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64 Unidade II Unidade II 5 GOALBALL 5.1 A história O goalball, um esporte emocionante e inclusivo, tem raízes profundas que remontam à necessidade de reabilitação para veteranos de guerra cegos. Sua história é marcada por inovação, determinação e, acima de tudo, criação de uma modalidade esportiva única destinada a atletas com deficiência visual. Figura 25 – Atletas em jogo de goalball Disponível em: https://tinyurl.com/52chedz4. Acesso em: 4 mar. 2024. A história do goalball começou em 1946, quando dois fisioterapeutas, Hanz Lorenzen, da Áustria, e Sepp Reindle, da Alemanha, se uniram para desenvolver um esporte que proporcionasse a reabilitação física e mental para veteranos de guerra cegos. A ideia era criar algo que não apenas estimulasse a atividade física, mas também promovesse a competição e a inclusão. O esporte nasceu em um centro de reabilitação para cegos em Potsdam, na Alemanha, onde os primeiros jogos foram realizados com o objetivo de melhorar as habilidades de orientação espacial, audição e tato dos participantes. 65 ESPORTE ADAPTADO Desenvolvido especificamente para pessoas com deficiência visual, o goalball é o único esporte paralímpico não adaptado. Durante os Jogos de Toronto (1976), a modalidade foi apresentada como um esporte de alto rendimento. Um salto de grande importância que rendeu a oportunidade de entrar de vez na grade de programação paralímpica nos Jogos de Arnhem (1980) com a categoria masculina. A disputa feminina entrou quatro anos depois, na edição de Nova York (1984). Dois anos antes, em 1982, a modalidade passou a ser gerenciada pela IBSA. Em 1985, o professor Steven Dubner, do Centro de Apoio ao Deficiente Visual (Cadevi), entidade de atendimento às pessoas cegas de São Paulo, apresentou a modalidade no Brasil. Entusiasmado, o professor Mário Sérgio Fontes levou para a Associação dos Deficientes Visuais do Paraná (Adevipar). No mesmo ano, foi realizado o primeiro jogo entre duas associações. Dois anos depois, em Curitiba, no Paraná, aconteceu o primeiro campeonato brasileiro, sob a supervisão do professor Mário Sérgio, presidente da antiga ABDC. Desde 2011, a modalidade é administrada pela Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais (CBDV). O Brasil é uma das grandes forças da modalidade. A primeira participação brasileira em Jogos Paralímpicos aconteceu em Atenas (2004), com a equipe feminina. A partir daquele momento o esporte não parou de crescer no país, e as seleções foram ficando cada vez mais fortes. Nos Jogos Paralímpicos de Pequim (2008), as seleções masculina e feminina representaram o Brasil. O país começou a se tornar uma das grandes potências no ciclo 2009/2012. Durante os Jogos Parapan-Americanos de Guadalajara (2011) duas medalhas foram conquistadas – ouro no masculino e prata no feminino. Um ano depois, o time masculino conquistou a inédita medalha de prata nos Jogos Paralímpicos de Londres (2012). Em 2014, na cidade de Espoo, Finlândia, a seleção masculina conquistou o título inédito do Campeonato Mundial ao vencer os donos da casa por 9 a 1. Quatro anos depois, o bicampeonato veio em Malmö, na Suécia, com a vitória por 8 a 3 sobre a Alemanha. Nessa edição, as mulheres também fizeram história com a primeira medalha em mundiais: o bronze. Nos Jogos Parapan-Americanos de Toronto (2015) e de Lima (2019), o Brasil foi campeão nas duas categorias, em duelos contra os Estados Unidos. Por fim, a seleção masculina garantiu o ouro inédito na Paralimpíada de Tóquio 2020. Com as seguidas conquistas, o país atingiu a liderança do ranking mundial no masculino. Atualmente, a seleção feminina é a quinta melhor do mundo. 5.2 Classificações A classificação de atletas no goalball é um processo fundamental para garantir a equidade e justiça nas competições, levando em consideração a variedade de deficiências visuais dos participantes. O sistema de classificação no goalball é baseado em critérios específicos relacionados às habilidades funcionais dos atletas. O principal objetivo é criar equipes equilibradas, dando importância às limitações visuais de cada jogador para garantir uma competição justa. 66 Unidade II O goalball utiliza um sistema de classificação baseado nas categorias B1, B2 e B3, que refletem diferentes níveis de acuidade visual ou ausência completa de visão: • B1: atletas completamente cegos ou têm perda total de visão. Eles usam uma venda nos olhos durante o jogo para garantir condições de igualdade. • B2: atletas têm acuidade visual limitada, variando de uma visão muito baixa a uma visão razoável. Eles também usam vendas nos olhos durante a partida. • B3: atletas têm acuidade visual um pouco melhor em comparação com os da B2, mas ainda apresentam limitação visual significativa. Vendas nos olhos também são usadas para garantir equidade na competição. A classificação é realizada por uma equipe de classificadores treinados, que são profissionais com experiência em deficiências visuais e conhecimento específico do esporte. Todas as classificações são realizadas por meio da mensuração do melhor olho e da possibilidade máxima de correção do problema. Durante o processo, os atletas são submetidos a avaliações que incluem testes de acuidade visual, percepção de luz, campo visual, entre outros. Os classificadores observam como os atletas respondem a diferentes estímulos visuais e avaliam a habilidade funcional em relação às categorias B1, B2 e B3. O processo é cuidadoso e objetiva garantir que os jogadores sejam alocados corretamente em suas respectivas categorias, de acordo com as diretrizes estabelecidas pela IBSA. A constante evolução do sistema de classificação visa aprimorar a precisão e a objetividade do processo, garantindo que o goalball continue sendo uma modalidade na qual atletas com diferentes níveis de deficiência visual possam competir em um ambiente justo e desafiador. 5.3 Regras O goalball é jogado em uma quadra específica, com três jogadores em cada equipe. A bola, que tem guizos internos, é arremessada em direção ao gol adversário, sendo o som a principal ferramenta para que os jogadores localizem a bola e defendam o gol. As partidas são caracterizadas por momentos intensos e estratégias elaboradas; os jogadores se movem rapidamente, lançando-se ao chão para bloquear e arremessar a bola. A dinâmica do jogo é única e desafiadora, destacando as habilidades auditivas, a coordenação e a comunicação entre os membros da equipe. 67 ESPORTE ADAPTADO Figura 26 – Quadra de goalball nos Jogos Paralímpicos de 2016 Disponível em: https://tinyurl.com/bdfduwrn. Acesso em: 4 mar. 2024. O goalball é praticado em lugares fechados. A quadra tem as mesmas dimensões da quadra de voleibol (18 m de comprimento por 9 m de largura); o piso pode ser de madeira polida, sintético ou de outro material liso. Dos dois lados do campo estão as balizas, que têm 1,30 m de altura e ocupam a totalidade dos 9 m da linha final (Amorim et al., 2010). Todas as linhas do campo são marcadas em relevo, com um barbante preso ao solo com fita adesiva, o que permite que os atletas, por meio do tato, se localizem e realizem ações de defesa e ataque. O campo divide-se em seis retângulos idênticos de 3 m de comprimento por 9 m de largura. Cada par de retângulos demarca três áreas de dimensões idênticas: área neutra, área de ataque ou de lançamento e área de defesa ou de equipe (Amorim et al., 2010). A área de equipe é limitada pela linha de baliza; os atletas ficam posicionados nessa área durante as ações defensivas. A área de lançamento é onde os jogadores realizam os lançamentos. A área neutra compreende os dois retângulos centrais do campo e separa as áreas de atuação destinadas a cada equipe (Amorim et al., 2010). O primeiro contato da bola com o solo, após o lançamento dos jogadores, deve acontecer obrigatoriamente até a linha que separa a área de ataque da área neutra, para que os defensores tenham tempo para ouvir e perceber a trajetória da bola lançada.Os jogadores apenas podem efetuar a defesa das bolas lançadas pelos adversários com parte do corpo em contato com a área em que estão 68 Unidade II posicionados. Como a área de defesa é o principal ponto de referência para a orientação espacial dos jogadores, existem três linhas táteis diferenciando-as das demais áreas. Nessas linhas se posicionam o ala esquerdo, o pivô e o ala direito. Cada equipe é composta de três jogadores e até três reservas. Antes, eram permitidas três substituições; atualmente, com a mudança da regra que começou a valer em 2012, é possível fazer quatro substituições. A primeira delas tem de ser feita no primeiro tempo (se o técnico desejar); caso não haja substituição no primeiro tempo, a equipe terá apenas três substituições restantes no segundo tempo. Três substituições podem ser realizadas no intervalo. Ao entrarem em quadra, os atletas devem estar devidamente vendados para que não haja desigualdade de condições entre os que não enxergam e os que têm algum resíduo visual. O jogo tem dois períodos de 10 minutos com um intervalo de 3 minutos entre eles. Cada equipe pode pedir até quatro tempos técnicos, com duração de 45 segundos cada um; o primeiro pedido deve ser feito no primeiro tempo. As infrações invertem a posse de bola durante a partida. Elas são marcadas quando os jogadores não esperam a autorização do árbitro para lançar após qualquer interrupção da partida (premature throw – lançamento prematuro), quando jogam a bola para fora da quadra, ou ela retorna à meia quadra adversária ultrapassando a linha de centro (ball over – bola perdida). O jogo pode ser interrompido se, entre outros casos, um jogador mexer na venda, se a reposição de bola demorar a acontecer; se alguma das linhas precisar ser retocada, ou se houver demasiado ruído no local do jogo. Observação Durante todo o jogo a torcida deve permanecer em silêncio para não atrapalhar os atletas. O público pode (e deve) se manifestar somente quando há gols ou nos intervalos. As balizas são feitas de material rígido. Os postes são redondos, não excedendo 15 cm de diâmetro, e devem ficar alinhados com a linha de gol e ser posicionados fora de campo (Amorim et al., 2010). A bola é sempre lançada com as mãos. Ela é feita de borracha natural, mede cerca de 25 cm de diâmetro por 78,5 cm de circunferência e pesa cerca de 1.250 kg. É oca, tem guizos no seu interior e oito orifícios (quatro no hemisfério superior e outros quatro no inferior), cada um com aproximadamente 1 cm de diâmetro, para que os jogadores a possam localizar quando em movimento (Amorim et al., 2010). 69 ESPORTE ADAPTADO O goalball transcende as fronteiras esportivas. Ele serve como uma ferramenta de empoderamento, construindo a autoconfiança e promovendo a integração social. A comunidade do goalball é unida por uma paixão compartilhada, criando uma rede global de atletas, treinadores e entusiastas que buscam não apenas a excelência esportiva, mas também a promoção da inclusão e igualdade. 6 O FUTURO DOS JOGOS PARALÍMPICOS 6.1 Inserção de atletas paralímpicos nos Jogos Olímpicos O esporte adaptado surgiu na década de 1940 e desde então nota-se a constante evolução científica e tecnológica que resultaram em mudanças nas regras esportivas, desenvolvimento da classificação funcional de cada modalidade e avanços nos equipamentos, como cadeira de rodas, próteses e outros materiais utilizados em treinamento e competições. O esporte paralímpico brasileiro aposta cada vez mais na tecnologia para superar os limites dos atletas com deficiência, investindo na preparação deles, no estudo para melhoria da performance – nos aspectos físico, psicológico, fisiológico – e da biomecânica e no aprimoramento de equipamentos esportivos de alta qualidade. Esses fatores se devem à junção da ciência e da tecnologia no esporte, por meio da Academia Paralímpica Brasileira e das universidades. Para a obtenção de bons resultados, sejam eles olímpicos ou paralímpicos, compreende-se que os conhecimentos científicos adquiridos para a melhoria da performance não podem deixar de aliar-se à ciência e à tecnologia. Em contrapartida, não se pode deixar de analisar os altos custos dos materiais esportivos. Algumas iniciativas de universidades, do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), do Instituto Nacional de Tecnologia INT) e da Rede Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento em Tecnologia Assistiva vêm aprimorando e criando novos dispositivos para treinamento esportivo a baixo custo para usuários de cadeira de rodas, os quais podem ser utilizados também em clínicas de fisioterapia e academias (Almeida et al., 2014). O desenvolvimento de tecnologias pode significar, em muitos casos, a possibilidade da prática de uma modalidade esportiva. No esporte paralímpico, são utilizados inúmeros tipos de tecnologia assistiva (TA), para modalidades e deficiências específicas. As TAs não se resumem a uso de dispositivos e a regras adaptadas, referem-se também a recursos, metodologias, estratégias e práticas. Pode-se perceber que as cadeiras de rodas e as próteses estão entre os principais objetivos da união entre ciência e tecnologia, principalmente para aprimorar o rendimento, sendo consideradas tecnologias-chave na maioria dos esportes paralímpicos (Silva; Alves, 2020). Entretanto, vale questionar a efetividade do acesso das pessoas com deficiência a conceitos e aparatos de TA, bem como a seus direitos e às políticas públicas a elas relacionadas. Nessa perspectiva, ressalta-se que ainda são necessários maiores investimentos, incentivos e pesquisas na formação e preparação de atletas com deficiência, visando proporcionar-lhes inclusão e maior competitividade. 70 Unidade II 6.2 Tecnologias assistivas no esporte paralímpico Tecnologia assistiva ainda é um termo relativamente novo, utilizado para proporcionar recursos e serviços com a finalidade de ampliar funcionalidades de pessoas com deficiência, e assim promover uma vida independente e inclusiva (Bersch; Tonolli, 2006 apud Bersch, 2017). A TA pode ser entendida como “um auxílio que promoverá a ampliação de uma habilidade funcional deficitária ou possibilitará a realização da função desejada e que se encontra impedida por circunstâncias de deficiência ou pelo envelhecimento” (Bersch, 2017, p. 2). O objetivo da TA é proporcionar maior independência à pessoa com deficiência, aumentando sua qualidade de vida e a possibilidade de inclusão social, por meio da melhoria da comunicação, da mobilidade, do aprendizado e do trabalho. O conceito brasileiro de TA foi aprovado em 14 de dezembro de 2007 pelo Comitê de Ajudas Técnicas (CAT): Tecnologia assistiva é uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação, de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social (Brasil, Comitê de Ajudas Técnicas, ata VII, 2007 apud Bersch, 2017). A tecnologia torna a vida da população em geral mais fácil. Para as pessoas com deficiência, ela torna as coisas possíveis. A TA pode ser aplicada em tarefas básicas e mais complexas, possibilitando a melhoria do desempenho em diversos âmbitos, incluindo o paralímpico. 6.3 Esporte paralímpico: ciência e tecnologia Segundo Almeida et al. (2014), a abordagem das questões relacionadas ao treinamento de alta performance abrange um conjunto de áreas como fisiologia, fisioterapia, psicologia, medicina, sociologia, marketing, engenharias, entre outras, pois se insere nas áreas biológicas, humanas e exatas, e assim alicerça a educação física na preparação de um paratleta para competições de forma mais adequada, além de fornecer a base para alcançar resultados mais favoráveis. Dessa forma, a incorporação de conhecimentos científicos aos esportes de alto rendimento mostra que não é maispossível a realização da excelência esportiva sem o suporte da ciência e da tecnologia. As tecnologias, aliadas à ciência, contribuem para melhores resultados no treinamento de alto rendimento e permitem em muitos casos uma questão essencial: a possibilidade da prática esportiva (Almeida et al., 2014). 71 ESPORTE ADAPTADO De acordo com Burkett (2010 apud Cardoso et al., 2018, p. 715), a “tecnologia é um componente essencial para o esporte paralímpico”. Thompson e Vanlandewijck (2013 apud Cardoso et al., 2018, p. 715) destacam que “a tecnologia é um tópico importante no esporte paralímpico em função do acelerado crescimento de materiais utilizados na prática esportiva”. A evolução tecnológica é ampla e gera diversidade nas instalações esportivas, nos equipamentos para treinamento e nas competições. O crescimento do esporte paralímpico tem levado diversas empresas a investir em desenvolvimento tecnológico. Entre essas organizações, destaca-se a Bayerische Motoren Werke, a BMW, que, além de ser uma das maiores montadoras de veículos, tem investido no desenvolvimento da performance esportiva. A empresa renovou o acordo com o Comitê Paralímpico dos Estados Unidos antes dos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016, para os quais desenhou e fabricou cadeiras de rodas para que fossem utilizadas pelos paratletas estadunidenses, com materiais mais leves possíveis. Segundo Cardoso (2016), a equipe britânica de atletismo utiliza cadeiras fabricadas pela empresa BAE Systems, cujos equipamentos foram testados em seu laboratório na Inglaterra, onde passaram por provas em um túnel de vento que também é usado para testar aviões-caça da Força Aérea Real britânica, com a finalidade de verificar a eficiência aerodinâmica da postura sentada dos paratletas e a melhor posição nas diferentes situações da corrida. Mais um esporte em que a tecnologia se faz presente é o ciclismo paralímpico. Nos Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012, um ciclista britânico competiu com um novo modelo de prótese que dispensa o uso de tênis, pois o pedal adaptado se encaixa perfeitamente, e, assim, o atleta fica “anexado” à bicicleta, com uma aerodinâmica reforçada (Ferraz, 2022). Outro esporte favorecido, segundo Cardoso et al. (2018), é o basquete em cadeira de rodas, no qual os assentos estão cada vez mais voltados para reduzir o risco de lesões e ampliar o conforto. Há ainda um equipamento que vem sendo amplamente desenvolvido, tornando-se cada vez mais sofisticado para o desempenho esportivo: as próteses de membros inferiores, que são projetadas para armazenar energia, proporcionando maior eficiência na marcha ou corrida de um atleta com amputação (Cardoso et al., 2018). Ainda segundo Cardoso et al. (2018), para os paratletas, a tecnologia não está restrita somente ao cotidiano, mas relaciona-se à possibilidade de atingir a excelência esportiva em sua modalidade. Nesse aspecto, a TA, por meio de próteses, órteses e outros equipamentos, desempenha um importante papel na carreira de um paratleta, pois, apesar de um elevado custo, pode aprimorar e auxiliar a alcançar resultados relevantes. De acordo com o Centro Paralímpico Brasileiro (CPB) (2021), até 2030, dois bilhões de pessoas precisarão de pelo menos uma TA para exercer sua cidadania. Atualmente, apenas 10% da população tem acesso a essas tecnologias, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Muitas empresas têm trabalhado e inovado para melhorar e transformar a utilização destas tecnologias. 72 Unidade II Saiba mais Para compreender melhor o tema, leia o seguinte artigo: MARQUES, R. F. R. et al. Esporte olímpico e paraolímpico: coincidências, divergências e especificidades numa perspectiva contemporânea. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 23, n. 4, p. 365-377, out. 2009. Disponível em: https://tinyurl.com/42pny4ue. Acesso em: 21 mar. 2024. 7 MODALIDADES PARALÍMPICAS E A TECNOLOGIA ASSISTIVA Para Parsons e Winckler (apud Cardoso et al., 2018, p. 714) “o Esporte Paralímpico caracteriza-se pela busca do rendimento máximo, do melhor desempenho em modalidades esportivas praticadas por pessoas em condições de deficiência, reconhecidas pelo International Paralympic Committee (IPC)”. O IPC estabelece os princípios fundamentais referentes à evolução de equipamentos usados durante as competições. 7.1 Princípios fundamentais para evolução de equipamentos usados em competições Quadro 1 Segurança Para o usuário, outros competidores, oficiais, espectadores e meio ambiente Equidade Para que o atleta não tenha uma vantagem desleal Universalidade Comercialmente disponível para todos e não apenas para determinados atletas ou países Proeza física O desempenho humano é o esforço crítico, não o impacto da tecnologia e equipamentos Algumas modalidades paralímpicas utilizam a TA como ponto-chave para a melhora do desempenho esportivo, possibilitando o treinamento de forma mais efetiva. Dessa maneira, a pessoa com deficiência pode enfrentar e transpor seus limites em prol do esporte, o que lhe proporciona tanto uma condição de satisfação pessoal quanto de inclusão social. Lembrete A TA proporciona recursos e serviços com a finalidade de contribuir e ampliar funcionalidades de pessoas com deficiência, e assim promover uma vida independente e inclusiva; para um atleta paralímpico, possibilita a melhoria de desempenho. 73 ESPORTE ADAPTADO Contudo, a tecnologia empregada no alto rendimento ainda tem custo muito elevado, fazendo com que a maioria não consiga obter o material adequado, limitando sua utilização no contexto nacional. A título de exemplo, uma prótese do atletismo chega a custar por volta de 150 mil reais. Mesmo assim, os atletas brasileiros vêm obtendo bons resultados no esporte paralímpico, com muitas medalhas. Atualmente existem 22 modalidades paralímpicas que fazem parte do programa de verão. Serão citadas apenas algumas, especialmente as que mais fazem uso da TA, apesar de que praticamente todas as utilizam de uma forma ou outra. Atletismo Ciclismo de pista Levantamento de peso Tênis de mesa Badminton Esgrima em cadeira de rodas Natação Canoagem Hipismo Taekwondo Triatlo Ciclismo de estrada Judô Tênis em cadeira de rodas Vôlei sentado Bocha Goalball Rúgbi em cadeira de rodas Tiro com arco Basquetebol em cadeira de rodas Futebol de cinco Remo Tiro Figura 27 – Modalidades paralímpicas Adaptada de: https://tinyurl.com/3mxkmuya. Acesso em: 22 mar. 2024. 74 Unidade II 7.2 A tecnologia assistiva no esporte: órteses e próteses De acordo com Almeida et al. (2014), o que mais se detecta nos esportes paralímpicos é a utilização da cadeira de rodas e de próteses, e o principal objetivo da aplicação da ciência e da tecnologia é facilitar o manuseio desses equipamentos. Um exemplo é o corredor Oscar Pistorius, atleta paralímpico sul-africano que tem as pernas amputadas. Em testes realizados, houve a comprovação de que as próteses transformaram um atleta com deficiência física em um atleta extremamente eficiente quando comparado a atletas sem deficiência. Comparado aos atletas sem deficiência, Pistorius ingere um volume de oxigênio 17% menor. Segundo Almeida et al. (2014), Pistorius corre na mesma velocidade com menos oxigênio, pisa com mais frequência que um atleta olímpico, tem maior impulso por tempo, além de contar com retorno elástico da prótese, que também aumenta o movimento. Assim, atletas paralímpicos se tornam superatletas. Segundo Almeida et al. (2014), pode-se tornar inteligentes os joelhos dos corredores com deficiência nos membros inferiores, com novas próteses de pernas apresentando tecnologias de software e hardware precisos. Foram apresentados modelos como a AC-leg, que permitem o uso de controle remoto para controlar a velocidade das passadas. Já o modelo power knee apresenta um sensor que ajusta automaticamente o movimento do joelho para o terreno em que se encontra o corredor, que pode ser uma escada, um plano inclinado;esse é um dos modelos mais utilizados para desporto. Ainda de acordo com os autores, no salto em distância, as próteses contam com cilindros hidráulicos que permitem o movimento normal da flexo-extensão de joelhos, com o atleta controlando a velocidade; isso faz diminuir a perda de energia e otimiza toda a força para impulsionar o salto. A lâmina que forma o pé da prótese é composta de mais de 80 lâminas de fibra de carbono, sendo leves e flexíveis. No ciclismo, os atletas apresentam próteses que dispensam tênis na hora da prova; a prótese conecta-se ao pedal, fazendo com que o atleta fique “ligado” à bicicleta. Esses são alguns de muitos exemplos da presença das TAs nos esportes paralímpicos. Ressalta-se que características mais essenciais para os paratletas que utilizam prótese e cadeira de rodas são o conforto, a segurança e a durabilidade (Almeida et al., 2014). De acordo com Weyand et al. (2009), as próteses utilizadas pelo atleta Oscar Pistorius são semelhantes fisiologicamente às de um indivíduo com os membros inferiores não amputados (apesar de mecanicamente diferentes). Dessa forma, Pistorius se tornou o primeiro atleta biamputado a competir em Jogos Olímpicos, ao disputar os 400 m em Londres 2012. 75 ESPORTE ADAPTADO Figura 28 – Oscar Pistorius Disponível em: https://tinyurl.com/4sv3f5f3. Acesso em: 4 mar. 2024. Os dispositivos de TA melhoram o desempenho e a satisfação nas atividades paradesportivas, contribuindo para a performance do atleta paralímpico. Podemos destacar ainda o basquete em cadeira de rodas, que vem aumentando sua popularidade mundial nos últimos anos para indivíduos com lesão na medula espinhal, poliomielite, espinha bífida e amputação (Silva; Alves, 2020). Além do basquete em cadeira de rodas, pode-se citar atletismo, rúgbi e tênis, ambos em cadeira de rodas. 8 DOPING PARALÍMPICO 8.1 História do doping Doping é o uso de substâncias, drogas ou métodos ilícitos para melhorar o desempenho esportivo. Esses métodos artificiais podem aumentar a resistência do corpo e dão vantagens competitivas físicas e psicológicas em relação aos outros adversários de forma desonesta. Essa prática de utilização de substâncias proibidas para melhorar o desempenho atlético tem uma história complexa que remonta aos primórdios do esporte organizado. A palavra doping não tem origens certa, mas é frequentemente atribuída ao termo dop, em africâner, que significa bebida alcoólica. Inicialmente, o termo era usado para descrever um método de melhorar o desempenho em eventos esportivos, fornecendo uma vantagem competitiva. A história do doping é mais antiga do que os Jogos Olímpicos. Os gregos usavam cogumelos alucinógenos para aumentar sua performance desportiva. Os romanos empregavam desde cafeína até ópio. 76 Unidade II Há mais de 4 mil anos os chineses já conheciam o efeito estimulante do chá da planta machuang. Seu uso aumentava a produtividade no trabalho, a disposição dos guerreiros no combate e também a performance dos esportistas. Ao longo das décadas, o doping evoluiu de práticas rudimentares para um desafio ético global, impactando atletas, organizações esportivas e o cenário esportivo em geral. No final da década de 1920, a prática já era reconhecida, e a ameaça ao espírito esportivo tornou-se evidente. O uso de estimulantes como cafeína e estricnina era comum, e os primeiros casos de doping foram registrados em competições. Nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, houve relatos sobre atletas que usaram anfetaminas para melhorar a energia e o foco. Essa foi uma das primeiras instâncias em que uma substância química foi associada ao aumento do desempenho atlético. Figura 29 – É proibido o uso de substâncias químicas para aumentar o rendimento de atletas Disponível em: https://tinyurl.com/mr3766dm. Acesso em: 4 mar. 2024. Inicialmente, o doping carecia de regulamentação e controle efetivo. Atletas frequentemente recorriam a substâncias consideradas legalmente aceitáveis, como álcool e cafeína, para ganhar vantagens competitivas. A conscientização sobre os riscos à saúde e a necessidade de integridade esportiva começaram a crescer. O COI desempenhou um papel crucial na regulamentação do doping. Em 1960, os Jogos Olímpicos em Roma marcaram a introdução de controles antidoping, mas as medidas eram incipientes e as punições limitadas. Na década de 1970, houve um aumento significativo no uso de esteroides anabolizantes, resultando em escândalos que abalaram a credibilidade do esporte. 77 ESPORTE ADAPTADO Os anos 1980 e 1990 foram marcados por escândalos de doping em grande escala, principalmente com o uso de substâncias proibidas no bloco oriental durante os Jogos Olímpicos. O primeiro caso de doping relatado aconteceu em 1886, quando um ciclista inglês morreu de overdose em uma corrida em Paris. Os Jogos de Atenas, em 1896, marcaram o aparecimento das “bolinhas”, esferas contendo diversas substâncias estimulantes como cocaína, efedrina e estricnina. Daí surgiu o termo “usar bola” como sinônimo de dopar-se. Nas Olimpíadas de Berlim, em 1936, a política nazista da superioridade da raça ariana estimulava os atletas alemães à vitória e disseminou o uso de qualquer artifício que os levasse ao pódio. Antes e após esse evento, surgiram suspeitas de doping dos esportistas alemães. Na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os cientistas alemães sintetizaram a anfetamina, que aumenta a acuidade visual e mental. Essa substância foi usada pelos pilotos de bombardeio noturnos. Os soldados alemães que atuavam no campo de batalha faziam uso de esteroides anabolizantes para aumentar a força e a agressividade. Essa iniciativa dos alemães, dopar seus soldados, foi descoberta fazendo experiências nos presos dos campos de concentração. A maioria dos soldados não sabia que estava recebendo essas substâncias para elevar o desempenho durante o combate; era receitada uma vitamina para os recrutas suportarem melhor os esforços da guerra. O uso de eritropoetina (EPO) no ciclismo nas décadas seguintes também destacou as lacunas nos sistemas de detecção. Paralelamente, surgiram avanços tecnológicos em métodos de doping, tornando o cenário ainda mais desafiador para as autoridades. Foi apenas após a morte de dois atletas, em 1960 e em 1964, por doping que o COI passou a controlar o uso desse tipo de substâncias no esporte. A partir de 1968, nas Olimpíadas do México, o exame antidoping passou a ser obrigatório. À medida que as violações do doping aumentavam, os órgãos reguladores intensificaram os esforços para aprimorar os métodos de detecção e impor penalidades mais severas. Organizações antidoping foram estabelecidas para coordenar esforços globais contra o doping e promover a conscientização sobre os riscos associados. Um exemplo é Agência Mundial Antidoping (Wada), criada em 1999. Os primeiros testes antidoping foram introduzidos nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972; no entanto, os métodos iniciais eram rudimentares e as punições eram limitadas. O avanço da ciência trouxe novos desafios, como o doping genético, no qual atletas buscam vantagens manipulando os próprios genes. Isso adicionou uma camada de complexidade às questões éticas e às estratégias de controle antidoping. 78 Unidade II O combate ao doping continua sendo uma batalha constante entre atletas que buscam uma vantagem competitiva e as organizações que tentam preservar a integridade do esporte. As penalidades tornaram-se mais rigorosas, e os esforços para educar atletas sobre os riscos e as consequências do doping são contínuos. A história do doping esportivo é repleta de desafios éticos, escândalos e avanços tecnológicos. O esforço constante para manter a equidade e a integridade no esporte enfrenta novos desafios com o tempo, e a luta contra o doping continua a evoluir à medida que as práticas de detecção e a regulamentação são aprimoradas. O futuro do esporte depende do compromisso coletivo em promover uma competição justa e proteger os princípiosfundamentais que tornam o esporte uma expressão verdadeira do potencial humano. 8.2 A Agência Mundial Antidoping (World Anti-Doping Agency) O uso de drogas que aumentam o desempenho cresceu nos anos 1970 e 1980. Foi então que uma iniciativa liderada pelo COI estabeleceu a Agência Mundial Antidopagem (Wada, sigla em inglês). Criada em 1999, a Wada é uma agência internacional independente, composta e financiada pelo movimento esportivo e pelos governos do mundo, responsável por realizar o controle e testes antidoping dos esportistas. Suas ações são orientadas pelo Código Mundial Antidoping, composto de políticas antidoping, regras e regulamentos que atuam dentro de organizações esportivas e entre autoridades públicas. Um componente importante do código é a lista de substâncias proibidas, atualizada anualmente. Substâncias ou práticas são consideradas para inclusão quando se enquadram em dois dos três seguintes critérios: • Há evidência de que a substância ou prática tem o potencial de melhorar o desempenho esportivo. • Há evidência de que o uso da substância ou prática ameaça potencialmente o atleta. • A substância ou prática viola o espírito do esporte. 8.3 Substâncias e práticas mais usadas Anabolizantes Agem como anabólicos da testosterona, aumentam a massa muscular, a força, diminuem a sensação de fadiga e também controlam o peso. Os esteroides anabólicos facilitam a recuperação de sessões de treinamento muito extenuantes, permitindo que os atletas treinem duro nos dias subsequentes. Esse benefício aguçou o interesse de atletas de quase todos os esportes. Geralmente são usados por corredores que precisam de explosão e força muscular, no atletismo e no levantamento de peso. 79 ESPORTE ADAPTADO Hormônios Os hormônios estão envolvidos na maioria dos processos fisiológicos e suas ações são relevantes para muitos aspectos do exercício e do desempenho esportivo. Entre os anos 1950 e 1980, os agentes hormonais mais frequentemente utilizados pelos atletas foram os esteroides anabólicos. Na segunda metade da década de 1980, um novo recurso surgiu para substituí-lo, o hormônio do crescimento humano (hGH). Outro hormônio que vem sendo muito utilizado é o EPO (eritropoetina). Secretado pelo rim, ele estimula a produção de eritrócitos (glóbulos vermelhos) na medula óssea. Dessa forma, aumenta a capacidade do sangue de transportar oxigênio, dando mais potência aos músculos para produzir energia. Geralmente é usado por atletas de resistência. Betabloqueadores Essas substâncias podem diminuir o ritmo cardíaco em esportes nos quais a ansiedade e o tremor podem comprometer o desempenho do atleta, como tiro com arco. Movimentos corporais são detectados cada vez que o coração bate. Esse movimento é suficiente para afetar a mira de um atirador. A precisão nos esportes de tiro irá melhorar se o rifle puder ser disparado entre um batimento cardíaco e outro. Os betabloqueadores são usados para manter as mãos mais firmes, alcançando maior eficácia. Estimulantes Essas substâncias estimulam o sistema nervoso central e podem até mesmo diminuir algumas atividades, como a sensação de fadiga e apetite. São usadas para aumentar a concentração e o estado de alerta do corpo. As anfetaminas são as preferidas, por serem de fácil acesso. Os atletas antecipam a obtenção de energia e a motivação e sentem-se mais competitivos para correr mais rápido, saltar mais alto e adiar o início da fadiga ou exaustão completa. Analgésicos narcóticos São derivados do ópio e aliviam ou diminuem a sensação de dor; a mais conhecida é a morfina. Esse efeito pode levar um atleta a menosprezar uma lesão potencialmente perigosa, agravando-a. 80 Unidade II Diuréticos São utilizados para tratar a retenção de líquidos e para reduzir o peso, pois eliminam líquidos e diminuem o inchaço do corpo. Entre os que adotam essa prática estão os lutadores, os jóqueis e os ginastas. Também são usados para mascarar e se livrar de outras drogas através da urina. Os atletas esperam que o líquido extra na urina dilua a concentração de drogas proibidas, o que diminui a probabilidade de detecção das substâncias ilegais em exames antidoping. Drogas recreacionais Esta classe tem sido amplamente utilizada por atletas tanto para a recreação como por suas possíveis propriedades de melhoria de desempenho. Essas drogas – como o álcool, a cocaína e a maconha – podem ocasionar o efeito contrário, prejudicando a performance do atleta. Doping sanguíneo Assim como o EPO, essa prática aumenta o número de glóbulos vermelhos no sangue, fornecendo mais oxigênio aos músculos e melhorando o rendimento do atleta. Uma prática cada vez mais frequente para induzir essa produção é a transfusão de sangue. Se feita com o sangue do próprio atleta colhido com antecedência, é chamada de autóloga; quando o sangue é de outro indivíduo com o mesmo tipo sanguíneo, é homóloga. O Código Mundial Antidopagem é baseado em princípios de risco estrito, ou seja, os atletas são responsáveis por quaisquer substâncias em seus corpos, até mesmo se não souberem. Por isso, todos os medicamentos, suplementos e alimentos devem ser cuidadosamente controlados pelos atletas. Os testes para controle do doping são analisados em laboratórios acreditados pela Wada. Para identificar o uso de substâncias ou métodos proibidos, há cinco etapas. 1. Seleção dos atletas Podem ser selecionados em competição ou fora dela. O atleta pode ser selecionado por sorteio, com base na classificação obtida ou em outro critério específico. 2. Notificação dos atletas Quando o atleta for selecionado, um agente de controle de dopagem o acompanhará o tempo todo, desde o momento da notificação até o final do processo, evitando a fraude no exame. 81 ESPORTE ADAPTADO 3. Coleta das amostras No momento da coleta, o agente também acompanha o atleta para ter uma visão direta do fornecimento de urina. É necessário fornecer 90 mililitros de urina, que será dividida em dois frascos: A e B. O primeiro é a prova e o segundo a contraprova, para ser realizado um novo exame, caso seja acusado o doping. No exame de sangue é feito o mesmo processo. 4. Análise da amostra As amostras coletadas são enviadas a um dos laboratórios credenciados pela Wada. A amostra A será analisada de imediato e a amostra B ficará armazenada em local seguro, caso o resultado inicial seja contestado. 5. Resultado Todo atleta que comete uma violação às regras antidopagem pode sofrer as punições previstas no Código Mundial Antidopagem. Casos comprovados, recusa em fornecer amostras ou outras violações previstas impõem ao atleta uma suspensão mínima de quatro anos. Em caso de reincidência, o atleta pode até mesmo ser banido do esporte. 8.4 Institucionalização do doping Nos últimos anos, a Rússia recebeu destaque negativo na mídia por conta dos escândalos de doping. Foram realizadas denúncias de doping institucionalizado envolvendo atletas de todas as categorias do esporte. O governo incentivou o uso de substâncias ilegais, alterando os testes para promover a supremacia russa nas competições. O ex-diretor do Laboratório Antidoping de Moscou, Grigory Rodchenkov, delatou o esquema; a Wada deu início às investigações e as denúncias foram comprovadas. A Rússia teve diversos de seus atletas suspensos dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, e dos Jogos de Inverno de PyeongChang, em 2018. Houve a preocupação de que o uso de substâncias ilegais também tivesse atingido o futebol. Todos os passos da Fifa são dados em comum acordo com Wada. Os jogadores são submetidos a análises de sangue e de urina. Observação O atleta canadense Ben Johnson ganhou a medalha de ouro nas Olimpíadas de Seul, em 1988, e ficou conhecido como homem mais rápido do mundo após quebrar o recorde mundial nos 100 m rasos. Mas uma amostra de urina pós-competição acusou positivo para esteroides anabolizantes. Ele foi destituído da medalha de ouro e suspenso por dois anos. Com reincidência em 1993, foibanido do esporte. 82 Unidade II 8.5 Automutilação ou boosting Estrangular os testículos, colocar alfinetes neles, fraturar o dedão do pé, aplicar choques elétricos nas extremidades ou obstruir o cateter para levar a bexiga a seu limite viraram alternativas ao doping. Essas práticas, denominadas boosting (da palavra impulsionar, em inglês), aumentam artificialmente o rendimento de atletas com lesões na medula espinhal e paralisia e insensibilidade nos membros inferiores. Seus corpos, apesar do esforço durante uma competição, não costumam reagir igual aos de esportistas com outras deficiências físicas e sofrem de hipotensão (o coração não acompanha a intensidade do exercício, diminuindo a capacidade física). Ao se lesionarem ou forçarem a bexiga, eles não sentem dor ou desconforto, mas seu corpo reage ao estímulo e aumenta a pressão arterial, levando mais oxigênio aos músculos e incrementando a resistência, o que pode aumentar em cerca de 10% o rendimento do atleta, especialmente em corridas de larga distância sobre cadeira de rodas. O combate ao boosting, descoberto nos anos 1990 e proibido pelo CPI desde 1994, está mais rígido desde os Jogos Paralímpicos do Rio, após a instituição endurecer os parâmetros para detectá-lo. Anteriormente, eram considerados suspeitos e proibidos de competir os atletas que, após a medição da sua pressão sanguínea, mostravam níveis acima dos 180 mmHg (pressão arterial sistólica); atualmente, após a análise em profundidade de dados de 160 atletas durante vários anos, são investigados os resultados acima de 160 mmHg. Em termos gerais, considera-se que uma pessoa sofre de hipertensão a partir de 140 mmHg. A falta de conhecimento e dados sobre o boosting deu margem para os atletas se esquivarem das restrições das autoridades. Em Pequim 2008 foram realizados 37 testes; em Londres 2012, outros 41, mas não foram registrados casos positivos, embora isso não signifique que essa prática não ocorreu. “Se um atleta sabe que tomando 10 copos de água vai dar positivo, ele vai beber 9,9. Por isso era importante reduzir a margem. Nos mundiais já percebemos que havia atletas que superavam os 160 mmHg, que é um nível incomum, e não necessariamente aportavam uma explicação razoável”, explica um dos médicos do CPI, o belga Peter Van de Vliet. “Além das provas médicas, estaremos atentos diante de atletas que mostrarem excessiva sudoração, estejam com atitude suspeita ou se mostrem alterados”, complementa Van de Vliet (Martín, 2016). O boosting, que provoca um estado chamado hiperreflexia autônoma, pode ter consequências gravíssimas para o atleta, provocando acidentes cerebrovasculares e até a morte. Apesar dos riscos, uma investigação feita em parceria com a Wada e o Comitê Paralímpico com dados de 2007 e 2009 constatou que cerca de 17% dos 99 atletas participantes do estudo tinham recorrido à prática para melhorar o rendimento durante treinos ou competições (Martín, 2016). Lembrete A Wada é uma organização independente criada pelo CPI com o objetivo de coordenar a luta contra o doping. 83 ESPORTE ADAPTADO As autolesões podem ter ainda mais adeptos e envolver até 30% dos atletas, disse o médico Andrei Krassioukov, principal estudioso da matéria. “Há uma desvantagem entre paralímpicos que têm pressão arterial normal e aqueles que não, e isso coloca um número significativo de atletas em desvantagem. Como médico entendo totalmente por que esses atletas estão fazendo isso, mas como cientista estou horrorizado”, explicou na época (Martín, 2016). O atletismo, o ciclismo em bicicletas impulsionadas pelas mãos e o rúgbi em cadeira de rodas são as principais modalidades nas quais observa-se o boosting. No rúgbi, a pressão das sujeições dos atletas às cadeiras de rodas pode, involuntariamente, provocar os mesmos efeitos que as lesões autoinfligidas, o que dificulta detectar essa prática. Outras atividades, como a prática de sexo e queimaduras solares, podem também provocar um estado mais leve de hiperreflexia autônoma. “A prática só é punida se for intencional”, esclarece o doutor do CPI, que já foi treinador de rúgbi para atletas paralímpicos. Saiba mais Assista aos seguintes vídeos para entender a história do doping: HISTÓRIA do doping (parte 1). 2020. 1 vídeo (4 min). Publicado pelo canal Time Brasil. Disponível em: https://tinyurl.com/2ptt6ynk. Acesso em: 26 mar. 2024. HISTÓRIA do doping (parte 2). 2020. 1 vídeo (5 min). Publicado pelo canal Time Brasil. Disponível em: https://tinyurl.com/bxp9hcp6. Acesso em: 26 mar. 2024. Figura 30 – Controle antidoping na Alemanha Disponível em: https://tinyurl.com/yeyjr25f. Acesso em: 4 mar. 2024. 84 Unidade II A partir do exposto, verifica-se que a prática do doping é algo que acompanha o esporte desde os tempos mais antigos; contudo, a preocupação em fiscalizar e impedir essa prática desleal é recente. Esse descompasso entre o tempo de estrada da indústria do doping e a importância dada à fiscalização permitiu um alto grau de desenvolvimento de substâncias; por isso, percebe-se que os atuais mecanismos de controle antidoping ainda se encontram deficitários em proporção ao número de casos que surgem. Com o desenvolvimento e a evolução de novas tecnologias, esse problema tende a ser minimizado. Ademais, é de extrema importância aliar as tecnologias com a educação, de forma que não haja somente sistemas de fiscalização, prevenção e punição, mas também aconteça a conscientização e a ampliação do conhecimento dos atletas. Nem sempre é possível detectar novas drogas, sendo fundamental educar os atletas e treinadores para evitar as substâncias proibidas com intuito de banir esse ato antiesportivo das competições. Para conter o avanço da propagação do doping, algo que hoje pode ser considerado estrutural no esporte, urge a necessidade de mais investimentos em tecnologia. Essa é uma ferramenta primordial para construir sistemas mais eficazes de fiscalização e prevenção, principalmente em casos mais complexos como os de doping genético e doping tecnológico. Somente assim haverá mais justiça, assegurando direitos como o proposto pelo artigo 217 da Constituição Federal de 1988. Consequentemente, o crédito no esporte, hoje desacreditado pelos sucessivos escândalos devido à dopagem pelas quais tem passado, será retomado. 85 ESPORTE ADAPTADO Resumo O esporte adaptado é uma categoria que proporciona a participação de atletas com deficiência física ou intelectual em diversas modalidades esportivas. Essa inclusão visa promover igualdade, superação e autonomia dos praticantes. Entre as modalidades mais reconhecidas, destaca-se o goalball, um esporte de equipe desenvolvido para pessoas com deficiência visual, no qual os atletas utilizam uma bola com guizos e competem com os olhos vendados. A inserção de atletas com deficiência em competições de alto nível como os Jogos Paralímpicos representa um avanço significativo na quebra de barreiras e no reconhecimento do talento e esforço desses competidores. Essa integração amplia a visibilidade e aceitação do esporte adaptado em âmbito global. As tecnologias assistivas nos esportes paralímpicos desempenham um papel crucial na maximização do desempenho dos atletas, proporcionando inovações como cadeiras de rodas especiais, equipamentos adaptados e tecnologias de treinamento personalizado. Órteses e próteses são fundamentais para atletas com deficiências físicas, possibilitando a prática esportiva com maior eficiência e conforto. Esses dispositivos são personalizados para cada modalidade esportiva, auxiliando a locomoção e o desempenho atlético. A história do doping no esporte paralímpico reflete desafios similares aos enfrentados no esporte para atletas sem deficiência. Regras rígidas foram estabelecidas para garantir a equidade e a integridade, assegurando que todos os competidores estejam em condições justas. A automutilação ou o boosting é uma questão ética que envolve o uso de técnicas para induzir lesões temporárias,visando melhorar o desempenho em competições paralímpicas. Essa prática é estritamente proibida e enfrenta medidas disciplinares severas, a fim de preservar a integridade e a segurança dos atletas. O esporte adaptado continua a evoluir, promovendo a inclusão, quebrando estigmas e demonstrando a extraordinária capacidade dos atletas com deficiência. Essas histórias inspiradoras destacam a resiliência e determinação dos esportistas, que redefinem constantemente os limites do potencial humano no cenário esportivo inclusivo. 86 Unidade II Exercícios Questão 1. Vimos nesta unidade que o goalball é um esporte emocionante e inclusivo, cujas origens estão relacionadas à necessidade de reabilitação de veteranos de guerra cegos. Sua história é marcada pela inovação, pela determinação e, acima de tudo, pela criação de uma modalidade esportiva única destinada a atletas com deficiência visual. Figura 31 Disponível em: https://tinyurl.com/4hnrx3ba. Acesso em: 5 mar. 2024. Em relação a esse esporte adaptado, avalie as afirmativas. I – A quadra do goalball tem as mesmas dimensões da quadra de vôlei (9 m de largura por 18 m de comprimento); em cada lado da quadra, há um gol com 9 metros de largura e 1,30 m de altura. II – As partidas de goalball têm dois tempos de 12 minutos cada, com três minutos de intervalo. Cada equipe conta com três jogadores titulares e três jogadores reservas. III – No goalball, os atletas com deficiência visual das classes B1, B2 e B3 competem juntos. As classificações são feitas pela mensuração do melhor olho e pela possibilidade máxima de correção do problema. 87 ESPORTE ADAPTADO É correto o que se afirma em: A) I, apenas. B) II, apenas. C) III, apenas. D) I e II, apenas. E) I, II e III. Resposta correta: alternativa E. Análise da questão As justificativas das afirmativas apresentadas na questão estão disponíveis no texto a seguir. Goalball Figura 32 Ao contrário de outras modalidades paralímpicas, o goalball foi desenvolvido exclusivamente para pessoas com deficiência visual. A quadra tem as mesmas dimensões das de vôlei (9 m de largura por 18 m de comprimento). As partidas são realizadas em dois tempos de 12 minutos, com três minutos de intervalo. Cada equipe conta com três jogadores titulares e três reservas. De cada lado da quadra, há um gol com 9 m de largura e 1,30 m de altura. Os atletas são, ao mesmo tempo, arremessadores e defensores. O arremesso deve ser rasteiro ou tocar pelo menos uma vez nas áreas obrigatórias. O objetivo é balançar a rede adversária. 88 Unidade II A bola tem um guizo em seu interior para que os jogadores saibam sua direção. O goalball é um esporte baseado nas percepções tátil e auditiva, por isso, não pode haver barulho no ginásio durante a partida, exceto no momento entre o gol e o reinício do jogo e nas paradas oficiais. A bola tem 76 cm de diâmetro e pesa 1,25 kg. Quadro 2 Deficiência Gênero Quadra Visual Masculino e feminino Mede 9 m x 18 m A rede tem 9 m x 1,3 m Regras Time O jogo é dividido em dois tempos de 12 minutos cada, com três minutos de intervalo Todos os jogadores exercem, ao mesmo tempo, as funções de ataque e defesa Há um guizo no interior da bola para emitir sons 6 jogadores no total 3 titulares e 3 reservas Classes no goalball Nesta modalidade, os atletas com deficiência visual das classes B1, B2 e B3 competem juntos. Todas as classificações são realizadas por meio da mensuração do melhor olho e da possibilidade máxima de correção do problema. Todos os atletas, independentemente do nível de perda visual, utilizam uma venda durante as competições para que todos possam competir em condições de igualdade. B1. Cegos totais ou com percepção de luz, mas sem reconhecer o formato de uma mão a qualquer distância. B2. Atletas com percepção de vultos. B3. Atletas que conseguem definir imagens. CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE DESPORTOS DE DEFICIENTES VISUAIS. Goalball. São Paulo: CPB, [s.d.]. Disponível em: https://tinyurl.com/3jzvkpdh. Acesso em: 5 mar. 2024. 89 ESPORTE ADAPTADO Questão 2. Leia o texto a seguir. O que é tecnologia assistiva? Conforme a Lei Brasileira de Inclusão, n. 13.146 de julho de 2015, tecnologia assistiva é definida como produtos, equipamentos, dispositivos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que tenham como objetivo promover a funcionalidade, relacionada à atividade e à participação da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, visando à sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social. Entre os recursos de tecnologia assistiva disponíveis para garantir, à pessoa com deficiência, igualdade de oportunidades diante dos desafios da vida, destacam-se as OPM. BRASIL. Ministério da Saúde. O que é Tecnologia Assistiva?, Brasília, 18 nov. 2022. Disponível em: https://tinyurl.com/5n8s7x5t. Acesso em: 5 mar. 2024. Em relação à tecnologia assistiva, avalie as asserções e a relação proposta entre elas. I – A tecnologia assistiva é uma área do conhecimento independente, que se baseia exclusivamente na evolução tecnológica e em conhecimentos de engenharia, sem apresentar características interdisciplinares. porque II – O principal objetivo da tecnologia assistiva é proporcionar maior independência à pessoa com deficiência, aumentando sua qualidade de vida e sua possibilidade de inclusão social, por meio da melhora da comunicação, da mobilidade, do aprendizado e do trabalho. Assinale a alternativa correta. A) As asserções I e II são verdadeiras, e a asserção II justifica a I. B) As asserções I e II são verdadeiras, e a asserção II não justifica a I. C) A asserção I é verdadeira, e a II é falsa. D) A asserção I é falsa, e a II é verdadeira. E) As asserções I e II são falsas. Resposta correta: alternativa D. 90 Unidade II Análise das asserções I – Asserção falsa. Justificativa: a tecnologia assistiva: [...] é uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e à participação, de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando à sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social [...] (BRASIL – SDHPR. – Comitê de Ajudas Técnicas – ATA VII). NÚCLEO ACESSAR. O que é tecnologia assistiva? Universidade Federal Rural da Amazônia, 22 mar. 2021. Disponível em: https://tinyurl.com/3f7emvu7. Acesso em: 5 mar. 2024. Além disso, a tecnologia assistiva pode ser dividida em dois grandes grupos, apresentados a seguir. Recursos de TA: todo e qualquer item, equipamento, componente, produto ou sistema fabricado em série ou sob medida utilizado para aumentar, manter ou melhorar as capacidades funcionais das pessoas com deficiência. Podem ser considerados recursos de TA desde artefatos simples como uma bengala, um talher adaptado ou um lápis mais grosso, até complexos sistemas computadorizados, desde que seu objetivo seja proporcionar independência e autonomia à pessoa com deficiência. Serviços de TA: serviços que auxiliam uma pessoa com deficiência a selecionar, comprar, usar e avaliar os recursos de TA. Realizados por profissionais de diferentes áreas, incluindo os da área da saúde (terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, médicos), da educação (professores, monitores, profissionais do Atendimento Educacional Especializado), intérpretes de Libras, profissionais da área da informática e engenharia, dentre outros. CONCEITO. Centro Tecnológico de Acessibilidade, Bento Gonçalves, 21 mar. 2021. Disponível em: https://tinyurl.com/3mew5esd. Acesso em: 5 mar. 2024. II – Asserção verdadeira. Justificativa: vimos que a tecnologia assistiva ainda é um termo relativamente novo, utilizado para proporcionar recursos e serviços com a finalidade de ampliar as funcionalidades de pessoas com deficiência e, desse modo, promover uma vida independente e inclusiva (Bersch; Tonolli, 2006apud Bersch, 2017). A tecnologia assistiva pode ser entendida como “um auxílio que promoverá a ampliação de uma habilidade funcional deficitária ou possibilitará a realização da função desejada e que se encontra impedida por circunstâncias de deficiência ou pelo envelhecimento” (Bersch, 2017, p. 2). 91 REFERÊNCIAS Audiovisuais HISTÓRIA do doping (parte 1). 2020. 1 vídeo (4 min). Publicado pelo canal Time Brasil. Disponível em: https://tinyurl.com/2ptt6ynk. Acesso em: 26 mar. 2024. HISTÓRIA do doping (parte 2). 2020. 1 vídeo (5 min). Publicado pelo canal Time Brasil. Disponível em: https://tinyurl.com/bxp9hcp6. Acesso em: 26 mar. 2024. Textuais ALMEIDA, J. J. G. de et al. 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