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1 FRANCISCO ADOLFO VARNHAGEN HISTÓRIA GERAL DO BRASIL LEITURA BÁSICA Antonio Paim (organizador) CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO DO PENSAMENTO BRASILEIRO (CDPB) 2011 2 SUMÁRIO Introdução: Varnhagen e os alicerces da historiografia brasileira – Antonio Paim Indicações sobre a transcrição –Antonio Paim PRIMEIRO SÉCULO (século XVI) Texto de Varnhagen SEGUNDO SÉCULO (século XVII) Nota introdutória - Antonio Paim Texto de Varnhagen TERCEIRO SÉCULO (século XVIII) Texto de Varnhagen INDEPENDÊNCIA DO BRASIL Texto de Varnhagen 3 FRANCISCO ADOLFO DE VARNHAGEN H I S T Ó R I A G E R A L D O B R A S I L LEITURA BÁSICA Antonio Paim (organizador) 4 CENTRO DE COCUMENTAÇÃO DO PENSAMENTO BRASILEIRO – CDPB 2011 INTRODUÇÃO: Varnhagen e os alicerces da historiografia brasileira Antonio Paim Francisco Adolfo de Varnhagen (1816/1878) era filho de Frederico Guilherme de Varnhagen (1782/1842), alemão de nascimento. Seu pai veio para o Brasil contratado como diretor da fundição organizada em São João de Ipanema, São Paulo, com a denominação de Fábrica de Ferro de Ipanema. Tratava-se de iniciativa de D. Rodrigo de Sousa Coutinho, chefe do primeiro governo organizado no Brasil pelo futuro D. João VI. D. Rodrigo buscava ciosamente alternativas econômicas. Criou ainda uma outra fundição em Minas Gerais. 5 Embora a de Ipanema funcionasse desde 1810, considera-se que somente na gestão de Varnhagen (1815 a 1821) é que ocorreria a superação da precariedade do material ali produzido. Francisco Adolfo de Varnhagen nasceria no segundo ano (1816) de permanência do seu pai no Brasil. Presentemente a localidade de São João de Ipanema denomina-se Iperó, municipalidade resultante dos desmembramentos de Sorocaba. Tradicionalmente Varnhagen é dado como tendo nascido nesta última cidade. Ele próprio tinha-se nessa conta. Como nutria a aspiração de que seus restos mortais viessem a ser enterrados no local de seu nascimento, a consumação dessa aspiração teve lugar em Sorocaba, como parte das comemorações do primeiro centenário de sua morte, ocorrido em 1978. Frederico Guilherme de Varnhagen demitiu-se da fundição em 1821. Acredita-se que esse gesto deveu-se a desentendimento com as autoridades a que se achava subordinado. Formalmente anunciou que pretendia assegurar a boa educação do filho, então com cinco anos, razão pela qual regressaria à Europa. Radicou-se em Portugal, certamente pelo fato de que se casara com portuguesa ( D. Maria Flávia de Sá Magalhães) e esta, é de presumir-se, desejaria viver junto de sua família. Assinala-se este fato na medida em que explica a afeição que o jovem Francisco Adolfo iria revelar pela pátria de origem de um dos ramos de seus ancestrais. Francisco Adolfo de Varnhagen estudou no Real Colégio Militar da Luz, em Lisboa. Quando se dá a transferência de seu pai para Portugal (1821), ali recém iniciara, com a Revolução do Porto, a transição da monarquia absoluta para a constitucional. Esse processo acabaria paralisando o país e levando-o, por fim, à guerra civil, que durou de 1828 a 1834. Como se sabe, esses acontecimentos tiveram amplo reflexo no Brasil, notadamente pelo fato de que, durante o seu transcurso, em 1826, ocorre o falecimento de D. João VI o que torna D. Pedro I herdeiro do trono da nação de que nos dissociaramos, reabrindo a discussão em torno da Independência. Acontece que o falecimento 6 do Rei explicita a divergência entre os dois filhos, D. Miguel disposto a preservar a monarquia absoluta e D. Pedro a monarquia constitucional. Agastado com a emergência de setores hostis à sua permanência no trono, D. Pedro opta, em 1831, por assumir a liderança anti-miguelista na guerra civil a que nos referimos, abdicando da condição de Imperador do Brasil. Talvez essa circunstância haja decidido o jovem Varnhagen a participar da luta, na tropa liderada por D. Pedro. Em 1834, quando se dá o seu desfecho, tinha 18 anos de idade. Como parte dessa carreira militar então iniciada, Varnhagen freqüentou a Real Academia de Fortificação, concluindo o curso de engenharia militar em 1939, aos 23 anos de idade. Ainda naquela década revelaria a sua verdadeira vocação e o tema a que se dedicaria. Entre 1835 e 1838, ocupa-se do texto que submeteu à Academia das Ciências de Lisboa, dedicado a Gabriel Soares de Sousa, que se tornaria o principal documento relativo ao primeiro século da colonização portuguesa no Brasil, cuja autoria seria justamente estabelecida por nosso autor. Graças a essa primeira contribuição à nossa historiografia, tornou-se sócio correspondente da instituição. Para que se tenha, desde logo, idéia da relevância da iniciativa, basta por agora indicar que a própria Academia o havia publicado, em 1825, sem qualquer alusão ao autor. Por sua relevância, voltaremos a considera-lo da forma pormenorizada que merece. Justamente essa vocação é que o levaria a regressar ao Brasil, em 1840. Logo ingressa no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, criado em 1838, passando a integrar o seu núcleo dirigente ao assumir o cargo de primeiro secretário. Em 1844, obtém a nacionalidade brasileira, sendo admitido no corpo diplomático. Como diplomata, serviu em Lisboa e Madrid, nas décadas de quarenta e cinquenta, condição de que se valeu para institucionalizar o levantamento sistemático da documentação apta a orientar a reconstituição de nossa história, atividade que se coroa com a primeira versão da História geral do Brasil (1854/57). Em tópico 7 autônomo, iremos considerar mais detidamente como atuou para sedimentar tais procedimentos, essenciais à constituição da historiografia brasileira, verificada ainda no século XIX. Entre 1858 e 1867, Varnhagen serviu em alguns países da América do Sul, ocupando-se basicamente da questão dos limites do Brasil com seus vizinhos. Atuou, respectivamente, no Paraguai (1858/1861), seguindo-se uma curta estada na Venezuela (agosto a dezembro, 1861); Equador (dezembro, 1861/abril, 1863); Venezuela (abril-setembro, 1863); Peru (outubro-dezembro, 1863); breve estada no Chile, entre janeiro e maio de 1864, ocasião em que contrai matrimônio com a chilena Carmen Ovalle; volta breve ao Peru (junho-setembro, 1864); retorno ao Chile (outubro a dezembro, 1865) e, por fim, nova e prolongada estada no Peru (dezembro, 1865 a agosto, 1867). Os relatórios que encaminhou ao Itamaraty, dando conta da atividade desenvolvida nesses países foram tornados públicos no livro Francisco Adolfo Varnhagen. Correspondência ativa, coligida e anotada por Clado Ribeiro de Lessa (Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1961, págs. 424-503). Notícia do seu conteúdo consta da obra Varnhagen. Subsídios para uma bibliografia (São Paulo: Editoras Reunidas, 1982, págs. 364-413) da autoria de Hans Juerguem Wilhelm Horsh. Encerrou a carreira diplomática como nosso representante em Viena, Áustria, onde faleceu (1878), aos 62 anos de idade. O sentido que deu à sua investigação No livro que de certa forma coroa os diversos estudos que mereceram a obra de Varnhagen --Estado, História, Memória; Varnhagen e a construção da identidade nacional (1999)-- ArnoWehling indica que a influência intelectual mais importante nas origens do Instituto Histórico seria o historicismo. Naturalmente essa vertente teórica tem uma longa trajetória em que revelaria as suas sucessivas facetas. Não caberia, nesta oportunidade, cuidar de 8 sua reconstituição, sobretudo tendo em vista que o próprio Arno Wehling desincumbiu-se dessa tarefa em outros de seus livros, em especial em A invenção da história. Estudos sobre o historicismo (1994) Creio que não seria simplificação grosseira, assinalar que o eixo central da nova visão da história, conhecida com a indicada denominação, seria superar a visão escatológica, segundo a qual obedeceria a um desígnio da providência, sendo ademais passível de previsão. A superação em apreço deu origem à importante linhagem que remonta a Giambatista Vico (1668/1744), apropriada pelos alemães, a partir de Johann Gottfried Herder (1744/1803). Sua obra básica --Idéias para a filosofia da história humana--, publicada em quatro volumes entre 1784 e 1791-- iria influenciar grandemente a historiografia do ciclo subseqüente, marcado pelo apogeu dos grandes filósofos Kant e Hegel. A estrela que despontaria sobretudo na década de trinta, quando Varnhagen forma o seu espírito, seria Leopold Von Ranke (1796/1886), a quem coube a tarefa de difundir a idéia de que era preciso documentar as afirmações acerca dos acontecimentos históricos. A medida em que esse ambiente marcou o espírito de Varnhagen pode ser aquilatado a partir da verdadeira fixação com que cuida de demonstrar a seus pares, a partir de exemplos práticos, que a reconstituição da história do Brasil passa obrigatoriamente pela busca obsessiva do documento. O trabalho que desenvolveu para estabelecer a autoria do relato sobre o Brasil, em fins do primeiro século, de Gabriel Soares de Sousa serviu para fixar-lhe não só o estilo de investigação que adotaria como, igualmente, apontando as lacunas a preencher. Nesse documento, a que deu o título Tratado Descritivo do Brasil em 1587, seu autor está mais voltado para os aspectos físico-geográficos, bem como em fixar os contornos do litoral desde a foz do Amazonas. Saltava às vistas a necessidade de reconstituir os aspectos institucionais, isto é, formas de organização governamental adotadas, procedimentos para a ocupação do território, disputas com potencias 9 estrangeiras. Enfim, o que pesava na história da nação independente recém constituída era precisamente os três séculos da colonização portuguesa. No estabelecimento daqueles marcos que iriam, progressivamente, facultar-nos uma visão de conjunto, o papel de Varnhagen seria decisivo. Neste tópico vamos nos limitar ao que nos pareceu essencial na fase que precedeu o aparecimento dos dois volumes da História Geral do Brasil, publicados, respectivamente, em 1854 e 1857. O próprio Varnhagen limitou este período inicial ao ano de 1850, ao fazer uma relação de suas publicações que colocaria à venda e que Hans Horch considera como uma autêntica bibliografia. Tomando isoladamente os de cunho estritamente historiográfico (nesse período ocupou-se também da poesia brasileira e da arquitetura portuguesa) mereceriam maior destaque aqueles referidos a seguir. “Diário da navegação da armada que foi à terra do Brasil em 1530, sob a capitania mor de Martim Afonso de Sousa, escrita por seu irmão Pero Lopes de Sousa” (Lisboa, 1839). Coube a Varnhagen estabelecer o significado da estada no Brasil, entre 1530 e 1532, do fidalgo português Martim Afonso de Sousa (1500/1564). Compunha- se sua frota de cinco navios, transportando cerca de 400 pessoas, tripulantes e passageiros. Entre os últimos muitos nobre ilustres que tiveram participação no povoamento do país. O objeto do relato, tornado público por Varnhagen, corresponde às atividades desenvolvidas pela expedição. Martim Afonso percorreu toda a costa, desde a foz do Amazonas até a bacia do Prata e concebeu uma estratégia de ocupação que posteriormente seria generalizada, com a fundação de São Vicente. Consistia na escolha de um local abrigado para construir vila e erigir fortificações, disseminando atividade agrícola nas proximidades, mediante doação de terras (denominadas sesmarias) a pessoas capazes de explorá-las. Em seguida ao regresso de Martim Afonso a Portugal foi o país dividido em capitanias hereditárias, entregues a nobres portugueses que deveriam mobilizar 10 os recursos exigidos por sua exploração. Esse sistema durou mais ou menos vinte anos, sendo em parte revogado ao criar-se um governo geral no Brasil e capitanias reais (1549). No seu primeiro ano de estada no Brasil (1840), editou em livro --pela Tipografia J. Villeperva, do Rio de Janeiro-- a serie de artigos publicados em Panorama, que se editava na capital portuguesa, dedicados ao Descobrimento do Brasil. Em Lisboa, no ano de 1847, saiu pela Imprensa Nacional “A narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuítica pela Bahia, Ilhéus, Porto Seguro, Pernambuco, Espírito Santo, Rio de Janeiro, S. Vicente (São Paulo), etc., desde o ano de 1583 ao de 1590, indo por visitador o padre Cristovam de Gouveia”. Escrita em duas cartas ao Provincial em Portugal pelo padre Fernão Cardim, ministro do Colégio da Companhia em Évora. Segundo indicação de Varnhagen, o manuscrito (“defeituoso”) encontrava-se na Biblioteca de Évora, em Portugal. Além das atividades da companhia, fornece informações que complementam o texto anterior, relativas ao primeiro século. Nesse mesmo ano (1847), no Rio de Janeiro foram editadas as Memórias para a história da Capitania de São Vicente (1797), de Frei Gaspar da Madre de Deus, prefaciada por Varnhagen. Completa-se a enumeração pelas “Vidas, elogios ou biografias de grandes e várias personagens que muito avultam na história do Brasil.” Esses artigos apareceram sobretudo na revista portuguesa Panorama, no período indicado, sendo intenção do autor reuni-las numa publicação autônoma, pretensão que não chegou a efetivar-se. Praticamente em todos os números da Revista do Instituto Histórico, da década de quarenta e início da seguinte, consta colaboração de Varnhagen. Com exceção da lista de brasileiros ou colonos estabelecidos no Brasil, condenados pela Inquisição nas primeiras décadas do século XVIII, e de algumas das biografias antes referidas, consistem de documentos com os quais se foi deparando e entendeu que devia copiá-los para guarda da instituição. São de teor 11 muito variado. No número do primeiro trimestre de 1850, por exemplo, figura aquele que foi denominado de “Compêndio histórico cronológico das notícias da capitania de Mato Grosso”, entre 1778 e 1817. Pelas indicações precedentes acredito haver demonstrado que Varnhagen achava-se empenhado em convencer o grupo que assumiu o encargo de estruturar o Instituto Histórico que todos os esforços deveriam ser direcionados para a pesquisa das fontes documentais disponíveis. Naturalmente esse trabalho deveria complementar-se por sua sistematização, de que daria exemplo com a publicação da História geral do Brasil. O estilo de trabalho de Varnhagen Ao dar conta, ao Instituto Histórico, do trabalho que desenvolvera em busca do original de Gabriel Soares de Sousa, datado de março de 1851, e das razões que o levava a tê-lo por acabado, vê-se como atuou de modo obstinado no estabelecimento das fontes documentais imprescindíveis à estruturação de nossa historiografia. Começa por indicar que “que foi o desejo de ver o exemplar da Biblioteca de Paris o que mais me levou a essa Capital do mundo literário em 1847.Não há dúvida de que, além deste códice, tive eu ocasião de examinar uns vinte mais. Vi três na Biblioteca Eborense, mais três na Portuense e outro na das Necessidades em Lisboa. Vi mais de dois exemplares existentes em Madrid; outro mais que pertenceu ao convento da Congregação das Missões e três da Academia de Lisboa, um dos quais serviu para o prelo, outro se guarda no seu arquivo e, o terceiro na Livraria Conventual de Jesus. Igualmente vi três cópias de menos valor que há no Rio de Janeiro (uma das quais chegou a estar licenciada para impressão); a avulsa da coleção de Pinheiro na Torre do Tombo, e uma que em Neuwied me mostrou o velho príncipe Maximiliano, a quem na Bahia fora dado de presente. Na Inglaterra deve seguramente existir, pelo menos o 12 códice que possui Southey, mas foram inúteis as buscas que aí fiz após ele, e no Museu Britânico nem sequer encontrei notícia de algum exemplar.” Conclui: “nenhum daqueles códices porém é --a meu ver-- o original e baldados foram todos os meus esforços para descobrir este, seguindo indicações de Nicolau Antonio, de Barbosa, de Leon Pinelo e de seu adicionador Barcia.” Diz ainda que “algumas dessas cópias foram tão mal tiradas que disso proveio que o nome do autor ficasse esgarrado, o título se trocasse e até na data se cometessem enganos” A existência de tantas cópias não deixa de ser expressivo indicador do sucesso que alcançou em seu tempo e também da curiosidade e falta de informação sobre o Brasil. Comparando essas diversas cópias, Varnhagen pode estabelecer qual delas conteria menos omissões. Na cuidadosa edição que preparou do mencionado Tratado Descritivo, numerou as diversas seções, de modo a introduzir as correções, em forma de apêndice, muitas das quais dizem respeito a denominações que caíram em desuso. O texto de Gabriel Soares de Sousa registra a descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral mas não refere documentos. Comete aqui muitos erros históricos, a exemplo da suposição de que o Tratado de Tordesilhas (1494) tivesse sido negociado por D. João III, cujo reinado inicia-se em 1521. Varnhagen os corrige no Apêndice (intitulado Breves Comentários) mas soube valorizar as preciosas informações sobre o estado da civilização ao longo do litoral, que conhecia por ter visitado. Sobretudo esse texto há de ter-lhe indicado as lacunas a preencher. A descrição em apreço seciona-se do seguinte modo: parte do rio Amazonas --dando notícia do que sabia sobre incursões que se tenham efetivado em seu leito-- e segue até o Maranhão. São registros sucintos, assinalando distâncias percorridas (em léguas), entre os cursos d´água existentes, e ainda as respectivas coordenadas geográficas. O trecho seguinte, partindo desse ponto, vai até o Rio Jaguaribe (Ceará). E assim, por diante, até o extremo Sul 13 É interessante destacar que onde o sistema das capitanias logrou avanços no processo de colonização, Gabriel Soares de Sousa detém-se na sua descrição. Tomo o exemplo do Espírito Santo. Assinala que o donatário, Vasco Fernandes Coutinho, “a foi povoar em pessoa”. Apresenta as informações que pode recolher de sua biografia, registra os embates com os indígenas, etc. Enfim, busca estabelecer a sua história. A essa parcela da obra denominou de Primeira Parte. A segunda é certamente mais interessante. Começa com o que chamou de “História da Colonização da Bahia”, a que se segue minuciosa descrição dos acidentes geográficos, da flora e da fauna. Igualmente detalhada é a intitulada “notícia etnográfica do gentio Tupinambá que povoava a Bahia”. Em complemento apresenta informações “acerca de outras nações vizinhas da Bahia, como Tupinarés, Aimorés, Amoipiras, Ubirajaras, etc.” Deste modo, inclusive pelas omissões, o Tratado descritivo do Brasil em 1587 insere um primeiro esboço do caminho a percorrer em matéria historiográfica. Varnhagen saberá valoriza-lo devidamente, na medida em que há de ter-lhe permitido atuar a partir do que se poderia chamar de “plano de trabalho”. A averiguação de como se deu a opção por determinado modelo de colonização o terá levado a localizar o material que permitiu estabelecer o papel desempenhado pela missão de Martim Afonso de Sousa, entre 1530 e 1532. E, também, de dar-se conta de que os relatórios do Governo Geral seriam a fonte privilegiada para a reconstituição da história das diversas capitanias. Louvo-me das indicações deixadas pelo próprio Varnhagen acerca do valor que atribuía ao trabalho dos que o precederam. A propósito da edição do livro de Gabriel Soares de Sousa, pela Academia de Ciências de Lisboa, escreveria o seguinte: “Em 1825 realizou a tarefa da primeira edição completa a Academia de Lisboa; mas o códice de que teve de valer-se foi infelizmente pouco fiel, e o revisor não entendido na nomenclatura das coisas de nossa terra. Ainda assim muito devemos a essa primeira edição; ela deu 14 publicamente importância ao trabalho de Soares, e sem ela não teríamos tido ocasião de fazer sobre a obra os estudos que hoje nos fornecem a edição que proponho, a qual, mais que a mim, a deveis à corporação vossa irmã, a Academia Real das Ciências de Lisboa”. Esse trecho consta do documento que encaminhou ao Instituto Histórico em 1851 A correspondência de Varnhagen, que se preservou e foi publicada, fornece outras elementos para definir o que batizamos de seu “estilo de trabalho”, servindo de exemplo o que se refere a seguir. Na década de quarenta, como foi referido, serviu na embaixada de Portugal. Em 1846, foi-lhe dada, pelo governo imperial, a incumbência de verificar na Espanha a existência de documentação relacionada aos limites do Brasil com as Guianas. Aliás, no decênio em que serviu em embaixadas da América do Sul (1858/1867) também tinha por encargo documentar as bases para a definitiva fixação de nossas fronteiras com os vizinhos (contribuição que seria assinalada pelo Barão de Rio Branco, a quem coube a tarefa de levá-la a bom termo). Veja-se como, sem embargo no zelo no cumprimento das mencionadas disposições, não o abandonava a preocupação com o preenchimento de outras lacunas documentais relacionadas à história do país. Escreve nessa carta (de dezembro de 1846), endereçada ao Embaixador do Brasil em Portugal (Antonio Vasconcelos Drumond): “Partindo desta capital (Lisboa) pelo primeiro paquete imediato àquela data, aproveitei da minha estada em Cadiz para me desenganar de não existirem ali papeis manuscritos que nos interessassem. Percorri também as lojas de livros, em geral nessa cidade mais abastecidas do que nas outras de Espanha, de obras sobre a América, e disso resultou a compra do Dicionário geográfico da América, do Coronel Salcedo, feita com recomendação minha e autorização de V. Excia., por D. José Esteves Gómez.” E, prossegue: “Em Sevilha, para onde prossegui no 15 primeiro vapor, tive mais de dois meses de persistência examinando o Arquivo das Índias, que era o principal fim de minha missão.” Como se vê, dedicou toda a existência adulta ao que caberia referir como a constituição de sólidos fundamentos para a historiografia brasileira. A responsabilidade com que encarava essa tarefa explica que, ao publicar, dois anos antes de falecer, em 1876, a segunda edição da História Geral do Brasil não a considerava obra acabada, tendo deixado as indicações da forma pela qual deveria ser complementada. Encontraria na pessoa de Rodolfo Garcia (1873/1949) a pessoa que dedicou àquele mister vários anos de sua vida. Depois da publicação da primeira versão da História geral do Brasil, nos meados da década de cinqüenta,ocupou-se dos temas de que dá conta nas edições adiante relacionadas. A continuidade da pesquisa Em 1858, publica em Paris indicações iniciais sobre Américo Vespuci --navegador considerado adventício que, entretanto, daria nome à América--, texto que retomaria em outra ocasião, isto é, em 1864, quando se encontrava em Lima, e o amplia. Em Viena, em 1878 (último ano de vida), edita e comenta as cartas em que esse personagem descreve suas três viagens ao Brasil. Ainda em 1858, aparece em Madrid, pelas “Ediciones Cultura Hispânica”, a tradução ao espanhol da obra de Gabriel Soares de Sousa. Em 1863, em Berlim, tem lugar a edição em francês de sua História da literatura brasileira, iniciativa que se supõe fizesse parte de seu empenho de tornar conhecido o Brasil nos meios cultos da Europa. Em 1871, publica-se em Viena a História das lutas com os holandeses no Brasil (desde 1624 a 1654). No ano seguinte teria lugar a impressão desse texto em Portugal (Tipografia de Castro 16 Irmão, Lisboa), com reedição em 1874. A edição brasileira somente se daria em 1945. Em 1872, em Viena, publica estudo bibliográfico dos autores que contribuíram para tornar usual a denominação de América. Nesse mesmo ano, no Rio de Janeiro, o Arquivo Nacional publica textos de sua autoria sobre a Prosopopéia, de Bento Teixeira Pinto e sobre o livro Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira (1652/1753), sucessivamente reeditado no século XVIII; e, em Lisboa, pela Tipografia de Castro Irmão, Estudo biográfico de Salvador Corrêa de Sá e Benevides. Em 1874, em Viena, texto descritivo do Maranhão. Em 1878, aparece no Rio de Janeiro, a Biografia de Santa Rita Durão, como introdução ao seu poema épico “Caramuru”. No período indicado, preparou a História da Independência do Brasil, somente publicada em 1916, na Revista do Instituo Histórico, sendo editada pela Imprensa Nacional, no ano seguinte. Em que pese essa edição autônoma, na verdade se constitui no tópico final da História geral, como bem entendeu Rodolfo Garcia. Merece os comentários que se seguem na medida em que comprova como era escrupuloso, no tocante às responsabilidades do historiador. Na correspondência de Varnhagen com o Imperador Pedro II, comentada por Hélio Viana (1908/1972) --na apresentação da obra antes mencionada--, em começos da década de cinqüenta, quando ultimava a publicação da História geral do Brasil, explica as razões pelas quais estava em dúvida quanto aos eventos com os quais a concluiria. Segundo indica, imaginava que seria o ano de 1825, para “compreender a Constituição; o reconhecimento da Mãe-Pátria e o nascimento de V.M.I, mas não me foi possível. Tão espinhosa é por enquanto a tarefa de imparcial marcação desse período, sobretudo para um nacional. Daqui a anos não será” (No texto publicado está “não o serei”, que não concorda com o teor da oração). Pelo que foi indicado, optou finalmente por 1822. 17 Compreende-se a dificuldade de Varnhagen, quando se vivia pouco mais de uma década na busca dos caminhos para estabelecer o que foi batizado de “conciliação nacional” e não se sabia se, desta vez, o país iria alcançar o normal funcionamento das instituições governamentais. No ciclo em apreço, não devia haver o necessário distanciamento para escolher os documentos que pudessem dar uma idéia do que Octávio Tarquínio chamou de “lutas tão ásperas” para caracterizar os dois decênios que se seguiram à Independência. É fácil dar-se conta da consistência de seus argumentos se tivermos presente a incapacidade dos republicanos de valorizar a nossa primeira experiência de governo representativo, vale dizer do Segundo Reinado, persistindo no tom planfetário do período em que se tratava de popularizar a idéia do novo regime, o que até hoje dificulta conceber instituições capazes de reproduzir o meio século de estabilidade política que nos proporcionou aquela primeira experiência. A opção por levar a História Geral até a Independência terá tardado tanto muito provavelmente porque se tratava, como era de seu parecer, empreendimento de “grande responsabilidade não só com o Brasil como para com Portugal”. A decisão de enfrentá-lo, é ainda Varnhagen quem esclarece, prende-se a “fatos novos e novas apreciações (que) se nos apresentaram em vista de novos documentos e informações fidedignas por nós recolhidas, às vezes inteiramente em oposição às que se encontram admitidas pelos escritores que nos têm precedido...” Aproveita o ensejo para explicitar um dos princípios que, entende, devem nortear a ação de quem se proponha dedicar-se a esse tipo de estudo. Escreve: “O historiógrafo não pode adivinhar a existência de documentos que não são de domínio público e não encontra, e cumpre com o seu dever quando, com critério e boa fé e imparcialidade, dá, como em um jurado, mui conscienciosamente o seu veredictum, cotejando os documentos e as informações orais apuradas com o maior escrúpulo que, à custa do seu ardor em investigar a verdade, conseguiu ajuntar”. 18 A História da Independência corresponde a um verdadeiro primor em matéria de utilização da documentação disponível. Assim, por exemplo, a convicção (ou talvez sobretudo a esperança) da entourrage de D. João VI, diante da Revolução do Porto, era a de que não conseguiria sustentar-se. Essa evidência, contudo, é transmitida através de sucessivos documentos e acaba por saltar às vistas do leitor pela simples apresentação da correspondência daquelas autoridades --e do próprio Rei-- com as Cortes de Lisboa, que acabaram sendo divulgadas. O Ministério da época --ao qual um partidário da monarquia constitucional como Palmella não conseguiu ajustar-se, terminando por pedir demissão--, com a anuência de D. João VI, obviamente tratava de ganhar tempo. Conclui-se que estavam empenhados na preservação da monarquia absoluta, sem que essa tese seja alardeada. Deste modo, a ascensão de Silvestre Pinheiro Ferreira ao governo sugere que D. João VI convencera-se de que seria obrigado a negociar. Sua escolha para chefiar o governo correspondia a acontecimento inusitado no contexto, a ponto de que o próprio, não tendo tomado conhecimento de dois chamados anteriores do Rei, acabou sendo conduzido preso a palácio. Silvestre Pinheiro Ferreira tivera oportunidade de indicar ao Rei a necessidade de antecipar-se à transição, de modo a trilhá-la de forma pacífica. Diante da intransigência das Cortes, fracassada a tentativa de negociação empreendida por Silvestre Pinheiro Ferreira, tornando impossível a convivência tanto com o Rei como com a nova liderança emergente no Brasil, não lhe restava outro caminho senão o de exilar-se na França. Cito estes fatos para mostrar como o tratamento escrupuloso, do material histórico disponível, pode facultar nova luz na compreensão do processo em seu conjunto. Do que precede acredito ter tornado patente que Varnhagen estava imbuído dos princípios que, no século XIX, lançaram as bases das novas regras de estabelecimento da objetividade histórica. 19 Indique-se, adicionalmente, que na História geral do Brasil menciona expressamente cada um dos historiadores que o antecederam, prestando-lhes o devido tributo. No tópico subseqüente tentaremos destacar as regras que Varnhagen procurou estabelecer para a história geral do país, regras essas que, preservadas sem revestir-se de tom dogmático ou impositivo, permitiram a gerações posteriores de historiadores revisitar muitos dos temas então abordados, aprimorando o seu conhecimento, sem embargo do que se indicará acerca do quadroatual. A concepção do formato adequado ao caráter geral da obra Como se sabe, quando os instituidores do Instituto Histórico discutiam o formato de que deveria revestir-se uma História do Brasil, tinha-se dúvida inclusive de onde começar, cogitando-se mesmo da hipótese de fazê-lo a partir de 1808. É nesse ambiente que sobressai a contribuição de Varnhagen, estabelecido o consenso de que se partiria do descobrimento. Na época, a questão das fronteiras ainda era sensível, na medida em que faltava acertar detalhes onde as divergências eram, a bem dizer, inevitáveis, cabendo soluciona-las de forma a não deixar seqüelas, feito notável alcançado pelo Barão do Rio Branco. Prudentemente, não cita as coordenadas geográficas, passando diretamente às razões prováveis da escolha do nome, acidentes geográficos, clima, fauna, etc. Tudo indica que o fez deliberadamente, na medida em que se ocupara especificamente do tema quando do exercício de funções diplomáticas nos países vizinhos. Com o passar do tempo, a lacuna seria preenchida, cabendo registrar, na matéria, a dedicação com que Max Guedes reconstituiu a história da cartografia dedicada ao país. Os outros aspectos físicos também vieram a ser fartamente ilustrados, mencionados em nota por Rodolfo Garcia. 20 Seguem-se a reunião das informações que se preservaram sobre os aborígines e do contexto histórico em que se dá o descobrimento. Quanto aos indígenas, considero que a informação reunida por Varnhagen deve ser preferida à dos jesuítas que se ocuparam dos primeiros passos da catequese. Sem embargo do papel que desempenharam no estabelecimento das bases de um dos elementos- chave da unidade nacional --a religião cristã--, deram preferência àqueles aspectos da cultura aborígine que poderiam facilitar a transmissão de sua mensagem. Outras fontes a que recorreu Varnhagen, a exemplo de Gabriel Soares de Sousa, a descreveram sem segundas intenções sendo talvez mais fidedignas. A verdade é que o convívio com os portugueses tornou cada vez mais difícil apreendê-la em sua pureza original, como se pode comprovar dos percalços experimentados por Couto de Magalhães (1837/1898), nesse mister, conforme se pode ver dos resultados de suas pesquisas, sistematizadas em O selvagem (1876). No caso, à historiografia competiria dar conta dos seus valores originários, incumbência que não abrange avaliações. Não se trata também de evitar que sejam efetivadas mas apenas de precisar que tal deve dar-se em lugar próprio. Ainda quanto a esse aspecto, na época de Varnhagen acreditava-se ser possível estabelecer, em bases científicas, a sua origem. Embora se haja detido nesse aspecto em outro lugar -- L´origine touraniene des Americans Tupi-Caribes et des anciens Egyptiens indiqueée par la Philologie comparée et notice d`une emigration em Amerique effetuée à través l´Atlantique siécles avant notre era.Vienne, 1876--, tudo indica que o interesse por esse tipo de especulação haja desaparecido. De todos os modos, não faz muito sentido, na História do Brasil, deter-se na reconstituição desse debate. No que respeita ao descobrimento, Varnhagen procurou escrupulosamente registrar não só o contexto da época como as conquistas da navegação portuguesa e o fato de que, no período em 21 que Cabral aporta a Porto Seguro, outros navegadores registraram a existência dessa parte do continente. Entendo que a abordagem clássica e definitiva sobre o tema coube a Capistrano de Abreu (1853/1927) no ensaio com esse título que, acrescido de “O Brasil no século XVI”, constitui a tese de concurso a que se submeteu no Pedro II (1881). Desde então tornou- se praxe publicá-los em conjunto. Publicação autônoma do primeiro ensaio pode ser acessado em www.cdpb.org.br/leiturabasica Começa deste modo: “Três nações da Europa disputaram a glória de ter descoberto o Brasil: a França, a Espanha e Portugal. Vejamos em que se assentam essas pretensões”. Consegui dar à pendência solução magistral. O elemento unificador dos três primeiros séculos corresponde ao estabelecimento e efetivação da política portuguesa de colonização. Parece tautológico mas assim não foi entendido pelos desbravadores de nossa historiografia. Tenha-se presente o exemplo de Southey, que fixou como a chave da compreensão do processo a disputa entre potências estrangeiras e a comunidade de destino histórico entre o Brasil e os países limítrofes. Varnhagen, por sua vez, foi logo ao ponto. Reconstitui minuciosamente os percalços da definição da mencionada política e enfatiza o papel de Martim Afonso de Sousa. A expedição desse nobre português mereceria o devido destaque, não só descrevendo-a como detendo-se no que colheu da própria expedição bem como o sumário de seus resultados imediatos. Tais aspectos mereceram nada menos que três capítulos. Seguindo o alvitre de Gabriel Soares de Sousa trata, em seguida, das “seis capitanias, cuja colonização vingou”. Nesse particular, vale transcrever a referência ao açúcar. Escreve: “Foi igualmente essa capitania (São Vicente) a primeira que apresentou um engenho de açúcar moente e corrente, havendo para esse fim o donatário feito sociedade com alguns estrangeiros entendidos nesse ramo, como os Venistes, Erasmos e Adornos, sem dúvida no Brasil mestres e propagadores de tal 22 indústria, que primeiro permitiu que o país se pudesse reger e pagar seus funcionários, sem sobrecarregar o tesouro da metrópole. Se alguns destes não eram já vindos das ilhas da Madeira e São Tomé, não há dúvida que muitos dos principais operários daí vieram, não só para o Brasil, como para as colônias tropicais da América espanhola, onde ainda são portugueses muitos nomes nos engenhos, como safra, chumaceira, etc.” É interessante frisar o fato de que tivesse desde logo assinalado qual o significado do que, mais tarde, seria batizado de “modelo agro-exportador”. Este é que permitiu ao Brasil, naquele tempo, “pagar as contas”, como de resto tem ocorrido ao longo do tempo, embora contestado em toda a nossa história, mesmo em momentos de grandes riscos para a nossa sobrevivência como na transição do trabalho escravo para o livre, até hoje satanizada por expressivos segmentos da intelectualidade. Varnhagen dedica capítulo autônomo à vida dos primeiros colonos e suas relações com os índios, logo consignando que começaram por adotar muitos de seus usos habituais, enumerando- os. Dizem respeito basicamente a espécies vegetais incorporadas à alimentação, palavras, etc. Parece-lhe contudo que, no tocante ao trabalho --que se revelou uma questão essencial, cabe enfatizar-- deixaram de atentar para o hábito que tinham de trabalhar poucas horas, evitando fazê-lo na parte mais quente do dia. Vista à distância, mais parece uma ilusão, certamente acalentada pelo desconforto que revela, no capítulo seguinte, em relação à alternativa adotada (trabalho escravo). A exemplo do comum dos conservadores brasileiros da época, tinha presente os riscos que enfrentava o país no imperativo da transição para o trabalho livre. Se não fosse encontrada uma saída --como veio a ocorrer com a invenção do original sistema de parceria (que combinava trabalho remunerado com atividade empresarial autônoma)-- iríamos enfrentar uma crise da qual ninguém sabe qual seria o desfecho. Duas inferências podem ser efetivadas da circunstância descrita. Primeira: mesmo um historiador escrupuloso como 23 Varnhagen pode deixar-se influir, na análise de determinado evento, por uma preocupação ocasional. Segunda: a importância para a normal sobrevivência dopaís de que se revestia, na segunda metade do século XIX, a eliminação do trabalho escravo de modo a assegurar a manutenção do modelo agro-exportador. O mínimo que se pode dizer dos que, ainda hoje, nutrem a convicção de que a pequena propriedade, conduzida por colonos estrangeiros, poderia desempenhar tal papel é que não sabem fazer contas. Depois de descrever os aspectos enumerados --que, sem dúvida proporcionam uma idéia (estática) do Brasil como um todo, no ciclo subseqüente à descoberta--, no formato idealizado por Varnhagen a fim de reconstituir a sua história, chega-se ao estabelecimento do governo geral (Capítulo XV). Completa o que, na sua visão, seria o essencial: a política portuguesa de colonização, elemento constitutivo daquilo que viemos a ser nos três primeiros séculos. A organização do governo geral deu-se em 1549, praticamente meio século após a descoberta. No período transcorrido, evidenciaram-se duas questões prioritárias: a defesa e a organização de uma atividade produtiva que pudesse, como foi referido, “pagar as contas”, sem embargo de que teria prosseguimento a pesquisa de riqueza mineral, basicamente ouro e diamantes. No registro do evento, Varnhagen chama a atenção para um outro aspecto. Eis como o assinala: “Resolvido o governo da metrópole a delegar parte de sua autoridade em todo o Estado do Brasil num governador geral, que pudesse coibir os abusos e desmandos dos capitães-mores donatários, ou de seus locotenentes ouvidores, que acudisse às capitanias apartadas em casos de guerras dos inimigos ou de quaisquer arbítrios, autorizando que fiscalizasse enfim os direitos da coroa, conciliando ao mesmo tempo os dos capitães e os dos colonos, determinou fixar a sede do governo geral na Bahia, por ser o ponto mais central, com respeito a todas as capitanias.” 24 A questão nova para a qual chama a atenção --a necessidade de assegurar-se a Lei e a Ordem-- viria a merecer aprofundamento na obra de Oliveira Viana (1883/1951), sobretudo em Populações meridionais do Brasil (1920). O aprofundamento em causa repousa na análise da forma de que se revestiu a organização da atividade produtiva central (grandes fazendas e engenhos), assumindo ao fim dos três primeiros séculos a feição de autênticos clãs. O país corria o risco da anarquia que certamente resultaria se diante dos chefes desses clãs não se tivesse erguido a autoridade do que denomina de capitães gerais (autoridades fixadas nas capitanias onde as populações foram se deslocando para o interior ou somente neste se localizassem, a exemplo de São Paulo e Minas Gerais) para distinguir dos capitães-mores, denominação que lhe parecia deveria ser usada por referência a esse tipo de autoridade que logo foi instituída nos núcleos populacionais do litoral. A tese de Oliveira Viana, que nos parece bastante consistente, tem o mérito de bem precisar o papel da aristocracia rural no povoamento do país, sem idealizá-la, ao mesmo tempo em que fixa com propriedade o papel do Estado. Enterra a simplificação que seria popularizada, segundo a qual o país “não tinha povo, só Estado”. Ainda no que respeita ao tema da colonização, cumpre consignar a contribuição definitiva de Capistrano de Abreu ao detalhar devidamente o que chamou de “caminhos antigos e povoamento”. Embora Hélio Viana, na qualidade de um dos principais estudiosos de sua obra, considere que os Capítulos de História Colonial formam um todo que deve ser lido (ou estudado) em conjunto, o próprio Capistrano reuniu outros ensaios dando-lhe o título antes referido, que é justamente uma síntese extraordinária do papel da iniciativa privada na ocupação do interior do país. Enfim, bem fixadas as características da política portuguesa de colonização, para Varnhagen os acontecimentos passariam a ser descritos em períodos históricos com certa homogeneidade. No primeiro século, toma por base, exclusivamente, os governos gerais - -talvez para fazer sobressair o seu entendimento de que, com a sua 25 criação ganhamos fonte documental primorosa--, detendo-se na década de oitenta para a introdução de uma espécie de balanço geral, data escolhida mais para homenagear os estudiosos precedentes como Cardim, Gandavo ou Gabriel Soares de Souza do que registrar o início do período filipino. Nas centúrias subseqüentes, com tantos eventos extraordinários como as guerras holandesas, no segundo, e o Tratado de Madrid e a mudança radical da coroa portuguesa de subserviência à Igreja Católica, com a ascensão de Pombal, a subdivisão teria que refletir a nova realidade. Rodolfo Garcia assinala que “a História do Brasil relativa ao século XVIII...é obra exclusiva de Varnhagen, o primeiro a escrevê- la integralmente, como bem observou Capistrano de Abreu. Para o tempo em que foi escrita, pode considerar-se completa ou quase completa”. Faz em seguida uma ponderação que pode ser considerada como adequada formulação de outro princípio que rege a historiografia, enriquecendo o legado de Varnhagen nessa matéria. Vejamos de que se trata. Escreve: “Mas a verdade é que aquele período histórico, que abarca os descobrimentos das minas, os movimentos emancipacionistas, as lutas com os espanhóis no Sul, que testemunha o povoamento insólito do Brasil, sua maior expansão territorial, sua mais acentuada importância política e administrativa: aquele período tem sido, depois de Varnhagen, objeto de pesquisas mais acuradas, de estudos mais aprofundados, à medida que os depósitos de documentos se tornam mais acessíveis, e à medida também que forem surgido monografias especiais elucidativas de fatos nele enquadrados.” Esse precisamente o entendimento que cabe preservar do significado do trabalho desenvolvido pelos que criaram a historiografia nacional, entre os quais Varnhagen ocupa lugar dos mais proeminentes. A esse propósito não poderia deixar de registrar aqui a visão renovada que tem sido proporcionada do mencionado século XVIII, justamente seguindo uma das pistas abertas pelo insigne mestre. 26 Como antes se referiu, Varnhagen registra a atuação da Inquisição no Rio de Janeiro, na primeira metade do século XVIII, a fim de destacar o caráter odioso da instituição. O significado da presença do Santo Ofício, em nossa história, corresponde a um dos aspectos mais enriquecidos pela investigação subseqüente. Assinalo o que me parece essencial. Omer Mont´Alegre (1913/1989) havia correlacionado a intensificação da atividade inquisitorial, no período mencionado, isto é, primeira metade do século XVIII, ao desmantelamento do empreendimento açucareiro --na obra Açúcar e capital (Rio de Janeiro, Instituto do Açucar e do Álcool (IAA), 1974). De fornecedor praticamente monopolista no século XVII e início do seguinte, chega à condição de participante marginal, nesse mercado, no fim da centúria (13,7% das exportações mundiais em 1796). Louva-se da freqüência com que se encontram senhores de engenho e outros ligados àquela atividade, nos dados então conhecidos sobre os autos-de-fé, bem como na denúncia efetivada, nesse sentido, por D. Luís da Cunha (1662/1749) em documentos dirigidos ao Rei e outras autoridades que, ainda que tudo indique tivessem sido do conhecimento de setores da elite, quando de sua elaboração, somente no início da transição para a monarquia constitucional, devida à Revolução do Porto (1820), vieram a ser divulgados com o título de Testamento político, obra posteriormente reeditada em diversas oportunidades, a partir de sua inclusão nas Obras inéditas de D. Luís da Cunha (Lisboa, Imprensa nacional, 1821). Nas indicações apresentadasao Rei encarece a necessidade de ser proibido o confisco dos bens dos senhores de engenho, a que se dedicava a Inquisição, nada indicando que haja sido atendido. A confirmação definitiva dessa hipótese resultaria do extraordinário trabalho de pesquisa desenvolvido pela professora da USP, Anita Novinski. Conseguiu identificar a profissão de parcela representativa dos processados pela Inquisição no mencionado período, permitindo concluir que cerca de 70% eram pessoas abastadas, entre estes senhores de engenho e outros personagens 27 ligados ao açúcar. A sistematização desses estudos constam de Rol dos culpados. Fontes para a história do Brasil --século XVIII (Rio de Janeiro, Expressão e Cultura) e Inquisição.prisioneiros do Brasil. Séculos XVI a XIX (São Paulo, Perspectiva, 2009). A intensificação da atividade do Santo Ofício, na primeira metade do século XVIII, no governo de D. João V, sendo inquisidor o cardeal D. Nuno da Cunha, acha-se igualmente documentada por Francisco Bethencourt (História das Inquisições --Portugal, Espanha e Itália, Lisboa, 1987). De minha parte, efetivei a periodização da Inquisição em Portugal (Momentos decisivos da história do Brasil --Martins Fontes, 2000). Tivemos oportunidade de referir os escrúpulos de Varnhagen no tocante à abrangência da História Geral do Brasil, optando por encerrá-la ordenando a vasta documentação que conseguiu reunir acerca da Independência. O imperativo de preservarmos a herança cultural de nossos antepassados Com a capacidade ordenadora do real (para usar uma expressão kantiana) que sempre tem demonstrado, Arno Wehling conseguiu bem situar tanto o papel formativo da obra de Varnhagen como os aspectos de que se ocuparam os que a consideraram desse ângulo. Seriam os seguintes: a) estudos biobibliográficos (incompletos os do século XIX e parciais os do século XX); b) a crítica cientificista (Capistrano, Silvio Romero e Pedro Lessa, reivindicando uma visão sociológica da história); c) crítica erudita, apologéticos ou buscando defeitos, embora proclamando qualidades; e d) reavaliações contemporâneas. A crítica cientificista era parte de movimento renovador da cultura brasileira, que teve desdobramentos positivos e negativos do ponto de vista de nossas tradições culturais. Abriu novos caminhos -- a exemplo do culturalismo de Tobias Barreto-- mas também reforçou 28 o cientificismo com efeitos catastróficos para a historiografia, presentes sobretudo no que Arno Wehling denomina de “reavaliações contemporâneas” e iremos referir. A tradição historiográfica digna do nome, mesmo quando não registra especificamente a Varnhagen, soube preservar os princípios que, de fato, eram consensuais aos criadores da historiografia brasileira. Arno Wehling refere o caso de Oliveira Viana que, como diz “implicitamente condenou a visão de Varnhagen através de um eloqüente silêncio”, não obstante o que, muitas das “teses por ele defendidas já se encontravam em Varnhagen”. Outros historiadores, que enumera, “se identificaram com o seu espírito”. A reavaliação contemporânea, desde as décadas de sessenta e setenta, notadamente por influência francesa, consiste, como diz, “num assalto às posições de Varnhagen... sobretudo com base em posições marxistas e naquelas vinculadas ao movimento dos Annales e da Nouvelle Histoire.” Essas posições, assinala, refletiram-se sobre o ensino de primeiro e segundo graus, adiantando que, “no ensino universitário e na pesquisa, inspiradores do ensino primário e secundário, a rejeição foi completa”. De minha parte, entendo que a rejeição não atinge apenas Varnhagen mas o conjunto da historiografia e às diversas linhas de pesquisa dedicadas á cultura brasileira, de um modo geral. Essa avassaladora ocupação da praça representa empobrecimento cultural de tal magnitude que exige uma reação à altura. O Brasil jamais ultrapassará o subdesenvolvimento --que longe está de limitar-se à economia-- se não for capaz de avaliar com propriedade as contribuições daqueles que nos precederam. Graças à simples comemoração dos quinhentos anos --que parece ter sido esquecida quando transcorreu apenas uma década-- perdemos o direito de continuarmos nos conformando com o atraso, reconhecido em análise isenta de qualquer domínio do conhecimento, a pretexto de que seríamos “um país jovem”. 29 Encontrar as formas de permitir que as novas gerações tenham acesso às mencionadas contribuições é um dever de que não podemos nos furtar. ANEXOS Nota sobre o modelo historiográfico de Southey Justifico nesta nota a afirmativa de que o trabalho pioneiro de crítica à obra de Gabriel Soares de Sousa é que terá inspirado Varnhagen na concepção do modelo que adotou na sua História Geral do Brasil. Como a edição da mencionada obra, ocorrida em 1825, havia sido precedida pela publicação da História do Brasil de Robert Southey (1774/1843), três volumes em inglês, efetivada em Londres entre 1810 e 1819 (a tradução portuguesa somente ocorreria em 1862, a cargo da Livraria Garnier, Rio de Janeiro), o mais plausível seria admitir que adviria desta o modelo em causa, notadamente por abranger o período colonial em sua quase totalidade enquanto o livro de Gabriel Soares de Souza apenas o primeiro século. Lembro aqui que traça as características físico-geográficas, descreve os aborígenes, destaca o significado da Expedição de Martim Afonso, em matéria de fixação da política colonial portuguesa e, talvez o que seria mais relevante, estabelece distinção entre as capitanias, ocupando-se das que considerava bem sucedidas por tê-las visto de perto. Essa distinção é que iria permitir reconhecer que, nesta fase inicial lançam-se as bases da próspera civilização implantada na Zona da Mata de Pernambuco e no Recôncavo Baiano, anteriores ao surto minerador. Naturalmente insere omissões e erros, conforme foi assinalado. A questão magna que interessa a Southey corresponde à disputa pela posse do Brasil. Registra a presença francesa mas de fato ocupou-se mais vivamente daquela que atribui à Espanha. Numa primeira aproximação, esse tipo de preocupação decorreria da existência do período filipino, quando de fato se estabelece o 30 domínio espanhol (que batiza de “usurpação”). Mas a razão talvez tivesse sido outra e até a insinua, como iremos referir. O certo entretanto é que não há um texto contínuo sobre o Brasil mas entremeado pela história de países vizinhos. Vejamos alguns exemplos. No primeiro volume, depois de indicar as viagens ao Brasil e registrar a de Cabral, embora a detalhe, logo a mistura com as de Américo Vespuci e passa ao capítulo II onde o tema é a descoberta do Rio da Prata. Embora neste figure a referência à subdivisão do Brasil em capitanias, não dá qualquer indicação de seu significado, em termos de política portuguesa de colonização. Nem parece ter-se dado conta de que proviria da Expedição de Martim Afonso de Sousa. A par disto, o relato acha-se entremeado por indicações relativas à disputa entre europeus pela posse do território. Cito: “Por estes mesmos tempos se formou outra capitania, a de Pernambuco. Um navio de Marselha ali havia estabelecido uma feitoria, deixando nela setenta homens, pensando em manter a possessão. Mas o navio foi apresado na volta, e sabendo-se assim em Lisboa do ocorrido imediatamente se tomam medidas, para reaver o lugar.” Não satisfeito com esta forma de apresentar a sua História do Brasil, o capítulo III está dedicado à fundação de Buenos Aires. No capítulo IV, que se segue, supostamente volta ao Brasil, desta vezdedicando-se ao Maranhão. Mas o projeto de ocupação de que se trata diz respeito a súdito de Espanha e explicita tratar-se do “privilégio de conservar as suas possessões na Nova Espanha”. Somente na parte final alude-se ao fracasso desta tentativa espanhola de colonização mas à portuguesa, que a sucedeu, dedica umas poucas linhas à presença do donatário, acrescentando “do qual não se teve mais notícia”. No capítulo seguinte (V) o tema é o Prata, com ênfase no Paraguai passando a ênfase, no capítulo VI, ao Peru. No VII, volta ao Brasil mas para se ocupar de Hans Staden. Estamos num terço do volume I, quando se chega ao governo geral. 31 Qual a imagem que nos transmite da área descoberta há poucos séculos? Primeiro, no que se refere especificamente à América do Sul, não haveria distinções a assinalar entre as partes componentes. A potência que destaca não é Portugal mas a Espanha. No que respeita propriamente ao Brasil, sobressaem as disputas por sua posse enquanto o domínio na parcela restante (Nova Espanha) parece inconteste. Não se apercebeu da mudança estabelecida na política portuguesa de colonização em decorrência da expedição de Martim Afonso de Sousa. No restante deste primeiro volume, como de resto nos dois subseqüentes (o último, terceiro, chega a Pombal, à expulsão dos jesuítas e ao que chama de “progresso no correr do século XVIII e seu estado ao tempo de passar ali a sede do governo”), a tônica não é diversa: disputa pela posse e integração ao conjunto. Em relação ao seu propósito há uma indicação esclarecedora no III volume (pág. 1428 da edição do Senado). Transcrevo-a: “Se os ministros ingleses tivessem previsto quão depressa iam ver-se envolvidos, numa guerra com a Espanha, teriam logo tomado parte na justa contenda do Rei de Portugal, a respeito de Nova Guiana, em vez de lhe excitarem ressentimento e a má vontade, intervindo unicamente para emplastar a desavença teriam encontrado na América poderoso aliado”. Cumpre esclarecer que estas indicações dizem respeito apenas à questão do modelo adotado por Southey --contrastando-o com o que preside à História geral do Brasil-- e nem de longe por em causa os méritos de sua obra. Prestou-nos enorme serviço, dando a conhecer aos ingleses algo acerca do Brasil. Há de ter contribuído para torná-los nosso aliado, quando passamos a carecer do reconhecimento internacional à vista da Independência. Nota sobre o livro História da Colonização Portuguesa do Brasil Em sucessivas oportunidades o nome de Varnhagen tem sido associado à obra em epígrafe. Levando em conta esse fato, pareceu- 32 me que seria adequado proporcionar ao leitor uma breve notícia de seu conteúdo. Ver-se-á que a associação em apreço prende-se sobretudo ao fato de que, tratando-se de documentar o feito considerado, a grande autoridade que os autores invocam é a do fundador da nossa historiografia. Com efeito, os documentos que permitiram fazer-nos uma idéia dos percalços experimentados por aquela maravilhosa aventura, praticamente em sua totalidade, tornaram-se acessíveis graças à dedicação daquele mestre, como tem sido apontado e pode-se ver do seu livro básico. A referência é a seguinte: História da Colonização Portuguesa do Brasil. Edição comemorativa do primeiro centenário da Independência do Brasil. Coordenação de Carlos Malheiros Dias. Porto: Litografia Nacional, 1921-1924, 3 vols. A obra acha-se fartamente ilustrada e tem estas dimensões: 37 x 28 cm. Indique-se que a publicação intitula-se, merecidamente, sem qualquer dúvida, de “monumental”. Na ilustração de abertura constam estas notas: Planisfério de Jerônimo Marini (1511), onde pela primeira vez aparece a América do Sul com a denominação de Brasil. O volume I inclui a carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel, versão em linguagem atual, com anotações da doutora D. Carolina Michaelis de Vasconcelos, professora de Filologia, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, v. 2., p. 86-99. Os documentos inseridos nos diversos volumes, geralmente localizados por Varnhagen, são transcritos em fac-símile e, por vezes, acompanhados da impressão do seu conteúdo com a ortografia da data da edição. A presença de Varnhagen é assinalada logo no início ao ser transcrito o fac-simile das recomendações que levaram Cabral a afastar-se da costa. A esse propósito teria oportunidade de esclarecer na História geral do Brasil: “Nas instruçõesescritas que recebeu e das quais chegaram providencialmente às nossas mãos alguns fragmentos da maior importância, foi-lhe recomendado que na altura de Guiné se afastasse quanto pudesse da África, para evitar suas morosas e doentias calmas.Obediente a essas instruções, que 33 haviam sido redigidas pelas insinuações de Gama, Cabral se foi amarando da África, e naturalmente ajudado a levar pelas correntes oceânicas ou pelágicas, quando se achava com mais de quarenta dias de viagem, aos 22 de abril, avistou a Oeste terra desconhecida” Em nota indica que “o fac-simile ou borrão da primeira folha do rascunho ou borrão dessas instruções, por nós encontrada e mandada gravar” foi oferecido à Torre do Tombo. A atribuição a Vasco da Gama --de responsabilidade de Varnhagen-- veio a ser confirmada pelos eruditos portugueses que prepararam a obra que estamos considerando, apenas com a precisão, efetivada por Antonio Baião, de que seriam notas tomadas pelo secretário de Estado Alcaçova Carneiro, ouvido o parecer de Vasco da Gama como perito na viagem” O primeiro volume está intitulado “Os precursores de Cabral” e inicia-se, como foi indicado, pelo fac-simile das instruções recebidas por Pedro Álvares Cabral. Tem como propósito atestar que, “a partir de certo ponto abandonou-se a circunavegação costa a costa, aventurando-se em alto mar.” A tese pretende justificar a transcrição de documentos que, no entender dos compiladores, permitiram deduzir da intencionalidade da descoberta. É apresentado o inteiro teor do Tratado de Tordesilhas. Além dos documentos --todos antecedidos por longas introduções--, este primeiro volume contém a caracterização da Era Manuelina, devida a Júlio Dantas ( capítulo I); da “arte de navegação dos portugueses” --Prof. Luciano Pereira da Silva ( capítulo II); “Dos falsos precursores de Álvares Cabral” --Prof. Duarte Leite (capítulo III); e de Duarte Pacheco Pereira, intitulado “Precursores de Cabral” (capítulo IV). Ao todo o volume tem 226 páginas, em grande número ocupadas por ilustrações. O volume II intitula-se “A epopéia dos litorais”, achando-se composto apenas por ensaios de eruditos portugueses, a saber: A expedição de Cabral --Jaime Cortezão (capítulo V); De Restelo a Vera Cruz --H. Lopes Mendonça (capítulo VI); A semana de Vera Cruz --C. Malheiro Dias (capítulo VII); A expedição de 1501 --C. 34 Malheiro Dias (capítulo VIII); O mais antigo mapa do Brasil --Prof. Duarte Leite (capítulo IX); A expedição de 1503 --C. Malheiro Dias (capítulo X); O comércio do Pau Brasil --Antonio Baião (capítulo XI); e O descobrimento do Rio da Prata --F. Esteves Pereira (capítulo XII). O volume abrange das páginas 227 a 458. O terceiro e último volume saiu a lume em 1924 e intitula-se “A Idade Média Brasileira” (1521-1580). Quer marcar a mudança de orientação, em seguida à morte de D. Manuel I (fins de 1521). Na Introdução, escreve Malheiro Dias: “A Índia dos esplendores inesperadamente aparecia transformada em sugadouro de cabedais e de vidas.” A seu ver, iria dar lugar “à reação do organismo nacional contra os males de um aparente gigantismo, que produziu a obra criadora de colonização do Brasil.”O volume III segue o modelo do antecedente, isto é, compõe- se de ensaios eruditos (desta vez com a participação brasileira), adiante relacionados. Assinale-se que o livro obedeceu a numeração autônoma das páginas, o mesmo acontecendo com os capítulos. Segue-se a enumeração: Capítulo I --A Metrópole e suas conquistas nos reinados de D. João III, D. Sebastião e Cardeal Henrique –C. Malheiro Dias (p. 2-58) Capítulo II --A expedição de Cristovam Jacques –Antonio Baião e C. Malheiro Dias . (p.59-96) Capítulo III –A expedição de Martim Afonso de Sousa -- Jordão de Freitas (p.97-166) Capítulo IV –A solução tradicional da colonização do Brasil - -Prof. Paulo Meréa (p. 167-193) Capítulo V --Os primeiros donatários --Pedro Azevedo (p. 194-220) Capítulo VI --O regime feudal das donatarias --C. Malheiro Dias (p. 221-258) Apêndice de documentos ( p. 259-286) 35 Capítulo VII --A nova Lusitânia --Oliveira Lima ( p. 287- 326) Capítulo VIII --A instituição do governo geral --Pedro Azevedo p. 327-344 Apêndice de documentos ( p. 350-383) Indicações sobre a transcrição Antonio Paim Consta da História Geral do Brasil este subtítulo: “Antes de sua separação e Independência do Brasil”. Subdivide-se em cinco tomos, que totalizam 1.795 páginas, aos quais foi acrescida a História da Independência do Brasil (365 p.). Essa separação prende-se ao fato de que Varnhagen a publicou depois de dar ao prelo os cinco tomos precedentes. Acertadamente, entendeu Rodolfo Garcia que corresponde à parte final da História Geral. De sorte que, o comum das reedições mantém esse formato, sem embargo de que em nada prejudica o conjunto sua publicação em separado. Varnhagen adotou a denominação de secção, ao invés de capítulo. Por razões que transcendem o objetivo central da transcrição (dar uma idéia do conjunto da obra), optamos por inserir de forma 36 autônoma --e logo no início-- a informação de que dispunha da atuação da Inquisição, no Rio de Janeiro, no século XVIII, razões essas que aponto na breve nota introdutória que a antecede.. No tomo primeiro, não chega a completar-se o relato dedicado ao primeiro século, a que se refere a transcrição subsequente, merecendo entretanto breves comentários. Na transcrição em causa, cujo propósito consiste em facilitar o conhecimento do magistral trabalho desenvolvido por Varnhagen, no estabelecimento dos marcos essenciais, a limitamos aos capítulos que fixam os rumos que seriam seguidos para assegurar a ocupação do território, dada a circunstância de não ter sido localizada riqueza mineral, de imediato, ao tempo em que a posse era disputada por potências européias concorrentes. Pareceu-nos que o mencionado objetivo seria alcançado pela apresentação das secções VII; VIII e IX, dedicadas à expedição de Martim Afonso (1530) e seus resultados imediatos. Para definir o caminho a seguir, incumbiu seu irmão de fazer uma viagem exploratória, de que deu conta em documento localizado por Varnhagen. Concebeu uma estratégia de ocupação que depois seria generalizada. Segue-se a secção XV, em que aborda a criação do governo central na Bahia (1549). Por fim, no que respeita ainda ao século XVI, transcreve-se a Secção XIII (com que se inicia o Tomo Segundo) que insere uma espécie de balanço. Intitula-se “O Brasil em 1584”, e tem o propósito de render homenagem a Gabriel Soares de Sousa, autor do Tratado Descritivo do Brasil. A publicação do que chamaríamos de “edição crítica” desse texto seria o primeiro trabalho historiográfico desenvolvido por Varnhagen e muito influenciaria no rumo que adotou e empreendeu. Não conseguiu determinar a data em que teria sido escrito (na edição de que se incumbiu havia adotado 1587), questão a que Rodolfo Garcia dedicou uma de suas notas. A parte restante desse tomo segundo contém indicações sobre a colonização do Norte e 37 as guerras holandesas. A estas acham-se dedicadas as últimas secções, a saber: XVII -Perda e recuperação da Bahia, acrescida de notícia da marcha da colonização XVIII –Desde a invasão de Pernambuco até chegar Nassau XXIX –Governo de Nassau até levantar o sítio da Bahia XXX –Desde o sítio da Bahia até a partida de Nassau O assunto tem seguimento no tomo terceiro, deste modo: XXXI –Revolução de Pernambuco até a primeira ação dos Guararapes XXXII –Desde a recuperação de Angola até o fim da guerra Varnhagen reuniu ampla documentação sobre o assunto indicado que, subsequentemente, tem sido muito estudado. Não nos pareceu que fosse o caso de transcrevê-los em parte, não tendo cabimento fazê-lo no todo. A parte restante do tomo terceiro compreende o fim do período filipino, com a aclamação de D. João IV rei de Portugal. Conforme declara Varnhagen, tem agora as atenções voltadas para o novo ordenamento institucional do pais, com a divisão em dois Estados. No tocante ao recente Estado do Maranhão, dá grande importância aos atritos com os jesuítas, a propósito de sua utilização dos índios como mão de obra, vetada ao comum dos colonos. Como conduziu ao desfecho dado por Pombal --a sua expulsão--e talvez por isto escreve que “os padres jesuítas não se conduziram, nesse assunto melindroso, com a prudência que as circunstâncias recomendavam.” A esse propósito transcreve trecho de uma representação encaminhada aos governantes, transcrita na Revista do Instituto 38 Histórico, onde se diz o seguinte: “Os verdadeiros missionários foram os Apóstolos de Cristo e são aqueles que não têm terras, nem rendas, nem propriedades, nem outros bens, alguns aonde assistem, e não aqueles que, com título de serviço de Deus e bem das almas, andam procurando terras e mais terras, com o pretexto de que são para os índios. O título é santo: o intuito é diabólico: porque com o seu nome se procuram as terras e os índios, para se servirem deles como escravos, para todas as suas lavouras, comércios, negócios e granjeiros.” A situação descrita provocou atritos dos mais sérios na região abrangida pelo Estado do Maranhão, notadamente no Pará, onde os moradores chegaram a levantar-se em armas para expulsar os jesuítas, consumada em sucessivas oportunidades e em várias localidades. Manifestações contra a Ordem tiveram lugar mesmo em São Luís, tendo se mobilizado em, favor dos colonos portugueses, os órgãos que então eram os autênticos institutos da representação popular, as Câmaras Municipais. Varnhagen tinha conhecimento da Crônica da Missão dos Padres da Companhia de Jesus no Estado do Maranhão, de autoria do padre jesuíta João Filipe Bettendorff, considerado como o depoimento mais confiável do mencionado conflito. Nessa obra há mais de um “livro” (partes em que o autor a subdividiu) com o título de “Levantamento do povo do Maranhão e do Pará contra os padres da Companhia de Jesus”. O período abrangido pela Crônica compreende a segunda metade do século XVII (o segundo da colonização). O Senado Federal editou, em 2010, a versão integral desse documento, que tem nada menos que 803 páginas. As razões do conflito eram claras. Varnhagen refere que os jesuítas dispunham de “22 grandes fazendas de gado e engenhos de açúcar” na mencionada região. Posteriormente passou-se a dispor de levantamentos circunstanciados desse patrimônio, com base nos registros efetivados quandose deu a sua expulsão, decretada por Pombal. Ficou estabelecido, por exemplo, que as fazendas que haviam criado na ilha de Marajó contavam com mais de cem mil 39 cabeças de gado. A fazenda de Santa Cruz (no Rio de Janeiro) era considerada a maior em todo o Centro-Sul. Sendo os índios a mão de obra empregada, qual a natureza desse vínculo? Varnhagen formulou essa questão que não foi respondida pelos que saíram em defesa dos jesuítas, argumentando com o papel que desempenharam na disseminação da religião, que ninguém contesta, nem tampouco a importância de que se revestiu na preservação da unidade nacional. Entendo ser suficiente o que se referiu, sendo desnecessária a transcrição de textos do autor, dando preferência a outros eventos. Entre estes, aqueles em que chama a atenção para a ação do Santo Ofício na primeira metade do século XVIII. Antecedo-a de uma nota em que destaco ter resultado na desorganização do empreendimento açucareiro, de onde proveio a maior parcela da receita de nossas exportações nos três primeiros séculos. Varnhagen referiu mas não deu maior desenvolvimento às bandeiras, que desempenharam papel destacado na disseminação do povoamento. Capistrano é que feriu o tema, inclusive mostrando como a pecuária resultou de sua atuação. Contudo, é fora de dúvida que o bandeirantismo nunca recebeu de nossa parte a atenção e destaque que merecia. Seria um grande tema para o cinema, a exemplo da exploração que Hollywood deu à Marcha para o Oeste nos Estados Unidos. Em compensação, deteve-se nos incidentes que seriam a origem da disputa, que se tornaria secular, em torno do controle do acesso à bacia do Prata. Como era de seu estilo, mobilizou a documentação disponível. Teria amplos desdobramentos, a exemplo do Tratado de Madrid, nesse terceiro século; a opção pela separação do Uruguai, logo no início da Independência –e mesmo o desfecho colossal que seria a Guerra do Paraguai--, não pareceu-nos essencial quando nos propomos apenas a manter viva a presença de Varnhagen e assegurar a possibilidade de que as novas gerações tenham dela notícia. No que respeita ao tomo quarto, dão uma idéia do desenvolvimento da obra as seções XLV –D. José I e Pombal. 40 Administração Josefina. Letras; e, XLVII -Idéias e conluios em favor da Independência em Minas. Adicionalmente, permitem situar a espécie de conservadorismo da elite que logrou facultar-nos uma experiência bem sucedida de governo representativo, a que pertencia Varnhagen. A transcrição se conclui com textos da parte dedicada à Independência. O propósito é dar uma idéia do volume da documentação que mobilizou para concluí-los. PRIMEIRO SÉCULO (século XVI) SECÇÃO VII (III da I edição) ATENDE-SE MAIS AO BRASIL. PENSAMENTO DE COLONIZÁ-LO EM MAIOR ESCALA Os Portugueses na Ásia. Os Franceses no Brasil, Recursos do foro e da diplomacia. Ango. Roger. Jacques. Igaraçu e Pernambuco. Diego Garcia e Cabot. D. Rodrigo de Acuña. Porto de D. Rodrigo. Baixos de D. Rodrigo. Suas peregrinações. D. Rodrigo em Pernambuco. Cristóvão Jacques e os Franceses. Antônio Ribeiro. Idéia de colonização. Diogo de Gouveia. Méritos de Gouveia. Resolve-se a colonização do 41 Brasil. Henrique Montes. Martim Afonso de Sousa. Poderes que trazia. Pero Lopes de Sousa. Reclamações de França. Negociações diplomáticas importantes. Vimos na secção precedente como já no reinado de D. Manuel e pelo menos desde 1516, haviam sido dadas algumas providências em favor da colonização e cultura do Brasil. Sabemos, além disso, que depois o mesmo rei, ou pelo menos o seu sucessor apenas começou a reinar, criou no Brasil algumas pequenas capitanias; e que de uma delas foi capitão um Pero Capico, o qual chegou a juntar algum cabedal. Igualmente sabemos que os produtos, que iam então do Brasil ao reino, pagavam de direitos, na casa da Índia, o quarto e vintena dos respectivos valores, e que, no número desses produtos entravam não só alguns escravos, como, em 1526, algum açúcar “de Pernambuco e Tamaracá”. Decorriam, porém, os anos, e o Brasil seguia com o seu imenso litoral à mercê de qualquer navio que o procurava. – Não há por que fazer censuras. Os esforços e os capitais empregados na Ásia produziam maior e mais imediato interesse, nessa época de crise comercial, em que se efetuava em favor da Europa um grande saque das riquezas empatadas no Oriente. Além de que, ainda sem considerar a questão sob miras econômicas, é certo que Portugal, forçando os turcos a levar a guerra à Ásia, aliviou por algum tempo a Europa do seu peso ameaçador, e sustentando o comércio da especiaria por mar, consumou o pensamento de Lull de empobrecer bastante o Egito. Ora, não fora possível durante essa luta distrair muitos navios e forças para outro continente. Os adustos campos das então recentes glórias portuguesas, a própria África, onde filhos de reis iam armar-se cavaleiros, começou a ser descuidada. E ainda supondo que já então tivesse ocorrido a idéia que depois (nesse mesmo século) ocorreu (1), de que no Brasil poderia vir a organizar-se um 42 grande império, a metrópole aguardava acaso para isso melhor ocasião. A glória que Portugal adquiriu na Ásia custou-lhe, entretanto, a perda de muita da sua população, e o perverter em parte a índole dos seus habitantes, com tantas piratarias e crueldades. Em virtude delas, o têm coberto de baldões, como se as crueldades e as piratarias não tivessem em todos os tempos sido apanágio das conquistas. Esses heróis da antiguidade, que, em geral, só contemplamos pelo aspecto maravilhoso, também praticaram muitas crueldades e muitas injustiças; porém como aos panegiristas, que nos transmitiram seus feitos, não faltou manhoso artifício para no-lo contarem a seu modo, ocultando tudo quanto lhes não servia ao panegírico, e nem todos os que lêem são pensadores, sucede que muitos, inconseqüentemente, louvam e admiram na história como heroicidades feitos idênticos aos que em outra época, ou em outro país, condenam como misérias e pequenezas desta ou daquela geração. Se de todas as conquistas dos Gregos e dos Romanos tivéssemos histórias escritas pelos seus inimigos ou rivais, talvez que não admirasse o mundo tantas proezas, nem tantos heróis. Enquanto, porém, Portugal se via a braços com grande número de inimigos no litoral e mares da Ásia, onde, em 1521, a sua armada constava nada menos que de uns oitenta e tantos vasos (Doc. da Torre do Tombo), muitos armadores da Bretanha e Normandia, já avezados à navegação das costas de Guiné e da Malagueta, passavam não só a alguns excessos de pirataria com os galeões que vinham da Índia, como a traficar nas terras do Brasil; onde adquiriam quase de graça gêneros, que nos mercados europeus obtinham grandes valores, e os quais lhes deviam produzir maiores vantagens do que aos contratadores portugueses; por isso mesmo que não tinham, como estes, de indenizar a coroa pela faculdade de comerciarem. – Debalde havia Portugal proibido com duras penas aos seus “mestres de cartas de marear’ o fazerem pomas 43 ou esferas terrestres, e o marcarem nos mapas as terras ao suldo rio de Manicongo e das ilhas de São Tomé e Príncipe (Alov. de 13 de Nov. de 1504, na Torre do Tombo). Debalde proibia que aceitassem seus pilotos e marinheiros (Ordenações Manuelinas, liv. V, tít. 98, § 2; tít. 88, § 11) o serviço de mar de outras nações, pensando talvez com isso obstar à propagação dos conhecimentos náuticos pela Europa. Os ousados navegadoresde Honfleur e de Dieppe freqüentavam cada dia Mais os portos do Brasil. As guerras da França não faziam diminuir o ardor e a atividade dos seus homens do mar, estimulados por tantos lucros. Em 1516 haviam chegado a Portugal tais notícias de suas navegações no Brasil, que el-rei D. Manuel mandava por seus agentes representar contra elas à corte de França (2). E digamos desde já que tão poderosos se tinham feito alguns armadores, que nem o mesmo governo francês podia sujeitá-los, e que Portugal, depois de haver exaurido na França, perante os tribunais, os parlamentos e a própria coroa, todos os recursos do foro e da diplomacia, se viu obrigado a transigir e a negociar com os mais notáveis corsários, que eram João Afonso e o célebre João Ango, ao depois visconde de Dieppe (3). Todos estes acontecimentos merecem uma história especial que não duvidamos se escreverá algum dia; pois sobram para ela os documentos, dos quais somente aproveitaremos agora o que mais de perto nos interesse. Sabemos que, já em vida de el-rei D. Manuel, fora o seu subdito Jácome Monteiro nomeado embaixador junto a Francisco I, com instruções para representar acerca das tomadias e das invasões nas suas conquistas, efetuadas umas e outras por franceses. A Monteiro sucedeu João da Silveira mandado por D. João III, apenas subiu ao trono, com especial recomendação para que ponderasse quão triste era que se estivessem hostilizando no mar os súditos, de dois reis e de duas nações que se diziam amigos (4). Apesar das reclamações que faziam, como levamos dito, os agentes portugueses, empreendera Hugues Roger com felicidade em 1521 uma viagem 44 à nossa costa, e havia notícia de que se preparavam outros navios. Por fim, em 11 de Fevereiro de 1526, escrevia o embaixador João da Silveira, como em França se armavam dez navios para virem apoderar-se das embarcações que encontrassem. Tal aviso, a nosso ver, decidiu Portugal a mandar ao Brasil de guarda-costa, neste mesmo ano, uma esquadrilha composta de uma nau e cinco caravelas, a qual findo certo prazo devia ser rendida por outra. Vinha por capitão-mor Cristóvão Jaques(I), e trazia de chefes subalternos Diogo Leite, com seu irmão Gonçalo Leite, e Gaspar Correia. O mesmo Jaques era portador de um alvará, passado em Almeirim por Jorge Rodrigues, a 5 de Julho de 1526, autorizando a Pero Capico a retirar-se. Esse alvará era concedido nos seguintes termos: “Eu Elrei Faço saber a vós Christovão Jacques, que ora envio por Governador às partes do Brasil, que Pero Capico, Capitan de uma das capitanias (5) do dito Brasil, me enviou dizer que lhe era acabado o tempo da sua capitania, e que queria vir para este Reyno, e trazer comsigo todas as peças de escravos e mais fazendas que tivesse, Hey por bem e me praz que, na primeira caravela ou navio que vier das ditas partes, o deixeis vir, com todas as suas peças de escravos e mais fazendas; comtanto que virão diretamente à casa da India, para nella pagarem os direitos de quarto e vintena, e o mais que a isso forem obrigados, na fórma que costumam pagar todas as fazendas que vêm das sobreditas partes” (6). Jaques alcançou a costa do Brasil no fim do dito ano; e fundeando no canal que separa do continente a ilha de Itamaracá, deu ali princípio a uma casa da feitoria no sítio, que se chamou “dos Marcos”, em virtude dos que aí depois se colocaram para termos de demarcação, no próprio continente, quase em frente da entrada do sul do mesmo canal, e da antiga vila da Conceição, situada a cavaleiro, na própria ilha. Esta 45 feitoria, ou outra a par desta, passou ao que parece a ser estabelecida pelo mesmo Jaques no porto de Pernambuco ou antes Paranámbuko, nome que significa furo do mar, segundo alguns; mas que parece antes dever derivar-se de duas palavras equivalentes a “mar largo”; visto haver no litoral mais algum Paranambuco, sem nenhum furo ou ria (7). Deixando fundada essa feitoria, passou Jaques a correr a costa até o Rio da Prata, onde pouco tempo se demorou, regressando outra vez para o norte, a cometer feitos que não tardaremos em comemorar. Primeiro, nos cumpre dizer como por este mesmo tempo estacionavam ou navegavam nas águas do nosso litoral duas frotas, ambas de Castela. De uma, que constava de três naus, era chefe Diego Garcia (8). Mandava a outra, com igual número de redondos e mais uma caravela, Sebastião Cabot, filho do navegador de igual apelido, que descobrira por Inglaterra as costas do Norte deste grande continente. Estas duas frotas haviam deixado a Europa um pouco antes que Jaques. Diego Garcia, que partira primeiro, aportou em São Vicente; e tantos meses aí se demorou que parecia se esquecer do seu destino, que era subir o Rio da Prata. Por meio da relação que de sua viagem nos transmitiu, não se nos recomenda como homem verdadeiro, nem polido, nem superior à mesquinha inveja, e deve ler-se com precaução. Cabot era mandato às Molucas por este lado, reforçando outra armada maior que havia partido um ano antes, e da qual em breve daremos notícia. Aportou Cabot em Pernambuco(II), onde já encontrou a feitoria portuguesa, e seguindo a navegação para o sul, só avistou de novo terra nas alturas da ilha, a que então pôs o nome de Santa Catarina. Aí fundeou Cabot, e logo de um porto vizinho da parte do sul vieram visitá-lo muitos castelhanos, dos quais uns ali viviam desde muitos anos (9), e outros desde mui pouco tempo, não havendo querido seguir a D. Rodrigo, de quem passaremos a tratar. Era D. Rodrigo de Acuña o comandante da nau São 46 Gabriel pertencente a uma armada (10) que, às ordens do comendador Fr. Garcia Jofre de Loaysa, partira, antes de Cabot e de Diego Garcia, com direção às Molucas, seguindo derrota pelo ocidente. Essa armada, largando da Corunha em 24 de Julho de 1525, avistara em princípios de Dezembro a costa do Brasil, ao sul do cabo de São Tomé, e fora, pela maior parte, desbaratar-se junto ao Estreito de Magalhães. Não é de nosso propósito contar esse desbarato, ao qual pouco depois se seguiu a morte de Loaysa e do seu imediato Del Cano; e contentemo-nos de saber que D. Rodrigo achou refúgio em um porto, ao sul da ilha de Santa Catarina, e encontrou vários companheiros de Solis que, abastecendo-o de água, lenha e mantimentos, deram da terra tais informes que muitos da tripulação, alborotando-se, se determinaram a ficar nela, em vez de exporem-se a novos perigos de mar. As exortações de D. Rodrigo apenas puderam atrair-lhe alguns poucos dos alborotadores. Daqui proveio a este porto o nome de Porto de D. Rodrigo, com que por muito tempo foi conhecido nos mapas e roteiros. Acaso seria o mesmo a que Solis, dez anos antes, chamara Baía dos Perdidos, talvez em virtude dos mencionados seus companheiros que aí lhe fugiram ou se perderam; se é que esses indivíduos não houvessem efetivamente ficado por aí, voluntariamente ou desgarrados, já desde alguns anos antes. Com trinta e dois homens menos de tripulação, fez-se por fim D. Rodrigo de vela para o Rio de Janeiro. Neste porto convocou a sua gente a conselho: e nele foi resolvido que a nau em vez de seguir para as Molucas, voltasse à Espanha, com alguma carregação de pau-brasil. Dirigiu, pois, D. Rodrigo o rumo para o norte e entrou na Bahia. – Aí a tripulação se lhe diminuiu de nove homens que, indo à terra, lá ficaram devorados pelos selvagens, segundo se julgou. Saindo da Bahia para o norte, pela muita água que fazia 47 a nau, tratou de arribar, e deu-se a casualidade de que, meado Outubro, fosse entrar justamente num porto próximo do riode São Francisco, no qual se achavam carregando de brasil suas naus e um galeão de França (11). Os capitães franceses ao princípio ofereceram proteção a D. Rodrigo, mandando-lhe até dois calafetes; e quando, passados oito dias, se achava a nau espanhola virada de crena, e impossibilitada de navegar, caíram na fraqueza de ir acometê-la, intimando a D. Rodrigo que se rendesse. Vendo este que a resistência era impossível, meteu-se no batel, foi ter com os franceses, e conseguiu deles tréguas, ficando de lhes dar vinhos e azeite que diziam carecer. Enquanto, porém, se negociavam estas tréguas, e os franceses tendo o capitão castelhano em refém, se descuidavam da nau agredida, ela conseguia, não só surgir boiante, como picar as amarras, e fazer-se de vela. Quando os franceses despertaram do seu descuido, já a nau espanhola ia barra fora, sem o capitão, nem os marinheiros que o haviam acompanhado. Em vão D. Rodrigo lhes bradava e fazia sinais, em vão os seguia em um batel à vela. A nau São Gabriel já nem nas promessas do seu próprio capitão confiava, que tanta desconfiança levam os desenganos das promessas não cumpridas. Seguiu D. Rodrigo no batel todo aquele dia e parte do imediato. Porém... baldados esforços! a nau tinha desaparecido no horizonte, e o seu legítimo comandante e fiéis romeiros, exaustos de forças, emproavam para terra e iam varar à costa, a umas dez léguas para o norte do porto donde haviam partido: - naturalmente na paragem que se ficou até hoje chamando os Baisios de D. Rodrigo, quase defronte do rio Cururipe. Daí se dirigiram por terra, bastante expostos aos selvagens, ao porto que acabavam de deixar. Já tinham dele partido as duas naus francesas, e só ficara o galeão. Neste se alojaram os tristes por mais de um mês; mas acabando o mesmo galeão de carregar, fez-se de 48 vela, desamparando os míseros em um batel, sem mantimento algum! Não havia, porém, soado a hora final aos pobres desamparados. Entregues à providência, seguiram pelos mares durante vinte dias, nutrindo-se apenas de algum marisco e de pouca fruta que acertavam de colher pela costa, até que na ilha de Santo Aleixo lhes deparou Deus porto, onde puderam refazer-se. Nessa ilha tiveram a fortuna de encontrar alguma farinha de trigo, uma pipa de bolacha molhada, um forno, e anzóis com que apanharam muito peixe (12). De Santo Aleixo passaram à feitoria de Pernambuco (13). Cristóvão Jaques se negou a dar-lhes passagem para a Europa, primeiro em uma nau que enviava carregada de brasi l, e na qual mui provavelmente se embarcou, com seus haveres Pero Capico, e depois numa caravela que igualmente mandou regressar ao reino. Pela primeira escreveu D. Rodrigo ao bispo d’Osma; porém a carta, em vez de seguir ao seu destino, foi apreendida, e ainda hoje se guarda no arquivo público em Portugal (14). Dez meses depois escreve3u outras, uma das quais para el-rei D. João III; e estas chegaram a Lisboa, pela mencionada caravela, ao mando do capitão Gonçalo Leite. As que eram para Castela foram remetidas pelo embaixador em Lisboa (15) Lope Hurtado. Os da nau São Gabriel, depois de eleger por capitão ao piloto Juan de Pilola, não podendo montar o Cabo de santo Agostinho, retrocederam à Bahia, para querenar; porém, inquietados aí por outra nau francesa, passaram ao Cabo Frio e, deste, a um porto mais ao sul, do qual se fizeram afinal de vela para a Europa, chegando a Bayona de Galiza aos 28 de Maio de 1527 (16). Quando a nau espanhola São Gabriel, ao querenar, sofria as bombardadas dos três navios franceses, navegava elos mares brasílicos, por aquela altura, a armada de Sebastião Cabot, que deixara Pernambuco no mês anterior. – E ai dos aleivosos, se nessa ocasião se aproximara da costa a esquadra 49 espanhola! – Porém Cabot seguia de largo, e só foi de novo avistar terra na ilha de Santa Catarina, como antes dissemos. As informações que a Cabot deram os castelhanos, que nesta ilha encontrou, das riquezas do rio da Prata, o induziram, a pretexto de não poder empreender maior viagem por se haver perdido a capitânia, a subir pelo mesmo rio da Prata, em vez de prosseguir para as Molucas (17). Deixando, porém, os mais sucessos desta armada, bem como os outros da sua contemporânea castelhana ao mando de Diego Garcia (18), e que não pertencem à nossa história, sigamos a Cristóvão Jaques em seus feitos. Vimos como, julgando que lhe bastava ter consigo as cinco caravelas latinas, mandara para o reino a nau, com carga de brasil. Logo depois, andando a correr a costa, com quatro das ditas caravelas, travou peleja com três navios de mercadores bretões, dois deles de cento e quarenta toneladas. Combateu um dia inteiro, e, saindo vencedor, levou para Pernambuco os prisioneiros em número de trezentos. Segundo nos consta por tradição, este combate teve lugar num recôncavo, pelo rio Paraguaçu acima, junto à ilha ainda chamada dos Franceses. Sabendo, porém, positivamente, por outro lado, que as hostilidades começaram de parte dos navios franceses contra uma das caravelas, pelos tempos contrários esgarrada das outras, que depois acudiram, só teria o combate lugar nessa paragem, se acaso a ela se foram refugiar os mesmos navios, depois de começadas as hostilidades. As queixas do atribulado D. Rodrigo de Acuña, os informes de Gonçalo Leite, que se nos denuncia como pouco afeiçoado ao chefe, e uma carta de Diogo Leite, em que parece censurar quanto no Brasil se fazia, decidiram o governo em apressar-se a dar por acabada a comissão de Jaques. Para lhe suceder foi escolhido Antônio Ribeiro. E Jaques recolheu ao Reino, com os trezentos prisioneiros estrangeiros que tinha consigo na feitoria. Neste número entrou talvez Acuña, em favor de quem se empenharia o mencionado embaixador 50 espanhol Lope Furtado (19). Quanto a Ribeiro, nenhuma notícia encontramos dos seus feitos em nossos mares (20). Naturalmente abandonou pouco depois a costa com a esquadrilha, chamada talvez a outro serviço. O certo é que, ficando a feitoria desprotegida, caiu sobre ela um galeão de França, que a saqueou, conseguindo apenas o feitor Diogo Dias escapar-se em uma caravela, que ali então passava com destino para Sofala. Cristóvão Jaques, que havia tido ocasião de estudar o país e de avaliar a sua riqueza, e que conhecia o estado florescente a que já nesse tempo tinham chegado as colônias portuguesas da Madeira, dos Açores e de São Tomé, onde possuíam importantes solares vários senhores donatários, cujos avós apenas eram conhecidos, propôs-se a ser também donatário no Brasil, oferecendo-se a levar consigo mil colonos. Achava-se então em Lisboa Diogo de Gouveia, um dos portugueses mais ilustrados daqueles tempos, estabelecido em Paris, onde dirigia o colégio de Santa Bárbara, do qual saíram para o mundo literário não poucos alunos, que lhe deram glória. Gouveia, que desde 1513 prestava em França nos negócios das tomadias valiosos serviços, empenhou-se com el- rei D. João III para que levasse avante os intentos de Cristóvão Jaques (III). Parece, porém, que ainda então não estava a corte resolvida a seguir o seu parecer, como depois seguiu, apenas o tempo começou a deixar que se principiassem a realizar as previsões do profundo pensador, porventura antes tratado, como sucede ordinariamente, de sonhador e de utopista, pelos que não pensam, ou pelos que não chegam a lobrigar o que ele vê às claras. Digamos desde já que o de que tratamos é o mesmo doutor (ou mestre) Diogo de Gouveia, que depois (1537) foi eleito regente da Universidade de Bordéus e, nesta,lente de teologia, enquanto não passou a Coimbra com muitos outros professores que foi encarregado de ajustar (21). 51 Antes de prosseguir, cumpre-nos dizer que os interessados (22) nos três navios apresados por Cristóvão Jaques, requereram a Francisco I, por intermédio do conde de Laval, governador de Bretanha, cartas de marca que se indenizarem de suas perdas, que orçavam em sessenta mil cruzados. mandou Francisco I a Portugal para agenciar essas indenizações o rei d’armas Helice Alesge de Angoulême. Chegou este a Lisboa em Janeiro de 1529; deu conta da missão, porém, não sendo despachado durante mais de dois meses, regressou a França; e poucos dias depois assinava Francisco I uma carta patente de corso, em favor do célebre Ango, contra Portugal. Vendo-se, porém, mui necessitado de dinheiro, inclusivamente para pagar o resgate de seus filhos ao vencedor Carlos V, mandou o mestre Pedro de la Garde de embaixador a D. João III, oferecendo-se a cassar as cartas de corso, e pedindo-lhe trezentos mil cruzados emprestados. Respondeu o monarca português (com muitas desculpas e incumbindo de encarecê-las em França o seu embaixador João da Silveira) que por obsequiá-lo lhe emprestaria cem mil cruzados em dinheiro; e que o mais, que passava e muito de trezentos mil cruzados, lhe cedia também de empréstimo, se ele quisesse fazer justiça, obrigando muitos dos seus vassalos a restituir as tomadias ilegitimamente feitas. João da Silveira era autorizado, inclusivamente, a agenciar estes negócios, concedendo aos indivíduos que assentassem “algum proveito secreto” (23). A este mesmo intento foram de embaixada os desembargadores Lourenço Garcez e Gaspar Vaz. Entretanto, reconhecera-se que eram insuficientes as pequenas capitanias, antes fundadas no Brasil, e que as simples armadas de guarda-costa, além de muito dispendiosas, não prometiam toda a segurança; sem uma forte colônia nalgum porto vizinho, a que elas se pudessem recolher para refazer-se, não só de mantimento, como de gente, em caso de necessidade. Ao mesmo tempo a colônia, desenvolvendo-se e 52 crescendo, poderia com seus próprios recursos sustentar tal armada, sem sobrecarregar o tesouro da mãe-pátria. A idéia de fundar, pois, no Brasil uma colônia vigorosa começava a triunfar, quando se recebia em Lisboa uma carta escrita (IV) de Sevilha por um Dr. Simão Afonso, dizendo como acabando Sebastião Cabot de chegar mui derrotado do rio Paraná, o haviam mandado ali prender, e de como pensava ele doutor que Espanha não tentaria para aquelas bandas novas empresas. O plano vago da fundação de uma povoação forte no aquém-mar se fixou então justamente sobre essa paragem de clima temperado, e de tantas apregoadas riquezas, que os castelhanos escarmentados iam porventura desamparar de todo: sobre as margens do rio da Prata. Aprontou-se com mais rapidez a frota composta de duas naus, um galeão e duas caravelas. Além das competentes guarnições e tripulações, embarcaram-se nela famílias inteiras... “Vão para o rio da Prata!”... E bastava esta voz para não faltar quem quisesse alistar-se... Ao todo contam-se nas cinco velas (24), quatrocentas pessoas. Muitas destas diziam adeus à pátria, no momento em que porventura sonhavam que dentro de pouco volveriam a ela com grossos cabedais – com rios de prata. Henrique Montes, que estivera com Cabot e que tinha passado a Portugal, regressava na armada (V) feito cavaleiro da casa, e agraciado com o ofício de provedor dos mantimentos, assim na viagem, como ao depois, “em terra, em qualquer lugar onde assentassem” os que iam na armada, uns por obediência às soberanas ordens, outros por curiosidade, ou por ambição ou sede de riquezas, e alguns até por sua infelicidade – seus vícios e crimes. Para comandante fora escolhido Martim Afonso de Sousa, que ao depois se fez célebre na Ásia, obrando prodígios de valor (VI). Contava então apenas trinta anos; mas já, por seu bom juízo, havia merecido a honra de fazer parte dos 53 conselhos do rei. A amizade e o parentesco que com ele tinha o vedor da Fazenda D. Antônio de Ataíde, depois conde de Castanheira, deviam contribuir muito para a escolha; mas quem, como nós, teve ocasião de conhecer tão cabalmente o dito castanheira, por toda a sua correspondência privada e de ofício, incluindo a que ao depois por anos entreteve com o mesmo Martim Afonso, no serviço na Ásia, não pode por um só instante suspeitar que, no animo do conde, a amizade preponderasse ao zelo pelo Estado, tratando-se de um empregado deste, além de que: não era o conde da Castanheira exclusivo no conselho – e não se atreveria a fazer ao soberano qualquer recomendação, quando não tivesse o apoio de Antônio Carneiro, que era também secretário, mui influente na governação do estado. Demais: o êxito desta expedição e a sucessiva carreira de serviços de Martim Afonso justificam cabalmente a proposta que dele fez o seu primo e amigo a Sua Alteza – que tal era o tratamento que se dava ainda ao rei. Vinha Martim Afonso munido de poderes extraor- dinários, tanto para o mar, como para reger a colônia que fundasse; e até autorizado com alçada e com mero e misto império no cível e no crime, até morte natural inclusive; exceto quanto aos fidalgos que, se delinqüissem, deveria enviar para Portugal. Trazia autorização para tomar posse de todo o território situado até à linha meridiana demarcadora; para fazer lavrar autos, e pôr os marcos necessários; para dar terras de sesmaria a quem as pedisse, e até para criar tabeliães, oficiais de justiça e outros cargos. As sesmarias (25), deviam ser dadas em uma só vida, o que não parece coerente com o pensamento de ligar a terra à geração perpetuada de pais a filhos. Não sabemos que a política ou que miras envolvia esta disposição, que logo depois se modificou, com melhor conselho. Com Martim Afonso vinha também nesta armada seu irmão Pero Lopes de Sousa, moço honrado e de grandes brios 54 e valor, e igualmente muito bem conceituado perante o mesmo conde da Castanheira (26). À pena de Pero Lopes devemos hoje tudo quanto de mais averiguado sabemos dessa expedição, que se apresentou diante do Cabo de Santo Agostinho no último de Janeiro de 1531, depois de haver tido alguns dias de demora, para se refazer de mais mantimentos, na Ribeira Grande, porto da cidade capital do arquipélago de Cabo Verde. Para não interrompermos dentro de pouco a narração que vai seguir-se digamos já que, complicando-se as negociações em França, e havendo probabilidade de que mais se complicariam com alguns feitos da nova armada, foi lá de embaixador, em Maio de 1531, o próprio vedor da Fazenda D. Antônio d’Ataíde. E à presença nesse reino, durante poucos meses, deste prudente estadista, a quem por certo não se faz geralmente a devida justiça, atribuímos não só as capitulações celebradas com Ango, mas também as boas disposições da parte do almirante de França (VII) e outros, para os acordos depois tomados, em virtude dos quais, em 1537, se instalaram em Irun e Fuenterrábia comissões mistas de Portugal e França, para atenderem às reclamações de presas e tomadias, dos queixosos duma e outra parte. O próprio João Afonso, de apelido Francês, prático do Brasil (27) (e que antes de fugir de Portugal fora mestre de um navio de Duarte de Paz), recebeu del-rei carta de seguro de que não seria demandado, nem perseguido (28), por incurso nas penas dos naturais que aceitavam serviço do mar das outras nações, ou iam às conquistas sem licença (VIII). NOTAS EM NUMEROS ARÁBICOS (1) A D. Pedro daCunha, quando Portugal passou a domínio da Espanha, como se verá adiante, na secção XXI. Nos Diálogos das grandezas do Brasil, diál. 1º, lê-se que, ao chegar a notícia do descobrimento a 55 Portugal, um astrólogo “levantara uma figura e achara que a terra descoberta havia de ser uma opulenta província, refúgio e abrigo de gente portuguesa”. – (C.). (2) C. de P. Correia, de Bruxelas, em 5 de Fev. 1517, na Torre do Tombo Corp. Cron. I, 21, 24. – (A.). (3) Ferdinand Denis, Génie de la Navigation, págs. 113-115. – (A.). – Equívoco do Autor. F. Denis declara não dar crédito a essa absurda tradição de Dieppe. (Nota do Barão do Rio-Branco, no exemplar da 1ª ed. desta História, que se conserva na Biblioteca do Itamarati). – (G.) (4) As instruções dadas a João da Silveira acerca de tomadias de naus feitas pelos franceses, têm a data de 5 de Fevereiro de 1522. – Alguns documentos da Torre do Tombo, p. 459. – João da Silveira faleceu em 1530; Palha, A carta de marca de João Ango. 13. – (C.). (5) Prova que havia mais de uma. – (A.). – Haveria mais de uma capitania, sem dúvida; é, porém, duvidoso se a capitania era de terra ou de navio. Esta última hipótese parece a mais aceitável, sem embarco da carta de D. João III, extratada na secção seguinte. Pero Capico, ou outro de igual nome, apareceu depois na capitania de São Vicente como escrivão, sob o governo de Martim Afonso de Sousa. – Azevedo Marques, Apontamentos históricos, 2, 169, Rio 1879. – (C.). (6) Liv. das Reformações da Casa da Índia, fls. 25. Pública-forma de uma certidão em 23 de Janeiro de 1755. – (A.). (7) Pará-ná, rio tantas vezes, ou mar, e bog furo; ou antes pucu, largo, transformado em mbuku para a composição, segundo Montoya, Arte, cap. 22. – (A.). Nos Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, 8, 1880-1881, págs. 215-219, Baptista Caetano e Vale Cabral colecionaram as diversas etimologias de Pernambuco, que se encontram nos autores. Acham-se aí nada menos de onze interpretações, inclusive a de Varnhagen; mas Baptista Caetano opina por paraná-puka, arrebentação do mar ou rio grande, alusão quiçá ao recife. – (G.). (8) Diego Garcia era português, e fora ao rio da Prata em companhia de Solis, no ano de 1516. Tornando pela terceira vez a esse r io em companhia de D. Pedro de Mendonça, faleceu na ilha de Gomera nos últimos dias de 56 Setembro de 1535. Medina, J. D. de Solis, CCCXXXI. Não é, portanto, o mesmo Diego Garcia que em 1538 comandou um navio da expedição de Hernando Soto e descobriu a ilha de Diego Garcia nos mares índios. Harisse, com razão, defende sua memória contra os entusiastas de Sebastião Caboto, que a deprimem. – (C.). (9) Talvez em virtude de algum naufrágio, na ponta da barra do Sul, que ainda hoje se chama dos “Naufragados”. – (A.). Eram os companheiros restantes de Solis; deles já faz menção a carta de Çuñiga de 27 de Julho de 1524, citada na nota I no final desta secção. (C.). (10) Veja Herrera, Dec. III; 7º,; 5, 6 e 7. – Veja também Gav. 2, 10, 20, a C. de Antônio Ribeiro, de 28 de Fev. 1525, da Corunha, e a relação da viagem de Fr. Garcia de Mendoza, Tom. 5º. – (A.). (11) Eram “el galeon de Mosliense y Lomaria de la dicha villa, é otro navio de Normandia del rio de la Sena”. – Navarrete, Colección de los viajes, 5, 321. – (C.). (12) Segundo Oviedo houve, por esse tempo aproximadamente, uma feitoria de franceses em Santo Aleixo, o que repete La Roncière. Os companheiros de D. Rodrigo, que ainda em 2 de Novembro de 1728 existiam na feitoria de Pernambuco, chamavam-se Jorge de Catan (ou Catorico), Marchin Vizcaino, Bartholomé Vizcaino, Geronimo Ginovez, Alfonso de Napoles, Pascual de Negro (ou Negron) e Esteban Gomez. – Navarrete, Col. cit., 5,314,321 – (C.). (13) Em 30 de Abril de 1528 diz D. Rodrigo que havia 18 meses que ali estava, e em 15 de Junho de 1527 diz que havia 7 meses. – (A.). (14) G. 18, 5, 20; Navarrete, 5, 238; Varn. Prim. Neg. Diplomáticas, pag. 128. [Revista do Instituto, 65, 432]. (A.). (15) Of. do dito embaixador (em Simancas) M. 368. fol. 5. – Torre do Tombo, P. 1, 39, 133 e G. 15, 10, 30. – (A.). (16) Nav., 5, 173 e 233: quanto ao dito porto ao sul de Cabo Frio, ao qual na relação se chama Rio do Extremo, pode supor-se que fora a Angra dos Reis ou a baía de Guaratiba, em vista do lugar que lhe assina a carta de Diogo Ribeiro (1529). – (A.). 57 (17) Henrique Montes e Melchior Ramirez apenas confirmaram as notícias colhidas na feitoria de Pernambuco. Como evidencia Harisse no livro citado supra, Caboto já levava desde então a idéia de ir ao Prata. – (C.). – Conf. Henry Harisse, John Caboto, the discoverer of North America, and Sebastian his son, pág. 205, London, 1896. – As notícias teriam sido levadas a Pernambuco por Cristóvão Jaques. No Islario de Alonso de Santa Cruz lê- se: “Al austro de estas ay otras islas dichas de Christoval Jaques, que era un Portuguez llamado asi, que las descubrio veniendo a este rio por captan de una caravale desde la costa del Brasil a fama del oro, que se dezia aver en el”. – Franz R. von Wieser, Die Karten von America in dem Islario General de Alonso de Santa Cruz, pág. 56, Innsbruck, 1908. – (G.). (18) Conf. J. Toribio Medina, Juan Diaz de Solis, II págs. 186-188, Santiago de Chile, 1897. – (G.). (19) De muitos fatos narrados aquí pelo autor sao desconhecidas as fontes: no que vagamente chama tradição parece referir-se a Gabriel Soares, Tratado descritivo do Brasil. 16. – (C.). (20) Antônio Ribeiro, capitão-mor da armada, estava em Pernambuco em Novembro de 1528, quando despachava a petição de D. Rodrigo de Acuña. – Conf. Navarrete, Colección de los viages y descubrimientos, V, págs. 313-314, Madrid, 1837. – (G.). (21) Barbosa e Mariz enganam-se, atribuindo alguns de seus atos a André de Gouveia. Diogo faleceu, com mais de 90 anos, de cônego em Lisboa, em 1557. – (A.). (22) Yvon de Coctugar, François Guerret, Mathurin de Tournemouche, Jean Burcau e Jean Jamet. A tradução portuguesa da carta de Francisco I, de 6 de Setembro de 1528, ao rei d’armas de Angoulême, para que reclamasse justiça de D. João III pelos atentados sofridos, existe na Torre do Tombo, Corpo Cronológico, I, 43, 25, e está publicaa na História da Colonização Porruguesa do Brasil, vol. III, págs. 74-76. – A um “monseor Qualcougar”, por certo o mesmo Coctugar, refere-se a uma carta de D. João III ao Conde de Castanheira, de 21 de Setembro de 1533, sobre o concerto que com ele fizera, por intermédio de Guilherme Camier, bretão; recomenda que se lavre escritura pública do concerto para ficar muito seguro, que se dê 30 cruzados ao procurador para o caminho, com todas as boas palavras para que vá contente, e um pode de vinho ao seu serviço. – J. D. M. Ford, Letters 58 of Joh III, King of Portugal – 1521-1557, págs. 135-136, Cambridge (Massachusetts), 1931. – (G.). (23) C. R. a João da Silveira, de 16 de Janeiro de 1530; e sup. ao Arm. 26, m. 2º, n. 31. – (A.). – Navarrete, Col. de viajes, 5, 236. – (C.). (24) Em uma destas voltava ao Brasil o mesmo Diogo Leite, que estivera às ordens de Cristóvão Jaques. – (A.). – A armada, como se vê do Diário de Pero Lopes, constava da nau maior capitânia, de dois galeões: um chamado São Miguel, comandado por Heitor de Sousa, outro São Vicente, comandado por Pero Lobo Pinheiro, e duas caravelas: Princesa, comandada por Baltasar Gonçalves, e Rosa, comandada por Diogo Leite. – Fr. Luís de Sousa, An. de D. João III, 283, dá a armada como composta de três naus e quatro caravelas. – (C.). (25) “Sesmarias são as dadas de terras...que foram ou são de alguns senhorios”, etc. Ord. Man. IV, 67; e Filip. IV 43. – (A.). (26) A Martin Afonso escrevia de Pero Lopes o C. da Castanheira, em 1538: “Pêro Lopes, vosso irmão, está feito um homem muito honrado, e outra vez vos afirmo muito honrado. E digo vô-lo assim porque pode ser que por sua pouca idade vos pareça que terá bons princípios, mas que não será ainda de todo bem assentado nisso, como vô-lo eu aqui digo que é ainda menos do que o que dele cuido”. – (A.). A data 1538 não deve estar certa, pois não combina com o fato de Pero Lopes já ser então pai de família e donatário de uma capitania de juro e herdade. Será 1528? Em todo caso, será posterior a 1521, reinado de D. João III. – (C.). O Dr. Jordão de Freitas, História da Colonização Portuguesa do Brasil, vol. III, pág. 120, nota 161, diz que não parece aceitável a data de 1528, tanto mais que nessa época Martim Afonso de Sousa estava na corte, com o futuro conte da Castanheira. Se há erro de algarismo – acrescenta – possível será que em vez de 1538 deva ler-se 1335, ano em que Martim Afonso de Sousa já se achava na Índia, como capitão-mor do mar. Martim Afonso era parente do Conde da Castanheira. Em carta a este, do primeiro de Fevereiro de 1533, D. João III escreve: - “Vy a carta que me escrevestes sobre a vynda de Pero Lopes de Sousa, e o muyto prazer e cõtentamento que tendes das boas novas que elle trouxe. Vos agradeço muito, porque allem da Rezam que tendes de folgar tanto pelo parentesco que tendes com Martinho Afonso e Pero Lopes, também sam [sou] certo que a principall parte he por serem cousas tanto de meu serviço”. – J. D. M. Ford, Letters of John III, 59 citadas, pág. 81. – (G.). (27) “Joannis Alfonsi Francez, qui erat expertus in viagiis ad brasiliarias insulas”. – (A.). – O documento citado, escreve Sousa Viterbo, se acha no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, num maço de libelos apresentados pelo Dr. Jorge Nunes aos juízes comissários, delegados para a divisão das presas feitas no mar entre Portugueses e Franceses (Gav. 15, maço 24, doc. 3, libelo 16). No segundo libelo, logo em princípio, também se fez referências a João Afonso: “adversus Rogerium Bansa Magistrum unius navigiis qui erant de conserva Joannis Alfonsi Francez cognomento et contra Giles Philippes capitaneum navis aut navium dictae Joannis Alfonsi et contra Joannem Ango vicinos de Anna Frol...” – (C.). (28) Casa da Coroa, Arm. 26, 3, 10. – (A.). – Publicado pelo autor em Amerigo Vespucci, 115-116, Lima, 1865, e reproduzido por Sousa Viterbo, Trabalhos náuticos dos Portugueses nos séculos XVI e XVII, 1, 16- 17, Lisboa, 1898. – (C.). 60 NOTAS EM ALGARISMOS ROMANOS (I) Do Nobiliário ou Coleção de Títulos de diversas Famílias, por José Freire Montarroio Mascarenhas, códice da Biblioteca Nacional de Lisboa, resumiu o Sr. F. M. Esteves Pereira, História da Colonização Portuguesa do Brasil, vol. II, págs. 361-364, várias notícias acerca de Cristóvão Jaques, da procedência de sua família e da sua descendência, como também de suas expedições ao Brasil. Os Jaques, segundo essas notícias, eram originários do reino de Aragão. Huillelm Jaques, com seu filho Diogo Gil Jaques, passou a Portugal ao tempo da menoridade de D. Afonso V, quando governou o reino D. Pedro, duque de Coimbra, que lhe fez mercvê de terras no Algarve. Pero Jaques, filho de Diogo Gil, foi como seu pai fidalgo da casa real, teve as mesmas terras e morgado, e foi feito por D. Afonso V comendador de Bouças. Esse Pero Jaques foi o pai de Cristóvão Jaques, filho segundo, bastardo, porque os comendadores então não podiam casas, havido em Beatriz Afonso, mulher solteira, filha de lavrador honrado. Por carta de D. João II, datada de Montemor-Novo, a 31 de Janeiro de 1495, Cristóvão Jaques foi legitimado; como na mesma carta o rei diga: “querendo fazer graça e mercê a Cristóvão, filho de Pêro Jaques”, observa o Sr. Esteves Pereira, ib., 363, que “na data da legitimação Cristóvão Jaques devia ser mancebo de cerca de quinze anos, tendo nascido pelos anos de 1480”. Não se casou no Algarve com D. Isabel de Paiva, filha de Gil Anes de Magalhães, o cavaleiro, e D. Isabel de Paiva, sua mulher, conforme se tem escrito; mas com uma filha de Francisco Porto Carreiro, da qual houve três filhos, dois homens e uma mulher: Manuel Jaques Porto Carreiro, talvez o mesmo Manuel Jaques referido em outra nota; Francisco Porto Carreiro e Catarina Jaques, que foi casada com seu tio Henrique Jaques. Das mesmas notícias consta que D. Manuel, sendo Cristóvão Jaques fidalgo de sua casa, o mandou ao Brasil, dando-lhe cem mil reais para armar dois navios. Por outro mandado sabe-se que veio ao Brasil e “gastou na viagem dois anos, quatro (aliás dez) meses e dezoito dias, que começaram em 21 de Junho de 1516 e acabaram em 9 de Maio de 1519, com o ordenado de dezoito quintais de pau-brasil por ano... e recebeu de Pedro Cardoso, feitor das almandravas do reino do Algarve e cavaleiro da casa do rei, cento e vinte e cinco mil e quinhentos reais, além do que cobrou depois os cem mil reais que lhe havia prometido”, ib., 363. Dessa última quantia passou-se alvará, em 2 de Setembro de 1521, para lhe ser paga pelo tesoureiro Fernão Álvares; mas é possível que houvesse delongas no pagamento. 61 Foi nessa viagem, cujas instruções deviam ser contra os castelhanos, que Cristóvão Jaques, depois de fundar uma feitoria em Pernambuco, encontrou ao sul, em um porto de Santa Catarina, nove dos companheiros de Solis, e navegou até o Rio da Prata, conforme, baseado na carta de Luís Ramirez, presumiu Capistrano de Abreu (Livros I e II da História do Brasil de Frei Vicente do Salvador, pág. 35, nota, Rio, 1887; prefácio da História Topográfica e Bélica da Nova Colónia do Sacramento , págs. XLIII-XLIV, nota B, Rio, 1900) e agora, como justamente reconhece o Sr. Esteves Pereira, vêm confirmar as notícias de Montarroio Mascarenhas. A essa viagem devem referir-se as palavras do embaixador João da Silveira a D. João III, em carta de Paris de 24 de Dezembro de 1527, Alguns documentos da Torre do Tombo, pág. 490, avisando-o da partida projetada de navios franceses “hum grão rrio na costa do Brasil... creo que he o que achou Christovão Jacques”. De uma carta ao imperador Carlos V, escrita pelo sem embaixador em Portugal, Juan de Çuñiga, datada de Évora, 27 de Julho de 1524, tem-se deduzido outra viagem de Cristóvão Jaques ao Brasil e ao rio da Prata em 1521. O embaixador diz ter atraído à sua pousada, uns quinze dias antes, um homem que não nomeia, e que, confiando em sua palavra, embora com grandes medos, lhe disse “que agora três años, el Rey don Manuel le dió licencia que fuese á descubrir por aquella costa, prometiéndole grades mercedes si hallase cobre y otras cosas que él deseaba, y dice que se fué derecho al Brasil com dos carabelas, y que siguió la costa del dicho Brasil por el sudueste setecientas leguas de donde ellos toman el Brasil, y que halló à las CCC leguas, poco más ó ménos, nueve hombr4es de los que fueron com um Juan de Solís á descubrir, y habló com ellos, y están casados alli, y quisieran que él se los truxera, porque él no osó por ser astellano, y porque él sabia que al Rey le habia pesado de lo que iba á descubrir el dicho Juan de Solís, porque les prometió que si Dios alli le tornase, que los traeria. Dice que en la tierra que aquellos están no hay cosa de provecho, y que seguió su costa otras CCCL leguas, que son las DCC dichas, y que halló um rio de agua dulce, maravilloso, de anchura de cuatorce leguas, y que subió por el rio doce leguas y vió muy hermosos campos á todaspartes, y que surgió alli y tomó lengua de la tierra, y que dijeron que aquel río no sabian de donde venia sino que era de muy lejos…” Esse homem, diz em começo de sua carta o embaixador, “andaba com el Rey (de Portugal) en demandas y respuestas ára que le pagase su trabajo, ayudandole par que pudiese volver allá, a vista de lo que habia descubierto…” Medina, Juan Diaz de Solis, CCCXII-CCCXVI. Do exposto vê-se que a expedição descrita se efetuou três anos antes de 1524, isto é, em 1521; que era castelhano quem a empreendeu; que se compunha de duas caravelas; que a trezentas léguas, pouco mais ou menos do 62 lugar onde os Portugueses tomavam pau-brasil, isto é, de Pernambuco, seguindo para o sul, achou os nove homens da armada de Solis, em Santa Catarina, e, continuando a navegar, foi ter a um rio maravilhoso , de quatorze léguas de largura, pelo qual seguiu doze léguas. Vê-se também que, excluídas as duas primeiras circunstâncias, as demais se ajustam perfeitamente à armada de Cristóvão Jaques, de 1516 a 1519; por outro lado, não se conhece nenhuma expedição portuguesa que no último ano do reinado de D. Manuel viesse ao Brasil e ao Rio da Prata. Pode-se, portanto, admitir seja ele o homem a quem Çuñiga se refere, embora contra essa hipótese militem as duas circunstâncias apontadas: o tempo que o embaixador assinala para a navegação e a qualidade de castelhano que atribui ao navegador. Quanto à primeira, é possível engano de Çuñiga, ou do próprio Cristóvão Jaques, dizendo três años, em vez de seis años, o que datia 1518 ou 1519, para termo da viagem; quanto à segunda, é provável que Cristóvão Jaques, talvez desgostoso pela demora das recompensas prometidas, ou por não ter comissão nos primeiros anos do reinado de D. João III, pusesse seus serviços à disposição da coroa de Castela e se dissesse castelhano para vê-los melhor aceitos. Parece, pois, que se deve eliminar a expedição de 1521, fundida com a primeira de 1516 a 1519, sobre a qual não pairam dúvidas. Da segunda viagem sabe-se por Frei Luís de Sousa, Annaes de elrei Dom João Terceiro, pág. 178, Lisboa, 1844, que: “No mesmo (ano de 1526) despachou El Rey a primeyra Armada que foy em seu tempo ao Brasil; Capitão-mór Christovão Jaques. Foy correr aquella costa, e alimpalla de corsarios, que com teyma a continuavão pollo proveito do pau Brasil. E erão os mais dos portos de França do Mar Oceano.” Era uma armada de Guarda- costa e destinava-se especialmente a impedir que os Franceses continuassem a forragear em nosso litoral. Além de Cristóvão Jaques, que comandava a nau capitânia, vinham como capitães de três caravelas Diogo Leire, Gonçalo Leite e Gaspar Correia; mas não se conhece o número exato dos navios que compunham a esquadrilha. Uma carta do embaixador João da Silveira, datada de Paris a 11 de Fevereiro de 1526, referida no texto, denunciava ao rei que se estavam armando nos portos de França dez navios para o corso no Brasil, e essa seria a razão decisiva para o apresto da armada. A data da saída de Portugal não consta de documento algum conhecido. Da carta de Diogo Leite, de 30 de Abril de 1528, Revista do Instituto Histórico, 6,pág. 222, deduz-se que o tempo da armada era limitado a dois anos, “des o dya que chegamos a esta costa”, e já estava terminado; portanto, acrescentando -se àquele tempo, pelo menos, cinqüenta dias, que comportava a travessia oceânica, ter -se-ia para a partida os dez primeiros dias e Março de 1526. Mas, com essa suputação não 63 concorda o fato de trazer o capitão-mor um alvará passado a 5 de Julho daquele ano, que vem transcrito no texto, sobre a retirada de Pero Capico, além de que, se foi a carta de João da Silveira uma das causas determinantes da expedição, como parece, não é possível conceber que em tão angusto prazo – de 11 de Fevereiro a 10 de Março – sem contar o tempo que levaria a missiva do embaixador para chegar às mãos do rei, fosse ela aprestada. O mais certo é que tenha zarpado em Setembro ou Outubro, que era a monção preferida, para alcançar em Dezembro a costa do Brasil, como diz o autor. Do modo por que foi cumprida a missão existem documentos vários que certificam sobretudo da guerra sem tréguas feitas aos Franceses. Reclamações e queixas chegaram à presença de D. João III e por isso talvez Cristóvão Jaques tivesse sido substituído no cargo por Antônio Ribeiro, que na feitoria de Pernambuco despachava a 26 de Outubro de 1528 uma petição de D. Rodrigo de Acuña, para que se tomassem as declarações de alguns marinheiros da nau São Gabriel sobre os desgraçados sucessos que experimentaram desde sua separação da armada de Loaysa, Navarrete, Colección de los viajes, 5, 313-321. Depois o nome de Cristóvão Jaques ainda aparece em uma proposta, talvez de 1530, para povoar o Brasil, introduzindo mil colonos, como consta de uma carta de Diogo de Gouveia, datada de Ruão, 29 de Fevereiro e 1 de Março de 1532, a D. João III. “Entretanto, - observa Capistrano de Abreu, Livros I e II da História de Frei Vicente do Salvador, cits., - o seu oferecimento não foi aceito, nem seu nome figura entre os dois donatários, ou porque não parecesse satisfatório o seu desempenho de comissão, sobre o qual há muitas queixas, fundadas ou não, ou por qualquer outro motivo não conhecido, e que teria antes valor biográfico do que histórico.” Veja-se sobre Cristóvão Jaques: - F. M. Esteves Pereira, História da Colonização Portuguesa do Brasil, Vol. II, págs. 361-364; Antônio Baião e C. Malheiro Dias, ibidem, vol. III, págs. 59-94. – (G.). (II) Sebastião Caboto chegou a Pernambuco em 4 de Junho de 1526, por conseguinte um mês antes da nomeação de Cristóvão Jaques. Já encontrou fundada a feitoria e nela notícias das riquezas do rio da Prata, que o desviaram da projetada expedição às Molucas. É mais uma prova da viagem de Cristóvão Jaques sob o reinado de D. Manuel, e de logo daquela vez ter sido fundada a feitoria. Nada autoriza a crer que tivesse mudado de lugar. Pernambuco parece ter sido primitivamente o nome do canal que separa Itamaracá do continente. De um trecho do membro da expedição Alonso de S. Cruz que Harisse publicou em John Cabot, the discoverer of North 64 America, etc., pág. 409, London, 1896, pode concluir-se que Itamaracá era chamada naquele tempo ilha da Ascensão. Em Pernambuco a primeira pessoa que se dirigiu para a nau capitânia foi João ou Jorge Gomes, que estava desterrado e daí se incorporou à armada. Medina, J. D. de Solis, CCXCIII. O feitor chamava-se Manuel de Braga, como se vê no citado livro de Harrisse. – João de Melo da Câmara descreve esses colonos como homens que se contentam “com terem quatro indias por mancebas e comerem do mantimento da terra”, ao contrário dos que ele queria introduzir, “homens de muita sustancia e pessôas mui abastadas, que podem consigo levar muitas eguas, cavallos e gados, e todalas outras cousas necessarias para o frutificamente da terra.” – (C.). – Manuel de Braga obteve carta de mercê “dos officios de feitor e almoxarifado da capitania dos bytygares que Pero Lopes tem no Brasil”, os quais por seu falecimento passaram a João Gonçalves, criado de Pero Lopes, por carta de mercê feita em 8 de Fevereiro de 1538. – Liv. 49, fls. 30 v. da Chancelaria de D. João III, cit. pelo dr. Jordão de Freitas, na Lusitânia, vol. III, fasc. IX, pág. 324. Em Dezembro de 1530, quando a feitoria foi saqueada por um galeão de França, o feitor era Diogo Dias, que Martim Afonso foi encontrar na Bahia. É possível que Manuel de Braga tivesse o cargo pela segunda vez, e desta com a carta de mercê a que se refere o documento supracitado. – (G.). (III) Consta issodo seguinte trecho da carta que de Ruão escreveu a D. João III Diogo de Gouveia, a 29 de Fevereiro e 1 de Março de 1532: “A verdade era dar, Senhor, as terras a vossos vassallos, que tres annos ha que si a Vossa Alteza dera aos dois que vos falei, a saber do irmão do Capitão da ilha de S. Miguel, que queria ir com dois mil moradores la a povoar, e de Christovão Jaques com mil, já agora houvera quatro ou cinco mil crianças nascidas e outros moradores da terra casados com os nossos, e é certo que após estes houveram de ir outros moradores e si vos, Senhor, estorvaram por dizerem que enriqueciam muito. Quando vossos vassallos forem ricos, os reinos non se perdem por isso, mas se ganham... porque quando la houver sete ou oito povoações estes serão abastantes pera defenderem aos da terra que não vendam o brasil a ninguem e non o vendendo as naus não hão de querer la ir pera virem de vasio. “Depois disto aproveitarão a terra, na qual non se sabe si ha minas de metaes como deve haver, e converterão a gente á fé, que é o principal intento que deve de ser de Vossa Alteza, e non teremos pendença com esta gente nem outra...” – Varnhagen, Primeiras negociações, 135. [Revista do Instituto, 65, 438]. 65 O irmão do capitão da ilha de São Miguel chamava-se João de Melo da Câmara: dele possuímos uma carta a D. João III, sem data, mas de 29 ou 30, como se vê do trecho acima de Gouveia, em que alude à sua proposta, Melo da Câmara assim se refere a Christóvão Jaques: “... dá-me muita paixão darem pessôas informações a Vossa Alteza como querem, por onde o fazem assi estar perdendo tempo, e non tomar em nem uma cousa concrusão. E non sei, Senhor, quem lh’as dá, porque lhe non dizem que dê as terras que temperdidas a seus vasalos e naturaes, que lhas ganhem e povôem, pagando- lhe aquelles direitos que Vossa Alteza ordenar e forem resão, e não buscarem lhe cousas em que gaste dinheiro sem proveito, como agora me certificaram que dizia Christóvão Jaques que lhe mandara Vossa Alteza dizer que nã fazia nada desta terra sem seu parecer, o que lhe havia de mandar ou mandara já por apontamentos. E que este meio buscara por terceira pessoa, que o dissesse como de si a Vossa Alteza, que eu nã sei que parecer pode ser o seu, pois que Vossa Alteza tem por experincia nisto quanto foi. E diz que buscou este meio pera lhe dizer que nã dê sinã a tal parte a tal e que o mais guarde pera si pelo muito ouro, e prata, e metaes que ahi havia e que pera aqui havia de dar-me Vossa Alteza que o fizesse; mas até aqui não temos visto esta somma de metaes, nem quem vos visse, sinã dizerem que um homem viu outro... (falta) que fosse assi porque eu e os mais amigos nossos portuguezes e naturaes somos e leaes, e nã castelhanos nem francezes, e tudo como é servido de Vossa Alteza. E com isto diz que com estas cousas se ha de vingar dos que lhe pedem o seu, e que os ha de fazer ficar nas mõtanhas e serranias pera que se percam, porque elle crê que toda esta terra lhe pertence de direito, e que nã ha lá de mandar Vossa Alteza outrem sinã a elle, e assi o anda dizendo, que eu affirmo a Vossa Alteza que lhe o ouvi, e eu, Senhor, lhe digo pera que saiba a verdade e a tenção e fundamento deste homem, e dahi pode fazer o que mais seu serviço for. E si Vossa Alteza quizer mais verdadeira informação da terra, aqui andam homens que o sabem tão bem como elle, porque foram nella mais vezes, e que lhe darão verdadeiramente, porque nã são partes no caso.” – Sousa Vitervo, Trabalhos náuticos dos Portugueses nos séculos XVI e XVII, 1, 216-217, Lisboa, 1898. – (C.). (IV) Nota 26, da 1ª edição desta História, suprimida nas outras edições. “Carta de Simão Affonso, de Sevilha: - Sñr. eu estou nesta cidade de sevilha esperãdo requado de Vossa Alteza para daqui hir á corte do emperador pedir execução cõtra João frz. de crasto e seus bes se V. A. asi houver por seu serviço por que aqui ja esta detreminado q. se não ha de fazer sem o dº conselho vir por especial mãdado ás justiças desta cidade que a 66 fação segundo tenho escrito a V. A., e per não vir mãdado de V. A. não sam ja partydo porque sua justiça se perde é esto se dilatar mãdeme V. A. o que for seu serviço porque não espero outra cousa. Esta semana chegou aqui hu piloto e capitão que era hydo a descobrir terra o quoal se chama gabote piloto mor destes reinos e he ho que mãdou o navio que veo ter a lisboa agora ha dous anos que trazia nova de hua terra descuberta polo rio Pereuái que dezião ser de muito ouro e prata, elle veo muy desbaratado e pobre por q. dizer qué não traz ouro né prata né cousa algua de proveito aos armadores e de duzétos homes que leuou não traz vyte que todos los outros dyzé que la ficão mortos hús de trabalho e fome outros de guera q. cos mouros tiverão porq. as frechadas dizé mataraõ muitos deles e lhe desfizerão hua fortaleza de madeyra que la tinhaõ feyta, de maneira que eles vem mal cõtétes, e o piloto está preso e dizé que quere mãdar á corte ver o q. mãndoõ que se dele faça, o que disto pude saber e se aqui pobrica ayda que mui paso que na terra que dezião ter descuberto não deixaõ nenhum requado salvo a géte morta e o gasto perdido, dizé com tudo estes homes que vierão que a terra he de muita prata e ouro e a causa pesq. não traze nada he segundo dizé per que o capitão os não quis deixar tratar e taobem perque os mouros os eganaraõ e se levantaraõ cõtraeles disto podera V. A. crer o que lhe parecer, da terra ficar deserta não tenho duvida o rio dizé que he muito grande e alto e muito largo, na étrada se V. A. ouver por seu serviço mãdar la agora o podera fazer, porq. esta géte apartase donde não ve drº, e se acergua disto poder ao diãte saber mais particularidades escreverei a V. A., nosso snr, a vida e real estado de V. A. cõserve a acrecéte per muitos anos, de sevilha ha ij dagosto de 1530. – Simão, doctor.” (Torre do Tombo, Conf. Cron., I, 45, 90). – Conf. Henry Harisse, John Cabot, the discoverer of Nort-America, and Sebastian his son, citado, págs. 196. 427-428. – (G.). (V) Torre do Tombo, Chancelaria de D. João III, liv. 56, fls. 130 v. – (A.). Da volta de Henrique Montes dá notícia Herrera, Dec. IV, 1. X, c. 6. – (C.). – Henrique Montes era português: Harrisse, John Cabot, the discoverer of Nort-America, and Sebastian his son, citado, pág. 239; Medina, El veneciano Sebastian Caboto al servicio de España, Santiago de Chile, 1908, t. I, pág. 261, citando a declaração de mestre Juan, ibidem, t. II, pág. 238. Teria quatorze ou quinze anos de idade, quando acompanhou a expedição de Solis ao rio da Prata. De volta, em 1516, naufragou o galeão em que vinha com dez companheiros, nas vizinhanças do porto dos Patos, e ficou entre os índios até regressar à Espanha na armada de Cabot. Nesse intervalo prestou bons serviços a D. Rodrigo de Acuña, o comandante da São Gabriel, quando, 67 depois de abandonar a esquadra de Loaysa, tocou naquele porto. Montes levou consigo para a Espanha duas índias forras, suas mulheres; com uma delas passou a Portugal, a outra ficou em Cantillana. Embarcou de novo na armada de Martim Afonso de Sousa, como consta de Herrera, no lugar citado em princípio desta nota. Melchior Ramirez, natural de lepe, era com Montes derrelito da armada de Solis, em que tinha a graduação de alferes. Voltou à Espanha com Diego Garcia, que passou pelo porto de Patos pouco depois de Cabot. Sobre Montes há abundantes informações nos livros de Harrisse e Medina, citados supra, como também no deste último – Juan Diaz de Solis, vol. I, onde à pág. CCCXXXVIII se encontra o fac-símile de sua assinatura. Veja-se ainda a carta de Luís Ramirez,na Rev. do Inst. Hist., t. 15, 1853, págs. 14-41. – (G.). (VI) “Era Martim Afonso de Sousa um fidalgo principal e de alta linhagem, neto de Pedro de Sousa, senhor do Prado, e filho de Lopo de Sousa, senhor do Prado, Pavia e Baltar, alcaide-mor de Bragança, e aio do duque de Bragança. D. Jaime. O próprio Martim Afonso de Sousa foi na sua primeira mocidade criado dos duques, passando depois para o serviço de príncipe herdeiro, D. João. Ele e seu primo co-irmão, D. Antônio de Ataíde, foram os dois grandes validos e privados de D. João, chegando a tal este valimento que ofuscou o ânimo cioso del-rei D. Manuel, o qual tratou de arredar os dois jovens fidalgos da companhia de seu filho... Martim Afonso de Sousa era “fantesioso e opiniatigo”, e ressentiu-se tanto desta intervenção do rei, e da fraca resistência oferecida pelo príncipe às determinações de seu pai, que se retirou para Castela. Visitou então Salamanca, e residiu mesmo durante algum tempo naquela cidade, vindo a casar ali com D. Ana Pimentel, filha de Aryas Maldonado, regedor de Salamanca e Talavera, e pertencendo a uma das mais nobres famílias daquela província. “Quando el-rei D. Manuel faleceu, ainda Martim Afonso se conservava em Espanha e ali se deteve até que o novo rei o mandou chamar; o que este não fez nem tão prontamente nem de tão boa vontade quando ele esperava e desejava. No ânimo fraco e volúvel de D. João III estava já tanto apagada a memória da antiga amizade, “a privança era resfriada”. Dominava - o além disso a influência do outro valido, Antônio de Ataíde, que depois foi conde da Castanheira, vedor de sua fazenda, e já então era, como continuava a ser, o seu principal e mais intimo conselheiro. Dados os hábitos da corte de então, podemos crer que Antônio de Ataíde receasse a presença do seu antigo amigo e rival, e desejaria conservá-lo arredado da pessoa do rei. Por isso 68 vemos Martim Afonso encarregado depois de altas e honrosas, mas longínquas comissões.” – Ficalho, Garcia da Orta e o seu tempo, 65-66, Lisboa, 1886. – (C.). (VII) João Ango obteve duas cartas de marca. Uma, de 27 de Junho de 1530, autorizava-o a apresar bens de súditos portugueses no valor de duzentos e cinqüenta mil ducados. D. Antônio de Ataíde, conde da Castanheira, conseguiu reavê-la, pagando a Filipe de Chabot, conde de Charny, a quantia de 10.000 francos, e a João Ango, nos prazos que se fixassem, a quantia de 50.000. Em documento passado em Ruão a 29 de Fevereiro de 1531 (sic) João Ango reconhece juntamente com os consórcios ter recebido do conde da Castanheira e Gaspar Vaz a quantia convencionada. Este dinheiro, aliás, não lhe deu fortuna. Morel, um dos sócios, promoveu contra o grande armador uma ação que, iniciada em 1548, terminou em 1604, condenando os herdeiros de Ango a pagarem aos de Morel a quantia de 30.000 ducados, com o juro de 14% a partir de 1531. A primeira carta de marca nada tem com o Brasil. A segunda, concedida em 3 de Fevereiro de 1543, refere-se a um navio tomado em 1531, segundo parece, e pode relacionar-se com a expedição de Martim Afonso. Ango alega que seu navio La Michelle, tendo de carregar na costa do Brasil em certa abra chamada Aster – nome evidentemente deturpado, porque não é europeu nem americano -, capitães e súditos portugueses tomaram-no, e levaram-no a Portugal, onde ficou a serviço do dito rei. Da gente do La Michelle, parte refugiou-se entre os índios, parte foi levada para o reino, e lá conservada presa. Na longa detenção morreram alguns dos aprisionados. A data desse sucesso não é positivamente declarada, mas não tendo entrado na primeira carta de marca, outorgada em 1530, e referindo-se a segunda carta, em seguida ao sucesso do La Michelli logo outro de 1532 (quiçá 1533), naturalmente foi nesse meio tempo, durante a assistência de Martim Afonso no Brasil, que isso passou. A expedição de Martim Afonso, como veremos na seção seguinte, tomou duas naus francesas a 31 de Janeiro de 1531: a gente de uma fugiu para terra; sobre a tomada da outra nem uma particularidade oferece o Diário de Pero Lopes. Terceiro navio tomou a 3 de Fevereiro depois de grande resistência. Antes de deixar Pernambuco, Martim Afonso queimou um dos navios, outro mandou para Portugal por João de Sousa, no último batizado Nossa Senhora das Candeias, seguiu Pero Lopes para o Sul. La Michelli podia ser tanto o navio de João de Sousa, como o de Pero Lopes, ambos aproveitados no serviço real. Pode-se consultar sobre o assunto, F. Palha. A 69 carta de marca de João Ango, Lisboa, 1882, que trata só da primeira, e Eug. Guénin, Ango et ses pilotes, Paris, 1901, que publica ambos os documentos. – (C.). (VIII) Ordenações Manuelinas, liv. V. títs. 98 e 112. Veja-se também n. 11 do maço 1º das leis sem data. A respeito da naturalidade de João Afonso, posta em dúvida pelo douto D’Avezac, vejam nos esclarecimentos que publicamos no escrito – Amerigo Vespucci, etc. – (A.). Em carta de Gaspar Palha, de Paris, 1 de Maio de 1531, lê-se: “Depois de ler esta carta, fui topar com um homem de Rochella que chegava então della, e me comecei informar delle, sem que me este conhecesse, das novas que lá havia; entre outras coisas lhe perguntei que era feito de João Afonso, aquelle piloto portuguez que ahi estava. Disse-me que andava homesiado, porque quando se perdera com tormenta na costa da Bretanha, que houvera razões com um filho que tinha já homem, e que o matara, e que por este caso andava agora homesiado, que non ousava parecer.” – Raccolta Colombiana, parte V, vol. II, pág. 296. Uma carta de Gaspar Vaz para D. João III, escrita de Honfleur em 19 de Outubro de 1531 e extratada por Santarém, Quadro elementar, III, 244, confirma a nacionalidade portuguesa de João Afonso, do mesmo modo que um documento de 3 de Fevereiro de 1533, citado em Fr. Luís de Sousa, Anais de D. João III, 377. Contudo, Sousa Viterbo, Trabalhos náuticos, s. v., acha a questão duvidosa. – (C.). 70 SECÇÃO VIII RESULTADOS DA EXPEDIÇÃO DE MARTIM AFONSO Seus feitos. Os Franceses. O Maranhão, A Bahia. Combate naval dos índios. Martim Afonso na Bahia e no Rio. Ilha da Cananéia. Oitenta homens ao sertão. Padrões da Cananéia. Naufrágio de Martim Afonso. Pero Lopes sobe o Paraná. Martim Afonso fica na costa. Escolha do porto de São Vicente. Sua descrição. Estabelecimento da colônia. João Ramalho. Etimologia do nome Piratininga. Piracemas. Vilas de São Vicente e de Piratininga. Concelhos das duas vilas. Sesmarias. Direitos dos colonos. Jurisdição eclesiástica primitiva. Acabava Martim Afonso de avistar a costa de Pernambuco, quando descobriu ao longe uma nau francesa. Pouco lhe custou dar-lhe caça, e rendê-la; fugindo no batel para terra toda a tripulação, menos um só homem. Seguiu-se a esta presa a de outras duas naus, também francesas, e carregadas, como estava também a primeira, de brasil. De uma delas coube o apresamento a Pero Lopes, que depois de a haver seguido com duas caravelas, e combatido um dia todo, conseguiu rendê-la. Feliz com tão boa estréia, dirigiu-se Martim Afonso ao próximo porto de Pernambuco; e daí resolveu mandar a Portugal uma das naus apresadas, com a notícia do sucedido (I), levando outra consigo, caminho do rio da Prata, e queimando a terceira por incapaz (II). Igualmente resolveu, talvez em virtude de ordens que tinha, mandar as duas caravelas para as bandas do Maranhão, a fim de fazer explorar por aí a costa, e de colocar nela padrões em sinal de posse. 71 Diogo Leitefoi o capitão a quem Martin Afonso confiou o mando dessas duas caravelas. Sabemos que este chefe, percorrendo o litoral de leste-oeste, chegou pelo menos até a baía de Gurupi, que por algum tempo se denominou “abra de Diogo Leite”; – nome este que já se lê em um mapa em pergaminho de toda a costa, feito por Gaspar Viegas em 1534 (1). Da nau francesa mandada a Portugal foi capitão João de Sousa, Além de umas setenta toneladas de brasil, levou trinta e tantos dos prisioneiros, e em fins de Julho estava a dita nau fundeada em Vila Nova de Portimão, no Algarve, onde se procedeu à venda da sua carga de brasil, à razão de 800 a 900 réis o quintal (2). De Pernambuco seguiram os outros navios para o sul, e foram entrar na baía de Todos os Santos, descoberta em 1501. Aqui se apresentou ao capitão-mor o português Diogo Álvares, que em terra vivera entre os índios os vinte e dois anos anteriores, e que aí tinha muitos filhos, havendo-se aliado a uma índia, cujo nome primitivo corre haver sido Paraguaçu, Catarina o da pia batismal (3). Por intervenção do mesmo Diogo Álvares, vieram todos os principais visitar ao capitão-mor, trazendo-lhe manti- mentos, que foram retribuídos com as dádivas de costume. Admirou Pero Lopes na baia a alvura da gente, a boa disposição dos homens, e a formosura das mulheres, que não achou inferiores às mais belas de Lisboa. Reservando-nos a tratar, mais ao diante, do colono Diogo Álvares e desta baía, nos limitaremos agora a dizer que, durante os quatro dias que fundeada se demorou a armada, tiveram os nautas ocasião de presenciar um combate naval 72 travado dentro do recôncavo; naturalmente entre os da ilha de Itaparica, e os do lado do norte que senhoreavam as terras onde se assentou depois a cidade do Salvador. Cada esquadrilha constava de cinqüenta canoas, guarnecidas algumas destas de sessenta homens, todos escudados de paveses de cores, semelhantes aos que usavam então os guerreiros marítimos portugueses. O combate durou desde o meio-dia até o sol posto; – os da armada européia conservaram-se impassíveis espectadores desta naumaquia entretrópica, e viram com gosto decidir-se o triunfo pelos que combatiam do lado em que eles estavam surtos. Muitos dos vencidos caíram prisioneiros; e com estes praticaram os vencedores o costumado uso de os matarem, com grandes cerimônias, e de lhe tragarem depois – oh, asqueroso horror! – as carnes. Martim Afonso, deixando com Diogo Álvares dois homens e muitas sementes, para saber-se por experiência o que a terra (que segundo doze anos antes publicara Enciso (4) era de pouco proveito) poderia melhor produzir, velejava com sua pequena frota para o sul, quando, ao cabo de alguns dias, foi obrigado a arribar. Entrando na mesma baía, em 26 de março (1531), encontrou agora aí fundeada a caravela que, com destino a Sofala, passara por Pernambuco, e recebera a bordo a Diogo Dias, feitor do estabelecimento ou feitoria, que o galeão francês havia, meses antes, saqueado (5). Martim Afonso, vendo que esta caravela lhe podia servir, decidiu-se a levá-la consigo. No dia imediato levantaram de novo âncoras todos os navios da armada, e seguiram navegando para o sul até que entraram, em 30 de Abril, no porto ou baía já então conhecida pelo impróprio nome de “Rio de Janeiro” (6). Para não 73 deixarmos de aproveitar a mínima eventualidade no pouco que sabemos do que então se passou nesta paragem, cujas menores circunstâncias hoje interessam a todo o país, transcreveremos fielmente quanto nos transmitiu um dos nautas, que logo veremos donatário de Itamaracá, Santo Amaro e Santa Catarina. É Pero Lopes quem prossegue, em seu estilo, tão ingênuo como pitoresco: “Como fomos dentro (da baía de Janeiro) mandou o capitão I. (Martim Afonso) fazer uma casa forte com cerca por derredor; e mandou sair a gente em terra, e pôr em ordem a ferraria, para fazermos coisas de que tínhamos necessidade. Daqui mandou o capitão I. (Martim Afonso) quatro homens pela terra dentro: e foram e vieram em dois meses; e andaram pela terra cento e quinze léguas, e as sessenta e cinco delas foram por montanhas mui grandes; e as cinqüenta foram por um campo mui grande; e foram até darem, com um grande rei, senhor de todos aqueles campos; e lhes fez muita honra, e veio com eles até os entregar ao capitão; e lhe trouxe muito cristal, e deu novas como no rio de Paraguai havia muito ouro e prata (7). O capitão I. lhe fez muita honra, e lhe deu muitas dádivas, e o mandou tornar para as suas terras. A gente deste rio é como a da baía de Todos os Santos; senão quanto é mais gentil gente. Toda a terra deste rio é de montanhas e serras mui altas. A melhores águas há neste rio que podem ser. Aqui estivemos três meses tomando mantimentos para um ano, para quatrocentos homens que trazíamos, e fizemos dois bergantins de quinze bancos”. Cumpre aqui acrescentar que o mencionado estabelecimento de Martim Afonso, nesta baía, deve ter tido lugar na enseada em que desemboca o rio Comprido; e em uma 74 paragem que, ainda meio século depois, de denominava “porto de Martim Afonso” (G. Soares, I, cap. 52). Deixando o Rio de Janeiro foram os navios, ao cabo de doze dias de navegação, ancorar da banda de dentro da ilha chamada “do Abrigo”, junto do porto da Cananéia. Por este último, cujas águas, com o nome de “Mar pequeno”, se estendem terra dentro (desde o rio de Iguape até o sul da barra de Ararapira, onde acaba a ilha que ora chamam do Cardoso) e quase a comunicam com a baía de Paranaguá, mandou Martim Afonso ao piloto Pedro Anes, entendido na língua dos índios, que fosse, em um bergantim, haver fala dos que ali houvesse. Este piloto voltou cinco dias depois, conduzindo a bordo do bergantim um bacharel português, que havia trinta anos que ali estava, isto é, como vimos, desde a primitiva exploração da costa em 1502, um tal Francisco de Chaves, e vários castelhanos. Este Francisco de Chaves, naturalmente, era algum dos aventureiros que antes haviam chegado até as terras do Inca. O certo é que, pelas informações que deu e promessas que fez de trazer, dentro de dez meses, quatrocentos escravos carregados de prata e ouro, Martim Afonso acedeu a mandá-lo seguir de oitenta homens armados, metade de arcabuzes, e outra metade de bestas, da sorte dos quais adiante trataremos. Quarenta e quatro dias se demorou a esquadra junto da Cananéia, durante os quais esteve sempre encoberto o sol, circunstância pouco para admirar aos que saibam que ainda hoje raras vezes ele se mostra radiante aos habitantes desses contornos. Também no ancoradouro se romperam muitas amarras e perderam-se várias âncoras, o que sucede ainda agora nesse 75 porto, cujo fundo tem rato, como dizem os mareantes, daqueles que rompem as amarras, quando não são de elos de ferro. Defronte da ilha da Cananéia sai da terra para o mar um pontal de pedra, que se chama hoje de Itaquaruçá, onde ainda existem três padrões de mármore sacaróide, do que se encontra nas formações vulcânicas das imediações de Lisboa, os quais, com toda a probabilidade, foram ali postos durante estes quarenta e quatro dias, apesar do silêncio que a tal respeito guarda o (tantas vezes desesperantemente omisso) escritor dos feitos desta expedição, que merece desculpa, porque não se propunha ele a ser cronista, mas somente a consignar por escrito o seu roteiro ou diário marítimo. Os padrões da Cananéia que examinamos pessoalmente, são de quatro palmos de comprido, dois de largura e um de grossura; e têm esculpidas as quinas portuguesas,sem a esfera manuelina, nem castelos; e nenhuma data se lê em suas faces (8). Com o pensamento sempre na colonização do rio da Prata, seguiu Martim Afonso para o Sul, e daí a dias, a 26 de Setembro, experimentou tão grande temporal que a capitânia deu à costa, junto ao riacho de Chuí, na atual fronteira meridional do Brasil; do que resultou perecerem sete pessoas. Reunidos de novo todos os navios, excetuando um bergantim também naufragado, chamou Martim Afonso a conselho todos os que para isso eram, e neste foi assentado que, em virtude, não só da falta de mantimentos, originada da perda da capitânia, como do mau estado das outras duas naus, que se não poderiam expor aos temporais do rio da Prata naquela estação (naturalmente os conhecidos pampeiros), se desistisse da empresa de ir colonizá-lo. 76 Apesar desta resolução, julgou Martim Afonso que, estando tão perto desse tio, não devia deixar para mais tarde o ato da posse dele, por meio dos padrões que levava. Julgando ser para isso suficiente um bergantim com trinta homens, encarregou o comando deste, e a comissão de pôr os mesmos padrões, a seu irmão Pero Lopes (9), que se fez de vela em companhia de Pero de Góis, ao depois donatário da capitania de São Tomé ou Campos de Guaitacases. – Desempenhou Pero Lopes o mandato, subindo pelo Paraná e Uruguai, e achando- se de volta, decorrido pouco mais de um mês. Desta exploração do rio da Prata é que seu chefe Pero Lopes, a quem ela deu tantos trabalhos, se compraz de nos transmitir informações muito mais minuciosas do que costuma. Ainda mal, são justamente todas alheias à nossa história, e mais poderão interessar à dos estados limítrofes do Brasil pelo sul. Muito provável é que no entremeio de tantos dias, em que Pero Lopes demarcava o Rio da Prata, não estivessem ociosos os pilotos que haviam ficado na costa com Martim Afonso. Em terra tiveram ocasião de fazer freqüentes observações astronômicas (10) sobre a latitude e longitude do lugar e isso lhes daria a convicção, e ao capitão-mor, de que aquela costa e, com mais razão, todo o rio da Prata, já se achavam fora, isto é, mais a oeste, da raia até onde se estendia, pelo tratado de Tordesilhas, o domínio português naquelas paragens. Ao conhecimento deste fato em Portugal devemos atribuir o não prosseguirem em Madri as reclamações acerca desse rio; e o desistir aquele reino de mandar mais frotas às suas águas; e até o não doar, quando doou outras terras, as que ficaram além das de Sant’Ana, ou da Laguna, onde terminava a courela que de direito ainda por aí lhe tocava. 77 Talvez também pelo conhecimento desse fato, mais que por serem aí as terras (no litoral) sáfias e areentas, é que Martim Afonso não se deixou ficar nas plagas da atual província do Rio Grande, onde o lançara de si o próprio mar, e decidiu retroceder mais para o norte, a buscar outro local onde fixar-se de preferência. Entrando no porto de São Vicente, o bom abrigo que nele encontrou para as naus, a excelência das águas, a abundância do arvoredo, encantador principalmente aos que acabavam de viver nos areentos planos do Chuí, a amenidade do clima, por certo mui preferível ao do vizinho porto da Cananéia, onde nunca se vira o sol durante quarenta e quatro dias, e talvez, mais que todas estas razões, a presença de um colono português, por nome João Ramalho, que ali contava já mais de vinte anos de residência e que, naturalmente avisado pelos índios, apareceu dando razão da terra e de como toda ela pelo interior era de campos e clima semelhantes aos amenos de Coimbra onde nascera – tudo concorreria a predispor o ânimo do capitão-mor em favor desta paragem para fundar nela, como fundou, a primeira colônia regular européia no Brasil. E dizemos a primeira, porque não podemos chamar colônias regulares às pequenas feitorias provisórias fundadas antes, nenhuma das quais vingou até chegar a ter as honras de povoação e de vila. É o porto de São Vicente por assim dizer formado em um canal que, convenientemente, se afeiçoa entre duas ilhas de mediana extensão conchegadas à terra firme. Mais metida por esta adentro fica a que se diz de São Vicente, cuja planta apresenta alguma semelhança ao perfil de uma cabeça humana, vista pela face direita (11), Um pouco para o norte, se prolonga a vizinha ilha de Santo Amaro que, nesse rumo, vai 78 fenecer na barra do canal chamado da Bertioga, corrupção de Buriqui-oca, que quer dizer covil de bugios; o que prova que aí devia de haver muitos; pois eram os Tupis sinceros em tais denominações (III). Assim à dita ilha de Santo Amaro chamaram eles do Guaimbé (12), planta deste nome, que nela dava como verdadeira praga. A ilha de São Vicente chamavam Orpion ou Morpion (13), nome que somente podemos explicar como uma contração de Morubi-nhum, isto é, “campo dos trabalhadores ou lidadores”. O nome de São Vicente lhe proveio da povoação nela construída, que o recebeu, em virtude de ser o que já tinha o porto. O local desta última ilha, escolhido para assento da colônia, foi uma quase insensível eminência fronteira à barra e à ilha de Santo Amaro, mui lavada de ares, e situada no meio do istmo para um farelhão ou promontório, em que ela remata por este lado. Os morros deste promontório alimentariam os mananciais de água para a povoação; e dariam no princípio pedra para as obras; e os matos, que ainda hoje os cobrem, forneceriam com a maior comodidade a necessária lenha. Um pequeno regato, essencial para muito em qualquer povoação, corre para o lado da barra, e vai desaguar na deliciosa praia que segue contornando a ilha. – Para o rumo oposto, a quase igual distância, havia outra vez água, um mar pequeno, com beiras mui a propósito para porto e varadouro das canoas. Finalmente, do local preferido se descobria, pela barra, o mar até perder-se no horizonte, o que permitiria aos moradores, sem atalaias de aviso, juntarem-se a tempo para acudir a qualquer rebate de pirata inimigo. O viajante que percorresse a ilha de São Vicente, em busca da melhor paragem para uma povoação, sobretudo no mês de Janeiro, em que a praia de 79 Embaré, fronteira à barra, está alagada, ainda hoje não indicara outra mais adequada, se o porto de São Vicente pudesse competir com o de Santos, aliás abafadiço e tristonho (14). Martim Afonso não quis, porém, limitar-se a fundar uma só vila. À vista das informações que lhe deu João Ramalho, assentou de reforçar esta, contra qualquer tentativa de inimigo marítimo, com outra povoação sertaneja, que ao mesmo tempo servisse de guarda avançada para as futuras conquistas da civilização. As duas vilas irmãs fiariam assim no caso de prestarem apoio uma à outra, segundo lhes viesse do mar ou da terra o inimigo, ao passo que a marítima receberia, ao mesmo tempo, socorros das naus do reino, a quem por seu turno socorreria. De São Vicente para o interior, a umas três léguas, se levanta o continente, apresentando para o mar um paredão, em forma de serra, às vezes elevada de mais de dois mil pés. Do cimo manam vários riachos, dos quais um se despenha com tal fúria que de longe se vê branquejar a espuma de seus ferventes cachões. Chamavam-lhe os índicos Itu-tinga ou cachoeira branca. As águas desses riachos, promiscuindo-se com as salgadas do mar, recortam todas as planícies debaixo, por tal forma em esteiros que, vistas estas dos altos ao longe, mais parecem marinhas de sal, que braços de mar ou de rios. – À serra denominavam os índicos, como nós hoje, paraná- piacaba, o que quer dizer “de onde se vê o mar” (15).Desde aquelesw cimos elevadíssimos, as águas baixam com o terreno para o interior, quase insensivelmente; pois este se reduz na essência a uma extensa chapa ou chapada, que para o sertão se ramifica em vários sentidos até mui longe. A zona 80 vizinha ao mar, o paredão de serra para o lado dele, reforçado por muitos espigões ainda o primeiro par de léguas para o interior, são vestidos de vegetação vigorosa de mato-virgem, que alcança até um linde que chamam “Borda do Campo”; pois que daí por diante a terra não é de matos e, apenas de quando em quando, povoada de reboleiras e de pequenas boscagens, algumas delas de pinheiros curis ou araucários, que os índios muito apreciavam, pelo alimento que lhes forneciam seus grandes pinhões (16). A algumas léguas da Borda do Campo, e próximo de uma ribeira, cujas margens não deixam de recordar as coimbrãs do plácido Mondego, era a aldeia em que principalmente vivera João Ramalho, com a sua família, já numerosa, como se pode imaginar, sabendo que vinte anos passara livremente entre aquela gente, à lei da natureza. Chamavam-se, tanto a aldeia como a ribeira, de Pira-tininga ou do Peixe-seco (17). nome que em outros lugares do Brasil se pronunciava Pira-sinunga, e queria dizer o mesmo. A origem do nome explica a causa por onde se fundara aí a aldeia: provinha aquela das freqüentes pira-cemas ou invasões do peixe, pelas margens principalmente do chamado saguairu, isto é, de certos enxurros e desenxurros, digamos assim, demasiado rápidos, a que era, e é ainda, sujeita a dita ribeira; em virtude dos quais o peixe ficava em seco pelas margens, o que dava aos moradores destas grande fartura; como sucede aos povos do litoral quando, com os temporais, dão certos peixes à costa. O fenômeno das pira-cemas é freqüente em vários rios do império, sobretudo nas proximidades de sua foz, donde se pode imaginar que vem tal fenômeno a ser como uma pequena pororoca, causada pelo desempate de suas águas com 81 as do monte do outro rio, em que aflui o da piracema. Foi a aldeia de Piratininga que Martim Afonso escolheu para fundar a colônia ou vila sertaneja, cujo governo militar confiou a João Ramalho, com o pomposo título de guarda-mor do campo. Eis a origem européia da atual cidade de São Paulo. Ouçamos agora o que nos diz Pero Lopes de Sousa, testemunha de vista, durante os primeiros quatro meses de vida das ditas duas colônias: “Repartiu o capitã-mor a gente nestas duas vilas, e fez nelas oficiais; e pôs tudo em boa ordem de justiça; do que a gente toda tomou muita consolação, com verem povoar vilas, e ter leis e sacrifícios, celebrar matrimónios e viver em comunicação das artes; a ser cada um senhor do seu; e investir as injúrias particulares; e ter todos outros bens da vida segura e conversável”. Nestas poucas palavras se encerram os pontos capitais respectivos a qualquer sociedade constituída. Vemos as colônias e as suas competentes autoridades; vemos o reconhecimento das leis; vemos as práticas, assim do que respeita às consciências, pelas cerimônias dos sacrifícios religiosos, como ao estado social pela celebração dos matrimônios; vemos garantida a segurança individual e a propriedade, e sem valhacouto as tropelias e injúrias. Para nada faltar, como bem essencial na vida “segura e conversável”, diz-nos Pero Lopes que já viviam os colonos em “comunicação das artes”. Tal era o estado florescente das duas colônias, quando Pero Lopes, por ordem de seu irmão, as deixou, fazendo-se de vela aos 12 de Maio de 1532. Enfim Martim Afonso não se descuidou da empresa confiada à sua solicitude, e que mais no-lo recomenda, e o há- 82 de recomendar à posteridade, que todos os outros seus feitos militares (apesar de mui brilhantes, de mais perecedoura memória) praticados nesse Oriente por que tanto se afanava. Enquanto no Brasil, não dava ele nem um dia de féria a seu cuidado. A Igreja, a casa da câmara, o estaleiro, as sesmarias, o tombo competente para estas, tudo o trazia ocupado – a tudo acudia. Nem lhe consentiu o dever, nem talvez tampouco a curiosidade, própria da sua idade, o deixar de empreender uma jornada a Piratininga: e sesmarias chegaram até nós que ele aí assinou. De falta de atividade nem sequer na velhice foi acusado. O seu caráter, se tinha defeito, era antes o da viveza afanosa, e de alguma violência. Várias terras de São Vicente e de Piratininga destinou ele desde logo, como era natural, para rocios e logradouros dos dois concelhos, aos quais fixou os termos que julgou razoáveis (18). – Escusamos dizer que estas vilas foram fundadas sem diferença alguma do que se passaria, tratando-se da instalação de qualquer colônia, em uma paragem menos povoada de Portugal. Subentendeu-se que, em legislação e em tudo, os novos moradores e os descendentes destas teriam, em relação à metrópole, os foros de naturais; e seriam governados pelas mesmas leis vigentes, das quais nos ocuparemos mais ao diante. Quanto à jurisdição eclesiástica, vimos que em 1514 fora o Brasil considerado sujeito à mitra do Funchal. Cumpre acrescentar que assim continuou ao declarar-se, em 1534, metropolitana a sua sé, tendo por sufragâneos os bispados de Angra, Cabo Verde, São Tomé e Goa, então criados por Clemente VII; o que mais evidentemente se consignou na bula 83 – Romani Pontificis – de 8 de Julho de 1539, que reformou a anterior (19). NOTAS EM NÚMEROS ARÁBICOS (1) Mais a oeste se vê designada a baía de São João. Chegaria a ela Diogo Leite, no dia deste santo (24 de Junho), depois de haver entrada, a 19 de março, na baía de São José, e a 25 de Abril na de São Marcos: se é que estes nomes não haviam sido anteriormente dados por Diego Lepe, em 1500. (A.). Em 1537, estamdo Diogo Leite, cavaleiro da casa real, com uma armada de cinco caravelas pousado sobre âncoras no porto da ilha do Corvo à espera de uma nau da Índia, cinco navios franceses deram sobre elas, e as tomaram e levaram com toda a artilharia, segundo uma carta de D. João III a Rui Fernandes, de que existe cópia no Instituto Histórico. Será o mesmo? – (C.). (2) Veja (no Arm. 25, maç. 9, nº 5 do interior da Casa da Coroa na Torre do Tombo) um livro rubricado por Diogo Toscano, almoxarife e juiz da alfândega da dita vila. Consta desse livro que Lourenço Fernandes viera por mestre da nau francesa de que João de Sousa viera por capitão, sendo marinheiros Rodrigo Eanes e Afonso Vaz, e bombardeiro Aleixo Pinto. Parece que eram no todo 927 quintais de brasil, dos quais 17 foram dados de quebra. – (A.). – Cópia na Bibl. Nacional. – (C.). (3) Frei Vicente do Salvador, que ainda a alcançou, “viúva mui honrada, amiga de fazer esmolas aos pobres e outras obras de piedade”, chama-lhe Luísa na Hist. do Brasil, livro III, cap. 1º (Pág, 150, da ed. paulista de 1918). – (C.). (4) Martin Fernández de Enciso, Suma de Geographia , Sevilha, 1519, § Índias ocidentales (sem núm. de fols.): ... “desde el [rio] de Sant Frãcisco fasta ala baya de todos sanctos ay setenta leguas esta Baya al sudueste: quarta al sur, en XIIj grados, queda en el medio puerto real que es 84 buen puerto, i tiene buenos rios i la de todos Sanctos tiene dentro unos ileos pequeños, en esta entra dos rios buenos, i nel paraje desta costa es la tierra algo baxa, la gente desnuda i comun pan de rayses: es tierra de povo provecho…”. – (G.). (5) Em 17 de Fevbereiro de 1531 havia dois meses que o galeão francês saqueara a feitoria de Pernambuco: Diário de pero Lopes, Revista do Instituto Histórico, 24, 1861,págs. 20-21; edições de Engênio de Castro, págs. 128-132, e 131-135. Esse galeão não podia ser o que depois foi tomado nas costas da Andaluzia pelas caravelas portuguesas que andavam na armada do Estreito; arregava brasil e foi levado para Lisboa: carta de D. João III para Martim Afonso de Sousa, de Lisboa, 28 de Setembro de 1532, incluída na secção seguinte. – (G.). (6) O nome de rio de Janeiro, já conhecido no tempo de Magalhães, Notícias para a história e geografia das nações ultramarinas , 4, n. 2, Lisboa, 1826, Raccolta Colombiana, parte 3ª, I, pág. 273, Roma, 1893, figura em mapas anteriores a 1530. Esses testemunhos bastariam a provar que não foi Martim Afonso de Sousa quem deu o nome de rio de Janeiro, se já não o soubéssemos pelo Diário de Pero Lopes. – (C.). – O nome figura nas Declaraciones que algunos marineros de la nao San Gabriel dieron en Pernambuco á 2 de noviembre de 1528 sobre los sucesos desgraciados que experimentaron despues de sua separacion de la armada de Loaísa en la entrada, del estrecho de Magalhanes , - Navarrete, Coleccion de los viages, citada, V, pág. 318: “E asi venimos hasta el rio de Janero...”. – (G.). (7) Orville A. Derby, Revista do Inst. Hist. e Geogr. de S. Paulo , e José Luís Baptista, Primeiro Congr. de Hist. Nacional , in Rev. do Inst. Histórico, tomo especial, 2, 1914, pensam que podiam estes emissários ter chegado a Minas Gerais. Parece preferível admitir que tenham ido a terras de São Paulo, pois só nestas havia conhecimento das riquezas do rio Paraguai. – (C.). (8) Como asseverou o meritíssimo Cazal, I, págs. 227 e 228. – Veja Fr. Gaspar pág. 32. Anais da Marinha, pág. 401. – Soares, I, cap. 65 e também Varnhagen, na Rev. do Instit. Hist., 12, págs. 374 e 375. Convém aqui notar que já no século passado (XVIII) Afonso Botelho, visitando esses marcos, ou antes o que está visível em cima, diz “que lhe 85 não aparece letreiro algum”. Veja a Descrição da comarca de Paranaguá, Ms. na Bib. do Porto, 437. – (A.). Um desses marcos, com o respectivo tenente ou testemunha, foi em 1866 recolhido ao museu do Instituto Histórico, por iniciativa do Dr. Guilherme Schüch de Capanema, depois barão de Capanema. Na Revista, tomo 49, parte 2ª, págs. 261-265, ocorre notícia a respeito por Moreira de Azevedo. – (G.). (9) O piloto Francisco Fernández, espanhol, em Maro de 1800, explorando a ilha de Maldonado, achou “uma piedra que pesaria três quintales con un escudo grande de Portugal y encima outro pequeño atravesado con uma cruz...”. Segundo P. Groussac, Anales de la Biblioteca, 4, pág. 315, Buenos Aires, 1905, trata-se evidentemente de sinais deixados pela expedição de Martim Afonso de Sousa e Pero Lopes. Sobre este e pontos conexos, veja-se o Diário de Pero Lopes, na edição de Eugênio de Castro, Rio, 1927. – (G.). (10) Assim no-lo confirma o matemático Pedro Nunes, em uma de suas obras. – (A.). – Que ele (Martin Afonso) possuía um alto valor intelectual é fato sobre que também não pode haver dúvida. Todos os escritores do tempo, amigos como inimigos, se referem ao seu engenho agudo e sutil, à sua razão clara e à prudência do seu conselho. Reunia aos dotes naturais do espírito uma instrução pouco vulgar. Era -lhe familiar a língua latina como se fosse a sua própria e materna. Passava na Índia as raras horas de ócio em graves leituras de história. Era como D. João de Castro perito nas questões de navegação e cosmografia. Quando voltou do Brasil deu a Pedro Nunes miúda relação da sua derrota, “contou-lhe com quanto diligência e por quantas maneiras tomara a altura dos lugares em que se achara e verificara as rotas por que fazia seus caminhos”. e expôs - lhe algumas dúvidas que tivera durante a navegação, as quais o grande geômetra tomou em tanta conta que expressamente compôs um tratado para as resolver. (Tratado que o doutor Pedro Nunes fez sobre certas dúvidas de navegação, dirigido a El-Rei Nosso Senhor. – Anda anexo ao Tratado da sphera, Lisboa, 1537). Escreveu as suas memórias, - um Epítome da sua vida -, que provavelmente se perderam, mas ainda foram vistas pelo erudito investigador conde da Ericeira. – Ficalho, Garcia da Orta e o seu tempo , págs. 69-70. – (C.). – D. João III, em carta ao conde da Castanheira, de 3 de Março de 1536, remetia -lhe o capítulo que Martim Afonso escrevera sobre a navegação que as naus da armada, que iam para a Índia, deviam fazer. Queria o rei que a matéria fosse examinada pelo 86 conde em prática com os pilotos que para isso eram, e do que se assentasse se lhe chegou à Índia, e conclui assim: “Não se espante Vosa Alteza de vos falar soltamente nas cousas de nagevaçam, porque eu cuydo que tendes poucos em Portugal que a entendam milhor que eu; e mais trabalho muyto pola saber, pois he pera vos servir con yso”. – J. D. M. Ford, Letters of John III, citadas, págs. 254-256. – (G.). (11) A boca se representa no Outerinho; Monserrate no lugar de olho direito; Santos sobre o cavalete do nariz; a praia de Embaré na papada, etc. – (A.). – Na secção XII o autor emprega imagem semelhante para a ilha do Maranhão. – (C.). (12) Gaibé escreve o jesuíta Simão de Vasconcelos; Guaybea diz Tomás Grigs, em Hackluyt, 3, 704 e 706. – (A.). – 4, pág. 203, da reedição de 1811. – (C.). (13) Veja Thevet e Abbeville [Léry? Cf. C. Mendes de Almeida, Rev. do Inst. Hist., t. 40, parte 2ª, 1877, pág. 237, nota, e 330. – (C.)] – Staden diz Orbioneme, Orbion-ém, ou Orpion mà e na colecção Purchas (5, 1242) há quem a denomine Warapisumama. Este último nome iludiria aos guarás, que ali se matavam. – (A.). O nome Urbioneme transmitido pro Staden, repara Teodoro Sampaio em nota à tradução do livro de Hans Staden comemorativa do quarto centenário do descobrimento do Brasil, deve estar alterado, se é que o devemos ter como de língua tupi como se deve inferi r das próprias palavras do narrador. Muito se tem discutido a propósito deste vocábulo adulterado, parece-nos que ele não é senão corruptela de Upau-nema, denominação tupi, que quer dizer – ilha imprestável ou ruim, talvez em alusão a ser ela baixa em sua máxima extensão, lamacenta, alagada e coberta de mangues. – (C.). (14) É (São Vicente) situada em uma ilha que tira seis milhas em largo e nove em circuito, antigamente era porto de mar e nele entrou Martin Afonso a primeira vez com sua frota, mas depois com a corrente das águas de terra do monte se tem fechado o canal, nem podem chegar as embarcações por causa dos baixos e arrecifes. – Anchieta, Informações e fragmentos históricos, 44. – (C.). 87 (15) Ruiz de Montoya. Conq. Espiritual del Paraguay, fol. 45 f.; se bem que “ver” se diga (Dic Bras. pág. 78) Cepiaca. – (A.). – Na edição da Conquista Espiritual, de Bilbao, 1892, à pág. 143. – (C.). (16) O apreço do fruto ainda mais tarde, entre os moradores de língua européia, poe deduzir-se do fato que, ao tempo do padre Belchior de Pontos (1644-1719) pinhão servia para designar outono. – Fonseca. Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, pág. 98. Lisboa, 1752. – (C.). (17) Tining, “secar”. Veja Dic. Bras. no voc. “Seca” e “Murchar”. Porventura a trodução literal seria “seca do peixe”. – (A.). – Segundo Teodoro Sampaio. O Tupi na Geografia Nacional, pág. 147, São Paulo, 1901, Pirassununga, corruptela de piracyninga, significa peixe roncando, ou ronca peixe. – (C.). (18) O autor aproveita-se nesta secção do Diário de Pero Lopes, que publicou em Lisboa no ano de 1839 e depois reimprimiu na Rev. do Inst. Hist., t. 24, 1861, e avulso. A autenticidade deste documento foi contestadapor João Mendes de Almeida em uma memória. A Capitania de S. Vicente-S. Paulo. Sua origem: legenda histórica, São Paulo, 1887, reproduzida na Rev. do Inst. Hist., t. 53, parte 1ª, 1890. Sua tese é: “Manifestamente esse Diário da navegação de Pero Lopes de Sousa com referência à expedição de 1530-1535, é um documento apócrifo, ou sem fundamento algum de autenticidade, podendo, porém, ser o Diário da navegação de Martim Afonso de Sousa para a Índia em 1533-1534, mudados para 1530-1531. com enxerto em forma complementar da navegação de Pero Lopes de Sousa para o rio da Prata e do seu regresso para Portugal em 1531-1532”. – A argumentação de Mendes de Almeid dificilmente convencerá a quem ler o Diário, confirmado por tantos outros testemunhos independentes. Na Série Eduardo Prado está-se imprimindo a 5ª edição do Diário de pero Lopes, anotado por Eugênio de Castro, da Marinha Nacional. Por este terão de ser aferidas todas as questões relativas à expedição de Martim Afonso. – (C.). Além dessa edição já citada (nota 9 desta secção), há outra, a 6ª, da Comissão Brasileira dos Centenários Portugueses, Rio de Janeiro, 1940, adiante descrita. – (G.). (19) Provas da Hist. Gen., II, n. 122, pág. 728. – Nesta bula se diz em latim terras de brasil, e terrarum de Brasil, em vez de Brasiliae, 88 como hoje, e como já se preferira escrever no hemisfério de J. SAchoener (1520). – (A.). 89 NOTAS EM ALGARISMOS ROMANOS (I) A Portugal a notícia do sucedido chegou meado Maio, como se vê da seguinte carta de D. João III ao conde da Castanheira, publicada por Fernando Palha, na Carta de marca de João Ango, 56-57: “D. Antonio amigo. Eu el Rei vos envio muito saudar. Aqui se diz, e não porem por via nenhuma certa nem autentica que M. A. de Sousa topou com algumas naus francezas carregadas de brasil que as tomou: e, porem, porque isto M. Af. me não escreve nem disso sei mais que dizer- se, não o tenho por certo. E todavia me pareceu necessario, por que la pode ir ter a mesma nova, dar-vos aviso disso, pera que se vos nisso apontar alguem e la se disser isto mesmo, que vós digaes que o não credes, por que si assi fosse eu volo escreveria, que eu não tenho mandado tal nova, e como pessoa que totalmente haveis esta por falsa respondereis a quem vos nisso falar, sem vir a outra resão emquanto la na materia se não falar sinão como incerta. E porem, si apertarem mais comvosco e a nova for la per outra via e a tiverem por certa e disso fizerem caso, vós todavia direis que o não credes, nem vos parece que sendo assi eu o podera leixar deo saber e de outro volo escrever, e tambem que vós não credes que Francezes fossem aquella parte, e porem, si alguma cousa foi, que poderia mui bem ser que os Francezes fariam o que não deviam em algumas de minhas feitorias que eu la tenho muitas, ou tambem elles seriam os acomettedores, como se acontece, e que por certo tender que M. Af. nem meus capitães não haviam de fazer nem uma cousa sinão com muita rezão e de que possam dar boa conta a todo tempo e logar, e que vós sabeis mui bem quão apertadas levam as commissões todas minhas armadas e capitães que pelo mundo navegam pera nunca poderem erras guardando o que lhe por mim é mandado; e que, assi como isso tendes por certo, assi não duvidaes nada que si elles alguma cousa fizeram como não deviam e passaram meu mandado, que sabendo eu quem errou não passará sem castigo, mas que percima de tudo vos não parece que pode ser verdade, e si a for que ha de ser muito differente do que dizem, e meus capitães e gentes mui sem culpa. E como acima vai apontando podeis tocar em camanho trato e quantas casas de feitorias eu tenho em todos aquelles mares, como em par tes mui proprias minhas, e que de tantos atraz achadas, ganhadas e possuidas por mim e por a coroa destes reinos, onde ha tambem muita fazenda minha, e muita guarda assi 90 do mar como da terra, como é resão que haja, e que não é maravilha quem destes logares e guardas e tratos tem cuidado não querer consentir nem- uma torvação nelles. E tudo isto, porem, direis e apontareis aos tempos e nos logares e com as pessoas que vos parecer conveniente, mais e menos segundo vos nisso falarem, e segundo o caso tambem que vos disso fizerem mais ou menos grave, que eu confio que vós mui bem sabereis fazer e dizer, e todas estas diferenças e ensejos sabereis mui bem guardar, e porisso nesta carta não é necessario vos dizer mais. – Jorge Rodrigues o fez em Montemor-o-novo – a 17 de Maio de 1531.” – (C.). (II) Só em Novembro chegou a propagar-se em França, em meio de grandes Queixas e alaridos, a notícia dos três navios apresados, com a circunstância, não sabemos se verdadeira, de haver Martim Afonso mandado enforcar o piloto Pedro Serpa, que encontrou em um deles. Sendo certo que já então (principalmente desde a criação, em 2 de Agosto de 1525, do ofício do Correio-mor em Portugal, ofício em que foi provido Luís Homem, que veio a ter à sua morte, por sucessor Luís Afonso em 13 de Janeiro de 1533), havia correio público cada oito dias de Lisboa a Burgos, e cada quinze dias de Burgos a Flandres, devemos crer que os prisioneiros franceses estiveram incomunicáveis em Portugal por algum tempo. Gouveia parecia assustado com a notíc ia, porém o embaixador Gaspar Vaz era de parecer que por fim o resultado seria favorável a Portugal; não querendo outros expor-se ao que acabava de suceder a tantos. – (A.). O trecho da carta de Diogo de Gouveia (cópia no Instituto Histórico), escrita de Ruão a 17-18 de Novembro de 1531, é o seguinte: “Eu me achei aqui hoje 17 de Novembro e o Almirante era vindo aqui... e fui ver o Almirante para lhe fazer a reverencia. Ele me mandou mostrar uma carta que no mesmo porto de sua chegada viera de Lisboa desses Francezes que la foram presos no Brasil por Martin Affonso de Sousa. E depois de elle aqui ser chegado as mulheres e parentes se foram lançar diante delle e lhe pedir justiça e principalmente a mulher de um piloto ou mestre que chamava Pedro Serpa. Elle me disse que rogava que visse este negocio e escrevesse a Vossa Alteza que os mandasse soltar. Eu non sei o porque elles som presos porem sei que deste negocio não ha... (roto) provento. Si assi é como na carta diz, que o Capitão maor mandou enfocar este Pedro Serpa, e que catou todo o navio para ver se achava alguma cousa afora bresil, e dizem que non achou nada, eu por o que devo 91 a Deus e a V. A., e ao proveito deste reino queria ver todas estas cousas postas em outro rumo e que se levassem por outra manha .” – (C.). (III) A esse respeito escreve Teodoro Sampaio, em nota a Hans Staden: “Em nenhum documento antigo se encontra o nome do canal entre a ilha de Santo Amaro e a terra firme com a grafia Brikioka. O primeiro k foi erroneamente substituído a um t. Examinando-se a estampa da página 28 (da edição de São Paulo, 1900), vê-se que o nome escrito por sobre a figura no alto e à esquerda, tanto pode ser lido Brikioka como Britioka, sendo até mais admissível a segunda hipótese, que de fato é a mais próxima da verdade. “Frei Gaspar da Madre de Deus, que de certo conheceu a obra de Staden, donde tirou Enguaguaçu por Iguaguaçupe (Iwawassupe), colheu também Brikioka, como Britioka, e sobre esse nome alterado pelos copistas ou tradutores fez a lenda dos macacos bur iquis, dizendo-nos que o nome foi primeiro aplicado ao monte fronteiro ao forte, cuja mata era de contínuo visitada por essa espécie de símios vermelhos. Não discutiremos a autenticidade do documento indicado, nem a lenda que depois se formou.O que está averiguado é que o nome Bertioga, Britioka, Bartioga , sempre se aplica ao canal que separa do continente a ilha de Santo Amaro, lendo-se sempre nos roteiros, cartas da costa e relações de viagens, assim como nas crônicas, canal de Bertioga, variando às vezes para Bartioga. “Evidente é que o nome Bertioga ou Bartioga é corruptela do tupi, não sendo difícil a sua restauração, uma vez conhecida a lei, segundo a qual em todas as línguas os vocábulos evoluem e se alteram. Bertioga é, de fato, corruptela de Birati-oca, ou melhor de Pirati-oca, que quer dizer paradeiro das tainhas, pelas muitas que nesse canal se encontravam naqueles tempos remotos.” – (C.). _ Artur Neiva, em seus magistrais Estudos da Língua Nacional , págs. 112-141, São Paulo, 1940, discute longamente o vocábulo para fixar-lhe etimologia diversa das propostas até agora, a qual, pelos fundamentos apresentados, deve prevalecer. Neiva, com observação in- loco, contesta não somente a ocorrência de macacos buriquis na localidade da Bertioga, o que daria Buriquioca – casa dos buriquis para Frei Gaspar da Madre de Deus, como também dos cardumes de tainhas, parati ou pirati, a desovar nas águas mansas do canal, originando daí a denominação Parati-óca ou Pirati-óca, casa do parati, viveiro das tainhas, fixada finalmente em Bertioga. 92 Para Neiva mais natural seria que o nome provenha de mbariguioca, do mosquito barigui ou birigui, pequeno díptero hematófago do gênero Flebotomus, abundante na região, e oca, por alterações de forma até beriqui-oca, que facilmente, pela queda do primeiro i e a mudança do q em t, chegou a Bertioca, que sem nenhum esforço se transformou em Bertioga. As considerações do eminente e saudoso sábio brasileiro são dignas da ponderação dos entendidos. – (G.). 93 SECÇÃO IX SUCESSOS IMEDIATOS À EXPEDIÇÃO E MARTIM AFONSO Tomada de uma fortaleza e uma nau de França. Resolve -se a partição do Brasil em capitanias. Carta régia a Martim Afonso. Volta de Martim Afonso à Europa. Doze donatários. Quinze quinhões. Irmão s Sousa. Pero de Góis. Vasco Fernandes. Pero do Campo. Jorge de Figueiredo. Francisco Pereira, Duarte Coelho. Pero Lopes. Fernand’Álvares. Aires da Cunha. João de Barros. Antônio Cardoso de Barros. Poucos competidores. Extensão das diferentes capitanias. Demasiada terra a cada donatário. Paralelo com a colonização da Madeira e Açores. Vantagens que se propunha salvar Portugal desta colonização. Deixemos, porém, por algum tempo a nascente colônia brasileira, e vejamos o que, entretanto, se passa no resto do Brasil, ou se decide a seu respeito no além-mar, isto é, na metrópole. Doloroso é ter que mencionar a sorte dos que da Cananéia partiram pela terra adentro com Francisco de Chaves. Seguindo na direção do sudoeste, talvez a buscar o rio Paraguai, para naturalmente depois passarem aos estados do Inca, haviam chegado às margens do Iguaçu (Herrera, dec. VII, 2, 9) quando foram todos traiçoeiramente assassinados pelos índios. Ignoramos ao justo em que época chegaria a São Vicente a triste nova deste sucesso, presente ainda na memória de seus habitantes, daí a meio século (Fr. Gaspar, pág. 8), e transmitido além disso até nós pelo adiantado Cabeza de Vaca, 94 que por esses campos passava, mais prevenido contra os índios, dez anos depois (1). Enquanto Martim Afonso navegava pelo Sul, fora ter a Pernambuco uma nau de Marselha (2), com dezoito peças e cento e vinte homens, denominada La Pélerine, e armada à custa do Barão de St. Blancard (3). Em lugar da feitoria portuguesa, de seis homens, que aí havia ficado, fez o capitão da Pélerine, Jean Duperet, construir uma fortaleza provisória, que deixou guarnecida de trinta homens; e regressara à Europa com uma carga que (segundo as reclamações posteriores dos interessados, às quais nos cumpre dar algum desconto) montava a cinco mil quintais de brasil, trezentos de algodão (bombicis), seiscentos papagaios, três mil peles de animais, grande número de macacos e muita bugiarias. Tanto a nau como a fortaleza francesa tinham de ser mui mal afortunadas. A primeira, entrando no Mediterrâneo, se viu necessitada de arribar a Málaga; e, quando deste porto saía, foi apresada pela armada de guarda-costa, que Portugal mantinha à boca do estreito de Gibraltar, e que, pela mencionada arribada da nau, soubera que vinha ela do Brasil. A fortaleza galo-pernambucana (4), ou porque Pero Lopes teve conhecimento da sua existência, ou porque necessitava ir no porto em que ela estava a fazer aguada, antes de atravessar o Atlântico, foi por tal forma pelo intrépido capitão combatida, durante dezoito dias consecutivos (I), que se lhe rendeu (II). Então Pero Lopes, deixando a mesma fortaleza guarnecida de gente sua, às ordens de um Paulos Nunes, fez-se de vela para Portugal, levando consigo duas naus francesas que tomara, alguns índios, e trinta e tantos prisioneiros. No princípio do ano imediato aportou em Faro; e desta cidade do 95 Algarve, seguiu logo para Évora, onde então estava a corte, e aí chegou, ao que parece, a 20 de Janeiro de 1533 (5). Suas naus se mandaram recolher com os franceses a Lisboa; e quatro principais da terra, que o soberano chegou a distinguir dando-lhes o nome de reis, foram por ordem régia vestidos de seda. Já havia meses que, pelos da mencionada nau apresada no Estreito, soubera o governo de como ela havia deixado em Pernambuco um forte com numerosa guarnição; e mandara ordens à costa da malagueta a fim de que Duarte Coelho, capitão-mor de uma esquadrilha aí estacionada, passasse a Pernambuco para desalojar os intrusos (6). Com a chegada de Pero Lopes, foi ordenado que a mesma esquadrilha, em lugar de ir ao Brasil, ficasse cruzando na altura dos Açores (7), e para Pernambuco foi, segundo entendemos (Vol. II, fls. 208 da Col. de cartas do conde da Castanheira) despachada (depois de 23 de Janeiro de 1534) uma caravela, ao mando de Vicente Martins, com ordens para Paulos Nunes (III). Pouco antes, o governo português, instado ainda de França pelo Dr. Diogo de Gouveia, e receoso do demasiado desenvolvimento que os franceses iam dando ao seu comércio com o Brasil, viu-se obrigado a adotar o plano de colonizar, pelo simples meio de ceder essas terras a uma espécie de novos senhores feudais, que, por seus próprios esforços, as guardassem e cultivassem, povoando-as de colonos europeus, com a condição de prestarem preito e homenagem à Coroa. Providências análogas tinham adotado, com proveito, os reinos da Europa, para se povoarem com a necessária disciplina, sobretudo nos lugares fronteiriços aos inimigos em que, para fugir da perigosa fraqueza, era necessária toda a união e a 96 maior subordinação; e para convocar colonizadores com alguns capitais, era indispensável conceder-lhes, sobre os colonos, que eles contratavam e levavam à sua custa, certo ascendente (8). Foi, pois, resolvido que o Brasil se dividisse (9) em grandes capitanias, contando para cada uma, sobre a costa, cinqüenta ou mais léguas; o que el-rei participou logo a Martim Afonso, na resposta às cartas que o mesmo Martim Afonso escrevera de Pernambuco, dando conta da tomada das naus francesas. Embora seja essa resposta bastante conhecida , por andar reproduzida em muitos livros, julgamo-la de tal importância que não nos é possível deixar de inclui-la também neste lugar. Dizassim: “Martim Afonso, amigo: Eu el-rei vos envio muito saudar. “Vi as cartas que me escrevestes por João de Sousa; e por elle soube da vossa chegada a essa terra do Brasil, e como ieis correndo a costa, caminho do Rio da Prata; e assim do que passastes com as naus francesas, dos cossairos que tomastes, e tudo o que nisso fizestes vos agradeço muito; e foi tão bem feito como se de vós esperava; e sou certo qual a vontade que tendes para me servir. “A nau que cá mandastes quizera que ficára antes lá, com todos os que nella vinham. Daqui em diante, quando outras taes naus de requeriam capitanias de cincoenta leguas cada uma; e segundo se requerem, parece que se dará a maior parte da costa; e todos fazem obrigações de levarem gente e navios à sua custa, em tempo certo, como vos o Conde mais largamente escreverá; porque elle tem cuidado de me requerer vossas cousas, e eu lhe mandei que vos escrevesse. 97 “Na costa da Andaluzia foi tomada agora pelas minhas caravelas, que andavam na armada do Estreito, uma nau franceza carregada de brasil, e trazida a esta cidade; a qual foi de Marselha a Pernambuco, e desembarco gente em terra, a qual desfaz uma feitoria minha que ahi estava, e deixou lá trinta (10) homens, com tenção de povoarem a terra e de se defenderem. E o que eu tenho mandado que se nisso faça mandei ao Conde que vo-lo escrevesse, para serdes informado de tudo o que passa, e se há-de fazer; e pareceu necessario fazer-vo-lo saber, para serdes avisado disso, e terdes tal vigia nessas partes, por onde andaes, que vos não possa acontecer nenhum mau recado: e que qualquer força ou fortaleza que tiverdes feita, quando nella não estiverdes, deixeis pessoa de quem confieis, que a tenha a bom recado; ainda que eu creio que elles não tornarão lá mais a fazer outra tal; pois lhe esta não succedeu como cuidavam. “E mui declaradamente me avisai de tudo o que fizerdes; e me mandai novas de vosso irmão, e de toda a gente que levastes; porque com toda a boa que me enviardes, receberei muito prazer” (11). A recepção desta carta (12) devia apressar a partida do capitão-mor para a Europa. Vê-se dela que o rei, com o seu conselheiro, o Conde da Castanheira, ansiava primeiro ouvir os votos de pessoas práticas, como o capitão-mor do Brasil, para não ir tanto às cegas, na doação das suas terras. Assim o entendeu também Martim Afonso; e deixando por seu lugar- tenente, com os poderes que podia delegar, a Gonçalo Monteiro (Rev. do Inst. Hist. 9, 160) na colônia de São Vicente, partiu para Portugal, onde chegou naturalmente antes do meado do ano de 1533 (13). 98 Bem que, como se vê da carta acima transcrita, a resolução de se dividir o Brasil por donatários foi tomada em 1532, e já então se fizeram alvarás de lembrança por algumas doações, só em Março de 1534, mês em que partia (14) Martim Afonso para a Índia, é que se começaram a passar as cartas ou diplomas aos agraciados, que gozariam, de juro e herdade, do título e mando de governadores das suas terras, as quais tinham pela costa mais ou menos extensão; e por conseguinte eram maiores ou menores os quinhões, segundo o favor de que gozavam e talvez os meios de que podiam dispor. Compreendiam-se nas doações as ilhas que se achassem até à distância de dez léguas da costa continental. As raias entre capitania e capitania se fixaram por linhas geográficas tiradas de um lugar da mesma costa, em direção a oeste. Assim o território ficou verdadeiramente dividido em zonas paralelas, porém umas mais largas que outras. Este meio de linhas retas divisórias imaginárias, que ainda com os mais exatos instrumentos num terreno muito conhecido seriam quase impossíveis de traçar, era o único de que se podia lançar mão, pelo quase nenhum conhecimento corográfico que havia do país, além do seu litoral. Em algumas doações, nem foi possível declarar o ponto em que principiavam ou acabavam. Incluía-se apenas a extensão da fronteira marítima, e designavam-se os nomes dos dois donatários limítrofes. Manifesta é a insuficiência de uma tal demarcação que, para algumas capitanias, veio a dar origem a leitos que duraram mais de um século. Doze foram os donatários: mas verdadeiramente quinze os quinhões, visto que os dois irmãos Sousa tinham só para si cento e oitenta léguas, distribuídas em cinco porções 99 separadas, e não em duas inteiriças. Com razão deviam eles de ser, pelos serviços importantes que acabavam de prestar no próprio Brasil, os mais atendidos na partilha. A Martim Afonso, a quem a carta régia acima fazia terminantemente a promessa, foram adjudicadas, naturalmente por sua própria escolha, as terras da colônia de São Vicente, e por conseguinte com ela os gastos já feitos pelo Estado para fundá-la. O não se mencionar esta cláusula fez que, em virtude da letra da carta de doação, se entendesse tempos depois pertencer esta vila aos herdeiros de Pero Lopes, cuja doação começava do lado do norte da barra grande de São Vicente. Os dois quinhões de Martim Afonso compreendiam as terras que correm desde a barra de São Vicente até doze léguas mais ao sul da ilha da Cananéia, ou proximamente até uma das barras de Paranaguá; e para o lado oposto, as que vão desde o Rio Juquiriqueré até treze léguas ao norte do Cabo Frio, que depois se fixou pela barra de Macaé; ficando por conseguinte suas as magníficas terras de Angra dos Reis, as da soberba baía de Janeiro, e do Cabo Frio. Eram nada menos que cem léguas contadas sobre o litoral; mas em virtude do rumo, que durante essa extensão toma a costa, vieram a produzir, na totalidade, em léguas quadradas, alguns milhares de menos do que a vários dos outros, como se verá. A extensão do Juquiriqueré até a barra de São Vicente, e a de Paranaguá para o sul até as imediações da Laguna, que chamavam terras de Sant’Ana (15), foi doada a Pero Lopes que, além destas porções, que perfaziam cinqüenta léguas sobre o litoral, recebeu, desde a ilha de Itamaracá inclusive para o orte, trinta léguas mais, como abaixo diremos, quando, costeando como vamos, o Brasil de sul a norte, chegarmos, 100 com a nossa resenha, à paragem onde delas se encontram. Com a porção mais setentrional de Martim Afonso entestavam as trinta léguas doadas a Pero de Góis, e que iam terminar no baixo dos Pargos, ou antes de Itapemirim proximamente. Pero de Góis prestara também importantes serviços na armada de Martim Afonso, a cuja família devia ser mui afeiçoado, e até foi ele quem se encarregou de escrever por sua letra o diário de Pero Lopes, cujo original entregamos, em 1839, pela primeira vez, à imprensa (16). Essa afeição não deixaria de ser tomada em conta no repartimento da terra para evitar as demandas e pleitos que pudessem acaso resultar da falta irremediável da precisão nas demarcações laterais. Contíguo a Pero de Góis, cinqüenta léguas sobre a costa, as quais alcançavam até o rio Mocuri, veio a ficar Vasco Fernandes Coutinho, também fidalgo da casa real; e que havendo servido em Goa, em Malaca e na China, às ordens de Affonso d’Albuquerque (17), conforme recordam as historias da Ásia, depois de juntar algum cabedal se havia retirado a Alenquer (vila situada, como sabemos, a algumas léguas de Lisboa, perto de Tejo) para aí desfrutar, com a ajuda da moradia, de uma tença que recebia do Estado. Naturalmente nessa vila, por intermédio de algum agente do conde da Castanheira, proprietário vizinho seu, se recomendaria para entrar no número dos da partilha. Do Mocuri para o norte vinha a capitania de Porto Seguro, com outrascinqüenta léguas concedidas a Pero do Campo Tourinho, rico proprietário de Viana do Minho. Seguiam-se os Ilhéus, nas cinqüenta léguas até a barra da Bahia, doadas a Jorge de Figueiredo Correia, também fidalgo da casa real, e que exercia na corte o cargo de escrivão 101 da Fazenda, o qual lhe daria lugar a estar informado do que se passava, e a pedir para si o que tão generosamente via conceder a outros. A raia entre esta capitania e a precedente não se indicava. Tudo quanto se estende desde a barra da Bahia à foz do rio de São Francisco obteve para si Francisco Pereira Coutinho, excetuando-se, porém, o mesmo rio que devia ficar exclusivamente a Duarte Coelho; e, segundo se diz na própria doação, foi-lhe conferida tal graça, em atenção aos muitos serviços que ele havia prestado, assim em Portugal, como “nas partes da Índia, onde servira muito tempo com o Conde Almirante (18) e com o Vice-Rei D. Francisco de Almeida, e com Affonso d’Albuquerque, e em todos feitos e cousas que os ditos capitães nas ditas partes fizeram, nos quaes dera sempre de si mui boa conta”. As Alagoas e parte do atual território da província de Pernambuco tocaram, na extensão de sessenta léguas, a Duarte Coelho, valente capitão que muito se distinguira por feitos no Oriente, em cujos fastos achamos mais de uma vez consignado honrosamente o seu nome, em missões ao reino de Sião e à China, no descobrimento da Cochinchina, no recontro que reve com duas armadas, conseguindo fazer vinte e tantas presas, e em outras ações ilustres (19). Havia sete anos que voltara do Oriente, e se casara com D. Brites, irmã de Jerônimo d’ Albuquerque. Como, por ocasião da primitiva repartição das terras, lhe haviam ido ordens para navegar até Pernambuco (da costa da Malagueta, onse de achava cruzando), a fim de destruir a feitoria deixada pela nau de Marselha, é natural que daí proviesse o ser preferido para esta parte da costa, de que porventura chegaria a ter conhecimento prévio. 102 Um pouco ao norte da foz do rio Igaraçu ficava a extrema do domínio de Coelho. À margem esquerda da foz deste rio, no canal de Itamaracá, fora levantada a feitoria de Cristóvão Jaques. A cinqüenta passos ao norte dela, onde se diz “Os Marcos”, em virtude dos que aí se postaram, era o ponto donde partia designadamente a raia setentrional da mesma capitania. Para o norte se contavam as restantes trinta léguas da pertença do donatário Pero Lopes, as quais alcançavam a baía da Traição, compreendendo parte da atual província da Paraíba, e incluindo a fértil ilha de Itamaracá. A extensão d litoral daí para diante, o resto da atual Paraíba e Rio Grande do Norte, coube a João de Barros e a Aires da Cunha, de parceria; contando-se-lhes cem léguas além da baía da Traição. Seguiam-se sobre o Ceará quarenta léguas para o cavaleiro fidalgo Antônio Cardoso de Barros (20), e depois de mediarem setenta e cinco para Fernando Álvares de Andrade, e que vinham a incluir parte da costa do Piauí e Maranhão atual “desde o cabo de Todos os Santos, a leste do rio Maranhão, até junto ao rio da Cruz (IV)”, competiam outra vez àqueles dois donatários associados, Barros e Cunha, cinqüenta léguas mais, começando a contá-las de loeste “desde a abra de Diogo Leite até o dito cabo de Todos os Santos”. Fernando Álvares de Andrade, do conselho do rei, era então tesoureiro-mor do Reino (Barros, Déc. I, VI, 1º). – Enquanto viveu, diz-nos o conde da Castanheira, foi solicitador acérrimo em favor de providências a bem do Brasil. Aires da Cunha era um valente nauta que se distinguira como capitão-mor do mar em Malaca (Barros, Déc. III, liv. 10, c. 6. – IV, liv. 1º, cs. 9, 10 e 11. – Couto, IV, liv. 1º, c. 6; liv. 103 2º, cs. 2 e 3). Recolhendo dos Açores, onde se achava com uma esquadrilha de caravelas de guarda-costa e onde prestara serviços importantes, em Setembro de 1533 (21), chegara a Lisboa, comandando um galeão, com o qual se oferecera a destruir a feitoria que em Pernambuco fundara a nau de Marselha La Pélerine, comissão que não lhe foi incumbida, por chegar pouco depois Pelo Lopes, deixando concluída essa empresa. Quanto ao donatário João de Barros, escusado é dizer que se trata do que viria a ser historiados da Índia, com tanta glória para a nação, e fortuna para a língua, em que ele tão vigorosamente escrevia. Louve-se muito embora, nos historiadores portugueses, a crítica de Brandão, o colorido de Brito, o fraseado de Sousa, de Lucena, ou de Mendes Pinto, sempre haverá que conceder a Barros toda a pureza na linguagem, muita propriedade na frase, e um estilo elegante, principalmente quando descreve ou pinta certas paragens, ostentando as muitas noções que tinha das coisas do Oriente, como quem, aproveitando-se do seu ofício de feitor da casa da Índia, não praticava em outro assunto com os que de lá chegavam. Bem alheias vereis sempre as Décadas da Ásia, assim dos soporíferos contos de Castanheda e de Azurara, como das pregações homéricas do velho Fernão Lopes; e por isso mereceram elas a glória de ser o livro português que mais folheou o imortal cantor do Gama. O conde da Castanheira tinha o erudito feitos da Casa da Índia em tão boa conta que a seu respeito dizia num relatório (22) ou exposição ao monarca: “O feitor hei eu por tão fiel em seu officio que casi me parece que ainda que furtar fôra virtude elle o não fizera: entende o negocio muito bem, ha mister mais favor que 104 sofreadas. Não fôra mau para o negocio da cada (23) não ser elle incrinado a outros, os quaes, não somente não são illicitos, mas muito proveitosos à terra”. Estes outros negócios lícitos, úteis à terra, a que se mostrava inclinado o pobre feitor, eram naturalmente as ocupações de sua pena, que tanta glória dão ao país, e que revertem em quem assim o protegia, para escrever suas obras, e colonizar a pátria e o orbe com as suas criações. No número destas contaríamos hoje uma crônica do Brasil até o seu tempo, se havendo vivido mais anos, houvesse ele podido realizar (24) os seus intentos. Resta-nos unicamente tratar do cavaleiro fidalgo Antônio Cardoso de Barros, cuja capitania, computada em quarenta léguas de costa, se estendia, aquém da de Fernando Álvares, desde o rio da Cruz, em dois graus e um terço, correndo para leste, até a Angra dos Negros, em dois graus (25). Esta capitania tinha apenas seis léguas de espaço de latitude, pois seguia de dois graus a dois graus e um terço. – Dos precedentes deste donatário não encontramos notícias. – Segundo certos indícios de ruínas de pedra e cal, encontradas depois na Tutóia (26), aí pretendeu estabelecer uma colônia, que se viu obrigado a desamparar; e mais tarde aceitou da coroa um cargo de fazenda para a Bahia, e ao recolher-se ao Reino naufragou, e foi barbaramente assassinado pelos índios. Por certas expressões, que lemos no relatório mencionado do conde da Castanheira, deduzimos que não houve, entre os poderosos da corte, grande concorrência, como dá a entender a carta régia a Martim Afonso, para alcançar tais capitanias, que nem sabiam alguns dos agraciados que coisa eram. Reconhece o conde que a distribuição não tinha dado ainda tantos resultados como se esperava, e desculpa-se de que 105 a tal respeito não se pôde fazer mais, por o não consentirem os que queriam ir, “e serem poucos os que sobre isso competiam”. Embora pareça que nada há que opor a estas reflexões, porque a necessidade era a lei, e porque urgia o estímulo aos empreendedores, que naturalmente imporiam as condições, não podemos dissimularque, em nosso entender, o governo andou precipitado em distribuir logo a terra, de juro e herdade: reconhecemos a necessidade que havia de colônias por toda a extensão da costa; mas talvez estas se houveram da mesma sorte obtido e outras muitas após elas, se as doações se houvessem limitado, por então, a doze ou mais quinhões muito mais pequenos; e que constassem de algumas léguas quadradas, próximas aos portos principais da costa, já então conhecidos e freqüentados. A colonização não se teria disseminado tanto (chegando às vezes a perder-se), e houvera sido mais profícua, e dado resultados mais prontos; e o governo poderia ter guardado um novo cofre de graças, para recompensar os serviços feitos pelos abastados do comércio que aspirassem a satisfazer a tendência existente no coração humano de vincular, para sucessores, as fortunas adquiridas. – Com doações pequenas, a colonização se teria feito com mais gente, e naturalmente o Brasil estaria hoje mais povoado – talvez – do que os Estados Unidos: sua povoação seria porventura homogênea, e teriam entre si as províncias menos rivalidades que, se ainda existem, procedem, em parte, das tais grandes capitanias. Pois é possível crer que esses poucos que competiam para ser donatários, como diz o conde da Castanheira, se não contentassem sem a idéia do domínio de muita terra embora inútil, e sobre que nem sequer podiam 106 saciar com os olhos, mas só com a imaginação, sua cobiça, quando na maior parte eram de sertão, onde não poderiam ir, nem foram, em sua vida? O mal foi fazer-se tudo às pressas” E o caso é que isso, por ser mal feito, não se expulsaram de nossos mares os navios franceses, que era o resultado principal que se pretendia obter. É certo que a mania de muita terra acompanhou sempre pelo tempo adiante os sesmeiros, e acompanha ainda os nossos fazendeiros, que se regalam de ter matos e campos em tal extensão que levem dias a percorrer-se, bem que às vezes só a décima parte esteja aproveitada; mas se tivesse havido alguma resistência em dar o mais, não faltaria quem se fosse apresentando a buscar o menos. Anos antes tinham aparecido colonizadores para os Açores, com muito mais pequenas doações de terras; e os Açores e a Madeira têm hoje, proporcionalmente mais povoação que os distritos de Portugal, naturalmente porque foram as doações mais pequenas e em maior número: e apesar de haverem sido muitos dos colonos estrangeiros, como os que levou Hürter para o Fayal e Bugres para a ilha Terceira, nem por isso a colônia, formada de flamengos, ficou flamenga, nem falando flamengo. Na distribuição primitiva das terras, sem dúvida se deram muito notáveis desigualdades, não tanto no avaliar as doações pelo maior ou menor número de léguas sobre a costa, que esse foi em geral de cinqüenta; bem que por exceção se estendesse a oitenta ou a cem, ou se restringisse a trinta. As maiores e mais caprichosas desigualdades se encontram, quando hoje vamos sobre o terreno apurar até onde chegavam, pelo serão a dentro, os direitos senhoriais concedidos; e medimos aproximadamente os milhares de léguas quadradas 107 que, segundo a correspondente carta de doação, tocava a cada um destes Estados, geralmente com maior extensão de território do que a mãe-pátria; extremando de loeste, pela meridiana da raia que estabelecemos (27), na suposição de se contarem as léguas como de dezesseis graus e dois terços. Procedendo a esta apuração, fácil será conhecer que as doações, em milhares de léguas quadradas, vinham a guardar, pouco mais ou menos, as proporções seguintes: 1º - Duarte Coelho, doze milhares; 2º - Pero Lopes, sete milhares e meio; 3º - Francisco Pereira, sete milhares; 4º - Figueiredo, quase o mesmo; 5º - Tourinho, seis milhares e meio; 6º e 7º - Barros e Cunha, quase o mesmo cada um; 8º - Vasco Fernandes, cinco milhares e meio; 9º - Martin Afonso, pouco mais de dois e meio; 10º - Pero de Góis, menos de dois; 11º - Fernando Álvares, menos de milhar e meio; 12º - Antônio Cardoso, pouco mais de seiscentas léguas. Deste modo a capitania de Martim Afonso, que talvez o doador pensou fazer maior que as outras, saiu das mais pequenas. Ainda nos nossos tempos há exemplos de disposições legislativas em que da ignorância de princípios científicos procedem resultados absurdos, ou contrários à mente dos legisladores. Em todo caso, por meio do estabelecimento destas capitanias, pensou o governo de D. João III, sem lesar diretamente o tesouro da nação, não só assegurar esta grande 108 extensão de terra que a fortuna lhe outorgara, como, com o tempo, recolher, por meio da cultura dela, maiores vantagens. – Não há dúvida que por muito entraria no ânimo do soberano o pensamento de propagar o evangelho; mas ele o faria, faltando aos seus deveres, se o executasse empobrecendo, em gente e em recursos, o povo que regia, sem esperanças de retribuição. Uma colônia, diz um publicista que se ocupou profissionalmente do assunto, “é o resultado da emigração de indivíduos de que a metrópole se priva, com a esperança de poder indenizar-se mais tarde dos sacrifícios que faz; sem o que, os estabelecimentos que fizesse só lhe causariam dano”. Pelo que, o simples fato do estabelecimento de uma colônia por qualquer nação, que a funda com os seus filhos, “a defende com as suas armas e a mantém por suas leis, como diz Montesquieu, reclama a compensação nas vantagens do seu comércio, com exclusão de todas as outras nações, segundo o direito europeu ainda praticado em nossos dias por alguns”. NOTAS EM NÚMEROS ARÁBICOS (1) Também desse infausto sucesso trata Oviedo, no Liv. 23, cap. 10 (T. 2º, pág. 188). – (A.). – Sobre o caminho seguido por Cabeça de Vaca, interpretação de modos tão diferentes, consulte-se Rio Branco, Exposição, etc., II, págs. 224-225. – (C.). – A expedição, composta de quarenta besteiros e outros tantos espingardeiros, comandada por Pero Lobo, um dos capitães de Martim Afonso, e guada por Francisco de Chaves, partiu de Cananéia, no primeiro dia de Sertembro de 1531, - Diário de Pero Lopes, I, págs. 206-207, da edição de Eugênio de Castro. Entranhando-se pelo sertão, rumo do sudoeste, em busca de metais preciosos, dos expedicionários não houve mais notícias senão a que, dez anos depois, transmitiu o adiantado Alvar Nuñez Cabela de Vaca: 109 “Llegados que fueron al rio Yguaçu fu[e informado de los índios naturales que el dicho rio entra en el rio del Parana, que asi mismo se llama el rio de la Plata. Y que entre este rio del Parana y el rio de Yguaçu mataron los índios a los Portugueses que Martim Afonso de Sousa ambio a descubrir aquela tierra; al tiempo que pasavam el rio en canoas dieron los índios en ellos y los mataron; algunos destes de la del Parana que ai mataron a los Portugueses, le avisaron al governador (Cabeça de Vaca) que los índios del rio del Pequeri, que era mala gente, enemigos nuestros, y que estavon aguardando para acometerlis y matarlos en el passo del rio...”. – Comentarios de Alvar Nuñez Cabeça de Vaca, adelantado y governador de la provincia del rio de la Plata. Scriptos por Pero Hernández, scrivan y secretario de la provincia, y dirigidos al Serenisimo, muy alto y muy poderoso Señor el Infante Don Carlos, N. S.”, fls. LXVIII v., Valladolid, 1555. – Dos termos do itinerário de Cabeça de Vaca, Rio Branco (op. et loc. cit.) deduziu elementos de prova de que naquela região, cuja posse a República Argentina disputava ao Brasil, os Portugueses precederam de dez anos aos Espanhóis no descobrimento.– (G.). (2) D. Martinho de Portugal, em carta de 19 de Abril de 1532, “dá conta de huma nau de Franceses de Marselha, que tomou Antonio Correa com grande valor; e foy de importancia por vir do Brasil; que se tornara a salvamento á sua terra, se ouverão de armar outras muytas logo em Marselha e por toda a Italia”. – Frei Luís de Sousa, Anais de D. João III , pág. 377, Lisboa, 1844. – (G.). (3) “Géneral des armées navales” – diz F. Denis, em seu interessante trabalho Le Génie de la Navigation, pág. 33. Também se escrevia Blanquart. – (A.). – Bertrand d’Ornessan era o nome do barão de Saint-Blancard. – (G.). (4) Cremos que essa fortaleza seria em um dos morros de Olinda, nome que Duarte Coelho veio a substituir ao indígena de Marim, que tinha no tempo dos franceses e de Paulos Nunes. (5) No dia seguinte, 21 de Janeiro de 1533, é datada a carta de D. João III ao conde da Castanheira, avisando-o da chegada de Pero de Sousa, que vinha do Brasil, “quall, antre boas novas que trouxe, foy que, vymdo elle do Rio da Prata, correndo a custa do Brasil, veyo teer a Pernambuco, ôde achou os Franceses, que tinham feyto fortalezza; e lha tomou, e os tomou a elles, e ficou pacificamente e poder dos Portugueses 110 sem nenhua contradiçam. E porque pareçe que, por esta obra ser feyta, non sera necessario ir Duarte Coelho com a sua armada há dita costa do Brasyll, e que seja muyto mais meu servyço ir esperar as naoos que Antonio Vaaz de Lacerda diz que se aviam de ir ajuntar, pera seguirem d’y sua viajem em cõserva até a India, que deve de ser na costa de Ginee ou perto da costa de mallageta, omde o dito Duarte Coelho estaa”. – J. D. M. Ford, Letters of Joh III, citadas, pág. 69. – (G.). (6) Carta del-rei ao conde da Castanheira, de 25 de Janeiro de 1533. – (A.). – Publicada por J. D. M. Ford, Letters of John III, citadas, págs. 73-75. – (G.). (7) Duarte Coelho havia de andar na costa da Malagueta até 10 ou 15 de Abril; Parece que quando o aviso chegou, já seria Maio, tempo necessário para ir às ilhas, ibidem, pág. 82. – (G.). (8) Para promover a colonização dos países, aonde ela não ia espontaneamente, não havia então, e nem talvez haja ainda hoje, outro meio; bem que se possam aperfeiçoar cada vez mais as condições, sempre em harmonia, com o sistema da enfiteuse romana. Somente certos direitos sobre o colono podem estabelecer igualdade em contratos, onde um homem, sem fiador, faz promessas, em virtude das quais unicamente o donatário abona o custo de seu transporte e outras despesas. – (A.). (9) Esse sistema foi também seguido pelos Holandeses quando, em 1630, colonizaram nos Estados Unidos, no Delaware, Hudson, etc. – (A.). (10) “Setenta” se lê nas cópias. Parece, porém, ter havido engano de algum copista, pois “trinta” se lê no processo autêntico de St. Blancard. – (A.). (11) Segue: “Pero Anriques a fez em Lisboa aos 28 de Setembro de 1532 annos-REI”. – (A.). – Santarém, Quadro elementar, 3 , 241, equivoca-se, dando-a como escrita por Martin Afonso a D. João III. – (C.). (12) Esta carta parece autêntica: entretanto, o final dá que pensar. Significará que el-rei tinha tanta confiança nas medidas tomadas que de 111 antemão já cantava vitória? Conterá referência a algum fato de que não temos outra notícia? – (C.). (13) Martim Afonso estava ainda em São Vicente a 4 de Março de 1533, segundo Tanques, na Rev. do Inst., 9, (1847), pág. 146. Reuniu-se a Duarte Coelho na ilha Terceira, e naturalmente voltou com ele para Lisboa, depois de Julho do mesmo ano, como se vê de Fr. Luís de Sousa, Anais de D. João III, pág. 378. Parece que primeiro governou como seu locotenente Pero de Góis, que teve com os espanhóis de Iguape um conflito, a que o autor se refere na secção XI. – (C.). (14) A doação a Duarte Coelho é de 10 de Março (1534) e teve apostila em 25 de Set., concedendo-lhe metade da dízima do pescado, que pertencia de direito à Ordem de Cristo. – (A.). (15) “Em altura de vinte e oito graus e um terço”. (Carta de doaç.). – (A.). (16) Se a letra é de Pero de Góis, segundo o autor afirma também na Revista do Instituto, 24, (1861), pág. 5, a cópia foi extraída alguns anos depois dos sucessos narrados, porque Pero de Góis ainda ficou no Brasil, como se vê do seguinte trecho de sua carta de doação passada a 28 de Janeiro de 1536: “havendo respeito aos serviços que me tem feito Pedro de Góis, fidalgo de minha casa, assim na armada que Martim Affonso de Sousa foi por capitão-mor na dita costa do Brasil como em alguns descobrimentos que o dito Martim Affonso fez no tempo em que lá andou, e em todas as mais cousas de meu serviço e a que se o dito Pedro de Góes achou, assim como o dito Martim Affonso como sem elle, depois de sua vinda por ficar lá”. – Silva Lisboa, Anais do Rio de Janeiro, 1, pág. 351. Rio, 1834. – (C.). – Conf. nota V, no fim da secção XII. (17) Liv. 7, de D. João III, fls. 113 e 187. – (A.). – O que se encontra em João de Barros (Déc. II liv. VI, cap. IV) sobre os feitos de Vasco Fernandes Coutinho compendiou Silva Lisboa, Anais do Rio de Janeiro, 1, 333 d segs. – (C.). – Em Fernão Cardim, Tratados da Terra e Gete do Brasil, Rio, 1925, pag. 342, há referência “àquele Vasco Fernandes Coutinho, que fez as maravilhas em Malaca, detendo o elefante que trazia a espada na tromba”. – (G.). (18) Vasco da Gama. – (A.). 112 (19) Barros, III, passim, e Couto, IV, passim. Veja também o t. V, das obras poéticas de Dinis, págs. 142 a 144, donde se colige como a essa família veio a entroncar-se um homem célebre. – (A.). – O marquês de Pombal. Duarte Coelho passou à Índia em 1509, na armada em que foi por capitão-mor D. Fernando Coutinho: esteve na China, primeiro europeu que isto fez em navios europeus, em 1516-1517; em 1529 foi encarregado de ver com dois engenheiros os portos em África que deviam ser fortificados. em 1531 foi à França, de onde voltou pouco depois de lá ter chegado o conde da Castanheira [Fernando Palha, La lettre de marque de Jean Ango, pág. 49, et passim, Rouen, 1890]. Frei Luís de Sousa, Anais de Dom João Terceiro, 378, dá breve notícia dos seus serviços no Oriente. Quando ao parentesco com o marquês de Pombal, veja -se a nota da secção XXV. – (C.). Duarte Coelho era filho de Gonçalo Coelho, emissário de D. João II ao príncipe de Jalofo, capitão-mor da armada de 1503 e escrivão da fazenda real. Veja-se História da Colonização Portuguesa do Brasil, vol. II, págs. 301-308. – (G.). (20) Por carta de 19 de Novembro de 1535, atendendo aos serviços que Antônio Cardoso de Barros, cavaleiro fidalgo, tem feito assim no Reino como em África, etc., el -rei lhe fez mercê de quarenta léguas de costa do Brasil, que começarão da angra dos Negros, que está na banda do Leste em altura de 2º, e acabam no rio da Cruz, da banda de Loeste, que está em altura de 2º 1/s. – Livro 21 das Doações de D. João III, fls. 187. No dia seguinte (20 de Novembro) foi feito o foral. – Livro 22 das Doações, fls. 108. A carta de doação nunca foi impressa. O foral foi impresso pelo Barão de Stuart, in Revista do Instituto do Ceará , tomo XXIII (1909), págs. 11-16. – (G.). (21) Se, como se lê à pág. 159, já em janeiro de 1533 Pero Lopes chegava à Europa depois de tomada a fortaleza galo -pernambucana, como ainda em Setembro do mesmo ano poderia Aires da Cunha se oferecer para desempenhar essa comissão? Evidentemente, onde está 1533, deve -se ler 1532. – (C.). (22) Este relatório será oportunamente dado à luz. – (A.). – Esta promessa, já feitana 1ª edição, 1, 68, nunca foi realizada pelo autor; o paradeiro do documento é desconhecido. – (C.). 113 (23) Da Índia, entende-se. – (A.). (24) Varn. na Rev. do Inst., 13, 396. Barros servira também, interinamente, de tesoureiro da Casa da Índica, no 1º de Maio de 1525 a fins de 1528. Rib. Diss. Cr., Tom. 2º, pág. 265. Recebeu quitação em 20 de Out. de 1563. – (A.). (25) Doaç. de Évora, em 19 de Nov. de 1535. – (A.). (26) Na entrada tinha umas ruínas de pedra e cal, como que em algum tempo houvesse sido povoada de gente da Europa – lê-se na Jornada do Maranhão , pág. 185. Este trecho não implica, porém, que de Antônio Cardoso de Barros procedessem tais ruínas. – (C.). (27) A raia que o autor deduz da interpretação do tratado de Tordesilhas. – (C.). NOTAS EM ALGARISMOS ROMANOS (I) Processo do barão de Saint-Blancard contra Pero Lopes, na nota 32 da 1ª edição desta História, e na 3ª e 4ª do Diário de Pero Lopes. – (A.). – Veja-se na Lusitânia, vol. III, fascículo IX, págs. 315-327, Lisboa, 1926, o erudito artigo do dr. Jordão de Freitas sobre o achado na Torre do Tombo (Corpo cronológico, I, 65, 13) de peças desse processo, que encerram “interessantes e valiosos elementos de informação não só relativamente às condições da vida social, comercial, religiosa e militar dos habitantes da feitoria portuguesa de Pernambuco em 1532, quando ali aportou a nau marselhesa Pélerine (antiga nau portuguesa Sam-Thomé a estirada, roubada pelos franceses a um André Afonso, da cidade do Porto), mas ainda acerca do assalto, destruição, roubos e mortes que os franceses ali fizeram então, bem como a respeito dos sucessos ocorridos após a chegada de Pero Lopes de Sousa a Pernambuco no mesmo referido ano”. Além de Pero Lopes de Sousa, Antônio Correia e o arcebispo D. Martinho de Portugal, mencionados no documento que o autor publicou na primeira edição deste livro e em duas sucessivas do Diário de Pero Lopes, reproduzido por Gaffarel, Histoire du Brésil Français , 366-372 – 114 foram também acusados pelo barão de Saint -Blancard mais três capitães portugueses: Gonçalo Leite, Bartolomeu Ferraz e Gaspar Palha, que figuram nas pelas do processo ultimamente encontradas. O tribunal, que já funcionava em Baiona em 10 de Outubro de 1537, era constituído por dois juízes, deputados ou comissários fran ceses, dois portugueses e, em caso de empate, elegia -se um quarto juiz. A carta citatória (informa Jordão de Freitas) havia sido trazida por um procurador do autor do processo, sendo o assunto tratado em audiência da correição do civil da corte, presidida pelo licenciado Men de Sá e realizada no dia 16 de Junho de 1538. O Instituto Histórico possui cópias fotográficas destes documentos, impressos no Diário de Pero Lopes, de Eugênio de Castro. – (G.). (II) “Pernambuco onde achou os Francezes que tinham fei to fortaleza e lha tomou a elles, e ficou pacificamente em poder dos Portuguezes”. – Primeira carta de el-rei ao conde da Castanheira, de 21 de Janeiro de 1533. Cópia ms. na Cor. do autor. – (A.). – Essa carta, conforme averigou o Dr. Jordão de Freitas, História da Colonização Portuguesa do Brasil , vol. III, pág. 117, nota 133, é de Évora, 20 de Janeiro de 1533; há outra de 21, relativa à “vinda de pero lopes de sousa eu veyo do brasil”, mas não é nesta, e sim na primeira, que se contém o trecho apontado. – (G.). – Frei Luís de Sousa, Anais de Dom João Terceiro, pág. 377, escreve: “Consta por carta delRey ao conde da Castanheira, de 21 de Janeyro de 1533, que Martim Afonso de Sousa tomou na sua viagem (parece que foy do Brasil) duas naos de Francezes com trinta e tantos homens de França e quatro índios do Brasil, que chama Reys: manda el -Rey que os Francezes venhão presos ao limoeyro, e os navios a Lisboa; e os que chama Reys sejão bem tratados, e vestidos de seda.” – (C.). – Jordão de Freitas, ub supra, encontrou duplo equívoco por parte do cronista, quanto à data da carta, conforme já se viu, e quanto ao nome de Martim Afonso de Sousa em lugar de Pero Lopes de Sousa, que no Borrador arquivado na Biblioteca da Ajuda vem mencionado quatro vezes. As cartas de D. João III ao conde da Castanheira vêm anexas ao estudo do dr. Jordão de Freitas sobre a Expedição de Martim Afonso de Souza, no citado vol. da História da Colonização . – (G.). (III) 115 Consta de uma certidão passada a 15 de Junho de 1535, por Heitor de Barros, escrivão da feitoria de Pernambuco, sobre os serviços do bombardeiro Diogo Vaz, que “chegando a pernambuquo do Ryo da prata domde vynha foy necesariho ho dyto Dº Vaz fyquar é o dyto pernambuquo para serviço delRey nosso sõr ho quoall pº lopes mãdou e fez fyquar por cõdestabre da fortaleza que se fez de q. Vte. miz [Martins] feReyRa [Ferreira] hera quapitã e quomesou a servyr no dyto pernambuquo aos trynta dyas do mês doutubro da era de myll e qujñetos e trynta e dos años [até] q. chegou palus nniz [Paulos Nunes] na qaRavela espeRa pera ser quapitã do dyto pernambuquo quomo ho foy e fez cõdetabre da fortaleza a xpº franq e ho dyto Dº Vaz servya de bombardeyRO do primeiRo de mayo da era de trynta e três años esta de mjll e qujn~etos e trynta e cinquo e q . estamos q. aquj chegou Duarte qoelho a esta fortaleza a nove dyas do mês de março da dyta era e q. lhe foy entregue a duta fortaleza e lhe deu lycensa pera q. se qujzesse jr pera ho Reyno”. – Doc. da Torre do Tombo, Corpo Cronológico, II, 202, citado pelo dr. Jordão de Freitas, Lusitânia, vol. III. fascículo IX, pág. 326. – em carta de D. João III ao Conde da Castanheira, de 8 de Fevereiro de 1533, determina o rei que da armada de Duarte Coelho, que estava na costa da Malagueta, se mandasse ao Brasil, por to de Pernambuco, uma caravela com sessenta homens, e que nela fosse Paulos Nunes, “o quall estee por capitão da gente que llaa lleyxou Pero Llopez de Sousa...” – J. D. M. Ford, Letters of John III, citadas, pág. 91. – Outra carta de 16 dos mesmos mês e amo, o rei aprovava o regimento que Paulos Nunes devia levar; escrevia que Pero Lopes lhe dera conta do que era necessário sobre Manuel de Braga e Vicente Martins, piloto, e que logo mandava as competentes provisões, ibidem, pág. 99. – (G.). (IV) “Afirma o gentio que nasce este rio de uma lagoa, ou de junto dela, onde também se criam pérolas e chama-se este rio da Cruz, porque se metem nele perto do mar dois riachos em direito um do outro, com que fica a água em Cruz.” – Gabriel Soares, Tratado descritivo , 23. – O nome do rio da Cruz (rio donde se halló uma crus) já se encontra no mapa de Juan de la Cosa; é o atual Camocim, como afirma Pimentel em 1712. – (C.). O pouco que sabemos a respeito da capitania de João de Barros e seus sócios, condensou Capistrano de Abreu nos prolegômenos à História do Brasil de Fr. Vicente do Salvador, págs. 78 e 79: 116 “Sobre João de Barros, Fernando Álvares de Andrade e Aires da Cunha quase só conhecemos o que contam documentos castelhanos. A armada fortemente organizada zarpou em fins de 35. Parece ter seguido para Pernambuco, donde parte desgarrou para as Antilhas e foi presa, Medina (Diego Garcia de Moguer, pág. 62): parte navegou para o Rio Grande, onde não demorou, porque a grande preocupação era o ouro, isto é, as terras do Peru, já então invadidas por Pizarro e Almagro. A morte de Aires da Cunha não desanimou a expedição, que subiu por um rio e seu afluente “durante duzentas e cinqüenta léguas até não poderem ir mais adiante por causa da água ser pouca e o rio se ir estreitando de maneira que nãopodiam já por ele caber as embarcações”, informa Gandavo, História da Província de Santa Cruz , cap. 2. Um manuscrito espanhol contemporâneo (cópia na Bibl. Nac.), reduz as léguas a cento e cinqüenta, diz que fizeram uma fortaleza na ilha em que ainda hoje está a capital do Maranhão, outra na confluência de dois rios, outra finalmente no último ponto do rio vindo da esquerda que puderam alcançar; este deve ser o Pindaré, mas o autor, dá-lhe o nome de Maranhão. Antônio Baião acaba de publicar no Bol. da Ac. das Ciências de Lisboa, muitos documentos sobre João de Barros, que contêm ligeiras referências ao Brasil.” Deles resulta que os filhos de João de Barros vieram depois de Aires da Cunha, mais ou menos no tempo de Luís de Melo. – (G.). 117 SECÇÃO XXIII O BRASIL EM 1584 – MISERICÓRDIA. LITERATURA CONTEMPORÂNEA. O Brasil e Gandavo e Camões. Gabriel Soares. Fernão Cardim. Seus serviços. Situação das Capitanias. Itamaracá. Pernambuco. Engenhos, riqueza, luxo, etc. A Bahia. População. Edifícios. Trato. Riqueza. Ilhéus. Porto Seguro. Duque d’Aveiro. Espírito Santo. Rio de Janeiro. Seu adiantamento. São Vicente e Santo Amaro. Atraso das capitanias do Sul. Suas vilas. São Paulo. Seus habitantes. Produção total do açúcar. Importações. Riqueza, Misericórdias e irmandades. Leis absurdas. Camões e seus contemporâneos. Góis e Sá de Miranda. Pedro Nunes. O sol dos trópicos. É tempo de pararmos um pouco a contemplar os progressos feitos durante meio século de colonização. Antes, porém, cumpre que dediquemos algumas linhas para dar a conhecer dois escritores contemporâneos, que nos vão servir de guias, e que fazem já honra ao Brasil-colônia, onde muitos anos viveram, e onde faleceram. As obras de Gabriel Soares e de Fernão Cardim não só se devem considerar como produções literárias de primeira ordem no século XVI, mas também, principalmente com relação ao nosso fim, como verdadeiros monumentos histó- ricos, que nos ministram toda a luz para avaliarmos o estado da colonização do nosso país, na época em que escreveram, o primeiro em 1584 e o segundo um ano antes (1). 118 Como produção literária, a obra de Soares é seguramente o escrito mais produto do próprio exame, observação e pensar, e até diremos mais enciclopédico da literatura portuguesa nesse período. Nos assuntos de que trata, apenas fora precedido uns dez anos pela obra (I) muito mais lacônica, mas que lhe serviu de estímulo, do gramático Pero de Magalhães de Gandavo, autor que publicou o primeiro livro em português acerca do Brasil, e que ainda mais estimamos, por haver sido amigo de Camões, e por haver, por assim dizer, posto em contacto com nosso país o grande poeta, quando este escreveu em verso a epístola oferecendo-a a D. Lioniz Pereira, antigo governador de Malaca. A breve história sua que ilustrasse A terra Santa Cruz pouco sabida (2) Nos Lusíadas apenas Camões se lembrou do Brasil, escrevendo uma vez este nome, e outro o de Santa Cruz (3); nunca o de América. Seja embora rude, primitivo, e pouco castigado o estilo de Soares, confessamos que ainda hoje nos encanta o seu modo de dizer; e ao comparar as descrições com a realidade, quase nos abismamos ante a profunda observação que não cansava, nem se distraía, variando de assunto (II). Como corógrafo, o mesmo é seguir o roteiro de Soares que o do Pimentel ou de Roussin; em topografia ninguém melhor do que ele se ocupou da Bahia; como fitólogo faltam- lhe naturalmente os princípios da ciência botânica; mas Dioscórides ou Plínio não explicam melhor as plantas do velho mundo que Soares as do novo, que desejava fazer conhecidas. 119 A obra contemporânea que o jesuíta José de Acosta publicou em Sevilha em 1590 (4), com o título de História Natural e Moral das Índias, e que tanta celebridade chegou a adquirir, bem que pela forma e assuntos se possa comparar à de Soares, é-lhe muito inferior quanto à originalidade e cópia de doutrina. O mesmo dizemos das de Francisco Lopez de Gomara (5) e de Gonçalo Fernández de Oviedo (6). O grande Azara (7), com o talento natural que todos lhe reconhecem, não tratou instintivamente, no fim do século XVIII, da zoologia austro- americana melhor que o seu predecessor português; e numa etnografia geral dos povos bárbaros, nenhumas páginas poderão ter mais cabida pelo que respeita ao Brasil, que as que nos legou o senhor de engenho das vizinhanças do Jequiriçá. Causa pasmo como a atenção de um só homem pôde ocupar-se em tantas cousas “que juntas se vêem raramente”, - como as que se contêm na sua obra, que trata a um tempo, em relação ao Brasil, de geografia, de história, de topografia, de hidrografia, de agricultura entretrópica, de horticultura brasileira, de matéria médica indígena, das madeiras de construções e de marcenaria, da zoologia em todos os seus ramos, de economia administrativa e até de mineralogia (8). Pouco depois de haver o Brasil passado ao domínio do rei de Espanha, avisava profeticamente ao governo da metrópole o dito Grabriel Soares: “Vivem os moradores tão atemorizados, que estão sempre com o fato entrouxado para se recolherem para o mato, como fazem com a vista de qualquer não grande, temendo serem corsarios: a cuja affronta S. M. deve mandar acudir com muita brevidade; pois ha perigo na tardança, o que não convem que haja; porque, se os estrangeiros se apoderarem desta terra, 120 custará muito lança-los fóra della, pelo grande apparelho que têm para nella se fortificarem; com o que se inquietará toda a Espanha, e custará a vida de muitos capitães e soldados, e muitos milhões do ouro em armadas, e no apparelho dellas, ao que agora se pode atalhar acudindo-lhe com a prestesa devida” (9). A obra de Fernão Cardim, que só viu a luz em Lisboa, em 1847, com o título posto pelo editor (o próprio autor desta história) de Narrativa epistolar, por constar verdadeiramente de duas cartas que dirigiu ao provincial da Companhia em Portugal, é seguramente mais insignificante e destituída de mérito científico que a precedente; entretanto, recomenda-se pelo estilo natural e fluente, e pela verdade da pintura feita com os objetos à vista, e as impressões, ainda de fresco recebidas dos encantos virgens que regalavam os olhos de quem acabava de deixar a Europa nos fins do Inverno. – Cardim, que havia chegado ao Brasil com o governador Teles Barreto em 1583, prestou depois à Companhia, da qual foi mais tarde eleito provincial no Brasil (cargo que exerceu ainda muitos anos do século seguinte), serviços importantes, no número dos quais devemos incluir o haver a ela atraído tão valente campeão como veio a ser o Padre Antônio Vieira (III). Passemos, porém, a aproveitar do conteúdo destas obras, para oferecer aos olhos do leitor um quadro do estado em que se achavam então as várias capitanias existentes no Brasil. A Paraíba, acabada de fundar, tinha um engenho em construção por conta da fazenda (10). Começava esta nova capitania a render ao Estado quarenta mil cruzados, que em tanto se arrendou o seu contrato do pau-brasil. 121 Na ilha de Itamaracá, do mesmo donatário que Santo Amaro, seguia prosperando a pequena vila da Conceição, situada no seu extremo meridional; e nos rios ou córregos imediatos moíam três engenhos (11). Passemos a Pernambuco, que era então sem duvida a capitania mais adiantada e rendosa, e de todo o Brasil a única em que realmente havia já luxo e tratocortesão. Contava-se nesta capitania mais de dois mil colonos e outros tantos mil escravos: daqueles mais de cem teriam passante de cinco mil cruzados de renda, e alguns de oito e dez mil. E dava-se na terra a circunstância de serem todos gastadores, de modo que ainda com tais rendas, que eram enormes para aquele século, havia muitas dívidas, em virtude dos escravos de Guiné, que morriam em grande número. – Eram freqüentes as festas e os jantares; trajavam os homens veludos, damascos e sedas, e despendiam briosamente com cavalos de preço, com sedas da roupa. Para o complemento do luxo de hoje só faltariam carruagens, que em Pernambuco e outras terras do Brasil nem tinham ainda entrado, segundo parece, no tempo de Vieira (12). – Além dos cavalos, havia cadeirinhas, ou palanquins, introduzidas da Ásia, e as serpentinas ou tipóias, que eram como liteiras ou padiolas, feitas de uma rede e levadas por dois homens. Só em vinhos se consumiam anualmente em Pernambuco muitos mil cruzados. Filhos da vila de Viana eram a melhor parte dos ricaços da terra; e a tal ponto tinham ali influência que diz o jesuíta, talvez por graça, que em lugar de aqui del-rei se gritava aqui de Viana” (13). Admirava-se o padre visitador (14) dos leitos de damasco carmesim, franjados de ouro, das ricas colchas da Índia, que lhe ofereciam na cama de dormir, e dos presentes, visitas e convites que recebia. 122 Segundo o testemunho de Cardim, havia então na capitania sessenta e seis engenhos, que lavravam por ano duzentas mil arrobas de açúcar, de modo que eram necessários quarenta ou mais navios para o levar (15). Possuía Olinda uma boa igreja matriz, quase acabada, de três naves, e muitas capelas, um colégio da Companhia, com lições de casos, de latim e de primeiras letras, e boa casaria de pedra e cal. Em Pernambuco, exclamava Cardim, se encontra mais vaidade que em Lisboa! As senhoras também ostentavam luxo, e gostavam mais de festas que de devoções. No recife apenas havia um começo de povoado com alguns armazéns, e uma ermida com a invocação do Corpo Santo. O pau-brasil estava arrendado, por dez anos, em vinte mil cruzados cada ano; e o dízimo dos engenhos em dezenove mil (16). O donatário Jorge de Albuquerque cobrava para si uns dez mil cruzados do tributo do pescado, redízima e outras rendas. No sul da capitania, para as bandas de Porto Calvo, se ia estabelecer Cristóvão Linz, que chegou a possuir sete engenhos (17). Quanto à Bahia, capitania da coroa, mais conhecida que as outras a deixamos pelo seguimento da nossa história: havia então nesta capitania também uns dois mil colonos, quatro mil escravos africanos, e seis mil índios cristianizados. Exportava anualmente para cima de cento e vinte mil arrobas de açúcar (o melhor de toda a costa) de seus trinta e seis engenhos; donde resultava que o termo médio do produto de cada engenho regulava por três mil e trezentas arrobas. Contava dezesseis freguesias, um colégio dos padres, um mosteiro de São Bento (18) e outro de Capuchos (19), além de mais quarenta igrejas e capelas. Os barcos e canoas de remo, só no Recôncavo, avaliavam-se em mil e quatrocentos. – Tinha já a cidade do 123 Salvador bons edifícios, porém a sé estava, como a de Pernambuco, por concluir. Havia nela cinco dignidades, seis cônegos, dois meios-cônegos, quatro capelães, um cura e coadjutor, quatro moços de coro e mestre-de-capela, dos quais muitos não eram sacerdotes, em geral mais mal pagos que os capelães dos engenhos, cujos lugares os eclesiásticos preferiam. O edifício do colégio era grande, bem acabado; e havia nele aulas de teologia, de casos, duas de humanidades, um curso d’artes, além das primeiras letras. Tinha de renda três mil cruzados, e sustentava de ordinário uns sessenta discípulos. Entre os habitantes notava-se igualmente muita abundância e rico trato, se bem que menos luxo que em Pernambuco. Nas casas havia bons serviços de prata. As senhoras tinham bastantes jóias. Também se viam cavalos bem ajaezados, e até os peões trajavam de cetim e damasco, e suas mulheres vasquinhas e gibões das mesmas telas. E pois que nesta capitania as comunicações se faziam principalmente por água, eram os jovens baianos menos amigos de montar a cavalo que os pernambucanos. – A capital contava apenas oitocentos moradores livres, e as casas não passavam ainda fora das portas de São Bento e do Colégio, ou sé atual. As rendas da câmara não excediam de cem mil réis anuais. Seguem as três capitanias dos Ilhéus, Porto Seguro e espírito Santo, que apesar de seu fecundo solo, e dos muitos rios que as retalham, e dos freqüentes portos que oferecem ao comércio, havia progredido mui pouco, como seguiu sucedendo até hoje. – Tão nociva lhes foi a influência da falta de uma colonização simultânea, que pudesse absorver os selvagens, em vez de se deixar por eles tragar. A capitania dos Ilhéis achava-se reduzida à vila de São 124 Jorge, apenas com uns cinqüenta colonos, em vez de quatrocentos ou quinhentos que tivera; e unicamente contava três engenhos, de oito ou nove que possuíra (20) e algumas roças de algodão e mantimento. Para casa lado da vila, os habitantes não se estendiam mais de duas ou três léguas, pela ourela da costa, e apenas meia légua para o sertão. Não era mais lisonjeiro o estado da capitania de Porto Seguro; se bem que nesta havia, além da vila capital, com quarenta colonos, a de Santa Cruz, e duas aldeias de índios, a de São Mateus e a de Santo André, A gente era pobre: havia um só engenho de açúcar (21); o gado vacum morria de certo capim mata-pasto (22) mas em troco os jumentos e cavalos cresciam em tal quantidade que daqueles havia bravos pelos matos. As árvores de espinho eram sem conta, e os habitantes fabricavam, para exportar, água de flor de laranja. Era donatário o primeiro duque de Aveiro D. João d”Alencastre, por contrato que, segundo dissemos (23), fizera com a terceira donatária D. Leonor do Campo. Um tanto melhor se achava a capitania do Espírito Santo: contava sobre cento e cinqüenta vizinhos, que possuíam seis engenhos de açúcar, muito gato e algodões. A Companhia tinha também seu colégio e igreja regular, e várias aldeias que administrava (24). Havia aqui mais gentio manso que em nenhuma outra parte; e os colonos serviam-se muito dele, de modo que apenas existia escravatura africana. Era desta capitania segundo donatário Vasco Fernandes, filho do outro de igual nome, de quem já tratamos; mas pouco depois faleceu, ficando governadora D. Luísa Grinalda, sua mulher, que fez antes de muito entrega ao quarto donatário Francisco de Aguiar Coutinho. 125 A capitania do Rio de Janeiro, bem que apenas contava vinte anos desde fundada, tinha cento e cinqüenta colonos e três engenhos, trabalhados principalmente pelos índios. Havia um colégio da Companhia, em que se ensinava o latim, e que recebia das rendas públicas dois mil cruzados. Igualmente seguiam subsistindo a casa de misericórdia e o hospital, quase no próprio sítio em que ainda hoje estão. Abundava a fruta e a hortaliça, e era tanto o pescado que valia o de escama a quatro réis, e o de pele a rea e meio a libra. Ainda então vivia Martim Afonso, Ararigbóia, comendados de Cristo, índio antigo, abaeté e moçacara, (Mboçácára, o que é muito honrado, Montoya, Tesoro, fls. 215) que servira muito aos colonos na conquista desta paragem. Os três engenhos de que fizemos menção, eram: um de Cristóvão de Barros, de água; outro do próprio governador, na sua ilha, movido por bois; e finalmente um terceiro, começado porSalema e por concluir, do patrimônio real (25). “Está tão mística a capitania de São Vicente com a de Santo Amaro (dizia um dos escritores contemporâneos que nos vão guiando) que se não foram de dois irmãos, amanharam-se muito mal os moradores delas” (26). – Já então na prática se começavam a realizar os temores de Gabriel Soares, e principiavam a germinar as questões, que pouco depois foram levadas ao julgamento dos tribunais. Reservando para o diante o tratarmos de qual era verdadeira linha de raia, nos limitaremos aqui a consignar que, falecido o primeiro donatário em 1571, e morto o segundo, seu filho, nos campos africanos de Alcácer-Kebir, era já, por confirmação régia, Lopo de Sousa, neto do primeiro, o possuidor da capitania de São Vicente. A de Santo Amaro, por morte de Pero Lopes, 126 passara sucessivamente a dois de seus filhos, e por falecimento destes recaíra em uma irmã deles, D. Jerônima, já viúva de D. Antônio de Lima, de quem tivera D. Isabel de Lima, que veio a ser a quinta donatária (27). Apesar, porém, de haver nas terras chamadas de São Vicente duas capitanias e dois donatários, na realidade quase que se imaginavam uma só; e inclusivamente tinha um só provedor, contador e alcaide-mor, que era o velho (28) Brás Cubas (29); se bem que as sesmarias, nas terras julgadas do neto de Martim Afonso, eram unicamente concedidas pelo seu lugar-tenente Jerônimo Leitão, e as da neta de Pero Lopes pelo governador Salvador Correia, seu bastante procurador para isso. Entretanto, para a resenha que vamos fazendo, as consideraremos uma única, e nos ocuparemos indistintamente das vilas e povoações de ambas. É necessário confessar que por este lado, principal - mente perto da costa, o Brasil se tinha porventura atrasado em vez de melhorar. Vimos que quarenta anos antes havia já aí seis engenhos e uns seiscentos vizinhos. A colonização do Rio de Janeiro, e os maiores atrativos de prosperidade na Bahia e Pernambuco, e a bondade do clima de Piratininga tinham privado São Vicente de muitos moradores, e a escassez de navios de comércio para ali, e a presença dos últimos piratas, haviam-na despojado de muita da sua riqueza. Bem que em pior estado, as duas capitanias sustinham, entretanto, ainda os mesmos engenhos. A vila de São Vicente se empobrecera de um modo sensível; e estava reduzida a uns oitenta colonos, além dos padres do colégio da Companhia que, a pedido da gente de Santos, o visitador Cristóvão de Gouveia ordenava agora que 127 para esse porto se transferisse (30). Eram apenas seis, os quais ali “estão como eremitas, por toda a semana não haver gente, e aos domingos pouca” (31). Menos habitantes colonos, e mais pobres, contava a vila da Conceição de Itanhaém, dez léguas pela praia, caminho da foz do Rio de Iguape. Poucos mais moradores que São Vicente tinha Santos: em uma e outra vila escasseavam os braços; e pouco antes haviam ambas dirigido uma súplica a Jerônimo Leitão para proceder contra os índios, que tanto mal haviam feito à capitania (32). Naturalmente menos população que todas teria a vila de Santo Amaro, junto da qual possuía um engenho Francisco de Barros. Ao norte da Ilha de Santo Amaro havia bem guarnecidas as duas fortalezas de São Filipe e de Santiago, à boca da barra da Bertioga; e da banda do sul, à entrada de São Vicente, e nas terras que haviam sido de Estêvão da Costa (33), havia (no forte que pouco antes se fizera) uma guarnição de cem soldados, com capitão e alcaide (33bis). São Paulo de Piratininga era a terra mais povoada do distrito, e continha tanto e meio dos colonos da de Santos ou de São Vicente. Já seus habitantes se mostram naquele tempo amigos de cavalgar e fazer “escaramuçar e correr seus ginetes”. – Os paulistas “do meio daquele sertão e cabo do mundo”, vestiam-se ainda à moda antiga “de burel e pelotes pardos e azuis, de petrinas compridas...” e iam nos domingos à igreja “com roupões ou bornéus de cacheira, sem capa” (34). Não tinham na vila pároco (35), e seis ou sete padres da Companhia eram os seus únicos eclesiásticos. Havia muito gado, e muitas vinhas, de cuja uva se fazia certo vinho que se 128 bebia “antes de ferver de todo”. Igualmente abundavam, entre as árvores da Europa, os marmeleiros, e se fazia muita marmelada. O trigo e cevada produziam bem, se os semeavam (36); escassos eram, porém, os vestuários pelo pouco trato do comércio. O fabrico do tal vinho cessou acaso com as proibições, que depois se fizeram em favor do comércio de Portugal (37). Os habitantes eram servidos pela escravaria da terra, e nas vizinhanças havia, entre outras aldeias, a da Conceição dos Pinheiros (38). Tratando da principal produção do Brasil naquela época, a do açúcar, contavam-se em Pernambuco sessenta e seis engenhos; na Bahia trinta e seis, e nas outras capitanias juntas metade deste número. Total dos engenhos cento e vinte. Referimos o número dos engenhos, porque cremos este o melhor meio de dar uma idéia do estado de prosperidade e riqueza do país. Um engenho por si é ainda hoje equivalente a uma grande povoação, e representa não só muitos braços, como as necessárias terras de canaviais, de mato, de pasto e de mantimentos. Com efeito, além da casa do engenho, da de moradia, senzalas e enfermarias, havia que contar com uns cem colonos ou escravos, para trabalharem umas mil e duzentas tarefas (39) de massapé (a novecentas braças quadradas por tarefa), além dos pastos, cercas, vasilhames, utensílios, ferro e cobre, juntas de bois, e outros animais. Anualmente produziam os ditos engenhos uns setecentos mil quintais de açúcar ou setenta mil caixas, número igual ao dos mil cruzados que pagava o mesmo açúcar de direito de saída, na razão de cruzado por caixa de dez quintais. O consumo no Brasil de gêneros estrangeiros vindos do 129 Reino, avaliava-se em quatrocentos mil cruzados, e portanto em oitenta mil a renda que produzia às alfândegas de Portugal o não estarem os nossos portos abertos ao comércio das outras nações. As fortunas eram geralmente, sobretudo em Pernambuco, na Bahia e no Rio, isto é, nas terras que já recebiam escravaria africana (40), bastante desiguais; e um dos meios com que mais dinheiro se juntava era o tráfico dos pretos. Às vezes associavam-se alguns senhores de engenho, e mandavam navios por escravos africanos, que lhes saíam assim muito mais em conta do que comprando-os aos traficantes, os quais, principalmente a prazos, efectuavam as vendas com muita usura. Os pobres encontravam já, em algumas povoações, apoio eficaz numa instituição pia introduzida em Portugal no século anterior, a fim não só de recolher os peregrinos, como as antigas albergarias, mas de curar os enfermos, de enterrar os mortos, de educar e dotar as desvalidas órfãs, e de praticar as obras de misericórdia. Pelo que o estabelecimento, onde em cada povoação isso era adotado, se chamou Santa Casa de Misericórdia ou simplesmente A Misericórdia ou A Santa Casa, como entre nós se diz muito (41). – A primeira casa de misericórdia em Portugal foi a de Lisboa, instituída pela Rainha D. Leonor, em Agosto de 1498; – bem que recomendada a instituição às outras cidades e vilas do reino, pela C. R. de 14 de Março de 1499, como... “uma confraria para se as obras de misericórdia haverem de cumprir, especialmente acerca dos presos pobres e desamparados... e assim em muitas obras piedosas” (42), etc. Em Santos foi a instituição introduzida em 1543 por Brás Cubas, e não nos 130 consta de povoação brasileira que antesa tivesse. – Nas cidades do Salvador e de São Sebastião foram elas erigidas contemporaneamente com as mesmas cidades (43); e tanto a elas, como às de outras cidades do Brasil, os reis não tardaram em conceder privilégios análogos aos de que gozava no Reino a de Lisboa. Além das Misericórdias para os pobres desamparados, havia também irmandades, ou comunidades, em que sob a invocação de algum santo, e com certas práticas devotas, os irmãos se obrigavam, por compromissos, a se prestarem vários auxílios. – Dessas irmandades, as ordens terceiras, que depois se estenderam tanto, anexas a ordens religiosas ou delas derivadas, produziram, e produzem ainda, com seus hospitais, benefícios incalculáveis. O Brasil se podia considerar a mais importante das possessões portuguesas que Filipe II havia agregado à sua coroa, pois que as colônias da Ásia iam em manifesta decadência, e o comércio do Oriente, desde o princípio, longe de criar raízes em Lisboa, não serviu senão a dar maior importância ao mercado de Amsterdam, e a fazer levantar a Holanda (44). – Portugal se locupletara, sim, com as primeiras riquezas da Ásia; mas por outro lado perdera a sua prosperidade real, desprezando a agricultura e a indústria; de modo que, apenas lhe faltou a força, não pôde nutrir o comércio do Oriente, que passou a mãos estranhas, onde estavam os capitais, que algumas providências absurdas faziam desviar do reino e possessões. Nesse número se devem contar a perseguição impoliticamente exercida, contra os judeus e cristãos-novos (45), a inquisição, e talvez não menos, uma lei proibindo que se cobrassem juros ao dinheiro (46). Por lei de 30 de Junho de 1567, provisão de 2 de Junho e alvará de 2 de 131 Julho de 1573, foi proibido passarem os cristãos-novos às colônias. Estas disposições foram revogadas pelo alvará de 21 de Maio de 1577 (47). O domínio da maior parte dos litorais da Ásia que, segundo alguns, concorrera à desmoralização dos Portugueses, produziu por outro lado nos ânimo tal energia que, além da glória marítima e militar que a nação adquiriu (e que será perdurável para sempre nos fastos da História universal e nos do progresso do espírito humano) talvez que a essa energia deveu o grande desenvolvimento que então tiveram a sua literatura e língua. Os escritores quinhentistas, isto é, do século XVI, são ainda os mais lidos e preferidos pelos melhores puristas. Desta época é o primeiro escritor português, chamado príncipe dos poetas de toda a Espanha – o grande Camões. O argumento capital de sua epopéia é a navegação do Oriente; e Camões não houvera produzido tal poema, no juízo de Humboldt, uma das primeiras obras do engenho humano em relação à vida marítima, se não tivesse peregrinado até a China “novos perigos vendo e novos danos”. As Décadas de Barros (depois prosseguidas por Couto) são em prosa a história dos feitos portugueses na Ásia, ilustrada também pela descritiva pena de Lucena, na conquista espiritual, e pelas admiráveis, e às vezes fantásticas, pinturas das maravilhas da Ásia, que devemos ao livro das Peregrinações de Fernão Mendes Pintos. Às obras destes escritores deve a língua portuguesa muito. Como autores de crônicas se assinalavam Damião de Góis, escrevendo as de D. João II e D. Manuel (que o bispo Osório depois magistralmente latinava), e Francisco de Andrade a de D. João III. Entre os poetas contemporâneos de Camões, recomendam-se o filósofo e moralista Francisco de Sá de 132 Miranda, o suavíssimo Bernardes, cantor do rio Lima, e o douto Ferreira (48), autor da primeira tragédia sobre Inês de Castro. Góis e Sá de Miranda interessam mais que os outros ao Brasil, como irmãos que eram um do donatário das terras de Campos Pero de Góis (49), e outro do terceiro governador do Estado, Men de Sá. Poetas conhecidos foram também Jerônimo Corte Real e Vasco Mousinho. Como prosadores recomen- dáveis mencionaremos Jorge Ferreira de Vasconcelos, autor de uma novela de cavalarias acerca das proezas de uma segunda Távola Redonda (50), e de mais três novelas-comédias, intituladas Eufrosina, Ulyssipo e Aulegrafia; e contentar-nos- emos em citar os Diálogos de Heitor Pinto e de Amador Arrais, pois fora divergir de nosso intento tratar deles por extenso. Com mais razão devemos ser desculpados se não tratarmos de outros de menos nomeada, e se não fizermos dissertações acerca da literatura castelhana desta época, que alguma voga, especialmente a dramática, veio a ter no Brasil. Nas ciências as maiores ilustrações como que se desenvolviam no Oriente. O grande matemático Pedro Nunes (51), o seu discípulo D. João de Castro, o médico observador Garcia da Orta (52), - todos talvez deveram ao sol dos trópicos o reflexo da sua glória: sendo certo que concorre muito a fecundar o gênio a contemplação da natureza, em o maior número de paragens da terra, diversas em clima e em produtos naturais; bem como o trato dos homens e a vista dos objetos d’arte contribuem a apurar o gosto e a formar o artista; quer este maneje o pincel, o escopro, ou o compasso; quer possua o segredo de fundir em palavras ou sons articulados, quer em sons músicos, os seus pensamentos, isto é, quer seja pintor ou escultor e arquiteto, quer poeta ou músico. Para nós é certo 133 que (ocupando-nos só da poesia) Camões não houvera sido o que foi e o que é, se não tivesse tido tanto trato com diferentes povos, e se com as cenas novas e originais de que contínuo lhe deviam proporcionar as terras, os mares e as cidades da Ásia, não houvesse tanto enriquecido a fantasia. NOTAS EM NÚMEROS ARÁBICOS (1) A estes dois autores deve-se acrescentar Anchieta, cujas Informações e fragmentos históricos completam, a mais de um respeito, Gabriel Soares e Fernão Cardim. Fundado nelas, Rio Branco avalia a população das colônias portuguesas no Brasil em cerca de 57.000 habitantes, dos quais 25.000 brancos, 18.500 índios mansos e 14.000 escravos africanos: Lé Brésil en 1889, 116. – (C.). – Essa população vem assim distribuída, op. et loc. cit.: brancos – 250 em Itamaracá, 8.000 em Pernambuco, 12.000 na Bahia, 750 em cada uma das capitanias de Ilhéus, Porto Seguro, Espírito Santo e Rio de Janeiro, 1.500 na de São Vicente ; índios mansos – 2.000 em Pernambuco, 8.000 na Bahia, 4.500 no Espírito Santo, 3.000 no Rio, 1.000 na capitania de São Vicente; escravos africanos – 10.000 em Pernambuco, 3 a 4.000 na Bahia, 100 no Rio de Janeiro. – Anchieta, para algumas capitanias, dá os algarismos da população; para outras dá apenas o número de fogos (vizinhos). O cálculo de Rio Branco é de cinco pessoas por fogo. Veja Informação do último de Dezembro de 1585, Informações e fragmentos históricos , págs. 31/56, Rio, 1886. – (G.). (2) Camões: dedicatória da História de Gandavo. – (A.). (3) “De Santa Cruz o nome lhe poreis” – (Lusíadas, 10, 140). Referência directa ao nome do Brasil encontra-se no canto 10, estr. 63, quando fala de Martim Afonso de Sousa: “... que já será ilustrado no Brasil com vencer e castigar O pirata francês ao mar usado.” Outras alusões: cantos 2, 45; 5, 4; e 7, 14. – (A. e G.). 134 (4) A primeira edição da obra de Acosta saiu em Salamanca, 1589, em latim. Vertida em castelhano na edição citada no texto (História / Natural / y Moral delas / Índias / en que se tratan las cosas / notables del cielo, y elementos, metales, plantas, y ani - / males dellas: y los ritos, y ceremonias, leys y / gobierno, y guerras de los índios, etc.) Sevilla en casa de Iuan de Leon, 1590, in – 4º - Logo no ano seguinte teve outra namesma cidade e ainda em barcelona. Existem dela traduções em línguas italiana, francesa, holandesa, alemã e inglesa. – Acosta foi provincial dos jesuítas no Peru, onde residiu dezessete anos; nasceu em Medina del Campo em 1539 e faleceu em Salamanca em 1600. – (G.). (5) Primera y segunda parte de la his / toria general de las Indias com todo el descubrimiento y cosas nota / bles que han acaecido dende que ganaron ata el año de 1551. Com la cóquista de / México y de la nueva España. Em Çaragoça, 1553, in-fol. – Outra edição: Conquista de Mexico / Segunda parte de la / Chronica generald e las Indias, que trata de la / Conquista de Mexico. – Medina del Campo, 1553, in-fol. peq. – Mais outra edição em Anvers, 1554, in-12; outras edições modernas. – Gomara nasceu em Sevilha, em 1510. – (G.). (6) La historia general delas Indias, Primera parte de la historia y gene ; ral de las Indias, yslas y tierra firme del mar oceano... Sevilha, 1535, in-fol. pág. …. – Há outra edição, Valadolid, 1537, in-fol., e a edição clássica da Real Academia de la Historia de Madrid, 1851, 4 vols. in-fol. – (G.). (7) Viaggi nell‟America Meridionale fatti tra il 1781 e il 1801. – Milano, 1807, 2 vols. in 16º - A edição francesa de C. A. Walckenaer, Voyages dans l‟Amérique Méridionale: publiés les manuscrits de l‟auteur, Paris, Dentu, 1809, 4 tomos, in-8º, é mais pedestre. – Há outras ediçoes em castelhano e alemão. – (G.). (8) A primeira edição começou-se na Tipografia do Arco do Cego, in-fol.; mas não se concluiu, nem se expôs ao público: realizou-se a publicação pela primeira vez nas Memórias da Academia de Lisboa em 1825, no tomo III das do Ultramar. Os primeiros 29 capítulos se deram de novo à luz pelos ms. da Bibl. R. de Paris, no jornal O Patriota Brasileiro, Paris, 1830. Porém a edição mais correta é a do Rio de Janeiro, 1851 (Revista do Instituto , tomo XIV), com os comentários que lhe juntou o A. da presente história, quando primeiro secretário do Instituto, Soares partiu 135 para Europa em 1584 (Carta de Cristóvão de Barros, de Agosto de 1584), depois de haver feito testamento na Bahia em 10 de Agosto deste ano, aprovado em 21 do mesmo mês. – (A.). (9) Tratado descriptivo do Brasil em 1587 , 14-15. Linhas antes escrevia Gabriel Soares ainda mais profeticamente: “Em reparo e accrescentamento estará bem empregado todo cuidado que sua Magestade mandar ter deste novo reino; pois está capaz para se edificar nelle um grande imperio, o qual com pouca despesa destes reinos se fará tão soberano, que seja um dos estados do mundo...”. Ibidem, 13. – (G.). (10) Ao levantamento do primeiro engenho na Paraíba fa \z menção Fr. Vicente do Salvador, História do Brasil, São Paulo-Rio, 1918, 324: “... e no fim do mez de Janeiro de 1587 se foi (Martim Leitão) ao rio Tibiri, duas leguas acima da cidade, ao longo da várzea da Parahiba, fazer um forte pera o engenho de assucar de el -rei, que já estava começado e para defender a aldeia do Assento de Passaro e mais fronteiras...” A seguir diz ainda Fr. Vicente do Salvador, ibidem, 343, 3ª ed. 1931: “Ficando a capitania da Parahiba, na fórma que dissemos... entregue ao capitão João Tavares, começou logo a fazer um engenho não longe do de el-rei, com que corria um Diogo Correia Nunes, e plo conseguinte aos moradores muii contentes começaram logo a plantar as cannas que nelle se haviam de moer...” Esses dois engenhos tomaram os nomes de Tibiri de Cima e Tibiri de Baixo, que vieram ter às mãos de Fernandes Vieira e sua mulher D. Maria César, que os houveram dos herdeiros de Jorge Homem Pinto e do dr. Luís Sanches de Baena; em 17 de Janeiro de 1967 possuía -os José Cardoso Moreno, conforme a escritura pública, saída à luz na Revista do Instituto Arqueológico Pernambucano, 6, n. 42, 302/307. O engenho real era possivelmente o Tibiri de Cima, mais perto do forte, e que era ainda moente e corrente por ocasião daquela escritura, ao passo que o outro já estava de fogo morto. – (G.). (11) Os engenhos da ilha de Itamaracá eram os do Obu, de Araripe de Bairo e de Araripe de Cima, mencionados no Sommier discours ouer den staet vande vier geconquesteerde Pernambuco Itamarica, Paraiba en Rio Grande, inde Noorderdeelen van Brasil (Arquivo de Hilten.. Utrecht, 1879. – Dos últimos um era propriedade de Filipe Cavalcanti. – (G.). 136 (12) Sermões, VIII, 436. – (A.). (13) Conf. Fernão Cardim, Tratados da Terra e Gente do Brasil , Rio, 1925, 335. – (G.). (14) Cristóvão de Gouveia – (C.). – A visita a Pernambuco durou três meses, de 14 de Julho a 16 de Outubro de 1584. – Fernão Cardim, op. ct., 327/336. – (G.). (15) Quando Cardim estava em Pernambuco faleceu a viúva do velho Duarte Coelho, D. Brites de Albuquerque, conf. tomo I desta História, 296/297. Em suas exéquias, pomposamente realizadas no colégio de Olinda, fez-lhe a oração fúnebre o bispo D. Antônio Barreiros, que antes fora prior de Ávis, como informa Fr. Vicente do Salvador, que foi seu vigário-geral, História do Brasil, 3ª ed., 1931, 220. (G). (16) O contratador dos dízimos reais era Bento Dias de Santiago, tomo I, 462/463. – (G). (17) Conf. tomo I desta História, 387. – (G). (18) De notícia de Gabriel Soares, Tratado descritivo, pág. 123, infere-se que os frades de São Bento chegaram à cidade do Salvador, com licença de Sua Majestade para fundar seu mosteiro, em 1586. Nesse ano, aos 16 de Junho, Martim Afonso, o Condestável, e sua mulher Maria Carneira, faziam doação aos mesmos frades, para assento do mosteiro, do terreno junto à ermida de São Sebastião naquela cidade. – Conf. Livro Velho do Tombo do Mosteiro de São Bento da Cidade do Salvador , págs. 400/410, Bahia, 1945. (G.). (19) O mosteiro de Capuchos foi estabelecido mais tarde. – (C.). (20) “... a qual capitania [dos ilhéus] Jeronimo de Alarcão, filho segundo de Jorge de Figueiredo, com licença de S. A. vendeu a Lucas Giraldes, que nella metteu grande cabedal com que a engrandeceu de maneira que veio a ter oito ou nove engenhos. Mas deu nesta terra esta praga dos Aimorés, de feição que não ficaram ali mais que seis engenhos, e estes não fazem assucar, nem ha morador que ouse plantar cann as, porque em indo os escravos ou homens ao Campo não escapam a estes 137 alarves, com medo dos quaes foge a tente dos ilhéos para a Bahia, e tem a terra quase despovoada...” – Gabriel Soares, Tratado descritivo , pág. 57. – (G.). (21) Gabriel Soares, op. cit. , págs. 61/62, menciona em Porto Seguro dois engenhos de açúcar, pertencentes a Manuel Rodrigues Magalhães e a Gonçalo Pires, além de dois outros extintos, um de João da Rocha e o que esteve na ponto do Curumbabo. – (G.). (22) Com esse nome conhecem-se diversas espécies do gênero Sassia, família das Leguminosas, As folhas e vagens do mata -pasto vermelho (Cassia stipulata) são tidas como tóxicas. – (G.). (23) Veja secção XVIII, 307. – (A.). (24) Anchieta, Informações e fragmentos históricos, págs. 40/41. A Companhia não tinha Colégio no Espírito Santo, apenas casa, onde residiam de ordinário oito – cinco padres e três irmãos; essa casa era subordinada ao Colégio do Rio de Janeiro. – (G.). (25) Conf. tomo I desta História, 346 e 370, Gabriel Soares, Tratado descritivo, 91. – (G.). (26) Gabriel Soares, loc. cit., 97. – (G.). (27) Esta D. Isabel, apesar de casar-se, não deixou descendentes. Segundo a História Genealógica [tomo XII, parte II, pág. 1113], a desposou Francisco Barreto [de Lima]; e segundo um documento que recolheu Taques. Revistado Instituto Histórico , 9, pág. 163, um André de Albuquerque, que vivia em Setúbal. Naturalmente casou-se duas vezes. Em tal caso da segunda vez foi com Francisco Barreto. – (A.). – André de Albuquerque era o donatário em 1584, como assegura Anchieta, Informações e fragmentos historicos , 32. – (C.). (28) Brás Cubas teria então uns oitenta anos, pois faleceu, com oitenta e cinco, em 1592, como se colige de seu epitáfio no presbitério da hoje matriz de Santos, que consigna os seus principais feitos, que explanará a sua biografia melhor do que esta história o pudera aqui tentar. – (A.). – Desta biografia anunciada aqui pelo Autor, ignora -se o paradeiro. – (C.). – Na Revista do Instituto Histórico de São Paulo, tomos 138 13, 241/249, e 18, 13/36 e 37/43, ocorrem bons subsídios de Eugênio Egas, F. C. de Almeida Morais e Benedito Calixto sobre o fundador de Santos. O epitáfio supra mencionado diz assim: Sª DE BRAZ CUBAS CAVALLEIRO FIDALGO DA CAZA D’EL-REY FVNDOV E FEZ ESTA VILLA SENDO CA PITAN E CAZA DE MISERICORDIA ANNO 1543 DESCVBRIO OVRO E METAES ANNO 60 FEZ FORTALEZA POR MANDO D’EL-REY D. JVAN III FALLECEV NO ANNO DE 1592 A. A História da Colonização Portuguesa do Brasil, III, 260/261, insere três documentos importantes sobre Brás Cubas. – (G.). (29) Brás Cubas foi provido nos ofícios de provedor e contador das rendas e direitos da capitania de São Vicente por provisão de D. João III, dada em Almerim, a 18 de Junho de 1551. Esses ofícios, por um alvará de lembrança, pertenceram a Pedro Henriques, escrivão da Câmara real; por seu falecimento, em apostilha, o rei fez deles mercê a Leonor da Costa, viúva de Pedro Henriques; porque Leonor se metesse freira em convento, passaram os ditos ofícios à sua filha Beatriz da Costa, para que seu avô Ambrósio Rodrigues os pudesse vender a pessoa apta, o que foi feito a Brás Cubas, com licença real e notificação a Tomé de Sousa, governador-geral, para metê-lo na posse daqueles cargos, que devia servir em dias de sua vida. – Documentos Históricos, XXXV, págs. 146/148. – (G.). (30) Azevedo Marques, Apontamentos, I, pág. 97, dá a escritura da doação do terreno para o Colégio. – (C.). (31) Fernão Cardim, Tratados da Terra e Gente do Brasil , pág. 358. – (G.). (32) Arq. da Câm. de São Paulo, L. 1585-1586, fls. 13 v. e 14. – (A.). – Actas da Câmara da Vila de São Paulo, I, 275/279, São Paulo, 1914. A súplica ou requerimento tem a data de 10 de Abril de 1585. – (G.). 139 (33) Sobre as terras de Estêvão Costa, veja tomo I, 169. (G.). (33bis) Por provisão de 16 de Fevereiro de 1553, fez saber o provedor-mor da fazenda, Antônio Cardoso de Barros, o Brás Cubas, provedor das capitanias de São Vicente e Santo Amaro, que Sua Alteza lhe ordenara em seu regimento que, quando corresse as capitanias desta costa, mandasse fazer em cada uma delas casa para alfândega e contos; que por ver que na de São Vicente era preciso havê-la pela muita necessidade que disso se tinha, a mandasse fazer na vila do porto de Santos, no lugar e sítio onde estava, o que então servia para o efeito. As alfândegas e construir seriam por esta maneira: duas casas por baixo de 30 palmos de largo e 40 de comprido cada uma; do mesmo comprimento e largura seriam também as outras duas, por cima assobradadas, cobertas de telhas, e bem emadeiradas, de pedra e cal, com um tabuleiro entre elas e o mar, da compridão das mesmas casas à maneira de cais, onde, se fosse necessário, pôr-se-ia artilharia, se se pudesse fazer; haveria uma varanda coberta sobre o tabuleiro, para que ficasse a artilharia ao abrigo da água e do sol; que se contratassem os pedreiros à sua avença, e a delas e não em pregão, e que o pagamento das obras se fizesse pelas rendas de sua Alteza, etc. – Documentos Históricos, XXXVIII, págs. 239/240. – (G.). (34) Fernão Cardim, Tratados da Terra e Gente do Brasil, págs. 355/356; Fr. Vicente do Salvador, História do Brasil, 382, 3ª ed., 1931, diz que os “homens e mulheres se vestiam de pano de algodão tinto e, se havia alguma capa de baeta e manto de sarge, se emprestava aos noivos e noivas para irem à porta de igreja; porém, depois que chegou D. Francisco de Sousa e viram suas galas e de seus criados e criadas, houve logo tantas librés, tantos periquitos e mantos de soprilhos que já parecia outra coisa”. – (G.). (35) Por primeiro vigário foi mandado, alguns anos depois, o padre Lourenço Dias Machado, Revista do Instituto Histórico, 2, 435. – (A.). – Esse vigário devia ter sido nomeado em 1593, quando o administrador das partes do Sul esteve em visita a São Paulo; dois anos depois, por provisão datada da Bahia, em 8 de Outubro de 1595, D. Francisco de Sousa mandou dar-lhe a côngrua que percebiam os vigários de São Vicente e Santos, Ibidem. – (G.). (36) Fernão Cardim, Tratados da Terra e Gente do Brasil, pág. 108. – (G.). 140 (37) No tempo de Cardim, já se começava a fazer vinhos, ainda com muito trabalho para conservá-los, “porque em madeira fura-lha a broca logo, e talhas de barro não nas têm...” – Tratados, 108. – (G.). (38) Havia ainda a aldeia de São Miguel, como refere Anchieta, Informações e fragmentos históricos. 45. – (C.). (39) A tarefa, como medida agrária equivalente a 30 braças em quadro, ou 4.356m 2 é peculiar à Bahia, destinada à cultura da cana-de- açúcar. Uma tarefa, no ato de plantar, consome ordinariamente cinco carros de semente, se a plantação é feita a enxada, ou seis, se por arado. A esta chama-se tarefa de soca, quando a cana já foi cortada uma ou mais vezes e cujos brotos se vão sucedendo anualmente. A moagem de uma tarefa de cana, em bom engenho movido por água, pode ser exe cutada em 24 horas, produzindo pelo menos oito meladuras, o que se chama tarefa redonda. – Conf. Morais, Dicionário, e Beaurepaire Rohan, Dicionário de Vocábulos Brasileiros, s. v. – Massapé é uma argila compacta, anegrada e extremamente fértil. Na Bahia essa espécie de terreno é produzida pela decomposição de quistos cretáceos e em outros Estados pela decomposição de rochas graníticas. Em Pernambuco se diz massapê. – Conf. Rodolfo Garcia, Dicionário de Brasileirismos. s. v. – (G.). (40) No Rio de Janeiro, em 1583, lavrou-se um auto de avença, que Salvador Correia de Sá, como governador e provedor da fazenda real, fez com João Gutierres Valério, obrigando-se este a pagar certa quantia por escravo que de África conduzisse em seu navio. – Revista do Instituto Histórico, 1, 161. Foi o primeiro contrato para a importação de africanos no Rio de Janeiro – Rio Branco, Lé Brésil en 1889, 117. – “Os traficantes de negros – informa J. B. de Almeida Prado, Pernambuco e as Capitanias do Norte do Brasil, I, pág. 270, São Paulo, 1939 – costumavam carregar os navios de Janeiro a Março, estação mais favorável nas costas da África, onde aportavam com mercadorias europeias”. Estes mesmos navios (continua, citando a Relação de Antônio Dinis sobre o comércio de Angola) se lhes pagam em escravos, como digo, e os carregam para o Brasil, outros para as Índias (Espanholas). Os resgatados nessa quadra custavam, pela terra dentro, 10$000, ficando na costa para o mercador em 22$000, se era peça das Índias. Quando iam para o Brasil pagavam uma taxa de 3$600 e 400 réis de avanços, e para as possessões espanholas 7$000”. – (G.). 141 (41) Destes assuntos tem-se ocupado Vítor Ribeiro, autor de uma história da casa de Misericórdia de Lisboa e de estudos publicados no Instituto de Coimbra. – (C.). (42) O seu compromisso foi confirmado poralvará régio de 4 de Julho de 1564, reformado em 10 de Maio de 1618. O compromisso dado à dita misericórdia de Lisboa se declarou extensivo à do Espírito Santo por Alv. de 1 de Julho de 1605; à de Olinda por reso lução régia de 26 de Janeiro de 1606, e à de Itamaracá por dita de 8 de Abril de 1611. – O Alv. de 18 de Out. de 1806 o fez extensivo a todas as misericórdias que não tivessem outro. A Ordem terceira de São Francisco da Penitência do Rio data de 1622. – (A.). (43) Há quem date a Casa da Misericórdia no Rio de Janeiro da era de 1540, antes de povoada a cidade! Vejam-se os trabalhos de Francisco de Sá e Félix Ferreira. Atribuem outros a criação a José de Anchieta por ocasião de aportar a gente de Diogo Flores. Da relação de Sarmiento, que chama os Jesuítas de Teatinos, como os chamava D. Cristóvão de Moura, nada consta a respeito. – (C.). – Na Sumaria Relación de Pedro Sarmiento de Gamboa, Gobernador y Capitán general del estrecho de Magallanes,in Colección de documentos inéditos del Archivo de Índias, 5, pág. 306, Madrid, 1866, - vem a referência aos Teatinos, ordem de clérigos regulares, que Sarmiento confundiu com a dos Jesuítas. Nessa mesma Sumaria Relación trata-se (pág. 303) da chegada da armada de Diogo Flores de Valdez ao porto do Rio de Janeiro, a 24 de Março de 1582, onde invernou até fins de Novembro do mesmo ano. Nesse tempo morreram muitos da tripulação, “que veniam enfermos de la mar, y enfermaron muchos otros de nuevo, de un mal del seso, que es peste de aquella tierra, que es fácil de curar, entendiendo-se, ysi no se entiende e no se cura, pasados dos o tres dias sin remediarlo, es incurable, y mata con bascas; llámanle el mal de la tierra. En estas enfermedades los portugueses de la ciudad de San Sebastián se oferecieron de curar los enfermos, pidiento á Diego Flores algun socorro de limosna, de la hacienda real, que V. M. enviaba para semejantes y otras necessidades; y Diego Flores dio una vez algunos reles, pocos, que no llegaron o no pasaron de ciento, para más de doscientos enfermos. Y haciendo de su parte el gobernador, Salvador Correa, y los vecinos del pueblo lo que era en su posible, siendo pobrísimos, nunca más Diego Flores los proveyó ni aun de ración ordinaria de sanos, y asi murieron más de ciento y 142 cincuenta, y otros viendo esto, se huyeron. Pedro Sarmiento, viendo el peligro en la mano, hizo alojar los pobladores por las casas de los vecinos de la tierra, donde fueron recreados y curados, y no murieron cuatro; y para los oficiales de fortificación hizo casas de ramada de palma arrimadas, á las casas de su morada, donde los alojó, y visitaba y medicinaba todas las horas, con que á Gloria de Dios fueron guarecidos, que no murió sino uno, de ciento cincuenta y tantos que eran”. – (G.). (44) Conf. Zimmermann, Die Kolonialpolitik Portugals und Spaniens. I, págs. 11/116, Berlim, 1896. – (C.). (45) Declarados de novo em vigor por leis de 18 de janeiro de 1580 e 26 de Janeiro de 1587. Essa proibição foi levantada em 31 de Julho de 1601, estando a Corte em Valadolid, mediante 200.000 cruzados oferecidos pelos judeus, acrescentando-se em 24 de Novembro desse mesmo ano, que ninguém lhes chamasse “cristãos-novos, confessos, marranos ou judeus”. Foi isso outra vez revogado em 13 de Março de 1610, voltando tudo ao ordenado em 1587. Tornou em 17 de Novembro de 1629 a proteção de 1601; porém uma consulta de 29 de Abril de 1630 opinava que se devia revogar na parte em que se lhes consentia passar à colônias. (Regs. Reais, IV, 72 e 73; V, 23; VI, 25). – (A.). (46) Além desta lei de 16 de Junho de 1570, contrária a toda economia política, dessa que já se conhecia antes de ter tal nome, promulgou nesse mesmo ano D. Sebastião outra mais absurda, em 28 de Abril, na qual ordenou que “pessoa alguma não pudera comer nem dar a comer à sua mesa mais que um assado e um cozido, e um picado ou “desfeito”, ou arroz ou cuscuz, e nenhum doce, como manjar branco, bolos de rodilha, ovos mexidos, etc.”. – (A.). (47) Algumas dessas leis estão notadas em Figueiredo, Sinopse cronológica, 2. – (C.). (48) “Que por modos diversos Ou deu versos às leis ou leis aos versos.” – Dinis. – (A.). (49) O fato não parece muito certo; pelo menos tem sido ultimamente contestado. – (C.). – Pedro de Azevedo, História da Colonização Portuguesa do Brasil, III, 212/213, não admite mais dúvida a respeito. – (G.). 143 (50) Veja a nossa publicação – Da Literatura dos Livros de Cavalarias, com o respectivo aditamento [Viena, 1872]. – (A.). (51) Está hoje verificado que Pedro Nunes, a matemático, não esteve na Índia, como afirmou o Autor, em nota à primeira edição desta História, 1, 467/468. Conf. Luciano Pereira da Silva, Revista da Universidade de Coimbra , 2, 246/253, 532/539, Coimbra, 1913. – Além de outras obras de matemática Pedro Nunes escreveu o Tratado da Sphera com a Theorica do sol e da Lua , etc., Lisboa, 1537 – obra de universal celebridade e raríssima, ao ponto de não existirem mais de dez exemplares conhecidos em todo o mundo. Maggs Bros., em sua Bibliotheca Brasiliensis, Lodnres, 1930, enumeram nove exemplares: 2 nos Estados Unidos, 1 no Brasil (Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro), e 6 na Europa. Como aquela Biblioteca possua duplicata do Tratado, o número de Maggs Bros. fica acrescido de mais um. – (G.). (52) Coloquios [dos simples e drogas] da India. Veja-se a 2ª edição publicada, página por página, conforme á 1ª de Goa em 1563, pelo Autor desta História em 1872. – (A.). Reeditados admiravelmente pelo conde de Ficalho [Lisboa, 1891/1892, em dois volumes], que além disso consagrou uma erudita monografia do ilustre médico português. – (C.). – Garcia da Orta e o seu tempo , Lisboa, 1886. Referindo-se à edilão de 1872, escreveu o conde de Ficalho nessa monografia, pág. 389: “Esta edição foi, como todos sabem, dirigida por F. A. Varnhagen, vi sconde de Porto Seguro. Não seria difícil apontar alguns dos seus numerosos erros e incorrecções, muitos deles reconhecidos e emendados pelo zeloso e erudito editor no Post Editum, datado de Viena de Áustria; e devidos a circunstâncias independentes da sua vontade e da sua notória competência. É-nos porém muito mais agradável dizer que a edição, tal qual está, é ainda assim um excelente serviço prestado às letras portuguesas. Pôs a leitura dos Coloquios ao alcance de muitas pessoas, que nem teriam ensejo de encontrar algum dos raros exemplares da edição de Goa, nem disporiam da paciência suficiente para penetrar naquelas páginas, crivadas de erros de ortografia e de pontuação”. Dos Coloquios há tradução inglesa por Sir Clemente R. Markham, Londres, 1913, edição limitada, da qual possui um exemplar, talvez o único existente no Rio, o ilustre bibliófilo e camonista Prof. Simões Correia. – (G.). 144 NOTAS EM ALGARISMOS ROMANOS (I) História da província de sãcta Cruz, a qu‟ vulgarmete chamamos Brasil: feita por Pero de Magalhães de Gandavo, dirigida ao muito Ils. sñor Don Lionis Pª governador que foy de Malaca & das mais partes do Sul da India [Armas dos Pereiras] In-fine: Impresso em Lisboa, na officina de Antonio Gonsaluez. Anno de 1576 . In-4º, de 48 ff. n8um. no verso, com 2 estampas intercaladas no texto. A História de Gandavo foi concomitantemente reeditada em 1858 na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo 21, e na Colecção de Opúsculos reimpressos relativos à História das navegações, viagens e conquistas dos Portugueses , pela Academia Real das Ciências de Lisboa, tomo 1, n. 3. A essaspublicações procedeu, porém, a edição francesa de Ternaux-Compans, na coleção intitulada Voyages, relations et mémoires pour servir à l‟histoire de la découverte de l1Amérique, tomo II, Paris, Arthus Bertrand, 1837, in 8º. Para a reimpressão da Revista do Instituto utilizou-se o texto da primeira edição pelo exemplar que se conserva na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, coleção Barbosa Machado: à dos Opúsculos serviu cópia manuscrita existente na Biblioteca da Academia: reputa -se a primeira mais fiel do que a outra. Pertence também à autoria de Gandavo o Tratado da Terra do Brasil, no qual se contém a informação das cousas que há nestas partes , que só veio a lume em 1826, na Colecção de Notícias para a História e Geografia das Nações Ultramarinas, que vivem nos Domínios Portugueses, ou lhes são vizinhas: publicada pela Academia Real das Ciências de Lisboa, tomo IV, n. IV. Na Revista do Instituto Histórico, tomo 2, 1840, págs. 425-426, saiu a Introdução a esse Tratado, a qual não é da lavra de Gandavo. O Tratado deve ter sido escrito antes da História, antes mesmo de 1573, porque não se refere à divisão do Brasil em dois governos, de que aquele já faz menção: que o fosse antes de 1570 não é de estranhar, porque uma nota marginal que se lê em cópia adiante citada, da Biblioteca Pública Municipal do Porto, aumenta de 23 para 60, em 1587, os engenhos de açúcar da capitania de Pernambuco. A obra complexiva de Gandavo conta duas reimpressões modernas: 145 I – Na coleção – Documents and Narratives concernings the Discovery and Conquest of Latin America , editada pela Cortez Society, New York, 1922, 2 vols., compreendendo a História, em fac-símile e com tradução inglesa, introdução e notas por John B. Stetson, Jr., e o Tratado, igualmente traduzido para o inglês, sendo aproveitado o texto da Colecção de Notícias para a História e Geografia das Nações Ultramarinas. É o n. 5 dessa importante coleção americana. II – Na coleção Clássicos Brasileiros, edição do Anuário do Brasil, Rio, 1924, com uma Advertência de Afrânio Peixoto, Nota bibliográfica de quem escreve estas linhas e uma Introdução de Capistrano de Abreu. Aí vem em primeiro lugar o Tratado, por cópia do apógrafo existente na Biblioteca do Porto, mais completo do que o impresso na citada Colecção de Notícias, e a seguir a História, conforme as publicações do Instituto Histórico e da Academia de Ciências, colacionadas com o exemplar da Biblioteca Nacional. Do autor bem pouco se sabe: era natural de Braga, descendia de flamengos, como seu nome indica – Gandavo, diz Capistrano de Abreu na Introducção referida, corresponde a Gantois, morador ou filho de Gand. Sua estada no Brasil deve ter coincidido com o governo de Mem de Sá (1558-1572) – conjetura ainda o mestre. – A um Pero de Magalhães, que bem pode ser o Gandavo, refere-se esta alvará de D. João III, de 29 de Agosto de 1576: “Eu el-Rei faço saber aos que este meu alvará virem que avendo Eu respeito a Pero de Magalhães, meu moço da Câmara servir na Torre do Tombo em trasladar alguns livros e papeis de meu serviço, e por confiar delle que no que o encarregar servirá bem e fielmente, hei por bem por lhe fazer mercê que elle sirva de provedor de minha fazenda na Capitania da Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos nas partes do Brasil por tempo de seis anos, não sendo primeiro provida a pessoa que tem o dito cargo, ou não mandando Eu no dito tempo o contrario, o qual cargo servirá conforme ao Regimento dos provedores da dita Capitania, e haverá com elle de ordenado em cada um anno trinta mil réis, pelo que mando ao Governador das ditas pares, e ao provedor mor dellas, que lhe deem posse do dito cargo e lho deixem servir e haver o dito mantimento, o qual lhe pagará o almoxarife da dita Capitania, etc. 29 de Agosto de 1576.” – Cópia no Instituto Histórico, Conselho Ultramarino, Registros , tomo I, fls. 68-68 v. Humanista insigne e excelente latino, publicou Gandavo as Regras que ensinão a maneira de escrever a Orthographia da lingua Portugueza, com um Dialogo que adiante segue em defensão da mesma 146 Lingoa, Lisboa, por Antônio Gonsalvez, 1574, in 4º, que tiveram mais de uma edição. Teve cadeira pública de Latim entre Douto e Minho, onde foi casado. Era amigo de Camões, que lhe dedicou os tercetos célebres e o soneto, que servem de pórtico à primeira História do Brasil. – (G.). (II) Zeferino Cândido consagrou um capítulo inteiro de seu livro Brasil à demonstração de que Gabriel Soares não foi o verdadeiro autor do Tratado descritivo. Seus argumentos são em resumo: 1º) Barbosa machado, em quem Varnhagen se apoiou para afirmar a identidade, condimenta suas afirmações de tantos erros que suas palavras não inspiram confiança; 2º) Varnhagen, ora afirmando que nada se sabe de Gabriel Soares, ora traçando-lhe uma biografia completa, mostra a pouca segurança de suas convicções; 3º) Ferdinand Denis, em 1837, disse poder demonstrar que o Tratado tinha por autor Francisco da Cunha; 4º) O autor falando de si na primeira pessoa e de Gabriel Soares na terceira, mostra bem que se trata de pessoas diferentes; 5º) As interpolações do Tratado não permitem aceitar-se a data de 1584, fixada por Varnhagen para a composição do livro. A força desta argumentação é só aparente: 1º) Antes de Barbosa Machado, já Pedro de Mariz tinha citado e extratado o livro de Gabriel Soares, e o aditador de Pinelo assinalado sua existência na biblioteca do conde de Vimioso. Os erros da Biblioteca Lusitana, incontestáveis, e diga-se também inevitáveis, porque eram desconhecidos os documentos e desde 1624 Simão Estácio da Silveira começara a confundir os fatos, não podem ter efeito retroativo. 2º) Varnhagen, no que escreveu antes de 1858, afirmou ignorar -se tudo a respeito do autor do Tratado. Em 1858 João Francisco Lisboa encontrou vários documentos na Torre do Tombo, mais um capítulo da obra de Fr. Vicente, e deu-se pressa em communicá-los ao autor da História Geral, que logo os publicou na Revista do Instituto Histórico [tomo 21, 455-468]. Que culpa tem ele de Zeferino Cândido considerar simultâneas publicações separadas por vinte anos, e de atribuir -lhe contradições que não existem na realidade? 3º) Se em 1837 Ferdinand Denis atribuiu o Tratado a Francisco da Cunha, vinte e sete anos mais tarde, em 1864, escreveu: “ Il est reconnu aujourd’hui que ce livre si remarquable, composé em 1587, par Gabriel 147 Soares...” – Yves d’Évreux, Voyage dans le Nord du Brésil, 418, Leipzig, 1864. 4º) Barredo, nos Anais históricos do Maranhão, § 19, escreve: “defensas exteriores a que já tinha dado princípio o governador Pereira de Berredo...”; e logo no § 20 lê-se: “por ser tirado dos meus próprios exames, quando governei aquele Estado”. Seria lícito concluir daí que Berredo não é o autor dos Anais, porque na mesma página fala de si na primeira e na terceira pessoa? Gabriel Soares fala de si na terceira quando quer dar uma noção geográfica, como na descrição dos engenhos, na viagem de Adorno, etc. 5º) É impossível evitar interpolações em manuscritos, e a nota marginal com o tempo incorpora-se fatalmente ao texto. Admira que tão poucas interpolações existam no Tratado descritivo, e isto só se explica pelo fato de terem vindo poucas cópias, e só tarde, ao Brasil. Passemos a examinar outra questão em que Zeferino Cândido também tocou: qual o ano da composição do Tratado descritivo? Varnhagen, atendendo ao momento em que Gabriel Soares deixa as guerras da Paraíba, fixa a data em 1584, até certo ponto com razão, pois agorasabemos por Pedro Sarmiento [Documentos inéditos del Archivo de Indias, 5, 402] que em Setembro daquele ano Gabriel Soares aportou a Pernambuco, de viagem para a Europa. Entretanto, o prólogo escrito em Madrid em alguns códices traz 1587, em outros 1589. Ambas as datas são possíveis. Uma obra como o Tratado pedia anos. – (C.). Conf., supra, nota 8. – Varnhagen, editando a obra de Gabriel Soares na Revista do Instituto Histórico , tomo XIV, 1851, outorgou-lhe o título de Tratado descritivo do Brasil em 1587 , que muito bem a definiu. Entretanto, tem-se verificado que fatos e descrições contidos no livro são evidentemente anteriores àquela data. Jaqime Cortesão, em sua sábia monografia Cabral e as Origens do Brasil (Ensaio de tipografia histórica), págs. 25-26, Rio de Janeiro, 1944, opina que o livro deve ter sido coligido e composto até o mês de Agosto de 1584, em que seu autor embarcou na Bahia para Portugal. Wanderley Pinho, no prefácio com que iluminou o Livro Velho do Tombo da Bahia , págs. XVII-XVIII, Bahia, 1945, confere com documentos ali transcritos a chegada dos frades de São Bento à cidade do Salvador em 1580, com o tópico em que Gabriel Soares (Tratado, pág. 123), declara que “haverá tres annos que foram a esta cidade [os Beneditinos] com licença de S. Magestade fundar este mosteiro, que lhes os moradores della fizeram á sua custo com grande fervor e alvoroço”. De onde se infere haver Gabriel Soares composto, pelo menos a descrição da cidade, em 1583, recuando-se assim de quatro anos a data que Varnhagen assinalara para a terminação do Tratado. 148 A edição de 1851 foi reproduzida na mesma Revista em 1879, com defeituosa revisão, e alcançou outra na Brasiliana da Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1939. Sua última edição, com o título de Notícia do Brasil, saiu na Bibiloteca Histórica Brasileira da Livraria Martins Editora, São Paulo, s/d (1945), 2 tomos, dirigida pelo sábio Professor Pirajá da Silva, que a opulentou com exaustiva introdução e eruditos comentários e notas, tudo relacionado com a história dos primeiros povoadores, sua genealogia, a etnografia, a corografia, a agricultura, flora, fauna e mineralogia do Brasil quinhentista. São lições de mestre, que tornam o livro do senhor de engenho do Recôncavo ainda mais valioso e, para tudo dizer, insuprível em qualquer biblioteca brasileira. – (G.). (III) Fernão Cardim era natural de Viana de Alvito, arcebispado de Évora, filho de Gaspar Clemente e sua mulher D. Inês Cardim, de família antiga e importante em Portugal. Nasceu cerca de 1548 e entrou para a Companhia de Jesus em 9 de Fevereiro de 1566. Já era professo dos quatro votos e ministro do Colégio de Évora, quando foi designado, em 1582, para companheiro do visitador Cristóvão de Gouveia; passou a Lisboa em princípios de Outubro daquele ano e ali esteve cinco meses, até que, a 5 de Março de 1583, com o governador Manuel Teles Barreto, o visitador e outros padres e irmãos, embarcou para o Brasil na nau Chagas de São Francisco, chegando à Bahia a 9 de Maio seguinte. Acabada a visita, em que esteve na Bahia, nos Ilhéus, Porto Seguro, Pernambuco, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo, uma e mais vezes, foi reitor dos colégios da Bahia e do Rio de Janeiro, onde por algum tempo lhe fez companhia Josef de Anchieta, antes de ir morrer em Reritiba, no Espírito Santo, a 7 de Junho de 1597. Em 1598 foi eleito na congregação provincial para procurador da Província do Brasil em Roma; regressava dessa missão, em 1601, com o padre João Madureira, que vinha por visitador, quando foi tomado por corsários ingleses. Madureira morreu no mar, Cardim chegou à Inglaterra, onde ficou até ser resga tado. Foi então despojado dos papéis que conduzia – um tratado sobre o clima e as produções naturais, outro sobre os índios do Brasil, mais tarde, com tradução inglesa, publicados na famosa coleção Purchas his Pilgrimes , vol. IV (Londres, 1625), págs. 1289-1320, sob o título – A Treatise of Brazil written a by a Portugall wich had long lived there. Em 1604 tornou ao Brasil com o cargo de provincial, que exerceu 149 até 1609, e foi em seguida reitor, pela segunda vez, do Colégio da Bahia e vice-provincial. Faleceu na aldeia do Espírito Santo, depois Abrantes, onde se refugiara da fúria dos invasores holandeses, a 27 de Março de 1625, no mesmo ano em que saíam à luz em Londres os seus escritos. Dos tratados de Cardim o que primeiro foi divulgado na própria língua e com autoria declarada, foi a Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuíta, etc., por Varnhagen, que lhe deu esse título, em Lisboa, 1847. Os outros, antes citados, só o foram no Rio de Janeiro, 1881 e 1885, pelo meritório Capistrano de Abreu, que confrontando cópias da Biblioteca de Évora com as publicações de Purchas, chegou à feliz conclusão de tratar-se de idênticos escritos e de pertencerem à lavra de Cardim. A obra integral desse notável jesuíta pode ser lida nos Tratados da Terra e Gente do Brasil, editores J. Leite & Cia, Rio, 1925, - onde se encontra mais completa notícia bio-bibliográfica. – Segunda edição na Brasiliana da Companhia Editora Nacional, São Paulo, 1939. – (G.). 150 TEXTOS DE VARNHAGEN TERCEIRO SÉCULO (século XVIII) 151 SECÇÃO XLV D. JOSÉ I E POMBAL. ADMINISTRAÇÃO JOSEFINA. LETRAS. Elogio de José I. Grandes dotes de Pombal. Incorporação de todas as capitanias na coroa. Serviços ao Brasil na instrução pública. No comércio. Juntas e companhias. Tabaco. Favor ao Maranhão. Anil, café, arroz, etc. Indústrias. Navegação. Canal do Arapapaí. Nova capitania do Maranhão e Piauí, independente da do Pará. Joaquim de Melo e Póvoas, seu capitão-general. Instruções notáveis que recebeu de Pombal. Rendas públicas, Contratos e monopólios. Cronista do Brasil. Coleção especial legislativa. Regulamento de Lippe. Legislação. Relação do Rio. Juntas de justiça. Leis filantrópicas. Caboucolos. Casamentos com índias. Diretório dos índios. Cristãos novos e velhos. Retrato de José I. Caráter de Pombal, segundo Ratton. Sua economia: O outro do Brasil. Considerações conciliadoras. Peias que tinham os governadores do Brasil. Chegaram às vezes a ser um mal. Corretores de ofícios. Rio Negro. Governadores. Lavradio. Sua política. Cultura do anil, do café e planta da cochonilha. Conde de Valadares em Minas. Conde de São Miguel em Goiás, Trajes. Brasileiros favorecidos. Poetas. Estatísticas. Vários escritores durante este reinado, etc. Antes de passar adiante, cumpre-nos fazer uma pequena parada, e contemplar de relance, mas com reconhecimento, os muitos serviços que prestou ao Brasil o reinado de vinte e seis anos de D. José I, com a administração do seu hábil e poderoso ministro Sebastião José de Carvalho, conde de Oeiras e 152 marquês de Pombal (1). – E quando a evidência dos fatos fale por um e outro, os seus detratores poderão condenar alguns erros, que eles cometessem, como homens que eram; acaso perderão sua autoridade desde que intentem infamá-los, o que aliás não causará admiração aos que saibam que não faltam católicos que nem sequer respeitam a memória do sábio pontífice Clemente XIV (2), - só pelo fato de haver abolido a Companhia de Jesus, - levado por exigências a que acaso qualquer outro não houvera talvez tão pouco resistido.Possuía el-rei D. José grandes dotes para rei, começando pelo amor do país, da glória e da virtude. Era benigno, verdadeiro e probo. De sua firmeza de caráter, qualidade primeira nos que governam, não necessitamos mais prova que a do modo como soube empatar tantas e tão diferentes intrigas que lhe armaram contra o seu ministro Pombal; e isso apesar de que era, com compleição, um pouco timorato. Flagelado pela Providência, com um terremoto, acometido por um atentado de alguns de seus vassalos, palpado pela guerra estrangeira, - a nada se abalou o seu grande ânimo para deixar de conservar à frente da administração o homem que, em meio de seus defeitos, desejava a todo transe despertar a apatia da nação, restaurando a sua dignidade e independência; - e que, quando nos perigosos momentos do célebre terremoto em Lisboa, outros ministros fugiam ou se escondiam, ordenava “prontas e bem entendidas providências no meio da calamidade geral” (3), e, segundo certa frase proverbial, ia a el-rei pedir as ordens, para “enterrar os mortos e cuidar dos vivos”. E não só dos vivos, como também dos vindouros cuidou 153 e muito nos anos (perto de vinte e dois) que, ainda depois do mesmo terremoto, foi ministro até o falecimento do rei. Ainda hoje estamos desfrutando dos benefícios que nos legou a ciência desse grande estadista; isto apesar que algumas leis teve ele mesmo que reformar ou revogar, e apesar da reação imprudente que distinguiu o reinado seguinte, e das tendências tão excessivamente inovadoras do século. Assim, cremos que todo brasileiro que for a Lisboa verá com gosto a memória de el-rei D. José, com o busto do sábio ministro restituído ao seu pedestal, por justo decreto do primeiro imperador do Brasil (4). E começaremos por dizer que as leis josefinas não ficavam em letras mortas: eram logo cumpridas, pois tinha D. José um ministro, que, sabendo aproveitar os homens, escolhia logo quem as havia de executar, sendo que não apresentava à sanção a lei, senão depois de haver preparado o seu recebimento no país, à maneira do bom agricultor que sabe de antemão adubar a terra, em que tem de lançar a semente, para que dê sazonados frutos. – Com magistrados e fiscais das leis, corruptos ou covardes, não há leis que valham, nem povo que se melhores, nem patriotismo que se acrisole: nem a constituição mais bela do mundo felicitará jamais qualquer poro, quando ele não esteja preparado, por meio de virtudes domésticas, para não sofismar os seus mais sagrados dogmas. Começaremos por fazer menção da empresa, talvez mais importante, levada avante nesse reinado, a favor da nacionalidade brasileira: - a de haver incorporado de todo no Estado, resgatando-as por meio de indenizações convencio- nadas com os interessados, e que consistiam em títulos e pensões ou padrões de juros (de 600$000 a 2:000$000), todas as capitanias que ainda tinham donatários, e eram umas onze, 154 pelo menos, a saber: as de Cametá (5), ilha de Joanes (6), de Caité (7), de Cumá (8), de Itamaracá (9), do Recôncavo da Bahia (10), de Itaparica (11), dos Ilhéus (12), de Porto Seguro (13), Campos de Goitacazes (14) (sem dúvida as duas reunidas já em uma só) e São Vicente (15). No militar sabido é como ao reinado del-rei D. José e ao conde de Lippe remonta a base da organização do nosso exército, começando pelo seu regulamento. Em todas as capitanias se aumentaram as forças da tropa de linha, e em virtude das guerras do Sul, regimentos inteiros vieram de Portugal. Em Minas, São Paulo e Rio Grande se organizaram companhias de dragões, combatendo a pé e a cavalo, e por conseguinte apropriados a prestar, em seus vastos campos, apoio à autoridade. – O aumento dos terços de auxiliares de cavalaria e corpos de ordenança mereceu também muito especiais atenções do governo. Para quase todas as vilas foram nomeados capitães-mores, e freqüentemente os que come- çavam servindo nos auxiliares e ordenanças, quando se distinguiam por serviços importantes, eram passados em seus mesmos postos para a primeira linha. Na instrução e obras públicas, no comércio, lavoura e indústria, na navegação, na arrecadação da Fazenda e na governação do Estado, na organização militar, em úteis reformas judiciais, em providências benéficas e caritativas, o dedo gigânteo de Pombal ficou assinalado neste país. Benefícios legítimos do reinado de José I experimentou também o Brasil na instrução pública, em primeiro lugar pela admirável reforma da Universidade de Coimbra, que levou a cabo, pondo-a, como se vê dos seus Estatutos, especialmente nas faculdades de direito, filosofia e matemáticas, a par das 155 primeiras do seu tempo. A esta reforma, em que trabalharam muito dois beneméritos brasileiros, o bispo conde reformador D. Francisco de Lemos e seu irmão João Pereira Ramos, deveram depois outros brasileiros a ilustração, com que serviram com tanta distinção nesse reinado, que muito os protegia, e com que ainda nos últimos tempos puderam bem servir o seu País. Para realizá-la o ministro Pombal não hesitou, como patriota superior a prevenções, de fazer vir até de fora capitais de inteligência e de atividade, nas pessoas dos Vandellis, Francinis, Dallabellas, Blascos e outros. – Não foi menor o benefício que resultou da reforma dos estudos das escolas menores, o restabelecimento do colégio dos Nobres, tudo debaixo da inspeção da Mesa Censória, tribunal encarregado da censura dos livros, que ficaram isentos de passar pelas três censuras, da inquisição, do desembarbo do paço e do ordinário. para a manutenção destas escolas foi estabelecido o imposto do subsídio literário para o reino e conquistas (16), em vez dos parciais, que foram abolidos. Os edifícios monumentais da cidade do Pará, levantados desde que ideou, em 1761, preparar aí um refúgio, em caso de necessidade, ao trono da casa de Bragança, recomendam a sua previsão (17). Pela maior parte foram delineados pelo arquiteto Antônio José Landi, que para esse fim despachou (18). O palácio, hoje ocupado pela presidência da província, com quinze janelas de frente, três das quais no corpo do meio, é um dos mais esplêndidos do Brasil. A sé e as igrejas de São João e Santa Ana são idênticos testemunhos do favor real que presidiu à sua ereção. O comércio em geral deveu ao reinado de José I o estabelecimento de uma aula de comércio, em Lisboa, para 156 guarda-livros e praticantes, da ereção de um tribunal, ou Junta do Comércio, para o animar e proteger, em utilidade do bem comum dos seus domínios, tendo em geral as atribuições e privilégios da antiga Companhia do comércio. A instituição em 1755, da companhia do Grão-Pará e Maranhão (19), com o fundo e capital de um milhão e duzentos mil cruzados, fez surgir estas duas capitanias do definhamento em que jaziam. Outro tanto sucedera ao vizinho distrito de Venezuela desde o estabelecimento, em 1730, de uma companhia semelhante (20). O Maranhão principalmente, cujos produtos antes se achavam empatados, e que parecia condenado a volver outra vez à barbárie, levantou cabeça, e começou a rivalizar com as províncias mais opulentas (21). O algodão e o arroz especial - mente prosperaram muito, favorecendo ao primeiro a introdução das máquinas nas fábricas, e ao segundo as guerras dos Estados Unidos, etc. Menos feliz foi acaso o monopólio, quatro anos depois concedido (22), a outra semelhante Companhia de Pernambuco e Paraíba (reunidos poucos anos antes em uma só capitania) com o fundo de três milhões e quatrocentos mil cruzados. Ambas foram extintas no seguintereinado. Se a primeira delas, tendo por emblema a estrela sobre uma âncora, foi civilizadora, pelos capitais que adiantou aos ovos, que deles tanto careciam, é certo que a última, não compreendeu ao mote ut luceat omnibus, que adotou, em seu selo, ao redor de outra estrela (23). O com´percio do açúcar e do tabaco (24), apesar de sujeitado por meio de preços impostos para a venda no Brasil e para os transportes nos navios (25), e apesar de alguma opressão que chegou a causar aos lavradores o estabelecimento de Mesas ou casas de inspeção (26) para o qualificar, cobrou grande desenvol- 157 vimento. As casas de inspeção eram quatro, a saber: no Rio, Bahia, Pernambuco e Maranhão. Compunham-se de um magistrado, de um lavrador eleito pelas câmaras da capitania, e de um negociante indicado pelo corpo do comércio da praça do porto de embarque. O tabaco devia ser classificado como de primeira qualidade ou escolha de Holanda, ou como de segunda folha; o máximo dos direitos em Portugal era de 1689 1/4 réis por arroba, regulando o custo desta aos lavradores por l$200, sendo de primeira folha (27). O tabaco inferior não se podia exportar para a Europa: porém sim para África, quando se não consumisse no país (28). – A Bahia deveu a Pombal, no tabaco, a introdução da cura seca, própria para os charutos, enviando aí à Cachoeira, cuidar da preparação do tabaco em folha, um André Moreno, o qual havia chegado em 1757 (I). Pouco depois já um Manuel da Silva Pimentel remetia dali, a João Francisco da Cruz, uns maços de folhas, apertadas e ligadas, e outros de manocas ligadas em volumes separados. Em 17 de Dezembro, remetia mais algum, feito em manojos, como no Maranhão, com muito trabalho e impertinência. – Antes (pelo Reg. de 18 de Outubro 1702) o tabaco do Brasil pagava de entrada em Portugal l$600, e o do Maranhão 800 réis (29). O favor concedido pela corte à agricultura do Maranhão (30), se fez agora extensivo ao anil, que foi por dez anos isento de todos os direitos de entrada e saída, sendo que em 1762 já, sem esta providência, se haviam do mesmo Maranhão exportado quarenta e duas libras dele. Também já então se exportava daí porção de café (31), além de algum cacau, gengibre, algodão, mais de vinte mil couros, e duas mil oitocentas e quarenta e sete arrobas de arroz 158 (32). A cultura deste último produto no Brasil foi muito animada com a isenção, por duas vezes concedida por dez anos, à fábrica de descascar arroz de Manuel Luís Vieira e Domingos Lopes Loureiro, no Rio de Janeiro (33). – Esta proteção dada então ao arroz veio a tempo, pois havendo a companhia do comércio do Maranhão introduzido a semente do da Carolina, e tendo estabelecido em 1766 uma fábrica de soque, com o do Brasil se chegou em parte a suprir a falta do verdadeiro carolino, ocasionada pela guerra nos Estados Unidos (34). – Recebeu igualmente a régia proteção uma fábrica de curtumes no Rio, ordenando-se para esta a economia dos mangues não descascados; e para proteger o uso da aduela indígena, tirada do pau da canela e tapinhoã, proibiu o governo, no Brasil, a importação da da Europa, impedindo-se por outro lado em Portugal (35) a entrada de toda goma-copal estrangeira, para proteger a de jatubá ou jutaicica do Brasil, da qual em 1769 haviam sido remetidas a Lisboa 14 arrobas colhidas no Turiaçu. Foi também consentido o estabelecimento de uma fábrica de lonas na Bahia, o que não deve admirar quando já alguns anos antes, em 1750, se chegara a ordenar o estabelecimento no Pará de fábricas de chitas, trazendo-se para isso tecelões da costa de Coromandel (36). Como favorável à nossa lavoura devemos também considerar o alvará de 14 de Outubro de 1751 (37), que proibiu a saída de pretos, do Brasil para os domínios estrangeiros, bem como o de 10 de Janeiro de 1757 (38), que permutou o contrato do tabaco que se estabelecera no Rio de Janeiro, por um equivalente de 800 réis em cada escravo que entrasse, 1$000 em cada pipa de jerebita que ali se fabricasse, e 3$000 em cada pipa de azeite de peixe que se consumisse. 159 Em 1775 foi criada a nova capitania do Maranhão, com o Piauí, independente da do Pará, e dela foi nomeado capitão- general Joaquim de Melo e Póvoas (39), que antes tivera o governo subalterno do Rio Negro e depois o do Maranhão (desde 1761); havendo nesta ocasião recebido do primeiro ministro uma notável carta, contendo instruções e recomendações, ainda digníssimas de ser estudadas e meditadas por quem tenha o espinhoso encargo de governar povos. Nessa carta, hoje divulgada pela imprensa (40), recomenda-lhe Pombal toda a justiça e possível piedade e benevolência, o devido comedimento nas palavras, a necessária serenidade em todos os atos, o essencial desprezo dos aduladores e esteliões, a concessão de fáceis audiências aos queixosos, protegendo aos pobres e humildes; o não dever jamais valer-se da jurisdição real que lhe era conferida em satisfação das suas paixões; porque, diz, “é injúria do poder usar da espada da justiça fora dos casos dela”. Prudência para deliberar, informando-se bem da verdade, destreza para dispor, preparando o terreno, e perseverança para executar, vencendo os obstáculos, tais seriam suas máximas. Nem lhe esqueceu a advertência de deverem ser leais e de todo seus, os criados que tivesse de portas a dentro. Quanto a providências favoráveis à navegação do Brasil, limitar-nos-emos a citar a preferência dada para a mesma aos navios fabricados neste Estado, a permissão para se navegar sem ser em frotas (41), e a provisão de 10 de Junho de 1766 (42) para virem cada ano duas fragatas de guerra, uma em Abril, outra em Outubro, ao Rio de Janeiro, a fim de poderem ser por elas mandados os valores com mais segurança. No Maranhão se ativaram então os trabalhos do 160 furo de Arapapaí projetado em 1742, comunicando, sem os perigos do passo do Boqueirão, as águas da Bacanga com as do Arapapaí (43); ao mesmo tempo que se abria (em 1754) a importante estrada da Estiva, que oferece a mais fácil e natural comunicação da ilha com o continente (44). As rendas públicas eram rematadas no Conselho Ultramarino, geralmente por três anos; e feitas as arrema- tações, se publicavam logo os contratos. – De uma coleção destes (impressos avulsamente) (45), que conseguimos reunir, demos em outro lugar (II) um resumo que, por sua pouca amenidade nos dispensaremos de reproduzir de novo. Como providências essenciais à governação do prin- cipado do Brasil propriamente dito, devemos contemplar a nomeação de um cronista especial na pessoa de Inácio Barbosa Machado, irmão do erudito abade de Sever; e não menos a provisão de 28 de Março de 1754, que mandou reunir uma coleção completa de todas as leis e ordens expedidas para o Brasil (46) – coleção que se chegou a completar até o ano de 1757, em 39 volumes, e ainda, ultimamente se viu em Londres (47). Também é digno de notar-se o alvará (48) que regulou a sucessão na falta dos governadores, conferindo-a a uma junta composta das três primeiras autoridades militar, eclesiástica e de justiça. Igualmente pertence a esse reinado a idéia da fundação da praça de Macapá, na Guiana brasileira, à custa da de Mazagão, em Marrocos, cujas muralhas se fizeram voar (49). Desse mesmo reinado são, principalmente no Norte do Brasil, todos esses nomes de terras idênticos a outros de Portugal: Oeiras, Borba, Santarém, etc. (50). Deixaremos sem menção as muitas reformas, amplia- 161 ções e interpretações feitas às ordenações do reino, e muitas providências legislativas,que mais que à nossa história civil em geral, pertencem à especial do direito pátrio. Com aplicação especial à justiça no Brasil, mencionaremos, primeiro: o estabelecimento da Relação do Rio de Janeiro em 1751 (51). Essa criação havia sido já antes proposta, e até ordenada (52); porém dessa primeira vez fora deixada em trespasso. – Para a nova relação (53) tomou-se por base o regimento da da Bahia, donde até passaram para a instalação da nova dois dos desembargadores, que consigo trouxeram cópia do livro dourado (54) que nela havia. A relação passou a contar, incluindo o chanceler, de dez desembargadores, sendo cinco agravistas, um ouvidor-geral do crime, e outro do cível, um juiz dos feitos da coroa e fazenda e outro procurador da coroa e fazenda (55). Abrangeria as treze comarcas do Sul, incluindo as de Minas e a do Cuiabá (56). – O capitão-general do Rio ficou pelo regimento declarado governador da Relação (57), da qual foi nomeado chanceler João Pacheco Pereira de Vasconcelos, que, deixando-a instalada, regressou à Europa em 1755 (58). Em segundo lugar mencionaremos o alvará com força de lei de 18 de Janeiro de 1765 (59), que fez extensiva a todas as terras do Brasil onde houvesse ouvidores a instituição das Juntas de Justiça, ou pequenos tribunais para sentenciar sumariamente, já em prática em Pernambuco e no Maranhão e no Pará (60), compostas do dito ouvidor, com dois letrados adjuntos, as quais foram autorizadas a deferir os recursos contra as violências dos juízes eclesiásticos, devendo os provimentos que nelas se tomassem ser cumpridos logo, e sem esperar-se pela decisão última da respectiva Relação ou do Desembargo 162 do Paço. Das miras caridosas e filantrópicas do legislador nos deixaram evidentes provas: 1º) Os alvarás de 19 de Setembro de 1761 e 16 de Janeiro de 1773 (61), pelos quais foram declarados forros não só os escravos que desembarcassem em Portugal, como os aí nascidos de ventre escravo, mas cujo cativeiro viesse já das bisavós, ficando logo hábeis “para todos os ofícios, honras e dignidades, sem a nota distintiva de libertos, que a superstição dos Romanos estabeleceu nos seus costumes”. 2º) O alvará de lei de 4 de Abril de 1755, favorecendo os casamentos com as raças dos índios, e proibindo tratar a estes com o nome de caboucolos (62). 3º) As leis (63), revalidando as antigas, em favor da liberdade dos índios; e a aprovação dada ao conhecido Diretório (64) para estes; o que tudo descobre intentos mais que filantrópicos, embora, em nossa opinião, foi esta parte da legislação a que menos aplicação pôde ter; por isso mesmo que quase toda ela se reduziu a teóricos tratados de moral, – a conselhos; visto que meros conselhos são as leis não acompanhadas de penas; e estas tanto mais severas quanto mais brutal está o homem para quem são feitas. Os diretores, privados de direitos coercivos sobre os índios, deixaram a estes entregues à sua reconhecida indolência e devassidão, conforme veio anos depois a provar, em uma luminosa e larga exposição repleta de notícias e de profundas considerações, o Dr. Antônio José Pestana e Silva (65), pondo em contribuição a própria experiência que tivera como ouvidor e intendente geral dos índios na capitania do Rio Negro, subordinada à do Pará. 163 4º) O aviso de 15 de Maio de 1756, permitindo que os ciganos (66) fossem empregados em obras públicas, dando-se mestres a seus filhos. 5º) Finalmente a carta de lei, constituição geral e edito perpétuo de 25 de Maio de 1773 (67), mandando acabar para sempre com as frases distintivas de cristãos novos e velhos, de que tanto havia inclusivamente abusado, com escândalo e contra as doutrinas do Evangelho, o tribunal da Inquisição; e o alvará de lei (do 1º de Setembro de 1774) aprovando um novo regimento para este tribunal (68), cujos poderes D. José I sopeou muito, fazendo as sentenças dependentes da confirmação régia, sendo para lamentar que não ousasse (talvez por isso mesmo que estava já lutando contra tantos inimigos) aniquilá-lo de todo. Em elogio de el-rei D. José, limitar-nos-emos a transcrever aqui os seguintes períodos do que, em suas exéquias na Bahia, proferou (69) o exímio pregador baiano Fr. Antônio de Sampaio: “O Brasil pode sem dúvida (disse o orador) gloriar-se de ter merecido a predileção do seu real ânimo... A veneração com que ele recordava a memória desses antigos povoadores do Brasil, de quem nós agora descendemos, induzia-o a olhar com carinho para a nobreza deste novo Estado; a colocar sobre os nossos compatriotas as mitras de Pernambuco (70), Rio de Janeiro (71), Coimbra (72) e outras. Com esta consideração honrou os nossos jurisperitos com togas honoríficas, ocupou-os nos governos, intendências e magistraturas. Essa foi a verdadeira ocasião de tantos privilégios com que honrou as nossas cidades, com que amplificou e enriqueceu os nossos territórios”. “Política do Brasil! Tu mereceste ao glorioso príncipe 164 essas leis benéficas, que tanto promovem nestes domínios a tranqüilidade pública: conseguiste da sua magnificência tribunais amplíssimos, intendências, administrações esten- didas, que prometem a esta preciosa porção da América a população de um império. Que descobrimentos não fizemos? Que progressos não conseguimos, no Pará, no Maranhão, no Mato Grosso? Que desvelos não foram os do monarca para fazer culto e feliz o estendido país das minas do ouro?...” “O Brasil floresce hoje na posse de todos os cômodos e ornamentos das nações mais cultas... As nossas esperanças animadas com tantos benefícios iam criando asas para voar à glória que nos mereceu a ascendência que nos prezamos trazer dos Correias Sás, Sousas Coutinhos, Pires, Costas, Azeredos, Pereiras e outros antigos celebérrimos argonautas, que por glória da nação, por aumento da fé, por novo esplendor destas colônias, deixaram o ninho da sua amada pátria, para virem disputar a estes homens semi-feras a posse destas regiões bem- aventuradas.” Acerca da pessoa de Pombal atrevemo-nos a transcrever aqui o que dele nos informa um francês que muito o conheceu e tratou (73): - “O conde de Oeiras [Pombal] possuía muitas qualidades para ser, como foi, um grande ministro. Empregando todo o tempo da semana no serviço de seu amo, reservava as manhãs dos domingos para os negócios de sua casa, nos quais se ajuntavam todos os almoxarifes, feitores e mestres de obras, no quarto de sua contadoria, metodicamente escriturada com livros em partes dobradas; e ali conferia com eles, recebia e pagava, à boca de cofre, as entradas e despesas da semana precedente. E era extremamente reservado com sua família e amigos, a respeito dos negócios do Estado; de modo 165 que ninguém podia descobrir, da sua conversação, gestos ou maneiras, os negócios que o ocupavam, e que se deviam conservar em segredo. Ouvia as partes, sem lhes interromper as suas falas, e as respostas eram graves, breves e terminantes, revestidas sempre da autoridade do soberano, e não do seu motu próprio. Não consta que se enfadasse e descompusesse as partes que o buscavam, por mais que estas se desmedissem em palavras, nem que em sua casa aparecesse pessoa alguma, que fosse recebida debaixo do mais estreito cerimonial. Sabia assim conciliar o recíproco respeito que o público deve ter aos ministros do soberano, e estes ao público. Possuía mais o conde de Oeiras um arranjo metódico, tanto na distribuição do tempo, como nas matérias de que se achava encarregado; e foi por efeito deste arranjo metódico que ele pôde dirigir bem todasas repartições do Estado, a ponto de o fazer prosperar tanto que, apesar da reedificação da cidade, extinção dos jesuítas, estabelecimentos de inumeráveis fábricas, escolas públicas, reforma dos estudos, e guerras que ocorreram no seu tempo, deixou, quando saiu do ministério, 48 milhões de cruzados no erário régio, e 30, segundo ouvi, nos cofres das décimas: riqueza que jamais se tinha ajuntado desde a descoberta das minas. Esse espírito metódico se mostra bem no arranjo econômico da sua própria casa, o qual confirma o axioma de que “quem não sabe bem governar a sua casa não presta para governar o Estado”. “Foi por efeito da sua estrita economia (continua ponderando acerca de Pombal o mesmo escritor) que ele pôde fazer a sua grande casa, e não à custa do Estado, como alguns terão pensado, regulando-se unicamente pelas aparências. O conde de Oeiras viveu sempre... sem fausto, nem aparato; 166 servindo-se ele, e seus irmãos da mesma cozinha. Sua mesa, bem que farta, não era delicada; sua cavalheirice era mui pouco dispendiosa. ainda nos anos de 1764 a 1766 andava por Lisboa na mesma carruagem de jornada em que tinha vindo de Viena d’Áustria”... Acusam-no de haver usado demasiado rigor com alguns que haviam sido seus colegas no ministério, como Diogo de Mendonça Corte Real, demitido em 1756 (74), Tomé Joaquim da Costa, em 1760, e José de Seabra (75), seu antigo confidente nos assuntos contra os jesuítas, demitido em 1774; o primeiro dos quais foi desterrado para Mazagão, e este último para Vizeu e Porto e por fim para Angola. Mas os que assim pensam pretendem que há mais de um século se pensasse como hoje, e esquecem-se de que deviam ser quase crimes de lesa-majestade o haver, o primeiro revelado os projetos de casamento da herdeira do trono com um infante de Espanha e o último nada menos do que certos planos de el -rei de fazer passar a sucessão da coroa a seu neto o príncipe D. José, em detrimento da princesa do Brasil, sua mãe. É igualmente acusada a memória do dito primeiro ministro Pombal, pelas irregularidades ou faltas de clareza que se notam em quanto foi publicado acerca da condenação dos réus implicados na tentativa de assassinato do rei em 1758 (III). Essa acusação desaparecerá, cremos nós, quando venha a ser integralmente dado à luz todo o processo, que nos asseguram existir em Portugal (76). Mas, pelo que já sabemos, na falta de publicação do mesmo processo íntegro, deu o dito primeiro ministro mais um aprova de abnegação, expondo até a sua reputação, em serviço e dedicação pelo rei. Ele próprio o disse na sua célebre “Justificação”, ainda inédita, por estas 167 palavras: “A necessidade pública que fez preciso um melindroso segredo de Estado a respeito de alguns fatos que se contêm nos Processos”. E em outro lugar: “Não havendo confiado o dito monarca o segredo daquele delicadíssimo negócio senão aos três secretários de Estado, ... logo que pôde passar do leito para o gabinete, no dia 9 de Dezembro” (77). Reduzia-se o segredo a que o próprio rei fora o acusador, apenas toda a trama lhe foi revelada pela sua favorita, a jovem Távora, na primeira visita que lhe fez, depois do atentado. Cumpre-nos acrescentar que (pois a sentença acerca das consciências compete exclusivamente ao supremo e sempiterno Juiz) todos os homens que se ocupam de governo, quanto mais estudam a administração de Pombal, mais sinceramente a admiram, chegando até a crer que, sem ela , Portugal se houvera acaso submergido, “no gosto da cobiça e na rudeza”. Graças ainda ao auxílio indireto dos capitais e ouro do Brasil, para não mencionar um pingue donativo de três milhões de cruzados (78) em trinta anos, ou quarenta contos em cada ano (79), com que, convidadas pela carta régia de 16 de Dezembro de 1755 (80), todas as capitanias deste Estado puderam, depois do terremoto do 1º de Novembro de 1755, socorrer a capital, a ova Lisboa se levantou como por encanto. – Pelo que se o Brasil, pelos nomes das famílias e pela língua vernácula, há de testemunhar sempre qual foi o tutor europeu que lhe encaminhou os passos, na infância da sua civilização, também Portugal não se esquecerá jamais dos socorros que lhe ministrou o seu rico pupilo americano, enquanto existir uma pedra no enorme aqueduto de Alcântara, no pomposo monumento de Mafra, ou nas suas regularissimamente 168 alinhadas da baixa da antiga Ulíssipo. Esta é a verdade, por mais que (nem que apostados a evitar justas, políticas e convenientes conciliações) defendam partidos opostos as opiniões extremas, acerca de quem deve ou é devedor. Não cremos razoável, nem generoso, nem nobre, nem animador da colonização européia de que tanto carecemos, lembrar de parte a parte só o que há de queixa, sem pôr ao lado o muito que pede louvor e gratidão. – Do lado da metrópole, e mais ainda dos agentes dela, sabemos que houve muitas vezes despotismo, injustiças, incoerências, ignorância, e por conseguinte maus governo. Mas, não é menos verdade que a corte mostrava sempre desejos de caminhar com o possível acerto, e não deixava de repreender e de castigar o procedimento dos governadores menos observantes das leis. A própria independência que concedia aos magistrados, às câmaras, aos bispos e às ordens religiosas e que foram causa de tantas desordens, eram, para essas corporações e para os povos, verdadeiras garantias de liberdade, que não existiriam em governos propriamente despóticos. Além de que, as faculdades dos mesmos governadores, não deixavam de estar sopeadas pela independência do poder judicial, exercido pelas relações, ouvidores e juízes, pelas garantias dos empregados do fisco, e pela autoridade de certas juntas e até das câmaras ou municipalidades. Não faltaram, é verdade, governadores, em geral saídos da classe militar, ignorantes dos mais triviais princípios do governo político, que se entremetessem a alterar as formas dos processos, que se envolvessem nas questões de propriedade, dando sesmarias já concedidas a outros, que fossem menos observantes das leis, que à vezes até ignoravam; mas alguns se poderão citar que 169 administravam admiravelmente, ou que, nos próprios ofícios à corte e nas instruções por escrito que deixaram a seus sucessores, mostraram especial conhecimento dos assuntos mais importantes da capitania, e grande ciência de governo, e muito juízo prudencial. – Os governadores não podiam comerciar por si, nem por outrem, nem lançar nos bens que iam à praça; nem mandar fazer seqüestros; nem receber presentes; nem aceitar cessões de dívidas; nem consentir que as aceitassem seus criados. Igualmente não podiam mandar tirar devassas; nem prender sem culpa formada; nem dar auxílios ara prisões, senão por ordens das justiças dos distritos; nem podiam conceder ajudas de custo; nem abrir cartas particulares, ainda a pretexto de averiguar descaminhos da fazenda; nem proibir os descobrimentos em terra incultas. – Não podiam, nem tampouco os ouvidores e juízes de fora, contratar casamento no círculo de suas jurisdições. Deviam os governadores além disso evitar eficazmente que os oficiais da justiça e fazenda levassem às partes emolumentos excessivos, cuidando que os ministros observassem o regimento de seus salários, e não faltassem às suas obrigações. Também eram obrigados a mandar logo aos ministros as cartas do serviço recebidas para eles; a fazer que as eleições dos juízes dos órfãos tivessem lugar ao mesmo tempo em que as das mais justiças; e a não consentir que os ouvidores passassem provimento aos oficiais que serviamcom eles. Era-lhes proibido arbitrar salários aos ministros, ou passar-lhes atestados durante o tempo em que exerciam lugares. Não podiam convocar a palácio as câmaras, sem necessidade urgente, a benefício delas ou do serviço público; nem permitir que elas lançassem fintas. E só das mesmas câmaras podiam 170 receber por aposentadoria casas e camas, para si e suas comitivas: aos oficiais das mesmas não podiam obrigar a que os fossem visitar em corpo de câmara. Não deviam intrometer- se nas eleições dos oficiais de ordenanças, nem criar novos postos. Nos preenchimentos das vagas deviam justificar estas com documentos, e atender às propostas das câmaras. Também lhes era proibido ter criados com praça de soldados; providência esta que se fez extensiva acerca dos ministros. Tantas peias tinham os governadores pela lei, que acaso algumas vezes não poderiam eles ter a necessária autoridade para governar na distância a que se achavam da metrópole, se as tendências naturais do instinto de conservação e de mando lhes não fizessem propender para o arbítrio. – Em vista das ditas peias, que expusemos, pudéramos desconfiar que a administração devia principalmente ressentir-se de falta de centralização tão encomiada pelo ilustre Timon da França (81), quando chegou, no tratado especial acerca da mesma centralização, a afirmar que “quanto mais se concentra a autoridade, menos pesa sobre os governados; e quanto mais se divide e desce, também mais se apresenta com o caráter das humanas paixões”. E com efeito, já nesse tempo a própria experiência provava que, sobretudo nos sertões menos habitados, não era pelo excesso de autoridade dos governadores que mais pecava a boa administração da justiça; pois o influxo deles era em geral benéfico aos povos, contra as demasias e prepotências dos capitães-mores locais, que alguém, não sem malícia nem sem razão, se lembrou de comparar a certos potentados de nossos dias, revestidos com a fita de juiz de paz ou as dragonas de comandante superior da guarda nacional. Desgraçadamente, a experiência prova que os 171 países menos povoados passam sempre uma época com tendências feudais, seja qualquer o nome que se dê aos suseranos, que acabrunham os pequenos, quando, aliás, na cabeça do Estado e nas cidades populosas a administração da justiça corre com a maior regularidade. Felizmente, as estradas de ferro, e os vapores acabarão essas tendências, esta- belecendo a polícia mais rigorosa, equilibrando a população, e melhorando-a pelos dois grandes meios civilizadores: a indústria que subministra ao homem os maiores cômodos da vida; e a observância da religião, que o beneficia moralmente. Depois dos capitães-mores, eram, mais que os governadores, causas de imoralidade e arbítrios os empregados subalternos, tanto da justiça, como da fazenda; pois que, dando-se a princípio de preferência os ofícios aos que ofereciam para as urgências do Estado maiores quantias, veio isso a degenerar em abuso, a tal ponto que havia na corte agentes ou corretores deles, e às vezes recaíam em indivíduos de procedimento menos regular. A esses abusos pôs cobro el - rei D. José, que, por carta régia de 20 de Abril de 1758, mandou às capitanias do Brasil Antônio de Azevedo Coutinho, do Conselho Ultramarino, a fim de proceder nelas à arrematação dos mesmos ofícios, entre os indivíduos dignos de os exercer (82). Como delegados de el-rei D. José na administração das capitanias do Brasil prestara serviços mais importantes, além do conde de Bobadela e da Cunha, o vice-rei marquês de Lavradio. Em seu largo vice-reinado de dez anos e cinco meses, o marquês de Lavradio, que antes governava na Bahia, em meio dos cuidados em que se viu com as hostilidades e guerras no 172 Sul, com o maior zelo e inteligência, a todos os ramos da administração. Ao passo que se entregava à organização da milícia, animava os estudos, protegia os estudiosos e cuidava do aformoseamento da capital, que ainda à sua memória dedica o nome de uma de suas ruas. Ao mesmo tempo se dedicava, com o maior empenho, a favorecer o desenvolvimento das indústrias agrícolas no país, e com especialidade as do anil, cochonilha, queijos e manteigas (83). E todos sabem que no seu tempo nasceram e floriram, em uma chácara de Mataporcos, do holandês João Hopman, as plantas de café que deram as sementes para todo o Sul do Brasil (84). Quanto ao seu caráter, preferimos deixar que nos dê dele idéia um eloqüente frade, seu contemporâneo (85), no sermão que, depois do seu falecimento, recitou na catedral do Rio de Janeiro: ouçamo-lo: “... homem singular, em quem o contágio da dignidade, e da grandeza não tinha feito mudar o aspecto, nem corromper o coração. Não o cercou nunca aquela nuvem medonha, que, escondendo a autoridade de que necessitam os povos, deixa com tudo aparecer uma soberba que os aterra (86). Brilharam sempre do redor de sua presença os sinais mais evidentes de seu amor para convosco, e vós sois testemunhas daquela candura que pintava em seu rosto e seus afetos. Viu-se na sua pessoa aquela união prodigiosa que poucas vezes faz o poder com a ternura e a justiça com a humanidade Despendeu liberalmente convosco aquele tesouro de talentos preciosos que tinha recolhido em sua alma, e fez da vossa felicidade o unido objeto dos seus cuidados.” Do seu grande tino governativo pode-se fazer perfeita idéia, em presença das explicações por ele próprio dadas ao 173 seu jovem sucessor acerca do modo como alcançara apaziguar muito os turbulentos habitantes do distrito de Campos. Ei -las (87): “... como aquelas gentes ainda estão com as idéias muito frestas da má criação que tiveram, é necessário, enquanto não passam mais anos, não dar a nenhum deles um poder e autoridade que, enchendo-os de vaidade, possa vir a dar um cuidado que traga consigo maiores conseqüências. Eu tenho seguido o sistema de dar ali muitas sesmarias, de facilitar às pessoas desta capital que se vão para ali estabelecer. Tenho mandado vir a muitos para lhes falar; tenho-os aqui conservado por algum tempo, para os costumar a ver como os povos vivem sujeitos; e que vejam o modo com que se respeita e obedece aos diversos magistrados, e às pessoas que mais representam: e em todo o tempo que aqui estão, procuro que estejam muito dependentes; e por fim os mando retirar, fazendo-lhes sempre algum benefício. Por este modo se tem ido sujeitando de sorte que já hoje não acontecem aquelas horrorosas desordens, que todos os dias inquietavam os governadores desta capitania. É preciso ter um grandíssimo cuidado em não consentir que para ali se vão estabelecer letrados rábulas ou outras pessoas de espíritos inquietos; porque, como aqueles povos tiveram uma má criação, em aparecendo lá um desses, que falando-lhes uma linguagem mais agradável ao seu paladar, convidando-os para alguma insolência, eles prontamente se esquecem do que devem, se seguem as bandeiras daqueles. No meu tempo assim sucedeu, por causa de um advogado chamado José Pereira, que parecendo-me homem manso e de boas circunstâncias, o fiz juiz das sesmarias daquele distrito, o qual fez tais desordens que até se fomentou um levantamento, e se naquela ocasião eu 174 seguisse os meios ordinários, e não tomasse uma resolução extraordinária, ficariam de todo arruinados os utensílios e excelentes estabelecimentos, que ali estão hoje adiantados. Eu mandei buscar este homem e aqueles que com ele mais procuravam representar, tive-os por muitos meses reduzidos a uma aspérrima prisão; mascarei-os atéo último ponto; e, com este meu procedimento, se intimidaram todos os outros, e depois de estar tudo sossegado, tornei a permitir -lhes que voltassem para que pudessem contar o que lhes tinha sucedido; e lhes disse que a primeira notícia que eu tivesse de alguma inquietação por aquelas partes, eles seriam os primeiros que me fossem responsáveis de todas aquelas desordens. Com isso consegui o serem eles os primeiros, quando voltaram, que procuravam a quietação de todos, de sorte que hoje tudo se conserva na maior tranqüilidade”. Além dos condes de Bobadela e da Cunha e do marquês de Lavradio, distinguiram-se também neste reinado, D. Antônio Rolim de Moura, conde de Azambuja, pela sua atividade nos governos de Mato Grosso, Bahia e Rio, e D. Álvaro Xavier Botelho, conde de São Miguel, pelas prevaricações escandalosas que lhe foram provadas em seu governo de Goiás, de 1755 a 1759 (88), embora ele se chegasse a queixar que haviam passado três anos sem receber nenhuma comunicação da metrópole. Em Minas, fez-se muito notável o governador (1768- 1773) conde de Valadares, D. José Luís de Menezes, que, apesar de sua pouca idade, sendo menor de vinte e cinco anos (89), quando tomou posse do bastão, soube fazer respeitar a autoridade (90), perseguindo os malfeitores, e reduzindo o numeroso quilombo do Bateeiro na comarca do Rio das 175 Mortes. Pelo que respeita à sua integridade, formamos dela desfavorável idéia desde que tivemos conhecimento do notável fato que passamos a narrar (91). Oito dias depois de seu regresso de Minas, procurou-o o marquês de Pombal, e lhe pediu emprestados noventa mil cruzados. Entregou-lhos o conde, em 12 de Março de 1768; e nesse mesmo dia mandou Pombal que se desse entrada desta soma no erário, e efetivamente se abriu sobre ela assento a fls. 122 v. do livro 2º dos ofícios da fazenda; declarando serem dela, cinqüenta, por um ofício conferido a José Rodrigues do Amaral, de Mariana, e quarenta, de outro dado a Bento José Gomes, de Vila Rica. – Em Maio de 1778, vendo Valadares a grande reação contra Pombal, foi queixar-se à rainha da dívida em que lhe estava o dito ex-ministro. Sendo este ouvido, respondeu, em 14 de Maio, ser verdade haver recebido os noventa mil cruzados, e citando a folha do livro do erário em que se achavam lançados, e a razão por quê, acrescentando porém que, apesar disso, entregaria a mencionada soma ao conde, se a rainha o ordenasse. Acerca dos trajes no Brasil (92) baste-nos dizer que se iam seguindo à risca as modas da metrópole, que por sua parte seguia as do resto da Europa. Estavam em voga, até para os soldados, as cabeleiras com rabicho, os chapéus à Frederica, as fardas desabotoadas, redondas, nas abas, as camisas de folhos, e os calções com fivelas, sapatos e polainas. A administração de Pombal, apesar de tão votada a promover os interesses materiais do país, não deixou de ser muito propícia às letras, e aos brasileiros que nestas se distinguiram. – O favor que durante ela receberam os dois já 176 mencionados fluminenses, irmãos, reformadores da Universidade, bispo-conde D. Francisco de Lemos, e João Pereira Ramos, procurador da coroa e guarda-mor da Torre do Tombo, se estendeu a outros muitos brasileiros. O modesto autor da História Eclesiástica Lusitana , D. Tomás da Encarnação (93) e o franciscano Fr. Antônio de Santa Maria Jaboatão (94) deixaram-nos obras que ainda os recomendam. – Também foi obra desse reinado a Etiópia resgatada, que deu à luz em 1758 o padre Manuel Ribeiro da Rocha, na qual já este filantropo autor propõe a idéia de ser o tráfico declarado pirataria, e de poderem os escravos resgatar a sua liberdade ao cabo de cinco anos de cativeiro. – O distinto mineiro, autor do poema épico Uraguai, José Basílioda Gama, foi honrado com a confiança do ministro, que o escolheu para seu oficial de gabinete, com carta, foros e escudo de nobreza. Igualmente não deixaram de encontrar favor em Pombal os nossos poetas Cláudio Manuel da Costa, Manuel Inácio da Silva Alvarenga, Inácio José de Alvarenga Peixoto, e até já o próprio Domingos Caldes Barbosa. O fluminense Feliciano Joaquim de Sousa, deixou-nos, entre outros escritos, a sua Política Brasílica (95). O bispo do Pará D. Fr. João de São José legou-nos o seu Diário (1762-1763) (96), sento também valiosos, acerca das terras do Amazonas, os escritos do vigário-geral do Rio Negro José Monteiro de Noronha (97) e do ouvidor Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio (98); João da Silva Santos viajava em 1764 (99) pelo Jequitinhonha, e o governador de São Paulo Luís Antônio de Sousa Explorava, pouco depois (1768), pessoalmente, os rios Tibagi e Ubaí (100). Pouco diremos das três associações literárias que contou o Brasil durante este reinado. A dos Seletos, no Rio de 177 Janeiro, em 1752, de que foi secretário um ex-ouvidor de Paranaguá, Manuel Tavares de Sequeira e Sá, teve principalmente em vista um certame em favor do governador, e as suas produções foram publicadas na coleção Júbilos da América (101). A dos Renascidos, que se instalou na Bahia em 1759, debaixo dos mais favoráveis auspícios (IV), com quarenta acadêmicos de número (todos residentes na Bahia) e oitenta e três supranumerários, com estatutos bem pensados, e que chegou durante vários meses a ter sessões regulares duas vezes por mês, e viu-se dissolvida pela misteriosa prisão do seu diretor ou presidente (V), o conselheiro José Mascarenhas Pacheco (o qual, comprometido na questão dos jesuítas, foi remetido preso à corte em 1760, e não veio a sair solto senão em 1777) produziu um interessante livro, ainda manuscrito, a História Militar do Brasil de 1547 a 1562, pelo sócio tenente- coronel José Mirales (VI). A Científica foi instituída no Rio de Janeiro em Fevereiro de 1772, pelo médico do vice-rei Lavradio, José Henriques Ferreira, que foi dela o presidente (VII). Entretanto, no reinado de D. José, no Brasil, não eram tanto os escritos de literatura amena, como os que continham informes estatísticos do país, os que mais fomentava o governo, e que efetivamente se escreviam. Ainda hoje se guardam em Lisboa, nos arquivos do Conselho Ultramarino, maços e maços, contendo muitos de tais informes, que esperamos hão-de um dia ser dados ao prelo (102). De uma dessas estatísticas acerca da capitania de Pernambuco e suas subalternas, Ceará, Rio Grande, Paraíba e Alagoas, em 1774, temos cópia, e dela aproveitaremos os seguintes fatos (103). 178 Contava o Ceará mais de 34 mil almas, o Rio Grande passante de 21 mil, a Paraíba de 30 mil, e Pernambuco 175 mil, incluindo as comarcas das Alagoas e do Penedo, relacionadas pelas listas das desobrigas das freguesias. No Ceará contavam- se 972 fazendas; no Rio Grande 283; na Paraíba 869; em Pernambuco 516. Havia nas oito comarcas de Pernambuco 360 engenhos e na Paraíba 37. O sobrante das rendas públicas montava em Pernambuco acima de 14 contos (104); na Paraíba perto de 13; no Rio Grande a mais de 5; e no Ceará (produto dos dízimos) a mais de 11. - Os tributos, fontes dessa receita, eram além dos dízimos, o subsídio do açúcar e das carnes e do tabaco, donativo da alfândega, novos direitos dos ofícios e cartas de seguro, direito de caixas, passagem de alguns rios, pensão dos engenhos, pesqueiros do mar, etc. Acerca da Bahia o seu termo escrevera em 1757 uma estatística o medidor da cidade Manuel de Oliveira Mendes (VIII). Havia 17 freguesias; mas o autor só designa os fogos e almas de 14; subindo aqueles a 8.026 e estas a 46.455. – Em São Paulo, a renda provincialem 1776 montava a 47:900$599, e a despesa ordinária subia a 49:429$869; havendo portanto um excesso de 2:339$270; isto sem contar os enormes gastos com as tropas da capitania estacionadas no Sul, os quais corriam à conta do vice-reinado. A respeito de Minas preparava o desembargador José João Teixeira Coelho uma mui importante notícia estatística, hoje impressa (105), e da qual trataremos, com mais extensão, na secção seguinte. Da Estatística do Ceará se ocupava o coronel Antônio José Vitoriano Borges da Fonseca, autor da Nobiliarquia Pernambucana (106), que ali estivera dezesseis anos de capitão-mor. Do Rio de Janeiro, em fins de Janeiro e 179 princípios de Fevereiro de 1751, nos deixou uma idéia o matemático La Caille (107), que então aqui esteve, morando na rua do Rosário. A população da cidade se avaliava em cinqüenta mil almas. Nas janelas e portas viam-se urupemas. Nas esquinas havia nichos diante dos quais se rezava o terço. – No largo do Paço se construía o chafariz (108). Das relações contemporâneas de festas públicas nos é dado coligir algumas notícias curiosas acerca do estado das artes (109). – Pelo que respeita à Bahia, muito minuciosas notícias nos dá uma relação escrita (1761) por Francisco Calmon, sócio dos Renascidos (110), acerca das festas celebradas pelos desposórios da princesa, depois D. Maria I (111). – A um bando, em que saíram a cavalo o porteiro da câmara e meirinhos, vestidos à cortesã, ao som de atabales e mais instrumentos, seguiram-se danças, fogos e comédias. – Entre as danças, distinguiram-se não só as dos mesteres; v. gr. a dos cutileiros e carpinteiros, com farsas mouriscas, a dos alfaiates, a dos sapateiros e correeiros, como a dos Congos, que muito agaloados, anunciavam a vinda de um rei negro, o qual depois aparecia com a sua corte e sovas, dançando as talheiras e quicumbis, ao som de seus instrumentos: seguiam- se índios emplumados e de arco e flechas, saindo de ciladas. E por fim houve canas, escaramuças e argolinhas, e se representaram a comédia Porfiar amando e a ópera Anfitrião, muito provavelmente a de Antônio José (112). – Mais curiosa que esta, de notícias verdadeiramente interessantes para as artes, é outra anterior acerca dos festejos com que Pernambuco celebrou a aclamação de el-rei D. José, publicada pelo oficial maior da secretaria do governo da capitania, Filipe Néri Correia (113). Nela se descrevem minuciosamente os artefatos 180 do teatro, devidos ao artilheiro Miguel Álvares Teixeira; nela se diz que a música foi obra do compositor mestre de capela da sé, o padre Mestre Antônio da Silva Alcântara; dela finalmente se vê que as comédias La sciencia de reinar, Cueba y costillo de amor e La piedra filosofal, que se representaram nos dias 14, 16 e 18 de Fevereiro de 1752, foram ensaiadas pelo compositor dramático Francisco de Sales Silva. Das artes do Rio nos oferece algumas notícias uma Epanáfora festiva acerca do nascimento do príncipe real em 1763 (114). Nessa última festa não somente se correram touros e praticaram escaramuças, com argolinha, alcanzias e canas, como saíram também à rua danças de ciganas, dos cajadinhos, com gaitas de foles, dos cavaleiros, além das dos alfaiates, carpinteiros e pedreiros, e das dos marceneiros e sapateiros, cada uma destas últimas com seu carro. Concluiu a festa com índios caçando, com pardos e congos divertindo-se, e afinal com um castelo e navio de fogo, que arderam, etc. NOTAS EM NÚMEROS ARÁBICOS (1) Conde de Oeiras em 6 de Junho de 1759; marquês de Pombal em 17 de Setembro de 1770. – Filho de Manuel Carvalho de Ataíde, que servira nas armadas da costa e fora capitão de cavalos, e de uma senhora que descendia dos morgados de Souto de El -rei; nasceu em Lisboa a 13 de Maio de 1699 e faleceu em 8 de Agosto de 1782. Sua genealogia não se insere, como se pretendeu, no trono pernambucano de D. Paulo de Morai, filho do governador D. Filipe de Moura e de D. Genebra Cavalcanti. – Conf. Pedro A. de Azevedo, Os Antepassados do Marquês de Pombal , in Arquivo Histórico Português, 3, 231/331. – Veja a nota II, secção XXV, tomo segundo desta História, pág. 123. – (G.). 181 (2) Aqui podemos repetir com o sábio Augusto Theiner, na História de Clemente XIV: “Cada vez que lançamos os olhos sobre quaisquer inúmeras obras publicadas de oitenta anos a esta parte, com nomes dos autores ou sem eles, pelos jesuítas ou pelos seus amigos... um sentimento de dor e de tristeza se apodera de nós... vendo a pouca justiça e caridade com que nelas se trata não só de Clemente XIV, como de outros personagens célebres, que, embora não isentos de alguma fraqueza, não deveram ser tratados inclusivamente com infâmia”. – (A.). – A obra de Theiner, mais vulgar na tradução francesa, intitulou-se – Histoire du Pontificat de Clément XIV , Paris, 1852. – (G.). (3) Embaixador de França, conde de Baschi, of ício de 11 de Novembro de 1755, Santarém [Quadro Elementar], 6, 70/71. – (A.). – E acrescentava que “a abundância reinava na cidade sem carestia”. – (G.). (4) A estátua de D. José noc entro da praça do Comércio, em Lisboa, terreiro do Poço antes do terremoto foi inaugurada a 6 de Junho de 1775. O escultor foi Joaquim Machado de Castro e o fundidor Bartolomeu da Costa, que conseguiu fundi -la de um só jacto. No pedestal figurava a efígie do marquês de Pombal. Quando o ministro caiu em desgraça, em uma note de Abril de 1777, foi sua efígie arrancada do lugar e substituída pelas armas da cidade. Bartolomeu da Costa escondeu -a no arsenal de guerra, onde, passados tempos, foi encontrada e restituída ao monumento, por um decreto de D. Pedro, duque de Bragança, de 10 de Outubro de 1833. – Conf. John Smith, Memoirs of the marquis of Pombal , 2, 291/294, Londres, 1843. – (G.). (5) De Francisco de Albuquerque Coelho de Carvalho: 1:200$000. – (A.). – A capitania foi mandada incorporar à coroa pela carta régia de 1 de Junho de 1752, Revista do Instituto Histórico, 69, parte 1ª, 192. – (G.). (6) Título de visconde de Mesquitela e 1:200$000 de pensão. – (A.). – Da Gazeta de Lisboa, de 9 de Maio de 1754: “Foy S. M. fidelissima servida de reunir á sua Real Corôa a Ilha grande de Joanne, sita na boca do Rio das Amazonas, de que o Senhor Rey D. Affonso VI fez mercê de juro e herdade fóra da Ley mental a Antonio de Sousa de Macedo (sexto neto sempre por varonia do famoso Martim Gonçalo de Macedo, que na batalha de Aljibarrota salvou a vida ao Senhor Rey D. Joam I, de cujo acçam se conserva a memoria, nam só nas historias do Reyno, mas no braço armado com huma massa na mão, que serve de 182 timbre ao escudo de suas armas), em remuneração aos relevantes serviços que tinha feito a esta Corôa, sendo Embaixador na Republica de Hollanda, e na Côrte da Inglaterra; dando em satisfaçam a seu bisneto Luis de Sousa de Macedo, terceiro Maram da dita Ilha grande, o senhoria da Villa de Misquitela, na Província da Beira, com toda a jurisdicçam civi l, mudando- lhe o título de Baram em Bisconde de Misquetela, alem de 30.000 cruzados de renda cada anno, tudo de juro e herdade, tres vezes fóra da Ley Mental”. – A renda dada ao donatário pelo equivalente da Ilha Grande, foi apenas de tres mil cruzados, e não de trinta mil, conforme retificou a Gazeta seguinte, de 16 de Maio. – Conf. tomo terceiro desta História, págs. 199 e 213, nota II. – (G.). (7) Porteiro-mor José de Melo Sousa; pensão de 600$000. – (A.). – José de Sousa e Melo chamava-se o porteiro-mor, que faleceu em Lisboa, a 27 de Fevereiro de 1750, com setenta e oito anos de idade.A transação da capitania foi feita com seu filho e sucessor Manuel Antônio de Sousa e Melo, como noticiou a Gazeta de Lisboa, de 15 de Novembro de 1753: “Havendo S. Mag. Fidelissima resolvido reunir á sua Real Coroa todos os dominios ultramarinos, doados por mercê dos Senhores Reys seus predecessores a alguns Senhores particulares, por meyo de subrogaçoens, se assinou em 8 do corrente a Escritura celebrada com o Porteiro mór Manuel Antonio de Dousa e Mello, que cede a Sua Magestade o Senhorio da Capitania de Cayté no Estado do Maranham, pela mercê da Villa de Anciões, de juro e herdade, dispensada três vezes a Ley mental, com a data de todos os Officios, e nomearam de Ouvidor, e de 600$000 de juro cada anno, pagos pelos effeitos do Conselho Ultramarino, com todas as mais circunstancias, e regalias da mercê da capitania cedida”. – (G.). (8) Estava unida à primeira [de Cametá]. – (A.). – Conf. o tomo terceiro desta História, pág. 151, nota 5, - (G.). (9) Comprada aos marqueses de Loriçal, herdeiros do de Cascais. – (A.). – D. Luís José Tomás de Castro Noronha Ataíde e Sousa, nono donatário dessa capitania, faleceu a 14 de Março de 1745, sem geração. Passou a donataria ao marquês de Louriçal, que a vendeu à coroa. – Capistrano de Abreu, nota a Frei Vicente do Salvador, História do Brasil, 109, Rio, 1887. – (G.). 183 (10) Do armador-mor [aliás armeiro-mor] José da Costa e Sousa: pensão 64$000. – (A.). – A capitania do Recôncavo originou-se da sesmaria dada pelo segundo governador-geral D. Duarte da Costa, em Janeiro de 1557, a seu filho D. Álvaro, abrangendo da narra do Paraguaçu da parte do sul, até a barra do Jaguaripe, quatro léguas de costa, pouco mais ou menos, e para o sertão, pelo dito rio acima dez léguas. Essa sesmaria teve confirmação régia a 12 de Março de 1562; a 29 de Março de 1566 foi elevada a capitania, com a mesma extensão de costa, mas sendo a largura das dez léguas para o sertão a que houvesse entre os dois rios Jaguaripe e Paraguaçu. D. Álvaro da Costa faleceu por 1578, porque a 8 de Abril Pedro Carreiro concedeu uma sesmaria em seu nome e como seu procurador, e a 16 de Julho Cristóvão de Barros pediu outra a Sebastião Álvares, mas como procurador de D. Leonor de Sousa, sua viúva, e de seu filho menor D. Duarte da Costa. Este foi o segundo donatário; seguiram- se outros, sendo nono e último D. José da Costa, que faleceu sem sucessão a 10 de Março de 1766. Dele foi que passou a capitania para a coroa. – Conf. Capistrano de Abreu. op. cit., 107/108. – (G.). (11) Como a quinta [de Itamaracá]. – (A.). – Essa capitania tem origem na sesmaria dada em Abril de 1552 por Tomé de Sousa a D. Antônio de Ataíde, conde da Castanheira, confirmada pelo rei em 10 de Maio de 1556 e convertida em capitania, compreendendo as ilhas de Itaparica e Tamarandiva, a 10 de Novembro do mesmo ano. Por morte do conde, sucedeu-lhe seu filho, segundo conde da Castanheira; o terceiro donatário foi D. Manuel de Ataíde, seguindo-se outros condes da Castanheira, até o segundo marquês de Cascais, neto do terceiro conde da Castanheira, ao qual coube grande parte de sua casa, inclusive a capitania, que assim passou a ter os mesmos donatários que a de Itamaracá. – Conf. Capistrano de Abreu, op. cit., 106/107. – (G.). (12) Título de conde de Resende, e pensão de dois contos de réis. – (A.). – O oitavo e último donatário foi D. Antônio José de Castro, que vendeu a capitania à coroa, sendo em compensação criado conde de Resende, de juro e herdade, dispensado três vezes na Lei mental em 10 de Junho de 1754. Na mesma forma de juro e herdade, com a mesma dispensa na Lei mental, concedeu-lhe D. José I o ofício de almirante do Reino, e cinco mil cruzados de renda. – Conf. Capistrano de Abreu, op. cit., 106; Memórias Históricas, 2, 420/421, 2ª edição; secção XL desta História, nota 98. – (G.). 184 (13) Confiscada à casa de Aveiro, herdada pelos marqueses de Gouveia, em 1749, a poder de muita proteção de que dispunham na corte de D. João V. a Capitania, depois de ter saído duas vezes da casa de Aveiro para um filho segundo, entrara nela de novo (em 1637), pela herança do duque de Torres Novas. Depois uma sentença a adjudicou à coroa; porém, em 1724, foi adjudicada a D. Gabriel de Alencastro Ponde de Leon [duque de Banhos, D. Gabriel Pereira de Leon Lencastro]. – Veja as Alegações Jurídicas, do Dr. Francisco Velasco de Gouveia, Lisboa, 1637; Manuel Lopes de Oliveira, ibidem, 1666; Padre Bibiano Pinto da Silva, Ibidem, 1666; Miguel Lopes de Leão, Lisboa Ocidental, 1719, (em casa do conde de Unhão, em magnífico papel); e Sebastião Martinez de Cabezon, Madri, 1 vol. de 1223 págs. in-fol. – (A.). – Por morte do duque de Banhos, em 1745, foi seu sucessor por sentença de 1749, o marquês de Gouveia. A esse, executado a 13 de janeiro de 1759 como regicida, foi confiscada a capitania e definitivamente incorporada à coroa. – Conf. Capistrano de Abreu, op. cit., 105. – (G.). (14) Aos viscondes de Asseca, padrão de 1:600$000. – (A.). – Veja a nota IX da secção XL. – Conf. Alberto Lamego, A Terra Goitacá, 2, 455/457. – (G.). (15) Ao conde da Ilha do Príncipe, pelo título de Linhares [aliás Lumiares] e um padrão de 1:600$000 de juro. – (A.). – O undécimo donatário foi Carlos Carneiro de Sousa, quinto conde da Ilha do Príncipe, que vendeu a capitania a D. José I, obtendo em compensação, por decreto de 29 de Outubro de 1753, o título de conde de Lumiares, com diversos privilégios e favores, Capistrano de Abreu, op. cit., 101. – (G.). (16) Lei de 10 de Novembro de 1774 (Delgado, Coleção da Legislação Portuguesa, 2, 617/619). – O subsídio literário cobrava-se na carne e licores. Ainda em 1831 se orçava a sua renda em todo o império do Brasil em uns 157 contos. – (A.). (17) J. Lúcio de Azevedo, Novas Epanáforas, 23, Lisboa, 1932, encontra pouco fundamento histórico neste asserto do autor. – Conf. terceiro tomo desta História, p[ag. 200. – (G.). (18) Antônio José Landi, italiano, de Bolonha, nasceu em 1708. Era professor de arquitetura e perspectiva no Instituto de Ciências daquela cidade, quando passou a Portugal, contratado por D. João V, 185 como arquitecto. Nomeado para a comissão de limites organizados em execução do tratado de 1750, e designado para a divisão do Norte, embarcou em Lisboa a 2 de Junho e chegou ao Pará a 19 de Julho de 1753. Esteve em Barcelos como comissário principal Francisco Xavier de Mendonça Furtado. Encerrados os trabalhos de demarcação, voltou ao Pará em 1761, e aí casou com uma filha do sargento-mor de Sousa de Azevedo. Por patente de 6 de Maio de 1768 foi nomeado capitã o do segundo terço de infantaria auxiliar. Em Belém trabalhava em levantamento de plantas e construção de edifícios públicos e particulares (palácio do governo, igreja de Santa Ana, etc.), quando foi de novo mandado servir na comissão de limites, decorrente do tratado de 1777, servindo com João Pereira Caldas. Por ter sido atacado de paralisia em 1787, voltou a Belém, onde veio a falecer em 1790. – Conf. Manuel Barata, Apontamentos para as Efemérides Paraenses, 48/49, Rio, 1925. – (G.). (19) A Companhia Geral do Comé4rcio do Grão-Pará e Maranhão foi requerida em 1754 e confirmada pelo alvará de 7 de Junho do ano seguinte, Delgado, Coleção da Legislação Portuguesa, „, 376/391, 391/392. A concessão foi de vinte anos a contar da saída do primeiro navio do porto de Lisboa, o que se realizou a 26 de Abril de 1756. O alvará de 6 de Fevereiro de 1757 ampliou os privilégios da Companhia, Coleção citada, 1, 490/492. Foiextinta pela resolução régia de 25 de Fevereiro de 1778; mas a liqüidação das contas durou m uitos anos. A empresa poderia ter sido útil ao Maranhão; que não o foi ao Pará, demonstrou J. Lúcio do Azevedo, Estudos Paraenses, Pará, 1893. – (G.). (20) Notícias historicas praticas de los sucessos y adelantamientos (de esta Compañia), Madri, 1765. – (A.). (21) Gaioso [Raimundo Jose de Sousa], Compêndio Histórico- político [dos princípios da lavoura do Maranhão, etc., Paris, 1818], pág. XXI. – Baena, Compêndio das Eras, 294. – “A idade do ouro da lavoura desta província (Maranhão) data do estabelecimento da Companhia do Comércio”, etc. – Cruz Machado, Relatório [do Presidente da Província], de 1856, pág. 74. – (A.). (22) Por alvará de confirmação de 13 de Agosto de 1759, precedido do requerimento de sua instituição pelos homens de negócio 186 das praças de Lisboa, Porto e Pernambuco, em 30 de Julho do mesmo ano, Delgado, Coleção citada, 1, 695/713. – (G.). (23) Deste modo temos a idéia da esfera del -rei DS. Manuel adotada pela Companhia do Brasil em 1649, e a das estrelas para as províncias, muito antes dos Estados Unidos. – (A.). (24) Regimento de 16 de Fevereiro [aliás Janeiro] de 1751. – Decreto de 17 [aliás 27] do dito. – Delgado, Colecção, 1, 32/38, 38/40. – (A.). (25) Alvará de 29 de Abril e resolução de consulta de 12 de Maio de 1766, Delgado, Coleção, 2, 243/244 e 245. – (A.). (26) Regimento das casas de inspeção, de 1 de Abril de 1751, Delgado, Coleção, 1, 54/59. – (A.). (27) Veja o Regimento de 16 de Janeiro de 1751 e [alvará de 15 de Julho de 1775. – (A.). – Delgado, Coleção, 1, 32/38, e 3, 50/59. – (G.). (28) Sistema ou Coleção dos Regimentos Reais, 4, 84/91. – (A.). (29) Ibidem, 16/35. – (G.). (30) Alvará de 9 de Julho de 1764. – Delgado, Coleção, 2, 122/123. – (A.). (31) Veja a lei de 29 de Novembro de 1753. – Regimentos Reais, 4, 99/102. – (A.). – Delgado, Coleção, 1, 172/175. – Do Pará e Maranhão se exportava cacau, café, salsaparilha, cravo, algodão e couros. – Regimentos reais, citados, 101; Coleção, citada. 174. – (G.). (32) Acerca da exportação de 1760 a 1771, veja o mapa primeiro de Gaioso. – (A.). – Compêndio Histórico-político, citado, fls. 179. – (G.). (33) Por alvará de 8 de Outubro de 1766 foi prorrogado por mais dez anos o privilégio exclusivo que já tinha a fábrica de descascar arroz de que eram proprietários e diretores Manuel Luis Vieira e Domingos Lopes Loureiro, Delgado, Coleção citada, 2, 279/281. – (G.). 187 (34) Um bando do governador do Maranhão Joaquim de Melo e Póvoas cominava penas de multa, cadeia, calceta e surra (açoites), segundo a qualidade das pessoas, aos que continuassem na cultura do arroz vermelho da terra, em vez do arroz branco da Carolina, único permitido, J. Francisco Lisboa, Obras, 3, 433. – Conf. Memória sobre a Introdução do arroz branco no Estado do Grão-Pará, in Revista do Instituto Histórico, 48, parte 1ª 79/84, e Manuel Barata, A antiga produção e exportação do Pará, 13, Pará, 1915. – (G.). (35) Alvará de 10 de Dezembro de 1770. – (A.). – Delgado, Coleção, citada, 2, 519/520. – Concedia-se à Real Fábrica das Sedas o privilégio exclusivo do comércio da resina chamada jutaicica, ou seja, goma-copal, que por diligência dos diretores da mesma fábrica havia sido descoberta nos domínios da América Portuguesa. – (G.). (36) Accioli [Memórias Históricas] 1, 187. – (A.). – Segunda edição, 2, 179/181. – (G.). (37) Delgado, Coleção, citada, 1, 119/120. – (G.). (38) Ibidem, 482/483. – (G.). (39) Joaquim de Melo e Póvoas tomou posse do novo governo a 29 de Julho de 1775, Revista do Instituto Histórico , XVI, pág; 388. Residiu por algum tempo em Oeiras. De seu governo escreveu frei Francisco de Nossa Senhora dos Prazeres, Poranbuba Maranhense, in Revista citada, LIV, parte 1ª, págs. 107/108: - “Ainda hoje se suspira por este verdadeiro criador da capitania; elle só cuidava em augmenta -la, promovendo a lavoura e o commercio. Não faltando ás obrigações de seu governo, edificava os povos frequentando os templos, pois para tudo temos tempo, quando temos vontade. Porém ainda que era tão religioso, não faltava á justiça; e por isso para castigar os assassinos passou ao certão; fez seu quartel general na vila Moxa (hoje cidade de Oeiras) e dali os castigou, já com penas ultima (mandando matar os que não queriam entregar-se), já com degredo ou galés; de sorte que foi o terror do certão. Fundou algumas povoações, pondo-lhes nomes portugueses, segundo a ordem que para isso teve. Mandou fazer o palacio dos governadores, que hoje existe, e deu outras providencias, que adiante se verão. Finalmente, o estado de opulencia, em que se acha hoje o maranhão, deve -se a Melo e 188 Póvoas e á Companhia Geral do Commercio”. – Conf. F. A. Pereira da Costa, Cronologia Histórica do Estado do Piauí , pág. 94, Pernambuco, 1909. – (G.). (40) Reproduzida pelo Dr. César Augusto marques, Dicionário Histórico e Geográfico da Província do maranhão , págs. 276/278, 2ª edição. – (A.). (41) Alvará de 10 de Setembro de 1765. – (A.). – Abolindo as frotas e esquadras para o Brasil, e declarando livre a navegação, Delgado, Coleção, citada, 2, 221/222. – (G.). (42) Ibidem, 251/252. – (G.). (43) Veja o Relatório da província do Maranhão desse ano pelo Sr. Cruz Machado, pág. 42. – (A.). (44) Ibidem, pág. 47. – (A.). (45) Uns por Miguel Manescal e Miguel Rodrigues, e outros por Antônio Pedroso Galrão, Pedro Ferreira e Francisco L. Ameno. – (A.). (46) Da Gazeta de Lisboa, de 8 de Novembro de 1753: “Foi Sua Magestade Fidelissima servida de nomear por seu Real Decreto assinado em Bellem a 18 do mez de Outubro passado, do Dezembargador Ignacio Barbosa Machado chronista de Ultramar para fazer uma Collecçam de todas as Leys, Regimentos, Resoluçõens que se tem expedido para a administração da justiça nos seus Dominios Ultramarinos”. – (G.). (47) Conf. do A. Sucinta indicação de alguns manuscritos importantes, respectivos ao Brasil e a Portugal, existentes no Museu Britânico, e não compreendidos no Catálogo – Figanière, etc., pág. 8, Habana, 1863. – (G.). (48) De 12 de Dezembro de 1770. – (A.). – Delgado, Coleção citada, 2, 521/522. – (G.). (49) Veja O Estabelecimento de Mazagão do Grão-Pará, com a relação completa das famílias transportadas da praça africana para a que 189 ia ser fundada, que publicou quem escreve esta linha na Regista do Instituto Histórico, 84, 609/695. – (G.). (50) Cartas régias de 29 de Julho de 1758 e 19 de Junho de 1761. – (A.). – Antes da primeira dessas cartas régias já tinham sido erectas em vila, pelo governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado: Borba, antiga aldeia do Trocano do Rio madeira, em 1 de Janeiro de 1756, Baena, Compêndio das Eras, 244; Oeiras, antiga aldeia de Araticu, em 20 de Janeiro de 1758; e Santarém, antiga aldeia de Tapajós, em 14 de Março do mesmo ano, Correspondência do Governador do Grão-Pará, 1752-1777, no Instituto Histórico. – Seguiram-se Alenquer, Óbidos, Almeirim, Pombal, Faro, etc. – (G.) (51) Da Gazeta de Lisboa, de 7 de Março de 1754: “Os Povos das Províncias do Rio de Janeiro, e Minas Geraes, considerando as grandes despesas de dinheiro, e tempo, que lhes custava encaminhar as suas appellaçõens judiciaes ao Tribunal da Relaçam desta Corte, pediram ao Rey nosso Senhor, quizesse servir-se de mandar estabelecer outro na cidade de S. Sebastiam, offerecendo-se logo a fazerema despesa á sua custa; porém Sua Magestade Fidelissima atendendo ás suas representaçõens nam só lhes concedeu o estabelecimento do Tribunal que deprecavam, mas com a sua incomparavel magnanimidade ordenou, que toda a despesa se fizesse por conta da sua Real fazenda. Com efeito nomeou Sua Magestade os Ministros de que elle se devia compôr, que chegaram á Cidade de S. Sebastiam em 16 de Junho de 1752, e principiárão o seu despacho em 15 de Julho seguinte, e o continuárão com geral aplauso dos mesmos Povos, que ficárão summamente satisfeitos de haver Sua Magestade escolhido para Chanceler, e Governador Delle a Joam Pacheco Pereira de Vasconcelos, pela fama que havia da grande rectidam, e desinteresse com que administrou as justiças, e reformou os salarios, sendo Ouvidor das Minas. Festejou-se esta mercê de sua Magestade logo no dia seguinte ao primeiro despacho: houve Missa e Sermam na Igreja do Convento do Carmo, e se cantou no fim delle o Te Deum laudamus. Houve tres noytes de luminárias, e festas publicas de Touros, e Cavalhadas; publicando todos esta grande mercê que Sua Magestade fez áquelles seus vassalos lhe fôra positivamente inspirada por Deos”. – Gomes Freire de Andrada, em carta datada da Colônia do Saramento, 10 de Fevereiro de 1753, para o secretário de Estado da Marinha e Ultramar. Diogo de Mendonça Corte-Real, diz haver dado cumprimento ao decreto do rei para que na cidade de São Sebastião se 190 erigisse um Relação, e que o governador daquela capitania fosse o regedor, para evitar o prejuízo que em seus litígios tinham os moradores dela acudir à Relação da Bahia, pela muita distância. Pedia que lhe declarasse como devia nomear-se quanto assistisse a despachar naquele Tribunal. – Anais da Biblioteca Nacional, LII (Documentos sobre o Tratado de 1750, II) págs. 178/179. – (G.). (52) 8 [aliás 3] de Julho de 1734. – (A.). – Veja a nota 88 da secção XL, desta História. – (G.). (53) Veja o Regimento de 13 de Outubro de 1751, Sistema ou Coleção dos Regimentos Reais, 4, 484/502. – (A.). – Reproduzido por C. Mendes de Almeida, Auxiliar Jurídico, 19/27, Rio, 1869. – (G.). (54) Existe dele cópia na Biblioteca Pública de Évora [Catálogo dos Manuscritos da Biblioteca Pública Eborense, 1, 148/159, de J. H. da Cunha Rivara]. – (A.). (55) Um desses ministros foi o desembargador João Luís Cardoso Pinheiro, de quem tratou a Gazeta de Lisboa, de 15 de Outubro de 1753: - “Com o ultimo aviso chegado da Bahia de Todos os Santos, se recebeu a noticia, de que havendo S. Magestade provido na propriedade da vara de Ouvidor geral, com vezes de Corregedor do Crime da Côrte da Relaçam da Cidade do Salvador, ao Dezembargador Joam Cardoso Pinheiro, que nella servira o lugar de Decano de agravos, e de Procurador da Corôa, e Fazenda Real, foi tal o contentamento daquelles moradores, que fizeram armar magnifica, e custosamente toda a Caza da mesma Relaçam, e a sua escada, até a rua no dia em que tomou posse deste novo lugar; alcatifandolhe de flores todo o caminho desde a Caza da moeda, donde sahiu; e de noyte o obsequio de o divertirem com hum concerto de Musica, e hum outeiro de primorozas Poezias. Este Ministro tinha servido dous annos o cargo de Provedor mór da fazenda Real, o de Conservador dos moedeiros, e o de Superintendente dos Tabacos, antes de se erigir a nova Caza da Inspecçam, e em todos grangeou pelo seu procedimento estes referidos obsequios”. – (G.). (56) O distrito da Relação era todo o território que ficava ao sul do Estado do Brasil, em que se compreendiam treze comarcas, a saber: Rio de Janeiro, São Paulo, Ouro Preto, Rio das Mortes, Sabará, Rio das Velhas, Serro do Frio, Goiases, Paranaguá, Espírito Santo, Itacases 191 (Campos dos Goitacases), e ilha de Santa Catarina, incluindo todas as judicaturas, ouvidorias e capitanias, que existissem ou que de novo se criassem no âmbito do mesmo distrito, inteiramente separado do distrito e jurisdição da Relação da Bahia. – (G.). (57) AO estabelecimentod a Relação se associou a publicação de três alvarás, fixando os salários, assinaturas e mais próis e percalços dos desembargadores e dos ouvidores e juízes, os quais ainda ultimamente estavam (ao menos em parte) em vigor. – (A.). (58) Gazeta de Lisboa, de 27 de Março [de 1755]. – Aí se lê: - “Na nau de guerra ultimament4e chegada do Rio de Janeiro, voltou ao Reyno Joam Pacheco Pereira de Vasconcellos, Fidalgo da Casa Real, e do Conselho de Sua Magestade Fidelissima, por cuja ordem tinha ido criar com o título de Chanceler mór o novo Tribunal da Relaçam, que foi servido mandar estabelecer naquella Província. Logo depois de desembarcado teve a honra de beijar a mão de Suas Magestades, e Altezas, e no dia seguinte recebeu por hum Decreto de Sua Magestade a mercê de o mandar exercitar no Tribunal do Desembargo do Paço o lugar de que já tinha tomado posse antes de sua partida, atendendo a grande rectidam com que no discurso de 40 annos tem servido vários lugares de letras”. – A nau de guerra Nossa Senhora da Natividade , do comando do capitão de mar e guerra Gonçalo Xavier de Barros e Alvim, entrou no porto de Lisboa com noventa e seis dias de viagem pouco antes de 20 de Março, Gazeta de Lisboa desta data. – (G.). (59) Delgado, Coleção citada, 2, 141/142. – (G.). (60) Pelas cartas régias de 28 de Agosto e 20 de Outubro de 1758 e 18 de Junho de 1761, J. Francisco Lisboa, Obras, 3, 370/371. – (G.). (61) Delgado, Coleção citada, 1, 811/812, e 2, 639/640. – (G.). (61) Da Gazeta de Lisboa, de 21 de Agosto de 1755: - “Considerando S. Mag. Fidelissima quanto convém, que os seus reaes dominios da America se povôem, e que para este fim pode concorrer muito a communicação com os Índios por meyo de casamentos, foi servido declarar, que os seus vassalos assim os nacidos neste Reyno, como na America, nam ficam com infamia alguma, antes de faram dignos da sua real atençam, e nas terras em que se estabelecerem seram preferids 192 para os lugares e ocupaçõens que couberem na graduaçam das suas pessôas; e que seus filhos e descendentes seram habeis, e capazes p ara qualquer emprego, honra, e dignidade, sem carecerem de dispensa alguma por estas alianças, em que se comprehenderám as que já se acharem feitas antes desta sua declaraçam, e que o mesmo se praticará a respeito das Portuguezas que casarem com Índios; impondo às pessôas de qualquer qualidade que sejam, que os tratarem com o nome de Cabowclos (sic), ou outro semelhante, injurioso, a pena de sahirem desterrados da comarca em que viverem, dentro de hum mez até mercê de Sua Mag., o que recommenda aos Ouvidores das Comarcas, e manda ao Vice Rey do Brasil, aos mais governadores do mesmo Estado, e do Maranham, e Pará, que assim façam cumprir, por Alvará de Ley assinado pela sua Real mão, publicado e registrado na Chancelaria mór do Reyno”. – Veja Delgado, Coleção citada, 1, 271/272. – Por portaria de 6 de Agosto de 1771, o vice - rei do Estado do Brasil mandou dar baixa de capitão -mor a um indio, porque, sem atenção às distintas mercês com que pelo alvará acima citado el-rei os havia honrado, se mostrara de tão baixos sentimentos que casou com uma preta, manchando o seu sangue com essa aliança e tornando -se assim indigno de exercer o referido posto, J. Francisco Lisboa, Obras, 3, 384. – (G.). (63) De 6 de Junho de 1755 e 17 de Agosto de 1758. – (A.). – Delgado, Coleção citada, 1, 369/376 e 634/635. – (G.). (64) Abolido pela carta régia de 12 de Maio de 1798. – (A.). – Por proposta do governador do Pará D. Francisco Maurício de SousaCoutinho. – (G.). (65) Intitula-se essa exposição: Meios de dirigir o governo temporal dos Índios, e foi impressa por Melo Morais, Corografia histórica, 4, 122/185. Foi escrita no reino: não traz data, mas de seu contexto pode inferir-se que é de 1788. – (G.). (66) A respeito das perseguições desses imigrantes em toda a Europa pode consultar-se a obra Origine e Vicende dei Zingari, impressa em Milão, 1841; a parte que respeita a Portugal é, porém, omissa. Quanto respeita à Espanha se encontra mais extensamente tratado na Historia de los Gitanos, impressa em Barcelona, 1832. – (A.). – Veja Arquivo do Distrito Federal, 3, 138/144, 191/196, erudito artigo de Adolfo Coelho. – Dos ciganos do Brasil dizem os governadores interinos Gonçalo Xavier de 193 Brito e Alvim e José Carvalho de Andrade, em carta datada da Bahia, em 5 de Outubro de 1761, para o conde de Oeiras: - “Os ciganos vêm vindo bastantes a querer tomar vida regulada, porque por todas as partes so prendião, pelas ordens que para isso se passárão para todas as Capitanias, dirigidas aos Capitães móres, ouvidores, juízes de fóra e ordinarios. Os casados entregão os filhos solteiros aos oficiaes mecanicos se são de idade competente, e os adultos alguns assentárão graça, mas muito raros, por não aparecerem, ou porque esta gente casa logo nestas terras de mui pouca idade. Os mais vão arrendando terras, occupando-se com suas mulheres em lavoiras, e em abrir terras de novo; deixando totalmente o illicito commercio, e o modo libertino, que tinhão de vida...” – Anais da Biblioteca Nacional, 31, 482. – (G.). (67) Extinguia definitivamente a separação de cristãos-velhos e cristãos-novos, e declarava estes últimos aptos para quaisquer postos e honras, como os demais portugueses; proibia que se usasse em público ou particular a designação depreciativa, em referência às pessoas de origem hebraica: pena de açoite e degredo aos contraventores sendo peões; perda de empregos ou pensões, quando nobres; extermínio do reino, se fossem eclesiásticos. – Conf. Delgado, Coleção citada, 2, 672/678. – Outra lei, de 15 de Dezembro de 1774, ibidem, 849/852, veio ampliar a precedente com a abolição da infâmia, até aí atribuída aos que prevaricavam na fé; por essa disposição, os apóstatas que, confessando o delito, eram recon - ciliados no Santo Ofício, não ficavam com mácula nem inábeis para as dignidades e ofícios, e muito menos seus descendentes. A infâmia abrangia somente os condenados à morte, impenitentes, sobre os quais unicamente recaía a pena de confiscação. – Conf. J. Lucio de Azevedo, História dos Cristãos Novos Portugueses, 351/352, Lisboa, 1922. – (G.). (68) Ibidem, 352/253. – (G.). (69) Impresso em Lisboa, na Oficina Régia, em 1781, págs 30/33. – (A.). – Elogio fúnebre pronunciado na Bahia por ocasião das exéquias de D. José I, é o título desse sermão. – (G.). (70) D. Francisco de Assunção e Brito, natural de Mariana, Minas Gerais; nomeado, não tomou posse do bispado; e D. Tomás da Encarnação Costa e Lima, natural da Bahia. – (G.). 194 (71) D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco, natural do Rio de Janeiro. – (G.). (72) D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho, também natural do Rio de Janeiro. – (G.). (73) Memórias [Recordaçoens] de Jácome Ratton, impressas em Londres, em 1813 – (A.). – Págs. 185/187. – (G.). (74) Conf. Lúcio de Azevedo, O Marquês de Pombal e a sua época, 152/154, 2ª ed. – (G.). (75) Ibidem, 378/379. – (G.). (76) Em poder, diz-se, de S. M. El-rei D. Luís. – (A.). – O original do processo dos Távoras acha-se na secção histórica do Arquivo nacional do Rio de Janeiro. Fazia parte de uma coleção de documentos encontrada nos palácios do imperador D. Pedro II, quando foi proclamada a república, e deu entrada no Arquivo em 1891. Compõe-se de seis grossos volumes: I – Processo; II – Idem; - III – Inquirição de testemunhas (Inquirição ad perpetuam rei memoriam , facultada pela Rainha, nossa Senhora, ao Marquez de Alorna, como procurador da Marqueza sua mulher e filhos); IV – Manifesto da Innocencia dos Tavoras e Ataídes, e resposta á obrepção e sobrepção com que se embargou o progresso da Revista concedida nos autos, e sentença em que foram condemnados. – Lisboa: Anno de 1787; V – Segunda parte; VI – Continuação desta. – Parte do processo dos Távoras foi impressa nas Publicações da Biblioteca Nacional de Lisboa, por Pedro A. de Azevedo, Lisboa, 1921, 1 vol. in-4º, de 34, 226 págs.; sendo aquelas não numeradas. – (G.). (77) Justificação de Pombal, Museu Britânico, Ms. Adicionais, 15.593-15.596, tomo 3º, fls. 860/900. – O fato das revelações feitas pela jovem Távora é contado em um bilhete do secretário da Legação de Espanha Lardizabal, que vimos na Biblioteca de Fernan-Nuñez, em Madri. Passados meses o ministério francês fazia a tal respeito muitas e significativas perguntas ao seu cônsul Saint -Julien, às quais ele não soube responder. – Santarém [Quadro Elementar], 6, 168/169. – (A.). – Conf. J. Lúcio de Azevedo, O Marquês de Pombal, citado, 174/189. – (G.). 195 (78) Só a Pernambuco (ofício do governador de 2 de Maio de 1756) foram impostos 900 mil cruzados, em todas as fazendas que pagavam dízimas, com a condição de que cessariam estes apenas se prefizesse essa quantia. – A Paraíba prestou-se a dar 100 mil cruzados dentro dos seis anos primeiros, e aproveitou a ocasião para pedir o ficar independente de Pernambuco. – (G.). (79) Findos os trinta anos o tributo seguiu igual, até depois da independência, e figurava ainda na receita em 1831, com uma verba de 56:500$000. – Segundo Bougainville, no Rio, realizou-se esse donativo, cobrando-se na alfândega mais 2 1/2% além da décima ordinária. – (A.). – Conf. Voyage autour du Monde, 1, 108, Neucharel, 1772. – (G.). (80) Veja o ofício do vice-rei conde dos Arcos para Diogo de Mendonça Corte-Real, de 14 de Maio de 1756, que se refere à carta de 16 de Dezembro do ano anterior, Anais da Biblioteca Nacional, 31, 140/142. – (G.). (81) Cormenin. – (A.). – Louis-Marie Lahaye, visconde de Cormenin (1788-1868), escritor, parlamentar e jurisconsulto francês, notável pelos seus panfletos políticos, em que se assinava Timon. – (G.). (82) A carta régia, ordenando que partisse para a Bahia o conselheiro do Conselho Ultramarino Antônio de Azevedo Coutinho, escrita de Belém na data acima, vem em ementa dos Anais da Biblioteca Nacional, 31, 274. Na mesma data comunicava a Azevedo Coutinho o ministro de Ultramar as instruções acerca da comissão que ia desempenhar na Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais, ibidem. Uma carta particular do conselheiro para Filipte José da Gama, datada de Braço de Prata, 23 de Abril de 1758, participava-lhe que sua mulher se chamava D. Marcelina Perpétua de França Córdoba e Faro, ibidem, 275. Em 13 de Setembro do mesmo ano já devia estar na Bahia o conselheiro, como se infere do ofício daquela data do vice-rei conde dos Arcos para o ministro Tomé Joaquim da Costa Corte-Real, em que lhe dizia ficar ciente da ordem régia que lhe mandava prestar todo o auxilio e cooperação ao conselheiro Antônio de Azevedo Coutinho, na comissão que viera desempenhar no Brasil, ibidem, 289. – (G.). (83) Ofício de Martinho de Melo [e Castro], de 24 de Novembro de 1774, Revista do Instituto Histórico, 31, parte 1ª, 325/329. – (A.). 196 (84) Conf. nota 127 secção XL desta História. – (G.). (85) Fr. Antônio de Santa Úrsula Rodovalho, Oração fúnebre [à memória do Ilustríssimo e excelentíssimo Marquêsde Lavradio, recitada na Catedral do Rio de Janeiro, nas exéquias, que lhe consagraram os Cidadãos da mesma Cidade]. Lisboa, Tip. Nunesiana, 1791, in-4º - (A.). – Pág. 18. – (G.). (86) Alusão evidente ao vice-rei conde de Resende. – (A.). (87) Relatório do marquês de Lavradio, vice-rei do Rio de Janeiro, entregando o governo a Luís de Vasconcelos e Sousa, que o sucedeu no vice-reinado, Revista do Instituto Histórico, 4, 422/423. – (G.). (88) A prevaricações do conde de São Miguel, como governador e capitão-general da capitania de Goiás, refere-se a instrução dada a José de Almeida e Vasconcelos por Martinho de Melo e Castro, em 1 de Outubro de 1771, Goiás – Documentos vários – 1743 a 1786, n. 31, na Biblioteca Nacional. O conde, ao assumir o governo da capitania, encontrou -a em grande desordem, a fazenda real padecendo enormes prejuízos, os índios das aldeias desertando, a religião aniquilando-se; de tudo deu repetidas e documentadas provas ao rei e ao Conselho Ultramarino, sem qualquer solução durante mais de dois anos e meio. A carta ao rei, datada de Vila Boa, 25 de Abril de 1758, em que alude a tais desconcertos, Revista do Instituto Histórico, 84, 51/59, parece inocentá-lo das acusações de prevaricador, que vieram depois a recair sobre ele. – (G.). (89) Nascera a 5 de Dezembro de 1743. – (A.). (90) Sobre Valadares e seu procedimento com o arrematador João Fernandes de Oliveira, veja J. Felício dos Santos, Memórias do Distrito Diamantino, 148/151, Rio, 1868. – (G.). (91) O fato narrado pelo A. é contestado com bons fundamentos por J. Lúcio de Azevedo, O Marquês de Pombal e a Sua Época, 357/358, nota da 2ª edição. O conde de Valadares governou Minas Gerais de 1768 a 1773; saiu de Lisboa a 4 de Fevereiro do primeiro daqueles anos, em uma nau que trazia mais três governadores para outros distritos do Brasil. A 31 197 de Agosto escrevia de Vila Rica ao cardeal Paulo da Cunha, dando parte da chegada à sede de seu governo. Não podia, portanto, dar dinheiro a Pombal em 12 de Março, quando estava em viagem. Só regressou cinco anos depois. Tudo isso, pondera J. Lúcio de Azevedo, inquina de falsidade o documento divulgado na desordenada compilação das Cartas e Outras Obras Seletas do Marquês de Pombal , em que alguns mais são apócrifos. – (G). (92) Sobre os trajes do tempo, veja J. Felício dos Santos, Memórias citadas, 77/79. – (G.). (93) D. Tomás da Encarnação da Costa e Lima, 10º bispo de Olinda. Sua História Ecclesiae Lusitanae foi impressa em Coimbra, 1759, 4 tomos, in-4º. – (G.). (94) Escreveu: Orbe Seráfico Novo Brasílico , etc., primeira parte, Lisboa, 1761; Novo Orbe Seráfico Brasílico, Rio de Janeiro, 1858-1861, 3 vols., in-4º, compreendendo a parte já impressa e a que se conserva inédita no Convento de São Francisco da Bahia, reimpressão feita por ordem do Instituto Histórico. Escreveu mais: Catálogo genealógico das principais Famílias, que procederam de Albuquerque, e Cavalcantes de Pernambuco, e Caramurus da Bahia, publicado na Revista do Instituto Histórico, 52, parte 1ª. – Foi membro da Academia Brasília dos Renascidos. – (G.). (95) Feliciano Joaquim de Sousa Nunes chamava-se, e sua obra – Discursos Políticos-Morais, comprovados com vasta erudição das Divinas, e humanas Letras, a fim de desterrar do mundo os vícios mais inveterados, e dissimulados, etc. A obra, de que saiu à luz apenas o primeiro tomo. Lisboa, na Oficina de Miguel Manescal da Costa, 1758, era dedicada a Sebastião José de Carvalho e Melo. A oferenda não foi bem recebida pelo ministro, que repreendeu o autor por lhe haver dedicado o livro sem sua prévia licença, e fossem queimados todos os exemplares. Desses salvaram-se três apenas, dois que estão na Biblioteca Nacional, e o terceiro que pertence ao grande poeta Alberto de Oliveira. Com erudito prefácio desse acadêmico, a Academia Brasileira de Letras reeditou os Discursos Político-Morais, Rio, 1931. Sousa Nunes nasceu nesta cidade, cerca de 1734 e faleceu talvez em 1808. Dele conhecem-se ainda os seguintes escritos: - Demonstração do maior jubilo que no fausto dia 12 de Março de 1769, em que se celebrárão os felicissimos annos do 198 Ilmo, e Exmo. Senhor Conde de Azambuja sendo Vice-rei e Capitão General de Mar e Terra do Estado do Brasil, expoz e offereceu, etc. – Lisboa, na Oficina de Manuel Rodrigues, 1771, in -8º de 19 págs. – Venturosos annuncios na chegada do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Lavradio... á Cidade do Rio de Janeiro, por Vice-rei e Capitão Geral de Mar e Terra do Estado do Brasil, expostos, e offerecidos por, etc. – Lisboa, 1771, in-8º de 29 págs. – Oração no fausto dia em que celebrava annos a Ilma, e exma. Marqueza de Lavradio, exposta ao Ilmo. e Exmo. Marquez do mesmo título, Vice -rei, etc. – Lisboa, 1771, in-8º de 15 págs. – Este último folheto é absolutamente raro, desconhecido dos bibliógrafos, como Inocêncio, Sacramento Blake e J. Carlos Rodrigues. – (G.). (96) Viagem e visita do sertão em o Bispado do Grão-Pará em 1762 e 1767, escrita pelo bispo D. Frei João de São José [Queirós], Revista do Instituto Histórico, 9, 43/107, 179/227, 328/375 e 476/548, da 2ª ed. – As Memórias do mesmo bispo foram publicadas, com introdução e notas, por Camilo Castelo Branco, Porto, 1868. – (G.). (97) Roteiro da Viagem da Cidade do Pará athé as ultimas Colonias dos Dominios Portuguezes em os rios Amazonas e Negro. Illustrado com algumas Notícias que podem interessar á curiosidade dos Navegantes e dar mais claro conhecimento das duas Capitanias do Pará, e de São José do Rio Negro. – Publicado pela primeira, sem nome do autor, por diligência de Filipe Alberto Patroni martins Maciel Parente, no Jornal de Coimbra, n. LXXXVII, parte 1ª, pela segunda vez, na Coleção de Notícias para a História e Geografia das Nações Ultramarinas , tomo VI, n. I; e por último, em separado, no Pará, Tipografia de Santos & Irmãos, 1862, in-4º. – Na Revista do Instituto Histórico, 67, parte 1ª, 281/289, saiu impressa parte do Roteiro, sem declaração de autor. – (G.). (98) Diario da Viagem que em visita, e correição das povoações da Capitania de S. José do Rio Negro fez o Ouvidor e Intendente Geral da mesma Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio no anno de 1774 e 1775 ; etc. – Lisboa: na Tipografia da Academia, 1825. – Publicado pela Academia Real das Ciências de Lisboa. – Na Coleção das Notícias para a História e Geografia das Nações Ultramarinas , tomo VI, n. II, Lisboa, 1856, saiu o Apendice ao Diario da Viagem, do Ouvidor-Geral Ribeiro de Sampaio. – Joaquim Nabuco, Question de limites soumise á l‟arbitrage de S. M. le Roi d‟Italie par le Brésil et la Grande Bretagne , Annexes du 199 Prémier Memoire, vol. IV, págs. 3/98, reproduz em versão francesa o Diário e o Apêndice. – Na Revista do Instituto Histórico, 1,109/122 (2ª ed.) vem um extrato do Diário, parágrafo CVIII a CXLVII, na parte em que refuta a opinião de La Condamine sobre os limites das colônias portuguesas no rio Amazonas. – De Ribeiro de Sampaio é também a Relação Geográfica e Histórica do Rio Branco da América Portuguesa, reproduzida em francês por Joaquim Nabuco, op. cit., 1/55, com outra numeração de páginas. – (G.). (99) Há engano. João da Silva Santos, capitão -mor de Porto Seguro, viajou pelo Rio Grande de Belmonte, ou Jequitinhonha, em princípios do século XIX, no governo de Francisco da Cunha Menezes. Da sua Descripção diaria do Rio Grande de Belmonte desde o Porto grande desta Villa [Porto Seguro] até o fim delle, ou divisão de Villa- Rica...