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Nebulosas N A R C I S A A M Á L I A por Belisa Monteiro aol_2025_nebulosas_p4.indd 1 29/09/2024 21:06 D isponibilizado por Jardim da Babilônia Poliedro Sistema de Ensino T. 12 3924-1616 sistemapoliedro.com.br COLEÇÃO AOL Copyright © Poliedro Sistema de Ensino Ltda., 2025. Todos os direitos de edição reservados ao Poliedro Sistema de Ensino Ltda. Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal, Lei n° 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. ISBN 978-85-7901-953-1 Presidente: Nicolau Arbex Sarkis Autoria: Belisa Monteiro Gerência editorial: Marcela Regina Silva de Pontes Projeto editorial: Roberta Amendola Coordenação de projeto editorial: Rogério Fernandes Salles Edição de conteúdo: Cláudio Leyria e Luana Barbosa Vieira Coordenação de revisão: Renata Ultramari Revisão: Ana Luísa Ruggieri, Bianca da Silva Rocha, Camila Coutinho, Diego Carrera Guimil, Ellen Barros e Eric Luzzi Coordenação de arte: Leonardo Carvalho Ilustração: Olavo Costa Coordenação de licenciamento e iconografia: Letícia Palaria de Castro Rocha Analista de licenciamento: Izilda Monte Alto da Silva Canosa O Poliedro Sistema de Ensino Ltda. pesquisou, junto às fontes apropriadas, a existência de eventuais detentores dos direitos de todos os textos e de todas as imagens presentes nesta obra didática. Em caso de omissão, involuntária, de quaisquer créditos, colocamo-nos à disposição para avaliação e consequentes correção e inserção nas futuras edições, estando, ainda, reservados os direitos referidos no art. 28 da Lei no 9.610/98. aol_2025_nebulosas_p4.indd 2 09/10/2024 08:56:18 D isponibilizado por Jardim da Babilônia N A R C I S A A M Á L I A Nebulosas por Belisa Monteiro aol_2025_nebulosas_p4.indd 3 29/09/2024 21:06 D isponibilizado por Jardim da Babilônia Nebulosas é o título da única obra de Narcisa Amália, uma das primeiras poetas românticas do Brasil. Seus poemas apresentam uma linguagem introspectiva, profunda, rica em uso de figuras de linguagem, abordam temáticas diversas que expressam seu universo lírico, além de refletir criticamente sobre a sociedade de sua época. Narcisa Amália foi uma escritora que usou a sua voz para instigar seus leitores a refletir sobre a realidade que viviam, estando, por isso, muito à frente de seu tempo. A seguir, vamos conhecer um pouco mais de sua vida e obra. Aproveite para se envolver com a escrita inspiradora dessa autora. Seus poemas, escritos no século XIX, são ainda capazes de nos fazer sentir emoções profundas e refletir sobre questões que permanecem atuais. Os trechos da obra reproduzidos nesta análise foram extraídos do livro: Nebulosas, de Narcisa Amália. 2. ed. Rio de Janeiro: Gradiva, 2017. aol_2025_nebulosas_p4.indd 4 29/09/2024 21:06 D isponibilizado por Jardim da Babilônia INTRODUÇÃO Narcisa Amália, nascida em 1852 no Rio de Janeiro, foi tradutora, poeta, escritora, crítica literária, jor- nalista e professora. A obra Nebulosas, composta de 44 poemas organizados em três partes, foi pu- blicada, em 1872, quando a escritora tinha apenas 20 anos de idade. Suas poesias são marcadas por uma sensibilidade aguçada e um forte sentido de justiça, evidenciando uma voz feminina poderosa em um período dominado por escritores homens. Nebulosas reflete temas frequentes do período romântico brasileiro, como a exaltação da natureza, o amor à pátria, o sentimentalismo, o amor idea- lizado e a melancolia, mas também se destaca por abordar questões sociais e políticas, especialmente a luta pelos direitos das mulheres e a abolição da escravatura. A sociedade brasileira do século XIX era es- cravocrata e patriarcal. A economia era centrada na agricultura, em especial na produção de café e açúcar, com a exploração da mão de obra de pessoas escravizadas, submetidas cotidianamente a condições desumanas. O acesso à educação era bastante restrito e a maioria das pessoas não tinha oportunidades de desenvolvimento intelectual ou profissional. Na época, as principais funções relegadas às mulheres referiam-se às tarefas domésticas e à maternidade. A publicação da obra de Narcisa Amália é, portanto, um marco importante por quebrar as barreiras de gênero e introduzir em nosso repertório literário uma perspectiva feminina inovadora. Apesar disso, a poeta fluminense permaneceu durante muitos anos apagada da história da literatura brasileira. Neste material, vamos compreender por que Narcisa Amália merece ser lembrada tanto por sua produção lírica quanto por seu ativismo social. Suas poesias nos permitem imergir na sensibilida- de romântica, por meio de uma linguagem rica e emotiva, e também compreender questões sociais relevantes da época, com poemas que refletem sobre o contexto histórico brasileiro do século XIX. Nessa perspectiva, realizaremos a leitura e a aná- lise de trechos de alguns dos poemas significativos de sua antologia, aqueles que representam as prin- cipais características de sua produção poética, além de refletir aspectos do Romantismo brasileiro. São eles: “Nebulosas”, “O Itatiaia”, “A Resende”, “Agonia”, “Aflita”, “Sete de Setembro” e “O africano e o poeta”. Afora sua produção poética, Narcisa Amália foi uma jornalista ativa, servindo-se de suas habilida- des de escrita para promover causas sociais. Sua atuação em jornais e revistas da época foi crucial para a difusão de ideias abolicionistas e em defesa dos direitos das mulheres. PARA SABER MAIS Literatura e jornalismo no oitocentos: o discurso da poeta Narcisa Amália em favor da instrução intelectual da mulher no semanário O Sexo Feminino, de Nataly Rafaele Ternero. Revista (Entre Parênteses), v. 8, n. 2, 2019. Disponível em: https://publicacoes.unifal-mg.edu.br/revistas/ index.php/entreparenteses/article/view/1084/pdf. Acesso em: 30 ago. 2024. O artigo contextualiza o cenário político-cultural brasileiro dos anos 1800, analisando a contribuição das mulheres intelectuais da época para a literatura e para a imprensa, com foco na atuação de Narcisa Amália. 5 aol_2025_nebulosas_p4.indd 5 29/09/2024 21:06 D isponibilizado por Jardim da Babilônia SOBRE A AUTORA Breve biografia Narcisa Amália de Campos nasceu em 1852 em São João da Barra (RJ) e seu único livro, Nebulosas, foi lançado quando ela tinha 20 anos, conquistando elogios do escritor Machado de Assis e do imperador D. Pedro II. Narcisa morreu em 1924, aos 72 anos, no Rio de Janeiro. Narcisa Amália nasceu na cidade litorânea de São João da Barra, no Rio de Janeiro, em 3 de abril de 1852. Essa cidade, a 334 km da capital, marcou profundamente sua carreira, sendo fonte de inspiração para poemas que retomavam a sua infância em um cenário acolhedor, onde vivia brincando pelas ruas de paralelepípedos. Sua família não tinha muitos recursos financeiros, mas a futura poeta sempre esteve cerca- da dos elementos culturais da época. Os pais de Narcisa Amália foram fundamentais para que ela tivesse acesso à educação e conseguisse realizar o feito de publicar uma obra. Seu pai, Jácome de Campos, foi um educador, poeta e jornalista que colaborou em diversos jornais da imprensa fluminense e paulista, além de ser cofundador e redator do primeiro jornal de São João da Barra, chamado O Paraybano (1859-1870). Sua mãe, Narcisa Inácia de Campos, também era professora e teve papel crucial na educação da filha. Ambos criaram um ambiente favorável ao aprendizado e incentivaram o florescimento de sua vida intelectual. Além do contato com os conhecimentos compartilhados pelos pais, Narcisa aprendeu latim e francês com o padre Joaquim Francisco da Cruz Paula. Aos 11 anos, mudou-se com a família para Resende, também no Rio de Janeiro. A mudança representou não apenas uma alteração geográfica, mas também a ruptura com seu universo seguro e familiar. Esse fato reverberará nos poemas em que Narcisa Amália evoca uma constante saudade da infância e rememora lembrançassentidos Concerta aos gemidos De seu coração. AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. 2. ed. Gradiva: Rio de Janeiro, 2017. p. 130. Identifica-se nesses versos: A) patriotismo, ao exaltar as mudanças sociais ocorridas com a declaração da Independência. B) crítica social, pela expressão da dor e da vio- lência sofridas pelas pessoas escravizadas. C) revolta diante da morte, revelando a poesia como uma ferramenta a serviço de causas sociais. D) valorização do indígena como típico homem nacional, apresentando a natureza como refúgio e local de acolhimento. E) resistência aos exageros sentimentais, exaltando o ufanismo e o orgulho do país. GABARITO 1. A 2. B 3. E 4. C 5. C 6. A 7. D 8. C 9. E 10. B 28 aol_2025_nebulosas_p4.indd 28 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia RESOLUÇÕES 1 A Ao contrário do afirmado na alternativa a, no Romantismo houve o rompimento com as rígidas formas prevalecentes até então, especialmen- te se considerarmos o movimento anterior, o Arcadismo. O Romantismo apresenta maior liberdade formal para expressão das emoções e sentimentos individuais, com o uso de versos livres e brancos (versos sem rima e sem métrica). 2 B Alternativa A: incorreta. Os poetas românticos não poderiam combater os efeitos deixados pelos poetas parnasianos, pois sua geração é posterior ao movimento romântico brasileiro. Alternativa C: incorreta. A literatura romântica é fortemente embasada na expressão da imagina- ção e na expressão dos sentimentos individuais, ao contrário do afirmado nesta alternativa, que se refere à expressão de teses abstratas. Alternativa D: incorreta. A prosa romântica bra- sileira não é caracterizada pela ironia e ela não se incumbiu de rebater, mas, sim, de reafirmar a convicção dos autores nacionalistas. Alternativa E: incorreta. Os poetas românticos não poderiam se inspirar no Naturalismo, visto que essa escola literária é posterior ao Romantismo brasileiro. 3 E Nesta questão, é imprescindível reconhecer as principais características das diferentes fases do Romantismo brasileiro. Apenas uma das alterna- tivas apresenta a ordem das características das gerações de forma correta. Portanto, ao identificar que a primeira assertiva “abolicionismo” é uma característica pertencente à terceira geração romântica, sobram apenas duas alternativas possíveis (c e e). Ao seguir com a categorização, a assertiva “condoreirismo” só pode ser relacio- nada à terceira geração romântica, o que exclui a alternativa c como uma possibilidade de resposta. 4 C Nesta questão, é muito importante reconhecer as principais características do Romantismo brasileiro para excluir algumas alternativas de possibilidades de resposta. Teocentrismo é uma visão filosófica que considera Deus como o centro de todo o Universo e foi a base da cultura e do modo de vida medieval. Além disso, a alegria, o otimismo, a descontração e a crença no futuro são características opostas às do Romantismo. 5 C Nesta questão, é muito importante saber dife- renciar as características das diferentes gerações do Romantismo brasileiro e as especificidades das obras dos escritores mais representativos de cada época para escolher quais das afirmativas estão corretas. Afirmativa III: incorreta. A obra de Castro Alves, principal nome da terceira geração romântica, não apresenta ligações com a estética barroca nem tom religioso na maioria de seus poemas, tendo como foco a crítica social e a luta contra a escravidão. 6 A O trecho apresentado na questão retoma a descrição da personagem Virgília, de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, obra inaugural do Realismo brasileiro. Essa escola literária se opôs ao estilo romântico ao empregar uma linguagem objetiva, por meio da qual era possível retratar a socieda- de de maneira mais real, sem idealizações. A questão exige habilidades de interpretação de texto para reconhecer a crítica feita de 29 aol_2025_nebulosas_p4.indd 29 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia forma sutil ao estilo romântico. Para reco- nhecer a alternativa correta, pode-se reler cada uma das frases dentro do contexto do trecho apresentado. A frase que precede a alternativa correta “porque isto não é um romance” expressa, de forma clara, a contra- posição que o narrador pretende fazer ao que se caracterizava como um romance típico da época “em que o autor sobredoura a reali- dade e fecha os olhos às sardas e espinhas”. No Romantismo, os autores costumavam apresentar a mulher de forma idealizada, tornando-a uma espécie de musa inatingível. O narrador ressalta que vai descrever a per- sonagem de forma objetiva e real, apresen- tando, inclusive, características que podem ser consideradas defeitos. 7 D Algumas pistas textuais que indicam que o autor se refere ao movimento romântico estão nas descrições da “atitude subjetiva e egocêntrica” que costumam “fazer referência aos nossos sentimentos”. O estilo romântico é caracterizado pela ênfase na emoção e na expressão de sen- timentos profundos e experiências subjetivas, o que o torna um movimento de “linguagem literária universal”, com o qual as pessoas podem se relacionar e se identificar. 8 C Alternativas A, B e E: incorretas. O primeiro verso da estrofe já indica que o eu lírico faz uma descrição dignificadora da natureza brasileira ao invocar o termo “gigante brasílio”, portanto a descrição da paisagem não é realizada de forma irônica, descrente ou triste. Alternativa D: incorreta. Não faz parte das carac- terísticas do Romantismo expressar profundos sentimentos de felicidade. 9 E Alternativa A: incorreta. Não é característica do Romantismo o uso da ironia, ainda que o pessimismo e o tédio sejam explorados pelos poetas da segunda geração. Alternativa B: incorreta. Não há misticismo na estrofe de Narcisa Amália, além da fuga da realidade que está comumente associada à morte em poemas da segunda geração do Romantismo brasileiro. Alternativa C: incorreta. Embora apresen- te características comuns aos textos do Romantismo, estas não são identificadas no poema “Sete de Setembro”. Alternativa D: incorreta. O sentimento em rela- ção à natureza é de exaltação, e não de aversão. 10 B Alternativa A: incorreta. Não há sentimento de patriotismo nos versos de “O africano e o poeta”, ao contrário, o eu lírico faz uma dura crítica à sua pátria. Alternativa C: incorreta. Apesar de o poema servir como ferramenta em uma luta social, não há revolta diante da morte, mas, sim, da escravidão. Alternativa D: incorreta. Não há menção à figura do indígena no poema, conforme explícito no próprio título. Alternativa E: incorreta. Há, nos versos lidos, um movimento de exagero de sentimentos, que servem, porém, não para exaltar o país, mas para destacar a dor do africano escravizado. 30 aol_2025_nebulosas_p4.indd 30 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. Rio de Janeiro: Garnier, 1872. AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. Apresentação e posfácio de Anna Faedrich. 2. ed. Rio de Janeiro: Gradiva; Fundação Biblioteca Nacional, 2017. BARBOSA, Gisele Oliveira Ayres. Aspectos sociais e políticos da poesia de Narcisa Amália. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA (ANPUH), 22., 2003, João Pessoa. Anais […]. João Pessoa: Anpuh, 2003. Disponível em: https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pdf/ 2019-01/1548177543_234815c43b1388dac39ccfdcae203d4f.pdf. Acesso em: 15 jun. 2024. FAEDRICH, Anna. Narcisa Amália e as intempéries da produção literária feminina. Palimpsesto, Rio de Janeiro, ano 15, n. 22, p. 138-155, jan./jun. 2016. 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Acesso em: 15 jun. 2024. TERNERO, Nataly Rafaele. Literatura e jornalismo no oitocentos: o discurso da poetisa Narcisa Amália em favor da instrução inte- lectual da mulher no semanário o sexo feminino. Revista (Entre Parênteses), n. 8, v. 2, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.32988/ rep.v2n8.1084. Acesso em: 15 jun. 2024. 31 aol_2025_nebulosas_p4.indd 31 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia O estudo das obras promove a compreensão e o aprofundamento do texto, revela as intenções de cada autor e elucida as características da escola literária da qual a obra faz parte. Ler é condição fundamental para compreender o mundo, os seres, os fenômenos e os acontecimentos. Entender e desvendar uma obra é compreender o prazer da leitura e da busca de novos saberes. É encontrar a beleza da essência de cada autor. Para saber mais sobre esta obra, assista à videoaula no P+: aol_2025_nebulosas_p4.indd 32 09/10/2024 08:56:19 D isponibilizado por Jardim da Babilôniaafetivas dessa fase, conferindo um tom nostálgico à sua escrita. Em Resende, a 146 km da capital, atuou como professora, auxiliando sua mãe, desde os 13 anos de idade, na escola em que ela fundou na ci- dade. Casou-se, aos 14 anos, com João Batista da Silveira, artista de vida imprevisível, de quem se separou alguns anos depois. Ainda em Resende, começou a fazer suas primeiras traduções para periódicos, dentre os quais o Astro Resendense, o Monitor Campista e o Correio Fluminense. Aos 20 anos, publicou, pela editora Garnier, Nebulosas, com a reunião de 44 de seus poemas. A publicação da obra, foi possibili- tada, na época, pela influência de seu pai, Jácome de Campos, que B ib lio te ca N ac io na l, R io d e Ja ne iro 6 aol_2025_nebulosas_p4.indd 6 29/09/2024 21:06 D isponibilizado por Jardim da Babilônia incentivou a sua inserção no universo literário. O prefácio foi feito por Pessanha Póvoa, escritor brasileiro e antigo aluno de Campos, o que conferiu certa legitimidade à obra. Em seu prefácio, sobre a poesia de Narcisa, o escritor preconiza: Há em todas as suas composições poéticas um ponto de fixidez imaginativa que anda ao par da vivacidade de emoções, e a expressão do sentimento é sempre forte e concisa. A sua individualidade literária acusa um caráter leal e capaz de todos os sacrifícios pelas grandes causas. PÓVOA, Pessanha. Prefácio. In: AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. 2. ed. Rio de Janeiro: Gradiva, 2017. p. 28. Após a publicação daquela que seria sua única obra, os poemas de Narcisa Amália foram apreciados e elogiados por figuras como Machado de Assis e o imperador D. Pedro II. Na apresentação da segunda edição, a crítica literária Anna Faedrich retoma o seguinte trecho da apreciação de Machado de Assis, publicada no jornal Semana Ilustrada: A leitura das Nebulosas causou-me a este respeito excelente impressão. Achei uma poetisa, dotada de sentimento verdadeiro e real inspiração, a espaços de muito vigor, reinando em todo o livro um ar de sinceridade e modéstia que encanta, e todos estes predicados juntos, e os mais que lhe notar a crítica, é certo que não são comuns a todas as cultoras de poesia. ASSIS, Machado de. apud AMÁLIA, Narcisa. Apresentação. Nebulosas. 2. ed. Rio de Janeiro: Gradiva, 2017. p. 7. Nebulosas rendeu dois prêmios: a Lira de Ouro, em 1873, e o prêmio da Mocidade Acadêmica do Rio de Janeiro, em 1874. Aos 28 anos, casou-se pela segunda vez com Francisco Cleto da Rocha. Após alguns anos de casamento, decidiu se separar novamente, devido aos ciúmes constantes do marido relacionado aos encontros e amizades de suas atividades intelectuais. Após a separação, sofreu difamações de seu ex-marido, que alegava que seus versos não eram de sua autoria. O fato de ser uma mulher desquitada causou muita adversidade para a vida pessoal de Narcisa Amália, tendo em vista que era algo incomum para sua época. Em 1889, a poeta decidiu se mudar para outro município fluminen- se, São Cristóvão, onde se dedicou à educação e fundou o periódico O Gazetinha, no qual publicava artigos com seus ideais republicanos, abolicionistas e em defesa dos direitos das mulheres. Após 1902, ela abandonou a escrita para lecionar em uma escola pública. Narcisa Amália faleceu na cidade do Rio de Janeiro, em 24 de junho de 1924, cega e paralítica, sem o devido reconhecimento pela sua obra. PARA SABER MAIS Letras & Memória, de TV Brasil. Disponível em: https://tvbrasil.ebc. com.br/tags/letras-e-memoria. Acesso em: 22 set. 2024. No contexto da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2018, a TV Brasil produziu uma série de 13 programas, com um minuto de duração, sobre importantes nomes da nossa literatura que entraram em domínio público. Entre esses nomes, estavam os de autoras do século XIX cujas obras sofreram com o descaso e o esquecimento: Ignez Sabino, Úrsula Garcia, Maria Firmina dos Reis, Adélia Fonseca, Júlia Lopes de Almeida e Narcisa Amália. 7 aol_2025_nebulosas_p4.indd 7 29/09/2024 21:06 D isponibilizado por Jardim da Babilônia A autora e seu período O século XIX é um período da história do Brasil marcado por constantes transformações sociais, políticas e econômicas. A seguir, vamos conhecer alguns dos principais marcos desse período, tanto os que antecederam o nascimento de Narcisa Amália, quanto os posteriores, que foram importantes para a construção da sua identidade e da sua produção artística. No ano de 1808, a Família Real Portuguesa, fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte, chegou ao Brasil, então, colônia de Portugal, convertendo-o, com isso, em sede da Coroa. Exatamente 30 anos antes do nascimento de Narcisa Amália, em 1822, com a Proclamação da Independência no dia sete de setembro, tornamo-nos uma nação soberana, organizada como monarquia, sob o governo de D. Pedro I. O período pós-Independência trouxe consigo a necessidade de cons- trução de uma identidade para o país, descolada da influência portuguesa, que refletisse uma nova noção de povo, nação e cultura, criando um terreno fértil para a popularização do Romantismo. Foram os romancistas e poetas da chamada Primeira Geração Romântica, ou indianista, que se incumbiram de exaltar a natureza, expressar sentimentos nacionalistas e determinar novos símbolos nacionais. 8 aol_2025_nebulosas_p4.indd 8 29/09/2024 21:06 D isponibilizado por Jardim da Babilônia O governo de D. Pedro I perdurou até 1831, quando ele abdicou do trono e retornou a Portugal para tornar-se rei. Seu filho e suces- sor, D. Pedro II, tinha apenas 5 anos e não poderia assumir o trono até atingir a maioridade legal, aos 18 anos. Foi então instituído um período de Regência, que se estendeu até 1840, quando D. Pedro II foi enfim coroado imperador do Brasil, com apenas 14 anos de idade, por meio de um movimento político parlamentar conhecido como “Golpe da Maioridade”. O início de seu reinado foi caracterizado por uma grande reorganização política do país, com a instauração, em 1847, do Parlamentarismo. A economia brasileira ainda era fortemente agrária e dependente da mão de obra escravizada. Contudo, havia um enorme processo de modernização e urbanização que questionava o modo como o país funcionava, ao mesmo tempo, a sociedade mudava sua forma de organização: de rural e senhorial para urbana e burguesa. Por consequência, a escravidão enfrentava uma crescente oposição no país. Em 1850, o imperador D. Pedro II proibiu o tráfico de escravi- zados, por meio da Lei Eusébio de Queirós, um dos primeiros passos para a abolição da escravatura. Em 1852, Narcisa Amália nasceu, em meio a esse contexto de constante transformação e progresso social. Durante seu crescimen- to, assistiu à crise do regime monárquico no Brasil e, por ter grande sensibilidade social e política, rapidamente se tornou uma figura que fez uso de sua voz para contestar a estrutura social vigente. As ideias em torno do fim do regime escravocrata ganhavam força na sociedade, mobilizando intelectuais e artistas, os quais usavam suas obras para denunciar as injustiças e promover a emancipação das pessoas escravizadas. Em 1872, Narcisa publicou sua antologia de poemas que refletiam sobre a liberdade, a justiça, e a condição feminina, apresentando uma perspectiva crítica e sensível sobre a sociedade brasileira de então, utilizando sua escrita como um ins- trumento para a conscientização e a transformação social. Esse contexto de constantes mudanças sociais culminaria, anos depois, na abolição da escravidão, com a assinatura da Lei Áurea, em 1888. E é em meio dessa efervescência social que Nebulosas é pu- blicado, tornando-se um marco na literatura brasileira, não apenas pelo seu conteúdo, mas também por representar a emergência de uma voz feminina e abolicionista na cena literária. Em um período no qual a sociedade brasileira era profundamentepatriarcal e racista, sua publicação serviu como um chamado à mudança. 9 aol_2025_nebulosas_p4.indd 9 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia 18 70 TRADUÇÕES* Tradução do francês de Os climas antigos, de Gaston de Saporta. (1870)** Nebulosas (1872) POESIA A PRODUÇÃO LITERÁRIA Obras Tradução de História da minha vida, de George Sand Tradução de Romance de uma mulher que amou, de Arsène Houssaye 1890O quinze de novembro do sexo feminino (1890) PERIÓDICOS A família (1889-1890) O sexo feminino (1875-1890) Jornal das senhoras (1852-1855) R ep ro du çã o R ep ro du çã o * Não há registros do ano em que as traduções foram feitas. ** Segundo o periódico Diário do Rio de Janeiro (nº 328 de 27 de novembro de 1870, 1) aol_2025_nebulosas_p4.indd 10 09/10/2024 11:07:00 D isponibilizado por Jardim da Babilônia ASPECTOS GERAIS DA PRODUÇÃO LITERÁRIA O conjunto de poemas de Narcisa Amália publicados em Nebulosas foi produzido durante o período do Romantismo no Brasil, um estilo marcado pela expressão da subjetividade. Culturalmente, o país estava em processo de construção de uma identidade nacional, buscando se afastar das influências coloniais e europeias. Os textos românticos se dedicavam a exaltar a beleza natural do Brasil e o passado indígena, contribuindo para a consolidação de uma literatura genuinamente brasileira. Em meio a essas transformações, a poesia de Narcisa Amália se destacou por sua sensibilidade e engajamento social. Em geral, seus poemas possuem um tom introspectivo, marcado pela expressão de suas emoções. Por vezes, apresentam reflexões sobre questões sociais vigentes da época. A diversidade temática contemplada na obra nos permite reconhecer características de todas as gerações do Romantismo brasileiro: há os poemas que apresentam aspectos nacionalistas, os que tratam do sofrimento do amor romântico, da saudade da terra e da infância e os que são engajados em críticas às injustiças, abordando temas abolicionistas e antiescravistas. A sua obra se destacou por apresentar uma abordagem inovadora sobre o universo feminino e envolvente de temas sociais, utilizando uma linguagem lírica que buscava sensibilizar e conscientizar seus leitores sobre as questões de sua época. Entretanto, até então, sua vida e sua obra foram excluídos da historiografia literária brasileira, seus textos não foram citados em antologias representativas da época e seu nome não costuma aparecer na lista de autores do nosso cânone literário. Muitas vezes, as mulheres escritoras foram subestimadas ou desvalorizadas, o que reflete as barreiras enfrentadas por elas na sociedade em geral. Neste material, vamos conhecer os principais aspectos de sua obra, nos sensibilizar com sua expressão lírica e refletir criticamente sobre diversos temas sociais e políticos. COMO ESTUDAR Para estudar os aspectos abordados nessa obra, consulte os seguintes conteúdos em seu material didático: As três gerações do Romantismo no Brasil: • Primeira geração – indianista: nacionalismo, valorização da natureza, idealização do passado indígena do país. Gonçalves Dias é um dos principais nomes dessa geração. • Segunda geração – ultrarromântica: individualismo, sentimentalismo e pessimismo. Principais nomes: Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela. • Terceira geração – condoreira: preocupação com as questões sociais do país, com foco no abolicionismo. Principais nomes: Castro Alves e Sousândrade. O Romantismo no panorama dos movimentos literários pré e pós-século XIX: • No que se refere à linguagem, o Romantismo apresenta maior liberdade formal em comparação ao movimento anterior, o Arcadismo. • O Realismo, movimento imediatamente posterior ao Romantismo, apresentava, por seu turno, uma linguagem mais objetiva, impessoal e racional. • A primeira geração romântica é retomada, num movimento de negação, pelos modernistas da primeira fase, que também tinham como objetivo a construção de uma identidade nacional, mas, ao contrário do preconizado pelo Romantismo, sem idealizações. DICA PARA O VESTIBULAR Ao estudar as obras que se enquadram no período do Romantismo, como a de Narcisa Amália, atente às características específicas das fases de cada geração. Essas características costumam ser cobradas nos vestibulares. • A primeira geração (1836-1853) é indianista e nacionalista. • A segunda geração (1853-1870) é ultrarromântica e marcada pela evasão da realidade, o pessimismo e expressão do sofrimento. • A terceira geração (1870-1881) é sociopolítica e expressa uma visão crítica da realidade. 11 aol_2025_nebulosas_p4.indd 11 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia Durante a leitura e a análise de alguns poemas de Narcisa Amália, vamos observar que parte deles se aproximam bastante do primeiro período do Romantismo, apresentando aspectos ufanistas de exaltação da pátria e elevação das nossas riquezas naturais. Além disso, alguns poemas apresentam um tom saudosista e idealizado da infância e da terra. Outros poemas exploram a tristeza, a melancolia, a morte, dialo- gando com a geração ultrarromântica. Por fim, conforme mencionamos, alguns de seus poemas expressam críticas sociais, especialmente direcionadas à monarquia, além de versar sobre temas abolicionistas e antiescravistas, refletindo as características do terceiro período do Romantismo brasileiro, também conhecido como Condoreirismo. A escolha do título da obra de Narcisa Amália já nos incita a procurar e atribuir diversos sentidos interpretativos. “Nebulosas” são as nuvens formadas por poeira cósmica e diversos gases que se desprendem das estrelas. Também utilizamos a palavra “nebulosa” para nos referir a tudo aquilo que é de difícil compreensão, obscuro, misterioso e ambíguo. Nesse sentido, adentraremos no mundo poético de Narcisa Amália partindo da premissa de que encontraremos poemas que expressam coisas etéreas, profundas e de difícil compreensão. Uma obra que reflete aquilo que há de mais profundo em seu íntimo, ao mesmo tempo que remete ao que há de mais inatingível na natureza: a poeira cósmica das estrelas que viajam pelo espaço e que são compostas dos mesmos átomos e elementos que nos constituem enquanto seres humanos. “Nebulosas” é, enfim, o título do poema que compreende a pri- meira parte da obra, composto de nove estrofes que exploram temas introspectivos e a conexão com a natureza. Esta última é exaltada não apenas como cenário, mas como elemento essencial que se conecta profundamente com as emoções e o espírito humano. A observação noturna dos astros permite que o eu lírico sonhe e reflita sobre questões que transcendem a compreensão humana. Também é possível obser- var, nesse primeiro poema, a idealização da natureza como espaço de fuga e liberdade, por meio do uso de metáforas e outras figuras de linguagem que expressam a relação do ser humano com o Universo. A leitura desse primeiro poema nos convida a refletir a respeito das nossas percepções sobre o cosmos e a capacidade humana de maravilhar-se diante do Universo. A linguagem, apesar de simples, pode trazer algumas dificuldades para os leitores contemporâneos, por isso, vamos realizar uma análise pormenorizada de algumas estrofes, a fim de esmiuçar os significados de algumas palavras e os sentidos de alguns versos. PARA IR ALÉM Apagamento histórico A obra poética de Narcisa Amália dialoga com a dos grandes nomes da poesia romântica brasileira. Apesar de refletirem sobre a época em que foram escritos, seus poemas nunca alcançaram o mesmo reconhecimento daqueles escritos por seus contemporâneos homens. A discussão sobre o apagamento histórico de mulheres na literatura é crucial para uma compreensão mais profunda da história literária. Esse apagamento impediu que as vozes femininas fossemouvidas e valorizadas. Reconhecê-lo e corrigi-lo por meio do resgate da obra de autoras esquecidas nos permite promover uma literatura mais diversa e inclusiva, que reflete a riqueza das experiências humanas. No link indicado a seguir, é possível conhecer um pouco mais da história de diversas mulheres que tiveram que usar alguns subterfúgios para que suas obras fossem aceitas e publicadas no mercado editorial. COSTA, Camilla. As escritoras que tiveram de usar pseudônimos masculinos — e agora serão lidas com seus verdadeiros nomes. BBC, 15 abr. 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/ geral-43592400. Acesso em: 30 jul. 2024. ASPECTOS GERAIS SOBRE A OBRA ANALISADA HABILIDADES DA BNCC MOBILIZADAS EM13LGG101, EM13LGG202, EM13LGG203, EM13LGG302, EM13LGG401, EM13LGG601. EM13LP01, EM13LP02, EM13LP03, EM13LP06, EM13LP08, EM13LP23, EM13LP45, EM13LP47, EM13LP48, EM13LP49, EM13LP51. 12 aol_2025_nebulosas_p4.indd 12 09/10/2024 08:56:19 D isponibilizado por Jardim da Babilônia Nebulosas No seio majestoso do infinito, – Alvos cisnes do mar da imensidade, – Flutuam tênues sombras fugitivas Que a multidão supõe densas caligens, E a ciência reduz a grupos validos; Vejo-as surgir à noite, entre os planetas, Como visões gentis a flux dos sonhos; E as esferas que curvam-se trementes, Sobre elas desfolhando flores d’ouro, Roubam-me instantes ao sofrer recôndito! (p. 31) Caligem: Nevoeiro denso, névoa. A flux: Abundantemente. Tremente: Que treme. Recôndito: Escondido, oculto. DICA PARA O VESTIBULAR Ao estudar as obras que se enquadram no período do Romantismo, como Nebulosas, atente-se ao uso das figuras de linguagem que provocam diversos efeitos de sentido a esses textos. A identificação de suas características costuma ser cobrada nos vestibulares. Veja algumas das principais figuras de linguagem utilizadas nos textos românticos: • Metáfora: consiste na comparação implícita entre dois elementos distintos, sugerindo uma semelhança entre eles. No Romantismo, as metáforas são amplamente empregadas para expressar sentimentos profundos e subjetivos, como o amor idealizado e a angústia existencial. • Hipérbole: caracteriza-se pelo exagero intencional de uma ideia ou um sentimento. No Romantismo, a hipérbole é usada para enfatizar a grandiosidade das emoções e das experiências humanas. • Antítese: consiste na oposição de ideias ou palavras para criar um contraste. No Romantismo, a antítese é frequentemente utilizada para expressar sentimentos opostos como o amor e o ódio, a vida e a morte, a esperança e o desespero. • Personificação: consiste na atribuição de características humanas a seres inanimados ou abstratos. No Romantismo, a personificação é utilizada para criar um vínculo emocional entre o leitor e os elementos da natureza ou conceitos abstratos. A linguagem empregada nos textos líricos do Romantismo apresenta grande liberdade formal e costuma ser subjetiva e confessional. As figuras de linguagem foram muito utilizadas pelos autores para enriquecer o texto, aprofundando a expressão dos sentimentos e a capacidade de comunicação emocional com o leitor. aol_2025_nebulosas_p4.indd 13 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia Falaz: Que engana, ilude. Pompa: Luxo, ostentação. Potestade: Que impõe vontade, poder, força; refere-se a divindades, ao coro de anjos da sexta hierarquia. Triclínio: Tipo de sofá-cama que integrava a sala de jantar dos antigos romanos. Adejar: Agitar as asas para se manter em voo. Sólio: Trono, poder real. Exânime: Desanimado, morto. O primeiro verso, “No seio majestoso do infinito”, Estabelece um cenário imensurável aos olhos do observador, remetendo à visão de imensidão que temos ao olhar para o céu. Nesse trecho, a palavra “seio” refere-se à curva do planeta ao ser avistada da terra. O segundo verso, “Alvos cisnes do mar da imensidade”, faz referência às nebulosas e às galáxias distantes, avistadas apenas como simples manchas no céu noturno. A imagem criada é uma metáfora que pode ser interpretada de várias maneiras. “Cisnes brancos” simbolizam os corpos celestes que, em sua leveza e graciosidade, remetem à elegância dos cisnes. Frequentemente associados à pureza e à beleza, nesse poema, os cisnes, embora possam parecer belos e inofensivos, são na verdade complexos e misteriosos. O infinito e a beleza do cosmos são temas recorrentes na poética de Narcisa Amália. O eu lírico expressa sua solidão por compreender o céu com encanto e fascínio, diferentemente de outros dois grupos de observadores: as pessoas comuns que observam o céu vendo simples ne- voeiros (“Que a multidão supõe densas caligens”) e o grupo especializado de cientistas que o reduz a categorizações técnicas (“E a ciência reduz a grupos validos”). Essa dualidade entre a percepção do leigo e a da análise científica sugere uma tensão entre os diferentes tipos de conhecimento, com o eu lírico posicionando-se em algum lugar entre esses dois extremos, aspirando a uma compreensão mais profunda e espiritual da realidade. O verso “Como visões gentis a flux dos sonhos” captura a natureza quase mágica da contemplação do eu lírico que se permite sonhar e se maravilhar ao observar o céu. Os três últimos versos da estrofe podem, ainda, ser interpretados como uma repre- sentação poética dos fenômenos astronômicos, cuja beleza e movimento oferecem um breve alívio ao “sofrer recôndito” do eu lírico. No decorrer do poema, o eu lírico descreve um processo de transformação pessoal, no qual a contemplação do infinito e a inspiração derivadas da beleza celestial oferecem uma fuga do “deserto”, da desesperança e do desânimo. A imensidão do cosmos serve como uma metáfora para os próprios mistérios e profundezas da alma humana. Assim nasceram os meus tristes versos, Que do mundo falaz fogem às pompas! Não dormem eles sob os áureos tetos Das térreas potestades, que falecem De morbidez nos flácidos triclínios! Cortando as brumas glaciais do inverno Adejam nas estâncias consteladas Onde elas pairam; e à luz da liberdade Devassando os mistérios do infinito, Vão no sólio de Deus rolar exânimes!... (p. 34) Nessa última estrofe, em um movimento meta- linguístico, o eu lírico conclui que sua poesia nasce de um sentimento de tristeza que dá à luz a expressão de sua alma, sugerindo uma reação às injustiças e desilusões do mundo, corroboradas no verso “que do mundo falaz fogem às pompas”. Em outras palavras, remetendo à figura idealizada do poeta romântico, seus versos revelam valores opostos aos de um mundo cheio de falsidades e superficialidades, do qual o eu lírico procura se distanciar. Esse trecho eleva os sentimentos verdadeiros em contraposição à superficialidade das convenções sociais. Os versos do eu lírico não se acomodam “sob os áureos tetos/Das térreas potestades,” ou seja, não 14 aol_2025_nebulosas_p4.indd 14 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia encontram repouso nem valor nas riquezas materiais e efêmeras que, apesar de sua aparência de força e poder, são descritas como falsas e decadentes. Na continuação da estrofe, em “Cortando as brumas glaciais do inverno/Adejam nas estân- cias consteladas/onde elas pairam [...]”, o verbo “cortar” sugere uma transcendência por meio das dificuldades; em busca de algo mais elevado, as “estâncias consteladas” representam um espaço de pureza e verdade. O anseio e a busca pela verdade e pelo co- nhecimento que se encontram além dos limites do entendimento humano ficam claros na menção à “luz da liberdade” e aos “mistérios do infinito”. Finalmente, o último verso evoca a ideia de que, em sua busca e em sua pureza, a poesia alcança o divino, mas tal encontro é tão avassalador que deixa exânimes os versos, ou seja, sem vida, num paradoxo que sugere que, ao tocar o divino, a ex- pressão humanaatinge seu ápice e seu fim. O poema reflete um tom lírico e profundo, carac- terizado por uma estrutura que mescla versos livres com rimas dispersas, criando um ritmo mais fluido e menos restrito do que formas poéticas tradicionais. O anseio por uma compreensão mais profunda do Universo é uma característica marcante desse poema, em que o eu lírico busca, por meio da expressão do individual, tocar o universal, revelando um contraste entre o efêmero e o eterno, entre o mundano e o divino. Nele também conseguimos observar algumas das principais características do Romantismo: a glorificação da natureza, a intensa expressão dos sentimentos e a fuga para um mundo de sonhos e fantasias. A seguir, vamos analisar outros poemas de Nebulosas, identificando neles características das diferentes gerações do Romantismo brasileiro. É o caso de “O Itatiaia”, que reflete a primeira geração romântica, marcada pelo nacionalismo e pela exaltação da natureza. Nesses textos, Narcisa celebra a beleza do Brasil, suas paisagens exuberantes, evocando um sentimento de orgulho nacional e identidade cultural. Compondo a segunda parte do livro, o poema “O Itatiaia” faz referência a uma das montanhas mais altas e icônicas do Brasil, situada na Serra da Mantiqueira, entre os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Nesses versos, há a valorização da natureza local, além da exaltação da singularidade e da grandiosidade da nação. O enaltecimento da paisagem natural reflete o desejo romântico de criar uma identidanacional, enraizada nas características físicas e culturais do país. Em 15 estrofes, o eu lírico de “O Itatiaia” busca encontrar significados profundos na imensidão das montanhas e convida o leitor a compartilhar de uma experiência de maravilhamento ao observá-las. O Itatiaia Ante o gigante brasíleo, Ante a sublime grandeza Da tropical natureza, Das erguidas cordilheiras, Ai! quanto me sinto tímida! Quanto me abala o desejo De descrever n’um arpejo Essas cristas sobranceiras! (p. 69) O primeiro verso do poema posiciona o eu lírico diante do “gigante brasíleo”, invocando a beleza imponente do Itatiaia. Ao personificar a natureza, a imagem se torna mais viva e próxima ao leitor, atribuindo-lhe um caráter épico. Essa amplidão brasílica é reforçada durante toda a estrofe, em um tom de admiração e respeito diante da imponência natural da cordilheira. Ao mesmo tempo, no verso “Ai! quanto me sinto tímida!”, é revelada a humildade do eu lírico em relação ao sentimento de arrebatamento diante da natureza. Brasíleo: Relativo ao Brasil (grafia atual: brasílio). Arpejo: Acorde em que as notas são tocadas de forma contínua. Sobranceira: Que está no alto. 15 aol_2025_nebulosas_p4.indd 15 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia Plúmbeo: Que tem a cor acinzentada do chumbo. Saios: Vestuário amplo, com abas. Etérea: Pura, divina, espiritual. Os versos seguintes sugerem a vontade do eu lírico de expressar, de maneira rápida, como uma nota musical, as intensas emoções que parece sentir. O poema prossegue com descrições sobre a contemplação da natureza, empregando imagens vívidas e emotivas, que ressaltam o maravilhamento inicial. Mais adiante, na décima terceira estrofe, lemos: Rasgando o horizonte plúmbeo O sol te envia seus raios; As nuvens formam-te saios Quais ligeiras nebulosas! Miram-te as flores etéreas, Cobrem-te espumas de neve, Dão-te o pranto fresco e leve Da noite as fadas formosas! (p. 72) O primeiro verso sugere a imagem do Sol surgindo e trazendo luz e cor para onde antes havia monotonia. Em seguida, nos versos “As nuvens formam-te saios/Quais ligeiras nebulosas!”, há o uso da metáfora para descrever as nuvens como “saias”, leves e etéreas, que vestem e enfeitam o céu. Há, ainda, uma referência às nebulosas, relacionando as nuvens às formações cósmicas distantes que, como vimos anteriormen- te, são descritas de forma misteriosa e arrebatadora pela poeta. aol_2025_nebulosas_p4.indd 16 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia Aqui, podemos compreender que o céu, o etéreo e o mistério do cosmos são temas recorrentes na obra de Narcisa Amália. Os versos “Miram-te as flores etéreas,/Cobrem- -te espumas de neve” personificam a natureza, com a imagem das flores observadoras e trazem um elemento místico ao caracterizá-las como “eté- reas”, também evocado nos dois últimos versos na figura das fadas. Em “espumas de neve”, as nuvens, por sua característica visual gélida, são postas em contraste com o calor do sol. O poema faz uma celebração da natureza, carac- terizando sua beleza e caráter místico, convidando o leitor a observar e se maravilhar com a interação entre o céu, a terra e a imaginação, onde o eu lírico encontra refúgio para expressar as suas emoções. Em “Saudades”, poema de oito estrofes que também integra a segunda parte de Nebulosas, podemos observar o tom saudosista e idealizado da infância. O eu lírico expressa saudades dos “formosos lares” onde viveu uma infância feliz, destacando a importância emocional e sentimental desses lugares. Além disso, o poema manifesta, em sua última estrofe, a idealização da morte como fuga da dor e do sofrimento da vida cotidiana, aspecto característico do Romantismo. Saudades Tenho saudades dos formosos lares Onde passei minha feliz infância; Dos vales da dulcíssima fragrância; Da fresca sombra dos gentis palmares. [...] Abrem-me n’alma as dores da saudade Um sulco de profundas agonias Morreram-me pra sempre as alegrias... Só me resta um consolo... a eternidade! (p. 38-39) Este mesmo sentimento de saudosismo tam- bém pode ser observado no célebre poema “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias. Os dois poemas estão conectados pela temática da saudade e pelo uso de elementos naturais como símbolos de um passado idealizado. Em ambos os poemas, também podemos ver a saudade da terra natal descrita com cores vivas e emotivas, expressando o amor pelo seu lugar de pertencimento e a dor da distância. 17 aol_2025_nebulosas_p4.indd 17 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia Tanto em Narcisa quanto em Gonçalves Dias, vemos refletidas a universalidade do sentimento de nostalgia e a busca pelo reencontro com as origens e com momentos marcantes da vida. Assim, a na- tureza se torna um cenário Recorrente e poderoso na representação das memórias de cada eu lírico. Ainda no tema da exaltação da terra, ainda na segunda parte, o poema “A Resende”, composto de 11 estrofes, apresenta um eu lírico que sofre com a distância de sua cidade natal e manifesta um profundo lirismo na expressão de sentimentos de desolação e melancolia, que são consolados quan- do o eu lírico avista no horizonte o lugar exaltado. A Resende Enfim te vejo, estrela da alvorada, Perdida nas celagens do horizonte! Enfim te vejo, vaporosa fada, Dolente presa de um sonhar insonte! Enfim, de meu peregrinar cansada, Pouso em teu colo a suarenta fronte, E, contemplando as pétreas cordilheiras, Ouço o rugir de suas cachoeiras! (p. 80) Logo no primeiro verso, o eu lírico expressa seu alívio ao avistar a cidade de Resende, exalan- do alegria ao reencontrar sua fonte de inspiração e segurança, há muito tempo perdida. Nota-se que esse eu lírico tem voz feminina e se confunde com a autora, que Civeu grande parte da sua vida em Resende, mas de onde foi obrigada a se exilar após o fim do seu primeiro casamento. Descrita como uma “estrela da alvorada”, frequentemente associada ao planeta Vênus devido a sua aparição brilhante no céu antes do amanhecer, a visão da cidade evoca uma imagem de luz e esperança após um longo período de dificuldade, já que representa também o início de um novo dia. Há, contudo, certo contraste entre essa luz e as “celagens”, nuvens ou neblinas que se formam nohorizonte e dificultam a visão da paisagem. Além disso, esse elemento imprime uma áurea de mistério à descrição e faz parecer que o reen- contro com a terra natal está repleto de obstácu- los, dando ênfase às sensações de melancolia e sofrimento. O encontro com a estrela da alvorada seria, portanto, um vislumbre de beleza pura e inspiradora, apesar das dores e lutas, fazendo com que a cidade permaneça como força inspiradora para o eu lírico. Nos últimos versos dessa estrofe, Resende é personificada como um ser capaz de acolher o eu lírico em seu colo. Esse ato de repouso não é ape- nas físico, mas também simbólico, indicando um momento de introspecção e conexão emocional com o lugar. E é desse colo que o eu lírico con- templa a imponência das montanhas rochosas que contrastam com a fluidez e o movimento selvagem das cachoeiras. Essa estrofe condensa em si o relato de uma jornada pessoal repleta de adversidades, mas que culmina em um momento sublime de reencontro e admiração diante da magnitude da natureza. Nele podemos observar importantes características do Romantismo brasileiro: a exaltação da natureza, o saudosismo da própria terra e de um espaço de pertencimento, a valorização da expressão dos sentimentos do indivíduo e a intensidade emocional. Narcisa Amália também incorporou em sua pro- dução elementos da segunda fase do Romantismo, conhecida pelo tom mais subjetivo e introspectivo. Os seus poemas que dialogam com essa fase são mais pessoais e emotivos, explorando temas como o amor não correspondido, a solidão, a efemerida- de da vida e a melancolia. Além disso, sua poesia também reflete uma busca pela espiritualidade e uma tentativa de compreender os mistérios da existência humana. Celagem: A cor do céu ao nascer e ao pôr do sol. Dolente: Magoado, triste. Insonte: Inocente. 18 aol_2025_nebulosas_p4.indd 18 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia Uma importante característica dessa geração é o escapismo, que se manifesta na idealização da morte como uma forma de fuga das dores e do sofrimento da vida cotidiana. Como podemos ver na última das cinco estrofes do poema “Agonia”, que integra a segunda parte da obra, há a referência a um convite para que o eu lírico se dirija à “luz do Círio” a fim de “dormir o eterno sono”, um eufemismo para a morte. A estrofe encapsula um sentimento de resignação diante da inevitabilidade da morte, utilizando uma linguagem rica em simbolismo para expressar a dor e a aceitação do destino. Agonia [...] Assim foram-se as rosas de meu peito Sem os rocios de outono... Vejo apenas a palma do martírio Convidando-me a ir à luz do Círio Dormir o eterno sono. (p. 52) O poema “Aflita”, também na segunda parte, é composto de sete estrofes que revelam, com intensidade, a melancolia provocada pela separa- ção da pessoa amada. Nele identificamos outras características da segunda geração romântica, como a expressão da subjetividade, a intensidade das emoções, quase sempre negativas, e a idea- lização do amor. Aflita Desde a hora fatal em que partiste, Turbou-se para mim o azul do céu! Velei-me na mantilha da tristeza, Como Safo na espuma do escarcéu! (p. 43) O verso inicial do poema revela o instante da separação como um momento trágico para o eu lírico, evidenciado pela palavra “fatal”. O tom de AMÉRICO, Pedro. Independência ou Morte, 1888. Óleo sobre tela, 415 × 760 cm. Museu Paulista da USP, São Paulo. Rocio: Orvalho, gotas de umidade. Luz do Círio: Representa a luz de Cristo. Turbar: Tornar-se turvo, causar ou sofrer perturbação, desequilíbrio. Mantilha: Véu feminino largo e comprido que cobre a mulher da cabeça até os ombros. Escarcéu: Confusão, exagero. M us eu P au lis ta d a U ni ve rs id ad e de S ão P au lo 19 aol_2025_nebulosas_p4.indd 19 09/10/2024 08:56:19 D isponibilizado por Jardim da Babilônia despedida cria uma atmosfera de luto que permeia todo o poema. No segundo verso, a imagem do céu que escurece é a metáfora utilizada para representar a mudança drástica na percepção de mundo do eu lírico que, após a partida do ser amado, vê a realidade de forma sombria e triste. O verso seguinte, “Velei-me na mantilha da tristeza”, sugere uma busca por conforto e prote- ção na própria tristeza, como se a dor emocional fosse um manto que envolve e, contraditoriamente, ampara o eu lírico. O último verso dessa estrofe faz referência a Safo de Lesbos, célebre poeta da Grécia Antiga. Safo é frequentemente lembrada por uma poética que expressa paixões intensas e, segundo a lenda, a poeta teria se atirado ao mar por sofrer um amor não correspondido. Assim, ao evocar Safo, o eu lírico intensifica a expressão de desespero amoroso por meio da referência a uma figura histórica que simboliza a paixão trágica. No decorrer do poema, o eu lírico revela uma intensa carga emocional de quem ainda está à espera do ser amado, como observamos na quinta estrofe: Desde então, comprimindo atrás angústias, Vou te esperar à beira do caminho; Voltam cantando ao sol as andorinhas, Só tu não volves ao deserto ninho. (p. 43) Nesses versos, predomina o tom de saudade e esperança. O sentimento de espera e a angústia pela demora são revelados pelo uso de comparações com a natureza. O verso “Desde então, comprimindo atrás angús- tias”, deixa implícito que o eu lírico está carregando uma grande tristeza desde o momento da separação. A expressão “comprimindo atrás” dá a ideia de que a angústia está sendo suprimida continuamente. Essa angústia é diminuída, ainda que breve- mente, no verso seguinte, que expressa a paciên- cia na espera. A expressão “à beira do caminho” simboliza um lugar de passagem, indicando que o eu lírico está à espera de um reencontro que pode acontecer a qualquer momento. Nos últimos versos da estrofe, por meio de um hipérbato, ou seja, da inversão da ordem direta da oração, a menção às andorinhas que “voltam cantando ao sol” contrasta com a solidão do “deserto ninho”, criando um paralelo entre a alegria da natureza e a tristeza do eu lírico que permanece à espera. As andorinhas são aves que migram e retornam com a mudança das estações, no entanto, o ninho deserto representa um lar vazio e desolado. Por fim, na última estrofe, o poema apresenta uma mensagem de esperança e acolhimento, anunciada como uma proposta: Pois bem! Se enfim voltares desse exílio, Ave errante, fugindo à quadra hiberna, Vem à sombra do val: sob os ciprestes Comigo fruirás ventura eterna. (p. 44) A promessa do eu lírico é a da “ventura eterna”, sugerindo que, ao retornar, o ser amado, comparado a uma “ave errante”, que voa sem rumo, encon- trará a felicidade duradoura. Esse compromisso de eternidade e paz contrasta fortemente com a emergência emocional das estrofes anteriores, proporcionando um fechamento que oferece tanto a esperança de redenção quanto a perpetuação do amor para além da dor e da separação. Em parte de sua obra, Narcisa Amália adota uma postura mais crítica e engajada, alinhando-se à terceira fase do Romantismo brasileiro, marcada pela preocupação com questões sociais e políticas. Seus poemas abordam temas como a injustiça da escravidão, a opressão e a luta pela liberdade, destacando seu compromisso com a defesa dos direitos humanos. Por meio de sua poesia, Narcisa denuncia as desigualdades da sociedade brasileira Volver: Voltar-se. Quadra hiberna: Inverno, tempo de adversidades. Val: Vale, monte. Fruir: Desfrutar. Ventura: Felicidade. 20 aol_2025_nebulosas_p4.indd 20 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia e clama por mudanças. Porém, em sua época, a autora foi calada. Ela sofreu difamação, como se não fosse autora dos próprios poemas. Sua obra não só representa as diferentes fases do Romantismo no Brasil, mas também oferece uma visão rica e mul-tifacetada da sociedade e da cultura de sua época. Exemplo dessa faceta de Narcisa é o poema “Sete de Setembro”, que, como o título entrega, celebra a independência do Brasil, ocorrida nesse dia em 1822. O poema integra a segunda parte da obra e é composto de 13 estrofes, em que a primeira e a última se repetem, como o refrão de um hino. Essa repetição cria ritmo e musicalidade, o que torna o poema agradável ao ser transmitido oralmente, fazendo com que a mensagem seja transmitida de forma mais eficiente ao leitor. A Independência do Brasil é exaltada com entu- siasmo e reverência, vista não apenas como evento político, mas como um renascimento coletivo do amor à pátria. Sete de setembro Salve! Dia feliz, data sublime Que despertas o sacro amor da pátria Em nossos corações! Salve! Aurora redentora que eternizas A era em que o Brasil entrara ovante No fórum das nações! (p. 93) A estrofe que se repete no início e no fim do poema celebra o dia da Independência do Brasil com tom de reverência e exaltação patriótica, uti- lizando uma linguagem grandiosa para destacar a importância desse dia na história nacional, o que nos remete ao ufanismo da primeira geração ro- mântica. A repetição do “Salve!” no início de duas frases transmite entusiasmo, reforçado na carac- terização do sete de setembro como “dia feliz” e Sacro: Relativo ao que é divino, sagrado. Redentor: Que liberta. Ovante: Triunfante. aol_2025_nebulosas_p4.indd 21 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia “data sublime”, que desperta o amor patriótico do leitor, visto como algo sagrado. A caracterização desse dia como “aurora re- dentora” sugere, ainda, um novo começo, uma luz que ilumina o futuro promissor do país. A poeta faz o uso da hipérbole para perpetuar esse momento de libertação e orgulho nacional, destacando sua importância histórica. Na quarta estrofe, distanciando-se do tom ufanista, o eu lírico faz referência ao período em que o país estava “cortado / pela infame cadeia dos cativos”, uma menção clara à escravidão e à dominação colonial. Um dia... ai! despertou, vendo cortado Pela infame cadeia dos cativos O nobre pulso seu; Estremecera em ânsias: lava ardente Rugira incendiada pelas fibras Do novo Prometeu!... (p. 94) Nesses versos, expõe-se a imagem do “nobre pulso” do Brasil retido pelas correntes da servidão. Essa prisão, contudo, desperta ânsias por emanci- pação, como “lava ardente”, uma força poderosa e incontrolável que surge das profundezas da nação, representando o espírito pela busca da liberdade. Há, ainda, a menção à figura mitológica de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses da antiga Grécia e deu aos humanos, simbolizando a coragem e o sacrifício necessários para conquistar essa liberdade. A complexidade da escravidão continua a ser explorada na nona estrofe, que amplia seu signifi- cado para além das correntes físicas: Mas não se cinge a escravidão à algema: A terra que sagrar vieste livre Do futuro no altar, Rasgado o seio por voraz abutre, Vê-se ora entregue à escravidão dos erros, Sem forças, vacilar! (p. 95) No primeiro verso, ao sugerir que a escravidão não se limita apenas à prisão física, com o uso de objetos, o eu lírico atesta que ela se manifesta também de outras formas, nas falhas humanas, como pode ser visto nos versos finais: “Vê-se ora entregue à escravidão dos erros,/Sem forças, vacilar!”. Os versos “A terra que sagrar vieste livre/Do futuro no altar” aludem a uma nação que está destinada a ser livre e próspera; no entanto, essa terra cheia de potencial tem o seio rasgado “por voraz abutre”, uma imagem forte e visceral que re- presenta a exploração perpetuada pela escravidão. O abutre, ave necrófaga que se alimenta de animais mortos, refere-se aos senhores de escravos, que demonstram desumanidade e dilaceram o que antes era puro e promissor. Presa aos próprios erros e falhas, a Nação se vê enfraquecida e vacilante, sem a força necessária para se libertar da escravidão. Essa passagem reflete uma visão pessimista, destacando como os erros podem continuar a aprisionar mesmo aqueles que aspiravam à liberdade. Na estrofe seguinte, o eu lírico evoca uma memória histórica, em um apelo ao sentimento de patriotismo: Ah! Não te esqueças deste augusto dia! Ampara o débil povo que se curva Ante um falso poder! Desdobra tuas asas refulgentes Sobre o leito funéreo em que repousa O mártir Xavier! (p. 95) No primeiro verso da estrofe, o dia da Independência é visto como uma forma de amparo ao “débil povo”, outrora oprimido por forças nocivas, “que se curva / Ante um falso poder”. Em seguida, há uma menção a Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que lutou ativamente na Inconfidência Cingir: Conter, envolver. Augusto: Digno de respeito, sagrado. Débil: Sem força, sem ânimo. Refulgir: Brilhar, resplandecer 22 aol_2025_nebulosas_p4.indd 22 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia Mineira, no século XVIII, e foi alçado a herói da nação com a Independência. A lembrança do sacrifício do mártir é posta sob “asas refulgentes”, representando a esperança de um futuro mais justo e livre. O poema, portanto, além de celebrar a Inde- pendência do Brasil, homenageia uma importante figura da nossa história e faz um apelo para que a sua memória seja mantida viva, exaltando a cora- gem e a determinação que foram necessárias para a conquista da liberdade. A seguir, vamos conhecer um dos poemas que nos convida a refletir sobre a injustiça e a desigualdade, ao mesmo tempo que exalta a beleza da poesia como forma de resistência e expressão. Em 12 estrofes, “O africano e o poeta”, poema da terceira parte de Nebulosas, provoca mais uma reflexão acerca da escravidão e da condição do negro no Brasil do século XIX. Nesse poema, observamos um diálogo com a poética de Castro Alves, conhecido como o “poeta dos escravos” e reconhecido pelo seu pro- fundo engajamento social e político, especialmente na luta contra a escravidão. O africano e o poeta No canto tristonho Do pobre cativo Que elevo furtivo, Da lua ao clarão Na lágrima ardente Que escalda-me o rosto, De imenso desgosto Silente expressão; Quem pensa? – O poeta Que os carmes sentidos Concerta aos gemidos De seu coração. (p. 130) Essa estrofe evoca sentimentos de tristeza e sofrimento por meio da representação da situação dolorosa do escravizado cativo em seu “canto tris- tonho”. A figura do africano retrata todos aqueles que foram brutalmente arrancados de suas terras e submetidos a condições desumanas de trabalho e de vida. Os versos “Do pobre cativo/que elevo furtivo” sugerem que o eu lírico deseja representar seu triste canto, elevá-lo de alguma maneira, sim- bolizando a voz da consciência e da humanidade, que não pode permanecer indiferente diante do sofrimento. No verso seguinte, há a demonstração de uma intensa preocupação, indicando que o eu lírico deixa-se levar da noite até o amanhecer envolvido por essa questão. Além disso, tais versos também podem indicar que o lamento do africano escra- vizado será retirado da obscuridade, recebendo a luz necessária ao ser entoado. Os versos seguintes reforçam a intensidade da dor sentida pelo ser humano diminuído à condição de escravizado, uma dor que chega a ser física, provocando lágrimas que queimam a pele. Ao mesmo tempo, esses sentimentos de angústia e suplício são silenciados. A estrofe, porém, captura a aflição do poeta, que assiste à provação do outro e compartilha do mesmo sentimento. A construção “Quem pensa? - O poeta”, repetida, com variações, no decorrer do poema, sugere que o poeta é aquele que contempla profundamente, que se dedica a explorar e a expressar, nos “carmes sentidos”, as emoções e os pensamentos humanos. PARA SABER MAIS Joaquim. Direção: Marcelo Gomes. 2017. Ofilme explora a biografia de Joaquim José da Silva Xavier, um dentista comum de Minas Gerais, e os acontecimentos peculiares que o mobilizaram para o ativismo político, transformando-o em um importante herói nacional e mártir que veio a liderar o levante popular conhecido como Inconfidência Mineira. Assista ao trailer no link: www.youtube.com/watch?v=xp-_QoyX1E0. Acesso em: 22 set. 2024. Furtivo: Disfarçado. Escaldar: Queimar, arder, castigar. Carme: Canto, poema. 23 aol_2025_nebulosas_p4.indd 23 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia Todos esses sentimentos são assimilados pelo poeta e confundidos com seus próprios “gemidos”, suas próprias dores, indicando um compromisso da poesia com a coletividade e sua função de atribuir ordem e sentido ao mundo. Em essência, o poema sugere que a poesia é uma forma de canalizar e compreender as emoções mais profundas, conver- tendo o sofrimento em beleza através das palavras. Trata-se, enfim, de uma celebração poética da resistência dos oprimidos e de uma denúncia das injustiças da escravidão. Aspectos interdisciplinares Literatura e Geografia A aproximação entre a Geografia e a Literatura ocorre na compreensão de que a organização espacial influencia as relações humanas. Assim sendo, uma obra literária representa a realidade dos indivíduos de determinado lugar. A seguir, vamos compreender como o primeiro censo demográfico realizado no país nos ajuda a interpretar alguns aspectos da obra de Narcisa Amália. Censo demográfico e escravidão O primeiro Censo Demográfico do Brasil foi realizado em 1872, durante o período do Império, sob o reinado de D. Pedro II. Esse recenseamento foi um marco importante na história do país, pois representou o primeiro esforço sistemático para coletar dados sobre a população brasileira. Os dados coletados mostraram que a popu- lação total do Brasil era de aproximadamente 10 milhões de pessoas. Dentre essas, cerca de 1,5 milhão eram escravizadas, representando apro- ximadamente 15% da população. Essa estatística evidenciava a profunda dependência do país em relação ao trabalho escravizado, especialmente nas regiões em que a agricultura era a principal atividade econômica. Além dos números brutos, o Censo trouxe à tona a extensão da desigualdade social e racial no Brasil, o que inspirou muitos escritores românticos a abordar temas de injustiça e opressão em suas obras. A conscientização proporcionada pelo Censo permitiu que esses autores dessem voz às preo- cupações sociais de sua época, contribuindo para a formação de uma literatura engajada e crítica, que buscava não apenas celebrar a identidade nacional, mas também promover a reflexão e a transformação social. A leitura da obra única de Narcisa Amália revela a riqueza de sua expressão poética, que aborda temas e sentimentos representativos dos diferentes aspectos do Romantismo no Brasil. Como pudemos observar, a poesia de Narcisa Amália se destaca tanto pela profundidade de seu conteúdo quanto pela maestria de sua forma. Sua linguagem emprega grande variedade de recursos estilísticos, criando imagens vívidas e evocativas que representam sua habilidade técnica e seu estilo elegante e refinado. Por meio da sua poesia, Narcisa Amália não só exemplifica os temas centrais do Romantismo, mas também oferece uma visão única e poderosa de um importante período da nossa história, enri- quecendo o panorama literário brasileiro. Apesar de não ter sido devidamente reconhecida em sua época, hoje se faz necessário o resgate da leitura de seus poemas, para que possamos resgatar sua história e valorizar a sua relevância como escritora. PARA SABER MAIS 1º Censo do Brasil, feito há 150 anos, contou 1,5 milhão de escravizados, de Ricardo Westin. Agência Senado, 5 ago. 2022. Disponível em: http://p.p4ed.com/CAERK Acesso em: 22 set. 2024. Por ocasião do aniversário de 150 anos do primeiro Censo Demográfico do Brasil, o Senado Federal preparou uma reportagem destacando a importância histórica da primeira coleta de dados da população brasileira. 24 aol_2025_nebulosas_p4.indd 24 29/09/2024 21:07 D isponibilizado por Jardim da Babilônia QUESTÕES 1. UFV-MG Assinale a alternativa falsa: A) Romantismo, como estilo, não é modelado pela individualidade do autor; a forma pre- domina sempre sobre o conteúdo. B) Romantismo é um movimento de expressão universal, inspirado nos modelos medievais e unificado pela prevalência de características comuns a todos os escritores da época. C) Romantismo, como estilo de época, consistiu basicamente num fenômeno estético-literário desenvolvido em oposição ao intelectualismo e à tradição racionalista e clássica do século XVIII. D) Romantismo, ou melhor, o espírito romântico, pode ser sintetizado numa única qualidade: a imaginação. Pode-se creditar à imaginação a capacidade extraordinária dos românticos de criarem mundos imaginários. E) Romantismo caracterizou-se por um complexo de características, como o subjetivismo, o ilogismo, o senso de mistério, o exagero, o culto da natureza e o escapismo. 2. PUC-Campinas 2020 Literatura e realidade Hoje está na moda dizer que uma obra literária é constituída mais a partir de outras obras, que a precederam, do que em função de estímulos diretos da realidade pessoal, social ou física. Deve haver boa dose de ver- dade nisso. Todas as vezes, dizia Proust1, que um grande artista nasce, é como se o mundo fosse criado de novo, porque nós começamos a enxergá-lo conforme ele o mostra. Para o Naturalismo, a obra era essencial- mente uma transposição direta da realidade, como se o escritor conseguisse ficar diante dela na situação de puro sujeito em face do objeto puro, registrando (teoricamente sem interferência de outro texto) as noções e im- pressões que iriam constituir seu próprio texto. Essa estética repousa na utopia da originali- dade absoluta pela experiência imediata, que levava o escritor a desconfiar da influência mediadora de obras alheias. Mas nós sabemos que, embora filha do mundo, a obra é um mundo, e que convém antes de tudo pesquisar nela mesma as razões que a sustêm como tal. A sua razão específica é a disposição dos núcleos de significado, formando uma com- binação singular, segundo a qual a realidade do mundo foi reordenada, transformada, desfigurada ou até posta de lado, para dar nascimento ao outro mundo que a obra constitui. Ver criticamente a obra é escolher um dos momentos do processo como plataforma de observação. Num extremo, é possível encará-la como uma duplicação da realidade, de maneira que o trabalho imitativo fique reduzido a um registro sem grandeza, pois se era para fazer igual, por que não deixar a realidade em paz? Já no outro extremo é possível ver a obra como um objeto manufaturado com arbítrio soberano, que alcança significação na medida em que nada tem a ver com a realidade. Mas seria melhor a visão que pudesse rastrear na obra o mundo como material de origem, para surpreender no processo vivo da montagem a singularidade da forma segundo a qual se dá a ver um mundo novo. Obs. 1 Marcel Proust (1871-1922): romancista, ensaísta e crítico literário francês, autor de Em Busca do Tempo Perdido, publicada em sete volumes. (Adaptado de: CANDIDO, Antonio. O discurso e a cidade. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2013, p. 107-108) Embora muitos dos nossos escritores do Romantismo tenham acreditado que suas obras constituíssem um mundo inteiramente original, sabe-se que nossa literatura romântica: A) combateu, na poesia, os efeitos já deixados pela geração dos parnasianos, que os líricos românticos viam como artificiais e rasos. B) firmou-se sobre fortes traços universais que a norteavam, tais como a idealização da natureza e a obsessão pelos extremos do amor e da morte. 25 aol_2025_nebulosas_p4.indd 25 29/09/2024 21:07 Disponibilizado por Jardim da Babilônia C) caracterizou-se pela timidez da imaginação pessoal, uma vez que os escritores tendiam a se expressar por meio de teses abstratas. D) rebateu, na sua prosa irônica, a convicção de autores nacionalistas, para quem o país recém-emancipado pedia forma própria de expressão. E) deveu muito aos princípios do Naturalismo, que sustentava a crença segundo a qual a realidade se impõe à linguagem que a duplica. 3. FEI -SP Numere a coluna da esquerda, de acordo com a coluna da direita, tendo em vista a poesia romântica brasileira: 1. primeira geração 2. segunda geração 3. terceira geração ( ) abolicionismo ( ) condoreirismo ( ) autocomiseração exacerbada ( ) obsessão pela morte ( ) indianismo ( ) nacionalismo Agora, escolha a alternativa que apresenta a sequência correta dos numerais: A) 2 - 3 - 2 - 1 - 2 - 1; B) 1 - 3 - 2 - 1 - 2 - 3; C) 3 - 2 - 2 - 1- 2 - 2; D) 2 - 1 - 2 - 2 - 1 - 1; E) 3 - 3 - 2 - 2 - 1 - 1. 4. UEL-PR Assinale a alternativa que completa ade- quadamente a asserção: O Romantismo, graças à ideologia dominante e a um complexo conteúdo artístico, social e políti- co, caracteriza-se como uma época propícia ao aparecimento de naturezas humanas marcadas por . A) teocentrismo, hipersensibilidade, alegria, otimismo e crença. B) etnocentrismo, insensibilidade, descontração, otimismo e crença na sociedade. C) egocentrismo, hipersensibilidade, melancolia, pessimismo, angústia e desespero. D) teocentrismo, insensibilidade, descontração, angústia e desesperança. E) egocentrismo, hipersensibilidade, alegria, descontração e crença no futuro. 5. UFRGS Considere as afirmações abaixo sobre o Romantismo no Brasil. I A primeira geração de poetas românticos no Brasil caracterizou-se pela ênfase no sen- timento nacionalista, tematizando o índio, a natureza e o amor à pátria. II Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela, representantes da segunda geração da poesia romântica, expressam, sobretudo, um forte intimismo. III A poesia de Castro Alves, cronologicamente inserida na terceira geração romântica, apre- senta importantes ligações com a estética barroca, pela religiosidade e o tom místico da maioria dos poemas. Quais estão corretas? A) Apenas I. B) Apenas II. C) Apenas I e II. D) Apenas II e III. E) I, II e III. 6. Enem No trecho abaixo, o narrador, ao descrever a personagem, critica sutilmente um outro estilo de época: o Romantismo. Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos; era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. Era bonita, fresca, saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário e 26 aol_2025_nebulosas_p4.indd 26 09/10/2024 08:56:19 D isponibilizado por Jardim da Babilônia eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação. (ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Jackson, 1957.) A frase do texto em que se percebe a crítica do narrador ao Romantismo está transcrita na alternativa: A) … o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas … B) … era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça … C) Era bonita, fresca, saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário e eterno, … D) Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos … E) … o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação. 7. Unesp 2019 Leia o texto a seguir. Tal movimento não era apenas um mo- vimento europeu de caráter universal, con- quistando uma nação após outra e criando uma linguagem literária universal que, em última análise, era tão inteligível na Rússia e na Polônia quanto na Inglaterra e na França; ele também provou ser uma daquelas correntes que, como o Classicismo da Renascença, subsistiu como fator duradouro no desenvolvimento da arte. Na verdade, não existe produto da arte moderna, nenhum impulso emocional, nenhuma impressão ou estado de espírito do homem moderno, que não deva sua sutileza e variedade à sensibilidade que se desenvolveu a partir desse movimento. Toda exuberância, anarquia e violência da arte moderna, seu lirismo balbuciante, seu exibicionismo irres- trito e profuso, derivaram dele. E essa atitude subjetiva e egocêntrica tornou-se de tal modo natural para nós, tão absolutamente inevitável, que nos parece impossível reproduzir sequer uma sequência abstrata de pensamento sem fazer referência aos nossos sentimentos. (Arnold Hauser. História social da arte e da literatura, 1995. Adaptado.) O texto refere-se ao movimento denominado: A) Barroco B) Arcadismo. C) Realismo. D) Romantismo E) Simbolismo. 8. Leia a seguir a primeira estrofe do poema “O Itatiaia”, presente na obra Nebulosas, de Narcisa Amália. Ante o gigante brasíleo, Ante a sublime grandeza Da tropical natureza, Das erguidas cordilheiras, Ai! quanto me sinto tímida! Quanto me abala o desejo De descrever n’um arpejo Essas cristas sobranceiras! AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. 2. ed. Gradiva: Rio de Janeiro, 2017. p. 69. Nesses versos, podemos compreender que o eu lírico A) descreve a paisagem com um tom de ironia, revelando desprezo diante da grandiosidade da natureza – manifestando a tendência ro- mântica de tecer críticas sobre a paisagem nacional, em prol das construções criadas pelo ser humano. B) descreve a beleza da paisagem com um tom de descrença, revelando desgosto diante do sentimento de arrebatamento provocado pela grandiosidade da natureza – manifestando a tendência romântica de expressar profundos sentimentos de solidão. C) descreve a beleza da paisagem com um tom de admiração e respeito, revelando humilda- de diante do sentimento de arrebatamento provocado pela grandiosidade da natureza – manifestando a tendência romântica de valorizar a natureza nacional. 27 aol_2025_nebulosas_p4.indd 27 09/10/2024 11:07:00 D isponibilizado por Jardim da Babilônia D) descreve a beleza da paisagem com um tom de otimismo, revelando alegria diante do sentimento de arrebatamento provocado pela grandiosidade da natureza – manifes- tando a tendência romântica de expressar profundos sentimentos de felicidade como solução para o sofrimento. E) descreve a beleza da paisagem com um tom de tristeza, revelando o sentimento de angústia alimentado pela constatação da ir- reversibilidade do fim da vida – manifestando a tendência romântica de enxergar a morte como solução para o sofrimento. 9. Leia a seguinte estrofe do poema “Sete de Setembro”, de Narcisa Amália: Salve! Dia feliz, data sublime Que despertas o sacro amor da pátria Em nossos corações! Salve! Aurora redentora que eternizas A era em que o Brasil entrara ovante No fórum das nações! AMÁLIA, Narcisa. Nebulosas. 2. ed. Gradiva: Rio de Janeiro, 2017. p. 93. Nessa estrofe, o eu lírico manifesta qual ten- dência do Romantismo brasileiro? A) a ironia romântica, expressa no tom de pes- simismo e tédio. B) a tendência romântica ao misticismo e a natureza como fuga da realidade. C) a exaltação dos sentimentos individuais, expressa no tom introspectivo e melancólico. D) a aversão à natureza, que reflete uma visão mais subjetiva e individualista do mundo. E) a exaltação de momentos históricos que incentivavam o amor patriótico. 10. Leia atentamente os versos seguintes, que fazem parte do poema “O africano e o poeta”, de Narcisa Amália: No canto tristonho Do pobre cativo Que elevo furtivo, Da lua ao clarão; Na lágrima ardente Quer escalda-me o rosto, De imenso desgosto Silente expressão; Quem pensa? – O poeta Que os carmes