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Acadêmica: Letícia Feijó Turno: Matutino Mediação de Conflitos Aula – 1 Acesso à justiça O acesso à justiça é direito fundamental do ser humano, reconhecido pelas declarações de Direitos Humanos, como a Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica) e a Convenção Europeia de Direitos Humanos. É direito fundamental não apenas o simples acesso ao Poder Judiciário, mas também, e principalmente, a tutela jurisdicional efetiva, rápida e sem demoras indevidas. Isto significa dizer que o Estado deve ser considerado responsável pelos prejuízos que causa quando não presta a eficiente tutela jurisdicional, ou seja, quando não respeita, por omissão, o direito humano fundamental de real acesso à justiça. O aumento da demanda de processos no Judiciário foi fruto de uma ampliação dos direitos dos cidadãos, entre eles, o direito do acesso à justiça do período após a Constituição de 1988. O que percebemos, na atualidade, é que os limites do Judiciário, que eram organizados buscando uma precisão, estão com seu alcance diminuído. A expansão da informática, dos meios de comunicação e dos transportes vão estabelecendo múltiplas redes de relacionamento. O formalismo demanda tempo para a solução dos litígios, e o tempo é inimigo da efetividade da função pacificadora. O Judiciário foi estruturado para atuar sob a orientação de Códigos, cujos prazos e procedimentos tornaram-se incompatíveis com as várias lógicas, processos decisórios, ritmos e tempos, presentes em nosso mundo globalizado. Estamos no tempo da simultaneidade, com um Judiciário ainda sem meios materiais e técnicos para acompanhar esse contexto cada vez mais complexo. A garantia ao acesso à justiça deve ser entendida, então, como uma garantia que vai além do simples ingresso no Poder Judiciário. Nesse contexto, tendem a se desenvolver outros procedimentos jurisdicionais como a negociação, a conciliação, a mediação e a arbitragem, como formas alternativas para alcançar a informalidade, a celeridade e a praticidade. Mecanismos alternativos de resolução de conflitos É de fato, uma realidade, que devemos recorrer, só em casos indispensáveis, aos tribunais para resolver nossas controvérsias. Não apenas pela demora, pela falta de eficiência, mas, sobretudo para alcançar outros objetivos. É necessário modernizar a prestação jurisdicional, adequando-a a nossa realidade. Isto quer dizer, torná-la mais democrática, mais justa, mais humana. E para isso devemos mudar nossas mentalidades em relação aos conflitos entre nós mesmos e a maneira de solucioná-los. Aceitar a possibilidade de, através da utilização de métodos alternativos e pacíficos de resolução desses conflitos, conciliarmos nossos interesses e alcançarmos a paz tão desejada. É, sem dúvida, resolvendo nossas controvérsias pacificamente, conciliando nossos interesses e conquistando a paz, que teremos a certeza de sempre estarmos alcançando a verdadeira justiça. Vamos então ver os principais métodos já citados quando vimos o Acesso à justiça. Você, possivelmente, já participou de uma negociação no decorrer de sua vida. Concorda que a negociação é o caminho natural nas relações humanas para a resolução de conflitos? Com frequência, em nossas vidas, temos de negociar algumas questões, Tais situações tornaram-se tão comuns que, algumas vezes, não percebem que estamos diante de uma negociação. Em vários momentos, sejam eles no convívio social e familiar, em uma loja, na Universidade, no trânsito ou no trabalho, estamos vivenciando com contínuas propostas e contrapropostas. Definição A negociação pode ser definida como uma relação que duas ou mais pessoas estabelecem a respeito de um assunto, visando encontrar posições comuns e chegar a um acordo que seja vantajoso para todos. Dinâmica A negociação inicia-se quando há diferença de posições entra as partes. No entanto, ela só existe se houver interesse das partes em tentar chegar a um acordo. Dessa forma, respeitar o outro é uma norma que existe em qualquer negociação. As partes É preciso ficar claro que as pessoas não são consideradas inimigas em uma negociação. Muito pelo contrário, são vistas como colaboradores, trabalhando para eliminar as diferenças existentes e chegar a um acordo aceitável por todos. Quando negociamos, enfrentamos os problemas e não as pessoas. Meta de negociação Buscar um acordo que satisfaça as necessidades de todos os envolvidos. Deve-se tentar chegar a uma solução equitativa que inclua os pontos de vista e interesses de todos os envolvidos Assim, todos os envolvidos considerarão o acordo como algo construído por todos, e não como uma solução imposta. Enfim, todos sairão satisfeitos de uma negociação, com a intenção de cumprir o que foi combinado e como interesse de manter essa relação que teve um resultado tão vantajoso para ambos. Conciliação Conciliar, se olharmos os dicionários, significa harmonizar-se, alcançar pacificação. A tentativa de conciliação prevê, portanto, a expressão maior do pacto social entre as partes. Conceito Conciliação é uma forma de resolução de controvérsias na relação de interesses administrada por um Conciliador (investido de autoridade ou indicado pelas partes), a quem compete: aproximar as partes, controlar as negociações, aparar as arestas, sugerir e formular propostas, apontar vantagens e desvantagens. O objetivo do conciliador é sempre o de estabelecer uma composição do litígio pelas partes. O Conciliador A participação ativa do conciliador, como instrumento e garantia de possibilidade de acordo, a renovação da proposta pelo juízo e o bom senso das partes e dos advogados são questões fundamentais. Empenho e técnica, assim como o tratamento respeitoso, farão com que as partes, diante da resposta rápida e eficiente através da conciliação, sejam vistas como o próprio fim da prestação jurisdicional. Características da Conciliação A conciliação tem suas próprias características. Além da administração do conflito por um terceiro imparcial, esse conciliador tem a prerrogativa de poder sugerir um possível acordo, após avaliar as vantagens e desvantagens que tal proposta acarretaria para as pessoas. Amparo legal Em resposta aos anseios sociais e em atendimento ao mandamento constitucional, contido no artigo 98 da Constituição da República Federativa do Brasil (1988), o Legislativo editou e aprovou a Lei 9.099/95. Os Juizados Cíveis e Criminais, de que trata essa lei, são órgãos da Justiça criados para conciliação, processo, julgamento e execução, nas causas de sua competência, disciplinadas por essa lei. O processo, nesses Juizados, orientar-se-á pelos critérios da oralidade, simplicidade, informalidade, economia processual e celeridade. Juizados e Justiça do Trabalho O Juizado Especial Cível (JEC) tem competência para a conciliação, processo e julgamento de causas cíveis de menor complexidade. O Juizado Especial Criminal (JECRIM) também tem competência para a conciliação, julgamento e execução de infrações penais de menor potencial ofensivo, tais como as contravenções penais e os crimes que a lei comine pena máxima não superior a dois anos, cumulada ou não com multa, excetuando os casos em que a lei prevê legislação especial. ATENÇÃO: A conciliação é também consagrada na Justiça do Trabalho para prestigiar o espaço de autonomia das vontades individuais, buscando uma solução negociada de conflitos entre patrão e empregado. Arbitragem A arbitragem já estava prevista em nossas leis há muito tempo, e, segundo alguns autores, ganhou força apenas em 1996, quando foi editada a Lei 9.307 – Lei de Arbitragem. A arbitragem é um meio privado e alternativo de solução de controvérsias extrajudiciais de direito patrimonial disponível nas áreas cível, comercial e trabalhista. Ela pode ser usada para resolver problemas jurídicos sem a participação do Poder Judiciário. É um mecanismo voluntário: ninguém pode ser obrigado a se submeter à arbitragem contra sua vontade. Instrumentos da arbitragem Os instrumentos que podem ser utilizadosna arbitragem são a cláusula compromissória e o compromisso arbitral. Esses dois instrumentos levam as partes para a arbitragem e excluem a participação do Judiciário, desde que a escolha pela arbitragem tenha sido feita livremente por todos os envolvidos. Adesão das partes É importante destacar que ninguém pode ser obrigado a assinar um compromisso arbitral ou um contrato que contenha a cláusula compromissória. Contudo, se os envolvidos já fizeram livremente a opção pela arbitragem no passado, não poderão voltar atrás no futuro e desistir dela, caso surja algum problema. Somente será possível recorrer ao Judiciário se tiver ocorrido uma violação grave do direito de defesa, bem como em outras situações bem limitadas. Mediação A Mediação é um meio alternativo de solução de controvérsias, litígios e impasses, na qual um terceiro, imparcial, de confiança das partes (pessoas físicas ou jurídicas), livre e voluntariamente escolhido por elas, intervém, agindo como um “facilitador”, um catalisador, que, usando de habilidade e arte, as leva a encontrar a solução para as suas pendências. Na Mediação, as partes têm total controle sobre a situação, diferentemente da Arbitragem, na qual o controle é exercido pelo Árbitro; assim como na Conciliação, pelo Conciliador. O Mediador é um profissional treinado, qualificado, que conhece muito bem e domina a técnica da Mediação. A mediação vem sendo adotada pelo Judiciário, com experiências em vários Estados brasileiros, ainda em busca de um conceito, porque, muitas vezes, têm conteúdo de Conciliação. Mas o importante é a iniciativa e a aceitação da experiência. ATIVIDADE I- Administração do conflito por um terceiro imparcial. Este tem a prerrogativa de poder sugerir um possível acordo, após a avaliação das vantagens e desvantagens que tal proposição traria a ambas as partes. II- É o caminho natural nas relações humanas para a resolução de conflitos. A todo o momento, em nossas vidas, temos algumas questões para serem resolvidas dessa forma. III- Já estava prevista em nossas leis há muito tempo, mas ganhou força apenas em 1996, quando foi editada a Lei n.º 9.307. IV- As partes têm total controle do procedimento, mantendo a autonomia para decidir os aspectos em questão. Escolha a alternativa correta. I- Conciliação; II- Negociação; III-Arbitragem; IV- Mediação. Aula – 2 Canadá e EUA O uso da mediação aumentou em muitos países e culturas, mas talvez tenha aumentado de forma mais rápida nos Estados Unidos e no Canadá. Os primeiros setores em que a mediação foi formalmente instituída situavam-se na área trabalhista, para tratar de conflitos entre patrões e empregados, em 1913. Na esfera federal, nos Estados Unidos, serviu de modelo para o desenvolvimento de resolução de disputas, nas comunidades e em relação às práticas discriminatórias quanto à etnia e à nacionalidade. No Canadá, foram organizados serviços de resolução de disputas, também, para lidar com as diferenças entre comunidades étnicas. Em muitas comunidades norte-americanas e canadenses, a mediação, segundo Moore (1998), vem sendo aplicada em conflitos entre proprietários e arrendatários de terras, em questões relacionadas aos desabrigados, em conflitos entre os cidadãos e a polícia e em disputas entre consumidores. Além de programas de mediação local, há programas de âmbito estadual em muitos Estados norte-americanos. A mediação é praticada nas escolas e nas Instituições de Ensino Superior em ralação às disputas de alunos entre si, entre alunos e professores, entre os membros do corpo docente e entre o corpo docente e a administração. Os sistemas de Justiça Criminal do Canadá e dos EUA têm utilizado a mediação para as queixas criminais, incluindo os programas de mediação entre vítimas e agressor. Outra área de crescimento muito rápido da mediação é a área de disputas familiares, em questões como guarda de filhos e separações. Nos setores corporativos e comerciais, segundo Moore (1998), a mediação, em alguns tipos de disputa, ultrapassou a arbitragem quanto a sua escolha. Uma área de amplo crescimento, nos EUA e no Canadá é a atenção à saúde. São tratados casos de negligência médica, além de conflitos entre médicos, administradores, hospitais, equipes técnicas, disputas bioéticas, negação de cobertura de seguradoras de saúde etc. China A República Popular da China vem praticando a conciliação para resolver disputas interpessoais, comunitárias e cíveis através dos Comitês de Conciliação e tribunais de conciliação. Esses Comitês Populares são prestadores de serviços institucionalizados pelo governo. A mediação tem sido introduzida para resolver disputas ambientais entre jurisdições e entre entidades governamentais. Hong Kong institucionalizou as mediações comerciais e familiares. Segundo Nazareth (2009), o país já formou um milhão de mediadores. Japão O Japão tem uma longa história quanto ao uso da mediação. As bases da mediação japonesa estão ligadas aos costumes do país. A mediação está incorporada à cultura empresarial e é utilizada nos tribunais para casos cíveis de uma forma geral, principalmente na área de família. A mediação é obrigatória para a maior parte dos procedimentos de divórcio e para muitas questões entre pais e filhos. Outros países A Coreia desenvolveu a mediação para lidar com conflitos familiares e cíveis através de programas independentes dos tribunais. A Tailândia, a Malásia e a Indonésia desenvolveram vários setores em que a mediação é usada. As Filipinas e o Sri Lanka estabeleceram programas de mediação comunitária para os conflitos cíveis e criminais de menor potencial ofensivo. Na Índia, os Tribunais Populares oferecem mediação e conciliação para conflitos matrimoniais e cíveis. O Nepal desenvolveu os processos de mediação para tratar de conflitos conjugais, financeiros e ambientais. Austrália Na Austrália, a mediação em vários setores teve apoio financeiro de agências governamentais. Na maioria dos Estados, foram fundados Centros de mediação comunitária para as disputas cíveis e de vizinhança. Além disso, tem sido bem desenvolvida a mediação em disputas industriais e culturas dos povos aborígenes. Nova Zelândia Assim como a Austrália, a Nova Zelândia também teve desenvolvimento na mediação, muito semelhante aos EUA. Na Nova Zelândia, a mediação é utilizada em várias disputas como: comerciais, cíveis, crimes de menor potencial ofensivo, familiares, trabalhistas, habitacionais, agrárias e ambientais. Melanésia Na Melanésia, as aldeias têm um conselheiro e um comitê que se reúne para analisar as disputas. Esse processo é, ao mesmo tempo, um julgamento e um acordo por consenso. África e Oriente Médio Segundo Moore (1998), a mediação é usada tanto nas sociedades africanas tradicionais como nas sociedades modernas, variando de tribo para tribo e de região para região. No Quênia e na Somália, o trabalho de mediação tem sido realizado por um Comitê, por grupos religiosos e não religiosos locais para disputas entre clãs e disputas étnicas. A África do Sul tem apresentado o maior desenvolvimento, neste continente, no que diz respeito à mediação formal. Em 1968, foi fundado um Centro de Resolução de conflitos que foi importante, não apenas para a resolução de conflitos, mas também para a redução da violência, dos conflitos trabalhistas, raciais e políticos. Desde as eleições nacionais de 1994, a mediação mudou seu enfoque da violência para o desenvolvimento e reconciliação nesse país. Há séculos, nas sociedades árabes, a mediação, em tribos e cidades, tem sido o método utilizado para resolver disputas e tem sido adaptado, atualmente, para questões políticas e militares internas e entre os Estados Árabes. O uso de intermediários no Oriente Médio para ajudar nas resoluções de disputas é muito comum hoje. A mediação tem papel importante nos conflitos diplomáticos e nas guerras. Europa O movimento pela mediação na Europa teve início no fim da década de 90, seguindo a nova era que emergia nos EUA a partir da Pound Conference de 1976,em que nasceram conceitos como o multi-door courthouse. Apesar disso, muitos países já conheciam e utilizavam a mediação. A Comunidade Europeia, em 1986, através do Conselho Europeu, encaminhou uma recomendação do Conselho de Ministros aos Estados Membros, sugerindo que fossem estudados mecanismos alternativos para o tratamento de conflitos, dando ênfase à mediação e reconhecendo a sobrecarga de processos dos tribunais europeus. As formas como as nações europeias se organizam, dependem dos seus fatores constitucionais culturais e políticos, no entanto, os mecanismos alternativos de resolução de conflitos têm sido amplamente utilizados. Em 1998, foram publicados os Princípios Europeus sobre Mediação Familiar, pelo Conselho Europeu, cujo texto foi elaborado pelos representantes dos quarenta Estados Membros desse Conselho. Diferentes modelos se desenvolveram na Europa, alguns países regulamentaram a mediação e tornou-se comum a existência de programas de mediação para resolver conflitos envolvendo direitos dos consumidores. O Parlamento Europeu desenvolveu, em 2004, um projeto para uma Diretiva relativa à mediação, culminando com sua publicação em 2008. Em 21 de maio de 2008, foi publicada a Diretiva nº 52 pelo Parlamento Europeu, oriunda da recomendação fundamental lançada em 1998 (98/257/CE) e em 2001 (2001/310/CE) (PINHO e PAUMGARTTEN, 2013). Nessa Diretiva, de acordo com Pinho e Paumgartten (2013), os Estados-membros europeus seriam livres, quando da transposição aos seus ordenamentos internos, para disporem sobre os métodos que seriam adotados na instalação de programas de mediação. América Latina Nos últimos cinco anos, tem aumentado, na América Latina, o uso das resoluções alternativas de disputas aplicadas ao Direito Objetivo e à administração da Justiça. Vejamos como os países seguintes utilizam a mediação na resolução de suas disputas. Colômbia Na América Latina, a Colômbia é um dos países que tem maior experiência na mediação. A prática iniciou por volta do ano de 1983, sendo muito avançada no setor privado da arbitragem comercial. A Colômbia foi a pioneira no uso da mediação entre os países da América Latina. Optou-se por um modelo descentralizado e desjuridicializado de solução de conflitos, judicial e extrajudicial. Serviços prestados por centros de conciliação e arbitragem, conectados aos tribunais e utilizados como monitores do sistema no Ministério da Justiça. O decreto nº 2.651 fazia referência direta ao método, embora dispositivos legais editados anos antes já fizessem menção à mediação como forma de aliviar a carga de trabalho das varas judiciais. Atualmente, o país possui um dos mais avançados trabalhos com mediação no setor privado. (NAZARETH, 2009, p. 26). A experiência da Colômbia em conciliação extrajudicial foi importante, sobretudo porque influenciou vários países vizinhos, como por exemplo, o Peru. Peru No Peru, a lei institucionalizou a conciliação extrajudicial e criou um requisito de procedibilidade da ação judicial. Este modelo tem a vantagem de haver regulado a prestação dos serviços por intermédio de centros supervisionados pelo Ministério da Justiça, não somente no que diz respeito ao cumprimento dos requisitos legais, mas também em relação à qualidade dos serviços e cumprimento de normas éticas. Bolívia A Bolívia institucionalizou a arbitragem, conciliação e mediação, por meio de Centros de Conciliação, sob a égide do Ministério da Justiça, seu controlador, tais centros são utilizados como canais não formais de acesso à justiça. Equador Organizado em Centros de mediação e arbitragem, o sistema do Equador, permite balancear adequadamente a atividade de resolução de alternativa de conflitos de interesses no setor público e no privado. É considerado um modelo adequado para o desenvolvimento adequado da mediação, sendo acessível, inclusive, às comunidades indígenas. Guatemala Na Guatemala desenvolveu-se um sistema denominado bi frontal; por um lado, anexo aos tribunais onde se atendem casos advindos dos juízes ou a requerimento de pessoas individuais, instituições públicas ou privadas. Quando se tratar de mediação penal será necessário à homologação judicial para sua validade. Possibilitou-se, também, o desenvolvimento de centros privados ou públicos, além de centros comunitários que atendem com mediação os conflitos dos povos indígenas. Nicarágua Na Nicarágua, a mediação foi adotada, em matéria de conflitos de terra, como procedimento obrigatório, uma vez integrado à lide; ou o uso da arbitragem quando solicitado pelos sujeitos. A mediação prévia obrigatória é, muitas vezes, descartada para economia do tempo do juiz, salvo quando se tratar de medidas penais ou de ordem pública. Argentina Na Argentina especificamente, desde 1991 existe a RADs (“Resolução Alternativa de Disputas”), quando foi desenvolvida a arbitragem e iniciada a mediação por meio da criação de uma comissão de juízes e advogados. Posteriormente, foi aprovada a Lei Nacional de Mediação e Conciliação, a qual teve vigência a partir de 1996. O país teve por base inicial as regras do Instituto de Justiça Estatal do Centro para Resolução de Administração Judicial, com sede em NY. Mediação no Brasil 1988 No Brasil, a partir da Constituição de 1988, quando se redemocratizou o país, o Judiciário começou a ser demandado pela maioria da população brasileira. Essa explosão de demandas judiciais, ligada à busca da cidadania, teve reflexo imediato: a crise do Poder Judiciário. Por um lado, nunca o Judiciário teve tanta visibilidade para a população; por outro, a qualidade dos serviços prestados decaiu, especialmente por falta de estrutura material ou de pessoal, além de uma legislação processual inadequada aos novos desafios institucionais. Surge, a partir desse momento, o fenômeno da judicialização das relações políticas e sociais e o tema da democratização do acesso à justiça. O acesso à justiça, porém, não se limita ao ajuizamento de uma ação perante o Poder Judiciário, mas à garantia de entrada a um processo justo, sem impedimentos e demora, e adequado à solução do conflito. Dessa forma, percebeu-se que facilitar a comunicação entre os litigantes e garantir mais liberdade na discussão de suas desavenças contribui para a construção de uma solução consensual, com a vantagem de tornar as partes mais propensas em cumprir voluntariamente o acordo, bem como prevenir novos desentendimentos. Por força dessas vantagens, a mediação veio sendo difundida paulatinamente em nosso País. Curiosamente, com o advento da lei de Arbitragem (9.307/96), observou-se um número crescente de câmaras arbitrais também especializadas em mediação. A primeira tentativa de encaminhar uma lei versando especificamente sobre a mediação foi apresentada em 1998 (PL 4.827/98), oriunda de uma proposta da Deputada Zulaiê Cobra, definindo o instituto. A proposta teve por objetivo fixar as diretrizes fundamentais do procedimento, mas sem regulamentar todos os detalhes. Aprovado o projeto na Câmara dos Deputados, a proposição seguiu para o Senado Federal (PLC 94/2002). Por outro lado, o Instituto Brasileiro de Direito Processual – IBDP e a Associação de Magistrados Brasileiros – AMB, através de uma equipe de juristas, elaboraram um anteprojeto de lei sobre mediação, demonstrando que o debate sobre o tema também se fez presente no meio jurídico-acadêmico. 2003-2006 Na verdade, diante da variedade de propostas legislativas e da diversidade de abordagem da questão, houve audiência pública promovida pelo Ministério da Justiça, em 17 de setembro de 2003, e que resultou numa “versão única”. Encaminhada essa versão ao senador Pedro Simon, relator do projeto de lei então aprovado na Câmara dos Deputados, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal – CCJ/SF, em junho de 2006, acolheu as sugestões apresentadas na forma de um substitutivo, o qual também prestigiou algumas modificações. Esse projeto não conseguiu avançar na Câmara dos Deputados, assim como outras propostas legislativas referentesà utilização da mediação, notadamente para a solução de conflitos familiares, como são exemplos os seguintes Projetos de Lei na Câmara dos Deputados: 5.696/2001, 599/2003, 1.415/2003, 505/2007, 507/2007, 1.690/2007, 428/2011 e 5.664/2013. (SALOMÃO, 2015). No Senado Federal, outro projeto de lei apresentado para regulamentar a mediação – o PLS 517, de 2011, de autoria do Senador Ricardo Ferraço –, permaneceu à espera de debate por mais de dois anos. 2010 O conselho Nacional de Justiça (CNJ) editou a Resolução n.125, de 29 de novembro de 2010, indicando a mediação como meio de resolução de conflitos inserido na Política Judiciária Nacional de trabalho adequado de conflitos, a ser desenvolvida pelo próprio Conselho e pelos Tribunais do país, em parceria com outros órgãos e instituições. 2013 O Senado Federal, por iniciativa do Presidente Renan Calheiros, instalou, em 3 de abril de 2013, uma comissão de juristas, com a finalidade de elaborar um anteprojeto de lei de arbitragem e mediação. Após seis meses de trabalho intenso – em que foi garantida ampla participação ao público interessado –, foram apresentados dois anteprojetos de lei: um que propunha alterações na atual Lei de Arbitragem (PLS 406/2013) e outro sobre mediação extrajudicial (PLS 405/2013). O Ministério da Justiça, concomitantemente, sob orientação do Secretário da Reforma do Judiciário, Flávio Crocce Caetano, instituiu uma comissão de juristas com o objetivo de formular proposta que subsidiasse a adoção de formas adequadas à solução célere de conflitos. E o resultado foi a elaboração de anteprojeto de lei de mediação que também passou a tramitar no Senado Federal (PLS 434/2013). 2015 Analisando conjuntamente esses 3 projetos de lei (PLS 517/2011, 405/2013 e 434/2013), a Comissão de Constituição e Justiça do Senado, sob a Relatoria do Senador Vital do Rego, apresentou substitutivo. Encaminhado o projeto de lei à Câmara dos Deputados (PL7.169/2014), foi elaborado substitutivo pelo Deputado Sergio Zveiter. Remetido novamente ao Senado, o projeto foi finalmente aprovado no dia 02 de junho de 2015, esforço conjunto envolvendo os 3 Poderes e todos que participaram de sua elaboração, e foi sancionado em 26 de junho de 2015, pela Presidente Dilma Roussef, como Lei 13.140. A aprovação e posterior promulgação do marco legal da mediação é mais um passo na direção de um moderno sistema de resolução de conflitos no país e na construção de uma cultura que privilegie o diálogo, o consenso e a paz. A Lei prevê, em suas disposições finais, que a mediação seja amplamente utilizada no país, podendo ser aplicada em diferentes tipos de conflito. A intenção do legislador é de incentivar o desenvolvimento de novas modalidades de mediação, abrindo espaço, dessa forma, para ampliação de sua aplicação a diversos tipos de conflitos. ATIVIDADE A Comunidade Europeia vêm recomendando as RAD’s (Resoluções Alternativas de Disputas) em seus estados-membros. Podemos enfatizar nesse sentido: RESPOSTA: A publicação dos princípios europeus sobre a mediação familiar cujo texto foi elaborado pelos representantes dos estados-membros. Aula – 3 Alguns Saberes Direito A Mediação inspira-se no Direito quando objetiva auxiliar as pessoas a resolverem seus conflitos, orientadas pelo parâmetro da solução justa, respeitando as questões legais determinadas pela sua cultura. Isso fica mais claro quando, por exemplo, é solicitada a revisão legal de um acordo, antes da assinatura pelos mediandos, sempre que a matéria assim o exigir, cumprindo uma norma ética na Mediação. A mediação, dessa forma, poderia ser considerada como uma forma de ordem jurídica justa, porque leva a uma justiça mais: Adequada: Aumenta o acesso à justiça porque, entre os outros métodos, possui uma forma mais apropriada de abordar e resolver aquele determinado conflito. Tempestiva: Por ocorrer no tempo dos mediandos, uma vez que, de certa forma, estabelecem o período de duração da mediação, a partir de suas habilidades e capacidades de negociação, aumentam o acesso à justiça. Efetiva: A solução é construída pelas próprias pessoas envolvidas no conflito, tendo como base a satisfação e o benefício mútuos, a partir do atendimento de suas necessidades, aumentando, assim, o acesso à justiça (ALMEIDA, 2014). Sociologia A contribuição da Sociologia é decisiva para a compreensão do valor das redes sociais nos processos de negociação. Mediadores também trabalham com a negociação que os mediandos precisam fazer com os seus interlocutores – advogados, amigos, parentes, colegas de trabalho ou de crença religiosa, entre outros. Com essas pessoas, são estabelecidas alianças e construídos entendimentos sobre o desacordo e sobre o outro, assim como soluções e interesses a serem defendidos. Os mediandos não podem, em algumas situações, avançar em uma negociação, em função de compromissos estabelecidos com suas redes de pertinência. Nesses casos, é preciso ajudá-los a negociar com essas redes, dentro ou fora do processo de mediação, para que possa ocorrer a auto composição. A mediação estimula o diálogo dos mediandos com suas redes de pertinência e permite que elas venham à mediação, quando são identificadas como geradoras de impasses à solução do processo, ou, ainda, quando são o suporte para o cumprimento do que foi estabelecido na mediação. Psicologia Da Psicologia, a mediação utiliza as leituras teóricas sobre o funcionamento emocional humano e valoriza as emoções como componente fundamental dos desentendimentos. A mediação trabalha, indiretamente, com as emoções quando se propõe a incluir a restauração da relação social dos envolvidos. As abordagens que incluem o relacionamento humano como foco não podem deixar de considerar a presença da emoção. Segundo Muller; Beiras e Cruz (2007), a mediação utiliza técnicas da Psicologia, em especial das Psicoterapias, tais como a sumarização positiva e o enquadre, ampliando e tornando mais compreensíveis as diversas mensagens, além de ressaltar a importância da escuta ativa, da interpretação do que está por detrás do discurso e da linguagem corporal. Do material teórico da Psicologia, também são utilizadas estratégias para trabalhar com os conflitos. Algumas sugerem que se trabalhe com os mais simples, no lugar dos mais complexos, garantindo o nível motivacional das partes, tornando visível, para elas, a capacidade de resolverem os conflitos de forma não adversarial. Filosofia Da Filosofia, várias questões dizem respeito ao processo de Mediação. Entre elas, encontra-se o principal instrumento de trabalho do mediador, as perguntas, que devem ser oferecidas como na maiêutica socrática. Filho de uma parteira, Sócrates desejava, pela maiêutica, que as pessoas “parissem” as próprias ideias, após refletirem, em lugar de repetirem, indiscriminadamente e sem análise crítica, pensamentos e ideias do senso comum. O principal objetivo das perguntas na mediação é gerar informação para os mediandos, que são aqueles que têm poder decisório e serão os autores das soluções, de forma a provocar reflexão. A partir da maiêutica, pode-se auxiliar os mediandos a flexibilizarem as ideias trazidas na fase inicial do processo, momento em que as reais necessidades e interesses do outro não estão sendo ainda levados em consideração. Teoria dos sistemas Há anos, as pessoas perceberam que há coisas comuns nas diferentes áreas do conhecimento. Existem problemas similares que podem ser resolvidos com soluções similares. Essas mesmas pessoas perceberam que algumas características e regras aconteciam em todas as áreas. Assim, surgiu a definição de Sistema, que é um conjunto de elementos inter-relacionados com um objetivo comum. Todas as áreas do conhecimento possuem sistemas com características e leis independentemente da área onde se encontram. Os sistemas apresentam como características básicas: os elementos formadores do sistema, a relação entre eles e um objetivo comum. Além disso, não podemos esquecer o meio ambiente, que é o que está fora do sistema, ouseja, não pode ser controlado por ele. No entanto, o sistema pode estabelecer uma relação de troca com o meio ambiente e, por isso falamos que um pode influenciar o outro. A abordagem sistêmica é uma forma de resolver situações sob o ponto de vista da teoria geral dos sistemas. Muitas soluções surgem quando analisamos um sistema sendo formado por elementos que estabelecem relações entre eles, que apresentam um objetivo, inseridos em um meio ambiente. Essa abordagem é uma ferramenta, um método que nos capacita a promover mudanças. Ela enfatiza a interação entre os componentes em vez de os componentes por si só, o propósito do sistema em vez de suas causas, as regras operacionais que capacitam o seu desenvolvimento, o objetivo a ser alcançado, o futuro, o envolvimento das pessoas. O olhar sistêmico, segundo Vasconcellos (2002), contribui para que a mediação reconheça os componentes multifatoriais dos desacordos – legais, psicológicos, sociológicos, financeiros, entre outros, e trabalhe com eles conforme a sua prevalência, de forma a atender aos interesses e necessidades dos mediandos. Também como resultado dessa abordagem, os mediadores entendem que o que é trazido à mediação faz parte de uma cadeia de acontecimentos passados e futuros e que sua intervenção provocará alterações na lógica de desenvolvimento dessa cadeia, com repercussões sobre um conjunto de pessoas. Os mediadores comprometem-se com o curso e com o resultado da mediação, agindo na condução de sua dinâmica, avaliando, de forma continuada, a adequação de sua atuação, pois a consideram parte do sistema de resolução. Os mediadores sabem que sua intervenção poderá contribuir para a construção ou para a desconstrução de impasses futuros. Estratégias da abordagem sistêmica Algumas estratégias da abordagem sistêmica são importantes na mediação. Vamos vê-las a seguir: - Dividir para atingir um fim – todo problema deve ser dividido em partes menores porque isso facilita a sua compreensão e o seu manejo; - Identificar todas as partes do sistema – identificar tudo o que faz parte do sistema, porque algumas partes identificadas podem fazer a diferença; - Atentar para detalhes que estão sendo demonstrados pelas pessoas; - Olhar para o todo, para ter uma compreensão sobre como as partes se relacionam; - Utilizar analogias, comparações, ou seja, usar soluções antigas adaptadas à nova realidade, na solução de problemas similares. Teoria da cibernética A Teoria Cibernética ou Teoria do Controle foi desenvolvida pelo matemático N. Wiener. E tem por objeto o estudo da autorregulação dos sistemas, uma vez que é necessária a manutenção da ordem no interior de cada um, ou entre sistemas, combatendo o caos. A cibernética é uma teoria de controle, baseada na comunicação entre os sistemas e o meio ambiente, bem como a comunicação dentro do próprio sistema. A Teoria da Cibernética foi dividida em dois períodos: 1º Período De acordo com Grandesso (2000), no primeiro período da cibernética, a preocupação consistia nos mecanismos e processos pelos quais os sistemas funcionavam com a finalidade de manter a sua organização. O objetivo do sistema era, então, corrigir os desvios para poder se manter estável e sobreviver. Esse processo é conhecido como retroalimentação, em que um sistema sobrevive mantendo a sua constância apesar das mudanças do meio. 2º Período No segundo período da cibernética, mudou-se o foco de trabalho e o conflito passou a ter a função de mostrar que algo não vai bem no sistema. O foco sai do conflito e vai para as relações estabelecidas naquele sistema. Fato importante para o trabalho com a mediação. A partir desse segundo momento, houve a possibilidade de compreender o potencial de transformação dos sistemas, levando ao desenvolvimento de técnicas na mediação que possibilitassem a ampliação dessa capacidade de mudança. Teorias de comunicação Teorias da comunicação contribuem com numerosas abordagens e dão suporte a algumas das técnicas utilizadas na Mediação. A comunicação humana é uma das bases de sustentação da dinâmica da Mediação e precisa ser decifrada pelo mediador, a cada momento, de forma a servir de referencial para a identificação da intervenção a ser utilizada. As contribuições são inúmeras. Algumas estão mais ligadas com o pragmatismo da comunicação humana (WATZLAWICK; BEAVIN; JACKSON, 1967), outras com as narrativas e a análise dos discursos e de sua subjetividade (MAINGUENEAU, 1997). Os axiomas da comunicação foram desenvolvidos por Watzlawick e colaboradores (1967) e fornecem importante base conceitual para entendermos o processo de comunicação, sendo aplicados no procedimento de mediação. A seguir, veremos o que, resumidamente, estes autores estabeleceram. É impossível não comunicar, mesmo quando achamos que não estamos nos comunicando, existe uma mensagem. Há mediandos que utilizam o silêncio como estratégia para agredir o outro. Outros podem usar o silêncio para criar uma atmosfera de mistério sobre o que estão pensando, para aguardar que os outros transmitam informações importantes, que eles utilizarão de acordo com as suas conveniências. O silêncio pode permitir a organização dos pensamentos e encorajar a outra pessoa a expandir suas ideias, reações ou sentimentos. Saber calar quando necessário também é muito importante na comunicação. O silêncio pode, também, ser sentido como confortável ou perturbador, e ser utilizado para aproximar ou afastar as pessoas nas relações com as outras. Toda comunicação possui uma forma e um conteúdo. A relação entre o conteúdo e a forma na comunicação é chamada de metacomunicação. Pode-se usar de gestos, olhares, expressões corporais e faciais para dar mais ênfase ao que queremos comunicar e ao modo como queremos ser interpretados. A técnica de metacomunicação é utilizada, em geral, quando queremos expressar algum sentimento, mas de forma não invasiva a uma pessoa. É uma forma menos brusca de se transmitir uma mensagem, como uma preparação para que a pessoa receba a mensagem sem constrangimento ou espanto. Usamos a metacomunicação quando fazemos uma pequena introdução àquilo que se quer comunicar, por exemplo, ao noticiar fatos ruins, ao dar alguma advertência etc. Ao censurarmos alguém, podemos realizar uma metacomunicação verbal e não verbal, quando, por exemplo, dizemos “Estou brincando“ e piscamos o olho ao mesmo tempo. Essa comunicação precisa ser neutralizada pelo mediador, que deverá estar atento às situações. A natureza de uma relação encontra-se na contingência da identificação das sequências de comunicação entre os envolvidos. É fundamental identificar quem comunica quem responde, como e quando, para obter informações a respeito do equilíbrio ou do desequilíbrio de poder nas relações, dos estados emocionais das pessoas e outras situações significativas na comunicação. Os seres humanos comunicam-se de forma digital e analógica. Na mediação, na maior parte das vezes, a comunicação será analógica, ou seja, face a face. Dessa forma, haverá possibilidade de observar os conteúdos analógicos da comunicação, como por exemplo: o sorriso, o brilho no olhar, o timbre de voz, a postura corporal, a disposição para ouvir etc. Esses conteúdos valorizam a comunicação e devem ser explorados pelo mediador. Todas as trocas comunicacionais são simétricas ou complementares. As simétricas são aquelas que possibilitam o diálogo entre as pessoas. Já as complementares, em geral, aparecem em situações de dependência, em que um manda e o outro obedece, um grita e o outro se cala, por exemplo. Este último tipo de troca deve ser convertido ou restabelecido em uma troca simétrica através do trabalho do mediador. Em comum, tais contribuições trazem o entendimento de considerar a linguagem como um cenário em que se constroem os sujeitos, sua forma de expressão e de ação, nas suas relações com os outros. Comunicação não violenta (CNV) A Comunicação Não Violenta (CNV) é um processo conhecido por sua capacidade de inspirar ação solidária,ponto fundamental no procedimento da mediação. Foi desenvolvida por Marshall B. Rosenberg, doutor em Psicologia Clínica, mediador internacional e fundador do Centro Internacional de Comunicação Não Violenta. É uma teoria prática, que se confunde com um processo educativo e questiona os perigos da linguagem. A partir do conceito de Ahimsa, tornado famoso por Mahatma Gandhi, ressalta o poder que é liberado quando a intenção de agredir o outro é totalmente superada. Baseado na ideia de que todos os seres humanos têm a capacidade da compaixão e recorrem à violência quando não percebem outro recurso, ou quando não têm suas necessidades supridas, busca-se criar uma cultura de expressão que resolva os conflitos, em vez de criá-los. Para isso, a CNV se baseia na escuta empática e na expressão autêntica em três âmbitos: nossa própria experiência interior, nossa relação com os outros e nossa conexão com os sistemas nos quais estamos inseridos. Princípios da mediação “Princípio é, por definição, mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro alicerce dele, disposição fundamental que se irradia sobre diferentes normas compondo lhes o espírito e servindo de critério para sua exata compreensão e inteligência, exatamente por definir a lógica e a racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico”(GRUNWALD, 2004). O princípio “vem a ser a fonte, o ponto de partida que devemos seguir em todo o percurso; ao mesmo tempo em que é o início, também é o meio a ser percorrido e o fim a ser atingido” (VILAS-BÔAS, 2003, p. 21). Vamos, então, estudar os princípios da mediação, tomando como base aqueles elencados na Lei 13.140 de 26 de junho de 2015, ou seja, a Lei da Mediação. Você pode vir a ter contato com vários outros princípios da mediação além desses. Como você já sabe, esse é um tema que não se esgota. Queremos ressaltar que aqueles princípios que não foram contemplados na nossa disciplina, não são considerados menos importantes apenas utilizaram como critério de seleção a fundamentação legal da mediação. LEI Nº 13.140, DE 26 DE JUNHO DE 2015. CAPÍTULO I DA MEDIAÇÃO Seção I Disposições Gerais Art. 2º A mediação será orientada pelos seguintes princípios: I - imparcialidade do mediador; II - isonomia entre as partes; III - oralidade; IV - informalidade; V - autonomia da vontade das partes; VI - busca do consenso; VII - confidencialidade; VIII - boa-fé. Aula – 4 Conflito Em geral, conflito pode ser definido como um desentendimento entre duas ou mais pessoas sobre um tema de interesse comum. Conflitos representam a dificuldade de lidar com as diferenças nas relações e nos diálogos, associada a um sentimento de impossibilidade de coexistência de interesses, necessidades e formas de abordar o mesmo tema. Comecemos nosso estudo sobre o conflito com Remo Entelman. Segundo ele, “O conceito de conflito aparece no discurso político-social há cerca de uns 500 anos antes de Cristo. Se desenvolve através do tempo em pensadores que trabalham com uma ampla gama de disciplinas. A abordagem dos conflitos aparece nos mais afastados pontos do planeta e da História (Kautylia, na Índia, Al Ramein Ibn Kaldum – pensador árabe do século XIII; Heráclito, Maquiavel) e nos últimos dois séculos [o autor se refere aos Séculos XVIII e XIX], a partir de vários economistas”. Entelman (2005) acrescenta: “Por seu lado, as ideologias fizeram do conflito seu objeto em dois grandes ramos do que hoje se chama ideologia do conflito: o marxismo por um lado, e o darwinismo pelo outro.” Para este autor (Entelman, 2005), o conflito traz, a princípio, uma posição rígida de intransigência, acompanhada, inicialmente, de um interesse real oculto das partes nele envolvidas. Cabe ao mediador tentar realizar a sua descoberta. Segundo o autor, não existe uma teoria do conflito que seja realmente um pensamento novo e sistemático. O que há é uma generalização de conhecimentos que formularam outros para descrever pressupostos concretos sobre esse tema. Moderna teoria do conflito Se pedissem para você dizer o que lhe vem à mente quando escuta a palavra conflito, provavelmente, alguns destes significados poderiam ser pensados: Guerra Briga Raiva Perda Disputa Violência Tristeza Agressão Processo Continuando a nossa conversa, pediria, agora, que você pensasse nas possibilidades para resolver um conflito. Novamente, poderia arriscar que uma de suas respostas poderia ser: Atribuir culpa Responsabilizar Reprimir Julgar Analisar fatos Comportamentos Diante de tais reações, poder-se-ia sustentar que o conflito sempre consiste em um fenômeno negativo nas relações humanas. No entanto, constata-se que, do conflito, podem surgir mudanças e resultados positivos. É a partir dessa possibilidade de perceber o conflito de forma positiva que surge uma das principais alterações da chamada moderna teoria do conflito. Percebendo o conflito como um fenômeno natural nas relações, é possível vê-lo de forma positiva. O que saber sobre conflitos De acordo com Seidel (2007), podemos refletir sobre algumas questões em relação aos conflitos. Vamos a elas: Conflitos não são problemas Há uma tendência geral em perceber os conflitos como problemas, ou seja, uma visão negativa do conflito. Os conflitos são normais, não são positivos nem negativos, nem maus e nem bons. É a resposta que se dá aos conflitos que os tornam positivos ou negativos destrutivos ou construtivos. A questão central é a forma como será resolvido o conflito: por meios violentos ou através do diálogo? Os conflitos devem ser entendidos como parte da vida humana, sendo o seu problema apenas a forma como serão enfrentados e resolvidos. Diferença entre conflito e briga Conflitos não se confundem com brigas. A briga é uma resposta ao conflito. Um conflito, segundo Seidel (2007), pode ser definido como a diferença entre duas metas sustentadas por agentes de um sistema social. Além disso, podem ser organizados em três níveis: pessoais, grupais ou entre nações. Atitudes básicas frente aos conflitos Podemos ignorar os conflitos, responder de forma violenta a eles e lidar com os conflitos de forma não violeta, através do diálogo. Benefícios do conflito A não aceitação do conflito provoca a violência. No entanto, quando se aprende a lidar com o conflito de forma não violenta, ele deixa de ser visto como o oposto à paz e passa a ser considerado como um modo de existir em sociedade. Os conflitos podem trazer os seguintes benefícios, de acordo com Seidel (2007): Estimular o pensamento crítico e criativo; Melhorar a capacidade de tomar decisões; Reforçar a consciência sobre a possibilidade de opção; Incentivar diferentes formas de resolver problemas e situações; Melhorar os relacionamentos e a avaliação das diferenças; Promover a auto compreensão. Como você percebeu o conflito não é um impedimento para chegarmos à paz. Mas, para construirmos uma cultura de paz (em nossa terceira aula, falamos de Marshall Rosenberg), será preciso mudar nossas crenças, atitudes e comportamentos em relação ao conflito. Uma educação para a paz envolve, necessariamente, reconhecer o conflito e pensar em modos criativos e não destrutivos de resolvê-lo. Para isso, segundo Seidel (2007), temos três possibilidades: A prevenção do conflito: desenvolvimento de uma percepção à presença ou possibilidade de violência e injustiça, como um sistema de alerta, e a capacidade de analisar o que pode estar ocorrendo; A resolução do conflito: o enfrentamento do problema e a busca de mecanismos adequados para isso; A transformação: estratégias para mudança, reconciliação e construção de relações positivas. Manejo do conflito Agora que você já conhece as formas construtivas e destrutivas de resolução de conflitos, vejamos como manejá-los. A mudança de foco na evolução da resolução (baseada na imposição, pela força e pelo poder para uma busca de solução que identifique os interesses das pessoas envolvidas e a possibilidade de atendê-las)levou a uma mudança de foco da preocupação com o resultado do problema para uma preocupação com as pessoas e suas relações. Essa mudança nos leva a entender que não existe uma solução apenas para resolver os conflitos. Dessa forma, vários autores destacam alguns aspectos importantes a serem observados na forma de abordar os conflitos. Schimidt e Tannenbaum (1992), citados por Moscovici (1997) no Curso de Mediação de conflitos (2009), apontam para três aspectos que devem ser observados no diagnóstico de uma situação de conflito. São eles: Pontos de vista e interesses divergentes – a natureza das diferenças; Informações, percepções e papéis que as pessoas ocupam na sociedade – fatores subjacentes; Momento em que o conflito se encontra – estágio do conflito Classificação de conflito Desenvolvendo um pouco mais nosso conhecimento sobre os conflitos, devemos saber que eles têm várias classificações importantes a serem observadas. Podemos dividi-los, segundo Redorta (2007), em: Intrapessoal É um conflito exclusivamente nosso, e que, às vezes, existe porque nós vivemos assim. Ou seja, é o que cada um de nós vive quando está perante motivações que são incompatíveis. É o que chamamos de conflito interno. Interpessoal Os conflitos interpessoais se dão entre duas ou mais pessoas e podem ocorrer por vários motivos: diferenças de idade, de sexo, de valores, de crenças, por falta de recursos materiais, financeiros, e por diferenças de papeis. Neste último caso, podemos dividir o tipo de conflito em duas situações: conflitos hierárquicos são aqueles que colocam em jogo as relações com a autoridade existente; e conflitos pessoais, que dizem respeito ao individuo, à sua maneira de ser, agir, falar e tomar decisões. Você já percebeu que as relações interpessoais, com sua pluralidade de percepções, crenças e interesse, são conflituosas. Negociar conflitos é o nosso cotidiano. Intragrupal Falar de conflitos grupais é muito complicado porque a mera descrição de algumas características não esgotará todas as possibilidades de se entender essa questão. As diferenças individuais têm influência na dinâmica dos grupos, podendo levar a discussões, tensões, insatisfações e ao conflito aberto, ativando sentimentos e emoções mais ou menos intensos, que afetam a objetividade do grupo, reduzindo-a um mínimo e transformando o clima emocional do grupo. Intergrupal Esse conflito ocorre quando temos dois ou mais grupos com um problema a ser resolvido. O conflito intergrupal é definido como uma incompatibilidade de objetivos, crenças, atitudes ou comportamentos encontrados entre grupos. Social É o conflito que afeta a sociedade como um todo. Os conflitos na sociedade humana não podem ser reduzidos a uma abordagem, tendo em vista que cada ação, cada cultura, cada sociedade engendra modelos de relações sociais que são, invariavelmente diferentes, gerando conflitos sociais com interesses também diferentes. Além disso, para os mediadores, os conflitos também podem ser divididos em quatro espécies. Ainda, tais espécies podem ocorrer de forma cumulativa em determinadas situações. São elas: Conflitos de valores Conflitos de informação Conflitos estruturais Conflitos de interesses Níveis de conflito Ainda podemos falar de diferentes níveis em que o conflito pode ocorrer. São eles: Latente O conflito latente pode-se dizer que existe, mas não é dito, porque não é percebida a sua existência por quem o detém. O conflito está lá, mas escondido, não é notando nem sentido ainda; Percebido A pessoa ou as duas partes sabem da existência dele, mas não querem resolvê-lo, talvez por não incomodar o suficiente, ainda, os envolvidos; Sentido É aquele que já atinge ambas as partes, e em que há emoção e consciência da sua existência. Manifesto “A agressividade está explícita, os comportamentos são assumidos como tais. Essa agressão explicita pode variar desde a resistência passiva branca, passando pela sabotagem, até o conflito físico real”. Conflito e mediação Para lidarmos bem com nossos conflitos interpessoais, devemos desenvolver uma comunicação de caráter construtivo. A evolução do conflito e suas manifestações ligadas à violência variam de acordo com as circunstâncias históricas, sociais, culturais e econômicas. Os conflitos, como percebemos, têm aspectos positivos e negativos, e pode haver um ciclo construtivo e outro destrutivo, a partir de certo nível. A visão negativa que temos do conflito está mais ligada ao desgaste emocional que eles geram. Um manuseio adequado do conflito tem a ver com a gestão das relações emocionais que eles provocam. O mediador contribui com um outro olhar sobre a questão. Deve fazer com que as partes enxerguem esse conflito como um espaço de reconstrução, de aprendizado e de formação de sua autonomia. O mediador precisa cooperar para que o conflito seja visto e analisado de forma pedagógica e, assim, contribuir para que a mediação seja compreendida como um espaço de aprendizagem das questões que estão sendo discutidas e, também, dos próprios envolvidos. O conflito precisa ser interpretado e elaborado pelos interessados em conjunto com o mediador, pois é dessa forma que eles poderão ser resinificados e transformados. O mediador deve tratar o conflito como algo positivo, sem a percepção de ameaça, atuando com moderação, equilíbrio, naturalidade, compreensão, não reagindo de forma a lutar ou fugir, pois, se o conflito for visto como uma questão negativa poderá desencadear a reação denominada “retorno de luta ou fuga”. O mediador não encerra o conflito segundo as normas legais, comunicando a sua decisão às partes. Ele incentiva a construção de um acordo comum, construído a partir dos conhecimentos e com as propostas dos envolvidos. Sendo assim, o mediador estimula a transformação da curiosidade comum em curiosidade do conhecimento a respeito da situação. A mediação é uma prática pedagógica para a autonomia, voltada para a emoção e ligada com a ressignificação dos conflitos e com a origem dos sentimentos. É importante, na mediação, a escuta do outro, revelando-se, cada vez mais, como uma prática política e ética na formação e no crescimento do ser humano. Aula – 5 O significado da palavra negotiatus, de origem latina, é “cuidar dos negócios”. A negociação é um fenômeno muito antigo, usado pela humanidade há muito tempo. Quanto ao seu estudo, as abordagens acadêmicas e profissionais fizeram a descrição da prática da negociação, ligada às áreas de atuação, como na diplomacia, no trabalho, na empresa, com diferentes metodologias e focos. A negociação é o meio pelo qual as pessoas lidam com suas diferenças. Na verdade, negociar é buscar um acordo por meio de um diálogo. É importante que você perceba que a negociação está de forma permanente em nossas vidas. Negociamos com nossos pais, nossos filhos, nossos companheiros, ou seja, tanto em nossa casa, como no trabalho com nossa chefia ou nossos subordinados. Conceito de negociação O que se escrevia sobre negociação consistia em estratégias para tirar vantagem sobre o adversário por meio de truques que só funcionavam se ele não tivesse lido nada sobre o tema. No final da década de 70, a negociação começou a ser estudada de forma integrada, com metodologia e visando uma aplicabilidade a qualquer tipo de negociação e útil para todas as partes envolvidas na negociação. A partir dessa mudança de abordagem da negociação como tema de estudo e desenvolvimento, surgiram diferentes modelos para a prática da negociação que tiveram a colaboração de várias ciências, como a Psicologia, o Direito, a Sociologia, a Política, entre outras. Essas disciplinas foram importantes porque trouxeram contribuições para o aprofundamento das formas como as pessoas podem resolver os seus problemas juntas, trabalhando e construindo algo sobre as suas diferenças. Encontramos, na literatura sobre negociação, uma variedade de definições que a conceituam. Vejamos algumas delas: Negociação colaborativa, integrativa ou baseadaem princípios Agora que você já conheceu as condições para que ocorra uma negociação, vamos iniciar nossa aprendizagem sobre a Negociação colaborativa ou baseada em princípios, desenvolvida pela Escola de Harvard. A abordagem principal da negociação, utilizada na mediação, é aquela que foge de uma forma de negociar chamada de posicional. Nesse tipo de negociação, os negociadores se tratam como oponentes o que acarreta uma situação em que um ganha e o outro perde. No lugar de analisar os méritos da questão, as partes pressionam o máximo e cedem o mínimo. Desse modo, pode haver um aumento de raiva e ressentimento, prejudicando a relação social dos envolvidos e, principalmente, levando uma parte a sentir que está cedendo às intransigências da outra, enquanto suas preocupações permanecem desatendidas. Voltaremos a apresentar essa negociação quando abordarmos a barganha distributiva. Destacamos a importância da negociação colaborativa ou baseada em princípios, que chega a resultados justos, abordando os reais interesses dos envolvidos, e não suas posições. É muito importante que você aprofunde seus conhecimentos sobre essa negociação e, para isso, indicamos o livro: Comochegar ao SIM, de Roger Fisher, William Ury e Bruce Patton (2005). Para esses autores, quatro pontos fundamentais são necessários na negociação colaborativa: Separação das pessoas do problema Os negociadores são pessoas que, em conflito, tendem a misturar questões referentes à relação com a questão objetiva a ser negociada. Os aspectos pessoais fazem parte da negociação, não podem ser ignorados, mas não devem se misturar às questões objetivas. O revide em uma discussão não ajudará a solucionar um problema. As emoções se misturam com frequência aos méritos de uma negociação. As questões subjetivas – relacionais, emocionais, comunicacionais – devem ser reconhecidas e trabalhadas através de ferramentas apropriadas que veremos na aula 7. Dessa forma, antes de atacar as pessoas, deve-se atacar os méritos da negociação. Por exemplo, alguém pode iniciar uma negociação exigindo que uma pessoa se mude de um condomínio porque não tem educação quanto à altura do som que costuma escutar. Uma outra forma de iniciar a mesma negociação seria falando sobre algumas práticas como as proteções acústicas existentes e muitas utilizadas na vizinhança. Ao estabelecer que o problema é o vizinho, a comunicação fica difícil na negociação. Foco nos interesses e não nas posições Um conflito se expressa, primeiro, através de posições. Os autores do livro já citado Como chegar ao Sim (FISHER; URY e PATTON, 2005), apresentam um exemplo que esclarecerá muito bem o que estamos querendo dizer. Exemplo: duas irmãs brigavam por uma laranja. Depois de muita discussão resolveram dividi-la ao meio. A primeira pegou a sua metade, comeu a polpa e jogou a casca no lixo; a segunda usou a casca de sua metade para fazer uma geleia e jogou a polpa fora. Como você explicaria o que aconteceu? Se elas tivessem usado uma negociação colaborativa e colocado o foco nos seus interesses e não em suas posições, teriam terminado a negociação integralmente satisfeitas. Muitos autores costumam representar este tema usando a figura do iceberg. As posições correspondem à parte visível do iceberg e os interesses o que fica submerso e deve ser descoberto. Geração de opções de ganhos mútuos Muitas vezes, as pessoas em conflito acreditam que apenas existe uma quantidade fixa de recursos a serem partilhados. Quando uma parte fica atendida na maior parte de seus interesses, a outra se sentirá desatendida. Neste caso, a ideia é aumentar os recursos disponíveis, gerando novas possibilidades para resolver o conflito. Os negociadores devem buscar atender os interesses de todos os envolvidos, numa solução ganha-ganha. É através da geração de novos recursos, articulação de necessidades e possibilidades de cada um dos negociadores que será possível atender os interesses em comum e criar harmonia entre os diferentes, de forma a satisfazer a todos os envolvidos. São diferentes as necessidades dos negociadores e estas podem trabalhar de forma a gerar benefícios mútuos. O que para um negociador é secundário, para o outro pode não ser, o que pode gerar novos recursos de negociação. Utilização de critérios objetivos Os negociadores devem utilizar critérios objetivos para avaliar as soluções que foram levantadas e para a tomada de decisões. Como esses critérios são externos, não envolvem a subjetividade das partes na decisão e evitam a polarização nesse momento. São exemplos: a legislação, o parecer de um técnico, o valor de mercado etc. Melhor alternativa à negociação de um acordo (MAANA) Além dos quatro princípios da Escola de Harvard, um importante conceito é o da melhor alternativa à negociação de um acordo (MAANA). Trata-se do curso de ação de nossa preferência caso não haja consenso. É saber o que faremos ou o que vai acontecer se não conseguirmos chegar a um acordo. É importante observar qual é a MAANA antes de entrar em uma negociação, do contrário, não se saberá se o acordo será proveitoso ou não. Por exemplo, Luis XI, rei da França resolveu negociar quando Eduardo IV, rei da Inglaterra, atravessou o Canal da Mancha para capturar territórios franceses. Sabendo que poderia envolver-se em uma guerra prolongada e dispendiosa (MAANA), Luis XI calculou que seria melhor fazer um acordo com Eduardo IV. Assinou um tratado de paz com o rei da Inglaterra, pagando um certo valor adiantado e uma anuidade pelo resto da vida do monarca inglês, expulsando os ingleses da França. O melhor negócio não é aquele que prevalece em detrimento do outro, mas aquele que satisfaz os dois lados. Barganha distributiva e negociação integrativa É importante lembrar que a escolha do tipo de negociação está ligada a uma série de fatores como: O objetivo que se tem em mente ao participar da negociação; O comportamento característico dependendo da abordagem utilizada; Os resultados alcançados a partir do modelo usado. Não basta saber que o conflito é uma oportunidade positiva, mas temos de saber em que essa disputa pode contribuir para a vida das pessoas envolvidas. Em contraposição a essa negociação, temos a barganha distributiva ou negociação baseada em posições, em que os interesses reais das pessoas não serão contemplados e sequer discutidos, podendo levar a negociação para um impasse e deterioração das relações. A barganha distributiva tem como premissa que tudo que se ganhar na negociação é à custa do oponente. Cada ganho que tiver implica diretamente perda para o outro. Exemplo! Se você vai negociar o prazo de entrega de um relatório com um membro de sua equipe e o pressiona para que a data seja antecipada para o mais breve possível, cada dia que se ganhar de antecipação implica diretamente trabalho dobrado para o outro, porque esse terá que se dedicar ao máximo para dar conta dessa demanda e de outras. De acordo com o Manual de Mediação Judicial (2013): O regateio, a barganha, a informação não revelada, a desconfiança na proposta do outro lado, a sensação de que pode estar sendo enganado, o jogo de concessões mútuas, a necessidade de dividir a diferença ou o prejuízo, o medo de estar sendo explorado e tantos outros aspectos, fazem parte de um tipo de negociação impregnado culturalmente em nossa sociedade. Voltando à aula 4, a partir da Moderna Teoria do Conflito, devemos utilizar as situações de conflito como uma oportunidade de aprendizado, crescimento e geração de ganhos mútuos. É importante aproveitar a energia do conflito causado pela divergência de interesses, ideias e valores para construir novas realidades e relacionamentos, mais produtivos para todos. A negociação integrativa, como já vimos e queremos reforçar porque ela é fundamental para a mediação, é uma forma de resolver conflitos que leva em conta a satisfação conjunta dos interesses das pessoas envolvidas. Ela obedece a uma sequência lógica e cronológica de passos a serem seguidos, diferente da barganha distributiva,em que a resolução da questão acontece de forma aleatória. Os passos a serem seguidos são: Habilidades do negociador Em linhas gerais, as habilidades que os negociadores utilizam depende do tipo de negociação que será realizada, do método e das estratégias empregadas. No entanto, existe um número significativo de habilidades que todo negociador deve ter, independente da situação. Resumindo algumas, podemos destacar: Excelente comunicação; Flexibilidade; Criatividade; Capacidade de observação; Decisão. Além disso, não deve superestimar ou subestimar as suas próprias capacidades pois, isso pode levar ao fracasso da negociação. Atividade Leia com atenção este diálogo entre a Sra. Sara, chefe de um Departamento de Vendas e sua subordinada, Amélia. Sra. Sara: Está claro, então, de que forma o trabalho tem de ser realizado? Amélia: Mas, Dona Sara, a equipe já apontou algumas falhas nesse processo... Sra. Sara: Eu sei o que estou dizendo. Vai ser assim e ponto final. Na sua opinião, a Sra. Sara é uma boa negociadora? Justifique sua resposta. Resposta: Não. A Sra. Sara não deve ser considerada uma boa negociadora, uma vez que, ao assumir uma postura típica daqueles que pensam ser “dono da verdade”, ela demonstra não estar disposta ao diálogo e à busca de uma solução que se mostre interessante para todos, em especial para a organização. Aula – 6 Agentes e alguns fatores importantes na mediação Definiremos, a seguir, os sujeitos no processo de mediação. Contudo o faremos de forma geral, lembrando que, no Judiciário, existem algumas peculiaridades, a partir da Lei da Mediação e do novo CPC, que serão explicados separadamente. Mediador O mediador tem como função exclusiva mediar a negociação. Ou seja, ele está eticamente impedido de exercer sua profissão de origem, inclusive no que diz respeito a prestar esclarecimentos técnicos às partes. Caso essas informações sejam necessárias, os mediandos devem ser orientados a procurar um especialista naquela área. O mediador deve cumprir e fazer cumprir os princípios da mediação, vistos na aula 3. É frequente, quando possível ou necessário, o trabalho em conjunto, chamado de comediação. Em geral, usamos esse termo para designar o trabalho de duplas de mediadores, que apresenta características valorizadas na mediação como: colaboração, diálogo e inclusão. É um trabalho enriquecedor porque, de certa forma, amplia a visão sobre o conflito, suas possibilidades de atuação, além de demonstrar para os mediandos a possibilidade de um trabalho colaborativo. Para um aprofundamento sobre a importância da comediação, sugerimos a leitura da página 82 do Manual de mediação Judicial (2013). Partes São os participantes da mediação e aqueles que têm o poder de decisão. A participação de quaisquer outros poderá ser vista como uma violação ao caráter privado e confidencial da mediação, pondo em risco o seu sucesso, por dificultar a abertura do diálogo. No entanto, em muitos casos, a decisão poderá vir a traduzir-se em impacto nas relações pessoais dos intervenientes, pelo que se promove a consideração da possível intervenção de outras pessoas relevantes para o processo. Mas essas são situações que deverão ser analisadas caso a caso, não trataremos delas neste momento. Destacamos, contudo, que tais discussões devem ser realizadas numa capacitação e em sua respectiva supervisão. As partes têm autonomia e protagonismo na mediação. Sendo toda e qualquer decisão fruto de suas reflexões e diálogos. Além disso, devem assumir a responsabilidade de tomar as decisões que influenciarão as suas vidas, no presente e no futuro. Advogados A mediação é um processo que não envolve apenas direitos, mas outros interesses mais amplos. Na maior parte da mediação, quando há a presença dos advogados, estes não se manifestam. E, se isso ocorre, entendemos que estão desempenhando os seus papéis de forma correta. Por quê? O objetivo da mediação é promover a comunicação entre as partes, é permitir que elas se expressem livremente e que possam se entender diretamente a partir daí. Os advogados são os assessores jurídicos das partes, garantindo que ninguém abrirá mão de direitos sem estar plenamente consciente dessa renúncia e dos ganhos possíveis decorrentes da decisão. Assim, os advogados ou representantes legais participarão das mediações, também esclarecendo os direitos de seus clientes. Para que você entenda melhor como ocorre a mediação judicial e a participação desses profissionais, julgamos fundamental a leitura dos dois documentos que especificam e esclarecem sua participação na mediação: a lei da mediação e o novo CPC. Acrescentamos, ainda, algumas considerações importantes sobre os advogados na mediação, destacadas na página 86 do Manual de Mediação Judicial (2013). Estrutura do processo de mediação Antes de conhecermos a dinâmica da mediação, é necessário entender que ela é composta de uma série de atos coordenados, no entanto, o mediador tem a liberdade de, dependendo da situação, flexibilizar o procedimento para que seja eficaz. Cada mediador desenvolve e tem um estilo próprio, respeitando as questões técnicas e éticas. É essa flexibilidade que torna a mediação um procedimento que requer não apenas a capacitação, mas também a criatividade do mediador. Além de enfatizar a flexibilidade na estrutura do processo de mediação, é importante destacar a informalidade que ela deve incentivar. Para isso, é necessário que o mediador não se apresente como uma figura de autoridade. Ele deve coordenar a mediação em um tom de conversa, sem formalidades e estimulando o diálogo. Você deve entender que essa informalidade não exclui a preservação de uma postura profissional adequada. A dinâmica da mediação Atualmente, no Judiciário, temos uma série de procedimentos que deverão ser seguidos para que a mediação ocorra. Podemos citar, entre eles, o encaminhamento para a mediação, o comparecimento obrigatório a partir da designação da mediação, além da possibilidade de poder desistir do processo sem mesmo ter comparecido a ele em um primeiro momento. Para melhor esclarecer esses aspectos, acreditamos ser fundamental para o seu aprendizado a leitura dos documentos que legalizam a mediação: a lei 13.105 (2015) e a lei 13.140 (2015). Em contrapartida, nas mais variadas áreas, incluindo aquelas ligadas ao Judiciário (a Defensoria Pública, os Escritórios de Prática Jurídica das Universidades, por exemplo), podemos ter a situação em que uma pessoa procura a instituição para dar entrada em uma ação. É, pois, oferecida a mediação (com uma breve explicação sobre ela) a partir de uma avaliação sobre a pertinência desse procedimento, segundo o caso apresentado. Sendo aceita a proposta pela parte, é importante que o contato com a outra seja realizado, por escrito ou por telefone, mas, principalmente, sob a forma de um convite para um diálogo, e não de uma convocação. Havendo a aceitação do convite, teremos um momento denominado pré-mediação. Pré-mediação Esse momento pode ser feito individualmente ou com as duas partes simultaneamente. Na pré-mediação, ocorre a troca de informações que antecede a mediação propriamente dita. O mediador explica sobre o processo de mediação, avalia se ela é possível, a partir das informações das partes, e analisa a possibilidade da sua atuação como mediador naquele caso (se há algum impedimento quanto a sua imparcialidade). É importante que, na pré-mediação, os mediandos sejam informados sobre a técnica da mediação, seus objetivos e alcance. São descritos os papéis do mediador e dos mediandos. Se estes comparecerem com seus advogados, o mediador deve esclarecer a importância deles como assessores e consultores jurídicos, assegurando que a mediação é uma prática colaborativa que busca o consenso. Devem ser tranquilizados sobre a necessidade desses profissionais na revisão legal do acordo e encaminhamento para a homologação do mesmo, caso seja preciso. Há um breve relato das partes sobre o conflito, a fim de ser avaliada a pertinênciada mediação e a existência de algum impedimento ético ou pessoal. Após a pré-mediação, se os mediandos optarem pela mediação e o mediador avaliar como possível sua realização, o procedimento terá início. Alguns autores evidenciam a importância de estabelecer uma agenda nessa fase, que deve conter os seguintes itens: estimativa do tempo de duração, frequência e duração das reuniões; lugar e idioma da Mediação ou, se assim o desejarem, deixar a critério da Instituição ou entidade organizadora do serviço; e custos e formas de pagamento da Mediação. Etapas da mediação Vamos observar, agora, como as etapas da mediação funcionam. Abertura Chamamos esse momento de discurso de abertura. É a partir daí que tem início a mediação. O discurso pode ocorrer após a pré-mediação, principalmente quando as partes comparecem juntas, ou em um outro momento em que deve ser lembrado, de forma resumida, o que foi conversado na pré-mediação. São estabelecidas, pois, as regras de comportamento dos mediandos, os princípios da mediação e o papel do mediador. Quanto à regra fundamental, deve ficar claro que, para uma comunicação ser eficaz, quando uma parte fala, a outra deve escutar, sem interromper. O enfoque das partes deve ser nos interesses e não na discussão de provas jurídicas. Deve ser abordada a possibilidade de sessões individuais, além das expectativas do mediador em relação às partes. Deve ser relembrado o papel dos advogados na mediação e explicado como a mediação ocorrerá. O entendimento das regras pelas partes deve ser confirmado, além da disposição de participarem. Após esse momento, em vários setores, há a assinatura de um Termo que pode ser denominado, por exemplo, Termo de Consentimento ou Termo de Participação, dependendo da instituição em que acontece a mediação. Para que você veja como uma sessão de abertura ocorre, indicamos a leitura do material do Manual de Mediação Judicial (2013) contido nas páginas 97 a 112. Relato das histórias Nesse momento, ouvimos a história de cada uma das partes sobre o conflito que as levou à mediação. O objetivo é dar a todos a oportunidade de ouvir o relato dos fatos e analisar as percepções das pessoas envolvidas. Podemos ter uma visão geral e, ao mesmo tempo, identificar questões e interesses que estão por trás das posições declaradas nas histórias. Há possibilidade de expressão de sentimentos, sem interrupções ou outros impedimentos, sempre mantendo um clima respeitoso e educado. O mediador deve escutar os relatos de forma ativa (ferramenta que será estudada na aula 7) e, após a exposição das partes sobre suas perspectivas, poderá elaborar perguntas, reunindo informações que o auxiliarão a entender aspectos que podem não estar claros em relação ao conflito trazido. Resumo Após o relato das histórias, o mediador faz um resumo do que foi dito, utilizando uma linguagem neutra ou positiva. Ele deve transformar posições trazidas nos relatos como, por exemplo, “Eu não aceito pagar esse valor pelo serviço prestado, porque isso não foi o combinado”, em interesses “Acredito que o senhor esteja falando que concorda em pagar o valor justo pelo serviço prestado” (veremos mais detalhes na aula 7). Como você percebeu, o mediador faz uma leitura do conflito de forma despolarizada, evidenciando interesses comuns e compartilhados, que foram identificados nos relatos das partes, potencializando uma postura colaborativa. O resumo fornece uma orientação para a mediação, buscando centralizar o diálogo entre as partes para os principais pontos a serem trabalhados. O mediador deve construir uma versão imparcial, neutra e prospectiva daquilo que escutou e entendeu. Além disso, a realização do resumo serve para avaliar a compreensão do mediador sobre o que foi trazido. É importante saber que a técnica do resumo pode ser utilizada em etapas posteriores: após troca de informações importantes, após sugestões de possíveis soluções, lembrar os reais interesses e apaziguar ânimos. Pauta de trabalho Após o resumo realizado pelo mediador e a confirmação das partes sobre a compreensão do profissional em relação ao ocorrido, é definida uma pauta de trabalho. Esta traduz os interesses ressaltados em temas a serem tratados. Ela pode ser confirmada, ratificada ou adequada pelos mediandos. A pauta é dinâmica e deve ser atualizada conforme o trabalho na mediação vai acontecendo. Podem aparecer outros temas no decorrer da mediação e deverão ser organizados pelo mediador, para que mantenham uma sequência lógica. Sistematizar o trabalho através de uma pauta de trabalho é uma forma de organizar a mediação e promover uma certa tranquilidade aos mediandos, que conhecerão os temas a serem tratados. É importante que se inicie a mediação a partir dos temas que apresentam menos desacordo, para que possa ser criada a percepção nos mediandos de que a colaboração entre eles é possível. Esclarecimento das controvérsias Com o uso das ferramentas que serão apresentadas na aula 7, o mediador trabalhará as questões da pauta de trabalho junto com os mediandos, buscando elucida-las. Resolução de questões A partir do trabalho realizado quanto ao esclarecimento das controvérsias e tendo sido alcançado a compreensão sobre o conflito, chega a hora de o mediador utilizar as ferramentas para conduzir as partes para a análise das possíveis soluções. É importante que os mediandos elejam critérios objetivos na tomada de suas decisões, evitando o surgimento de novas polarizações. Finalização da mediação Você deve saber que a mediação pode terminar com a assinatura ou não de um acordo ou pode ser interrompida a qualquer momento pelo mediador ou pelas partes quando alguma situação dificultar a sua continuidade. No entanto, isso não quer dizer que a mediação que não acaba em acordo, assinado ou não, seja um fracasso. Muitas vezes, a mediação já possibilitou a abertura para um diálogo, que levará a uma solução daquele conflito no Judiciário, frente ao juiz, se for o caso, ou em outro momento. O acordo escrito deve ser redigido pelo mediador, na linguagem dos mediandos, evitando, sempre que possível, o uso de termos técnicos que comprometem a compreensão deles. Deve refletir os compromissos mútuos e sua complementaridade. A linguagem é sempre positiva, otimista e com foco no futuro. Deve ser lembrada a possibilidade de um acordo provisório, que necessitará de um período de monitoramento ou de reavaliação para verificar a eficácia ou não daquela decisão. Essa situação ocorre com a marcação de futuras sessões de mediação a fim de avaliar a necessidade ou não de revisão sobre o que foi combinado. Atividade Em uma briga entre vizinhos, foi sugerida a participação em uma mediação. As pessoas foram encaminhadas para uma Câmara de Mediação, onde foi esclarecido o procedimento a ser realizado. Ao saírem do estabelecimento, uma delas comentou com um amigo que o acompanhava: “A próxima mediação ocorrerá em uma semana. O mediador disse que nos trará uma solução para o caso”. Esse comentário: Resposta: Não procede, porque não foi realizada uma mediação, e sim a pré-mediação, além disso, o mediador não dá solução para os conflitos. Aula – 7 Ferramentas da mediação Como uma prática que visa favorecer o diálogo, a mediação de conflitos utiliza várias ferramentas, para permitir que os mediandos consigam realizar uma dinâmica pautada na comunicação, favorecendo as suas relações. Essas ferramentas são importantes tanto para a construção do rapport como para a melhora do diálogo entre os mediandos, sendo este o principal objetivo do trabalho na mediação. É importante reforçar que as ferramentas são utilizadas durante todo o processo de mediação, sendo fundamental para o mediador o seu conhecimento e a sua aplicação nos diferentes momentos do processo. A seguir, conheceremos algumas dessas ferramentas. Recontextualização ou parafraseio A recontextualização consiste em uma técnica em que o mediador irá estimular as partes a perceberem determinado contexto a partir de outra perspectiva. Esse trabalhoconsiste em estimular a pessoa a considerar ou entender certo comportamento, expressão, interesse ou situação, de forma mais positiva, para que se possa trabalhar soluções também positivas para aquela questão. O sentido original da fala é mantido e podem ser utilizadas palavras ou expressões do discurso dos mediandos. O mediador chamará a atenção para aspectos importantes e significativos das falas dos mediandos, levando-os a uma nova escuta. O parafraseio possibilita que o autor da fala escute o que disse, novamente, podendo reorganizá-la ou confirmá-la. O ouvinte tem a oportunidade de escutar o que foi falado pela outra parte, de forma imparcial, através do mediador, sem as emoções e as cargas negativas que fizeram parte da fala original. O ouvinte pode, então, ampliar a sua escuta. Além disso, os mediandos terão a oportunidade de escutar a fala, através do mediador, como uma possibilidade de reflexão. Vejamos alguns exemplos... Audição de propostas implícitas Encontramos, em uma mediação, as partes com bastante dificuldade de se comunicar de uma forma neutra. Normalmente, estão exaltadas. Isso gera uma comunicação inadequada e, muitas vezes, elas podem propor soluções mesmo sem perceber. O mediador deve identificar essas propostas para os mediandos a fim de que eles possam construir uma solução consensual. Vejamos um exemplo: Afago ou reforço positivo O afago é uma resposta positiva do mediador a um comportamento produtivo das partes ou dos advogados, se for uma mediação que conte com a presença desses profissionais. Essa atitude é uma forma de estimular as partes ou os advogados a continuarem a ter uma atitude positiva frente à mediação. Muitas vezes, pode-se demonstrar o afago através de uma expressão facial ou uma linguagem corporal. O mediador deve sempre tomar cuidado para que o afago seja natural, porque, de outra forma, poderia não ser compreendido pelas partes. O mediador pode dizer, por exemplo: “Estamos avançando na mediação. Estão sendo muito produtivas as opções que vocês estão trazendo”. Sessões privadas ou individuais ou Caucus As sessões privadas são encontros realizados entre o mediador e cada uma das partes, sem que a outra esteja presente. É utilizada com as duas partes, com igual tempo para ambas. Os objetivos são diversos: Permitir a expressão de sentimentos, sem aumentar o conflito; Eliminar uma comunicação não produtiva; Identificar e esclarecer questões; Evitar reações que dificultem o acordo; Aplicar a técnica de inversão de papéis (que veremos mais adiante, nesta aula); Evitar comprometimentos prematuros com soluções ou propostas; Explorar algum desequilíbrio de poder; Trabalhar habilidades de negociação com as partes; Examinar alternativas; Quebrar impasses; Avaliar as propostas da sessão conjunta com cada parte; Evitar situações inadequadas à mediação. Inversão de papéis É uma técnica para desenvolver a empatia entre as partes. Cada um deve perceber o contexto sob a perspectiva do outro. Recomenda-se, em geral, que essa técnica seja utilizada em sessões privadas. Além disso, o mediador deve avisar às partes que é uma técnica e que será aplicada com a outra parte também. Muitas vezes, as partes sentem constrangimento pelo fato de estarem em conflito e tendem a colocar a culpa ou a responsabilidade no outro. Por isso, a técnica da inversão de papéis serve para que cada um se coloque no lugar do outro, percebendo o contexto no qual se encontra inserido e a visão que possui a respeito do conflito. Por exemplo, o mediador fala para uma das partes em um conflito entre consumidor e comerciante: “O senhor, apesar de ter seu comércio, também é consumidor. Vou aplicar, agora, uma técnica da mediação chamada de inversão de papéis, que será utilizada com a outra parte também. Pergunto: “como você gostaria de ser tratado como consumidor, no caso da devolução de um produto com defeito?”. Geração de opções Como já sabemos, o mediador não apresenta soluções, mas estimula as partes a criá-las. Elas devem aprender a buscar opções sozinhas, já que a mediação tem um papel educativo e, em novas situações conflituosas, elas tenderão a buscar suas próprias soluções. O mediador deverá realizar perguntas que ajudem as partes a pensar em soluções conjuntas. O importante é que elas gerem o maior número de opções. Outra questão muito importante é levar uma parte a pensar nos interesses da outra, ou seja, em alguma sugestão que pudesse ser dada e aceita pela outra parte. Com essa ferramenta, o mediador anima a criatividade das partes e incentiva sua imaginação, fazendo com que elas pensem em algo novo e não fiquem presas às perspectivas antigas, que não deram certo. O mediador poderia perguntar, por exemplo: “O que você pode fazer para ajudar a resolver esta situação?” “Para você, o que poderia funcionar como solução?” Normalização Sabemos que o conflito é uma característica natural de qualquer relação. No entanto, as partes se sentem constrangidas, principalmente, quando o conflito está na Justiça. E, assim, a culpa tem de ser de alguém. Nesse caso, é importante que o mediador não permita que as partes se culpem nem se sintam constrangidas. Dessa forma, o mediador irá normalizar o conflito e fazer com que as partes a percebam que o problema pode levá-las à construção de uma melhora em sua relação. Podemos perceber essa ação do mediador na situação de conflito entre um ex-casal que discute sobre a guarda dos filhos, exemplificada na imagem. Organização de questões e interesses Já vimos essa técnica na aula 5, mas é sempre bom relembrar. As partes, em geral, perdem o foco em situações de disputa, deixando de lado as questões que são importantes para a solução da mediação. O mediador, nesses casos, deve estabelecer uma relação com as questões a serem trabalhadas e os interesses reais das partes. Na mediação, é fundamental a identificação de interesses reais. Isso ocorre porque, quando as pessoas se expressam em um conflito, estão colocando as suas posições ou interesses aparentes. Por trás destes, há os interesses reais. Por exemplo, quando uma mãe diz para sua filha que não quer que ela chegue em casa tarde (posição), podemos presumir que ela está preocupada com a segurança da filha (interesse real). Validação de sentimentos Essa técnica consiste em identificar os sentimentos que foram desenvolvidos em razão do conflito e trabalhá-los como uma consequência natural. O mediador acolherá e legitimará um comportamento considerado como negativo, identificando nele o que há de positivo: uma necessidade não atendida. William Ury (2007), em sua obra “O poder do não positivo”, demonstra que, por trás de cada “não”, há um “sim” subjacente. Quanto mais importante o valor defendido, mais forte será o “não”. É a partir de uma escuta ativa (que veremos adiante) que o mediador poderá identificar e trazer esse valor para a mediação. A validação de sentimentos, na mediação, será realizada de forma a acolher o valor defendido e nunca deve ter um caráter de repreensão. Por exemplo, um mediador diz para as partes que estão se expressando de forma irritada e interrompendo uma a outra: “Entendo que ambos estão irritados porque querem resolver esta situação. Ao mesmo tempo, não vejo como essa forma de comunicação pode ajudar a construirmos uma solução que seja aceitável para vocês. Posso contar com a colaboração de vocês?" Escuta ativa Uma escuta de qualidade, e não apenas o fato de ouvir, é fundamental para a mediação. A escuta ativa requer que o mediador tenha uma participação efetiva no diálogo. Ela implica algumas questões: Escutar com curiosidade genuína O mediador deve procurar escutar para conhecer o conflito sob o ponto de vista dos mediandos e não para estabelecer pressuposições. Cada conflito e cada pessoa são únicos. O relato das partes deve ser ouvido pelo mediador sem preconceitos e pré-julgamentos. Ele deve se colocar no lugar de quem fala para entender o seu ponto de vista; Estimular a fala dosmediandos O mediador deve demonstrar interesse por qualquer tipo de comunicação, seja verbal ou não verbal. Deve realizar perguntas para o desenvolvimento do diálogo; permitir que o mediando se expresse sem interrupções; utilizar mercadores de escuta, como “compreendo”, “entendo”; Perceber a dinâmica e o conteúdo da comunicação como um todo O que é dito e não dito, a forma como é dito, os efeitos do que é dito e a comunicação não verbal; Confirmar o entendimento Confirmar o entendimento daquilo que o mediando falou, através dos resumos de suas falas. Estes irão comprovar que o mediador escutou e compreendeu, além de permitir ao mediando confirmar ou corrigir a compreensão do mediador. A escuta ativa legitima os mediandos e faz com que eles se sintam verdadeiramente compreendidos e considerados nas questões que trazem para a mediação. Isso os ajuda a saírem de suas posições rígidas e a confiarem no processo do diálogo. A mediação é, pois, o lugar para que eles trabalhem o conflito. É através dessa escuta que as partes irão encontrar, entender e incluir a perspectiva do outro, mantendo as suas, sem se sentirem ameaçadas. Atividade Qual é o objetivo da sessão privada, denominada de Caucus? Resposta: Dar oportunidade para a parte desabafar, abrandar as emoções decorrentes da vivência do conflito e esclarecer alguma questão. Aula – 8 Modelos mais utilizados Para iniciarmos nossa aula, é importante entendermos que os modelos mais utilizados nos países que praticam a mediação são: o modelo tradicional linear (Modelo de Harvard), o Modelo Transformativo (Busch e Foger) e o Modelo Circular Narrativo (Sara Cobb). Há modelos voltados para o acordo e modelos voltados para a relação. A mediação satisfativa, por exemplo, prioriza o problema concreto e busca o acordo. Os modelos circular-narrativo e transformativo já priorizam a transformação do padrão relacional, por meio da comunicação, da apropriação e do reconhecimento. Os vários modelos de mediação acolhem os princípios da autonomia da vontade, da confidencialidade e da inexistência de hierarquia. Medição satisfativa Podemos dizer que o início da dinâmica da mediação, realizada na Escola de Negociação de Harvard, que conhecemos na aula 5, logo ganhou adesões teóricas, que possibilitaram uma maior abrangência de estudos, levando à construção de novas técnicas e ao surgimento de diferentes modelos de prática da mediação. O início desse tipo de mediação esteve muito fundamentado em princípios de negociação e mais voltado para os acordos, se o comparamos com os modelos que surgiram mais tarde. Apesar dessa tendência, nesse modelo, não podemos esquecer que participar de um processo de diálogo regido pelos princípios da mediação já possibilita que as relações entre as pessoas em desacordo estejam sendo cuidadas. A Escola de Harvard é uma referência quando falamos de mediação, e vários procedimentos e conceitos são usados pela maioria dos outros modelos de mediação. Vamos a alguns exemplos: Identificar posições, consideradas como atitudes polarizadas e explícitas dos mediandos, e interesses, vistos, a princípio, como contraditórios e antagônicos, que deverão ser trabalhados na mediação. Utilizar técnicas de criação de opções para a satisfação dos interesses identificados; Observar os dados de realidade ou os padrões técnicos, éticos, jurídicos ou econômicos; Separar o conflito subjetivo (relação interpessoal) do conflito objetivo (questões concretas), conforme Fisher, Ury e Patton (1994). Esses procedimentos são aplicados como técnicas de negociação e priorizam o conflito objetivo, visando ao acordo negociado. Esse modelo foi bastante usado, também, na contribuição para a solução de impasses entre países. Mediação transformativa Robert Bush, professor de Resoluções Alternativas de Disputas (ADRs), da Hofstra University – Nova York – e Joseph Folger, professor de Comunicação da Escola de Comunicação da Temple University – Texas, fundaram esse modelo, que ganhou seguidores por todo o mundo. Eles escreveram o livro A Promessa da Mediação: uma abordagem transformativa do conflito(1996), cujo modelo foi amplamente divulgado. É considerada uma visão moderna do movimento das ADRs, que se afasta, relativamente, da construção de acordos como objetivo e privilegia a transformação do conflito, modificando uma postura adversarial para uma postura colaborativa. Esse modelo de mediação apresenta a contribuição da Escola de Harvard no que diz respeito à compreensão da complexidade, da flexibilidade e da intersubjetividade das relações. A mediação transformativa tem como objetivo enfrentar o conflito por meio do fortalecimento próprio e do reconhecimento dos outros. Segundo Bush e Folger (1996), nesse modelo de mediação, o mais significativo é o ganho social envolvido na restauração do diálogo entre as partes. Para os autores, o diálogo entre ser atendido e atender, desde que possível para ambos, é transformador e se traduz em acordo como uma consequência natural para aqueles que, de forma real, vivenciam o empoderamento e o reconhecimento. A autocomposição que leva ao acordo transforma-se na consequência e não no objetivo da mediação transformativa. Esse modelo, no que diz respeito à teoria da comunicação, também adota técnicas para aperfeiçoar a escuta do mediador, sua investigação e a reformulação da comunicação, através da paráfrase e dos questionamentos. Adota, em suas estratégias, o resumo, que auxilia no aperfeiçoamento da comunicação e na mudança de posições dos mediandos sobre as questões que têm relação com o conflito. Atenção A mediação transformativa engloba, portanto, técnicas da mediação satisfativa, aspectos da terapia sistêmica de família e os elementos já citados do modelo de ciência contemporânea, que são: complexidade, intersubjetividade e instabilidade. Destaca a importância da pré-mediação e dos conceitos e procedimentos como: posições, escutas, questionamentos, prevalência dos aspectos intersubjetivos do conflito, resumos, interesses, opções, dados de realidade e acordos subjacentes. A maioria desses procedimentos foi vista na aula 7. Mediação circular-narrativa É um modelo de mediação que adiciona ao modelo satisfativo tradicional conceitos da teoria geral dos sistemas, da teoria da cibernética e teoria da comunicação, entre outras teorias específicas do modelo. Com a união dos paradigmas teóricos, sistêmico e cibernético, podemos chegar à conclusão de que, na mediação, são trabalhadas as relações e a comunicação no sistema, propondo a compreensão do conflito no próprio sistema. A teoria da comunicação seria a forma de compreender como as pessoas estão expressando os seus conflitos. Sara Cobb, mediadora americana e idealizadora desse modelo, propõe uma forma de trabalhar que inclui a construção do acordo e, em paralelo, da relação social entre os envolvidos. Cobb trabalha com as técnicas de comunicação e de negociação numa abordagem sistêmica – visão sistêmica do conflito e da interação entre mediandos e sua rede social. Acrescenta especial atenção à construção social dos envolvidos e às suas redes sociais de pertinência. A mediação circular-narrativa parte do reconhecimento sobre a importância da conversa como o aprendizado mais importante que praticamos. Aprendemos e desenvolvemos nossa arte de conversar com os outros. A mediação, nesse modelo, é considerada como um processo conversacional que ocorre a partir da comunicação. Ela pode ser: analógica, não verbal, digital e verbal, lembrando sempre que essas formas se integram no processo de dialogar. A tarefa do mediador é, pois, desestabilizar as histórias antigas e possibilitar que os mediandos construam novas histórias. Para facilitar a sua compreensão sobre esses modelos, vamos colocá-los numa tabela em que os principais dados sobre cada um deles serão destacados: Outros modelos Há outros modelos além dos que vimos até agora. Iremos conhecê-los a seguir. São mais recentes a Mediação Estratégica, proposta por Rubén Calcaterra(2002) e a Mediação Narrativa, incentivada por Gerald Winslade e John Monk (2008). Winslade e Monk (2008) trabalham com terapia narrativa, voltada para a linguagem e, principalmente, com as versões dos fatos consideradas como construções particulares de cada sujeito, levando essa compreensão para a prática da mediação. A mediação narrativa assenta em nove pontos essenciais. Muitos mediadores preferem mesclar modelos teóricos em sua atuação. Reúnem as técnicas, os procedimentos e as atitudes previstos pelos diferentes modelos, e os utilizam de acordo com a situação, a ocasião, o estilo do mediador e o perfil dos mediandos. Essa parece ser uma tendência universal, relativa não somente à prática da mediação, mas também a outras práticas, em que o melhor de cada pensamento é reunido em favor da natureza da intervenção, sem privilegiar um único modelo teórico em particular. Os modelos citados reúnem-se sob a denominação Mediação Facilitativa. Mediação Avaliativa Apresentamos, agora, a mediação avaliativa. Ela tem sido empregada quando, por demanda dos participantes no processo de mediação, o mediador, após esgotar a tentativa de conduzir o processo sem opinar, oferece seu olhar técnico sobre a questão. O profissional contribui, assim, para a agilização do processo. Esse modelo funciona como um instrumento denominado Avaliação Neutra de Terceiro e pode servir de base para impulsionar o término da negociação. O modelo tem aplicabilidade e valor, principalmente, em situações nas quais o tempo de processo e o tempo das pessoas são determinantes, como nas questões corporativas. Segundo Almeida (s.d), nas situações em que a mediação é conhecida há mais tempo e teve sua prática renovada, temos os recursos como a Binding Mediation e os processos Med-Arb e Arb-Med. Na Binding Mediation, há um acordo prévio entre as partes para a aceitação do parecer do mediador como vinculante (ligação, um vínculo extensivo a todos). A decisão do mediador é redigida em separado e assinada, igualmente, pelas partes, após esgotadas as possibilidades de composição através da mediação. Esses modelos híbridos, Binding Mediation, Med-Arb e Arb-Med, são vistos como ágeis e econômicos, produzindo benefícios para além da celeridade e da economia e têm especial aceitação no mundo corporativo e dos contratos. Atividade Correlacione às colunas de acordo com os modelos de mediação aprendidos nesta aula: ( ) O trabalho é feito com a comunicação, modificando as narrativas para, assim, conseguir a mudança da realidade. ( ) As versões dos fatos são consideradas como construções particulares de cada sujeito. ( ) A desconstrução do conflito e a reconstrução da relação são estágios anteriores à tomada de decisão. ( ) Os procedimentos são aplicados como técnicas de negociação e priorizam o conflito objetivo, visando ao acordo negociado. ( ) O modelo tem como objetivo enfrentar o conflito por meio do fortalecimento próprio e do reconhecimento dos outros. Resposta: Mediação circular-narrativa, Mediação narrativa, Mediação estratégica, Mediação satisfativa, Mediação transformativa. Aula – 9 Medição familiar Os conflitos relacionais e as disputas nas famílias são numerosos e variam quanto ao grau de intensidade e gravidade. Eles são fruto dos diferentes níveis de relações que existem no seio familiar e deveriam ser considerados naturais. No entanto, por estarem ligados à estrutura interna de cada indivíduo, são vivenciados de forma negativa, dificultando, muitas vezes, sua solução através de uma negociação direta. Em geral, certos conflitos, nesse contexto, acabam gerando a necessidade de buscar um terceiro para ajudar ou decidir a situação em questão. A mediação familiar tem por objeto a família em crise. Quando seus membros se tornam vulneráveis, o mediador pode oferecer-lhes uma estrutura de apoio profissional, a fim de que lhes seja aberta a possibilidade de desenvolverem, através da mediação, a consciência de seus direitos e deveres, a responsabilidade não só pelo conflito, mas por tudo que será conversado na mediação, inclusive o que irão assumir como compromisso para o futuro. Através desse trabalho, serão criadas condições para que o conflito seja resolvido com o mínimo de comprometimento da estrutura psicoafetiva de seus integrantes. No caso da mediação familiar, teremos um momento de diálogo, em que a cooperação e o respeito são fundamentais para que os mediandos busquem a solução, sobretudo, pensando no pressuposto de que todos sairão ganhando com a resolução ou a transformação do conflito. Não apenas questões de separações de casais com filhos ou sem filhos podem ser resolvidas através da mediação familiar. Ela se mostra um procedimento muito eficaz nos conflitos decorrentes de laços de parentesco, como questões entre irmãos, primos, tios, sobrinhos e demais situações familiares. A mediação proporciona a possibilidade de criar soluções inovadoras, resgatando os laços de afetividade que existiam antes entre as pessoas. Não devemos nos esquecer das relações entre pais e filhos. No caso de adolescentes, o processo de mediação pais-adolescentes, assim como outros tipos de mediação familiar, permite que os membros da família definam seus temas, esclareçam suas necessidades e compreendam as dos outros integrantes. Isso gera alternativas e soluções que se harmonizam com as precisões de todas as partes envolvidas. Os seguintes princípios podem ser encontrados nesse tipo de mediação: Participação voluntária e igualitária; Confidencialidade; Autoria da resolução com as partes; Intervenção breve. Atenção A mediação familiar pode, também, ser vista como uma técnica eficiente para desobstruir os trabalhos nas Varas de família e nas Varas de Órfãos e Sucessões, influindo decisivamente para que os litígios judiciais tenham uma solução mais fácil, rápida e menos onerosa. Levando, assim, menos desgaste e sofrimento para todos. Não se deve confundir mediação com terapia ou aconselhamento familiar. Não há um diagnóstico de tratamento terapêutico a ser seguido. Mediação empresarial e organizacional Em torno dos anos setenta, as empresas norte-americanas começaram a utilizar a mediação como técnica alternativa de resolução de conflitos empresariais, não mais utilizando com tanta frequência os métodos tradicionais legais. Entre as alternativas de solução de conflitos nessa área, a mediação é a que mais tem se desenvolvido, com notável êxito em sua aplicação. O aumento da atividade empresarial levou a um incremento de conflitos entre empresários e entre empresas, o que tornou indispensável resolver de maneira efetiva essas situações, permitindo preservar as relações previamente estabelecidas. Algumas das vantagens que têm feito muitas empresas e escritórios de advocacia nos Estados Unidos, na América Latina e na Europa se interessarem pela mediação são: A significativa redução dos custos legais; O tempo; A possibilidade de resolver questões complexas; A confidencialidade do processo; A eliminação de dúvidas. A intervenção de um terceiro, facilitador do diálogo e da negociação cooperativa entre duas ou mais pessoas jurídicas, busca evitar a perda de tempo com discussões que não levarão a nenhum lugar, pois muitos falam, quase ninguém escuta, podendo a situação perdurar por horas. Algumas vezes, a solução vem baseada em aspectos apenas econômicos e objetivos, não sendo levados em conta os reais interesses das partes, gerando soluções com graves riscos de não serem cumpridas. Nesse sentido, a participação do mediador nessas situações é fundamental. Ele fornecerá elementos para a reflexão sobre a relação estabelecida entre as partes visando à construção de um futuro. As partes deverão perceber que o presente e o futuro dependem delas e, dessa forma, a melhor opção é uma relação mais madura e mais pacífica. O mediador deve tomar cuidado com alguns discursos de empresários ou representantes de empresas que apresentam fortes argumentos de convencimento, mas que encobrem os reaisinteresses e necessidades dessas empresas ou organizações. Muitas situações, nesse contexto empresarial, são fruto do descumprimento de cláusulas contratuais. A mediação, por isso, pode ter como resultado a elaboração de um novo contrato, com novas perspectivas entre as partes. Outra grande vantagem da mediação empresarial é o sigilo, pois as partes não querem suas pendências veiculadas publicamente no Judiciário. Nada do que foi discutido ali pode ser usado em eventual demanda judicial. Na esfera do trabalho, é habitual que se produzam conflitos que dificultam as relações profissionais e afetam o funcionamento das organizações. O mediador deve ter habilidades necessárias para uma adequada gestão do conflito organizacional. Atenção Segundo o site da Hewysa Consultoria e Treinamento, a mediação pode ser aplicada em qualquer “organização”, podendo seu uso ser preventivo, como, por exemplo, nos casos de introdução de: Novos produtos; Novas políticas administrativas; Novos funcionários; Fusão de empresas; Cisão de empresas; Participação dos empregados nos resultados ou lucros das organizações; Negociação de demissões; Relações intersindicais; Sucessão e/ou divergências na empresa familiar; Treinamento de funcionários em técnicas de resolução de conflitos; Dúvidas oriundas de contratos e acordos; Situações de crises, antes ou durante os processos ou reclamações trabalhistas; Desentendimento entre setores, entre gerentes, entre clientes e fornecedores. Mediação escolar A escola é um local onde convivem pessoas com diferentes características: religião, valores morais, personalidade e educação. Com tantas diferenças, é natural que surjam divergências das mais variadas espécies. Nesse caso, é fundamental a boa administração de conflitos que venham a surgir, para que sejam mantidos o respeito e a harmonia no ambiente escolar, e para que não haja interferência no processo ensino-aprendizagem. Assim sendo, a mediação surge para tentar prevenir e solucionar quaisquer conflitos que ocorram na instituição de ensino. A mediação é uma ferramenta que pode levar a uma solução construtiva do conflito frente ao desafio que é conviver todos os dias. Battaglia (2004) argumenta que “a mediação escolar se coloca como um convite à aprendizagem e ao aperfeiçoamento da habilidade de cada um na negociação e na resolução do conflito, baseada no modelo ganha-ganha, onde todas as partes envolvidas na questão saem vitoriosas e são contempladas nas resoluções tomadas”. O uso da mediação, nesse contexto, pode ser para resolver disputas e controvérsias na escola, entre alunos, docentes, diretores, coordenadores e pais, visando a uma melhor convivência. Um programa de mediação escolar também facilita a redução dos níveis de violência, de ausências e de suspensões, pois os alunos estariam mais disponíveis para conversar entre si e com as autoridades. Há uma mudança de paradigma nesses casos, pois jovens e crianças se responsabilizariam por seus atos e suas opções, não precisando dos adultos para resolverem seus problemas por eles. A mediação escolar possibilita a educação de valores, a educação para a paz e uma nova visão sobre os conflitos. É um modelo de intervenção que promove a escuta ativa (como vimos na aula 7), a participação colaborativa e o desenvolvimento da criatividade. Mediação comunitária Na era da globalização, as mudanças sociais, políticas, econômicas e culturais têm sido cada vez mais profundas e aceleradas. Há uma transformação permanente da comunidade e das formas de estabelecer a sociabilidade entre os indivíduos de uma cidade, região ou comunidade. Esse convívio gera uma fonte enorme de conflitos que demandam o reconhecimento do outro e o respeito pelas diferenças. Na mediação comunitária, vamos perceber a criação de espaços de diálogos em que as pessoas, com suas diferenças, vão construir seus lugares na sociedade de forma pacífica, dinâmica e colaborativa. Ela estabelece canais para a intervenção política, institucional e social, permitindo uma reflexão sobre a realidade atual, preservando as características de uma comunidade pluralista, igualitária e integradora. De acordo com Nató; Querejazu; e Carbajal (2005), a mediação comunitária pode ser utilizada para auxiliar em: Conflitos na comunidade, como relações entre vizinhos de uma determinada área; Conflitos entre pessoas em uma determinada região; Conflitos provenientes de questões culturais como etnia, minorias, imigração e inclusão social. A mediação comunitária tem como objetivo “desenvolver entre a população valores, conhecimentos, crenças, atitudes e comportamentos conducentes ao fortalecimento de uma cultura político-democrática e uma cultura de paz. Busca, aind enfatizar a relação entre os valores e as práticas democráticas e a convivência pacífica e contribui para um melhor entendimento de respeito e tolerância e para um tratamento adequado daqueles problemas que, no âmbito da comunidade, perturbam a paz”. (SALLES, 2004, p.302). São vários os pontos positivos da Mediação Comunitária a destacar: O estímulo ao diálogo entre famílias e vizinhos; O incentivo à participação ativa dos cidadãos na solução de conflitos individuais e coletivos; A criação de espaços de escuta; A prevenção à má administração de conflitos futuros; A ênfase à valorização do coletivo em detrimento do individual, buscando sempre a solução de um problema que satisfaça a todas as partes envolvidas. Segundo Salles (2004), a mediação é um processo democrático porque estimula a participação ativa das pessoas na solução dos conflitos e a inclusão social, permitindo que elas busquem por elas mesmas a solução de seus problemas. É importante lembrar que a mediação comunitária não está voltada para a população com baixos recursos. Ela é ampla e pode ser utilizada em todas as classes sociais, porque pressupõe a pacificação da sociedade como um todo, e não a paz em uma determinada classe. Mediação ambiental A previsão constitucional sobre o Direito Ambiental, em nossa Carta Magna (1988 – VI, Título VIII, Da Ordem Social), estabelece o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, um bem de uso comum e indispensável para a qualidade de vida no presente e para as futuras gerações. Como se trata de situações que exigem respostas imediatas, quando ocorre algum conflito, a mediação tem se mostrado uma estratégia adequada, porque cria a possibilidade de diálogo entre todos os envolvidos, promovendo a melhora e a conservação de uma relação existente e, também, permitindo a prevenção de futuras disputas. Ao mesmo tempo, constrói uma consciência ecológica nas partes, através dos compromissos assumidos ao longo da mediação. De acordo com Sampaio e Braga Neto (2007), tem-se notado que as condutas que privilegiam soluções negociadas estão sendo priorizadas. O Ministério Público Federal e Estadual, os órgãos estaduais e municipais ligados ao meio ambiente têm desempenhado um importante papel na primazia do diálogo sobre as questões ambientais, com uma base colaborativa. O importante é o cumprimento dos compromissos, através da identificação dos interesses reais dos envolvidos, dos limites das normas jurídicas e do uso de estratégias adequadas para preservar o meio ambiente. Os órgãos federais e estaduais, citados anteriormente, contam com o auxílio de mediadores especializados para analisar, junto com as partes, as questões conflituosas. Uma mediação ambiental trabalhará para a conscientização ecológica de todos os envolvidos, construindo estratégias para o futuro, que devem estar em conformidade com a legislação em vigor, ligadas a um desenvolvimento mais sustentável e coerente, objetivando a preservação dos recursos ambientais naturais. Mediação judicial Entre os meios alternativos de soluções de disputas, o papel da mediação de conflitos é inegável. Suas características e seus objetivos, no âmbito do acesso material à justiça, apresenta as seguintes situações: Na busca pela justiça, os cidadãos merecem disporde diversas maneiras para demandar seus direitos. Nessa perspectiva, a mediação figura como um meio essencial, já que, de forma simples e rápida, visa à aproximação das partes, esclarecendo-as, para que elas próprias alcancem a justiça que procuram. Seguindo esse caminho, a mediação apresenta-se como instrumento de transformação do Judiciário, tendo como consequência a paz social, criando uma cultura que, paulatinamente, irá diminuir a demanda de processos judiciais. No Brasil, já há previsão legal expressa em nosso ordenamento jurídico (Lei 13.140 de junho de 2015 e Lei 13.105 de março de 2015). A Lei 13.140 de junho de 2015 dispõe sobre a mediação como meio de solução de controvérsias entre particulares e sobre a autocomposição de conflitos no âmbito da administração pública. Considerando a mediação como uma atividade técnica exercida por terceiro imparcial sem poder decisório, que, escolhido ou aceito pelas partes, as auxilia e estimula a identificar ou desenvolver soluções consensuais para a controvérsia. É importante lembrar que a mediação tem se desenvolvido bastante na área judicial, no território nacional, e uma das grandes molas propulsoras desse desenvolvimento é a Universidade. Na esfera governamental, foram adotadas normativas direcionadas para a mediação. O Ministério da Educação, através da Secretaria de Ensino Superior, em sua organização didático-pedagógica dos padrões de qualidade dos cursos de Direito, no item 5, letra C II, em junho de 2001, recomendava a mediação enquanto prática a ser adotada e desenvolvida nos Núcleos de Prática Jurídica dos cursos de Direito. Tal orientação e a inserção da disciplina Mediação nos cursos de Direito representam um grande avanço para o ensino acadêmico, além de proporcionar para os futuros profissionais da área uma prática mais comprometida com uma cultura de negociação, no lugar da cultura do litígio. Acreditamos que, quanto à área de mediação judicial, as aulas anteriores foram bastante elucidativas e, por isso, preferimos nos estender aos outros contextos. Recomendamos como uma leitura fundamental o Manual de mediação judicial, que nos acompanhou por várias vezes em nossas aulas. Atividades Alguns autores, ao tratarem de mediação, conceituam esse processo de resolução de conflitos e buscam esclarecer o papel do profissional enquanto mediador. Leia com atenção as afirmativas abaixo: I. A mediação familiar tem por objetivo ajudar as partes em controvérsia ou disputa a alcançar a aceitação mútua e a concordância voluntária. II. A mediação familiar é um processo preventivo que tenta evitar o divórcio através da intervenção firme do mediador, que orienta as partes sobre as consequências jurídicas do divórcio. III. O mediador é um profissional com capacitação específica, que deve se manter neutro em todo o processo. IV. A mediação não é uma arbitragem, na medida em que não tem como encargo descobrir e prover soluções para as partes. Agora, assinale a alternativa correta: Resposta: Somente as proposições I, III e IV estão corretas. Aula – 10 A prática da mediação A credibilidade da medição no Brasil, como processo destinado a realizar a solução de controvérsias, está diretamente ligada ao respeito que os mediadores possam vir a conquistar, através de um trabalho com qualidade técnica e fundamentado nos mais rígidos princípios éticos. Como você percebeu, no decorrer de nossas aulas, a mediação vai além da solução do conflito, propondo-se a transformar um contexto adversarial em colaborativo. É um processo confidencial e voluntário, em que a responsabilidade das decisões cabe às partes envolvidas. Você notou que a negociação, a conciliação e a arbitragem também são alternativas ao litígio, mas com práticas diferentes. A prática da mediação requer conhecimento e treinamento específico de técnicas próprias, vistas em nossas aulas. Além disso, o mediador deve qualificar-se e aperfeiçoar-se, melhorando suas atitudes e suas habilidades profissionais continuamente. O mediador, no desempenho de suas funções, deve proceder de forma a preservar os princípios éticos, ou seja, deve preservar a ética e a credibilidade do instituto da mediação por meio de sua conduta. Com frequência, os mediadores também têm obrigações frente a outros códigos éticos (dos advogados, dos psicólogos, dos contadores etc.). O código de cada profissão adiciona critérios específicos a serem observados pelos profissionais no desempenho da mediação. Quando ele está vinculado a instituições ou entidades especializadas, as determinações delas devem ser somadas aos preceitos éticos dos mediadores. Uma outra questão que não deve ser esquecida é a das declarações públicas e atividades promocionais, nas quais o mediador deve se restringir a assuntos que esclareçam e informem o público por meio de mensagens de fácil entendimento. Código de Ética do mediador Apresentaremos, nesta aula, o Código de Ética para mediadores e conciliadores da Resolução 125 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), estabelecido em 2010. O documento consta como um anexo (III), nessa Resolução. Antes, já existiam Códigos de Ética para mediadores, de acordo com a instituição em que as mediações eram realizadas. O CNJ, visando a uma política pública adequada para a resolução de conflitos e a preservação da qualidade dos serviços prestados na área de mediação e conciliação, como instrumentos de pacificação e prevenção de conflitos, estabeleceu o Código de Ética para que mediadores e conciliadores seguissem esses preceitos em suas práticas. Como tal, um Código de Ética fixa normas que regulam os comportamentos das pessoas dentro de uma determinada profissão e, também, de uma empresa. Temos Códigos de Ética profissionais e empresariais. Trata-se de uma normativa interna de cumprimento obrigatório. Vamos, então, iniciar nosso estudo sobre os compromissos éticos do mediador, esclarecendo que, apesar de esse documento ter sido elaborado para mediadores e conciliadores, destacaremos apenas a função do mediador, que é o nosso objeto de estudo. Dos princípios e garantias da conciliação e mediação judiciais Art. 1º São princípios fundamentais que regem a atuação de conciliadores e mediadores judiciais: confidencialidade, decisão informada, competência, imparcialidade, independência e autonomia, respeito à ordem pública e às leis vigentes, empoderamento e validação. Vamos destacar cada um desses princípios, que você já conhece da aula 3. Vamos lá! I – Confidencialidade - dever de manter sigilo sobre todas as informações obtidas na sessão, salvo autorização expressa das partes, violação à ordem pública ou às leis vigentes, não podendo ser testemunha do caso, nem atuar como advogado dos envolvidos, em qualquer hipótese. Pode-se afirmar que quase todos os códigos de ética para a conduta profissional de mediadores incluem, entre as suas regras, a de que o mediador deve manter em sigilo os dados que venha a conhecer em razão do seu serviço. Apesar de a prescrição do respeito à confidencialidade ser universal, o conteúdo atribuído a ela e seus limites não é uniforme quando se fala de outros códigos. Há uma gama de aspectos sobre o que seja a confidencialidade, sua extensão, se é de livre disposição das partes e se admite ou não exceções. No entanto, com ela, protege-se melhor as partes de boa-fé e, com a projeção dessa garantia, poucas pessoas evitariam uma mediação por medo de consequências adversas em um eventual futuro processo judicial. Retornaremos à confidencialidade mais adiante. II – Decisão informada - dever de manter o jurisdicionado plenamente informado quanto aos seus direitos e ao contexto fático no qual está inserido. As partes devem ter a plena consciência de seus direitos e da realidade dos fatos na qual se encontram como condição de legitimidade, para que resolvam a disputa por meio de um acordo. Os mediandos têm o direito de receber informações quantitativas e qualitativas acerca da mediação que estão realizando, de modo que não sejam surpreendidos porqualquer consequência inesperada da solução que adotaram. Isso impossibilita de uma das partes ser iludida pelo outro interessado ou até mesmo pelo terceiro imparcial. III – Competência - dever de possuir qualificação que o habilite à atuação judicial, com capacitação na forma desta Resolução, observada a reciclagem periódica obrigatória para formação continuada. O mediador deve estar capacitado e habilitado para o exercício de sua função, apresentando qualidades como diligência, conhecimento técnico, prudência e imparcialidade. O termo competência veio designar, de maneira geral, a capacidade reconhecida de se pronunciar nesta ou naquela matéria. Há, portanto, no termo competência, uma relação entre a capacidade e o reconhecimento que irá legitimá-la. Dado que a profissão do mediador é nova e exercida por profissionais advindos de diferentes áreas, não é possível dizer que exista um melhor mediador, apenas que o facilitador deve estar capacitado para lidar com conflitos que envolvam aspectos emocionais. O perfil profissional do mediador em mediação deve incluir nível superior; capacidade básica em mediação; experiência no emprego de técnicas de resolução de conflitos e credibilidade das partes. Além disso, o mediador deve ser um favorecedor da cooperação; um facilitador da comunicação, da troca de informações e do entendimento e, ainda, um equilibrador (CEZAR-FERREIRA, 2004). IV – Imparcialidade - dever de agir com ausência de favoritismo, preferência ou preconceito, assegurando que valores e conceitos pessoais não interfiram no resultado do trabalho, compreendendo a realidade dos envolvidos no conflito e jamais aceitando qualquer espécie de favor ou presente. O mediador deve evitar tomar uma atitude que possa ser encarada por uma das partes, ainda que aparentemente, como uma tomada de posição em prol da outra. Isso poderia ficar evidenciado como, por exemplo, a aceitação por parte do mediador de presentes ou dádivas de uma das partes ou ainda com a exposição de seus preconceitos a determinadas características pessoais de uma das partes. A partir desse princípio, observamos que o mediador encontra-se de forma equidistante das partes, isso significa dizer que ele irá ouvir as duas partes de forma igual e não irá representar ou aconselhar nenhuma delas. Ele é imparcialporque não está do lado de nenhuma das duas partes, ele não tem interesse próprio em nenhuma das questões envolvidas nos conflitos. É uma condição fundamental para o mediador, assim não poderá existir nenhum conflito de interesses ou relacionamento que seja capaz de alterar ou afetar a sua imparcialidade. V – Independência e autonomia - dever de atuar com liberdade, sem sofrer qualquer pressão interna ou externa, sendo permitido recusar, suspender ou interromper a sessão se ausentes as condições necessárias para seu bom desenvolvimento, tampouco havendo dever de redigir acordo ilegal ou inexequível. Diz esse princípio que o terceiro imparcial deve atuar com liberdade, sem pressões internas ou externas. A autonomia do mediador diz respeito ao fato de que ele pode recusar, suspender ou interromper a sessão de solução de conflitos, se entender que não há condições mínimas necessárias para prossegui-la ou iniciá-la. VI – Respeito à ordem pública e às leis vigentes - dever de velar para que eventual acordo entre os envolvidos não viole a ordem pública nem contrarie as leis vigentes. É importante entender que os acordos realizados na mediação não podem ir contra a ordem pública ou contra as leis, pois seria incoerente uma decisão do Poder Judiciário infringir algum desses pontos. ara encontrarem suas próprias respostas. VII – Empoderamento - dever de estimular os interessados a aprenderem a melhor resolverem seus conflitos futuros em função da experiência de justiça vivenciada na autocomposição. Essa expressão de uso comum no meio empresarial, mais do que uma técnica administrativa, é uma filosofia gerencial, em que se distribui uma parcela maior de poder aos funcionários, dando-lhes maiores responsabilidades e, paralelamente, melhor capacitação para exercer novas tarefas e funções. A visão empresarial do empoderamento não é muito diferente da forma como é abordada na mediação. Empoderar é mostrar às partes que elas têm capacidade de lidar com seus conflitos de forma produtiva e positiva. Através do empoderamento, a mediação atinge objetivos que a decisão judicial é incapaz de atingir por si só. Enquanto a sentença é imposta às partes, sem sua participação na construção da solução, a mediação tem o potencial de capacitá-las para encontrarem suas próprias respostas. VIII – Validação - dever de estimular os interessados a perceberem-se reciprocamente como seres humanos merecedores de atenção e respeito. O mediador deve incentivar as partes para que uma se coloque no lugar da outra durante o procedimento, ou seja, zelar para que se crie uma conscientização dos sentimentos e interesses de ambas as partes, aumentando a compreensão e facilitando o diálogo entre elas. O mediador, ao validar sentimentos, demonstra às partes que é natural haver conflitos em qualquer relação e que se faz mais eficiente buscar soluções do que atribuir culpa. Das regras que regem o procedimento de conciliação/mediação Art. 2º As regras que regem o procedimento da conciliação/mediação são normas de conduta a serem observadas pelos conciliadores/mediadores para o bom desenvolvimento daquele, permitindo que haja o engajamento dos envolvidos, com vistas à sua pacificação e ao comprometimento com eventual acordo obtido, sendo elas: I – Informação - dever de esclarecer os envolvidos sobre o método de trabalho a ser empregado, apresentando-o de forma completa, clara e precisa, informando sobre os princípios deontológicos referidos no Capítulo I, as regras de conduta e as etapas do processo. A informação para os mediandos é fundamental, porque garante, para eles, o conhecimento sobre o procedimento que irão realizar. Dessa forma, sentem-se mais seguros quanto ao processo da mediação e o que esperar dela. II – Autonomia da vontade - dever de respeitar os diferentes pontos de vista dos envolvidos, assegurando-lhes que cheguem a uma decisão voluntária e não coercitiva, com liberdade para tomar as próprias decisões durante ou ao final do processo e de interrompê-lo a qualquer momento. O princípio da autonomia da vontade é respeitado durante todo o procedimento da mediação. Os mediandos têm ampla autonomia para decidir sobre a participação na mediação e sobre o conteúdo das conversas. Já os mediadores têm ampla autonomia para decidir sobre qual vai ser a estrutura do procedimento e o que da conversa dos mediandos é importante para ser usado a fim de que o conflito possa ser transformado. III – Ausência de obrigação de resultado - dever de não forçar um acordo e de não tomar decisões pelos envolvidos, podendo, quando muito, no caso da conciliação, criar opções, que podem ou não ser acolhidas por eles. A mediação não implica acordo necessariamente. As decisões devem ser tomadas pelos envolvidos. O mediador não pode decidir pelas pessoas. Cabe a elas a responsabilidade por suas escolhas, elas detêm o poder de decisão. A mediação tem por objetivo atingir a satisfação dos interesses e das necessidades dos envolvidos no conflito. O acordo passa a ser a consequência lógica do trabalho de cooperação entre as partes realizado ao longo de todo o procedimento. IV – Desvinculação da profissão de origem - dever de esclarecer aos envolvidos que atuam desvinculados de sua profissão de origem, informando que, caso seja necessária a orientação ou o aconselhamento afetos a qualquer área do conhecimento, poderá ser convocado para a sessão o profissional respectivo, desde que com o consentimento de todos. O objetivo do mediador é a pacificação das partes, através de seu trabalho com a comunicação entre elas. Ele não pode acumular tarefas. Se for necessária a orientação de outros profissionais, estes devem ser chamados, ou as partesdevem ser encaminhadas até eles. O mediador não deve fazer essa orientação, porque a situação pode levar a uma confusão de papéis na mediação. V – Compreensão quanto à conciliação e à mediação - Dever de assegurar que os envolvidos, ao chegarem a um acordo, compreendam perfeitamente suas disposições, que devem ser exequíveis, gerando o comprometimento com seu cumprimento. É importante entender que a mediação não é finalizada apenas quando se chega a um acordo, mas quando se consegue que os participantes do conflito tenham compreendido de modo claro o que lhes importa, as alternativas que possuem e, também, que eles têm poder de decisão sobre seus próprios interesses e necessidades. O mediador, como já vimos, vai tentar, através de reuniões com as partes, fazer com que estas se conscientizem e obtenham a solução satisfatória por meio do diálogo e do consenso mútuo. Quando não há imposição de uma solução por um terceiro, as possibilidades de cumprimento do acordo são maiores, levando sempre em conta a questão da celeridade processual. Essa regra trata, também, do dever de uma análise prévia sobre a possibilidade de cumprimento do acordo pelas partes antes de sua formalização. Não adianta chegar a um acordo que não poderá ser cumprido. Das responsabilidades e sanções do conciliador/mediador Art. 3º Art. 3º Apenas poderão exercer suas funções perante o Poder Judiciário conciliadores e mediadores devidamente capacitados e cadastrados pelos Tribunais, aos quais competirá regulamentar o processo de inclusão e exclusão no cadastro. Dever de possuir qualificação que o habilite à atuação na área da mediação judicial, com capacitação na forma da Resolução 125 (2010), sendo observada a reciclagem periódica obrigatória para formação continuada. Com isto, deseja-se garantir um trabalho de qualidade, gerando resultados adequados e duradouros. Art. 4º Art. 4º O conciliador/mediador deve exercer sua função com lisura, respeitar os princípios e regras deste Código, assinar, para tanto, no início do exercício, termo de compromisso e submeter-se às orientações do Juiz Coordenador da unidade a que esteja vinculado. O respeito ao Código de ética é fundamental para que a mediação ocorra da forma mais transparente possível. Neste Código, estão contempladas questões pertinentes ao trabalho do mediador. o mediador, além dos princípios e regras anteriormente mencionados, deverá ter postura pró-ativa com relação ao desenvolvimento da prática da mediação. Art. 5º Art. 5º Aplicam-se aos conciliadores/mediadores os motivos de impedimento e suspeição dos juízes, devendo, quando constatados, serem informados aos envolvidos, com a interrupção da sessão e a substituição daqueles. Nos impedimentos, há presunção absoluta da parcialidade (certeza de que a pessoa não será imparcial), enquanto na suspeição, essa presunção é relativa (a imparcialidade é discutível). Os impedimentos são causas que, objetivamente, impedem, por exemplo, o juiz de julgar um determinado processo: como ser parte, ter atuado como advogado, promotor, perito ou ter prestado testemunho, quando algum parente seu for parte ou advogado do processo ou quando for órgão de direção ou de administração de pessoa jurídica, parte na causa. A suspeição, por sua vez, relaciona-se com a subjetividade do juiz, estando presentes as seguintes hipóteses: quando este for amigo íntimo ou inimigo de qualquer das partes, quando estas forem credoras ou devedoras do juiz, bem como seus cônjuges e parentes, quando for herdeiro presuntivo, donatário ou empregador de alguma das partes, quando receber dádivas das partes, aconselhá-las ou subministrar meios para atender às despesas do litígio e quando estiver interessado no julgamento da causa em favor de uma das partes. O juiz poderá, ainda, declarar-se suspeito por motivo íntimo. Como tais disposições da lei estariam relacionadas ao mediador? Caso exista algum motivo de impedimento ou suspeição, o mediador deve informá-lo aos envolvidos na mediação, a sessão deve ser interrompida e pedida a sua substituição. Art. 6º Art. 6º No caso de impossibilidade temporária do exercício da função, o conciliador ou mediador deverá informar com antecedência ao responsável para que seja providenciada sua substituição. Para que as partes não fiquem prejudicadas pela falta da mediação e pelo respeito que é proporcionado a elas através de tal processo, observamos, neste artigo, uma preocupação para que a continuidade da mediação não seja interrompida. Art. 7º Art. 7º O conciliador ou mediador fica absolutamente impedido de prestar serviços profissionais, de qualquer natureza, aos envolvidos em processo de conciliação/mediação sob sua condução. Neste caso, convidamos você a observar a lei 13.140 (2015), que estabelece, no seu artigo 6, da seção II, subseção I: “O mediador fica impedido, pelo prazo de um ano, contado do término da última audiência em que atuou, de assessorar, representar ou patrocinar qualquer das partes”. Fazendo uma interpretação mais abrangente, nesse caso, o mediador, na mediação judicial, sendo ele advogado, não poderá ter uma das partes como cliente após a mediação, pelo prazo de um ano. Art. 8º Art. 8º O descumprimento dos princípios e regras estabelecidos neste Código, bem como a condenação definitiva em processo criminal, resultará na exclusão do conciliador/mediador do respectivo cadastro e no impedimento para atuar nesta função em qualquer outro órgão do Poder Judiciário nacional. O Código de ética é um instrumento que busca a realização dos princípios, a visão e a missão de uma profissão. Serve para orientar ações e explicitar a postura do profissional. Como vemos, o descumprimento das determinações contidas no Código de Ética podem ser passíveis de punições já previstas nas legislações trabalhistas, de responsabilidade civil, penal e outras. Parágrafo Parágrafo único - Qualquer pessoa que venha a ter conhecimento de conduta inadequada por parte do conciliador/mediador poderá representar ao Juiz Coordenador a fim de que sejam adotadas as providências cabíveis. Neste parágrafo, observamos a importância do cumprimento deste Código e a possibilidade de relatar o seu descumprimento, em prol de uma mediação dentro dos parâmetros éticos e justos para todos que dela participam. Atividade Agora que você entendeu a regra da imparcialidade, analise as opções seguintes e marque a que não corresponde à regra. RESPOSTA: Aqueles que participarem da mediação devem manter o sigilo sobre todo o conteúdo trabalhado nessa situação.