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História Moderna Século XVII e XVIII História Moderna Século XVII e XVIII 1 O Século XVII .......................................................................1 2 Revolução Inglesa: Antecedentes ........................................15 3 A Revolução Inglesa ............................................................31 4 Antecedentes da Revolução Industrial .................................47 5 Desdobramentos e Implicações da Revolução Industrial .......60 6 Antecedentes da Revolução Científica .................................71 7 Aspectos Principais da Revolução Científica .........................86 8 O Iluminismo: a Filosofia Militante ......................................98 9 O Iluminismo: Um Projeto Inacabado ................................108 10 O “Despotismo Esclarecido” e Alterações na Europa do Século XVIII .................................................................118 Sumário O Século XVII Regina Maria Gonçalves Curtis Capítulo 1 2 História Moderna Século XVII e XVIII O século XVII foi marcado, entre outros aspectos, por uma cri- se geral que afetou a maior parte do continente europeu. Nes- te capítulo, pretendemos trazer para o leitor um panorama do que teria sido essa crise na visão de quatro diferentes autores. Após a exposição da referida crise, faremos uma breve síntese da realidade socioeconômica da Inglaterra. Nosso objetivo é aproximar o leitor do contexto histórico em que o processo revolucionário inglês foi detonado. Para além das inúmeras controvérsias existentes na historiografia a respeito da crise do século XVII, esta é tida como o último momento da transição feudalismo-capitalismo, passada a grande expansão ocorrida no século anterior UM MUNDO EM CRISE – Suzanne Pillorget Suzanne Pillorget inicia seu texto destacando o papel incenti- vador às atividades comerciais, e consequentemente a todas as atividades econômicas, exercida pelas grandes descobertas no decorrer do século XVI ao revelarem a existência de jazigos de metais preciosos. Ressalta ainda que em uma época de pobreza dos meios de pagamento e dos instrumentos de crédi- to, essas descobertas teriam sido fundamentais no sentido de evitar a estagnação econômica que se vislumbrava. Segundo a autora, graças a esse grande empreendimento que foram as navegações, e principalmente ao espírito de iniciativa dos ho- mens que souberam aproveitar os seus resultados, o século XVI configurou-se enquanto uma época de expansão econômica, de alta dos preços e da produção. Capítulo 1 O Século XVII 3 Contrastando com a realidade acima descrita o século XVII, para a autora, ao contrário, teria sido um período mais débil do ponto de vista econômico. Ela comenta, inclusive, um relativo afrouxamento da produção de metais preciosos: as minas da América começaram, ao que parece, dar sinais de esgotamento. (MARQUES, BERUTTI e FARIA, p. 131). Pillorget destaca, ainda, que mesmo que a quantidade ex- traída de metais continue aumentando, a mesma já não cor- responderia às necessidades de uma economia européia que demandava um volume maior de numerários. A partir de 1600, pode-se verificar uma baixa nos preços, a qual irá se aprofundar, principalmente entre 1620 e 1630, re- sultando em uma conjuntura internacional bastante frágil. Esta se reflete em um longo período de recessão na Europa e no restante do mundo, a qual irá durar mais de 100 anos, aden- trando em alguns países pelo primeiro terço do século XVIII. Segundo Pillorget, a debilidade econômica da economia europeia e mundial descrita só iria ser revertida a partir do sé- culo XVIII quando se deu a entrada maciça ao mercado mun- dial de novas quantidades de metal precioso. Estes oriundos, principalmente, de Moçambique e depois do Brasil. Em síntese, para a autora, o declínio da produção metálica americana no decorrer do século XVII teria sido o fator pre- ponderante da crise deste século. Crise esta superada, como foi exposto acima, a partir do século XVIII quando a economia européia teria conseguido retomar seu crescimento. 4 História Moderna Século XVII e XVIII A CRISE GERAL DA ECONOMIA EUROPEIA NO SÉCULO XVII – Eric Hobsbawm Tendo como principal objetivo expor as provas que demons- trariam a existência de uma crise geral no decorrer do século XVII, assim como uma explicação para a mesma, Hobsbawm inicia seu texto destacando que diferentemente das crises que precederam a crise do século XVII, esta teria levado à solução dos problemas que haviam se apresentado anteriormente ao mundo capitalista. Interessante destacar que Hobsbawm estabelece uma dis- tinção entre crise geral e regressão econômica, uma vez que a ideia que ambas representariam a mesma coisa teria estado presente em toda a discussão sobre a “crise feudal” dos sé- culos XIV e XV. De fato, o que o autor irá demonstrar é que, se determinadas regiões viveram uma regressão econômica, outras, ao contrário, até mesmo desenvolveram-se no decorrer do século XVII. Quanto às regiões apontadas por Hobsbawm que teriam vivido um processo de estagnação, cabe destacar, em primeiro lugar, o fato do Mediterrâneo pela primeira vez na história ter deixado de ser o centro mais importante de influência econô- mica e política, tendo se transformado em um mar estagnado e empobrecido. Outras regiões que teriam sofrido esse revés, segundo o autor, seriam as potências ibéricas, a Itália, a Tur- quia, a Alemanha, assim como a Polônia báltica, a Dinamar- ca e a Hansa. Por outro lado, as potências marítimas e suas dependências – Inglaterra, Províncias Unidas, Suécia – assim como a Rússia e outras regiões menores como a Suiça pare- ciam se desenvolver ao invés de estagnar. Capítulo 1 O Século XVII 5 Hobsbawm destaca ainda que, durante algumas décadas, em meados do século, os lucros obtidos no Atlântico talvez não tivessem sido suficientes para compensar os prejuízos no Mediterrâneo, Europa Central e Báltico, cuja produção encon- trava-se estagnada ou até mesmo em declínio. Porém, para o autor, o mais importante seria o avanço significativo verificado no progresso do capitalismo. O autor segue sua tese referente à crise do século XVII fazendo uma radiografia das áreas que teriam tido um avan- ço e as que teriam regredido do ponto de vista comercial e industrial. Quanto à realidade política do século XVII, Hobsbawm faz uma observação afirmando que, nesse aspecto, este século, ao invés de apresentar dificuldade, conseguiu sobrepor-se. Na verdade, uma referência direta ao Absolutismo, o qual teria representado uma forma de governo eficiente e estável, desta- cando que as únicas exceções teriam sido as potências maríti- mas as quais estariam vivendo seus regimes burgueses. Cabe destacar ainda a posição desse autor quanto ao pa- pel da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) em relação à cri- se. Se é comum encontrarmos na historiografia uma visão de que a crise geral teria sido resultado, sobretudo, da Guerra dos Trinta Anos, Hobsbawm segue uma outra linha argumen- tando que a crise teria afetado várias regiões da Europa que não haviam sido devastadas por esse conflito. Dos aspectos da crise mais importantes destacados por Ho- bsbawm, encontramos a seguinte afirmação do autor: 6 História Moderna Século XVII e XVIII A expansão econômica se verificou dentro de um quadro so- cial que não era ainda suficientemente forte para eclodir e, de certa forma, adaptou-se mais a esse quadro que ao mundo do capitalismo moderno. (MARQUES, BERUTTI e FARIA, p. 135). A TEORIA DA REVOLUÇÃO GERAL NA EUROPA DO SÉCULO XVII – A. D. Lublinskaya Lublinskaya começa a expor sua posição acerca da crise do século XVII afirmando que os países que viveram um ritmo ace- lerado para o capitalismo, como a Holanda e a Inglaterra, acabaram tambémaumentando sua força política. Já a França, para a autora, se encontrava em uma posição diferente, decorrente, entre outros fatores, das guerras civis do século XVI. Lá o capitalismo comercial e industrial não teria conseguido deslanchar como nos países acima referidos. Outros fatores apontados pela autora limitadores do de- senvolvimento do capitalismo nesse país seria a oposição po- lítica da aristocracia feudal às tendências centralizadores do absolutismo. Mesmo as forças progressistas, a burguesia e as massas populares, tendo um papel significativo ao apoiar o governo em sua luta contra as tendências separatistas e rea- cionárias, havia o problema da realidade cotidiana impedindo a estabilidade política e, portanto, de uma realidade desfavo- rável ao desenvolvimento do capitalismo. Entre eles, a autora faz referência a guerras civis, às insurreições dos huguenotes e os levantes populares, sem contar a fragilidade econômica que levou a Fazenda a se encontrar em uma situação crítica. Nesse momento, a autora, divergindo de Hobsbawm, nos aler- Capítulo 1 O Século XVII 7 ta para o fato de que um dos fatores que explica o porquê do governo não conseguir dar conta da situação acima descrita seriam os inúmeros gastos que o mesmo vinha arcando ao investir recursos nas guerras civis e para a Guerra dos Trinta Anos. Lublinskaya se utiliza de um método comparativo analisan- do o desenvolvimento do capitalismo na França ao mesmo tempo que examina a situação econômica da Europa em geral. Novamente, referindo-se à Inglaterra e à Holanda em re- lação à França, a autora chama a atenção para o fato de que essas três nações caminhavam para a sociedade burguesa a um ritmo bastante diferente. Ao comparar a economia desses países, Lublinskaya destaca as fragilidades da indústria capi- talista francesa. Por exemplo, a autora destaca que a divisão do trabalho das manufaturas francesas estão longe das que existem nas manufaturas holandesas e inglesas, sem falar no nível insuficiente dos trabalhadores qualificados franceses. Quanto ao papel do Estado, Lublinskaya destaca que suas subvenções, que seriam indispensáveis nessa época, eram ocasionais e muito modestas, com uma acumulação de capital limitada, deixando a França à margem da exploração direta das colônias. Afora essa debilidade da economia francesa, a autora ainda destaca o fato de que a navegação e o comércio oceânico desse país se apresentava atrasado quando compa- rado à realidade holandesa e inglesa. Todas as diferenças apontadas levam Lublinskaya a criticar a teoria da crise geral do século XVII e da crise do capitalismo em particular. Diferentemente dos autores que sublinham mais 8 História Moderna Século XVII e XVIII o ritmo lento do processo de desenvolvimento do capitalismo, a autora afirma que as dificuldades enfrentadas nessa época pelo capitalismo europeu não devem ser consideradas como crise de produção e de vendas. Procedem da natureza mesma do sistema capitalista em seu início, isto é, na época das manu- faturas. (MARQUES, BERUTTI e FARIA, p. 139). Sendo assim, segundo Lublinskaya, não seria uma crise da produção capitalista a que teria ocorrido no século XVII, mas sim uma luta econômica e política entre os países em que o capitalismo estaria se desenvolvendo de maneira desigual. Enfim, propondo uma outra abordagem para a crise do sé- culo XVII, Lublinskaya nos adverte para os perigos de se gene- ralizar as análises dessa crise. Para ela, é preciso, em primeiro lugar, levar em consideração as inúmeras especificidades de cada país, citando, como exemplo, a Inglaterra, a Holanda e a França. Enquanto na Inglaterra e na Holanda o ritmo da transição para o capitalismo fora mais rápido, na França, a aristocracia ao dirigir e influenciar os negócios teria represen- tado um entrave para a passagem ao capitalismo. A CRISE GERAL DO SÉCULO XVII – H. R. Trevor- Roper Bastante crítico das abordagens marxistas acerca da crise do século XVII, Trevor-Roper afirma que a perspectiva do materia- lismo histórico estaria equivocada, entre outros aspectos, ao destacar que a passagem final do feudalismo ao capitalismo teria que necessariamente se produzir de forma violenta e re- volucionária. Capítulo 1 O Século XVII 9 Para Trevor-Roper, embora geral, na Europa Ocidental, a crise do século XVII não seria uma mera crise constitucional, tampouco como afirmam os marxistas uma crise de produção, mas sim uma crise nas relações entre Sociedade e Estado. Se- gundo o autor, no século XVII as cortes renascentistas já tinham ficado tão grandes, tinham consumido tanto em ‘desperdício’, e tinham permitido que seus parasitas penetrassem tão profun- damente na sociedade que só podiam florescer durante um tempo limitado – um tempo também de prosperidade geral em expansão. (MARQUES, BERUTTI e FARIA, p. 142). Enfim, para Trevor-Roper, quando toda essa prosperidade fracassou, o Estado acabou entrando em falência e caindo jun- to. Utilizando-se também de uma metodologia comparativa, o autor afirma que, diferentemente da França, que pode contar com a habilidade e flexibilidade de seus ministros Richelieu e Mazarino, a Inglaterra em sua intransigência representada pela irresponsabilidade e violência de figuras como Buckingham e Strafford, teria sido mais drasticamente atingida por essa crise entre o Estado e a Sociedade, o que terminou culminando com a derrubada violenta de sua Monarquia Absolutista. O CONTEXTO SÓCIOECONÔMICO DO SÉCULO XVII A partir de agora, iremos expor um breve panorama da realida- de sócioeconômica que, segundo Paulo Miceli, pode servir para retratar tanto a realidade inglesa do século XVII, isto é, no perí- odo pré-revolucionário inglês, quanto a realidade francesa do século XVIII, palco em que irá se realizar a Revolução Francesa. 10 História Moderna Século XVII e XVIII Após destacar que no campo a vida era feita de rotinas muito antigas, o autor nos remete para a antiguidade também dos processos para plantar e cuidar dos vegetais, dos proce- dimentos para domesticar os animais, dos instrumentos utiliza- dos para aumentar ou substituir a força de trabalho humana, e principalmente da incapacidade da agricultura em produzir o suficiente para alimentar as bocas que dela dependiam. Nessa época, a base da alimentação residia no consumo de vegetais, principalmente os grãos: trigo, cevada, aveia, centeio e arroz. A carne na dieta era tão rara que se fala até mesmo em vegetarianismo forçado, mesmo porque os preços de outros alimentos eram altíssimos quando comparados ao preço dos cereais. O cultivo destes, fundamentalmente o trigo, dependia diretamente do adubo, o que acabava por estimular a criação de animais, os quais eram utilizados para auxiliar nos trabalho de preparação do solo. Pode-se falar nesse contexto da predominância de uma vida agrícola com uma população rural em torno de 80 a 90%, estimativa que cabe não somente para a realidade ingle- sa do século XVII, mas a toda a população mundial. A fome era uma constante, pois, apesar dessa imensa maioria de população que trabalhava no campo, o alimento era escasso e muito caro. Evidentemente, os ricos eram con- siderados uma exceção em relação a essa realidade. Mesmo constantemente afetada pela fome, a cidade, por guardar as reservas de alimentos em seus armazéns não era tão castigada quanto o campo. Capítulo 1 O Século XVII 11 Essa escassez terminava por empurrar os camponeses para as cidades, onde muitas vezes, ao invés de melhorarem sua condição, acabavam por cair na mendicância. Paulo Miceli nos afirma que já no século XVI esses pobres transformaram-se em problema público, levando no século XVII a se tomar uma série de medidas de modo a evitar algum “mal” que aqueles viessem a cometer. Como nos afirma oautor: Os doentes e inválidos eram conduzidos aos hospitais, en- quanto os válidos, acorrentados dois a dois, faziam a limpeza de esgotos ou, mais tarde, eram submetidos ao trabalho força- do nas semiprisões chamadas ‘Casas de Trabalho’. Com isso - controlando-os até a morte - procurava-se reduzir os efeitos da multiplicação dos pobres e do crescimento da miséria. (MI- CELI, p. 06). Afora tudo isso, havia ainda as doenças, as quais acaba- vam por ajudar a equilibrar o número de bocas e o alimento escasso, as ofertas de emprego e os braços para o trabalho. Más colheitas era sinônimo de fome, a qual geralmente era seguida de epidemias. Tal realidade resultava em uma expec- tativa de vida muito curta. Em certas regiões da França, como Beauvois, em que mais de um terço das crianças morria antes de completar 1 ano de idade, apenas 58% das pessoas che- gavam aos 15 anos e a esperança média de vida era pouco superior a 20 anos. A partir do desenvolvimento do capitalismo, um novo equi- líbrio de forças sociais começa a surgir. Entre as consequências 12 História Moderna Século XVII e XVIII resultantes dessa nova realidade socioeconômica, assiste-se a violenta expulsão de milhares de camponeses de suas terras. Tal fenômeno ocorrerá principalmente na Inglaterra onde par- te da nobreza transformará suas terras em pastos para criação de ovelhas, cuja lã irá alimentar de matéria-prima e de lucros as primeiras indústrias têxteis inglesas. Trata-se do fenômeno conhecido por cercamentos (“enclousures”). O PAPEL DAS PARÓQUIAS E A POBREZA No decorrer do século XVI, a pobreza era tanta que a Monar- quia recorreu às paróquias para a base de uma organização de socorros. Se em um primeiro momento os impostos cobra- dos para ajudar os pobres era livre, conforme a disposição do contribuinte, conforme a situação se tornou mais caótica, os impostos passaram a ser obrigatórios. Cada paróquia era responsável pelos seus pobres. Assim, era proibido ao pedinte errar de aldeia em aldeia. As penas àqueles que desobede- ciam iam desde a marcação de um V no ombro com um fer- ro em brasa até a morte caso houvesse reincidência. Miceli, citando um trecho da obra História da Inglaterra de André Maurois nos coloca: Uma paróquia não permitia que se instalassem no seu terri- tório famílias indigentes cujos filhos poderiam ficar a seu cargo. Uma criança entregue a uma ama numa aldeia que não fos- se a dos seus pais era, para evitar aborrecimentos ulteriores, imediatamente recambiada pelas autoridades à paróquia de origem. ‘Assim a aldeia de cada homem transformava-se na sua prisão. (MICELI, p. 08) Capítulo 1 O Século XVII 13 A BEBIDA E A MORADIA DOS POBRES Além de servir de complemento de uma dieta insuficiente, as bebidas cumpriam com a função de ajudar os pobres a esque- cer suas mazelas do cotidiano. A água escassa e os alimentos uma raridade levavam essa massa de miseráveis a se atirarem ao consumo de bebidas alcoólicas. Quanto ao vinho, este era bebido em toda a parte, tornando-se inclusive artigo de expor- tação para a América logo nos primeiros anos de coloniza- ção. Enfim, o consumo de bebidas era tanto que a embriaguez transformou-se em outro problema público. A cerveja e a sidra também eram consumidas, ainda que em menor quantidade que o vinho, este sim, campeão das preferências. De qualquer modo, independentemente de qual bebida, o fato é que o simples hábito de beber tornou-se um grande aliado para espantar as dores e fazer esquecer a misé- ria do dia a dia, principalmente a fome. Quanto às habitações, eram, na sua maioria, muito sim- ples e de material muito frágil. No geral, eram construções de madeira, cobertas de palha, sem contar nos poucos e simples utensílios que cada habitação continha. Tão precária quanto às casas eram as roupas dos cam- poneses. Exceto as “roupas de festa”, que de tão raras eram transmitidas como herança, no geral eram bastante grosseiras, geralmente tecidas em casa. Somente com o passar dos anos surgiram as roupas de lã, abrigando assim um pouco melhor a multidão de pobres. 14 História Moderna Século XVII e XVIII Para finalizarmos este capítulo, é preciso destacar que toda essa realidade aqui descrita quanto à dura vida dos campo- neses teve como principal objetivo retratar o quadro geral e constante de miséria a que estavam submetidos os pobres, o que nos permite, em parte, compreender melhor porque as promessas de libertação puderam exercer tamanha influência ao ponto de torná-las o principal sustentáculo dos movimentos revolucionários, como, por exemplo, a Revolução Inglesa que passaremos a analisar no próximo capítulo. Revolução Inglesa: Antecedentes Regina Maria Gonçalves Curtis Capítulo 2 16 História Moderna Século XVII e XVIII Neste capítulo, procuraremos trazer para o leitor a realidade econômica e social da Inglaterra do período que antecede a Revolução Inglesa. Nosso objetivo será demonstrar que nesse país foram progressivamente surgindo as condições propícias para que ali, mais que em qualquer outra região da Europa, eclodisse um movimento revolucionário capaz de romper com as estruturas do Antigo Regime. Antes, porém, gostaríamos de destacar o papel exercido por essa Revolução para a história da civilização Ocidental. Segundo Arruda, ao constatarmos que esse processo revolucionário concretizou-se no século XVII, podemos concluir que essa foi a primeira revolução burguesa da nossa história. Inserida na “Era das Revoluções Burguesas” uma vez que, além de antecipar a Revolução Americana, e até mesmo a Revolução Francesa, acabou por definir o padrão de luta política revolucionária até o advento da “Era das Revo- luções Proletárias”. Sua importância, segundo o autor, foi ter criado as condições necessárias para a implantação do capita- lismo pleno, destravando as forças produtivas capitalistas, ace- lerando, destarte, o processo revolucionário. (ARRUDA, p. 8) Outro aspecto fundamental, levantado por Arruda, resi- de na relação por ele estabelecida entre a Revolução Ingle- sa e a Revolução Industrial. Para o autor, os dois fenômenos encontram-se tão profundamente relacionados ao ponto de podermos afirmar que uma foi condição para a outra. Desse modo, revolução sociopolítica – a Revolução Inglesa, e revo- lução econômica – a Revolução Industrial, fazem parte de um mesmo processo, o de formação e consolidação do capitalis- mo naquele país. Capítulo 2 Revolução Inglesa: Antecedentes 17 A INGLATERRA NOS SÉCULOS XVI E XVII O processo de acumulação primitiva de capital tão necessário para a Revolução Industrial se fez via circuito mercantil, o que levou os poderes públicos – o Estado Absolutista – a enfatiza- rem a primazia da circulação das mercadorias em detrimento da produção. Desse modo, por meio de uma fortíssima intervenção estatal na economia, assistia-se ao enriquecimento progressivo de uma nova classe social: a burguesia. Cabe ainda destacar que mesmo sendo a atividade mercantil o elemento dinâmico do conjunto das atividades econômicas, a estrutura econômica ain- da permanecia largamente dependente das atividades agrícolas, as quais se encontravam mais ou menos dinamizadas depen- dendo do seu grau de relacionamento com a esfera mercantil. Passemos agora a uma análise mais detalhada das prin- cipais transformações ocorridas na base agrária, na base in- dustrial e na base mercantil inglesa no decorrer dos séculos XVI e XVII. TRANSFORMAÇÕES NA BASE AGRÁRIA Segundo Arruda, podemos, resumidamente, apontar três gran- des transformações que se processaram na estrutura agrária no decorrer do século XVI: mudança nas relações senhor-servo, o confisco dos bens dos mosteiros e das Igrejas e os cercamentos. Transformações nas relações senhor-servo Quanto às mudanças nas relações senhor-servo,o autor des- taca aquela que fora fundamental para dinamizar a economia 18 História Moderna Século XVII e XVIII da época: as obrigações costumeiras e compulsórias dos ser- vos para com o seu senhor foram comutadas, isto é, transfor- madas em obrigações monetárias, permanecendo, portanto, o caráter essencialmente servil da relação. Em outros casos, a ruptura da relação resultou em novos tipos de relacionamento, como contratuais, por exemplo. Somente nas áreas em que a produção agrícola sente mais intensamente a proximidade do mercado mundial é que a estrutura da produção agríco- la tende para o arrendamento das terras a empresários que investem capital na agricultura. O autor destaca ainda que, de um modo geral, a estrutura da produção tende a autossu- ficiência. Como consequência, não se instala a divisão social da produção, uma vez que os produtores não se transformam em consumidores, o que resulta um entrave insuperável para a economia mercantil, cuja expansão se encontra limitada pela estrutura ainda feudal da economia rural. Nos pontos em que houve a interpenetração da economia agrícola e a economia mercantil, a terra passará a ser arren- dada a capitalistas. Estes irão trazer para o campo e para a agricultura o capital obtido nas cidades e o modo capitalista de produção já desenvolvido na economia urbana. Essa entrada de capitais na agricultura irá se processar inicialmente em de- terminados ramos da produção como a pecuária, fundamen- talmente a ovinocultura que tem por produto principal a lã. Para pôr fim às relações feudais, era necessário também eliminar os novos trabalhadores rurais que tendiam a apega- rem-se à terra, dedicando-se às atividades de produção mar- ginal que lhes proporcionavam a sua subsistência. Três formas foram utilizadas para eliminar esses rendeiros hereditários: ex- Capítulo 2 Revolução Inglesa: Antecedentes 19 pulsando-os de suas posses, incorporando suas terras aos do- mínios senhoriais; forçando-os a aceitar arrendamentos limi- tados em substituição às posses vitalícias e terminando com os direitos comunais dos camponeses. Por fim uma outra forma de eliminar as relações servis decorria da própria necessidade de uma aristocracia decadente economicamente que vira na libertação dos servos uma fonte de renda segura. Confisco de terras de mosteiros e das igrejas Realizada pela monarquia inglesa entre 1536 e 1539 o confisco dos bens dos mosteiros e das igrejas contribuiu significativamente no processo de transformação da estrutura agrária na Inglaterra, tendo o Estado dado e vendido a maior parte das terras expro- priadas. Beneficiaram-se deste processo os nobres e a gentry. Tal decisão do Estado que objetivava aumentar seus próprios recursos econômicos teve como principal resultado a expansão de terras disponíveis no mercado, dinamizando deste modo o processo de capitalização da agricultura inglesa. Entretanto, por outro lado acabou contribuindo para a ruptura das relações ser- vis de produção na medida em que substituiu os antigos donos por novos proprietários integrados na produção para o mercado. Cercamentos Também conhecidos por enclousures, os cercamentos contri- buíram decisivamente para o processo de transformação agrá- ria inglesa. Na Inglaterra, de um modo geral, as terras encontravam-se divididas em open fields e common lands. Os open fields eram 20 História Moderna Século XVII e XVIII campos abertos, não cercados, nos quais as propriedades se encontravam dispersas e mescladas, possuídas por proprietá- rios com títulos individuais, o que tornava impossível cercá-las. O resultado era um modo coletivo de produção agrícola, pois o cultivo era decidido em uma assembléia da paróquia ou co- munidade. Impedia-se dessa forma a divisão social da produ- ção, inibindo assim o progresso técnico. Já os common lands, consistiam em uma propriedade coletiva. Formada por terras baldias, incultas e muitas vezes de pequena fertilidade, porém era um recurso constante para as populações mais pobres que nelas tinham o direito de levar seus animais para pastar, o direito de colher lenha e cortar madeira para a construção, o direito de pescar e o direito de colher turfa para a iluminação. Serão essas as terras que serão cercadas. Ao expulsar os cam- poneses destas terras, para em seu lugar criar ovelhas e com isso fazer parte da recente indústria têxtil, os senhores estavam transformando a terra em mercadoria e criando as condições para a especialização da produção, a intensificação da divi- são social do trabalho agrícola e consequentemente a pene- tração mais intensa do capital no campo. Segundo Arruda, ao mesmo tempo em que restringia a quantidade de mão de obra necessária no campo, liberava a população rural, intensi- ficando o êxodo que, por sua vez, resulta em infinita variedade de trabalhos marginais, criando um exército de reserva, para a composição dos exércitos mercenários ou para as ativida- des manufatureiras. Como consequência, o Estado acabará tendo que intervir, pois a enorme quantidade de desemprega- dos fará com que ele tenha que coibir a vagabundagem, ao mesmo tempo que tentará frear os processos dos cercamentos que acabaram por desestabilizar a estrutura social. Assim, a Capítulo 2 Revolução Inglesa: Antecedentes 21 monarquia inglesa continuava a ser um fator impeditivo do avanço dos cercamentos, entravando, desse modo, o desen- volvimento do capitalismo na Inglaterra. Arruda identifica ainda, na estrutura agrária inglesa, duas regiões bem distintas: o sul-leste e o norte-oeste. Na região norte-oeste, predominava a estrutura social arcaica e conser- vadora, formada por grandes propriedades da monarquia, do clero-anglicano e da grande aristocracia inglesa. Com uma estrutura produtiva marcadamente feudal, cuja produção era destinada ao uso, não integrada, portanto, a economia de mercado. Já na região sul-leste, se encontravam os grandes proprietários aristocratas, a gentry, e mesmo os pequenos proprietários de terra livre ou arrendada. Estes, ao contrário, produziam para o mercado. Oriundos de diferentes estratos sociais, o que os unia era o ímpeto empreendedor: o investi- mento capitalista na agricultura. Para finalizar o quadro de alterações ocorridas na estrutura agrária da Inglaterra, cabe ressaltar a impulsão resultante do aumento acelerado dos preços ocorrida a partir da segunda metade do século XVI e início do século XVII. Como resultado, afirma Arruda: [...] as rendas fixas se desvalorizaram prejudicando a no- breza proprietária que havia arrendado suas terras a capitalis- tas por longos prazos. Inversamente, os produtores, que des- tinavam sua produção ao mercado, acumularam capitais que reinvestiram na agricultura ou aplicaram nas atividades manu- fatureiras. (ARRUDA, p. 22) 22 História Moderna Século XVII e XVIII TRANSFORMAÇÕES NA BASE INDUSTRIAL Exceto as indústrias têxtil, mineral e de construção naval, todas as demais atividades industriais em meados do século XVI na Europa eram organizadas com base no trabalho de artesãos individuais. A partir da segunda metade do século XVI, o eixo dominante da produção industrial europeia que se estendia de Flandres até a Toscana começa a deslocar-se rumos aos Esta- dos situados a noroeste da Europa, principalmente à Inglaterra. É possível se considerar que a evolução da indústria inglesa foi lenta, mas firme desde a Baixa Idade Média. Entre os sécu- los XIV e XV, assistimos a um deslocamento das indústrias em direção às zonas rurais, o que se explica em função de diversos fatores: a recessão agrícola dos séculos XIV e XV, a tendência à rápida difusão das máquinas hidráulicas e os altos salários impostos pelas corporações urbanas. Mesmo não produzindo tecidos de primeira qualidade, havia um amplo mercado con- sumidor para elas,formado, principalmente pela população de mais poder aquisitivo, assim como pela nobreza empobrecida. Principal indústria inglesa, a produção de tecidos de lã era o próprio símbolo da prosperidade industrial da Inglaterra. Quanto às formas básicas de organização social da pro- dução, podemos agrupá-la em três: o artesanato, o mestre manufatureiro e o comerciante manufatureiro. O artesanato que é constituído basicamente pela família do produtor. Nessa etapa, o artesão possui ainda todos os meios necessários à produção: a oficina, os instrumentos e a matéria prima. Independentemente, o produtor associa ao Capítulo 2 Revolução Inglesa: Antecedentes 23 mesmo tempo dois distintos modos de produção: o artesanato e agricultura, garantindo assim sua própria subsistência. Já o mestre manufatureiro surge onde quer que a amplia- ção do mercado exija o aceleramento da produção. O pro- dutor ainda se mantém proprietário dos meios de produção, porém, agora, integra mão de obra assalariada, transforman- do-se num pequeno empresário. Entretanto, a verdadeira tran- sição revolucionária, irá ocorrer somente quando esse mestre manufatureiro se transformar em empresário capitalista na maquinofatura. Quanto ao comerciante manufatureiro, este é um conhece- dor do mercado, aplicando capital mercantil nos domínios da produção industrial. Se em um primeiro momento ele contenta- -se em combinar as várias etapas da produção, remunerando o trabalho do artesão e mestres manufatureiros, permanecen- do seu capital essencialmente mercantil, em uma etapa poste- rior, irá açambarcar novos estágios da produção: a tecelagem, a fiação e a preparação da matéria-prima. Segundo Arruda: À medida que o comerciante manufatureiro domina a pro- dução, verifica-se um processo de endividamento dos produto- res independentes, que acabam por perder seus instrumentos de produção, transformando-se em simples assalariados que conservam apenas a aparência de independência, garantida por seu estilo de vida ainda rural. (ARRUDA, p. 26) Em relação aos obstáculos existentes ao desenvolvimento industrial na Inglaterra, destaca-se o papel limitador das regu- lamentações impostas pelas corporações. Regulamentando a quantidade e a qualidade dos produtos, regulamentando pre- 24 História Moderna Século XVII e XVIII ços e salários pagos aos jornaleiros (diaristas), estabelecendo normas rígidas para o acesso ao artesanato, impondo longos períodos de aprendizagem e a realização de uma obra- pri- ma, as corporações acabaram levando aos novos chegados à atividade industrial a abandonar os centros tradicionais de produção industrial. Estes terminavam por se estabelecer em novas cidades não dominadas pelas corporações, mudando- -se para os subúrbios ou ainda deslocando-se para as zonas rurais, onde encontravam certa abundância de mão de obra barata decorrente dos cercamentos. A monarquia, inglesa ao colaborar para a preservação desse tipo de estrutura produti- va, ao limitar os cercamentos, terminava por impedir o avanço da produção industrial, inibindo assim o desenvolvimento do capitalismo na Inglaterra. TRANSFORMAÇÕES NA BASE MERCANTIL Até meados do século XVI, a Inglaterra exportava basicamente matérias-primas, cereais, madeira e, em menor escala, me- tais e couro. Na segunda metade do século XVI essa estrutura mercantil irá sofrer uma transformação profunda. Enquanto as exportações de alimentos irão declinar, os tecidos irão se con- verter no seu principal produto de exportação. A partir do século XVI, decorrente de políticas protecionistas por parte do Estado inglês, bem como do papel primordial da criação das Companhias de Comércio privilegiadas, a produ- ção industrial inglesa irá expandir-se consideravelmente. Po- rém, se os monopólios comerciais e os monopólios industriais beneficiavam uma parcela reduzida da sociedade, gerando recursos para o Estado, por outro lado, acabava espoliando Capítulo 2 Revolução Inglesa: Antecedentes 25 uma larga parcela da população. Excluída dessas atividades, e pagando o ônus resultante dos monopólios, tais segmentos ficavam à margem das benesses que o capitalismo ia impondo na economia inglesa. Após detalhar a realidade da estrutura econômica da In- glaterra dos séculos XVI e XVII, passemos agora a uma descri- ção de como se encontrava organizada sua estrutura social. A ESTRUTURA SOCIAL INGLESA Arruda chama a atenção, quanto a esse aspecto, para a di- ficuldade de definirmos o caráter dessa sociedade na época Moderna. Vivendo em um período de transição entre o modo de produção feudal decadente e o modo de produção capita- lista em ascensão, essa é uma sociedade marcadamente con- traditória. Portanto, não podemos defini-la por uma simples projeção do esquema bipolar das relações de classe dominan- te no capitalismo concorrencial. Como afirma o autor: Os choques entre as três principais ordens sociais, clero, nobreza e terceiro estado, bem como os choques intraesta- mentos, eram intensos. A marca desta sociedade é a extrema segmentação social, que potencializa o conflito de classes e mascara o perfil da estrutura social. (ARRUDA, p. 34) NO CAMPO Passemos então a uma descrição das camadas rurais, uma vez que se há consenso é quanto ao caráter profundamente agrário dessa sociedade. Esta se encontrava dividida em: aris- tocracia, yeoman e a gentry. 26 História Moderna Século XVII e XVIII A aristocracia, constituída pelos nobres de sangue, irá perma- necer na dependência de suas propriedades territoriais, as quais se ampliaram seja pela compra ou usurpação das terras dos mos- teiros quando da Reforma Anglicana (1534), seja como resultado dos cercamentos. É possível se falar de uma verdadeira crise da aristocracia, decorrente do declínio de suas riquezas em relação à gentry, do declínio de seu poder em homens, armas, castelos, o declínio de sua influência eleitoral em função de convicções religiosas e políticas arraigadas, assim como de vários outros fa- tores que representam a crise desse segmento social. Entretanto, não podemos esquecer que, em determinados momentos, a aris- tocracia beneficiou-se, como no início do século XVII quando a supervalorização das terras necessariamente ampliou os recursos econômicos dessa classe possuidora de terras e rendas agríco- las. Enfim, se por um lado, a aristocracia conservadora de fato saiu prejudicada com o avanço do capitalismo, por outro lado, o segmento empreendedor dessa classe foi beneficiado com as novas impulsões advindas da dinâmica comercial. Isso é o que explica por que no decorrer do processo revolucionário inglês alguns nobres irão se posicionar ao lado do monarca absolutista, enquanto outros irão tomar posição ao lado do Parlamento, e muitos outros ainda permanecerão neutros. Na base da sociedade agrária inglesa encontravam-se os yeomen. Como afirma Arruda, [...] uma espécie de ‘classe mé- dia’ rural, extremamente numerosa, correspondendo a mais ou menos 1/6 da população inglesa nos inícios do século XVII. (ARRUDA, p. 37) Desse segmentos faziam parte os granjeiros, proprietários, lavradores, jornaleiros e até mesmo cavaleiros. Sua preocupação girava em torno da terra e dos interesses agrícolas. Sua condição variava em função do tipo de relação Capítulo 2 Revolução Inglesa: Antecedentes 27 que ela mantinha com a terra e com seus senhores imedia- tos. Podemos falar da existência dos yeomen ascendente e dos yeomen declinante. Enquanto os primeiros eram constituídos daqueles com maiores posses, e que se encontravam em um processo de ascensão pela valorização das terras e de suas produções, a yeomanry declinante mantinha uma relação pre- cária com a terra e explorava pequenas unidades agrícolas. Além disso, era pressionada pelos grandes proprietários que procuravam transformar seus direitosem arrendamentos, isso quando não era simplesmente excluída de suas posses e de seus direitos sobre as terras coletivas pelo fenômeno dos cer- camentos. Se para a yeomanry ascendente a Revolução apa- rece como uma possibilidade de ampliar suas propriedades e consolidar seus direitos sobre as posses vitalícias e hereditá- rias, para os yeomen declinantes a Revolução representava a possibilidade de garantir seus direitos de exploração feudal da terra e evitar o avanço das desapropriações. Havia ainda os camponeses sem posses ou direitos, mão de obra marginal, representada pelos cottagers e squatters. Para finalizarmos essa radiografia da estrutura social inglesa dos séculos XVI e XVII, vamos caracterizar aquela que foi con- siderada a categoria social mais difusa e complexa: a gentry. Composta por representantes das mais diferentes classes so- ciais. Se por um lado, dela faziam parte os filhos mais novos da aristocracia, dos cavalheiros, dos gentlemen, ou seja, elemento integrado em uma sociedade estratificada a partir da posição, deveres, honra e privilégios, por outro lado, havia também aqueles oriundos das franjas superiores da yeomanry, os quais avançavam no sentido de libertar-se das restantes obrigações 28 História Moderna Século XVII e XVIII feudais. Estes formavam um grupo de pequenos agricultores capitalistas que ambicionavam a ascensão econômica, aumen- tando seus lucros e propriedades. Conforme Arruda: A denominação gentry tem de ser vista, portanto, não ape- nas em relação ao conceito estático que representa, mas, prin- cipalmente, numa perspectiva do processo histórico que leve em consideração o momento dado. (ARRUDA, p. 40) Dito de outro modo, a gentry era muito mais uma ideologia em expansão que apenas uma classe de proprietários agríco- las em formação. O que lhes dava unidade era a impulsão econômica. De elevado tino empresarial, e de um estilo pró- prio de vida, definido pela moral puritana, esse grupo tinha muito mais condições de sobreviver numa época inflacionária do que a nobreza dissipadora. Enfim, podemos considerá-la como uma nova nobreza que recebia sob a forma de renda o que antes lhe era devido sob a forma de direitos feudais. Dedi- cada à venda da lã, do trigo e de outros bens, ao expulsar os pequenos camponeses e rendeiros, iniciavam assim a explora- ção direta de suas propriedades. Em relação ao padrão dos rendimentos da gentry, podemos decompô-la em duas grandes camadas: a gentry ascendente e a gentry declinante. Porém, independentemente dessas subclas- sificações, a gentry foi de fato a principal classe social no con- texto das lutas políticas do processo revolucionário, a que irá beneficiar-se das vantagens sociais e econômicas da Revolução. NA CIDADE Passemos agora a uma análise dos grupos sociais urbanos. Ape- sar de ser pequena a concentração urbana no início do século Capítulo 2 Revolução Inglesa: Antecedentes 29 XVII, irão surgir e se desenvolver nesses espaços novas categorias sociais que exercerão um papel ativo no contexto da Revolução. Ilustrando a complexidade de cada grupo social, comece- mos por destacar o papel da alta burguesia mercantil em rela- ção ao processo revolucionário. Muito próxima da monarquia por dela depender para receber seus contratos de exclusividade comercial e industrial, esse segmento da burguesia era forma- do por grandes contratadores dos monopólios cedidos ou ven- didos pela Coroa. Eram também membros das grandes com- panhias de comércio privilegiadas, aqueles que arrendavam ao estado a arrecadação dos tributos públicos. Sendo assim, fica claro que sua posição no contexto da Revolução será evidente- mente ao lado da Monarquia, da qual se beneficiavam. Abaixo, encontramos a média burguesia, formada pelos elementos das guildas mercantis que detinham o controle do comércio local. Havia ainda os mestres manufatureiros e os comerciantes manufatureiros, ambos contrários às restrições corporativas, uma vez que desejam eliminar os obstáculos à livre expansão das atividades industriais. Na base dessa sociedade, encontramos um proletariado, formado basicamente pelos jornaleiros - trabalhadores diaristas - os quais se encontravam a mercê das flutuações do mercado, ficando assim, muita vezes, desempregados. Entretanto, Arruda chama a atenção para o fato de que era muito cedo ainda para a oposição entre o capital (burguesia) e o trabalho (proletaria- do). Para ele, nesse momento, o conflito mais intenso era travado entre a oligarquia de mercadores privilegiados e os produtores, geralmente por causa da qualidade e dos preços das mercado- rias. O elevado preço dos produtos de primeira necessidade, 30 História Moderna Século XVII e XVIII devido os monopólios dos grandes mercadores, fazia com que as camadas mais pobres e menos privilegiadas se indignassem com essa realidade, levando-os a posicionarem-se contra os pri- vilegiados e à própria monarquia que os sustentavam. Para finalizarmos, vejamos como estava organizada a so- ciedade inglesa do ponto de vista geográfico. Nas regiões nor- te-oeste, preponderava o conservadorismo marcado por uma estrutura feudal de produção. Nessa região, a aristocracia e o alto clero anglicano conseguiram mobilizar seus subordinados, pertencentes às camadas mais inferiores, os yeomen, para a defesa de seus interesses e da monarquia, obtendo também o apoio da burguesia financeira. Nas regiões sul-leste, ao con- trário do conservadorismo da região que acabamos de des- crever, encontrava-se a gentry progressista, a qual mobilizou a yeomanry, os cottagers, os squatters, apoiados pela burguesia mercantil, artesãos, artífices e proletariado urbano, contando também com o segmento progressista da aristocracia integra- da nas atividades de mercado. Enfim, toda essa complexidade social nos permite afirmar que a Revolução Inglesa não apresenta uma clara divisão so- cial, conforme Arruda: Havia burgueses de ambos os lados; havia aristocracia de ambos os lados; havia yeomen de todos os lados. Mas é a gentry que dá o tônus da Revolução e seu posicionamento é claro: pelo Parlamento, contra a Monarquia. (ARRUDA, p. 44) Para Arruda, sem dúvidas, foi a gentry que não só conduziu o processo revolucionário, como também foi ela quem dele se apropriou, como podemos observar pelas transformações provocadas pela Revolução. A Revolução Inglesa Regina Maria Gonçalves Curtis Capítulo 3 32 História Moderna Século XVII e XVIII Após descrevermos a realidade socioeconômica da Inglaterra no decorrer dos séculos XVI e XVII, passaremos agora a com- preensão do contexto político que possibilitou o desencadea- mento da Revolução Inglesa, bem como de uma descrição dos principais momentos dessa Revolução. O Estado Absolutista na Inglaterra ocorreu no decorrer das dinastias Tudor e Stuart. Se é possível falarmos de uma relação harmoniosa entre os reis absolutistas e o Parlamento inglês ao longo da dinastia Tudor, o mesmo não pode ser dito nos governos da dinastia Stuart. Pelo contrário, foi durante os rei- nados dos primeiros monarcas desta dinastia que teve início uma tensão crescente entre a monarquia e o Parlamento da Inglaterra, o qual irá culminar no início do processo revolucio- nário inglês. Do ponto de vista político, podemos afirmar, segundo Arru- da, que a Revolução Inglesa representou a crise desse Estado Absolutista na Inglaterra. Para a compreensão desse fenôme- no, iremos sucintamente percorrer os reinados da dinastia Tu- dor e Stuart. A DINASTIA TUDOR Cabe lembrar que a consolidação da centralização política na Inglaterra só ocorreu após as guerras dos Cem Anos (1337- 1453) e Das Duas Rosas (1455-1485). Estas arruinaram a nobreza inglesa, possibilitando a ascensão da Dinastia Tudor (1485-1603). Foi no transcurso dessa dinastia que, com o apoioda burguesia e do parlamento, se instalou o absolutis- mo no país. Segundo Arruda: Capítulo 3 A Revolução Inglesa 33 Com as reformas administrativas da década de 1530, a burocratização do governo conseguiu dar uma continuidade gerencial ao Estado, marca distintiva dos Estados modernos, mesmo nos momentos de maior conflito social. Tais mudanças foram realizadas sob a liderança de Thomas Cromwell, veri- ficando-se então o que G. R. Elton denomina de ‘revolução administrativa’, que dá nascimento ao moderno Estado inglês. (ARRUDA, p. 48) São características dessa “revolução administrativa” ocorri- da, no decorrer da dinastia Tudor, as seguintes medidas: uma nova forma de conduzir as finanças, a centralização da admi- nistração sob a tutela do primeiro-secretário, a organização do Conselho Privado como esfera de coordenação e raciona- lização da casa real. Além disso, no plano interno, o Estado inglês passará a empreender mudanças importantíssimas no sentido da unificação do país que irão refletir o maior poder dos monarcas em detrimento da nobreza, tais como, a inte- gração das cidades inglesas, a estabilidade e a paz interna obtidas sem a manutenção de um exército permanente, o que se refletia nos impostos mais baixos e na maior disponibilidade de recursos da sociedade para os investimentos produtivos, a eliminação de pedágios, a uniformização de pesos e medidas, assim como das moedas, leis e territórios. Enfim, em outras palavras, obtinha-se, desse modo, a superação dos particula- rismos sobreviventes da Idade média, principalmente no que se refere ao poder da aristocracia. Quanto à política externa, estimulou-se o avanço sobre os impérios coloniais, sendo a Inglaterra vitoriosa sobre a “In- vencível Armada” espanhola em 1588. Nessa época, inicia-se 34 História Moderna Século XVII e XVIII a luta contra o universalismo papal, sendo a Igreja Católica derrotada quando do Ato de Supremacia (1534) o qual criou o Estado Anglicano na Inglaterra. Buscando conciliar os múl- tiplos interesses, a política governamental dos Tudors ameni- zava, assim, os conflitos sociais. De um modo geral, todos os grupos sociais beneficiaram-se dessa política. A aristocracia locupletava-se da estabilidade política e social que pusera fim nos conflitos no seio da própria elite e que, principalmente, contivera as rebeliões camponesas que vinham ameaçando até mesmo as suas propriedades. Beneficiava-se também a aristocracia do exercício de altos cargos públicos e da venda das terras confiscadas à Igreja Católica quando da Reforma Anglicana. Quanto à nobreza empobrecida, esta em dificul- dades econômicas, teve a oportunidade de refazer suas posses nos saques realizados no Novo Mundo e legitimados pelo Es- tado. Já a alta burguesia foi beneficiada pela Monarquia ao receber os monopólios e os privilégios comerciais e industriais, além da concessão de companhias privilegiadas. Artesãos e artífices podiam contar com a garantia dos privilégios corpora- tivos que ainda subsistiam. Quanto aos camponeses, era clara a posição da monarquia, através de inúmeras leis, no sentido de limitar os abusos dos cercamentos e de seus efeitos despo- voadores. Vejamos agora quais foram os monarcas que governaram no decorrer da dinastia Tudor. Henrique VII (1485-1509) foi o primeiro governante Tu- dor. A importância de seu reinado reside no fato dele ter con- seguido pacificar o país consolidando assim o Estado nacional inglês. Porém, será seu filho Henrique VIII (1509-1547) que, Capítulo 3 A Revolução Inglesa 35 sujeitando o Parlamento, dará as características absolutistas à monarquia inglesa. Ao romper com o catolicismo romano, o rei dará início ao processo que culminará na criação do An- glicanismo, a Igreja oficial da Inglaterra. Forma compósita de credo religioso, o Anglicanismo irá preservar os aspectos exter- nos do catolicismo, isto é, da hierarquia episcopal, a liturgia, integrados à teologia calvinista, assentada na doutrina da pre- destinação. Isto é, preserva-se a forma católica, assumindo-se um conteúdo calvinista. Desse modo, a igreja Anglicana aca- bou se transformando em um instrumento direto de poder do Estado, uma vez que, entre outros aspectos, o monarca passou a ser chefe de Estado e também chefe da Igreja. Seu filho e sucessor Eduardo VI (1547-1553), garantiu em seu curto reinado a reforma anglicana, porém sua irmã e sucessora Maria I (1553-1558), sendo casada com um rei católico Felipe II da Espanha, acabara por restabelecer o catolicismo na Inglaterra, perseguindo violentamente os protestantes ingleses. Porém, ao subir ao trono, Elisabeth I (1558-1603) irá retomar a política de seu pai Henrique VIII, consolidando-se assim o anglicanismo naquela nação. Durante seu governo, irá desenvolver uma agressiva políti- ca mercantilista. Essa foi a rainha responsável por eliminar a “Invencível Armada” espanhola em 1588, aumentando assim o poderio econômico inglês nos mares. Em seu reinado, tem início a colonização da América do Norte com a fundação em 1584, da colônia de Virgínia. É da sua época também o apoio ostensivo à pirataria inglesa, na qual se destacou o fa- moso corsário Francis Drake, o qual seria até mesmo tornado Cavaleiro pela rainha devido aos serviços prestados ao reino. 36 História Moderna Século XVII e XVIII Enfim, de um modo ou de outro, os monarcas dessa di- nastia procuraram dar estabilidade ao corpo social, o que, em certa medida, é possível se verificar, principalmente ao observarmos o notável desenvolvimento econômico inglês da segunda metade do século XVI e a quase inexistente oposi- ção que a monarquia encontrou no Parlamento, ainda que este raramente fosse convocado. O que mudaria então esta relação harmônica entre os monarcas da dinastia Tudor e o Parlamento. Segundo Arruda, o próprio desenvolvimento dessa atuação eficiente dos Tudor acabou por aprofundar as contradições so- ciais. Considerado o maior proprietário de terras do país, o Es- tado inglês vivia de suas rendas agrárias, mas dependia tam- bém dos impostos arrecadados sobre os proprietários rurais. Tentou-se solucionar essa contradição ampliando os impostos sobre a produção agrícola. Será justamente essa medida que irá radicalizar as posições políticas no início do século XVII du- rante os governos dos primeiros monarcas da dinastia Stuart. Cabe ainda destacar a importância do fenômeno dos cer- camentos no sentido de romper com a harmonia até então mantida entre os monarcas e o Parlamento inglês. Durante algum tempo, a aristocracia tentou reconstruir seu poder eco- nômico por meio dos cercamentos e da elevação das suas rendas, entretanto, tais medidas afetaram diretamente os cam- poneses. Assim, se fez necessário um governo central forte, capaz de reforçar politicamente o poder econômico e social da aristocracia. Tal fato, segundo Arruda, levou a monarquia absoluta a um dilema que nunca resolveu e que teria contribu- ído para a sua queda. Se deixava livre a ação da aristocracia, Capítulo 3 A Revolução Inglesa 37 tinha que enfrentar as revoltas camponesas que ameaçavam destruir a classe dominante; se colocava limites à sua ação, protegendo os camponeses, acabava enfrentando a revolta da classe dominante, que poderia pôr em perigo a própria mo- narquia. O consenso irá perdurar até a substituição dos Tudors pelos Stuarts. Conforme Arruda: Nos inícios do século XVII, era profunda a inadequação en- tre a estrutura do Estado absolutista inglês e o novo momento histórico, representado pela recomposição das forças sociais, no contexto das transformações econômicas engendradas pelo próprio Estado absolutista, na centúria anterior. (ARRUDA, p. 51) Ou ainda conforme Paulo Miceli: [...]enquanto no início do século XVI a Coroa parecia pro- teger a burguesia, isso era feito paraconseguir reforço contra as casas feudais ainda existentes, o que explica o acordo ini- cial entre a Coroa e o Parlamento – que representava princi- palmente os comerciantes e grandes proprietários de terras. Havia ainda os inimigos externos, principalmente a Espanha. Pouco a pouco, contudo, todos eles foram sendo exterminados – interna e externamente– e a lua de mel entre a monarquia e o Parlamento que sob os Tudor raramente se reunia, apro- vando sempre a política real, chegou ao fim. Os interesses opostos das duas partes vieram à tona e, quando teve início o reinado da dinastia Stuart, Jaime I (1603-1625) e Carlos I (1625-1649) tiveram de enfrentar a forte oposição do Parla- mento. (MICELI, p. 29) Em 1603, encerrou-se a dinastia Tudor com a morte de Elisabeth I, que não deixara herdeiros. Por razões de paren- 38 História Moderna Século XVII e XVIII tesco, o trono passou para o rei da Escócia, Jaime I, que deu início a dinastia Stuart. Os Tudors deixavam um país com a autoridade real consolidada, porém em acordo com o Parla- mento. Este, especialmente fortalecido com os favorecimentos realizados para com a pequena nobreza e os comerciantes. Grande parte dos novos grupos emergentes da sociedade in- glesa, dinamizados pela política mercantilista, pelo comércio, pelos cercamentos e pela atividade corsária foram elevados aos altos postos governamentais, como o Conselho Privado, tribunais e outros cargos. Desse modo, estes grupos deram início a um processo de ampliação de prestígio e busca de maiores espaços políticos no Estado inglês. De um modo ge- ral, esses grupos se identificaram com o puritanismo – como eram chamados os calvinistas da Inglaterra- imbuídos de uma visão religiosa e política mais sintonizada com os seus anseios e atividades. Ao contrário, a tradicional aristocracia apegava- -se fortemente ao anglicanismo e até ao catolicismo, o qual fora desbancado pelo Ato de Supremacia de Henrique VIII que havia criado a Igreja Anglicana. Essas forças sócio-políticas irão criar sérias turbulências, enfrentando-se ferrenhamente no decorrer da dinastia Stuart. A DINASTIA STUART E O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO Jaime I (1603-1625), ao assumir, irá governar a partir do aparelho do Estado montado pelos Tudors. O rei será asses- sorado pelo Conselho Privado, composto por nobres de sua confiança. Quanto às questões judiciárias laicas, relativas à alta traição e outros problemas não especificados pelo Direito Capítulo 3 A Revolução Inglesa 39 Comum serão julgadas pela Câmara Estrelada, a secção judi- ciária do Conselho. A política religiosa será exercida pelo ar- cebispo Laud e pelos tribunais eclesiásticos responsáveis pelas questões relacionadas à religião, à disciplina social e à sub- versão, temas enquadrados geralmente por meio da repressão religiosa. Esses eram os tribunais da corte de Alta Comissão. O Parlamento encontrava-se dividido na Câmara dos Lordes, composta pelos nobres, e pela Câmara Comum, composta por proprietários rurais, mesmo que de origem burguesa, elei- tos nos vários condados ingleses. Segundo Arruda, o ponto vital do relacionamento Rei-Par- lamento era a sustentação financeira do Estado. De modo a tentar solucionar seus problemas financeiros os monarcas des- sa dinastia tentaram as seguintes medidas: a elevação dos im- postos alfandegários, a criação de monopólios sobre produtos estratégicos e de largo consumo e a tentativa de aumentar os rendimentos pela restauração ou aumento de impostos prove- nientes de direitos feudais da Coroa. Jaime I, após unir a Inglaterra à Escócia, sua terra natal, irá se aliar aos grandes nobres, descontentando a burguesia e o Parlamento que o consideravam estrangeiro. De modo a garantir-se no trono, o rei irá vender inúmeros títulos de nobre- za e promover a adoção rigorosa do anglicanismo. Para tanto, dará início a violentas perseguições aos católicos e aos purita- nos calvinistas. Esse é o momento em que inúmeros puritanos, perseguidos pela política-religiosa de Jaime I irão se dirigir para a América, dando início de fato à colonização inglesa. Os primeiros embarcaram no navio Mayflower e fundaram Ply- mouth, a primeira colônia de povoamento puritana da região 40 História Moderna Século XVII e XVIII que seria conhecida como Nova Inglaterra, no nordeste da América do Norte. Inúmeros serão os conflitos que irão colocar em campos opostos o rei e o Parlamento. Porém, será a partir de 1610 que os antagonismos irão se acelerar. Ao tentar ampliar e consoli- dar suas rendas, a Coroa irá oferecer ao Parlamento o Grande Contrato. Através deste, a Coroa abdicava de seus direitos feudais, sobre as propriedades, em troca de uma dotação anual, havendo discordância quanto ao valor a ser creditado a favor do Rei. Em 1616, surge um novo atrito, era o Projeto Cockayne, por meio do qual a indústria de tecidos ficava sob o controle real, transformando-se esse monopólio em uma im- portantíssima fonte de renda para o Estado. O projeto acabou fracassando ao sofrer a oposição da burguesia mercantil que o boicotou. Em 1625, assume Carlos I (1625-16490) tentando re- forçar o absolutismo estabelecendo novos impostos sem a aprovação do Parlamento, o que irá agravar a tensão entre os deputados e a Coroa. Em 1628, Carlos I está em guerra contra a França, vendo-se na contingência de convocar o Par- lamento. Pelo condado de Cambridge, foi eleito um cidadão com fama de incorruptível, Oliver Cromwell. Cansados de se- rem manipulados, os deputados do Parlamento irão sujeitar o rei ao juramento da “Petição de Direitos”, também chamada de Segunda Carta Magna inglesa. A partir desse documento, o Parlamento exigia o controle do exército, isto é, de sua con- vocação e dispensa, e da política tributária. Mesmo relutante, Carlos I assina a petição, esperando que o Parlamento apro- Capítulo 3 A Revolução Inglesa 41 vasse os impostos sobre o comércio da lã e do couro, tradi- cionalmente aprovados pelo Parlamento até o fim do reinado, sendo, portanto, vitalícios. Porém, o Parlamento, acreditando que seria uma forma de obrigar o rei a convocá-lo sistematica- mente, recusou-se a aprovar rendas fixas e vitalícias, esperan- do que a cada momento em que elas se fizessem necessárias, novamente, o Parlamento teria de ser convocado. Por fim, o rei dissolve o Parlamento e volta a convocá-lo somente 11 de- pois em 1640. Várias forças sociais, exceto os beneficiados da política de Carlos I, vão se colocando contra o rei. A oposição começa a organizar-se em torno de um grupo de famílias de proprietários de terras, muito bem representados no Parlamen- to. Esse grupo vai declarar guerra aberta à Coroa, recusando- -se a pagar o imposto marítimo que havia sido imposto pela Coroa, por considerá-lo uma espécie de pirataria legalizada. Daí em diante, até 1640, generaliza-se a recusa ao pagamen- to de impostos. Para piorar a situação, da Escócia viria outro golpe. Ao tentar impor o ritual anglicano à calvinista Escócia, Carlos I sofrerá a invasão de um exército escocês no norte da In- glaterra. O exército enviado pelo rei acabou se unindo aos insurrectos e reclamando o pagamento de seus soldos. Não restava alternativa ao rei a não ser convocar o Parlamento. Três semanas após, o Parlamento foi dissolvido, é o chamado Parlamento Curto. Em seguida é reunido o Parlamento Lon- go, que com algumas depurações irá permanecer até 1653. Tinha início a primeira etapa da Revolução Inglesa: a Revo- lução Puritana. 42 História Moderna Século XVII e XVIII A REVOLUÇÃO PURITANA (1641-1649) Segundo Arruda, essa fase revolucionária apresenta três mo- mentos bem demarcados: 1640-1642, da primeira reunião do Longo Parlamento até a eclosão da guerra civil; 1642-1649, correspondendo aos anos da guerra civil até a decapitação de Carlos I; 1649-1653,da morte de Carlos I, passando pelas convulsões políticas do exército, até o protetorado de Cromwell. PRIMEIRO MOMENTO Várias medidas foram tomadas pelo Parlamento que coloca- ram por terra o Antigo Regime. Abolindo a Câmara Estrelada e a Corte de Alta Comissão, perseguindo os assessores mais importantes do rei, como Laud, que fora aprisionado, e o Du- que de Strafford, que fora morto; destruía-se a máquina buro- crática que sustentava o Estado. Proibiu-se o rei de manter um exército permanente; a política tributária passou para o con- trole do Parlamento, este teria que ser convocado regularmen- te, no mínimo de três em três anos, caso contrário, o mesmo se autoconvocaria. Entretanto, sentindo-se ameaçados pela política dos líderes da Câmara dos Comuns, a maior parte da aristocracia e da pequena e média nobreza conservadora acabou voltando a apoiar o rei. A divisão dos membros do Parlamento acabou culminando com a eclosão da guerra revolucionária dando início ao se- gundo momento. Capítulo 3 A Revolução Inglesa 43 SEGUNDO MOMENTO Esse momento corresponde à guerra civil, quando, de um lado, defrontaram-se os realistas, também denominados de cavalei- ros e, de outro, os puritanos, também conhecidos por cabeças redondas, em função do cabelo rente que usavam, em opo- sição aos cabelos longos dos membros da corte. Enquanto os cavaleiros eram os partidários do rei, que contavam com o apoio dos latifundiários, dos católicos e dos anglicanos; os cabeças redondas eram os defensores do Parlamento, purita- nos, liderados por Oliver Cromwell. No início do confronto, as milícias arregimentadas pelo Parlamento se deram mal, pouco adestradas no uso das armas, não eram tropas profissionais como os cavaleiros, estes sim, guerreiros profissionais. Entre- tanto, Cromwell conseguiu com o seu Novo Exército Modelo ser vitorioso nas batalhas que se seguiram, Este fora consti- tuído de forma revolucionária ao estabelecer a meritocracia como caminho para a ascensão na hierarquia militar, e não por nascimento como era no exército realista. Segundo Chris- topher Hill, historiador inglês dedicado ao estudo da Revolu- ção Inglesa, as lutas do Parlamento foram ganhas devido à disciplina, unidade e elevada consciência política das massas organizadas no Novo Exército Modelo. No ano de 1646, uma onda democratizante varreu o exér- cito. Trata-se dos Levellers (Niveladores), assim denominados porque alguns de seus líderes defendiam a igualdade de pro- priedade. Estes deram início à agitação, recusando-se a des- mobilizar o exército até verem atendidas suas reivindicações. O exército passa a ser um poder rival do Parlamento. Em 1647, o rei é preso e os Niveladores tentam assumir o controle do Exér- 44 História Moderna Século XVII e XVIII cito, porém acabam vendo o seu golpe ser frustrado pela ação dos Grandes do exército. O rei, aproveitando-se da divisão no exército, foge da prisão e reorganiza a contrarrevolução. Foi o suficiente para que o exército voltasse a se unificar sob a liderança de Cromwell. Vitorioso contra os realistas, Cromwell realizará o expurgo do Parlamento de todos os membros que ainda se mantinham fiéis ao rei. Receoso do retorno da mo- narquia o Exército força o julgamento e a condenação do rei pelo Parlamento depurado. Em janeiro de 1649, Carlos I foi decapitado, e no mês seguinte a Câmara dos Lordes foi abo- lida. Em maio do mesmo ano, a República foi proclamada, iniciando assim o terceiro momento. TERCEIRO MOMENTO Esse é um período da Revolução Inglesa marcado pelas agi- tações políticas e sociais. A República encontra-se ameaçada por todos os lados. Na Irlanda, começa uma rebelião contra os ingleses. Os realistas emigrados conspiram na Escócia e Holanda. No interior do próprio exército, os Niveladores re- belam-se pretendendo aprofundar a Revolução com medidas que ameaçariam interesses ligados à propriedade privada. Tal ameaça foi eliminada pela ação de Cromwell conduzida pe- los Grandes do exército, findava-se assim o movimento mais democrático gerado pela Revolução Inglesa. Além da tentativa frustrada dos Niveladores, a Inglaterra foi palco também do movimento dos Escavadores (Diggers), que por meio de uma ação direta e pacífica, tentaram chegar a uma forma de co- munismo agrário. Entretanto, todas as tentativas dos Diggers de alcançar seus objetivos também foram fracassadas, o que Capítulo 3 A Revolução Inglesa 45 evidencia o caráter burguês do processo revolucionário. Con- forme Miceli: Exterminados os Niveladores e silenciados os Diggers, a re- volução afastou-se definitivamente das forças populares. De- pois disso, pouco importava a restauração da monarquia, pois os futuros reis e a nobreza dificilmente se esqueceriam de que a burguesia não abriria mão de suas conquistas. (MICELI, p. 38) Em 1650, o filho de Carlos I auxiliado pelo exército esco- cês tenta acabar com a Revolução, porém será vencido por Cromwell no ano seguinte. No ano de 1653, é dissolvido o Longo Parlamento, constituindo-se uma Assembleia composta pelos partidários de Cromwell com a tarefa de elaborar uma nova Constituição, dando a este o título de Lorde Protetor. En- tre 1653 e 1658, por pressão dos grandes comerciantes de Londres, o exército é desmobilizado, pois, além de muito one- roso, encontrava-se demasiadamente politizado. Em 1657, um novo Parlamento foi convocado e uma Cons- tituição determinou a substituição do Conselho do Exército por um Conselho do Parlamento que iria controlar as finanças do exército e submeteu o próprio Lorde Protetor, o qual recusou a possibilidade de se tornar rei. Com a morte de Cromwell em 1658, assume Ricardo Cromwell, o qual, após 18 meses no poder, será alvo de uma revolta palaciana auxiliada pelo exército e pelo Parlamento. Assim, em 1660, o Parlamento depurado colocou no trono o inglês Carlos II que governou por 18 anos com o mesmo Parla- mento, submetendo-se a todas as imposições. Entretanto, seu irmão Jaime II não manteve o mesmo comportamento. Pelo 46 História Moderna Século XVII e XVIII contrário, ao tentar reeditar o comportamento absolutista de seu pai, favorecendo os católicos, apoiando a reconstituição dos bens da aristocracia, acabou afastado por um novo golpe de Estado tramado no próprio Palácio. Tratava-se da denomi- nada Revolução Gloriosa, assim denominada por sua nature- za pacífica, sem radicalizações extremistas e democratizantes que haviam marcado a etapa anterior: a Revolução Puritana. O trono fora oferecido a Guilherme de Orange, protestante, casado com uma das filhas do primeiro casamento de Jaime II e chefe de estado da Holanda. Após invadir a Inglaterra e ex- pulsar Jaime II, o novo rei agora com o título de Guilherme III jurou o Bill of Rigths (Declaração de Direitos) que estabelecia as bases da monarquia parlamentar, ou seja, a superioridade da autoridade do Parlamento sobre a do rei. Enfim, as decisões tomadas com a Revolução Gloriosa consolidavam a substituição da monarquia absolutista pela monarquia parlamentar constitucional. Podemos afirmar, por- tanto, que a Revolução Inglesa teve para esta nação, o mesmo papel que, para a França, teve a Revolução Francesa de 1789. Derrubando o Estado absolutista, criou as condições políticas necessárias à burguesia, que, ao estabelecer um Estado bur- guês, estabelecia as condições favoráveis para a posterior eclosão da Revolução Industrial. Antecedentes da Revolução Industrial Victor Lourenço dos Santos Júnior Capítulo 4 48 História Moderna Século XVII e XVIII Para uma visão geral dos conteúdos abordados, faremos um apanhado das principais linhas de argumentação, realçando algumas continuidades e chamando atenção para as rupturas. Inicialmente, destaca-se o prolongamento de uma transforma- ção profunda na maneira de concebero homem e a natureza. Segundo Falcon e Rodrigues, no século XVIII, foi o momen- to em que ganharam consistência novos modos de pensar o homem e o mundo, funcionando como momento de síntese de mudanças já anunciadas pela secularização da igreja, em especial as reformas religiosas, o rompimento com a tutela te- ológica no que diz respeito à natureza por meio da revolução cartesiana [no modo de pensar] e das transformações cientí- ficas. Os autores afirmam que, ao lado dessa ruptura com a tutela religiosa, desenvolveu-se uma forte tendência de expli- cação do que era o desenrolar da vida social e o entendimen- to da ação das virtudes humanas, decorrentes do exercício da razão (influência do Iluminismo). “A primazia da razão elegeu o homem e suas virtudes como responsáveis pelo progresso material e técnico, e pela descoberta de que essa nova experi- ência só pode alcançar seus objetivos se a liberdade de viver e de pensar for o leito do novo caminho” (2006, p. 205). A associação entre a ideia de razão e liberdade foi a ima- gem que ficou do século XVIII, o Século das Luzes, o qual inaugurou uma nova forma de ver a humanidade, em que a igualdade foi a mestra e referência para todas as críticas ao domínio aristocrático nas sociedades do Antigo Regime. No capítulo específico sobre o Iluminismo, veremos como os mo- vimentos sociais se associaram com pensadores protagonistas da revolução intelectual. Ao final deste estudo, será possível ver como o conjunto dos fatores políticos e sociais foram alte- Capítulo 4 Antecedentes da Revolução Industrial 49 rados para dar sustentação ao novo modo de produção, ao mundo Moderno do ponto de vista econômico e de como a ciência esteve diretamente envolvida com todas as transforma- ções antes, durante e depois da Revolução Industrial. Nesta primeira parte, teremos as linhas de continuidade que ligam esses eventos aos seus antecedentes, especialmente o Huma- nismo e o Renascimento Cultural. As Cidades É importante perceber como o desenvolvimento das cidades afetou esse processo. Segundo Falcon, as cidades foram o pal- co dessas transformações, o lugar em que as Luzes podiam se expandir e se consagrar na forma de movimentos intelectuais. Em oposição ao campo, a cidade passou a ser o espaço das novidades, em que os novos valores se anunciavam e eram di- vulgados, transformando-se em ideais burgueses, em novas vi- sões de mundo. O passo seguinte foi a tomada de consciência política por parte da nova classe social, os burgueses. A nova sociedade, com novas virtudes e o conhecimento, acabou ge- rando novas formas de sociabilidade, não mais determinadas pela hierarquia de nascimento. Nesse momento, as teorias sobre o progresso material, técnico e intelectual assumiram importância decisiva para que esses novos empreendedores entendessem que a sua história seria o resultado de sua cons- trução do futuro no presente e que o progresso era aquilo que movia o aperfeiçoamento da razão humana. A natureza foi transformada pela ação do trabalho humano e ganhou uma nova qualificação, como objetivo a ser conquistado e como portadora da abundância. 50 História Moderna Século XVII e XVIII Antecedentes De acordo com o historiador E.M. Burns, a Revolução Comer- cial foi um dos desenvolvimentos mais significativos da história do mundo ocidental. Ele afirma que todo o conjunto da vida econômica moderna teria sido impossível sem essa revolução, pois foi ela que deslocou as bases do comércio do plano lo- cal e regional, na Idade Média, para a escala mundial. Além disso, exaltou o comércio com finalidade lucrativa, santificou a acumulação de riqueza e estabeleceu a concorrência como base da produção e do comércio. Em suma, deve-se atribuir à Revolução Comercial quase todos os elementos que vieram a constituir o regime capitalista, sobretudo seus princípios. Burns entende que a revolução comercial estimulou os primeiros sur- tos de especulação, desencadeando o crescimento das ativi- dades econômicas. Como vimos no capítulo sobre a Expansão Marítima, o afluxo de metais preciosos, a elevação de preços e o encarecimento da vida em geral fomentaram um espírito especulativo nos negócios, o que seria impensável dentro da concepção estática, em matéria de funcionamento da econo- mia, que havia predominado na Idade Média. Pois é dentro desse marco histórico e conceitual que se formou uma nova mentalidade, marcada pelo individualismo. A expansão dos negócios fez os homens pensarem que pode- riam fazer fortuna do dia para a noite. Assim, projetaram-se inúmeras empresas para toda espécie de finalidades, mesmo as mais absurdas, como tornar doce a água salgada ou cons- truir o moto-contínuo. Entre outros resultados dessa revolu- ção, lembra Burns, pode-se citar a ascensão da burguesia ao poder econômico, o início da europeização do mundo e a Capítulo 4 Antecedentes da Revolução Industrial 51 retomada da escravidão. No final do século XVII, a burguesia havia se tornado a classe dominante em quase todos os países da Europa ocidental. Dela faziam parte os comerciantes, os banqueiros, os proprietários de navios, os principais acionistas e os empresários das indústrias nascentes. Essa ascensão ao poder deveu-se ao aumento da riqueza dessa nova classe e à tendência de se aliarem aos reis contra os remanescentes da aristocracia feudal, o que põe em evidência seu caráter político. Contudo, somente no século XIX é que o poder políti- co da burguesia se tornou uma realidade. Conforme Burns, o que se chama de europeização do mundo deve ser entendido como a transposição dos hábitos e da cultura europeia para os outros continentes. Como resultado do trabalho de comer- ciantes, missionários e colonos, a América do Norte e a do Sul assumiram a feição de apêndices da Europa. Mas o resultado mais deplorável dessa expansão comercial sem precedentes foi o restabelecimento da escravidão. Conforme o historiador, por volta do ano 1.000, a escravidão havia praticamente de- saparecido na Europa, mas o crescimento da mineração e das fazendas de plantação extensiva nas colônias inglesas, espa- nholas e portuguesas provocou enorme procura de trabalha- dores não especializados. No princípio, tentaram escravizar os indígenas, porém a falta de mão de obra só foi solucionada, mais tarde, com a “importação” de negros africanos. Por 200 anos ou mais, a escravidão foi parte integrante do sistema colonial europeu. Tendo relembrado esses detalhes cruciais, podemos afir- mar agora, distanciados no tempo, que a revolução comercial teve grande importância ao preparar o caminho da Revolu- ção Industrial e, ao mesmo tempo, da Revolução Científica. 52 História Moderna Século XVII e XVIII As razões para tal podem ser identificadas, em primeiro lugar, na criação de uma classe de capitalistas que passaram a bus- car novas oportunidades para empregar os lucros excedentes. Em segundo lugar, a política mercantilista protegia a indústria nascente e a produção de mercadorias para exportação, o que forneceu poderoso impulso ao desenvolvimento das ma- nufaturas. Em terceiro lugar, a expansão dos impérios colo- niais inundou a Europa de novas matérias-primas e aumentou em muito o suprimento de certos produtos até então raros. A maior parte desses novos produtos precisava ser manufaturada antes de ser oferecida aos consumidores. Em consequência, surgiram novas indústrias livres de qualquer regulamentação corporativa. O exemplo mais contundente veio da manufatura de tecidos de algodão, que foi a primeira indústria a ser me- canizada. Por fim, após a revolução comercial, passou-se a adotar os métodos fabris em certos ramos da produção, junto aos aperfeiçoamentos técnicos, como a invenção da roda de fiar, do tear para fazer meia e mesmo o descobrimento de um processo mais eficiente para extraçãode prata. Portanto, não é difícil perceber a conexão entre tais fatos e os progressos verificados na Revolução Industrial. Para concluir a passagem dos antecedentes, devemos rever outro fato importante, igualmente conectado com os anterio- res: a revolução agrícola. Conforme Burns, as profundas mu- danças ocorridas na agricultura durante os séculos XVII e XVIII podem ser consideradas como efeitos da revolução comercial. A elevação de preços dos produtos agrícolas e aumento da população urbana tornaram a agricultura um negócio lucra- tivo, o que favoreceu sua absorção pelo modo de produzir capitalista. Além disso, o desenvolvimento da indústria da lã Capítulo 4 Antecedentes da Revolução Industrial 53 na Inglaterra levou muitos proprietários rurais a substituírem o cultivo do solo pelas atividades de pastoreio. Outra causa apontada por Burns, mesmo sem relação direta com o co- mércio, foi a escassez de mão de obra devido à peste negra e à evasão dos camponeses para as cidades e vilas a fim de aproveitarem as oportunidades de uma vida melhor, geradas pelo restabelecimento do comércio com o Oriente Próximo. A emergência do trabalho livre e o enfraquecimento dos antigos senhores feudais solaparam a estrutura do Antigo Regime, e isso foi determinante. A soma desses fatores resultou na des- truição do sistema senhorial e o surgimento de uma agricultura erigida sobre bases semelhantes às modernas. Tal transforma- ção foi mais completa na Inglaterra, embora também tenha se estabelecido em outros países. A multiplicação da força de trabalho Conforme Vicentino o processo de desenvolvimento do modo de produção capitalista, intensificado pela Revolução Comer- cial entre os séculos XVI e XVII, estava restrito à circulação de mercadorias. A partir da segunda metade do século XVIII, iniciou-se a mecanização industrial. Com isso, o processo de acumulação primitiva de capital passou a concentrar mais ca- pitais no setor da produção. Esse fato trouxe grandes mudan- ças, tanto de ordem econômica quanto social, porque leva- ram ao desaparecimento dos restos do sistema feudal. A essa etapa convencionou-se chamar Revolução Industrial. Não por acaso, o início dessa revolução aconteceu na Inglaterra, o país que mais acumulou capitais durante a fase do capitalismo co- mercial. Graças ao seu poderio naval e comercial, os ingleses 54 História Moderna Século XVII e XVIII conseguiram construir um dos maiores impérios coloniais da época. Essa hegemonia começou com a vitória inglesa con- tra a Invencível Armada espanhola, em 1588, seguida dos Atos de Navegação, de 1651, que atingiram especialmen- te a Holanda, até então a maior rival dos ingleses. Depois, com o Tratado de Methuen, de 1703, assinado com Portugal, abriram-se os mercados portugueses e coloniais aos produtos manufaturados ingleses. Com o final favorável na Guerra dos Sete Anos (1756 a 1763), os ingleses subjugaram a França, o último grande concorrente no continente europeu. No plano interno, as transformações podem ser identifica- das na economia inglesa com a implantação de um poderoso sistema bancário em conexão com a revolução agrícola. O Banco da Inglaterra e a Companhia das Índias Ocidentais fo- mentaram as relações coloniais, estimulando a produção de algodão, matéria-prima básica nesse processo histórico que chamamos Revolução Industrial. Pois foi exatamente a meca- nização da indústria têxtil que deu o impulso decisivo para esta revolução, sempre com o respaldo das instituições finan- ceiras. Nesse ponto, faz-se necessário apontar a conexão des- ses eventos com a Revolução científica e Intelectual. Conforme Francisco Iglesias (citado por Vicentino), “a contar do século XVI multiplicaram-se os nomes dos fi- lósofos e cientistas, com o culto da natureza, da experiência e da mecânica. Ganha impulso o ensino técnico e revê-se o culto dogmático da tradição, com o reexame do que fora dito pelos filósofos. Agora é a experiência que dá sentido científico ao estudo e às inquietações. As técnicas, sua feição mecânica, passam a ser consideradas. Surge então a ciência Moderna, Capítulo 4 Antecedentes da Revolução Industrial 55 antidogmática, fundada no experimentalismo. Essa mudança de mentalidade representa a transformação intelectual e cria o clima de crítica sistemática e, entre muitos de seus efeitos, assinala-se o interesse pela indústria.” (p. 285) Para concluir o quadro geral das condições fundamentais que levaram ao surto de desenvolvimento industrial, é preciso levar em conta ainda os fatores políticos favoráveis. A Revo- lução Gloriosa sepultou o Absolutismo inglês aos estabelecer a supremacia do Parlamento e ao constituir o Estado Liberal, considerados então pré-requisitos para a plenitude do sistema capitalista. Até a aristocracia, por não dispor das facilidades dos franceses, acabou por simpatizar com as atividades co- merciais e industriais, integrando-se a elas muitas vezes. Por último, assinala Vicentino, a Inglaterra contava com abundân- cia do minério de ferro e carvão, que eram as matérias-primas essenciais para a construção e o bom funcionamento das má- quinas e para a produção de energia a vapor. Outro ponto de vista para situar os eventos da Revolução Industrial pode ser encontrado no livro de Burns, no qual ele afirma que a revolução comercial não foi mais que o pon- to de partida para rápidas e decisivas mudanças no campo econômico. A Revolução Industrial veio em seguida não só ampliando a esfera dos grandes empreendimentos comerciais, mas ainda se estendeu aos domínios da produção. Burns su- gere uma fórmula sintética para caracterizar todas as etapas da revolução. “Pode-se dizer que a Revolução Industrial com- preendeu: 1. a mecanização da indústria e da agricultura; 2. a ampliação da força motriz à indústria; 3. o desenvolvimento do sistema fabril; 4. um sensacional aceleramento dos trans- 56 História Moderna Século XVII e XVIII portes e das comunicações; e 5. um considerável acréscimo do controle capitalista sobre todos os ramos da de atividade econômica.” Conforme Burns, vol 2, p. 661. Para os fins deste trabalho, vamos seguir inicialmente a pe- riodização tradicional, considerando que a Revolução Indus- trial já havia dado seus primeiros passos um século antes e que só adquiriu seu ímpeto máximo na virada para o século XIX. Muitos historiadores dividem o movimento em duas grandes fases, servindo o ano de 1860 como marco divisório. O pe- ríodo posterior a 1860, até nossos dias, é denominado como Segunda Revolução Industrial. No que diz respeito às causas mais específicas dessa revolução, algumas delas mais antigas do que se costuma supor, devemos considerar em primeiro lugar os aperfeiçoamentos de ordem técnica. As maravilhosas invenções dos fins do século XVIII não nasceram completas. Segundo defende o autor, ao contrário, já desde algum tempo havia um interesse mais ou menos fecundo pelas inovações mecânicas. “O período da revolução comercial presenciou a invenção do relógio de pêndulo, do termômetro, da bomba aspirante, da roda de fiar e do tear para tecer meias, sem mencionar os melhoramentos introduzidos na técnica de fundir minérios e na obtenção do bronze. Cerca de 1580 foi inventado um tear mecânico que fazia fitas, sendo capaz de tramar vários fios ao mesmo tempo. Houve importantes progressos técnicos em outras indústrias, como a de vidraria, relojoaria, aparelhos em madeira e construção naval. Várias dessas primeiras invenções tornavam necessária a adoção de métodos fabris. Por exemplo, havia uma máquina italiana para trabalhar sêda bruta, por vol- Capítulo 4 Antecedentes da Revolução Industrial 57 ta de 1500, que precisava ser instalada numa grande constru- ção e exigia uma turma considerável de trabalhadores. Ainda em 1738 se registravamo uso de enormes martelos hidráulicos para fundir o cobre. Estes melhoramentos técnicos iniciais mal podem ser comparados com o que veio depois, mas mostram que a era da máquina não surgiu de um dia para o outro”. (Burns, p. 662) Outras causas da Revolução Industrial podem ser encon- tradas como consequências diretas da Revolução Comercial, especialmente quanto ao surto de empreendedorismo dos no- vos capitalistas que procuravam constantemente novas opor- tunidades de investimento para seu excesso de riqueza. No começo, os excedentes eram absorvidos pelo comércio, pela mineração, pela especulação bancária e pela construção na- val, mas, com o passar do tempo, as oportunidades ficaram limitadas. Por isso, havia uma disponibilidade crescente de ca- pitais para o desenvolvimento das manufaturas, sobretudo na Inglaterra, como assinalamos. Burns entende que dificilmente teria ocorrido um desenvolvimento tão rápido se não houves- se uma procura cada vez maior por produtos industriais. A expansão da demanda pode ser atribuída em grande parte à fundação dos impérios coloniais ultramarinos e ao acentuado crescimento da população europeia. Na Inglaterra, o número de habitantes passou de quatro milhões, em 1600, a seis mi- lhões, em 1700, e a nove milhões no fim do século XVIII. Já a população da França elevou-se de 17 milhões, em 1700, para 26 milhões cerca de 100 mais tarde. Por fim, ao lado desses fatores quantitativos e de ordem técnica, um último fator aju- da a explicar a Revolução Industrial: a doutrina Mercantilista. Entre outras coisas, conforme vimos no capítulo específico, o 58 História Moderna Século XVII e XVIII Mercantilismo estimulava o aumento das atividades comer- ciais, especialmente os manufaturados de exportação, porque esses asseguravam uma balança comercial favorável. Sendo preciso apontar um fato, ou uma sequência de fa- tos, que deu origem a todo o processo, temos que repassar o trabalho de Burns. Ele afirma que, a despeito da importância das outras causas da Revolução Industrial, ela não teria ocor- rido se não fosse a necessidade de melhoramentos mecânicos fundamentais para certos campos de produção. Por volta do ano 1700, a procura de carvão para as fundi- ções de ferro havia exaurido de tal modo as reservas de lenha que vários países da Europa Ocidental se viram ameaçados pelo desflorestamento. Uma solução parcial foi encontrada anos depois por Abraham Darby, em 1709, ao descobrir que o minério de coque podia ser utilizado na fundição, mas, para se obter o coque necessário, era preciso minerar carvão em quantidade muito maior do que até então se fazia. Como o principal obstáculo à extração fosse a acumulação de água nas minas, a necessidade do novo combustível levou à procu- ra de uma fonte de energia capaz de acionar as bombas. Os vários experimentos relacionados a essa pesquisa resultaram na invenção da máquina a vapor. Outra necessidade premen- te de mecanização existia na indústria têxtil. Com a crescen- te procura por tecidos de algodão nos séculos XVII e XVIII, tornou-se impossível fornecer o fio necessário com as rodas de fiar primitivas ainda em uso. Mesmo depois de empregar toda a mão de obra disponível, incluindo mulheres e crianças, a procura não foi satisfeita. Na Alemanha, até os soldados no quartel eram postos a fiar algodão. Como a necessidade Capítulo 4 Antecedentes da Revolução Industrial 59 era cada vez maior, as sociedades científicas e as empresas industriais ofereceram prêmios a quem apresentasse métodos aperfeiçoando a fiação. Em 1760, a English Society of Arts ins- tituiu um desses prêmios para a máquina que capacitasse uma pessoa a fiar seis fios simultaneamente. O resultado de todos esses esforços foi o desenvolvimento da máquina de fiar e do tear hidráulico, precursores de uma série de inventos. Como ficasse demonstrada a viabilidade de tais máquinas, a mecani- zação não podia deixar de ser levada às demais manufaturas. Desdobramentos e Implicações da Revolução Industrial Victor Lourenço dos Santos Júnior Capítulo 5 Capítulo 5 Desdobramentos e Implicações da Revolução Industrial 61 A mecanização dos processos de fabricação trouxe profundas consequências para o mundo. Para alguns pesquisadores, o início do sistema fabril não se deveu a inovações tecnológicas. O que determinou a reunião de artesãos em um mesmo espa- ço – a fábrica – foi a necessidade de o comerciante controlá- -los, impor-lhes um ritmo de trabalho e retirar-lhes seu saber técnico, sua criatividade individual. É preciso considerar que está em curso uma transição do modo feudal para o modo capitalista, impulsionado por uma nova visão de mundo. A grande novidade do sistema fabril não se refere apenas às invenções, mas sobretudo à perda do controle do processo de produção pelo trabalhador. Nesse aspecto, as análises de Karl Marx são uma referência obrigatória. Com o advento do sistema fabril na Revolução Industrial, o próprio significado da palavra trabalho passou a ser difun- dido com valor positivo. Até a Idade Média, o trabalho estava associado á dor e à pobreza. Além do controle do processo produtivo no interior da fábrica, os valores capitalistas pas- saram a ser disseminados fora do espaço fabril, antecipando uma nova mentalidade para as sociedades europeias. A moral do tempo útil, inspirada na concepção protestante de glorifi- cação do trabalho como caminho da salvação, condenava as festas populares, as cantorias e as danças. Nesse particular, a referência obrigatória é o trabalho de Max Weber, sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo. A própria escola passou a inculcar uma cultura disciplinadora do trabalho, das atitudes e dos gestos. Documentos do século XVIII registram que as crianças, ao chegarem a idade de seis anos, deviam estar acostumadas com o trabalho. Esse traço característico da mentalidade capitalista voltará a ser enfatizado ao longo 62 História Moderna Século XVII e XVIII do tempo, se acentuando em alguns momentos, enquanto em outros ainda persistem os traços do modo de produção ante- rior. O que ocorreu foi a conjunção de duas ordens de fatores determinantes atuando no sentido da modernização, da racio- nalização dos processos e da criação de novas instituições que espelhassem a nova mentalidade. Por isso, as consequências da revolução industrial abrangem aspectos sociais e políticos em sua dimensão histórica. A ilustração mais dramática das consequências sociais da industrialização é constituída pela imagem do trabalho infan- til nas tecelagens inglesas. Por força do novo modo de pro- duzir nas fábricas, os trabalhadores reunidos passaram a ser vigiados e controlados por meio de uma rígida disciplina que impunha horários de entrada e de saída, prazos para cumprir as tarefas, maior divisão das etapas de trabalho e uma severa hierarquia. Estava em curso a fragilização do trabalhador. Sem autonomia, o trabalhador tornou-se vulnerável, e as jornadas de trabalho atingiam em média 16 horas diárias, sem interrup- ções para feriados ou férias. E só isso, desde o seu surgimento até fins do século XIX, o espaço fabril era sujo e mal ventilado, sendo frequentes os acidentes de trabalho. Mas a face mais cruel do capitalismo industrial foi mesmo a exploração do tra- balho infantil. A utilização da mão de obra de crianças princi- palmente nas tecelagens, vidrarias e minas de carvão foi tema de denúncias e obras de arte, que retrataram as cenas em di- versas fábricas inglesas. Documentos da época comprovam a existência de emprego de crianças a partir dos quatro anos de idade. Muitas vezes, eram elas as responsáveis pelo conserto de máquinas porque o espaço era muito apertado para que um adulto as concertasse. Capítulo 5 Desdobramentos e Implicações da Revolução Industrial 63Também faz parte da história da Revolução Industrial em suas consequências sociais o episódio da quebra de máqui- nas. Os trabalhadores europeus, principalmente os ingleses, pioneiros da industrialização, demonstraram de várias manei- ras o seu inconformismo em relação à nova situação que en- frentavam. Lutaram contra a jornada estafante, o alto índice de acidentes, o uso de mão de obra infantil e feminina com remunerações aviltantes, além da inexistência de garantias ou proteção em caso de doença, acidentes ou velhice. Acima de tudo, os salários eram muito baixos. Mas os trabalhadores dis- cutiam também alguns valores, entre eles, a perda dos costu- mes tradicionais e da sua autonomia. Segundo consta, havia na cultura popular uma concepção de justiça baseada em va- lores da cultura medieval, que pregava ideias de solidarieda- de, consciência coletiva e senso de fidelidade. Por conta disso, os operários iniciaram a organização sindical e formas de luta baseadas na memória de um modo de vida que rapidamente se perdia. Na tentativa de preservar tais valores, organizaram- -se grupos e sociedades secretas com rituais e práticas cole- tivas de solidariedade. Além disso, afirmam os historiadores, outras formas de resistência à nova situação, nesses primeiros momentos da formação da classe operária, foram o roubo, a sabotagem os motins ou agressões coletivas, sem mencionar as greves espontâneas. O episódio mais notável dessa etapa da história ocorreu no século XVIII, na região inglesa de Lan- cashire, onde trabalhadores destruíram as instalações de uma fábrica e as máquinas de tecelagem. Foi chamado de movi- mento dos quebradores de máquinas ou ‘ludditas’, pois se- riam liderados por um general de nome Ned Ludd, que havia 64 História Moderna Século XVII e XVIII demonstrado abertamente as reações contra o novo sistema produtivo e econômico que se instalava. Como se vê, não foi pacífica a transição ao modo de pro- dução capitalista, sobretudo nessa época. Mas as resistências iniciais, por estarem localizadas, não tiveram forças para alte- rar o curso do processo de mudança do sistema de trabalho na Europa ocidental, em curso desde o fim da Idade Média e que agora se acelerava. Assim colocada na fase inicial, a implan- tação da disciplina rígida nas primeiras fábricas abria caminho para o que veio a ser conhecido como a divisão do trabalho, quando se deu um enorme salto em termos de produtividade. Aliás, é nesse sentido que a mecanização das fábricas atuou. O uso da força do vapor inicialmente e depois o óleo combus- tível aumentou em muito a capacidade de produção. A escala de produção deixou de ser medida em termos de homem-hora e passou a ser mensurada em termos de cavalo-vapor. Em paralelo ao desenvolvimento tecnológico sem precedentes na história, ocorreu também a racionalização das práticas de or- ganização e administração, inicialmente no âmbito do Estado e, posteriormente, no interior das fábricas. No fim do século XIX, o sistema fabril apresentou uma gran- de sofisticação em seus métodos, ao aplicar o que se chamava de princípios de administração científica. Esses princípios ti- nham por objetivo racionalizar e controlar ao máximo o tem- po do trabalhador para elevar a sua produtividade individual e, com isso, eliminar desperdícios e gerando a redução de custos de produção. O engenheiro norte-americano Frederick Winsllow Taylor (1856 – 1915) iniciou estudos como aprendiz em uma oficina na Filadélfia. No período em que trabalhou em Capítulo 5 Desdobramentos e Implicações da Revolução Industrial 65 uma usina, estudou minuciosamente o tempo gasto pelos tra- balhadores em cada movimento, com o objetivo de aumentar a produtividade e a redução de gastos na produção. Com esse objetivo, examinou os passos (quanto andava cada operário) e analisou os gestos dos trabalhadores, buscando aperfeiçoar e otimizar as atividades. Com esse estudo, Taylor aprofundou a divisão do trabalho, limitando cada operário à execução de uma única e repetitiva tarefa. Ao pesquisar sobre o tempo gasto pelo homem e pela máquina em cada tarefa, criou prê- mios para o trabalhador que superasse a média encontrada, estimulando ainda mais a eficiência e o aumento da produ- ção. Esse método de organização do trabalho ficou conhecido como taylorismo, e foi rapidamente aplicado na emergente in- dústria norte-americana. Uma das primeiras grandes empresas a utilizar o método taylorista de organização do trabalho foi a fabricante de carros de Henry Ford. Já em 1908, a produção de carros da Ford passou a usar a linha de montagem, mas a divisão das tarefas seguia o método taylorista. As fábricas Ford também inovaram ao adotar ventilação, iluminação e condi- ções de higiene mais adequadas ao trabalho digno, sobretudo se comparadas ao início da Revolução Industrial. Existe um certo consenso no que toca ao entendimento da revolução Industrial, que deve ser vista como um movimento e não como um simples período. As transformações ocorridas na Europa, no plano político e econômico, estavam ligadas diretamente pelo contexto cultural da época. Como vimos nes- tes capítulos, os estados nacionais se formaram sob uma nova mentalidade, expressa primeiramente pelo Renascimento Cul- tural e, depois, pela Revolução das Luzes e todo o crescimento da racionalidade instrumental. Assim, o processo de moder- 66 História Moderna Século XVII e XVIII nização dos estados nacionais, a expansão da economia e a intensificação das trocas comerciais, tudo isso se conjugava nesse novo modo de produção, muito mais eficiente e lucrati- vo nesse momento. Para deixar uma síntese do que foram as principais mudanças desse novo modo de produção, vamos apresentar os pontos mais significativos em cada uma das áre- as. Entre os efeitos econômicos mais destacados da revolução industrial está, evidentemente, o aumento da produção. Se antes da mecanização, no artesanato, era preciso a presença de um, dois ou mesmo dez homens para produzir uma de- terminada quantidade de tecido, com o aprimoramento das máquinas foi possível usar um menor número de empregados e ainda aumentar a produção. Por exemplo, em 1765, a má- quina de tecelagem spinning-jenny proporcionou o aumento de produção, pois podia controlar 80 fusos ou mais, enquan- to um operário podia, quando muito, operar oito fusos. Com isso, verifica-se uma extraordinária economia e aumento de produção. A importação e a exportação de tecidos aumenta- ram muitas vezes nesse espaço de tempo, e o mesmo se deu no setor siderúrgico. A produção cresceu em volume 10 vezes ao longo de 40 anos e a procura do mercado não cessou de crescer. Além disso, é preciso considerar que toda a expansão da economia se deu ao mesmo tempo em que se ampliavam as vias de transporte, sobretudo o ferroviário e o marítimo. Em função da disponibilidade de energia motriz – a máqui- na a vapor – a nova etapa da industrialização ficou marcada pela concentração física dos empreendimentos. Não depen- dente de fatores naturais, como ventos e cursos dos rios, as indústria podiam se instalar nos lugares mais favoráveis. Outro efeito notável da Revolução industrial foi a divisão técnica do Capítulo 5 Desdobramentos e Implicações da Revolução Industrial 67 trabalho, conforme mencionado acima. Por ora, anote-se a referência bibliográfica A Riqueza das Nações, de Adam Smi- th, de 1776, em que o autor mostra o exemplo clássico da empresa moderna e descreve em detalhes a fabricação de al- finetes. Contudo, o que não pode ser negado é que o excesso de especialização acabou por gerar uma desgastante rotina, a fadiga física e mental. Outro clássico exemplo dessa condi- ção foi mostrado no filme Os Tempos Modernos, de Charles Chaplin, em que o operário é levado à loucura por passar o dia apertando parafusos em uma simplespeça. Outros efeitos óbvios da Revolução Industrial foram o estímulo ao comércio e o crescimento das aplicações financeiras. Com a expansão dos mercados e, sobretudo, o crescimento da produção, as novas empresas eram maiores e mais complexas, empregando muita gente e exigindo investimentos elevados. Já no começo do século XVIII, esse processo começava a se intensificar e logo a economia se tornou altamente monetizada. Os capitais aumentaram seus rendimentos e expandiram suas fronteiras. O Tratado de Paris, assinado em 1763, abriu o mercado do Canadá e da Índia para os banqueiros ingleses. Além do co- mércio, então, desenvolveu-se o gosto pela especulação fi- nanceira em meio a crescentes investimentos. Uma consequência inevitável desse processo foi o estímu- lo às combinações financeiras e industriais dentro da mesma lógica de concentração do poder e da riqueza. A fiação, por exemplo, era a indústria que puxava outra indústria, a tecela- gem que por sua vez atraia a indústria de roupas e meias. Do mesmo modo, a extração do minério de ferro e a metalurgia induziu a criação de um número infindável de novas máquinas, seguindo a dinâmica da divisão das atividades. Assim com o 68 História Moderna Século XVII e XVIII desenvolvimento das formas avançadas de industrialismo, com as tais combinações financeiras, deu-se início a era dos trustes e dos carteis. Esses tipos de combinações entre empresários trouxeram vantagens aos seus manipuladores, mas logo se percebeu que poderia prejudicar a população. Esse era o ca- pitalismo em sua plenitude, um sistema que só visava o lucro. Além dos efeitos econômicos, a nova fase de expansão da indústria no ocidente gerou consequências sociais. A primeira deles foi o aumento da população, sobretudo nas cidades in- dustriais. A ausência de dados estatísticos ou censos daquela época impedem uma avaliação mais precisa da distribuição demográfica, mas já em 1801, quando aconteceu o primeiro censo na Inglaterra, é que se tem uma noção desse fator. A população na Inglaterra por volta do ano 1750 era de 6,5 mi- lhões de habitantes e em 1830 já somava mais de 14 milhões de pessoas. Os historiadores relutam em associar o crescimen- to da população ao industrialismo, mas admitem que os pro- gressos da indústria favoreceram também a atividade agrícola, assim houve aumento da produção e da produtividade agríco- la na época. Outro fator que explica o aumento da população foi a redução da mortalidade infantil com a adoção de novas normas de higiene e mais recursos para o saneamento das áreas habitadas e também pela existência de médicos. Diretamente ligado à Revolução Industrial está o processo de urbanização. Conforme foi visto anteriormente, as cidades exerceram um papel fundamental ao longo da história oci- dental. Mas a nova onda de industrialização agora requeria investimentos que só poderiam ser bancados por homens ri- cos ou associações de empresários. O fato histórico é que, Capítulo 5 Desdobramentos e Implicações da Revolução Industrial 69 após a implantação de novas fábricas, verificou-se o êxodo da população rural em direção às cidades. O processo de urbanização que antes era lento e raro passou a se dar ra- pidamente, com o surgimento de novos núcleos urbanos em curto período de tempo. As cidades industriais inglesas, com exceção de Londres, começaram a surgir a partir do século XVIII. Por exemplo, a importante cidade Manchester em 1700 era apenas um povoado, mas em 1800 já tinha mais de 100 mil habitantes. Londres era então a maior cidade do mundo, com mais de um milhão de habitantes, e Paris era a segun- da, com 500 mil habitantes. Contudo, também surgiu uma série de pequenas cidades chamadas black country devido ao excesso de poluição. Em geral, eram cidades tristes, feias e sujas, sem conforto algum em função de terem surgido sem qualquer ordenamento. Apesar disso, dos contratempos da vida urbana, para a população, aquilo se apresentava como uma melhoria. O camponês que largava o mundo rural pelo urbano tinha ali a liberdade que não conhecia no campo, onde eram quase sempre dependentes do senhorio. Nas pa- lavras de Karl Marx, a burguesia submeteu os campos ao governo das cidades. A urbanização, embora toda irraciona- lidade demonstrada nos primeiros anos do industrialismo, se mostrou um caminho sem volta. Um dos fatos mais notáveis da história da Europa ociden- tal, já assinalado em outras partes deste livro, foi a ascensão da burguesia enquanto classe social dominante. Nos princi- pais países europeus estava em formação, desde o final da Idade Média, uma nova classe social cujo destino iria mudar a face do mundo moderno. O caso da Inglaterra é emblemático porque era o país que tinha a burguesia mais desenvolvida, 70 História Moderna Século XVII e XVIII pois vinha se fortalecendo desde o século XIII, ganho experiên- cia e vigor tanto no aspecto político quanto no econômico. O crescimento da influência da nova classe se deu em antago- nismo com a Aristocracia, até então a classe dominante junto com o Clero. A própria aristocracia, por meio dos lordes, se colocava, às vezes, ao lado da burguesia, e o mesmo faziam os operários. É no leito dessa nova classe que surge a ideo- logia liberal, consagrando a ascensão da burguesia ao poder com o verniz da teoria. Pois é nessa época que aparece pela primeira vez na his- tória a expressão luta de classes. Outra classe social, muito mais numerosa, estava enfrentando grandes transformações. O camponês agora passou a ser operário, não vive mais nos campos e sim nas cidades. Com o crescimento da população e a concentração industrial, logo surgiram os conflitos e o acir- ramento das relações entre operários e patrões. A literatura re- gistra a palavra acirramento porque essa luta segue uma cons- tante evolução, conforme afirmou Karl Marx em seu Manifesto Comunista: “A história de toda sociedade até nossos dias é a história da luta de classes”. A Revolução Industrial aumentou o contraste entre ricos e pobres, dando curso ao surgimento do proletariado. Uma última consideração sobre os efeitos mais duradou- ros da Revolução Industrial foi a mudança na mentalidade. A crença no homem na eficácia da revolução da indústria le- vou todos os Estados a se voltarem ao industrialismo, todos querendo emparelhar seu desenvolvimento com os líderes do movimento. O importante é perceber como a Revolução segue seu rumo, com inovações técnicas e a ideia de racionalizar os processos de trabalho. Antecedentes da Revolução Científica Victor Lourenço dos Santos Júnior Capítulo 6 72 História Moderna Século XVII e XVIII Como convém ao estudo da história, começamos contextu- alizando o momento em que ocorrem os fatos e destacando as conexões entre eventos, alguns simultaneamente enquanto outros decorrem dos antecedentes. Nessa retomada dos ele- mentos centrais que caracterizam o continente europeu, de- pois da crise do século XIV, devemos lembrar em primeiro lugar da restruturação política ocorrida na formação dos estados nacionais - o Absolutismo. Na transição do feudalismo ao ca- pitalismo, um fator decisivo foi o crescimento das cidades, do comércio, em dois grandes momentos da Idade Moderna: as grandes navegações e o Mercantilismo. Vimos ainda que o Re- nascimento cultural foi concomitante a esses acontecimentos de ordem econômica, política e social. Para se compreender como se deu a Revolução Científica, precisamos lembrar os seus antecedentes medievais e do caráter da transição entre duas épocas distintas, marcadas por concepções de mundo totalmente antagônicas. Um dos aspectos determinantes des- sa etapa foi a expansão das cidades, a revolução urbana. O incremento da demanda por bens e produtos está na origem de um conjunto de eventos que vão se conectar com as ideiasde progresso e racionalidade, vindo a substituir a mentalidade supersticiosa e crédula predominante na Idade Média. Antes de prosseguir, vale considerar que a revolução científica não foi uma obra isolada, surgida de repente na cabeça de algum cientista. Foi antes o resultado desse contexto desafiador na transição para um mundo moderno, criando as bases para o desenvolvimento do modo de produção capitalista. A revolu- ção industrial, que acabamos de ver, se insere nessa sequên- cia de acontecimentos e também dá seguimento ao proces- so, com uma segunda fase da revolução científica, aí já em Capítulo 6 Antecedentes da Revolução Científica 73 novas e sólidas bases. A revolução industrial está situada em uma zona intermediária, entre os dois momentos da Revolu- ção Científica. É antecedida por toda a tradição filosófica da Antiguidade clássica, pela teologia católica, pela escolástica e pelo nominalismo até que o Renascimento Cultural lança as bases para o Humanismo. Na transição para a Idade Moder- na, houve uma mudança na própria concepção do Homem e de seu papel neste mundo. Como vimos, a revolução industrial foi consequência do aumento da demanda por bens e produ- tos de consumo e isso, por sua vez, acabou gerando novas demandas, especialmente de tecnologias que aumentassem a produção das manufaturas. Algumas considerações sobre as teorias da história. Se- gundo o trabalho dos historiadores Arruda & Piletti (1997), a historiografia, isto é, a arte de escrever a história ou o estudo crítico da história, apresenta quatro momentos em sua evolu- ção: a História crônica, da antiguidade aos cronistas medie- vais. É a história heroica, das batalhas, dos reis e acabavam com uma lição de moral; a História Ciência do século XIX, ligada ao desenvolvimento das demais ciências sociais, como a sociologia e antropologia, formulando problemas e usado métodos próprios para obter as respostas; após, vem a His- tória Total, fortemente ligada às ciências sociais, ao marxis- mo, ao estruturalismo, e procurava ultrapassar a aparência imediata dos fatos e atingir explicações mais profundas, tenta captar o sentido das mudanças, daí privilegiar as rupturas em detrimento das continuidades; por fim, a Nova História Social, que é um movimento de oposição à história mais interpreta- tiva, valoriza a história da cultura, das representações e dos mitos. De acordo com os autores, os historiadores procuram 74 História Moderna Século XVII e XVIII captar o processo histórico, que é manifestado em toda ação cultural, seja no relacionamento do homem com a natureza, ou dos indivíduos entre si. “Captar o processo histórico envol- ve determinar as próprias leis de movimento da história, isto é, detectar o conjunto de transformações desde o início da existência humana” (idem, p. 7). Consideradas a essência do processo histórico, as transformações podem ser quantitativas, quando provocadas pelo aumento dos volumes e proporções da população, das cidades, e podem ser qualitativas, quando ocorrem devido ao surgimento de novas condições, as inova- ções. Na revolução industrial na Inglaterra do século XVIII, por exemplo, ocorreram mudanças quantitativas, como o aumento da produção, da população e do comércio internacional; e houve mudança qualitativa na passagem da produção artesa- nal e doméstica, com ferramentas movidas à força humana, para a produção pela máquina, com aumento de produtivi- dade. Tais mudanças alteraram completamente a estrutura da sociedade, com o aparecimento de uma nova classe social - o proletariado. Antecedentes Conforme foi visto no capítulo sobre a Formação dos Estados Nacionais na disciplina de História Moderna do Século XV e XVI, na transição da Idade Média para a Moderna, uma nova concepção de homem e uma nova visão de mundo estavam se impondo. Conforme afirmam os historiadores Falcão e Ro- drigues, a grande novidade do chamado reformismo ilustrado talvez tenha sido a luta empreendida pelos príncipes contra o poder e a influência ideológica da igreja, sobretudo nos países Capítulo 6 Antecedentes da Revolução Científica 75 católicos e, acima de tudo, o empenho em tornar o Estado em defensor do bem comum. Seguindo o espírito da época, para atingir tal objetivo, seria necessário fortalecer o aparelho burocrático, única maneira de ampliar e tornar mais eficiente o campo de ação governamental. Todos os obstáculos à ação do príncipe precisavam ser removidos em nome das Luzes. As- sim, centralizar e racionalizar as diversas instâncias administra- tivas, definir com precisão os poderes e atribuições dos órgãos entrais, escalonar a atuação dos diferentes órgãos de governo - tudo deveria garantir a presença e autoridade do governan- te. Houve a necessidade de criar uma nova burocracia que deveria ser o instrumento eficaz nas mãos dos monarcas. Com a intenção de nortear as decisões e as ações dos funcioná- rios, multiplicaram-se os regulamentos e as instruções, cada vez mais detalhadas, instruindo e cobrando a produção de informações, relatórios e formação de processos. A base ma- terial da administração, conforme afirmam os autores, passa a ser constituída por documentos escritos, ofícios, requerimen- tos, petições, que são as formas de que os burocratas usavam para se comunicar entrei si e com as instâncias superiores. As demandas se acumulavam em favor de novos ordenamentos jurídicos, mais modernos e racionais, para atender às exigên- cias de uma administração que ainda enfrentavam a resistên- cia de antigas tradições. Seguindo esse movimento de modernização e racionaliza- ção das atividades do Estado, sem perder de vista a influência que os centros urbanos exerciam na mente das pessoas, es- pecialmente pelas novas formas de sociabilidade, entrou-se em uma fase importante nessa mudança de mentalidade. De acordo com o livro de Falcon e Rodrigues, a secularização 76 História Moderna Século XVII e XVIII dos costumes incluiu os esforços humanitários da razão e da sensibilidade no sentido de promover o bem estar do ser hu- mano na vida presente. Não foram poucas as resistências aos novos valores transcendentes, da concepção terrena e laica da existência humana. Os autores entendem que a Idade Mo- derna foi marcada por contradições importantes, que reme- tem à presença de elementos da cultural medieval. As cida- des medievais contribuíram muito para a formação do mundo moderno, não só por se oporem ao campo e à vida rural, mas por introduzirem novos valores, decorrentes de relações e experiências da vida universitária, dos movimentos religiosos e, especialmente, da dinâmica que o comércio impôs à vida. O ambiente urbano exercia grande atração de riquezas e de pessoas de todas as partes. As cidades medievais, além de serem movimentadas, ofereciam em suas ruas e praças novas formas de sociabilidade. Foi nelas que os homens se deram conta de que tinham história, iniciando ali um processo de au- toconhecimento que os levou à transformação da natureza e à reflexão sobre novas formas de religiosidade. Principalmente, começava na cidade medieval a atitude cosmopolita e tole- rante que iriam marcar os novos tempos, originando um novo modo de viver urbano, revelando possibilidades e ampliando os horizontes para novas ideias e projetos. Aos poucos, as ci- dades se tornaram os centros de referência e de informação, requerendo novas técnicas e novas tecnologias para a pro- dução e de habitação. As cidades passaram a representar a riqueza e o luxo, permitindo a comparação direta, e a verifica- ção das novas formas de apropriação do espaço era possível perceber também a diferença entre os homens e a valorizá-la. Capítulo 6 Antecedentes da Revolução Científica 77 Com a introdução dessas novas qualidades urbanas, a ordem feudal era lentamente superada. Estepode ser considerado o momento propício para identi- ficar o marco inicial da revolução cientifica. É a atmosfera ge- rada pela cidade que anuncia o novo mundo moderno. É nes- se período que se observa o início do movimento em direção à secularização do mundo, pois a cidade amplia o horizonte do pensamento e da vida do homem por meio de informações que fornecia a todo momento. A primeira consequência é a va- lorização da vida ativa e a introdução de uma nova noção de trabalho. Com a redução das atividades bélicas no continente europeu, as cidades aceleraram o crescimento demográfico. E a renovação da população passa a exigir novas condições de produção, alterando os sistemas tradicionais de produção agrícola, tanto na forma de produzir como na organização, novas formas de tributação. Existe aqui uma conexão com o Renascimento Cultural e o crescimento das cidades. Entende- -se que foi a tradição humanista gerada nas cidades um dos instrumentos para entender a Renascença na sua dimensão maior: a descoberta do homem e do mundo. A retirada do véu que envolvia a realidade e a natureza do mundo na Idade Mé- dia é feita a partir desse movimento do pensamento e da ação, aproveitando-se de boa parte da tradição greco-romana e de seus avanços, de modo que o estudo da Antiguidade já era feito. Durante toda a Idade média, manteve-se a preocupa- ção em estudar e copiar os textos identificados como clássicos. No Renascimento introduz-se uma leitura crítica desses textos e abre-se caminho para uma nova hermenêutica. Os mesmos textos antigos, conservados em grande parte pelos árabes, fo- ram submetidos ao crivo de novos métodos de interpretação, 78 História Moderna Século XVII e XVIII capaz de fazê-los responder às ansiedades e inquietudes de seus estudos então. Para completar a visão de conjunto do que seja o contexto da Revolução Científica, é preciso ter em conta ainda os con- ceitos fundamentais do Humanismo e das formas de pensar típica da Idade Média. De acordo com E.M. Burns, a realiza- ção filosófica mais notável da segunda fase da Idade Média foi o sistema chamado Escolástica. Define-se esse sistema como uma tentativa de harmonizar a razão com a fé, ou para fazer a filosofia servir aos interesses da teologia. Os grandes pensa- dores da Idade Média não limitaram seus interesses aos pro- blemas da religião. Como filósofos, sentiram a necessidade de responder às grandes questões da vida. Os escolásticos eram racionalistas e não empiristas, em termos atuais. Em outras palavras, baseavam-se no primado da lógica. Assim como os gregos da escola socrática, os escolásticos não acreditavam que a mais alta verdade pudesse advir da percepção sensorial. Admitiam que pelos sentidos os homens poderiam adquirir um conhecimento das aparências, mas a natureza essencial do universo só poderia ser descoberto pela razão. Além disso, esse era um sistema autoritário, nem mesmo a razão era sufi- ciente para a aquisição de todo o conhecimento, pois as de- duções da lógica ainda precisavam ser amparadas pela auto- ridade das escrituras. O filósofo escolástico era um humanista no sentido de se interessar principalmente pelo homem, mas sua concepção de mundo supunha que o universo era estático e, portanto, bastava explicar o significado e a finalidade das coisas sem investigar a origem e a evolução. Capítulo 6 Antecedentes da Revolução Científica 79 Em termos de valores que irão presidir o desenrolar da Idade Moderna, nas bases da revolução intelectual e científi- ca, podemos afirmar que a Renascença foi muito mais que o simples reviver da cultura pagã. Entre as ideias e novas atitu- des diante do mundo, a Renascença incorporou o otimismo, o interesse pelas coisas terrenas, o hedonismo, o naturalismo e o individualismo, mas o principal foi o Humanismo. Confor- me Burns, no sentido amplo, o Humanismo pode ser definido como a glorificação do humano e do natural, em oposição ao divino e ao extramundano. Assim concebido, o Humanismo foi o coração e alma da Renascença. Em um sentido restrito, o novo sistema pode significar também o interesse por obras clássicas. O Renascimento, portanto, foi além do reviver do conhecimento pagão. O secularismo, a busca de conhecimen- to e de compreensão dentro das universidades, tudo isso prefi- gurava os ideias dominantes no século XV e seguintes. Muitas das novas atitudes e realizações do homem moderno contra- riavam diretamente a antiga concepção medieval. Os homens não mais concebiam o universo como um sistema finito de es- feras concêntricas a girar em torno da terra e existindo para a glória e salvação do homem. O reviver da teoria heliocêntrica sugeria um cosmos de extensão infinitamente maior, em que a terra não era senão um dos numerosos mundos. Ampliava- -se assim para muito mais longe o objetivo do conhecimento humano, pois o universo, de acordo com a nova concepção, já não podia ser explicado tão fácil e simplesmente em termos da epopeia cristã. 80 História Moderna Século XVII e XVIII A primeira fase da Revolução Científica Ao ampliar o conhecimento das causas e do contexto da Re- volução científica, uma ironia da história se apresenta: foi no período dos monarcas arrogantes, do absolutismo, quando os déspotas dominavam a Europa, que ocorreram as mais estu- pendas realizações intelectuais. Segundo lemos no livro de E. M. Burns, ainda que alguns desses governantes houvessem tido contatos com a filosofia e a ciência, nenhum pode ser conside- rado um protetor da cultura. O progresso intelectual deveu-se a fatores decorrentes dos principais movimentos econômicos e culturais da história europeia desde o final da Idade Média. São exemplos a influência da Renascença cultural, a prosperi- dade crescente das classes médias e inferior e o dilatar-se dos horizontes intelectuais determinado pelo descobrimento de ter- ras longínquas e de povos exóticos. As conquistas da filosofia e da ciência nos séculos XVII e XVIII, conforme Burns, juntamente com as novas atitudes que daí resultaram, constituem o que se chama de revolução intelectual. Tratar tal acontecimento como se não tivesse precedente levaria a um engano, a uma con- cepção errônea da história. Em diversas ocasiões anteriores, foram verificados desenvolvimentos que chegaram a subverter antigos hábitos de pensamento. Pode-se afirmar que os pais da revolução intelectual fo- ram três grandes pensadores: René Descartes, Isaac Newton e John Locke, sobre os quais veremos um breve resumo. O fran- cês Rene Descartes (1596 - 1650), matemático e físico, ficou conhecido por ser um ferrenho defensor do racionalismo na filosofia. Descartes não foi, por certo, o primeiro expoente da razão como caminho para o conhecimento, mas o racionalis- Capítulo 6 Antecedentes da Revolução Científica 81 mo dele diferia da maioria dos pensadores que o precederam, sobretudo os escolásticos medievais, por sua recusa à toda autoridade. Desdenhava a consulta aos livros, por mais vene- rável que fosse o autor, afirma Burns. Assim, convencido de que tanto as opiniões tradicionais como as impressões comuns da humanidade são guias pouco fidedignos, resolveu adotar um novo método inteiramente isento da influência de ambos. Esse método foi o instrumento matemático da dedução pura. Consistia em partir de verdades ou axiomas simples e eviden- tes por si mesmo, como a geometria, e depois raciocinar com base neles para chegar às conclusões particulares. “Penso, logo existo”, é o axioma clássico de Descartes e, a partir daí, afirmava ser possível deduzir um conjunto perfeitamente ló- gico de conhecimentos universais. Também é de Descartes a concepção do universo mecanicista. Ele ensinava que todo o mundo material, tanto orgânico como inorgânico, pode ser definido em função da extensão e do movimento. Apesar de afirmar queo mundo físico é um só, insistia em que o homem se distingue de todas as demais criaturas por possuir a facul- dade de raciocinar. O mais importante é que, a partir de en- tão, o filósofo já não precisava acatar a revelação divina como fonte da verdade. A razão passou a ser considerada como o único manancial de conhecimento, ao mesmo tempo em que a ideia de um significado espiritual do universo era posta de lado. Seus mais notáveis sucessores foram Espinosa e Thomas Hobbes. Veremos o quanto o Iluminismo deve a Descartes. O ponto culminante da revolução intelectual foi o movi- mento conhecido como Iluminismo. Como será visto adiante, por ora basta indicar que poucos movimentos históricos tive- ram efeitos tão profundos e duradouros sobre o pensamento 82 História Moderna Século XVII e XVIII dos homens e curso de suas ações como foi o Iluminismo. Essa concepção filosófica foi erguida sobre algumas concepções fundamentais, entre as quais se destacam as seguintes. A ra- zão é o único guia infalível da sabedoria. Todo conhecimento tem suas raízes na percepção sensorial, mas as impressões dos nossos sentidos não são mais do que o material bruto da verdade, o qual precisa ser purificado pela razão antes que possa ser utilizado para explicar o mundo. A segunda concep- ção fundamental é que o universo é uma máquina governada por leis inflexíveis que o homem não pode desprezar e que a ordem da natureza é uniforme e de nenhum modo comporta milagres. Terceira concepção, a melhor estrutura para a socie- dade é a mais simples e a mais natural. A religião, o governo e as instituições econômicas deveriam ser expurgados de todo artificialismo e reduzidos a uma forma coerente com a razão e a liberdade natural. Quarta concepção, não existe pecado original. O homem não é mais um ser nascido para pecar, mas levado a cometer atos de crueldade por força de circuns- tâncias alheias à sua vontade. Importante, é que se introduz a noção de que a perfeição da natureza humana e da própria sociedade seria exequível se os homens tivessem a liberdade de seguir as diretrizes da razão e dos seus instintos inatos. A inspiração do Iluminismo proveio, em parte, do raciona- lismo de Descartes e seus sucessores, mas os verdadeiros fun- dadores do movimento foram Sir Isaac Newton (1642- 1727) e John Locke (1632-1704). Segundo explica Burns, mesmo que Newton não tenha sido um filósofo no sentido comum da palavra, sua obra teve a mais profunda significação para a história do pensamento. Seu grande feito foi submeter toda a natureza a uma interpretação mecânica precisa. Durante Capítulo 6 Antecedentes da Revolução Científica 83 a última fase da Renascença, Galileu havia descoberto a lei da queda dos corpos na superfície da terra, enquanto Johann Kepler deduzia os princípios do movimento planetário. Estava reservado a Newton estender a ideia das leis físicas invariáveis a todo o universo. A lei da gravidade foi considerada válida não somente na Terra, mas para todos os sistemas solares. Par- tindo desse princípio, era possível chegar à conclusão de que todos os acontecimentos da natureza são governados por leis universais, capazes de serem formuladas com a precisão dos matemáticos. Além disso, descobrir tais leis é então a principal ocupação da ciência. Segundo afirma Burns, estava dado o golpe de morte na concepção medieval de um universo re- gido por uma entidade benévola. A filosofia newtoniana não excluía a ideia de Deus, mas despoja-o de seu poder de guiar as estrelas nas suas órbitas ou de fazer parar o sol. Estavam dadas as bases da ciência moderna. A influência de Locke, por outro lado, foi muito diferente da de Newton, mas não menos importante. Ele foi o criador de uma nova teoria do conhecimento, a qual forneceu a nota fundamental para o Iluminismo. Locke rejeitou a doutrina car- tesiana das ideias inatas e afirmou que todo conhecimento humano deriva da percepção sensorial. Essa teoria já havia sido anunciada por Hobbes, mas foi Locke o primeiro dos fi- lósofos modernos a desenvolvê-la de forma sistemática. Sus- tentava que a mente humana, ao nascer, é feito uma ‘tabula rasa’, um papel em branco. Somente quando o ser humano começa a ter sensações, a perceber por intermédio dos seus sentidos o mundo exterior é que alguma coisa se registra em sua mente. Essas ideias simples que resultam diretamente da percepção sensorial são, porém, apenas as bases do conheci- 84 História Moderna Século XVII e XVIII mento. Nenhum ser humano poderia viver apenas com essas ideias. Essas ideias simples precisam ser integradas e fundidas em ideias complexas, tal é o papel da razão ou entendimento, que tem o poder de combinar, coordenar e organizar as im- pressões recebidas dos sentidos, construindo assim um sistema utilizável de verdades gerais. Tanto a sensação com a razão são indispensáveis, uma para fornecer ao espírito a matéria- -prima do conhecimento e a outra para trabalhá-la, dando- -lhe uma forma significativa. Locke teve outras contribuições importantes em defesa da tolerância religiosa e por sua teoria política liberal. Descobertas científicas revolucionárias Os principais objetivos científicos da revolução intelectual es- tavam alinhados, em geral, com as diretrizes traçadas na últi- ma fase da Renascença, isto é, com as ciências físicas. Os pri- meiros descobrimentos importantes ocorreram no campo da matemática e da física. No começo do século XVII, Descartes havia inventado a geometria analítica, que vem a ser a fusão da geometria com a álgebra. Após, surgiu o cálculo infinitesi- mal, proposto por Newton e Leibniz. Compreendendo a aná- lise contínua, o cálculo se mostrou um instrumento essencial para as engenharias e artes mecânicas. Newton foi, sem dúvi- da, o mais influente de todos. As suas conclusões orientaram o pensamento filosófico durante uma centena de anos e sua influência no campo científico foi ainda mais duradoura, tanto que seus princípios ficaram virtualmente incontestados até o século XX. Em 1687, Newton publicou a sua famosa descober- ta: a Lei da gravitação universal. Baseada em parte nos traba- Capítulo 6 Antecedentes da Revolução Científica 85 lhos de Galileu, a lei da gravidade estabelecia um só princípio unificador para todo o mundo material. Afastava todas as dú- vidas quanto à validade da hipótese de Copérnico e colocava o estudo da mecânica celeste sobre sólidas bases científicas. Durante essa fase, foram feitos progressos na compreensão dos fenômenos elétricos e magnéticos, mas foi somente no fim do século XVIII que Alexandre Volta (1745-1827) construiu a primeira pilha para armazenar eletricidade. Tão espetacular quanto o progresso da física foi o desenvolvimento da quí- mica, que teve em Robert Boyle (1627-91) o seu fundador e em Antoine Lavosier (1743-94) um dos maiores cientistas de todos os tempos. Chamado o ‘Newton da química’, Lavosier demonstrou que a combustão e a respiração dos seres vivos são duas formas de oxidação, a primeira rápida e a segunda, lenta. Foi ele quem nomeou o oxigênio e o hidrogênio, de- monstrou que o diamante é uma forma de carbono e afirmou ser a vida, em essência, um processo químico. O seu maior feito foi, no entanto, ter criado a química quantitativa, graças à descoberta da lei de conservação da matéria. Lavosier encon- trou a prova de que, embora a matéria possa mudar de esta- do, em uma série de reações químicas, a sua quantidade não se altera, conservando-se a mesma no fim como no começo. Aspectos Principais da Revolução Científica Victor Lourenço dos Santos Júnior Capítulo 7 Capítulo 7 Aspectos Principais da Revolução Científica 87 Os progressos da tecnologia estão associados diretamente ao aumento da demanda. Como veremos a seguir, muitos avan- ços técnicos para a produção de tecidosdesencadearam o crescimento da pesquisa científica em mecânica, metalurgia e química. O progresso técnico que precedeu e depois fa- voreceu a expansão do capitalismo esteve ligado ao desen- volvimento da pesquisa aplicada, e nesse campo apresentou grandes realizações. Considerando que os grandes desenvol- vimentos técnicos já foram tratados no capítulo da Revolução Industrial apresentaremos aqui o seguimento da Revolução intelectual e científica verificado na Europa nos séculos XVII e XVIII, com especial interesse no desenvolvimento da filosofia. Sendo que, na primeira etapa, ficaram estabelecidas as bases da nova concepção de mundo e aberto o caminho para o método científico, devemos ter em mente, de modo esquemáti- co, que o Humanismo levou ao Renascimento Cultural e esses dois fatores impulsionaram o Iluminismo, o qual, por sua vez, teve como ponto culminante a Revolução Francesa. A história desse evento político mostrou que as repercussões daqueles fatos foram muito além das fronteiras nacionais. De acordo com Burns, um movimento tão profundamente perturbador para a sociedade na Europa ocidental, como foi a revolução intelectual, não podia deixar de influenciar os cos- tumes sociais e os hábitos individuais. No século que seguiu à Revolução Francesa, houve um grande recuo das ideias pro- gressistas e uma retomada do conservadorismo, como vere- mos adiante. Mas durante o apogeu do Iluminismo, no século XVIII, a força das novas ideias se fez sentir. Segundo Burns, nem todo o progresso social dessa época pode ser atribuído às influências intelectuais. Como vimos no capítulo sobre a Ex- 88 História Moderna Século XVII e XVIII pansão Marítima na disciplina de História Moderna do Século XV e XVI, boa parte dessa prosperidade foi determinada pela expansão dos negócios durante a Revolução Comercial. O progresso da filosofia e da ciência contribuiu muito para varrer antigos preconceitos e construir uma sociedade mais liberal e humana. Um bom exemplo da reforma social promovida du- rante o Iluminismo foi a agitação em prol de uma reforma dos códigos penais injustos e pelo tratamento mais brando dos pri- sioneiros. Em ambos os casos, a reforma era urgente porque, em quase todos os países europeus as penas impostas mesmo a pequenos delitos eram excessivamente severas, como a pena de morte para quem roubasse um cavalo ou ovelha. O trata- mento dispensado aos falidos e presos por dívidas era também vergonhoso. Tais condições cruéis provocaram a simpatia de vários reformadores, entre os quais se salientou Cesare Bec- caria, um jurista de Milão profundamente influenciado pelas obras dos filósofos racionalistas franceses. Em 1764, Beccaria publicou seu famoso tratado Dos delitos e das penas, no qual condenava a teoria que então predominava, de que as penali- dades deviam ser tão duras quanto possível, a fim de refrear os criminosos. Insistindo em que o objetivo dos códigos criminais deveria ser não a vingança, mas a prevenção do crime e a reforma dos reincidentes, Beccaria argumentava pela abolição da tortura e se opunha mesmo à pena capital, uma vez que não poderia ser revogada em caso de erro judiciário. Esse livro causou grande impacto em sua época, tendo sido traduzido em 12 idiomas e influenciado reformas em outros países. O espírito humanístico do Iluminismo expandiu-se em di- ferentes direções. Cientistas e filósofos em países distintos co- meçaram a denunciar os males da escravidão e da guerra. Capítulo 7 Aspectos Principais da Revolução Científica 89 O pacifismo foi outro ideal que animou os novos pensadores liberais e as reflexões de Voltaire sobre a guerra são outro grande exemplo desses esforços. Segundo Burns, Rousseau era considerado sentimental, mas já percebia em seu tempo que havia algo de ilógico na tentativa de estabelecer uma dis- tinção entre guerras justas e injustas. Da mente de outros fi- lósofos Iluministas, brotaram vários planos engenhosos para assegurar a paz perpétua, inclusive um projeto de uma liga das nações com poderes para empreender uma ação conjunta contra os agressores. Toda a agitação humanista por reformas sociais foi acompanhada de uma expansão da simpatia pelas classes inferiores, o que foi visível na fase final do Iluminismo. Com o progresso da razão e a exaltação crescente dos di- reitos naturais do homem, a forte reação contra a escravidão e contra a guerra traduziu-se em um protesto generalizado contra todas as formas de sofrimento e opressão. Começou-se a dar mais atenção aos problemas dos pobres e da nova clas- se média, movida pela ambição de destronar a aristocracia, a burguesia necessitava do apoio dos humildes camponeses e trabalhadores urbanos. Um grande pensador dessa fase, que defendeu a causa do homem comum, foi o inglês Tho- mas Paine. Disseminando um desprezo pela aristocracia, Paine afirmou que um só lavrador honesto valia muito mais do que todos os bandidos coroados que já haviam existido. O gran- de economista Adam Smith também deplorava o hábito de sentir maior piedade por um patife entronizado do que pelos milhares de cidadãos comuns mortos nas guerras civis. Vários filósofos franceses do Iluminismo foram muito mais longe em suas defesas das massas. Rousseau e Condorcet defendiam a igualdade absoluta de privilégios e liberdades para todos os 90 História Moderna Século XVII e XVIII homens, enquanto outros já percebiam que isso só poderia ser obtido por meio de uma distribuição da riqueza. Embora não estivessem propondo o socialismo, já afirmavam que a pro- priedade da terra deveria ser dividida em partes iguais, para tornar impossível a exploração do pobre pelo rico. Um dos avanços sociais mais importantes desse período foi a revolta contra a moral cristã, em especial contra as suas bases sobrenaturais. Um revolta semelhante já havia sido ve- rificada durante a Renascença e ficou conhecida sobretudo pelo trabalho de Maquiavel e Rabelais. É dessa fase a Reforma Religiosa, que operou uma inversão nessa tendência ao esta- belecer um sistema ético mais rigoroso em certos pontos que na Idade Média. Conforme Burns, ao final do século XVII, o pêndulo voltou atrás. Os filósofos Iluministas tentaram separar por completo a ética da religião e encontrar uma base, quer racionalista, quer psicológica, para a conduta humana. Como foi mencionado, seguiu-se um intenso desenvolvi- mento material e técnico por força da pesquisa de novas so- luções para os problemas da produção e a eclosão de novos problemas que envolviam interesses sociais e políticos. Depois que o Iluminismo já havia apresentado todas as suas princi- pais propostas, houve uma retomada do conservadorismo no século XVIII, sobretudo no terreno da filosofia e da ética. Burns enfatiza a ascendência da atitude conservadora na qual a or- dem foi colocada acima da liberdade e deu-se prioridade aos interesses dos grupos, da sociedade e especialmente do Es- tado diante os do indivíduo. Ocorreu uma revalorização da fé, da autoridade e da tradição, sobrepujando a crença que havia se firmado no século XVIII quanto à primazia da razão Capítulo 7 Aspectos Principais da Revolução Científica 91 e da ciência. Um grupo de filósofos francês, sob a inspiração de Jospeh de Maistre (1754-1821), procurava criar um renas- cimento católico, no qual a piedade mística, o supernatura- lismo e a crença na infalibilidade da igreja seriam as luzes a guiar os homens, preservando-os das armadilhas do ceticismo e da anarquia. Entre os fatores que contribuíram para promo- ver essa retomada conservadora, no entender de Burns, foi a influência do romantismo fundado por Rousseau, que negava a eficácia da razão e a predominância dada à emoção e ao sentimento. O fator mais importante, no entanto, que explica- va essa reação sentimental, foram os horrores causados pelaRevolução Francesa, na fase conhecida como O Terror. Todos os que haviam sido aterrorizados pela violência do movimento revolucionário inclinavam-se agora a lançar a culpa no racio- nalismo, no materialismo e no individualismo que caracteriza- ram o período iluminista. Por essas razões, os pensadores des- se período estavam dispostos a saltar para o extremo oposto da glorificação da fé, da autoridade e da tradição. A corrente de ideias que constitui a perfeita expressão da época reacionária é a filosofia alemã do idealismo romântico. Essa corrente tem esse nome porque é uma combinação da teoria romântica da verdade com a concepção idealista do universo. Em outras palavras, não eram nem racionalistas nem materialistas no sentido estrito do termo. Os adeptos do ide- alismo romântico reconheciam a validade do conhecimento intuitivo ou instintivo e procuravam explicar o universo em um sentido pelo menos em parte espiritual. Esses idealistas român- ticos alemães divergiam muito do individualismo e do huma- nismo da filosofia no século XVIII. O filósofo que forneceu o impulso inicial dessa corrente foi Emanuel Kant (1724-1804). 92 História Moderna Século XVII e XVIII Como filósofo, Kant deve muito aos grandes pensadores do Iluminismo, nos direitos naturais do homem e defendia a sepa- ração dos poderes com uma proteção necessária à liberdade do cidadão. A sua filosofia, no entanto, se distancia em muito do racionalismo, dividindo o universo em dois grupos: o reino da natureza física, ou mundo dos fenômenos, e o reino da realidade última ou mundo dos ‘noúmenos’. Os métodos de conhecimento aplicáveis a esses dois reinos são inteiramente diversos. A percepção sensorial e a razão só nos podem dar o conhecimento do reino dos fenômenos, o mundo das coisas físicas. Para Kant, no reino mais alto, o reino espiritual que é a realidade última, tais métodos não têm utilidade. Segundo essa doutrina, como todo conhecimento ordinário se baseia na percepção dos sentidos, não podemos provar pela razão ou pela ciência que Deus existe, que a vontade do homem é livre ou que a alma é imortal. Em Kant temos a convicção de que a virtude e a felicidade estão inseparavelmente ligadas, de que o universo é governado por uma lei moral e, por conclusão, um ser divino deve presidir aos destinos do homem. Tal conclusão, no entanto, está fora do alcance da ciência, mas é ditada por sentimentos fortes para serem ignorados. Nessa concepção, a intuição e a convicção profunda são instrumentos tão válidos para o conhecimento como são a lógica e a ciência no reino dos fenômenos. O filósofo mais influente do idealismo romântico foi Georg Wilhelm Hegel (1770-1831). Durante muitos anos, Hegel foi professor de filosofia na Universidade de Berlim, tendo con- quistado numerosos adeptos e, por meio deles, exerceu for- te influência na formação das correntes de ensinamento que se seguiram. Segundo Burns, a influência de Hegel em certos Capítulo 7 Aspectos Principais da Revolução Científica 93 meios parece ter sido ainda maior na posteridade do que em seu tempo. A doutrina central de Hegel se funda na ideia de evolução finalística. Ele considerava o universo como estando em um estado de fluxo, no qual tudo tende a passar ao seu oposto. Em particular, cada instituição ou organismo social ou político desenvolve-se até a maturidade, desempenha sua missão, após o que cede lugar a algo diferente. Mas o antigo nunca é completamente destruído e o conflito entre opostos resulta, por fim, em uma fusão, na criação de um novo orga- nismo formado de elementos tirados dos dois extremos. Para Hegel, esse processo se repete inúmeras vezes e, a cada nova fase, representa um melhoramento do que existia antes. A concepção hegeliana, no entanto, não era mecanicista, pois acreditava que todo o processo era guiado pela razão univer- sal ou Deus. A evolução, segundo Hegel, é o desdobramento de Deus na história. Liberdade para ele consistia na sujeição à sociedade política e o indivíduo não tinha direitos que o Esta- do devesse respeitar. O idealismo romântico projetou sua influência em várias direções. Conforme se viu, sob uma ou outra de suas formas, a doutrina hegeliana foi adotada como um evangelho pelos conservadores. Homens de igreja, que haviam sido atacados antes, acolheram a filosofia que reconhecia os méritos da fé e exaltava o mundo do espírito. Já aqueles que tinham in- teresse na manutenção da ordem alegraram-se com o novo culto da tradição e da autoridade e com a condenação im- plícita da revolução, dos ideais iluministas. Os governantes eram particularmente gratos a Hegel, sobretudo aos seus en- sinamentos políticos, tanto que foi aclamado como ‘o filósofo oficial’ na corte prussiana. Tanto a doutrina de Hegel como 94 História Moderna Século XVII e XVIII a de Fichte (1762-1814), que também foi discípulo de Kant, ambas fortaleceram a onda crescente de nacionalismo e, por fim, contribuíram para a formação do fascismo na Europa. Por outro lado, o idealismo romântico alemão gerou frutos que não eram exatamente do gosto dos poderosos. Arthur Scho- penhauer (1788-1860) se destacou ao conceber uma força universal a dirigir todo o crescimento e todo movimento, uma filosofia de completo pessimismo. Ensinava que essa força é a Vontade, um desejo cego, inconsciente, de sobreviver que está presente nos indivíduos e nas espécies. Como a vontade de viver está presente em todas as formas de vida e como leva o forte a devorar o fraco, este mundo, para Schopenhauer, é o pior dos mundos possíveis. Menos negativo que esse, o outro rebento do idealismo romântico foi a filosofia da história de Karl Marx. A célebre doutrina do materialismo histórico, for- mulada por Marx, deve muito à influência de Hegel. Ambas partilhavam da crença em uma evolução progressiva da hu- manidade, por força do choque entre sistemas opostos, o que resultaria em uma sociedade perfeita. Enquanto Hegel pensa- va que a meta final seria um estado perfeito, Marx afirmava que o resultado final seria o comunismo, após a extinção do Estado. Eles também diferiam em muito quanto à concepção do processo dialético, da luta entre os opostos. Hegel interpre- tava a evolução histórica como um desdobramento do espí- rito do mundo ou razão universal. Já Marx sustentava que as mudanças históricas eram o resultado de fatores econômicos, especialmente a luta de classes. Assim, foi na Alemanha que o idealismo romântico teve maior popularidade. Nos demais países, especialmente na In- glaterra e na França, onde o Iluminismo havia lançado raízes Capítulo 7 Aspectos Principais da Revolução Científica 95 mais fortes, o tom geral do movimento reacionário tendia mais ao liberalismo. É de fins do século XVIII o surgimento da teoria chamada Utilitarismo, formulada por Jeremy Bentham (1748- 1832). Sua principal obra, intitulada ‘Princípios de Moral e de Legislação’, foi publicada em 1789. Esse nome deriva-se do ensinamento básico de Betham, segundo o qual o critério supremo a que se deve conformar toda crença ou instituição é o critério da utilidade. Para ele, a utilidade consistia em con- tribuir para a maior felicidade do maior número de pessoas. De acordo com o utilitarismo, qualquer doutrina ou prática que não correspondesse a esse requisito deveria ser rejeitada. Burns afirma que, a despeito de seu significado social, o ideal de Benthan foi o ápice do individualismo. Não só afirmava ser o interesse da comunidade a soma dos interesses dos indiví- duos que a compõem, com admitia que os motivos dos indiví- duos são puramente egoístas, que o grande impulsionador da ação humana é o desejo de experimentar o prazer e de evitar a dor. Por consequência, a sociedade deve dar a cada um dos seus membros completa liberdade de seguir os seus legítimos interesses.Mas o maior de todos os filósofos utilitaristas foi John Stuart Mill (1806-73), que sobrepujou Benthan. Como filósofo, Mill assimilou todas as tendências de pensamento inglês, incluindo Locke, Hume e Benthan, mas foi como pensador original que ele apresentou contribuições próprias. Mill fundou um sistema de lógica baseado na experiência como origem de todo co- nhecimento, afirmando que as chamadas verdades evidentes por si mesmas, inclusive os próprios axiomas da matemática, são simples inferências derivadas de fatos observados, por ser a natureza uniforme e de todo efeito ter uma causa. Para Mill, 96 História Moderna Século XVII e XVIII o conhecimento não provém de ideias inatas nem de uma in- tuição mística, e também rejeitava a afirmação de que os úni- cos motivos da conduta humana seriam a busca do prazer e a fuga da dor. Ao contrário, ele afirmava que a conduta do indi- víduo é, muitas vezes, influenciada pelo simples hábito e pelo desejo de harmonizar-se com seus semelhantes. Mill repudia- va o socialismo porque implicaria na destruição da liberdade individual, mas defendia a intervenção do estado no interesse dos cidadãos menos afortunados. Para concluir essa seção sobre a segunda fase da revolu- ção intelectual e científica, enfocaremos a trajetória do mo- vimento filosófico conservador que se seguiu ao Iluminismo. Esse conjunto não ficaria completo sem que se estudasse o pensador do continente europeu que mais se aproximou das filosofias liberais: o positivista Auguste Comte (1798-1857), conhecido como um dos fundadores da sociologia. O positi- vismo de Comte, que teve grande influência na formação das ciências sociais, recebe esse nome porque sua doutrina coloca que o único conhecimento válido é o conhecimento positivo, ou seja, o conhecimento originado das ciências. O positivismo pode ser classificado, juntamente com o utilitarismo, entre as filosofias empíricas, que compreendem aquelas que derivam toda a verdade da experiência ou da observação do mundo físico. Comte rejeitava toda a metafísica, entendendo que o homem não poderia descobrir a essência oculta das coisas. Para ele, tudo o que sabemos é como as coisas acontecem, as leis que regem sua ocorrência e as relações existentes entre elas. Defendia também que um conhecimento útil e prático pode ser utilizado para melhorar a humanidade, tanto que, no fim de sua vida, fundou uma Igreja da Humanidade, para Capítulo 7 Aspectos Principais da Revolução Científica 97 ajudar a reformar a sociedade. No Brasil, a filosofia política do positivismo se fez sentir especialmente no Rio Grande do Sul, onde influenciou líderes políticos como Júlio de Castilhos. Neste capítulo, no qual apresentamos um panorama da história da ciência no ocidente, enfatizamos a passagem de uma etapa inicial, marcada pela emergência da racionalidade científica e suas aplicações técnicas, que animaram o desen- volvimento das ciências físicas, das engenharias, da química, entre outros ramos. Na segunda etapa, agora concomitante- mente à implantação do modo de produção capitalista, e já plenamente consorciada, surgem as concepções conservado- ras, em reação aos ideais do Iluminismo, sinalizando uma rup- tura no plano ideológico. A partir daí, a revolução intelectual se refletiu em todas as áreas do conhecimento, especialmente nas artes, o que prenunciava a emergência de uma outra figu- ra importante. Para concluir esta apresentação, vamos recorrer ao traba- lho de Falcon e Rodrigues no que tange à interpretação do contexto geral em que ocorrem esses movimentos filosóficos, éticos e religiosos. De acordo com esses autores, a época das luzes foi a criação mais poderosa da modernidade desde o Renascimento. O uso da noção de esclarecimento, como pre- ferem os alemães, indica bem o que ocorreu no século XVIII. “Longe de ser um movimento homogêneo, o Iluminismo foi plural, dando origem à consciência que os territórios europeus tinham de si mesmo, introduzindo uma noção de história como volta às origens, demarcando diferenças e indicando possibili- dade de progresso.” (p. 200) O Iluminismo: a Filosofia Militante Victor Lourenço dos Santos Júnior Capítulo 8 Capítulo 8 O Iluminismo: a Filosofia Militante 99 Para dar início ao estudo dessa etapa importante da história da humanidade, vamos recorrer a uma definição do Iluminismo, segundo as palavras de Norberto Bobbio. Iluminismo é uma mentalidade difundida no século XVIII, mas o termo indica um movimento de ideias que tem suas origens no século anterior, ou mesmo no século XV, e que se desenvolve especialmente no século XVIII, o chamado Século das Luzes. Esse movimento visava estimular a luta da razão contra a autoridade ou, na expressão literária, a luta da luz contra as trevas. Daí o nome de Iluminismo, tradução da palavra alemã aufklarung, que sig- nifica esclarecimento, iluminação. Como título deste capítulo, e também como interpretação da história, o Iluminismo pode ser considerado, na sua primeira etapa, como uma filosofia militante e crítica da tradição cultural e institucional da sua época; seu programa de ação“é a difusão do uso da razão para dirigir o progresso da vida em todos os seus aspectos.” (Dicionário, p. 605). De acordo com o livro de Luiz Roberto Fortes (1982, p. 8), a Revolução Francesa de 1789 mudou radicalmente a face do mundo. Pôs fim ao Antigo Regime e inaugurou a nossa histó- ria – a modernidade. Mas ele não surgiu do nada. Segundo o autor, os revolucionários que partiram ao assalto do poder po- lítico foram buscar em um rico arsenal de ideias as justificativas para sua ousadia. Esse arsenal de ideais foi sendo construído ao longo do século graças a um intenso fervilhar de ideais. É a esse movimento cultural prodigioso que domina a Europa Oci- dental – especialmente França, Inglaterra e Alemanha – que se costuma chamar de Iluminismo ou Filosofia das Luzes ou ainda Filosofia da ilustração. 100 História Moderna Século XVII e XVIII É oportuno repetir a advertência do autor sobre a com- plexidade desse movimento: “Quem quiser compreender mes- mo os filósofos do Iluminismo terá que ler as suas obras”, restando-nos, portanto, indicar alguns percursos de leitura e interpretação para o fenômeno da Iluminação. A primeira grande característica do Iluminismo é a profunda crença na razão humana e nos seus poderes. “Revalorizar o homem sig- nifica antes de tudo encará-lo como devendo tornar-se sujeito e dono do seu próprio destino, é esperar que cada homem, em princípio, pense por conta própria” (idem, p. 9). Não por acaso, a Filosofia das Luzes está relacionada com a revolução científica, assim como aos demais fatores de ordem política e econômica. Antecedentes Em termos de seus antecedentes mais remotos, as raízes do Iluminismo se estendem desde a filosofia de Platão, mais exa- tamente em A República, onde é apresentada a célebre tese dos reis filósofos. Para uma iniciação ao tema complexo da história da ciência, a leitura do livro Breve história da Ciência Moderna, de Braga, Guerra e Reis (2005), é uma opção mais acessível. Conforme se lê na introdução, em resumo, o século XVIII é considerado o século da razão. O advento da ciência moderna tornou necessário banir todos os resquícios do que era expressão do pensamento herdado do período medieval, sobretudo pelo que tinha de misticismo e dogmatismo. O mo- vimento do Iluminismo ergueu a bandeira da razão, questio- nando a tradição da igreja, mais exatamente o monopólio da interpretação. Nessa passagem, quando se consolidava a vi- Capítulo 8 O Iluminismo: a Filosofia Militante 101 são de que o universo funcionava tal qual a máquina, uma figura assume a dianteira em importância: Isaac Newton. As descobertas científicas de Newton, apesar de dialogar com outros sistemasfilosóficos da sua época, especialmente Des- cartes e Leibniz, pavimentaram o caminho e a sustentação de uma visão de mundo chamada então de mecanicismo. Lem- brar sempre que os acontecimentos se interconectam, e que os avanços econômicos, políticos e científicos formam o mesmo contexto europeu. As luzes da razão não ficaram limitadas aos círculos filo- sóficos. “Os engenheiros e a burguesia criaram as condições socioeconômicas propícias para o surgimento de outra revo- lução, a industrial. O desenvolvimento técnico fez com que os sonhos dos precursores da nova ciência do século XVIII se confirmassem, com a junção dos saberes teórico e prático” (2005, p. 14). As bases do Iluminismo estavam formadas des- de o século anterior, quando começou a transformação da maneira como o homem via o mundo. De acordo com Braga et al, o movimento Iluminista não tinha uma doutrina fechada, mas defendia alguns princípios fundamentais que norteavam o pensamento, sendo que alguns deles se mostravam anta- gônicos. O principal, no entanto, era a supremacia da razão diante do dogmatismo das antigas estruturas. Os Iluministas pretendiam romper com o poder e o primado das ideias re- ligiosas baseadas na revelação bíblica, rejeitando a filosofia cristã medieval e toda explicação com base mística. “A tarefa dos filósofos passou a utilizar o método da análise na sepa- ração das diversas engrenagens para tentar encontrar as leis de funcionamento do universo-máquina”, (idem, p. 17) e isso 102 História Moderna Século XVII e XVIII deveria ser feito em todos os campos do saber, desde a física e a história natural até a química e a economia. A Enciclopédia Antes de falar mais sobre a importância da física de Newton, é preciso conhecer o outro ponto fundamental do Iluminismo: o objetivo de popularizar a nova razão. Para tanto, era preciso realizar uma nova leitura dos saberes herdados do passado e promover a sua divulgação para o restante da sociedade. Para alcançar tal objetivo, foi criado o projeto da Enciclopédia, que iria resumir e disseminar a totalidade dos saberes existentes na época. Mas o projeto dos franceses não foi o primeiro. Uma das mais importantes enciclopédias editadas foi a Cyclopae- dia ou Dicionário universal de artes e ciências, publicada na Inglaterra em 1728, por Ephraim Chambers. A publicação se apresentava em dois volumes e era estruturada de acordo com os dicionários de arte e ciências britânicos existentes desde o final do século XVII. A coletânea de termos técnicos e científi- cos, acompanhada de uma explicação sobre o seu significa- do, tornou-se um sucesso editorial não somente na Inglaterra como em outros países. Tanto foi assim que, em 1745, dois editores franceses resolveram traduzir o livro britânico para o público francês, além de incluir uma revisão dos verbetes. Reforçando essa tese, de acordo com Attico Chassot (2004), quando se deseja mostrar a preocupação do Século das Luzes em resgatar o conhecimento até então acumulado, é preciso conhecer mais sobre a Enciclopédia, que foi chamada ‘máquina de guerra posta a serviço das doutrinas filosóficas’ (2004, p. 167). A enciclopédia traz em seu discurso preliminar Capítulo 8 O Iluminismo: a Filosofia Militante 103 um dos mais admiráveis resumos do conhecimento humano, mas é no próprio título que se revela a intenção maior: Enci- clopédia ou dicionário raciocinado das ciências, artes e dos ofícios por uma sociedade de letrados. Conforme Braga et al, em 1745, uma discordância no processo editorial levou um dos editores franceses, André Breton, a decidir pela publicação de uma nova enciclopédia, no mesmo estilo dos britânicos, mas escrita por intelectuais franceses. O projeto seria alterado e passaria a incluir um número de maior de verbetes, para alcançar um total de 10 volumes. Então foi chamado um dos principais filósofos da época, Jean Le Rond D’Alambert (1717 - 1783), para coordenar o grupo de escritores. Mais adiante, em 1747, Denis Diderot (1713 - 1784) iria assumir a coorde- nação geral, ficando D’Alambert responsável pelos verbetes ligados às ciências naturais e à matemática. A enciclopédia francesa se tornou um marco fundamental no Século das Luzes. Dos 10 volumes programados inicial- mente, foram editados 28 livros, sendo 17 deles com verbetes e 11 com desenhos. No total, foram publicados 71.800 ver- betes e 2.885 gravuras. A proposta dos enciclopedistas era realmente ambiciosa. De acordo com as palavras de Diderot, quando foi lançada a enciclopédia em 1750, a intenção era ‘traçar um quadro geral dos esforços da mente humana, em todos os gêneros, em todos os tempos’ e mais: “O objetivo da enciclopédia é o de reunir os conhecimentos dispersos sobre a superfície da terra, expor o seu sistema geral aos homens com os quais vivemos, para que os nossos descendentes, tornando- -se mais instruídos, tornem-se, ao mesmo tempo, mais virtuo- sos e felizes” (Apud Chassot, p. 168). Em 1751 foi publicado o primeiro volume dos oito inicialmente previstos. Diderot e 104 História Moderna Século XVII e XVIII D’Alambert convidaram uma grande quantidade de colabo- radores, entre intelectuais e artesãos para integrar o grupo dos escritores, formando a Sociedade de Homens de Letras, a autora oficial da enciclopédia. Chassot informa que o grupo contava com 160 colaboradores, mas a viabilidade do projeto dependia de um número determinado de pessoas, chegando a surpreender o fato de que em 1757 já contasse com mais de quatro mil assinantes. A enciclopédia teve a participação de quatro editoras, os chamados livreiros: Le Breton, Briasson, David e Laurrent Durant. No espaço de 25 anos, durante o qual foi produzida e vendida, a enciclopédia garantiu a subsis- tência de mil operários. Ao final, os 28 livros que compunham a Enciclopédia for- maram um retrato do pensamento da época, mostrando tam- bém versões divergentes sobre alguns temas, como a química, o que constitui exemplo da heterogeneidade do pensamento do grupo de escritores. O trabalho, no fundo, não se restringia aos conhecimentos científicos, incluindo descrições detalhadas de artefatos técnicos e processos de fabricação, formando um vasto panorama técnico, científico e artístico daquela época. De acordo com os relatos de Diderot e D’Alambert, para redi- gir alguns verbetes, foi necessário recorrer aos operários mais hábeis, além de ir até as oficinas observar o trabalho, interro- gar os trabalhadores e escrever o que ditavam para desenvol- ver seus pensamentos e extrair deles termos próprios de suas profissões. Eles reconheceram a dificuldade da tarefa, afir- mando que havia ofícios tão singulares e manobras de tanta precisão que seria preciso trabalhar pessoalmente, movendo as máquinas com as próprias mãos e vendo a obra formar-se diante dos olhos para tratar do assunto com exatidão. Para Capítulo 8 O Iluminismo: a Filosofia Militante 105 tanto, foi preciso obter as máquinas, construí-las, pôr mãos à obra e tornar-se aprendiz para depois poder ensinar os ou- tros como se fazia. Nada foi omitido. Entre os colaboradores da Enciclopédia, alguns são mais conhecidos. Por exemplo, Voltaire e Condorcet escreveram os verbetes sobre filosofia; Rousseau sobre música; Buffon tratou das ciências naturais e D’Alambert sobre a matemática. De modo geral, os enciclope- distas estavam menos preocupados com assuntos tradicionais e muito mais na fabricação de calçados ou no comércio de cereais, por exemplo (Chassot, p. 171). Personagens do Iluminismo Como temos oportunidade de mostrar, o Iluminismo foi um movimento que contou com a participação de pensadores im- portantes. Além de partilhar noções e princípios, os teóricos do Iluminismo legaram diferentes contribuições ao pensamento ocidental em suas obras. Esses pensadores trataram de ques- tõesmorais, religiosas e políticas. Assim, de forma resumida, podemos indicar uma amostra de seus principais personagens. Montesquieu publicando em 1721 a obra “Cartas Persas”, onde realizou uma crítica sistemática ao autoritarismo político e aos costumes de diversas instituições europeias. No ano de 1748, ele discutiu as formas de governo fazendo uma análise da monarquia inglesa no livro “O Espírito das Leis”. Nessa obra, afirmava que os poderes deveriam ser divididos entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Foi ao ponto de propor que o rei deveria ser um mero executor das ações tomadas pelos poderes a serem intuídos nessa forma de governo. Além disso, 106 História Moderna Século XVII e XVIII Montesquieu acreditava que uma Constituição deveria ser re- digida como lei máxima dos governantes e da sociedade. Jean-Jaques Rousseau marcou sua época como pensador que tinha opiniões de caráter mais radical. Contrário a uma vida luxuosa, afirmou que a propriedade privada originava a desigualdade entre os homens. No livro “Discurso sobre a origem e o fundamento da desigualdade entre os homens”, Rousseau defendeu que o homem era corrompido pela socie- dade e que a soberania popular e a simplicidade deveriam ser princípios básicos na ascensão de uma sociedade mais justa e igualitária. No “Contrato Social”, Rousseau defendia o princípio no qual a vontade geral dos homens promoveria instituições mais justas. Também destaque entre os Iluministas, outro importante pensador foi Voltaire. Ele se notabilizou por atacar ferozmente a Igreja e o clero. Acreditava que Deus não seria conhecido pelos dogmas religiosos e que somente os homens dotados de razão e liberdade seriam capazes de conhecer as vonta- des e desígnios divinos. Em seu livro “Cartas Inglesas”, cri- ticou as instituições religiosas e a existência de hábitos feu- dais ainda remanescentes na sociedade europeia. Voltaire não defendia a revolução como instrumento de mudança. Diderot e D’Alembert, além de contribuírem com ideias, tam- bém se preocuparam em difundir os valores do iluminismo pela Europa. Conforme já mencionado, a partir de uma gran- de compilação chamada “Enciclopédia”, reuniram o saber produzido por diferentes pensadores iluministas. Essa obra condensava a perspectiva iluminista sobre os mais variados as- suntos. Estabelecendo um verdadeiro movimento que ganhou Capítulo 8 O Iluminismo: a Filosofia Militante 107 o nome de enciclopedismo, o esforço de ambos conseguiu contar com a colaboração de mais de cento e trinta diferentes autores. As principais características do Iluminismo Para encerrar essa parte, vamos lembrar as principais carac- terísticas desse movimento, procurando perceber as conexões e implicações que esses aspectos tiveram no desenrolar dos fatos posteriores. A primeira e mais decisiva foi a valorização da razão, considerada o mais importante instrumento para se alcançar o conhecimento. Houve, no mesmo sentido, a valo- rização do questionamento, da investigação e da experiência como forma de conhecimento tanto da natureza quanto da sociedade, política ou economia. Nesse momento, consoli- dou-se a crença nas leis naturais, entendidas como normas da natureza que regem todas as transformações que ocorrem no comportamento humano, nas sociedades e na natureza. Também se firmou a crença nos direitos naturais, que todos os indivíduos possuem em relação à vida, à liberdade, à posse de bens materiais. Além disso, criou-se um ambiente de crítica ao regime do absolutismo, às práticas do mercantilismo e aos pri- vilégios da nobreza e do clero. No aspecto mais saliente, hou- ve a defesa da liberdade política e econômica e da igualdade de todos perante a lei, e uma visão crítica à Igreja Católica, embora não se excluísse a crença em Deus. O Iluminismo: Um Projeto Inacabado Victor Lourenço dos Santos Júnior Capítulo 9 Capítulo 9 O Iluminismo: Um Projeto Inacabado 109 O projeto do Iluminismo representou para a o Ocidente uma revolução completa na visão de mundo. Depois do passado medieval, apesar da continuidade de fatores locais e culturais, a Humanidade passou a desfrutar de um certo otimismo fun- dado na razão, no uso da ciência para dominar a natureza e conquistar uma nova dimensão da vida – a cultura. O otimis- mo da razão animou gerações de pensadores mesmo depois de passados vários séculos, o que parece ser algo instintivo ao ser humano. É típico da juventude acreditar na onipotência e na infalibilidade da ciência e só depois, ao conhecer em de- talhes a história, é que se entende exatamente o que ficou por fazer, apesar de todo conhecimento científico e tecnológico que foi criado nos últimos séculos. De um ponto de vista sintético, é possível afirmar que o Iluminismo se enquadra em uma perspectiva universalista. Suas aspirações e ideais universalistas têm relação direta com as tradições católicas de propagação da fé. Para ilustrar esse aspecto, cabe a citação de um trecho do livro Utopias do Re- nascimento. “A Espanha descobriu o Novo Mundo para que todas as nações estivessem sob uma só lei. Não sabemos nós o que fazemos, mas Deus sim, de quem somos instrumentos”. O autor dessa passagem, Eugênio Imaz, faz referência ao pen- samento do colonizador que chegou ao novo mundo imbuído desse otimismo, deste ímpeto de alargar o mundo e converter os povos da América ao catolicismo. Durante a Idade média, foi essa doutrina teológica que manteve uma certa unidade do continente Europeu depois da queda do Império romano. O universalismo é um traço típico da teologia católica que veio inserido no Iluminismo. 110 História Moderna Século XVII e XVIII As promessas do Iluminismo estão gravadas na história. Os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade integram, por assim dizer, a concepção mais avançada do que poderia ser a Humanidade. Expressam ideais que deveriam ter se realizado plenamente, mas não o foram. Uma visão sociológica dessas promessas do Movimento das Luzes pode ser muito útil ao es- tudante da história, porque traz uma perspectiva diferente. Conforme Anthony Giddens (1), a modernidade refere-se a estilo, costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII e que depois se tornaram mais ou menos mundiais em sua influência. Essa concepção associa a modernidade a um período de tempo e a uma lo- calização geográfica em seu marco inicial. No momento em que escrevia, Giddens entendia que as Ciências Sociais, ele incluído, estavam alcançando um período em que as conse- quências da modernidade estavam se tornando mais radica- lizadas e universalizantes do que antes, no fim do século XX. Em seu trabalho sociológico, o autor chama a atenção para a natureza dupla da modernidade. “O desenvolvimento das instituições sociais modernas e sua difusão em escala mundial criaram oportunidades bem maiores para os seres humanos gozarem de uma existência segura e gratificante (...) Mas a modernidade tem um lado sombrio, que se tornou muito apa- rente no século atual”. Ele lembra que, no todo, o lado das oportunidades foi mais enfatizado pelos fundadores da socio- logia. Afirma que tanto Marx como Durkheim viam a era mo- derna como uma era turbulenta, mas ambos acreditavam que as possibilidades benéficas abertas pela era moderna supera- vam suas características negativas. O otimismo imanente da Capítulo 9 O Iluminismo: Um Projeto Inacabado 111 mentalidade Iluminista fica evidente nessas passagens. “Marx via a luta de classes como fonte de dissidências fundamen- tais na ordem capitalista, mas vislumbrava ao mesmo tempo a emergência de um sistema social mais humano”. Durkheim, por seu lado, acreditava que a expansão ulterior do industria- lismo estabelecia uma vida social harmoniosa e gratificante, integrada a partir de umacombinação da divisão do trabalho e do individualismo. Entre os fundadores da sociologia, Max Weber era o mais pessimista. Ele via o mundo moderno como um mundo paradoxal em que o progresso material era ob- tido apenas às custas de uma expansão da burocracia, que esmagava a criatividade e a autonomia individuais. Contudo, nem mesmo Weber seria capaz de antecipar o que viria a ser o lado mais negativo da modernidade, segundo afirma Gid- dens. Conforme seu argumento, todos os três autores clássicos viram que o trabalho industrial moderno tinha consequências degradantes, submetendo muitos seres humanos à disciplina de um labor maçante, repetitivo. Mas não se chegou a prever que o desenvolvimento das forças de produção teria um poten- cial destrutivo de larga escala em relação ao meio ambiente. Outro exemplo é o uso consolidado do poder político, como nos casos de totalitarismo. O autor lembra que os fundadores da sociologia consideravam o uso arbitrário do político como coisa do passado, que o despotismo parecia ser característico de estados pré-modernos. Giddens então lembra a ascensão do fascismo, o holocausto, o stalinismo e outros episódios da história do século XX, em que se pode ver que a possibilidade de totalitarismo é contida dentro dos parâmetros da moderni- dade, ao invés de ser por eles excluída. “o governo totalitário combina poder político, militar e ideológico de forma mais 112 História Moderna Século XVII e XVIII concentrada do que jamais foi possível antes da emergência dos estados-nação modernos”. Os pensadores sociais, escrevendo no fim do século XIX e início do século XX, não poderiam ter previsto a invenção dos armamentos nucleares, mas puderam presenciar os terríveis eventos da 1ª Guerra Mundial. Giddens, no entanto, destaca que a conexão da organização e inovação industriais com o poder militar é um processo que remonta às origens da própria industrialização moderna. Nesse caso, o que a sociologia faz é reconhecer aquilo que temos visto ao longo destes capítulos da história da Europa Ocidental, especialmente a formação dos estados. Em todos os casos, porém, a conclusão que se impôs, ainda que transitória, foi a perda da crença no ‘pro- gresso’ e a dissolução das grandes narrativas históricas. Os processos de secularização e racionalização da vida, levados à cabo pelo Iluminismo, levaram ao desencantamento com o mundo moderno, na expressão de Weber. Muito mais contundente na sua análise, John Gray afirma que uma das heranças negativas do Iluminismo se inscreve na longa tradição de guerras religiosas. A exemplo dos Cru- zados, entre outros defensores da fé católica, os movimentos revolucionários e também o nazismo e o fundamentalismo se apoiaram na crença de que é possível mudar a sociedade pela força das armas ou do terror. Gray escreve que o terrorismo praticado no século passado era motivado em boa parte por esperanças seculares. “Os regimes totalitários do século XX encarnavam alguns dos sonhos mais ousados do Iluminismo. Alguns de seus piores crimes foram cometidos em nome dos ideais progressistas, enquanto até mesmo regimes que se con- Capítulo 9 O Iluminismo: Um Projeto Inacabado 113 sideravam inimigos dos valores do Iluminismo tentavam em- preender um projeto de transformação da humanidade recor- rendo ao poder da ciência, cujas origens estão no pensamento Iluminista”. O autor insiste em que o papel do Iluminismo nos atos de terror do século XX ainda é um ponto cego na percep- ção dos ocidentais. Nesse ponto, cabe assinalar que o estudo da história pode se beneficiar dos avanços que a Sociologia e a Filosofia fazem no terreno compartilhado com a história an- tiga e atual. A análise de J. Gray põe em evidência a ligação entre fatos aparentemente desconexos. Ao afirmar que existe um ponto cego na percepção ocidental do que seja o Iluminis- mo, existem centenas de livros afirmando que a repressão em massa na Rússia estalinista e na China Maoísta era subproduto de tradições despóticas, sugerindo que a culpa caberia aos povos dos países submetidos ao domínio comunista, e isen- tando o estado de qualquer responsabilidade. Ele mostra que o mesmo se deu na ocupação do Iraque no governo George Bush. O projeto de mudar o regime político não deu certo e a culpa foi atribuída aos iraquianos, que não teriam aproveitado a oportunidade. Gray afirma que a repressão em massa foi praticada em países com histórias extremamente diferenciadas e tradições que só tinham em comum o fato de estarem sujei- tas a experiências utópicas. A tese deste capítulo que se intitula Projeto inacabado do Iluminismo sugere que as promessas do Movimento das Luzes foram além das expectativas iniciais. De fato, houve a revolu- ção dos direitos humanos e os avanços da ciência, especial- mente com o desenvolvimento das cidades. Mas no tocante às ideias, o Iluminismo gerou uma grande onda conservadora no período seguinte, sobretudo na Alemanha. Mais importante, 114 História Moderna Século XVII e XVIII no entanto, é perceber a ligação entre os países de tradições tão diferentes, no passado e no presente, como afirma Gray. “As aparentes semelhanças entre países que sofreram a impo- sição de regimes comunistas decorrem antes desse destino co- mum que de suas histórias anteriores. Embora alguns regimes comunistas tenham feito progressos no bem-estar social, todos eles tiveram a experiência da repressão em massa, paralela- mente a corrupção e a devastação ambiental.” Nesses países, o terror era uma reação a esses fracassos (corrupção e devas- tação ambiental) e à consequente falta de legitimidade popu- lar dos regimes políticos, mas também representava a conti- nuação de uma tradição revolucionária europeia. Conforme Gray, os regimes comunistas foram fundados tendo em vista um ideal utópico cujas origens estão no cerne do Iluminismo. O lado escuro da Modernidade é o ponto cego das ci- ências humanas: aquele aspecto essencial que não pode ser admitido, mas que está presente. Se na época da Revolução Francesa as condições políticas e econômicas eram favoráveis à revolução das Luzes, tudo que veio após pode ser conside- rado como consequência daquele novo ímpeto. As consequ- ências indesejadas do progresso material não eram menores que os planos de expansão. Ainda segundo o estudo de Gray, não é o aspecto do terror que distingue o século XX das épocas anteriores. Ele afirma que, em suas piores manifestações, o terror no século XX foi utilizado com o objetivo de transformar a vida humana. A característica maior não foi a escala, mas o fato de ter como meta o aperfeiçoamento da vida humana. “O projeto utópico só pode ser promovido pelo desmantelamento das instituições sociais vigentes, o que conduz a um programa Capítulo 9 O Iluminismo: Um Projeto Inacabado 115 que vai muito além de qualquer coisa já tentada pelas tiranias tradicionais”. (2) Para uma compreensão dos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, o refrão do Iluminismo, é importante ir além da compilação dos eventos e entrar na consideração dos va- lores envolvidos. Existe a interpretação de que os ideais da Liberdade e Igualdade, se levados ao cabo na sua aplicação, se revelam incompatíveis, porque o máximo de liberdade re- presentaria a aniquilação da igualdade, por absoluta falta de oportunidades para todos. Do lado da igualdade, do mesmo modo, o máximo de igualdade acabaria com a noção de liber- dade, para ficar no plano teórico. Finalmente, quanto ao ideal de fraternidade, este é o que menos evoluiu na escala de uso. A Fraternidade ficou associada ao lado social, embora toda a legislação que surgiu após tenha sofrido influência da Decla- ração Universal dos Direitos do Homem. Entre estudiosos juris- tas, existe extensa controvérsia sobre a incompatibilidade entre os ideais deLiberdade e Igualdade. A histórica defasagem do que toca à Fraternidade, no entanto, ficará como sugestão de para um estudo posterior. Como foi mencionado o conceito de secularização, um dos pontos importantes na transição do modo de produção feudal para o capitalismo, deverá ser lembrado dentro con- texto da época. A grande novidade do reformismo ilustrado foi a luta sem tréguas empreendida pelos príncipes contra o poder e a influência ideológica de natureza eclesiástica. Ao mesmo tempo, o empenho em tornar efetiva a imagem do Estado como defensor dos interesses do chamado bem comum, segundo afirmam Falcon e Rodrigues. Para atingir 116 História Moderna Século XVII e XVIII tais objetivos, foi necessário o fortalecimento do aparelho burocrático, única maneira de ampliar e tornar mais eficien- te o campo de ação governamental. Os empecilhos à ação do príncipe precisavam ser removidos, em nome das Luzes. Como vimos na Formação dos Estados Nacionais, esse pro- cesso consistiu na centralização e racionalização de diversas instâncias administrativas, com a definição das atribuições de cada órgão, para garantir a presença da autoridade sobe- rana do príncipe. A secularização inclui esforços humanitá- rios da razão e da sensibilidade no sentido de promover a felicidade do ser humano, uma verdadeira salvação secular. Lembram daquilo que foi dito no início sobre o otimismo da mentalidade Iluminista, eis novamente esse elemento. E tam- bém não foram poucas as resistências nas regiões, onde se revelou uma perspectiva francamente hostil ou indiferente aos valores da transcendência, ou seja, a uma concepção terrena e laica da existência humana. (3) Para concluir a tese das promessas não cumpridas, con- siderar o seguinte. O episódio dramático e cruel no ano de 1793, O Terror, acabou par lançar uma nuvem de descrédito sobre as reais intenções dos revolucionários e, por extensão, das ideias Iluministas, sobretudo nos países em que foi menor a penetração da nova ideologia, especialmente a Alemanha. As execuções sumárias de prisioneiros foi a face sangrenta revolução, querendo representar a imposição da vontade da nova maioria por força não só da política mas, acima de tudo, pelo uso legítimo da violência. Esses aspectos já foram muito pesquisados e estudados, porém resta ainda buscar algumas respostas. Caberia perguntar o que pretendiam os reforma- dores sociais Iluministas. Isso remete ao conteúdo utópico da Capítulo 9 O Iluminismo: Um Projeto Inacabado 117 filosofia, inspirado diretamente na República de Platão e no mito da cidade perdida de Atlântida. (1) As consequências da modernidade. (1991) Anthony Giddens. (2) Missa Negra: religião apocalíptica e o fim das utopias. (2008) John Gray. (3) A formação do mundo moderno: a construção do Oci- dente dos séculos XIV ao XVIII. (2006) Falcon e Rodri- gues. O “Despotismo Esclarecido” e Alterações na Europa do Século XVIII Regina Maria Gonçalves Curtis Capítulo 10 Capítulo 10 O “Despotismo Esclarecido” e Alterações... 119 Aparentemente, a expressão “despotismo esclarecido” pode apresentar uma contradição: como um rei déspota pode ser influenciado pelas luzes do pensamento do século XVII e XVIII? Mas foram vários os casos de monarcas que governaram com base na razão. Foi assim que surgiram reis que instituíram refor- mas políticas, implementaram aberturas na economia, liam e se correspondiam com iluministas franceses, apoiavam as artes e toleravam a diversidade religiosa. Segundo Luís Roberto Salinas Fortes, “na ação político-administrativa desses ‘déspotas escla- recidos’ seria possível, à primeira vista, ver a aplicação prática, em termos políticos, da grande aspiração própria do Iluminismo e de acordo com a qual a Razão humana, apossando-se do po- der político, estaria em condições de conduzir o homem à plena realização do seu destino” (FORTES, 1981, p. 75). Geralmente, essas manifestações ocorreram, não em vão, nos Estados monárquicos mais atrasados e com o poder abso- luto mais fraco como a Áustria, a Rússia, a Polônia, a Prússia, a Espanha e Portugal, esses dois últimos, exemplos ibéricos de nações que conheceram o apogeu e a decadência na Ida- de Moderna. O historiador Francisco Falcon o define como “práticas reformistas as mais variadas, sobretudo em relação à sociedade e à cultura, configuram então um processo de mu- danças ‘pelo alto’, as quais ficaram conhecidas desde então como despotismo esclarecido, ou absolutismo esclarecido” (FALCON, 2009, p. 10). Claro que essa aproximação dos monarcas com algumas ideias iluministas não comprometia seu poder. Pelo contrário: geralmente eram realizadas para que fosse melhorada a sua governabilidade. Os grandes monarcas esclarecidos também foram chamados de reis-filósofos. Alguns não só leram as 120 História Moderna Século XVII e XVIII obras de homens como Voltaire e Maquiavel, como também os conheciam pessoalmente, como foi o caso de Frederico II na Prússia e Catarina II na Rússia como veremos a seguir. As ideias iluministas influenciaram alterações, ou tentativas de alterações nos países em que monarcas e seus secretários buscaram implantá-las. Eram alterações no campo político, econômico e cultural. No primeiro caso, uma separação do Estado da Igreja e a diminuição do poder da nobreza foram atitudes típicas desses governantes. Na economia, reformas liberais e o incentivo à produção manufatureira, tinham como objetivo tirar o país do atraso e das crises financeiras. Por fim, culturalmente, a maioria dos déspotas-esclarecidos incentivou a produção artística nacional, além de trazer liberdade religio- sa para os seus reinos. Causas para o Despotismo Esclarescido Mesmo que durante a Idade Moderna a política europeia fosse marcada pelo absolutismo, ainda pesavam heranças feudais. A nobreza não comandava mais, entretanto as cortes guarda- vam relações de fidelidade para com o monarca e vice-versa. A Igreja também influenciava o Estado, atribuindo ao rei o “poder divino”, como preconizava Bossuet, o que garantia cargos aos representantes dessa instituição, tal qual era o caso do cardeal Richelieu na França do século XVII, ou das ordens religiosas, como os jesuítas que administravam as reduções junto aos nativos das colônias. Em muitos casos, por mais poderoso que fosse, o rei ficava na dependência da aristocracia, que levava o poder real a partilhá- Capítulo 10 O “Despotismo Esclarecido” e Alterações... 121 -lo com poderes de menor expressão. O historiador português Antonio Manuel Hespanha afirma que “categorias como as de “Estado”, “centralização” ou “poder absoluto”, por exemplo, perderam a sua centralidade na explicação dos equilíbrios de po- der nas sociedades políticas” (HESPANHA, 2001). Em outras pa- lavras: no absolutismo, o poder real não era tão absoluto assim. O próprio Perry Anderson entende que “Durante toda fase inicial da época moderna, a classe dominante – econômica e politicamente – era, portanto, a mesma do período medie- val: a aristocracia feudal. Essa nobreza passou por profundas metamorfoses nos séculos que se seguiram ao fim da idade média, mas até o final do absolutismo não foi desalojada do poder político” (ANDERSON, 1995, p. 18). Assim, é possível afirmar que no século XVIII, o monarca ainda estava suscetível à aristocracia, da qual ele mesmo fazia parte. Sendo o estado absolutista uma continuidade do feu- dal, ele tinha características do feudalismo, como o dever para com o vassalo, sendo nesse caso, o rei, o suserano. Recordemos que a sociedade do Antigo Regime era muito estático, permitia pouca mobilidade e que os grandes privile- giados continuavam sendo os nobres. E como tais recebiam vantagens e prestavam favores, muitas vezes militares, aos reis. Sendo assim, o monarcaficava na obrigação de retribuir. Como se não bastasse, boa parte do leste europeu vivia em regime de servidão no século XVIII, em sociedades muito atrasadas. Alguns reis, ou ministros, ou secretários perceberam o problema e, por terem entrado em contato com ideias da ilustração, decidiram que era hora de algumas alterações. 122 História Moderna Século XVII e XVIII A difusão do iluminismo As propostas de Voltaire, Montesquieu, Adam Smith e outros não se restringiram apenas à França e à Inglaterra. As ideias circularam pela Europa e chegaram até o Novo Mundo. Mas como isso ocorria? Antes de mais nada, é preciso perceber que não havia um só iluminismo. Certo que homens como Voltaire fizeram profundas críticas à autoridade real. O autor Luiz Roberto Fortes crê que existia um “espírito” do iluminismo, dentro de uma mesma “atmosfera cultural” (FORTES, 1981, p. 14). Esse “espírito” era um indício do pensamento dos séculos XVII e XVIII em que surgiram críticas à Igreja e a nobreza. Alguns nobres tiveram contato com essas ideias. Ocorre que, ao estudar nos grandes centros intelectuais do mundo da época, como França e Inglaterra, liam as obras de homens como Voltaire e Montesquieu e voltaram para suas terras, com objetivos de modernizar seus estados. Além disso, as obras desses iluministas tinham grande circulação pelo continente europeu e pelo mundo, chegando inclusive na América. O caso da Espanha Do final do século XV até o século XVIII, a Espanha foi gover- nada pela mesma dinastia, a dos Habsburgo. Com o pas- sar do tempo, os reis dessa família que antes se mostravam audaciosas e expansionistas, transformaram-se em, cada vez mais, inaptos. Durante o século XVII, a Espanha esforçou-se por manter o domínio sobre suas possessões na Europa, em confrontos como a Guerra dos Trinta Anos. Por esse motivo, perdeu muito dinheiro, o que a levou a sucessivas bancarrotas. Capítulo 10 O “Despotismo Esclarecido” e Alterações... 123 Ou seja, o tesouro vindo da América foi todo gasto em confli- tos no Velho Mundo. Enquanto o poder do rei diminuía, o da aristocracia local, cansada de disputas contra outras monar- quias europeias, crescia. O fim da dinastia Habsburgo na Espanha deu-se com o a morte de Carlos II e a ascensão de Felipe V ao poder. A mo- narquia Bourbon passou a administrar o Estado espanhol de forma racional. Abriu mão de domínios na Europa, mas reto- mou o controle sobre suas colônias na América, nas quais o contrabando havia crescido muito. Para contornar a situação, passou-se a abrir alguns portos, mas também a tributar os pro- dutos que entravam nos domínios do outro lado do Atlântico. As colônias voltaram a dar lucros. Internamente, os Bourbons buscaram alterar algumas es- truturas do absolutismo espanhol: no corpo de funcionários, uma burocracia especializada civil substituiu os nobres que ocupavam altos postos junto aos monarcas; o Exército foi re- modelado. Em outras palavras, os Bourbons tentaram eliminar os vestígios do feudalismo na Espanha. O sucessor de Felipe V, Carlos III, buscou a ajuda de três ministros – Aranda, Floridablanca e Campomanes – para em- preender as reformas bourbônicas e, a rigor, a maioria das mudanças ocorre no seu reinado entre 1716 e 1788. Mesmo assim, seu sucesso foi relativo, porque no início do século XIX, durante a invasão napoleônica, a dinastia Bourbon já tinha entrado em colapso, justamente por não conseguir cumprir com seus objetivos. Segundo Perry Anderson, nesse período, mais da metade das cidades espanholas não estava sob con- 124 História Moderna Século XVII e XVIII trole jurídico da Coroa, mas da Igreja ou de senhores locais (ANDERSON, 1995, p. 80-83). O caso da Rússia A Rússia, até a Revolução de 1917, era um dos países mais atrasados da Europa. Para se ter uma idéia, a servidão exis- tiu até 1861. Foi nessa região que, entre os anos de 1762 a 1796, destacou-se a imperatriz Catarina II. Foi leitora de Vol- taire, Diderot e Montesquieu, de quem copiou algumas diretri- zes enviadas a uma Assembleia. Seu governo tentou moderni- zar a Rússia, implementando inclusive um parque industrial de minas e metalurgia (FORTES, 1981, p. 79). Inspirada nesses pensadores, buscou implementar uma re- forma jurídica e educacional. Mas a aristocracia russa impe- diu essas alterações e Catarina II viu-se obrigada a manter a servidão para os camponeses além de manter o czarismo com modelos absolutistas. O caso da Prússia Na Prússia, reino que ocupava o atual norte da Alemanha, foi um dos modelos mais importantes de “despotismo iluminado”. Ali, o rei Frederico II, – ou Frederico, o Grande – que viveu entre 1712 e 1786, implantou reformas que lhe deram pres- tígio perante boa parte dos filósofos da sua época. Foi muito próximo dos grandes pensadores do iluminismo, como os “en- ciclopedistas”. Produziu uma importante obra filosófica sobre a política e como governar. Incorporou como nenhum outro a Capítulo 10 O “Despotismo Esclarecido” e Alterações... 125 ideia de ser um “rei-filósofo”, ou um monarca que pensa, lê e escreve sobre filosofia da sua época. Na prática, o desenvolvimento do Estado prussiano tam- bém é notável. Frederico proibiu a tortura e trouxe tolerância religiosa ao país. No século XVIII, a Alemanha não era um país unificado e a Prússia, assim como os demais reinos que futura- mente dariam origem à nação alemã, era muito atrasada em relação a outras regiões da Europa, Inglaterra e França, mais especificadamente. Frederico II, além de incentivar as artes, as letras e as ciências, ainda buscou modernizar o Estado, retirando privilégios da nobreza enquanto senhores feudais. Para termos uma ideia do avanço de Frederico, a cidade de Berlim, então capital da Prússia, despontou como grande ci- dade durante o seu reinado. Sua importância foi tamanha que o grande filósofo alemão, Immanuel Kant, chamou o século XVIII de “época do Esclarecimento, ou o século de Frederico” (FORTES, 1981, p. 77-78). O caso da Áustria No século XVIII, a Áustria pertencia ao Sacro Império Romano- -Germânico, extremamente atrasado e decadente. Ali, o impe- rador José I, transformou e modernizou um país com um forte legado do período medieval. Como os demais, foi grande en- tusiasta das artes. Acabou com medidas autoritárias de seus antecessores e administrou uma política de tolerância religio- sa, buscando as tão requeridas pelos iluministas liberdade re- ligiosa e separação do Estado da Igreja, garantindo liberdade de culto. 126 História Moderna Século XVII e XVIII No campo econômico, acabou com a servidão e incenti- vou o comércio, o que era interessante para a burguesia local. Mas ali também a nobreza feudal ficou descontente com as reformas do “déspota esclarecido” e foram desfeitas. O caso de Portugal José I também era como o “rei esclarecido” de Portugal foi chamado. Mas sua ação deveu-se ao seu secretário de Esta- do, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês do Pom- bal. Seu reinado foi de 1750 até 1777 e em 1755, Pombal já tinha ascendido a seu cargo. No século XVIII, o império por- tuguês encontrava-se defasado e desorganizado. Como em outras monarquias, o rei tinha seu poder limitado por deveres para com a aristocracia local, que porventura lhe prestassem algum favor, tal qual combater inimigos por exemplo. Muitos autores, como o português Antonio Manuel Hespa- nha, apontam inclusive para uma falta de centralismo no con- trole da sua colônia na América, que hoje constitui-se no Bra- sil. A divisão do poder em vice-reis, governadores e até mesmo capitães-donatários acabava por dar certa autonomia destes perante o monarca. Além disso, a Igreja controlava importan- tes setores da sociedade lusitana. Portugal estava vivendo um Antigo Regime com características medievais de uma épocafeudal, assim como as demais regiões da Europa aqui citadas. Pombal já havia sido diplomata português em Londres e Veneza. O ano de 1755 foi marcado por um violento terre- moto que destruiu Lisboa. Logo depois, foi chamado para tra- balhar na árdua tarefa de conduzir a reconstrução da cidade, Capítulo 10 O “Despotismo Esclarecido” e Alterações... 127 tarefa para qual recebeu autoridade quase completa. A rigor, o rei José I não se preocupava muito com o governo, mas com outras tarefas menos trabalhosas como caçar e assistir a óperas. Por isso, é possível afirmar que o despotismo ilustrado em Portugal coube muito mais a ação de Pombal do que ao monarca. Mesmo assim, segundo o historiador inglês Kenne- th Maxwell “Pombal exerceu amplos poderes, mas sua força sempre dependeu do apoio do rei” (MAXWELL, 1996, p. 159). Com a autorização real, foram postas em prática um con- junto de mudanças, que convencionou chamar-se de reformas pombalinas. De acordo com Francisco Falcon, Sebastião José de Carvalho e Melo coloca “em prática as múltiplas reformas que deveriam levar o reino luso à modernidade plena, nota- damente no plano mercantil, educacional e cultural, por meio da submissão irrestrita da velha aristocracia e da afirmação do poder real em face da antiga hegemonia eclesiástica” (FAL- CON, 2009, p. 10). Em outras palavras, as mudanças em Portugal vieram para reduzir o poder da nobreza e da Igreja, aumentando o do rei. Na prática, Pombal tomou uma série de medidas que visa- vam modernizar a administração de Portugal e do seu Império, buscando uma racionalidade nesse campo. Para ele, o princi- pal problema era a balança comercial desfavorável, ou seja, o país comprava mais do que vendia. Para acabar com isso, incentivou a criação de manufaturas. Na tentativa de diminuir a participação da Igreja e permitir a circulação de novas ideias no país, implantou uma educação pública em substituição da religiosa. Por essa razão, expulsou a ordem dos jesuítas de Portugal e das suas colônias. 128 História Moderna Século XVII e XVIII Claro que a expulsão teve reflexos no Brasil. Os padres tiveram que abandonar as missões junto aos indígenas, que passaram a ser administradas por civis. Pretendia fazer dos índios súditos do rei lusitano, por isso proibiu a escravização destes e estimulou a assimilição dentro da sociedade colo- nial por meio de casamentos. O processo de secularização da educação em Portugal teve início justamente nas reduções junto aos nativos, com o ensino de Língua Portuguesa e Mate- mática (MAXWELL, 1996, p. 104). Também por aqui propiciou a criação de manufaturas para que não fosse necessário com- prar muitos produtos ingleses. Politicamente, acabou com as Capitanias Hereditárias e diminuiu o poder das Câmaras Mu- nicipais. A partir de agora, vice-rei devia obediência imediata ao monarca português, sem intermediários. Curiosamente, o Marquês do Pombal utilizou-se de pro- postas iluministas para centralizar o poder absolutista. Trouxe novas propostas e novas ideias para um país atrasado, mas para que fosse mais viável governá-lo. Encarnou muito bem a contradição de um “despotismo esclarescido”. A expressão e o legado do despotismo esclarecido Um sinônimo que parece resumir bem o que era o despotismo esclarecido é “absolutismo ilustrado”. O historiador Francisco Falcon prefere esta última, pois ela parece ser explicativa. As- sim, associa o poder real com a reflexão filosófica vigente no século XVIII. Ainda para Falcon, “o poder estatal e os agentes a serviço do governo monárquico absolutista constituem os Capítulo 10 O “Despotismo Esclarecido” e Alterações... 129 meios necessários à realização dos fins inerentes a um poder esclarecido: a felicidade” (FALCON, 2009a, p. 13). O grande objetivo foi terminar com os resquícios de feu- dalismo no Antigo Regime europeu, o que significava diminuir os poderes da Igreja e dos nobres. Isso beneficiava tanto as próprias coroas nacionais, como os camponeses, que se livra- riam da servidão, além da burguesia, que poderia crescer com as reformas econômicas. É evidente que os reis pretendiam ser os maiores beneficiados das mudanças que foram instituídas. Na teoria, esses monarcas queriam, como disse Falcon, a felicidade do seu reino, um dos princípios mais caros aos ilumi- nistas. Na prática, abriram a economia, libertaram os servos e incentivaram o setor da produção. Entendiam que o atraso do seu estado devia-se a uma mentalidade arcaica e medieval. Nos casos da Prússia, Rússia e Áustria, essa situação foi bem evidente com governantes bastante ligados ao pensamento iluminista. No caso das coroas ibéricas, o fato destas terem colônias levou-as a algumas particularidades, pois estas foram direta- mente atingidas. As reformas bourbônicas na Espanha e pom- balinas em Portugal traziam consigo alterações não só na Eu- ropa, como também na América. Seus objetivos eram devolver para aqueles estados o esplendor de séculos anteriores. Entretanto, poucas das mudanças realizadas durante o pe- ríodo do absolutismo ilustrado permaneceram. A nobreza reto- mou o controle dos reinos europeus, voltando ao status quo do Antigo Regime. As ideias iluministas só atingiriam novamente essas regiões da Europa a partir do século XIX, dessa vez sem a ingerência dos reis.