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. 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
PJC/MT 
Delegado de Polícia Substituto 
 
1 Direito Penal e Poder Punitivo. 1.1 Política Criminal e Criminologia. Noções básicas. 1.2 
Criminalização Primária e Secundária. 1.3 Seletividade do sistema penal. 1.4 Direito Penal de Autor e 
Direito Penal do Ato. 1.5 Garantismo Penal. 1.6 Direito Penal do Inimigo. 1.7 Evolução Histórica da 
Legislação Penal. História da Programação Criminalizante no Brasil. 1.8 Genealogia do Pensamento 
Penal. 1.9 Bem jurídico. ........................................................................................................................... 1 
 
2 Funções da Pena. Teorias. ............................................................................................................. 18 
 
3 Características e Fontes do Direito Penal. ...................................................................................... 20 
 
4 Princípios aplicáveis ao Direito Penal. ............................................................................................ 25 
 
5 Interpretação da lei penal. 5.1 Analogia. ......................................................................................... 32 
 
6 Aplicação da lei penal. 6.1 A lei penal no tempo e no espaço. 6.2 Tempo e lugar do crime. 6.3 
Territorialidade e extraterritorialidade da lei penal. 6.4 Pena cumprida no estrangeiro. 6.5 Eficácia da 
sentença estrangeira. 6.6 Contagem de prazo. 6.7 Frações não computáveis da pena. 6.8 Irretroatividade 
da lei penal. 6.9 Conflito aparente de normas penais. ............................................................................ 34 
 
7 Do Delito. 7.1 Classificação dos crimes. 7.2 Teoria da Ação. 7.3 Teoria do tipo. O fato típico e seus 
elementos. 7.4 Relação de causalidade. Teorias. Imputação objetiva. 7.5 Tipos dolosos de ação. 7.6 Tipos 
dos Crimes de Imprudência. 7.7 Tipos dos Crimes de Omissão. 7.8 Consumação e tentativa. 7.9 
Desistência voluntária e arrependimento eficaz. 7.10 Arrependimento posterior. 7.11 Crime impossível. 8 
Agravação pelo resultado. ...................................................................................................................... 52 
 
9 Erro. 9.1 Descriminantes putativas. 9.2 Erro determinado por terceiro. 9.3 Erro sobre a pessoa. 9.4 
Erro sobre a ilicitude do fato (erro de proibição). .................................................................................... 85 
 
10 Concurso de crimes. ..................................................................................................................... 91 
 
11 Ilicitude. ........................................................................................................................................ 94 
 
12 Culpabilidade. ............................................................................................................................. 100 
 
13 Concurso de Pessoas. ................................................................................................................ 107 
 
1307244 E-book gerado especialmente para FRANCISCO PELLIN JUNIOR
 
. 2 
14 Penas. 14.1 Espécies de penas. 14.2 Cominação das penas. 14.3 Aplicação da pena. 14.4 
Suspensão condicional da pena. 14.5 Livramento condicional. 14.6 Efeitos da condenação. 14.7 
Reabilitação. 14.8 Limites das penas. .................................................................................................. 113 
 
15 Medidas de segurança. 15.1 Execução das medidas de segurança. .......................................... 136 
 
16 Ação penal. ................................................................................................................................. 140 
 
17 Punibilidade e causas de extinção. 18 Prescrição. ...................................................................... 148 
 
19 Crimes contra a pessoa. ............................................................................................................. 156 
 
20 Crimes contra o patrimônio. ........................................................................................................ 192 
 
21 Crimes contra a propriedade imaterial. ....................................................................................... 224 
 
22 Crimes contra a organização do trabalho. ................................................................................... 227 
 
23 Crimes contra o sentimento religioso e contra o respeito aos mortos. ......................................... 233 
 
24 Crimes contra a dignidade sexual. .............................................................................................. 237 
 
25 Crimes contra a família. .............................................................................................................. 254 
 
26 Crimes contra a incolumidade pública. ........................................................................................ 263 
 
27 Crimes contra a paz pública. ....................................................................................................... 284 
 
28 Crimes contra a fé pública. ......................................................................................................... 290 
 
29 Crimes contra a administração pública. ...................................................................................... 310 
 
30 Lei nº 8.072/1990 e suas alterações (crimes hediondos). ........................................................... 353 
 
31 Lei nº 7.716/1989 e suas alterações (crimes resultantes de preconceitos de raça ou de cor). .... 363 
 
32 Lei nº 9.455/1997 (crimes de tortura). ......................................................................................... 369 
 
33 Lei nº 12.694/2012 e Lei nº 12.850/2013 (organização criminosa). ............................................. 375 
 
34 Lei nº 9.605/1998 e suas alterações (crimes contra o meio ambiente). ....................................... 396 
 
35 Lei nº 9.503/1997 e suas alterações (parte relativa aos crimes de trânsito). ............................... 411 
 
36 Lei nº 11.343/2006 (Lei Antidrogas). ........................................................................................... 424 
 
37 Lei nº 4.898/1965 (abuso de autoridade). ................................................................................... 444 
 
38 Lei nº 10.826/2003 e suas alterações (Estatuto do Desarmamento). .......................................... 452 
 
39 Lei nº 8.078/1990 e suas alterações (parte relativa aos crimes contra as relações de 
consumo). ............................................................................................................................................ 470 
 
40 Lei nº 9.613/1998 e suas alterações (Lavagem de dinheiro). ...................................................... 474 
 
41 Lei nº 8.069/1990 e suas alterações (Estatuto da Criança e do Adolescente). ............................ 487 
 
42 Direito Penal Econômico. ............................................................................................................ 563 
1307244 E-book gerado especialmente para FRANCISCO PELLIN JUNIOR
 
. 3 
43 Disposições constitucionais aplicáveis ao direito penal. .............................................................. 565 
 
44 Entendimento dos tribunais superiores acerca dos institutos de direito penal. ............................ 572 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Candidatos ao Concurso Público, 
O Instituto Maximize Educação disponibiliza o e-mail professores@maxieduca.com.br para dúvidas 
relacionadas ao conteúdo desta apostila como forma de auxiliá-los nos estudos para um bom 
desempenho na prova. 
As dúvidas serão encaminhadas para os professores responsáveis pela matéria, portanto, ao entrar 
em contato, informe: 
- Apostila (concursoe cargo); 
- Disciplina (matéria); 
- Número da página onde se encontra a dúvida; e 
- Qual a dúvida. 
Caso existam dúvidas em disciplinas diferentes, por favor, encaminhá-las em e-mails separados. O 
professor terá até cinco dias úteis para respondê-la. 
Bons estudos! 
 
 
 
1307244 E-book gerado especialmente para FRANCISCO PELLIN JUNIOR
 
. 1 
 
 
Caro(a) candidato(a), antes de iniciar nosso estudo, queremos nos colocar à sua disposição, durante 
todo o prazo do concurso para auxiliá-lo em suas dúvidas e receber suas sugestões. Muito zelo e técnica 
foram empregados na edição desta obra. No entanto, podem ocorrer erros de digitação ou dúvida 
conceitual. Em qualquer situação, solicitamos a comunicação ao nosso serviço de atendimento ao cliente 
para que possamos esclarecê-lo. Entre em contato conosco pelo e-mail: professores @maxieduca.com.br 
 
1 Direito Penal e Poder Punitivo. 
 
A vida em sociedade exige um complexo de normas disciplinadoras que estabeleça as regras 
indispensáveis ao convívio entre os indivíduos que a compõem. O conjunto dessas regras, denominado 
direito positivo, que deve ser obedecido e cumprido por todos os integrantes do grupo social, prevê as 
consequências e sanções aos que violarem seus preceitos. À reunião das normas jurídicas pelas quais o 
Estado proíbe determinadas condutas, sob ameaça de sanção penal, estabelecendo ainda os princípios 
gerais e os pressupostos para a aplicação das penas e das medidas de segurança, dá-se o nome de 
Direito Penal. 
O direito penal é o segmento do ordenamento jurídico que detém a função de selecionar os 
comportamentos humanos mais graves e perniciosos à coletividade, capazes de colocar em risco valores 
fundamentais para a convivência social, e descrevê-los como infrações penais, imputando-lhes, em 
consequência, as respectivas sanções além de estabelecer todas as regras complementares e gerais 
necessárias à sua correta e justa aplicação. 
A expressão Direito Penal, porém, designa também o sistema de interpretação da legislação penal, ou 
seja, a Ciência do Direito Penal, conjunto de conhecimentos e princípios ordenados metodicamente, de 
modo que torne possível a elucidação do conteúdo das normas e dos institutos em que eles se agrupam, 
com vistas em sua aplicação aos casos ocorrentes, segundo critérios rigorosos de justiça. 
 As denominações tradicionais para a matéria referente ao crime e às suas consequências são Direito 
Penal e Direito Criminal. A primeira delas é largamente utilizada, principalmente, nos países ocidentais, 
como Alemanha, França, Espanha, Itália etc., embora a segunda ainda seja usada com frequência. 
Entre nós, a denominação passou a ser utilizada no Código Penal da República (1890), a que se 
sucederam a Consolidação das Leis Penais (1936) e o Código Penal vigente (de 1940), que a consagrou 
no direito pátrio. A nova Constituição Federal, mantendo a tradição, refere-se à competência da União 
para legislar sobre "direito penal" (art. 22, I). 
O fato que contraria a norma de Direito, ofendendo ou pondo em perigo um bem alheio ou a própria 
existência da sociedade, é um ilícito jurídico, que pode ter consequências meramente civis ou possibilitar 
a aplicação de sanções penais. 
No primeiro caso, tem-se somente um ilícito civil, que acarretará àquele que o praticou apenas uma 
reparação civil: aquele que, por culpa, causar dano a alguém será obrigado a indenizá-lo; o devedor que 
não efetua o pagamento tempestivamente sofrerá a execução com a penhora de bens e sua venda em 
hasta pública, arcando com o ônus decorrente do atraso (multa, correção monetária etc.); o cônjuge que 
abandona o lar estará sujeito ao divórcio, etc. 
 
 
 
1 Direito Penal e Poder Punitivo. 1.1 Política Criminal e Criminologia. 
Noções básicas. 1.2 Criminalização Primária e Secundária. 
1.3 Seletividade do sistema penal. 1.4 Direito Penal de Autor e Direito 
Penal do Ato. 1.5 Garantismo Penal. 1.6 Direito Penal do Inimigo. 
1.7 Evolução Histórica da Legislação Penal. História da Programação 
Criminalizante no Brasil. 1.8 Genealogia do Pensamento Penal. 
1.9 Bem jurídico. 
1307244 E-book gerado especialmente para FRANCISCO PELLIN JUNIOR
 
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Porém, muitas vezes, essas sanções civis se mostram insuficientes para coibir a prática de ilícitos 
jurídicos graves, que atingem não apenas interesses individuais, mas também bens jurídicos relevantes, 
em condutas profundamente lesivas à vida social. Arma-se o Estado, então, contra os respectivos autores 
desses fatos, cominando e aplicando sanções severas por meio de um conjunto de normas jurídicas que 
constituem o Direito Penal. Justificam-se as disposições penais quando meios menos incisivos, como os 
de Direito Civil ou Direito Público, não bastam ao interesse de eficiente proteção aos bens jurídicos. 
O objetivo do Direito Penal é proteger os valores fundamentais para a subsistência do corpo social, 
tais como a vida, a saúde, a liberdade, a propriedade etc., denominados bens jurídicos. 
Essa proteção é exercida não apenas pela intimidação coletiva, mais conhecida como prevenção geral 
e exercida mediante a difusão do temor aos possíveis infratores do risco da sanção penal, mas, sobretudo 
pela celebração de compromissos éticos entre o Estado e o indivíduo, pelos quais se consigna o respeito 
às normas, menos por receio de punição e mais pela convicção da sua necessidade e justiça. 
Como o Estado não pode aplicar as sanções penais arbitrariamente, na legislação penal são definidos 
esses fatos graves, que passam a ser ilícitos penais (crimes e contravenções), estabelecendo-se as 
penas e as medidas de segurança aplicáveis aos infratores dessas normas. 
Assim, àquele que pratica um homicídio simples, será aplicada a pena de seis a vinte anos de reclusão; 
o inimputável que comete um ilícito penal será submetido a uma medida de segurança; ao chamado semi-
imputável poder-se-á aplicar uma pena ou submetê-lo a uma medida de segurança, etc. 
Segundo o pensamento dos juristas Binding e Jescheck, o Direito Penal tem, assim, um caráter 
fragmentário, pois não encerra um sistema exaustivo de proteção aos bens jurídicos, mas apenas elege, 
conforme o critério do "merecimento da pena", determinados pontos essenciais. Mas, enquanto o primeiro 
entendia ser esse o defeito do Direito Penal, Jescheck considera um mérito e uma característica essencial 
do Estado liberal do Direito que se reduza a criminalização àquelas ações que, por sua perigosidade e 
reprovabilidade, exigem e merecem no interesse da proteção social, inequivocamente, a sanção penal. 
Pode-se dizer, assim, que o fim do Direito Penal é a proteção da sociedade e, mais precisamente, a 
defesa dos bens jurídicos fundamentais (vida, integridade física e mental, honra, liberdade, patrimônio, 
dignidade, paz pública etc.). Deve-se observar, contudo, que alguns desses bens jurídicos não são 
tutelados penalmente quando, a critério do legislador, não é relevantemente antissocial a ação que o 
lesou, ou seja, não é acentuado o desvalor da conduta do autor da lesão. 
Por isso, não estão sujeitos às sanções penais, por exemplo, aquele que, culposamente, destrói coisa 
alheia, o que pratica um ato obsceno em lugar privado não aberto ou exposto ao público desde que não 
constitua um crime contra a honra etc. 
Do exposto, derivam as definições de Direito Penal que passamos a reproduzir: "é o conjunto de 
normas jurídicas que o Estado estabelece para combater o crime, através das penas e medidas de 
segurança", é o conjunto de normas jurídicas que regulam o poder punitivo do Estado, tendo em vista os 
fatos de natureza criminal e as medidas aplicáveis a quem os prática; "é o conjunto de normas que ligam 
ao crime, como fato, a pena como consequência, e disciplinam também as relações jurídicas daí 
derivadas, para estabelecer a aplicabilidade de medidasde segurança e a tutela do direito de liberdade 
em face do poder de punir do Estado"; é "o conjunto de normas e disposições jurídicas que regulam o 
exercício do poder sancionador e preventivo do Estado, estabelecendo o conceito do crime como 
pressuposto da ação estatal, assim como a responsabilidade do sujeito ativo, e associando à infração da 
norma uma pena finalista ou uma medida de segurança". 
Não se pode deixar de reconhecer, entretanto, que, ao menos em caráter secundário, o Direito Penal 
tem uma aspiração ética: deseja evitar o cometimento de crimes que afetam de forma intolerável os bens 
jurídicos penalmente tutelados. Essa finalidade ética não é, todavia, um fim em si mesmo, mas a razão 
da prevenção penal, da tutela da lei penal aos bens jurídicos preeminentes. Assim, a tarefa imediata do 
Direito Penal é de natureza eminentemente jurídica e, como tal, primordialmente destinada à proteção 
dos bens jurídicos. 
Diz-se que o Direito Penal é uma ciência cultural e normativa. É uma ciência cultural porque indaga o 
dever ser, traduzindo-se em regras de conduta que devem ser observadas por todos no respeito aos mais 
relevantes interesses sociais. Diferencia-se, assim, das ciências naturais, em que o objeto de estudo é o 
ser, o objeto em si mesmo. 
É também uma ciência normativa, pois seu objeto é o estudo da lei, da norma, do direito positivo, como 
dado fundamental e indiscutível em sua observância obrigatória. Não se preocupa, portanto, com a 
verificação da gênese do crime, dos fatos que levam à criminalidade ou dos aspectos sociais que podem 
determinar a prática do ilícito, preocupações próprias das ciências causais explicativas, como a 
Criminologia, a Sociologia Criminal etc. 
 
 
1307244 E-book gerado especialmente para FRANCISCO PELLIN JUNIOR
 
. 3 
O Direito Penal positivo é valorativo, finalista e sancionador. 
 
A norma penal é valorativa, porque tutela os valores mais elevados da sociedade, dispondo-os em 
uma escala hierárquica e valorando os fatos de acordo com a sua gravidade. Quanto mais grave o crime, 
o desvalor da ação, mais severa será a sanção aplicável a seu autor. 
Tem ainda a lei penal caráter finalista, pois visa à proteção de bens e interesses jurídicos 
merecedores da tutela mais eficiente que só podem ser eficazmente protegidos pela ameaça legal de 
aplicação de sanções de poder intimidativo maior, como a pena. Essa prevenção é a maior finalidade da 
lei penal. 
No tocante ao seu objeto, tem-se que o Direito penal somente pode dirigir os seus comandos legais, 
mandando ou proibindo que se faça algo, ao homem, pois somente este é capaz de executar ações com 
consciência do fim. Assim, lastreia-se o Direito Penal na voluntariedade da conduta humana, na 
capacidade do homem para querer um final. 
Desse modo, o âmbito da normatividade jurídico-penal limita-se às atividades finais humanas. Disso 
resulta a exclusão do âmbito de aplicação do Direito Penal de seres como os animais, que não têm 
consciência do fim de seu agir, fazendo-o por instinto, bem como dos movimentos corporais causais, 
como os reflexos, não domináveis pelo homem. 
Discute-se se o Direito Penal é constitutivo, primário e autônomo ou se tem caráter sancionador, 
secundário e acessório. 
Afirma-se que se trata de um direito constitutivo, porque possui um ilícito próprio, oriundo da 
tipicidade, uma sanção peculiar (pena), e institutos exclusivos como o sursis, o livramento condicional, o 
indulto, etc. Lembra Walter de Abreu Garcez que "as normas jurídicas não se recolhem a comportamentos 
isolados, mas sim atuam em harmonia no quadro de uma sistematização geral, sem que por tais 
correlações se possa falar em acessoriedade, secundariedade ou complementariedade de umas e 
outras". Tal interação não retiraria, portanto, o caráter constitutivo do Direito Penal. 
Em princípio, porém, não se pode falar de autonomia do ilícito penal e, portanto, do caráter 
constitutivo do Direito Penal. A contrariedade do fato ao direito não é meramente de ordem penal; sua 
antijuridicidade resulta de sua infração a todo o ordenamento jurídico. 
A lei penal, portanto, não cria a antijuridicidade, mas apenas se limita a cominar penas às condutas 
que já são antijurídicas em face de outros ramos do Direito (Civil, Comercial, Administrativo, Tributário, 
Processual etc.), e a descriminalização de um fato não lhe retirará a sua ilicitude. Revela-se, assim, que 
a norma penal é sancionadora, reforçando a tutela jurídica dos bens regidos pela legislação extrapenal. 
A tutela penal alcança bens jurídicos que não são objeto das leis extrapenais, como a integridade física 
e a vida, por exemplo, no crime de omissão de socorro, em que ocorre a infração a uma simples regra de 
solidariedade humana é elevada à categoria de ilícito penal. Também as tentativas e os crimes de perigo 
em que não haja qualquer dano restariam sem sanção jurídica se não fosse à existência do Direito Penal 
positivo. Por essa razão, o mais correto é afirmar, como Zaffaroni, que "o Direito Penal é 
predominantemente sancionador e excepcionalmente constitutivo". 
Como ciência jurídica, o Direito Penal tem caráter dogmático, já que se fundamenta no direito positivo, 
exigindo-se o cumprimento de todas suas normas pela sua obrigatoriedade. Por essa razão, seu método 
de estudo não é experimental, como por exemplo, na Criminologia, mas técnico jurídico. Desenvolve-se 
esse método na interpretação das normas, na definição de princípios, na construção de institutos próprios 
e na sistematização final de normas, princípios e institutos. 
Deve o estudioso de Direito Penal, contudo, evitar o excesso de dogmatismo, já que a lei e a sua 
aplicação, pelo íntimo contato com o indivíduo e a sociedade, exigem que se observe a realidade da vida, 
suas manifestações e exigências sociais e a evolução dos costumes. 
A norma penal em um Estado Democrático de Direito não é somente aquela que formalmente descreve 
um fato como infração penal, pouco importando se ele ofende ou não o sentimento social de justiça; ao 
contrário, sob pena de colidir com a Constituição, o tipo incriminador deverá obrigatoriamente selecionar, 
dentre todos os comportamentos humanos, somente aqueles que realmente possuam lesividade social. 
Os princípios constitucionais e as garantias individuais devem atuar como balizas para a correta 
interpretação e a justa aplicação das normas penais, não se podendo cogitar de uma aplicação 
meramente robotizada dos tipos incriminadores, ditada pela verificação rudimentar da adequação típica 
formal, descuidando-se de qualquer apreciação ontológica do injusto. 
 
 
 
 
 
1307244 E-book gerado especialmente para FRANCISCO PELLIN JUNIOR
Iara
Realce
 
. 4 
1.1 Política Criminal e Criminologia. 
 
A criminologia é ciência moderna, sendo um modo específico e qualificado de conhecimento e uma 
sistematização do saber de várias disciplinas. A partir da experimentação desse saber multidisciplinar 
surgem teorias (um corpo de conceitos sistematizados que permitem conhecer um dado domínio da 
realidade). 
Enquanto ciência, a criminologia possui objeto próprio e um rigor metodológico (método) que inclui a 
necessidade de experimentação, a possibilidade de refutação de suas teorias e a consciência da 
transitoriedade de seus postulados. Ainda que interdisciplinar, é também ciência autônoma, não se 
confundindo com nenhuma das áreas que contribuem para a sua formação e sem deixar de considerar o 
jogo dialético da realidade social como um todo. 
O objeto da criminologia é o crime, o criminoso (que é o sujeito que se envolve em uma situação 
criminógena de onde deriva o crime), os mecanismos de controle social (formais e informais) que 
atuam sobre o crime; e a vítima (que às vezes pode ter, inclusive, certa culpa no evento). 
A relevância da criminologia reside no fato de que não existe sociedadesem crime. Ela contribui para 
o crescimento do conhecimento científico com uma abordagem adequada do fenômeno criminal. O fato 
de ser ciência não significa que ela esteja alheia a sua função na sociedade - muito pelo contrário, ela se 
filia ao princípio de justiça social. 
Os estudos em criminologia têm como finalidade, entre outros aspectos, determinar a etiologia do 
crime, fazer uma análise da personalidade e conduta do criminoso para que se possa puni-lo de forma 
justa (que é uma preocupação da criminologia e não do Direito Penal), identificar as causas determinantes 
do fenômeno criminógeno, auxiliar na prevenção da criminalidade e permitir a ressocialização do 
delinquente. 
Os estudos em criminologia se dividem em dois ramos que não são independentes, mas sim 
interdependentes. Temos de um lado a Criminologia Clínica (bioantropológica) - esta se utiliza do método 
individual (particular, análise de casos, biológico, experimental) que envolve a indução. De outro lado 
vemos a Criminologia Penal (sociológica) - utiliza-se do método estatístico (de grupo, estatístico, 
sociológico, histórico) que enfatiza o procedimento de dedução. 
 
A função da Criminologia como ciência interdisciplinar e empírica é assegurar um núcleo de 
conhecimentos seguros que tenham relação com o crime, a pessoa do delinquente, a vítima e o 
controle social. 
 
A disciplina Política Criminal muito raramente é estudada nos cursos de graduação, muito embora, a 
todo tempo, seja feita menção a seus ensinamentos, sem que se tenha plena consciência de todas as 
abordagens que estão inseridas no seu universo. 
É bastante frequente se estabelecerem confusões entre Política Criminal e Criminologia ou mesmo 
entre elas e o Direito penal (principalmente no que diz respeito à Dogmática jurídico-penal). 
Como visto acima, a Criminologia possui uma dimensão e uma estrutura científica próprias, 
informadoras das estratégias que a Política Criminal estabelece para o controle (“combate”) da 
criminalidade. 
Importante ressaltar, desde logo, que o ramo repressivo do Direito não é o único meio recomendado 
pela Política Criminal para a diminuição da violência. Inúmeras outras medidas de cunho político podem 
ser adotadas a partir das conclusões da Política Criminal. Investimentos em programas como o Escola 
Aberta, por exemplo, podem ser utilizados, eficazmente, nessa difícil tarefa. 
Concernentemente à Política Criminal, pode-se dizer, com Jorge de Figueiredo Dias, que o tempo atual 
é o da Política Criminal. “É das suas proposições ou mandamentos fundamentais, encontrados no campo 
de projeção dos problemas jurídicos sobre o contexto mais amplo da política social, que será lícito esperar 
um auxílio decisivo no domínio desse flagelo das sociedades atuais que é o crime.” 
A Política Criminal é vista como “conjunto sistemático de princípios e regras através dos quais o 
Estado promove a luta de prevenção e repressão das infrações penais.” Para Claus Roxin, “a 
questão pertinente a como devemos proceder quando há infringência das regras básicas de convivência 
social, causando danos ou pondo em perigo os indivíduos ou a sociedade, conforma o objeto criminal”. 
A capacidade de o sistema sancionatório resolver os problemas que lhe são destinados depende muito 
das investigações empíricas sobre os instrumentos e a forma de utilizá-los. É a Criminologia que, 
fundamentalmente, fornece base para as investigações acerca da melhor forma de resguardar a 
sociedade contra a violência, sendo, portanto, de capital importância as suas conclusões. Como “ciência 
1307244 E-book gerado especialmente para FRANCISCO PELLIN JUNIOR
 
. 5 
empírica do delito, [a Criminologia] traz os imprescindíveis dados acerca do fenômeno criminal e das suas 
diversas instâncias (delinquente, vítima, aparatos do controle social)”. 
Também é com base nos estudos criminológicos que se poderá concluir pela redução, ou não, dos 
efeitos danosos do Direito penal, ou seja, de seu quantum de violência, sem que isso implique perda de 
efeito integrador, com incremento da violência social, aumentando a taxa de delitos ou de fenômenos de 
vingança privada. 
A Política Criminal, dentro desse contexto, depende do conhecimento empírico da criminalidade, dos 
seus níveis e das suas causas, objetos que são da Criminologia. É sua a tarefa de transformação das 
teorizações da Criminologia em opções e estratégias de controle da criminalidade a serem 
utilizadas pelo Estado. 
A moderna Política Criminal (de base criminológica), “opera mediante a valoração (desde concretas 
perspectivas jurídico-políticas) dos dados empíricos recolhidos pela Criminologia”. É com fundamento em 
tais valorações que se deve construir, aplicar, elaborar e criticar o Direito penal. A Política Criminal deve 
operar tanto no plano do direito a constituir como no do direito constituído. E, mais do que isso, quando a 
Criminologia alarga seu objeto de estudo para abranger a totalidade do sistema de aplicação da justiça 
penal (e não mais somente o sistema penal), preocupações com eventuais efeitos criminógenos da 
própria lei penal também passam a ser objeto da Política Criminal, criando, com isso, estratégias que vão 
além da intervenção penal, sendo exemplo disso os movimentos de descriminalização, desjudicialização, 
diversificação, etc. 
No dizer de FIGUEIREDO DIAS, a Política Criminal constitui “a pedra angular de todo o discurso legal-
social da criminalização-descriminalização”. 
Vê-se, assim, que os postulados político-criminais devem ser levados em consideração desde o 
momento anterior à própria existência do Direito Penal (processo legislativo), passando pela fase judicial 
e executorial, e, mesmo, chegando ao momento posterior, ou seja, quando são recolhidas as conclusões 
acerca de eventuais efeitos criminógenos de dada tipificação penal, para o fim de propor outros e mais 
aprimorados encaminhamentos. 
 
A Política Criminal é uma das grandes contribuintes para prevenção e repressão da criminalidade. 
Trata-se de um programa de objetivos, métodos de procedimentos que foi adotado pela polícia criminal 
e pelo Ministério Público. 
 
Atualmente, a moderna Política Criminal atua de acordo com a valoração dos dados que são obtidos 
pela Criminologia e são estes que serviram de base para a aplicação do Direito Penal. 
 
1.2 Criminalização Primária e Secundária1 
 
A criminalização é o resultado de processos de definição e seleção que escolhem determinados 
indivíduos aos quais se atribui status de criminoso. A atividade de criminalização, desempenhada pelo 
Estado, desenvolve-se em duas etapas, denominadas respectivamente de criminalização primária e 
criminalização secundária. 
Criminalização primária é o ato e o efeito de sancionar de uma lei primária material, que incrimina ou 
permite a punição de determinadas pessoas. Trata-se de um ato formal, fundamentalmente programático, 
pois, quando se estabelece que uma conduta deve ser punida, enuncia-se um programa, o qual deve ser 
cumprido pelos entes estatais (polícias, Ministério Público, Poder Judiciário, etc.). 
Por sua vez, a criminalização secundária é a ação punitiva exercida sobre pessoas concretas. 
Verifica-se quando os órgãos estatais detectam um indivíduo, a quem se atribui a prática de um ato 
primariamente criminalizado, sobre ele recaindo a persecução penal. Para ZAFFARONI, a criminalização 
secundária possui duas características: seletividade e vulnerabilidade, pois há forte tendência de ser o 
poder punitivo exercido precipuamente sobre pessoas previamente escolhidas em face de suas 
fraquezas, a exemplo dos moradores de rua, prostitutas e usuários de drogas. Este fenômeno guarda 
íntima relação com o movimento criminológico conhecido como labeling approach (teoria da rotulação 
ou do etiquetamento): aqueles que integram a população criminosa são estigmatizados, rotulados ou 
etiquetadoscomo sujeitos contra quem normalmente se dirige o poder punitivo estatal. 
 
 
 
 
 
1 Cleber Masson. Direito Penal. Vol. 1. Parque Geral. Esquematizado. 8ª edição. Editora Método. 2014 
1307244 E-book gerado especialmente para FRANCISCO PELLIN JUNIOR
 
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1.3 Seletividade do sistema penal. 
 
A humanidade sempre se utilizou de várias formas de controle social, várias maneiras diferentes de 
determinar como um indivíduo deve pensar, agir e até mesmo sentir. Tudo isso em prol da vida em 
sociedade, para que se possa coabitar o mesmo espaço reduzindo os conflitos típicos de animais em 
busca de sobrevivência. 
O controle social é altamente discriminatório e seletivo. Enquanto os estudos empíricos demonstram 
o caráter majoritário e ubíquo do comportamento delitivo, a etiqueta de delinquente, sem embargo, 
manifesta-se como um fator negativo que os mecanismos de controle social repartem com o mesmo 
critério de distribuição de bens positivos (fama, riqueza, poder, etc.): levando em conta o status e o papel 
das pessoas. De modo que as "chances" ou "riscos" de ser etiquetado como delinquente não dependem 
tanto da conduta executada (delito), senão da posição do indivíduo na pirâmide social (status). 
O fenômeno do crime, ou delito, como queira, é bastante democrático. O dono do banco o assalta de 
forma diferente daquela que outro indivíduo o faz ao entrar pela porta da frente com uma arma na mão. 
Entretanto, há a perpetração de uma conduta delituosa nos dois exemplos. Essas constatações são 
possíveis graças à mudança de enfoque no estudo dos fenômenos criminais e seus atores, como afirma 
BARATTA: "... o deslocamento do interesse cognitivo das causas do desvio criminal para os mecanismos 
sociais e institucionais através dos quais é construída a ‘realidade social’ do desvio, ou seja, para os 
mecanismos através dos quais são criadas e aplicadas as definições de desvio e de criminalidade e 
realizados os processos de criminalização. Opondo ao enfoque biopsicológico o enfoque 
macrossociológico, a criminologia crítica historiciza a realidade comportamental do desvio e ilumina a 
relação funcional ou disfuncional com as estruturas sociais, com o desenvolvimento das relações de 
produção e de distribuição." 
Isso fez a criminologia dar um salto qualitativo ao deixar de analisar, fundamentalmente, o paradigma 
naturalístico como teoria das causas da criminalidade. A concepção lombrosiana do criminoso nato, 
aquele com caracteres predefinidos e que, biologicamente, teria as características do comportamento 
criminoso, já não possui o mesmo status de veracidade quando se analisam as questões nessa nova 
perspectiva. 
Neste sentido, verificamos ser mais adequado usar a expressão Direito Criminal ao invés de Direito 
Penal, ampliando assim o enfoque de estudo da ciência. Desviada unicamente para o delinquente e a 
pena, quando deveria discutir abertamente os demais elementos constitutivos, a saber: o crime em si (a 
conduta perpetrada socialmente), o criminoso (em sua acepção social e histórica), a vítima e os demais 
componentes do chamado Sistema Penal. Ainda sob a égide dos ensinamentos do professor BARATTA: 
"A superação deste paradigma comporta, também, a superação de suas implicações ideológicas: a 
concepção do desvio e da criminalidade como realidade ontológica preexistente à reação social e 
institucional e a aceitação acrítica das definições legais como princípio de individualização daquela 
pretendida realidade ontológica – duas atitudes, além de tudo, contraditórias entre si." 
A etiqueta de criminoso e, consequentemente, a persecução penal não recairá, assim, sobre qualquer 
pessoa que infrinja uma norma penal; ao contrário, a seletividade do sistema faz com que só recaia 
sobre aqueles que são visados já quando da criação das normas. 
Assim, há uma clara demonstração de que não somos todos igualmente "vulneráveis" ao sistema 
penal, que costuma se orientar por "estereótipos" os quais recolhem os caracteres dos setores 
marginalizados e humildes; a criminalização gera fenômeno de rejeição do etiquetado como também 
daquele que se solidariza ou contata com ele, de forma que a segregação se mantém na sociedade livre. 
A posterior perseguição por parte das autoridades com rol de suspeitos permanentes incrementa a 
estigmatização social do criminalizado. 
Então, existe um discurso usado na criação das normas penais, o de que são normas genéricas e 
abstratas e que não visam a pessoas definidas, mas sim, e apenas, condutas que não podem ser 
toleradas para o bem da comunidade, para que o convívio em sociedade seja possível. Porém esse 
discurso é falso. As normas criminalizam pessoas, sob o argumento de que visam criminalizar condutas. 
Assim, o discurso que justifica a criação de normas penais implementam uma realidade extremamente 
cruel às classes mais pobres, pois é exatamente ali que se encontram a quase totalidade dos indivíduos 
selecionados pelo sistema e criminalizados. 
Como a criação de uma norma penal se justifica, precipuamente, com o discurso da prevenção geral, 
incutir na sociedade o medo da punição - que é determinada para as condutas tipificadas - são criadas 
normas para punir condutas delitivas importantes para a sociedade. Entretanto, como se justifica a 
escolha das condutas a serem punidas? E mais, como se justifica o grau de reprovabilidade de cada uma 
das condutas tipificadas? 
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É preciso que se determinem padrões aceitáveis a serem utilizados quando da validação de possíveis 
respostas a essas questões, ou seja, é preciso que se estabeleçam padrões legais destinados à análise 
dos fundamentos que justificam a punição a determinadas condutas ditas delitivas, e mais, esses mesmos 
padrões devem validar também o quanto de pena se determina a essas condutas. 
No sistema jurídico brasileiro quem determina a forma de atuação do Estado, suas competências e 
também seus limites é a Constituição Federal, notadamente quando impõe os limites ao poder estatal de 
interferir nas liberdades individuais, mas também impõe valores a serem protegidos pelo Estado no intuito 
de proteger os indivíduos. 
 
1.4 Direito Penal de Autor e Direito Penal do Ato2. 
 
Discute-se muito se o autor de uma conduta delituosa deve ser punido pelo que é (direito penal do 
autor), pelo que fez (direito penal do fato ou da culpa), pelos dois motivos concomitantemente ou, até 
mesmo, ora por um, ora por outro. 
É possível, a grosso modo, dividir o mundo em dois blocos: de um lado os países que adotam o direito 
penal do fato e, de outro, os países que adotam o direito penal do autor. 
O sistema penal brasileiro, que é o que nos interessa diretamente nestas reduzidas reflexões, adotou, 
para caracterizar o crime, o direito penal do fato. Entretanto, para a fixação da pena, regime de 
cumprimento da pena, espécie de sanção, entre outros, adotou o direito penal do autor (CP, art. 59). 
Isso significa que, no nosso caso, para responsabilizar penalmente alguém pela prática de uma 
conduta criminosa, impõe-se ao Estado, por meio do trabalho inicial, de regra, da polícia judiciária 
(inquérito policial) e do Ministério Público, deste em juízo (processo), provar, de forma induvidosa, a sua 
concorrência direta ou indiretamente para a prática da conduta que lhe foi imputada. 
Nessa perspectiva não interessa o histórico ou antecedente do investigado ou suspeito. Por mais 
criminoso que seja o possível autor da infração, assim mesmo, para a sua condenação, impõe-se ao autor 
da ação penal, que, em regra, é o Ministério Público (estadual ou federal), obedecendo aos princípios 
constitucionais do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa, por meios lícitos, provar 
cabalmente o seu envolvimento. 
É nessa linha de raciocínioque se deve entender a afirmação técnica e bastante conhecida de que o 
que não está nos autos não está no mundo. Ou seja, mesmo que se tenha certeza de que A foi o autor 
da morte de C ou de que o caminhão carregado de maconha apreendido seja procedente da fronteira do 
Brasil com o Paraguai (Cel. Sapucaia, Ponta Porã), por pior que sejam os antecedentes dos possíveis 
autores, se essa certeza não vier para os autos do processo, a respectiva condenação não poderá ser 
concretizada. 
Se de um lado isso é ruim porque passa à sociedade a sensação de impunidade, de outro, é positivo 
porque impede a injustiça. É igualmente dessa ideia que surgiu a afirmação popular de que mais vale um 
bandido solto do que um inocente preso, o que reforça, com efeito, o princípio de que a pessoa deve ser 
punida não pelo que é e sim pelo que fez. 
A base jurídico-filosófica desse princípio está no Estado de Direito. 
A partir da ideia do direito penal do fato é que se justifica a não punição nos chamados crimes 
impossíveis previstos nos nosso Código Penal, embora a tentativa tenha se verificado. Para exemplificar, 
vamos imaginar a hipótese em que um temeroso matador profissional seja contratado para matar A e, 
para executar com sucesso a tarefa, disparou sua arma contra a vítima no momento que dormia. Contudo, 
por meio de exame pericial, constatou-se que A já se encontrava morta por ocasião dos disparos. Neste 
caso, não obstante a intenção de matar e os antecedentes do matador profissional, ele não responderá 
pela morte porque não foi o autor do fato (morte). Poderá sim ser responsabilizado penalmente por porte 
ilegal de arma etc, mas não pela morte em si. 
Agora, para a fixação da pena, espécie de pena, regime de cumprimento, substituição, transação penal 
etc, que é um momento posterior à imputação (responsabilização penal), aí sim, o nosso sistema penal 
adotou o chamado direito penal do autor, eis que nessas hipóteses o juiz levará em consideração, entre 
outras, o grau de culpabilidade (reprovabilidade) do autor do crime, seus antecedentes, as consequências 
do crime etc. Por exemplo, quem sequestra alguém, mesmo que nos chamados sequestros relâmpagos, 
e o mantém sob a mira da arma e com outros tipos de ameaças/violências até que o carro seja entregue 
no país vizinho ou que o dinheiro seja sacado do caixa eletrônico, necessariamente deve receber uma 
punição maior. 
 
 
2 ROBALDO, José Carlos de Oliveira. Direito Penal do autor ou Direito Penal do fato? Disponível em http://www.lfg.com.br. 28 julho. 2009. 
Acessado em: 20 de março de 2017. 
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Disso se conclui que, para responsabilizar alguém pela prática de um crime, o sistema penal brasileiro 
leva em consideração o direito penal do fato, enquanto que para punir, aplicar a pena no caso concreto, 
tem como base o direito penal do autor. 
 
1.5 Garantismo Penal. 
 
Antes de falarmos sobre o garantismo penal, cabe destacar o que ensina a doutrina sobre o Direito 
Penal mínimo. 
O penalista e doutrinador Paulo Queiroz diz: “Dizer que a intervenção do Direito Penal é mínima 
significa dizer que o Direito Penal deve ser a ultima ratio (último recurso), limitando e orientando o poder 
incriminador do Estado, preconizando que a criminalização de uma conduta somente se justifica se 
constituir um meio necessário para a proteção de determinado bem jurídico. O Direito Penal somente 
deve atuar quando os demais ramos do Direito forem insuficientes para proteger os bens jurídicos em 
conflito.” 
Pelo Direito Penal Mínimo se outras formas de sanção ou controle social forem eficazes e suficientes 
para a tutela dos bens jurídicos, a sua criminalização não é recomendável conflitando com um Direito 
Penal simbólico que atualmente se insere no ordenamento jurídico pátrio. 
 
No atual contexto brasileiro, de um Estado Democrático de Direito, é difícil negar que o Direito Penal 
mais coerente seja o chamado Direito Penal Mínimo. Ou seja, um Direito Penal assentado nas máximas 
garantias constitucionais; sobretudo, nos princípios basilares advindos, expressa ou implicitamente, da 
Constituição Federal, tais como: o princípio da dignidade da pessoa humana (base de todos os outros), 
o princípio da intervenção mínima, princípio da ofensividade, princípio da insignificância, princípio da 
legalidade, dentre tantos outros. 
Assim, de acordo com Callegari, se faz necessária uma efetiva descriminalização de certos tipos 
penais que realmente não afrontam bens jurídicos importantes. A manutenção desses tipos 
incriminadores, de pouca relevância, só atrapalha a atividade policial, que ao invés de estar atuando nos 
casos de real importância, perde seu tempo com verdadeiras bagatelas; também, o exercício da Justiça 
Criminal, que se mantém emperrada devido ao grande número de processos versando sobre questões 
irrelevantes. 
 
Garantismo 
 
Como resposta ao exarcerbado poder punitivo conferido ao Estado, surge no mundo jurídico uma 
doutrina criminológica de aplicação processual penal, difundida pelo emérito jurista Luigi Ferrajoli: o 
Garantismo Penal, ou conforme alguns doutrinadores preferem denominar, o Neoclassicismo. 
Em seu livro Derecho y Razón (Direito e Razão), Ferrajoli apresenta um modelo de aplicação da lei 
penal adjetiva, visando a ampliação da liberdade do homem em detrimento da restrição do poder estatal, 
minimizando o jus penales puniendi (direito penal de punir). É uma solução para a histórica antítese entre 
liberdade do homem e poder estatal. 
As palavras direito, privilégio, isenção, responsabilidade e segurança são expressas em nossa língua 
como sinônimas do vocábulo garantia, utilizado em nosso ordenamento jurídico pelo direito constitucional 
como prerrogativa da cidadania. 
Tornou-se comum os operadores do direito confundirem o garantismo com o abolicionismo penal, 
sendo este a defesa da liberdade selvagem do homem enquanto que aquele rechaça tal doutrina 
afirmando que o Estado tem o dever de regrar tal independência. O garantismo também repele o Estado 
Liberal que age com excesso no direito de punir. 
Conceitua-se Garantismo Penal como o modelo de direito consistente em uma liberdade regrada, 
sendo o meio-termo entre o Abolicionismo Penal e o Estado Liberal. 
No nosso conjunto de leis já vemos algumas inovações que primam pela aplicação desse ideal 
criminológico-processual, como a Lei n.º 11.006/2006 que revogou o crime de adultério, afirmando, assim, 
o princípio da intervenção mínima ao deixar tal fato à análise do direito civil. 
Ferrajoli prega nesse ensinamento que algumas técnicas deverão ser utilizadas no processo de 
minimalização do poder institucional: o aplicador do direito deve valer-se da consagração de dez axiomas, 
princípios norteadores do direito penal, que trazem em suas normas garantias relativas à pena, ao delito 
e ao processo. 
Como garantias em relação à pena: 
1) nulla poena sine crimine - emprego do princípio da retributividade - o Estado somente pode punir 
se houver prática da infração penal; 
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2) nullum crimen sine lege - é o princípio da legalidade, que preconiza quatro preceitos: a) o princípio 
da anterioridade penal; b) a lei penal deve ser escrita, vedando desta forma o costume incriminador; c) a 
lei penal deve também ser estrita, evitando a analogia incriminadora; d) a lei penal deve ser certa, ou seja, 
de fácil entendimento; decorre daí o princípio da taxatividade ou da certeza ou da determinação; 
3) nulla lex penales sine necessitate ou princípio da necessidade,ou como modernamente é 
denominado, princípio da intervenção mínima - não há lei penal sem necessidade. O direito penal deve 
ser tratado como a derradeira opção sancionatória no combate aos comportamentos humanos 
indesejados. 
 
Vê-se como garantias relativas ao delito: 
1) nulla necessitas sine injuria ou princípio da lesividade ou ofensividade - não há necessidade se 
não há também uma relevante e concreta lesão ou perigo de lesão a um bem jurídico tutelado; 
2) nulla injuria sine actione ou princípio da exterioridade da ação, que proíbe a criação de tipos 
penais que punam o modo de pensar, o estilo de vida. Há somente a punição pela ação ou omissão do 
homem, pois o direito penal é do fato e não do autor; 
3) nulla actio sine culpa ou princípio da culpabilidade - deve-se apurar o grau de culpa (dolo ou culpa 
stricto senso) para então dosimetrar a punição pela prática humana. 
 
E finalmente determinaram-se como garantias relacionadas ao processo: 
1) nulla culpa sine judicio ou princípio da jurisdicionariedade - não há reconhecimento de culpa sem 
que o órgão jurisdicional a reconheça; 
2) nullum judicium sine acusationes ou princípio acusatório - o poder judiciário não afirma o direito 
de ofício, devendo ser provocado; referido poder é inerte (princípio da inércia). Frederico Marques dizia 
que "o juiz é um expectador de pedra", ou seja, por ser inerte não pode agir; 
3) nulla acusation sine probatione ou princípio do ônus da prova - não há acusação sem a existência 
de prova ou suficiente indício de autoria; 
4) nulla probation sine defensione ou princípio da ampla defesa e do contraditório. 
 
Esses princípios, de índole penal e processual penal, compõem um modelo-limite, apenas 
tendencialmente e jamais perfeitamente capazes de atender todos os direitos e garantias do ser humano. 
Irradiam reflexos em todo o sistema, alterando as regras do jogo fundamental do Direito Penal. 
 
1.6 Direito Penal do Inimigo. 
 
No estudo sobre este tema vamos utilizar os principais aspectos destacados pelo ilustre doutrinador 
Guilherme de Souza Nucci, em sua obra, Direito Penal Esquematizado – Parte Geral – Vol. 1: 
A teoria do Direito Penal do inimigo foi desenvolvida por Günther Jakobs, professor catedrático de 
Direito Penal e Filosofia do Direito na Universidade de Bonn, Alemanha, reconhecido mundialmente como 
um dos maiores criminalistas da atualidade. 
A ele é também atribuída a criação de uma nova teoria da ação jurídico-penal, o funcionalismo radical, 
monista ou sistêmico, ou seja, o pensamento que reserva elevado valor à norma jurídica como fator de 
proteção social. Para ele, apenas a aplicação constante da norma penal é que imprime à sociedade as 
condutas aceitas e os comportamentos indesejados. 
Na década de 1980, Jakobs traçou os primeiros lineamentos da teoria em análise, voltando ao seu 
estudo no final dos anos 1990, mas, em 2003, de maneira corajosa, assumiu postura inequívoca na 
defesa da adoção do Direito Penal do inimigo, justificando com toda uma obra doutrinária a necessidade 
de revolucionar conceitos clássicos arraigados na mente dos doutrinadores. 
Seu pensamento coloca em discussão a real efetividade do Direito Penal existente, pugnando pela 
flexibilização ou mesmo supressão de diversas garantias materiais e processuais até então reputadas em 
uníssono como absolutas e intocáveis. 
Inimigo, para ele, é o indivíduo que afronta a estrutura do Estado, pretendendo desestabilizar a ordem 
nele reinante ou, quiçá, destruí-lo. É a pessoa que revela um modo de vida contrário às normas jurídicas, 
não aceitando as regras impostas pelo Direito para a manutenção da coletividade. Agindo assim, 
demonstra não ser um cidadão e, por consequência, todas as garantias inerentes às pessoas de bem 
não podem ser a ele aplicadas. 
Em síntese, trata-se de um indivíduo que, não apenas de maneira incidental, em seu comportamento 
ou em sua ocupação profissional ou, principalmente, por meio de vinculação a uma organização 
criminosa, vale dizer, em qualquer caso de forma presumivelmente permanente, abandonou o direito e, 
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por conseguinte, não garante o mínimo de segurança cognitiva do comportamento pessoal e o manifesta 
por meio de sua conduta. 
Para Silva Sánchez, a transição do “cidadão” ao “inimigo” seria produzida mediante a reincidência, 
a habitualidade, a delinquência profissional e, finalmente, a integração em organizações delitivas 
estruturadas. 
 
Efeitos 
 
Inicialmente, o Estado não deve reconhecer os direitos do inimigo, por ele não se enquadrar no 
conceito de cidadão. Consequentemente, não pode ser tratado como pessoa, pois entendimento diverso 
colocaria em risco o direito à segurança da comunidade. 
O inimigo, assim, não pode gozar de direitos processuais, como o da ampla defesa e o de constituir 
defensor, haja vista que, sendo uma ameaça à ordem pública, desconsidera-se sua posição de sujeito na 
relação jurídico-processual. Possível, inclusive, a sua incomunicabilidade. Em uma guerra, o importante 
é vencer, ainda que para isso haja deslealdade com o adversário. 
Como representa grande perigo à sociedade, deixa-se de lado o juízo de culpabilidade para a fixação 
da reprimenda imposta ao inimigo, privilegiando-se sua periculosidade. Em síntese, as penas são 
substituídas por medidas de segurança. De fato, a pena teria duração determinada, ao contrário da 
medida de segurança, possibilitando sua retirada do convívio público por todo o tempo em que persistir 
sua situação de perigo, compreendida como a probabilidade de tornar a cometer infrações penais. 
Dessa forma, trata-se de um Direito Penal prospectivo, com visão para o futuro, encontrando amparo 
no positivismo criminológico de Cesare Lombroso, Enrico Ferri e Rafael Garofalo, que clamava por um 
sistema penal em consonância com a real necessidade de defesa social, mormente quando estava 
assombrado por criminosos revestidos de indissociáveis aspectos endógenos. 
Deve ainda o Direito Penal do inimigo antecipar a esfera de proteção da norma jurídica, adiantando a 
tutela penal para atingir inclusive atos preparatórios, sem redução quantitativa da punição. Ora, se o 
inimigo é um ser manifestamente voltado para os crimes e se a sua condição pessoal revela a ilicitude de 
sua atuação, não se pode esperar que ele pratique infrações penais para, posteriormente, cobrar-se 
repressão pelo Estado, como se dá com cidadãos comuns. Ao contrário, para a manutenção da ordem 
deve ser combatida a sua periculosidade, impondo-se uma medida de segurança com a mera 
demonstração da futura e eventual prática de um crime. 
Essa antecipação não se importa com a quantidade da sanção penal a ser aplicada, pois o que se tem 
em mente é a garantia da sociedade. O inimigo não tem direitos e, assim, seu sacrifício se impõe para a 
proteção do interesse público. No caso do fatídico atentado de 11 de setembro de 2001, inúmeras vidas 
seriam salvas se a atuação inimiga tivesse sido interceptada previamente. 
Para viabilizar esse adiantamento, deve o Estado valer-se abundantemente da ação controlada para 
retardar a prisão em flagrante ao momento em que possa ser capturado o maior número de inimigos. 
Compete providenciar, também, a infiltração de agentes policiais nas organizações criminosas, para 
eficaz desbaratamento. Medidas preventivas e cautelares têm seu campo de incidência alargado, 
autorizando-se mais facilmente interceptações telefônicas e quebras de sigilos bancário e fiscal. 
Se não bastasse, na investigação dos inimigos, o Estado está legitimado a aplicar medidas processuais 
e penais às pessoas que exercem atividades lícitas, em razão de alguns membros da classeguardarem 
íntima relação com organizações criminosas, grupos de traficantes e responsáveis por lavagem de 
dinheiro, como se dá com bancos, joalheiros e leiloeiros. Cuida-se de meios de defesa contra agressões 
futuras. 
Dele decorre também a mitigação do princípio da reserva legal ou estrita legalidade, pois a 
periculosidade do inimigo impede a previsão de todos os atos que possam ser por ele praticados. 
Reclama-se, assim, uma narrativa vaga e pouco precisa dos crimes e das penas, que devem variar no 
caso concreto, dependendo da ameaça representada pelo combatente da guerra. 
Mesmo nos crimes minuciosamente tipificados, as penas devem ser severamente majoradas, com o 
intuito de intimidar o inimigo, mantendo em estado latente todo o perigo que pode ser por ele causado. 
Autoriza-se, também, a criação artificial de delitos, inflacionando a legislação penal, ainda que os bens 
juridicamente tutelados não sejam muito claros e até mesmo não reconhecidos pela sociedade. Como 
corolário, deve ser mais rigorosa a execução penal, na tentativa de emendar o inimigo e evitar a 
proliferação de outros, que deverão sentir a força e o poder do Estado legalizado. 
 
 
 
 
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Possível, assim, a eliminação de direitos e garantias individuais, uma vez que não paira necessidade 
de obediência ao devido processo legal, mas a um procedimento de guerra, de intolerância e repúdio ao 
inimigo. A propósito, é cabível inclusive a utilização da tortura como meio de prova, e também para 
desbaratar as atividades ilícitas do criminoso e dos seus comparsas. 
O inimigo arrependido, disposto a auxiliar o Estado no combate de seus antigos companheiros, 
contudo, deve receber benefícios, desde que os delate, permitindo o desmantelamento de quadrilhas, 
prisões em massa e recuperação dos produtos e proveitos dos crimes. 
Nitidamente, enxerga-se na concepção de Jakobs a convivência de dois direitos em um mesmo 
ordenamento jurídico. Em primeiro lugar, um direito penal do cidadão, amplo e dotado de todas as 
garantias constitucionais, processuais e penais, típico de um Estado Democrático de Direito. Sem 
prejuízo, em parcela menor e restrita a grupos determinados, com ele coexiste o Direito Penal do inimigo, 
no qual o seu sujeito deve ser enfrentado como fonte de perigo e, portanto, a sua eliminação da sociedade 
é o fim último do Estado. 
 
1.7 Evolução Histórica da Legislação Penal. História da Programação Criminalizante no Brasil. 
 
É certo que para o bom convívio social se faz necessária a observação de determinadas regras de 
convivência, contudo, também é certo que nem sempre o homem as observa, por isso ao longo do tempo 
foram criadas várias formas de punir. 
Nem sempre foi possível falar em pena, não com a ideia e o conceito atual, visto que muitas vezes a 
contrapartida pela violação de uma norma de conduta era um castigo. 
Nos primórdios, o castigo era aplicado como forma de aplacar a ira dos deuses, dado que o místico 
imperava. Acreditava-se que os fenômenos da natureza eram castigos impostos pelos deuses contra os 
maus comportamentos. Esses deuses eram representados por totens, por isso as sociedades eram 
chamadas de totêmicas. 
Aquele que ofendia às divindades era punido de forma cruel, desumana e degradante. Essa fase é 
chamada de vingança divina. 
Posteriormente, passou-se ao que se chama de vingança privada, porque o sujeito era punido pelo 
ofendido ou por pessoas a ele ligadas. É o que se pode chamar de justiça com as próprias mãos. Como 
não havia regulamentação por parte de um órgão específico, o vingador exercia sua fúria sem limites, 
logo, era frequente a desproporção. Terceiros ligados ao agressor também podiam sofrer as 
consequências ou mesmo ser objeto da vingança. 
Em vista da evolução social, mas sem se distanciar da finalidade de vingança, o Código de Hamurabi, 
na Babilônia, traz a regra do talião (famoso brocardo: “olho por olho, dente por dente”), na qual a 
punição passou a ser graduada visando igualar a ofensa. 
Por fim, surgiu a vingança pública exercida pelo Estado, através das autoridades e órgãos 
competentes. Nessa fase o sujeito é punido não porque despertou a ira dos deuses ou porque ofendeu 
determinada pessoa e sim porque abalou a paz social. 
Buscava-se, com a aplicação das penas, proteger a existência do Estado e do Soberano, a Igreja e 
seus bens, entre outros. Contudo, as penas continuaram cruéis e poderiam atingir os descendentes. 
 
Direito Penal na Grécia Antiga 
Na Grécia não existem escritos a propiciar análise mais detalhada da legislação penal então existente, 
senão algumas passagens em obras filosóficas. E são por meio dessas obras, que nota-se que o direito 
penal grego evoluiu da vingança privada, da vingança religiosa para um período político, assentado sobre 
uma base moral e civil. 
De acordo com Smanio e Fabretti, “não se pode olvidar que os filósofos gregos trouxeram à tona 
questões geralmente ignoradas pelos povos anteriores, como, por exemplo, qual seria a razão e o 
fundamento do direito de punir e qual seria a razão da pena. As opiniões mais conhecidas são de Platão 
e Aristóteles, o primeiro nas Leis e Protãgoras, o segundo na Ética a Nicomaco e na Política”. 
 
Direito Penal Em Roma 
Roma viveu também as fases da vingança (privada, divina até chegar à vingança pública), separando, 
a exemplo dos gregos, o Direito da Religião. 
Dividiu os delitos em públicos (crimina publica), violadores dos interesses coletivos (ex: crimes 
funcionais, homicídio), punidos pelo jus publicum com penas públicas, e privados (delicta privaia), 
lesando somente interesses particulares (ex: patrimônio), punidos pelojus civile com penas privadas. 
Ainda que em menor escala, persistiam as penas cruéis e desumanas, como a morte, trabalhos 
forçados, mutilação e flagelação, abusando do exílio e da deportação (interdictio acquae et igni). 
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Direito Penal Germânico 
O Direito Germânico contribuiu imensamente para a evolução do Direito Penal, considerado pela 
doutrina fonte do Direito Penal da Transição. 
Trazia como pena mais grave a Frielãlosigkeit, extremamente peculiar e não mais vista em outros 
ordenamentos, no qual o delinquente, quando sua infração ofendia os interesses da comunidade, perdia 
seu direito fundamental a vida, podendo qualquer cidadão matá-lo. Quando a infração atingia apenas uma 
pessoa ou família, o direito penal germânico fomentava o restabelecimento da paz social por via da 
reparação, admitindo, também a vingança de sangue (faida). 
 
Direito Penal Na Idade Média 
Grandes retrocessos marcaram o desenvolvimento do Direito Penal na Idade Média. Privilegiavam-se 
penas mordazes, com caráter eminentemente intimidador. 
Não se pode ignorar a criação do Tribunal da Santa Inquisição, no qual filósofos, cientistas e 
pensadores que divergissem do ideal católico eram perseguidos e condenados a sanções cruéis. Não se 
nega, todavia, a existência de aspectos positivos no período, como a utilização da pena privativa de 
liberdade com um caráter reformador do criminoso (embora não fosse a sua finalidade primeira) e a 
análise do elemento subjetivo do delito. 
Durante o século XVIII surge o Iluminismo, movimento filosófico baseado na razão e passa-se a 
questionar as penas e sua aplicação. Neste período passou-se a buscar a verdadeira evolução das 
normasde caráter sancionador, pregando-se o afastamento da incidência do Direito Penal então vigente. 
Destaque-se o Marquês de Beccaria que escreveu o livro “Dos Delitos e das Penas” obra que faz duras 
críticas ao sistema punitivo da época e propõe algumas mudanças, sempre atentando para o caráter 
humanitário. 
O referido filósofo era contrário à pena de morte e às penas cruéis, por isso pregava a 
proporcionalidade. Defendia que as penas somente poderiam ser criadas por lei, cabendo ao Magistrado 
sua aplicação e não poderia passar da pessoa do réu. Sustentava que a função dessa não era a vingança 
e sim a recuperação do criminoso e a prevenção do delito. 
O pensamento iluminista influenciou a Reforma Leopoldina em 1786, na Toscana e a Declaração dos 
Direitos do Homem e do Cidadão em 1789, na França. 
Com o iluminismo surgiram duas teorias, a saber: 
Teoria da Retribuição: defendida por Kant, Francesco Carrara, Pelegrini Rossi, entre outros, pregava 
que a principal função da pena era castigar o criminoso, ou seja, retribuir o mal causado. 
Teoria da Prevenção: defendida por Cesare Beccaria, Anselmo Von Feuerbach, Giovanni Carmignani 
e outros, pregava que a pena deveria ter por finalidade a prevenção geral e especial do crime. 
Após o período Iluminista, passaram a surgir as Escolas Penais. 
 
Escolas Penais: 
 
As escolas penais e seu estudo revelam a evolução do Direito Penal no tempo, bem como suas 
consequências e reflexos na sociedade e na doutrina. As duas principais escolas penais foram, 
indubitavelmente, as Escolas Clássica e Positiva. Nelas encontram-se fundamentos e fins do Direito Penal 
eminentemente antagônicos. Não por acaso, as escolas que lhes sucederam foram cunhadas, 
genericamente, de “ecléticas” ou “mistas”, uma vez que as premissas do sistema penal foram tão bem 
fincadas pelos antecessores que os pensadores posteriores acabavam tomando-as como referência. 
 
Escola Clássica: tem os mesmo defensores da teoria da retribuição. Essa escola foi construída a 
partir dos pensamentos do Marquês de Beccaria e prevaleceu durante o século XVIII e início do século 
XIX. 
Para seus defensores, o crime é fruto do livre-arbítrio e por isso se justifica a aplicação de sanções 
àqueles que livremente cometem um crime, porém, a pena deve ser proporcional ao delito praticado e 
não devem ser cruéis ou desumanas. 
O crime passa a ser considerado um fato jurídico. 
 
Escola Positivista: seu maior defensor é Cesare Lombroso, autor do livro “O Homem Delinquente” 
(1876) no qual ele defende a existência do criminoso nato, ou seja, nega a teoria do livre-arbítrio. 
Para Lombroso a pessoa nascia com certas características ou anomalias que o fariam um delinquente, 
visto que não seria capaz de adaptar-se à sociedade. Logo, o crime era esperado posto que, resultado 
de sua genética. 
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A pena se prestava a prevenir o cometimento de novos crimes e com ela buscava-se a defesa da 
sociedade. 
A grande contribuição dessa escola foi revelar a necessidade de se realizar uma investigação 
científica, o que acabou contribuindo para o surgimento da antropologia, da psicologia e da sociologia 
criminal. 
Contribuiu ainda para o princípio da individualização da pena, uma vez que defendia que fossem 
consideradas a personalidade e a conduta social do agente para aplicação da sanção, pois, somente 
assim seria possível corrigi-lo. 
Lombroso foi seguido por Garofalo e Eurico Ferri. O primeiro defendia a pena de morte como forma de 
eliminar os criminosos mais perigosos. 
Ambas as escolas apresentam falhas, como explica Nucci3: “Ambas as escolas merecem críticas, 
justamente por serem radicalmente contrapostas. Enquanto a clássica olvidava a necessidade de 
reeducação do condenado, a positiva fechava os olhos para a responsabilidade resultante do fato, 
fundando a punição no indeterminado conceito de periculosidade, conferindo poder ilimitado ao Estado, 
ao mesmo tempo em que não resolve o problema do delinquente ocasional, portanto, não perigoso.”. 
 
Escola Crítica ou Terza Scuola Italiana: Depois das escolas Clássica e Positiva, estas com posições 
filosoficamente bem definidas, surgiram outras que procuravam conciliar os postulados dessas correntes 
de pensamento e apresentar, com prudência, algumas inovações. Foram chamadas tais escolas de 
ecléticas, das quais a primeira delas foi a Escola Crítica, também conhecida como Terza Scuola Italiana. 
A escola em estudo tinha como principais características a defesa das seguintes ideias: 
a) a responsabilidade penal funda-se no determinismo psicológico; 
b) o delito assume características de fenômeno natural e social; 
c) a pena tem a função de preservação da sociedade. 
O traço diferencial da Escola Crítica em relação às escolas Clássica e Positiva está em seu método, 
fruto da combinação do método abstrato, racionalista e dedutivo dos clássicos com o método empírico, 
indutivo e experimental dos positivistas. 
 
Escola Moderna Alemã: Também de conteúdo eclético, semelhantemente à Escola Crítica, teve como 
seu representante maior Franz Von Liszt, que viveu de 1851 a 1919. Marco importante para essa escola 
foi à fundação da União Internacional de Direito Penal, em 1888. 
A corrente de pensamento em análise tem as seguintes características principais: 
a) adoção do método lógico-abstrato e indutivo-experimental – o primeiro para o Direito Penal e o 
segundo para as demais ciências criminais (…); 
b) distinção entre imputáveis e inimputáveis (…); 
c) o crime é concebido como fenômeno humano-social e fato jurídico (…); 
d) função finalística da pena (…); 
e) eliminação ou substituição das penas privativas de liberdade de curta duração – representa o início 
da busca incessante de alternativas às penas privativas de liberdade de curta duração, começando 
efetivamente a desenvolver uma verdadeira política criminal liberal. 
Também fizeram parte da Escola Moderna Alemã o belga Adolphe Prins e o holandês Von Hammel. 
 
Escola Técnico-Jurídica: Surgiu como resposta à confusão metodológica provocada pela Escola 
Positivista, que se preocupava excessivamente com fenômenos antropológicos e sociológicos, em 
detrimento do aspecto jurídico norteador do Direito Penal. 
O principal representante dessa escola é Arturo Rocco, que em seu discurso intitulado “il problema ed 
il metodo della scienza del diritto penale” (o problema e o método da ciência do direito penal), proferido 
na Universidade de Sassari (em 1910) formulou as linhas gerais dessa orientação de pensamento. 
Também compartilham dessa linha de pensamento Manzini, Massari, Delitala, Cicala, Vannini e Conti. A 
origem do tecnicismo jurídico é identificada nos estudos de Karl Binding. 
Segundo ressalta Masson, referindo-se ao tecnicismo jurídico-penal: “O mérito do movimento, 
atualmente dominante na Itália e abraçado pela maioria das nações, foi excluir do Direito Penal toda carga 
de investigação filosófica, limitando-o aos ditames legais”. Citado autor, assim como o doutrinador 
Bitencourt, entendem que o tecnicismo jurídico-penal não foi propriamente uma nova escola penal, 
apenas representando um pensamento restaurador quanto à metodologia de estudo do Direito Penal, 
privilegiando o fenômeno jurídico. 
 
3 NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de Direito Penal. Rio de Janeiro: Forense, 2014. 
 
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Escola Correcionalista: Surgiu na Alemanha, em 1839, com a obra de Karl Röeder, denominada 
Comentatio na poena malum esse debeat, professor da Universidade de Heidelberg; que teve na Espanha 
seus principais seguidores: Giner de los Ríos, Alfredo Calderón, Concepción Arenal, Rafael Salillas e 
Pedro Dorado Montero. 
Röeder visualizava na pena um fim primordial de emenda ou correção, defendendo que ela deveria 
ser indeterminada (sem prévia fixação do tempo de duração), sendo passível de cessação de sua 
execução quando se tornasse desnecessária. 
“Deveras, a Escola Correcionalista sustenta que o direito de reprimir os delitos deve ser utilizado pela 
sociedade com fim terapêutico, isto é, reprimir curando. Não se deve pretender castigar, punir, infligir o 
mal, mas apenas regenerar o criminoso”. Arremata Cleber Masson, que: “Modernamente, pode-se dizer 
que o correcionalismo idealizado por Röeder, transfundido e divulgado nas obras de Dorado Montero e 
Concépcion Arenal, teve em Luis Jiménez de Asúa seu maior entusiasta e o mais eficiente dos 
expositores, ao defender a ressocialização como finalidade precípua da sanção penal”. 
 
Movimento de Defesa Social: A ideia de defesa social surgiu já na época do Iluminismo, com a 
preocupação da adequada proteção social através das normas repressivas. Afirmam Gomes, Molina e 
Bianchini, que o movimento, ora em estudo, em sentido estrito, surgiu apenas no início do século XX, 
conforme segue: “Mas por ‘Defesa Social’, em sentido estrito, entende-se um determinado ‘movimento 
de política criminal’, cuja primeira formulação programática deve-se a A. PRINS (1910); consolidam-na 
depois F. GRAMATICA e M. ANCEL, que se preocuparam em articular uma eficaz proteção da sociedade 
por meio da devida coordenação da Criminologia, da Ciência Penitenciária e do Direito Penal”. 
A Defesa Social foi concebida para se contrapor às ideias clássicas, com apoio no pensamento 
positivista, porém, sem se confundir com este. 
Com base no pensamento de Ancel passou-se a falar em nova Defesa Social. Segundo Bitencourt, a 
ideias consolidadas desse movimento podem ser assim sintetizadas: 
Esse movimento político-criminal pregava uma nova postura em relação ao homem delinquente, 
embasada nos seguintes princípios: 
a) filosofia humanista, que prega a reação social objetivando a proteção do ser humano e a garantia 
dos direitos do cidadão; 
b) análise crítica do sistema existente e, se necessário, sua contestação; 
c) valorização das ciências humanas, que são chamadas a contribuir, interdisciplinarmente, no estudo 
e combate do problema criminal. 
 
Contrariamente ao positivismo que pregava a limitação ao estudo da legislação vigente, a Nova Defesa 
Social deu um caráter mais humanístico ao enfrentamento do crime ao defender a ressocialização do 
condenado como forma de defesa da sociedade. Por tal razão, Gomes, Molina e Bianchini fazem a 
seguinte referência ao movimento em estudo: “Luta realista contra a criminalidade mediante instrumentos 
não necessariamente jurídicos, numa nova atitude frente ao delinquente e uma Política Criminal de marca 
humanitária são três dos postulados essenciais da ‘Defesa Social’ [...]”. 
Pela “Nova Defesa Social” o delinquente é visto como um membro da sociedade que deve ser 
ressocializado, não mais se encara o mesmo como um pecador que deve ser punido para reparar sua 
falta (como se fazia na doutrina clássica) e nem mais como um ser naturalmente perigoso, criminoso por 
natureza, como ocorria no positivismo. 
Para essa escola, a prisão, embora tenha consequências negativas, é necessária. A pena de morte 
não deve existir e é necessário haver a descriminalização de algumas condutas que não afetam bens 
relevantes. 
 
Direito Penal no Brasil 
 
Em nosso país, pode-se sistematizar, para fins didáticos, a evolução histórica do Direito Penal nos 
períodos destacados em seguimento. 
a) Período colonial: No período que antecedeu o descobrimento do Brasil pelos portugueses, os 
indígenas que aqui habitavam utilizavam a vingança privada como forma de reação penal. 
A partir de 1500 passou a vigorar o Direito lusitano, considerando o domínio português. Como em 
Portugal vigoravam as Ordenações Afonsinas, tal codificação passou a ser aplicada no Brasil, depois 
sendo substituída pelas Ordenações Manuelinas, em 1521, que vigoraram até a Compilação de Duarte 
Nunes de Leão, criada em 1569, que persistiu até 1603, ocasião em que entraram em vigor as 
Ordenações Filipinas, que subsistiram até 1830. 
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As legislações referidas tinham em comum a adoção de penas cruéis e desproporcionais, sem 
possibilitar efetivo direito de defesa. Não se adotava também o princípio da legalidade, deixando-se ao 
alvedrio do julgador a definição da pena a ser aplicada. 
 
b) Código Criminal do Império: O primeiro Código Criminal do Brasil (na época já independente de 
Portugal) foi sancionado, em 16 de dezembro de 1830, pelo imperador Dom Pedro I, com base na 
determinação contida no art. 179, XVIII, da Constituição de 1824. 
A legislação nacional, em comparação com a portuguesa antes vigente, deu sinais de evolução no 
tocante à humanização das penas. A própria Carta Magna da época proibia expressamente açoites, 
tortura, marca de ferro quente e demais penais cruéis; além de estabelecer a personalidade da pena 
(“nenhuma pena passará da pessoa do delinquente”, ou seja, a pena atribuída a uma pessoa não poderá 
ser cumprida por outra, mesmo em caso de morte do infrator). 
Apesar disso, continuaram sendo permitidas as penas de morte na forca, de galés, de trabalhos 
forçados, de banimento, degredo e desterro. 
 
c) Período republicano: Em 1890 entrou em vigor um novo Código Penal em nosso país, vindo a ser 
substituído em 1932 pela Consolidação das Leis Penais. Depois: “Durante o Estado Novo, em 1937, 
Alcântara Machado apresentou um projeto de Código Penal brasileiro, o qual foi sancionado em 1940, 
passando a vigorar desde 1942 até os dias atuais, alterado por diversas leis contemporâneas, tais como 
a Lei 6.414/77, atualizando as sanções penais, e a Lei 7.209/1984 – Reforma da Parte Geral do Código 
Penal”. 
No ano de 1969 foi aprovado um novo Código Penal, com base em anteprojeto formulado por Nélson 
Hungria, porém foi revogado antes que entrasse em vigor. 
 
1.8 Genealogia do Pensamento Penal4. 
 
As tentativas de produzir a compreensão da violência e do papel do controle penal em um dado 
contexto histórico, político e econômico devem, antes e acima de tudo, tentar penetrar e desvendar as 
racionalidades que presidem a ordem social. 
Assim sendo, o desenvolvimento de uma genealogia do imaginário punitivo (pensamento 
criminológico) tem como principal objetivo "marcar a singularidade dos acontecimentos", mais ainda 
"espreitá-los lá onde menos se os esperava e naquilo que é tido como não possuindo história", para afinal 
"apreender seu retorno não para traçar a curva lenta de uma evolução, mas para reencontrar as diferentes 
cenas onde eles desempenharam papéis distintos; e até definir o ponto de sua lacuna, o momento em 
que eles não aconteceram" (Foucault, 1996). 
Nesse sentido, Foucault (1996) ressalta que a genealogia não se opõe à história como a visão altiva 
e profunda do filósofo ao olhar de toupeira do cientista; ela se opõe, ao contrário, ao desdobramento 
meta-histórico das significações ideais e das indefinidas teleologias. Ela se opõe à pesquisa da "origem". 
Portanto, trata-se menos de questionar a "origem" do sistema de justiça penal damodernidade e mais 
de romper as "significações ideais" e as "indefinidas teleologias" do seu desdobramento meta-histórico, 
estabelecido pelos discursos científicos (criminológicos) dominantes. A rigor, trata-se, sobretudo, de 
revisar a história das ideias penais, construída sempre a partir de "um ponto de apoio fora do tempo" e 
que "pretende tudo julgar segundo uma objetividade apocalíptica", arrimada na suposição de verdades 
eternas, imutáveis e apoiada em uma "consciência sempre idêntica a si mesma". Por essa razão, ao 
contrário de um saber histórico pretensamente neutro, objetivo e universal, "a genealogia restabelece os 
diversos sistemas de submissão: não a potência antecipadora de um sentido, mas o jogo casual das 
dominações" (Foucault, 1996). Diante disso, de acordo com Foucault (1996), é possível perceber que 
nem a relação de dominação é mais uma "relação", nem o lugar onde ela se exerce é um lugar. E é por 
isto precisamente que em cada momento da história a dominação se fixa em um ritual; ela impõe 
obrigações e direitos; ela constitui cuidadosos procedimentos. 
Com isto, pode-se visualizar, mais nitidamente, o sistema penal como "um universo de regras que não 
é destinado a adoçar, mas a satisfazer a violência", em que "a regra é o prazer calculado da obstinação, 
é o sangue prometido. Ela permite reativar sem cessar o jogo da dominação; ela põe em cena uma 
violência meticulosamente repetida" (Foucault, 1996). 
No cenário específico do imaginário punitivo, a perspectiva histórica das ideias penais insistentemente 
repudia a genealogia em nome de uma história universalista e abstrata. 
 
 
4 http://livepublish.iob.com.br/ntzajuris/lpext.dll/Infobase/f6a/fef/1bd3?f=templates&fn=document-frame.htm&2.0, acesso em: 24/03/2017. 
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Nota
VER MAIS EM "ANOTAÇÕES - ARQUIVO WORD", PASTA "DELEGADO MT";
 
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Tal história é recoberta por "significações ideais" e "indefinidas teleologias", sempre mais dispostas e 
aptas à justificação oficial da satisfação da violência e ao deleite do prazer calculado da obstinação, do 
sangue institucionalmente prometido, e menos dedicadas a reconhecer a história como emergência de 
interpretações concorrentes, como jogo ininterrupto entre posições instituídas e forças instituintes, como 
propõe a argúcia filosófica de Castoriadis (1982). 
No entanto, a edificação dessa nova postura científica, genealógica, é postulada com acuidade na 
criminologia brasileira e latino-americana, entre outros, por Vera Andrade (1998; 2013), Vera Malaguti 
Batista (2011), Nilo Batista (2001), Raúl Zaffaroni (1982), Juarez Cirino dos Santos (2007), Salo de 
Carvalho (2004; 2013), ao definir a necessidade de superação de todo e qualquer sistema fechado de 
pensamento que aniquila o espaço da crítica, dos modelos teóricos absolutistas que impõem a amputação 
dos saberes destinados a um revolvimente a uma revisão da história hegemônica das ideias penais. 
A aferição dos rituais do exercício de poder do sistema penal, dos seus cuidadosos procedimentos, do 
universo das regras instituídas, destinadas mais à satisfação da violência do que a sua domesticação, é 
indispensável para perceber-se até que ponto é possível conciliar os discursos e as práticas punitivos 
com os horizontes simbólicos da dignidade humana (reconhecimento intersubjetivo igualitário). Existe, de 
fato, alguma possibilidade do sistema de justiça penal operar nos limites exigidos pela proteção da 
dignidade humana? Além disso, em que medida a sedimentação de tal princípio, como fonte imaginária 
dos discursos e das práticas das instituições penais, não representa uma contradição insuperável é o 
ponto fundamental que ora se busca aprofundar. Se as regras do sistema penal "põe em cena uma 
violência meticulosamente repetida", é indispensável pensar qual a contribuição efetiva do imaginário 
punitivo à luta pela realização da dignidade de indivíduos históricos concretos. 
 
1.9 Bem jurídico. 
 
Podemos definir bem jurídico como a expressão de um interesse, da pessoa ou da comunidade, na 
manutenção ou integridade de um certo estado, objeto ou bem em si mesmo socialmente relevante e por 
isso juridicamente reconhecido como valioso. 
Para o ilustre doutrinador Teles5, “são bens jurídicos a vida, a liberdade a propriedade, o casamento, 
a família, a honra, a saúde, enfim, todos os valores importantes para a sociedade” e ainda “bens jurídicos 
são valores éticos sociais que o Direito seleciona, com o objetivo de assegurar a paz social, e coloca sob 
a sua proteção para que não sejam expostos a perigo de ataque ou a lesões efetivas.” 
Deste modo, quando algo passa a ser valioso e procurado, torna-se um bem. Cria-se, então, o 
interesse de tutelar esse bem, tutela essa que no direito é feita através de sua normatização. Protegido 
pela legalidade, esse bem passa a apresentar-se como um bem jurídico, e sendo protegido pelo legislador 
penal a doutrina considera-o como bem jurídico penalmente tutelado. 
 
Questões 
 
01. (PC/CE - Delegado de Polícia Civil de 1.ª Classe - VUNESP/2015) Os objetos de estudo da 
moderna criminologia estão divididos em 
(A) três vertentes: justiça criminal, delinquente e vítima. 
(B) três vertentes: política criminal, delito e delinquente. 
(C) três vertentes: política criminal, delinquente e pena. 
(D) quatro vertentes: delito, delinquente, justiça criminal e pena. 
(E) quatro vertentes: delito, delinquente, vítima e controle social. 
 
02. (PC/SP – Médico Legista – VUNESP/14) A autonomia da Criminologia frente ao Direito Penal: 
(A) é almejada pelos estudiosos da primeira, mas negada pelos estudiosos do segundo. 
(B) não se concretiza, uma vez que a primeira não é considerada ciência, ao contrário do segundo. 
(C) comprova-se, por exemplo, pelo caráter crítico que a primeira desenvolve em relação ao segundo. 
(D) não se vislumbra na prática, uma vez que todos os conceitos da primeira são emprestados do 
segundo. 
(E) não se efetiva, uma vez que ambos têm o mesmo objeto e são concretizados pelo mesmo método 
de estudo, qual seja, o empírico. 
 
 
 
 
5 TELES, Ney Moura. Direito penal: parte geral. V. 4. São Paulo: Atual, 2004. 
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03. (PC/SP – Delegado de Polícia – VUNESP/14) Assinale a alternativa que completa, correta e 
respectivamente, a frase: A Criminologia__________; o Direito Penal __________. 
(A) não é considerada uma ciência, por tratar do “dever ser” … é uma ciência empírica e interdisciplinar, 
fática do “ser”. 
(B) é uma ciência normativa e multidisciplinar, do “dever ser” … é uma ciência empírica e fática, do 
“ser”. 
(C) não é considerada uma ciência, por tratar do “ser” … é uma ciência jurídica, pois encara o delito 
como um fenômeno real, do “dever ser”. 
(D) é uma ciência empírica e interdisciplinar, fática do “ser” … é uma ciência jurídica, cultural e 
normativa, do “dever ser”. 
(E) é considerada uma ciência jurídica, por tratar o delito como um conceito formal, normativo, do 
“dever ser” … não é considerado uma ciência, pois encara o delito como um fenômeno social, do “ser”. 
 
04. (PC/SP - Delegado de Polícia - VUNESP/2014) Dentre as escolas penais a seguir, aquela na qual 
se pretendeu inicialmente aplicar ao direito penal os mesmos métodos de observação e investigação que 
se utilizavam em outras ciências naturais é a 
(A) Clássica. 
(B) Técnico-Jurídica. 
(C) Correcionalista. 
(D) Positivista. 
(E) Moderna.05. (PC/SP - Delegado de Polícia - VUNESP/2014) Assinale a alternativa que apresenta o princípio 
que deve ser atribuído a Claus Roxin, defensor da tese de que a tipicidade penal exige uma ofensa de 
gravidade aos bens jurídicos protegidos. 
(A) Insignificância. 
(B) Intervenção mínima. 
(C) Fragmentariedade. 
(D) Adequação social. 
(E) Humanidade. 
 
06. Assinale a alternativa correta: 
(A) O Direito penal existe (finalidades do Direito penal), exclusivamente, para a: (a) a proteção de bens 
jurídicos (os mais relevantes, por isso se diz que a proteção penal é fragmentária e subsidiária) e para (b) 
a contenção ou redução da violência estatal (o Estado quando intervém para impor o castigo também 
pratica violência). 
(B) A prevenção da vingança privada (na medida em que o Direito penal tenha incidência evita que a 
vítima assuma por si só a tarefa de “castigar” o infrator) e o fato de servir como conjunto de garantias para 
todos os envolvidos no conflito (e no processo) penal são algumas das finalidades do Direito penal. 
(C) O Direito penal cumpre apenas uma função ilegítima, segundo a doutrina nacional, qual seja, a 
função simbólica. 
(D) O fenômeno da administrativização do Direito penal é uma decorrência da função simbólica que 
este possui. 
 
Respostas 
 
01. Resposta: E. 
A função da Criminologia como ciência interdisciplinar e empírica é assegurar um núcleo de 
conhecimentos seguros que tenham relação com o delito, a pessoa do delinquente, a vítima e o controle 
social, sendo estes seu objeto de estudo. 
 
02. Resposta: C. 
A autonomia da Criminologia como ciência reside no fato de que, apesar de outras ciências - como a 
sociologia, antropologia, medicina legal, psicologia - terem também o ato humano delituoso por objeto, 
mas o têm acidentalmente, enquanto a criminologia o tem como escopo principal de suas atividades 
investigatórias científicas. 
O ilustre doutrinador, Roque de Brito Alves, é de extrema felicidade ao mostrar essa abordagem ao 
crime, ao criminoso, à criminalidade e à vítima, de peculiaridade extrema que torna a Criminologia 
verdadeiramente autônoma quanto a seu objetivo de estudo: 
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Iara
Realce
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“Não ficando restrita a Criminologia unicamente ao estudo das condutas típicas, puníveis por lei, 
legalmente definidas como criminosas desde que tem como seu objeto também as condutas desviadas 
culturalmente, antissociais, algumas destas podem ser consideradas como verdadeiros ‘estados 
criminógenos’ que embora não tipificados como crime são comportamentos ou modos de ser em um estilo 
de vida que podem conduzir o indivíduo a delinquir como, p. ex., na vagabundagem, na prostituição, vício 
da droga, etc. O que faz com que, obviamente, o estudo criminológico possa adquirir maior horizonte ou 
extensão ao não limitar-se ou partir exclusivamente da noção jurídica do delito, compreendendo outras 
condutas de grande importância tanto para uma sua apreciação individual, pessoal, como social”. 
(ALVES, Roque de Brito. Op. Cit. p. 59). 
 
03. Resposta: D. 
Pode-se conceituar criminologia como a ciência empírica (baseada na observação e na experiência) e 
interdisciplinar que tem por objeto de análise o crime, a personalidade do autor do comportamento delitivo, 
da vítima e o controle social das condutas criminosas. 
A criminologia é uma ciência do "ser", empírica, na medida em que seu objeto (crime, criminoso, vítima 
e controle social) é visível no mundo real e não no mundo dos valores, como ocorre com o direito, que é 
uma ciência do "dever-ser", portanto normativa e valorativa. (Manual Esquemático de Criminologia - 
Nestor Sampaio Penteado Filho). 
 
04. Resposta: D 
A Escola Positiva, que ficou eternizada na pessoa de Cesare Lombroso, por sua construção do 
“criminoso nato”, indivíduo essencialmente voltado à delinquência e passível de identificação anatômica. 
Sua constituição física permitia a conclusão pela sua natureza criminosa, assim, por meio de métodos de 
observação e investigação era possível identificar quais pessoas poderiam ser estes criminosos. 
 
05. Resposta: A 
Para o funcionalismo teleológico (ou moderado), que tem como maior expoente Claus Roxin, a função 
do Direito Penal é assegurar bens jurídicos, assim considerados aqueles valores indispensáveis à 
convivência harmônica em sociedade, valendo-se de medidas de política criminal. Assim, para a 
existência da tipicidade penal se faz necessária uma grave ofensa os bens jurídicos protegidos, sendo 
essa “insignificante” não há o que se falar em tipicidade da conduta. Desta forma, com base nesses 
argumentos surgiu o princípio da insignificância. 
 
06. Resposta: B 
A prevenção da vingança privada (na medida em que o Direito penal tenha incidência evita que a vítima 
assuma por si só a tarefa de “castigar” o infrator) e o fato de servir como conjunto de garantias para todos 
os envolvidos no conflito (e no processo) penal são algumas das finalidades do Direito penal. 
 
 
 
A doutrina, para conceituar a finalidade da pena, utiliza três grandes grupos de teorias, a teoria 
absoluta, a teoria relativa, e a teoria mista, sendo que cada qual com seu grau de punição. 
A pena, na verdade, é oriunda da realização de uma conduta ilícita, antijurídica e culpável, destinada 
a todo aquele que desrespeitou a legislação penal, sendo assim, uma forma do Estado efetivamente 
aplicar a norma ao caso concreto. 
Segundo o eminente jurista Luiz Regis Prado, a pena é uma forma de prevenção, buscando diminuir 
a realização de condutas criminosas, penitenciar o condenado e uma forma de destacar o poder estatal, 
punindo todo aquele que não observar seus parâmetros de conduta. 
Já Francesco Carnelutti afirma que a pena não é apenas uma punição ao criminoso, como também, 
uma forma de aviso para aqueles que tenham alguma pretensão criminosa. 
Diante das disposições doutrinárias demonstradas, mostra-se essencial para o deslinde do estudo uma 
análise sobre cada uma das teorias indicadas, que consistem em teorias absolutas ou retributivas, teorias 
relativas ou preventivas, e as teorias mistas, unificadoras ou ecléticas, indicando as características e 
peculiaridades de cada uma delas. 
 
 
 
2 Funções da Pena. Teorias. 
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Iara
Nota
RECOMEÇAR DAQUInullÚLTIMA LEITURA: 03/05null
 
. 19 
Teoria absoluta ou retributiva 
Para as teorias absolutas também denominadas de retributivas a pena é uma forma de retribuição ao 
criminoso pela conduta ilícita realizada, é a maneira de o Estado lhe contrapesar pelo possível mal 
causado à uma pessoa específica ou à própria sociedade como um todo (bens jurídicos). 
Diante desta teoria, não se vislumbra qualquer outro objeto a não ser o de punir o condenado, lhe 
causando um prejuízo, oriundo de sua própria conduta, um meio de o condenado entender que está sendo 
penalizado em razão de seu desrespeito para com as normas jurídicas e para com seus iguais. 
Não é uma forma de ressocializar o condenado, muito menos reparar o dano causado pelo delito, não 
se fala em reeducação, ou imposição de trabalho com objetivo de dignificar o preso, mas sim, de punir, 
castigar e retribuir ao mesmo a falta de atenção com os parâmetros legais e o desrespeito para com a 
sociedade. 
As teorias absolutas têm como fundamentos da sanção penal a exigência da justiça: pune-se o agente 
porque cometeu o crime. 
Diante dos fundamentos demonstrados constata-se que a teoria absoluta ou retributiva tem como único 
intuito punir o condenado, retribuir o mal causado, com um outro mal consistente na aplicação da pena, 
deixando o mesmo encarcerado, para que este usufrua das consequências de seu crime. 
É também uma forma de demonstraro poder do Estado, exercendo o jus puniendi, para que o 
condenado perceba que sua prisão é uma consequência de seu próprio ato, e que este entenda que se 
não tivesse delinquido não estaria sendo punido e consequentemente, não estaria encarcerado. 
Com isso, o fato da pessoa possuir discernimento e livre arbítrio, já são suficiente para a imediata 
aplicação da pena, em decorrência de um ilícito, pois, o agente teve a faculdade de delinquir ou não, uma 
vez lesando um bem jurídico, permite à aplicação da pena, não havendo segundo tal teoria, qualquer 
outra finalidade senão punir o condenado. 
 
Teoria relativa ou preventiva. 
Esta teoria possui uma pretensão diversa da anterior, e têm por objetivo a prevenção de novos delitos, 
ou seja, busca obstruir a realização de novas condutas criminosas; impedir que os condenados voltem a 
delinquir. 
Observa-se que, para tal teoria, presume-se que o condenado irá cometer novas condutas ilícitas, caso 
não seja punido imediatamente, por esta razão, a teoria relativa ou preventiva visa a impedir o 
cometimento de ilícitos. 
É uma forma de manter a paz e o equilíbrio social, haja vista que aquelas pessoas que presumidamente 
são criminosas, ou tenham uma pré-disposição ao crime, já estarão encarcerados, dificultando assim a 
ocorrência de novas condutas ilegais. 
Classicamente Francesco Carnelutti relata que a finalidade do direito penal é a prevenção de novos 
delitos, evitando a proliferação de condutas criminosas. 
Complementando tal entendimento, Inácio Carvalho Neto afirma que, além de prevenir a ocorrência 
de novos crimes, a teoria relativa tem por escopo a intimidação das demais pessoas para que estas não 
cometam crimes, corrigir o criminoso esporádico e tornar inofensivo o criminoso incorrigível, o autor 
assevera que: “Pela teoria relativa, a pena é uma medida prática que visa impedir o delito. Esta teoria é 
dividida em duas: a da prevenção geral e a da prevenção especial. Para a primeira, o principal escopo e 
efeito da pena é a inibição que esta causa sobre a generalidade dos cidadãos, intimidando-os. Para a 
segunda, a pena visa a intimidação do delinquente ocasional, à reeducação do criminoso habitual 
corrigível, ou a tornar inofensivo o que se demonstra incorrigível”. 
Diante dos posicionamentos doutrinários indicados, constata-se que a teoria relativa não tem por 
objetivo específico a punição do delinquente, mas sim a prevenção de novos crimes, evitando que novas 
condutas criminosas sejam cometidas, presumindo-se desta forma que toda pessoa que cometeu um 
delito, terá grande probabilidade de delinquir novamente. 
 
Teoria mista, unificadora ou eclética. 
O terceiro grupo de teorias à respeito da pena é a denominada teoria mista, unificadora ou eclética, é 
na verdade uma combinação das teorias absolutas e relativas pois, para esta teoria, a pena possui dois 
desideratos específicos, diversos e simultâneos, “foi desenvolvida por Adolf Merkel, sendo a doutrina 
predominante na atualidade” 
 
Para a teoria mista ou eclética a pena é tanto uma retribuição ao condenado pela realização de um 
delito, como uma forma de prevenir a realização de novos delitos. 
 
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Ou seja, é uma mescla entre tais teorias, sendo a pena uma forma de punição ao criminoso, ante o 
fato do mesmo desrespeitar as determinações legais. E também uma forma de prevenir a ocorrência dos 
delitos, tanto na forma geral como na forma específica. 
 
O ilustre doutrinador Bitencourt assevera em sua obra “Tratado de Direito Penal, Parte Geral”, que as 
teorias mistas, também denominadas por ele como unificadoras, buscam um único conceito de pena, 
retribuição do delito cometido, e a prevenção geral e especial: “As teorias mistas ou unificadoras tentam 
agrupar em um conceito único os fins da pena. Esta corrente tenta escolher os aspectos mais destacados 
das teorias absolutas e relativas. Merkel foi, no começa do século, o iniciador desta teoria eclética na 
Alemanha, e, desde então, é a opinião mais ou menos dominante. No dizer de Mir Puig, entende-se que 
a retribuição, a prevenção geral e a prevenção especial são distintos aspectos de um mesmo e complexo 
fenômeno que é a pena”. 
 
Após explicar que a teoria absoluta visa punir, e que a relativa tem por objetivo prevenir e ressocializar, 
Mirabete se refere à terceira teoria dizendo que: "Já para as teorias mistas (ecléticas) fundiram-se as 
duas correntes. Passou-se a entender a pena, por sua natureza, é retributiva, tem seu aspecto moral, 
mas sua finalidade é não só a prevenção, mas também um misto de educação e correção". 
Modernamente, teorias mistas ou ecléticas procuram justificar a aplicação da pena com fundamento 
de ordem moral (retribuição pelo mal praticado) e de ordem utilitária (ressocialização do condenado e 
prevenção de novos crimes). A pena guarda inegavelmente seu caráter retributivo: por mais branda que 
seja, continua sendo um castigo, uma reprimenda aplicável ao infrator da lei positiva. Ao mesmo tempo, 
busca-se com ela alcançar metas utilitaristas, como a de evitar novos crimes e a de recuperação social 
do condenado. 
Portanto, a teoria mista, unificadora ou eclética aderiu às outras duas teorias, possuindo dois 
interesses, o primeiro retribuir ao condenado o mal causado, e o segundo prevenir que o condenado e a 
sociedade busquem o cometimento de novas condutas criminosas. 
 
 
 
Em sentido lato, fonte é a origem, a nascente de algo. Nesse sentido, falar-se de fonte do Direito Penal 
é falar-se onde, genericamente, é produzido o conteúdo jurídico-penal aplicado em nosso cotidiano. E 
esse conteúdo tem origem basicamente no Estado. 
Necessário também ao entendimento do Direito penal é o conhecimento de suas Fontes. A doutrina 
possui o entendimento de que tais fontes podem ser “fontes de produção ou material” e “fontes de 
conhecimento ou formal”. Enquanto a primeira é o próprio Estado, a segunda é a maneira de 
exteriorização e objetivação do Direito Penal. 
Através da edição das normas constitucionais, das leis, dos atos administrativos e das sentenças, o 
Estado identifica o que está e o que não está contido no âmbito do Direito, no caso, no âmbito penal. 
Sobretudo em termos legislativos (já que o Direito Penal é construído formalmente sobre o princípio 
da legalidade) o Estado se caracteriza como fonte penal. Afinal, a definição do que é e do que não é 
crime, e de quais são as condutas criminosas, é tarefa legislativa, portanto, tarefa exclusiva do Estado. 
Tal preceito é, aliás, expressamente consagrado na Constituição Federal, a qual prevê: "Art. 22. Compete 
privativamente à União legislar sobre: I - direito (...) penal (...)". 
Contudo, não significa que apenas o Estado defina os conteúdos penais, mas sim que ele, por 
excelência, tem a função de produzir conteúdos penais ou referendar o conteúdo produzido por outras 
instâncias sociais (doutrinadores, por exemplo). 
Portanto, em linhas gerais, quando estamos nos referindo a fonte material da norma, estamos 
pensando em fonte de criação, ou seja, aquela provinda da União. 
Por outro lado, para chegarmos a definição de fontes formais é um pouco mais complexo, tendo em 
vista que esta varia de doutrinador para doutrinador, que podem ou não concordar entre si. Em uma ótica 
normativista, ou ao menos afinada a ela, tem-se posicionado a maioria dos penalistas brasileiros (com 
elogiáveis exceções) ao abordar as fontes do Direito Penal da seguinte maneira: 
Primeiramente, que elas tem uma posição meramente complementar dos princípios jurídico-penais, 
ignorando ou fingindo ignorar, por sua vez, a importância valorativa que os princípios possuem no 
cotidiano jurídico. 
 
 
3 Características e Fontes do Direito Penal. 
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. 21Outros tratam os costumes, a doutrina e, sobretudo, a jurisprudência como meros complementos 
interpretativos (alguns lhes negam o próprio caráter de fontes de conteúdo), o que, de pronto, leva a 
uma dissociação entre a teoria e a prática do Direito Penal. 
Mirabete indica como fonte direta a lei e como fontes indiretas os costumes e os princípios gerais do 
Direito; igualmente, doutrina, tratados e jurisprudência são relegados a um segundo plano. 
Deste modo, alguns autores consideram como fonte direita as leis em sentido estrito, criadoras e 
revogadoras de normas penais, e como fonte indireta os costumes e os princípios gerais de direito, 
auxiliadores do processo de interpretação e aplicação da lei penal. Neste último contexto, inserem-se as 
súmulas vinculantes – e outras súmulas dos Tribunais Superiores – porque não geram o direito 
diretamente, contudo fornecem meios adequados para a sua interpretação. 
 
No mesmo sentido, cabe destacar o posicionamento do ilustre doutrinador Cleber Masson, para quem 
os modos pelos quais o Direito Penal se revela subdividem-se em: 
 
a) Fonte formal imediata ou primária: é a lei, regra escrita concretizada pelo Poder Legislativo em 
consonância com a forma determinada pela Constituição Federal. Enseja a produção da norma e torna 
obrigatório o seu cumprimento. É a única fonte formal imediata, pois somente a lei pode criar crimes e 
cominar penas. 
b) Fontes formais mediatas ou secundárias: são os costumes, os princípios gerais do Direito e os 
atos administrativos. 
Há entendimentos no sentido de que a doutrina, a jurisprudência e os tratados internacionais 
seriam também fontes formais mediatas do Direito Penal. Contudo, para o autor cabem algumas 
observações, que justificam não ser este o entendimento mais correto. Vejamos: 
A doutrina, por mais abalizada e respeitada que seja, é na verdade um estudo científico, e não se 
reveste de obrigatoriedade. 
De igual modo, a jurisprudência revela o entendimento dos tribunais, servindo como vetor ao 
aplicador do Direito. Não tem natureza cogente, salvo quando representativa de súmula vinculante 
oriunda do Supremo Tribunal Federal, conforme previsto no art. 103-A da Constituição Federal. 
Por fim, os tratados internacionais, ainda que deles o Brasil seja signatário, precisam obedecer a 
procedimento complexo para ingressarem no ordenamento jurídico. Só depois de cumpridas as fases 
perante os Poderes Legislativo e Executivo é que terão força de lei ordinária ou de emenda constitucional, 
dependendo da matéria que seja seu objeto e de seu quórum de aprovação (CF, art. 5.º, § 3.º). 
 
Em resumo, classificar-se-iam da seguinte maneira as fontes do direito: 
 
Fontes do Direito 
Penal 
Material 
União (art. 22, I, da CF) e, excepcionalmente, os 
Estados (art.22, parágrafo único, da CF). 
Formal 
Imediatas Lei 
Mediatas 
Costumes 
Princípios Gerais do Direito 
Atos administrativos 
 
Este é o posicionamento que vem sendo mais aceito pelas bancas nos concursos. 
 
Sem prejuízo do já exposto, considerando outra perspectiva, que procure aproximar teoria e prática – 
em uma ótica que não se limita ao normativismo - as fontes de conteúdo do Direito Penal classificam-
se em fontes imediatas e fontes mediatas. 
As fontes imediatas são aquelas que acabam incidindo, em termos finais, sobre os fatos regulados. 
Compreendem os princípios jurídico-penais (normas-princípio) e as regras (normas penais legisladas). Já 
as fontes mediatas se referem a instâncias de produção de conteúdos penais voltados para a 
interpretação e aplicação das fontes imediatas aos fatos concretos. Pode-se dizer, assim, que as fontes 
imediatas têm o foco nos próprios fatos regulados, enquanto que as mediatas têm o foco nas imediatas. 
Nessa ótica, as fontes do Direito se dividiriam, então, da seguinte maneira: 
 
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. 22 
Fontes do Direito 
Penal 
Imediatas 
Princípios (normas-princípio) 
Regras (normas-legisladas) 
Mediatas 
Costumes 
Doutrina 
Jurisprudência 
Tratados Internacionais 
 
FONTES IMEDIATAS 
 
A teoria geral do Direito se encarregou ao longo do século XX de demonstrar a importância que os 
princípios possuem para a determinação de conteúdo do Direito como um todo e de cada área do Direito 
em específico. 
Tal determinação através dos princípios ganha corpo, sobretudo na interpretação de normas estatais 
e na aplicação destas interpretadas a casos concretos. Assim o é no Direito Penal. 
Há um conjunto de princípios que servem como diretrizes interpretativas e aplicativas das diversas 
normas penais (incriminadoras e não incriminadoras), ou seja, dentro das fontes imediatas, são as 
diretrizes de conteúdo do Direito Penal. 
 As proibições ou imposições de deveres (e punições correspondentes) são estabelecidas 
normativamente, de maneira que tal tarefa não fique ao arbítrio do julgador ou dos órgãos repressores ou 
punitivos do sistema penal. Assim sendo, caracterizando-se as normas penais como fontes imediatas de 
conteúdo, a primeira indagação de ordem lógica se refere ao que são as normas jurídicas. Estas 
consistem em diretrizes e regras de conduta e procedimento impostas coativamente pelo Estado, e 
possuem caráter genérico e abstrato. Elas ordenam, proíbem ou estimulam condutas e, ainda, 
estabelecem procedimentos (requisitos de validade formal) e critérios (requisitos de validade material) 
para ações privadas e estatais. Caracterizam-se, para tais fins, como mandamentos de dever ser. 
Para a esfera penal, devido à importância do princípio da legalidade, interessam em especial às 
normas penais legisladas, ou seja, contidas em leis. 
As normas penais, por sua vez, são normas jurídicas cujo objeto se refere de algum modo (prescritivo, 
permissivo, explicativo, etc) à ideia de crime. São diretrizes ou regras de conduta, e, um primeiro plano, 
e regras interpretativas e complementares de tais regras de conduta, em um segundo plano. Assim, as 
normas penais (como consequência lógica do próprio conceito de Direito Penal) são normas jurídicas que 
definem os crimes e suas respectivas sanções, bem como estabelecem as condições (positivas e 
negativas) de aplicação dessas sanções. 
As normas penais, na mesma linha de qualquer norma jurídica, possuem como principais 
características: 
- generalidade (têm eficácia ‘erga omnes’); 
- abstração (dirigem-se a hipotéticos fatos futuros); 
- estatalidade (possuem origem estatal); 
- coercibilidade (possibilitam o uso da coerção estatal); 
- imperatividade (impõem-se a todos). 
 
Por outro aspecto, são destinatários das normas penais: os cidadãos, no sentido de obediência 
(sentido ‘negativo’, de prevenção e repressão de crimes) e referência frente ao Estado (sentido ‘positivo’, 
de garantia contra a eventualidade de arbitrariedade estatal); os órgãos estatais, para a prevenção 
delitual, para a aplicação punitiva das normas (jurisdicional e executiva) e para a definição dos limites de 
sua atuação repressiva e punitiva. 
Partindo-se da definição proposta de normas penais, e destacando-se delas as diretrizes (normas- 
-princípio), pode-se afirmar que elas se dividem em dois grandes grupos distintos: aquelas que definem 
os crimes e estabelecem as sanções, chamadas de normas (regras) penais incriminadoras; e aquelas 
que estabelecem as condições (de sentido positivo ou negativo) para aplicação dessas sanções, 
chamadas de normas (regras) penais não incriminadoras. 
 
1 - Normas Penais Incriminadoras: São aquelas que definem os crimes e fixam as respectivas penas. 
Elas poderão ser encontradas no Código Penal, dispostas a partir do artigo 121, na Parte Especial do 
Código Penal. Na legislação penal complementar estão esparsas em diversas leis. 
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. 23 
Sua estrutura lógica segue a ideia da ‘proposição jurídica’ kelseniana: "Se A é, B deve ser". Ou seja, 
as normas incriminadoras se caracterizam como proposições de dever ser, hipotéticas e abstratas, em 
que para a hipótese abstratamente descrita está prevista uma consequência jurídica. 
Compõem-se, assim, de preceito + sanção. O preceito se caracteriza como a parte descritiva da norma 
incriminadora, na qual são definidas as características peculiares de cada crime. É através do preceito 
normativo que se forma o tipo penal (modelo incriminador). 
Seu caráter descritivo, porém, não lhe retira a condição de designar um imperativo de conduta, através 
de um comando implícito proibitivo ou obrigacional (de dever). Assim, de uma norma como a do caput do 
artigo 121 do Código Penal, que descritivamente prevê "Matar alguém" (estabelecendo para tal conduta 
descrita a pena de reclusão de 6 a 20 anos), retira-se o comando proibitivo ‘é proibido matar’. Já de uma 
norma como a do artigo 135 do Código Penal, que descritivamente prevê "Deixar de prestar assistência, 
quando possível fazê-lo sem risco pessoal, a criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou 
ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo (...)", retira-se o comando obrigacional (de dever) 
‘todos têm o dever de prestar socorro quando possível fazê-lo sem risco pessoal’. 
Como regra geral, verifica-se que as normas penais incriminadoras conterão comandos implícitos 
proibitivos, e só excepcionalmente comandos obrigacionais (de dever). Tais comandos implícitos são 
decorrentes do tipo de definição do crime contido no preceito. Se este, ao definir o crime, descrever uma 
ação para a qual é prevista a sanção, implicitamente haverá uma proibição. Se, no entanto, o preceito 
incriminador descrever uma omissão - um não fazer - tratar-se-á implicitamente de uma obrigação de 
conduta (de um dever de agir). 
A sanção, por sua vez, caracteriza-se como a parte em que está prevista a pena, a punição. Para cada 
conduta descrita no preceito incriminador, há uma correspondente sanção, ordinariamente consiste em 
pena de detenção ou de reclusão. 
 
2 - Normas Penais Não Incriminadoras: Definido o crime e estabelecida a sanção correspondente 
em uma norma penal incriminadora, não basta que um fato corresponda a tal definição para que se 
caracterize como crime, ou para que possa ser imposta uma pena a quem o praticou. É, primeiramente, 
necessário que algumas condições sejam preenchidas (condições ‘positivas’) para que haja o crime e 
seja imposta uma sanção. De outra parte, é também necessário que algumas hipóteses normativas não 
sejam preenchidas (condições ‘negativas’), pois se forem ou não há crime ou não há possibilidade de 
impor a sanção. 
As normas que preveem tais hipóteses (condições positivas ou negativas) são chamadas de normas 
penais não incriminadoras. Ademais, a interpretação de todas essas normas deve ser balizada pelos 
princípios jurídico-penais. 
Importa frisar que as normas não incriminadoras não possuem caráter incriminatório-punitivo 
autônomo, mesmo quando expliquem conceitos ou de qualquer modo complementem normas 
incriminadoras. Por um lado, não criam novas incriminações (não preveem novos crimes), nem ampliam 
especificamente alguma norma incriminadora (não acrescentam alguma hipótese qualificadora ou 
majorante à definição de crime). Por outro lado, tais normas não preveem específicas sanções penais. 
 
Atente-se: a expressão ‘não incriminadora’ significa apenas que tais normas não trazem definição de 
crime e estabelecimento de sanção. Representa apenas que elas não são incriminadoras. Não significa, 
portanto, que sejam (ao menos não necessariamente) anti-incriminadoras (descriminalizantes ou 
despenalizantes). 
 
De outra parte, as normas penais não incriminadoras podem ser divididas em quatro grupos: 
a) diretivas: são as normas penais ou constitucionais-penais que preveem princípios jurídicos, tendo 
efeito condicionante sobre a interpretação e aplicação das demais normas e dos demais conteúdos do 
Direito Penal. 
b) permissivas/justificantes: são normas que preveem hipóteses que, sob as circunstâncias que 
descrevem, tornam permitido o que ordinariamente é proibido, tornam lícito o que ordinariamente é ilícito, 
tornam justificado o que ordinariamente é crime. 
São exemplos de normas penais não incriminadoras permissivas/justificantes as previstas nos artigos 
23, 128 e 142 do Código Penal. 
c) exculpantes: São normas que afastam a culpabilidade do fato (por não ser recriminável seu 
agente), ou determinam a impunibilidade ou a diminuição da punibilidade de certas condutas (embora o 
fato em si não se torne justificado). 
São exemplos de normas penais não incriminadoras exculpantes os artigos 26, 27 e 181 do Código 
Penal. 
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d) complementares/explicativas/interpretativas: são normas de caráter múltiplo, pois ao menos 
duas das três características sempre estarão juntas. Elas complementam, esclarecem o conteúdo ou 
delimitam o âmbito de aplicação de outras normas, explicam conceitos gerais ou expressões utilizadas 
em outras normas. 
São exemplos de norma penais não incriminadoras complementares/explicativas/interpretativas os 
artigos 4.º a 7.º, 10 a 12, 33, todos do Código Penal. 
 
Em síntese, as normas penais (especialmente as legisladas, devido à preponderância do princípio da 
legalidade na esfera penal) podem ser assim divididas: 
 
Normas 
Penais 
Incriminadoras Definem o crime e quanto da pena 
Não 
Incriminadoras 
Diretivas 
Permissivas/Justificantes 
Exculpantes 
Complementares/Explicativas/ Interpretativas 
 
FONTES MEDIATAS 
 
1 – Costumes: Os costumes se definem como comportamentos sociais constantes e habituais, 
comuns a um vasto grupo de pessoas, que assim agem porque acreditam na necessidade de assim o 
agir. Partindo disso, dos costumes derivam regras sociais (morais) de conduta, de uso geral e constante, 
que as pessoas observam em suas vidas pela convicção de corresponderem a uma necessidade. Importa 
destacar que dos costumes podem derivar regras específicas (as pessoas devem agir de tal modo) ou 
regras genéricas (as pessoas devem decidir por si mesmas como devem agir em determinadas 
situações). 
São elementos que compõem os costumes: observância constante (elemento objetivo) e 
convencimento geral da necessidade (elemento subjetivo). A observância constante por um vasto grupo 
de pessoas indica que não se trata de modismo comportamental, mas sim de um modo de agir 
internalizado pelos indivíduos. 
O convencimento geral da necessidade de seguir ou respeitar as regras sociais derivadas dos 
costumes indica que estes têm algum tipo de força moral sobre os indivíduos, seja positiva (induzindo a 
ações) seja negativa (induzindo ao não fazer). 
 
2 – Doutrina: A doutrina penal consiste no conjunto de conhecimentos escritos, teóricos e científicos, 
sobre o Direito Penal. Decorre da elaboração dos diversos estudos do crime - enquanto fenômeno 
normativo -, da pena - enquanto imposição estatal - e das definições jurídico-penais - enquanto valorações 
sobre os crimes e as penas. Trata-se, portanto, do conhecimento científico produzido sobre os conteúdos 
- normativos ou sub-normativos - do Direito Penal, definindo ou especificando conceitos operacionais para 
que o Direito Penal seja aplicado a situações concretas do mundo e da vida. 
O papel da doutrina é singular, pois através das reflexões dos teóricos do Direito se apontam os rumos 
gerais que as interpretações jurídicas têm e podem - ou devem - vir a ter ao longo do tempo e diante das 
transformações culturais que ocorrem na sociedade. De maneira que serve, inclusive, como instrumento 
de atualização dos conteúdos normativos do DireitoPenal. 
 
3 – Jurisprudência: Consiste no conjunto de decisões judiciais constantes e repetidas sobre temas 
semelhantes, emanadas principalmente dos tribunais (embora não sejam desprezíveis as decisões de 
juízes singulares). Representa a direção efetiva que o Direito toma em sua aplicação concreta, em sua 
interpretação in casu (no caso concreto). 
Destacam-se como conteúdos jurisprudenciais as Súmulas, por registrarem de modo específico o 
entendimento dos Tribunais sobre determinados temas. Elas consistem em enunciados específicos, de 
um determinado tribunal, sobre um assunto que reiteradamente é julgado por tal órgão jurisdicional em 
um mesmo sentido. Assim, o tribunal define previamente que o seu entendimento sobre aquele assunto, 
em um primeiro momento, será o que estiver expresso na Súmula. 
 
 
 
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. 25 
4 – Tratados e Convenções Internacionais: 
Consistem em acordos entre Estados soberanos, sobre temas específicos, indicando normas 
(ordinariamente normas-princípio) que os Estados signatários se comprometem a tentar cumprir. Têm 
especial importância para o Direito Penal quanto à fixação de compromissos internacionais de respeito 
aos direitos humanos. 
 
Questões 
 
01. (TJ/ES- JUIZ- CESPE/2011) Assinale a opção correta com referência às fontes de direito penal. 
(A) Fontes formais mediatas do direito penal, os costumes qualificam-se como princípio 
consuetudinário com a mera repetição mecânica de uma regra de conduta. 
(B) A jurisprudência, entendida como a repetição de decisões em um mesmo sentido, emanadas dos 
tribunais, é fonte de criação do direito penal. 
(C) Quando serve de orientação ao legislador, mediante a formação de comissões prévias de estudos, 
a doutrina passa a ser fonte formal mediata do direito penal. 
(D) A lei, fonte material do direito penal, constitui a expressão suprema da vontade do Estado, a que 
outras fontes se condicionam e se subordinam. 
(E) A doutrina e a jurisprudência podem ter influência mais ou menos direta na sanção e modificação 
das leis, mas não são fontes do direito penal. 
 
02. (PC/SP - Delegado de Polícia - PC-SP/2012) Com relação às fontes do Direito Penal, é correto 
dizer que as fontes formais são classificadas em 
(A) materiais e de cognição. 
(B) imediata e substancial 
(C) mediata e de produção. 
(D) mediata e imediata 
(E) exclusivamente de cognição. 
 
Respostas 
 
01. Resposta: E 
Considerando os ensinamentos apresentados acerca das fontes do direito penal, analisemos as 
alternativas. Primeiramente, a alternativa “A” está incorreta, uma vez que um costume não se trata de 
uma mera repetição mecânica de uma regra de conduta, mas sim de um modo de agir internalizado pelos 
indivíduos. A alternativa “B” está incorreta, haja vista que o direito penal não pode ser “criado” por 
jurisprudência. A alternativa “C” está incorreta, pois não se exige que a doutrina seja formada por 
comissão prévia de estudos para servir como orientação ao legislador e somente assim ter eficácia como 
fonte mediata. A alternativa “D” está incorreta, considerando que as demais fontes do direito penal não 
se condicionam ou subordinam à lei. Por fim, resta como correta apenas a alternativa “E”, pois “a doutrina 
e a jurisprudência”, embora tenham suma importância no âmbito do direito penal, para alguns autores 
não é considerado fonte da norma, sendo esta composta apenas pelas leis (fonte mediata), pelos 
costumes e princípios do direito (fontes imediatas). 
 
02. Resposta: D 
De acordo com o ilustre doutrinador Cleber Masson, as fontes formais (cognitivas ou de conhecimento) 
dividem-se em: imediatas (primárias) e mediatas (secundárias). 
 
 
 
Etimologicamente, princípio tem vários significados, entre os quais o de momento em que algo tem 
origem, causa primária, elemento predominante na constituição de um corpo orgânico; preceito, regra ou 
lei; fonte ou causa de uma ação. 
No sentido jurídico, não se poderia fugir de tais noções, de modo que o conceito de princípio indica 
uma ordenação, que se irradia e imanta os sistemas de normas, servindo de base para a interpretação, 
integração, conhecimento e aplicação do direito positivo. 
Existem determinados princípios que estão expressamente previstos na lei, enquanto outros estão 
implícitos no sistema normativo. 
4 Princípios aplicáveis ao Direito Penal. 
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Existem ainda os que estão enumerados na Constituição Federal, denominados de princípios 
constitucionais (explícitos e implícitos) servindo de orientação para a produção legislativa ordinária, 
atuando como garantias diretas e imediatas aos cidadãos e funcionando como critérios de interpretação 
e integração do texto constitucional. 
 
1. Princípios regentes 
O conjunto dos princípios constitucionais forma um sistema próprio, com lógica e autorregulação. 
Por isso, torna-se imperioso destacar dois aspectos: 
 a) há integração entre os princípios constitucionais penais e os processuais penais; 
b) coordenam o sistema de princípios os mais relevantes para a garantia dos direitos humanos 
fundamentais: dignidade da pessoa humana e devido processo legal. 
Estabelece o art. 1.º, III, da Constituição Federal: “A República Federativa do Brasil, formada pela 
união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de 
Direito e tem como fundamentos: (...) III – a dignidade da pessoa humana”. No art. 5.º, LIV, da Constituição 
Federal, encontra-se: “ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”. 
Não se pode considerar como justo e realmente isonômico algo que passe ao largo da dignidade 
humana, base sobre a qual todos os direitos e garantias individuais são erguidos e sustentados. Ademais, 
inexistiria razão de ser a tantos preceitos fundamentais não fosse o nítido suporte prestado à dignidade 
humana. 
Há dois prismas para o princípio constitucional regente da dignidade da pessoa humana: objetivo e 
subjetivo. 
Sob o aspecto objetivo, significa a garantia de um mínimo existencial ao ser humano, atendendo às 
suas necessidades básicas, como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, 
transporte e previdência social, nos moldes fixados pelo art. 7.º, IV, da CF. 
Sob o aspecto subjetivo, trata-se do sentimento de respeitabilidade e autoestima, inerentes ao ser 
humano, desde o nascimento, em relação aos quais não cabe qualquer espécie de renúncia ou 
desistência. 
O Direito Penal, constituindo a mais drástica opção estatal para regular conflitos e aplicar sanções, 
deve amoldar-se ao princípio regente da dignidade humana, justamente pelo fato de se assegurar que o 
braço forte do Estado continue a ser democrático e de direito. 
O devido processo legal guarda suas raízes no princípio da legalidade, garantindo ao indivíduo que 
somente seja processado e punido se houver lei penal anterior definindo determinada conduta como 
crime, cominando-lhe pena. Além disso, modernamente, representa a união de todos os princípios penais 
e processuais penais, indicativo da regularidade ímpar do processo criminal. 
Associados, os princípios constitucionais da dignidade humana e do devido processo legal entabulam 
a regência dos demais, conferindo-lhes unidade e coerência. A criação do tipo e adequação concreta da 
conduta ao tipo devem operar-se em consonância com os princípios constitucionais do Direito Penal, os 
quais derivam da dignidade da pessoa humana que, por sua vez, encontra fundamento no Estado 
Democrático de Direito. 
Dos princípios orientadores e limitadores do Direito Penal que decorrem da dignidade, merecem 
destaque: 
 
1.1. Princípios Constitucionais explícitos 
 
1.1.1. Princípio da Legalidade (ou reserva legal):O princípio da reserva legal delimita o poder 
punitivo do Estado e dá ao Direito Penal uma função garantista. Este define o delito e a pena, ficando os 
cidadãos cientes de que só pelos fatos anteriormente delineados como crimes poderão ser 
responsabilizados criminalmente e apenas naquelas sanções previamente fixadas podem ser 
processados e condenados. 
Tal princípio possui um fundamento de natureza jurídica e outro de natureza política. O fundamento 
jurídico é a taxatividade, certeza ou determinação (não há espaço para a analogia in malam partem). 
Implica, por parte do legislador, a determinação precisa, ainda que mínima, do conteúdo do tipo penal 
e da sanção penal a ser aplicada, bem como, da parte do juiz, na máxima vinculação ao mandamento 
legal, inclusive na apreciação de benefícios legais. 
O fundamento político é a proteção do ser humano em face do arbítrio do poder de punir do Estado. 
 
1.1.2. Princípio da Anterioridade: Este princípio disciplina que uma lei penal incriminadora somente 
pode ser aplicada a um fato concreto, caso tenha tido origem antes da prática da conduta para a qual se 
destina. 
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. 27 
 Conforme estipulam o texto constitucional e o art. 1.º do Código Penal, “não há crime sem lei 
anterior que o defina”, nem tampouco pena “sem prévia cominação legal”. 
Não teria sentido adotarmos o princípio da legalidade, sem a correspondente anterioridade, pois criar 
uma lei, após o cometimento do fato, seria totalmente inútil para a segurança que a norma penal deve 
representar a todos os seus destinatários. 
 O indivíduo somente está protegido contra os abusos do Estado, caso possa ter certeza de que as 
leis penais são aplicáveis para o futuro, a partir de sua criação, não retroagindo para abranger condutas 
já realizadas. 
A lei penal produz efeitos a partir de sua entrada em vigor, não se admitindo sua retroatividade 
maléfica. Não pode retroagir, salvo se beneficiar o réu. 
 É proibida a aplicação da lei penal inclusive aos fatos praticados durante seu período de vacatio. 
Embora já publicada e vigente, a lei ainda não estará em vigor e não alcançará as condutas praticadas 
em tal período. 
Vale destacar, entretanto, a existência de entendimentos no sentido de aplicabilidade da lei em vacatio, 
desde que para beneficiar o réu. 
 
Vacatio refere-se ao tempo em que a lei é publicada até a sua entrada em vigor. Em regra, a lei 
somente será aplicável a fatos praticados posteriormente a sua vigência. 
 
1.1.3. Princípio da retroatividade da lei mais benéfica: É natural que, havendo anterioridade 
obrigatória para a lei penal incriminadora, não se pode permitir a retroatividade de leis, especificamente 
as prejudiciais ao acusado. Logo, quando novas leis entram em vigor, devem envolver somente fatos 
concretizados sob a sua égide. 
Abre-se exceção à vedação à irretroatividade quando se trata de lei penal benéfica. Esta pode voltar 
no tempo para favorecer o agente, ainda que o fato tenha sido decidido por sentença condenatória com 
trânsito em julgado (art. 5.º, XL, CF; art. 2.º, parágrafo único, CP). 
Este princípio pode ser também denominado como princípio da irretroatividade da lei penal, adotando 
como regra que a lei penal não poderá retroagir, mas, como exceção, a retroatividade da lei benéfica ao 
réu ou condenado. 
 
1.1.4. Princípio da Humanidade: A Declaração dos Direitos do Homem disciplina em seu artigo 5º, 
que: "ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano e degradante". 
No mesmo sentido, a Convenção Internacional sobre Direitos Políticos e Civis, de 1966, dispõe em 
seu artigo 10, inciso I, que: "o preso deve ser tratado humanamente, e com o respeito que lhe corresponde 
por sua dignidade humana". 
 A Constituição Federal de 1988 trouxe diversos dispositivos onde se constata a consagração do 
princípio da humanidade. Exemplo: artigo 5, inciso XLIX, da Lei Maior, que: "é assegurado aos presos o 
respeito à integridade física e moral". O próximo inciso do mesmo artigo assevera que: "às presidiárias 
são asseguradas as condições para que possam permanecer com seus filhos durante o período da 
amamentação". 
 Ainda mais enfatizante é o inciso XLVII, do citado artigo, que dispõe: "não haverá penas: a) de morte, 
salvo em caso de guerra declarada, nos termos do artigo 84, XIX; b) de caráter perpétuo; c) de trabalhos 
forçados; d) de banimento; e) cruéis". 
São estas imposições ao legislador e ao intérprete de mecanismos de controle de tipos legais. Disso 
resulta ser inconstitucional a criação de um tipo ou a cominação de alguma pena que atente 
desnecessariamente contra a incolumidade física ou moral de alguém (atentar necessariamente significa 
restringir alguns direitos nos termos da Constituição e quando exigido para a proteção do bem jurídico). 
 
1.1.5. Princípio da Pessoalidade: Aduz que a pena não pode passar da pessoa que praticou o delito. 
A Carta Magna em vigor disciplina no artigo 5º, inciso XLV que: "nenhuma pena passará da pessoa do 
condenado (...)". 
A pena não pode se estender a pessoas que não participaram do delito, ainda que haja laços de 
parentesco, afinidade ou amizade com o condenado. Não se pode esquecer, contudo, que a pena pode 
gerar danos e sofrimentos a terceiros, em especial à família. Assim, determinadas legislações vêm 
disciplinando a criação de institutos que auxiliam tanto a família do sentenciado, como a vítima do delito. 
 
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1.1.6. Princípio da Individualização da Pena: A legislação constitucional pátria consagrou o princípio 
no artigo 5, inciso XLVI, dispondo que: "a lei regulará a individualização da pena". A individualização da 
pena passa por três fases distintas: A legislativa, a judicial e a executória ou administrativa. 
No primeiro momento, a lei delimita as penas para cada tipo de delito, guardando proporcionalidade 
com a importância do bem jurídico defendido e com o grau de lesividade da conduta. Nesta fase, ainda, 
se estabelecem as espécies de penas que podem ser aplicadas, de forma cumulativa, alternativa ou 
exclusiva. 
Na segunda fase, ocorre a individualização realizada pelos magistrados. Diante das diretrizes fixadas 
pela legislação, o juiz vai decidir qual das penas deve ser aplicada e qual a sua quantidade, dentro dos 
limites trazidos no preceito penal secundário, determinando, inclusive, o meio de sua execução. As regras 
básicas da individualização da pena, em nosso Código Penal, estão previstas no artigo 59 e não podem 
deixar de ser observadas pelo juiz. 
A terceira e última etapa da individualização da pena ocorre com sua execução e é denominada de 
individualização administrativa ou individualização executória. A Constituição Federal traz alguns 
preceitos que devem ser respeitados na etapa executória. No artigo 5ª, inciso XLIX, diz ser "assegurado 
aos presos o respeito a integridade física e moral". Já no inciso XLVIII, do mesmo artigo, impõe-se que o 
cumprimento da pena dar-se-á em estabelecimentos que atendam "à natureza do delito, a idade e o sexo 
do apenado". 
 
1.1.7 Princípio da presunção de inocência (ou da não culpa): A Constituição Federal, no artigo 5º, 
inciso LVII, determina que “ninguém será considerado culpado até trânsito em julgado de sentença penal 
condenatória”. Percebam que a nossa Carta Magna, não presume, expressamente, o cidadão inocente, 
mas impede considerá-lo culpado até a decisão condenatória definitiva. 
A doutrina moderna discorda da denominação presunção ou estado de inocência. Prefere a expressão 
não culpabilidade, porque está se coaduna exatamente com o texto constitucional. 
Para essa corrente doutrinária, a Constituição Federal é clara ao expressar que “ninguém será 
considerado culpado atéo trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Nessa linha, pode-se 
transcrever trecho dos ensinamentos de Paulo Rangel, que é categórico ao afirmar que: “A Constituição 
não presume a inocência, mas declara que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado 
da sentença penal condenatória (art. 5º, LVII). Em outras palavras, uma coisa é a certeza da culpa, outra, 
bem diferente, é a presunção da culpa”. 
Depreende-se com a leitura da Carta Política de 1988 que o Constituinte utilizou a palavra considerar 
e não presumir. Assim, quando se considera uma pessoa inocente, tem-se a certeza que dessa forma ela 
será tratada até que tenha uma sentença penal condenatória definitiva. 
 
1.2. Princípios Constitucionais implícitos 
 
1.2.1. Princípio do “in dubio pro reo”: Se houver qualquer dúvida, após a utilização de todas as 
formas de interpretação, a questão deverá ser resolvida da maneira mais favorável ao réu. 
 
1.2.2. Princípio da vedação do “bis in idem”: Significa que ninguém pode ser condenado duas vezes 
pelo mesmo fato. Além disso, por esse princípio, determinada circunstância não pode ser empregada 
duas vezes em relação ao mesmo crime, quer para agravar, quer para reduzir a pena. 
Esse princípio encontra cenário para a sua fiel observância quando da aplicação da pena. Existindo 
vários estágios e fases para fixar a sanção penal, é preciso atenção por parte do julgador, a fim de não 
considerar o mesmo fato mais de uma vez para provocar o aumento da pena. 
 Ilustrando: se alguém comete um homicídio por motivo fútil, incide a qualificadora do art. 121, § 2º, II, 
do Código Penal, mas não pode ser aplicada, concomitantemente, a agravante genérica do motivo fútil, 
prevista no art. 61, II, a. Essa agravante, portanto, será aplicada a outros crimes em que a futilidade da 
motivação não esteja prevista como qualificadora. 
 
1.2.3. Princípio da Insignificância ou bagatela: O Direito Penal não deve se preocupar com 
bagatelas, assuntos irrelevantes. Do mesmo modo que não podem ser admitidos tipos incriminadores 
que descrevam condutas incapazes de lesar o bem jurídico. 
A tipicidade penal exige um mínimo de lesividade ao bem jurídico protegido, pois é inconcebível que o 
legislador tenha imaginado inserir em um tipo penal condutas totalmente inofensivas ou incapazes de 
lesar o interesse protegido. 
O Supremo Tribunal Federal, por sua vez, assentou “algumas circunstâncias que devem orientar a 
aferição do relevo material da tipicidade penal”, tais como: 
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. 29 
a) a mínima ofensividade da conduta do agente; 
b) a nenhuma periculosidade social da ação; 
c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e 
d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada. 
Importante destacar que o reduzido valor patrimonial do objeto material não autoriza, por si só, o 
reconhecimento da criminalidade de bagatela. Exigem-se também requisitos subjetivos. Não há um valor 
máximo apto a limitar a incidência do princípio da insignificância. Sua análise há de ser efetuada levando-
se em conta o contexto em que se deu a prática da conduta. 
O reconhecimento da incidência do princípio da insignificância trata-se de causa supralegal de 
exclusão da tipicidade. 
Ainda, de acordo com o que preleciona o STF, nem mesmo o trânsito em julgado da condenação 
impede o reconhecimento do princípio. E ainda, o princípio tem aplicação a qualquer espécie de delito 
que com ele seja compatível, e não apenas aos crimes contra o patrimônio. 
O STJ possui entendimento no sentido da inadmissibilidade do princípio da insignificância no tocante 
aos crimes contra a Administração Pública, mas o STF já o admitiu em situações excepcionais. Também 
incide nos crimes contra a ordem tributária, a exemplo do descaminho (CP, art. 334), quando o tributo 
devido não ultrapassa o valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais). 
 
1.2.4. Princípio da Alterabilidade ou transcendentalidade: proíbe a incriminação de atitude 
meramente interna, subjetiva e que, por essa razão, revela-se incapaz de lesionar o bem jurídico. O fato 
típico pressupõe um comportamento que transcenda a esfera individual do autor e seja capaz de atingir 
o interesse do outro. Por essa razão, a autolesão não é crime, falta lesividade que possa legitimar a 
intervenção penal. 
 
1.2.5. Princípio da Confiança: funda-se na premissa de que todos devem esperar por parte das outras 
pessoas que estas sejam responsáveis e ajam de acordo com as normas da sociedade, visando a evitar 
danos a terceiros. 
Por exemplo, se um motorista trafegando pela preferencial passar por um cruzamento, na confiança 
de que o veículo da via secundária aguardará sua passagem, em havendo um acidente, o motorista não 
terá agido com culpa. 
Portanto, não realiza conduta típica, aquele que agindo de acordo com o direito, acaba por se envolver 
em situação na qual um terceiro descumpriu seu dever de lealdade e cuidado. 
 
1.2.6. Princípio da Adequação Social: todo comportamento que, a despeito de ser considerado 
criminoso pela lei, não afronta o sentimento social de justiça (aquilo que a sociedade tem por justo) não 
pode ser considerado criminoso. 
As condutas aceitas socialmente e consideradas normais não podem sofrer este tipo de valoração 
negativa, sob pena de a lei incriminadora padecer do vício da inconstitucionalidade. 
 
1.2.7. Princípio da Intervenção Mínima: A aplicação abusiva da previsão legislativa penal faz com 
que ela perca parte de seu mérito e, assim, sua força intimidadora. 
O princípio da intervenção mínima está diretamente ligado aos critérios do processo legislativo de 
elaboração de leis penais, servindo, num primeiro momento, como regra de determinação qualitativa 
abstrata para o processo de tipificação das condutas, e, num segundo momento, juntamente com o 
princípio da proporcionalidade dos delitos e das penas, cominar a sanção pertinente. 
Desta forma, surge como tendência, a ideia de que só se deve criminalizar condutas de efetiva 
gravidade e que atinjam bens fundamentais, valores básicos de convívio social. 
Em linhas gerais, significa que o direito penal não deve interferir em demasia na vida do indivíduo, 
retirando-lhe autonomia e liberdade. Afinal, a lei penal não deve ser vista como a primeira opção (prima 
ratio) do legislador para compor conflitos existentes em sociedade, os quais, pelo atual estágio de 
desenvolvimento moral e ético da humanidade, sempre estarão presentes. 
Assim, caso o bem jurídico possa ser protegido de outro modo, deve-se abrir mão da opção legislativa 
penal, justamente para não banalizar a punição, tornando-a, por vezes, ineficaz, porque não cumprida 
pelos destinatários da norma e não aplicada pelos órgãos estatais encarregados da segurança pública. 
Cabe destacar ainda que o princípio da intervenção mínima é visto por alguns doutrinadores como 
sinônimo do princípio da subsidiariedade. 
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. 30 
Contudo, está cada vez mais presentes em concursos públicos o entendimento de ilustre doutrinador 
Cleber Masson6, que nos ensina que o princípio da intervenção mínima (gênero) subdivide-se em outros 
dois princípios (espécies): fragmentariedade e subsidiariedade. Assim, temos as seguintes definições: 
1.2.7.1. Princípio da fragmentariedade ou caráter fragmentário do Direito Penal: Estabelece que 
nem todos os ilícitos configuram infrações penais, mas apenas os que atentam contra valores 
fundamentais para a manutenção e o progresso do ser humano e da sociedade. Em razão de seu caráter 
fragmentário, o Direito Penal é a última opção (ultima ratio) de proteção do bem jurídico. 
1.2.7.2. Princípio da subsidiariedade: A atuação do Direito Penal é cabível unicamente quando os 
outros ramos do Direito e os demaismeios estatais de controle social tiverem se revelado impotentes 
para o controle da ordem pública. Em sua atuação prática o Direito Penal somente se legitima quando os 
demais meios disponíveis já tiverem sido empregados, sem sucesso, para proteção do bem jurídico. 
Guarda relação com a tarefa de aplicação da lei penal. 
 
1.2.8. Princípio da Proporcionalidade: Toda vez que o legislador cria novo delito, impõe um ônus à 
sociedade, decorrente da ameaça de punição que passa a pairar sobre todos os cidadãos. Uma 
sociedade incriminadora é uma sociedade invasiva, que limita com demasia a liberdade das pessoas. 
Por outro lado, esse ônus é compensado pela vantagem de proteção do interesse tutelado pelo 
incriminador. A sociedade vê limitados certos comportamentos, ante a cominação da pena, mas também 
desfruta de uma tutela a certos bens, os quais ficarão sob a guarda do Direito Penal. 
 Assim, diante do princípio da proporcionalidade, quando o custo for maior do que a vantagem, o tipo 
penal será inconstitucional. 
 
1.2.9. Princípio da Necessidade e idoneidade: A incriminação de alguém só pode ocorrer quando a 
tipificação revelar-se necessária, idônea e adequada ao fim a que se destina, ou seja, à concreta e real 
proteção do bem jurídico. 
 
1.2.10. Princípio da Ofensividade, princípio do fato e da exclusiva proteção do bem jurídico: Não 
há crime quando a conduta não tiver oferecido ao menos um perigo concreto, real, efetivo e comprovado 
de lesão ao bem jurídico. 
O princípio do fato não permite que o direito penal se ocupe das intenções e pensamentos das 
pessoas, do modo de viver ou de pensar, das atitudes internas. O princípio da ofensividade considera 
inconstitucionais todos os chamados “delitos de perigo abstrato”, pois, segundo ele não há crime sem 
comprovada lesão ou perigo de lesão a um bem jurídico. 
 Não se confunde com o princípio da exclusiva proteção do bem jurídico, segundo o qual, o direito não 
pode defender valores meramente morais éticos ou religiosos, mas também, os bens fundamentais para 
a convivência e o desenvolvimento social. 
 
1.2.11. Princípio da autorresponsabilidade: os resultados danosos que decorrem da ação livre e 
inteiramente responsável de alguém só podem ser imputados a este e não àquele que o tenha 
anteriormente motivado. 
Exemplo: sujeito é aconselhado por outro a praticar esportes mais radicais, este resolve pular de 
bungee jumping. Acaba sofrendo um acidente, vindo a falecer. O resultado morte não pode ser imputado 
a ninguém mais, além da vítima, pois foi a sua vontade livre, responsável e consciente que a impeliu a 
correr os riscos. 
 
1.2.12. Princípio da responsabilidade pelo fato: Os tipos penais devem definir fatos, associando-
lhes as penas respectivas, e não estereotipar autores em razão de alguma condição específica. 
Não se admite um Direito Penal do autor, mas somente um Direito Penal do fato. Ninguém pode ser 
punido exclusivamente por questões pessoais. Ao contrário, a pena se destina ao agente culpável 
condenado, após o devido processo legal, pela prática de um fato típico e ilícito. 
 
1.2.13. Princípio da imputação pessoal: O Direito Penal não pode castigar um fato cometido por 
agente que atue sem culpabilidade. Em outras palavras, não se admite a punição quando se tratar de 
agente inimputável, sem potencial consciência da ilicitude ou de quem não se possa exigir conduta 
diversa. O fundamento da responsabilidade penal pessoal é a culpabilidade (nulla poena sine culpa). 
 
 
6 Masson, Cleber Direito penal esquematizado – Parte geral – vol.1 – 9.ª ed. rev., atual. e ampl. – Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: 
MÉTODO, 2015. 
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. 31 
1.2.14. Princípio da Taxatividade: As leis penais devem ser claras, precisas e bem elaboradas de 
forma que seus destinatários possam compreendê-las, não podem aqueles que devem cumprir a Lei 
terem dúvidas pelo modo como foram elaboradas. 
Não se admite a criação de tipos que contenham conceitos vagos ou imprecisos. Impõe-se ao Poder 
Legislativo, na elaboração das leis, que redija tipos penais com a máxima precisão de seus elementos. É 
nitidamente decorrente da legalidade, logo, Constitucional Implícito. 
 
1.2.15. Princípio da Consunção: É o princípio segundo o qual um fato mais amplo e mais grave 
consome, isto é, absorve outros fatos menos amplos e graves, que funcionam como fase normal de 
preparação ou, execução, ou mero exaurimento. 
 
Questões 
 
01. (SEGEP/MA - Auditor Fiscal da Receita Estadual - FCC/2016) O princípio do direito penal que 
possui claro sentido de garantia fundamental da pessoa, impedindo que alguém possa ser punido por fato 
que, ao tempo do seu cometimento, não constituía delito é 
(A) atipicidade. 
(B) reserva legal. 
(C) punibilidade. 
(D) analogia. 
(E) territorialidade. 
 
02. (TCE/PR – Auditor - CESPE/2016) A respeito dos princípios aplicáveis ao direito penal, assinale 
a opção correta. 
(A) Do princípio da individualização da pena decorre a exigência de que a dosimetria obedeça ao perfil 
do sentenciado, não havendo correlação do referido princípio com a atividade legislativa incriminadora, 
isto é, com a feitura de normas penais incriminadoras. 
(B) Conforme o entendimento doutrinário dominante relativamente ao princípio da intervenção mínima, 
o direito penal somente deve ser aplicado quando as demais esferas de controle não se revelarem 
eficazes para garantir a paz social. Decorrem de tal princípio a fragmentariedade e o caráter subsidiário 
do direito penal. 
(C) Ao se referir ao princípio da lesividade ou ofensividade, a doutrina majoritária aponta que somente 
haverá infração penal se houver efetiva lesão ao bem jurídico tutelado. 
(D) Em decorrência do princípio da confiança, há presunção de legitimidade e legalidade dos atos dos 
órgãos oficiais de persecução penal, razão pela qual a coletividade deve guardar confiança em relação a 
eles. 
(E) Dado o princípio da intranscendência da pena, o condenado não pode permanecer mais tempo 
preso do que aquele estipulado pela sentença transitada em julgado. 
 
03. (PC/PA - Delegado de Polícia Civil - FUNCAB/2016) Expressiva parcela da doutrina sustenta a 
inadequação do crime de escrito ou objeto obsceno (art. 234 do CP) para com os princípios que instruem 
o direito penal democrático. Um dos focos dessa inadequação reside na indevida alocação do sentimento 
público de pudor como objeto da tutela jurídica. Isso representa, em tese, violação ao princípio da: 
(A) intranscendência. 
(B) culpabilidade. 
(C) taxatividade. 
(D) ofensividade. 
(E) insignificância. 
 
04. (DPE/MA - Defensor Público - FCC/2015) A proscrição de penas cruéis e infamantes, a proibição 
de tortura e maus-tratos nos interrogatórios policiais e a obrigação imposta ao Estado de dotar sua 
infraestrutura carcerária de meios e recursos que impeçam a degradação e a dessocialização dos 
condenados são desdobramentos do princípio da 
(A) proporcionalidade. 
(B) intervenção mínima do Estado. 
(C) fragmentariedade do Direito Penal. 
(D) humanidade. 
(E) adequação social. 
 
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. 32 
05. (DPE/RO - Analista da Defensoria Pública - FGV/2015) Carlos, primário e de bons antecedentes, 
subtraiu, para si, uma mini barra de chocolate avaliada em R$ 2,50 (dois reais e cinquenta centavos). 
Denunciado pela prática do crime de furto, o defensor público em atuação, em sede de defesa prévia, 
requereu a absolvição sumária de Carlos com base no princípio da insignificância. De acordo com a 
jurisprudência dos Tribunais Superiores, o princípio da insignificância: 
(A) funciona como causa supralegal de exclusão de ilicitude; 
(B) afasta a tipicidade do fato; 
(C) funcionacomo causa supralegal de exclusão da culpabilidade; 
(D) não pode ser adotado, por não ser previsto em nosso ordenamento jurídico; 
(E) funciona como causa legal de exclusão da culpabilidade. 
 
Respostas 
 
01. Resposta: B 
O princípio da reserva legal delimita o poder punitivo do Estado e dá ao Direito Penal uma função 
garantista. Este define o delito e a pena, ficando os cidadãos cientes de que só pelos fatos anteriormente 
delineados como crimes poderão ser responsabilizados criminalmente e apenas naquelas sanções 
previamente fixadas podem ser processados e condenados. 
 
02. Resposta: B 
Segundo o princípio da intervenção mínima, o direito penal só se justifica em ultima ratio do Direito, ou 
seja, quando o conflito puder ser resolvido por outro ramo do direito, não deverá ser utilizado o direito 
penal. Ele se subdivide em dois princípios: fragmentariedade e subsidiariedade. 
 
03. Resposta: D 
De acordo com o princípio da ofensividade, não há infração penal quando a conduta não tiver oferecido 
ao menos perigo de lesão ao bem jurídico. De acordo com doutrina o crime de escrito ou objeto obsceno, 
não oferece lesão ou perigo de lesão ao sentimento público de pudor, e assim, não deve ser considerado 
crime. 
 
04. Resposta: D 
O princípio da humanidade relaciona-se com os direitos humanos, garantindo a dignidade da pessoa. 
O direito penal tem que ser humanitário quando aplica suas penas. Assim, este princípio determina a 
inconstitucionalidade de qualquer pena ou consequência do delito que crie uma deficiência física (morte, 
amputação, castração ou esterilização, intervenção neurológica etc.), como também qualquer 
consequência jurídica inapagável do delito. 
 
05. Resposta: B 
O reconhecimento da incidência do princípio da insignificância trata-se de causa supralegal de 
exclusão da tipicidade. De acordo com o posicionamento dos Tribunais Superiores, nem mesmo o trânsito 
em julgado da condenação impede o reconhecimento do princípio. E ainda, o princípio tem aplicação a 
qualquer espécie de delito que com ele seja compatível, e não apenas aos crimes contra o patrimônio. 
 
 
 
A doutrina estuda a interpretação da lei penal sobre três enfoques: quanto ao sujeito, quanto ao modo, 
quanto ao resultado. 
 
Quanto ao sujeito (origem): 
 
a) Autêntica (legislativa): a interpretação feita pela própria lei (ex: conceito de funcionário público 
previsto no art. 327 do CP). 
b) Doutrinária ou científica: é a interpretação feita pelos estudiosos do direito. 
c) Jurisprudencial: é fruto das decisões reiteradas de nossos tribunais. Em regra, não vincula, salvo as 
súmulas vinculantes. 
 
 
5 Interpretação da lei penal. 5.1 Analogia. 
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. 33 
Quanto ao modo: 
 
a) Gramatical: quando leva em conta o sentido literal das palavras. 
b) Teleológica: indaga-se a vontade ou intenção objetivada na lei. 
c) Histórica: indaga-se a origem da lei (analisam-se os fatos sociais, as discussões no Congresso 
Nacional). 
d) Sistemática: interpreta-se a lei considerando o sistema, ou seja, a lei é interpretada com o conjunto 
da legislação ou dos princípios gerais de direito. 
e) Progressiva: interpreta-se a lei de acordo com o progresso da ciência. 
 
Observação: o uso de um modo de interpretação não obsta que outro seja usado concomitantemente. 
 
Quanto ao resultado: 
 
a) Declarativa: a letra da lei corresponde exatamente àquilo que o legislador quis dizer. 
b) Extensiva: amplia-se o alcance da palavra do texto para se chegar até a vontade ou intenção do 
texto. 
c) Restritiva: restringe-se o alcance da palavra do texto para se chegar a vontade ou intenção do texto. 
 
Observação: a interpretação extensiva não se confunde com a interpretação analógica, pois nesta o 
significado que se busca é extraído do próprio dispositivo, levando-se em conta as expressões genéricas 
e abertas utilizadas pelo legislador. Exemplos: art. 121, § 2º, I, CP (“ou por outro motivo torpe”); art. 121, 
§ 2º, III (“ou outro modo insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo comum”). Em ambos os 
exemplos dados, o legislador, por não conseguir prever todos os modos, exemplificou uma conduta e 
terminou os incisos com ordenamento genérico. 
É importante frisar que as hipóteses de interpretação acima expostas (extensiva e analógica) não se 
confundem com a analogia. Nesse caso, ao contrário dos anteriores, partimos do pressuposto de que não 
existe uma lei a ser aplicada ao caso concreto, socorrendo-se daquilo que o legislador previr para outro 
similar. A seguir, aprofundaremos referido instituto. 
 
ANALOGIA 
 
Analogia não é fonte do Direito Penal, mas sim, uma forma de integração da lei, isto é, havendo lacuna 
na lei, o juiz deverá valer-se deste instituto (ou também dos costumes e dos princípios gerias do direito) 
para suprir a norma penal diante de um determinado caso concreto. 
Segundo Damásio E. de Jesus, o recurso da analogia exige a concorrência dos seguintes requisitos: 
-Que o fato considerado não tenha sido regulado pelo legislador; 
-Que tenha o legislador regulado situação que oferece relação de coincidência, de identidade com o 
caso não regulado; 
-Que o ponto comum entre as duas situações constitua o ponto determinante na implantação do 
princípio referente à situação considerada pelo julgador. 
 
No direito penal, a analogia também pode ser: 
- in bonam partem: quando o sujeito é beneficiado pela sua aplicação. 
- in malam partem: quando o sujeito é prejudicado pela sua aplicação. 
 
Entretanto, o direito penal brasileiro admite apenas a analogia in bonam partem, isto é, a lacuna da lei 
penal poderá ser suprida somente quando for para beneficiar o réu; nunca para prejudicá-lo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Diz o Código Penal acerca da aplicação da lei penal: 
 
PARTE GERAL 
TÍTULO I 
DA APLICAÇÃO DA LEI PENAL 
 
Anterioridade da Lei 
Art. 1º - Não há crime sem lei anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal. 
 
Lei penal no tempo 
Art. 2º - Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime, cessando em 
virtude dela a execução e os efeitos penais da sentença condenatória. 
Parágrafo único - A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos 
anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado. 
 
Lei excepcional ou temporária 
Art. 3º - A lei excepcional ou temporária, embora decorrido o período de sua duração ou cessadas as 
circunstâncias que a determinaram, aplica-se ao fato praticado durante sua vigência 
 
Tempo do crime 
Art. 4º - Considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda que outro seja o 
momento do resultado. 
 
Territorialidade 
Art. 5º - Aplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções, tratados e regras de direito 
internacional, ao crime cometido no território nacional. 
§ 1º - Para os efeitos penais, consideram-se como extensão do território nacional as embarcações e 
aeronaves brasileiras, de natureza pública ou a serviço do governo brasileiro onde quer que se encontrem, 
bem como as aeronaves e as embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade privada, que se 
achem, respectivamente, no espaço aéreo correspondente ou em alto-mar. 
§ 2º - É também aplicável a lei brasileira aos crimes praticados a bordo de aeronaves ou embarcações 
estrangeiras de propriedade privada, achando-se aquelas em pouso no território nacional ou em vôo no 
espaço aéreo correspondente, e estas em porto ou mar territorial do Brasil. 
 
Lugar do crime 
Art. 6º - Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em 
parte,bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado. 
 
Extraterritorialidade 
Art. 7º - Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro: 
I - os crimes: 
a) contra a vida ou a liberdade do Presidente da República 
b) contra o patrimônio ou a fé pública da União, do Distrito Federal, de Estado, de Território, de 
Município, de empresa pública, sociedade de economia mista, autarquia ou fundação instituída pelo Poder 
Público; 
c) contra a administração pública, por quem está a seu serviço; 
d) de genocídio, quando o agente for brasileiro ou domiciliado no Brasil 
II - os crimes: 
6 Aplicação da lei penal. 6.1 A lei penal no tempo e no espaço. 
6.2 Tempo e lugar do crime. 6.3 Territorialidade e 
extraterritorialidade da lei penal. 6.4 Pena cumprida no estrangeiro. 
6.5 Eficácia da sentença estrangeira. 6.6 Contagem de prazo. 
6.7 Frações não computáveis da pena. 6.8 Irretroatividade da lei 
penal. 6.9 Conflito aparente de normas penais. 
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a) que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou a reprimir; 
b) praticados por brasileiro; 
c) praticados em aeronaves ou embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade privada, quando 
em território estrangeiro e aí não sejam julgados. 
§ 1º - Nos casos do inciso I, o agente é punido segundo a lei brasileira, ainda que absolvido ou 
condenado no estrangeiro. 
§ 2º - Nos casos do inciso II, a aplicação da lei brasileira depende do concurso das seguintes 
condições: 
a) entrar o agente no território nacional; 
b) ser o fato punível também no país em que foi praticado; 
c) estar o crime incluído entre aqueles pelos quais a lei brasileira autoriza a extradição; 
d) não ter sido o agente absolvido no estrangeiro ou não ter aí cumprido a pena 
e) não ter sido o agente perdoado no estrangeiro ou, por outro motivo, não estar extinta a punibilidade, 
segundo a lei mais favorável. 
§ 3º - A lei brasileira aplica-se também ao crime cometido por estrangeiro contra brasileiro fora do 
Brasil, se, reunidas as condições previstas no parágrafo anterior: 
a) não foi pedida ou foi negada a extradição; 
b) houve requisição do Ministro da Justiça. 
 
Pena cumprida no estrangeiro 
Art. 8º - A pena cumprida no estrangeiro atenua a pena imposta no Brasil pelo mesmo crime, quando 
diversas, ou nela é computada, quando idênticas. 
 
Eficácia de sentença estrangeira 
Art. 9º - A sentença estrangeira, quando a aplicação da lei brasileira produz na espécie as mesmas 
consequências, pode ser homologada no Brasil para: 
I - obrigar o condenado à reparação do dano, a restituições e a outros efeitos civis; 
II - sujeitá-lo a medida de segurança. 
Parágrafo único - A homologação depende: 
a) para os efeitos previstos no inciso I, de pedido da parte interessada; 
b) para os outros efeitos, da existência de tratado de extradição com o país de cuja autoridade judiciária 
emanou a sentença, ou, na falta de tratado, de requisição do Ministro da Justiça. 
 
Contagem de prazo 
Art. 10 - O dia do começo inclui-se no cômputo do prazo. Contam-se os dias, os meses e os anos pelo 
calendário comum. 
 
Frações não computáveis da pena 
Art. 11 - Desprezam-se, nas penas privativas de liberdade e nas restritivas de direitos, as frações de 
dia, e, na pena de multa, as frações de cruzeiro. 
 
Legislação especial 
Art. 12 - As regras gerais deste Código aplicam-se aos fatos incriminados por lei especial, se esta não 
dispuser de modo diverso. 
 
ANTERIORIDADE DA LEI 
 
Art. 1º - Não há crime sem lei anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal. 
 
O teor da norma contida no artigo 1.º do Código Penal desdobra-se em dois enunciados tidos como 
garantias fundamentais no direito penal: a) o princípio da legalidade (reserva legal) e b) o da 
anterioridade da lei penal. 
 
a) Princípio da Legalidade: Além de previsto no Código Penal, o princípio da legalidade foi também 
recepcionado na Constituição Federal, sendo nela destacado em seu art. 5.º, inc. XXXIX, arrolado entre 
as garantias fundamentais da Constituição Federal. Ele significa, em resumo, que somente a lei em 
sentido estrito pode descrever crimes e cominar penas. 
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. 36 
Por consequência, a reserva exclusiva da lei na disciplina da norma penal impede que os demais textos 
legais (Decretos, Medidas Provisórias, etc) sejam manejados para descrição de crimes e fixação de 
penas, assim como para a regulação dos institutos contidos na Parte Geral do Código Penal. 
Nesse aspecto, aliás, há tempos a doutrina destaca, de forma uníssona, que a Medida Provisória não 
pode versar sobre matéria de direito penal. 
Outro aspecto relevante sobre o princípio da legalidade é a exigência de que a lei deve ser taxativa na 
descrição do delito, contendo condutas certas. A taxatividade da norma repugna o tipo delineado de forma 
vaga e indeterminada. A cominação da sanção, do mesmo modo, também não pode ser vaga, indefinida, 
sem definição de limites mínimos e máximos de pena. 
As normas penais em branco (aquelas que exigem complementação por outras normas, de igual nível 
[leis] ou de nível diverso [decretos, regulamentos etc.]). Não ferem o princípio da reserva legal. 
 
b) Princípio da anterioridade da lei penal: Por tal princípio, a norma penal (diga-se, a mais severa) 
só se aplica aos fatos praticados após sua vigência. Novamente neste ponto a Constituição Federal 
recepcionou tal garantia penal, pois prevista no inciso XL do seu art. 5.º, nos seguintes termos: “a lei penal 
não retroagirá, salvo para beneficiar o réu”. 
Diz-se de tal princípio que ele implica também na irretroatividade da lei penal, já que ela não alcançará 
os fatos praticados antes de sua vigência, ainda que venham a ser futuramente tidos como crime (salvo 
a exceção do art. 2º, parágrafo único, do Código Penal que será discutida abaixo). 
 
EFICÁCIA DA LEI PENAL 
 
A lei penal, assim como as demais leis nasce, vive e morre e tem efeito em um determinado espaço 
geográfico. A isso chama-se eficácia, que pode ser temporal ou geográfica, como se passa a estudar. 
 
Eficácia Temporal 
 
A lei penal para ter vigência precisa ser sancionada, promulgada e publicada. Após a publicação a lei 
já pode surtir efeito, hipótese em que seu próprio texto prevê “essa lei entra em vigor na data de sua 
publicação”. 
Pode ainda ser outro o momento do efeito, basta que o texto legal expresse quando ela passa a vigorar. 
Caso o texto seja silente, então, aplica-se a regra geral contida no art. 4º da Lei de Introdução do 
Código Civil que diz que, não havendo determinação expressa, a lei entra em vigor 45 dias após a sua 
publicação. 
Esse período entre a publicação e a eficácia da lei, chama-se vacatio legis. 
Uma vez em vigor, a lei somente para de surtir efeito com a revogação. São duas as formas de 
revogação, a saber: 
Ab-rogação: extinção total da lei; 
Derrogação: extinção parcial da lei, quando apenas parte da lei é revogada, um artigo, por exemplo. 
A revogação pode ser expressa ou tácita. 
Na primeira, a lei nova diz expressamente que a lei anterior está revogada. Na segunda, embora a lei 
nova não diga que a anterior está revogada, elas são incompatíveis. 
 
Algumas leis têm seu fim determinado desde o início de sua vigência. É o caso da lei temporária e da 
lei excepcional. 
A lei temporária é aquela que traz em seu próprio corpo a data de sua revogação; 
Já a lei excepcional é aquela que tem sua vigência condicionada à determinada condição. Ex: guerra, 
calamidade pública, etc. 
Essas leis são chamadas de autorrevogáveis, posto que alei temporária se autorrevoga na data 
estabelecida e a lei excepcional se autorrevoga assim que os motivos que ensejaram sua criação 
terminam. 
 
 
 
 
 
 
 
 
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. 37 
A LEI PENAL NO TEMPO 
 
A eficácia da lei penal no tempo é regulamentada pelo artigo 2º do Código Penal, que diz: 
 
LEI PENAL NO TEMPO 
 
Art. 2º - Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime, cessando em 
virtude dela a execução e os efeitos penais da sentença condenatória. 
Parágrafo único - A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos 
anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado. 
 
Assim, temos que, em regra, a lei penal não pode retroagir (irretroatividade da lei penal). Porém, há 
exceção: poderá retroagir quando trouxer algum benefício para o agente no caso concreto. Vale lembrar 
que isto se restringe somente às normas penais. 
 
A lei que revoga um tipo incriminador extingue o direito de punir (abolitio criminis). A consequência do 
abolitio criminis é a extinção da punibilidade do agente. Por beneficiar o agente, o abolitio criminis alcança 
fatos anteriores e será aplicado pelo Juiz do processo, podendo ser aplicado antes do final do processo, 
levando ao afastamento de quaisquer efeitos da sentença, ou após a condenação transitada em julgado. 
No caso de já existir condenação transitada em julgado, o abolitio criminis causa os seguintes efeitos: a 
extinção imediata da pena principal e de sua execução, a libertação imediata do condenado preso e 
extinção dos efeitos penais da sentença condenatória (Exemplo: reincidência, inscrição no rol dos 
culpados, pagamento das custas etc.). 
Vale lembrar que os efeitos extrapenais, contudo, subsistem, como a perda de cargo público, perda 
de pátrio poder, perda da habilitação, confisco dos instrumentos do crime etc. A competência para a 
aplicação do abolitio criminis após o trânsito em julgado é do juízo da execução: 
 
Súmula nº 611 do STF: “Transitada em julgado a sentença condenatória, compete ao juízo das 
execuções a aplicação da lei mais benigna. 
 
O parágrafo único do artigo 2º trata do fenômeno da extratividade da lei penal, ou seja; a lei pode 
retroagir SOMENTE quando para beneficiar o agente. 
 
Extratividade: É o fenômeno pelo qual a lei produz efeitos fora de seu período de vigência. Divide-se 
em duas modalidades: retroatividade e ultratividade. 
Na retroatividade, a lei retroage aos fatos anteriores à sua entrada em vigor, se houver benefício para 
o agente; enquanto na ultratividade, a lei produz efeitos mesmo após o término de sua vigência. 
Não há que se falar em conflito de leis entre o artigo primeiro (legalidade) e o parágrafo único do artigo 
2º (extratividade). Vejamos: 
a) No artigo 1º, decretando a irretroatividade da lei, o Código Penal (CP) procurou defender a dignidade 
humana e a estrutura democrática brasileiras, ambos fundamentos cruciais à existência da nossa 
República federativa (Art. 1º, III e parágrafo único da CF/88), porque trata-se de uma barreira à 
discricionariedade estatal no que se refere à punição. Ele reflete o objetivo claro de controle dos bens 
jurídicos da sociedade. O que seria de uma nação se qualquer pessoa com poder pudesse escolher as 
condutas que devem ser punidas e assim fazê-lo do modo que lhe der mais satisfação? 
b) O artigo 2º, por sua vez, em seu parágrafo único, faz exatamente o mesmo do artigo 1º. A 
retroatividade que valida é restringida aos efeitos benéficos do dispositivo penal em questão, o que é 
relacionado com os objetivos da punição estatal e igualmente ao princípio da dignidade humana, porque 
evitar que as mudanças sociais se estendam àqueles que, por exemplo, têm o direito constitucional de ir 
e vir cerceado por uma conduta que não é mais considerada lesiva, é negar a igualdade de tratamento 
do Estado a toda a sociedade, sobretudo quanto à defesa da dignidade e quanto à justiça, ambos também 
explicitamente acobertas constitucionalmente. 
Neste contexto, a lei posterior continua a considerar o fato como criminoso, mas traz alguma benesse 
ao acusado: pena menor, maior facilidade para obtenção de livramento condicional etc. 
Desta forma, pela combinação dos arts. 1º e 2º do Código Penal, podemos chegar a duas conclusões: 
a) a norma penal, em regra, não pode atingir fatos passados. Não pode, portanto, retroagir; 
b) a norma penal mais benéfica, entretanto, retroage para atingir fatos pretéritos. 
 
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Hipóteses de lei posterior: 
 
a) Aboilitio Criminis: ocorre quando a lei nova deixa de considerar como crime comportamento que 
anteriormente era. O art. 2º, CP determina que ninguém pode ser punido por fato que a lei posterior deixa 
de considerar crime e que os efeitos penais e a execução devem ser cessados. 
Logo, se alguém cometeu adultério antes de 28 de março de 2005, incorreu em prática delituosa. 
Ocorre que nessa data, esse crime foi abolido pela Lei nº 11.106/05. Logo, deve-se aplicar o disposto no 
art. 2º, CP. Assim, se o sujeito ainda não foi processado, não mais poderá ser. 
Caso o processo esteja em andamento, deverá ser trancado, visto que a abolitio criminis é causa 
extintiva de punibilidade de acordo com o art. 107, CP7. 
Se o sujeito já foi condenado por sentença transitada em julgado, não poderá sofrer a execução e, se 
acaso já estiver cumprindo pena, deverá ser solto, por conta da extinção de punibilidade. 
A sentença condenatória tem efeitos penais primários e secundários. Por primários tem-se a própria 
condenação com a consequente aplicação da pena. Os efeitos secundários decorrem da condenação. 
Damásio8 os enumera: a) ela forja a reincidência (art. 61, I); b) impede o benefício da suspensão 
condicional da execução da pena (sursis – art. 77, I); c) opera a revogação do sursis (art. 81, I); d) torna 
facultativa a revogação do sursis (art. 81, § 1º); e) no livramento condicional, a condenação passada em 
julgado causa sua revogação obrigatória (art. 86, I e II) ou facultativa (art. 87); f) depois de tornar-se 
irrecorrível a sentença condenatória, a prescrição da pretensão executória não corre durante o tempo em 
que o condenado está preso por outro motivo (art. 116, parágrafo único); g) a reabilitação é revogada se 
o reabilitado sofre nova condenação, por sentença irrecorrível, a pena que não seja de multa (art. 95); h) 
a condenação irrecorrível tem influência sobre a exceção da verdade no crime de calúnia (art. 138, § 3º, 
I e III); i) no ‘porte de arma’ branca a pena é aumentada de um terço até a metade se o agente já tiver 
sido condenado, em sentença irrecorrível, por violência contra a pessoa (LCP, art. 19, § 1º). 
Todos esses efeitos secundários acima relacionados desaparecem com a abolitio criminis. 
Contudo, os efeitos civis permanecem. Assim, imagine que o sujeito que cometeu o adultério fora 
condenado tanto na vara criminal, quanto na cível, sendo que nessa última fora condenado ao pagamento 
de indenização por danos morais. Os efeitos penais, sejam eles primários ou secundários, desaparecem 
mas, os efeitos cíveis não, de sorte que, o sujeito deverá arcar com a reparação do dano moral a que foi 
condenado. 
 
b) Novatio Legis Incriminadora: a lei nova cria uma figura criminosa, ou seja, tipifica comportamento 
que anteriormente não era considerado crime. 
 
c) Novatio Legis in Pejus: é a lei mais severa, aquela que, de alguma forma prejudica o réu. São 
várias as formas que a lei pode prejudicar o réu. Seguem alguns exemplos: 
- cominação de pena qualitativamente mais severa. Ex: de pena de multa passa a pena privativa de 
liberdade; 
- atribuição de forma de execução mais gravosa; 
- aumento da pena abstratamente prevista; 
-exclusão de circunstâncias atenuantes ou de causas de diminuição de pena; 
- inclusão de qualificadoras; 
- supressão de benefícios ou aumento no rigor para a sua consecução; 
- exclusão de causa de extinção de punibilidade ou imposição de dificuldades para a sua ocorrência, 
etc. 
 
 
 
 
 
7 Art. 107 - Extingue-se a punibilidade: 
I - pela morte do agente; 
II - pela anistia, graça ou indulto; 
III - pela retroatividade de lei que não mais considera o fato como criminoso; 
IV - pela prescrição, decadência ou perempção; 
V - pela renúncia do direito de queixa ou pelo perdão aceito, nos crimes de ação privada; 
VI - pela retratação do agente, nos casos em que a lei a admite; 
VII - (Revogado pela Lei nº 11.106, de 2005) 
VIII - (Revogado pela Lei nº 11.106, de 2005) 
IX - pelo perdão judicial, nos casos previstos em lei. 
 
8 JESUS, Damásio. Direito Penal: parte geral. São Paulo: Saraiva, 2014. 
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. 39 
d) Novatio Legis in Mellius: é a lei mais benéfica, ou seja, aquela que, de alguma forma, favorece o 
réu. 
A lei mais benéfica deve ser apurada pela análise do caso concreto, ou seja, a cada caso deve o 
aplicador da lei verificar qual a lei que mais beneficia o réu e, em havendo dúvidas, a lei nova só deve ser 
aplicada aos fatos ainda não decididos. Pode-se ainda ouvir o réu. 
A competência para a aplicação da lei mais benéfica é do juiz que for sentenciar o caso e, se já houver 
sentença transitada em julgado, do juiz da execução. 
Há doutrinadores que afirmam ser possível a combinação de leis. Assim se a lei antiga beneficia o réu 
em determinado aspecto e a lei nova em outro, esses defendem a junção das duas, de sorte que o sujeito 
seja beneficiado com as partes que mais lhe favorecem em cada lei. Essa não é uma posição unânime e 
seus opositores pregam sua impossibilidade, sob o argumento de que o aplicador da lei estaria agindo 
como legislador, pois, ao unir partes de duas leis, estar-se-ia criando uma terceira. 
As leis excepcionais e temporárias têm regras diferentes, pois ainda que mais benéficas, não se 
aplicam a fatos ocorridos antes de sua vigência, ou seja, não retroagem. Contudo, são ultra-ativas, já que 
são aplicadas mesmo após sua revogação mas, somente para os fatos que ocorreram durante seu 
período de vigência. É o que ocorre, por exemplo, quando o sujeito pratica o crime durante a vigência de 
uma dessas leis mas, é julgado após sua revogação. É isso o que determina o art. 3º do Código Penal. 
Em se tratando de norma penal em branco, que é aquela que necessita ser complementada por outra, 
não ocorre a retroatividade. Damásio exemplifica: “A vende mercadoria por preço superior ao tabelado, 
praticando crime contra a economia popular. No transcorrer do processo uma nova tabela aumenta o 
preço da mercadoria, elevando seu custo além do recebido por ele. Suponha-se que a tabela tivesse 
fixado o preço de R$ 100,00 pelo produto, tendo cobrado R$ 150,00 por ele, e a nova tabela o elevasse 
a R$ 200,00. Modificado o complemento da norma penal em branco, de molde a favorecer o vendedor 
processado, deve a norma retroagir nos termos do princípio da abolitio criminis? A nova tabela constante 
de portara não estaria deixando de considerar o fato praticado pelo agente? Observa-se que, em face do 
novo complemento, vender a mercadoria por R$ 150,00 não constitui crime.”. 
A doutrina diverge sobre o assunto, de sorte que alguns defendem haver a abolitio criminis e outros 
não. Prevalece a corrente que não aceita a abolitio criminis posto que o complemento, em regra, expressa 
a necessidade de determinado período de tempo e, se houvesse a retroatividade, a lei perderia sua 
função. 
 
LEI EXCEPCIONAL OU TEMPORÁRIA 
 
Art. 3º - A lei excepcional ou temporária, embora decorrido o período de sua duração ou cessadas as 
circunstâncias que a determinaram, aplica-se ao fato praticado durante sua vigência. 
 
As leis acima citadas são autorrevogáveis, ou seja, são exceções à regra de que uma lei se revoga 
por outra lei. Subdividem-se em duas espécies: 
- leis temporárias: Aquelas que já trazem no seu próprio texto a data de cessação de sua vigência, 
ou seja, a data do término de vigência já se encontra explícito no texto da lei. 
- leis excepcionais: Aquelas feitas para um período excepcional de anormalidade. São leis criadas 
para regular um período de instabilidade. Neste caso, a data do término de vigência depende do término 
do fato para o qual ela foi elaborada. 
Estas duas espécies são ultrativas, ainda que prejudiquem o agente (Exemplo: Num surto de febre 
amarela é criado um crime de omissão de notificação de febre amarela; caso alguém cometa o crime e 
logo em seguida o surto seja controlado, cessando a vigência da lei, o agente responderá pelo crime). Se 
não fosse assim, a lei perderia sua força coercitiva, visto que o agente, sabendo qual seria o término da 
vigência da lei, poderia retardar o processo para que não fosse apenado pelo crime. 
 
TEMPO DO CRIME 
 
Art. 4º - Considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda que outro seja o 
momento do resultado. 
 
Importante ainda a fixação do tempo em que o delito se considera praticado para sabermos a lei que 
deve ser aplicada; para estabelecer a imputabilidade do sujeito ou mesmo para fixar o marco prescricional. 
Trata-se da fixação do tempo em que crime reputa-se praticado. Existem três teorias sobre o tempo 
do crime: 
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. 40 
- Teoria da atividade: O tempo do crime é o tempo da prática da conduta, ou seja, é o tempo que se 
realiza a ação ou a omissão que vai configurar o crime, ainda que outro seja o momento do resultado; 
- Teoria do resultado: O tempo do crime é o tempo que se produz o resultado, sendo irrelevante o 
tempo da ação; 
- Teoria mista ou da ubiquidade: O tempo do crime será tanto o tempo da ação quanto o tempo do 
resultado. 
A teoria utilizada pelo Código Penal (CP) é a teoria da ATIVIDADE (art. 4º do Código Penal). Na 
teoria da atividade o agente, em caso de lei nova, responderá sempre de acordo com a última lei vigente, 
seja ela mais benéfica ou não. Por exemplo, suponha-se que a pessoa com idade de 17 anos, 11 meses 
e 29 dias efetue disparo contra alguém, que morre apenas uma semana depois. Ora, o homicídio só se 
consumou com a morte (quando o agente já estava com 18 anos), mas o agente não poderá ser punido 
criminalmente, pois, nos termos do art. 4º, considera-se praticado o delito no momento da ação (quando 
o agente ainda era menor de idade). Assim, não se aplicará ao autor as normas do Código Penal, mas 
sim as disposições do Estatuto da Criança e do adolescente, em face da sua inimputabilidade ao tempo 
do crime. 
 
A teoria da atividade apresenta as seguintes consequências: 
 
- aplicação da lei em vigor ao tempo da conduta, exceto se ao tempo do resultado for mais benéfica; 
 
- a imputabilidade do agente é verificada ao tempo da conduta; 
 
- no caso de crime permanente em que a conduta tenha se iniciado durante a vigência de uma lei, e 
prossiga durante o império de outra, aplica-se a lei nova, ainda que mais severa. Fundamenta-se o 
raciocínio na reiteração de ofensa ao bem jurídico, já que a conduta criminosa continua a ser praticada e 
pois da entrada em vigor da lei nova, mais gravosa.9 
Ex: Fulano sequestra Ciclano e pede resgate à família. A restrição da liberdade dura três meses. 
Durante todo esse tempo, o crime surte efeito, portanto, trata-se de crime permanente. Agora imagine 
que, Fulano, ao sequestrar Ciclano tinha 17 anos mas, ao longo dos três meses completou 18 anos. Ele 
será responsabilizado criminalmente, posto que sua conduta durou o mesmo tempo que o crime, ou seja, 
o mesmo tempo emque o crime surtiu efeito (três meses). 
O Código Penal entende que o sujeito teve vontade de continuar praticando o fato delituoso durante 
todo esse tempo, logo, sua ação ou omissão também se prolongou no tempo. 
 
- no crime continuado em que os fatos anteriores eram punidos por uma lei, operando-se o aumento 
da pena por lei nova, aplica-se esta última a toda unidade delitiva, desde que sob a sua vigência continue 
a ser praticada. O crime continuado, em que pese ser constituído de vários delitos parcelares, é 
considerado crime único para fins de aplicação da pena (teoria da ficção jurídica).10 
 
Imagine que o agente tenha praticado vários crimes durante a vigência de duas leis, sendo a posterior 
mais grave. Essa será aplicada, porquanto ele continuou a praticar o delito mesmo ciente da maior 
punição. 
 
Se a lei nova for novatio legis incriminadora, essa somente será aplicada aos fatos cometidos após 
sua vigência. 
Caso ocorra a abolitio criminis haverá a retroatividade da mesma, de forma a alcançar os atos 
praticados anteriormente a sua vigência. 
 
A esse respeito importante a Súmula 711 do STF: 
A lei penal mais grave aplica-se ao crime continuado ou ao crime permanente, se a sua vigência é 
anterior à cessação da continuidade ou da permanência. 
 
- no caso de crime habitual em que haja sucessão de leis, deve ser aplicada a nova, ainda que mais 
severa, se o agente insistir em reiterar a conduta criminosa.11 
 
 
9 idem 
10 idem 
11 idem 
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. 41 
ATENÇÃO: O Código Penal adotou a teoria do resultado em matéria de prescrição, tendo em vista 
que a causa extintiva de punibilidade tem por termo inicial a data da consumação da infração penal. 
 
A LEI PENAL NO ESPAÇO 
 
A importância da questão relativa à eficácia da lei penal no espaço reside na necessidade de 
apresentar solução aos casos em que um crime viole interesses de dois ou mais países, ou porque a 
conduta foi praticada no território nacional e o resultado ocorreu no exterior, ou porque a conduta foi 
praticada no exterior e o resultado ocorreu no território nacional. 
 
TERRITORIALIDADE 
 
Art. 5º - Aplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções, tratados e regras de direito 
internacional, ao crime cometido no território nacional. 
§ 1º - Para os efeitos penais, consideram-se como extensão do território nacional as embarcações e 
aeronaves brasileiras, de natureza pública ou a serviço do governo brasileiro onde quer que se encontrem, 
bem como as aeronaves e as embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade privada, que se 
achem, respectivamente, no espaço aéreo correspondente ou em alto-mar. 
§ 2º - É também aplicável a lei brasileira aos crimes praticados a bordo de aeronaves ou embarcações 
estrangeiras de propriedade privada, achando-se aquelas em pouso no território nacional ou em voo no 
espaço aéreo correspondente, e estas em porto ou mar territorial do Brasil. 
 
A territorialidade é a regra, sendo a principal forma de delimitação do espaço geopolítico de validade 
da lei penal entre Estados soberanos. 
Território é o espaço em que o Estado exerce sua soberania. 
Existem várias teorias para fixar o âmbito de aplicação da norma penal a fatos cometidos no Brasil: 
a) Princípio da territorialidade: a lei penal só tem aplicação no território do Estado que a editou, 
pouco importando a nacionalidade do sujeito ativo ou passivo. 
b) Princípio da territorialidade absoluta: só a lei nacional é aplicável a fatos cometidos em seu 
território. 
c) Princípio da territorialidade temperada: a lei nacional se aplica aos fatos praticados em seu 
território, mas, excepcionalmente, permite-se a aplicação da lei estrangeira, quando assim estabelecer 
algum tratado ou convenção internacional. Foi este o princípio adotado pelo art. 5º do Código Penal. 
Abrange todo o espaço em que o Estado exerce sua soberania: solo, rios, lagos, mares interiores, 
baías, faixa do mar exterior ao longo da costa (12 milhas) e espaço aéreo. Bem como consideram-se 
extensão do território nacional as embarcações e aeronaves mencionadas nos §§ 1º e 2º do art. 5º do 
Código Penal. 
O alto-mar não está sujeito à soberania de qualquer Estado. Regem-se, porém, os navios que lá 
navegam pelas leis nacionais do pavilhão que os cobre; no tocante aos atos civis e criminais a bordo 
praticados. No tocante ao espaço aéreo, sobre a camada atmosférica da imensidão do alto-mar e dos 
territórios terrestres não sujeitos a qualquer soberania, também não existe o império da ordem jurídica de 
Estado algum, salvo a do pavilhão da aeronave, para os atos nela verificados, quando cruzam esse 
espaço tão amplo. Assim, cometido um crime a bordo de um navio pátrio em alto-mar, ou de uma 
aeronave brasileira no espaço livre, vigoram as regras sobre a territorialidade: os delitos assim cometidos 
se consideram como praticados em território nacional. 
Cabe ressaltar ainda o princípio da passagem inocente, onde se um fato cometido a bordo de navio 
ou avião estrangeiro de propriedade privada, que esteja apenas de passagem pelo território brasileiro, 
não será aplicada a nossa lei, se o crime não afetar em nada nossos interesses. 
 
Portanto, a lei penal no espaço é regida pelos seguintes princípios: 
a) Princípio da territorialidade: regra geral. Aplica-se a lei brasileira aos crimes cometidos no território 
nacional. Contudo, o Código Penal adota a territorialidade temperada ou mitigada quando brasileiro 
pratica crime no exterior ou estrangeiro comete crime no Brasil. 
b) princípio da nacionalidade ou da personalidade: autoriza a aplicação da lei brasileira por crime 
praticado por brasileiro em território estrangeiro ou contra vítima brasileira. 
O artigo 7º, inciso I, alínea “d” e inciso II, alínea “b”, prevê a aplicação da lei brasileira 
independentemente da nacionalidade do sujeito passivo e do bem jurídico ofendido (personalidade ativa). 
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. 42 
O artigo 7º, §3º do Código Penal, prevê que no caso de vítima brasileira com autor que esteja em 
território nacional, aplica-se também a lei brasileira (personalidade passiva). 
 
c) princípio da defesa, real ou da proteção: Leva em conta a nacionalidade do bem jurídico lesado 
pelo crime, independentemente do local de sua prática ou da nacionalidade do sujeito ativo. Assim, por 
exemplo, seria de aplicar-se a lei brasileira a um fato criminoso cometido no estrangeiro, lesivo ao 
interesse nacional, qualquer que fosse a nacionalidade de seu autor12 (artigo 7º, inciso I, alíneas “a”, “b” 
e “c”). 
 
d) princípio da justiça universal: adotado pelo artigo 7º, inciso II, alínea “a” do Código Penal, 
preconiza o poder de cada Estado de punir qualquer crime, seja qual for a nacionalidade do delinquente 
e da vítima, ou do local de sua prática. Para imposição da pena basta encontrar-se o criminoso dentro do 
território de um país.13 
Seu fundamento se encontra no interesse de punir de todos os povos em relação a certos delitos, 
como, por exemplo, o genocídio, o tráfico de drogas etc. 
Este princípio também é conhecido como princípio da competência universal, justiça cosmopolita, 
jurisdição universal, jurisdição mundial, repressão mundial ou da universalidade do direito de punir 
 
e) princípio da representação: adotado pelo artigo 7º, inciso II, alínea “c”, do Código Penal, deve ser 
aplicada a lei penal brasileira aos crimes cometidos em aeronaves ou embarcações brasileiras, mercantes 
ou de propriedade privada, quando estiverem em território estrangeiro e aí não sejam jugadas. 14 
Este princípio também é conhecido como princípio da bandeira, do pavilhão, subsidiário ou da 
substituição. 
 
ATENÇÃO: E se a embarcação ou aeronavebrasileira for pública ou estiver a serviço do 
Brasil? 
Esta questão resolve-se com o artigo 5º, §1º, do Código Penal, ou seja, incide o princípio da 
territorialidade e não da representação, pois nestes casos, as embarcações e aeronaves constituem 
extensão do território nacional. 
 
f) princípio do domicílio: Segundo Cleber Masson15, o autor do crime deve ser julgado em 
consonância com a lei do país em que for domiciliado, pouco importando sua nacionalidade. Previsto no 
artigo 7º, inciso I, alínea “d” (“domiciliado no Brasil”) do Código Penal, no tocante ao crime de genocídio 
no qual o agente não é brasileiro, mas penas domiciliado no Brasil. 
 
LUGAR DO CRIME 
 
Art. 6º - Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em 
parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado. 
 
Para aplicação do princípio da territorialidade da lei penal no espaço é necessário identificar o lugar 
do crime. 
O Código Penal adotou a teoria mista ou da ubiquidade (artigo 6º), considerando como lugar do crime, 
tanto aquele em que foi praticada a conduta (ação ou omissão), quanto aquele em que se produziu ou 
deveria produzir-se o resultado. 
Tal teria foi adotada para resolver os chamados crimes de espaço máximo ou a distância (crimes 
executados em um país e consumados em outro). Assim, o julgamento do fato será de competência de 
ambos os países. 
Contudo, não se aplica a teoria da ubiquidade nos seguintes casos: 
- Crimes conexos: são crimes relacionados entre si, mas cada um deles deve ser processado e 
julgado no país em que foi cometido. 
- crimes plurilocais: são aqueles em que a conduta ocorre em uma Comarca e o resultado em outra, 
mas dentro do mesmo país. Neste caso foi adotada a teoria do resultado (art. 70 do Código de Processo 
 
12 JESUS, Damásio de. Código Penal anotado. 22ª edição. Editora Saraiva. 2014. 
13 idem 
14 MASSON. Cleber. Direito Penal Esquematizado. Parte Geral. Vol. 1. Ed. Médodo. 8ª edição. 2014. 
15 idem 
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. 43 
Penal), ou seja, o foro competente é o do local do resultado ou, no caso de crime tentado, o local em que 
foi praticado o último ato de execução. 
Importante ressaltar, que no caso de crimes dolosos contra a vida plica-se a teoria da atividade (lugar 
do crime é aquele em que foi praticada a ação ou omissão), em razão da conveniência da instrução 
criminal, para descoberta da verdade real dos fatos. 
- infrações penais de menor potencial ofensivo: Nas infrações de competência dos Juizados 
Especiais Criminais, a Lei 9.099/95 (artigo 63) seguiu a teoria da atividade, ou seja, o foro competente é 
o da ação. 
- crimes falimentares: artigo 183 da Lei 11.101/2005: “Compete ao juiz criminal da jurisdição onde 
tenha sido decretada a falência, concedida a recuperação judicial ou homologado o plano de recuperação 
extrajudicial, conhecer da ação penal pelos crimes previstos nesta Lei.” 
- atos infracionais: artigo 147, §1º da Lei 8.069/90 – é competente a autoridade do lugar da ação ou 
omissão para as infrações cometidas por crianças e adolescentes. 
 
EXTRATERRITORIALIDADE 
 
Art. 7º - Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro: 
I - os crimes: 
a) contra a vida ou a liberdade do Presidente da República; 
b) contra o patrimônio ou a fé pública da União, do Distrito Federal, de Estado, de Território, de 
Município, de empresa pública, sociedade de economia mista, autarquia ou fundação instituída pelo Poder 
Público; 
c) contra a administração pública, por quem está a seu serviço; 
d) de genocídio, quando o agente for brasileiro ou domiciliado no Brasil; 
II - os crimes: 
a) que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou a reprimir; 
b) praticados por brasileiro; 
c) praticados em aeronaves ou embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade privada, quando 
em território estrangeiro e aí não sejam julgados. 
§ 1º - Nos casos do inciso I, o agente é punido segundo a lei brasileira, ainda que absolvido ou 
condenado no estrangeiro. 
§ 2º - Nos casos do inciso II, a aplicação da lei brasileira depende do concurso das seguintes 
condições: 
a) entrar o agente no território nacional; 
b) ser o fato punível também no país em que foi praticado; 
c) estar o crime incluído entre aqueles pelos quais a lei brasileira autoriza a extradição; 
d) não ter sido o agente absolvido no estrangeiro ou não ter aí cumprido a pena; 
e) não ter sido o agente perdoado no estrangeiro ou, por outro motivo, não estar extinta a punibilidade, 
segundo a lei mais favorável. 
§ 3º - A lei brasileira aplica-se também ao crime cometido por estrangeiro contra brasileiro fora do 
Brasil, se, reunidas as condições previstas no parágrafo anterior: 
a) não foi pedida ou foi negada a extradição; 
b) houve requisição do Ministro da Justiça. 
 
A extraterritorialidade é a possibilidade de aplicação da lei penal brasileira a fatos criminosos ocorridos 
no exterior. 
 
EXTRATERRITORIALIDADE INCONDICIONADA: O art. 7º do CP prevê a aplicação da lei brasileira 
a crimes cometidos no estrangeiro. São os casos de extraterritorialidade da lei penal. 
O inciso I refere-se aos casos de extraterritorialidade incondicionada, uma vez que é obrigatória a 
aplicação da lei brasileira ao crime cometido fora do território brasileiro. 
As hipóteses contidas no inciso I, com exceção da última (d), são fundadas no princípio de proteção, 
onde o que impera é a defesa do interesse nacional. Se o interesse nacional foi afetado de algum modo, 
justifica-se a incidência da legislação pátria. 
 
EXTRATERRITORIALIDADE CONDICIONADA: O inciso II, do art. 7º, prevê três hipóteses de 
aplicação da lei brasileira a autores de crimes cometidos no estrangeiro. São os casos de 
extraterritorialidade condicionada, pois dependem dessas condições: 
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a) Crimes que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou a reprimir. Utilizou-se o princípio da justiça 
ou competência universal; 
b) Crimes praticados por brasileiro. Tendo o país o dever de obrigar o seu nacional a cumprir as leis, 
permite-se a aplicação da lei brasileira ao crime por ele cometido no estrangeiro. Trata-se do dispositivo 
da aplicação do princípio da nacionalidade ou personalidade ativa; 
c) Crimes praticados em aeronaves ou embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade privada, 
quando em território estrangeiro e aí não sejam julgados. Inclui-se no Código Penal o princípio da 
representação. 
A aplicação da lei brasileira, nessas três hipóteses, fica subordinada a todas as condições 
estabelecidas pelo § 2º do art. 7º. Depende, portanto, das condições a seguir relacionadas: 
- A entrada do agente no território nacional; 
- Ser o fato punível também no país em que foi praticado. Na hipótese de o crime ter sido praticado 
em local onde nenhum país tem jurisdição (alto-mar, certas regiões polares), é possível a aplicação da lei 
brasileira. 
- Estar o crime incluído entre aqueles pelos quais a lei brasileira autoriza a extradição 
- Não ter sido o agente perdoado no estrangeiro ou, por outro motivo, não estar extinta a punibilidade, 
segundo a lei mais favorável. 
 
O art. 7º, § 3º, prevê uma última hipótese da aplicação da lei brasileira: A do crime cometido por 
estrangeiro contra brasileiro fora do Brasil. É ainda um dispositivo calcado na teoria de proteção, além 
dos casos de extraterritorialidade incondicionada. Exige o dispositivo em estudo, porém, além das 
condições já mencionadas, outras duas: 
- Que não tenha sido pedida ou tenha sido negada a extradição (pode ter sido requerida, mas não 
concedida); 
- Que haja requisição do Ministro da Justiça. 
 
Algunsprincípios que devem ser observados para a aplicação da extraterritorialidade: 
- Nacionalidade ou personalidade ativa: aplica-se a lei brasileira ao crime cometido por brasileiro 
fora do Brasil. Neste caso o único critério observado é a nacionalidade do sujeito ativo (art. 7º, II, b, do 
CP). 
- Nacionalidade ou personalidade passiva: aplica-se a lei brasileira ao crime cometido por 
estrangeiro contra brasileiro fora do Brasil. O que importa é a nacionalidade da vítima, mesmo que o crime 
tenha sido praticado no exterior (art. 7º, §3º). 
- Real, da defesa ou proteção: aplica-se a lei brasileira ao crime cometido fora do Brasil, que afeta 
interesse nacional (art. 7º, I, a, b e c, do CP). 
- Justiça Universal ou princípio da universalidade: todo Estado tem o direito de punir qualquer 
crime, seja qual for a nacionalidade do delinquente e da vítima ou o local de sua prática, desde que o 
criminoso esteja dentro de seu território. É como se o planeta se constituísse em um só território para 
efeitos repressão criminal (art. 7, I, d e II, a, do CP). 
- Princípio da representação: a lei penal brasileira também é aplicável aos delitos cometidos em 
aeronaves e embarcações privadas quando realizados no estrangeiro e aí não venham a ser julgados. 
- Princípio da preferência da competência nacional: havendo conflito entre a justiça brasileira e a 
estrangeira, prevalecerá a competência nacional. 
- Princípio da limitação em razão da pena: não será concedida a extradição para países onde a 
pena de morte e a prisão perpétua são previstas, a menos que deem garantias de que não irão aplica-
las. 
- Jurisdição subsidiária: verifica-se a subsidiariedade da jurisdição nacional nas hipóteses do inciso 
II e do § 3º do art. 7º do Código Penal. Se o autor de um crime praticado no estrangeiro for processado 
perante esse juízo, sua sentença preponderará sobre a do juiz brasileiro. Caso o réu seja absolvido pelo 
juiz territorial, aplicar-se-á a regra do non bis in idem (não permissão da dupla condenação pelo mesmo 
fato) para impedir o persecutio criminis (art. 7º, § 2º, d, do CP). No entanto no caso de condenação, se o 
condenado se subtrair à execução da pena, será julgado pelos órgãos judiciários nacionais e, se for o 
caso, condenado de novo, solução, inclusive, consagrada no art. 7º, §2º, d e e, do Código Penal. 
 
PENA CUMPRIDA NO ESTRANGEIRO 
 
Art. 8º - A pena cumprida no estrangeiro atenua a pena imposta no Brasil pelo mesmo crime, quando 
diversas, ou nela é computada, quando idênticas. 
 
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. 45 
Considerando que, sendo possível a aplicação da lei brasileira a crimes cometidos em território de 
outro país, ocorrerá também a incidência da lei estrangeira, dispõe o código como se deve proceder para 
se evitar a dupla posição. 
Cumprida a pena pelo sujeito ativo do crime no estrangeiro, será ela descontada na execução pela lei 
brasileira, quando forem idênticas, respondendo efetivamente o sentenciado pelo saldo a cumprir se a 
pena imposta no Brasil for mais severa. Se a pena cumprida no estrangeiro for superior à imposta no 
país, é evidente que esta não será executada. No caso de penas diversas, aquela cumprida no estrangeiro 
atenuará a aplicada no Brasil, de acordo com a decisão do juiz no caso concreto, já que não há regras 
legais a respeito dos critérios de atenuação que devem ser obedecidos. 
 
EFICÁCIA DE SENTENÇA ESTRANGEIRA 
 
Art. 9º - A sentença estrangeira, quando a aplicação da lei brasileira produz na espécie as mesmas 
consequências, pode ser homologada no Brasil para: 
I - obrigar o condenado à reparação do dano, a restituições e a outros efeitos civis; 
II - sujeitá-lo a medida de segurança. 
Parágrafo único - A homologação depende: 
a) para os efeitos previstos no inciso I, de pedido da parte interessada; 
b) para os outros efeitos, da existência de tratado de extradição com o país de cuja autoridade judiciária 
emanou a sentença, ou, na falta de tratado, de requisição do Ministro da Justiça. 
 
Quanto à eficácia de sentença estrangeira, o Código Penal, em seu art. 9°, em consonância com o art. 
105, I, alínea “i”, da Constituição Federal, prescreve que a sentença estrangeira, quando a aplicação da 
lei brasileira produz na espécie as mesmas consequências, pode ser homologada no Brasil para: I – 
obrigar o condenado à reparação do dano, a restituições e a outros efeitos civis; II – sujeitá-lo a medida 
de segurança. 
Essa homologação compete ao Superior Tribunal de Justiça, que, por sua vez, só pode homologar 
sentença já transitada em julgado. 
 
Súmula 420 do STF: Não se homologa sentença proferida no estrangeiro sem prova do trânsito em 
julgado. 
 
O fundamento da homologação da sentença estrangeira está no entendimento de que nenhuma 
sentença de caráter criminal que emane de autoridade jurisdicional estrangeira, terá eficácia em 
determinado Estado sem o seu consentimento, pois o direito penal é fundamentalmente territorial. 
 
CONTAGEM DE PRAZO 
 
Art. 10 - O dia do começo inclui-se no cômputo do prazo. Contam-se os dias, os meses e os anos 
pelo calendário comum. 
 
A contagem do prazo penal tem relevância especial nos casos de duração de pena, do livramento 
condicional, do sursis, da decadência, da prescrição, etc., institutos de direito penal. 
Contam-se os dias, os meses e os anos pelo calendário comum. Há no caso imprecisão tecnológica; 
pouco importando se o mês tenha 30 ou 31 dias, ou se o ano é ou não bissexto. O calendário comum a 
que se refere o legislador tem o nome de “gregoriano”, em contraposição ao juliano, judeu, árabe, etc. 
O dia do começo inclui-se no cômputo do prazo. Assim, se uma pena começa a ser cumprida às 
23h30min, os 30 minutos restantes serão contados como sendo o 1º dia. 
O prazo penal distingue-se do prazo processual, pois, neste, exclui-se o 1º dia da contagem, conforme 
estabelece o art. 798, § 1º, do Código de Processo Penal. Assim, se o réu é intimado da sentença no dia 
10 de abril, o prazo para recorrer começa a fluir apenas no dia 11 (se for dia útil). 
Os prazos penais são improrrogáveis. Desta forma, se o prazo termina em um sábado, domingo ou 
feriado, estará ele encerrado. Ao contrário dos prazos processuais que se prorrogam até o 1º dia útil 
subsequente. 
 
 
 
 
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PRAZO PENAL (Artigo 10 do CP) 
O dia do começo inclui-se no cômputo do 
prazo. 
PRAZO PROCESSUAL (Artigo 798, §1º do 
CPP) 
Não se computará no prazo o dia do começo, 
incluindo-se, porém, o do vencimento. 
 
FRAÇÕES NÃO COMPUTÁVEIS DA PENA 
 
Art. 11 - Desprezam-se, nas penas privativas de liberdade e nas restritivas de direitos, as frações de 
dia, e, na pena de multa, as frações de cruzeiro. 
 
Também se tem entendido que, por analogia com o art. 11, deve ser desprezada a fração de dia multa, 
como se faz para o dia de pena privativa de liberdade. Extintos o cruzeiro antigo e o cruzado, o novo 
cruzeiro e o cruzeiro real, o real é a unidade monetária nacional, devendo ser desprezados os centavos, 
fração da nova moeda brasileira. Ex. pessoa condenada a pagar R$ 55,14 pagará apenas R$ 55,00. 
 
IRRETROATIVIDADE DA LEI PENAL. 
 
É natural que, havendo anterioridade obrigatória para a lei penal incriminadora, não se pode permitir a 
retroatividade de leis, especificamente as prejudiciais ao acusado. Logo, quando novas leis entram em 
vigor, devem ser aplicadas somente a fatos concretizados sob a sua égide. 
Abre-se exceção à vedação à irretroatividade quando se trata de lei penal benéfica. Esta pode voltar 
no tempo para favorecer o agente, ainda que o fato tenha sido decidido por sentença condenatória com 
trânsito em julgado, é o que dispõe o artigo 5.º, XL, da Constituição Federal e artigo 2.º, parágrafoúnico, 
Código Penal. 
 
De acordo com o disposto no artigo 2º do Código Penal, “Ninguém pode ser punido por fato que lei 
posterior deixa de considerar crime, cessando em virtude dela a execução e os efeitos penais da 
sentença condenatória”. Sendo a exceção prevista em seu parágrafo único: “A lei posterior, que de 
qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença 
condenatória transitada em julgado”. Desta forma, a lei penal só retroagirá em benefício do réu. 
 
Pode-se denominar, deste modo, o artigo 2º, como princípio da irretroatividade da lei penal, adotando 
como regra que a lei penal não poderá retroagir, mas, como exceção, a retroatividade da lei benéfica ao 
réu ou condenado. 
 
Importante destacar que o este dispositivo, faz referência somente à retroatividade, porque está 
analisando a aplicação da lei penal sob o ponto de vista da data do fato criminoso. Assim, ou se aplica o 
princípio-regra (tempus regit actum), se for o mais benéfico, ou se aplica a lei penal posterior, se for a 
mais benigna (retroatividade). Não se pode esquecer, no entanto, que, quando um juiz vai aplicar uma lei 
já revogada, no instante da sentença, por ser a mais benéfica e por ser a vigente à época do crime, está 
materializando o fenômeno da ultratividade, vale dizer, está ressuscitando lei morta. 
 
Assim, temos que, em regra, a lei penal não pode retroagir (irretroatividade da lei penal). Porém, há 
exceção: poderá retroagir quando trouxer algum benefício para o agente no caso concreto. Vale lembrar 
que isto se restringe somente às normas penais. 
 
CONFLITO APARENTE DE NORMAS PENAIS 
 
Ocorre o conflito de leis penais quando um mesmo fato é aparentemente regulado por duas ou mais 
normas penais, ambas instituídas por leis de mesma hierarquia e originárias da mesma fonte de produção, 
além de ambas estarem em vigor ao tempo da prática da conduta. 
Dessa forma, existe apenas um fato punível, mas com diversos tipos penais aparentemente aplicáveis 
ao caso concreto. Contudo, é injusta a aplicação de mais de uma sanção penal, pela prática de uma única 
conduta, motivo pelo qual é necessária a escolha de um único dispositivo legal que tenha melhor 
adequação a conduta criminosa praticada. 
Diz-se que o conflito é aparente, porque depois da interpretação da lei penal através de princípios, 
aplica-se a norma pertinente e o conflito desaparece. 
 
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. 47 
Os requisitos estão inseridos no próprio conceito de conflito aparente de normas, quais sejam: 
- unidade de fato; 
- pluralidade de normas penais; 
- vigência simultânea de todas as normas. 
 
A finalidade da solução desse conflito é manter a coerência do ordenamento jurídico e evitar o bis in 
idem. 
 
Princípios para solução do conflito aparente de leis penais: 
 
Princípio da Especialidade: Damásio16 assim o explica: “Diz-se que uma norma penal incriminadora 
é especial em relação a outra, geral, quando possui em sua definição legal todos os elementos típicos 
desta, e mais alguns, de natureza objetiva ou subjetiva, denominados especializantes, apresentando, por 
isso, um minus ou um plus de severidade. A norma especial, ou seja, a que acresce elemento próprio à 
descrição legal do crime previsto na geral, prefere a esta: lex specialis derogat generali; semper specialia 
generalibus insunt; generi per speciem derogantur. Afasta-se, dessa forma, o bis in idem, pois o 
comportamento do sujeito só é enquadrado na norma incriminadora especial, embora também descrito 
pela geral. Nestes casos, há um typus specialis, contendo um “crime específico”, e um typus generalis, 
descrevendo um “crime genérico”. Aquele prefere a este.”. 
Um exemplo de norma especial que prevalece em relação a geral é o crime de infanticídio (artigo 123 
do Código Penal), que núcleo igual ao artigo 121 (homicídio), mas com elementos especiais, quais sejam: 
a autora deve ser a mãe; a vítima seu próprio filho, nascente ou neonato, cometendo-se o delito durante 
o parto ou logo após, sob a influência do estado puerperal. 
Em suma, o critério da especialidade reclama duas leis penais em concurso, caracterizadas pela 
relação de gênero e espécie, na qual esta prefere àquela, excluindo a sua aplicação para fins de 
tipicidade. A lei específica deve abrigar todos os elementos da genérica, apresentando ainda outras 
particulares características que podem ser denominadas elementos especializantes, constituindo uma 
subespécie agravada ou atenuada daquela.17 
 
Princípio da Subsidiariedade: os crimes subsidiários são aqueles que somente são punidos se não 
constituírem fatos mais graves. Ex: crime de ameaça. Só há punição se a ameaça for um fim em si mesma. 
Caso seja meio para o cometimento de outro crime, o sujeito somente responderá pelo mais grave. É isso 
que prega o princípio da subsidiariedade. 
Segundo o doutrinador Cleber Masson18, este princípio: 
Estabelece que a lei primária tem prevalência sobre a lei subsidiária (lex primaria derogat subsidiarie). 
Esta é a que define como crime uma fato incluído por aquela na previsão de delito mais grave, como 
qualificadora, agravante, causa de aumento de pena ou, inclusive, modo de execução. 
Portanto, há subsidiariedade entre duas leis penais quando se trata de estágios ou graus diversos de 
ofensa a um mesmo bem jurídico, de forma que a ofensa mais ampla e dotada de maior gravidade, 
descrita pela lei primária, engloba a menos ampla, contida na subsidiária, ficando a aplicabilidade desta 
condicionada à não incidência da outra. 
 
Princípio da Consunção ou da absorção: por esse princípio, o fato mais amplo e grave absorve os 
fatos menos amplos e graves, atuando como meio normal de preparação ou execução daquele, ou ainda 
como mero exaurimento. Por tal motivo, aplica-se somente a lei que tipifica o crime. “A lei consuntiva 
prefere a lei consumida”. 
Neste caso, há uma sucessão de fatos, todos penalmente tipificados, na qual o mais amplo consome 
o menos amplo, evitando a dupla punição, como parte de um todo e como crime autônomo.19 
Difere do princípio da especialidade porque naquele analisa-se as normas e nesse os fatos. 
Esse princípio ocorre especificamente nas situações abaixo: 
-Crimes Complexos: são aqueles formados pela união de dois ou mais crimes. Ex: roubo (furto + 
constrangimento ilegal). Parte da doutrina afirma tratar-se de consunção, uma vez que o crime complexo 
absorveria os crimes autônomos. 
Para Cleber Masson20, o crime complexo: 
 
16 JESUS, Damásio. Direito Penal: parte geral. São Paulo: Saraiva, 2014. 
17 MASSON. Cleber. Direito Penal Esquematizado. Parte Geral. Vol. 1. Ed. Médodo. 8ª edição. 2014. 
18 idem 
19 MASSON. Cleber. Direito Penal Esquematizado. Parte Geral. Vol. 1. Ed. Médodo. 8ª edição. 2014. 
20 idem 
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. 48 
Também conhecido como crime composto, é a modalidade que resulta da fusão de dois ou mais 
crimes, que passam a desempenhar a função de elementares ou circunstâncias daquele, tal como se dá 
no roubo, originário da união entre os delitos de furto e ameaça ou lesão corporal, dependendo do meio 
de execução empregado pelo agente. 
 
-Crime Progressivo: é aquele em que o sujeito, pretendendo alcançar um resultado, desenvolve 
comportamentos anteriores. Ex: desejando matar Pedro, João desfere-lhe várias facadas. O objetivo é o 
homicídio mas, para alcançá-lo é necessário o cometimento de lesão corporal. Nesse caso, as lesões são 
absorvidas pelo homicídio. 
Em outras palavras, o agente desde o início tem um propósito mais grave, e para alcançá-lo pratica 
reiteradamente atos crescentes de violação ao bem jurídico. 
 
-Progressão Criminosa: ocorre quando o sujeito tem uma pretensãoinicial, realiza os atos a fim de 
alcançá-la mas, após, muda seu desígnio, passando a desejar crime mais grave. Ex: sujeito pretende ferir 
seu desafeto, para tanto desfere-lhe vários socos. Durante essa conduta, resolve que quer matá-lo e 
passa a sufoca-lo. Dessa feita, responderá por homicídio e não pela lesão corporal, há, portanto, 
absorção. 
Segundo o doutrinador Cleber Masson:21 
O sujeito é guiado por uma pluralidade de desígnios, havendo alteração em seu dolo, razão pela qual 
executa uma diversidade de fatos (mais de um crime), cada um correspondente a uma vontade, 
destacando-se a crescente lesão ao bem jurídico. Por tal motivo, a resposta penal se dará somente para 
o fato final, mais grave, ficando absorvidos os demais. 
 
- Fatos impuníveis: são anteriores, simultâneos ou posteriores. 
Na visão de Cleber Masson:22 
Atos anteriores, prévios ou preliminares impuníveis são os que funcionam como meio de execução 
do tipo principal, ficando por este absorvidos. No caso do roubo da bolsa da vítima que se encontra no 
interior de um automóvel, eventual destruição do vidro não acarreta na imputação ao agente do crime 
contido no art. 163, caput, do Código Penal. 
Os atos concomitantes, ou simultâneos não puníveis, são aqueles praticados no instante em que 
se executa o fato principal. É o caso dos ferimentos leves suportados pela mulher violentada sexualmente, 
os quais restam consumidos pelo crime de estupro. 
Por fim, os fatos posteriores não puníveis são visualizados quando, depois de realizada a conduta, 
o sujeito pratica nova ofensa contra o mesmo bem jurídico, buscando alguma vantagem com o crime 
anterior. O exaurimento deve ser aferido em consonância com a lógica razoável, pois não há dúvida de 
que, exemplificativamente, o larápio usualmente vende os bens subtraídos, visando lucro financeiro. Se 
o furto ou roubo se deu por força de ânimo de lucro, não seria correto puni-lo mais uma vez por ter lucrado. 
Cuida-se de previsível exaurimento, ficando consumidos os atos posteriores. 
 
Princípio da Alternatividade: ocorre quando a norma penal prevê vários fatos alternativamente para 
a prática do crime. 
Ex: art. 122 - Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça. Esse 
tipo penal tem três verbos (negritados) logo, se o sujeito praticar um, dois ou os três verbos, estará 
incorrendo na prática de somente um crime. 
Importante ressaltar que a doutrina dominante não aceita este princípio como válido para solução do 
conflito aparente de leis penais, por ser a alternatividade a consunção que se instrumentaliza no interior 
de um mesmo tipo penal entre condutas integrantes de leis de conteúdo variado. Em síntese, nada mais 
é do que a consunção que resolve o conflito entre condutas previstas na mesma lei penal.23 
 
Questões 
 
01. (PC/CE - Escrivão de Polícia Civil de 1ª Classe – VUNESP/2015) O indivíduo B provocou aborto 
com o consentimento da gestante, em 01 de fevereiro de 2010, e foi condenado, em 20 de fevereiro de 
2013, pela prática de tal crime à pena de oito anos de reclusão. A condenação já transitou em julgado. 
Na hipótese do crime de aborto, com o consentimento da gestante, deixar de ser considerado crime por 
 
21 idem 
22 idem 
23 MASSON. Cleber. Direito Penal Esquematizado. Parte Geral. Vol. 1. Ed. Médodo. 8ª edição. 2014. 
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. 49 
força de uma lei que passe a vigorar a partir de 02 de fevereiro de 2015, assinale a alternativa correta no 
tocante à consequência dessa nova lei à condenação imposta ao indivíduo B. 
 (A) A nova lei será aplicada para os fatos praticados pelo indivíduo B, cessando em virtude dela a 
execução e os efeitos penais da sentença condenatória. 
 (B) A nova lei só irá gerar algum efeito sobre a condenação do indivíduo B se prever expressamente 
que se aplica a fatos anteriores. 
 (C) A nova lei só seria aplicada para os fatos praticados pelo indivíduo B se a sua entrada em vigência 
ocorresse antes de 01 de fevereiro de 2015 
 (D) Não haverá consequência à condenação imposta ao indivíduo B visto que já houve o trânsito em 
julgado da condenação. 
 (E) A nova lei será aplicada para os fatos praticados pelo indivíduo B, contudo só fará cessar a 
execução persistindo os efeitos penais da sentença condenatória, tendo em vista que esta já havia 
transitado em julgado. 
 
02. (Polícia Federal/Agente de Polícia Federal – CESPE/2014) No que se refere à aplicação da lei 
penal o item abaixo apresenta uma situação hipotética, seguida de uma assertiva a ser julgada. 
 
Sob a vigência da lei X, Lauro cometeu um delito. Em seguida, passou a viger a lei Y, que, além de 
ser mais gravosa, revogou a lei X. Depois de tais fatos, Lauro foi levado a julgamento pelo cometimento 
do citado delito. Nessa situação, o magistrado terá de se fundamentar no instituto da retroatividade em 
benefício do réu para aplicar a lei X, por ser esta menos rigorosa que a lei Y. 
(...) Certo 
(...) Errado 
 
03. (PM/PE - Oficial da Polícia Militar - UPENET/2014) Digamos que o menor de 18 (dezoito) anos 
“A” atire dolosamente contra a vítima que vem a falecer após a maioridade de “A”. Sobre o fato narrado, 
o tempo do crime e a regra geral adotada no Código Penal brasileiro, analise os itens a seguir: 
I. Aplica-se o Código Penal, uma vez que o crime foi consumado na vigência da maioridade penal de 
“A”. 
II. Considera-se praticado o crime no tempo em que ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em parte, 
bem como na época em que se produziu ou deveria produzir-se o resultado. 
III. O Código Penal não pode ser aplicado, uma vez que deve ser considerado o momento da 
consumação do crime. 
IV. O Código Penal não pode ser aplicado, uma vez que deve ser considerado o momento da ação ou 
omissão, ainda que outro seja o momento do resultado. 
 
Está CORRETO, somente, o que se afirma em 
(A) III. 
(B) III e IV. 
(C) I e II. 
(D) II. 
(E) IV. 
 
04. (TJ/AP - Técnico Judiciário - Área Judiciária e Administrativa – FCC/2014) Com relação à 
aplicação da lei penal, é INCORRETO afirmar: 
(A) Não há crime sem lei anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal. 
(B) A lei excepcional ou temporária, embora decorrido o período de sua duração ou cessadas as 
circunstâncias que a determinaram, aplica-se ao fato praticado durante sua vigência. 
(C) Pode-se ser punido por fato que lei posterior deixe de considerar crime, se já houver sentença 
penal definitiva. 
(D) A pena cumprida no estrangeiro atenua a pena imposta no Brasil pelo mesmo crime, quando 
diversas, ou nela é computada, quando idênticas. 
(E) Considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda que outro seja o momento 
de seu resultado. 
 
05. (DPE/RS - Defensor Público – FCC/2014) Sobre o tempo e o lugar do crime, o Código Penal para 
estabelecer 
(A) o tempo do crime, adotou, como regra, a teoria da ubiquidade, e, para estabelecer o lugar do crime, 
a teoria da ação. 
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. 50 
(B) o tempo e o lugar do crime, adotou, como regra, a teoria da ação. 
(C) o tempo e o lugar do crime, adotou, como regra, a teoria do resultado. 
(D) o tempo e o lugar do crime, adotou, como regra, a teoria da ubiquidade. 
(E) o tempo do crime, adotou, como regra, a teoria da ação, e, para estabelecer o lugar do crime, a 
teoria da ubiquidade. 
 
06. (SEFAZ/RS - Auditor Fiscal da Receita Estadual - FUNDATEC/2014) No que diz respeito à 
aplicação da lei penal, analise as assertivas a abaixo: 
I. Ultratividade da lei penal significa que quando a lei revogada for mais benéfica, ela será aplicada ao 
fato cometido durante a sua vigência. 
II. Abolitio criminis significa que a nova lei deixa de considerar crimeum fato anteriormente tipificado 
como ilícito penal, fazendo desaparecer todos os efeitos penais e civis das condenações proferidas com 
base na lei anterior. 
III. O Código Penal Brasileiro adotou a teoria da ubiquidade, também conhecida por mista ou unitária, 
considerando o lugar do crime tanto o local onde ocorreu a ação ou a omissão, no todo ou em parte, como 
onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado. 
 
Quais estão corretas? 
(A) Apenas II. 
(B) Apenas I e II. 
(C) Apenas I e III. 
(D) Apenas II e III. 
(E) I, II e III. 
 
07. (TCM/GO - Auditor Controle Externo – Jurídica – FCC/2015) Rodrigo praticou no exterior crime 
sujeito à lei brasileira e foi condenado a 1 ano de reclusão no exterior e a 2 anos de reclusão no Brasil. 
Cumpriu a pena no exterior e voltou ao Brasil, tendo sido preso em razão do mandado de prisão expedido 
pela justiça brasileira. Nesse caso, a pena cumprida no exterior 
(A) implicará na transformação automática da pena imposta no Brasil em sanção pecuniária. 
(B) será considerada circunstância atenuante e a pena fixada no Brasil será objeto de nova dosimetria. 
(C) implicou exaurimento da sanção penal cabível e Rodrigo não estará sujeito ao cumprimento da 
pena imposta no Brasil. 
(D) será descontada da pena imposta no Brasil e, assim, Rodrigo terá que cumprir mais 1 ano de 
reclusão. 
(E) é irrelevante para a lei brasileira e Rodrigo deverá cumprir integralmente os 2 anos de reclusão 
impostos pela justiça brasileira. 
 
08. (SEGESP/AL – Papiloscopista – CESPE/2013) Acerca de aplicação da lei penal, concurso de 
crimes e culpabilidade, julgue os próximos itens. 
 
Segundo o princípio da territorialidade, se uma pessoa comete latrocínio em embarcação brasileira 
mercante em alto-mar, aplica-se a lei brasileira. 
(...) Certo 
(...) Errado 
 
09. (PC/DF - Escrivão de Polícia – CESPE/2013) Considere a seguinte situação hipotética. 
 
A bordo de um avião da Força Aérea Brasileira, em sobrevoo pelo território argentino, Andrés, cidadão 
guatemalteco, disparou dois tiros contra Daniel, cidadão uruguaio, no decorrer de uma discussão. 
Contudo, em virtude da inabilidade de Andrés no manejo da arma, os tiros atingiram Hernando, cidadão 
venezuelano que também estava a bordo. Nessa situação, em decorrência do princípio da territorialidade, 
aplicar-se-á a lei penal brasileira. 
(...) Certo 
(...) Errado 
 
10. (TJ-AM - Analista Judiciário – Direito – FGV/2013) Com relação à lei penal no espaço, assinale 
a afirmativa incorreta. 
(A) A legislação penal brasileira adota o princípio da territorialidade absoluta. 
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. 51 
(B) Aplica-se a lei penal brasileira aos crimes praticados em aeronave pública brasileira ainda que 
esteja em território estrangeiro. 
(C) As embaixadas estrangeiras não são consideradas território estrangeiro, aplicando-se a lei 
brasileira nos crimes praticados no seu interior, salvo quando o autor for agente diplomático ou possua 
imunidade diplomática. 
(D) São princípios empregados para solucionar a regra da extraterritorialidade: personalidade ou 
nacionalidade, domicílio, defesa, justiça universal, representação ou da bandeira. 
(E) Para fins de Direito Penal, o conceito de território não se restringe à área limitada pelas fronteiras 
brasileiras. 
 
RESPOSTAS 
 
01. Resposta: A 
A alternativa A está correta visto que de acordo com o que prega o art. 2º do Código Penal: 
Art. 2º - Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime, cessando em 
virtude dela, a execução e os efeitos penais da sentença condenatória. 
 
02. Resposta: Errado 
A afirmação está errada porque, segundo o art. 4º, aplica-se a lei vigente à época do fato, ou seja, a 
lei vigente à época da ação ou omissão. Assim, a lei X deve ser aplicada por ser ela que está vigendo. A 
isso dá-se o nome de ultra-atividade. A retroatividade só é aplicada em Direito Penal quando a lei posterior 
for mais benéfica. 
 
03. Resposta: E 
Conforme explicado na questão anterior, o art. 4º determina que se deve aplicar a lei vigente ao tempo 
da ação ou omissão. Como ao tempo da ação, A era menor, o CP não pode ser aplicado. Responderá o 
menor pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. 
 
04. Resposta: C 
Não se pode ser punido por fato que lei posterior deixe de considerar crime, mesmo que haja sentença 
penal definitiva, mesmo que essa já tenha transitado em julgado. De acordo com o art. 2º, CP, a abolitio 
criminis cessa a execução e os efeitos penais da sentença condenatória, portanto, a alternativa C está 
incorreta. 
 
05. Resposta: E 
De acordo com o art. 4º, considera-se o momento da ação ou da omissão como o tempo do crime, não 
importando quando o resultado ocorre, ou seja, adotou-se a teoria da ação. Em relação ao lugar do crime, 
o Código Penal em seu art. 6º determina que esse é o local da ação, da omissão ou do resultado, 
adotando, portanto, a teoria da ubiquidade. 
 
06. Resposta: C 
A alternativa I está correta por nomear corretamente o efeito que tem a lei mais benéfica, ou seja, a lei 
já revogada é aplicada a fato que ocorreu durante a sua vigência por ser dotada de ultra-atividade. Isso 
somente ocorre com as leis penais mais benéficas. Caso a mais benéfica fosse a posterior, essa seria a 
aplicada, por ser dotada do efeito chamado extra-atividade. 
A alternativa III está correta por expressar o comando previsto no art. 6º do Código Penal. 
A alternativa II está INCORRETA porque a abolitio criminis, de acordo com o art. 2º, CP somente faz 
cessar os efeitos penais da sentença condenatória, e não os civis. 
 
07. Resposta: D 
De acordo com o art. 8º do Código Penal, a pena cumprida no estrangeiro, quando da mesma espécie 
é computada, somente tendo Rodrigo que cumprir um ano aqui no Brasil. 
 
08. Resposta: Certo 
A afirmação está correta, porquanto de acordo com o expressado no § 1º do art. 5º, CP: 
Art. 5º - Aplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções, tratados e regras de direito 
internacional, ao crime cometido no território nacional. 
§ 1º - Para os efeitos penais, consideram-se como extensão do território nacional as embarcações e 
aeronaves brasileiras, de natureza pública ou a serviço do governo brasileiro onde quer que se encontrem, 
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. 52 
bem como as aeronaves e as embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade privada, que 
se achem, respectivamente, no espaço aéreo correspondente ou em alto-mar. 
 
09. Resposta: Certo 
A questão é feita de forma a confundir o candidato, haja vista que o elemento que interessa está no 
início da afirmação, qual seja, o fato de o avião ser da Força Aérea Brasileira. De acordo com a regra 
contida no § 1º do art. 5º, CP a aeronave da FAB é considerada extensão do território nacional, por isso 
a lei penal brasileira é aplicada. 
 
10. Resposta: A 
A alternativa A está incorreta porque a legislação brasileira adota o princípio da territorialidade 
temperada e não absoluta, haja vista que a lei penal aplica-se tanto ao território geográfico brasileiro, 
como às suas extensões (território jurídico) e a alguns casos de extraterritorialidade previstos no art. 7º, 
CP. 
 
 
 
A teoria geral do crime trata de todos os elementos que compõe o fato criminoso. Exemplo: sujeito, 
tipo penal, conduta, nexo causal, resultado e tipicidade. 
 
CONCEITO DE CRIME 
 
Crime, em sentido amplo, é a ação ou omissão, imputável a pessoa, lesiva ou perigosa a interesse 
penalmente protegido, constituída de determinados elementos e eventualmente integrada por certas 
condições ou acompanhada de determinadas circunstâncias previstas em lei. É a violação de um bem 
penalmente protegido. 
Para que haja crime, é preciso uma conduta humana positivaou negativa. Nem todo comportamento 
do homem, porém, constitui delito, em face do princípio da reserva legal. Logo, somente aqueles previstos 
na lei penal é que podem configurar o delito. 
 
Critérios: 
- material ou substancial: sob esse aspecto, crime é a ação ou omissão humana que viola bem 
jurídico tutelado pela lei penal; 
- legal: sob esse aspecto, o conceito de crime é o fornecido pelo legislador; 
- critério analítico, formal ou dogmático: se sustenta nos elementos que compõem a estrutura do 
crime, quais sejam: fato típico, ilícito e culpável (posição dominante). 
 
ELEMENTOS DA INFRAÇÃO PENAL 
 
Qualquer infração penal possui os seguintes elementos: 
- Tipicidade: o fato (evento) deve ser enquadrado plenamente no tipo (modelo) descrito na legislação 
penal. 
7 Do Delito. 7.1 Classificação dos crimes. 7.2 Teoria da Ação. 
7.3 Teoria do tipo. O fato típico e seus elementos. 7.4 Relação de 
causalidade. Teorias. Imputação objetiva. 7.5 Tipos dolosos de ação. 
7.6 Tipos dos Crimes de Imprudência. 7.7 Tipos dos Crimes de 
Omissão. 7.8 Consumação e tentativa. 7.9 Desistência voluntária e 
arrependimento eficaz. 7.10 Arrependimento posterior. 
7.11 Crime impossível. 8 Agravação pelo resultado. 
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. 53 
 - Ilicitude: isto é, o fato (evento) deve ser contra o Direito. Por vezes, mesmo que uma pessoa cometa 
uma conduta típica, há na lei exceções permissivas para sua conduta, de modo que não há ilicitude da 
ação. Por exemplo: matar alguém como legítima defesa estrita, a lei considera que a conduta não é ilícita. 
 - Culpabilidade: isto é, o fato (evento) deve ter sido praticado pelo agente ativo com intenção 
reprovável. 
 
ESPÉCIES 
 
Quando utilizamos a expressão infração penal esta engloba tanto o crime (ou delito), como a 
contravenção penal. Assim, o crime e a contravenção penal são espécies do gênero infração penal. 
- Crime: A pena é sempre de reclusão ou detenção, cumulada ou não com multa. Tem caráter 
repressivo, situando o Direito somente após a ocorrência do dano a alguém. Ex.: alguém, conduzindo 
imprudentemente um veículo, atropela outrem e lhe causa ferimentos. 
- Contravenção (Lei nº 3.688/41): é uma infração de menor gravidade. Também fere o ordenamento 
jurídico, logo, assim como os crimes são fatos típicos e antijurídicos, mas, como a lesão é menor, o 
legislador optou por dar tratamento mais sutil àqueles que a cometem. É punido com prisão simples e 
multa ou só multa. Possui caráter preventivo, visando a Lei das Contravenções Penais coibir condutas 
conscientes que possam trazer prejuízo a alguém. Exemplo: omissão de cautela na guarda ou condução 
de animais. 
 
Eis as principais diferenças entre crime e contravenção: 
 
CRIME CONTRAVENÇÃO 
É punido com reclusão ou detenção É punida com prisão simples e multa 
Pune-se a tentativa A tentativa não é punível 
É determinado pelo Código Penal 
Rege-se pela Lei das Contravenções Penais 
(Decreto-Lei nº 3.688/41) 
As penas privativas de liberdade tem por limite 
o tempo de 30 anos. 
A pena de prisão não pode ser superior a 05 
anos 
 
SUJEITO ATIVO E PASSIVO DA INFRAÇÃO PENAL 
 
O sujeito ativo é a pessoa que realiza, ainda que indiretamente, o verbo do tipo, ou seja, que pratica 
a ação criminosa. Pode fazê-lo sozinho ou em concurso com outras pessoas. 
Denomina-se autor aquele que sozinho ou em coautoria realizam o verbo do tipo. O partícipe é aquele 
que, embora não realize o verbo do tipo, contribui para sua realização. 
Há ainda o autor intelectual, que é aquele que, embora não execute a ação delituosa, planeja ou dá 
ordem para que se realize. Ex: mandante de crime 
Tem-se ainda o autor mediato que é aquele que usa de outra pessoa, sem discernimento para a 
realização do crime. Ex: sujeito pede para uma criança de quatro anos colocar veneno no copo de seu 
desafeto, dizendo à criança que se trata de açúcar. 
O partícipe pode ser material, quando ajuda materialmente na realização do crime, por exemplo, 
empresta a arma. Pode ainda ser moral, quando induz ou instiga a prática delituosa. 
Para ser sujeito ativo, contudo, se faz necessário possuir capacidade penal, que é capacidade para 
que o sujeito se torne sujeito de direitos e obrigações penais. Tal capacidade precisa estar presente no 
momento da ação ou da omissão, ou seja, no momento da prática delituosa. 
Em regra, somente as pessoas naturais podem ser sujeitos ativos dos crimes, porém, há casos em 
que a pessoa jurídica pode figurar nessa posição. 
A Constituição Federal atribui à pessoa jurídica responsabilidade nos crimes contra a ordem 
econômica e financeira, nos crimes contra a economia popular e nos crimes contra o meio ambiente. 
Por falta de regulamentação legal nos demais casos, o STF somente tem entendido haver a 
responsabilidade da pessoa jurídica nos crimes ambientais, visto que a Lei n° 9.605/98 trouxe previsão 
legal a esse respeito, veja-se: 
 
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. 54 
Art. 3º As pessoas jurídicas serão responsabilizadas administrativa, civil e penalmente conforme o 
disposto nesta Lei, nos casos em que a infração seja cometida por decisão de seu representante legal 
ou contratual, ou de seu órgão colegiado, no interesse ou benefício da sua entidade. 
Parágrafo único. A responsabilidade das pessoas jurídicas não exclui a das pessoas físicas, autoras, 
coautoras ou partícipes do mesmo fato. 
 
O sujeito passivo, como já dito anteriormente, é o titular do bem jurídico lesado. O Estado sempre 
será sujeito passivo dos delitos, porquanto toda atividade criminosa o atinge em maior ou menor grau, 
por isso diz-se que ele é sujeito passivo indireto, formal ou mediato. Porém, há crimes em que ele figura 
como sujeito passivo direto, como nos crimes contra a Administração Pública. 
A pessoa jurídica também pode ser sujeito passivo de crimes mas, é preciso que haja compatibilidade 
com a sua natureza. Assim, ela pode ser sujeito passivo do crime de difamação mas, não pode ser do 
crime de homicídio. 
Há os chamados crimes vagos, em que o sujeito passivo não possui personalidade jurídica. 
 
OBJETO DO CRIME 
 
O objeto do crime pode ser jurídico ou material e se referem ao bem contra o qual é dirigida a conduta 
criminosa. 
- Objeto jurídico: é o bem jurídico, ou seja, interesse ou valor protegido pelo tipo penal. Exemplo: 
vida, no crime de homicídio (Artigo 121 do Código Penal). 
- Objeto material: o objeto é a pessoa ou coisa sobre o qual recai a conduta criminosa. Exemplo: a 
pessoa que teve sua vida tirada pela conduta do agente. 
 
CLASSIFICAÇÃO DOS CRIMES 
 
Classificar os crimes significa reuni-los em grupos que contam com determinada característica idêntica. 
Por exemplo, a categoria dos crimes instantâneos reúne todas as infrações penais que se consumam em 
um momento determinado. Como cada crime conta com diversos aspectos, também poderá ser incluído 
simultaneamente em diversas classificações. Dessa maneira, o homicídio é crime comum no tocante à 
qualificação do sujeito ativo e crime material quanto ao resultado naturalístico. A seguir, serão expostas 
as principais classificações. 
 
- Quanto ao momento da consumação: 
Crimes instantâneos são aqueles em que a consumação acontece em um momento determinado, 
único; não importando a quantidade de atos cometidos. Ex: a lesão corporal (art. 129) se consuma no 
momento em que a integridade física ou a saúde da vítima é atingida. 
Crimes permanentes ou contínuos são aqueles em que a consumação se prolonga no tempo de 
acordo com a vontade do agente. Ex: extorsão mediante sequestro (art. 159), que ocorre enquanto a 
vítima estiver sob o poder do sequestrador. De acordo com Guilherme de Souza Nucci, existem dois 
critérios para a identificação do crimepermanente: 
a) o bem jurídico afetado é imaterial (Ex: saúde pública, liberdade individual, etc); 
b) normalmente é realizado em duas fases, a primeira, comissiva, e a segunda, omissiva (sequestra-
se uma pessoa através de uma ação, mantendo-a no cativeiro por omissão). 
Nos crimes instantâneos de efeitos permanentes a consumação ocorre em um momento 
determinado, mas seus efeitos permanecem no tempo. Ex: o homicídio (art. 121) se consuma no momento 
da morte da vítima, mas sua consequência é irreversível. 
 
- Quanto à conduta 
As condutas proibidas pela lei penal podem ser positivas ou negativas, ou seja, constituem uma ação 
ou uma omissão. 
Via de regra, a lei exige para a configuração do crime um comportamento ativo do agente: matar, no 
homicídio (art. 121); subtrair, no furto (art. 155); lesionar, na lesão corporal (art. 129). Esses crimes são 
chamados de comissivos. 
Porém, em algumas ocasiões a lei proíbe condutas negativas, ou seja, para a ocorrência do crime é 
necessária à omissão de um comportamento que o agente poderia e deveria fazer. Se esse dever de agir 
de referir à generalidade das pessoas, teremos o crime omissivo próprio, puro ou simples. Nesse 
caso, temos um crime de mera conduta: basta à ausência de ação para a consumação do crime, que 
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. 55 
ocorre no primeiro momento em que o agente poderia agir e não agiu. O crime omissivo próprio também 
é crime de perigo, por isso, sua existência independe da ocorrência de dano. Ex: a omissão de socorro 
(art. 135) se consuma no primeiro momento em que o agente poderia socorrer a pessoa em perigo e não 
o faz. O crime estará consumado mesmo que ele mude de ideia e volte posteriormente para socorrer a 
vítima e mesmo que a vítima não sofra nenhuma lesão. 
Existem situações em que o agente tem o dever de evitar o resultado lesivo ao bem jurídico protegido, 
assumindo o papel de garantidor da não ocorrência da lesão. Nesses casos, temos os crimes omissivos 
impróprios, qualificados, comissivos por omissão ou comissivo-omissivos. A posição de garantidor 
pode ocorrer nas seguintes situações previstas no art. 13, § 2º: 
a) o agente tem a obrigação legal de cuidado, proteção e vigilância (ex: pais com relação aos filhos 
menores); 
b) quem assumiu a responsabilidade de evitar o resultado (ex: salva-vidas com relação aos banhistas 
em uma piscina); 
c) quem criou o risco de ocorrência do resultado (ex: causador de um incêndio com relação às vítimas 
deste). Os crimes omissivos impróprios não estão previstos expressamente na lei, utilizando-se da 
definição típica dos crimes comissivos. São crimes materiais, pois sempre requerem a existência de um 
resultado naturalístico. 
Parte da doutrina considera que existem também os crimes omissivos por comissão: existe uma ordem 
legal de atuar, mas o agente impede que outrem execute essa ordem. Ex: marido impede a intervenção 
médica que salvaria a vida da mulher. Tal como nos crimes comissivos, existe nexo causal entre a 
conduta e o resultado e é possível a tentativa. 
Por fim, denominam-se crimes de conduta mista aqueles que têm uma fase inicial positiva e uma 
posterior omissão. Ex: apropriação indébita de coisa achada (art. 169, parágrafo único): o agente 
primeiramente se apodera da coisa achada (conduta comissiva) e posteriormente deixa de devolvê-la no 
prazo de quinze dias (conduta omissiva). 
 
- Quanto ao resultado naturalístico 
Todos os crimes lesionam ou põem em risco bens jurídicos. Esse é o resultado jurídico ou normativo, 
indispensável na consumação de todos os crimes. 
Alguns crimes têm como consequência outra espécie de resultado, denominado naturalístico: é a 
modificação da realidade física. Tais crimes só se consumam se ocorrer essa alteração material, por isso 
são conhecidos como crimes materiais ou de resultado. Assim, o homicídio se consuma com a morte 
da vítima e o furto com a retirada do bem da posse da vítima. Só se pode falar em nexo de causalidade 
entre a conduta e o resultado (CP, art. 13) nos crimes materiais. 
Os crimes formais se consumam com a simples prática da conduta prevista em lei. O resultado, 
apesar de também ser previsto em lei, é dispensável para a consumação do crime e configura mero 
exaurimento dele. Por isso, são chamados também de crimes de consumação antecipada. Assim, a 
concussão (art. 316) se consuma com a exigência, pelo funcionário público, de vantagem indevida. O 
efetivo recebimento da vantagem é mero exaurimento do crime que apenas influi na fixação da pena. A 
distinção entre consumação e exaurimento é essencial quando se trata de prisão em flagrante, que só é 
possível no momento da consumação. No exemplo acima, o funcionário público só pode ser preso em 
flagrante no momento da exigência, nunca no recebimento do valor indevido. 
Os crimes de mera conduta ou de simples atividade também se consumam com a simples prática 
do ato. Ao contrário dos crimes formais, não chega a haver previsão legal de qualquer resultado 
naturalístico. Desse modo, a calúnia (art. 138) afeta a honra objetiva da vítima (bem jurídico), mas não 
modifica a realidade física. Todos os crimes omissivos próprios (tratados no próximo item) são delitos de 
mera conduta. Os crimes de mera conduta são uma subdivisão dos crimes formais e por isso também 
são chamados de crimes puramente formais. A jurisprudência costuma utilizar indistintamente os dois 
termos. 
 
- Quanto ao momento da proteção ao bem jurídico 
A função primordial do Direito Penal é proteger os bens jurídicos considerados essenciais para a 
sociedade e os indivíduos (vida, liberdade, patrimônio, honra etc). Para isso, são cominadas penas 
àqueles que lesam esses bens. Assim, quem pratica homicídio (art. 121) lesa o bem jurídico "vida" e deve 
receber uma pena que varia entre 6 e 30 anos. Os crimes de dano constituem a generalidade dos casos 
e só se consumam com a efetiva lesão ao bem protegido. 
Porém, em determinadas situações, a lei penal antecipa a proteção aos bens jurídicos incriminando as 
condutas que simplesmente colocam em risco esses bens. Para a configuração do crime, a lei requer 
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apenas a probabilidade de dano e não a sua ocorrência efetiva. Trata-se dos crimes de perigo, que se 
dividem em: 
a) Crimes de perigo concreto: só se caracterizam se houver, no caso, a comprovação do risco ao 
bem protegido. O tipo penal requer a exposição a perigo da vida ou da saúde de outrem. Ex: crime de 
maus-tratos (art. 136). 
b) Crimes de perigo abstrato ou presumido: o risco ao bem jurídico protegido é presumido de modo 
absoluto (presunção juris et de jure) pela norma, não havendo necessidade de sua comprovação no caso 
concreto. Ex: omissão de socorro (art. 135). Parte da doutrina considera que os crimes de perigo abstrato 
são inconstitucionais, por violarem os princípios da lesividade e da intervenção mínima. 
c) Crimes de perigo individual: são aqueles que colocam em risco bens jurídicos de pessoas 
determinadas. Estão previstos nos artigos 130 a 137 do CP. 
d) Crimes de perigo comum ou coletivo: colocam em risco número indeterminado de pessoas. Estão 
previstos nos arts. 250 a 259 do CP. 
e) Crimes de perigo atual e de perigo iminente: o Código Penal utiliza tais expressões nos arts. 24 
(estado de necessidade - perigo atual) e 132 (perigo para a vida ou a saúde de outrem - perigo iminente). 
Porém, tal distinção é equivocada, pois o perigo é sempre atual, iminente só pode ser o dano. Não é 
possível precisar a situação imediatamente anterior ao risco. Nesse sentido o magistério de Guilherme 
de Souza Nucci: 
 
"O perigo iminente é uma situação quase impalpável e imperceptível (poderíamos dizer, penalmente 
irrelevante), pois falar em perigo já é cuidar de uma situaçãode risco, que é imaterial, fluida, sem estar 
claramente definida. Se o perigo atual é um risco de dano, perigo iminente é a possibilidade de colocar 
uma pessoa em estágio imediatamente anterior àquele que irá gerar o risco de dano, ou seja, sem a 
concretude e a garantia exigidas pelo Direito Penal." 
 
- Quanto ao sujeito ativo 
Crimes comuns são aqueles que podem ser cometidos por qualquer pessoa, não havendo 
necessidade de qualificação especial. Exs: homicídio, lesão corporal e furto. 
Crime Político é aquele que lesa, ou pode lesar, a soberania, a integridade, a estrutura constitucional 
ou o regime político do Brasil. É a infração que atinge a organização do Estado como um todo, minando 
os fundamentos dos poderes constituídos. Ex.:O crime contra a segurança externa do Estado constitui 
crime político. 
Os crimes próprios ou especiais só podem ser cometidos por pessoas que contem com determinada 
qualificação. De acordo com Damásio Evangelista de Jesus, essa qualificação pode ser "jurídica 
(acionista, funcionário público); profissional (comerciante, empregador, empregado, médico, advogado); 
de parentesco (pai, mãe, filho); ou natural (gestante, homem)". Assim, o auto- aborto (CP, art. 124) só 
pode ser cometido pela gestante e o infanticídio (art. 123) é praticado pela mãe. 
Os crimes funcionais são uma espécie de crimes próprios, pois só podem ser cometidos por 
funcionários públicos, tal como definidos no art. 327 do Código Penal. Crimes funcionais próprios são 
aqueles cuja ausência da qualidade de funcionário público torna o fato atípico (ex: prevaricação - art. 
319). Já nos crimes funcionais impróprios ou mistos, a ausência dessa qualidade faz com que o fato seja 
enquadrado em outro tipo penal (ex: concussão - art. 316; se o sujeito ativo não for funcionário público, o 
crime é de extorsão - art. 158). 
Os crimes de mão própria ou de atuação especial só podem ser cometidos pessoalmente pelo 
sujeito ativo, sem a possibilidade de que terceiro aja em seu lugar. Existe a possibilidade de participação, 
mas não de coautoria. Assim, somente a testemunha em pessoa pode ser autora do crime de falso 
testemunho (art. 342), não podendo pedir que terceiro o faça em seu lugar, mas o terceiro pode influenciá-
la a mentir, respondendo pelo crime como partícipe. Diferenciam-se dos crimes próprios, em que o sujeito 
ativo específico pode utilizar-se de outra pessoa em sua execução. Ex: o funcionário público pode 
determinar a um particular que cometa o crime de peculato (art. 312). 
 
- Quanto ao bem jurídico tutelado 
a) Crime simples: protegem um único bem jurídico. Ex.: no furto, protege o patrimônio. 
b) Crime complexo: surgem quando há fusão de dois ou mais tipos penais, ou quando o tipo penal 
funciona como qualificadora de outro. A norma penal tutela dois ou mais bens jurídicos. Ex.: no latrocínio 
(art. 157, §3) é um roubo qualificado pela morte e, assim, atinge também dois bens jurídicos, o patrimônio 
e a vida. 
 
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- Quanto à espécie de pena: 
A Constituição prevê em seu art. 5º, XLVI, um rol de penas a serem impostas àqueles que cometem 
infrações penais: privação ou restrição de liberdade, perda de bens, multa, prestação social alternativa e 
suspensão ou interdição de direitos. Considerando que esse rol é exemplificativo, ao legislador cabe 
cominar as penas que considerar mais convenientes, devendo somente se ater às vedações constantes 
do 5º, XLVII: pena de morte (salvo em caso de guerra declarada), de caráter perpétuo, de trabalhos 
forçados, de banimento e cruéis. 
Considerando as penas aplicáveis, o art. 1º da Lei de Introdução ao Código Penal (Decreto-Lei 2.848 
/1940) definiu a divisão básica das infrações penais: crimes (ou delitos) e contravenções (ou crimes-
anões). 
Aos crimes são cominadas as penas de reclusão e detenção, cumuladas ou não com multa, enquanto 
que a pena das contravenções poderia ser de prisão simples ou de multa, aplicadas isolada ou 
cumulativamente. 
 
- Quanto ao potencial ofensivo 
Crimes de bagatela são aquelas condutas que atingem o bem jurídico protegido de modo tão 
desprezível que a lesão é considerada insignificante (exs: subtração de uma maçã em uma rede de 
supermercados ou um arranhão que cicatriza em poucos minutos). Nesses casos, torna-se 
desproporcional qualquer atuação repressiva, considerando-se o fato cometido como um indiferente 
penal. 
As infrações penais de menor potencial ofensivo são definidas na Lei de Juizados Especiais (art. 
61, com a redação dada pela Lei 11.313, de 28 de junho de 2006) como sendo todas as contravenções 
e os crimes cujo pena máxima não ultrapasse dois anos. Para esses crimes se aplicam na íntegra os 
institutos despenalizantes da lei, como a composição dos danos civis (arts. 72 a 75), transação penal (art. 
76) e suspensão condicional do processo (art. 89). 
As infrações penais de médio potencial ofensivo são aquelas que admitem suspensão condicional 
do processo, pois têm pena mínima igual ou inferior a um ano, mas são julgados pela Justiça Comum, já 
que sua pena máxima é superior a dois anos. Exs: furto simples (art. 155, caput) e injúria qualificada pelo 
preconceito (art. 140, 3º). 
Crimes de alto potencial ofensivo são aqueles cuja pena mínima é superior a um ano, não sendo 
cabível a suspensão condicional do processo. Aplica-se na totalidade os institutos do Código Penal. 
Crimes hediondos são aqueles considerados de altíssimo potencial ofensivo e por isso o réu e o 
condenado sofrem diversas restrições no curso do processo e do cumprimento da pena. De acordo com 
a Lei nº 8.072 de 25 de julho de 1990, são considerados hediondos os seguintes crimes: homicídio, 
quando praticado em atividade típica de grupo de extermínio, ainda que cometido por um só agente, e 
homicídio qualificado; latrocínio; extorsão qualificada pela morte; extorsão mediante sequestro; estupro; 
atentado violento ao pudor; epidemia com resultado morte; falsificação, corrupção, adulteração ou 
alteração de produto destinado a fins terapêuticos ou medicinais e genocídio. Os crimes equiparados a 
hediondos têm o mesmo tratamento legal e são os seguintes: prática da tortura, o tráfico ilícito de 
entorpecentes e drogas afins e o terrorismo. 
 
- Quanto ao elemento subjetivo (moral): 
a) doloso: quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo (art. 18, I). Pode ser, 
dolo eventual, genérico ou específico. 
b) culposo: quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia (art 
18, II). A culpa é a violação do dever de cuidado, que é o dever que todas as pessoas devem ter. É o 
dever imposto às pessoas de razoável diligência. 
c) preterdoloso: dolo no antecedente, culpa no resultado. O agente alcança um resultado mais grave 
do que queria. Por exemplo, art. 129 § 3º - lesão corporal seguido de morte. 
d) qualificado pelo resultado: ocorrem quando o legislador, após descrever uma figura típica funda-
mental, acrescenta um resultado que tem por finalidade aumentar a pena. Dolo + dolo. Exemplo: art. 121 
§ 2º. 
 
- Quanto à completa realização 
a) consumado (art. 14, I): quando alcança o resultado, ou seja, quando o sujeito realiza a descrição 
da conduta física. Pelo princípio da alternatividade, se realizou um verbo ou outro da conduta já é 
suficiente para configurar a tipicidade. 
b) tentado (art. 14, II): quando, por circunstâncias alheias à vontade do agente, o crime não ocorre. 
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c) Desistência voluntária: quando o autor da conduta, por fato inerente à sua vontade, não comete a 
conduta ou desiste dela. O autor responde pelos atos praticados. Dica: é o arrependimento do que está 
fazendo (art. 15). 
d) Arrependimento eficaz: é o arrependimento do que jáfez. Por exemplo: atira em uma pessoa e se 
arrepende, levando a vítima para ser socorrida a tempo de sobreviver. 
e) Arrependimento posterior: só é possível nos casos de crime sem violência ou grave ameaça e 
até o recebimento da denúncia ou queixa, por parte do Ministério Público; reparar o dano ou restituir a 
coisa. 
f) Crime impossível: quando, por absoluta ineficácia do meio empregado ou absoluta impropriedade 
do objeto, é impossível consumar o crime. 
f) Crime impossível: quando, por absoluta ineficácia do meio empregado ou absoluta impropriedade 
do objeto, é impossível consumar o crime. 
 
Nota: há crimes que não possuem o tipo tentado, por exemplo, os crimes culposos e os 
unissubsistentes; 
 
- Quanto ao fracionamento da conduta: 
Crimes Unissubsistente - não tem como fragmentar essa conduta; ela ocorre em um único momento. 
Por exemplo: injúria (art 140). 
Crimes Plurissubsistente - comportamento fragmentado; percebe-se claramente as fases do iter 
criminis. 
 
- Outras definições de crime: 
Crimes unissubjetivos (ou monossubjetivos, ou de concurso eventual): são aqueles que podem 
ser praticados por apenas um sujeito, entretanto, admite-se a coautoria e a participação. 
Crimes plurissubjetivos (ou de concurso necessário): são aqueles que exigem dois ou mais 
agentes para a prática do delito em virtude de sua conceituação típica. Eles subdividem-se em três 
espécies de acordo com o “modus operandi”: crimes de condutas paralelas (quando há colaboração 
nas ações dos sujeitos); crimes de condutas convergentes (onde as condutas encontram-se somente 
após o início da execução do delito, pois partem de pontos opostos) e crimes de condutas contrapostas 
(onde as condutas desenvolvem-se umas contra as outras). 
Crimes de dupla subjetividade passiva: quando dois sujeitos são afetados com o mesmo ato; possui 
pluralidade de vítimas. Ex.: violação de correspondência, previsto no artigo 151 do Código Penal, 
apresenta duas vítimas, quais sejam, o destinatário e o remetente. 
Crimes progressivos: ocorrem quando o sujeito, para alcançar um resultado mais grave, comete um 
crime menos grave. Ex.: para causar a morte da vítima, o agente necessariamente tem de lesioná-la. 
Crime simples: como ele é definido no código penal. 
Crime privilegiado: crime com atenuantes, o legislador estabelece circunstâncias que tem o condão 
de reduzir a pena. 
Crime qualificado: crime com agravantes que alteram a pena para patamar mais elevado. 
Crime de ação múltipla: o que tem mais de um verbo/núcleo, por exemplo: tráfico (portar, guardar, 
vender...). 
Crime principais: são aqueles que não dependem de qualquer outra infração penal para que se 
configurem. Ex.: homicídio, furto etc. 
Crime acessórios: são aqueles que pressupõe a ocorrência de um delito anterior. Ex.: receptação 
(art. 180), que só se configura quando alguém adquire, recebe, oculta, conduz ou transporta coisa que 
sabe ser produto de (outro) crime. 
Delito Putativo: dá-se quando o agente imagina que a conduta por ele praticada constitui crime, mas, 
em verdade, é um fato atípico. 
 
ESTRUTURA DO CRIME 
 
A estrutura do crime, bem como de seus requisitos, sofre profunda diferenciação de acordo com a 
teoria que se adote em relação à conduta, que é o primeiro elemento componente do fato típico. Assim, 
uma vez adotada a teoria clássica (causal ou naturalista), a teoria finalista da ação, ou a teoria 
constitucionalista do delito, haverá grandes divergências acerca do significado dos temas que envolvem 
a conduta, dolo, culpa e culpabilidade. 
 
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TEORIA TRIPARTITE – Corrente Majoritária: 
→Fato típico 
→Antijurídico 
→Culpável 
 
A conduta é tratada como simples exteriorização de movimentos ou abstenção de comportamento, 
desprovida de qualquer finalidade. Corresponde a teoria clássica (causal ou naturalista), que teve sua 
origem no tratado de Fraz von Liszt. 
 
Para essa teoria o crime tem a seguinte estrutura: 
1) Fato típico, que tem o seguintes elementos: 
a) conduta (na qual não interessa a finalidade do agente); 
b) resultado; 
c) nexo causal; 
d) tipicidade. 
 
2) Antijuridicidade. Cometido um fato típico presume-se ser ele antijurídico, salvo se ocorrer uma das 
causas excludentes de ilicitude previstas na lei. 
 
3) Culpabilidade, composta pelos seguintes elementos: 
a) Imputabilidade; 
b) Exigibilidade de conduta diversa; 
c) Dolo e culpa. 
 
O dolo é normativo, possuindo os seguintes requisitos: 
- Consciência da conduta e do resultado; 
- Consciência do nexo de causalidade; 
- Consciência da antijuridicidade; 
- Vontade de realizar a conduta e produzir o resultado. 
 
Observações: 
- A culpabilidade é limite e fundamento de aplicação da pena. 
- O inimputável não comete crime, mas pode receber Medida de Segurança. 
 
TEORIA BIPARTITE – Corrente Minoritária: 
→Fato típico 
→Antijurídico 
 
 A conduta é o comportamento humano, voluntário e consciente (doloso ou culposo) dirigido a uma 
finalidade. Corresponde à teoria finalista que teve origem com Hans Weltel. 
O crime, para essa teoria, é um fato típico e antijurídico e, em suma, tem a seguinte estrutura: 
 
1) Fato típico, que possui os seguintes elementos: 
a) conduta dolosa ou culposa. O dolo é natural, pois deixa de integra a culpabilidade, passando a 
integrar o fato típico, tendo apenas os seguintes elementos: 
- Consciência da conduta e do resultado; 
- Consciência do nexo causal; 
- Vontade de realizar a conduta e provocar o resultado. 
 
b) resultado 
c) nexo causal 
d) tipicidade 
 
2) Antijuridicidade. Não houve modificações em relação à teoria clássica. 
 
A culpabilidade, que não é requisito do crime, é composta dos seguintes elementos: 
a) imputabilidade 
b) exigibilidade de conduta diversa; 
c) potencial consciência da ilicitude. 
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Observações: 
- A culpabilidade é pressuposto de aplicação da pena. 
- O inimputável comete crime, mas não tem culpabilidade, não tendo pena e sim Medida de Segurança. 
 
Importante: O inimputável é absolvido nas duas correntes, aplicando não pena, mas, Medida de 
Segurança. 
 
TEORIA CONSTITUCIONAL DO DIREITO PENAL 
 
- A Constituição Federal e os princípios dela decorrentes devem assumir um papel de protagonismo 
na aplicação do direito penal, relegando (o tipo penal) à sua correta posição de subalternidade em relação 
ao Texto Magno. Fala-se em um verdadeiro direito penal constitucional, no qual o fato típico passa a ser 
muito mais do que apenas mera realização dolosa ou culposa de uma conduta descrita em lei como crime. 
A subsunção formal, por si só, sem que se verifique a lesividade e a inadequação do comportamento, já 
não pode autorizar o juízo de tipicidade penal. 
Não se pode admitir descompasso entre a vontade imperiosa do Estado e o sentimento social de 
justiça. Desse modo o Estado Democrático de Direito parte do gigantesco princípio a orientar todo direito 
penal que é o princípio da dignidade da pessoa humana, o qual serve de orientação para o legislador, no 
momento da elaboração da norma in abstracto (em abstrato), determinando a ele que se abstenha de 
descrever como delito condutas que não tenham conteúdo de crime. Assim, toda vez que a norma houver 
violação à dignidade humana, está será inconstitucional. 
O fato típico será, por conseguinte, resultante da somatória dos seguintes elementos: 
- subsunção formal (era o que bastava para a teoria naturalista ou causal) 
- dolo ou culpa (teoria finalista só chegava até esse segundo requisito) 
- conteúdo material do crime (que é muito mais do que apenas a inadequação social, consiste em que 
o fato deve ter uma relevância mínima, ser socialmente inadequado, ter alteridade, ofensividade, a norma 
precisa serproporcional a mal praticado etc). 
A teoria constitucional do direito penal é, portanto, uma evolução em relação às anteriores e permite 
ao Poder Judiciário exercitar controle sobre o que o legislador diz ser crime, tornando o juiz um intérprete 
e não mero escravo da lei. 
No Brasil, até a década de setenta, predominou a teoria clássica do delito (Bento de Faria, Nélson 
Hungria, Basileu Garcia, Magalhães Noronha, Aníbal Bruno, Frederico Marques etc.). Dessa época até 
recentemente passou a preponderar à teoria finalista (Mestieri, Dotti, Toledo, Delmanto, Damásio, 
Mirabete, Tavares, Cirino dos Santos, Bitencourt, Silva Franco, Prado, Capez, Greco, Brandão etc.). 
Agora é chegado o momento do primado da teoria constitucionalista do delito. 
 
As distinções fundamentais entre tais teorias são as seguintes: 
1) Conceito de conduta (de ação): 
-Teoria causal (TC): movimento corpóreo capaz de produzir alguma alteração no mundo exterior. Dela 
não faz parte nem o dolo nem a culpa; 
-Teoria finalista (TF): comportamento humano consciente dirigido a uma finalidade (comportamento 
doloso ou culposo); 
-Teoria constitucionalista (TCD): é a realização voluntária de um fazer ou não fazer (ação ou omissão), 
dominado ou dominável pela vontade. 
 
2) Características da conduta: 
-TC: ato voluntário (vontade de fazer ou não fazer); 
-TF: ato voluntário doloso ou culposo; 
-TCD: ato voluntário consistente em um fazer ou não fazer, dominado ou dominável pela vontade. O 
dolo está coligado com a conduta, não há dúvida, mas não é valorado no âmbito da conduta (como 
pretendia o finalismo), sim, na última etapa (no momento subjetivo) do fato materialmente típico. Já a 
culpa é valorada no momento normativo ou axiológico (segunda etapa) do fato materialmente típico. 
 
3) Conceito de tipo penal: 
-TC: é o conjunto dos dados descritivos do crime; 
-TF: é o conjunto dos requisitos objetivos do crime; 
-TCD: é o conjunto de todos os requisitos que fundamentam uma determinada forma de ofensa ao 
bem jurídico (esses requisitos são descritivos, normativos ou subjetivos). 
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. 61 
4) Conceito de fato: 
-TC: é o conjunto dos dados descritivos do crime; 
-TF: é o conjunto dos requisitos objetivos do crime; 
-TCD: é o conjunto dos requisitos objetivos que concorrem para a configuração de uma determinada 
forma de ofensa ao bem jurídico. Compreende: a conduta (seus pressupostos, seu objeto e seus sujeitos), 
o resultado (nos crimes materiais), o nexo de causalidade (entre a conduta e o resultado), assim como 
requisitos outros exigidos pelo tipo (requisitos temporais, espaciais etc.). 
 
5) Conceito de fato típico: 
-TC: é a mera subsunção do fato à letra da lei; 
-TF: é o fato que preenche todos os requisitos objetivos descritos na lei penal (é o fato adequado à 
letra da lei), mas praticado de forma dolosa ou culposa; 
-TCD: é o fato concreto (da vida real) que realiza (que preenche) todos os requisitos exigidos para uma 
determinada forma de ofensa ao bem jurídico. 
 
6) Requisitos do fato típico: 
-TC: conduta voluntária (neutra: sem dolo ou culpa), resultado naturalístico (nos crimes materiais), 
nexo de causalidade e adequação à letra da lei; 
-TF: conduta dolosa ou culposa, resultado naturalístico (nos crimes materiais), nexo de causalidade e 
subsunção do fato à letra a lei; 
-TCD: 
a) conduta humana voluntária (realização formal ou literal da conduta descrita na lei; concretização da 
tipicidade formal); 
c) resultado naturalístico (nos crimes materiais - exemplo: homicídio); 
d) nexo de causalidade (entre a conduta e o resultado naturalístico); 
e) relação de tipicidade (adequação do fato à letra da lei); 
f) imputação objetiva da conduta (leia-se: criação ou incremento de um risco proibido penalmente 
relevante e objetivamente imputável à conduta); 
g) resultado jurídico relevante (ofensa ao bem jurídico = desvalor do resultado = lesão ou perigo 
concreto de lesão ao bem jurídico); 
h) imputação objetiva do resultado jurídico, que significa duas coisas: (a) conexão direta do resultado 
jurídico com o risco proibido criado ou incrementado; (b) que esse resultado esteja no âmbito de proteção 
da norma; 
i) imputação subjetiva (nos crimes dolosos). 
 
Observações: 
 
1ª) O juízo de tipicidade, nos sistemas da TC e da TF, era meramente subsuntivo (formalista). 
Tipicidade penal era igual a tipicidade formal-objetiva (ou tipicidade legal − adequação da conduta à letra 
da lei). No sistema da TCD a tipicidade penal exige além da subsunção formal da conduta (tipicidade 
formal-objetiva), a efetiva lesão ou perigo concreto de lesão ao bem jurídico protegido (tipicidade 
material), a criação ou incremento de um risco proibido relevante assim como a imputação objetiva desse 
resultado (tipicidade normativa). Logo, impõe-se a presença da tipicidade legal ou formal-objetiva 
(subsunção da conduta) mais a tipicidade normativa (imputação objetiva da conduta e do resultado) + 
tipicidade material (resultado jurídico relevante). 
 
2ª) Tipicidade penal (de acordo com a teoria constitucionalista do delito) significa tipicidade formal-
objetiva + tipicidade normativa + tipicidade material. Nos crimes dolosos, ainda se exige a imputação 
subjetiva. Em outras palavras: tipicidade penal = tipicidade formal-objetiva + tipicidade normativa 
(imputação objetiva da conduta e do resultado) + tipicidade material (resultado jurídico relevante) + (nos 
crimes dolosos) imputação subjetiva. 
 
3ª) Nos crimes dolosos, como se viu, além dos requisitos fáticos (tipicidade formal-objetiva), normativos 
e material também é preciso constatar a imputação subjetiva (leia-se, o dolo e eventualmente outros 
requisitos subjetivos). A doutrina finalista salienta que o crime doloso é complexo e dele fazem parte o 
tipo objetivo (tudo que não pertence ao mundo anímico do agente) assim como o tipo subjetivo (mundo 
anímico do agente: dolo e outros eventuais requisitos subjetivos). Para a doutrina constitucionalista do 
delito, melhor e mais sistemático é afirmar que a tipicidade penal é composta da tipicidade formal-objetiva 
+ tipicidade normativa + tipicidade material e (nos crimes dolosos) tipicidade subjetiva. 
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. 62 
4ª) A doutrina penal clássica, para explicar o fato típico, contentava-se com esses quatro requisitos. 
Só cuidava, como se vê, da dimensão fática ou naturalista do fato típico. Não lhe importava a efetiva lesão 
ou perigo concreto de lesão ao bem jurídico (esse lado material do fato típico foi ignorado pela doutrina 
penal clássica). Não lhe importava, tampouco, a questão da imputação objetiva (a tipicidade normativa). 
 
5ª) Na atualidade o fato, para ser materialmente típico, do ponto de vista penal (e constitucional), exige 
quatro dimensões. A quarta dimensão só se faz presente nos crimes dolosos. 
 
 7) Conceito de dolo: 
-TC: consciência e vontade livre dirigida a um resultado (naturalístico) antijurídico; 
-TF: consciência e vontade de concretizar os requisitos objetivos do tipo; 
-TCD: consciência e vontade de concretizar os requisitos objetivos do tipo que conduzem a (que 
geram) um resultado jurídico relevante (lesão ou perigo concreto de lesão ao bem jurídico protegido) 
desejado (dolo direto de primeiro grau) ou esperado (assumido) como possível (dolo eventual). 
 
8) Requisitos do dolo: 
-TC: consciência da ação e do resultado; consciência do nexo de causalidade; consciência da ilicitude; 
vontade de realizar a ação e produzir o resultado antijurídico; 
-TF: consciência da conduta e do resultado; consciência do nexo causal; vontade de realizar a conduta 
e produzir o resultado naturalístico (nos crimes materiais); 
-TCD: consciência dos requisitos objetivos do tipo; consciência do risco criadopela conduta; 
consciência do resultado jurídico (lesão ou perigo concreto de lesão ao bem jurídico); vontade de realizar 
os requisitos objetivos do tipo que conduzem ao resultado jurídico desejado (dolo direto de primeiro grau) 
ou esperado (assumido/dolo eventual) ou à produção de um efeito colateral típico representado como 
certo ou necessário (dolo direto de segundo grau). 
 
9) Conceito de culpa: 
-TC: realização voluntária de uma conduta sem a devida atenção ou cuidado da qual deriva um 
resultado (naturalístico) não desejado nem previsto, embora fosse previsível; 
-TF: inobservância do cuidado objetivo necessário que se exterioriza numa conduta que produz um 
resultado naturalístico previsível (objetiva e subjetivamente); 
-TCD: realização voluntária de uma conduta que cria ou incrementa um risco proibido relevante (leia-
se: conduta que revela imprudência, negligência ou imperícia) do qual deriva uma previsível (mas não 
desejada nem admitida como certa) lesão ou perigo concreto de lesão (resultado jurídico) ao bem jurídico 
protegido. 
 
10) Natureza do dolo: 
-TC: o dolo é normativo (dolus malus), porque exige a consciência da ilicitude do fato; 
-TF: o dolo é natural porque não exige a consciência da ilicitude do fato; 
-TCD: o dolo é normativo-típico porque em regra não contém a consciência da ilicitude do fato, mas 
exige consciência e vontade da produção de um resultado jurídico. 
 
Observação: quando o tipo penal faz expressa referência à antijuridicidade do fato (indevidamente, 
injustamente, sem justa causa etc.) o dolo do agente deve alcançar inclusive esse requisito. Nesse caso 
estamos diante de um dolo normativo (dolo + consciência da ilicitude da conduta). 
 
11) Localização do dolo e da culpa: 
-TC: pertencem à culpabilidade (aliás, são as duas formas de culpabilidade); 
-TF: pertencem à conduta e em consequência ao fato típico: é requisito subjetivo ou normativo do tipo; 
-TCD: pertencem ao fato materialmente típico: o dolo faz parte da imputação subjetiva do delito (que 
é o oitavo requisito do fato típico doloso); a culpa integra a teoria da imputação objetiva. 
 
12) Inexistência de dolo ou culpa: 
-TC: conduz à falta de culpabilidade (elimina-se a culpabilidade); 
-TF: conduz à atipicidade da conduta (fato atípico); 
-TCD: inexistência de dolo: conduz à atipicidade do fato por falta do requisito da imputação subjetiva 
(sendo certo que inexiste responsabilidade objetiva em Direito penal); inexistência de culpa: leva à 
atipicidade do fato por falta do requisito da imputação objetiva. 
 
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. 63 
13) Consequência da inexistência de dolo ou culpa: 
-TC: impõe-se o início do processo e no final o juiz absolvia por falta de culpabilidade (CPP, art. 386, 
V); 
-TF: impõe o arquivamento do caso por se tratar de fato atípico; se oferecida denúncia impõe-se sua 
rejeição; 
-TCD: conduz ao arquivamento do caso por se tratar de fato atípico; se oferecida denúncia deve ser 
rejeitada (CPP, art. 43, I); se recebida a denúncia cabe HC por falta de uma das condições da ação 
(possibilidade jurídica do pedido); no júri, impõe-se a impronúncia (CPP, art. 409). 
 
14) Natureza da antijuridicidade: 
-TC: é objetiva (valoração do ato realizado); 
-TF: é pessoal (subjetiva) e deve ser entendida como infração da norma imperativa (violação da pauta 
de conduta imposta coativamente); primordial é o desvalor da ação; antijurídica é a vontade contrária à 
norma imperativa; 
-TCD: é objetiva porque independe da culpabilidade do agente. É, além disso, a contrariedade do fato 
materialmente típico com o Direito. 
 
15) Relação entre tipicidade e antijuridicidade: 
-TC: a tipicidade é neutra (nada indica quanto à antijuridicidade); 
-TF: a tipicidade é indício da antijuridicidade (E. Mayer e Welzel); 
-TCD: a tipicidade entendida em sentido material (fato materialmente típico) já é expressão provisória 
da antijuridicidade (é o lado positivo da antijuridicidade; o negativo consiste na ausência de causas 
justificantes). 
 
16) Requisitos da culpabilidade: 
-TC: imputabilidade + dolo ou culpa (teoria psicológica da culpabilidade); com o neokantismo foi 
agregada a exigibilidade de conduta diversa (teoria psicológico-normativa da culpabilidade - Frank, 1907); 
-TF: imputabilidade, potencial consciência da ilicitude e exigibilidade de conduta diversa (teoria 
normativa pura da culpabilidade − Welzel retirou o dolo e a culpa da culpabilidade, levando-os para a 
tipicidade; no lugar do dolo e da culpa entrou a potencial consciência da ilicitude); 
-TCD: culpabilidade é poder agir de modo diverso, conforme o direito. É juízo de censura que recai 
sobre o agente do fato em razão de ter podido agir de modo distinto. Esse juízo de censura tem por 
fundamento: (a) a capacidade de culpa, leia-se, a capacidade de entender e de querer (imputabilidade); 
(b) a consciência (ainda que potencial) da ilicitude e (c) a normalidade das circunstâncias em que agiu o 
agente (exigibilidade de conduta diversa). 
 
Observação: são causas que excluem a culpabilidade: (a) inimputabilidade pela loucura; (b) 
inimputabilidade pela menoridade; (c) inimputabilidade pela embriaguez fortuita completa; (d) erro de 
proibição invencível; (e) erro de tipo permissivo invencível; (f) coação moral irresistível; (g) obediência 
hierárquica; (h) inexigibilidade de conduta diversa como causa supralegal de exclusão da culpabilidade. 
 
17) Localização da consciência da ilicitude: 
-TC: faz parte do dolo (dolus malus); 
-TF: faz parte da culpabilidade (não do dolo); 
-TCD: é em regra um dos fundamentos do juízo de culpabilidade. Mas quando o legislador faz expressa 
referência à antijuridicidade no próprio tipo legal (indevidamente, sem justa causa, sem autorização legal 
etc.), o dolo do agente deve alcançar inclusive essa exigência (convertendo-se assim em dolo normativo 
ou dolus malus). 
 
18) Natureza da consciência da ilicitude: 
-TC: é real, efetiva, é preciso que o agente saiba da ilicitude do fato; 
-TF: é potencial, basta ter a possibilidade de conhecer a ilicitude do fato; 
-TCD: é real ou potencial (sendo impossível ter essa consciência, torna-se inexigível comportamento 
distinto; exclui-se a culpabilidade). 
 
19) Natureza da culpabilidade: 
-TC: é psicológica (causalismo) ou psicológico-normativa (juízo de valor que recai sobre dolo ou culpa), 
conforme o neokantismo; 
-TF: é puramente normativa (juízos de valor que recaem sobre seus requisitos); 
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. 64 
-TCD: é normativa (ou valorativa): juízo de valor que recai sobre o agente do fato que podia agir de 
modo diferente, conforme o direito. 
 
20) Teoria da culpabilidade adotada: 
-TC: inicialmente só psicológica e depois psicológico-normativa; 
-TF: normativa pura; 
-TCD: normativa ou valorativa. 
 
21) Erro que recai sobre os dados descritivos do tipo: 
-TC: erro de fato, que excluía a culpabilidade (quando inevitável ou escusável); 
-TF: erro de tipo, que exclui o dolo e a culpa se inevitável; quando evitável exclui o dolo, não a culpa 
(CP, art. 20); 
-TCD: erro de tipo, que exclui o dolo e a culpa quando inevitável ou escusável; sendo evitável exclui o 
dolo, não a culpa (CP, art. 20). 
 
22) O erro que recai sobre a proibição: 
-TC: é erro de direito, não aproveita ao agente (não escusa), salvo em caso de erro sobre o 
complemento da norma penal em branco ou nas contravenções; 
-TF: é erro de proibição, que exclui ou atenua a culpabilidade (CP, art. 21); 
-TCD: é erro de proibição, que exclui ou atenua a exigibilidade de conduta diversa (CP, art. 21). É 
causa, portanto, de exclusão da culpabilidade (isenção de pena) ou de diminuição da pena. Mas quando 
o tipo legal faz expressa referência à antijuridicidade (indevidamente,sem justa causa etc.), o erro do 
agente que recai sobre esse requisito é erro de tipo. 
 
23) O erro que recai sobre uma descriminante putativa fática (legítima defesa putativa etc.): 
-TC: é erro de fato e exclui a culpabilidade; 
-TF: (posição finalista majoritária) é erro de tipo e exclui o dolo (teoria limitada da culpabilidade); 
-TCD: é erro de proibição sui generis, exclui ou atenua a exigibilidade de conduta diversa (= 
culpabilidade), levando à isenção de pena ou aplicação da pena do crime culposo, conforme o erro seja 
invencível ou vencível; CP, art. 20, § 1º (teoria que remete às consequências jurídicas). 
 
Observação: A doutrina penal brasileira acolhe a posição finalista majoritária (teoria limitada da 
culpabilidade), que não se concilia, entretanto, com o texto legal vigente (CP, art. 20, § 1º). 
 
24) Conceito analítico de delito: 
-TC: crime é o fato típico, antijurídico e culpável (sistema tripartido); 
-TF: para a teoria finalista majoritária (Welzel etc.) o crime é o fato típico, antijurídico e culpável; para 
uma corrente finalista minoritária, o crime conta com apenas dois requisitos: fato típico e antijuridicidade; 
ela elimina a culpabilidade do conceito de crime e adota o sistema bipartido); 
-TCD: crime, entendido como fato punível, exige três requisitos: fato materialmente típico + ameaçado 
formal e efetivamente com pena (punibilidade) + contrário ao direito (antijuridicidade). Compreendido 
como injusto penal o crime é composto de dois requisitos: fato materialmente típico + antijuridicidade. 
 
Observações: 
1ª) Para a abertura de qualquer processo ou mesmo para o ato do indiciamento, faltando um dos 
requisitos do fato punível, nada pode ser feito. 
 
2ª) Para a imposição de uma pena devem estar presentes todos esses três requisitos do fato punível 
mais a culpabilidade. Faltando um deles, não há que se falar em pena. A culpabilidade, como sê, está 
fora do delito e fora também da teoria da pena. Ela é o elo que une o delito com a pena. Sem ela, jamais 
pode-se falar em pena. 
 
3ª) Fato ou injusto punível (que possui três requisitos) não é a mesma coisa que injusto penal, que é 
o fato já valorado como típico e antijurídico. Este último conta com apenas dois requisitos. 
 
FATO TÍPICO 
 
O fato típico é o primeiro requisito do crime. Consiste no fato que se amolda no conjunto de elementos 
descritivos contidos na lei penal. 
1307244 E-book gerado especialmente para FRANCISCO PELLIN JUNIOR
 
. 65 
Segundo Cleber Masson:24 
Fato típico é o fato humano que se enquadra com perfeição aos elementos descritos pelo tipo penal. 
A conduta de subtrair dolosamente, para si, coisa alheia móvel, caracteriza o crime de furto, uma vez que 
se amolda ao modelo delineado pelo art. 155, caput, do Código Penal. Em sentido contrário, fato atípico 
é a conduta que não encontra correspondência em nenhum tipo penal. Por exemplo, a ação do pai 
consistente em manter relação sexual consentida com sua filha maior de idade e plenamente capaz é 
atípica, pois o incesto, ainda que imoral, não é crime. 
 
ELEMENTOS DO FATO TÍPICO 
 
O fato típico é composto dos seguintes elementos: 
- conduta dolosa ou culposa; 
- resultado (nos crimes materiais); 
- nexo de causalidade entre a conduta e o resultado (nos crimes materiais); 
- tipicidade (enquadramento do fato material a uma norma penal). 
 
No Crime material há uma conduta e um resultado naturalístico25, exigindo-se a produção do resultado 
para consumação do crime. Assim, a conduta e o resultado estão ligados através de uma relação de 
causalidade, que para configurar crime realiza-se o juízo de tipicidade para verificar se a ação ou omissão 
se amolda a um tipo penal (tem relevância penal). Já nos crimes tentados, é suprimido o resultado 
naturalístico por circunstâncias alheias a vontade do agente, motivo pelo qual para configuração do fato 
típico, basta os elementos da conduta e tipicidade. Na mesma esteira, os crimes de mera conduta e 
formais prescindem de resultado e nexo causal, pois no caso do crime de mera conduta, jamais haverá 
resultado naturalístico e nos crimes formais não é necessário para consumação do crime (apesar da 
possibilidade de ocorrência). 
 
FATO TÍPICO 
Crimes materiais consumados Crimes tentados, formais e de mera conduta 
CONDUTA CONDUTA 
RESULTADO NATURALÍSTICO 
RELAÇÃO DE CAUSALIDADE TIPICIDADE 
TIPICIDADE 
 
1. CONDUTAS E ATOS: conduta é a materialização da vontade humana, que pode ser executada por 
um único ou por vários atos. O ato, portanto, é apenas uma parte da conduta. Ex.: é possível matar a 
vítima (conduta) por meio de um único ato (um disparo mortal) ou de vários atos (vários golpes no corpo 
da vítima). 
Segundo Cleber Masson:26 
Conduta é a ação ou omissão humana, consciente e voluntária, dirigida a um fim, consistente em 
produzir em resultado tipificado em lei como crime ou contravenção penal (posição finalista, mais aceita 
em concursos públicos). 
 
Não existe crime sem conduta, ou seja, não é admitido os crimes de mera suspeita, que são aqueles 
em que o agente é punido pela mera suspeita despertada pelo seu modo de agir. 
 
-Formas de conduta: 
a) Ação (comportamento positivo): fazer, realiza algo. Nessa hipótese, a lei determina um não fazer, 
e o agente comete o delito justamente por fazer o que a lei proíbe. 
b) Omissão (comportamento negativo): abstenção, um não fazer. A omissão por sua vez, pode dar 
origem a duas espécies de crimes: 
b1) Omissivos próprios ou puros: nos quais inexiste um dever jurídico de agir, ou seja, não há uma 
norma impondo um dever de fazer. Assim, só existirá essa espécie de delito omissivo quando o próprio 
tipo penal descrever uma conduta omissiva. Ex.: crime de omissão de socorro (art. 135). 
 
24 MASSON, Cleber. Direito Penal. Vol.1. Parte Geral. Editora Método. 8ª edição. 2014. 
25 Resultado naturalístico: “modificação do mundo exterior provocada pelo comportamento do agente”. 
26 MASSON, Cleber. Direito Penal. Vol.1. Parte Geral. Editora Método. 8ª edição. 2014. 
1307244 E-book gerado especialmente para FRANCISCO PELLIN JUNIOR
 
. 66 
b2) Omissivos impróprios ou comissivos por omissão: são aqueles para os quais a lei impõe um 
dever de agir e, assim, o não agir constitui crime, na medida em que leva à produção de um resultado 
que o agir teria evitado. Ex.: a mãe deixa de alimentar seu filho causando-lhe a morte, responde por 
homicídio. 
 
- exclusão da conduta: 
a) caso fortuito e força maior: atos imprevisíveis e inevitáveis, que estão fora do alcance da vontade 
do ser humano, motivo pelo qual não configuram fato típico, por não existir dolo ou culpa. 
b) atos ou movimentos reflexos: segundo Cleber Masson27, consistem em reação motora ou 
secretora em consequência de uma excitação dos sentidos. O movimento corpóreo não se deve ao 
elemento volitivo, mas sim ao fisiológico. Ausente a vontade, estará ausente também a conduta. Exemplo: 
caso do ortopedista que bate o martelinho contra o joelho do paciente e, em razão do reflexo, seu chute 
acerta o médico, caso em que não há crime de lesão corporal ou contravenção penal de vias de fato, pois 
foi apenas uma resposta fisiológica à provocação médica. 
c) coação física irresistível ou vis absoluta: neste caso o coagido é apenas instrumento do crime, 
não agindo de forma voluntária e, portanto, exclui-se sua conduta. Exemplo: um homem forte obriga um 
homem fraco a apertar o gatilho de um revólver segurando sua mão e atinge um pessoa, matando-a. 
d) sonambulismo e hipnose: caso em que a pessoa está em completo estado de inconsciência, 
motivo pelo qual não há conduta, por falta de vontade na prática do ato. 
 
2. DO RESULTADO: o resultado é a consequência provocada pela conduta do agente. 
-Teoria sobre o resultado (espécies): 
a)Naturalística: é a modificação que o crime provoca no mundo exterior. Pode consistir em morte, 
como em crime de homicídio (art. 121). 
b) Jurídica ou normativa: é o efeito que o crime produz na órbita jurídica, ou seja, a lesão ou o perigo 
de lesão de um interesse protegido pela lei. 
 
Importante ressaltar que não há crime sem resultado jurídico, ou seja, todo crime viola bens jurídicos 
protegidos pelo Direito Penal. Contudo, é possível crime sem resultado naturalístico, no caso de crimes 
tentados, formais e de mera conduta. 
 
Todo crime tem resultado jurídico, mas nem todo crime tem resultado naturalístico. 
 
3. NEXO CAUSAL OU RELAÇÃO DE CAUSALIDADE: é a relação natural de causa e efeito existente 
entre a conduta do agente e o resultado dela decorrente. 
É através da relação de causalidade que se pode concluir se o resultado foi ou não provocado pela 
conduta do agente. 
Nos crimes materiais somente existe a configuração do delito quando fica evidenciado que a conduta 
do agente provocou o resultado, ou seja, quando fica demonstrado o nexo causal. 
Nos crimes formais e nos crimes de mera conduta não se exige o nexo causal, uma vez que esses 
crimes dispensam a ocorrência de qualquer resultado naturalístico e, assim, não há que se pensar em 
nexo de causalidade entre a conduta e resultado. 
 
RELAÇÃO DE CAUSALIDADE 
 
Art. 13 - O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu 
causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. 
 
No campo penal, a doutrina aponta três teorias a respeito da relação de causalidade: 
a) Da equivalência das condições ou equivalência dos antecedentes ou conditio sine qua non 
(Condição sem a qual não): Segundo a qual quaisquer das condutas que compõem a totalidade dos 
antecedentes é causa do resultado, como, por exemplo, a venda lícita da arma pelo comerciante que não 
tinha ideia do propósito homicida do criminoso comprador. Contudo, recebe críticas por permitir o 
regresso ao infinito já que, em última análise, até mesmo o inventor da arma seria causador do evento, 
visto que, se arma não existisse, tiros não haveria; 
 
 
 
27 idem 
1307244 E-book gerado especialmente para FRANCISCO PELLIN JUNIOR
 
. 67 
b) Da causalidade adequada: Considera causa do evento apenas a ação ou omissão do agente apta 
e idônea a gerar o resultado. Segundo o que dispõe essa corrente, a venda lícita da arma pelo 
comerciante não é considerada causa do resultado morte que o comprador produzir, pois vender 
licitamente a arma, por si só, não é conduta suficiente a gerar a morte. 
c) Da imputação objetiva: Pela qual, para que uma conduta seja considerada causa do resultado é 
preciso que: 1) o agente tenha, com sua ação ou omissão, criado, realmente, um risco não tolerado nem 
permitido ao bem jurídico; ou 2) que o resultado não fosse ocorrer de qualquer forma, ou; 3) que a vítima 
não tenha contribuído com sua atitude irresponsável ou dado seu consentimento para a ocorrência do 
resultado. 
 
A teoria adotada pelo Código Penal: "O resultado, de que depende a existência do crime, somente 
é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não 
teria ocorrido". 
Ao dispor que causa é a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido, nota-se que 
Código adotou a teoria da equivalência das condições ou conditio sine qua non. 
Para se aferir se determinada conduta é causa ou não de um resultado, deve-se fazer o juízo hipotético 
de eliminação, que consiste na supressão mental de determinada ação ou omissão dentro de toda a 
cadeia de condutas presentes no contexto do crime. Se, eliminada, o resultado desaparecer, pode-se 
afirmar que aquela conduta é causa. Caso contrário, ou seja, se a despeito de suprimida, o resultado 
ainda assim existir, não será considerada conduta. 
Atente-se para o fato de que ser causa do resultado não é bastante para ensejar a responsabilização 
penal. É preciso, ainda, verificar se a conduta do agente considerada causa do resultado foi praticada 
mediante dolo ou culpa, pois nosso Direito Penal não se coaduna com a responsabilidade objetiva, isto 
é, aquela que se contenta com a demonstração do nexo de causalidade, sem levar em conta o elemento 
subjetivo da conduta. 
Portanto, dizer que alguém causou o resultado não basta para ensejar a responsabilidade penal. É 
mister ainda que esteja presente o elemento subjetivo (dolo ou culpa) nessa conduta que foi causa do 
evento. 
O art. 13 caput aplica-se, exclusivamente, aos crimes materiais porque, ao dizer "o resultado, de que 
depende a existência do crime", refere-se ao resultado naturalístico da infração penal (aquele que é 
perceptível aos sentidos do homem e não apenas ao mundo jurídico), e a única modalidade de crime que 
depende da ocorrência do resultado naturalístico para se consumar (existir) é o material, como por 
exemplo; o homicídio (121 CP), em que a morte da vítima é o resultado naturalístico. 
Aos crimes formais (exemplo; concussão - 316 CP) e os de mera conduta (exemplo; violação de 
domicílio - 150 CP), o art. 13 caput não tem incidência, pois prescindem da ocorrência do resultado 
naturalístico para existirem. 
 
Observação: a expressão “o resultado”, constante no artigo 13 do CP, se refere ao resultado 
naturalístico, entendimento este, prevalente na doutrina brasileira. 
 
Excepcionalmente o Código Penal adota a teoria da causalidade adequada (art. 13, §1º): 
 
SUPERVENIÊNCIA DE CAUSA INDEPENDENTE 
 
§ 1º - A superveniência de causa relativamente independente exclui a imputação quando, por si só, 
produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os praticou. 
 
O parágrafo primeiro do art. 13 nos diz que: "a superveniência de causa independente exclui a 
imputação quando, por si só, produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os 
praticou". Admite, o referido mandamento legal, a interrupção do nexo causal entre a conduta do agente 
e o resultado. Nessas hipóteses, pode-se dizer que existe uma concausa, ou seja, a conduta do agente 
e outra causa qualquer, quais sejam: 
a) a causa que produza o resultado seja superveniente à conduta do agente, isto é, ocorra depois 
de sua ação; 
b) que a causa superveniente seja relativamente independente da conduta do agente, isto é, 
mantenha relação com a conduta inaugurada pelo autor; 
c) que a causa superveniente independente produza o resultado por si só, isto é, seja causa bastante 
para a produção do resultado. 
 
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. 68 
Conceito de concausa: é a convergência de uma causa externa à vontade do autor da conduta, 
influindo na produção do resultado naturalístico por ele desejado e posicionando-se paralelamente ao seu 
comportamento, comissivo ou omissivo.28 
 
Causas dependentes e independentes: 
Causas dependentes são aquelas que se originam da conduta do agente, ou seja existe dependência 
entre os acontecimentos, não excluindo a relação de causalidade. 
Causas independentes tem capacidade de produzir por si só o resultado, sendo seu aparecimento 
inesperado e imprevisível, fugindo da linha normal de desdobramento da conduta. 
 
Causas absolutamente independentes: 
Segundo Cleber Masson:29 São aquelas que não se originam da conduta do agente, isto é, são 
absolutamente desvinculadas da sua ação ou omissão ilícita. E, por serem independentes, produzem por 
si sós, o resultado naturalístico. Constituem a chamada “causalidade antecipadora”, pois rompem o nexo 
causal. 
 
Tais causas são divididas em preexistente, concomitante e superveniente: 
- preexistente: a causa é anterior a prática da conduta, ou seja, o resultado teria se produzido mesmosem o comportamento ilícito do agente. Exemplo: “Zé” disfere facadas no coração de “Joãozinho”, mas o 
exame necroscópico conclui que a morte se deu em virtude de envenenamento anterior efetuado por 
“Cebolinha”. 
- concomitante: a causa é simultânea a prática da conduta, ou seja, ocorre no mesmo momento em 
que o agente comete uma conduta criminosa. Exemplo: “Mônica” efetua disparos de arma de fogo contra 
“Zé Bento” no mesmo momento em que o telhado desaba sobre ela. 
- superveniente: a causa é posterior a prática da conduta do agente. Exemplo: “Magali” dá veneno 
para “Cebolinha”, mas antes de produzir o efeito desejado, “Chico” desfere inúmeras facadas em 
“Cebolinha”, matando-o. 
Efeitos jurídicos (causas absolutamente independentes preexistentes, concomitantes e 
supervenientes): 
Deve ser imputado ao agente somente o ato praticado e não o resultado naturalístico, tendo em vista 
que não há relação de causalidade entre sua conduta e o resultado, pois mesmo sem a conduta do agente 
o resultado teria ocorrido. Assim, em respeito a teoria da conditio sine qua non, no caso dos exemplos 
mencionados, o agente responderia somente por tentativa de homicídio. 
 
Causas relativamente independentes: 
Originam-se da própria conduta efetuada pelo agente. Daí serem relativas, pois não existiriam sem a 
atuação criminosa. 
Como, entretanto, tais causas são independentes, têm idoneidade para produzir, por si sós, o 
resultado, já que não se situam no normal trâmite do desenvolvimento causal.30 
 
Tais causas também são divididas em preexistente, concomitante e superveniente:31 
- preexistente: existe previamente à prática da conduta do agente. Exemplo: “A”, com ânimo homicida, 
efetua disparos de arma de fogo contra “B”, atingindo-o de raspão. Os ferimentos, contudo, são agravados 
pela diabete da vítima, que vem a falecer. 
- concomitante: ocorre simultaneamente a prática da conduta. Exemplo: “A” aponta uma arma de fogo 
contra “B”, o qual, assustado, corre em direção a movimentada via pública. No momento em que é 
alvejado pelo disparos, é atropelado por um caminhão e falece. 
Efeitos jurídicos (causas relativamente independentes preexistentes e concomitantes): 
Nas duas hipóteses o agente responde pelo resultado naturalístico, em obediência a teoria da 
equivalência dos antecedentes. 
- superveniente: 
a) causas relativamente independentes supervenientes que não produzem por si sós o 
resultado: em respeito a teoria da equivalência dos antecedentes, o agente responde pelo resultado 
naturalístico, pois o resultado não teria ocorrido como e quando ocorreu sem a prática de sua conduta. 
 
28 MASSON, Cleber. Direito Penal. Vol.1. Parte Geral. Editora Método. 8ª edição. 2014. 
29 idem 
30 MASSON, Cleber. Direito Penal. Vol.1. Parte Geral. Editora Método. 8ª edição. 2014. 
31 idem 
1307244 E-book gerado especialmente para FRANCISCO PELLIN JUNIOR
 
. 69 
O exemplo dado por Cleber Masson esclarece esta hipótese, qual seja:32 
“A”, com intenção de matar, efetua disparos de arma de fogo contra “B”. Por má pontaria, atinge-o em 
uma das pernas, não oferecendo risco de vida. Contudo, “B” é conduzido a um hospital e, por imperícia 
médica, vem a morrer. 
Nesse caso, “B” não teria morrido, ainda que por imperícia médica, sem a conduta inicial de “A”. De 
fato, somente pode falecer por falta de qualidade do profissional da medicina aquele que foi submetido 
ao seu exame, no exemplo, justamente pela conduta homicida que redundou no encaminhamento da 
vítima ao hospital. 
b) causas relativamente independentes supervenientes que produzem por si sós o resultado: 
No §1º do artigo 13, de forma excepcional, foi adotada a teoria da causalidade adequada, em que a 
causa é a conduta idônea que provoca o resultado naturalístico. Exemplo: João é atingida por disparos 
de arma de fogo, que internado no hospital, morre em virtude de incêndio e não dos ferimentos. 
Assim, João faleceu em virtude de acontecimento inesperado e imprevisível, ou seja, uma causa 
idônea e adequada, que produziu por si só o resultado, motivo pelo qual só responde pelos atos praticados 
e não pelo resultado morte. 
 
RELEVÂNCIA DA OMISSÃO 
 
§ 2º - A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado. 
O dever de agir incumbe a quem: 
a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância; 
b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado; 
c) com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado. 
 
De acordo com Cleber Masson:33 
O dispositivo aplicável somente aos crimes omissivos impróprios, espúrios ou comissivos por omissão, 
isto é, aqueles em que o tipo penal descreve uma ação, mas a inércia do agente, que podia e devia agir 
para impedir o resultado naturalístico, conduz à sua produção. São crimes materiais, como é o caso do 
homicídio, cometido em regra por ação, mas passível também de ser praticado por inação, desde que o 
agente ostente o poder e o dever de agir. 
 
Da mesma forma que ação, em Direito Penal, não significa “fazer algo”, mas fazer o que o ordenamento 
jurídico proíbe, a omissão não é um “não fazer”, mas não fazer o que o ordenamento jurídico obriga. 
Omissão relevante para o Direito Penal é o não cumprimento de um dever jurídico de agir em 
circunstâncias tais que o omitente tinha a possibilidade física ou material de realizar a atividade devida. 
Consequentemente, a omissão passa a ter existência jurídica desde que preencha os seguintes 
pressupostos: 
- Dever de agir: impõe uma obrigação de agir ou uma obrigação de evitar um resultado proibido. 
Existem dois critérios para fixar o dever de agir, quais sejam: 
Critério legal: a lei arrola taxativamente as hipóteses do dever de agir. 
Critério judicial: é permitido ao magistrado decidir sobre a presença ou não do dever de agir. 
- Poder de agir: é a possibilidade real e efetiva do homem médio evitar resultado penalmente relevante 
no caso concreto. 
 
O primeiro pressuposto (dever de agir ou de evitar um resultado lesivo) exige o conhecimento dos 
meios pelos quais o ordenamento jurídico pode impor às pessoas a obrigação de não se omitir, em 
determinadas circunstâncias. 
Em segundo lugar, o dever de agir pode ser imposto ao garantidor, ou seja, há pessoas que, pela sua 
peculiar posição diante do bem jurídico, recebem ou assumem a obrigação de assegurar sua con-
servação. A posição de garantidor requer essencialmente que o sujeito esteja encarregado da proteção 
ou custódia do bem jurídico que aparece lesionado ou ameaçado de agressão. 
O essencial para compreender a posição de garantidor é o reconhecimento de que determinadas 
pessoas estabelecem um vínculo, uma relação especial com o bem jurídico, criando no ordenamento a 
expectativa de que o protegerá de eventuais danos. O Direito, então, espera a sua ação de garantia. Se 
não cumprir esse dever, será imputado por omissão imprópria. 
No Código Penal, esta regra está no artigo 13, § 2º: a posição de garantidor pode emanar de: 
 
32 MASSON, Cleber. Direito Penal. Vol.1. Parte Geral. Editora Método. 8ª edição. 2014. 
33 idem 
1307244 E-book gerado especialmente para FRANCISCO PELLIN JUNIOR
 
. 70 
a) dever legal, imposto pela lei; 
b) aceitação voluntária, ou seja, quando o sujeito livremente a assume, tal como acontece, por 
exemplo, nos casos de contrato; 
c) ingerência, quando o sujeito, por sua conduta precedente, cria a situação de perigo para o bem 
jurídico. 
 
4. TIPICIDADE: É o nome que se dá ao enquadramento da conduta concretizada pelo agente na 
norma penal descrita em abstrato. Em suma, para que haja crime é necessário que o sujeito realize, no 
caso concreto, todos os elementos componentes da descrição típica (definição legaldo delito). 
A tipicidade penal tem dois elementos: 
Tipicidade formal: é o juízo de subsunção entre a conduta praticada pelo agente no mundo real e o 
modelo descrito pelo tipo penal.34 
Tipicidade material (ou substancial): é a lesão ou perigo de lesão ao bem jurídico penalmente 
tutelado em razão da prática da conduta legalmente descrita.35 
 
A adequação típica pode dar-se de duas maneiras: 
a) imediata ou direta: quando houver uma correspondência total da conduta ao tipo. 
b) mediata ou indireta: quando a materialização da tipicidade exige a utilização de uma norma de 
extensão, sem a qual seria absolutamente impossível enquadrar a conduta no tipo. É o que ocorre nos 
casos de participação (art. 29) e tentativa (art. 14, II). 
 
TEORIA DO TIPO 
 
Os tipos penais são modelos criados pela lei, por meio dos quais as condutas consideradas 
indesejáveis pelo senso comum (de acordo com o entendimento do legislador) são descritas 
taxativamente como crimes, com a finalidade de dar aos indivíduos a garantia maior do princípio da 
reserva legal. 
O tipo é o modelo genérico e abstrato descritivo da conduta contido na lei. 
 
Observação: TIPO e TIPICIDADE não se confundem, pois tipo é uma figura que resulta da imaginação 
do legislador, enquanto juízo de tipicidade é a averiguação que sobre uma conduta se efetua para saber 
se apresenta os caracteres imaginados pelo legislador.36 
Existem tipos penais incriminadores ou legais e tipos penais permissivos ou justificadores. Os 
tipos incriminadores são os que trazem a definição legal de uma conduta criminosa, ou seja, são os tipos 
penais propriamente ditos. Já os tipos permissivos, são as causas de exclusão da ilicitude, pois é descrita 
uma conduta permitida. 
 
O tipo legal é composto de elementares e circunstâncias. 
Elementar: Vem de elemento, que é todo componente essencial do tipo sem o qual este desaparece 
ou se transforma em outra figura típica. 
Justamente por serem essenciais, os elementos estão sempre no caput (cabeça) do tipo incriminador 
(texto da lei penal), por isso o caput é chamado de tipo fundamental. (Exemplo: art. 121, matar alguém. 
Matar é elementar do tipo). 
Circunstância: É aquilo que não integra a essência, ou seja, se for retirado, o tipo não deixa de existir. 
As circunstâncias estão dispostas em parágrafos (ex.: qualificadoras, privilégios etc.), não servindo para 
compor a essência do crime, mas sim para influir na pena. 
O crime será mais ou menos grave em decorrência da circunstância, entretanto será sempre o mesmo 
crime (Exemplo: furto durante o sono noturno; o sono é circunstância, tendo em vista que, se não houver, 
ainda assim existirá o furto). 
 
Espécies de Elemento 
1) Elementos objetivos ou descritivos: são aqueles cujo significado depende de mera observação. 
Para saber o que quer dizer um elemento objetivo, o sujeito não precisa fazer interpretação. Todos os 
verbos do tipo constituem elementos objetivos (ex.: matar, falsificar etc.). São aqueles que independem 
de juízo de valor, existem concretamente no mundo (ex.: mulher, coisa móvel, filho etc.). Se um tipo penal 
possui somente elementos objetivos, ele oferece segurança máxima ao cidadão, visto que, qualquer que 
 
34 MASSON, Cleber. Direito Penal. Vol.1. Parte Geral. Editora Método. 8ª edição. 2014. 
35 idem 
36 MASSON, Cleber. Direito Penal. Vol.1. Parte Geral. Editora Método. 8ª edição. 2014. 
1307244 E-book gerado especialmente para FRANCISCO PELLIN JUNIOR
 
. 71 
seja o aplicador da lei, a interpretação será a mesma. São chamados de tipo normal, pois é normal o tipo 
penal que ofereça segurança máxima; 
2) Elementos subjetivos: compõem-se da finalidade especial do agente exigida pelo tipo penal. 
Determinados tipos não se satisfazem com a mera vontade de realizar o verbo. Existirá elemento de 
ordem subjetiva sempre que houver no tipo as expressões “com a finalidade de”, “para o fim de” etc. (ex.: 
rapto com fim libidinoso etc.). O elemento subjetivo será sempre essa finalidade especial que a lei exige. 
Não confundir o elemento subjetivo do tipo com o elemento subjetivo do injusto, que é a consciência do 
caráter inadequado do fato, a consciência da ilicitude; 
3) Elementos normativos: é exatamente o oposto do elemento objetivo. É aquele que depende de 
interpretação para se extrair o significado, ou seja, é necessário um juízo de valor sobre o elemento. São 
elementos que trazem possibilidade de interpretações equívocas, divergentes, oferecendo um certo grau 
de insegurança. São chamados de tipos anormais porque possuem grau de incerteza, insegurança. 
Existem duas espécies de elementos normativos: 
- elemento normativo jurídico: é aquele que depende de interpretação jurídica (ex.: funcionário público, 
documento etc. Todos esses vêm definidos na lei); 
- elemento normativo extrajurídico ou moral: é aquele que depende de interpretação não jurídica (ex.: 
mulher “honesta”). 
 
CRIME DOLOSO (ART.18, I) 
 
Dolo é a vontade e a consciência de realizar os elementos constantes do tipo penal. Mais amplamente, 
é a vontade manifestada pela pessoa humana de realizar a conduta. 
 
Existem três teorias que falam sobre o conceito de dolo: 
-Teoria da vontade: dolo é a vontade de praticar a conduta e produzir o resultado. O agente quer o 
resultado. 
- Teoria do assentimento ou da aceitação: dolo é a vontade de praticar a conduta com a aceitação 
dos riscos de produzir o resultado. O agente não quer, mas não se importa com o resultado. 
- Teoria da representação ou da previsão: dolo é a previsão do resultado. Para que haja dolo, basta 
o agente prever o resultado. O Código Penal adotou as teorias da vontade e do assentimento. Ao 
conceituar crime doloso, o legislador indiretamente conceituou dolo: “quando o agente quis o resultado 
ou assumiu o risco de produzi-lo” (artigo 18, inciso I, do Código Penal). A teoria da representação, que 
confunde culpa consciente com dolo, não foi adotada. 
 
Elementos do dolo: 
- Consciência 
- Vontade 
 
A consciência é seu elemento intelectual, ao passo que a vontade desponta como elemento volitivo.37 
Primeiramente verifica-se a consciência da conduta e do resultado. Após o sujeito manifesta sua 
consciência sobre o nexo causal entre a conduta a ser praticada e o resultado que será produzido com 
tal conduta. 
Finalmente, o sujeito exterioriza sua vontade de praticar a conduta e produzir o resultado. 
Importante ressaltar que para verificação do dolo, basta que o resultado seja produzido de acordo com 
a vontade que o agente teve no momento da conduta. Exemplo: “Maria” quer matar “João” e para isso, 
dispara três tiros contra ele. 
Outrossim, com relação ao nexo causal (entre conduta e resultado), não é necessário que o Iter criminis 
(caminho do crime) aconteça exatamente da forma planejada pelo agente. Basta que o objetivo do agente 
seja alcançado, ainda que de modo diverso. Exemplo: se no caso exemplificado, de Maria e João, este 
não morre com os tiros, mas na fuga “cabaleando” cai e bate a cabeça e morre em decorrência disso, 
Maria responde pelo resultado “morte”. 
Contudo, é necessário destacar que há necessidade de que o agente, por exemplo, no caso 
destacado, saiba que sua conduta “mata alguém” e que tenha vontade de fazê-lo, pois o dolo deve 
englobar todas as elementares e circunstâncias do tipo penal. Faltando qualquer parte do tipo penal, 
ocorre o erro de tipo. 
 
 
 
37 Cf. STJ: HC 44.015/SP, Rel. Min. Gilson Dipp, 5ª Turma, j. 13.12.2005. 
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. 72 
Espécies de Dolo 
 
Dolo normativo: É o dolo segundo a teoria clássica, causal ou naturalista. É o dolo que integra a 
culpabilidade e não a conduta, e tem como elementos a consciência (sei oque faço), a vontade (quero 
fazer) e a consciência da ilicitude (sei que é errado). É o dolo que depende de um juízo de valor. 
 
Dolo natural: É o dolo segundo a doutrina finalista. Para os finalistas, o dolo passou a 
constituir elemento do fato típico (conduta dolosa), deixando de ser requisito para a culpabilidade. A 
consciência da ilicitude se destacou do dolo e passou a integrar a culpabilidade. Assim, o dolo que passou 
para a conduta é aquele composto apenas por consciência e vontade (sem a consciência da ilicitude, que 
passou a integrar a culpabilidade). É uma manifestação psicológica, que prescinde de juízo de valor. É o 
dolo adotado pelo Código Penal. 
 
Dolo genérico: É a vontade de realizar o verbo do tipo sem qualquer finalidade especial. 
 
Dolo específico: É a vontade de realizar o verbo do tipo com uma finalidade especial. Sempre que no 
tipo houver um elemento subjetivo, para que o fato seja típico, será necessário o dolo específico. Ex.: 
extorsão mediante sequestro (art. 159), cujo tipo penal é sequestrar pessoa com o fim de obter vantagem 
como condição ou preço do resgate. 
 
Dolo de perigo: É a vontade de expor o bem a uma situação de perigo de dano. O perigo pode 
ser concreto ou abstrato. Quando o perigo for concreto, é necessária a efetiva comprovação de que o 
bem jurídico ficou exposto a uma real situação de perigo (exemplo: crime do artigo132 do Código Penal). 
O perigo abstrato, também conhecido como presumido é aquele em que basta a prática da conduta para 
que a lei presuma o perigo (exemplo: artigo 135 do Código Penal). Os Professores Damásio de Jesus e 
Luiz Flávio Gomes sustentam que os crimes de perigo abstrato não existem mais na ordem jurídica. 
 
Dolo de dano: Existe quando a vontade é de produzir uma efetiva lesão ao bem jurídico. Quase todos 
os crimes são de dano (exemplos: furto, homicídio etc.). 
 
Dolo direto ou determinado: Existe quando o agente quer produzir resultado certo e determinado; é 
o dolo da teoria da vontade. 
 
Dolo indireto ou indeterminado: É aquele que existe quando o agente não quer produzir resultado 
certo e determinado. Pode ser: 
a) Eventual: quando o agente não quer produzir o resultado, mas aceita o risco de produzi-lo (exemplo: 
o motorista que, em desabalada corrida, para chegar em seu destino, aceita o resultado de atropelar uma 
pessoa). Nélson Hungria lembra a fórmula de Frank para explicar o dolo eventual: “Seja como for, dê no 
que der, em qualquer caso não deixo de agir”. 
b) Alternativo: quando o agente quer produzir um ou outro resultado (exemplo: o agente atira para 
ferir ou para matar; nesse caso, responde pelo resultado mais grave, aplicando-se o princípio da 
consunção). 
 
Dolo geral ou erro sucessivo: Conhecido também como erro sobre o nexo causal ou aberratio 
causae, ocorre quando o agente, supondo já ter produzido o resultado, pratica nova agressão, que para 
ele é mero exaurimento, mas é nesse momento que atinge a consumação (exemplo: “A” quer matar “B” 
por envenenamento; após o envenenamento, supondo que “B” já está morto, “A” joga o que imagina ser 
um cadáver no rio e “B” acaba morrendo por afogamento; nesse caso, o erro é irrelevante, pois o que 
vale é a intenção do agente, que responderá por homicídio doloso). O Professor Damásio de Jesus 
entende que o agente deve responder por tentativa de homicídio, aplicando-se a teoria da imputação 
objetiva. 
 
Dolo de primeiro grau e de segundo grau: o primeiro grau consiste na vontade de produzir as 
consequências primárias do delito, ou seja, o resultado típico inicialmente visado, ao passo que o de 
segundo grau abrange os efeitos colaterais da prática delituosa, ou seja, as suas consequências 
secundárias, que não são desejadas originalmente, mas acabam sendo provocadas porque indestacáveis 
do primeiro evento. No dolo de segundo grau, portanto, o autor não pretende produzir o resultado, mas 
se dá conta de que não pode chegar à meta traçada sem causar tais efeitos acessórios. 
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. 73 
Por exemplo, a situação na qual o agente, desejando matar determinada pessoa que está em ambiente 
público, usa de explosivo que, ao detonar, certamente matará outras pessoas que ali também se 
encontram. Nesse caso, embora o agente não quisesse atingir outras vítimas, esse resultado era 
absolutamente esperado na explosão do artefato. 
 
CRIME CULPOSO (ART. 18, II) 
 
Culpa é o elemento normativo da conduta (não confundir com elemento normativo do tipo), pois sua 
existência decorre da comparação que se faz entre o comportamento do agente no caso concreto e 
aquele previsto na norma, que seria o ideal. Essa norma corresponde ao sentimento médio da sociedade 
sobre o que é certo e o que é errado. 
 
1. Elementos do Fato Típico Culposo 
São elementos do fato típico culposo: 
- conduta voluntária; 
- resultado naturalístico involuntário; 
- nexo causal; 
- tipicidade; 
- previsibilidade objetiva: é a possibilidade de qualquer pessoa ter previsto o resultado; o que se leva 
em conta é se o resultado era ou não previsível para uma pessoa de prudência mediana, e não a 
capacidade do agente de prever o resultado; 
- ausência de previsão: não prever o previsível. Exceção: na culpa consciente há previsão; 
- quebra do dever objetivo de cuidado: é o dever de cuidado imposto a todos. Existem três maneiras 
de violar o dever objetivo de cuidado. São as três modalidades de culpa. 
 
2. Modalidades de Culpa 
- Imprudência: É a culpa de quem age (exemplo: passar no farol fechado). É a prática de um 
fato perigoso, ou seja, é uma ação descuidada. Decorre de uma conduta comissiva. 
- Negligência: É a culpa de quem se omite. É a falta de cuidado antes de começar a agir. Ocorre 
sempre antes da ação (exemplo: não verificar os freios do automóvel antes de colocá-lo em movimento). 
- Imperícia: É a falta de habilidade no exercício de uma profissão ou atividade. 
 
 No caso de exercício de profissão, arte ou ofício, se não for observada uma regra técnica o fato poderá 
enquadrar-se nos artigos 121, § 4.º, e 129, § 7.º, do Código Penal. Observe-se que só haverá aumento 
de pena se o agente conhecer a regra técnica e não aplicá-la. Não incide o aumento de pena se o agente 
desconhece a regra. Se a imperícia advier de pessoa que não exerce a arte ou profissão, haverá 
imprudência ou negligência (exemplo: motorista sem habilitação). Difere-se a imperícia do erro 
profissional, que ocorre quando são empregados os conhecimentos normais da arte ou ofício e o agente 
chega a uma conclusão equivocada. 
 
O tipo culposo é um tipo aberto, pois não há descrição da conduta. Assim, se o legislador tentasse 
descrever todas as hipóteses em que ocorresse culpa, certamente jamais esgotaria o rol. Compara-se a 
conduta do agente, no caso concreto, com a conduta de uma pessoa de prudência mediana. Se a conduta 
do agente se afastar dessa prudência, haverá a culpa. Será feita uma valoração para verificar a existência 
da culpa. 
O tipo culposo, como vimos, é um tipo aberto. Excepcionalmente, o tipo culposo é um tipo fechado. 
Exemplos: receptação culposa, tráfico culposo (ministrar dose evidentemente maior) etc. 
 
3. Excepcionalidade da Culpa: Um crime só pode ser punido como culposo quando há previsão 
expressa na lei. Se a lei é omissa o crime só é punido como doloso (artigo 18, parágrafo único, do Código 
Penal). 
 
4. Compensação de Culpas: No Direito Penal, não existe compensação de culpas. O fato de a vítima 
ter agido também com culpa não impede que o agente responda pela sua conduta culposa. Somente nos 
casos em que existir culpa exclusiva da vítima haverá exclusão da culpa do agente. Não confundir com 
concorrência de culpas que ocorre quando dois ou mais agentes, culposamente, contribuem para a 
produção do resultado (exemplo: choque de dois veículosnum cruzamento). 
 
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. 74 
5. Graus de Culpa: Para efeito de cominação abstrata de pena, não há diferença. Na dosagem da 
pena concreta, entretanto, é levado em conta o grau da culpa na primeira fase de sua fixação (artigo 59 
do Código Penal). São três níveis: grave, leve e levíssima. 
Cabe ao juiz aferir, em cada caso concreto, o grau da culpa (isto é, o grau de descuido frente ao bem 
jurídico). Isso retrata a culpabilidade como fator de graduação da pena (CP, art. 59). 
Saliente-se que a culpabilidade, no contexto do art. 59 do CP, significa a posição do agente frente ao 
bem jurídico afetado. Tem ela, no Direito penal, tríplice função: 
(a) de fundamento da pena; 
(b) de limite da pena (cada um é punido nos limites da sua culpabilidade – CP, art. 29) e 
(c) de fator de graduação da pena (CP, art. 59). 
 
Como fator de graduação da pena, já se disse, a culpabilidade conduz à análise da posição do agente 
frente ao bem jurídico, que pode ser: 
(a) de menosprezo, 
(b) de indiferença ou 
 (c) de descuido38. 
. 
A primeira está vinculada com o dolo direto, a segunda com o dolo eventual e a terceira com o crime 
culposo. Quanto mais intenso o menosprezo ao bem jurídico (isso se revela, por exemplo, na crueldade 
de um assassinato) mais reprovação se justifica. Quando mais indiferença, mais pena. Quanto à culpa, 
seus graus (culpa leve, levíssima, grave e gravíssima ou temerária) é que comandam o nível da censura 
penal. 
A culpa, desse modo, tanto é relevante para a tipicidade penal (não existe crime culposo sem a criação 
de risco proibido relevante), como para a culpabilidade (daí falar-se em tipo de ilícito culposo e tipo de 
culpabilidade). 
Enquanto a inobservância do cuidado objetivo necessário (leia-se: criação de risco proibido) é 
relevante para a composição do tipo de ilícito, os graus desse descuido (leve, grave etc.) são 
fundamentais para a aferição da pena no âmbito da culpabilidade mencionada no art. 59 do CP. Se cada 
agente deve ser punido na medida da sua culpabilidade (CP, art. 29), cumpre ao juiz aferir esse nível de 
censura para fazer a correta dosimetria da pena. 
A intensidade do dolo e da culpa não cumpre, em princípio, grande papel no momento da configuração 
do injusto penal (do tipo de ilícito), salvo, evidente, quando o próprio tipo penal a exige (crime cometido 
com crueldade, crime cometido com culpa temerária etc.). Sua função primordial acaba sendo revelada 
no momento da aplicação da pena, que é justamente quando o juiz tem que dar sentido para a palavra 
culpabilidade dentro do art. 59 do CP. 
Não nos parece acertado dizer que não tem nenhum sentido falar em intensidade do dolo e da culpa. 
Essa intensidade é muito relevante em Direito penal, sobretudo no momento da aplicação da pena, 
quando então é fundamental constatar a dimensão da intensidade do dolo (nível da posição do agente 
frente ao bem jurídico) assim como da culpa (nível de descuido do agente frente ao bem jurídico). 
Os denominados delitos de atitude (ou delitos de atitude interna), que são os que expressam estados 
anímicos que fundamentam ou reforçam o juízo de desvalor do fato, ou seja, o juízo de reprovação do 
fato, bem evidenciam a intensidade do dolo do agente. A crueldade, a traição, a evidente má-fé, os crimes 
cometidos inescrupulosamente etc. revelam o alto nível de censurabilidade da posição do agente frente 
ao bem jurídico protegido. A atitude interna do agente, que revela a intensidade do dolo, deve sempre ser 
levada em conta no momento da cominação da pena ou da sua aplicação. 
Pode-se afirmar a mesma coisa em relação ao nível de descuido do agente frente ao bem jurídico. 
Quanto mais intensa a culpa, isto é, quanto mais descuidado for o agente, mais censurável será seu fato. 
Esse nível de descuido encontra seu ponto mais extremado na chamada culpa temerária, que é forma de 
culpa gravíssima. A culpa temerária expressa uma especial intensificação da culpa, é uma conduta 
praticada de modo especialmente perigoso. O resultado, no contexto de uma culpa temerária, apresenta-
se como altamente provável. A previsibilidade é patente. A atitude do agente na culpa temerária é 
altamente censurável, chega mesmo à leviandade, por isso que justifica maior nível de reprovação39. 
 
6. Participação no Crime Culposo: Sobre a possibilidade de participação em crime culposo, há duas 
posições na doutrina: 
 
38 (cf. GOMES, Luiz Flávio, Direito penal, v. 7, Coleção Manuais para concursos e graduação, São Paulo: RT, 2005, p. 75) 
39 (cf. SANTANA, Selma Pereira de, A culpa temerária, São Paulo: RT, 2005). 
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1.ª posição: não é possível a participação em crime culposo. Isto porque, o tipo culposo é aberto, logo 
não há descrição da conduta. Assim, não há que se falar em conduta acessória e em conduta principal. 
2.ª posição: é possível a participação em crime culposo, sendo o autor aquele que realiza o núcleo do 
tipo doloso e partícipe quem concorre para tal. 
Exemplo: motorista dirige de forma imprudente e, instigado pelo acompanhante, acaba atropelando 
uma pessoa. O motorista matou a vítima, pois foi ele quem a atropelou; o acompanhante teve participação 
nesta morte. A primeira posição prevalece na doutrina, pois a culpa é um tipo aberto, não possuindo, por 
esse motivo, conduta principal distinta da secundária. É a nossa posição. 
 
7. Espécies de Culpa: 
-Culpa inconsciente ou sem previsão: É a culpa sem previsão, em que o agente não prevê o que era 
previsível. 
- Culpa consciente ou com previsão: É aquela em que o agente prevê o resultado, mas acredita 
sinceramente que ele não ocorrerá. Não se pode confundir a culpa consciente com o dolo eventual. Tanto 
na culpa consciente quanto no dolo eventual o agente prevê o resultado, entretanto na culpa consciente 
o agente não aceita o resultado, e no dolo eventual o agente aceita o resultado. 
- Culpa indireta ou mediata: É aquela em que o sujeito dá causa indiretamente a um resultado 
culposo (exemplo: o assaltante aponta uma arma a um motorista que está parado no sinal; o motorista, 
assustado, foge do carro e acaba sendo atropelado). A solução do problema depende da previsibilidade 
ou imprevisibilidade do segundo resultado. 
- Culpa imprópria: Também é chamada culpa por extensão, por assimilação ou por equiparação. 
Nesse caso, o resultado é previsto e querido pelo agente, que age em erro de tipo inescusável ou vencível. 
Exemplo: “A” está em casa assistindo televisão quando seu primo entra na casa pelas portas dos fundos; 
pensando tratar-se de um ladrão, “A” efetua disparos de arma de fogo contra seu azarado parente. Nesse 
caso, “A” acredita estar agindo em legítima defesa. Como “A” agiu em erro de tipo inescusável ou vencível 
(se fosse mais atento e diligente perceberia que era seu primo), responde por homicídio culposo nos 
termos do artigo 20, §1.º, do Código Penal. Observe-se que a culpa imprópria, na verdade, diz respeito a 
um crime doloso que o legislador aplica pena de crime culposo. Se “A”, no entanto, tivesse agido em erro 
de tipo escusável ou invencível, haveria exclusão de dolo e culpa, hipótese em que “A” ficaria impune. 
Qual a solução se o primo (do exemplo citado acima) não tivesse morrido? Há duas posições na doutrina: 
1.ª posição: “A” responderia por lesões corporais culposas. 2.ª posição: “A” responderia por tentativa de 
homicídio culposo. Preferimos a primeira posição, pois não admitimos a tentativa em crime culposo. 
 
8. Fundamentos da culpa: 
Antigamente, vários autores se manifestavam pela inutilidade da aplicação de pena para o crime 
culposo, sustentando que o objetivo do Direito é punir o indivíduo que gera periculosidade, o que inexiste 
no sujeito que nãopreviu a lesão quando deveria prever, ou seja, este indivíduo não teve impulso contrário 
ao direito, motivo pelo qual a pena não se mostraria eficaz. 
Contudo, com o advento da Escola Positiva, a punição da culpa passou a ser reclamada por 
necessidade social, por ser a sanção penal uma reação constante e independente da vontade. O 
homem seria responsável tanto pelo crime culposo como pelo crime doloso, porque vive em sociedade. 
Atualmente, encontra-se encerrada a discussão acerca da obrigatoriedade de punição do crime 
culposo. O interesse público impõe consequências penais àqueles que agem culposamente, visando a 
preservação de bens indispensáveis ou relevantes à vida em sociedade. 
Em respeito ao menor desvalor da conduta, porém, os crime culposos são apenados de modo mais 
brando do que os dolosos.40 
 
 Consciência Vontade 
Dolo direto Prevê o resultado Quer o resultado 
Dolo eventual Prevê o resultado Não quer, mas assume o risco 
Culpa consciente Prevê o resultado 
Não quer, não assume o risco 
e pensa poder evitar por sua 
habilidade 
Culpa inconsciente 
Não prevê o resultado (que 
era previsível) 
Não que e não aceita o 
resultado 
 
40 MASSON, Cleber. Direito Penal. Vol.1. Parte Geral. Editora Método. 8ª edição. 2014. 
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Art. 18 - Diz-se o crime: 
 
CRIME DOLOSO 
I - doloso, quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo; 
 
CRIME CULPOSO 
II - culposo, quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia. 
 
Parágrafo único - Salvo os casos expressos em lei, ninguém pode ser punido por fato previsto como 
crime, senão quando o pratica dolosamente. 
 
CRIME PRETERDOLOSO 
 
Conceito: crime preterdoloso é uma das quatro espécies de crime qualificado pelo resultado. 
Crime qualificado pelo resultado: é aquele em que o legislador, após definir um crime completo e 
acabado, com todos os seus elementos (fato antecedente), acrescenta-lhe um resultado (fato 
consequente). O resultado não é necessário para a consumação, que já ocorreu no fato antecedente; 
o resultado tem a função de aumentar abstratamente a pena. 
Os crimes qualificados pelo resultado podem ser observados nas seguintes formas: 
a) Conduta dolosa e resultado agravador doloso. Ex.: durante um roubo, o assaltante mata 
intencionalmente a vítima. Há crime de roubo qualificado pela morte, também chamado de latrocínio (art. 
157, §3º). 
b) Conduta culposa e resultado agravador doloso. Ex.: crime de lesões corporais culposas, cuja pena 
é aumentada de 1/3, se o agente, dolosamente, deixa de prestar imediato socorro à vítima (art. 129, §7º). 
c) Conduta dolosa e resultado agravador culposo: Ex.: crime de lesão corporal seguida de morte, no 
qual o legislador descreve que a pena será maior quando o agente, ao agredir a vítima, provoca sua 
morte, e as circunstâncias indicam que o agente não quis e não assumiu o risco de produzi-la. Apenas 
nessa hipótese ocorre o crime preterdoloso: dolo no antecedente (conduta) e culpa no consequente 
(resultado). 
d) Conduta culposa e resultado agravador culposo. Crime de incêndio culposo, qualificado pela morte 
culposa (art. 250, §2º, c.c. o art. 258, 2ª parte). 
 
Os crimes preterdolosos não admitem a tentativa, pois, neles, o agente não quer o resultado final 
agravador, sendo certo que pressuposto da tentativa é que o agente queira o resultado e não o atinja por 
circunstâncias alheias à sua vontade. 
 
AGRAVAÇÃO PELO RESULTADO 
Art. 19 - Pelo resultado que agrava especialmente a pena, só responde o agente que o houver causado 
ao menos culposamente. 
 
CRIME CONSUMADO (ART.14, I) 
 
Crime consumado é aquele em que foram realizados todos os elementos da definição legal. Crime 
exaurido é aquele em que o agente já consumou o crime, mas continua atingindo o bem jurídico. O 
exaurimento influi na primeira fase da fixação da pena (art. 59, caput, do Código Penal). 
 
Inter criminis: são as fases que o agente percorre até chegar à consumação do delito. A doutrina 
aponta quatro etapas diferentes no caminho do crime: 
- Cogitação: nesta fase, o agente somente está pensando, idealizando, planejando a prática do crime. 
Nessa fase o crime é impunível. 
- Preparação: é a prática dos atos necessários ao início da execução. Não existe fato típico ainda, 
salvo se o ato preparatório constituir crime autônomo. 
 - Execução: começa a agressão ao bem jurídico. Nessa fase, o agente inicia a realização do núcleo 
do tipo e o crime já se torna punível. A execução começa com a prática do primeiro ato idôneo e 
inequívoco à consumação do crime. Ato idôneo é o capaz de produzir o resultado e ato inequívoco é o 
que, fora de qualquer dúvida, induz ao resultado. Assim, a execução está ligada ao verbo de cada tipo. 
Quando o agente começa a praticar o verbo do tipo, inicia-se a execução. 
- Consumação: quando todos os elementos do fato típico são realizados. 
 
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A consumação nas várias espécies de crimes: 
a) materiais: com a produção do resultado naturalístico; 
b) culposos: igual os materiais, com a produção do resultado naturalístico; 
c) de mera conduta: com a ação ou omissão delituosa; 
d) formais: com a simples atividade, independente do resultado; 
e) permanentes: o momento consumativo se protrai no tempo; 
f) omissivos próprios: com a abstenção do comportamento devido; 
g) omissivos impróprios: com a produção do resultado naturalístico; 
h) qualificados pelo resultado: com a produção do resultado agravador; 
i) complexos: quando os crimes componentes estejam integralmente realizados; 
j) habituais: com a reiteração de atos, pois cada um deles, isoladamente, é indiferente à lei penal. O 
momento consumativo é incerto, pois não se sabe quando a conduta se tornou um hábito, por essa razão, 
não cabe prisão em flagrante nesses crimes. 
 
TENTATIVA (ART.14, II) 
 
Tentativa é a não consumação de um crime, cuja execução foi iniciada, por circunstâncias alheias à 
vontade do agente. De acordo com o que dispõe o artigo 14, II do Código Penal. 
 
1. Aplicação da Pena 
A tentativa é punida com a mesma pena do crime consumado, reduzida de 1/3 a 2/3. O critério para 
essa redução é a proximidade do momento consumativo, ou seja, quanto mais próximo chegar da 
consumação, menor será a redução. 
 
2. Espécies de Tentativa 
Tentativa imperfeita ou inacabada: Ocorre quando a execução do crime é interrompida, ou seja, o 
agente, por circunstâncias alheias à sua vontade, não chega a praticar todos os atos de execução do 
crime. 
Tentativa perfeita ou acabada: Também conhecida como “crime falho”. Ocorre quando o agente 
pratica todos os atos de execução do crime, mas o resultado não se produz por circunstâncias alheias à 
sua vontade. 
Tentativa branca ou incruenta: Classificação para os crimes contra a pessoa; ocorre quando a vítima 
não é atingida. 
Tentativa cruenta: Classificação para os crimes contra a pessoa; ocorre quando a vítima é atingida, 
mas o resultado desejado não acontece por circunstância alheia à vontade do agente. 
Tentativa idonêa: É aquela em que o sujeito pode alcançar a consumação, mas não consegue fazê-
lo por circunstâncias alheias à sua vontade. É a tentativa propriamente dita, definida no art. 14, II, do 
Código Penal. 
Tentativa inidonêa: Sinônimo de crime impossível (art. 17) ocorre quando o agente inicia a execução, 
mas a consumação do delito era impossível por absoluta ineficácia do meio empregado ou por absoluta 
impropriedade do objeto material. Nesse caso, não se pune a tentativa, pois a lei considera o fato atípico. 
 
3. Infrações que Não Admitem Tentativa 
Crimes culposos: Parte da doutrina admite no caso deculpa imprópria. 
Crimes preterdolosos: No caso dos crimes preterdolosos ou preterintencionais, o evento de maior 
gravidade não querido pelo agente, é punido a título de culpa. No caso de latrocínio tentado, o resultado 
morte era querido pelo agente; assim, embora qualificado pelo resultado, o latrocínio só poderá ser 
preterdoloso quando consumado. 
Crimes omissivos próprios: São crimes de mera conduta (exemplo: crime de omissão de socorro, 
artigo 135 do Código Penal). 
Contravenção penal: A tentativa não é punida (artigo 4.º do Decreto-lei n. 3.688/41). 
Delitos de atentado: São crimes em que a lei pune a tentativa como se fosse consumado o delito 
(exemplo: crime de evasão mediante violência contra a pessoa, artigo 352 do Código Penal). 
Crimes habituais: Tais crimes exigem, para consumação, a reiteração de atos que, isolados, não 
configuram fato típico. Inviável a verificação da tentativa, posto que uma segunda conduta já caracteriza 
o delito. 
Crimes unissubsistentes: Que se consumam com um único ato. Ex.: injúria verbal. 
Crimes que a lei só pune se ocorrer o resultado: Trata-se, por exemplo, do crime de induzimento, 
instigação ou auxílio a suicídio (artigo 122 do Código Penal). Nesse delito, se a pessoa empresta um 
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. 78 
revolver para outra se matar e esta não se mata, o fato é atípico, mas se ela comete o suicídio, o crime 
está consumado. 
 
Observações: Parte da doutrina entende que os crimes formais e de mera conduta não admitem 
tentativa. Não concordamos com esse entendimento. O crime de ameaça, por exemplo, trata-se de crime 
formal, mas admite a tentativa no caso de ameaça por escrito, em que a carta é interceptada por terceiro. 
Alguns crimes de mera conduta também admitem tentativa, como a violação de domicílio (o agente pode, 
sem sucesso, tentar invadir domicílio de outrem). O crime unissubsistente comporta tentativa em alguns 
casos, por exemplo, quando o agente efetua um único disparo contra a vítima e erra o alvo. 
 
TENTATIVA ABANDONADA OU QUALIFICADA 
 
Essas expressões são utilizadas como sinônimas da desistência voluntária e do arrependimento eficaz 
(art. 15), casos esses nos quais, em verdade, afasta-se a aplicação da tentativa, respondendo o agente 
apenas pelos atos anteriores, uma vez que, por ato voluntário, desistiu ele de prosseguir na execução do 
crime ou impediu a produção do resultado. Nesses casos, não se pode cogitar de tentativa, porque a 
consumação foi evitada pelo próprio agente e não por circunstâncias alheias à sua vontade. É chamado 
pela doutrina de “ponte de ouro”. 
 
Desistência voluntária (art. 15, 1ª parte): O agente interrompe voluntariamente a execução do crime, 
impedindo, desse modo, a sua consumação. Ocorre antes de o agente esgotar os atos de execução, 
sendo possível somente na tentativa imperfeita ou inacabada. Não há que se falar em desistência 
voluntária em crime unissubsistente, visto que este é composto de um único ato. 
Exemplo: visando furtar o DVD de um automóvel, o agente quebra o vidro deste, mas, antes de se 
apossar do bem, desiste de cometer o crime e vai embora sem nada levar. Nesse caso, não se pode falar 
em tentativa de furto, porque, para que haja tentativa, é necessário que o agente não tenha conseguido 
a consumação por circunstâncias alheias à sua vontade, e, na hipótese, o agente não consumou o furto 
por vontade própria. Em razão disso é que a lei determina que a punição deve ser apenas em relação 
aos atos já praticados, não havendo punição pela tentativa. Nesse exemplo, o agente responde apenas 
pelo crime de dano (no vidro do veículo). 
 
Arrependimento eficaz (art. 15, 2ª parte): O agente executa o crime até o último ato, esgotando-os, 
e logo após se arrepende, impedindo o resultado. Só é possível no caso da tentativa perfeita ou acabada. 
Ocorre somente nos crimes materiais que se consumam com a verificação do resultado naturalístico. 
Exemplo: o agente quebra o vidro de um carro para furtar seu DVD automotivo. Após retirá-lo do painel, 
ele imediatamente resolve colocá-lo de volta no local. Responde apenas pelo crime de dano (do vidro). 
Se o crime, entretanto, já se tinha consumado e, algum tempo depois, o sujeito resolve devolver o bem à 
vítima, poderá haver, dependendo das circunstâncias, o arrependimento posterior (art. 16), cuja 
consequência é a simples redução da pena. 
 
A desistência ou o arrependimento não precisa ser espontâneo, mas deve ser voluntário. Mesmo se a 
desistência ou a resipiscência for sugerida por terceiros subsistirão seus efeitos. A tentativa abandonada, 
em suas duas modalidades, exclui a aplicação da pena por tentativa, ou seja, o agente responderá 
somente pelos atos até então praticados. 
 
ARREPENDIMENTO POSTERIOR (ART. 16) 
 
Nos termos do artigo 16 do Código Penal, “Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à 
pessoa, reparado o dano ou restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato 
voluntário do agente, a pena será reduzida de um a dois terços”. A expressão utilizada pelo legislador é 
redundante, pois todo arrependimento é posterior. Na verdade o arrependimento é posterior à 
consumação do crime. Trata-se de causa obrigatória de redução de pena. É causa objetiva de diminuição 
de pena, portanto, estende-se aos coautores e partícipes condenados pelo mesmo fato. 
 
Requisitos: 
Só cabe em crime cometido sem violência ou grave ameaça contra a pessoa. Visa o legislador a dar 
oportunidade ao agente, que pratica crime contra o patrimônio sem violência ou grave ameaça, de reparar 
o dano ou restituir a coisa. Na jurisprudência, prevalece o entendimento de que a lei só se refere à 
violência dolosa, podendo a diminuição ser aplicada aos crimes culposos em que haja violência, como o 
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homicídio culposo. Assim, a intenção do legislador foi criar um instituto para os crimes patrimoniais, mas 
a jurisprudência estendeu ao homicídio culposo. 
- Reparação do dano ou restituição da coisa (deve ser integral). 
- Por ato voluntário do agente. Não há necessidade de ser ato espontâneo, podendo haver influência 
de terceira pessoa. 
- O arrependimento posterior só pode ocorrer até o recebimento da denúncia ou queixa. Após, a 
reparação do dano será somente causa atenuante genérica (artigo 65, inciso III, alínea “b”). 
 
Critérios para Aplicação da Redução da Pena: 
São dois os critérios para se aplicar a redução da pena: espontaneidade e celeridade. O 
arrependimento posterior não precisa ser espontâneo, mas se for a pena sofrerá maior diminuição. 
Também, quanto mais rápido reparar o dano, maior será a diminuição. 
 
Relevância da Reparação do Dano: 
- Cheque sem fundos: o pagamento até o recebimento da denúncia ou queixa extingue a punibilidade 
(Súmula 554 do Supremo Tribunal Federal). 
- Crimes contra a ordem tributária: o pagamento do tributo até o recebimento da denúncia ou queixa 
também extingue a punibilidade. 
- Peculato culposo (artigo 312, § 3.º): se a reparação do dano precede à sentença irrecorrível, extingue 
a punibilidade; se lhe é posterior reduz de metade a pena imposta. 
- Crimes de ação penal privada ou pública condicionada à representação (artigo74, parágrafo único, 
da Lei n. 9.099/95): havendo composição civil do dano em audiência preliminar, extingue-se o direito de 
queixa ou representação. 
 
Delação eficaz ou premiada: 
Instituto distinto do arrependimento posterior é o da delação premiada, no qual se estimula a delação 
feita por um coator ou participe em relação aos demais, mediante o benefício da redução obrigatória da 
pena. 
 
CRIME IMPOSSÍVEL (ART. 17) 
 
O crime impossível também chamado de tentativa inidônea, tentativa inadequada ou quase-crime. É 
aquele que, pela ineficáciatotal do meio empregado ou pela impropriedade absoluta do objeto material, 
é impossível de se consumar. Não se trata de causa de isenção de pena, como parece sugerir a redação 
do art. 17 do Código Penal, mas de causa geradora de atipicidade, pois não se concebe queira o tipo 
incriminador descrever como crime uma ação impossível de se realizar. 
 
Ineficácia absoluta do meio: O meio empregado jamais poderia levar à consumação do crime. A 
ineficácia do meio deve ser absoluta (exemplo: um palito para matar um adulto, uma arma de brinquedo). 
Deve-se lembrar, que um determinado meio pode ser ineficaz para um crime, mas eficaz para outro. 
Exemplo: num crime de roubo, uma arma totalmente inapta a produzir disparos pode ser utilizada para 
intimidar a vítima. 
 
 Impropriedade Absoluta do Objeto: A pessoa ou a coisa sobre a qual recai a conduta jamais poderia 
ser alvo do crime. Assim, haverá crime impossível quando o objeto sobre o qual o agente faz recair sua 
conduta não é protegido pela norma penal incriminadora ou quando ele (objeto) sequer existe. Exemplo: 
atirar em alguém que já está morto. 
O crime impossível pela absoluta impropriedade do objeto é também chamado delito putativo por erro 
de tipo, pois se trata de um crime imaginário; o agente quer cometer um crime, mas devido ao 
desconhecimento da situação de fato, comete um irrelevante penal (exemplo: mulher pensa que está 
grávida e ingere substância abortiva). Não se confunde com o erro de tipo, pois neste o agente não sabe, 
devido a um erro de apreciação da realidade, que está cometendo um crime (exemplo: compra cocaína 
pensando ser talco). 
 
Crime de ensaio ou experiência: Também chamado “delito putativo por obra do agente provocador” 
ou “crime de flagrante preparado”, ocorre quando a polícia ou terceiro (agente provocador) prepara uma 
situação, que induz o agente a cometer o delito (exemplo: detetive simula querer comprar maconha e 
prende o traficante). O agente é protagonista de uma farsa. A jurisprudência considera a encenação do 
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flagrante preparado uma terceira espécie de crime impossível, entendendo não haver crime ante a 
atipicidade do fato (Súmula n. 145 do Supremo Tribunal Federal). 
 
O Código Penal brasileiro adotou a teoria objetiva temperada pela qual só há crime impossível se a 
ineficácia do meio e a impropriedade do objeto forem absolutas. Por isso, se forem relativas, haverá crime 
tentado. Ex.: tentar matar alguém com revólver e projéteis verdadeiros que, entretanto, não detonam por 
estar velhos. Aqui a ineficácia do meio é acidental e existe tentativa de homicídio. 
 
Art. 14 - Diz-se o crime: 
 
CRIME CONSUMADO 
I - consumado, quando nele se reúnem todos os elementos de sua definição legal; 
 
TENTATIVA 
II - tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do 
agente. 
 
PENA DE TENTATIVA 
Parágrafo único - Salvo disposição em contrário, pune-se a tentativa com a pena correspondente ao 
crime consumado, diminuída de um a dois terços. 
 
DESISTÊNCIA VOLUNTÁRIA E ARREPENDIMENTO EFICAZ 
Art. 15 - O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou impede que o resultado 
se produza, só responde pelos atos já praticados. 
 
ARREPENDIMENTO POSTERIOR 
Art. 16 - Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída 
a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida 
de um a dois terços. 
 
CRIME IMPOSSÍVEL 
Art. 17 - Não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade 
do objeto, é impossível consumar-se o crime. 
 
Questões 
 
01. (Polícia Civil/ES - Escrivão de Polícia – FUNCAB/2013) Infração penal significa: 
(A) Quando um caso não previsto em lei é regulado por um preceito legal, que rege um semelhante. 
(B) Ofensa real ou potencial a um bem jurídico, levando-se em consideração os elementos subjetivos 
do tipo, a ilicitude e a culpabilidade. 
(C) Todos os valores ético-sociais que estejam a exigir uma proteção especial, no âmbito do direito 
penal, por se revelarem insuficientes à proteção dos outros ramos do direito. 
(D) Quando o princípio para o caso omitido se deduz do espírito e do sistema do ordenamento jurídico, 
considerado em seu conjunto. 
(E) Que o delito é sinônimo de contravenção penal no Brasil. 
 
02. (PC/GO - Escrivão de Polícia Civil - UEG/2013) Sobre sujeito ativo e sujeito passivo da infração 
penal, verifica-se que 
(A) há hipóteses em que a lei se refere à vítima em relação às suas condições físicas ou psíquicas, 
embora nem todas as pessoas possam ser sujeito passivo do crime. 
(B) sujeito passivo do crime não é o titular do bem jurídico ameaçado pela conduta criminosa. 
(C) sujeito ativo do crime é aquele que pratica a conduta descrita em lei, ou seja, o fato típico. 
(D) capacidade penal do sujeito ativo ou inimputável pode não ter a capacidade penal se passar a 
sofrer de doença mental após o delito. 
 
03. (PC/C - Inspetor de Polícia Civil de 1ª Classe - VUNESP/2015) Nos termos do Código Penal 
considera-se causa do crime 
(A) a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. 
(B) a ação ou omissão praticada pelo autor, independentemente da sua relação com o resultado. 
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(C) exclusivamente a ação ou omissão que mais se relaciona com a intenção do autor. 
(D) a ação ou omissão praticada pelo autor, independentemente de qualquer causa superveniente. 
(E) exclusivamente a ação ou omissão que mais contribui para o resultado. 
 
04. (CRAISA de Santo André/SP – Advogado - CAIP-IMES/2016) Associe corretamente os blocos 
abaixo. Nos termos da legislação penal vigente há: 
I- crime tentado. 
II- desistência voluntária e arrependimento eficaz. 
III- arrependimento posterior. 
IV- crime impossível. 
 
(...) quando o agente esgota todos os meios de que dispõe para consumar a infração penal e se 
arrepende impedindo que o resultado ocorra, responde somente pelos atos praticados. 
(...) quando o agente objetiva praticar determinado crime não alcança sua meta por ineficácia absoluta 
do meio empregado ou impropriedade absoluta do objeto. 
(...) quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente. 
(...) quando os atos cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, por ato voluntário, o agente 
repara o dano ou restitui a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa. 
 
Assinale a sequência correta: 
(A) II, IV, I, III. 
(B) III, I, IV, II. 
(C) II, IV, III, I. 
(D) I, III, II, IV. 
 
05. (TRF/1ª Região –Estágio em Direito – TRF/1ª Região/2013) A desistência voluntária: 
(A) Encontrando-se o agente praticando somente os atos preparatórios do delito, pode-se falar em 
desistência voluntária; 
(B) É caracterizada quando o agente é interrompido durante os atos de execução, ou esgota tudo 
aquilo que tinha ao seu alcance para chegar à consumação da infração penal, que somente não ocorre 
em virtude de circunstancias alheias a sua vontade; 
(C) Havendo desistência voluntária, responde o agente pelos atos já praticados, ficando afastada a 
sua punição pela tentativa da infração penal por ele pretendida inicialmente. 
(D) A lei penal exige que a desistência seja voluntária e espontânea, importando para fins de 
diminuição de pena se a ideia de desistir no prosseguimento da execução criminosa partiu do agente, ou 
se foi induzido a isso por circunstancias externas, não bastando a voluntariedade da desistência. 
(E) Aplicam-se os benefícios da desistência voluntária ainda que o resultado do crime, cuja execução 
se iniciou, ocorra efetivamente. 
 
06. (TJ/PA – Juiz Substituto – CESPE/2012)Assinale a opção correta acerca do arrependimento 
eficaz e do arrependimento posterior. 
(A) Verificada a ocorrência do instituto do arrependimento posterior, a pena imposta ao agente deve 
ser reduzida de um a dois terços, independentemente de o fato ter sido praticado mediante violência ou 
grave ameaça a pessoa. 
(B) O arrependimento eficaz é instituto a ser aplicado na terceira fase de aplicação da pena, não 
podendo ser utilizado como fundamento para a rejeição da denúncia, por ausência de justa causa, pois 
não conduz à atipicidade da conduta por ausência de dolo. 
(C) O arrependimento eficaz do agente, que é causa obrigatória de redução de pena, não se confunde 
com a figura do arrependimento posterior, que impede a consumação do crime. 
(D) Nos procedimentos do tribunal do júri, o mero reconhecimento da ocorrência de arrependimento 
posterior ou de arrependimento eficaz, por não implicar revolvimento do contexto fático probatório, pode 
ser feito no âmbito do STJ, em recurso especial. 
(E) Para que seja reconhecido o instituto do arrependimento eficaz, o agente deve agir de forma 
voluntária e espontânea, por isso o arrependimento por sugestão ou conselho de terceiro não implica 
redução da pena. 
 
 
 
 
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07. (TJ/RJ – Juiz Substituto – VUNESP/2012) Assinale a hipótese que configura arrependimento 
posterior (CP, art. 16). 
(A) Autor de sonegação fiscal que, quando de seu interrogatório em juízo, junta aos autos do processo 
o comprovante de pagamento de todos os impostos devidos, acrescidos de juros, multas e correção 
monetária. 
(B) Autor de estelionato que, antes de ser descoberto e consternado pelo prejuízo que causaria, não 
deposita em favor próprio o cheque que ardilosamente obteve da vítima. 
(C) Autor de peculato doloso que no momento de sua prisão em flagrante devolve, voluntariamente, 
os bens móveis de que se havia apropriado. 
(D) Autor de resistência que, antes do início da ação penal, desculpa-se com a vítima e por ela é 
perdoado. 
 
08. (TRE/AP- Analista Judiciário – FCC/2011) Paulo abordou a vítima Pedro em via pública e, 
mediante grave ameaça com emprego de arma de fogo, anunciou o assalto e exigiu a entrega da carteira 
com dinheiro. No momento em que Pedro retirava a carteira do bolso para entregar para Paulo este 
resolveu ir embora espontaneamente sem subtrair a res. Trata-se de hipótese típica de: 
(A) arrependimento eficaz. 
(B) desistência voluntária. 
(C) tentativa. 
(D) arrependimento posterior. 
(E) crime impossível. 
 
09. (TJ/GO – Escrevente Judiciário - TJ/2012) De acordo com o Código Penal Brasileiro, no crime 
doloso: 
(A) O agente quer o resultado. 
(B) O agente assume o risco de produzir o resultado. 
(C) “a” e “b” estão corretas. 
(D) Nenhuma das anteriores 
 
10. (TJ/PE – Oficial de Justiça – FCC/2012) Na culpa consciente, o agente 
(A) prevê o resultado, mas não se importa que o mesmo venha a ocorrer. 
(B) não prevê o resultado, mas lhe dá causa por imprudência. 
(C) prevê o resultado, mas espera, sinceramente, que não ocorrerá. 
(D) não prevê o resultado, mas lhe dá causa por negligência. 
(E) não prevê o resultado, mas lhe dá causa por imperícia. 
 
11. (TRF/1ª- Estagiário de Direito –TRF 1ª/2012) É elemento do crime culposo: 
(A) A observância de um dever objetivo de cuidado. 
(B) A vontade na produção do resultado. 
(C) O resultado lesivo não querido, mas assumido, pelo agente. 
(D) A conduta humana voluntária, sempre comissiva. 
(E) A previsibilidade. 
 
12. (TRT/4ª REGIÃO (RS) - Juiz do Trabalho - FCC/2012) Consumam-se com o resultado os crimes 
(A) formais e omissivos próprios. 
(B) omissivos impróprios e materiais. 
(C) formais e omissivos impróprios. 
(D) materiais e omissivos próprios. 
(E) materiais e de mera conduta. 
 
13. (MPE/SP - Promotor de Justiça - MPE-SP/2015) São elementos do fato típico: 
(A) conduta, resultado, relação de causalidade e tipicidade. 
(B) conduta, resultado, relação de causalidade e culpabilidade. 
(C) conduta, resultado, antijuridicidade e culpabilidade. 
(D) conduta, resultado, nexo de causalidade e antijuridicidade. 
(E) conduta, relação de causalidade, antijuridicidade e tipicidade. 
 
 
 
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14. (DPE-PA - Defensor Público Substituto - FMP/2015) A é esfaqueada por B, sofrendo lesões 
corporais leves. Socorrida e medicada, A é orientada quanto aos cuidados a tomar, mas não obedece à 
prescrição médica e em virtude dessa falta de cuidado, o ferimento infecciona, gangrena, e ela morre. 
Assinale a alternativa CORRETA. 
(A) B responde pelo resultado morte, visto se tratar de causa superveniente absolutamente 
independente. 
(B) B responde pelo ato de lesão praticado, visto se tratar de causa concomitante relativamente 
independente. 
(C) B responde pelo resultado morte, visto se tratar de causa concomitante absolutamente 
independente. 
(D) B responde pelo resultado morte, visto se tratar de causa preexistente relativamente independente. 
(E) B responde pelo ato de lesão anteriormente praticado, visto se tratar de causa superveniente 
relativamente independente, que por si só produziu o resultado. 
 
15. (TCM-GO - Procurador do Ministério Público de Contas - FCC/2015) A consumação se dá nos 
crimes 
(A) de mera conduta, com a ocorrência do resultado naturalístico. 
(B) omissivos impróprios com a prática de conduta capaz de produzir o resultado naturalístico. 
(C) permanentes, no momento em que cessa a permanência. 
(D) omissivos próprios, com a simples omissão. 
(E) culposos, com a prática da conduta imprudente, imperita ou negligente 
 
Respostas 
 
01. Resposta: B 
O Código Penal Brasileiro adota o sistema binário em que prevê a infração penal como gênero, o crime 
e a contravenção penal são espécies. É ofensa real ou potencial a um bem jurídico, levando-se em 
consideração os elementos subjetivos do tipo, a ilicitude e a culpabilidade. 
 
02. Resposta: C 
O sujeito ativo é a pessoa que realiza, ainda que indiretamente, o verbo do tipo, ou seja, que pratica a 
ação criminosa. 
 
03. Resposta: A 
Nos termos do art. 13 do CP - O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável 
a quem lhe deu causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido 
 
04. Resposta: A 
A sequência correta é: (II) desistência voluntária e arrependimento eficaz; (IV) crime impossível; (I) 
crime tentado e (III) arrependimento posterior. 
 
05. Resposta: C 
A desistência voluntaria ocorre quando o agente inicia a execução do crime mas não prossegue até a 
consumação por ato de vontade. Desse modo, o agente responde somente pelos atos já praticados, 
ficando afastada a sua punição pela tentativa da infração penal por ele pretendida inicialmente. 
Art. 15 - O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou impede que o resultado 
se produza, só responde pelos atos já praticados. 
 
06. Resposta: B 
Segundo previsto no art. 15, do Código Penal, os dois institutos, a desistência voluntária e o 
arrependimento eficaz são espécies de tentativa qualificada ou tentativa abandonada. 
Art. 15 – O agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou impede que o resultado 
se produza, só responde pelos atos já praticados. 
Assim, o arrependimento posterior é causa obrigatória de redução de pena aplicável aos crimes 
cometidos sem violência ou grave ameaça, em que o agente, por ato de vontade, repara o dano ou 
restituiu a coisa antes do recebimento da denúncia ou queixa. 
 
 
 
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07. Resposta: C 
O arrependimento posterior está previsto no art. 16, do Código Penal e segundo este dispositivolegal, 
fica configurado o arrependimento posterior na alternativa C. 
Art. 16 - Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída 
a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida 
de um a dois terços. 
 
08. Resposta: B 
No Arrependimento Eficaz, o sujeito após esgotar seu plano executório por ato voluntário atua de forma 
eficiente a impedir a consumação. 
Já na desistência voluntária, há o início da execução, e o sujeito por ato voluntário desiste de nela 
prosseguir, impedindo a consumação. Se a vítima tivesse entregue a carteira ao sujeito e após esta 
entrega, este a tivesse devolvido, estaríamos num caso típico de arrependimento eficaz. 
Portanto, a diferença reside no fato de que na desistência basta a omissão do sujeito em prosseguir a 
execução enquanto no arrependimento é necessária conduta positiva para impedir a consumação. 
 
09. Resposta: C 
Dolo é a vontade e a consciência de realizar os elementos constantes do tipo legal. Dispõe o art. 18, I 
do Código Penal: 
Art. 18 - Diz-se o crime: 
Crime doloso 
I - doloso, quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo. 
 
10. Resposta: C 
No crime culposo, o agente não quer nem assume o risco de produzir o resultado, mas a ele dá causa. 
O art. 18, II do Código Penal assim prevê: 
Art. 18 - Diz-se o crime: 
Crime culposo 
II - culposo, quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligencia ou imperícia. 
Parágrafo único - Salvo os casos expressos em lei, ninguém pode ser punido por fato previsto como 
crime, senão quando o pratica dolosamente. 
Culpa consciente ocorre quando o agente prevê o resultado, mas espera que ele não ocorra. Nesta, 
existe a previsão do resultado, porém, o agente acredita que pode evitar o resultado por meio de sua 
habilidade. 
 
11. Resposta: C 
No crime culposo, o agente não quer nem assume o risco de produzir o resultado, mas a ele dá causa. 
O art. 18, II do Código Penal assim dispõe: 
Art. 18 - Diz-se o crime: 
Crime culposo 
II - culposo, quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligencia ou imperícia. 
Parágrafo único - Salvo os casos expressos em lei, ninguém pode ser punido por fato previsto como 
crime, senão quando o pratica dolosamente. 
 
12. Resposta: B 
Os crimes materiais ou de resultado são aqueles que somente se consumam se ocorrer uma alteração 
material. Por exemplo, o homicídio é um crime material, pois só se consuma com a morte da vítima. Os 
crimes omissivos impróprios são considerados crimes materiais, haja vista que sempre requerem a 
existência de um resultado naturalístico. 
 
13. Resposta: A 
O Fato típico pode ser conceituado como ação ou omissão humana, antissocial que, norteada pelo 
princípio da intervenção mínima, consiste numa conduta produtora de um resultado, que se submete ao 
modelo de conduta proibida pelo Direito Penal, seja crime ou contravenção penal. Do seu conceito extrai-
se seus elementos, sendo: conduta, nexo causal, resultado, tipicidade. 
 
 
 
 
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14. Resposta: E 
Nas causas absolutamente independentes o agente responderá apenas pelos atos praticados e nunca 
pelo resultado, ante a falta de relação de causalidade. Já as causas relativamente independentes, por 
sua vez, têm origem na conduta do agente e, por isso, são relativas: dependem da atuação do agente 
para existir. Ambas podem ser preexistentes (a causa é anterior a conduta), concomitantes (a causa é 
simultânea) e supervenientes (a causa é posterior). Neste contexto, na hipótese apresentada estamos 
diante de uma causa superveniente relativamente independente, que por si só produziu o resultado, posto 
que embora a vítima estivesse ferida pela conduta do agente, sua morte foi em razão de outra causa 
(falta de cuidado). 
 
15. Resposta: D 
A consumação dos crimes mencionados na questão acontece: 
A) Crimes de mera conduta: se dá com a simples ação; (Exemplo: violação de domicílio). 
B) Crimes omissivos impróprios: a consumação se verifica com a produção do resultado, visto que a 
simples conduta negativa não o perfaz, exigindo-se um evento naturalístico posterior; (Exemplo: é o que 
acontece quando a mãe de uma criança deixa de alimentá-la, provocando a sua morte. Neste caso, a 
mãe responderá pelo crime de homicídio, já que tinha o dever jurídico de alimentar seu filho). 
C) Crimes permanentes: a consumação ocorre desde o instante em que se reúnem os seus elementos 
até que cesse o comportamento do agente; (Exemplo: no sequestro, previsto no artigo 148 do Código 
Penal, o delito se consuma já com a retirada da liberdade da vítima e continua consumando-se enquanto 
a vítima permanecer em poder do agente). 
D) Resposta correta: Crimes omissivos próprios: a consumação ocorre com o simples comportamento 
negativo (ou ação diversa), não se condicionando à produção de um resultado ulterior. O momento 
consumativo ocorre no instante da conduta. (Exemplo: omissão de socorro) 
E) Crimes culposos: a consumação ocorre com a produção do resultado; (Exemplo: homicídio culposo, 
o momento consumativo é quando se verifica a morte da vítima). 
 
 
 
Pelo que dispõe nosso ordenamento os erros são classificados como essenciais e acidentais seguindo 
a chamada teoria limitada da culpabilidade. 
Os erros essenciais são aqueles que se referem aos elementos essenciais do conceito de crime, 
quais sejam: o erro de tipo incriminador (Art. 20, CP), o erro de tipo permissivo (Art. 20, §1º, CP) e o erro 
de proibição (Art. 21, CP). 
Os erros acidentais ligados a falhas na realização do crime em que se atinge pessoa diversa da 
pretendida (erro de execução ou aberratio ictus – Art. 73, CP; erro sobre a pessoa – Art. 20, §3º, CP), e 
ainda, quando se afeta bem jurídico diverso do pretendido (aberratio criminis – Art. 74, CP). 
 
1. ERRO DE TIPO INCRIMINADOR (ARTIGO 20 DO CÓDIGO PENAL) 
 
O erro de tipo incriminador ocorre quando o agente erra a respeito de um elemento fático, objetivo 
que compõe o tipo penal que descreve um crime, logo havendo erro sobre um elemento objetivo do tipo 
penal não haverá intenção do agente de praticar a conduta em relação ao que está previsto na norma 
penal. Por esse motivo, a consequência do erro de tipo é afastar o dolo, possibilitando, em alguns 
casos, que ele responda na forma culposa. 
Exemplo: “A” atira em um animal e acerta uma pessoa. Neste caso houve erro de tipo, pois o agente 
errou acerca de “alguém” do tipo penal “matar alguém” (art 121 do CP), ou seja, errou acerca de elemento 
objetivo do tipo penal, motivo pelo qual afasta-se o dolo do tipo penal de homicídio. 
 
O erro de tipo tem duas subdivisões: 
a) erro de tipo inevitável, invencível ou escusável: Ocorre quando independentemente do 
cuidado que o agente tenha tido ao atuar, o erro era inevitável, motivo pelo qual é considerado 
escusável, ou seja, desculpável. 
Assim, o agente errou a respeito de um elemento objetivo do tipo penal, afastando-se o dolo. 
9 Erro. 9.1 Descriminantes putativas. 9.2 Erro determinado por 
terceiro. 9.3 Erro sobre a pessoa. 9.4 Erro sobre a ilicitude do fato 
(erro de proibição). 
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Além disso, pelo fato de não existir a possibilidade do agente não ter errado (erro inevitável), afasta-
se também a culpa, pois o erro não decorreu de falta de cuidado, falta de atenção. Desta forma, não 
havendo dolo, nem culpa, o fato é considerado atípico. 
 
b) erro de tipo evitável, vencível ou inescusável: O erro é considerado evitável, e portanto, 
vencível e inescusável, pois o agente poderia não ter errado se tivesse agido com mais cuidado e 
atenção. 
Neste caso, também afasta-se o dolo, pois é a consequênciado erro de tipo de um modo geral, mas 
não afasta a culpa, que permanece, pois o agente poderia ter evitado o erro com mais cuidado e atenção. 
Importante ressaltar que o crime não é punido a título de dolo, mas é punido a título de culpa, mas 
somente se houver no tipo penal a previsão expressa da modalidade culposa. 
 
2. ERRO DE TIPO PERMISSIVO (ARTIGO 20, §1º DO CÓDIGO PENAL) 
 
O erro de tipo permissivo incide também sobre elementos objetivos do tipo penal, assim como no 
erro de tipo incriminador, contudo, este recai sobre elemento de um tipo penal permissivo, ou seja, uma 
excludente de ilicitude. 
As consequências deste erro são equiparadas aos do erro de tipo incriminador, quais sejam, 
afastar o dolo e a culpa se o erro for inevitável e, afastar somente o dolo, punindo-se a forma culposa 
quando o erro for evitável. 
Exemplo: “A” acredita que está sendo agredido por “B” e age acreditando estar em legítima defesa, 
mas não está, pois na verdade não existe agressão. 
Este erro dá origem as chamadas DESCRIMINANTES PUTATIVAS, devido a um erro fático sobre um 
situação concreta justificante, que divide-se em duas espécies: 
a) erro de tipo permissivo inevitável (invencível ou escusável): Ocorre quando o erro é inevitável 
independentemente do cuidado e atenção do agente ao agir, e portanto, é desculpável. 
Assim, afasta-se o dolo e culpa, motivo pelo qual o fato será considerado atípico. 
 
b) erro de tipo permissivo evitável (vencível e inescusável): Neste caso, o agente poderia não ter 
errado se tivesse agido com mais cuidado e atenção, motivo pelo qual o erro é considerado evitável e 
não merece desculpas. 
Assim, o dolo será afastado, mas o crime será punido na modalidade culposa, se houver previsão 
legal. 
 
A culpa decorrente de erro de tipo permissivo evitável é chamada pela doutrina de CULPA 
IMPRÓPRIA, pois em essência na hipótese de uma legítima defesa putativa, por exemplo, o crime na 
verdade não é culposo, pois o agente agiu com dolo (intenção) de realizar o fato, pois o dolo esta 
relacionado com a conduta típica praticada, neste caso, “matar alguém”, mesmo que realizada em uma 
legítima defesa putativa ou real. Contudo, como a lei manda afastar o dolo e punir o fato a título de culpa, 
afirma-se que na verdade trata-se de um crime doloso impropriamente tratado e punido de culposo, devido 
ao erro de tipo permissivo (culpa imprópria). Nestes casos, de culpa imprópria, é que a maioria da 
doutrina afirma existir a possibilidade de se falar em tentativa de crime culposo, quando, atuando em 
legítima defesa putativa, o agente atua querendo matar o suposto agressor, porém erra o disparo. Logo, 
pode-se falar que houve uma tentativa de homicídio doloso, que será punido como culposo em função do 
erro de tipo permissivo evitável, gerando assim uma “tentativa de homicídio culposo” (crime de homicídio 
culposo com a pena diminuída pela tentativa). Entretanto, este entendimento deve ser visto com 
ressalvas, pois neste caso na verdade o crime é doloso, apenas impropriamente punido a título de culpa, 
e em essência, não se trata de exceção à impossibilidade da tentativa em crimes culposos, apenas uma 
consequência desta categoria de erro, em que a conduta dolosa tentada será punida a título de culpa. 41 
 
3. ERRO DE PROIBIÇÃO (ARTIGO 21 DO CÓDIGO PENAL) 
 
O erro de proibição ocorre quando o erro recai sobre a consciência da ilicitude do fato, ou seja, o 
agente não tem consciência da ilicitude do fato e nem mesmo potencial conhecimento da ilicitude. 
Neste caso, o erro recai sobre elemento que compõe a culpabilidade, motivo pelo qual pode afastar 
ou diminuir o juízo de reprovação. 
Este erro também se subdivide em dois, quais sejam: 
 
41 RODRIGUES, Cristiano. Direito Penal. Parte Geral. Vol. 1. Editora Impetus. 2012. 
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a) erro de proibição inevitável (invencível e escusável): Se o erro de proibição é inevitável, significa 
dizer que o agente não conhecia, nem podia conhecer o caráter ilícito do fato. Desta forma, não há 
culpabilidade, logo, não há crime, já que nem mesmo há potencial consciência da ilicitude. 
 
b) erro de proibição evitável (vencível ou inescusável): Neste caso, o agente tem potencial 
consciência da ilicitude (podia conhecer o caráter ilícito do fato), motivo pelo qual há crime. Entretanto, 
pelo fato do agir com erro, apenas tendo a possibilidade de conhecimento da ilicitude da conduta que 
praticou, terá sua pena reduzida de 1/6 e 1/3. 
Importante ressaltar que o erro de proibição não afasta o dolo da conduta realizada. 
 
3.1. ERRO DE PROIBIÇÃO DIRETO OU INDIRETO 
- Direto: o agente de forma imediata valora sua conduta erroneamente como lícita, ou seja, erra 
diretamente acerca da proibição. Exemplo: Corta-se um pedaço de árvore para fazer chá e é punido por 
crime ambiental (Desconhecimento Direto). 
- Indireto: o agente chega indiretamente a conclusão de que a conduta é lícita por acreditar que está 
é permitida, ou seja, primeiro acredita que é permitida, chegando posteriormente a conclusão de que sua 
conduta é lícita. Este erro também e chamado de erro de permissão. Exemplo: quando o agente dispara 
5 tiros pelas costas de um indivíduo que estava furtando sua casa, acreditando estar agindo em legítima 
defesa (situação fática leva a crer na licitude da conduta), contudo, resta evidente que houve excesso na 
legítima defesa. 
 
Artigos relacionados: 
 
Erro sobre elementos do tipo 
Art. 20 - O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição 
por crime culposo, se previsto em lei. 
 
Descriminantes putativas 
§ 1º - É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de 
fato que, se existisse, tornaria a ação legítima. Não há isenção de pena quando o erro deriva de culpa e 
o fato é punível como crime culposo. 
 
Erro sobre a ilicitude do fato 
Art. 21 - O desconhecimento da lei é inescusável. O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta 
de pena; se evitável, poderá diminuí-la de um sexto a um terço. 
Parágrafo único - Considera-se evitável o erro se o agente atua ou se omite sem a consciência da 
ilicitude do fato, quando lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência. 
 
4. ERROS ACIDENTAIS 
 
4.1. Erro determinado por terceiro (Artigo 20, §2º do Código Penal): Responde pelo crime o terceiro 
que determina o erro. Quando alguém comete um crime por estar em erro a respeito dos fatos, iludido 
por outra pessoa, não comete crime, sendo que somente responderá aquele que iludiu, induziu o agente 
em erro, pois a pessoa que praticou a conduta não tinha o domínio dos fatos, motivo pelo qual não pode 
ser considerado autor do crime. 
O terceiro que induziu determinada pessoa ao erro é chamado autor mediato do crime praticado e 
responde pelo crime. 
Este erro acidental tem natureza de erro de tipo, pois diz respeito a elementos objetivos do tipo penal, 
motivo pelo qual terá os mesmos efeitos já mencionados quanto aos erros de tipo, nos casos de erro 
evitável e inevitável. 
Outrossim, o erro determinado por terceiro por acontecer na modalidade de erro de proibição direto ou 
indireto, quando o terceiro induz o agente com relação a não proibição de determinada conduta ou quanto 
a existência de norma que autorize o ato a ser praticado. Nestes casos, terá os efeitos previstos no erro 
de proibição. 
Importante ressaltar que o terceiro determinante do erro responde pelo crime praticado. 
 
 
 
 
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4.2. Erro quanto à pessoa (Artigo 20, §3º do Código Penal): Assim, prevê o dispositivo legal: 
Erro sobre a pessoa 
§ 3º - O erro quanto à pessoa contraa qual o crime é praticado não isenta de pena. Não se consideram, 
neste caso, as condições ou qualidades da vítima, senão as da pessoa contra quem o agente queria 
praticar o crime. 
 
No caso do erro quanto a pessoa ocorre um equívoco na valoração do autor quanto “quem é” a 
pessoa a ser atingida, isto é, o agente se engana a respeito da identidade de sua vítima. Contudo, a 
conduta será perfeita e atingirá o alvo visado sem qualquer desvio ou equívoco. Exemplo: “A”, com a 
intenção de matar “B”, efetua disparos de arma de fogo contra “C”, irmão gêmeo de “B”, confundindo-o 
com aquele que efetivamente queria matar. 
Quando ocorrer o erro sobre a pessoa, serão aplicadas todas as circunstâncias como se o erro não 
tivesse acontecido, ou seja, as qualificadoras, agravantes, atenuantes, causas de aumento e diminuição 
de pena etc., devem ser aplicadas como se o crime tivesse sido praticado contra quem o autor 
efetivamente pretendia atingir com sua conduta. 
 
O autor Cristiano Rodrigues, traz um macete interessante para entender e não confundir esse erro, 
qual seja:42 
“Podemos dizer que o erro sobre a pessoa é o “erro do irmão gêmeo”, ou o “erro do baile de 
máscaras”, pois o agente acerta o alvo visado objetivamente, mas se equivoca quanto a identidade 
deste” 
 
4.3. Aberratio Ictus (Erro de Execução) – Artigo 73 do Código Penal 
 
Erro na execução 
Art. 73 - Quando, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, o agente, ao invés de atingir a 
pessoa que pretendia ofender, atinge pessoa diversa, responde como se tivesse praticado o crime contra 
aquela, atendendo-se ao disposto no § 3º do art. 20 deste Código. No caso de ser também atingida a 
pessoa que o agente pretendia ofender, aplica-se a regra do art. 70 deste Código. 
 
Erro na Execução é a “aberração no ataque”, em relação à pessoa a ser atingida pela conduta 
criminosa. O agente não se engana quanto a pessoa que desejava atacar, mas age de modo desastrado, 
errando o seu alvo e acertando pessoa diversa. Queria praticar um crime determinado, e o fez. Errou 
quanto à pessoa: queria atingir uma, mas acaba ofendendo outra. 
Importante ressaltar, que o autor não se engana com relação a identidade da vítima, mas erra nos 
meios de execução do crime, seja em sua conduta ou por fatores independentes de sua vontade, motivo 
pelo qual erra o alvo e atinge pessoa diversa da que pretendia atingir. 
Um exemplo comum deste tipo de erro é a “bala perdida”, quando o agente queria atingir determinada 
pessoa, atira em direção a ela, mas erra, e atinge pessoa diversa que nada tem relação com o evento. 
Existem duas espécies de Aberratio Ictus, quais sejam: 
a) Com unidade simples ou com resultado único: é a situação descrita pelo art. 73, 1.ª parte, do 
Código Penal, na qual o agente atinge unicamente a pessoa diversa da desejada. A vítima virtual não 
suporta qualquer tipo de lesão. A lei “faz de conta” que a vítima real era a vítima virtual. Logo, trata-se de 
erro de tipo acidental e irrelevante.43 
 
b) Com unidade complexa ou com resultado duplo: é a situação descrita pelo art. 73, parte final, 
do Código Penal, na qual o sujeito, além de atingir a pessoa inicialmente desejada, ofende também 
pessoa ou pessoas diversas. Sua conduta enseja dois resultados: o originariamente pretendido e o 
involuntário. Ex.: no caso em que o projétil perfura o corpo de um vítima para alojar-se no corpo de outra 
vítima. Nessa hipótese, determina o Código Penal a aplicação da regra do concurso formal próprio ou 
perfeito (CP, art. 70, caput, 1ª parte): o magistrado utiliza a pena do crime mais grave, aumentando-a de 
1/6 (um sexto) até a ½ (metade). O percentual de aumento varia de acordo com o número de crimes 
produzidos a título de culpa. 44 
Importante ressaltar que também se aplica o concurso formal próprio ou perfeito no erro na execução 
com unidade complexa, quando as demais pessoas forem atingidas culposamente. 
 
 
42 idem 
43 MASSON, Cleber. Direito Penal. Parte Geral. Vol. 1. 8ª edição. Ed. Método. 2014. 
44 idem 
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. 89 
Importante: com relação as demais pessoas ofendidas, se não for culposamente, mas sim, com 
dolo eventual (assume o risco), aplica-se a regra do concurso forma impróprio ou imperfeito (sistema 
do cúmulo material), no qual somam-se as penas, pois deriva de desígnios autônomos a pluralidade 
de resultados, ou seja, há dolos diversos para produção dos resultados. 
 
4.4. Aberratio Criminis (Erro quanto ao resultado) – Artigo 74 do Código Penal 
 
Resultado diverso do pretendido 
Art. 74 - Fora dos casos do artigo anterior, quando, por acidente ou erro na execução do crime, 
sobrevém resultado diverso do pretendido, o agente responde por culpa, se o fato é previsto como crime 
culposo; se ocorre também o resultado pretendido, aplica-se a regra do art. 70 deste Código. 
 
Erro quanto ao resultado (Aberratio Criminis ou aberratio delicti), ocorre quando por erro na execução 
ou por acidente, ocorre resultado diverso do pretendido, ou seja, o agente tinha a intenção de cometer 
determinado crime, mas por erro acaba cometendo crime diverso. 
Enquanto no Aberratio Ictus o resultado diverso do pretendido tem relação de pessoa x pessoa, no 
Aberratio Criminis a relação é de crime x crime. 
Exemplo: o sujeito atira um pedra para quebrar uma vidraça (Art. 163 do Código Penal: crime de dano), 
mas, por erro na execução, atinge uma pessoa que passava pela rua, lesionando-a (Art. 129, do Código 
Penal: lesão corporal).45 
Este erro também se divide em duas espécies46: 
a) com unidade simples ou com resultado único: prevista no art. 74, 1.ª parte, do Código Penal. 
Nessa situação, o agente atinge somente bem jurídico diverso do pretendido. É o que se dá no exemplo 
mencionado. E o dispositivo legal é claro: “o agente responde por culpa, se o fato é previsto como crime 
culposo”. Assim, será imputado apenas e crime de lesão corporal culposa. 
 
b) com unidade complexa ou resultado duplo: prevista no artigo 74, 2.ª parte, do Código Penal. 
Nessa situação, a conduta o agente atinge o bem jurídico desejado e também bem jurídico diverso, 
culposamente. No exemplo, o sujeito quebra a vidraça e também fere a pessoa. Utiliza-se a regra do 
concurso formal, aplicando-se a pena do crime mais grave, aumentada de 1/6 (um sexto) até 1/2 (metade), 
variando o aumento de acordo com o número de crimes produzidos a título de culpa. 
 
Atenção! 
Não se usa a regra do artigo 74 se o crime não tem a modalidade culposa ou se o crime 
culposo for menos grave. 
Exemplo: se “A” efetua disparos de arma de fogo contra “B” para matá-lo, mas não o acerta e 
quebra uma vidraça, a sistemática do resultado diverso do pretendido implicaria a absorção da 
tentativa branca ou incruenta de homicídio pelo dano culposo. Como o dano não admite a modalidade 
culposa, a conduta seria atípica. E, ainda que o legislador tivesse incriminado o dano culposo, tal delito 
não seria capaz de absorver o homicídio tentado. Deve ser imputado ao agente, pois, o crime de 
tentativa de homicídio doloso. 
 
Regra para facilitar o entendimento: 
- Erro de coisa para pessoa: acontece quando o agente quer atingir um bem material (coisa), mas 
acaba atingindo uma pessoa. Neste caso aplica-se a pena do crime cujo resultado se produziu, ou seja, 
crime culposo contra a pessoa, ignorando a tentativa do crime doloso quanto à “coisa”. 
Exemplo: “A” joga pedra na janela do seu inimigo para quebrar a vidraça (crime de dano), mas erra e 
acerta a mulher de seu desafeto que estava dentro da casa (lesão corporal culposa). 
- Erro de pessoa para coisa: quando o agente quer atingir uma pessoa, mas acaba atingindo um bem 
material (coisa). Neste caso, aplica-se a pena de tentativa de crime contra a pessoa visadoinicialmente 
pelo agente, não punindo-se o resultado de lesão a “coisa”, tendo em vista que não há modalidade 
culposa para o crime de dano. 
Exemplo: “A” quer lesionar seu inimigo e joga uma pedra em sua direção (tentativa de lesão corporal), 
mas erra e atinge a janela de um carro. 
 
 
45 MASSON, Cleber. Direito Penal. Parte Geral. Vol. 1. 8ª edição. Ed. Método. 2014. 
46 idem 
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. 90 
COISA PARA PESSOA Aplica-se concurso formal no caso de resultado complexo 
PESSOA PARA COISA 
Não se aplica o concurso formal no caso de resultado complexo, 
pois não há a modalidade culposa no crime de dano. 
 
Questões 
 
01. (Secretaria da Criança/DF - Especialista Socioeducativo - FUNIVERSA/2015) Alícia, 
estrangeira, grávida de três meses e proveniente de país que não coíbe o aborto, ingeriu substância 
abortiva acreditando não ser proibido fazê-lo no Brasil. Nesse caso hipotético, o fato descrito poderá 
configurar. 
(A) erro de tipo. 
(B) erro na execução. 
(C) erro de proibição. 
(D) aberratio criminis. 
(E) descriminante putativa. 
 
02. (TJ/SE - Juiz Substituto - FCC/2015) A, cidadão americano, vem para o Brasil em férias, trazendo 
alguns cigarros de maconha. Está ciente que mesmo em seu país o consumo da substância não é 
amplamente permitido, mas, como possui câncer em fase avançada, possui receita médica emitida por 
especialista americano para utilizar substâncias que possuam THC. Ao passar pelo controle policial do 
aeroporto, é detido pelo crime de tráfico de drogas. Nesta situação, é possível alegar que A encontrava-
se em situação de erro de: 
(A) tipo. 
(B) tipo permissivo. 
(C) proibição direto. 
(D) proibição indireto. 
(E) tipo indireto. 
 
03. (TJ/AC – Juiz Leigo – TJ/AC/2012) Assinale a alternativa correta: 
(A) O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por 
crime culposo, se previsto em lei. 
(B) O erro sobre elemento constitutivo do tipo penal não exclui o dolo, mas exclui a culpa. 
(C) O erro quanto à pessoa contra a qual o crime é praticado não isenta de pena, devendo ser 
consideradas as condições ou qualidades da vítima da infração. 
(D) O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, não isenta de pena, mas poderá diminuí-la de um 
sexto a um terço. 
 
04. (MPE/SP - Promotor de Justiça – MPE/SP/2012) Motorista que, em estacionamento, se apodera 
de veículo pertencente a terceiro supondo-o seu, em decorrência de absoluta semelhança entre os 
automóveis, incide em 
(A) erro de proibição. 
(B) erro de tipo. 
(C) crime impossível. 
(D) erro determinado por terceiro. 
(E) erro na execução. 
 
Respostas 
 
01. Resposta: “C” 
Neste caso a estrangeira tem total conhecimento do que pratica, porém não imagina ser esta ação 
uma conduta delituosa, assim, caracteriza o “erro de proibição”. Cabe destacar que a diferença entre erro 
de tipo e erro de proibição está na percepção da realidade, pois naquele (Erro de Tipo) o agente não sabe 
o que faz, tendo uma visão distorcida da realidade, enquanto neste (Erro de Proibição) a pessoa sabe 
perfeitamente o que faz, existindo um perfeito juízo sobre tudo o que está se passando, mas há uma 
errônea apreciação sobre a antijuridicidade. 
 
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. 91 
02. Resposta: “D” 
No erro de proibição indireto o agente chega indiretamente a conclusão de que a conduta é lícita por 
acreditar que está é permitida. Este erro também e chamado de erro de permissão. 
 
03. Resposta: “A” 
O erro sobre elementos do tipo está previsto no art. 20, do Código Penal e dispõe que: 
Art. 20 - O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição 
por crime culposo, se previsto em lei. 
No erro de tipo, o agente não quer cometer o crime, mas por erro comete-o. 
 
04. Resposta: “B” 
A conduta praticada pelo motorista incide em erro de tipo, uma vez que o agente erra a respeito de 
um elemento fático, objetivo que compõe o tipo penal que descreve um crime, logo havendo erro sobre 
um elemento objetivo do tipo penal não haverá intenção do agente de praticar a conduta em relação ao 
que esta previsto na norma penal. 
 
 
 
O concurso de crimes é um instituto criado pelo legislador para que o tempo de tramitação processual 
em relação os crimes cometidos por um mesmo agente ativo fosse diminuído significativamente, assim 
como a realização da fixação de pena, de maneira que, o agente pudesse ter sua sentença em somente 
um processo. Resumidamente, nas palavras de Fernando Capez, o conceito de concurso de crime é a 
“ocorrência de dois ou mais delitos, por meio da prática de uma ou mais ações”. Para que o concurso de 
crimes possa acontecer, o agente deverá cometer mais de um crime mediante uma ou mais ação ou 
omissão. 
Assim, ocorre o concurso de crimes quando existem duas ou mais infrações ligadas entre si de alguma 
forma. O concurso de crimes tem consequência na aplicação da pena de acordo com quatro sistemas 
apresentados pela doutrina que são: 
1- cúmulo material: através do qual haverá a soma das penas de cada uma das infrações que compõe 
o concurso; 
2- cúmulo jurídico: através do qual a pena aplicada deverá ser mais grave, sem, entretanto, atingir a 
soma delas; 
3- absorção: através do qual deverá ser aplicada somente a pena do delito mais grave, desprezando-
se os demais; e 
4- exasperação: através do qual, se aplica a pena mais grave, aumentada de certa quantidade pela 
ocorrência dos demais crimes. 
 
O concurso pode ser material, formal ou vir na forma de crime continuado. 
a) Concurso material: previsão: artigo 69 do C.P. 
Ocorre o concurso material quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou 
mais crimes da mesma natureza (homogêneo) ou de natureza distinta (heterogêneo). Quando ocorre o 
concurso material o sistema utilizado para aplicação da pena é o cúmulo material, ou seja, a soma das 
penas de cada delito, depois de serem individualizadas. O regime mais grave entre os aplicados, deverá 
ser cumprido em primeiro lugar. 
 
b) Concurso formal: previsão: artigo 70 do C.P. 
Ocorre o concurso formal quando o agente mediante uma só ação ou omissão, comete dois ou mais 
crimes idênticos ou não. Neste caso, será aplicada a pena mais grave cabível, se os crimes forem distintas 
(heterogêneos) ou apenas uma delas se as infrações forem iguais (homogêneos), mas em um ou em 
outro caso, elas serão aumentadas de 1/6 (um sexto) até a ½ (metade). A aplicação da pena nos casos 
segue o sistema da exasperação. 
 
Unidade de conduta não significa unidade de atos, verificando-se a unidade por dois fatores: 
a- final: que ocorre quando se verifica a única vontade do agente; e 
b- normativo: quando o ato é único e equivale à conduta e diversos são os resultados. 
 
 
10 Concurso de crimes. 
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. 92 
Se a conduta é única, mas a vontade do agente é obter resultados diversos, têm-se o denominado 
concurso formal impróprio (ou imperfeito), com obtenção de resultado através de desígnios autônomos. 
Neste caso haverá o sistema do cúmulo material, devendo as penas serem somadas. 
Por outro lado haverá concurso formal próprio (ou perfeito) quando o agente pretendia mesmo praticar 
apenas um crime e com apenas uma ação ou omissão dá causa a mais de um crime. No concurso formal 
perfeito, o juiz deverá aplicar uma só pena, se idênticas as infrações, ou a maior, quando não idênticas, 
aumentada de um sexto até a metade em ambos os casos. Ocorre quando não há desígnios autônomos 
em relação a cada crime. 
 
Pode haver caso em que a aplicação do sistema da exasperação ultrapasse o limite daaplicação do 
cúmulo material, neste caso o juiz deverá utilizar o cúmulo material que se denomina benéfico. 
 
Concurso material benéfico: Estatui o parágrafo único do art. 70 do CP que “não poderá a pena 
exceder a que seria cabível pela regra do art. 69 deste Código”. O concurso formal próprio ou perfeito, no 
qual se adota o sistema da exasperação para aplicação da pena, foi criado para favorecer o réu, afastando 
o rigor do concurso material nas hipóteses em que a pluralidade de resultados não deriva de desígnios 
autônomos. Seria contraditório, portanto, que a sua regra, no caso concreto, prejudicasse o agente. 
Assim, quando o sistema da exasperação for prejudicial ao acusado, deve ser excluído, para o fim de 
incidir o sistema do cúmulo material. Fala-se, nesse caso, em concurso material benéfico ou favorável. 
 
c) Crime continuado: previsão: artigo 71 do C.P. 
Ler o artigo, pois oferece definição exata. 
Em relação a sua natureza jurídica diversas teorias foram apresentadas, sendo as principais: 
1- unidade real: que considera um único crime, mas, com diversas violações, sendo estas, 
componentes daquele. 
2- ficção jurídica: que considera diversos delitos unificados por força da lei para fins da aplicação da 
pena (adotado). 
3- mista: que considera o concurso outro crime, não havendo unidade ou pluralidade de delitos. 
Alguns doutrinadores exigem para a ocorrência do crime continuado a unidade de desígnios e que 
cada delito seja realizado sucessivamente. 
A maioria, entretanto, não exige a ocorrência destes fatos, considerando-o como uma realidade 
apurável objetivamente. 
 
O crime continuado possui requisitos, a saber: 
1- existência de duas ou mais condutas: se houver somente uma ação ou omissão, não se fala em 
crime continuado. 
2- pluralidade de resultados: sempre em delitos da mesma espécie, devendo considerar-se crimes da 
mesma espécie aqueles que se assemelham na sua definição e elementos, ou que violem o mesmo 
direito. 
3- nexo na continuidade: verificado através da circunstâncias de tempo, lugar, maneira de execução 
ou outras semelhantes, sem que se obedeça a critérios rígidos ou que haja preponderância entre as 
circunstâncias. 
Divide-se a doutrina na aceitação da continuidade delitiva quando os crimes atingem os chamados 
bens personalíssimos, uns entendendo ser possível e outros entendendo o contrário. Por disposição do 
parágrafo único do artigo 71, que determina um aumento maior de pena nos casos de violência ou grave 
ameaça, é possível o reconhecimento da continuidade delitiva em crimes contra bens personalíssimos. 
Não se pode confundir crime continuado com crime habitual (a conduta necessita de reiteração) ou 
permanente (consumação se prolonga no tempo). 
Também foi adotado, neste caso, para efeito de aplicação da pena, o sistema da exasperação, com 
aumento de 1/6 a 2/3. 
As penas de multa, aplicadas ao caso, serão integrais e distintas, não havendo exasperação. 
 
Dispositivos do Código Penal acerca do tema: 
 
Concurso material 
Art. 69 - Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, 
idênticos ou não, aplicam-se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido. No 
caso de aplicação cumulativa de penas de reclusão e de detenção, executa-se primeiro aquela. 
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§ 1º - Na hipótese deste artigo, quando ao agente tiver sido aplicada pena privativa de liberdade, não 
suspensa, por um dos crimes, para os demais será incabível a substituição de que trata o art. 44 deste 
Código. 
§ 2º - Quando forem aplicadas penas restritivas de direitos, o condenado cumprirá simultaneamente 
as que forem compatíveis entre si e sucessivamente as demais. 
 
Concurso formal 
Art. 70 - Quando o agente, mediante uma só ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos 
ou não, aplica-se-lhe a mais grave das penas cabíveis ou, se iguais, somente uma delas, mas aumentada, 
em qualquer caso, de um sexto até metade. As penas aplicam-se, entretanto, cumulativamente, se a ação 
ou omissão é dolosa e os crimes concorrentes resultam de desígnios autônomos, consoante o disposto 
no artigo anterior. 
 Parágrafo único - Não poderá a pena exceder a que seria cabível pela regra do art. 69 deste Código. 
 
Crime continuado 
Art. 71 - Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da 
mesma espécie e, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, devem 
os subsequentes ser havidos como continuação do primeiro, aplica-se-lhe a pena de um só dos crimes, 
se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em qualquer caso, de um sexto a dois terços. 
Parágrafo único - Nos crimes dolosos, contra vítimas diferentes, cometidos com violência ou grave 
ameaça à pessoa, poderá o juiz, considerando a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a 
personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias, aumentar a pena de um só dos 
crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, até o triplo, observadas as regras do parágrafo único 
do art. 70 e do art. 75 deste Código. 
 
Multas no concurso de crimes 
Art. 72 - No concurso de crimes, as penas de multa são aplicadas distinta e integralmente. 
 
Questões 
 
01. (DPE/SC - Técnico Administrativo – FEPESE) Assinale a alternativa correta de acordo com o 
Direito Penal. Entende-se por concurso material quando o agente: 
(A) mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não. 
(B) mediante duas ou mais ações ou omissões, pratica o mesmo crime reiteradamente. 
(C) mediante uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não. 
(D) mediante mais de uma ação ou omissão, prática apenas um crime. 
(E) mediante uma ação, pratica dois crimes, idênticos. 
 
02. (PC/CE - Delegado de Polícia Civil de 1ª Classe - VUNESP/2015) Quando o agente, mediante 
uma só ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplica-se-lhe a mais grave das 
penas cabíveis ou, se iguais, somente uma delas, mas aumentada, em qualquer caso, de um sexto até 
metade. Trata-se da definição legal do 
(A) concurso formal. 
(B) concurso material. 
(C) concurso material benéfico. 
(D) princípio da consunção 
(E) crime continuado. 
 
03. (PC/CE - Escrivão de Polícia Civil de 1ª Classe - VUNESP/2015) Sobre o concurso material de 
crimes, o Código Penal estabelece que 
(A) quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos 
ou não, aplicam-se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido. 
(B) quando o agente, mediante uma só omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplicam-
se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido. 
(C) quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos 
ou não, aplica-se a mais grave das penas cabíveis ou, se iguais, somente uma delas, mas aumentada, 
em qualquer caso, de um sexto até dois terços 
(D) quando o agente, mediante uma só ação, pratica dois ou mais crimes, idênticos ou não, aplicam-
se cumulativamente as penas privativas de liberdade em que haja incorrido. 
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(E) quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos 
ou não, aplica-se a mais grave das penas cabíveis ou, se iguais, somente uma delas, mas aumentada, 
em qualquer caso, de um sexto até metade. 
 
Respostas 
 
01. Resposta: A 
A resposta correta é a alternativa “A”, pois está de acordo com o artigo 69 do Código Penal. 
Art. 69 - Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, 
idênticos ou não, aplicam-se cumulativamente

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