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SANEAMENTO BÁSICO II - AULA 4- Prof. Eloá Cristina F. Pelegrino (eloa.pelegrino@unifran.edu.br) UNIFRAN – 2017 8º Período – Curso de Engenharia Civil Disciplina SANEAMENTO BÁSICO II CAPTAÇÃO DE ÁGUA SUPERFICIAL Aula 4 - Captação de água de superfície - Parte II Dispositivos constituintes das captações de água: •Tomada de água (ocorre em todo o tipo de captação). •Barragem de nível ou soleira, (eleva o nível de água do manancial garantindo N.A. mínimo na captação). •Reservatório de regularização de vazão (situações em que a vazão mínima do manancial for menor do que a vazão de captação). • Grades e telas, geralmente presentes em todo o tipo de captação. •Desarenador (caixa de areia), que é utilizado quando o curso de água apresenta transporte intenso de sólidos. Dispositivos constituintes das captações de água: Barragem de regularização de nível (soleira): é um muro de pequena altura (1 a 2 metros) construído no curso de água com a finalidade de dotá-lo de altura de lâmina de água suficiente para a derivação ou captação de suas águas. Aplica-se a cursos de água de superfície cujo nível de água mínimo (NAmin) seja reduzido. Na situação mais simples é construída com blocos de rocha colocados no curso de água (barragem de enrocamento) Captação com barragem de nível: configuração típica Altura: Deve ficar a pelo menos 0,60 m acima do fundo E a pelo menos 0,20 m acima do NA mínimo. Dificilmente é superior a 1,5 m. Base da barragem de nível: Deve resistir ao empuxo da água pelo seu próprio peso. Construída em concreto simples ou em alvenaria de pedra (trabalhar somente à compressão). Usualmente costuma-se adotar para o vertedor da barragem o perfil conhecido como Creager que favorecem o escoamento rápido da vazão ou descarga, impede a ocorrência de efeitos nocivos a estrutura. Perfil Creager para vertedor de barragem Perfil Creager com os eixos X e Y conforme Azeveto Netto et al,1998. Para se obter a vazão que passa por um perfil Creager, ou a altura de sobrelevação (hc) da água sobre a soleira do vertedor com esse perfil, utiliza-se a fórmula proposta por Azevedo Netto (1998): Q= 2,2 . L . H 3/2 em que: Q: vazão que escoa pelo vertedor (m3/s); L: comprimento da soleira do vertedor (m); H: altura da lâmina da água sobre a soleira do vertedor (m) = (hc no caso de vazão de cheia). Método prático (perfil Creager): usar os valores da tabela seguinte válidos hc = 1m Para outros valores de hc (altura máxima da lâmina de água sobre a soleira do vertedor ): os valores dessa tabela devem ser multiplicados pelo valor real de hc. Perfil Creager para vertedor de barragem Barragem de nível da Captação Rio Canoas – Franca/SP Grades e telas: são dispositivos para reterem materiais flutuantes ou em suspensão de maiores dimensões. Grades: são constituídas de barras paralelas. a impedir a passagem de materiais Destinam-se grosseiros. Telas: são formadas por fios formando malhas. Têm por finalidade reter materiais flutuantes não retidos na grade. As grades grossas devem ser colocadas no ponto de admissão de água na captação, seguidas pelas grades finas e pelas telas. Ou seja, as telas devem ser sempre instaladas após as grades. Existem dois tipos de grades. Grade grosseira: Destinada à retenção de material de dimensões superiores a 7,5 cm Cursos de água sujeitos a regime torrencial. O espaçamento entre as barras paralelas é de 7,5 cm a 15 cm. Grade fina: É utilizada para a retenção de material de dimensões inferiores a 7,5 cm. A distância entre as suas barras paralelas varia entre 2 cm e 4 cm. Espessuras das barras: Grade grosseira: 3/8” (0,95 cm), 7/16” (1,11 cm) ou 1/2” (1,27 cm); Grade fina: 1/4” (0,64 cm), 5/16” (0,79 cm) ou 3/8” (0,95 cm). Quanto maior a altura da grade, maior deve ser sua espessura, para conferir-lhe maior rigidez. CAPTAÇÃO EM MANANCIAIS SUPERFICIAIS Bitolas padronizadas Tipo de grade G rosseira Fina 3/8” (0,95 cm) 1/4" (0,64 cm) 7/16” (1,11 cm) 5/16” (0,79 cm) 1/2” (1,27 cm) 3/8” (0,95 cm) Espessuras padronizadas Tipo de limpeza: • As grades (e também as telas) podem ser de limpeza manual ou mecanizada. Em obras de captação com vazão superior a 500L/s, ou em mananciais que, por suas características, exijam limpeza frequente das grades finas, deve ser estudada a possibilidade de empregar equipamento mecânico. As barras e os fios que constituem as grades e as telas devem ser de material anticorrosivo ou protegido por tratamento adequado. As telas são de uso mais restrito em captações de água. São constituídas por fios metálicos ou material plástico, formando malha com 8 a 16 fios por decímetro da tela. Grades e telas podem ser de limpeza manual ou mecanizada. Os equipamentos de limpeza mecanizada, pelo seu elevado custo, são restritos às captações de grandes vazões (> 1 m3/s). CAPTAÇÃO EM MANANCIAIS SUPERFICIAIS Grades com limpeza manual: inclinação para jusante de 70º a 80º com a horizontal, e passadiço para execução dos serviços de manutenção Dimensionamento das grades e telas (NBR 12213) Área das aberturas da grade: Em relação ao NAmín deve ser igual ou superior a 1,7 cm2 para cada litro por minuto de vazão captada. A velocidade resultante deve ser igual ou inferior a 10 cm/s. Perda de carga: É calculada pela fórmula das perdas de cargas localizadas considerando como obstruída 50% da seção de passagem. ℎ = 𝑘 . 𝑉2 2. 𝑔 A perda de carga nas grades e telas podem ser determinadas através da equação: Coeficiente de perda de carga (k) em grades: k = β.(s/b)1,33.sen.α β: coeficiente adimensional, que é função da forma da barra s: espessura das barras; b: distância livre entre barras; α: ângulo da grade em relação à horizontal. Formas geométricas e coeficiente β das seções transversais das barras de grades Grade na captação de água da cidade de Cardoso Fonte: Zambon e Contrera (2013) Coeficiente de perda de carga (k) em telas: k = 0,55.[(1-ε2)/ε2] ε: porosidade, igual à razão entre a área livre e a área total da tela, sendo: a)para tela de malha quadrada: ε = (1-n.d)2 b)para tela de malha retangular: ε = (1-n1.d1).(1-n2.d2) em que: n, n1, n2: número de fios por unidade de comprimento; d, d1, d2: diâmetro dos fios (mesma unidade utilizada para a definição de n). Desarenador (caixa de areia): É uma instalação complementar Tem por finalidade remover areia da água captada. Segundo a NBR 12213 deve ser utilizada quando o curso de água apresenta transporte intenso de sólidos (concentração ≥ 1,0 g/L). Geralmente são projetados com seção retangular. Utilização obrigatória em captações à superfície da água (NBR 12.213) Na caixa de areia, a água passa com velocidade reduzida, havendo um processo de sedimentação O seu comprimento é pelo menos 3 vezes maior do que a sua largura. Para minimizar a possibilidade de curto circuito da água no seu interior. No seu interior ocorre a chamada sedimentação de partículas discretas. Partículas que não têm alterado o seu tamanho, forma ou peso ao se sedimentarem. O dimensionamento consiste na determinação do comprimento L, necessário para que o grão de areia que estiver entrando na parte superior do desarenador (situação mais desfavorável)nele fique retido ao final do seu movimento descendente até o fundo do desarenador Planta e corte de um desarenador com duas células As partículas de areia tem dois movimentos: Movimento horizontal: Devido à movimentação da água nessa direção. Se faz com velocidade constante (vh), igual à velocidade da água. Movimento vertical: É resultante da ação da força da gravidade. Velocidade de sedimentação (vs) O seu valor é determinado experimentalmente. Velocidade terminal de sedimentação de grãos de areia (g=2650 kgf/m3) Se esse grão de areia em posição mais desfavorável ficar retido, todos os demais grãos com dimensões iguais ou superiores ao primeiro também ficarão. Desenho esquemático para dimensionamento de desarenador Equacionamento: movimento vertical: h = vs.t ⇒ t = h/vs movimento horizontal: L = vh.t ⇒ t = L/vh (1) (2) equação da continuidade: Q = vh (b.h) ⇒ vh =Q/(b.h) (3) Substituindo (2) em (1): 𝑳 𝒗𝒉 = 𝒉 𝒗𝒔 ⇒ 𝑳 = 𝒉. ( 𝒗𝒉 𝒗𝒔 ) (4) (5) (6) Da equação 5: 𝑣𝑠 = 𝑄 (𝑏.𝐿) = 𝑄 𝐴 Sendo A área em planta do desarenador: A = b.L A altura da lâmina de água (h) não interessa para o cálculo do comprimento do desarenador, porque: Se por um lado, a altura menor implica vh maior; Por outro, vh maior implica menor tempo (t) para o movimento desde a superfície até o fundo. A duas variáveis, vh e t, compensam-se e o comprimento L do desarenador permanece o mesmo, qualquer que seja h. Entretanto, a altura da lâmina de água (h) é importante para evitar o arraste da areia, devendo possuir um valor mínimo que possibilite que a velocidade horizontal não seja superior a 0,30 m/s. Existem velocidade duas maneiras de de sedimentação verificar o (vs) para valor da a qual o desarenador foi dimensionado: vs = h/t e vs = Q/A A relação Q/A é conhecida como taxa de escoamento superficial ou, mais simplesmente, taxa de sedimentação. Sua unidade de medida costuma é m3/(m2.dia), equivalente a m/dia (unidade de velocidade). Esta unidade significa que cada 1 m3/dia de vazão do líquido a ser sedimentado requer uma área de sedimentação de 1 m2. Condições para de projeto de desarenadores (NBR 12213): O desarenador deve ser instalado entre a tomada de água e a adutora; Devem existir preferencialmente dois desarenadores, dimensionados, cada qual, para a vazão total, ou seja, um deles deve funcionar como unidade de reserva; O desarenador pode ser dispensado quando se comprovar que o transporte de sólidos sedimentáveis não é prejudicial ao sistema; Os desarenadores devem ser dimensionados para a sedimentação de partículas de areia com vS ≥ 0,021m/s (para reterem partículas com d ≥ 0,2 mm); A velocidade de escoamentohorizontal (vh) deve ser menor ou igual 0,30 m/s; O comprimento do desarenador obtido no cálculo teórico deve ser multiplicado por um coeficiente de segurança de 1,5; A remoção de areia do fundo dos desarenadores pode ser feita hidraulicamente com descargas através de tubulações instaladas no fundo das unidades ou através de equipamentos. O desarenador com remoção por processo manual deve ter: a) Depósito capaz de acumular o mínimo equivalente a 10% do volume do desarenador; b) Largura mínima (B) que facilite a construção, permita acesso e livre movimentação do operador e equipamentos de limpeza Para se obter as outras dimensões da caixa de areia, L, b e h, deve- se considerar: Relação L/b≥ 3, para evitar que curtos circuitos na caixa reduzam sua eficiência; Velocidade de escoamento na caixa menor ou igual a 0,3m/s Largura b ≥0,5m, para possibilitar facilidades de construção e operação; Largura dos desarenadores em função de sua altura Captação no rio Una, com barragem de nível, tomada de água e caixa de areia mecanizada Fonte: Zambon e Contrera (2013) Exercício ≥ Captação de água superficial - Rios Captação superficial em rios - Desafios • Comportamento do ciclo de chuvas • Topografia • Condição do leito e margens • Material flutuante e submerso transportado 42 Captação de água superficial - Rios Captação superficial em rios - Topografia - Deve atender à variação de nível em função da vazão - Problemas com afundamento do canal ou formação de bancos de areia (mudança dos níveis operacionais) 43 Captação de água superficial - Rios Captação superficial em rios - Problemas Construção sobre flutuadores (problemas de projeto, falta de recursos): - Precariedade - Fragilidade - Muita gambiarra - Dificuldades de manutenção em períodos de cheias 60 Sistema de abastecimento existente em Franca Captação: se dá através de seis Estações Elevatória de Água Bruta (EEAB) ao longo dos três sistemas de captação (Rio Canoas, Ribeirão Pouso Alegre e Rio Sapucaí Mirim) Ribeirão Pouso Alegre (Q=260L/s) Rio Canoas (Q=830 L/s) Rio Sapucaí Mirim (Q=1032 L/s) Q95%, que corresponde a vazão que está presente no rio durante, pelo menos, 95% do tempo. AMT= altura manométrica total A Altura manométrica total (AMT) é a resistência total existente para elevar a água desde o ponto de captação até o ponto de utilização. EXERCÍCIO 1-) Dimensionamento de grade (exercício) Dimensionar uma grade para captação de 20 L/s em um ribeirão, utilizando caixa de tomada. O manancial apresenta regime de escoamento torrencial em períodos de chuva, com transporte de sólidos flutuantes de grandes dimensões. As alturas das lâminas de água mínima e máxima do ribeirão sobre a laje de fundo da caixa de tomada (colocada 0,40 m acima do leito do curso de água) são, respectivamente, de 0,30 m e 1,20 m ● Tipo de grade e especificações de suas barras: - Será adotada uma grade do tipo grosseira de limpeza manual, com a seguinte configuração Vista de frente da grade CAPTAÇÃO EM MANANCIAIS SUPERFICIAIS • Especificações de suas barras: - As barras terão espessura (s) de 3/8” (0,95 cm), espaçamento (b) de 10 cm e inclinação com a horizontal (α) de 70º • Tipo de grade e especificações de suas barras: - Foi escolhida para as barras a seção circular (tipo G), e o material utilizado será o aço carbono com pintura anticorrosiva CAPTAÇÃO EM MANANCIAIS SUPERFICIAIS ● Grade tipo G CAPTAÇÃO EM MANANCIAIS SUPERFICIAIS ● Área útil mínima da grade (Au): Deve ser igual ou superior a 1,7 cm² para cada litro por minuto de vazão captada, de modo que a velocidade resultante seja igual ou inferior a 10 cm/s A u 1,7.1200 2 0 4 0 c m 2 = 0 ,204m 2 Au = 0,204 m2 CAPTAÇÃO EM MANANCIAIS SUPERFICIAIS ● Verificação da velocidade entre as barras: + Como Q = 20 L/s = 0,020 m3/s, da equação da continuidade tem-se: CAPTAÇÃO EM MANANCIAIS SUPERFICIAIS ● Largura útil mínima da grade (Bu): + É a largura livre da grade (somando-se os espaçamentos entre as barras). Sabe-se que: A u Bu .Hm i n CAPTAÇÃO EM MANANCIAIS SUPERFICIAIS ● Número mínimo de barras (n): deve ser um número inteiro, com arredondamento para cima CAPTAÇÃO EM MANANCIAIS SUPERFICIAIS CAPTAÇÃO EM MANANCIAIS SUPERFICIAIS ● Largura total mínima da grade: B n.s n 1.b 8.0,95 7.10 77,6 c m = 7 8 c m CAPTAÇÃO EM MANANCIAIS SUPERFICIAIS ● Altura da grade: - Função do NA máximodo curso d’água em relação a laje de fundo da caixa de tomada - Como essa altura é de 1,20 m, e deve-se adotar uma borda livre próxima a 0,20 m H = 1,40 m para a grade CAPTAÇÃO EM MANANCIAIS SUPERFICIAIS ● Altura da grade: CAPTAÇÃO EM MANANCIAIS SUPERFICIAIS ● Perda de carga na grade: - Para grade tipo G, tem-se = 1,79 - Adotou-se um ângulo com a horizontal de 70º CAPTAÇÃO EM MANANCIAIS SUPERFICIAIS - Velocidade V de aproximação na seção a montante da grade, com 50% de obstrução ● Perda de carga na grade: A perda de carga é muito pequena, o que é uma característica das grades grosseiras (grande espaçamento) 0,78. 0,171 0,171² 0,0001097 m = 0,11 mm Leitura complementar: Capítulo 8 – Captação de águas superficiais