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Discussões prático-teóricas para uma educação libertadora: concepções e práticas avaliativas que acontecem nas escolas CLAUDIA DE OLIVEIRA FERNANDES – UNIRIO ANDREA TUBBS COSTA - UNIRIO GISELLE PENNA VILLA - UNIRIO CRIZÁN SASSON CORRÊA DE OLIVEIRA- CAP-UERJ/UNIRIO RESUMO O painel apresenta resultados de investigações com a escola em suas tensões e possibilidades, as reflexões docentes, as estratégias, as táticas e astúcias (Certeau, 1996) dos sujeitos que nela circulam, em especial os docentes. O primeiro artigo traz dados de pesquisas, de cunho qualitativo, realizadas em duas escolas do município do Rio de Janeiro que discutem avaliação das aprendizagens a partir dos dez anos de provas bimestrais padronizadas no município. Revelam professoras preocupadas em realizar práticas avaliativas comprometidas com as aprendizagens e que se conflitam no que tange à sua autonomia docente para tal. O segundo texto apresenta pesquisa narrativa, com aportes teóricometodológicos nos estudos do cotidiano. Com as memórias docentes, buscou discutir a possibilidade de uma avaliação outra, uma avaliação com, que rompa com a perspectiva quantitativa e somativa já cristalizada nas práticas. O terceiro trabalho traz pesquisa de campo, com abordagem qualitativa, que pretendeu compreender como as docentes e equipe gestora de uma escola da rede municipal de Niterói/RJ lidavam com a determinação da não reprovação das crianças nos anos iniciais do ensino fundamental. Discute possibilidades da avaliação experienciada como projeto de aprendizagem. Os tres artigos convergem na perspectiva da avaliação como prática libertadora (Freire), comprometida com as aprendizagens dos sujeitos e apontam possibilidades de mudanças a partir de experiências avaliativas que ocorrem nas escolas. Palavras-chave: avaliação das aprendizagens, práticas cotidianas, compromisso educacional. CONCEPÇÕES DE AUTONOMIA DOCENTE FRENTE ÀS PROVAS BIMESTRAIS PADRONIZADAS DA REDE MUNICIPAL DE ENSINO DO RIO DE JANEIRO1 ANDREA TUBBS COSTA - UNIRIO GISELLE PENNA VILLA - UNIRIO CLAUDIA DE OLIVEIRA FERNANDES – UNIRIO (Orientadora) RESUMO O artigo apresenta parte dos resultados de duas pesquisas de cunho qualitativo que discutem avaliação das aprendizagens a partir dos dez anos de provas bimestrais padronizadas no município do Rio de Janeiro. Os procedimentos metodológicos incluem análise documental dos decretos e resoluções que regulamentam essas provas e entrevistas semiestruturadas com professoras do primeiro segmento do ensino fundamental. Neste texto, tem-se o objetivo de identificar as concepções de autonomia docente das professoras mediante o recebimento de provas prontas vindas da prefeitura para aplicação a seus estudantes. A base teórica que deu suporte à análise das respostas ao roteiro de entrevistas se ancora em Paulo Freire (2013) e José Contreras (2002). Domingos Fernandes (2009), Claudia Fernandes (2010) e Cipriano Luckesi (2011) contribuíram para a discussão teórica no que diz respeito à avaliação escolar, tanto externa quanto das aprendizagens. As pesquisas concluem que as concepções de autonomia docente das professoras são heterogêneas entre si e podem apresentar diferentes significados para uma mesma profissional. Isso revela que suas compreensões acerca do tema são fluídas e podem estar ainda em construção, variando entre a flexibilização do trabalho pedagógico, no sentido de adotar práticas para um bom desempenho nas provas bimestrais, e o foco sobre as aprendizagens, com instrumentos de avaliação não padronizados. Com as provas bimestrais padronizadas completando quinze anos de vigência, indica-se a relevância de estudos que analisem as relações entre a produção de políticas de avaliação escolar e as práticas das professoras, observando questões relacionadas à autonomia docente. Palavras-chave: Avaliação Escolar, Avaliação das Aprendizagens, Autonomia Docente. INTRODUÇÃO Com base em autores dos campos da educação, com foco sobre a autonomia docente, e da avaliação, são trazidos, neste trabalho, alguns dos resultados de investigações concluídas para incrementar o debate sobre autonomia docente mediante políticas de avaliação externa. As discussões relacionadas à avaliação escolar assumiram relevância no cenário educacional nos últimos trinta anos a partir das políticas de avaliação externa, como o Sistema Nacional de 1 O presente artigo é fruto de dois estudos igualmente financiados pela CAPES. Avaliação da Educação Básica (Saeb), o que justifica a necessidade de se prosseguirem os estudos sobre o tema. A política de avaliação escolar da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro exige a aplicação bimestral de provas externas e padronizadas a todos os seus estudantes do ensino fundamental. Em março de 2024, essas provas completaram quinze anos de vigência e, desse período, destaca-se o primeiro semestre de 2019, quando se verificou a substituição dessas provas em dois bimestres do ano letivo por outro instrumento avaliativo, a ser organizado, então, pelas professoras nas escolas. Com o objetivo de identificar as concepções de autonomia docente das professoras diante do recebimento de provas prontas vindas da prefeitura para aplicação a seus estudantes, encaminhamos uma discussão com as seguintes questões de pesquisa: i) como essas provas influenciaram as práticas avaliativas das professoras?; e ii) quais são suas concepções de autonomia no que diz respeito à avaliação das aprendizagens de seus estudantes? Para tanto, os procedimentos metodológicos adotados foram a análise de resoluções e decretos da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME) para a avaliação escolar e entrevistas com professoras do ensino fundamental I. A análise de documentos revelou uma concepção de educação por parte da prefeitura que se baseia na lógica de que aplicar mais provas é sinônimo de melhorar a qualidade da educação. No entendimento da SME, o seu exame externo, centralizado e padronizado, seria não somente capaz de avaliar as aprendizagens dos estudantes, como de fazê-lo melhor e de maneira mais fidedigna do que os instrumentos elaborados pelas professoras nas escolas. As entrevistas demonstraram que a autonomia enunciada pelas professoras ainda está em construção e que há pouca resistência coletiva às provas bimestrais padronizadas. Ainda, foi revelada a existência de dúvidas por parte das professoras quanto à atribuição de elaborar provas em dois bimestres do ano letivo, pois houve uma ausência de documentos oficiais que justificassem e orientassem o desenvolvimento das provas. Além disso, foi demonstrado que as professoras conferem mais valor aos instrumentos de avaliação que elaboram no cotidiano da escola do que às provas bimestrais padronizadas da SME. As reflexões aqui realizadas são parte da análise dos dados produzidos durante duas pesquisas e trazem uma discussão conceitual sobre autonomia docente com base em obras de Paulo Freire (2013) e José Contreras (2002). A partir disso, são observados conceitos de avaliação escolar, quais sejam, avaliação externa e avaliação das aprendizagens, tendo por referência Domingos Fernandes (2009), Claudia Fernandes (2010) e Cipriano Luckesi (2011). As últimas considerações estabelecidas para este artigo apontam para a importância de que se continuem os estudos sobre as relações entre as políticas de avaliação externa e a prática das professoras nas escolas, com foco sobre como a autonomia docente se constrói mediante o recebimento de provas prontas e padronizadas para aplicação em toda uma rede de ensino. METODOLOGIA A análise de documentos da prefeitura municipal do Rio de Janeiro para a avaliação escolar incluiu o Decreto nº 30.340, de 1º de janeiro de 2009, a Resolução n° 1.010,professoras para com as aprendizagens, motivação importante para a construção das estratégias, levava o grupo a buscar uma maior coerência em sua prática cotidiana. Em entrevista com a diretora, falávamos sobre a aceitação ou não, por parte das professoras da impossibilidade de reprovação. A diretora disse que o fato de ter sido imposto, gerou muita resistência, e que não houve uma total compreensão do sentido da avaliação continuada, mas que de certa forma, isso tá fazendo com que as pessoas até comecem a se questionar e até querer fazer alguma coisa, porque você vê: o aluno, ele não é reprovado, ele não pode ficar retido. As professoras estão começando a ficar preocupadas com o aluno que vai para o ano seguinte. Então, aqui na Escola, nós começamos com um projeto de recuperação para tentar trabalhar as dificuldades dos alunos. Projeto chamado Projeto AGIR, justamente para trabalhar estas dificuldades com os alunos. O Projeto Agir consistiu em distribuir/misturar crianças com aprendizagens ainda por serem realizadas, após o horário do recreio, por suas necessidades diferenciadas. Cada professora ficava responsável por um grupo de alunos, independente de seu ano de escolaridade. As professoras também se distribuíam de acordo com suas maiores facilidades. Quem alfabetizava bem, ficava com o grupo de crianças que ainda precisavam trabalhar mais a alfabetização. Quem trabalhava melhor a matemática, com as crianças que precsiavam investir mais nos conteúdos matemáticos. Essas classificações foram feitas pelas próprias professoras que se organizaram, dividiram as turmas, sem maiores problemas. E assim, o trabalho seguiu, sendo planejado semanalmente10, dicutindo-se estratégias didáticas comuns, almejando que as aprendizagens se realizassem. Estamos, portanto, falando aqui da dupla situação que o sistema de avaliação gerou no cotidiano da escola. Ao mesmo tempo em que as professoras experimentaram um sentimento de resistência à proposta, buscaram estratégias no seu trabalho que pudessem atender às necessidades educativas de seus alunos. Essa busca fez com que se iniciasse no interior da escola uma maior reflexão e teorização sobre a prática. Para a realização do Projeto AGIR, por exemplo, as professoras estudavam as melhores formas de trabalhar com as crianças, debatiam suas dificuldades, buscavam diferentes formas de planejamentos diversificados e avaliavam suas próprias práticas coletivamente. A avaliação ia se constituindo em um projeto de aprendizagem. A preocupação com as aprendizagens permitiu uma maior proximidade das professoras entre si e com as crianças. Elas diziam: “aqui nessa escola, ninguém é professor de ninguém, todo mundo é professor de todo mundo!” “Os alunos têm que perceber que não são alunos da tia fulana ou cicrana, mas são alunos da escola e por isso não podem criar resistência a ter aula com uma ou outra”. Essa dinâmica proporcionou um maior diálogo e compromisso entre os sujeitos da escola, revelando amorosidade com o outro, no sentido de Freire (1997), a disposição de acolher o outro. 10 Na rede municipal de Niterói, desde os anos 2000, às quartas feiras, os estudantes saem mais cedo ou entram mais tarde e, nesse intervalo, os professores se reúnem para planejar. A amorosidade em Freire remete à discussão acerca da ética como campo ontológico das relações entre humanos e humanos e entre humanos e não humanos. O sentido da amorosidade aqui apresentado é percebê-lo como modo de acolhimento do outro no eu, ou seja, uma possibilidade de reconhecimento de um eu no outro. Tal ideia torna-se um fundamento importante para se deslocar a avaliação do lugar do exame, da prestação de contas, para o lugar das aprendizagens. Para que as aprendizagens ocorram, é preciso o acolhimento e que a sala de aula seja um lugar seguro, como nos ensina bell hoooks (2020). Ainda no desenvolvimento do conceito da amorosidade em Freire, trazemos as ideias de Amorim e Calloni (2017, p. 382) quando primeiramente acentuam que “os conceitos freireanos sugerem uma filosofia da vida prática onde é iminente o reconhecimento da historicidade, por isso representam a conceituação orgânica dos sujeitos sociais como seres históricos e de múltiplas possibilidades.” Tal afirmação já nos importa, uma vez que o outro, encharcado de sua historicidade e de suas histórias de vida, precisa ser acolhido da forma como é. Isso é fundamental para se deslocar do lugar da avaliação que examina, que soma e confere pontos obtidos pelos estudantes ao final de um processo, para o lugar daquela que se preocupa e se ocupa com as aprendizagens e com a formação humana. Freire inspirou diversas reflexões e teorizações sobre a avaliação na direção do acolhimento do outro. Portanto, avaliar, na perspectiva que vimos aqui expondo, é aceitar o outro da forma como ele é, significa ter compromisso e implicar-se com o outro e consigo mesmo, revelando assim uma dimensão ética que promova práticas avaliativas que revelem, considerem e acolham a diversidade, a pluralidade, a imprevisibilidade, o não previsto, a não verdade. Ao entendermos a educação como formação humana, como um acontecimento ético, defendemos que avaliação como projeto de aprendizagem torna-se central nos processos pedagógicos para a ressignificação do lugar da escolarização na vida das pessoas. Em uma reunião de avaliação de equipe, o grupo de professoras demonstrou o interesse de que o projeto se tornasse um projeto não só para os alunos com dificuldades de aprendizagem, mas para todos, como um projeto de toda a escola. Não ocupavam mais tanto tempo da reunião com as reclamações com a imposição da FME, mas com a vontade de planejar ações para que o Projeto Agir se consolidasse. Isso demonstrou o quanto o estudo e o envolvimento fez com que o grupo sentisse a necessidade de construir uma forma de trabalho original e compromissada com as aprendizagens das crianças. Descrevemos dois desses encontros de final de ano letivo em que as professoras debatiam como inserir o Projeto no dia a dia escolar para todas as crianças. Numa reunião, a orientadora avaliou como trabalhou com o seu grupo11, relatou as atividades que desenvolveu e as dificuldades que encontrou. A sua avaliação foi de que houve crescimento no grupo de alunos, não só sob o ponto de vista da aprendizagem, como também da autoestima das crianças. Algumas professoras colocaram que com um número menor de alunos em sala “o trabalho rende mais”. Em outra reunião, foi proposta, pela coordenação e direção, a leitura de um texto e debate do tema avaliação. Após a leitura, duplas de docentes leriam destaques do texto para o debate proposto. A primeira dupla colocou em discussão o aspecto de que “a avaliação não serve para decidir se exclui o aluno, e sim para o seu crescimento”. A discussão esquentou quando as reflexões se dirigiram para as práticas vividas pelas professoras, a partir do momento em que a supervisora colocou a necessidade de, na escola, se passar a fazer uma avaliação mais constante e não apenas bimestral. Uma professora disse que a avaliação não se restringe só à nota de uma prova. A nota de uma prova só, ao final do bimestre, não serve para avaliar o aluno. Outra professora referiu-se à avaliação bimestral como não fazendo mais jus à importância que a gente dá ao trabalho coletivo... à discussão. Pontuamos que apesar das práticas de avaliação cotidianas com o Projeto Agir, no qual as crianças eram tratadas de forma diferenciada, de acordo com suas necessidades de aprendizagens, mesmo com a alteração do tempo e espaço escolares, com a mudança de salas e organização temporal das aulas, a fala da supervisora ainda denota uma concepção hegemônica de que a avaliação ocorria ao final de cada bimestre e que precisava ser repensada. Indagamos: já não estaria sendo repensada? O projeto Agir já não demandavauma avaliação cotidiana, constante, planejada/projetada coletivamente? A professora Olívia abre pistas para o início de uma reflexão importante sobre a avaliação e sua relação com o diálogo e o compromisso coletivo. O diálogo em Freire torna-se também central na perspectiva da avaliação como projeto de aprendizagem. A curiosidade epistemológica, fundante para que as aprendizagens ocorram, acontece na sala de aula, por um clima de confiança mútua que se constrói por dentro do diálogo. O diálogo exige a amorosidade e a construção da confiança nas relações 11 A equipe de gestão também se dividiu nos grupos de trabalho com as crianças. pedagógicas para que a escolarização fique para além do “passar de ano” e “ter nota”. O diálogo não exclui o conflito, as tensões. O diálogo traz para a cena, os compromissos e as responsabilidades de cada um. Ele só acontece se o espaço da sala de aula for um espaço seguro (HOOKS,2020). A prática avaliativa torna-se assim, uma prática enredada com as demonstrações dos saberes e ainda não saberes, por parte de todos os sujeitos envolvidos nos processos de ensinar e aprender, de forma confiante e segura. “A ação dialógica, neste contexto, é atitude do educador que se contrapõe à domesticação/coisificação e que se faz pela educação entre homens em libertação. (...) Dialogar, assim, (...) exige autenticidade ao pronunciar a palavra. O homem como ser de relações é lançado à tarefa de criar e recriar o seu contexto histórico. Tal tarefa apresenta, como um dos elementos significativos de realização, o diálogo.” (Moacir de Góes, Conflito, p. 136) Argumentamos também o quanto foi importante a observação realizada pelo grupo de professoras. O olhar atento para as crianças e suas necessidades. Elas diziam que, no recreio, não costumavam se preocupar com as crianças e seus conflitos, brincadeiras, brigas. Uma dizia para a outra: Fulano brigou! Vai lá! É seu aluno. Entretanto, com o Projeto, no qual todas passaram a conhecer todas as crianças e se sentirem responsáveis, diziam que passaram a observar mais as crianças em seus momentos de lazer, brincadeiras e resolver conflitos de qualquer criança. “Criança não tem dono aqui nesse escola. Todo mundo é aluno da todo mundo”. A observação se apresentou como uma categoria importante para a pesquisa, posto que parece ter sido gerada pela preocupação constante de maior proximidade e conhecimento das crianças. A observação pretende desvencilhar nosso olhar das amarras que nos privam de ver para além do que nossos olhos veem à primeira vista. A observação cuidadosa e sensível nos permite observar sem julgar, permite ver de forma generosa, sem preconceitos. O olhar sensível e aberto às múltiplas possibilidades do ver, nos remete à compreensão de que as verdades são provisórias, o que se vê é temporário e de acordo com o momento. O que um vê é diferente do que o outro vê. Há diferentes possibilidades de aprender e de demonstrar as aprendizagens. Para Madalena Freire: “Não fomos educados para olhar pensando o mundo, a realidade, nós mesmos. Nosso olhar cristalizado nos estereótipos produziu em nós paralisia, fatalismo cegueira. Para romper esse modelo autoritário, a observação é a ferramenta básica nesse aprendizado da construção do olhar sensível e pensante”. (Freire, 1996, p.1) A avaliação precisa da observação sensível, que não julga. Parece-nos uma categoria importante, ao lado da amorosidade, do diálogo e do compromisso para pensarmos a avaliação como projeto de aprendizagem. CONSIDERAÇÕES FINAIS Iniciamos as considerações finais com uma citação de Certeau: “o cotidiano é aquilo que nos é dado cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos pressiona dia após dia, nos oprime, pois existe uma opressão no presente”. [...] “O cotidiano é aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior”. (Certeau, 1996, p. 31). As astúcias e as táticas do corpo docente, assim como as estratégias utilizadas pela escola como um todo com o Projeto Agir, que se tornou um projeto institucional a partir do final de seu primeiro ano de sua implementação, nos levaram a considerar que é possível uma prática avaliativa compromissada com as aprendizagens e não com os resultados dos desempenhos dos alunos em provas e testes. Ao mesmo tempo, a pouca percepção crítica do corpo docente de que as práticas que realizavam não fosse avaliação, pois a avaliação eram as provas bimestrais que precisavam ser repensadas, nos faz considerar que a concepção de avaliação, nesse caso, estava critalizada num olhar exaurido e que as práticas inventadas no cotidiano vivo da escola permitiram um novo olhar para as crianças, para a docência, para a organização espaçotemporal e curricular, mas não para a avaliação que, formalmente, continuava sendo compreendida como algo ao final, descolado de todo os processos; vista como produto. As práticas avaliativas, entendidas aqui como as tarefas rotineiras da sala de aula planejadas para que as aprendizagens aconteçam, são práticas cotidianas, e deram corpo e tessitura ao Projeto Agir, mas não foram compreendidas dessa forma pelo corpo docente. Assim como, ao realizar o projeto, a escola, sem perceber, atendia à concepção de uma avaliação continuada expressa nos documentos curriculares da FME: uma avaliação cotidiana, preocupada com as aprendizagens e não com a promoção/retenção. Tal complexidade resistência/discurso e ação propositiva se refletia nas conversas e debates nas reuniões de planejamentos e conselhos de classe. Concordando com Geraes Duran: “Constituindo-se objeto de reflexão dos professores, as invenções cotidianas representam as diferentes formas de os professores se ajustarem a (...) política, as diferentes formas de reorganizarem o cotidiano de suas práticas. Tais invenções do/no cotidiano vão produzindo uma “cultura”, saberes pedagógicos da escola, saberes produzidos por professores e alunos, na dialeticidade da vida cotidiana, na concretude do cotidiano escolar” (Geraes Duran, 2007, p.127). O estudo aponta que é possível mudança nas práticas, motivada por diferentes razões. O cotidiano é revolucionário e nos torna vivos. Entretanto, as mudanças de concepção, ou de percepção da possibilidade de mudança daquilo que é o senso comum, exige reflexão teórica. Freire (2004) nos apresenta dois conceitos importantes, a curiosidade ingênua e a curiosidade epistemológica. Ao escrever sobre a distância entre a ingenuidade e a criticidade e sobre a curiosidade indagadora, o autor nos esclarece: “A superação e não a ruptura se dá na medida em que a curiosidade ingênua, sem deixar de ser curiosidade, pelo contrário, continuando a ser curiosidade, se criticiza. Ao criticizar-se, tornando-se então, permito-me repetir, curiosidade epistemológica, metodicamente ‘rigorizando-se’ na sua aproximação ao objeto, conota seus achados de maior exatidão.” (Freire, 2004, p. 31) O que gerou a motivação no grupo de professoras para a mudança que ocorreu, em última instância, no projeto pedagógico da escola, não foi a vontade de mudar a avaliação, mas foi, inicialmente, a impossibilidade de reprovar e o compromisso de “entregar” as crianças para a professora do ano seguinte com as aprendizagens daquele ano de escolaridade realizadas. Tal mudança exigiria uma reflexão teórica sobre as ações realizadas, uma curiosidade epistemológica sobre o feito, a partir da vontade, da curiosidade de pensar um cotidiano diverso do conhecido para resistir à política de não reprovação da FME. A afirmação de que muito se avançou na teoria, mas que “na prática” nada muda, não se afirmou com a pesquisa. Pelo contrário, a concepção teórica do que é avaliação educacional não se alterou entre as professoras, mas ficou descolada das práticas que revelaram ações coerentes com as teorias da avaliação que a afirmam como formativas, processuais,propiciadoras das aprendizagens. Portanto, a teoria se revela nas práticas, sem que seja compreendida como tal. A hegemonia da compreensão da avaliação como exame e produto e com o propósito de aprovar ou reprovar ainda é forte em nosso cotidiano escolar e entre nós. Compreendemos que a teoria da complexidade e os estudos do cotidiano nos permitem revelar tais tensões e conflitos e, talvez, ajudem a provocar lentamente transformações. Por fim, podemos com os dados produzidos, elaborar algumas categorias da pesquisa, como amorosidade, diálogo, compromisso e observação, que podemos ousar dizer que se tornam princípios importantes para esse perspectiva da avaliação como projeto de aprendizagem. REFERÊNCIAS AMORIM, Filipi Vieira. CALLONI, Humberto. 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Escola pública: espaçotempo de tecelagem de conhecimentos em diálogo com crianças das classes populares Public school: spacetime for weaving knowledge in dialogue with children from popular classes Escuela pública: espaciotiempo de tejedura de conocimientos en diálogo con niños y niñas de las clases populares Maria Teresa Esteban* https://orcid.org/0000-0003-0130-149X Joana Paula dos Santos Gomes de Oliveira** https://orcid.org/0000-0003-1954-1563 Luana Armaroli*** https://orcid.org/0000-0002-9556-4153 Resumo: O artigo propõe uma reflexão sobre o lugar das crianças das classes populares e de suas infâncias nos processos pedagógicos realizados na Educação Básica, em instituições públicas. Fundamenta-se em pesquisas de natureza qualitativa, desenvolvidas por professoras em seus contextos de atuação, utilizando a pesquisa com o cotidiano como método, se valendo de registros de experiências escolares e de produções docentes e discentes, usando diversas linguagens. Os trabalhos das professoras pesquisadoras se articulam no curso de Doutorado, referenciados na educação libertadora, na acepção freireana, nos estudos decoloniais e nos antirracistas. Com as crianças, assumidas como sujeitos sociais e políticos, a docência encontra a potência do diálogo, marca da educação popular, mobilizando experiências da educação pública como espaçotempo propício à tecelagem de conhecimentos criativos e transformadores. Palavras-chave: Infâncias. Diálogo. Classes populares. * Professora da Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutora em Filosofia e Ciências da Educação. E-mail: . ** Professora da Fundação Municipal de Educação de Niterói. Mestre em Educação. Doutoranda no Programa de Pós- Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: . *** Professora do Colégio Pedro II. Mestre em Educação. Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF). E-mail: . https://orcid.org/0000-0003-0130-149X https://orcid.org/0000-0003-1954-1563 https://orcid.org/0000-0002-9556-4153 https://doi.org/10.5212/PraxEduc.v.19.23597.100 Escola pública: espaçotempo de tecelagem de conhecimentos em diálogo com crianças... Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 2 Abstract: The article proposes a reflection on the place of the popular class children and their childhoods within the pedagogical processes carried out in Basic Education in public institutions. It is based on qualitative research conducted by teachers in their contexts of practice, using everyday life research as a method and drawing on records of school experiences and the works of both teachers and students through various forms of expression. The work of the teacher-researchers is articulated within the Doctoral program, referenced in the liberating education in the Freirean sense, as well as decolonial and anti-racist studies. With children, assumed as social and political subjects, teaching finds the power of dialogue, a hallmark of popular education, mobilizing experiences in public education as a spacetime conducive to the weaving of creative and transformative knowledge. Keyword: Childhoods. Dialogue. Popular classes. Resumen: El artículo propone una reflexión sobre el lugar de niños y niñas de las clases populares y sus infancias en los procesos pedagógicos realizados en la Educación Básica, en instituciones públicas. Se fundamenta en investigaciones de naturaleza cualitativa, desarrolladas por profesoras en sus contextos de actuación, utilizando la investigación con lo cotidiano como método, valiéndose de registros de experiencias escolares y de producciones docentes y discentes, usando diversos lenguajes. Los trabajos de las profesoras investigadoras se articulan en el curso de Doctorado, referenciados en la educación liberadora, en la acepción freireana, en los estudios decoloniales y en los antirracistas. Con los niños y niñas, asumidos como sujetos sociales y políticos, la docencia encuentra la potencia del diálogo, marca de la educación popular, movilizando experiencias de la educación pública como un espaciotiempo propicio para la tejedura de conocimientos creativos y transformadores. Palabras clave: Infancias.Diálogo. Clases populares. Nossos movimentos A pergunta sobre o lugar das crianças no processo pedagógico realizado na escola pública nos mobiliza, em sintonia com outras pesquisas e práticas escolares que problematizam a dinâmica escolar. A pergunta nos movimenta no sentido de experimentar cotidianamente a sala de aula como espaçotempo1 dialógico, e as nossas experiências nos colocam diante de outras perguntas e de tantas possibilidades de se estar na escola. Assim, as perguntas e experiências nos transformam, enquanto também reconfiguramos os modos como vamos nos tornando professoras, a cada dia, e as maneiras como vivemos a docência e a pesquisa, ao nos reconhecermos como professoras pesquisadoras. Nesses movimentos, diálogo e infâncias se entrelaçam. O diálogo se estabelece quando no encontro com o outro problematizamos os conhecimentos de que dispomos e os modos de viver por nós conhecidos, nos entendendo como presença no mundo; um mundo a ser indagado, lido, pronunciado e transformado, sendo a educação parte do processo histórico de humanização, ao qual é inerente a libertação, conforme proposto por Freire (2011). Por ser o diálogo intrínseco à humanização, é indispensável à educação libertadora (Freire, 2011), assumida por nós como orientação para a ação na escola. Entendendo ser a educação como prática de liberdade irrealizável sem a participação das crianças nos processos cotidianos, temos tratado, em nossas pesquisas, do lugar das crianças e de suas infâncias no processo de escolarização. Este artigo tem como referência pesquisas qualitativas, realizadas em instituições públicas, envolvendo Educação Infantil, os anos iniciais do Ensino Fundamental e a Pós-Graduação em Educação. Nas turmas de Educação Básica, na relação direta com as crianças, no âmbito do Doutorado em Educação, para nós, contexto de formação continuada da professora pesquisadora, intensifica-se o processo de tecelagem de conhecimentos em diálogo com práticas educativas. 1 Apoiadas em Nilda Alves (2001), utilizamos a junção de alguns termos em uma só palavra como possibilidade de expressar emoções, sentimentos e experiências que não podem ser definidas por palavras separadas. Maria Teresa Esteban, Joana Paula dos Santos Gomes de Oliveira e Luana Armaroli Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 3 Elegemos a pesquisa com o cotidiano como método pela possibilidade que nos oferece de viver o ato de pesquisar como um mergulho nos processos cotidianos de que somos parte (Alves, 2001). Essa inserção potencializa os saberes e fazeres de quem se encontra no cotidiano da sala de aula (professoras, crianças e suas famílias) e fomenta o reconhecimento da sua coautoria nos conhecimentos que derivam das experiências que partilham. Legitima-se, assim, a escola como lócus de enunciação, pautada pela relação dialógica entre os sujeitos e articulada ao movimento práticateoriaprática (Garcia, 2003). As pesquisas se inserem nas ações escolares cotidianas, recuperando propostas e encaminhamentos constitutivos do trabalho pedagógico, em exercícios reflexivos envoltos por problematização e diálogo. Esse movimento se volta a registros de experiências escolares e a atividades realizadas em sala de aula, por meio das produções docentes e discentes, usando diversas linguagens. Desse modo, é possível recolher diferentes perspectivas e integrá-las à pesquisa, com suas conexões com a docência. Em nossas pesquisas, a presença das crianças é fundamental. As meninas e os meninos trazem para a escola, ao cruzarem seus portões, suas infâncias, carregadas das experiências de quem está há pouco tempo no mundo, aprendendoensinando constantemente e nele deixando suas marcas desde o primeiro minuto de suas vidas. Infâncias estas que tecem a escola com curiosidade, desejo, afeto, assombro, encantamento, vigor, trazidos por quem, independentemente da etapa cronológica da sua vida, se deixa surpreender e tem sempre algo a aprenderensinar. Com essa compreensão, tomamos o diálogo e a presença das infâncias na escola como fios relevantes na tecelagem das propostas pedagógicas e tingimos com cores fortes o trabalho realizado cotidianamente como vivência coletiva e reflexiva, proporcionando a professoras e crianças experiências da aula como espaçotempo de se estar com diferentes pessoas, conhecimentos, projetos, histórias, condutas, ou seja, com a vida e seus movimentos. A opção por assumir o diálogo como método (Freire, 2011) na ação da professora pesquisadora implica o reconhecimento da integridade dos sujeitos que se encontram na sala de aula, o que reveste de especial significado a configuração inter e intra geracional da escola. Em nossos estudos, o constructo geração é relevante por pautar estatutos, papéis e práticas sociais afeitas aos sujeitos em decorrência de seu posicionamento etário, configurado por planos estrutural e simbólico, no âmbito do processo histórico marcado por relações de desigualdade, ou, como formula Freire (2011), relações de opressão. Para além dos aspectos biológicos, a geração, como construção sociológica, promove a organização de grupos dissemelhantes e oferece parâmetros para evidenciar distinções e convergências entre eles, bem como para ressaltar especificidades constitutivas das relações entre sujeitos do mesmo grupo geracional (Sarmento, 2005). A infância, como geração, emerge na modernidade na esfera da diferenciação entre adultos e crianças, alicerçando sua construção simbólica em processos de disciplinação da infância (Foucault 2000 apud Sarmento 2005), traduzidos na estruturação da ordem social em atos de imposição e controle como “[...] a desqualificação da voz das crianças na configuração dos seus mundos de vida e a colonização adultocentrada dos modos de expressão e de pensamento das crianças” (Sarmento 2005, p. 370), perspectiva ainda presente na designação contemporânea da infância. Não podemos obviar a importância da construção histórica da infância para o estabelecimento de direitos das crianças e o fortalecimento da preocupação com o seu cuidado e sua proteção, além do trabalho, a partir dessas proposições iniciais, no sentido do reconhecimento da criança como sujeitos de direitos, atualmente em vigor. Contudo, evidencia-se a conexão entre a atenção à infância e a negatividade que a envolve, por sua designação como tempo de carência, debilidade e incapacidade, aliada à interdição simbólica a se pensar as crianças como sujeitos. Ao identificá-las com seres frágeis e dependentes, ressaltam-se as demandas infantis por amor e Escola pública: espaçotempo de tecelagem de conhecimentos em diálogo com crianças... Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 4 cuidado que levam a seu isolamento da vida social – eivada de perigos –, em contextos supostamente protegidos (família, escola, igreja), onde são forma(ta)das para, posteriormente, quando adultos, serem reinseridas na dinâmica social (Narodowsky, 2008; Sarmento, 2005). Nesse contexto de institucionalização da infância, em que se fazem presentes (e por vezes se confundem) o cuidado e a tutela, a escola, como projeto também formulado na modernidade, alinha-se à elaboração adultocêntrica do lugar social da criança (Delgado, 2004). A filiação da escola a esse propósito, mesmo diante da assunção da criança como sujeito de direitos, pode-se verificar, por exemplo, pela forte relação que se estabelece entre o pedagógico e o disciplinar, pela individualização das crianças, pelo desenho de procedimentos que assemelham incompletude a incapacidade, entre tantas outras práticas cujos sentidos e efeitos são apartá-las da dinâmica social. A ação escolar desenha-se em sintonia com a minoridade da infância e apoia-se na assimetria geracional. Nessa escola não há lugar para o diálogo. Oadultocentrismo da produção da infância e da escola é fartamente tratado nos estudos do campo, como demonstram os trabalhos de Delgado (2004), Narodowsky (2008), Sarmento (2005), entre outros. Cabe acrescentarmos a ele a dimensão eurocêntrica da elaboração do conceito de infância e da proposição da escola, como instituição destinada a sua (con)formação. Ambas as formulações derivam de movimentos próprios da modernidade, que sustentam a estruturação e a generalização de categorias totalizantes, referenciadas na instauração da experiência civilizacional europeia, da qual é parte sua episteme. Valemo-nos de estudos de Quijano (2005), Mignolo (2003) e Dussel (2009) para tratar brevemente dos processos que, no contexto da modernidade, evocam modelos de sujeito, conhecimento e sociedade como o ideal humano. A modernidade configura-se pela sucessão de um conjunto de fenômenos produzidos na Europa que levam a uma experiência civilizacional cuja centralidade está na razão, tendo como fundamento a ruptura entre a razão e o mundo que também fragmenta o homem em corpo e mente. Dessa dissociação, emerge o homem racional, europeu, que, com uso dessa razão, produz conhecimentos descontextualizados, objetivos e verdadeiros. O homem, capaz de produzir conhecimentos universais que servem à dominação do que antes se cindira em mundo natural e mundo social, assume-se como o ápice da humanidade. A superioridade do homem europeu estende-se a sua racionalidade e ao seu conhecimento. Nesse contexto, nasce a infância, fabricada por adultos como tempo de preparação daquele que será o homem moderno: o sujeito-cidadão. A imagem do sujeito-cidadão é contundente para expressar o trânsito entre uma construção intrínseca à política e à episteme do homem europeu e sua consolidação como expressão universal da humanidade. Ao lado do sujeito-cidadão, ideal a ser alcançado, universaliza-se a infância, tempo de cuidado e de preparação para atingir-se satisfatoriamente o modelo. Ambas, figuras idealizadas, são consolidadas em conceitos potentes para alimentar as promessas modernas e justificar a sociedade desigual. Como meio para levar a infância a sua condição de sujeito-cidadão, está a escola. Percebermos a inscrição eurocêntrica da infância leva-nos, na América Latina, à necessidade de observar a infância também como parte do projeto moderno, uma vez que a modernidade se constitui e desenvolve em relação direta com a expansão europeia sobre o “Novo Mundo”. Expansão estruturada como um projeto de dominação colonial, no contexto de universalização do modelo de civilização europeu, que produz a América Latina. A modernidade/colonialidade institui um processo de fixação geopolítica da Europa como centro e todos os povos não europeus, por séculos colonizados, como periferia. A universalização do projeto, com inserção desigual dos povos na estrutura periférica, reconfigura a infância, diante dos povos dominados, para quem não há tempo de cuidado, amor, proteção e preparação para um porvir. Essa infância não é poupada pela colonização, que tem como uma de suas ferramentas a desumanização dos não europeus, Maria Teresa Esteban, Joana Paula dos Santos Gomes de Oliveira e Luana Armaroli Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 5 produzidos como inferiores, com o apoio da teorização da noção de raça, determinante para a naturalização e legitimação dos processos de opressão (Quijano, 2005). A dominação colonial tem muitas faces, de modo que a violência como núcleo de todo o processo se oculta pela promessa de emancipação, progresso/desenvolvimento e igualdade formal. Essa plasticidade permite sua permanência como colonialidade mesmo com a independência das colônias e fim da sua subordinação política às metrópoles. A colonialidade do ser, do saber e do poder (Mignolo, 2003) ampara modos de constituição da subjetividade, de exercício do poder e de produção do saber atados à hegemonia da episteme eurocêntrica, com efeitos profundos nas sociedades e nos sujeitos produzidos como subalternizados. A ciência moderna, inscrita na dinâmica colonial de fixação geopolítica centro/periferia, desempenha papel relevante na degradação das culturas tornadas periféricas e na naturalização da relação inferioridade cultural/subalternização. A estruturação de categorias totalizantes respalda generalizações que desenham os tempos, os espaços, os processos e as relações válidos e desejáveis para a infância e para a vida escolar. Importa sublinhar que a referência está nos conceitos consolidados de infância e escola. Entretanto, o conceito de infância adultocêntrico, eurocêntrico e moderno-colonial não permite que adultos e crianças, e as crianças entre elas, se encontrem para juntos indagarem o mundo; não abarca as múltiplas infâncias das crianças latino-americanas, que efetivamente chegam às escolas; não abraça infâncias periféricas, culturalmente inferiorizadas e subalternizadas por sua condição geracional, por seu local de nascimento, por sua origem étnico-racial e por sua inserção de classe social. A escola onde predominam o distanciamento, a fragmentação, a descontextualização e a verdade única, tampouco. Essa concepção de infância e a assimetria geracional são incompatíveis com o trabalho pedagógico caracterizado como processo dialógico, que nos interessa. Como sua realização demanda a partilha cotidiana entre pessoas adultas e crianças, requer rupturas com a pedagogia hegemônica, cujas proposições se desenham à sombra da imagem de um adulto conduzindo, pela mão, uma criança. Se há uma designação geracional, articulada à biologia, na definição da adultez e da infância, com incidência de marcadores etários, há também inscrições sociais e culturais que corroboram ou interrogam tal configuração e atravessam os modos como adultos e crianças são investidos de papéis sociais e interagem na vida escolar. A complexidade e a pluralidade da infância impedem uma caracterização universal da experiência de ser criança, pois múltiplas vivências se entrecruzam produzindo deslizamentos constantes e fraturas em barreiras que circunscrevem conceitos tidos como estáveis e impermeáveis. As crianças latino-americanas e caribenhas – e as brasileiras, no nosso caso – precisam ser olhadas por uma antropologia latino-americana e caribenha, que nos liberte progressivamente do predomínio dos paradigmas europeus e norte-americanos. Precisamos dialogar com a filosofia, a antropologia, a sociologia, a psicologia e a pedagogia latino-americana e caribenha, que nos falam das crianças reais que concebem suas possibilidades de expressão e realização com nossa diversa cultura (Didonet, 2005, p. 2 apud Kuhn Junior; Mello 2020, p. 298). Em nossos trabalhos, não podemos tratar a criança como um sujeito abstrato, nem a infância como uma vivência universal. Atuando em escolas públicas, encontramo-nos predominantemente com crianças das classes populares, para quem a desigualdade social atravessa suas experiências infantis, também constituídas, muitas vezes, longe dos cuidados, da proteção e do afastamento da vida adulta que demarcam a concepção de infância advinda da modernidade. Esse contexto e a perspectiva dialógica que nos orientam indicam percursos teórico- epistemológicos necessários a redefinições pedagógicas. Nossas experiências em escolas públicas confirmam a necessidade e a potência do diálogo com a produção latino-americana. Identificamos Escola pública: espaçotempo de tecelagem de conhecimentos em diálogo com crianças... Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 6 os estudos da decolonialidade como referente significativo para a problematização dos processos escolares por nos colocar em relação com outras epistemologias manufaturadas com as experiências de subalternização (Mignolo, 2003), maispropícias a nossa açãoreflexãoação por sua proximidade com problemas, conhecimentos e concepções que nos são próprios. Assumimos a primazia da educação popular (Freire, 2011) em nossa formação como professoras pesquisadoras, por ser um paradigma latino-americano (Mejía, 2024) capaz de sulear (Campos, 2021) nossos projetos educacionais e práticas pedagógicas, no sentido de consolidá-los como uma educação libertadora. Para compartilharmos nossa reflexão sobre a docência com crianças, articulada por movimentos dialógicos, escrevemos um texto que se constitui por muitos diálogos: entre suas três autoras, entre cada uma e as crianças, entre nós e outras autoras e outros autores, cujos trabalhos são significativos para nossa açãoreflexãoação; e, esperamos, entre nós e vocês, que leem este texto. É um texto que fala de professoras, crianças e escolas. Algumas entre tantas experiências que acontecem cotidianamente em muitas salas de aula, por todo este país. Tecemos este artigo a partir de duas histórias, vividas por duas de nós, Joana e Luana, em escolas públicas. Desejamos que elas sejam ponto de partida para conversas várias e que convidem ao exercício dialógico, assim como a ele nos desafiou. Vivências brincantes com bonecos e literatura como movimentos da educação antirracista2 A boniteza de tornar-me professora pesquisadora (Esteban; Zaccur, 2002) está no reconhecimento do meu constante processo de transformação. Ao perceber o cotidiano escolar como um espaço de oportunidades, observo, ajo e problematizo a minha prática pedagógica, em um movimento de açãoreflexãoação, tendo a prática como ponto de partida. Tomo o termo “boniteza” a partir do diálogo com os estudos de Paulo Freire, compreendendo a boniteza como a manifestação da capacidade humanizadora e transformadora da educação libertadora. Assim como Freire (2011), acredito que o ato de educar se faz com coragem e amorosidade, o que requer uma postura crítica e dialógica diante da vida. Assim, tornar-me professora pesquisadora no espaço da Educação Infantil ocorre por meio de um processo que não está dado, mas acontece a partir da reflexão sobre a prática, colocando- me como um ser inacabado na busca constante de ser mais (Freire, 2011). Diz respeito a viver o cotidiano da Educação Infantil pública, olhando nos olhos das crianças, (re)encontrando a menina que fui e fortalecendo a mulher negra, mãe e professora que sou se faz no exercício de uma docência inacabada. Vivencio a dimensão inacabada de tornar-me professora pesquisadora conectada ao estado de infância defendido pelo filósofo e professor Renato Noguera (2017). Para o educador, o estado de infância dá-se ao assumirmos que somos pequenos diante dos diversos desafios de existir. Nesse sentido, a infância desconstrói as certezas ao colocar como primordial o reconhecimento de que nosso conhecimento é limitado e de que não temos respostas para tudo. O estado de infância é o movimento de infancializar, de assumir a infância como uma experiência de percorrer caminhos que articulam o brincar ao processo de narrar. Desse modo, infancializar possibilita compor e contar novas histórias, e esse movimento é o que mantém a vida como um fazer político (Noguera, 2017). 2 A problematização da experiência insere-se em pesquisa de Doutorado em andamento. O projeto de pesquisa passou pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Ciências Sociais, Sociais Aplicadas, Humanas, Letras, Artes e Linguística da Universidade Federal Fluminense (CEP/UFF – Humanas), sendo aprovado pela Comissão Nacional de Ética em pesquisa (Conep) com o número CAAE 59299822.8.0000.5243. Maria Teresa Esteban, Joana Paula dos Santos Gomes de Oliveira e Luana Armaroli Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 7 Nesse sentido, assumir o estado de infância permite-me viver outra relação com as crianças e com a vida, inclusive no modo como organizo o espaço e os materiais no cotidiano da Educação Infantil. Pensando nessa organização como possibilidade de ampliação do repertório brincante e narrativo das crianças, intento resistir “[...] ao esquecimento da infância que constitui todo ser humano” (Kohan, 2010, p. 125). No ato de cuidar desse estado de infância, coloco-me a questionar: Se o esquecimento da infância constitui todo ser humano, é possível resistir a esse esquecimento? Seria um movimento de resistir a esse esquecimento o fato de olhar para as experiências brincantes da menina que fui? Mirar a infância de uma criança que enfrentou o silêncio sobre a questão racial na escola e na família, uma menina negra que experimentou situações de racismo e preconceito, move-me a buscar estratégias capazes de romper com práticas pedagógicas que podem marcar negativamente a construção de sua subjetividade, produzindo um sofrimento psíquico (Cavalleiro, 1998). Acredito que chego ao meu local de trabalho com crianças pequenas marcada por memórias da infância como inspiração para praticar uma educação como prática da liberdade que se faz contra as diferentes formas de opressão de exclusão, de violência, por isso “[...] uma pedagogia revolucionária de resistência, uma pedagogia profundamente anticolonial” (hooks, 2013, p. 10). Faço esse movimento de tecer uma pedagogia revolucionária quando opto politicamente por escutar e dialogar com um grupo de 14 crianças, com 2 anos de idade, matriculadas em uma Unidade Municipal de Educação Infantil (UMEI) localizada na zona periférica da cidade de Niterói. O diálogo implica um pensar crítico sobre a realidade (Freire, 2011). Assim, o diálogo como encontro com as crianças desperta meus sentidos para especificidades presentes nas experiências dos sujeitos das classes populares, dentre as quais destaco a UMEI estar localizada no alto de um morro, e as crianças, em sua grande maioria, residirem nesse espaço e serem negras. Diante dessa percepção, coloquei-me a pensar em como tecer movimentos de uma educação antirracista com crianças tão pequenas, considerando as dimensões de classe, de raça e de gênero. Como sinaliza Nilma Lino Gomes: Não é preciso ser uma investigadora muito atenta para compreender que a maioria das crianças atendidas pelas creches populares, pelas escolas infantis privadas dos bairros pobres e pela Educação Infantil pública é preta e parda, ou seja, devem ser reconhecidas como negras, e estão entre aqueles que representam 54% da população. Dessa forma, é possível afirmar que uma grande parcela de crianças atendidas pela Educação Infantil pertence aos segmentos populacionais que sofrem os problemas da perversa articulação entre desigualdades sociais e raciais (Gomes, 2019, p. 1017). Considerando que as crianças estão inseridas em um mundo diverso e desigual, faz-se necessário proporcionar experiências propícias à ampliação do modo de perceberem a si mesmas e ao outro, valorizando sua identidade, respeitando e reconhecendo as diferenças que nos constituem como seres humanos. Como recursos para tecer uma prática pedagógica antirracista, de enfrentamento às desigualdades, de constituição de outros modos de relação com a negritude, utilizo a literatura infantil negra e bonecos negros e indígenas nas interações e vivências diárias com as crianças. Compreendo a educação antirracista a partir da definição formulada por Nilma Lino Gomes (2017), como uma prática educativa capaz de resgatar, valorizar e visibilizar os saberes, as histórias e as culturas indígenas e afro-brasileira. No estado de infância de uma professora pesquisadora em busca de vivências antirracistas com as crianças, procurei estabelecer vínculos com elas levando Akin, um boneco negro de tecido que me acompanha nesse processo de educar e cuidar de crianças pequenas. Na primeira experiência com o grupo, levei o boneco, para a primeira roda de conversas do dia, envolto em um tecido de origem africana. Puxei a conversa com as crianças apresentandoAkin como um boneco que veio de muito distante, do continente africano. Falei o significado do seu nome para o povo iorubá: corajoso, guerreiro, herói. Escola pública: espaçotempo de tecelagem de conhecimentos em diálogo com crianças... Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 8 A experiência com o boneco foi refletida por nós três, professoras do grupo, pois mesmo sabendo do encantamento das crianças por super-heróis, observamos que Akin não fez sucesso naquele dia. Notamos certa resistência de algumas crianças para tocar, pegar e brincar com o boneco. Mediante as nossas problematizações, procuramos levar, para além das bonecas brancas existentes em nosso espaço, outros bonecos de diferentes tamanhos, de diferentes materiais e com outras características fenotípicas, como a Jarinha3, uma boneca indígena, a Dandara, uma boneca negra com turbante e trajes africanos, Black Frida4 e Black Boy, um boneco com características de super-herói. O desejo de proporcionar às crianças experiências positivas relacionadas à negritude fortalece a preocupação por disponibilizar bonecos que representem essa diversidade em nossas vivências cotidianas. A Educação Infantil como espaço apropriado ao envolvimento das crianças em ações concretas de reconhecimento e valorização dos diferentes grupos étnico-raciais na construção da sociedade brasileira é evidenciado no Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. O Plano reconhece a Educação Infantil como lugar propício “[...] para promover a eliminação de qualquer forma de preconceito, racismo e discriminação racial” (Brasil, 2013, p. 48). Dentre as propostas centrais para a construção da educação para as relações étnico-raciais apresentadas pelo Plano Nacional, aparecem a importância da aquisição e do trabalho com bonecos com diferentes características étnico-raciais, de gênero e de pessoas com deficiência e a inclusão de livros que possibilitem o trabalho com referenciais de diferentes culturas, especialmente a negra e a indígena (Brasil, 2013). A compreensão da educação antirracista como possibilidade de fortalecimento das crianças em seu processo de construção das subjetividades, por meio do trabalho com os bonecos, nos permitiu presenciar a boniteza das suas aprendizagens. A organização de um espaço na sala de referência do grupo para a colocação de um cesto contendo tecidos e bonecos foi o suficiente para as crianças criarem/recriarem suas brincadeiras. Foi comum ver os pequenos forrando o tatame da sala, em um trabalho coletivo, para colocarem os bonecos para dormir. Os tecidos também foram transformados em cabaninhas para acolher as crianças e os bonecos. As crianças expressaram com os bonecos, seus bebês, suas vivências e experiências com relação ao cuidado e ao afeto. Um menino mostrou como o seu pai o carrega no pescoço e as meninas levaram seus bebês para passear do mesmo jeito. Ao observar esses movimentos das crianças, identifiquei a presença de questões de gênero5 em suas brincadeiras, o que me levou a ler para elas o livro Quero Colo6, de Stella Barbieri e Fernando Vilela (2004). Nele, os autores retratam diferentes movimentos de homens, mulheres e até animais para ninar e carregar crianças no colo. Partindo das observações feitas nas interações e brincadeiras das crianças, levei a história com a finalidade de ampliar a compreensão do grupo sobre o ato de carregar no colo, mostrando diferentes modos de levar os bebês e as crianças e que este não é um movimento realizado apenas 3 A boneca foi criada por Renata Francis, professora da Rede Pública Municipal do Rio de Janeiro, em homenagem a Sônia Bone de Sousa Silva, do Povo Guajajara/Tentehar, que habita as matas da Terra Indígena Araribóia. Sônia Guajajara assumiu o cargo de ministra dos povos indígenas durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2023). 4 Black Frida e Black Boy também são bonecos criados por Renata Francis. A primeira é uma boneca negra feita em reverência à pintora mexicana Frida Kahlo. 5 Reconheço a relevância desse tema, mas opto por não o abordar neste artigo, pois o foco está na temática racial. 6 O livro surgiu da curiosidade dos autores para saber como as crianças são carregadas e ninadas em diferentes partes do mundo. Para tratar do assunto, eles embarcaram em diferentes experiências, estudando, inclusive, como os bichos fazem esse movimento. Maria Teresa Esteban, Joana Paula dos Santos Gomes de Oliveira e Luana Armaroli Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 9 por mulheres. Utilizando algumas ilustrações do livro, apresentei também imagens de mulheres moçambicanas e angolanas carregando suas crianças com tecidos africanos7. Além de compartilhar parte da cultura africana com as crianças, conseguimos atribuir novos significados aos nossos tecidos. Foi brincando com diferentes bonecos que as crianças também compartilharam as canções de ninar conhecidas por elas, como “dorme nenê...” e “boi da cara preta”. Assim, ao ouvir e brincar com as crianças, pude propor outras vivências como caminhos para práticas antirracistas concretas e fortalecedoras das subjetividades delas. Enquanto as crianças embalavam seus bonecos, comecei a entoar a canção africana Olélé Moliba Makasi. As crianças aprenderam a canção rapidamente e, para a nossa alegria, ensinaram a cantiga para suas famílias. No dia seguinte à vivência, a mãe da menina narrou que ela chegou em casa pedindo para os pais procurarem a canção no canal do YouTube e eles a encontraram porque a criança cantou a música. No diálogo com as crianças, vejo a importância de seguir comprometida em tecer movimentos de uma educação antirracista, continuidade de uma luta histórica que visa romper com a exclusão, a desumanização, a subalternização e a invisibilidade que nos mata em vida (Trindade, 2006). Nesse processo, juntamente com os bonecos, a literatura negra também afetou nossas experiências com as crianças. No registro escrito em meu caderno, observo como procurei articular a vivência com a boneca Black Frida com o livro Maria Preta, de Otávio Júnior (2021), ilustrado por Ana Cardoso: Na nossa primeira roda do dia, conversei com os pequenos sobre uma surpresa muito especial para nossa manhã. Esse grupo adora surpresas! Então, as crianças já se sentaram com o olhar atento e curioso, revelando a potência da circularidade presente em nosso espaço-tempo. Gosto de criar um clima de suspense, por isso levei para a roda a bolsa que ganhei contendo o livro Maria Preta e a boneca Black Frida. Pedi para os pequenos tocarem, apertarem a bolsa e fui provocando a imaginação deles perguntando: O que será que tem dentro dessa bolsa bonita? Será que é um elefante? Será que é um carro? Nesse momento, dois meninos disseram “é um dinossauro!”, “é um T-rex”. Depois que as crianças sentiram o que tinha na bolsa e fluíram na imaginação, trazendo para a roda algumas risadas, trocas de afeto por meio dos olhares que se entrecruzam, dos toques, dos gestos, apresentei a Black Frida… (Caderno de registros, março de 2023). Outro momento importante com as crianças foi quando Black Frida levou para a roda o livro Maria Preta. O livro foi escolhido como uma proposta pedagógica descolonizadora dos modos de olhar para as favelas e as infâncias, que nelas habitam, como lugares e sujeitos violentos e em falta de algo. Com a intenção de romper com a perspectiva colonial que, geralmente, destina para as pessoas das classes populares das favelas o lugar da subalternidade, optei por um livro que tem como autor um homem negro oriundo de uma favela. Ver os sujeitos negros ocupando outros espaços, como o de escritor de tantas obras, contribuipara a valorização da negritude. Digo isso porque geralmente aprecio, com as crianças, a capa do livro e, em seguida, apresento também as imagens do autor e ilustrador antes de contar; e, nesse processo, Otávio Júnior foi associado ao pai de algumas crianças: “É o meu pai!”. Antes de contar a história para as crianças, com ludicidade, brinquei de imitar a voz da boneca Black Frida dizendo: “Oi, crianças lindas! Hoje eu trouxe uma história do morro onde eu moro para contar para vocês! Quem quer conhecer a história?”. Descrever esse processo com detalhes se faz pertinente quando acreditamos na dimensão estética da ludicidade, como ressalta Trindade (2006). A ludicidade é fundamental para o desenvolvimento educacional, principalmente das crianças negras, contribuindo significativamente na melhoria da educação delas. O convite feito pela boneca arrancou um coro de “euuu!” da boca das crianças. Foi interessante ver a 7 Um dos povos mais conhecidos por essa prática são os povos da África Ocidental, especialmente as mulheres de etnias como os Yoruba, os Ewe, e os Akan. Escola pública: espaçotempo de tecelagem de conhecimentos em diálogo com crianças... Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 10 movimentação dos pequenos a partir da presença desses dois materiais. Assim que acabei de contar a história para as crianças, algumas correram para manusear o livro expressando suas interpretações: “Olha o cabelo dela!”; “A Maria Preta tá lá no alto!”; “Ela está triste. Está chorando!”. Enquanto isso, outras brincavam com Black Frida. Posso chegar a essa compreensão quando olho novamente para esses registros e vejo como a continuidade desse movimento em minha prática provocou outras aprendizagens. Quando comparei o morro da ilustração presente no livro com o nosso morro, onde se localiza a UMEI, começamos a conversar sobre o que tinha no morro. Enquanto observavam as imagens, as crianças destacaram: casa, árvore, mar, roupas, pipa, bola, cachorro, crianças jogando bola… Até que a fala de um menino me surpreendeu, pois mesmo sem ter nas ilustrações algo que remetesse a som ou danças, ele disse: “Tem música”. Sua fala me levou a refletir com as parceiras de trabalho sobre o que há no morro, nas vivências das nossas crianças, que a instituição escolar ainda desconhece. Quando acabamos de ler a história, fiz uma cópia ampliada da página do livro em que Maria Preta, personagem principal da história, diz: “Eu sempre estive ali. No ponto mais alto do morro”. A mesma imagem, localizada a seguir, foi fixada no espelho da nossa sala de referência; logo, a todo momento que interessava às crianças, elas paravam diante dela e observavam, conversavam sobre ela, contavam histórias ou somente admiravam. A imagem representada no livro apresenta uma dimensão estética da favela capaz de provocar outros modos de olhar para esse território, enfatizando que existe ali, mesmo em meio a desafios, bonitezas, complexidade e principalmente vida. Figura 1 – Ilustração de um morro Fonte: Extraída do livro Maria Preta (Júnior, 2021). A imagem contribuiu com a problematização a partir de um olhar crítico para a nossa realidade, enquanto sujeitos inseridos em uma unidade de Educação Infantil localizada no ponto mais alto do morro. Ao olhar para as imagens, as crianças fizeram conexões com os cenários das suas vivências cotidianas nos provocando a refletir e a agir sobre as perspectivas que temos das favelas. A problematização em Freire (2011) me leva a acreditar na educação como possibilidade da transformação social. Ser das classes populares, transitar pelas favelas de Niterói leva-me a olhar para essas vivências com as crianças, compreendendo-me como sujeito e não como objeto na luta por uma Maria Teresa Esteban, Joana Paula dos Santos Gomes de Oliveira e Luana Armaroli Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 11 prática pedagógica antirracista tecida com e não sobre as crianças. Nesse sentido, visibilizar as dimensões estéticas e poéticas existentes nas experiências do morro, nas vivências repletas de negritude se faz como movimentos transgressores de uma educação antirracista comprometida com a liberdade e com a mudança (hooks, 2013). No trabalho com as crianças, o livro Maria Preta e os bonecos negros foram essenciais para criar laços afetivos entre todos nós. Nesse sentido, a representatividade faz-se relevante para o processo de promover uma educação antirracista, principalmente quando estamos tratando de crianças que ainda estão no processo de construção das suas subjetividades. Nilma Lino Gomes (2019) aborda a Educação para as Relações Étnico-raciais como uma educação voltada para a compreensão e a ampliação do direito à diferença como um dos pilares dos direitos sociais. Nesse sentido, educar para a diversidade étnico-racial envolve criar conhecimentos que contribuam para o desenvolvimento de subjetividades críticas em relação às práticas racistas, bem como oferecer um entendimento teórico e conceitual mais detalhado sobre a África e as questões afro-brasileiras. Desse modo, as brincadeiras africanas, afro-brasileiras, juntamente com a literatura infantil negra, permitiram-nos experimentar a ludicidade, um valor civilizatório afro-brasileiro (Trindade, 2006), que aponta a potência do brincar como “[...] algo constitutivo de nós, mamíferos, como algo que potencializa os corpos e suas expressões, que aciona nossa subjetividade, nossa memória, nossa corporeidade e ludicidade. [...]. Como algo da nossa energia vital, que queremos expandir para todas as idades” (Trindade, 2006, p. 8). Olho para as vivências com as crianças por meio das brincadeiras com a intenção de refletir criticamente sobre a minha prática pedagógica e pergunto como criar com as crianças das classes populares o direito de narrar suas histórias. Nossas vivências brincantes colocam-me em diálogo com Amadou Hamapate Bâ (2003) e sua compreensão de que o narrar está presente em tudo, incluindo o brincar como parte da história humana. Nas vivências brincantes com as crianças, procuro potencializar as culturas africana e indígena de modo prazeroso e lúdico. Aprendo com o autor citado que os meninos fulas aprendiam de forma lúdica nos serões realizados nos terreiros das casas dos povos fulas, nos encontros permeados de música, poesia, histórias e ensinamentos, revelando que o “instruir brincando” sempre foi um grande princípio dos antigos mestres malineses (Bâ, 2003, p. 175). Compreendo a educação antirracista como uma forma de lutar por um mundo melhor. A experiência compartilhada revela-se como possibilidade de afirmar a boniteza de práticas antirracistas realizadas com as crianças no cotidiano da Educação Infantil. A Educação Infantil pública desenha-se, para mim, como espaçotempo de vida, de aprendizagens, de encontro, de diálogo, de possibilidades, de luta, de produção de conhecimentos. É lugar de pensar sobre a vida. Viver a boniteza da vida como professora pesquisadora das classes populares me inspira a realizar o movimento descrito por Emicida em sua música “É tudo pra ontem” (2020), em um trecho específico que diz: “crianças têm o céu no alcance das mãos, irmão, será que há tempo de poder ser mais? Viver, partir, voltar e repartir”. O movimento de partir, voltar e repartir, em uma perspectiva de partilhar o que somos, o que sabemos e até mesmo o que temos, é também revolucionário porque implica um modo de conceber a educação antirracista como um ato estético, ético e poético para a construção de uma sociedade mais justa e menos desigual. Ao buscar o diálogo com as crianças das classes populares, percebo que não basta reconhecê-las como sujeitos políticos, produtores de vida e de histórias. É urgente tecer uma educação antirracista com as crianças, uma educaçãocom a vida, a favor da vida. Uma educação antirracista e dialógica, porque, ao viver a vida com as crianças, criamos situações para que elas participem ativamente na construção de seus conhecimentos. Escola pública: espaçotempo de tecelagem de conhecimentos em diálogo com crianças... Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 12 Quando te vejo eu também me enxergo8 Rememoro, e por isso revisito os registros do meu caderno de meados de 2019, anotados na correria de uma sala de aula de 4º ano do Ensino Fundamental, na escola pública em que trabalho, como professora, na cidade do Rio de Janeiro, com crianças de 9 a 11 anos de idade. Destaco que a escolha por narrar essa experiência se dá por dois motivos, o primeiro deles é por ter ocorrido no último ano antes do cenário pandêmico, que ainda perdura. Faço tal opção por considerar que as marcas desse tempo de isolamento foram tão profundas, que vivemos hoje um momento adaptativo a uma nova versão de escola, com demandas outras que vão muito além do que consideramos pedagógico. O segundo aspecto, ainda mais relevante do que o primeiro para determinar minha escolha por essa escrita, é o quanto o diálogo com essa criança da minha turma possibilitou que eu problematizasse ainda mais a minha prática, reafirmando a necessidade desse movimento dialógico para compreender melhor as lógicas infantis. Relato a situação vivida por nós, na sala de aula, em seguida retomo a reflexão aqui anunciada. A Figura 2 retrata parte de um processo vivenciado por minha turma, ao longo dos anos de 2018 e 2019. Motivada pela pergunta “Tia, aqui é pra usar conta de mais ou de menos?”, que aparecia com certa regularidade. Figura 2 – Situação-problema elaborada por criança da turma Fonte: Extraída de Queiroz (2022, p. 87). Problema: Luana comprou shampoo, condicionador e um produto de tratamento capilar. [Abaixo da primeira frase do enunciado, a estudante cola três imagens de produtos encontrados em um encarte de supermercado: um condicionador que custa R$ 4,99, um xampu que custa R$ 3,99 e uma caixa com ampolas de tratamento capilar, que custa R$ 6,99.] Quantos reais ela gastou? ( ) R$ 5,00 ( ) R$ 45,00 ( ) R$ 16,00 8 As reflexões compartilhadas neste trecho são oriundas da pesquisa de Mestrado intitulada Formulação de problemas matemáticos pelos estudantes: reflexões sobre o campo conceitual aditivo (Queiroz, 2022). O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), por meio da Plataforma Brasil. Número do Parecer 4.911.252; CAAE: 47481121.3.0000.9047. Maria Teresa Esteban, Joana Paula dos Santos Gomes de Oliveira e Luana Armaroli Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 13 Tive, na época, a percepção de que grande parte dos meus e das minhas estudantes não compreendiam a linguagem presente nos enunciados dos problemas matemáticos propostos. Como forma de possibilitar que compreendessem melhor os desafios propostos, em paralelo à resolução de problemas, propus que as crianças vivenciassem o desafio de formular seus próprios problemas matemáticos. Na ocasião, eu acreditava que ao serem desafiados a escrever os enunciados dos problemas matemáticos, elas teriam de entrar em contato com a linguagem matemática presente nos enunciados, e a familiaridade com esse tipo de texto poderia minimizar o receio que alguns sentiam ao se arriscar a formular hipóteses e caminhos de resolução. Esse trabalho, desenvolvido ao longo de dois anos, foi organizado em várias etapas. Inicialmente, construímos algumas situações-problema coletivamente, com toda a turma; em um momento posterior, em duplas e trios, as crianças arriscaram-se a fazer suas primeiras tentativas sem minha ajuda. No primeiro material criado pelas crianças, pude perceber diversos aspectos que precisavam ser revisitados com elas e, para isso, tive a ideia de, a partir de conversa e autorização prévia dada pelas e pelos estudantes, fotografar e projetar as fotografias dos problemas para que pudéssemos vê-los juntas, crianças e eu. Destaco que a escolha em não colocar os nomes das autoras de cada problema como forma de cuidado em não expô-las para a turma foi em vão, pois as crianças falaram com muito entusiasmo: “Gente, olha o meu problema!!!”; “Ih, esse aí é meu…”; “Essa letra é minha, fui eu que escrevi esse…”, o que demonstrou que se sentiam seguras naquele espaço, com aquele grupo, e que não viam como ruim que seus colegas de turma soubessem de seus equívocos e ajudassem a pensar juntos em novas ideias e alternativas. A formulação (e resolução) de problemas foi proposta em um movimento de ir e vir, no qual ora formulavam, ora tentavam resolver os problemas formulados pelos e pelas colegas, verificando se eles/elas tinham excesso ou falta de dados, ou ainda pensando em sugestões para sanar lacunas possibilitando que as situações-problema ficassem resolvíveis. Nesse ir e vir, à medida que compreendiam melhor o “matematiquês” tão presente na linguagem escolar, a pergunta “Tia, aqui é pra usar conta de mais ou de menos?” aparecia cada vez menos. A situação-problema em destaque (Figura 2) foi elaborada por uma estudante da turma em 2019, utilizando informações presentes em encartes de supermercado. Embora me considere professora cuidadosa e com olhar atento, quando recebi essa folha, com o problema elaborado pela minha aluna, percebi logo que ela não tinha utilizado os centavos (dos produtos escolhidos) em suas opções de resposta. Vivenciávamos a experiência de elaborar problemas matemáticos desde o ano anterior, e eu via grandes avanços em relação às suas primeiras tentativas, quando cursava o terceiro ano, em 2018. No entanto, o fato de ela ter criado um problema de “múltipla escolha”, dando opções de resposta dentre as quais não havia R$ 15,97 (somatório de R$ 4,99, R$ 3,99 e R$ 6,99), me parecia uma falta. Naquele curto espaço de tempo entre a entrega da folha a mim e seu retorno para sua carteira, enquanto eu já buscava refletir sobre os tipos de propostas que poderia sugerir de modo a minimizar as dificuldades apresentadas por ela, a estudante voltou a minha mesa e explicitou: - Tia, tá vendo essa Luana aqui? Não é você não tá?! É a minha mãe... Lembra que vocês têm o mesmo nome? Eu usei esses produtos porque sei que ela gosta, tem lá no banheiro. E, olha, eu coloquei esses valores aqui embaixo, sem os noventa e nove centavos nas opções, porque no mercado nunca dão um centavo de troco mesmo, então, se é R$ 4,99 é na verdade R$ 5. Tudo bem? Naquele momento, o sentimento que tive foi uma mistura de orgulho, alegria e alívio. Mais tarde, quando em meados do ano subsequente revisitei as fotografias desses problemas construídos pelas crianças ao longo de dois anos e os vários registros feitos no meu caderno, com falas dessas crianças sobre suas produções, a partir do arcabouço teórico sobre o qual me debruçava para a escrita de minha dissertação de Mestrado, continuei sentindo orgulho, alegria, alívio, mas agora também sentia uma grande contradição ao ter a incompletude do meu olhar explicitado pelo Escola pública: espaçotempo de tecelagem de conhecimentos em diálogo com crianças... Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 14 diálogo com a minha estudante. Com as leituras de textos e de mundo que eu era capaz de fazer naquele momento posterior, percebi que só olhar não era suficiente, eu precisava verdadeiramente enxergar, mas também ouvir, sentir... Percebi que, olhando para as crianças, eu também me via. A fala da menina fez com que eu refletisse sobre a forma como eu me via, como eu me vejo. Embora eu tivesse a intenção de pensar em estratégias para ajudá-la a lidar com um conteúdo complexo paraa faixa etária (somatório de números decimais), na primeira leitura que fiz do problema elaborado por ela, meu olhar foi para a falta de um valor preciso e não para a potência daquela produção que escancarava seu repertório. O arcabouço teórico que orientava meu olhar para a estudante em 2019, assim como orientava minha perspectiva de ensino, estava mais amparado em uma compreensão de matriz construtivista, priorizando a relação entre a criança, vista como sujeito cognoscente, e o objeto de conhecimento. Para além da maneira como eu a via, ela, criança, sabia com muita segurança, que “no mercado nunca dão um centavo de troco mesmo” e, por esse motivo, ela fez uma escolha coerente ao escrever suas opções de resposta. A problematização nos momentos de interação com as crianças demonstra, muitas vezes, que algumas concepções que temos e que embasam nossas escolhas, inclusive pedagógicas, são insuficientes ou mesmo contraditórias diante da realidade na qual estamos atuando. Como professora pesquisadora, que trabalha na escola pública, com muitas crianças das classes populares, percebo que conceitos que, por um período orientaram meu fazer docente, precisaram ser transformados. A concepção de sujeito cognoscente, a partir de novas leituras, discussões no grupo de pesquisa, nas aulas de Doutorado, nos mais diversos espaços formativos, assim como nas trocas com meus pares na escola, foi pouco a pouco sendo substituída pela concepção de sujeito social e político, concepção que considera que as crianças atuam no mundo e o transformam. Destaco que a transformação que acontece em mim é proveniente do movimento práticateoriaprática, pois as demandas que surgem na sala de aula explicitam a necessidade de aprofundamento teórico, reflexão e debate. Esse encontro com a teoria, por sua vez, nos modifica, possibilitando práticas outras, muito mais próximas das concepções sobre as quais nos debruçamos teoricamente. Ao considerarmos a criança como sujeito cognoscente, aproximamo-nos de uma perspectiva adultocêntrica, eurocêntrica; em contraponto, compreender as meninas e os meninos como sujeitos sociais e políticos demarca uma escolha que se aproxima da decolonialidade. Quando compreendemos as crianças como os sujeitos sociais e políticos que são, precisamos considerar a concepção de diálogo, presente em Freire (2011, 2023). A tentativa de construir com as crianças uma educação autêntica só é possível considerando as concepções que as crianças nos apresentam no dia a dia da sala de aula. A educadora que se propõe a ser dialógica e problematizadora traz “[...] a devolução organizada, sistematizada e acrescentada ao povo daqueles elementos que este lhe entregou de forma desestruturada” (Freire, 2011, p. 116). No contexto da escola pública, são as vozes das crianças das classes populares, por meio dos diálogos estabelecidos com as meninas e os meninos, que nos permitem ver o cotidiano de outra maneira. A situação descrita anteriormente demonstra que a percepção inicial da professora ao olhar para a produção da criança nem sempre é suficiente para compreender os saberes que estão contidos nele. Podemos compreender, como nos traz Freire (2011), que, por meio do diálogo, a estudante revela, de maneira desestruturada, inúmeros conhecimentos que já possui e alguns que talvez ainda não possua; nesse encontro, estabelece-se a oportunidade de compreender o que pode/deve ser oportunizado à criança de forma mais sistematizada. Segundo o autor, dentro da perspectiva de educação como prática de liberdade, o próprio conteúdo programático, em vez de ser oferecido como imposição ou mesmo doação, considera a quem ele se destina, quando a educadora se pergunta “[...] em torno do que vai dialogar com estes” (Freire, 2011, p. 115), somando as reflexões construídas a priori nos momentos de planejamento das aulas, com as interlocuções feitas o tempo Maria Teresa Esteban, Joana Paula dos Santos Gomes de Oliveira e Luana Armaroli Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 15 todo pelas e pelos estudantes. A situação-problema formulada pela criança, associada ao diálogo que traçamos, permitiu-me problematizar a minha compreensão de infância por (re)conhecer a maneira como essa criança interage no e com o mundo e aprende relações sócio-políticas desse mundo. Nesse sentido, sobre a situação-problema criada pela estudante em 2019, assim como sobre inúmeras situações vivenciadas cotidianamente na escola, olhar para apenas a produção escrita, em si, não nos permite compreender o pensamento, os questionamentos, as hipóteses e tantos outros aspectos que só descobrimos por meio do diálogo. Naquele momento, a explicação da criança, de forma autônoma, por conta própria, sobre as escolhas que ela fez do arredondamento dos valores decimais em inteiros, permitiu-me compreender o que ela já sabia, mas ainda não trazia respostas sobre o quanto ela tinha habilidade para operar com números decimais. Como professora que entende a avaliação processual como oportunidade de descobrir os conteúdos que merecem maior investimento, precisava de outras propostas para fortalecer meu caminho investigativo. Ao considerarmos os e as estudantes como sujeitos sociais e políticos, que aprendem na interação com os outros, concordamos que: “Tudo, ou quase tudo, nos levando [...] à passividade, ao ‘conhecimento’ memorizado apenas, que, não exigindo de nós elaboração ou reelaboração, nos deixa em posição de inautêntica sabedoria” (Freire, 2023, p. 126). Propostas como essa, na qual as crianças são autoras dos materiais – mais do que meras resolvedoras –, nos permitem lidar com a riqueza do inusitado, do imprevisível. Embora possa parecer, em um primeiro momento, que o lugar de “ensinante” esteja menos preenchido, o coletivo de crianças revela-se como uma potência se buscamos a verdadeira participação na composição do trabalho pedagógico. Nessa perspectiva, apoiamo-nos na compreensão de que não há ensino se não houver aprendizagem, assim, aprendemos, elas e eu, na troca, na escuta, no olhar, no diálogo. Nossos encantamentos A escola pública mostra-se espaço propício à tecelagem de conhecimentos por professoras e crianças, em diálogo e com alegria. As perguntas das crianças, seus modos curiosos e criativos de estar no mundo conectam-se a professoras que assumem a aprendizagem como núcleo do trabalho pedagógico, nela pautando a organização do ensino. Aprendizagem e ensino, não armazenamento de fragmentos de conteúdos transmitidos de modo linear, gradual e reforçados pela repetição, como propõe a pedagogia inscrita na modernidade. Uma pedagogia que, com suas diferentes composições, traduz os princípios da educação bancária (Freire, 2011). Trouxemos a este artigo fragmentos do trabalho pedagógico que temos realizado, na busca de ruptura com o modelo pedagógico de matriz adultocêntrica, eurocêntrica e colonial. Essa possibilidade, para nós, ganha maior consistência com o nosso encontro com a educação popular, alicerçada na proposição freireana de educação como prática de liberdade. Como afirmado anteriormente, para o trabalho com crianças brasileiras, das classes populares, em escolas públicas, vem se mostrando insuficiente e indesejado um paradigma educativo que retira a potência da infância como tempo de criação e de encantamentos, reduzindo aprender e ensinar a procedimentos mecanicistas, e crianças e professoras a seus ofícios escolares. Essa compreensão orienta-nos na composição do trabalho pedagógico e da pesquisa como propostas predominantemente voltadas para o encontro com o outro. Encontro tramado nas conversas de que participam adultos e crianças, na partilha do desafio de ampliar seus conhecimentos como parte de suas experiências de estar no mundo, compreendê-lo, nele viver, se transformando e atuando para sua transformação. Aproximamo-nos de princípios da educação Escolade 4 de março de 2009 e a Resolução nº 1.014, de 17 de março de 2009. Os documentos marcam o fim de uma política de reorganização escolar implementada na rede em 2007, a organização em ciclos2, e o início da política de avaliação que integrou o plano de reforma educacional daquela gestão. As entrevistas foram realizadas com professoras do ensino fundamental I. Os roteiros foram organizados previamente, mas com abertura para a realização de novas perguntas a partir das respostas dadas. Convém destacar que as pesquisas passaram pelo crivo do comitê de ética e as entrevistadas assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). O procedimento foi selecionado em acordo com as argumentações de Lüdke e André (2013) de que se trata de um recurso presente e bastante utilizado como método de produção de dados nas pesquisas de abordagem qualitativa nos trabalhos acadêmicos no campo das ciências sociais. As autoras, ao referirem-se às entrevistas “não totalmente estruturadas” em que não se verifique “uma ordem rígida de questões”, afirmam que é possível ao entrevistado discorrer sobre o tema no qual as informações se apresentam naturalmente. Para isso, é importante o caráter de interação entre entrevistado e entrevistador em uma “atmosfera de influência recíproca” (Lüdke, André, 2013, p. 38-39). RESULTADOS A apresentação dos resultados produzidos com as pesquisas é feita em duas seções. Na primeira, são trazidas informações sobre as provas bimestrais padronizadas da rede municipal 2 No decreto, a prefeitura chama a organização em ciclos de aprovação automática, confundindo conceitos diferentes do campo da educação. de ensino do Rio de Janeiro, explicando-se o que são essas provas, como elas funcionam e o contexto de sua implementação. Na segunda seção, são demonstrados os resultados atrelados às entrevistas com as professoras. Devido ao recorte adotado neste texto, são destacadas as falas que abordam a autonomia docente na relação com a avaliação escolar. As provas bimestrais padronizadas da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro A análise documental forneceu dados que permitem explicar o que são as provas bimestrais, o que leva ao contexto de sua implementação. Traçando-se uma linha do tempo, pode-se cravar em 1º de janeiro de 2009 o marco de uma nova fase na política educacional do município. Isso porque o prefeito eleito revogou, a partir do Decreto nº 30.340, a resolução que estabelecia a organização em ciclos em toda a rede, dando início ao que chamou de “reforma educacional”. Uma das estratégias dessa reforma foram as provas bimestrais, que, em 4 de março de 2009, apareceram como determinação na Resolução n° 1.010, revelando uma concepção de educação da prefeitura baseada na lógica de que aplicar mais provas para os estudantes é sinônimo de melhorar a qualidade da educação. Com provas elaboradas no âmbito da Secretaria Municipal de Educação (SME), a prefeitura balizou sua compreensão de qualidade pelo entendimento de que seu instrumento - centralizado e padronizado - avaliaria as aprendizagens dos estudantes de maneira mais fidedigna do que os instrumentos elaborados pelas professoras nas escolas. Isso pode ser deduzido da determinação, a princípio, de que as provas bimestrais teriam peso 2 frente ao peso 1 dos instrumentos elaborados pelas professoras. Gerando uma reação negativa nas profissionais de educação, a SME teve de recuar em sua decisão, o que a levou a equiparar os pesos com a publicação da Resolução nº 1.014, de 17 de março de 2009. Saltando em nossa linha do tempo para dez anos depois, em fevereiro de 2019, houve uma reorganização no calendário das provas bimestrais: nos segundo e quarto bimestres, as provas continuaram sendo elaboradas pela SME, enquanto as provas de primeiro e terceiro bimestres ficaram ao encargo das professoras. Os Cadernos Pedagógicos3 continuaram sob 3 Trata-se de material estruturado que apresenta um conjunto de exercícios utilizados no ensino fundamental I e II da rede municipal do Rio de Janeiro desde 2009. Distribuídos bimestralmente e conhecidos como “apostilas”, são elaborados por professores da rede e têm como finalidade auxiliar a docência no processo de ensino- aprendizagem. Os cadernos contêm atividades baseadas nos descritores de cada bimestre e formam a base para as provas distribuídas pela prefeitura. Fonte: GOMES DE OLIVEIRA, Cátia Cirlene. Políticas Curriculares para a primeira infância: o uso de cadernos de atividades na educação infantil da rede pública municipal da plena atribuição da Secretaria, porém, sua distribuição passou a ser semestral, acompanhando as datas das provas bimestrais elaboradas pelas SME (segundo e quarto bimestres). A prefeitura não divulgou nenhuma publicação que justificasse essas modificações e orientasse as profissionais das escolas quanto às suas atribuições, que, aliás, duraram pouco tempo. No ano seguinte, tanto as provas quanto os cadernos retornaram ao intervalo de dois meses para distribuição, sendo todas as provas elaboradas pela Secretaria novamente. Autonomia docente e avaliação escolar Ao longo das entrevistas, foi possível identificar dois momentos distintos em que Maria4 manifestou seu entendimento sobre o que considera autonomia. Em ambos os casos, a professora abordou o tema dentro do contexto específico de ter de elaborar suas próprias provas bimestrais, contudo, sua concepção de autonomia apresenta variações. No início do período letivo de 2019, ainda sob o impacto de ter de fazer suas próprias provas, externou, de forma crítica, sua preferência pelo calendário anterior, quando todas as provas bimestrais eram elaboradas pela Secretaria e enviadas juntamente com os cadernos. De acordo com a professora, ela tinha “mais flexibilidade para avaliar. Nesse novo sistema, a gente está sem a apostila, a gente não sabe o que vão pedir5 na prova. Com o sistema anterior, eu tinha mais flexibilidade, mais autonomia” (Prof.ª Maria, 2019). Nove meses depois, questionada sobre como se deu o processo da prova bimestral elaborada por ela, trouxe, mais uma vez, a questão da autonomia, contudo, revelando uma nova perspectiva: A gente teve autonomia para fazer isso. Porque também a gente precisa ter uma referência, a gente precisa ter um currículo – vamos dizer assim. O currículo que a gente tem são os descritores que nos chegam... que também não chega a ser um currículo, mas os descritores apontam os conteúdos que se vai trabalhar… porque a gente está preocupada com as habilidades mais do que com os conteúdos. Mas, para desenvolverem essas habilidades, eles [os estudantes] têm que construir ou reconstruir esse conceito. E é difícil construir conceitos. Não se decoram conceitos. Você pode até decorar, mas você não vai construir um conceito. É na atividade prática, é na conversa, é no trabalho em grupo, é na pesquisa (Profª Maria, 2019). cidade do Rio de Janeiro. 2015. 155f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2015. 4 Os nomes utilizados no texto são fictícios. 5 Ao dizer “pedir”, a professora está falando sobre o que a SME espera que ela inclua em sua prova. Isso está demonstrado em outras falas ao final desta seção. Aqui, Maria entra em acordo com a concepção de autonomia de outra entrevistada, a professora Sonia: Eu também, quando entrei, já estava nesse sistema, mas eu penso assim: eu tenho uma formação pedagógica para montar minha prova. Eu estudei Currículo, Didática, Avaliação. Fiz várias disciplinas, né? E, simplesmente, estou aqui para aplicar uma prova que vem pronta. Então, isso me castra. Meus alunos estão fazendo coisas tão legais e eu tenho que parar para dar a prova da Prefeitura. Eu gostaria de fazer a minha prova (Profª Sonia, 2020). O descontentamento de Soniapública: espaçotempo de tecelagem de conhecimentos em diálogo com crianças... Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 16 popular, cuja ênfase está na pedagogia dialógica de Freire, no intuito de trazer para as nossas práticas pedagógicas a liberdade como experiência, potência e possibilidade. Ao refletir sobre essa opção, destacamos, em diálogo com o trabalho de Mejía (2024), a relevância da proposição freireana para a elaboração da educação popular como uma pedagogia latino-americana, com história, propostas e desenvolvimentos próprios. Uma história cujo começo pode ser demarcado pela ruptura com a conceituação eurocêntrica de educação popular, que o trabalho de Simón Rodríguez produz, no século XIX, ao tomá-la como um projeto político- pedagógico, abrindo caminho para formulações mais adequadas ao contexto latino-americano. Uma história que percorre as veias abertas da América Latina – forte expressão-imagem cunhada pelo uruguaio Eduardo Galeano –, pelos pés, mãos, corações e mentes de tantas e tantos que vêm vivendo este continente com a experiência, o suor, o sangue, as lágrimas, a força, as rebeldias, as lutas e as festas dos povos que subalternizados não perdem a capacidade de re-existir e de produzir modos de viver e de pronunciar sua existência. A educação popular se tece com a potência desses povos, abarcando muitas proposições conceituais e práticas que dão conteúdo e forma a essa pedagogia, de acordo com o autor citado, tributária das rebeldias latino-americanas que, ao longo do tempo, engendraram uma teoria prática em consonância com a construção de movimentos sociais e dinâmicas que se distanciavam do pensamento eurocêntrico. Tecida nas periferias do sistema-mundo, em uma longa e histórica articulação entre povos e sujeitos subalternizados, postos à margem, tendo suas culturas e possibilidades de vida negadas, a educação popular se consolida como uma construção social e cultural a partir do Sul. Assim, toma a experiência subalterna como nuclear para o processo pedagógico, articulada à ação cultural para a liberdade. Na leitura desse conjunto, Mejía (2024) ressalta a relevância da obra de Freire, globalmente considerada, para fazer com que a educação popular ultrapasse a sua condição de pedagogia latino- americana, como inicialmente denominada, e se consolide como um paradigma latino-americano9. Um paradigma encharcado das demandas, das expectativas, dos conhecimentos e dos projetos próprios do Sul global, local de sua enunciação, historicamente marcado pela opressão, silenciamento e subalternização. O educador colombiano coloca-o ao lado de três outros paradigmas educativos e pedagógicos forjados na modernidade ocidental (alemão, francês e saxão) e destaca ser o da educação popular o único a contrapor-se ao eurocentrismo e a constituir-se em países externos à Europa. Mejía (2024) argumenta em favor da recomposição da educação popular de pedagogia à paradigma latino-americano, sublinhando a interação do ato educativo com a realidade que dele emerge e que precisa ser explicitada em diferentes linguagens para os diferentes sujeitos e interesses a ela relacionados. O ato educativo amplifica as possibilidades da relação entre a ação humana transformadora, indispensável ao processo histórico de humanização, e a leitura contextualizada da realidade. Para tanto, requer simultaneamente o conhecimento do que se materializa por meio dos textos escritos e “[...] el ejercicio cotidiano de habitar el mundo” (Mejía, 2024, p. 125). Desde essa perspectiva, na qual a heterogeneidade alimenta a pedagogia enraizada na realidade para transformá-la, sustenta propostas válidas para toda sociedade, compatíveis com o trabalho de todas as educadoras e todos os educadores com a condição de que, por meio das mais variadas práticas, guardem o compromisso ético com a luta contra os processos de opressão, efetivando “[...] una 9 Para Mejía (2024), a educação popular configura um paradigma educativo por ter consolidado um corpo prático e teórico que gera uma organização conceitual e metodológica, tendo como principais geradores: antecedentes históricos, fundamento prático-conceitual próprio, proposta de epistemologias da diversidade e desde o sul, desenvolvimentos pedagógicos específicos, processos investigativos a partir da prática, e elaboração identitária de natureza interdisciplinar a partir do pluriverso. Maria Teresa Esteban, Joana Paula dos Santos Gomes de Oliveira e Luana Armaroli Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 17 actuación educativa intencionadamente política en la sociedad para transformar y proponer alternativas educativas y sociales desde los intereses y los proyectos históricos de los grupos populares” (Mejía, 2024, p. 111). A educação popular converge com alternativas à escola pública entendida como lugar propício à enunciação coletiva, por meio de exercícios de pronúncia da palavra mundo, da palavra vida, que nos confronta às práticas de subalternização e nos desafia aos gestos, aos atos, às palavras, aos silêncios, às trocas que viabilizem a produção do conhecimento, a aprendizagem e o ensino como processos dialógicos. Nesse movimento, inserimo-nos10, sem desconhecer as fortes pressões que a escola pública recebe em favor da homogeneização educativa. Nossas narrativas expõem pequenos atos cotidianos, práticas realizadas em salas de aula, considerando nossos contextos, suas possibilidades e seus limites, observando a viabilidade de ir além do que a homogeneidade esperada propõe. Nossas propostas ancoram-se na certeza de que as crianças não são apenas sujeitos ativos no processo de aprendizagem, são sujeitos políticos que demandam aprendizagem. Portanto, não podemos repetir o ensino como ação sobre o outro, para (con)formá-lo. Com as crianças, vamos aprendendo a ir além dos percursos prescritos. Vivendo o cotidiano encantado pelos movimentos infantis, o processo pedagógico ganha sentido como ato dialógico ao evidenciar a efetiva participação das crianças na proposição e no encaminhamento do trabalho como expressão da escola como espaço de encontro com o outro e de conexão com a experiência humana de incompletude (Freire, 2011). Olhamos a infância como experiência de incompletude. Vivemos a docência e a pesquisa como experiências de incompletude. Entretanto, não assumimos a falta pela perspectiva colonial – que envolve o adultocentrismo e o eurocentrismo –, dando ênfase à negação. Acolhidas pela educação popular, que nos proporciona meios para experimentar pedagogias dialógicas, apoiamo- nos na concepção freireana que toma a incompletude como característica humana, cuja consciência traz o desejo de ser mais. Assim, estar na escola não se reduz a receber e elaborar aquilo que é disponibilizado por um currículo prescritivo, especialmente quando olhamos para as crianças das classes populares, as que se encontram majoritariamente nas escolas públicas. As crianças chegam à escola com indagações e propostas, embora suas experiências nem sempre se encaixem nas concepções de conteúdo e de processos escolares que se apresentam no projeto hegemônico de educação escolar. Contudo, quando se encontram com professoras comprometidas com uma escola democrática, favorável às experiências das classes populares, os conhecimentos e as perguntas infantis ajudam a movimentar o processo pedagógico. O diálogo faz do encontro tempo de reflexão e de descoberta e mobiliza no ato pedagógico sua dimensão libertadora. Os saberes e as demandas populares chegam às salas de aula nos olhares e sorrisos infantis, nas suas perguntas e propostas, nas suas descobertas, na dureza de suas vidas e nos seus sonhos. O diálogo tem nos permitido produzir trajetórias plurais em nossos trabalhos, implicados com a ampliação da potência da escolapública como espaço do povo, que se produz com o povo. Nossa prática pedagógica reafirma o quanto professoras e crianças, juntas, fazem da sala de aula espaçotempo de trabalho coletivo com o reconhecimento do lugar das crianças no pensarfazer cotidiano. Com elas, como professoras pesquisadoras, vamos trilhando percursos que nos levam a observar o que já se sabe e o muito que há para aprender; as questões que emergem dos encontros cotidianos nos convidam a problematizar o vivido, encontrar suas insuficiências, buscar conhecimentos (teóricos 10 Não nos colocamos de costas para a produção crítica que compõe o campo de estudos sobre a educação, mas estabelecemos com ela um diálogo marcado pela problematização de sua inscrição local e sua pretensão de universalidade. Escola pública: espaçotempo de tecelagem de conhecimentos em diálogo com crianças... Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 19, e23597, p. 1-20, 2024 Disponível em: 18 e práticos) e reelaborar a dinâmica pedagógica; assim, também reafirmamos nosso compromisso com a educação libertadora. Diante de uma sociedade desigual e de um processo de escolarização marcado pela colonialidade, estruturante de práticas que invisibilizam e silenciam, é preciso lembrar que, para Freire (2011), uma educação libertadora é uma educação problematizadora. Nesse contexto, desfavorável à incorporação da educação popular no cotidiano da escola pública, nossas práticas se configuram como um permanente objeto de nosso conhecimento, o que torna essencial mantermos uma atitude problematizadora. Ao mesmo tempo que estimulamos que as crianças perguntem sobre o que vivem, seja por meio da observação de uma imagem, da brincadeira com bonecas e bonecos, de atividades mais estruturadas e desafiadoras que dão sentido social aos problemas matemáticos ou a tantas propostas que se realizam na interação entre crianças e destas com as professoras, também estamos atentas ao nosso fazer docente. Questionamentos, dúvidas, elaboração de perguntas sobre nosso fazer e sobre seus resultados atravessam nossas intervenções pedagógicas e mobilizam nossas capacidades de refletir sobre a ação e de atuar de modo reflexivo. A problematização contribui para a melhor compreensão da realidade em que nos inserimos, dos obstáculos e dos elementos facilitadores presentes em nosso contexto, criando melhores condições para a construção de alternativas ou soluções para o que se apresenta como problema na ação pedagógica no sentido de conectá-la à educação libertadora. A problematização é o fio que costura as possibilidades de ação como professoras pesquisadoras. Uma escola comprometida com a educação como prática da liberdade é uma escola onde se canta, dança, pinta, desenha, lê, escreve, pensa, duvida, faz e refaz, interpela, desafia... Uma escola onde se aprende e se ensina com os olhos postos na vida cotidiana, em suas tensões e belezas, fortalecendo a autonomia das crianças, sua alegria e sua capacidade de criação e de admiração, enquanto também fortalece a docência como ato potente, amoroso, criativo e transformador. Uma escola que promove diálogos que (nos) encantam. Referências ALVES, N. Decifrando o pergaminho – o cotidiano das escolas na lógica das redes cotidianas. In: OLIVEIRA, I. B.; ALVES, N. (org.). Pesquisas no/do cotidiano das escolas – sobre rede de saberes. Rio de Janeiro: DP&A, 2001. p. 13-38. BÂ, A. H. Amkoullel: o menino fula. São Paulo: Palas Athena, 2003. BARBIERI, S.; VILELA, F. Quero colo! São Paulo: Brinque-Book, 2004. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão. 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Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 2006. p. 101-112. Recebido em 03/07/2024 Versão corrigida recebida em 26/09/2024 Aceito em 29/09/2024 Publicado online em 14/10/2024 https://doi.org/10.1590/S0101-73302005000200003em ter de aplicar para seus estudantes provas feitas pela SME alia-se a um dado relevante captado nas entrevistas: na prática, o peso conferido pelas professoras às provas bimestrais representa um valor menor do que o valor de seus próprios instrumentos de avaliação, desenvolvidos em conjunto com seus estudantes e colegas de trabalho, como pesquisas, exercícios realizados em sala de aula e apresentações. Embora as notas das provas bimestrais padronizadas sejam contabilizadas no conceito global6 dos estudantes, podendo culminar em reprovação, conforme Resolução n.º 1.123, de 24 de janeiro de 2011, as entrevistadas declararam não considerar essas notas quando podem reprovar. Isso significa que não é incomum que sejam os instrumentos de elaboração própria aqueles que carregam mais ênfase. Nesse sentido, é relevante mencionar, apesar de não ser o foco deste trabalho, que as pesquisas demonstraram que as provas da SME não são capazes de avaliar as aprendizagens dos estudantes, de modo que parece coerente que as profissionais nas escolas ofereçam maior destaque aos seus próprios instrumentos; estes, sim, capazes de acompanhar as aprendizagens. Ainda sobre os resultados produzidos com as entrevistas, pouca resistência coletiva às provas bimestrais padronizadas pôde ser observada. É importante lembrar que, em agosto de 2013, docentes do Rio de Janeiro paralisaram suas atividades, reivindicando equiparações salariais e a anulação das padronizações de currículo e provas. Contudo, atualmente é possível supor que as resistências acontecem individualmente, materializadas nas práticas pedagógicas direcionadas às aprendizagens dos estudantes em suas turmas. Isto é, embora as professoras apresentem críticas em relação às apostilas e provas padronizadas da SME, esses instrumentos são incorporados no cotidiano escolar dentro da perspectiva que Nazareth (2014) chama de “esforço conciliatório”. O esforço conciliatório consiste em combinar as exigências externas, no caso em questão, as provas bimestrais e os 6 Na rede municipal de ensino do Rio de Janeiro, os estudantes recebem um conceito global em seus boletins escolares, uma combinação dos resultados apresentados nos instrumentos de avaliação utilizados ao longo de cada bimestre. Cadernos Pedagógicos, com as demandas internas, aquilo que é reconhecido como central nas práticas docentes e que se configura no processo de ensino-aprendizagem dos estudantes a partir de outros instrumentos. Outro dado revelado nas investigações não somente pelas entrevistas, mas, também, pela análise documental foi a existência de dúvidas por parte das profissionais quanto à atribuição de elaborarem provas em dois bimestres do ano letivo. Lembrando que as pesquisas foram realizadas quando as provas já estavam em vigor há mais de uma década, é preciso ter em conta que muitas professoras não elaboravam provas há anos e que se preocuparam em não destoar da proposta da prefeitura, que continuaria a elaborar e enviar suas próprias provas semestralmente. A ausência de documentos oficiais que justificassem e orientassem o desenvolvimento das provas foi sentida pelas professoras, incertas quanto à finalidade do instrumento: deveria ele fazer parte de uma avaliação de desempenho ou seria parte de um processo de avaliação que acompanha as aprendizagens? Inicialmente, emergiram dúvidas tais como: “como é que isso vai ser? Vamos usar os descritores? E se as crianças não forem bem na prova? O que é que eles [a Secretaria] vão querer?”, arrefecidas mais à frente em um esforço coletivo das docentes, que conseguiram realizar a tarefa de organizar os próprios instrumentos avaliativos. DISCUSSÃO Paulo Freire (2013) ensina que a autonomia docente e discente é um princípio pedagógico para uma educação libertadora, educação essa que possibilita ao estudante se perceber como sujeito histórico, consciente de sua condição individual e coletiva. Freire (2013) assinala que “ensinar não é transferir conhecimento” (p. 47), mas possibilitar condições para produzir o conhecimento. Isso exige da professora/professor o rigor metódico, o respeito aos saberes, a compreensão da realidade que o cerca e a disposição para o diálogo. Em Freire (2013), a autonomia docente implica em uma relação de situações de aprendizagens que sejam ao mesmo tempo cooperativas e solidárias. Para o autor, um ambiente educativo é marcado entre ensinar e aprender, onde ambos, educadores e educandos, aprendem mutuamente. Contreras (2002) também contribui com reflexões acerca de autonomia, mas, de forma crítica, denuncia o uso frequente da palavra “autonomia”, que acabou se tornando o que denomina de “slogan pedagógico”. Usá-la como slogan reforça uma retórica de consenso, evitando uma discussão mais densa e aprofundada sobre o que é autonomia. Para o autor, o especialista técnico restringe-se a procedimentos e ações técnicas. O professor reflexivo olha para além da técnica e, atrelado à reflexão e à crítica, vivencia as experiências educacionais de seus discentes. Já o professor intelectual crítico é aquele que, um passo adiante do professor reflexivo e em um processo de emancipação, melhor negocia a sua prática com o seu contexto de atuação. Esse professor não só reflete sobre suas práticas, como também as torna intelectuais críticas, indo em uma direção política e ideológica. A docência extrapola os limites do conhecimento técnico e manifesta sua prática de forma democrática, mantendo o diálogo, refletindo e interagindo com os educandos e trocando saberes e valores. Quando o professor enxerga a educação como a troca de conhecimento e a construção de um olhar crítico, ele está prosseguindo com o processo de emancipação do sujeito, o que faz dele um professor autônomo e não um professor preso às técnicas (Contreras, 2002). Nas entrevistas, as professoras Maria e Sonia revelaram uma tensão cotidiana entre o papel do professor técnico, com as exigências oficiais (apostilas e provas), e o papel do professor reflexivo. Portanto, pode-se aventar que a autonomia enunciada por Freire (2013) e Contreras (2002), em que pese o olhar crítico sobre a prática docente, ainda está em processo de construção. A racionalidade técnica, baseada no conhecimento técnico, que, no caso, são os descritores, instrumentaliza Maria para dar cabo do cumprimento de uma tarefa, a elaboração da prova bimestral. Calzavara (2011) lembra que os descritores servem como “matrizes de referência” transmitidas aos professores a cada início de bimestre com o objetivo de preparar para o desenvolvimento do conteúdo e para a realização das provas. Ao mesmo tempo, Maria valoriza a construção de conceitos a partir da pesquisa realizada pelos próprios estudantes, o que evidencia um caráter reflexivo bem próximo do professor intelectual. Contudo, tais perspectivas acerca da autonomia enquanto processo de emancipação dos sujeitos (professores e estudantes) são indícios ainda não muito claros. Sonia, ao refletir criticamente sobre a atividade docente frente às provas bimestrais padronizadas, expõe os limites do “especialista técnico” e abre a possibilidade ao “professor reflexivo”. Isso porque as provas bimestrais padronizadas da prefeitura são exames externos. Domingos Fernandes (2009) explica que a avaliação externa, incluindo os exames que fazem parte dela, está direcionada à construção de políticas educacionais, não ao acompanhamento das aprendizagens. Além de padronizada, ela é administrada e supervisionada por entidades externas às escolas e possui diversas funções, como selecionar, controlar e certificar. Portanto, é somativa e, geralmente, seus exames e testes são de múltipla escolha, não se atendo a estruturas complexas de pensamento. Seus resultados são frequentemente publicizados, podendo levar à monitoração e à prestação de contas (accountability). Nesseponto, convém sinalizar que exame e avaliação são conceitos diferentes, assim como aprendizagens e desempenho (Fernandes, C., 2010; Luckesi, 2011). A avaliação é processual e exige tomada de decisão. Os exames são um tipo de instrumento desse processo. Enquanto o desempenho é uno, homogêneo, pontual, seletivo, classificatório, objetivo e verticalizado, as aprendizagens são múltiplas, diferentes, processuais, ativas, participativas, individuais e coletivas. No caso das provas bimestrais padronizadas da SME, seu valor está mais para uma prestação de contas à SME e à comunidade de responsáveis, não sendo capaz de avaliar as aprendizagens dos estudantes, o que nos remete para uma dimensão da avaliação calcada na prescrição de qualidade em comunhão com o discurso de accountability (Afonso, 2010). A avaliação das e para as aprendizagens, por sua vez, possui uma relação mais estreita com o papel social da escola, pois está comprometida com os diferentes saberes construídos na escola viva. Por isso, envolve triangulação de espaços e tempos; de estratégias, técnicas e instrumentos; e de atores, estabelecendo uma ponte entre professoras e educandos (Fernandes, D., 2009). Sua transparência torna o processo de ensino-aprendizagem-avaliação mais justo, democrático e igualitário. CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente texto buscou apresentar dados revelados por duas investigações no que diz respeito às concepções de autonomia docente frente às provas bimestrais padronizadas da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro. A análise documental revelou uma concepção de educação por parte da prefeitura que se baseia na lógica de que aplicar mais provas é sinônimo de melhorar a qualidade da educação, dado seu entendimento de que o exame externo - centralizado e padronizado - não somente é capaz de avaliar as aprendizagens dos estudantes, como de fazê-lo melhor e de maneira mais fidedigna do que os instrumentos elaborados pelas professoras nas escolas. Nesse cenário, desenhou-se uma proposta educacional onde ensino, aprendizagens e avaliações passaram a ser pautados por cadernos pedagógicos, descritores e bonificação (14º salário), conferida aos profissionais que atingem as metas estipuladas para a rede. Nesse sentido, as contribuições para o fazer docente são pouco significativas, sendo a política mais adequada para informar à SME-RJ sobre o desempenho dos estudantes em relação aos conteúdos mínimos da rede. As professoras, por outro lado, sinalizam, em seus discursos nas entrevistas, que seus próprios instrumentos avaliativos estão mais próximos dos saberes dos estudantes. A autonomia enunciada pelas professoras ao longo das entrevistas demonstrou seu caráter polissêmico, pois, na compreensão desses sujeitos, a autonomia apresenta significados múltiplos. Em diferentes ocasiões, foi revelado que as concepções de autonomia por parte das professoras ainda estão em construção. Ainda assim, foi amplamente externalizado que elas conferem maior valor aos seus próprios instrumentos de avaliação se comparados aos da prefeitura, entendendo que os seus são aqueles capazes de acompanhar as aprendizagens. As entrevistas também expressaram a pouca resistência coletiva às provas bimestrais padronizadas, de modo que, apesar de apresentarem críticas em relação às apostilas e provas padronizadas da SME, as professoras incorporam esses instrumentos no cotidiano escolar dentro da perspectiva do “esforço conciliatório”. Outro dado revelado nas investigações não somente pelas entrevistas, mas, também, pela análise documental foi a existência de dúvidas por parte das profissionais quanto à atribuição de elaborarem provas em dois bimestres do ano letivo devido à ausência de documentos oficiais que justificassem e orientassem o desenvolvimento das provas. Os resultados apresentados apontam para a relevância de se continuarem os estudos que tratam da autonomia docente frente a políticas de avaliação externa, em especial, em casos como o das provas bimestrais do Rio de Janeiro, que se colocam como avaliação das aprendizagens mesmo sendo exames externos. Por fim, é importante destacar que este trabalho se ancora na perspectiva de que a autonomia docente é fundamental para o desenvolvimento do trabalho pedagógico com vistas à construção de uma sociedade democrática. Nesse aspecto, é essencial refletir sobre a dimensão de uma escola outra, que a considere como um espaço de trocas, de múltiplos saberes e de aprendizagens que sejam significativas para os que participam da escola. REFERÊNCIAS AFONSO, Almerindo Janela. Um olhar sociológico em torno da accountability em educação. In: ESTEBAN, Maria Teresa; AFONSO, Almerindo Janela (orgs). Olhares e interfaces: reflexões críticas sobre a avaliação. São Paulo: Cortez, 2010. p.147-170. 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Decreto N.º 30.340, de 1º de janeiro de 2009. Revoga o Decreto N.º 28.878, de 17.12.2007, que cuida da “aprovação automática” no âmbito da rede pública de ensino municipal e dá outras providências. Diário Oficial Eletrônico do Município do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1º jan. 2009. Disponível em: http://doweb.rio.rj.gov.br/. Acesso em: 31 maio 2024. RIO DE JANEIRO (RJ). Secretaria Municipal de Educação. Resolução SME N.º 1.010, de 04 de março de 2009. Dispõe sobre orientações relativas à avaliação escolar na Rede Pública do Sistema Municipal de Ensino da Cidade do Rio de Janeiro e dá outras providências. Diário Oficial Eletrônico do Município do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 5 mar. 2009. Disponível em: http://doweb.rio.rj.gov.br/. Acesso em: 31 maio 2024. RIO DE JANEIRO (RJ). Secretaria Municipal de Educação. Resolução SME N.º 1.014, de 17 de março de 2009. 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CONTRIBUIÇÕES COM O ESTUDO: AVALIAR “COM” CRIZÁN SASSON CORRÊA DE OLIVEIRA- CAP-UERJ/UNIRIO CLAUDIA DE OLIVEIRA FERNANDES - UNIRIO (Orientadora) RESUMO A pesquisa trata da/na/com preocupação de compreender o que conversam alguns autores do campo da avaliação, problematizando o cotidiano escolar, ao assumir a criação em redes cotidianamente negociadas dentro e fora da escola, com ênfase nos movimentos curriculares e avaliativosinstitucionais. Problematiza que a avaliação educacional classificatória, excludente, ocidental, meritocrata, capitalista, adultizada e colonializada, entre outras leituras, carece dialogar com outras praticantes teorizações avaliativas e, assim, inspirado nas “pesquisas dos/nos/com cotidianos”, inicia um estudo com o propósito de conversar e defender a importância do estudo Avaliar “com”. Tem como objetivo contribuir à discussão dos estudos do ato de avaliar usando, para tanto, alguns desdobramentos das pesquisas realizadas com os cotidianos (Ferraço, 2003). Com a pesquisa de doutorado foi possível concluir que circulam, na escola, diferentes concepções de avaliação, com enfoques divergentes, mas, ao mesmo tempo, coexistentes com lógicas que apostam em diferentes modos de estar com o Outro no processo. Assim, torna-se necessário considerar nossa incompletude nos processos avaliativos, e que, quando somos chamados a responder por nós ou pelo Outro, ainda dentro de uma prática investigativa, decidimos de modo relacional por uma fixação da complexidade contingencialmente, entendendo-a como provisória, inconclusa e pronta a ser investigada novamente, sem a garantia de que capturamos, de modo preciso e delimitado, o saber do Outro em processos avaliativos. Palavras-chave: Avaliação, Educação Básica, Cotidiano. INTRODUÇÃO Existem diferentes concepções de avaliação no campo (Alves, 2004). Aos diversos usosmodos de conceituar, encontramos: leituras de mundo, concepções de educação, projetos de sociedade, funções sociais da escola, entre outros elementos que substanciam os diversos conceitos, seus formuladores e as ações pedagógicas que constituem a ideia de avaliar. Esse artigo é um recorte de tese de doutorado finalizada em 2023, um estudo teórico e pesquisa narrativa, que teve dentre alguns objetivos discutir diferentes proposições teóricas do campo da avaliação que circulam nas escolas, nos cursos de formação, nessa segunda década do século XXI e compreender a possibilidade de se pensar teoricamente uma concepção de avaliação que aponte para uma prática do avaliar com e não do avaliar para. Tal possibilidade se investigou a partir das narrativas docentes e discentes e suas interlocuções presentes nas realidades escolares. Com J. Gimeno Sacristán e A. I. Pérez Gomez (1998), abraço a ideia de que avaliação “refere-se a qualquer processo por meio do qual alguma ou várias características de um aluno/a, de um grupo de estudantes, de um ambiente educativo, de objetivos educativos, de materiais, de professores/as, programas etc. recebem atenção de quem avalia,”. Além disso, “analisa-se, valorizam-se suas características e condições em função de alguns critérios ou pontos de referência para emitir julgamento que seja relevante para a educação.” (Sacristán & Gomez, 1998, p. 298) Com Esteban (2000) aposto na avaliação como prática de investigação que “se configura pelo reconhecimento dos múltiplos saberes, lógicas e valores que permeiam a tessitura do conhecimento,” sendo conceitualmente “constituída como um processo que indaga os resultados apresentados, os trajetos percorridos, os percursos previstos, as relações estabelecidas entre as pessoas, saberes, informações, fatos, contextos.” (Esteban, 2000, p. 11). Considerando tais concepções de avaliação e suas contribuições, argumento, que existem diferentes enfoques avaliativos. Alguns deles, mesmo sendo considerados hegemônicos e parecendo persistir há algum tempo, se constituem em meio a tensões e conflitos nas práticas avaliativas escolares. Trata-se, portanto, de uma hegemonia em disputa. Assim, a proposta de investigação consiste em desestabilizar concepções hegemônicas consideradas mais estáveis e seus interesses particulares, destacando outros debates aos estudos avaliativos, promovendo o antagonismo através dos múltiplos discursos. Há perspectivas avaliativas que se dedicam a criar meios de verificar resultados avaliativos a partir de instrumentos de medida e classificação dos saberes, conhecido pelos autores como avaliação classificatória ou avaliação do desempenho/resultado. Outra perspectiva presente nas práticas escolares, conhecida pelo foco na necessidade de aprender é a conhecida: avaliação formativa, perspectiva que promove tentativas avaliativas de centralização do aluno em prol de uma aprendizagem necessária ao que foi programado e/ou previsto como melhor aprendizagem. Ambos os enfoques têm características distintas e cumprem funções também distintas, entretanto, mesmo em condições diferentes, desencadeiam consequências semelhantes em prol da adaptação do estudante a uma hierarquia social. A essas duas perspectivas: “Controle e classificação: avaliação do rendimento/desempenho” e “Necessidade de aprender: avaliação formativa”, há autores que defendem mudanças teóricas, como: centralidade no estudante, valorização do processo, atenção às dificuldades do aluno, troca entre avaliadores e avaliados, participação da família e escola, entre outros elementos. Mas que permanecem no intento da possibilidade de medir o conhecimento, ou seja, permanecem em uma epistemologia que ainda destaca e abraça a classificação, sem a quebra do paradigma (Fernandes, 2020), com pactos sociais fixos, de um produto social referenciado em objetivos particulares. Em relação a esta problemática do campo da avaliação – de permanência da lógica de medir conhecimentos para classificar –, encontramos autores dispostos a propor concepções outras, com críticas a tais proposições, apostando na lógica de romper perspectivas hegemônicas de classificação, como as críticas levantadas por Barriga (1999) sobre o exame, Sacristán & Gomez(1998) na discussão conceitual da avaliação, Fernandes (2015, 2020, 2012) e a relação social, dialógica e processual da avaliação, Esteban (1999, 2001) com a avaliação investigativa, Hoffmam (2005) com a avaliação mediadora, Saul (1988, 2015) com a avaliação emancipatória, entre outros. A partir dessas leituras, realizo um estudo que nomeio “Avaliar com”, no sentido de conversar com autores divergentes à ideia de avaliação classificatória, apostando na necessidade de um rompimento epistemológico, com o propósito de contribuir para o adensamento da produção teórica que existe no campo da avaliação. Ou seja, um estudo que vem contribuir especialmente aos debates avaliativos e sua relação com as aprendizagens, avaliação com o cotidiano, num processo de autoria dos sujeitos, tecida em redes educativas, informados por interesses e desejos de seus praticantespensantes, com relações educacionais e intersubjetivas. Deste modo, o “Avaliar com” se configura em um estudo que busca sistematizar [dialogar/unir] ideias de algumas pesquisas do/no/com o cotidiano e alguns autorespesquisadores que procuram romper com a aparente lógica hegemônica avaliativa, apostando na perspectiva da complexidade em suas pesquisas no campo da avaliação. A ideia do “Avaliar com” surge a partir de tais leituras e aposta em uma perspectiva de avaliação com um olhar no “imprevisível” e/ou “estranho” que a criança traz. Ainda que, a todo tempo, estejamos num processo de disputa política, investindo na constituição do saber, do conteúdo, do que será avaliado, ainda assim é preciso crer que, nessa condição do processo avaliativo, há uma aprendizagem imprevista, presente na relação complexa, no reconhecimento da incompletude e das incertezas, ao captar parte de um solo da palavra viva do “conhecimento vivencial”, por vezes perdido em meio às lógicas da modernidade. Sendo contingencial, não determinista e não essencialista, o estudo “Avaliar com” interliga aspectos teóricos cotidianistas, endereçado às práticas cotidianas de pesquisa – as experiências do vivido (Garcia, 2003a) – ao “superar a ideia de considerar apenas aquilo que pode ser classificado, organizado, enquadrado(...)”, ao estudar e “mergulhar na complexidade da vida, buscando captar seu dinamismo, seus enredamentos, seus pequenos acontecimentos, tornando-se fundamental para o encontro com o imprevisível, do incontrolável, do diverso, do singular” (Oliveira & Sgarbi, 2008, p. 18), que também compõem a vida cotidiana. Complexidade que não determina ou pronuncia um determinado conteúdo normativo, vive junto e em meio às situações. METODOLOGIA Trago a “Conversa com memórias” correlacionada à “Experiência do vivido” como princípio teoricometodológico, vinculado às ideias de pesquisa narrativa, problematizando o cotidiano escolar e suas múltiplas redes educativas, ao assumir a criação em redes cotidianamente negociadas dentro e fora da escola, com ênfase nos movimentos avaliativos institucionais. A pesquisa buscou identificar, em algumas teorias do campo da avaliação, marcas da modernidade e suas interferências nas práticas cotidianas escolares, costurando-as às realidades escolares presentes nas narrativas docentes e discentes, suas interlocuções, ambiguidades, com o cuidado de perceber conflitos e insurgências, entendendo que há movimentos e mudanças nos processos que compõem tais perspectivas. Inspirada nos estudos cotidianistas, como postura epistemológica do trabalho, aposta e investiga “aquilo que nos é dado cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos impressiona dia após dia.” (Certeau, 1996, p. 31) – o cotidiano da escola pública, de estudantes e professores, que, em conversa, partilham suas inquietações escolares e avaliativas – “aquilo que assumimos, ao despertar, é o peso da vida, (...) aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior. É uma história a meio do caminho de nós mesmos, quase em retirada, às vezes velada (...) – o cotidiano”. (Certeau, 1996, p. 31) REFERENCIAL TEÓRICO O Avaliar “com” se configura em um estudo sistemático de autorespesquisadores que tem a perspectiva da complexidade em suas pesquisas sobre avaliação. Meu esforço foi uma tentativa de tecer [unir-me] ao conjunto de estudos dedicando-me, especialmente, em como o Outro se torna presença no processo avaliativo, ao demonstrar suas aprendizagens. Freire afirma que a aprendizagem não é somente o ato de transmitir de fora para dentro. Envolve interpretar o real da realidade que vivemos a cada instante, ao construir e reconstruir nossas aprendizagens. Assim, o ato de aprender requer: solidariedade, respeito, experiência, conversa, troca e, principalmente, abertura ao novo. Sendo coletiva, permanente e de responsabilidade de todos, a aprendizagem é um caminhar que cada um faz o seu, provisória e contingencialmente, em cada passo e direção (Freire, 1996). A noção de complexidade, proposta por Edgar Morin (1990), incorporada aos estudos da avaliação no cotidiano escolar, tem-se mostrado produtiva frente à noção de classificação e controle sentida em nossas escolas. Com o aprofundamento dos estudos avaliativos na perspectiva da complexidade, da possibilidade de vir a ser, do inconcluso, provisório, marcado pelo encontro com o Outro e presente na complexidade do real, é desafiador aventurar-nos aos estudos de nossas incompletudes. A avaliação, na relação com o Outro, é a avaliação que está em processo de vir a ser (Freire, 2014), inconclusiva, e que esta pode se mostrar cada vez mais potente para compreender e investigar as diferentes significações que os processos avaliativos assumem contextualmente. “Avaliar com” constituiu-se a partir do esforço de dialogar com a perspectiva da complexidade presente nas pesquisas sobre avaliação, que valorizam a autonomia dos sujeitos cotidianos e a inexistência de determinações sociais capazes de hierarquizar e objetivar as ações avaliativas. Avaliação como processo de autoria dos sujeitos, tecida em redes educativas, informado por interesses e desejos de seus praticantespensantes. O termo com, em minha pesquisa, surgiu através dos estudos do professor Ferraço (2003), ao incluir o termo “com” nos estudos “dos/nos cotidianos”. Ao argumentar sobre as artes de fazer com, Ferraço (2004) integrou esse processo de investigação como “lugar de encontro das artes e das ciências, das certezas e das dúvidas, das determinações e dos acasos, dos encontros e desencontros, (...) da alegria de descobrir com, de pesquisar com, de criar com, de com-partilhar.” (Garcia, 2003, p. 205). Ou seja, avaliar pode também abraçar um movimento despretensioso, de relações em rede de partilha, de liberdade de pensamento, de fala, de conversa, de escuta, de sentir o Outro e ser sentido por ele, em meio à correlação dos pedidos avaliativos e à experiência da riqueza de avaliar com; avaliar na perspectiva da complexidade. Operar com a noção de complexidade e não de controle ou classificação compromete a ação avaliativa com a compreensão da relação com o Outro que compõe o cenário da prática de investigação ao avaliar; abre ao compromisso de que, com o Outro, tornamo-nos presença, e permite desconstruir tanto a lógica de se pensar o processo avaliativo ordenado com controle, quanto, igualmente, a lógica de adaptar o Outro ao seu lugar na hierarquia social. “A discussão do espaço intersubjetivo mostra que tornar-se presença não é algo que se pode fazer sozinho. Alguém pode introduzir seu início no mundo, mas ele precisa de um mundo – um mundo composto de outros "iniciadores" – para vir a esse mundo” (Biesta, 2013, p. 80). Nós estamos juntos nisso! Tornar-se presença na relação com o Outro é algo complexo que não é possível individualmente. “São necessários outros que assumam os inícios de alguém, sempre de modos novos e imprevisíveis, para que esse alguém venha ao mundo (Ibidem, p. 80). RESULTADOS E DISCUSSÃO Primeiramente precisamos nos perguntar: “qual o papel da escola hoje na vida das pessoas? Para que e por que as crianças e os jovens do século XXI vão à escola? Estabelecido esse debate, outro se faz em seguida: por que e para que avaliamos as aprendizagens dos estudantes na escola?” (Fernandes, 2020, p. 146). O papel social da escola traz a complexidade da tessitura do cotidiano, tornando-o o lócus da invenção avaliativa concebida nas/das/com redes educativas que a escola compreende. Nos estudos do campo da avaliação, Fernandes (2020) nos provoca a refletir e ampliar a discussão, com a necessidade constante de compreender a avaliação “mergulhada” em sua relação com o papel social da escola e pensar alternativas de avaliação, considerando a complexidade da vida, pois, se não pensamos o projeto de escola enquanto seu papel social, a avaliação torna-se cada vez mais distante de nossa leitura do real. Apostando que a avaliação envolve dialogicidade, amorosidade, solidariedade, autonomia, empatia, entre outros conceitos freireanos, Fernandes (2020) problematiza que a avaliação precisa considerar tais aspectos, envoltos na complexidade das relações. A avaliação na perspectiva da complexidade não se limita a constatar fatos, mas a interrogar, tecer, aventurar-se aos riscos, desafiar, criar laços e propor em união “com” o Outro. Contudo, cada um desses processos escolares vai sendo significado na prática educativa de escolarização, segundo o contexto em que nascem, o que confere a cada prática avaliativa singularidades. No início de 2023, planejei uma proposta que faria com as crianças em um dia de aula. Fiz uma longa conversa com o grupo que propôs diferentes assuntos de seu interesse. Era início do ano letivo e, junto com outras professoras, perguntamos o que as crianças gostariam de fazer em sua mais nova escola. Estavam no 1º ano do ensino fundamental e, como “chegantes” queriam estudar diferentes assuntos. Neste ano, 2024, permaneço com as crianças, agora pertencentes ao 2º ano do ensino fundamental. O pedido das crianças em estudar o “nome da escola” veio em um conjunto de propostas levantadaspelo grupo, e, então, dediquei-me, junto com as crianças, a estudar os assuntos que o grupo pediu. Estudei a história do nosso primeiro diretor, que dá nome à escola e fiz o planejamento da aula com a apresentação dos diferentes espaços (sedes) por que a nossa escola já passou. Cheguei à sala, de manhã, mais cedo, para organizar o que havia planejado. As crianças estavam estudando diferentes elementos da escola e chegaram curiosas falando sobre o final de semana. Foi interessante ouvir suas histórias com as famílias, quando, em um dado momento da aula, retomamos a conversa sobre a nova escola, o CAp/UERJ7, pensada pelo grupo na semana anterior. Então falei com as crianças: – Pensei que poderíamos falar sobre o nome da escola, vocês falaram que gostariam de estudar mais sobre isso, então estou retomando nossa última conversa. Na minha cabeça, tudo estava preparado para falar do “grande nome que a escola tem”, para além da abreviação “CAp/UERJ”. Então, fui à frente do grupo, escrevi “CAp/UERJ” bem grande, no meio do quadro, e perguntei: – Lembram que vocês queriam saber mais sobre o nome da escola? E as crianças logo se interessaram em conversar, nem consegui dizer o restante da frase que queria (“Hoje vamos estudar que o nome da escola é bem maior e diferente do que somente a palavra “CAp/UERJ” – meu pensamento), pois uma das crianças logo respondeu: – Que bom! Estava precisando! Queria muito falar disso. E outra criança disse: – Estava querendo falar disso, CAp/UERJ é muito complicado! Este nome é difícil demais! Cruzes! Ontem estava falando com o meu pai sobre isso. Está até difícil para escrever. Fiquei parada e pensei: – O que eu faço? Como vou dizer que o nome da escola é ainda maior do que o nome que eles dizem conhecer, se tem uma criança que, logo no início do dia, diz que está difícil escrever “CAP/UERJ” – um registro com apenas 7 letras? [Eu e minhas interpretações...] Então perguntei: – Por que você está falando isso? E ela disse: – Professora, estava desenhando a escola em casa e fui escrever o nome dela, como sempre faço aqui com você, tudo bem que estamos nessa escola tem poucos dias, mas meu pai disse que estou escrevendo o nome da escola errado. Outras crianças da turma interrompem dizendo: – Eu também acho o nome da escola difícil! Que estranho! E outra disse: – É difícil mesmo! Que coisa, né? E a criança voltou a dizer: – Meu pai falou que o nome da escola não é “CAPI”, mas eu escrevo “CAPI”, porque é “CAPI”, você entende? Quando disse isso para o meu pai, ele me 7 Essa pesquisa tem registro no comitê de ética. contou uma novidade. A criança virou para os colegas, e disse: –Vocês sabiam que existem palavras que são mudas? (e colocou as mãos na boca para expressar a ideia de estar “mudo”, com os olhos arregalados). As crianças respondem: – Eu sabia! E outra disse: – Eu também sabia! O “H” é uma letra muda, porque não tem som. A criança que trouxe aquela informação, logo respondeu: –Não é disso que estou falando… não ter som é diferente de ser mudo. E continuou: – Meu pai me disse que uma palavra muda fica sozinha sem a outra letra… ‘h’ não é assim…’h’ é sem som, ele tem letra do lado, uma letra do lado que fala por ele… a palavra muda não tem outra letra, está sozinha, fica sem ação porque está sozinha, e assim fica muda. Pelo menos é o que eu acho! E continuou: – O CAP é assim! Não é ‘CAPI’ é ‘CAP’, com ‘P’ ‘mudo’” (e colocou novamente as mãos na boca). Você fala ‘CAPI’, mas escreve ‘CAP’. Você fala de um jeito, mas escreveu de outro. Outra criança veio para perto de mim e disse: – Meu problema é esse também… é o jeito de escrever o nome da escola, por isso disse que é tão difícil! Nessa altura da conversa, já tinha até esquecido o planejamento que tinha preparado, nem pensava mais em falar do grande nome da escola, nem da sua história, nem tão pouco dos diferentes lugares que a escola já havia sediado… tinha entendido o que a turma planejou comigo, na semana anterior, de modo diferente. Quando falamos em “estudar o nome da escola”, realmente percebi que minha compreensão foi totalmente diferente do que as crianças haviam pensado. Estavam expressando que estavam com questões diferentes, eram “dificuldades com o nome da escola” e que tais dúvidas estavam virando grandes problemas para alguns deles. Fiquei pensando no encontro anterior: a turma falou tantos assuntos sobre os quais gostaria de estudar, que não tivemos tempo de aprofundar do que de fato cada assunto tratava. Anotei, em meus registros, que precisava voltar neles. Então pedi que a outra criança também falasse sobre seu problema. – Professora, também estou com dificuldade no nome da escola, e, como você escreve sempre essa palavra em vários lugares, eu escrevo também, mas fico sem entender nada! Já escrevi no caderno, na agenda, porque já cheguei aqui sabendo ler e escrever, mas não sei por que escrevemos “CAP/UERJ” desse jeito. Sei que você está ensinando a escrever essa palavra, e que é importante, mas meu problema não é com você, é com todo mundo. Então pedi desculpas ao grupo, guardei a caneta do quadro e não continuei escrevendo. E falei: – Mas não estou entendendo… o que está difícil? Vamos conversar? E a criança disse: – Eu escrevo o nome da escola do meu jeito, mas, quando vou ver, no símbolo está escrito “CAp/UERJ”, nas etiquetas “CAp/UERJ”, na camisa da escola está “CAp/UERJ”, em todo o lugar. E continuou: – Por que todo mundo fala CAP/UER”G”(ge) e, na hora de escrever, escrevem com “J”(jota)? Não entendo isso, é CAP/UER”G”(ge), todo mundo fala “CAP- UER- GGGGGG”(ge)! Mas, na verdade é com “J”(jota). E continuou: – Eu procurei o que é “UERJ”, e é porque “tá” falando de “RJ” de ‘Rio de Janeiro’. Mas, continuo sem entender… se existe o jornal “RJ TV”, nós falamos “R”(erre) e “J”(jota). Agora, por que falamos CAP/UER”G”(ge), se escreve CAP/UER”J”(jota)? Não seria melhor falar “capiuerjota”? O outro CAp é “CApUFRJ”, é “CAp ”U” (u) “F” (efe) “R”(erre) e “J”(jota)” e eles falam o “J”(jota)! E ainda disse: – Outra coisa, tudo bem confundir o “g” e o “j” quando vamos escrever, mas o problema está no jeito como se fala… é o contrário que está errado? Mas tá errado? A gente vê a letra “j”(jota”) e ainda assim fala CAP/UER”G”(ge). Eu sei que existem regras para escrever, mas existem regras para falar também? Afinal, isso não é um símbolo de “R”(erre) e de “J”(jota)? Quanta coisa ouvi naquele dia… saí dali de um jeito totalmente diferente, questionando a língua que eu estava ensinando/aprendendo com meus parceiros/pesquisadores, os estudantes. Questionei-me: –Por que nunca me perguntei coisas tão interessantes sobre o nome da escola? Quanta aprendizagem… O nome da escola não era “só” o nome da escola. O que esse relato faz pensar sobre avaliação? O nome da escola era uma palavra com “P” mudo, e “ser mudo é diferente de não ter som”. Pois, mesmo não tendo som, o “H” tem sempre uma letra perto dele, então ele não é mudo, ele é sem som. Entendi, ali, com as crianças, que o “H” não quer falar, então a outra letra, perto dele, fala – ela fala pelos dois. Mas, naquele dia, também aprendi outra coisa genial, que ser “mudo”, como é o caso do “P”, é se sentir sozinho, e, por não ter outra letra do lado, ela emudece. As crianças estavam estudando como as letras se relacionavam, como criavam suas amizades, e foi incrível estar ali participando daquela aula. Também não posso me esquecer das letras “R” e “J”, da palavra “CAP/UERJ”, e como a sigla do Rio de Janeiro, tão polêmica, tornava o “J” em “G”. Muitas outras coisas aprendi naquele dia. Com cada grupo de pessoas com quem vivo a minha vida de professora/estudante, surpreendo-me. Sejam estudantes, bolsistas, colegas de turma, parceiros de trabalho, pessoas mais próximas, amigos, familiares, em todos os espaços,surpreendo-me com minhas/nossas singularidades. Mas as crianças… as crianças pulsam a necessidade de detalhar como tudo que pensamos, sentimos, vivemos, aprendemos é complexo. A beleza de estar com pessoas, é isso! Como afirma Paulo Freire (2014): “Eu estou certo de que, não só do ponto de vista metafísico, o que explica a razão para existência da educação, é fundamentalmente o fato de sermos seres inconclusos e de termos a consciência desta incompletude.” (Freire, 2014, p. 26) No estudo do pensamento complexo, Morin (1990) propõe “sensibilizar para as enormes carências de nosso pensamento, compreendendo que um pensamento mutilador conduz necessariamente a ações mutilantes” (Morin, 1990, p. 15). Para Morin (1996), o diálogo estabelece comunicação, é articulado considerando diferentes lógicas contrárias, concorrentes e interdependentes, por relações paradoxais, em conflito e tensão, considerando a singularidade do Outro. CONSIDERAÇÕES FINAIS A complexidade assume um valor pedagógico, avaliativo, social e político, na dinâmica das ações escolares e em seus espaços/tempos que insurgem contra a estrutura curricular que se propõe classificatória e excludente. Assim, torna-se necessário considerar nossa incompletude nos processos avaliativos, e que, quando somos chamados a responder por nós ou pelo Outro, ainda dentro de uma prática investigativa, decidimos de modo relacional por uma fixação da complexidade contingencialmente, entendendo-a como provisória, inconclusa e pronta a ser investigada novamente, sem a garantia de que capturamos, de modo preciso e delimitado, o saber do Outro em processos avaliativos. Na medida em que concebemos a avaliação escolar como envolvendo nossa relação com o Outro, defendemos a ressignificação da avaliação na perspectiva da complexidade como possibilidade de ampliar os processos avaliativos individuais e coletivos. O investimento na mudança dos processos avaliativos possibilita outros olhares, saberes, contextos e possibilidades. Fica “cada vez mais claro para nós e para as professoras e alunas com as que aqui trabalhamos, que a escolha da dúvida como método nos leva inevitavelmente à necessidade de investigar permanentemente a escola na tentativa de melhor compreender a sua complexidade” (Garcia, 1998, p. 301). Mesmo sabendo que estamos sempre em processo de vir a ser (Freire, 2014), pois a cada novo acesso, nova compreensão, no conhecimento, a cada tentativa de apreensão da realidade, novos desconhecimentos surgem e nos modificamos com o Outro. É nessa direção que se coloca o estudo do “Avaliar com”, uma possibilidade inicial de entender como terrenos inconclusos, movidos em nossos cotidianos, ajudam-nos a perceber o movimento intraduzível da relação com o Outro, que se esforça em conversar e nos ajuda a compreender que cada um tem as suas contribuições ao mundo, a partir das diferentes experiências que temos. É ter em vista que nossas apreensões não dizem tudo o que uma avaliação pode captar do Outro, mas o que temos são recortes sobre determinadas problemáticas e sobre um modo de significar. Assim, ter os processos avaliativos escolares na perspectiva da complexidade é reiterar a abertura à alteridade. Por esta razão, a complexidade nos ajuda a entender que nossas tentativas e responsabilidade de avaliar desestabiliza-nos, contra-argumenta-nos e nos faz ser o que somos – seres únicos, uns com os Outros (Freire, 2014). REFERÊNCIAS BARRIGA, Angel Díaz. Uma polêmica em relação ao exame. ESTEBAN, Maria Teresa (org.). In: Avaliação: uma prática em busca de novos sentidos. Rio de Janeiro: DP&A, 2ª edição, 1999. BIESTA, Gert. Para além da aprendizagem: educação democrática para um futuro humano. Tradução Rosaura Eichenberg. Coleção Educação: Experiência e Sentido, Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013. CERTEAU, M. A invenção do cotidiano 2: morar, cozinhar. Petrópolis: Vozes, 1996. ESTEBAN, M. 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UMA EXPERIÊNCIA DE AVALIAÇÃO COMO PROJETO DE APRENDIZAGEM: DISCUSSÕES PRÁTICO-TEÓRICAS PARA UMA ESCOLA DEMOCRÁTICA CLAUDIA DE OLIVEIRA FERNANDES - UNIRIO RESUMO Este artigo apresenta, no contexto das investigações que vêm ocorrendo no grupo de pesquisa, a perspectiva do cotidiano escolar como uma das suas dimensões de análise para os processos avaliativos. Considerando as importantes contribuições de Certeau, Freire e Morin, o texto traz dados de um estudo de caso realizado em uma escola municipal da rede de educação pública do município de Niterói/RJ que envolveu procedimentos de pesquisa como observações, entrevistas e conversas. Teve como objetivo compreender mudanças ocorridas em seu cotidiano, no que tange às práticas pedagógicas, em especial às práticas avaliativas, e sua tensões, resistências e conflitos. Tais mudanças findaram por trazer alterações significativas não só para a avaliação, como também para as relações pedagógicas, a organização do tempo e espaço escolares, o currículo. As categorias de amorosidade, diálogo, observação e compromisso elaboradas a partir dos dados produzidos permitiram a argumentação para a construção da definição da avaliação como projeto de aprendizagem. Palavras-chave: Avaliação das aprendizagens, práticas cotidianas, projeto de aprendizagem. INTRODUÇÃO Investigações realizadas ao longo de 30 anos, seja individualmente, seja no âmbito do Grupo de Estudos e Pesquisas em Avaliação e Currículo (GEPAC/UNIRIO/CNPq) têm me levado a formular o que venho denominando de avaliação como projeto de aprendizagem. Essa possibilidade vem sendo construída com dados produzidos pelas pesquisas de campo, pesquisas bibliográficas, reflexões, debates e muitos estudos. Para esse trabalho, são trazidas as análises de uma investigação que foi realizada em uma escola que atende os anos iniciais do ensino fundamental, da rede pública de ensino de Niterói/RJ. A política da Fundação Municipal de Educação (FME/Niterói),8desde os anos 2000, tem sido a organização em ciclos e a não retenção dos alunos nos anos iniciais do Ensino Fundamental (EF) e entre ciclos para o todo o EF. Esse estudo de caso, com abordagem qualitativa, pretendeu compreender como os docentes e equipe gestora lidaram com a proposição da 8 A FME se ocupa das questões pedagógicas da rede municipal de Niterói, tendo um presidente. Já a Secretaria Municipal de Educação (SME) se ocupa das questões administrativas, tendo um secretário de educação. Essa organização é própria do município de Niterói. Atualmente o presidente da FME também acumula o cargo de secretário de da SME. impossibilidade de reprovação das crianças nos anos iniciais. A análise teve por finalidade revelar e problematizar algumas questões advindas das práticas de um grupo de professoras9 dos cinco primeiros anos do Ensino Fundamental com todos os seus conflitos, ações e inquietudes. Com a ajuda de Certeau (1996) compreendemos as astúcias e táticas que aconteceram na escola quando as docentes se viram obrigadas a obedecer as determinações da secretaria de ensino. O que fizeram? Como atuaram? Tais táticas se revelaram de muitas formas. A exigência da FME trouxe tensões, medos, inseguranças e conflitos ao corpo docente que, ao querer se opor contra a impossibilidade de reprovação, elaborou ações e planos de intervenção coletivos com as crianças. Tais ações findaram por atender as demandas do projeto curricular da FME no que tange às aprendizagens e avaliação, sem que a equipe percebesse. Voltaremos a esse ponto mais adiante. A investigação teve por objetivo compreender as repercussões da implantação de uma política de não retenção de alunos dentro de uma escola e as questões daí recorrentes para as práticas escolares e para o projeto pedagógico da escola. Os dados nos têm ajudado a refletir sobre os processos avaliativos e práticas de avaliação cotidianas que se confundem, se enredam com as atividades rotineiras planejadas pelas docentes, sendo, portanto, o recorte que optamos por trazer para esse trabalho. Ressaltamos que todo conhecimento produzido a partir dos resultados de uma pesquisa é parcial e provisório. A epistemologia da complexidade nos traz alguns pressupostos, sendo um deles de que a verdade é provisória e que o mundo não é só de um jeito. Podemos apresentar diferentes compreensões sobre o que observamos na escola e nas práticas docentes, mas buscamos um olhar original, diverso, pois concordamos com Costa (2002) que pesquisar é criação e que precisamos de olhares não exauridos. “O olhar inventa o objeto e possibilita as interrogações sobre ele. Assim, parece que não existem velhos objetos, mas sim olhares exauridos.” (Costa, 2002, p. 148). Muito se tem escrito sobre avaliação educacional. Avaliação, essa palavra que precisa de sobrenome. De qual avaliação se fala? Das aprendizagens, da institucional, da externa, da autoavaliação, de larga escala, da formal, da informal, da formativa, diagnóstica. Muitos são os nomes. A avaliação possui dimensões macro, a das políticas, dos programas, dos sistemas 9 Chamaremos aqui no feminino, posto que todas eram mulheres e chamaremos docentes, quando nos referirmos à equipe gestora: coordenadora pedagógica, coordenadora de alfabetização, diretora geral e adjunta. educacionais. Possui a dimensão que podemos denominar de meso, do meio, que é a avaliação das instituições, dos projetos, das escolas e a dimensão micro que diz respeito à sala de aula, a avaliação dos estudantes, das aprendizagens. A todas essas possibilidades, muito já se escreveu. Entretanto, embora tenhamos avançado em diversas concepções acerca do papel e do lugar da avaliação nos processos políticos e pedagógicos, pouco avançamos na direção de práticas avaliativas que concorram para que os processos educacionais sejam libertadores e propiciem experiências transformadoras nos sujeitos que a eles são submetidos. Parece que nossas práticas estão exauridas assim como nossos olhares. Propomos olhar para a avaliação educacional, nas suas diferentes dimensões, de um outro lugar possível, tomada em sua concepção como um projeto de aprendizagem. Para esse recorte, discutiremos a dimensão micro, aquela que a avaliação cuida das aprendizagens das crianças e dos jovens, em salas de aula e na escola. METODOLOGIA A pesquisa de abordagem qualititiva e descritiva, se desenvolveu ao longo de um ano letivo e exigiu presença constante na escola, nos diferentes horários dos turnos da manhã e da tarde. Desenvolveu-se a partir de observações em salas de aula, conselhos de classe, reuniões de planejamento, conversas nos intervalos das aulas, recreios, entradas e saídas de turnos, entrevistas com as professoras, coordenadoras, diretoras com roteiros semi-estruturados (Duarte, 2004; Silveira, 2002) e conversas (Ribeiro, Souza e Sampaio, 2018). Com os dados da pesquisa foram produzidas categorias que emergiram do campo e que, hoje, nos auxiliam a pensar na avaliação como um projeto de aprendizagem. As entrevistas foram transcritas e as conversas registradas logo após acontecerem, em cadernos de campo. Toda anotação, registro, compreende uma parte do complexo cotidiano de uma escola. Compreendemos que é impossível uma cartografia total de um problema. Não parece possível mapear todas as alternativas que o campo nos revela. Assim, esse estudo é parcial, mas não menos produtor de um conhecimento que se possa dizer científico. A ciência Moderna nos fez crer que deve haver imparcialidade e neutralidade na produção do conhecimento para que seja legítimo. Um estudo de caso é sempre um caso, mas que nos dá pistas importantes para produzir novas ideias. A pesquisa exige rigor, reflexão, método e ousadia. Assim tentamos proceder. Fizemos leituras, inicialmente, flutuantes das anotações e entrevistas transcritas e depois, tentamos ver as recorrências e agrupá-las em categorias. Algumas, nos propiciaram uma leitura otimista que nos ajudaram a pensar na avaliação como projeto de aprendizagem: amorosidade, diferença, compromisso, observação, diálogo, projeto. Tais categorias serão apresentadas a seguir, na discussão dos dados da pesquisa. RESULTADOS E DISCUSSÃO O relato a seguir exemplifica práticas de um processo de avaliação que não tinha por finalidade a reprovação, mas a aprendizagem dos alunos, pois como diziam as professoras nós não podemos reprovar mesmo... (Falas recorrentes entre as professoras) Presente todo o tempo nos mais diversos espaços de discussão da escola, sejam os formais ou informais, a avaliação ganhava lugar de destaque e resultava em discussões que explicitavam divergências e conflitos, trazendo implicações para o planejamento das atividades escolares, para a distribuição do tempo e espaço escolares, para a dinâmica da escola como um todo. Se, por um lado, a impossiblidade da reprovação gerava resistências que, por vezes tornavam-se obstáculos para a reflexão profissional e para uma coerência necessária à metodologia de trabalho, por outro, fazia com que as docentes repensassem sua prática cotidiana, gerando crescimento a partir das discussões e divergências. Ao fazer uma análise um pouco mais aprofundada do cotidiano escolar, podemos observar que a obrigatoriedade da aprovação de todas as crianças ao final do ano, exceto por frequencia, gerava desconforto entre as professoras. Porém, antagonicamente aos conflitos e resistências que esta obrigatoriedade causava, a imposição de avaliação continuada por parte da FME fazia com que revisassem suas práticas. O fato de os alunos não serem reprovados fez com que os docentes construíssem estratégias para que as crianças aprendessem, posto que seriam promovidas ao ano seguinte. As professoras diziam: como vou entregar uma turma para minha colega com crianças que não aprenderam o que deveriam? A expectativa das