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História Moderna 
Século XVII e XVIII
História Moderna 
Século XVII e XVIII
 1 O Século XVII .......................................................................1
 2 Revolução Inglesa: Antecedentes ........................................15
 3 A Revolução Inglesa ............................................................31
 4 Antecedentes da Revolução Industrial .................................47
 5 Desdobramentos e Implicações da Revolução Industrial .......60
 6 Antecedentes da Revolução Científica .................................71
 7 Aspectos Principais da Revolução Científica .........................86
 8 O Iluminismo: a Filosofia Militante ......................................98
 9 O Iluminismo: Um Projeto Inacabado ................................108
 10 O “Despotismo Esclarecido” e Alterações na Europa 
do Século XVIII .................................................................118
Sumário
O Século XVII
Regina Maria Gonçalves Curtis
Capítulo 1
2 História Moderna Século XVII e XVIII
O século XVII foi marcado, entre outros aspectos, por uma cri-
se geral que afetou a maior parte do continente europeu. Nes-
te capítulo, pretendemos trazer para o leitor um panorama do 
que teria sido essa crise na visão de quatro diferentes autores. 
Após a exposição da referida crise, faremos uma breve síntese 
da realidade socioeconômica da Inglaterra. Nosso objetivo é 
aproximar o leitor do contexto histórico em que o processo 
revolucionário inglês foi detonado. Para além das inúmeras 
controvérsias existentes na historiografia a respeito da crise do 
século XVII, esta é tida como o último momento da transição 
feudalismo-capitalismo, passada a grande expansão ocorrida 
no século anterior
UM MUNDO EM CRISE – Suzanne Pillorget
Suzanne Pillorget inicia seu texto destacando o papel incenti-
vador às atividades comerciais, e consequentemente a todas 
as atividades econômicas, exercida pelas grandes descobertas 
no decorrer do século XVI ao revelarem a existência de jazigos 
de metais preciosos. Ressalta ainda que em uma época de 
pobreza dos meios de pagamento e dos instrumentos de crédi-
to, essas descobertas teriam sido fundamentais no sentido de 
evitar a estagnação econômica que se vislumbrava. Segundo 
a autora, graças a esse grande empreendimento que foram as 
navegações, e principalmente ao espírito de iniciativa dos ho-
mens que souberam aproveitar os seus resultados, o século XVI 
configurou-se enquanto uma época de expansão econômica, 
de alta dos preços e da produção.
Capítulo 1 O Século XVII 3
Contrastando com a realidade acima descrita o século 
XVII, para a autora, ao contrário, teria sido um período mais 
débil do ponto de vista econômico. Ela comenta, inclusive, 
um relativo afrouxamento da produção de metais preciosos: 
as minas da América começaram, ao que parece, dar sinais de 
esgotamento. (MARQUES, BERUTTI e FARIA, p. 131).
Pillorget destaca, ainda, que mesmo que a quantidade ex-
traída de metais continue aumentando, a mesma já não cor-
responderia às necessidades de uma economia européia que 
demandava um volume maior de numerários.
A partir de 1600, pode-se verificar uma baixa nos preços, a 
qual irá se aprofundar, principalmente entre 1620 e 1630, re-
sultando em uma conjuntura internacional bastante frágil. Esta 
se reflete em um longo período de recessão na Europa e no 
restante do mundo, a qual irá durar mais de 100 anos, aden-
trando em alguns países pelo primeiro terço do século XVIII.
Segundo Pillorget, a debilidade econômica da economia 
europeia e mundial descrita só iria ser revertida a partir do sé-
culo XVIII quando se deu a entrada maciça ao mercado mun-
dial de novas quantidades de metal precioso. Estes oriundos, 
principalmente, de Moçambique e depois do Brasil.
Em síntese, para a autora, o declínio da produção metálica 
americana no decorrer do século XVII teria sido o fator pre-
ponderante da crise deste século. Crise esta superada, como 
foi exposto acima, a partir do século XVIII quando a economia 
européia teria conseguido retomar seu crescimento.
4 História Moderna Século XVII e XVIII
A CRISE GERAL DA ECONOMIA EUROPEIA NO 
SÉCULO XVII – Eric Hobsbawm
Tendo como principal objetivo expor as provas que demons-
trariam a existência de uma crise geral no decorrer do século 
XVII, assim como uma explicação para a mesma, Hobsbawm 
inicia seu texto destacando que diferentemente das crises que 
precederam a crise do século XVII, esta teria levado à solução 
dos problemas que haviam se apresentado anteriormente ao 
mundo capitalista.
Interessante destacar que Hobsbawm estabelece uma dis-
tinção entre crise geral e regressão econômica, uma vez que 
a ideia que ambas representariam a mesma coisa teria estado 
presente em toda a discussão sobre a “crise feudal” dos sé-
culos XIV e XV. De fato, o que o autor irá demonstrar é que, 
se determinadas regiões viveram uma regressão econômica, 
outras, ao contrário, até mesmo desenvolveram-se no decorrer 
do século XVII.
Quanto às regiões apontadas por Hobsbawm que teriam 
vivido um processo de estagnação, cabe destacar, em primeiro 
lugar, o fato do Mediterrâneo pela primeira vez na história ter 
deixado de ser o centro mais importante de influência econô-
mica e política, tendo se transformado em um mar estagnado 
e empobrecido. Outras regiões que teriam sofrido esse revés, 
segundo o autor, seriam as potências ibéricas, a Itália, a Tur-
quia, a Alemanha, assim como a Polônia báltica, a Dinamar-
ca e a Hansa. Por outro lado, as potências marítimas e suas 
dependências – Inglaterra, Províncias Unidas, Suécia – assim 
como a Rússia e outras regiões menores como a Suiça pare-
ciam se desenvolver ao invés de estagnar.
Capítulo 1 O Século XVII 5
Hobsbawm destaca ainda que, durante algumas décadas, 
em meados do século, os lucros obtidos no Atlântico talvez 
não tivessem sido suficientes para compensar os prejuízos no 
Mediterrâneo, Europa Central e Báltico, cuja produção encon-
trava-se estagnada ou até mesmo em declínio. Porém, para o 
autor, o mais importante seria o avanço significativo verificado 
no progresso do capitalismo.
O autor segue sua tese referente à crise do século XVII 
fazendo uma radiografia das áreas que teriam tido um avan-
ço e as que teriam regredido do ponto de vista comercial e 
industrial.
Quanto à realidade política do século XVII, Hobsbawm faz 
uma observação afirmando que, nesse aspecto, este século, 
ao invés de apresentar dificuldade, conseguiu sobrepor-se. Na 
verdade, uma referência direta ao Absolutismo, o qual teria 
representado uma forma de governo eficiente e estável, desta-
cando que as únicas exceções teriam sido as potências maríti-
mas as quais estariam vivendo seus regimes burgueses.
Cabe destacar ainda a posição desse autor quanto ao pa-
pel da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) em relação à cri-
se. Se é comum encontrarmos na historiografia uma visão de 
que a crise geral teria sido resultado, sobretudo, da Guerra 
dos Trinta Anos, Hobsbawm segue uma outra linha argumen-
tando que a crise teria afetado várias regiões da Europa que 
não haviam sido devastadas por esse conflito.
Dos aspectos da crise mais importantes destacados por Ho-
bsbawm, encontramos a seguinte afirmação do autor:
6 História Moderna Século XVII e XVIII
A expansão econômica se verificou dentro de um quadro so-
cial que não era ainda suficientemente forte para eclodir e, de 
certa forma, adaptou-se mais a esse quadro que ao mundo do 
capitalismo moderno. (MARQUES, BERUTTI e FARIA, p. 135).
A TEORIA DA REVOLUÇÃO GERAL NA EUROPA 
DO SÉCULO XVII – A. D. Lublinskaya
Lublinskaya começa a expor sua posição acerca da crise do 
século XVII afirmando que os países que viveram um ritmo ace-
lerado para o capitalismo, como a Holanda e a Inglaterra, 
acabaram tambémaumentando sua força política.
Já a França, para a autora, se encontrava em uma posição 
diferente, decorrente, entre outros fatores, das guerras civis do 
século XVI. Lá o capitalismo comercial e industrial não teria 
conseguido deslanchar como nos países acima referidos.
Outros fatores apontados pela autora limitadores do de-
senvolvimento do capitalismo nesse país seria a oposição po-
lítica da aristocracia feudal às tendências centralizadores do 
absolutismo. Mesmo as forças progressistas, a burguesia e as 
massas populares, tendo um papel significativo ao apoiar o 
governo em sua luta contra as tendências separatistas e rea-
cionárias, havia o problema da realidade cotidiana impedindo 
a estabilidade política e, portanto, de uma realidade desfavo-
rável ao desenvolvimento do capitalismo. Entre eles, a autora 
faz referência a guerras civis, às insurreições dos huguenotes 
e os levantes populares, sem contar a fragilidade econômica 
que levou a Fazenda a se encontrar em uma situação crítica. 
Nesse momento, a autora, divergindo de Hobsbawm, nos aler-
Capítulo 1 O Século XVII 7
ta para o fato de que um dos fatores que explica o porquê do 
governo não conseguir dar conta da situação acima descrita 
seriam os inúmeros gastos que o mesmo vinha arcando ao 
investir recursos nas guerras civis e para a Guerra dos Trinta 
Anos.
Lublinskaya se utiliza de um método comparativo analisan-
do o desenvolvimento do capitalismo na França ao mesmo 
tempo que examina a situação econômica da Europa em geral.
Novamente, referindo-se à Inglaterra e à Holanda em re-
lação à França, a autora chama a atenção para o fato de que 
essas três nações caminhavam para a sociedade burguesa a 
um ritmo bastante diferente. Ao comparar a economia desses 
países, Lublinskaya destaca as fragilidades da indústria capi-
talista francesa. Por exemplo, a autora destaca que a divisão 
do trabalho das manufaturas francesas estão longe das que 
existem nas manufaturas holandesas e inglesas, sem falar no 
nível insuficiente dos trabalhadores qualificados franceses.
Quanto ao papel do Estado, Lublinskaya destaca que suas 
subvenções, que seriam indispensáveis nessa época, eram 
ocasionais e muito modestas, com uma acumulação de capital 
limitada, deixando a França à margem da exploração direta 
das colônias. Afora essa debilidade da economia francesa, a 
autora ainda destaca o fato de que a navegação e o comércio 
oceânico desse país se apresentava atrasado quando compa-
rado à realidade holandesa e inglesa.
Todas as diferenças apontadas levam Lublinskaya a criticar 
a teoria da crise geral do século XVII e da crise do capitalismo 
em particular. Diferentemente dos autores que sublinham mais 
8 História Moderna Século XVII e XVIII
o ritmo lento do processo de desenvolvimento do capitalismo, 
a autora afirma que as dificuldades enfrentadas nessa época 
pelo capitalismo europeu não devem ser consideradas como 
crise de produção e de vendas. Procedem da natureza mesma 
do sistema capitalista em seu início, isto é, na época das manu-
faturas. (MARQUES, BERUTTI e FARIA, p. 139).
Sendo assim, segundo Lublinskaya, não seria uma crise da 
produção capitalista a que teria ocorrido no século XVII, mas 
sim uma luta econômica e política entre os países em que o 
capitalismo estaria se desenvolvendo de maneira desigual.
Enfim, propondo uma outra abordagem para a crise do sé-
culo XVII, Lublinskaya nos adverte para os perigos de se gene-
ralizar as análises dessa crise. Para ela, é preciso, em primeiro 
lugar, levar em consideração as inúmeras especificidades de 
cada país, citando, como exemplo, a Inglaterra, a Holanda 
e a França. Enquanto na Inglaterra e na Holanda o ritmo da 
transição para o capitalismo fora mais rápido, na França, a 
aristocracia ao dirigir e influenciar os negócios teria represen-
tado um entrave para a passagem ao capitalismo.
A CRISE GERAL DO SÉCULO XVII – H. R. Trevor-
Roper
Bastante crítico das abordagens marxistas acerca da crise do 
século XVII, Trevor-Roper afirma que a perspectiva do materia-
lismo histórico estaria equivocada, entre outros aspectos, ao 
destacar que a passagem final do feudalismo ao capitalismo 
teria que necessariamente se produzir de forma violenta e re-
volucionária.
Capítulo 1 O Século XVII 9
Para Trevor-Roper, embora geral, na Europa Ocidental, a 
crise do século XVII não seria uma mera crise constitucional, 
tampouco como afirmam os marxistas uma crise de produção, 
mas sim uma crise nas relações entre Sociedade e Estado. Se-
gundo o autor, no século XVII as cortes renascentistas já tinham 
ficado tão grandes, tinham consumido tanto em ‘desperdício’, 
e tinham permitido que seus parasitas penetrassem tão profun-
damente na sociedade que só podiam florescer durante um 
tempo limitado – um tempo também de prosperidade geral em 
expansão. (MARQUES, BERUTTI e FARIA, p. 142).
Enfim, para Trevor-Roper, quando toda essa prosperidade 
fracassou, o Estado acabou entrando em falência e caindo jun-
to. Utilizando-se também de uma metodologia comparativa, o 
autor afirma que, diferentemente da França, que pode contar 
com a habilidade e flexibilidade de seus ministros Richelieu e 
Mazarino, a Inglaterra em sua intransigência representada pela 
irresponsabilidade e violência de figuras como Buckingham e 
Strafford, teria sido mais drasticamente atingida por essa crise 
entre o Estado e a Sociedade, o que terminou culminando com 
a derrubada violenta de sua Monarquia Absolutista.
O CONTEXTO SÓCIOECONÔMICO DO 
SÉCULO XVII
A partir de agora, iremos expor um breve panorama da realida-
de sócioeconômica que, segundo Paulo Miceli, pode servir para 
retratar tanto a realidade inglesa do século XVII, isto é, no perí-
odo pré-revolucionário inglês, quanto a realidade francesa do 
século XVIII, palco em que irá se realizar a Revolução Francesa.
10 História Moderna Século XVII e XVIII
Após destacar que no campo a vida era feita de rotinas 
muito antigas, o autor nos remete para a antiguidade também 
dos processos para plantar e cuidar dos vegetais, dos proce-
dimentos para domesticar os animais, dos instrumentos utiliza-
dos para aumentar ou substituir a força de trabalho humana, e 
principalmente da incapacidade da agricultura em produzir o 
suficiente para alimentar as bocas que dela dependiam.
Nessa época, a base da alimentação residia no consumo 
de vegetais, principalmente os grãos: trigo, cevada, aveia, 
centeio e arroz. A carne na dieta era tão rara que se fala até 
mesmo em vegetarianismo forçado, mesmo porque os preços 
de outros alimentos eram altíssimos quando comparados ao 
preço dos cereais. O cultivo destes, fundamentalmente o trigo, 
dependia diretamente do adubo, o que acabava por estimular 
a criação de animais, os quais eram utilizados para auxiliar 
nos trabalho de preparação do solo.
Pode-se falar nesse contexto da predominância de uma 
vida agrícola com uma população rural em torno de 80 a 
90%, estimativa que cabe não somente para a realidade ingle-
sa do século XVII, mas a toda a população mundial.
A fome era uma constante, pois, apesar dessa imensa 
maioria de população que trabalhava no campo, o alimento 
era escasso e muito caro. Evidentemente, os ricos eram con-
siderados uma exceção em relação a essa realidade. Mesmo 
constantemente afetada pela fome, a cidade, por guardar as 
reservas de alimentos em seus armazéns não era tão castigada 
quanto o campo.
Capítulo 1 O Século XVII 11
Essa escassez terminava por empurrar os camponeses para 
as cidades, onde muitas vezes, ao invés de melhorarem sua 
condição, acabavam por cair na mendicância.
Paulo Miceli nos afirma que já no século XVI esses pobres 
transformaram-se em problema público, levando no século 
XVII a se tomar uma série de medidas de modo a evitar algum 
“mal” que aqueles viessem a cometer. Como nos afirma oautor:
Os doentes e inválidos eram conduzidos aos hospitais, en-
quanto os válidos, acorrentados dois a dois, faziam a limpeza 
de esgotos ou, mais tarde, eram submetidos ao trabalho força-
do nas semiprisões chamadas ‘Casas de Trabalho’. Com isso 
- controlando-os até a morte - procurava-se reduzir os efeitos 
da multiplicação dos pobres e do crescimento da miséria. (MI-
CELI, p. 06).
Afora tudo isso, havia ainda as doenças, as quais acaba-
vam por ajudar a equilibrar o número de bocas e o alimento 
escasso, as ofertas de emprego e os braços para o trabalho.
Más colheitas era sinônimo de fome, a qual geralmente era 
seguida de epidemias. Tal realidade resultava em uma expec-
tativa de vida muito curta. Em certas regiões da França, como 
Beauvois, em que mais de um terço das crianças morria antes 
de completar 1 ano de idade, apenas 58% das pessoas che-
gavam aos 15 anos e a esperança média de vida era pouco 
superior a 20 anos.
A partir do desenvolvimento do capitalismo, um novo equi-
líbrio de forças sociais começa a surgir. Entre as consequências 
12 História Moderna Século XVII e XVIII
resultantes dessa nova realidade socioeconômica, assiste-se a 
violenta expulsão de milhares de camponeses de suas terras. 
Tal fenômeno ocorrerá principalmente na Inglaterra onde par-
te da nobreza transformará suas terras em pastos para criação 
de ovelhas, cuja lã irá alimentar de matéria-prima e de lucros 
as primeiras indústrias têxteis inglesas. Trata-se do fenômeno 
conhecido por cercamentos (“enclousures”).
O PAPEL DAS PARÓQUIAS E A POBREZA
No decorrer do século XVI, a pobreza era tanta que a Monar-
quia recorreu às paróquias para a base de uma organização 
de socorros. Se em um primeiro momento os impostos cobra-
dos para ajudar os pobres era livre, conforme a disposição 
do contribuinte, conforme a situação se tornou mais caótica, 
os impostos passaram a ser obrigatórios. Cada paróquia era 
responsável pelos seus pobres. Assim, era proibido ao pedinte 
errar de aldeia em aldeia. As penas àqueles que desobede-
ciam iam desde a marcação de um V no ombro com um fer-
ro em brasa até a morte caso houvesse reincidência. Miceli, 
citando um trecho da obra História da Inglaterra de André 
Maurois nos coloca:
Uma paróquia não permitia que se instalassem no seu terri-
tório famílias indigentes cujos filhos poderiam ficar a seu cargo. 
Uma criança entregue a uma ama numa aldeia que não fos-
se a dos seus pais era, para evitar aborrecimentos ulteriores, 
imediatamente recambiada pelas autoridades à paróquia de 
origem. ‘Assim a aldeia de cada homem transformava-se na 
sua prisão. (MICELI, p. 08)
Capítulo 1 O Século XVII 13
A BEBIDA E A MORADIA DOS POBRES
Além de servir de complemento de uma dieta insuficiente, as 
bebidas cumpriam com a função de ajudar os pobres a esque-
cer suas mazelas do cotidiano. A água escassa e os alimentos 
uma raridade levavam essa massa de miseráveis a se atirarem 
ao consumo de bebidas alcoólicas. Quanto ao vinho, este era 
bebido em toda a parte, tornando-se inclusive artigo de expor-
tação para a América logo nos primeiros anos de coloniza-
ção. Enfim, o consumo de bebidas era tanto que a embriaguez 
transformou-se em outro problema público.
A cerveja e a sidra também eram consumidas, ainda que 
em menor quantidade que o vinho, este sim, campeão das 
preferências. De qualquer modo, independentemente de qual 
bebida, o fato é que o simples hábito de beber tornou-se um 
grande aliado para espantar as dores e fazer esquecer a misé-
ria do dia a dia, principalmente a fome.
Quanto às habitações, eram, na sua maioria, muito sim-
ples e de material muito frágil. No geral, eram construções de 
madeira, cobertas de palha, sem contar nos poucos e simples 
utensílios que cada habitação continha.
Tão precária quanto às casas eram as roupas dos cam-
poneses. Exceto as “roupas de festa”, que de tão raras eram 
transmitidas como herança, no geral eram bastante grosseiras, 
geralmente tecidas em casa. Somente com o passar dos anos 
surgiram as roupas de lã, abrigando assim um pouco melhor 
a multidão de pobres.
14 História Moderna Século XVII e XVIII
Para finalizarmos este capítulo, é preciso destacar que toda 
essa realidade aqui descrita quanto à dura vida dos campo-
neses teve como principal objetivo retratar o quadro geral e 
constante de miséria a que estavam submetidos os pobres, o 
que nos permite, em parte, compreender melhor porque as 
promessas de libertação puderam exercer tamanha influência 
ao ponto de torná-las o principal sustentáculo dos movimentos 
revolucionários, como, por exemplo, a Revolução Inglesa que 
passaremos a analisar no próximo capítulo.
Revolução Inglesa: 
Antecedentes
Regina Maria Gonçalves Curtis
Capítulo 2
16 História Moderna Século XVII e XVIII
Neste capítulo, procuraremos trazer para o leitor a realidade 
econômica e social da Inglaterra do período que antecede a 
Revolução Inglesa. Nosso objetivo será demonstrar que nesse 
país foram progressivamente surgindo as condições propícias 
para que ali, mais que em qualquer outra região da Europa, 
eclodisse um movimento revolucionário capaz de romper com 
as estruturas do Antigo Regime. Antes, porém, gostaríamos de 
destacar o papel exercido por essa Revolução para a história 
da civilização Ocidental. Segundo Arruda, ao constatarmos 
que esse processo revolucionário concretizou-se no século XVII, 
podemos concluir que essa foi a primeira revolução burguesa 
da nossa história. Inserida na “Era das Revoluções Burguesas” 
uma vez que, além de antecipar a Revolução Americana, e até 
mesmo a Revolução Francesa, acabou por definir o padrão de 
luta política revolucionária até o advento da “Era das Revo-
luções Proletárias”. Sua importância, segundo o autor, foi ter 
criado as condições necessárias para a implantação do capita-
lismo pleno, destravando as forças produtivas capitalistas, ace-
lerando, destarte, o processo revolucionário. (ARRUDA, p. 8)
Outro aspecto fundamental, levantado por Arruda, resi-
de na relação por ele estabelecida entre a Revolução Ingle-
sa e a Revolução Industrial. Para o autor, os dois fenômenos 
encontram-se tão profundamente relacionados ao ponto de 
podermos afirmar que uma foi condição para a outra. Desse 
modo, revolução sociopolítica – a Revolução Inglesa, e revo-
lução econômica – a Revolução Industrial, fazem parte de um 
mesmo processo, o de formação e consolidação do capitalis-
mo naquele país.
Capítulo 2 Revolução Inglesa: Antecedentes 17
A INGLATERRA NOS SÉCULOS XVI E XVII
O processo de acumulação primitiva de capital tão necessário 
para a Revolução Industrial se fez via circuito mercantil, o que 
levou os poderes públicos – o Estado Absolutista – a enfatiza-
rem a primazia da circulação das mercadorias em detrimento da 
produção. Desse modo, por meio de uma fortíssima intervenção 
estatal na economia, assistia-se ao enriquecimento progressivo 
de uma nova classe social: a burguesia. Cabe ainda destacar 
que mesmo sendo a atividade mercantil o elemento dinâmico do 
conjunto das atividades econômicas, a estrutura econômica ain-
da permanecia largamente dependente das atividades agrícolas, 
as quais se encontravam mais ou menos dinamizadas depen-
dendo do seu grau de relacionamento com a esfera mercantil.
Passemos agora a uma análise mais detalhada das prin-
cipais transformações ocorridas na base agrária, na base in-
dustrial e na base mercantil inglesa no decorrer dos séculos 
XVI e XVII.
TRANSFORMAÇÕES NA BASE AGRÁRIA
Segundo Arruda, podemos, resumidamente, apontar três gran-
des transformações que se processaram na estrutura agrária no 
decorrer do século XVI: mudança nas relações senhor-servo, o 
confisco dos bens dos mosteiros e das Igrejas e os cercamentos.
Transformações nas relações senhor-servo
Quanto às mudanças nas relações senhor-servo,o autor des-
taca aquela que fora fundamental para dinamizar a economia 
18 História Moderna Século XVII e XVIII
da época: as obrigações costumeiras e compulsórias dos ser-
vos para com o seu senhor foram comutadas, isto é, transfor-
madas em obrigações monetárias, permanecendo, portanto, 
o caráter essencialmente servil da relação. Em outros casos, a 
ruptura da relação resultou em novos tipos de relacionamento, 
como contratuais, por exemplo. Somente nas áreas em que 
a produção agrícola sente mais intensamente a proximidade 
do mercado mundial é que a estrutura da produção agríco-
la tende para o arrendamento das terras a empresários que 
investem capital na agricultura. O autor destaca ainda que, 
de um modo geral, a estrutura da produção tende a autossu-
ficiência. Como consequência, não se instala a divisão social 
da produção, uma vez que os produtores não se transformam 
em consumidores, o que resulta um entrave insuperável para a 
economia mercantil, cuja expansão se encontra limitada pela 
estrutura ainda feudal da economia rural.
Nos pontos em que houve a interpenetração da economia 
agrícola e a economia mercantil, a terra passará a ser arren-
dada a capitalistas. Estes irão trazer para o campo e para a 
agricultura o capital obtido nas cidades e o modo capitalista de 
produção já desenvolvido na economia urbana. Essa entrada 
de capitais na agricultura irá se processar inicialmente em de-
terminados ramos da produção como a pecuária, fundamen-
talmente a ovinocultura que tem por produto principal a lã.
Para pôr fim às relações feudais, era necessário também 
eliminar os novos trabalhadores rurais que tendiam a apega-
rem-se à terra, dedicando-se às atividades de produção mar-
ginal que lhes proporcionavam a sua subsistência. Três formas 
foram utilizadas para eliminar esses rendeiros hereditários: ex-
Capítulo 2 Revolução Inglesa: Antecedentes 19
pulsando-os de suas posses, incorporando suas terras aos do-
mínios senhoriais; forçando-os a aceitar arrendamentos limi-
tados em substituição às posses vitalícias e terminando com os 
direitos comunais dos camponeses. Por fim uma outra forma 
de eliminar as relações servis decorria da própria necessidade 
de uma aristocracia decadente economicamente que vira na 
libertação dos servos uma fonte de renda segura.
Confisco de terras de mosteiros e das igrejas
Realizada pela monarquia inglesa entre 1536 e 1539 o confisco 
dos bens dos mosteiros e das igrejas contribuiu significativamente 
no processo de transformação da estrutura agrária na Inglaterra, 
tendo o Estado dado e vendido a maior parte das terras expro-
priadas. Beneficiaram-se deste processo os nobres e a gentry. 
Tal decisão do Estado que objetivava aumentar seus próprios 
recursos econômicos teve como principal resultado a expansão 
de terras disponíveis no mercado, dinamizando deste modo o 
processo de capitalização da agricultura inglesa. Entretanto, por 
outro lado acabou contribuindo para a ruptura das relações ser-
vis de produção na medida em que substituiu os antigos donos 
por novos proprietários integrados na produção para o mercado.
Cercamentos
Também conhecidos por enclousures, os cercamentos contri-
buíram decisivamente para o processo de transformação agrá-
ria inglesa.
Na Inglaterra, de um modo geral, as terras encontravam-se 
divididas em open fields e common lands. Os open fields eram 
20 História Moderna Século XVII e XVIII
campos abertos, não cercados, nos quais as propriedades se 
encontravam dispersas e mescladas, possuídas por proprietá-
rios com títulos individuais, o que tornava impossível cercá-las. 
O resultado era um modo coletivo de produção agrícola, pois 
o cultivo era decidido em uma assembléia da paróquia ou co-
munidade. Impedia-se dessa forma a divisão social da produ-
ção, inibindo assim o progresso técnico. Já os common lands, 
consistiam em uma propriedade coletiva. Formada por terras 
baldias, incultas e muitas vezes de pequena fertilidade, porém 
era um recurso constante para as populações mais pobres que 
nelas tinham o direito de levar seus animais para pastar, o 
direito de colher lenha e cortar madeira para a construção, o 
direito de pescar e o direito de colher turfa para a iluminação. 
Serão essas as terras que serão cercadas. Ao expulsar os cam-
poneses destas terras, para em seu lugar criar ovelhas e com 
isso fazer parte da recente indústria têxtil, os senhores estavam 
transformando a terra em mercadoria e criando as condições 
para a especialização da produção, a intensificação da divi-
são social do trabalho agrícola e consequentemente a pene-
tração mais intensa do capital no campo. Segundo Arruda, 
ao mesmo tempo em que restringia a quantidade de mão de 
obra necessária no campo, liberava a população rural, intensi-
ficando o êxodo que, por sua vez, resulta em infinita variedade 
de trabalhos marginais, criando um exército de reserva, para 
a composição dos exércitos mercenários ou para as ativida-
des manufatureiras. Como consequência, o Estado acabará 
tendo que intervir, pois a enorme quantidade de desemprega-
dos fará com que ele tenha que coibir a vagabundagem, ao 
mesmo tempo que tentará frear os processos dos cercamentos 
que acabaram por desestabilizar a estrutura social. Assim, a 
Capítulo 2 Revolução Inglesa: Antecedentes 21
monarquia inglesa continuava a ser um fator impeditivo do 
avanço dos cercamentos, entravando, desse modo, o desen-
volvimento do capitalismo na Inglaterra.
Arruda identifica ainda, na estrutura agrária inglesa, duas 
regiões bem distintas: o sul-leste e o norte-oeste. Na região 
norte-oeste, predominava a estrutura social arcaica e conser-
vadora, formada por grandes propriedades da monarquia, do 
clero-anglicano e da grande aristocracia inglesa. Com uma 
estrutura produtiva marcadamente feudal, cuja produção era 
destinada ao uso, não integrada, portanto, a economia de 
mercado. Já na região sul-leste, se encontravam os grandes 
proprietários aristocratas, a gentry, e mesmo os pequenos 
proprietários de terra livre ou arrendada. Estes, ao contrário, 
produziam para o mercado. Oriundos de diferentes estratos 
sociais, o que os unia era o ímpeto empreendedor: o investi-
mento capitalista na agricultura.
Para finalizar o quadro de alterações ocorridas na estrutura 
agrária da Inglaterra, cabe ressaltar a impulsão resultante do 
aumento acelerado dos preços ocorrida a partir da segunda 
metade do século XVI e início do século XVII. Como resultado, 
afirma Arruda:
[...] as rendas fixas se desvalorizaram prejudicando a no-
breza proprietária que havia arrendado suas terras a capitalis-
tas por longos prazos. Inversamente, os produtores, que des-
tinavam sua produção ao mercado, acumularam capitais que 
reinvestiram na agricultura ou aplicaram nas atividades manu-
fatureiras. (ARRUDA, p. 22)
22 História Moderna Século XVII e XVIII
TRANSFORMAÇÕES NA BASE INDUSTRIAL
Exceto as indústrias têxtil, mineral e de construção naval, todas 
as demais atividades industriais em meados do século XVI na 
Europa eram organizadas com base no trabalho de artesãos 
individuais. A partir da segunda metade do século XVI, o eixo 
dominante da produção industrial europeia que se estendia de 
Flandres até a Toscana começa a deslocar-se rumos aos Esta-
dos situados a noroeste da Europa, principalmente à Inglaterra.
É possível se considerar que a evolução da indústria inglesa 
foi lenta, mas firme desde a Baixa Idade Média. Entre os sécu-
los XIV e XV, assistimos a um deslocamento das indústrias em 
direção às zonas rurais, o que se explica em função de diversos 
fatores: a recessão agrícola dos séculos XIV e XV, a tendência 
à rápida difusão das máquinas hidráulicas e os altos salários 
impostos pelas corporações urbanas. Mesmo não produzindo 
tecidos de primeira qualidade, havia um amplo mercado con-
sumidor para elas,formado, principalmente pela população de 
mais poder aquisitivo, assim como pela nobreza empobrecida. 
Principal indústria inglesa, a produção de tecidos de lã era o 
próprio símbolo da prosperidade industrial da Inglaterra.
Quanto às formas básicas de organização social da pro-
dução, podemos agrupá-la em três: o artesanato, o mestre 
manufatureiro e o comerciante manufatureiro.
O artesanato que é constituído basicamente pela família 
do produtor. Nessa etapa, o artesão possui ainda todos os 
meios necessários à produção: a oficina, os instrumentos e 
a matéria prima. Independentemente, o produtor associa ao 
Capítulo 2 Revolução Inglesa: Antecedentes 23
mesmo tempo dois distintos modos de produção: o artesanato 
e agricultura, garantindo assim sua própria subsistência.
Já o mestre manufatureiro surge onde quer que a amplia-
ção do mercado exija o aceleramento da produção. O pro-
dutor ainda se mantém proprietário dos meios de produção, 
porém, agora, integra mão de obra assalariada, transforman-
do-se num pequeno empresário. Entretanto, a verdadeira tran-
sição revolucionária, irá ocorrer somente quando esse mestre 
manufatureiro se transformar em empresário capitalista na 
maquinofatura.
Quanto ao comerciante manufatureiro, este é um conhece-
dor do mercado, aplicando capital mercantil nos domínios da 
produção industrial. Se em um primeiro momento ele contenta-
-se em combinar as várias etapas da produção, remunerando 
o trabalho do artesão e mestres manufatureiros, permanecen-
do seu capital essencialmente mercantil, em uma etapa poste-
rior, irá açambarcar novos estágios da produção: a tecelagem, 
a fiação e a preparação da matéria-prima. Segundo Arruda:
À medida que o comerciante manufatureiro domina a pro-
dução, verifica-se um processo de endividamento dos produto-
res independentes, que acabam por perder seus instrumentos 
de produção, transformando-se em simples assalariados que 
conservam apenas a aparência de independência, garantida 
por seu estilo de vida ainda rural. (ARRUDA, p. 26)
Em relação aos obstáculos existentes ao desenvolvimento 
industrial na Inglaterra, destaca-se o papel limitador das regu-
lamentações impostas pelas corporações. Regulamentando a 
quantidade e a qualidade dos produtos, regulamentando pre-
24 História Moderna Século XVII e XVIII
ços e salários pagos aos jornaleiros (diaristas), estabelecendo 
normas rígidas para o acesso ao artesanato, impondo longos 
períodos de aprendizagem e a realização de uma obra- pri-
ma, as corporações acabaram levando aos novos chegados 
à atividade industrial a abandonar os centros tradicionais de 
produção industrial. Estes terminavam por se estabelecer em 
novas cidades não dominadas pelas corporações, mudando-
-se para os subúrbios ou ainda deslocando-se para as zonas 
rurais, onde encontravam certa abundância de mão de obra 
barata decorrente dos cercamentos. A monarquia, inglesa ao 
colaborar para a preservação desse tipo de estrutura produti-
va, ao limitar os cercamentos, terminava por impedir o avanço 
da produção industrial, inibindo assim o desenvolvimento do 
capitalismo na Inglaterra.
TRANSFORMAÇÕES NA BASE MERCANTIL
Até meados do século XVI, a Inglaterra exportava basicamente 
matérias-primas, cereais, madeira e, em menor escala, me-
tais e couro. Na segunda metade do século XVI essa estrutura 
mercantil irá sofrer uma transformação profunda. Enquanto as 
exportações de alimentos irão declinar, os tecidos irão se con-
verter no seu principal produto de exportação.
A partir do século XVI, decorrente de políticas protecionistas 
por parte do Estado inglês, bem como do papel primordial da 
criação das Companhias de Comércio privilegiadas, a produ-
ção industrial inglesa irá expandir-se consideravelmente. Po-
rém, se os monopólios comerciais e os monopólios industriais 
beneficiavam uma parcela reduzida da sociedade, gerando 
recursos para o Estado, por outro lado, acabava espoliando 
Capítulo 2 Revolução Inglesa: Antecedentes 25
uma larga parcela da população. Excluída dessas atividades, 
e pagando o ônus resultante dos monopólios, tais segmentos 
ficavam à margem das benesses que o capitalismo ia impondo 
na economia inglesa.
Após detalhar a realidade da estrutura econômica da In-
glaterra dos séculos XVI e XVII, passemos agora a uma descri-
ção de como se encontrava organizada sua estrutura social.
A ESTRUTURA SOCIAL INGLESA
Arruda chama a atenção, quanto a esse aspecto, para a di-
ficuldade de definirmos o caráter dessa sociedade na época 
Moderna. Vivendo em um período de transição entre o modo 
de produção feudal decadente e o modo de produção capita-
lista em ascensão, essa é uma sociedade marcadamente con-
traditória. Portanto, não podemos defini-la por uma simples 
projeção do esquema bipolar das relações de classe dominan-
te no capitalismo concorrencial. Como afirma o autor:
Os choques entre as três principais ordens sociais, clero, 
nobreza e terceiro estado, bem como os choques intraesta-
mentos, eram intensos. A marca desta sociedade é a extrema 
segmentação social, que potencializa o conflito de classes e 
mascara o perfil da estrutura social. (ARRUDA, p. 34)
NO CAMPO
Passemos então a uma descrição das camadas rurais, uma 
vez que se há consenso é quanto ao caráter profundamente 
agrário dessa sociedade. Esta se encontrava dividida em: aris-
tocracia, yeoman e a gentry.
26 História Moderna Século XVII e XVIII
A aristocracia, constituída pelos nobres de sangue, irá perma-
necer na dependência de suas propriedades territoriais, as quais 
se ampliaram seja pela compra ou usurpação das terras dos mos-
teiros quando da Reforma Anglicana (1534), seja como resultado 
dos cercamentos. É possível se falar de uma verdadeira crise da 
aristocracia, decorrente do declínio de suas riquezas em relação 
à gentry, do declínio de seu poder em homens, armas, castelos, 
o declínio de sua influência eleitoral em função de convicções 
religiosas e políticas arraigadas, assim como de vários outros fa-
tores que representam a crise desse segmento social. Entretanto, 
não podemos esquecer que, em determinados momentos, a aris-
tocracia beneficiou-se, como no início do século XVII quando a 
supervalorização das terras necessariamente ampliou os recursos 
econômicos dessa classe possuidora de terras e rendas agríco-
las. Enfim, se por um lado, a aristocracia conservadora de fato 
saiu prejudicada com o avanço do capitalismo, por outro lado, 
o segmento empreendedor dessa classe foi beneficiado com as 
novas impulsões advindas da dinâmica comercial. Isso é o que 
explica por que no decorrer do processo revolucionário inglês 
alguns nobres irão se posicionar ao lado do monarca absolutista, 
enquanto outros irão tomar posição ao lado do Parlamento, e 
muitos outros ainda permanecerão neutros.
Na base da sociedade agrária inglesa encontravam-se os 
yeomen. Como afirma Arruda, [...] uma espécie de ‘classe mé-
dia’ rural, extremamente numerosa, correspondendo a mais ou 
menos 1/6 da população inglesa nos inícios do século XVII. 
(ARRUDA, p. 37) Desse segmentos faziam parte os granjeiros, 
proprietários, lavradores, jornaleiros e até mesmo cavaleiros. 
Sua preocupação girava em torno da terra e dos interesses 
agrícolas. Sua condição variava em função do tipo de relação 
Capítulo 2 Revolução Inglesa: Antecedentes 27
que ela mantinha com a terra e com seus senhores imedia-
tos. Podemos falar da existência dos yeomen ascendente e dos 
yeomen declinante. Enquanto os primeiros eram constituídos 
daqueles com maiores posses, e que se encontravam em um 
processo de ascensão pela valorização das terras e de suas 
produções, a yeomanry declinante mantinha uma relação pre-
cária com a terra e explorava pequenas unidades agrícolas. 
Além disso, era pressionada pelos grandes proprietários que 
procuravam transformar seus direitosem arrendamentos, isso 
quando não era simplesmente excluída de suas posses e de 
seus direitos sobre as terras coletivas pelo fenômeno dos cer-
camentos. Se para a yeomanry ascendente a Revolução apa-
rece como uma possibilidade de ampliar suas propriedades e 
consolidar seus direitos sobre as posses vitalícias e hereditá-
rias, para os yeomen declinantes a Revolução representava a 
possibilidade de garantir seus direitos de exploração feudal da 
terra e evitar o avanço das desapropriações. Havia ainda os 
camponeses sem posses ou direitos, mão de obra marginal, 
representada pelos cottagers e squatters.
Para finalizarmos essa radiografia da estrutura social inglesa 
dos séculos XVI e XVII, vamos caracterizar aquela que foi con-
siderada a categoria social mais difusa e complexa: a gentry.
Composta por representantes das mais diferentes classes so-
ciais. Se por um lado, dela faziam parte os filhos mais novos da 
aristocracia, dos cavalheiros, dos gentlemen, ou seja, elemento 
integrado em uma sociedade estratificada a partir da posição, 
deveres, honra e privilégios, por outro lado, havia também 
aqueles oriundos das franjas superiores da yeomanry, os quais 
avançavam no sentido de libertar-se das restantes obrigações 
28 História Moderna Século XVII e XVIII
feudais. Estes formavam um grupo de pequenos agricultores 
capitalistas que ambicionavam a ascensão econômica, aumen-
tando seus lucros e propriedades. Conforme Arruda:
A denominação gentry tem de ser vista, portanto, não ape-
nas em relação ao conceito estático que representa, mas, prin-
cipalmente, numa perspectiva do processo histórico que leve 
em consideração o momento dado. (ARRUDA, p. 40)
Dito de outro modo, a gentry era muito mais uma ideologia 
em expansão que apenas uma classe de proprietários agríco-
las em formação. O que lhes dava unidade era a impulsão 
econômica. De elevado tino empresarial, e de um estilo pró-
prio de vida, definido pela moral puritana, esse grupo tinha 
muito mais condições de sobreviver numa época inflacionária 
do que a nobreza dissipadora. Enfim, podemos considerá-la 
como uma nova nobreza que recebia sob a forma de renda o 
que antes lhe era devido sob a forma de direitos feudais. Dedi-
cada à venda da lã, do trigo e de outros bens, ao expulsar os 
pequenos camponeses e rendeiros, iniciavam assim a explora-
ção direta de suas propriedades.
Em relação ao padrão dos rendimentos da gentry, podemos 
decompô-la em duas grandes camadas: a gentry ascendente e 
a gentry declinante. Porém, independentemente dessas subclas-
sificações, a gentry foi de fato a principal classe social no con-
texto das lutas políticas do processo revolucionário, a que irá 
beneficiar-se das vantagens sociais e econômicas da Revolução.
NA CIDADE
Passemos agora a uma análise dos grupos sociais urbanos. Ape-
sar de ser pequena a concentração urbana no início do século 
Capítulo 2 Revolução Inglesa: Antecedentes 29
XVII, irão surgir e se desenvolver nesses espaços novas categorias 
sociais que exercerão um papel ativo no contexto da Revolução.
Ilustrando a complexidade de cada grupo social, comece-
mos por destacar o papel da alta burguesia mercantil em rela-
ção ao processo revolucionário. Muito próxima da monarquia 
por dela depender para receber seus contratos de exclusividade 
comercial e industrial, esse segmento da burguesia era forma-
do por grandes contratadores dos monopólios cedidos ou ven-
didos pela Coroa. Eram também membros das grandes com-
panhias de comércio privilegiadas, aqueles que arrendavam ao 
estado a arrecadação dos tributos públicos. Sendo assim, fica 
claro que sua posição no contexto da Revolução será evidente-
mente ao lado da Monarquia, da qual se beneficiavam.
Abaixo, encontramos a média burguesia, formada pelos 
elementos das guildas mercantis que detinham o controle do 
comércio local. Havia ainda os mestres manufatureiros e os 
comerciantes manufatureiros, ambos contrários às restrições 
corporativas, uma vez que desejam eliminar os obstáculos à 
livre expansão das atividades industriais.
Na base dessa sociedade, encontramos um proletariado, 
formado basicamente pelos jornaleiros - trabalhadores diaristas 
- os quais se encontravam a mercê das flutuações do mercado, 
ficando assim, muita vezes, desempregados. Entretanto, Arruda 
chama a atenção para o fato de que era muito cedo ainda para 
a oposição entre o capital (burguesia) e o trabalho (proletaria-
do). Para ele, nesse momento, o conflito mais intenso era travado 
entre a oligarquia de mercadores privilegiados e os produtores, 
geralmente por causa da qualidade e dos preços das mercado-
rias. O elevado preço dos produtos de primeira necessidade, 
30 História Moderna Século XVII e XVIII
devido os monopólios dos grandes mercadores, fazia com que 
as camadas mais pobres e menos privilegiadas se indignassem 
com essa realidade, levando-os a posicionarem-se contra os pri-
vilegiados e à própria monarquia que os sustentavam.
Para finalizarmos, vejamos como estava organizada a so-
ciedade inglesa do ponto de vista geográfico. Nas regiões nor-
te-oeste, preponderava o conservadorismo marcado por uma 
estrutura feudal de produção. Nessa região, a aristocracia e o 
alto clero anglicano conseguiram mobilizar seus subordinados, 
pertencentes às camadas mais inferiores, os yeomen, para a 
defesa de seus interesses e da monarquia, obtendo também o 
apoio da burguesia financeira. Nas regiões sul-leste, ao con-
trário do conservadorismo da região que acabamos de des-
crever, encontrava-se a gentry progressista, a qual mobilizou a 
yeomanry, os cottagers, os squatters, apoiados pela burguesia 
mercantil, artesãos, artífices e proletariado urbano, contando 
também com o segmento progressista da aristocracia integra-
da nas atividades de mercado.
Enfim, toda essa complexidade social nos permite afirmar 
que a Revolução Inglesa não apresenta uma clara divisão so-
cial, conforme Arruda:
Havia burgueses de ambos os lados; havia aristocracia de 
ambos os lados; havia yeomen de todos os lados. Mas é a 
gentry que dá o tônus da Revolução e seu posicionamento é 
claro: pelo Parlamento, contra a Monarquia. (ARRUDA, p. 44)
Para Arruda, sem dúvidas, foi a gentry que não só conduziu 
o processo revolucionário, como também foi ela quem dele 
se apropriou, como podemos observar pelas transformações 
provocadas pela Revolução.
A Revolução Inglesa
Regina Maria Gonçalves Curtis
Capítulo 3
32 História Moderna Século XVII e XVIII
Após descrevermos a realidade socioeconômica da Inglaterra 
no decorrer dos séculos XVI e XVII, passaremos agora a com-
preensão do contexto político que possibilitou o desencadea-
mento da Revolução Inglesa, bem como de uma descrição dos 
principais momentos dessa Revolução.
O Estado Absolutista na Inglaterra ocorreu no decorrer das 
dinastias Tudor e Stuart. Se é possível falarmos de uma relação 
harmoniosa entre os reis absolutistas e o Parlamento inglês 
ao longo da dinastia Tudor, o mesmo não pode ser dito nos 
governos da dinastia Stuart. Pelo contrário, foi durante os rei-
nados dos primeiros monarcas desta dinastia que teve início 
uma tensão crescente entre a monarquia e o Parlamento da 
Inglaterra, o qual irá culminar no início do processo revolucio-
nário inglês.
Do ponto de vista político, podemos afirmar, segundo Arru-
da, que a Revolução Inglesa representou a crise desse Estado 
Absolutista na Inglaterra. Para a compreensão desse fenôme-
no, iremos sucintamente percorrer os reinados da dinastia Tu-
dor e Stuart.
A DINASTIA TUDOR
Cabe lembrar que a consolidação da centralização política na 
Inglaterra só ocorreu após as guerras dos Cem Anos (1337-
1453) e Das Duas Rosas (1455-1485). Estas arruinaram a 
nobreza inglesa, possibilitando a ascensão da Dinastia Tudor 
(1485-1603). Foi no transcurso dessa dinastia que, com o 
apoioda burguesia e do parlamento, se instalou o absolutis-
mo no país. Segundo Arruda:
Capítulo 3 A Revolução Inglesa 33
Com as reformas administrativas da década de 1530, a 
burocratização do governo conseguiu dar uma continuidade 
gerencial ao Estado, marca distintiva dos Estados modernos, 
mesmo nos momentos de maior conflito social. Tais mudanças 
foram realizadas sob a liderança de Thomas Cromwell, veri-
ficando-se então o que G. R. Elton denomina de ‘revolução 
administrativa’, que dá nascimento ao moderno Estado inglês. 
(ARRUDA, p. 48)
São características dessa “revolução administrativa” ocorri-
da, no decorrer da dinastia Tudor, as seguintes medidas: uma 
nova forma de conduzir as finanças, a centralização da admi-
nistração sob a tutela do primeiro-secretário, a organização 
do Conselho Privado como esfera de coordenação e raciona-
lização da casa real. Além disso, no plano interno, o Estado 
inglês passará a empreender mudanças importantíssimas no 
sentido da unificação do país que irão refletir o maior poder 
dos monarcas em detrimento da nobreza, tais como, a inte-
gração das cidades inglesas, a estabilidade e a paz interna 
obtidas sem a manutenção de um exército permanente, o que 
se refletia nos impostos mais baixos e na maior disponibilidade 
de recursos da sociedade para os investimentos produtivos, a 
eliminação de pedágios, a uniformização de pesos e medidas, 
assim como das moedas, leis e territórios. Enfim, em outras 
palavras, obtinha-se, desse modo, a superação dos particula-
rismos sobreviventes da Idade média, principalmente no que 
se refere ao poder da aristocracia.
Quanto à política externa, estimulou-se o avanço sobre os 
impérios coloniais, sendo a Inglaterra vitoriosa sobre a “In-
vencível Armada” espanhola em 1588. Nessa época, inicia-se 
34 História Moderna Século XVII e XVIII
a luta contra o universalismo papal, sendo a Igreja Católica 
derrotada quando do Ato de Supremacia (1534) o qual criou 
o Estado Anglicano na Inglaterra. Buscando conciliar os múl-
tiplos interesses, a política governamental dos Tudors ameni-
zava, assim, os conflitos sociais. De um modo geral, todos os 
grupos sociais beneficiaram-se dessa política. A aristocracia 
locupletava-se da estabilidade política e social que pusera fim 
nos conflitos no seio da própria elite e que, principalmente, 
contivera as rebeliões camponesas que vinham ameaçando 
até mesmo as suas propriedades. Beneficiava-se também a 
aristocracia do exercício de altos cargos públicos e da venda 
das terras confiscadas à Igreja Católica quando da Reforma 
Anglicana. Quanto à nobreza empobrecida, esta em dificul-
dades econômicas, teve a oportunidade de refazer suas posses 
nos saques realizados no Novo Mundo e legitimados pelo Es-
tado. Já a alta burguesia foi beneficiada pela Monarquia ao 
receber os monopólios e os privilégios comerciais e industriais, 
além da concessão de companhias privilegiadas. Artesãos e 
artífices podiam contar com a garantia dos privilégios corpora-
tivos que ainda subsistiam. Quanto aos camponeses, era clara 
a posição da monarquia, através de inúmeras leis, no sentido 
de limitar os abusos dos cercamentos e de seus efeitos despo-
voadores.
Vejamos agora quais foram os monarcas que governaram 
no decorrer da dinastia Tudor.
Henrique VII (1485-1509) foi o primeiro governante Tu-
dor. A importância de seu reinado reside no fato dele ter con-
seguido pacificar o país consolidando assim o Estado nacional 
inglês. Porém, será seu filho Henrique VIII (1509-1547) que, 
Capítulo 3 A Revolução Inglesa 35
sujeitando o Parlamento, dará as características absolutistas à 
monarquia inglesa. Ao romper com o catolicismo romano, o 
rei dará início ao processo que culminará na criação do An-
glicanismo, a Igreja oficial da Inglaterra. Forma compósita de 
credo religioso, o Anglicanismo irá preservar os aspectos exter-
nos do catolicismo, isto é, da hierarquia episcopal, a liturgia, 
integrados à teologia calvinista, assentada na doutrina da pre-
destinação. Isto é, preserva-se a forma católica, assumindo-se 
um conteúdo calvinista. Desse modo, a igreja Anglicana aca-
bou se transformando em um instrumento direto de poder do 
Estado, uma vez que, entre outros aspectos, o monarca passou 
a ser chefe de Estado e também chefe da Igreja. 
Seu filho e sucessor Eduardo VI (1547-1553), garantiu 
em seu curto reinado a reforma anglicana, porém sua irmã 
e sucessora Maria I (1553-1558), sendo casada com um 
rei católico Felipe II da Espanha, acabara por restabelecer 
o catolicismo na Inglaterra, perseguindo violentamente os 
protestantes ingleses. Porém, ao subir ao trono, Elisabeth 
I (1558-1603) irá retomar a política de seu pai Henrique 
VIII, consolidando-se assim o anglicanismo naquela nação. 
Durante seu governo, irá desenvolver uma agressiva políti-
ca mercantilista. Essa foi a rainha responsável por eliminar a 
“Invencível Armada” espanhola em 1588, aumentando assim 
o poderio econômico inglês nos mares. Em seu reinado, tem 
início a colonização da América do Norte com a fundação 
em 1584, da colônia de Virgínia. É da sua época também o 
apoio ostensivo à pirataria inglesa, na qual se destacou o fa-
moso corsário Francis Drake, o qual seria até mesmo tornado 
Cavaleiro pela rainha devido aos serviços prestados ao reino.
36 História Moderna Século XVII e XVIII
Enfim, de um modo ou de outro, os monarcas dessa di-
nastia procuraram dar estabilidade ao corpo social, o que, 
em certa medida, é possível se verificar, principalmente ao 
observarmos o notável desenvolvimento econômico inglês da 
segunda metade do século XVI e a quase inexistente oposi-
ção que a monarquia encontrou no Parlamento, ainda que 
este raramente fosse convocado. O que mudaria então esta 
relação harmônica entre os monarcas da dinastia Tudor e o 
Parlamento.
Segundo Arruda, o próprio desenvolvimento dessa atuação 
eficiente dos Tudor acabou por aprofundar as contradições so-
ciais. Considerado o maior proprietário de terras do país, o Es-
tado inglês vivia de suas rendas agrárias, mas dependia tam-
bém dos impostos arrecadados sobre os proprietários rurais. 
Tentou-se solucionar essa contradição ampliando os impostos 
sobre a produção agrícola. Será justamente essa medida que 
irá radicalizar as posições políticas no início do século XVII du-
rante os governos dos primeiros monarcas da dinastia Stuart.
Cabe ainda destacar a importância do fenômeno dos cer-
camentos no sentido de romper com a harmonia até então 
mantida entre os monarcas e o Parlamento inglês. Durante 
algum tempo, a aristocracia tentou reconstruir seu poder eco-
nômico por meio dos cercamentos e da elevação das suas 
rendas, entretanto, tais medidas afetaram diretamente os cam-
poneses. Assim, se fez necessário um governo central forte, 
capaz de reforçar politicamente o poder econômico e social 
da aristocracia. Tal fato, segundo Arruda, levou a monarquia 
absoluta a um dilema que nunca resolveu e que teria contribu-
ído para a sua queda. Se deixava livre a ação da aristocracia, 
Capítulo 3 A Revolução Inglesa 37
tinha que enfrentar as revoltas camponesas que ameaçavam 
destruir a classe dominante; se colocava limites à sua ação, 
protegendo os camponeses, acabava enfrentando a revolta da 
classe dominante, que poderia pôr em perigo a própria mo-
narquia. O consenso irá perdurar até a substituição dos Tudors 
pelos Stuarts. Conforme Arruda:
Nos inícios do século XVII, era profunda a inadequação en-
tre a estrutura do Estado absolutista inglês e o novo momento 
histórico, representado pela recomposição das forças sociais, 
no contexto das transformações econômicas engendradas pelo 
próprio Estado absolutista, na centúria anterior. (ARRUDA, p. 51)
Ou ainda conforme Paulo Miceli:
[...]enquanto no início do século XVI a Coroa parecia pro-
teger a burguesia, isso era feito paraconseguir reforço contra 
as casas feudais ainda existentes, o que explica o acordo ini-
cial entre a Coroa e o Parlamento – que representava princi-
palmente os comerciantes e grandes proprietários de terras. 
Havia ainda os inimigos externos, principalmente a Espanha. 
Pouco a pouco, contudo, todos eles foram sendo exterminados 
– interna e externamente– e a lua de mel entre a monarquia 
e o Parlamento que sob os Tudor raramente se reunia, apro-
vando sempre a política real, chegou ao fim. Os interesses 
opostos das duas partes vieram à tona e, quando teve início 
o reinado da dinastia Stuart, Jaime I (1603-1625) e Carlos I 
(1625-1649) tiveram de enfrentar a forte oposição do Parla-
mento. (MICELI, p. 29)
Em 1603, encerrou-se a dinastia Tudor com a morte de 
Elisabeth I, que não deixara herdeiros. Por razões de paren-
38 História Moderna Século XVII e XVIII
tesco, o trono passou para o rei da Escócia, Jaime I, que deu 
início a dinastia Stuart. Os Tudors deixavam um país com a 
autoridade real consolidada, porém em acordo com o Parla-
mento. Este, especialmente fortalecido com os favorecimentos 
realizados para com a pequena nobreza e os comerciantes. 
Grande parte dos novos grupos emergentes da sociedade in-
glesa, dinamizados pela política mercantilista, pelo comércio, 
pelos cercamentos e pela atividade corsária foram elevados 
aos altos postos governamentais, como o Conselho Privado, 
tribunais e outros cargos. Desse modo, estes grupos deram 
início a um processo de ampliação de prestígio e busca de 
maiores espaços políticos no Estado inglês. De um modo ge-
ral, esses grupos se identificaram com o puritanismo – como 
eram chamados os calvinistas da Inglaterra- imbuídos de uma 
visão religiosa e política mais sintonizada com os seus anseios 
e atividades. Ao contrário, a tradicional aristocracia apegava-
-se fortemente ao anglicanismo e até ao catolicismo, o qual 
fora desbancado pelo Ato de Supremacia de Henrique VIII que 
havia criado a Igreja Anglicana. Essas forças sócio-políticas 
irão criar sérias turbulências, enfrentando-se ferrenhamente no 
decorrer da dinastia Stuart.
A DINASTIA STUART E O PROCESSO 
REVOLUCIONÁRIO
Jaime I (1603-1625), ao assumir, irá governar a partir do 
aparelho do Estado montado pelos Tudors. O rei será asses-
sorado pelo Conselho Privado, composto por nobres de sua 
confiança. Quanto às questões judiciárias laicas, relativas à 
alta traição e outros problemas não especificados pelo Direito 
Capítulo 3 A Revolução Inglesa 39
Comum serão julgadas pela Câmara Estrelada, a secção judi-
ciária do Conselho. A política religiosa será exercida pelo ar-
cebispo Laud e pelos tribunais eclesiásticos responsáveis pelas 
questões relacionadas à religião, à disciplina social e à sub-
versão, temas enquadrados geralmente por meio da repressão 
religiosa. Esses eram os tribunais da corte de Alta Comissão. 
O Parlamento encontrava-se dividido na Câmara dos Lordes, 
composta pelos nobres, e pela Câmara Comum, composta 
por proprietários rurais, mesmo que de origem burguesa, elei-
tos nos vários condados ingleses.
Segundo Arruda, o ponto vital do relacionamento Rei-Par-
lamento era a sustentação financeira do Estado. De modo a 
tentar solucionar seus problemas financeiros os monarcas des-
sa dinastia tentaram as seguintes medidas: a elevação dos im-
postos alfandegários, a criação de monopólios sobre produtos 
estratégicos e de largo consumo e a tentativa de aumentar os 
rendimentos pela restauração ou aumento de impostos prove-
nientes de direitos feudais da Coroa.
Jaime I, após unir a Inglaterra à Escócia, sua terra natal, 
irá se aliar aos grandes nobres, descontentando a burguesia 
e o Parlamento que o consideravam estrangeiro. De modo a 
garantir-se no trono, o rei irá vender inúmeros títulos de nobre-
za e promover a adoção rigorosa do anglicanismo. Para tanto, 
dará início a violentas perseguições aos católicos e aos purita-
nos calvinistas. Esse é o momento em que inúmeros puritanos, 
perseguidos pela política-religiosa de Jaime I irão se dirigir 
para a América, dando início de fato à colonização inglesa. 
Os primeiros embarcaram no navio Mayflower e fundaram Ply-
mouth, a primeira colônia de povoamento puritana da região 
40 História Moderna Século XVII e XVIII
que seria conhecida como Nova Inglaterra, no nordeste da 
América do Norte.
Inúmeros serão os conflitos que irão colocar em campos 
opostos o rei e o Parlamento. Porém, será a partir de 1610 que 
os antagonismos irão se acelerar. Ao tentar ampliar e consoli-
dar suas rendas, a Coroa irá oferecer ao Parlamento o Grande 
Contrato. Através deste, a Coroa abdicava de seus direitos 
feudais, sobre as propriedades, em troca de uma dotação 
anual, havendo discordância quanto ao valor a ser creditado 
a favor do Rei. Em 1616, surge um novo atrito, era o Projeto 
Cockayne, por meio do qual a indústria de tecidos ficava sob 
o controle real, transformando-se esse monopólio em uma im-
portantíssima fonte de renda para o Estado. O projeto acabou 
fracassando ao sofrer a oposição da burguesia mercantil que 
o boicotou.
Em 1625, assume Carlos I (1625-16490) tentando re-
forçar o absolutismo estabelecendo novos impostos sem a 
aprovação do Parlamento, o que irá agravar a tensão entre 
os deputados e a Coroa. Em 1628, Carlos I está em guerra 
contra a França, vendo-se na contingência de convocar o Par-
lamento. Pelo condado de Cambridge, foi eleito um cidadão 
com fama de incorruptível, Oliver Cromwell. Cansados de se-
rem manipulados, os deputados do Parlamento irão sujeitar o 
rei ao juramento da “Petição de Direitos”, também chamada 
de Segunda Carta Magna inglesa. A partir desse documento, 
o Parlamento exigia o controle do exército, isto é, de sua con-
vocação e dispensa, e da política tributária. Mesmo relutante, 
Carlos I assina a petição, esperando que o Parlamento apro-
Capítulo 3 A Revolução Inglesa 41
vasse os impostos sobre o comércio da lã e do couro, tradi-
cionalmente aprovados pelo Parlamento até o fim do reinado, 
sendo, portanto, vitalícios. Porém, o Parlamento, acreditando 
que seria uma forma de obrigar o rei a convocá-lo sistematica-
mente, recusou-se a aprovar rendas fixas e vitalícias, esperan-
do que a cada momento em que elas se fizessem necessárias, 
novamente, o Parlamento teria de ser convocado. Por fim, o 
rei dissolve o Parlamento e volta a convocá-lo somente 11 de-
pois em 1640. Várias forças sociais, exceto os beneficiados da 
política de Carlos I, vão se colocando contra o rei. A oposição 
começa a organizar-se em torno de um grupo de famílias de 
proprietários de terras, muito bem representados no Parlamen-
to. Esse grupo vai declarar guerra aberta à Coroa, recusando-
-se a pagar o imposto marítimo que havia sido imposto pela 
Coroa, por considerá-lo uma espécie de pirataria legalizada. 
Daí em diante, até 1640, generaliza-se a recusa ao pagamen-
to de impostos.
Para piorar a situação, da Escócia viria outro golpe. Ao 
tentar impor o ritual anglicano à calvinista Escócia, Carlos 
I sofrerá a invasão de um exército escocês no norte da In-
glaterra. O exército enviado pelo rei acabou se unindo aos 
insurrectos e reclamando o pagamento de seus soldos. Não 
restava alternativa ao rei a não ser convocar o Parlamento. 
Três semanas após, o Parlamento foi dissolvido, é o chamado 
Parlamento Curto. Em seguida é reunido o Parlamento Lon-
go, que com algumas depurações irá permanecer até 1653. 
Tinha início a primeira etapa da Revolução Inglesa: a Revo-
lução Puritana.
42 História Moderna Século XVII e XVIII
A REVOLUÇÃO PURITANA (1641-1649)
Segundo Arruda, essa fase revolucionária apresenta três mo-
mentos bem demarcados: 1640-1642, da primeira reunião do 
Longo Parlamento até a eclosão da guerra civil; 1642-1649, 
correspondendo aos anos da guerra civil até a decapitação 
de Carlos I; 1649-1653,da morte de Carlos I, passando 
pelas convulsões políticas do exército, até o protetorado de 
Cromwell.
PRIMEIRO MOMENTO
Várias medidas foram tomadas pelo Parlamento que coloca-
ram por terra o Antigo Regime. Abolindo a Câmara Estrelada 
e a Corte de Alta Comissão, perseguindo os assessores mais 
importantes do rei, como Laud, que fora aprisionado, e o Du-
que de Strafford, que fora morto; destruía-se a máquina buro-
crática que sustentava o Estado. Proibiu-se o rei de manter um 
exército permanente; a política tributária passou para o con-
trole do Parlamento, este teria que ser convocado regularmen-
te, no mínimo de três em três anos, caso contrário, o mesmo 
se autoconvocaria. Entretanto, sentindo-se ameaçados pela 
política dos líderes da Câmara dos Comuns, a maior parte 
da aristocracia e da pequena e média nobreza conservadora 
acabou voltando a apoiar o rei.
A divisão dos membros do Parlamento acabou culminando 
com a eclosão da guerra revolucionária dando início ao se-
gundo momento.
Capítulo 3 A Revolução Inglesa 43
SEGUNDO MOMENTO
Esse momento corresponde à guerra civil, quando, de um lado, 
defrontaram-se os realistas, também denominados de cavalei-
ros e, de outro, os puritanos, também conhecidos por cabeças 
redondas, em função do cabelo rente que usavam, em opo-
sição aos cabelos longos dos membros da corte. Enquanto 
os cavaleiros eram os partidários do rei, que contavam com 
o apoio dos latifundiários, dos católicos e dos anglicanos; os 
cabeças redondas eram os defensores do Parlamento, purita-
nos, liderados por Oliver Cromwell. No início do confronto, as 
milícias arregimentadas pelo Parlamento se deram mal, pouco 
adestradas no uso das armas, não eram tropas profissionais 
como os cavaleiros, estes sim, guerreiros profissionais. Entre-
tanto, Cromwell conseguiu com o seu Novo Exército Modelo 
ser vitorioso nas batalhas que se seguiram, Este fora consti-
tuído de forma revolucionária ao estabelecer a meritocracia 
como caminho para a ascensão na hierarquia militar, e não 
por nascimento como era no exército realista. Segundo Chris-
topher Hill, historiador inglês dedicado ao estudo da Revolu-
ção Inglesa, as lutas do Parlamento foram ganhas devido à 
disciplina, unidade e elevada consciência política das massas 
organizadas no Novo Exército Modelo.
No ano de 1646, uma onda democratizante varreu o exér-
cito. Trata-se dos Levellers (Niveladores), assim denominados 
porque alguns de seus líderes defendiam a igualdade de pro-
priedade. Estes deram início à agitação, recusando-se a des-
mobilizar o exército até verem atendidas suas reivindicações. O 
exército passa a ser um poder rival do Parlamento. Em 1647, o 
rei é preso e os Niveladores tentam assumir o controle do Exér-
44 História Moderna Século XVII e XVIII
cito, porém acabam vendo o seu golpe ser frustrado pela ação 
dos Grandes do exército. O rei, aproveitando-se da divisão 
no exército, foge da prisão e reorganiza a contrarrevolução. 
Foi o suficiente para que o exército voltasse a se unificar sob a 
liderança de Cromwell. Vitorioso contra os realistas, Cromwell 
realizará o expurgo do Parlamento de todos os membros que 
ainda se mantinham fiéis ao rei. Receoso do retorno da mo-
narquia o Exército força o julgamento e a condenação do rei 
pelo Parlamento depurado. Em janeiro de 1649, Carlos I foi 
decapitado, e no mês seguinte a Câmara dos Lordes foi abo-
lida. Em maio do mesmo ano, a República foi proclamada, 
iniciando assim o terceiro momento.
TERCEIRO MOMENTO
Esse é um período da Revolução Inglesa marcado pelas agi-
tações políticas e sociais. A República encontra-se ameaçada 
por todos os lados. Na Irlanda, começa uma rebelião contra 
os ingleses. Os realistas emigrados conspiram na Escócia e 
Holanda. No interior do próprio exército, os Niveladores re-
belam-se pretendendo aprofundar a Revolução com medidas 
que ameaçariam interesses ligados à propriedade privada. Tal 
ameaça foi eliminada pela ação de Cromwell conduzida pe-
los Grandes do exército, findava-se assim o movimento mais 
democrático gerado pela Revolução Inglesa. Além da tentativa 
frustrada dos Niveladores, a Inglaterra foi palco também do 
movimento dos Escavadores (Diggers), que por meio de uma 
ação direta e pacífica, tentaram chegar a uma forma de co-
munismo agrário. Entretanto, todas as tentativas dos Diggers 
de alcançar seus objetivos também foram fracassadas, o que 
Capítulo 3 A Revolução Inglesa 45
evidencia o caráter burguês do processo revolucionário. Con-
forme Miceli:
Exterminados os Niveladores e silenciados os Diggers, a re-
volução afastou-se definitivamente das forças populares. De-
pois disso, pouco importava a restauração da monarquia, pois 
os futuros reis e a nobreza dificilmente se esqueceriam de que a 
burguesia não abriria mão de suas conquistas. (MICELI, p. 38)
Em 1650, o filho de Carlos I auxiliado pelo exército esco-
cês tenta acabar com a Revolução, porém será vencido por 
Cromwell no ano seguinte. No ano de 1653, é dissolvido o 
Longo Parlamento, constituindo-se uma Assembleia composta 
pelos partidários de Cromwell com a tarefa de elaborar uma 
nova Constituição, dando a este o título de Lorde Protetor. En-
tre 1653 e 1658, por pressão dos grandes comerciantes de 
Londres, o exército é desmobilizado, pois, além de muito one-
roso, encontrava-se demasiadamente politizado.
Em 1657, um novo Parlamento foi convocado e uma Cons-
tituição determinou a substituição do Conselho do Exército por 
um Conselho do Parlamento que iria controlar as finanças do 
exército e submeteu o próprio Lorde Protetor, o qual recusou a 
possibilidade de se tornar rei.
Com a morte de Cromwell em 1658, assume Ricardo 
Cromwell, o qual, após 18 meses no poder, será alvo de uma 
revolta palaciana auxiliada pelo exército e pelo Parlamento. 
Assim, em 1660, o Parlamento depurado colocou no trono o 
inglês Carlos II que governou por 18 anos com o mesmo Parla-
mento, submetendo-se a todas as imposições. Entretanto, seu 
irmão Jaime II não manteve o mesmo comportamento. Pelo 
46 História Moderna Século XVII e XVIII
contrário, ao tentar reeditar o comportamento absolutista de 
seu pai, favorecendo os católicos, apoiando a reconstituição 
dos bens da aristocracia, acabou afastado por um novo golpe 
de Estado tramado no próprio Palácio. Tratava-se da denomi-
nada Revolução Gloriosa, assim denominada por sua nature-
za pacífica, sem radicalizações extremistas e democratizantes 
que haviam marcado a etapa anterior: a Revolução Puritana. 
O trono fora oferecido a Guilherme de Orange, protestante, 
casado com uma das filhas do primeiro casamento de Jaime II 
e chefe de estado da Holanda. Após invadir a Inglaterra e ex-
pulsar Jaime II, o novo rei agora com o título de Guilherme III 
jurou o Bill of Rigths (Declaração de Direitos) que estabelecia 
as bases da monarquia parlamentar, ou seja, a superioridade 
da autoridade do Parlamento sobre a do rei.
Enfim, as decisões tomadas com a Revolução Gloriosa 
consolidavam a substituição da monarquia absolutista pela 
monarquia parlamentar constitucional. Podemos afirmar, por-
tanto, que a Revolução Inglesa teve para esta nação, o mesmo 
papel que, para a França, teve a Revolução Francesa de 1789. 
Derrubando o Estado absolutista, criou as condições políticas 
necessárias à burguesia, que, ao estabelecer um Estado bur-
guês, estabelecia as condições favoráveis para a posterior 
eclosão da Revolução Industrial.
Antecedentes da 
Revolução Industrial
Victor Lourenço dos Santos Júnior
Capítulo 4
48 História Moderna Século XVII e XVIII
Para uma visão geral dos conteúdos abordados, faremos um 
apanhado das principais linhas de argumentação, realçando 
algumas continuidades e chamando atenção para as rupturas. 
Inicialmente, destaca-se o prolongamento de uma transforma-
ção profunda na maneira de concebero homem e a natureza. 
Segundo Falcon e Rodrigues, no século XVIII, foi o momen-
to em que ganharam consistência novos modos de pensar o 
homem e o mundo, funcionando como momento de síntese 
de mudanças já anunciadas pela secularização da igreja, em 
especial as reformas religiosas, o rompimento com a tutela te-
ológica no que diz respeito à natureza por meio da revolução 
cartesiana [no modo de pensar] e das transformações cientí-
ficas. Os autores afirmam que, ao lado dessa ruptura com a 
tutela religiosa, desenvolveu-se uma forte tendência de expli-
cação do que era o desenrolar da vida social e o entendimen-
to da ação das virtudes humanas, decorrentes do exercício da 
razão (influência do Iluminismo). “A primazia da razão elegeu 
o homem e suas virtudes como responsáveis pelo progresso 
material e técnico, e pela descoberta de que essa nova experi-
ência só pode alcançar seus objetivos se a liberdade de viver e 
de pensar for o leito do novo caminho” (2006, p. 205).
A associação entre a ideia de razão e liberdade foi a ima-
gem que ficou do século XVIII, o Século das Luzes, o qual 
inaugurou uma nova forma de ver a humanidade, em que a 
igualdade foi a mestra e referência para todas as críticas ao 
domínio aristocrático nas sociedades do Antigo Regime. No 
capítulo específico sobre o Iluminismo, veremos como os mo-
vimentos sociais se associaram com pensadores protagonistas 
da revolução intelectual. Ao final deste estudo, será possível 
ver como o conjunto dos fatores políticos e sociais foram alte-
Capítulo 4 Antecedentes da Revolução Industrial 49
rados para dar sustentação ao novo modo de produção, ao 
mundo Moderno do ponto de vista econômico e de como a 
ciência esteve diretamente envolvida com todas as transforma-
ções antes, durante e depois da Revolução Industrial. Nesta 
primeira parte, teremos as linhas de continuidade que ligam 
esses eventos aos seus antecedentes, especialmente o Huma-
nismo e o Renascimento Cultural.
As Cidades
É importante perceber como o desenvolvimento das cidades 
afetou esse processo. Segundo Falcon, as cidades foram o pal-
co dessas transformações, o lugar em que as Luzes podiam se 
expandir e se consagrar na forma de movimentos intelectuais. 
Em oposição ao campo, a cidade passou a ser o espaço das 
novidades, em que os novos valores se anunciavam e eram di-
vulgados, transformando-se em ideais burgueses, em novas vi-
sões de mundo. O passo seguinte foi a tomada de consciência 
política por parte da nova classe social, os burgueses. A nova 
sociedade, com novas virtudes e o conhecimento, acabou ge-
rando novas formas de sociabilidade, não mais determinadas 
pela hierarquia de nascimento. Nesse momento, as teorias 
sobre o progresso material, técnico e intelectual assumiram 
importância decisiva para que esses novos empreendedores 
entendessem que a sua história seria o resultado de sua cons-
trução do futuro no presente e que o progresso era aquilo que 
movia o aperfeiçoamento da razão humana. A natureza foi 
transformada pela ação do trabalho humano e ganhou uma 
nova qualificação, como objetivo a ser conquistado e como 
portadora da abundância.
50 História Moderna Século XVII e XVIII
Antecedentes
De acordo com o historiador E.M. Burns, a Revolução Comer-
cial foi um dos desenvolvimentos mais significativos da história 
do mundo ocidental. Ele afirma que todo o conjunto da vida 
econômica moderna teria sido impossível sem essa revolução, 
pois foi ela que deslocou as bases do comércio do plano lo-
cal e regional, na Idade Média, para a escala mundial. Além 
disso, exaltou o comércio com finalidade lucrativa, santificou 
a acumulação de riqueza e estabeleceu a concorrência como 
base da produção e do comércio. Em suma, deve-se atribuir à 
Revolução Comercial quase todos os elementos que vieram a 
constituir o regime capitalista, sobretudo seus princípios. Burns 
entende que a revolução comercial estimulou os primeiros sur-
tos de especulação, desencadeando o crescimento das ativi-
dades econômicas. Como vimos no capítulo sobre a Expansão 
Marítima, o afluxo de metais preciosos, a elevação de preços 
e o encarecimento da vida em geral fomentaram um espírito 
especulativo nos negócios, o que seria impensável dentro da 
concepção estática, em matéria de funcionamento da econo-
mia, que havia predominado na Idade Média.
Pois é dentro desse marco histórico e conceitual que se 
formou uma nova mentalidade, marcada pelo individualismo. 
A expansão dos negócios fez os homens pensarem que pode-
riam fazer fortuna do dia para a noite. Assim, projetaram-se 
inúmeras empresas para toda espécie de finalidades, mesmo 
as mais absurdas, como tornar doce a água salgada ou cons-
truir o moto-contínuo. Entre outros resultados dessa revolu-
ção, lembra Burns, pode-se citar a ascensão da burguesia ao 
poder econômico, o início da europeização do mundo e a 
Capítulo 4 Antecedentes da Revolução Industrial 51
retomada da escravidão. No final do século XVII, a burguesia 
havia se tornado a classe dominante em quase todos os países 
da Europa ocidental. Dela faziam parte os comerciantes, os 
banqueiros, os proprietários de navios, os principais acionistas 
e os empresários das indústrias nascentes. Essa ascensão ao 
poder deveu-se ao aumento da riqueza dessa nova classe e 
à tendência de se aliarem aos reis contra os remanescentes 
da aristocracia feudal, o que põe em evidência seu caráter 
político. Contudo, somente no século XIX é que o poder políti-
co da burguesia se tornou uma realidade. Conforme Burns, o 
que se chama de europeização do mundo deve ser entendido 
como a transposição dos hábitos e da cultura europeia para 
os outros continentes. Como resultado do trabalho de comer-
ciantes, missionários e colonos, a América do Norte e a do Sul 
assumiram a feição de apêndices da Europa. Mas o resultado 
mais deplorável dessa expansão comercial sem precedentes 
foi o restabelecimento da escravidão. Conforme o historiador, 
por volta do ano 1.000, a escravidão havia praticamente de-
saparecido na Europa, mas o crescimento da mineração e das 
fazendas de plantação extensiva nas colônias inglesas, espa-
nholas e portuguesas provocou enorme procura de trabalha-
dores não especializados. No princípio, tentaram escravizar os 
indígenas, porém a falta de mão de obra só foi solucionada, 
mais tarde, com a “importação” de negros africanos. Por 200 
anos ou mais, a escravidão foi parte integrante do sistema 
colonial europeu.
Tendo relembrado esses detalhes cruciais, podemos afir-
mar agora, distanciados no tempo, que a revolução comercial 
teve grande importância ao preparar o caminho da Revolu-
ção Industrial e, ao mesmo tempo, da Revolução Científica. 
52 História Moderna Século XVII e XVIII
As razões para tal podem ser identificadas, em primeiro lugar, 
na criação de uma classe de capitalistas que passaram a bus-
car novas oportunidades para empregar os lucros excedentes. 
Em segundo lugar, a política mercantilista protegia a indústria 
nascente e a produção de mercadorias para exportação, o 
que forneceu poderoso impulso ao desenvolvimento das ma-
nufaturas. Em terceiro lugar, a expansão dos impérios colo-
niais inundou a Europa de novas matérias-primas e aumentou 
em muito o suprimento de certos produtos até então raros. A 
maior parte desses novos produtos precisava ser manufaturada 
antes de ser oferecida aos consumidores. Em consequência, 
surgiram novas indústrias livres de qualquer regulamentação 
corporativa. O exemplo mais contundente veio da manufatura 
de tecidos de algodão, que foi a primeira indústria a ser me-
canizada. Por fim, após a revolução comercial, passou-se a 
adotar os métodos fabris em certos ramos da produção, junto 
aos aperfeiçoamentos técnicos, como a invenção da roda de 
fiar, do tear para fazer meia e mesmo o descobrimento de um 
processo mais eficiente para extraçãode prata. Portanto, não 
é difícil perceber a conexão entre tais fatos e os progressos 
verificados na Revolução Industrial.
Para concluir a passagem dos antecedentes, devemos rever 
outro fato importante, igualmente conectado com os anterio-
res: a revolução agrícola. Conforme Burns, as profundas mu-
danças ocorridas na agricultura durante os séculos XVII e XVIII 
podem ser consideradas como efeitos da revolução comercial. 
A elevação de preços dos produtos agrícolas e aumento da 
população urbana tornaram a agricultura um negócio lucra-
tivo, o que favoreceu sua absorção pelo modo de produzir 
capitalista. Além disso, o desenvolvimento da indústria da lã 
Capítulo 4 Antecedentes da Revolução Industrial 53
na Inglaterra levou muitos proprietários rurais a substituírem 
o cultivo do solo pelas atividades de pastoreio. Outra causa 
apontada por Burns, mesmo sem relação direta com o co-
mércio, foi a escassez de mão de obra devido à peste negra 
e à evasão dos camponeses para as cidades e vilas a fim de 
aproveitarem as oportunidades de uma vida melhor, geradas 
pelo restabelecimento do comércio com o Oriente Próximo. A 
emergência do trabalho livre e o enfraquecimento dos antigos 
senhores feudais solaparam a estrutura do Antigo Regime, e 
isso foi determinante. A soma desses fatores resultou na des-
truição do sistema senhorial e o surgimento de uma agricultura 
erigida sobre bases semelhantes às modernas. Tal transforma-
ção foi mais completa na Inglaterra, embora também tenha se 
estabelecido em outros países.
A multiplicação da força de trabalho
Conforme Vicentino o processo de desenvolvimento do modo 
de produção capitalista, intensificado pela Revolução Comer-
cial entre os séculos XVI e XVII, estava restrito à circulação 
de mercadorias. A partir da segunda metade do século XVIII, 
iniciou-se a mecanização industrial. Com isso, o processo de 
acumulação primitiva de capital passou a concentrar mais ca-
pitais no setor da produção. Esse fato trouxe grandes mudan-
ças, tanto de ordem econômica quanto social, porque leva-
ram ao desaparecimento dos restos do sistema feudal. A essa 
etapa convencionou-se chamar Revolução Industrial. Não por 
acaso, o início dessa revolução aconteceu na Inglaterra, o país 
que mais acumulou capitais durante a fase do capitalismo co-
mercial. Graças ao seu poderio naval e comercial, os ingleses 
54 História Moderna Século XVII e XVIII
conseguiram construir um dos maiores impérios coloniais da 
época. Essa hegemonia começou com a vitória inglesa con-
tra a Invencível Armada espanhola, em 1588, seguida dos 
Atos de Navegação, de 1651, que atingiram especialmen-
te a Holanda, até então a maior rival dos ingleses. Depois, 
com o Tratado de Methuen, de 1703, assinado com Portugal, 
abriram-se os mercados portugueses e coloniais aos produtos 
manufaturados ingleses. Com o final favorável na Guerra dos 
Sete Anos (1756 a 1763), os ingleses subjugaram a França, o 
último grande concorrente no continente europeu.
No plano interno, as transformações podem ser identifica-
das na economia inglesa com a implantação de um poderoso 
sistema bancário em conexão com a revolução agrícola. O 
Banco da Inglaterra e a Companhia das Índias Ocidentais fo-
mentaram as relações coloniais, estimulando a produção de 
algodão, matéria-prima básica nesse processo histórico que 
chamamos Revolução Industrial. Pois foi exatamente a meca-
nização da indústria têxtil que deu o impulso decisivo para 
esta revolução, sempre com o respaldo das instituições finan-
ceiras. Nesse ponto, faz-se necessário apontar a conexão des-
ses eventos com a Revolução científica e Intelectual. Conforme 
Francisco Iglesias (citado por Vicentino),
“a contar do século XVI multiplicaram-se os nomes dos fi-
lósofos e cientistas, com o culto da natureza, da experiência 
e da mecânica. Ganha impulso o ensino técnico e revê-se o 
culto dogmático da tradição, com o reexame do que fora dito 
pelos filósofos. Agora é a experiência que dá sentido científico 
ao estudo e às inquietações. As técnicas, sua feição mecânica, 
passam a ser consideradas. Surge então a ciência Moderna, 
Capítulo 4 Antecedentes da Revolução Industrial 55
antidogmática, fundada no experimentalismo. Essa mudança 
de mentalidade representa a transformação intelectual e cria 
o clima de crítica sistemática e, entre muitos de seus efeitos, 
assinala-se o interesse pela indústria.” (p. 285)
Para concluir o quadro geral das condições fundamentais 
que levaram ao surto de desenvolvimento industrial, é preciso 
levar em conta ainda os fatores políticos favoráveis. A Revo-
lução Gloriosa sepultou o Absolutismo inglês aos estabelecer 
a supremacia do Parlamento e ao constituir o Estado Liberal, 
considerados então pré-requisitos para a plenitude do sistema 
capitalista. Até a aristocracia, por não dispor das facilidades 
dos franceses, acabou por simpatizar com as atividades co-
merciais e industriais, integrando-se a elas muitas vezes. Por 
último, assinala Vicentino, a Inglaterra contava com abundân-
cia do minério de ferro e carvão, que eram as matérias-primas 
essenciais para a construção e o bom funcionamento das má-
quinas e para a produção de energia a vapor.
Outro ponto de vista para situar os eventos da Revolução 
Industrial pode ser encontrado no livro de Burns, no qual ele 
afirma que a revolução comercial não foi mais que o pon-
to de partida para rápidas e decisivas mudanças no campo 
econômico. A Revolução Industrial veio em seguida não só 
ampliando a esfera dos grandes empreendimentos comerciais, 
mas ainda se estendeu aos domínios da produção. Burns su-
gere uma fórmula sintética para caracterizar todas as etapas 
da revolução. “Pode-se dizer que a Revolução Industrial com-
preendeu: 1. a mecanização da indústria e da agricultura; 2. 
a ampliação da força motriz à indústria; 3. o desenvolvimento 
do sistema fabril; 4. um sensacional aceleramento dos trans-
56 História Moderna Século XVII e XVIII
portes e das comunicações; e 5. um considerável acréscimo 
do controle capitalista sobre todos os ramos da de atividade 
econômica.” Conforme Burns, vol 2, p. 661.
Para os fins deste trabalho, vamos seguir inicialmente a pe-
riodização tradicional, considerando que a Revolução Indus-
trial já havia dado seus primeiros passos um século antes e que 
só adquiriu seu ímpeto máximo na virada para o século XIX. 
Muitos historiadores dividem o movimento em duas grandes 
fases, servindo o ano de 1860 como marco divisório. O pe-
ríodo posterior a 1860, até nossos dias, é denominado como 
Segunda Revolução Industrial. No que diz respeito às causas 
mais específicas dessa revolução, algumas delas mais antigas 
do que se costuma supor, devemos considerar em primeiro 
lugar os aperfeiçoamentos de ordem técnica. As maravilhosas 
invenções dos fins do século XVIII não nasceram completas. 
Segundo defende o autor, ao contrário, já desde algum tempo 
havia um interesse mais ou menos fecundo pelas inovações 
mecânicas.
“O período da revolução comercial presenciou a invenção 
do relógio de pêndulo, do termômetro, da bomba aspirante, 
da roda de fiar e do tear para tecer meias, sem mencionar 
os melhoramentos introduzidos na técnica de fundir minérios e 
na obtenção do bronze. Cerca de 1580 foi inventado um tear 
mecânico que fazia fitas, sendo capaz de tramar vários fios 
ao mesmo tempo. Houve importantes progressos técnicos em 
outras indústrias, como a de vidraria, relojoaria, aparelhos em 
madeira e construção naval. Várias dessas primeiras invenções 
tornavam necessária a adoção de métodos fabris. Por exemplo, 
havia uma máquina italiana para trabalhar sêda bruta, por vol-
Capítulo 4 Antecedentes da Revolução Industrial 57
ta de 1500, que precisava ser instalada numa grande constru-
ção e exigia uma turma considerável de trabalhadores. Ainda 
em 1738 se registravamo uso de enormes martelos hidráulicos 
para fundir o cobre. Estes melhoramentos técnicos iniciais mal 
podem ser comparados com o que veio depois, mas mostram 
que a era da máquina não surgiu de um dia para o outro”. 
(Burns, p. 662)
Outras causas da Revolução Industrial podem ser encon-
tradas como consequências diretas da Revolução Comercial, 
especialmente quanto ao surto de empreendedorismo dos no-
vos capitalistas que procuravam constantemente novas opor-
tunidades de investimento para seu excesso de riqueza. No 
começo, os excedentes eram absorvidos pelo comércio, pela 
mineração, pela especulação bancária e pela construção na-
val, mas, com o passar do tempo, as oportunidades ficaram 
limitadas. Por isso, havia uma disponibilidade crescente de ca-
pitais para o desenvolvimento das manufaturas, sobretudo na 
Inglaterra, como assinalamos. Burns entende que dificilmente 
teria ocorrido um desenvolvimento tão rápido se não houves-
se uma procura cada vez maior por produtos industriais. A 
expansão da demanda pode ser atribuída em grande parte à 
fundação dos impérios coloniais ultramarinos e ao acentuado 
crescimento da população europeia. Na Inglaterra, o número 
de habitantes passou de quatro milhões, em 1600, a seis mi-
lhões, em 1700, e a nove milhões no fim do século XVIII. Já a 
população da França elevou-se de 17 milhões, em 1700, para 
26 milhões cerca de 100 mais tarde. Por fim, ao lado desses 
fatores quantitativos e de ordem técnica, um último fator aju-
da a explicar a Revolução Industrial: a doutrina Mercantilista. 
Entre outras coisas, conforme vimos no capítulo específico, o 
58 História Moderna Século XVII e XVIII
Mercantilismo estimulava o aumento das atividades comer-
ciais, especialmente os manufaturados de exportação, porque 
esses asseguravam uma balança comercial favorável.
Sendo preciso apontar um fato, ou uma sequência de fa-
tos, que deu origem a todo o processo, temos que repassar o 
trabalho de Burns. Ele afirma que, a despeito da importância 
das outras causas da Revolução Industrial, ela não teria ocor-
rido se não fosse a necessidade de melhoramentos mecânicos 
fundamentais para certos campos de produção.
Por volta do ano 1700, a procura de carvão para as fundi-
ções de ferro havia exaurido de tal modo as reservas de lenha 
que vários países da Europa Ocidental se viram ameaçados 
pelo desflorestamento. Uma solução parcial foi encontrada 
anos depois por Abraham Darby, em 1709, ao descobrir que 
o minério de coque podia ser utilizado na fundição, mas, para 
se obter o coque necessário, era preciso minerar carvão em 
quantidade muito maior do que até então se fazia. Como o 
principal obstáculo à extração fosse a acumulação de água 
nas minas, a necessidade do novo combustível levou à procu-
ra de uma fonte de energia capaz de acionar as bombas. Os 
vários experimentos relacionados a essa pesquisa resultaram 
na invenção da máquina a vapor. Outra necessidade premen-
te de mecanização existia na indústria têxtil. Com a crescen-
te procura por tecidos de algodão nos séculos XVII e XVIII, 
tornou-se impossível fornecer o fio necessário com as rodas 
de fiar primitivas ainda em uso. Mesmo depois de empregar 
toda a mão de obra disponível, incluindo mulheres e crianças, 
a procura não foi satisfeita. Na Alemanha, até os soldados 
no quartel eram postos a fiar algodão. Como a necessidade 
Capítulo 4 Antecedentes da Revolução Industrial 59
era cada vez maior, as sociedades científicas e as empresas 
industriais ofereceram prêmios a quem apresentasse métodos 
aperfeiçoando a fiação. Em 1760, a English Society of Arts ins-
tituiu um desses prêmios para a máquina que capacitasse uma 
pessoa a fiar seis fios simultaneamente. O resultado de todos 
esses esforços foi o desenvolvimento da máquina de fiar e do 
tear hidráulico, precursores de uma série de inventos. Como 
ficasse demonstrada a viabilidade de tais máquinas, a mecani-
zação não podia deixar de ser levada às demais manufaturas.
Desdobramentos 
e Implicações da 
Revolução Industrial
Victor Lourenço dos Santos Júnior
Capítulo 5
Capítulo 5 Desdobramentos e Implicações da Revolução Industrial 61
A mecanização dos processos de fabricação trouxe profundas 
consequências para o mundo. Para alguns pesquisadores, o 
início do sistema fabril não se deveu a inovações tecnológicas. 
O que determinou a reunião de artesãos em um mesmo espa-
ço – a fábrica – foi a necessidade de o comerciante controlá-
-los, impor-lhes um ritmo de trabalho e retirar-lhes seu saber 
técnico, sua criatividade individual. É preciso considerar que 
está em curso uma transição do modo feudal para o modo 
capitalista, impulsionado por uma nova visão de mundo. A 
grande novidade do sistema fabril não se refere apenas às 
invenções, mas sobretudo à perda do controle do processo de 
produção pelo trabalhador. Nesse aspecto, as análises de Karl 
Marx são uma referência obrigatória.
Com o advento do sistema fabril na Revolução Industrial, 
o próprio significado da palavra trabalho passou a ser difun-
dido com valor positivo. Até a Idade Média, o trabalho estava 
associado á dor e à pobreza. Além do controle do processo 
produtivo no interior da fábrica, os valores capitalistas pas-
saram a ser disseminados fora do espaço fabril, antecipando 
uma nova mentalidade para as sociedades europeias. A moral 
do tempo útil, inspirada na concepção protestante de glorifi-
cação do trabalho como caminho da salvação, condenava as 
festas populares, as cantorias e as danças. Nesse particular, 
a referência obrigatória é o trabalho de Max Weber, sobre a 
ética protestante e o espírito do capitalismo. A própria escola 
passou a inculcar uma cultura disciplinadora do trabalho, das 
atitudes e dos gestos. Documentos do século XVIII registram 
que as crianças, ao chegarem a idade de seis anos, deviam 
estar acostumadas com o trabalho. Esse traço característico 
da mentalidade capitalista voltará a ser enfatizado ao longo 
62 História Moderna Século XVII e XVIII
do tempo, se acentuando em alguns momentos, enquanto em 
outros ainda persistem os traços do modo de produção ante-
rior. O que ocorreu foi a conjunção de duas ordens de fatores 
determinantes atuando no sentido da modernização, da racio-
nalização dos processos e da criação de novas instituições que 
espelhassem a nova mentalidade. Por isso, as consequências 
da revolução industrial abrangem aspectos sociais e políticos 
em sua dimensão histórica.
A ilustração mais dramática das consequências sociais da 
industrialização é constituída pela imagem do trabalho infan-
til nas tecelagens inglesas. Por força do novo modo de pro-
duzir nas fábricas, os trabalhadores reunidos passaram a ser 
vigiados e controlados por meio de uma rígida disciplina que 
impunha horários de entrada e de saída, prazos para cumprir 
as tarefas, maior divisão das etapas de trabalho e uma severa 
hierarquia. Estava em curso a fragilização do trabalhador. Sem 
autonomia, o trabalhador tornou-se vulnerável, e as jornadas 
de trabalho atingiam em média 16 horas diárias, sem interrup-
ções para feriados ou férias. E só isso, desde o seu surgimento 
até fins do século XIX, o espaço fabril era sujo e mal ventilado, 
sendo frequentes os acidentes de trabalho. Mas a face mais 
cruel do capitalismo industrial foi mesmo a exploração do tra-
balho infantil. A utilização da mão de obra de crianças princi-
palmente nas tecelagens, vidrarias e minas de carvão foi tema 
de denúncias e obras de arte, que retrataram as cenas em di-
versas fábricas inglesas. Documentos da época comprovam a 
existência de emprego de crianças a partir dos quatro anos de 
idade. Muitas vezes, eram elas as responsáveis pelo conserto 
de máquinas porque o espaço era muito apertado para que 
um adulto as concertasse.
Capítulo 5 Desdobramentos e Implicações da Revolução Industrial 63Também faz parte da história da Revolução Industrial em 
suas consequências sociais o episódio da quebra de máqui-
nas. Os trabalhadores europeus, principalmente os ingleses, 
pioneiros da industrialização, demonstraram de várias manei-
ras o seu inconformismo em relação à nova situação que en-
frentavam. Lutaram contra a jornada estafante, o alto índice 
de acidentes, o uso de mão de obra infantil e feminina com 
remunerações aviltantes, além da inexistência de garantias ou 
proteção em caso de doença, acidentes ou velhice. Acima de 
tudo, os salários eram muito baixos. Mas os trabalhadores dis-
cutiam também alguns valores, entre eles, a perda dos costu-
mes tradicionais e da sua autonomia. Segundo consta, havia 
na cultura popular uma concepção de justiça baseada em va-
lores da cultura medieval, que pregava ideias de solidarieda-
de, consciência coletiva e senso de fidelidade. Por conta disso, 
os operários iniciaram a organização sindical e formas de luta 
baseadas na memória de um modo de vida que rapidamente 
se perdia. Na tentativa de preservar tais valores, organizaram-
-se grupos e sociedades secretas com rituais e práticas cole-
tivas de solidariedade. Além disso, afirmam os historiadores, 
outras formas de resistência à nova situação, nesses primeiros 
momentos da formação da classe operária, foram o roubo, a 
sabotagem os motins ou agressões coletivas, sem mencionar 
as greves espontâneas. O episódio mais notável dessa etapa 
da história ocorreu no século XVIII, na região inglesa de Lan-
cashire, onde trabalhadores destruíram as instalações de uma 
fábrica e as máquinas de tecelagem. Foi chamado de movi-
mento dos quebradores de máquinas ou ‘ludditas’, pois se-
riam liderados por um general de nome Ned Ludd, que havia 
64 História Moderna Século XVII e XVIII
demonstrado abertamente as reações contra o novo sistema 
produtivo e econômico que se instalava.
Como se vê, não foi pacífica a transição ao modo de pro-
dução capitalista, sobretudo nessa época. Mas as resistências 
iniciais, por estarem localizadas, não tiveram forças para alte-
rar o curso do processo de mudança do sistema de trabalho na 
Europa ocidental, em curso desde o fim da Idade Média e que 
agora se acelerava. Assim colocada na fase inicial, a implan-
tação da disciplina rígida nas primeiras fábricas abria caminho 
para o que veio a ser conhecido como a divisão do trabalho, 
quando se deu um enorme salto em termos de produtividade. 
Aliás, é nesse sentido que a mecanização das fábricas atuou. 
O uso da força do vapor inicialmente e depois o óleo combus-
tível aumentou em muito a capacidade de produção. A escala 
de produção deixou de ser medida em termos de homem-hora 
e passou a ser mensurada em termos de cavalo-vapor. Em 
paralelo ao desenvolvimento tecnológico sem precedentes na 
história, ocorreu também a racionalização das práticas de or-
ganização e administração, inicialmente no âmbito do Estado 
e, posteriormente, no interior das fábricas.
No fim do século XIX, o sistema fabril apresentou uma gran-
de sofisticação em seus métodos, ao aplicar o que se chamava 
de princípios de administração científica. Esses princípios ti-
nham por objetivo racionalizar e controlar ao máximo o tem-
po do trabalhador para elevar a sua produtividade individual 
e, com isso, eliminar desperdícios e gerando a redução de 
custos de produção. O engenheiro norte-americano Frederick 
Winsllow Taylor (1856 – 1915) iniciou estudos como aprendiz 
em uma oficina na Filadélfia. No período em que trabalhou em 
Capítulo 5 Desdobramentos e Implicações da Revolução Industrial 65
uma usina, estudou minuciosamente o tempo gasto pelos tra-
balhadores em cada movimento, com o objetivo de aumentar 
a produtividade e a redução de gastos na produção. Com esse 
objetivo, examinou os passos (quanto andava cada operário) 
e analisou os gestos dos trabalhadores, buscando aperfeiçoar 
e otimizar as atividades. Com esse estudo, Taylor aprofundou 
a divisão do trabalho, limitando cada operário à execução 
de uma única e repetitiva tarefa. Ao pesquisar sobre o tempo 
gasto pelo homem e pela máquina em cada tarefa, criou prê-
mios para o trabalhador que superasse a média encontrada, 
estimulando ainda mais a eficiência e o aumento da produ-
ção. Esse método de organização do trabalho ficou conhecido 
como taylorismo, e foi rapidamente aplicado na emergente in-
dústria norte-americana. Uma das primeiras grandes empresas 
a utilizar o método taylorista de organização do trabalho foi a 
fabricante de carros de Henry Ford. Já em 1908, a produção 
de carros da Ford passou a usar a linha de montagem, mas a 
divisão das tarefas seguia o método taylorista. As fábricas Ford 
também inovaram ao adotar ventilação, iluminação e condi-
ções de higiene mais adequadas ao trabalho digno, sobretudo 
se comparadas ao início da Revolução Industrial.
Existe um certo consenso no que toca ao entendimento da 
revolução Industrial, que deve ser vista como um movimento 
e não como um simples período. As transformações ocorridas 
na Europa, no plano político e econômico, estavam ligadas 
diretamente pelo contexto cultural da época. Como vimos nes-
tes capítulos, os estados nacionais se formaram sob uma nova 
mentalidade, expressa primeiramente pelo Renascimento Cul-
tural e, depois, pela Revolução das Luzes e todo o crescimento 
da racionalidade instrumental. Assim, o processo de moder-
66 História Moderna Século XVII e XVIII
nização dos estados nacionais, a expansão da economia e a 
intensificação das trocas comerciais, tudo isso se conjugava 
nesse novo modo de produção, muito mais eficiente e lucrati-
vo nesse momento. Para deixar uma síntese do que foram as 
principais mudanças desse novo modo de produção, vamos 
apresentar os pontos mais significativos em cada uma das áre-
as. Entre os efeitos econômicos mais destacados da revolução 
industrial está, evidentemente, o aumento da produção. Se 
antes da mecanização, no artesanato, era preciso a presença 
de um, dois ou mesmo dez homens para produzir uma de-
terminada quantidade de tecido, com o aprimoramento das 
máquinas foi possível usar um menor número de empregados 
e ainda aumentar a produção. Por exemplo, em 1765, a má-
quina de tecelagem spinning-jenny proporcionou o aumento 
de produção, pois podia controlar 80 fusos ou mais, enquan-
to um operário podia, quando muito, operar oito fusos. Com 
isso, verifica-se uma extraordinária economia e aumento de 
produção. A importação e a exportação de tecidos aumenta-
ram muitas vezes nesse espaço de tempo, e o mesmo se deu 
no setor siderúrgico. A produção cresceu em volume 10 vezes 
ao longo de 40 anos e a procura do mercado não cessou de 
crescer. Além disso, é preciso considerar que toda a expansão 
da economia se deu ao mesmo tempo em que se ampliavam 
as vias de transporte, sobretudo o ferroviário e o marítimo.
Em função da disponibilidade de energia motriz – a máqui-
na a vapor – a nova etapa da industrialização ficou marcada 
pela concentração física dos empreendimentos. Não depen-
dente de fatores naturais, como ventos e cursos dos rios, as 
indústria podiam se instalar nos lugares mais favoráveis. Outro 
efeito notável da Revolução industrial foi a divisão técnica do 
Capítulo 5 Desdobramentos e Implicações da Revolução Industrial 67
trabalho, conforme mencionado acima. Por ora, anote-se a 
referência bibliográfica A Riqueza das Nações, de Adam Smi-
th, de 1776, em que o autor mostra o exemplo clássico da 
empresa moderna e descreve em detalhes a fabricação de al-
finetes. Contudo, o que não pode ser negado é que o excesso 
de especialização acabou por gerar uma desgastante rotina, 
a fadiga física e mental. Outro clássico exemplo dessa condi-
ção foi mostrado no filme Os Tempos Modernos, de Charles 
Chaplin, em que o operário é levado à loucura por passar o 
dia apertando parafusos em uma simplespeça. Outros efeitos 
óbvios da Revolução Industrial foram o estímulo ao comércio 
e o crescimento das aplicações financeiras. Com a expansão 
dos mercados e, sobretudo, o crescimento da produção, as 
novas empresas eram maiores e mais complexas, empregando 
muita gente e exigindo investimentos elevados. Já no começo 
do século XVIII, esse processo começava a se intensificar e 
logo a economia se tornou altamente monetizada. Os capitais 
aumentaram seus rendimentos e expandiram suas fronteiras. 
O Tratado de Paris, assinado em 1763, abriu o mercado do 
Canadá e da Índia para os banqueiros ingleses. Além do co-
mércio, então, desenvolveu-se o gosto pela especulação fi-
nanceira em meio a crescentes investimentos.
Uma consequência inevitável desse processo foi o estímu-
lo às combinações financeiras e industriais dentro da mesma 
lógica de concentração do poder e da riqueza. A fiação, por 
exemplo, era a indústria que puxava outra indústria, a tecela-
gem que por sua vez atraia a indústria de roupas e meias. Do 
mesmo modo, a extração do minério de ferro e a metalurgia 
induziu a criação de um número infindável de novas máquinas, 
seguindo a dinâmica da divisão das atividades. Assim com o 
68 História Moderna Século XVII e XVIII
desenvolvimento das formas avançadas de industrialismo, com 
as tais combinações financeiras, deu-se início a era dos trustes 
e dos carteis. Esses tipos de combinações entre empresários 
trouxeram vantagens aos seus manipuladores, mas logo se 
percebeu que poderia prejudicar a população. Esse era o ca-
pitalismo em sua plenitude, um sistema que só visava o lucro.
Além dos efeitos econômicos, a nova fase de expansão da 
indústria no ocidente gerou consequências sociais. A primeira 
deles foi o aumento da população, sobretudo nas cidades in-
dustriais. A ausência de dados estatísticos ou censos daquela 
época impedem uma avaliação mais precisa da distribuição 
demográfica, mas já em 1801, quando aconteceu o primeiro 
censo na Inglaterra, é que se tem uma noção desse fator. A 
população na Inglaterra por volta do ano 1750 era de 6,5 mi-
lhões de habitantes e em 1830 já somava mais de 14 milhões 
de pessoas. Os historiadores relutam em associar o crescimen-
to da população ao industrialismo, mas admitem que os pro-
gressos da indústria favoreceram também a atividade agrícola, 
assim houve aumento da produção e da produtividade agríco-
la na época. Outro fator que explica o aumento da população 
foi a redução da mortalidade infantil com a adoção de novas 
normas de higiene e mais recursos para o saneamento das 
áreas habitadas e também pela existência de médicos.
Diretamente ligado à Revolução Industrial está o processo 
de urbanização. Conforme foi visto anteriormente, as cidades 
exerceram um papel fundamental ao longo da história oci-
dental. Mas a nova onda de industrialização agora requeria 
investimentos que só poderiam ser bancados por homens ri-
cos ou associações de empresários. O fato histórico é que, 
Capítulo 5 Desdobramentos e Implicações da Revolução Industrial 69
após a implantação de novas fábricas, verificou-se o êxodo 
da população rural em direção às cidades. O processo de 
urbanização que antes era lento e raro passou a se dar ra-
pidamente, com o surgimento de novos núcleos urbanos em 
curto período de tempo. As cidades industriais inglesas, com 
exceção de Londres, começaram a surgir a partir do século 
XVIII. Por exemplo, a importante cidade Manchester em 1700 
era apenas um povoado, mas em 1800 já tinha mais de 100 
mil habitantes. Londres era então a maior cidade do mundo, 
com mais de um milhão de habitantes, e Paris era a segun-
da, com 500 mil habitantes. Contudo, também surgiu uma 
série de pequenas cidades chamadas black country devido ao 
excesso de poluição. Em geral, eram cidades tristes, feias e 
sujas, sem conforto algum em função de terem surgido sem 
qualquer ordenamento. Apesar disso, dos contratempos da 
vida urbana, para a população, aquilo se apresentava como 
uma melhoria. O camponês que largava o mundo rural pelo 
urbano tinha ali a liberdade que não conhecia no campo, 
onde eram quase sempre dependentes do senhorio. Nas pa-
lavras de Karl Marx, a burguesia submeteu os campos ao 
governo das cidades. A urbanização, embora toda irraciona-
lidade demonstrada nos primeiros anos do industrialismo, se 
mostrou um caminho sem volta.
Um dos fatos mais notáveis da história da Europa ociden-
tal, já assinalado em outras partes deste livro, foi a ascensão 
da burguesia enquanto classe social dominante. Nos princi-
pais países europeus estava em formação, desde o final da 
Idade Média, uma nova classe social cujo destino iria mudar a 
face do mundo moderno. O caso da Inglaterra é emblemático 
porque era o país que tinha a burguesia mais desenvolvida, 
70 História Moderna Século XVII e XVIII
pois vinha se fortalecendo desde o século XIII, ganho experiên-
cia e vigor tanto no aspecto político quanto no econômico. O 
crescimento da influência da nova classe se deu em antago-
nismo com a Aristocracia, até então a classe dominante junto 
com o Clero. A própria aristocracia, por meio dos lordes, se 
colocava, às vezes, ao lado da burguesia, e o mesmo faziam 
os operários. É no leito dessa nova classe que surge a ideo-
logia liberal, consagrando a ascensão da burguesia ao poder 
com o verniz da teoria.
Pois é nessa época que aparece pela primeira vez na his-
tória a expressão luta de classes. Outra classe social, muito 
mais numerosa, estava enfrentando grandes transformações. 
O camponês agora passou a ser operário, não vive mais nos 
campos e sim nas cidades. Com o crescimento da população 
e a concentração industrial, logo surgiram os conflitos e o acir-
ramento das relações entre operários e patrões. A literatura re-
gistra a palavra acirramento porque essa luta segue uma cons-
tante evolução, conforme afirmou Karl Marx em seu Manifesto 
Comunista: “A história de toda sociedade até nossos dias é a 
história da luta de classes”. A Revolução Industrial aumentou o 
contraste entre ricos e pobres, dando curso ao surgimento do 
proletariado.
Uma última consideração sobre os efeitos mais duradou-
ros da Revolução Industrial foi a mudança na mentalidade. A 
crença no homem na eficácia da revolução da indústria le-
vou todos os Estados a se voltarem ao industrialismo, todos 
querendo emparelhar seu desenvolvimento com os líderes do 
movimento. O importante é perceber como a Revolução segue 
seu rumo, com inovações técnicas e a ideia de racionalizar os 
processos de trabalho.
Antecedentes da 
Revolução Científica
Victor Lourenço dos Santos Júnior
Capítulo 6
72 História Moderna Século XVII e XVIII
Como convém ao estudo da história, começamos contextu-
alizando o momento em que ocorrem os fatos e destacando 
as conexões entre eventos, alguns simultaneamente enquanto 
outros decorrem dos antecedentes. Nessa retomada dos ele-
mentos centrais que caracterizam o continente europeu, de-
pois da crise do século XIV, devemos lembrar em primeiro lugar 
da restruturação política ocorrida na formação dos estados 
nacionais - o Absolutismo. Na transição do feudalismo ao ca-
pitalismo, um fator decisivo foi o crescimento das cidades, do 
comércio, em dois grandes momentos da Idade Moderna: as 
grandes navegações e o Mercantilismo. Vimos ainda que o Re-
nascimento cultural foi concomitante a esses acontecimentos 
de ordem econômica, política e social. Para se compreender 
como se deu a Revolução Científica, precisamos lembrar os 
seus antecedentes medievais e do caráter da transição entre 
duas épocas distintas, marcadas por concepções de mundo 
totalmente antagônicas. Um dos aspectos determinantes des-
sa etapa foi a expansão das cidades, a revolução urbana. O 
incremento da demanda por bens e produtos está na origem 
de um conjunto de eventos que vão se conectar com as ideiasde progresso e racionalidade, vindo a substituir a mentalidade 
supersticiosa e crédula predominante na Idade Média. Antes 
de prosseguir, vale considerar que a revolução científica não 
foi uma obra isolada, surgida de repente na cabeça de algum 
cientista. Foi antes o resultado desse contexto desafiador na 
transição para um mundo moderno, criando as bases para o 
desenvolvimento do modo de produção capitalista. A revolu-
ção industrial, que acabamos de ver, se insere nessa sequên-
cia de acontecimentos e também dá seguimento ao proces-
so, com uma segunda fase da revolução científica, aí já em 
Capítulo 6 Antecedentes da Revolução Científica 73
novas e sólidas bases. A revolução industrial está situada em 
uma zona intermediária, entre os dois momentos da Revolu-
ção Científica. É antecedida por toda a tradição filosófica da 
Antiguidade clássica, pela teologia católica, pela escolástica 
e pelo nominalismo até que o Renascimento Cultural lança as 
bases para o Humanismo. Na transição para a Idade Moder-
na, houve uma mudança na própria concepção do Homem e 
de seu papel neste mundo. Como vimos, a revolução industrial 
foi consequência do aumento da demanda por bens e produ-
tos de consumo e isso, por sua vez, acabou gerando novas 
demandas, especialmente de tecnologias que aumentassem a 
produção das manufaturas.
Algumas considerações sobre as teorias da história. Se-
gundo o trabalho dos historiadores Arruda & Piletti (1997), a 
historiografia, isto é, a arte de escrever a história ou o estudo 
crítico da história, apresenta quatro momentos em sua evolu-
ção: a História crônica, da antiguidade aos cronistas medie-
vais. É a história heroica, das batalhas, dos reis e acabavam 
com uma lição de moral; a História Ciência do século XIX, 
ligada ao desenvolvimento das demais ciências sociais, como 
a sociologia e antropologia, formulando problemas e usado 
métodos próprios para obter as respostas; após, vem a His-
tória Total, fortemente ligada às ciências sociais, ao marxis-
mo, ao estruturalismo, e procurava ultrapassar a aparência 
imediata dos fatos e atingir explicações mais profundas, tenta 
captar o sentido das mudanças, daí privilegiar as rupturas em 
detrimento das continuidades; por fim, a Nova História Social, 
que é um movimento de oposição à história mais interpreta-
tiva, valoriza a história da cultura, das representações e dos 
mitos. De acordo com os autores, os historiadores procuram 
74 História Moderna Século XVII e XVIII
captar o processo histórico, que é manifestado em toda ação 
cultural, seja no relacionamento do homem com a natureza, 
ou dos indivíduos entre si. “Captar o processo histórico envol-
ve determinar as próprias leis de movimento da história, isto 
é, detectar o conjunto de transformações desde o início da 
existência humana” (idem, p. 7). Consideradas a essência do 
processo histórico, as transformações podem ser quantitativas, 
quando provocadas pelo aumento dos volumes e proporções 
da população, das cidades, e podem ser qualitativas, quando 
ocorrem devido ao surgimento de novas condições, as inova-
ções. Na revolução industrial na Inglaterra do século XVIII, por 
exemplo, ocorreram mudanças quantitativas, como o aumento 
da produção, da população e do comércio internacional; e 
houve mudança qualitativa na passagem da produção artesa-
nal e doméstica, com ferramentas movidas à força humana, 
para a produção pela máquina, com aumento de produtivi-
dade. Tais mudanças alteraram completamente a estrutura da 
sociedade, com o aparecimento de uma nova classe social - o 
proletariado.
Antecedentes
Conforme foi visto no capítulo sobre a Formação dos Estados 
Nacionais na disciplina de História Moderna do Século XV e 
XVI, na transição da Idade Média para a Moderna, uma nova 
concepção de homem e uma nova visão de mundo estavam 
se impondo. Conforme afirmam os historiadores Falcão e Ro-
drigues, a grande novidade do chamado reformismo ilustrado 
talvez tenha sido a luta empreendida pelos príncipes contra o 
poder e a influência ideológica da igreja, sobretudo nos países 
Capítulo 6 Antecedentes da Revolução Científica 75
católicos e, acima de tudo, o empenho em tornar o Estado 
em defensor do bem comum. Seguindo o espírito da época, 
para atingir tal objetivo, seria necessário fortalecer o aparelho 
burocrático, única maneira de ampliar e tornar mais eficiente 
o campo de ação governamental. Todos os obstáculos à ação 
do príncipe precisavam ser removidos em nome das Luzes. As-
sim, centralizar e racionalizar as diversas instâncias administra-
tivas, definir com precisão os poderes e atribuições dos órgãos 
entrais, escalonar a atuação dos diferentes órgãos de governo 
- tudo deveria garantir a presença e autoridade do governan-
te. Houve a necessidade de criar uma nova burocracia que 
deveria ser o instrumento eficaz nas mãos dos monarcas. Com 
a intenção de nortear as decisões e as ações dos funcioná-
rios, multiplicaram-se os regulamentos e as instruções, cada 
vez mais detalhadas, instruindo e cobrando a produção de 
informações, relatórios e formação de processos. A base ma-
terial da administração, conforme afirmam os autores, passa 
a ser constituída por documentos escritos, ofícios, requerimen-
tos, petições, que são as formas de que os burocratas usavam 
para se comunicar entrei si e com as instâncias superiores. As 
demandas se acumulavam em favor de novos ordenamentos 
jurídicos, mais modernos e racionais, para atender às exigên-
cias de uma administração que ainda enfrentavam a resistên-
cia de antigas tradições.
Seguindo esse movimento de modernização e racionaliza-
ção das atividades do Estado, sem perder de vista a influência 
que os centros urbanos exerciam na mente das pessoas, es-
pecialmente pelas novas formas de sociabilidade, entrou-se 
em uma fase importante nessa mudança de mentalidade. De 
acordo com o livro de Falcon e Rodrigues, a secularização 
76 História Moderna Século XVII e XVIII
dos costumes incluiu os esforços humanitários da razão e da 
sensibilidade no sentido de promover o bem estar do ser hu-
mano na vida presente. Não foram poucas as resistências aos 
novos valores transcendentes, da concepção terrena e laica 
da existência humana. Os autores entendem que a Idade Mo-
derna foi marcada por contradições importantes, que reme-
tem à presença de elementos da cultural medieval. As cida-
des medievais contribuíram muito para a formação do mundo 
moderno, não só por se oporem ao campo e à vida rural, 
mas por introduzirem novos valores, decorrentes de relações 
e experiências da vida universitária, dos movimentos religiosos 
e, especialmente, da dinâmica que o comércio impôs à vida.
O ambiente urbano exercia grande atração de riquezas e 
de pessoas de todas as partes. As cidades medievais, além de 
serem movimentadas, ofereciam em suas ruas e praças novas 
formas de sociabilidade. Foi nelas que os homens se deram 
conta de que tinham história, iniciando ali um processo de au-
toconhecimento que os levou à transformação da natureza e à 
reflexão sobre novas formas de religiosidade. Principalmente, 
começava na cidade medieval a atitude cosmopolita e tole-
rante que iriam marcar os novos tempos, originando um novo 
modo de viver urbano, revelando possibilidades e ampliando 
os horizontes para novas ideias e projetos. Aos poucos, as ci-
dades se tornaram os centros de referência e de informação, 
requerendo novas técnicas e novas tecnologias para a pro-
dução e de habitação. As cidades passaram a representar a 
riqueza e o luxo, permitindo a comparação direta, e a verifica-
ção das novas formas de apropriação do espaço era possível 
perceber também a diferença entre os homens e a valorizá-la. 
Capítulo 6 Antecedentes da Revolução Científica 77
Com a introdução dessas novas qualidades urbanas, a ordem 
feudal era lentamente superada.
Estepode ser considerado o momento propício para identi-
ficar o marco inicial da revolução cientifica. É a atmosfera ge-
rada pela cidade que anuncia o novo mundo moderno. É nes-
se período que se observa o início do movimento em direção 
à secularização do mundo, pois a cidade amplia o horizonte 
do pensamento e da vida do homem por meio de informações 
que fornecia a todo momento. A primeira consequência é a va-
lorização da vida ativa e a introdução de uma nova noção de 
trabalho. Com a redução das atividades bélicas no continente 
europeu, as cidades aceleraram o crescimento demográfico. 
E a renovação da população passa a exigir novas condições 
de produção, alterando os sistemas tradicionais de produção 
agrícola, tanto na forma de produzir como na organização, 
novas formas de tributação. Existe aqui uma conexão com o 
Renascimento Cultural e o crescimento das cidades. Entende-
-se que foi a tradição humanista gerada nas cidades um dos 
instrumentos para entender a Renascença na sua dimensão 
maior: a descoberta do homem e do mundo. A retirada do véu 
que envolvia a realidade e a natureza do mundo na Idade Mé-
dia é feita a partir desse movimento do pensamento e da ação, 
aproveitando-se de boa parte da tradição greco-romana e de 
seus avanços, de modo que o estudo da Antiguidade já era 
feito. Durante toda a Idade média, manteve-se a preocupa-
ção em estudar e copiar os textos identificados como clássicos. 
No Renascimento introduz-se uma leitura crítica desses textos 
e abre-se caminho para uma nova hermenêutica. Os mesmos 
textos antigos, conservados em grande parte pelos árabes, fo-
ram submetidos ao crivo de novos métodos de interpretação, 
78 História Moderna Século XVII e XVIII
capaz de fazê-los responder às ansiedades e inquietudes de 
seus estudos então.
Para completar a visão de conjunto do que seja o contexto 
da Revolução Científica, é preciso ter em conta ainda os con-
ceitos fundamentais do Humanismo e das formas de pensar 
típica da Idade Média. De acordo com E.M. Burns, a realiza-
ção filosófica mais notável da segunda fase da Idade Média foi 
o sistema chamado Escolástica. Define-se esse sistema como 
uma tentativa de harmonizar a razão com a fé, ou para fazer 
a filosofia servir aos interesses da teologia. Os grandes pensa-
dores da Idade Média não limitaram seus interesses aos pro-
blemas da religião. Como filósofos, sentiram a necessidade de 
responder às grandes questões da vida. Os escolásticos eram 
racionalistas e não empiristas, em termos atuais. Em outras 
palavras, baseavam-se no primado da lógica. Assim como os 
gregos da escola socrática, os escolásticos não acreditavam 
que a mais alta verdade pudesse advir da percepção sensorial. 
Admitiam que pelos sentidos os homens poderiam adquirir um 
conhecimento das aparências, mas a natureza essencial do 
universo só poderia ser descoberto pela razão. Além disso, 
esse era um sistema autoritário, nem mesmo a razão era sufi-
ciente para a aquisição de todo o conhecimento, pois as de-
duções da lógica ainda precisavam ser amparadas pela auto-
ridade das escrituras. O filósofo escolástico era um humanista 
no sentido de se interessar principalmente pelo homem, mas 
sua concepção de mundo supunha que o universo era estático 
e, portanto, bastava explicar o significado e a finalidade das 
coisas sem investigar a origem e a evolução.
Capítulo 6 Antecedentes da Revolução Científica 79
Em termos de valores que irão presidir o desenrolar da 
Idade Moderna, nas bases da revolução intelectual e científi-
ca, podemos afirmar que a Renascença foi muito mais que o 
simples reviver da cultura pagã. Entre as ideias e novas atitu-
des diante do mundo, a Renascença incorporou o otimismo, 
o interesse pelas coisas terrenas, o hedonismo, o naturalismo 
e o individualismo, mas o principal foi o Humanismo. Confor-
me Burns, no sentido amplo, o Humanismo pode ser definido 
como a glorificação do humano e do natural, em oposição ao 
divino e ao extramundano. Assim concebido, o Humanismo 
foi o coração e alma da Renascença. Em um sentido restrito, 
o novo sistema pode significar também o interesse por obras 
clássicas. O Renascimento, portanto, foi além do reviver do 
conhecimento pagão. O secularismo, a busca de conhecimen-
to e de compreensão dentro das universidades, tudo isso prefi-
gurava os ideias dominantes no século XV e seguintes. Muitas 
das novas atitudes e realizações do homem moderno contra-
riavam diretamente a antiga concepção medieval. Os homens 
não mais concebiam o universo como um sistema finito de es-
feras concêntricas a girar em torno da terra e existindo para a 
glória e salvação do homem. O reviver da teoria heliocêntrica 
sugeria um cosmos de extensão infinitamente maior, em que 
a terra não era senão um dos numerosos mundos. Ampliava-
-se assim para muito mais longe o objetivo do conhecimento 
humano, pois o universo, de acordo com a nova concepção, 
já não podia ser explicado tão fácil e simplesmente em termos 
da epopeia cristã.
80 História Moderna Século XVII e XVIII
A primeira fase da Revolução Científica
Ao ampliar o conhecimento das causas e do contexto da Re-
volução científica, uma ironia da história se apresenta: foi no 
período dos monarcas arrogantes, do absolutismo, quando os 
déspotas dominavam a Europa, que ocorreram as mais estu-
pendas realizações intelectuais. Segundo lemos no livro de E. 
M. Burns, ainda que alguns desses governantes houvessem tido 
contatos com a filosofia e a ciência, nenhum pode ser conside-
rado um protetor da cultura. O progresso intelectual deveu-se 
a fatores decorrentes dos principais movimentos econômicos 
e culturais da história europeia desde o final da Idade Média. 
São exemplos a influência da Renascença cultural, a prosperi-
dade crescente das classes médias e inferior e o dilatar-se dos 
horizontes intelectuais determinado pelo descobrimento de ter-
ras longínquas e de povos exóticos. As conquistas da filosofia e 
da ciência nos séculos XVII e XVIII, conforme Burns, juntamente 
com as novas atitudes que daí resultaram, constituem o que se 
chama de revolução intelectual. Tratar tal acontecimento como 
se não tivesse precedente levaria a um engano, a uma con-
cepção errônea da história. Em diversas ocasiões anteriores, 
foram verificados desenvolvimentos que chegaram a subverter 
antigos hábitos de pensamento.
Pode-se afirmar que os pais da revolução intelectual fo-
ram três grandes pensadores: René Descartes, Isaac Newton e 
John Locke, sobre os quais veremos um breve resumo. O fran-
cês Rene Descartes (1596 - 1650), matemático e físico, ficou 
conhecido por ser um ferrenho defensor do racionalismo na 
filosofia. Descartes não foi, por certo, o primeiro expoente da 
razão como caminho para o conhecimento, mas o racionalis-
Capítulo 6 Antecedentes da Revolução Científica 81
mo dele diferia da maioria dos pensadores que o precederam, 
sobretudo os escolásticos medievais, por sua recusa à toda 
autoridade. Desdenhava a consulta aos livros, por mais vene-
rável que fosse o autor, afirma Burns. Assim, convencido de 
que tanto as opiniões tradicionais como as impressões comuns 
da humanidade são guias pouco fidedignos, resolveu adotar 
um novo método inteiramente isento da influência de ambos. 
Esse método foi o instrumento matemático da dedução pura. 
Consistia em partir de verdades ou axiomas simples e eviden-
tes por si mesmo, como a geometria, e depois raciocinar com 
base neles para chegar às conclusões particulares. “Penso, 
logo existo”, é o axioma clássico de Descartes e, a partir daí, 
afirmava ser possível deduzir um conjunto perfeitamente ló-
gico de conhecimentos universais. Também é de Descartes a 
concepção do universo mecanicista. Ele ensinava que todo o 
mundo material, tanto orgânico como inorgânico, pode ser 
definido em função da extensão e do movimento. Apesar de 
afirmar queo mundo físico é um só, insistia em que o homem 
se distingue de todas as demais criaturas por possuir a facul-
dade de raciocinar. O mais importante é que, a partir de en-
tão, o filósofo já não precisava acatar a revelação divina como 
fonte da verdade. A razão passou a ser considerada como o 
único manancial de conhecimento, ao mesmo tempo em que 
a ideia de um significado espiritual do universo era posta de 
lado. Seus mais notáveis sucessores foram Espinosa e Thomas 
Hobbes. Veremos o quanto o Iluminismo deve a Descartes.
O ponto culminante da revolução intelectual foi o movi-
mento conhecido como Iluminismo. Como será visto adiante, 
por ora basta indicar que poucos movimentos históricos tive-
ram efeitos tão profundos e duradouros sobre o pensamento 
82 História Moderna Século XVII e XVIII
dos homens e curso de suas ações como foi o Iluminismo. Essa 
concepção filosófica foi erguida sobre algumas concepções 
fundamentais, entre as quais se destacam as seguintes. A ra-
zão é o único guia infalível da sabedoria. Todo conhecimento 
tem suas raízes na percepção sensorial, mas as impressões 
dos nossos sentidos não são mais do que o material bruto da 
verdade, o qual precisa ser purificado pela razão antes que 
possa ser utilizado para explicar o mundo. A segunda concep-
ção fundamental é que o universo é uma máquina governada 
por leis inflexíveis que o homem não pode desprezar e que a 
ordem da natureza é uniforme e de nenhum modo comporta 
milagres. Terceira concepção, a melhor estrutura para a socie-
dade é a mais simples e a mais natural. A religião, o governo 
e as instituições econômicas deveriam ser expurgados de todo 
artificialismo e reduzidos a uma forma coerente com a razão 
e a liberdade natural. Quarta concepção, não existe pecado 
original. O homem não é mais um ser nascido para pecar, 
mas levado a cometer atos de crueldade por força de circuns-
tâncias alheias à sua vontade. Importante, é que se introduz a 
noção de que a perfeição da natureza humana e da própria 
sociedade seria exequível se os homens tivessem a liberdade 
de seguir as diretrizes da razão e dos seus instintos inatos.
A inspiração do Iluminismo proveio, em parte, do raciona-
lismo de Descartes e seus sucessores, mas os verdadeiros fun-
dadores do movimento foram Sir Isaac Newton (1642- 1727) 
e John Locke (1632-1704). Segundo explica Burns, mesmo 
que Newton não tenha sido um filósofo no sentido comum 
da palavra, sua obra teve a mais profunda significação para 
a história do pensamento. Seu grande feito foi submeter toda 
a natureza a uma interpretação mecânica precisa. Durante 
Capítulo 6 Antecedentes da Revolução Científica 83
a última fase da Renascença, Galileu havia descoberto a lei 
da queda dos corpos na superfície da terra, enquanto Johann 
Kepler deduzia os princípios do movimento planetário. Estava 
reservado a Newton estender a ideia das leis físicas invariáveis 
a todo o universo. A lei da gravidade foi considerada válida 
não somente na Terra, mas para todos os sistemas solares. Par-
tindo desse princípio, era possível chegar à conclusão de que 
todos os acontecimentos da natureza são governados por leis 
universais, capazes de serem formuladas com a precisão dos 
matemáticos. Além disso, descobrir tais leis é então a principal 
ocupação da ciência. Segundo afirma Burns, estava dado o 
golpe de morte na concepção medieval de um universo re-
gido por uma entidade benévola. A filosofia newtoniana não 
excluía a ideia de Deus, mas despoja-o de seu poder de guiar 
as estrelas nas suas órbitas ou de fazer parar o sol. Estavam 
dadas as bases da ciência moderna.
A influência de Locke, por outro lado, foi muito diferente 
da de Newton, mas não menos importante. Ele foi o criador 
de uma nova teoria do conhecimento, a qual forneceu a nota 
fundamental para o Iluminismo. Locke rejeitou a doutrina car-
tesiana das ideias inatas e afirmou que todo conhecimento 
humano deriva da percepção sensorial. Essa teoria já havia 
sido anunciada por Hobbes, mas foi Locke o primeiro dos fi-
lósofos modernos a desenvolvê-la de forma sistemática. Sus-
tentava que a mente humana, ao nascer, é feito uma ‘tabula 
rasa’, um papel em branco. Somente quando o ser humano 
começa a ter sensações, a perceber por intermédio dos seus 
sentidos o mundo exterior é que alguma coisa se registra em 
sua mente. Essas ideias simples que resultam diretamente da 
percepção sensorial são, porém, apenas as bases do conheci-
84 História Moderna Século XVII e XVIII
mento. Nenhum ser humano poderia viver apenas com essas 
ideias. Essas ideias simples precisam ser integradas e fundidas 
em ideias complexas, tal é o papel da razão ou entendimento, 
que tem o poder de combinar, coordenar e organizar as im-
pressões recebidas dos sentidos, construindo assim um sistema 
utilizável de verdades gerais. Tanto a sensação com a razão 
são indispensáveis, uma para fornecer ao espírito a matéria-
-prima do conhecimento e a outra para trabalhá-la, dando-
-lhe uma forma significativa. Locke teve outras contribuições 
importantes em defesa da tolerância religiosa e por sua teoria 
política liberal.
Descobertas científicas revolucionárias
Os principais objetivos científicos da revolução intelectual es-
tavam alinhados, em geral, com as diretrizes traçadas na últi-
ma fase da Renascença, isto é, com as ciências físicas. Os pri-
meiros descobrimentos importantes ocorreram no campo da 
matemática e da física. No começo do século XVII, Descartes 
havia inventado a geometria analítica, que vem a ser a fusão 
da geometria com a álgebra. Após, surgiu o cálculo infinitesi-
mal, proposto por Newton e Leibniz. Compreendendo a aná-
lise contínua, o cálculo se mostrou um instrumento essencial 
para as engenharias e artes mecânicas. Newton foi, sem dúvi-
da, o mais influente de todos. As suas conclusões orientaram 
o pensamento filosófico durante uma centena de anos e sua 
influência no campo científico foi ainda mais duradoura, tanto 
que seus princípios ficaram virtualmente incontestados até o 
século XX. Em 1687, Newton publicou a sua famosa descober-
ta: a Lei da gravitação universal. Baseada em parte nos traba-
Capítulo 6 Antecedentes da Revolução Científica 85
lhos de Galileu, a lei da gravidade estabelecia um só princípio 
unificador para todo o mundo material. Afastava todas as dú-
vidas quanto à validade da hipótese de Copérnico e colocava 
o estudo da mecânica celeste sobre sólidas bases científicas. 
Durante essa fase, foram feitos progressos na compreensão 
dos fenômenos elétricos e magnéticos, mas foi somente no fim 
do século XVIII que Alexandre Volta (1745-1827) construiu a 
primeira pilha para armazenar eletricidade. Tão espetacular 
quanto o progresso da física foi o desenvolvimento da quí-
mica, que teve em Robert Boyle (1627-91) o seu fundador e 
em Antoine Lavosier (1743-94) um dos maiores cientistas de 
todos os tempos. Chamado o ‘Newton da química’, Lavosier 
demonstrou que a combustão e a respiração dos seres vivos 
são duas formas de oxidação, a primeira rápida e a segunda, 
lenta. Foi ele quem nomeou o oxigênio e o hidrogênio, de-
monstrou que o diamante é uma forma de carbono e afirmou 
ser a vida, em essência, um processo químico. O seu maior 
feito foi, no entanto, ter criado a química quantitativa, graças à 
descoberta da lei de conservação da matéria. Lavosier encon-
trou a prova de que, embora a matéria possa mudar de esta-
do, em uma série de reações químicas, a sua quantidade não 
se altera, conservando-se a mesma no fim como no começo.
Aspectos Principais da 
Revolução Científica
Victor Lourenço dos Santos Júnior
Capítulo 7
Capítulo 7 Aspectos Principais da Revolução Científica 87
Os progressos da tecnologia estão associados diretamente ao 
aumento da demanda. Como veremos a seguir, muitos avan-
ços técnicos para a produção de tecidosdesencadearam o 
crescimento da pesquisa científica em mecânica, metalurgia 
e química. O progresso técnico que precedeu e depois fa-
voreceu a expansão do capitalismo esteve ligado ao desen-
volvimento da pesquisa aplicada, e nesse campo apresentou 
grandes realizações. Considerando que os grandes desenvol-
vimentos técnicos já foram tratados no capítulo da Revolução 
Industrial apresentaremos aqui o seguimento da Revolução 
intelectual e científica verificado na Europa nos séculos XVII e 
XVIII, com especial interesse no desenvolvimento da filosofia. 
Sendo que, na primeira etapa, ficaram estabelecidas as bases 
da nova concepção de mundo e aberto o caminho para o 
método científico, devemos ter em mente, de modo esquemáti-
co, que o Humanismo levou ao Renascimento Cultural e esses 
dois fatores impulsionaram o Iluminismo, o qual, por sua vez, 
teve como ponto culminante a Revolução Francesa. A história 
desse evento político mostrou que as repercussões daqueles 
fatos foram muito além das fronteiras nacionais.
De acordo com Burns, um movimento tão profundamente 
perturbador para a sociedade na Europa ocidental, como foi 
a revolução intelectual, não podia deixar de influenciar os cos-
tumes sociais e os hábitos individuais. No século que seguiu à 
Revolução Francesa, houve um grande recuo das ideias pro-
gressistas e uma retomada do conservadorismo, como vere-
mos adiante. Mas durante o apogeu do Iluminismo, no século 
XVIII, a força das novas ideias se fez sentir. Segundo Burns, 
nem todo o progresso social dessa época pode ser atribuído 
às influências intelectuais. Como vimos no capítulo sobre a Ex-
88 História Moderna Século XVII e XVIII
pansão Marítima na disciplina de História Moderna do Século 
XV e XVI, boa parte dessa prosperidade foi determinada pela 
expansão dos negócios durante a Revolução Comercial. O 
progresso da filosofia e da ciência contribuiu muito para varrer 
antigos preconceitos e construir uma sociedade mais liberal e 
humana. Um bom exemplo da reforma social promovida du-
rante o Iluminismo foi a agitação em prol de uma reforma dos 
códigos penais injustos e pelo tratamento mais brando dos pri-
sioneiros. Em ambos os casos, a reforma era urgente porque, 
em quase todos os países europeus as penas impostas mesmo 
a pequenos delitos eram excessivamente severas, como a pena 
de morte para quem roubasse um cavalo ou ovelha. O trata-
mento dispensado aos falidos e presos por dívidas era também 
vergonhoso. Tais condições cruéis provocaram a simpatia de 
vários reformadores, entre os quais se salientou Cesare Bec-
caria, um jurista de Milão profundamente influenciado pelas 
obras dos filósofos racionalistas franceses. Em 1764, Beccaria 
publicou seu famoso tratado Dos delitos e das penas, no qual 
condenava a teoria que então predominava, de que as penali-
dades deviam ser tão duras quanto possível, a fim de refrear os 
criminosos. Insistindo em que o objetivo dos códigos criminais 
deveria ser não a vingança, mas a prevenção do crime e a 
reforma dos reincidentes, Beccaria argumentava pela abolição 
da tortura e se opunha mesmo à pena capital, uma vez que 
não poderia ser revogada em caso de erro judiciário. Esse livro 
causou grande impacto em sua época, tendo sido traduzido 
em 12 idiomas e influenciado reformas em outros países.
O espírito humanístico do Iluminismo expandiu-se em di-
ferentes direções. Cientistas e filósofos em países distintos co-
meçaram a denunciar os males da escravidão e da guerra. 
Capítulo 7 Aspectos Principais da Revolução Científica 89
O pacifismo foi outro ideal que animou os novos pensadores 
liberais e as reflexões de Voltaire sobre a guerra são outro 
grande exemplo desses esforços. Segundo Burns, Rousseau 
era considerado sentimental, mas já percebia em seu tempo 
que havia algo de ilógico na tentativa de estabelecer uma dis-
tinção entre guerras justas e injustas. Da mente de outros fi-
lósofos Iluministas, brotaram vários planos engenhosos para 
assegurar a paz perpétua, inclusive um projeto de uma liga 
das nações com poderes para empreender uma ação conjunta 
contra os agressores. Toda a agitação humanista por reformas 
sociais foi acompanhada de uma expansão da simpatia pelas 
classes inferiores, o que foi visível na fase final do Iluminismo.
Com o progresso da razão e a exaltação crescente dos di-
reitos naturais do homem, a forte reação contra a escravidão 
e contra a guerra traduziu-se em um protesto generalizado 
contra todas as formas de sofrimento e opressão. Começou-se 
a dar mais atenção aos problemas dos pobres e da nova clas-
se média, movida pela ambição de destronar a aristocracia, 
a burguesia necessitava do apoio dos humildes camponeses 
e trabalhadores urbanos. Um grande pensador dessa fase, 
que defendeu a causa do homem comum, foi o inglês Tho-
mas Paine. Disseminando um desprezo pela aristocracia, Paine 
afirmou que um só lavrador honesto valia muito mais do que 
todos os bandidos coroados que já haviam existido. O gran-
de economista Adam Smith também deplorava o hábito de 
sentir maior piedade por um patife entronizado do que pelos 
milhares de cidadãos comuns mortos nas guerras civis. Vários 
filósofos franceses do Iluminismo foram muito mais longe em 
suas defesas das massas. Rousseau e Condorcet defendiam a 
igualdade absoluta de privilégios e liberdades para todos os 
90 História Moderna Século XVII e XVIII
homens, enquanto outros já percebiam que isso só poderia ser 
obtido por meio de uma distribuição da riqueza. Embora não 
estivessem propondo o socialismo, já afirmavam que a pro-
priedade da terra deveria ser dividida em partes iguais, para 
tornar impossível a exploração do pobre pelo rico.
Um dos avanços sociais mais importantes desse período 
foi a revolta contra a moral cristã, em especial contra as suas 
bases sobrenaturais. Um revolta semelhante já havia sido ve-
rificada durante a Renascença e ficou conhecida sobretudo 
pelo trabalho de Maquiavel e Rabelais. É dessa fase a Reforma 
Religiosa, que operou uma inversão nessa tendência ao esta-
belecer um sistema ético mais rigoroso em certos pontos que 
na Idade Média. Conforme Burns, ao final do século XVII, o 
pêndulo voltou atrás. Os filósofos Iluministas tentaram separar 
por completo a ética da religião e encontrar uma base, quer 
racionalista, quer psicológica, para a conduta humana.
Como foi mencionado, seguiu-se um intenso desenvolvi-
mento material e técnico por força da pesquisa de novas so-
luções para os problemas da produção e a eclosão de novos 
problemas que envolviam interesses sociais e políticos. Depois 
que o Iluminismo já havia apresentado todas as suas princi-
pais propostas, houve uma retomada do conservadorismo no 
século XVIII, sobretudo no terreno da filosofia e da ética. Burns 
enfatiza a ascendência da atitude conservadora na qual a or-
dem foi colocada acima da liberdade e deu-se prioridade aos 
interesses dos grupos, da sociedade e especialmente do Es-
tado diante os do indivíduo. Ocorreu uma revalorização da 
fé, da autoridade e da tradição, sobrepujando a crença que 
havia se firmado no século XVIII quanto à primazia da razão 
Capítulo 7 Aspectos Principais da Revolução Científica 91
e da ciência. Um grupo de filósofos francês, sob a inspiração 
de Jospeh de Maistre (1754-1821), procurava criar um renas-
cimento católico, no qual a piedade mística, o supernatura-
lismo e a crença na infalibilidade da igreja seriam as luzes a 
guiar os homens, preservando-os das armadilhas do ceticismo 
e da anarquia. Entre os fatores que contribuíram para promo-
ver essa retomada conservadora, no entender de Burns, foi a 
influência do romantismo fundado por Rousseau, que negava 
a eficácia da razão e a predominância dada à emoção e ao 
sentimento. O fator mais importante, no entanto, que explica-
va essa reação sentimental, foram os horrores causados pelaRevolução Francesa, na fase conhecida como O Terror. Todos 
os que haviam sido aterrorizados pela violência do movimento 
revolucionário inclinavam-se agora a lançar a culpa no racio-
nalismo, no materialismo e no individualismo que caracteriza-
ram o período iluminista. Por essas razões, os pensadores des-
se período estavam dispostos a saltar para o extremo oposto 
da glorificação da fé, da autoridade e da tradição.
A corrente de ideias que constitui a perfeita expressão da 
época reacionária é a filosofia alemã do idealismo romântico. 
Essa corrente tem esse nome porque é uma combinação da 
teoria romântica da verdade com a concepção idealista do 
universo. Em outras palavras, não eram nem racionalistas nem 
materialistas no sentido estrito do termo. Os adeptos do ide-
alismo romântico reconheciam a validade do conhecimento 
intuitivo ou instintivo e procuravam explicar o universo em um 
sentido pelo menos em parte espiritual. Esses idealistas român-
ticos alemães divergiam muito do individualismo e do huma-
nismo da filosofia no século XVIII. O filósofo que forneceu o 
impulso inicial dessa corrente foi Emanuel Kant (1724-1804). 
92 História Moderna Século XVII e XVIII
Como filósofo, Kant deve muito aos grandes pensadores do 
Iluminismo, nos direitos naturais do homem e defendia a sepa-
ração dos poderes com uma proteção necessária à liberdade 
do cidadão. A sua filosofia, no entanto, se distancia em muito 
do racionalismo, dividindo o universo em dois grupos: o reino 
da natureza física, ou mundo dos fenômenos, e o reino da 
realidade última ou mundo dos ‘noúmenos’. Os métodos de 
conhecimento aplicáveis a esses dois reinos são inteiramente 
diversos. A percepção sensorial e a razão só nos podem dar 
o conhecimento do reino dos fenômenos, o mundo das coisas 
físicas. Para Kant, no reino mais alto, o reino espiritual que é 
a realidade última, tais métodos não têm utilidade. Segundo 
essa doutrina, como todo conhecimento ordinário se baseia na 
percepção dos sentidos, não podemos provar pela razão ou 
pela ciência que Deus existe, que a vontade do homem é livre 
ou que a alma é imortal. Em Kant temos a convicção de que a 
virtude e a felicidade estão inseparavelmente ligadas, de que o 
universo é governado por uma lei moral e, por conclusão, um 
ser divino deve presidir aos destinos do homem. Tal conclusão, 
no entanto, está fora do alcance da ciência, mas é ditada por 
sentimentos fortes para serem ignorados. Nessa concepção, a 
intuição e a convicção profunda são instrumentos tão válidos 
para o conhecimento como são a lógica e a ciência no reino 
dos fenômenos.
O filósofo mais influente do idealismo romântico foi Georg 
Wilhelm Hegel (1770-1831). Durante muitos anos, Hegel foi 
professor de filosofia na Universidade de Berlim, tendo con-
quistado numerosos adeptos e, por meio deles, exerceu for-
te influência na formação das correntes de ensinamento que 
se seguiram. Segundo Burns, a influência de Hegel em certos 
Capítulo 7 Aspectos Principais da Revolução Científica 93
meios parece ter sido ainda maior na posteridade do que em 
seu tempo. A doutrina central de Hegel se funda na ideia de 
evolução finalística. Ele considerava o universo como estando 
em um estado de fluxo, no qual tudo tende a passar ao seu 
oposto. Em particular, cada instituição ou organismo social 
ou político desenvolve-se até a maturidade, desempenha sua 
missão, após o que cede lugar a algo diferente. Mas o antigo 
nunca é completamente destruído e o conflito entre opostos 
resulta, por fim, em uma fusão, na criação de um novo orga-
nismo formado de elementos tirados dos dois extremos. Para 
Hegel, esse processo se repete inúmeras vezes e, a cada nova 
fase, representa um melhoramento do que existia antes. A 
concepção hegeliana, no entanto, não era mecanicista, pois 
acreditava que todo o processo era guiado pela razão univer-
sal ou Deus. A evolução, segundo Hegel, é o desdobramento 
de Deus na história. Liberdade para ele consistia na sujeição à 
sociedade política e o indivíduo não tinha direitos que o Esta-
do devesse respeitar.
O idealismo romântico projetou sua influência em várias 
direções. Conforme se viu, sob uma ou outra de suas formas, 
a doutrina hegeliana foi adotada como um evangelho pelos 
conservadores. Homens de igreja, que haviam sido atacados 
antes, acolheram a filosofia que reconhecia os méritos da fé 
e exaltava o mundo do espírito. Já aqueles que tinham in-
teresse na manutenção da ordem alegraram-se com o novo 
culto da tradição e da autoridade e com a condenação im-
plícita da revolução, dos ideais iluministas. Os governantes 
eram particularmente gratos a Hegel, sobretudo aos seus en-
sinamentos políticos, tanto que foi aclamado como ‘o filósofo 
oficial’ na corte prussiana. Tanto a doutrina de Hegel como 
94 História Moderna Século XVII e XVIII
a de Fichte (1762-1814), que também foi discípulo de Kant, 
ambas fortaleceram a onda crescente de nacionalismo e, por 
fim, contribuíram para a formação do fascismo na Europa. Por 
outro lado, o idealismo romântico alemão gerou frutos que 
não eram exatamente do gosto dos poderosos. Arthur Scho-
penhauer (1788-1860) se destacou ao conceber uma força 
universal a dirigir todo o crescimento e todo movimento, uma 
filosofia de completo pessimismo. Ensinava que essa força é a 
Vontade, um desejo cego, inconsciente, de sobreviver que está 
presente nos indivíduos e nas espécies. Como a vontade de 
viver está presente em todas as formas de vida e como leva o 
forte a devorar o fraco, este mundo, para Schopenhauer, é o 
pior dos mundos possíveis. Menos negativo que esse, o outro 
rebento do idealismo romântico foi a filosofia da história de 
Karl Marx. A célebre doutrina do materialismo histórico, for-
mulada por Marx, deve muito à influência de Hegel. Ambas 
partilhavam da crença em uma evolução progressiva da hu-
manidade, por força do choque entre sistemas opostos, o que 
resultaria em uma sociedade perfeita. Enquanto Hegel pensa-
va que a meta final seria um estado perfeito, Marx afirmava 
que o resultado final seria o comunismo, após a extinção do 
Estado. Eles também diferiam em muito quanto à concepção 
do processo dialético, da luta entre os opostos. Hegel interpre-
tava a evolução histórica como um desdobramento do espí-
rito do mundo ou razão universal. Já Marx sustentava que as 
mudanças históricas eram o resultado de fatores econômicos, 
especialmente a luta de classes.
Assim, foi na Alemanha que o idealismo romântico teve 
maior popularidade. Nos demais países, especialmente na In-
glaterra e na França, onde o Iluminismo havia lançado raízes 
Capítulo 7 Aspectos Principais da Revolução Científica 95
mais fortes, o tom geral do movimento reacionário tendia mais 
ao liberalismo. É de fins do século XVIII o surgimento da teoria 
chamada Utilitarismo, formulada por Jeremy Bentham (1748-
1832). Sua principal obra, intitulada ‘Princípios de Moral e 
de Legislação’, foi publicada em 1789. Esse nome deriva-se 
do ensinamento básico de Betham, segundo o qual o critério 
supremo a que se deve conformar toda crença ou instituição é 
o critério da utilidade. Para ele, a utilidade consistia em con-
tribuir para a maior felicidade do maior número de pessoas. 
De acordo com o utilitarismo, qualquer doutrina ou prática 
que não correspondesse a esse requisito deveria ser rejeitada. 
Burns afirma que, a despeito de seu significado social, o ideal 
de Benthan foi o ápice do individualismo. Não só afirmava ser 
o interesse da comunidade a soma dos interesses dos indiví-
duos que a compõem, com admitia que os motivos dos indiví-
duos são puramente egoístas, que o grande impulsionador da 
ação humana é o desejo de experimentar o prazer e de evitar 
a dor. Por consequência, a sociedade deve dar a cada um dos 
seus membros completa liberdade de seguir os seus legítimos 
interesses.Mas o maior de todos os filósofos utilitaristas foi John Stuart 
Mill (1806-73), que sobrepujou Benthan. Como filósofo, Mill 
assimilou todas as tendências de pensamento inglês, incluindo 
Locke, Hume e Benthan, mas foi como pensador original que 
ele apresentou contribuições próprias. Mill fundou um sistema 
de lógica baseado na experiência como origem de todo co-
nhecimento, afirmando que as chamadas verdades evidentes 
por si mesmas, inclusive os próprios axiomas da matemática, 
são simples inferências derivadas de fatos observados, por ser 
a natureza uniforme e de todo efeito ter uma causa. Para Mill, 
96 História Moderna Século XVII e XVIII
o conhecimento não provém de ideias inatas nem de uma in-
tuição mística, e também rejeitava a afirmação de que os úni-
cos motivos da conduta humana seriam a busca do prazer e a 
fuga da dor. Ao contrário, ele afirmava que a conduta do indi-
víduo é, muitas vezes, influenciada pelo simples hábito e pelo 
desejo de harmonizar-se com seus semelhantes. Mill repudia-
va o socialismo porque implicaria na destruição da liberdade 
individual, mas defendia a intervenção do estado no interesse 
dos cidadãos menos afortunados.
Para concluir essa seção sobre a segunda fase da revolu-
ção intelectual e científica, enfocaremos a trajetória do mo-
vimento filosófico conservador que se seguiu ao Iluminismo. 
Esse conjunto não ficaria completo sem que se estudasse o 
pensador do continente europeu que mais se aproximou das 
filosofias liberais: o positivista Auguste Comte (1798-1857), 
conhecido como um dos fundadores da sociologia. O positi-
vismo de Comte, que teve grande influência na formação das 
ciências sociais, recebe esse nome porque sua doutrina coloca 
que o único conhecimento válido é o conhecimento positivo, 
ou seja, o conhecimento originado das ciências. O positivismo 
pode ser classificado, juntamente com o utilitarismo, entre as 
filosofias empíricas, que compreendem aquelas que derivam 
toda a verdade da experiência ou da observação do mundo 
físico. Comte rejeitava toda a metafísica, entendendo que o 
homem não poderia descobrir a essência oculta das coisas. 
Para ele, tudo o que sabemos é como as coisas acontecem, 
as leis que regem sua ocorrência e as relações existentes entre 
elas. Defendia também que um conhecimento útil e prático 
pode ser utilizado para melhorar a humanidade, tanto que, 
no fim de sua vida, fundou uma Igreja da Humanidade, para 
Capítulo 7 Aspectos Principais da Revolução Científica 97
ajudar a reformar a sociedade. No Brasil, a filosofia política 
do positivismo se fez sentir especialmente no Rio Grande do 
Sul, onde influenciou líderes políticos como Júlio de Castilhos.
Neste capítulo, no qual apresentamos um panorama da 
história da ciência no ocidente, enfatizamos a passagem de 
uma etapa inicial, marcada pela emergência da racionalidade 
científica e suas aplicações técnicas, que animaram o desen-
volvimento das ciências físicas, das engenharias, da química, 
entre outros ramos. Na segunda etapa, agora concomitante-
mente à implantação do modo de produção capitalista, e já 
plenamente consorciada, surgem as concepções conservado-
ras, em reação aos ideais do Iluminismo, sinalizando uma rup-
tura no plano ideológico. A partir daí, a revolução intelectual 
se refletiu em todas as áreas do conhecimento, especialmente 
nas artes, o que prenunciava a emergência de uma outra figu-
ra importante.
Para concluir esta apresentação, vamos recorrer ao traba-
lho de Falcon e Rodrigues no que tange à interpretação do 
contexto geral em que ocorrem esses movimentos filosóficos, 
éticos e religiosos. De acordo com esses autores, a época das 
luzes foi a criação mais poderosa da modernidade desde o 
Renascimento. O uso da noção de esclarecimento, como pre-
ferem os alemães, indica bem o que ocorreu no século XVIII. 
“Longe de ser um movimento homogêneo, o Iluminismo foi 
plural, dando origem à consciência que os territórios europeus 
tinham de si mesmo, introduzindo uma noção de história como 
volta às origens, demarcando diferenças e indicando possibili-
dade de progresso.” (p. 200)
O Iluminismo: a 
Filosofia Militante
Victor Lourenço dos Santos Júnior
Capítulo 8
Capítulo 8 O Iluminismo: a Filosofia Militante 99
Para dar início ao estudo dessa etapa importante da história da 
humanidade, vamos recorrer a uma definição do Iluminismo, 
segundo as palavras de Norberto Bobbio. Iluminismo é uma 
mentalidade difundida no século XVIII, mas o termo indica um 
movimento de ideias que tem suas origens no século anterior, 
ou mesmo no século XV, e que se desenvolve especialmente 
no século XVIII, o chamado Século das Luzes. Esse movimento 
visava estimular a luta da razão contra a autoridade ou, na 
expressão literária, a luta da luz contra as trevas. Daí o nome 
de Iluminismo, tradução da palavra alemã aufklarung, que sig-
nifica esclarecimento, iluminação. Como título deste capítulo, 
e também como interpretação da história, o Iluminismo pode 
ser considerado, na sua primeira etapa, como uma filosofia 
militante e crítica da tradição cultural e institucional da sua 
época; seu programa de ação“é a difusão do uso da razão 
para dirigir o progresso da vida em todos os seus aspectos.” 
(Dicionário, p. 605).
De acordo com o livro de Luiz Roberto Fortes (1982, p. 8), 
a Revolução Francesa de 1789 mudou radicalmente a face do 
mundo. Pôs fim ao Antigo Regime e inaugurou a nossa histó-
ria – a modernidade. Mas ele não surgiu do nada. Segundo o 
autor, os revolucionários que partiram ao assalto do poder po-
lítico foram buscar em um rico arsenal de ideias as justificativas 
para sua ousadia. Esse arsenal de ideais foi sendo construído 
ao longo do século graças a um intenso fervilhar de ideais. É a 
esse movimento cultural prodigioso que domina a Europa Oci-
dental – especialmente França, Inglaterra e Alemanha – que se 
costuma chamar de Iluminismo ou Filosofia das Luzes ou ainda 
Filosofia da ilustração.
100 História Moderna Século XVII e XVIII
É oportuno repetir a advertência do autor sobre a com-
plexidade desse movimento: “Quem quiser compreender mes-
mo os filósofos do Iluminismo terá que ler as suas obras”, 
restando-nos, portanto, indicar alguns percursos de leitura 
e interpretação para o fenômeno da Iluminação. A primeira 
grande característica do Iluminismo é a profunda crença na 
razão humana e nos seus poderes. “Revalorizar o homem sig-
nifica antes de tudo encará-lo como devendo tornar-se sujeito 
e dono do seu próprio destino, é esperar que cada homem, 
em princípio, pense por conta própria” (idem, p. 9). Não por 
acaso, a Filosofia das Luzes está relacionada com a revolução 
científica, assim como aos demais fatores de ordem política e 
econômica.
Antecedentes
Em termos de seus antecedentes mais remotos, as raízes do 
Iluminismo se estendem desde a filosofia de Platão, mais exa-
tamente em A República, onde é apresentada a célebre tese 
dos reis filósofos. Para uma iniciação ao tema complexo da 
história da ciência, a leitura do livro Breve história da Ciência 
Moderna, de Braga, Guerra e Reis (2005), é uma opção mais 
acessível. Conforme se lê na introdução, em resumo, o século 
XVIII é considerado o século da razão. O advento da ciência 
moderna tornou necessário banir todos os resquícios do que 
era expressão do pensamento herdado do período medieval, 
sobretudo pelo que tinha de misticismo e dogmatismo. O mo-
vimento do Iluminismo ergueu a bandeira da razão, questio-
nando a tradição da igreja, mais exatamente o monopólio da 
interpretação. Nessa passagem, quando se consolidava a vi-
Capítulo 8 O Iluminismo: a Filosofia Militante 101
são de que o universo funcionava tal qual a máquina, uma 
figura assume a dianteira em importância: Isaac Newton. As 
descobertas científicas de Newton, apesar de dialogar com 
outros sistemasfilosóficos da sua época, especialmente Des-
cartes e Leibniz, pavimentaram o caminho e a sustentação de 
uma visão de mundo chamada então de mecanicismo. Lem-
brar sempre que os acontecimentos se interconectam, e que os 
avanços econômicos, políticos e científicos formam o mesmo 
contexto europeu.
As luzes da razão não ficaram limitadas aos círculos filo-
sóficos. “Os engenheiros e a burguesia criaram as condições 
socioeconômicas propícias para o surgimento de outra revo-
lução, a industrial. O desenvolvimento técnico fez com que 
os sonhos dos precursores da nova ciência do século XVIII se 
confirmassem, com a junção dos saberes teórico e prático” 
(2005, p. 14). As bases do Iluminismo estavam formadas des-
de o século anterior, quando começou a transformação da 
maneira como o homem via o mundo. De acordo com Braga 
et al, o movimento Iluminista não tinha uma doutrina fechada, 
mas defendia alguns princípios fundamentais que norteavam 
o pensamento, sendo que alguns deles se mostravam anta-
gônicos. O principal, no entanto, era a supremacia da razão 
diante do dogmatismo das antigas estruturas. Os Iluministas 
pretendiam romper com o poder e o primado das ideias re-
ligiosas baseadas na revelação bíblica, rejeitando a filosofia 
cristã medieval e toda explicação com base mística. “A tarefa 
dos filósofos passou a utilizar o método da análise na sepa-
ração das diversas engrenagens para tentar encontrar as leis 
de funcionamento do universo-máquina”, (idem, p. 17) e isso 
102 História Moderna Século XVII e XVIII
deveria ser feito em todos os campos do saber, desde a física 
e a história natural até a química e a economia.
A Enciclopédia
Antes de falar mais sobre a importância da física de Newton, 
é preciso conhecer o outro ponto fundamental do Iluminismo: 
o objetivo de popularizar a nova razão. Para tanto, era preciso 
realizar uma nova leitura dos saberes herdados do passado e 
promover a sua divulgação para o restante da sociedade. Para 
alcançar tal objetivo, foi criado o projeto da Enciclopédia, que 
iria resumir e disseminar a totalidade dos saberes existentes na 
época. Mas o projeto dos franceses não foi o primeiro. Uma 
das mais importantes enciclopédias editadas foi a Cyclopae-
dia ou Dicionário universal de artes e ciências, publicada na 
Inglaterra em 1728, por Ephraim Chambers. A publicação se 
apresentava em dois volumes e era estruturada de acordo com 
os dicionários de arte e ciências britânicos existentes desde o 
final do século XVII. A coletânea de termos técnicos e científi-
cos, acompanhada de uma explicação sobre o seu significa-
do, tornou-se um sucesso editorial não somente na Inglaterra 
como em outros países. Tanto foi assim que, em 1745, dois 
editores franceses resolveram traduzir o livro britânico para o 
público francês, além de incluir uma revisão dos verbetes.
Reforçando essa tese, de acordo com Attico Chassot 
(2004), quando se deseja mostrar a preocupação do Século 
das Luzes em resgatar o conhecimento até então acumulado, é 
preciso conhecer mais sobre a Enciclopédia, que foi chamada 
‘máquina de guerra posta a serviço das doutrinas filosóficas’ 
(2004, p. 167). A enciclopédia traz em seu discurso preliminar 
Capítulo 8 O Iluminismo: a Filosofia Militante 103
um dos mais admiráveis resumos do conhecimento humano, 
mas é no próprio título que se revela a intenção maior: Enci-
clopédia ou dicionário raciocinado das ciências, artes e dos 
ofícios por uma sociedade de letrados. Conforme Braga et al, 
em 1745, uma discordância no processo editorial levou um 
dos editores franceses, André Breton, a decidir pela publicação 
de uma nova enciclopédia, no mesmo estilo dos britânicos, 
mas escrita por intelectuais franceses. O projeto seria alterado 
e passaria a incluir um número de maior de verbetes, para 
alcançar um total de 10 volumes. Então foi chamado um dos 
principais filósofos da época, Jean Le Rond D’Alambert (1717 
- 1783), para coordenar o grupo de escritores. Mais adiante, 
em 1747, Denis Diderot (1713 - 1784) iria assumir a coorde-
nação geral, ficando D’Alambert responsável pelos verbetes 
ligados às ciências naturais e à matemática.
A enciclopédia francesa se tornou um marco fundamental 
no Século das Luzes. Dos 10 volumes programados inicial-
mente, foram editados 28 livros, sendo 17 deles com verbetes 
e 11 com desenhos. No total, foram publicados 71.800 ver-
betes e 2.885 gravuras. A proposta dos enciclopedistas era 
realmente ambiciosa. De acordo com as palavras de Diderot, 
quando foi lançada a enciclopédia em 1750, a intenção era 
‘traçar um quadro geral dos esforços da mente humana, em 
todos os gêneros, em todos os tempos’ e mais: “O objetivo da 
enciclopédia é o de reunir os conhecimentos dispersos sobre a 
superfície da terra, expor o seu sistema geral aos homens com 
os quais vivemos, para que os nossos descendentes, tornando-
-se mais instruídos, tornem-se, ao mesmo tempo, mais virtuo-
sos e felizes” (Apud Chassot, p. 168). Em 1751 foi publicado 
o primeiro volume dos oito inicialmente previstos. Diderot e 
104 História Moderna Século XVII e XVIII
D’Alambert convidaram uma grande quantidade de colabo-
radores, entre intelectuais e artesãos para integrar o grupo 
dos escritores, formando a Sociedade de Homens de Letras, a 
autora oficial da enciclopédia. Chassot informa que o grupo 
contava com 160 colaboradores, mas a viabilidade do projeto 
dependia de um número determinado de pessoas, chegando 
a surpreender o fato de que em 1757 já contasse com mais 
de quatro mil assinantes. A enciclopédia teve a participação 
de quatro editoras, os chamados livreiros: Le Breton, Briasson, 
David e Laurrent Durant. No espaço de 25 anos, durante o 
qual foi produzida e vendida, a enciclopédia garantiu a subsis-
tência de mil operários.
Ao final, os 28 livros que compunham a Enciclopédia for-
maram um retrato do pensamento da época, mostrando tam-
bém versões divergentes sobre alguns temas, como a química, 
o que constitui exemplo da heterogeneidade do pensamento 
do grupo de escritores. O trabalho, no fundo, não se restringia 
aos conhecimentos científicos, incluindo descrições detalhadas 
de artefatos técnicos e processos de fabricação, formando um 
vasto panorama técnico, científico e artístico daquela época. 
De acordo com os relatos de Diderot e D’Alambert, para redi-
gir alguns verbetes, foi necessário recorrer aos operários mais 
hábeis, além de ir até as oficinas observar o trabalho, interro-
gar os trabalhadores e escrever o que ditavam para desenvol-
ver seus pensamentos e extrair deles termos próprios de suas 
profissões. Eles reconheceram a dificuldade da tarefa, afir-
mando que havia ofícios tão singulares e manobras de tanta 
precisão que seria preciso trabalhar pessoalmente, movendo 
as máquinas com as próprias mãos e vendo a obra formar-se 
diante dos olhos para tratar do assunto com exatidão. Para 
Capítulo 8 O Iluminismo: a Filosofia Militante 105
tanto, foi preciso obter as máquinas, construí-las, pôr mãos 
à obra e tornar-se aprendiz para depois poder ensinar os ou-
tros como se fazia. Nada foi omitido. Entre os colaboradores 
da Enciclopédia, alguns são mais conhecidos. Por exemplo, 
Voltaire e Condorcet escreveram os verbetes sobre filosofia; 
Rousseau sobre música; Buffon tratou das ciências naturais e 
D’Alambert sobre a matemática. De modo geral, os enciclope-
distas estavam menos preocupados com assuntos tradicionais 
e muito mais na fabricação de calçados ou no comércio de 
cereais, por exemplo (Chassot, p. 171).
Personagens do Iluminismo
Como temos oportunidade de mostrar, o Iluminismo foi um 
movimento que contou com a participação de pensadores im-
portantes. Além de partilhar noções e princípios, os teóricos do 
Iluminismo legaram diferentes contribuições ao pensamento 
ocidental em suas obras. Esses pensadores trataram de ques-
tõesmorais, religiosas e políticas. Assim, de forma resumida, 
podemos indicar uma amostra de seus principais personagens.
Montesquieu publicando em 1721 a obra “Cartas Persas”, 
onde realizou uma crítica sistemática ao autoritarismo político 
e aos costumes de diversas instituições europeias. No ano de 
1748, ele discutiu as formas de governo fazendo uma análise 
da monarquia inglesa no livro “O Espírito das Leis”. Nessa 
obra, afirmava que os poderes deveriam ser divididos entre 
Executivo, Legislativo e Judiciário. Foi ao ponto de propor que 
o rei deveria ser um mero executor das ações tomadas pelos 
poderes a serem intuídos nessa forma de governo. Além disso, 
106 História Moderna Século XVII e XVIII
Montesquieu acreditava que uma Constituição deveria ser re-
digida como lei máxima dos governantes e da sociedade.
Jean-Jaques Rousseau marcou sua época como pensador 
que tinha opiniões de caráter mais radical. Contrário a uma 
vida luxuosa, afirmou que a propriedade privada originava 
a desigualdade entre os homens. No livro “Discurso sobre a 
origem e o fundamento da desigualdade entre os homens”, 
Rousseau defendeu que o homem era corrompido pela socie-
dade e que a soberania popular e a simplicidade deveriam 
ser princípios básicos na ascensão de uma sociedade mais 
justa e igualitária. No “Contrato Social”, Rousseau defendia 
o princípio no qual a vontade geral dos homens promoveria 
instituições mais justas.
Também destaque entre os Iluministas, outro importante 
pensador foi Voltaire. Ele se notabilizou por atacar ferozmente 
a Igreja e o clero. Acreditava que Deus não seria conhecido 
pelos dogmas religiosos e que somente os homens dotados 
de razão e liberdade seriam capazes de conhecer as vonta-
des e desígnios divinos. Em seu livro “Cartas Inglesas”, cri-
ticou as instituições religiosas e a existência de hábitos feu-
dais ainda remanescentes na sociedade europeia. Voltaire 
não defendia a revolução como instrumento de mudança. 
Diderot e D’Alembert, além de contribuírem com ideias, tam-
bém se preocuparam em difundir os valores do iluminismo 
pela Europa. Conforme já mencionado, a partir de uma gran-
de compilação chamada “Enciclopédia”, reuniram o saber 
produzido por diferentes pensadores iluministas. Essa obra 
condensava a perspectiva iluminista sobre os mais variados as-
suntos. Estabelecendo um verdadeiro movimento que ganhou 
Capítulo 8 O Iluminismo: a Filosofia Militante 107
o nome de enciclopedismo, o esforço de ambos conseguiu 
contar com a colaboração de mais de cento e trinta diferentes 
autores.
As principais características do Iluminismo
Para encerrar essa parte, vamos lembrar as principais carac-
terísticas desse movimento, procurando perceber as conexões 
e implicações que esses aspectos tiveram no desenrolar dos 
fatos posteriores. A primeira e mais decisiva foi a valorização 
da razão, considerada o mais importante instrumento para se 
alcançar o conhecimento. Houve, no mesmo sentido, a valo-
rização do questionamento, da investigação e da experiência 
como forma de conhecimento tanto da natureza quanto da 
sociedade, política ou economia. Nesse momento, consoli-
dou-se a crença nas leis naturais, entendidas como normas 
da natureza que regem todas as transformações que ocorrem 
no comportamento humano, nas sociedades e na natureza. 
Também se firmou a crença nos direitos naturais, que todos os 
indivíduos possuem em relação à vida, à liberdade, à posse de 
bens materiais. Além disso, criou-se um ambiente de crítica ao 
regime do absolutismo, às práticas do mercantilismo e aos pri-
vilégios da nobreza e do clero. No aspecto mais saliente, hou-
ve a defesa da liberdade política e econômica e da igualdade 
de todos perante a lei, e uma visão crítica à Igreja Católica, 
embora não se excluísse a crença em Deus.
O Iluminismo: Um 
Projeto Inacabado
Victor Lourenço dos Santos Júnior
Capítulo 9
Capítulo 9 O Iluminismo: Um Projeto Inacabado 109
O projeto do Iluminismo representou para a o Ocidente uma 
revolução completa na visão de mundo. Depois do passado 
medieval, apesar da continuidade de fatores locais e culturais, 
a Humanidade passou a desfrutar de um certo otimismo fun-
dado na razão, no uso da ciência para dominar a natureza e 
conquistar uma nova dimensão da vida – a cultura. O otimis-
mo da razão animou gerações de pensadores mesmo depois 
de passados vários séculos, o que parece ser algo instintivo ao 
ser humano. É típico da juventude acreditar na onipotência e 
na infalibilidade da ciência e só depois, ao conhecer em de-
talhes a história, é que se entende exatamente o que ficou por 
fazer, apesar de todo conhecimento científico e tecnológico 
que foi criado nos últimos séculos.
De um ponto de vista sintético, é possível afirmar que o 
Iluminismo se enquadra em uma perspectiva universalista. 
Suas aspirações e ideais universalistas têm relação direta com 
as tradições católicas de propagação da fé. Para ilustrar esse 
aspecto, cabe a citação de um trecho do livro Utopias do Re-
nascimento. “A Espanha descobriu o Novo Mundo para que 
todas as nações estivessem sob uma só lei. Não sabemos nós 
o que fazemos, mas Deus sim, de quem somos instrumentos”. 
O autor dessa passagem, Eugênio Imaz, faz referência ao pen-
samento do colonizador que chegou ao novo mundo imbuído 
desse otimismo, deste ímpeto de alargar o mundo e converter 
os povos da América ao catolicismo. Durante a Idade média, 
foi essa doutrina teológica que manteve uma certa unidade do 
continente Europeu depois da queda do Império romano. O 
universalismo é um traço típico da teologia católica que veio 
inserido no Iluminismo.
110 História Moderna Século XVII e XVIII
As promessas do Iluminismo estão gravadas na história. Os 
ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade integram, por 
assim dizer, a concepção mais avançada do que poderia ser a 
Humanidade. Expressam ideais que deveriam ter se realizado 
plenamente, mas não o foram. Uma visão sociológica dessas 
promessas do Movimento das Luzes pode ser muito útil ao es-
tudante da história, porque traz uma perspectiva diferente.
Conforme Anthony Giddens (1), a modernidade refere-se a 
estilo, costume de vida ou organização social que emergiram 
na Europa a partir do século XVII e que depois se tornaram 
mais ou menos mundiais em sua influência. Essa concepção 
associa a modernidade a um período de tempo e a uma lo-
calização geográfica em seu marco inicial. No momento em 
que escrevia, Giddens entendia que as Ciências Sociais, ele 
incluído, estavam alcançando um período em que as conse-
quências da modernidade estavam se tornando mais radica-
lizadas e universalizantes do que antes, no fim do século XX. 
Em seu trabalho sociológico, o autor chama a atenção para 
a natureza dupla da modernidade. “O desenvolvimento das 
instituições sociais modernas e sua difusão em escala mundial 
criaram oportunidades bem maiores para os seres humanos 
gozarem de uma existência segura e gratificante (...) Mas a 
modernidade tem um lado sombrio, que se tornou muito apa-
rente no século atual”. Ele lembra que, no todo, o lado das 
oportunidades foi mais enfatizado pelos fundadores da socio-
logia. Afirma que tanto Marx como Durkheim viam a era mo-
derna como uma era turbulenta, mas ambos acreditavam que 
as possibilidades benéficas abertas pela era moderna supera-
vam suas características negativas. O otimismo imanente da 
Capítulo 9 O Iluminismo: Um Projeto Inacabado 111
mentalidade Iluminista fica evidente nessas passagens. “Marx 
via a luta de classes como fonte de dissidências fundamen-
tais na ordem capitalista, mas vislumbrava ao mesmo tempo 
a emergência de um sistema social mais humano”. Durkheim, 
por seu lado, acreditava que a expansão ulterior do industria-
lismo estabelecia uma vida social harmoniosa e gratificante, 
integrada a partir de umacombinação da divisão do trabalho 
e do individualismo. Entre os fundadores da sociologia, Max 
Weber era o mais pessimista. Ele via o mundo moderno como 
um mundo paradoxal em que o progresso material era ob-
tido apenas às custas de uma expansão da burocracia, que 
esmagava a criatividade e a autonomia individuais. Contudo, 
nem mesmo Weber seria capaz de antecipar o que viria a ser 
o lado mais negativo da modernidade, segundo afirma Gid-
dens. Conforme seu argumento, todos os três autores clássicos 
viram que o trabalho industrial moderno tinha consequências 
degradantes, submetendo muitos seres humanos à disciplina 
de um labor maçante, repetitivo. Mas não se chegou a prever 
que o desenvolvimento das forças de produção teria um poten-
cial destrutivo de larga escala em relação ao meio ambiente. 
Outro exemplo é o uso consolidado do poder político, como 
nos casos de totalitarismo. O autor lembra que os fundadores 
da sociologia consideravam o uso arbitrário do político como 
coisa do passado, que o despotismo parecia ser característico 
de estados pré-modernos. Giddens então lembra a ascensão 
do fascismo, o holocausto, o stalinismo e outros episódios da 
história do século XX, em que se pode ver que a possibilidade 
de totalitarismo é contida dentro dos parâmetros da moderni-
dade, ao invés de ser por eles excluída. “o governo totalitário 
combina poder político, militar e ideológico de forma mais 
112 História Moderna Século XVII e XVIII
concentrada do que jamais foi possível antes da emergência 
dos estados-nação modernos”.
Os pensadores sociais, escrevendo no fim do século XIX e 
início do século XX, não poderiam ter previsto a invenção dos 
armamentos nucleares, mas puderam presenciar os terríveis 
eventos da 1ª Guerra Mundial. Giddens, no entanto, destaca 
que a conexão da organização e inovação industriais com o 
poder militar é um processo que remonta às origens da própria 
industrialização moderna. Nesse caso, o que a sociologia faz 
é reconhecer aquilo que temos visto ao longo destes capítulos 
da história da Europa Ocidental, especialmente a formação 
dos estados. Em todos os casos, porém, a conclusão que se 
impôs, ainda que transitória, foi a perda da crença no ‘pro-
gresso’ e a dissolução das grandes narrativas históricas. Os 
processos de secularização e racionalização da vida, levados 
à cabo pelo Iluminismo, levaram ao desencantamento com o 
mundo moderno, na expressão de Weber.
Muito mais contundente na sua análise, John Gray afirma 
que uma das heranças negativas do Iluminismo se inscreve 
na longa tradição de guerras religiosas. A exemplo dos Cru-
zados, entre outros defensores da fé católica, os movimentos 
revolucionários e também o nazismo e o fundamentalismo se 
apoiaram na crença de que é possível mudar a sociedade pela 
força das armas ou do terror. Gray escreve que o terrorismo 
praticado no século passado era motivado em boa parte por 
esperanças seculares. “Os regimes totalitários do século XX 
encarnavam alguns dos sonhos mais ousados do Iluminismo. 
Alguns de seus piores crimes foram cometidos em nome dos 
ideais progressistas, enquanto até mesmo regimes que se con-
Capítulo 9 O Iluminismo: Um Projeto Inacabado 113
sideravam inimigos dos valores do Iluminismo tentavam em-
preender um projeto de transformação da humanidade recor-
rendo ao poder da ciência, cujas origens estão no pensamento 
Iluminista”. O autor insiste em que o papel do Iluminismo nos 
atos de terror do século XX ainda é um ponto cego na percep-
ção dos ocidentais. Nesse ponto, cabe assinalar que o estudo 
da história pode se beneficiar dos avanços que a Sociologia e 
a Filosofia fazem no terreno compartilhado com a história an-
tiga e atual. A análise de J. Gray põe em evidência a ligação 
entre fatos aparentemente desconexos. Ao afirmar que existe 
um ponto cego na percepção ocidental do que seja o Iluminis-
mo, existem centenas de livros afirmando que a repressão em 
massa na Rússia estalinista e na China Maoísta era subproduto 
de tradições despóticas, sugerindo que a culpa caberia aos 
povos dos países submetidos ao domínio comunista, e isen-
tando o estado de qualquer responsabilidade. Ele mostra que 
o mesmo se deu na ocupação do Iraque no governo George 
Bush. O projeto de mudar o regime político não deu certo e a 
culpa foi atribuída aos iraquianos, que não teriam aproveitado 
a oportunidade. Gray afirma que a repressão em massa foi 
praticada em países com histórias extremamente diferenciadas 
e tradições que só tinham em comum o fato de estarem sujei-
tas a experiências utópicas.
A tese deste capítulo que se intitula Projeto inacabado do 
Iluminismo sugere que as promessas do Movimento das Luzes 
foram além das expectativas iniciais. De fato, houve a revolu-
ção dos direitos humanos e os avanços da ciência, especial-
mente com o desenvolvimento das cidades. Mas no tocante às 
ideias, o Iluminismo gerou uma grande onda conservadora no 
período seguinte, sobretudo na Alemanha. Mais importante, 
114 História Moderna Século XVII e XVIII
no entanto, é perceber a ligação entre os países de tradições 
tão diferentes, no passado e no presente, como afirma Gray. 
“As aparentes semelhanças entre países que sofreram a impo-
sição de regimes comunistas decorrem antes desse destino co-
mum que de suas histórias anteriores. Embora alguns regimes 
comunistas tenham feito progressos no bem-estar social, todos 
eles tiveram a experiência da repressão em massa, paralela-
mente a corrupção e a devastação ambiental.” Nesses países, 
o terror era uma reação a esses fracassos (corrupção e devas-
tação ambiental) e à consequente falta de legitimidade popu-
lar dos regimes políticos, mas também representava a conti-
nuação de uma tradição revolucionária europeia. Conforme 
Gray, os regimes comunistas foram fundados tendo em vista 
um ideal utópico cujas origens estão no cerne do Iluminismo.
O lado escuro da Modernidade é o ponto cego das ci-
ências humanas: aquele aspecto essencial que não pode ser 
admitido, mas que está presente. Se na época da Revolução 
Francesa as condições políticas e econômicas eram favoráveis 
à revolução das Luzes, tudo que veio após pode ser conside-
rado como consequência daquele novo ímpeto. As consequ-
ências indesejadas do progresso material não eram menores 
que os planos de expansão. Ainda segundo o estudo de Gray, 
não é o aspecto do terror que distingue o século XX das épocas 
anteriores. Ele afirma que, em suas piores manifestações, o 
terror no século XX foi utilizado com o objetivo de transformar 
a vida humana. A característica maior não foi a escala, mas o 
fato de ter como meta o aperfeiçoamento da vida humana. “O 
projeto utópico só pode ser promovido pelo desmantelamento 
das instituições sociais vigentes, o que conduz a um programa 
Capítulo 9 O Iluminismo: Um Projeto Inacabado 115
que vai muito além de qualquer coisa já tentada pelas tiranias 
tradicionais”. (2)
Para uma compreensão dos ideais de Liberdade, Igualdade 
e Fraternidade, o refrão do Iluminismo, é importante ir além 
da compilação dos eventos e entrar na consideração dos va-
lores envolvidos. Existe a interpretação de que os ideais da 
Liberdade e Igualdade, se levados ao cabo na sua aplicação, 
se revelam incompatíveis, porque o máximo de liberdade re-
presentaria a aniquilação da igualdade, por absoluta falta de 
oportunidades para todos. Do lado da igualdade, do mesmo 
modo, o máximo de igualdade acabaria com a noção de liber-
dade, para ficar no plano teórico. Finalmente, quanto ao ideal 
de fraternidade, este é o que menos evoluiu na escala de uso. 
A Fraternidade ficou associada ao lado social, embora toda a 
legislação que surgiu após tenha sofrido influência da Decla-
ração Universal dos Direitos do Homem. Entre estudiosos juris-
tas, existe extensa controvérsia sobre a incompatibilidade entre 
os ideais deLiberdade e Igualdade. A histórica defasagem do 
que toca à Fraternidade, no entanto, ficará como sugestão de 
para um estudo posterior.
Como foi mencionado o conceito de secularização, um 
dos pontos importantes na transição do modo de produção 
feudal para o capitalismo, deverá ser lembrado dentro con-
texto da época. A grande novidade do reformismo ilustrado 
foi a luta sem tréguas empreendida pelos príncipes contra 
o poder e a influência ideológica de natureza eclesiástica. 
Ao mesmo tempo, o empenho em tornar efetiva a imagem 
do Estado como defensor dos interesses do chamado bem 
comum, segundo afirmam Falcon e Rodrigues. Para atingir 
116 História Moderna Século XVII e XVIII
tais objetivos, foi necessário o fortalecimento do aparelho 
burocrático, única maneira de ampliar e tornar mais eficien-
te o campo de ação governamental. Os empecilhos à ação 
do príncipe precisavam ser removidos, em nome das Luzes. 
Como vimos na Formação dos Estados Nacionais, esse pro-
cesso consistiu na centralização e racionalização de diversas 
instâncias administrativas, com a definição das atribuições de 
cada órgão, para garantir a presença da autoridade sobe-
rana do príncipe. A secularização inclui esforços humanitá-
rios da razão e da sensibilidade no sentido de promover a 
felicidade do ser humano, uma verdadeira salvação secular. 
Lembram daquilo que foi dito no início sobre o otimismo da 
mentalidade Iluminista, eis novamente esse elemento. E tam-
bém não foram poucas as resistências nas regiões, onde se 
revelou uma perspectiva francamente hostil ou indiferente aos 
valores da transcendência, ou seja, a uma concepção terrena 
e laica da existência humana. (3)
Para concluir a tese das promessas não cumpridas, con-
siderar o seguinte. O episódio dramático e cruel no ano de 
1793, O Terror, acabou par lançar uma nuvem de descrédito 
sobre as reais intenções dos revolucionários e, por extensão, 
das ideias Iluministas, sobretudo nos países em que foi menor 
a penetração da nova ideologia, especialmente a Alemanha. 
As execuções sumárias de prisioneiros foi a face sangrenta 
revolução, querendo representar a imposição da vontade da 
nova maioria por força não só da política mas, acima de tudo, 
pelo uso legítimo da violência. Esses aspectos já foram muito 
pesquisados e estudados, porém resta ainda buscar algumas 
respostas. Caberia perguntar o que pretendiam os reforma-
dores sociais Iluministas. Isso remete ao conteúdo utópico da 
Capítulo 9 O Iluminismo: Um Projeto Inacabado 117
filosofia, inspirado diretamente na República de Platão e no 
mito da cidade perdida de Atlântida.
(1) As consequências da modernidade. (1991) Anthony 
Giddens.
(2) Missa Negra: religião apocalíptica e o fim das utopias. 
(2008) John Gray.
(3) A formação do mundo moderno: a construção do Oci-
dente dos séculos XIV ao XVIII. (2006) Falcon e Rodri-
gues.
O “Despotismo 
Esclarecido” e 
Alterações na Europa do 
Século XVIII
Regina Maria Gonçalves Curtis
Capítulo 10
Capítulo 10 O “Despotismo Esclarecido” e Alterações... 119
Aparentemente, a expressão “despotismo esclarecido” pode 
apresentar uma contradição: como um rei déspota pode ser 
influenciado pelas luzes do pensamento do século XVII e XVIII? 
Mas foram vários os casos de monarcas que governaram com 
base na razão. Foi assim que surgiram reis que instituíram refor-
mas políticas, implementaram aberturas na economia, liam e se 
correspondiam com iluministas franceses, apoiavam as artes e 
toleravam a diversidade religiosa. Segundo Luís Roberto Salinas 
Fortes, “na ação político-administrativa desses ‘déspotas escla-
recidos’ seria possível, à primeira vista, ver a aplicação prática, 
em termos políticos, da grande aspiração própria do Iluminismo 
e de acordo com a qual a Razão humana, apossando-se do po-
der político, estaria em condições de conduzir o homem à plena 
realização do seu destino” (FORTES, 1981, p. 75).
Geralmente, essas manifestações ocorreram, não em vão, 
nos Estados monárquicos mais atrasados e com o poder abso-
luto mais fraco como a Áustria, a Rússia, a Polônia, a Prússia, 
a Espanha e Portugal, esses dois últimos, exemplos ibéricos 
de nações que conheceram o apogeu e a decadência na Ida-
de Moderna. O historiador Francisco Falcon o define como 
“práticas reformistas as mais variadas, sobretudo em relação à 
sociedade e à cultura, configuram então um processo de mu-
danças ‘pelo alto’, as quais ficaram conhecidas desde então 
como despotismo esclarecido, ou absolutismo esclarecido” 
(FALCON, 2009, p. 10).
Claro que essa aproximação dos monarcas com algumas 
ideias iluministas não comprometia seu poder. Pelo contrário: 
geralmente eram realizadas para que fosse melhorada a sua 
governabilidade. Os grandes monarcas esclarecidos também 
foram chamados de reis-filósofos. Alguns não só leram as 
120 História Moderna Século XVII e XVIII
obras de homens como Voltaire e Maquiavel, como também 
os conheciam pessoalmente, como foi o caso de Frederico II 
na Prússia e Catarina II na Rússia como veremos a seguir.
As ideias iluministas influenciaram alterações, ou tentativas 
de alterações nos países em que monarcas e seus secretários 
buscaram implantá-las. Eram alterações no campo político, 
econômico e cultural. No primeiro caso, uma separação do 
Estado da Igreja e a diminuição do poder da nobreza foram 
atitudes típicas desses governantes. Na economia, reformas 
liberais e o incentivo à produção manufatureira, tinham como 
objetivo tirar o país do atraso e das crises financeiras. Por fim, 
culturalmente, a maioria dos déspotas-esclarecidos incentivou 
a produção artística nacional, além de trazer liberdade religio-
sa para os seus reinos.
Causas para o Despotismo Esclarescido
Mesmo que durante a Idade Moderna a política europeia fosse 
marcada pelo absolutismo, ainda pesavam heranças feudais. 
A nobreza não comandava mais, entretanto as cortes guarda-
vam relações de fidelidade para com o monarca e vice-versa. 
A Igreja também influenciava o Estado, atribuindo ao rei o 
“poder divino”, como preconizava Bossuet, o que garantia 
cargos aos representantes dessa instituição, tal qual era o caso 
do cardeal Richelieu na França do século XVII, ou das ordens 
religiosas, como os jesuítas que administravam as reduções 
junto aos nativos das colônias.
Em muitos casos, por mais poderoso que fosse, o rei ficava na 
dependência da aristocracia, que levava o poder real a partilhá-
Capítulo 10 O “Despotismo Esclarecido” e Alterações... 121
-lo com poderes de menor expressão. O historiador português 
Antonio Manuel Hespanha afirma que “categorias como as de 
“Estado”, “centralização” ou “poder absoluto”, por exemplo, 
perderam a sua centralidade na explicação dos equilíbrios de po-
der nas sociedades políticas” (HESPANHA, 2001). Em outras pa-
lavras: no absolutismo, o poder real não era tão absoluto assim.
O próprio Perry Anderson entende que “Durante toda fase 
inicial da época moderna, a classe dominante – econômica 
e politicamente – era, portanto, a mesma do período medie-
val: a aristocracia feudal. Essa nobreza passou por profundas 
metamorfoses nos séculos que se seguiram ao fim da idade 
média, mas até o final do absolutismo não foi desalojada do 
poder político” (ANDERSON, 1995, p. 18).
Assim, é possível afirmar que no século XVIII, o monarca 
ainda estava suscetível à aristocracia, da qual ele mesmo fazia 
parte. Sendo o estado absolutista uma continuidade do feu-
dal, ele tinha características do feudalismo, como o dever para 
com o vassalo, sendo nesse caso, o rei, o suserano.
Recordemos que a sociedade do Antigo Regime era muito 
estático, permitia pouca mobilidade e que os grandes privile-
giados continuavam sendo os nobres. E como tais recebiam 
vantagens e prestavam favores, muitas vezes militares, aos reis. 
Sendo assim, o monarcaficava na obrigação de retribuir.
Como se não bastasse, boa parte do leste europeu vivia 
em regime de servidão no século XVIII, em sociedades muito 
atrasadas. Alguns reis, ou ministros, ou secretários perceberam 
o problema e, por terem entrado em contato com ideias da 
ilustração, decidiram que era hora de algumas alterações.
122 História Moderna Século XVII e XVIII
A difusão do iluminismo
As propostas de Voltaire, Montesquieu, Adam Smith e outros 
não se restringiram apenas à França e à Inglaterra. As ideias 
circularam pela Europa e chegaram até o Novo Mundo. Mas 
como isso ocorria? Antes de mais nada, é preciso perceber 
que não havia um só iluminismo. Certo que homens como 
Voltaire fizeram profundas críticas à autoridade real. O autor 
Luiz Roberto Fortes crê que existia um “espírito” do iluminismo, 
dentro de uma mesma “atmosfera cultural” (FORTES, 1981, p. 
14). Esse “espírito” era um indício do pensamento dos séculos 
XVII e XVIII em que surgiram críticas à Igreja e a nobreza.
Alguns nobres tiveram contato com essas ideias. Ocorre 
que, ao estudar nos grandes centros intelectuais do mundo da 
época, como França e Inglaterra, liam as obras de homens 
como Voltaire e Montesquieu e voltaram para suas terras, com 
objetivos de modernizar seus estados. Além disso, as obras 
desses iluministas tinham grande circulação pelo continente 
europeu e pelo mundo, chegando inclusive na América.
O caso da Espanha
Do final do século XV até o século XVIII, a Espanha foi gover-
nada pela mesma dinastia, a dos Habsburgo. Com o pas-
sar do tempo, os reis dessa família que antes se mostravam 
audaciosas e expansionistas, transformaram-se em, cada vez 
mais, inaptos. Durante o século XVII, a Espanha esforçou-se 
por manter o domínio sobre suas possessões na Europa, em 
confrontos como a Guerra dos Trinta Anos. Por esse motivo, 
perdeu muito dinheiro, o que a levou a sucessivas bancarrotas. 
Capítulo 10 O “Despotismo Esclarecido” e Alterações... 123
Ou seja, o tesouro vindo da América foi todo gasto em confli-
tos no Velho Mundo. Enquanto o poder do rei diminuía, o da 
aristocracia local, cansada de disputas contra outras monar-
quias europeias, crescia.
O fim da dinastia Habsburgo na Espanha deu-se com o a 
morte de Carlos II e a ascensão de Felipe V ao poder. A mo-
narquia Bourbon passou a administrar o Estado espanhol de 
forma racional. Abriu mão de domínios na Europa, mas reto-
mou o controle sobre suas colônias na América, nas quais o 
contrabando havia crescido muito. Para contornar a situação, 
passou-se a abrir alguns portos, mas também a tributar os pro-
dutos que entravam nos domínios do outro lado do Atlântico. 
As colônias voltaram a dar lucros.
Internamente, os Bourbons buscaram alterar algumas es-
truturas do absolutismo espanhol: no corpo de funcionários, 
uma burocracia especializada civil substituiu os nobres que 
ocupavam altos postos junto aos monarcas; o Exército foi re-
modelado. Em outras palavras, os Bourbons tentaram eliminar 
os vestígios do feudalismo na Espanha.
O sucessor de Felipe V, Carlos III, buscou a ajuda de três 
ministros – Aranda, Floridablanca e Campomanes – para em-
preender as reformas bourbônicas e, a rigor, a maioria das 
mudanças ocorre no seu reinado entre 1716 e 1788. Mesmo 
assim, seu sucesso foi relativo, porque no início do século XIX, 
durante a invasão napoleônica, a dinastia Bourbon já tinha 
entrado em colapso, justamente por não conseguir cumprir 
com seus objetivos. Segundo Perry Anderson, nesse período, 
mais da metade das cidades espanholas não estava sob con-
124 História Moderna Século XVII e XVIII
trole jurídico da Coroa, mas da Igreja ou de senhores locais 
(ANDERSON, 1995, p. 80-83).
O caso da Rússia
A Rússia, até a Revolução de 1917, era um dos países mais 
atrasados da Europa. Para se ter uma idéia, a servidão exis-
tiu até 1861. Foi nessa região que, entre os anos de 1762 a 
1796, destacou-se a imperatriz Catarina II. Foi leitora de Vol-
taire, Diderot e Montesquieu, de quem copiou algumas diretri-
zes enviadas a uma Assembleia. Seu governo tentou moderni-
zar a Rússia, implementando inclusive um parque industrial de 
minas e metalurgia (FORTES, 1981, p. 79).
Inspirada nesses pensadores, buscou implementar uma re-
forma jurídica e educacional. Mas a aristocracia russa impe-
diu essas alterações e Catarina II viu-se obrigada a manter a 
servidão para os camponeses além de manter o czarismo com 
modelos absolutistas.
O caso da Prússia
Na Prússia, reino que ocupava o atual norte da Alemanha, foi 
um dos modelos mais importantes de “despotismo iluminado”. 
Ali, o rei Frederico II, – ou Frederico, o Grande – que viveu 
entre 1712 e 1786, implantou reformas que lhe deram pres-
tígio perante boa parte dos filósofos da sua época. Foi muito 
próximo dos grandes pensadores do iluminismo, como os “en-
ciclopedistas”. Produziu uma importante obra filosófica sobre 
a política e como governar. Incorporou como nenhum outro a 
Capítulo 10 O “Despotismo Esclarecido” e Alterações... 125
ideia de ser um “rei-filósofo”, ou um monarca que pensa, lê e 
escreve sobre filosofia da sua época.
Na prática, o desenvolvimento do Estado prussiano tam-
bém é notável. Frederico proibiu a tortura e trouxe tolerância 
religiosa ao país. No século XVIII, a Alemanha não era um país 
unificado e a Prússia, assim como os demais reinos que futura-
mente dariam origem à nação alemã, era muito atrasada em 
relação a outras regiões da Europa, Inglaterra e França, mais 
especificadamente. Frederico II, além de incentivar as artes, 
as letras e as ciências, ainda buscou modernizar o Estado, 
retirando privilégios da nobreza enquanto senhores feudais. 
Para termos uma ideia do avanço de Frederico, a cidade de 
Berlim, então capital da Prússia, despontou como grande ci-
dade durante o seu reinado. Sua importância foi tamanha que 
o grande filósofo alemão, Immanuel Kant, chamou o século 
XVIII de “época do Esclarecimento, ou o século de Frederico” 
(FORTES, 1981, p. 77-78).
O caso da Áustria
No século XVIII, a Áustria pertencia ao Sacro Império Romano-
-Germânico, extremamente atrasado e decadente. Ali, o impe-
rador José I, transformou e modernizou um país com um forte 
legado do período medieval. Como os demais, foi grande en-
tusiasta das artes. Acabou com medidas autoritárias de seus 
antecessores e administrou uma política de tolerância religio-
sa, buscando as tão requeridas pelos iluministas liberdade re-
ligiosa e separação do Estado da Igreja, garantindo liberdade 
de culto.
126 História Moderna Século XVII e XVIII
No campo econômico, acabou com a servidão e incenti-
vou o comércio, o que era interessante para a burguesia local. 
Mas ali também a nobreza feudal ficou descontente com as 
reformas do “déspota esclarecido” e foram desfeitas.
O caso de Portugal
José I também era como o “rei esclarecido” de Portugal foi 
chamado. Mas sua ação deveu-se ao seu secretário de Esta-
do, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês do Pom-
bal. Seu reinado foi de 1750 até 1777 e em 1755, Pombal já 
tinha ascendido a seu cargo. No século XVIII, o império por-
tuguês encontrava-se defasado e desorganizado. Como em 
outras monarquias, o rei tinha seu poder limitado por deveres 
para com a aristocracia local, que porventura lhe prestassem 
algum favor, tal qual combater inimigos por exemplo.
Muitos autores, como o português Antonio Manuel Hespa-
nha, apontam inclusive para uma falta de centralismo no con-
trole da sua colônia na América, que hoje constitui-se no Bra-
sil. A divisão do poder em vice-reis, governadores e até mesmo 
capitães-donatários acabava por dar certa autonomia destes 
perante o monarca. Além disso, a Igreja controlava importan-
tes setores da sociedade lusitana. Portugal estava vivendo um 
Antigo Regime com características medievais de uma épocafeudal, assim como as demais regiões da Europa aqui citadas.
Pombal já havia sido diplomata português em Londres e 
Veneza. O ano de 1755 foi marcado por um violento terre-
moto que destruiu Lisboa. Logo depois, foi chamado para tra-
balhar na árdua tarefa de conduzir a reconstrução da cidade, 
Capítulo 10 O “Despotismo Esclarecido” e Alterações... 127
tarefa para qual recebeu autoridade quase completa. A rigor, 
o rei José I não se preocupava muito com o governo, mas 
com outras tarefas menos trabalhosas como caçar e assistir a 
óperas. Por isso, é possível afirmar que o despotismo ilustrado 
em Portugal coube muito mais a ação de Pombal do que ao 
monarca. Mesmo assim, segundo o historiador inglês Kenne-
th Maxwell “Pombal exerceu amplos poderes, mas sua força 
sempre dependeu do apoio do rei” (MAXWELL, 1996, p. 159).
Com a autorização real, foram postas em prática um con-
junto de mudanças, que convencionou chamar-se de reformas 
pombalinas. De acordo com Francisco Falcon, Sebastião José 
de Carvalho e Melo coloca “em prática as múltiplas reformas 
que deveriam levar o reino luso à modernidade plena, nota-
damente no plano mercantil, educacional e cultural, por meio 
da submissão irrestrita da velha aristocracia e da afirmação do 
poder real em face da antiga hegemonia eclesiástica” (FAL-
CON, 2009, p. 10). Em outras palavras, as mudanças em 
Portugal vieram para reduzir o poder da nobreza e da Igreja, 
aumentando o do rei.
Na prática, Pombal tomou uma série de medidas que visa-
vam modernizar a administração de Portugal e do seu Império, 
buscando uma racionalidade nesse campo. Para ele, o princi-
pal problema era a balança comercial desfavorável, ou seja, 
o país comprava mais do que vendia. Para acabar com isso, 
incentivou a criação de manufaturas. Na tentativa de diminuir 
a participação da Igreja e permitir a circulação de novas ideias 
no país, implantou uma educação pública em substituição da 
religiosa. Por essa razão, expulsou a ordem dos jesuítas de 
Portugal e das suas colônias.
128 História Moderna Século XVII e XVIII
Claro que a expulsão teve reflexos no Brasil. Os padres 
tiveram que abandonar as missões junto aos indígenas, que 
passaram a ser administradas por civis. Pretendia fazer dos 
índios súditos do rei lusitano, por isso proibiu a escravização 
destes e estimulou a assimilição dentro da sociedade colo-
nial por meio de casamentos. O processo de secularização 
da educação em Portugal teve início justamente nas reduções 
junto aos nativos, com o ensino de Língua Portuguesa e Mate-
mática (MAXWELL, 1996, p. 104). Também por aqui propiciou 
a criação de manufaturas para que não fosse necessário com-
prar muitos produtos ingleses. Politicamente, acabou com as 
Capitanias Hereditárias e diminuiu o poder das Câmaras Mu-
nicipais. A partir de agora, vice-rei devia obediência imediata 
ao monarca português, sem intermediários.
Curiosamente, o Marquês do Pombal utilizou-se de pro-
postas iluministas para centralizar o poder absolutista. Trouxe 
novas propostas e novas ideias para um país atrasado, mas 
para que fosse mais viável governá-lo. Encarnou muito bem a 
contradição de um “despotismo esclarescido”.
A expressão e o legado do despotismo 
esclarecido
Um sinônimo que parece resumir bem o que era o despotismo 
esclarecido é “absolutismo ilustrado”. O historiador Francisco 
Falcon prefere esta última, pois ela parece ser explicativa. As-
sim, associa o poder real com a reflexão filosófica vigente no 
século XVIII. Ainda para Falcon, “o poder estatal e os agentes 
a serviço do governo monárquico absolutista constituem os 
Capítulo 10 O “Despotismo Esclarecido” e Alterações... 129
meios necessários à realização dos fins inerentes a um poder 
esclarecido: a felicidade” (FALCON, 2009a, p. 13).
O grande objetivo foi terminar com os resquícios de feu-
dalismo no Antigo Regime europeu, o que significava diminuir 
os poderes da Igreja e dos nobres. Isso beneficiava tanto as 
próprias coroas nacionais, como os camponeses, que se livra-
riam da servidão, além da burguesia, que poderia crescer com 
as reformas econômicas. É evidente que os reis pretendiam ser 
os maiores beneficiados das mudanças que foram instituídas.
Na teoria, esses monarcas queriam, como disse Falcon, a 
felicidade do seu reino, um dos princípios mais caros aos ilumi-
nistas. Na prática, abriram a economia, libertaram os servos e 
incentivaram o setor da produção. Entendiam que o atraso do 
seu estado devia-se a uma mentalidade arcaica e medieval. Nos 
casos da Prússia, Rússia e Áustria, essa situação foi bem evidente 
com governantes bastante ligados ao pensamento iluminista.
No caso das coroas ibéricas, o fato destas terem colônias 
levou-as a algumas particularidades, pois estas foram direta-
mente atingidas. As reformas bourbônicas na Espanha e pom-
balinas em Portugal traziam consigo alterações não só na Eu-
ropa, como também na América. Seus objetivos eram devolver 
para aqueles estados o esplendor de séculos anteriores.
Entretanto, poucas das mudanças realizadas durante o pe-
ríodo do absolutismo ilustrado permaneceram. A nobreza reto-
mou o controle dos reinos europeus, voltando ao status quo do 
Antigo Regime. As ideias iluministas só atingiriam novamente 
essas regiões da Europa a partir do século XIX, dessa vez sem 
a ingerência dos reis.

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