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Filosofia
Filosofia
© Copyright 2013 da Laureate. É permitida a reprodução total ou parcial, 
desde que sejam respeitados os direitos do Autor, conforme determinam a 
Lei n.º 9.610/98 (Lei do Direito Autoral) e a Constituição Federal, art. 5º, inc. 
XXVII e XXVIII, "a" e "b". 
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Sistema de Bibliotecas da UNIFACS Universidade Salvador - Laureate 
International Universities)
M528f
Melo, Naurelice Maia de
Filosofia. / Naurelice Maia de Melo, Ueliton Lemos 
dos Santos. – Salvador: UNIFACS, 2013.
215 p.
ISBN 978-85-87325-69-3
1. Filosofia. I. Santos, Ueliton Lemos dos. II. Título.
 
CDD: 107
Sumário
( 1 ) Perspectivas sobre filosofia, conhecimento, ciên-
cia e relações que tecem com a vida, 21
 
( 2 ) Passeando sobre a origem e organização do 
universo: olhares cosmogônicos e cosmológicos, 47 
( 3 ) Reflexões sobre o conhecimento e olhares sobre 
o pesamento clássico, 67
 
( 4 ) Dialogando com os temas: ética e moral, 91
 
( 5 ) Correntes do pensamento filosófico e concepções 
éticas: uma interface necessária I, 115
( 6 ) Correntes do pensamento filosófico e concepções 
éticas: uma interface necessária II, 137 
( 7 ) Reflexões acerca das temáticas: relação com o sa-
ber, multiculturalismo e interculturalismo, 157
( 8 ) Ideologia, alienação e trabalho: uma reflexão tripar-
tite em prol da reconquista do humano que há em nós, 183
Prezada e prezado estudante,
A equipe da disciplina Filosofia convida você a rea-
lizar caminhos. Caminhos de descobertas e redescobertas, 
visto que, desde a leitura da primeira página desse material, 
inquietações serão suscitadas e não serão esgotadas na última 
página, ao contrário, convidarão a novas perspectivas, por 
exemplo, sobre filosofia, conhecimento, ciência e relações que 
tecem a vida, mediante fundamentos conquistados pelos pas-
seios sobre a origem e organização do universo com olhares 
cosmogônicos e cosmológicos, tecendo as reflexões sobre o 
conhecimento, com atenção ao pensamento clássico, à ética e 
moral, inclusive, interfaceadas com correntes do pensamento 
filosófico.
Vamos, em parceria e com posturas colaborativas tecer 
reflexões acerca das temáticas: relação com o saber, multicul-
turalismo e interculturalismo. Buscaremos compreensões a 
respeito da ideologia, da alienação e do trabalho na qualidade 
de reflexão tripartite em prol da reconquista do cultivo do 
humano que há em nós.
Nesse processo perene de autocompreensão, diversas 
sensações podem ser experimentadas, favorecendo os modos 
de entendimento da realidade e de construção de quem 
somos. Desejamos que a cada instante seja possível superar 
as dificuldades que por ventura surjam, sabendo que pode-
mos contar um com outro na qualidade de equipe maior que 
reúne docente, discentes e todos que, imbuídos do desejo de 
aprender, encontrem as forças e alegrias imanentes às con-
quistas que temos a realizar em prol tanto de posturas eman-
cipatórias quanto de dias melhores.
Abração para você!
Autores e Equipe de Filosofia!
( 1 )
Perspectivas sobre filosofia, 
conhecimento, ciência e relações 
que tecem com vida
“Não se ensina Filosofia, mas a 
filosofar”
Kant
Naurelice Maia de Melo e 
Ueliton Lemos dos Santos
Ao iniciarmos nossa caminhada junto aos saberes 
da Filosofia, muitas vezes surgem questionamentos a 
respeito do motivo pelo qual é preciso dedicar atenção 
aos conhecimentos, temas e pensamentos filosóficos. 
Esse posicionamento questionador é justo, uma vez que 
a formação básica nem sempre contempla os conteúdos 
filosóficos de modo adequado ou coerente com a própria 
proposta da Filosofia, falamos aqui de propostas como 
aquelas pautadas na máxima do pensador Kant, conforme 
citado por Borges e Souza (2012), “não se ensina filosofia, 
ensina-se a filosofar”.
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Nesta perspectiva, constam os riscos que fazem com 
que o “ensino de filosofia” seja tomado por posturas afasta-
das do atual contexto social, causando uma impressão equi-
vocada a respeito da Filosofia e tornando-a, de certo modo e 
infelizmente, uma fonte de informações que requerem aten-
ção a elementos históricos (e requerem de fato) sem que estes 
possam significar (significam, de fato) uma trajetória que está 
presente hoje nas relações que tecem nosso ambiente tanto 
pessoal quanto social e as demais esferas da vida. Felizmente, 
esta não consiste na única perspectiva. Contamos também 
com modos socialmente engajados, dinâmicos e altamente 
competentes de proceder junto à Filosofia. Contamos ainda, 
com pessoas que concluíram o ensino médio em uma ocasião 
na qual não tiveram acesso a esse campo do saber e, portanto, 
ao chegar a cursos de graduação mantiveram, pela primeira 
vez, a relação com a disciplina que tem por título “Filosofia”. 
Afirmamos, pela primeira vez com a disciplina, pois ousa-
mos dizer que: com a postura filosófica, o contato não é pri-
meiro. Ao contrário, por muitos momentos somos convidados 
e convidadas a pensar sobre questões que remetem a temas 
filosóficos, mesmo que não tenhamos no momento a consciência 
de que somos já pessoas filosofantes. 
Esperamos que a sua experiência com a Filosofia tenha 
ocorrido conforme a segunda situação que descrevemos 
no parágrafo anterior. Caso não tenha sido dessa forma ou 
não tenha ocorrido o acesso a esta disciplina, não há motivo 
para preocupação, pois assumimos aqui o compromisso com 
você e com a aprendizagem. Adotamos a linguagem neces-
sária, assumindo posturas criteriosas e acessíveis, trazendo 
nas primeiras unidades os saberes introdutórios importantes 
para que, cada um de vocês (independente das relações que 
antes teceram ou não com este campo do saber) possa estu-
dar, pesquisar, conhecer os pressupostos básicos da Filosofia 
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e, a partir deles e com eles conquistar seus próprios modos de 
pensar a respeito das temáticas propostas, encontrando ainda 
caminhos possíveis para aliar às posturas que você já vem 
dedicando à vida. Quais posturas são estas? Àquelas de pes-
soas que compreendem as circunstâncias concretas da vida, 
que bem identificam as relações de ideologia imbricadas nas 
relações de poder e dominação social, pessoas atentas aos 
fundamentos éticos de uma vida, de uma formação e profis-
são; pessoas que, diante dessas e outras percepções, buscam o 
exercício constante de maneiras reflexivas, críticas e criativas 
de lançar olhares sobre a vida em suas instâncias diversas, 
fazendo valer, assim, a máxima kantiana. 
O que é, então, Filosofia? Onde seria possível (embora 
inadequado, devido ao teor próprio da Filosofia) apresentar 
uma definição única para Filosofia, preferimos caminhar, 
assim como Luckesi e Passos (2004) aplicam com relação ao 
conhecimento, junto a aproximações conceituais. Começando 
pela origem etimológica, a palavra Filosofia corresponde 
a philo (amor, amizade) + sophia (sabedoria). Desse modo, 
a filosofia é também correspondente à busca pelo conheci-
mento1, à busca pelo saber, sem que estes sejam instituídos na 
qualidade de verdades absolutas a serem impostas, ao contrá-
rio, a filosofia é também correspondente ao movimento ques-
tionador, à perplexidade.
 É importante também considerar que algumas apro-
ximações conceituaisapresentam a Filosofia como ciência. 
Essas perspectivas, geralmente, têm por fundamento o pen-
samento aristotélico, conforme você pode acompanhar na lei-
tura a seguir.
1. A respeito do conhecimento, por gentileza, visite nossa Unidade 03, na qual tecemos com você 
diálogos sobre, dentre outros temas, o ato de conhecer, seus elementos, processo etc.
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Trecho selecionado de 
“O que é Filosofia e para que serve?” 
(autoria de: Maura Iglesias)
Se perguntarmos a dez físicos “o 
que é a física”, eles responderão, pro-
vavelmente, de maneira parecida. O 
mesmo se passará, provavelmente, 
se perguntássemos a dez químicos 
“o que é química”. Mas, se pergun-
tarmos a dez filósofos “o que é a fi-
losofia”, ouso dizer que três ficarão 
em silêncio, três darão respostas pela 
tangente, e as respostas dos outros 
quatro vão ser tão desencontrada 
que só mesmo outro filósofo para 
entender que o silêncio de uns e as 
respostas dos outros são todas abor-
dagens possíveis à questão proposta. 
Para quem ainda está fora da filoso-
fia, a coisa pode estar parecendo 
confusa. Mas a razão da dificuldade 
é fácil de explicar: talvez seja possí-
vel dizer e entender o que é a física, 
de fora da física; e dizer e entender o 
que é a química, de fora da química. 
Mas, para dizer e entender o que é 
a filosofia, é preciso já estar dentro 
dela. “O que é a física” não é uma 
questão física, “o que é a química” 
não é uma questão química, mas “o 
que é a filosofia” já é uma questão 
filosófica - e talvez uma das carac-
terísticas da questão filosóficas que 
seja o fato de suas respostas, ou 
tentativas de resposta, jamais es-
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gotarem a questão, que permanece 
assim com sua força de questão, 
a convidar outras respostas e ou-
tras abordagens possíveis. E já que 
os filósofos não vão mesmo entrar 
num acordo, deixemos de lado o 
problema da definição. Entremos de 
uma vez na filosofia, mais propria-
mente na metafísica de Aristóteles, 
onde este está justamente em busca 
de uma “sophia” (sabedoria) que 
seja a maior, a mais importante, a 
primeira sabedoria2.
[...] [A partir da perspectiva aristoté-
lica, Maura Iglesias elucida:] o saber 
filosófico: 1) é um saber “de todas 
as coisas”, um saber universal; em 
um certo sentido, nada está fora do 
campo da filosofia; 2) é um saber pelo 
saber; um saber livre, e não um saber 
que se constitui para resolver uma 
dificuldade de ordem prática; 3) é um 
saber pelas causas; o que Aristóteles 
entende por causa não é exatamente 
o que nós chamamos por esse nome; 
de qualquer forma, saber pelas cau-
sas envolve o exercício da razão, e 
esta envolve a crítica: o saber filosó-
fico é, pois, um saber crítico.
Fonte: REZENDE, A. (org.). Curso de Filosofia. 10. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
2. Querido e querida estudante, aqui a autora apresenta uma citação de Aristóteles que evidencia a 
sabedoria/sophia, na qualidade de ciência (de considerações correlatas a estas advém os modos de 
significar o saber filosófico com a ciência) e apresenta suas características principais, suprimimos a 
citação por motivos didáticos e mantivemos as considerações de Maura Iglesias a respeito da cita-
ção de Aristóteles que suprimimos, pois, além de favorecer a proposta dos nossos estudos, foi ela-
borada de modo elucidativo e acessível.
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Outras perspectivas que têm por referencial de ciência 
a sua concepção moderna, entretanto, não aceitam a filoso-
fia na condição de ciência, pois o saber filosófico, mesmo que 
correlato à ciência, não é um saber científico, não consta de 
um método único e absoluto, nem busca defender uma ver-
dade como sendo aquela também única e absoluta. 
Veja a seguir as elucidações sobre encontros entre ciên-
cia, conhecimento e filosofia e, ainda, entre estes e as rela-
ções que tecem a realidade, uma vez que tanto a Filosofia, 
quanto à Ciência estão muito próximas de nossas vidas, nas 
mais diversas instâncias relacionais, em ambientes acadêmi-
cos, ou mesmo no simples caminhar de uma calçada em dire-
ção a um destino, qualquer que seja.
A Filosofia e a Ciência constituem expressões do modo 
de ser e agir da pessoa. Vamos juntos nessa unidade realizar 
exercícios essenciais de desconstrução de paradigmas (mode-
los/padrões) para assim estarmos aptos à construção de per-
cepções mais flexíveis e reflexíveis da existência, um eterno 
retorno modificado e transformado do ser sendo na realidade.
Nesta unidade, você estudante, está convidado a 
“caminhar” pelas diversas compreensões que o termo ciên-
cia adquiriu ao longo do processo de “desenvolvimento” da 
história do pensamento da humanidade. Para tanto, alguns 
dos principais expoentes estão postos à luz da reflexão e, 
sobretudo, da problematização científico-filosófica. Nesse 
caminhar, a filosofia é o “farol” a guiar os pensamentos na 
incessante busca da verdade.
Mas, o que é a verdade? É possível conquistá-la? De que 
forma/maneira? Essas são questões/problemas que impulsio-
naram e continuam a impulsionar o caminhar da Ciência e 
da Filosofia.
A concepção mitológica de representação da realidade 
consiste na tentativa de acalmar e tranquilizar as pessoas 
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frente aos fenômenos sociais/naturais daquela época (perí-
odo antigo), eis que em seguida, surge o “Thauma” (espanto/
admiração) imbricado à dúvida essencial. Essas personifica-
ções divinas, extraordinárias, podem ser tão próximas dos 
seres terrenos pessoas comuns, “iguais” umas às outras, 
com desejos e sentimentos semelhantes aos residentes do 
Olimpo. A admiração, o espanto, seguido da dúvida, fez nas-
cer a Filosofia, cuja etimologia é conhecida por todos como o 
amante do saber, não seu senhor, dono ou possuidor, apenas 
o amante que busca incessantemente conquistá-lo paulatina-
mente todos os dias de sua existência.
Muitos pensadores antigos da Grécia poderiam ser 
convocados aqui para declarar seus pensamentos a respeito 
da Filosofia e também de uma ciência incipiente. Entretanto, 
acreditamos ser nesse momento Empédocles (490 - 430 a. C.) o 
que mais contribuições nos trazem. Esse declarava a existên-
cia de quatro elementos constituintes da realidade (diferente 
dos Jônios, Tales, Anaximandro, Anaxímenes e outros, cada 
um desses pensadores elegeram um elemento essencial origi-
nário do kosmo). 
Os primeiros pensadores que dão 
expressão filosófica ao problema 
da existência de uma causa supre-
ma de todas as coisas são os filó-
sofos Jônios: Tales, Anaximandro, 
Anaxímenes, todos eles de Mileto, 
na Ásia Menor, às margens do 
mar Egeu. Todos eles viveram en-
tre os séculos VII e V a. C.
(MONDIN, 2003, p. 17)
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O ar, o fogo a terra e a água para Empédocles consti-
tuem toda a existência, são movidos e misturados segundo 
dois princípios universais:
Amor (philia, em grego) - respon-
sável pela força de atração e união 
e pelo movimento de crescente 
harmonização das coisas;
Ódio (neikos, em grego) - respon-
sável pela força de repulsão e de-
sagregação e pelo movimento de 
decadência, dissolução e separa-
ção das coisas.
(COTRIM, 2010, p. 77)
Empédocles compreendia que a realidade composta de 
todas as coisas existentes, está submetida às forças cíclicas 
desses princípios. Amor e Ódio motores invisíveis, mas, per-
feitamente sentido por todos até hoje.
Para conhecera origem
Outro expoente desse período foi Demócrito (460 - 370 a. 
C.), responsável pelo atomismo. Ele acreditava que a realidade 
era constituída de partículas invisíveis e indivisíveis, denomina-
das “átomo” (não divisível: a = negação; tomo = divisível). 
Curiosidade!
“As doutrinas dos Milésios constituem um primeiro e 
rudimentar exemplo de monismo, termo atribuído a todas 
as filosofias que imaginam que a realidade multiforme 
deriva de um único princípio. Em metafísica, o monismo 
contrapõe-se ao dualismo - defendido de maneira dife-
rente por Platão e por Descartes - e ao pluralismo de 
Aristóteles”. (NICOLA, 2010, p. 15)
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Imagine que eles chegaram a essas conclusões sem 
fazer uso de nenhum instrumento tecnológico de última 
geração, como poderosos microscópios, reatores etc. Apenas 
com o uso e desenvolvimento do pensamento racional, foram 
capazes de contribuir significativamente para o aprimora-
mento das percepções do homem frente à realidade consti-
tuinte, a tal ponto que ainda hoje, com mais de dois mil anos 
passados, estudamos e atualizamos seus pensamentos. 
A concepção de ciência no período da Grécia Antiga 
referia-se a uma forma de especulação racional, e se afas-
tava da técnica e das preocupações práticas. A ciência grega 
antiga almejava o desenvolvimento do conhecimento racio-
nal de ideias imutáveis, objetivas e universais.
Por outro lado, dando um pequeno salto no tempo e 
no espaço na história do desenvolvimento do pensamento 
humano, chegamos ao período medieval. Neste momento, 
cabe dar destaque, sobretudo à supressão da razão em favore-
cimento à fé, os elementos originários do pensamento filosó-
fico são postos de lado para dar lugar a Fé (verdade) revelada 
por Deus aos homens e intermediada pela Igreja Católica.
Isso significava que toda investiga-
ção filosófica ou científica não pode-
ria, de modo algum, contra riar as 
verdades estabelecidas pela fé católi-
ca. Em outras palavras, os filósofos 
não precisavam mais se dedicar à 
busca da verdade, pois ela já teria 
Para pensar um pouco
Querido e querida estudante!
Em sua opinião, como o pensamento de Empédocles e 
Demócrito podem ser atualizados para os nossos dias?
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sido revelada por Deus aos homens. 
Restava-lhes, apenas, demonst 
racionalmente as verdades da fé. 
(COTRIM, 2006, p. 108) 
No decurso do período medieval, destacam-se quatro 
momentos:
• Primeiro momento: Padres apostólicos, (século I a 
II) fazem parte desse período padres e apóstolos.
• Segundo momento: Padres Apologistas, (século III a IV) 
destacavam-se por fervorosas apologias ao cristianismo e 
atitudes veementes contra a filosofia pagã, seus principais 
representantes foram Justino, Origenes e Tertuliano.
• Terceiro Momento: Padres da Patrística, (século IV 
a VIII) tentativa de reaproximação com o pensamento 
racional na figura de Platão, seu principal represen-
tante foi Santo Agostinho.
• Quarto Momento: Padres da Escolástica: (século IX a XI) 
reaproximação com os escritos do filósofo grego Aristóteles, 
destaca-se nesse momento, Santo Tomás de Aquino. 
Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Lusitano_st-agostinho-1.jpg
http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Anonymous_Cusco_School_-_Saint_Tho-
mas_Aquinas,_Protector_of_the_University_of_Cusco_-_Google_Art_Project.jpg
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A imagem nos evidencia: à esquerda, Santo Agostinho 
e à direita, Santo Tomás de Aquino, os dois principais expo-
entes do período medieval. Eles que buscaram na filoso-
fia de Platão e Aristóteles, respectivamente, os argumentos 
necessários para a fundamentação de sua Fé. A Filosofia a 
serviço da Fé cristã, nesse momento da história da huma-
nidade, pouco se pôde desenvolver no continente europeu. 
Tanto nos aspectos filosóficos, quanto científicos e tecnoló-
gicos, visto o caráter dominante do Teocentrismo.
Com a Renascença, surgem novas concepções de 
vida e realidade, muda-se o foco do olhar. Antes, sobre 
Deus (Idade Média) a vida terrena é uma preparação para 
vida sobrenatural. Agora, sobre o novo ser humano (Idade 
Moderna) autonomia do mundo da cultura em relação a 
todo fim transcendente.
Nos séculos XV e XVI a ciência 
faz progressos não só nos estudos 
da natureza, mas também no do 
homem e no das suas produções, 
especialmente na Filologia. Graças 
aos avanços desta disciplina na Re-
nascença, os autores antigos. Espe-
cialmente os filósofos, não são mais 
estudados, como na Idade Média, 
para serem colocados a serviço da 
teologia, mas por si mesmos, com 
a finalidade de se conhecer seu ver-
dadeiro pensamento. 
(MONDIN, 2003, p. 11)
Enfim conseguimos alcançar a Idade Moderna e nova-
mente nos deparamos com mais uma realidade paradoxal. 
Não mais, Fé versus Razão, mas sim, Filosofia e Ciência, 
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instâncias essenciais ao sujeito que é autor e ator de sua pró-
pria condição humana.
Embora existam fervorosas discussões sobre a consi-
deração de cientificidade da filosofia, torna-se evidente e ao 
mesmo tempo contraproducente aceitar tal perspectiva, haja 
vista que uma das fundamentais necessidades de ser ciên-
cia é a especificação não só metodológica, mas, sobretudo 
de objeto. A Filosofia enquanto pensamento sistemático está 
presente em todas as ciências, visto o escopo investigativo no 
desvelamento da realidade. Assim, presente em todas as ciên-
cias, mas, não sendo uma ciência, a filosofia busca a universa-
lidade, enquanto a ciência busca as particularidades próprias 
de seus objetos.
Filosofia e Ciência não são adversárias. Ambas se 
relacionam e se complementam, de tal forma se constituiu 
a Filosofia da Ciência, uma perspectiva de problematização 
dos postulados e paradigmas científicos, essa atividade tam-
bém é conhecida como epistemologia, crítica metodológica 
da ciência.
A epistemologia propõe-se a re-
sponder às seguintes questões: 
‘O que é o conhecimento cientí-
fico? Em outras palavras, em que 
consiste propriamente o trabalho 
do cientista? Que faz ele quando 
faz ciência? Interpreta, descreve, 
explica, prevê? Faz ele apenas 
conjecturas ou verdadeiras as-
serções (gerais e singulares) que 
espelham fielmente os aspectos 
(gerais e singulares) dos fatos? E 
quando o cientista explica o que 
é que ele explica dos ‘fatos’: sua 
função, origem, gênese, essência, 
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fim? Qual o status lógico das leis 
na ciência? São elas resultados de 
procedimentos indutivos (e o que 
quer dizer indução para a ciên-
cia?), ou antes, conjecturas da 
imaginação científica que deverão 
sujeitar-se a uma terrível luta 
(provas empíricas) pela existên-
cia? Ademais, em que sentido se 
fala em causalidade (e de causas) 
nas ciências empíricas? Quando, 
então, podemos dizer que uma 
teoria é melhor do que outra? 
Que queremos dizer quando afir-
mamos que as ciências empíricas 
são objetivas? Qual é o papel da 
experiência na pesquisa cientí-
fica? Essas interrogações britam 
da pergunta inicial sobre o que 
seja o conhecimento científico. 
(MONDIN, 2003, p. 29) 
Outros autores participam da mesma ideia de complemen-
taridade entre Filosofia e Ciência, a exemplo disso podemoscitar 
Fritjof Capra, PhD. em Física e especialista em teoria sistêmica.
O objetivo da ciência é, creio eu, 
adquirir conhecimento sobre a 
realidade sobre o mundo. A ciên-
cia é uma maneira particular de 
adquirir conhecimento, parecida 
com muitas outras maneiras. E 
um aspecto do novo pensamento 
na ciência é que esta não é a única 
maneira, e não é necessariamente 
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a melhor, mas apenas uma dentre 
muitas maneiras.
O termo ciência, para mim, con-
hecimento sistemático do universo 
físico, é recente, como sabem. No 
passado, era chamada de filosofia 
natural. Portanto, a ciência e filoso-
fia não estavam separadas. De fato, 
a primeira formulação matemática, 
por Newton, de ciência no mod-
erno sentido da palavras é ainda 
chamada de Princípios Matemáti-
cos da Filosofia Natural. 
(CAPRA, 1991, p. 25) 
As reflexões desenvolvidas a partir das contribuições 
de Capra e Mondin nos levam a indagar sobre os caminhos e 
descaminhos que por muitas vezes tomamos ao longo de nos-
sas existências. Por diversos momentos somos conduzidos no 
nosso modo de ser e agir, e nem sequer nos damos conta, falta-
-nos a perspectiva epistemológica do pensar sobre si, e, sobre-
tudo a nossa condição humana, nos submetemos da mesma 
maneira que o indivíduo do período medieval, na expectativa 
e promessa de uma vida de glórias no paraíso e batemos no 
peito ingenuamente, proclamando somos livres, sou livre.
É preciso considerar e desenvolver um olhar sistêmico 
e holístico sobre a realidade, não é cabível a separatividade, 
mas sim, a interconexidade das realidades, as dificuldades 
não precisam ser compartimentalizadas para serem supe-
radas, visto que todas essas situações interagem sobre si e 
sobre a realidade constituinte como uma enorme teia de ara-
nha, o que é feito a um fio, é sentido por toda a teia. Nessa 
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perspectiva, as relações estão sendo tecidas e a qualidade dos 
fios depende também de cada um que tece.
Chegamos a importantes reflexões as quais, sem 
dúvida alguma, provocam grandes inquietações, pois, con-
sistem na desconstrução de ‘verdades’ adquiridas ao longo 
de uma vida de estudos, de leituras, de aulas etc. O que fazer 
agora? Abandonar tudo isso? Ou fechar os olhos para o novo? 
Não, essas não serão as melhores soluções, o ideal é que con-
sigamos somar saberes, os mais variados e diversificados 
possíveis, para que possamos entender o devir dialógico e 
dialético na construção do ser integral.
Abaixo está disposto um quadro demonstrativo sobre 
as principais perspectivas das concepções da Física dos sécu-
los XVII até a contemporaneidade.
Para conhecer um pouco mais
Falamos de novas perspectivas sistêmicas e holísticas, 
sabemos verdadeiramente o que tudo isso significa? 
Segundo Edgar Morin (2007), sistema consiste em uma 
relação entre partes que podem ser muito diferentes uma 
das outras e que constituem um todo que é, simultane-
amente, organizado, organizando e organizador. Sobre 
isso, tem-se o ditado antigo: o todo é mais do que a soma 
de suas partes, porque a adição das qualidades ou pro-
priedades das partes não chega para conhecer as do todo, 
surgem qualidades ou propriedades novas, devido à orga-
nização dessas partes em um todo, são as emergências.
A realidade é a manifestação desse todo holístico e sistê-
mico, é preciso desenvolver as habilidades e competências 
necessárias à tomada de consciência do ser integral.
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32
Física dos séculos XVII, 
XVIII e XIX
Física Contemporânea
Grande avanço da física 
com René Descartes, autor 
de O Discurso do Método 
(“Penso, logo existo”). 
Física quântica, conjunto de 
teorias que incluem a física 
ondulatória, a qual não se 
obedece às leis previsíveis 
da física clássica. 
Visão mecanicista do 
mundo, que concebe a natu-
reza como uma máquina, 
que obedece a relações de 
causa previsíveis. 
Os objetos passam a ser 
encarados também sob o 
aspecto fluido e em eterna 
mudança.
Física Newtoniana é cha-
mada de física clássica, cujo 
aspecto mais desenvolvido é 
a mecânica.
Visão influenciada pela filo-
sofia oriental (o cosmo é visto 
como um elemento vivo, orgâ-
nico, espiritual e material).
Os experimentos eram leva-
dos a cabo para testar ideias 
especulativas e verificáveis.
As forças geradoras de 
movimento não são exterio-
res aos objetos, mas proprie-
dade intrínseca da matéria.
Fonte: ANDREETA. J. P. ; ANDREETA. M. L, Quem se atreve a ter certeza. Mer-
curyo. São Paulo. 2004. Adaptado pelos autores (Naurelice Maia e Ueliton Lemos).
O quadro evidencia as constantes mudanças que a ciên-
cia da Física sofreu e ainda sofre pelo seu processo de desen-
volvimento. Atualmente, duas são as mais relevantes teorias: 
a chamada Física Quântica e a Teoria da Relatividade Geral.
O intuito dessas duas teorias reside na tentativa de 
compreensão sobre o comportamento da realidade, haja 
vista que ela não se apresenta de forma tão estática e previ-
sível como se imaginava. Compreender a realidade pressu-
põe que a relação unilateral sujeito - objeto deixe de existir, é 
preciso conceber uma nova perspectiva investigativa na qual 
sujeito - objeto relacionam-se mutuamente, relação dialógica 
e dialética, sistêmica e holística. Nesta perspectiva, filosofia e 
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ciência tornam-se um importante caminho no desvelamento 
do saber sobre de si e o conhecimento da realidade.
Estamos chegando ao final de nossa unidade com 
novas ideias, novos olhares frente à realidade, consciente da 
inexistência da verdade absoluta seja ela a verdade científica 
ou mesmo verdade filosófica. Mas sim, verdades provisórias 
que se transformam e se adaptam no devir tempo-espacial. 
Nesse sentido, aceitar as mudanças significa não estagnar, é 
estar sempre disposto à perplexidade, o thauma grego.
A evolução do conhecimento 
científico não é unicamente de 
crescimento e de extensão do sa-
ber, mas também de transformações, 
de rupturas, de passagem de uma 
teoria para outra. As teorias cientí-
ficas são mortais e são mortais por 
serem científicas. A visão de Popper 
registra com relação à evolução da 
ciência vem a ser a de uma seleção 
natural em que as teorias resistem 
durante algum tempo não por serem 
verdadeiras, mas por serem as mais 
adaptadas ao estado contemporâneo 
dos conhecimentos.
Kuhn traz outra ideia, não me-
nos importante: é que se pro-
duzem transformações revolu-
Para pensar um pouco
Como você percebe as mudanças da realidade, estamos 
verdadeiramente conscientes dessas transformações, ou 
simplesmente ignoramos por não saber/querer participar?
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34
cionárias na evolução científica, 
em que um paradigma, princípio 
maior que controla as visões do 
mundo, desaba para dar lugar a 
um novo paradigma. Julgava-se 
que o princípio da organização 
das teorias científicas era pura e 
simplesmente lógico. Deve ver-
se, com Kuhn, que existem, no 
interior e acima das teorias, in-
conscientes e invisíveis, alguns 
princípios fundamentais que 
controlam e comandam, de forma 
oculta, a organização do conheci-
mento científico e a própria uti-
lização da lógica.
A partir daí, podemos com-
preender que a ciência seja “ver-
dadeira” nos seus dados (verifica-
dos, verificáveis), sem que por isso 
suas teorias sejam “verdadeiras”. 
Então, o que faz que uma teo-
riaseja científica, se não for sua 
“verdade”? Popper trouxe a ideia 
capital que permite distinguir a 
teoria científica da doutrina (não 
científica): uma teoria é científica 
quando aceita que sua falsidade 
possa ser eventualmente demon-
strada. Uma doutrina, um dogma 
encontram neles mesmo a au-
toverificação incessante (referên-
cia ao pensamento sacralizado dos 
fundadores, certeza de que a tese 
está definitivamente provada). O 
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dogma é inatacável pela experiên-
cia. A teoria científica é biode-
gradável. [...]
A partir daí, o conhecimento 
progride, no plano empírico, por 
acrescentamento das “verdades” 
e, no plano teórico, por elimina-
ção dos erros. O jogo da ciência 
não é o da posse e do alargamento 
da verdade, mas aquele em que 
o combate pela verdade se con-
funde com a luta contra o erro. 
(MORIN, 2001, p. 22-23)
O conhecimento científico e ou filosófico contribuem 
sistematicamente para uma revolução na forma de ser e agir do 
indivíduo, é preciso que tenhamos a sensibilidade de renun-
ciar os pseudos saberes, saberes que temos como verdadeiros 
e imutáveis, pois de outra forma continuaremos a reproduzir 
comportamentos e atitudes determinadas por forças exteriores. 
Fazendo uma alusão a Karl Jaspers, que afirma, em 
dado contexto, a filosofia na qualidade de perturbadora da 
paz, propomos aqui também a filosofia como perturbadora 
da ciência. Ela tem como escopo o fomento das inquietações 
na busca contínua de posturas mais assertivas e coerentes à 
dignidade do ser pessoa. Portanto, urge que façamos o exer-
cício de reflexão individual, utilizando das perspectivas da 
filosofia e da ciência, para a conquista da vida autêntica.
Fi
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36
Sín t eSe
 Durante a realização dessa unidade, tivemos a opor-
tunidade de tomar conhecimento sobre os caminhos da Fi-
losofia e da Ciência desde o período antigo (grego), passando 
pela Idade Média, período de grande entrave ao desenvolvi-
mento racional, visto o predomínio das forças religiosas cris-
tãs. Em seguida, com a Renascença, muda-se a perspectiva, 
volta-se novamente o olhar para o ser humano e sua produção 
cultu ral, filosófica e científica, surge o modernismo com as 
contribuições da Física até alcançarmos a contemporaneidade 
com a postura da reflexividade, a qual é exigida ao sujeito, 
ator e autor de sua existência condutas inquisidoras frente 
aos desafios que são postos pela própria condição de existir. 
qu eStão pa r a r eflex ão
1) Considere a citação abaixo e desenvolva um argumento 
evidenciando seu posicionamento a respeito da mensagem 
proposta pela citação.
“Todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão. A 
educação do futuro deve enfrentar o problema de dupla face do erro e 
da ilusão, O maior erro seria subestimar o problema do erro; a maior 
ilusão seria subestimar o problema da ilusão. O reconhecimento do 
erro e da ilusão é ainda mais difícil, porque o erro e a ilusão não se 
reconhecem, em absoluto, como tais. 
Erro e ilusão parasitam a mente humana desde o aparecimento do 
Homo sapiens. Quando consideramos o passado, inclusive o recente, 
sentimos que foi dominado por inúmeros erros e ilusões. Marx e 
Engels enunciaram justamente em A ideologia alemã que os homens 
sempre elaboraram falsas concepções de si próprios, do que fazem, do 
que devem fazer, do mundo onde vivem. Mas nem Marx nem Engels 
escaparam destes erros.” 
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(MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do fu-
turo. São Paulo, SP: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000)
2) Após os estudos realizados nessa unidade, como você 
compreende as perspectivas filosóficas e científicas? E de que 
forma elas influenciam nossa conduta social?
lei t u r aS i n dica daS
ALVES, R. Filosofia da Ciência. São Paulo: Edições Loyola, 
2000.
______. O que é científico? São Paulo: Edições Loyola, 2007.
ALVES, R. Entre a ciência e a sapiência. São Paulo: Edições 
Loyola, 2010.
CAPRA, F. O Ponto de Mutação. São Paulo: Cultrix, 1982.
HEISENBERG, W. A parte e o todo. Rio de Janeiro: Contra-
ponto, 2000.
PRIGOGINE, I. O Fim das Certezas. São Paulo: Editora Unesp, 
1996.
MORIN, E. ; MOIGNE, J-L. L. Inteligência da Complexidade 
Epistemológica e Pragmática. Lisboa: Instituto Piaget, 2007.
Si t eS i n dica doS
www.edgarmorin.org.br/
www.rubemalves.com.br/
http://www.brasilescola.com/
http://ghiraldelli.wordpress.com/2007/11/21/ciencia-e-filosofia/
Fi
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38
r ef er ênci aS
ANDREETA, J. P.; ANDREETA, M. L. Quem se atreve a ter 
certeza? São Paulo: Mercuryo, 2008.
BORGES, D. A.; SOUZA, M. A. “Não se ensina filosofia, mas 
a filosofar”. Disponível em: <http://meuartigo.brasilescola.
com/filosofia/nao-se-ensina-filosofia-mas-filosofar.htm>. 
Acesso em: 13 out. 2012.
CAPRA, F. Pertencendo ao Universo. São Paulo: Cultrix, 
1991.
COTRIM, G. Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 
2006.
LUCKESI, C. C.; PASSOS, E. S. Introdução à Filosofia: apren-
dendo a pensar. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2004.
MONDIN, B. Curso de Filosofia. 12. ed. São Paulo: Paulus, 
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______. Curso de Filosofia. 9. ed. São Paulo: Paulus, 2003, v. 2.
MONDIN, B. Introdução à Filosofia. São Paulo: Paulus, 2003, 
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MORIN, E. Ciência com Consciência. Rio de Janeiro: Ber-
trand Brasil, 2001.
REZENDE, A. (org.). Curso de Filosofia. 10. ed. Rio de Janeiro: 
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( 2 )
Passeando sobre a origem e 
organização do universo: olhares 
cosmogônicos e cosmológicos
“Dizem que o que todos procura-
mos é um sentido para a vida. 
Não penso que seja assim. Penso 
que o que estamos procurando é 
uma experiência de estar vivos, 
de modo que nossas experiências 
de vida, no plano puramente físi-
co, tenham ressonância no inte-
rior de nosso ser e de nossa reali-
dade mais íntimos, de modo que 
realmente sintamos o enlevo de 
estar vivos. É disso que se trata, 
afinal, e é o que essas pistas nos 
ajudam a procurar, dentro de nós 
mesmos”.
(CAMPBELL, 1991, p.17)
Naurelice Maia de Melo e 
Ueliton Lemos dos Santos
Na unidade anterior você acompanhou 
saberes e reflexões tanto sobre a Filosofia quanto a respeito 
da Ciência. Nessa perspectiva, algumas inquietações podem 
ser apresentadas. Por exemplo: o que havia antes da iniciativa 
racional de compreensão da realidade e dos fenômenos físi-
cos, naturais? Quais circunstâncias favoreceram a conquista 
da racionalidade? Ou, os modos de relação com a realidade 
sempre estiveram fundamentados na razão? 
Conquistar os caminhos para as respostas às inquie-
tações mencionadas corresponde a disponibilidade para 
um passeio que nos leve à Antiguidade. Convidamos você 
para esse passeio. Na bagagem, vamos precisar da dedica-
ção aos modos diferenciados de entendimento da realidade, 
diferenciados das formas que hoje encontramos até mesmo 
cristalizadas, por assim dizer. Por exemplo: durante a forma-
ção básica, crianças estudam o ciclo hidrológico e, portanto, 
44
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compreendem porque chove, podem lançar o olhar sobre a 
chuva vendo-a na qualidade de fenômeno climático, meteo-
rológico, natural. Durantenosso passeio, entretanto, vamos 
visitar a época na qual essas informações não eram assim tão 
claras. Ao contrário, a chuva poderia ser percebida não na 
qualidade de fenômeno natural, mas de expressão das vonta-
des, por exemplo, vindas do Olimpo. 
As narrativas míticas apresentavam, dentre suas carac-
terísticas, a presença de seres fantasiosos, eventos guiados 
por deuses, manifestações de poderes além daqueles natu-
rais. O que move a iniciativa mítica ou o que a impulsiona é 
a vontade que os seres humanos têm de compreender a rea-
lidade da qual participam. A chuva que mencionamos. Por 
exemplo, hoje conhecemos o ciclo hidrológico, mas neste 
nosso passeio, estamos visitando condições do Século XII 
a. C. e essas explicações ainda não existiam. De todo modo, 
havia o desejo pela compreensão do entorno, do dia, da noite; 
da vida, da morte; era preciso ter acesso a informações que 
narrassem a origem de tudo o que havia. 
Um mito é uma narrativa sobre a 
origem de alguma coisa (origem 
dos astros, da Terra, dos homens, 
das plantas, dos animais, do fogo, 
da água, dos ventos, do bem e 
do mal, da saúde e da doença, da 
morte, dos instrumentos de trabal-
ho, das raças, das guerras, do poder 
etc.). [...] Para os gregos, mito é um 
discurso pronunciado ou proferido 
para ouvintes que recebem como 
verdadeira a narrativa, porque 
confiam naquele que narra; é uma 
narrativa feita em público, baseada, 
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portanto, na autoridade e confi-
abilidade da pessoa do narrador. E 
essa autoridade vem do fato de que 
ele ou testemunhou diretamente 
o que está narrando ou recebeu a 
narrativa de quem testemunhou os 
acontecimentos narrados. Quem 
narra o mito? O poeta-rapsodo. 
Quem é ele? Por que tem auto-
ridade? Acredita-se que o poeta é 
um escolhido dos deuses, que lhe 
mostram os acontecimentos passa-
dos e permitem que ele veja a ori-
gem de todos os seres e de todas as 
coisas para que possa transmiti-la 
aos ouvintes. Sua palavra - o mito 
- é sagrada, porque vem de uma 
revelação divina. O mito é, pois, 
incontestável e inquestionável. 
(CHAUÍ, 2003, p. 34-35)
Neste nosso passeio, fica claro que o ser humano sem-
pre sentiu a necessidade de conhecer, de buscar a compreen-
são da sua realidade, de entender os fenômenos. O convite 
neste momento é para pensarmos a respeito dos “riscos” 
desse sentimento de necessidade ou desejo de conhecer. Em 
estruturas sociais e políticas das mais variadas, a autonomia 
do pensar e o desejo pelo conhecimento se constituem como 
riscos, pois podem ameaçar a “ordem” estabelecida, podem 
afrontar situações de desigualdades, explorações etc. Por 
outro lado, condições que contêm ou narrem a respeito de 
como se dá a realidade, podem promover a aceitação geral 
dos “ouvintes” e, aceitando a narrativa, o desejo de conhecer 
é saciado (ilusoriamente saciado).
46
Fi
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fia
Os mitos, conforme Aranha e Martins (2000), apresenta-
vam as funções de acomodar, justificar e tranquilizar as pessoas 
frente à realidade, assim como tinham a função de fixar mode-
los exemplares para os comportamentos. Reveja a citação de 
Chauí apresentada, desta vez, com atenção aos termos finais da 
citação: “O mito é, pois, incontestável e inquestionável”. Outra 
característica da narrativa mítica: ela é dogmática.
O mito, se questionado, perde seu motivo de ser, perde 
sua força. Sendo questionado, evidencia que não promoveu a 
acomodação, nem a tranquilidade, menos ainda pode justifi-
car ou estabelecer modelos de conduta (as relações de obedi-
ência estão presentes em diversas narrativas míticas, assim 
como as consequentes punições da desobediência aos deu-
ses). Como é possível notar em narrativas míticas como nos 
mitos de Pandora, Prometeu, Édipo, dentre outros.
Seguindo por nosso passeio, foi a partir do movimento, 
por assim dizer, questionador frente às narrativas míticas que 
tivemos as iniciativas pautadas na razão e que, junto a outros 
elementos, realizamos o processo de transição da cosmogo-
nia à cosmologia. Vamos continuar nosso passeio, agora com 
atenção à cosmogonia; logo mais, durante nossa caminhada 
nesta Unidade 02 iremos dialogar a respeito da cosmologia. 
Você já sabe que os mitos correspondem às narra-
tivas sobre a origem de algo. Portanto, é uma genealogia. 
Utilizando as palavras de Chauí (2003, p. 35), “a narração da 
origem é [...] uma genealogia, isto é, narrativa da geração dos 
seres, das coisas, das qualidades, por outros seres, que são 
seus pais ou antepassados”. A esse respeito, a autora exem-
plifica com a narrativa mítica da origem do amor, ou o nas-
cimento de Eros (orientamos pesquisa sobre Eros no nosso 
quadro “Ampliando o Conhecimento”). Além de correspon-
der a uma genealogia, os mitos são também teogonia e cos-
mogonia, conforme segue:
Pa
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47
A palavra gonia vem de duas palavras gregas: do verbo 
gennao (engendrar, gerar, fazer nascer e crescer) e do substan-
tivo genos (nascimento, gênese, descendência, gênero, espé-
cie). Gonia, portanto, quer dizer: geração, nascimento a partir 
da concepção sexual e do parto. Cosmos, como já vimos, quer 
dizer mundo ordenado e organizado. Assim, a cosmogonia 
é a narrativa sobre o nascimento e a organização do mundo, 
a partir de forças geradoras (pai e mãe) divinas. Teogonia é 
uma palavra composta de gonia e theós, que, em grego, signi-
fica: as coisas divinas, os seres divinos, os deuses. A teogonia 
é, portanto, a narrativa da origem dos deuses, a partir de seus 
pais e antepassados. (CHAUÍ, 2003, p. 36).
Retomando nosso passeio para a contemporaneidade. 
Como a expressão mito é hoje aplicada? Além de significar os 
modos de representação da realidade com as características e 
funções que já elucidamos, constam outros usos do termo mito.
Conforme Buzzi (2007, p. 85) “a palavra mito é usada 
habitualmente para significar alguma crença dotada de vali-
dade mínima e de pouca verossimilhança. Por exemplo: ‘a 
Atlântida não passa de um mito’”. Importa considerar que 
esse é um uso habitual do termo e não corresponde aos sig-
nificados que encontram fundamentos nos estudos sobre o 
pensamento primitivo (primitivo aqui pelo olhar antropoló-
gico, portanto, não significa inferior).
De todo modo, correspondendo ou não aos sentidos 
e significados originários do mito, é fato que atualmente a 
expressão é utilizada para designar coisas que não são reais, 
diante das quais, alguém pode dizer “- É mito!”. Outro uso 
da expressão mito na atualidade está associado tanto a pes-
soas quanto a personagens que marcaram seu tempo e fica-
ram ou tendem a ficar, por assim dizer, eternizados por atos 
heroicos, no sentido do poder simbólico e não concreto, esta-
belecendo relações com o imaginário coletivo. São possíveis 
48
Fi
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fia
também outras formas de poder, ainda no campo simbólico, 
que reforçam condições severas, destrutivas capazes de dire-
cionar para os caminhos da desumanização. 
Portanto, importa que cada um de nós experimente o 
exercício da razão e da criticidade, assim como da sensibili-
dade e percepções afetivas frente ao tecido social e ao nosso 
modo próprio de tecer quem somos.
Estávamos, neste nosso passeio, no período da 
Antiguidade quando nosso “relógio” não se conteve em ficar 
apenas “lá”e tecemos as associações com o contemporâneo. 
Agora, vamos retornar aos caminhos míticos e seu contexto 
para que possamos descobrir como ocorreu a transição deste 
modo (mítico) de representação da realidade para os modos 
racionais de compreendê-la.
Embora para alguns autores o advento da razão ganhe 
o título de “milagre grego”, não compartilhamos desse modo 
de pensar, dentre outros motivos, devido ao processo histórico 
que fez culminar no afastamento de perspectivas cosmogôni-
cas (que narram a origem/organização do mundo conforme as 
formas que engendraram-no) e aproximação de perspectivas 
cosmológicas, correspondentes à busca sobre origens e funda-
mentos conforme o empenho do logos, da razão.
Os elementos principais, e suas circunstâncias, que 
favoreceram a passagem da perspectiva mítica para a racional 
foram: a moeda, a escrita alfabética, a lei escrita, o calendário, 
o advento da polis (cidade-estado grega), o cidadão da polis e a 
própria política, as viagens marítimas e a vida urbana. 
Os modos de entendimento da realidade foram pas-
sando por modificações, assim como as formas de perceber a 
si mesmo e ao entorno; pois, novas condições e circunstâncias 
começaram a participar do ambiente grego.
Com as viagens marítimas, foi possível visitar luga-
res nos quais as narrativas míticas indicavam como morada 
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co
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óg
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49
dos heróis, deuses, seres fantásticos repletos de poderes, 
titãs. Esses lugares eram habitados por outras pessoas, tão 
humanas quanto qualquer mortal. Portanto, conforme Chauí 
(2003, p. 37), “As viagens produziram o desencantamento ou 
a desmistificação do mundo, que passou, assim, a exigir uma 
explicação sobre sua origem, explicação que o mito já não 
podia oferecer”. 
A moeda, assim como a invenção da escrita alfabé-
tica e do calendário, correspondeu ao poder de abstração. No 
caso da moeda, era preciso compreender o valor em seu teor 
mais abstrato, era preciso calcular o valor correspondente às 
mercadorias. 
Emitida e garantida pela polis, a 
moeda faz reverter seus benefí-
cios para a própria comunidade. 
Além desse efeito político de 
democratização de um valor, a 
moeda sobrepõe aos símbolos sa-
grados e afetivos o caráter racio-
nal de sua concepção: muito mais 
do que um metal precioso que se 
troca por qualquer mercadoria, a 
moeda é o artifício racional, con-
venção humana, noção abstrata 
de valor que estabelece a medida 
comum entre valores diferentes. 
(ARANHA, MARTINS, 2003, 
p.81-82)
No caso da escrita alfabética, favoreceu tanto a gene-
ralização quanto à abstração, pois era preciso representar a 
ideia correspondente ao significado de cada coisa. A respeito 
do calendário, favoreceu a passagem da perspectiva mítica 
50
Fi
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fia
para a racional devido à necessária capacidade de abstra-
ção para calcular o tempo de acordo com elementos naturais 
(estações, horas, dias), conforme elucida Chauí (2003, p. 37) 
“revelando, [...] uma capacidade de abstração nova, ou uma 
percepção do tempo como algo natural e não como um poder 
divino incompreensível”. A vida urbana também exerceu 
forte influência sobre o “advento” do pensamento racional, 
conforme segue:
[A respeito da vida urbana] Com 
predomínio do comércio e do arte-
sanato, dando desenvolvimento a 
técnicas de fabricação e de troca, 
e diminuindo o prestígio das famí-
lias da aristocracia proprietária de 
terras, por quem e para quem os 
mitos foram criados; além disso, 
o surgimento de uma classe de 
comerciantes ricos, que precisava 
encontrar pontos de poder e de 
prestígio para suplantar o velho 
poderio da aristocracia de terras 
e de sangue (as linhagens consti-
tuídas pelas famílias), fez com 
que se procurasse o prestígio pelo 
patrocínio e estímulo às artes, às 
técnicas e aos conhecimentos, fa-
vorecendo um ambiente onde a 
Filosofia poderia surgir. 
(CHAUÍ, 2003, p. 37)
A lei escrita também figura dentre os elementos do 
processo histórico de passagem do mito à perspectiva racio-
nal, pois com a lei escrita as noções em torno da justiça reque-
rem diálogos, a justiça não é mais associada aos desígnios dos 
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deuses, mas está posta aos debates, às discussões, portanto, 
é uma justiça que compreende a dimensão propriamente 
humana (não mais divina). O mesmo ocorre com o advento 
da polis, cidade-estado grega, o advento do cidadão e da pró-
pria política, pois havia o espaço destinado aos debates sobre 
temas comuns, como ocorria na ágora (praça pública). Sendo 
necessário decidir sobre os rumos da cidade, da justiça, da 
cidadania, da política e da lei, não mais caberia a justifica-
tiva pautada na cosmogonia, nem com fundamentos na teo-
gonia para as ações; era preciso investigar para compreender, 
conquistando, assim, gradativamente, o espaço para a busca 
racional sobre o princípio de todas as coisas.
Vamos juntos neste passeio, dedicando agora atenção 
à cosmologia. O termo cosmologia é decorrente da soma de 
duas outras palavras: cosmo (universo) + logia (corresponde 
a logos, razão), que significa, doutrina ou narrativa a res-
peito da origem, da natureza e dos princípios que ordenam o 
mundo ou o universo, em todos os seus aspectos. A cosmo-
logia, portando, difere da cosmogonia, embora as duas este-
jam relacionadas às narrativas frente à origem e organização 
do universo. 
O conceito de cosmologia nos direciona ao entendi-
mento de que os primeiros filósofos gregos ansiavam res-
postas sobre a origem ou causa primeira da formação do 
universo, da vida e sua finalidade. Nesse momento, a Grécia, 
representada pelas suas cidades-estados, ou Polis, vivia um 
intenso movimento sociocultural e econômico, essas revolu-
ções interferiram substancialmente na forma de ser e agir dos 
gregos, sobretudo, na concepção de realidade.
O filósofo Batista Mondin, em sua obra Curso de 
Filosofia Vol. 1 (2003), nos traz uma significativa ideia sobre 
a importância de Tales ao desenvolvimento do pensamento 
filosófico ocidental.
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A filosofia nasceu não na Grécia 
propriamente dita, mas nas colô-
nias do Oriente e do Ocidente, a 
saber, na Jônia e na Magna Gré-
cia. Cerca de 624 a. C. em Mile-
to, nasceu Tales, o pai da filosofia 
grega e de toda a filosofia ocidental.
Matemático e astrônomo, atri-
bui-se a ele muitas descobertas. 
Foi considerado um dos sete sá-
bios da Antiguidade. Diógenes 
Laércio narra que ele morreu ao 
cair em uma cisterna enquanto 
observava os astros, aproximada-
mente 526 a. C.
Pelo que se sabe, Tales foi o pri-
meiro pensador que se pôs ex-
pressa e sistematicamente a per-
gunta: “Qual é a causa última, 
o princípio supremo de todas as 
coisas?” A pergunta se justifica-
va pelo fato de que, apesar da apa-
rente diversidade, há em todas as 
coisas algo de comum: em todas 
as coisas observáveis encontra-se 
água, terra, ar e fogo.
(MONDIN, 2003, p. 17)
Tales representa o início de uma era de novos olhares sobre 
a realidade, a busca da origem do universo não mais está relacio-
nada aos seres divinos, ou olímpicos, muito ao contrário, o uso da 
razão impôs aos filósofos uma nova perspectiva material, a subs-
tância primordial que para os gregos era chamada de “arché”. 
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A seguir, quadro demonstrativo e painel ilustrativo dos 
principais pré-socráticos e suas mais relevantes contribuições.
Quadro 1: Demonstrativo dos filósofos pré-socráticos 
NOME ANO ELEMENTO
PRINCIPAL 
CONTRIBUIÇÃO
Tales de 
Mileto
623-546 a. C. Água 
Origem da vida é a 
água
Anaximandro 
de Mileto
610-547 a. C. Ápeiron
Ápeiron, o 
indeterminado, 
massa geradora de 
todos os seres
Pitágoras de 
Samos
570- 490 a. C. Números
Representam a 
ordem e a harmonia 
do universo
Heráclito de 
Éfeso 
Séc. V a. 
C. 2*
Fogo
A vida é um 
fluxo constante 
impulsionado por 
forças contrárias
Parmênides 
de Eléia
510-470 a. C. Ser
Princípio lógico 
de identidade e 
princípio de não 
contradição
Zenão de 
Eléia 
488-430 a. C. Movimento
Reflexões sobre 
o conceito de: 
movimento, espaço, 
infinito e tempo
Empédocles 
de Agrigento
490-430 a. C.
Quatro 
elementos 
naturais
Os elementos são 
movidos pelos 
princípios universais 
opostos, o amor e o 
ódio
Demócrito de 
Abdera
460-370 a. C. Atomismo
Partícula não 
divisível 
* Não se sabe exatamente o ano de seu nascimento, atribui-se, portanto o período Séc. V.
Fonte: Adaptado de Cotrim (2006)
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Painel ilustrativo dos pré-socráticos:
Tales de Mileto Parmênides de Eléia
 Pitágoras de Samos Demócrito
Heráclito de Éfeso Zenão de Eléia
Anaximandro
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:P%C3%A1gina_principal
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Na tentativa de encontrar a substância primordial ou 
princípio substancial, esses pensadores, mediante suas refle-
xões, legaram a toda humanidade relevantes contribuições ao 
desenvolvimento da forma racional de compreensão da reali-
dade, que posteriormente fora traduzido tanto pela Filosofia 
quanto pela Ciência.
Aprofundando nossas reflexões.
Quais são as implicações dos Jônios em nossa atual con-
juntura social? Por que e para quê o estudo desses pensado-
res gregos se fazem necessários a minha formação/atuação nas 
esferas pessoal, acadêmica e profissional? Como poderíamos 
lançar o olhar sobre a realidade na qual vivemos e que tece-
mos, deixando de compreender seus fundamentos originários 
e a trajetória própria da iniciativa racional de compreensão da 
realidade e, ainda, do desejo que, na qualidade de humani-
dade, sempre tivemos de aprender e buscar saberes, mesmo 
quando não tínhamos o referencial da razão, conforme você 
pode acompanhar com os estudos sobre cosmogonia?
Essas indagações são perfeitamente naturais e necessá-
rias. Portanto, acreditamos que é justamente nesse momento 
que começamos a pensar, pois, o simples ato de questionar 
nos possibilita uma infinidade de possibilidades de não mais 
aceitarmos os “pacotes” prontos e acabados. 
É preciso que se descubra a finalidade do estudo para 
se fomentar a necessidade do aprendizado, ou seria o contrá-
rio? É preciso reconhecer a necessidade para melhor atender 
as finalidades?
Para esses questionamentos, acreditamos não ter uma 
resposta pronta e definitiva, apenas dispomos de simples 
compreensões que em dado momento de nossa condição 
humana nos é dada a possibilidade de expressar. Heráclito e 
Parmênides, dois dos principais pré-socráticos, nos auxiliam 
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significativamente ao esclarecimento desses dilemas existen-
ciais. Vejamos o que eles nos falam!
Heráclito considera que a realidade é dinâmica e, por-
tanto, um estado de permanente mudança (realidade mobilista) 
vir-a-ser. Parmênides, ao contrário, defende a permanência das 
essencialidades, a mudança é uma ilusão, é contingente e não 
substancial. Com referência a esses posicionamentos, percebe-
mos que durante nossa vida, em nossas condições existenciais, 
precisamos adotar posturas que compreendam essas duas 
perspectivas, ora a mudança é uma realidade, ora a permanên-
cia é a essencialidade e única garantia de autenticidade. O fato 
é que não se trata mais de adotar uma única e exclusiva pos-
tura, pensar-repensar, construir-descontruir, significar-ressig-
nificar são mais que pares de palavras, são verdadeiramente 
modos de ser e existir frente à multiplicidade dos fenômenos 
existentes na realidade conjuntural. 
Sín t eSe
 O estudo das perspectivas cosmogônicas e cos-
mológicas nos possibilitou a compreensão de um dos prin-
cipais períodos filosóficos da humanidade. Além das consid-
erações histórico-sociais inerentes ao aprendizado, constam, 
nesta unidade, elementos que possuem o escopo no fomento 
da realização de relevantes reflexões, a fim de atualizar e con-
textualizar o legado deixado pelos pensadores originários, 
exercício de aproximação teórico conceitual a práxis cotidi-
ana que torna-se indispensável ao estudante na contempora-
neidade. 
qu eStão pa r a r eflex ão
1. Elabore um comentário explicativo sobre as características 
e funções das narrativas míticas e estabeleça relações com a 
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contemporaneidade. 
2. Considere as citações abaixo e desenvolva seu posiciona-
mento frente às adversidades sociais contemporâneas.
• De fato, ou uma coisa é ou não é. Se é, não pode vir-
-a-ser, porque já é. Se não é, não pode vir-a-ser, porque 
do nada não se tira nada. (MONDIN, 2003, p. 31).
• Tudo é vir-a-ser, tudo muda, tudo se transforma. O 
mundo, o homem, as coisas estão em incessante trans-
formação. (MONDIN, 2003, p. 26).
lei t u r aS i n dica daS
BULFINCH, T. O Livro de Ouro de Mitologia história de 
Deuses e Hérois. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.
CAMPBELL, J. O Poder do Mito. 2 reimpressão. São Paulo: 
Palas Athena, 1991.
REALE, G.; ANTISERI, D. História da Filosofia. São Paulo: 
Paulus, 2003, v. 1.
Si t eS i n dica doS
http://www.filosofia.com.br/
http://www.mundoeducacao.com.br/
r ef er ênci aS
ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Filosofando: in-
trodução à Filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003.
______. Temas de Filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2000.
58
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BUZZI, A. R. Introdução ao Pensar: o Ser, o Conhecimento, 
a Linguagem. 33. ed. Petrópolis: Vozes, 2007.
CAMPBELL, J. O Poder do Mito. 2 reimpressão. São Paulo: 
Palas Athena, 1991.
CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2003.
COTRIN, G. Fundamentos da Filosofia história e grandes 
temas. São Paulo: Saraiva, 2006.
MONDIN, B. Curso de Filosofia. São Paulo: Paulus, 2003, v. 1.
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( 3 )
Reflexões sobre o conhecimento 
e olhares sobre o pensamento 
clássico
Naurelice Maia de Melo e 
Ueliton Lemos dos Santos 
“Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo”
Trecho de Como uma Onda. Lulu Santos. Disponível em: <http://
letras.mus.br/lulu-santos/47132/>. Acesso em: 21 out.2012.
O trecho de música citado permite lembrar os diálogos 
tecidos na unidade anterior, especialmente quando lançamos 
o olhar sobre a cosmologia, com atenção a Heráclito. O devir,a mudança constante, a condição perene de que tudo é mutá-
vel. “Como uma onda no mar”. Na contemporaneidade, não 
precisamos viver essa contenta entre o referido pensador e 
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Parmênides que, como você já sabe, propôs que tudo é uno, 
fixo, imutável. Hoje, podemos tecer reflexões sobre as duas 
condições (do mutável e do imutável) em prol da busca pelo 
conhecimento. Hoje, falamos em complexidade. Falamos nas 
integrações necessárias entre os sentimentos, os pensamen-
tos e as ações nas diversas instâncias da vida, seja pessoal, 
acadêmica, profissional etc.
Nesta unidade, vamos dialogar, dentre outros saberes, 
a respeito da trajetória clássica grega do pensamento, ou seja, 
sobre o que houve depois da transição da perspectiva cosmo-
gônica para a cosmológica. Ou, ainda, o que dizer da inicia-
tiva que sempre tivemos, na qualidade de humanidade, de 
conhecer, de desvelar ou perceber os dados da realidade. Seja 
como uma onda no mar, seja como uma gota no oceano, esta-
mos todos em relação com as iniciativas capazes de promo-
ver e conquistar conhecimentos. É por este termo e com ele 
que vamos continuar nossos diálogos. “Há muita vida lá fora, 
aqui dentro, sempre”.
A origem etimológica latina do termo conhecimento, 
cognoscere, aponta para as possibilidades de saber. No âmbito 
da filosofia são várias as formas de compreensão a respeito 
do que é conhecimento e de como é possível conquistá-lo, de 
acordo com os pressupostos teóricos e/ou metodológicos de 
cada expressão da teoria do conhecimento, conforme você 
estudou durante nossa Unidade 01.
A respeito do conhecimento, elegemos, para sociali-
zar com você, a aproximação conceitual feita por Luckesi e 
Passos (2000), correlacionando-o à elucidação da realidade. 
Escolhemos este olhar, pois está próximo do movimento que 
reúne o ato de conhecer com as possibilidades de engajamento 
social, pois, conforme os respectivos autores (2000, p. 32, grifo 
nosso): “o conhecimento que se transforma em consciência 
social é um instrumento básico na luta pela transformação”. 
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A palavra elucidar tem sua ori-
gem no latim. Ela é composta 
pelo prefixo reforçativo “e” e pelo 
verbo “lucere”, que quer dizer 
“trazer à luz”. Então, elucidar, 
do ponto de vista de sua origem 
vocabular, significa “trazer a luz 
muito fortemente”, “iluminar 
com intensidade”. Desse modo, 
conhecer, entendido como eluci-
dar a realidade, quer dizer uma 
forma de “ilumina” de “trazer 
à luz” a realidade. [...] A luz 
do elucidar tem a ver com a in-
cidência da “luz da inteligência” 
sobre a realidade, tem a ver com 
inteligibilidade. O conhecimento, 
como elucidação da realidade, é 
a forma de tornar a realidade in-
teligível, [...] cristalina. É o meio 
pelo qual se descobre a essência 
das coisas que se manifesta por 
meio de suas aparências. Assim 
sendo, enquanto a realidade, por 
meio de suas manifestações apa-
rentes, manifestar-se ia como 
misteriosa, impenetrável, opaca, 
oferecendo resistências ao seu 
desvendamento (desvendar/des-
vendar=tirar a venda) por parte 
do ser humano, a elucidação se-
ria a sua iluminação, a sua com-
preensão, o seu desvelamento 
(desvelar/des-velar=tirar o véu). 
(LUCKESI; PASSOS, 2000, p. 15)
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Todos nós estamos diante da realidade na qualidade 
de pessoas dotadas da capacidade de elucidar. Cada um, con-
forme seus desejos, suas escolhas, criatividades, afinidades 
etc., lançamos o olhar sobre o mundo e construímos quem 
somos também no âmbito das relações. Desse modo, pode-
mos dizer que somos seres cognoscentes e participamos de 
processos nos quais tecemos relações, de modos variados, 
com a realidade cognoscível. Aqui, já mencionamos elemen-
tos do processo do conhecimento. Vejamos.
Os elementos do processo do conhecimento são: sujeito 
(cognoscente), objeto (cognoscível), ato de conhecer e seu resul-
tado. Aplicamos o termo cognoscente para significar a dispo-
sição ao conhecimento, ou aquele que conhece. A expressão 
cognoscível corresponde à realidade que pode ser conhecida.
Elementos do processo de conhecimento 
Fonte: Elaboração própria
Na qualidade de elemento do processo do conheci-
mento, sujeito cognoscente é a pessoa que estabelece relação 
com a realidade a ser conhecida (objeto), buscando criterio-
samente as percepções e os entendimentos necessários a 
respeito dela, portanto, organiza os saberes, conquista e exer-
cita a habilidade de percepção, abstração, inteligibilidade. O 
Sujeito Objeto
Resultado
Ato de 
conhecer+ =
Eleme
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objeto cognoscível pode ser também o próprio ser humano, 
as relações humanas em dada comunidade, um fenômeno 
físico/natural, um fenômeno social etc. Portanto, o objeto não 
corresponde a uma coisa material no sentido que comumente 
é atribuído ao termo objeto, mas a toda e qualquer realidade 
a ser conhecida. A respeito do ato de conhecer e do resul-
tado (também conhecido por produto), são, respectivamente, 
o processo da relação entre sujeito e objeto e o conceito, con-
forme segue:
[...] O ato de conhecer é o proces-
so de interação que o sujeito efet-
ua com o objeto, de tal forma que, 
por recursos variados, vai tentan-
do captar do objeto a sua lógica, 
a possibilidade de expressá-lo 
conceitualmente. Então, o sujeito 
interage com o objeto para desco-
brir-lhe, teoricamente, a forma 
de ser. [...] o resultado do ato de 
conhecer é o conceito produzido, 
o conhecimento propriamente 
dito, a explicação ou a compreen-
são estabelecidas, que podem ser 
expostas ou comunicadas. 
(LUCKESI; PASSOS, 2002, p. 17)
Conforme os modos distintos de estabelecer relações 
com a realidade, contamos com formas também distintas de 
conhecimento. De acordo com Araújo et al. (2000), são três as 
maneiras básicas pelas quais o sujeito conhece o objeto. Essas 
maneiras se distinguem com relação as vias de acesso às pro-
priedades do objeto, podendo ser pelos sentidos, pelo raciocí-
nio ou pela crença.
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Quando o sujeito cognoscente entra em contato com o 
objeto cognoscível mediante os sentidos, dizemos que esse é 
um tipo de conhecimento sensorial ou empírico: “o universo 
dos objetos físicos é, pois, conhecido pela sensação de suas 
características. O sujeito cognoscente estabelece com eles 
uma relação física, apoderando-se de suas propriedades sen-
síveis” (ARAÚJO et al. 2000, p. 32). 
Além de entrar em contato com a realidade mediante 
às sensações, o ser humano pode ir além da percepção sen-
sorial, o ser humano é dotado do poder de abstração, bem 
como de associação/relação entre os dados percebidos, cons-
tituindo, assim, o tipo de conhecimento lógico ou intelectual. 
A combinação dos dados pos-
sibilita analisar, comparar, ar-
ticular e unir, gerando conceitos, 
definições e leis indispensáveis 
ao entendimento (e consequente 
utilização) da realidade. É pelo 
raciocínio que percebemos o con-
junto dos objetos formais, tais 
como as figuras geométricas, os 
números, a relação causa-efeito, a 
gravitação dos corpos etc. 
(ARAÚJO et al., 2000, p. 32) 
Dentre os modos de relação com a realidade, consta 
também aquela que não pode ser mediada nem pela percep-
ção sensorial, nem pelas associações racionais, pois remetem 
a instâncias da realidade fundamentadas na fé, outrotipo 
de conhecimento, a saber: o conhecimento de fé. Conforme 
Araújo et al. (2000, p. 34), “o conhecimento de fé baseia-se, pois, 
na autoridade de terceiros. Constitui um voto de confiança 
no que outros afirmam”. Corresponde não a observações, 
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percepções ou associações entre dados da realidade, mas está 
próximo às perspectivas de revelação mediada pela fé.
Constam também outros olhares, igualmente válidos, a 
respeito dos tipos de conhecimento, apontando, por exemplo, 
para o conhecimento do senso comum ou popular, o conheci-
mento religioso, o conhecimento científico e o conhecimento 
filosófico. Por motivos de elucidação didática, preferimos 
socializar com você a perspectiva de conhecimento sensorial 
ou empírico, lógico ou intelectual e de fé. Deixamos o convite 
para que pesquise outros olhares a respeito dos tipos de conhe-
cimento, ampliando seus estudos e saberes, considerando, 
ainda, que, ao longo das nossas unidades, você poderá com-
preender a respeito do conhecimento conforme o pensamento 
filosófico, por exemplo, do empirismo e do racionalismo.
E a Filosofia? O que dizer do modo filosófico de lan-
çar o olhar sobre a realidade? Ou, como seria o processo do 
conhecimento para a pessoa que se porta na qualidade de, por 
assim dizer, “sujeito” filosofante? Você recorda que, durante 
nossa Unidade 1, propomos que somos já pessoas filosofan-
tes? Convidamos você, mais uma vez, para que encontre suas 
próprias respostas. Nesse sentido, oferecemos informações 
que subsidiarão essa iniciativa. Vamos, portanto, dialogar a 
respeito da atitude e da reflexão ou sobre quais característi-
cas fazem com que a atitude seja filosófica. E a reflexão? Para 
atendermos esses subsídios necessários, utilizamos: perspec-
tivas didáticas apresentadas por Chauí e fundamentos pro-
postos por Saviani (1998).
A atitude filosófica apresenta duas características fun-
damentais: negativa e positiva. É negativa porque nega ao 
que está posto sem que antes seja compreendido, nega as afir-
mações gerais que são impostas para que sejam cegamente 
seguidas. Portanto, querido(a) estudante, muitas vezes, já 
desempenhamos essa primeira característica da atitude 
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filosófica em nosso cotidiano, pois somos pessoas dedicadas 
ao conhecimento, pessoas que buscam ver para além do que 
está posto, para além dos recursos de dominação social, pes-
soas que desejam e buscam realizar a autonomia, a liberdade 
de pensar. Entretanto, não é apenas exercitando esse tipo de 
negação que podemos dizer que nossa atitude é filosófica. É 
preciso, também, propor.
Além de negativa, no sentido já elucidado, a atitude 
filosófica é também positiva ou propositiva. Uma vez que não 
aceitamos determinados modos de significação da realidade, 
precisamos propor nossos próprios modos de entendimento, 
criando nossos conceitos e o fazemos quando assumimos 
posturas questionadoras. Mediante a citação a seguir, você 
pode saber mais sobre as características negativa e positiva 
da atitude filosófica e como, relacionadas, elas constituem a 
atitude crítica!
A primeira característica da ati-
tude filosófica é negativa, isto é, 
um dizer não aos “pré-conceitos”, 
aos “pré-juízos”, aos fatos e às 
ideias da experiência cotidiana, 
ao que “todo mundo diz e pensa”, 
ao estabelecido [...]. A segunda 
característica da atitude filosó-
fica é positiva, isto é, uma inter-
rogação sobre o que são as coisas, 
as ideias, os fatos, as situações, 
os comportamentos, os valores, 
nós mesmos. É também uma in-
terrogação sobre o porquê disso 
tudo e de nós, e uma interroga-
ção sobre como tudo isso é assim 
e não de outra maneira. “O que 
é?”, “Por que é?”, “Como é?”. Es-
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sas são as indagações fundamen-
tais da atitude filosófica. A face 
negativa e a face positiva da ati-
tude filosófica constituem o que 
chamamos de atitude crítica. [...] 
Em geral, julgamos que a palavra 
“crítica” significa ser do contra, 
dizer que tudo vai mal, que tudo 
está errado, que tudo é feio ou 
desagradável. Crítica é mau hu-
mor, coisa de gente chata ou pre-
tensiosa que acha que sabe mais 
que os outros. Mas não é isso 
que essa palavra quer dizer. A 
palavra “crítica” vem do grego e 
possui três sentidos principais: 1) 
capacidade para julgar, discernir 
e decidir corretamente; 2) exame 
racional de todas as coisas sem 
preconceito, sem prejulgamento; 
3) atividade de examinar e aval-
iar detalhadamente uma ideia, 
um valor, um costume, um com-
portamento, uma obra artística 
ou científica.
(CHAUÍ, 2003, p. 18)
Quanto à reflexão filosófica, temos também carac-
terísticas específicas. Na obra “Educação: do senso comum 
à consciência filosófica”, o pesquisador Dermeval Saviani 
aponta e contextualiza alguns aspectos da reflexão filosófica. 
Compreende que nem todo refletir é filosófico; para sê-lo, é 
preciso atender às características: radical, rigorosa e de con-
junto. Querido (a) estudante, importa compreender que esses 
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termos não se apresentam conforme comumente significa-
dos. Ser radical, neste caso, não significa ter um posiciona-
mento fixo, inflexível; ao contrário, remete à busca das raízes 
e está em relação com os demais aspectos (rigor e conjunto). 
Muitos são os autores e autoras que buscam dessa fonte ao 
discorrer sobre a reflexão filosófica. É um modo sério e subs-
tancial, com linguagem clara, acessível e conteúdo pertinente 
às variadas faces do viver. 
Para saber mais sobre a reflexão filosófica (radical, rigo-
rosa e de conjunto), por gentileza, acompanhe a leitura do 
quadro que segue.
Trecho selecionado de “A reflexão filosófica” 
 ‚ Radical: a palavra latina radiz, radicis significa “raiz”, e 
no sentido figurado, “fundamento, base”. Portanto, a filo-
sofia é radical não no sentido corriqueiro de ser inflexí-
vel (nesse caso seria a antifilosofia), mas na medida em 
que busca explicitar os conceitos fundamentais usa-
dos em todos os campos do pensar e do agir. Por exem-
plo, a filosofia das ciências examina os pressupostos do 
saber científico, do mesmo modo que, diante da decisão 
de um vereador em aprovar determinado projeto, a filo-
sofia política investiga as “raízes” (os princípios políticos) 
que orientam a ação.
 ‚ Rigorosa: enquanto a “filosofia de vida” não leva as con-
clusões até as últimas consequências, nem sempre exa-
minando os fundamentos delas, o filósofo deve dispor de 
um método claramente explicitado a fim de proceder com 
rigor. É assim que os filósofos inovam nos seus caminhos 
de reflexão, tal como o fizeram Platão, Descartes, Espinosa, 
Kant, Hegel, Husserl, Wittgenstein. [...] São inúmeros os 
métodos filosóficos em que se apoiam os filósofos para 
desenvolver um pensamento rigoroso, fundamentado a 
partir de argumentação, coerente em suas diversas partes 
e, portanto, sistemático. Além disso, o filósofo usa de lin-
guagem rigorosa para evitar as ambiguidades das expres-
sões cotidianas, o que lhe permite discutir com outros 
filósofos a partir de conceitos claramente definidos. 
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Fonte: ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Filosofando: intro-
dução à Filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003, p. 89-90.
Foi com atenção racional àbusca das raízes, de modo 
criterioso e de conjunto que os primeiros pensadores come-
çaram a busca pelo conhecimento a respeito do princípio de 
todas as coisas, conforme você estudou em unidades anterio-
res. Agora, vamos juntos, nesse momento, entender um pouco 
mais sobre a continuidade dessa trajetória, recordando a tran-
sição da perspectiva cosmogônica para a cosmológica. Vamos 
seguir nosso passeio lançando o olhar sobre os Sofistas.
Por seu significado etimológico, a palavra sofista signi-
fica “sábio”. Mas, em que consiste essa sabedoria? Se recordar-
mos as unidades anteriores, iremos perceber que, em dados 
momentos históricos-sócio-espaciais, houve transformações 
profundas sobre a forma pela qual o indivíduo compreen-
dia a realidade: primeiro, com as representações mitológicas 
(cosmogonia); depois, com os Jônios (cosmologia, tentativa de 
encontrar o arché, substância primordial) e, agora, os sofistas. 
Qual seria a sua proposta?
Os sofistas voltaram seus olhares não mais para os 
deuses, nem para as substâncias primordiais, mas sim e, 
sobretudo, para o próprio indivíduo. Acreditavam eles que 
as respostas não mais estariam fora do ser humano, mas o 
Por isso, o filósofo sempre “inventa conceitos”, 
criando expressões novas ou alterando o sentido de pala-
vras usuais. Aliás, quanto souberam fazer isso os gregos 
no nascimento da filosofia.
 ‚ De conjunto: a filosofia é globalizante, porque examina 
os problemas sob a perspectiva de conjunto, relacionando 
os diversos aspectos entre si. Nesse sentido, a filosofia 
visa ao todo, à totalidade. Mais ainda, o objeto da filosofia 
é tudo, porque nada escapa a seu interesse. Daí sua fun-
ção de interdisciplinaridade [bem como sua importância 
frente às mais diversas áreas de formação], ao estabelecer 
o elo entre as diversas formas de saber e agir humanos.
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contrário. O interesse pelo ser humano e suas relações políti-
cas na sociedade caracterizam o sofista.
Mas, quem eram essas pessoas? A quem eram destina-
das suas aulas? 
Os sofistas eram professores itinerantes, vendiam seus 
conhecimentos às pessoas que estivessem dispostas a pagar. 
Eles contribuíram de modo significativo para o desenvolvi-
mento do poder argumentativo, pois os conteúdos de suas 
aulas correspondiam essencialmente ao desenvolvimento da 
argumentação e habilidade retórica. Entretanto, foram dura-
mente criticados por pensadores, tais como Sócrates e Platão. 
Por quais motivos foram os sofistas alvos de críticas 
severas? 
Os sofistas não apresentavam o compromisso com a 
busca pelo conhecimento verdadeiro, visto que os conheci-
mentos dos sofistas são relativistas e despreocupados com a 
verdade (aletheia). Sabemos que os modos contemporâneos 
de conhecimento apontam para os caminhos de que não há 
uma verdade única e absoluta, uma vez que os saberes são 
circunstanciados. Portanto, o (conhecimento) é construído 
mediante as relações que tecemos com o mundo em sua com-
plexidade, frente ao momento histórico e à diversidade de 
condicionantes sociais existentes. Entretanto, o relativismo 
dos sofistas, conforme o olhar socrático, corresponde à ausên-
cia de compromisso com o saber genuíno, associando a prá-
tica sofista a interesses imediatizados e não aos caminhos 
que oportunizassem a autonomia do pensar e a conquista do 
conhecimento verdadeiro.
Os sofistas ensinavam aos seus 
discípulos que não pode haver 
conhecimento verdadeiro, mas só 
um conhecimento provável, por 
causa de sua origem sensível, e 
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que não existe uma lei moral ab-
soluta, mas somente leis conven-
cionais. O fim supremo da vida 
é o prazer: esta é a única meta 
apropriada à dimensão rigorosa-
mente empírica do conhecimento. 
(MONDIN, 2003, p. 40)
A seguir, estão dispostos os quadros de Protágoras 
e Górgias, dois dos principais sofistas e suas contribuições 
mais expressivas ao pensamento filosófico grego.
Protágoras, nascido em Abdera na década entre 491 e 481 a. C., mor-
reu por volta do fim do Século V. Criador do axioma “O Homem é 
a medida de todas as coisas, daquelas que são por aquilo que são e 
daquelas que não são por aquilo que não são” (princípio do homo 
mensura). (REALE; ANTISERI, 2003, p. 76)
Górgias, nascido em Leôncio na Sicília aproximadamente em 
487-380 a. C., considerado um dos grandes oradores da Grécia, 
aprofundou o subjetivismo relativista de Protágoras a ponto de 
defender o ceticismo absoluto e afirmava que:
a) Nada existia;
b) Se existisse, não poderia ser conhecido;
c) Mesmo que fosse conhecido, não poderia ser comunicado a 
ninguém. (COTRIM, 2006, p. 85)
Seguindo em nosso passeio pela Filosofia Antiga, che-
gamos a Sócrates, um marco do pensamento filosófico oci-
dental. Ainda hoje, seus ensinamentos constituem pauta de 
fervorosos debates, tanto em centros acadêmicos, quanto à 
mesa de um bar, haja vista a atualidade de seus ensinamentos.
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Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/84/UWASocrates_gobeirne.jpg
Sócrates nasceu na cidade de Atenas (469-399 a. C.), 
filho de um escultor (Sofronisco) e uma parteira (Fenareta), 
simples e modesto quanto aos recursos financeiros, fora con-
vocado a participar de várias campanhas militares, desta-
cando-se por sua coragem e heroísmo. Contudo, o fato mais 
marcante de sua vida deu-se quando, em visita ao oráculo de 
Delfos, Sócrates foi considerado como o homem mais sábio 
entre seus concidadãos. Sócrates, então, se pôs a refletir e 
verificou que sua sabedoria reside em reconhecer a impossi-
bilidade de se conhecer tudo e que há muito a ser desvelado 
pelo homem ao longo de sua vida.
O estilo de Sócrates assemelhava-
se, exteriormente, aos dos sofis-
tas, embora não “vendesse” seus 
conhecimentos. Desenvolvia o sa-
ber filosófico em praças públicas, 
conversando com os jovens, sem-
pre dando demonstrações de que 
era preciso unir a vida concreta 
ao pensamento. Unir o saber ao 
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fazer, a consciência intelectual à 
consciência prática ou moral.
Tanto quanto os sofistas, Sócrates 
abandonou a preocupação dos 
filósofos pré-socráticos em expli-
car a natureza e se concentrou na 
problemática do homem. No en-
tanto, contrariamente aos sofistas, 
Sócrates opunha-se, por exemplo, 
ao relativismo em relação à questão 
da moralidade e ao uso da retórica 
para atingir interesses particulares. 
(COTRIM, 2006, p. 86)
A Maiêutica e a Ironia foram constitutivos do seu 
método de investigação filosófica. O método socrático, dialé-
tico, consistiu na realização constante de perguntas ao inter-
locutor, a tal ponto que se reconhece que o saber tido como 
absoluto não passa de uma compreensão, ou pseudo saber. 
Logo, o sujeito põe-se ao exercício da reflexão de novas pers-
pectivas e desenvolvimentos, nascendo, assim, ideias ori-
ginais. A parturição de ideias consiste essencialmente no 
esvaziamento e reconhecimento de que o que se sabe é apenas 
uma dentre tantas outras infinitas ideias. Reconhecendo-se 
que não se sabe tudo, o indivíduo tem a possibilidade de 
abertura ao novo.
A ironia é a característica peculiar 
da dialética socrática, não apenas 
do ponto de vista formal, mas tam-
bém do ponto de vista substancial. 
Em geral, ironia significa ‘simula-
ção’. Em nosso caso específico, in-
dica o jogo brincalhão, múltiplo e 
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variado das ficçõese dos estratage-
mas realizados por Sócrates para 
levar o interlocutor a dar conta de 
si mesmo. [...] A ‘refutação’ (élen-
chos), em certo sentido, constituía 
a pars destruens do método, ou 
seja, o momento em que Sócrates 
levava o interlocutor a reconhecer 
a sua própria ignorância. 
(REALE; ANTISSERI, 2003, p. 
97-98) 
No quadro a seguir, você pode conhecer um pouco mais sobre 
o método socrático e, tecendo as relações com a contemporaneidade, 
poderá perceber a atualidade dessa proposta, uma vez que convida a 
elaboração das próprias ideias e conceitos frente à realidade.
Trechos selecionados sobre o método socrático
Trecho de “Teoria do conhecimento na Antiguidade” 
O método socrático, que é um método indutivo, envolve 
duas fases. A primeira, chamada ironia, consiste em 
fazer perguntas ao interlocutor que o obriguem a justifi-
car, sempre com maior profundidade, seu ponto de vista, 
até que ele perceba que tipo de falha ou equívoco pode 
estar contido em seus argumentos. Essa é a fase destru-
tiva, pois leva as pessoas a admitirem a própria ignorân-
cia a respeito de um assunto. São destruídas as opiniões 
[...] do conhecimento espontâneo, muitas vezes baseados 
em estereótipos e preconceitos. A segunda parte, cha-
mada maiêutica (parto), é a construção de novos concei-
tos baseados em argumentação racional. Assim, Sócrates, 
com suas perguntas, aniquila o saber constituído para, 
depois, ainda através de perguntas e da contraposição de 
ideias, reconstruí-lo a partir de uma base mais sólida e de 
um raciocínio coerente e rigoroso.
Fonte: ARANHA, M. L. A. ; MARTINS, M. H. P. Temas de Filo-
sofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2000, p. 84.
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Platão e Aristóteles são outros dois importantes pen-
sadores do período antigo grego. O primeiro foi discípulo de 
Sócrates e desenvolveu uma filosofia dualística, separando a 
realidade em dois mundos: o sensível e o inteligível.
Trecho de “Ironia e Maiêutica de Sócrates” 
A ironia socrática era, antes de tudo, o método de pergun-
tar sobre uma coisa em discussão, de delimitar um con-
ceito e, contradizendo-o, refutá-lo. O verbo que originou 
a palavra (eirein) significa mesmo perguntar. Logo, não 
era para constranger o seu interlocutor, mas antes para 
purificar seu pensamento, desfazendo ilusões. Não tinha 
o intuito de ridicularizar, mas de fazer irromper da apo-
ria (isto é, do impasse sobre o conceito de alguma coisa) o 
entendimento.
Porém, sair do estado aporético exigia que o interlocutor 
abandonasse os seus pré-conceitos e a relatividade das 
opiniões alheias que coordenavam um modo de ver e agir 
e passasse a pensar, a refletir por si mesmo. Esse exercício 
era o que ficou conhecido como maiêutica, que significa a 
arte de parturejar. [...] Significa que ele, Sócrates, não tinha 
saber algum, apenas sabia perguntar mostrando as con-
tradições de seus interlocutores, levando-os a produzirem 
um juízo segundo uma reflexão e não mais a tradição, os 
costumes, as opiniões alheias, etc. E quando o juízo era 
exprimido, cabia a Sócrates somente verificar se era um 
belo discurso ou se se tratava de uma ideia que deveria ser 
abortada (discurso falso, errôneo).
Assim, ironia e maiêutica, constituíam, por excelência, 
as principais formas de atuação do método dialético de 
Sócrates, desfazendo equívocos e deslindando nuances 
que permitiam a introspecção e a reflexão interna, pro-
porcionando a criação de juízos cada vez mais fundamen-
tados no lógos ou razão.
Para refletirmos um pouco!
Considerando o exposto nesta unidade, como você compre-
ende a postura filosófico-reflexiva dos Sofistas e de Sócrates?
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Aristóteles foi discípulo de Platão, mas, com o passar 
dos tempos, o aluno diverge das ideias do seu mestre e rompe 
com seus ensinamentos, passando a desenvolver uma filoso-
fia fundada na lógica. Ele acreditava que, a partir da existên-
cia do ser, se pode alcançar a essência da realidade. 
Segue quadro demonstrativo evidenciando seus prin-
cipais posicionamentos filosóficos:
PLATÃO
Nasceu em 
Atenas 
(427-347 a. C.)
Teoria do 
Conhecimento
Ética Política
Única forma 
de alcançar o 
conhecimento, 
superação 
da opinião 
(Filodoxia), 
para o amor 
a sabedoria 
(Filosofia) 
Orientação 
ao desprezo 
dos prazeres 
mundanos, 
o importante 
é alcançar 
a esfera 
inteligível 
Acredita 
que o 
Estado 
que quer 
viver bem 
procura 
realizar a 
Justiça e a 
Verdade
ARISTÓTELES
Nasceu em 
Estagira 
(384-322 a. C.)
Teoria do 
Conhecimento
Ética Política
Relação Ato - 
Potência;
Quatro causas: 
1. Material;
2. Formal;
3. Eficiente;
4. Final 
Acredita que, 
para o homem 
ser feliz, 
deve viver 
de acordo 
com sua 
essência, isto 
é, de acordo 
com a sua 
razão, a sua 
consciência 
reflexiva 
O Estado 
é uma 
criação da 
natureza 
e que o 
homem 
é, por 
natureza, 
um animal 
político 
Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/80/Aristotle_1.jpg
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Platon-2.jpg
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Sócrates, Platão e Aristóteles são três importantes 
representantes do pensamento filosófico ocidental. Suas 
ideias e teorias transformaram e direcionaram o caminhar 
da Humanidade ao longo de uma trajetória tempo-espacial. 
Eles, inquietos diante das diversidades apresentadas pela 
estrutura social, política e filosófica de sua época, passaram 
a questionar a realidade, cada um ao seu modo de observar 
e interpretar.
A nós, fica a herança de, a partir dessas concepções 
filosóficas, adotarmos uma postura crítica e reflexiva diante 
da realidade contemporânea. Nisso consiste o desafio no qual 
e pelo qual, frente a uma sociedade pasteurizada e homogê-
nea, buscamos ser diferentes, nem melhor nem pior, apenas 
diferentes, perturbadores da “ordem”.
Sín t eSe
 Durante esta unidade, dialogamos sobre o conheci-
mento na qualidade de elucidação da realidade, explicitando 
os elementos do processo do conhecimento e comentando 
alguns dentre os modos de conhecer, com dedicação às car-
acterísticas da atitude e da reflexão filosóficas. Foram propos-
tas reflexões sobre a importância da postura autônoma frente 
à compreensão da realidade, sabendo que o conhecimento é 
uma necessária via de acesso à transformação social como 
ocorreu no mundo grego antigo (contexto no qual estudamos 
sobre sofistas, Sócrates, Platão e Aristóteles), como vem ocor-
rendo ao longo da nossa trajetória, como esperamos que con-
tinue a ocorrer a cada instante que a experiência da perplexi-
dade lance seus convites.
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qu eStõeS pa r a r eflex ão
1. Sócrates afirma: “Quanto mais sei, mais sei que nada sei”. 
De que forma você compreende essa máxima? Quais relações 
são possíveis entre a referida máxima socrática e o conhe-
cimento tanto em suas perspectivas conceituais quanto com 
relação a seus elementos?
2. Segundo Protágoras, o Homem é a medida de todas as coi-
sas. Como você interpreta essa frase na atualidade social?
lei t u r aS i n dica daS
HELFERICH, C. História da Filosofia. São Paulo: Imfe, 2006.
NICOLA, U. Antologia Ilustrada da Filosofia das origens à 
Idade Média. São Paulo: Globo, 2005.
Si t eS i n dica doS
http://www.consciencia.org/
http://www.filosofia.org.br/
r ef er ênci aS
ARANHA, M. L. A.; MARTINS,M. H. P. Filosofando: in-
trodução à Filosofia. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2003. 
ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Temas de Filosofia. 
2. ed. São Paulo: Moderna, 2000.
ARAÚJO, S. M. et al. Pra Filosofar. 4. ed. São Paulo: Scipione, 2003. 
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CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2003.
COTRIM, G. Fundamentos da Filosofia. São Paulo: Saraiva, 2006.
LUCKESI, C. C.; PASSOS, E. S. Introdução à Filosofia: apren-
der a pensar. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2002.
MONDIN, B. Curso de Filosofia. São Paulo: Paulus, 2003, v. 1.
REALE, G.; ANTISSERI, D. História da Filosofia. São Paulo: 
Paulus, 2003, v. 1.
( 4 )
Dialogando com os temas: ética e 
moral
“O homem é sempre homem en-
quanto existe como verbo ser ab-
erto para a liberdade”. 
(KUTSCHERAUER, 2003, p. 59)
Naurelice Maia de Melo e 
Ueliton Lemos dos Santos
Caro (a) aluno (a), bem-vindo(a)!
Esta unidade tem por objetivo a consolidação e aplica-
ção dos conhecimentos referentes à temática Ética e Moral. 
Com ela, você terá a oportunidade de exercitar a postura 
reflexiva, crítica, criativa e, sobretudo, autônoma, uma vez 
que diálogos serão propostos ao longo das linhas, parágrafos 
e páginas desta unidade. 
Assim, boa leitura e excelentes aprendizados.
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A proposta desta unidade consiste em desvendarmos 
os mistérios e contradições acerca da problemática existente 
entre os termos Ética e Moral. De certo que, por várias vezes, 
ao decurso de nossa existência, ouvimos e até afirmamos que 
são palavras com mesmo sentido e significado, ou mesmo, 
quando não afirmamos erroneamente que a moral é ampla-
mente superior à ética e esta, por sua vez, é descaracterizada 
e menosprezada frente à realidade constituída. 
Essas são apenas algumas dentre outras inquietações 
que nortearão nosso dialogo.
Mas, o que é a Ética e o que é a Moral, finalmente?
O estudo etimológico (origem das palavras) dos termos 
consiste em um bom ponto de partida para o entendimento 
do que é proposto. Dessa forma, Ética é uma palavra de ori-
gem grega Éthos, que, segundo Abbagnano (2000), é a ciên-
cia da conduta humana, que estuda a finalidade e os meios 
de realização desse modo de ser pessoa. A ética, tornando-
-se examinadora da moral, teoriza acerca das condutas, estu-
dando as concepções que dão suporte à moral. 
A moral, por sua vez, é de origem latina, Mos-mores, 
representa a forma de valores que direcionam o bem viver na 
sociedade. Poder-se-ia dizer que a moral normatiza e dire-
ciona a prática das pessoas, por referir-se às situações parti-
culares e quotidianas, não chegando à superação desse nível. 
São, pois, dois caminhos diferentes que resultam em 
status também distintos; o primeiro, de ciência (ética), e o 
segundo, de objeto (moral).
Segundo Vasquez (1980), o Ser moral não significa 
receber passivamente as regras do grupo, mas aceitá-las ou 
recusá-las livre e conscientemente. 
A finalidade da moral consiste na forma como regula 
o comportamento:
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• Individual – relacionado ao modo de ser, pensar e 
agir individual.
• Social – A comunidade dita as normas e elas são seguidas.
Quanto à formação da consciência moral, têm-se qua-
tro momentos a serem observados, segundo Araújo (1996): 
• Anomia, palavra de origem grega, “a” = negação, 
ausência, + nomos, lei = sem lei. 
• Heteronomia, do grego héteros, “outros” + nomos, 
“lei” = lei estabelecida ou imposta por outrem.
• Socionomia do latim socius, companheiro, colega, e 
do grego nomos, lei = lei interiorizada pelo indivíduo.
• Autonomia, do grego autós, “próprio” + nomos, 
“lei” = lei própria.
Esses momentos evidenciam comportamentos da pes-
soa no exercício das relações sociais. 
• Anomia - É a etapa do comportamento puramente 
instintivo, que se orienta apenas pelo prazer e pela dor, 
mais presente nas crianças.
• Heteronomia - Ocorre quando se obedece às ordens 
para receber a recompensa ou para evitar o castigo. 
Entre adultos, é o caso do motorista que observa as leis 
do trânsito só para não ser multado.
• Socionomia - Os critérios morais vão se afirmando 
por meio de suas relações com outras pessoas, as ações 
realizadas pelo indivíduo ensejam a aprovação ou sim-
plesmente evitam a censura dos outros. Entre adultos, 
é o caso do motorista que dirige preocupado consigo 
mesmo e, sobretudo, com o que os outros pensam dele.
• Autonomia - Nesse momento, a pessoa interiorizou 
as normas morais e passa a comportar-se de acordo 
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com elas. É a etapa mais elevada do comportamento 
moral. É o caso do motorista que, na direção do auto-
móvel, orienta-se pelas leis do trânsito e por seus pró-
prios princípios internos de conduta.
 
Nesse momento, suponho que se faz necessário refletir-
mos um pouco sobre esses momentos, observando, sobretudo 
nossas ações diárias frente à realidade social. Como estou condu-
zindo minha vida? Minhas ações são verdadeiramente efetivas?
Vamos juntos dialogar e aprofundar essas 
reflexões.
As discussões relativas à ética datam desde os primei-
ros momentos da formação social, na qual e pela qual as rela-
ções entre os pares careciam de um princípio norteador. A ética 
possui o escopo (finalidade) na dissolução dos conflitos oriun-
dos do exercício da liberdade indiscriminada, vejamos o posi-
cionamento de Aristóteles evidenciado por Pegoraro (1995).
Aristóteles situa o conflito na 
estrutura ontológica do ser hu-
mano, na matéria e na forma, na 
composição da alma e do corpo. 
Esta componente metafisica é a 
raiz da oposição entre sensibili-
dade e razão, paixão e inteligên-
cia, sabedoria e prática e desejo. 
A ética aristotélica propõe a su-
peração do conflito pela prática 
das virtudes morais que, aos pou-
cos subordinam a paixão à razão. 
Quando isto acontece, o homem 
torna-se senhor de si mesmo. 
(PEGORARO, 1995, p. 12) 
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Por outro lado, Platão considera que a conduta humana 
deve estabelecer uma relação necessária entre o bem ético e 
o bem absoluto, mais uma vez a dualidade existencial que se 
reflete na realidade a partir das relações estabelecidas, o indi-
víduo conduz sua existência, almejando o mundo suprassen-
sível, perfeito e ordenado. 
Então, o primeiro entendimento acerca dessas poucas 
palavras reside em que a ética é o meio de superação dos lití-
gios inerentes ao ser humano e à sociedade, dimensionando 
o agir individual e coletivo na construção de uma existência 
justa e feliz.
Observe que, no primeiro entendimento, a ética não se 
condiciona, não está subjugada a nenhuma forma a não ser 
àquela proveniente do próprio indivíduo. Isso já nos indica 
um caminho. Como despertar essa consciência para uma ética 
individual que reflita na coletividade de forma equitativa? 
Diversas foram e são as contribuições dos filósofos 
e pensadores ao longo do percurso da história da humani-
dade. Essas repousam, inicialmente, na discussão entre o ser 
e o dever ser, o problema da autenticidade e essencialidade 
frente à forma e ao conteúdo.
A alternativa encontrada como meio de superação a 
essa dualidade existencial consiste na possibilidade do vir 
a ser. Aqui o indivíduo tem a oportunidade de realização. 
Contudo, são necessárias algumas ações no sentido do des-
pertar da consciência.
• Consciência de si: movimentode reflexão, olhar 
sobre si mesmo.
• Consciência do outro: movimento de atenção, olhar 
para a realidade que o confronta.
O despertar dessas consciências fomenta no indivíduo 
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um olhar crítico, reflexivo e criativo frente à sociedade con-
juntural, transcendendo qualquer tipo ou forma de controle 
social estabelecido, o vir a ser é o projeto essencial de realiza-
ção da pessoa, é processo de construção contínuo do indiví-
duo fundado na compreensão de si e na apreensão e cuidado 
com o outro.
O exercício ético é a realização do vir a ser em todas 
as suas potencialidades. Por um ato de vontade, o indivíduo 
exercita a liberdade e garante a dignidade, uma simples equa-
ção pessoal. 
Vamos, novamente, realizar um exercício reflexivo: 
quanto, de um tempo de 24 horas, reservamos para refletir-
mos sobre a nossa condição humana? Observando nossas 
ações, nossos sentimentos e sentido que damos à vida, será 
esse tempo suficiente? Devo considerar que não estamos nos 
referindo aos momentos em que assistimos a novelas, filmes, 
tampouco em que navega nos sites de relacionamentos etc. 
e, muito menos ainda, àquele tempinho que antecede o dor-
mir cheio de sono e cansaço após o dia de trabalho, mas, a 
um momento específico, reservado por cada um de nós, sobre 
cada um de nós mesmos. Essa atividade evidencia a impor-
tância que aferimos a nós próprios no resgate ou fortaleci-
mento da dignidade. 
CONSCIÊNCIA DE SI + CONSCIÊNCIA DO OUTRO
 =
CONSCIÊNCIA CRÍTICA
VONTADE + LIBERDADE = DIGNIDADE ÉTICA
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A moral está inserida nesse devir (vir a ser) existencial/
social. Ela constitui o conjunto de normas e valores estabele-
cidos e aceitos por todos em uma comunidade. As suas prin-
cipais características são:
• Temporalidade - Os conjuntos de normas e valores 
sociais estabelecidos estão susceptíveis a mudanças 
com o passar dos tempos.
• Cultura - As diversas culturas constituídas elabo-
ram suas normas sociais próprias, havendo ou não a 
possibilidades de semelhanças entre culturas.
• Social - As sociedades desenvolvem suas normas 
e seus valores com o escopo na ordem social para a 
busca da felicidade e justiça.
Está com algumas dúvidas? Vamos, juntos, 
entender melhor essas características.
Por temporalidade, compreendemos que é a própria 
passagem do tempo, e como tal, as coisas relativas a ele estão 
sujeitas às mudanças. Por exemplo, os valores morais recebi-
dos por mim quando criança pelos meus pais são bem espe-
cíficos, para não dizer rígidos, tradicionais. Por outro lado, é 
comum observarmos, atualmente, que as crianças recebem 
valores morais de seus genitores de uma forma mais flexível 
e sem tantos controles, algo típico de uma realidade maleável 
e flexível. Devo salientar o cuidado de se emitir algum tipo 
de juízo de valor. Não devo, sob o risco de estar errado, afir-
mar que antes era melhor do que hoje, ou seu inverso. Os con-
textos valorativos temporais precisam ser observados no seu 
tempo determinado.
Por cultura, observa-se a premissa de ser toda a pro-
dução humana. Assim como os homens são diferentes, da 
mesma forma/maneira o são suas culturas, mais uma vez 
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ressaltando-se o cuidado no juízo em atribuir valor compara-
tivo sobre culturas, como afirmar que uma é melhor ou pior 
que outras, quando, em verdade, são apenas diferentes. Por 
exemplo, a cultura desenvolvida pelo homem do campo no 
contato com a natureza em todas as potencialidades não é 
nem melhor nem pior que a cultura do homem acadêmico, 
cientista. Essas culturas são apenas distintas e, às vezes, 
complementares.
Por social, as sociedades de uma forma geral são consti-
tuídas por pessoas, que, em sua própria natureza, são distin-
tas. Assim, a cultura produzida pelas relações estabelecidas 
também o são. Por exemplo, os valores morais típicos de uma 
cidade capital são bem distintos de uma cidade do interior do 
Estado, porém, em hipótese alguma, inferiores. 
Essas características dialogam entre si. Observe algu-
mas variações a fim de torná-las mais entendíveis: é possível 
termos sociedade em um mesmo período com valores cul-
turais distintos. A sociedade brasileira e a sociedade norte-
-americana são, por exemplo, duas constituições sociais 
devidamente estabelecidas e participantes do mesmo tempo 
(hoje), porém com distinções morais claras e evidentes. Os 
estados brasileiros em uma escala menor também são um 
bom exemplo: a relação entre os estados da região nordeste e 
os estados da região do sul, todos pertencentes a uma única 
unidade federativa, regidos pela mesma Constituição Federal, 
mas com claras distinções morais, nem melhores nem piores, 
apenas diferentes.
Um dos grandes desafios que nos são impostos atu-
almente consiste exatamente na aceitação da diferença, do 
outro que me é estranho. Isso caracteriza um problema ético-
-moral, sobretudo pela falta de compreensão que o indiví-
duo tem sobre si, quiçá dos demais, fruto de relações cada 
vez mais efêmeras e sem sentido. Estamos criando uma nova 
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cultura, a cultura dos sem sentido, fundada na ausência de 
valores morais e, principalmente, dos princípios éticos. 
Esse é o momento de pararmos e refletirmos sobre a 
forma como conduzimos nossas vidas: qual é o sentido do 
meu e do seu existir enquanto pessoa relacional potencial? 
Autores como Leonardo Boff e Hugo Kutscherauer contri-
buem, significativamente, para elucidação dessa questão. 
Vejamos o que o primeiro nos diz.
Como construir uma plataforma 
comum sobre a qual todos possa-
mos nos assentar e nos entender? 
Para viver como humanos, os 
homens e mulheres precisam 
criar certos consensos, coorde-
nar certas ações, coibir certas 
práticas e elaborar expectativas e 
projetos coletivos. Sempre houve 
tal fato desde os primórdios da 
construção das comunidades hu-
manas. Surge, então, a questão da 
validade de uma referência ética 
e moral comum que possa con-
gregar a todos. Qual base para 
essa referência comum?
Hoje as relações são extrema-
mente complexas. Postula-se 
uma referência de totalidade 
dos seres humanos, habitantes 
do mesmo planeta, que agora se 
descobrem como espécie, interde-
pendentes, vivendo numa mesma 
casa e com um destino comum. 
Se não criarem um acordo quan-
to a exigências éticas e morais 
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mínimas, como poderão coexistir 
pacificamente, preservar o lar co-
mum e garantir um futuro para 
todos.
(BOFF, 2003, p. 27) 
Esse é um chamamento à tomada de consciência frente 
à responsabilidade que nos é imposta através das ações que 
realizamos. Somos todos responsáveis para além de nossas 
intenções e efeitos, não nos é dada à oportunidade de declinar 
diante de uma consequência negativa de um ato feito. Nossa 
responsabilidade deve repousar essencialmente nos princí-
pios éticos, que consistem em responder por tudo, mesmo 
quando essas consequências tenham extrapolado qualquer 
planejamento inicial.
O problema, ou melhor, a dificuldade reside aí tam-
bém. Infelizmente, é bastante comum ouvirmos afirmações 
do tipo: “Sobre essas consequências não tenho responsabi-
lidade, visto que transcenderam o projeto inicial. Como não 
foram previstas, não posso responder”. Isso é um erro. Urge 
que tenhamos ações melhor planejadas, a fim de que sejam 
reduzidos seus efeitos e que, assim, os excessos sejam estan-
cados pelo exercício da responsabilidade.
De outra forma só nos restaria representar a Éticacomo 
uma lata de lixo, sobretudo quando nossas ações são despro-
vidas de atenção e cuidados para com o outro. 
O filosofo H. Kutscherauer corrobora com essa afirma-
ção dizendo:
O homem que procure a perfeição 
pela vocação de serviço ao outro e 
ao mundo, não só será ético senão 
que também, em função do outro 
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(verdadeira transcendência de si) 
esquecerá o que está procurando; 
é a vantagem de qualquer virtude 
negativa: não ser, sendo aqui ser 
é tomado como verbo e não como 
substantivo.
(KUTSCHERAUER, 2003, p. 38)
A ética compreendida, dessa forma, resume-se aos 
princípios de preservação à dignidade da pessoa humana, ou 
à preservação da vida em todas as suas expressões. Assim, em 
qualquer que seja o período histórico, sociedade ou cultura, 
as ações humanas fundadas na observância desses princípios 
serão éticas. Dessa forma, a ética é atemporal e universal.
A grande inquietação acerca desse entendimento é 
que, cada vez mais, constatamos o inverso desses princípios. 
Somos condicionados por uma educação finalista a buscar 
sempre a autorrealização sob qualquer justificativa, sendo 
esse o equívoco identificado na atualidade.
Não é errado almejar uma vida confortável e provida 
de bens materiais, o problema é quando só se busca isso, e 
de todas as formas, muitas vezes, inclusive, sobrepondo-se a 
outras pessoas e utilizando-as como meio e não como um fim 
em si mesmo. 
A ética pressupõe, em sua essencialidade, o exercí-
cio da liberdade na conquista da dignidade pessoal. Porém, 
como ser livre se, em um convívio social estabelecido, se faz 
imprescindível à limitação do indivíduo perante o outro?
Nossas relações sociais nos constituem na mesma 
medida e proporção que limita nossa liberdade individual. 
Esse é um relevante paradoxo existencial. Como você, na qua-
lidade de estudante, concebe suas relações? E de que forma 
você exercita sua liberdade diante da realidade conjuntural? 
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Essas são questões fundamentais para a conquista da essen-
cialidade do ser pessoa, cuja constituição é pautada em prin-
cípios éticos e na observância dos preceitos morais. 
Querido(a) aluno(a), em tempos passados, essa per-
gunta fundamental nos atormentaria, visto a sua dificuldade 
no encontro de uma resposta coerente e que satisfaça suficien-
temente. Aceitar as limitações como nos são impostas seria o 
mesmo que domesticar as pessoas como fazemos aos animais 
de uma forma geral. Por outro lado, ir de encontro a essas limi-
tações, por sua vez, é o mesmo que sugerir o estabelecimento 
da anarquia conjuntural, e o resultado consistiria em uma 
possível aniquilação da espécie, uma vez que todos fariam o 
que bem quisessem na satisfação de seus desejos individuais. 
Então, o que fazer diante desse paradoxo? Como proceder? 
A resposta não seria outra, senão o despertar do próprio 
indivíduo enquanto ser, verbo, e não substantivo, como habi-
tualmente vemos e vivemos na realidade. Para Kutscherauer 
(2003), o ser substantivo pode-se comprar em prateleiras de 
ofertas de mercado, o verbo não, visto que verbo necessita do 
sujeito para conjugá-lo.
Quando o homem se entrega a 
seu sentir-se (e sem medo de amar-
se), descobre sua relação com os 
valores do vir-a-ser-humano: 
o sujeito da ética é o homem. O 
homem é protagonista consciente 
de seu caminhar (ou de seu voar, 
tanto faz); pode ser protagonista 
trágico ou cômico, pode ter o equilí-
brio entre apolíneo e o dionisíaco, 
podendo, por momentos, predomi-
nar ou um ou outro etc. [...] 
(KUTSCHERAUER, 2003, p. 57)
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O ser sendo se dá pela conjugação do verbo frente às diver-
sas manifestações existenciais fenomênicas. Assim, a ética é a 
exteriorização objetiva do íntimo do indivíduo consciente e livre. 
A Liberdade é um pulsar que ama 
continuar pulsando: somente um 
ser vivo pode um dia vir-a-ser 
livre. A Liberdade é um dom ex-
clusivo do que é vivo e se reconhece 
como tal; e esse reconhecimento se 
expande, se integra e unifica na 
diversidade, pela vida do outro e 
do mundo. A Ética do ser homi-
nal não apresenta o mundo pela 
fragmentação: ela convoca o ser 
(verbo) de cada um ao alcance 
da sua Liberdade própria. E essa 
Liberdade não nos é ofertada como 
consolo futuro. Na abertura ética 
para a Liberdade, a própria Liber-
dade é a condição de possibilidade 
para a instauração da Liberdade 
participativa.
A ética, então, sendo essa abertura 
para a liberdade, se torna caminho 
da essencialização do ser (verbo) 
do homem, no homem e pelo 
homem vivente (presente): a Ética 
é o caminho da realização de uma 
comunidade humana fundada na 
participação afetiva e efetiva.
O homem tem uma ética quando é um 
homem livre. 
(KUTSCHERAUER, 2003, p. 77)
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Após essas passagens, nos questionamos novamente 
acerca da moral: como esta se insere no contexto social? É 
sabido, e percebido por todos, o seu papel normativo, inclu-
sive, deve-se considerar como de grande relevância, mas, em 
hipótese alguma, como um meio de supressão das identida-
des humanas. 
A moral, como a conhecemos hoje, reside exclusiva-
mente no dever ser, normatizando e condicionando compor-
tamentos socioculturais nas mais diversas modalidades de 
manifestação, nos aspectos político, religioso, pessoal, fami-
liar, laboral etc. O desafio proposto atualmente consiste na 
transmutação ótica. É preciso lançar um novo olhar, olhar 
diferente frente a essa realidade, um olhar emancipató-
rio capaz de fomentar no indivíduo estados consistentes de 
consciência, possibilitando-o à construção contínua de sua 
identidade. 
Essa é uma possibilidade de superação dos processos 
de dominação social. Para tanto, requere-se do indivíduo ape-
nas o desejo, a vontade de saída da zona de conforto estabele-
cida, que, para alguns, representa uma gaiola bonita, segura 
e confortável, enquanto que, para outros, embora com todas 
essas benesses, não passa de gaiola, instrumento de limitação 
das potencialidades individuais humanas. 
A moral reformulada de mil for-
mas enfatiza um “dever ser” e 
impulsiona a fugir ou, o que é 
pior, a ignorar o ser. Conformar 
um dever ser compulsoriamente, 
desconhecendo o próprio ser (ser, 
aqui é tratado como verbo e não 
aceito como substantivo), as-
fixiando sua potente expressão, 
é fonte de angustia e desequilí-
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brios. O dever ser da moral tem 
como parâmetro a uniformidade 
do comportamento, seja qual for 
a sua intencionalidade. Essa des-
graçada circunstância degrada 
qualquer expressão comporta-
mental da universalidade de ser; 
ou melhor, inibe-o até degradá-lo 
perdendo a sua autoidentificação. 
(KUTSCHERAUER, 2003, p. 77)
A uniformidade identitária acentua-se extraordina-
riamente quando veículos de comunicação de massa deter-
minam comportamentos, modos de ser e agir, determinam, 
inclusive, nosso pensar. Não somos mais criados. De certo 
que estamos em uma linha de produção, produzimos coisas, 
“humanoides”, pseudo-humanos, reprodutores de comporta-
mentos previamente estabelecidos. 
Ser autônomo! Como? De que forma/maneira?
Até que ponto o que pensamos no íntimo de nossas 
mentes é o resultado de um processo de autoconhecimento, 
ou mero condicionamento social que me faz pensar que sou 
eu que estou pensando o objeto pensado? Essa é a problemá-
tica da autenticidade do Ser na mais profunda concepção, o 
pensar que reflete sobre o agir.
Umaresposta a essa indagação já foi dada. Consiste 
na busca da essencialidade através da dúvida. O indagar 
sugere ao indivíduo sempre a possibilidade de obtenção/
construção de novas possibilidades de reinterpretação e 
Ser humano é ser autônomo. Estamos deveras distante do 
ideal originário?! (Para reflexão)
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ressignificação da realidade estabelecida nas diversas con-
cepções existenciais. 
Arduini (2007), em sua obra Ética responsável e criativa, 
sugere o resgate à essencialidade da pessoa humana pela pers-
pectiva antropológica, respeitando e preservando a dignidade.
Nosso compromisso é recuperar e 
manter a dignidade antropológi-
ca. Deve-se restaurar o respeito à 
pessoa. Não se trata de arrogân-
cia, mas de sustentar o significado 
vivo da antropologia ontológica.
É necessário renovar a consciên-
cia humana, que anda esfarrapa-
da. Deve-se substituir a consciên-
cia suja pela consciência limpa. 
O ser humano não pode mais ser 
visto como objeto traste, cisco, 
coisa e banalidade. Para recriar a 
dignidade pessoal, a consciência 
precisa sublevar-se e exigir res-
peito concreto e efetivo. 
(ARDUINI, 2007, p. 38)
Antropologia (estudo ou reflexão acerca do ser 
humano) ontológica, corrente filosófica que trata do ser 
enquanto ser, não é simples antropologia e nem pura onto-
logia, mas a conjugação das ciências na busca pelo resgate 
do indivíduo enquanto ser de plenitude, renovado, fim em si 
mesmo, indivíduo novo, que estabelece e reconstrói relações 
holísticas e sistêmicas em todas as suas dimensões. 
O filosofo Kutscherauer (2003) evidencia três idiossin-
crasias (disposição do temperamento do indivíduo, que o faz 
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reagir de maneira muito pessoal à ação dos agentes exter-
nos) essenciais e naturais no indivíduo com o escopo no dire-
cionamento das ações pessoais integrais frente à realidade: 
poder, posse, prazer. 
O agir humano, de uma forma geral, consiste no resul-
tado da conjugação equacional dessas características, a saber. 
O poder da posse do prazer,
O poder do prazer da posse,
A posse do poder do prazer,
A posse do prazer do poder,
O poder da posse do poder,
O prazer do poder da posse.
(KUTSCHERAURER, 2003, p. 67) 
Observa-se facilmente que, quando um está em desta-
que, os outros dois se encontram em apoio. Portanto, não se 
trata de tentar excluir algumas dessas características essen-
ciais através de moralismo falacioso e fragmentador, mas, 
sobretudo, de equacioná-los de forma a possibilitar ao indiví-
duo sua plena realização enquanto ser Ético de relação.
Como resolver essa equação pessoal? 
Observe que não é resolver no sentido de término, mas 
sim na acepção de prover a si e à realidade conjuntural ações 
éticas transformadoras em um clico espiral ascendente, alter-
nando entre si as três características.
Assim, querido (a) aluno (a), concluímos o estudo desta 
unidade com a reflexão acerca das idiossincrasias Posse, 
Poder e Prazer. Observando, porém, todo o caminho de cons-
trução e elucidação dos termos Ética e Moral nas diversas 
expressões e manifestações individuais e coletivas. 
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Sín t eSe
 Nesta unidade, tivemos a oportunidade de realizar 
significativas reflexões sobre um tema de extrema relevância 
na atualidade: Ética e Moral. Dialogamos no intuito de con-
struirmos, juntos, saberes verdadeiramente consistentes e efe-
tivos, desde a compreensão da simples etimologia dos termos 
a profundas reflexões de suas variações existenciais.
 Consciência de Si, consciência do Outro, Liberdade, 
Identidade e outros dilemas Éticos/Morais permearam toda 
esta unidade. No escopo, está o despertar urgente do ser co-
gnoscente, fazendo com que, a partir desses saberes, as ações 
sejam pautadas em princípios emancipatórios e autônomos, 
ressaltando a real necessidade do outro enquanto extensão in-
dividual e como provedor de constructos identitários. 
 qu eStõeSpa r a r eflex ão
1. Considere a citação e desenvolva uma reflexão buscando 
associar a teoria à práxis da realidade conjuntural:
• O existir é um relacionar-se inicialmente consigo 
mesmo, mas, igualmente, com os nossos semelhantes 
próximos, classes, sociedade, nação, natureza e tam-
bém com o cosmo.
• Tal fato requer competência que se deriva de um pleno 
conhecimento de si e do ser humano, assim, como de 
uma visão holística sobre o sentido do existir dentro de 
um universo como um todo. (SÁ, 2008, p. 20)
2. Reflita sobre a citação e construa um argumento evidenci-
ando seu posicionamento e relacionando-o à sociedade con-
temporânea:
• [...] que significa dizer: “essa pessoa não possui 
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ética?” significa dizer: “essa pessoa não possui princí-
pios, age oportunisticamente, consoante às vantagens 
que possa auferir; dela não se poderá esperar nenhum 
comportamento coerente e previsível, porque não pos-
sui uma opção fundamental de vida. [...]
• Que significa dizer “essa pessoa não possui moral”? 
Significa: “essa pessoa não possui virtudes, mente, 
engana clientes, rouba dinheiro público, explora tra-
balhadores, faz violência em casa”. (BOFF, 2003, p. 30)
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( 5 )
Correntes do pensamento 
filosófico e concepções éticas: 
uma interface necessária I
“A função social da moral [...] é 
regular as ações dos indivíduos 
nas suas relações mútuas, ou as 
do indivíduo com a comunidade, 
visando a preservar a sociedade 
no seu conjunto ou, no seio dela,a integridade de um grupo social. 
[...] Em suma, a moral tende a 
fazer com que os indivíduos har-
monizem voluntariamente - isto 
é, de uma maneira consciente e 
livre - seus interesses pessoais 
com os interesses coletivos de 
determinado grupo social ou da 
sociedade inteira. A moral impli-
ca, portanto, numa relação livre 
e consciente entre os indivíduos 
ou entre estes e a comunidade. 
Mas esta relação está também so-
cialmente condicionada, precisa-
mente porque o indivíduo é um 
ser social ou um nexo de relações 
sociais.”
(VÁZQUEZ, 2004, p. 70)
Naurelice Maia de Melo e 
Ueliton Lemos dos Santos
Nesta unidade, vamos seguir por caminhos 
medievais e modernos com atenção a duas estações: conhe-
cimento e ética. Durante nossas unidades, você já estudou 
sobre a diferença entre ética e moral, bem como teve a opor-
tunidade de tecer reflexões a respeito da necessária postura 
ética frente às relações que estabelecem nosso tecido social. 
Nesta unidade, assim como na unidade seguinte, você 
irá apreciar os fundamentos de correntes do pensamento filo-
sófico, percebendo que, ao longo do tempo, as formas de pen-
sar e elaborar saberes não foram postas de modo aleatório 
como eventos isolados; ao contrário, estiveram engajadas em 
um contexto maior, em uma teia de relações. 
A primeira estação não é nova para você, que já vislum-
brou a introdução a seus saberes, durante a Unidade 1, que trata 
da Filosofia e da Ciência (quanto à Patrística e à Escolástica), 
bem como durante a Unidade 3, mediante diálogos sobre o 
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conhecimento e dedicação ao pensamento clássico grego, com 
estudo sobre sofistas, Sócrates, Platão e Aristóteles.
O método socrático favoreceu a elaboração própria de 
conceitos, assim como o dualismo platônico defendia que o 
conhecimento verdadeiro só poderia ser alcançado no mundo 
inteligível (mundo das ideias). Aristóteles apresentou contri-
buições em campos variados do saber. 
Sem negar as diferenças e peculiaridades dos referi-
dos pensadores, as perspectivas de todos eles se encontra-
ram, pois marcaram o que conhecemos por concepção ética 
grega, também chamada por concepção ética clássica ou ética 
dos antigos. Consistiu em concepção na qual constam: racio-
nalidade, ação conforme a natureza e relações entre a ética 
e a política. Por gentileza, leia atentamente detalhamento na 
citação a seguir.
Podemos resumir a ética dos 
antigos em três aspectos prin-
cipais: 1. o racionalismo: a vida 
virtuosa é agir em conformidade 
com a razão, que conhece o bem, 
o deseja e guia nossa vontade até 
ele. A vida virtuosa é aquela em 
que a vontade se deixa guiar pela 
razão; 2. o naturalismo: a vida 
virtuosa é agir em conformidade 
com a natureza (o cosmo) e com 
nossa natureza (nosso éthos), que 
há a parte do todo natural. Agir 
voluntariamente não é, portanto, 
agir contra a necessidade natu-
ral (sobre esta não temos poder 
nenhum) e sim agir em harmo-
nia com ela, de tal maneira que 
o possível, desejado e realizado 
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por nossa vontade realize nossa 
natureza individual e coloque 
em harmonia com o todo da na-
tureza; 3. inseparabilidade entre 
ética e política: isto é, a insepa-
rabilidade entre a conduta do 
indivíduo e os valores da socie-
dade, pois somente na existên-
cia compartilhada com outros 
encontramos liberdade, justiça e 
felicidade.
A ética, portanto, [em sua con-
cepção grega ou clássica] era con-
cebida como educação do caráter 
do sujeito moral para dominar 
racionalmente impulsos, apetites 
e desejos, para orientar a vontade 
rumo ao bem e a felicidade, e para 
formá-lo como membro da cole-
tividade sociopolítica. Sua finali-
dade era harmonia entre o caráter 
subjetivo virtuoso e os valores co-
letivos, que também deveriam ser 
virtuosos. 
(CHAUÍ, 2003, p. 313-314)
Voltemos nosso olhar para o período medieval euro-
peu. Diferente da Antiguidade Clássica Ocidental, na qual 
tivemos iniciativas de atenção à racionalidade, no medievo, 
os horizontes vislumbrados não atribuíam o mesmo crédito 
à razão. Nessa época, a perspectiva teocêntrica submeteu a 
razão à fé, conforme você pode notar durante nossa Unidade 
1 e acompanhar nos estudos a seguir.
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Patrística e Escolástica foram duas relevantes correntes 
do pensamento filosófico medieval. Tinham, em seu escopo, 
a tentativa de “conciliação” entre a Fé e a Razão (compreender 
razão como filosofia grega antiga). Essa aliança consistia em 
demonstrar racionalmente as verdades reveladas por Deus 
aos Homens, mediante a fé e expressas nas sagradas escri-
turas, Bíblia. Dessa forma, aumentava significativamente o 
poder de argumentação, visto sua fundamentação lógica filo-
sófica, facilitando, assim, o convencimento dos descrentes e 
hereges frente à doutrina religiosa cristã. 
A Patrística tem início por volta do Século IV e segue 
até o Século VIII. Santo Agostinho é seu principal repre-
sentante, que busca em Platão a sustentação filosófica para 
sua fé. Escreveu diversas obras, tendo destaques: A Cidade 
de Deus e As Confissões. A partir dessas obras, o filósofo 
Danilo Marcondes (1997) destaca três principais contribui-
ções de Santo Agostinho ao desenvolvimento do pensamento 
filosófico ocidental, sendo elas: o estabelecimento das rela-
ções entre teologia e filosofia, a teoria do conhecimento com 
ênfase na questão da subjetividade e, por fim, a teoria da his-
tória destacada na Cidade de Deus.
Danilo Marcondes nos traz uma reflexão bastante 
interessante sobre a problemática da verdade em Santo 
Agostinho, na qual fica evidenciado “resgate” do legado filo-
sófico grego platônico. 
Vejamos.
Santo Agostinho se pergunta 
então como pode a mente huma-
na, mutável e falível, atingir uma 
verdade com certeza infalível. 
Sua resposta a essa questão se en-
contra em sua teoria da ilumina-
ção divina, elaborada com base na 
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teoria platônica da reminiscên-
cia. O diálogo De magistro (Sobre 
o mestre) nos permite compreender 
bem a posição agostiniana a este 
respeito. Seu ponto de partida e 
desenvolvimento são semelhantes 
em muitos pontos ao diálogo Me-
non de Platão, em que se discute o 
que é a virtude (areté) e se esta pode 
ser ensinada. A resposta de Platão 
é negativa: a virtude não pode ser 
ensinada, ou já a trazemos conos-
co, ou nenhum mestre será capaz 
de introduzi-la em nossa alma, 
uma vez que é uma característica 
da própria natureza humana. A 
função do filósofo é precisamente 
de despertar essa virtude ador-
mecida na alma de todos os indi-
víduos. Santo Agostinho começa 
igualmente se interrogando sobre 
o que é ensinar e o que é apren-
der, o que torna esse diálogo em 
sua parte inicial um dos textos 
clássicos da pedagogia. Indaga-
se, em seguida, sobre o papel da 
linguagem, o que faz do diálogo 
também um dos clássicos da teo-
ria da linguagem e do significado 
[...] 
Santo Agostinho conclui na linha 
das concepções tradicionais na 
Antiguidade [...] que, dada a con-
vencionalidade do signo linguísti-
co - isto é, as palavras variam de 
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língua para língua e são sinais 
arbitrários das coisas -, este não 
pode ter qualquer valor cognitivo 
mais profundo; não é através das 
palavras que conhecemos; logo 
não podemos transmitir conhe-
cimento pela linguagem.A pos-
sibilidade de conhecer supõe algo 
de prévio, que torna inteligível à 
própria linguagem. Sua posição 
é assim, na mesma direção da fi-
losofia platônica, inatista, ou seja, 
supõe que o conhecimento não 
pode ser derivado inteiramente 
da apreensão sensível ou da ex-
periência concreta, necessitando 
um elemento prévio que sirva de 
ponto de partida para o próprio 
processo de conhecer. 
(MARCONDES, 2000, p. 111).
Assim, fica demonstrada não somente a relação esta-
belecida entre Santo Agostinho e Platão, mas, sobretudo, o 
posicionamento desses filósofos frente à problemática da ver-
dade como algo inato. Santo Agostinho afirma que é preciso 
antes crer para somente depois conhecer; crer-se por revela-
ção divina, de forma intuitiva, as verdades são reveladas pela 
fé. Posteriormente, a razão, através de seus métodos investi-
gativos, buscará realizar os devidos esclarecimentos.
A Escolástica, por sua vez, foi o resultado da criação 
de várias escolas pelo rei Carlos Magno em parceria com as 
Instituições Católicas. Daí vem o nome Escolástica. Segundo 
Cotrim (2006), esse período do pensamento filosófico pode 
ser separado em três fases: 
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1ª FASE 2ª FASE 3ª FASE
Do Século IX ao 
fim do Século 
XII, caracterizada 
pela confiança na 
perfeita harmonia 
entre fé e razão.
Do Século XIII ao 
princípio do Século 
XIV, caracterizada pela 
elaboração de grandes 
sistemas filosóficos, 
merecendo destaque 
as obras de Tomás de 
Aquino. Nessa fase, 
considera-se que a 
harmonização entre 
fé e razão pode ser 
parcialmente obtida.
Do Século XIV 
até o Século XVI, 
decadência da 
escolástica, marcada 
por disputas 
que realçam as 
diferenças entre fé e 
razão.
Fonte: Cotrim (2006).
Elaboração: Naurelice Maia e Ueliton Lemos.
Tomás de Aquino (1226-1274) buscou em Aristóteles 
os argumentos e as reflexões necessários para defender a Fé. 
Acreditava que a realidade sensorial é fundamental para a 
conquista do conhecimento e, assim, destacou cinco princí-
pios basilares.
• 1º Princípio da Não Contradição
• 2º Princípio da Substância
• 3º Princípio da Causa Eficiente
• 4º Princípio da Finalidade
• 5º Princípio do Ato e da Potência
Tomás de Aquino é considerado pela Igreja Católica 
como Doutor Angélico, que significa Doutor por Excelência, em 
virtude de sua relevante contribuição ao pensamento religioso. 
Esse fato se constata na sua obra intitulada Suma Teológica, na 
qual ele sugere cinco provas da existência de Deus.
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1. Primeiro motos - tudo aquilo 
que se move é movido por outro 
ser. Por sua vez, este outro ser, 
para que se mova, necessita tam-
bém que seja movido por outro 
ser. E assim sucessivamente. Se 
não houvesse um primeiro mo-
tor movente, cairíamos em um 
processo indefinido. Logo conclui 
Tomás de Aquino, é necessário 
chegar a um primeiro ser movente 
que não seja movido por nenhum 
outro. Esse ser é Deus.
2. A causa eficiente - todas as 
coisas que existem no mundo não 
possuem em si próprias a causa 
eficiente de suas existências. De-
vem ser consideradas efeitos de 
alguma causa. [...] essa causa pri-
meira é Deus.
3. Ser necessário e ser Contin-
gente - este argumento é uma 
variante do segundo. Afirma que 
todo ser contingente, do mesmo 
modo que existe, pode deixar de 
existir. Ora, se todas as coisas que 
existem pode deixar de ser, então, 
alguma vez nada existiu. Mas, se 
assim fosse, também nada agora 
existiria, pois aquilo que não existe 
somente começa a existir em fun-
ção de algo que já existia. É preciso 
admitir, então, que há um ser que 
sempre existiu, um ser absoluta-
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mente necessário, que não tenha 
fora de si a causa da sua existência, 
mas, o contrário, que seja a causa 
da necessidade de todos os seres 
contingentes. Esse ser necessário é 
Deus.
4. Os graus da perfeição - em re-
lação à qualidade de todas as coi-
sas existentes, pode-se afirmar a 
existência de graus diversos da 
perfeição. Assim, afirmamos que 
tal coisa é melhor que outra, ou 
mais bela, ou mais poderosa, ou 
mais verdadeira etc. [...] Devemos 
admitir, então, que existe um 
ser com o máximo de bondade, 
de beleza, de poder, de verdade, 
sendo, portanto, um ser máximo 
pleno. Esse ser é Deus.
5. A finalidade do ser - todas as 
coisas brutas, que não possuem 
inteligência própria, existem na 
natureza cumprindo uma fun-
ção, um objetivo, uma finalidade, 
semelhante à flecha dirigida 
pelo arqueiro. Devemos admitir, 
então, que existe algum ser inteli-
gente que dirige todas as coisas 
da natureza para que cumpram 
seu objetivo, esse ser é Deus.
(COTRIM, 2006, p. 118-119)
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Querido(a) estudante, compreendendo o contexto do 
medievo, sabendo que a iniciativa racional só teria espaço se 
a serviço da fé, quais teriam sido os fundamentos defendidos 
para a vida ética? Você já pensou sobre a interface: conheci-
mento, ética e período medieval? Seria mesmo moral e até 
ético condenar uma pessoa à morte devido aos caminhos de 
dedicação à conquista de novos conhecimentos, pautando-os 
na razão?
A concepção ética medieval esteve correlata aos pres-
supostos do conhecimento da época. O conhecimento só 
ocorreria em sua forma legitimada se estivesse posto a favor 
da fé. Toda e qualquer iniciativa da razão deveria servir de 
fundamento às verdades reveladas pela fé, relacionando, por-
tanto, conhecimento e revelação.
Quanto à vida justa e ética, seria aquela conforme os 
desígnios divinos. Portanto, a concepção ética do medievo 
corresponde à ética e à moral cristã, à fé revelada, à perspec-
tiva teocêntrica. Diferente da concepção ética da antiguidade 
clássica grega, que associava a ética à racionalidade e polis 
(cidade-estado); a virtude está presente na fé, na esperança e 
na caridade. O modo de valorar a realidade era guiado pelos 
dogmas religiosos. A vida moral, assim como a ética, na qua-
lidade de doutrina moral, esteve intimamente relacionada à 
purificação e salvação.
Durante a Unidade 1, você estudou sobre momentos 
que marcaram a trajetória filosófica no período medieval 
europeu. No terceiro e quarto momentos, percebeu a influ-
ência de Platão e Aristóteles, respectivamente, sobre o pensa-
mento filosófico de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. 
Agora com atenção à concepção ética da época, em que 
medida ocorreram esses encontros com suas aproximações e 
diferenças?
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A purificação da alma, em Platão, 
e a sua ascensão libertadora até el-
evar-se à contemplação das ideias, 
transforma-se em Santo Agostin-
ho na elevação ascética até Deus, 
que culmina no êxtase místico 
ou felicidade, que não pode ser 
alcançada neste mundo. Contu-
do, Santo Agostinho se afasta do 
pensamento grego antigo ao sub-
linhar o valor da experiência pes-
soal, da interioridade, da vontade 
e do amor. A ética agostiniana se 
contrapõe, assim, ao racionalismo 
ético dos gregos. [...] [Quanto a 
Tomás de Aquino,] a ética tomista 
coincide nos seus traços gerais 
com a de Aristóteles, sem esquecer 
porém que se trata de cristianizar 
a suamoral como, em geral, a sua 
filosofia. Deus, para Santo Tomás, 
é o bem objetivo ou fim supremo, 
cuja posse causa gozo ou felici-
dade, que é um bem subjetivo (nis-
to se afasta de Aristóteles, para 
quem a felicidade é o fim último). 
Mas, como em Aristóteles, a con-
templação, o conhecimento (como 
visão de Deus) é o meio mais ade-
quado para alcançar o fim último. 
Por este acento intelectua lista, 
aproxima-se de Aristóteles. 
(VÁZQUEZ, 2004, p. 278-279, 
grifo nosso)
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Com a “chegada” da modernidade, a trajetória realizada 
e os horizontes vislumbrados estão em consonância à perspec-
tiva antropocêntrica, visto que o ser humano ocupa o espaço 
central. Temos, então, correntes do pensamento filosófico e con-
cepções éticas que são distintas de iniciativas, tais como a da 
patrística e da escolástica. Quanto às concepções éticas, faze-
mos referências àquelas pautadas no movimento iluminista, 
para depois lançarmos o olhar para as concepções moderna e 
contemporânea. A respeito das correntes do pensamento filo-
sófico, você as verá logo mais, com atenção ao positivismo, 
materialismo, empirismo, racionalismo e criticismo kantiano.
Com o movimento iluminista, a vida ética e os modos 
de valorar a realidade, bem como as normas morais passam 
a encontrar seus fundamentos afastados das posturas dog-
máticas e teocêntricas Nesta perspectiva, conforme Aranha 
e Martins (2004, p. 353), a norma moral está fundada “na lei 
natural (teses jusnaturalistas), no interesse (teses empiristas, 
que explicam a ação humana como busca do prazer e evitação 
da dor) e na própria razão (tese kantiana)”. 
Ampliando o conhecimento
A autonomia da razão para legislar supõe a liberdade e 
o dever. Todo imperativo se impõe como dever, mas essa exi-
gência não é heterônoma – exterior e cega – e sim livremente 
assumida pelo sujeito que se autodetermina. Exemplificando, 
suponhamos a norma moral “não roubar”:
Para pensar um pouco!
Considerando a atual conjuntura social, quais reflexões 
éticas podem ser tecidas a respeito das intencionalidades 
atribuídas tanto à razão quanto à fé? Como você compre-
ende a relação entre Fé e Razão? São perspectivas concili-
áveis ou não?
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• para a concepção cristã, o fundamento da norma se 
encontra no sétimo mandamento de Deus;
• para os teóricos jusnaturalistas (como Rousseau), 
ela se funda no direito natural, comum a todos os seres 
humanos;
• para os empiristas (como Locke, Condilac), a norma 
deriva do interesse próprio, pois o sujeito que a deso-
bedece será submetido ao desprazer, à censura pública 
ou à prisão;
• para Kant, a norma se enraíza na própria natu-
reza da razão; ao aceitar o roubo e consequentemente 
o enriquecimento ilícito, elevando a máxima (pessoal) 
ao nível universal, haverá uma contradição: se todos 
podem roubar, não há como manter a posse do que foi 
furtado.
Fonte: (ARANHA, 2004, p.354)
Com referência ao contexto iluminista, assim como 
a vida ética, a questão do conhecimento também se apre-
senta afastada das perspectivas teocêntricas e dogmáticas. 
Vamos seguir nesta caminhada, agora com atenção ao conhe-
cimento, conforme as perspectivas racionalista e empirista, 
para, em seguida, lançarmos o olhar sobre o criticismo kan-
tiano e outras correntes do pensamento filosófico.
Racionalismo e Empirismo constituem importantes 
modos de compreensão desse período, tendo como princi-
pais expoentes René Descartes (1596-1650) e John Locke (1632 
-1704), respectivamente.
Descartes é considerado o pai da filosofia moderna. 
Acreditava que, na busca pelo conhecimento, o primeiro 
passo consiste em por em dúvida tudo o que já se sabe, a 
chamada dúvida metódica, elevando-a ao mais alto grau no 
processo de desvelamento sobre a realidade, até que, enfim, 
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estabelece a verdade imune à duvida. A única verdade alheia 
à dúvida é a certeza da existência de meus pensamentos, 
então, penso, logo existo ou cogito ergo sum.
Descartes assumiu uma tendên-
cia idealista, isto é, uma tendên-
cia a valorizar a atividade do 
sujeito pensante em relação ao 
objeto pensado. Em outras pala-
vras, uma tendência a ressaltar a 
prevalência da consciência subje-
tiva sobre o ser objetivo, e a con-
siderar a matéria como algo ape-
nas conhecível, se é que o é, por 
dedução que se sabe da mente. 
(COTRIM, 2006, p. 139)
Este importante filósofo moderno contribuiu, de forma 
bastante significativa, para o próprio desenvolvimento do 
pensar filosófico, como também favoreceu, significativa-
mente, o avanço das ciências de uma forma geral. Ele escreve 
uma obra intitulada, Discurso do Método, em que enuncia 
quatro regras fundamentais na condução do sujeito pensante 
que anseia a verdade.
• 1ª Regra da evidência: só aceitar algo como verda-
deiro desde que seja absolutamente evidente por sua 
clareza e distinção. 
• 2ª Regra da análise: dividir cada uma das dificulda-
des surgidas em tantas partes quantas forem necessá-
rias para resolvê-las melhor.
• 3ª Regra da síntese: ordenar o raciocínio indo dos 
problemas mais simples para os mais complexos. 
• 4ª Regra da enumeração: realizar verificações 
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completas e gerais para ter absoluta segurança de que 
nenhum aspecto do problema foi omitido.
Fonte: Contrim (2006)
Elaboração: Naurelice Maia e Ueliton Lemos. 
As quatro regras basilares descritas acima possuem o 
escopo em tornar a busca e produção do conhecimento em 
um exercício metódico, na qual e pela qual os resultados obti-
dos possam estar sujeitos à verificação e análise racional. 
Em contrapartida ao pensamento racionalista, que visa 
o conhecimento mediante à razão, tem-se a corrente filosófica 
denominada empirismo, que compreende a origem do conhe-
cimento na experiência sensível.
Para esse caminho, o empirismo, convidaremos John 
Locke para nos acompanhar. Locke escreve uma obra deno-
minada Ensaio acerca do entendimento humano (1690), em 
que ele combate fervorosamente a doutrina das ideias inatas, 
o inatismo. Para ele, todos nós, ao nascermos, somos iguais a 
uma tábula rasa, ou para atualizar sua fala, igual a uma mídia 
de DVD original, sem gravação alguma, e que, somente a par-
tir das experiências sensíveis ao longo da existência, passa a 
ser gravada. Sendo assim, os estímulos capitados através dos 
sentidos geram sensações e, por conseguinte, transformam-
-se em conhecimento.
As experiências sensoriais e a atividade de reflexão são 
os modos de conhecimento defendidos por Locke. O primeiro 
Curiosidade!
A palavra Empirismo é derivada do grego Empeiria e significa 
que o conhecimento é o resultado das experiências sensíveis. 
“Nada está no intelecto que não tenha passado antes pelos sen-
tidos” (Aristóteles). 
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consiste basicamente na percepção da realidade pelos senti-
dos. O segundo, a reflexão, consiste na ação de pôr em dúvida, 
crer e raciocinar sobre as sensações iniciais. A reflexão é o ato 
voltar-se sobre si mesmo.
Empirismo e racionalismo encontram suas interfa-
ces com a ética: o primeiro, conforme mencionamos em 
“Ampliando o Conhecimento”, no que diz respeito à norma; 
o racionalismo, naquilo que se refere à moral, com atenção à 
vontade, à liberdade e à inteligência.
A sabedoria,objetivo da filoso-
fia, é um estado e uma conduta 
nos quais “a inteligência mostra 
à vontade o partido que ele deve 
tomar”. Todavia, como o homem 
concreto não se identifica com a 
alma, com essa substância pen-
sante revelada pela atividade 
racional; como tampouco se iden-
tifica com o corpo, conhecido 
pela física, trata-se de resolver o 
conflito entre a urgência da ação 
e as exigências do método. Des-
cartes resolve esse conflito pro-
pondo uma “moral provisória”. 
Não elabora regras de conduta 
universais. Não pretende ser um 
reformador. Aliás, nessa matéria, 
é bastante conservador estar mais 
preocupado com o aperfeiçoa-
mento individual capaz de levar 
os indivíduos a fazerem uma justa 
apreciação dos bens. Nessa hierar-
quia dos bens, o lugar supremo 
deve ser conferido à liberdade, 
não ao saber. “Não basta jul-
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gar bem para agir bem”, diz ele, 
porque a moral não deriva ape-
nas do conhecimento.
(REZENDE, 2002, p. 109)
Querido (a) estudante, a nossa quinta unidade chegou 
ao fim. Na próxima unidade, continuaremos o nosso caminho 
sobre as correntes do pensamento e as suas interfaces éticas.
Sín t eSe 
 Durante a realização desta unidade, você, querido (a) 
estudante, teve a oportunidade de vislumbrar importantes 
correntes do pensamento filosófico. Essas, por sua vez, se 
mostram perfeitamente atuais; discussão entre fé e razão, 
ciência e religião, razão e experiência, dentre outras, fazem 
parte de nosso cotidiano em maior ou menor grau. Acredita-
mos não ser necessário adotarmos uma postura unilateral, 
escolhendo um ou outro caminho, mas sim entender que es-
sas e muitas outras formas de compreensão dos fenômenos 
existentes na realidade compõem nossa maneira de ser e ex-
istir, sobretudo quando nas manifestações ética e moral.
qu eStõeS pa r a r eflex ão
1. São Tomás de Aquino e Santo Agostinho marcam um 
período da história da Humanidade. Como poderíamos atu-
alizar seu pensamento frente à relação entre Fé e Ciência na 
contemporaneidade?
2. Qual foi o maior fator de discordância entre os racionalis-
tas (idealistas) e os empiristas (realistas)?
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DESCARTES, R. Discurso do Método Regras para a Direção 
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VÁZQUEZ, A. S. Ética. 25. ed. Rio de Janeiro: Civilização 
Brasileira, 2004.
( 6 )
Correntes do pensamento 
filosófico e concepções éticas: 
uma interface necessária II
“A vida está imersa em mistério e 
incerteza, conclamando natural-
mente por apoios que geralmente 
desfazem o mistério e a incerteza, 
incidindo em novos paradoxos 
existenciais. Impor ética única a 
todos é o grande paradoxo, porque 
não é atitude ética, em termos da 
convivência comum. Em vez da 
prepotência, as éticas carecem de 
modéstia, porque é mais digno 
conviver com gente modesta sem-
pre capaz de reavaliar posições em 
nome do bem comum. Para evitar 
a petrificação de propostas, é im-
portante que sempre se reavaliem, 
também para poder aprender de 
outros horizontes”. 
(Pedro Demo, 2005, p. 71)
Naurelice Maia de Melo e 
Ueliton Lemos dos Santos
Querido (a) estudante,
Nesta unidade, prosseguiremos em nosso caminho sobre 
as correntes do pensamento e suas interfaces éticas. Vimos, na 
Unidade 5, questões de grande relevância do período medieval 
e moderno. Aqui, daremos continuidade aos nossos estudos até 
alcançarmos a contemporaneidade, com um importante filósofo 
existencialista Jean Paul Sartre.
Seguindo pistas da nossa epígrafe e considerando a 
pluralidade de horizontes, bem como as trajetórias do conhe-
cimento, condições distintas passam a garantir a possibili-
dade do conhecimento verdadeiro, conforme cada corrente 
do pensamento filosófico. Parâmetros, também distintos, vão 
orientando as reflexões sobre os valores, conforme cada con-
cepção ética, cada época, cada contexto, contando com pro-
postas, muitas vezes, à frente do seu próprio tempo.
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Por um lado, tem-se a experiência; por outro, a razão, 
na qualidade de caminho legítimo para conduzir ao conhe-
cimento verdadeiro. Empirismo e racionalismo, portanto, 
reportam-se a caminhos distintos e contraditórios, conforme 
você estudou na unidade anterior. Além destas correntes do 
pensamento filosófico, tivemos, dentre outras, o criticismo 
kantiano. Neste, podemos, de certo modo, reunir as duas ins-
tâncias (experiência e razão). Para compreender a questão do 
conhecimento em Kant, vamos, antes, lançar o olhar sobre a 
questão da autonomia e da Ilustração. 
O contexto no qual viveu Immanuel Kant corresponde, 
assim como a época de pensadores racionalistas e empiris-
tas, à modernidade. Importa considerar, conforme já mencio-
namos na unidade passada, a perspectiva antropocêntrica. 
Acrescentamos, agora, a informação sobre a Ilustração 
(Aufklärung), ou o movimento que Kant propõe de saída da 
menoridade, chamado também de Esclarecimento.
Conquistar a maioridade, conforme o pensamento kan-
tiano, remete à conquista do modo independente e autônomo 
de pensar. A realização desta maioridade não está associada 
à idade específica, mas ao modo de conduzir as próprias 
ações sem permitir que elas estejam pautadas nas vias que 
outros “determinem”, direta ou veladamente. A conquista da 
maioridade não consiste em um movimento simples; ao con-
trário, Kant elucida a respeito de estar à frente de sua época. 
Conforme Rezende (2002, p. 127), “ela [a maioridade] é um 
estágio alcançável com dificuldade”. 
Pessoa crítica é a que tem posições 
independentes e refletidas, é capaz 
de pensar por si própria e não aceita 
como verdadeiro o simples estabe-
lecimento por outros como tal, mas 
só após o seu exame livre e funda-
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mentado. Uma época esclarecida é 
aquela em que os homens atingem 
a sua maioridade pela capacidade 
não só de pensarem autonoma-
mente, mas também de não se 
deixarem manipular e dominar. Em 
vista disso ela é um estágio alcan-
çável com dificuldade, o que levou 
Kant a dizer que sua época não 
era ainda uma época esclarecida, 
mas em via de esclarecimento. Os 
homens atingem essa etapa por 
si sós, lentamente, desde que não 
cedam à covardia e à preguiça, 
não se deixem torturar, nem se-
jam impelidos a atingi-la me-
diante artifícios e pelo empregoda força. A liberdade é o espaço 
adequado ao esclarecimento. Por 
ter sido fundado no ímpeto do 
homem à liberdade, o Esclare-
cimento foi o principal movimento 
do pensamento moderno, que ainda 
hoje nos situa em um horizonte co-
mum ao de Kant.
(REZENDE, 2002, p. 127)
E você, está à frente do seu tempo?
Estar situado “em um horizonte comum ao de Kant”, 
prezando pelo exercício da maioridade (conforme proposta 
da Aufklärung), seria já um modo de estarmos à frente do 
nosso tempo? Ou vivemos em ambientes nos quais as inicia-
tivas que prezam pela saída da “menoridade da razão” e con-
quista da autonomia são já elementos comuns? O que você 
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pensa sobre questões como estas? E você, está à frente do seu 
tempo? E, ao mesmo instante, dedica-se a modos de sentir, 
pensar e agir que estejam socialmente engajados?
Agora que você já sabe em que consiste a Ilustração, 
veja em “Trechos Selecionados” como Kant elabora a questão 
do conhecimento, superando a dicotomia entre o pensamento 
racionalista e o empirista, culminando no criticismo kantiano.
Trecho selecionado de “Tipos de Juízo e 
Conhecimento” e “Estruturas do sentir e conhecer” 
(autoria de: Gilberto Cotrim)
Tipos de Juízo e Conhecimento
[...] Uma das questões mais importantes que domi-
nam o pensamento de Kant é o problema do conhecimento, 
a questão do saber. Na Crítica da Razão Pura, ele distingue 
duas formas básicas do ato de conhecer:
• O conhecimento empírico (a posteriori): aquele que 
se refere aos dados fornecidos pelos sentidos, isto é, 
que é posterior à experiência. Exemplo: a afirmação 
“Este livro tem a capa verde”. Para fazer essa afirma-
ção, foi necessário ter primeiro a experiência de ver o 
livro e assim conhecer a sua cor; portanto, trata-se de 
um conhecimento posterior à experiência; 
• O conhecimento puro (a priori): aquele que não 
depende de quaisquer dados dos sentidos, ou seja, que 
é anterior à experiência, nascendo puramente de uma 
operação racional. Exemplo: a afirmação “Duas linhas 
paralelas jamais se encontram no espaço”. Essa afirma-
ção (juízo) não se refere a esta ou aquela linha para-
lela, mas a todas. Constitui, assim, um conhecimento 
universal. Além disso, é uma afirmação que, para ser 
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válida, não depende de nenhuma condição específica. 
Trata-se, portanto, de um conhecimento necessário. 
O conhecimento puro, portanto, conduz a juízos uni-
versais e necessários, enquanto o conhecimento empírico não 
possui essa característica. Os juízos, por sua vez, são classifi-
cados por Kant em dois tipos:
• Juízo analítico: aquele em que o predicado já está 
contido no sujeito. Ou seja, basta analisar o sujeito 
para deduzir o predicado. Exemplo: a afirmação “o 
quadrado tem quatro lados” analisando o sujeito. Da 
afirmação, o quadrado, deduzimos, necessariamente o 
predicado: tem quatro lados. Kant também chamava os 
juízos analíticos de juízos de elucidação; pois o predi-
cado simplesmente elucida algo que já estava contido 
no conceito do sujeito.
• Juízo sintético: aquele em que o predicado não está 
contido no conceito do sujeito. Nesses juízos, acres-
centa-se ao sujeito algo de novo, que é o predicado, 
assim, os juízos sintéticos enriquecem nossas informa-
ções e ampliam o conhecimento. Por isso, Kant também 
os denomina juízo de ampliação. Exemplo: a afirmação 
“Os corpos se movimentam”. Por mais que analisemos 
o conceito corpo (sujeito), não extrairemos dele a infor-
mação representada pelo predicado se movimentam. 
Por fim, analisando o valor de cada juízo, Kant distin-
gue três categorias: juízo analítico [...], juízo sintético a poste-
riori [...] e juízo sintético a priori.
Estruturas do sentir e conhecer
[...] Kant buscou saber como é o sujeito a priori, isto é, o 
sujeito antes de qualquer experiência. Conclui que existem no 
ser humano certas estruturas que possibilitam a experiência 
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(as formas a priori da sensibilidade) e determinam o entendi-
mento (as formas a priori do entendimento). Vejamos: 
• Formas a priori da sensibilidade: são o tempo e o 
espaço. Kant dirá que percebemos e representamos a 
realidade sempre no tempo e no espaço. Essas noções 
são “intuições puras”, existem como estruturas básicas 
na nossa sensibilidade e são elas que permitem a expe-
riência sensorial.
• Formas a priori do entendimento: de forma seme-
lhante, os dados que são captados por nossa sensibili-
dade são organizados pelo entendimento de acordo com 
certas categorias. As categorias são “conceitos puros” 
existentes a priori no entendimento, tais como o con-
ceito de causa, necessidade, relação e outros, que servi-
rão de base para emissão de juízos sobre a realidade. 
O conhecimento, portanto, seria o resultado de uma 
interação entre o sujeito que conhece (de acordo com suas 
próprias estruturas a priori) e o objeto conhecido. Isso sig-
nifica que não conhecemos as coisas em si mesmas (o ser em 
si), isto é, como elas são independes de nós. Só conhecemos as 
coisas tal como as percebemos (o ser para nós), os fenômenos, 
isto é, as coisas são conhecidas de acordo com nossas pró-
prias estruturas mentais.
Para Kant, sua filosofia representava uma superação 
do racionalismo e do empirismo, pois argumentava que o 
conhecimento é o resultado de dois grandes ramos: a sensibi-
lidade, que nos oferece dados dos objetos; e o entendimento, 
que determina as condições pelas quais o objeto é pensado. 
Fonte: Cotrim (2006, p.161-163)
Seguindo nossa trajetória, vamos conhecer sobre o 
Positivismo, corrente do pensamento criada por Augusto 
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Comte (1789 - 1857) e dedicada, dentre outros fundamentos, 
à valorização do método científico baseado nos fatos e nas 
experiências, aplicando-os às relações e ações que constituem 
a sociedade, culminando na física social. Sendo assim, o refe-
rido pensador é considerado pai da Sociologia, que inicial-
mente teve o nome de Física Social.
Conforme Rezende (2002), a proposta de Augusto 
Comte com relação à Física Social, como foi inicialmente 
chamada a sociologia, correspondeu tanto à criação de uma 
ciência dos fenômenos sociais quanto ao estabelecimento de 
“uma base racional e científica para uma reforma intelectual 
e moral da sociedade pela instauração do espírito positivo nas 
organizações das estruturas sociais e políticas” (REZENDE, 
2002, p. 150).
Importa considerar que a expressão “espírito positivo” 
(assim como “positivo”, “postura positivista” e outras equi-
valentes) não corresponde ao sentido popularmente atribu-
ído ao termo positivo, na qualidade de algo necessariamente 
assertivo e bom, mas às iniciativas que pautam as reflexões 
e ações, inclusive sobre a organização social, em medidas 
racionais e organicistas, reguladas pelos critérios próprios 
ao método da ciência em sua concepção moderna, sem que 
sejam consideradas as circunstâncias ou condições que não 
estejam contempladas nos critérios do método e da razão 
(conforme a racionalidade compreendida pelo positivismo).
Comte desenvolveu a Lei dos três estados de evolução 
do conhecimento:
1. Estado teológico - atribui os fatos aos seres sobre-
naturais, Deus.
2. Estado metafísico - substituição do estado teológico 
por forças abstratas.3. Estado científico/positivo - a compreensão dos 
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fenômenos mundanos são resultados da observação e 
da razão. Conforme o Positivismo, as relações sociais 
são analisadas sob prismas semelhantes àqueles utili-
zados para observação dos fenômenos físicos e naturais. 
A sociologia [com relação às ciên-
cias e demais considerações] [...] 
significa o ponto de partida da 
moral, da política e da religião. 
Moral, política e religião positi-
vas. Ela [a sociologia] compreende 
duas partes: a) a estática social, 
que estuda a harmonia prevale-
cente entre as diversas condições 
da existência e estabelece a ordem 
social; b) a dinâmica social, que 
investiga o desenvolvimento or-
denado da sociedade (estuda a lei 
dos três estados) e estabelece as 
leis do progresso.
(REZENDE, 2002, p. 150) 
Com referência a esses fundamentos, o positivismo 
cunhado por Comte propunha uma perspectiva ética diante 
da vida social que aceitasse a ideia de “Ordem e Progresso”, 
que estivesse pautada na razão positiva que acaba por limitar 
Curiosidade!
Conforme Rezende (2002, p. 155), “Os positivistas parti-
ciparam do movimento pela proclamação da República, 
em 1889, e na Constituição de 1891, e, por sua influência, 
a bandeira brasileira passou a ostentar o lema clássico do 
positivismo, Ordem e Progresso.”
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a manifestação coletiva de desconfortos capazes de culminar 
em revoluções, uma vez que assumia a perspectiva linear da 
ordem sem espaço para as contradições. A própria “dinâmica 
social” proposta pelo positivismo não está associada às ini-
ciativas de mudanças sociais; ao contrário, está correlata ao 
reforçamento da ordem. 
Neste contexto positivista, seria ético, portanto, man-
ter a ordem (mesmo que entre muitos) para conquista do 
progresso (mesmo que para poucos). Convidamos você a 
algumas reflexões. Seria de fato ético “mover” uma sociedade 
rumo à aceitação de valores já postos, sob formas que pode-
mos chamar de evolucionismo conservado, quando muito era 
preciso ainda conquistar, para que houvesse um dia o campo 
próprio de respeito ao ser humano e ao seu trabalho (já que 
estamos situados à época industrial.)? Você estaria de acordo 
com mecanismos de sustentação de relações que tecem a 
sociedade que, de certa forma, pautassem valores e perspec-
tivas éticas, não na busca de melhores condições de vida para 
todos? Estamos propondo a você essas reflexões, na quali-
dade de itens para pensar sobre a necessária interface: pos-
tura positivista, sociedade e ética. 
Com o materialismo marxista, as formas de entendi-
mento sobre as relações que tecem a sociedade se apresentam 
de modo distinto ao perfil positivista pautado no cienti-
ficismo, ou seja, na noção de que todo e qualquer conheci-
mento só é legítimo se conquistado, mediante o método 
científico (espécie de endeusamento da ciência, do método 
em sua perspectiva moderna); ao contrário, conforme a pers-
pectiva materialista, a concepção de ser humano passa a ser 
relacionada à condição histórico-social.
Em que consiste a afirmação de que o materialismo mar-
xista relaciona o ser humano à condição histórico-social? Quais 
são os fundamentos dessa afirmação e por qual motivo ela 
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ganha destaque frente a tantas outras correntes do pensamento 
filosófico? Certamente, você já ouviu falar em Karl Marx. Aqui 
vamos mencionar os principais aspectos de sua proposta. 
Ampliando o conhecimento!
“Segundo Marx, o homem real é, em unidade indisso-
lúvel, um ser espiritual e sensível, natural e propria-
mente humano, teórico e prático, objetivo e subjetivo. O 
homem é, antes de tudo, práxis: isto é, define-se como um 
ser produtor, transformador, criador; mediante o seu tra-
balho, transforma a natureza externa, nela se plasma e, 
ao mesmo tempo, cria um mundo à sua medida, isto é, 
à medida de sua natureza humana. Esta objetivação do 
homem no mundo externo, pela qual produz um mundo 
de objetos úteis, corresponde à sua natureza de ser produ-
tor, criador, que também se manifesta na arte e em outras 
atividades.
Ademais, o homem é um ser social. Só ele produz, pro-
duzindo ao mesmo tempo determinadas relações sociais 
(relações de produção) sobre as quais se elevam as demais 
relações humanas, sem excluir as que constituem a supe-
restrutura ideológica da qual faz parte a moral.
O homem é também um ser histórico. As várias relações 
que contrai em uma determinada época constituem uma 
unidade ou formação econômico-social que muda histo-
ricamente sob o impulso de suas contradições internas e, 
particularmente, quando chega ao seu amadurecimento 
a contradição entre o desenvolvimento das forças produ-
toras e das relações de produção. Mudando a base eco-
nômica, muda também a superestrutura ideológica e, 
evidentemente, a moral.”
Fonte: Vázquez (2004, p. 291-292, grifo nosso)
Karl Marx (1818-1883) desenvolve 
a ideia materialista da história, 
utilizando-se da forma dialética 
no processo contínuo das rela-
ções de produção social. O modo 
de produção material é o reflexo 
das condicionantes sociais.
 Karl Marx. Fonte: http://commons.wikimedia.org/
wiki/File:Karl_Marx.jpg
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Diferente de Comte, Marx não compreendia a socie-
dade, menos ainda as relações que a constituem, como o fun-
cionamento de um organismo, seguindo a leis específicas 
que mantêm sua ordem. Ao contrário, o estudo das relações 
que tecem a sociedade ganha com Marx a atenção frente aos 
processos de alienação, ideologia e relações de poder diver-
sas, reflexos, por sua vez, dos meios de produção material da 
vida. São conceitos fundamentais em Marx: mais valia, luta 
de classes, alienação, movimento dialético, ideologia etc.
A todo momento interfaceada com a ética, essa corrente 
do pensamento, materialismo histórico e dialético, constitui 
tamanho marco no âmbito da Ética, que, mesmo datada ao 
contexto da Modernidade, participa das concepções éticas 
contemporâneas. Mais uma vez, percebemos pensadores à 
frente do seu tempo. De acordo com Vázquez (2004), a con-
cepção ética contemporânea abrange não “só” as doutrinas 
éticas atuais, pois abraçam também aquelas que surgiram no 
Século XIX e permanecem atuais. Por exemplo, Hegel e Marx 
compartilharam da mesma época moderna, entretanto, no 
que diz respeito às concepções éticas, o primeiro está situado 
no âmbito que lhe foi próprio - o da modernidade- o segundo, 
por sua vez, no âmbito da contemporaneidade. Vejamos!
Friedrich Hegel 
Fonte: http://commons.wikime-
dia.org/wiki/File:Hegel.jpg
Georg Wilhelm Friedrich Hegel 
(1770 - 1831) defende a ideia de 
que a realidade conjuntural 
não é estática, mas o oposto, é 
dinâmica e, por muitas vezes, 
se mostra contrária em si. 
As contradições são o movi-
mento de TESE + ANTÍTESE = 
SÍNTESE (movimento de auto-
melhoramento dialético).
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A razão é, para Hegel, a realiza-
ção construída, e o ser é, em sua 
própria essência, razão. O homem 
é pensante, e então pensa o seu 
pensamento; deste modo o objeto 
do pensamento é o próprio pensa-
mento, a racionalidade produz o 
racional, a razão é o seu próprio 
objeto. A ética segundo Hegel é 
conceitual, logo pensada como 
nous, espírito, o “espírito auto-
consciente”, tendo a liberdade 
como fundamento, a vida ética é 
a formaçãoabsoluta que vai de-
terminar a participação efetiva 
do sujeito na vida comunitária. 
(NEVES, 2006, p. 15)
Você já estudou, durante nossas unidades, a respeito da 
questão do conhecimento conforme o criticismo kantiano, per-
cebeu o modo pelo qual a razão era compreendida, bem como a 
Ilustração/maioridade, os tipos de juízo etc. A questão moral em 
Kant, portanto, relacionada a seus fundamentos, é normativa e 
corresponde ao que conhecemos por formalismo kantiano.
Hegel, ainda que por caminhos diferentes, também 
apresenta contribuições à concepção ética moderna, uma vez 
que seu pensamento filosófico está no âmbito da abstração, 
sendo idealista. Importa aqui ressaltar a autonomia da razão 
e a postura antropocêntrica como elementos de importân-
cia maior, principalmente, quando recordamos que, durante 
o período medieval (por motivos que já estudamos ao longo 
das unidades), este espaço não foi possível. 
Em Karl Marx, a razão também é importante, mas este, 
por assim dizer, inaugura um modo concreto de percebê-la. 
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Por esses, dentre outros motivos, o modo de percepção da 
ética em Karl Marx, ainda que com data de período moderno, 
é considerado próprio à concepção ética contemporânea.
Por sua fundamentação, meu 
método não só difere do hege-
liano, mas é também sua antítese 
direta. Para Hegel, o processo de 
pensamento, que ele, sob o nome 
de ideia, transforma em um su-
jeito autônomo, é o demiurgo do 
real, real que constitui apenas a 
sua manifestação externa. Para 
mim, pelo contrário, o ideal não 
é nada mais que o material trans-
posto e traduzido na cabeça do 
homem. 
(MARX, 18-- apud REZENDE, 
2002, p. 181)
De acordo com Marx, o ser humano constrói a si mesmo 
conforme condição histórico-social, uma vez que é um ser 
concreto, que ele chama de real, o que o distingue das concep-
ções idealistas e essencialistas. O que e como conhecemos, 
como somos, o que fazemos etc. são, portanto, coisas relacio-
nadas às relações materiais que tecem a vida. Propomos uma 
aproximação com a proposta sartriana. Avante!
Sartre (1905-1980), pensador contemporâneo, propõe 
a corrente do pensamento filosófico que conhecemos por 
Existencialismo. Nesta, a máxima fundamental é a de que “a 
existência precede a essência”. Portanto, o ser humano esco-
lhe seu próprio ser, construindo a si mesmo, mediante suas 
escolhas, a condição de liberdade e responsabilidade necessá-
rias e consequentes a esse processo de autoconstrução.
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Considerando que não há um determinismo, nem 
essência que preceda a existência, é do próprio ser humano 
a responsabilidade sobre quem ele é, e, ainda, sobre o outro, 
uma vez que Sartre propõe que, escolhendo a si mesmo, o ser 
humano, escolhe a humanidade.
[...] Se o homem fosse um ser 
cheio, total, pleno, com uma es-
sência definida, ele não poderia 
ter nem consciência nem liber-
dade. Primeiro, porque a consciên-
cia é um espaço aberto a múltiplos 
conteúdos. Segundo, porque a 
liberdade representa a possibili-
dade de escolha. Por intermédio de 
suas escolhas, o homem constrói a 
si mesmo e torna-se responsável 
pelo que faz. Assim, para Sartre, 
se o homem não expressasse esse 
vazio de ser, sua consciência já es-
taria pronta, acabada, fechada. E, 
nesse caso, ele não poderia mani-
festar liberdade, pois estaria preso 
à realidade estática do ser pleno, 
do ser em-si. 
(COTRIM, 2006, p. 203)
Aqui concluímos a nossa sexta unidade, em que demos 
continuidade aos nossos estudos sobre as correntes do pensa-
mento e suas interfaces éticas. 
Até a próxima! 
Considerando essa perspectiva de incompletude do ser, 
como você tece as reflexões no âmbito da ética?
 
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Sín t eSe
 Kant, Comte, Marx, Hegel e Sartre são os autênticos 
protagonistas desta unidade. Eles nos oferecem verdadei-
ras possibilidades de reflexão sobre condições da nossa atu-
alidade. Desde as perspectivas racionais empíricas, expressas 
pelo criticismo Kantiano, até o existencialismo sartriano, que 
remete o indivíduo à própria responsabilidade de ser e consti-
tuir-se pessoa pelo exercício de sua autonomia.
qu eStõeS pa r a r eflex ão
1. Considerando os posicionamentos de Augusto Comte e 
Karl Marx, como você compreende a organização social de 
nossa atualidade?
2. Com que (quais) (dos) pensador (es) estudado (s) nesta uni-
dade você mais se identificou? E como ele (s) poderia (m) ser 
atualizado (s) às necessidades e aos desafios impostos pela 
contemporaneidade?
lei t u r aS i n dica daS
HELFERICH, C. História da Filosofia. São Paulo: Imfe, 2006.
REALE, G.; ANTISSERI, D. História da Filosofia. São Paulo: 
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mestral do Sociedade Hegel Brasileira – SHB. Ano 3º - N.º 04 
Junho de 2006. Disponível em: <http://www.hegelbrasil.org/
rev04c.htm> Acesso em: 02 nov. 2012.
REZENDE, A. (org.). Curso de Filosofia. 11. ed. Rio de Janei-
ro: Zahar, 2002.
VÁZQUEZ, A. S. Ética. 25. ed. Rio de Janeiro: Civilização 
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( 7 )
Reflexões acerca das 
temáticas: relação com o 
saber, multiculturalismo e 
interculturalismo
“Cada cultura é, na verdade, 
multicultural, assim como cada 
um de nós é, na verdade, multi-
cultural.” 
(CORTINA, 2005, p. 163)
Naurelice Maia de Melo e 
Ueliton Lemos dos Santos
E dessa forma, multicultural, estamos 
envolvidas e envolvidos em diversos modos de aprendiza-
gem. Em diversas relações de saber. Conforme Marconi e 
Presotto (2010), assim como a essência da cultura compre-
ende ideias, abstrações e comportamentos, a natureza da cul-
tura remete à aprendizagem. Pois, a cultura compreende os 
modos aprendidos de vida conforme cada época e espaço, 
conforme as tradições e as formas pelas quais indivíduos e 
grupos as comunicam, aprendem e transformam.
Durante unidades anteriores, você estudou sobre o 
processo do conhecimento e seus elementos principais, com-
preendeu que a trajetória do conhecimento consta de propos-
tas distintas (algumas divergentes, outras complementares). 
Agora vamos seguir nossos diálogos com atenção às relações 
com o saber que, assim como a cultura, também tem sua pers-
pectiva multi.
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Curiosidade
Cotidianamente, o termo “culto” ou “inculto” é utili-
zado designando pessoas que têm ou não têm cultura. 
Entretanto, este é um olhar equivocado. Veja no trecho a 
seguir:
“Muitas vezes, a palavra cul-
tura é empregadapara indicar 
o desenvolvimento do indivíduo 
por meio da educação, da in-
strução. Nesse caso, uma pessoa 
‘culta’ seria aquela que adquiriu 
domínio no campo intelectual 
ou artístico. Seria ‘incluta’ a que 
não obteve instrução. Os antrop-
ólogos não empregam os termos 
culto ou inculto, de uso popular, 
nem fazem juízo de valor sobre 
esta ou aquela cultura, pois não 
consideram uma superior à out-
ra. Elas apenas são diferentes em 
nível de tecnologia ou integra-
ção de seus elementos. Todas as 
sociedades - rurais ou urbanas, 
simples ou complexas - possuem 
cultura. Não há indivíduo huma-
no desprovido de cultura exceto o 
recém-nascido e o homo ferus; um, 
porque ainda não sofreu o pro-
cesso de endoculturação, e o outro, 
porque foi privado do convívio hu-
mano.” 
(MARCONI; PRESOTTO, 2010, 
p. 21)
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O convívio, as relações entre as pessoas e seus ambien-
tes e a aprendizagem promovem a (as) cultura (as), assim 
como favorecem o saber. Charlot (2000) elucida que a relação 
com o saber e a aprendizagem estão associadas ao modo pró-
prio de construção do humano, de autoconstrução, processo 
que entrelaça três instâncias correlatas umas às outras e fun-
damentais: hominização, singularização e socialização.
Nascer significa ver-se submetido 
à obrigação de aprender. Aprender 
para construir-se, em um triplo 
processo de “hominização” (tor-
nar-se homem), de singularização 
(tornar-se um exemplar único de 
homem), de socialização (tornar-
se membro de uma comunidade, 
partilhando seus valores e ocu-
pando um lugar nela). Aprender 
para viver com outros homens 
com quem o mundo é partilhado. 
Aprender para apropriar-se do 
mundo, de uma parte desse mun-
do, e para participar da construção 
de um mundo pré-existente. Apren-
der em uma história que é, ao mesmo 
tempo, profundamente minha, no 
que tem de única, mas que me es-
capa por toda parte. Nascer, apren-
der, é entrar em um conjunto de rela-
ções e processos que constituem um 
sistema de sentido, onde se diz quem 
eu sou, quem é o mundo, quem são 
os outros. 
(CHARLOT, 2000, p. 53, grifos 
nossos)
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Sobre a relação com o saber, Charlot (2000) afirma tam-
bém que corresponde à relação que o sujeito estabelece com o 
mundo, com ele mesmo e com o outro. 
“É relação com o mundo como conjunto de significa-
dos, mas, também, como espaço de atividades, e se inscreve no 
tempo”. (CHARLOT, 2000, p. 79). A relação com o saber com-
preende o tempo em seus aspectos referentes tanto ao passado 
quanto ao presente e ao futuro. Portanto, remete às trajetórias 
próprias da humanidade e de cada ser. Remete também às rea-
lizações e aos modos atuais de existência (do indivíduo e da 
humanidade) e às possibilidades frente ao projetar-se.
Relação do sujeito com o próprio sujeito favorece a compre-
ensão de si mesmo na qualidade de cognoscente, sem prescindir 
do movimento incessante de conquista e construção do próprio ser.
O referido movimento, por sua vez, não ocorre no iso-
lamento. A relação com o saber, portanto, é também a rela-
ção que o sujeito estabelece com o outro. O conjunto de suas 
implicações, esteja manifesto em alegrias ou dissabores, é 
constituinte indispensável à aprendizagem e às aprendiza-
gens. Nessa perspectiva, percebemos o diferente e vislum-
bramos as idiossincrasias que, sendo nossas, também nos 
fazem dessa forma, mas não desiguais.
Atualmente, ouvimos e muitas vezes afirmamos que 
é preciso “aceitar o diferente”, respeitar as diversidades exis-
tenciais próprias de cada ser ou grupo social. Mas, sabemos 
o que essa postura significa? Quem é esse ser diferente que 
teima a me afrontar cotidianamente? E, quais são essas diver-
sidades estabelecidas? Por que não são “normais” como nós, 
e pertencentes ao nosso grupo? Será que eles não sabem que 
estão “errados” e, portanto, precisam juntar-se a nós?
Esses são apenas alguns questionamentos e problemá-
ticas iniciais para a realização da reflexão sobre cultura e seus 
desdobramentos.
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Por cultura, nós compreendemos toda a ação humana 
que possui uma intencionalidade em um dado espaço e 
em um momento temporal, ou seja, consiste na produção e 
transformação do seu meio para satisfação de necessidades, 
expressos tanto em ordem material, quanto nos aspectos ima-
teriais. Assim, dessa forma, é permitida ao sujeito a possi-
bilidade de construção de sua própria cultura individual 
integrada à social, mediante às relações estabelecidas na rea-
lidade conjuntural.
Adela Cortina, filósofa contemporânea de origem espa-
nhola, nos apresenta um entendimento bastante interessante 
sobre a concepção de cultura.
Cultura, o conjunto de modelos 
de pensamento e de conduta que 
dirigem e organizam as ativi-
dades e produções materiais de 
um povo, em sua tentativa de 
adaptar o meio em que vive a 
suas necessidades, e que pode 
diferenciá-lo de qualquer outro. 
(CORTINA, 2005, p. 148)
Observando a citação, temos o entendimento de cul-
tura enquanto produção humana, mas também, enquanto 
um agente diferenciador. Veja! Agente de diferença e não 
de desigualdade. Não existe problema em sermos diferen-
tes, muito ao contrário. Na diversidade dos opostos, cresce-
mos e nos fortalecemos enquanto ser social crítico e criativo 
da realidade. Essa é a saída do enclausuramento da vaidade 
humana, que soberbamente pensa e acredita ser sua cultura 
maior e melhor que as demais. Eis o desafio. 
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“São as desigualdades que devem 
ser combatidas, não as diferen-
ças, essas só nos enriquecem” 
(Olivien C. A. ,2007)
Como e de que forma desenvolver uma mentalidade de 
conciliação entre os diversos primando por suas característi-
cas idiossincráticas? 
”Apenas” nisso consiste o problema do novo século.
A realidade é multiversa e, portanto, o são as estrutu-
ras sociais, que, em um mesmo território, e em um mesmo 
tempo, agregam um conjunto variado de fenômenos, mui-
tas vezes conflitantes, e tidos como inconciliáveis. Não nega-
mos essa realidade em um ato de sublimação. Sabemos de 
sua existência e, mediocremente, criamos alternativas pífias 
de superação expressas pelo multiculturalismo radical ou 
mesmo através do multiculturalismo assimilacionista. 
Vamos entender um pouco mais sobre eles?
Em principio, poderíamos dizer 
que o multiculturalismo con-
siste em um conjunto variado de 
fenômenos sociais, que derivam 
da difícil convivência e/ou co-
existência em um mesmo espaço 
social de pessoas que se identifi-
cam com culturas diferentes. Os 
problemas que se apresentam não 
procedem tanto do fato de haver 
diferentes culturas quanto do 
fato de que pessoas de diferentes 
bagagens culturais tenham de 
conviver em um mesmo espaço 
social, seja uma comunidade po-
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litica, seja uma comunidade real 
em seu conjunto, em que o mais 
das vezes uma das culturas é a 
dominante.
Os procedimentos tentados para 
organizar as diferenças culturais 
compõem uma escada cujo degrau 
inferior é o multiculturalismo 
radical, que se pronuncia por umapolítica de apartheid, ao estilo do 
que existiu na África do Sul, e 
o seguinte é o assimilacionismo 
de maior ou menor porte. As 
políticas da apartheid defendem 
a separação dos diferentes grupos 
culturais, que vivem em diferen-
tes lugares, inclusive físicos, en-
quanto a assimilação das culturas 
é relegada pela dominante foi o 
modo habitual de proceder dos 
grupos imigrantes, aos quais se 
pede que abandonem sua própria 
cultura e adotem a do novo país. 
(CORTINA, 2005, p. 140-141)
 Convidamos você a realizar um exercício de aproxi-
mação conceitual à prática existencial. Vamos juntos reduzir 
a escala do multiculturalismo radical e do multiculturalismo 
assimilacionista e veremos o quão presentes essas situações 
estão em nosso cotidiano.
Em nossas esferas relacionais, muitas vezes observa-
mos e mesmo até tomamos atitudes que deixam muito claro 
a separatividade. Por um simples ato ou gesto não permito 
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que outras pessoas se aproximem de mim, por considerar 
minha estrutura cultural superior a deles. Esse é o princípio 
da intolerância religiosa, da segregação econômica e do repú-
dio aos tido como “minorias”. De outra forma, isso também 
se faz quando adoto posturas autoritárias frente às pessoas, 
impondo-as um modelo de ser e agir semelhante ao meu, cul-
minando em posturas que podemos considerar como uma 
condição etnocêntrica.
Muito infelizmente essas situações estão se tornando 
cada vez mais comuns. Negligenciamos com nossa identi-
dade por considerar o de fora mais interessante e/ou mais 
correto do que nossas próprias considerações existenciais.
A temática dessa realidade foi contemplada de diver-
sas maneiras e por muitas pessoas: filósofos, artistas, poe-
tas, músicos etc. Aqui, neste momento, buscamos Renato 
Manfredini Júnior (1960 - 1996), mais conhecido como Renato 
Russo, vocalista da banda de rock Legião Urbana, na sua 
música Índios do álbum Dois, de 1986.
índios
legião urbana
Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei 
a quem
Conseguiu me convencer que era 
prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que 
eu não tinha
Quem me dera ao menos uma vez
Esquecer que acreditei que era por 
brincadeira 
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Eu quis o perigo e até sangrei sozinho 
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra 
mim
Quando descobri que é sempre só 
você
Que me entende do início ao fim 
E é só você que tem a cura pro meu 
vício
De insistir nessa saudade que eu 
sinto
De tudo que eu ainda não vi
Que se cortava sempre um pano-
de-chão
De linho nobre e pura seda
Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue 
entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era an-
tigamente
Quem me dera ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que 
precisa ter
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Quase sempre se convence que não 
tem o bastante
Fala demais por não ter nada a dizer
Quem me dera ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto
Como o mais importante
Mas nos deram espelhos e vimos 
um mundo doente
Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mes-
mo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por 
vocês
Sua maldade, então, deixaram Deus 
tão triste
 Quem me dera ao menos uma vez
Acreditar por um instante em tudo 
que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes
Quem me dera ao menos uma vez
Fazer com que o mundo saiba que 
seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos, obrigado
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Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra 
mim
Quando descobri que é sempre só 
você
Que me entende do início ao fim
E é só você que tem a cura pro meu 
vício
De insistir nessa saudade que eu 
sinto
De tudo que eu ainda não vi
Nos deram espelhos e vimos um 
mundo doente
 Tentei chorar e não consegui
Fonte: Legião Urbana. Índios. Disponível em: <http://letras.mus.
br/legiao-urbana/1300285/>. Acesso em: 25 nov 2012.
Sabemos que a proposta do autor não correspondeu 
diretamente ao multiculturalismo ou à relação com o saber. 
Mencionamos a música na qualidade de convite para tais 
reflexões, na perspectiva de alusão aos conhecimentos aos 
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quais nos dedicamos nesta unidade, sem reduzir o signifi-
cado e os sentidos da composição em sua amplitude.
É possível tecer relações entre trechos da música tanto 
quanto a ação multiculturalista radical e assimilacionista, 
praticada na população brasileira, quanto a elementos da 
relação com o saber. Por exemplo, em momentos tais como: 
- “Quem me dera ao menos uma vez / Que o mais sim-
ples fosse visto / Como o mais importante / Mas nos deram 
espelhos e vimos um mundo doente”. Quem nos diz ser o 
mais importante, quem é esse complexo que não permite ao 
simples sua vez? E mais, vemos um mundo doente mediante 
espelhos que nos é dado. A menos que se tenha mudado, a 
finalidade do espelho é a observação da imagem refletida, 
então, o mundo doente consiste no resultado da ação indivi-
dual e coletiva em negligenciar a própria constituição identi-
tária e assim nos descaracterizamos e adoecemos. 
- “Quem me dera ao menos uma vez / Ter de volta todo 
o ouro que entreguei a quem / Conseguiu me convencer que 
era prova de amizade / Se alguém levasse embora até o que 
eu não tinha”. Considerando a relação com o saber na qua-
lidade de relação do sujeito com o tempo, com ele próprio 
e com o outro; muitas vezes essas relações se dão estereoti-
padas e ideologicamente movidas para a dominação social 
e realização de posturas etnocêntricas. Lógico que não seria 
“amizade” uma colonização! Mas ideologicamente já se apre-
sentou nessas vestes e tomou quase que por assalto os aces-
sos à liberdade dos modos próprios de ser de um grupo 
social, subjulgando sua cultura e impondo sobre ela outras 
formas de ser. Ou, em outra associação (aqui seguimos com 
elas de modo livre, sem que conduzam ao sentido originário 
da composição, conforme já mencionado antes das apresenta-
ções desses trechos da música): no âmbito dos relacionamen-
tos entre as pessoas, quantas vezes os sentidos peculiares 
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à amizade sucumbem às relações de interesse que podem 
“levar embora” até o que o outro “não tinha” sem que per-
cebam, a priori, o fim utilitário de algumas relações sob as 
vestes de “amizade” ou, agora em sentido de metáfora, rela-
ções de “colonização”. O cultivo da perspectiva da esperança 
é bem-vindo e por esses e outros caminhos, podemos aqui 
recordar Charlot (2010, p. 53):
Nascer significa ver-se submeti-
do à obrigação de aprender [...]. 
Nascer, aprender, é entrar em um 
conjunto de relações e processos 
que constituem um sistema de 
sentido, onde se diz quem eu sou, 
quem é o mundo, quem são os 
outros.
(CHARLOT, 2010, p. 53)
- “Quem me dera ao menosuma vez / Explicar o que 
ninguém consegue entender / Que o que aconteceu ainda 
está por vir / E o futuro não é mais como era antigamente”. 
Aqui podemos lançar o olhar sobre a relação com o saber, 
com atenção à relação do sujeito com o tempo e este em suas 
instâncias - passado, presente e futuro, interligadas - uma vez 
que tecemos (presente) as relações que fazem nosso ambiente 
e somos também tecidos pelo contexto histórico-social (pre-
sente) e suas tradições (passado) materiais e imateriais, 
construindo, assim, o projeto do vir-a-ser (futuro) tanto na 
qualidade de indivíduo quanto na qualidade ser social, na 
mutabilidade das relações que constituem a vida.
A dificuldade do multiculturalismo não é meramente 
política e econômica (essas são apenas consequências). 
Compreendemos que o cerne da questão passa pelo caráter 
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idiossincrático no qual e pelo qual nos tornamos seres huma-
nos, verdadeiramente humanos, ou nos relacionamos com 
o saber, no qual e pelo qual experimentamo-nos, enquanto 
indivíduo e sociedade, mediante processos de hominização, 
singularização e socialização; em relação que estabelecemos 
com nosso próprio ser, com o mundo e com o outro.
Não se trata, portanto, de manter 
as diversas culturas, como se fos-
sem espécies biológicas e fosse pre-
ciso defender a “biodiversidade”. 
Trata-se antes de tomar consciên-
cia de que nenhuma cultura tem 
a solução para todos os problemas 
vitais e de que pode aprender com 
outras, tanto soluções das quais 
carece como a se compreender a si 
mesma. Nesse sentido, uma ética 
intercultural não se encontra em 
assimilar as culturas relegadas à 
vencedora, nem tampouco com 
a coexistência das culturas, mas 
convida a um diálogo entre as 
culturas, de forma que respeitem 
as diferenças e esclareçam con-
juntamente o que consideram 
irrenunciáveis para construir, 
a partir de todas elas, uma con-
vivência mais justa e feliz. Tendo 
em conta, por outro lado, que a 
compreensão de outros é obtida 
por meio da convivência e do 
diálogo é indispensável para au-
tocompreensão. 
(CORTINA, 2006, p. 144)
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Nesse caminho de autocompreensão, buscamos 
quem somos, como somos, com quem somos; buscamos tri-
lhar as descobertas, conhecer as origens e as possibilidades 
de futuro. Neste (e em outros) caminho, importa também o 
olhar quanto à ética, seja no sentido de humanidade e/ou no 
âmbito das idiossincrasias. 
Cortina (2006, p. 144) afirma que “para levar a termo o 
projeto de uma ética intercultural, é preciso enfrentar proble-
mas antropológicos, psicológicos, éticos, jurídicos, políticos.”
A proposta de se constituir uma nova perspectiva, pau-
tada em uma ética intercultural, representa um meio de supe-
ração do desafio imposto pela intransigência. Isso representa 
a não menos aceitação das diferenças naquilo que pode ser 
acrescido enquanto aspectos positivos, fruto de uma autên-
tica relação dialógica, na qual a compreensão de si fica dire-
tamente relacionada ao outro de forma recíproca e imediata e 
nasce a identidade assumida pelo exercício da liberdade, res-
peitando a dignidade da diversidade do ser.
Em si tornando uma realidade à proposta intercultural, 
acreditamos que muitas de nossas dificuldades relacionais dei-
xariam de existir, pois de certo que somos o outro do outro e, na 
mesma medida e proporção, nos fazemos diferentes e até, mui-
tas vezes, contrários em diversas situações, negligenciamos, e 
por que não, determinamos o outro em seu modo de ser agir 
e pensar, julgamos diariamente comportamentos e atitudes, 
sem ao menos nos questionarmos sobre nossa “autoridade”, ou 
melhor, dizer “pseudoautoridade”. Aceitar o diferente, em sua 
essência, já pode ser considerado um ato de soberania sobre os 
demais. Por outro lado, acreditamos ser o mais acertado a ação 
de lançar o olhar sobre o olho que nos olha. O que isso quer 
dizer? É preciso conceber o outro como a mim mesmo, sem 
distinção e despido das contingências sociais que, em muitas 
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oportunidades, provocam verdades que apenas figuram como 
elementos de separatividade.
Cada cultura é na verdade multi-
cultural, assim como cada um de 
nós é na verdade multicultural.
As culturas, assim como as 
tradições, nascem, se transformam 
e podem morrer quando carecem de 
capacidade para responder aos no-
vos desafios apresentados pelo en-
torno. Mas não nascem e se trans-
formam radicalmente separadas de 
si - é exatamente o que ocorre. Al-
gumas nascem de outras, ou então 
se transformam, quando se sentem 
incapazes de responder ao entorno, 
tomando de outros elementos que 
se mostram mais apropriados para 
fazer frente aos novos desafios. 
(CORTINA, 2006, p. 163)
Assim como Cortina, o filósofo e antropólogo Edgar 
Morin, através de suas variadas obras, nos apresenta signifi-
cativas contribuições para superação da “separatividade”. Ele 
defende a perspectiva de uma realidade “complexa”. O que 
seria isso? Complexo = complicado? Difícil?
Essa problemática existencial, segundo o autor, deve 
ser suplantada por uma nova forma de compreensão da rea-
lidade. Essa perspectiva é o que ele denomina pensamento 
complexo, no qual a concepção de realidade se apresenta ao 
sujeito como parte dele próprio, sendo um todo integrado, 
sistêmico e dinâmico, na qual tudo é dialogizável. 
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Edgar Morin
Fonte: ht t p://pt .w i k iped ia .org /w i k i /
F i c h e i r o :E d g a r _ M o r i n _ I M G _ 0 5 5 8 .
jpg Acesso em 02 dez 2012 
Em um primeiro sentido, a 
palavra complexus significa “o 
que está tecido”. E é esse tecido 
que é preciso conceber. Mas 
quando vemos as inúmeras 
interações que se fazem entre 
as células de nosso corpo e, no 
interior delas, entre as molécu-
las, é evidente que não se pode 
ter nenhuma certeza sobre o 
que se passa localmente neste 
ou naquele ponto. [...] Como a 
complexidade reconhece a par-
cela inevitável de desordem 
e de eventualidade em todas 
as coisas, ela reconhece a par-
cela inevitável de incerteza no 
conhecimento. [...] A complexi-
dade repousa ao mesmo tempo 
sobre o caráter de “tecido” e 
sobre a incerteza. (MORIN, 
2001, p. 564)
O complexo é a concepção da realidade sob uma forma 
sistêmica e holística, sendo que o todo não constitui um sim-
ples resultado das somas de suas partes. Na verdade, o todo 
representa a conjugação existencial própria do ser sendo, 
vivendo e participando, existindo. 
À medida em que nos relacionamos, modificamos e 
transformamos nosso universo, construímos e desenvolve-
mos culturas, produzimos conhecimento. Esses fenômenos 
da existência humana figuram na vida como fios de uma teia, 
que é tecida e desenvolvida ao longo e a medida das escolhas 
terrenas. Assim, a qualidade de nossas relações são unica-
mente responsabilidades intrínsecas ao indivíduo em relação 
consigo e com o outro nas suas mais variadas manifestações 
existenciais.
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O que é feito a um fio repercute direta ou indireta-
mente em todos os demais constituintes da teia. Não se trata 
de uma perspectiva ingênua e desprovida de sentido, quiçá 
romântica, mas, muito ao contrário, o destino de um é com-
partilhado por todos os integrantes. 
Dessa forma, as divergênciase contradições culturais 
não passariam de “pseudos” referenciais humanos e, assim, 
deixaríamos de atribuir tanta relevância a situações/proble-
mas que teimam em nos demandar tempo e energia.
Em outras palavras, a teia da vida 
consiste em redes dentro de redes. 
Em cada escala, sob estreito e mi-
nucioso exame, os nodos da rede 
se revelam como redes menores. 
Tendemos a arranjar esses siste-
mas, todos eles aninhados den-
tro de sistemas maiores, em um 
sistema hierárquico colocando 
os maiores acima dos menores, à 
maneira de uma pirâmide. Mas 
isso é uma projeção humana. 
Na natureza, não há ‘acima’ ou 
‘abaixo’, e não há hierarquias. Há 
somente redes aninhadas dentro 
de outras redes.
(CAPRA, 1996, p. 44-45)
Tecer um fio desta teia constitui estabelecer um elo 
relacional social, à medida em que são feitos os vários fios 
desta teia. Significa que estão sendo criadas as redes sociais, 
que, por conseguinte, produzem conhecimentos e cultura e 
valores (normas sociais específicas). 
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“O comportamento das pessoas é 
moldado e delimitado pela iden-
tidade cultural delas, a qual, por 
sua vez reforça a sensação de 
fazer parte de um grupo maior”. 
(CAPRA, 2002, p. 99)
O pensamento complexo consiste na união entre as 
partes e as multiplicidades. Somos unidades participantes de 
uma múltipla diversidade conjuntural autônoma e dinâmica 
rumo à construção de uma identidade planetária na qual 
todos somos um.
Considerando que constituímos a mesma, complexa e 
integrada realidade, como então é possível a exploração de uma 
pessoa ou grupo por outra pessoa ou grupo? Sabendo que cons-
truímos nosso ser de modo também relacional, em ambientes 
multiculturais, tendo ainda o olhar lançado sobre a condição 
humana de autoconquista e autoconstrução, com atenção aos 
processos de hominização, singularização e socialização, bem 
como as relações do sujeito com o mundo, com ele mesmo e com 
o tempo, como podem ocorrem as vias de alienação que che-
gam, infelizmente, a provocar a reificação do humano?
As respostas para questionamentos como estes não são 
postas nem dadas como informações absolutas. Convidamos 
você, querido (a) estudante, para tecermos em parceria os possí-
veis caminhos de compreensão e transformação de realidades 
pautadas nos processos ideológicos de dominação social, den-
tre outras dominações diretas e indiretas, simbólicas e concre-
tas. É nesta perspectiva que seguimos durante nossa Unidade 
8 com o fundamento básico (sobre alienação, o mundo do tra-
balho e os processos ideológicos de dominação social) para a 
conquista de reflexões que possam bem guiar as elaborações 
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das próprias respostas e, sobretudo, das próprias perguntas e 
inquietações frente ao mundo. Vamos adiante! Você é pessoa 
convidada. Encontraremos você durante a Unidade a seguir.
Sín t eSe
 Nesta unidade tivemos a oportunidade de realizar-
mos profundas reflexões, desde as relações do saber com as 
perspectivas de hominização, singularização e socialização, 
passeando pela problemática da diversidade cultural e seus 
desdobramentos, até alcançarmos o ápice no pensamento 
complexo através das contribuições de Morin e Capra. Assim, 
esta Unidade tem uma peculiaridade: seu escopo consiste no 
chamamento da responsabilidade na condução e direciona-
mento de nossa existência diante da vida como uma represen-
tação sistêmica e holística. 
qu eStão pa r a r eflex ão’
1. Reflita sobre a citação, e estabeleça uma relação com sua 
atual condição existencial.
A inteligência parcela, compartimentada, mecanicista, disjuntiva e 
reducionista rompe o complexo do mundo em fragmentos disjuntos, 
fraciona os problemas, separa o que está unido, torna unidimen-
sional o multidimensional. É uma inteligência míope que acaba por 
ser normalmente cega. Destrói no embrião as possibilidades de com-
preensão e de reflexão, reduz as possibilidades de julgamento corre-
tivo ou da visão a longo prazo. Por isso, quanto mais os problemas se 
tornam multidimensionais, maior é a incapacidade de pensar sua mul-
tidimensional idade; quanto mais a crise progride, mais progride a in-
capacidade de pensar a crise; mais os problemas se tornam planetários, 
mais eles se tornam impensáveis. Incapaz de considerar o contexto 
e o complexo planetário, a inteligência cega tornar-se inconsciente e 
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irresponsável. (MORIN, 2001, p. 43)
2. Conforme Morin (2001, p. 18), “o pensamento que une o 
modo de conhecimento se prolonga para o plano da ética, da 
solidariedade e da política. Há uma ética da complexidade 
que é uma ética da compreensão”. Como você compreende 
essa citação e de que forma sua proposta pode ser realizada?
lei t u r aS i n dica daS
ARDUINI, J. Antropologia: ousar para Reinventar a Human-
idade. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2002.
BAUMAN, Z. Comunidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
______ Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
FROMM, E. Análise do Homem. Rio de Janeiro: Guanabara 
Koogan, 1983.
______ O medo à liberdade. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.
GALANTINO, N. Dizer Homem Hoje: Novos Caminhos da 
Antropologia Filosófica. São Paulo: Paulus, 2003.
Si t eS i n dica doS
http://www.fritjofcapra.net/
http://www.edgarmorin.org.br/
http://www.ebah.com.br/content/ABAAABG1MAH/etica-ad-
ela-cortina
http://filosofarpreciso.blogspot.com.br/2009/06/bernard-char-
lot-ensinar-com-significado.html
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r ef er ênci aS
CAPRA, F. A teia da Vida. São Paulo: Ed. Cultrix, 1996.
______. As Conexões Ocultas. São Paulo: Ed. Cultrix, 2002.
CHARLOT, B. Da relação com o saber: elementos para uma 
teoria. Porto Alegre: Artmed, 2000.
CORTINA, A. Cidadãos do Mundo, para uma teoria da ci-
dadania. São Paulo: Edições Loyola, 2005.
MORIN, E. A Religação dos saberes. Rio de Janeiro: Bertrand 
Brasil, 2001.
MARCONI, M. A.; PRESOTTO, Z. M. N. Antropologia: uma 
introdução. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2010.
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( 8 )
 Ideologia, alienação e trabalho: 
uma reflexão tripartite em prol 
da reconquista do humano que 
há em nós
“Ainda que procure, de formas 
diversas, controlar todo o devir 
que o mundo em si expressa, per-
manecerá não absoluto, o humano, 
diante do ‘tudo’. E, se considerar 
como estático, o espaço em que 
vive, cairá em um descompasso, 
em um momento incoerente. Pois, 
sequer sente. Como oscilante ente 
o ser e o vir-a-ser... Isto é devir, 
metamorfose que, como um forte 
gole de transformações, faz-nos 
crer no infindável ter-se inse-
guro, ter-se incompleto, ter-se 
físico, ter-se além físico, ter-se no 
físico [...] do qual a ciência tenda 
apoderar-se, tenta consolidar-
se, tenta explicar-se. E acaba por 
provar o sempre estar e não estar, 
o real, o utópico (não lugar) onde 
alianças sempre surgem. Elos. Es-
peranças. Sempre ‘novas alian-
ças’“. 
(MAIA, 2003, p. 26)
Naurelice Maia de Melo e 
Ueliton Lemos dos Santos
Iniciamos o conjunto de unidades com aten-
ção à ciência, ao conhecimento, à filosofia. E seguimos nossoscaminhos passeando sobre a origem e organização do uni-
verso, com reflexões sobre o pensamento clássico, a moral, 
as concepções éticas, interfaceadas com correntes do pensa-
mento filosófico, e a relação com o saber, reunidas às consi-
derações a respeito do multiculturalismo e interculturalismo. 
Nesta unidade 8, tomamos por epígrafe um trecho da 
expressão poética que faz livre alusão, dentre outros aspectos, 
à obra do físico Ilya Prigogine e da filósofa Isabelle Stengers. 
De certo modo, começamos nossos diálogos e concluímos os 
escritos com olhares sobre à ciência. Na unidade anterior, você 
estudou os constituintes da relação com o saber e observou, 
dentre eles, a relação do sujeito com o tempo (passado, pre-
sente e futuro). Quem dera os olhares sobre o tempo fossem 
todos eles como os destinados por Charlot, De Masi, Prigogine, 
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Stengers. Pelas pessoas dedicadas à ciência (em sua concepção 
contemporânea) e por aquelas dedicadas à poesia. 
Quem dera o tempo não fosse instituído, por assim 
dizer, como mercado e as pessoas não fossem reificadas por-
que, atentas a incessante autoconstrução, não sucumbiriam 
ao “status” das coisas. E a “tirania da precisão” não encon-
trasse espaço entre as relações. Quem dera as pesquisas, 
nas diversas áreas, fossem tão genuínas quanto à concep-
ção grega de ciência, que, contemplativa, não encontrava o 
sentido da posse. Diferente da concepção moderna que, com 
o advento do método, acabou por conduzir a si mesma aos 
caminhos do cientificismo.
Quem dera fosse a ciência (agora em sua concepção 
contemporânea, da era das incertezas, e das “saídas” dos esta-
dos excessivos de controle) compreendida em escala maior 
e os jargões que pesam sobre a expressão “senso comum” 
pudessem compreender, como propõe Rubem Alves, que do 
senso comum emerge o bom senso; ou, como iniciativas de 
Gramsci, que defendem a possibilidade e necessidade de que 
os saberes filosóficos estejam dedicados a todas as pessoas 
(sobretudo às comuns), saindo dos limites de acesso apenas 
àqueles de concepções elitistas, inclusive, para os quais não 
haveria o desejo de sair de onde já estão e os saberes, todos 
eles, culminariam em instrumentalização para manter privi-
légios de poucos.
Quem dera que as circunstâncias fossem assim de fato 
dadas, doadas, mas só o são quando para reforçamento dos 
processos que tornam alheio ao ser humano a sua própria 
humanidade e, neste sentido, importa que o “quem dera” não 
se realize. Que seja fortalecido o lugar para o “quem constrói”, 
que sejamos elaboradores da existência, guardando o respei-
toso encantamento ante o seu devir. Mas, os imediatismos sus-
tentados pelas ideologias e alienações acabam por diminuir a 
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esfera da percepção complexa, integrada e integradora da rea-
lidade e por aumentar a esfera das ausências da humanidade 
no próprio humano, por estar alheio a si mesmo3.
Embora de lugar comum, qual significado da alienação?
O termo alienação, conforme sua origem latina (alie-
nare), significa transformar em alheio, atribuir a outro o que 
é próprio de alguma pessoa, “tornar” alheio o que é propria-
mente nosso. Alienus corresponde àquilo que é alheio, que 
pertence a outro. Os processos de alienação, de modo geral e 
com o teor social, buscam tornar alheio até mesmo a autono-
mia do pensar de cada indivíduo, a exemplo dos programas 
televisos que podemos chamar de verdadeiros entorpecentes 
sociais para aqueles indivíduos que, frente a eles, não discer-
nem a realidade e não exercitam a crítica e o posicionamento 
próprio que lhe integra seu modo de sentir, pensar e agir.
3. ...até um dia... No qual, ainda que lenta e progressivamente, a esfera do humano não seja apenas uma 
esfera, seja a realidade que (re)integra e emancipa.
Você sabia?
“A palavra alienação.
Em direito, designa a transferência da propriedade de um 
bem a outra pessoa. Nesse sentido, costuma-se dizer que 
‘os bens do devedor foram alienados’.
Em psicologia, refere-se ao estado patológico do indiví-
duo que se tornou alheio a si próprio, sentindo-se como 
um estranho, sem contato consigo mesmo ou com o meio 
social em que vive.
Na linguagem filosófica contemporânea, corresponde ao 
processo pelo qual os atos de uma pessoa são dirigidos ou 
influenciados por outros e se transformam em uma força 
estranha colocada em posição superior e contrária a quem 
a produziu. Nesta acepção, a palavra deve muito de seu 
uso a Marx.”
Fonte: COTRIM, G. Fundamentos da Filosofia: história e gran-
des temas. 16. ed. São Paulo: Saraiva, 2006, p. 28.
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Conforme Cotrim (2006, p. 28), “o termo alienação 
havia sido usado primeiramente por Hegel para designar o 
processo pelo qual os indivíduos colocam as suas potencia-
lidades nos objetos por eles criados”. Em Hegel, portanto, 
ainda conforme Cotrim (2006), a alienação corresponderia ao 
modo de tornar externa a criatividade humana. Expressá-la 
corresponderia à construção de obras no mundo; “nesse sen-
tido, o mundo da cultura seria uma alienação do espírito 
humano, uma criação do homem, que nela se reconheceria” 
(COTRIM, 2006, p. 29).
Este significado atribuído à alienação não corresponde 
ao sentido que contemporaneamente é aplicado ao referido 
termo no âmbito da Filosofia (corresponde ao que hoje é tam-
bém chamado de objetivação), mesmo estando situado em 
contexto filosófico, neste caso quanto ao idealismo hegeliano. 
Na contemporaneidade, os diálogos em torno da alie-
nação têm por referencial o significado que o termo assume a 
partir da perspectiva de Karl Marx. Aquele significado, utili-
zando palavras de Cotrim (2006, p. 28), correlato ao “processo 
pelo qual os atos de uma pessoa são dirigidos ou influencia-
dos por outros e se transformam em uma força estranha colo-
cada em posição superior e contrária a quem a produziu”.
Diferentemente de Hegel, Marx 
identificou, nesse processo de ex-
teriorização da criatividade hu-
mana, dois momentos distintos:
O primeiro seria o da objetiva-
ção, que se refere especificamente 
à capacidade de o homem se obje-
tivar, se exteriorizar nos objetos e 
nas coisas que cria, o que é algo 
próprio do saber-fazer humano.
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O segundo momento, para o qual 
Marx reserva o termo alienação, 
seria aquele em que o homem, 
principalmente no capitalismo, 
após transferir suas potenciali-
dades para os seus produtos, deixa 
de identificá-los como obra sua. 
Os produtos “não pertencem” 
mais a quem os produziu. Com 
isso, são “estranhos” a quem os 
produziu, seja no plano econômi-
co, psicológico seja no social. 
(COTRIM, 2006, p. 28-29)
As diversas instâncias da vida podem estar mediadas 
(ou não) pelos processos de alienação. Importa que tenha-
mos a percepção atenta e socialmente engajada, exercitando 
as características da reflexão filosófica, conforme estudamos 
na Unidade 3, buscando as raízes, de modo não aleatório e 
conforme a perspectiva de conjunto. Agindo no mundo de 
modo diferenciador, não pautado em diferenças tidas pelas 
desigualdades das amarras dos preconceitos tão limitadores, 
mas em sentido genuinamente diferenciador, de pessoa que, 
desculpe o jargão popular,deixam sua marca no mundo.
Estamos a caminho da descoberta de novas inquie-
tações e também de respostas para questões que propomos 
anteriormente. Como podem ocorrer as vias de alienação? 
Vejamos antes algumas dentre as instâncias da vida nas 
quais elas estão presentes.
As vias de alienação se configuram nas diversas instân-
cias da vida, constam nas relações tanto sociais quanto pesso-
ais, no consumo, no lazer, nas estruturas políticas partidárias 
e não partidárias, na esfera do trabalho etc. Lançaremos o 
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olhar sobre o alienação nas instâncias do consumo, do lazer 
e do trabalho.
Refletindo e ampliando o conhecimento.
Trechos selecionados de “Trabalho: Liberdade e 
Submissão”
Por Gilberto Cotrim
Antes de refletirmos sobre o consumo alienado, con-
sideremos primeiramente o brutal abismo socioeconômico 
que separa rico e pobre no mundo inteiro. Podemos dizer que 
bem mais da metade da humanidade ainda enfrenta o drama 
agudo da fome, da falta de moradia, do desamparo à saúde 
e à educação. Enquanto isso, pequena parcela de, aproxima-
damente, 15% da população mundial concentra 80% da renda 
econômica do planeta. Ou seja: enquanto a grande maioria não 
tem o mínimo necessário para sobreviver, uma minoria pode 
se dar ao luxo de consumir quase tudo e esbanjar o supérfluo.
Assim, é principalmente entre a parcela da população 
de bom poder aquisitivo que ocorre o fenômeno de consumo 
alienado. Não tem muito sentido falarmos em consumo alie-
nado entre a multidão de famintos, esmagada pela miséria.
Como podemos definir o termo consumo? Consumir 
significa utilizar, gastar, dar fim a algo, para alcançar deter-
minado objetivo. O ser humano necessita de objetos exterio-
res para a sua sobrevivência e realização. Por isso, os homens 
produzem, em sociedade, os objetos para o seu consumo. 
[...] Karl Marx observou que produção é ao mesmo 
tempo consumo, pois quando o trabalhador produz algo, 
além de consumir matéria-prima e os próprios instrumen-
tos de produção, que se desgastam ao serem utilizados, ele 
também consome suas forças vitais nesse trabalho. Por outro 
lado, completa o filósofo, consumo é também produção, pois 
os homens se produzem através do consumo. Isso se verifica 
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de forma mais imediata na nutrição, processo vital pelo qual 
consumimos alimentos para “produzir” nosso corpo. Porém, 
o consumo nos produz não apenas no plano físico, mas tam-
bém nos aspectos intelectual e emocional, como ser total.
Há, portanto, uma relação dialética entre consumo e 
produção. A produção cria não só bens materiais e não mate-
riais, mas também o consumidor para esses bens. Se não 
fosse assim, a produção não teria sentido. Ou seja, quando se 
produz algo, é preciso que alguém consuma essa produção. 
Mas onde está a alienação no consumo? Se entendemos que 
os homens se formam interagindo com o mundo objetivo, 
consumir significa participar de um patrimônio construído 
pela sociedade. Assim, além de atender às necessidades indi-
viduais, o consumo expressaria também a forma pela qual o 
indivíduo está integrado à sociedade.
No entanto, observamos nas sociedades contempo-
râneas a exclusão da maior parte das pessoas do consumo 
efetivo do patrimônio produzido. Além disso, vemos que 
o circuito produção-consumo não visa atender prioritaria-
mente às necessidades individuais, mas sim às necessidades 
de expansão do sistema capitalista, de busca permanente de 
lucratividade, o que levou à mercantilização de todas as coi-
sas. Nesse sistema, como apontou o historiador contemporâ-
neo Immanuel Wallerstein, há algo de absurdo: “acumula-se 
capital a fim de se acumular mais capital. Os capitalistas são 
como camundongos em uma roda, correndo sempre mais 
depressa a fim de correrem ainda mais depressa.”
Fonte: COTRIM, G. Fundamentos da Filosofia: história e gran-
des temas. 16. ed. São Paulo: Saraiva, 2006, p. 31.
É fato que vivemos em ambiente movido pelo sistema 
capitalista, não estamos aqui propondo a aceitação ou não 
aceitação deste, mas oferecendo o fundamento básico neces-
sário para os caminhos já mencionados de conquista tanto 
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das respostas quanto das novas inquietações. Estamos, 
ainda, ousando um apelo. O apelo ao devido cuidado frente 
às relações (todas elas) para que não descambem em modos 
efetivos ou velados de alienare. 
Quanto ao consumo alienado, a mídia figura den-
tre os meios para sua realização, criando pseudo necessida-
des e estabelecendo padrões. Não é, infelizmente, raro que a 
dimensão da conquista dos modos próprios de ser, de sen-
tir, de pensar e de agir esteja submersa e suplantada pelas 
vias de consumo alienado, nutrindo a neofilia e culminado 
em modos de experimentar um “poder” sobre os elementos 
materiais postos, suplantando também a autonomia do pro-
cesso de construção de identidade própria. 
[...] Agentes influenciadores, por 
exemplo, os meios de comunica-
ção de massa, atribuem status aos 
produtos lançados no mercado, 
substituindo o valor de uso pelo 
valor de posse. Importa recordar 
que o processo de alienação edifica 
nas pessoas um constante vazio 
que precisa ser preenchido. O con-
sumo alienado está entre as medi-
das mais utilizadas para atender 
este fim, consiste na busca in-
saciável pelo novo. [Entretanto], o 
sentido de “novo” não corresponde 
à disposição aos novos e diversos 
modos de compreender e interp-
retar a realidade, mas ao consumo 
das novidades oferecidas pelo mer-
cado, nutrindo a neofilia. De acor-
do com Cotrim (2006), neofilia sig-
nifica o amor pelas novidades do 
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mercado, um amor obsessivo que 
pode ser configurado como uma 
doença cultural que é alimentada 
pelos grandes produtores econômi-
cos. Encontra eco em estratégias 
como as diversas opções de paga-
mento que atraem consumidores 
e consumidoras que, na busca in-
saciável pelo “novo”, conquistam 
sempre dívidas para comprar a 
mercadoria que provavelmente não 
será bem usufruída, pois quando 
novos modelos forem lançados no 
mercado a mercadoria adquirida 
deixa de causar “satisfação” e atri-
bui espaço para outros “sonhos” de 
consumo [que em última instân-
cia comprometem a construção de 
cada “exemplar único de ser huma-
no”]. [...] Mediante o consumo alie-
nado homens e mulheres buscam, 
com a posse de bens, preencher o 
vazio produzido tanto pelo trab-
alha do alienado quanto por outras 
formas de alienação, não sabendo 
[não sabem por devido aos proces-
sos ideológicos de dominação so-
cial] que dessa forma se tornarão 
desconhecedores das reais neces-
sidades humanas e cada vez mais 
suscetíveis aos apelos do mercado 
e à ausência do poder de reflexão, 
crítica e intervenção social. 
(MELO, 2007, p. 36, grifo nosso).
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A figura a seguir favorece reflexões a respeito do con-
sumo e do ser humano, bem como quanto às relações de 
posse e ausências de construções genuínas da identidade. 
De qual modo você percebe a relação entre o consumo alie-
nado, a imagem e os dias atuais? Caso deseje, visite o AVA 
deste componente curricular e socialize seus comentários e 
percepções. 
Fonte: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Anticonsumismo.JPG Acesso em 08 dez 2012.
Tendo conquistado o fundamento básico necessário 
para compreensão sobre o consumo alienado, vamos seguir 
nossos diálogos lançando o olhar sobre as vias de alienação 
que se configuram no lazer.
Você sabia que até mesmo o lazer que é (ou precisaria, 
deveria ser) uma expressão genuína de estar bem e satisfação, 
muitas vezes ocupa o lugar de elemento manipulador capaz 
de alienar? Conforme Cotrim (2006, p. 34), “O processo de 
alienação na sociedade industrial afeta também a utilização 
do tempo livre destinado ao lazer”.
A indústria cultural e de di-
versão vende peças de teatro, 
filmes, livros, shows, jornais e re-
vistas como qualquer outra mer-
cadoria. E o consumidor alienado 
compra seu lazer da mesma ma-
neira como compra seu sabonete. 
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Consome os “filmes da moda” e 
frequentam os “lugares badala-
dos” sem um envolvimento 
autêntico com o que faz. Agindo 
desse modo, muitos se esforçam 
e fingem que estão se divertindo, 
pensam que estão se divertindo, 
querem acreditar que estão se 
divertindo. Na verdade [diz Lob-
senz], “através da máscara da 
alegria se esconde uma crescente 
incapacidade para o verdadeiro 
prazer”. A lógica capitalista afeta 
até mesmo a relação do indivíduo 
com as obras de arte. Reduzidas 
ao nível de mercadorias, estas 
passam a obedecer à lei da oferta 
e da procura. Tornam-se puros 
negócios fabricados pela indústria 
cultural, expressão criada pelos 
filósofos Adorno e Horkheimer. E 
o que era fruto da espontaneidade 
criativa do sujeito se transforma 
em produção padronizada de ob-
jetos de consumo com vistas à ob-
tenção de lucros econômicos. 
(COTRIM, 2006, p. 34)
Querido (a) estudante, à citação de Cotrim associamos 
considerações a respeito das discussões em torno das perspec-
tivas de modernindade/pós-modernidade, com referência às 
reflexões quanto à vida pós-industrial, uma vez que logo mais 
dedicaremos atenção à esfera do trabalho. Compartilhamos 
com você um modo de pensar a respeito do tempo, da contem-
plação do belo, da busca por conhecimentos genuínos. 
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Muitas vezes, a ausência de “um envolvimento autên-
tico com o que faz” (COTRIM, 2006, p. 34) encontra suas ori-
gens no aceleramento sobre o qual a sociedade industrial 
impôs, por assim dizer, à dimensão do tempo. É inspiradora 
a afirmação de De Masi (2006, p. 237) “o mundo clássico grego 
entendeu aquilo que queríamos ignorar: que ‘duas coisas são 
irredutíveis a todo o racionalismo - o tempo e a beleza’, como 
diria Simonjee Weil”.
Ainda com toda a dedicação à racionalidade, o pensa-
mento grego clássico preservou as relações ante o belo, o sen-
tido de busca pelos saberes e a não aceleração do tempo, de 
modo que, com toda a racionalidade, as subjetividades estive-
ram também no cenário sem que fossem esquecidas em nome 
de fins outros que hoje se revelam, por exemplo, no acúmulo 
do capital, como a metáfora já explicitada dos camundongos 
que correm cada vez mais depressa, depressa demais. 
Desse modo, a esfera do aproximado tende a ser dimi-
nuída em nome da precisão própria às relações pautadas em 
racionalidades excessivas, movimento que reside na contra- 
mão do movimento complexo e integrador sobre o qual você 
já estudou nestes nossos diálogos. Conforme De Masi (2006, 
p. 237), “o universo da precisão é algo diferente, não supe-
rior ao mundo do mais ou menos, do aproximado. Sabemos 
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medir, mas não sabemos amar e viver, refletir e dialogar 
melhor do que faziam os gregos”.
Importa considerar que a percepção aproximativa 
proposta por De Masi (2006) não corresponde à perspec-
tiva aproximativa da sociedade rural. Seria tanto extremada 
quanto a precisão da sociedade industrial. Em linhas gerais 
e, seguindo o tom de apresentação dessas reflexões aqui asso-
ciadas aos processos de alienação, a ausência do autêntico 
envolvimento4, a perspectiva de De Masi (2006) é de aten-
ção ao, por assim dizer, lugar de cada coisa e do ser. O lugar 
da máquina, enquanto máquina, enquanto coisa. O lugar do 
humano, enquanto humano, enquanto ser. 
Durante milênios, até o fim do 
Século XVIII, a humanidade vi-
veu sob o signo do mais ou me-
nos, do misterioso, do mágico, 
inerme face às pestilências, aos 
raios, às invasões. A esfera emo-
tiva nos ajudou a sobreviver em 
tanta miséria, mas preenchendo 
os vazios deixados pela esfera 
racional. Depois o Iluminismo e 
a industrialização conquistaram à 
razão um trono do qual ela reinou 
primeiro com otimismo e sabedoria, 
depois e aos poucos com pessimis-
mo e tirania - a tirania da precisão 
do “tudo programado”, do “tudo 
sob controle”. O homem não é 
uma máquina predisposta pela 
natureza para ser veloz, repeti-
4. Querido(a) estudante, lembramos a você que a ausência do autêntico envolvimento, assim como a 
redução das relações e percepções até mesmo no âmbito da arte às mercadorias aqui está associada 
à citação de Cotrim, alguns parágrafos anteriores, vale a pena retornar e dar mais uma conferida.
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tiva e precisa. Isto é, não é uma 
máquina. Pelas suas exigências 
de velocidade, repetitividade e 
precisão, ele criou aparelhos de 
grande alcance, mais eficazes do 
que ele mesmo. Para si deixou 
intacto o monopólio da criativi-
dade, da ambiguidade, da ideia 
vaga, da ironia, do imprevisto, da 
mudança, da descontinuidade, da 
complexidade, do riso, do pranto, 
de tudo aquilo que o torna hu-
mano. 
(DE MASI, 2006, p. 232, grifo 
nosso)
Nessa tirania da precisão apontada por De Masi (2006), 
a relação com o tempo passa a estar pautada no atendimento 
às exigências da esfera produtiva de tal modo que a dedica-
ção às iniciativas contemplativas, criativas, teóricas, próxi-
mas às subjetividades fica comprometida, devido ao estado 
de “obcecados pela falta de tempo”, mas há a perspectiva de 
esperança e de dias melhores. Nesse sentido, por gentileza, 
acompanhe a leitura dos trechos selecionados a seguir.
Trechos Selecionados 
“do universo da precisão à recuperação do aproxi-
mado” por domenico de Masi
O tempo calculado a palmo pelos gregos e por minuto 
pelos florentinos da época dos Médici está hoje dilatado pelos 
funcionários que o medem em segundos e pelos cientistas 
que o medem em nanossegundos. Assim, o mais ou menos 
transformou-se em precisão, a precisão virou ideia fixa e os 
nossos corações estão compreendidos no espaço apertado dos 
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átimos medidos. As estatísticas nos dão um número crescente 
de anos, mas nós estamos obcecados pela falta de tempo. 
[...] O grande relógio da produção planetária procede 
sem pausas, como o relógio de Metropolis, marcando o seu 
estado de avanço com o indicador das cotações da bolsa e 
com as cifras decimais do Produto Interno Bruto. Em pri-
meiro lugar não está o progresso do espírito, mas a declara-
ção de renda e o andamento do PIB. Se o número crescente 
de desocupados desperta alguma preocupaçãoé apenas pela 
sua eventual repercussão no poder aquisitivo das massas 
consumidoras e na tranquilidade dos ricos ameaçada pela 
receada raiva dos pobres. [...]
É preciso começar por uma melhora em nossa vida 
capaz de conjugar estética, ética e filosofia com técnica e eco-
nomia. Essa ecologia do trabalho não é impossível. Uma vez 
delegada a precisão às máquinas, é preciso recuperar muitos 
aspectos do sistema aproximativo, que não será mais aquele 
tosco e primitivo da era rural. Enriquecido pela experiência 
industrial, deverá alargar seus limites de oportunidade, con-
jugando lucidez racional com calor emotivo.
Reapropriamo-nos, portando, do aproximativo: não 
daquele imposto pela ignorância durante os séculos de socie-
dade rural, mas de uma aproximação reinventada em termos 
pós-industriais, nutrida pela relatividade de Einstein, pela 
possibilidade de falsificação de Popper, pela psicanálise de 
Freud, pela literatura de Joyce, pela biologia de Crick e Watson, 
pela matemática de Gödel, pela pintura de Escher. O aproxi-
mado recoloca o sujeito no campo das suas especulações que 
recupera o flexível e o imprevisto, que derruba as barreiras 
entre exterior e interior, entre forma e conteúdo, entre presente 
e futuro. Uma aproximação pós-moderna, capaz de valorizar a 
experiência solidária do terceiro setor, de reduzir o estresse do 
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trabalho, de inaugurar novas formas desestruturadas de orga-
nização e novas formas criativas de ócio.
Fonte: DE MASI, D. O futuro do trabalho: fadiga e ócio na sociedade pós-
-industrial. 9. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006. p. 238-239.
Os processos de alienação, portanto, implicam também 
sobre o modo pelo qual as pessoas estabelecem as relações 
com o tempo, como que estivéssemos ainda na concepção 
moderna de trabalho que estabelece a noção de tempo útil. 
Tanto nas formas consumo e de lazer, quanto no mundo do 
trabalho, a alienação marca a sua presença e torna-se capaz de 
despir as pessoas de sua humanidade, uma vez que as espe-
cificidades propriamente humanas ficam submersas, perdi-
das na dita falta de tempo, ou melhor, novamente utilizando 
a expressão de De Masi, o ser humano torna-se obcecado pela 
falta de tempo. O ambiente Grego Antigo, agora quanto à nar-
rativa mítica em torno de Cronos, talvez, sequer pudesse ima-
ginar o quanto permaneceria (e permanece) atual, mesmo em 
nosso século, toda essa trama em torno do poder, a violência 
própria a Cronos e sua literal iniciativa devoradora.
A “ecologia do trabalho” proposta por De Masi mos-
tra-se como possível via de problematização dessas relações 
para que não sejam aceitas. Mas como superar essas obces-
sões? Seria esse um caminho de conquista de espaço para as 
“formas criativas de ócio”? Mais alguns itens para nossa lista 
de inquietações e perguntas. Aqui seguimos em prol dos fun-
damentos. Vamos adiante.
Poucas vezes refletimos sobre o significado de palavras 
que parecem já óbvias em nosso cotidiano. Algumas dentre 
elas podem guardar seus significados próximos aos já asso-
ciados a elas, outras palavras, entretanto, podem soar como 
uma verdadeira caixa de surpresas. É este segundo caso o 
que ocorre com o termo trabalho, uma vez que a origem 
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etimológica aponta para sentidos distintos do trabalho na 
qualidade de realização, transformação da natureza e huma-
nização. Vejamos cada questão por vez.
Conforme Sandroni (2006, p. 849), o trabalho cor-
responde a “toda atividade humana voltada para a trans-
formação da natureza com o objetivo de satisfazer uma 
necessidade”. Ribeiro (2003, p. 195) afirma: “denominamos 
trabalho à ação transformadora (material ou intelectual) do 
homem, realizada na natureza e na sociedade em que vive”. 
Nas duas citações, a significação de trabalho está asso-
ciada à atividade transformadora. O trabalho corresponde 
às ações capazes de modificar o estado das coisas, transfor-
mando-as, atendendo a dadas finalidades. Não apenas as coi-
sas são transformadas. O trabalho está também relacionado à 
produção da cultura e ao processo próprio de humanização.
Além de transformar a natureza, 
humanizando-a, [...] o trabalho 
transforma o próprio homem. [...] 
Pelo trabalho o homem se auto-
produz: desenvolve habilidades e 
imaginação; aprende a conhecer 
as forças da natureza e a desafiá-
las; conhece as próprias forças e 
limitações, relaciona-se com os 
companheiros e vive os afetos de 
toda relação; impõe-se uma disci-
plina. O homem não permanece 
o mesmo, pois o trabalho altera a 
visão que ele tem do mundo e de 
si mesmo. 
(ARANHA; MARTINS, 1996, 
p. 98, grifo nosso)
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Quanto ao termo. Qual o significado próprio à palavra 
“trabalho” mediante origem etimológica?
Conforme Aranha (2006, p. 76): “Analisando a etimologia da 
palavra trabalho, descobrimos na origem o vocábulo latino tri-
paliare, do substantivo tripalium, que designava um aparelho de 
tortura formado por três paus ao qual eram atados os condena-
dos e que também servia para manter presos os animais difíceis 
de ferrar. Assim, vemos na própria etimologia da palavra a asso-
ciação do trabalho com tortura, sofrimento, pena, labuta.” 
 
Percebemos um contracenso. O trabalho corresponde à 
transformação, autoprodução, “realização”? Ou, corresponde 
à tortura, punição, sacrifício? Depende das circunstâncias e 
condições na qual o trabalho seja realizado. 
Ao longo da nossa trajetória, na qualidade de humani-
dade, o ato de trabalhar apresentou tanto a esfera da autopro-
dução quanto da punição. Na Antiguidade Grega, tivemos 
érgon e ponos, assim significados:
Na Antiguidade Grega o trabalho, 
na condição de “ponos”, era uma 
atividade própria ao escravo, não 
devendo o cidadão realizá-lo. O 
trabalho manual era compreen-
dido como atividade inferior. 
Aqueles que faziam parte da ci-
dadania e, portanto, das reflexões 
capazes de decidir o destino da 
polis (cidade estado) deveriam 
ter tempo livre para pensar, para 
criar (érgon), cabendo aos escra-
vos o tipo de atividade inferior. 
Há, portanto, uma distinção so-
cial entre os sentidos do trabalho 
na qualidade de “érgon” e “po-
nos”, sendo este desprezado. Por 
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exemplo, para Aristóteles a ação 
pode ser configurada como livre 
e como ação fabricante de artefa-
tos, mediante à técnica. Ação 
livre, para Aristóteles, é a ativi-
dade digna aos homens; já a ação 
fabricante é aquela destinada aos 
escravos. 
(MELO, 2007, p. 25)
No período medieval, o trabalho correspondeu ao 
sacrifício do corpo, disciplinando-o para purificação e salva-
ção da mente e da alma. A preguiça condenada por ser um 
pecado, não favorecia a salvação. Nesse contexto do medievo, 
conforme Ribeiro (2003, p. 198), a ociosidade entre senhores, 
nobreza e clero “não era sinônimo de preguiça, mas de abs-
tenção às atividades manuais para se dedicar a funções mais 
nobres, como a política, a guerra, a caça, o sacerdócio, enfim 
ao exercício do poder”. 
Tanto na Antiguidade quanto na Idade Média tivemos 
o trabalho relacionado às vias de exploração e sofrimento para 
muitos e, para alguns (poucos), às vias de emancipação e cria-
ção. Na Idade Moderna, diferentedo que ocorria no medievo, 
a pessoa que desempenhava o ato de trabalhar não possuía 
mais as ferramentas para o trabalho. Portanto, a propriedade 
sobre os meios de produção pertenciam a outros e não àque-
les que vendiam a sua força de trabalho sendo “livres”, cul-
minando no sentido burguês atribuído tanto ao trabalho livre 
quanto à própria liberdade.
Frente a essa questão da liberdade, Ribeiro (2003, p. 
198) elucida: “Essa é por excelência a concepção burguesa da 
liberdade individual do homem: ele é livre para usar a força 
de seu corpo como uma máquina natural e para escolher 
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de modo soberano o que deseja para si mesmo”. Entretanto, 
sob quais condições ocorriam essas escolhas e de que modo 
poderiam ser realizadas ou não?
[...] A busca da produção de ex-
cedentes para a troca no mer-
cado, mediante à introdução de 
novas técnicas de produção e de 
organização do trabalho, fazia 
desaparecer a propalada livre 
escolha. Afinal, como seria pos-
sível o trabalhador sobreviver em 
uma economia de mercado, senão 
submetendo-se às imposições de 
quem detinha os recursos que o 
sistema exigia? Assim, o artesão, 
que na manufatura medieval 
detinha as ferramentas e uma 
autonomia no uso de seu tempo, 
desapareceu submetendo-se ao 
império do capital. Ocorreu, por-
tanto, a separação entre o trabalha-
dor e a propriedade dos meios de 
produção (capital, ferramentas, 
máquinas, matérias-primas, ter-
ras). Desse modo, podemos afir-
mar que a essência do sistema 
capitalista encontra-se na sepa-
ração entre o capital e o trabalho. 
Essa separação criou dois tipos 
de homens livres: o trabalhador 
livre assalariado, que vivia ex-
clusivamente de seu trabalho, 
ou seja, da venda de sua força de 
trabalho, e o burguês, ou capi-
talista, proprietário dos meios de 
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produção. A novidade em relação 
aos modelos anteriores de socie-
dade é que, a conceder a liberdade 
para todos os indivíduos, a socie-
dade estabeleceu uma espécie de 
contrato social, em que ficavam 
definidos os direitos e deveres de 
cada parte. Instituía-se nesse mo-
mento a divisão da sociedade em 
classes sociais. [...] O período da 
Revolução Industrial, nos séculos 
XVIII e XIX, foi o momento em 
que essa separação se consolidou. 
(RIBEIRO, 2003, p. 198-199)
Mediante à concepção da referida espécie de contrato 
social, bem como as concepções de liberdade e (já que havia 
os direitos e deveres) e igualdade, surge a concepção de rea-
lização (não mais punição, nem servidão) associada ao ato de 
trabalhar. (RIBEIRO, 2003).
Importa, contudo, recordar a questão da incompletude 
humana, assim como da existência e conquista/construção do 
próprio ser em movimento constante, incessante; de tal modo 
que não há uma realização plena do indivíduo, o humano 
está sempre em busca de, sempre em construção, em autoela-
boração, está a caminho e no caminho de si mesmo e das rela-
ções que tece e pelas quais é também tecido, conforme você já 
estudou, nessa teia complexa que constitui a vida. 
Portanto, a realização plena pelo trabalho não encon-
tra, necessariamente, um lugar, tanto porque não há uma 
realização humana plena, absoluta, total (o humano corres-
ponde ao vir-a-ser, ao projeto que faz de si), quanto porque no 
mundo do trabalho, assim como nas expressões de consumo 
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e de lazer, as vias de alienação se tornam ainda mais latentes. 
Significa, então, que o encontro entre trabalho e rea-
lização é nulo? Não necessariamente. A perspectiva de que 
não há uma realização plena, absoluta, não nega a possibi-
lidade de realizações tanto individuais quanto sociais; pois, 
na busca pela construção de si mesmo e de sua realidade 
social, bem como no caminho e a caminho da felicidade, o ser 
humano encontra momentos de realização, realiza-se e per-
manece projetando-se.
Na Idade Moderna, sobretudo com a Revolução 
Industrial, as formas de produção pautadas tanto no fordismo 
quanto no taylorismo corresponderam à produção em série, 
de modo que trabalhadores produzissem cada vez mais em 
tempo cada vez menor. A noção de tempo útil faz-se presente 
na condição do tempo da produção. O trabalhador socialmente 
engajado, neste contexto, representava, portanto, uma ameaça 
e medidas cada vez mais pautadas em processos de alienação 
buscavam manter a ordem, a obediência. O trabalho repetitivo 
e fragmentado nas fábricas e indústrias cedeu lugar à reifica-
ção do humano, ou seja, a “transformação” do ser humano em 
coisa, a coisificação do trabalhador, como que este, no lugar de 
pessoa, fosse uma extensão da máquina.
Considerando que as pessoas são dotadas da habili-
dade racional, que podem discernir, pensar, escolher. Como 
são justificadas tantas vias de efetiva alienação? Considerando 
ainda que os grupos que dominam (seja na esfera do traba-
lho ou nas demais relações de poder) são constituídos por 
uma parcela menor da sociedade, como continuam a manter 
as vias de exploração e alienação? Mais itens para nossa lista 
e chegamos ao momento de, uma vez tendo conquistado os 
fundamentos básicos para começarmos a tecer possibilidades 
de respostas que, por questões óbvias, não esgotam inquieta-
ções desse teor.
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Querido estudante, em conjunto com essas reflexões, 
vamos recordar outras perguntas que constam no final da 
unidade anterior. Você lembra? Vamos refrescar a memó-
ria: Considerando que constituímos a mesma, complexa e 
integrada realidade, como então é possível a exploração de 
uma pessoa ou grupo por outra pessoa ou grupo? Sabendo 
que construímos nosso ser de modo também relacional, em 
ambientes multiculturais, tendo ainda o olhar lançado sobre a 
condição humana de autoconquista e construção, com atenção 
aos processos de hominização, singularização e socialização, 
bem como as relações do sujeito com o mundo, com ele mesmo 
e com tempo. Como podem ocorrer as vias de alienação que 
chegam, infelizmente, a provocar a reificação do humano?
As explorações, dominações, alienações, em esferas 
diversas da vida, são geralmente mantidas pelos processos 
ideológicos de dominação social que fazem com que todas 
essas circunstâncias e situações ocorram sem que, ao menos, 
as pessoas possam percebê-las. Uma vez não percebendo, 
qual necessidade haveria de buscar superá-las?
Para melhor compreensão, vamos seguir com os signi-
ficados de Ideologia. 
O termo ideologia foi difundido 
pelo filósofo, militar e político 
Destutt de Tracy (1754–1836), 
à época da Revolução Francesa, 
para significar a ciência dedicada 
ao estudo das ideias, sua origem e 
desenvolvimento. Compreendida 
em sentido amplo, a palavra ideo-
logia significa um conjunto ou 
sistema de ideias, logicamente or-
denado e/ou o conjunto de ideias 
peculiar a determinados segmen-
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tos da sociedade. Tomando Karl 
Marx por referência podemos 
compreender a palavra ideologia 
em sentido mais específico. Marx 
significa “ideologia” como um 
sistema de pensamento também 
logicamente ordenado que, longe 
de ser neutro, está imbuído de 
instrumentos, iniciativas e dis-
cursos destinados à manutenção 
de uma classe sobre outra, bem 
como dos processosde exploração 
e alienação. 
(MELO, 2007, p. 38)
Por gentileza, observe que a palavra Ideologia consta de 
sentido amplo e sentido específico, constam também outros 
modos de lançar o olhar sobre a Ideologia. Aqui nosso propó-
sito corresponde ao sentido específico que é atribuído à pala-
vra a partir das contribuições do pensamento de Karl Marx. 
Esse sentido específico ou restrito é adotado hoje (inclu-
sive por pensadores não marxistas) no âmbito da Política, da 
Filosofia, da Economia, da História, da Educação e em outras 
áreas do saber. É o sentido próximo aos ocultamentos da rea-
lidade, às formas de mostrar mentiras como que elas fossem 
verdades, à manutenção de lacunas onde deveriam constar as 
devidas medidas explicativas e buscas de saberes, às ações e 
intencionalidades manipuladoras que acabam por conduzir 
as pessoas às atitudes e, quiçá, intenções, por sua vez, mani-
puladas, infelizmente, sem que percebam (esse é um dos pila-
res da ideologia) esse fenômeno social.
No mundo do trabalho, especialmente no contexto 
moderno, a ideologia mascara as desigualdades sociais, de tal 
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modo que, se elas “não existem”, se “não há” exploração nem 
alienação, se os operários desempenham suas funções “sem” 
que ocorra o descompasso entre o real valor de sua força de 
trabalho e a remuneração atribuída, então todos estão “feli-
zes” e podem seguir com a “manutenção” da “paz”.
Entretanto, a contemporaneidade oferece espaço (na 
realidade, espaço não oferecido, mas historicamente conquis-
tado/em conquista) para profissionais socialmente engaja-
dos, reflexivos, críticos, transformadores, criativos. Também, 
entretanto, vivemos ainda (em grande proporção) os ran-
ços das relações de reificação e subordinação do humano. E, 
sobre a paz, importa lembrar composição do Rappa “paz sem 
voz, não é paz, é medo!”. 
Para combinar com a menção à música do Rappa, uti-
lizamos aqui a expressão de Ribeiro (2003, p. 203): “na razão 
do mercado, o medo”. Mas o medo, nesta expressão, não está 
apenas para os menos favorecidos e explorados pelas relações 
de trabalho que se configuraram na modernidade. O medo 
está para todos, devido à ameaça de revoluções, quando as 
contradições ficam mais evidentes, assim como as condições 
de pobreza e miséria... 
A máxima produtividade [...] 
transformava a sociedade do tra-
balho em sociedade da barbárie, 
marcada pela luta entre o capital 
e o trabalho. A utopia do cresci-
mento infinito, sem contradições, 
parecia haver atingido seu limite. 
Diante das tensões surgidas, as 
elites sustentavam a necessidade 
de fazer algo além da repressão e 
da caridade, para evitar um de-
sastre social maior. [...] O próprio 
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Engels [que compartilhava e atu-
ava junto às propostas e pensa-
mentos de Marx], escrevendo em 
1892, reconhecia algumas melho-
rias nas condições dos trabalha-
dores de Londres, provenientes 
das ameaças engendradas pela 
pobreza: “As repetidas epidemias 
de cólera, tifo, varíola e outras 
enfermidades indicaram ao bur-
guês britânico a necessidade ur-
gente de proceder ao saneamento 
de suas cidades, a fim de que 
ele e sua família não se tornas-
sem também vítimas dessas epi-
demias”. 
(RIBEIRO, 2003, p. 203-204)
Por um lado, o medo da “paz sem voz [que] não é paz”, 
o medo provocado pelos processos de alienação e ideologia 
que buscam manter as submissões; por outro, o medo de ver 
abalada a permanência dos privilégios e, até mesmo, da vinda, 
frente aos riscos quanto às condições de saúde. O primeiro 
lado do medo aqui mencionado encontrou suas revoluções e 
ganhou um pouco de voz; mas, o segundo lado... Este, no lugar 
de voz, conquistou (conquista) grito e manteve (mantém), de 
modos diversos, guardadas as proporções com o contexto con-
temporâneo, garantir os privilégios e impor as submissões, 
mantendo, dessa forma, o modelo de estrutura social atual. 
É inegável que tanto o taylorismo, quanto o fordismo, 
assim como a máxima produtividade, apresentaram suas 
contribuições para os processos de industrialização e modos 
de pensar a Administração, a Economia, as relações de 
poder, produção etc. Inegável. Contudo e, sobretudo, importa 
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o cuidado frente ao humano (não reificando-o), dedicando 
atenção às implicações diversas da “tirania da precisão”, dos 
recursos ideológicos de dominação social, dos processos de 
alienação. Importa o cuidado à construção do ser humano 
em suas relações de hominização, singularização e sociali-
zação, em suas relações com o tempo, com ele próprio e com 
o mundo, este compreendido em suas relações complexas. 
Podemos caminhar junto a esse cuidado com a “ecologia do 
trabalho”, com perspectivas toyotistas de flexibilização da 
produção, com outros modos que sejam, mas só estaremos 
nesse caminho se não formos nem como os “operários bovi-
nos” nem como aqueles que buscam manter essa prática.
Sobre “operários bovinos” ou “homem-boi”
“Para executar [...] tarefas pouco 
complexas, Taylor idealizava o 
operário do tipo bovino: o ‘homem-
boi’, imbecil, forte e dócil. Desse 
modo, eliminava-se aquele trab-
alhador politizado e resistente ao 
controle. O método, ao pretender 
‘punir os indolentes’ e ‘premiar os 
produtivos’, ocultava o interesse 
na domesticação do trabalhador-
cidadão”. 
(RIBEIRO, 2003, p. 205)
Cabe, portanto, e dentre outras iniciativas, compre-
ender os fundamentos necessários para superar os proces-
sos ideológicos de dominação que se apresentam nas mais 
variadas instâncias da vida. Nesse sentido, voltemos à pers-
pectiva conceitual de ideologia, seguindo com suas funções e 
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características e, estando atentas e atentos a ela, estaremos (já 
estamos, embora não absolutamente) em melhores vias desse 
caminho que não aquelas da alienação.
“A ideologia é um fenômeno com-
plexo que privilegia a aparência 
das coisas. Ela encobre ou dificul-
ta o conhecimento da realidade so-
cial, não nos deixando vê-la como 
é. [...] é um fenômeno social cheio 
de sutilezas. Mais que ideias que 
se impõem, a ideologia tem uma 
dimensão prática, pois ideias im-
pulsionam os homens à ação e a 
própria ação altera as ideias que 
não têm autossustentação. Esse é 
um processo histórico, recíproco, 
que ocorre ao nos associarmos 
para garantir a reprodução da 
vida biológica e cultural.” 
(ARAÚJO, 2003, p. 145 e 149)
As funções da ideologia giram, portanto, em torno da mani-
pulação e dominação social. Algumas dentre essas funções são:
• Assegurar as relações dos seres humanos entre si e 
com suas condições de existência, adaptando os indiví-
duos às tarefas prefixadas pela sociedade;
• Camuflar as diferenças de classe e os conflitos 
sociais;
• Assegurar a coesão entre as pessoas;
• Promover a aceitação sem críticas das tarefas mais 
penosas e pouco recompensadas, em nome da “von-
tade Deus” ou do “dever moral” ou simplesmente 
como decorrente da “ordem natural das coisas”;
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• Manter a dominação de uma classe sobre a outra. 
(ARANHA; MARTINS, 1996, p. 37)
Para atender a essas funções e sustentar as vias de 
dominação social, realizando-as e promovendo ocultações 
da realidade, a ideologia apresenta um conjunto que com-
preende diversas características: generalização do particular, 
prescrição de normas, abstração, fetichização da mercadoria, 
lacuna ou discurso lacunar, inversão da realidade, explica-
ção da realidade, alienação, naturalização, homogeneização, 
ocultação, representação social, universalização. Veja a seguir 
a descrição, conforme Araújo (2003) e Aranha (2006), de cada 
uma dessas características.
• Generalização do particular: “a ideologia ignora as 
especificidades dos fenômenos sociais. Trata de forma 
generalizada as diferentes realidades da família, da 
pátria, da educação, do trabalho, ocultando as condi-
ções sociais desiguais de realização dos objetivos a que 
os homens se propõe”. (ARAÚJO, 2003, p. 164)
• Prescrição de normas: “a ideologia prescreve nor-
mas para a conduta humana e, por isso, tende a manter 
a ordem social”. (ARAÚJO, 2003, p. 164)
• Abstração: “na medida em que não se refere ao 
concreto, mas ao aparecer social. A ‘ideia de trabalho’ 
aparece desvirtuada da análise histórica concreta das 
condições nas quais certos tipos de trabalho brutali-
zam, em vez de enobrecer; por exemplo, o operário na 
linha de montagem”. (ARANHA, 2006, p. 81)
• Fetichização da mercadoria: “a mercadoria feitichi-
zada exerce domínio sobre o produtor e fascínio sobre o 
consumidor, como se tivesse vida própria. [...] A ideolo-
gia vale-se desse processo e transforma as relações entre 
homens em relações entre coisas”. (ARAÚJO, 2003, p. 165)
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• Lacuna ou discurso lacunar: “há ‘vazios’, ‘partes silen-
ciadas’ que não podem ser ditas, sob pena de desmascarar 
a ideologia; por exemplo, ao se afirmar que o salário paga 
o trabalho, oculta-se o fato de que o valor produzido pela 
força de trabalho é maior do que o recebido e que a dife-
rença é apropriada pelo capitalista (é o que Marx denomi-
nava mais-valia)”. (ARANHA, 2006, p. 82)
• Inversão da realidade: “a ideologia detém-se nos 
efeitos dos fenômenos, encobrindo suas causas. Não 
é raro, por exemplo, as reivindicações populares por 
melhores condições de vida e de trabalho serem rotu-
ladas como um problema de ‘falta de cultura’, ou a 
fome de parcela significativa da população brasileira 
ser explicada pela falta do hábito de plantar do nosso 
povo”. (ARAÚJO, 2003, p. 164)
• Explicação da realidade: “a ideologia explica o que 
acontece, a partir do ponto de vista dos que domi-
nam. Tende a justificar posições sociais privilegiadas 
e impede, muitas vezes, que autoridades políticas, eco-
nômicas, religiosas, científicas sejam questionadas. 
Nesse sentido, prevalece a opinião do deputado, do 
ministro, do religioso, do pesquisador, do intelectual, 
como porta-vozes da verdade. É o argumento de auto-
ridade”. (ARAÚJO, 2003, p. 164)
• Alienação (na qualidade de característica da ide-
ologia): “a ideologia produz um afastamento do pro-
dutor em relação a seu produto, impedindo-o de achar 
significado em seu trabalho. A alienação projeta-se 
também, em outras dimensões da vida, instalando o 
conformismo e a indiferença diante de determinadas 
situações sociais”. (ARAÚJO, 2003, p. 164)
• Naturalização: “a ideologia naturaliza as ações 
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humanas, como a discriminação contra índios, por 
exemplo, para que aceitemos as desigualdades sociais 
e justifiquemos o fato de “sempre” ter existido vio-
lência contra eles. Aponta a verdade como inscrita na 
ordem das coisas, considerando uma ordem natural de 
acontecimentos em detrimento do processo histórico”. 
(ARAÚJO, 2003, p. 165)
• Homogeneização: “a ideologia homogeneíza a apa-
rência das classes sociais originalmente dividida em 
razão do antagonismo de interesses no processo de 
produção e de repartição dos bens. A ideologia apre-
senta-nos uma realidade sem conflitos e sem contradi-
ções”. (ARAÚJO, 2003, p. 165)
• Ocultação: “a ideologia prima por ocultar o verda-
deiro conhecimento da realidade. Dada a inter-relação 
de suas características, a ideologia tende a esconder 
as intenções predominantes nas ações, mascarando 
a existência de contradições na convivência social. 
Assim, ela é parcial, deixa opaca a realidade e auxi-
lia a dominação. A ideologia escamoteia a essência 
dos fenômenos, deixando ver apenas sua aparência”. 
(ARAÚJO, 2003, p. 165)
• Representação social: “a ideologia tem a capaci-
dade de representar a realidade, criando imagens e 
conceitos que dão significado às relações sociais obje-
tivas. Ela trabalha com símbolos e criações mentais. 
Um exemplo é a concepção de pátria-mãe, que conota 
proteção e amparo a todos os cidadãos, como se não 
existissem diferenças de tratamento e assistência aos 
problemas sociais”. (ARAÚJO, 2003, p. 164)
• Universalização: “as ideias e os valores do grupo 
dominante são estendidos a todos; por exemplo, 
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apesar dos interesses divergentes, o empregado adota 
os valores do patrão como se fossem também os seus”. 
(ARANHA, 2006, p. 82)
Reunindo a compreensão dos saberes aqui elucida-
dos à ação que almeja emancipação, autonomia, engajamento 
crítico e social, bem como às posturas filosóficas e éticas, 
podemos conquistar acessos à superação das alienações e 
dominações e colocamo-nos dispostas e dispostos à apren-
dizagem constante que constrói nosso ser de modo também 
relacional, criamos caminhos, trilhamos caminhos, compar-
tilhamos caminhos e neles o nosso modo peculiar, genuíno, 
humano de tecer e ser tecido junto aos ambientes que passa-
mos e ao ser que escolhemos elaborar em nós. 
Desejamos a você a disponibilidade constante às (re)
descobertas e agradecemos por sua parceria e companhia ao 
longo dos diálogos que constituímos. Sabendo que mais que 
leitores, mais que autores, mais que graduandas e graduan-
dos, mais que pessoas dedicadas à Filosofia, habitamos todos 
sobre esse espaço maior que é a nossa “casa”, sem promover 
as desigualdades, cultivamos as diferenças “simplesmente” 
porque compreendemos tanto a beleza quanto a responsabili-
dade peculiares ao movimento de construção de quem somos 
e construção de como escolhemos a humanidade, seguindo 
em prol de dias melhores, de modo não ingênuo porque crí-
tico, reflexivo, socialmente engajado. Mas de modo nutrido e 
movido pela esperança.
Abraços afetuosos e fraternos! 
Sín t eSe
 Trabalho, ideologia, alienação, tempo útil, tempo 
ocioso, produção, transformação, ética, moral etc. Ao longo 
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de nossas unidades, essas e outras tantas temáticas foram evi-
denciadas e postas à luz da reflexão filosófica com um único 
intuito, um único objetivo, nos tornarmos seres humanos, 
verdadeiramente humanos, sujeitos participantes, críticos e 
reflexivos, frente aos desafios postos no próprio existir, que 
consigamos todos reconhecer as diferenças e assim pautar-
mos nossas ações em um sentido de promoção da qualidade 
de vida. Não se trata de uma tentativade velamento das 
dificuldades, mas, muito ao contrário, é urgente que tomemos 
consciência para realizarmos uma revolução comportamen-
tal, harmonizar e não homogeneizar, preservar e não suplan-
tar. 
qu eStõeS pa r a r eflex ão
1. Em que consiste o processo de alienação e quais relações 
estabelece com ideologia e o mundo do trabalho? 
2. Escolha um dentre os itens a seguir e elabore sobre ele um 
comentário explicativo, relacionando-o com a sociedade atual.
• Reificação
• Tirania da precisão
• Ocultação da realidade
lei t u r aS i n dica daS
DE MASI, D. O Ócio Criativo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
DE MASI, D.; FREI BETTO. Diálogos criativos. Mediação e co-
mentários: José Ernesto Bologna. Rio de Janeiro: Sextante, 2008.
SANTOS, B. S. Introdução a uma Ciência Pós-Moderna. 5. 
212
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ed. Rio de Janeiro: Graal, 2010, 176 p.
______. Pela Mão de Alice: o social e o político na pós-modern-
idade. 11. ed. São Paulo: Cortez, 2006, 348 p.
Si t eS i n dica doS
http://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/marx---alien-
acao-do-espirito-absoluto-de-hegel-a-realidade-concreta.htm
http://www.senac.br/BTS/321/bts32_1-artigo1.pdf
http://www.educacional.com.br/entrevistas/entrevista0019.asp
http://www.usp.br/fau/docentes/depprojeto/c_deak/
CD/4verb/ideolog/index.html
r ef er ênci aS
ARAÚJO, S. M. As várias faces da ideologia. In:______ et al. 
Para Filosofar. 4. ed. São Paulo: Scipione, 2003, p.p 145-172.
ARANHA, M. L. A. Alienação e Ideologia. In: ______. Filoso-
fia da Educação. São Paulo: Moderna, 2006, p. 75-88.
ARANHA, M. L. A.; MARTINS, M. H. P. Filosofando: in-
trodução à Filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1996.
COTRIM, G. Fundamentos da Filosofia: história e grandes 
temas. 16. ed. São Paulo: Saraiva, 2006.
DE MASI, D. O futuro do trabalho: fadiga e ócio na socie-
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213
dade pós-industrial. 9. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.
MAIA, I. Mudanças. In: JANSEN, C. et al. Bahia: Poetas do 
Recôncavo. Salvador: Know How Editora, 2003.
MARCONI, M. A.; PRESOTTO, Z.M. N. Antropologia: uma 
introdução. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2010.
MELO, N. M. Trabalho e Pessoa Enquanto Existência Relacio-
nal/Potencial. In: ARAÚJO, A.; MELO, N. M. ; RIBEIRO, V. P. 
Filosofia, Ética e o Mundo do Trabalho. Salvador: FTCEaD, 
2007.
RIBEIRO, L. C. Trabalho e Realização. In: ARAÚJO, S. M. et 
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SANDRONI, P. Dicionário de Economia do Século XXI. 2. 
ed. Rio

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