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A problemática dos Sacramentos hoje

Texto de estudo da Iniciação Teológica a Distância (PUC‑Rio): Introdução aos Sacramentos — analisa a problemática dos sacramentos hoje (crise litúrgica, rejeição e explosão de ritos, oposição da racionalidade moderna), apresenta objetivos, duração (5 horas) e bibliografia.

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INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 15 
 
INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS 
1ª Semana 
Primeira unidade: A Problemática dos Sacramentos, Hoje 
 
I. Introdução 
 
Muitas vezes, me surpreendo com algumas perguntas relativas ao 
valor e ao significado dos Sacramentos na experiência cristã: 
 Por que, atualmente, muitos católicos têm dificuldade de compre-
ender o valor dos sacramentos no conjunto da fé cristã? 
 Por que algumas comunidades não destacam o valor profético, 
transformador dos sacramentos? 
 Por que as celebrações litúrgicas raramente despertam entusiasmo, 
esperança, renovação da vida? 
 Por que a celebração litúrgico/sacramental, muitas vezes, vem 
sendo vista como repetição monótona dos acontecimentos da sal-
vação? 
 Como redescobrir a legitimidade da linguagem simbólica, o sen-
tido mistagógico (vivencial) dos sacramentos? 
 
Enfim, apesar da função de destaque dos sacramentos no processo 
de amadurecimento cristão, é mesmo verdade que muitos católicos/as 
encontram-se na “contra-mão” dos sacramentos. As causas desta 
situação são muito complexas. Algumas decorrem do contexto sócio-
histórico-cultural, outras advêm do interior mesmo das comunidades 
de fé. De fato, a vida litúrgico-sacramental das comunidades eclesiais 
tem sido atingida pelas fortes investidas que a modernidade lançou e 
continua lançando à vivência religiosa dos católicos, a partir do século 
XIX e ao longo do século XX. 
II. Objetivos 
 
1. Apresentar e explicar as principais situações decorrentes do con-
texto sócio-cultural que têm provocado contradições em relação 
aos ritos religiosos e aos sacramentos da fé, em especial, para que 
você possa fazer um adequado discernimento a respeito da proble-
mática que envolve os Sacramentos e as Celebrações Litúrgicas. 
 
INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 16 
 
INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS 
 
2. Mostrar a relação entre a crise interna vivida pela Igreja, nestes úl-
timos tempos, a respeito de sua identidade e missão, para que você, 
junto com sua comunidade eclesial, possa descobrir caminhos de 
superação destes problemas. 
 
3. Fornecer informações sobre as reações apresentadas pela Igreja, vi-
sando a valorização dos Sacramentos como importantes celebra-
ções da Liturgia, como meios de amadurecimento na experiência 
do Deus cristão. 
 
III. Duração Prevista 
 
5 horas, aproximadamente, de estudo. 
 
IV. Material Didático 
 
 A Sagrada Escritura; 
 Este texto-base de estudo; 
 Um caderno para anotações pessoais; 
 Os seguintes livros para complementar e aprofundar a temática: 
 
COMPÊNDIO VATICANO II. Sacrosanctum Concilium (SC). Sobre 
a Liturgia da Igreja. Petrópolis, Vozes, 1967, no. 521. 
Maria Carmen Castanheira AVELAR. Sacramentos e experiência 
cristã: Uma Pedagogia rumo à maturidade em Jesus Cristo. In 
COSTA, P.C. (org.). Sacramentos e Evangelização. São Paulo, Lo-
yola, 2004, pp. 181-200. 
Carlo ROCHETTA. Os Sacramentos da fé. São Paulo, Paulus, 1991, 
pp. 7-23. 
Juan Luis SEGUNDO. Os Sacramentos Hoje. Coleção Teologia 
aberta para o leigo, v.4. São Paulo, Loyola, 1977. 
Victor, CODINA, V., sj. – Diego, IRARRAZAVAL, C.S.C. Sacra-
mentos de Iniciação. Água e Espírito de Liberdade. Petrópolis: Vo-
zes, 1991, p. 17. 
 
 
INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 17 
 
INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS 
Desenvolvimento do tema 
 
1.1. A sociedade atual é contraditória em relação às expressões 
culturais e religiosas da fé 
 
O contexto atual é fortemente paradoxal em relação aos ritos, de 
modo especial aos ritos religiosos, e às expressões culturais da fé em 
geral. Existem embates entre opositores da ritualidade, da linguagem 
simbólica dos ritos religiosos e aqueles que chegam ao fanatismo do 
ritualismo espetacular. 
 
a) Rejeição aos ritos religiosos X explosão de novos ritos 
Esta realidade está impregnada de perspectiva dualista. De um 
lado, existe uma acentuada rejeição das celebrações religiosas, do ca-
ráter simbólico-existencial dos ritos, da Liturgia. De outro lado, po-
rém, constatamos uma efervescência, uma verdadeira explosão devido 
à criação de novas formas rituais. Muitas vezes, chega-se ao ritualismo 
formal, superficial, sem conteúdo de fé explicativo. O efêmero (pas-
sageiro) ocupa o espaço da mídia como espetáculo e subverte o prin-
cípio do significado, priorizando o princípio da moda, do glamour, 
sem empurrar para frente, para o compromisso com o presente, sem 
metas transformadoras, sem renovação da vida. Podemos, facilmente, 
encontrar exemplos destes ritos vazios de esperança, alienadores, sem 
provocações ao futuro. Contudo, encontramos, por outro lado, outros 
ritos que, mesmo na simplicidade da linguagem, mobilizam, fazem ca-
minhar, trazem vigor e esperança para o cotidiano, lançam ao futuro. 
 
b) Oposições da racionalidade moderna à linguagem simbólica 
O paradoxal contexto em relação aos ritos, mesclando efervescên-
cia e rejeição, é comprovado ainda porque constatamos fortes precon-
ceitos alimentados pela racionalidade moderna que menospreza a lin-
guagem simbólico-mistagógica, espiritual, as expressões da fé. Mas, 
esta tendência da racionalidade radical, do cientificismo não tem con-
seguido anular a criatividade da cultura atual que, frequentemente, 
 
INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 18 
 
INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS 
descobre novas formas rituais1. É verdade que alguns se incomodam 
e se aborrecem com a lógica continuísta, com a dinâmica repetitiva, 
longa, entediante de alguns ritos. Mas, é também verdade que, com 
facilidade, jovens, adultos, ricos e pobres lançam-se em aventuras re-
ligiosas, através de celebrações dos mais variados estilos, marcadas, 
às vezes, pela falta de sentido. Existe, sim, a procura de novas e dife-
rentes experiências que revelam gosto pelas celebrações. Mas, não nos 
esqueçamos de que, existem também aqueles que, numa atitude de au-
todefesa, insistem na manutenção dos ritos tradicionais, preservados 
de qualquer perspectiva de mudança ou de abertura ao futuro. 
 
c) Perplexidade e confusão dos católicos 
Interagindo no meio deste contexto paradoxal, muitos católicos são 
atingidos pela perplexidade, pela desorientação ou pela indiferença. 
Isto é muito grave porque esta ambiguidade só aumenta a confusão a 
respeito da ritualidade, elemento constitutivo comum a qualquer cele-
bração religiosa. Daí, podemos entender porque surgem tantas pergun-
tas a respeito dos Sacramentos da Igreja, tantas dúvidas. Os católicos 
têm sido bombardeados por teorias unilaterais que valorizam, de modo 
excludente, o racional, o científico, o observável, os resultados imedi-
atos e desvalorizam o espiritual, a linguagem simbólica na expressão 
da fé. 
Por tudo isto, é preciso aprofundar o significado, das celebrações 
litúrgicas, dos Sacramentos da Igreja. É preciso verificar como é pos-
sível valorizá-los na sociedade da complexidade, da fluidez, da sedu-
ção da imagem, da cibernética, da ciência, da evolução. Esta é uma 
questão séria. É necessário questionar a legitimidade do discurso sobre 
ritos religiosos, em tempos atuais de visão evolucionista da vida e do 
ser humano. É urgente superar o dualismo, sempre constatado, que 
coloca em planos opostos e irreconciliáveis futuro e passado; o sim-
bólico e a racionalidade lógico-instrumental; a ordem e a mudança 
transformadora; o lúdico, a linguagem gestual/simbólica, celebrativa, 
afetiva e a linguagem argumentativa/racional, científica. A dicotomia 
 
1 Cf. TERRIN, A. N. O Rito, antropologia e fenomenologia da ritualidade. São Paulo, 
Paulus, 2010. 
 
INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIAPUC-RIO 19 
 
INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS 
entre estas dimensões nem sempre tem encontrado soluções harmoni-
osas, provocando perplexidades em relação aos Sacramentos da Fé, 
gestos religiosos, repletos de simbologia. 
 
1.2. Sociedade secularizada, pluralista e marcada por uma nova 
religiosidade 
 
Entre os diversos fatores de ordem cultural, política e social que 
mais têm influenciado na maneira de os católicos se posicionarem di-
ante das celebrações litúrgicas sacramentais, situa-se a Secularização. 
 
a) Mas, o que é secularização? 
Não estamos querendo dizer que a Secularização seja um fenô-
meno negativo. Muito pelo contrário! Ela é um dos fortes indicadores 
de que as pessoas são capazes de pensar, de refletir, de se tornarem 
protagonistas de sua história pessoal, de assumirem o comando da his-
tória, com inteligência e responsabilidade. Mas, o que é seculariza-
ção? Secularização é um fenômeno cultural que expressa a auto-
nomia das realidades terrestres, a independência delas diante da 
religião, do sobrenatural. 
Assim, a secularização contribuiu para que as pessoas começassem 
a utilizar, mais habitualmente, os recursos das ciências para resolve-
rem seus problemas pessoais e comunitários. Todavia, nem sempre as 
pessoas se mantêm de modo equilibrado diante da secularização e pas-
sam para o secularismo. 
 
b) E o que é o secularismo? 
Este é um modo radical e reducionista da secularização, pelo qual 
algumas pessoas assumem a “autonomia das realidades terrestres” de 
modo excludente, supervalorizando, por ex. a ciência. O secula-
rismo contribui para provocar um distanciamento crescente entre a vi-
vência da fé e o desenvolvimento da mentalidade científica, entre re-
ligião e intelectualidade. Estas realidades, que não se contrapõem, pas-
saram a ser, muitas vezes, consideradas como antagônicas, por causa 
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INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 20 
 
INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS 
da secularização radical (secularismo). O fato é que numerosas pes-
soas não conseguem articular fé e ciência, compromissos religiosos e 
exercício da cidadania etc. 
 
c) Algumas pessoas se distanciaram dos sacramentos 
Com muita certeza, já ouvimos dizer que, atualmente, muitas pes-
soas não recebem o sacramento da penitência – a confissão –, porque 
têm o terapeuta a quem recorrem para receber orientações, para se con-
solarem e melhorarem o nível de seus relacionamentos interpessoais. 
É claro que a psicologia pode dar grande ajuda nestes casos. Mas, não 
é preciso que as pessoas de fé, por causa do valor da ciência, se recu-
sem a participar dos sacramentos da fé, como se estes fossem ritos 
“mágicos”, incompatíveis, segundo elas, com a mentalidade moderna, 
com a racionalidade e os recursos oferecidos pela ciência. E aqui ve-
mos de novo a dicotomia excludente acontecer entre os recursos da 
ciência e as expressões, as celebrações da fé. 
Fica então comprovada, mais uma vez, a incapacidade de articular 
dimensões diferentes da vida humana, como os cursistas já aprofun-
daram, quando estudaram Antropologia Teológica. Ou seja, para va-
lorizar o fenômeno da secularização que deu realce às possibilidades 
oferecidas pelas diversas ciências, acontece um acentuado distancia-
mento do mundo da fé, da experiência espiritual, dos benefícios salví-
ficos oferecidos, gratuitamente, pelo amor de Deus: por sua graça li-
bertadora. 
 
d) Retorno ao sagrado e pluralismo religioso 
Como fator que confirma a complexidade da sociedade atual é o 
fato de que, junto com a tendência à dessacralização da sociedade, 
provocada em parte pela secularização, acontece também um acentu-
ado retorno ao sagrado, manifestado na busca de diferentes expressões 
da espiritualidade e da mística, quer seja cristã, oriental, afro-brasi-
leira, esotérica etc.. Destacam-se também avanços do ecumenismo, do 
diálogo inter-religioso, a multiplicação de denominações cristãs e de 
variados movimentos religiosos. Neste panorama tão heterogêneo, tão 
diferente dos tempos da cristandade, da unidade religiosa, é pertinente 
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INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS 
a pergunta pela ação, pelo significado dos sacramentos no âmbito sal-
vífico-cristão. 
As questões aqui apresentadas são alguns dos muitos exemplos de-
correntes da má compreensão da secularização, da tendência à dessa-
cralização da sociedade, da mentalidade modernista. Lembramos que, 
assim como a secularização, a consequente dessacralização da socie-
dade que daí advém não é um fator negativo em si mesmo. O perigo 
está no radicalismo excludente que leva a rejeitar o sagrado como di-
mensão da vida humana. Essa dicotomia sagrado X profano é que tem 
consequências negativas. Por outro lado, notamos uma reação muito 
forte em alguns setores da sociedade em relação à revalorização do 
sagrado. Esta revalorização do sagrado tem provocado o aparecimento 
de diversificados movimentos religiosos, sobretudo a partir dos finais 
do século XIX, acentuando-se no século XX e continuando no XXI. 
Então, compreendemos a confusão e perplexidade em que se encontra 
o católico. 
 
1.3. Militância transformadora e liturgia sacramental 
 
Chamo também a atenção para um fator de ordem política, que 
contribuiu de modo acentuado, para problematizar a vivência litúrgica 
sacramental. Trata-se do posicionamento de agentes de pastoral que se 
entusiasmaram muito com certas atividades, como a luta, a militância 
em favor da transformação da realidade, e que não conseguiram arti-
cular, harmoniosamente, o engajamento na militância com a partici-
pação aos diversos momentos de celebração da fé. 
 
a) Mas, a militância transformadora não é um bem social? 
Claro que sim. Quando falo em problematizar, não quero dizer que 
isto seja necessariamente um mal. Todavia, se, diante de questões pro-
blematizadoras, não soubermos refletir e agir, com discernimento, 
equilíbrio e bom senso, daí surgirão prejuízos para o dinamismo ecle-
sial. 
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INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS 
Vou tentar explicar mais claramente. No caso do engajamento na 
militância transformadora, é inegável que tenha trazido muitos bene-
fícios para a sociedade em geral. A seriedade e o entusiasmo dos agen-
tes comprometidos com a promoção e melhoria das condições da vida 
humana dos militantes contribuíram para despertar, em muitas partes 
do mundo, a consciência da necessidade de os cidadãos assumirem o 
compromisso pela transformação das realidades terrestres, por meio 
do engajamento pessoal e comunitário, por meio de uma práxis trans-
formadora. A solidariedade passou a ser melhor considerada. 
 
b) Radicalismos impedem a articulação entre ação social transfor-
madora e celebrações da fé 
 Contudo, também aqui, pesou a questão dos radicalismos, da in-
capacidade de articulação equilibrada entre consciência política sobre 
a necessidade de luta pela transformação da sociedade e importância 
das celebrações da fé. Por isto, em muitas comunidades eclesiais, as 
pessoas foram perdendo a sensibilidade simbólica, o gosto e o entusi-
asmo de celebrar, festiva e gratuitamente, a fé. Importava lutar, agir,transformar. E as celebrações litúrgicas, consideradas por alguns re-
petitivas e monótonas, nem sempre despertavam o sentido do engaja-
mento, do compromisso concreto com a construção do Reino de Deus. 
A ação humana passou a ser valorizada de modo desproporcional, em 
contraposição à pouca importância dada à atuação misteriosa e eficaz 
da graça de Deus. Ficou, então, fortalecida, nestes casos, a tendência 
a considerar os Sacramentos de modo reducionista, como uma ativi-
dade sagrada, restrita ao culto celebrado nos templos, desvinculados 
do ser e do agir em sociedade. Assim considerados, os Sacramentos 
passam a ser vistos como ritos alienadores, sem repercussão social. 
Por isto, aqui também julgamos necessária uma adequada e consciente 
renovação dos métodos de evangelização e de catequese. 
 
 
 
1.4. Dicotomia entre “evangelização” e “sacramentalização” 
 
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INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 23 
 
INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS 
 Outro problema de caráter religioso, percebido na dinâmica 
eclesial na segunda metade do século XX, refere-se à dicotomia entre 
a “sacramentalização” e a “evangelização”. 
 
a) Dicotomia –evangelização x sacramentalização – é antiga na 
Igreja. 
 É verdade que, infelizmente, o distanciamento entre evangelização 
e Sacramentos começou desde os séculos VII e VIII d.C.. E, depois, 
com a conversão de populações bárbaras (que não compreendiam bem 
o Latim, língua litúrgica), acentuou-se, cada vez mais a separação en-
tre a Bíblia e os Sacramentos. Na Idade Média, como a pregação foi 
assumindo um caráter cada vez mais de tipo moralista, a evangeliza-
ção mais genuinamente bíblica foi sendo pouco valorizada. A situação 
é muito complexa e pode ser aprofundada no livro de CARLO RO-
CHETTA, Os Sacramentos da Fé. pp. 9-12. 
 
b) Reações do Vaticano II. 
O Concílio Vaticano II2, com o objetivo de voltar à fontes, na ten-
tativa de renovar a Liturgia, incentivou a valorização da evangeliza-
ção, das raízes bíblicas da vivência sacramental. De fato, o Vaticano 
II (1962-1965) declarou como necessária e urgente a evangelização 
junto com a experiência de fé. 
Contudo, como sempre acontece, é difícil manter uma postura de 
equilíbrio. É bem verdade que alguns setores mais esclarecidos a res-
peito da Pastoral e da Teologia dos Sacramentos assumiram com luci-
dez a proposta do Concílio. Tanto é verdade, que percebemos certo 
esforço em melhorar os “cursos”, o processo de conscientização em 
preparação à recepção dos Sacramentos. Porém, o panorama ainda não 
apresenta a necessária e urgente articulação entre evangelização e sa-
cramentalização. 
 
 
2 21º Concílio Ecumênico (1962-1965). Caracterizou-se pela abertura da Igreja Cató-
lica aos problemas da modernidade. Entre seus documentos, destacam-se as quatro 
Constituições: sobre a Palavra de Deus, sobre a Igreja, sobre a Liturgia, sobre a Igreja 
no mundo atual, além dos decretos do ecumenismo e da liberdade religiosa. 
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INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 24 
 
INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS 
c) Ainda falta a necessária articulação entre evangelização e sa-
cramentalização. 
Em muitos setores de comunidades eclesiais ainda se percebe uma 
falta de harmonia entre estas dimensões essenciais da Pastoral. Ou 
seja, para valorizar a evangelização, a busca de sentido bíblico e teo-
lógico para a Liturgia, constatamos uma acentuada desvalorização dos 
Sacramentos. 
Em outros setores, ao contrário, o pêndulo vai para o lado oposto: 
muitos ainda priorizam a sacramentalização desarticulada da evange-
lização. Por ex.: são muitos os que celebram o Matrimônio, sem cons-
ciência evangélico-eclesial do ato sacramental. Numerosas famílias 
continuam pedindo o Batismo de crianças, sem compromisso de vi-
vência comunitária da fé. Assim como para alguns parece difícil fazer 
a articulação entre os ritos cristãos com a experiência humana mo-
derna3, para outros também parece difícil articular evangelização e 
vida sacramental. 
 
d) Prejuízos decorrentes desta falta de articulação. 
 Este distanciamento entre evangelização e sacramentalização é 
muito prejudicial ao amadurecimento da fé cristã, pois, evangelização 
e sacramentos são faces de uma mesma moeda. A Palavra anunciada 
é nuclear tanto antes, na preparação, quanto durante, quanto depois 
das celebrações litúrgicas entre as quais se destacam os Sacramentos. 
Não pode haver sacramentos, sem a iluminação da Palavra que escla-
rece o significado destes atos sagrados e aponta direções de renovação 
de vida. É necessária sim uma forte evangelização inculturada, orien-
tada à participação consciente dos Sacramentos. 
 
e) É preciso encontrar soluções 
Por isto, para melhorar esta situação, é preciso encontrar respostas 
para estas e outras perguntas: 
 Sobre a oportunidade ou não do Batismo de Crianças; 
 Sobre a ineficácia dos cursos preparatórios ao matrimônio; 
 
3 Cf. DIDIER, R. Os Sacramentos da fé: a Páscoa em seus sinais. São Paulo: Paulinas, 
1977, pp. 10-11. 
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INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS 
 Sobre as inúmeras questões pastorais advindas das sempre mais 
frequentes separações de casais; 
 Sobre a celebração da Primeira Eucaristia, muitas vezes com cará-
ter apenas social; 
 Sobre o afastamento dos jovens da vivência dos Sacramentos, sem 
assumirem o compromisso de perseverança e de amadurecimento 
na vivência da fé cristã; 
 Sobre o pouco valor dado à celebração da Crisma, sobretudo entre 
as camadas populares; 
 Sobre o afastamento quase que generalizado da Confissão. 
 
Tudo isto indica que as comunidades, apesar da boa vontade de 
muitos, não têm conseguido uma articulação eficaz entre evangeliza-
ção e sacramentalização. Mas, ainda precisamos destacar outras cau-
sas que provocam problemas em torno dos Sacramentos 
 
1.5. A crise de comunidade: uma causa no interior da Igreja 
 
Do ponto de vista da realidade interna da Igreja, pode-se dizer que 
a “nova crise” dos sacramentos tem a ver com a crise da Igreja, no que 
diz respeito à sua missão e ao “ser” Igreja numa sociedade que deixou 
de ser homogênea, sob diversos aspectos, inclusive o religioso. 
 
a) A Igreja admite esta crise 
 Alguns autores lembram que a própria Igreja admitiu essa crise ao 
declarar que era necessário estar atenta aos sinais dos tempos, para 
melhor dialogar com a humanidade: “A Igreja sabe o que ainda precisa 
amadurecer em seu diálogo com o mundo” (GS 43). A Igreja tomou 
consciência, de modo especial a partir de João XXIII, das dificuldades 
em dialogar com a sociedade moderna, que apresenta profundas trans-
formações culturais, científicas e religiosas. Se a Igreja perdera o ter-
reno do diálogo, naturalmente que seus signos (símbolos, ritos) não 
podiam ter a repercussão esperada. Esse é um dos aspectos, mas não 
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INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS 
o único, da crise da comunidade-Igreja com repercussõessobre o sig-
nificado da vida sacramental. A crise é ampla e abrange também a 
questão da coerência comunitária, da identidade e da missão da Igreja. 
Nessa perspectiva, o que constrange e inibe não é propriamente a ce-
lebração sacramental em si, mas é, sobretudo, a falta da “necessária 
correspondência entre o que o sacramento significa e a realidade da 
comunidade cristã no mundo”. Como os sacramentos são modos his-
tóricos de constituição do “ser” Igreja, a crise sacramental radica-se 
na crise da própria Igreja. Logo, a dificuldade que ela encontra em ser 
para o mundo sacramento do Reino de Deus repercute na dinâmica da 
liturgia sacramental. 
Isto não quer dizer que esta crise seja inteiramente negativa, como 
explica o teólogo de renome como J. Luis Segundo em Teologia 
aberta para os Leigos. O que está implicado aqui é o que foi entendido 
pelo inesquecível Papa João XXIII que percebeu a necessidade de a 
Igreja renovar-se para conseguir se comunicar de modo mais compre-
ensível e inteligível com a sociedade do século XX, marcada por fortes 
transformações. E a Igreja tem revisto, sim, como pode expressar me-
lhor sua identidade, como Sacramento de Cristo, como Sacramento do 
Reino. 
 
1.6. As reações da Igreja 
Nesta virada de século, com certeza, já foram conseguidos avanços 
na superação de muitos destes problemas, graças aos esforços da 
Igreja: inúmeras iniciativas evangelizadoras, bem organizadas ativida-
des pastorais, uma catequese sempre mais planejada. Mas, ainda es-
tamos longe de uma real valorização dos Sacramentos. 
 
a) A Importância do Concílio Vaticano II 
O Concílio Vaticano II (1962 -1965) constituiu um momento im-
portantíssimo para o movimento de renovação litúrgica da Igreja e 
também para confirmar “o conceito de necessidade sacramental que 
sempre esteve presente na tradição eclesial”4. Além de ter reforçado 
 
4 Cf. CODINA, V. sj.- IRARRAZAVAL, D., C.S.C. Sacramentos de Iniciação., p. 
17. 
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INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS 
o caráter sacramental da própria Igreja, o Concílio Vaticano II cuidou, 
“de modo especial, da reforma e do incremento da Liturgia”5 e prepa-
rou uma Constituição: “Sacrosanctum Concilium” sobre a Sagrada Li-
turgia, na qual trata da natureza e da reforma da Liturgia, da sua im-
portância para a vida espiritual dos fiéis, da necessidade de promover 
a educação litúrgica e a ativa participação. Neste documento, são apre-
sentadas importantes considerações sobre a Eucaristia e demais Sacra-
mentos como também sobre os sacramentais. Estas orientações do Va-
ticano II continuam contribuindo muito para uma participação mais 
ativa nas celebrações litúrgicas. Todavia, muitos fiéis católicos nunca 
ouviram falar deste documento-constituição do Vaticano II: SACRO-
SANCTUM CONCILIUM... 
 
b) Ecos do Vaticano II no Brasil 
Fazendo eco às diretrizes do Vaticano II, há de se notar que os bis-
pos da Igreja do Brasil têm trabalhado intensamente, através da evan-
gelização, da pastoral e da catequese, para a renovação e o aprofunda-
mento da vivência litúrgica sacramental que, “embora não esgote 
toda a ação da Igreja, é o cume para o qual ela tende e a fonte de 
onde ela emana”6. Diversos documentos têm sido preparados pela 
CNBB, com o intuito de oferecer subsídios a catequistas, a evangeli-
zadores e a agentes de pastoral, para o exercício de seu ministério, 
junto aos irmãos e irmãs na fé, para ajudar-lhes a assumir a vivência 
dos sacramentos como uma exigência amorosa e indispensável para o 
amadurecimento na experiência cristã. Ultimamente, com a realização 
da Conferência de Aparecida, apareceram novas orientações e exorta-
ções no sentido de ajudar os católicos a dar novo sentido às Celebra-
ções Litúrgicas. 
 
c) Contribuição dos Teólogos. 
Importantes teólogos, a partir das últimas décadas do século XX, 
têm elaborado livros e artigos com ótimas reflexões para ajudar na re-
 
5 SC, nº 521. 
6 Ibid., nº. 534.536. 
Eduardi
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INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 28 
 
INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS 
descoberta dos gestos sacramentais, em quadro verdadeiramente his-
tórico-salvífico, eclesial, bíblico/evangelizador, antropológico/exis-
tencial7. 
Trata-se de uma reflexão sacramental, a partir do Vaticano II, par-
ticularmente viva e rica de desenvolvimentos temáticos. 
Teríamos muitas outras considerações a fazer, mas, fica a seu en-
cargo aprofundar estas questões, dialogando com pessoas da sua co-
munidade eclesial, com seus colegas de curso, com o/a tutor/a. 
 
7 A propósito dos trabalhos de muitos teólogos que contribuem para a valorização dos 
sacramentos. Cf. ROCHETTA, C. Os Sacramentos da fé., pp. 11-17.

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