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Curso de Introdução à INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 Inteligência Penitenciária Aplicada EXPEDIENTE Todo o conteúdo do Curso de Introdução à Inteligência Penitenciária – CIIPEN, da Secretaria Nacional de Políticas Penais do Ministério da Justiça e Segurança Pública do governo federal — 2022, está licenciado sob a Licença Pública Creative Commons Atribuição — Não Comercial — Sem Derivações 4.0 Internacional. Para visualizar uma cópia desta licença, acesse: https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt_BR. BY NC ND UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA Coordenação Geral Luciano Patrício Souza de Castro Financeiro Fernando Machado Wolf Consultoria Técnica EaD Giovana Schuelter Coordenação de Produção Caroline Daufemback Henrique Francielli Schuelter Coordenação de AVEA Andreia Mara Fiala Revisão Textual Supervisão: Evillyn Kjellin Victor Rocha Freire Silva Vivianne Oliveira Rodrigues Design Instrucional Supervisão: Milene Silva de Castro Flora Bazzo Schmidt Joyce Regina Borges Design Gráfico Supervisão: Mary Vonni Meürer de Lima Airton Jordani Jardim Filho Cleber da Luz Monteiro Giovana Aparecida dos Santos Guilherme Comerão Stecca Almeida Julia Morato Leite Lucas Renata Cristina Gonçalves Sonia Trois Tiago Augusto Paiva Programação Supervisão: Alexandre Dal Fabbro João Pedro Mendonça de Araujo Luan Rodrigo Silva Costa Luiz Eduardo Pizzinatto Audiovisual Supervisão: Rafael Poletto Dutra Angie Luiza Moreira de Oliveira Dilney Carvalho da Silva Eduardo Corrêa Machado Jacob de Souza Faria Neto Kimberly Araujo Lazzarin Marcelo Vinícius Netto Spillere Marília Gabriela Salomao Dauer Maycon Douglas da Silva Apresentação Áureo Mafra de Moraes Conteúdo Jean Cler Brugnerotto Álvaro Portel Júnior Ana Paula Alves Ferreira Botelho Andrea Delgado Ferreira Antônio Marcos Mota Diego Mantovaneli do Monte Moacir Vilanova Lopes Neto Sergio da Silva de Medeiros GOVERNO FEDERAL Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva Vice-Presidente da República Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho Ministro da Justiça e Segurança Pública Enrique Ricardo Lewandowski Secretário da Secretaria Nacional de Políticas Penais – SENAPPEN André de Albuquerque Garcia Diretora da Escola Nacional de Serviços Penais – ESPEN Stephane Silva de Araújo Equipe ESPEN Haynara Jocely Lima de Almeida Jorge Magno Alves Pinto Leonardo Conceição Cruz Pedro Henrique Chavier da Silva Robson de Farias Tania Lopes Ferreira Silva https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt_BR https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt_BR https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt_BR https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt_BR ESCLARECIMENTO A partir de 1º de janeiro de 2023, o Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) passou a ser denominado Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN), instituída pelo Art. 59 da Medida Provisória nº 1.154; porém, devido ao fato de o material deste curso ter sido produzido antes da vigência da referida medida provisória, há conteúdos em que a atual SENAPPEN é mencionada como DEPEN. É possível, ainda, que outros órgãos gover- namentais federais citados nos materiais, como ministérios, secretarias e departamentos, disponham de uma nova estrutura regimental e uma nova nomenclatura e sejam mencionados de maneira diferente da atual. SUMÁRIO Apresentação 6 Objetivos do módulo 6 Unidade 1: A atuação da Polícia Penal na Atividade de Inteligência 9 1.1 Entrevista 9 1.2 Análise comportamental 17 1.3 Recrutamento operacional de fonte humana 25 1.4 Negociação 26 Unidade 2: Atitudes do Policial Penal no ambiente penitenciário 29 2.1 Produzir provas e Inteligência – diferenças práticas 29 2.2 A mentalidade da Contrainteligência no ambiente penitenciário: segurança e proteção 32 2.3 Da intuição à institucionalização e a primazia da técnica 38 2.4 O trabalho da Inteligência em sinergia com a atividade de segurança 39 2.5 Atitudes e atividades do Policial Penal 40 Unidade 3: Problemas atuais da Inteligência Penitenciária 43 3.1 Desafios e conquistas com as recentes legislações: Polícia Penal e Pacote Anticrime 43 3.2 O organograma da Atividade de Inteligência no Brasil: aspectos ideais e factuais 46 3.3 O surgimento do Sistema Penitenciário Federal no Brasil e seus impactos 49 SUMÁRIO 3.4 Facções criminosas: sua atuação e ameaça transnacional e o crescimento das milícias 52 3.5 As organizações mafiosas e terroristas no Brasil 57 3.6 Aspectos gerais sobre Análise de Risco e Planos de Contingência 59 Síntese do Módulo 63 Referências 66 CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 6 APRESENTAÇÃO Olá, cursista! O Módulo 2, Inteligência Penitenciária Aplicada, trará alguns elementos que já vimos no Módulo 1, Fundamentos Teóricos e Doutrinários da Atividade de Inteligência Penitenciária. Todavia, ele também oferecerá uma visão prática dos elementos teóricos já vistos. Veremos como um analista de Inteligência pode aplicar na prática a teoria e a Doutrina de Inteligência Penitenciária, por meio de exemplos, situações reais e mo- delos de conduta. Assim, dando continuidade ao Curso de Introdução à Inteligência Peni- tenciária, neste módulo, serão abordadas algumas atividades realizadas pela Polícia Penal no Serviço de Inteligência voltado para a fonte humana. Objetivos do módulo • Conhecer os principais procedimentos de Inteligência Penitenciária vinculados ao Serviço de Inteligência, no sentido da compreensão de sua aplicação e de sua operacionalização. • Diferenciar e entender com exemplos práticos a produção das provas e a Inteligência. • Compreender a mentalidade da Contrainteligência no ambiente penal: segurança e proteção. • Entender e assimilar as atitudes do Policial Penal no ambiente penitenciário. • Compreender o trabalho da Inteligência em sinergia com a atividade da segurança. • Descrever as importantes alterações legislativas advindas com a Polícia Penal e com o Pacote Anticrime. • Conhecer o organograma da Atividade de Inteligência no Brasil. • Compreender os reflexos da criação do Sistema Penitenciário Federal. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 7 • Contextualizar o surgimento de importantes organizações criminosas e a ameaça que sua atuação representa na atualidade para a América do Sul. • Conhecer mais sobre as organizações mafiosas e seus reflexos no Brasil. • Identificar o que é Análise de Risco e Plano de Contingência e suas importâncias para o tomador de decisão. UNIDADE 1 A atuação da Polícia Penal na Atividade de Inteligência CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 9 1. A ATUAÇÃO DA POLÍCIA PENAL NA ATIVIDADE DE INTELIGÊNCIA Desenvolver atividades de Inteligência Penitenciária atualmente é tarefa árdua. Há diversas informações nas redes de comunicação, como sites, aplicativos de mensagens, noticiários etc., e compete ao Policial Penal que atua numa Agência de Inteligência reunir os fragmentos importantes para a produção de um conhecimento de Inteligência que seja amplo, claro, imparcial, objetivo e, obviamente, oportuno. Esse trabalho, muitas vezes, sofre interferências do Elemento de Operações. Neste módulo, serão abordadas algumas ferramentas úteis ao profissional de Inteligência, visando apresentar a execução de uma ou mais ações e de técnicas operacionais passíveis de serem utilizadas e que exigem um planejamento minucioso, um esforço concentrado e o emprego de pessoal, de técnicas e de material especializados. 1.1 Entrevista A entrevista na esfera da Inteligência é uma das onze ações de busca contida na Doutrina Nacional de Inteligência Penitenciária (DNIP) e uma das ações mais executadas. Posto isso, vamos dar grande relevância a essaDE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 47 o inimigo e conhece a si mesmo não precisa temer o resultado de cem batalhas, ou, ainda, se alguém se empenha a resolver as dificuldades, resolve-as antes que elas surjam (SUN TZU, 2010). Abordando de modo simples, uma mentalidade de Inteligência consiste no conhecimento de situações para soluções de problemas existentes ou dos que possam vir a existir. Já quando se fala em Atividade de Inteligência, refere-se à atividade permanente, sistemática e especia- lizada para coleta, análise e disseminação de dados e informações que possam subsidiar os tomadores de decisão (chefes de Estado, governo e autoridades públicas) (CASTRO, 2012). No Brasil, a Atividade de Inteligência foi instituída no ano de 1927, no go- verno do presidente Washington Luís, com o objetivo de suprir o poder executivo com informações estratégicas, quando foi criado o Conselho de Defesa Nacional (CDN). Sua subordinação estava diretamente ligada ao presidente da República. Em 1946 teve sua nomenclatura alterada para Serviço Federal de Informações e Contrainformações (SFICI) (CASTRO, 2012). Atualmente, a Atividade de Inteligência em âmbito nacional é exercida pela Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), instituída pela Lei n° 9.883, de 7 de dezembro de 1999, que também criou o Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN): “Tal lei definiu como missão do SISBIN atuar como um sistema capaz de integrar as ações das atividades de Inteligência de todo o País, bem como responsável pelo processo de obtenção e análise de da- dos ou informações, além de produção e difusão de conhecimentos necessários ao processo decisório do Poder Executivo, em especial no tocante à segurança da sociedade e do Estado, e pela salvaguarda de assuntos sigilosos de interesse nacional.” (CASTRO, 2012, p. 64). A instituição do SISBIN surge quando as autoridades públicas se deparam com a infinidade de dados e informações disponíveis nos mais diversos órgãos públicos, havendo a necessidade de se estabelecer um acompa- nhamento sistemático para análise de tais dados e informações. Veja a seguir o atual organograma do SISBIN. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 48 Fonte: Adaptado de ABIN, 2019. Em 2018, a Lei n° 13.675 (BRASIL, 2018) instituiu o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP) e criou o Plano Nacional de Segurança Pública (PNSP), com a: “[...] finalidade de preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, por meio de atuação conjunta, coorde- nada, sistêmica e integrada dos órgãos de segurança pública e defesa social da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, em articulação com a sociedade.” (BRASIL, 2018). Organograma do SISBIN Ministério da Defesa SC-2, CIM, CIE, CIAR, CENSIPAM Gabinete de Segurança Institucional Ministério da Infraeestrutura SE/MINFRA, SAC, DNIT, ANTT, ANAC, ANTAQ, INFRAERO Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações SE/MCTIC, ANATEL Agência Brasileira de Inteligência Controladoria-Geral da União SE/CGU Ministério do Desenvolvimento Regional SEDEC Ministério de Minas e Energia SE/MME, ANP Ministério das Relações Exteriores SG/MRE, DCCT/MRE Ministério da Justiça e Segurança Pública DRCI, SENASP, DIP/PF, SEOPI, PRF, DEPEN, CONPORTOS Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento SE/MAPA Casa Civil Ministério do Meio Ambiente SE/MMA, IBAMA, ICMBio Ministério da Economia UIF/BACEN, RFB, BACEN, PGFN, SEPRT Advocacia-Geral da União Ministério da Saúde GAB/MS, ANVISA D E INTELIGÊNCIA SI ST EMA BRASILEIRO CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 49 Essa lei estabelece princípios, objetivos, diretrizes e estratégias para a integração dos diversos órgãos de Inteligência, buscando, claramente, quebrar o paradigma de secretismo, então existente entre as diferentes agências de Inteligência atuantes em nosso país. Desse modo, as agências podem atuar conjuntamente de forma sistêmica e harmônica. Apesar do grande avanço no estabelecimento do referido sistema de integração, infelizmente, o que se observa na prática é que o PNSP continua caminhando de modo embrionário, pois ainda é possível ve- rificar um distanciamento entre as agências de Inteligência; talvez pelo motivo de no Brasil a Atividade de Inteligência ainda ser recente quando comparada à de outros países. É inegável, contudo, que a instituição de tal lei representa grande avanço legislativo, e que, nos últimos anos, Atividade de Inteligência, no contexto de Segurança Pública, passou a ter grande destaque. Observa-se, principalmente, no campo de atuação do Sistema Peniten- ciário, uma mudança de mentalidade das autoridades ao reconhecerem a importância da Atividade de Inteligência dentro do cárcere, na fase da execução da pena, onde se encontram atualmente as maiores lideranças do crime organizado. Muitos investimentos têm sido feitos no sentido de criar, formar e for- talecer as agências de Inteligência nos estados. Trata-se, sobretudo, de uma questão de Segurança Pública, no sentido de combater o crime organizado, que tem aumentado exponencialmente e cujas lideran- ças presas guardam fortes relações com os acontecimentos externos. Daí a importância de um acompanhamento sistemático de coleta, análise e disseminação de dados obtidos em tal meio. Sabe-se que o combate ao crime organizado prescinde de uma podero- sa ferramenta do Estado, que não pode estar limitado às suas fronteiras: a Inteligência de Segurança Pública, incluindo-se a Inteligência Penitenciária. 3.3 O surgimento do Sistema Penitenciário Federal no Brasil e seus impactos No ano de 2006, o sistema prisional no Brasil vivia um de seus piores e mais emblemáticos problemas ao se deparar com a superlotação das cadeias (decorrente do aumento da população carcerária) e com o as- cendente crescimento das organizações criminosas no cárcere. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 50 O aumento da população carcerária gerou a superlotação das cadeias. Foto: © [Joa Souza] / Shutterstock. Por muitos anos, o surgimento das organizações criminosas foi negligen- ciado pelas autoridades de Segurança Pública nos estados brasileiros. As organizações criminosas foram reconhecidas como problema de Segurança Pública de modo muito tardio, quando já estavam impreg- nadas no sistema carcerário. Esse tema será retomado com mais detalhes no próximo tópico, em que trataremos das organizações criminosas no Brasil. Pode-se afirmar que o caos estava instalado no sistema carcerário nacio- nal, com a ocorrência de rebeliões coordenadas em unidades prisionais do Brasil, principalmente nas do estado de São Paulo; notadamente, no ano de 2006. Diante dessa situação, as autoridades brasileiras vi- ram-se compelidas a materializar um sistema que pudesse promover o isolamento de lideranças de organizações criminosas de seu polo de atuação, de maneira a desarticular suas ações e, desse modo, promover a Segurança Pública das unidades prisionais e também a segurança da própria sociedade. Instaurou-se, então, o Decreto n° 6.049, de 27 de fevereiro de 2007, que aprovou o Regulamento Penitenciário Federal, instituindo os esta- belecimentos penitenciários federais, cuja finalidade é a de promover a execução administrativa das medidas restritivas de liberdade dos internos, CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 51 provisórios ou condenados, cuja inclusão se justifique no interesse da Segurança Pública ou do próprio preso, abrigando também presos em regime disciplinar diferenciado (RDD). O SPF teve sua primeira unidade estabelecida no município de Catanduvas (PR), com capacidade paraabrigar 208 presos em celas individuais. Posteriormente, foram estabelecidas unidades em Campo Grande (MS), Porto Velho (RO), Mossoró (RN) e Brasília (DF). Penitenciária Federal de Catanduvas. Foto: SENAPPEN. O objetivo primordial do Sistema Penitenciário Federal é o isolamento de lideranças criminosas que têm influência sobre a massa carcerária e o poder financeiro advindo da prática de crimes. Os impactos do SPF na Segurança Pública no Brasil foram, majori- tariamente, positivos, pois o sistema consegue de fato isolar as lide- ranças de organizações criminosas que atuam negativamente sobre a massa carcerária. Os internos custodiados nesse sistema não possuem contato com o mundo exterior, tampouco conseguem ordenar crimes ou enviar reca- dos de dentro de suas unidades. Isso se deve ao fato de que as normas rígidas impostas aos internos tornam a execução penal um pouco mais difícil que a habitual. O tempo de permanência em cela é de 22 horas, sendo garantidas duas horas de banho de sol. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 52 Além disso, as visitações de familiares são restritas a agendamento prévio e ocorrem com número limitado de visitantes (cadastrados previamente nas unidades). Todas as conversas são monitoradas, por áudio e vídeo, conforme autorização judicial, e como também prevê a lei (Pacote Anti- crime), toda e qualquer comunicação dos presos é monitorada. O tempo de visitação é limitado e os presos não têm acesso a qualquer conteúdo externo que não seja previamente autorizado, tendo regras a cumprir e estando restritos à alimentação fornecida pela unidade, com direito a vestuário e roupas de cama e banho fornecidos pelo poder público. Por esse motivo, a inclusão em uma unidade do SPF deve ser temporária, conforme a lei, apenas se justificando a prorrogação de permanência caso as situações que ensejaram a inclusão do preso persistam, conforme as determinações contidas nas decisões judiciais relativas a cada preso. “Serão incluídos em estabelecimentos penais federais de segurança máxima aqueles para quem a medida se justifique no interesse da segurança pública ou do próprio preso, condenado ou provisório.” (BRASIL, 2019). 3.4 Facções criminosas: sua atuação e ameaça transnacional e o crescimento das milícias A abordagem de tal tema não nos parece uma tarefa fácil, ainda que seja um assunto recorrente em nosso país. PODCAST Determinar o porquê do surgimento de grupos sociais exercendo o poder paralelo contra o Estado demanda uma análise muito mais profunda e há de despertar diferentes pontos de vista, a depender do público a que se destina, e mesmo para quem se dispuser a analisar o tema em profundidade. O vertiginoso crescimento da população carcerária não foi acom- panhado em proporcionalidade pelos investimentos em Segurança Pública e nem pela atual legislação brasileira, cujo caráter punitivo prevê uma política de encarceramento massivo, fazendo com que CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 53 o número de indivíduos privados de liberdade alcance o incrível patamar de terceira maior população carcerária do mundo. O que se observou ao longo dos anos é que muitos indivíduos foram privados de sua liberdade — sendo uma grande parte sem julgamento —, caracterizando o cárcere como uma “aparente” solução aos problemas de Segurança Pública. No entanto, tal encarceramento massivo e a falta de um sistema de justiça efi- ciente no Brasil terminou dando origem às facções criminosas no cárcere. A ausência do Estado no ambiente carcerário foi um problema recorrente nos presídios brasileiros, o que culminou no surgi- mento de tais organizações. Em 1979, na penitenciária de Ilha Grande, no estado do Rio de Janeiro, surgiu o que seria considerada uma das primeiras organizações crimino- sas do Brasil de que se tem notícia, originada, segundo Amorim (2006, p. 21 apud SOUSA, 2020), da luta armada dos presos políticos que se insurgiram contra o regime militar em união de desígnios com presos que haviam praticado crimes comuns, como roubo, homicídios, furtos etc. A junção dos criminosos especializados em táticas de guerrilhas com criminosos comuns acarretou a especialização, dos criminosos comuns, em táticas de guerrilha, trazendo novos conhecimentos que impacta- ram diretamente na organização das referidas facções, com conheci- mentos bélicos, táticos e ideologias, utilizados por grupos paramilitares (SOUSA, 2020). Autodenominada Falange Vermelha, e, posteriormente, chamada de Comando Vermelho (CV), tal organização criminosa levantou a ban- deira de luta por melhores condições de vida às pessoas custodiadas no Sistema Penitenciário brasileiro, além de lutar contra a aplicação de penas desumanas, cruéis e degradantes. Embora essa, supostamente, fosse a bandeira inicial, a organização criminosa passou a praticar crimes das mais variadas espécies, sempre com uso constante de imposição da força armada: homicídios, roubos, ocupação de áreas territoriais em locais onde o Estado não atua de CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 54 maneira eficiente, impondo “impostos” paralelos e praticando o tráfico e comércio de drogas ilícitas no Brasil. O Comando Vermelho atua preponderantemente no estado do Rio de Janeiro e impõe terror aos moradores das áreas onde atuam, dividindo os territórios por comandos (pessoas) e estabelecendo cadeias de co- mando organizadas, de modo que realizam a distribuição de tarefas e de responsabilidades hierárquicas. SAIBA MAIS Veja um exemplo das práticas referidas acima e seus reflexos para a população, acessando a notícia “Madureira tem noite de terror com tentativa de invasão e carro incendiado”, disponível em: https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2021/12/6293868-ma- dureira-tem-noite-de-terror-com-tentativa-de-invasao-e-car- ro-incendiado.html. É ainda de conhecimento público que a referida organização criminosa institui um estatuto próprio, o “código de ética” dos membros da fac- ção, no qual elencam preceitos, ideologias e formas de julgamento de condutas, e chegam até a impor a morte àqueles que descumprirem tais dispositivos. A exemplo do CV, surgiria no estado de São Paulo outra facção crimi- nosa, que, posteriormente, viria a ser considerada a maior organização criminosa do país, conhecida por Primeiro Comando da Capital (PCC). Criada em 31 de agosto de 1993, por oito presos que cumpriam pena no anexo da Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté (SP), a facção tinha argumentos consoantes aos do CV — de Paz, Justiça e Liberdade — para atuar dentro do sistema carcerário, impondo regras e limitações a todos aqueles que aderissem ao movimento que surgia. Baseando sua estruturação na organização criminosa CV, o PCC aderiu também a táticas paramilitares, criando uma estrutura hierárquica de comando, vindo, igualmente, a instituir um código de atuação de seus membros por meio de um estatuto, que prevê punições a todos aqueles que descumprirem seus mandamentos, sendo a punição máxima a morte. https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2021/12/6293868-madureira-tem-noite-de-terror-com-tentativa-de-invasao-e-carro-incendiado.html https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2021/12/6293868-madureira-tem-noite-de-terror-com-tentativa-de-invasao-e-carro-incendiado.html https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2021/12/6293868-madureira-tem-noite-de-terror-com-tentativa-de-invasao-e-carro-incendiado.html CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 55 Embora os argumentos iniciais fossem de paz dentro do cárcere e de luta por melhores condições de vida para a pessoa reclusa, o que se observou, ao longo dos anos, foi que as referidas facções passaram a se utilizar de sua cadeia de comando para o fortalecimento docrime organizado e para o enriquecimento de indivíduos do comando, principalmente dos líderes, que se tornaram milionários. Tal enriquecimento está associado à prática de crimes diversos, com grave violência, como roubos armados a empresas de valores, sequestros e principalmente tráfico de drogas. Seguindo na mesma linha daquelas citadas anteriormente, diversas outras organizações criminosas passaram a atuar em diferentes regiões do país, como: Família do Norte (FDN), Guardiões do Estado (GDE), Sindicato do Crime (SDC), Amigos dos Amigos (ADA), Terceiro Comando Puro (TCP), Primeiro Grupo Catarinense (PGC), Manos, Abertos, Bala na Cara, Primeiro Comando do Interior, entre outras. É certo que tais organizações atuam por meio da força armada e da imposição de preceitos próprios, mas, substancialmente, atuam para fortalecimento das organizações e do enriquecimento ilícito de seus membros, ocasionado, principalmente, pelo tráfico de drogas ilícitas. Embora com preponderante área de atuação nos estados onde surgiram, sabe-se, com efeito, que as organizações criminosas não têm limitado sua atuação no território nacional, observando-se sua a expansão a países vizinhos, na América Latina, com intuito de praticar o tráfico transnacional de entorpecentes. Como bem pontuado por Viana e Castelo Branco (2017), no artigo “As fronteiras do estado: violência, milícias, crime organizado e políticas de segurança pública em áreas socialmente vulneráveis”: “O tráfico de drogas é, em grande parte, um negócio transnacional. A sua indústria consiste em várias etapas: cultivo, refinação, transporte, distribuição, lavagem de dinheiro e investimento de receitas. Em cada estágio da trajetória da droga, desde a produção até a distribuição, obtêm-se lucros, que são consumidos ou investidos, mas, muitas vezes, exigem alguma forma de lavagem para esconder suas origens ilegais.” (VIANA; CASTELO BRANCO, 2017, p. 87). CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 56 A despeito do tráfico de drogas, existem esforços, em âmbito mundial, prevendo o combate a tais delitos, pela natureza violenta que trazem consigo, e, principalmente, pelo impacto social que ocasionam. O Brasil já aderiu a diversas convenções e pactos internacionais, no sentido de combater a atuação dos grupos criminosos envolvidos no tráfico trans- nacional. No entanto, a dificuldade de vigilância das fronteiras brasileiras, a constante inovação e os recorrentes investimentos das organizações criminosas envolvidas acabam muitas vezes se sobressaindo. Nesse ponto, observa-se o envolvimento de agentes públicos com o crime organizado, vendendo informações valiosas a respeito de pontos de vigilância e de locais estratégicos, colaborando, assim, para o êxito de muitas empreitadas criminosas. Há que se mencionar, ainda, o estabelecimento de milícias armadas, for- madas, preponderantemente, por profissionais da segurança (vigilantes, policiais aposentados, bombeiros, Policiais Penais) desonestos, corrup- tos, desleais, que, fascinados pelo enriquecimento fácil, renderam-se ao crime organizado. Estes formam verdadeiros grupos de segurança privada, que estabelecem sua área de atuação mediante o uso da força armada, a exemplo das práticas de outros criminosos. Tais criminosos atuam estabelecendo também suas próprias áreas de comando e exercendo um poder paralelo ao Estado. Sob a fachada de oferecer uma espécie de “segurança privada”, as milícias atuam em locais onde o Estado não está presente de modo eficiente. Esses grupos ganham tais domínios e passam a extorquir moradores e comerciantes locais: “Nesse cenário de corrupção e privatização da segurança, as co- munidades desprivilegiadas, fornecedores de segurança informal e órgãos públicos formais e corruptos de execução da lei estão presos em um sistema complexo e recíproco de proteção e assistencialismo. No “mercado da força”, o fornecimento cria sua própria demanda. Os fornecedores ameaçam seus clientes a pagar por seus serviços - um mecanismo que leva a negócios mafiosos.” (RIBEIRO; OLIVEIRA, 2010, p. 5). CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 57 3.5 As organizações mafiosas e terroristas no Brasil Ao se abordar as organizações mafiosas, é fundamental diferenciá-las das organizações criminosas propriamente ditas, conforme pontua Terra Júnior (2010): “É certo que o fenômeno mafioso diverge do objeto de estudo compa- rado entre as espécies de organizações criminosas nos seus aspectos mais peculiares, em especial os culturais, históricos, territoriais e mo- tivacionais para o nascimento, razão pela qual não se pode concluir serem as facções criminosas modalidades de associações mafiosas (afinal, tais elementos são fundamentais para o reconhecimento de um agrupamento de pessoas como máfia). Contudo, se analisadas técnicas operacionais empregadas para expansão territorial e para o controle político social, é possível identificar, no Primeiro Comando da Capital, um agrupamento de pessoas ‘pré-mafioso’.” (TERRA JÚNIOR, 2010, p. 121). Desse modo, as organizações criminosas seriam modalidades de asso- ciações mafiosas, visto que entre as prerrogativas do estabelecimento de uma máfia estão a ocupação territorial, com a transmissão de uma mensagem de força e dominação (TERRA JÚNIOR, 2010, p. 124). Importante reconhecer que, no seio de uma organização mafiosa, estão inseridos traços característicos relevantes, como: • utilização de códigos, rituais e expressões gestuais. • realização de rituais de batismo, cujo objetivo é introduzir o novo crimi- noso aos códigos de conduta e de ética praticados dentro da organização. • proteção entre os membros, conforme se tem observado no estudo das organizações mafiosas italianas. Utilizando o mesmo modo de agir, muitas organizações mafiosas aplicam o terror como forma de ameaça, utilizando táticas como o assassinato de autoridades para intimidação, a exemplo do que ocorrera com a Cosa Nostra: CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 58 “Cosa Nostra empreendeu a maior estratégia de afronta ao Estado italiano por meio de mortes daqueles responsáveis pelo seu enfren- tamento como tentativa de mudar as novas leis mais rígidas surgidas para o enfrentamento ao fenômeno mafioso (em especial a lei de colaboração premiada e a lei do “cárcere duro”).” (TERRA JÚNIOR, 2010, p. 124). De forma análoga, o PCC atuou duramente contra organizações crimi- nosas rivais dentro de presídios paulistas, além de promover homicídios de diversas autoridades — como, em 2003, o assassinato do juiz de exe- cução penal Antonio José Machado Dias, com claro objetivo de intimidar as autoridades locais. SAIBA MAIS Saiba mais sobre esse caso na matéria “Juiz é morto em Presi- dente Prudente”, disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ fsp/cotidian/ff1503200301.htm. Tal estratégia de intimidação continua vigente: em 2012, no estado de São Paulo, integrantes da cúpula do PCC promoveram ataques que culminaram na morte de dezenas de policiais desse estado, além de ataques contra três servidores do Sistema Penitenciário Federal, nos anos de 2016 e 2017, com a clara tentativa de tornar o sistema mais brando aos custodiados. SAIBA MAIS Saiba mais sobre esse caso na Coluna de Josmar Jozino “2012, o ano em que o PCC matou 106 policiais militares no estado de SP”, disponível em: https://noticias.uol.com.br/colunas/jos- mar-jozino/2022/01/06/2012-o-ano-em-que-o-pcc-matou- -106-policiais-militares-no-estado-de-sp.htm. Verifica-se, ainda, a prática terrorista desenvolvida por meio de atenta- dos contra prédios públicos, transportes coletivos, agências bancárias, entre outros, como forma de intimidação e demonstração de poder. https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1503200301.htm https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1503200301.htmhttps://noticias.uol.com.br/colunas/josmar-jozino/2022/01/06/2012-o-ano-em-que-o-pcc-matou-106-policiais-militares-no-estado-de-sp.htm https://noticias.uol.com.br/colunas/josmar-jozino/2022/01/06/2012-o-ano-em-que-o-pcc-matou-106-policiais-militares-no-estado-de-sp.htm https://noticias.uol.com.br/colunas/josmar-jozino/2022/01/06/2012-o-ano-em-que-o-pcc-matou-106-policiais-militares-no-estado-de-sp.htm CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 59 Outra estratégia utilizada por organizações mafiosas é a “lei do silêncio”, ou seja, um mafioso não delata o outro, mesmo que precise assumir consequências negativas em seu lugar. Dois traços bastantes característicos das organizações mafiosas são: o recrutamento de agentes públicos no intuito de obter informações privilegiadas; a infiltração no poder público por meio da corrupção de autoridades, visando a obtenção de benefícios. Numa análise sucinta, há que se reconhecer que, apesar de não chegar ainda ao “status” de organização mafiosa, atualmente, no Brasil, há que se voltar os olhos às organizações criminosas, notadamente as que se utilizam do poder público para promover os próprios interesses, e, prin- cipalmente, as que se utilizam de atos terroristas atentatórios à vida e ao Estado, como forma de dominação e poder. QR CODE Aponte a câmera do seu dispositivo móvel (smartphone ou tablet) no QR Code ao lado para assistir ao vídeo sobre outras estraté- gias e características de organizações mafiosas, ou acesse o link: https://youtu.be/JR9eNsFLoqE. 3.6 Aspectos gerais sobre Análise de Risco e Planos de Contingência Não faz muito tempo que nossa sociedade tem se deparado com uma grande mudança no cenário de globalização mundial: o vertiginoso crescimento de dados e informações disponíveis, fomentado pelo au- mento das redes sociais, pela virtualização dos meios de comunicação e, principalmente, pelo grande fluxo de dados informações. O fluxo das informações tem sido muito rápido — um simples dado se alastra de forma inimaginável em poucos segundos —, e uma informação que antes poderia ser nova, passa a contar com um novo cenário, uma nova possibilidade de ação e reação. Toda essa agilidade nos meios de comunicação demanda aos operadores de Inteligência um grande esforço — o de trabalhar de forma ampla na análise de dados, de maneira a dar o melhor assessoramento ao tomador de decisão; pois, como afirma Andrade (2017): https://youtu.be/JR9eNsFLoqE CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 60 “Dessa forma, a incerteza resultante da quantidade de informações disponíveis para amparar deliberações nos mais diversos níveis or- ganizacionais tem se tornado cada vez mais presente, reduzindo a capacidade de se distinguir entre diversas opções em um contexto mais amplo. É justamente o efeito que essa incerteza gera sobre os objetivos de uma organização que chamamos de risco.” (ANDRADE, 2017, p. 92). Assim, as agências de Inteligência têm o importante papel de subsidiar o tomador de decisão de seus órgãos com amplos cenários prospecti- vos, de modo que ele possa avaliar os riscos de cada decisão tomada, embasando-se em conhecimentos técnicos suficientes para realizar a melhor avaliação possível, seja na esfera operacional, estratégica, política etc. De acordo com Andrade (2017): “A Análise de Riscos (AR) surge nessa esteira, pelo que fornece ao seu usuário conhecimentos organizados e processados com metodologia específica, sugerindo ações e medidas de prevenção ou correção das possíveis falhas detectadas em um determinado processo. Com base nessa análise, é possível assessorar com maior qualidade a tomada de decisão.” (ANDRADE, 2017, p. 93). CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 61 A Análise de Risco é um processo em que se estuda e se compreen- de o risco, e se define seu nível, para então chegar à Gestão de Risco. A NBR ISO3 31000:2009 elenca alguns princípios que devem ser obe- decidos para que a Gestão de Risco seja realizada de modo eficaz. A Gestão de Riscos, portanto: • Cria e protege valor. • É parte integrante de todos os processos organizacionais. • É parte da tomada de decisões. • Aborda explicitamente a incerteza. • É sistemática, estruturada e oportuna. • Baseia-se nas melhores informações disponíveis. • É feita sob medida. • Considera fatores humanos e culturais. • É transparente e inclusiva. • É dinâmica, interativa e capaz de reagir a mudanças. • Facilita a melhoria contínua da organização. (ANDRADE, 2017). A recomendação acima é cabível em qualquer contexto organizacional, seja público ou privado, e vem não como determinação, mas como orientação a ser seguida numa situação de Gestão de Riscos. Um Plano de Contingência deve avaliar a antecipação de eventos críticos que possam causar problemas ou prejudicar a missão de um órgão ou a preservação de uma situação de “normalidade”. Trata-se de um plano de antecipação por meio de um planejamento preventivo e alternativo, visando delegar responsabilidades e estabe- lecer procedimentos para orientar as ações durante a ocorrência de um evento indesejado. NBR é a sigla utilizada para se referir à “Norma Brasileira”, representada pela ABNT — Associação Brasileira de Normas Técnicas. ISO é a sigla de International Organization for Standardization (Organização Internacional para Padronização), tem por objetivo aprovar normas internacionais em todos os campos técnicos, como normas técnicas, classificações de países, normas de procedimentos e processos, entre outros. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 62 Para que seja eficiente, um Plano de Contingência não pode deixar “bre- chas”, ou seja, deve-se tratar de maneira pormenorizada as atividades a serem exercidas por cada participante: quais ações devem ser desen- cadeadas, qual o papel de cada envolvido no planejamento e como agir em relação a cada ponto que possa ser afetado. Um planejamento de contingência deve ser claro e preciso, devendo ser estudado com antecipação com relação ao evento indesejado que se pretende contingenciar. Seu objetivo é dar uma resposta rápida e fornecer o maior número de elementos ao tomador de decisão. Para que um Plano de Contingência seja bem executado, é de suma im- portância a existência de Análise de Riscos antecipada em relação a um fato que possa ocasionar anormalidade ou causar perigo a uma instituição. Agora que você chegou ao fim do conteúdo, relembre pontos importantes deste módulo na síntese a seguir. 63 SÍNTESE DO MÓDULO Neste módulo, tratamos da Inteligência Penitenciária Aplicada. Revi- sitamos alguns dos conteúdos do Módulo 1, pensando-os em relação com a prática. Na Unidade 1, foram abordadas ferramentas úteis para a atuação da Polícia Penal na Atividade de Inteligência. A primeira ferramenta foi a entrevista, que é uma ação de busca baseada na conversação, e que deve ter um propósito bem definido. As entrevistas podem ser encobertas, ostensivas ou mistas, e o planejamento é etapa fundamental dessa ação de busca. Na entrevista, a confiança deve ser preservada e pode ser favorecida pela escuta ativa e pela comunicação ética. A segunda ferramenta abordada foi a análise comportamental: Técnica Operacional de Inteligência utilizada para avaliar o comportamento de indivíduos ou grupos. Pontuamos que a comunicação ocorre de maneira verbal, mas também não verbal: pela linguagem corporal. Assim, pontu- amos abordagens que contribuem para a efetividade da leitura do alvo e um melhor processo de comunicação. Também discorremos sobre conceitos da comunicação, memória e mentira. A terceira ferramenta que abordamos foi o recrutamento operacional de fonte humana, que é uma ação de busca. Pontuamosque, mesmo em estruturas complexas, a fonte humana pode proporcionar acesso a dados sensíveis. Nessa ação, o recrutador deve dirigir o alvo e definir os termos da relação com o alvo e sua atuação. Finalizamos a unidade abordando a negociação, que é uma das alterna- tivas táticas no caso de Gerenciamento de Crises. Na Unidade 2, discutimos atitudes do Policial Penal em seu ambiente de trabalho. Iniciamos pela diferenciação prática entre a Atividade de Inteli- gência (que visa produzir conhecimentos para assessorar um tomador de opinião) e a atividade investigativa (que visa a obtenção de materialidade e de autoria de um delito, a produção de provas). CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 64 Abordamos a mentalidade da Contrainteligência no ambiente penal. Retomamos que esse ramo da Inteligência se destina à produção de conhecimentos e adoção de medidas para a proteção das atividades de Inteligência, dos dados sigilosos e, sobretudo, dos ativos. Também retomamos que a Contrainteligência atua por meio de dois segmentos: a segurança orgânica (conjunto de medidas defensivas relacionadas à segurança de pessoal, das instalações, dos materiais, das comunica- ções) e a segurança ativa (conjunto de medidas proativas, de caráter eminentemente defensivo). Abordamos que a segurança das operações requer o consentimento a uma série de normas, medidas e procedi- mentos, em suas diferentes fases (planejamento, reunião preparatória, execução e encerramento). Em seguida, conceituamos a intuição heurística e defendemos a im- portância de as Agências de Inteligência buscarem a institucionalização da Inteligência e a primazia da técnica. Também pontuamos a poten- cialidade do trabalho de Inteligência em sinergia com a atividade de segurança, para identificar, entender e revelar aspectos ocultos das organizações criminosas. Por fim, nesta unidade, pontuamos as atitudes esperadas do Policial Penal em seu ambiente de trabalho. Elencamos que ele deve estar sem- pre vigilante em relação a acontecimentos que possam atentar contra a segurança e ser um profissional de fácil adaptação, proativo, flexível e, sobretudo, discreto. Na Unidade 3, discutimos problemas atuais da Inteligência Penitenciária. Abordamos desafios e conquistas decorrentes da inclusão da categoria dos servidores prisionais no artigo 144, da Constituição Federal (que trata das Forças de Segurança Pública) e do Pacote Anticrime (que, entre outras disposições, enrijeceu as medidas contra o crime organizado no Sistema Penitenciário Federal). Discorremos sobre o recente surgimento do Sistema Penitenciário Federal e seus impactos. Contextualizamos esse surgimento na primeira década dos anos 2000, como desdobra- mento da situação caótica do sistema prisional, por sua superlotação e pela atuação de organizações criminosas em seu interior. Retomamos a maior rigidez nas regras de encarceramento no Sistema Penitenciário Federal, que abriga os líderes dessas organizações. Contextualizamos o surgimento de duas delas, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Co- mando da Capital (PCC), que surgiram com discursos de paz e melhores condições de vida no cárcere, mas, ao longo dos anos, passaram a utilizar CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 65 a força armada para cometer os mais diversos crimes, para ocupar áreas territoriais onde a presença do Estado é insuficiente, e, sobretudo, para atuar no tráfico de drogas. Pontuamos que é necessário voltar os olhos para as organizações criminosas brasileiras, especialmente as que se utilizam do poder público para interesses privados e as que lançam mão de atos que atentam à vida ou ao Estado, como forma de dominação e poder. Por fim, apresentamos aspectos gerais sobre Análise de Riscos (processo de análise, compreensão e definição do nível de risco) e Planos de Contingência (planejamento preventivo que antecipa eventos críticos e trata de maneira pormenorizada as ações que devem ser tomadas frente a esses eventos). Também elencamos princípios que devem ser obedecidos para a eficácia da Gestão de Riscos. Chegamos ao final do nosso curso. Agradecemos por sua participação no curso e esperamos que tenha sido proveitoso para sua formação e atuação profissional! REFERÊNCIAS ANDRADE, F. S. Análise de Riscos e a Atividade de Inteligência. Revista Brasileira de Ciências Policiais, Brasília, DF, v. 8, n. 2, p. 91-116, jul./dez. 2017. Disponível em: https://periodicos.pf.gov.br/index.php/RBCP/article/ download/462/311. Acesso em: 15 mar. 2020. ARCHER, D. E.; LANSLEY, C. A. Public appeals, news interviews and cro- codile tears: an argument for multi-channel analysis. 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Uma ação de busca deve ser matéria própria de Operações de Inteligência, logo, executada pelo Setor Elemento de Operações de uma Agência de Inteligência Penitenciária, visando reunir dados protegidos ou negados, num universo antagônico, de difícil obtenção. A entrevista é uma ação de busca! O conceito amplo de entrevista é: ação de busca realizada para obter dados por meio de uma conversação planejada e controlada pelo entre- vistador, mantida com propósito definido. Dois pontos, nesse conceito, são de suma importância: conversação e propósito definido. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 10 A entrevista pode: • estar vinculada a outras ações de busca, como o recrutamento. • ser aplicada em levantamento de dados com testemunhas, com des- ligamentos e com gestão de fonte humana. • ser aplicada para influir sobre a conduta do entrevistado. Conforme observamos acima, a conversação é o primeiro ponto fun- damental para definição dessa ação de busca, e envolve a esfera da comunicação. Existem diversos conceitos de comunicação, e, abaixo, citaremos um deles: “O conceito clássico do processo de comunicação é composto por uma fonte que emite mensagem por meio de um canal para um receptor. Esse, por sua vez, reage, fornecendo um feedback para a fonte sobre sua informação inicial. O conceito é simples, mas não o suficiente para entender a comunicação humana. (...) A men- sagem, por sua vez, só terá significado após a interpretação pelo receptor. (...) Esta é a tradução da mensagem, ou seja, a disposição de dar significado às coisas e aos pensamentos, e sentimentos das pessoas, depende de duas atividades distintas de interpretação: a decodificação, que se refere ao ato de escutar a fala de alguém; e a codificação, que se refere ao ato de expressar nossa mensagem ao outro.” (MARTINS, 2017, p. 124). O gênero abordado aqui é a conversação e ele se apresenta predo- minantemente como uma interação oral, na qual emissor e receptor interferem na mensagem e constroem juntos o conteúdo e o contexto da comunicação. O contexto é importante, pois torna uma mensagem pertinente ou não. A mensagem só terá sentido se considerarmos o contexto no qual está inserida. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 11 Ainda, a comunicação constitui um processo composto de cinco ele- mentos fundamentais. Veja-os a seguir. Frisa-se que a comunicação é um processo que funciona como um siste- ma aberto, e, como tal, é comum ocorrer certa quantidade de ruídos ou mesmo existir algumas barreiras. Discutiremos essas questões a seguir, com base em Chiavenato (2014). Ruído significa uma perturbação inde- sejável que tende a deturpar, distorcer ou alterar, de maneira imprevisível, a mensagem transmitida. Geralmente, dá-se o nome de ruído a alguma perturbação interna do sistema, enquanto se dá o nome de interferência a alguma perturbação externa vinda do ambiente. O processo de comunicação humana pode se tornar complexo em função da existência de barreiras que servem como obstáculos ou resistências à comunicação entre pessoas. As barreiras à comunicação são variáveis que intervêm no processo de comunicação e o afetam profundamente, fazendo com que a mensagem enviada se torne diferente da mensagem recebida. Podemos caracterizar três grandes tipos de barreiras à comunicação hu- mana: as barreiras pessoais, as barreiras físicas e as barreiras semânticas. Barreiras pessoais: são interferências que decorrem das limitações, emoções e valores humanos de cada pessoa; as barreiras mais comuns são os hábitos de ouvir, de forma deficiente, as emoções, motivações, os sentimentos pessoais; as barreiras pessoais podem limitar ou distorcer as comunicações com as outras pessoas. Elementos fundamentais da comunicação CANAL: é a parte do sistema que separa a fonte do destino. EMISSOR OU FONTE: é a pessoa, coisa ou processo que emite a mensagem para alguém. É a fonte de comunicação. TRANSMISSOR OU CODIFICADOR: é o equipamento que liga a fonte ao canal, isto é, que codifica a mensagem emitida pela fonte para torná-la adequada e disponível ao canal. DESTINO: é a pessoa, coisa ou processo para o qual a mensagem é enviada. É o destinatário da comunicação. RECEPTOR OU DECODIFICADOR: é o equipamento situado entre o canal e o destino, isto é, que decodifica a mensagem para torná-la compreensível ao destino. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 12 Barreiras físicas: dizem respeito às interferências que ocorrem no ambiente onde acontece o processo de comunicação: um barulho que possa distrair, uma porta que abre no decorrer de uma entrevista, a distância física entre as pessoas, os ruídos estáticos na comunicação por telefone, o horário etc. Barreiras semânticas: são as limitações ou distorções decorrentes dos símbolos através dos quais a comunicação é feita. As palavras ou outras formas de comunicação — como gestos, símbolos etc. — podem ter diferentes sentidos para as pessoas envolvidas no processo e a men- sagem pode ter o seu significado distorcido. As diferenças de linguagem constituem barreiras semânticas entre as pessoas. Esses três tipos de barreiras podem ocorrer isolados ou simultane- amente, fazendo a mensagem ser filtrada, bloqueada ou distorcida (CHIAVENATO, 2014). A comunicação abrange as diversas interações entre as pessoas; e esse ciclo, que engloba pelo menos duas pessoas, consiste em mais do que o conteúdo expresso das palavras. Outro ponto fundamental do conceito de entrevista é a definição de seu propósito. Ter um propósito bem definido e manter isso em foco ajuda o entrevistador a não se perder durante a execução da atividade. São possíveis finalidades da entrevista: obter dados negados em um universo antagônico. confirmar dados. fornecer dados. alterar comportamentos. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 13 A mudança do comportamento de um alvo pode ser um objetivo, a fim de conseguir, por exemplo, uma posição vantajosa e favorecer a obtenção de novos dados. Para a melhor execução da entrevista, esta deve ser devidamente ela- borada, de forma prévia. Além disso, é fundamental que o entrevistador tenha conhecimentos prévios em Operações de Inteligência e sobre a ação de busca em questão, bem como em relação aos dados do entre- vistado e ao assunto da entrevista. Existem várias características que norteiam um bom entrevistador; confira logo abaixo algumas delas. E, além dessas características supracitadas, há a capacidade de ter uma escuta ativa, ou seja, aquela que demanda um alto nível de atenção, escutando toda a mensagem, visando obter um dado da forma mais completa e acurada possível. Há obstáculos a uma escuta ativa que podem ser motivados por fatores externos, como um grande ruído no ambiente, uma falta de clareza do emissor da mensagem, o uso de empatia. paciência. autocontrole. perseverança. habilidade para observar e interpretar. raciocínio lógico. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 14 idiomas diferentes, entre outros. Os obstáculos também podem ser oriundos de fatores internos do próprio receptor, tais como a falta de interesse no outro ser humano, o medo de ser influenciado, os senti- mentos negativos sobre o emissor e/ou muitos outros. A escuta ativa implica também participação, fazendo perguntas apropriadas, anotando pontos que não devem ser esquecidos e manifestando o seu interesse pelo que o outro está dizendo. Fazer perguntas adequadas é uma habilidade que deve ser desenvolvida. O termo “perguntas”, nesse caso, deve ser compreendido de forma ampla, contemplando diferentes formas de interpelação, conforme pontuadono Guia de Entrevista Investigativa, de Maurmann e Pinto (2020, p.129), por meio da excelente citação de Stewart e Cash (2017), que ilustra o assunto abordado: “Perguntas não precisam ser frases completas com um ponto de in- terrogação ao final. Podem ser palavras, frases, sentenças ou sinais não verbais que “convidam” a resposta ou reações.” (STEWART; CASH apud MAURMANN; PINTO, 2020, p. 129). As perguntas podem ser classificadas como abertas ou fechadas, se analisarmos a amplitude das respostas. As perguntas abertas resultam num maior fluxo de informação, ao contrário das perguntas fechadas, que tendem a sondar um fluxo de informação menor. Durante a reunião de dados do alvo, não se recomenda o uso de perguntas com alto grau de sugestibilidade, pois tendem a contaminar o relato dos indivíduos. No processo de comunicação, a confiança deve ser preservada e pode ser desenvolvida por meio de duas habilidades essenciais da comu- nicação: escuta ativa e expressão transparente e verdadeira, ou seja, uma comunicação ética entre o emissor e o receptor, pautada por respeito, empatia e tolerância. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 15 O planejamento para a realização da entrevista é também de fun- damental importância, pois promove um maior controle da ação por parte do entrevistador. Por se tratar de uma Operação de Inteligência, o planejamento deve ser composto por um estudo de situação, levan- do-se em consideração, por exemplo, o ambiente operacional, o alvo, o Elemento de Operação, o emprego de meios eletrônicos e o pessoal empregado. Medidas de controle voltadas à segurança e à eficácia são também importantes durante o planejamento e a execução da ação. O planejamento é a formulação lógica e sistemática de ação ou de ações que se pretende realizar, incluindo o detalhamento e a cronologia de de- sencadeamento (abertura, execução e encerramento), sendo composto por um Estudo de Situação e um Plano de Operações. Dessa forma, é uma fase preparatória, na qual sugere-se: realizar as pesquisas sobre o alvo, de forma ampla e profunda; avaliar o cená- rio da entrevista; conhecer o assunto ou tema abordado; avaliar possíveis utilizações de estória cobertura, estratégia de abordagem, perguntas envolvidas, prazos, custos, treinamento etc.; estar plenamente apto a executá-la. Quando estiver no planejamento da entrevista, é importante que o agente executor da técnica se familiarize com a lista de perguntas, com as hipóteses e com as questões a serem abordadas. Além disso, é nessa fase que se deve prever a forma de trabalhar com mecanismos de registro (por anotação e/ou por empregos de meios eletrônicos). E, mais uma vez, o executor da técnica deve estar familiarizado com o emprego do meio eletrônico, caso ele seja previsto na ação. O planejamento deve também contemplar o estabelecimento de medi- das de avaliação para verificar se o propósito da entrevista foi alcançado ou não. Essa avaliação será feita após a entrevista. Estabelecer o propósito a ser buscado com a entrevista é o primeiro passo do planejamento. Em outras palavras, ter uma definição clara do objetivo principal. E, nesse sentido, cabe informar que as entrevistas podem ser encobertas, ostensivas ou mistas, de acordo com o nível de consciência do real propósito da ação de busca pelo entrevistado. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 16 Entrevistas encobertas: são aquelas em que o entrevistador oculta a sua condição funcional e assume outra, e/ou o intento da ação, normal- mente com a utilização da Técnica Operacional de estória cobertura, a fim de que seja permitido o acesso ao entrevistado sem revelar o real propósito da entrevista. Entrevistas ostensivas: são aquelas em que o entrevistador não ocul- ta a sua condição funcional e, ainda que indiretamente, o propósito da entrevista. Entrevista mistas: como o próprio nome demonstra, pode ocorrer quando, por exemplo, o entrevistador não oculta a sua condição fun- cional, encobrindo, contudo, o real propósito da ação. Recomenda-se registrar adequadamente a ação de busca. O registro adequado e de acordo com a estratégia da entrevista evita a perda de dados e o comprometimento da qualidade do dado reunido. O formato audiovisual é o mais recomendado, por permitir análises posteriores, em que se pode observar indicadores do comportamento e/ou do dis- curso que possam ter passado despercebidos em tempo real. Entretanto, o registro audiovisual nem sempre é possível. Nos casos em que há impossibilidade, recomenda-se anotar as informações adequadamente. Cumpre fazer um alerta importante: algumas pessoas podem não se sentir à vontade diante de uma câmera ostensiva de vídeo, isso pode vir a interferir no comportamento do alvo. Para um melhor resultado nas entrevistas, o estudo dessa ação de bus- ca e da área de Inteligência deve agregar fontes e conhecimentos que permitirão ao entrevistador abordar, executar a ação e analisar mais adequadamente o alvo nas diferentes situações do seu cotidiano pro- fissional. Entre eles estão: conhecimentos sobre linguagem verbal e não verbal, estudos sobre memória e mentira, sugestibilidade das perguntas, vieses e preconceitos e demais fatores psicológicos que podem influenciar a ação de busca. Importante não confundir entrevista com interrogatório. Interrogatório possui previsão legal no Código de Processo Penal em seus artigos 185 a 196, seguindo rito e metodologia próprios. Ele é um meio de prova no processo penal e reconhecido por ser também um meio de defesa, permitindo ao interrogado expor os fatos e circunstâncias por meio do seu próprio entendimento. E, entre outros, um aspecto bastante CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 17 divergente em relação à entrevista é que, no interrogatório, há uma relação verticalizada entre quem realiza o interrogatório e a pessoa interrogada. Na entrevista, a busca de dados se apresenta bastante eficaz quando existe um planejamento bem elaborado e a aptidão, por parte do en- trevistador, para realizar essa ação de busca. Igualmente, o domínio das Operações de Inteligência e das técnicas operacionais proporciona segurança e facilita o sucesso da ação. 1.2 Análise comportamental A ciência comportamental é, em uma visão abrangente, o estudo das interações e das atividades de humanos e de animais (LANSLEY, 2017). Bons analistas do comportamento humano podem ser encontrados, por exemplo, em atividades em aeroportos, onde há indivíduos que observam pessoas a fim de detectar qualquer comportamento inco- mum ou suspeito. A análise comportamental é uma das principais Técnicas Operacionais de Inteligência (TOI). A TOI é uma habilidade para a qual o agente de Inteligência Penitenciária deverá ser treinado, a fim de facilitar a atuação humana nas ações de busca. Quando devidamente utilizada por agen- tes do Setor de um Elemento de Operação, aumenta a potencialidade, a possibilidade, a capacidade, a operacionalidade, e, consequentemente, a aplicabilidade das ações de busca. A análise comportamental é uma Técnica Operacional de Inteligência! A análise comportamental é utilizada para avaliar o comportamento de indivíduos e/ou grupos e as relações entre eles num determinado con- texto. O primeiro aspecto para melhorar a análise do comportamento é entender que a análise do comportamento não verbal pode ser realizada em vários níveis. Outro ponto importante é que são necessárias paciência, perseverança e dedicação, para alcançar altos níveis de excelência em análise comportamental. É necessário entender que existe um nível de análise que pode ser desenvolvido por qualquer pessoa e que a habilita a perceber melhor as suas interações com os outros. Uma abordagem prática e cientifica de análise comportamental é oprotocolo SCAnR® – Six Channel Analysis – Realtime (Análise dos Seis Canais da Comunicação em tempo real) dos pesquisadores doutores Dawn Archer e Cliff Lansley (2015). CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 18 Como já abordado nesta unidade, comunicação é o processo de trans- mitir sentimentos, ideias, opiniões e sensações, por meio de palavras e de comportamento não verbal. De tal modo, a comunicação envolve transações entre pessoas. As pessoas, normalmente, não vivem isola- das, elas se relacionam continuamente com outras pessoas por meio da comunicação. A comunicação tem grande importância e relevância quando se abordam interações humanas e métodos para mudança ou influência no comportamento humano. Ressalta-se que a mais importante habilidade no processo de análise comportamental está no artifício de saber escutar durante um processo de comunicação. A falta dessa habilidade caracteriza uma barreira pes- soal. E não se deve confundir ouvir com escutar. Ouvir é apenas captar vibrações sonoras, escutar é compreender aquilo que se está ouvindo. Escutar requer prestar atenção, interpretar e lembrar-se de estímu- los. A audição eficaz é mais ativa do que passiva. Na audição passiva, você é como um gravador que absorve a informação dada. Na audição ativa, por sua vez, você precisa “entrar” na cabeça do orador, de forma a poder entender a comunicação a partir do ponto de vista dele. Dessa forma, ouvir ativamente é ouvir de modo a compreender a comunicação de acordo com a perspectiva do orador. Há uma grande relação entre a comunicação verbal e a comunicação não verbal, uma vez que a comunicação não verbal pode substituir a comunicação verbal, assim como repetir, contradizer, complementar, realçar e regular a comunicação verbal. QR CODE Aponte a câmera do seu dispositivo móvel (smartphone ou tablet) no QR Code ao lado para assistir o vídeo de animação sobre a habilidade de comunicação, ou acesse o link: https:// youtu.be/nJp1CpGzWwk. No fim dos anos 60, Mehrabian (1971), junto a outros colaboradores (MEHRABIAN; FERRIS, 1967; MEHRABIAN; WIENER, 1967) realizaram estudos sobre os elementos da comunicação, quando o orador está falando sobre seus sentimentos e atitudes. Esses estudos levaram à generalização em relação ao peso de cada elemento na comunicação. Confira no infográfico a seguir. https://youtu.be/nJp1CpGzWwk https://youtu.be/nJp1CpGzWwk CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 19 Peso dos elementos da comunicação oral Linguagem corporal Canal vocal Palavras comunicação não verbal velocidade, tom, volume conteúdo expresso 55% 38% 7% Analisando a informação acima, depreende-se que o lado não verbal da comunicação geralmente tem a chave do que uma pessoa está realmente pensando ou querendo dizer. A comunicação não verbal ocorre através da expressão facial, postura corporal e outros gestos, em contraste com a expressão direta escrita ou oral. Os nossos gestos, expressões e movimentos acompanham nosso corpo a todo o momento, a fala não é apenas um processo, ela vem da comu- nicação não verbal e/ou linguagem corporal. Não somos capazes de nos comunicar com eficiência sem a comunicação não verbal. Alguns fatores de influência psicológica devem ser observados na inte- ração com o alvo e/ou entrevistado, pois têm grande valor no momento de reunir informação dos indivíduos, principalmente nas interações face a face. São alguns desses fatores de influência na interação humana que devem ser minimamente observados e analisados, confira a seguir. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 20 Como abordado anteriormente, a comunicação é um intenso processo de interação, no qual compartilhamos mensagens, emoções e opiniões, e com o qual podemos influenciar, decisivamente, o comportamento das pessoas. O tema foi discriminado no começo do desenvolvimento deste módulo. Dessa forma, serão abordados a seguir os aspectos rela- cionados à memória e à mentira. Podemos dizer que a memória sempre exerceu um fascínio devido à sua complexidade, de modo que esse interesse se estendeu também para as suas falhas. É por meio da memória que cada ser humano pode lembrar-se de sua história pessoal, de fatos, conceitos, e é também por meio dela que o processo de aprendizagem se torna viável. Entretanto, a memória também tem seu lado frágil. Pode-se esquecer de forma rápida ou gradual eventos importantes ou até mesmo distorcer o preté- rito de forma surpreendente. Uma das falhas de memória são as falsas memórias, que se caracterizam pela lembrança de eventos que, na rea- lidade, nunca ocorreram. As informações são armazenadas na memória e, mais tarde, são recordadas como se tivessem sido verdadeiramente vividas. As falsas memórias podem ser definidas como lembranças de eventos que não ocorreram, de situações não presenciadas, de lugares jamais vistos, ou de lembranças distorcidas de algum evento. São memórias que vão além da experiência direta e que incluem interpretações, inferências ou, até mesmo, contradizem a própria experiência. Essas sugestibilidades podem ser elaboradas pela junção de lembranças verdadeiras com as sugestões vindas de outras pessoas (durante esse processo, a pessoa fica suscetível a esquecer da fonte da informação) ou podem se originar quando a pessoa é questionada de maneira evocativa. As falsas memó- rias sugeridas ou implantadas dizem respeito àquelas que resultam de uma sugestão externa ao indivíduo, proposital ou não, cujo conteúdo Fatores observados e analisados Comunicação Memória Mentira CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 21 não faz parte do evento experienciado, mas contém características coerentes com o fato. Dessa forma, salienta-se que existe uma grande diferença entre falhas no processo de recuperação de memórias e mentiras. Ao indicar a possibili- dade de que ocorram falhas no processo de recuperação de memórias, as quais podem se manifestar na forma de lacunas ou de distorções, em relação ao que tenha sido originalmente registrado ou relatado pelo entrevistador, não se pode, de forma alguma, se referir a mentiras, uma vez que estas referem-se a falsas declarações, emitidas intencio- nalmente, com o objetivo de afetar o entendimento do entrevistador e/ou do investigador sobre o fato (MAURMANN; PINTO, 2020). Assim, outro fator que influencia potencialmente a interação da con- versação é a mentira. Podemos defini-la como qualquer controle inten- cional da informação para criar um falso entendimento da mensagem. Diante disso, mentir é um ato deliberado e normalmente premeditado. O mentiroso escolhe manipular as informações, de forma a entregar à outra pessoa o que acredita ser condizente com os seus objetivos. Estudos realizados por Ekman (1989, p. 13-33) apontam nove principais motivos que levam as pessoas a mentir, são eles: 1. Evitar punições. 2. Obter recompensas e/ou vantagens. 3. Proteger outras pessoas de punição. 4. Proteger-se da ameaça de dano físico. 5. Ganhar admiração. 6. Fugir de uma situação social desagradável. 7. Evitar constrangimento. 8. Preservar sua privacidade. 9. Manter poder sobre o outro, controlando a informação que a outra parte possui. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 22 Ainda conforme estudos de Ekman (2011), mentir pode acarretar em torno de 30% de sobrecarga emocional a quem está mentindo. Após a mentira ser contada, uma área especializada em resolução de conflitos do nosso cérebro, o córtex cingulado anterior, é fortemente ativada, emitindo um alerta enquanto o “problema” não é resolvido. Córtex cingulado anterior Assim, tanto a mentira como as falsas memórias e a sugestibilidade,além dos componentes da comunicação, podem afetar substancial- mente a análise comportamental voltada para a entrevista, uma vez que influencia aspectos relacionados à busca de uma informação mais completa e acurada possível. E é neste contexto que as pesquisas sobre expressões faciais de Ekman (2011) são efetivamente utilizadas no desenvolvimento de técnicas de leitura de expressões emocionais faciais, o que auxilia diariamente di- versos profissionais, como de Segurança Pública, médicos psiquiatras e agentes de Inteligência a interagirem diariamente com outros indivíduos. Os estudos da face indicam que algumas expressões faciais são uni- versais, produtos da evolução humana, e que a face pode nos mostrar qual é a emoção que está sendo sentida pelo indivíduo, se existe mais de uma emoção sendo expressa e qual a sua intensidade. Entende-se por emoção um tipo específico de avaliação automática, um processo influenciado por nosso passado evolucionista e pessoal, em que sen- timos que algo importante para o nosso bem-estar está acontecendo. Ou seja, um conjunto de mudanças fisiológicas e de comportamentos emocionais que influenciam a ação. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 23 Dessa forma, torna-se importante conhecer pelo menos as emoções básicas e os sinais mais confiáveis de identificação dessas expressões faciais, como no caso de raiva, tristeza, nojo, surpresa, felicidade e medo, quando interagem junto a outra fonte humana. Fonte: Adaptado de Ekman, 2011. A expressão emocional transcende as barreiras de raça, etnia, cultura, gênero, religião e idade (EKMAN, 2011). Décadas de pesquisa mostraram que, independentemente do contexto, os seres humanos expressam as emoções faciais exatamente da mesma maneira. A capacidade de ler as mudanças faciais que acompanham e preveem o comportamento emo- cional é um componente indispensável da comunicação eficaz. As pessoas treinadas em expressões faciais utilizam esses conceitos para auxiliá-las nas entrevistas, interrogatórios e transações comerciais, bem como os envolvidos na aplicação da lei, segurança, Inteligência e sistemas legais e de saúde as utilizam com sua visão e análise especializadas. Importante entender que a análise comportamental não é um método 100% fidedigno para a detecção de mentiras. Não existe um método cientificamente comprovado para tal. O que existe é um cruzamento de dados/informações para que possamos detectar a dissimulação no raiva surpresa felicidade tristeza medo nojo ou aversão Exemplos de identificação de expressões faciais universais CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 24 comportamento do indivíduo. Ou seja, o que conseguimos, através de metodologias, instrumentos e ferramentas, é a avaliação do nível de in- consistência daquela comunicação e os vazamentos do comportamento humano durante o discurso. Um método científico na análise do comportamento humano, com uma maior eficácia e índices quase nulos de falsos positivos, é uma abordagem conhecida como SCAnR® (Análise de Seis Canais – Tempo Real), desenvolvida pela The Emotional Intelligence Academy (ARCHER; LANSEY, 2015; LANSEY, 2017). Constituindo uma metodologia avan- çada para analisar o comportamento verbal e o não verbal, o SCAnR® é um modelo de análise de canais de comunicação de forma múltipla para análise de comportamento, e foi validado para uso em contextos de alto risco. Pelo protocolo proposto, podemos identificar quando a comunicação através de um ou mais dos seis canais — face, corpo, voz, estilo interacional, conteúdo verbal e psico-fisiologia — é inconsistente com o discurso, com a linha de base do indivíduo ou com o contexto. Esse é então considerado um ”Ponto de Interesse” ou PIn. A abordagem do SCAnR® permite desencorajar os usuários a tirar conclusões com base em um único ponto de interesse do comportamento, ou mesmo com base em uma observação de apenas um canal de comunicação. A observação e a escuta de aglomerados de indicadores do compor- tamento humano — de no mínimo dois dos seis canais de comunica- ção — podem indicar que a comunicação do alvo, por algum motivo, encontra-se inconsistente, desde que não possa ser explicada pela linha de base do indivíduo, pelo seu discurso ou pelo seu contexto. Essa é a regra fundamental. Um PIn sozinho não é evidência de um vazamento emocional. É necessário sempre seguir a regra básica do protocolo: “3-2-7”. A regra é alusiva aos números conforme a seguir. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 25 Usar, por exemplo, os pontos de interesse do comportamento humano que as pessoas emitem nos seus discursos, gestos, olhos, face e voz, fará com que a leitura dos alvos seja mais efetiva e, consequentemente, haverá uma melhor comunicação entre os indivíduos. Essa informação poderosa, obviamente, pode ser utilizada em diversas pastas, seja durante uma entrevista ou no engajamento junto à fonte humana, por exemplo. 1.3 Recrutamento operacional de fonte humana O conceito amplo de recrutamento operacional é entendido como: o conjunto de ações que visam convencer, preparar ou persuadir uma pessoa — não pertencente à Agência de Inteligência Penitenciária — a colaborar em benefício desta, fornecendo informações úteis às Operações de Inteligência. O recrutamento operacional é uma das ações de busca das Operações de Inteligência. O recrutamento operacional é uma ação de busca! Atualmente, observa-se que as organizações criminosas vêm alcançando elevados níveis de estruturação, com hierarquia, divisão comparti- mentada de tarefas, conexões com o poder público e uso de recursos tecnológicos avançados. Por outro lado, a fonte humana ainda é capaz de proporcionar acesso a dados operacionais sensíveis, entre outras ações. Itens mínimos pelo Protocolo 3-2-7 3 PONTOS DE INTERESSE (Pins) Pelo menos 3 Pins devem ser identificados no comportamento do indivíduo. 2 CANAIS DE COMUNICAÇÃO Pontos de Interesse devem se manifestar em pelo menos 2 canais distintos. 7 SEGUNDOS É o tempo após o estímulo provocado ou o entendimento da pergunta para possibilidade de comunicação inconsistente, por algum motivo. 3 2 7 CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 26 Diante desse cenário, podemos concluir que a Agência de Inteligência Penitenciária deve utilizar a ação de recrutamento de fonte humana para prover à autoridade competente os dados necessários para o melhor cumprimento de suas atribuições. Há, dessa forma, o papel do recrutador, profissional de Inteligência res- ponsável por dirigir o alvo. O controle consiste na arte de dirigir, treinar, testar, apoiar, comunicar-se com o recrutado e, se necessário, encerrar as atividades. É o recrutador que padroniza e delimita os termos da re- lação com o recrutado e com a sua atuação, estabelecendo, por vezes, a periodicidade da comunicação, os meios e os locais, evitando vaza- mentos e/ou inconveniências causadas pelo recrutado. Já o recrutado, que não faz parte da Agência de Inteligência, será treinado, orientado, preparado e direcionado pelo recrutador, visando o melhor desempenho e o sigilo nas ações. 1.4 Negociação A negociação leva em consideração o perfil do causador do evento crí- tico e pode ser empregada, no contexto de Gerenciamento de Crises, como uma das alternativas táticas. Contextos de Gerenciamento de Crises são aqueles cenários, muitas vezes em ambiente adverso, onde há um causador de um evento crítico, podendo ter reféns e víti- mas, e, portanto, a necessidade de superar a crise com êxito. Vale lembrar que negociar é uma forma de resolver conflitos, que bus- ca as melhores soluções entre dois lados, em que cada um ganha de acordo com o valor que agregou à negociação.A assertividade é um ingrediente vital da negociação, que não pode deixar de ser abordada, dada sua importância na administração dos conflitos. Ser claro e obje- tivo na comunicação está no campo da razão, sendo importante para o entendimento do conteúdo e o para o convencimento do receptor da mensagem. Falar a verdade está na área da emoção, sendo importante para gerar o sentimento de confiança e, consequentemente, a persuasão. Grande parte do processo de persuasão — pelo qual uma pessoa é compelida a concordar com a solicitação de outra — pode ser entendida como uma tendência humana à reação automática na forma de atalho. As reações automáticas são padrões do comportamento involuntário que formam o nosso “piloto automático” e são desencadeados por alguma caracte- rística relacionada a uma determinada situação, a qual aciona um gatilho mental que gera uma reação automática. Os gatilhos mentais e o nosso CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 27 “piloto automático” existem como uma forma de o nosso cérebro ser mais eficiente e economizar energia. A maioria dos indivíduos, em nossa cultura, desenvolveu um conjunto de características desencadeadoras para o consentimento, ou seja, um conjunto de características específicas que normalmente apontam quando acatar um pedido pode ser correto ou benéfico. Cada uma dessas características pode ser usada como uma arma de influência para estimular as pessoas a concordarem com pedidos. Segundo Cialdini (2012), existem seis grandes princípios de persuasão: 1. Reciprocidade. 2. Compromisso e coerência. 3. Aprovação social. 4. Afeição. 5. Autoridade. 6. Escassez. UNIDADE 2 Atitudes do Policial Penal no ambiente penitenciário CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 29 2. ATITUDES DO POLICIAL PENAL NO AMBIENTE PENITENCIÁRIO Nesta unidade, vamos entender um pouco mais sobre as atitudes do Policial Penal no ambiente penitenciário, após a institucionalização da Atividade de Inteligência e a criação da Doutrina Nacional de Inteligência Penitenciária pela primazia da técnica. Assim, objetivou-se ampliar a compreensão sobre a proatividade que esse profissional deve ter no seu dia a dia, bem como a busca constante para sair da fase da intuição e primar pela técnica. A diferença entre a Atividade de Inteligência e a atividade de investigação policial será um tópico que estudaremos, considerando: a avaliação do conhecimento em face de um correto assessoramento; a visão de um Policial Penal frente à Contrainteligência, que visa a proteção e a segu- rança da organização; e, ainda, como deve funcionar a Inteligência em sinergia com a segurança. 2.1 Produzir provas e Inteligência – diferenças práticas Para começarmos a diferenciar Atividade de Inteligência e a investigação criminal, vamos conceituar cada uma delas. A Atividade de Inteligência Penitenciária é o exercício permanente e sistemático de ações especializadas para identificar, avaliar e acompa- nhar ameaças reais ou potenciais na esfera dos Sistemas Penitenciários. Esse exercício é orientado para a produção e salvaguarda de conhe- cimentos necessários para subsidiar os tomadores de decisão, para o planejamento e para a execução de políticas e das ações de prever, prevenir, neutralizar e reprimir atos criminosos (BRASIL, 2020). A investigação criminal é um procedimento sempre pré-processual, autônomo e prescindível em relação ao processo penal, com a caracte- rística de ser inquisitório e sem contraditório. Sua finalidade é buscar a verdade real mediante a obtenção de provas de autoria e de materialidade delitiva, para justificar a abertura de uma ação penal justa, evitando-se constrangimentos pessoais e gastos desnecessários para o Estado (LOPES JÚNIOR, 2003). Nesse sentido, é importante não confundir a Atividade de Inteligência com a atividade de investigação. A primeira visa a produção de conhecimentos para assessorar um tomador de decisão. Didaticamente, podemos dizer que tem como fases: CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 30 Já a atividade de investigação visa a obtenção da materialidade e da autoria do delito, instrumentalizada por um procedimento criminal (inquérito policial). Mas, apesar de distintas e praticadas em âmbitos diferentes, um ato de Inteligência pode ser utilizado na investigação, da mesma forma que um ato de investigação pode ser utilizado na Inteligência, atentando-se apenas às regras da lei processual para a vali- dade de forma e de conteúdo. É o princípio da liberdade probatória, no processo penal, que autoriza o uso de um dado ou de um conhecimento de Inteligência na instrução investigativa, com fundamentos na busca da verdade real em provar a inocência ou a culpa do acusado, vedando-se somente os meios proba- tórios inidôneos e inválidos, como os que atentem contra a moralidade e contra a dignidade da pessoa humana. Além disso, é primordial que o conhecimento produzido na Atividade de Inteligência possua uma avaliação das fontes (feita por um analista de Inteligência), para uma maior credibilidade do setor de Inteligência e do conhecimento produzido. Em linhas gerais, as diferenças entre produzir provas (investigação) e a Inteli- gência residem nos critérios de aceitabilidade da verdade, objetivos, marcos teóricos e regras formais especificas de produção (PACHECO, 2010, p. 3). Para a investigação criminal, verdade é aquela que possui validade jurídica, ou seja, aquela consubstanciada em respeito às garantias legais e processuais (PEREIRA, 2010, p. 129). a reunião de dados e/ou conhecimentos. o processamento/análise dos dados. a formalização dos dados. a difusão e avaliação dos dados. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 31 Já para a Inteligência, a verdade está fundada na concordância do con- teúdo do pensamento com o objeto, segundo o estado da mente do analista de Inteligência quanto à certeza, opinião, dúvida e ignorância, em relação à verdade (MOREIRA, 2010). É por meio da avaliação do conhecimento, etapa na qual o analista ve- rificará a pertinência e a credibilidade dos dados e/ou conhecimentos reunidos, que se chega à afirmação da existência dos fatos. Em suma, para a produção de prova, somente é aceitável a verdade ali- cerçada em provas válidas, enquanto que, para a Inteligência, a verdade como prova é escusável, descartável. O diferenciador mais nítido entre produção de prova e Inteligência reside em seus objetivos. A primeira tem como objetivo reunir provas da mate- rialidade e da autoria de um fato criminoso, para formar a opinio delictis, e fundamentar a justa causa para uma acusação em juízo. Já a segunda, a Inteligência, que é uma atividade eminentemente administrativa, tem por finalidade subsidiar e assessorar um tomador de decisão. Diferenças básicas entre as atividades Fonte: Adaptado de SENASP/MJ, 2015. INVESTIGAÇÃO POLICIAL INTELIGÊNCIA POLICIAL NATUREZA De natureza execução/reativa De natureza consultiva/acessória MOMENTO DA AÇÃO Age depois do fato (passado/presente) Prevenção de delitos (futuro) OBJETO DA OBTENÇÃO Obtenção de prova criminal Obtenção de dado negado FINALIDADE Identificação de autoria e materialidade Produzir e salvaguardar conhecimento TIPO DE PROCEDIMENTO Procedimento Público Procedimento reservado/sigiloso O QUE SUBSIDIA? Condenação criminal Processo decisório CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 32 2.2 A mentalidade da Contrainteligência no ambiente penitenciário: segurança e proteção Conforme vimos no Módulo 1, a Contrainteligência é um ramo da Atividade de Inteligência, e existe justamente em razão desta, com o principal objetivo de prevenir, detectar,obstruir e neutralizar as ações adversas. Fonte: © [deepadesigns] / Shutterstock. A Contrainteligência destina-se à produção de conhecimentos, à adoção de medidas para proteção da Atividade de Inteligência e da instituição a que pertence, de maneira a salvaguardar dados e conhecimentos sigilosos e, acima de tudo, a proteção dos seus ativos (servidores, informações, veículos, armas etc.). É importante destacar que a Contrainteligência deve atuar continuamente para avaliar vulnerabilidades, riscos, oportunidades e desafios do sistema penal, bem como da Segurança Pública como um todo. Os atores envolvidos em um sistema prisional (agentes, professores, ter- ceirizados, enfermeiros, entre outros) devem visualizar a Contrainteligência sempre através da palavra “proteção”. Nesse contexto, antes de iniciarmos a nossa fala sobre os ativos a serem pro- tegidos, é necessário entendermos alguns conceitos em Contrainteligência: CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 33 SAIBA MAIS Assista o vídeo “Mestres: o homem que nunca existiu”, que apre- senta um exemplo de propaganda adversa, disponível em: https:// www.youtube.com/watch?v=psxszSD8F1s. Risco: probabilidade de uma ameaça causar impacto na organização. Vulnerabilidade: fragilidade de um ativo ou grupo de ativos que pode ser explorado por uma ou mais ameaças. Vazamento: divulgação não autorizada de dados ou de conhecimentos. Compartilhamento: o ato de tornar o conhecimento disponível, por qualquer meio acessível aos integrantes da Inteligência, bem como a outras pessoas ou ao órgão de Inteligência, adotando mecanismo de proteção e assegurando o sigilo adequado. Responsabilidade: obrigação legal, individual e/ou coletiva, em relação à preservação da segurança. Acesso: possibilidade e/ou oportunidade de uma pessoa obter dados ou conhecimentos sigilosos. Credenciamento: autorização oficial e específica, concedida por autoridade competente, que habilita determinada pessoa a ter acesso a dados, conhecimentos, áreas ou instalações, nos diferentes graus de sigilo. Propaganda adversa: manipulação planejada de quaisquer informações, ideias ou doutrinas para influenciar grupos e indivíduos, com vistas a obter comportamentos predeterminados que resultem em benefícios de seu patrocinador. https://www.youtube.com/watch?v=psxszSD8F1s https://www.youtube.com/watch?v=psxszSD8F1s CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 34 A Contrainteligência atua por meio de dois segmentos: a segurança orgânica e a segurança ativa. 2.2.1 Segurança orgânica A segurança orgânica é um conjunto de medidas desenvolvidas dentro e fora da organização, de caráter eminentemente defensivo, destinado a garantir o bom funcionamento do órgão, de modo a prevenir e obstruir ações adversas de qualquer natureza. A segurança orgânica é conhecida também por suas barreiras impostas às pessoas que não devem ter acesso a dados e ativos do órgão. Símbolo da proibição de entrada. Fonte: © [Martial Red] / Shutterstock. O principal objetivo da segurança orgânica é adotar medidas que sejam capazes de neutralizar as ameaças e as ações realizadas por forças adversas que possam superar as medidas de salvaguarda adotadas em relação ao pessoal, aos documentos, às instalações, às comunicações e às operações. A segurança de pessoal deve ser entendida como um conjunto de normas, medidas e procedimentos voltados para os recursos humanos, no sentido de assegurar comportamentos adequados à salvaguarda de dados e conhecimentos sigilosos. As principais ameaças contra a segurança de pessoal são a infiltração, o recrutamento e o vazamentos de dados e/ou conhecimentos. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 35 É fundamental que a Contrainteligência participe de todo o processo seletivo, visando dificultar as ações adversas de infiltração e a admissão de indivíduos com características e antecedentes pessoais que possam levá-los a causar o comprometimento e/ou vazamento de dados sensíveis. Além disso, é muito importante que a Contrainteligência faça o acompa- nhamento do desligamento daqueles indivíduos que tiveram acesso aos dados sensíveis do órgão. Salienta-se também a relevância de entender a motivação do desligamento de cada indivíduo que teve acesso aos dados mais sensíveis da instituição. A segurança da documentação é um conjunto de normas, medidas e procedimentos direcionados à proteção dos documentos de Inteligência, evitando o comprometimento e/ou vazamento. Para a garantia do sigilo dos documentos em sua produção, devemos seguir fielmente a metodo- logia da produção do conhecimento até a sua guarda ou até a destruição do documento sigiloso. As principais ameaças em relação à segurança dos documentos são a destruição, o comprometimento e o vazamento — podem ocorrer por meio de roubo, furto, cópia ou acesso não autorizado e destruição. Devemos atentar sempre para a destruição dos documentos sigilosos, estes devem passar necessariamente pela máquina fragmentadora de papéis e jamais jogados nos lixos comuns. A compartimentação/confidencialidade na documentação restringe o acesso para a proteção do conhecimento, com base na necessidade de conhecer, isto é, o acesso ao documento sigiloso somente deve ser concedido à pessoa que tenha a necessidade de informar-se sobre aquele conhecimento. A segurança das instalações diz respeito ao conjunto de normas, medidas e instalações voltadas aos locais onde são elaborados, tratados, manuseados ou guardados dados e/ou conhecimentos sigi- losos. A segurança das instalações é obtida pela implementação de medidas de proteção, fiscalização e controle de acesso. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 36 Equipamentos de controle de acesso. Fotos: © [ArtVisionStudio] / Shutterstock; © [koonsiri boonnak] / Shutterstock. Exemplo: salas de cofres, salas com acesso através de biometria, avisos de área restrita. A segurança dos materiais consiste em normas, medidas e procedimentos voltados para a guarda, segurança e preservação do material, de modo a assegurar o seu perfeito e contínuo funcionamento. As principais ameaças que podemos encontrar em relação à segurança dos materiais são os danos, o furto, o roubo e a sabotagem. A segurança das comunicações é o conjunto de normas, medidas e procedimentos direcionados aos meios de comunicação, no sentido de salvaguardar dados e/ou conhecimentos, impedindo ou dificultando a interceptação, a transmissão do tráfego de dados e sinais. As principais ameaças são a interceptação, a sabotagem, as panes e os danos. Devemos ainda fazer a troca periódica de senhas nos sistemas de informação, bem como treinamentos para a correta utilização dos equipa- mentos e ainda elaborar cursos e/ou cartilhas de educação em segurança. Não podemos esquecer da segurança da tecnologia da informação, destinada a preservar os sistemas desta, garantindo a continuidade do seu funcionamento, a integridade dos conhecimentos e o controle de acesso. É importante que o agente de Segurança Pública tenha em mente que todos esses ativos citados devem ser protegidos em igual valor, pois a vulnerabilidade de qualquer desses ativos coloca todo o sistema em risco. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 37 A segurança das operações é o agrupamento de normas, medidas e procedimentos adotados para proteger as operações realizadas no Sis- tema Penitenciário. Salienta-se que, nesse contexto, segurança e proteção incluem, nota- damente, os agentes, a instituição, a identidade do alvo e os objetivos da operação. A segurança das operações passa por algumas fases, e em todas elas devem ser observadosos aspectos de segurança citados anteriormente. São fases das operações realizadas pelo Sistema Penitenciário Federal: Para finalizar, é importante que cada organização tenha o seu Plano de Segurança Orgânica (PSO), um documento que visa orientar os procedimentos de interesse da segurança orgânica. A adoção de me- didas de segurança, sem a necessária análise dos riscos e dos aspectos envolvidos, poderá causar o comprometimento, decorrente de sua ineficiência ou inadequação. 2.2.2 Segurança ativa A segurança ativa é o conjunto de medidas proativas, de caráter emi- nentemente ofensivo, destinadas a detectar, identificar, avaliar, analisar e neutralizar as ações adversas de elementos ou grupos de qualquer natureza que atentem contra o órgão e a Segurança Pública. Planejamento: etapa em que se preparam todos os meios e recursos a serem adotados para alcançar o objetivo da ação sigilosa e que culmina com a apresentação de um plano de operações. Reunião preparatória: fase em que os detalhes da ação sigilosa são revelados aos participantes e as dúvidas na forma de atuação para o cumprimento da missão são dirimidas. Execução: quando as ações previstas no plano de operações são realizadas, visando atingir o objetivo da missão. Encerramento: etapa em que se produzem os relatórios com os resultados das ações empreendidas e em que se desmobilizam os recursos materiais e humanos empregados na operação. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 38 A segurança ativa tem como característica antecipar-se a eventuais ameaças provenientes de elementos ou grupos diversos, bem como complementar e auxiliar o ciclo da segurança orgânica. Essas medidas são desenvolvidas por meio da contrapropaganda, contraespionagem, contrassabotagem e do contraterrorismo. Contrapropaganda: conjunto de medidas ativas destinadas a detectar, identificar, avaliar e neutralizar ações de propagandas adversas. Contraespionagem: conjunto de medidas destinadas a detectar, iden- tificar, avaliar e neutralizar ações adversas de busca de dados e/ou co- nhecimentos sigilosos por meio de ações adversas. Contrassabotagem: conjunto de medidas ativas destinadas a prevenir, detectar, identificar, avaliar e neutralizar atos de sabotagem contra ins- tituições, pessoas, documentos, materiais, equipamentos e instalações. Contraterrorismo: conjunto de medidas destinadas a detectar, identificar, analisar e neutralizar ações e ameaças terroristas. QR CODE Aponte a câmera do seu dispositivo móvel (smartphone ou tablet) no QR Code ao lado para assistir ao vídeo sobre a segurança ativa, ou acesse o link: https://youtu.be/dUrXGzn4SqI. 2.3 Da intuição à institucionalização e a primazia da técnica Para iniciarmos esse tema, torna-se necessário relembrar que a Atividade de Inteligência no Brasil somente foi institucionalizada no ano de 1927, com a criação do Conselho de Defesa Nacional (CDN), voltado para o assessoramento do governo. Até então, a Atividade de Inteligência era exercida apenas no âmbito dos ministérios militares. Com a carência de investimento na área de Inteligência, principalmente na parte de capacitação, o que se percebe na prática é que uma boa parte dos agentes que operam nessas agências de Inteligência care- ce de conhecimentos técnicos para a coleta de dados e para a pro- dução do conhecimento. Na maioria das vezes, eles realizam essas https://youtu.be/dUrXGzn4SqI CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 39 tarefas com base no empirismo, utilizando a intuição, e, principalmente, as experiências já vividas. Essa intuição descobre, supõe, antecipa e inventa. A linguagem popular chama essa capacidade intuitiva de “estalo”, “pressentimento”, “presença de espírito”, “insight”. A intuição, que em sua forma mais relevante é caracterizada como intuição heurística, é um conhecimento direto, que se tem quando, no pensamento, ocorre a captação das representações mentais que manifestam o objeto ou a relação de objetos, não fazendo uso da me- diação da sensibilidade. O único papel da sensibilidade está no contato do sujeito com o mundo, na atividade ou na ação, e é justamente nesse contato que o problema da intuição é gerado. Trata-se da intuição heurística de poder trazer à luz a descoberta de algo novo que pode ser igualmente testado e investigado. Além disso, podemos dizer que, no processo do conhecimento, participam os sentidos, a razão e a intuição. Dessa forma, é de extrema importância que as agências de Inteligência busquem a institucionalização da Inteligência e a primazia pela técnica. 2.4 O trabalho da Inteligência em sinergia com a atividade de segurança A Atividade de Inteligência, trabalhando em sinergia com a Segurança Pública, é uma das melhores ferramentas de resposta e de auxílio ao combate do crime em geral, em especial daqueles de alta complexidade, pois permite identificar, entender e revelar os aspectos ocultos da atu- ação criminosa, que seriam de difícil constatação pelo meio clássico de investigação policial. A produção do conhecimento gerado pela Atividade de Inteligência tornou-se um subsídio indispensável para as investigações policiais, para combater as ações do crime organizado, entre outras. O crime organizado tem se mostrado um dos maiores problemas da Segurança Pública no Brasil, tornando seu enfrentamento cada vez mais difícil no cenário contemporâneo. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 40 A Inteligência se apresenta como uma ferramenta eficaz para auxiliar a Segurança Pública no combate a essas organizações criminosas e em vários níveis de atuação, produzindo conhecimento para o assessora- mento estratégico, tático, operacional e de políticas públicas. Torna-se claro que, na atualidade, não há como falar em ações de Segurança Pública sem o uso da Inteligência. QR CODE Aponte a câmera do seu dispositivo móvel (smartphone ou tablet) no QR Code ao lado para assistir ao vídeo sobre o trabalho da Inteligência em sinergia com a atividade de segurança, ou acesse o link: https://youtu.be/XUc0Lrfl2i8. 2.5 Atitudes e atividades do Policial Penal As atitudes do Policial Penal no ambiente penitenciário deverão ser um resultado de competências comportamentais, habilidades e técnicas relacionadas à natureza e às características do cargo ou da função que ele irá desempenhar. Entre as quais, podemos citar: Disciplina. Adaptabilidade/flexibilidade. Capacidade intelectual analítica. Dinamismo/coragem. Vida pregressa compatível. Voluntariedade. Lealdade. Discrição. Iniciativa. Profissionalismo. https://youtu.be/XUc0Lrfl2i8 CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 41 O Policial Penal, em suas atividades, deve: estar sempre alerta aos acon- tecimentos que atentem contra a segurança, dentro e fora do seu am- biente laboral; ser um profissional de fácil adaptação; possuir inciativa, flexibilidade e, acima de tudo, ser discreto. Disciplina. Adaptabilidade/flexibilidade. Capacidade intelectual analítica. Dinamismo/coragem. Vida pregressa compatível. Voluntariedade. Lealdade. Discrição. Iniciativa. Profissionalismo. UNIDADE 3 Problemas atuais da Inteligência Penitenciária CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 43 3. PROBLEMAS ATUAIS DA INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA A presente unidade discutirá as recentes alterações legislativas ocorridas no nosso país com a instituição da Polícia Penal e a aprovação do Pacote Anticrime, bem como a importância de uma Atividade de Inteligência fortalecida, imbuída de análises estratégicas para combate ao crime organizado e as ameaças que afligem a Segurança Pública. 3.1 Desafios e conquistas com as recenteslegislações: Polícia Penal e Pacote Anticrime Recentemente, o cenário da Segurança Pública no Brasil foi contem- plado com grandes transformações no que tange às legislações penais, de modo a atuar no endurecimento de penas privativas de liberdade, entre outras mudanças. Isso se deu com o objetivo de coibir as práticas criminosas em vertiginoso crescimento. Fontes: © [Luis Macedo] / Agência Câmara de Notícias, Agência de Notícias do Paraná, Jornal de Brasília. A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) n° 372, de 26 de outubro de 2017, que tramitava no Congresso Nacional desde sua criação, em 2017, até sua aprovação, em 2019, teve como resultado a criação da Polícia Penal no âmbito nacional, convertendo os cargos de agente penitenciário, de inspetores penitenciários e de agentes de segurança prisional em cargos de Polícia Penal. Além de acarretar uma nova denominação aos cargos dos servidores prisionais em todo país, reconheceu-se que a categoria deveria estar devidamente inserida no art. 104 da Constituição Federal (BRASIL, 2021), que trata das Forças de Segurança Pública. Esse reconhecimento, ainda que tardio, foi extremamente necessário, visto que tais servidores lidam diretamente com o principal agente da persecução penal: a pessoa privada de liberdade. Além de estarem submetidos ao ambiente carcerário superlotado, tais servidores muitas vezes sofrem desvalorização profissional e ficam esquecidos, vendo-se compelidos a lutar pelos mesmos direitos a que fazem jus os policiais civis, os policiais militares e as outras Forças de Segurança Pública, devido à natureza dos riscos a que estão expostos. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 44 Apesar de amplamente debatida e aprovada, a referida emenda sofreu ataques severos por parte de entidades civis, políticos e partidos políticos, que atuavam contra sua aprovação por entenderem que a instituição da Polícia Penal: • poderia dificultar a privatização do sistema prisional estadual. • poderia ocasionar, de certa forma, uma política de encarceramento, dando maiores poderes aos agentes que atuam no sistema prisional. Felizmente, no dia 04 de dezembro de 2019, a PEC 372/2017 foi conver- tida em Emenda Constitucional do art. 104 e publicada no Diário Oficial da União, passando a vigorar com o seguinte texto: “Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e res- ponsabilidade de todos, é exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio, através dos seguintes órgãos: (...) VI - polícias penais federal, estaduais e distrital. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 104, de 2019) (...) § 5º-A. Às polícias penais, vinculadas ao órgão administrador do sistema penal da unidade federativa a que pertencem, cabe a segurança dos estabelecimentos penais.” (BRASIL, 2021). Ao tempo em que se reconheceu a importância dessa categoria profissio- nal no contexto da Segurança Pública, a inserção do referido dispositivo legal garante direitos inerentes a profissionais que atuam diretamente contra o crime, colocando a própria vida em risco, e, muitas vezes, até mesmo a vida de seus familiares, que ficam expostos a diversos tipos de ataques e violências originados pela natureza de sua atividade profissional. Desse modo, muitos direitos puderam ser estendidos aos profissionais que atuam como servidores do sistema prisional, como a aposentadoria especial e o direito à não privatização do cargo. Este último implica segurança jurídica para os servidores do sistema prisional, exigindo que a carreira seja obriga- toriamente ocupada por servidores públicos devidamente concursados e garantindo assim a isonomia no acesso às vagas dos respectivos concursos. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 45 Um outro avanço deveras significativo na legislação brasileira ocorreu com o advento do chamado Pacote Anticrime, cuja propositura, realizada pelo então ministro Sergio Moro, no ano de 2019, foi a de endurecimento das legislações penais, processuais penais e correlatas, com a finalidade de coibição da prática de crimes, notadamente aqueles vinculados ao crime organizado. PODCAST Além de tratar do enrijecimento de medidas contra o crime or- ganizado, o Pacote Anticrime trouxe um conjunto de propostas legislativas com o objetivo de endurecer as penas relacionadas à corrupção e aos crimes com grave violência contra pessoa, trazendo, ainda, alterações legislativas na seara eleitoral e o endurecimento de normas do Sistema Penitenciário Federal, em que são isolados líderes de organizações criminosas. Tais alterações foram previstas levando-se em conta que, ape- sar de muitos apenados brasileiros não serem faccionados, eles estão, na maior parte das vezes, submetidos a lideranças que atuam dentro do sistema prisional, sendo quase que dia- riamente submetidos a punições severas quando não se sujei- tam a tais comandos, os quais incluem, muitas vezes, a própria morte do apenado. Após aproximadamente dois anos de tramitação no Congresso Nacional, no dia 30 de abril de 2021 foi publicada a Lei n° 13.964, de 24 de dezembro de 2019, (BRASIL, 2019) visando o aperfei- çoamento da legislação penal e processual, trazendo diversas alterações legislativas, entre as quais se destacam o aumento do limite máximo de cumprimento de pena de reclusão e detenção alterada para até 40 anos. Outro dispositivo legal bastante discutido diz respeito ao en- rijecimento das normas relativas ao Sistema Penitenciário Federal (SPF), prevendo limitações à visitação dos custodia- dos nas unidades penitenciárias federais. Isso porque, como veremos adiante, o sistema prisional em questão é destinado a abrigar lideranças criminosas que atuam dentro e fora dos presídios estaduais. CURSO DE INTRODUÇÃO À INTELIGÊNCIA PENITENCIÁRIA – CIIPEN MÓDULO 2 | Inteligência Penitenciária Aplicada 46 Desse modo, a Lei n° 13.964 prevê que todas as visitas a cus- todiados do SPF sejam realizadas sem contato físico, ou seja, em parlatórios; sendo monitoradas por áudio e vídeo, caso seja obtida autorização judicial do Juiz da Execução Penal Federal do estabelecimento. Além disso, todos os meios de comunica- ção entre presos do referido sistema deverão ser monitorados, inclusive as correspondências. O dispositivo legal também destaca que as visitas nos esta- belecimentos penais federais deverão obedecer a critérios de agendamento, a exemplo do que deverá ocorrer com os presos submetidos ao Regime Disciplinar Diferenciado (RDD). Como retomaremos adiante, apesar de ter normas rígidas, o Sistema Penitenciário Federal não se constitui em regime disciplinar diferenciado, mas em um estabelecimento prisional destinado a atender um público específico durante um prazo determinado. SAIBA MAIS Acesse a Lei n° 13.964 na íntegra, disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13964.htm. 3.2 O organograma da Atividade de Inteligência no Brasil: aspectos ideais e factuais O termo “inteligência” tem sido cada vez mais usual no mundo globali- zado em que vivemos. Fala-se em inteligência estratégica, inteligência emocional, inteligência de segurança, inteligência financeira, inteligência organizacional etc. Importa entender que o termo inteligência está diretamente relacionado a uma ação, que consiste em conhecer e compreender algo no intuito de resolver problemas e até mesmo de se antecipar a eles. Nesse contexto, sabe-se que a Atividade de Inteligência existe desde tempos muitos remotos, sendo o texto bíblico rico em citações nas quais grandes lideranças mandavam conhecer os territórios; ou, ainda, como aponta Sun Tzu (2010) em “A Arte da Guerra”, aquele que conhece http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13964.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13964.htm CURSO