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<p>1</p><p>HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA</p><p>DA ÁFRICA</p><p>AULA 5</p><p>Prof. Edmar Almeida de Macedo</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Nesta aula veremos como se deu, em linhas gerais, o processo de</p><p>colonização e independência dos países africanos, entre os séculos XIX e XX. A</p><p>África abrigou uma série de reinos, impérios, povos e comunidades</p><p>independentes ao longo de toda sua história. Nesta aula veremos como, logo</p><p>depois de ter cessado a hecatombe da escravidão, teve início um processo de</p><p>domínio colonial tardio das potências europeias sobre os diversos territórios do</p><p>continente.</p><p>Chamado de imperialismo por Lenin (2003), de neocolonialismo por</p><p>outros (NoletoChaves; Santos, 2020), tratou-se de um momento em que o</p><p>nascente capitalismo industrial europeu precisava assegurar matérias primas</p><p>para si, e o fez ocupando as diversas nações africanas.</p><p>Veremos como esse domínio enfrentou forte resistência da população</p><p>africana. E, na sequência, como esse domínio colonial trouxe mudanças</p><p>significativas para a organização societal, para a economia, para a política e para</p><p>todos os demais aspectos da vida no continente.</p><p>Por fim, veremos como a independência inaugurou uma era de</p><p>esperança, marcada pelas ideias do nacionalismo em alguns lugares, do</p><p>socialismo em outros, mas não necessariamente significou o estabelecimento da</p><p>paz, posto que tanto a luta pela independência custou significativo número de</p><p>vidas, quanto os imediatos conflitos pós-independência e governos</p><p>segregacionistas continuaram a cobrar altos sacrifícios aos habitantes do</p><p>continente.</p><p>TEMA 1 – PRENÚNCIO DO COLONIALISMO</p><p>A África entrou no século XIX com a população relativamente estabilizada</p><p>em cerca de 100 milhões de habitantes (Silvério, 2013, p. 182). França e</p><p>Inglaterra, as duas grandes potências mundiais da época, disputavam influência</p><p>nas relações com o continente. Nessa primeira metade do século XIX</p><p>aumentaram as relações comerciais dos europeus com interior da África, bem</p><p>como a instalação de missionários ampliava a disseminação da religião cristã e</p><p>a aculturação, o que era reforçado pela criação de escolas aos moldes europeus.</p><p>3</p><p>A elite local era ainda formada por chefes e governantes tradicionais, mas</p><p>emergia uma nova elite de ex-escravos ocidentalizados.</p><p>A economia em todo o continente era ancorada na agricultura. Essa</p><p>atividade econômica estava na base das outras atividades. Em geral, em toda</p><p>sua história o continente africano sempre esteve ancorado na agricultura.</p><p>Paralelamente a isso existia um comércio de produtos de luxo que funcionava</p><p>em rotas de longas distâncias, dentro do próprio continente, mas também em</p><p>direção ao Oriente Médio, na bacia do Mediterrâneo e do Mar Vermelho, bem</p><p>como no Oceano Índico. Mas ele nunca atingiu, salvo raríssimas exceções, a</p><p>importância da agricultura.</p><p>Do ponto de vista político, o continente contava com múltiplas formas de</p><p>organização, que iam desde Estados centralizados, com forças armadas,</p><p>emissão de moeda, cobrança de impostos e domínio territorial exclusivo, até</p><p>populações guiadas por conselhos de anciãos ou autoridades locais.</p><p>A venda de escravos para o exterior, que havia adquirido importância</p><p>econômica, em especial no ocidente da África, encontrou seu apogeu no final do</p><p>século XVIII, passando a declinar a partir do século XIX. Esse declínio possui</p><p>relação com o desenvolvimento do capitalismo, que teve a Inglaterra como seu</p><p>principal expoente, e que demandava mão de obra remunerada como a base de</p><p>seu sistema econômico. Assim, na medida em que o capitalismo se expandia</p><p>pelo mundo, e à medida que a Inglaterra se firmava como a maior potência</p><p>mundial, paulatinamente o comércio de escravos declinou. A própria instituição</p><p>da escravidão passou a regredir, dando lugar a novas relações da África com o</p><p>mundo. Mas o que não regrediu foi o racismo, que, ao contrário, encontrava cada</p><p>vez mais adeptos.</p><p>Do ponto de vista econômico, o declínio da escravidão fez florescer o</p><p>comércio dos produtos agrícolas para fins de exportação. Óleo de palma,</p><p>amendoim, algodão, borracha, mel, cera de abelha, noz de cola e outros</p><p>produtos fizeram crescer a renda dos agricultores.</p><p>Então, como consequência do declínio do tráfico de escravos, temos a</p><p>estabilização populacional, e, por outro lado, a reorganização econômica. O</p><p>século XIX registra também um novo movimento de expansão do islamismo, em</p><p>especial no que hoje é o Niger, Burquina Faso e Mali, mas também no centro do</p><p>4</p><p>continente, na região onde hoje ficam Ruanda e Burundi. Essa expansão deu</p><p>origem a novos reinos islâmicos, como os de Sokodo e Macina.</p><p>Figura 1 – No século XIX formou-se no sul da África o reino Zulu, fruto de grandes</p><p>reorganizações populacionais e políticas na região</p><p>Crédito: Sergey Kohl/Adobe Stock.</p><p>O cristianismo também se expandiu pelo continente no século XIX.</p><p>Diversas sociedades missionárias, com origens em países europeus, passaram</p><p>a converter parte da população, em especial mais ao sul do continente, onde a</p><p>penetração do islamismo ainda era rarefeita. A conversão era acompanhada da</p><p>fundação de escolas cristãs, que passaram a produzir uma elite (protestante ou</p><p>católica) letrada que passa a predominar no comércio, no serviço público e nas</p><p>próprias atividades religiosas locais.</p><p>De algum modo ligado a esse letramento, mas também ao retorno de</p><p>alguns ex-escravos das Américas, surgem no continente os primeiros</p><p>pensadores a pregarem o panafricanismo, a valorização da raça negra e a “África</p><p>5</p><p>para os africanos”. Está relacionado a esse sentimento de africanidade o</p><p>etiopismo, que era</p><p>um movimento religioso e político africano, nascido no último quarto do</p><p>século XIX, que pretendia formar Igrejas africanas autônomas,</p><p>independentes das missões coloniais. Alguns líderes desse movimento</p><p>fundaram sua própria leitura do cristianismo, como Nehemiah Tile,</p><p>Orishtukeh Faduma, Bishop James Johnson e outros. O termo</p><p>etiopismo deriva da autonomia religiosa Etíope, que reporta à</p><p>civilização de Axum e à formação dos reinos etíopes. (Barbosa, 2016,</p><p>p. 147)</p><p>No plano político, os Estados islâmicos do entorno do Rio Niger, a Etiópia,</p><p>Madagascar e Uganda mantinham-se como os mais centralizados e pujantes. A</p><p>tecnologia europeia do telégrafo, das estradas de ferro, equipamentos agrícolas</p><p>e principalmente as técnicas militares impactavam diversas regiões africanas.</p><p>TEMA 2 – COLONIZAÇÃO</p><p>O processo de domínio colonial europeu na África representou o momento</p><p>(de 1980 a 1935) das mais rápidas transformações até então experimentadas</p><p>pelo continente. Repleta de Estados soberanos e independentes em 1880, em</p><p>1914 apenas Etiópia e Libéria conservavam esse status.</p><p>Motivados pela necessidade de obtenção de matérias-primas para sua</p><p>crescente indústria e por uma disputa entre si pelo domínio de terras, os países</p><p>europeus partiram para a conquista da África a partir de 1880. Ingleses,</p><p>franceses, italianos, portugueses, belgas e alemães passaram a organizar seus</p><p>interesses em diferentes conferências europeias, nas quais traçaram a divisão</p><p>do continente. Para essa divisão, teve grande importância uma série de reuniões</p><p>bilaterais e as conferências de Bruxelas (1876) e de Berlim (1884 – 1885).</p><p>O conhecimento que já possuíam do continente, fruto das relações</p><p>comerciais e da introdução de missionários, somada à articulação prévia entre</p><p>os países europeus para minimizar conflitos entre si, mais a superioridade militar,</p><p>fruto de um desenvolvimento tecnológico que andava par e passo com o</p><p>desenvolvimento industrial, constituiu uma força contra a qual os Estados</p><p>africanos não puderam resistir (salvo a Etiópia, que rechaçou a investida</p><p>italiana).</p><p>A resistência contra o domínio colonial ocorreu em todas as partes da</p><p>África. No Egito, a tutela britânica foi desafiada em 1881 por um movimento do</p><p>6</p><p>exército local, liderado</p><p>por Ahmad Urabi, que foi rechaçado no ano seguinte,</p><p>quando os ingleses bombardearam Alexandria, causando a morte de cerca de 2</p><p>mil pessoas.</p><p>No Sudão, um movimento islamizado, chamado Mahdiyya, liderado por</p><p>Muhammad Ahmad Al-Madhdi, libertou a região do domínio turco, mantendo um</p><p>governo independente de 1881 até 1886, quando foram invadidos e dominados</p><p>pelos britânicos.</p><p>Na Líbia, os italianos encontraram uma tenaz resistência armada popular</p><p>quando invadiram a região, tomando-a dos turcos em 1911. Essa resistência fez</p><p>com que progredissem muito lentamente, só completando a ocupação do país</p><p>em 1932, após anos de sangrentas batalhas.</p><p>Na África Ocidental, onde o islamismo estava firmemente implantado, o</p><p>domínio francês foi também o domínio do infiel. No Senegal, a resistência esteve</p><p>ao encargo do líder Lat Dior Diop, que combateu os franceses de 1861 até 1883.</p><p>Na região do atual Mali, Guiné e Costa do Marfim, a resistência aos</p><p>franceses foi comandada por Samori Touré, que liderava um governo nas</p><p>savanas sudanesas. Com um exército de 2,5 mil soldados, resistiu aos invasores</p><p>de 1882 até 1898.</p><p>Figura 2 – Selo comemorativo do Benin, homenageando Samouri Touré um dos</p><p>líderes islâmicos que lutou contra a implantação do domínio colonial</p><p>Crédito: Vic/Adobe Stock.</p><p>7</p><p>Já no país ashanti (Costa do Ouro), os britânicos enfrentavam resistência</p><p>desde 1760. Em 1824, chegaram a ser derrotados pelos povos locais. Apenas</p><p>em 1874 conseguiram uma vitória duradoura, que só se completou com o</p><p>domínio efetivo da região em 1896.</p><p>Na África oriental, a conquista europeia se baseou na força e na</p><p>negociação. A região não contava com grandes Estados centralizados nesse</p><p>período, mas os habitantes da região usaram desde táticas de guerrilha até</p><p>insurreições para tentar deter os colonizadores, mas não lograram sucesso.</p><p>A África central era ocupada pelos reinos de lunda e luba (no que se</p><p>tornou o Congo Belga), os Estados de Humbe e Chokwe, no que veio a ser</p><p>Angola, o Reino Monomotapa, no que viria a ser Moçambique, o Reino undi,</p><p>além de diversas outras unidades políticas menores ou menos centralizadas.</p><p>É possível identificar três categorias de resistência ao domínio colonial na</p><p>região (Silvério, 2013, p. 361): (1) oposição ou confronto na tentativa de manter</p><p>a soberania; (2) resistência na tentativa de atenuar abusos do regime colonial,</p><p>e; (3) rebeliões destinadas à destruição do sistema colonial.</p><p>Já no sul da África a situação era mais complexa, pois já existiam enclaves</p><p>comandados por minorias brancas que ocupavam parte da região: a Colônia do</p><p>Cabo, com cerca de 185 mil habitantes brancos, descendentes de ingleses, a</p><p>Colônia de Natal, com cerca de 20 mil colonos, também ingleses, a República</p><p>Sul-Africana e o Estado Livre de Orange, ambos de colonização holandesa, que</p><p>somavam cerca de 50 mil brancos. Em todos eles a minoria branca constituía</p><p>uma elite que dominava uma maioria negra. Conflitos armados, relações de</p><p>tutela e de aliança marcaram a relação dessas colônias e estados dominados</p><p>por brancos com os outros povos da região.</p><p>Os Zulu, por exemplo, eram antigos aliados dos ingleses contra o</p><p>expansionismo dos Bôeres (holandeses e outros calvinistas vindos da Europa)</p><p>nessa região. Quando essa aliança se desfez, em 1877, os ingleses partiram</p><p>para a conquista do território Zulu. Em janeiro de 1879, os Zulus impuseram</p><p>pesada derrota aos ingleses, que se recuperaram, e em julho destruíram o reino</p><p>Zulu, apropriando-se de suas terras, que foram divididas em treze circunscrições</p><p>governadas por fantoches.</p><p>Em suma, esse processo avassalador de domínio colonial foi</p><p>bem-sucedido em razão da ampla superioridade técnica das armas europeias</p><p>8</p><p>frente a tecnologia militar africana. Essa superioridade, diga-se de passagem,</p><p>não era apenas relativa apenas ao continente africano, mas era da Europa em</p><p>relação ao restante do mundo, fruto da revolução tecnológica e industrial pela</p><p>qual passava.</p><p>TEMA 3 – DOMÍNIO COLONIAL</p><p>Escaparam do domínio colonial apenas a pequena Libéria e a Etiópia. A</p><p>Libéria foi fundada em 1847 por ex-escravos africanos da América do Norte, que</p><p>ali se assentaram e obtiveram o reconhecimento da independência desse</p><p>território. Acabaram poupados da sanha colonialista, mas ainda assim perderam</p><p>parte de seu território para franceses e ingleses. Já a Etiópia permaneceu</p><p>independente pela força das armas. Em 1894, a Itália deu início a uma expedição</p><p>militar para submeter o país, mas foi derrotada pelas tropas do rei Menelik, que</p><p>dessa forma garantiu a independência local, assinando posteriormente tratados</p><p>com outras potências em que viu reconhecida sua soberania e independência.</p><p>Quando o domínio colonial europeu se consolidava no continente</p><p>africano, desencadeou-se na Europa a Primeira Guerra Mundial (1914). A guerra</p><p>trouxe algumas consequências para o continente: as possessões alemãs foram</p><p>invadidas e ocupadas pelos aliados, uma parte da elite administrativa das</p><p>colônias voltou para a Europa ou incorporou-se às tropas estacionadas no</p><p>continente, desajustando as administrações coloniais. Ainda cerca de um milhão</p><p>de africanos foram incorporados aos exércitos coloniais, seja como soldados ou</p><p>carregadores, chegando a lutar na frente ocidental europeia e no Oriente Médio.</p><p>Era comum que o recrutamento forçado para o exército colonial provocasse</p><p>levantes e rebeliões.</p><p>A administração colonial, após a Primeira Guerra Mundial, teve que contar</p><p>com a participação de uma elite local africana em funções subordinadas para</p><p>funcionar, já que o número de europeus na África não era suficiente para</p><p>desempenhar todas as funções necessárias à esta administração. A ascensão</p><p>dessa elite local precisou conviver com um sentimento e teorias racistas de</p><p>superioridade dos brancos europeus frente aos africanos.</p><p>Na África oriental, e de algum modo em todo o continente,</p><p>9</p><p>O estabelecimento do colonialismo significou a reorganização da vida</p><p>política e econômica das populações. Tributos foram impostos. O</p><p>trabalho forçado e a privação geral de direitos políticos tornaram-se</p><p>regra. (Silvério, 2013, p. 360)</p><p>Mesmo com diferenças de local para local, como regra geral os brancos</p><p>colonizadores se apropriaram, seja individualmente, seja por meio de grandes</p><p>empresas monopolísticas, das terras e dos canais comerciais voltados à</p><p>exportação de produtos agrícolas e minerais, de forma que essa elite branca</p><p>colonial se transformou em uma elite econômica, enquanto a população africana</p><p>foi reduzida a condição de trabalhador remunerado desses empreendimentos.</p><p>Em resumo,</p><p>As relações de produção coloniais estabeleceram-se na África no</p><p>decurso de vários anos, durante os quais numerosas economias</p><p>africanas autossuficientes foram ou destruídas ou transformadas e</p><p>subordinadas. Os laços que as uniam foram cortados, como no caso</p><p>do comércio transaariano e do comércio da região dos grandes lagos,</p><p>na África Central e Oriental. Mesmo as relações anteriormente</p><p>existentes entre a África e o resto do mundo, principalmente com a</p><p>Índia e a Arábia, sofreram perturbações. Foram criadas numerosas</p><p>economias coloniais separadas. (Silvério, 2013, p. 386)</p><p>Outra mudança causada pela colonização foi a completa monetarização</p><p>da economia africana. Isso fez com que ela sentisse assim, também, os efeitos</p><p>da crise de 1929. Essa crise trouxe recessão para a economia do continente,</p><p>causando, entre outros problemas, desemprego e compressão dos salários, que</p><p>foram respondidas, em alguns casos, por greves.</p><p>Figura 3 – Exército francês no norte da África no século XIX</p><p>Crédito: Erica Guilane-Nachez/Adobe Stock.</p><p>10</p><p>Ainda assim, no plano social se desenvolvia uma pequena burguesia</p><p>autóctone ligada à exportação e ao comércio, em áreas agrícolas e comerciais</p><p>em que os brancos não predominavam, e surgiu uma pequena elite ilustrada,</p><p>que passou a estudar nas escolas e alguns também</p><p>nas universidades das</p><p>metrópoles, mas tanto essa elite econômica quanto intelectual permaneciam um</p><p>degrau abaixo dos brancos europeus, em razão das teorias raciais em voga.</p><p>Surge também uma classe operária negra.</p><p>Do ponto de vista demográfico, durante o período colonial a mortalidade</p><p>permaneceu alta, a expectativa de vida baixa, mas ainda assim a população</p><p>passou a recuperar-se da terrível drenagem populacional representada pela</p><p>escravidão.</p><p>Tabela 1 – Evolução da população africana de 1880 a 1970</p><p>Ano População aproximada</p><p>1880 120 milhões</p><p>1935 165 milhões</p><p>1940 200 milhões</p><p>1960 300 milhões</p><p>1970 400 milhões</p><p>Fonte: Silvério, 2013, p. 402-403.</p><p>A população branca, parte desse montante global expresso na Tabela 1,</p><p>passou de 25 mil em 1800 para cerca de 750 mil em 1880, chegando a quase</p><p>quatro milhões em 1935 (Silvério, 2013, p. 402), concentrados sobretudo na</p><p>África do Sul e norte do continente (com destaque para a Argélia).</p><p>No entanto, não é porque a população geral da África se recuperou que</p><p>deixaram de ocorrer grandes morticínios. O Congo belga, por exemplo, foi palco</p><p>da morte de mais de 3 milhões de africanos, resultado da política violenta e cruel</p><p>do rei da Bélgica na administração de sua colônia (Bolfarine, 2020)</p><p>Do ponto de vista religioso, quando da implantação do domínio colonial, a</p><p>ampla maioria dos africanos era adepta das diversas religiões tradicionais. O</p><p>islamismo era bastante popular no norte do continente e no Sudão, enquanto o</p><p>11</p><p>cristianismo se achava presente em enclaves ao sul do Saara, na África do Sul</p><p>e em regiões costeiras do ocidente africano.</p><p>Com o colonialismo, o cristianismo, religião dos colonizadores,</p><p>expandiu-se sobretudo com base na repressão e perseguição das religiões</p><p>tradicionais africanas. Cristianizar era também uma forma de impor a cultura e</p><p>valores europeus, e, por isso, a atividade dos missionários foi facilitada e</p><p>estimulada pelas diversas administrações coloniais. Já o islamismo foi mais bem</p><p>tolerado (mais tolerado pelos ingleses e menos pelos franceses). No geral, a</p><p>atitude dos africanos frente a imposição do cristianismo variou entre a aceitação,</p><p>a recusa e adaptação, e nesse contexto práticas sincréticas tornaram-se também</p><p>populares. Ainda assim, esse processo não gerou a extinção das religiões</p><p>tradicionais, que sobreviveram, dando à África um forte pluralismo religioso que</p><p>permanece até os dias atuais.</p><p>TEMA 4 – INDEPENDÊNCIA</p><p>O processo que leva à independência dos países africanos possui raízes</p><p>na própria resistência à implantação do colonialismo no século XIX, mas só veio</p><p>a acontecer, para a maior parte desses países, a partir do término da Segunda</p><p>Guerra Mundial.</p><p>Mas mesmo antes da guerra diversos movimentos nacionalistas,</p><p>panafricanistas, sociais e mesmo religiosos colocavam em xeque o domínio</p><p>colonial das nações europeias sobre o continente.</p><p>12</p><p>Figura 4 – Data de independência dos atuais países africanos</p><p>Crédito: João Moreira.</p><p>No campo do nacionalismo, os diversos movimentos com essa coloração</p><p>propunham a independência de seus países frente às metrópoles.</p><p>Caracterizaram-se tanto como movimentos literários e intelectuais como pela</p><p>fundação de associações e partidos políticos defensores dessa proposta.</p><p>Associações de jovens politizavam-se no continente, desafiando a administração</p><p>colonial. Sindicatos foram sendo paulatinamente fundados, representando um</p><p>entrave à superexploração da mão de obra local e abalando a autoridade</p><p>colonial. Ideias socialistas também circulavam pelo continente, dando base para</p><p>reivindicações de autonomia e de construção de outro modelo de sociedade.</p><p>A Segunda Guerra Mundial desembarcou na África com a invasão da</p><p>Etiópia pela Itália em outubro de 1935. O aumento geral do custo de vida e a</p><p>mobilização de soldados para lutarem na guerra são alguns dos efeitos imediatos</p><p>para o continente. A partir de 1943, os movimentos nacionalistas africanos já</p><p>reivindicam a independência, frente as suas metrópoles completamente</p><p>engajadas na guerra. O fim do conflito, em 1945, torna impossível o retorno ao</p><p>13</p><p>status colonial como era antes desse conflito. Está aberto o período de conflitos</p><p>e negociações pela independência da maioria dos países. Some-se a esse</p><p>cenário que os EUA, grande potência que emerge da guerra, não possui colônias</p><p>no continente, enquanto a URSS, sua oponente no pós-guerra, por sua vez, é</p><p>uma franca incentivadora dos processos de independência na África, de modo</p><p>que as potências capitalistas europeias, em especial Inglaterra e França, não se</p><p>encontravam em situação confortável para manter seu domínio. Mas também</p><p>Portugal, Espanha e Bélgica passaram a enfrentar dificuldades. A Itália, por sua</p><p>vez, derrotada e com suas forças armadas colapsadas, enfrentou também uma</p><p>difícil situação.</p><p>Os processos de independência tiveram os mais diferentes formatos e</p><p>dinâmicas. Na Tunísia, por exemplo, um movimento nacionalista exigia a</p><p>libertação e os camponeses praticavam ações armadas contra os franceses.</p><p>Negociações acabaram reconhecendo a independência em 1956. Na Argélia, as</p><p>lutas pela independência custaram a vida de mais de 1 milhão de argelinos até</p><p>a conquista da soberania em 1962. O Egito, que mantinha uma relação de</p><p>dependência com a Inglaterra, desligou-se de sua tutela com a chegada ao poder</p><p>de al-Nasser em 1952, apoiado pelas forças armadas locais.</p><p>A Etiópia, por sua vez, que havia se livrado dos italianos em 1942, acabou</p><p>sofrendo com a interferência inglesa em seu território, que foi sendo</p><p>paulatinamente eliminada por tratados até 1954, quando os últimos enclaves</p><p>britânicos passaram novamente ao controle do governo local. Madagascar, por</p><p>sua vez conheceu uma insurreição popular pela independência em 1947,</p><p>derrotada pela repressão. Um plebiscito sobre a independência em 1958 acabou</p><p>por recusar a soberania. No entanto, dois anos depois a Ilha se libertava do jugo</p><p>francês.</p><p>O Quênia viveu em 1952 a revolta mau-mau, uma violenta rebelião que</p><p>visava expulsar os britânicos. A independência só foi alcançada em 1962, após</p><p>insistentes manifestações de sindicatos e a ação de partidos nacionalistas. Na</p><p>Rodésia do Norte, foi por meio de eleições que o Nyasaland African Congress</p><p>(NAC) chegou ao governo local e proclamou a independência em 1964.</p><p>Já o sul da África, que era dividido em estados dominados por elites</p><p>brancas, foi efetivamente submetido ao controle britânico apenas em 1902, após</p><p>duas guerras entre os ingleses e os bôeres. Em 1910, esses diversos estados</p><p>14</p><p>foram unificados como a União Sul-Africana, ligada ao Império Britânico, mas</p><p>com ampla autonomia. Essa condição perdurou até 1961, quando a então África</p><p>do Sul desligou-se da coroa inglesa.</p><p>Em geral, as economias dos países independentes “eram caracterizadas</p><p>por uma produção voltada para o exterior e assentadas sobre um mercado</p><p>interno muito restrito” (Silvério, 2013, p. 509). E essa caracterização econômica</p><p>continua expressando em boa medida o cenário econômico africano atual, e, de</p><p>certa forma, de todo o mundo em desenvolvimento.</p><p>TEMA 5 – ANGOLA E MOÇAMBIQUE</p><p>Veremos agora, com um pouco mais de detalhe, dois processos de</p><p>colonização e independência, de Angola e de Moçambique, por guardarem uma</p><p>semelhança com o Brasil: foram países colonizados também por Portugal. Os</p><p>dois países também compartilharam um traço comum: seus movimentos de</p><p>libertação foram protagonizados por movimentos marxistas apoiados pela</p><p>URSS, e, por isso, se inscreveram na lógica da Guerra Fria, levando os EUA e</p><p>a África do Sul a apoiarem forças contrárias a esses movimentos e alimentando</p><p>guerras civis anticomunistas sangrentas, em que cerca de 1,5 milhão de pessoas</p><p>morreram nos dois países e cerca de 12 milhões tiveram que fugir de suas casas,</p><p>quando a população conjunta dessas nações não passava de 23 milhões de</p><p>pessoas (Hobsbawn, 1995, p. 422)</p><p>Em Angola, a luta pela independência teve como principal ator o</p><p>Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA), que se lançou em uma</p><p>luta de guerrilhas tentando tomar o controle da colônia, libertando</p><p>paulatinamente seu território. O MPLA foi fundado no final dos anos 1950</p><p>(Bitencourt, 1997), liderado por jovens angolanos que haviam estudado nas</p><p>universidades portuguesas e que receberam influência de ideias marxistas e</p><p>nacionalistas. Esse movimento era apoiado pela URSS.</p><p>Também lutou a guerra de independência a Frente Nacional de Libertação</p><p>de Angola (FNLA), movimento nacionalista criado na década de 1960 no norte</p><p>do país e ligada à etnia Bankoko (Vieira, 2018, p. 36). Também se constituía um</p><p>movimento guerrilheiro a UNITA (União pela Independência Total de Angola),</p><p>que passou a ter o apoio dos EUA e da África do Sul. Como se vê, o cenário da</p><p>15</p><p>Guerra Fria permeava a luta pela independência de Angola, além dos conflitos</p><p>regionais tipicamente africanos.</p><p>Figura 5 – Pavilhão nacional da Angola independente atesta o alinhamento da</p><p>nova nação com as ideias socialistas, nacionalistas e pan-africanistas: a meia</p><p>roda dentada simboliza os trabalhadores da indústria, a catana, instrumento de</p><p>trabalho agrícola, simboliza os trabalhadores do campo, e a estrela é um</p><p>tradicional símbolo da esquerda mundial. A cor vermelha representa o sangue</p><p>derramado nas lutas pela independência e o negro representa o continente</p><p>africano</p><p>Crédito: Алексей Струйский/Adobe Stock.</p><p>A independência foi conquistada em 1975, mas foi seguida de uma cruel</p><p>guerra civil que opôs o MPLA contra os outros dois grupos guerrilheiros. A luta</p><p>foi de tal dimensão que até tropas cubanas lutaram no país, ao lado do MPLA.</p><p>Foi esse grupo que efetivamente passou a governar a maior parte do território,</p><p>empossando Agostinho Neto como presidente da república. Com intervalos, a</p><p>guerra civil durou até 2002, quando finalmente um acordo de paz deu fim ao</p><p>conflito.</p><p>Já a independência de Moçambique teve como principal ator a Frente de</p><p>Libertação de Moçambique (Frelimo), também uma organização de inspiração</p><p>marxista fundada por exilados, que conduziu uma guerra de guerrilhas a partir</p><p>16</p><p>de 1964. Ocupando paulatinamente o território em duros combates contra as</p><p>tropas coloniais portugueses.</p><p>Em 1975, a independência do país é conquistada, mas dois anos depois</p><p>inicia-se uma guerra civil entre o governo e as forças da Resistência Nacional</p><p>Moçambicana (Renamo), movimento anticomunista apoiada pelo governo</p><p>racista da Rodésia. A guerra civil durou até 1992 provocando grande destruição</p><p>no país.</p><p>Por fim, outra importante questão que une os processos de</p><p>independências de Angola e Moçambique foi a Revolução dos Cravos, que é o</p><p>nome que se dá ao golpe protagonizado por oficiais de baixa patente</p><p>portugueses em 1974. Tal movimento, em grande parte causado pelo desgaste</p><p>das guerras coloniais, colocou fim ao tardio governo fascista português,</p><p>facilitando o processo de independência dos dois países.</p><p>FINALIZANDO</p><p>Vimos nesta aula como se processou a colonização do continente africano</p><p>no século XIX e XX, quais as consequências para este continente, e como se</p><p>processaram, em linhas gerais, os movimentos que resultaram no</p><p>reestabelecimento das nações independentes na África.</p><p>Pudemos perceber o quanto a dinâmica interna da história do continente</p><p>esteve ligada ao desenrolar da história fora do continente, em especial aos</p><p>interesses e necessidades das nações europeias, mas também aos conflitos que</p><p>se desenrolaram entre elas, como a Primeira e a Segunda Guerra Mundial.</p><p>Mas não só as guerras declaradas tiveram influência, como também a</p><p>chamada Guerra Fria, na qual a oposição entre capitalismo e socialismo</p><p>refletiu-se nos processos de independência do continente.</p><p>Com a independência os países africanos, irão compor o que</p><p>convencionou-se chamar durante muito tempo de Terceiro Mundo, e alguns de</p><p>seus países compuseram ainda o movimento dos países não alinhados,</p><p>buscando um caminho independente frente a polarização que marcava o século</p><p>XX.</p><p>17</p><p>NA PRÁTICA</p><p>Acesse o artigo de Cooper (2008) sobre história e historiografia da África</p><p>colonial, disponível em:</p><p>(acesso em: 9 set. 2021) e reflita sobre</p><p>as diferenças de abordagem da historiografia da África, da América Latina e da</p><p>Ásia no que se refere a este período.</p><p>Mia Couto, renomado escritor moçambicano que lutou na guerra de</p><p>independência de seu país, refletindo a posteriori sobre a independência</p><p>escreveu que</p><p>Nos gloriosos anos da luta de libertação nós gritávamos</p><p>“Independência ou Morte, Venceremos”. Hoje sabemos: a</p><p>independência não é mais do que a possibilidade de escolhermos as</p><p>nossas dependências. (Couto, 2005, p. 194)</p><p>Leia o texto completo do autor aqui:</p><p>(acesso em: 9 set. 2021) e reflita sobre o sentido do trecho</p><p>transcrito acima.</p><p>18</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BARBOSA, M. S. Pan-africanismo e relações internacionais: uma herança</p><p>(quase) esquecida. Revista Carta Internacional, n. 11, v. 114, 2016, p. 162.</p><p>BITENCOURT, M. A criação do MPLA. Estudos Afro-asiáticos, n. 185, 1997,</p><p>p. 208. Disponível em: . Acesso</p><p>em: 9 set. 2021.</p><p>BOLFARINE, M. Roger Casement e o congo belga: o trauma do imperialismo na</p><p>ficção. Revista Porto das Letras, n. 6, v. 15, 2020, p. 32. Disponível em:</p><p>. Acesso em: 9 set. 2021.</p><p>COOPER, F. Conflito e conexão: repensando a história colonial na África. Anos</p><p>90, v. 15, n. 27, 2008, p. 21-73.</p><p>COUTO, M. 30 anos de Independência: no passado, o futuro era melhor? Via</p><p>Atlântica, n. 191, 2005, p. 204. Disponível em:</p><p>. Acesso em: 9 set. 2021.</p><p>HOBSBAWN, E. Era dos extremos: o breve século XX (1914 - 1991). São</p><p>Paulo: Companhia das Letras, 1995.</p><p>LENIN, V. Imperialismo: fase superior do capitalismo. São Paulo: Centauro,</p><p>2003.</p><p>NOLETOCHAVES, L. C.; SANTOS, R. E. (2020). O neocolonialismo e a</p><p>emancipação da África: uma leitura a partir de KwameNkrumah. Kwanissa –</p><p>Revista de Estudos Africanos e Afro-Brasileiros, n. 118, 2020, p. 134.</p><p>Disponível em: . Acesso em: 9 set. 2021.</p><p>SILVÉRIO, V. R. Síntese da Coleção História Geral da África: História Geral</p><p>da África: século XVI ao XX. Brasília: Unesco, MEC, Ufscar, 2013.</p><p>19</p><p>VIEIRA, F. S. A república de Angola: O MPLA e o projeto de construção do</p><p>Estado-nação (2002-2012). Tese de Doutorado (Ciências Sociais). Araraquara:</p><p>Unesp, 2018.</p>

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