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O conceito jurídico de Inteligência Artificial O CONCEITO JURÍDICO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL THE LEGAL CONCEPT OF ARTIFICIAL INTELLIGENCE Revista de Direito do Consumidor | vol. 160/2025 | p. 219 - 253 | Jul - Ago / 2025 DTR\2025\8187 Juliano Madalena Doutor e Mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor da Graduação em Direito e Coordenador da Pós-Graduação em Direito Digital da Faculdade do Ministério Público. Presidente da Comissão Especial de Proteção de Dados e Coordenador do Grupo de Trabalho sobre Inteligência Artificial na OAB/RS. jm@julianomadalena.com.br Área do Direito: Digital Resumo: O presente artigo examina o conceito de Inteligência Artificial inserido no direito brasileiro. Para tanto, se analisa a evolução histórica e técnica da inteligência artificial (IA), destacando marcos desde a formalização lógica de McCulloch e Pitts até o aprendizado profundo moderno. Em seguida, analisamos a natureza jurídica da IA no direito brasileiro, explicando que, embora a IA seja tecnicamente um software protegido por direitos autorais, possui características únicas. Por fim, o artigo apresenta e justifica o conceito jurídico de IA aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral em 2024 como primeiro no ordenamento brasileiro. Essa definição inclui lógica, representação do conhecimento e aprendizado de máquina, além da capacidade de produzir conteúdos sintéticos. Inspirado no modelo europeu do AI Act, o conceito busca neutralidade tecnológica e adaptabilidade, servindo como base para futuras legislações nacionais que conciliem inovação, proteção de direitos fundamentais e segurança jurídica. Palavras-chave: Conceito de inteligência artificial – Consumidor – Natureza jurídica do software – Direito digital. Abstract: This paper examines the concept of artificial intelligence (AI) within Brazilian law. To do so, it analyzes the historical and technical evolution of artificial intelligence, highlighting milestones from McCulloch and Pitts’ logical formalization to modern deep learning. Subsequently, we analyze the legal nature of AI under Brazilian law, explaining that although AI is technically copyright-protected software, it possesses unique characteristics. Finally, the article presents and justifies the legal concept of AI approved by the Superior Electoral Court in 2024 as the first of its kind in Brazilian legal order. This definition includes logic, knowledge representation, and machine learning, as well as the ability to produce synthetic content. Inspired by the European AI Act model, the concept seeks technological neutrality and adaptability, serving as a basis for future national legislation that reconciles innovation, the protection of fundamental rights, and legal certainty. Keywords: Concept of artificial intelligence – Consumer law – Intellectual property – Digital law. Para citar este artigo: Madalena, Juliano. O conceito jurídico de Inteligência Artificial. Revista de Direito do Consumidor. vol. 160. ano 34. p. 219-253. São Paulo: Ed. RT, jul./ago. 2025. Disponível em: [URL]. Acesso em: DD.MM.AAAA. Sumário: 1 Introdução - 2 Síntese histórica da Inteligência Artificial - 3 A natureza jurídica da Inteligência Artificial - 4 O conceito jurídico de Inteligência Artificial - 5 Considerações finais - 6 Referências - 7 Legislação - 8 Jurisprudência 1 Introdução Como veremos no indispensável apanhado histórico realizado, ainda que brevíssimo e que ignorou saltos e detalhes em razão do contexto do presente artigo, a inteligência artificial é tecnologia e inquietação humana que antecede o período das guerras mundiais. Com avanços e retrocessos, fruto da complexidade de aplicabilidade tecnológica, a inteligência artificial passou por diversas fases: da utopia reflexiva, ao descrédito até a vulgarização tecnológica e disseminação massiva de aplicações dotadas de IA. Diante disso, a inteligência artificial emerge como o principal motor de transformação do século XXI, impactando profundamente economia, sociedade e os próprios alicerces do direito. Por força da sua crescente inserção em setores críticos – como mercado consumidor, saúde, transporte, segurança pública, processos judiciais e eleições – torna-se imperativo desvendar seus aspectos técnicos e jurídicos para uma regulação equilibrada, que harmonize inovação, segurança jurídica e a proteção de direitos fundamentais. A trajetória da IA, oscilando entre euforia e ceticismo, culminou em uma sofisticação sem precedentes, de regras fixas a redes neurais adaptáveis. Essa evolução, que dota os sistemas de IA de capacidade de aprendizado e decisão com graus variados de autonomia, impõe ao direito o desafio de inovar. Para o jurista, não basta reconhecer a IA como uma inovação tecnológica; é essencial dominar sua natureza técnica. Só assim será possível traduzir seus complexos elementos em categorias jurídicas compreensíveis. Afinal, sistemas de IA, que podem gerar resultados inesperados e inferir padrões, desconstroem modelos tradicionais de responsabilidade civil e regulação, tornando a ausência de uma definição jurídica precisa um sério risco de lacunas normativas. Apesar de sua complexidade, a IA é fundamentalmente um artefato humano. Embora isso a defina como um bem jurídico intangível protegido por propriedade intelectual, suas especificidades exigem uma disciplina normativa dedicada, que transcenda a mera aplicação das normas gerais sobre software. Portanto, a necessidade de um conceito jurídico específico para a IA é imperativa para garantir segurança e previsibilidade. Uma definição clara não só delimita o objeto da regulação, evitando abusos e ambiguidades, mas também serve como vetor para estabelecer obrigações e direitos proporcionais aos riscos, promovendo a inovação responsável e defendendo o interesse público. O AI Act da União Europeia é um exemplo paradigmático dessa abordagem, introduzindo uma definição formal e um modelo de regulação baseado em risco. No Brasil, apesar da ausência de uma legislação federal abrangente, a Resolução 23.732 do TSE inovou ao introduzir o primeiro conceito jurídico de IA em nosso ordenamento. Essa definição, por nós sugerida1, que abarca o uso de lógica, representação do conhecimento e aprendizado de máquina, com foco na geração de conteúdos sintéticos e na capacidade de influenciar ambientes, é estratégica para combater a desinformação eleitoral. A criação de conceitos jurídicos para IA deve pautar-se pela neutralidade tecnológica, evitando restrições desnecessárias e garantindo a adaptabilidade da regulação à constante evolução tecnológica. O foco deve recair nos efeitos sociais gerados pelos sistemas, incluindo decisões automatizadas e conteúdos que possam afetar direitos fundamentais. Além disso, é crucial promover a educação e a consciência dos operadores do Direito sobre os aspectos técnicos da IA. Com efeito, o presente trabalho visa, portanto, contribuir para essa busca por clareza conceitual e rigor técnico. Através de uma análise histórica, técnica e normativa, o objetivo é expor o conceito jurídico de inteligência artificial por nós submetido ao TSE, diferenciando-o do software convencional, explorando sua natureza jurídica e comparando experiências regulatórias. Espera-se, assim, subsidiar um debate jurídico mais informado e a construção de um marco normativo robusto para os desafios da IA. 2 Síntese histórica da Inteligência Artificial A compreensão da possibilidade de mimetizar o comportamento do cérebro humano tem sido uma questão central na ciência desde meados dos anos 1940. Isso se manifestou de forma proeminente através do célebre artigo escrito por Warren S. McCulloch e Walter Pitts, intitulado “A logical calculus of the ideas immanent in nervous activity”. A ideia central e mais revolucionária proposta por McCulloch e Pitts foi a modelagem do comportamento do sistema nervoso como um sistema lógico formal2. Isso significa que o comportamento complexo do sistema nervoso humano, que gera pensamentos e ações, pode ser desdobradoPós-verdade, pós-democracia e processo. Revista de Processo, São Paulo, vol. 301, p. 35-75, mar. 2020. CANALLI, Rodrigo L. A propriedade intelectual do software: análise histórica e crítica. 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Após criteriosa análise pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a definição sugerida foi formalmente incorporada à Resolução 23.732/2024, passando a integrar o artigo 37 da Resolução 23.610, que regulamenta aspectos das eleições de 2024. 2 . A lógica sempre foi uma espinha dorsal da computação e da inteligência artificial, atuando como o alicerce formal para a representação, manipulação e automatização do raciocínio. Desde os primórdios dos circuitos digitais – que são essencialmente a materialização de operações lógicas como AND, OR e NOT – até os complexos sistemas de IA simbólica que traduzem conhecimento em regras lógicas, é a lógica que capacita a transformação de desafios intrincados em sequências de decisões claras e verificáveis. No universo da IA, ela permite delinear inferências, orquestrar planos e moldar o conhecimento de maneira estruturada, conferindo clareza e interpretabilidade. Com efeito, mesmo nos avançados sistemas de aprendizado de máquina contemporâneos, a lógica continua a ser uma fonte de inspiração para novas arquiteturas e algoritmos, reforçando a premissa de que a habilidade de raciocinar de forma consistente e estruturada permanece um pilar indispensável para o avanço de sistemas verdadeiramente inteligentes. MCCULLOCH, Warren S.; PITTS, Walter. A logical calculus of the ideas immanent in nervous activity. BulletinofMathematicalBiology, v. 52, n. 1/2, p. 99-115, 1990. Reimpressão do Bulletin of Mathematical Biophysics, v. 5, p. 115-133, 1943. 3 . RUSSELL, Stuart J.; NORVIG, Peter. Artificialintelligence: a modern approach. 4. ed. Global edition. Harlow: Pearson Education Limited, 2022. p. 35. 4 . WIENER, Norbert. Cybernetics: or, Control and Communication in the Animal and the Machine. New York: John Wiley & Sons, 1948. 5 . Devemos observar que a importância do sistema de feedback para a IA é crucial porque permite que os modelos aprendam e melhorem continuamente a partir de suas próprias ações eresultados. Em vez de operar de forma estática, o feedback – seja ele explícito (como correções humanas) ou implícito (como sucesso em uma tarefa simulada) – informa ao sistema o quão bem ele está performando. 6 . Durante a Segunda Guerra Mundial, Alan Turing trabalhou no centro de inteligência britânico em Bletchley Park. Turing foi fundamental no esforço para quebrar os códigos da máquina Enigma, que foi usada pela Alemanha nazista para comunicações militares. Turing projetou métodos e dispositivos eletromecânicos, como a “Bombe”, que automatizavam parte do processo de decifração. Seu trabalho acelerou a leitura de mensagens criptografadas, o que permitiu que os Aliados antecipassem movimentos inimigos. Devemos assumir que o trabalho de Turing foi fundamental para o encurtamento da guerra. BERNHARDT, Chris. Turing’sVision: The Birth of Computer Science. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 2016. 7 . TURING, A. M. Computing machinery and intelligence. Mind,NewSeries, v. 59, n. 236, p. 433-460, out. 1950. 8 . Turing queria responder ao Entscheidungsproblem de David Hilbert – o “problema da decisão”, que perguntava se existe um algoritmo capaz de decidir, para qualquer afirmação matemática formal, se ela é verdadeira ou falsa. 9 . Veja: MINSKY, Marvin; PAPERT, Seymour. Perceptrons: an introduction to computational geometry. Expanded ed. Cambridge, MA: MIT Press, 1987. 10 . MCCARTHY, John; MINSKY, Marvin L.; ROCHESTER, Nathaniel; SHANNON, Claude E. AproposalfortheDartmouthSummerResearchProjectonArtificialIntelligence. Hanover: Dartmouth College, 1955. 11 . Disciplina sob a ótica de estudoendereçadoeorganizadodeumdeterminadoobjeto e não necessariamente a adoção formaleinstitucional desse estudo em grades curriculares. 12 . UNITED STATES. National Academy of Sciences. Automatic Language Processing Advisory Committee. Languageandmachines: computers in translation and linguistics. Washington, D.C.: National Academy of Sciences, National Research Council, 1966. 13 . LIGHTHILL, James. Artificial Intelligence: A General Survey. In: ScienceResearchCouncil. Artificial Intelligence: A Paper Symposium. London: Science Research Council, 1973. 14 . A ideia central é ajustar iterativamente os pesos das conexões na rede neural para minimizar a diferença entre a saída esperada e a produzida. Este processo envolve duas fases: uma passagem para frente (forwardpass), onde os dados geram uma saída; e uma passagem para trás (backwardpass), onde o erro é calculado e propagado de volta pelas camadas. Podemos exemplificar ao mostrar para uma IA o que é um carro e questionar o que ela “vê”. Se o sistema errar e dizer que é uma bicicleta, o usuário informa o erro e nisso o algoritmo ajusta os pesos dos “neurônios virtuais” para que possa repetir o processo até acertar o conteúdo da imagem mostrada pelo usuário. RUMELHART, David E.; HINTON, Geoffrey E.; WILLIAMS, Ronald J. Learning representations by back-propagating errors. Nature, London, v. 323, n. 6088, p. 533-536, 1986. 15 . GOODMAN, David; KEENE, Raymond. Manversusmachine: Kasparov versus Deep Blue. Cambridge, MA: H3 Publications, 1997. 16 . Bruteforceou “força bruta” é uma abordagem que resolve problemas tentando exaustivamente todas as possibilidades. Em computação, significa explorar todas as soluções até encontrar a correta, sem usar atalhos ou heurísticas. 17 . As redes neurais convolucionais são uma espécie de rede neural artificial criadas para processar dados complexos, em especial com tipologiaemgrade: imagens, áudios ou vídeos. Seu nome advém da operação matemática de convolação. Esse processo é indispensável para a visão computacional e é empregado em reconhecimento facial, carros autônomos, diagnóstico médico, filtros de imagem (inclusive os que utilizamos em aplicativos de redes sociais). 18 . Veja: KRIZHEVSKY, Alex; SUTSKEVER, Ilya; HINTON, Geoffrey E. ImageNet classification with deep convolutional neural networks. AdvancesinNeuralInformationProcessingSystems, v. 25, p. 1097-1105, 2012. 19 . Placas de vídeo dedicadas com alta capacidade de processamento. 20 . SILVER, David et al. Mastering the game of Go with deep neural networks and tree search. Nature, v. 529, n. 7587, p. 484-489, 2016. DOI: [10.1038/nature16961]. 21 . Nesse modelo existem políticas estabelecidas e que são utilizadas para treinar a IA com aprendizado por reforço pautado em suas regras. 22 . Uma espécie de conselheiro em uma rede neural que avaliam o quão “adequado” será o próximo passo a ser tomado pela IA. 23 . Trata-se de arquitetura de rede neural desenvolvida para processar dados sequenciais, como um texto ou conversação. VASWANI, A. et al. Attention is All You Need. In: AdvancesInNeuralInformationProcessingSystems30 (NIPS 2017), Long Beach, CA, USA. 24 . No direito do consumidor, a digitalização das relações de consumo promoveu efetiva transformação no modo do seu desenvolvimento. Bruno Miragem aponta os desafios que o direito do consumidor enfrenta com a inteligência artificial, em especial considerando a possibilidade de “aprimoramento do próprio bem” através dessa tecnologia. MIRAGEM, Bruno. Novo paradigma tecnológico, mercado de consumo digital e o direito do consumidor. RevistadeDireitodoConsumidor, v. 125, p. 17-62, set.-out. 2019. 25 . Por vulgarização, compreendemos a aderência da tecnologia em todas as camadas sociais. Assim, uma tecnologia é “vulgarizada” quando a sua aceitação é ampla, inequívoca e inquestionável. 26 . Floridi e Chiriatti produziram interessante artigo versando sobre as características e, inclusive, limites do GPT-3. Assim, os autores promoveram crítica sobre o próprio modelo que merece ser citada para reflexão: “Isto é um lembrete de que o GPT-3 não faz o que não foi projetado para fazer, e que qualquer interpretação do GPT-3 como o início do surgimento de uma forma geral de inteligência artificial é apenas ficção científica mal-informada”. Observa-se que o texto foi publicado em 2020, próximo com o lançamento da própria aplicação. Ocorre que rapidamente a tecnologia evoluiu e atualmente a OpenAI dispõe de mais de dez modelos de inteligência artificial generativa que superaram o GPT-3 em diversos aspectos. Portanto, esse é um dos principais alertas que se deve fazer em matéria de inteligência artificial: é perigoso duvidar do progresso tecnológico cujas bases técnicas foram desenvolvidas pelos saltos empregados pelo modelo do GPT-3. Com isso, aquele que apontar que IA é ou será ficção científica por si só poderá se surpreender com o breve passar do tempo e demonstrações que a tecnologia vem nos apresentando. FLORIDI, Luciano; CHIRIATTI, Massimo. GPT-3: its nature, scope, limits, and consequences. MindsandMachines, [S.l.], v. 30, n. 4, p. 681-694, nov. 2020. Disponível em: [https://doi.org/10.1007/s11023-020-09548-1]. 27 . MILAGRES, Marcelo de Oliveira; RÊGO, Danilo Germano. A responsabilidade civil do fabricante por danos causados por carros autônomos. RevistadeDireitoCivilContemporâneo, São Paulo, v. 42, ano 12, p. 149-180, jan.-mar. 2025. 28 . FLORIDI, Luciano et al. AI4People – An ethical framework for a good AI society: opportunities, risks, principles, and recommendations. MindsandMachines, v. 28, n. 4, p. 689-707, 2018. DOI: [10.1007/s11023-018-9482-5]. Disponível em: [https://doi.org/10.1007/s11023-018-9482-5]. 29 . BITTAR, Carlos Alberto. O regime legal do software no Brasil. RevistadosTribunais, São Paulo, v. 677, p. 13-16, mar. 1992 30 . Sobre o tema, veja: CANALLI, Rodrigo L. Apropriedadeintelectualdo software: análise histórica e crítica. São Paulo: Editora Dialética, 27 jul. 2021. 31 . SANTOS, Manoel J. Pereira dos. A proteção adequada ao “software”. DoutrinasEssenciaisdeResponsabilidadeCivil, v. 8, p. 899-915, out. 2011. 32 . KNUTH, Donald Ervin. Theartofcomputerprogramming: fundamental algorithms. 3. ed. Boston: Addison-Wesley, 1997. v. 1. 652 p. 33 . Em matéria de propriedade intelectual e inteligência artificial, a curadoriadeconteúdo provoca interessantesreflexões. Considerando que a inteligência artificial depende de dados e que estes dados podem ser fornecidos por humanos, a seleção e organização desses dados, a depender, poderá dar azo à “coisa nova” frente ao direito. É dizer, desenvolvedor de dataset pode não ser o titular ou autor dos dados empregados, mas, possivelmente, do “todo” por ele organizado e que cumpre uma determinada finalidade. 34 . MENEZES, Elisangela Dias. Cursodedireitoautoral. Belo Horizonte: Editora Del Rey, 2007. p. 175. 35 . Tradicionalmente, a exploração econômica do software se dá através de licenças onerosas ou não onerosas. Entretanto, não podemos descartar a possibilidade de aquisição integral do código fonte ou a sua venda. 36 . AZEVEDO, Álvaro Villaça. Direitodascoisas. São Paulo: Atlas, 2014. 37 . TARTUCE, Flávio. Direito Civil: Lei de Introdução e Parte Geral. Rio de Janeiro: Grupo GEN, 2024. v.1. p. 297. E- book. ISBN 9786559649709. 38 . Devemos observar, contudo, que a própria doutrina discute a interessante natureza jurídica dos direitos de autor. Afinal, destarte a obra tenha natureza móvel, o direito autoral apresenta dualidade própria dessa realidade: se divide entre direitos morais e direitos patrimoniais. Nesse particular, Carlos Alberto Bittar compreende que tanto o direito moral e o direito patrimonial são incindíveis e unos enquanto atingem o complexo de direitos autorais, mas admitem divisão e individualização se for do interesse do autor. Considerando essas características, compreendemos que tais circunstâncias também são aplicáveis aos programas de computador e, portanto, aos softwares dotados de inteligência artificial. BITTAR, Carlos Alberto. Direitodeautor. 7. ed. rev., atual. e ampl. por Eduardo C. B. Bittar. Rio de Janeiro: Forense, 2019. 39 . Por sua vez, direitos morais e patrimoniais. 40 . Com efeito, devemos relembrar que a propriedade intelectual é o sistema que tutela as criações humanas: direito de autor, propriedade intelectual, sinais distintivos e proteções suigeneris. MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes de. TratadodeDireitoPrivado. Parte Especial. Tomo XVI: Direito das coisas – Propriedade mobiliária (bens incorpóreos). Propriedade intelectual. Propriedade industrial. Atual. de Marcos Alberto Sant’Anna Bitelli. São Paulo: Ed. RT, 2012. 41 . MARQUES, Claudia Lima; MIRAGEM, Bruno. Serviços simbióticos ou inteligentes e proteção do consumidor no novo mercado digital: homenagem aos 30 anos do Código de Defesa do Consumidor. RevistadoAdvogado, São Paulo, Associação dos Advogados de São Paulo, n. 146, p. 14-50, 2020. 42 . É possível assumir que o emprego equivocado da IA pode impactar fortemente não apenas direitos fundamentais, mas, inclusive a segurança nacional. Com efeito, os modelos fundacionais (foundationmodels) altamente capazes, treinados em grandes conjuntos de dados para serem adaptáveis a muitas tarefas diferentes, e que têm ou podem vir a ter capacidades perigosas suficientes para representar riscos graves à segurança pública e à segurança nacional. ANDERLJUNG, Markus et al. FrontierAIRegulation: Managing Emerging Risks to Public Safety. 2023. 43 . Um dos grandes desafios regulatórios é o equilíbrio entre a proteção dos direitos fundamentais e o desenvolvimento econômico e tecnológico. O sucesso do IAAct em equilibrar esses preceitos só poderá ser medido com o passar do tempo. MOLNAR, David. AI unleashed: mastering the maze of the EU AI Act. RegionalLawReview, p. 155-168, 2024. 44 . GSTREIN, Oskar J.; HALEEM, Noman; ZWITTER, Andrej. General-purpose AI regulation and the European Union AI Act. InternetPolicyReview, v. 13, n. 3, p. 1-24, 1 ago. 2024. Disponível em: [https://doi.org/10.14763/2024.3.1790]. 45 . Devemos ressaltar que a preocupação em bem definir o conceito de inteligência artificial e suas espécies não é privilégio nosso. Na doutrina estrangeira, também há interessantes construções teóricas que buscam delimitar o conceito. GUTIERREZ, Carlos I. et al. A proposal for a definition of general purpose artificial intelligence systems. DigitalSociety, v. 2, n. 36, 2023. 46 . Devemos observar que o IAAct passou a compor relevante espaço regulatório na proteção do consumidor na Europa. Afinal, o emprego de IA em produtos e serviços atrai a aplicação do IAAct em compasso com as normas de proteção do consumidor vigentes. Sobre o tema, veja: DEVETZIS, Dimitrios; SAMARAS, Simos. Consumer protection safeguards after the AI Act. PerspectivesofLawandPublicAdministration, v. 13, n. 2, p. 298-309, June 2024. 47 . A amplitude do IAAct também é objeto de crítica. Ao desenvolver um modelo regulatório extremamente denso e complexo é possível criar entraves para o desenvolvimento e barreiras para a sua implementação prática. PHILIPPE, Jerome. The EU AI Act: too early and too complex? NewYorkUniversityJournalofLawandBusiness, New York, v. 20, n. 3, p. 685-700, 2024. 48 . BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Resolução23.732,de27defevereirode2024. Altera a Resolução-TSE 23.610, de 18 de dezembro de 2019, dispondo sobre a propaganda eleitoral. Brasília, DF: TSE, 27.02.2024. 49 . BRASIL. Senado Federal. Projeto de Lei 2.338, de 3 de maio de 2023. Dispõe sobre o uso da inteligência artificial. Apresentado pelo Senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Brasília, DF: Senado Federal, 03.05.2023. 50 . ESTADOS UNIDOS. National Artificial Intelligence Initiative Act. In: U.S.CodeTitle15–CommerceandTrade, chap. 119, §§ 9401–9462. Public Law 116-283, div. E, tit. LI–LIII, 1 jan. 2021. 51 . CAMBI, Eduardo; SCHMITZ, Nicole Naiara. Pós-verdade, pós-democracia e processo. RevistadeProcesso, São Paulo, v. 301, p. 35-75, mar. 2020.em uma série de afirmações ou condições lógicas. Cada neurônio, funcionando sob a lei do “tudo ou nada” (ativado ou desativado)3, torna-se, em essência, uma unidade computacional binária que pode ser formalizada pela lógica proposicional. Esse insight estabeleceu uma ponte entre a neurofisiologia e a matemática, abrindo caminho para o tratamento formal da inteligência artificial. Diante disso, a técnica simula as portas lógicas fundamentais, o que posteriormente foi empregado na estrutura de funcionamento da computação moderna. Paralelamente à formalização lógica da atividade neural proposta por McCulloch e Pitts, a segunda metade da década de 1940 assistiu ao surgimento de outra obra seminal que, embora distinta em sua abordagem, complementaria e expandiria a fundação teórica para futuras inteligências artificiais. Tratava-se de “Cybernetics: Or Control and Communication in the Animal and the Machine”4 (1948), de Norbert Wiener. A cibernética, como disciplina cunhada por Wiener, não se focava na estrutura micrológica do neurônio, mas sim nos princípios universais de controle, comunicação e retroalimentação (feedback5). Cumpre observar que o conceito de feedback de Wiener foi um marco para imaginar sistemas inteligentes. Em vez de apenas seguir instruções fixas, ele permitiu pensar máquinas capazes de “aprender” com seus próprios resultados. Essa ideia de ajuste e autorregulação fundamenta, ainda hoje, o desenvolvimento de sistemas adaptativos e autônomos. Dessa forma, enquanto McCulloch e Pitts descreveram as unidades computacionais básicas e a lógica subjacente à atividade neural, Wiener forneceu a teoria de controle que permite a essas unidades formarem sistemas dinâmicos e inteligentes. A fusão conceitual reside na ideia de que os portões lógicos dos neurônios podem ser a base para o processamento de informações que, por sua vez, é utilizada em um loop de feedback para controlar o comportamento. A comunicação entre esses neurônios artificiais, formalizada pela lógica, adquire significado dentro de um sistema maior que busca objetivos e se adapta ao ambiente através da cibernética. Assim, a convergência dessas efervescências intelectuais do pós-guerra consolidou o alicerce para o campo da inteligência artificial. A capacidade de representar a cognição em termos de operações lógicas (McCulloch-Pitts) combinada com o entendimento de como sistemas complexos se autorregulam e se comunicam para atingir objetivos (Wiener) legitimou a busca por inteligências não biológicas. Assim, o caminho foi pavimentado para o desenvolvimento de máquinas que não apenas processam informações, mas que também demonstram um comportamento inteligente, adaptativo e, eventualmente, autônomo. Contudo, com inquestionável merecimento, nenhum indivíduo é mais frequentemente associado ao conceito fundacional da inteligência artificial do que Alan Turing6. Sua célebre obra, “Computing Machinery and Intelligence”7, publicada em 1950, desafiou a premissa de que a inteligência era um atributo exclusivamente humano, propondo uma abordagem empírica para avaliar se uma máquina poderia exibir comportamento inteligente. Ao introduzir o “Jogo da Imitação”, posteriormente conhecido como “Teste de Turing”, ele deslocou o debate da questão metafísica “Podem as máquinas pensar?” para uma questão mais pragmática e testável: “Podem as máquinas se comportar de forma indistinguível de um ser humano em uma conversa por escrito?.” A genialidade da contribuição de Turing não se limitava à proposição de um teste. Sua teoria da computabilidade universal, formulada anos antes com a concepção da Máquina de Turing, já havia estabelecido que qualquer processo computacional que pudesse ser descrito por um algoritmo poderia ser executado por uma máquina universal. Essa ideia fundamental tornou conceitualmente possível que uma máquina simulasse qualquer outro sistema computacional, incluindo, por extensão, um cérebro processando informações. Diante disso, tal perspectiva desenvolvida por Turing forneceu a estrutura teórica para a crença de que a inteligência, por mais complexa que fosse, poderia ser emulada por algoritmos e programas computacionais. Para além disso, Turing abordou em seu artigo várias objeções filosóficas e teológicas à possibilidade de máquinas pensarem, refutando-as sistematicamente. Ao fazer isso, ele não apenas defendeu a viabilidade técnica da IA, mas também estimulou a comunidade científica a considerar seriamente o potencial das máquinas. Embora sua visão de inteligência fosse funcionalista, focando no comportamento externo em detrimento dos estados internos, ela foi decisiva para direcionar a pesquisa em IA para a construção de sistemas que pudessem resolver problemas complexos e interagir de maneira inteligente com humanos. Assim, um dos principais aspectos notáveis da obra de Turing é sua antecipação do aprendizado por máquinas, um pilar central da IA moderna. Em “Computing Machinery and Intelligence”, Turing explorou a possibilidade de máquinas serem ensinadas de forma semelhante a uma criança. Para tanto, Turing sugeriu que, em vez de programar explicitamente todas as regras para um comportamento inteligente, poderíamos dotar as máquinas de uma capacidade inicial simples e, em seguida, permitir que elas aprendessem com a experiência. Essa visão foi “profética”, considerando o papel que o aprendizado de máquina e os algoritmos adaptativos desempenham hoje, especialmente em áreas como redes neurais e aprendizado profundo, que permitiram avanços significativos em reconhecimento de padrões, tradução automática e outros campos. Além disso, a Máquina de Turing, introduzida em seu trabalho seminal de 1936, “On Computable Numbers, with an Application to the Entscheidungsproblem”8, forneceu uma abstração matemática que transcendeu a mera mecânica da computação para abordar questões filosóficas sobre os limites do que é computável. Ao demonstrar que existem problemas que nenhuma máquina, por mais poderosa que seja, pode resolver, Turing estabeleceu os limites teóricos da inteligência artificial antes mesmo que o campo existisse formalmente. Essa compreensão foi crucial para moldar as expectativas realistas sobre o que a IA pode e não pode fazer, direcionando a pesquisa para problemas tratáveis e afastando-a de aspirações utópicas inalcançáveis. Na senda dos anos 1950 sobreveio o “Dartmouth Summer Research Project on Artificial Intelligence”, ocorrido em 1956, e universalmente reconhecido como o evento que marcou o nascimento oficial da Inteligência Artificial como um campo de estudo e pesquisa dedicado. Sua importância transcende a mera reunião de mentes; ele representou a catalisação de várias linhas de pesquisa e o marco inaugural para um conceito então nascente. Com efeito, o evento foi organizado por John McCarthy (na época, do Dartmouth College), Marvin Minsky9 (Harvard University), Nathaniel Rochester (IBM) e Claude Shannon (Bell Telephone Laboratories) através de uma proposta intitulada “A proposal for the Dartmouth summer research project on artificial intelligence”10 submetida ao fundo de pesquisa Rockefeller, que tinha como objetivo reunir especialistas por dois meses para discutir sobre a possibilidade de “fazer máquinas usarem a linguagem, formar abstrações e conceitos, resolver tipos de problemas atualmente reservados aos humanos e se aprimorar”. A principal contribuição do Dartmouth Project foi a definição, articulação e legitimação da Inteligência Artificial como uma “disciplina acadêmica autônoma”11. Antes de Dartmouth, as ideias sobre máquinas inteligentes estavam dispersas em campos como a lógica matemática (Turing, McCulloch e Pitts), e a cibernética (Wiener). A Dartmouth Conference de 1956 também logrou resultados práticos que superavam o campo da dogmática científica em matéria de inteligência artificial, pois foi nessa conferência que Allen Newell, Herbert A. Simon e J. C. Shaw da RAND Corporation, nos Estados Unidos, criaram o Logic Theorist, reconhecido como um dos primeiros programas de inteligênciaartificial e que tinha como objetivo automatizar a prova de teoremas do Principia Mathematica de Whitehead e Russell, demonstrando que um computador conseguia simular o raciocíniológico humano. A importância do programa para a história não apenas da IA, mas também da computação, reside no fato de que ele conseguia trabalhar com manipulação de símbolos, algo até então de domínio exclusivamente humano. Desse modo, o Logic Theorist empregava regras heurísticas para escolher quais passos lógicos seguir e assim imitava o modo como seres humanos resolvem problemas complexos. É dizer, ao invés de simplesmente tentar todas as alternativas possíveis de forma exaustiva, o programa fazia escolhas efetivamente estratégicas. Essa aplicação seminal também catalisou o surgimento de diversas outras vertentes de pesquisa em IA, notadamente o desenvolvimento do General Problem Solver (GPS), a concepção de sistemas especialistas e a exploração de métodos de busca heurística. Na década de 1960, a IA deu origem a sistemas especialistas, programas construídos para resolver problemas específicos em domínios restritos, empregando grandes bases de conhecimento e regras lógicas. O exemplo mais famoso dessa época foi o Dendral (iniciado em 1965), criado para ajudar químicos a inferir estruturas moleculares a partir de dados espectroscópicos. Outro exemplo de destaque foi o MYCIN (década de 1970), um sistema capaz de diagnosticar infecções bacterianas e recomendar antibióticos. Ao mesmo tempo, surgiram desafios conceituais que limitaram o entusiasmo inicial. Os relatórios ALPAC (1966) e o “AI winter” (inverno da IA) que se seguiu nas décadas de 1970 e 1980 revelaram dificuldades em lidar com problemas do mundo real. Em especial, o emprego de linguagem natural e visão computacional, para os quais as abordagens puramente simbólicas ou baseadas em regras se mostraram insuficientes. Esses reveses resultaram em cortes de financiamento e em uma reavaliação das promessas da IA. Diante disso, tanto as pesquisas acadêmicas como o setor de desenvolvimento de produtos com IA foram duramente afetados. Sobre o tema, o Relatório ALPAC (Automatic Language Processing Advisory Committee), foi publicado em 1966 pela Academia Nacional de Ciências dos EUA12, e encomendado para avaliar o estado da arte em tradução automática (machine translation) para poder orientar o financiamento do setor. Assim, o comitê concluiu que, apesar de uma década de investimentos consideráveis, os sistemas de tradução automática não conseguiam produzir traduções de qualidade aceitável sem pós-edição humana. Em consequência, as traduções geradas por máquinas não eram mais baratas nem mais rápidas do que a tradução humana tradicional, frustrando as expectativas iniciais que motivaram os investimentos. De igual forma, o estudo também analisou a real demanda por traduções dentro do governo dos EUA. Assim, contrariando a ideia de uma grande escassez de tradutores, o relatório revelou que havia mais oferta de tradutores do que demanda, com muitos profissionais disponíveis e prontos para trabalhar. Assim, o comitê considerou que não havia justificativa prática imediata para continuar financiando pesadamente pesquisas em tradução automática com foco em resultados de curto prazo. Como resultado, o relatório ALPAC teve grande impacto para a formulação da inteligência artificial. Nos EUA, houve um corte drástico nos financiamentos federais para projetos de tradução automática por várias décadas. Refletindo uma tendência americana, o relatório de James Lighthill de 197313 foi relevante para resultar no chamado “inverno da IA” no Reino Unido, também considerado como um período de ceticismo com a tecnologia e redução de investimentos. Encomendado pelo Science Research Council britânico para avaliar o retorno do investimento público em IA, Lighthill concluiu que grande parte da pesquisa, especialmente em sistemas de propósito geral e robótica, não havia entregado o que prometera. Sua crítica ao baixo retorno e ao “otimismo exagerado” influenciou a opinião pública e os órgãos de fomento. Diante disso, o resultado prático imediato foi um corte significativo no financiamento de projetos de IA, em especial os mais especulativos ou voltados à criação de sistemas inteligentes gerais. No plano simbólico, o relatório gerou um ceticismo institucional duradouro: assim como nos EUA, por quase uma década, havia pouca disposição para investir em IA no Reino Unido. Não obstante, a IA vivenciou uma vigorosa retomada no final da década de 1980 e na de 1990, caracterizada pela adoção de novas metodologias. As redes neurais artificiais, inicialmente descartadas, ressurgiram impulsionadas tanto por um maior poder computacional quanto por avanços teóricos cruciais, a exemplo do algoritmo de retropropagação (backpropagation14). Concomitantemente, o desenvolvimento de técnicas de aprendizado de máquina e a aplicação da lógica probabilística possibilitaram à IA gerenciar a incerteza de forma mais eficaz, o que culminou em aplicações revolucionárias como reconhecimento de fala, tradução automática e sistemas de recomendação. A importância do backpropagation para essa retomada e, em particular, para o sucesso das redes neurais, não pode ser subestimada. Antes de sua popularização, a dificuldade em treinar redes com múltiplas camadas era um obstáculo fundamental. O backpropagation forneceu a ferramenta algorítmica necessária para distribuir eficientemente o erro de uma previsão final de volta para cada neurônio e conexão da rede, permitindo que todos os parâmetros fossem ajustados de forma coordenada. Isso transformou as redes neurais de curiosidades teóricas em ferramentas práticas e poderosas, capazes de aprender padrões complexos a partir de dados. Um momento de destaque na história da inteligência artificial, especialmente na década de 1990, foi o confronto entre Garry Kasparov, o campeão mundial de xadrez, e o supercomputador Deep Blue, da IBM. Em 1997, Deep Blue15 alcançou relevância: tornou-se o primeiro sistema computacional a derrotar um campeão mundial em uma partida oficial de xadrez. Sua força residia na capacidade de analisar cerca de 200 milhões de posições por segundo, resultado de constantes aprimoramentos. Apesar de não empregar o aprendizado de máquina como o conhecemos hoje, o Deep Blue era um exemplo excelente da IA clássica, baseada em lógicas simbólicas e determinísticas, utilizando funções de avaliação meticulosamente ajustadas. Essa vitória teve um impacto social e técnico imenso, provando que máquinas especializadas eram capazes de realizar tarefas antes tidas como prerrogativa da cognição humana. No entanto, o sucesso de Deep Blue não significou uma vitória completa da IA sobre a mente humana; ao contrário, ele expôs as fronteiras dos métodos de força bruta16 e do conhecimento pré-programado. O confronto Kasparov vs. Deep Blue intensificou os debates sobre a natureza da inteligência e quais capacidades humanas seriam mais resistentes à automação. Paradoxalmente, a “vitória” do Deep Blue impulsionou a pesquisa acadêmica e comercial em sistemas capazes de aprender e generalizar a partir de dados, um movimento que culminaria na ascensão do aprendizado de máquina estatístico e, mais adiante, do aprendizado profundo no século XXI. Já no século XXI, a IA ingressou em uma nova fase com a ascensão do aprendizado profundo (deep learning), que se valeu da arquitetura de redes neurais com múltiplas camadas e da disponibilidade de vastos volumes de dados disponíveis. Modelos específicos, como as redes neurais convolucionais (CNNs)17, transformaram radicalmente o campo da visão computacional, enquanto as redes generativas revolucionaram o processamento de linguagem natural, permitindo o desenvolvimento de assistentes virtuais e tradutores com um nível de sofisticação quase humano. Um marco fundamental nessa trajetória foi o trabalho de Alex Krizhevsky, Ilya Sutskever e Geoffrey Hinton, que demonstrou o poder das redes neurais convolucionais profundas ao vencer o desafio ImageNetLarge Scale Visual Recognition Challenge (ILSVRC). Nesse estudo18, os autores treinaram uma rede com milhões de parâmetros em mais de um milhão de imagens, utilizando GPUs19 e técnicas inovadoras em computação. O sucesso desse modelo, conhecido como AlexNet, reduziu drasticamente os erros de classificação em comparação com métodos anteriores e estabeleceu as bases para o uso massivo de CNNs em aplicações de visão computacional, como reconhecimento facial, veículos autônomos e sistemas de vigilância inteligente. Além de mostrar que era viável treinar redes profundas em grandes conjuntos de dados, o artigo de Krizhevsky et al. estimulou avanços em hardware, algoritmos de otimização e estratégias de regularização, gerando um ciclo virtuoso que impulsionou toda a área de inteligência artificial. Se nos anos 1990 o xadrez foi o grande marco para a evolução da IA através do Deep Blue vs. Garry Kasparov, o século XXI foi marcado pelos clássicos duelos envolvendo um novo adversário inteligente: o AlphaGo20. Proveniente do Google DeepMind, o AlphaGo emergiu como um marco em 2015, ao triunfar sobre o campeão europeu de Go, Fan Hui. No ano seguinte, 2016, sua notoriedade global foi consolidada com a vitória sobre Lee Sedol, um dos principais jogadores do Go. A arquitetura do AlphaGo era notável por sua inovação, integrando redes neurais profundas e algoritmos de busca. O treinamento era bifásico: uma etapa de aprendizado supervisionado, utilizando partidas humanas, seguida por uma fase de aprendizado por reforço através de auto-jogo (self-play). Essa dualidade permitia aprimoramento contínuo. Adicionalmente, a combinação estratégica de “policy networks21” para a seleção de movimentos promissores, e “value networks22”, para a avaliação de posições, otimizou exponencialmente o espaço de busca no intrincado domínio do Go. Essa abordagem representou um rompimento com os paradigmas anteriores de IA em jogos de tabuleiro, que se limitavam à força bruta ou heurísticas predefinidas. Entretanto, para que pudéssemos progredir para o emprego hodierno da IA faltava o desenvolvimento de funcionalidades que permitissem o emprego da linguagem humana. Diante disso, essa transição ocorreu com a introdução das arquiteturas Transformer23 em 2017, as quais revolucionaram o Processamento de Linguagem Natural (PLN). Tais modelos, diferentemente dos seus precursores especializados, foram treinados em repositórios massivos e diversificados de dados (big data), internalizando padrões linguísticos de forma genérica e reutilizável. Esse progresso representou uma mudança de paradigma: a busca por modelos suficientemente grandes e adaptáveis que pudessem generalizar tarefas com mínimas modificações na entrada. Com isso, o ponto alto dessa evolução foi alcançado em 2020 com o GPT-3 da OpenAI, apresentado no artigo “Language Models are Few-Shot Learners”. Com 175 bilhões de parâmetros, este modelo demonstrou que o simples dimensionamento da rede, junto com treinamento não supervisionado em dados da web, permitia-lhe realizar uma ampla gama de tarefas através de instruções no próprio prompt. O impacto do GPT-3 foi imediato e transformador. Sua notável capacidade de interpretar instruções em linguagem natural e se adaptar rapidamente a novas demandas sinalizava o surgimento de sistemas mais gerais, aproximando a IA da flexibilidade cognitiva humana. Com efeito, não há como reduzir a inquestionável importância histórica do GPT-3. Assim como o AlphaGo provou a viabilidade de agentes que aprendem estratégias complexas via autojogo e aprendizado por reforço profundo, o GPT- 3 estabeleceu que a escala bruta, combinada com vastos dados e Transformers, era suficiente para criar sistemas multifuncionais sem reengenharia especializada. Esse marco redefiniu o potencial dos modelos de linguagem e inaugurou uma nova era da IA. Por essa nova realidade, grandes modelos pré-treinados se tornaram a espinha dorsal para um leque ilimitado de aplicações, desde tradução e assistentes virtuais até a criação de conteúdo. No mesmo sentido, o emprego do GPT-3 pela OpenAI, para além do mérito técnico, também é exemplo daquilo que entendemos por “vulgarização tecnológica”. Isso porque, a OpenAI uniu a robustez tecnológica da IA com a simplicidade de experiência do usuário. Com design simples, funcional e intuitivo, o produto final do GPT-3 foi a aplicação mundialmente conhecida como “ChatGPT” que sobreveio em 2022, que simplesmente revolucionou rapidamente as estruturais sociais em escala global. Através do ChatGPT, qualquer usuário com o mínimo de letramento em tecnológica consegue conversar com a IA utilizando linguagem simples e coloquial. O desenvolvimento de aplicativos para celulares com o ChatGPT embarcado possibilitou a disseminação massiva da aplicação. Tais contornos foram indispensáveis para a vulgarização da tecnologia, requisito que consideramos como inafastável para qualquer novidade tecnológica ser efetivamente aceita pela sociedade global. 3 A natureza jurídica da Inteligência Artificial Todo objeto científico pode ser observado e estudado por meio de diversas facetas. Não seria diferente com a inteligência artificial, que provoca inquietações em diversas áreas do conhecimento humano. Como observado, o seu próprio progresso tecnológico é fruto de inúmeras rupturas e aprimoramentos24. Na seara da ciência jurídica, não obstante as análises futurísticas que dialogam com a possibilidade de substituição completa do ser humano pela máquina, o fato é que a efetiva preocupação com os impactos no direito acompanha a vulgarização da tecnologia25. Contudo, pouco ou nada se medita acerca da real natureza jurídica da inteligência artificial. Trata-se de importante equívoco científico que fulmina a aplicação do direito. Com pensamentos ligeiros ou dissociados da indispensável sistematização que o direito nos impõe, o jurista poderá ingressar em terreno arenoso, próprio da insegurança jurídica e com serventia apenas para o desenvolvimento de fundações inseguras. Nesse cenário, a regulação da inteligência artificial (IA) se torna um desafio imenso. A tecnologia progride mais rápido que o direito26, resultando em um emaranhado de regras que tentam encaixar o “novo” ao “direito posto”. No entanto, improvisações sem base teórica tendem a falhar, gerando leis ineficazes ou até prejudiciais, incapazes de lidar com os dilemas jurídicos, éticos, sociais e econômicos da IA. A título exemplificativo, um ponto crítico é a responsabilidade civil por danos causados pela IA27. O modelo tradicional de culpa humana e indenização se choca com máquinas autônomas que tomam decisões, muitas vezes sem supervisão direta. A ausência de sistema especializado para endereçar os danos advindos da IA, deixa espaços que ameaçam o direito à reparação das vítimas. Assim, o jurista precisa ser um agente ativo e crítico na construção desse novo framework28 legal. Sua missão vai além de analisar a tecnologia; exige organizar conceitos e criar critérios jurídicos claros e passíveis de sustentação no tempo. Só assim será possível harmonizar o avanço tecnológico com o sistema jurídico vigente, garantindo um equilíbrio entre inovação, proteção de direitos e a busca pela justiça social. Em assim sendo, devemos assentar, preliminarmente, que a perante o direito a inteligência artificial se amolda no conceito de programa de computador (software). Com efeito, em computação, um programa de computador (ou software) é essencialmente um conjunto de instruções codificadas que, ao serem processadas, capacitam a máquina a realizar tarefas e solucionar problemas29-30. Essa definição abrange desde sistemas operacionais e aplicativos até jogos e utilitários – enfim, qualquer lógica que direcione o comportamento do hardware. Ao contrário do hardware físico, o software é intangível, manifestando-se como código-fonte ou executáveis31. É ele que dá vida aos dispositivos digitais, permitindo operações que vão de cálculos básicos a redes globais e sistemas inteligentes. No seu particular, o software ou programasde computador, em muito se assemelham com receitas culinárias. Pensemos que em uma determinada receita de bolo de chocolate é necessário misturar os ingredientes para atingir o resultado. Se a receita for executada corretamente, o resultado será o esperado bolo de chocolate. Por outro lado, se o cozinheiro errar os ingredientes ou o procedimento de execução da receita, não teremos o bolo de chocolate pretendido, podendo resultar em um bolo ruim ou defeituoso ou, como chamamos na computação, com algum bug. Assim, em sua essência, os programas de computador executam tarefas predeterminadas pelo seu desenvolvedor32. Essas tarefas são escritas em linguagem de programação, que atuam como interfaces comunicativas entre o desenvolvedor e o computador. Como visto, os computadores operam, em última análise, através dos números binários que embora realizem indispensável trabalho, não apresentam a melhor representação técnica de comunicação entre o Humano e o computador. Para tanto, diversas e variadas linguagens de programação com diferentes finalidades, complexidades e usos são utilizadas para permitir que o desenvolvedor constitua tarefas para serem executadas pelo sistema operacional através daquilo que chamamos de programas de computador. Por esse sentido, por mais que se possa acreditar que aplicações dotadas de IA não executam tarefas predeterminadas, o que poderia impactar no conceito, devemos relembrar que a essência da predeterminação permanece central inclusive nessa realidade. Embora a IA demonstre capacidades de aprendizado e adaptação impressionantes, sua “inteligência” não surge do vazio. Outrossim, ela é o resultado de algoritmos, modelos e conjuntos de dados cuidadosamente projetados por desenvolvedores. A “determinação” dos sistemas de IA reside precisamente na forma como foram programados para aprender ou desenvolver rotinas próprias da IA. Isso inclui as arquiteturas de rede neural, os algoritmos de otimização e a curadoria dos dados de treinamento33, a título exemplificativo. Cada um desses componentes é uma instrução explícita ou um conjunto de regras que direcionam o processo de “tomada de decisão” ou a geração de resultados pela IA. Portanto, a capacidade de uma IA de realizar tarefas complexas, como reconhecer imagens, traduzir idiomas ou compor textos, é uma manifestação direta das intenções e do design predeterminado pelos seus criadores. As IAs não criam conhecimento ou comportamento do vazio; elas inferem, generalizam e geram com base nas estruturas e nas vastas quantidades de dados com as quais foram alimentadas, tudo dentro dos parâmetros definidos pelos programas subjacentes que constituem sua própria existência. Diante desse contexto, observamos que os programas de computador se traduzem em conjunto de instruções textuais em linguagem programável e compreendida tanto pelo sistema operacional quanto pelo hardware do usuário, a depender da classificação que estivermos observando. Com efeito, dada a sua importância, certo é que os programas de computador possuem características jurídicas relevantes e que são tuteladas pelo direito brasileiro34. A primeira, diz respeito a sua natureza jurídica. Assim, o direito brasileiro acomodou a proteção dos programas de computador na disciplina do direito autoral, sendo tutelado tanto pela Lei 9.610 de 1998 (LGL\1998\78) (Lei de Direito Autoral) quanto pela Lei 9.609 de 1998 (LGL\1998\77) (Lei do Software – LDS). Com isso, a LDS conceitua o programa de computador em seu artigo 1º como: “expressão de um conjunto organizado de instruções em linguagem natural ou codificada, contida em suporte físico de qualquer natureza, de emprego necessário em máquinas automáticas de tratamento da informação, dispositivos, instrumentos ou equipamentos periféricos, baseados em técnica digital ou análoga, para fazê-los funcionar de modo e para fins determinados.” Sobre o conceito, devemos observar o local de armazenamento do programa de computador, pois ao mencionar o suporte físico de qualquer natureza podemos concluir, corretamente, pela possibilidade de guarnecê-lo, inclusive, em papel. Naturalmente, o armazenamento em arquivos digitais alcançará o suporte físico final, pois não há armazenamento sem hardware computacional que o justifique. Com isso, deve-se prevalecer a máxima da propriedade intelectual pela qual o direito não protege as ideias, apenas aquilo que efetivamente se expressa em algum suporte. Com asseverado, a correta aplicação do direito em um mundo cada vez mais digital depende profundamente da compreensão da natureza jurídica dos objetos da ciência jurídica que o compõem, especialmente aqueles inerentes ao universo do direito digital. Para desvendar essa natureza no contexto do software, é imperativo percorrer o arcabouço normativo brasileiro que o disciplina. A proteção legal do software, no Brasil, é conferida por duas leis basilares: a Lei 9.610 de 1998 (LGL\1998\78), conhecida como Lei de Direitos Autorais (LDA), e a Lei 9.609 de 1998 (LGL\1998\77), a Lei do Software (LDS). Ambas fornecem os instrumentos necessários para a atribuição de direitos e a determinação de sua titularidade, posicionando o software de forma sistemática dentro da vasta categoria dos direitos autorais. Essa compreensão não é arbitrária, mas decorre diretamente da previsão contida no artigo 2º da Lei do Software, que remete explicitamente a proteção da propriedade intelectual do programa de computador ao regime dos direitos autorais. Apesar de a Lei do Software não declarar expressamente a natureza jurídica do programa de computador, a remissão feita à Lei de Direitos Autorais é crucial para elucidar o ponto. Ao submeter o software ao mesmo regime jurídico dos direitos autorais, tacitamente se lhe aplica a classificação atribuída a estes pela LDA. Com efeito, o artigo 3º da Lei de Direitos Autorais estabelece uma preceituação fundamental ao conferir aos direitos autorais a inequívoca classificação de bens móveis. Essa atribuição é fundamental para a delimitação de como as relações jurídicas envolvendo o software devem ser tratadas, desde questões de compra, venda ou “cessão35” até discussões sobre sucessão e garantias. Neste particular, é vital relembrar a distinção conceitual entre “bens” e “coisas” no direito civil36, a despeito das discussões doutrinárias sobre o tema37. Tradicionalmente, parte-se da premissa de que “coisas” abrange tudo aquilo que não é humano, enquanto “bens” constitui um subconjunto das coisas, referindo-se àquilo que possui valor econômico e que é passível de apropriação ou de ser objeto de direitos. Essa hierarquia conceitual é primordial para classificar o software adequadamente dentro do sistema jurídico. Embora o Código Civil de 2002 não detalhe expressamente a classificação entre bens corpóreos (materiais ou tangíveis) e incorpóreos (imateriais ou intangíveis, como faz a doutrina), a distinção reside fundamentalmente na sua suscetibilidade ao tato humano. Os bens corpóreos, por sua natureza física, permitem ser tocados e sentidos, ou seja, são passíveis de experiência corpórea, o que os classifica como tangíveis. Por outro lado, os bens incorpóreos carecem dessa materialidade e, consequentemente, não podem ser apreendidos pelo tato humano, caracterizando-se como imateriais ou intangíveis. É nesse último grupo que o software se insere de maneira categórica. Embora sua execução dependa de um suporte físico – seja um disco rígido, um servidor ou mesmo um pedaço de papel que contenha seu código-fonte – a essência do programa em si não é o suporte, mas a abstração das instruções, o conjunto lógico que permite à máquina funcionar de uma determinada maneira. Portanto, o software se constitui juridicamente como um bem móvel intangível (ou, para usar termos sinônimos, incorpóreo ou imaterial). O objeto da tutela jurídica no direito do software não é o suporte físico que o contém – que pode variar de um chip a uma mídia óptica, ou mesmo um arquivo digital em um servidor –, mas sim a propriedade intelectual subjacente, ou seja, a abstraçãodas instruções representadas pela linguagem de programação, codificada ou natural. Tal distinção é crucial, pois ao proteger a inteligência e a criatividade expressas através do código, o ordenamento jurídico brasileiro garante que o valor intrínseco do software não se confunda ou se limite ao meio pelo qual ele é materializado. Desse modo, considerando a natureza jurídica fundamental do software, podemos estender a mesma lógica para as sofisticadas implementações de Inteligência Artificial. Por mais que as IAs atuais demonstrem capacidades notáveis, como aprendizado autônomo, raciocínio complexo, e até mesmo a geração de conteúdo criativo e disruptivo, em sua essência, são construções algorítmicas materializadas em código. A IA, por mais que simule processos cognitivos humanos, é ainda um programa de computador, um conjunto de instruções e dados predefinidos (ainda que adaptáveis) para atingir resultados específicos. Seu “pensamento” ou “criatividade” não se desvincula da base programática que a sustenta. Desse modo, perante o direito brasileiro e a classificação estabelecida no direito civil, a Inteligência Artificial, em sua forma atual, permanece configurada como um bem móvel38. Não se trata de uma entidade com personalidade jurídica ou de um novo tipo de “sujeito de direito”, e sim de uma propriedade intelectual. As redes neurais, os algoritmos de aprendizado de máquina, os modelos treinados e os conjuntos de dados utilizados para o desenvolvimento e operação de uma IA são todos elementos que, em conjunto, formam o que legalmente consideramos software, e, por extensão, um bem imaterial. Assim, a discussão sobre a autonomia e a “consciência” da IA, embora fascinante no campo da filosofia, não altera sua classificação jurídica fundamental. Suas decisões, por mais autônomas que pareçam, são o resultado de parâmetros e pesos programados, de dados de treinamento e de funções de otimização que foram, em última instância, desenhados e implementados por desenvolvedores humanos. A capacidade da IA de aprender e evoluir é uma característica do programa, não uma manifestação de uma nova categoria de ser ou pessoa jurídica. Por essa razão é que, a proteção jurídica concedida à IA recai sobre os direitos autorais39 relacionados ao seu código, aos seus algoritmos e à sua arquitetura; sobre a proteção de dados dos conjuntos utilizados; e sobre o regime de propriedade intelectual dos resultados gerados, quando aplicável. Mesmo os avanços mais vanguardistas em IA, com suas promessas de transformação social e econômica, continuam a ser tratados pelo ordenamento jurídico como produtos da mente humana, expressos em código, consolidando sua posição como bem móvel intangível, sujeito às mesmas regras de proteção, licenciamento e responsabilidade que regem o software convencional. 4 O conceito jurídico de Inteligência Artificial Como exposto, é importante destacar que a inteligência artificial se enquadra na classificação jurídica dos programas de computador, os quais estão protegidos pelo direito autoral e, de forma mais ampla, inserem-se no gênero da propriedade intelectual40. Também vimos que, para fins jurídicos, os programas de computador são considerados bens móveis. Diante disso, tais circunstâncias podem levar ao questionamento sobre a necessidade de se estabelecer um conceito jurídico específico para a inteligência artificial, vez que o direito brasileiro possui contornos firmes para classificá-la em seu ordenamento. Sobre isso, cabe apontar que embora a inteligência artificial compartilhe características comuns com os programas de computador tradicionais, tais aplicações apresentam peculiaridades que desafiam os limites das categorias jurídicas existentes. Diferentemente de softwares convencionais, sistemas de IA podem aprender, adaptar-se e tomar decisões autônomas com base em grandes volumes de dados, o que implica novos riscos e responsabilidades. Essa autonomia relativa torna insuficiente a mera aplicação das regras atuais de direito autoral ou de classificação como bem móvel, exigindo uma reflexão mais aprofundada sobre a sua alocação no direito. Em síntese, se faz necessário um conceito jurídico de inteligência artificial justamente para dar à matéria o rigor necessário para a sua regulação. É importante ressaltar que a preocupação com a definição jurídica da inteligência artificial visa delimitar, de forma precisa, o que deverá ser considerado na análise jurídica desse objeto em legislações futuras, interpretações doutrinárias e posicionamentos jurisprudenciais. Como vimos, ao contrário dos softwares convencionais que apenas executam tarefas previamente determinadas, os programas de computador dotados de inteligência artificial exigem maior atenção jurídica em razão dos riscos específicos que podem gerar para os usuários, especialmente para o consumidor. Tais circunstâncias e diferenças não se limitam ao plano conceitual. É comum que se confunda, ou até mesmo que se induza intencionalmente o consumidor e o usuário a confundir sistemas que não “possuem inteligência” com outros que são efetivamente dotados de capacidades inteligentes. Essa ambiguidade é frequentemente explorada por empresas que buscam capitalizar o entusiasmo em torno da IA. Ao rotular produtos simples, como um assistente de voz com respostas pré-programadas ou um sistema de recomendação baseado em heurísticas básicas, como “inteligência artificial”, cria-se uma falsa impressão de sofisticação e avanço tecnológico que, na realidade, não se sustenta sob uma análise rigorosa das capacidades do sistema41. Essa estratégia de marketing não apenas engana o consumidor, que pode adquirir produtos com expectativas irreais sobre sua “inteligência”, mas também corre o risco de descreditar a própria área da IA. Quando sistemas rotulados como “inteligentes” falham em entregar capacidades genuinamente adaptativas, de aprendizado ou de raciocínio, a frustração do usuário pode gerar ceticismo e desconfiança em relação a todo o campo. Isso lembra os ciclos de “inverno da IA” do passado, onde o excesso de promessas e a entrega aquém do esperado levaram a um período de desinvestimento e descrença generalizada. A reputação de uma tecnologia tão promissora depende, em grande parte, da transparência e da honestidade na sua aplicação e comunicação. Portanto, a inteligência artificial, em sua essência, é um sistema computacional. Este primeiro elemento fundamental estabelece que a IA não é uma entidade biológica ou transcendental, mas sim uma construção tecnológica. Isso implica que sua existência e funcionamento estão intrinsecamente ligados a hardware e software, permitindo que a lei a categorize e regule como uma ferramenta desenvolvida e operada por seres humanos, sujeita a princípios de engenharia e programação. Em assim sendo, como visto por toda exposição anteriormente realizada, a inteligência artificial também depende de lógica baseadas em regras explícitas e inferência. Tais estruturais lógicas possuem como objetivo a representação do conhecimento de forma estruturada, para que o sistema computacional possa processá- las e extrair conclusões. Com isso, o sistema de inteligência artificial dispõe de uma arquitetura que permite receber e processar dados de entradaprovenientes de máquinas ou seres humanos. Em sendo assim, com maior ou menor autonomia, a inteligência artificial poderá produzir conteúdos sintéticos, recomendações ou tomar decisões. 4.1 O conceito de Inteligência Artificial no AI Act da UE Com efeito, com a entrada em vigor do Regulamento (UE) 2024/1689 de 2024, o chamado AI ACT da União Europeia estabeleceu o primeiro sistema jurídico abrangente e harmonizado para a inteligência artificial. O cerne do AI ACT é assegurar que a IA seja desenvolvida e implantada de forma segura42, ética e respeitando os direitos fundamentais43, ao mesmo tempo que impulsiona a inovação e a competitividade europeias. Sua abrangência se estende a todos os sistemas de IA comercializados ou em uso na UE, com exceções pontuais para atividades militares,de segurança nacional, pesquisa científica fundamental e uso estritamente pessoal, evidenciando uma busca contínua por um ponto de equilíbrio. Para modular sua aplicação de acordo com o potencial dano, o AI ACT adota uma abordagem inovadora baseada em risco, classificando os sistemas de IA em quatro categorias distintas. No topo da pirâmide estão as práticas de risco inaceitável, expressamente proibidas, que incluem, por exemplo, a vigilância biométrica em tempo real em espaços públicos (com exceções muito restritas) e sistemas de pontuação social conduzidos por autoridades públicas. Abaixo, encontram-se os sistemas de alto risco, permitidos, mas sujeitos a obrigações rigorosas: são aqueles utilizados em setores sensíveis como infraestruturas críticas, saúde, justiça, emprego e educação. Para estes, exige-se uma avaliação de conformidade prévia, supervisão humana contínua, gestão de dados de alta qualidade e uma documentação técnica minuciosa. Ainda na escala de risco, sistemas de risco limitado, como chatbots e geradores de conteúdo, são submetidos a requisitos de transparência, implicando a obrigação clara de informar os usuários sobre a interação com uma IA. Por fim, sistemas de risco mínimo, a exemplo de filtros de spam ou jogos eletrônicos, desfrutam de liberdade regulatória, sem imposição de obrigações adicionais. Essa gradação reflete o esforço do legislador europeu em aplicar a regulação proporcionalmente ao nível de risco que a tecnologia pode representar para os cidadãos e para a sociedade. Uma das inovações do AI Act é a atenção dedicada aos modelos de IA de finalidade geral (General-Purpose AI ou Foundation Models)44-45, que servem de base para uma miríade de aplicações, desde assistentes conversacionais até ferramentas de criação multimídia. Esses modelos deverão cumprir requisitos de transparência, como a divulgação de documentação técnica e informações sobre o uso pretendido. Aqueles classificados como de risco sistêmico – tipicamente os mais poderosos, com grande capacidade computacional – enfrentarão obrigações ainda mais rigorosas, incluindo avaliações de segurança, mitigação de riscos e apresentação de relatórios detalhados, visando prevenir que tais plataformas amplamente utilizadas gerem riscos difusos e incontroláveis. Para assegurar a efetiva aplicação e harmonização do regulamento, uma sólida estrutura de governança europeia foi estabelecida. A Comissão Europeia contará com o AI Office para a supervisão geral, enquanto o European AI Board unirá representantes dos Estados-membros para coordenar a implementação. Um painel científico de peritos e um fórum consultivo tripartite complementarão essa estrutura. Em âmbito nacional, cada Estado-membro deverá designar autoridades competentes para fiscalizar o mercado e avaliar a conformidade. O regime de sanções prevê multas significativas para violações graves, calculadas sobre o volume de negócios global das empresas, equilibrado por um forte incentivo à inovação segura, através de sandboxes regulatórios, códigos de conduta e parcerias. Assim, o AI Act projeta a União Europeia como precursora na criação de um ambiente de IA confiável e socialmente responsável. Nesse sentido, o legislador Europeu assim conceituou a inteligência artificial, nos termos do artigo 3º, § 1º do Regulamento: “‘Sistema de IA’, um sistema baseado em máquinas concebido para funcionar com níveis de autonomia variáveis, e que pode apresentar capacidade de adaptação após a implantação e que, para objetivos explícitos ou implícitos, e com base nos dados de entrada que recebe, infere a forma de gerar resultados, tais como previsões, conteúdos, recomendações ou decisões que podem influenciar ambientes físicos ou virtuais; [...].” Como se observa, o AI Act propõe uma definição ampla e tecnicamente fundamentada para sistemas de IA refletida no artigo 3º, § 1º, que busca capturar a diversidade de técnicas e aplicações existentes. Segundo o legislador europeu, trata-se de um sistema baseado em máquinas, concebido para funcionar com diferentes níveis de autonomia, capaz de se adaptar mesmo depois de colocado em funcionamento. Esse detalhe é crucial porque reconhece que sistemas de IA não são todos igualmente “automáticos” ou “fixos”, mas variam desde aplicações simples até arquiteturas complexas com aprendizagem, e precisam de um enquadramento jurídico que contemple essa heterogeneidade sem deixar lacunas que impeçam a sua atração pelo sistema jurídico europeu46. Outrossim, outro elemento central dessa definição é a capacidade de adaptação após a implantação, o que abrange sistemas que melhoram ou ajustam seus resultados à medida que interagem com novos dados ou ambientes. Como tratado anteriormente, essa característica distingue a IA de softwares tradicionais que operam de forma estática e previsível. Ao reconhecer a adaptabilidade como componente essencial, o regulamento busca antecipar e regular riscos ligados à imprevisibilidade e à evolução não supervisionada dos sistemas, além de impor responsabilidades claras a quem os desenvolve ou utiliza. Assim, mesmo aplicações inicialmente seguras podem exigir monitorização contínua se tiverem potencial de mudança comportamental ao longo do tempo, o que é comum em modelos de inteligência artificial. No mesmo contexto, definição também enfatiza o processo de inferência: o sistema de IA, com base em dados de entrada, infere como gerar resultados, o que indica que não se trata apenas de execução de regras pré-programadas. A inferência é o núcleo técnico que diferencia IA de software determinístico: a máquina avalia dados novos e decide como transformá-los em previsões, recomendações, conteúdos ou decisões. Essa dimensão inferencial implica riscos como viés algorítmico, opacidade de funcionamento e possíveis erros ou manipulações que podem afetar direitos fundamentais, justificando a necessidade de requisitos de explicabilidade, auditoria e supervisão humana previstos no AI Act. Do mesmo modo, outro aspecto essencial dessa definição é o resultado gerado: previsões, conteúdos, recomendações ou decisões que têm potencial para influenciar ambientes físicos ou virtuais. A lei europeia não limita o conceito de IA a robôs ou aplicações “inteligentes” no senso popular, mas cobre desde motores de recomendação em plataformas digitais até sistemas de controle industrial ou diagnóstico médico, a título exemplificativo. Em razão disso, há uma espécie de garantia de que a regulação seja tecnologicamente neutra e abrangente47, evitando brechas jurídicas que poderiam surgir com definições restritivas ou desatualizadas. O que podemos observar é que, ao adotar essa definição, o legislador europeu procurou combinar rigor técnico e abrangência prática. O objetivo é criar um quadro legal capaz de acompanhar a evolução tecnológica sem sufocar a inovação, impondo obrigações proporcionais ao risco associado ao grau de autonomia, capacidade de adaptação e potencial de impacto dos sistemas de IA. Essa abordagem reflete o equilíbrio central do AI Act: proteger direitos fundamentais, ao mesmo tempo em que se promove um mercado único digital competitivo e seguro, onde a confiança pública se torna motor de crescimento sustentável para a inteligência artificial naquela realidade. 4.2 O conceito de Inteligência Artificial no direito brasileiro Como se sabe, o direito brasileiro ainda não dispõe de lei ordinária dedicada a regular o uso de sistemas dotados de inteligência artificial. Contudo, em 2024 sobreveio a Resolução 23.732 do Tribunal Superior Eleitoral48 que, após dedicada análise, aprovou nossa recomendação para fins de conceituar a inteligência artificial nas eleições. Com a sua aprovação, a resolução entrou em pleno vigor e o conceito empregado foi utilizado durante todo o período eleitoral. Nesse sentido, por força da referida resolução o direito teve pela primeira vez o conceito de inteligência artificial inserido no ordenamento jurídico. Para tanto, nossa proposição aceita pelo TSE assim restou definida: “Art. 37: Para o fim destaResolução, considera-se: XXXIV – inteligência artificial (IA): sistema computacional desenvolvido com base em lógica, em representação do conhecimento ou em aprendizagem de máquina, obtendo arquitetura que o habilita a utilizar dados de entrada provenientes de máquinas ou seres humanos para, com maior ou menor grau de autonomia, produzir conteúdos sintéticos, previsões, recomendações ou decisões que atendam a um conjunto de objetivos previamente definidos e sejam aptos a influenciar ambientes virtuais ou reais.” Como se observa, há nítida semelhança entre os conceitos de IA adotados pelo TSE e pelo definido no IA Act da UE. Naturalmente, a razão se dá, pois, a fonte imediata do referido conceito foi o PL 2338/202349 cujo modelo regulatório que está exposto é o mesmo adotado pelo IA Act na UE. Para tanto, devemos observar a redação da proposta legislativa brasileira que visa criar o marco regulatório da IA no Brasil: “Art. 4º Para as finalidades desta Lei, adotam-se as seguintes definições: I – sistema de inteligência artificial: sistema computacional, com graus diferentes de autonomia, desenhado para inferir como atingir um dado conjunto de objetivos, utilizando abordagens baseadas em aprendizagem de máquina e/ou lógica e representação do conhecimento, por meio de dados de entrada provenientes de máquinas ou humanos, com o objetivo de produzir previsões, recomendações ou decisões que possam influenciar o ambiente virtual ou real; [...].” Outrossim, o conceito por nós desenvolvido para fins de atender a demanda do TSE também colheu da fonte norte- americana. Nesse sentido, conforme definido na legislação federal norte-americana (15 U.S.C. § 9401(3))50, inteligência artificial será: “(3) Inteligência artificial O termo ‘inteligência artificial’ significa um sistema baseado em máquina que pode, para um determinado conjunto de objetivos definidos por seres humanos, fazer previsões, recomendações ou tomar decisões que influenciem ambientes reais ou virtuais. Os sistemas de inteligência artificial utilizam entradas provenientes de máquinas e de seres humanos para: (A) perceber ambientes reais e virtuais; (B) abstrair essas percepções em modelos por meio de análise de forma automatizada; e (C) usar inferência a partir de modelos para formular opções de informação ou ação.” Com efeito, é fundamental reconhecer que o conceito brasileiro proposto para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apresenta uma abordagem mais realista e adaptada às necessidades concretas do processo eleitoral. Enquanto os modelos europeu, norte-americano e o próprio Projeto de Lei 2.338/2023 privilegiam formulações mais genéricas para a inteligência artificial, a Resolução 23.732/2024 do TSE (LGL\2024\7189) foi além, buscando prevenir de forma mais direta os riscos mais sensíveis ao contexto nacional, como a manipulação de conteúdo sintético. Ao incluirmos expressamente a capacidade de “produzir conteúdos sintéticos” no conceito de inteligência artificial, o entendimento aprovado pelo TSE demonstrou uma inequívoca visão prospectiva e uma relevante consciência dos avanços tecnológicos mais recentes, em especial no cenário eleitoral, reconhecendo que a IA não é apenas um conjunto de algoritmos, mas uma ferramenta capaz de gerar novas realidades e, inclusive, induzir o eleitor ao erro. De todo modo, oportuno discorrer sobre todos os aspectos do conceito de IA empregado no TSE e, portanto, o primeiro inserido no direito brasileiro. Primeiramente, o conceito aprovado pelo TSE começa por definir a inteligência artificial como um “sistema computacional”, ressaltando desde o início seu caráter técnico e instrumental. A opção por essa expressão reflete a necessidade de reconhecer a IA como um conjunto estruturado de recursos computacionais – não apenas programas isolados, mas também sistemas complexos que integram hardware, software e dados para alcançar objetivos específicos. Esse enfoque evita ambiguidades e delimita o objeto regulado, afastando interpretações que possam incluir meras planilhas eletrônicas ou estatísticas descritivas simples. Em seguida, o conceito explicita que tais sistemas são “desenvolvidos com base em lógica, em representação do conhecimento ou em aprendizagem de máquina”. Esse trecho tem importância técnica fundamental, pois identifica as principais abordagens de desenvolvimento em IA contemporânea, abrangendo desde sistemas baseados em regras (lógica formal) até redes neurais e modelos probabilísticos (aprendizado de máquina). Além disso, ao incluir “representação do conhecimento”, o conceito cobre técnicas simbólicas, demonstrando neutralidade tecnológica e evitando limitar o alcance regulatório a paradigmas específicos. Como estudado anteriormente, o desenvolvimento da capacidade de reconhecer e empregar símbolos faz parte da própria concepção de IA. Outro elemento importante é a referência à “arquitetura que o habilita a utilizar dados de entrada provenientes de máquinas ou seres humanos”. Essa parte reforça a ideia de que os sistemas de IA são desenhados para processar e integrar diferentes tipos de dados de entrada, reconhecendo a realidade dos sistemas híbridos que combinam informações geradas por sensores, bases de dados automatizadas e inputs humanos. Essa previsão assegura cobertura regulatória abrangente, impedindo brechas para sistemas que tentem se eximir da classificação de IA com base na natureza de suas fontes de dados. A menção a “com maior ou menor grau de autonomia” demonstra um dos aspectos mais modernos e realistas do conceito. Em vez de exigir um nível absoluto de autonomia – que poderia excluir sistemas assistivos ou parcialmente automatizados –, o texto reconhece que a inteligência artificial opera em um espectro contínuo de autonomia. Essa flexibilidade é essencial para acomodar tanto ferramentas de apoio à decisão humana quanto sistemas capazes de agir de forma independente, garantindo um alcance regulatório proporcional e razoável. Outro ponto crucial é a previsão de que os sistemas de IA podem “produzir conteúdos sintéticos, previsões, recomendações ou decisões”. Essa lista funcional detalha as saídas típicas dos sistemas de IA indo além da abordagem genérica adotada em outros modelos legislativos. A inclusão expressa de “conteúdos sintéticos” é especialmente relevante no contexto eleitoral, pois cobre tecnologias generativas como modelos de linguagem avançados e geradores de imagens ou vídeos falsificados, que têm alto potencial de desinformação. A expressão “que atendam a um conjunto de objetivos previamente definidos” introduz um importante requisito de finalidade nos sistemas de IA. Ela explicita que os sistemas são construídos para cumprir metas determinadas por seres humanos, destacando o caráter instrumental da IA e evitando a ideia equivocada de autonomia irrestrita ou vontade própria. Essa parte do conceito reforça a responsabilidade humana no desenho e no uso dos sistemas, elemento essencial para fundamentar obrigações legais e éticas. Por fim, o conceito exige que as saídas dos sistemas de IA sejam “aptas a influenciar ambientes virtuais ou reais”. Esse trecho sublinha o potencial transformador dos sistemas de IA e justifica sua regulação ao reconhecer que suas decisões ou produtos podem impactar diretamente a sociedade. A redação evita regular sistemas puramente analíticos ou experimentais sem efeito externo, concentrando a preocupação normativa em usos com relevância prática e risco social concreto. Vale ressaltar que, ao combinar essas diversas dimensões – técnicas, funcionais e finalísticas –, o conceito aprovado pelo TSE adota uma perspectiva ampla, mas bem delimitada, capaz de capturar a complexidade dos sistemas de IA sem renunciar à segurança jurídica. Cada elemento do conceito contribui para esclarecer o que se espera regular, prevenindo discussões interpretativas infrutíferas e reduzindo incertezas para os agentes regulados. Ademais, a formulação normativa reflete um claro compromisso com a neutralidade tecnológica, uma vez que não privilegia nenhumatécnica ou arquitetura específica. Isso garante a longevidade do conceito, permitindo sua aplicação a novos métodos e paradigmas que venham a surgir no futuro, sem necessidade de revisão legislativa constante. No atual panorama digital, a ascensão da IA generativa – por meio de modelos como grandes modelos de linguagem (LLMs) e geradores de imagens – tornou o conteúdo sintético vastamente acessível e sofisticado. Desse modo, a menção específica a essa capacidade na resolução do TSE não é um detalhe menor, mas sim um movimento estratégico. Com isso, garante-se uma clareza regulatória possibilitando que as ferramentas e normas existentes sejam aplicadas de forma direta e eficaz aos casos de desinformação eleitoral orquestrada por meio de deepfakes ou quaisquer outras formas de manipulação mediática gerada por computador. Esta especificidade evita ambiguidades interpretativas que poderiam ser exploradas por atores mal-intencionados, que poderiam argumentar que a IA apenas “auxilia” na criação, e não “produz” diretamente o conteúdo. Essa proatividade do TSE em relação ao conteúdo sintético contrasta com a linguagem mais abstrata de outras normativas que, embora abrangentes, poderiam enfrentar dificuldades maiores na subsunção de um deepfake51 orquestrado por IA sob suas definições generalistas de forma imediata e incontestável. A resolução do TSE, ao nomear explicitamente a “produção de conteúdos sintéticos”, cria um elo direto e inegável entre a tecnologia de IA generativa e a preocupação central com a desinformação eleitoral. Isso permite que a instituição reaja com maior celeridade e base jurídica mais sólida contra a proliferação de materiais falsos ou enganosos que possam influenciar a percepção do eleitorado, atuando como um escudo mais robusto contra as novas táticas de manipulação. Adicionalmente, ao focar na capacidade geradora de conteúdo da IA como um ponto central do seu conceito, o TSE endereça a complexidade de rastrear a origem e a autoria de desinformações que antes eram mais facilmente identificáveis. A IA generativa permite a criação em massa e com baixo custo de narrativas falsas ou difamatórias com alto grau de realismo, dificultando a distinção entre o real e o artificial. Ao especificar essa capacidade, o conceito do TSE abre caminhos para a fiscalização não apenas do uso do conteúdo sintético, mas também das ferramentas e processos tecnológicos empregados em sua criação, direcionando a responsabilidade também para a etapa de produção e não apenas para a de disseminação. Em uma análise comparativa, a definição da lei norte-americana, por exemplo, embora também detalhada, foca demasiadamente em especificar as etapas internas de processamento da IA – mencionando aspectos como percepção, abstração e inferência. Embora essa granularidade possa ser proveitosa para fins de padronização estritamente técnica e para a engenharia de sistemas de IA, ela pode revelar-se excessivamente técnica e, paradoxalmente, limitadora quando transposta para o contexto regulatório e jurídico. Essa abordagem tem o potencial de restringir a aplicação da norma a sistemas que se encaixem perfeitamente nessas fases operacionais tradicionais, potencialmente excluindo ou dificultando a regulação de novas arquiteturas ou modelos emergentes que combinam módulos diversos de formas inesperadas. Contrastando com essa especificidade de processo, o foco do TSE na capacidade de output da IA, especialmente na produção de conteúdo sintético, posiciona o regulamento de forma mais resiliente às rápidas evoluções tecnológicas. Ao priorizar o que a IA faz (produz conteúdo sintético, toma decisões) em vez de como ela faz (detalhes internos de processamento), a Resolução do TSE adota uma abordagem mais pragmática e orientada para o impacto, tornando-a menos suscetível à obsolescência diante de inovações disruptivas nos campos da IA Generativa e de outros paradigmas computacionais. Essa escolha reflete uma preocupação em regulamentar o efeito da tecnologia na esfera eleitoral, garantindo que a base normativa seja robusta o suficiente para lidar com as manifestações atuais e futuras da IA, independentemente dos pormenores técnicos de sua construção interna. 5 Considerações finais Com efeito, para além do contexto eleitoral, o debate sobre o conceito jurídico de inteligência artificial deve se expandir rumo a um marco regulatório nacional amplo e coeso. Tal estrutura precisa equilibrar a proteção de direitos fundamentais, o incentivo à inovação e a promoção da competitividade econômica, evitando tanto o proibicionismo excessivo quanto a falta de regulação. O jurista brasileiro, nesse cenário, precisa ser proativo e crítico na formulação e interpretação das normas sobre IA. Isso implica dominar os aspectos técnicos, identificar riscos sociais e econômicos, e propor soluções normativas realistas, proporcionais e tecnologicamente neutras. É crucial reconhecer que a inteligência artificial é uma ferramenta a serviço de interesses humanos, não um fim em si. Toda regulação deve enfatizar a responsabilidade humana no desenvolvimento, uso e supervisão dos sistemas de IA, prevenindo a transferência indevida de obrigações para entes não humanos ou abstrações algorítmicas. Por fim, a construção de um conceito jurídico robusto de inteligência artificial é parte de um esforço maior de modernização do direito para a era digital. A complexidade dos sistemas inteligentes exige uma abordagem interdisciplinar, unindo conhecimento jurídico, técnico e ético, para construir um modelo regulatório que acompanhe a dinâmica tecnológica sem abrir mão da proteção de valores essenciais. Nesse sentido, destaca-se que o conceito jurídico de inteligência artificial aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral representa, até o momento, o modelo mais amadurecido e adaptado às necessidades reais do ordenamento brasileiro. Diferente de definições genéricas ou excessivamente técnicas, ele foi construído com atenção especial aos riscos concretos, como a produção de conteúdos sintéticos e a manipulação informacional. Essa escolha revela um compromisso com a realidade social do país, onde o uso político e eleitoral de tecnologias de IA demanda resposta regulatória clara, efetiva e juridicamente segura. Outro ponto relevante é a forma como o conceito do TSE alcança um equilíbrio entre rigor técnico e clareza normativa. Ao incorporar elementos como lógica, representação do conhecimento e aprendizagem de máquina, a definição garante abrangência tecnológica sem cair em restrições obsoletas. Como estudado, regular tecnologia é extremamente sensível em razão da possibilidade de o texto aprovado ser superado pela tecnologia vindoura. Portanto, ao exigir que os sistemas sejam aptos a influenciar ambientes reais ou virtuais com maior ou menor grau de autonomia, o conceito se mostra suficientemente flexível para cobrir as inovações futuras, evitando lacunas interpretativas que poderiam fragilizar a regulação. Ademais, o modelo aprovado pelo TSE revela maturidade ao enfatizar a neutralidade tecnológica, não privilegiando abordagens específicas nem se prendendo a determinadas arquiteturas ou métodos. Inobstante tenha sido empregado para uma realidade específica, cumpre observar que o conceito por nós sugerido é plenamente aplicável e empregável às realidades diversas, em especial para as situações que envolvem direito do consumidor, se assim caminharem o legislador, a doutrina ou os precedentes. 6 Referências ANDERLJUNG, Markus et al. Frontier AI Regulation: Managing Emerging Risks to Public Safety. 2023. AZEVEDO, Álvaro Villaça. Direito das coisas. São Paulo: Atlas, 2014. BERNHARDT, Chris. Turing’s Vision: The Birth of Computer Science. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 2016. BITTAR, Carlos Alberto. Direito de autor. 7. ed. rev., atual e ampl por Eduardo C. B. Bittar. Rio de Janeiro: Forense, 2019. BITTAR, Carlos Alberto. O regime legal do software no Brasil. Revista dos Tribunais, São Paulo, v. 677, p. 13-16, mar. 1992. CAMBI, Eduardo; SCHMITZ, Nicole Naiara.