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1 
FRANCISCO ADOLFO VARNHAGEN 
 
 
 
 
 
 
 
HISTÓRIA GERAL DO BRASIL 
 
LEITURA BÁSICA 
 
 
 
Antonio Paim (organizador) 
 
 
 
 
 
 
 
 
CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO DO 
PENSAMENTO BRASILEIRO (CDPB) 
2011 
 2 
 
SUMÁRIO 
 
Introdução: Varnhagen e os alicerces da historiografia 
 brasileira – Antonio Paim 
Indicações sobre a transcrição –Antonio Paim 
 
PRIMEIRO SÉCULO (século XVI) 
Texto de Varnhagen 
 
SEGUNDO SÉCULO (século XVII) 
Nota introdutória - Antonio Paim 
Texto de Varnhagen 
 
TERCEIRO SÉCULO (século XVIII) 
Texto de Varnhagen 
 
INDEPENDÊNCIA DO BRASIL 
Texto de Varnhagen 
 
 3 
 
 
 
FRANCISCO ADOLFO DE 
VARNHAGEN 
 
 
 
 
 
 
 
 
H I S T Ó R I A G E R A L D O B R A S I L 
 
 
 
 
 LEITURA BÁSICA 
 
 
 Antonio Paim (organizador) 
 
 
 
 
 
 4 
 
 
 
 
 
 
CENTRO DE COCUMENTAÇÃO 
DO PENSAMENTO BRASILEIRO –
CDPB 
 
 
 2011 
 
 
 
INTRODUÇÃO: Varnhagen e os 
alicerces da historiografia brasileira 
 
Antonio Paim 
 
Francisco Adolfo de Varnhagen (1816/1878) era filho de 
Frederico Guilherme de Varnhagen (1782/1842), alemão de 
nascimento. Seu pai veio para o Brasil contratado como diretor da 
fundição organizada em São João de Ipanema, São Paulo, com a 
denominação de Fábrica de Ferro de Ipanema. Tratava-se de 
iniciativa de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, chefe do primeiro 
governo organizado no Brasil pelo futuro D. João VI. D. Rodrigo 
buscava ciosamente alternativas econômicas. Criou ainda uma outra 
fundição em Minas Gerais. 
 5 
Embora a de Ipanema funcionasse desde 1810, considera-se 
que somente na gestão de Varnhagen (1815 a 1821) é que ocorreria 
a superação da precariedade do material ali produzido. 
Francisco Adolfo de Varnhagen nasceria no segundo ano 
(1816) de permanência do seu pai no Brasil. Presentemente a 
localidade de São João de Ipanema denomina-se Iperó, 
municipalidade resultante dos desmembramentos de Sorocaba. 
Tradicionalmente Varnhagen é dado como tendo nascido nesta 
última cidade. Ele próprio tinha-se nessa conta. Como nutria a 
aspiração de que seus restos mortais viessem a ser enterrados no 
local de seu nascimento, a consumação dessa aspiração teve lugar em 
Sorocaba, como parte das comemorações do primeiro centenário de 
sua morte, ocorrido em 1978. 
Frederico Guilherme de Varnhagen demitiu-se da fundição 
em 1821. Acredita-se que esse gesto deveu-se a desentendimento 
com as autoridades a que se achava subordinado. Formalmente 
anunciou que pretendia assegurar a boa educação do filho, então com 
cinco anos, razão pela qual regressaria à Europa. Radicou-se em 
Portugal, certamente pelo fato de que se casara com portuguesa ( D. 
Maria Flávia de Sá Magalhães) e esta, é de presumir-se, desejaria 
viver junto de sua família. Assinala-se este fato na medida em que 
explica a afeição que o jovem Francisco Adolfo iria revelar pela 
pátria de origem de um dos ramos de seus ancestrais. 
Francisco Adolfo de Varnhagen estudou no Real Colégio 
Militar da Luz, em Lisboa. Quando se dá a transferência de seu pai 
para Portugal (1821), ali recém iniciara, com a Revolução do Porto, 
a transição da monarquia absoluta para a constitucional. Esse 
processo acabaria paralisando o país e levando-o, por fim, à guerra 
civil, que durou de 1828 a 1834. 
Como se sabe, esses acontecimentos tiveram amplo reflexo 
no Brasil, notadamente pelo fato de que, durante o seu transcurso, em 
1826, ocorre o falecimento de D. João VI o que torna D. Pedro I 
herdeiro do trono da nação de que nos dissociaramos, reabrindo a 
discussão em torno da Independência. Acontece que o falecimento 
 6 
do Rei explicita a divergência entre os dois filhos, D. Miguel 
disposto a preservar a monarquia absoluta e D. Pedro a monarquia 
constitucional. Agastado com a emergência de setores hostis à sua 
permanência no trono, D. Pedro opta, em 1831, por assumir a 
liderança anti-miguelista na guerra civil a que nos referimos, 
abdicando da condição de Imperador do Brasil. Talvez essa 
circunstância haja decidido o jovem Varnhagen a participar da luta, 
na tropa liderada por D. Pedro. Em 1834, quando se dá o seu 
desfecho, tinha 18 anos de idade. Como parte dessa carreira militar 
então iniciada, Varnhagen freqüentou a Real Academia de 
Fortificação, concluindo o curso de engenharia militar em 1939, aos 
23 anos de idade. 
Ainda naquela década revelaria a sua verdadeira vocação e o 
tema a que se dedicaria. Entre 1835 e 1838, ocupa-se do texto que 
submeteu à Academia das Ciências de Lisboa, dedicado a Gabriel 
Soares de Sousa, que se tornaria o principal documento relativo ao 
primeiro século da colonização portuguesa no Brasil, cuja autoria 
seria justamente estabelecida por nosso autor. Graças a essa primeira 
contribuição à nossa historiografia, tornou-se sócio correspondente 
da instituição. Para que se tenha, desde logo, idéia da relevância da 
iniciativa, basta por agora indicar que a própria Academia o havia 
publicado, em 1825, sem qualquer alusão ao autor. Por sua 
relevância, voltaremos a considera-lo da forma pormenorizada que 
merece. 
Justamente essa vocação é que o levaria a regressar ao Brasil, 
em 1840. Logo ingressa no Instituto Histórico e Geográfico 
Brasileiro, criado em 1838, passando a integrar o seu núcleo 
dirigente ao assumir o cargo de primeiro secretário. Em 1844, obtém 
a nacionalidade brasileira, sendo admitido no corpo diplomático. 
Como diplomata, serviu em Lisboa e Madrid, nas décadas de 
quarenta e cinquenta, condição de que se valeu para institucionalizar 
o levantamento sistemático da documentação apta a orientar a 
reconstituição de nossa história, atividade que se coroa com a 
primeira versão da História geral do Brasil (1854/57). Em tópico 
 7 
autônomo, iremos considerar mais detidamente como atuou para 
sedimentar tais procedimentos, essenciais à constituição da 
historiografia brasileira, verificada ainda no século XIX. 
Entre 1858 e 1867, Varnhagen serviu em alguns países da 
América do Sul, ocupando-se basicamente da questão dos limites do 
Brasil com seus vizinhos. Atuou, respectivamente, no Paraguai 
(1858/1861), seguindo-se uma curta estada na Venezuela (agosto a 
dezembro, 1861); Equador (dezembro, 1861/abril, 1863); Venezuela 
(abril-setembro, 1863); Peru (outubro-dezembro, 1863); breve estada 
no Chile, entre janeiro e maio de 1864, ocasião em que contrai 
matrimônio com a chilena Carmen Ovalle; volta breve ao Peru 
(junho-setembro, 1864); retorno ao Chile (outubro a dezembro, 
1865) e, por fim, nova e prolongada estada no Peru (dezembro, 1865 
a agosto, 1867). 
Os relatórios que encaminhou ao Itamaraty, dando conta da 
atividade desenvolvida nesses países foram tornados públicos no 
livro Francisco Adolfo Varnhagen. Correspondência ativa, 
coligida e anotada por Clado Ribeiro de Lessa (Rio de Janeiro, 
Instituto Nacional do Livro, 1961, págs. 424-503). Notícia do seu 
conteúdo consta da obra Varnhagen. Subsídios para uma 
bibliografia (São Paulo: Editoras Reunidas, 1982, págs. 364-413) 
da autoria de Hans Juerguem Wilhelm Horsh. 
Encerrou a carreira diplomática como nosso representante em 
Viena, Áustria, onde faleceu (1878), aos 62 anos de idade. 
 
O sentido que deu à sua investigação 
 
No livro que de certa forma coroa os diversos estudos que 
mereceram a obra de Varnhagen --Estado, História, Memória; 
Varnhagen e a construção da identidade nacional (1999)-- ArnoWehling indica que a influência intelectual mais importante nas 
origens do Instituto Histórico seria o historicismo. Naturalmente 
essa vertente teórica tem uma longa trajetória em que revelaria as 
suas sucessivas facetas. Não caberia, nesta oportunidade, cuidar de 
 8 
sua reconstituição, sobretudo tendo em vista que o próprio Arno 
Wehling desincumbiu-se dessa tarefa em outros de seus livros, em 
especial em A invenção da história. Estudos sobre o historicismo 
(1994) 
Creio que não seria simplificação grosseira, assinalar que o 
eixo central da nova visão da história, conhecida com a indicada 
denominação, seria superar a visão escatológica, segundo a qual 
obedeceria a um desígnio da providência, sendo ademais passível de 
previsão. A superação em apreço deu origem à importante linhagem 
que remonta a Giambatista Vico (1668/1744), apropriada pelos 
alemães, a partir de Johann Gottfried Herder (1744/1803). Sua obra 
básica --Idéias para a filosofia da história humana--, publicada em 
quatro volumes entre 1784 e 1791-- iria influenciar grandemente a 
historiografia do ciclo subseqüente, marcado pelo apogeu dos 
grandes filósofos Kant e Hegel. A estrela que despontaria sobretudo 
na década de trinta, quando Varnhagen forma o seu espírito, seria 
Leopold Von Ranke (1796/1886), a quem coube a tarefa de difundir 
a idéia de que era preciso documentar as afirmações acerca dos 
acontecimentos históricos. 
A medida em que esse ambiente marcou o espírito de 
Varnhagen pode ser aquilatado a partir da verdadeira fixação com 
que cuida de demonstrar a seus pares, a partir de exemplos práticos, 
que a reconstituição da história do Brasil passa obrigatoriamente pela 
busca obsessiva do documento. 
O trabalho que desenvolveu para estabelecer a autoria do 
relato sobre o Brasil, em fins do primeiro século, de Gabriel Soares 
de Sousa serviu para fixar-lhe não só o estilo de investigação que 
adotaria como, igualmente, apontando as lacunas a preencher. Nesse 
documento, a que deu o título Tratado Descritivo do Brasil em 
1587, seu autor está mais voltado para os aspectos físico-geográficos, 
bem como em fixar os contornos do litoral desde a foz do Amazonas. 
Saltava às vistas a necessidade de reconstituir os aspectos 
institucionais, isto é, formas de organização governamental adotadas, 
procedimentos para a ocupação do território, disputas com potencias 
 9 
estrangeiras. Enfim, o que pesava na história da nação independente 
recém constituída era precisamente os três séculos da colonização 
portuguesa. No estabelecimento daqueles marcos que iriam, 
progressivamente, facultar-nos uma visão de conjunto, o papel de 
Varnhagen seria decisivo. Neste tópico vamos nos limitar ao que nos 
pareceu essencial na fase que precedeu o aparecimento dos dois 
volumes da História Geral do Brasil, publicados, respectivamente, 
em 1854 e 1857. 
O próprio Varnhagen limitou este período inicial ao ano de 
1850, ao fazer uma relação de suas publicações que colocaria à venda 
e que Hans Horch considera como uma autêntica bibliografia. 
Tomando isoladamente os de cunho estritamente historiográfico 
(nesse período ocupou-se também da poesia brasileira e da 
arquitetura portuguesa) mereceriam maior destaque aqueles referidos 
a seguir. 
“Diário da navegação da armada que foi à terra do Brasil em 
1530, sob a capitania mor de Martim Afonso de Sousa, escrita por 
seu irmão Pero Lopes de Sousa” (Lisboa, 1839). Coube a Varnhagen 
estabelecer o significado da estada no Brasil, entre 1530 e 1532, do 
fidalgo português Martim Afonso de Sousa (1500/1564). Compunha-
se sua frota de cinco navios, transportando cerca de 400 pessoas, 
tripulantes e passageiros. Entre os últimos muitos nobre ilustres que 
tiveram participação no povoamento do país. O objeto do relato, 
tornado público por Varnhagen, corresponde às atividades 
desenvolvidas pela expedição. 
Martim Afonso percorreu toda a costa, desde a foz do 
Amazonas até a bacia do Prata e concebeu uma estratégia de 
ocupação que posteriormente seria generalizada, com a fundação de 
São Vicente. Consistia na escolha de um local abrigado para 
construir vila e erigir fortificações, disseminando atividade agrícola 
nas proximidades, mediante doação de terras (denominadas 
sesmarias) a pessoas capazes de explorá-las. Em seguida ao regresso 
de Martim Afonso a Portugal foi o país dividido em capitanias 
hereditárias, entregues a nobres portugueses que deveriam mobilizar 
 10 
os recursos exigidos por sua exploração. Esse sistema durou mais ou 
menos vinte anos, sendo em parte revogado ao criar-se um governo 
geral no Brasil e capitanias reais (1549). 
No seu primeiro ano de estada no Brasil (1840), editou em 
livro --pela Tipografia J. Villeperva, do Rio de Janeiro-- a serie de 
artigos publicados em Panorama, que se editava na capital 
portuguesa, dedicados ao Descobrimento do Brasil. 
Em Lisboa, no ano de 1847, saiu pela Imprensa Nacional “A 
narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuítica pela Bahia, 
Ilhéus, Porto Seguro, Pernambuco, Espírito Santo, Rio de Janeiro, S. 
Vicente (São Paulo), etc., desde o ano de 1583 ao de 1590, indo por 
visitador o padre Cristovam de Gouveia”. Escrita em duas cartas ao 
Provincial em Portugal pelo padre Fernão Cardim, ministro do 
Colégio da Companhia em Évora. Segundo indicação de Varnhagen, 
o manuscrito (“defeituoso”) encontrava-se na Biblioteca de Évora, 
em Portugal. Além das atividades da companhia, fornece 
informações que complementam o texto anterior, relativas ao 
primeiro século. 
Nesse mesmo ano (1847), no Rio de Janeiro foram editadas 
as Memórias para a história da Capitania de São Vicente (1797), 
de Frei Gaspar da Madre de Deus, prefaciada por Varnhagen. 
Completa-se a enumeração pelas “Vidas, elogios ou 
biografias de grandes e várias personagens que muito avultam na 
história do Brasil.” Esses artigos apareceram sobretudo na revista 
portuguesa Panorama, no período indicado, sendo intenção do autor 
reuni-las numa publicação autônoma, pretensão que não chegou a 
efetivar-se. 
Praticamente em todos os números da Revista do Instituto 
Histórico, da década de quarenta e início da seguinte, consta 
colaboração de Varnhagen. Com exceção da lista de brasileiros ou 
colonos estabelecidos no Brasil, condenados pela Inquisição nas 
primeiras décadas do século XVIII, e de algumas das biografias antes 
referidas, consistem de documentos com os quais se foi deparando e 
entendeu que devia copiá-los para guarda da instituição. São de teor 
 11 
muito variado. No número do primeiro trimestre de 1850, por 
exemplo, figura aquele que foi denominado de “Compêndio histórico 
cronológico das notícias da capitania de Mato Grosso”, entre 1778 e 
1817. 
Pelas indicações precedentes acredito haver demonstrado que 
Varnhagen achava-se empenhado em convencer o grupo que assumiu 
o encargo de estruturar o Instituto Histórico que todos os esforços 
deveriam ser direcionados para a pesquisa das fontes documentais 
disponíveis. Naturalmente esse trabalho deveria complementar-se por 
sua sistematização, de que daria exemplo com a publicação da 
História geral do Brasil. 
 
O estilo de trabalho de Varnhagen 
 
Ao dar conta, ao Instituto Histórico, do trabalho que 
desenvolvera em busca do original de Gabriel Soares de Sousa, 
datado de março de 1851, e das razões que o levava a tê-lo por 
acabado, vê-se como atuou de modo obstinado no estabelecimento 
das fontes documentais imprescindíveis à estruturação de nossa 
historiografia. 
Começa por indicar que “que foi o desejo de ver o exemplar 
da Biblioteca de Paris o que mais me levou a essa Capital do mundo 
literário em 1847.Não há dúvida de que, além deste códice, tive eu 
ocasião de examinar uns vinte mais. Vi três na Biblioteca Eborense, 
mais três na Portuense e outro na das Necessidades em Lisboa. Vi 
mais de dois exemplares existentes em Madrid; outro mais que 
pertenceu ao convento da Congregação das Missões e três da 
Academia de Lisboa, um dos quais serviu para o prelo, outro se 
guarda no seu arquivo e, o terceiro na Livraria Conventual de Jesus. 
Igualmente vi três cópias de menos valor que há no Rio de Janeiro 
(uma das quais chegou a estar licenciada para impressão); a avulsa da 
coleção de Pinheiro na Torre do Tombo, e uma que em Neuwied me 
mostrou o velho príncipe Maximiliano, a quem na Bahia fora dado 
de presente. Na Inglaterra deve seguramente existir, pelo menos o 
 12 
códice que possui Southey, mas foram inúteis as buscas que aí fiz 
após ele, e no Museu Britânico nem sequer encontrei notícia de 
algum exemplar.” Conclui: “nenhum daqueles códices porém é --a 
meu ver-- o original e baldados foram todos os meus esforços para 
descobrir este, seguindo indicações de Nicolau Antonio, de Barbosa, 
de Leon Pinelo e de seu adicionador Barcia.” 
Diz ainda que “algumas dessas cópias foram tão mal tiradas 
que disso proveio que o nome do autor ficasse esgarrado, o título se 
trocasse e até na data se cometessem enganos” 
A existência de tantas cópias não deixa de ser expressivo 
indicador do sucesso que alcançou em seu tempo e também da 
curiosidade e falta de informação sobre o Brasil. 
Comparando essas diversas cópias, Varnhagen pode 
estabelecer qual delas conteria menos omissões. Na cuidadosa edição 
que preparou do mencionado Tratado Descritivo, numerou as 
diversas seções, de modo a introduzir as correções, em forma de 
apêndice, muitas das quais dizem respeito a denominações que 
caíram em desuso. 
O texto de Gabriel Soares de Sousa registra a descoberta do 
Brasil por Pedro Álvares Cabral mas não refere documentos. Comete 
aqui muitos erros históricos, a exemplo da suposição de que o 
Tratado de Tordesilhas (1494) tivesse sido negociado por D. João III, 
cujo reinado inicia-se em 1521. Varnhagen os corrige no Apêndice 
(intitulado Breves Comentários) mas soube valorizar as preciosas 
informações sobre o estado da civilização ao longo do litoral, que 
conhecia por ter visitado. Sobretudo esse texto há de ter-lhe indicado 
as lacunas a preencher. 
A descrição em apreço seciona-se do seguinte modo: parte do 
rio Amazonas --dando notícia do que sabia sobre incursões que se 
tenham efetivado em seu leito-- e segue até o Maranhão. São 
registros sucintos, assinalando distâncias percorridas (em léguas), 
entre os cursos d´água existentes, e ainda as respectivas coordenadas 
geográficas. O trecho seguinte, partindo desse ponto, vai até o Rio 
Jaguaribe (Ceará). E assim, por diante, até o extremo Sul 
 13 
É interessante destacar que onde o sistema das capitanias 
logrou avanços no processo de colonização, Gabriel Soares de Sousa 
detém-se na sua descrição. Tomo o exemplo do Espírito Santo. 
Assinala que o donatário, Vasco Fernandes Coutinho, “a foi povoar 
em pessoa”. Apresenta as informações que pode recolher de sua 
biografia, registra os embates com os indígenas, etc. Enfim, busca 
estabelecer a sua história. 
A essa parcela da obra denominou de Primeira Parte. A 
segunda é certamente mais interessante. Começa com o que chamou 
de “História da Colonização da Bahia”, a que se segue minuciosa 
descrição dos acidentes geográficos, da flora e da fauna. Igualmente 
detalhada é a intitulada “notícia etnográfica do gentio Tupinambá 
que povoava a Bahia”. Em complemento apresenta informações 
“acerca de outras nações vizinhas da Bahia, como Tupinarés, 
Aimorés, Amoipiras, Ubirajaras, etc.” 
Deste modo, inclusive pelas omissões, o Tratado descritivo 
do Brasil em 1587 insere um primeiro esboço do caminho a 
percorrer em matéria historiográfica. Varnhagen saberá valoriza-lo 
devidamente, na medida em que há de ter-lhe permitido atuar a partir 
do que se poderia chamar de “plano de trabalho”. A averiguação de 
como se deu a opção por determinado modelo de colonização o terá 
levado a localizar o material que permitiu estabelecer o papel 
desempenhado pela missão de Martim Afonso de Sousa, entre 1530 e 
1532. E, também, de dar-se conta de que os relatórios do Governo 
Geral seriam a fonte privilegiada para a reconstituição da história das 
diversas capitanias. 
Louvo-me das indicações deixadas pelo próprio Varnhagen 
acerca do valor que atribuía ao trabalho dos que o precederam. A 
propósito da edição do livro de Gabriel Soares de Sousa, pela 
Academia de Ciências de Lisboa, escreveria o seguinte: “Em 1825 
realizou a tarefa da primeira edição completa a Academia de Lisboa; 
mas o códice de que teve de valer-se foi infelizmente pouco fiel, e o 
revisor não entendido na nomenclatura das coisas de nossa terra. 
Ainda assim muito devemos a essa primeira edição; ela deu 
 14 
publicamente importância ao trabalho de Soares, e sem ela não 
teríamos tido ocasião de fazer sobre a obra os estudos que hoje nos 
fornecem a edição que proponho, a qual, mais que a mim, a deveis à 
corporação vossa irmã, a Academia Real das Ciências de Lisboa”. 
Esse trecho consta do documento que encaminhou ao Instituto 
Histórico em 1851 
A correspondência de Varnhagen, que se preservou e foi 
publicada, fornece outras elementos para definir o que batizamos de 
seu “estilo de trabalho”, servindo de exemplo o que se refere a 
seguir. 
Na década de quarenta, como foi referido, serviu na 
embaixada de Portugal. Em 1846, foi-lhe dada, pelo governo 
imperial, a incumbência de verificar na Espanha a existência de 
documentação relacionada aos limites do Brasil com as Guianas. 
Aliás, no decênio em que serviu em embaixadas da América do Sul 
(1858/1867) também tinha por encargo documentar as bases para a 
definitiva fixação de nossas fronteiras com os vizinhos (contribuição 
que seria assinalada pelo Barão de Rio Branco, a quem coube a tarefa 
de levá-la a bom termo). 
Veja-se como, sem embargo no zelo no cumprimento das 
mencionadas disposições, não o abandonava a preocupação com o 
preenchimento de outras lacunas documentais relacionadas à história 
do país. Escreve nessa carta (de dezembro de 1846), endereçada ao 
Embaixador do Brasil em Portugal (Antonio Vasconcelos Drumond): 
“Partindo desta capital (Lisboa) pelo primeiro paquete imediato 
àquela data, aproveitei da minha estada em Cadiz para me 
desenganar de não existirem ali papeis manuscritos que nos 
interessassem. Percorri também as lojas de livros, em geral nessa 
cidade mais abastecidas do que nas outras de Espanha, de obras 
sobre a América, e disso resultou a compra do Dicionário 
geográfico da América, do Coronel Salcedo, feita com 
recomendação minha e autorização de V. Excia., por D. José Esteves 
Gómez.” E, prossegue: “Em Sevilha, para onde prossegui no 
 15 
primeiro vapor, tive mais de dois meses de persistência examinando 
o Arquivo das Índias, que era o principal fim de minha missão.” 
Como se vê, dedicou toda a existência adulta ao que caberia 
referir como a constituição de sólidos fundamentos para a 
historiografia brasileira. 
A responsabilidade com que encarava essa tarefa explica que, 
ao publicar, dois anos antes de falecer, em 1876, a segunda edição 
da História Geral do Brasil não a considerava obra acabada, tendo 
deixado as indicações da forma pela qual deveria ser 
complementada. Encontraria na pessoa de Rodolfo Garcia 
(1873/1949) a pessoa que dedicou àquele mister vários anos de sua 
vida. 
Depois da publicação da primeira versão da História geral 
do Brasil, nos meados da década de cinqüenta,ocupou-se dos temas 
de que dá conta nas edições adiante relacionadas. 
 
A continuidade da pesquisa 
 
Em 1858, publica em Paris indicações iniciais sobre Américo 
Vespuci --navegador considerado adventício que, entretanto, daria 
nome à América--, texto que retomaria em outra ocasião, isto é, em 
1864, quando se encontrava em Lima, e o amplia. Em Viena, em 
1878 (último ano de vida), edita e comenta as cartas em que esse 
personagem descreve suas três viagens ao Brasil. 
Ainda em 1858, aparece em Madrid, pelas “Ediciones Cultura 
Hispânica”, a tradução ao espanhol da obra de Gabriel Soares de 
Sousa. 
Em 1863, em Berlim, tem lugar a edição em francês de sua 
História da literatura brasileira, iniciativa que se supõe fizesse 
parte de seu empenho de tornar conhecido o Brasil nos meios cultos 
da Europa. 
Em 1871, publica-se em Viena a História das lutas com os 
holandeses no Brasil (desde 1624 a 1654). No ano seguinte teria 
lugar a impressão desse texto em Portugal (Tipografia de Castro 
 16 
Irmão, Lisboa), com reedição em 1874. A edição brasileira somente 
se daria em 1945. 
Em 1872, em Viena, publica estudo bibliográfico dos autores 
que contribuíram para tornar usual a denominação de América. 
Nesse mesmo ano, no Rio de Janeiro, o Arquivo Nacional publica 
textos de sua autoria sobre a Prosopopéia, de Bento Teixeira Pinto e 
sobre o livro Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira 
(1652/1753), sucessivamente reeditado no século XVIII; e, em 
Lisboa, pela Tipografia de Castro Irmão, Estudo biográfico de 
Salvador Corrêa de Sá e Benevides. 
Em 1874, em Viena, texto descritivo do Maranhão. 
Em 1878, aparece no Rio de Janeiro, a Biografia de Santa 
Rita Durão, como introdução ao seu poema épico “Caramuru”. 
No período indicado, preparou a História da Independência 
do Brasil, somente publicada em 1916, na Revista do Instituo 
Histórico, sendo editada pela Imprensa Nacional, no ano seguinte. 
Em que pese essa edição autônoma, na verdade se constitui no tópico 
final da História geral, como bem entendeu Rodolfo Garcia. 
Merece os comentários que se seguem na medida em que 
comprova como era escrupuloso, no tocante às responsabilidades do 
historiador. 
Na correspondência de Varnhagen com o Imperador Pedro II, 
comentada por Hélio Viana (1908/1972) --na apresentação da obra 
antes mencionada--, em começos da década de cinqüenta, quando 
ultimava a publicação da História geral do Brasil, explica as 
razões pelas quais estava em dúvida quanto aos eventos com os quais 
a concluiria. Segundo indica, imaginava que seria o ano de 1825, 
para “compreender a Constituição; o reconhecimento da Mãe-Pátria 
e o nascimento de V.M.I, mas não me foi possível. Tão espinhosa é 
por enquanto a tarefa de imparcial marcação desse período, 
sobretudo para um nacional. Daqui a anos não será” (No texto 
publicado está “não o serei”, que não concorda com o teor da 
oração). 
Pelo que foi indicado, optou finalmente por 1822. 
 17 
Compreende-se a dificuldade de Varnhagen, quando se vivia 
pouco mais de uma década na busca dos caminhos para estabelecer o 
que foi batizado de “conciliação nacional” e não se sabia se, desta 
vez, o país iria alcançar o normal funcionamento das instituições 
governamentais. No ciclo em apreço, não devia haver o necessário 
distanciamento para escolher os documentos que pudessem dar uma 
idéia do que Octávio Tarquínio chamou de “lutas tão ásperas” para 
caracterizar os dois decênios que se seguiram à Independência. É 
fácil dar-se conta da consistência de seus argumentos se tivermos 
presente a incapacidade dos republicanos de valorizar a nossa 
primeira experiência de governo representativo, vale dizer do 
Segundo Reinado, persistindo no tom planfetário do período em que 
se tratava de popularizar a idéia do novo regime, o que até hoje 
dificulta conceber instituições capazes de reproduzir o meio século 
de estabilidade política que nos proporcionou aquela primeira 
experiência. 
A opção por levar a História Geral até a Independência terá 
tardado tanto muito provavelmente porque se tratava, como era de 
seu parecer, empreendimento de “grande responsabilidade não só 
com o Brasil como para com Portugal”. A decisão de enfrentá-lo, é 
ainda Varnhagen quem esclarece, prende-se a “fatos novos e novas 
apreciações (que) se nos apresentaram em vista de novos documentos 
e informações fidedignas por nós recolhidas, às vezes inteiramente 
em oposição às que se encontram admitidas pelos escritores que nos 
têm precedido...” 
Aproveita o ensejo para explicitar um dos princípios que, 
entende, devem nortear a ação de quem se proponha dedicar-se a 
esse tipo de estudo. Escreve: “O historiógrafo não pode adivinhar a 
existência de documentos que não são de domínio público e não 
encontra, e cumpre com o seu dever quando, com critério e boa fé e 
imparcialidade, dá, como em um jurado, mui conscienciosamente o 
seu veredictum, cotejando os documentos e as informações orais 
apuradas com o maior escrúpulo que, à custa do seu ardor em 
investigar a verdade, conseguiu ajuntar”. 
 18 
A História da Independência corresponde a um verdadeiro 
primor em matéria de utilização da documentação disponível. Assim, 
por exemplo, a convicção (ou talvez sobretudo a esperança) da 
entourrage de D. João VI, diante da Revolução do Porto, era a de que 
não conseguiria sustentar-se. Essa evidência, contudo, é transmitida 
através de sucessivos documentos e acaba por saltar às vistas do 
leitor pela simples apresentação da correspondência daquelas 
autoridades --e do próprio Rei-- com as Cortes de Lisboa, que 
acabaram sendo divulgadas. O Ministério da época --ao qual um 
partidário da monarquia constitucional como Palmella não conseguiu 
ajustar-se, terminando por pedir demissão--, com a anuência de D. 
João VI, obviamente tratava de ganhar tempo. Conclui-se que 
estavam empenhados na preservação da monarquia absoluta, sem que 
essa tese seja alardeada. 
Deste modo, a ascensão de Silvestre Pinheiro Ferreira ao 
governo sugere que D. João VI convencera-se de que seria obrigado 
a negociar. Sua escolha para chefiar o governo correspondia a 
acontecimento inusitado no contexto, a ponto de que o próprio, não 
tendo tomado conhecimento de dois chamados anteriores do Rei, 
acabou sendo conduzido preso a palácio. Silvestre Pinheiro Ferreira 
tivera oportunidade de indicar ao Rei a necessidade de antecipar-se à 
transição, de modo a trilhá-la de forma pacífica. 
Diante da intransigência das Cortes, fracassada a tentativa de 
negociação empreendida por Silvestre Pinheiro Ferreira, tornando 
impossível a convivência tanto com o Rei como com a nova 
liderança emergente no Brasil, não lhe restava outro caminho senão o 
de exilar-se na França. 
Cito estes fatos para mostrar como o tratamento escrupuloso, 
do material histórico disponível, pode facultar nova luz na 
compreensão do processo em seu conjunto. 
Do que precede acredito ter tornado patente que Varnhagen 
estava imbuído dos princípios que, no século XIX, lançaram as bases 
das novas regras de estabelecimento da objetividade histórica. 
 19 
Indique-se, adicionalmente, que na História geral do Brasil 
menciona expressamente cada um dos historiadores que o 
antecederam, prestando-lhes o devido tributo. 
No tópico subseqüente tentaremos destacar as regras que 
Varnhagen procurou estabelecer para a história geral do país, regras 
essas que, preservadas sem revestir-se de tom dogmático ou 
impositivo, permitiram a gerações posteriores de historiadores 
revisitar muitos dos temas então abordados, aprimorando o seu 
conhecimento, sem embargo do que se indicará acerca do quadroatual. 
 
A concepção do formato adequado 
ao caráter geral da obra 
 
Como se sabe, quando os instituidores do Instituto Histórico 
discutiam o formato de que deveria revestir-se uma História do 
Brasil, tinha-se dúvida inclusive de onde começar, cogitando-se 
mesmo da hipótese de fazê-lo a partir de 1808. É nesse ambiente que 
sobressai a contribuição de Varnhagen, estabelecido o consenso de 
que se partiria do descobrimento. 
Na época, a questão das fronteiras ainda era sensível, na 
medida em que faltava acertar detalhes onde as divergências eram, a 
bem dizer, inevitáveis, cabendo soluciona-las de forma a não deixar 
seqüelas, feito notável alcançado pelo Barão do Rio Branco. 
Prudentemente, não cita as coordenadas geográficas, 
passando diretamente às razões prováveis da escolha do nome, 
acidentes geográficos, clima, fauna, etc. Tudo indica que o fez 
deliberadamente, na medida em que se ocupara especificamente do 
tema quando do exercício de funções diplomáticas nos países 
vizinhos. Com o passar do tempo, a lacuna seria preenchida, cabendo 
registrar, na matéria, a dedicação com que Max Guedes reconstituiu 
a história da cartografia dedicada ao país. Os outros aspectos físicos 
também vieram a ser fartamente ilustrados, mencionados em nota por 
Rodolfo Garcia. 
 20 
Seguem-se a reunião das informações que se preservaram 
sobre os aborígines e do contexto histórico em que se dá o 
descobrimento. 
Quanto aos indígenas, considero que a informação reunida 
por Varnhagen deve ser preferida à dos jesuítas que se ocuparam dos 
primeiros passos da catequese. Sem embargo do papel que 
desempenharam no estabelecimento das bases de um dos elementos-
chave da unidade nacional --a religião cristã--, deram preferência 
àqueles aspectos da cultura aborígine que poderiam facilitar a 
transmissão de sua mensagem. Outras fontes a que recorreu 
Varnhagen, a exemplo de Gabriel Soares de Sousa, a descreveram 
sem segundas intenções sendo talvez mais fidedignas. A verdade é 
que o convívio com os portugueses tornou cada vez mais difícil 
apreendê-la em sua pureza original, como se pode comprovar dos 
percalços experimentados por Couto de Magalhães (1837/1898), 
nesse mister, conforme se pode ver dos resultados de suas pesquisas, 
sistematizadas em O selvagem (1876). 
No caso, à historiografia competiria dar conta dos seus 
valores originários, incumbência que não abrange avaliações. Não se 
trata também de evitar que sejam efetivadas mas apenas de precisar 
que tal deve dar-se em lugar próprio. 
Ainda quanto a esse aspecto, na época de Varnhagen 
acreditava-se ser possível estabelecer, em bases científicas, a sua 
origem. Embora se haja detido nesse aspecto em outro lugar -- 
L´origine touraniene des Americans Tupi-Caribes et des anciens 
Egyptiens indiqueée par la Philologie comparée et notice d`une 
emigration em Amerique effetuée à través l´Atlantique siécles 
avant notre era.Vienne, 1876--, tudo indica que o interesse por esse 
tipo de especulação haja desaparecido. De todos os modos, não faz 
muito sentido, na História do Brasil, deter-se na reconstituição desse 
debate. 
No que respeita ao descobrimento, Varnhagen procurou 
escrupulosamente registrar não só o contexto da época como as 
conquistas da navegação portuguesa e o fato de que, no período em 
 21 
que Cabral aporta a Porto Seguro, outros navegadores registraram a 
existência dessa parte do continente. 
Entendo que a abordagem clássica e definitiva sobre o tema 
coube a Capistrano de Abreu (1853/1927) no ensaio com esse título 
que, acrescido de “O Brasil no século XVI”, constitui a tese de 
concurso a que se submeteu no Pedro II (1881). Desde então tornou-
se praxe publicá-los em conjunto. Publicação autônoma do primeiro 
ensaio pode ser acessado em www.cdpb.org.br/leiturabasica 
Começa deste modo: “Três nações da Europa disputaram a 
glória de ter descoberto o Brasil: a França, a Espanha e Portugal. 
Vejamos em que se assentam essas pretensões”. Consegui dar à 
pendência solução magistral. 
O elemento unificador dos três primeiros séculos corresponde 
ao estabelecimento e efetivação da política portuguesa de 
colonização. Parece tautológico mas assim não foi entendido pelos 
desbravadores de nossa historiografia. Tenha-se presente o exemplo 
de Southey, que fixou como a chave da compreensão do processo a 
disputa entre potências estrangeiras e a comunidade de destino 
histórico entre o Brasil e os países limítrofes. 
Varnhagen, por sua vez, foi logo ao ponto. Reconstitui 
minuciosamente os percalços da definição da mencionada política e 
enfatiza o papel de Martim Afonso de Sousa. A expedição desse 
nobre português mereceria o devido destaque, não só descrevendo-a 
como detendo-se no que colheu da própria expedição bem como o 
sumário de seus resultados imediatos. Tais aspectos mereceram nada 
menos que três capítulos. 
Seguindo o alvitre de Gabriel Soares de Sousa trata, em 
seguida, das “seis capitanias, cuja colonização vingou”. Nesse 
particular, vale transcrever a referência ao açúcar. 
Escreve: “Foi igualmente essa capitania (São Vicente) a 
primeira que apresentou um engenho de açúcar moente e corrente, 
havendo para esse fim o donatário feito sociedade com alguns 
estrangeiros entendidos nesse ramo, como os Venistes, Erasmos e 
Adornos, sem dúvida no Brasil mestres e propagadores de tal 
 22 
indústria, que primeiro permitiu que o país se pudesse reger e pagar 
seus funcionários, sem sobrecarregar o tesouro da metrópole. Se 
alguns destes não eram já vindos das ilhas da Madeira e São Tomé, 
não há dúvida que muitos dos principais operários daí vieram, não só 
para o Brasil, como para as colônias tropicais da América espanhola, 
onde ainda são portugueses muitos nomes nos engenhos, como 
safra, chumaceira, etc.” 
É interessante frisar o fato de que tivesse desde logo 
assinalado qual o significado do que, mais tarde, seria batizado de 
“modelo agro-exportador”. Este é que permitiu ao Brasil, naquele 
tempo, “pagar as contas”, como de resto tem ocorrido ao longo do 
tempo, embora contestado em toda a nossa história, mesmo em 
momentos de grandes riscos para a nossa sobrevivência como na 
transição do trabalho escravo para o livre, até hoje satanizada por 
expressivos segmentos da intelectualidade. 
Varnhagen dedica capítulo autônomo à vida dos primeiros 
colonos e suas relações com os índios, logo consignando que 
começaram por adotar muitos de seus usos habituais, enumerando-
os. Dizem respeito basicamente a espécies vegetais incorporadas à 
alimentação, palavras, etc. Parece-lhe contudo que, no tocante ao 
trabalho --que se revelou uma questão essencial, cabe enfatizar-- 
deixaram de atentar para o hábito que tinham de trabalhar poucas 
horas, evitando fazê-lo na parte mais quente do dia. Vista à distância, 
mais parece uma ilusão, certamente acalentada pelo desconforto que 
revela, no capítulo seguinte, em relação à alternativa adotada 
(trabalho escravo). A exemplo do comum dos conservadores 
brasileiros da época, tinha presente os riscos que enfrentava o país 
no imperativo da transição para o trabalho livre. Se não fosse 
encontrada uma saída --como veio a ocorrer com a invenção do 
original sistema de parceria (que combinava trabalho remunerado 
com atividade empresarial autônoma)-- iríamos enfrentar uma crise 
da qual ninguém sabe qual seria o desfecho. 
Duas inferências podem ser efetivadas da circunstância 
descrita. Primeira: mesmo um historiador escrupuloso como 
 23 
Varnhagen pode deixar-se influir, na análise de determinado evento, 
por uma preocupação ocasional. Segunda: a importância para a 
normal sobrevivência dopaís de que se revestia, na segunda metade 
do século XIX, a eliminação do trabalho escravo de modo a 
assegurar a manutenção do modelo agro-exportador. O mínimo que 
se pode dizer dos que, ainda hoje, nutrem a convicção de que a 
pequena propriedade, conduzida por colonos estrangeiros, poderia 
desempenhar tal papel é que não sabem fazer contas. 
Depois de descrever os aspectos enumerados --que, sem 
dúvida proporcionam uma idéia (estática) do Brasil como um todo, 
no ciclo subseqüente à descoberta--, no formato idealizado por 
Varnhagen a fim de reconstituir a sua história, chega-se ao 
estabelecimento do governo geral (Capítulo XV). Completa o que, na 
sua visão, seria o essencial: a política portuguesa de colonização, 
elemento constitutivo daquilo que viemos a ser nos três primeiros 
séculos. 
A organização do governo geral deu-se em 1549, 
praticamente meio século após a descoberta. No período 
transcorrido, evidenciaram-se duas questões prioritárias: a defesa e a 
organização de uma atividade produtiva que pudesse, como foi 
referido, “pagar as contas”, sem embargo de que teria 
prosseguimento a pesquisa de riqueza mineral, basicamente ouro e 
diamantes. No registro do evento, Varnhagen chama a atenção para 
um outro aspecto. 
Eis como o assinala: “Resolvido o governo da metrópole a 
delegar parte de sua autoridade em todo o Estado do Brasil num 
governador geral, que pudesse coibir os abusos e desmandos dos 
capitães-mores donatários, ou de seus locotenentes ouvidores, que 
acudisse às capitanias apartadas em casos de guerras dos inimigos ou 
de quaisquer arbítrios, autorizando que fiscalizasse enfim os direitos 
da coroa, conciliando ao mesmo tempo os dos capitães e os dos 
colonos, determinou fixar a sede do governo geral na Bahia, por ser o 
ponto mais central, com respeito a todas as capitanias.” 
 24 
A questão nova para a qual chama a atenção --a necessidade 
de assegurar-se a Lei e a Ordem-- viria a merecer aprofundamento na 
obra de Oliveira Viana (1883/1951), sobretudo em Populações 
meridionais do Brasil (1920). O aprofundamento em causa repousa 
na análise da forma de que se revestiu a organização da atividade 
produtiva central (grandes fazendas e engenhos), assumindo ao fim 
dos três primeiros séculos a feição de autênticos clãs. O país corria o 
risco da anarquia que certamente resultaria se diante dos chefes 
desses clãs não se tivesse erguido a autoridade do que denomina de 
capitães gerais (autoridades fixadas nas capitanias onde as 
populações foram se deslocando para o interior ou somente neste se 
localizassem, a exemplo de São Paulo e Minas Gerais) para 
distinguir dos capitães-mores, denominação que lhe parecia deveria 
ser usada por referência a esse tipo de autoridade que logo foi 
instituída nos núcleos populacionais do litoral. 
A tese de Oliveira Viana, que nos parece bastante consistente, 
tem o mérito de bem precisar o papel da aristocracia rural no 
povoamento do país, sem idealizá-la, ao mesmo tempo em que fixa 
com propriedade o papel do Estado. Enterra a simplificação que seria 
popularizada, segundo a qual o país “não tinha povo, só Estado”. 
Ainda no que respeita ao tema da colonização, cumpre 
consignar a contribuição definitiva de Capistrano de Abreu ao 
detalhar devidamente o que chamou de “caminhos antigos e 
povoamento”. Embora Hélio Viana, na qualidade de um dos 
principais estudiosos de sua obra, considere que os Capítulos de 
História Colonial formam um todo que deve ser lido (ou estudado) 
em conjunto, o próprio Capistrano reuniu outros ensaios dando-lhe o 
título antes referido, que é justamente uma síntese extraordinária do 
papel da iniciativa privada na ocupação do interior do país. 
Enfim, bem fixadas as características da política portuguesa 
de colonização, para Varnhagen os acontecimentos passariam a ser 
descritos em períodos históricos com certa homogeneidade. No 
primeiro século, toma por base, exclusivamente, os governos gerais -
-talvez para fazer sobressair o seu entendimento de que, com a sua 
 25 
criação ganhamos fonte documental primorosa--, detendo-se na 
década de oitenta para a introdução de uma espécie de balanço geral, 
data escolhida mais para homenagear os estudiosos precedentes 
como Cardim, Gandavo ou Gabriel Soares de Souza do que registrar 
o início do período filipino. Nas centúrias subseqüentes, com tantos 
eventos extraordinários como as guerras holandesas, no segundo, e o 
Tratado de Madrid e a mudança radical da coroa portuguesa de 
subserviência à Igreja Católica, com a ascensão de Pombal, a 
subdivisão teria que refletir a nova realidade. 
Rodolfo Garcia assinala que “a História do Brasil relativa ao 
século XVIII...é obra exclusiva de Varnhagen, o primeiro a escrevê-
la integralmente, como bem observou Capistrano de Abreu. Para o 
tempo em que foi escrita, pode considerar-se completa ou quase 
completa”. Faz em seguida uma ponderação que pode ser 
considerada como adequada formulação de outro princípio que rege a 
historiografia, enriquecendo o legado de Varnhagen nessa matéria. 
Vejamos de que se trata. 
Escreve: “Mas a verdade é que aquele período histórico, que 
abarca os descobrimentos das minas, os movimentos 
emancipacionistas, as lutas com os espanhóis no Sul, que testemunha 
o povoamento insólito do Brasil, sua maior expansão territorial, sua 
mais acentuada importância política e administrativa: aquele período 
tem sido, depois de Varnhagen, objeto de pesquisas mais acuradas, 
de estudos mais aprofundados, à medida que os depósitos de 
documentos se tornam mais acessíveis, e à medida também que 
forem surgido monografias especiais elucidativas de fatos nele 
enquadrados.” 
Esse precisamente o entendimento que cabe preservar do 
significado do trabalho desenvolvido pelos que criaram a 
historiografia nacional, entre os quais Varnhagen ocupa lugar dos 
mais proeminentes. 
A esse propósito não poderia deixar de registrar aqui a visão 
renovada que tem sido proporcionada do mencionado século XVIII, 
justamente seguindo uma das pistas abertas pelo insigne mestre. 
 26 
Como antes se referiu, Varnhagen registra a atuação da 
Inquisição no Rio de Janeiro, na primeira metade do século XVIII, a 
fim de destacar o caráter odioso da instituição. 
O significado da presença do Santo Ofício, em nossa história, 
corresponde a um dos aspectos mais enriquecidos pela investigação 
subseqüente. Assinalo o que me parece essencial. 
Omer Mont´Alegre (1913/1989) havia correlacionado a 
intensificação da atividade inquisitorial, no período mencionado, isto 
é, primeira metade do século XVIII, ao desmantelamento do 
empreendimento açucareiro --na obra Açúcar e capital (Rio de 
Janeiro, Instituto do Açucar e do Álcool (IAA), 1974). De fornecedor 
praticamente monopolista no século XVII e início do seguinte, chega 
à condição de participante marginal, nesse mercado, no fim da 
centúria (13,7% das exportações mundiais em 1796). 
Louva-se da freqüência com que se encontram senhores de 
engenho e outros ligados àquela atividade, nos dados então 
conhecidos sobre os autos-de-fé, bem como na denúncia efetivada, 
nesse sentido, por D. Luís da Cunha (1662/1749) em documentos 
dirigidos ao Rei e outras autoridades que, ainda que tudo indique 
tivessem sido do conhecimento de setores da elite, quando de sua 
elaboração, somente no início da transição para a monarquia 
constitucional, devida à Revolução do Porto (1820), vieram a ser 
divulgados com o título de Testamento político, obra posteriormente 
reeditada em diversas oportunidades, a partir de sua inclusão nas 
Obras inéditas de D. Luís da Cunha (Lisboa, Imprensa nacional, 
1821). Nas indicações apresentadasao Rei encarece a necessidade de 
ser proibido o confisco dos bens dos senhores de engenho, a que se 
dedicava a Inquisição, nada indicando que haja sido atendido. 
A confirmação definitiva dessa hipótese resultaria do 
extraordinário trabalho de pesquisa desenvolvido pela professora da 
USP, Anita Novinski. Conseguiu identificar a profissão de parcela 
representativa dos processados pela Inquisição no mencionado 
período, permitindo concluir que cerca de 70% eram pessoas 
abastadas, entre estes senhores de engenho e outros personagens 
 27 
ligados ao açúcar. A sistematização desses estudos constam de Rol 
dos culpados. Fontes para a história do Brasil --século XVIII (Rio 
de Janeiro, Expressão e Cultura) e Inquisição.prisioneiros do 
Brasil. Séculos XVI a XIX (São Paulo, Perspectiva, 2009). 
A intensificação da atividade do Santo Ofício, na primeira 
metade do século XVIII, no governo de D. João V, sendo inquisidor 
o cardeal D. Nuno da Cunha, acha-se igualmente documentada por 
Francisco Bethencourt (História das Inquisições --Portugal, 
Espanha e Itália, Lisboa, 1987). 
De minha parte, efetivei a periodização da Inquisição em 
Portugal (Momentos decisivos da história do Brasil --Martins 
Fontes, 2000). 
Tivemos oportunidade de referir os escrúpulos de Varnhagen 
no tocante à abrangência da História Geral do Brasil, optando por 
encerrá-la ordenando a vasta documentação que conseguiu reunir 
acerca da Independência. 
 
O imperativo de preservarmos a 
herança cultural de nossos antepassados 
 
Com a capacidade ordenadora do real (para usar uma 
expressão kantiana) que sempre tem demonstrado, Arno Wehling 
conseguiu bem situar tanto o papel formativo da obra de Varnhagen 
como os aspectos de que se ocuparam os que a consideraram desse 
ângulo. Seriam os seguintes: a) estudos biobibliográficos 
(incompletos os do século XIX e parciais os do século XX); b) a 
crítica cientificista (Capistrano, Silvio Romero e Pedro Lessa, 
reivindicando uma visão sociológica da história); c) crítica erudita, 
apologéticos ou buscando defeitos, embora proclamando qualidades; 
e d) reavaliações contemporâneas. 
A crítica cientificista era parte de movimento renovador da 
cultura brasileira, que teve desdobramentos positivos e negativos do 
ponto de vista de nossas tradições culturais. Abriu novos caminhos --
a exemplo do culturalismo de Tobias Barreto-- mas também reforçou 
 28 
o cientificismo com efeitos catastróficos para a historiografia, 
presentes sobretudo no que Arno Wehling denomina de 
“reavaliações contemporâneas” e iremos referir. 
A tradição historiográfica digna do nome, mesmo quando não 
registra especificamente a Varnhagen, soube preservar os princípios 
que, de fato, eram consensuais aos criadores da historiografia 
brasileira. Arno Wehling refere o caso de Oliveira Viana que, como 
diz “implicitamente condenou a visão de Varnhagen através de um 
eloqüente silêncio”, não obstante o que, muitas das “teses por ele 
defendidas já se encontravam em Varnhagen”. Outros historiadores, 
que enumera, “se identificaram com o seu espírito”. 
A reavaliação contemporânea, desde as décadas de sessenta e 
setenta, notadamente por influência francesa, consiste, como diz, 
“num assalto às posições de Varnhagen... sobretudo com base em 
posições marxistas e naquelas vinculadas ao movimento dos Annales 
e da Nouvelle Histoire.” Essas posições, assinala, refletiram-se sobre 
o ensino de primeiro e segundo graus, adiantando que, “no ensino 
universitário e na pesquisa, inspiradores do ensino primário e 
secundário, a rejeição foi completa”. 
De minha parte, entendo que a rejeição não atinge apenas 
Varnhagen mas o conjunto da historiografia e às diversas linhas de 
pesquisa dedicadas á cultura brasileira, de um modo geral. 
Essa avassaladora ocupação da praça representa 
empobrecimento cultural de tal magnitude que exige uma reação à 
altura. 
O Brasil jamais ultrapassará o subdesenvolvimento --que 
longe está de limitar-se à economia-- se não for capaz de avaliar com 
propriedade as contribuições daqueles que nos precederam. Graças à 
simples comemoração dos quinhentos anos --que parece ter sido 
esquecida quando transcorreu apenas uma década-- perdemos o 
direito de continuarmos nos conformando com o atraso, reconhecido 
em análise isenta de qualquer domínio do conhecimento, a pretexto 
de que seríamos “um país jovem”. 
 29 
Encontrar as formas de permitir que as novas gerações 
tenham acesso às mencionadas contribuições é um dever de que não 
podemos nos furtar. 
 
ANEXOS 
 
Nota sobre o modelo historiográfico de Southey 
 
Justifico nesta nota a afirmativa de que o trabalho pioneiro de 
crítica à obra de Gabriel Soares de Sousa é que terá inspirado 
Varnhagen na concepção do modelo que adotou na sua História 
Geral do Brasil. Como a edição da mencionada obra, ocorrida em 
1825, havia sido precedida pela publicação da História do Brasil de 
Robert Southey (1774/1843), três volumes em inglês, efetivada em 
Londres entre 1810 e 1819 (a tradução portuguesa somente ocorreria 
em 1862, a cargo da Livraria Garnier, Rio de Janeiro), o mais 
plausível seria admitir que adviria desta o modelo em causa, 
notadamente por abranger o período colonial em sua quase totalidade 
enquanto o livro de Gabriel Soares de Souza apenas o primeiro 
século. Lembro aqui que traça as características físico-geográficas, 
descreve os aborígenes, destaca o significado da Expedição de 
Martim Afonso, em matéria de fixação da política colonial 
portuguesa e, talvez o que seria mais relevante, estabelece distinção 
entre as capitanias, ocupando-se das que considerava bem sucedidas 
por tê-las visto de perto. Essa distinção é que iria permitir reconhecer 
que, nesta fase inicial lançam-se as bases da próspera civilização 
implantada na Zona da Mata de Pernambuco e no Recôncavo Baiano, 
anteriores ao surto minerador. Naturalmente insere omissões e erros, 
conforme foi assinalado. 
A questão magna que interessa a Southey corresponde à 
disputa pela posse do Brasil. Registra a presença francesa mas de 
fato ocupou-se mais vivamente daquela que atribui à Espanha. 
Numa primeira aproximação, esse tipo de preocupação decorreria da 
existência do período filipino, quando de fato se estabelece o 
 30 
domínio espanhol (que batiza de “usurpação”). Mas a razão talvez 
tivesse sido outra e até a insinua, como iremos referir. O certo 
entretanto é que não há um texto contínuo sobre o Brasil mas 
entremeado pela história de países vizinhos. Vejamos alguns 
exemplos. 
No primeiro volume, depois de indicar as viagens ao Brasil e 
registrar a de Cabral, embora a detalhe, logo a mistura com as de 
Américo Vespuci e passa ao capítulo II onde o tema é a descoberta 
do Rio da Prata. Embora neste figure a referência à subdivisão do 
Brasil em capitanias, não dá qualquer indicação de seu significado, 
em termos de política portuguesa de colonização. Nem parece ter-se 
dado conta de que proviria da Expedição de Martim Afonso de 
Sousa. A par disto, o relato acha-se entremeado por indicações 
relativas à disputa entre europeus pela posse do território. Cito: “Por 
estes mesmos tempos se formou outra capitania, a de Pernambuco. 
Um navio de Marselha ali havia estabelecido uma feitoria, deixando 
nela setenta homens, pensando em manter a possessão. Mas o navio 
foi apresado na volta, e sabendo-se assim em Lisboa do ocorrido 
imediatamente se tomam medidas, para reaver o lugar.” 
Não satisfeito com esta forma de apresentar a sua História do 
Brasil, o capítulo III está dedicado à fundação de Buenos Aires. No 
capítulo IV, que se segue, supostamente volta ao Brasil, desta vezdedicando-se ao Maranhão. Mas o projeto de ocupação de que se 
trata diz respeito a súdito de Espanha e explicita tratar-se do 
“privilégio de conservar as suas possessões na Nova Espanha”. 
Somente na parte final alude-se ao fracasso desta tentativa espanhola 
de colonização mas à portuguesa, que a sucedeu, dedica umas poucas 
linhas à presença do donatário, acrescentando “do qual não se teve 
mais notícia”. 
No capítulo seguinte (V) o tema é o Prata, com ênfase no 
Paraguai passando a ênfase, no capítulo VI, ao Peru. No VII, volta ao 
Brasil mas para se ocupar de Hans Staden. 
Estamos num terço do volume I, quando se chega ao governo 
geral. 
 31 
Qual a imagem que nos transmite da área descoberta há 
poucos séculos? Primeiro, no que se refere especificamente à 
América do Sul, não haveria distinções a assinalar entre as partes 
componentes. A potência que destaca não é Portugal mas a Espanha. 
No que respeita propriamente ao Brasil, sobressaem as disputas por 
sua posse enquanto o domínio na parcela restante (Nova Espanha) 
parece inconteste. Não se apercebeu da mudança estabelecida na 
política portuguesa de colonização em decorrência da expedição de 
Martim Afonso de Sousa. 
No restante deste primeiro volume, como de resto nos dois 
subseqüentes (o último, terceiro, chega a Pombal, à expulsão dos 
jesuítas e ao que chama de “progresso no correr do século XVIII e 
seu estado ao tempo de passar ali a sede do governo”), a tônica não é 
diversa: disputa pela posse e integração ao conjunto. Em relação ao 
seu propósito há uma indicação esclarecedora no III volume (pág. 
1428 da edição do Senado). Transcrevo-a: “Se os ministros ingleses 
tivessem previsto quão depressa iam ver-se envolvidos, numa guerra 
com a Espanha, teriam logo tomado parte na justa contenda do Rei 
de Portugal, a respeito de Nova Guiana, em vez de lhe excitarem 
ressentimento e a má vontade, intervindo unicamente para emplastar 
a desavença teriam encontrado na América poderoso aliado”. 
Cumpre esclarecer que estas indicações dizem respeito 
apenas à questão do modelo adotado por Southey --contrastando-o 
com o que preside à História geral do Brasil-- e nem de longe por 
em causa os méritos de sua obra. Prestou-nos enorme serviço, dando 
a conhecer aos ingleses algo acerca do Brasil. Há de ter contribuído 
para torná-los nosso aliado, quando passamos a carecer do 
reconhecimento internacional à vista da Independência. 
 
Nota sobre o livro História da Colonização Portuguesa do 
Brasil 
 
Em sucessivas oportunidades o nome de Varnhagen tem sido 
associado à obra em epígrafe. Levando em conta esse fato, pareceu-
 32 
me que seria adequado proporcionar ao leitor uma breve notícia de 
seu conteúdo. Ver-se-á que a associação em apreço prende-se 
sobretudo ao fato de que, tratando-se de documentar o feito 
considerado, a grande autoridade que os autores invocam é a do 
fundador da nossa historiografia. Com efeito, os documentos que 
permitiram fazer-nos uma idéia dos percalços experimentados por 
aquela maravilhosa aventura, praticamente em sua totalidade, 
tornaram-se acessíveis graças à dedicação daquele mestre, como tem 
sido apontado e pode-se ver do seu livro básico. 
A referência é a seguinte: História da Colonização 
Portuguesa do Brasil. Edição comemorativa do primeiro centenário 
da Independência do Brasil. Coordenação de Carlos Malheiros Dias. 
Porto: Litografia Nacional, 1921-1924, 3 vols. A obra acha-se 
fartamente ilustrada e tem estas dimensões: 37 x 28 cm. 
Indique-se que a publicação intitula-se, merecidamente, sem 
qualquer dúvida, de “monumental”. 
Na ilustração de abertura constam estas notas: Planisfério de 
Jerônimo Marini (1511), onde pela primeira vez aparece a América 
do Sul com a denominação de Brasil. O volume I inclui a carta de 
Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel, versão em linguagem 
atual, com anotações da doutora D. Carolina Michaelis de 
Vasconcelos, professora de Filologia, na Faculdade de Letras da 
Universidade de Coimbra, v. 2., p. 86-99. 
Os documentos inseridos nos diversos volumes, geralmente 
localizados por Varnhagen, são transcritos em fac-símile e, por 
vezes, acompanhados da impressão do seu conteúdo com a ortografia 
da data da edição. A presença de Varnhagen é assinalada logo no 
início ao ser transcrito o fac-simile das recomendações que levaram 
Cabral a afastar-se da costa. A esse propósito teria oportunidade de 
esclarecer na História geral do Brasil: “Nas instruçõesescritas que 
recebeu e das quais chegaram providencialmente às nossas mãos 
alguns fragmentos da maior importância, foi-lhe recomendado que na 
altura de Guiné se afastasse quanto pudesse da África, para evitar 
suas morosas e doentias calmas.Obediente a essas instruções, que 
 33 
haviam sido redigidas pelas insinuações de Gama, Cabral se foi 
amarando da África, e naturalmente ajudado a levar pelas correntes 
oceânicas ou pelágicas, quando se achava com mais de quarenta dias 
de viagem, aos 22 de abril, avistou a Oeste terra desconhecida” Em 
nota indica que “o fac-simile ou borrão da primeira folha do 
rascunho ou borrão dessas instruções, por nós encontrada e mandada 
gravar” foi oferecido à Torre do Tombo. 
A atribuição a Vasco da Gama --de responsabilidade de 
Varnhagen-- veio a ser confirmada pelos eruditos portugueses que 
prepararam a obra que estamos considerando, apenas com a precisão, 
efetivada por Antonio Baião, de que seriam notas tomadas pelo 
secretário de Estado Alcaçova Carneiro, ouvido o parecer de Vasco 
da Gama como perito na viagem” 
O primeiro volume está intitulado “Os precursores de Cabral” 
e inicia-se, como foi indicado, pelo fac-simile das instruções 
recebidas por Pedro Álvares Cabral. Tem como propósito atestar que, 
“a partir de certo ponto abandonou-se a circunavegação costa a costa, 
aventurando-se em alto mar.” A tese pretende justificar a transcrição 
de documentos que, no entender dos compiladores, permitiram 
deduzir da intencionalidade da descoberta. É apresentado o inteiro 
teor do Tratado de Tordesilhas. 
Além dos documentos --todos antecedidos por longas 
introduções--, este primeiro volume contém a caracterização da Era 
Manuelina, devida a Júlio Dantas ( capítulo I); da “arte de navegação 
dos portugueses” --Prof. Luciano Pereira da Silva ( capítulo II); “Dos 
falsos precursores de Álvares Cabral” --Prof. Duarte Leite (capítulo 
III); e de Duarte Pacheco Pereira, intitulado “Precursores de Cabral” 
(capítulo IV). Ao todo o volume tem 226 páginas, em grande número 
ocupadas por ilustrações. 
O volume II intitula-se “A epopéia dos litorais”, achando-se 
composto apenas por ensaios de eruditos portugueses, a saber: A 
expedição de Cabral --Jaime Cortezão (capítulo V); De Restelo a 
Vera Cruz --H. Lopes Mendonça (capítulo VI); A semana de Vera 
Cruz --C. Malheiro Dias (capítulo VII); A expedição de 1501 --C. 
 34 
Malheiro Dias (capítulo VIII); O mais antigo mapa do Brasil --Prof. 
Duarte Leite (capítulo IX); A expedição de 1503 --C. Malheiro Dias 
(capítulo X); O comércio do Pau Brasil --Antonio Baião (capítulo 
XI); e O descobrimento do Rio da Prata --F. Esteves Pereira 
(capítulo XII). O volume abrange das páginas 227 a 458. 
O terceiro e último volume saiu a lume em 1924 e intitula-se 
“A Idade Média Brasileira” (1521-1580). Quer marcar a mudança de 
orientação, em seguida à morte de D. Manuel I (fins de 1521). Na 
Introdução, escreve Malheiro Dias: “A Índia dos esplendores 
inesperadamente aparecia transformada em sugadouro de cabedais e 
de vidas.” A seu ver, iria dar lugar “à reação do organismo nacional 
contra os males de um aparente gigantismo, que produziu a obra 
criadora de colonização do Brasil.”O volume III segue o modelo do antecedente, isto é, compõe-
se de ensaios eruditos (desta vez com a participação brasileira), 
adiante relacionados. Assinale-se que o livro obedeceu a numeração 
autônoma das páginas, o mesmo acontecendo com os capítulos. 
Segue-se a enumeração: 
Capítulo I --A Metrópole e suas conquistas nos reinados de 
D. João III, D. Sebastião e 
 Cardeal Henrique –C. Malheiro Dias (p. 2-58) 
Capítulo II --A expedição de Cristovam Jacques –Antonio 
Baião e C. Malheiro Dias . 
 (p.59-96) 
Capítulo III –A expedição de Martim Afonso de Sousa --
Jordão de Freitas (p.97-166) 
Capítulo IV –A solução tradicional da colonização do Brasil -
-Prof. Paulo Meréa 
 (p. 167-193) 
Capítulo V --Os primeiros donatários --Pedro Azevedo (p. 
194-220) 
Capítulo VI --O regime feudal das donatarias --C. Malheiro 
Dias (p. 221-258) 
 Apêndice de documentos ( p. 259-286) 
 35 
Capítulo VII --A nova Lusitânia --Oliveira Lima ( p. 287-
326) 
Capítulo VIII --A instituição do governo geral --Pedro 
Azevedo p. 327-344 
 Apêndice de documentos ( p. 350-383) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Indicações sobre a transcrição 
 
 Antonio Paim 
 
Consta da História Geral do Brasil este subtítulo: “Antes de 
sua separação e Independência do Brasil”. 
Subdivide-se em cinco tomos, que totalizam 1.795 páginas, 
aos quais foi acrescida a História da Independência do Brasil (365 
p.). Essa separação prende-se ao fato de que Varnhagen a publicou 
depois de dar ao prelo os cinco tomos precedentes. Acertadamente, 
entendeu Rodolfo Garcia que corresponde à parte final da História 
Geral. De sorte que, o comum das reedições mantém esse formato, 
sem embargo de que em nada prejudica o conjunto sua publicação 
em separado. 
Varnhagen adotou a denominação de secção, ao invés de 
capítulo. 
Por razões que transcendem o objetivo central da transcrição 
(dar uma idéia do conjunto da obra), optamos por inserir de forma 
 36 
autônoma --e logo no início-- a informação de que dispunha da 
atuação da Inquisição, no Rio de Janeiro, no século XVIII, razões 
essas que aponto na breve nota introdutória que a antecede.. 
No tomo primeiro, não chega a completar-se o relato 
dedicado ao primeiro século, a que se refere a transcrição 
subsequente, merecendo entretanto breves comentários. 
Na transcrição em causa, cujo propósito consiste em facilitar 
o conhecimento do magistral trabalho desenvolvido por Varnhagen, 
no estabelecimento dos marcos essenciais, a limitamos aos capítulos 
que fixam os rumos que seriam seguidos para assegurar a ocupação 
do território, dada a circunstância de não ter sido localizada riqueza 
mineral, de imediato, ao tempo em que a posse era disputada por 
potências européias concorrentes. 
Pareceu-nos que o mencionado objetivo seria alcançado pela 
apresentação das secções VII; VIII e IX, dedicadas à expedição de 
Martim Afonso (1530) e seus resultados imediatos. Para definir o 
caminho a seguir, incumbiu seu irmão de fazer uma viagem 
exploratória, de que deu conta em documento localizado por 
Varnhagen. Concebeu uma estratégia de ocupação que depois seria 
generalizada. Segue-se a secção XV, em que aborda a criação do 
governo central na Bahia (1549). Por fim, no que respeita ainda ao 
século XVI, transcreve-se a Secção XIII (com que se inicia o Tomo 
Segundo) que insere uma espécie de balanço. Intitula-se “O Brasil 
em 1584”, e tem o propósito de render homenagem a Gabriel Soares 
de Sousa, autor do Tratado Descritivo do Brasil. A publicação do 
que chamaríamos de “edição crítica” desse texto seria o primeiro 
trabalho historiográfico desenvolvido por Varnhagen e muito 
influenciaria no rumo que adotou e empreendeu. Não conseguiu 
determinar a data em que teria sido escrito (na edição de que se 
incumbiu havia adotado 1587), questão a que Rodolfo Garcia 
dedicou uma de suas notas. 
A parte restante desse tomo segundo contém indicações sobre 
a colonização do Norte e 
 37 
as guerras holandesas. A estas acham-se dedicadas as últimas 
secções, a saber: 
 
 XVII -Perda e recuperação da Bahia, acrescida de 
notícia da marcha da 
 colonização 
 XVIII –Desde a invasão de Pernambuco até chegar 
Nassau 
 XXIX –Governo de Nassau até levantar o sítio da Bahia 
 XXX –Desde o sítio da Bahia até a partida de Nassau 
 
O assunto tem seguimento no tomo terceiro, deste modo: 
 
 XXXI –Revolução de Pernambuco até a primeira ação 
dos Guararapes 
 XXXII –Desde a recuperação de Angola até o fim da 
guerra 
 
Varnhagen reuniu ampla documentação sobre o assunto 
indicado que, subsequentemente, tem sido muito estudado. Não nos 
pareceu que fosse o caso de transcrevê-los em parte, não tendo 
cabimento fazê-lo no todo. 
A parte restante do tomo terceiro compreende o fim do 
período filipino, com a aclamação de D. João IV rei de Portugal. 
Conforme declara Varnhagen, tem agora as atenções voltadas para o 
novo ordenamento institucional do pais, com a divisão em dois 
Estados. No tocante ao recente Estado do Maranhão, dá grande 
importância aos atritos com os jesuítas, a propósito de sua utilização 
dos índios como mão de obra, vetada ao comum dos colonos. Como 
conduziu ao desfecho dado por Pombal --a sua expulsão--e talvez por 
isto escreve que “os padres jesuítas não se conduziram, nesse assunto 
melindroso, com a prudência que as circunstâncias recomendavam.” 
A esse propósito transcreve trecho de uma representação 
encaminhada aos governantes, transcrita na Revista do Instituto 
 38 
Histórico, onde se diz o seguinte: “Os verdadeiros missionários 
foram os Apóstolos de Cristo e são aqueles que não têm terras, nem 
rendas, nem propriedades, nem outros bens, alguns aonde assistem, e 
não aqueles que, com título de serviço de Deus e bem das almas, 
andam procurando terras e mais terras, com o pretexto de que são 
para os índios. O título é santo: o intuito é diabólico: porque com o 
seu nome se procuram as terras e os índios, para se servirem deles 
como escravos, para todas as suas lavouras, comércios, negócios e 
granjeiros.” 
A situação descrita provocou atritos dos mais sérios na região 
abrangida pelo Estado do Maranhão, notadamente no Pará, onde os 
moradores chegaram a levantar-se em armas para expulsar os 
jesuítas, consumada em sucessivas oportunidades e em várias 
localidades. Manifestações contra a Ordem tiveram lugar mesmo em 
São Luís, tendo se mobilizado em, favor dos colonos portugueses, os 
órgãos que então eram os autênticos institutos da representação 
popular, as Câmaras Municipais. 
Varnhagen tinha conhecimento da Crônica da Missão dos 
Padres da Companhia de Jesus no Estado do Maranhão, de 
autoria do padre jesuíta João Filipe Bettendorff, considerado como o 
depoimento mais confiável do mencionado conflito. Nessa obra há 
mais de um “livro” (partes em que o autor a subdividiu) com o título 
de “Levantamento do povo do Maranhão e do Pará contra os padres 
da Companhia de Jesus”. O período abrangido pela Crônica 
compreende a segunda metade do século XVII (o segundo da 
colonização). O Senado Federal editou, em 2010, a versão integral 
desse documento, que tem nada menos que 803 páginas. 
As razões do conflito eram claras. Varnhagen refere que os 
jesuítas dispunham de “22 grandes fazendas de gado e engenhos de 
açúcar” na mencionada região. Posteriormente passou-se a dispor de 
levantamentos circunstanciados desse patrimônio, com base nos 
registros efetivados quandose deu a sua expulsão, decretada por 
Pombal. Ficou estabelecido, por exemplo, que as fazendas que 
haviam criado na ilha de Marajó contavam com mais de cem mil 
 39 
cabeças de gado. A fazenda de Santa Cruz (no Rio de Janeiro) era 
considerada a maior em todo o Centro-Sul. Sendo os índios a mão de 
obra empregada, qual a natureza desse vínculo? Varnhagen formulou 
essa questão que não foi respondida pelos que saíram em defesa dos 
jesuítas, argumentando com o papel que desempenharam na 
disseminação da religião, que ninguém contesta, nem tampouco a 
importância de que se revestiu na preservação da unidade nacional. 
Entendo ser suficiente o que se referiu, sendo desnecessária a 
transcrição de textos do autor, dando preferência a outros eventos. 
Entre estes, aqueles em que chama a atenção para a ação do 
Santo Ofício na primeira metade do século XVIII. Antecedo-a de 
uma nota em que destaco ter resultado na desorganização do 
empreendimento açucareiro, de onde proveio a maior parcela da 
receita de nossas exportações nos três primeiros séculos. 
Varnhagen referiu mas não deu maior desenvolvimento às 
bandeiras, que desempenharam papel destacado na disseminação do 
povoamento. Capistrano é que feriu o tema, inclusive mostrando 
como a pecuária resultou de sua atuação. Contudo, é fora de dúvida 
que o bandeirantismo nunca recebeu de nossa parte a atenção e 
destaque que merecia. Seria um grande tema para o cinema, a 
exemplo da exploração que Hollywood deu à Marcha para o Oeste 
nos Estados Unidos. 
Em compensação, deteve-se nos incidentes que seriam a 
origem da disputa, que se tornaria secular, em torno do controle do 
acesso à bacia do Prata. Como era de seu estilo, mobilizou a 
documentação disponível. Teria amplos desdobramentos, a exemplo 
do Tratado de Madrid, nesse terceiro século; a opção pela separação 
do Uruguai, logo no início da Independência –e mesmo o desfecho 
colossal que seria a Guerra do Paraguai--, não pareceu-nos essencial 
quando nos propomos apenas a manter viva a presença de Varnhagen 
e assegurar a possibilidade de que as novas gerações tenham dela 
notícia. 
 No que respeita ao tomo quarto, dão uma idéia do 
desenvolvimento da obra as seções XLV –D. José I e Pombal. 
 40 
Administração Josefina. Letras; e, XLVII -Idéias e conluios em 
favor da Independência em Minas. Adicionalmente, permitem situar 
a espécie de conservadorismo da elite que logrou facultar-nos uma 
experiência bem sucedida de governo representativo, a que pertencia 
Varnhagen. 
A transcrição se conclui com textos da parte dedicada à 
Independência. O propósito é dar uma idéia do volume da 
documentação que mobilizou para concluí-los. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
PRIMEIRO SÉCULO (século XVI) 
 
SECÇÃO VII 
(III da I edição) 
 
ATENDE-SE MAIS AO BRASIL. PENSAMENTO 
DE COLONIZÁ-LO EM MAIOR ESCALA 
 
Os Portugueses na Ásia. Os Franceses no Brasil, 
Recursos do foro e da diplomacia. Ango. Roger. Jacques. 
Igaraçu e Pernambuco. Diego Garcia e Cabot. D. Rodrigo de 
Acuña. Porto de D. Rodrigo. Baixos de D. Rodrigo. Suas 
peregrinações. D. Rodrigo em Pernambuco. Cristóvão Jacques 
e os Franceses. Antônio Ribeiro. Idéia de colonização. Diogo 
de Gouveia. Méritos de Gouveia. Resolve-se a colonização do 
 41 
Brasil. Henrique Montes. Martim Afonso de Sousa. Poderes 
que trazia. Pero Lopes de Sousa. Reclamações de França. 
Negociações diplomáticas importantes. 
 
Vimos na secção precedente como já no reinado de D. 
Manuel e pelo menos desde 1516, haviam sido dadas algumas 
providências em favor da colonização e cultura do Brasil. 
Sabemos, além disso, que depois o mesmo rei, ou pelo menos 
o seu sucessor apenas começou a reinar, criou no Brasil 
algumas pequenas capitanias; e que de uma delas foi capitão 
um Pero Capico, o qual chegou a juntar algum cabedal. 
Igualmente sabemos que os produtos, que iam então do Brasil 
ao reino, pagavam de direitos, na casa da Índia, o quarto e 
vintena dos respectivos valores, e que, no número desses 
produtos entravam não só alguns escravos, como, em 1526, 
algum açúcar “de Pernambuco e Tamaracá”. 
Decorriam, porém, os anos, e o Brasil seguia com o seu 
imenso litoral à mercê de qualquer navio que o procurava. – 
Não há por que fazer censuras. Os esforços e os capitais 
empregados na Ásia produziam maior e mais imediato 
interesse, nessa época de crise comercial, em que se efetuava 
em favor da Europa um grande saque das riquezas empatadas 
no Oriente. Além de que, ainda sem considerar a questão sob 
miras econômicas, é certo que Portugal, forçando os turcos a 
levar a guerra à Ásia, aliviou por algum tempo a Europa do 
seu peso ameaçador, e sustentando o comércio da especiaria 
por mar, consumou o pensamento de Lull de empobrecer 
bastante o Egito. Ora, não fora possível durante essa luta 
distrair muitos navios e forças para outro continente. Os 
adustos campos das então recentes glórias portuguesas, a 
própria África, onde filhos de reis iam armar-se cavaleiros, 
começou a ser descuidada. E ainda supondo que já então 
tivesse ocorrido a idéia que depois (nesse mesmo século) 
ocorreu (1), de que no Brasil poderia vir a organizar-se um 
 42 
grande império, a metrópole aguardava acaso para isso melhor 
ocasião. A glória que Portugal adquiriu na Ásia custou-lhe, 
entretanto, a perda de muita da sua população, e o perverter 
em parte a índole dos seus habitantes, com tantas piratarias e 
crueldades. Em virtude delas, o têm coberto de baldões, como 
se as crueldades e as piratarias não tivessem em todos os 
tempos sido apanágio das conquistas. Esses heróis da 
antiguidade, que, em geral, só contemplamos pelo aspecto 
maravilhoso, também praticaram muitas crueldades e muitas 
injustiças; porém como aos panegiristas, que nos transmitiram 
seus feitos, não faltou manhoso artifício para no-lo contarem a 
seu modo, ocultando tudo quanto lhes não servia ao 
panegírico, e nem todos os que lêem são pensadores, sucede 
que muitos, inconseqüentemente, louvam e admiram na 
história como heroicidades feitos idênticos aos que em outra 
época, ou em outro país, condenam como misérias e 
pequenezas desta ou daquela geração. Se de todas as 
conquistas dos Gregos e dos Romanos tivéssemos histórias 
escritas pelos seus inimigos ou rivais, talvez que não 
admirasse o mundo tantas proezas, nem tantos heróis. 
Enquanto, porém, Portugal se via a braços com grande 
número de inimigos no litoral e mares da Ásia, onde, em 1521, 
a sua armada constava nada menos que de uns oitenta e tantos 
vasos (Doc. da Torre do Tombo), muitos armadores da 
Bretanha e Normandia, já avezados à navegação das costas de 
Guiné e da Malagueta, passavam não só a alguns excessos de 
pirataria com os galeões que vinham da Índia, como a traficar 
nas terras do Brasil; onde adquiriam quase de graça gêneros, 
que nos mercados europeus obtinham grandes valores, e os 
quais lhes deviam produzir maiores vantagens do que aos 
contratadores portugueses; por isso mesmo que não tinham, 
como estes, de indenizar a coroa pela faculdade de 
comerciarem. – Debalde havia Portugal proibido com duras 
penas aos seus “mestres de cartas de marear’ o fazerem pomas 
 43 
ou esferas terrestres, e o marcarem nos mapas as terras ao 
suldo rio de Manicongo e das ilhas de São Tomé e Príncipe 
(Alov. de 13 de Nov. de 1504, na Torre do Tombo). Debalde 
proibia que aceitassem seus pilotos e marinheiros (Ordenações 
Manuelinas, liv. V, tít. 98, § 2; tít. 88, § 11) o serviço de mar 
de outras nações, pensando talvez com isso obstar à propagação 
dos conhecimentos náuticos pela Europa. Os ousados 
navegadoresde Honfleur e de Dieppe freqüentavam cada dia 
Mais os portos do Brasil. As guerras da França não faziam 
diminuir o ardor e a atividade dos seus homens do mar, 
estimulados por tantos lucros. Em 1516 haviam chegado a 
Portugal tais notícias de suas navegações no Brasil, que el-rei D. 
Manuel mandava por seus agentes representar contra elas à corte 
de França (2). E digamos desde já que tão poderosos se tinham 
feito alguns armadores, que nem o mesmo governo francês podia 
sujeitá-los, e que Portugal, depois de haver exaurido na França, 
perante os tribunais, os parlamentos e a própria coroa, todos os 
recursos do foro e da diplomacia, se viu obrigado a transigir e a 
negociar com os mais notáveis corsários, que eram João Afonso e 
o célebre João Ango, ao depois visconde de Dieppe (3). Todos 
estes acontecimentos merecem uma história especial que não 
duvidamos se escreverá algum dia; pois sobram para ela os 
documentos, dos quais somente aproveitaremos agora o que mais 
de perto nos interesse. Sabemos que, já em vida de el-rei D. 
Manuel, fora o seu subdito Jácome Monteiro nomeado 
embaixador junto a Francisco I, com instruções para representar 
acerca das tomadias e das invasões nas suas conquistas, 
efetuadas umas e outras por franceses. A Monteiro sucedeu João 
da Silveira mandado por D. João III, apenas subiu ao trono, com 
especial recomendação para que ponderasse quão triste era que 
se estivessem hostilizando no mar os súditos, de dois reis e de 
duas nações que se diziam amigos (4). Apesar das reclamações 
que faziam, como levamos dito, os agentes portugueses, 
empreendera Hugues Roger com felicidade em 1521 uma viagem 
 44 
à nossa costa, e havia notícia de que se preparavam outros 
navios. Por fim, em 11 de Fevereiro de 1526, escrevia o 
embaixador João da Silveira, como em França se armavam dez 
navios para virem apoderar-se das embarcações que 
encontrassem. 
Tal aviso, a nosso ver, decidiu Portugal a mandar ao 
Brasil de guarda-costa, neste mesmo ano, uma esquadrilha 
composta de uma nau e cinco caravelas, a qual findo certo 
prazo devia ser rendida por outra. Vinha por capitão-mor 
Cristóvão Jaques(I), e trazia de chefes subalternos Diogo 
Leite, com seu irmão Gonçalo Leite, e Gaspar Correia. O 
mesmo Jaques era portador de um alvará, passado em 
Almeirim por Jorge Rodrigues, a 5 de Julho de 1526, 
autorizando a Pero Capico a retirar-se. Esse alvará era 
concedido nos seguintes termos: “Eu Elrei Faço saber a vós 
Christovão Jacques, que ora envio por Governador às partes do 
Brasil, que Pero Capico, Capitan de uma das capitanias (5) do 
dito Brasil, me enviou dizer que lhe era acabado o tempo da 
sua capitania, e que queria vir para este Reyno, e trazer 
comsigo todas as peças de escravos e mais fazendas que 
tivesse, Hey por bem e me praz que, na primeira caravela ou 
navio que vier das ditas partes, o deixeis vir, com todas as suas 
peças de escravos e mais fazendas; comtanto que virão 
diretamente à casa da India, para nella pagarem os direitos de 
quarto e vintena, e o mais que a isso forem obrigados, na 
fórma que costumam pagar todas as fazendas que vêm das 
sobreditas partes” (6). 
Jaques alcançou a costa do Brasil no fim do dito ano; e 
fundeando no canal que separa do continente a ilha de 
Itamaracá, deu ali princípio a uma casa da feitoria no sítio, que 
se chamou “dos Marcos”, em virtude dos que aí depois se 
colocaram para termos de demarcação, no próprio continente, 
quase em frente da entrada do sul do mesmo canal, e da antiga 
vila da Conceição, situada a cavaleiro, na própria ilha. Esta 
 45 
feitoria, ou outra a par desta, passou ao que parece a ser 
estabelecida pelo mesmo Jaques no porto de Pernambuco ou 
antes Paranámbuko, nome que significa furo do mar, segundo 
alguns; mas que parece antes dever derivar-se de duas palavras 
equivalentes a “mar largo”; visto haver no litoral mais algum 
Paranambuco, sem nenhum furo ou ria (7). 
Deixando fundada essa feitoria, passou Jaques a correr 
a costa até o Rio da Prata, onde pouco tempo se demorou, 
regressando outra vez para o norte, a cometer feitos que não 
tardaremos em comemorar. Primeiro, nos cumpre dizer como 
por este mesmo tempo estacionavam ou navegavam nas águas 
do nosso litoral duas frotas, ambas de Castela. De uma, que 
constava de três naus, era chefe Diego Garcia (8). Mandava a 
outra, com igual número de redondos e mais uma caravela, 
Sebastião Cabot, filho do navegador de igual apelido, que 
descobrira por Inglaterra as costas do Norte deste grande 
continente. Estas duas frotas haviam deixado a Europa um 
pouco antes que Jaques. Diego Garcia, que partira primeiro, 
aportou em São Vicente; e tantos meses aí se demorou que 
parecia se esquecer do seu destino, que era subir o Rio da 
Prata. Por meio da relação que de sua viagem nos transmitiu, 
não se nos recomenda como homem verdadeiro, nem polido, 
nem superior à mesquinha inveja, e deve ler-se com precaução. 
Cabot era mandato às Molucas por este lado, reforçando outra 
armada maior que havia partido um ano antes, e da qual em 
breve daremos notícia. Aportou Cabot em Pernambuco(II), 
onde já encontrou a feitoria portuguesa, e seguindo a 
navegação para o sul, só avistou de novo terra nas alturas da 
ilha, a que então pôs o nome de Santa Catarina. Aí fundeou 
Cabot, e logo de um porto vizinho da parte do sul vieram 
visitá-lo muitos castelhanos, dos quais uns ali viviam desde 
muitos anos (9), e outros desde mui pouco tempo, não havendo 
querido seguir a D. Rodrigo, de quem passaremos a tratar. 
Era D. Rodrigo de Acuña o comandante da nau São 
 46 
Gabriel pertencente a uma armada (10) que, às ordens do 
comendador Fr. Garcia Jofre de Loaysa, partira, antes de 
Cabot e de Diego Garcia, com direção às Molucas, seguindo 
derrota pelo ocidente. Essa armada, largando da Corunha em 
24 de Julho de 1525, avistara em princípios de Dezembro a 
costa do Brasil, ao sul do cabo de São Tomé, e fora, pela 
maior parte, desbaratar-se junto ao Estreito de Magalhães. Não 
é de nosso propósito contar esse desbarato, ao qual pouco 
depois se seguiu a morte de Loaysa e do seu imediato Del 
Cano; e contentemo-nos de saber que D. Rodrigo achou 
refúgio em um porto, ao sul da ilha de Santa Catarina, e 
encontrou vários companheiros de Solis que, abastecendo-o de 
água, lenha e mantimentos, deram da terra tais informes que 
muitos da tripulação, alborotando-se, se determinaram a ficar 
nela, em vez de exporem-se a novos perigos de mar. As 
exortações de D. Rodrigo apenas puderam atrair-lhe alguns 
poucos dos alborotadores. 
Daqui proveio a este porto o nome de Porto de D. 
Rodrigo, com que por muito tempo foi conhecido nos mapas e 
roteiros. Acaso seria o mesmo a que Solis, dez anos antes, 
chamara Baía dos Perdidos, talvez em virtude dos 
mencionados seus companheiros que aí lhe fugiram ou se 
perderam; se é que esses indivíduos não houvessem 
efetivamente ficado por aí, voluntariamente ou desgarrados, já 
desde alguns anos antes. 
Com trinta e dois homens menos de tripulação, fez-se 
por fim D. Rodrigo de vela para o Rio de Janeiro. Neste porto 
convocou a sua gente a conselho: e nele foi resolvido que a 
nau em vez de seguir para as Molucas, voltasse à Espanha, 
com alguma carregação de pau-brasil. Dirigiu, pois, D. 
Rodrigo o rumo para o norte e entrou na Bahia. – Aí a 
tripulação se lhe diminuiu de nove homens que, indo à terra, lá 
ficaram devorados pelos selvagens, segundo se julgou. 
Saindo da Bahia para o norte, pela muita água que fazia 
 47 
a nau, tratou de arribar, e deu-se a casualidade de que, meado 
Outubro, fosse entrar justamente num porto próximo do riode 
São Francisco, no qual se achavam carregando de brasil suas 
naus e um galeão de França (11). Os capitães franceses ao 
princípio ofereceram proteção a D. Rodrigo, mandando-lhe até 
dois calafetes; e quando, passados oito dias, se achava a nau 
espanhola virada de crena, e impossibilitada de navegar, 
caíram na fraqueza de ir acometê-la, intimando a D. Rodrigo 
que se rendesse. Vendo este que a resistência era impossível, 
meteu-se no batel, foi ter com os franceses, e conseguiu deles 
tréguas, ficando de lhes dar vinhos e azeite que diziam 
carecer. Enquanto, porém, se negociavam estas tréguas, e os 
franceses tendo o capitão castelhano em refém, se 
descuidavam da nau agredida, ela conseguia, não só surgir 
boiante, como picar as amarras, e fazer-se de vela. Quando os 
franceses despertaram do seu descuido, já a nau espanhola ia 
barra fora, sem o capitão, nem os marinheiros que o haviam 
acompanhado. Em vão D. Rodrigo lhes bradava e fazia sinais, 
em vão os seguia em um batel à vela. A nau São Gabriel já 
nem nas promessas do seu próprio capitão confiava, que tanta 
desconfiança levam os desenganos das promessas não 
cumpridas. 
Seguiu D. Rodrigo no batel todo aquele dia e parte do 
imediato. Porém... baldados esforços! a nau tinha desaparecido 
no horizonte, e o seu legítimo comandante e fiéis romeiros, 
exaustos de forças, emproavam para terra e iam varar à costa, 
a umas dez léguas para o norte do porto donde haviam partido: 
- naturalmente na paragem que se ficou até hoje chamando os 
Baisios de D. Rodrigo, quase defronte do rio Cururipe. Daí se 
dirigiram por terra, bastante expostos aos selvagens, ao porto 
que acabavam de deixar. 
Já tinham dele partido as duas naus francesas, e só 
ficara o galeão. Neste se alojaram os tristes por mais de um 
mês; mas acabando o mesmo galeão de carregar, fez-se de 
 48 
vela, desamparando os míseros em um batel, sem mantimento 
algum! 
Não havia, porém, soado a hora final aos pobres 
desamparados. Entregues à providência, seguiram pelos mares 
durante vinte dias, nutrindo-se apenas de algum marisco e de 
pouca fruta que acertavam de colher pela costa, até que na ilha 
de Santo Aleixo lhes deparou Deus porto, onde puderam 
refazer-se. Nessa ilha tiveram a fortuna de encontrar alguma 
farinha de trigo, uma pipa de bolacha molhada, um forno, e 
anzóis com que apanharam muito peixe (12). De Santo Aleixo 
passaram à feitoria de Pernambuco (13). 
Cristóvão Jaques se negou a dar-lhes passagem para a 
Europa, primeiro em uma nau que enviava carregada de brasi l, 
e na qual mui provavelmente se embarcou, com seus haveres 
Pero Capico, e depois numa caravela que igualmente mandou 
regressar ao reino. Pela primeira escreveu D. Rodrigo ao bispo 
d’Osma; porém a carta, em vez de seguir ao seu destino, foi 
apreendida, e ainda hoje se guarda no arquivo público em 
Portugal (14). Dez meses depois escreve3u outras, uma das 
quais para el-rei D. João III; e estas chegaram a Lisboa, pela 
mencionada caravela, ao mando do capitão Gonçalo Leite. As 
que eram para Castela foram remetidas pelo embaixador em 
Lisboa (15) Lope Hurtado. Os da nau São Gabriel, depois de 
eleger por capitão ao piloto Juan de Pilola, não podendo 
montar o Cabo de santo Agostinho, retrocederam à Bahia, para 
querenar; porém, inquietados aí por outra nau francesa, 
passaram ao Cabo Frio e, deste, a um porto mais ao sul, do 
qual se fizeram afinal de vela para a Europa, chegando a 
Bayona de Galiza aos 28 de Maio de 1527 (16). 
Quando a nau espanhola São Gabriel, ao querenar, 
sofria as bombardadas dos três navios franceses, navegava elos 
mares brasílicos, por aquela altura, a armada de Sebastião 
Cabot, que deixara Pernambuco no mês anterior. – E ai dos 
aleivosos, se nessa ocasião se aproximara da costa a esquadra 
 49 
espanhola! – Porém Cabot seguia de largo, e só foi de novo 
avistar terra na ilha de Santa Catarina, como antes dissemos. 
As informações que a Cabot deram os castelhanos, que 
nesta ilha encontrou, das riquezas do rio da Prata, o induziram, 
a pretexto de não poder empreender maior viagem por se haver 
perdido a capitânia, a subir pelo mesmo rio da Prata, em vez 
de prosseguir para as Molucas (17). 
Deixando, porém, os mais sucessos desta armada, bem 
como os outros da sua contemporânea castelhana ao mando de 
Diego Garcia (18), e que não pertencem à nossa história, 
sigamos a Cristóvão Jaques em seus feitos. Vimos como, 
julgando que lhe bastava ter consigo as cinco caravelas latinas, 
mandara para o reino a nau, com carga de brasil. Logo depois, 
andando a correr a costa, com quatro das ditas caravelas, 
travou peleja com três navios de mercadores bretões, dois 
deles de cento e quarenta toneladas. Combateu um dia inteiro, 
e, saindo vencedor, levou para Pernambuco os prisioneiros em 
número de trezentos. Segundo nos consta por tradição, este 
combate teve lugar num recôncavo, pelo rio Paraguaçu acima, 
junto à ilha ainda chamada dos Franceses. Sabendo, porém, 
positivamente, por outro lado, que as hostilidades começaram 
de parte dos navios franceses contra uma das caravelas, pelos 
tempos contrários esgarrada das outras, que depois acudiram, 
só teria o combate lugar nessa paragem, se acaso a ela se 
foram refugiar os mesmos navios, depois de começadas as 
hostilidades. As queixas do atribulado D. Rodrigo de Acuña, 
os informes de Gonçalo Leite, que se nos denuncia como 
pouco afeiçoado ao chefe, e uma carta de Diogo Leite, em que 
parece censurar quanto no Brasil se fazia, decidiram o governo 
em apressar-se a dar por acabada a comissão de Jaques. Para 
lhe suceder foi escolhido Antônio Ribeiro. E Jaques recolheu 
ao Reino, com os trezentos prisioneiros estrangeiros que tinha 
consigo na feitoria. Neste número entrou talvez Acuña, em 
favor de quem se empenharia o mencionado embaixador 
 50 
espanhol Lope Furtado (19). 
Quanto a Ribeiro, nenhuma notícia encontramos dos 
seus feitos em nossos mares (20). Naturalmente abandonou 
pouco depois a costa com a esquadrilha, chamada talvez a 
outro serviço. O certo é que, ficando a feitoria desprotegida, 
caiu sobre ela um galeão de França, que a saqueou, 
conseguindo apenas o feitor Diogo Dias escapar-se em uma 
caravela, que ali então passava com destino para Sofala. 
Cristóvão Jaques, que havia tido ocasião de estudar o 
país e de avaliar a sua riqueza, e que conhecia o estado 
florescente a que já nesse tempo tinham chegado as colônias 
portuguesas da Madeira, dos Açores e de São Tomé, onde 
possuíam importantes solares vários senhores donatários, cujos 
avós apenas eram conhecidos, propôs-se a ser também 
donatário no Brasil, oferecendo-se a levar consigo mil 
colonos. 
Achava-se então em Lisboa Diogo de Gouveia, um dos 
portugueses mais ilustrados daqueles tempos, estabelecido em 
Paris, onde dirigia o colégio de Santa Bárbara, do qual saíram 
para o mundo literário não poucos alunos, que lhe deram 
glória. Gouveia, que desde 1513 prestava em França nos 
negócios das tomadias valiosos serviços, empenhou-se com el-
rei D. João III para que levasse avante os intentos de Cristóvão 
Jaques (III). Parece, porém, que ainda então não estava a corte 
resolvida a seguir o seu parecer, como depois seguiu, apenas o 
tempo começou a deixar que se principiassem a realizar as 
previsões do profundo pensador, porventura antes tratado, 
como sucede ordinariamente, de sonhador e de utopista, pelos 
que não pensam, ou pelos que não chegam a lobrigar o que ele 
vê às claras. Digamos desde já que o de que tratamos é o 
mesmo doutor (ou mestre) Diogo de Gouveia, que depois 
(1537) foi eleito regente da Universidade de Bordéus e, nesta,lente de teologia, enquanto não passou a Coimbra com muitos 
outros professores que foi encarregado de ajustar (21). 
 51 
Antes de prosseguir, cumpre-nos dizer que os 
interessados (22) nos três navios apresados por Cristóvão 
Jaques, requereram a Francisco I, por intermédio do conde de 
Laval, governador de Bretanha, cartas de marca que se 
indenizarem de suas perdas, que orçavam em sessenta mil 
cruzados. mandou Francisco I a Portugal para agenciar essas 
indenizações o rei d’armas Helice Alesge de Angoulême. 
Chegou este a Lisboa em Janeiro de 1529; deu conta da 
missão, porém, não sendo despachado durante mais de dois 
meses, regressou a França; e poucos dias depois assinava 
Francisco I uma carta patente de corso, em favor do célebre 
Ango, contra Portugal. Vendo-se, porém, mui necessitado de 
dinheiro, inclusivamente para pagar o resgate de seus filhos ao 
vencedor Carlos V, mandou o mestre Pedro de la Garde de 
embaixador a D. João III, oferecendo-se a cassar as cartas de 
corso, e pedindo-lhe trezentos mil cruzados emprestados. 
Respondeu o monarca português (com muitas desculpas e 
incumbindo de encarecê-las em França o seu embaixador João 
da Silveira) que por obsequiá-lo lhe emprestaria cem mil 
cruzados em dinheiro; e que o mais, que passava e muito de 
trezentos mil cruzados, lhe cedia também de empréstimo, se 
ele quisesse fazer justiça, obrigando muitos dos seus vassalos 
a restituir as tomadias ilegitimamente feitas. João da Silveira 
era autorizado, inclusivamente, a agenciar estes negócios, 
concedendo aos indivíduos que assentassem “algum proveito 
secreto” (23). A este mesmo intento foram de embaixada os 
desembargadores Lourenço Garcez e Gaspar Vaz. 
Entretanto, reconhecera-se que eram insuficientes as 
pequenas capitanias, antes fundadas no Brasil, e que as 
simples armadas de guarda-costa, além de muito dispendiosas, 
não prometiam toda a segurança; sem uma forte colônia 
nalgum porto vizinho, a que elas se pudessem recolher para 
refazer-se, não só de mantimento, como de gente, em caso de 
necessidade. Ao mesmo tempo a colônia, desenvolvendo-se e 
 52 
crescendo, poderia com seus próprios recursos sustentar tal 
armada, sem sobrecarregar o tesouro da mãe-pátria. 
A idéia de fundar, pois, no Brasil uma colônia vigorosa 
começava a triunfar, quando se recebia em Lisboa uma carta 
escrita (IV) de Sevilha por um Dr. Simão Afonso, dizendo 
como acabando Sebastião Cabot de chegar mui derrotado do 
rio Paraná, o haviam mandado ali prender, e de como pensava 
ele doutor que Espanha não tentaria para aquelas bandas novas 
empresas. 
O plano vago da fundação de uma povoação forte no 
aquém-mar se fixou então justamente sobre essa paragem de 
clima temperado, e de tantas apregoadas riquezas, que os 
castelhanos escarmentados iam porventura desamparar de 
todo: sobre as margens do rio da Prata. Aprontou-se com mais 
rapidez a frota composta de duas naus, um galeão e duas 
caravelas. Além das competentes guarnições e tripulações, 
embarcaram-se nela famílias inteiras... “Vão para o rio da 
Prata!”... E bastava esta voz para não faltar quem quisesse 
alistar-se... Ao todo contam-se nas cinco velas (24), 
quatrocentas pessoas. Muitas destas diziam adeus à pátria, no 
momento em que porventura sonhavam que dentro de pouco 
volveriam a ela com grossos cabedais – com rios de prata. 
Henrique Montes, que estivera com Cabot e que tinha passado 
a Portugal, regressava na armada (V) feito cavaleiro da casa, e 
agraciado com o ofício de provedor dos mantimentos, assim na 
viagem, como ao depois, “em terra, em qualquer lugar onde 
assentassem” os que iam na armada, uns por obediência às 
soberanas ordens, outros por curiosidade, ou por ambição ou 
sede de riquezas, e alguns até por sua infelicidade – seus 
vícios e crimes. 
Para comandante fora escolhido Martim Afonso de 
Sousa, que ao depois se fez célebre na Ásia, obrando prodígios 
de valor (VI). Contava então apenas trinta anos; mas já, por 
seu bom juízo, havia merecido a honra de fazer parte dos 
 53 
conselhos do rei. A amizade e o parentesco que com ele tinha 
o vedor da Fazenda D. Antônio de Ataíde, depois conde de 
Castanheira, deviam contribuir muito para a escolha; mas 
quem, como nós, teve ocasião de conhecer tão cabalmente o 
dito castanheira, por toda a sua correspondência privada e de 
ofício, incluindo a que ao depois por anos entreteve com o 
mesmo Martim Afonso, no serviço na Ásia, não pode por um 
só instante suspeitar que, no animo do conde, a amizade 
preponderasse ao zelo pelo Estado, tratando-se de um 
empregado deste, além de que: não era o conde da Castanheira 
exclusivo no conselho – e não se atreveria a fazer ao soberano 
qualquer recomendação, quando não tivesse o apoio de 
Antônio Carneiro, que era também secretário, mui influente na 
governação do estado. Demais: o êxito desta expedição e a 
sucessiva carreira de serviços de Martim Afonso justificam 
cabalmente a proposta que dele fez o seu primo e amigo a Sua 
Alteza – que tal era o tratamento que se dava ainda ao rei. 
Vinha Martim Afonso munido de poderes extraor-
dinários, tanto para o mar, como para reger a colônia que 
fundasse; e até autorizado com alçada e com mero e misto 
império no cível e no crime, até morte natural inclusive; 
exceto quanto aos fidalgos que, se delinqüissem, deveria 
enviar para Portugal. Trazia autorização para tomar posse de 
todo o território situado até à linha meridiana demarcadora; 
para fazer lavrar autos, e pôr os marcos necessários; para dar 
terras de sesmaria a quem as pedisse, e até para criar tabeliães, 
oficiais de justiça e outros cargos. As sesmarias (25), deviam 
ser dadas em uma só vida, o que não parece coerente com o 
pensamento de ligar a terra à geração perpetuada de pais a 
filhos. Não sabemos que a política ou que miras envolvia esta 
disposição, que logo depois se modificou, com melhor 
conselho. 
Com Martim Afonso vinha também nesta armada seu 
irmão Pero Lopes de Sousa, moço honrado e de grandes brios 
 54 
e valor, e igualmente muito bem conceituado perante o mesmo 
conde da Castanheira (26). À pena de Pero Lopes devemos 
hoje tudo quanto de mais averiguado sabemos dessa 
expedição, que se apresentou diante do Cabo de Santo 
Agostinho no último de Janeiro de 1531, depois de haver tido 
alguns dias de demora, para se refazer de mais mantimentos, 
na Ribeira Grande, porto da cidade capital do arquipélago de 
Cabo Verde. 
Para não interrompermos dentro de pouco a narração 
que vai seguir-se digamos já que, complicando-se as 
negociações em França, e havendo probabilidade de que mais 
se complicariam com alguns feitos da nova armada, foi lá de 
embaixador, em Maio de 1531, o próprio vedor da Fazenda D. 
Antônio d’Ataíde. E à presença nesse reino, durante poucos 
meses, deste prudente estadista, a quem por certo não se faz 
geralmente a devida justiça, atribuímos não só as capitulações 
celebradas com Ango, mas também as boas disposições da 
parte do almirante de França (VII) e outros, para os acordos 
depois tomados, em virtude dos quais, em 1537, se instalaram 
em Irun e Fuenterrábia comissões mistas de Portugal e França, 
para atenderem às reclamações de presas e tomadias, dos 
queixosos duma e outra parte. O próprio João Afonso, de 
apelido Francês, prático do Brasil (27) (e que antes de fugir de 
Portugal fora mestre de um navio de Duarte de Paz), recebeu 
del-rei carta de seguro de que não seria demandado, nem 
perseguido (28), por incurso nas penas dos naturais que 
aceitavam serviço do mar das outras nações, ou iam às 
conquistas sem licença (VIII). 
 
 
NOTAS EM NUMEROS ARÁBICOS 
 
(1) A D. Pedro daCunha, quando Portugal passou a domínio da 
Espanha, como se verá adiante, na secção XXI. Nos Diálogos das grandezas 
do Brasil, diál. 1º, lê-se que, ao chegar a notícia do descobrimento a 
 55 
Portugal, um astrólogo “levantara uma figura e achara que a terra descoberta 
havia de ser uma opulenta província, refúgio e abrigo de gente portuguesa”. – 
(C.). 
 
(2) C. de P. Correia, de Bruxelas, em 5 de Fev. 1517, na Torre do 
Tombo Corp. Cron. I, 21, 24. – (A.). 
 
(3) Ferdinand Denis, Génie de la Navigation, págs. 113-115. – (A.). 
– Equívoco do Autor. F. Denis declara não dar crédito a essa absurda tradição 
de Dieppe. (Nota do Barão do Rio-Branco, no exemplar da 1ª ed. desta 
História, que se conserva na Biblioteca do Itamarati). – (G.) 
 
(4) As instruções dadas a João da Silveira acerca de tomadias de 
naus feitas pelos franceses, têm a data de 5 de Fevereiro de 1522. – Alguns 
documentos da Torre do Tombo, p. 459. – João da Silveira faleceu em 1530; 
Palha, A carta de marca de João Ango. 13. – (C.). 
 
(5) Prova que havia mais de uma. – (A.). – Haveria mais de uma 
capitania, sem dúvida; é, porém, duvidoso se a capitania era de terra ou de 
navio. Esta última hipótese parece a mais aceitável, sem embarco da carta de 
D. João III, extratada na secção seguinte. Pero Capico, ou outro de igual 
nome, apareceu depois na capitania de São Vicente como escrivão, sob o 
governo de Martim Afonso de Sousa. – Azevedo Marques, Apontamentos 
históricos, 2, 169, Rio 1879. – (C.). 
 
(6) Liv. das Reformações da Casa da Índia, fls. 25. Pública-forma de 
uma certidão em 23 de Janeiro de 1755. – (A.). 
 
(7) Pará-ná, rio tantas vezes, ou mar, e bog furo; ou antes pucu, 
largo, transformado em mbuku para a composição, segundo Montoya, Arte, 
cap. 22. – (A.). 
Nos Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 8, 1880-1881, 
págs. 215-219, Baptista Caetano e Vale Cabral colecionaram as diversas 
etimologias de Pernambuco, que se encontram nos autores. Acham-se aí nada 
menos de onze interpretações, inclusive a de Varnhagen; mas Baptista 
Caetano opina por paraná-puka, arrebentação do mar ou rio grande, alusão 
quiçá ao recife. – (G.). 
 
(8) Diego Garcia era português, e fora ao rio da Prata em companhia 
de Solis, no ano de 1516. Tornando pela terceira vez a esse r io em companhia 
de D. Pedro de Mendonça, faleceu na ilha de Gomera nos últimos dias de 
 56 
Setembro de 1535. Medina, J. D. de Solis, CCCXXXI. Não é, portanto, o 
mesmo Diego Garcia que em 1538 comandou um navio da expedição de 
Hernando Soto e descobriu a ilha de Diego Garcia nos mares índios. Harisse, 
com razão, defende sua memória contra os entusiastas de Sebastião Caboto, 
que a deprimem. – (C.). 
 
(9) Talvez em virtude de algum naufrágio, na ponta da barra do Sul, 
que ainda hoje se chama dos “Naufragados”. – (A.). 
Eram os companheiros restantes de Solis; deles já faz menção a carta 
de Çuñiga de 27 de Julho de 1524, citada na nota I no final desta secção. 
(C.). 
 
(10) Veja Herrera, Dec. III; 7º,; 5, 6 e 7. – Veja também Gav. 2, 10, 
20, a C. de Antônio Ribeiro, de 28 de Fev. 1525, da Corunha, e a relação da 
viagem de Fr. Garcia de Mendoza, Tom. 5º. – (A.). 
 
(11) Eram “el galeon de Mosliense y Lomaria de la dicha villa, é otro 
navio de Normandia del rio de la Sena”. – Navarrete, Colección de los viajes, 
5, 321. – (C.). 
 
(12) Segundo Oviedo houve, por esse tempo aproximadamente, uma 
feitoria de franceses em Santo Aleixo, o que repete La Roncière. 
Os companheiros de D. Rodrigo, que ainda em 2 de Novembro de 
1728 existiam na feitoria de Pernambuco, chamavam-se Jorge de Catan (ou 
Catorico), Marchin Vizcaino, Bartholomé Vizcaino, Geronimo Ginovez, 
Alfonso de Napoles, Pascual de Negro (ou Negron) e Esteban Gomez. – 
Navarrete, Col. cit., 5,314,321 – (C.). 
 
(13) Em 30 de Abril de 1528 diz D. Rodrigo que havia 18 meses que 
ali estava, e em 15 de Junho de 1527 diz que havia 7 meses. – (A.). 
 
(14) G. 18, 5, 20; Navarrete, 5, 238; Varn. Prim. Neg. Diplomáticas, 
pag. 128. [Revista do Instituto, 65, 432]. (A.). 
 
(15) Of. do dito embaixador (em Simancas) M. 368. fol. 5. – Torre 
do Tombo, P. 1, 39, 133 e G. 15, 10, 30. – (A.). 
 
(16) Nav., 5, 173 e 233: quanto ao dito porto ao sul de Cabo Frio, ao 
qual na relação se chama Rio do Extremo, pode supor-se que fora a Angra 
dos Reis ou a baía de Guaratiba, em vista do lugar que lhe assina a carta de 
Diogo Ribeiro (1529). – (A.). 
 57 
 
(17) Henrique Montes e Melchior Ramirez apenas confirmaram as 
notícias colhidas na feitoria de Pernambuco. Como evidencia Harisse no livro 
citado supra, Caboto já levava desde então a idéia de ir ao Prata. – (C.). – 
Conf. Henry Harisse, John Caboto, the discoverer of North America, and 
Sebastian his son, pág. 205, London, 1896. – As notícias teriam sido levadas 
a Pernambuco por Cristóvão Jaques. No Islario de Alonso de Santa Cruz lê-
se: “Al austro de estas ay otras islas dichas de Christoval Jaques, que era un 
Portuguez llamado asi, que las descubrio veniendo a este rio por captan de 
una caravale desde la costa del Brasil a fama del oro, que se dezia aver en 
el”. – Franz R. von Wieser, Die Karten von America in dem Islario General 
de Alonso de Santa Cruz, pág. 56, Innsbruck, 1908. – (G.). 
 
(18) Conf. J. Toribio Medina, Juan Diaz de Solis, II págs. 186-188, 
Santiago de Chile, 1897. – (G.). 
 
(19) De muitos fatos narrados aquí pelo autor sao desconhecidas as 
fontes: no que vagamente chama tradição parece referir-se a Gabriel Soares, 
Tratado descritivo do Brasil. 16. – (C.). 
 
(20) Antônio Ribeiro, capitão-mor da armada, estava em Pernambuco 
em Novembro de 1528, quando despachava a petição de D. Rodrigo de 
Acuña. – Conf. Navarrete, Colección de los viages y descubrimientos, V, 
págs. 313-314, Madrid, 1837. – (G.). 
 
(21) Barbosa e Mariz enganam-se, atribuindo alguns de seus atos a 
André de Gouveia. Diogo faleceu, com mais de 90 anos, de cônego em 
Lisboa, em 1557. – (A.). 
 
(22) Yvon de Coctugar, François Guerret, Mathurin de 
Tournemouche, Jean Burcau e Jean Jamet. A tradução portuguesa da carta de 
Francisco I, de 6 de Setembro de 1528, ao rei d’armas de Angoulême, para 
que reclamasse justiça de D. João III pelos atentados sofridos, existe na Torre 
do Tombo, Corpo Cronológico, I, 43, 25, e está publicaa na História da 
Colonização Porruguesa do Brasil, vol. III, págs. 74-76. – A um “monseor 
Qualcougar”, por certo o mesmo Coctugar, refere-se a uma carta de D. João 
III ao Conde de Castanheira, de 21 de Setembro de 1533, sobre o concerto 
que com ele fizera, por intermédio de Guilherme Camier, bretão; recomenda 
que se lavre escritura pública do concerto para ficar muito seguro, que se dê 
30 cruzados ao procurador para o caminho, com todas as boas palavras para 
que vá contente, e um pode de vinho ao seu serviço. – J. D. M. Ford, Letters 
 58 
of Joh III, King of Portugal – 1521-1557, págs. 135-136, Cambridge 
(Massachusetts), 1931. – (G.). 
 
(23) C. R. a João da Silveira, de 16 de Janeiro de 1530; e sup. ao 
Arm. 26, m. 2º, n. 31. – (A.). – Navarrete, Col. de viajes, 5, 236. – (C.). 
 
(24) Em uma destas voltava ao Brasil o mesmo Diogo Leite, que 
estivera às ordens de Cristóvão Jaques. – (A.). – A armada, como se vê do 
Diário de Pero Lopes, constava da nau maior capitânia, de dois galeões: um 
chamado São Miguel, comandado por Heitor de Sousa, outro São Vicente, 
comandado por Pero Lobo Pinheiro, e duas caravelas: Princesa, comandada 
por Baltasar Gonçalves, e Rosa, comandada por Diogo Leite. – Fr. Luís de 
Sousa, An. de D. João III, 283, dá a armada como composta de três naus e 
quatro caravelas. – (C.). 
 
(25) “Sesmarias são as dadas de terras...que foram ou são de alguns 
senhorios”, etc. Ord. Man. IV, 67; e Filip. IV 43. – (A.). 
 
(26) A Martin Afonso escrevia de Pero Lopes o C. da Castanheira, 
em 1538: “Pêro Lopes, vosso irmão, está feito um homem muito honrado, e 
outra vez vos afirmo muito honrado. E digo vô-lo assim porque pode ser que 
por sua pouca idade vos pareça que terá bons princípios, mas que não será 
ainda de todo bem assentado nisso, como vô-lo eu aqui digo que é ainda 
menos do que o que dele cuido”. – (A.). 
A data 1538 não deve estar certa, pois não combina com o fato de 
Pero Lopes já ser então pai de família e donatário de uma capitania de juro e 
herdade. Será 1528? Em todo caso, será posterior a 1521, reinado de D. João 
III. – (C.). 
O Dr. Jordão de Freitas, História da Colonização Portuguesa do 
Brasil, vol. III, pág. 120, nota 161, diz que não parece aceitável a data de 
1528, tanto mais que nessa época Martim Afonso de Sousa estava na corte, 
com o futuro conte da Castanheira. Se há erro de algarismo – acrescenta – 
possível será que em vez de 1538 deva ler-se 1335, ano em que Martim 
Afonso de Sousa já se achava na Índia, como capitão-mor do mar. Martim 
Afonso era parente do Conde da Castanheira. Em carta a este, do primeiro de 
Fevereiro de 1533, D. João III escreve: - “Vy a carta que me escrevestes 
sobre a vynda de Pero Lopes de Sousa, e o muyto prazer e cõtentamento que 
tendes das boas novas que elle trouxe. Vos agradeço muito, porque allem da 
Rezam que tendes de folgar tanto pelo parentesco que tendes com Martinho 
Afonso e Pero Lopes, também sam [sou] certo que a principall parte he por 
serem cousas tanto de meu serviço”. – J. D. M. Ford, Letters of John III, 
 59 
citadas, pág. 81. – (G.). 
 
(27) “Joannis Alfonsi Francez, qui erat expertus in viagiis ad 
brasiliarias insulas”. – (A.). – O documento citado, escreve Sousa Viterbo, se 
acha no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, num maço de libelos 
apresentados pelo Dr. Jorge Nunes aos juízes comissários, delegados para a 
divisão das presas feitas no mar entre Portugueses e Franceses (Gav. 15, 
maço 24, doc. 3, libelo 16). No segundo libelo, logo em princípio, também se 
fez referências a João Afonso: “adversus Rogerium Bansa Magistrum unius 
navigiis qui erant de conserva Joannis Alfonsi Francez cognomento et contra 
Giles Philippes capitaneum navis aut navium dictae Joannis Alfonsi et contra 
Joannem Ango vicinos de Anna Frol...” – (C.). 
 
(28) Casa da Coroa, Arm. 26, 3, 10. – (A.). – Publicado pelo autor 
em Amerigo Vespucci, 115-116, Lima, 1865, e reproduzido por Sousa 
Viterbo, Trabalhos náuticos dos Portugueses nos séculos XVI e XVII, 1, 16-
17, Lisboa, 1898. – (C.). 
 
 
 60 
NOTAS EM ALGARISMOS ROMANOS 
 
(I) 
 
Do Nobiliário ou Coleção de Títulos de diversas Famílias, por José 
Freire Montarroio Mascarenhas, códice da Biblioteca Nacional de Lisboa, 
resumiu o Sr. F. M. Esteves Pereira, História da Colonização Portuguesa do 
Brasil, vol. II, págs. 361-364, várias notícias acerca de Cristóvão Jaques, da 
procedência de sua família e da sua descendência, como também de suas 
expedições ao Brasil. 
Os Jaques, segundo essas notícias, eram originários do reino de 
Aragão. Huillelm Jaques, com seu filho Diogo Gil Jaques, passou a Portugal 
ao tempo da menoridade de D. Afonso V, quando governou o reino D. Pedro, 
duque de Coimbra, que lhe fez mercvê de terras no Algarve. Pero Jaques, 
filho de Diogo Gil, foi como seu pai fidalgo da casa real, teve as mesmas 
terras e morgado, e foi feito por D. Afonso V comendador de Bouças. Esse 
Pero Jaques foi o pai de Cristóvão Jaques, filho segundo, bastardo, porque os 
comendadores então não podiam casas, havido em Beatriz Afonso, mulher 
solteira, filha de lavrador honrado. Por carta de D. João II, datada de 
Montemor-Novo, a 31 de Janeiro de 1495, Cristóvão Jaques foi legitimado; 
como na mesma carta o rei diga: “querendo fazer graça e mercê a Cristóvão, 
filho de Pêro Jaques”, observa o Sr. Esteves Pereira, ib., 363, que “na data da 
legitimação Cristóvão Jaques devia ser mancebo de cerca de quinze anos, 
tendo nascido pelos anos de 1480”. 
Não se casou no Algarve com D. Isabel de Paiva, filha de Gil Anes 
de Magalhães, o cavaleiro, e D. Isabel de Paiva, sua mulher, conforme se tem 
escrito; mas com uma filha de Francisco Porto Carreiro, da qual houve três 
filhos, dois homens e uma mulher: Manuel Jaques Porto Carreiro, talvez o 
mesmo Manuel Jaques referido em outra nota; Francisco Porto Carreiro e 
Catarina Jaques, que foi casada com seu tio Henrique Jaques. 
Das mesmas notícias consta que D. Manuel, sendo Cristóvão Jaques 
fidalgo de sua casa, o mandou ao Brasil, dando-lhe cem mil reais para armar 
dois navios. Por outro mandado sabe-se que veio ao Brasil e “gastou na 
viagem dois anos, quatro (aliás dez) meses e dezoito dias, que começaram em 
21 de Junho de 1516 e acabaram em 9 de Maio de 1519, com o ordenado de 
dezoito quintais de pau-brasil por ano... e recebeu de Pedro Cardoso, feitor 
das almandravas do reino do Algarve e cavaleiro da casa do rei, cento e vinte 
e cinco mil e quinhentos reais, além do que cobrou depois os cem mil reais 
que lhe havia prometido”, ib., 363. Dessa última quantia passou-se alvará, em 
2 de Setembro de 1521, para lhe ser paga pelo tesoureiro Fernão Álvares; 
mas é possível que houvesse delongas no pagamento. 
 61 
Foi nessa viagem, cujas instruções deviam ser contra os castelhanos, 
que Cristóvão Jaques, depois de fundar uma feitoria em Pernambuco, 
encontrou ao sul, em um porto de Santa Catarina, nove dos companheiros de 
Solis, e navegou até o Rio da Prata, conforme, baseado na carta de Luís 
Ramirez, presumiu Capistrano de Abreu (Livros I e II da História do Brasil 
de Frei Vicente do Salvador, pág. 35, nota, Rio, 1887; prefácio da História 
Topográfica e Bélica da Nova Colónia do Sacramento , págs. XLIII-XLIV, 
nota B, Rio, 1900) e agora, como justamente reconhece o Sr. Esteves Pereira, 
vêm confirmar as notícias de Montarroio Mascarenhas. 
A essa viagem devem referir-se as palavras do embaixador João da 
Silveira a D. João III, em carta de Paris de 24 de Dezembro de 1527, Alguns 
documentos da Torre do Tombo, pág. 490, avisando-o da partida projetada de 
navios franceses “hum grão rrio na costa do Brasil... creo que he o que achou 
Christovão Jacques”. 
De uma carta ao imperador Carlos V, escrita pelo sem embaixador 
em Portugal, Juan de Çuñiga, datada de Évora, 27 de Julho de 1524, tem-se 
deduzido outra viagem de Cristóvão Jaques ao Brasil e ao rio da Prata em 
1521. O embaixador diz ter atraído à sua pousada, uns quinze dias antes, um 
homem que não nomeia, e que, confiando em sua palavra, embora com 
grandes medos, lhe disse “que agora três años, el Rey don Manuel le dió 
licencia que fuese á descubrir por aquella costa, prometiéndole grades 
mercedes si hallase cobre y otras cosas que él deseaba, y dice que se fué 
derecho al Brasil com dos carabelas, y que siguió la costa del dicho Brasil 
por el sudueste setecientas leguas de donde ellos toman el Brasil, y que halló 
à las CCC leguas, poco más ó ménos, nueve hombr4es de los que fueron com 
um Juan de Solís á descubrir, y habló com ellos, y están casados alli, y 
quisieran que él se los truxera, porque él no osó por ser astellano, y porque él 
sabia que al Rey le habia pesado de lo que iba á descubrir el dicho Juan de 
Solís, porque les prometió que si Dios alli le tornase, que los traeria. Dice 
que en la tierra que aquellos están no hay cosa de provecho, y que seguió su 
costa otras CCCL leguas, que son las DCC dichas, y que halló um rio de agua 
dulce, maravilloso, de anchura de cuatorce leguas, y que subió por el rio doce 
leguas y vió muy hermosos campos á todaspartes, y que surgió alli y tomó 
lengua de la tierra, y que dijeron que aquel río no sabian de donde venia sino 
que era de muy lejos…” Esse homem, diz em começo de sua carta o 
embaixador, “andaba com el Rey (de Portugal) en demandas y respuestas ára 
que le pagase su trabajo, ayudandole par que pudiese volver allá, a vista de lo 
que habia descubierto…” Medina, Juan Diaz de Solis, CCCXII-CCCXVI. 
Do exposto vê-se que a expedição descrita se efetuou três anos antes 
de 1524, isto é, em 1521; que era castelhano quem a empreendeu; que se 
compunha de duas caravelas; que a trezentas léguas, pouco mais ou menos do 
 62 
lugar onde os Portugueses tomavam pau-brasil, isto é, de Pernambuco, 
seguindo para o sul, achou os nove homens da armada de Solis, em Santa 
Catarina, e, continuando a navegar, foi ter a um rio maravilhoso , de quatorze 
léguas de largura, pelo qual seguiu doze léguas. Vê-se também que, excluídas 
as duas primeiras circunstâncias, as demais se ajustam perfeitamente à 
armada de Cristóvão Jaques, de 1516 a 1519; por outro lado, não se conhece 
nenhuma expedição portuguesa que no último ano do reinado de D. Manuel 
viesse ao Brasil e ao Rio da Prata. Pode-se, portanto, admitir seja ele o 
homem a quem Çuñiga se refere, embora contra essa hipótese militem as 
duas circunstâncias apontadas: o tempo que o embaixador assinala para a 
navegação e a qualidade de castelhano que atribui ao navegador. Quanto à 
primeira, é possível engano de Çuñiga, ou do próprio Cristóvão Jaques, 
dizendo três años, em vez de seis años, o que datia 1518 ou 1519, para termo 
da viagem; quanto à segunda, é provável que Cristóvão Jaques, talvez 
desgostoso pela demora das recompensas prometidas, ou por não ter 
comissão nos primeiros anos do reinado de D. João III, pusesse seus serviços 
à disposição da coroa de Castela e se dissesse castelhano para vê-los melhor 
aceitos. 
Parece, pois, que se deve eliminar a expedição de 1521, fundida com 
a primeira de 1516 a 1519, sobre a qual não pairam dúvidas. 
Da segunda viagem sabe-se por Frei Luís de Sousa, Annaes de elrei 
Dom João Terceiro, pág. 178, Lisboa, 1844, que: “No mesmo (ano de 1526) 
despachou El Rey a primeyra Armada que foy em seu tempo ao Brasil; 
Capitão-mór Christovão Jaques. Foy correr aquella costa, e alimpalla de 
corsarios, que com teyma a continuavão pollo proveito do pau Brasil. E erão 
os mais dos portos de França do Mar Oceano.” Era uma armada de Guarda-
costa e destinava-se especialmente a impedir que os Franceses continuassem 
a forragear em nosso litoral. Além de Cristóvão Jaques, que comandava a 
nau capitânia, vinham como capitães de três caravelas Diogo Leire, Gonçalo 
Leite e Gaspar Correia; mas não se conhece o número exato dos navios que 
compunham a esquadrilha. 
Uma carta do embaixador João da Silveira, datada de Paris a 11 de 
Fevereiro de 1526, referida no texto, denunciava ao rei que se estavam 
armando nos portos de França dez navios para o corso no Brasil, e essa seria 
a razão decisiva para o apresto da armada. A data da saída de Portugal não 
consta de documento algum conhecido. Da carta de Diogo Leite, de 30 de 
Abril de 1528, Revista do Instituto Histórico, 6,pág. 222, deduz-se que o 
tempo da armada era limitado a dois anos, “des o dya que chegamos a esta 
costa”, e já estava terminado; portanto, acrescentando -se àquele tempo, pelo 
menos, cinqüenta dias, que comportava a travessia oceânica, ter -se-ia para a 
partida os dez primeiros dias e Março de 1526. Mas, com essa suputação não 
 63 
concorda o fato de trazer o capitão-mor um alvará passado a 5 de Julho 
daquele ano, que vem transcrito no texto, sobre a retirada de Pero Capico, 
além de que, se foi a carta de João da Silveira uma das causas determinantes 
da expedição, como parece, não é possível conceber que em tão angusto 
prazo – de 11 de Fevereiro a 10 de Março – sem contar o tempo que levaria a 
missiva do embaixador para chegar às mãos do rei, fosse ela aprestada. O 
mais certo é que tenha zarpado em Setembro ou Outubro, que era a monção 
preferida, para alcançar em Dezembro a costa do Brasil, como diz o autor. Do 
modo por que foi cumprida a missão existem documentos vários que 
certificam sobretudo da guerra sem tréguas feitas aos Franceses. 
Reclamações e queixas chegaram à presença de D. João III e por isso talvez 
Cristóvão Jaques tivesse sido substituído no cargo por Antônio Ribeiro, que 
na feitoria de Pernambuco despachava a 26 de Outubro de 1528 uma petição 
de D. Rodrigo de Acuña, para que se tomassem as declarações de alguns 
marinheiros da nau São Gabriel sobre os desgraçados sucessos que 
experimentaram desde sua separação da armada de Loaysa, Navarrete, 
Colección de los viajes, 5, 313-321. Depois o nome de Cristóvão Jaques 
ainda aparece em uma proposta, talvez de 1530, para povoar o Brasil, 
introduzindo mil colonos, como consta de uma carta de Diogo de Gouveia, 
datada de Ruão, 29 de Fevereiro e 1 de Março de 1532, a D. João III. 
“Entretanto, - observa Capistrano de Abreu, Livros I e II da História 
de Frei Vicente do Salvador, cits., - o seu oferecimento não foi aceito, nem 
seu nome figura entre os dois donatários, ou porque não parecesse 
satisfatório o seu desempenho de comissão, sobre o qual há muitas queixas, 
fundadas ou não, ou por qualquer outro motivo não conhecido, e que teria 
antes valor biográfico do que histórico.” 
Veja-se sobre Cristóvão Jaques: - F. M. Esteves Pereira, História da 
Colonização Portuguesa do Brasil, Vol. II, págs. 361-364; Antônio Baião e 
C. Malheiro Dias, ibidem, vol. III, págs. 59-94. – (G.). 
 
(II) 
 
Sebastião Caboto chegou a Pernambuco em 4 de Junho de 1526, por 
conseguinte um mês antes da nomeação de Cristóvão Jaques. Já encontrou 
fundada a feitoria e nela notícias das riquezas do rio da Prata, que o 
desviaram da projetada expedição às Molucas. É mais uma prova da viagem 
de Cristóvão Jaques sob o reinado de D. Manuel, e de logo daquela vez ter 
sido fundada a feitoria. Nada autoriza a crer que tivesse mudado de lugar. 
Pernambuco parece ter sido primitivamente o nome do canal que separa 
Itamaracá do continente. De um trecho do membro da expedição Alonso de 
S. Cruz que Harisse publicou em John Cabot, the discoverer of North 
 64 
America, etc., pág. 409, London, 1896, pode concluir-se que Itamaracá era 
chamada naquele tempo ilha da Ascensão. 
Em Pernambuco a primeira pessoa que se dirigiu para a nau capitânia 
foi João ou Jorge Gomes, que estava desterrado e daí se incorporou à armada. 
Medina, J. D. de Solis, CCXCIII. O feitor chamava-se Manuel de Braga, 
como se vê no citado livro de Harrisse. – João de Melo da Câmara descreve 
esses colonos como homens que se contentam “com terem quatro indias por 
mancebas e comerem do mantimento da terra”, ao contrário dos que ele 
queria introduzir, “homens de muita sustancia e pessôas mui abastadas, que 
podem consigo levar muitas eguas, cavallos e gados, e todalas outras cousas 
necessarias para o frutificamente da terra.” – (C.). – Manuel de Braga obteve 
carta de mercê “dos officios de feitor e almoxarifado da capitania dos 
bytygares que Pero Lopes tem no Brasil”, os quais por seu falecimento 
passaram a João Gonçalves, criado de Pero Lopes, por carta de mercê feita 
em 8 de Fevereiro de 1538. – Liv. 49, fls. 30 v. da Chancelaria de D. João III, 
cit. pelo dr. Jordão de Freitas, na Lusitânia, vol. III, fasc. IX, pág. 324. 
Em Dezembro de 1530, quando a feitoria foi saqueada por um galeão 
de França, o feitor era Diogo Dias, que Martim Afonso foi encontrar na 
Bahia. É possível que Manuel de Braga tivesse o cargo pela segunda vez, e 
desta com a carta de mercê a que se refere o documento supracitado. – (G.). 
 
(III) 
 
Consta issodo seguinte trecho da carta que de Ruão escreveu a D. 
João III Diogo de Gouveia, a 29 de Fevereiro e 1 de Março de 1532: “A 
verdade era dar, Senhor, as terras a vossos vassallos, que tres annos ha que si 
a Vossa Alteza dera aos dois que vos falei, a saber do irmão do Capitão da 
ilha de S. Miguel, que queria ir com dois mil moradores la a povoar, e de 
Christovão Jaques com mil, já agora houvera quatro ou cinco mil crianças 
nascidas e outros moradores da terra casados com os nossos, e é certo que 
após estes houveram de ir outros moradores e si vos, Senhor, estorvaram por 
dizerem que enriqueciam muito. Quando vossos vassallos forem ricos, os 
reinos non se perdem por isso, mas se ganham... porque quando la houver 
sete ou oito povoações estes serão abastantes pera defenderem aos da terra 
que não vendam o brasil a ninguem e non o vendendo as naus não hão de 
querer la ir pera virem de vasio. 
“Depois disto aproveitarão a terra, na qual non se sabe si ha minas de 
metaes como deve haver, e converterão a gente á fé, que é o principal intento 
que deve de ser de Vossa Alteza, e non teremos pendença com esta gente 
nem outra...” – Varnhagen, Primeiras negociações, 135. [Revista do 
Instituto, 65, 438]. 
 65 
O irmão do capitão da ilha de São Miguel chamava-se João de Melo 
da Câmara: dele possuímos uma carta a D. João III, sem data, mas de 29 ou 
30, como se vê do trecho acima de Gouveia, em que alude à sua proposta, 
Melo da Câmara assim se refere a Christóvão Jaques: “... dá-me muita paixão 
darem pessôas informações a Vossa Alteza como querem, por onde o fazem 
assi estar perdendo tempo, e non tomar em nem uma cousa concrusão. E non 
sei, Senhor, quem lh’as dá, porque lhe non dizem que dê as terras que 
temperdidas a seus vasalos e naturaes, que lhas ganhem e povôem, pagando-
lhe aquelles direitos que Vossa Alteza ordenar e forem resão, e não buscarem 
lhe cousas em que gaste dinheiro sem proveito, como agora me certificaram 
que dizia Christóvão Jaques que lhe mandara Vossa Alteza dizer que nã fazia 
nada desta terra sem seu parecer, o que lhe havia de mandar ou mandara já 
por apontamentos. E que este meio buscara por terceira pessoa, que o 
dissesse como de si a Vossa Alteza, que eu nã sei que parecer pode ser o seu, 
pois que Vossa Alteza tem por experincia nisto quanto foi. E diz que buscou 
este meio pera lhe dizer que nã dê sinã a tal parte a tal e que o mais guarde 
pera si pelo muito ouro, e prata, e metaes que ahi havia e que pera aqui havia 
de dar-me Vossa Alteza que o fizesse; mas até aqui não temos visto esta 
somma de metaes, nem quem vos visse, sinã dizerem que um homem viu 
outro... (falta) que fosse assi porque eu e os mais amigos nossos portuguezes 
e naturaes somos e leaes, e nã castelhanos nem francezes, e tudo como é 
servido de Vossa Alteza. E com isto diz que com estas cousas se ha de vingar 
dos que lhe pedem o seu, e que os ha de fazer ficar nas mõtanhas e serranias 
pera que se percam, porque elle crê que toda esta terra lhe pertence de 
direito, e que nã ha lá de mandar Vossa Alteza outrem sinã a elle, e assi o 
anda dizendo, que eu affirmo a Vossa Alteza que lhe o ouvi, e eu, Senhor, lhe 
digo pera que saiba a verdade e a tenção e fundamento deste homem, e dahi 
pode fazer o que mais seu serviço for. E si Vossa Alteza quizer mais 
verdadeira informação da terra, aqui andam homens que o sabem tão bem 
como elle, porque foram nella mais vezes, e que lhe darão verdadeiramente, 
porque nã são partes no caso.” – Sousa Vitervo, Trabalhos náuticos dos 
Portugueses nos séculos XVI e XVII, 1, 216-217, Lisboa, 1898. – (C.). 
 
(IV) 
 
Nota 26, da 1ª edição desta História, suprimida nas outras edições. 
“Carta de Simão Affonso, de Sevilha: - Sñr. eu estou nesta cidade de 
sevilha esperãdo requado de Vossa Alteza para daqui hir á corte do 
emperador pedir execução cõtra João frz. de crasto e seus bes se V. A. asi 
houver por seu serviço por que aqui ja esta detreminado q. se não ha de fazer 
sem o dº conselho vir por especial mãdado ás justiças desta cidade que a 
 66 
fação segundo tenho escrito a V. A., e per não vir mãdado de V. A. não sam 
ja partydo porque sua justiça se perde é esto se dilatar mãdeme V. A. o que 
for seu serviço porque não espero outra cousa. 
Esta semana chegou aqui hu piloto e capitão que era hydo a 
descobrir terra o quoal se chama gabote piloto mor destes reinos e he ho que 
mãdou o navio que veo ter a lisboa agora ha dous anos que trazia nova de hua 
terra descuberta polo rio Pereuái que dezião ser de muito ouro e prata, elle 
veo muy desbaratado e pobre por q. dizer qué não traz ouro né prata né cousa 
algua de proveito aos armadores e de duzétos homes que leuou não traz vyte 
que todos los outros dyzé que la ficão mortos hús de trabalho e fome outros 
de guera q. cos mouros tiverão porq. as frechadas dizé mataraõ muitos deles e 
lhe desfizerão hua fortaleza de madeyra que la tinhaõ feyta, de maneira que 
eles vem mal cõtétes, e o piloto está preso e dizé que quere mãdar á corte ver 
o q. mãndoõ que se dele faça, o que disto pude saber e se aqui pobrica ayda 
que mui paso que na terra que dezião ter descuberto não deixaõ nenhum 
requado salvo a géte morta e o gasto perdido, dizé com tudo estes homes que 
vierão que a terra he de muita prata e ouro e a causa pesq. não traze nada he 
segundo dizé per que o capitão os não quis deixar tratar e taobem perque os 
mouros os eganaraõ e se levantaraõ cõtraeles disto podera V. A. crer o que 
lhe parecer, da terra ficar deserta não tenho duvida o rio dizé que he muito 
grande e alto e muito largo, na étrada se V. A. ouver por seu serviço mãdar la 
agora o podera fazer, porq. esta géte apartase donde não ve drº, e se acergua 
disto poder ao diãte saber mais particularidades escreverei a V. A., nosso snr, 
a vida e real estado de V. A. cõserve a acrecéte per muitos anos, de sevilha 
ha ij dagosto de 1530. – Simão, doctor.” (Torre do Tombo, Conf. Cron., I, 45, 
90). – Conf. Henry Harisse, John Cabot, the discoverer of Nort-America, and 
Sebastian his son, citado, págs. 196. 427-428. – (G.). 
 
(V) 
 
Torre do Tombo, Chancelaria de D. João III, liv. 56, fls. 130 v. – 
(A.). Da volta de Henrique Montes dá notícia Herrera, Dec. IV, 1. X, c. 6. – 
(C.). – Henrique Montes era português: Harrisse, John Cabot, the discoverer 
of Nort-America, and Sebastian his son, citado, pág. 239; Medina, El 
veneciano Sebastian Caboto al servicio de España, Santiago de Chile, 1908, 
t. I, pág. 261, citando a declaração de mestre Juan, ibidem, t. II, pág. 238. 
Teria quatorze ou quinze anos de idade, quando acompanhou a expedição de 
Solis ao rio da Prata. De volta, em 1516, naufragou o galeão em que vinha 
com dez companheiros, nas vizinhanças do porto dos Patos, e ficou entre os 
índios até regressar à Espanha na armada de Cabot. Nesse intervalo prestou 
bons serviços a D. Rodrigo de Acuña, o comandante da São Gabriel, quando, 
 67 
depois de abandonar a esquadra de Loaysa, tocou naquele porto. 
Montes levou consigo para a Espanha duas índias forras, suas 
mulheres; com uma delas passou a Portugal, a outra ficou em Cantillana. 
Embarcou de novo na armada de Martim Afonso de Sousa, como 
consta de Herrera, no lugar citado em princípio desta nota. 
Melchior Ramirez, natural de lepe, era com Montes derrelito da 
armada de Solis, em que tinha a graduação de alferes. Voltou à Espanha com 
Diego Garcia, que passou pelo porto de Patos pouco depois de Cabot. 
Sobre Montes há abundantes informações nos livros de Harrisse e 
Medina, citados supra, como também no deste último – Juan Diaz de Solis, 
vol. I, onde à pág. CCCXXXVIII se encontra o fac-símile de sua assinatura. 
Veja-se ainda a carta de Luís Ramirez,na Rev. do Inst. Hist., t. 15, 1853, 
págs. 14-41. – (G.). 
 
(VI) 
 
“Era Martim Afonso de Sousa um fidalgo principal e de alta 
linhagem, neto de Pedro de Sousa, senhor do Prado, e filho de Lopo de 
Sousa, senhor do Prado, Pavia e Baltar, alcaide-mor de Bragança, e aio do 
duque de Bragança. D. Jaime. O próprio Martim Afonso de Sousa foi na sua 
primeira mocidade criado dos duques, passando depois para o serviço de 
príncipe herdeiro, D. João. Ele e seu primo co-irmão, D. Antônio de Ataíde, 
foram os dois grandes validos e privados de D. João, chegando a tal este 
valimento que ofuscou o ânimo cioso del-rei D. Manuel, o qual tratou de 
arredar os dois jovens fidalgos da companhia de seu filho... Martim Afonso 
de Sousa era “fantesioso e opiniatigo”, e ressentiu-se tanto desta intervenção 
do rei, e da fraca resistência oferecida pelo príncipe às determinações de seu 
pai, que se retirou para Castela. Visitou então Salamanca, e residiu mesmo 
durante algum tempo naquela cidade, vindo a casar ali com D. Ana Pimentel, 
filha de Aryas Maldonado, regedor de Salamanca e Talavera, e pertencendo a 
uma das mais nobres famílias daquela província. 
“Quando el-rei D. Manuel faleceu, ainda Martim Afonso se 
conservava em Espanha e ali se deteve até que o novo rei o mandou chamar; 
o que este não fez nem tão prontamente nem de tão boa vontade quando ele 
esperava e desejava. No ânimo fraco e volúvel de D. João III estava já tanto 
apagada a memória da antiga amizade, “a privança era resfriada”. Dominava -
o além disso a influência do outro valido, Antônio de Ataíde, que depois foi 
conde da Castanheira, vedor de sua fazenda, e já então era, como continuava 
a ser, o seu principal e mais intimo conselheiro. Dados os hábitos da corte de 
então, podemos crer que Antônio de Ataíde receasse a presença do seu antigo 
amigo e rival, e desejaria conservá-lo arredado da pessoa do rei. Por isso 
 68 
vemos Martim Afonso encarregado depois de altas e honrosas, mas 
longínquas comissões.” – Ficalho, Garcia da Orta e o seu tempo, 65-66, 
Lisboa, 1886. – (C.). 
 
(VII) 
 
João Ango obteve duas cartas de marca. Uma, de 27 de Junho de 
1530, autorizava-o a apresar bens de súditos portugueses no valor de 
duzentos e cinqüenta mil ducados. D. Antônio de Ataíde, conde da 
Castanheira, conseguiu reavê-la, pagando a Filipe de Chabot, conde de 
Charny, a quantia de 10.000 francos, e a João Ango, nos prazos que se 
fixassem, a quantia de 50.000. Em documento passado em Ruão a 29 de 
Fevereiro de 1531 (sic) João Ango reconhece juntamente com os consórcios 
ter recebido do conde da Castanheira e Gaspar Vaz a quantia convencionada. 
Este dinheiro, aliás, não lhe deu fortuna. Morel, um dos sócios, promoveu 
contra o grande armador uma ação que, iniciada em 1548, terminou em 1604, 
condenando os herdeiros de Ango a pagarem aos de Morel a quantia de 
30.000 ducados, com o juro de 14% a partir de 1531. 
A primeira carta de marca nada tem com o Brasil. A segunda, 
concedida em 3 de Fevereiro de 1543, refere-se a um navio tomado em 1531, 
segundo parece, e pode relacionar-se com a expedição de Martim Afonso. 
Ango alega que seu navio La Michelle, tendo de carregar na costa do Brasil 
em certa abra chamada Aster – nome evidentemente deturpado, porque não é 
europeu nem americano -, capitães e súditos portugueses tomaram-no, e 
levaram-no a Portugal, onde ficou a serviço do dito rei. Da gente do La 
Michelle, parte refugiou-se entre os índios, parte foi levada para o reino, e lá 
conservada presa. Na longa detenção morreram alguns dos aprisionados. 
A data desse sucesso não é positivamente declarada, mas não tendo 
entrado na primeira carta de marca, outorgada em 1530, e referindo-se a 
segunda carta, em seguida ao sucesso do La Michelli logo outro de 1532 
(quiçá 1533), naturalmente foi nesse meio tempo, durante a assistência de 
Martim Afonso no Brasil, que isso passou. 
A expedição de Martim Afonso, como veremos na seção seguinte, 
tomou duas naus francesas a 31 de Janeiro de 1531: a gente de uma fugiu 
para terra; sobre a tomada da outra nem uma particularidade oferece o Diário 
de Pero Lopes. Terceiro navio tomou a 3 de Fevereiro depois de grande 
resistência. Antes de deixar Pernambuco, Martim Afonso queimou um dos 
navios, outro mandou para Portugal por João de Sousa, no último batizado 
Nossa Senhora das Candeias, seguiu Pero Lopes para o Sul. La Michelli 
podia ser tanto o navio de João de Sousa, como o de Pero Lopes, ambos 
aproveitados no serviço real. Pode-se consultar sobre o assunto, F. Palha. A 
 69 
carta de marca de João Ango, Lisboa, 1882, que trata só da primeira, e Eug. 
Guénin, Ango et ses pilotes, Paris, 1901, que publica ambos os documentos. – 
(C.). 
 
(VIII) 
 
Ordenações Manuelinas, liv. V. títs. 98 e 112. Veja-se também n. 11 
do maço 1º das leis sem data. A respeito da naturalidade de João Afonso, 
posta em dúvida pelo douto D’Avezac, vejam nos esclarecimentos que 
publicamos no escrito – Amerigo Vespucci, etc. – (A.). 
Em carta de Gaspar Palha, de Paris, 1 de Maio de 1531, lê-se: 
“Depois de ler esta carta, fui topar com um homem de Rochella que chegava 
então della, e me comecei informar delle, sem que me este conhecesse, das 
novas que lá havia; entre outras coisas lhe perguntei que era feito de João 
Afonso, aquelle piloto portuguez que ahi estava. Disse-me que andava 
homesiado, porque quando se perdera com tormenta na costa da Bretanha, 
que houvera razões com um filho que tinha já homem, e que o matara, e que 
por este caso andava agora homesiado, que non ousava parecer.” – Raccolta 
Colombiana, parte V, vol. II, pág. 296. Uma carta de Gaspar Vaz para D. 
João III, escrita de Honfleur em 19 de Outubro de 1531 e extratada por 
Santarém, Quadro elementar, III, 244, confirma a nacionalidade portuguesa 
de João Afonso, do mesmo modo que um documento de 3 de Fevereiro de 
1533, citado em Fr. Luís de Sousa, Anais de D. João III, 377. Contudo, Sousa 
Viterbo, Trabalhos náuticos, s. v., acha a questão duvidosa. – (C.). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 70 
 
SECÇÃO VIII 
 
RESULTADOS DA EXPEDIÇÃO DE MARTIM 
AFONSO 
 
Seus feitos. Os Franceses. O Maranhão, A Bahia. Combate naval 
dos índios. Martim Afonso na Bahia e no Rio. Ilha da Cananéia. Oitenta 
homens ao sertão. Padrões da Cananéia. Naufrágio de Martim Afonso. 
Pero Lopes sobe o Paraná. Martim Afonso fica na costa. Escolha do porto 
de São Vicente. Sua descrição. Estabelecimento da colônia. João 
Ramalho. Etimologia do nome Piratininga. Piracemas. Vilas de São 
Vicente e de Piratininga. Concelhos das duas vilas. Sesmarias. Direitos 
dos colonos. Jurisdição eclesiástica primitiva. 
 
Acabava Martim Afonso de avistar a costa de 
Pernambuco, quando descobriu ao longe uma nau francesa. 
Pouco lhe custou dar-lhe caça, e rendê-la; fugindo no batel 
para terra toda a tripulação, menos um só homem. Seguiu-se a 
esta presa a de outras duas naus, também francesas, e 
carregadas, como estava também a primeira, de brasil. De uma 
delas coube o apresamento a Pero Lopes, que depois de a 
haver seguido com duas caravelas, e combatido um dia todo, 
conseguiu rendê-la. 
Feliz com tão boa estréia, dirigiu-se Martim Afonso ao 
próximo porto de Pernambuco; e daí resolveu mandar a 
Portugal uma das naus apresadas, com a notícia do sucedido 
(I), levando outra consigo, caminho do rio da Prata, e 
queimando a terceira por incapaz (II). Igualmente resolveu, 
talvez em virtude de ordens que tinha, mandar as duas 
caravelas para as bandas do Maranhão, a fim de fazer explorar 
por aí a costa, e de colocar nela padrões em sinal de posse. 
 71 
Diogo Leitefoi o capitão a quem Martin Afonso confiou o 
mando dessas duas caravelas. Sabemos que este chefe, 
percorrendo o litoral de leste-oeste, chegou pelo menos até a 
baía de Gurupi, que por algum tempo se denominou “abra de 
Diogo Leite”; – nome este que já se lê em um mapa em 
pergaminho de toda a costa, feito por Gaspar Viegas em 1534 
(1). 
Da nau francesa mandada a Portugal foi capitão João de 
Sousa, Além de umas setenta toneladas de brasil, levou trinta e 
tantos dos prisioneiros, e em fins de Julho estava a dita nau 
fundeada em Vila Nova de Portimão, no Algarve, onde se 
procedeu à venda da sua carga de brasil, à razão de 800 a 900 
réis o quintal (2). 
De Pernambuco seguiram os outros navios para o sul, e 
foram entrar na baía de Todos os Santos, descoberta em 1501. 
Aqui se apresentou ao capitão-mor o português Diogo Álvares, 
que em terra vivera entre os índios os vinte e dois anos 
anteriores, e que aí tinha muitos filhos, havendo-se aliado a 
uma índia, cujo nome primitivo corre haver sido Paraguaçu, 
Catarina o da pia batismal (3). 
Por intervenção do mesmo Diogo Álvares, vieram todos 
os principais visitar ao capitão-mor, trazendo-lhe manti-
mentos, que foram retribuídos com as dádivas de costume. 
Admirou Pero Lopes na baia a alvura da gente, a boa 
disposição dos homens, e a formosura das mulheres, que não 
achou inferiores às mais belas de Lisboa. 
Reservando-nos a tratar, mais ao diante, do colono 
Diogo Álvares e desta baía, nos limitaremos agora a dizer que, 
durante os quatro dias que fundeada se demorou a armada, 
tiveram os nautas ocasião de presenciar um combate naval 
 72 
travado dentro do recôncavo; naturalmente entre os da ilha de 
Itaparica, e os do lado do norte que senhoreavam as terras 
onde se assentou depois a cidade do Salvador. Cada 
esquadrilha constava de cinqüenta canoas, guarnecidas 
algumas destas de sessenta homens, todos escudados de 
paveses de cores, semelhantes aos que usavam então os 
guerreiros marítimos portugueses. O combate durou desde o 
meio-dia até o sol posto; – os da armada européia 
conservaram-se impassíveis espectadores desta naumaquia 
entretrópica, e viram com gosto decidir-se o triunfo pelos que 
combatiam do lado em que eles estavam surtos. Muitos dos 
vencidos caíram prisioneiros; e com estes praticaram os 
vencedores o costumado uso de os matarem, com grandes 
cerimônias, e de lhe tragarem depois – oh, asqueroso horror! – 
as carnes. 
Martim Afonso, deixando com Diogo Álvares dois 
homens e muitas sementes, para saber-se por experiência o que 
a terra (que segundo doze anos antes publicara Enciso (4) era 
de pouco proveito) poderia melhor produzir, velejava com sua 
pequena frota para o sul, quando, ao cabo de alguns dias, foi 
obrigado a arribar. Entrando na mesma baía, em 26 de março 
(1531), encontrou agora aí fundeada a caravela que, com 
destino a Sofala, passara por Pernambuco, e recebera a bordo a 
Diogo Dias, feitor do estabelecimento ou feitoria, que o galeão 
francês havia, meses antes, saqueado (5). Martim Afonso, 
vendo que esta caravela lhe podia servir, decidiu-se a levá-la 
consigo. No dia imediato levantaram de novo âncoras todos os 
navios da armada, e seguiram navegando para o sul até que 
entraram, em 30 de Abril, no porto ou baía já então conhecida 
pelo impróprio nome de “Rio de Janeiro” (6). Para não 
 73 
deixarmos de aproveitar a mínima eventualidade no pouco que 
sabemos do que então se passou nesta paragem, cujas menores 
circunstâncias hoje interessam a todo o país, transcreveremos 
fielmente quanto nos transmitiu um dos nautas, que logo 
veremos donatário de Itamaracá, Santo Amaro e Santa 
Catarina. É Pero Lopes quem prossegue, em seu estilo, tão 
ingênuo como pitoresco: “Como fomos dentro (da baía de 
Janeiro) mandou o capitão I. (Martim Afonso) fazer uma casa 
forte com cerca por derredor; e mandou sair a gente em terra, e 
pôr em ordem a ferraria, para fazermos coisas de que tínhamos 
necessidade. Daqui mandou o capitão I. (Martim Afonso) 
quatro homens pela terra dentro: e foram e vieram em dois 
meses; e andaram pela terra cento e quinze léguas, e as 
sessenta e cinco delas foram por montanhas mui grandes; e as 
cinqüenta foram por um campo mui grande; e foram até darem, 
com um grande rei, senhor de todos aqueles campos; e lhes fez 
muita honra, e veio com eles até os entregar ao capitão; e lhe 
trouxe muito cristal, e deu novas como no rio de Paraguai 
havia muito ouro e prata (7). O capitão I. lhe fez muita honra, 
e lhe deu muitas dádivas, e o mandou tornar para as suas 
terras. A gente deste rio é como a da baía de Todos os Santos; 
senão quanto é mais gentil gente. Toda a terra deste rio é de 
montanhas e serras mui altas. A melhores águas há neste rio 
que podem ser. Aqui estivemos três meses tomando 
mantimentos para um ano, para quatrocentos homens que 
trazíamos, e fizemos dois bergantins de quinze bancos”. 
Cumpre aqui acrescentar que o mencionado 
estabelecimento de Martim Afonso, nesta baía, deve ter tido 
lugar na enseada em que desemboca o rio Comprido; e em uma 
 74 
paragem que, ainda meio século depois, de denominava “porto 
de Martim Afonso” (G. Soares, I, cap. 52). 
Deixando o Rio de Janeiro foram os navios, ao cabo de 
doze dias de navegação, ancorar da banda de dentro da ilha 
chamada “do Abrigo”, junto do porto da Cananéia. Por este 
último, cujas águas, com o nome de “Mar pequeno”, se 
estendem terra dentro (desde o rio de Iguape até o sul da barra 
de Ararapira, onde acaba a ilha que ora chamam do Cardoso) e 
quase a comunicam com a baía de Paranaguá, mandou Martim 
Afonso ao piloto Pedro Anes, entendido na língua dos índios, 
que fosse, em um bergantim, haver fala dos que ali houvesse. 
Este piloto voltou cinco dias depois, conduzindo a bordo do 
bergantim um bacharel português, que havia trinta anos que ali 
estava, isto é, como vimos, desde a primitiva exploração da 
costa em 1502, um tal Francisco de Chaves, e vários 
castelhanos. 
Este Francisco de Chaves, naturalmente, era algum dos 
aventureiros que antes haviam chegado até as terras do Inca. O 
certo é que, pelas informações que deu e promessas que fez de 
trazer, dentro de dez meses, quatrocentos escravos carregados 
de prata e ouro, Martim Afonso acedeu a mandá-lo seguir de 
oitenta homens armados, metade de arcabuzes, e outra metade 
de bestas, da sorte dos quais adiante trataremos. 
Quarenta e quatro dias se demorou a esquadra junto da 
Cananéia, durante os quais esteve sempre encoberto o sol, 
circunstância pouco para admirar aos que saibam que ainda 
hoje raras vezes ele se mostra radiante aos habitantes desses 
contornos. 
Também no ancoradouro se romperam muitas amarras e 
perderam-se várias âncoras, o que sucede ainda agora nesse 
 75 
porto, cujo fundo tem rato, como dizem os mareantes, daqueles 
que rompem as amarras, quando não são de elos de ferro. 
Defronte da ilha da Cananéia sai da terra para o mar um 
pontal de pedra, que se chama hoje de Itaquaruçá, onde ainda 
existem três padrões de mármore sacaróide, do que se encontra 
nas formações vulcânicas das imediações de Lisboa, os quais, 
com toda a probabilidade, foram ali postos durante estes 
quarenta e quatro dias, apesar do silêncio que a tal respeito 
guarda o (tantas vezes desesperantemente omisso) escritor dos 
feitos desta expedição, que merece desculpa, porque não se 
propunha ele a ser cronista, mas somente a consignar por 
escrito o seu roteiro ou diário marítimo. Os padrões da 
Cananéia que examinamos pessoalmente, são de quatro palmos 
de comprido, dois de largura e um de grossura; e têm 
esculpidas as quinas portuguesas,sem a esfera manuelina, nem 
castelos; e nenhuma data se lê em suas faces (8). 
Com o pensamento sempre na colonização do rio da 
Prata, seguiu Martim Afonso para o Sul, e daí a dias, a 26 de 
Setembro, experimentou tão grande temporal que a capitânia 
deu à costa, junto ao riacho de Chuí, na atual fronteira 
meridional do Brasil; do que resultou perecerem sete pessoas. 
Reunidos de novo todos os navios, excetuando um 
bergantim também naufragado, chamou Martim Afonso a 
conselho todos os que para isso eram, e neste foi assentado 
que, em virtude, não só da falta de mantimentos, originada da 
perda da capitânia, como do mau estado das outras duas naus, 
que se não poderiam expor aos temporais do rio da Prata 
naquela estação (naturalmente os conhecidos pampeiros), se 
desistisse da empresa de ir colonizá-lo. 
 76 
Apesar desta resolução, julgou Martim Afonso que, 
estando tão perto desse tio, não devia deixar para mais tarde o 
ato da posse dele, por meio dos padrões que levava. Julgando 
ser para isso suficiente um bergantim com trinta homens, 
encarregou o comando deste, e a comissão de pôr os mesmos 
padrões, a seu irmão Pero Lopes (9), que se fez de vela em 
companhia de Pero de Góis, ao depois donatário da capitania 
de São Tomé ou Campos de Guaitacases. – Desempenhou Pero 
Lopes o mandato, subindo pelo Paraná e Uruguai, e achando-
se de volta, decorrido pouco mais de um mês. Desta 
exploração do rio da Prata é que seu chefe Pero Lopes, a quem 
ela deu tantos trabalhos, se compraz de nos transmitir 
informações muito mais minuciosas do que costuma. Ainda 
mal, são justamente todas alheias à nossa história, e mais 
poderão interessar à dos estados limítrofes do Brasil pelo sul. 
Muito provável é que no entremeio de tantos dias, em 
que Pero Lopes demarcava o Rio da Prata, não estivessem 
ociosos os pilotos que haviam ficado na costa com Martim 
Afonso. Em terra tiveram ocasião de fazer freqüentes 
observações astronômicas (10) sobre a latitude e longitude do 
lugar e isso lhes daria a convicção, e ao capitão-mor, de que 
aquela costa e, com mais razão, todo o rio da Prata, já se 
achavam fora, isto é, mais a oeste, da raia até onde se estendia, 
pelo tratado de Tordesilhas, o domínio português naquelas 
paragens. Ao conhecimento deste fato em Portugal devemos 
atribuir o não prosseguirem em Madri as reclamações acerca 
desse rio; e o desistir aquele reino de mandar mais frotas às 
suas águas; e até o não doar, quando doou outras terras, as que 
ficaram além das de Sant’Ana, ou da Laguna, onde terminava 
a courela que de direito ainda por aí lhe tocava. 
 77 
Talvez também pelo conhecimento desse fato, mais que 
por serem aí as terras (no litoral) sáfias e areentas, é que 
Martim Afonso não se deixou ficar nas plagas da atual 
província do Rio Grande, onde o lançara de si o próprio mar, e 
decidiu retroceder mais para o norte, a buscar outro local onde 
fixar-se de preferência. Entrando no porto de São Vicente, o 
bom abrigo que nele encontrou para as naus, a excelência das 
águas, a abundância do arvoredo, encantador principalmente 
aos que acabavam de viver nos areentos planos do Chuí, a 
amenidade do clima, por certo mui preferível ao do vizinho 
porto da Cananéia, onde nunca se vira o sol durante quarenta e 
quatro dias, e talvez, mais que todas estas razões, a presença 
de um colono português, por nome João Ramalho, que ali 
contava já mais de vinte anos de residência e que, 
naturalmente avisado pelos índios, apareceu dando razão da 
terra e de como toda ela pelo interior era de campos e clima 
semelhantes aos amenos de Coimbra onde nascera – tudo 
concorreria a predispor o ânimo do capitão-mor em favor desta 
paragem para fundar nela, como fundou, a primeira colônia 
regular européia no Brasil. E dizemos a primeira, porque não 
podemos chamar colônias regulares às pequenas feitorias 
provisórias fundadas antes, nenhuma das quais vingou até 
chegar a ter as honras de povoação e de vila. 
É o porto de São Vicente por assim dizer formado em 
um canal que, convenientemente, se afeiçoa entre duas ilhas de 
mediana extensão conchegadas à terra firme. Mais metida por 
esta adentro fica a que se diz de São Vicente, cuja planta 
apresenta alguma semelhança ao perfil de uma cabeça humana, 
vista pela face direita (11), Um pouco para o norte, se 
prolonga a vizinha ilha de Santo Amaro que, nesse rumo, vai 
 78 
fenecer na barra do canal chamado da Bertioga, corrupção de 
Buriqui-oca, que quer dizer covil de bugios; o que prova que 
aí devia de haver muitos; pois eram os Tupis sinceros em tais 
denominações (III). Assim à dita ilha de Santo Amaro 
chamaram eles do Guaimbé (12), planta deste nome, que nela 
dava como verdadeira praga. A ilha de São Vicente chamavam 
Orpion ou Morpion (13), nome que somente podemos explicar 
como uma contração de Morubi-nhum, isto é, “campo dos 
trabalhadores ou lidadores”. O nome de São Vicente lhe 
proveio da povoação nela construída, que o recebeu, em 
virtude de ser o que já tinha o porto. 
O local desta última ilha, escolhido para assento da 
colônia, foi uma quase insensível eminência fronteira à barra e 
à ilha de Santo Amaro, mui lavada de ares, e situada no meio 
do istmo para um farelhão ou promontório, em que ela remata 
por este lado. Os morros deste promontório alimentariam os 
mananciais de água para a povoação; e dariam no princípio 
pedra para as obras; e os matos, que ainda hoje os cobrem, 
forneceriam com a maior comodidade a necessária lenha. Um 
pequeno regato, essencial para muito em qualquer povoação, 
corre para o lado da barra, e vai desaguar na deliciosa praia 
que segue contornando a ilha. – Para o rumo oposto, a quase 
igual distância, havia outra vez água, um mar pequeno, com 
beiras mui a propósito para porto e varadouro das canoas. 
Finalmente, do local preferido se descobria, pela barra, o mar 
até perder-se no horizonte, o que permitiria aos moradores, 
sem atalaias de aviso, juntarem-se a tempo para acudir a 
qualquer rebate de pirata inimigo. O viajante que percorresse a 
ilha de São Vicente, em busca da melhor paragem para uma 
povoação, sobretudo no mês de Janeiro, em que a praia de 
 79 
Embaré, fronteira à barra, está alagada, ainda hoje não 
indicara outra mais adequada, se o porto de São Vicente 
pudesse competir com o de Santos, aliás abafadiço e tristonho 
(14). 
Martim Afonso não quis, porém, limitar-se a fundar 
uma só vila. À vista das informações que lhe deu João 
Ramalho, assentou de reforçar esta, contra qualquer tentativa 
de inimigo marítimo, com outra povoação sertaneja, que ao 
mesmo tempo servisse de guarda avançada para as futuras 
conquistas da civilização. As duas vilas irmãs fiariam assim no 
caso de prestarem apoio uma à outra, segundo lhes viesse do 
mar ou da terra o inimigo, ao passo que a marítima receberia, 
ao mesmo tempo, socorros das naus do reino, a quem por seu 
turno socorreria. 
De São Vicente para o interior, a umas três léguas, se 
levanta o continente, apresentando para o mar um paredão, em 
forma de serra, às vezes elevada de mais de dois mil pés. Do 
cimo manam vários riachos, dos quais um se despenha com tal 
fúria que de longe se vê branquejar a espuma de seus ferventes 
cachões. Chamavam-lhe os índicos Itu-tinga ou cachoeira 
branca. As águas desses riachos, promiscuindo-se com as 
salgadas do mar, recortam todas as planícies debaixo, por tal 
forma em esteiros que, vistas estas dos altos ao longe, mais 
parecem marinhas de sal, que braços de mar ou de rios. – À 
serra denominavam os índicos, como nós hoje, paraná-
piacaba, o que quer dizer “de onde se vê o mar” (15).Desde aquelesw cimos elevadíssimos, as águas baixam 
com o terreno para o interior, quase insensivelmente; pois este 
se reduz na essência a uma extensa chapa ou chapada, que para 
o sertão se ramifica em vários sentidos até mui longe. A zona 
 80 
vizinha ao mar, o paredão de serra para o lado dele, reforçado 
por muitos espigões ainda o primeiro par de léguas para o 
interior, são vestidos de vegetação vigorosa de mato-virgem, 
que alcança até um linde que chamam “Borda do Campo”; pois 
que daí por diante a terra não é de matos e, apenas de quando 
em quando, povoada de reboleiras e de pequenas boscagens, 
algumas delas de pinheiros curis ou araucários, que os índios 
muito apreciavam, pelo alimento que lhes forneciam seus 
grandes pinhões (16). 
A algumas léguas da Borda do Campo, e próximo de 
uma ribeira, cujas margens não deixam de recordar as 
coimbrãs do plácido Mondego, era a aldeia em que 
principalmente vivera João Ramalho, com a sua família, já 
numerosa, como se pode imaginar, sabendo que vinte anos 
passara livremente entre aquela gente, à lei da natureza. 
Chamavam-se, tanto a aldeia como a ribeira, de Pira-tininga 
ou do Peixe-seco (17). nome que em outros lugares do Brasil 
se pronunciava Pira-sinunga, e queria dizer o mesmo. A 
origem do nome explica a causa por onde se fundara aí a 
aldeia: provinha aquela das freqüentes pira-cemas ou invasões 
do peixe, pelas margens principalmente do chamado saguairu, 
isto é, de certos enxurros e desenxurros, digamos assim, 
demasiado rápidos, a que era, e é ainda, sujeita a dita ribeira; 
em virtude dos quais o peixe ficava em seco pelas margens, o 
que dava aos moradores destas grande fartura; como sucede 
aos povos do litoral quando, com os temporais, dão certos 
peixes à costa. O fenômeno das pira-cemas é freqüente em 
vários rios do império, sobretudo nas proximidades de sua foz, 
donde se pode imaginar que vem tal fenômeno a ser como uma 
pequena pororoca, causada pelo desempate de suas águas com 
 81 
as do monte do outro rio, em que aflui o da piracema. Foi a 
aldeia de Piratininga que Martim Afonso escolheu para fundar 
a colônia ou vila sertaneja, cujo governo militar confiou a João 
Ramalho, com o pomposo título de guarda-mor do campo. Eis 
a origem européia da atual cidade de São Paulo. 
Ouçamos agora o que nos diz Pero Lopes de Sousa, 
testemunha de vista, durante os primeiros quatro meses de vida 
das ditas duas colônias: “Repartiu o capitã-mor a gente nestas 
duas vilas, e fez nelas oficiais; e pôs tudo em boa ordem de 
justiça; do que a gente toda tomou muita consolação, com 
verem povoar vilas, e ter leis e sacrifícios, celebrar 
matrimónios e viver em comunicação das artes; a ser cada um 
senhor do seu; e investir as injúrias particulares; e ter todos 
outros bens da vida segura e conversável”. 
Nestas poucas palavras se encerram os pontos capitais 
respectivos a qualquer sociedade constituída. Vemos as 
colônias e as suas competentes autoridades; vemos o 
reconhecimento das leis; vemos as práticas, assim do que 
respeita às consciências, pelas cerimônias dos sacrifícios 
religiosos, como ao estado social pela celebração dos 
matrimônios; vemos garantida a segurança individual e a 
propriedade, e sem valhacouto as tropelias e injúrias. Para 
nada faltar, como bem essencial na vida “segura e 
conversável”, diz-nos Pero Lopes que já viviam os colonos em 
“comunicação das artes”. 
Tal era o estado florescente das duas colônias, quando 
Pero Lopes, por ordem de seu irmão, as deixou, fazendo-se de 
vela aos 12 de Maio de 1532. 
Enfim Martim Afonso não se descuidou da empresa 
confiada à sua solicitude, e que mais no-lo recomenda, e o há-
 82 
de recomendar à posteridade, que todos os outros seus feitos 
militares (apesar de mui brilhantes, de mais perecedoura 
memória) praticados nesse Oriente por que tanto se afanava. 
Enquanto no Brasil, não dava ele nem um dia de féria a seu 
cuidado. A Igreja, a casa da câmara, o estaleiro, as sesmarias, 
o tombo competente para estas, tudo o trazia ocupado – a tudo 
acudia. Nem lhe consentiu o dever, nem talvez tampouco a 
curiosidade, própria da sua idade, o deixar de empreender uma 
jornada a Piratininga: e sesmarias chegaram até nós que ele aí 
assinou. De falta de atividade nem sequer na velhice foi 
acusado. O seu caráter, se tinha defeito, era antes o da viveza 
afanosa, e de alguma violência. 
Várias terras de São Vicente e de Piratininga destinou 
ele desde logo, como era natural, para rocios e logradouros dos 
dois concelhos, aos quais fixou os termos que julgou razoáveis 
(18). – Escusamos dizer que estas vilas foram fundadas sem 
diferença alguma do que se passaria, tratando-se da instalação 
de qualquer colônia, em uma paragem menos povoada de 
Portugal. Subentendeu-se que, em legislação e em tudo, os 
novos moradores e os descendentes destas teriam, em relação à 
metrópole, os foros de naturais; e seriam governados pelas 
mesmas leis vigentes, das quais nos ocuparemos mais ao 
diante. 
Quanto à jurisdição eclesiástica, vimos que em 1514 
fora o Brasil considerado sujeito à mitra do Funchal. Cumpre 
acrescentar que assim continuou ao declarar-se, em 1534, 
metropolitana a sua sé, tendo por sufragâneos os bispados de 
Angra, Cabo Verde, São Tomé e Goa, então criados por 
Clemente VII; o que mais evidentemente se consignou na bula 
 83 
– Romani Pontificis – de 8 de Julho de 1539, que reformou a 
anterior (19). 
 
 
 
 
NOTAS EM NÚMEROS ARÁBICOS 
 
(1) Mais a oeste se vê designada a baía de São João. Chegaria a 
ela Diogo Leite, no dia deste santo (24 de Junho), depois de haver 
entrada, a 19 de março, na baía de São José, e a 25 de Abril na de São 
Marcos: se é que estes nomes não haviam sido anteriormente dados por 
Diego Lepe, em 1500. (A.). 
Em 1537, estamdo Diogo Leite, cavaleiro da casa real, com uma 
armada de cinco caravelas pousado sobre âncoras no porto da ilha do 
Corvo à espera de uma nau da Índia, cinco navios franceses deram sobre 
elas, e as tomaram e levaram com toda a artilharia, segundo uma carta de 
D. João III a Rui Fernandes, de que existe cópia no Instituto Histórico. 
Será o mesmo? – (C.). 
 
(2) Veja (no Arm. 25, maç. 9, nº 5 do interior da Casa da Coroa 
na Torre do Tombo) um livro rubricado por Diogo Toscano, almoxarife e 
juiz da alfândega da dita vila. Consta desse livro que Lourenço Fernandes 
viera por mestre da nau francesa de que João de Sousa viera por capitão, 
sendo marinheiros Rodrigo Eanes e Afonso Vaz, e bombardeiro Aleixo 
Pinto. Parece que eram no todo 927 quintais de brasil, dos quais 17 foram 
dados de quebra. – (A.). – Cópia na Bibl. Nacional. – (C.). 
 
(3) Frei Vicente do Salvador, que ainda a alcançou, “viúva mui 
honrada, amiga de fazer esmolas aos pobres e outras obras de piedade”, 
chama-lhe Luísa na Hist. do Brasil, livro III, cap. 1º (Pág, 150, da ed. 
paulista de 1918). – (C.). 
 
(4) Martin Fernández de Enciso, Suma de Geographia , Sevilha, 
1519, § Índias ocidentales (sem núm. de fols.): ... “desde el [rio] de Sant 
Frãcisco fasta ala baya de todos sanctos ay setenta leguas esta Baya al 
sudueste: quarta al sur, en XIIj grados, queda en el medio puerto real que es 
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buen puerto, i tiene buenos rios i la de todos Sanctos tiene dentro unos ileos 
pequeños, en esta entra dos rios buenos, i nel paraje desta costa es la tierra 
algo baxa, la gente desnuda i comun pan de rayses: es tierra de povo 
provecho…”. – (G.). 
 
(5) Em 17 de Fevbereiro de 1531 havia dois meses que o galeão 
francês saqueara a feitoria de Pernambuco: Diário de pero Lopes, Revista 
do Instituto Histórico, 24, 1861,págs. 20-21; edições de Engênio de 
Castro, págs. 128-132, e 131-135. Esse galeão não podia ser o que depois 
foi tomado nas costas da Andaluzia pelas caravelas portuguesas que 
andavam na armada do Estreito; arregava brasil e foi levado para Lisboa: 
carta de D. João III para Martim Afonso de Sousa, de Lisboa, 28 de 
Setembro de 1532, incluída na secção seguinte. – (G.). 
 
(6) O nome de rio de Janeiro, já conhecido no tempo de 
Magalhães, Notícias para a história e geografia das nações ultramarinas , 
4, n. 2, Lisboa, 1826, Raccolta Colombiana, parte 3ª, I, pág. 273, Roma, 
1893, figura em mapas anteriores a 1530. Esses testemunhos bastariam a 
provar que não foi Martim Afonso de Sousa quem deu o nome de rio de 
Janeiro, se já não o soubéssemos pelo Diário de Pero Lopes. – (C.). – O 
nome figura nas Declaraciones que algunos marineros de la nao San 
Gabriel dieron en Pernambuco á 2 de noviembre de 1528 sobre los 
sucesos desgraciados que experimentaron despues de sua separacion de 
la armada de Loaísa en la entrada, del estrecho de Magalhanes , - 
Navarrete, Coleccion de los viages, citada, V, pág. 318: “E asi venimos 
hasta el rio de Janero...”. – (G.). 
 
(7) Orville A. Derby, Revista do Inst. Hist. e Geogr. de S. Paulo , 
e José Luís Baptista, Primeiro Congr. de Hist. Nacional , in Rev. do Inst. 
Histórico, tomo especial, 2, 1914, pensam que podiam estes emissários ter 
chegado a Minas Gerais. Parece preferível admitir que tenham ido a terras 
de São Paulo, pois só nestas havia conhecimento das riquezas do rio 
Paraguai. – (C.). 
 
(8) Como asseverou o meritíssimo Cazal, I, págs. 227 e 228. – 
Veja Fr. Gaspar pág. 32. Anais da Marinha, pág. 401. – Soares, I, cap. 65 
e também Varnhagen, na Rev. do Instit. Hist., 12, págs. 374 e 375. 
Convém aqui notar que já no século passado (XVIII) Afonso Botelho, 
visitando esses marcos, ou antes o que está visível em cima, diz “que lhe 
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não aparece letreiro algum”. Veja a Descrição da comarca de Paranaguá, 
Ms. na Bib. do Porto, 437. – (A.). 
Um desses marcos, com o respectivo tenente ou testemunha, foi 
em 1866 recolhido ao museu do Instituto Histórico, por iniciativa do Dr. 
Guilherme Schüch de Capanema, depois barão de Capanema. Na Revista, 
tomo 49, parte 2ª, págs. 261-265, ocorre notícia a respeito por Moreira de 
Azevedo. – (G.). 
 
(9) O piloto Francisco Fernández, espanhol, em Maro de 1800, 
explorando a ilha de Maldonado, achou “uma piedra que pesaria três 
quintales con un escudo grande de Portugal y encima outro pequeño 
atravesado con uma cruz...”. Segundo P. Groussac, Anales de la 
Biblioteca, 4, pág. 315, Buenos Aires, 1905, trata-se evidentemente de 
sinais deixados pela expedição de Martim Afonso de Sousa e Pero Lopes. 
Sobre este e pontos conexos, veja-se o Diário de Pero Lopes, na edição de 
Eugênio de Castro, Rio, 1927. – (G.). 
 
(10) Assim no-lo confirma o matemático Pedro Nunes, em uma de 
suas obras. – (A.). – Que ele (Martin Afonso) possuía um alto valor 
intelectual é fato sobre que também não pode haver dúvida. Todos os 
escritores do tempo, amigos como inimigos, se referem ao seu engenho 
agudo e sutil, à sua razão clara e à prudência do seu conselho. Reunia aos 
dotes naturais do espírito uma instrução pouco vulgar. Era -lhe familiar a 
língua latina como se fosse a sua própria e materna. Passava na Índia as 
raras horas de ócio em graves leituras de história. Era como D. João de 
Castro perito nas questões de navegação e cosmografia. Quando voltou do 
Brasil deu a Pedro Nunes miúda relação da sua derrota, “contou-lhe com 
quanto diligência e por quantas maneiras tomara a altura dos lugares em 
que se achara e verificara as rotas por que fazia seus caminhos”. e expôs -
lhe algumas dúvidas que tivera durante a navegação, as quais o grande 
geômetra tomou em tanta conta que expressamente compôs um tratado 
para as resolver. (Tratado que o doutor Pedro Nunes fez sobre certas 
dúvidas de navegação, dirigido a El-Rei Nosso Senhor. – Anda anexo ao 
Tratado da sphera, Lisboa, 1537). Escreveu as suas memórias, - um 
Epítome da sua vida -, que provavelmente se perderam, mas ainda foram 
vistas pelo erudito investigador conde da Ericeira. – Ficalho, Garcia da 
Orta e o seu tempo , págs. 69-70. – (C.). – D. João III, em carta ao conde 
da Castanheira, de 3 de Março de 1536, remetia -lhe o capítulo que Martim 
Afonso escrevera sobre a navegação que as naus da armada, que iam para 
a Índia, deviam fazer. Queria o rei que a matéria fosse examinada pelo 
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conde em prática com os pilotos que para isso eram, e do que se 
assentasse se lhe chegou à Índia, e conclui assim: “Não se espante Vosa 
Alteza de vos falar soltamente nas cousas de nagevaçam, porque eu cuydo 
que tendes poucos em Portugal que a entendam milhor que eu; e mais 
trabalho muyto pola saber, pois he pera vos servir con yso”. – J. D. M. 
Ford, Letters of John III, citadas, págs. 254-256. – (G.). 
 
(11) A boca se representa no Outerinho; Monserrate no lugar de 
olho direito; Santos sobre o cavalete do nariz; a praia de Embaré na 
papada, etc. – (A.). – Na secção XII o autor emprega imagem semelhante 
para a ilha do Maranhão. – (C.). 
 
(12) Gaibé escreve o jesuíta Simão de Vasconcelos; Guaybea diz 
Tomás Grigs, em Hackluyt, 3, 704 e 706. – (A.). – 4, pág. 203, da 
reedição de 1811. – (C.). 
 
(13) Veja Thevet e Abbeville [Léry? Cf. C. Mendes de Almeida, 
Rev. do Inst. Hist., t. 40, parte 2ª, 1877, pág. 237, nota, e 330. – (C.)] – 
Staden diz Orbioneme, Orbion-ém, ou Orpion mà e na colecção Purchas 
(5, 1242) há quem a denomine Warapisumama. Este último nome iludiria 
aos guarás, que ali se matavam. – (A.). 
O nome Urbioneme transmitido pro Staden, repara Teodoro 
Sampaio em nota à tradução do livro de Hans Staden comemorativa do 
quarto centenário do descobrimento do Brasil, deve estar alterado, se é 
que o devemos ter como de língua tupi como se deve inferi r das próprias 
palavras do narrador. Muito se tem discutido a propósito deste vocábulo 
adulterado, parece-nos que ele não é senão corruptela de Upau-nema, 
denominação tupi, que quer dizer – ilha imprestável ou ruim, talvez em 
alusão a ser ela baixa em sua máxima extensão, lamacenta, alagada e 
coberta de mangues. – (C.). 
 
(14) É (São Vicente) situada em uma ilha que tira seis milhas em 
largo e nove em circuito, antigamente era porto de mar e nele entrou 
Martin Afonso a primeira vez com sua frota, mas depois com a corrente 
das águas de terra do monte se tem fechado o canal, nem podem chegar as 
embarcações por causa dos baixos e arrecifes. – Anchieta, Informações e 
fragmentos históricos, 44. – (C.). 
 
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(15) Ruiz de Montoya. Conq. Espiritual del Paraguay, fol. 45 f.; 
se bem que “ver” se diga (Dic Bras. pág. 78) Cepiaca. – (A.). – Na edição 
da Conquista Espiritual, de Bilbao, 1892, à pág. 143. – (C.). 
 
(16) O apreço do fruto ainda mais tarde, entre os moradores de 
língua européia, poe deduzir-se do fato que, ao tempo do padre Belchior 
de Pontos (1644-1719) pinhão servia para designar outono. – Fonseca. 
Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, pág. 98. Lisboa, 1752. – 
(C.). 
 
(17) Tining, “secar”. Veja Dic. Bras. no voc. “Seca” e “Murchar”. 
Porventura a trodução literal seria “seca do peixe”. – (A.). – Segundo 
Teodoro Sampaio. O Tupi na Geografia Nacional, pág. 147, São Paulo, 
1901, Pirassununga, corruptela de piracyninga, significa peixe roncando, 
ou ronca peixe. – (C.). 
 
(18) O autor aproveita-se nesta secção do Diário de Pero Lopes, 
que publicou em Lisboa no ano de 1839 e depois reimprimiu na Rev. do 
Inst. Hist., t. 24, 1861, e avulso. A autenticidade deste documento foi 
contestadapor João Mendes de Almeida em uma memória. A Capitania de 
S. Vicente-S. Paulo. Sua origem: legenda histórica, São Paulo, 1887, 
reproduzida na Rev. do Inst. Hist., t. 53, parte 1ª, 1890. Sua tese é: 
“Manifestamente esse Diário da navegação de Pero Lopes de Sousa com 
referência à expedição de 1530-1535, é um documento apócrifo, ou sem 
fundamento algum de autenticidade, podendo, porém, ser o Diário da 
navegação de Martim Afonso de Sousa para a Índia em 1533-1534, 
mudados para 1530-1531. com enxerto em forma complementar da 
navegação de Pero Lopes de Sousa para o rio da Prata e do seu regresso 
para Portugal em 1531-1532”. – A argumentação de Mendes de Almeid 
dificilmente convencerá a quem ler o Diário, confirmado por tantos 
outros testemunhos independentes. Na Série Eduardo Prado está-se 
imprimindo a 5ª edição do Diário de pero Lopes, anotado por Eugênio de 
Castro, da Marinha Nacional. Por este terão de ser aferidas todas as 
questões relativas à expedição de Martim Afonso. – (C.). 
Além dessa edição já citada (nota 9 desta secção), há outra, a 6ª, 
da Comissão Brasileira dos Centenários Portugueses, Rio de Janeiro, 
1940, adiante descrita. – (G.). 
 
(19) Provas da Hist. Gen., II, n. 122, pág. 728. – Nesta bula se 
diz em latim terras de brasil, e terrarum de Brasil, em vez de Brasiliae, 
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como hoje, e como já se preferira escrever no hemisfério de J. SAchoener 
(1520). – (A.). 
 
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NOTAS EM ALGARISMOS ROMANOS 
 
(I) 
 
A Portugal a notícia do sucedido chegou meado Maio, como se vê 
da seguinte carta de D. João III ao conde da Castanheira, publicada por 
Fernando Palha, na Carta de marca de João Ango, 56-57: 
“D. Antonio amigo. Eu el Rei vos envio muito saudar. Aqui se 
diz, e não porem por via nenhuma certa nem autentica que M. A. de Sousa 
topou com algumas naus francezas carregadas de brasil que as tomou: e, 
porem, porque isto M. Af. me não escreve nem disso sei mais que dizer-
se, não o tenho por certo. E todavia me pareceu necessario, por que la 
pode ir ter a mesma nova, dar-vos aviso disso, pera que se vos nisso 
apontar alguem e la se disser isto mesmo, que vós digaes que o não 
credes, por que si assi fosse eu volo escreveria, que eu não tenho 
mandado tal nova, e como pessoa que totalmente haveis esta por falsa 
respondereis a quem vos nisso falar, sem vir a outra resão emquanto la na 
materia se não falar sinão como incerta. E porem, si apertarem mais 
comvosco e a nova for la per outra via e a tiverem por certa e disso 
fizerem caso, vós todavia direis que o não credes, nem vos parece que 
sendo assi eu o podera leixar deo saber e de outro volo escrever, e 
tambem que vós não credes que Francezes fossem aquella parte, e porem, 
si alguma cousa foi, que poderia mui bem ser que os Francezes fariam o 
que não deviam em algumas de minhas feitorias que eu la tenho muitas, 
ou tambem elles seriam os acomettedores, como se acontece, e que por 
certo tender que M. Af. nem meus capitães não haviam de fazer nem uma 
cousa sinão com muita rezão e de que possam dar boa conta a todo tempo 
e logar, e que vós sabeis mui bem quão apertadas levam as commissões 
todas minhas armadas e capitães que pelo mundo navegam pera nunca 
poderem erras guardando o que lhe por mim é mandado; e que, assi como 
isso tendes por certo, assi não duvidaes nada que si elles alguma cousa 
fizeram como não deviam e passaram meu mandado, que sabendo eu 
quem errou não passará sem castigo, mas que percima de tudo vos não 
parece que pode ser verdade, e si a for que ha de ser muito differente do 
que dizem, e meus capitães e gentes mui sem culpa. E como acima vai 
apontando podeis tocar em camanho trato e quantas casas de feitorias eu 
tenho em todos aquelles mares, como em par tes mui proprias minhas, e 
que de tantos atraz achadas, ganhadas e possuidas por mim e por a coroa 
destes reinos, onde ha tambem muita fazenda minha, e muita guarda assi 
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do mar como da terra, como é resão que haja, e que não é maravilha quem 
destes logares e guardas e tratos tem cuidado não querer consentir nem-
uma torvação nelles. E tudo isto, porem, direis e apontareis aos tempos e 
nos logares e com as pessoas que vos parecer conveniente, mais e menos 
segundo vos nisso falarem, e segundo o caso tambem que vos disso 
fizerem mais ou menos grave, que eu confio que vós mui bem sabereis 
fazer e dizer, e todas estas diferenças e ensejos sabereis mui bem guardar, 
e porisso nesta carta não é necessario vos dizer mais. – Jorge Rodrigues o 
fez em Montemor-o-novo – a 17 de Maio de 1531.” – (C.). 
 
(II) 
 
Só em Novembro chegou a propagar-se em França, em meio de 
grandes Queixas e alaridos, a notícia dos três navios apresados, com a 
circunstância, não sabemos se verdadeira, de haver Martim Afonso 
mandado enforcar o piloto Pedro Serpa, que encontrou em um deles. 
Sendo certo que já então (principalmente desde a criação, em 2 de Agosto 
de 1525, do ofício do Correio-mor em Portugal, ofício em que foi provido 
Luís Homem, que veio a ter à sua morte, por sucessor Luís Afonso em 13 
de Janeiro de 1533), havia correio público cada oito dias de Lisboa a 
Burgos, e cada quinze dias de Burgos a Flandres, devemos crer que os 
prisioneiros franceses estiveram incomunicáveis em Portugal por algum 
tempo. Gouveia parecia assustado com a notíc ia, porém o embaixador 
Gaspar Vaz era de parecer que por fim o resultado seria favorável a 
Portugal; não querendo outros expor-se ao que acabava de suceder a 
tantos. – (A.). 
O trecho da carta de Diogo de Gouveia (cópia no Instituto 
Histórico), escrita de Ruão a 17-18 de Novembro de 1531, é o seguinte: 
“Eu me achei aqui hoje 17 de Novembro e o Almirante era vindo 
aqui... e fui ver o Almirante para lhe fazer a reverencia. Ele me mandou 
mostrar uma carta que no mesmo porto de sua chegada viera de Lisboa 
desses Francezes que la foram presos no Brasil por Martin Affonso de 
Sousa. E depois de elle aqui ser chegado as mulheres e parentes se foram 
lançar diante delle e lhe pedir justiça e principalmente a mulher de um 
piloto ou mestre que chamava Pedro Serpa. Elle me disse que rogava que 
visse este negocio e escrevesse a Vossa Alteza que os mandasse soltar. Eu 
non sei o porque elles som presos porem sei que deste negocio não ha... 
(roto) provento. Si assi é como na carta diz, que o Capitão maor mandou 
enfocar este Pedro Serpa, e que catou todo o navio para ver se achava 
alguma cousa afora bresil, e dizem que non achou nada, eu por o que devo 
 91 
a Deus e a V. A., e ao proveito deste reino queria ver todas estas cousas 
postas em outro rumo e que se levassem por outra manha .” – (C.). 
 
(III) 
 
A esse respeito escreve Teodoro Sampaio, em nota a Hans Staden: 
“Em nenhum documento antigo se encontra o nome do canal entre a ilha 
de Santo Amaro e a terra firme com a grafia Brikioka. O primeiro k foi 
erroneamente substituído a um t. Examinando-se a estampa da página 28 
(da edição de São Paulo, 1900), vê-se que o nome escrito por sobre a 
figura no alto e à esquerda, tanto pode ser lido Brikioka como Britioka, 
sendo até mais admissível a segunda hipótese, que de fato é a mais 
próxima da verdade. 
“Frei Gaspar da Madre de Deus, que de certo conheceu a obra de 
Staden, donde tirou Enguaguaçu por Iguaguaçupe (Iwawassupe), colheu 
também Brikioka, como Britioka, e sobre esse nome alterado pelos 
copistas ou tradutores fez a lenda dos macacos bur iquis, dizendo-nos que 
o nome foi primeiro aplicado ao monte fronteiro ao forte, cuja mata era de 
contínuo visitada por essa espécie de símios vermelhos. Não discutiremos 
a autenticidade do documento indicado, nem a lenda que depois se 
formou.O que está averiguado é que o nome Bertioga, Britioka, Bartioga , 
sempre se aplica ao canal que separa do continente a ilha de Santo Amaro, 
lendo-se sempre nos roteiros, cartas da costa e relações de viagens, assim 
como nas crônicas, canal de Bertioga, variando às vezes para Bartioga. 
“Evidente é que o nome Bertioga ou Bartioga é corruptela do 
tupi, não sendo difícil a sua restauração, uma vez conhecida a lei, 
segundo a qual em todas as línguas os vocábulos evoluem e se alteram. 
Bertioga é, de fato, corruptela de Birati-oca, ou melhor de Pirati-oca, que 
quer dizer paradeiro das tainhas, pelas muitas que nesse canal se 
encontravam naqueles tempos remotos.” – (C.). 
_ Artur Neiva, em seus magistrais Estudos da Língua Nacional , 
págs. 112-141, São Paulo, 1940, discute longamente o vocábulo para 
fixar-lhe etimologia diversa das propostas até agora, a qual, pelos 
fundamentos apresentados, deve prevalecer. Neiva, com observação in-
loco, contesta não somente a ocorrência de macacos buriquis na 
localidade da Bertioga, o que daria Buriquioca – casa dos buriquis para 
Frei Gaspar da Madre de Deus, como também dos cardumes de tainhas, 
parati ou pirati, a desovar nas águas mansas do canal, originando daí a 
denominação Parati-óca ou Pirati-óca, casa do parati, viveiro das 
tainhas, fixada finalmente em Bertioga. 
 92 
Para Neiva mais natural seria que o nome provenha de 
mbariguioca, do mosquito barigui ou birigui, pequeno díptero 
hematófago do gênero Flebotomus, abundante na região, e oca, por 
alterações de forma até beriqui-oca, que facilmente, pela queda do 
primeiro i e a mudança do q em t, chegou a Bertioca, que sem nenhum 
esforço se transformou em Bertioga. 
As considerações do eminente e saudoso sábio brasileiro são 
dignas da ponderação dos entendidos. – (G.). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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SECÇÃO IX 
 
 
 
SUCESSOS IMEDIATOS À EXPEDIÇÃO 
E MARTIM AFONSO 
 
Tomada de uma fortaleza e uma nau de França. Resolve -se a 
partição do Brasil em capitanias. Carta régia a Martim Afonso. Volta de 
Martim Afonso à Europa. Doze donatários. Quinze quinhões. Irmão s 
Sousa. Pero de Góis. Vasco Fernandes. Pero do Campo. Jorge de 
Figueiredo. Francisco Pereira, Duarte Coelho. Pero Lopes. 
Fernand’Álvares. Aires da Cunha. João de Barros. Antônio Cardoso de 
Barros. Poucos competidores. Extensão das diferentes capitanias. 
Demasiada terra a cada donatário. Paralelo com a colonização da Madeira 
e Açores. Vantagens que se propunha salvar Portugal desta colonização. 
 
Deixemos, porém, por algum tempo a nascente colônia 
brasileira, e vejamos o que, entretanto, se passa no resto do 
Brasil, ou se decide a seu respeito no além-mar, isto é, na 
metrópole. 
Doloroso é ter que mencionar a sorte dos que da 
Cananéia partiram pela terra adentro com Francisco de 
Chaves. Seguindo na direção do sudoeste, talvez a buscar o rio 
Paraguai, para naturalmente depois passarem aos estados do 
Inca, haviam chegado às margens do Iguaçu (Herrera, dec. 
VII, 2, 9) quando foram todos traiçoeiramente assassinados 
pelos índios. Ignoramos ao justo em que época chegaria a São 
Vicente a triste nova deste sucesso, presente ainda na memória 
de seus habitantes, daí a meio século (Fr. Gaspar, pág. 8), e 
transmitido além disso até nós pelo adiantado Cabeza de Vaca, 
 94 
que por esses campos passava, mais prevenido contra os 
índios, dez anos depois (1). 
Enquanto Martim Afonso navegava pelo Sul, fora ter a 
Pernambuco uma nau de Marselha (2), com dezoito peças e 
cento e vinte homens, denominada La Pélerine, e armada à 
custa do Barão de St. Blancard (3). Em lugar da feitoria 
portuguesa, de seis homens, que aí havia ficado, fez o capitão 
da Pélerine, Jean Duperet, construir uma fortaleza provisória, 
que deixou guarnecida de trinta homens; e regressara à Europa 
com uma carga que (segundo as reclamações posteriores dos 
interessados, às quais nos cumpre dar algum desconto) 
montava a cinco mil quintais de brasil, trezentos de algodão 
(bombicis), seiscentos papagaios, três mil peles de animais, 
grande número de macacos e muita bugiarias. 
Tanto a nau como a fortaleza francesa tinham de ser 
mui mal afortunadas. A primeira, entrando no Mediterrâneo, se 
viu necessitada de arribar a Málaga; e, quando deste porto 
saía, foi apresada pela armada de guarda-costa, que Portugal 
mantinha à boca do estreito de Gibraltar, e que, pela 
mencionada arribada da nau, soubera que vinha ela do Brasil. 
A fortaleza galo-pernambucana (4), ou porque Pero Lopes teve 
conhecimento da sua existência, ou porque necessitava ir no 
porto em que ela estava a fazer aguada, antes de atravessar o 
Atlântico, foi por tal forma pelo intrépido capitão combatida, 
durante dezoito dias consecutivos (I), que se lhe rendeu (II). 
Então Pero Lopes, deixando a mesma fortaleza 
guarnecida de gente sua, às ordens de um Paulos Nunes, fez-se 
de vela para Portugal, levando consigo duas naus francesas 
que tomara, alguns índios, e trinta e tantos prisioneiros. No 
princípio do ano imediato aportou em Faro; e desta cidade do 
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Algarve, seguiu logo para Évora, onde então estava a corte, e 
aí chegou, ao que parece, a 20 de Janeiro de 1533 (5). Suas 
naus se mandaram recolher com os franceses a Lisboa; e 
quatro principais da terra, que o soberano chegou a distinguir 
dando-lhes o nome de reis, foram por ordem régia vestidos de 
seda. 
Já havia meses que, pelos da mencionada nau apresada 
no Estreito, soubera o governo de como ela havia deixado em 
Pernambuco um forte com numerosa guarnição; e mandara 
ordens à costa da malagueta a fim de que Duarte Coelho, 
capitão-mor de uma esquadrilha aí estacionada, passasse a 
Pernambuco para desalojar os intrusos (6). Com a chegada de 
Pero Lopes, foi ordenado que a mesma esquadrilha, em lugar 
de ir ao Brasil, ficasse cruzando na altura dos Açores (7), e 
para Pernambuco foi, segundo entendemos (Vol. II, fls. 208 da 
Col. de cartas do conde da Castanheira) despachada (depois de 
23 de Janeiro de 1534) uma caravela, ao mando de Vicente 
Martins, com ordens para Paulos Nunes (III). 
Pouco antes, o governo português, instado ainda de 
França pelo Dr. Diogo de Gouveia, e receoso do demasiado 
desenvolvimento que os franceses iam dando ao seu comércio 
com o Brasil, viu-se obrigado a adotar o plano de colonizar, 
pelo simples meio de ceder essas terras a uma espécie de 
novos senhores feudais, que, por seus próprios esforços, as 
guardassem e cultivassem, povoando-as de colonos europeus, 
com a condição de prestarem preito e homenagem à Coroa. 
Providências análogas tinham adotado, com proveito, os reinos 
da Europa, para se povoarem com a necessária disciplina, 
sobretudo nos lugares fronteiriços aos inimigos em que, para 
fugir da perigosa fraqueza, era necessária toda a união e a 
 96 
maior subordinação; e para convocar colonizadores com 
alguns capitais, era indispensável conceder-lhes, sobre os 
colonos, que eles contratavam e levavam à sua custa, certo 
ascendente (8). 
Foi, pois, resolvido que o Brasil se dividisse (9) em 
grandes capitanias, contando para cada uma, sobre a costa, 
cinqüenta ou mais léguas; o que el-rei participou logo a 
Martim Afonso, na resposta às cartas que o mesmo Martim 
Afonso escrevera de Pernambuco, dando conta da tomada das 
naus francesas. Embora seja essa resposta bastante conhecida , 
por andar reproduzida em muitos livros, julgamo-la de tal 
importância que não nos é possível deixar de inclui-la também 
neste lugar. Dizassim: 
“Martim Afonso, amigo: Eu el-rei vos envio muito 
saudar. 
“Vi as cartas que me escrevestes por João de Sousa; e 
por elle soube da vossa chegada a essa terra do Brasil, e como 
ieis correndo a costa, caminho do Rio da Prata; e assim do que 
passastes com as naus francesas, dos cossairos que tomastes, e 
tudo o que nisso fizestes vos agradeço muito; e foi tão bem 
feito como se de vós esperava; e sou certo qual a vontade que 
tendes para me servir. 
“A nau que cá mandastes quizera que ficára antes lá, 
com todos os que nella vinham. Daqui em diante, quando 
outras taes naus de requeriam capitanias de cincoenta leguas 
cada uma; e segundo se requerem, parece que se dará a maior 
parte da costa; e todos fazem obrigações de levarem gente e 
navios à sua custa, em tempo certo, como vos o Conde mais 
largamente escreverá; porque elle tem cuidado de me requerer 
vossas cousas, e eu lhe mandei que vos escrevesse. 
 97 
“Na costa da Andaluzia foi tomada agora pelas minhas 
caravelas, que andavam na armada do Estreito, uma nau 
franceza carregada de brasil, e trazida a esta cidade; a qual foi 
de Marselha a Pernambuco, e desembarco gente em terra, a 
qual desfaz uma feitoria minha que ahi estava, e deixou lá 
trinta (10) homens, com tenção de povoarem a terra e de se 
defenderem. E o que eu tenho mandado que se nisso faça 
mandei ao Conde que vo-lo escrevesse, para serdes informado 
de tudo o que passa, e se há-de fazer; e pareceu necessario 
fazer-vo-lo saber, para serdes avisado disso, e terdes tal vigia 
nessas partes, por onde andaes, que vos não possa acontecer 
nenhum mau recado: e que qualquer força ou fortaleza que 
tiverdes feita, quando nella não estiverdes, deixeis pessoa de 
quem confieis, que a tenha a bom recado; ainda que eu creio 
que elles não tornarão lá mais a fazer outra tal; pois lhe esta 
não succedeu como cuidavam. 
“E mui declaradamente me avisai de tudo o que 
fizerdes; e me mandai novas de vosso irmão, e de toda a gente 
que levastes; porque com toda a boa que me enviardes, 
receberei muito prazer” (11). 
A recepção desta carta (12) devia apressar a partida do 
capitão-mor para a Europa. Vê-se dela que o rei, com o seu 
conselheiro, o Conde da Castanheira, ansiava primeiro ouvir 
os votos de pessoas práticas, como o capitão-mor do Brasil, 
para não ir tanto às cegas, na doação das suas terras. Assim o 
entendeu também Martim Afonso; e deixando por seu lugar-
tenente, com os poderes que podia delegar, a Gonçalo 
Monteiro (Rev. do Inst. Hist. 9, 160) na colônia de São 
Vicente, partiu para Portugal, onde chegou naturalmente antes 
do meado do ano de 1533 (13). 
 98 
Bem que, como se vê da carta acima transcrita, a 
resolução de se dividir o Brasil por donatários foi tomada em 
1532, e já então se fizeram alvarás de lembrança por algumas 
doações, só em Março de 1534, mês em que partia (14) Martim 
Afonso para a Índia, é que se começaram a passar as cartas ou 
diplomas aos agraciados, que gozariam, de juro e herdade, do 
título e mando de governadores das suas terras, as quais 
tinham pela costa mais ou menos extensão; e por conseguinte 
eram maiores ou menores os quinhões, segundo o favor de que 
gozavam e talvez os meios de que podiam dispor. 
Compreendiam-se nas doações as ilhas que se achassem até à 
distância de dez léguas da costa continental. As raias entre 
capitania e capitania se fixaram por linhas geográficas tiradas 
de um lugar da mesma costa, em direção a oeste. Assim o 
território ficou verdadeiramente dividido em zonas paralelas, 
porém umas mais largas que outras. Este meio de linhas retas 
divisórias imaginárias, que ainda com os mais exatos 
instrumentos num terreno muito conhecido seriam quase 
impossíveis de traçar, era o único de que se podia lançar mão, 
pelo quase nenhum conhecimento corográfico que havia do 
país, além do seu litoral. Em algumas doações, nem foi 
possível declarar o ponto em que principiavam ou acabavam. 
Incluía-se apenas a extensão da fronteira marítima, e 
designavam-se os nomes dos dois donatários limítrofes. 
Manifesta é a insuficiência de uma tal demarcação que, 
para algumas capitanias, veio a dar origem a leitos que 
duraram mais de um século. 
Doze foram os donatários: mas verdadeiramente quinze 
os quinhões, visto que os dois irmãos Sousa tinham só para si 
cento e oitenta léguas, distribuídas em cinco porções 
 99 
separadas, e não em duas inteiriças. Com razão deviam eles de 
ser, pelos serviços importantes que acabavam de prestar no 
próprio Brasil, os mais atendidos na partilha. 
A Martim Afonso, a quem a carta régia acima fazia 
terminantemente a promessa, foram adjudicadas, naturalmente 
por sua própria escolha, as terras da colônia de São Vicente, e 
por conseguinte com ela os gastos já feitos pelo Estado para 
fundá-la. O não se mencionar esta cláusula fez que, em virtude 
da letra da carta de doação, se entendesse tempos depois 
pertencer esta vila aos herdeiros de Pero Lopes, cuja doação 
começava do lado do norte da barra grande de São Vicente. Os 
dois quinhões de Martim Afonso compreendiam as terras que 
correm desde a barra de São Vicente até doze léguas mais ao 
sul da ilha da Cananéia, ou proximamente até uma das barras 
de Paranaguá; e para o lado oposto, as que vão desde o Rio 
Juquiriqueré até treze léguas ao norte do Cabo Frio, que depois 
se fixou pela barra de Macaé; ficando por conseguinte suas as 
magníficas terras de Angra dos Reis, as da soberba baía de 
Janeiro, e do Cabo Frio. Eram nada menos que cem léguas 
contadas sobre o litoral; mas em virtude do rumo, que durante 
essa extensão toma a costa, vieram a produzir, na totalidade, 
em léguas quadradas, alguns milhares de menos do que a 
vários dos outros, como se verá. 
A extensão do Juquiriqueré até a barra de São Vicente, 
e a de Paranaguá para o sul até as imediações da Laguna, que 
chamavam terras de Sant’Ana (15), foi doada a Pero Lopes 
que, além destas porções, que perfaziam cinqüenta léguas 
sobre o litoral, recebeu, desde a ilha de Itamaracá inclusive 
para o orte, trinta léguas mais, como abaixo diremos, quando, 
costeando como vamos, o Brasil de sul a norte, chegarmos, 
 100 
com a nossa resenha, à paragem onde delas se encontram. 
Com a porção mais setentrional de Martim Afonso 
entestavam as trinta léguas doadas a Pero de Góis, e que iam 
terminar no baixo dos Pargos, ou antes de Itapemirim 
proximamente. Pero de Góis prestara também importantes 
serviços na armada de Martim Afonso, a cuja família devia ser 
mui afeiçoado, e até foi ele quem se encarregou de escrever 
por sua letra o diário de Pero Lopes, cujo original entregamos, 
em 1839, pela primeira vez, à imprensa (16). Essa afeição não 
deixaria de ser tomada em conta no repartimento da terra para 
evitar as demandas e pleitos que pudessem acaso resultar da 
falta irremediável da precisão nas demarcações laterais. 
Contíguo a Pero de Góis, cinqüenta léguas sobre a 
costa, as quais alcançavam até o rio Mocuri, veio a ficar Vasco 
Fernandes Coutinho, também fidalgo da casa real; e que 
havendo servido em Goa, em Malaca e na China, às ordens de 
Affonso d’Albuquerque (17), conforme recordam as historias 
da Ásia, depois de juntar algum cabedal se havia retirado a 
Alenquer (vila situada, como sabemos, a algumas léguas de 
Lisboa, perto de Tejo) para aí desfrutar, com a ajuda da 
moradia, de uma tença que recebia do Estado. Naturalmente 
nessa vila, por intermédio de algum agente do conde da 
Castanheira, proprietário vizinho seu, se recomendaria para 
entrar no número dos da partilha. 
Do Mocuri para o norte vinha a capitania de Porto 
Seguro, com outrascinqüenta léguas concedidas a Pero do 
Campo Tourinho, rico proprietário de Viana do Minho. 
Seguiam-se os Ilhéus, nas cinqüenta léguas até a barra 
da Bahia, doadas a Jorge de Figueiredo Correia, também 
fidalgo da casa real, e que exercia na corte o cargo de escrivão 
 101 
da Fazenda, o qual lhe daria lugar a estar informado do que se 
passava, e a pedir para si o que tão generosamente via 
conceder a outros. A raia entre esta capitania e a precedente 
não se indicava. 
Tudo quanto se estende desde a barra da Bahia à foz do 
rio de São Francisco obteve para si Francisco Pereira 
Coutinho, excetuando-se, porém, o mesmo rio que devia ficar 
exclusivamente a Duarte Coelho; e, segundo se diz na própria 
doação, foi-lhe conferida tal graça, em atenção aos muitos 
serviços que ele havia prestado, assim em Portugal, como “nas 
partes da Índia, onde servira muito tempo com o Conde 
Almirante (18) e com o Vice-Rei D. Francisco de Almeida, e 
com Affonso d’Albuquerque, e em todos feitos e cousas que os 
ditos capitães nas ditas partes fizeram, nos quaes dera sempre 
de si mui boa conta”. 
As Alagoas e parte do atual território da província de 
Pernambuco tocaram, na extensão de sessenta léguas, a Duarte 
Coelho, valente capitão que muito se distinguira por feitos no 
Oriente, em cujos fastos achamos mais de uma vez consignado 
honrosamente o seu nome, em missões ao reino de Sião e à 
China, no descobrimento da Cochinchina, no recontro que reve 
com duas armadas, conseguindo fazer vinte e tantas presas, e 
em outras ações ilustres (19). Havia sete anos que voltara do 
Oriente, e se casara com D. Brites, irmã de Jerônimo d’ 
Albuquerque. Como, por ocasião da primitiva repartição das 
terras, lhe haviam ido ordens para navegar até Pernambuco (da 
costa da Malagueta, onse de achava cruzando), a fim de 
destruir a feitoria deixada pela nau de Marselha, é natural que 
daí proviesse o ser preferido para esta parte da costa, de que 
porventura chegaria a ter conhecimento prévio. 
 102 
Um pouco ao norte da foz do rio Igaraçu ficava a 
extrema do domínio de Coelho. À margem esquerda da foz 
deste rio, no canal de Itamaracá, fora levantada a feitoria de 
Cristóvão Jaques. A cinqüenta passos ao norte dela, onde se 
diz “Os Marcos”, em virtude dos que aí se postaram, era o 
ponto donde partia designadamente a raia setentrional da 
mesma capitania. Para o norte se contavam as restantes trinta 
léguas da pertença do donatário Pero Lopes, as quais 
alcançavam a baía da Traição, compreendendo parte da atual 
província da Paraíba, e incluindo a fértil ilha de Itamaracá. 
A extensão d litoral daí para diante, o resto da atual 
Paraíba e Rio Grande do Norte, coube a João de Barros e a 
Aires da Cunha, de parceria; contando-se-lhes cem léguas 
além da baía da Traição. Seguiam-se sobre o Ceará quarenta 
léguas para o cavaleiro fidalgo Antônio Cardoso de Barros 
(20), e depois de mediarem setenta e cinco para Fernando 
Álvares de Andrade, e que vinham a incluir parte da costa do 
Piauí e Maranhão atual “desde o cabo de Todos os Santos, a 
leste do rio Maranhão, até junto ao rio da Cruz (IV)”, 
competiam outra vez àqueles dois donatários associados, 
Barros e Cunha, cinqüenta léguas mais, começando a contá-las 
de loeste “desde a abra de Diogo Leite até o dito cabo de 
Todos os Santos”. 
Fernando Álvares de Andrade, do conselho do rei, era 
então tesoureiro-mor do Reino (Barros, Déc. I, VI, 1º). – 
Enquanto viveu, diz-nos o conde da Castanheira, foi 
solicitador acérrimo em favor de providências a bem do Brasil. 
Aires da Cunha era um valente nauta que se distinguira 
como capitão-mor do mar em Malaca (Barros, Déc. III, liv. 10, 
c. 6. – IV, liv. 1º, cs. 9, 10 e 11. – Couto, IV, liv. 1º, c. 6; liv. 
 103 
2º, cs. 2 e 3). Recolhendo dos Açores, onde se achava com 
uma esquadrilha de caravelas de guarda-costa e onde prestara 
serviços importantes, em Setembro de 1533 (21), chegara a 
Lisboa, comandando um galeão, com o qual se oferecera a 
destruir a feitoria que em Pernambuco fundara a nau de 
Marselha La Pélerine, comissão que não lhe foi incumbida, 
por chegar pouco depois Pelo Lopes, deixando concluída essa 
empresa. 
Quanto ao donatário João de Barros, escusado é dizer 
que se trata do que viria a ser historiados da Índia, com tanta 
glória para a nação, e fortuna para a língua, em que ele tão 
vigorosamente escrevia. Louve-se muito embora, nos 
historiadores portugueses, a crítica de Brandão, o colorido de 
Brito, o fraseado de Sousa, de Lucena, ou de Mendes Pinto, 
sempre haverá que conceder a Barros toda a pureza na 
linguagem, muita propriedade na frase, e um estilo elegante, 
principalmente quando descreve ou pinta certas paragens, 
ostentando as muitas noções que tinha das coisas do Oriente, 
como quem, aproveitando-se do seu ofício de feitor da casa da 
Índia, não praticava em outro assunto com os que de lá 
chegavam. Bem alheias vereis sempre as Décadas da Ásia, 
assim dos soporíferos contos de Castanheda e de Azurara, 
como das pregações homéricas do velho Fernão Lopes; e por 
isso mereceram elas a glória de ser o livro português que mais 
folheou o imortal cantor do Gama. O conde da Castanheira 
tinha o erudito feitos da Casa da Índia em tão boa conta que a 
seu respeito dizia num relatório (22) ou exposição ao monarca: 
“O feitor hei eu por tão fiel em seu officio que casi me 
parece que ainda que furtar fôra virtude elle o não fizera: 
entende o negocio muito bem, ha mister mais favor que 
 104 
sofreadas. Não fôra mau para o negocio da cada (23) não ser 
elle incrinado a outros, os quaes, não somente não são illicitos, 
mas muito proveitosos à terra”. Estes outros negócios lícitos, 
úteis à terra, a que se mostrava inclinado o pobre feitor, eram 
naturalmente as ocupações de sua pena, que tanta glória dão ao 
país, e que revertem em quem assim o protegia, para escrever 
suas obras, e colonizar a pátria e o orbe com as suas criações. 
No número destas contaríamos hoje uma crônica do Brasil até 
o seu tempo, se havendo vivido mais anos, houvesse ele 
podido realizar (24) os seus intentos. 
Resta-nos unicamente tratar do cavaleiro fidalgo 
Antônio Cardoso de Barros, cuja capitania, computada em 
quarenta léguas de costa, se estendia, aquém da de Fernando 
Álvares, desde o rio da Cruz, em dois graus e um terço, 
correndo para leste, até a Angra dos Negros, em dois graus 
(25). Esta capitania tinha apenas seis léguas de espaço de 
latitude, pois seguia de dois graus a dois graus e um terço. – 
Dos precedentes deste donatário não encontramos notícias. – 
Segundo certos indícios de ruínas de pedra e cal, encontradas 
depois na Tutóia (26), aí pretendeu estabelecer uma colônia, 
que se viu obrigado a desamparar; e mais tarde aceitou da 
coroa um cargo de fazenda para a Bahia, e ao recolher-se ao 
Reino naufragou, e foi barbaramente assassinado pelos índios. 
Por certas expressões, que lemos no relatório 
mencionado do conde da Castanheira, deduzimos que não 
houve, entre os poderosos da corte, grande concorrência, como 
dá a entender a carta régia a Martim Afonso, para alcançar tais 
capitanias, que nem sabiam alguns dos agraciados que coisa 
eram. Reconhece o conde que a distribuição não tinha dado 
ainda tantos resultados como se esperava, e desculpa-se de que 
 105 
a tal respeito não se pôde fazer mais, por o não consentirem os 
que queriam ir, “e serem poucos os que sobre isso 
competiam”. 
Embora pareça que nada há que opor a estas reflexões, 
porque a necessidade era a lei, e porque urgia o estímulo aos 
empreendedores, que naturalmente imporiam as condições, não 
podemos dissimularque, em nosso entender, o governo andou 
precipitado em distribuir logo a terra, de juro e herdade: 
reconhecemos a necessidade que havia de colônias por toda a 
extensão da costa; mas talvez estas se houveram da mesma 
sorte obtido e outras muitas após elas, se as doações se 
houvessem limitado, por então, a doze ou mais quinhões 
muito mais pequenos; e que constassem de algumas léguas 
quadradas, próximas aos portos principais da costa, já então 
conhecidos e freqüentados. A colonização não se teria 
disseminado tanto (chegando às vezes a perder-se), e houvera 
sido mais profícua, e dado resultados mais prontos; e o 
governo poderia ter guardado um novo cofre de graças, para 
recompensar os serviços feitos pelos abastados do comércio 
que aspirassem a satisfazer a tendência existente no coração 
humano de vincular, para sucessores, as fortunas adquiridas. – 
Com doações pequenas, a colonização se teria feito com mais 
gente, e naturalmente o Brasil estaria hoje mais povoado – 
talvez – do que os Estados Unidos: sua povoação seria 
porventura homogênea, e teriam entre si as províncias menos 
rivalidades que, se ainda existem, procedem, em parte, das tais 
grandes capitanias. Pois é possível crer que esses poucos que 
competiam para ser donatários, como diz o conde da 
Castanheira, se não contentassem sem a idéia do domínio de 
muita terra embora inútil, e sobre que nem sequer podiam 
 106 
saciar com os olhos, mas só com a imaginação, sua cobiça, 
quando na maior parte eram de sertão, onde não poderiam ir, 
nem foram, em sua vida? O mal foi fazer-se tudo às pressas” E 
o caso é que isso, por ser mal feito, não se expulsaram de 
nossos mares os navios franceses, que era o resultado principal 
que se pretendia obter. 
É certo que a mania de muita terra acompanhou sempre 
pelo tempo adiante os sesmeiros, e acompanha ainda os nossos 
fazendeiros, que se regalam de ter matos e campos em tal 
extensão que levem dias a percorrer-se, bem que às vezes só a 
décima parte esteja aproveitada; mas se tivesse havido alguma 
resistência em dar o mais, não faltaria quem se fosse 
apresentando a buscar o menos. Anos antes tinham aparecido 
colonizadores para os Açores, com muito mais pequenas 
doações de terras; e os Açores e a Madeira têm hoje, 
proporcionalmente mais povoação que os distritos de Portugal, 
naturalmente porque foram as doações mais pequenas e em 
maior número: e apesar de haverem sido muitos dos colonos 
estrangeiros, como os que levou Hürter para o Fayal e Bugres 
para a ilha Terceira, nem por isso a colônia, formada de 
flamengos, ficou flamenga, nem falando flamengo. 
Na distribuição primitiva das terras, sem dúvida se 
deram muito notáveis desigualdades, não tanto no avaliar as 
doações pelo maior ou menor número de léguas sobre a costa, 
que esse foi em geral de cinqüenta; bem que por exceção se 
estendesse a oitenta ou a cem, ou se restringisse a trinta. As 
maiores e mais caprichosas desigualdades se encontram, 
quando hoje vamos sobre o terreno apurar até onde chegavam, 
pelo serão a dentro, os direitos senhoriais concedidos; e 
medimos aproximadamente os milhares de léguas quadradas 
 107 
que, segundo a correspondente carta de doação, tocava a cada 
um destes Estados, geralmente com maior extensão de 
território do que a mãe-pátria; extremando de loeste, pela 
meridiana da raia que estabelecemos (27), na suposição de se 
contarem as léguas como de dezesseis graus e dois terços. 
Procedendo a esta apuração, fácil será conhecer que as 
doações, em milhares de léguas quadradas, vinham a guardar, 
pouco mais ou menos, as proporções seguintes: 
1º - Duarte Coelho, doze milhares; 
2º - Pero Lopes, sete milhares e meio; 
3º - Francisco Pereira, sete milhares; 
4º - Figueiredo, quase o mesmo; 
5º - Tourinho, seis milhares e meio; 
6º e 7º - Barros e Cunha, quase o mesmo cada um; 
8º - Vasco Fernandes, cinco milhares e meio; 
9º - Martin Afonso, pouco mais de dois e meio; 
10º - Pero de Góis, menos de dois; 
11º - Fernando Álvares, menos de milhar e meio; 
12º - Antônio Cardoso, pouco mais de seiscentas 
léguas. 
 
Deste modo a capitania de Martim Afonso, que talvez o 
doador pensou fazer maior que as outras, saiu das mais 
pequenas. Ainda nos nossos tempos há exemplos de 
disposições legislativas em que da ignorância de princípios 
científicos procedem resultados absurdos, ou contrários à 
mente dos legisladores. 
Em todo caso, por meio do estabelecimento destas 
capitanias, pensou o governo de D. João III, sem lesar 
diretamente o tesouro da nação, não só assegurar esta grande 
 108 
extensão de terra que a fortuna lhe outorgara, como, com o 
tempo, recolher, por meio da cultura dela, maiores vantagens. 
– Não há dúvida que por muito entraria no ânimo do soberano 
o pensamento de propagar o evangelho; mas ele o faria, 
faltando aos seus deveres, se o executasse empobrecendo, em 
gente e em recursos, o povo que regia, sem esperanças de 
retribuição. Uma colônia, diz um publicista que se ocupou 
profissionalmente do assunto, “é o resultado da emigração de 
indivíduos de que a metrópole se priva, com a esperança de 
poder indenizar-se mais tarde dos sacrifícios que faz; sem o 
que, os estabelecimentos que fizesse só lhe causariam dano”. 
Pelo que, o simples fato do estabelecimento de uma colônia 
por qualquer nação, que a funda com os seus filhos, “a defende 
com as suas armas e a mantém por suas leis, como diz 
Montesquieu, reclama a compensação nas vantagens do seu 
comércio, com exclusão de todas as outras nações, segundo o 
direito europeu ainda praticado em nossos dias por alguns”. 
 
 
 
NOTAS EM NÚMEROS ARÁBICOS 
 
(1) Também desse infausto sucesso trata Oviedo, no Liv. 23, cap. 
10 (T. 2º, pág. 188). – (A.). – Sobre o caminho seguido por Cabeça de 
Vaca, interpretação de modos tão diferentes, consulte-se Rio Branco, 
Exposição, etc., II, págs. 224-225. – (C.). – A expedição, composta de 
quarenta besteiros e outros tantos espingardeiros, comandada por Pero 
Lobo, um dos capitães de Martim Afonso, e guada por Francisco de 
Chaves, partiu de Cananéia, no primeiro dia de Sertembro de 1531, - 
Diário de Pero Lopes, I, págs. 206-207, da edição de Eugênio de Castro. 
Entranhando-se pelo sertão, rumo do sudoeste, em busca de metais 
preciosos, dos expedicionários não houve mais notícias senão a que, dez 
anos depois, transmitiu o adiantado Alvar Nuñez Cabela de Vaca: 
 109 
“Llegados que fueron al rio Yguaçu fu[e informado de los índios naturales 
que el dicho rio entra en el rio del Parana, que asi mismo se llama el rio 
de la Plata. Y que entre este rio del Parana y el rio de Yguaçu mataron los 
índios a los Portugueses que Martim Afonso de Sousa ambio a descubrir 
aquela tierra; al tiempo que pasavam el rio en canoas dieron los índios en 
ellos y los mataron; algunos destes de la del Parana que ai mataron a los 
Portugueses, le avisaron al governador (Cabeça de Vaca) que los índios 
del rio del Pequeri, que era mala gente, enemigos nuestros, y que estavon 
aguardando para acometerlis y matarlos en el passo del rio...”. – 
Comentarios de Alvar Nuñez Cabeça de Vaca, adelantado y governador 
de la provincia del rio de la Plata. Scriptos por Pero Hernández, scrivan 
y secretario de la provincia, y dirigidos al Serenisimo, muy alto y muy 
poderoso Señor el Infante Don Carlos, N. S.”, fls. LXVIII v., Valladolid, 
1555. – Dos termos do itinerário de Cabeça de Vaca, Rio Branco (op. et 
loc. cit.) deduziu elementos de prova de que naquela região, cuja posse a 
República Argentina disputava ao Brasil, os Portugueses precederam de 
dez anos aos Espanhóis no descobrimento.– (G.). 
 
(2) D. Martinho de Portugal, em carta de 19 de Abril de 1532, “dá 
conta de huma nau de Franceses de Marselha, que tomou Antonio Correa 
com grande valor; e foy de importancia por vir do Brasil; que se tornara a 
salvamento á sua terra, se ouverão de armar outras muytas logo em 
Marselha e por toda a Italia”. – Frei Luís de Sousa, Anais de D. João III , 
pág. 377, Lisboa, 1844. – (G.). 
 
(3) “Géneral des armées navales” – diz F. Denis, em seu 
interessante trabalho Le Génie de la Navigation, pág. 33. Também se 
escrevia Blanquart. – (A.). – Bertrand d’Ornessan era o nome do barão de 
Saint-Blancard. – (G.). 
 
(4) Cremos que essa fortaleza seria em um dos morros de Olinda, 
nome que Duarte Coelho veio a substituir ao indígena de Marim, que 
tinha no tempo dos franceses e de Paulos Nunes. 
 
(5) No dia seguinte, 21 de Janeiro de 1533, é datada a carta de D. 
João III ao conde da Castanheira, avisando-o da chegada de Pero de 
Sousa, que vinha do Brasil, “quall, antre boas novas que trouxe, foy que, 
vymdo elle do Rio da Prata, correndo a custa do Brasil, veyo teer a 
Pernambuco, ôde achou os Franceses, que tinham feyto fortalezza; e lha 
tomou, e os tomou a elles, e ficou pacificamente e poder dos Portugueses 
 110 
sem nenhua contradiçam. E porque pareçe que, por esta obra ser feyta, 
non sera necessario ir Duarte Coelho com a sua armada há dita costa do 
Brasyll, e que seja muyto mais meu servyço ir esperar as naoos que 
Antonio Vaaz de Lacerda diz que se aviam de ir ajuntar, pera seguirem 
d’y sua viajem em cõserva até a India, que deve de ser na costa de Ginee 
ou perto da costa de mallageta, omde o dito Duarte Coelho estaa”. – J. D. 
M. Ford, Letters of Joh III, citadas, pág. 69. – (G.). 
 
(6) Carta del-rei ao conde da Castanheira, de 25 de Janeiro de 
1533. – (A.). – Publicada por J. D. M. Ford, Letters of John III, citadas, 
págs. 73-75. – (G.). 
 
(7) Duarte Coelho havia de andar na costa da Malagueta até 10 ou 
15 de Abril; Parece que quando o aviso chegou, já seria Maio, tempo 
necessário para ir às ilhas, ibidem, pág. 82. – (G.). 
 
(8) Para promover a colonização dos países, aonde ela não ia 
espontaneamente, não havia então, e nem talvez haja ainda hoje, outro 
meio; bem que se possam aperfeiçoar cada vez mais as condições, sempre 
em harmonia, com o sistema da enfiteuse romana. Somente certos direitos 
sobre o colono podem estabelecer igualdade em contratos, onde um 
homem, sem fiador, faz promessas, em virtude das quais unicamente o 
donatário abona o custo de seu transporte e outras despesas. – (A.). 
 
(9) Esse sistema foi também seguido pelos Holandeses quando, 
em 1630, colonizaram nos Estados Unidos, no Delaware, Hudson, etc. – 
(A.). 
 
(10) “Setenta” se lê nas cópias. Parece, porém, ter havido engano 
de algum copista, pois “trinta” se lê no processo autêntico de St. 
Blancard. – (A.). 
 
(11) Segue: “Pero Anriques a fez em Lisboa aos 28 de Setembro 
de 1532 annos-REI”. – (A.). – Santarém, Quadro elementar, 3 , 241, 
equivoca-se, dando-a como escrita por Martin Afonso a D. João III. – 
(C.). 
 
(12) Esta carta parece autêntica: entretanto, o final dá que pensar. 
Significará que el-rei tinha tanta confiança nas medidas tomadas que de 
 111 
antemão já cantava vitória? Conterá referência a algum fato de que não 
temos outra notícia? – (C.). 
 
(13) Martim Afonso estava ainda em São Vicente a 4 de Março de 
1533, segundo Tanques, na Rev. do Inst., 9, (1847), pág. 146. Reuniu-se a 
Duarte Coelho na ilha Terceira, e naturalmente voltou com ele para 
Lisboa, depois de Julho do mesmo ano, como se vê de Fr. Luís de Sousa, 
Anais de D. João III, pág. 378. Parece que primeiro governou como seu 
locotenente Pero de Góis, que teve com os espanhóis de Iguape um 
conflito, a que o autor se refere na secção XI. – (C.). 
 
(14) A doação a Duarte Coelho é de 10 de Março (1534) e teve 
apostila em 25 de Set., concedendo-lhe metade da dízima do pescado, que 
pertencia de direito à Ordem de Cristo. – (A.). 
 
(15) “Em altura de vinte e oito graus e um terço”. (Carta de 
doaç.). – (A.). 
 
(16) Se a letra é de Pero de Góis, segundo o autor afirma também 
na Revista do Instituto, 24, (1861), pág. 5, a cópia foi extraída alguns 
anos depois dos sucessos narrados, porque Pero de Góis ainda ficou no 
Brasil, como se vê do seguinte trecho de sua carta de doação passada a 28 
de Janeiro de 1536: “havendo respeito aos serviços que me tem feito 
Pedro de Góis, fidalgo de minha casa, assim na armada que Martim 
Affonso de Sousa foi por capitão-mor na dita costa do Brasil como em 
alguns descobrimentos que o dito Martim Affonso fez no tempo em que lá 
andou, e em todas as mais cousas de meu serviço e a que se o dito Pedro 
de Góes achou, assim como o dito Martim Affonso como sem elle, depois 
de sua vinda por ficar lá”. – Silva Lisboa, Anais do Rio de Janeiro, 1, 
pág. 351. Rio, 1834. – (C.). – Conf. nota V, no fim da secção XII. 
 
(17) Liv. 7, de D. João III, fls. 113 e 187. – (A.). – O que se 
encontra em João de Barros (Déc. II liv. VI, cap. IV) sobre os feitos de 
Vasco Fernandes Coutinho compendiou Silva Lisboa, Anais do Rio de 
Janeiro, 1, 333 d segs. – (C.). – Em Fernão Cardim, Tratados da Terra e 
Gete do Brasil, Rio, 1925, pag. 342, há referência “àquele Vasco 
Fernandes Coutinho, que fez as maravilhas em Malaca, detendo o elefante 
que trazia a espada na tromba”. – (G.). 
 
(18) Vasco da Gama. – (A.). 
 112 
 
(19) Barros, III, passim, e Couto, IV, passim. Veja também o t. V, 
das obras poéticas de Dinis, págs. 142 a 144, donde se colige como a essa 
família veio a entroncar-se um homem célebre. – (A.). – O marquês de 
Pombal. Duarte Coelho passou à Índia em 1509, na armada em que foi por 
capitão-mor D. Fernando Coutinho: esteve na China, primeiro europeu 
que isto fez em navios europeus, em 1516-1517; em 1529 foi encarregado 
de ver com dois engenheiros os portos em África que deviam ser 
fortificados. em 1531 foi à França, de onde voltou pouco depois de lá ter 
chegado o conde da Castanheira [Fernando Palha, La lettre de marque de 
Jean Ango, pág. 49, et passim, Rouen, 1890]. Frei Luís de Sousa, Anais 
de Dom João Terceiro, 378, dá breve notícia dos seus serviços no Oriente. 
Quando ao parentesco com o marquês de Pombal, veja -se a nota da secção 
XXV. – (C.). 
Duarte Coelho era filho de Gonçalo Coelho, emissário de D. João 
II ao príncipe de Jalofo, capitão-mor da armada de 1503 e escrivão da 
fazenda real. Veja-se História da Colonização Portuguesa do Brasil, vol. 
II, págs. 301-308. – (G.). 
 
(20) Por carta de 19 de Novembro de 1535, atendendo aos 
serviços que Antônio Cardoso de Barros, cavaleiro fidalgo, tem feito 
assim no Reino como em África, etc., el -rei lhe fez mercê de quarenta 
léguas de costa do Brasil, que começarão da angra dos Negros, que está 
na banda do Leste em altura de 2º, e acabam no rio da Cruz, da banda de 
Loeste, que está em altura de 2º 1/s. – Livro 21 das Doações de D. João 
III, fls. 187. No dia seguinte (20 de Novembro) foi feito o foral. – Livro 
22 das Doações, fls. 108. A carta de doação nunca foi impressa. O foral 
foi impresso pelo Barão de Stuart, in Revista do Instituto do Ceará , tomo 
XXIII (1909), págs. 11-16. – (G.). 
 
(21) Se, como se lê à pág. 159, já em janeiro de 1533 Pero Lopes 
chegava à Europa depois de tomada a fortaleza galo -pernambucana, como 
ainda em Setembro do mesmo ano poderia Aires da Cunha se oferecer 
para desempenhar essa comissão? Evidentemente, onde está 1533, deve -se 
ler 1532. – (C.). 
 
(22) Este relatório será oportunamente dado à luz. – (A.). – Esta 
promessa, já feitana 1ª edição, 1, 68, nunca foi realizada pelo autor; o 
paradeiro do documento é desconhecido. – (C.). 
 
 113 
(23) Da Índia, entende-se. – (A.). 
 
(24) Varn. na Rev. do Inst., 13, 396. Barros servira também, 
interinamente, de tesoureiro da Casa da Índica, no 1º de Maio de 1525 a 
fins de 1528. Rib. Diss. Cr., Tom. 2º, pág. 265. Recebeu quitação em 20 
de Out. de 1563. – (A.). 
 
(25) Doaç. de Évora, em 19 de Nov. de 1535. – (A.). 
 
(26) Na entrada tinha umas ruínas de pedra e cal, como que em 
algum tempo houvesse sido povoada de gente da Europa – lê-se na 
Jornada do Maranhão , pág. 185. Este trecho não implica, porém, que de 
Antônio Cardoso de Barros procedessem tais ruínas. – (C.). 
 
(27) A raia que o autor deduz da interpretação do tratado de 
Tordesilhas. – (C.). 
 
 
NOTAS EM ALGARISMOS ROMANOS 
 
(I) 
 
Processo do barão de Saint-Blancard contra Pero Lopes, na nota 
32 da 1ª edição desta História, e na 3ª e 4ª do Diário de Pero Lopes. – 
(A.). – Veja-se na Lusitânia, vol. III, fascículo IX, págs. 315-327, Lisboa, 
1926, o erudito artigo do dr. Jordão de Freitas sobre o achado na Torre do 
Tombo (Corpo cronológico, I, 65, 13) de peças desse processo, que 
encerram “interessantes e valiosos elementos de informação não só 
relativamente às condições da vida social, comercial, religiosa e militar 
dos habitantes da feitoria portuguesa de Pernambuco em 1532, quando ali 
aportou a nau marselhesa Pélerine (antiga nau portuguesa Sam-Thomé a 
estirada, roubada pelos franceses a um André Afonso, da cidade do 
Porto), mas ainda acerca do assalto, destruição, roubos e mortes que os 
franceses ali fizeram então, bem como a respeito dos sucessos ocorridos 
após a chegada de Pero Lopes de Sousa a Pernambuco no mesmo referido 
ano”. 
Além de Pero Lopes de Sousa, Antônio Correia e o arcebispo D. 
Martinho de Portugal, mencionados no documento que o autor publicou 
na primeira edição deste livro e em duas sucessivas do Diário de Pero 
Lopes, reproduzido por Gaffarel, Histoire du Brésil Français , 366-372 – 
 114 
foram também acusados pelo barão de Saint -Blancard mais três capitães 
portugueses: Gonçalo Leite, Bartolomeu Ferraz e Gaspar Palha, que 
figuram nas pelas do processo ultimamente encontradas. 
O tribunal, que já funcionava em Baiona em 10 de Outubro de 
1537, era constituído por dois juízes, deputados ou comissários fran ceses, 
dois portugueses e, em caso de empate, elegia -se um quarto juiz. A carta 
citatória (informa Jordão de Freitas) havia sido trazida por um procurador 
do autor do processo, sendo o assunto tratado em audiência da correição 
do civil da corte, presidida pelo licenciado Men de Sá e realizada no dia 
16 de Junho de 1538. O Instituto Histórico possui cópias fotográficas 
destes documentos, impressos no Diário de Pero Lopes, de Eugênio de 
Castro. – (G.). 
 
(II) 
 
“Pernambuco onde achou os Francezes que tinham fei to fortaleza 
e lha tomou a elles, e ficou pacificamente em poder dos Portuguezes”. – 
Primeira carta de el-rei ao conde da Castanheira, de 21 de Janeiro de 
1533. Cópia ms. na Cor. do autor. – (A.). – Essa carta, conforme averigou 
o Dr. Jordão de Freitas, História da Colonização Portuguesa do Brasil , 
vol. III, pág. 117, nota 133, é de Évora, 20 de Janeiro de 1533; há outra 
de 21, relativa à “vinda de pero lopes de sousa eu veyo do brasil”, mas 
não é nesta, e sim na primeira, que se contém o trecho apontado. – (G.). – 
Frei Luís de Sousa, Anais de Dom João Terceiro, pág. 377, escreve: 
“Consta por carta delRey ao conde da Castanheira, de 21 de Janeyro de 
1533, que Martim Afonso de Sousa tomou na sua viagem (parece que foy 
do Brasil) duas naos de Francezes com trinta e tantos homens de França e 
quatro índios do Brasil, que chama Reys: manda el -Rey que os Francezes 
venhão presos ao limoeyro, e os navios a Lisboa; e os que chama Reys 
sejão bem tratados, e vestidos de seda.” – (C.). – Jordão de Freitas, ub 
supra, encontrou duplo equívoco por parte do cronista, quanto à data da 
carta, conforme já se viu, e quanto ao nome de Martim Afonso de Sousa 
em lugar de Pero Lopes de Sousa, que no Borrador arquivado na 
Biblioteca da Ajuda vem mencionado quatro vezes. 
As cartas de D. João III ao conde da Castanheira vêm anexas ao 
estudo do dr. Jordão de Freitas sobre a Expedição de Martim Afonso de 
Souza, no citado vol. da História da Colonização . – (G.). 
 
(III) 
 
 115 
Consta de uma certidão passada a 15 de Junho de 1535, por Heitor 
de Barros, escrivão da feitoria de Pernambuco, sobre os serviços do 
bombardeiro Diogo Vaz, que “chegando a pernambuquo do Ryo da prata 
domde vynha foy necesariho ho dyto Dº Vaz fyquar é o dyto 
pernambuquo para serviço delRey nosso sõr ho quoall pº lopes mãdou e 
fez fyquar por cõdestabre da fortaleza que se fez de q. Vte. miz [Martins] 
feReyRa [Ferreira] hera quapitã e quomesou a servyr no dyto 
pernambuquo aos trynta dyas do mês doutubro da era de myll e qujñetos e 
trynta e dos años [até] q. chegou palus nniz [Paulos Nunes] na qaRavela 
espeRa pera ser quapitã do dyto pernambuquo quomo ho foy e fez 
cõdetabre da fortaleza a xpº franq e ho dyto Dº Vaz servya de 
bombardeyRO do primeiRo de mayo da era de trynta e três años esta de 
mjll e qujn~etos e trynta e cinquo e q . estamos q. aquj chegou Duarte 
qoelho a esta fortaleza a nove dyas do mês de março da dyta era e q. lhe 
foy entregue a duta fortaleza e lhe deu lycensa pera q. se qujzesse jr pera 
ho Reyno”. – Doc. da Torre do Tombo, Corpo Cronológico, II, 202, 
citado pelo dr. Jordão de Freitas, Lusitânia, vol. III. fascículo IX, pág. 
326. – em carta de D. João III ao Conde da Castanheira, de 8 de Fevereiro 
de 1533, determina o rei que da armada de Duarte Coelho, que estava na 
costa da Malagueta, se mandasse ao Brasil, por to de Pernambuco, uma 
caravela com sessenta homens, e que nela fosse Paulos Nunes, “o quall 
estee por capitão da gente que llaa lleyxou Pero Llopez de Sousa...” – J. 
D. M. Ford, Letters of John III, citadas, pág. 91. – Outra carta de 16 dos 
mesmos mês e amo, o rei aprovava o regimento que Paulos Nunes devia 
levar; escrevia que Pero Lopes lhe dera conta do que era necessário sobre 
Manuel de Braga e Vicente Martins, piloto, e que logo mandava as 
competentes provisões, ibidem, pág. 99. – (G.). 
 
(IV) 
 
“Afirma o gentio que nasce este rio de uma lagoa, ou de junto 
dela, onde também se criam pérolas e chama-se este rio da Cruz, porque 
se metem nele perto do mar dois riachos em direito um do outro, com que 
fica a água em Cruz.” – Gabriel Soares, Tratado descritivo , 23. – O nome 
do rio da Cruz (rio donde se halló uma crus) já se encontra no mapa de 
Juan de la Cosa; é o atual Camocim, como afirma Pimentel em 1712. – 
(C.). 
O pouco que sabemos a respeito da capitania de João de Barros e 
seus sócios, condensou Capistrano de Abreu nos prolegômenos à História 
do Brasil de Fr. Vicente do Salvador, págs. 78 e 79: 
 116 
“Sobre João de Barros, Fernando Álvares de Andrade e Aires da 
Cunha quase só conhecemos o que contam documentos castelhanos. A 
armada fortemente organizada zarpou em fins de 35. Parece ter seguido 
para Pernambuco, donde parte desgarrou para as Antilhas e foi presa, 
Medina (Diego Garcia de Moguer, pág. 62): parte navegou para o Rio 
Grande, onde não demorou, porque a grande preocupação era o ouro, isto 
é, as terras do Peru, já então invadidas por Pizarro e Almagro. A morte de 
Aires da Cunha não desanimou a expedição, que subiu por um rio e seu 
afluente “durante duzentas e cinqüenta léguas até não poderem ir mais 
adiante por causa da água ser pouca e o rio se ir estreitando de maneira 
que nãopodiam já por ele caber as embarcações”, informa Gandavo, 
História da Província de Santa Cruz , cap. 2. Um manuscrito espanhol 
contemporâneo (cópia na Bibl. Nac.), reduz as léguas a cento e cinqüenta, 
diz que fizeram uma fortaleza na ilha em que ainda hoje está a capital do 
Maranhão, outra na confluência de dois rios, outra finalmente no último 
ponto do rio vindo da esquerda que puderam alcançar; este deve ser o 
Pindaré, mas o autor, dá-lhe o nome de Maranhão. Antônio Baião acaba 
de publicar no Bol. da Ac. das Ciências de Lisboa, muitos documentos 
sobre João de Barros, que contêm ligeiras referências ao Brasil.” Deles 
resulta que os filhos de João de Barros vieram depois de Aires da Cunha, 
mais ou menos no tempo de Luís de Melo. – (G.). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 117 
 
 
 
 
 
 
SECÇÃO XXIII 
 
O BRASIL EM 1584 – MISERICÓRDIA. 
LITERATURA CONTEMPORÂNEA. 
 
O Brasil e Gandavo e Camões. Gabriel Soares. Fernão Cardim. 
Seus serviços. Situação das Capitanias. Itamaracá. Pernambuco. 
Engenhos, riqueza, luxo, etc. A Bahia. População. Edifícios. Trato. 
Riqueza. Ilhéus. Porto Seguro. Duque d’Aveiro. Espírito Santo. Rio de 
Janeiro. Seu adiantamento. São Vicente e Santo Amaro. Atraso das 
capitanias do Sul. Suas vilas. São Paulo. Seus habitantes. Produção total 
do açúcar. Importações. Riqueza, Misericórdias e irmandades. Leis 
absurdas. Camões e seus contemporâneos. Góis e Sá de Miranda. Pedro 
Nunes. O sol dos trópicos. 
 
 
É tempo de pararmos um pouco a contemplar os 
progressos feitos durante meio século de colonização. Antes, 
porém, cumpre que dediquemos algumas linhas para dar a 
conhecer dois escritores contemporâneos, que nos vão servir 
de guias, e que fazem já honra ao Brasil-colônia, onde muitos 
anos viveram, e onde faleceram. 
As obras de Gabriel Soares e de Fernão Cardim não só 
se devem considerar como produções literárias de primeira 
ordem no século XVI, mas também, principalmente com 
relação ao nosso fim, como verdadeiros monumentos histó-
ricos, que nos ministram toda a luz para avaliarmos o estado 
da colonização do nosso país, na época em que escreveram, o 
primeiro em 1584 e o segundo um ano antes (1). 
 118 
Como produção literária, a obra de Soares é 
seguramente o escrito mais produto do próprio exame, 
observação e pensar, e até diremos mais enciclopédico da 
literatura portuguesa nesse período. Nos assuntos de que trata, 
apenas fora precedido uns dez anos pela obra (I) muito mais 
lacônica, mas que lhe serviu de estímulo, do gramático Pero de 
Magalhães de Gandavo, autor que publicou o primeiro livro 
em português acerca do Brasil, e que ainda mais estimamos, 
por haver sido amigo de Camões, e por haver, por assim dizer, 
posto em contacto com nosso país o grande poeta, quando este 
escreveu em verso a epístola oferecendo-a a D. Lioniz Pereira, 
antigo governador de Malaca. 
 
A breve história sua que ilustrasse 
A terra Santa Cruz pouco sabida (2) 
 
Nos Lusíadas apenas Camões se lembrou do Brasil, 
escrevendo uma vez este nome, e outro o de Santa Cruz (3); 
nunca o de América. 
Seja embora rude, primitivo, e pouco castigado o estilo 
de Soares, confessamos que ainda hoje nos encanta o seu modo 
de dizer; e ao comparar as descrições com a realidade, quase 
nos abismamos ante a profunda observação que não cansava, 
nem se distraía, variando de assunto (II). 
Como corógrafo, o mesmo é seguir o roteiro de Soares 
que o do Pimentel ou de Roussin; em topografia ninguém 
melhor do que ele se ocupou da Bahia; como fitólogo faltam-
lhe naturalmente os princípios da ciência botânica; mas 
Dioscórides ou Plínio não explicam melhor as plantas do velho 
mundo que Soares as do novo, que desejava fazer conhecidas. 
 119 
A obra contemporânea que o jesuíta José de Acosta publicou 
em Sevilha em 1590 (4), com o título de História Natural e 
Moral das Índias, e que tanta celebridade chegou a adquirir, 
bem que pela forma e assuntos se possa comparar à de Soares, 
é-lhe muito inferior quanto à originalidade e cópia de doutrina. 
O mesmo dizemos das de Francisco Lopez de Gomara (5) e de 
Gonçalo Fernández de Oviedo (6). O grande Azara (7), com o 
talento natural que todos lhe reconhecem, não tratou 
instintivamente, no fim do século XVIII, da zoologia austro-
americana melhor que o seu predecessor português; e numa 
etnografia geral dos povos bárbaros, nenhumas páginas 
poderão ter mais cabida pelo que respeita ao Brasil, que as que 
nos legou o senhor de engenho das vizinhanças do Jequiriçá. 
Causa pasmo como a atenção de um só homem pôde ocupar-se 
em tantas cousas “que juntas se vêem raramente”, - como as 
que se contêm na sua obra, que trata a um tempo, em relação 
ao Brasil, de geografia, de história, de topografia, de 
hidrografia, de agricultura entretrópica, de horticultura 
brasileira, de matéria médica indígena, das madeiras de 
construções e de marcenaria, da zoologia em todos os seus 
ramos, de economia administrativa e até de mineralogia (8). 
Pouco depois de haver o Brasil passado ao domínio do 
rei de Espanha, avisava profeticamente ao governo da 
metrópole o dito Grabriel Soares: 
“Vivem os moradores tão atemorizados, que estão 
sempre com o fato entrouxado para se recolherem para o mato, 
como fazem com a vista de qualquer não grande, temendo 
serem corsarios: a cuja affronta S. M. deve mandar acudir com 
muita brevidade; pois ha perigo na tardança, o que não convem 
que haja; porque, se os estrangeiros se apoderarem desta terra, 
 120 
custará muito lança-los fóra della, pelo grande apparelho que 
têm para nella se fortificarem; com o que se inquietará toda a 
Espanha, e custará a vida de muitos capitães e soldados, e 
muitos milhões do ouro em armadas, e no apparelho dellas, ao 
que agora se pode atalhar acudindo-lhe com a prestesa devida” 
(9). 
A obra de Fernão Cardim, que só viu a luz em Lisboa, 
em 1847, com o título posto pelo editor (o próprio autor desta 
história) de Narrativa epistolar, por constar verdadeiramente 
de duas cartas que dirigiu ao provincial da Companhia em 
Portugal, é seguramente mais insignificante e destituída de 
mérito científico que a precedente; entretanto, recomenda-se 
pelo estilo natural e fluente, e pela verdade da pintura feita 
com os objetos à vista, e as impressões, ainda de fresco 
recebidas dos encantos virgens que regalavam os olhos de 
quem acabava de deixar a Europa nos fins do Inverno. – 
Cardim, que havia chegado ao Brasil com o governador Teles 
Barreto em 1583, prestou depois à Companhia, da qual foi 
mais tarde eleito provincial no Brasil (cargo que exerceu ainda 
muitos anos do século seguinte), serviços importantes, no 
número dos quais devemos incluir o haver a ela atraído tão 
valente campeão como veio a ser o Padre Antônio Vieira (III). 
Passemos, porém, a aproveitar do conteúdo destas 
obras, para oferecer aos olhos do leitor um quadro do estado 
em que se achavam então as várias capitanias existentes no 
Brasil. 
A Paraíba, acabada de fundar, tinha um engenho em 
construção por conta da fazenda (10). Começava esta nova 
capitania a render ao Estado quarenta mil cruzados, que em 
tanto se arrendou o seu contrato do pau-brasil. 
 121 
Na ilha de Itamaracá, do mesmo donatário que Santo 
Amaro, seguia prosperando a pequena vila da Conceição, 
situada no seu extremo meridional; e nos rios ou córregos 
imediatos moíam três engenhos (11). 
Passemos a Pernambuco, que era então sem duvida a 
capitania mais adiantada e rendosa, e de todo o Brasil a única 
em que realmente havia já luxo e tratocortesão. Contava-se 
nesta capitania mais de dois mil colonos e outros tantos mil 
escravos: daqueles mais de cem teriam passante de cinco mil 
cruzados de renda, e alguns de oito e dez mil. E dava-se na 
terra a circunstância de serem todos gastadores, de modo que 
ainda com tais rendas, que eram enormes para aquele século, 
havia muitas dívidas, em virtude dos escravos de Guiné, que 
morriam em grande número. – Eram freqüentes as festas e os 
jantares; trajavam os homens veludos, damascos e sedas, e 
despendiam briosamente com cavalos de preço, com sedas da 
roupa. Para o complemento do luxo de hoje só faltariam 
carruagens, que em Pernambuco e outras terras do Brasil nem 
tinham ainda entrado, segundo parece, no tempo de Vieira 
(12). – Além dos cavalos, havia cadeirinhas, ou palanquins, 
introduzidas da Ásia, e as serpentinas ou tipóias, que eram 
como liteiras ou padiolas, feitas de uma rede e levadas por 
dois homens. Só em vinhos se consumiam anualmente em 
Pernambuco muitos mil cruzados. Filhos da vila de Viana 
eram a melhor parte dos ricaços da terra; e a tal ponto tinham 
ali influência que diz o jesuíta, talvez por graça, que em lugar 
de aqui del-rei se gritava aqui de Viana” (13). Admirava-se o 
padre visitador (14) dos leitos de damasco carmesim, franjados 
de ouro, das ricas colchas da Índia, que lhe ofereciam na cama 
de dormir, e dos presentes, visitas e convites que recebia. 
 122 
Segundo o testemunho de Cardim, havia então na capitania 
sessenta e seis engenhos, que lavravam por ano duzentas mil 
arrobas de açúcar, de modo que eram necessários quarenta ou 
mais navios para o levar (15). Possuía Olinda uma boa igreja 
matriz, quase acabada, de três naves, e muitas capelas, um 
colégio da Companhia, com lições de casos, de latim e de 
primeiras letras, e boa casaria de pedra e cal. Em Pernambuco, 
exclamava Cardim, se encontra mais vaidade que em Lisboa! 
As senhoras também ostentavam luxo, e gostavam mais de 
festas que de devoções. No recife apenas havia um começo de 
povoado com alguns armazéns, e uma ermida com a invocação 
do Corpo Santo. O pau-brasil estava arrendado, por dez anos, 
em vinte mil cruzados cada ano; e o dízimo dos engenhos em 
dezenove mil (16). O donatário Jorge de Albuquerque cobrava 
para si uns dez mil cruzados do tributo do pescado, redízima e 
outras rendas. No sul da capitania, para as bandas de Porto 
Calvo, se ia estabelecer Cristóvão Linz, que chegou a possuir 
sete engenhos (17). 
Quanto à Bahia, capitania da coroa, mais conhecida que 
as outras a deixamos pelo seguimento da nossa história: havia 
então nesta capitania também uns dois mil colonos, quatro mil 
escravos africanos, e seis mil índios cristianizados. Exportava 
anualmente para cima de cento e vinte mil arrobas de açúcar (o 
melhor de toda a costa) de seus trinta e seis engenhos; donde 
resultava que o termo médio do produto de cada engenho 
regulava por três mil e trezentas arrobas. Contava dezesseis 
freguesias, um colégio dos padres, um mosteiro de São Bento 
(18) e outro de Capuchos (19), além de mais quarenta igrejas e 
capelas. Os barcos e canoas de remo, só no Recôncavo, 
avaliavam-se em mil e quatrocentos. – Tinha já a cidade do 
 123 
Salvador bons edifícios, porém a sé estava, como a de 
Pernambuco, por concluir. Havia nela cinco dignidades, seis 
cônegos, dois meios-cônegos, quatro capelães, um cura e 
coadjutor, quatro moços de coro e mestre-de-capela, dos quais 
muitos não eram sacerdotes, em geral mais mal pagos que os 
capelães dos engenhos, cujos lugares os eclesiásticos 
preferiam. O edifício do colégio era grande, bem acabado; e 
havia nele aulas de teologia, de casos, duas de humanidades, 
um curso d’artes, além das primeiras letras. Tinha de renda 
três mil cruzados, e sustentava de ordinário uns sessenta 
discípulos. Entre os habitantes notava-se igualmente muita 
abundância e rico trato, se bem que menos luxo que em 
Pernambuco. Nas casas havia bons serviços de prata. As 
senhoras tinham bastantes jóias. Também se viam cavalos bem 
ajaezados, e até os peões trajavam de cetim e damasco, e suas 
mulheres vasquinhas e gibões das mesmas telas. E pois que 
nesta capitania as comunicações se faziam principalmente por 
água, eram os jovens baianos menos amigos de montar a 
cavalo que os pernambucanos. – A capital contava apenas 
oitocentos moradores livres, e as casas não passavam ainda 
fora das portas de São Bento e do Colégio, ou sé atual. As 
rendas da câmara não excediam de cem mil réis anuais. 
Seguem as três capitanias dos Ilhéus, Porto Seguro e 
espírito Santo, que apesar de seu fecundo solo, e dos muitos 
rios que as retalham, e dos freqüentes portos que oferecem ao 
comércio, havia progredido mui pouco, como seguiu 
sucedendo até hoje. – Tão nociva lhes foi a influência da falta 
de uma colonização simultânea, que pudesse absorver os 
selvagens, em vez de se deixar por eles tragar. 
A capitania dos Ilhéis achava-se reduzida à vila de São 
 124 
Jorge, apenas com uns cinqüenta colonos, em vez de 
quatrocentos ou quinhentos que tivera; e unicamente contava 
três engenhos, de oito ou nove que possuíra (20) e algumas 
roças de algodão e mantimento. Para casa lado da vila, os 
habitantes não se estendiam mais de duas ou três léguas, pela 
ourela da costa, e apenas meia légua para o sertão. 
Não era mais lisonjeiro o estado da capitania de Porto 
Seguro; se bem que nesta havia, além da vila capital, com 
quarenta colonos, a de Santa Cruz, e duas aldeias de índios, a 
de São Mateus e a de Santo André, A gente era pobre: havia 
um só engenho de açúcar (21); o gado vacum morria de certo 
capim mata-pasto (22) mas em troco os jumentos e cavalos 
cresciam em tal quantidade que daqueles havia bravos pelos 
matos. As árvores de espinho eram sem conta, e os habitantes 
fabricavam, para exportar, água de flor de laranja. Era 
donatário o primeiro duque de Aveiro D. João d”Alencastre, 
por contrato que, segundo dissemos (23), fizera com a terceira 
donatária D. Leonor do Campo. 
Um tanto melhor se achava a capitania do Espírito 
Santo: contava sobre cento e cinqüenta vizinhos, que possuíam 
seis engenhos de açúcar, muito gato e algodões. A Companhia 
tinha também seu colégio e igreja regular, e várias aldeias que 
administrava (24). Havia aqui mais gentio manso que em 
nenhuma outra parte; e os colonos serviam-se muito dele, de 
modo que apenas existia escravatura africana. Era desta 
capitania segundo donatário Vasco Fernandes, filho do outro 
de igual nome, de quem já tratamos; mas pouco depois faleceu, 
ficando governadora D. Luísa Grinalda, sua mulher, que fez 
antes de muito entrega ao quarto donatário Francisco de 
Aguiar Coutinho. 
 125 
A capitania do Rio de Janeiro, bem que apenas contava 
vinte anos desde fundada, tinha cento e cinqüenta colonos e 
três engenhos, trabalhados principalmente pelos índios. Havia 
um colégio da Companhia, em que se ensinava o latim, e que 
recebia das rendas públicas dois mil cruzados. Igualmente 
seguiam subsistindo a casa de misericórdia e o hospital, quase 
no próprio sítio em que ainda hoje estão. Abundava a fruta e a 
hortaliça, e era tanto o pescado que valia o de escama a quatro 
réis, e o de pele a rea e meio a libra. Ainda então vivia Martim 
Afonso, Ararigbóia, comendados de Cristo, índio antigo, 
abaeté e moçacara, (Mboçácára, o que é muito honrado, 
Montoya, Tesoro, fls. 215) que servira muito aos colonos na 
conquista desta paragem. Os três engenhos de que fizemos 
menção, eram: um de Cristóvão de Barros, de água; outro do 
próprio governador, na sua ilha, movido por bois; e finalmente 
um terceiro, começado porSalema e por concluir, do 
patrimônio real (25). 
“Está tão mística a capitania de São Vicente com a de 
Santo Amaro (dizia um dos escritores contemporâneos que nos 
vão guiando) que se não foram de dois irmãos, amanharam-se 
muito mal os moradores delas” (26). – Já então na prática se 
começavam a realizar os temores de Gabriel Soares, e 
principiavam a germinar as questões, que pouco depois foram 
levadas ao julgamento dos tribunais. Reservando para o diante 
o tratarmos de qual era verdadeira linha de raia, nos 
limitaremos aqui a consignar que, falecido o primeiro 
donatário em 1571, e morto o segundo, seu filho, nos campos 
africanos de Alcácer-Kebir, era já, por confirmação régia, 
Lopo de Sousa, neto do primeiro, o possuidor da capitania de 
São Vicente. A de Santo Amaro, por morte de Pero Lopes, 
 126 
passara sucessivamente a dois de seus filhos, e por falecimento 
destes recaíra em uma irmã deles, D. Jerônima, já viúva de D. 
Antônio de Lima, de quem tivera D. Isabel de Lima, que veio a 
ser a quinta donatária (27). 
Apesar, porém, de haver nas terras chamadas de São 
Vicente duas capitanias e dois donatários, na realidade quase 
que se imaginavam uma só; e inclusivamente tinha um só 
provedor, contador e alcaide-mor, que era o velho (28) Brás 
Cubas (29); se bem que as sesmarias, nas terras julgadas do 
neto de Martim Afonso, eram unicamente concedidas pelo seu 
lugar-tenente Jerônimo Leitão, e as da neta de Pero Lopes pelo 
governador Salvador Correia, seu bastante procurador para 
isso. Entretanto, para a resenha que vamos fazendo, as 
consideraremos uma única, e nos ocuparemos indistintamente 
das vilas e povoações de ambas. 
É necessário confessar que por este lado, principal -
mente perto da costa, o Brasil se tinha porventura atrasado em 
vez de melhorar. Vimos que quarenta anos antes havia já aí 
seis engenhos e uns seiscentos vizinhos. A colonização do Rio 
de Janeiro, e os maiores atrativos de prosperidade na Bahia e 
Pernambuco, e a bondade do clima de Piratininga tinham 
privado São Vicente de muitos moradores, e a escassez de 
navios de comércio para ali, e a presença dos últimos piratas, 
haviam-na despojado de muita da sua riqueza. Bem que em 
pior estado, as duas capitanias sustinham, entretanto, ainda os 
mesmos engenhos. 
A vila de São Vicente se empobrecera de um modo 
sensível; e estava reduzida a uns oitenta colonos, além dos 
padres do colégio da Companhia que, a pedido da gente de 
Santos, o visitador Cristóvão de Gouveia ordenava agora que 
 127 
para esse porto se transferisse (30). Eram apenas seis, os quais 
ali “estão como eremitas, por toda a semana não haver gente, e 
aos domingos pouca” (31). 
Menos habitantes colonos, e mais pobres, contava a vila 
da Conceição de Itanhaém, dez léguas pela praia, caminho da 
foz do Rio de Iguape. 
Poucos mais moradores que São Vicente tinha Santos: 
em uma e outra vila escasseavam os braços; e pouco antes 
haviam ambas dirigido uma súplica a Jerônimo Leitão para 
proceder contra os índios, que tanto mal haviam feito à 
capitania (32). Naturalmente menos população que todas teria 
a vila de Santo Amaro, junto da qual possuía um engenho 
Francisco de Barros. Ao norte da Ilha de Santo Amaro havia 
bem guarnecidas as duas fortalezas de São Filipe e de 
Santiago, à boca da barra da Bertioga; e da banda do sul, à 
entrada de São Vicente, e nas terras que haviam sido de 
Estêvão da Costa (33), havia (no forte que pouco antes se 
fizera) uma guarnição de cem soldados, com capitão e alcaide 
(33bis). 
São Paulo de Piratininga era a terra mais povoada do 
distrito, e continha tanto e meio dos colonos da de Santos ou 
de São Vicente. Já seus habitantes se mostram naquele tempo 
amigos de cavalgar e fazer “escaramuçar e correr seus 
ginetes”. – Os paulistas “do meio daquele sertão e cabo do 
mundo”, vestiam-se ainda à moda antiga “de burel e pelotes 
pardos e azuis, de petrinas compridas...” e iam nos domingos à 
igreja “com roupões ou bornéus de cacheira, sem capa” (34). 
Não tinham na vila pároco (35), e seis ou sete padres da 
Companhia eram os seus únicos eclesiásticos. Havia muito 
gado, e muitas vinhas, de cuja uva se fazia certo vinho que se 
 128 
bebia “antes de ferver de todo”. Igualmente abundavam, entre 
as árvores da Europa, os marmeleiros, e se fazia muita 
marmelada. O trigo e cevada produziam bem, se os semeavam 
(36); escassos eram, porém, os vestuários pelo pouco trato do 
comércio. O fabrico do tal vinho cessou acaso com as 
proibições, que depois se fizeram em favor do comércio de 
Portugal (37). Os habitantes eram servidos pela escravaria da 
terra, e nas vizinhanças havia, entre outras aldeias, a da 
Conceição dos Pinheiros (38). 
Tratando da principal produção do Brasil naquela 
época, a do açúcar, contavam-se em Pernambuco sessenta e 
seis engenhos; na Bahia trinta e seis, e nas outras capitanias 
juntas metade deste número. Total dos engenhos cento e vinte. 
Referimos o número dos engenhos, porque cremos este o 
melhor meio de dar uma idéia do estado de prosperidade e 
riqueza do país. Um engenho por si é ainda hoje equivalente a 
uma grande povoação, e representa não só muitos braços, 
como as necessárias terras de canaviais, de mato, de pasto e de 
mantimentos. Com efeito, além da casa do engenho, da de 
moradia, senzalas e enfermarias, havia que contar com uns 
cem colonos ou escravos, para trabalharem umas mil e 
duzentas tarefas (39) de massapé (a novecentas braças 
quadradas por tarefa), além dos pastos, cercas, vasilhames, 
utensílios, ferro e cobre, juntas de bois, e outros animais. 
Anualmente produziam os ditos engenhos uns 
setecentos mil quintais de açúcar ou setenta mil caixas, 
número igual ao dos mil cruzados que pagava o mesmo açúcar 
de direito de saída, na razão de cruzado por caixa de dez 
quintais. 
O consumo no Brasil de gêneros estrangeiros vindos do 
 129 
Reino, avaliava-se em quatrocentos mil cruzados, e portanto 
em oitenta mil a renda que produzia às alfândegas de Portugal 
o não estarem os nossos portos abertos ao comércio das outras 
nações. 
As fortunas eram geralmente, sobretudo em 
Pernambuco, na Bahia e no Rio, isto é, nas terras que já 
recebiam escravaria africana (40), bastante desiguais; e um dos 
meios com que mais dinheiro se juntava era o tráfico dos 
pretos. Às vezes associavam-se alguns senhores de engenho, e 
mandavam navios por escravos africanos, que lhes saíam assim 
muito mais em conta do que comprando-os aos traficantes, os 
quais, principalmente a prazos, efectuavam as vendas com 
muita usura. 
Os pobres encontravam já, em algumas povoações, 
apoio eficaz numa instituição pia introduzida em Portugal no 
século anterior, a fim não só de recolher os peregrinos, como 
as antigas albergarias, mas de curar os enfermos, de enterrar 
os mortos, de educar e dotar as desvalidas órfãs, e de praticar 
as obras de misericórdia. Pelo que o estabelecimento, onde em 
cada povoação isso era adotado, se chamou Santa Casa de 
Misericórdia ou simplesmente A Misericórdia ou A Santa 
Casa, como entre nós se diz muito (41). – A primeira casa de 
misericórdia em Portugal foi a de Lisboa, instituída pela 
Rainha D. Leonor, em Agosto de 1498; – bem que 
recomendada a instituição às outras cidades e vilas do reino, 
pela C. R. de 14 de Março de 1499, como... “uma confraria 
para se as obras de misericórdia haverem de cumprir, 
especialmente acerca dos presos pobres e desamparados... e 
assim em muitas obras piedosas” (42), etc. Em Santos foi a 
instituição introduzida em 1543 por Brás Cubas, e não nos 
 130 
consta de povoação brasileira que antesa tivesse. – Nas 
cidades do Salvador e de São Sebastião foram elas erigidas 
contemporaneamente com as mesmas cidades (43); e tanto a 
elas, como às de outras cidades do Brasil, os reis não tardaram 
em conceder privilégios análogos aos de que gozava no Reino 
a de Lisboa. Além das Misericórdias para os pobres 
desamparados, havia também irmandades, ou comunidades, em 
que sob a invocação de algum santo, e com certas práticas 
devotas, os irmãos se obrigavam, por compromissos, a se 
prestarem vários auxílios. – Dessas irmandades, as ordens 
terceiras, que depois se estenderam tanto, anexas a ordens 
religiosas ou delas derivadas, produziram, e produzem ainda, 
com seus hospitais, benefícios incalculáveis. 
O Brasil se podia considerar a mais importante das 
possessões portuguesas que Filipe II havia agregado à sua 
coroa, pois que as colônias da Ásia iam em manifesta 
decadência, e o comércio do Oriente, desde o princípio, longe 
de criar raízes em Lisboa, não serviu senão a dar maior 
importância ao mercado de Amsterdam, e a fazer levantar a 
Holanda (44). – Portugal se locupletara, sim, com as primeiras 
riquezas da Ásia; mas por outro lado perdera a sua 
prosperidade real, desprezando a agricultura e a indústria; de 
modo que, apenas lhe faltou a força, não pôde nutrir o 
comércio do Oriente, que passou a mãos estranhas, onde 
estavam os capitais, que algumas providências absurdas faziam 
desviar do reino e possessões. Nesse número se devem contar 
a perseguição impoliticamente exercida, contra os judeus e 
cristãos-novos (45), a inquisição, e talvez não menos, uma lei 
proibindo que se cobrassem juros ao dinheiro (46). Por lei de 
30 de Junho de 1567, provisão de 2 de Junho e alvará de 2 de 
 131 
Julho de 1573, foi proibido passarem os cristãos-novos às 
colônias. Estas disposições foram revogadas pelo alvará de 21 
de Maio de 1577 (47). 
O domínio da maior parte dos litorais da Ásia que, 
segundo alguns, concorrera à desmoralização dos Portugueses, 
produziu por outro lado nos ânimo tal energia que, além da 
glória marítima e militar que a nação adquiriu (e que será 
perdurável para sempre nos fastos da História universal e nos 
do progresso do espírito humano) talvez que a essa energia 
deveu o grande desenvolvimento que então tiveram a sua 
literatura e língua. Os escritores quinhentistas, isto é, do 
século XVI, são ainda os mais lidos e preferidos pelos 
melhores puristas. Desta época é o primeiro escritor português, 
chamado príncipe dos poetas de toda a Espanha – o grande 
Camões. O argumento capital de sua epopéia é a navegação do 
Oriente; e Camões não houvera produzido tal poema, no juízo 
de Humboldt, uma das primeiras obras do engenho humano em 
relação à vida marítima, se não tivesse peregrinado até a China 
“novos perigos vendo e novos danos”. As Décadas de Barros 
(depois prosseguidas por Couto) são em prosa a história dos 
feitos portugueses na Ásia, ilustrada também pela descritiva 
pena de Lucena, na conquista espiritual, e pelas admiráveis, e 
às vezes fantásticas, pinturas das maravilhas da Ásia, que 
devemos ao livro das Peregrinações de Fernão Mendes Pintos. 
Às obras destes escritores deve a língua portuguesa muito. 
Como autores de crônicas se assinalavam Damião de Góis, 
escrevendo as de D. João II e D. Manuel (que o bispo Osório 
depois magistralmente latinava), e Francisco de Andrade a de 
D. João III. Entre os poetas contemporâneos de Camões, 
recomendam-se o filósofo e moralista Francisco de Sá de 
 132 
Miranda, o suavíssimo Bernardes, cantor do rio Lima, e o 
douto Ferreira (48), autor da primeira tragédia sobre Inês de 
Castro. Góis e Sá de Miranda interessam mais que os outros ao 
Brasil, como irmãos que eram um do donatário das terras de 
Campos Pero de Góis (49), e outro do terceiro governador do 
Estado, Men de Sá. Poetas conhecidos foram também Jerônimo 
Corte Real e Vasco Mousinho. Como prosadores recomen-
dáveis mencionaremos Jorge Ferreira de Vasconcelos, autor de 
uma novela de cavalarias acerca das proezas de uma segunda 
Távola Redonda (50), e de mais três novelas-comédias, 
intituladas Eufrosina, Ulyssipo e Aulegrafia; e contentar-nos-
emos em citar os Diálogos de Heitor Pinto e de Amador 
Arrais, pois fora divergir de nosso intento tratar deles por 
extenso. Com mais razão devemos ser desculpados se não 
tratarmos de outros de menos nomeada, e se não fizermos 
dissertações acerca da literatura castelhana desta época, que 
alguma voga, especialmente a dramática, veio a ter no Brasil. 
Nas ciências as maiores ilustrações como que se 
desenvolviam no Oriente. O grande matemático Pedro Nunes 
(51), o seu discípulo D. João de Castro, o médico observador 
Garcia da Orta (52), - todos talvez deveram ao sol dos trópicos 
o reflexo da sua glória: sendo certo que concorre muito a 
fecundar o gênio a contemplação da natureza, em o maior 
número de paragens da terra, diversas em clima e em produtos 
naturais; bem como o trato dos homens e a vista dos objetos 
d’arte contribuem a apurar o gosto e a formar o artista; quer 
este maneje o pincel, o escopro, ou o compasso; quer possua o 
segredo de fundir em palavras ou sons articulados, quer em 
sons músicos, os seus pensamentos, isto é, quer seja pintor ou 
escultor e arquiteto, quer poeta ou músico. Para nós é certo 
 133 
que (ocupando-nos só da poesia) Camões não houvera sido o 
que foi e o que é, se não tivesse tido tanto trato com diferentes 
povos, e se com as cenas novas e originais de que contínuo lhe 
deviam proporcionar as terras, os mares e as cidades da Ásia, 
não houvesse tanto enriquecido a fantasia. 
 
 
NOTAS EM NÚMEROS ARÁBICOS 
 
(1) A estes dois autores deve-se acrescentar Anchieta, cujas 
Informações e fragmentos históricos completam, a mais de um respeito, 
Gabriel Soares e Fernão Cardim. Fundado nelas, Rio Branco avalia a 
população das colônias portuguesas no Brasil em cerca de 57.000 
habitantes, dos quais 25.000 brancos, 18.500 índios mansos e 14.000 
escravos africanos: Lé Brésil en 1889, 116. – (C.). – Essa população vem 
assim distribuída, op. et loc. cit.: brancos – 250 em Itamaracá, 8.000 em 
Pernambuco, 12.000 na Bahia, 750 em cada uma das capitanias de Ilhéus, 
Porto Seguro, Espírito Santo e Rio de Janeiro, 1.500 na de São Vicente ; 
índios mansos – 2.000 em Pernambuco, 8.000 na Bahia, 4.500 no Espírito 
Santo, 3.000 no Rio, 1.000 na capitania de São Vicente; escravos 
africanos – 10.000 em Pernambuco, 3 a 4.000 na Bahia, 100 no Rio de 
Janeiro. – Anchieta, para algumas capitanias, dá os algarismos da 
população; para outras dá apenas o número de fogos (vizinhos). O cálculo 
de Rio Branco é de cinco pessoas por fogo. Veja Informação do último de 
Dezembro de 1585, Informações e fragmentos históricos , págs. 31/56, 
Rio, 1886. – (G.). 
 
(2) Camões: dedicatória da História de Gandavo. – (A.). 
 
(3) “De Santa Cruz o nome lhe poreis” – (Lusíadas, 10, 140). 
Referência directa ao nome do Brasil encontra-se no canto 10, 
estr. 63, quando fala de Martim Afonso de Sousa: 
“... que já será ilustrado 
no Brasil com vencer e castigar 
O pirata francês ao mar usado.” 
Outras alusões: cantos 2, 45; 5, 4; e 7, 14. – (A. e G.). 
 
 134 
(4) A primeira edição da obra de Acosta saiu em Salamanca, 
1589, em latim. Vertida em castelhano na edição citada no texto (História 
/ Natural / y Moral delas / Índias / en que se tratan las cosas / notables 
del cielo, y elementos, metales, plantas, y ani - / males dellas: y los ritos, 
y ceremonias, leys y / gobierno, y guerras de los índios, etc.) Sevilla en 
casa de Iuan de Leon, 1590, in – 4º - Logo no ano seguinte teve outra namesma cidade e ainda em barcelona. Existem dela traduções em línguas 
italiana, francesa, holandesa, alemã e inglesa. – Acosta foi provincial dos 
jesuítas no Peru, onde residiu dezessete anos; nasceu em Medina del 
Campo em 1539 e faleceu em Salamanca em 1600. – (G.). 
 
(5) Primera y segunda parte de la his / toria general de las Indias 
com todo el descubrimiento y cosas nota / bles que han acaecido dende 
que ganaron ata el año de 1551. Com la cóquista de / México y de la 
nueva España. Em Çaragoça, 1553, in-fol. – Outra edição: Conquista de 
Mexico / Segunda parte de la / Chronica generald e las Indias, que trata 
de la / Conquista de Mexico. – Medina del Campo, 1553, in-fol. peq. – 
Mais outra edição em Anvers, 1554, in-12; outras edições modernas. – 
Gomara nasceu em Sevilha, em 1510. – (G.). 
 
(6) La historia general delas Indias, Primera parte de la historia 
y gene ; ral de las Indias, yslas y tierra firme del mar oceano... Sevilha, 
1535, in-fol. pág. …. – Há outra edição, Valadolid, 1537, in-fol., e a 
edição clássica da Real Academia de la Historia de Madrid, 1851, 4 vols. 
in-fol. – (G.). 
 
(7) Viaggi nell‟America Meridionale fatti tra il 1781 e il 1801. – 
Milano, 1807, 2 vols. in 16º - A edição francesa de C. A. Walckenaer, 
Voyages dans l‟Amérique Méridionale: publiés les manuscrits de 
l‟auteur, Paris, Dentu, 1809, 4 tomos, in-8º, é mais pedestre. – Há outras 
ediçoes em castelhano e alemão. – (G.). 
 
(8) A primeira edição começou-se na Tipografia do Arco do Cego, 
in-fol.; mas não se concluiu, nem se expôs ao público: realizou-se a 
publicação pela primeira vez nas Memórias da Academia de Lisboa em 
1825, no tomo III das do Ultramar. Os primeiros 29 capítulos se deram de 
novo à luz pelos ms. da Bibl. R. de Paris, no jornal O Patriota Brasileiro, 
Paris, 1830. Porém a edição mais correta é a do Rio de Janeiro, 1851 
(Revista do Instituto , tomo XIV), com os comentários que lhe juntou o A. 
da presente história, quando primeiro secretário do Instituto, Soares partiu 
 135 
para Europa em 1584 (Carta de Cristóvão de Barros, de Agosto de 1584), 
depois de haver feito testamento na Bahia em 10 de Agosto deste ano, 
aprovado em 21 do mesmo mês. – (A.). 
 
(9) Tratado descriptivo do Brasil em 1587 , 14-15. Linhas antes 
escrevia Gabriel Soares ainda mais profeticamente: 
“Em reparo e accrescentamento estará bem empregado todo 
cuidado que sua Magestade mandar ter deste novo reino; pois está capaz 
para se edificar nelle um grande imperio, o qual com pouca despesa destes 
reinos se fará tão soberano, que seja um dos estados do mundo...”. 
Ibidem, 13. – (G.). 
 
(10) Ao levantamento do primeiro engenho na Paraíba fa \z 
menção Fr. Vicente do Salvador, História do Brasil, São Paulo-Rio, 1918, 
324: “... e no fim do mez de Janeiro de 1587 se foi (Martim Leitão) ao rio 
Tibiri, duas leguas acima da cidade, ao longo da várzea da Parahiba, fazer 
um forte pera o engenho de assucar de el -rei, que já estava começado e 
para defender a aldeia do Assento de Passaro e mais fronteiras...” 
A seguir diz ainda Fr. Vicente do Salvador, ibidem, 343, 3ª ed. 
1931: “Ficando a capitania da Parahiba, na fórma que dissemos... 
entregue ao capitão João Tavares, começou logo a fazer um engenho não 
longe do de el-rei, com que corria um Diogo Correia Nunes, e plo 
conseguinte aos moradores muii contentes começaram logo a plantar as 
cannas que nelle se haviam de moer...” 
Esses dois engenhos tomaram os nomes de Tibiri de Cima e Tibiri 
de Baixo, que vieram ter às mãos de Fernandes Vieira e sua mulher D. 
Maria César, que os houveram dos herdeiros de Jorge Homem Pinto e do 
dr. Luís Sanches de Baena; em 17 de Janeiro de 1967 possuía -os José 
Cardoso Moreno, conforme a escritura pública, saída à luz na Revista do 
Instituto Arqueológico Pernambucano, 6, n. 42, 302/307. 
O engenho real era possivelmente o Tibiri de Cima, mais perto do 
forte, e que era ainda moente e corrente por ocasião daquela escritura, ao 
passo que o outro já estava de fogo morto. – (G.). 
 
(11) Os engenhos da ilha de Itamaracá eram os do Obu, de 
Araripe de Bairo e de Araripe de Cima, mencionados no Sommier 
discours ouer den staet vande vier geconquesteerde Pernambuco 
Itamarica, Paraiba en Rio Grande, inde Noorderdeelen van Brasil 
(Arquivo de Hilten.. Utrecht, 1879. – Dos últimos um era propriedade de 
Filipe Cavalcanti. – (G.). 
 136 
 
(12) Sermões, VIII, 436. – (A.). 
 
(13) Conf. Fernão Cardim, Tratados da Terra e Gente do Brasil , 
Rio, 1925, 335. – (G.). 
 
(14) Cristóvão de Gouveia – (C.). – A visita a Pernambuco durou 
três meses, de 14 de Julho a 16 de Outubro de 1584. – Fernão Cardim, op. 
ct., 327/336. – (G.). 
 
(15) Quando Cardim estava em Pernambuco faleceu a viúva do 
velho Duarte Coelho, D. Brites de Albuquerque, conf. tomo I desta 
História, 296/297. Em suas exéquias, pomposamente realizadas no 
colégio de Olinda, fez-lhe a oração fúnebre o bispo D. Antônio Barreiros, 
que antes fora prior de Ávis, como informa Fr. Vicente do Salvador, que 
foi seu vigário-geral, História do Brasil, 3ª ed., 1931, 220. (G). 
 
(16) O contratador dos dízimos reais era Bento Dias de Santiago, 
tomo I, 462/463. – (G). 
 
(17) Conf. tomo I desta História, 387. – (G). 
 
(18) De notícia de Gabriel Soares, Tratado descritivo, pág. 123, 
infere-se que os frades de São Bento chegaram à cidade do Salvador, com 
licença de Sua Majestade para fundar seu mosteiro, em 1586. Nesse ano, 
aos 16 de Junho, Martim Afonso, o Condestável, e sua mulher Maria 
Carneira, faziam doação aos mesmos frades, para assento do mosteiro, do 
terreno junto à ermida de São Sebastião naquela cidade. – Conf. Livro 
Velho do Tombo do Mosteiro de São Bento da Cidade do Salvador , págs. 
400/410, Bahia, 1945. (G.). 
 
(19) O mosteiro de Capuchos foi estabelecido mais tarde. – (C.). 
 
(20) “... a qual capitania [dos ilhéus] Jeronimo de Alarcão, filho 
segundo de Jorge de Figueiredo, com licença de S. A. vendeu a Lucas 
Giraldes, que nella metteu grande cabedal com que a engrandeceu de 
maneira que veio a ter oito ou nove engenhos. Mas deu nesta terra esta 
praga dos Aimorés, de feição que não ficaram ali mais que seis engenhos, 
e estes não fazem assucar, nem ha morador que ouse plantar cann as, 
porque em indo os escravos ou homens ao Campo não escapam a estes 
 137 
alarves, com medo dos quaes foge a tente dos ilhéos para a Bahia, e tem a 
terra quase despovoada...” – Gabriel Soares, Tratado descritivo , pág. 57. 
– (G.). 
 
(21) Gabriel Soares, op. cit. , págs. 61/62, menciona em Porto 
Seguro dois engenhos de açúcar, pertencentes a Manuel Rodrigues 
Magalhães e a Gonçalo Pires, além de dois outros extintos, um de João da 
Rocha e o que esteve na ponto do Curumbabo. – (G.). 
 
(22) Com esse nome conhecem-se diversas espécies do gênero 
Sassia, família das Leguminosas, As folhas e vagens do mata -pasto 
vermelho (Cassia stipulata) são tidas como tóxicas. – (G.). 
 
(23) Veja secção XVIII, 307. – (A.). 
 
(24) Anchieta, Informações e fragmentos históricos, págs. 40/41. 
A Companhia não tinha Colégio no Espírito Santo, apenas casa, onde 
residiam de ordinário oito – cinco padres e três irmãos; essa casa era 
subordinada ao Colégio do Rio de Janeiro. – (G.). 
 
(25) Conf. tomo I desta História, 346 e 370, Gabriel Soares, 
Tratado descritivo, 91. – (G.). 
 
(26) Gabriel Soares, loc. cit., 97. – (G.). 
 
(27) Esta D. Isabel, apesar de casar-se, não deixou descendentes. 
Segundo a História Genealógica [tomo XII, parte II, pág. 1113], a 
desposou Francisco Barreto [de Lima]; e segundo um documento que 
recolheu Taques. Revistado Instituto Histórico , 9, pág. 163, um André de 
Albuquerque, que vivia em Setúbal. Naturalmente casou-se duas vezes. 
Em tal caso da segunda vez foi com Francisco Barreto. – (A.). – André de 
Albuquerque era o donatário em 1584, como assegura Anchieta, 
Informações e fragmentos historicos , 32. – (C.). 
 
(28) Brás Cubas teria então uns oitenta anos, pois faleceu, com 
oitenta e cinco, em 1592, como se colige de seu epitáfio no presbitério da 
hoje matriz de Santos, que consigna os seus principais feitos, que 
explanará a sua biografia melhor do que esta história o pudera aqui tentar. 
– (A.). – Desta biografia anunciada aqui pelo Autor, ignora -se o 
paradeiro. – (C.). – Na Revista do Instituto Histórico de São Paulo, tomos 
 138 
13, 241/249, e 18, 13/36 e 37/43, ocorrem bons subsídios de Eugênio 
Egas, F. C. de Almeida Morais e Benedito Calixto sobre o fundador de 
Santos. O epitáfio supra mencionado diz assim: 
Sª DE BRAZ CUBAS 
CAVALLEIRO FIDALGO DA CAZA D’EL-REY 
FVNDOV E FEZ ESTA VILLA SENDO CA 
PITAN E CAZA DE MISERICORDIA 
ANNO 1543 
DESCVBRIO OVRO E METAES 
ANNO 60 
FEZ FORTALEZA POR MANDO D’EL-REY 
D. JVAN III 
FALLECEV NO ANNO DE 1592 A. 
A História da Colonização Portuguesa do Brasil, III, 260/261, 
insere três documentos importantes sobre Brás Cubas. – (G.). 
 
(29) Brás Cubas foi provido nos ofícios de provedor e contador 
das rendas e direitos da capitania de São Vicente por provisão de D. João 
III, dada em Almerim, a 18 de Junho de 1551. Esses ofícios, por um 
alvará de lembrança, pertenceram a Pedro Henriques, escrivão da Câmara 
real; por seu falecimento, em apostilha, o rei fez deles mercê a Leonor da 
Costa, viúva de Pedro Henriques; porque Leonor se metesse freira em 
convento, passaram os ditos ofícios à sua filha Beatriz da Costa, para que 
seu avô Ambrósio Rodrigues os pudesse vender a pessoa apta, o que foi 
feito a Brás Cubas, com licença real e notificação a Tomé de Sousa, 
governador-geral, para metê-lo na posse daqueles cargos, que devia servir 
em dias de sua vida. – Documentos Históricos, XXXV, págs. 146/148. – 
(G.). 
 
(30) Azevedo Marques, Apontamentos, I, pág. 97, dá a escritura 
da doação do terreno para o Colégio. – (C.). 
 
(31) Fernão Cardim, Tratados da Terra e Gente do Brasil , pág. 
358. – (G.). 
 
(32) Arq. da Câm. de São Paulo, L. 1585-1586, fls. 13 v. e 14. – 
(A.). – Actas da Câmara da Vila de São Paulo, I, 275/279, São Paulo, 
1914. A súplica ou requerimento tem a data de 10 de Abril de 1585. – 
(G.). 
 
 139 
(33) Sobre as terras de Estêvão Costa, veja tomo I, 169. (G.). 
 
(33bis) Por provisão de 16 de Fevereiro de 1553, fez saber o 
provedor-mor da fazenda, Antônio Cardoso de Barros, o Brás Cubas, 
provedor das capitanias de São Vicente e Santo Amaro, que Sua Alteza 
lhe ordenara em seu regimento que, quando corresse as capitanias desta 
costa, mandasse fazer em cada uma delas casa para alfândega e contos; 
que por ver que na de São Vicente era preciso havê-la pela muita 
necessidade que disso se tinha, a mandasse fazer na vila do porto de 
Santos, no lugar e sítio onde estava, o que então servia para o efeito. As 
alfândegas e construir seriam por esta maneira: duas casas por baixo de 
30 palmos de largo e 40 de comprido cada uma; do mesmo comprimento e 
largura seriam também as outras duas, por cima assobradadas, cobertas de 
telhas, e bem emadeiradas, de pedra e cal, com um tabuleiro entre elas e o 
mar, da compridão das mesmas casas à maneira de cais, onde, se fosse 
necessário, pôr-se-ia artilharia, se se pudesse fazer; haveria uma varanda 
coberta sobre o tabuleiro, para que ficasse a artilharia ao abrigo da água e 
do sol; que se contratassem os pedreiros à sua avença, e a delas e não em 
pregão, e que o pagamento das obras se fizesse pelas rendas de sua 
Alteza, etc. – Documentos Históricos, XXXVIII, págs. 239/240. – (G.). 
 
(34) Fernão Cardim, Tratados da Terra e Gente do Brasil, págs. 
355/356; Fr. Vicente do Salvador, História do Brasil, 382, 3ª ed., 1931, 
diz que os “homens e mulheres se vestiam de pano de algodão tinto e, se 
havia alguma capa de baeta e manto de sarge, se emprestava aos noivos e 
noivas para irem à porta de igreja; porém, depois que chegou D. Francisco 
de Sousa e viram suas galas e de seus criados e criadas, houve logo tantas 
librés, tantos periquitos e mantos de soprilhos que já parecia outra coisa”. 
– (G.). 
 
(35) Por primeiro vigário foi mandado, alguns anos depois, o 
padre Lourenço Dias Machado, Revista do Instituto Histórico, 2, 435. – 
(A.). – Esse vigário devia ter sido nomeado em 1593, quando o 
administrador das partes do Sul esteve em visita a São Paulo; dois anos 
depois, por provisão datada da Bahia, em 8 de Outubro de 1595, D. 
Francisco de Sousa mandou dar-lhe a côngrua que percebiam os vigários 
de São Vicente e Santos, Ibidem. – (G.). 
 
(36) Fernão Cardim, Tratados da Terra e Gente do Brasil, pág. 
108. – (G.). 
 140 
 
(37) No tempo de Cardim, já se começava a fazer vinhos, ainda 
com muito trabalho para conservá-los, “porque em madeira fura-lha a 
broca logo, e talhas de barro não nas têm...” – Tratados, 108. – (G.). 
 
(38) Havia ainda a aldeia de São Miguel, como refere Anchieta, 
Informações e fragmentos históricos. 45. – (C.). 
 
(39) A tarefa, como medida agrária equivalente a 30 braças em 
quadro, ou 4.356m
2
 é peculiar à Bahia, destinada à cultura da cana-de-
açúcar. Uma tarefa, no ato de plantar, consome ordinariamente cinco 
carros de semente, se a plantação é feita a enxada, ou seis, se por arado. A 
esta chama-se tarefa de soca, quando a cana já foi cortada uma ou mais 
vezes e cujos brotos se vão sucedendo anualmente. A moagem de uma 
tarefa de cana, em bom engenho movido por água, pode ser exe cutada em 
24 horas, produzindo pelo menos oito meladuras, o que se chama tarefa 
redonda. – Conf. Morais, Dicionário, e Beaurepaire Rohan, Dicionário de 
Vocábulos Brasileiros, s. v. – Massapé é uma argila compacta, anegrada e 
extremamente fértil. Na Bahia essa espécie de terreno é produzida pela 
decomposição de quistos cretáceos e em outros Estados pela 
decomposição de rochas graníticas. Em Pernambuco se diz massapê. – 
Conf. Rodolfo Garcia, Dicionário de Brasileirismos. s. v. – (G.). 
 
(40) No Rio de Janeiro, em 1583, lavrou-se um auto de avença, 
que Salvador Correia de Sá, como governador e provedor da fazenda real, 
fez com João Gutierres Valério, obrigando-se este a pagar certa quantia 
por escravo que de África conduzisse em seu navio. – Revista do Instituto 
Histórico, 1, 161. Foi o primeiro contrato para a importação de africanos 
no Rio de Janeiro – Rio Branco, Lé Brésil en 1889, 117. – “Os traficantes 
de negros – informa J. B. de Almeida Prado, Pernambuco e as Capitanias 
do Norte do Brasil, I, pág. 270, São Paulo, 1939 – costumavam carregar 
os navios de Janeiro a Março, estação mais favorável nas costas da 
África, onde aportavam com mercadorias europeias”. Estes mesmos 
navios (continua, citando a Relação de Antônio Dinis sobre o comércio de 
Angola) se lhes pagam em escravos, como digo, e os carregam para o 
Brasil, outros para as Índias (Espanholas). Os resgatados nessa quadra 
custavam, pela terra dentro, 10$000, ficando na costa para o mercador em 
22$000, se era peça das Índias. Quando iam para o Brasil pagavam uma 
taxa de 3$600 e 400 réis de avanços, e para as possessões espanholas 
7$000”. – (G.). 
 141 
 
(41) Destes assuntos tem-se ocupado Vítor Ribeiro, autor de uma 
história da casa de Misericórdia de Lisboa e de estudos publicados no 
Instituto de Coimbra. – (C.). 
 
(42) O seu compromisso foi confirmado poralvará régio de 4 de 
Julho de 1564, reformado em 10 de Maio de 1618. O compromisso dado à 
dita misericórdia de Lisboa se declarou extensivo à do Espírito Santo por 
Alv. de 1 de Julho de 1605; à de Olinda por reso lução régia de 26 de 
Janeiro de 1606, e à de Itamaracá por dita de 8 de Abril de 1611. – O Alv. 
de 18 de Out. de 1806 o fez extensivo a todas as misericórdias que não 
tivessem outro. A Ordem terceira de São Francisco da Penitência do Rio 
data de 1622. – (A.). 
 
(43) Há quem date a Casa da Misericórdia no Rio de Janeiro da 
era de 1540, antes de povoada a cidade! Vejam-se os trabalhos de 
Francisco de Sá e Félix Ferreira. Atribuem outros a criação a José de 
Anchieta por ocasião de aportar a gente de Diogo Flores. Da relação de 
Sarmiento, que chama os Jesuítas de Teatinos, como os chamava D. 
Cristóvão de Moura, nada consta a respeito. – (C.). – Na Sumaria 
Relación de Pedro Sarmiento de Gamboa, Gobernador y Capitán general 
del estrecho de Magallanes,in Colección de documentos inéditos del 
Archivo de Índias, 5, pág. 306, Madrid, 1866, - vem a referência aos 
Teatinos, ordem de clérigos regulares, que Sarmiento confundiu com a 
dos Jesuítas. Nessa mesma Sumaria Relación trata-se (pág. 303) da 
chegada da armada de Diogo Flores de Valdez ao porto do Rio de Janeiro, 
a 24 de Março de 1582, onde invernou até fins de Novembro do mesmo 
ano. Nesse tempo morreram muitos da tripulação, “que veniam enfermos 
de la mar, y enfermaron muchos otros de nuevo, de un mal del seso, que 
es peste de aquella tierra, que es fácil de curar, entendiendo-se, ysi no se 
entiende e no se cura, pasados dos o tres dias sin remediarlo, es incurable, 
y mata con bascas; llámanle el mal de la tierra. En estas enfermedades los 
portugueses de la ciudad de San Sebastián se oferecieron de curar los 
enfermos, pidiento á Diego Flores algun socorro de limosna, de la 
hacienda real, que V. M. enviaba para semejantes y otras necessidades; y 
Diego Flores dio una vez algunos reles, pocos, que no llegaron o no 
pasaron de ciento, para más de doscientos enfermos. Y haciendo de su 
parte el gobernador, Salvador Correa, y los vecinos del pueblo lo que era 
en su posible, siendo pobrísimos, nunca más Diego Flores los proveyó ni 
aun de ración ordinaria de sanos, y asi murieron más de ciento y 
 142 
cincuenta, y otros viendo esto, se huyeron. Pedro Sarmiento, viendo el 
peligro en la mano, hizo alojar los pobladores por las casas de los vecinos 
de la tierra, donde fueron recreados y curados, y no murieron cuatro; y 
para los oficiales de fortificación hizo casas de ramada de palma 
arrimadas, á las casas de su morada, donde los alojó, y visitaba y 
medicinaba todas las horas, con que á Gloria de Dios fueron guarecidos, 
que no murió sino uno, de ciento cincuenta y tantos que eran”. – (G.). 
 
(44) Conf. Zimmermann, Die Kolonialpolitik Portugals und 
Spaniens. I, págs. 11/116, Berlim, 1896. – (C.). 
 
(45) Declarados de novo em vigor por leis de 18 de janeiro de 
1580 e 26 de Janeiro de 1587. Essa proibição foi levantada em 31 de 
Julho de 1601, estando a Corte em Valadolid, mediante 200.000 cruzados 
oferecidos pelos judeus, acrescentando-se em 24 de Novembro desse 
mesmo ano, que ninguém lhes chamasse “cristãos-novos, confessos, 
marranos ou judeus”. Foi isso outra vez revogado em 13 de Março de 
1610, voltando tudo ao ordenado em 1587. Tornou em 17 de Novembro de 
1629 a proteção de 1601; porém uma consulta de 29 de Abril de 1630 
opinava que se devia revogar na parte em que se lhes consentia passar à 
colônias. (Regs. Reais, IV, 72 e 73; V, 23; VI, 25). – (A.). 
 
(46) Além desta lei de 16 de Junho de 1570, contrária a toda 
economia política, dessa que já se conhecia antes de ter tal nome, 
promulgou nesse mesmo ano D. Sebastião outra mais absurda, em 28 de 
Abril, na qual ordenou que “pessoa alguma não pudera comer nem dar a 
comer à sua mesa mais que um assado e um cozido, e um picado ou 
“desfeito”, ou arroz ou cuscuz, e nenhum doce, como manjar branco, 
bolos de rodilha, ovos mexidos, etc.”. – (A.). 
 
(47) Algumas dessas leis estão notadas em Figueiredo, Sinopse 
cronológica, 2. – (C.). 
 
(48) “Que por modos diversos 
Ou deu versos às leis ou leis aos versos.” – Dinis. – (A.). 
 
(49) O fato não parece muito certo; pelo menos tem sido 
ultimamente contestado. – (C.). – Pedro de Azevedo, História da 
Colonização Portuguesa do Brasil, III, 212/213, não admite mais dúvida 
a respeito. – (G.). 
 143 
 
(50) Veja a nossa publicação – Da Literatura dos Livros de 
Cavalarias, com o respectivo aditamento [Viena, 1872]. – (A.). 
 
(51) Está hoje verificado que Pedro Nunes, a matemático, não 
esteve na Índia, como afirmou o Autor, em nota à primeira edição desta 
História, 1, 467/468. Conf. Luciano Pereira da Silva, Revista da 
Universidade de Coimbra , 2, 246/253, 532/539, Coimbra, 1913. – Além 
de outras obras de matemática Pedro Nunes escreveu o Tratado da Sphera 
com a Theorica do sol e da Lua , etc., Lisboa, 1537 – obra de universal 
celebridade e raríssima, ao ponto de não existirem mais de dez 
exemplares conhecidos em todo o mundo. Maggs Bros., em sua 
Bibliotheca Brasiliensis, Lodnres, 1930, enumeram nove exemplares: 2 
nos Estados Unidos, 1 no Brasil (Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro), 
e 6 na Europa. Como aquela Biblioteca possua duplicata do Tratado, o 
número de Maggs Bros. fica acrescido de mais um. – (G.). 
 
(52) Coloquios [dos simples e drogas] da India. Veja-se a 2ª 
edição publicada, página por página, conforme á 1ª de Goa em 1563, pelo 
Autor desta História em 1872. – (A.). Reeditados admiravelmente pelo 
conde de Ficalho [Lisboa, 1891/1892, em dois volumes], que além disso 
consagrou uma erudita monografia do ilustre médico português. – (C.). – 
Garcia da Orta e o seu tempo , Lisboa, 1886. Referindo-se à edilão de 
1872, escreveu o conde de Ficalho nessa monografia, pág. 389: “Esta 
edição foi, como todos sabem, dirigida por F. A. Varnhagen, vi sconde de 
Porto Seguro. Não seria difícil apontar alguns dos seus numerosos erros e 
incorrecções, muitos deles reconhecidos e emendados pelo zeloso e 
erudito editor no Post Editum, datado de Viena de Áustria; e devidos a 
circunstâncias independentes da sua vontade e da sua notória 
competência. É-nos porém muito mais agradável dizer que a edição, tal 
qual está, é ainda assim um excelente serviço prestado às letras 
portuguesas. Pôs a leitura dos Coloquios ao alcance de muitas pessoas, 
que nem teriam ensejo de encontrar algum dos raros exemplares da edição 
de Goa, nem disporiam da paciência suficiente para penetrar naquelas 
páginas, crivadas de erros de ortografia e de pontuação”. 
Dos Coloquios há tradução inglesa por Sir Clemente R. Markham, 
Londres, 1913, edição limitada, da qual possui um exemplar, talvez o 
único existente no Rio, o ilustre bibliófilo e camonista Prof. Simões 
Correia. – (G.). 
 
 144 
 
NOTAS EM ALGARISMOS ROMANOS 
 
(I) 
 
História da província de sãcta Cruz, a qu‟ vulgarmete chamamos 
Brasil: feita por Pero de Magalhães de Gandavo, dirigida ao muito Ils. 
sñor Don Lionis Pª governador que foy de Malaca & das mais partes do 
Sul da India [Armas dos Pereiras] In-fine: Impresso em Lisboa, na 
officina de Antonio Gonsaluez. Anno de 1576 . In-4º, de 48 ff. n8um. no 
verso, com 2 estampas intercaladas no texto. 
A História de Gandavo foi concomitantemente reeditada em 1858 
na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo 21, e na 
Colecção de Opúsculos reimpressos relativos à História das navegações, 
viagens e conquistas dos Portugueses , pela Academia Real das Ciências 
de Lisboa, tomo 1, n. 3. A essaspublicações procedeu, porém, a edição 
francesa de Ternaux-Compans, na coleção intitulada Voyages, relations et 
mémoires pour servir à l‟histoire de la découverte de l1Amérique, tomo 
II, Paris, Arthus Bertrand, 1837, in 8º. 
Para a reimpressão da Revista do Instituto utilizou-se o texto da 
primeira edição pelo exemplar que se conserva na Biblioteca Nacional do 
Rio de Janeiro, coleção Barbosa Machado: à dos Opúsculos serviu cópia 
manuscrita existente na Biblioteca da Academia: reputa -se a primeira 
mais fiel do que a outra. 
Pertence também à autoria de Gandavo o Tratado da Terra do 
Brasil, no qual se contém a informação das cousas que há nestas partes , 
que só veio a lume em 1826, na Colecção de Notícias para a História e 
Geografia das Nações Ultramarinas, que vivem nos Domínios 
Portugueses, ou lhes são vizinhas: publicada pela Academia Real das 
Ciências de Lisboa, tomo IV, n. IV. Na Revista do Instituto Histórico, 
tomo 2, 1840, págs. 425-426, saiu a Introdução a esse Tratado, a qual não 
é da lavra de Gandavo. 
O Tratado deve ter sido escrito antes da História, antes mesmo de 
1573, porque não se refere à divisão do Brasil em dois governos, de que 
aquele já faz menção: que o fosse antes de 1570 não é de estranhar, 
porque uma nota marginal que se lê em cópia adiante citada, da Biblioteca 
Pública Municipal do Porto, aumenta de 23 para 60, em 1587, os 
engenhos de açúcar da capitania de Pernambuco. 
A obra complexiva de Gandavo conta duas reimpressões 
modernas: 
 145 
I – Na coleção – Documents and Narratives concernings the 
Discovery and Conquest of Latin America , editada pela Cortez Society, 
New York, 1922, 2 vols., compreendendo a História, em fac-símile e com 
tradução inglesa, introdução e notas por John B. Stetson, Jr., e o Tratado, 
igualmente traduzido para o inglês, sendo aproveitado o texto da 
Colecção de Notícias para a História e Geografia das Nações 
Ultramarinas. É o n. 5 dessa importante coleção americana. 
II – Na coleção Clássicos Brasileiros, edição do Anuário do 
Brasil, Rio, 1924, com uma Advertência de Afrânio Peixoto, Nota 
bibliográfica de quem escreve estas linhas e uma Introdução de 
Capistrano de Abreu. Aí vem em primeiro lugar o Tratado, por cópia do 
apógrafo existente na Biblioteca do Porto, mais completo do que o 
impresso na citada Colecção de Notícias, e a seguir a História, conforme 
as publicações do Instituto Histórico e da Academia de Ciências, 
colacionadas com o exemplar da Biblioteca Nacional. 
Do autor bem pouco se sabe: era natural de Braga, descendia de 
flamengos, como seu nome indica – Gandavo, diz Capistrano de Abreu na 
Introducção referida, corresponde a Gantois, morador ou filho de Gand. 
Sua estada no Brasil deve ter coincidido com o governo de Mem de Sá 
(1558-1572) – conjetura ainda o mestre. – A um Pero de Magalhães, que 
bem pode ser o Gandavo, refere-se esta alvará de D. João III, de 29 de 
Agosto de 1576: 
“Eu el-Rei faço saber aos que este meu alvará virem que avendo 
Eu respeito a Pero de Magalhães, meu moço da Câmara servir na Torre do 
Tombo em trasladar alguns livros e papeis de meu serviço, e por confiar 
delle que no que o encarregar servirá bem e fielmente, hei por bem por 
lhe fazer mercê que elle sirva de provedor de minha fazenda na Capitania 
da Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos nas partes do Brasil 
por tempo de seis anos, não sendo primeiro provida a pessoa que tem o 
dito cargo, ou não mandando Eu no dito tempo o contrario, o qual cargo 
servirá conforme ao Regimento dos provedores da dita Capitania, e 
haverá com elle de ordenado em cada um anno trinta mil réis, pelo que 
mando ao Governador das ditas pares, e ao provedor mor dellas, que lhe 
deem posse do dito cargo e lho deixem servir e haver o dito mantimento, 
o qual lhe pagará o almoxarife da dita Capitania, etc. 29 de Agosto de 
1576.” – Cópia no Instituto Histórico, Conselho Ultramarino, Registros , 
tomo I, fls. 68-68 v. 
Humanista insigne e excelente latino, publicou Gandavo as 
Regras que ensinão a maneira de escrever a Orthographia da lingua 
Portugueza, com um Dialogo que adiante segue em defensão da mesma 
 146 
Lingoa, Lisboa, por Antônio Gonsalvez, 1574, in 4º, que tiveram mais de 
uma edição. Teve cadeira pública de Latim entre Douto e Minho, onde foi 
casado. Era amigo de Camões, que lhe dedicou os tercetos célebres e o 
soneto, que servem de pórtico à primeira História do Brasil. – (G.). 
 
(II) 
 
Zeferino Cândido consagrou um capítulo inteiro de seu livro 
Brasil à demonstração de que Gabriel Soares não foi o verdadeiro autor 
do Tratado descritivo. Seus argumentos são em resumo: 
1º) Barbosa machado, em quem Varnhagen se apoiou para afirmar 
a identidade, condimenta suas afirmações de tantos erros que suas 
palavras não inspiram confiança; 
2º) Varnhagen, ora afirmando que nada se sabe de Gabriel Soares, 
ora traçando-lhe uma biografia completa, mostra a pouca segurança de 
suas convicções; 
3º) Ferdinand Denis, em 1837, disse poder demonstrar que o 
Tratado tinha por autor Francisco da Cunha; 
 4º) O autor falando de si na primeira pessoa e de Gabriel Soares 
na terceira, mostra bem que se trata de pessoas diferentes; 
5º) As interpolações do Tratado não permitem aceitar-se a data de 
1584, fixada por Varnhagen para a composição do livro. 
A força desta argumentação é só aparente: 
1º) Antes de Barbosa Machado, já Pedro de Mariz tinha citado e 
extratado o livro de Gabriel Soares, e o aditador de Pinelo assinalado sua 
existência na biblioteca do conde de Vimioso. Os erros da Biblioteca 
Lusitana, incontestáveis, e diga-se também inevitáveis, porque eram 
desconhecidos os documentos e desde 1624 Simão Estácio da Silveira 
começara a confundir os fatos, não podem ter efeito retroativo. 
2º) Varnhagen, no que escreveu antes de 1858, afirmou ignorar -se 
tudo a respeito do autor do Tratado. Em 1858 João Francisco Lisboa 
encontrou vários documentos na Torre do Tombo, mais um capítulo da 
obra de Fr. Vicente, e deu-se pressa em communicá-los ao autor da 
História Geral, que logo os publicou na Revista do Instituto Histórico 
[tomo 21, 455-468]. Que culpa tem ele de Zeferino Cândido considerar 
simultâneas publicações separadas por vinte anos, e de atribuir -lhe 
contradições que não existem na realidade? 
3º) Se em 1837 Ferdinand Denis atribuiu o Tratado a Francisco da 
Cunha, vinte e sete anos mais tarde, em 1864, escreveu: “ Il est reconnu 
aujourd’hui que ce livre si remarquable, composé em 1587, par Gabriel 
 147 
Soares...” – Yves d’Évreux, Voyage dans le Nord du Brésil, 418, Leipzig, 
1864. 
4º) Barredo, nos Anais históricos do Maranhão, § 19, escreve: 
“defensas exteriores a que já tinha dado princípio o governador Pereira de 
Berredo...”; e logo no § 20 lê-se: “por ser tirado dos meus próprios exames, 
quando governei aquele Estado”. Seria lícito concluir daí que Berredo não é o 
autor dos Anais, porque na mesma página fala de si na primeira e na terceira 
pessoa? Gabriel Soares fala de si na terceira quando quer dar uma noção 
geográfica, como na descrição dos engenhos, na viagem de Adorno, etc. 
5º) É impossível evitar interpolações em manuscritos, e a nota 
marginal com o tempo incorpora-se fatalmente ao texto. Admira que tão 
poucas interpolações existam no Tratado descritivo, e isto só se explica 
pelo fato de terem vindo poucas cópias, e só tarde, ao Brasil. 
Passemos a examinar outra questão em que Zeferino Cândido 
também tocou: qual o ano da composição do Tratado descritivo? 
Varnhagen, atendendo ao momento em que Gabriel Soares deixa as 
guerras da Paraíba, fixa a data em 1584, até certo ponto com razão, pois 
agorasabemos por Pedro Sarmiento [Documentos inéditos del Archivo de 
Indias, 5, 402] que em Setembro daquele ano Gabriel Soares aportou a 
Pernambuco, de viagem para a Europa. Entretanto, o prólogo escrito em 
Madrid em alguns códices traz 1587, em outros 1589. Ambas as datas são 
possíveis. 
Uma obra como o Tratado pedia anos. – (C.). 
Conf., supra, nota 8. – Varnhagen, editando a obra de Gabriel 
Soares na Revista do Instituto Histórico , tomo XIV, 1851, outorgou-lhe o 
título de Tratado descritivo do Brasil em 1587 , que muito bem a definiu. 
Entretanto, tem-se verificado que fatos e descrições contidos no livro são 
evidentemente anteriores àquela data. Jaqime Cortesão, em sua sábia 
monografia Cabral e as Origens do Brasil (Ensaio de tipografia 
histórica), págs. 25-26, Rio de Janeiro, 1944, opina que o livro deve ter 
sido coligido e composto até o mês de Agosto de 1584, em que seu autor 
embarcou na Bahia para Portugal. Wanderley Pinho, no prefácio com que 
iluminou o Livro Velho do Tombo da Bahia , págs. XVII-XVIII, Bahia, 
1945, confere com documentos ali transcritos a chegada dos frades de São 
Bento à cidade do Salvador em 1580, com o tópico em que Gabriel Soares 
(Tratado, pág. 123), declara que “haverá tres annos que foram a esta 
cidade [os Beneditinos] com licença de S. Magestade fundar este 
mosteiro, que lhes os moradores della fizeram á sua custo com grande 
fervor e alvoroço”. De onde se infere haver Gabriel Soares composto, 
pelo menos a descrição da cidade, em 1583, recuando-se assim de quatro 
anos a data que Varnhagen assinalara para a terminação do Tratado. 
 148 
 A edição de 1851 foi reproduzida na mesma Revista em 1879, 
com defeituosa revisão, e alcançou outra na Brasiliana da Companhia 
Editora Nacional, São Paulo, 1939. Sua última edição, com o título de 
Notícia do Brasil, saiu na Bibiloteca Histórica Brasileira da Livraria 
Martins Editora, São Paulo, s/d (1945), 2 tomos, dirigida pelo sábio 
Professor Pirajá da Silva, que a opulentou com exaustiva introdução e 
eruditos comentários e notas, tudo relacionado com a história dos 
primeiros povoadores, sua genealogia, a etnografia, a corografia, a 
agricultura, flora, fauna e mineralogia do Brasil quinhentista. São lições 
de mestre, que tornam o livro do senhor de engenho do Recôncavo ainda 
mais valioso e, para tudo dizer, insuprível em qualquer biblioteca 
brasileira. – (G.). 
 
(III) 
 
Fernão Cardim era natural de Viana de Alvito, arcebispado de 
Évora, filho de Gaspar Clemente e sua mulher D. Inês Cardim, de família 
antiga e importante em Portugal. Nasceu cerca de 1548 e entrou para a 
Companhia de Jesus em 9 de Fevereiro de 1566. Já era professo dos 
quatro votos e ministro do Colégio de Évora, quando foi designado, em 
1582, para companheiro do visitador Cristóvão de Gouveia; passou a 
Lisboa em princípios de Outubro daquele ano e ali esteve cinco meses, até 
que, a 5 de Março de 1583, com o governador Manuel Teles Barreto, o 
visitador e outros padres e irmãos, embarcou para o Brasil na nau Chagas 
de São Francisco, chegando à Bahia a 9 de Maio seguinte. Acabada a 
visita, em que esteve na Bahia, nos Ilhéus, Porto Seguro, Pernambuco, 
Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo, uma e mais vezes, foi reitor 
dos colégios da Bahia e do Rio de Janeiro, onde por algum tempo lhe fez 
companhia Josef de Anchieta, antes de ir morrer em Reritiba, no Espírito 
Santo, a 7 de Junho de 1597. Em 1598 foi eleito na congregação 
provincial para procurador da Província do Brasil em Roma; regressava 
dessa missão, em 1601, com o padre João Madureira, que vinha por 
visitador, quando foi tomado por corsários ingleses. Madureira morreu no 
mar, Cardim chegou à Inglaterra, onde ficou até ser resga tado. Foi então 
despojado dos papéis que conduzia – um tratado sobre o clima e as 
produções naturais, outro sobre os índios do Brasil, mais tarde, com 
tradução inglesa, publicados na famosa coleção Purchas his Pilgrimes , 
vol. IV (Londres, 1625), págs. 1289-1320, sob o título – A Treatise of 
Brazil written a by a Portugall wich had long lived there. 
Em 1604 tornou ao Brasil com o cargo de provincial, que exerceu 
 149 
até 1609, e foi em seguida reitor, pela segunda vez, do Colégio da Bahia e 
vice-provincial. Faleceu na aldeia do Espírito Santo, depois Abrantes, 
onde se refugiara da fúria dos invasores holandeses, a 27 de Março de 
1625, no mesmo ano em que saíam à luz em Londres os seus escritos. 
Dos tratados de Cardim o que primeiro foi divulgado na própria 
língua e com autoria declarada, foi a Narrativa epistolar de uma viagem e 
missão jesuíta, etc., por Varnhagen, que lhe deu esse título, em Lisboa, 
1847. Os outros, antes citados, só o foram no Rio de Janeiro, 1881 e 1885, 
pelo meritório Capistrano de Abreu, que confrontando cópias da 
Biblioteca de Évora com as publicações de Purchas, chegou à feliz 
conclusão de tratar-se de idênticos escritos e de pertencerem à lavra de 
Cardim. 
A obra integral desse notável jesuíta pode ser lida nos Tratados 
da Terra e Gente do Brasil, editores J. Leite & Cia, Rio, 1925, - onde se 
encontra mais completa notícia bio-bibliográfica. – Segunda edição na 
Brasiliana da Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1939. – (G.). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 150 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
TEXTOS DE VARNHAGEN 
 
 
TERCEIRO SÉCULO 
(século XVIII) 
 
 
 
 
 
 151 
 
 
 
 
 
 
 
 SECÇÃO XLV 
D. JOSÉ I E POMBAL. ADMINISTRAÇÃO 
JOSEFINA. LETRAS. 
 
Elogio de José I. Grandes dotes de Pombal. Incorporação de todas 
as capitanias na coroa. Serviços ao Brasil na instrução pública. No 
comércio. Juntas e companhias. Tabaco. Favor ao Maranhão. Anil, café, 
arroz, etc. Indústrias. Navegação. Canal do Arapapaí. Nova capitania do 
Maranhão e Piauí, independente da do Pará. Joaquim de Melo e Póvoas, 
seu capitão-general. Instruções notáveis que recebeu de Pombal. Rendas 
públicas, Contratos e monopólios. Cronista do Brasil. Coleção especial 
legislativa. Regulamento de Lippe. Legislação. Relação do Rio. Juntas de 
justiça. Leis filantrópicas. Caboucolos. Casamentos com índias. Diretório 
dos índios. Cristãos novos e velhos. Retrato de José I. Caráter de Pombal, 
segundo Ratton. Sua economia: O outro do Brasil. Considerações 
conciliadoras. Peias que tinham os governadores do Brasil. Chegaram às 
vezes a ser um mal. Corretores de ofícios. Rio Negro. Governadores. 
Lavradio. Sua política. Cultura do anil, do café e planta da cochonilha. 
Conde de Valadares em Minas. Conde de São Miguel em Goiás, Trajes. 
Brasileiros favorecidos. Poetas. Estatísticas. Vários escritores durante 
este reinado, etc. 
 
Antes de passar adiante, cumpre-nos fazer uma pequena 
parada, e contemplar de relance, mas com reconhecimento, os 
muitos serviços que prestou ao Brasil o reinado de vinte e seis 
anos de D. José I, com a administração do seu hábil e poderoso 
ministro Sebastião José de Carvalho, conde de Oeiras e 
 152 
marquês de Pombal (1). – E quando a evidência dos fatos fale 
por um e outro, os seus detratores poderão condenar alguns 
erros, que eles cometessem, como homens que eram; acaso 
perderão sua autoridade desde que intentem infamá-los, o que 
aliás não causará admiração aos que saibam que não faltam 
católicos que nem sequer respeitam a memória do sábio 
pontífice Clemente XIV (2), - só pelo fato de haver abolido a 
Companhia de Jesus, - levado por exigências a que acaso 
qualquer outro não houvera talvez tão pouco resistido.Possuía el-rei D. José grandes dotes para rei, 
começando pelo amor do país, da glória e da virtude. Era 
benigno, verdadeiro e probo. De sua firmeza de caráter, 
qualidade primeira nos que governam, não necessitamos mais 
prova que a do modo como soube empatar tantas e tão 
diferentes intrigas que lhe armaram contra o seu ministro 
Pombal; e isso apesar de que era, com compleição, um pouco 
timorato. 
Flagelado pela Providência, com um terremoto, 
acometido por um atentado de alguns de seus vassalos, 
palpado pela guerra estrangeira, - a nada se abalou o seu 
grande ânimo para deixar de conservar à frente da 
administração o homem que, em meio de seus defeitos, 
desejava a todo transe despertar a apatia da nação, restaurando 
a sua dignidade e independência; - e que, quando nos 
perigosos momentos do célebre terremoto em Lisboa, outros 
ministros fugiam ou se escondiam, ordenava “prontas e bem 
entendidas providências no meio da calamidade geral” (3), e, 
segundo certa frase proverbial, ia a el-rei pedir as ordens, para 
“enterrar os mortos e cuidar dos vivos”. 
E não só dos vivos, como também dos vindouros cuidou 
 153 
e muito nos anos (perto de vinte e dois) que, ainda depois do 
mesmo terremoto, foi ministro até o falecimento do rei. Ainda 
hoje estamos desfrutando dos benefícios que nos legou a 
ciência desse grande estadista; isto apesar que algumas leis 
teve ele mesmo que reformar ou revogar, e apesar da reação 
imprudente que distinguiu o reinado seguinte, e das tendências 
tão excessivamente inovadoras do século. Assim, cremos que 
todo brasileiro que for a Lisboa verá com gosto a memória de 
el-rei D. José, com o busto do sábio ministro restituído ao seu 
pedestal, por justo decreto do primeiro imperador do Brasil 
(4). E começaremos por dizer que as leis josefinas não ficavam 
em letras mortas: eram logo cumpridas, pois tinha D. José um 
ministro, que, sabendo aproveitar os homens, escolhia logo 
quem as havia de executar, sendo que não apresentava à 
sanção a lei, senão depois de haver preparado o seu 
recebimento no país, à maneira do bom agricultor que sabe de 
antemão adubar a terra, em que tem de lançar a semente, para 
que dê sazonados frutos. – Com magistrados e fiscais das leis, 
corruptos ou covardes, não há leis que valham, nem povo que 
se melhores, nem patriotismo que se acrisole: nem a 
constituição mais bela do mundo felicitará jamais qualquer 
poro, quando ele não esteja preparado, por meio de virtudes 
domésticas, para não sofismar os seus mais sagrados dogmas. 
Começaremos por fazer menção da empresa, talvez 
mais importante, levada avante nesse reinado, a favor da 
nacionalidade brasileira: - a de haver incorporado de todo no 
Estado, resgatando-as por meio de indenizações convencio-
nadas com os interessados, e que consistiam em títulos e 
pensões ou padrões de juros (de 600$000 a 2:000$000), todas 
as capitanias que ainda tinham donatários, e eram umas onze, 
 154 
pelo menos, a saber: as de Cametá (5), ilha de Joanes (6), de 
Caité (7), de Cumá (8), de Itamaracá (9), do Recôncavo da 
Bahia (10), de Itaparica (11), dos Ilhéus (12), de Porto Seguro 
(13), Campos de Goitacazes (14) (sem dúvida as duas reunidas 
já em uma só) e São Vicente (15). 
No militar sabido é como ao reinado del-rei D. José e 
ao conde de Lippe remonta a base da organização do nosso 
exército, começando pelo seu regulamento. Em todas as 
capitanias se aumentaram as forças da tropa de linha, e em 
virtude das guerras do Sul, regimentos inteiros vieram de 
Portugal. Em Minas, São Paulo e Rio Grande se organizaram 
companhias de dragões, combatendo a pé e a cavalo, e por 
conseguinte apropriados a prestar, em seus vastos campos, 
apoio à autoridade. – O aumento dos terços de auxiliares de 
cavalaria e corpos de ordenança mereceu também muito 
especiais atenções do governo. Para quase todas as vilas foram 
nomeados capitães-mores, e freqüentemente os que come-
çavam servindo nos auxiliares e ordenanças, quando se 
distinguiam por serviços importantes, eram passados em seus 
mesmos postos para a primeira linha. 
Na instrução e obras públicas, no comércio, lavoura e 
indústria, na navegação, na arrecadação da Fazenda e na 
governação do Estado, na organização militar, em úteis 
reformas judiciais, em providências benéficas e caritativas, o 
dedo gigânteo de Pombal ficou assinalado neste país. 
Benefícios legítimos do reinado de José I experimentou 
também o Brasil na instrução pública, em primeiro lugar pela 
admirável reforma da Universidade de Coimbra, que levou a 
cabo, pondo-a, como se vê dos seus Estatutos, especialmente 
nas faculdades de direito, filosofia e matemáticas, a par das 
 155 
primeiras do seu tempo. A esta reforma, em que trabalharam 
muito dois beneméritos brasileiros, o bispo conde reformador 
D. Francisco de Lemos e seu irmão João Pereira Ramos, 
deveram depois outros brasileiros a ilustração, com que 
serviram com tanta distinção nesse reinado, que muito os 
protegia, e com que ainda nos últimos tempos puderam bem 
servir o seu País. Para realizá-la o ministro Pombal não 
hesitou, como patriota superior a prevenções, de fazer vir até 
de fora capitais de inteligência e de atividade, nas pessoas dos 
Vandellis, Francinis, Dallabellas, Blascos e outros. – Não foi 
menor o benefício que resultou da reforma dos estudos das 
escolas menores, o restabelecimento do colégio dos Nobres, 
tudo debaixo da inspeção da Mesa Censória, tribunal 
encarregado da censura dos livros, que ficaram isentos de 
passar pelas três censuras, da inquisição, do desembarbo do 
paço e do ordinário. para a manutenção destas escolas foi 
estabelecido o imposto do subsídio literário para o reino e 
conquistas (16), em vez dos parciais, que foram abolidos. Os 
edifícios monumentais da cidade do Pará, levantados desde 
que ideou, em 1761, preparar aí um refúgio, em caso de 
necessidade, ao trono da casa de Bragança, recomendam a sua 
previsão (17). Pela maior parte foram delineados pelo 
arquiteto Antônio José Landi, que para esse fim despachou 
(18). O palácio, hoje ocupado pela presidência da província, 
com quinze janelas de frente, três das quais no corpo do meio, 
é um dos mais esplêndidos do Brasil. A sé e as igrejas de São 
João e Santa Ana são idênticos testemunhos do favor real que 
presidiu à sua ereção. 
O comércio em geral deveu ao reinado de José I o 
estabelecimento de uma aula de comércio, em Lisboa, para 
 156 
guarda-livros e praticantes, da ereção de um tribunal, ou Junta 
do Comércio, para o animar e proteger, em utilidade do bem 
comum dos seus domínios, tendo em geral as atribuições e 
privilégios da antiga Companhia do comércio. A instituição 
em 1755, da companhia do Grão-Pará e Maranhão (19), com o 
fundo e capital de um milhão e duzentos mil cruzados, fez 
surgir estas duas capitanias do definhamento em que jaziam. 
Outro tanto sucedera ao vizinho distrito de Venezuela desde o 
estabelecimento, em 1730, de uma companhia semelhante (20). 
O Maranhão principalmente, cujos produtos antes se achavam 
empatados, e que parecia condenado a volver outra vez à 
barbárie, levantou cabeça, e começou a rivalizar com as 
províncias mais opulentas (21). O algodão e o arroz especial -
mente prosperaram muito, favorecendo ao primeiro a 
introdução das máquinas nas fábricas, e ao segundo as guerras 
dos Estados Unidos, etc. Menos feliz foi acaso o monopólio, 
quatro anos depois concedido (22), a outra semelhante 
Companhia de Pernambuco e Paraíba (reunidos poucos anos 
antes em uma só capitania) com o fundo de três milhões e 
quatrocentos mil cruzados. Ambas foram extintas no seguintereinado. Se a primeira delas, tendo por emblema a estrela 
sobre uma âncora, foi civilizadora, pelos capitais que adiantou 
aos ovos, que deles tanto careciam, é certo que a última, não 
compreendeu ao mote ut luceat omnibus, que adotou, em seu 
selo, ao redor de outra estrela (23). O com´percio do açúcar e 
do tabaco (24), apesar de sujeitado por meio de preços 
impostos para a venda no Brasil e para os transportes nos 
navios (25), e apesar de alguma opressão que chegou a causar 
aos lavradores o estabelecimento de Mesas ou casas de 
inspeção (26) para o qualificar, cobrou grande desenvol-
 157 
vimento. As casas de inspeção eram quatro, a saber: no Rio, 
Bahia, Pernambuco e Maranhão. Compunham-se de um 
magistrado, de um lavrador eleito pelas câmaras da capitania, 
e de um negociante indicado pelo corpo do comércio da praça 
do porto de embarque. O tabaco devia ser classificado como de 
primeira qualidade ou escolha de Holanda, ou como de 
segunda folha; o máximo dos direitos em Portugal era de 1689 
1/4 réis por arroba, regulando o custo desta aos lavradores por 
l$200, sendo de primeira folha (27). O tabaco inferior não se 
podia exportar para a Europa: porém sim para África, quando 
se não consumisse no país (28). – A Bahia deveu a Pombal, no 
tabaco, a introdução da cura seca, própria para os charutos, 
enviando aí à Cachoeira, cuidar da preparação do tabaco em 
folha, um André Moreno, o qual havia chegado em 1757 (I). 
Pouco depois já um Manuel da Silva Pimentel remetia dali, a 
João Francisco da Cruz, uns maços de folhas, apertadas e 
ligadas, e outros de manocas ligadas em volumes separados. 
Em 17 de Dezembro, remetia mais algum, feito em manojos, 
como no Maranhão, com muito trabalho e impertinência. – 
Antes (pelo Reg. de 18 de Outubro 1702) o tabaco do Brasil 
pagava de entrada em Portugal l$600, e o do Maranhão 800 
réis (29). 
O favor concedido pela corte à agricultura do Maranhão 
(30), se fez agora extensivo ao anil, que foi por dez anos 
isento de todos os direitos de entrada e saída, sendo que em 
1762 já, sem esta providência, se haviam do mesmo Maranhão 
exportado quarenta e duas libras dele. 
Também já então se exportava daí porção de café (31), 
além de algum cacau, gengibre, algodão, mais de vinte mil 
couros, e duas mil oitocentas e quarenta e sete arrobas de arroz 
 158 
(32). A cultura deste último produto no Brasil foi muito 
animada com a isenção, por duas vezes concedida por dez 
anos, à fábrica de descascar arroz de Manuel Luís Vieira e 
Domingos Lopes Loureiro, no Rio de Janeiro (33). – Esta 
proteção dada então ao arroz veio a tempo, pois havendo a 
companhia do comércio do Maranhão introduzido a semente 
do da Carolina, e tendo estabelecido em 1766 uma fábrica de 
soque, com o do Brasil se chegou em parte a suprir a falta do 
verdadeiro carolino, ocasionada pela guerra nos Estados 
Unidos (34). – Recebeu igualmente a régia proteção uma 
fábrica de curtumes no Rio, ordenando-se para esta a economia 
dos mangues não descascados; e para proteger o uso da aduela 
indígena, tirada do pau da canela e tapinhoã, proibiu o 
governo, no Brasil, a importação da da Europa, impedindo-se 
por outro lado em Portugal (35) a entrada de toda goma-copal 
estrangeira, para proteger a de jatubá ou jutaicica do Brasil, 
da qual em 1769 haviam sido remetidas a Lisboa 14 arrobas 
colhidas no Turiaçu. Foi também consentido o estabelecimento 
de uma fábrica de lonas na Bahia, o que não deve admirar 
quando já alguns anos antes, em 1750, se chegara a ordenar o 
estabelecimento no Pará de fábricas de chitas, trazendo-se para 
isso tecelões da costa de Coromandel (36). Como favorável à 
nossa lavoura devemos também considerar o alvará de 14 de 
Outubro de 1751 (37), que proibiu a saída de pretos, do Brasil 
para os domínios estrangeiros, bem como o de 10 de Janeiro de 
1757 (38), que permutou o contrato do tabaco que se 
estabelecera no Rio de Janeiro, por um equivalente de 800 réis 
em cada escravo que entrasse, 1$000 em cada pipa de jerebita 
que ali se fabricasse, e 3$000 em cada pipa de azeite de peixe 
que se consumisse. 
 159 
Em 1775 foi criada a nova capitania do Maranhão, com 
o Piauí, independente da do Pará, e dela foi nomeado capitão-
general Joaquim de Melo e Póvoas (39), que antes tivera o 
governo subalterno do Rio Negro e depois o do Maranhão 
(desde 1761); havendo nesta ocasião recebido do primeiro 
ministro uma notável carta, contendo instruções e 
recomendações, ainda digníssimas de ser estudadas e 
meditadas por quem tenha o espinhoso encargo de governar 
povos. Nessa carta, hoje divulgada pela imprensa (40), 
recomenda-lhe Pombal toda a justiça e possível piedade e 
benevolência, o devido comedimento nas palavras, a 
necessária serenidade em todos os atos, o essencial desprezo 
dos aduladores e esteliões, a concessão de fáceis audiências 
aos queixosos, protegendo aos pobres e humildes; o não dever 
jamais valer-se da jurisdição real que lhe era conferida em 
satisfação das suas paixões; porque, diz, “é injúria do poder 
usar da espada da justiça fora dos casos dela”. Prudência para 
deliberar, informando-se bem da verdade, destreza para dispor, 
preparando o terreno, e perseverança para executar, vencendo 
os obstáculos, tais seriam suas máximas. Nem lhe esqueceu a 
advertência de deverem ser leais e de todo seus, os criados que 
tivesse de portas a dentro. 
Quanto a providências favoráveis à navegação do 
Brasil, limitar-nos-emos a citar a preferência dada para a 
mesma aos navios fabricados neste Estado, a permissão para se 
navegar sem ser em frotas (41), e a provisão de 10 de Junho de 
1766 (42) para virem cada ano duas fragatas de guerra, uma 
em Abril, outra em Outubro, ao Rio de Janeiro, a fim de 
poderem ser por elas mandados os valores com mais 
segurança. No Maranhão se ativaram então os trabalhos do 
 160 
furo de Arapapaí projetado em 1742, comunicando, sem os 
perigos do passo do Boqueirão, as águas da Bacanga com as 
do Arapapaí (43); ao mesmo tempo que se abria (em 1754) a 
importante estrada da Estiva, que oferece a mais fácil e natural 
comunicação da ilha com o continente (44). 
As rendas públicas eram rematadas no Conselho 
Ultramarino, geralmente por três anos; e feitas as arrema-
tações, se publicavam logo os contratos. – De uma coleção 
destes (impressos avulsamente) (45), que conseguimos reunir, 
demos em outro lugar (II) um resumo que, por sua pouca 
amenidade nos dispensaremos de reproduzir de novo. 
Como providências essenciais à governação do prin-
cipado do Brasil propriamente dito, devemos contemplar a 
nomeação de um cronista especial na pessoa de Inácio Barbosa 
Machado, irmão do erudito abade de Sever; e não menos a 
provisão de 28 de Março de 1754, que mandou reunir uma 
coleção completa de todas as leis e ordens expedidas para o 
Brasil (46) – coleção que se chegou a completar até o ano de 
1757, em 39 volumes, e ainda, ultimamente se viu em Londres 
(47). Também é digno de notar-se o alvará (48) que regulou a 
sucessão na falta dos governadores, conferindo-a a uma junta 
composta das três primeiras autoridades militar, eclesiástica e 
de justiça. Igualmente pertence a esse reinado a idéia da 
fundação da praça de Macapá, na Guiana brasileira, à custa da 
de Mazagão, em Marrocos, cujas muralhas se fizeram voar 
(49). 
Desse mesmo reinado são, principalmente no Norte do 
Brasil, todos esses nomes de terras idênticos a outros de 
Portugal: Oeiras, Borba, Santarém, etc. (50). 
Deixaremos sem menção as muitas reformas, amplia-
 161 
ções e interpretações feitas às ordenações do reino, e muitas 
providências legislativas,que mais que à nossa história civil 
em geral, pertencem à especial do direito pátrio. 
Com aplicação especial à justiça no Brasil, 
mencionaremos, primeiro: o estabelecimento da Relação do 
Rio de Janeiro em 1751 (51). Essa criação havia sido já antes 
proposta, e até ordenada (52); porém dessa primeira vez fora 
deixada em trespasso. – Para a nova relação (53) tomou-se por 
base o regimento da da Bahia, donde até passaram para a 
instalação da nova dois dos desembargadores, que consigo 
trouxeram cópia do livro dourado (54) que nela havia. A 
relação passou a contar, incluindo o chanceler, de dez 
desembargadores, sendo cinco agravistas, um ouvidor-geral do 
crime, e outro do cível, um juiz dos feitos da coroa e fazenda e 
outro procurador da coroa e fazenda (55). Abrangeria as treze 
comarcas do Sul, incluindo as de Minas e a do Cuiabá (56). – 
O capitão-general do Rio ficou pelo regimento declarado 
governador da Relação (57), da qual foi nomeado chanceler 
João Pacheco Pereira de Vasconcelos, que, deixando-a 
instalada, regressou à Europa em 1755 (58). Em segundo lugar 
mencionaremos o alvará com força de lei de 18 de Janeiro de 
1765 (59), que fez extensiva a todas as terras do Brasil onde 
houvesse ouvidores a instituição das Juntas de Justiça, ou 
pequenos tribunais para sentenciar sumariamente, já em 
prática em Pernambuco e no Maranhão e no Pará (60), 
compostas do dito ouvidor, com dois letrados adjuntos, as 
quais foram autorizadas a deferir os recursos contra as 
violências dos juízes eclesiásticos, devendo os provimentos 
que nelas se tomassem ser cumpridos logo, e sem esperar-se 
pela decisão última da respectiva Relação ou do Desembargo 
 162 
do Paço. 
Das miras caridosas e filantrópicas do legislador nos 
deixaram evidentes provas: 
1º) Os alvarás de 19 de Setembro de 1761 e 16 de 
Janeiro de 1773 (61), pelos quais foram declarados forros não 
só os escravos que desembarcassem em Portugal, como os aí 
nascidos de ventre escravo, mas cujo cativeiro viesse já das 
bisavós, ficando logo hábeis “para todos os ofícios, honras e 
dignidades, sem a nota distintiva de libertos, que a superstição 
dos Romanos estabeleceu nos seus costumes”. 
2º) O alvará de lei de 4 de Abril de 1755, favorecendo 
os casamentos com as raças dos índios, e proibindo tratar a 
estes com o nome de caboucolos (62). 
3º) As leis (63), revalidando as antigas, em favor da 
liberdade dos índios; e a aprovação dada ao conhecido 
Diretório (64) para estes; o que tudo descobre intentos mais 
que filantrópicos, embora, em nossa opinião, foi esta parte da 
legislação a que menos aplicação pôde ter; por isso mesmo que 
quase toda ela se reduziu a teóricos tratados de moral, – a 
conselhos; visto que meros conselhos são as leis não 
acompanhadas de penas; e estas tanto mais severas quanto 
mais brutal está o homem para quem são feitas. Os diretores, 
privados de direitos coercivos sobre os índios, deixaram a 
estes entregues à sua reconhecida indolência e devassidão, 
conforme veio anos depois a provar, em uma luminosa e larga 
exposição repleta de notícias e de profundas considerações, o 
Dr. Antônio José Pestana e Silva (65), pondo em contribuição 
a própria experiência que tivera como ouvidor e intendente 
geral dos índios na capitania do Rio Negro, subordinada à do 
Pará. 
 163 
4º) O aviso de 15 de Maio de 1756, permitindo que os 
ciganos (66) fossem empregados em obras públicas, dando-se 
mestres a seus filhos. 
5º) Finalmente a carta de lei, constituição geral e edito 
perpétuo de 25 de Maio de 1773 (67), mandando acabar para 
sempre com as frases distintivas de cristãos novos e velhos, de 
que tanto havia inclusivamente abusado, com escândalo e 
contra as doutrinas do Evangelho, o tribunal da Inquisição; e o 
alvará de lei (do 1º de Setembro de 1774) aprovando um novo 
regimento para este tribunal (68), cujos poderes D. José I 
sopeou muito, fazendo as sentenças dependentes da 
confirmação régia, sendo para lamentar que não ousasse 
(talvez por isso mesmo que estava já lutando contra tantos 
inimigos) aniquilá-lo de todo. 
Em elogio de el-rei D. José, limitar-nos-emos a 
transcrever aqui os seguintes períodos do que, em suas 
exéquias na Bahia, proferou (69) o exímio pregador baiano Fr. 
Antônio de Sampaio: “O Brasil pode sem dúvida (disse o 
orador) gloriar-se de ter merecido a predileção do seu real 
ânimo... A veneração com que ele recordava a memória desses 
antigos povoadores do Brasil, de quem nós agora 
descendemos, induzia-o a olhar com carinho para a nobreza 
deste novo Estado; a colocar sobre os nossos compatriotas as 
mitras de Pernambuco (70), Rio de Janeiro (71), Coimbra (72) 
e outras. Com esta consideração honrou os nossos jurisperitos 
com togas honoríficas, ocupou-os nos governos, intendências e 
magistraturas. Essa foi a verdadeira ocasião de tantos 
privilégios com que honrou as nossas cidades, com que 
amplificou e enriqueceu os nossos territórios”. 
“Política do Brasil! Tu mereceste ao glorioso príncipe 
 164 
essas leis benéficas, que tanto promovem nestes domínios a 
tranqüilidade pública: conseguiste da sua magnificência 
tribunais amplíssimos, intendências, administrações esten-
didas, que prometem a esta preciosa porção da América a 
população de um império. Que descobrimentos não fizemos? 
Que progressos não conseguimos, no Pará, no Maranhão, no 
Mato Grosso? Que desvelos não foram os do monarca para 
fazer culto e feliz o estendido país das minas do ouro?...” “O 
Brasil floresce hoje na posse de todos os cômodos e 
ornamentos das nações mais cultas... As nossas esperanças 
animadas com tantos benefícios iam criando asas para voar à 
glória que nos mereceu a ascendência que nos prezamos trazer 
dos Correias Sás, Sousas Coutinhos, Pires, Costas, Azeredos, 
Pereiras e outros antigos celebérrimos argonautas, que por 
glória da nação, por aumento da fé, por novo esplendor destas 
colônias, deixaram o ninho da sua amada pátria, para virem 
disputar a estes homens semi-feras a posse destas regiões bem-
aventuradas.” 
Acerca da pessoa de Pombal atrevemo-nos a transcrever 
aqui o que dele nos informa um francês que muito o conheceu 
e tratou (73): - “O conde de Oeiras [Pombal] possuía muitas 
qualidades para ser, como foi, um grande ministro. 
Empregando todo o tempo da semana no serviço de seu amo, 
reservava as manhãs dos domingos para os negócios de sua 
casa, nos quais se ajuntavam todos os almoxarifes, feitores e 
mestres de obras, no quarto de sua contadoria, metodicamente 
escriturada com livros em partes dobradas; e ali conferia com 
eles, recebia e pagava, à boca de cofre, as entradas e despesas 
da semana precedente. E era extremamente reservado com sua 
família e amigos, a respeito dos negócios do Estado; de modo 
 165 
que ninguém podia descobrir, da sua conversação, gestos ou 
maneiras, os negócios que o ocupavam, e que se deviam 
conservar em segredo. Ouvia as partes, sem lhes interromper 
as suas falas, e as respostas eram graves, breves e terminantes, 
revestidas sempre da autoridade do soberano, e não do seu 
motu próprio. Não consta que se enfadasse e descompusesse as 
partes que o buscavam, por mais que estas se desmedissem em 
palavras, nem que em sua casa aparecesse pessoa alguma, que 
fosse recebida debaixo do mais estreito cerimonial. Sabia 
assim conciliar o recíproco respeito que o público deve ter aos 
ministros do soberano, e estes ao público. Possuía mais o 
conde de Oeiras um arranjo metódico, tanto na distribuição do 
tempo, como nas matérias de que se achava encarregado; e foi 
por efeito deste arranjo metódico que ele pôde dirigir bem 
todasas repartições do Estado, a ponto de o fazer prosperar 
tanto que, apesar da reedificação da cidade, extinção dos 
jesuítas, estabelecimentos de inumeráveis fábricas, escolas 
públicas, reforma dos estudos, e guerras que ocorreram no seu 
tempo, deixou, quando saiu do ministério, 48 milhões de 
cruzados no erário régio, e 30, segundo ouvi, nos cofres das 
décimas: riqueza que jamais se tinha ajuntado desde a 
descoberta das minas. Esse espírito metódico se mostra bem no 
arranjo econômico da sua própria casa, o qual confirma o 
axioma de que “quem não sabe bem governar a sua casa não 
presta para governar o Estado”. 
“Foi por efeito da sua estrita economia (continua 
ponderando acerca de Pombal o mesmo escritor) que ele pôde 
fazer a sua grande casa, e não à custa do Estado, como alguns 
terão pensado, regulando-se unicamente pelas aparências. O 
conde de Oeiras viveu sempre... sem fausto, nem aparato; 
 166 
servindo-se ele, e seus irmãos da mesma cozinha. Sua mesa, 
bem que farta, não era delicada; sua cavalheirice era mui 
pouco dispendiosa. ainda nos anos de 1764 a 1766 andava por 
Lisboa na mesma carruagem de jornada em que tinha vindo de 
Viena d’Áustria”... 
Acusam-no de haver usado demasiado rigor com alguns 
que haviam sido seus colegas no ministério, como Diogo de 
Mendonça Corte Real, demitido em 1756 (74), Tomé Joaquim 
da Costa, em 1760, e José de Seabra (75), seu antigo 
confidente nos assuntos contra os jesuítas, demitido em 1774; 
o primeiro dos quais foi desterrado para Mazagão, e este 
último para Vizeu e Porto e por fim para Angola. Mas os que 
assim pensam pretendem que há mais de um século se 
pensasse como hoje, e esquecem-se de que deviam ser quase 
crimes de lesa-majestade o haver, o primeiro revelado os 
projetos de casamento da herdeira do trono com um infante de 
Espanha e o último nada menos do que certos planos de el -rei 
de fazer passar a sucessão da coroa a seu neto o príncipe D. 
José, em detrimento da princesa do Brasil, sua mãe. 
É igualmente acusada a memória do dito primeiro 
ministro Pombal, pelas irregularidades ou faltas de clareza que 
se notam em quanto foi publicado acerca da condenação dos 
réus implicados na tentativa de assassinato do rei em 1758 
(III). Essa acusação desaparecerá, cremos nós, quando venha a 
ser integralmente dado à luz todo o processo, que nos 
asseguram existir em Portugal (76). Mas, pelo que já sabemos, 
na falta de publicação do mesmo processo íntegro, deu o dito 
primeiro ministro mais um aprova de abnegação, expondo até 
a sua reputação, em serviço e dedicação pelo rei. Ele próprio o 
disse na sua célebre “Justificação”, ainda inédita, por estas 
 167 
palavras: “A necessidade pública que fez preciso um 
melindroso segredo de Estado a respeito de alguns fatos que se 
contêm nos Processos”. E em outro lugar: “Não havendo 
confiado o dito monarca o segredo daquele delicadíssimo 
negócio senão aos três secretários de Estado, ... logo que pôde 
passar do leito para o gabinete, no dia 9 de Dezembro” (77). 
Reduzia-se o segredo a que o próprio rei fora o acusador, 
apenas toda a trama lhe foi revelada pela sua favorita, a jovem 
Távora, na primeira visita que lhe fez, depois do atentado. 
Cumpre-nos acrescentar que (pois a sentença acerca das 
consciências compete exclusivamente ao supremo e 
sempiterno Juiz) todos os homens que se ocupam de governo, 
quanto mais estudam a administração de Pombal, mais 
sinceramente a admiram, chegando até a crer que, sem ela , 
Portugal se houvera acaso submergido, “no gosto da cobiça e 
na rudeza”. 
Graças ainda ao auxílio indireto dos capitais e ouro do 
Brasil, para não mencionar um pingue donativo de três milhões 
de cruzados (78) em trinta anos, ou quarenta contos em cada 
ano (79), com que, convidadas pela carta régia de 16 de 
Dezembro de 1755 (80), todas as capitanias deste Estado 
puderam, depois do terremoto do 1º de Novembro de 1755, 
socorrer a capital, a ova Lisboa se levantou como por encanto. 
– Pelo que se o Brasil, pelos nomes das famílias e pela língua 
vernácula, há de testemunhar sempre qual foi o tutor europeu 
que lhe encaminhou os passos, na infância da sua civilização, 
também Portugal não se esquecerá jamais dos socorros que lhe 
ministrou o seu rico pupilo americano, enquanto existir uma 
pedra no enorme aqueduto de Alcântara, no pomposo 
monumento de Mafra, ou nas suas regularissimamente 
 168 
alinhadas da baixa da antiga Ulíssipo. Esta é a verdade, por 
mais que (nem que apostados a evitar justas, políticas e 
convenientes conciliações) defendam partidos opostos as 
opiniões extremas, acerca de quem deve ou é devedor. Não 
cremos razoável, nem generoso, nem nobre, nem animador da 
colonização européia de que tanto carecemos, lembrar de parte 
a parte só o que há de queixa, sem pôr ao lado o muito que 
pede louvor e gratidão. – Do lado da metrópole, e mais ainda 
dos agentes dela, sabemos que houve muitas vezes despotismo, 
injustiças, incoerências, ignorância, e por conseguinte maus 
governo. Mas, não é menos verdade que a corte mostrava 
sempre desejos de caminhar com o possível acerto, e não 
deixava de repreender e de castigar o procedimento dos 
governadores menos observantes das leis. A própria 
independência que concedia aos magistrados, às câmaras, aos 
bispos e às ordens religiosas e que foram causa de tantas 
desordens, eram, para essas corporações e para os povos, 
verdadeiras garantias de liberdade, que não existiriam em 
governos propriamente despóticos. 
Além de que, as faculdades dos mesmos governadores, 
não deixavam de estar sopeadas pela independência do poder 
judicial, exercido pelas relações, ouvidores e juízes, pelas 
garantias dos empregados do fisco, e pela autoridade de certas 
juntas e até das câmaras ou municipalidades. Não faltaram, é 
verdade, governadores, em geral saídos da classe militar, 
ignorantes dos mais triviais princípios do governo político, 
que se entremetessem a alterar as formas dos processos, que se 
envolvessem nas questões de propriedade, dando sesmarias já 
concedidas a outros, que fossem menos observantes das leis, 
que à vezes até ignoravam; mas alguns se poderão citar que 
 169 
administravam admiravelmente, ou que, nos próprios ofícios à 
corte e nas instruções por escrito que deixaram a seus 
sucessores, mostraram especial conhecimento dos assuntos 
mais importantes da capitania, e grande ciência de governo, e 
muito juízo prudencial. – Os governadores não podiam 
comerciar por si, nem por outrem, nem lançar nos bens que 
iam à praça; nem mandar fazer seqüestros; nem receber 
presentes; nem aceitar cessões de dívidas; nem consentir que 
as aceitassem seus criados. Igualmente não podiam mandar 
tirar devassas; nem prender sem culpa formada; nem dar 
auxílios ara prisões, senão por ordens das justiças dos 
distritos; nem podiam conceder ajudas de custo; nem abrir 
cartas particulares, ainda a pretexto de averiguar descaminhos 
da fazenda; nem proibir os descobrimentos em terra incultas. – 
Não podiam, nem tampouco os ouvidores e juízes de fora, 
contratar casamento no círculo de suas jurisdições. Deviam os 
governadores além disso evitar eficazmente que os oficiais da 
justiça e fazenda levassem às partes emolumentos excessivos, 
cuidando que os ministros observassem o regimento de seus 
salários, e não faltassem às suas obrigações. Também eram 
obrigados a mandar logo aos ministros as cartas do serviço 
recebidas para eles; a fazer que as eleições dos juízes dos 
órfãos tivessem lugar ao mesmo tempo em que as das mais 
justiças; e a não consentir que os ouvidores passassem 
provimento aos oficiais que serviamcom eles. Era-lhes 
proibido arbitrar salários aos ministros, ou passar-lhes 
atestados durante o tempo em que exerciam lugares. Não 
podiam convocar a palácio as câmaras, sem necessidade 
urgente, a benefício delas ou do serviço público; nem permitir 
que elas lançassem fintas. E só das mesmas câmaras podiam 
 170 
receber por aposentadoria casas e camas, para si e suas 
comitivas: aos oficiais das mesmas não podiam obrigar a que 
os fossem visitar em corpo de câmara. Não deviam intrometer-
se nas eleições dos oficiais de ordenanças, nem criar novos 
postos. Nos preenchimentos das vagas deviam justificar estas 
com documentos, e atender às propostas das câmaras. Também 
lhes era proibido ter criados com praça de soldados; 
providência esta que se fez extensiva acerca dos ministros. 
Tantas peias tinham os governadores pela lei, que acaso 
algumas vezes não poderiam eles ter a necessária autoridade 
para governar na distância a que se achavam da metrópole, se 
as tendências naturais do instinto de conservação e de mando 
lhes não fizessem propender para o arbítrio. – Em vista das 
ditas peias, que expusemos, pudéramos desconfiar que a 
administração devia principalmente ressentir-se de falta de 
centralização tão encomiada pelo ilustre Timon da França (81), 
quando chegou, no tratado especial acerca da mesma 
centralização, a afirmar que “quanto mais se concentra a 
autoridade, menos pesa sobre os governados; e quanto mais se 
divide e desce, também mais se apresenta com o caráter das 
humanas paixões”. E com efeito, já nesse tempo a própria 
experiência provava que, sobretudo nos sertões menos 
habitados, não era pelo excesso de autoridade dos 
governadores que mais pecava a boa administração da justiça; 
pois o influxo deles era em geral benéfico aos povos, contra as 
demasias e prepotências dos capitães-mores locais, que 
alguém, não sem malícia nem sem razão, se lembrou de 
comparar a certos potentados de nossos dias, revestidos com a 
fita de juiz de paz ou as dragonas de comandante superior da 
guarda nacional. Desgraçadamente, a experiência prova que os 
 171 
países menos povoados passam sempre uma época com 
tendências feudais, seja qualquer o nome que se dê aos 
suseranos, que acabrunham os pequenos, quando, aliás, na 
cabeça do Estado e nas cidades populosas a administração da 
justiça corre com a maior regularidade. Felizmente, as estradas 
de ferro, e os vapores acabarão essas tendências, esta-
belecendo a polícia mais rigorosa, equilibrando a população, e 
melhorando-a pelos dois grandes meios civilizadores: a 
indústria que subministra ao homem os maiores cômodos da 
vida; e a observância da religião, que o beneficia moralmente. 
Depois dos capitães-mores, eram, mais que os 
governadores, causas de imoralidade e arbítrios os empregados 
subalternos, tanto da justiça, como da fazenda; pois que, 
dando-se a princípio de preferência os ofícios aos que 
ofereciam para as urgências do Estado maiores quantias, veio 
isso a degenerar em abuso, a tal ponto que havia na corte 
agentes ou corretores deles, e às vezes recaíam em indivíduos 
de procedimento menos regular. A esses abusos pôs cobro el -
rei D. José, que, por carta régia de 20 de Abril de 1758, 
mandou às capitanias do Brasil Antônio de Azevedo Coutinho, 
do Conselho Ultramarino, a fim de proceder nelas à 
arrematação dos mesmos ofícios, entre os indivíduos dignos de 
os exercer (82). 
Como delegados de el-rei D. José na administração das 
capitanias do Brasil prestara serviços mais importantes, além 
do conde de Bobadela e da Cunha, o vice-rei marquês de 
Lavradio. 
Em seu largo vice-reinado de dez anos e cinco meses, o 
marquês de Lavradio, que antes governava na Bahia, em meio 
dos cuidados em que se viu com as hostilidades e guerras no 
 172 
Sul, com o maior zelo e inteligência, a todos os ramos da 
administração. Ao passo que se entregava à organização da 
milícia, animava os estudos, protegia os estudiosos e cuidava 
do aformoseamento da capital, que ainda à sua memória dedica 
o nome de uma de suas ruas. Ao mesmo tempo se dedicava, 
com o maior empenho, a favorecer o desenvolvimento das 
indústrias agrícolas no país, e com especialidade as do anil, 
cochonilha, queijos e manteigas (83). E todos sabem que no 
seu tempo nasceram e floriram, em uma chácara de 
Mataporcos, do holandês João Hopman, as plantas de café que 
deram as sementes para todo o Sul do Brasil (84). 
Quanto ao seu caráter, preferimos deixar que nos dê 
dele idéia um eloqüente frade, seu contemporâneo (85), no 
sermão que, depois do seu falecimento, recitou na catedral do 
Rio de Janeiro: ouçamo-lo: 
“... homem singular, em quem o contágio da dignidade, 
e da grandeza não tinha feito mudar o aspecto, nem corromper 
o coração. Não o cercou nunca aquela nuvem medonha, que, 
escondendo a autoridade de que necessitam os povos, deixa 
com tudo aparecer uma soberba que os aterra (86). Brilharam 
sempre do redor de sua presença os sinais mais evidentes de 
seu amor para convosco, e vós sois testemunhas daquela 
candura que pintava em seu rosto e seus afetos. Viu-se na sua 
pessoa aquela união prodigiosa que poucas vezes faz o poder 
com a ternura e a justiça com a humanidade Despendeu 
liberalmente convosco aquele tesouro de talentos preciosos 
que tinha recolhido em sua alma, e fez da vossa felicidade o 
unido objeto dos seus cuidados.” 
Do seu grande tino governativo pode-se fazer perfeita 
idéia, em presença das explicações por ele próprio dadas ao 
 173 
seu jovem sucessor acerca do modo como alcançara apaziguar 
muito os turbulentos habitantes do distrito de Campos. Ei -las 
(87): “... como aquelas gentes ainda estão com as idéias muito 
frestas da má criação que tiveram, é necessário, enquanto não 
passam mais anos, não dar a nenhum deles um poder e 
autoridade que, enchendo-os de vaidade, possa vir a dar um 
cuidado que traga consigo maiores conseqüências. Eu tenho 
seguido o sistema de dar ali muitas sesmarias, de facilitar às 
pessoas desta capital que se vão para ali estabelecer. Tenho 
mandado vir a muitos para lhes falar; tenho-os aqui 
conservado por algum tempo, para os costumar a ver como os 
povos vivem sujeitos; e que vejam o modo com que se respeita 
e obedece aos diversos magistrados, e às pessoas que mais 
representam: e em todo o tempo que aqui estão, procuro que 
estejam muito dependentes; e por fim os mando retirar, 
fazendo-lhes sempre algum benefício. Por este modo se tem 
ido sujeitando de sorte que já hoje não acontecem aquelas 
horrorosas desordens, que todos os dias inquietavam os 
governadores desta capitania. É preciso ter um grandíssimo 
cuidado em não consentir que para ali se vão estabelecer 
letrados rábulas ou outras pessoas de espíritos inquietos; 
porque, como aqueles povos tiveram uma má criação, em 
aparecendo lá um desses, que falando-lhes uma linguagem 
mais agradável ao seu paladar, convidando-os para alguma 
insolência, eles prontamente se esquecem do que devem, se 
seguem as bandeiras daqueles. No meu tempo assim sucedeu, 
por causa de um advogado chamado José Pereira, que 
parecendo-me homem manso e de boas circunstâncias, o fiz 
juiz das sesmarias daquele distrito, o qual fez tais desordens 
que até se fomentou um levantamento, e se naquela ocasião eu 
 174 
seguisse os meios ordinários, e não tomasse uma resolução 
extraordinária, ficariam de todo arruinados os utensílios e 
excelentes estabelecimentos, que ali estão hoje adiantados. Eu 
mandei buscar este homem e aqueles que com ele mais 
procuravam representar, tive-os por muitos meses reduzidos a 
uma aspérrima prisão; mascarei-os atéo último ponto; e, com 
este meu procedimento, se intimidaram todos os outros, e 
depois de estar tudo sossegado, tornei a permitir -lhes que 
voltassem para que pudessem contar o que lhes tinha sucedido; 
e lhes disse que a primeira notícia que eu tivesse de alguma 
inquietação por aquelas partes, eles seriam os primeiros que 
me fossem responsáveis de todas aquelas desordens. Com isso 
consegui o serem eles os primeiros, quando voltaram, que 
procuravam a quietação de todos, de sorte que hoje tudo se 
conserva na maior tranqüilidade”. 
Além dos condes de Bobadela e da Cunha e do marquês 
de Lavradio, distinguiram-se também neste reinado, D. 
Antônio Rolim de Moura, conde de Azambuja, pela sua 
atividade nos governos de Mato Grosso, Bahia e Rio, e D. 
Álvaro Xavier Botelho, conde de São Miguel, pelas 
prevaricações escandalosas que lhe foram provadas em seu 
governo de Goiás, de 1755 a 1759 (88), embora ele se 
chegasse a queixar que haviam passado três anos sem receber 
nenhuma comunicação da metrópole. 
Em Minas, fez-se muito notável o governador (1768-
1773) conde de Valadares, D. José Luís de Menezes, que, 
apesar de sua pouca idade, sendo menor de vinte e cinco anos 
(89), quando tomou posse do bastão, soube fazer respeitar a 
autoridade (90), perseguindo os malfeitores, e reduzindo o 
numeroso quilombo do Bateeiro na comarca do Rio das 
 175 
Mortes. 
Pelo que respeita à sua integridade, formamos dela 
desfavorável idéia desde que tivemos conhecimento do notável 
fato que passamos a narrar (91). Oito dias depois de seu 
regresso de Minas, procurou-o o marquês de Pombal, e lhe 
pediu emprestados noventa mil cruzados. Entregou-lhos o 
conde, em 12 de Março de 1768; e nesse mesmo dia mandou 
Pombal que se desse entrada desta soma no erário, e 
efetivamente se abriu sobre ela assento a fls. 122 v. do livro 2º 
dos ofícios da fazenda; declarando serem dela, cinqüenta, por 
um ofício conferido a José Rodrigues do Amaral, de Mariana, 
e quarenta, de outro dado a Bento José Gomes, de Vila Rica. – 
Em Maio de 1778, vendo Valadares a grande reação contra 
Pombal, foi queixar-se à rainha da dívida em que lhe estava o 
dito ex-ministro. Sendo este ouvido, respondeu, em 14 de 
Maio, ser verdade haver recebido os noventa mil cruzados, e 
citando a folha do livro do erário em que se achavam lançados, 
e a razão por quê, acrescentando porém que, apesar disso, 
entregaria a mencionada soma ao conde, se a rainha o 
ordenasse. 
Acerca dos trajes no Brasil (92) baste-nos dizer que se 
iam seguindo à risca as modas da metrópole, que por sua parte 
seguia as do resto da Europa. Estavam em voga, até para os 
soldados, as cabeleiras com rabicho, os chapéus à Frederica, as 
fardas desabotoadas, redondas, nas abas, as camisas de folhos, 
e os calções com fivelas, sapatos e polainas. 
A administração de Pombal, apesar de tão votada a 
promover os interesses materiais do país, não deixou de ser 
muito propícia às letras, e aos brasileiros que nestas se 
distinguiram. – O favor que durante ela receberam os dois já 
 176 
mencionados fluminenses, irmãos, reformadores da 
Universidade, bispo-conde D. Francisco de Lemos, e João 
Pereira Ramos, procurador da coroa e guarda-mor da Torre do 
Tombo, se estendeu a outros muitos brasileiros. O modesto 
autor da História Eclesiástica Lusitana , D. Tomás da 
Encarnação (93) e o franciscano Fr. Antônio de Santa Maria 
Jaboatão (94) deixaram-nos obras que ainda os recomendam. – 
Também foi obra desse reinado a Etiópia resgatada, que deu à 
luz em 1758 o padre Manuel Ribeiro da Rocha, na qual já este 
filantropo autor propõe a idéia de ser o tráfico declarado 
pirataria, e de poderem os escravos resgatar a sua liberdade ao 
cabo de cinco anos de cativeiro. – O distinto mineiro, autor do 
poema épico Uraguai, José Basílioda Gama, foi honrado com a 
confiança do ministro, que o escolheu para seu oficial de 
gabinete, com carta, foros e escudo de nobreza. Igualmente 
não deixaram de encontrar favor em Pombal os nossos poetas 
Cláudio Manuel da Costa, Manuel Inácio da Silva Alvarenga, 
Inácio José de Alvarenga Peixoto, e até já o próprio Domingos 
Caldes Barbosa. O fluminense Feliciano Joaquim de Sousa, 
deixou-nos, entre outros escritos, a sua Política Brasílica (95). 
O bispo do Pará D. Fr. João de São José legou-nos o seu 
Diário (1762-1763) (96), sento também valiosos, acerca das 
terras do Amazonas, os escritos do vigário-geral do Rio Negro 
José Monteiro de Noronha (97) e do ouvidor Francisco Xavier 
Ribeiro de Sampaio (98); João da Silva Santos viajava em 
1764 (99) pelo Jequitinhonha, e o governador de São Paulo 
Luís Antônio de Sousa Explorava, pouco depois (1768), 
pessoalmente, os rios Tibagi e Ubaí (100). 
Pouco diremos das três associações literárias que 
contou o Brasil durante este reinado. A dos Seletos, no Rio de 
 177 
Janeiro, em 1752, de que foi secretário um ex-ouvidor de 
Paranaguá, Manuel Tavares de Sequeira e Sá, teve 
principalmente em vista um certame em favor do governador, 
e as suas produções foram publicadas na coleção Júbilos da 
América (101). 
A dos Renascidos, que se instalou na Bahia em 1759, 
debaixo dos mais favoráveis auspícios (IV), com quarenta 
acadêmicos de número (todos residentes na Bahia) e oitenta e 
três supranumerários, com estatutos bem pensados, e que 
chegou durante vários meses a ter sessões regulares duas vezes 
por mês, e viu-se dissolvida pela misteriosa prisão do seu 
diretor ou presidente (V), o conselheiro José Mascarenhas 
Pacheco (o qual, comprometido na questão dos jesuítas, foi 
remetido preso à corte em 1760, e não veio a sair solto senão 
em 1777) produziu um interessante livro, ainda manuscrito, a 
História Militar do Brasil de 1547 a 1562, pelo sócio tenente-
coronel José Mirales (VI). 
A Científica foi instituída no Rio de Janeiro em 
Fevereiro de 1772, pelo médico do vice-rei Lavradio, José 
Henriques Ferreira, que foi dela o presidente (VII). 
Entretanto, no reinado de D. José, no Brasil, não eram 
tanto os escritos de literatura amena, como os que continham 
informes estatísticos do país, os que mais fomentava o 
governo, e que efetivamente se escreviam. Ainda hoje se 
guardam em Lisboa, nos arquivos do Conselho Ultramarino, 
maços e maços, contendo muitos de tais informes, que 
esperamos hão-de um dia ser dados ao prelo (102). De uma 
dessas estatísticas acerca da capitania de Pernambuco e suas 
subalternas, Ceará, Rio Grande, Paraíba e Alagoas, em 1774, 
temos cópia, e dela aproveitaremos os seguintes fatos (103). 
 178 
Contava o Ceará mais de 34 mil almas, o Rio Grande passante 
de 21 mil, a Paraíba de 30 mil, e Pernambuco 175 mil, 
incluindo as comarcas das Alagoas e do Penedo, relacionadas 
pelas listas das desobrigas das freguesias. No Ceará contavam-
se 972 fazendas; no Rio Grande 283; na Paraíba 869; em 
Pernambuco 516. Havia nas oito comarcas de Pernambuco 360 
engenhos e na Paraíba 37. O sobrante das rendas públicas 
montava em Pernambuco acima de 14 contos (104); na Paraíba 
perto de 13; no Rio Grande a mais de 5; e no Ceará (produto 
dos dízimos) a mais de 11. - Os tributos, fontes dessa receita, 
eram além dos dízimos, o subsídio do açúcar e das carnes e do 
tabaco, donativo da alfândega, novos direitos dos ofícios e 
cartas de seguro, direito de caixas, passagem de alguns rios, 
pensão dos engenhos, pesqueiros do mar, etc. 
Acerca da Bahia o seu termo escrevera em 1757 uma 
estatística o medidor da cidade Manuel de Oliveira Mendes 
(VIII). Havia 17 freguesias; mas o autor só designa os fogos e 
almas de 14; subindo aqueles a 8.026 e estas a 46.455. – Em 
São Paulo, a renda provincialem 1776 montava a 47:900$599, 
e a despesa ordinária subia a 49:429$869; havendo portanto 
um excesso de 2:339$270; isto sem contar os enormes gastos 
com as tropas da capitania estacionadas no Sul, os quais 
corriam à conta do vice-reinado. A respeito de Minas 
preparava o desembargador José João Teixeira Coelho uma 
mui importante notícia estatística, hoje impressa (105), e da 
qual trataremos, com mais extensão, na secção seguinte. Da 
Estatística do Ceará se ocupava o coronel Antônio José 
Vitoriano Borges da Fonseca, autor da Nobiliarquia 
Pernambucana (106), que ali estivera dezesseis anos de 
capitão-mor. Do Rio de Janeiro, em fins de Janeiro e 
 179 
princípios de Fevereiro de 1751, nos deixou uma idéia o 
matemático La Caille (107), que então aqui esteve, morando 
na rua do Rosário. A população da cidade se avaliava em 
cinqüenta mil almas. Nas janelas e portas viam-se urupemas. 
Nas esquinas havia nichos diante dos quais se rezava o terço. – 
No largo do Paço se construía o chafariz (108). 
Das relações contemporâneas de festas públicas nos é 
dado coligir algumas notícias curiosas acerca do estado das 
artes (109). – Pelo que respeita à Bahia, muito minuciosas 
notícias nos dá uma relação escrita (1761) por Francisco 
Calmon, sócio dos Renascidos (110), acerca das festas 
celebradas pelos desposórios da princesa, depois D. Maria I 
(111). – A um bando, em que saíram a cavalo o porteiro da 
câmara e meirinhos, vestidos à cortesã, ao som de atabales e 
mais instrumentos, seguiram-se danças, fogos e comédias. – 
Entre as danças, distinguiram-se não só as dos mesteres; v. gr. 
a dos cutileiros e carpinteiros, com farsas mouriscas, a dos 
alfaiates, a dos sapateiros e correeiros, como a dos Congos, 
que muito agaloados, anunciavam a vinda de um rei negro, o 
qual depois aparecia com a sua corte e sovas, dançando as 
talheiras e quicumbis, ao som de seus instrumentos: seguiam-
se índios emplumados e de arco e flechas, saindo de ciladas. E 
por fim houve canas, escaramuças e argolinhas, e se 
representaram a comédia Porfiar amando e a ópera Anfitrião, 
muito provavelmente a de Antônio José (112). – Mais curiosa 
que esta, de notícias verdadeiramente interessantes para as 
artes, é outra anterior acerca dos festejos com que Pernambuco 
celebrou a aclamação de el-rei D. José, publicada pelo oficial 
maior da secretaria do governo da capitania, Filipe Néri 
Correia (113). Nela se descrevem minuciosamente os artefatos 
 180 
do teatro, devidos ao artilheiro Miguel Álvares Teixeira; nela 
se diz que a música foi obra do compositor mestre de capela da 
sé, o padre Mestre Antônio da Silva Alcântara; dela finalmente 
se vê que as comédias La sciencia de reinar, Cueba y costillo 
de amor e La piedra filosofal, que se representaram nos dias 
14, 16 e 18 de Fevereiro de 1752, foram ensaiadas pelo 
compositor dramático Francisco de Sales Silva. Das artes do 
Rio nos oferece algumas notícias uma Epanáfora festiva 
acerca do nascimento do príncipe real em 1763 (114). Nessa 
última festa não somente se correram touros e praticaram 
escaramuças, com argolinha, alcanzias e canas, como saíram 
também à rua danças de ciganas, dos cajadinhos, com gaitas 
de foles, dos cavaleiros, além das dos alfaiates, carpinteiros e 
pedreiros, e das dos marceneiros e sapateiros, cada uma destas 
últimas com seu carro. Concluiu a festa com índios caçando, 
com pardos e congos divertindo-se, e afinal com um castelo e 
navio de fogo, que arderam, etc. 
 
 
NOTAS EM NÚMEROS ARÁBICOS 
 
(1) Conde de Oeiras em 6 de Junho de 1759; marquês de Pombal 
em 17 de Setembro de 1770. – Filho de Manuel Carvalho de Ataíde, que 
servira nas armadas da costa e fora capitão de cavalos, e de uma senhora 
que descendia dos morgados de Souto de El -rei; nasceu em Lisboa a 13 de 
Maio de 1699 e faleceu em 8 de Agosto de 1782. Sua genealogia não se 
insere, como se pretendeu, no trono pernambucano de D. Paulo de Morai, 
filho do governador D. Filipe de Moura e de D. Genebra Cavalcanti. – 
Conf. Pedro A. de Azevedo, Os Antepassados do Marquês de Pombal , in 
Arquivo Histórico Português, 3, 231/331. – Veja a nota II, secção XXV, 
tomo segundo desta História, pág. 123. – (G.). 
 
 181 
(2) Aqui podemos repetir com o sábio Augusto Theiner, na 
História de Clemente XIV: “Cada vez que lançamos os olhos sobre 
quaisquer inúmeras obras publicadas de oitenta anos a esta parte, com 
nomes dos autores ou sem eles, pelos jesuítas ou pelos seus amigos... um 
sentimento de dor e de tristeza se apodera de nós... vendo a pouca justiça 
e caridade com que nelas se trata não só de Clemente XIV, como de 
outros personagens célebres, que, embora não isentos de alguma fraqueza, 
não deveram ser tratados inclusivamente com infâmia”. – (A.). – A obra 
de Theiner, mais vulgar na tradução francesa, intitulou-se – Histoire du 
Pontificat de Clément XIV , Paris, 1852. – (G.). 
 
(3) Embaixador de França, conde de Baschi, of ício de 11 de 
Novembro de 1755, Santarém [Quadro Elementar], 6, 70/71. – (A.). – E 
acrescentava que “a abundância reinava na cidade sem carestia”. – (G.). 
 
(4) A estátua de D. José noc entro da praça do Comércio, em 
Lisboa, terreiro do Poço antes do terremoto foi inaugurada a 6 de Junho 
de 1775. O escultor foi Joaquim Machado de Castro e o fundidor 
Bartolomeu da Costa, que conseguiu fundi -la de um só jacto. No pedestal 
figurava a efígie do marquês de Pombal. Quando o ministro caiu em 
desgraça, em uma note de Abril de 1777, foi sua efígie arrancada do lugar 
e substituída pelas armas da cidade. Bartolomeu da Costa escondeu -a no 
arsenal de guerra, onde, passados tempos, foi encontrada e restituída ao 
monumento, por um decreto de D. Pedro, duque de Bragança, de 10 de 
Outubro de 1833. – Conf. John Smith, Memoirs of the marquis of Pombal , 
2, 291/294, Londres, 1843. – (G.). 
 
(5) De Francisco de Albuquerque Coelho de Carvalho: 1:200$000. 
– (A.). – A capitania foi mandada incorporar à coroa pela carta régia de 1 
de Junho de 1752, Revista do Instituto Histórico, 69, parte 1ª, 192. – (G.). 
 
(6) Título de visconde de Mesquitela e 1:200$000 de pensão. – 
(A.). – Da Gazeta de Lisboa, de 9 de Maio de 1754: “Foy S. M. 
fidelissima servida de reunir á sua Real Corôa a Ilha grande de Joanne, 
sita na boca do Rio das Amazonas, de que o Senhor Rey D. Affonso VI 
fez mercê de juro e herdade fóra da Ley mental a Antonio de Sousa de 
Macedo (sexto neto sempre por varonia do famoso Martim Gonçalo de 
Macedo, que na batalha de Aljibarrota salvou a vida ao Senhor Rey D. 
Joam I, de cujo acçam se conserva a memoria, nam só nas historias do 
Reyno, mas no braço armado com huma massa na mão, que serve de 
 182 
timbre ao escudo de suas armas), em remuneração aos relevantes serviços 
que tinha feito a esta Corôa, sendo Embaixador na Republica de Hollanda, 
e na Côrte da Inglaterra; dando em satisfaçam a seu bisneto Luis de Sousa 
de Macedo, terceiro Maram da dita Ilha grande, o senhoria da Villa de 
Misquitela, na Província da Beira, com toda a jurisdicçam civi l, mudando-
lhe o título de Baram em Bisconde de Misquetela, alem de 30.000 
cruzados de renda cada anno, tudo de juro e herdade, tres vezes fóra da 
Ley Mental”. – A renda dada ao donatário pelo equivalente da Ilha 
Grande, foi apenas de tres mil cruzados, e não de trinta mil, conforme 
retificou a Gazeta seguinte, de 16 de Maio. – Conf. tomo terceiro desta 
História, págs. 199 e 213, nota II. – (G.). 
 
(7) Porteiro-mor José de Melo Sousa; pensão de 600$000. – (A.). 
– José de Sousa e Melo chamava-se o porteiro-mor, que faleceu em 
Lisboa, a 27 de Fevereiro de 1750, com setenta e oito anos de idade.A 
transação da capitania foi feita com seu filho e sucessor Manuel Antônio 
de Sousa e Melo, como noticiou a Gazeta de Lisboa, de 15 de Novembro 
de 1753: “Havendo S. Mag. Fidelissima resolvido reunir á sua Real Coroa 
todos os dominios ultramarinos, doados por mercê dos Senhores Reys 
seus predecessores a alguns Senhores particulares, por meyo de 
subrogaçoens, se assinou em 8 do corrente a Escritura celebrada com o 
Porteiro mór Manuel Antonio de Dousa e Mello, que cede a Sua 
Magestade o Senhorio da Capitania de Cayté no Estado do Maranham, 
pela mercê da Villa de Anciões, de juro e herdade, dispensada três vezes a 
Ley mental, com a data de todos os Officios, e nomearam de Ouvidor, e 
de 600$000 de juro cada anno, pagos pelos effeitos do Conselho 
Ultramarino, com todas as mais circunstancias, e regalias da mercê da 
capitania cedida”. – (G.). 
 
(8) Estava unida à primeira [de Cametá]. – (A.). – Conf. o tomo 
terceiro desta História, pág. 151, nota 5, - (G.). 
 
(9) Comprada aos marqueses de Loriçal, herdeiros do de Cascais. 
– (A.). – D. Luís José Tomás de Castro Noronha Ataíde e Sousa, nono 
donatário dessa capitania, faleceu a 14 de Março de 1745, sem geração. 
Passou a donataria ao marquês de Louriçal, que a vendeu à coroa. – 
Capistrano de Abreu, nota a Frei Vicente do Salvador, História do Brasil, 
109, Rio, 1887. – (G.). 
 
 183 
(10) Do armador-mor [aliás armeiro-mor] José da Costa e Sousa: 
pensão 64$000. – (A.). – A capitania do Recôncavo originou-se da 
sesmaria dada pelo segundo governador-geral D. Duarte da Costa, em 
Janeiro de 1557, a seu filho D. Álvaro, abrangendo da narra do Paraguaçu 
da parte do sul, até a barra do Jaguaripe, quatro léguas de costa, pouco 
mais ou menos, e para o sertão, pelo dito rio acima dez léguas. Essa 
sesmaria teve confirmação régia a 12 de Março de 1562; a 29 de Março de 
1566 foi elevada a capitania, com a mesma extensão de costa, mas sendo a 
largura das dez léguas para o sertão a que houvesse entre os dois rios 
Jaguaripe e Paraguaçu. D. Álvaro da Costa faleceu por 1578, porque a 8 
de Abril Pedro Carreiro concedeu uma sesmaria em seu nome e como seu 
procurador, e a 16 de Julho Cristóvão de Barros pediu outra a Sebastião 
Álvares, mas como procurador de D. Leonor de Sousa, sua viúva, e de seu 
filho menor D. Duarte da Costa. Este foi o segundo donatário; seguiram-
se outros, sendo nono e último D. José da Costa, que faleceu sem 
sucessão a 10 de Março de 1766. Dele foi que passou a capitania para a 
coroa. – Conf. Capistrano de Abreu. op. cit., 107/108. – (G.). 
 
(11) Como a quinta [de Itamaracá]. – (A.). – Essa capitania tem 
origem na sesmaria dada em Abril de 1552 por Tomé de Sousa a D. 
Antônio de Ataíde, conde da Castanheira, confirmada pelo rei em 10 de 
Maio de 1556 e convertida em capitania, compreendendo as ilhas de 
Itaparica e Tamarandiva, a 10 de Novembro do mesmo ano. Por morte do 
conde, sucedeu-lhe seu filho, segundo conde da Castanheira; o terceiro 
donatário foi D. Manuel de Ataíde, seguindo-se outros condes da 
Castanheira, até o segundo marquês de Cascais, neto do terceiro conde da 
Castanheira, ao qual coube grande parte de sua casa, inclusive a capitania, 
que assim passou a ter os mesmos donatários que a de Itamaracá. – Conf. 
Capistrano de Abreu, op. cit., 106/107. – (G.). 
 
(12) Título de conde de Resende, e pensão de dois contos de réis. 
– (A.). – O oitavo e último donatário foi D. Antônio José de Castro, que 
vendeu a capitania à coroa, sendo em compensação criado conde de 
Resende, de juro e herdade, dispensado três vezes na Lei mental em 10 de 
Junho de 1754. Na mesma forma de juro e herdade, com a mesma 
dispensa na Lei mental, concedeu-lhe D. José I o ofício de almirante do 
Reino, e cinco mil cruzados de renda. – Conf. Capistrano de Abreu, op. 
cit., 106; Memórias Históricas, 2, 420/421, 2ª edição; secção XL desta 
História, nota 98. – (G.). 
 
 184 
(13) Confiscada à casa de Aveiro, herdada pelos marqueses de 
Gouveia, em 1749, a poder de muita proteção de que dispunham na corte 
de D. João V. a Capitania, depois de ter saído duas vezes da casa de 
Aveiro para um filho segundo, entrara nela de novo (em 1637), pela 
herança do duque de Torres Novas. Depois uma sentença a adjudicou à 
coroa; porém, em 1724, foi adjudicada a D. Gabriel de Alencastro Ponde 
de Leon [duque de Banhos, D. Gabriel Pereira de Leon Lencastro]. – Veja 
as Alegações Jurídicas, do Dr. Francisco Velasco de Gouveia, Lisboa, 
1637; Manuel Lopes de Oliveira, ibidem, 1666; Padre Bibiano Pinto da 
Silva, Ibidem, 1666; Miguel Lopes de Leão, Lisboa Ocidental, 1719, (em 
casa do conde de Unhão, em magnífico papel); e Sebastião Martinez de 
Cabezon, Madri, 1 vol. de 1223 págs. in-fol. – (A.). – Por morte do duque 
de Banhos, em 1745, foi seu sucessor por sentença de 1749, o marquês de 
Gouveia. A esse, executado a 13 de janeiro de 1759 como regicida, foi 
confiscada a capitania e definitivamente incorporada à coroa. – Conf. 
Capistrano de Abreu, op. cit., 105. – (G.). 
 
(14) Aos viscondes de Asseca, padrão de 1:600$000. – (A.). – 
Veja a nota IX da secção XL. – Conf. Alberto Lamego, A Terra Goitacá, 
2, 455/457. – (G.). 
 
(15) Ao conde da Ilha do Príncipe, pelo título de Linhares [aliás 
Lumiares] e um padrão de 1:600$000 de juro. – (A.). – O undécimo 
donatário foi Carlos Carneiro de Sousa, quinto conde da Ilha do Príncipe, 
que vendeu a capitania a D. José I, obtendo em compensação, por decreto 
de 29 de Outubro de 1753, o título de conde de Lumiares, com diversos 
privilégios e favores, Capistrano de Abreu, op. cit., 101. – (G.). 
 
(16) Lei de 10 de Novembro de 1774 (Delgado, Coleção da 
Legislação Portuguesa, 2, 617/619). – O subsídio literário cobrava-se na 
carne e licores. Ainda em 1831 se orçava a sua renda em todo o império 
do Brasil em uns 157 contos. – (A.). 
 
(17) J. Lúcio de Azevedo, Novas Epanáforas, 23, Lisboa, 1932, 
encontra pouco fundamento histórico neste asserto do autor. – Conf. 
terceiro tomo desta História, p[ag. 200. – (G.). 
 
(18) Antônio José Landi, italiano, de Bolonha, nasceu em 1708. 
Era professor de arquitetura e perspectiva no Instituto de Ciências 
daquela cidade, quando passou a Portugal, contratado por D. João V, 
 185 
como arquitecto. Nomeado para a comissão de limites organizados em 
execução do tratado de 1750, e designado para a divisão do Norte, 
embarcou em Lisboa a 2 de Junho e chegou ao Pará a 19 de Julho de 
1753. Esteve em Barcelos como comissário principal Francisco Xavier de 
Mendonça Furtado. Encerrados os trabalhos de demarcação, voltou ao 
Pará em 1761, e aí casou com uma filha do sargento-mor de Sousa de 
Azevedo. Por patente de 6 de Maio de 1768 foi nomeado capitã o do 
segundo terço de infantaria auxiliar. Em Belém trabalhava em 
levantamento de plantas e construção de edifícios públicos e particulares 
(palácio do governo, igreja de Santa Ana, etc.), quando foi de novo 
mandado servir na comissão de limites, decorrente do tratado de 1777, 
servindo com João Pereira Caldas. Por ter sido atacado de paralisia em 
1787, voltou a Belém, onde veio a falecer em 1790. – Conf. Manuel 
Barata, Apontamentos para as Efemérides Paraenses, 48/49, Rio, 1925. – 
(G.). 
 
(19) A Companhia Geral do Comé4rcio do Grão-Pará e Maranhão 
foi requerida em 1754 e confirmada pelo alvará de 7 de Junho do ano 
seguinte, Delgado, Coleção da Legislação Portuguesa, „, 376/391, 
391/392. A concessão foi de vinte anos a contar da saída do primeiro 
navio do porto de Lisboa, o que se realizou a 26 de Abril de 1756. O 
alvará de 6 de Fevereiro de 1757 ampliou os privilégios da Companhia, 
Coleção citada, 1, 490/492. Foiextinta pela resolução régia de 25 de 
Fevereiro de 1778; mas a liqüidação das contas durou m uitos anos. A 
empresa poderia ter sido útil ao Maranhão; que não o foi ao Pará, 
demonstrou J. Lúcio do Azevedo, Estudos Paraenses, Pará, 1893. – (G.). 
 
(20) Notícias historicas praticas de los sucessos y 
adelantamientos (de esta Compañia), Madri, 1765. – (A.). 
 
(21) Gaioso [Raimundo Jose de Sousa], Compêndio Histórico-
político [dos princípios da lavoura do Maranhão, etc., Paris, 1818], pág. 
XXI. – Baena, Compêndio das Eras, 294. – “A idade do ouro da lavoura 
desta província (Maranhão) data do estabelecimento da Companhia do 
Comércio”, etc. – Cruz Machado, Relatório [do Presidente da Província], 
de 1856, pág. 74. – (A.). 
 
(22) Por alvará de confirmação de 13 de Agosto de 1759, 
precedido do requerimento de sua instituição pelos homens de negócio 
 186 
das praças de Lisboa, Porto e Pernambuco, em 30 de Julho do mesmo ano, 
Delgado, Coleção citada, 1, 695/713. – (G.). 
 
(23) Deste modo temos a idéia da esfera del -rei DS. Manuel 
adotada pela Companhia do Brasil em 1649, e a das estrelas para as 
províncias, muito antes dos Estados Unidos. – (A.). 
 
(24) Regimento de 16 de Fevereiro [aliás Janeiro] de 1751. – 
Decreto de 17 [aliás 27] do dito. – Delgado, Colecção, 1, 32/38, 38/40. – 
(A.). 
 
(25) Alvará de 29 de Abril e resolução de consulta de 12 de Maio 
de 1766, Delgado, Coleção, 2, 243/244 e 245. – (A.). 
 
(26) Regimento das casas de inspeção, de 1 de Abril de 1751, 
Delgado, Coleção, 1, 54/59. – (A.). 
 
(27) Veja o Regimento de 16 de Janeiro de 1751 e [alvará de 15 
de Julho de 1775. – (A.). – Delgado, Coleção, 1, 32/38, e 3, 50/59. – (G.). 
 
(28) Sistema ou Coleção dos Regimentos Reais, 4, 84/91. – (A.). 
 
(29) Ibidem, 16/35. – (G.). 
 
(30) Alvará de 9 de Julho de 1764. – Delgado, Coleção, 2, 
122/123. – (A.). 
 
(31) Veja a lei de 29 de Novembro de 1753. – Regimentos Reais, 
4, 99/102. – (A.). – Delgado, Coleção, 1, 172/175. – Do Pará e Maranhão 
se exportava cacau, café, salsaparilha, cravo, algodão e couros. – 
Regimentos reais, citados, 101; Coleção, citada. 174. – (G.). 
 
(32) Acerca da exportação de 1760 a 1771, veja o mapa primeiro 
de Gaioso. – (A.). – Compêndio Histórico-político, citado, fls. 179. – 
(G.). 
 
(33) Por alvará de 8 de Outubro de 1766 foi prorrogado por mais 
dez anos o privilégio exclusivo que já tinha a fábrica de descascar arroz 
de que eram proprietários e diretores Manuel Luis Vieira e Domingos 
Lopes Loureiro, Delgado, Coleção citada, 2, 279/281. – (G.). 
 187 
 
(34) Um bando do governador do Maranhão Joaquim de Melo e 
Póvoas cominava penas de multa, cadeia, calceta e surra (açoites), 
segundo a qualidade das pessoas, aos que continuassem na cultura do 
arroz vermelho da terra, em vez do arroz branco da Carolina, único 
permitido, J. Francisco Lisboa, Obras, 3, 433. – Conf. Memória sobre a 
Introdução do arroz branco no Estado do Grão-Pará, in Revista do 
Instituto Histórico, 48, parte 1ª 79/84, e Manuel Barata, A antiga 
produção e exportação do Pará, 13, Pará, 1915. – (G.). 
 
(35) Alvará de 10 de Dezembro de 1770. – (A.). – Delgado, 
Coleção, citada, 2, 519/520. – Concedia-se à Real Fábrica das Sedas o 
privilégio exclusivo do comércio da resina chamada jutaicica, ou seja, 
goma-copal, que por diligência dos diretores da mesma fábrica havia sido 
descoberta nos domínios da América Portuguesa. – (G.). 
 
(36) Accioli [Memórias Históricas] 1, 187. – (A.). – Segunda 
edição, 2, 179/181. – (G.). 
 
(37) Delgado, Coleção, citada, 1, 119/120. – (G.). 
 
(38) Ibidem, 482/483. – (G.). 
 
(39) Joaquim de Melo e Póvoas tomou posse do novo governo a 
29 de Julho de 1775, Revista do Instituto Histórico , XVI, pág; 388. 
Residiu por algum tempo em Oeiras. De seu governo escreveu frei 
Francisco de Nossa Senhora dos Prazeres, Poranbuba Maranhense, in 
Revista citada, LIV, parte 1ª, págs. 107/108: - “Ainda hoje se suspira por 
este verdadeiro criador da capitania; elle só cuidava em augmenta -la, 
promovendo a lavoura e o commercio. Não faltando ás obrigações de seu 
governo, edificava os povos frequentando os templos, pois para tudo 
temos tempo, quando temos vontade. Porém ainda que era tão religioso, 
não faltava á justiça; e por isso para castigar os assassinos passou ao 
certão; fez seu quartel general na vila Moxa (hoje cidade de Oeiras) e dali 
os castigou, já com penas ultima (mandando matar os que não queriam 
entregar-se), já com degredo ou galés; de sorte que foi o terror do certão. 
Fundou algumas povoações, pondo-lhes nomes portugueses, segundo a 
ordem que para isso teve. Mandou fazer o palacio dos governadores, que 
hoje existe, e deu outras providencias, que adiante se verão. Finalmente, o 
estado de opulencia, em que se acha hoje o maranhão, deve -se a Melo e 
 188 
Póvoas e á Companhia Geral do Commercio”. – Conf. F. A. Pereira da 
Costa, Cronologia Histórica do Estado do Piauí , pág. 94, Pernambuco, 
1909. – (G.). 
 
(40) Reproduzida pelo Dr. César Augusto marques, Dicionário 
Histórico e Geográfico da Província do maranhão , págs. 276/278, 2ª 
edição. – (A.). 
 
(41) Alvará de 10 de Setembro de 1765. – (A.). – Abolindo as 
frotas e esquadras para o Brasil, e declarando livre a navegação, Delgado, 
Coleção, citada, 2, 221/222. – (G.). 
 
(42) Ibidem, 251/252. – (G.). 
 
(43) Veja o Relatório da província do Maranhão desse ano pelo 
Sr. Cruz Machado, pág. 42. – (A.). 
 
(44) Ibidem, pág. 47. – (A.). 
 
(45) Uns por Miguel Manescal e Miguel Rodrigues, e outros por 
Antônio Pedroso Galrão, Pedro Ferreira e Francisco L. Ameno. – (A.). 
 
(46) Da Gazeta de Lisboa, de 8 de Novembro de 1753: “Foi Sua 
Magestade Fidelissima servida de nomear por seu Real Decreto assinado 
em Bellem a 18 do mez de Outubro passado, do Dezembargador Ignacio 
Barbosa Machado chronista de Ultramar para fazer uma Collecçam de 
todas as Leys, Regimentos, Resoluçõens que se tem expedido para a 
administração da justiça nos seus Dominios Ultramarinos”. – (G.). 
 
(47) Conf. do A. Sucinta indicação de alguns manuscritos 
importantes, respectivos ao Brasil e a Portugal, existentes no Museu 
Britânico, e não compreendidos no Catálogo – Figanière, etc., pág. 8, 
Habana, 1863. – (G.). 
 
(48) De 12 de Dezembro de 1770. – (A.). – Delgado, Coleção 
citada, 2, 521/522. – (G.). 
 
(49) Veja O Estabelecimento de Mazagão do Grão-Pará, com a 
relação completa das famílias transportadas da praça africana para a que 
 189 
ia ser fundada, que publicou quem escreve esta linha na Regista do 
Instituto Histórico, 84, 609/695. – (G.). 
 
(50) Cartas régias de 29 de Julho de 1758 e 19 de Junho de 1761. 
– (A.). – Antes da primeira dessas cartas régias já tinham sido erectas em 
vila, pelo governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado: Borba, 
antiga aldeia do Trocano do Rio madeira, em 1 de Janeiro de 1756, Baena, 
Compêndio das Eras, 244; Oeiras, antiga aldeia de Araticu, em 20 de 
Janeiro de 1758; e Santarém, antiga aldeia de Tapajós, em 14 de Março do 
mesmo ano, Correspondência do Governador do Grão-Pará, 1752-1777, 
no Instituto Histórico. – Seguiram-se Alenquer, Óbidos, Almeirim, 
Pombal, Faro, etc. – (G.) 
 
(51) Da Gazeta de Lisboa, de 7 de Março de 1754: “Os Povos das 
Províncias do Rio de Janeiro, e Minas Geraes, considerando as grandes 
despesas de dinheiro, e tempo, que lhes custava encaminhar as suas 
appellaçõens judiciaes ao Tribunal da Relaçam desta Corte, pediram ao 
Rey nosso Senhor, quizesse servir-se de mandar estabelecer outro na 
cidade de S. Sebastiam, offerecendo-se logo a fazerema despesa á sua 
custa; porém Sua Magestade Fidelissima atendendo ás suas 
representaçõens nam só lhes concedeu o estabelecimento do Tribunal que 
deprecavam, mas com a sua incomparavel magnanimidade ordenou, que 
toda a despesa se fizesse por conta da sua Real fazenda. Com efeito 
nomeou Sua Magestade os Ministros de que elle se devia compôr, que 
chegaram á Cidade de S. Sebastiam em 16 de Junho de 1752, e 
principiárão o seu despacho em 15 de Julho seguinte, e o continuárão com 
geral aplauso dos mesmos Povos, que ficárão summamente satisfeitos de 
haver Sua Magestade escolhido para Chanceler, e Governador Delle a 
Joam Pacheco Pereira de Vasconcelos, pela fama que havia da grande 
rectidam, e desinteresse com que administrou as justiças, e reformou os 
salarios, sendo Ouvidor das Minas. Festejou-se esta mercê de sua 
Magestade logo no dia seguinte ao primeiro despacho: houve Missa e 
Sermam na Igreja do Convento do Carmo, e se cantou no fim delle o Te 
Deum laudamus. Houve tres noytes de luminárias, e festas publicas de 
Touros, e Cavalhadas; publicando todos esta grande mercê que Sua 
Magestade fez áquelles seus vassalos lhe fôra positivamente inspirada por 
Deos”. – Gomes Freire de Andrada, em carta datada da Colônia do 
Saramento, 10 de Fevereiro de 1753, para o secretário de Estado da 
Marinha e Ultramar. Diogo de Mendonça Corte-Real, diz haver dado 
cumprimento ao decreto do rei para que na cidade de São Sebastião se 
 190 
erigisse um Relação, e que o governador daquela capitania fosse o 
regedor, para evitar o prejuízo que em seus litígios tinham os moradores 
dela acudir à Relação da Bahia, pela muita distância. Pedia que lhe 
declarasse como devia nomear-se quanto assistisse a despachar naquele 
Tribunal. – Anais da Biblioteca Nacional, LII (Documentos sobre o 
Tratado de 1750, II) págs. 178/179. – (G.). 
 
(52) 8 [aliás 3] de Julho de 1734. – (A.). – Veja a nota 88 da 
secção XL, desta História. – (G.). 
 
(53) Veja o Regimento de 13 de Outubro de 1751, Sistema ou 
Coleção dos Regimentos Reais, 4, 484/502. – (A.). – Reproduzido por C. 
Mendes de Almeida, Auxiliar Jurídico, 19/27, Rio, 1869. – (G.). 
 
(54) Existe dele cópia na Biblioteca Pública de Évora [Catálogo 
dos Manuscritos da Biblioteca Pública Eborense, 1, 148/159, de J. H. da 
Cunha Rivara]. – (A.). 
 
(55) Um desses ministros foi o desembargador João Luís Cardoso 
Pinheiro, de quem tratou a Gazeta de Lisboa, de 15 de Outubro de 1753: - 
“Com o ultimo aviso chegado da Bahia de Todos os Santos, se recebeu a 
noticia, de que havendo S. Magestade provido na propriedade da vara de 
Ouvidor geral, com vezes de Corregedor do Crime da Côrte da Relaçam 
da Cidade do Salvador, ao Dezembargador Joam Cardoso Pinheiro, que 
nella servira o lugar de Decano de agravos, e de Procurador da Corôa, e 
Fazenda Real, foi tal o contentamento daquelles moradores, que fizeram 
armar magnifica, e custosamente toda a Caza da mesma Relaçam, e a sua 
escada, até a rua no dia em que tomou posse deste novo lugar; 
alcatifandolhe de flores todo o caminho desde a Caza da moeda, donde 
sahiu; e de noyte o obsequio de o divertirem com hum concerto de 
Musica, e hum outeiro de primorozas Poezias. Este Ministro tinha servido 
dous annos o cargo de Provedor mór da fazenda Real, o de Conservador 
dos moedeiros, e o de Superintendente dos Tabacos, antes de se erigir a 
nova Caza da Inspecçam, e em todos grangeou pelo seu procedimento 
estes referidos obsequios”. – (G.). 
 
(56) O distrito da Relação era todo o território que ficava ao sul 
do Estado do Brasil, em que se compreendiam treze comarcas, a saber: 
Rio de Janeiro, São Paulo, Ouro Preto, Rio das Mortes, Sabará, Rio das 
Velhas, Serro do Frio, Goiases, Paranaguá, Espírito Santo, Itacases 
 191 
(Campos dos Goitacases), e ilha de Santa Catarina, incluindo todas as 
judicaturas, ouvidorias e capitanias, que existissem ou que de novo se 
criassem no âmbito do mesmo distrito, inteiramente separado do distrito e 
jurisdição da Relação da Bahia. – (G.). 
 
(57) AO estabelecimentod a Relação se associou a publicação de 
três alvarás, fixando os salários, assinaturas e mais próis e percalços dos 
desembargadores e dos ouvidores e juízes, os quais ainda ultimamente 
estavam (ao menos em parte) em vigor. – (A.). 
 
(58) Gazeta de Lisboa, de 27 de Março [de 1755]. – Aí se lê: - 
“Na nau de guerra ultimament4e chegada do Rio de Janeiro, voltou ao 
Reyno Joam Pacheco Pereira de Vasconcellos, Fidalgo da Casa Real, e do 
Conselho de Sua Magestade Fidelissima, por cuja ordem tinha ido criar 
com o título de Chanceler mór o novo Tribunal da Relaçam, que foi 
servido mandar estabelecer naquella Província. Logo depois de 
desembarcado teve a honra de beijar a mão de Suas Magestades, e 
Altezas, e no dia seguinte recebeu por hum Decreto de Sua Magestade a 
mercê de o mandar exercitar no Tribunal do Desembargo do Paço o lugar 
de que já tinha tomado posse antes de sua partida, atendendo a grande 
rectidam com que no discurso de 40 annos tem servido vários lugares de 
letras”. – A nau de guerra Nossa Senhora da Natividade , do comando do 
capitão de mar e guerra Gonçalo Xavier de Barros e Alvim, entrou no 
porto de Lisboa com noventa e seis dias de viagem pouco antes de 20 de 
Março, Gazeta de Lisboa desta data. – (G.). 
 
(59) Delgado, Coleção citada, 2, 141/142. – (G.). 
 
(60) Pelas cartas régias de 28 de Agosto e 20 de Outubro de 1758 
e 18 de Junho de 1761, J. Francisco Lisboa, Obras, 3, 370/371. – (G.). 
 
(61) Delgado, Coleção citada, 1, 811/812, e 2, 639/640. – (G.). 
 
(61) Da Gazeta de Lisboa, de 21 de Agosto de 1755: - 
“Considerando S. Mag. Fidelissima quanto convém, que os seus reaes 
dominios da America se povôem, e que para este fim pode concorrer 
muito a communicação com os Índios por meyo de casamentos, foi 
servido declarar, que os seus vassalos assim os nacidos neste Reyno, 
como na America, nam ficam com infamia alguma, antes de faram dignos 
da sua real atençam, e nas terras em que se estabelecerem seram preferids 
 192 
para os lugares e ocupaçõens que couberem na graduaçam das suas 
pessôas; e que seus filhos e descendentes seram habeis, e capazes p ara 
qualquer emprego, honra, e dignidade, sem carecerem de dispensa alguma 
por estas alianças, em que se comprehenderám as que já se acharem feitas 
antes desta sua declaraçam, e que o mesmo se praticará a respeito das 
Portuguezas que casarem com Índios; impondo às pessôas de qualquer 
qualidade que sejam, que os tratarem com o nome de Cabowclos (sic), ou 
outro semelhante, injurioso, a pena de sahirem desterrados da comarca em 
que viverem, dentro de hum mez até mercê de Sua Mag., o que 
recommenda aos Ouvidores das Comarcas, e manda ao Vice Rey do 
Brasil, aos mais governadores do mesmo Estado, e do Maranham, e Pará, 
que assim façam cumprir, por Alvará de Ley assinado pela sua Real mão, 
publicado e registrado na Chancelaria mór do Reyno”. – Veja Delgado, 
Coleção citada, 1, 271/272. – Por portaria de 6 de Agosto de 1771, o vice -
rei do Estado do Brasil mandou dar baixa de capitão -mor a um indio, 
porque, sem atenção às distintas mercês com que pelo alvará acima citado 
el-rei os havia honrado, se mostrara de tão baixos sentimentos que casou 
com uma preta, manchando o seu sangue com essa aliança e tornando -se 
assim indigno de exercer o referido posto, J. Francisco Lisboa, Obras, 3, 
384. – (G.). 
 
(63) De 6 de Junho de 1755 e 17 de Agosto de 1758. – (A.). – 
Delgado, Coleção citada, 1, 369/376 e 634/635. – (G.). 
 
(64) Abolido pela carta régia de 12 de Maio de 1798. – (A.). – Por 
proposta do governador do Pará D. Francisco Maurício de SousaCoutinho. – (G.). 
 
(65) Intitula-se essa exposição: Meios de dirigir o governo 
temporal dos Índios, e foi impressa por Melo Morais, Corografia 
histórica, 4, 122/185. Foi escrita no reino: não traz data, mas de seu 
contexto pode inferir-se que é de 1788. – (G.). 
 
(66) A respeito das perseguições desses imigrantes em toda a 
Europa pode consultar-se a obra Origine e Vicende dei Zingari, impressa 
em Milão, 1841; a parte que respeita a Portugal é, porém, omissa. Quanto 
respeita à Espanha se encontra mais extensamente tratado na Historia de 
los Gitanos, impressa em Barcelona, 1832. – (A.). – Veja Arquivo do 
Distrito Federal, 3, 138/144, 191/196, erudito artigo de Adolfo Coelho. – 
Dos ciganos do Brasil dizem os governadores interinos Gonçalo Xavier de 
 193 
Brito e Alvim e José Carvalho de Andrade, em carta datada da Bahia, em 
5 de Outubro de 1761, para o conde de Oeiras: - “Os ciganos vêm vindo 
bastantes a querer tomar vida regulada, porque por todas as partes so 
prendião, pelas ordens que para isso se passárão para todas as Capitanias, 
dirigidas aos Capitães móres, ouvidores, juízes de fóra e ordinarios. Os 
casados entregão os filhos solteiros aos oficiaes mecanicos se são de 
idade competente, e os adultos alguns assentárão graça, mas muito raros, 
por não aparecerem, ou porque esta gente casa logo nestas terras de mui 
pouca idade. Os mais vão arrendando terras, occupando-se com suas 
mulheres em lavoiras, e em abrir terras de novo; deixando totalmente o 
illicito commercio, e o modo libertino, que tinhão de vida...” – Anais da 
Biblioteca Nacional, 31, 482. – (G.). 
 
(67) Extinguia definitivamente a separação de cristãos-velhos e 
cristãos-novos, e declarava estes últimos aptos para quaisquer postos e 
honras, como os demais portugueses; proibia que se usasse em público ou 
particular a designação depreciativa, em referência às pessoas de origem 
hebraica: pena de açoite e degredo aos contraventores sendo peões; perda 
de empregos ou pensões, quando nobres; extermínio do reino, se fossem 
eclesiásticos. – Conf. Delgado, Coleção citada, 2, 672/678. – Outra lei, de 
15 de Dezembro de 1774, ibidem, 849/852, veio ampliar a precedente com 
a abolição da infâmia, até aí atribuída aos que prevaricavam na fé; por 
essa disposição, os apóstatas que, confessando o delito, eram recon -
ciliados no Santo Ofício, não ficavam com mácula nem inábeis para as 
dignidades e ofícios, e muito menos seus descendentes. A infâmia 
abrangia somente os condenados à morte, impenitentes, sobre os quais 
unicamente recaía a pena de confiscação. – Conf. J. Lucio de Azevedo, 
História dos Cristãos Novos Portugueses, 351/352, Lisboa, 1922. – (G.). 
 
(68) Ibidem, 352/253. – (G.). 
 
(69) Impresso em Lisboa, na Oficina Régia, em 1781, págs 30/33. 
– (A.). – Elogio fúnebre pronunciado na Bahia por ocasião das exéquias 
de D. José I, é o título desse sermão. – (G.). 
 
(70) D. Francisco de Assunção e Brito, natural de Mariana, Minas 
Gerais; nomeado, não tomou posse do bispado; e D. Tomás da Encarnação 
Costa e Lima, natural da Bahia. – (G.). 
 
 194 
(71) D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco, 
natural do Rio de Janeiro. – (G.). 
 
(72) D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho, também 
natural do Rio de Janeiro. – (G.). 
 
(73) Memórias [Recordaçoens] de Jácome Ratton, impressas em 
Londres, em 1813 – (A.). – Págs. 185/187. – (G.). 
 
(74) Conf. Lúcio de Azevedo, O Marquês de Pombal e a sua 
época, 152/154, 2ª ed. – (G.). 
 
(75) Ibidem, 378/379. – (G.). 
 
(76) Em poder, diz-se, de S. M. El-rei D. Luís. – (A.). – O 
original do processo dos Távoras acha-se na secção histórica do Arquivo 
nacional do Rio de Janeiro. Fazia parte de uma coleção de documentos 
encontrada nos palácios do imperador D. Pedro II, quando foi proclamada 
a república, e deu entrada no Arquivo em 1891. Compõe-se de seis 
grossos volumes: I – Processo; II – Idem; - III – Inquirição de 
testemunhas (Inquirição ad perpetuam rei memoriam , facultada pela 
Rainha, nossa Senhora, ao Marquez de Alorna, como procurador da 
Marqueza sua mulher e filhos); IV – Manifesto da Innocencia dos Tavoras 
e Ataídes, e resposta á obrepção e sobrepção com que se embargou o 
progresso da Revista concedida nos autos, e sentença em que foram 
condemnados. – Lisboa: Anno de 1787; V – Segunda parte; VI – 
Continuação desta. – Parte do processo dos Távoras foi impressa nas 
Publicações da Biblioteca Nacional de Lisboa, por Pedro A. de Azevedo, 
Lisboa, 1921, 1 vol. in-4º, de 34, 226 págs.; sendo aquelas não 
numeradas. – (G.). 
 
(77) Justificação de Pombal, Museu Britânico, Ms. Adicionais, 
15.593-15.596, tomo 3º, fls. 860/900. – O fato das revelações feitas pela 
jovem Távora é contado em um bilhete do secretário da Legação de 
Espanha Lardizabal, que vimos na Biblioteca de Fernan-Nuñez, em Madri. 
Passados meses o ministério francês fazia a tal respeito muitas e 
significativas perguntas ao seu cônsul Saint -Julien, às quais ele não soube 
responder. – Santarém [Quadro Elementar], 6, 168/169. – (A.). – Conf. J. 
Lúcio de Azevedo, O Marquês de Pombal, citado, 174/189. – (G.). 
 
 195 
(78) Só a Pernambuco (ofício do governador de 2 de Maio de 
1756) foram impostos 900 mil cruzados, em todas as fazendas que 
pagavam dízimas, com a condição de que cessariam estes apenas se 
prefizesse essa quantia. – A Paraíba prestou-se a dar 100 mil cruzados 
dentro dos seis anos primeiros, e aproveitou a ocasião para pedir o ficar 
independente de Pernambuco. – (G.). 
 
(79) Findos os trinta anos o tributo seguiu igual, até depois da 
independência, e figurava ainda na receita em 1831, com uma verba de 
56:500$000. – Segundo Bougainville, no Rio, realizou-se esse donativo, 
cobrando-se na alfândega mais 2 1/2% além da décima ordinária. – (A.). – 
Conf. Voyage autour du Monde, 1, 108, Neucharel, 1772. – (G.). 
 
(80) Veja o ofício do vice-rei conde dos Arcos para Diogo de 
Mendonça Corte-Real, de 14 de Maio de 1756, que se refere à carta de 16 
de Dezembro do ano anterior, Anais da Biblioteca Nacional, 31, 140/142. 
– (G.). 
 
(81) Cormenin. – (A.). – Louis-Marie Lahaye, visconde de 
Cormenin (1788-1868), escritor, parlamentar e jurisconsulto francês, 
notável pelos seus panfletos políticos, em que se assinava Timon. – (G.). 
 
(82) A carta régia, ordenando que partisse para a Bahia o 
conselheiro do Conselho Ultramarino Antônio de Azevedo Coutinho, 
escrita de Belém na data acima, vem em ementa dos Anais da Biblioteca 
Nacional, 31, 274. Na mesma data comunicava a Azevedo Coutinho o 
ministro de Ultramar as instruções acerca da comissão que ia 
desempenhar na Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais, ibidem. Uma carta 
particular do conselheiro para Filipte José da Gama, datada de Braço de 
Prata, 23 de Abril de 1758, participava-lhe que sua mulher se chamava D. 
Marcelina Perpétua de França Córdoba e Faro, ibidem, 275. Em 13 de 
Setembro do mesmo ano já devia estar na Bahia o conselheiro, como se 
infere do ofício daquela data do vice-rei conde dos Arcos para o ministro 
Tomé Joaquim da Costa Corte-Real, em que lhe dizia ficar ciente da 
ordem régia que lhe mandava prestar todo o auxilio e cooperação ao 
conselheiro Antônio de Azevedo Coutinho, na comissão que viera 
desempenhar no Brasil, ibidem, 289. – (G.). 
 
(83) Ofício de Martinho de Melo [e Castro], de 24 de Novembro 
de 1774, Revista do Instituto Histórico, 31, parte 1ª, 325/329. – (A.). 
 196 
 
(84) Conf. nota 127 secção XL desta História. – (G.). 
 
(85) Fr. Antônio de Santa Úrsula Rodovalho, Oração fúnebre [à 
memória do Ilustríssimo e excelentíssimo Marquêsde Lavradio, recitada 
na Catedral do Rio de Janeiro, nas exéquias, que lhe consagraram os 
Cidadãos da mesma Cidade]. Lisboa, Tip. Nunesiana, 1791, in-4º - (A.). – 
Pág. 18. – (G.). 
 
(86) Alusão evidente ao vice-rei conde de Resende. – (A.). 
 
(87) Relatório do marquês de Lavradio, vice-rei do Rio de 
Janeiro, entregando o governo a Luís de Vasconcelos e Sousa, que o 
sucedeu no vice-reinado, Revista do Instituto Histórico, 4, 422/423. – 
(G.). 
 
(88) A prevaricações do conde de São Miguel, como governador e 
capitão-general da capitania de Goiás, refere-se a instrução dada a José de 
Almeida e Vasconcelos por Martinho de Melo e Castro, em 1 de Outubro 
de 1771, Goiás – Documentos vários – 1743 a 1786, n. 31, na Biblioteca 
Nacional. O conde, ao assumir o governo da capitania, encontrou -a em 
grande desordem, a fazenda real padecendo enormes prejuízos, os índios 
das aldeias desertando, a religião aniquilando-se; de tudo deu repetidas e 
documentadas provas ao rei e ao Conselho Ultramarino, sem qualquer 
solução durante mais de dois anos e meio. A carta ao rei, datada de Vila 
Boa, 25 de Abril de 1758, em que alude a tais desconcertos, Revista do 
Instituto Histórico, 84, 51/59, parece inocentá-lo das acusações de 
prevaricador, que vieram depois a recair sobre ele. – (G.). 
 
(89) Nascera a 5 de Dezembro de 1743. – (A.). 
 
(90) Sobre Valadares e seu procedimento com o arrematador João 
Fernandes de Oliveira, veja J. Felício dos Santos, Memórias do Distrito 
Diamantino, 148/151, Rio, 1868. – (G.). 
 
(91) O fato narrado pelo A. é contestado com bons fundamentos 
por J. Lúcio de Azevedo, O Marquês de Pombal e a Sua Época, 357/358, 
nota da 2ª edição. O conde de Valadares governou Minas Gerais de 1768 a 
1773; saiu de Lisboa a 4 de Fevereiro do primeiro daqueles anos, em uma 
nau que trazia mais três governadores para outros distritos do Brasil. A 31 
 197 
de Agosto escrevia de Vila Rica ao cardeal Paulo da Cunha, dando parte 
da chegada à sede de seu governo. Não podia, portanto, dar dinheiro a 
Pombal em 12 de Março, quando estava em viagem. Só regressou cinco 
anos depois. Tudo isso, pondera J. Lúcio de Azevedo, inquina de 
falsidade o documento divulgado na desordenada compilação das Cartas e 
Outras Obras Seletas do Marquês de Pombal , em que alguns mais são 
apócrifos. – (G). 
 
(92) Sobre os trajes do tempo, veja J. Felício dos Santos, 
Memórias citadas, 77/79. – (G.). 
 
(93) D. Tomás da Encarnação da Costa e Lima, 10º bispo de 
Olinda. Sua História Ecclesiae Lusitanae foi impressa em Coimbra, 1759, 
4 tomos, in-4º. – (G.). 
 
(94) Escreveu: Orbe Seráfico Novo Brasílico , etc., primeira parte, 
Lisboa, 1761; Novo Orbe Seráfico Brasílico, Rio de Janeiro, 1858-1861, 3 
vols., in-4º, compreendendo a parte já impressa e a que se conserva 
inédita no Convento de São Francisco da Bahia, reimpressão feita por 
ordem do Instituto Histórico. Escreveu mais: Catálogo genealógico das 
principais Famílias, que procederam de Albuquerque, e Cavalcantes de 
Pernambuco, e Caramurus da Bahia, publicado na Revista do Instituto 
Histórico, 52, parte 1ª. – Foi membro da Academia Brasília dos 
Renascidos. – (G.). 
 
(95) Feliciano Joaquim de Sousa Nunes chamava-se, e sua obra – 
Discursos Políticos-Morais, comprovados com vasta erudição das 
Divinas, e humanas Letras, a fim de desterrar do mundo os vícios mais 
inveterados, e dissimulados, etc. A obra, de que saiu à luz apenas o 
primeiro tomo. Lisboa, na Oficina de Miguel Manescal da Costa, 1758, 
era dedicada a Sebastião José de Carvalho e Melo. A oferenda não foi 
bem recebida pelo ministro, que repreendeu o autor por lhe haver 
dedicado o livro sem sua prévia licença, e fossem queimados todos os 
exemplares. Desses salvaram-se três apenas, dois que estão na Biblioteca 
Nacional, e o terceiro que pertence ao grande poeta Alberto de Oliveira. 
Com erudito prefácio desse acadêmico, a Academia Brasileira de Letras 
reeditou os Discursos Político-Morais, Rio, 1931. Sousa Nunes nasceu 
nesta cidade, cerca de 1734 e faleceu talvez em 1808. Dele conhecem-se 
ainda os seguintes escritos: - Demonstração do maior jubilo que no fausto 
dia 12 de Março de 1769, em que se celebrárão os felicissimos annos do 
 198 
Ilmo, e Exmo. Senhor Conde de Azambuja sendo Vice-rei e Capitão 
General de Mar e Terra do Estado do Brasil, expoz e offereceu, etc. – 
Lisboa, na Oficina de Manuel Rodrigues, 1771, in -8º de 19 págs. – 
Venturosos annuncios na chegada do Illustrissimo, e Excellentissimo 
Senhor Marquez de Lavradio... á Cidade do Rio de Janeiro, por Vice-rei e 
Capitão Geral de Mar e Terra do Estado do Brasil, expostos, e 
offerecidos por, etc. – Lisboa, 1771, in-8º de 29 págs. – Oração no fausto 
dia em que celebrava annos a Ilma, e exma. Marqueza de Lavradio, 
exposta ao Ilmo. e Exmo. Marquez do mesmo título, Vice -rei, etc. – 
Lisboa, 1771, in-8º de 15 págs. – Este último folheto é absolutamente 
raro, desconhecido dos bibliógrafos, como Inocêncio, Sacramento Blake e 
J. Carlos Rodrigues. – (G.). 
 
(96) Viagem e visita do sertão em o Bispado do Grão-Pará em 
1762 e 1767, escrita pelo bispo D. Frei João de São José [Queirós], 
Revista do Instituto Histórico, 9, 43/107, 179/227, 328/375 e 476/548, da 
2ª ed. – As Memórias do mesmo bispo foram publicadas, com introdução e 
notas, por Camilo Castelo Branco, Porto, 1868. – (G.). 
 
(97) Roteiro da Viagem da Cidade do Pará athé as ultimas 
Colonias dos Dominios Portuguezes em os rios Amazonas e Negro. 
Illustrado com algumas Notícias que podem interessar á curiosidade dos 
Navegantes e dar mais claro conhecimento das duas Capitanias do Pará, e 
de São José do Rio Negro. – Publicado pela primeira, sem nome do autor, 
por diligência de Filipe Alberto Patroni martins Maciel Parente, no Jornal 
de Coimbra, n. LXXXVII, parte 1ª, pela segunda vez, na Coleção de 
Notícias para a História e Geografia das Nações Ultramarinas , tomo VI, 
n. I; e por último, em separado, no Pará, Tipografia de Santos & Irmãos, 
1862, in-4º. – Na Revista do Instituto Histórico, 67, parte 1ª, 281/289, 
saiu impressa parte do Roteiro, sem declaração de autor. – (G.). 
 
(98) Diario da Viagem que em visita, e correição das povoações 
da Capitania de S. José do Rio Negro fez o Ouvidor e Intendente Geral da 
mesma Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio no anno de 1774 e 1775 ; 
etc. – Lisboa: na Tipografia da Academia, 1825. – Publicado pela 
Academia Real das Ciências de Lisboa. – Na Coleção das Notícias para a 
História e Geografia das Nações Ultramarinas , tomo VI, n. II, Lisboa, 
1856, saiu o Apendice ao Diario da Viagem, do Ouvidor-Geral Ribeiro de 
Sampaio. – Joaquim Nabuco, Question de limites soumise á l‟arbitrage de 
S. M. le Roi d‟Italie par le Brésil et la Grande Bretagne , Annexes du 
 199 
Prémier Memoire, vol. IV, págs. 3/98, reproduz em versão francesa o 
Diário e o Apêndice. – Na Revista do Instituto Histórico, 1,109/122 (2ª 
ed.) vem um extrato do Diário, parágrafo CVIII a CXLVII, na parte em 
que refuta a opinião de La Condamine sobre os limites das colônias 
portuguesas no rio Amazonas. – De Ribeiro de Sampaio é também a 
Relação Geográfica e Histórica do Rio Branco da América Portuguesa, 
reproduzida em francês por Joaquim Nabuco, op. cit., 1/55, com outra 
numeração de páginas. – (G.). 
 
(99) Há engano. João da Silva Santos, capitão -mor de Porto 
Seguro, viajou pelo Rio Grande de Belmonte, ou Jequitinhonha, em 
princípios do século XIX, no governo de Francisco da Cunha Menezes. 
Da sua Descripção diaria do Rio Grande de Belmonte desde o Porto 
grande desta Villa [Porto Seguro] até o fim delle, ou divisão de Villa-
Rica...

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