos proprietários da tecelagem, socorrendo aqueles que precisavam de medicamentos e não tinham como pagar. Devido à personalidade gregária e fascinante de Fóscolo, sua farmácia se tornou um local de grandes debates, políticos e literários. Como observa a historiadora Regina Horta Duarte (1991, p.40): Numa sociedade tão modesta como aquela, pode-se avaliar a importância assumida pelo farmacêutico, superada apenas pelo padre, o prefeito e o delegado. Assim como a igreja, o prédio da prefeitura e a praça, a farmácia era um espaço-chave na vida daquelas pessoas. E a de Fóscolo ia muito bem. Com ela não dissociava nunca as atividades diversas que exercia: sua localização era na mesma casa que lhe servia de residência, laboratório para a fabricação de remédios, tipografia para a impressão de jornais... A farmácia não é visitada dessa forma, apenas por motivo de doença... era um lugar onde as pessoas se encontravam e várias questões, sérias ou insignificantes, eram discutidas. Como farmacêutico, se interessava em estar sempre atualizado; por isso, esteve na Alemanha fazendo cursos. Fóscolo era simpatizante do anarquismo e é considerado um escritor naturalista, com forte influência de Émile Zola, Piotr Krpotkin (iniciador do anarcocomunismo), Jean Grave, além de estar sempre atualizado com as leituras dos autores da época, como Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro e Tolstoi. Sua produção literária é permeada por preocupações humanistas e de justiça social e infelizmente pouco divulgada. Principais romances: Mulher, Caboclo e A capital. Sua filha Adília foi uma das primeiras mulheres a se formar na Escola de Farmácia e teve como colega Carlos Drummond de Andrade, que lhe dedicou um poema escrito num caderno da farmacêutica: Na asa do vento Na asa do vento Esta mulher não tem nome. Esta mulher passou pelas ruas de Belo Horizonte como o vento passa pelas árvores. O vento passa pelas árvores... Saí correndo e gritando atrás de sua sombra, Saí correndo e gritando... Nas pedras do calçamento, Havia uma saudade infinita do seu passo, e o seu passo foi mais breve que o vento. Esta mulher tinha meu destino entre as mãos, e sorrindo, e fugindo, perdeu-se no verde da distância. Carlos Drummond de Andrade, 1925 (citado em Malard, 1987, p.7). O século XX mineiro foi, talvez, o período mais rico de sua história em produção literária, seja ela no romance, na poesia, na crônica, seja na memória, e, dentre tantos escritores Literatura, história e farmácia: um diálogo possível v.20, n.2, abr.-jun. 2013, p.653-673 821 821v.22, n.3, jul.-set. 2015, p.813-828 821 oriundos de Minas Gerais, Lúcio Cardoso (1912-1968) é um dos grandes destaques. Seu romance, Crônica da casa assassinada, foi publicado pela primeira vez em 1959. Antes disso Cardoso já havia publicado outros romances, novelas, poesias, peças teatrais – várias delas encenadas em palcos cariocas e paulistas – e se dedicado também ao jornalismo, à pintura e à tradução. Como se não bastasse, o prolífico autor ainda escreveu para o cinema. O filme Porto das Caixas, de 1961, foi roteirizado (e dirigido) por Paulo César Saraceni a partir de uma história de Lúcio Cardoso e, ele mesmo, dirigiu também o filme A mulher de longe, além de roteirizar várias outras produções do cinema nacional. Crônica da casa assassinada é considerado pelos críticos um dos romances fundamentais da literatura brasileira do século XX. Nele, Cardoso reservou para o farmacêutico da fictícia cidade de Vila Velha um papel de destaque na trama. Grosso modo, o tema do livro gira em torno das mazelas de uma família tradicional que vai, aos poucos, entrando numa espiral de decadência e promiscuidade, e no processo são revelados dilemas de cada um dos seus membros. O farmacêutico Aurélio também se envolve na vida dos Meneses por meio de troca de favores não muito éticos. Procurei me informar do que se tratava, enquanto depositava a valise e retirava a capa que escorria. Disse-me o sr. Valdo que Dona Nina, logo após o jantar, sentara-se ao piano, sendo acometida de um mal súbito... Como habitualmente não gozasse de boa saúde, ele achara melhor mandar chamar alguém, pois nada entendia de medicina. Na ausência do doutor, a escolha recaíra sobre mim: não havia na cidade ninguém mais credenciado. E acrescentou que eu desculpasse o incômodo, mas que ele não seria avaro na recompensa (Cardoso, 2009, p.130). Ainda sobre os mineiros não se poderia omitir Pedro Nava. Não, ele não era farmacêutico, e sim médico formado pela Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, colega de sala do diamantinense Juscelino Kubitschek. Mas Nava aparece aqui como filho e neto de farmacêuticos (seu pai formou-se primeiro em Farmácia e depois em Medicina) e seus ancestrais cearenses possuíam estabelecimentos farmacêuticos em Fortaleza. E só por conviver estreitamente com Carlos Drummond de Andrade na mesma época em que os dois faziam seus cursos, já o gabarita para entrar na curiosa ligação entre a farmácia e a literatura. O criador do Sítio do Picapau Amarelo, o paulista Monteiro Lobato (1882-1948) escreveu e idealizou, junto ao escritor paulista Léo Vaz (1890-1973), o primeiro número do Almanaque do Biotônico Fontoura, em 1920. Amigo de Cândido Fontoura Silveira (1885-1978) – farmacêutico e empresário do ramo de medicamentos –, fez de seu personagem, o Jeca Tatu, o maior estimulador das vendas dos medicamentos Biotônico Fontoura e o Ankilostomina Fontoura. O Jeca Tatu, uma controvertida caricatura do homem do campo brasileiro criada por Lobato, se investiria de tamanha força simbólica que, durante décadas, seria o elemento inspirador de músicas, filmes e histórias em quadrinhos. Milhões de exemplares dessas publicações foram editados e distribuídos por todo o país. Formato ágil, equilibrando seu caráter intrinsecamente comercial com o espírito e o conteúdo dos almanaques tradicionais, levou não só às populações urbanas, mas a pequenas comunidades rurais, uma possibilidade de informação e entretenimento. Para muitos, em determinadas circunstâncias e frente à carência material e cultural do meio, o almanaque representou o livro e a revistinha infantil; em outras ocasiões, assumindo Irene Nogueira de Rezende 822 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro822 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro caráter e função particularmente inusitados, fez a vez da própria cartilha, auxiliando adultos e crianças no aprendizado da leitura (Gomes, 2006, p.2). Esses almanaques financiados pelos laboratórios e pelas farmácias eram distribuídos por todo o Brasil. Foram lidos avidamente por gerações de brasileiros e tiveram escritores con- ceituados como colaboradores eventuais. O escritor e político paulistano Menotti del Picchia (1892-1988) escreveu para o Almanaque Rodhia de 1936, e o dublê de poeta e publicitário pernambucano Manuel Bastos Tigre (1882-1957) colaborou em vários almanaques similares, criando para a Bayer o slogan “Se é Bayer, é bom”. Este último foi assíduo colaborador da revista O Farmacêutico Brasileiro, patrocinada pela multinacional alemã Bayer. Como observou Mario Gomes (2006) em seu trabalho sobre a propaganda de medicamentos, vários escritores de renome colaboraram nos almanaques, mas, seja por pudor, seja por constrangimento, preferiram a “discrição do anonimato”, por se tratar de publicações estritamente comerciais. Até mesmo na literatura contemporânea o farmacêutico ainda é uma figura recorrente. O romance Sagrada família foi recentemente publicado pelo jornalista e escritor Zuenir Ventura (2012), que se inspirou naslembranças da sua infância, passada no interior do Rio de Janeiro, para construir a história de uma típica família de classe média nos anos 40. O livro já começa dentro da farmácia do senhor Canuto, aonde a tia do narrador ia sempre tomar injeção, numa frequência para lá de suspeita... “A farmácia era para mim um mundo inebriante de cores, imagens e, sobretudo, aromas. Às vezes tenho a impressão de que toda a memória daquele tempo foi feita de fragrâncias, fixou-se em mim através do nariz – olfativa, mais que visual” (p.11). Se voltarmos ao século XIX, notaremos que na literatura brasileira havia uma recorrência desses elementos ligados ao universo das farmácias e boticas. Em 1872, o visconde de Taunay (1843-1899) publicou Inocência, seu romance mais conhecido, ao lado do anterior A retirada da Laguna (de 1869). Nele, o autor descreve as desventuras da jovem Inocência que, prometida em casamento ao rude Pereira pelo pai Manecão, acaba por se apaixonar por Cirino, um ex- estudante da Escola de Farmácia de Ouro Preto. Cirino anda pelos sertões – o romance tem como cenário o extremo leste do Mato Grosso do Sul, quase divisa com Minas – a curar os doentes com sua caixa de botica e seu ensebado Chernoviz, fazendo-se passar por médico. Ele pede pouso na fazenda do pai de Inocência, e os dois acabam se apaixonando e vivendo os dramas dos amores proibidos. O romance ainda serviu de roteiro para o filme homônimo de Walter Lima Jr. lançado em 1983. Machado de Assis (1839-1908) também não deixou de lado o farmacêutico e numa crônica saborosa comenta um congresso que iria reunir farmacêuticos no Rio de Janeiro em 1877 e o medo que isso lhe suscitava por supor que poderia ser informado sobre quais os verdadeiros componentes dos remédios, preferindo tomá-los sem conhecer sua composição. Não teria o estímulo das propagandas de medicamentos e farmácias que ocupavam várias páginas dos jornais cariocas auxiliado na composição do personagem Brás Cubas? Teria algum farmacêutico inspirado o Bruxo do Cosme Velho para imaginar e criar o ambicioso projeto do emplastro idealizado pelo memorialista post mortem e batizado imodestamente como Emplastro Brás Cubas? Literatura, história e farmácia: um diálogo possível v.20, n.2, abr.-jun. 2013, p.653-673 823 823v.22, n.3, jul.-set. 2015, p.813-828 823 A natureza, interessada na conservação da espécie humana, inspira a composição dos remédios, conforme a graduação patológica dos tempos. Já alguém disse, com grande sagacidade, que não há doenças, mas doentes. Isto que se diz dos indivíduos, cabe igualmente aos tempos, e a moléstia de um não é exatamente a de outro. Há modificações lentas, sucessivas, por modo que, ao cabo de um século, já a droga que a curou não cura; é preciso outra. Não me digam que, se isto é assim, a observação basta para dar a sucessão dos remédios. Em primeiro lugar, não é a observação que produz todas as modificações terapêuticas; muitas destas são de pura sugestão. Em segundo lugar, a observação, em substância, não é mais que uma sugestão refletida da natureza (Assis, 19 nov. 1893). Um dos grandes ativistas da abolição, orador brilhante, segundo testemunhos, José do Patrocínio (1853-1905) se formou em farmácia; no entanto, sua condição social e financeira não permitiu sua dedicação ao ofício de farmacêutico. A pesquisadora e historiadora Verônica Velloso (2007, p.109) explica por quê. Além daquela hierarquia dos saberes, importava a posição social ocupada pelo sujeito que os praticava. A ocupação de farmacêutico por si só não garantiria um lugar ao sol, dependia muitas vezes dos contatos ou apadrinhamentos a começar pela titulação pelos meios oficiais e depois, colocação... Vale citar aqui o caso de José do Patrocínio que se titulara farmacêutico pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1874. Natural da cidade de Campos, negro e filho de padre, veio para a capital do império sem recurso algum, conseguindo ingressar como aprendiz na farmácia do Hospital da santa Casa da Misericórdia e depois no curso farmacêutico. Isso conseguiria graças à intervenção do seu conterrâneo o Conselheiro Albino Rodrigues de Alvarenga. Mas ao diplomar-se e não tendo recursos financeiros para montar uma farmácia, acabou enveredando pelo jornalismo. No jornalismo, Patrocínio se destacou pela intensa luta a favor da libertação dos escravos e da implantação da República no Brasil. Trabalhou durante dez anos no jornal Gazeta de Notícias, no qual possuía a coluna Semana Política, que assinava com o pseudônimo de Proudhomme4 e, em 1887, fundou seu próprio jornal, intitulado A Cidade do Rio, veículo de grande importância na propaganda abolicionista. Seus artigos semanais na Gazeta se configuram como fonte histórica de grande valor, uma vez que seus comentários sobre a política coetânea revelam um analista lúcido e atento às nuanças e artimanhas da engenharia política na esfera do governo imperial. A Biblioteca Nacional disponibilizou recentemente a digitalização dos periódicos do século XIX, sendo possível aos interessados apreciar os artigos e comentários daquele que foi um dos próceres do movimento abolicionista. Uma pequena amostra de sua verve: A herdeira do trono há de causar-lhe [ao imperador] tristeza; porque mostrar-se-á mais propensa a respeitar o Syllabus do que a Constituição: voz terá a melopeia das ladainhas à Virgem da Conceição, o espírito revelará o cansaço das longas Salve Rainhas e Credos. O seu esposo, sr. conde d’Eu, lhe aparecerá com sua alma de industrial, indiferente ao juízo público, obtendo de sua esposa que assine para seus mordomos de que ele mais tarde pede a transferência para si (Patrocínio, 1880, p.1). Irene Nogueira de Rezende 824 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro824 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro Sobre sua obra Bilac comentou: “Se fosse possível reunir todos os artigos, todos os discursos, com que Patrocínio atacou a escravidão e seus defensores, o livro em que ficassem compendiados esses libelos seria o mais belo poema da Justiça” (Carvalho, 1999, p.423). Muitos outros optaram por personagens farmacêuticos, mas seria impraticável listar todos que usaram da figura desse profissional. Como exposto, um grande número de autores se valeu da figura do farmacêutico para compor o elenco de personagens de seus romances, contos ou novelas, corroborando a força simbólica de que o especialista da farmácia era revestido até algumas décadas atrás. A literatura ajudou, portanto, no resgate do papel do farmacêutico como sujeito histórico e agente dos processos de sociabilidade ocorridos nas pequenas e médias cidades brasileiras durante parte do século XIX e metade do XX. Alguns exemplos na literatura estrangeira Molière (1622-1673) fez uso constante de médicos e boticários em suas peças teatrais. Em pelo menos cinco delas os profissionais da saúde foram contemplados: L’amour médecin; Le médecin volant; Monsieur de Porceaugnac; Le médecin malgré lui; e, a mais conhecida entre nós, O doente imaginário (Le malade imaginaire), última peça escrita por Molière, encenada pela primeira vez poucos dias antes de sua morte. Argan, o personagem rico e hipocondríaco, quer que sua filha Angélique se case com o filho do doutor Diafoirus para receber tratamentos de graça. Argan vive rodeado pelo médico e pelo boticário, monsieur Fleurant, que se aproveitam da sua mania de doenças para o explorar (Molière, 2008). Existem muitos outros autores que mantiveram em alguma fase de sua vida forte ligação com a farmácia. O norueguês Henrik Ibsen (1828-1906) passou cinco anos de sua juventude como farmacêutico prático, antes de se tornar o maior expoente da dramaturgia de seu país. Chegou mesmo a pensar seriamenteem se tornar médico depois de sua experiência no mundo das manipulações. Nesse caso também, perdeu a farmácia, mas ganhou o teatro, cujo autor legou à dramaturgia universal peças até hoje constantemente encenadas como Casa de bonecas, Peer Gynt, Um inimigo do povo, Hedda Glaber e muitas outras. Do outro lado do mundo, na Rússia, na segunda metade do século XIX, Anton Tchekov (1860-1904), médico de formação, mas um excelente e prolífico escritor e dramaturgo, também usou a farmácia como elemento para um de seus contos. Em “A farmacêutica”, Tchekov conta uma noite na vida de dois oficiais que resolvem conhecer a mulher do farmacêutico, famosa por sua beleza, durante uma noite fria, e a frustração de ambos quando seu plano é abortado pela acaso (Tchekov, s.d., p.41). São inúmeros os casos de poetas e escritores interatuando com as ciências e cientistas intercambiando com a literatura e a poesia. Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832) é o caso exemplar de escritor e poeta que não só se interessava por temas científicos variados, mas fazia pesquisas científicas, mostrando que, além de uma personalidade multidisciplinar, Goethe foi um homem que representou seu tempo; tempo em que as ciências iniciavam um “distanciamento da metafísica e da teologia”, privilegiando a razão. Em um artigo, Izabela Kestler (2006) revela que, em sua época de estudante de direito, o escritor alemão assistia constantemente aulas de química e anatomia. Essa capacidade de rejeitar a fragmentação do conhecimento em áreas estanques demonstra muito da genialidade de Goethe. Sem estar Literatura, história e farmácia: um diálogo possível v.20, n.2, abr.-jun. 2013, p.653-673 825 825v.22, n.3, jul.-set. 2015, p.813-828 825 diretamente vinculada ao mundo da farmácia, a preocupação de Goethe com temas ligados à ciência faz dele um elemento a mais para fundamentar nosso texto. Por fim, algumas palavras sobre o autor de Cem anos de solidão, livro que já vendeu cerca de trinta milhões de exemplares com traduções em mais de trinta idiomas. O escritor colombiano Gabriel García Márquez (2002) conta em suas memórias que não teve alternativa a não ser assumir a farmácia do pai. Natural de Aracataca, Márquez assistiu a sua mãe ser abandonada pelo marido com 11 filhos para criar e se viu empurrado para trás do balcão a vender fórmulas homeopáticas. Não teria sido a farmácia paterna inspiração para o laboratório de alquimia com que o cigano Melquíades presenteara o imaginoso José Arcádio Buendia no romance Cem anos de solidão? “Laboratório rudimentar – não se falando na profusão de caçarolas, funis, retortas, filtros e coadores – estava composto de uma tubulação primitiva; um provete de cristal, de pescoço comprido e estreito, imitação do ovo filosófico; e um alambique construído pelos próprios ciganos...” (García Márquez, s.d., p.12). O poeta e o namoro efêmero com a farmácia No Brasil, Affonso Romano de Sant’Anna (2006, p.217) também concorda com a visão goethiana: “Há, portanto, um determinado ponto em que a física e a metafísica se articulam como irmãs gêmeas, da mesma maneira que a poesia e a ciência”, declarou o poeta mineiro numa entrevista. Sant’Anna é autor também de um livro sobre a poesia de Carlos Drummond de Andrade, o que nos faz voltar ao fato que motivou o presente texto: Drummond e a farmácia. Pois bem, falemos um pouco dessa ligação do poeta itabirano com a Faculdade de Farmácia. Nas memórias de Pedro Nava fica evidente que Drummond nunca levou muito a sério o curso de farmacêutico, tamanho o número de episódios em que o memorialista conta os encontros e as conversas intermináveis dos companheiros reunidos no mítico Bar do Ponto ou no Café e Confeitaria Estrela, formando, junto com Aníbal Machado, Milton Campos e outros amigos, o Grupo do Estrela. Esses moços tiveram ativa participação na vida literária e no movimento modernista vivido na capital mineira e se projetariam mais tarde como escritores, poetas e até um governador (mas com o dom da escrita), no caso, Milton Campos. Quando finalmente o curso de Farmácia chegou ao fim, Drummond foi escolhido na última hora como orador dos formandos – o orador inicialmente convidado adoecera subita- mente – e iniciou seu discurso com a humildade que sempre lhe acompanhou, mas como Fernando Pessoa já advertira poeticamente: O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. O nosso poeta também fingiu, certamente por elegância, outra virtude que sempre o caracterizou. “Considero a eloquência um simples substantivo, entre os milhares deles, masculinos ou femininos, que enxameiam o dicionário, sem nenhuma significação particular Irene Nogueira de Rezende 826 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro826 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro para mim, que me proponho ser um homem de laboratório e não um homem de tribuna” (Pianetti, 1988, p.74). Nada mais improvável vê-lo no laboratório entre balanças e tubos de ensaio. Na verdade, Carlos Drummond de Andrade nunca nutriu uma especial vocação por fórmulas e mezinhas, como revela este poema de sua autoria: A consciência suja Vadiar, namorar, namorar, vadiar, Escrever sem pensar, sentir sem compreender, é isso a adolescência? E teu pai mourejando na fanada fazenda para te sustentar? Toma tento, rapaz. Escolhe qualquer rumo, vai ser isto ou aquilo, ser: não, disfarçar. Que tal a profissão, o trabalho, o dinheiro ganho por teu esforço, ó meu espelho débil? Hesitas. Ziguezagueias. Chope não decide, verso muito menos. Teus amigos já seguem o caminho direito: leva a Faculdade, à pompa estadual e talvez federal. Erras, noite a fundo, em rebanho, em revolta, contra teu próprio errar, sem programa de vida. Ó vida, vida, vida, assim desperdiçada a cada esquina de Bahia ou Paraúna. ... Então sei lá por quê, tu serás farmacêutico. E você continua a perder tempo do Bar do Ponto à Escola de Farmácia sem estudar. Da Escola de Farmácia à doce Praça da Liberdade sem trabalhar (Andrade, 1987, p.237). Considerações finais Décadas depois de receber o diploma, Drummond foi convidado, certa vez, para honrar com sua presença uma solenidade na antiga escola. Declinou amável e coerentemente do convite. Afinal, ser farmacêutico nunca foi, definitivamente, sua vocação. Perdeu a profissão, mas ganhamos todos nós, brasileiros, farmacêuticos ou não, a deslumbrante obra poética do grande vate brasileiro, senão o maior. Com sua verve característica, aguda e certeira, o médico e memorialista Pedro Nava aponta para uma reflexão final acerca dessa convergência entre a ciência, a história e a literatura: “Um doutorando em vésperas de colar grau de médico, em vez de só por seus livros de Medicina, interessava-se pelos de literatura. Respondo que Medicina antes de mais nada é conhecimento humano. E este está tanto nos livros de patologia e clínica como nos da obra de Proust, Flaubert, Balzac, Rabelais, dos poetas de hoje, de ontem, nos modernos como nos antigos” (Nava, 1985, p.390). Vale o mesmo para a farmácia e seu exercício. Literatura, história e farmácia: um diálogo possível v.20, n.2, abr.-jun. 2013, p.653-673 827 827v.22, n.3, jul.-set. 2015, p.813-828 827 REFERÊNCIAS AMADO, Jorge. Dona Flor e seus dois maridos. In: Amado, Jorge. Jorge Amado: quatro mulheres, quatro romances. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. 1989. ANDRADE, Carlos Drummond de. Boitempo II. Rio de Janeiro: Record. 1987. ASSIS, José Maria Machado de. [Um dia destes...]. Disponível em: http://www. cronicas.uerj.br/home/cronicas/machado/rio_de_ janeiro/ano1893/19nov1893.html. Acesso em: 14 nov. 2012. 19 nov. 1893. BACZKO, Bronislaw. Imaginaçãosocial. In. Romano, Ruggiero (Org.). Enciclopédia Einaudi. v.5. Lisboa: Casa da Moeda. 1985. CARDOSO, Lúcio. Crônica da casa assassinada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2009. CARVALHO, José Murilo de. Pontos e bordados: escritos de história e política. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999. DUARTE, Regina Horta. A imagem rebelde: a trajetória libertária de Avelino Fóscolo. Campinas: Pontes/Unicamp. 1991. EDLER, Flávio Coelho. Boticas & pharmacias: uma história ilustrada da farmácia no Brasil. Rio de Janeiro: Casa da Palavra. 2006. FLECK, Ludwik. Gênese e desenvolvimento de um fato científico. Belo Horizonte: Fabrefactum. 2010. AGRADECIMENTOS Ao professor doutor Gerson Antônio Pianetti, pela incansável e profícua supervisão. À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior pela Bolsa Programa Nacional de Pós- doutorado. NOTAS 1 No caso da Bayer travava-se também de uma disputa de mercado entre as empresas alemãs e as norte- americanas, que objetivavam eliminar as primeiras por causa da Segunda Guerra Mundial e, certamente, para ampliar suas vendas no promissor mercado brasileiro de medicamentos. 2 O Farmacêutico Brasileiro: revista trimestral dedicada aos interesses da classe farmacêutica, fundada em 1932, circulou durante quase 30 anos. A ortografia foi atualizada para melhor compor a forma do texto. 3 Sobre Avelino Fóscolo, ver Duarte (1991), Frieiro (1960), e Malard (1987). 4 O pseudônimo se referia, muito provavelmente, aos Conselhos de Proud’hommes (Conselhos de homens idôneos, numa tradução livre) criados por Napoleão para intermediar conflitos entre patrões e empregados. Essa hipótese é mais viável do que Patrocínio se valer do nome do poeta parnasiano francês Sully Prudhomme (1839-1907). FRIEIRO, Eduardo. O romancista Avelino Fóscolo. Belo Horizonte: Imprensa Oficial. 1960. GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Vivir para contarla. Barcelona: Mandadori. 2002. GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. Cem anos de solidão. Rio de Janeiro: Record. s.d. GOMES, Mario Luiz. Vendendo saúde! Revisitando os antigos almanaques de farmácia. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v.13, n.4, p.107-118. 2006. KESTLER, Izabela Maria Furtado. Johann Wolfgang Von Goethe: arte e natureza, poesia e ciência. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v.13, supl., p.39-54. 2006. LOBATO, Manoel. Cartas na mesa: memórias. Belo Horizonte: Imprensa Oficial. 2002. MALARD, Letícia. Hoje tem espetáculo: Avelino Fóscolo e seu romance. Belo Horizonte: Ed. da Universidade Federal de Minas Gerais. 1987. MOLIÈRE. O doente imaginário. Belo Horizonte: Crisálida. 2008. NAVA, Pedro. Beira-mar: memória. v.4. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1985. O FARMACÊUTICO... O Farmacêutico Brasileiro: revista trimestral Irene Nogueira de Rezende 828 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro828 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro uuuUUU dedicada aos interesses da classe farmacêutica, ano 13, n.51. set. 1938. O FARMACÊUTICO... O Farmacêutico Brasileiro: revista trimestral dedicada aos interesses da classe farmacêutica, ano 10, n.37. mar. 1935. PATROCÍNIO, José. A semana política. Gazeta de notícias, ano 6, n.26, p.1. 26 jan. 1880. PESAVENTO, Sandra Jathay. História e literatura: uma velha nova história. Nuevo Mundo Mundos Nuevos, Débats. Disponível em: http://nuevomundo.revues.org/1560. Acesso em: 28 jan. 2013. 28 jan. 2006. PESAVENTO, Sandra Jathay. Com os olhos de Clio ou a literatura sob o olhar da história a partir do conto O alienista, de Machado de Assis. Revista Brasileira de História, v.16, n.31, p.108-118. 1996. PIANETTI, Gerson Antonio. O discurso do poeta: discurso de formatura de Carlos Drummond de Andrade. Revista de Farmácia e Bioquímica da Universidade Federal de Minas Gerais, v.9, p.73-77.1988. PIRES, Aurélio. O Norte, Belo Horizonte, 29 de junho de 1901. Fundo Aurélio Pires, cx. 1, doc. 06. (Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte). 29 jun. 1901. POPPER, Karl. A racionalidade das revoluções científicas. In: Harré, Rom. Problemas da revolução científica. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo. 1976. QUINTANEIRO, Tania. O mercado farmacêutico brasileiro e o esforço de guerra norte-americano. Revista Estudos Históricos, v.1, n.29, p.141-164. 2002. RODRIGUES, Henrique; NICOLAZZI, Fernando. Entrevista com François Hartog. História da historiografia, n.10, p.351-371. dez. 2012. SANT’ANNA, Affonso Romano. O lado poético das ciências: entrevista concedida a Carla Almeida. História, Ciências e Saúde – Manguinhos, v.13, supl., p.213-222. 2006. TCHEKOV, Anton. Os mais brilhantes contos. Rio de Janeiro: Edições de Ouro. s.d. VELLOSO, Verônica Pimenta. Farmácia na Corte Imperial (1851-1887): práticas e saberes. Tese (Doutorado em História das Ciências e da Saúde) – Casa de Oswaldo Cruz/ Fiocruz, Rio de Janeiro. 2007. VENTURA, Zuenir. Sagrada família. Rio de Janeiro: Objetiva. 2012. VERÍSSIMO, Érico. O tempo e o vento. v.1. Porto Alegre: Globo. 1985. VERÍSSIMO, Érico. Solo de clarineta: memórias. Porto Alegre: Globo. 1978. A BRIEF HISTORY OF PHARMACY AS A PROFESSION By Elenora Hogan Article submitted in 2008 to History and Folklore Project, Limerick Civic Trust Project Coordinator: David Lee Assistant Coordinator: Debbie Jacobs Pat Hogan opened Hogans Pharmacy in September 1940. More usually called chemists, Power & Mangans, Listons, Lairds, Boyds, Fitzgeralds, McMahon Days, & Stewarts – O’Connell St. and William St. were just some of the names of the chemists’ shops in the City at the time. All of these are gone now, and while Stewarts in Upper William Street – later Sean O’Neill’s - may still be run by a Pharmacist (Jim McCormack), Hogans’ is the only Pharmacy still in the same family 68 years later. Pharmacists were first regulated and controlled by law in the nineteenth century, with the passing of the Pharmacy Act of 1875. This Act set up the Pharmaceutical Society of Ireland and laid down strict standards for the practice of the profession and defined a pharmaceutical chemist as “keeping open shop for the compounding and dispensing of medicines.” It is curious that the Act survived, with minor amendment until 2007, when it was replaced by a newly restructured Pharmaceutical Society of Ireland. This new legislation was a landmark in that the Council – or governing body – is now composed of a majority of non-pharmacists. The purpose of the Society, then and now is to act in the public interest, ensuring the highest standards of practice. Only one Limerick pharmacist has served as President of the Society. This was the late Maurice Power, of Power and Mangan’s in O’Connell Street, who was President from 1957 to 1958. Pharmacy has changed a lot since 1940. At that time, most medicines were made on the premises by each pharmacist, and wholesalers were used to source the raw materials used for the manufacture of creams, ointments, lotions, pastes, syrups, and in some cases tablet and suppositories. The shortage of ingredients was one of the major problems, which they faced. Anything that had to be sourced from England became problematic due to transport problems associated with World War 2. Most wholesalers were based in Dublin, such as Ayrton Saunders, Lennox’s, Wilcox Josceau and Boileau and Boyd, but Limerick was lucky to have May Roberts in Bank Place. Subsequently United Drug opened in Henry Street in 1953 and later still Allied Pharmaceutical Distributors opened in Garryglass in 1972. Despite the fact that in the 1920s and 1930s patent medicines started to gain in popularity the list of these products was limited – Bayer Aspirin,Cullens Powders, Zam Buk and Beechams Pills were expensive though the latter claimed to be worth a guinea a box! Many people still had faith in Senna Syrup or pods and the bottle that the chemist would make up himself! Every pharmacy had special formulas that were recorded in the pharmacist’s own formulary for use in his pharmacy only. The Stomach Mixture, The Iron Tonic, The Cough Syrup, - each pharmacy had their own unique formula which was jealously guarded. The most famous of these would be Protumnal, a stomach mixture made in Hanley’s Pharmacy in Shannon Street. I bought a bottle of this from John – father of Michael Hanley to take to Dublin for a customer of the pharmacy in which I was working at the time. He had used it and could find nothing as effective in Dublin. All pharmacies had “cures”, dispensed early on a Saturday or Monday morning, where a single dose often helped people to cope with the excesses of the previous weekend. Prescriptions were regularly written for Mist. Pot. Cit. (Potassium Citrate Mixture) with a dose of a dram daily well diluted in water, for the treatment of cystitis. The pharmacist knew what the formula was. Nowadays a ready-made sachet is available, and the dose is 1 sachet mixed in water three times daily for 2 days. In fact originally most medicines were prepared from basic chemicals in each shop, for each prescription. Making tablets/pills was a detailed and difficult procedure. Certain substances were mixed in a mortar and pestle, liquid/water was added to make a stiff mass, rolled out on a marble slab, cut into strips on a special board and dusted with French chalk to prevent them sticking/cracking, The final product was then rolled in a special polishing device. In the 1920s and 1930s pharmacists training in the College of Pharmacy in Mount Street in Dublin learned how to make a vast array of medicines from basic principles. The basic principles were the same – regardless of the ingredients – lotions, pastes, pills, suppositories, tablets, mixtures, ointments & creams, you either did it right and got it right, or threw it out and started again. For example Theobroma Oil was the basis of most suppositories. It had to be melted, but if you overheated the mixture it would never solidify. A paste had the ability to crack if stirred incorrectly and emulsions – the basis of most creams and lotions were particularly sensitive if the balance of oil and water was incorrect. All these products were made by hand; there were no liquidisers or mixing machines. We still make ointments in the pharmacy today, but the ingredients now are a lot more sophisticated than the 1920s and 30s. But I still remember working with Lassar’s Paste on a cold, frosty winter’s morning, in a shop with no central heating! Many of the raw materials and preparations used at that time had evocative names such as Laudanum, Chlorodyne, Bismuth Subgallate, Ginger pulv, Pulv Tragacanth Co, Theobroma Oil, Gentian Violet, Balsam of Peru, Balsam of Tolu, the names – and Latin abbreviations added to the mystique and created an aura around the medicine. Pharmacies – then and now – sold more than medicines. Given their expertise and training in the manufacture of emulsions, creams and lotions, pharmacists were the obvious source of treatments of dry and chapped skin. Many pharmacists had their own formulas for moisturisers and cold creams. Before the growth of modern cosmetics, especially during the war years, these products, gently fragranced by the addition of Rose Oil, Lavender, Gardenia, Lemon or Orange Oil…… were important at a time of rationing and scarce supplies. Coty of Paris and Gala of London may have been making perfumes and cosmetics, but shipment by sea became increasingly difficult, while your local pharmacy always had Essential Oils of Lavender, Rose, Jasmine, Gardenia and many more for adding a touch of glamour to the local made cream. (As an aside, older women will remember that during the war, the red cover of the Sacred Heart Messenger Magazine – published by the Jesuits – was a useful source of rouge or blusher!) Soap was another commodity that was difficult to get during the war. Pat Hogan had his own formula which proved very successful as a simple, but effective household staple. Distilled Water was an important ingredient in most formulae. Most pharmacies had a still, which would operate continuously in order to provide a regular supply. These stills also provided a ready source of hot water for general cleaning purposes. The stills were specially designed so as to prevent them from distilling alcohol and Officers from Customs and Excise called on a regular basis to ensure that they hadn’t been modified! Popular photography developed in the 19th century, with the advent of companies such as Kodak, who in 1891 introduced the first commercial roll film. The early days of photography demanded an expertise with use of chemicals and pharmacy was a natural fit. The pharmacist, because of his training, was able to appreciate and explain the importance of accurately measuring the developers and fixers to make sure that the film was correctly exposed and developed in the dark environment. Michael Whelan who ran a chemist’s shop in O’Connell Street set up a film processing laboratory and provided a service for his colleagues throughout Limerick. The business still continues as Whelan’s Cameras – run by his son Bernard. Pharmacies in certain parts of the city had a healthy business in Veterinary medicines. Vigor Dog Tonic was manufactured by Hogan’s and was very popular with greyhound trainers. Worm doses, drenches, doses to cleanse a cow after calving - all were made on the premises. Limerick has always been a city with a large rural hinterland. Before the advent of co-operatives most farmers had to come to town to buy provisions and to sell animals. There were two major marts in Limerick – deCourcy’s in Mulgrave St and Fitt’s on the South Circular (or Back) Road. Mattersons at the Tait Clock, O’Mara’s in Roches St and Shaws subsequently Clover Meats in Mulgrave St were bacon factories and O’Neills, Roches and Russells in Upper William St all sold flour and meal. Tinsley’s in Upper William St sold salt and McCarthy’s in Mulgrave St, Parnell St and South Circular Road dealt in skin and hides. J and G Boyd’s of William Street sold seeds, vegetable and fruit plants, as well has having a chemist’s shop in the store. The Holliday and Darcy families still run Garden World in Ellen Street. All of these businesses provided a focus for the farmers coming into Limerick. These farmers ran accounts on a cyclical basis and let them run from one fair day to the next. Sell the produce and pay the bill! This world changed dramatically with the advent of Sulphonamides – the forerunners of antibiotics. Aureomycin – an antibiotic imported by Whelehan’s Chemists of Mullingar became an important addition to animal husbandry, improving the health and productivity of farm animals. Uniphar now owns the resulting business while the Whelehans are successful wine importers. Some readers will remember T.P. Whelehan’s wine column in the Irish Times, while his sister Helen was a lecturer in Mary Immaculate Training College. Later, Penicillin – at a dose of 250,000 units four times a day – was to change forever the treatment and outcomes of hitherto dangerous infectious diseases. An important responsibility for pharmacists – then and now – was the sale of poisons. Agatha Christie’s expertise in the use of poisons was due to the fact that she trained as a dispenser in an English pharmacy. Arsenic, Strychnine and Belladonna were all available. In low doses these had medicinal properties – in fact Strychnine was an important ingredient as an appetite stimulantin some proprietary tonics up to the 1970s. Stronger concentrations were used to kill vermin. Poisons were sold in special ribbed glass bottles, brown or green, so that people would be able to distinguish them by touch. Chemists played their part in the social scene in Limerick, with the Annual Chemists’ Dance being held in Cruise’s Royal Hotel – managed by Jackie Donnelly - each year. The dance always sold out and was a highlight of the social calendar. It was run in aid of the Pharmaceutical Society’s Benevolent Fund, which – to this day – provides financial aid and advice to pharmacists, their families or former employees who may be in financial difficulties. In November 1966, 220 dinners cost £225.10.0 The drinks bill was £72.6.9, while a bar extension cost 4 guineas! Music was provided by well- known local bands such as Bud Clancy or later Tommy Drennan & the Monarchs. Old Spice which had been successfully launched in America in 1938 was brought to Ireland by T.P. Whelehan in the 1950s and many pharmacists remember being greeted with the distinctive perfume when they arrived at the door of the ballroom for the dance. Up until the 1970s, the City Dispensary in Lower Gerald Griffin Street provided a medical service to a large percentage of the population in the city. It was run by the Local Health Authority, which was based at 104 Henry Street. They shared this building with Bord na gCon, who are still there. They had the ground floor, half the top floor and the annex at the side, as well as offices in Newcastle West. Limerick Corporation and Limerick County Council financed the Health Authority. Under the Health Act 1970, eight regional Health Boards were set up. Limerick, Clare and North Tipperary were all brought together to form the new Midwestern Health Board – a major rationalisation and centralisation of management at the time. Under the same Act, the Medical Card Scheme was introduced. This replaced the dispensary, which had been run by Geoff Keogh and Tommy Corbett, and gave patients the opportunity to avail of the services of the doctor and pharmacist of their choice. . The introduction of the Medical Card Scheme radically changed the face of pharmacy in Limerick and indeed nationally. The number of patients being seen increased dramatically and dealing with the Health Board became a major part of the day to day management of the pharmacy. It was around this time that the old Irish Drug Association became the Irish Pharmacy Union. As with all Unions their role was to negotiate on behalf of individual contractor pharmacists. There have been two Limerick Presidents of the IPU, Tim O’Malley (1978 – 1980) and Marie Hogan (2000 – 2002) Through all the changes in Limerick and other urban centres over the years – with different buildings, transport and the ever changing environment, pharmacies – or chemist’s shops are still there, on the high street serving the health needs of the people. But pharmacies now are very different to the chemist’s shop of yesteryear. Laudanum, Chlorodyne, Pulv Tragacanth Co and Bismuth Subgallate are gone, but they are more than adequately replaced by the complex biotechnological, oncological and haematological products of the modern era. Throughout it all one hopes that the 646,000 people who visit Irish pharmacies on a weekly basis – seeking advice on a wide variety of health concerns - continue to receive a friendly welcome, a listening ear and sound practical advice. Acknowledgements: Theresa Clerkin Mid Western Health Board, Michael Hanley M.P.S.I. Shannon Street, Marie Hogan M.P.S.I. Upper William Street, Michael Durkin M.P.S.I. Ballina, author of The History of United Drug. C H A P T E R 2 : O V E R V I E W O F T H E H I S T O R Y O F H O S P I T A L P H A R M A C Y I N T H E U N I T E D S T A T E S 19 Introduction Hospitals today offer immense opportunities for phar- macists who want to practice in an environment that draws on the full range of their professional education and training. It was not always so. This chapter tells the story of how hospital pharma- cy developed in this country, analyzes the forces that shaped the hospital pharmacy movement, and draws lessons from the changes in this area of pharmacy practice. The historical facets discussed here are high- ly selective, reflecting the author’s judgment about the most important points to cover within the limits of one chapter. Hospital Pharmacy’s Nascencea,1–4 Hospital pharmacy practice in the United States did not begin to develop into a significant movement until the 1920s. Although there were important milestones before that era (including the pioneering hospital phar- macy practices of Charles Rice [1841–1901]5—see Figure 2-1—and Martin Wilbert [1865–1916]), many factors kept hospital pharmacy at the fringes of the broader development of pharmacy practice and phar- macy education.6 When the Pennsylvania Hospital (the first hospital in Colonial America) was established in 1752 and Jonathan Roberts was appointed as its apothecary, medicine and pharmacy were commonly practiced together, with drug preparation often the responsibility of a medical apprentice.7 In 1800, with a population of 5 million, the nation had only two hos- pitals. Even by 1873, with a population of 43 million, the United States had only 178 hospitals with fewer than 50,000 beds.2 Hospitals, which were “places of dreaded impurity and exiled human wreckage,” and doctors had little to do with each other.8 Hospitals played a small role in health care, and pharmacists played a very small role in hospitals. In the early 1800s, drug therapy consisted of strong cathartics, emetics, and diaphoretics. From the 1830s to the 1870s, clean air and good food rather than medi- cines were the treatments emphasized in hospitals. In Chapter 2 Overview of the History of Hospital Pharmacy in the United States William A. Zellmer a Well-documented accounts of the development of hospital pharmacy practice in the United States were published by the American Society of Health-System Pharmacists (ASHP) in conjunction with anniversaries of its 1942 founding. Particularly noteworthy are the “decennial issue” of the Bulletin on the American Society of Hospital Pharmacists and articles that marked ASHP’s 50th anniversary.1–3 Readers who have an interest in more detail are encouraged to seek out those ref- erences and others.4 This section of the chapter is based closely on Reference 2. Figure 2-1 Hospital Pharmacy Department, Bellevue Hospital, New York City, Late 1800sa a The bulk medicine area, where medicines were packaged for use on the wards, at Bellevue Hospital, New York City, in the late 1800s. Standing on the right is Charles Rice, the eminent chief pharmacist at Bellevue, who headed three revi- sions of the United States Pharmacopeia. Source: AJHP. 17283_019-032_CHAPTER 2 10/18/05 4:06 PM Page 19 the mid-1800s, the medical elite avoided drug use or used newer alkaloidal drugs such as morphine, strych- nine, and quinine. An organized pharmacy service was not seen as necessary in hospitals, except in the largest facilities. The situation changed somewhat during the Civil War when hospital directors sought out pharma- cists for their experience in extemporaneous manufac- turing and in purchasing medical goods.2 In the 1870s and 1880s, responding to the influx of immigrants, the number of hospitals in cities doubled. Most immigrants in this period were Roman Catholic, and they built Catholic hospitals. This was significant for two reasons—Catholic hospitals charged patients a small fee (which allowed services to be improved) and they were willing to train, or obtain training for, nuns in pharmacy. This era of hospital expansion coincided with reforms in nursing, development of germ theories,and the rise of scientific medicine and surgery. The general adoption of aseptic surgery in the 1890s made the hospital the center of medical care. Advances in surgery led to growth of community hospitals, most of which were small and relied on community pharmacies to supply medicines.2 By the early twentieth century, hospitals had devel- oped to the point of having more division of labor, more specialization in medical practice, a greater need for professional pharmaceutical services for handling com- plex therapies, and recognition that it was more eco- nomical to fill inpatient orders in-house. Hospital pharmacists retained the traditional role of compound- ing, which fostered a sense of camaraderie among them and an impetus to improve product quality and stan- dardization. The advent of the hospital formulary con- cept persuaded many hospital leaders about the value of professional pharmaceutical services. An important reason for hiring a hospital pharmacist in the 1920s was Prohibition—alcohol was commonly prescribed, and a pharmacist was needed for both inventory control and to manufacture alcohol-containing preparations, which were expensive to obtain commercially.2 By the 1930s, pharmacy-related issues in hospitals had coalesced to the point that the American Hospital Association (AHA) created a Committee of Pharmacy to analyze the problems and make recommendations. The 1937 report of that committee was considered so seminal by hospital pharmacy leaders that even a decade later they saw value in republishing it.9 The aim of the committee was to develop minimum stan- dards for hospital pharmacy departments and to pre- pare a manual of pharmacy operations. The committee characterized pharmacy practices in hospitals as “chaotic” and commented, “Few departments in hospi- tal performance have been given less attention by and large than the hospital pharmacy.” In the committee’s view, “…any hospital larger than one hundred beds warrants the employment of a registered pharmacist…. Unregistered or incompetent service should not be countenanced, not only because of legal complications but to insure absolute safety to the patient.”9 The pro- liferation of unapproved and proprietary drug products in hospitals was the target of extensive criticism by the committee. A Fifty-Year Perspective There is much that can be learned by comparing con- temporary hospital pharmacy with practice of 50 years ago. Fifty years is a comprehensible period of time for most people and, in hospital pharmacy’s case, the past half century was a period of astonishing advancement. The data sources for making such a comparison are remarkably good. A major study of hospital pharmacy was conducted between 1957 and 1960—the Audit of Pharmaceutical Services in Hospitals—under the direc- tion of Donald E. Francke and supported by a federal grant (see Figure 2-2). The results were published in a book, Mirror to Hospital Pharmacy, which remains a reference of monumental importance.10 In more recent times, ASHP has conducted an annual survey of hospi- tal pharmacy, yielding contemporary data for compari- son with the figures of an earlier era. Four major themes emerge from an examination of changes over this period: 1. Hospitals have recognized universally that pharmacists must be in charge of drug product acquisition, distribution, and control. 2. Hospital pharmacy departments have assumed a major role in patient safety. 3. Hospital pharmacy departments have assumed a major role in promoting rational drug therapy. 4. Hospital pharmacy departments have come to see their mission as fostering optimal patient outcomes from medication use. It is important to keep in mind what was happening over this period in the United States as a whole. Since 1950, the U.S. population has grown 86%. Expendi- tures for health care services have grown from about 5% of gross domestic product to 14%. This growth has fostered an endless stream of public and private initia- H A N D B O O K O F I N S T I T U T I O N A L P H A R M A C Y P R A C T I C E20 17283_019-032_CHAPTER 2 10/18/05 4:06 PM Page 20 C H A P T E R 2 : O V E R V I E W O F T H E H I S T O R Y O F H O S P I T A L P H A R M A C Y I N T H E U N I T E D S T A T E S 21 tives to curtail health care spending. Average daily hos- pital census, on a per-population basis, has declined by 24% during this period as a result of public and private initiatives to reduce hospital use. Nonfederal, short- term general hospitals in 1950 numbered 5,031 and rose to a zenith of 5,979 in 1975; in 2003 the number stood at 4,918, nearly 18% fewer than the peak of three decades before. On a per-capita basis, the num- ber of inpatient hospital beds has declined 65% since 1950. Since 1965 (the first year AHA reported these data), hospital outpatient visits have increased more than fourfold.11 Drug Product Acquisition, Distribution, and Control Fifty to sixty years ago, pharmaceutical services were of marginal importance to hospitals. The 1949 hospital standards of the American College of Surgeons had only three questions related to pharmacy in its point- rating system, and responses to those questions con- tributed only 10% to the overall rating. Pharmacy was perceived as a complementary service department, not as an essential service.12 Fewer than half the hospital beds in the nation (47%) in the late 1950s were located in facilities that had the services of a full-time pharmacist.10 Fewer than four out of 10 hospitals (39%) had the services of a pharmacist. Hospital size was an important determi- nant of the availability of a pharmacist. All larger short- term institutions—those with 300 beds or more— employed a full-time pharmacist. This performance declined sharply with decreasing hospital size: 200–299 beds 96% 100–199 beds 72% 50–99 beds 18% under 50 beds 3.5% Today, the vast majority of hospitals in the United States have the services of one or more pharmacists. Important exceptions are small rural hospitals that still rely on the services of local community pharmacists. About 7% of the nation’s hospitals have fewer than 25 beds; it is not known how many of them employ a pharmacist. In 1957, the total number of hospital pharmacists was 4,850 full time and about 1,000 part-time.10 Today, there are about 50,000 full-time equivalent pharma- cists providing inpatient services in nonfederal short- term hospitals.b,13 (Hospitals employ an equal number of pharmacy technicians.) About one-fourth of all actively practicing pharmacists in the U.S. today are in hospitals. Today’s hospitals employ approximately twelve full- time equivalent pharmacists per 100 occupied beds.13 The comparable figure for 1957 was approximately 0.4 FTE pharmacists per 100 occupied beds. In other words, pharmacist staffing in hospitals is 30-fold more intensive today. During the same interval, the intensity of hospital staffing as a whole increased approximately sevenfold.c Reflective of more intensified pharmacist staffing, 30% of hospitals today offer 24-hour inpatient phar- macy services. In the largest hospitals (400 beds), 95% of pharmacy departments are open around the clock.13 In the middle of the 20th century, nurses and com- munity pharmacists had significant responsibility for bThroughout this chapter, pharmacy data from recent ASHP surveys refer to U.S. nonfederal short-term hospitals. c Calculated based on data in Reference 11. Figure 2-2 Authors of the Mirror to Hospital Pharmacya a The authors of the Mirror to Hospital Pharmacy examining a slide containing data from the results of the Federal Audit of Pharmaceutical Services in Hospitals that was conducted in 1957. From left, Clifton J. Latiolais, Donald E. Francke, Gloria Niemeyer Francke, and Norman F. H. Ho. The results were publishedby ASHP in the book, Mirror to Hospital Pharmacy, in 1964. Source: ASHP Archives. 17283_019-032_CHAPTER 2 10/18/05 4:06 PM Page 21 H A N D B O O K O F I N S T I T U T I O N A L P H A R M A C Y P R A C T I C E22 hospital drug product acquisition, distribution, and control. The Mirror to Hospital Pharmacy estimated that 4,000 nurses were engaged in pharmacy work. Here are specific data collected in 1957 showing who handled drugs for the 2,200 hospitals that did not have a full-time pharmacist: Nonpharmacist personnel 45% (generally nurses) Nonpharmacist personnel 45% plus community pharmacist Supervision by local 9% community pharmacist Table 2-1 shows the services hospital pharmacists were providing in 1957–1960. Two types of services— bulk compounding and sterile solution manufactur- ing—were a major element of the hospital pharmacists’ professional identity in the 1950s (Figure 2-3). Hospi- tal pharmacy leaders of the day cited the following factors in explaining the heavy involvement in manu- facturing: ■ The unsuitability of many commercially available dosage forms for hospital use ■ The close relationship between physicians and pharmacists in hospitals ■ The opportunity to serve a need of physicians and patients ■ The opportunity to offer a professional service and build interprofessional relations10 Today, bulk compounding or manufacturing is no longer a significant activity in U.S. hospital pharma- cies. In sharp contrast to 50 years ago, hospital phar- macists now prefer to purchase commercial products whenever they are available, in the interests of appro- priate deployment of the workforce and of using prod- ucts of standard commercial quality. Changes in the laws and regulations that govern drug product manu- facturing and distribution, the development of a well- regulated generic pharmaceutical industry, and a shift in the perceived mission of pharmacy practice were among the factors that led to the relegation of manu- facturing to hospital pharmacy’s past. In summary, from mid-twentieth century to today, hospital pharmacy in the United States moved from an optional service to an essential service. It used to be that the administrator, the physicians, and the nurses in many institutions, especially smaller facilities, believed that they could function adequately with a drug room controlled by nurses. Today it is beyond question by anyone in the hospital field that medications need to be controlled by a pharmacy department that is run by qualified pharmacists. Moreover, as pharmacists have become firmly established in hospitals, they have been recognized for their expertise beyond drug acquisition, distribution, and control functions, which has led to greatly intensified pharmacy staffing. The growing opportunities in hospitals have attracted more practi- tioners to the field, which has made hospital practice a major sector of the profession. Patient Safety The clarion call to professionalism in hospital pharma- cy in recent times has been the patient safety impera- tive. Hospital pharmacists have made immense progress in this arena. Initially, that progress was tied to greater accuracy in dispensing and administration of medica- tions, but it has evolved to also focus on improving prescribing and monitoring the results of therapy. But it all started with a desire to improve drug product dis- tribution for inpatients. In 1957, there were two ways in which drug prod- ucts were distributed to hospital inpatients: as ward Table 2-1 Percentage of U.S. Hospitals Providing (or Desiring to Provide) Specific Pharmacist Services, 1957–1960a,10 Service Provide Would Like to Provide Supply drugs to nursing units 97 1 Inpatient prescriptions 95 1 Prescription compounding 94 1 Interdepartmental drug needs 91 1 Drug information 84 9 Outpatient prescriptions 64 6 Formulary system 53 25 Bulk compounding program 41 12 Teaching program 28 23 Product development/research 13 23 Sterile solution manufacturing 11 15 a Hospitals with a chief pharmacist. 17283_019-032_CHAPTER 2 10/18/05 4:06 PM Page 22 C H A P T E R 2 : O V E R V I E W O F T H E H I S T O R Y O F H O S P I T A L P H A R M A C Y I N T H E U N I T E D S T A T E S 23 stock or as individual prescriptions. If the patient was charged for the medication, individual prescriptions were generally used. Otherwise, it was most common for stock containers of medications to be available to the nurse for administration to the patient as needed.10 The authors of the Mirror to Hospital Pharmacy highlighted a critical limitation of medication systems of that era: “From the viewpoint of patient safety, one of the major advances in dispensing procedures would be the interpretation by the pharmacist of the physician’s original … order for the patient. In many hospitals, the pharmacist never sees the physician’s original order. In cases where the physician does write an original prescription, he does so only for a limited number of drugs, the other drugs being stock items on the nursing units. In many cases the pharmacist receives only an order transcribed by a nurse or even more commonly by a lay person such as a ward clerk. As a result, errors made by the prescribing physi- cian and errors made in transcribing his orders often go undetected, while the patient receives the wrong drug, the wrong dosage form, or wrong amount of the drug, or is given the drug by injec- tion when oral administration was intended, and vice versa.”14 Concerns about medication errors and about over- all efficiencies and best use of hospital personnel led to the development of improved drug distribution sys- tems.15 Two major studies were done in the early 1960s on unit dose drug distribution. At the University of Arkansas Medical Center, a centralized system was developed, and at the University of Iowa, a decentral- ized system was studied (see Figure 2-4).16,17 Both projects documented important benefits to unit dose drug distribution, including greater nursing efficiency, better use of the pharmacist’s talents, cost savings, and improved patient safety. The key elements of unit dose drug distribution, as the system has evolved from the original studies, are as follows: 1. The pharmacist receives the physician’s original order or a direct copy of the order. Figure 2-3 Sterile Solution Laboratory, Cardinal Glennon Memorial Hospital for Children, St. Louis, Missouri, circa 1950sa a Production of distilled water and the manufacture of large-volume sterile solutions were major pharmacy activities in medium and large hospitals in the 1950s and 1960s. Source: ASHP Archives. Figure 2-4 Pioneers in Unit Dose Drug Distribution—William Heller (circa 1965) and William Tester (circa 1965)a a The pharmacy departments led by these two prominent hospital pharmacists— William M. Heller (left), University of Arkansas Medical Center, and William W. Tester (right), University of Iowa Hospital—conducted important studies on unit dose drug distribution in the 1960s. This method of drug distribution was devised in response to the results of medication error studies. Source: ASHP Archives. 17283_019-032_CHAPTER 2 10/18/05 4:06 PM Page 23 2. A pharmacist reviews the medication order before the first dose is dispensed. 3. Medications are contained in single-unit packaging. 4. Medications are dispensed in as ready-to- administer form as possible. 5. Not more than a 24-hour supply of doses is delivered or available at the patient-care area at any time. 6. A patient medication profile is concurrently maintained for each patient.18 These precepts for state-of-the-art drug distribution are met widely in U.S. hospitals today. For example, in a 2002 survey, in 79% of hospitals, pharmacistsreviewed and approved all medication orders before the drug was administered to patients. The figure for the largest hospitals (≥400 beds) was 92%.19 There has been much debate in hospital pharmacy over the years about the virtues of centralized versus decentralized drug distribution. With a decentralized system, pharmacists come in contact more regularly with physicians, nurses, and patients, which is consis- tent with contemporary views about how the profession should be practiced. Among all hospitals, 20% use a decentralized system; the figure is 41% for the largest hospitals.19 Many hospitals indicate that they would like to move toward decentralized pharmacy services in the future (see Table 2-2). U.S. hospitals have shown a remarkable rate of adoption of point-of-use automated storage and distri- bution devices, which are now used to some extent in 58% of facilities. Point-of-use dispensing is now the primary method of dose delivery in about one-fourth of U.S. hospitals.19 Pharmacy-based IV admixture services have been widely adopted by U.S. hospitals. Development of such services, as a professional imperative, was a topic of intense interest in the 1960s.20 For short-term hospitals as a whole, ASHP estimates that about 80% of IV admixtures are now prepared by the pharmacy depart- ment.19 ASHP’s 2002 survey showed that most hospitals regularly engage in a number of programs designed to increase the safety of injectable medications, including educational programs on IV administration equipment (82%), administration and precautions associated with high-risk therapies (71%), and administration of IV push medications (62%); promulgating lists of approved IV push medications (57%); and affixing supplemental labels for IV push medications (53%).19 There is immense interest in U.S. hospitals in applying computer technology to improve the safety of medication prescribing, dispensing, and administration. Computer-generated medication administration records are used in 64% of all hospitals and in 75% of the largest hospitals.19 The foregoing data notwithstanding, the cost of such technology is having a decided moder- ating effect on the rate of adoption. For example, in 2002, only about 2% of hospitals used computer- readable coding technology to improve accuracy of medication administration, and, in 2004, only about 3% of hospitals used a computerized prescriber order entry system that was linked to a decision support sys- tem.13,19 Because of the concerns of groups such as the Institute of Medicine and various federal agencies, improving patient safety is now a major national priori- ty.21 When that general interest in patient safety embraces medication-use safety, hospital pharmacists have cheered and felt “it’s about time!” Further break- through advances in medication-use safety will depend on a fundamental reengineering of the entire medica- tion-use process, a shift toward a true team culture in providing care, and wider application of computer technology.22 As new technologies or new patterns of health professional behavior evolve, history suggests that hospital pharmacists will be at the leading edge of those advances. Promoting Rational Drug Use In U.S. hospitals, the concept of a pharmacy and thera- peutics (P&T) committee, as a formal mechanism for the pharmacy department and the medical staff to communicate on drug-use issues, was first promulgated in 1936 by Edward Spease (dean of the School of Pharmacy at Western Reserve University) (Figure 2-5) and Robert Porter (chief pharmacist at the University’s H A N D B O O K O F I N S T I T U T I O N A L P H A R M A C Y P R A C T I C E24 Table 2-2 Hospitals with Decentralized Drug Product Distribution19 Year 2002 Future Desire All hospitals 20% 44% Largest hospitals (≥400 beds) 41% 56% 17283_019-032_CHAPTER 2 10/18/05 4:06 PM Page 24 C H A P T E R 2 : O V E R V I E W O F T H E H I S T O R Y O F H O S P I T A L P H A R M A C Y I N T H E U N I T E D S T A T E S 25 hospitals).23 Subsequently, the American Hospital Association and the American Society of Hospital Pharmacists jointly developed guidance on the P&T committee and on the operation of a hospital formula- ry system. The formulary system is a method whereby the medical staff of a hospital, working through the P&T committee, evaluates, appraises, and selects from among the drug products available those that are con- sidered most useful in patient care. The formulary sys- tem is also the framework in which a hospital’s medi- cation-use policies are established and implemented. A major imperative for the advocates of the formu- lary system in the mid-1900s was to manage the proli- feration of drug products. The number of new market entries for just one year, 1951, were as follows: New drug products, 332 New drug entities, 35 Duplications of drug entities, 74 Combination products, 22124 In 1957, slightly more than half of all hospitals operated under the formulary system.10 Today, essen- tially all hospitals do so.13 In 1957, 58% of hospitals had an active P&T com- mittee, and a similar percentage of hospitals had a formulary or approved drug list. However, about one fourth of the P&T committees were inactive.10 Today, nearly all hospitals in the U.S. have an active P&T committee that meets an average of seven times a year.13 In the late 1950s, the functions of P&T committees focused on very basic activities such as delegating to the chief pharmacist responsibility for preparing prod- uct specifications and selecting sources of supply (66% of committees) and approving drugs by nonpro- prietary name (50%).10 In most hospitals today, the P&T committee has authorized pharmacists to track and assess adverse drug events (ADEs), conduct retro- spective drug-use evaluations, and identify and moni- tor patients on high-risk therapies.13 In summary, concepts first advanced in the 1930s regarding a formal communications linkage between the hospital pharmacy department and the medical staff with respect to drug-use policy have taken hold firmly. Hospital pharmacists are heavily engaged in helping the medical staff establish drug-use policies, in implementing those policies, in monitoring compliance with those policies, and in taking corrective action. The invention of the pharmacy and therapeutics committee and the hospital formulary system has facilitated the deep involvement of pharmacists in promoting rational drug use in hospitals. Fostering Optimal Patient Outcomes U.S. hospital pharmacists have evolved markedly in their self-concept over the past 50 years. As recently as 20 years ago, the traditional pharmacist mission pre- vailed, a mission that was captured in the words, right drug, right patient, right time, connoting a drug- product-handling function. Right drug in this context meant whatever the physician ordered. Today’s philos- ophy about the mission of pharmacists focuses on achieving optimal outcomes from medication use. The overarching question for the hospital pharmacist is whether the right drug is being used in the first place. A popular phrase used to summarize this philosophy is, “The mission of pharmacists is to help people make the best use of medicines.” These words reflect a pro- found paradigm shift with respect to the primary pur- pose of pharmacy practice.25,26 In the 1950s, hospital pharmacy’s Spartan staffing levels did not leave much time for work beyond the Figure 2-5 Advocate of the Pharmacy and Therapeutics Committee—Edward Spease (1883–1957), circa 1952a a Edward Spease established one of the first college courses in hospital pharmacy and developed the Minimum Standards for Hospital Pharmacies for the American College of Surgeons in 1936. At the time, Spease was dean and professor at Cleveland’s Western Reserve University School ofPharmacy. Source: ASHP Archives. 17283_019-032_CHAPTER 2 10/18/05 4:06 PM Page 25 basics of acquiring, storing, compounding, and distri- buting medications. Nevertheless, chief pharmacists of the time were called upon frequently by physicians and nurses to answer drug information questions related to dosage, dosage forms, and pharmacology. Somewhat less frequently, pharmacists were asked for advice on adverse drug reactions and clinical comparisons of products. In analyzing pharmacist consultations, the authors of the Mirror to Hospital Pharmacy suggested that both weakness in the pharmacist’s scientific know- ledge and lack of time contributed to limited progress in this realm. The transformation of the hospital pharmacy department from a product orientation to a clinical orientation was stimulated by active consensus-build- ing efforts by hospital pharmacy leaders. One impor- tant example of such efforts was the ASHP Head con- ference.25 Hilton Head refers to a consensus-seeking invita- tional conference conducted in 1985 in Hilton Head, South Carolina, officially designated as an invitational conference on Directions for Clinical Practice in Phar- macy (see Figure 2-6). The purpose of the meeting was to assess the progress of hospital pharmacy departments in implementing clinical pharmacy. What emerged from the event was the idea that clinical pharmacy should not be thought of as something separate from pharmacy practice as a whole. Rather, hospital phar- macies should function as clinical departments with a mission of fostering the appropriate use of medicines. This was a very important idea because most hospital pharmacists thought in terms of adding discrete clini- cal services (such as pharmacokinetic monitoring) rather than conceptualizing the totality of the depart- ment’s work as a clinical enterprise. Working through its affiliated state societies, ASHP supported repetitions of the conference on a regional basis. ASHP leaders spoke at meetings around the country about the ideas of Hilton Head, and the Ameri- can Journal of Hospital Pharmacy published numerous papers on the subject. As a result, many individual pharmacy departments began to hold retreats of their staffs to reassess the fundamental mission of their work. It was common for departments to adopt mission statements that, for the first time, framed their work not in terms of drug dis- tribution but in terms of achieving optimal patient out- comes from the use of medicines. The most important indirect indicators of hospital pharmacist clinical activity in the current era are shown in Table 2-3. There is a growing body of scien- tific evidence, published in both the medical and phar- macy literature, about the positive outcomes achieved through pharmacist involvement in direct patient care.27–30 In summary, U.S. hospital pharmacists today are engaged in extensive clinical activity, which is a major change from practice of 50 years ago. We are not yet at the point where a majority of hospital patients who are on medication therapy receive the benefit of clini- cal oversight by the pharmacist, but progress in this direction continues to be made. Recap of Major Themes Thus we have a picture of the major thrust of changes in hospital pharmacy over the past 50 years. The four major themes have been, first, the universal recogni- tion by hospitals that pharmacists must be in charge of drug product acquisition, distribution, and control; second, hospital pharmacy departments have assumed a major role in patient safety; third, pharmacy depart- ments have assumed a major role in promoting ration- al drug therapy; and, finally, pharmacy departments H A N D B O O K O F I N S T I T U T I O N A L P H A R M A C Y P R A C T I C E26 Figure 2-6 Hilton Head Conference, 1985a a A workshop session at ASHP’s Hilton Head conference in 1985. This invitational consensus-seeking program was designed to assess the progress of hospital pharmacy departments in implementing clinical pharmacy; as a result of the dis- cussions, many hospital pharmacy departments began to conceptualize their mission in terms of fostering appropriate use of medicines. Standing at the flip chart at one of the break-out sessions is Henri R. Manasse, Jr., at the time dean of the School of Pharmacy, University of Illinois at Chicago Source: ASHP Archives. 17283_019-032_CHAPTER 2 10/18/05 4:06 PM Page 26 C H A P T E R 2 : O V E R V I E W O F T H E H I S T O R Y O F H O S P I T A L P H A R M A C Y I N T H E U N I T E D S T A T E S 27 have defined their mission in terms of optimal patient outcomes from medication use. Taken together, these changes signify that pharmacy practice in U.S. hospi- tals over the past 50 years has become more intensive in its professional staffing, more directly focused on patient care, and more directly influential on the quali- ty and outcome of patient care. In short, hospital phar- macy has been transformed from a marginal, optional activity into a vital profession contributing immensely to the health and well being of patients and to the sta- bility of the institutions that employ them. Explaining the Transformation A combination of indirect and direct factors helps explain this transformation in hospital pharmacy. Indirect factors are those forces external to hospital pharmacy that fostered development of the field. These factors include the following: ■ Shift of national resources into health care, especially hospital care (stimulated immensely by implementation of Medicare in 1965 and expansion of other health insurance coverage). ■ Expanded clinical research and drug product development. ■ Greater complexity and cost of drug therapy accompanied by sophisticated pharmaceutical product marketing. ■ Growing interest in improving the quality of health care services. More important for this chapter’s discussion are the internal factors within hospital pharmacy that precipi- tated the changes discussed above. In this category, five points merit discussion: 1. Visionary leadership 2. Professional associations 3. Pharmacy education 4. Postgraduate residency education and training 5. Practice standards Visionary Leadership One cannot read the early literature of hospital phar- macy in the U.S. without being impressed by the clear articulation of an exciting, uplifting vision by that era’s practice leaders. These views were being expressed at a time when pharmacy was a marginal profession in the U.S.; when most pharmacists were engaged primarily in retail, mercantile activities; when hospital pharmacy had little visibility and respect; and when hospital pharmacy was a refuge for pharmacists who preferred minimal interactions with the public. Out of this envi- ronment emerged a number of hospital pharmacists, many of them at university teaching hospitals, who expressed an inspiring vision about the development of hospital pharmacy and about the role of hospital phar- macy in elevating the status of pharmacy as a whole. These were leaders such as Arthur Purdum, Edward Spease, Harvey A. K. Whitney, and Donald E. Francke (to mention only a few) who were familiar with the history of pharmacy and had a sense of phar- macy’s unfulfilled potential. Many of them had seen European pharmacy firsthand and decried the immense gap in professional status and scope of practice between the two continents. A sense of the deep feelings of these leaders may be gained from the following comment by Edward Spease, a retired pharmacy dean speaking in 1952 about his initial exploration of hospital pharmacy 40 years earlier: “I expected to see true professional pharmacy in hospitals and was much disappointed that it did not exist there. The more I observed and heard about the growing tendency towards commercial- Table 2-3Indicators of Contemporary Hospital Pharmacist Clinical Activity All Largest Hospitals Hospitals (≥400 beds) Hospitals with decentralized pharmacists 29% 82% (1999 data)a Percentage of decentralized pharmacists time spent on clinical activities (1999) 59% - Pharmacists have authority to initiate 52% 62% medication orders (2001) Pharmacists attend rounds (2004) 35% 79% Pharmacists provide drug information 90% - consultations (2004) Pharmacists monitor prescriber 81% 92%compliance with medication-use policies (2004) a All data are from ASHP national surveys of the year shown. 17283_019-032_CHAPTER 2 10/18/05 4:06 PM Page 27 ism in drugstores, the more I felt that if profes- sional pharmacy was to exist, let alone grow to an ideal state, it would have to be in the hospital where the health professions were trained…. Good pharmacy is as important in hospitals away from teaching centers as it is in the teaching and research hospital. It can be developed to a high degree of perfection there, too, if the pharmacist can get the picture in his mind.” (Emphasis added.)31 “…if the pharmacist can get the picture in his mind.” Those are key words that reflect that early hos- pital pharmacy leaders were trying to create a new model for pharmacy practice in hospitals and not allow this practice setting to become an extension of the type of practice that prevailed in community pharmacies. These leaders were change agents with a missionary zeal, and they were blessed with the ability to infect others with their passion. It is noteworthy that the Mirror to Hospital Phar- macy framed the entire Audit project in the context of professional advancement. The report laid out the essential characteristics of a profession and articulated goals for hospital pharmacy that would bring pharmacy as a whole into better alignment with those character- istics. Professional Associations The national organization of hospital pharmacists— the American Society of Health-System Pharmacists (ASHP)—has had a profound effect on the advance- ment of the field. The visionary hospital pharmacists of the early 1900s focused much of their energies on the creation of an organizational structure for hospital pharmacy. One landmark event was the creation of the Hospital Pharmacy Association of Southern California in 1925. On a national level, organizational efforts were funneled through the American Pharmaceutical Association (APhA), the oldest national pharmacist organization in the country. For years, hospital phar- macists participated in various committee activities of APhA focused on their particular interest. Then, in 1936, a formal APhA subsection on hospital pharmacy was created. This modest achievement evolved to the creation of ASHP in 1942 as an independent organiza- tion affiliated with APhA32 (see Figure 2-7). There are two essential things that ASHP has done for the advancement of hospital pharmacy. One is to serve as a vehicle for the nurturing, expression, and actualization of the professional ideals and aspirations of hospital pharmacists. In its early years, ASHP con- ducted a series of educational institutes that were very influential in enhancing knowledge and skills and in building esprit de corps among hospital pharmacists.33 Also noteworthy, especially as the organization has grown in size and diversity, is ASHP’s efforts to devel- op consensus about the direction of practice.25,26 The second essential act of ASHP has been its cre- ations of resources to assist practitioners in fostering the development of hospital pharmacy practice. One example is the AHFS Drug Information reference book (and, in recent times, electronic versions for central information systems, desktop computers, and hand- held devices), which is the most widely used independ- ent source of drug information in U.S. hospitals. Another example is the American Journal of Health- H A N D B O O K O F I N S T I T U T I O N A L P H A R M A C Y P R A C T I C E28 Figure 2-7 A Leading Force in the Creation of ASHP—Harvey A. K. Whitney (1894–1957) circa, 1940a a Harvey A. K. Whitney took the lead in organizing hospital pharmacists in the United States. He was chief pharmacist at the University of Michigan Hospitals when he became ASHP’s first chairman (president) in 1942. Whitney was also a pioneer in developing postgraduate training in hospital pharmacy. Source: ASHP Archives. 17283_019-032_CHAPTER 2 10/18/05 4:06 PM Page 28 C H A P T E R 2 : O V E R V I E W O F T H E H I S T O R Y O F H O S P I T A L P H A R M A C Y I N T H E U N I T E D S T A T E S 29 System Pharmacy. These two publications, and other ASHP activities such as the Midyear Clinical Meeting, have produced a source of funds beyond membership dues that ASHP has used to develop a broad array of services that help members advance practice. The original objectives of ASHP were as follows: ■ Establish minimum standards of pharmaceutical service in hospitals ■ Ensure an adequate supply of qualified hospital pharmacists by providing standardized hospital pharmacy training for four-year pharmacy graduates ■ Arrange for interchange of information among hospital pharmacists ■ Aid the medical profession in the economic and rational use of medicines The core strengths of ASHP today are as follows: ■ Practice standards and professional policy ■ Advocacy (government affairs and public relations) ■ Residency and technician training accreditation ■ Drug information ■ Practitioner education ■ Publications and communications One of the reasons for ASHP’s success has been its clarity about objectives and its concentrated focus on a limited number of goals. It is a testament to the wis- dom of ASHP’s early leaders that the goals expressed in 1942 still serve to guide the organization, although different words are used today to express the same ideas, and some other points have been added. The organization continues as a powerful force in the ongoing efforts to align pharmacists with the needs that patients, health professionals, and administrators in hospitals have related to the appropriate use of medicines. Pharmacy Education There are three important points about the role of pharmacy education in transforming hospital pharmacy. First, as pharmacy education as a whole has been upgraded over the years, hospital pharmacy has bene- fited by gaining practitioners who are better educated and better prepared to meet the demands in hospital practice. Second, hospital pharmacy leaders have put considerable pressure on pharmacy educators to up- grade the pharmacy curriculum, to make it more con- sistent with the needs in hospital practice. This is sig- nificant because practice demands have always been far more intense in hospitals than in community phar- macy, so pressure to meet the demands in hospitals served to elevate education for all pharmacists. Also, beginning in the 1970s, corresponding with increased emphasis on clinical pharmacy in the curriculum, hos- pital pharmacies played a much larger role in pharma- cy education as clerkship rotation sites for pharmacy students. Third, in the early days of clinical education, faculty members from schools of pharmacy began establishing practice sites in hospitals, which often had a large impact on the nature of the hospital’s pharmacy service. Table 2-4 shows how the minimum requirements for pharmacy education have evolved over the years. It took a very long time for pharmacy in the U.S. to set- tle on the Pharm.D. as the sole degree for pharmacy practice. Many bitter fights—between educators, between practitioners, among educators and practition- ers, and among educators and the retail employers of pharmacists—occurred over this issue. Now that the matter is settled, everyone seems tobe moving on with the intention of making the best application of the pharmacist’s excellent education. Over the past 20 years, pharmacy education in the U.S. has been transformed completely from teaching primarily about the science of drug products to teach- ing primarily about the science of drug therapy. Trans- Table 2-4 Evolution of Minimum Requirements for Pharmacist Education in the United States Year Minimum Requirement (Length of Curriculum and Degree Awarded) 1907 2 years (Graduate in Pharmacy) 1925 3 years (Graduate in Pharmacy or Pharmaceutical Chemist) 1932 4 years (B.S. or B.S. in Pharmacy) 1960 5 years (B.S. or B.S. in Pharmacy)a 2004 6 years (Pharm.D.) a Transition period; some schools offered only the B.S. or the Pharm.D. degree; many schools offered both degrees, with the Pharm.D. considered an advanced degree. 17283_019-032_CHAPTER 2 10/18/05 4:06 PM Page 29 H A N D B O O K O F I N S T I T U T I O N A L P H A R M A C Y P R A C T I C E30 formation of hospital pharmacy practice from a prod- uct orientation to a patient orientation could not have occurred without this change in education. Postgraduate Residency Education and Training Stemming from its early concerns about the inadequa- cy of pharmacy education for hospital practice, ASHP leaders advocated internships in hospitals and worked for years to establish standards for such training. This led to the concept of residency training in hospital pharmacy and a related ASHP accreditation pro- gram.33–35 Early hospital pharmacy leaders noted the following imperatives for hospital pharmacy residency training36: ■ Hospitals were expanding, thereby creating a growing unmet need for pharmacists who had been educated and trained in hospital pharmacy. ■ Pharmaceutical education was out of touch with the needs in hospital pharmacy. ■ The internship training required by state boards for licensure was not adequate preparation for a career in hospital pharmacy practice. ■ Hospital pharmacists required specialized train- ing in manufacturing, sterile solutions, and phar- macy department administration. ■ Organized effort was needed to achieve improve- ments in hospital pharmacy internships or resi- dencies. There are well over 10,000 pharmacists in practice who have completed accredited residency training. These individuals have been trained as change agents and practice leaders. Early in their careers, they came to understand the complexity of hospital pharmacy, including inpatient operations, outpatient services, drug product technology and quality, and medication- use policy. Residency training is the height of mentor- ship in professionalism in American pharmacy. Dreams are fostered in residency training—dreams of the pro- fession becoming an ever more vital force in health care; dreams of patients improving their health status more readily because pharmacists are there to help them. Practice Standards Numerous legal and quasi-legal requirements affect hospital pharmacy practice. On the legal end of the spectrum are various federal laws governing drug prod- ucts and state practice acts governing how the phar- macist behaves and how pharmacies are operated. At the opposite end of the spectrum are voluntary practice standards promulgated by organizations such as ASHP. A practice standard is an authoritative advisory document, issued by an expert body, that offers advice on the minimum requirements or optimal method for addressing an important issue or problem. A practice standard does not generally have the force of law. Methods used to foster compliance with practice stan- dards include education and peer pressure. ASHP’s practice standards have been very important in elevat- ing hospital pharmacy in the United States. The origins of hospital pharmacy practice standards go back to 1936 when the American College of Surgeons adopted the Minimum Standard for Pharma- cies in Hospitals. This document was semidormant for a number of years, but it served as a rallying point for hospital pharmacists and revision and promulgation of the Standard became a priority for ASHP.37 The revision pursued by ASHP in the 1940s speci- fied the following minimum requirements: ■ An organized pharmacy department under the direction of a professionally competent, legally qualified pharmacist ■ Pharmacist authority to develop administrative policies for the department ■ Development of professional policies for the department with the approval of the pharmacy and therapeutics committee ■ Ample number of qualified personnel in the department ■ Adequate facilities ■ Expanded scope of pharmacist’s responsibilities: - Maintain a drug information service - Nurse and physician teaching - File periodic progress reports with administrator ■ P&T committee must establish a formulary From this modest beginning, ASHP has developed more than 60 practice standards that deal with most aspects of hospital pharmacy operations and several major controversies in therapeutics.38 ASHP practice standards have been used effectively over the years as a lever for raising the quality of hos- pital pharmacy services. The standards have been used in the following ways: 17283_019-032_CHAPTER 2 10/18/05 4:06 PM Page 30 C H A P T E R 2 : O V E R V I E W O F T H E H I S T O R Y O F H O S P I T A L P H A R M A C Y I N T H E U N I T E D S T A T E S 31 ■ Requirements for pharmacy practice sites that conduct accredited residency programs ■ Guidance to practitioners who desire to volun- tarily comply with national standards ■ Guidance to the Joint Commission on Accredi- tation of Healthcare Organizations in developing standards for pharmacy and the medication-use process ■ Tools for pharmacy directors who are seeking administrative approval for practice changes ■ Guidance to regulatory bodies and courts of law ■ Guidance to curriculum committees of schools of pharmacy Summary of Internal Factors In summary, five internal factors have played a large role in transforming U.S. hospital pharmacy over the past 50 years: (1) visionary leadership, (2) a strong professional society, (3) reforms in pharmacy educa- tion, (4) residency training, and (5) practice standards. The common element among these forces has been dissatisfaction with the status quo and burning desire to bring hospital pharmacy in better alignment with the needs of patients and the needs of physicians, nurses, other health professionals, and administrators in hospitals. Summary From the author’s perspective, clouded to be sure by participation in the hospital pharmacy movement for many years, four tentative lessons may be drawn from the history of U.S. hospital pharmacy: 1. Fundamental change of complex endeavors requires leadership and time. Hospital pharma- cists are sometimes frustrated by the slow pace of change. Wider study of history might help practitioners dissolve that discouragement. 2. It is important to engage as many practitioners as possible in assessing hospital pharmacy’s problems and identifying solutions, so that a large number of individuals identify with the final plan and are committed to pursuing it. 3. It is critical to recognize and capitalize on changes in the environment that may make conditions more favorable to the advancement of hospital pharmacy. This requires curiosity about the world at large. 4. It is important to regularly and honestly assess progress and embark on a new approach if the existing plan for constructive change is not working or has run its course. This requires open-mindedness and a good sense of timing. Today’s challenges in hospital pharmacy are no more daunting than those that faced hospital pharma- cy’s leaders and innovators in the past. Fortunately, hospital pharmacy isimbued with a culture of taking stock, setting goals, making and executing plans, meas- uring results, and refining plans. If hospital pharmacy sticks to this time-tested formula, it will continue to be a beacon for the profession as a whole. References 1. Niemeyer G, Berman A, Francke DE. Ten years of the American Society of Hospital Pharmacists, 1942–1952. Bull Am Soc Hosp Pharm. 1952;9:279–421. 2. Higby G. American hospital pharmacy from the colonial period to the 1930s. Am J Hosp Pharm. 1994;51: 2817–23. 3. Harris RR, McConnell WE. The American Society of Hospital Pharmacists: a history. Am J Hosp Pharm. 1993;50(suppl 2):S3–S45. 4. Berman A. Historical currents in American hospital pharmacy. Drug Intell Clin Pharm. 1972;6:441–7. 5. Wolfe HG. Charles Rice (1841–1901), an immigrant in pharmacy. Am J Pharm Educ. 1950;14:285–305. 6. Burkholder DF. Martin Inventius Wilbert (1865–1916): hospital pharmacist, historian, and sci- entist. Am J Hosp Pharm. 1968;25:330–43. 7. Williams WH. Pharmacists at America’s first hospital, 1752–1841. Am J Hosp Pharm. 1976;33:804–7. 8. Starr P. The reconstitution of the hospital. In: Starr P. The Social Transformation of American Medicine. New York: Basic Books; 1982:145–79. 9. Hayhow EC, Amberg G, Dooley MS, et al. Report of committee on pharmacy, American Hospital Associa- tion, 1937. Bull Am Soc Hosp Pharm. 1948;5:89–96. 10. Francke DE, Latiolais CJ, Francke GN, et al. Mirror to Hospital Pharmacy—A Report of the Audit of Pharma- ceutical Services in Hospitals. Washington: American Society of Hospital Pharmacists; 1964. 11. AHA Hospital Statistics, 2005. Chicago: Health Forum; 2005. 12. Purdum WA. Minimum standards and the future. Bull Am Soc Hosp Pharm. 1951;8:114–7. 13. Pedersen CA, Schneider PJ, Scheckelhoff DJ. ASHP national survey of pharmacy practice in hospital set- tings: prescribing and transcribing—2004. Am J Health-Syst Pharm. 2005;62:378–90. 14. Francke DE, Latiolais CJ, Francke GN, op. cit. p 115. 17283_019-032_CHAPTER 2 10/18/05 4:06 PM Page 31 15. Barker KN, McConnell WE. The problems of detecting medication errors in hospitals. Am J Hosp Pharm. 1962;19:361–9. 16. Barker KN, Heller WM. The development of a central- ized unit dose dispensing system, part one: description of the UAMC experimental system. Am J Hosp Pharm. 1963;20:568–79. 17. Black HJ, Tester WW. Decentralized pharmacy opera- tions utilizing the unit dose concept. Am J Hosp Pharm. 1964;21:344–50. 18. ASHP technical assistance bulletin on hospital drug distribution and control. Am J Hosp Pharm. 1980;37:1097–103. 19. Pedersen CA, Schneider PJ, Scheckelhoff DJ. ASHP national survey of pharmacy practice in hospital set- tings: dispensing and administration—2002. Am J Health-Syst Pharm. 2003;60:52–68. 20. Holysko Sr, MN, Ravin RL. A pharmacy centralized intravenous additive service. Am J Hosp Pharm. 1965;22:266–71. 21. Committee on Quality of Health Care in America (Institute of Medicine). Crossing the Quality Chasm— A New Health System for the 21st Century. Washington: National Academy Press; 2001. 22. Re-engineering the medication-use system—proceed- ings of a national interdisciplinary conference conduct- ed by the Joint Commission of Pharmacy Practitioners. Am J Health-Syst Pharm. 2000;57:537–601. 23. Francke DE, Latiolais CJ, Francke GN, op. cit. p 139. 24. Francke DE. Hospital pharmacy looks to the future. In: Harvey A. K. Whitney Award Lectures (1950–2003). Bethesda, MD: ASHP Research and Education Foundation; 2004:19–25. 25. Directions for clinical practice in pharmacy—proceed- ings of an invitational conference conducted by the ASHP Research and Education Foundation and the February 10–13, 1985, Hilton Head Island, South Carolina. Am J Hosp Pharm. 1985;42:1287–342. 26. Implementing pharmaceutical care. Proceedings of an invitational conference conducted by the American Society of Hospital Pharmacists and the ASHP Research and Education Foundation. Am J Hosp Pharm. 1993;50:1585–656. 27. Leape LL, Cullen DJ, Clapp MD, et al. Pharmacist participation on physician rounds and adverse drug events in the intensive care unit. JAMA. 1999;282:267–70. 28. Kucukarslan SN, Peters M, Mlynarek M, et al. Pharmacists on rounding teams reduce preventable adverse drug events in hospital general medicine units. Arch Intern Med. 2003;163:2014–8. 29. Boyko WL, Yurkowski PJ, Ivey MF, et al. Pharmacist influence on economic and morbidity outcomes in a tertiary care teaching hospital. Am J Health-Syst Pharm. 1997;54:1591–5. 30. Bjornson DC, Hiner WO, Potyk RP, et al. Effect of pharmacists on health care outcomes in hospitalized patients. Am J Hosp Pharm. 1993;1875–84. 31. Spease E. Background to progress. Bull Am Soc Hosp Pharm. 1953;10:362–4. 32. Niemeyer G. Founding and growth. Bull Am Soc Hosp Pharm. 1952;9:299–338. 33. Niemeyer G. Education and training. Bull Am Soc Hosp Pharm. 1952;9:363–75. 34. Francke DE. Contributions of residency training to institutional pharmacy practice. Am J Hosp Pharm. 1967; 24:193–203. 35. ASHP residency and accreditation information. Available at: http://www.ashp.org/rtp/index.cfm?cfid= 4992632&CFToken=35717293. Accessed February 1, 2005. 36. Francke DE, Latiolais CJ, Francke GN, op. cit. p 157–67. 37. Niemeyer G. Establishment of minimum standard. Bull Am Soc Hosp Pharm. 1952;9:339–46. 38. ASHP policy positions, statements, and guidelines. Available at: http://www.ashp.org/bestpractices/ index.cfm?cfid=4992632&CFToken=35717293. Accessed February 1, 2005. H A N D B O O K O F I N S T I T U T I O N A L P H A R M A C Y P R A C T I C E32 17283_019-032_CHAPTER 2 10/18/05 4:06 PM Page 32 105 Psicologia: Teoria e Pesquisa 2010, Vol. n. , pp. 105-114 Moral e Ética: Uma Leitura Psicológica Yves de La Taille1 Universidade de São Paulo RESUMO - Após um século de reflexões e investigações, como era de se esperar, a Psicologia Moral apresenta sinais de esgotamento de seus referenciais teóricos clássicos. Consequentemente, novas perspectivas se abrem, entre elas a abordagem teórica que leva o nome de ‘personalidade ética’, cuja tese é: para compreendermos os comportamentos morais (deveres) dos indivíduos, precisamos conhecer a perspectiva ética (vida boa) adotadas por eles. Entre os invariantes psicológicos de realização de uma ‘vida boa’, está a necessidade de ‘expansão de si próprio’. Como tal expansão implica ter ‘representações de si’ de valor positivo, entre elas poderão estar aquelas relacionadas à moral. Se estiverem, o sujeito experimentará o sentimento de dever, do contrário, a motivação para a ação moral será inexistente ou fraca. Palavras-chave: Psicologia Moral; moral; ética; personalidade ética; representações de si. Moral and Ethic: A Psychological Reading ABSTRACT - After nearly a century of reflections and investigations, as it would be expected, the classical theoretical referentials of Moral Psychology show signs of exhaustion. Consequently, new perspectives open up, including the theoretical approach that takes the name of ‘ethic personality’, whose thesis is: to understand the moral behavior (duties) of individuals, one needs to know the ethical perspective (good life) adopted by them. Among the psychological invariants to hold a ‘good life’ is the need for ‘expansion of the self’. Such expansion involves positive ‘self representations’, among of which may be those related to morality. If so, the subject will experience the feeling of duty, otherwise, the motivation for moral action will be weak or non-existent. Keywords: Moral Psychology; morality; ethics; ethical personality; self’s representations. 26 especial 1 Endereço para correspondência: Via das Acácias, 731. Jardim Colibri. Embu, SP. CEP 06805330. E.mail: ytaille@usp.br. No começo do século XX, em 1902 exatamente, Lévy-Bruhl, para quem “uma moral, mesmo quando quer ser teórica, é sempre normativa, e, justamente porque é nor- mativa, nunca é realmente teórica” (1971, p. 12), propunha que a moralidade fosse finalmente tema de investigações científicas, notadamente psicológicas. O seu conselho foi seguido e, assim como na Filosofia, praticamente todos os grandes autores na área da Psicologia se debruçaram sobre o tema da moral. Os construtores de grandes ‘teorias do su- jeito’, como Freud, Piaget e Skinner, para citar apenas três, dedicaram-se a pensar a moralidade por intermédio de suas respectivas abordagens teóricas. Todavia, os três autores citados o fizeram de maneira, por assim dizer, ocasional. Com efeito, a moral não é o tema central da psicanálise, nem o é do construtivismo piagetiano, e tampouco do behavio- rismo skinneriano. Seria preciso esperar a segunda metade do século passado para que a chamada Psicologia Moral se tornasse campo preciso e consagrado de estudo, notadamente graças às já clássicas contribuições de Lawrence Kohlberg. Como o psicólogo americano inspirou-se no livro pioneiro de Jean Piaget, Le jugement moral chez l’enfant, publicado pela primeira vez em 1932, pode-se dizer que a linha mestra que orientou grande quantidade de estudos e pesquisas foi tributária das ideias do criador da Epistemologia Genética. Note-se que, no Brasil, a área da Psicologia Moral foi desen- volvida por vários pesquisadores, como o atesta a existência, desde o início da década de 1990, de um grupo de trabalho da Associação Nacional de Pesquisa em Psicologia (ANPEPP) dedicado ao tema. No final do século XX, assiste-se, como era de se esperar, a certo esgotamento do referido modelo teórico, que costuma responder pelo nome de construtivismo, não que ele se mos- trasse ‘errado’ (tantos dados comprovaram sua relevância), mas porque não somente não oferecia grandes perspectivas de novos e relevantes achados empíricos e teóricos, como, centrado no aspecto racional da moralidade, relegava a uma zona obscura os motivos humanos da ação moral (que não se reduz ao juízo moral, embora dele indissociável). Novas perspectivas, então, foram encetadas. Como o presente texto não se pretende ‘didático’, logo não pretende contar a história passada e recente da Psicolo- gia Moral, nele será tratada uma dessas novas perspectivas por intermédio de conceitos e propostas teóricas que foram elaboradas durante a década de 1990 e os 10 primeiros anos do presente século. A tese psicológica que vamos aqui analisar pode ser as- sim enunciada: para compreendermos os comportamentos morais dos indivíduos precisamos conhecer a perspectiva ética que estes adotam. Tal afirmação, é claro, pressupõe uma diferença de senti- do entre os conceitos de moral e de ética. Vamos, portanto, começar por explicitar a diferença de sentido assumida para, em seguida, nos debruçarmos sobre a tese acima apresentada. 106 Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26 n. especial, pp. 105-114 Y. La Taille O Plano Moral A Psicologia trabalha com fatos. Vamos, então, nos perguntar se a definição que Kant (1994) propõe da moral corresponde a uma possível realidade psíquica. Como se sabe, para o filósofo de Königsberg, somente é moral a ação inspirada por um imperativo categórico, portanto, oriunda de um dever incondicional. Logo, para Kant, a moral ordena: o sujeito moral sente-se intimamente obrigado a agir segundo determinadas regras. Sua ação é, para ele, necessária, e não apenas possível ou provável, e isto porque o bem moral é um bem em si. Não nos interessa, por enquanto, discutir o conteúdo da moral assim definida. O que nos interessa é saber se, sim ou não, tal sentimento de obrigatoriedade corresponde a um fato psicológico, pelo menos em alguns indivíduos. Se a resposta for afirmativa, seremos obrigados a reconhecer que existe um plano moral possível na psique humana (empregamos o conceito de plano moral para sepa- rar forma de conteúdo: tal plano é o lugar do sentimento de obrigatoriedade, seja qual for a regra contemplada - a moral é sempre uma determinada moral, portanto, comprometida com determinados valores, princípios e regras). Ora, a resposta à nossa pergunta certamente é afirmativa. É, pelo menos, o que a experiência leva a pensar, e é também o que autores dedicados ao tema que nos interessa assumem. Vejamos alguns exemplos, começando por dois filósofos. Tugendhat (1998), ao perguntar-se que critérios intervêm para que um juízo seja concebido como moral, analisa os sentidos das palavras ‘bom’ e ‘dever’. Eis a sua conclusão: “Todas as proposições que comportam – seja de maneira explícita ou implícita – a expressão gramaticalmente abso- luta de um dever prático ou de um valor (‘bom’ ou ‘mau’) expressam, nesse sentido, juízos morais” (p. 31). A referência ao absoluto, que se encontra nas falas usuais dos indivíduos, corresponde ao que estamos chamando de plano moral, e a linguagem expressa a existência psicológica de tal plano. Dupréel (1967), pesquisador de formação filosófica e que se propôs a escrever um Traité de Morale, no qual analisa as dimensões sociológicas e psicológicas da moral, também vê na definição kantiana um aspecto incontornável da reali- dade psicológica. Escreve ele: “O puro respeito pela regra, eis o fato decisivo; e por pouco frequente ou limitado que seja este estado de consciência, é isto que importa à ciência explicar” (p. 164). Na área da Sociologia, Durkheim (1974), preocupado em demonstrar a viabilidade de uma educação moral laica, aceita a definição de Kant, que ele traduz por “agir bem é obedecer bem” (p. 21), e encontra no sentimento do sagra- do a explicação psicológica da existência do sentimento de obrigatoriedade. Para o sociólogo francês, o plano moral corresponde a uma realidade humana, realidade esta durante séculos despertada pela religião, mas também passível de ser ocupada pelos mandamentos do Ser Coletivo. Na área da Psicologia, Freud (1991) não hesitou em afirmar que o superego “se manifesta enquanto imperativo categórico” (p. 278). Sabe-se que a força superegóica tem, para Freud, sua origem em esferas inconscientes: logo, sua referência à terminologia kantiana não o compromete com a existência de um ‘tribunal da razão’, para empregar uma feliz expressão de Deleuze (2004). Mas que há um ‘tribunal’, há – aliás tão implacável quanto aquele imaginado por Kant – e cabe à Psicologia explicar o lugar e a origem dessa voz da consciência que coage o homem a agir de determinadas formas, e não de outras. Mais perto da hipótese de um tribunal da razão está Piaget (1932), para quem a moral da cooperação implica a presença de um sentimento incontornável de dever. Para ele, “tal tese só é chocante para os que permanecem incapazes de experimentar em si próprios esta obrigação superior e puramente imanente que constitui a necessidade racional” (p. 298). Em suma, é perfeitamente legítimo afirmar a existência de um sentimento de obrigatoriedade, e explicar tal exis- tência é um desafio para a Psicologia. Antes de passarmos a refletir sobre os possíveis conteúdos desse plano moral e as fontes energéticas de sua força psicológica, façamos dois comentários. O primeiro: o sentimento de obrigatoriedade (ou dever) experimentado por um sujeito não corresponde sempre e necessariamente a uma exigibilidade social. Essa correspon- dência pode acontecer: por exemplo, quando alguém pauta suas ações pela regra ‘não matar’ e vive numa sociedade na qual o matar é moralmente proibido. Há, por assim dizer, uma dupla exigência: uma pessoal (o imperativo categórico) e outra social (castiga-se e/ou se despreza o assassino). Po- rém, tal correspondênciapode não existir, como no caso de uma pessoa para a qual ser caridoso traduz um dever, mesmo vivendo numa sociedade na qual não há regra que vise obrigar a todos fazerem ‘dom de si’. Em geral, a obediência às regras que dizem respeito à justiça costuma ser socialmente exigida, enquanto a obediência àquelas que tratam de benevolência, não. Mas o que importa sublinhar aqui é que o sentimento de obrigatoriedade poder ser experimentado sem que haja exigibilidade social do comportamento decorrente. O segundo comentário incide sobre a frequência, na população e no próprio indivíduo, do referido sentimento. Comecemos pelo aspecto populacional: a maioria dos ho- mens sente-se movida por essa força interna chamada dever? Ou são poucos aqueles que experimentam tal ‘obrigação superior’? É evidentemente impossível responder estatistica- mente a essa indagação, mas o bom senso costuma fazer com que nos inclinemos pela raridade do fenômeno. Daí, aliás, a admiração comumente despertada pelas pessoas capazes de sacrifícios em nome de ideais morais. Os estudiosos da moralidade também costumam mostrar-se prudentes na hora de generalizar a um grande número de indivíduos a capaci- dade de serem inspirados por deveres. A citação de Dupréel (1967), transcrita acima, o atesta claramente. Freud (1971) também expressa seu pessimismo moral dizendo que em numerosos adultos, o medo da punição, e não o sentimento do dever, explica a correção de seus atos. Assim, escreve ele, “esses adultos permitem-se cometer um mal suscetível de lhes proporcionar prazer somente com a garantia de que a autoridade nunca de nada saberá ou nada poderá lhes fazer; apenas o medo de serem descobertos determina sua angústia” (p. 81). O próprio Piaget (1977), certamente mais confiante nas virtudes da humanidade do que seu colega psicanalista, admite que a enorme coerção exercida pela sociedade no que tange aos termas morais impede que a maioria aceda à autonomia moral. Ora, em fase de heteronomia, segundo ele, o sentimento do dever ainda é fraco, pois exterior à cons- 107Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26 n. especial, pp. 105-114 Moral e Ética ciência. Assim, vemos que Dupréel, Freud e Piaget pensam ser rara a determinação das ações humanas por imperativos categóricos. Lipovetsky (1992) tem a mesma opinião, mas por motivos de ordem cultural. Segundo ele, vivemos tempos de crepúsculo do dever, nos quais “cessamos de reconhecer a obrigação de nos apegar a outra coisa que não seja nós mes- mos” (p. 15). A rarefação do sentimento de obrigatoriedade não seria devida, portanto, a fraquezas de caráter que, em todas as épocas, minam a força moral da maioria dos homens, mas sim a uma nova ordem social individualista que mais valoriza o prazer que o dever. A sociedade pós-moderna seria também a sociedade pós-moralista. O livro de Lipovetsky é instigante, repleto de exemplos e análises importantes, todavia, não pensamos que as ciências humanas possam alegremente abandonar o tema da moralidade, nem que seja porque muitos contemporâneos sentem os efeitos do suposto pós-moralismo como dolorosos e inquietantes para o futuro da sociedade ocidental. Huntington (1999), em seu polêmico livro sobre o ‘choque das civilizações’ atesta tal mal-estar. Raro? Talvez. Em franca regressão? Talvez. Resta que o sentimento de obrigatoriedade é tema humano incontornável. Mais interessante do que indagarmos sobre a frequência do sentimento de obrigatoriedade entre os seres humanos é nos perguntarmos sobre essa mesma frequência em cada indivíduo. O herói moral, o santo, é aquela pessoa cuja voz da consciência sempre fala mais alto do que as outras. Ela desconhece fraquezas que a fariam desviar-se do claro cami- nho do dever. Esta é a exceção, não a regra. O mais comum é o homem ‘cair em tentação’, como se diz no âmbito cristão, às vezes tornar-se surdo à voz de sua consciência moral. Longe de comprometer a validade do tema que nos ocupa, tal fenômeno o torna ainda mais interessante, pois ele nos mostra que devemos pensá-lo no âmbito do conflito pessoal. Em algum lugar, Wallon disse que os ‘eclipses’ permitem melhor estudar os fenômenos momentaneamente invisíveis. O fato de às vezes acontecerem ‘eclipses’ do sentimento de dever pode nos ajudar a melhor compreender as dimensões psicológicas que o tornam possível. Voltaremos a elas. Para finalizarmos nossa análise do plano moral, falta- nos perguntar se tal plano implica determinados conteúdos (uma determinada moral) e que fontes energéticas alimen- tam o sentimento do dever. Interessantemente, essas duas questões, na verdade distintas, mostram-se relacionadas nas teorias psicológicas. Encontramos o seguinte: as teorias que identificam uma fonte energética para o dever apontam para uma relativização do conteúdo da moral, e as teorias que postulam que uma determinada moral tende a impor- se à consciência deixam em aberto a dimensão energética. Durkheim e Freud são representantes das primeiras; Piaget e Kohlberg, das segundas. Vejamos como esse quadro se apresenta, começando por pensar a questão do conteúdo que pode ocupar o plano moral. Tugendhat (1998) afirma que “um conceito de moral que não permitiria manter a possibilidade de uma pluralidade de concepções morais é hoje inaceitável” (p. 49). Estará o filósofo defendendo o chamado ‘relativismo moral’? Existem dois tipos de relativismo moral, um que podemos chamar de axiológico, outro de antropológico. O relativismo axiológico implica pensar que todos e quaisquer valores morais assumidos por diversas culturas ou pessoas (e as regras de conduta decorrentes) equivalem-se, sendo impossível estabelecer uma hierarquia entre eles ou considerar alguns como imorais. Por exemplo, o relativista moral, embora não pratique, ele mesmo, excisão genital em meninas, considerará como válido que algumas pessoas o façam em nome de preceitos religiosos. Em tal relativismo, a tolerância é máxima. O relativismo moral levanta graves questões, tanto morais quanto psicológicas. Do ponto de vista moral, essa tolerância ilimitada destrói a si mesma. Como escreve Spaemann (1994): “A tolerância não é, de forma alguma, a decorrência natural do relativismo moral, como é frequentemente afirmado. A tolerância tem seu fundamento numa convicção moral bem determinada, uma convicção para a qual exige-se universalidade” (p. 23). Essa mesma universalidade coloca em cheque a possibilidade do relativis- mo moral do ponto de vista psicológico: como pode alguém, realmente convicto de que mutilar alguém é moralmente errado, aceitar, sem maiores problemas de consciência, que se mutilem pessoas seja lá em que lugar do mundo for? Faltar- lhe-ia experimentar o sentimento de indignação, inseparável do sentimento de obrigatoriedade. O relativismo antropológico é de outra espécie: não consiste em afirmar que todas as opções morais se valem, mas que, de fato existem. Por exemplo, aqui, matar o ímpio é proibido, lá é um dever; aqui, manter relações sexuais fora do casamento é permitido, acolá é terminantemente proibido etc. É nesse sentido que Tugendhat (1998) nos fala em plura- lidade de concepções morais. Porém, não acreditamos que ele sugere uma total dispersão dos deveres. Se formos analisar os diversos sistemas morais conhecidos, verificaremos que as virtudes justiça e benevolência estão sempre presentes. Mas o fato é que essa presença recebe interpretações bastante diversas e até contraditórias. Terroristas islâmicos matam em nome da justiça (divina), militantes dos direitos humanos condenam a pena de morte, também em nome da justiça. Em suma, parece que, de fato, o plano moral pode ser ocupado por uma variedade de conteúdos. Mas tudo ainda não está dito a respeito do relativismo moral antropológico. Os leitores de Piaget e Kohlberg hão de lembrarque para esses dois autores, há um desenvolvimento moral cujo vetor leva a uma determinada moral. Para Piaget (1932), o gênese individual da moralidade parte da anomia, passa pela heteronomia e chega à autonomia. Mas o que é, para Piaget, a moral autônoma? É, entre outras coisas, uma moral da igualdade, da reciprocidade, do respeito mútuo. Logo, se ele tiver razão, o indivíduo moralmente autônomo não poderá legitimar deveres contraditórios com tais critérios. Dito de outra maneira, ao final da gênese da moralidade, o plano moral seria ocupado por uma determinada moral e não qualquer uma. Essa tese foi retomada e sofisticada por Kohlberg (1981). Para ele, o vetor do desenvolvimento moral leva ao ideal de justiça pela equidade, à perspectiva da reciprocidade universal, ao imperativo categórico kantia- no que reza que devemos sempre tratar a humanidade, na nossa própria pessoa e na pessoa de outrem, como um fim em si e não apenas como meio. Portanto, tanto em Piaget como em Kohlberg, há a recusa do relativismo moral an- tropológico, uma vez que o desenvolvimento moral segue, para toda e qualquer pessoa, uma direção precisa. Todavia, é preciso sublinhar que a negação do relativismo moral é 108 Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26 n. especial, pp. 105-114 Y. La Taille apenas parcial, e isto por um motivo bem simples: ambos os autores reconhecem que, no caminho para a autonomia ou reciprocidade universal, há os estágios da moral heterônoma, aqueles durante os quais os indivíduos legitimam os valores e normas impostas pela cultura na qual vivem. Portanto, não é contraditório com essa abordagem teórica afirmar que há pluralidade de concepções morais. Seu provir será deixarem o lugar à moral da reciprocidade, mas enquanto isto não acontece (seja no nível do indivíduo, seja no nível da cultura), prevalecem as outras. Aliás, note-se que as pes- quisas de Kohlberg mostram que poucos são os indivíduos que chegam ao estágio da moral pós-convencional, a maioria ficando na moral convencional, justamente aquela que pensa a moral como garantia de estabilidade social (e não como inspiração para uma sociedade melhor, como pensam aqueles no estágio ulterior). Voltemos agora ao que assinalamos acima: nas aborda- gens de Piaget e Kohlberg, há uma tese psicológica a respeito do conteúdo da moral. Eles não falam de ‘qualquer moral’ pois pensam que os processos psicológicos de desenvol- vimento inevitavelmente trazem ao plano moral deveres inspirados pela reciprocidade. Em compensação, eles pouco ou nada nos dizem no que tange ao aspecto energético da ação. Essa constatação não equivale a uma crítica: o objetivo das investigações desses dois grandes autores foi o de obser- var e analisar a dimensão racional da moralidade, não sua dimensão afetiva. O conjunto de dados que tal abordagem construtivista reuniu é considerável e nenhum pesquisador in- teressado em moral pode, sem mais, descartá-lo e interpretar como quimera a afirmação de que o desenvolvimento da razão tem influência sobre as escolhas de que moral adotar. Todavia, o fato é que esse construtivismo deixa em aberto a dimensão energética, questão esta que pode ser assim formulada: os indivíduos sempre se comportam de maneira coerente com o que julgam ser o moralmente correto? O que está em jogo é a relação juízo/ação, logo a relação saber/querer (a ação moral, como toda ação, pressupõe um querer agir). Piaget estava consciente desse embate, tanto que redigiu um avertissement à guisa de introdução de seu livro de 1932, no qual, na primeira linha, já avisa o leitor que “é o juízo moral que nos propomos a estudar, e não as condutas ou os sentimentos morais”. Kohlberg (1981) sempre também frisou que o desenvolvimento do juízo moral é condição necessária, mas não suficiente para explicar as ações humanas. É claro que ele pressupunha a existência de uma correlação entre nível de desenvolvimento moral e ação morais. Todavia, as pesquisas não confirmaram totalmente tal fenômeno: ele às vezes é observado, outras vezes não (ver Biaggio, 2002; Blasi,1995; Colby & Damon, 1993). Em suma, a despeito de sua riqueza conceitual, a perspectiva construtivista de Piaget e Kohlberg fica devendo uma explicação para a ação moral que leve em conta a relação entre juízo e volição. Mas, por que não buscar essa explicação em outras teorias que, justamente, enfrentaram essa questão? Pode-se fazê-lo, é claro, mas não para complementar a abordagem construti- vista! Como o assinalamos acima, as teorias que contemplam a dimensão do querer agir moral nos descrevem um sujeito moralmente heterônomo e um plano moral aberto a todo e qualquer sistema moral. É o caso da teoria de Durkheim: é moral o que a sociedade, este ‘Ser Coletivo’, decidir que é, e a ação moral de cada indivíduo é inspirada por um sentimento do sagrado experimentado por fontes de autoridade. Também é o caso da teoria psicanalítica: é moral o que a sociedade impõe como tal através das figuras parentais, e a ação moral é comandada por uma esfera inconsciente que se instalou na psique humana por um duplo processo de renúncia e repressão. O que há de comum entre Durkheim e Freud é a hipótese de que a moral instala-se em cada indivíduo por um processo de interiorização, uma pressão social (a abordagem behaviorista tem a mesma hipótese) que molda o indivíduo. Ora, essa hipótese é diametralmente oposta àquela cons- trutivista que pressupõe uma atividade criadora do sujeito. Em resumo, se ficarmos com as teorias psicológicas clássicas da motivação para a ação moral, devemos assumir o relativismo moral e a heteronomia básica de cada indivíduo; e se ficarmos com as teorias do juízo moral, reconhecemos a realidade da autonomia e da progressiva unidade da moral, mas nos privamos de um entendimento do querer agir. Tudo se passa como se o estudo da dimensão afetiva implicasse o relativismo e a heteronomia morais, e aquele da dimensão cognitiva implicasse um ser afetivamente misterioso. Kant (1994) parece ter tido razão ao afirmar o inevitável divórcio entre autonomia moral e sensibilidade. Porém, não pode ficar paralisado nem intimidado o estudioso da moral convencido da realidade da autonomia moral e da necessidade de identificar as raízes afetivas da ação moral. Talvez possamos achar novas pistas teóricas no campo da ética. O Plano Ético Comumente, as palavras ‘moral’ e ‘ética’ são emprega- das como sinônimas. Por exemplo, diz-se de uma pessoa que ‘ela não tem ética’ para criticar seus comportamentos e atitudes; poder-se-ia muito bem chamá-la ‘imoral’. Quando se fala em ‘problemas éticos’, costuma-se fazer referência a questões atinentes aos deveres, portanto, ao plano moral. Em uma palavra, emprega-se, na maioria das vezes, ética como sinônimo de moral. Note-se que tal sinonímia é perfeitamen- te aceitável do ponto de vista acadêmico, e alguns autores empregam um ou outro conceito indistintamente. Vejamos definições de dicionário para nos convencermos da legiti- midade dessa sinonímia. O Dicionário Houaiss (2001), por exemplo, traz como uma das definições de moral “conjunto de regras, preceitos, etc. característicos de um determinado grupo social que os estabelece e defende” (p. 1958). Para a ética, o referido dicionário coloca: “conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral de um indivíduo, de um grupo social ou de uma sociedade” (p. 1270). Outros dicionários também atestam a sinonímia. Há de se notar que, hoje em dia, assistimos a uma valorização da palavra ‘ética’ em detrimento da palavra ‘moral’. Eis a avaliação crítica que Spitz (1995) faz dessa preferência: “Esse termo (ética), que tomou uma importância cada vezmaior, veio para aliviar o inextricável embaraço daqueles que desejariam falar em moral sem ousar pronunciar esta palavra” (p. 149). Eis um diagnóstico convincente! Todavia, há possibilidades de estabelecer, por con- venção, diferenças entre ‘moral’ e ‘ética’. As duas mais 109Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26 n. especial, pp. 105-114 Moral e Ética frequentes e consagradas mantêm os dois termos como refe- rência a deveres. A primeira dessas possibilidades consiste em reservar a palavra ‘ética’ a deveres de ordem pública. É o caso de expressões como ‘ética da política’, ‘ ética da empresa’, ‘código de ética’ (de determinadas profissões), ou ainda ‘comitê de ética para pesquisa com seres humanos’. Está claro que em todos esses exemplos, o que está em jogo é um conjunto de princípios e regras que visam estabelecer obrigações por parte das pessoas contempladas. Ética na política nos remete, entre outros conteúdos, ao preceito da honestidade (não enganar o eleitor, não apoderar-se de bens públicos, não fazer tráfico de influências etc.): tal ética, portanto, exige comportamento moral. Os diversos códigos de ética trazem normas que devem, de maneira obrigatória, reger as atividades dos profissionais, normas cujas raízes encontram-se na moral legitimada pela sociedade. Mesma coisa pode-se dizer da atualmente muito em voga ‘ética da empresa’: trata-se de normatizar condutas (respeitar o cliente, por exemplo). Finalmente, os comitês de ética na pesquisa com seres humanos visam a regulamentar as ati- vidades de investigação para garantir o bem-estar físico e psicológico dos sujeitos que se submetem a procedimentos de investigação científica. Além de sua referência a deveres, o que há em comum nas expressões analisadas é o fato de referirem-se a ações que dizem respeito ao espaço público (não faria muito sentido em se falar em ‘ética familiar’). Uma segunda possibilidade de diferenciar ética de moral é reservar a primeira para os estudos científicos e filosóficos do fenômeno moral. É esta, aliás, a diferenciação mais em- pregada no meio acadêmico. Kant (1994), um dos primeiros a colocar ordem nos conceitos de moral e ética, propõe que se defina ética como a ciência das leis da liberdade (a física seria a ciência das leis da natureza). Outros autores, como o já citado Tugendhat (1998), definem ética de forma semelhante: reflexão filosófica sobre a moral. Mas, como já dito, a reflexão pode ser de ordem científica, como a busca empírica de dados para explicar o fenômeno moral, como o fizeram autores como Lévy-Bruhl (1971), Durkheim (1974), Freud (1991), Piaget (1932) e tantos outros. Mesmo aceita essa diferença de sentido, verifica-se que se permanece no campo do dever, da obrigatoriedade, portanto, permanece-se no que chamamos de plano moral: apenas o nível de abstração faz a diferença entre os dois termos. Todavia, há outra possibilidade de diferenciar-se ética de moral, que rompe claramente com a sinonímia. Leiamos a proposta de Paul Ricoeur (1990), a qual faremos nossa: “É por convenção que reservarei o termo ética para a busca (visée) de uma vida realizada (accomplie) e o de moral para a articulação dessa busca com normas caracterizadas ao mesmo tempo pela pretensão à universalidade e por um efeito de coação” (p. 200). Vemos que Ricoeur (1990) define moral como o fizemos até agora. Todavia, reserva o termo ética para outro plano: o da definição e busca do que seja uma ‘vida realizada’, ou, em termos filosóficos clássicos, uma ‘vida boa’ ou ‘feliz’. Outros autores contemporâneos fazem distinção semelhante entre moral e ética. Citemos dois, começando por Bernard Williams, que inicia seu livro L’Ethique et les Limites de la Philosophie (1990) afirmando que “o objetivo da filosofia moral e a esperança de que ela possa merecer atenção estão relacionados ao destino dado à questão de Sócrates (de que maneira viver?)” (p. 7). Williams (1990) reserva o concei- to de ética para essa ampla questão, e o de moral para os deveres que intimamente nos coagem. Comte-Sponville faz eco aos dois autores citados ao escrever que “a moral responde à questão ‘que devo fazer?’, e a ética, à questão “como viver?’ (Comte-Sponville, em Comte-Sponville & Ferry, 1998, p. 214). Como dito acima, seguiremos os autores que acabamos de citar e diferenciaremos, portanto, o plano ético referente ao tema da ‘vida boa’ e o plano moral, ao tema dos deveres para com outrem e para consigo mesmo. Falamos em plano ético para diferenciar forma e conteúdo. Com efeito, as respostas ao que seja uma ‘vida boa’ podem variar, logo, há variadas éticas, como há diversas morais. Isso posto, devemos lembrar que a questão da vida boa não é nova, que ela preocupa os filósofos desde a antigui- dade, e que as respostas dadas costumam responder pelo nome de eudemonismo (teoria da felicidade como bem para o homem). Dizemos que costumam ser chamadas de eudemonismo porque, como apontado por Dupréel (1967), há divergências a respeito de que propostas merecem, de fato, o nome de eudemonismo. Esse autor opta por reservar o referido conceito para as propostas que pressupõem que cada homem sabe muito em que consiste sua felicidade, cabendo à filosofia elaborar as técnicas para conquistá-la. É, por exemplo, o caso do utilitarismo de Mill (1988), para quem a felicidade consiste em “prazer e ausência de dor” (p. 48), e que discute regras de prudência para buscar o prazer e evitar a dor. A outras propostas, que visam a ensinar ao homem o que é a felicidade, Dupréel dá o nome de teorias idealistas. É o caso, por exemplo, de Aristote (1965), cuja ética implica que a felicidade depende da elevação do homem por intermédio do cultivo das virtudes. Mas deixemos as polêmicas a respeito de que nome merecem os diversos sistemas que se debruçaram sobre a felicidade, pois o que nos interessa aqui é sublinhar o fato de a reflexão sobre a ‘vida boa’ – seja ela intuitivamente conhecida ou, pelo contrário, revelada pelos sábios – ser tema recorrente da chamada filosofia moral. Aliás, pode-se dizer que esse tema tem sido muito mais trabalhado que o do dever – que somente ganha realce filosófico a partir de Kant, embora tenha sido questão central das religiões de origem judaica2. E é grande a variedade e riqueza de temas humanos tratados em nome do que estamos chamando de plano ético: a harmonia do universo e sua relação com o homem, a natureza humana, o papel do conhecimento no alcance da felicidade, as mazelas e virtudes das paixões, o egoísmo e o altruísmo, a convergência social de interesses, a evolução histórica e o porvir do homem etc., e, também, a justiça, a benevolência, a coragem, a fidelidade, ou seja, um conjunto de virtudes que também interessam à reflexão moral. Podemos, então, dizer que a tese anunciada no início do presente texto – a saber, que para compreendermos os comportamentos morais dos indivíduos precisamos conhecer a perspectiva ética que estes adotam – já foi defendida por 2 Note-se que a moral de Kant propõe deveres coerentes com o ‘amor universal’ cristão, só que fundamentados na razão e não na fé e obedi- ência a Deus. 110 Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26 n. especial, pp. 105-114 Y. La Taille diversos sistemas filosóficos? A resposta a essa pergunta é, cremos, negativa. Seria talvez melhor dizer que é em parte negativa. Expliquemo-lo, lembrando que fizemos uma dife- renciação entre moral (conteúdo) e plano moral (forma). É fato que os diversos sistemas que evocam, de uma maneira ou de outra, a questão da ‘vida boa’, trazem-nos conteúdos morais sob forma de virtudes (justiça, generosidade etc.);porém, eles não as tratam como obrigatórias, mas sim como desejáveis. Ora, o plano moral implica o sentimento de obrigatoriedade. Portanto, se temos no epicurismo, no estoi- cismo, no utilitarismo, e em outras reflexões éticas, análises precisas de conteúdos morais, falta-nos a articulação entre a busca da felicidade e o dever, ou seja, a articulação entre o que chamamos de plano ético e plano moral. E devemos, sem dúvidas, a Kant o equacionamento preciso das enormes dificuldades de estabelecer tal articulação. Dos argumentos kantianos podemos lembrar dois, a nosso ver, incontornáveis. O primeiro: a variedade de respostas possíveis ao que seja a felicidade. Escreve Kant (1994): “Embora o conceito de felicidade sirva em todos os casos de base para a relação prática dos objetos da faculda- de de desejar, ele é apenas o título geral dos princípios sub- jetivos de determinação e nada determina especificamente ...” (p. 24). O segundo: a busca da felicidade é determinada pela sensibilidade, logo por algo sobre o qual o homem não tem domínio, em relação ao qual, portanto, é heterônomo. Ora, a responsabilidade moral implica a autonomia. Em suma, para Kant (1990), a moral “é uma ciência que ensina não a maneira pela qual nós devemos nos tornar felizes, mas aquela pela qual devemos nos tornar dignos da feli- cidade” (p. 15, sublinhado por nós). Essa última definição de moral, rica e precisa, mostra o quanto os planos moral e ético não se articulam facilmente. Todavia, a referência à ‘dignidade’ fornece-nos uma pista de como estabelecer essa articulação. Por enquanto, o leitor poderá pensar que, se aceitamos as críticas de Kant a respeito da dificuldade de fazer do eude- monismo uma ciência moral, estamos, a priori, discordando de nossa própria tese segundo a qual os plano moral e ético devem ser pensados conjuntamente para explicarmos os comportamentos morais dos homens. A esse reparo respon- deríamos o seguinte: se a definição kantiana de dever (impe- rativo categórico) corresponde a uma realidade psicológica, a referência exclusiva à Razão não explica o fenômeno. Com efeito, vimos que as teorias psicológicas de inspiração kantia- na (Piaget e Kohlberg) deixam-nos, teórica e empiricamente, órfãos de uma explicação energética da ação. É, digamos, o seu ‘calcanhar de Aquiles’. Aliás, note-se que vários moralis- tas contemporâneos apontam essa lacuna do sistema kantiano (ver, entre outros, MacIntyre, 1997; Taylor, 1998; Tugendhat, 1998). E vimos também a impossibilidade de articular essas teorias psicológicas racionalistas com aquelas que contem- plam as motivações das ações (Durkheim e Freud), pois essas últimas levam ao relativismo moral (variadas podem ser as inspirações do sentimento do sagrado e os mandamentos do superego). Portanto, um mistério psicológico ainda persiste, pelo menos para aqueles que aceitam, com Piaget e Kohlberg, um vetor no desenvolvimento moral e a progressiva conquista da autonomia. É esse mistério que queremos ajudar, se não a desvendar, pelo menos a melhor situar. Antes de encetarmos essa busca, finalizemos o item de- dicado ao plano ético observando duas coisas. A primeira: praticamente nada se encontra em psicologia a respeito do plano ético. Talvez pudesse ser feita uma comparação entre as teorias utilitaristas e a psicanálise, uma vez que ambas as abordagens dão ênfase à importância do prazer e da dor para explicar as ações humanas. Todavia, essa comparação certamente não será fácil porque a hipótese do inconsciente equivale a um verdadeiro abismo separando ambas. A se- gunda coisa que queremos frisar é o fato de o tema da ‘vida boa’ ou ‘felicidade’ ter voltado a ser objeto de publicações recentes. Exemplos: na França, Ferry (2002) acaba de pu- blicar um livro de filosofia intitulado Qu’est-ce qu’une vie réussie?; no Brasil, Giannetti (2002) publicou diálogos sobre a Felicidade; aqui e ali são republicados antigos livros sobre o tema como o de Bertrand Russel (1962), intitulado, em francês, La conquête du bonheur; estão novamente em voga as virtudes, como o atesta o sucesso de venda dos livros de Bennett (1995) e também do Dalai Lama (1999); lembremos também os inúmeros textos de auto-ajuda, cujo triste sucesso reflete um desconforto existencial. Em suma, parece-nos que a inquietação ética está na ordem do dia. A nosso ver é bom que assim seja, pois as reflexões sobre a vida boa são sempre necessárias por incidirem sobre o sentido da vida. Camus (1973), na introdução de seu Mito de Sísifo, afirma que “somente há um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar que a vida vale ou não a pena de ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia” (p. 15). Inte- ressante lembrar que Camus era um moralista e que, para ele, a busca de sentido para a vida não era estranha às questões morais, como o atesta seu romance L’Etranger. Moral e Ética: Personalidade Ética Aceitas as definições de plano moral e plano ético, a pergunta que imediatamente surge é a de saber se um deles engloba ou determina o outro. Para Comte-Sponville (em Comte-Sponville & Ferry, 1998), “a moral está dentro da ética (responder à pergunta ‘como viver?’ é, entre outras coisas, perguntar-se que lugar reservar aos deveres), bem mais do que a ética está dentro da moral (responder à pergunta ‘que devo fazer?’, ainda não permite saber como viver e nem mesmo – uma vez que a vida não é, aos meus olhos, um dever – se é preciso viver)” (p. 214)3. Ricoeur (1990) apresenta uma posi- ção, por assim dizer, intermediária, ao estabelecer “a primazia da ética sobre a moral, a necessidade para a perspectiva ética de passar pelo crivo da norma (moral), e a legitimidade de um recurso da norma à perspectiva (ética) quando a norma conduz a impasses práticos” (p. 200). Quanto a Tugendhat (1998), “pode-se definir ética diferentemente da moral (ética como busca da ‘vida boa’), mas não se pode definir a primeira como algo que englobe a segunda. Isto é impossível.” (p. 32). Como nossa investigação é psicológica, e não filosófica, vamos nos limitar a colocar algumas reflexões sobre a relação axiológica entre os planos moral e ético. 3 Lembremos que para Kant, o suicídio merece ser categoricamente condenado pois equivale a tratar a si próprio como meio, e não como fim: logo, para ele, viver é um dever. 111Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26 n. especial, pp. 105-114 Moral e Ética É claro que a questão ética é mais ampla que a questão moral, mas isso não significa necessariamente que a primei- ra determine a segunda. Imaginemos, por exemplo, que se opte por definir a ‘vida boa’ como a busca de poder sobre os homens: não se vê como, de tal busca, podem se deduzir deveres morais. Mais ainda: não serão poucos aqueles que negarão validade a essa opção ética, por achá-la egoísta. É isto que Ricoeur (1990) quer dizer quando fala em passar as opções éticas pelo crivo da norma. Teríamos, portanto, o seguinte quadro: a moral limita a ética. Expressões como ‘a liberdade de cada um acaba quando começa a liberdade de outrem’, ou ‘live and let live’, traduzem bem o referido quadro, que poderia ser assim explicitado: cada um é livre para escolher a ‘vida boa’ que quiser, contanto que reconheça aos outros o mesmo direito e não os trate como instrumento. Nessa formulação, vê-se a moral como critério de limite para as escolhas do plano ético. Para alguns, o limite aci- ma enunciado ainda pode aparecer como demasiadamente amplo, pois deixaria as ações de benevolência totalmente a critério de cada um, e, portanto, não como dever. Pode-se, então, reformular o enunciado: cada um é livre para escolher a ‘vida boa’ que quiser, contanto que reconheça aos outros o mesmo direito, que não os trate como instrumento e que se preocupe com seu bem-estar. O que importa perceber nasformulações apresentadas é que o limite moral não parece em nada decorrer das opções éticas. Ele teria outro fundamento. Mas que fundamento é esse? Será que ele não é inspirado pela questão ética? Com efeito, por que respeitar os outros? Por que fazer-lhes justiça? Por que preocupar-se com seu bem estar? Não estará implícito que, sem respeito, sem justiça e sem benevolência, a vida é infeliz? Onde está o poder de convencimento da importância da dignidade humana, senão no fato de seu reconhecimento ser condição necessária para uma ‘vida boa’? E não estará pressuposto, em Kant, que o ‘merecer ser feliz’ corresponde a um grau de felicidade su- perior a outras formas de ‘vida boa’? É o que pensa Adam Smith: “Que maior felicidade que aquela de ser amado e saber que merecemos o amor? Que pior castigo do que ser odiado e saber que merecemos esse ódio?” (Smith, 1999, p. 105, grifo nosso). Concordamos com ele, o que nos faz pensar que, do ponto de vista axiológico, há, sim, relações entre o plano ético e o plano moral. Essa é a nossa convicção, do ponto de vista psicológico. Para começar a apresentá-la, vamos nos debruçar sobre o que realmente pode significar, para o ser humano, a ‘vida boa’ ou a ‘felicidade’, termos consagrados em diversos sistemas éticos (não vamos revisitar as concepções da antiguidade, inspiradas em sistemas metafísicos estranhos ao homem moderno). Gozar de saúde e ter condições mínimas de sobrevivên- cia, certamente, representam o patamar a partir do qual se pode falar em ‘vida boa’. Aristote (1965) já o afirmava e o bom senso o confirma. Mas uma vez garantido esse direito universal, o que mais associar ao alcance e usufruto da fe- licidade? O leque de conteúdos pode ser grande: amar e ser amado, construir uma família, gostar do que se faz no traba- lho, reconhecimento social, amigos, possibilidades de lazer, de alimentar-se intelectualmente, ter uma vida sexual ativa e prazerosa etc. Esses itens, e outros possíveis, fazem todo sentido. O problema é que não se identifica, entre eles, um eixo comum. Estamos em plena dispersão. Outro problema é que cada um deles levanta questões complexas quanto à sua definição (por exemplo, o que é a amizade?). Outro problema ainda: é perfeitamente possível pessoas dispensarem um ou outro item (o solitário prefere não ter amigos). Finalmente, observemos que tais itens correspondem mais a ‘pedaços de vida’, do que à vida como um todo. Ora, como o afirma Williams (1990), “é preciso pensar numa vida inteira” (p. 11) para realmente responder à questão de Sócrates sobre a vida que vale a pena ser vivida. Devemos, portanto, perguntar-nos se há algo em comum por detrás dos diversos conteúdos que podem ocupar o plano ético. Uma resposta clássica consiste em identificar a busca do prazer e a fuga do desprazer como invariantes do plano ético. Já vimos que os utilitaristas e a psicanálise de Freud encontram-se, nesse ponto, em companhia dos epicuristas. A tese hedonista é simples e elegante. Simples porque iden- tifica no ‘princípio do prazer’ a motivação básica de todas as ações humanas e elegante justamente em razão dessa simplicidade, que evita a profusão de conceitos articulados em arquiteturas teóricas complexas. Além do mais – e isto é essencial – permite separar claramente forma de conteúdo: todos os hedonistas afirmam a fundamental importância da busca do prazer, mas podem divergir sobre o que é, ou sobre o que deveria ser, esse prazer. Para o psicólogo, essa tese permite explicar comportamentos totalmente diversos. Em poucas palavras, a tese hedonista permite destacar o plano ético (busca do prazer e fuga do desprazer) de diferentes éticas (conteúdos associados ao prazer). Todavia, ela não deixa de apresentar problemas sérios, sendo o principal deles o aparente desmentido dos fatos, como por exemplo, a autodestruição observável em vários indivíduos, que levou Freud a ir ‘para além do princípio de prazer’ e fazer a hipótese da existência e da força de um instinto de morte. Spaemann (1994) apresenta um argumento diferente para negar a central importância do princípio de prazer e de conservação. Ele nos pede para imaginar a possibilidade de nosso cérebro ser conectado a cabos que conduzem correntes elétricas que nos deixariam em estado constante de euforia, e nos pergunta se estaríamos dispostos a ficar para o todo sempre nessa situa- ção que nos garantiria prazer constante e ausência definitiva de dor. Esse autor afirma que sentiríamos repulsa por uma alternativa de vida desta porque implicaria estarmos “fora da vida efetivamente real, fora da realidade” (p. 34). Conclui o filósofo: “o sentido verdadeiro da vida não reside nem no prazer, nem na conservação” (Spaemann, 1994, p. 36). Concordamos com o inevitável reducionismo implicado pelas teses hedonistas, embora reconheçamos não ser fácil derrubá-las. Mas há uma coisa nelas que deve ser resgatada: a identificação de algo que esteja presente em todas as opções possíveis de felicidade, ou, melhor dizendo, algo que explica – pelo menos em parte – as escolhas feitas para viver uma ‘vida boa’. Acreditamos encontrar esse invariante na noção de sentido da vida. Acabamos de ver que Spaemann (1994) nega que o prazer e a conservação sejam aquilo que confere sentido à vida. Também vimos acima que Camus (1973) elege o suicídio como grande problema filosófico porque julga que “o sentido da vida é a mais urgente das perguntas” (p. 16). Outros autores, como Taylor (1998), insistem sobre o fato de a atribuição de sentido ser fundamental para se poder 112 Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26 n. especial, pp. 105-114 Y. La Taille viver. Para esse autor, ‘dar sentido’ é “definir o que torna as reações apropriadas: identificar o que torna algo um objeto digno delas e, correlativamente, melhor definir a natureza das reações e explicar tudo que está implicado quanto a nós mesmos e nossa situação no mundo” (p. 22). Mais adiante, escreve que a busca de algo na vida “é sempre busca de sentido” (p. 33)4. Certamente, seriam necessárias várias páginas para analisar em profundidade a importância maior do sentido da vida para a realização de uma ‘vida boa’. Remetemos o leitor aos autores que citamos, entre eles MacIntyre (1997)5, que aborda a questão pela dimensão da narrativa, dimensão esta tratada por Ricoeur (1990). Limitemo-nos a dizer que o sentido da vida remete à questão do ‘por que viver?’ e, logo, a escolhas existenciais que revelem o que é uma vida que vale a pena ser vivida. As opções que colocamos como possíveis conteúdos da ‘vida boa’ (amor, amizade, reconhecimento social, vida sexual etc.) não são estranhas ao tema do sen- tido, pois cada uma pode corresponder a um ‘existir para’. Para finalizar, lembremos que, no mundo contemporâneo, a angústia frequentemente se traduz pela falta de sentido (ver Taylor, 1998). Como escreve Collin (2003), “a reflexão ética moderna esteve frequentemente confrontada à questão da perda de sentido da vida” (p. 41). Em resumo, para nós, o invariante do plano ético é a bus- ca de sentido para a vida, e os diversos conteúdos dependerão dos diversos sentidos atribuídos à vida. Já podemos perceber uma relação entre o plano ético e o plano moral: se o grande problema da vida é ela fazer sentido, deduz-se que a moral, ela mesma, e as obrigações dela derivadas, devem também fazer sentido. A questão do sentido é incontornável no plano moral, e certamente não é por acaso que a anomia moral, ou o ‘crepúsculo do dever’, diagnosticados atualmente, são contemporâneos das dificuldades de encontrar um sentido para a vida e, logo, para as ações. Mas essa afirmaçãoainda não é suficiente para se saber que plano determina qual, ou se são independentes. Para defender a hipótese da prevalência do plano ético sobre o plano moral, devemos nos perguntar se há, dentro da própria problemática do sentido da vida, um outro inva- riante de ordem psicológica. Pensamos que tal invariante existe: o sentimento de ‘expansão de si próprio’. Dito de outra forma: fazemos a hipótese de que a possibilidade de ‘expansão de si próprio’ é condição necessária para que a vida faça sentido, assim como este fazer sentido é condição necessária à ‘vida boa’. Assumimos aqui a perspectiva teórica de Adler (1991), para quem “é unicamente o sentimento de ter atingido um grau satisfatório na tendência a elevar-se que pode fornecer um sentimento de quietude, de valor e de felicidade” (p. 4 Jovens por nós pesquisados parecem lhe dar certa razão, pois numa investigação junto a 5160 alunos do Ensino Médio da Grande São Paulo (oriundos de escolas particulares e públicas), aos quais foi perguntado se o mais importante para a vida era, (1) ser amado, (2) ser tratado de forma justa, (3) achar que a vida vale a pena ser vivida, a maioria optou pela alternativa 3 (ver La Taille, 2006). 5 Escreve MacIntyre (1997): “Quando alguém se queixa, como os suicidas, que sua vida não tem sentido, ele se queixa talvez de que o relato de sua vida tornou-se, para ele, ininteligível, sem objetivo, sem movimento para um apogeu ou um thelos” (p. 211). 56). A expressão ‘expansão de si próprio’ não é de autoria de Adler, mas sim de Piaget (1954), que concordava plena- mente com o ex-colaborador de Freud, por ver, na tendência à superação de si mesmo, o vetor do desenvolvimento e a motivação central para as ações. Assumimos, portanto, a hipótese de que a vida somente pode fazer sentido para quem experimenta o sentimento de nela autoafirmar-se, expandir- se, em uma palavra, atribuir-se valor. Pela recíproca, quem não consegue, seja lá por que motivo for, atribuir a si próprio valor, não consegue dar sentido à sua vida e, logo, não usufrui de uma ‘vida boa’6. A tese acima exposta pode ser traduzida com dois ou- tros termos: representações de si e valor. Dedicamos dois livros à análise desses dois conceitos e de sua relação com o sentimento de vergonha, e retemos o leitor a eles para o aprofundamento da questão (La Taille, 2002a, 2006; ver também Harkot-de-La-Taille & La Taille, 2004). Basta aqui apresentar as ideias básicas. Entendemos o Eu como um conjunto de representações de si (imagens que a pessoa faz de si). Não importa confe- rir se tais representações correspondem, de fato, ao que a pessoa realmente é ou a como é vista pelos outros, mas sim sublinhar o fato de que elas correspondem ao que ela julga ser. Importante frisar que colocamos representações de si no plural: não se trata de um autoconceito, portanto unitário, mas realmente de um conjunto de representações, que podem até ser conflitivas ou contraditórias entre si. Prossigamos: essas representações de si são sempre valor. Definimos valor como investimento afetivo, tal qual Piaget (1954), e assumimos que, inevitavelmente, o Eu é objeto de investimento afetivo. Por isso dizemos que as representações de si são sempre valor. Coerentemente com a teoria de Adler, assumimos também - e isto é essencial para nossa análise - que a busca de representações de si com valor positivo é lei fundamental da vida humana. O insucesso nessa busca causa o sentimento de vergonha, ou seja, a dor psíquica resultante da consciência da disjunção entre uma ‘boa imagem’ (idealizada) e a imagem que, de fato, se tem de si (Harkot-de-La-Taille, 1999). A força do sentimento de vergonha – que pode ser letal – atesta a im- portância, para a vida, de conseguir ver a si próprio como valor positivo. Como o leitor pode perceber, não hesitamos em co- locar, no plano ético, o ‘famigerado’ amor próprio. Mas não somos os únicos a reconhecer que a ética não pode traduzir-se na negação do sujeito (ver Savater, 2000), e tampouco a moral pode fazê-lo. Basta atentar para o fato de a pergunta do plano ético ‘que vida quero viver?’ im- plica outra: ‘quem quero ser?’. Portanto, parece-nos não haver possibilidade de se pensar a ética sem contemplar a dimensão da identidade, e esta, sem a busca de atribuição pessoal (e coletiva) de valor. Estamos agora em condições de defender nossa tese, se- gundo a qual, para compreender os comportamentos morais dos indivíduos precisamos conhecer a perspectiva ética que eles adotam. 6 A referência à expansão de si próprio não é estranha à filosofia de Nietzsche sobre a ‘vontade de potência’. Escreve ele, “O objetivo não é a felicidade, é a sensação de potência” (Nietzsche, 1995, p. 234). 113Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26 n. especial, pp. 105-114 Moral e Ética Comecemos por resumir o que estabelecemos, do ponto de vista psicológico, para o plano ético: a busca de uma vida boa implica a busca de uma vida com sentido, e uma vida que faça sentido deve, necessariamente, contemplar a ‘expansão de si próprio’ que se traduz pela busca e manuten- ção de representações de si com valor positivo. Adotamos, por assim dizer, uma teoria geral da motivação das ações humanas. Note-se que não assumimos uma perspectiva re- ducionista, que equivaleria a negar a presença e importância de outras fontes motivacionais. Queremos apenas afirmar que a busca de sentido, e dentro dela, a expansão de si próprio, constituem condições necessárias (mas não suficientes) das buscas existenciais no plano ético e, portanto, constituem- se em motivação incontornável de todas as ações, entre as quais se encontram aquelas inspiradas pelo sentimento de obrigatoriedade, as ações morais (novamente, devemos reafirmar que não negamos a importância e força de outras fontes motivacionais tipicamente morais, como a simpatia – ou empatia – por exemplo). Nesse ponto, encontramos a teoria de Psicologia Moral que responde pelo nome de moral self, expressão costumei- ramente traduzida por ‘personalidade moral’ ou, conforme preferimos, ‘personalidade ética’. Um dos pioneiros dessa teoria, Blasi (1995), afirma que os valores e as regras morais somente têm força motivacional se associados à identidade. Colby e Damon (1993), após realizarem um estudo com pessoas de caráter moral exemplar, chegaram à conclusão de que “quando há uma unidade entre Eu e moralidade, juízo e conduta são diretamente e previsivelmente relacionados e as ações são realizadas com segurança ... Aqueles para os quais a moralidade é central nas suas identidades pessoais devem ser mais fortemente motivados por suas convicções e objetivos” (p. 151). O especialista em educação moral, Puig (1998), tece considerações semelhantes, que também eram as de Piaget, e que se encontram em filósofos. Segundo Flanagan (1996), “é mais que provável que as variações do autoconceito e dos ideais intrapessoais acarretem uma grande diferença no que é notado, nas emoções, na maneira como nos expressamos e agimos, e também na maneira como dirigimos nossas vidas” (p. 309), e, logo, também, na moral. Taylor (1998) afirma que “o Eu e o bem, ou seja, a Eu e a moral, se interpenetram de forma inextricável” (p. 13). Os autores que acabamos de citar, e outros, não se referem à diferenciação entre moral e ética, mas vê-se que suas abordagens são coerentes com o que escrevemos até aqui. Em resumo, encontramos na teoria da personalidade ética um conjunto de dados e conceitos que sustentam a plausibilidade da relação entre planos ético e moral, e a prevalência do primeiro sobre o segundo, na dimensão psicológica. Para explicitar melhor tal prevalência, voltemos ao tema do ‘conflito’, deixado em suspenso mais acima. Perguntá- vamos sobre a frequência do sentimento de obrigatoriedade em cada indivíduoe assumíamos que, para alguns, e em determinadas situações, tal sentimento sofre um ‘eclipse’: a pessoa age de forma contraditória com os deveres que, em outras situações, inspiram suas ações. Admitindo que esse fenômeno ocorre, ele pode ser explicado pela hierarquia de valores associados às representações de si. Para descrever essa hierarquia, Colby e Damon (1993) empregam metáfo- ras espaciais: ‘valores periféricos’ e ‘valores centrais’7. Os valores periféricos são aqueles que, embora associados às representações de si, têm força menor e, portanto, menos intensidade motivacional do que outros, justamente aqueles chamados de valores centrais. Imaginemos alguém que preze ver a si mesmo como honesto, mas preze mais ainda ver-se como um ‘vencedor’ na vida – por exemplo, sucesso profissional. Em situações nas quais agir de maneira honesta não implica comprometer o referido sucesso, ele agirá mo- ralmente. Nesse caso, não há conflito. Mas, se houver (por exemplo, deixar de obter algum sucesso se não enganar um concorrente), o dever moral da honestidade poderá sofrer um ‘eclipse’, pois o investimento afetivo da ‘boa imagem’ de vencedor é maior que na ‘boa imagem’ moral. Se pen- sarmos no sentimento de vergonha, nosso sujeito hipotético sente mais vergonha de ser mal sucedido do que de não ser honesto, pois a razão de viver (o sentido) está mais na glória do que na honra (ver Pitt-Rivers, 1965). Tal forma de pen- sar permite evitar a classificação binária das pessoas entre morais e imorais. Em suma, são as opções no plano ético que terão decisiva influência sobre a força do sentimento de obrigatoriedade. E quanto às pessoas que sempre (ou praticamente sempre) optam por seguir os mandamentos da moral, pode-se delas dizer, pela recíproca, que os valores centrais de suas represen- tações de si são justamente aqueles condizentes com a moral, ou eles mesmos morais. Delas se pode dizer que possuem realmente uma personalidade ética. Isso não implica dizer que não passam por conflitos – pelo menos se não forem heróis ou santos –, mas esses costumam ser resolvidos pela força do sentimento de obrigatoriedade moral, pois, para tais pessoas, ser elas mesmas e ser moral é a mesma coisa. Considerações Finais Para finalizar, voltemos à oposição entre as teorias psico- lógicas que apontam para o potencial de autonomia moral, traduzida pela adesão a morais da reciprocidade e aquelas que ignoram tal potencialidade. Vimos que as primeiras carecem de explicações energéticas, e que aquelas assumidas pelas segundas reforçam a tese da radical heteronomia dos homens e do relativismo moral. Podemos, então, nos perguntar se a relação que estabelecemos entre os planos ético e moral é coerente com a moral autônoma, assim como com a heterô- noma. Acreditamos que sim. As opções no plano ético não são dadas para todo o sempre, podem modificar-se, evoluir, assim como, segundo Piaget e Kohlberg, a moral evolui. É bem provável que à moral heterônoma, cujos conteúdos são coer- citivamente colocados pela sociedade, correspondam opções éticas também heterônomas (as ‘boas imagens’ valorizadas pelo grupo – coerente com a fase do ‘good boy, good girl ‘ do estágio 3 estabelecido por Kohlberg), e que à moral autônoma, inspirada pela reciprocidade entre os homens, correspondam outras opções éticas, sentidos da vida que pressuponham maior individualismo (no sentido de não dar valor à pessoas – e a si próprio – em razão do grupo ao qual pertencem), participação 7 Mais uma vez, reencontramos uma ideia de Nietzsche (1995): “o homem é uma pluralidade de forças hierarquizadas” (p. 289). 114 Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 2010, Vol. 26 n. especial, pp. 105-114 Y. La Taille nas decisões sociais, identidade cosmopolita e não grupal, o cultivo da reflexão. É apenas uma hipótese, por sinal passível de ser aferida por provas empíricas, como já foi feito por Colby e Damon (1993), em sua investigação sobre pessoas de vida moral exemplar e, mais recentemente, no Brasil, por nós mesmos (La Taille, 2002a, 2002b), por intermédio do estudo da gênese do sentimento de vergonha, por Tognetta e La Taille (2008), que comprovaram a correlação entre personalidade ética e autonomia, por Tardelli (2009), que investigou a relação entre personalidade ética e ações solidárias em adolescentes, por Nogushi e La Taille (2008), que se debruçaram sobre o universo moral de jovens infratores internado na antiga Febem, e por Dias (2010), cuja tese de doutorado foi dedicada à relação entre personalidade ética e atitudes morais na vida escolar. Em suma, cremos que pensar a motivação moral por inter- médio das opções éticas permite maior flexibilidade para dar conta da variedade de condutas que se observam. Sendo a área da psicologia como é, com profusão de teorias e dos chamados ‘novos paradigmas’8, é difícil saber se a abordagem teórica que responde pelo nome de moral self ou personalidade ética do- minará doravante os estudos de Psicologia Moral e Psicologia do Desenvolvimento Moral. Mas, uma coisa é certa, como o explicitamos com referências bibliográficas tanto na filosofia quanto na psicologia: tal abordagem encontra-se fortalecida e inspiradora de novas investigações, Brasil incluído. Referências Adler, A. (1991). Le sens de la vie. Paris: Payot. Aristote (1965). Ethique de Nicomade. Paris: Flamarion. Bennet, W. J. (1995). O livro das virtudes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Biaggio, A. (2002). Lawrence Kohlberg: ética e educação moral. São Paulo: Moderna. Blasi, A. (1995). Moral understanding and the moral personality: The process of moral integration. Em Kurtines, D. (Org.), Moral development: An introduction (pp. 229-254). London: Allyn and Bacon. Camus, A. (1973). Le mythe de Sisyphe. Paris: Gallimard. Carone, I. (2003). A Psicologia tem paradigmas? São Paulo: Casa do Psicólogo. Colby, A., & Damon, W. (1993). The uniting of self and morality in the development of extraordinary moral. Commitment. Em G. G. Noam & E. Wren (Orgs.), The moral self (pp. 149-174). Cambridge: MIT. Collin, D. (2003). Questions de morale. Paris: Armand Colin. Comte-Sponville, A., & Ferry, L. (1998). La sagesse des modernes. Paris: Lafont. Dalai Lama (1999). Uma ética para o novo milênio. Rio de Janeiro: Sextante. Deleuze, G. (2004). L’abécédaire de Gilles Deleuze. Paris: Editions Monparnasse. Dias, A. F. (2010). Territórios da personalidade ética: ações morais, valores e virtudes na escola. Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo, São Paulo. Dupréel, E. (1967). Traité de morale, Tome 1. Bruxelles: Pressnes Universitaires de Bruxelles. 8 Para uma crítica do emprego do conceito de ‘paradigma’ na Psicologia, aconselhamos a leitura de Carone (2003). Durkheim, E. (1974). L’education morale. Paris: PUF. Flanagan, O. (1996). Psychologie morale et éthique. Paris: PUF. Ferry, L. (2002). Qu’est-ce que réussir sa vie? Paris: Grasset. Freud, S. (1971). Malaise dans la civilisation. Paris: PUF. Freud, S. (1991). Le moi et le ça. Paris: PUF. Giannetti, E. (2002). Felicidade. São Paulo: Companhia das Letras. Harkot-de-La-Taille, E. (1999). Ensaio semiótico sobre a vergonha. São Paulo: Humanitas. Harkot-de-La-Taille, E., & La Taille, Y. de (2004). A construção ética e moral de si mesmo. Em M. T. C. de Souza (Org.), Os sentidos de construção: o si mesmo e o mundo (pp. 69-102). São Paulo: Casa do Psicólogo. Huntington, S. (1999). Le choc des civilisations. Paris: Editions Odile Jacob. Kant, E. (1994). Métaphysique des moeurs, première partie. Paris: Flamarion. Kohlberg, L. (1981). Essays on moral development. San Francisco: Harper & Row. La Taille, Y. de(2002a). Vergonha, a ferida moral. Petrópolis: Vozes. La Taille, Y. de (2002b). O sentimento de vergonha e suas relações com a moralidade. Psicologia: Reflexão e Crítica,, 15, 13-25. La Taille, Y. de (2006). Moral e ética: dimensões intelectuais e afetivas. Porto Alegre: Artmed. Levi-Bruhl, L. (1971). La morale et la science des moeurs. Paris: PUF. Lipovetsky, G. (1992). Le crépuscule du devoir. Paris: Gallimard. MacIntyre, A. (1997). Après la vertu. Paris: PUF. Mill, J. S. (1988). L’utilitarisme. Paris: Flamarion. Nietzsche (1995). La volonté de puissance I. Paris: Gallimard. Nogushi N., & La Taille, Y. de (2008). Universo moral de jovens internos da Febem. Cadernos de Pesquisa, 38, 11-40. Piaget, J. (1932). Le jugement moral chez l’enfant. Paris: PUF. Piaget, J. (1954). Les relations entre l’affectivité et l’intelligence. Paris: Sorbonne. Piaget, J. (1977). Etudes sociologiques. Paris: Droz. Pitt-Rivers, J. (1965). Honra e posição social. Em J. G. Peristiany (Org.), Honra e vergonha (pp. 11-60). Lisboa: Fundação Capouste Gulbenkian. Puig, J. M. R. (1998). A construção da personalidade moral. São Paulo: Ática. Ricoeur, P. (1990). Soi-même comme un autre. Paris: Gallimard. Russell, B. (1962). La conquête du bonheur. Paris: Payot. Savater, F. (2000). Ética como amor-próprio. São Paul: Martins Fontes. Spitz, B. (1995). La morale à zéro. Paris: Seuil. Smith, A. (1999). Théorie des sentiments moraux. Paris: PUF. Spaemann, R. (1994). Notions fondamentales de morale. Paris: Flammarion. Tardelii, D. D. (2009). Adolescência, personalidade e projeto de vida solidário. Em Y. de La Taille & M. S. de S. Menin (Orgs.), Crise de valores ou valores em crise (pp. 70-88). Porto Alegre: Artmed . Taylor, C. (1998). Les sources du moi. Paris: Seuil. Tognetta, L R. P., & La Taille, Y. de (2008). A formação de personalidades éticas, representações de si e moral. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 24, 181-188. Tugendhat, E. (1998). Conférences sur l’éthique. Paris: PUF. Williams, B. (1990). l’Ethique et les limites de la philosophie. Paris: Gallimard. kriterion, Belo Horizonte, nº 130, Dez./2014, p. 483-498 ÉTICA, MORAL, AXIOLOGIA E VALORES: CONFUSÕES E AMBIGUIDADES EM TORNO DE UM CONCEITO COMUM Ana Paula Pedro* ana.pedro@ua.pt RESUMO Este artigo tem por objetivo essencial contribuir para o esclarecimento teórico-filosófico do uso de conceitos como ética, moral, axiologia e valores, habitualmente empregues para nos referirmos a uma mesma realidade. Para tal, começaremos por analisar as respetivas etimologias que os caracterizam, examinaremos os diversos matizes dos seus sentidos diferenciados, bem como a sua relação de complementaridade, e terminaremos referindo o que entendemos por valores e qual a sua natureza e importância, principais características, bem como o universo a que se reportam. Ao longo do texto, aduziremos e concluiremos pelo uso preferencial do conceito de “ética” a “moral”, para o qual estão reservados os termos “normas” e “regras”, e o de “valor” a “norma”, a par de uma perspetiva crítica daquela. Palavras-chave Ética, moral, axiologia, valores. ABSTRACT This article essentially aims to contribute to the philosophical-theoretical clarification of the use of concepts such as ethics, morals, axiology and values, usually used to refer to the same reality. To this end, we will begin by analyzing the respective etymologies that feature them, we will examine the various nuances of their senses, as well as their * Professora do Departamento de Educação da Universidade de Aveiro, Portugal. Artigo recebido em 13/03/2013 e aprovado em 21/04/2013. Ana Paula Pedro484 relationship of complementarity, and we will finish by referring to what we mean by values and what is their nature and importance, key features, as well as the universe to which they relate. Throughout the text, we will conclude by the preferential use of the concept from “ethics” to “morals”, for which the terms “standards” and “rules” are reserved, and that from “value” to “standard”, together with a critical perspective. Keywords Ethics, morals, axiology, values. Introdução Frequentemente, assistimos ao uso ambíguo de palavras que estabelecem uma associação terminológica por sinonímia de “moral e ético”, “moralidade e ética”, “valores e ética”, “valores e norma”, “axiologia e ética”, e ainda, “filosofia moral e ética” que se empregam em vários contextos do quotidiano como se de sinónimos se tratassem, resultando daqui, não raras vezes, uma enorme confusão para quem necessita de as utilizar, dificultando, deste modo, a comunicação e a elaboração do pensamento. Para além disso, uma clarificação concetual a este nível, potencia o estabelecer de diferenciações quanto ao uso dos conceitos acima referidos nos diversos contextos a que se referem, sejam eles de natureza reflexiva, crítica ou normativo-legal com expressivas consequências ao nível da construção do saber teórico e do saber prático atuais (ex: códigos profissionais de ética). Deste modo, e partindo do pressuposto de que estes conceitos constituem a base essencial do nosso agir ético-comportamental quer enquanto pessoas, quer enquanto profissionais, quer enquanto investigadores, por exemplo, este artigo tem por objetivo fundamental contribuir para o seu dilucidamento concetual-etimológico. Assim, procederemos, primeiramente, à explanação de algumas das razões que explicam as confusões contingenciais que rodeiam estes conceitos, seguida de uma explicação esclarecedora da sua origem etimológica. exploraremos, ainda, alguns dos sentidos de que se revestem na atualidade, de acordo com alguns dos pensadores que mais significativamente influenciaram o seu “pensar”. Ao longo do texto, aduziremos e concluiremos pelo uso preferencial do conceito de “ética” a “moral”, para o qual estão reservados os termos “normas” e “regras”, e o de “valor” a “norma”, a par de uma perspetiva crítica daquela. 485ÉTICA, MORAL, AXIOLOGIA E VALORES De que falamos quando falamos de ética e de moral? Frequentemente, confundimos moral e ética quando nos referimos indis- tintamente ora ao universo das normas e dos valores sociais tout court, ora quando aludimos ao facto de que a ética e a axiologia têm o mesmo signifi- cado, não estabelecendo quaisquer fronteiras e limites entre cada uma delas, dada a natureza da sua proximidade, por um lado, nem efetuando as respetivas interações de complementaridade que entre si se podem tecer, por outro. Uma das razões para tal acontecer reside no facto de existirem duas pala- vras para mencionar o domínio valorativo da ética e da moral através da sua origem grega e latina, de raíz etimológica distinta: assim, o termo ética deriva do grego ethos, que pode apresentar duas grafias – êthos – evocando o lugar onde se guardavam os animais, tendo evoluído para “o lugar onde brotam os actos, isto é, a interioridade dos homens” (Renaud, 1994, p. 10), tendo, mais tarde passado a significar, com Heidegger, a habitação do ser, e – éthos – que significa comportamento, costumes, hábito, caráter, modo de ser de uma pes- soa, enquanto a palavra moral, que deriva do latim mos, (plural mores), se refere a costumes, normas e leis, tal como Weil (2012) e Tughendhat (1999) referem. Para além disso, os termos ética e moral aplicam-se quer a pessoas quer a sistemas ou teorias morais, o que agrava, ainda mais, o estado de confusão, pois, quando desejamos classificar a natureza da ação humana e de sistemas mais alargados em que os sujeitos se inserem, o cidadão comum oscila sempre indistintamente sobre a utilização de cada um desses termos. Há quem considere, no entanto, que não faz qualquer sentido estabelecer estas distinções, pois todas acabam por referir-se ao mesmo universo; con- tudo, não é bem essa a nossa opiniãopor considerarmos estar subjacente à identificação e delimitação destas diferenciações terminológicas um modo de agir e de pensar interrogativo e reflexivo distintos daquele que sucederia, caso não as reconhecêssemos como tal. também ricœur (2012) menciona esta diferenciação entre ética e moral, reservando o “terme d’éthique pour tout le questionnement qui précède l’in- troduction de l’idée de loi morale et de désigner par morale tout ce qui, dans l’ordre du bien et du mal, se rapporte à des lois, des normes, des impératifs”. Por outras palavras, Ricœur, em “Soi-même comme un autre” (1990), atribui: “1) la primauté de l’éthique sur la morale ; 2) la nécessité pour la visée éthique de passer par le crible de la norme ; 3) la légitimité d’un recours de la norme à la visée… La morale ne constituerait qu’une effectuation limitée, quoique légitime et même indispensable, de la visée éthique, et l’éthique en ce sens envelopperait la morale” (Ricœur, 1990, pp. 200-201). Ana Paula Pedro486 Neste sentido, por exemplo, não terá significado idêntico referenciar mo- ral e ética sob a mesma perspetiva para falarmos de uma única realidade va- lorativa, pois, enquanto a moral se refere a um conjunto de normas, valores (ex: bem, mal), princípios de comportamento e costumes específicos de uma determinada sociedade ou cultura (Schneewind, 1996; Weil, 2012), a ética tem por objeto de análise e de investigação a natureza dos princípios que subjazem a essas normas, questionando-se acerca do seu sentido, bem como da estrutura das distintas teorias morais e da argumentação utilizada para dever manter, ou não, no seu seio determinados traços culturais; enquanto a moral procura responder à pergunta: como havemos de viver?, a ética (meta normativa ou meta ética) defronta-se com a questão: porque havemos de viver segundo x ou y modo de viver? A ética é essencialmente especulativa, não se devendo dela exigir um receituário quanto a formas de viver com sucesso, dado que se preocupa, so- bretudo, com a fundamentação da moral; a moral, é eminentemente prática, voltada para a ação concreta e real, para um certo saber fazer prático-moral e para a aplicação de normas morais consideradas válidas por todos os membros de um determinado grupo social. Por outro lado, a ética não é um conjunto de proibições nem a moral algo definível somente num contexto de ordem reli- giosa (Singer, 1994, p. 11; Dias, 2006; Gontijo, 2006). Ética e moral: uma necessária relação de complementaridade Contudo, apesar de estes conceitos serem distintos, existe uma estreita articulação entre si, na medida em que a ética tem como objeto de estudo a própria moral, não existindo desligada uma da outra, mas sendo independentes entre si, tal como podemos verificar no gráfico que se segue. neste sentido, tanto a ética implica a moral, enquanto matéria-prima das suas reflexões e sem a qual não existiria, como a moral implica a ética para se repensar, desenhando-se, assim, entre elas uma importante relação de circularidade ascendente e de complementaridade. 487ÉTICA, MORAL, AXIOLOGIA E VALORES Ética Moral Gráfico 1 - relação intrínseca entre ética e moral Muito embora cada uma delas mantenha as suas especificidades e particularidades que as caracterizam no seu modus operandi, a verdade é que esta relação complementar torna-se não só desejável como necessária, na medida em que permite à moral quer uma abertura à comunicação e ao diálogo ético-moral (que corresponde ao tracejado no gráfico), entendidas como antídoto ao dogmatismo moral; quer o desenvolvimento de uma capacidade de interrogação, reflexão e ponderação de cada sistema de moralidade existente quanto à natureza e pertinência das suas normas e regras morais secularmente instituídas, mas nem sempre repensadas à luz do sentido dos princípios que as fundamentam (exs: práticas de excisão feminina; infanticídio feminino); quer, ainda, o conhecimento racional subjacente a uma práxis moral informada. Esta valorização do conhecimento pensada como condição necessária ao modo de agir e de viver moral é, simultaneamente, um pressuposto desse mesmo agir e pensar, afastando, assim, a ideia de que a moral ou a ética pertencem exclusivamente ao domínio da intuição e da emoção e não do conhecimento e da razão. Contudo, um equilíbrio entre ambas é absolutamente fundamental. Valores, moral e ética: que relação? Estabelecida esta distinção, podemos agora colocar a pergunta: qual a rela- ção existente entre valores, moral e ética? Será de sinonímia ou de antonímia? Bem, na verdade, consideramos que a situação se assemelha à anterior- mente descrita, pois, se, por um lado, uma e outra fazem inevitavelmente uso dos valores, muito embora, sob perspetivas diferentes, uma, de natureza mais prática (moral), e outra, de pendor mais reflexivo e interrogativo (ética), por outro lado, valor, cuja origem etimológica deriva do latim valere, surge com Ana Paula Pedro488 uma conotação algo distinta dos restantes vocábulos acima assinalados, na medida em que remete para a ideia daquilo que vale (ou de merecimento), de robustez, força e poder de um objeto (bem) que se impõe primordialmente à consciência do sujeito. Contudo, um sentido de valor mais completo é, em nosso entender, aquele sugerido por Ricœur (2012), quando afirma que “dans le mot ‘valeur’, il y a d’abord un verbe: évaluer, lequel à son tour renvoie à préférer: ceci vaut mieux que cela; avant valeur, il y a valoir plus ou moins”. Por sua vez, valor e norma também são geralmente confundidos como sendo conceitos sinónimos; todavia, enquanto a especificidade do valor se estrutura e organiza em volta de conceitos como “bom”, “mau”, a norma já parece referir-se ao domínio do “obrigatório”, do “interdito” ou do que é so- cialmente “permitido”. Assim, da relação tridimensional valores, moral e ética, podemos aduzir valores morais e valores éticos; todavia, nem a moral nem a ética reduzem, obviamente, a sua esfera de pensamento e de ação somente a este tipo de valores, dado que o mundo dos valores é imenso e infinito. Por isso, nunca é demais assinalar uma outra confusão que habitualmente ocorre ao identificar valores somente a valores morais, esquecendo a panóplia imensa do tipo de valores existentes (ex: políticos, éticos, morais, estéticos, ecológicos, vitais, espirituais, económicos, religiosos). esta associação deve-se ao facto de, por razões culturais, ter existido ao longo dos séculos, uma proximidade histórica e cultural entre a esfera dos valores religiosos e a realidade social que, não obstante, se tem assumido, ultimamente, de cariz eminentemente laico e secular, mas ainda, de raíz judaico-cristã. Axiologia e valores possuem o mesmo significado? Apesar da estreita relação que mantêm entre si, pois uma (valores) é o objeto de estudo da outra (axiologia), aliás, à imagem da ética e da moral – como vimos – são, no entanto, distintas: enquanto a axiologia mais não significa do que o estudo ou tratado dos valores, ou seja, uma reflexão filosófica sobre os valores, sua natureza, características, estrutura, conhecimento e teorias, os valores, enquanto tal, constituem o seu objeto de estudo. Não há, pois, que confundir axiologia com valores. 489ÉTICA, MORAL, AXIOLOGIA E VALORES Valor: natureza e definição o que são valores? os valores valem? Qual a importância e pertinência que os valores desempenham na vida de cada um de nós? e na sociedade, em geral? Falar de valores equivalerá a falar apenas de valores morais? De que servem e para que servem os valores, afinal? Será importante um estudo sistemático dos valores (Teoria dos Valores ou Axiologia) ou bastar-nos-á um sentimento intuitivo axiológico que todo o homem “normal” parece possuir devido ao processo evolutivo? Por que vias se obtém o conhecimento do valor:pela intuição, pela emoção ou pela razão? Será possível, ou mesmo desejável, vivermos à margem dos valores? De que forma é que os valores determinam, ou não, o sentido e a realização da vida humana? Muito embora a palavra “valor” tenha inicialmente surgido no contexto das ciências económicas (Adam Smith, 1723-1790), querendo com isso denotar algo que é valioso e que se pode usar ou trocar, foi a partir da segunda metade do séc. XiX e início do séc. XX, mais concretamente com nietzsche (1844-1900), que a palavra valor, com a correspondente conotação axiológica, foi primeiramente introduzida na filosofia. Na verdade, em “A genealogia da moral” (1990), Nietzsche enceta uma crítica vigorosa aos valores cristãos da época, designando-os de falsos e preconizando a sua substituição por outros autenticamente humanos. Contudo, é possível assinalar que os valores, enquanto objeto de estudo e de reflexão filosófica e não como ramo da filosofia (Axiologia ou Teoria dos Valores), tal como hoje a conhecemos e cuja sistematização inicial se ficou dever a Lotze (1817-1881), remonta à antiguidade grega, sendo, pois, possível destacar, desde logo; Sócrates (470 a.C.-399 a.C.), o qual se insurgiu contra o relativismo moral sustentado pelos sofistas, contrapondo-lhe a universalidade dos valores éticos; Platão (427 a.C.-347 a.C.), que tomou um caminho diferente do do seu mestre ao transpor a reflexão valorativa para o mundo metafísico das ideias (Teoria das Ideias), que mais não é do que uma Teoria dos Valores, culminando na Ideia de Bem; Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), quem primeiro apresentou uma verdadeira teoria sistemática dos valores (Teoria das Virtudes) e que, por sua vez, remete a questão da transcendência da ideia de Bem para o plano imanente, da realidade empírica; e, mais tarde, Kant (1724-1804), entre outros, cuja ideia de valor é deslocada para o domínio da consciência pessoal e individual caracterizada por um forte formalismo moral em que os valores são, pois, vazios de conteúdo (agir no dever pelo dever), dependendo apenas de juízos de valor emitidos pela consciência e não pelo que o real apresenta. Ana Paula Pedro490 em contraposição com o formalismo moral kantiano, os defensores da conceção material dos valores reconheceram a estes um conteúdo concreto, real. Deste último ponto de vista, os valores já não constituem um a priori, pois, tanto podem ser relativos (dependendo das valorações do sujeito) como absolutos (existentes em si mesmos enquanto entes), pelo que vão ser estas posições – subjetivismo e objetivismo – que vão marcar, doravante, grande parte da natureza das discussões axiológicas. Para uma definição de valor Contudo, antes mesmo de prosseguirmos, convém clarificar a sua noção de base ou, pelo menos, tentar fazê-lo:1 o que é o valor? Como defini-lo? Atentemos, num primeiro momento, quanto à origem etimológica da palavra Axiologia: do grego, o verbo άξιος/a[xioς – o qual pode traduzir-se por “valor”, e o substantivo axía, que também significa Valor, e λόγος – logos – que indica estudo ou tratado, a partir do qual se formou a palavra axiologia, ou ciência do valor, tratado dos valores (Cabanas, 1998, p. 121; Duméry, 2012). Mas, esta abordagem constitui apenas uma aproximação inicial ao conceito; todavia, parece que ainda muito fica por dizer acerca do mesmo. na verdade, se quisermos tomar para nós esse experienciar do valor, logo encontraremos um primeiro significado: o da vivência de um valor, em particular. ou seja, a vivência do valor, independentemente do valor que for, é experienciado como um fenómeno que se apresenta à consciência como tal e como um acontecimento que nos é imediatamente dado. esta forma fenomenológica2 de proceder para a determinação que buscamos do sentido da palavra valor revela-nos, igualmente, outra 1 Muito embora, segundo Hessen (2001, p. 43), esta não seja uma tarefa fácil de empreender, uma vez que o conceito valor não pode, em rigor, definir-se dado pertencer àquele conjunto de conceitos ontológicos, tais como os de “ser”, “ente” e “existência”, que não admitem qualquer definição em si mesmos. Na verdade, o seu significado vai-se desvelando à medida que conseguirmos adentrar no fenómeno em si. A dificuldade desta tarefa também é partilhada por Ortega y Gasset (1983, p. 333), quando refere que a sua definição só consegue fazer-se por meios indiretos. 2 Proceder fenomenologicamente ao estudo e experiência do valor (Hessen, 2001) significa partir do fenómeno em si mesmo para sua análise e reflexão e não partir de conceitos apriorísticos já formados para depois deles extrair o significado dos conceitos. Em certo sentido, pode considerar-se existir um paralelismo entre o método fenomenológico e o método experimental, ao procurar manter a igualdade de procedimentos em que a experiência deve decorrer para poder atribuir objetividade aos resultados obtidos. Para além desta abordagem em axiologia, que constitui a axiologia fenomenológica, é possível, ainda, designar outras correntes essenciais que compõem o estudo formal dos valores que se desenham no âmbito da axiologia, a saber: a axiologia formal; a psicologia dos valores e a doutrina empírica dos valores ou estudo dos valores aplicados. As axiologias fenomenológica e formal caracterizam-se por realizar um estudo a priori sobre as condições de ocorrência do fenómeno “valor”, enquanto as duas últimas (psicologia dos valores e estudo empírico dos valores) têm por objeto de estudo a posteriori e 491ÉTICA, MORAL, AXIOLOGIA E VALORES característica importante: para além do valor constituir, primeiramente, um fenómeno que aparece à nossa consciência, num outro momento, ele é experienciado como algo de “valioso”, ao qual foi atribuída uma preferência maior no seu grau de importância face aos demais. Portanto, o ato de valoração – que é feito por um sujeito que não pode deixar de valorar,3 pois, valorar é existir – é, por um lado, subjetivo e relacional e, por outro lado, objetivo e material, porquanto esse valor advém de um objeto que possui um determinado conjunto de qualidades que não foram indiferentes ao sujeito que as apreciou. Confusões entre valor e bens Mas, se só existe valor na exata medida da preferência subjetiva do sujeito ditada pela natureza do objeto, então, pode muito bem acontecer que o sujeito opte erradamente (ex: alguns sujeitos poderão transformar a droga num valor para si). Quando tal acontece, porque acontece em termos valorativos? e o que determina a escolha do bem em si? “Por que é que umas (coisas) valem mais do que as outras… possuem um valor elevado? Como se estabelece o valor de uma coisa e por que é que se pode afirmar que ela vale tanto ou tanto”? (Foucault, 1998, p. 237). Com efeito, sucede, frequentemente, que quando pensamos em valores estamos a referir-nos mais a “entes valiosos”, ou a uma ideia de “bem”, do que, propriamente, a valores. Um exemplo do que acabamos de afirmar é aquele em que nos referirmos à virtude como sendo um valor, quando, na verdade, se trata de um bem, tendo em consideração a sua característica valiosa. Do mesmo modo, a verdade, a beleza e o bem também não são valores, mas sim entidades com a sua essência bem identificada: assim, a verdade é uma adequação do intelecto à realidade e a beleza é uma qualidade de algumas coisas que, ao serem contempladas, produzem em nós uma sensação agradável. Na verdade, estas coisas, em si, ainda não são valores, pois, por si só, não apresentam qualquer valor (mais valia); ainda são bens. Por outras palavras, o bem não é, em si mesmo, portador de valor, sem mais. o bem apenas possui determinadas qualidades objetivas e reais que podem satisfazer as necessidades do sujeito sendo, portanto, apetecível para material dos valores em concreto em determinados contextos que fazem parte da vida dossujeitos, por exemplo, na economia, na política, na biologia (Jesinghaus, 2012). 3 Valorar é, para nós, entendido como sinónimo de atribuição de valor, apreciação, interpretação, ponderação, avaliação, ou ainda, possibilidade de emitir juízos de valor. Ana Paula Pedro492 este. Mas, nesta altura, o bem ainda não é um valor. O bem só se transformará em valor enquanto satisfizer a condição de apreciação subjetiva (ex: os alimentos constituem um bem portador de valor para uma pessoa que tenha fome, mas deixam de o ser para quem tenha comida em abundância). Em rigor, como diz Cabanas (1998, p. 120), “los valores no son bienes, sino una consecuencia de esos bienes referidos a la persona”. Tal significa, portanto, que incorremos em erro ao estabelecer uma confusão comum de fazer equivaler “bem” (objeto) a valor, tomando o bem por menos bom e o valor por bem quando, na verdade, o objeto só passa a ter valor de uma forma derivada; i.é., a partir do momento em que o sujeito lho reconhece. De facto, esta circunstância não é assim tão incomum, pois vemos o mesmo acontecer ao nível do conhecimento, em geral, tomando-se, muitas vezes, ilusoriamente, o que é verdadeiro pelo falso. Ora, tal significa que a faculdade ligada à captação e conhecimento dos valores terá de ser, necessariamente, também a razão (intelectualismo) e não somente a emoção (emotivismo), assunto que retomaremos mais adiante. Em suma: há valor sempre que: 1. o sujeito se interessa pelo objeto e este não lhe é indiferente; 2. o objeto (bem) tem interesse (ou é útil) em si mesmo; 3. há uma apreciação parcial, ou um “parti pris” (Lavelle, 1951, p. 186), que o sujeito adota face ao objeto. Porém, é a combinação de cada um destes fatores que forma o valor e não um deles tomado isoladamente. As coisas são chamadas “valores” (valiosas) não porque participem vagamente de um universal valorativo abstrato, ou de um qualquer ideal de valor inventado ex nihilo pelo homem, mas porque respondem objetivamente aos interesses e problemas profundos do sujeito. Deste modo, é pela relação que o sujeito mantém com as coisas que adquire a natureza de valor (Silva, 2010; Pontarolo, 2005; Gonçalo, 2008; Cabanas, 1998). os valores constituem, assim, uma resposta natural às necessidades sentidas pelo sujeito; daí, a sua importância e contributo para a transformação da realidade; daí, o papel crucial que a educação pode representar no entrelaçar dos seus objetivos com o ganho de consciência reflexiva e práxica acerca dos valores com vista à realização do sujeito, de acordo com as suas preferências. Consequentemente, os valores não são entidades autónomas existentes em si, como Platão pretendia, mas antes, qualidades de natureza preferencial passíveis de serem apreciadas por um sujeito. ou seja, uma coisa é o bem, que existe por si mesmo, independentemente de toda e qualquer apreciação subjetiva; outra, o tipo de apreciação valorativa que lhe é atribuída. 493ÉTICA, MORAL, AXIOLOGIA E VALORES A definição de valor da qual partimos e que consideraremos como objeto de estudo no presente trabalho, é a seguinte: valor é a qualidade abstrata preferencial atribuída pelo sujeito suscitada pelas características inerentes de determinado objeto que satisfazem as necessidades e interesses daquele. Com esta definição consideramos a natureza ideal do valor, contudo, radicada na existência material do objeto, realidade da qual o sujeito parte e que não lhe é indiferente. Por isso mesmo, em nosso entender, esta definição acentua igualmente a natureza relacional do valor, simultaneamente, objetiva e subjetiva, que constitui a marca indelevelmente axiológica do sujeito por relação com os outros seres existentes (ontológica). Valor: suas caraterísticas esta referência ao sujeito a que acabamos de aludir não pretende indicar somente o sujeito individual, mas, sobretudo, o sujeito em geral, por abstração, aquele que pertence ao género humano. Deste modo, os valores acham-se referenciados ao que de comum existe e carateriza o ser humano e não ao indivíduo, em particular, não sendo, portanto, algo de subjetivo ou de arbitrário. Ou seja, a problemática dos valores está presente no mais íntimo de todo e cada sujeito e constitui o fundamento da sua essência. Acabamos, assim, de evidenciar o caráter relacional do valor: os valores são, mas não são em si; são sempre valores para alguém, pois sem sujeito não haveria valores. estes resultam da relação que se estabelece entre determinados objetos e o sujeito. Tal como refere Hessen (2001, p. 23), “valor é sempre valor para alguém. Valor… é a qualidade de uma coisa, que só pode pertencer-lhe em função de um sujeito dotado de uma certa consciência capaz de a registar”. Daqui não se segue, contudo, que os valores sejam apenas subjetivos, pois a valoração advém de um objeto concreto e real, ou somente objetivos, uma vez que a sua apreciação é feita segundo o interesse do sujeito, facto que denota uma certa ambivalência na caracterização dos valores por apresentarem, ao mesmo tempo, uma dimensão objetiva e subjetiva. Mas, para além destas caraterísticas dos valores que acabamos de assinalar – referência a um sujeito ou caracter relacional; ambivalência, por serem ora subjetivos ora objetivos, bem como o facto de serem supraindividuais, não se referindo, por isso, apenas ao homem x ou y, mas a todos os homens – é possível assinalar, ainda, outras particularidades específicas dos valores, tal é a sua natureza complexa e pluridimensional, tais como o facto de serem: Ana Paula Pedro494 - Ideais, no sentido em que os valores pertencem ao mundo do pensamento que os pensa, à imagem dos objetos do pensamento lógico e matemático; não no sentido em que são absolutos ou transcendentais, teleologicamente falando, mas no sentido em que nos remetem para uma crença ou uma dimensão que nos ultrapassa. Comentário crítico: Esta postura é criticável, pois os valores não podem ser delimitados e localizados de forma inequívoca como sucede com os entes matemáticos. O valor aponta para o que é relevante, digno de importância, para a ideia de excelência; - Irrealidade, na medida em que os valores, embora realizáveis (ex: valores culturais), não são materiais, palpáveis, no sentido de se poderem tocar ou manusear; i.é., não têm existência objetiva. não são, portanto, “entes em si”, à maneira platónica, mas “entes de razão”. É, nesse sentido, que ouvimos dizer a expressão: “os valores não são; os valores valem” (Lotze, 1951, apud Morente, 1987). Comentário crítico: Contudo, os valores exigem necessariamente uma relação com as coisas, os objetos, o mundo e a realidade para se poderem afirmar, realidade essa a partir da qual e para a qual tendem (Brentano, 1838- 1917). É com Brentano4 que se dá o reconhecimento da existência de uma certa intencionalidade que se exprime como sendo uma intencionalidade de algo; - Apreciáveis: os valores são apreciáveis, estimáveis e admiráveis. Por isso, indignamo-nos quando os vemos destruídos, (ex: destruição de estátuas milenares de Buda no Afeganistão); - Inexauríveis, no sentido em que o seu valor não se esgota em nenhuma das suas realizações. Assim, a bondade não se esgota nos atos considerados bons (Sanabria, 2005); Conclusão crítica: Por esta razão se compreenderá o que frequentemente acontece quando sentimos, por exemplo, uma enorme deceção com determinadas ações dada a diferença existente entre os nossos desejos e a realidade. 4 Franz Brentano (1838-1917) ficou conhecido por introduzir a questão da intencionalidade, segundo a qual a mente tem características diferentes de outros estados mentais, na medida em que são estados acerca de coisas (ex: crenças, desejos, convicções). Este foi um problema para a filosofia da mente – o da naturalização da mente – cujos significados e conteúdosintencionais, embora não visíveis, poderão, eventualmente, constituir a causa de um comportamento observado. 495ÉTICA, MORAL, AXIOLOGIA E VALORES - Intemporais, pois os valores estão para além do devir temporal; caso contrário, não seriam valores; - Obrigatoriedade (Requisito de), (requierdness), no sentido de imperativo categórico. Dado que os valores não são neutros, é completamente impossível sermos-lhes indiferentes. Daí, que sintamos obrigação moral (dever ser) de sobre eles nos pronunciarmos e tomarmos uma posição; - Qualidade: o valor constitui uma qualidade preferencial traduzida pelo sujeito face às características do objeto, mas é uma qualidade sui generis (Frondizi, 1972), pois não tem qualquer existência real, como acontece com o objeto, muito embora radique nele para se expressar; - Apetecibilidade: esta característica verifica-se, na medida em que os valores não são indiferentes ao sujeito, mas exercem sobre si uma força atrativa que reside, mais precisamente, na sua dimensão ideal e significativa; Comentário crítico: quer o carácter de preferência (qualidade) quer o da atração (apetecibilidade) podem variar enormemente, indo do “bom” ao “mau”. i.é., podemos sempre escolher objetos cujo valor é duvidoso, na medida em que se diz que somente sobre eles recai o nosso interesse e preferência; contudo, tal como já referimos, nestas circunstâncias pode ocorrer o erro, pelo que, nesse caso, não se trataria de um valor, mas de um anti-valor; - Polaridade (ou bipolaridade), de acordo com a qual, a cada valor positivo corresponde um valor negativo ou anti-valor (ex: à paz opõe- se a guerra; à ideia de bem opõe-se a ideia de mal). Comentário crítico: Contudo, como muito bem o fazem notar Brito e Meneses (2012), há um valor em que não se verifica a existência bipolar que acima se refere, na medida em que será paradoxal atribuir um anti-valor à existência pelo simples facto de que, não havendo nada, não havendo existência de algo ou de alguém, não há o que valorar e por que valorar. Por sua vez, também a realidade não tem um anti-valor correspondente, pois o nada é a total negação do ser. Já o anti-valor tem realidade, dado que não é a simples ausência de valor positivo, mas constitui uma privação de algo que deveria ter-se, ou ser, e não se tem, ou não é. - Objetividade axiológica: os valores são objetivos como as figuras matemáticas, na medida em que mesmo que tenhamos uma ideia pouco clara da sua representação, conseguimos intuí-la como sendo Ana Paula Pedro496 algo objetivo (ex: quando dizemos que um ato foi justo ou injusto, dizemo-lo por referência ou por comparação com a ideia objetiva de Justiça que todos possuímos); Comentário crítico: os valores não são entes exclusivos nem da res cogitans nem da res extensa; ou seja, se, por um lado, não existem independentemente dos sujeitos nem se reduzem a uma vivência subjetiva dos mesmos, por outro lado, manifestam-se nos objetos, mas através do homem, para o homem e para o mundo; - Hierarquia, segundo a qual se pretende significar que nem todos os valores valem do mesmo modo, ou da mesma maneira, variando a sua ordenação, ou lugar, na escala vertical (há valores que são mais elevados do que outros), segundo o grau de importância ou de preferência (critério) que o sujeito decidir atribuir-lhes. Pode afirmar- se, então, poderem existir tantas hierarquias de valores quantos os sujeitos, logrando existir desacordo frequente entre elas; Comentário crítico: contudo, deste facto não se deduz necessariamente um relativismo de valores, como frequentemente ouvimos referir, mas sim que há valores que, devido às suas características (Scheler, 1874-1928) se distanciam qualitativamente de outros. - Heterogeneidade: Por muito ordenados que os valores estejam e por muito classificados que sejam e se encontrem agrupados segundo “famílias” de valores, o certo é que existe uma diferenciação qualitativa entre eles (ex: a coragem e a saúde não têm certamente o mesmo valor). - Caráter unitário ou sistema lógico com que os valores se apresentam, cuja estrutura interna possui uma consistência coerente no tipo de relações que estabelece entre os diferentes valores; estas características mantêm uma relação estreita de interação entre si, muito embora algumas de entre elas se possam manifestar ou expressar parcialmente, de acordo com determinadas circunstâncias que assim o favoreçam. Ou seja: os valores não se circunscrevem unicamente a estas características atrás mencionadas e vão manifestando cada uma das suas dimensões consoante a qualidade das experiências vividas pelo sujeito que assim as for salientando, dando-se a conhecer parcialmente. 497ÉTICA, MORAL, AXIOLOGIA E VALORES Em última análise, é como se os valores fossem um poliedro, no qual a luz que incidisse numa das suas faces era a revelada naquele momento em particular; mas, tal não significa que as restantes facetas sejam inexistentes. Esta questão sugere-nos uma outra: a do problema aristotélico da potência e do ato. Contudo, subjacente a esta manifestação parcial subsiste a estrutura que as sustenta ou suporta, caracterizada pela dimensão que a sua amplitude até aqui analisada demonstra. Conclusão neste texto, partimos de uma diferenciação inicial quanto ao entendimento dos termos ética e moral enquanto antónimos; tal facto leva-nos a considerar uma prevalência da ética relativamente à moral, contudo não consideramos poder perspetivar-se uma ética sem moral nem uma moral sem ética, dado que ambas são absolutamente necessárias e complementares entre si. o facto de não partilharmos de uma sinonímia concetual de base entre ética e moral não nos permite considerar a sua distinção como se de uma separação hermética de conceitos se tratasse, dado que tanto a ética necessita da moral como a moral da ética: aquela, de sentido normativo, porque constitui matéria-prima de reflexão crítica e de fundamentação da moral, e esta porque necessita do carácter profundamente interrogante e comunicativo daquela condição da sua evolução. Na verdade, o que tal significa, em nosso entender, é que possuem funções diferentes, mas interdependentes em que uma não pode existir sem a outra. Da mesma forma, também os valores se opõem às normas e às regras, num primeiro momento, muito embora delas possam vir a necessitar, num segundo momento, para se expressarem e manifestarem; contudo, aquelas não são redutoras e muito menos se deixam encerrar no domínio estr(e)ito destas, pois o seu universo é infindável e inesgotável, sempre sujeito a novas descobertas e aproximações da realidade reveladoras da complexidade humana. Inegável é, contudo, a importância que cada um destes conceitos se reveste quer para o dizer quer para o fazer ético humano nos diversos contextos em que o sujeito se insere. Referências BRITO, J.; MENESES, R. “Os valores e a antropologia: para uma leitura fenomenológica” [Online]. Disponível em: www.eleutheria.ufm.edu/ArticulosPDF/100621_fondo_os. (Acessado em 11 de novembro de 2012). Ana Paula Pedro498 CABANAS, Q. “Pedagogía axiológica: la educación ante los valores”. Madrid: Dykinson, 1998. CABrAL, r. “temas de ética”. Faculdade de Filosofia. Braga: Universidade Católica de Braga, 2000. DUMÉRY, H. “Axiologie” [Online]. Disponível em: http://www.universalis.fr/encyclopedie/ axiologie/ (Acessado em 15 de novembro de 2012). FOUCAULT, M. “As palavras e as coisas”. Lisboa: Edições 70, 1998. FRONDIZI, R. “Valor, estructura y situación”. Dianóia, Vol. 18, Nr. 18, pp. 78-112, 1972. GONÇALO, E. “Os valores como fundamento ético do agir humano”. Contexto, Vol. 3, nr. 3, pp. 111-124, 2008. GONTIJO, E. “Os termos ‘ética’ e ‘moral’. Mental, Barbacena, Vol. 4, Nr. 7, pp. 127- 135, nov. 2006. HESSEN, J. “Filosofia dos valores”. Coimbra: Almedina, 2001. JESINGHAUS,C. “Estudios acerca de una axiologia formal y fenomenológica”. Disponível em: ffyl.uncu.edu.ar/IMG/pdf/12_vol_01_jesinghaus.pdf [Online]. (Acessado em 21 de novembro de 2012). LAVELLE, L. “Traité des valeurs”. Théorie générale de la valeur. Tome I. Paris: PUF, 1951. MORENTE, M. “Fundamentos de filosofia: ontologia dos valores”. 1987 [Online]. Disponível em: http://www.consciencia.org/fundamentosfilosofiamorente22.shtml (Acessado em 25 de novembro de 2012). ORTEGA Y GASSET, J. “obras completas”. Madrid: Alianza, 1983. PONTAROLO, R. “Atividade axiológica na educação”. Ponta Grossa: Universidade Estadual de Ponta Grossa, 2005. RENAUD, I. “A noção de dever na ética contemporânea”. In: J. Brito (Coord.). Temas fundamentais de ética (pp. 31-44). Braga: Universidade Católica Portuguesa, 2001. RICŒUR, P. “Soi-même comme un autre”. Paris: Seuil, 1990. __________. “Ética e moral”. Covilhã: UBI, 2011. __________. “Éthique” [Online]. Disponível em: http://www.universalis.fr/encyclopedie/ ethique/1-l-intention-ethique/ (Acessado em 25 de novembro de 2012). SANABRIA, J. “Axiología. Ética” (pp. 67-77). México: Porrúa, 2005. SCHNEEWIND, J. “Dictionnaire d’éthique et de philosophie morale” (pp. 651-657). Paris: PUF, 1996. SILVA, C. “Valores e valoração: posições éticas num itinerário educativo”. Porto: Universidade do Porto, 2010. SINGER, P. “Sobre a ética: ética prática” (pp. 9-23). São Paulo: Martins Fontes, 1994. TUGENDHAT, E. “Lições sobre ética”. Petrópolis: Vozes, 1999. VALADIER, P. “Você disse: valores? A anarquia dos valores: será o relativismo fatal?” (pp. 15-24). Lisboa: Instituto Piaget, 1998. WEIL, E. “Morale” [Online]. Disponível em: http://www.universalis.fr/encyclopedie/ morale/ressources/ (Acessado em 28 de novembro de 2012). 9 Ética voltada para o curso de formação de farmacêuticos Danyelle Cristine Marini Luis Marcos Ferreira A Terminologia Ética Segundo Zubioli (2004), a terminologia ética é muito comple- xa, provavelmente por envolver vários aspectos, dentre eles o modo de viver, agir e pensar de cada um, o que não deixa de ser bastante variado. A palavra ética procede do vocabulário grego com duas origens possíveis; a primeira, êthos (ήθος), escrita com ή (eta), e a letra e, em grafia minúscula, que significa caráter. A segunda origem, ethos (θος), escrita com épsilon, e a letra E, em grafia maiúscula, com o sentido de hábito e costume, conjunto de valores e de hábitos consagrados pela tradição cultural de um povo (ZUBIOLI, 2004). No latim não existe uma palavra que veio a traduzir o êthos e ou- tra que veio a traduzir o ethos; ambas são representadas pela expressão mos, que significa exatamente os costumes e valores de uma deter- minada cultura. A palavra moralis foi introduzida por Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.) para traduzir o termo ethikos. Assim, originaria- mente, êthos e mos, “caráter” e “costume”, assentam-se num modo de comportamento que não corresponde a uma disposição natural, mas que é adquirido ou conquistado por hábito (ZUBIOLI, 2004). Há muitas discussões sobre problemas éticos presentes no coti- diano, que têm produzido, historicamente, uma grande quantidade de estudos. Ao se adentrar tais discussões, surgem algumas dúvidas: por onde começar? Como iniciar a apresentação dos principais problemas éticos e suas possíveis soluções considerando o desenvolvimento his- tórico da filosofia e da ética? No livro Textos Básicos de Ética, de Danilo Marcondes (2007), tomado aqui como referência fundamental, cada capítulo é dedica- do a um autor relevante na história da ética, em ordem cronológica: 10 Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Des- cartes, Spinoza, Hume, Kant, Kierkegaard, Nietzsche, Stuart Mill, Weber, Freud e Foucault. Os capítulos iniciam com uma pequena introdução ao autor e às suas concepções sobre ética, apresentando trechos de uma ou mais obras que ilustram o ponto principal de suas discussões. Dessa forma, devido à diversidade de autores e conceitos, por mais que estes possuam importância reconhecida, qualquer texto que se proponha a dissertar sobre ética, invariavelmente, deixará lacunas. Então optou-se por abordar aqui o tema a partir do comporta- mento, da origem, da variedade de costumes, das diferentes culturas, da oposição entre determinismo e livre-arbítrio e da importância das consequências de nosso comportamento, tanto para nós, quanto para os que nos cercam. Com relação ao julgamento ético, o material apresentado par- tirá do prisma da tensão, tão discutida, entre “impulsividade” e au- tocontrole, da necessidade ou eficácia da punição para a melhora ou aperfeiçoamento do comportamento que é indesejável e dos fatores naturais, individuais e culturais no comportamento do indivíduo (MARCONDES, 2007). Uma grande questão ética seria: os homens só agem eticamente por temerem uma severa punição? Em O Anel de Giges, que aparece n’A República, de Platão, um anel tornava o personagem Giges invisí- vel, livrando-o de punições pelas atrocidades cometidas. Para Platão, as virtudes são inatas: se Giges as possuísse, não cometeria as atroci- dades, mesmo tendo o anel. Por outro lado, Aristóteles afirmava que as virtudes são resul- tantes do hábito, tanto que defendia que a origem do sentimento de felicidade é a relação entre ações e os resultados destas. Dessa forma, a diferença entre Platão e Aristóteles é que o segun- do afirmava que era possível ensinar as virtudes. Já Santo Agostinho e São Tomás de Aquino frequentemente se envolviam com a discussão de que o ser humano possui o livre-arbítrio para se decidir sobre suas ações. O filósofo alemão Immanuel Kant, autor da filosofia crítica, debruçou-se basicamente sobre os estudos de questões relacionadas 11 à moral, apresentando em suas principais obras, Crítica da razão pura e Crítica da razão prática, questões sobre o conhecimento da razão te- órica e sobre a moral, respectivamente. Segundo Kant (1991), a ra- zão teórica pura permitiria ao sujeito (epistêmico) elaborar o conhe- cimento do mundo da natureza e a razão prática pura investigaria o conhecimento do sujeito em relação ao mundo social e suas ações em sociedade. É a razão teórica que permitiria ao sujeito conhecer as leis que regem o mundo da natureza, incluindo as leis do cosmos, do mundo orgânico e inorgânico. À razão prática estaria reservada a tarefa do estudo das leis do mundo social, regido pela vontade e a liberdade dos homens. Tal divisão resulta das diferenças de atribui- ções entre natureza e sociedade, os dois mundos onde a razão deve atuar. A razão investiga, por um lado, as leis naturais, matemáticas e físicas e, por outro, as leis que regem o mundo social ou dos cos- tumes, da prática. O que Kant denomina razão pura deve-se ao fato de a razão existir independentemente da experiência, ou seja, a razão trata-se de conhecimento a priori, isenta de qualquer forma de vivência e inde- pendente da atuação do sujeito sobre o mundo (KANT, 1991). A questão da moralidade, para Kant, surge da escolha diária que o homem precisa fazer entre o “dever ser” e o “querer ser”; ele tem liberdade de fazer valer as suas vontades, fixar seus propósitos, objeti- vos ou fins. Para Kant, agir eticamente deve ocorrer de forma espon- tânea e consciente; é cumprir a lei por respeito à lei, ainda que sua vontade seja contrária à lei. As ações éticas, segundo Kant, são responsabilidade da razão, e têm valor quando o homem age sob o sentimento de dever pela razão e não por interesse. Neste contexto, a ética é a explicação teórica do fundamento último do agir humano na busca da satisfação individual e da felicidade na sociedade. Não se pode perder nunca de vista o fato de que o propósito da ética é um só: a busca da felicidade humana. Obviamente, a soma da felicidade individual, no contexto social, con-duz à felicidade da sociedade (ZUBIOLI, 2004). Para Nietzsche, é impossível uma ciência que possa estabelecer uma moral, já que os valores não são universais e surgem de variações de costumes em relação às diferentes culturas (MARCONDES, 2007). 12 Outro ponto a ser destacado é a filosofia utilitarista, cuja dis- cussão ética trata da avaliação das consequências dos atos de cada um e faz uma reflexão sobre como estabelecer um critério de julga- mento das ações e seu valor, como é caso de Stuart Mill, que defen- de promoção da felicidade e do prazer e exclusão da dor, sofrimen- to ou infelicidade. Para Stuart Mill, os prazeres são considerados “tanto em relação à quantidade como à qualidade” e deve-se colo- car “o interesse de cada indivíduo tanto quanto possível em harmo- nia com o interesse da totalidade [...] de tal modo que seria, para ele, inconcebível a possibilidade de obter felicidade para si próprio com uma conduta oposta ao bem comum” (MARCONDES, 2007). Como observa Marcondes (2007), no que diz respeito à abordagem da ética segundo Stuart Mill, “não fica suficientemente claro como se dá a passagem do prazer ou da realização, individual, para o bem comum, o que tem suscitado um grande debate em torno das ideias utilitaristas até nossos dias”. A despeito dos diferentes referenciais teóricos e suas soluções para as questões éticas, pensados ao longo da história da filosofia e, conforme citado anteriormente, pode-se adotar a origem etimoló- gica da palavra ética como o termo grego ethos, significando o modo de ser, o caráter. E como tradução para o latim ethos o termo mos, relacionado a costumes, derivado de mores. Marilena Chauí (2003) afirma que: As questões socráticas inauguram a ética ou filosofia moral, porque defi- nem o campo no qual valores e obrigações morais podem ser estabeleci- dos, ao encontrar seu ponto de partida: a consciência do agente moral. É su- jeito ou ético moral somente aquele que sabe o que faz, conhece as causas e os fins de sua ação, o significado de suas intenções e de suas atitudes e a essência dos valores morais. Sócrates afirma que apenas o ignorante é vicioso e incapaz de virtude, pois quem sabe o que é bem não poderá deixar de agir virtuosamente. Geralmente, associa-se o significado do termo ética a questões como o que é ser justo, ser honesto e correto sem considerar-se a ne- cessidade de verificar os costumes, valores e cultura presentes em uma determinada sociedade. Um julgamento ético, nesse sentido, deve le- 13 var em conta a formação dos valores e, em cada cultura, o conteúdo das condutas morais. Ainda segundo Marilena Chauí (2003), deve-se reconhecer que: Frequentemente, não notamos a origem cultural dos valores éticos, do senso moral e da consciência moral, porque somos educados (cultiva- dos) para eles e neles, como se fossem naturais ou fáticos, existentes em si e por si mesmos. [...] para garantir a manutenção dos padrões morais através do tempo e sua continuidade de geração a geração, as sociedades tendem a naturalizá-los. A naturalização da existência moral esconde, portanto, a essência da moral, ou seja, que ele é essencialmente uma criação histórico-cultural, algo que depende das ações humanas. Dessa forma, parece que o sentido ético deve estar associado a ações e relações entre o homem e a sociedade. São suas ações, também reconhecidas como conduta ética, que repercutirão na sociedade. Para que um “sujeito ou a pessoa moral” (CHAUÍ, 2003) possa existir, deve preencher algumas condições básicas: ser consciente de si e dos outros; ser dotado de vontade; ser responsável; ser livre. Assim, o homem, desde que iniciou sua vida social, sentiu a ne- cessidade de se orientar por alguns deveres, mesmo que impostos pela sociedade, com o propósito de buscar a virtude individual e a excelên- cia moral dos indivíduos em prol da coletividade. A conduta ética sempre foi orientada como formação do caráter do sujeito moral para que estivesse trabalhando para controlar racio- nalmente seus impulsos, seus apetites e desejos, orientando a vontade para o bem próprio e como membro da coletividade. Enquanto isso, a questão ética também é definida por um senso comum – conjunto de regras a serem cumpridas para que se alcance o bem-estar, por exemplo, de um grupo de profissionais e, destes, em relação aos seus pacientes; regras que são entendidas como ponto de partida para o respeito próprio e aos que nos cercam. Ética e ética profissional do farmacêutico A questão da ética profissional não pode estar restrita a condutas normativas, postas em prática somente de forma dogmática ou auto- 14 ritária. Pelo contrário, pode ser vista como um conjunto de virtudes que auxiliam no exercício da profissão, tais como a honestidade, a competência, a prudência e a responsabilidade num amplo conjunto de qualidades do indivíduo, que deve ser transferido para o âmbito profissional, resultando em benefícios recíprocos. Diante do questionamento sobre como ensinar ética profissional aos discentes de cursos superiores e considerando que as IESs tam- bém são responsáveis pela formação ética dos seus estudantes, e que, segundo Aristóteles, a ética não é inata, o aprendizado da ética deve ocorrer de maneira contínua, ao longo do processo de formação. Essa questão torna-se mais complexa ao considerar que nas IESs há um público extremamente heterogêneo, onde cada discente traz consigo uma história pessoal, uma personalidade formada ou em for- mação, um conceito de bom ou ruim, justo ou injusto, certo ou erra- do, verdade ou mentira. Diante de tal complexidade surge a pergunta: como trabalhar a disciplina de ética em um ambiente tão complexo? A ética deve estar presente em todos os componentes curriculares, de forma transversal, permeando toda a graduação, além de precisar ser exercitada. Em ou- tras palavras, a ética possui componentes sociais profundos, fazendo com que a vivência em grupo seja fundamental para a construção de uma postura profissional fundamentada em princípios éticos. Também é importante destacar a necessidade de diferenciar a ética, a moral e a deontologia. A palavra deontologia provém da raiz grega deon, deontos e remete à necessidade, à conveniência de alguma coisa. Como o termo deontologia vem geralmente acompanhado da designação “de uma determinada profissão” (como por exemplo, “Có- digo de Deontologia Farmacêutica”), isto passa a significar a conveni- ência ou necessidade que essa determinada profissão tem, de acordo com suas características, as quais constituem as regras para o exercício dessa profissão. Portanto, a deontologia farmacêutica é um conjunto de regras que indicam o comportamento do indivíduo, na qualidade de membro da profissão farmacêutica, sendo que a essência dessas regras é a de garantir a conveniência ou a utilidade desse grupo social, a fim de que ele possa alcançar melhor as finalidades propostas ao conjunto da sociedade (ZUBIOLI, 2004). 15 O conjunto de regras da profissão farmacêutica é determinada pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF) por meio de Resolução específica, que determina o Código de Ética da Profissão Farmacêu- tica, o qual estabelece em seu preâmbulo que o farmacêutico é um profissional de saúde que tem a obrigação de salvaguardar a saúde pública e promover ações que contribuam com a promoção da saúde da comunidade (CFF, 2014). O ensino da ética é muito mais abrangente do que simplesmen- te transmitir as regras da deontologia ou da legislação farmacêutica e ultrapassa os limites escolares; contudo, os docentes dos cursos superiores precisam ter o compromisso de auxiliar a formação moral e ética dos discentes. O farmacêutico bem preparado necessita ultrapassar as compe- tências e habilidades necessárias para sua atuação, precisa ter cons- ciência dos seus atos para simesmo e para terceiros; há a iminente necessidade de evitar prejuízos a terceiros, ainda que sem intenção. Segundo Aristóteles (384-322 a.C.) “O homem, quando guiado pela ética, é o melhor dos animais, quando sem ela, é o pior de todos”. 35 Casos de deontologia e legislação farmacêutica A fim de auxiliar no ensino da deontologia e legislação farma- cêutica, são apresentados a seguir diversos casos adaptados de situ- ações reais. Alexandre Picorallo Medeiros Alexsandro Macedo Silva Amouni Mohmoud Mourad Danyelle Cristine Marini Liliane Ribeiro Braga Luciane Maria Ribeiro Neto 36 CASO 1 Área: Análises Clínicas e Toxicológicas Assunto: Resultado errado de exame laboratorial Um paciente, após passar por check-up com seu médico, recebeu soli- citação de diversos exames e compareceu a um laboratório sob responsabi- lidade técnica de um farmacêutico para realizar seus exames. Ao retirar seus exames e notar que entre eles havia um diagnóstico positivo de sífilis, retornou ao seu médico, que, diante da total ausência de qualquer sintoma da doença, pediu que ele repetisse o exame em dois outros laboratórios. Ao chegar em casa com novos pedidos de exame, sua esposa, desconfia- da, compareceu ao laboratório inicial e, comprovando a condição de esposa, obteve cópia do exame de seu marido com diagnóstico positivo para sífilis. Ela o espancou na mesma data por acreditar que ele a estava traindo em função de ser portador de doença venérea. Revoltado, o marido, que já havia recolhido sangue para realização dos exames em dois outros laboratórios, aguardou o resultado e, ao levar esses diagnósticos para seu médico, foi informado que o exame realizado no primeiro laboratório teve um resultado chamado de falso positivo, já que nada constou nos últimos exames. Ao retornar ao primeiro laboratório para esclarecer o ocorrido, foi informado pela farmacêutica e responsável técnica pela empresa que o exame havia sido analisado por outra farmacêutica que integrava a equipe na época dos fatos, e que já fora demitida por sua incapacidade técnica apurada em diversos outros exames. Indicou-se o nome da outra profis- sional, apesar de o exame conter apenas o nome da responsável técnica. Identifique as possíveis irregularidades ocorridas no caso aci- ma, os procedimentos inadequados, possíveis erros e responsabili- dades do farmacêutico, com base na legislação: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 296/96; • Portaria CVS nº 13/05; • RDC Anvisa nº 302/05. 37 CASO 2 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Aplicação de injetáveis O paciente procurou a farmácia para a aplicação de um injetável com receita médica e foi atendido pelo proprietário do estabelecimento, que realizou a aplicação no braço esquerdo do cliente. O proprietário não comprovou capacitação técnica para aplicação de injetáveis e a bula do medicamento ainda advertia: “o produto deve ser aplicado exclusivamente por via intramuscular na região glútea”. Após a aplicação, o cliente teve fortes dores e foi levado da farmácia para o hospital, onde foi internado, desenvolvendo queda de pele e tecidos internos, exposição do osso no local da aplicação e, finalmente, imobilida- de parcial do braço atingido. Identifique as possíveis irregularidades ocorridas no caso aci- ma, os procedimentos inadequados, possíveis erros e responsabili- dades do farmacêutico, com base na legislação: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF n° 357/01; • RDC Anvisa nº 44/09. 38 CASO 3 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Aplicação de injetáveis e troca do medicamento No dia 20 de janeiro de 2007, uma paciente compareceu à farmácia com uma prescrição médica de penicilina G benzatina 600.000 U (injetá- vel) e amoxicilina 250 mg. O farmacêutico não estava presente e a pacien- te foi atendida pelo balconista. Pela ausência do medicamento de referência e do genérico, o balco- nista vendeu o medicamento similar UniAmox® 250 mg (amoxicilina). Já o injetável (Benzetacil® 600.000 U) foi dispensado e aplicado pelo aten- dente, deixando um enorme hematoma e extrema dor muscular no local da aplicação, que persistiu pelo período de duas semanas após a aplicação. A paciente formalizou denúncia ao CRF-SP que, ao investigar o caso, constatou, entre outras coisas, que não existe livro de registro das apli- cações realizadas, e o responsável técnico não autorizou expressamente nenhum funcionário da farmácia a aplicar injeções. Identifique as possíveis irregularidades ocorridas no caso aci- ma, os procedimentos inadequados, possíveis erros e responsabili- dades do farmacêutico, com base na legislação: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF n° 357/01; • RDC Anvisa nº 44/09. 39 CASO 4 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Intermediação de fórmulas, comercialização de medicamentos sem registro e não comunicado de desligamento ao CRF-SP No dia 15 de janeiro de 2013, uma pessoa encomendou e retirou em uma drogaria próxima de sua residência 50 cápsulas Ginkgo biloba, extrato seco de 100 mg, e a manipulação de 30 cápsulas de omeprazol 20 mg. Após alguns dias de uso dos produtos, o paciente notou que os medi- camentos não faziam o mesmo efeito que o daqueles que havia comprado em uma farmácia com manipulação localizada no centro da cidade e, ao analisar os produtos, identificou que o Ginkgo biloba, apesar de industria- lizado, não possuía registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e que o omeprazol havia sido manipulado por uma farmácia lo- calizada em endereço diverso da drogaria onde encomendou e retirou os medicamentos. Ao investigar o caso, o CRF-SP convocou, em 05 de junho de 2013, o responsável técnico pelo estabelecimento, que não foi encontrado na dro- garia. Ele informou ter se desligado desta drogaria em 05 de abril de 2013, mostrando cópia de sua carteira de trabalho, onde constava a demissão. Identifique as possíveis irregularidades ocorridas no caso aci- ma, os procedimentos inadequados, possíveis erros e responsabili- dades do farmacêutico, com base na legislação: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF n° 357/01; • RDC Anvisa nº 44/09; • RDC Anvisa nº 67/07. 40 CASO 5 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Não prestação de assistência O fiscal do CRF-SP constatou a ausência da farmacêutica responsá- vel técnica em três visitas fiscais, ocorridas em: • 18/05/2012 – 15h40; • 14/03/2013 – 14h30; • 28/06/2013 – 08h15. Seu horário de assistência farmacêutica declarado em Termo de Com- promisso na drogaria é de segunda a sexta, das 08h às 17h com intervalo para almoço das 12h às 13h. Não havia outro farmacêutico em seu lugar. Em audiência de esclarecimento no CRF-SP, a profissional informou que não se recorda das visitas porque comparecia apenas uma vez por semana na drogaria, para lançar as receitas de controlados e encaminhar o relatório ao Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC). Também esclareceu que recebia metade do piso da categoria para assinar pela drogaria. Identifique as possíveis irregularidades ocorridas no caso acima, apontando os procedimentos inadequados, possíveis er- ros e responsabilidades do farmacêutico, com base na legislação profissional: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF n° 357/01; • Portaria SVS/MS nº 344/98; • RDC Anvisa nº 44/09. 41 CASO 6 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Não prestação de assistência e não atendimento à convocação pelo CRF-SP O fiscal do CRF-SP constatou a ausência do farmacêutico responsá- vel técnico em inspeções na drogaria, ocorridas em: • 29/06/2012 – 08h10; • 04/01/2013 – 13h35; • 27/11/2013 – 17h50. Seu horário de assistência farmacêutica declarado em Termo de Com- promisso na drogaria é de segunda a sexta, das 08h às 18h, com intervalo para almoçodas 11h às 13h. Não havia outro farmacêutico em seu lugar. Convocado para a orientação farmacêutica no CRF-SP, o profis- sional não compareceu e tampouco justificou o motivo de seu não com- parecimento. Identifique as possíveis irregularidades ocorridas no caso acima, apontando os procedimentos inadequados, possíveis er- ros e responsabilidades do farmacêutico, com base na legislação profissional: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF n° 357/01; • RDC Anvisa nº 44/09. 42 CASO 7 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Não prestação de assistência e incompatibilidade de atividade como fiscal sanitário O fiscal do CRF-SP esteve presente no estabelecimento para fiscali- zar as atividades da profissional e constatou a ausência da farmacêutica substituta em três visitas, ocorridas em: • 20/07/212 – 15h; • 05/12/2012 – 16h45; • 02/02/2013 – 19h20. Seu horário de assistência farmacêutica declarado em Termo de Com- promisso na drogaria é de segunda a sexta, das 14h às 20h, com intervalo para almoço das 18h às 19h, e aos sábados, das 12h às 20h, com intervalo das 18h às 19h. Não havia outro farmacêutico em seu lugar. Convocada para audiência de esclarecimento no CRF-SP, informou que, por conta de seu trabalho como fiscal da Vigilância Sanitária, não possui tempo para se dedicar às atividades na drogaria. Identifique as possíveis irregularidades ocorridas no caso acima, apontando os procedimentos inadequados, possíveis er- ros e responsabilidades do farmacêutico, com base na legislação profissional: • Lei nº 5.991/73; • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF n° 357/01; • RDC Anvisa nº 44/09. 43 CASO 8 Área: Farmácia hospitalar Assunto: Não prestação de assistência, atuação como médico e impedimento da fiscalização O fiscal do CRF-SP realizou três inspeções em um hospital durante o horário de assistência farmacêutica declarado no Termo de Compromisso pelo farmacêutico e constatou a sua ausência em: • 18/04/2012 – 15h20; • 11/05/2013 – 14h10; • 11/07/2013 – 09h15. O horário de assistência farmacêutica declarado no Termo de Com- promisso é das 08h às 16h, com intervalo para almoço das 12h às 14h. Nas visitas fiscais, sempre havia outro farmacêutico em seu lugar no hos- pital, mas esse não havia assumido nenhuma responsabilidade perante o CRF-SP. Convocado para audiência no CRF-SP, o farmacêutico informou que também é médico inscrito no Conselho Regional de Medicina e, por isso, dedica maior tempo às suas atividades como cardiologista. Em visita posterior à sua convocação no CRF-SP, o profissional pas- sou a impedir o acesso dos fiscais à farmácia do hospital. Identifique as possíveis irregularidades ocorridas no caso acima, apontando os procedimentos inadequados, possíveis er- ros e responsabilidades do farmacêutico, com base na legislação profissional: • Decreto nº 20.931/32; • Resolução CFF nº 596/14. 44 CASO 9 Área: Farmácia com manipulação Assunto: Não prestação de assistência e supervisão da manipulação por leigo O fiscal do CRF-SP constatou três ausências do farmacêutico res- ponsável técnico pela farmácia com manipulação, em visitas ocorridas em: • 18/01/2013 – 15h40; • 14/05/2013 – 14h30; • 28/10/2013 – 08h15. Seu horário de assistência farmacêutica declarado em Termo de Compromisso na farmácia de sua propriedade é de segunda a sexta, das 08h às 17h, com intervalo para almoço 12h às 13h e, aos sábados, das 08h às 12h. Não havia outro farmacêutico em seu lugar, somente um estudante de Farmácia que “fiscalizava” a manipulação realizada por técnicos. Em todas as visitas fiscais acima ocorria a manipulação de medica- mentos. Convocado para audiência de esclarecimento no CRF-SP, o farma- cêutico informou que, por ser proprietário, possui outras inúmeras preo- cupações e atividades e que deixa um estudante de Farmácia em seu lugar, durante as suas ausências. Identifique as possíveis irregularidades ocorridas no caso acima, apontando os procedimentos inadequados, possíveis er- ros e responsabilidades do farmacêutico, com base na legislação profissional: • Resolução CFF nº 596/14; • RDC Anvisa nº 67/07. 45 CASO 10 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Irregularidades profissionais/sanitárias, ausência do farmacêutico e intermediação de fórmulas Na inspeção de rotina realizada pelo fiscal do CRF-SP no horário comercial, em uma drogaria, com o objetivo de verificar as condições do exercício profissional, produziu-se o seguinte relatório: “A drogaria possui em seu quadro de funcionários um farmacêutico respon- sável, ausente no período da visita, devidamente inscrito no Conselho Regional de Farmácia, com horário de trabalho de segunda a sexta-feira, das 08h às 18h, e sábados, das 08h às 12h, comprovado pela Certidão de Regularidade Técnica, exposta ao público. O fiscal foi recebido pelo proprietário, que apresentou como justificativa à ausência do farmacêutico uma viagem pessoal. Informou também que o funcionário é assíduo e tem contribuído muito com o atendimento dos pacientes e, por esta razão, remunera-o com salário atraente, composto por uma parte fixa, que atende ao piso salarial e outra variável, decorrente do volume de vendas obtidas pelos auxiliares de Farmácia. Durante a ação fiscal, observaram-se vários atendimentos aos pacientes realizados por auxiliares, que vendiam produtos farmacêuticos tarjados, dis- pensando sem a necessidade de apresentação de receitas médicas, oferecendo a opção dos genéricos que, quando aceita, era anotada no verso da respectiva receita. As instalações da farmácia se encontravam em boas condições higiênicas e sanitárias. Nas prateleiras foram encontrados medicamentos de venda sob prescrição médica, de controle especial e termolábeis. Nas gôndolas, dispostas adequadamente para facilitar o autoatendimento, encontravam-se os produtos de higiene pessoal, cosméticos, de toucador, farmacêuticos com e sem tarja ver- melha e fitoterápicos, identificados com o número de protocolo de registro no Ministério da Saúde. Observou-se, no salão de dispensação, placa oferecendo serviços de manipulação. Várias destas fórmulas foram verificadas e algumas apresentavam inelegibilidade ou estavam em código. A sala de aplicação de injeções apresentava-se em boas condições de lim- peza. Verificou-se que o livro de registro de receitas e produtos sob regime de controle estava atualizado e sem rasuras.” Identifique as possíveis irregularidades ocorridas no caso acima, apontando os procedimentos inadequados, possíveis er- 46 ros e responsabilidades do farmacêutico, com base na legislação profissional: • Lei nº 5.991/73; • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF n° 357/01; • RDC Anvisa nº 44/09. 47 CASO 11 Área: Farmácia com manipulação Assunto: Manipulação de fórmulas emagrecedoras Em uma farmácia com manipulação e de propriedade de farmacêuti- co, a fiscalização identificou, na visita realizada em 20 de junho de 2013, que eram manipuladas centenas de fórmulas por dia contendo sempre a mesma composição: bromazepam 1,5 mg, cáscara sagrada 10 mg, fluoxe- tina 10 mg, tiratricol (hormônio tireoidiano) 0,5 mg e furosemida 20 mg. As fórmulas foram prescritas pelo mesmo médico e deveriam ser ingeridas antes das refeições. Além disso, havia fórmulas sem prescrição e que já ficavam prontas na farmácia para agilizar a dispensação. O fiscal do CRF-SP, além de identificar o fato acima, verificou que diversas receitas continham no verso instruções para serem aviadas nesta farmácia, tais como “Kit Emagrecedor 1”, enquanto outras estavam desa- companhadas do receituário especial. A proprietária, que também é responsável técnica, informou que por conta do bom relacionamento entre a farmácia e o médico, ele sempre in- dicava o estabelecimento e, muitas vezes, encaminhavaas notificações de receita diretamente para a farmácia, facilitando a vida dos pacientes que constantemente perdem as notificações de receita. Identifique as possíveis irregularidades ocorridas no caso aci- ma, apontando os procedimentos inadequados, possíveis erros e responsabilidades do farmacêutico, com base na legislação vigente: • Decreto nº 20.931/32; • Resolução CFF nº 596/14; • Portaria SVS/MS nº 344/98; • RDC Anvisa nº 67/07; • RDC Anvisa nº 58/07. 48 CASO 12 Área: Farmácia com manipulação Assunto: Manipulação em dosagem errada Foi protocolada denúncia no CRF-SP referente ao óbito de uma pa- ciente após a ingestão de medicamento de baixo índice terapêutico, mani- pulado em uma farmácia. Após a investigação, foi possível constatar que o óbito decorreu da intoxicação causada pelo medicamento, em razão da dosagem muito aci- ma dos níveis suportados pelos seres humanos. Na receita, o medicamento estava prescrito como clonidina 30 cáp- sulas de 35 μg (1 por dia durante 30 dias). Em razão da letra ininteligível constante na receita médica, o medicamento foi manipulado na dosagem de 35 mg cada cápsula. A manipulação ocorreu fora do horário de trabalho do responsável técnico e foi realizada por uma estagiária. Identifique as possíveis irregularidades ocorridas no caso acima, apontando os procedimentos inadequados, possíveis er- ros e responsabilidades do farmacêutico, com base na legislação profissional: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • RDC Anvisa nº 67/07. 49 CASO 13 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Não prestação de assistência No dia 20 de julho de 2011, o fiscal do CRF-SP fiscalizou a farmácia às 15h45, onde constatou a ausência do farmacêutico. O fiscal revisitou o estabelecimento em 15 de fevereiro de 2012 às 10h30, estando o farma- cêutico ausente novamente. O farmacêutico havia declarado horário de assistência de segunda a sexta, das 08h às 18h, com intervalo das 12h às 14h e sábado, das 08h às 12h. As constatações de ausências foram realizadas no horário declarado pelo farmacêutico, sendo este encaminhado para a orientação do CRF-SP, devido às duas ausências. Durante a orientação, o profissional ficou ciente das suas obrigações, bem como da possibilidade de responder a processo ético caso fosse cons- tada nova ausência. Preocupado com a possibilidade de responder a processo ético, soli- citou baixa do estabelecimento e iniciou suas atividades em uma drogaria com horário de assistência das 06h às 14h, com intervalo das 12h às 13h. A fiscal do CRF-SP esteve na drogaria às 06h45 do dia 26 de novem- bro de 2012 e constatou que o farmacêutico estava ausente. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Lei nº 5.991/73; • Resolução CFF nº 596/14. 50 CASO 14 Área: Indústria Assunto: Medicamento sem registro e irregularidades sanitárias O farmacêutico assumiu, há pouco mais de dois meses, a responsabi- lidade técnica por uma indústria farmacêutica. A fiscal da Vigilância Sanitária procedeu à inspeção no estabeleci- mento para emissão da autorização de funcionamento. Durante a inspe- ção, verificou a presença de sacos de substâncias sem identificação de lote e prazo de validade. Não havia separação das matérias-primas por prazo de validade regu- lar e irregular, destinadas à produção de alimentos e fitoterápicos. No local de encapsulamento, foi constatada a presença de fitoterápi- cos produzidos sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), além de caixas de cosméticos. A empresa não possuía autorização para fabricar ou distribuir fito- terápicos ou cosméticos; contudo, durante a inspeção, foram encontrados kawa kawa, valeriana, entre outros componentes. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Lei nº 6.360/76; • Resolução CFF nº 596/14; • IN Anvisa nº 05/08. 51 CASO 15 Área: Distribuidoras de medicamentos Assunto: Irregularidades sanitárias A distribuidora foi fiscalizada pela Vigilância Sanitária local com o intuito de renovação da autorização de funcionamento. Ela estava sem a Licença e Autorização de Funcionamento da Empresa para realizar trans- porte de medicamentos. Durante a inspeção, foram verificadas várias irregularidades, sendo estas encaminhadas ao CRF-SP. Dentre as irregularidades presenciadas, constavam a desatualização do Livro de Escrituração da Portaria SVS/MS nº 344/98, bem como a não assinatura do responsável técnico nos lançamentos anteriores. Quando comparado o estoque físico com os lançamentos no livro de escrituração, verificou-se inconsistência. Além disso, os medicamentos da Portaria SVS/ MS nº 344/98 eram armazenados em local de fácil acesso e sem controle. As empresas contratadas para realizar o transporte não eram quali- ficadas, bem como a qualificação dos fornecedores estava desatualizada. Não foram apresentados os Procedimentos Operacionais Padrão (POPs) pertinentes às ações desenvolvidas e não havia documento comprobatório de treinamento dos funcionários. O farmacêutico responsável técnico não apresentou os controles de temperatura e umidade, o plano de gerenciamen- to de resíduos e o certificado atualizado de desinsetização e desratização. O armazenamento dos medicamentos e dos produtos relacionados à saú- de eram feitos de forma incorreta, estando os produtos válidos misturados com os próximos a expirar e até mesmo com os vencidos. Alguns produtos para saúde, como por exemplo, agulhas e luvas, foram encontrados com umidade. Não havia uma área destinada ao armazenamento de resíduos e as câmaras de armazenamento de medicamentos termolábeis não apresenta- vam condições adequadas. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 365/01; • Portaria nº 802/08; • Portaria SVS/MS nº 344/98. 52 CASO 16 Área: Farmácia com manipulação Assunto: Prescrição em código e farmacêutico sem vínculo perante o CRF-SP A vigilância realizou inspeção na farmácia e verificou que estava ocorrendo manipulação de medicamentos prescritos em códigos. A far- mácia atende prescrições de produtos contendo as substâncias: Aromas, Noxim, Relys, Ls anti ovy, Yinth, Orce e Imun. O farmacêutico presente na farmácia no momento da visita não consta como farmacêutico responsável técnico ou substituto do estabele- cimento perante o CRF-SP. Ele informou que: • Sua não assunção como responsável ou substituto pelo estabe- lecimento foi uma decisão do proprietário; • É responsável pela avaliação das prescrições; • A substituição do código pelo nome correto da substância era realizada no momento da conferência da prescrição. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • RDC Anvisa nº 67/07. 53 CASO 17 Área: Farmácia com manipulação Assunto: Infrações sanitárias O fiscal do CRF-SP, em inspeção para renovação da autorização de funcionamento do estabelecimento, verificou que a farmácia realizava a manipulação de medicamentos em código prescritos por único médico, bem como a manipulação de fitoterápicos suspensos pela Agência Nacio- nal de Vigilância Sanitária (Anvisa). Além disso, não havia rastreabilidade das fórmulas manipuladas e ocorria fracionamento de chás e grãos em saquinhos destinados à venda. Foram encontrados medicamentos manipuladosprontos sem a pre- sença de prescrição e alguns não possuíam no rótulo o nome do médico prescritor. Os laboratórios de manipulação encontravam-se empoeirados, desorganizados e o aparelho deionizador de água, quebrado. Não havia uma área de paramentação específica e reutilizavam-se as embalagens de matérias-primas após a lavagem. O estabelecimento não possuía livro de receituário, não realizava controle de qualidade interno de matéria-prima e não havia o controle de temperatura de umidade do laboratório e do refrigerador de armazena- mento de matérias-primas de produtos termolábeis. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • RDC Anvisa nº 67/07. 54 CASO 18 Área: Farmácia com manipulação Assunto: Irregularidades sanitárias O fiscal do CRF-SP, em conjunto com o fiscal da Vigilância Sanitária, inspecionou no dia 12 de fevereiro de 2013 a farmácia; no ato da inspeção, encontrou o farmacêutico responsável técnico pelo estabelecimento (sua assistência é declarada como diária, em tempo integral). Durante a fiscalização, encontraram várias irregularidades, como: matérias-primas vencidas: cefalosporina (validade 20/11/2011); tetraci- clina (validade 5/01/2013); ampicilina (validade 15/06/2012); omeprazol (validade 30/07/2012); Passiflora sp. (validade 17/09/2012), estradiol (va- lidade 18/11/2012), dentre outras. O estabelecimento não possuía câmaras para formulações de anti- microbianos, hormônios e citostáticos, bem como não havia área de para- mentação e separação entre a área limpa e suja. Durante a fiscalização, não foram apresentados os Procedimentos Operacionais Padrão (POPs) necessários para as atividades, tampouco as fichas de controle de temperatura e umidade do ambiente e do refrigerador. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • RDC Anvisa nº 44/09; • RDC Anvisa nº 67/07. 55 CASO 19 Área: Farmácia com manipulação Assunto: Irregularidades sanitárias e intermediação de fórmulas A Vigilância Sanitária Municipal encaminhou ofício ao CRF-SP ex- pondo algumas irregularidades encontradas na farmácia, após inspeção no dia 10 de janeiro de 2010. De acordo com o ofício, a farmácia possuía várias matérias-primas sem a identificação de validade e lote, bem como a presença de matérias- -primas vencidas juntamente com as destinadas a uso. A farmácia não manipulava formulações líquidas e semi-líquidas, sendo estas preparadas por outro estabelecimento da cidade. As condições de higiene não eram adequadas para a manipulação; por exemplo: alimen- tos armazenados na geladeira de medicamentos e presença de insetos na área limpa da farmácia. Não estavam disponíveis todos os Procedimentos Operacionais Pa- drão (POPs), bem como não constava o controle de temperatura do refri- gerador que armazenava os medicamentos termolábeis. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Lei nº 11.951/09, que altera a Lei nº 5.991/73; • Resolução CFF nº 596/14; • RDC Anvisa nº 44/09; • RDC Anvisa nº 67/07. 56 CASO 20 Área: Farmácia homeopática Assunto: Irregularidades sanitárias e profissionais A farmácia manipula somente medicamentos homeopáticos. O fiscal realizou inspeção fiscal no dia 1º de agosto de 2013 e verificou que houve alteração do farmacêutico responsável, sendo que este não possuía espe- cialização na área de homeopatia e não havia cursado a disciplina e nem o estágio pertinente a esta área. As tinturas-mães e as matrizes encontravam-se armazenadas em uma prateleira exposta à luz solar e nos rótulos não constavam o lote e o prazo de validade. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 576/13; • Resolução CFF nº 596/14; • RDC Anvisa nº 67/07. 57 CASO 21 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Irregularidades na publicidade e desacato à fiscalização Durante visita do fiscal do CRF-SP a uma drogaria, verificou-se a ausência do farmacêutico no estabelecimento e constatou a presença de chicletes e chocolates expostos no caixa. Verificou-se também a presença de algumas caixas com medicamentos armazenados diretamente no chão. No balcão da drogaria, expostos ao cliente, havia kits com três me- dicamentos em uma cesta com a placa “Pague 1 medicamento e leve 3”. O farmacêutico chegou durante a inspeção do fiscal do CRF-SP e foi solicitado a apresentar a documentação do estabelecimento, bem como foi informado da continuidade das irregularidades, as quais já haviam sido identificadas em duas visitas anteriores. Devido à continuidade das irregularidades, o fiscal solicitou ao far- macêutico a devolução da certidão de regularidade. O farmacêutico, não concordando com o pedido, desacatou o fiscal e não procedeu à entrega. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • RDC Anvisa nº 44/09; • RDC Anvisa nº 96/08; • IN Anvisa nº 09/09; • Deliberação CRF-SP nº 48/06. 58 CASO 22 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Divulgação irregular do Programa Farmácia Popular do Brasil A drogaria publicou no jornal do município a sua parceria com o Programa Farmácia Popular do Brasil, do Ministério da Saúde. O anúncio esclarecia que o estabelecimento estava credenciado ao Programa Aqui tem Farmácia Popular, e que os pacientes poderiam adquirir medicamen- tos para hipertensão e diabetes no estabelecimento de forma gratuita. Em inspeção fiscal pela Vigilância Sanitária local, foi verificado que a drogaria não possuía cadastro no Programa Aqui tem Farmácia Popular, sendo a informação certificada após conferência com a lista de estabeleci- mentos credenciados ao Programa no Ministério da Saúde. Após consulta ao Ministério da Saúde, por meio de ofício, a Visa foi informada que a drogaria somente tinha o pedido de credenciamento; contudo, ainda não havia uma resposta sobre a solicitação. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Portaria nº 971/12. 59 CASO 23 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Intermediações de fórmulas Em ação conjunta do CRF-SP com a Vigilância Sanitária Municipal em uma drogaria, foi constatada a presença de vários medicamentos mani- pulados de uma mesma farmácia. O fiscal do CRF-SP esteve presente na farmácia para verificar o mo- tivo pelo qual os medicamentos manipulados estavam presentes na droga- ria. O farmacêutico responsável técnico alegou à fiscal que era um procedi- mento comum a preparação dos medicamentos para atender a prescrições que eram retidas na drogaria. De acordo com o profissional, o proprietário da drogaria retinha as receitas dos pacientes e encaminhava todas por meio de motorista no final do dia. Dessa forma, havia a manipulação no primeiro horário da manhã para que a entrega na drogaria fosse realizada até as 12h do outro dia. O profissional esclareceu que a manipulação destes medicamentos significa- va aproximadamente 70% do lucro do estabelecimento. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com basena legislação vigente: • Lei nº 5.991/73; • Lei nº 11.951/09; • Resolução CFF nº 596/14; • RDC Anvisa nº 44/09; • RDC Anvisa nº 67/07. 60 CASO 24 Área: Vigilância sanitária Assunto: Acúmulo irregular de funções A farmacêutica é funcionária concursada da Prefeitura Municipal e exerce função de farmacêutica na farmácia básica da Unidade de Saúde e na Vigilância Sanitária, exerce função no treinamento da equipe, bem como o controle do destino dos medicamentos com prazo de validade expirada. O seu contrato com a Prefeitura é de 20 horas semanais, e ela exerce assistência das 07h às 11h, de segunda a sexta. A profissional também é sócia-proprietária e responsável técnica por uma drogaria do seu município, com horário de assistência das 12h às 20h. O horário de funcionamento da drogaria é das 07h às 21h. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Lei nº 5.991/73; • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01. 61 CASO 25 Área: Educação Assunto: Falsidade ideológica O CRF-SP recebeu denúncia de uma coordenadora de curso de Far- mácia referente a um farmacêutico inscrito no CRF-SP. Os documentos encaminhados declaravam que vários alunos solici- tavam realizar estágio supervisionado obrigatório em um estabelecimento que era de propriedade de farmacêutico. O farmacêutico, além de ser proprietário, era o responsável técnico, com assunção no CRF-SP datada de 20 de junho de 1996, e horário de assistência estabelecido de segunda a sábado, das 08h às 18h, com inter- valo das 12h às 14h. A coordenadora encaminhou o termo de compromisso de estágio, o convênio entre a Instituição de Ensino Superior e a drogaria, a ficha de atividade diária e a ficha de avaliação dos discentes. Todos os documentos estavam assinados pelo farmacêutico. De acordo com a coordenadora, o supervisor de estágio realizou dez visitas no local e várias ligações durante o período e horário de estágio in- formado pelos discentes; contudo, em nenhuma das tentativas encontrou os estudantes presentes no estabelecimento. Os discentes entregaram ao supervisor toda a documentação do es- tágio, comprovando que realizaram a atividade nos dias determinados. O supervisor, como não havia constatado pessoalmente a presença dos dis- centes no local do estágio, realizou uma reunião com todos os discentes, informando do ocorrido e solicitando explicações. Alguns estudantes, durante a reunião, declararam não ter realmente realizado o estágio, e que somente foram duas vezes ao estabelecimento: a primeira, para a entrega dos documentos; e a segunda, para buscá-los. Também informaram que o farmacêutico tinha esta atitude porque eles eram clientes do estabelecimento. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Lei nº 11.788/08; • Resolução CFF nº 596/14. 62 CASO 26 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Denúncia do Programa Farmácia Popular do Brasil A Polícia Federal e a Vigilância Sanitária realizaram uma ação conjunta no município, após várias denúncias encaminhadas por con- sumidores. De acordo com as denúncias, os medicamentos que constavam no Programa da Farmácia Popular do Brasil eram vendidos pela droga- ria e, em alguns casos, quando o paciente ia retirar os medicamentos em outro estabelecimento, já constava sua retirada, não sendo possível obtê-lo naquele mês. A Polícia Federal, após inspeção na drogaria e com base no Re- latório de Transações e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, constatou que vários pacientes estavam cadastrados para a obtenção do medicamento; contudo, estes nunca haviam adquirido os medicamen- tos naquela drogaria. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Portaria MS nº 749/09; • Portaria MS nº 2.587/04. 63 CASO 27 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Fraude no Programa Farmácia Popular do Brasil Em jornal de abrangência nacional foi divulgado que o farmacêutico proprietário e responsável técnico pela drogaria realizou atos fraudulentos referentes ao Programa Farmácia Popular do Brasil. De acordo com a notícia, o farmacêutico recebia de outro farmacêu- tico números falsos de CPF e inscrições no Conselho Regional de Medici- na para proceder vendas falsas de medicamentos pelo Programa Farmácia Popular do Brasil. Os medicamentos adquiridos de forma ilegal eram vendidos e o lucro obtido era compartilhado entre ambos. Ainda de acordo com a notícia, no talão de cheques do farmacêutico proprietário da drogaria havia diversas marcações com o nome do outro farmacêutico e a sigla FP, de Farmácia Popular. O farmacêutico foi condenado a devolver R$ 170 mil ao Programa Farmácia Popular do Brasil. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Portaria MS nº 749/09; • Portaria MS nº 2.587/04; • RDC Anvisa nº 44/09. 64 CASO 28 Área: Farmácia com manipulação Assunto: Fornecimento de substância para o tráfico de drogas A Polícia Militar, durante processo de investigação de tráfico de dro- gas, constatou a coparticipação de uma farmacêutica. De acordo com o processo instaurado pelo Ministério Público, a profissional fornecia diver- sas substâncias para misturar na cocaína, como, por exemplo, anestésicos locais e estimulantes do Sistema Nervoso Central, para aumentar o volu- me da droga e, assim, aumentar a rentabilidade da quadrilha. O processo descreve que a função da farmacêutica era adquirir em sua farmácia essas substâncias e que, após encaminhá-las à quadrilha, não tinha contato direto com a droga, tampouco com a sua venda. Para adquirir uma quantidade maior dos anestésicos locais, já que estes possuem um limite de compra de matéria-prima por mês, a farma- cêutica possuía cinco farmácias de manipulação distribuídas em muni- cípios da região. A polícia procedeu à prisão da farmacêutica, a qual respondeu pro- cesso e cumpriu dez anos de prisão. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14. 65 CASO 29 Área: Diversas áreas de atuação Assunto: Atestado falso e não prestação de assistência Em 19/07/2012, foi realizada inspeção fiscal no local às 16h12 e o farmacêutico responsável estava ausente, o que levou a fiscalização a lavrar um termo de Intimação. Em 26/07/2012 foi protocolado recurso instruído com atestado odontológico, que não pôde ser deferido por falta de amparo legal. Em 26/09/2012, houve nova inspeção fiscal às 10h05 e o farmacêuti- co novamente encontrava-se ausente, não tendo impetrado recurso. Em outra inspeção fiscal, em 15/01/2013, às 11h50, novamente foi constatada a ausência do profissional. Em 21/01/2013, foi protocolado recurso instruído com atestado médico, sendo o mesmo indeferido. Em razão das três ausências constatadas em período inferior a 24 meses, ficou caracterizada a não prestação de assistência. Em relação ao recurso interposto em razão da visita em 15/01/2013, o CRF-SP enviou ofício ao hospital que emitiu o atestado anexado ao re- curso protocolado em 21/01/2013, questionando a sua veracidade. Em 20/03/2013, o hospital declarou que “...o profissional não pertence ao corpo clínico das unidades mantidas pelo hospital. Não há, outrossim, atendimento de citada pessoa em referidos hospitais,na data do indigi- tado documento.” Após a resposta do hospital, o farmacêutico foi encaminhado para prestar esclarecimentos ao CRF-SP. Ao comparecer no Conselho, o far- macêutico declarou que “...comprou o atestado na porta do hospital em questão.” Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • RDC Anvisa nº 44/09; • Deliberação CRF-SP nº 112/02. 66 CASO 30 Área: Diversas áreas de atuação Assunto: Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) e irregularidades sanitárias O fiscal do CRF-SP, em conjunto com o fiscal da Vigilância Sanitá- ria, realizou inspeção fiscal em 17/10/2013. Nesta ação, constataram que os medicamentos da Portaria MS/SVS nº 344/98 não eram armazenados em local de acesso restrito e havia a presença de medicamento destina- do ao uso hospitalar, armazenado em conjunto com os medicamentos injetáveis. A sala de aplicação de injetáveis apresentava boa condição de higiene e estava afixado na parede o nome das pessoas autorizadas a prestar este serviço. Contudo, alguns medicamentos injetáveis vencidos não estavam segregados e/ou identificados, sendo armazenados no mesmo armário que os medicamentos destinados à dispensação. O estabelecimento emitia semanalmente o relatório para o Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC), mas fo- ram encontradas divergências entre o estoque físico e o constado no siste- ma do estabelecimento: diazepam 5 mg – 06 caixas; fluoxetina 20 mg – 4 caixas; clonazepan 2,5 mg – 03 frascos; cloridrato de paroxetina 20 mg – 07 caixas. O farmacêutico realizava diariamente o controle da temperatura do refrigerador onde eram armazenados os medicamentos termolábeis e tam- bém alimentos e refrigerantes. O estabelecimento prestava aos clientes serviços farmacêuticos como: aferição de pressão arterial e glicemia capilar, aplicação de inje- táveis e perfuração de lóbulo auricular. Não era entregue declaração de serviços farmacêuticos. Nas prateleiras de medicamentos foram encontradas várias caixas de medicamentos abertas, o que indicava fracionamento irregular de medica- mentos. Também foi constatada na área de venda a presença de produtos alheios ao ramo: sorvetes, refrigerantes, balas e gomas de mascar. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 499/08; 67 • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • Portaria MS/SVS nº 344/98; • RDC Anvisa nº 44/09; • RDC Anvisa nº 27/07; • RDC Anvisa nº 80/06. 68 CASO 31 Área: Diversas áreas de atuação Assunto: Irregularidades sanitárias, falta de boas práticas, não atendimento à Portaria SVS/MS nº 344/98 O fiscal do CRF-SP, em conjunto com o fiscal da Vigilância Sanitá- ria, realizou inspeção fiscal em 11/09/2013. Conforme Termo de Visita do CRF-SP, Auto de Infração e Auto de Imposição de Penalidade da Vi- gilância Sanitária local, não havia controle de entrada e saída dos medi- camentos sujeitos a controle especial da Portaria MS/SVS nº 344/98 e o estabelecimento não possuía nota fiscal de venda. Não foram encontrados produtos alheios na área de comercialização, os medicamentos vencidos encontravam-se separados e identificados. Os medicamentos controlados eram armazenados em armário localizado no mezanino do estabelecimento, o qual não possuía condições de limpeza adequadas (piso sujo com fagulhas de queimadas) e a temperatura no local atingia 35º C. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Lei nº 6.437/77; • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • Portaria nº 802/98; • Portaria MS/SVS nº 344/98; • RDC Anvisa nº 44/09; • RDC Anvisa nº 27/07; • RDC Anvisa nº 320/02. 69 CASO 32 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Irregularidade Sanitária envolvendo a Portaria SVS/MS nº 344/98 e constatação de receituário em branco e talonário assinado e carimbado pelo prescritor sem indicação da prescrição no receituário Em 06/05/2013, o CRF-SP tomou ciência de denúncia realizada por jornal impresso local; o estabelecimento havia sido inspecionado pela Vi- gilância Sanitária local em 03/05/13 e que tinham sido apreendidos 82 receituários médicos de medicamentos controlados em branco apenas com o carimbo e assinatura de diversos médicos. Após a constatação da denúncia, o fiscal do CRF-SP realizou ins- peção fiscal no estabelecimento em 10/05/13, em que estava presente o farmacêutico responsável técnico, que foi questionado sobre a veracidade dos fatos descritos na matéria do jornal local. O farmacêutico declarou que as receitas dos medicamentos controla- dos eram trazidas pelos próprios médicos prescritores, assinadas e carim- badas por eles. A justificativa dada seria que o atendimento era realizado em locais diferentes e que preferiam não carregar as receitas, preferindo centralizá-las na farmácia. Solicitados à Vigilância Sanitária os documentos da inspeção denun- ciada no jornal, constatou-se que o estabelecimento possuía em seu poder talonários de Notificação de Receita B e B2, todos em branco (sem nome de paciente ou prescrição), mas com o carimbo e a assinatura de diversos médicos. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Portaria SVS/MS nº 344/98. 70 CASO 33 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Irregularidade sanitária, dispensação de antimicrobianos em desacordo com a RDC Anvisa nº 20/11 O fiscal do CRF-SP inspecionou a drogaria em 15/08/2013 e cons- tatou na área de vendas a presença de sorvete, salgadinhos, óculos de sol, leite e doces. O local apresentava boas condições de higiene e controle de temperatura. A drogaria realizava serviços farmacêuticos como perfuração do ló- bulo auricular para colocação de brincos e aferição de pressão arterial, mas não foi apresentada a autorização da Vigilância Sanitária para a realização dos serviços. Durante o período em que a fiscal esteve no estabelecimento, pre- senciou uma senhora relatando uma forte dor de garganta ao balconista, o qual sugeriu que ela tomasse amoxicilina por sete dias. A senhora comprou o medicamento sem a necessidade de apresentação da prescrição. A fiscal questionou a farmacêutica sobre o ocorrido e ela disse que apenas realizava a dispensação de antimicrobianos mediante apresentação e retenção de receituário. A fiscal solicitou à farmacêutica que buscasse as prescrições arquiva- das de antimicrobianos já dispensados. A farmacêutica apresentou quan- tidade irrisória de receituários retidos. Após ser questionada novamente sobre o fato, a farmacêutica confirmou que nem sempre os receituários eram retidos. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 542/11; • Resolução CFF nº499/08; • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • RDC Anvisa nº 20/11; • RDC Anvisa nº 44/09; • IN Anvisa nº 09/09. 71 CASO 34 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Irregularidade sanitária e profissional e serviços farmacêuticos sem autorização da Vigilância Sanitária O CRF-SP recebeu a denúncia de um pai que alegou que seu filho de 12 anos foi até uma drogaria e solicitou a colocação de brinco, sendo imediatamente atendido por um balconista que não questionou sua idadee não solicitou seus documentos. O pai alega na denúncia que não havia autorizado o procedimento. O farmacêutico, quando questionado, informou que era seu dia de folga e não soube esclarecer se no Procedimento Operacional Padrão (POP) de perfuração de lóbulo constava a necessidade de apresentação de documentos e a proibição da realização dos serviços por profissional não habilitado. O estabelecimento não possuía a autorização para a realização dos serviços farmacêuticos, bem como não emitia declaração de serviço. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • RDC Anvisa nº 44/09. 72 CASO 35 Área: Análises Clínicas Assunto: Teste de glicemia No dia 24 de agosto de 2013 às 7h30, a Sra. L. M. O. foi ao laborató- rio de análises clínicas para realização do exame “curva glicêmica”. A paciente relatou que, ao chegar no laboratório, solicitou priorida- de, pois estava em jejum desde as 21h do dia anterior e, como é diabética, sente-se muito mal quando fica muito tempo em jejum. Mediante a soli- citação, a atendente do laboratório a encaminhou imediatamente para o início do exame. Após a primeira carga de glicose, a paciente começou a se sentir mal, porém foi dado prosseguimento ao exame. Quando a paciente voltou para casa, passou muito mal e precisou ser levada ao hospital. Ao relatar que seu mal-estar ocorreu após o exame que realizou, disseram-lhe que o pro- cedimento foi inadequado, tendo em vista ser diabética diagnosticada, e que não havia justificativa para realização de tal exame. Mediante essa informação a paciente protocolou uma denúncia ao CRF-SP contra o la- boratório, que tem como responsável técnica uma farmacêutica. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Portaria CVS nº 13/05; • RDC Anvisa nº 302/05. 73 CASO 36 Área: Farmácia hospitalar Assunto: Irregularidades sanitárias envolvendo quimioterápicos Em inspeção fiscal realizada na farmácia do hospital no dia 25 de outubro de 2013, em conjunto com a Vigilância Sanitária, constatou-se o armazenamento na gaveta da farmacêutica de medicamentos da Portaria MS/SVS nº 344/98 vencidos, alguns cujo ano de validade era 2010. Na conferência do estoque físico com o estoque descrito no sistema dos medicamentos controlados, foram encontrados armazenados nas pra- teleiras vários medicamentos com a data de validade expirada. Também foram encontrados armazenados em um armário medica- mentos citostáticos e quatro caixas de soro escritos na tampa da caixa “Quimioterápicos”. Como o hospital não possuía licença para manipula- ção de quimioterápicos, solicitou que a farmacêutica esclarecesse a presen- ça destes medicamentos. A farmacêutica relatou que a manipulação e aplicação dos quimio- terápicos aos pacientes do hospital eram realizadas em uma clínica da cidade, mas que, para diminuir os custos com o serviço prestado por esse terceiro, o hospital adquiria os medicamentos e soros e os encaminhava à clínica. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Lei nº 6.437/77; • Resolução CFF nº 492/08; • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 300/97; • Portaria SVS/MS nº 344/98. 74 CASO 37 Área: Diversas áreas de atuação Assunto: Piso salarial O farmacêutico A. L. S. atuou como responsável técnico em uma drogaria por aproximadamente um ano, com horário declarado de segunda a sábado, das 8h30 às 18h30, com intervalo das 12h30 às 14h30 e, aos sábados, das 8h30 às 12h30. Chegaram ao conhecimento do CRF-SP comentários postados pelo profissional acima citado, na rede social Facebook, a respeito do salário re- cebido por ele quando atuante na drogaria. Segundo relato do mesmo: “… Isto é um apelo de um recém-formado (2010) que não é valorizado em sua cidade, que é registrado com o piso e recebe metade dele...”. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14. 75 CASO 38 Área: Diversas áreas de atuação Assunto: Desacato à fiscal do CRF-SP e desrespeito ao CRF-SP O farmacêutico esteve presente em uma das seccionais do CRF-SP para renovação da Certidão de Regularidade. Contudo, verificou-se du- rante o atendimento a impossibilidade de renovar a certidão, por conta de irregularidades registradas no prontuário, constatadas em duas visitas de rotina do fiscal do CRF-SP. Diante do constatado, o farmacêutico começou a se referir à fiscal e ao CRF-SP com palavrões e insultos. O funcionário que o estava atendendo, juntamente com testemu- nha, lavrou um Boletim de Ocorrência contra o farmacêutico, relatando o ocorrido. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14. 76 CASO 39 Área: Diversas áreas de atuação Assunto: Desrespeito ao CRF-SP em redes sociais A drogaria foi fiscalizada pelo CRF-SP para efetuar o registro do es- tabelecimento. Durante a inspeção fiscal, constatou-se uma irregularidade referente ao horário de assistência farmacêutica declarado pelo profissional. No termo preenchido pelo profissional, constava sua presença até as 22h; contudo, no período noturno, cursava outra graduação, o que invia- bilizava a execução das duas tarefas. O fiscal do CRF-SP orientou o profissional sobre a importância da vera- cidade do horário declarado. No entanto, o farmacêutico alegou ter declarado informações inverídicas seguindo orientação do atendente do CRF-SP. Ainda, o farmacêutico questionou a necessidade que o CRF-SP tem de realizar fisca- lizações durante os sábados à tarde ou domingos e informou que não estaria presente e que não alteraria seu horário de assistência farmacêutica. O farmacêutico expressou a sua opinião referente à fiscalização do CRF-SP em sua página da rede social. Questionava a eficiência da fis- calização deste órgão, argumentando que durante o final de semana, ele mesmo ligava nos estabelecimentos e não encontrava o farmacêutico. De- clarou ainda que somente era cobrada a sua presença aos finais de semana, sendo isso uma perseguição pessoal do fiscal do CRF-SP. Após seis meses, o CRF-SP recebeu uma denúncia de outro farma- cêutico que declarava ter recebido visita em seu estabelecimento do far- macêutico citado acima, o qual declarava ser fiscal do CRF-SP e havia comparecido para efetuar inspeção fiscal. O suposto fiscal exigiu os docu- mentos de identidade profissional do farmacêutico e questionou sobre a procedência dos medicamentos de forma agressiva. O farmacêutico conferiu no portal do CRF-SP que este farmacêutico não pertencia ao quadro de fiscais do CRF-SP. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Lei nº 5.991/73; • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • RDC Anvisa nº 44/09. 77 CASO 40 Área: Farmácia hospitalar Assunto: Roubo de medicamentos Em 02/02/2012, a imprensa veiculou reportagens nas quais relata- vam o desvio de medicamentos de dentro do hospital. O desvio era realizado por uma quadrilha que furtava medicamen- tos de alto custo da rede estadual de saúde com a ajuda de funcionários públicos, e os revendia para farmácias e distribuidoras. O desvio erafeito da seguinte forma: os medicamentos eram prescritos para tratamento de pacientes graves e a saída deles da farmácia era registrada. O paciente re- cebia alta ou falecia e o medicamento que ele utilizaria não voltava para o estoque do hospital, sendo desviado e vendido novamente. De acordo com as reportagens, a quadrilha lesou os cofres públicos em R$ 10 milhões. A farmacêutica responsável técnica pela farmácia hospitalar foi acu- sada pela polícia, que apresentou como prova imagens gravadas pelo cir- cuito interno do hospital, mostrando-a recolhendo os medicamentos da farmácia e levando-os embora. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14. 78 CASO 41 Área: Sistema Único de Saúde Assunto: Dispensação errônea Em 28/03/2012, a imprensa veiculou reportagem a respeito da su- perdosagem de anabolizantes administrada a um paciente de 2 anos. A Unidade de Saúde onde se dispensou/administrou o medicamento foi ins- pecionada pelo CRF-SP e a farmacêutica responsável técnica esclareceu o ocorrido, permitindo cópia do laudo da sindicância instaurada pela admi- nistração da Prefeitura. A farmacêutica responsável técnica informou que a mãe do menor procurou a farmácia da Unidade de Saúde do município para a dispensa- ção de um medicamento prescrito pelo médico endocrinologista infantil do hospital. A prescrição foi realizada pelo nome genérico, testosterona 250 mg, duas ampolas, com a indicação de se aplicar um quarto (¼) da ampo- la. Após consulta da farmacêutica responsável técnica à farmacêutica da Direção Regional de Saúde, ambas concluíram que seria o medicamento Nebido® (undecanoato de testosterona) 250 mg/mL, comercializado em ampolas de 4 mL. Durante a sindicância, o prescritor foi ouvido e informou que a pres- crição seria para aplicação do medicamento Durateston® (proprionato de testosterona, fenilproprionato de testosterona, isocaproato de testostero- na e caproato de testosterona – associado em 30-60-60-100 mg/mL no total de 250 mg/mL); porém, comercializado em ampolas contém 1mL. O prescritor, no momento da prescrição, considerou que haveria para comer- cialização somente o medicamento Durateston®. A aplicação do medicamento, pela enfermagem, ocorreu durante dois meses, quando a mãe observou alguns sinais e sintomas na criança, como o crescimento de pelos. A partir desta constatação, iniciou-se o processo de sindicância. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • RDC Anvisa nº 44/09. 79 CASO 42 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Dispensação errônea Em 23/11/2011, o CRF-SP recebeu Ofício da Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher de uma cidade do interior de São Paulo, com Boletim de Ocorrência que remete ao seguinte acontecimento: uma menor, com 10 anos de idade, deu entrada no hospital e foi atendida pelo médico, que prescreveu Profenid 2%® gotas e Penicilina Benzatina 1.200.000 UI, 1 frasco. Com a prescrição médica em mãos, o pai da criança foi até a droga- ria; o atendente, ao verificar a prescrição, informou que os medicamentos prescritos eram muito fortes e que ele achava melhor dividir em três doses. Diante dos fatos, o atendente indicou os seguintes medicamentos: Delta- flan 100 mg® e ceftriaxona sódica 1 g IM, sendo a ceftriaxona administra- da à criança no ato. No dia seguinte pela manhã, a menor retornou ao hospital com qua- dro clínico de reação alérgica grave, angioedema agudo, urticária aguda e comprometimento do aparelho respiratório, necessitando ficar internada. Conforme declaração da médica que atendeu a criança em seu retor- no ao hospital, a reação alérgica grave deveu-se à administração de medi- camento em desacordo com a receita médica. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • RDC Anvisa nº 44/09. 80 CASO 43 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Dispensação errônea Em 27/08/2013, foi efetuada dispensação incorreta, com troca do medicamento Gardenal® (princípio ativo fenobarbital) pelo Hidantal® (princípio ativo fenitoína) para um paciente de 75 anos em tratamento com Gardenal® há 40 anos por epilepsia. Após reclamação formalizada, a drogaria efetuou a troca do medicamento dispensado Hidantal® pelo cor- reto – 4 caixas de Gardenal®. O CRF-SP recebeu denúncia relatando que “...o paciente dirigiu-se à referida loja para comprar o medicamento Gardenal® (100 mg) do qual faz uso há, aproximadamente, 40 anos; porém, não dispondo deste medicamen- to em sua loja, o farmacêutico ofereceu o medicamento Hidantal®, alegando ser o “mesmo remédio” (sic). “A gravidade deste assunto se dá quando, após dois dias tomando o medicamento errado, meu pai, que estava livre das convulsões causadas pela epilepsia há 17 anos, teve uma crise muito forte, sendo que convulsionou por aproximadamente 10 minutos...”. A filha do paciente encaminhou ao CRF-SP a 2ª via original da prescrição médica e relatório médico que confirmam que a prescrição tratava-se de Gardenal®. Em 19/10/2013, foi realizada inspeção fiscal e o farmacêutico folguista estava presente, o qual prestou esclarecimentos sobre o fato ocorrido: “...no dia 27/08/2013, foi realizada neste estabelecimento a dispensação do medi- camento Hidantal® (4 caixas) pelo gerente da loja, no lugar do medicamento fenobarbital (Gardenal®), medicamento este pautado em prescrição médi- ca...”. Informou ainda que a farmacêutica presente no ato da venda foi outra, que não teve conhecimento da venda. O profissional forneceu cópia da via original da prescrição médica e também cópia do e-mail encaminhado para o “núcleo de assistência farmacêutica”, onde consta que a receita com a dis- pensação incorreta foi lançada no sistema informatizado por um farmacêuti- co, e que a movimentação de estoque do Hidantal® foi enviada ao SNGPC. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • RDC Anvisa nº 44/09; • Deliberação CRF-SP nº 247/04. 81 CASO 44 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Dispensação errônea Em 07/10/2013, esteve presente na seccional do CRF-SP uma senho- ra que protocolou um documento relatando que, em consulta médica, foi constatado em seu pai um início de processo infeccioso pulmonar, sendo prescrito levofloxacino 400 mg, antibiótico destinado para o tratamento de infecções pulmonares. A consulta ocorreu em 05/09/2013 e a filha foi no mesmo dia a uma farmácia para adquirir o levofloxacino. Foi atendida pela farmacêutica res- ponsável, tendo sido dispensado norfloxacino 400 mg, destinado ao trata- mento de infecções urinárias. O paciente ingeriu o norfloxacino durante cinco dias consecutivos, quando, face à crescente e surpreendente piora do seu estado clínico, seus familiares entraram em contato com seu médico particular na noite de 11/09/2013, que decidiu proceder com a internação do paciente, na qual foi identificada a troca de medicamentos. O paciente foi internado de imediato para tratamento correto, mas houve a piora do quadro clínico e ele permaneceu internado na Unidade de Terapia Intensiva até 25/09/2013, quando veio a falecer. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • ResoluçãoCFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • RDC Anvisa nº 20/11; • RDC Anvisa nº 44/09. 82 CASO 45 Área: Farmácia com manipulação Assunto: Manipulação sem prescrição médica Em 13/05/2013, o fiscal do CRF-SP esteve em um estabelecimen- to para averiguar denúncia recebida via telefone, de forma anônima, em 10/04/2013, sobre o comércio irregular de medicamento manipulado para tratamento de ácido úrico. No local há um pet shop. O fiscal adquiriu um frasco plástico rotulado com os dizeres “Com- plexo Ácido Úrico, XXX, Celular: XXX Validade: 10/08/2013”, o qual não possuía identificação dos componentes presentes na formulação, identifi- cação do local onde foi manipulado, nome do paciente e nome do pres- critor. Ao indagar sobre o produto, foi informado que uma auxiliar de enfermagem, que trabalha na Prefeitura do Município, havia pedido para comercializar o produto utilizando sua loja como endereço de venda; que não tem contraindicação, que não faz mal nenhum, não tem nenhuma “química”, pois é um produto manipulado em uma farmácia do município e que, desta forma, não representa risco nenhum à saúde. Em 15/08/2013, o referido estabelecimento foi inspecionado, em conjunto, pela Vigilância Sanitária e Policia Militar. Foi verificada a co- mercialização de produtos de limpeza, alimentos, materiais de construção, produtos agropecuários, armarinhos, utilidades domésticas, medicamen- tos veterinários, entre outros. O estabelecimento foi autuado por estar em funcionamento sem registro e sem responsável técnico farmacêutico. A Vigilância Sanitária lavrou os termos de Apreensão dos produtos (10 frascos com 15 cápsulas do complexo ácido úrico; 05 envelopes de Sonridor®; 05 frascos de paracetamol gotas; 04 frascos de dipirona); Auto de Infração por fazer funcionar estabelecimento comercial de produtos de interesse à saúde (medicamentos de venda livre e fórmulas manipuladas) sem licença dos órgãos sanitários e Auto de Imposição de Penalidade por fazer funcionar estabelecimento comercial de produtos de interesse à saú- de (medicamentos de venda livre e fórmulas manipuladas) sem licença dos órgãos sanitários competentes; venda de produtos de interesse à saú- de (medicamentos) sem os padrões de identidade, qualidade, segurança; expor a venda e entregar ao consumo o uso de medicamentos que não contenham data de fabricação. Durante a fiscalização, o proprietário do estabelecimento informou que comercializa a fórmula “Complexo Ácido Úrico” a pedido de uma auxiliar de enfermagem. A auxiliar compareceu 83 ao estabelecimento, apresentou sua carteira do Conselho Regional de En- fermagem de São Paulo, e informou que adquire as fórmulas de uma de- terminada farmácia. Informou ainda que a fórmula era obtida em frasco com 120 cápsulas; que realizava o fracionamento das cápsulas em sua casa, com 15 cápsulas para cada pote, e trocava o rótulo; que revendia em média 20 frascos por mês. Após as declarações da auxiliar de enfermagem, a declarante, os fis- cais do CRF-SP e da Vigilância Sanitária se dirigiram à farmácia citada. A equipe de fiscalização foi recebida pela farmacêutica responsável. Foram solicitadas a ela as ordens de produção das fórmulas da paciente (auxi- liar de enfermagem). A farmacêutica apresentou as ordens de produção. Foram verificadas diversas ordens de produção em nome da referida au- xiliar de enfermagem (094771, de 02/04/12 – 120 cápsulas; 095092, de 12/04/12 – 120 cápsulas; 097577, de 21/05/12 – 120 cápsulas; 097753, de 22/05/12 – 90 cápsulas; 098043, de 01/06/12 – 120 cápsulas) e em ne- nhuma delas havia o nome de prescritor; no modo de usar estava descrito “tomar conforme orientação”. Todas as ordens de produção possuíam a formulação nimesulida 100 mg, alopurinol 250 mg, ranitidina 150 mg. Foi lavrado Termo de Visita pelos fiscais do CRF-SP e a Vigilância Sanitária lavrou o Auto de Infração – por preparar, manipular, fracionar, embalar, vender produtos de interesse à saúde (medicamentos – prepara- ções magistrais) sem padrões, identidade, qualidade e segurança e ainda transgredir outras normas legais, federais, destinadas à promoção, preven- ção e proteção à saúde; manipular e vender preparações magistrais sem receitas médicas e apresentar ordem de produção. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • RDC Anvisa nº 44/09; • RDC Anvisa nº 67/07. 84 CASO 46 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Troca de medicamento Em 30/02/2013, o CRF-SP recebeu e-mail denunciando aplicação errada do medicamento Celestone Soluspan® em paciente gestante de 08 meses. Conforme denúncia, as aplicações ocorreram nos dias 16/02/2013 e 17/02/2013. Na prescrição médica constava o medicamento Celestone Simples®, sendo dispensado e administrado o medicamento Celestone Soluspan®. Foram prescritas administrações de 08 em 08 horas, durante 03 dias e uma ampola, após 07 dias. O erro foi descoberto somente na 5ª aplicação. Após confirmação com o médico prescritor, foi alterada a posologia para administrações de 12 em 12 horas. Em 14/03/2013, foi realizada fiscalização no estabelecimento; a far- macêutica substituta informou “...não saber se houve treinamento sobre o assunto, nem se houve uma ação corretiva e preventiva para o caso em questão...”. Em 10/05/2013, a farmacêutica responsável técnica pela empresa em questão compareceu à seccional do CRF-SP e declarou que estava ciente do caso e que todos os envolvidos foram advertidos por escrito. Em 30/05/2013, a farmacêutica responsável apresentou ao CRF-SP as cinco advertências dos funcionários envolvidos na aplicação errônea de Celestone Soluspan® e um Procedimento Operacional Padrão (POP) da em- presa relacionada à dispensação com dupla conferência. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • RDC Anvisa nº nº 44/09; • Deliberação CRF-SP nº 247/04. 85 CASO 47 Área: Farmácia com manipulação Assunto: Irregularidades sanitárias A Coordenação de Vigilância em Saúde (Covisa) encaminhou ao CRF-SP um ofício com cópias de várias prescrições encontradas em uma farmácia referentes a irregularidades quanto à prescrição de anabolizantes e anorexígenos. As irregularidades encontradas nas prescrições foram: elegibilidade, posologia incompleta, indicação de uso de hormônio de crescimento após exercício e sem a indicação terapêutica adequada, bem como os CID não eram compatíveis aos medicamentos prescritos. Além disso, as receitas dos medicamentos da lista C5 da Portaria SVS/MS nº 344/98 não apresentavam o endereço do paciente preenchido pelo prescritor, não havia o CPF do prescritor e o CID e as receitas aten- didas por outro estado não apresentavam o visto da Vigilância Sanitária. Algumas prescrições eram de médicos que não trabalhavam mais nos locais dos receituários, bem como o período não correspondia ao tempo de trabalho do médico no local. Também foram constatadas autoprescrições. Das cópias das prescrições encaminhadas, 20 delas eram indicadas para um mesmo paciente, totalizando 80 ampolas de hormônio de cresci- mento, sendo que uma possuía 28 ampolas em uma mesma receita. O CRF-SP realizou uma visita para constatar as irregularidades apon- tadas no ofício. Durante a vistoria, além das infrações apontadas, consta- tou-se a manipulação de associações perigosas, como finasterida, sulpirida e bupropriona e venlafaxina com sertralina. Não foi constatada a verificação de temperatura e umidade dos am- bientes e da geladeira. Havia o armazenamento de medicamentos contro- ladospela PortariaSVS/MS nº 344/98 juntamente com medicamentos não controlados em armário com chave. Os laboratórios de manipulação se apresentavam em condições ina- dequadas de estrutura e sujos. Também foram encontradas fórmulas pron- tas desacompanhadas de prescrição. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Lei nº 9.965/00; • Resolução CFF nº 596/14; • Portaria SVS/MS nº 344/98; • RDC Anvisa nº 67/07. 86 CASO 48 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Adulteração de receita O proprietário de um estabelecimento esteve presente, em 15/08/2013, à seccional do CRF-SP e protocolou ofício referente a dispen- sações ocorridas em junho de 2013 que estavam com as Notificações de Receita B rasuradas. A fiscal do CRF-SP foi ao local para constatar as infrações e apro- veitou para obter cópias das notificações rasuradas. A farmacêutica não estava presente por ter se desligado do estabelecimento em julho de 2013. A farmacêutica foi convocada para esclarecimentos e alegou que não adulterou a posologia do medicamento diazepam dispensado em 10/07/2013, bem como não havia percebido que a notificação já esta- va rasurada. Em relação ao medicamento lorazepam, dispensado em 20/07/2013, a farmacêutica alegou que alterou o número de caixas porque havia uma divergência entre o estoque físico e o constante no sistema da farmácia, portanto dispensou uma caixa, conforme descrito na prescrição, mas alterou para duas caixas para solucionar a divergência. A farmacêutica declarou que solicitou o desligamento do estabeleci- mento por não concordar em não ser a única a dispensar os medicamen- tos psicotrópicos e por não ser a responsável pela guarda da chave destes medicamentos. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Lei nº 6.437/77; • Resolução CFF nº 596/14; • Portaria SVS/MS nº 344/98. 87 CASO 49 Área: Importadora/Distribuidora de alimentos Assunto: Ausência de responsável técnico perante o CRF-SP e produto adulterado O farmacêutico atua em uma importadora e distribuidora de alimen- tos com alegações de propriedades funcionais e/ou de saúde. A empresa não possui registro de responsável técnico perante o CRF-SP. A empresa foi citada nos jornais como a importadora e distribuidora de produto com finalidade emagrecedora, o qual era cadastrado como ali- mento pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas teve o seu registro cancelado após a constatação da presença de sibutramina pelo Instituto de Criminalística de São Paulo (IC-SP). O fiscal do CRF-SP esteve presente à importadora e distribuidora para verificar os fatos divulgados na mídia e foi acompanhado pelo far- macêutico, que alegou ser consultor da empresa e informou desconhecer a necessidade de a empresa ser cadastrada no CRF-SP. O farmacêutico infor- mou que o produto para o emagrecimento continuava sendo importado, e não era considerado um medicamento e sim classificado como alimento com alegações de propriedades funcionais e/ou de saúde. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14. 88 CASO 50 Área: Indústria de alimentos Assunto: Adulteração de alimentos O Ministério Público prendeu os proprietários e o responsável téc- nico de uma empresa que comercializava leite longa vida. A prisão ocor- reu após a identificação de contaminantes no leite pelo Ministério da Agricultura. A adulteração, que vinha sendo investigada havia um ano, iniciava na transportadora do leite in natura, a qual adicionava 10 litros de água para cada 90 litros de leite, aumentando o volume levado à indústria. Contudo, como a água afeta a qualidade nutricional do leite, a empresa adicionava ureia para mascarar a fraude. O promotor do Ministério Público responsável pelo caso afirmou que a maior parte do produto contaminado foi consumida pela população, já que o processo de adulteração ocorria diariamente. O responsável técnico da empresa, graduado em Farmácia e inscrito no CRF-SP, assumiu que a adulteração do leite já ocorria havia aproxima- damente dois anos e estima que a empresa adquiria cerca de 100 toneladas de ureia por ano. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14. 89 CASO 51 Área: Acupuntura Assunto: Exercício de atividade sem comprovação de habilitação A farmacêutica proprietária atua como responsável técnica pelo es- tabelecimento desde 25 de fevereiro de 2009, com horário de assistência técnica declarado ao CRF-SP de segunda a sábado, das 08h às 20h, com intervalo das 12h às 14h. O estabelecimento foi vistoriado em 8/05/2013 pela fiscal do CRF- -SP. No ato da inspeção, verificou-se que a farmacêutica realiza atendi- mento de acupuntura na parte interna da drogaria. A farmacêutica esclareceu que atende seus pacientes no decorrer do dia e cobra para realizar as sessões de acupuntura. Informou que realiza essa atividade com o consentimento da Vigilância Sanitária Municipal. A fiscal do CRF-SP solicitou que a farmacêutica apresentasse o diplo- ma da especialização de acupuntura reconhecido pelo Conselho Federal de Farmácia. A farmacêutica alegou que não terminou o curso, mas que havia aprendido a prática durante um curso na graduação de Farmácia. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 516/09; • Resolução CFF nº 596/14. 90 CASO 52 Área: Diversas áreas de atuação Assunto: Exercício ilegal da medicina/realização de diagnóstico O médico encaminhou uma denúncia ao CRF-SP relatando que sua paciente apresentou uma declaração emitida por uma farmacêutica, onde informava que a paciente estava sob seus cuidados havia dois anos e apre- sentava um quadro de deficiência nutricional, insônia e depressão. A farmacêutica também declarou que a paciente não possuía força muscular, ânimo e vontade de comer. Também apresentava um quadro de desorientação, crise de enxaqueca e severa perda de massa magra com aumento de percentual de gordura corporal. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Decreto nº 85.878/81; • Resolução CFF nº 596/14. 91 CASO 53 Área: Diversas áreas de atuação Assunto: Exercício ilegal da medicina A Vigilância Sanitária Municipal encaminhou ofício ao CRF-SP após ter encontrado em uma farmácia com manipulação duas prescrições, ambas realizadas por uma farmacêutica: na primeira ela utilizou o seu número de inscrição no CRF e, na segunda, um número de inscrição no Conselho Re- gional de Medicina do Estado de São Paulo, que, após consulta, verificou-se estar inativado. As prescrições continham formulações para o clareamento da pele à base de hidroquinona, ácido glicólico e ácido retinoico. A farmacêutica também foi denunciada por uma enfermeira de uma Unidade Básica de Saúde do município, a qual relatava que um paciente foi apresentou uma prescrição da farmacêutica para a retirada de medica- mentos (anti-inflamatório e antimicrobianos) e para a realização de um raio X. A paciente foi atendida por um médico da unidade, sendo suspensa a medicação indicada pela farmacêutica e prescrita ranitidina, por se tratar de problemas gastrointestinais e não pulmonares. A pacienteesclareceu à enfermeira que comprou um cartão de fideli- dade da clínica e que, posteriormente, somente pagava um valor simbólico por cada consulta. A clínica relatada pela paciente está regularizada junto à Vigilância Sanitária como clínica médica. A fiscal do CRF-SP esteve no local para fiscalização e ele encontrava-se fechado. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Decreto nº 85.878/81; • Resolução CFF nº 596/14. 92 CASO 54 Área: Distribuidora/Transportadora Assunto: Atividade com empresas irregulares A fiscal do CRF-SP realizou inspeção fiscal em 15/11/2013 na dis- tribuidora e no momento da fiscalização, esteve presente o farmacêutico responsável técnico pelo estabelecimento, com horário declarado das 08h às 15h de segunda a sexta-feira, com intervalo das 12h às 13h. Durante a inspeção, foram constatados vários medicamentos tarja- dos dentro de um armário no fundo da distribuidora. Na prateleira esta- vam expostos apenas medicamentos não trajados. Os medicamentos tarjados possuíam nota fiscal para drogarias que não estavam regularizadas nos CRF-SP. O farmacêutico foi indagado em relação ao fato e argumentou que a distribuidora não qualifica os clientes, uma vez que a empresa funciona com representantes de rua, ou seja, o estabelecimento possui funcionários alocados e dispersos pelo interior de São Paulo, sendo os próprios vendedores a captarem os clientes. Esclareceu que alguns clientes entram em contato pelo serviço de televendas, quando o cadastramento é efetivado e, posteriormente, os me- dicamentos são encaminhados ao cliente. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 365/01; • Portaria nº 802/98; • RDC Anvisa nº44/09. 93 CASO 55 Área: Farmácia/Drogaria Assunto: Irregularidades sanitárias A drogaria foi fiscalizada em uma ação em conjunto com a Vigilân- cia Sanitária, Policia Federal, Agência Nacional de Vigilância Sanitária e CRF-SP. Durante a inspeção, foram constatadas várias irregularidades, en- tre elas comercialização de medicamentos sujeitos a controle especial por meio remoto e sem a devida escrituração. Os medicamentos sujeitos a controle especial se encontravam em vá- rios locais da drogaria, por exemplo, armário do banheiro e da copa. Foram encontradas várias caixas de medicamentos violadas e faltando comprimi- dos, indícios de fracionamento. Na drogaria existia um armário com várias formulações de uma única farmácia com manipulação. Identifique as possíveis irregularidades éticas do farmacêutico ocorridas no caso acima, bem como as irregularidades sanitárias, com base na legislação vigente: • Lei nº 5.991/73; • Resolução CFF nº 596/14; • Resolução CFF nº 357/01; • Portaria SVS/MS nº 344/98; • RDC Anvisa nº 44/09; • RDC Anvisa nº 67/07; • RDC Anvisa nº 27/07; • RDC Anvisa nº 80/06. 94 REFERÊNCIAS BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Pa- recer CNE/CES n.º 1.300, de 06 de novembro de 2001. Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em Farmácia e Odontologia. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, 7 dezembro de 2001 - Seção 1, p. 25. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CES1300.pdf>. Acesso em: 15 jan. 2009. CECY, C.; OLIVEIRA, G.A.; COSTA, E.M.M.B – Metodologias Ativas: Aplicações e Vivências em Educação Farmacêutica. Brasília, ABENFARBIO – Associação Bra- sileira de Ensino Farmacêutico e Bioquímico. 114p. 2010. CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática 2003. CFF. CONSELHO FEDERAL DE FARMÁCIA. Resolução CFF nº 596, de 21 de fevereiro de 2014. Dispõe sobre o Código de Ética Farmacêutica, o Código de Processo Ético e estabelece as infrações e as regras de aplicação das sanções disciplinares. Diário Oficial da União de 25 de março de 2014 - Seção 1, p. 99. Disponível em: <http://www.cff.org.br/userfiles/file/resolucoes/596.pdf>. Aces- so em: 25 de mar. 2014. CORREIA, P.R.M.; SILVA, A.C.; ROMANO JUNIOR, J.G. Mapas conceituais como ferramenta de avaliação na sala de aula. Revista Brasileira de Ensino de Física, São Paulo, v.32, n.4, p.44021 – 44028 (2010). CUNHA, M. V. John Dewey: uma filosofia para educadores em sala de aula. 1. ed. Petrópolis: Vozes, 1994. KANT, I. Crítica da razão pura. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. MARCONDES, D. Textos básicos de ética: de Platão a Foucault. 2 ed. Rio de Janei- ro: Jorge Zahar, 2007. MOREIRA, M.A. Mapas conceituais e aprendizagem significativa. 2012. Disponível em:<http://www.if.ufrgs.br/moreira/mapasport.pdf>. Acesso em 12 set. 2013. NOVAK, J.D., CAÑAS, A.J. A teoria subjacente aos mapas conceituais e como ela- borá-los e usá-los. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v.5, n.1, p. 9-29, jan.-jun. 2010. Disponível em: <http://cmap.ihmc.us/Publications/ResearchPapers/ TeoriaSubjacenteAosMapasConceituais.pdf>. Acesso em: 12 set. 2013. PEÑA, A.O., BALLESTEROS, A., CUEVAS, C., GIRALDO, L., MARTIN, I., MOLINA, A., RODRIGUEZ, A., VÉLEZ, U. Mapas conceituais - uma técnica para aprender. São Paulo: Edições Loyola, 2005, 238 p. VEJA. Conduta médica na UTI. Veja Brasil. 2013. Disponível em:<http:// vejabrasil.abril.com.br/brasilia/materia/conduta-medica-na-uti-279>. Acesso em 11 mar.2014. ZUBIOLI, A. Ética farmacêutica. São Paulo: Sobravime, 2004. 1shttps://doi.org/10.11606/S1518-8787.2017051007107 Suplemento PNAUM-Serviços Artigo Original Rev Saude Publica. 2017;51 Supl 2:5s Correspondência: Ediná Alves Costa Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia Rua Basílio da Gama, s/nº – Canela 40.110-040 Salvador, BA, Brasil E-mail: edina@ufba.br Recebido: 19 abr 2016 Aprovado: 30 nov 2016 Como citar: Costa EA, Araújo PS, Penaforte TR, Barreto JL, Guerra Junior AA, Acurcio FA, Guibu IA, et al. Concepções de assistência farmacêutica na atenção primária à saúde, Brasil. Rev Saude Publica. 2017;51 Supl 2:5s. Copyright: Este é um artigo de acesso aberto distribuído sob os termos da Licença de Atribuição Creative Commons, que permite uso irrestrito, distribuição e reprodução em qualquer meio, desde que o autor e a fonte originais sejam creditados. http://www.rsp.fsp.usp.br/ Concepções de assistência farmacêutica na atenção primária à saúde, Brasil Ediná Alves CostaI, Patrícia Sodré AraújoII, Thais Rodrigues PenaforteIII, Joslene Lacerda BarretoIII, Augusto Afonso Guerra JuniorIV, Francisco de Assis AcurcioIV, Ione Aquemi GuibuV, Juliana AlvaresIV, Karen Sarmento CostaVI,VII,VIII, Margô Gomes de Oliveira KarnikowskiIX, Orlando Mario SoeiroX, Silvana Nair LeiteXI I Instituto de Saúde Coletiva. Universidade Federal da Bahia. Salvador, BA, Brasil II Departamento de Ciências da Vida. Universidade do Estado da Bahia. Salvador, BA, Brasil III Departamento do Medicamento. Faculdade de Farmácia. Universidade Federal da Bahia. Salvador, BA, Brasil IV Departamento de Farmácia Social. Faculdade de Farmácia. Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG, Brasil V Faculdade de Ciências Médicas. Santa Casa de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil VI Núcleo de Estudos de Políticas Públicas. Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil VII Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Departamento de Saúde Coletiva. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil VIII Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. Faculdade de Medicina. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS, Brasil IX Faculdade de Ceilândia. Universidadede Brasília. Brasília, DF, Brasil X Faculdade de Ciências Farmacêuticas. Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Campinas, SP, Brasil XI Departamento de Ciências Farmacêuticas. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, SC, Brasil RESUMO OBJETIVO: Identificar e discutir as concepções de assistência farmacêutica segundo distintos atores, na Atenção Primária à Saúde, no Brasil. MÉTODOS: Estudo integrante da Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos – Serviços, 2015, composta por levantamento de informações numa amostra representativa de municípios, estratificada pelas regiões do Brasil, e sub-amostra de serviços de atenção básica. Entrevistaram-se os secretários municipais de saúde, os responsáveis pela assistência farmacêutica e os responsáveis pela entrega de medicamentos nas farmácias/unidades de dispensação dos serviços selecionados. Os questionários incluíram uma pergunta acerca do entendimento dos entrevistados sobre assistência farmacêutica. Utilizou-se a técnica de análise de conteúdo, buscando-se apreender nos enunciados os sentidos atribuídos à assistência farmacêutica, que posteriormente foram classificados em categorias com as principais concepções. RESULTADOS: Entre a grande diversidade de entendimentos sobre AF destacaram-se as concepções centradas 1) no controle logístico dos medicamentos com atividades de orientação ou informação sobre o uso e 2) na orientação ou informação ao usuário sobre o uso do medicamento. Os achados revelam tendência de deslocamento de uma centralidade no medicamento para uma concepção mais ampliada que inclui o usuário e suas necessidades como o destinatário final dessas ações. Entretanto, a pouca referência a concepções relacionadas à gestão e integralidade da atenção apontam a lentidão da mudança; afinal trata-se de um processo social e histórico que envolve a produção de sentidos que transcendem os arranjos legais, logísticos e técnicos na organização da assistência farmacêutica. CONCLUSÕES: A diversidade de concepções expressa os muitos sentidos atribuídos à assistência farmacêutica; identificando-se também, no processo de sua reorientação, um movimento que reflete uma mudança gradual do paradigma técnico, centrado na logística de medicamentos, para uma abordagem orientada ao usuário dos serviços de saúde. DESCRITORES: Assistência Farmacêutica. Conhecimentos, Atitudes e Práticas em Saúde. Pessoal de Saúde. Compreensão. 2s Concepções de assistência farmacêutica Costa EA et al. https://doi.org/10.11606/S1518-8787.2017051007107 INTRODUÇÃO Desde sua regulamentação, em 1990, o Sistema Único de Saúde (SUS) vem implementando estratégias diversas para efetivar a assistência farmacêutica (AF) como uma política pública, indispensável à integralidade da atenção à saúde como direito social e dever do Estado. Os esforços expressam ampliação do acesso a medicamentos pela população e desafios para as mudanças necessárias na organização dos serviços farmacêuticos no paísa. A AF possui caráter sistêmico, multidisciplinar, abrange múltiplas ações voltadas à promoção, proteção e recuperação da saúde individual e coletiva, visando o acesso e o uso racional de medicamentos12,14. Conforme Wiedenmayer et al.24, o serviço de farmácia tornou-se mais sofisticado, com alteração de alguns papéis e introdução de novas funções. Identificam-se mudanças na prática profissional centrada no privilegiamento do medicamento, para uma atuação que enfatiza a responsabilidade partilhada entre paciente e farmacêutico, exigindo deste profissional responsabilidade pelas necessidades dos indivíduos e não apenas a dispensação de medicamentos. Os papéis tradicionais que envolvem a preparação, dispensação ou venda de medicamentos mostram-se claramente insuficientes para caracterizar a AF, a ser compreendida numa perspectiva de integralidade das ações de saúde e propulsora doutras políticas setoriais. Neste sentido, a AF deve se estabelecer como um conjunto de atividades realizadas de forma sistêmica, que envolve o medicamento e visa, principalmente, ao paciente12. Entretanto, o principal foco do trabalho do farmacêutico, no Brasil, ainda se limita ao controle e distribuição de medicamentos3,21. Ao longo das últimas décadas, apesar da forte tendência à incorporação de práticas, como a atenção farmacêutica, que estimulam o farmacêutico a um enfoque mais inclusivo no atendimento ao paciente, este tipo de exercício profissional ainda é bastante limitado nos serviços de saúde. Assim, para o alcance dos objetivos da Política de Assistência Farmacêutica é necessário avançar na qualificação dos serviços farmacêuticos que devem incluir não apenas aspectos técnico-práticos, mas também subjetivos, uma vez que a percepção e entendimento acerca da AF deve preceder os esforços de mudança do paradigma profissional24. Em descompasso com os processos iniciais de implementação do SUS, somente após dez anos foram estabelecidas as primeiras iniciativas para a reestruturação da AF. Os esforços subsequentes, ainda que tardios, foram empreendidos para estruturar a área de modo a garantir acesso e uso racional dos medicamentos, tendo como eixo estruturante a reorientação de suas práticas21 e visando melhorar a gestão e os serviços farmacêuticos. Assim, a AF deve ser o resultado da combinação de estrutura, pessoas e tecnologias, num dado contexto social, a fim de contribuir na melhoria da qualidade de vida da população, integrando ações de promoção, prevenção, recuperação e reabilitação da saúde15. A construção de um marco teórico-conceitual da AF representa um desafio, pela complexidade que envolve a área, devido, principalmente, às suas diversas interfaces na vida social. De forma sintética, aponta-se a centralidade do medicamento na AF como um fator potencializador dessa complexidade, dado que o medicamento é um objeto que circula entre ciência, mercado e sociedade e que possui uma multiplicidade de sentidos18. Entretanto, no contexto das políticas de saúde, pode-se considerar que as políticas de medicamentos e AF ainda são muito recentes, o que contribui para a manutenção de uma situação permeada por antigas e novas ideologias, concepções e visões de mundo sobre AF. Tudo isso corrobora para que circulem definições diversas de AF que traduzem diferentes sentidos/entendimentos/concepções2,3. Contudo, observa-se, atualmente, exemplos de ruptura do padrão tecnicista e emergência de uma identidade mais social dos serviços farmacêuticos, ainda que sejam bastante incipientes e carregados de conflitos em sua construção20. Depreende-se a relevância de iniciativas voltadas ao debate sobre AF, a partir da identificação de diferentes pontos de vista de seus atores-chave, trazendo aspectos de sua abstração que permitam articular o eixo representacional e a experiência prática profissional. a Ministério da Saúde (BR), Secretaria de Ciências, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Departamento de Assistência Farmacêutica. Seminário de apresentação de resultados da PNAUM. Brasília (DF); 2015. 3s Concepções de assistência farmacêutica Costa EA et al. https://doi.org/10.11606/S1518-8787.2017051007107 Este artigo tem por objetivo identificar e discutir as concepções de AF segundo distintos atores, na Atenção Primária à Saúde no Brasil. Toma-se a locução concepções de AF como representações sociais11, entendimentos, visão de mundo, senso comum, ideias. Isso remete a um exercício político, que se refere à posição ou priorização da AF por estes atores e no sistema de saúde onde realizam suas práticas técnicas, clínicas e político-administrativas, com os sentidos que lhes são atribuídos. MÉTODOS Este estudo integra a Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos (PNAUM) – Serviços 2015, cujo objetivo foi caracterizara organização dos serviços de assistência farmacêutica na atenção básica/SUS, visando ao acesso e à promoção do uso racional de medicamentos, bem como identificar e discutir os fatores que interferem na consolidação da assistência farmacêutica no âmbito municipal. A PNAUM é um estudo transversal, exploratório, de natureza avaliativa, composto por um levantamento de informações numa amostra de serviços de atenção básica, em municípios representativos das regiões brasileiras. Várias populações de estudo foram consideradas no plano de amostragem, com amostras estratificadas pelas regiões, que constituem domínios do estudo1. Este artigo é um estudo descritivo, de natureza exploratória que buscou apreender as concepções de AF mediante análise de conteúdo dos enunciados dos entrevistados. Entrevistou-se os secretários municipais de saúde (SMS) e os responsáveis pela assistência farmacêutica (RAF) dos municípios selecionados nas distintas regiões e os responsáveis pela entrega de medicamentos aos usuários nas farmácias/unidades de dispensação da amostra de serviços nos municípios. Neste estudo foram selecionados apenas os farmacêuticos (FARM) entre os responsáveis pela entrega de medicamentos. As entrevistas foram realizadas com questionários estruturados, que incluíam características sociodemográficas dos entrevistados e a pergunta sobre o seu entendimento de AF. Os secretários de saúde e os responsáveis pela AF foram entrevistados por telefone e os responsáveis pela entrega de medicamentos, por entrevista direta. As respostas dos entrevistados foram transcritas literalmente. Para a análise dos dados, utilizou-se a técnica de análise de conteúdo10. As unidades de significação foram organizadas a partir do critério de semelhança de sentido. Adotou-se o modelo misto na definição das categorias utilizadas para classificar os enunciados10. A partir de revisão bibliográfica e de uma primeira leitura dos enunciados, inicialmente foram definidas três categorias ou unidades de significação: concepção de AF centrada no medicamento, concepção de AF centrada em atividades destinadas aos usuários e concepção de AF como parte da gestão da política de saúde do município. No passo seguinte cada enunciado era submetido a leituras, tantas quantas fossem necessárias para se apreender o sentido e fazer sua classificação. Esta operação, realizada em conjunto por dois pesquisadores, levou à subdivisão das categorias previamente definidas, resultando em 12 categorias que traduzem as concepções de AF. Um conjunto de enunciados de sentidos muito diversificados foi classificado na categoria “outra”. Utilizou-se o software SPSS®, versão 21, módulo de análise de amostras complexas, para obtenção das frequências de concepções, segundo os atores entrevistados e as regiões brasileiras. A PNAUM foi aprovada pelo Comitê Nacional de Ética em Pesquisa (Parecer CONEP nº 398.131/2013), procedendo-se esclarecimento aos entrevistados dos objetivos da pesquisa e assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido. RESULTADOS E DISCUSSÃO Foram entrevistados 369 SMS (61,5% da amostra estimada); 507 RAF (84,5% da amostra estimada) e 1.139 responsáveis pela entrega de medicamentos (83,6% da amostra estimada), entre os 4s Concepções de assistência farmacêutica Costa EA et al. https://doi.org/10.11606/S1518-8787.2017051007107 quais 285 eram FARM, nos 272 municípios da pesquisa. Devido ao percentual insuficiente de respostas pelos secretários, não foi possível incluí-los nos resultados pelas regiões. O perfil sociodemográfico dos entrevistados está apresentado na Tabela 1. O sexo masculino predomina entre os SMS que também representam os maiores percentuais nas faixas etárias acima de 31 anos. Quanto à escolaridade, quase a totalidade dos RAF possui nível superior, enquanto os SMS ficam em torno de 80%. A Tabela 2 apresenta as concepções de AF no Brasil, segundo o entendimento expresso pelos RAF, FARM e SMS. Observam-se diferenças entre os atores no entendimento sobre AF. Entre os RAF e FARM destacam-se as concepções de AF centradas em orientação/informação Tabela 1. Perfil sociodemográfico dos responsáveis pela assistência farmacêutica, farmacêuticos responsáveis pela dispensação, na atenção básica e secretários municipais de saúde, no Brasil. Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos, 2015. Variável/Ator RAF FARM SMS % IC95% % IC95% % IC95% Sexo Masculino 38,0 33,1–43,1 35,4 23,7–49,2 58,0 51,9–63,8 Feminino 62,0 56,9–66,9 64,6 50,8–76,3 42,0 36,2–48,1 Escolaridade Fundamental incompleto –– –– 0,6 0,2–2,5 Fundamental completo –– –– 1,1 0,4–3,0 Médio incompleto 0,5 0,1–3,7 Médio completo 1,2 0,6–2,1 –– 16,1 12,2–20,9 Superior 98,8 97,9–99,4 100,0 100,0–100,0 81,6 76,6–85,7 Faixa etária (anos 18 a 30 36,5 31,7–41,6 31,7 22,3–43,0 12,8 9,1–17,7 31 a 49 54,4 49,1–59,5 56,0 44,5–66,9 61,0 54,6–67,0 50 a 59 7,9 5,5–11,4 9,9 4,4–20,8 22,1 17,2–27,9 60 ou mais 1,2 0,4–3,5 2,4 1,0–5,5 4,2 2,4–7,0 RAF: Responsável pela assistência farmacêutica; FARM: Farmacêutico responsável pela dispensação de medicamentos; SMS: Secretário Municipal de Saúde. Fonte: PNAUM – Serviços, 2015. Tabela 2. Concepções de assistência farmacêutica na atenção básica, segundo profissionais entrevistados. Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos – Serviços, 2015. Concepção/Atores RAF FARM SMS % (IC95%) % (IC95%) % (IC95%) Centradas no medicamento: Em etapas do ciclo logístico do medicamento 8,7 (6,2–12,0) 6,8 (3,4–13,2) 8,4 (5,5–12,7) Em etapas do ciclo logístico com orientação/informação ao usuário de medicamentos 16,7 (13,2–20,9) 25,7 (14,9–0,40) 12,3 (8,7–17,0) Em disponibilização/oferta de medicamentos 5,2 (3,3–8,3) 3,6 (1,6–7,8) 11,0 (7,5–15,7) Em disponibilização/oferta de medicamentos com uma noção de controle 4,5 (2,8–7,1) 2,2 (0,3–13,6) 7,4 (4,7–11,5) Como uma atividade decorrente do atendimento médico ou do farmacêutico Atividade realizada pelo farmacêutico no serviço de saúde 1,5 (0,7–3,5) 0,4 (0,1–3,1) 0,6 (0,2–2,1) Como complemento ou finalização do atendimento médico e dispensação e orientação ao usuário 0,9 (0,3–2,7) 0,3 (0–2,1) 1,9 (0,7–4,6) Uma ação de caráter assistencialista Como auxílio/amparo/ajuda à população carentou de baixa renda 0,2 (0–1,6) –– 4,0 (2,1–7,6) Relacionada a cuidados/atividades com o usuário de medicamentos Centrada em orientação/informação ao usuário sobre o uso do medicamento com ou sem referência ao uso racional 18,5 (14,8–22,8) 36,8 (26,1–48,9) 6,0 (3,6–9,7) Como assistência/apoio/atenção ao usuário/pacientou à população com orientação/informação 8,1 (5,7–11,4) 11,2 (6,1–19,5) 13,9 (10,1–18,9) Relacionada à integralidade da atenção 2,0 (0,9–4,3) 0,5 (0,1–3,3) 1,0 (0,4–2,7) Como parte da gestão do Sistema de Saúde do município Como suportou auxílio à gestão 2,3 (1,1–4,8) –– 4,7 (2,7–7,9) Como organização de serviços para disponibilização de medicamentos 2,4 (1,2–4,5) –– 6,4 (3,8–10,5) Outras 10,5 (7,8–14,0) 8,8 (4,6–16,1) 15,3 (11,3–20,5) Não sabe 0,4 (0,1–1,4) 1,3 (0,3–4,8) 3,0 (1,3–6,4) Não respondeu 18,1 (14,4–22,4) 2,5 (1,1–5,3) 4,2 (2,2–7,8) RAF: Responsável pela assistência farmacêutica; FARM: Farmacêutico responsável pela dispensação de medicamentos; SMS: Secretário Municipal de Saúde. Fonte: PNAUM – Serviços, 2015. 5s Concepções de assistência farmacêutica Costa EA et al. https://doi.org/10.11606/S1518-8787.2017051007107 ao usuário sobre o uso dos medicamentos, com ou sem referência ao uso racional, seguidas de concepções centradas em etapas do ciclo logístico com orientação/informação ao usuário. Esta última foi também a segunda mais frequente entre os SMS, enquanto em primeiro lugar encontravam-se as concepções de AF como assistência/apoio/atenção ao usuário