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INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 15 INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS 1ª Semana Primeira unidade: A Problemática dos Sacramentos, Hoje I. Introdução Muitas vezes, me surpreendo com algumas perguntas relativas ao valor e ao significado dos Sacramentos na experiência cristã: Por que, atualmente, muitos católicos têm dificuldade de compre- ender o valor dos sacramentos no conjunto da fé cristã? Por que algumas comunidades não destacam o valor profético, transformador dos sacramentos? Por que as celebrações litúrgicas raramente despertam entusiasmo, esperança, renovação da vida? Por que a celebração litúrgico/sacramental, muitas vezes, vem sendo vista como repetição monótona dos acontecimentos da sal- vação? Como redescobrir a legitimidade da linguagem simbólica, o sen- tido mistagógico (vivencial) dos sacramentos? Enfim, apesar da função de destaque dos sacramentos no processo de amadurecimento cristão, é mesmo verdade que muitos católicos/as encontram-se na “contra-mão” dos sacramentos. As causas desta situação são muito complexas. Algumas decorrem do contexto sócio- histórico-cultural, outras advêm do interior mesmo das comunidades de fé. De fato, a vida litúrgico-sacramental das comunidades eclesiais tem sido atingida pelas fortes investidas que a modernidade lançou e continua lançando à vivência religiosa dos católicos, a partir do século XIX e ao longo do século XX. II. Objetivos 1. Apresentar e explicar as principais situações decorrentes do con- texto sócio-cultural que têm provocado contradições em relação aos ritos religiosos e aos sacramentos da fé, em especial, para que você possa fazer um adequado discernimento a respeito da proble- mática que envolve os Sacramentos e as Celebrações Litúrgicas. INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 16 INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS 2. Mostrar a relação entre a crise interna vivida pela Igreja, nestes úl- timos tempos, a respeito de sua identidade e missão, para que você, junto com sua comunidade eclesial, possa descobrir caminhos de superação destes problemas. 3. Fornecer informações sobre as reações apresentadas pela Igreja, vi- sando a valorização dos Sacramentos como importantes celebra- ções da Liturgia, como meios de amadurecimento na experiência do Deus cristão. III. Duração Prevista 5 horas, aproximadamente, de estudo. IV. Material Didático A Sagrada Escritura; Este texto-base de estudo; Um caderno para anotações pessoais; Os seguintes livros para complementar e aprofundar a temática: COMPÊNDIO VATICANO II. Sacrosanctum Concilium (SC). Sobre a Liturgia da Igreja. Petrópolis, Vozes, 1967, no. 521. Maria Carmen Castanheira AVELAR. Sacramentos e experiência cristã: Uma Pedagogia rumo à maturidade em Jesus Cristo. In COSTA, P.C. (org.). Sacramentos e Evangelização. São Paulo, Lo- yola, 2004, pp. 181-200. Carlo ROCHETTA. Os Sacramentos da fé. São Paulo, Paulus, 1991, pp. 7-23. Juan Luis SEGUNDO. Os Sacramentos Hoje. Coleção Teologia aberta para o leigo, v.4. São Paulo, Loyola, 1977. Victor, CODINA, V., sj. – Diego, IRARRAZAVAL, C.S.C. Sacra- mentos de Iniciação. Água e Espírito de Liberdade. Petrópolis: Vo- zes, 1991, p. 17. INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 17 INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS Desenvolvimento do tema 1.1. A sociedade atual é contraditória em relação às expressões culturais e religiosas da fé O contexto atual é fortemente paradoxal em relação aos ritos, de modo especial aos ritos religiosos, e às expressões culturais da fé em geral. Existem embates entre opositores da ritualidade, da linguagem simbólica dos ritos religiosos e aqueles que chegam ao fanatismo do ritualismo espetacular. a) Rejeição aos ritos religiosos X explosão de novos ritos Esta realidade está impregnada de perspectiva dualista. De um lado, existe uma acentuada rejeição das celebrações religiosas, do ca- ráter simbólico-existencial dos ritos, da Liturgia. De outro lado, po- rém, constatamos uma efervescência, uma verdadeira explosão devido à criação de novas formas rituais. Muitas vezes, chega-se ao ritualismo formal, superficial, sem conteúdo de fé explicativo. O efêmero (pas- sageiro) ocupa o espaço da mídia como espetáculo e subverte o prin- cípio do significado, priorizando o princípio da moda, do glamour, sem empurrar para frente, para o compromisso com o presente, sem metas transformadoras, sem renovação da vida. Podemos, facilmente, encontrar exemplos destes ritos vazios de esperança, alienadores, sem provocações ao futuro. Contudo, encontramos, por outro lado, outros ritos que, mesmo na simplicidade da linguagem, mobilizam, fazem ca- minhar, trazem vigor e esperança para o cotidiano, lançam ao futuro. b) Oposições da racionalidade moderna à linguagem simbólica O paradoxal contexto em relação aos ritos, mesclando efervescên- cia e rejeição, é comprovado ainda porque constatamos fortes precon- ceitos alimentados pela racionalidade moderna que menospreza a lin- guagem simbólico-mistagógica, espiritual, as expressões da fé. Mas, esta tendência da racionalidade radical, do cientificismo não tem con- seguido anular a criatividade da cultura atual que, frequentemente, INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 18 INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS descobre novas formas rituais1. É verdade que alguns se incomodam e se aborrecem com a lógica continuísta, com a dinâmica repetitiva, longa, entediante de alguns ritos. Mas, é também verdade que, com facilidade, jovens, adultos, ricos e pobres lançam-se em aventuras re- ligiosas, através de celebrações dos mais variados estilos, marcadas, às vezes, pela falta de sentido. Existe, sim, a procura de novas e dife- rentes experiências que revelam gosto pelas celebrações. Mas, não nos esqueçamos de que, existem também aqueles que, numa atitude de au- todefesa, insistem na manutenção dos ritos tradicionais, preservados de qualquer perspectiva de mudança ou de abertura ao futuro. c) Perplexidade e confusão dos católicos Interagindo no meio deste contexto paradoxal, muitos católicos são atingidos pela perplexidade, pela desorientação ou pela indiferença. Isto é muito grave porque esta ambiguidade só aumenta a confusão a respeito da ritualidade, elemento constitutivo comum a qualquer cele- bração religiosa. Daí, podemos entender porque surgem tantas pergun- tas a respeito dos Sacramentos da Igreja, tantas dúvidas. Os católicos têm sido bombardeados por teorias unilaterais que valorizam, de modo excludente, o racional, o científico, o observável, os resultados imedi- atos e desvalorizam o espiritual, a linguagem simbólica na expressão da fé. Por tudo isto, é preciso aprofundar o significado, das celebrações litúrgicas, dos Sacramentos da Igreja. É preciso verificar como é pos- sível valorizá-los na sociedade da complexidade, da fluidez, da sedu- ção da imagem, da cibernética, da ciência, da evolução. Esta é uma questão séria. É necessário questionar a legitimidade do discurso sobre ritos religiosos, em tempos atuais de visão evolucionista da vida e do ser humano. É urgente superar o dualismo, sempre constatado, que coloca em planos opostos e irreconciliáveis futuro e passado; o sim- bólico e a racionalidade lógico-instrumental; a ordem e a mudança transformadora; o lúdico, a linguagem gestual/simbólica, celebrativa, afetiva e a linguagem argumentativa/racional, científica. A dicotomia 1 Cf. TERRIN, A. N. O Rito, antropologia e fenomenologia da ritualidade. São Paulo, Paulus, 2010. INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIAPUC-RIO 19 INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS entre estas dimensões nem sempre tem encontrado soluções harmoni- osas, provocando perplexidades em relação aos Sacramentos da Fé, gestos religiosos, repletos de simbologia. 1.2. Sociedade secularizada, pluralista e marcada por uma nova religiosidade Entre os diversos fatores de ordem cultural, política e social que mais têm influenciado na maneira de os católicos se posicionarem di- ante das celebrações litúrgicas sacramentais, situa-se a Secularização. a) Mas, o que é secularização? Não estamos querendo dizer que a Secularização seja um fenô- meno negativo. Muito pelo contrário! Ela é um dos fortes indicadores de que as pessoas são capazes de pensar, de refletir, de se tornarem protagonistas de sua história pessoal, de assumirem o comando da his- tória, com inteligência e responsabilidade. Mas, o que é seculariza- ção? Secularização é um fenômeno cultural que expressa a auto- nomia das realidades terrestres, a independência delas diante da religião, do sobrenatural. Assim, a secularização contribuiu para que as pessoas começassem a utilizar, mais habitualmente, os recursos das ciências para resolve- rem seus problemas pessoais e comunitários. Todavia, nem sempre as pessoas se mantêm de modo equilibrado diante da secularização e pas- sam para o secularismo. b) E o que é o secularismo? Este é um modo radical e reducionista da secularização, pelo qual algumas pessoas assumem a “autonomia das realidades terrestres” de modo excludente, supervalorizando, por ex. a ciência. O secula- rismo contribui para provocar um distanciamento crescente entre a vi- vência da fé e o desenvolvimento da mentalidade científica, entre re- ligião e intelectualidade. Estas realidades, que não se contrapõem, pas- saram a ser, muitas vezes, consideradas como antagônicas, por causa Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 20 INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS da secularização radical (secularismo). O fato é que numerosas pes- soas não conseguem articular fé e ciência, compromissos religiosos e exercício da cidadania etc. c) Algumas pessoas se distanciaram dos sacramentos Com muita certeza, já ouvimos dizer que, atualmente, muitas pes- soas não recebem o sacramento da penitência – a confissão –, porque têm o terapeuta a quem recorrem para receber orientações, para se con- solarem e melhorarem o nível de seus relacionamentos interpessoais. É claro que a psicologia pode dar grande ajuda nestes casos. Mas, não é preciso que as pessoas de fé, por causa do valor da ciência, se recu- sem a participar dos sacramentos da fé, como se estes fossem ritos “mágicos”, incompatíveis, segundo elas, com a mentalidade moderna, com a racionalidade e os recursos oferecidos pela ciência. E aqui ve- mos de novo a dicotomia excludente acontecer entre os recursos da ciência e as expressões, as celebrações da fé. Fica então comprovada, mais uma vez, a incapacidade de articular dimensões diferentes da vida humana, como os cursistas já aprofun- daram, quando estudaram Antropologia Teológica. Ou seja, para va- lorizar o fenômeno da secularização que deu realce às possibilidades oferecidas pelas diversas ciências, acontece um acentuado distancia- mento do mundo da fé, da experiência espiritual, dos benefícios salví- ficos oferecidos, gratuitamente, pelo amor de Deus: por sua graça li- bertadora. d) Retorno ao sagrado e pluralismo religioso Como fator que confirma a complexidade da sociedade atual é o fato de que, junto com a tendência à dessacralização da sociedade, provocada em parte pela secularização, acontece também um acentu- ado retorno ao sagrado, manifestado na busca de diferentes expressões da espiritualidade e da mística, quer seja cristã, oriental, afro-brasi- leira, esotérica etc.. Destacam-se também avanços do ecumenismo, do diálogo inter-religioso, a multiplicação de denominações cristãs e de variados movimentos religiosos. Neste panorama tão heterogêneo, tão diferente dos tempos da cristandade, da unidade religiosa, é pertinente Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 21 INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS a pergunta pela ação, pelo significado dos sacramentos no âmbito sal- vífico-cristão. As questões aqui apresentadas são alguns dos muitos exemplos de- correntes da má compreensão da secularização, da tendência à dessa- cralização da sociedade, da mentalidade modernista. Lembramos que, assim como a secularização, a consequente dessacralização da socie- dade que daí advém não é um fator negativo em si mesmo. O perigo está no radicalismo excludente que leva a rejeitar o sagrado como di- mensão da vida humana. Essa dicotomia sagrado X profano é que tem consequências negativas. Por outro lado, notamos uma reação muito forte em alguns setores da sociedade em relação à revalorização do sagrado. Esta revalorização do sagrado tem provocado o aparecimento de diversificados movimentos religiosos, sobretudo a partir dos finais do século XIX, acentuando-se no século XX e continuando no XXI. Então, compreendemos a confusão e perplexidade em que se encontra o católico. 1.3. Militância transformadora e liturgia sacramental Chamo também a atenção para um fator de ordem política, que contribuiu de modo acentuado, para problematizar a vivência litúrgica sacramental. Trata-se do posicionamento de agentes de pastoral que se entusiasmaram muito com certas atividades, como a luta, a militância em favor da transformação da realidade, e que não conseguiram arti- cular, harmoniosamente, o engajamento na militância com a partici- pação aos diversos momentos de celebração da fé. a) Mas, a militância transformadora não é um bem social? Claro que sim. Quando falo em problematizar, não quero dizer que isto seja necessariamente um mal. Todavia, se, diante de questões pro- blematizadoras, não soubermos refletir e agir, com discernimento, equilíbrio e bom senso, daí surgirão prejuízos para o dinamismo ecle- sial. Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 22 INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS Vou tentar explicar mais claramente. No caso do engajamento na militância transformadora, é inegável que tenha trazido muitos bene- fícios para a sociedade em geral. A seriedade e o entusiasmo dos agen- tes comprometidos com a promoção e melhoria das condições da vida humana dos militantes contribuíram para despertar, em muitas partes do mundo, a consciência da necessidade de os cidadãos assumirem o compromisso pela transformação das realidades terrestres, por meio do engajamento pessoal e comunitário, por meio de uma práxis trans- formadora. A solidariedade passou a ser melhor considerada. b) Radicalismos impedem a articulação entre ação social transfor- madora e celebrações da fé Contudo, também aqui, pesou a questão dos radicalismos, da in- capacidade de articulação equilibrada entre consciência política sobre a necessidade de luta pela transformação da sociedade e importância das celebrações da fé. Por isto, em muitas comunidades eclesiais, as pessoas foram perdendo a sensibilidade simbólica, o gosto e o entusi- asmo de celebrar, festiva e gratuitamente, a fé. Importava lutar, agir,transformar. E as celebrações litúrgicas, consideradas por alguns re- petitivas e monótonas, nem sempre despertavam o sentido do engaja- mento, do compromisso concreto com a construção do Reino de Deus. A ação humana passou a ser valorizada de modo desproporcional, em contraposição à pouca importância dada à atuação misteriosa e eficaz da graça de Deus. Ficou, então, fortalecida, nestes casos, a tendência a considerar os Sacramentos de modo reducionista, como uma ativi- dade sagrada, restrita ao culto celebrado nos templos, desvinculados do ser e do agir em sociedade. Assim considerados, os Sacramentos passam a ser vistos como ritos alienadores, sem repercussão social. Por isto, aqui também julgamos necessária uma adequada e consciente renovação dos métodos de evangelização e de catequese. 1.4. Dicotomia entre “evangelização” e “sacramentalização” Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 23 INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS Outro problema de caráter religioso, percebido na dinâmica eclesial na segunda metade do século XX, refere-se à dicotomia entre a “sacramentalização” e a “evangelização”. a) Dicotomia –evangelização x sacramentalização – é antiga na Igreja. É verdade que, infelizmente, o distanciamento entre evangelização e Sacramentos começou desde os séculos VII e VIII d.C.. E, depois, com a conversão de populações bárbaras (que não compreendiam bem o Latim, língua litúrgica), acentuou-se, cada vez mais a separação en- tre a Bíblia e os Sacramentos. Na Idade Média, como a pregação foi assumindo um caráter cada vez mais de tipo moralista, a evangeliza- ção mais genuinamente bíblica foi sendo pouco valorizada. A situação é muito complexa e pode ser aprofundada no livro de CARLO RO- CHETTA, Os Sacramentos da Fé. pp. 9-12. b) Reações do Vaticano II. O Concílio Vaticano II2, com o objetivo de voltar à fontes, na ten- tativa de renovar a Liturgia, incentivou a valorização da evangeliza- ção, das raízes bíblicas da vivência sacramental. De fato, o Vaticano II (1962-1965) declarou como necessária e urgente a evangelização junto com a experiência de fé. Contudo, como sempre acontece, é difícil manter uma postura de equilíbrio. É bem verdade que alguns setores mais esclarecidos a res- peito da Pastoral e da Teologia dos Sacramentos assumiram com luci- dez a proposta do Concílio. Tanto é verdade, que percebemos certo esforço em melhorar os “cursos”, o processo de conscientização em preparação à recepção dos Sacramentos. Porém, o panorama ainda não apresenta a necessária e urgente articulação entre evangelização e sa- cramentalização. 2 21º Concílio Ecumênico (1962-1965). Caracterizou-se pela abertura da Igreja Cató- lica aos problemas da modernidade. Entre seus documentos, destacam-se as quatro Constituições: sobre a Palavra de Deus, sobre a Igreja, sobre a Liturgia, sobre a Igreja no mundo atual, além dos decretos do ecumenismo e da liberdade religiosa. Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 24 INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS c) Ainda falta a necessária articulação entre evangelização e sa- cramentalização. Em muitos setores de comunidades eclesiais ainda se percebe uma falta de harmonia entre estas dimensões essenciais da Pastoral. Ou seja, para valorizar a evangelização, a busca de sentido bíblico e teo- lógico para a Liturgia, constatamos uma acentuada desvalorização dos Sacramentos. Em outros setores, ao contrário, o pêndulo vai para o lado oposto: muitos ainda priorizam a sacramentalização desarticulada da evange- lização. Por ex.: são muitos os que celebram o Matrimônio, sem cons- ciência evangélico-eclesial do ato sacramental. Numerosas famílias continuam pedindo o Batismo de crianças, sem compromisso de vi- vência comunitária da fé. Assim como para alguns parece difícil fazer a articulação entre os ritos cristãos com a experiência humana mo- derna3, para outros também parece difícil articular evangelização e vida sacramental. d) Prejuízos decorrentes desta falta de articulação. Este distanciamento entre evangelização e sacramentalização é muito prejudicial ao amadurecimento da fé cristã, pois, evangelização e sacramentos são faces de uma mesma moeda. A Palavra anunciada é nuclear tanto antes, na preparação, quanto durante, quanto depois das celebrações litúrgicas entre as quais se destacam os Sacramentos. Não pode haver sacramentos, sem a iluminação da Palavra que escla- rece o significado destes atos sagrados e aponta direções de renovação de vida. É necessária sim uma forte evangelização inculturada, orien- tada à participação consciente dos Sacramentos. e) É preciso encontrar soluções Por isto, para melhorar esta situação, é preciso encontrar respostas para estas e outras perguntas: Sobre a oportunidade ou não do Batismo de Crianças; Sobre a ineficácia dos cursos preparatórios ao matrimônio; 3 Cf. DIDIER, R. Os Sacramentos da fé: a Páscoa em seus sinais. São Paulo: Paulinas, 1977, pp. 10-11. Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 25 INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS Sobre as inúmeras questões pastorais advindas das sempre mais frequentes separações de casais; Sobre a celebração da Primeira Eucaristia, muitas vezes com cará- ter apenas social; Sobre o afastamento dos jovens da vivência dos Sacramentos, sem assumirem o compromisso de perseverança e de amadurecimento na vivência da fé cristã; Sobre o pouco valor dado à celebração da Crisma, sobretudo entre as camadas populares; Sobre o afastamento quase que generalizado da Confissão. Tudo isto indica que as comunidades, apesar da boa vontade de muitos, não têm conseguido uma articulação eficaz entre evangeliza- ção e sacramentalização. Mas, ainda precisamos destacar outras cau- sas que provocam problemas em torno dos Sacramentos 1.5. A crise de comunidade: uma causa no interior da Igreja Do ponto de vista da realidade interna da Igreja, pode-se dizer que a “nova crise” dos sacramentos tem a ver com a crise da Igreja, no que diz respeito à sua missão e ao “ser” Igreja numa sociedade que deixou de ser homogênea, sob diversos aspectos, inclusive o religioso. a) A Igreja admite esta crise Alguns autores lembram que a própria Igreja admitiu essa crise ao declarar que era necessário estar atenta aos sinais dos tempos, para melhor dialogar com a humanidade: “A Igreja sabe o que ainda precisa amadurecer em seu diálogo com o mundo” (GS 43). A Igreja tomou consciência, de modo especial a partir de João XXIII, das dificuldades em dialogar com a sociedade moderna, que apresenta profundas trans- formações culturais, científicas e religiosas. Se a Igreja perdera o ter- reno do diálogo, naturalmente que seus signos (símbolos, ritos) não podiam ter a repercussão esperada. Esse é um dos aspectos, mas não Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 26 INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS o único, da crise da comunidade-Igreja com repercussõessobre o sig- nificado da vida sacramental. A crise é ampla e abrange também a questão da coerência comunitária, da identidade e da missão da Igreja. Nessa perspectiva, o que constrange e inibe não é propriamente a ce- lebração sacramental em si, mas é, sobretudo, a falta da “necessária correspondência entre o que o sacramento significa e a realidade da comunidade cristã no mundo”. Como os sacramentos são modos his- tóricos de constituição do “ser” Igreja, a crise sacramental radica-se na crise da própria Igreja. Logo, a dificuldade que ela encontra em ser para o mundo sacramento do Reino de Deus repercute na dinâmica da liturgia sacramental. Isto não quer dizer que esta crise seja inteiramente negativa, como explica o teólogo de renome como J. Luis Segundo em Teologia aberta para os Leigos. O que está implicado aqui é o que foi entendido pelo inesquecível Papa João XXIII que percebeu a necessidade de a Igreja renovar-se para conseguir se comunicar de modo mais compre- ensível e inteligível com a sociedade do século XX, marcada por fortes transformações. E a Igreja tem revisto, sim, como pode expressar me- lhor sua identidade, como Sacramento de Cristo, como Sacramento do Reino. 1.6. As reações da Igreja Nesta virada de século, com certeza, já foram conseguidos avanços na superação de muitos destes problemas, graças aos esforços da Igreja: inúmeras iniciativas evangelizadoras, bem organizadas ativida- des pastorais, uma catequese sempre mais planejada. Mas, ainda es- tamos longe de uma real valorização dos Sacramentos. a) A Importância do Concílio Vaticano II O Concílio Vaticano II (1962 -1965) constituiu um momento im- portantíssimo para o movimento de renovação litúrgica da Igreja e também para confirmar “o conceito de necessidade sacramental que sempre esteve presente na tradição eclesial”4. Além de ter reforçado 4 Cf. CODINA, V. sj.- IRARRAZAVAL, D., C.S.C. Sacramentos de Iniciação., p. 17. Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi Eduardi INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 27 INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS o caráter sacramental da própria Igreja, o Concílio Vaticano II cuidou, “de modo especial, da reforma e do incremento da Liturgia”5 e prepa- rou uma Constituição: “Sacrosanctum Concilium” sobre a Sagrada Li- turgia, na qual trata da natureza e da reforma da Liturgia, da sua im- portância para a vida espiritual dos fiéis, da necessidade de promover a educação litúrgica e a ativa participação. Neste documento, são apre- sentadas importantes considerações sobre a Eucaristia e demais Sacra- mentos como também sobre os sacramentais. Estas orientações do Va- ticano II continuam contribuindo muito para uma participação mais ativa nas celebrações litúrgicas. Todavia, muitos fiéis católicos nunca ouviram falar deste documento-constituição do Vaticano II: SACRO- SANCTUM CONCILIUM... b) Ecos do Vaticano II no Brasil Fazendo eco às diretrizes do Vaticano II, há de se notar que os bis- pos da Igreja do Brasil têm trabalhado intensamente, através da evan- gelização, da pastoral e da catequese, para a renovação e o aprofunda- mento da vivência litúrgica sacramental que, “embora não esgote toda a ação da Igreja, é o cume para o qual ela tende e a fonte de onde ela emana”6. Diversos documentos têm sido preparados pela CNBB, com o intuito de oferecer subsídios a catequistas, a evangeli- zadores e a agentes de pastoral, para o exercício de seu ministério, junto aos irmãos e irmãs na fé, para ajudar-lhes a assumir a vivência dos sacramentos como uma exigência amorosa e indispensável para o amadurecimento na experiência cristã. Ultimamente, com a realização da Conferência de Aparecida, apareceram novas orientações e exorta- ções no sentido de ajudar os católicos a dar novo sentido às Celebra- ções Litúrgicas. c) Contribuição dos Teólogos. Importantes teólogos, a partir das últimas décadas do século XX, têm elaborado livros e artigos com ótimas reflexões para ajudar na re- 5 SC, nº 521. 6 Ibid., nº. 534.536. Eduardi Eduardi Eduardi INICIAÇÃO TEOLÓGICA A DISTÂNCIA PUC-RIO 28 INTRODUÇÃO AOS SACRAMENTOS descoberta dos gestos sacramentais, em quadro verdadeiramente his- tórico-salvífico, eclesial, bíblico/evangelizador, antropológico/exis- tencial7. Trata-se de uma reflexão sacramental, a partir do Vaticano II, par- ticularmente viva e rica de desenvolvimentos temáticos. Teríamos muitas outras considerações a fazer, mas, fica a seu en- cargo aprofundar estas questões, dialogando com pessoas da sua co- munidade eclesial, com seus colegas de curso, com o/a tutor/a. 7 A propósito dos trabalhos de muitos teólogos que contribuem para a valorização dos sacramentos. Cf. ROCHETTA, C. Os Sacramentos da fé., pp. 11-17.