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A CONSTITUIÇÃO
1 – Supremacia constitucional.
A supremacia da Constituição é a especial característica que lhe confere predominância sobre as demais normas jurídicas, subordinando-as aos seus comandos.
É justamente tal qualidade de supremacia que atribui a determinada norma jurídica a denominação de Constituição ou de leis constitucionais, estas as normas supremas que não estejam consolidadas em uma coletânea, como aquela.
Não há, assim, como dissociar a Constituição da supremacia. 
Veja-se a lição de Humberto Quiroga Lavié: Que es la supremacia constitucional? Es la particular relación de supra y subordinación en que se encuentran las normas dentro de un ordenamiento jurídico determinado: porque, por virtud de la Constitución del Estado, un ordenamiento deja de ser un sistema coordinado de normas (como lo es el derecho internacional o como lo fue el derecho consuetudinario o primitivo.2
Segundo o mesmo mestre, são decorrências do princípio da supremacia:
1 - O princípio da unidade em que as normas inferiores devem se adequar às normas superiores contidas na Constituição, havendo-se todo o conjunto normativo ou o ordenamento jurídico de um país como uma só unidade normativa, em que todas as normas jurídicas, decorrentes ou não da função legislativa do Estado, mas por este aceitas, são consideradas como uma unidade;
2 - O princípio do controle da constitucionalidade, isto é, de verificação da compatibilidade das normas inferiores com a Constituição através dos processos que integram o mencionado controle;
3 - O princípio da razoabilidade, segundo o qual as normas infraconstitucionais devem ser instrumentos ou meios adequados (razoáveis) aos fins estabelecidos na Constituição, daí se extraindo o pressuposto de residir na Constituição a suprema fonte dos instrumentos jurídicos;
4 - O princípio de rigidez para a reforma da Constituição, que não pode ser feita pelo mesmo procedimento de elaboração da norma legislativa comum; de tal princípio é que se busca a distinção entre as normas, de forma a conferir supremacia à Constituição;
5 - A distinção entre poder constituinte e poder constituído, que é a distribuição de competência funcional a determinar quem pode criar os diversos níveis jurídicos;
6 - A gradação do ordenamento jurídico em diversos níveis, desde a norma fundamental abstrata até o ato de execução pelo órgão público;
1 Supremacia vem do latim superus, adjetivo, que significa superior, que está mais acima, mais elevado, e supremus, superlativo de superus, conduzindo ao francês superiorité e suprématie, ao inglês supremacy, como nos ensina o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Rio de janeiro, Nova Fronteira, 2a edição, 9a impressão, p. 744.
2 Humberto Quiroga Lavié, Derecho Constitucional, Buenos Aires, Depalma, 1987, p. 47.
7 - A garantia do Estado de Direito, pois os órgãos públicos se encontram limitados pelas determinações do poder constituinte.
1.1 - Significado do vocábulo Constituição
O vocábulo Constituição vem do verbo latino constituere, empregado por Cícero no sentido de "pôr, colocar, determinar, ordenar, dispor, mandar". Daí veio constitutio, que Cícero utilizou nos seguintes sentidos: constitutio belli: a disposição, a ordem da guerra; constitutio causae: o estado da causa; constitutio corporis: a compleição do corpo. O mesmo Cícero, sobre a constituição como organização jurídica do povo, considera a res publica como o agregado de homens associados mediante um consentimento jurídico e por causa de uma utilidade comum.
Na Idade Média, a lei fundamental correspondia, de início, à sedimentação, em termos vagos, de um conjunto de princípios ético-religiosos e de normas consuetudinárias ou pactícias, que vinculavam reciprocamente o rei e as várias classes sociais. Exemplo de tais normas é a conhecida Magna Charta Libertatum, de 1215, que João sem Terra se viu compelido a conceder aos barões ingleses.
Diferenciavam-se as leis do reino e as leis do rei, as primeiras eram leis fundamentais da sociedade, uma espécie de lex terrae e de Direito Natural que o rei devia respeitar, pois suas leis não poderiam alterar.
1.2 - O sentido político
Anotou Santi Romano que, tecnicamente, a palavra "constituição" é empregada como sinônimo de organismo ou corpo social, ou seja, de instituição, tendo uma estrutura, uma ordem, uma organização, um status, mais ou menos estável e permanente, que reduz à unidade os elementos que o compõem, conferindo-lhes individualidade e vida própria. 
Se "constituição" se confunde com o "modo de ser" de uma determinada sociedade, temos que todos as organizações de poder (ainda quando tais organizações não eram conhecidas como "repúblicas" ou "Estados") sempre tiveram uma constituição, mesmo quando tal constituição acabasse por representar, tão-somente, a última vontade de uma autocrata.
Pode-se, então, em decorrência, dizer que toda sociedade organizada tem uma Constituição, isto é, um peculiar modo de ser.
Constituição, aí, como modo de ser da organização do poder, é um conceito estritamente político.5
1.3 - O sentido jurídico
A constituição de um Estado é a organização regular de todas as magistraturas, principalmente da magistratura que é senhora e soberana de tudo. Em toda parte, o governo do Estado é soberano. A própria constituição é o governo. Quer dizer que nas democracias, por exemplo, é o povo que é soberano. Ao contrário, na oligarquia, é um pequeno número de homens. Também, diz-se que essas duas constituições são diferentes. (Aristóteles).
Francisco Antônio de Souza, Novo Dicionário Latino-Português, Porto, Lello & Irmão, Editores, 1984, p. 215. 
Santi Romano, Princípios de Direito Constitucional Geral, tradução de Maria Helena Diniz, São Paulo, Ed. Revista dos Tribunais, 1977, p. 3.
Política é palavra que vem do grego “polis”, a significar a cidade que, no mundo antigo, era a dimensão comunitária em que viviam as pessoas.
Extrai-se de tal ensinamento que não se pode compreender "constituição" sem o sentido de "organização" ou "modo de ser"; daí porque o art.16 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, afirmava que toda sociedade, na qual não está assegurada a garantia dos direitos, nem determinada a separação dos poderes, não tem constituição.
Assim, não basta que haja a Constituição como fato político - é necessário que a Constituição tenha força jurídica no sentido de impor as condutas da sociedade, do Estado e dos indivíduos, limitando o exercício do poder, dando uma certa forma de organização ao próprio poder e à sociedade. A Constituição é, assim, um conceito jurídico ao significar o conjunto de normas jurídicas, dotadas da qualidade de supremacia, que impõem condutas à sociedade, ao Estado e ao indivíduo.
1.4 – A Constituição como transição entre a decisão política e a decisão jurídica.
A Constituição, no dizer de Carl Schmitt, é a transição entre o político e o jurídico; assim, a decisão política do modo de organização da sociedade vai ganhar força de lei e obrigatoriedade quando se consubstancia no texto constitucional.
Pouco adiantaria uma decisão política (como, por exemplo, de se implantar a monarquia ou o parlamentarismo ou se declarar que a saúde é acessível a todos) se não se tornasse obrigatória para todos tal decisão: é transformando a decisão política em norma de direito positivo que obriga a todos.
Como decisão política, a Constituição traz em si a carga de uma ideologia política (isto é, um peculiar modo de organização da sociedade), ideologia que, embora seja (em maior ou menor grau) expressão da vontade daqueles que elaboraram a norma constitucional, nem sempre corresponde a um modo de vida aspirado pela totalidade da população.
Quão mais democrática a sociedade (e mais dialética e controversas as decisões), mais se apresentam em confronto as diversas ideologias que impregnam o sentimento dos grupos e dos indivíduos. Daí porque Canotilho teve a oportunidade de comentar que "a confrontação de ideologias na discussão dos problemas constitucionais é ineliminável, dado que a interpretaçãoconstitucional remete para uma teoria de constituição que, por sua vez, vai terminar em teorias do Estado e da sociedade".
1.2. - Tipologia Constitucional
As constituições admitem diversas classificações ou tipos, evidenciando os múltiplos sujeitos, modos e conteúdo que podem apresentar.
A terminologia constitucional não é uniforme, embora a teoria da constituição ofereça caráter universal, necessariamente enfrentada em todos os países, em atenção aos caracteres próprios de sua cultura, a despeito da fonte comum residir no constitucionalismo liberal dos séculos XVIII e XIX.
Além do caráter universal, a multiplicidade dos tipos decorre, neste início do século XXI, do conteúdo mais abrangente dos textos constitucionais, correspondendo aos anseios populares de maior intervencionismo do Estado na ordem econômica e social, assim provendo serviços públicos essenciais, diversamente do clássico Estado liberal, quando pouco se exigia dos serviços públicos.
Em decorrência de tais fatores, a presente tipologia, despretensiosamente, submete-se a classificações mais comuns, no que diz respeito às citações doutrinárias.
Como é a Constituição um ato jurídico, sua classificação passa, necessariamente, pela classificação dos atos jurídicos, que leva em conta os seus elementos.
Assim, classificaremos as constituições quanto ao seu agente ou sujeito (isto é, quanto ao poder que as elaborou), forma ou processo (o modo pelo qual surgiu e se apresenta no mundo jurídico), objeto ou conteúdo ou matéria (quanto aos bens e interesses que tutela) e causa ou motivo (os fatos que a originaram).
2.1 - Formal e material
É a classificação que Herman Heller tornou conhecida, mas que hoje se tornou até mesmo desnecessária, salvo quanto ao extraordinário efeito que decorre da supremacia das normas formalmente constitucionais em face das demais normais.
Constituição, no sentido formal, abrange todas as normas jurídicas que têm como fonte o poder constituinte, gozando da prerrogativa de supremacia perante as outras normas jurídicas.
As normas jurídicas que decorrem do poder constituinte têm a forma ou aparência de texto constitucional para que possam ser distinguidas das outras normas jurídicas; como decorrem do poder constituinte originário ou constituído, as normas que se encontram na Constituição indicam o conteúdo das normas elaboradas pela função legislativa.
Em países de constituição rígida – quando o processo de elaboração das normas constitucionais de emenda ou revisão é bem mais solene que o processo de elaboração das normas legislativas – eventual norma infraconstitucional que se contraponha à norma constitucional formal é reputada inconstitucional, com todos os devastadores efeitos daí decorrentes.
Qualquer norma derivada do poder constituinte (seja ele delegado, revolucionário ou de reforma) tem o status de norma constitucional formal, ainda quando o seu conteúdo ou objeto não se refira a matérias típicas das constituições (por exemplo, o disposto no ADCT, art. 40, mantendo a Zona Franca de Manaus pelo prazo de 25 anos - tal norma é constitucionalmente formal, embora o seu conteúdo não seja constitucional, pois deveria ser objeto de norma infraconstitucional; contudo, ganhou galas de norma constitucional formal justamente para ficar imune às alterações ditadas por eventuais maiorias parlamentares no exercício da função legislativa).
No constitucionalismo clássico, as matérias constitucionais restringiam-se, tão somente, à organização dos poderes (em seu sentido mais amplo) e à declaração dos direitos individuais, mesmo porque se aspirava a um Estado absenteísta, que não restringisse a atividade privada.
Neste aspecto, veja-se no art. 82 do Código Civil de 1916 e no art. 104 do Código Civil de 2002 os elementos do ato jurídico: agente ou sujeito (quem manifesta a vontade), forma (o meio de exteriorização da vontade) e objeto (sobre o que incide a manifestação de vontade). A causa não é elemento essencial, mas acidental, como se refere no art. 90 do Código de 01916.
Neste início de século XXI, em que se exige do Estado uma multidão de serviços públicos (como educação, seguridade, cultura, lazer etc.), cada vez mais se dilargam os textos constitucionais, inclusive na previsão dos direitos de minorias (idosos, deficientes etc.) - daí um novo fenômeno desafia o jurista: textos constitucionais que alcançam centenas de artigos e milhares de disposições. 
Não há limites para o legislador constituinte delegado ou revolucionário dispor sobre as normas constitucionais formais, existindo tais limites para o legislador constituinte derivado no que se refere, tão somente, sobre as cláusulas pétreas ou cerne da constituição ou cláusulas de perpetuidade (art. 60,§ 4º).
No sentido material, substancial ou de conteúdo, a Constituição hodierna é o conjunto de normas dispondo sobre os temas escolhidos pelo legislador constituinte, isto é, os temas considerados relevantes sobre a organização do poder através da estruturação do Estado, os direitos individuais, a forma básica da Economia e os principais valores sobre os quais se assenta a vida social.
A ideia de constituição material ou substancial do final do século XVIII até o início do século XX era diversa da ideia que se tem no final do século XX e neste início de milênio, bastando se ver o que estava na Constituição do Império do Brasil de 1824, no art. 178: “É só constitucional o que diz respeito aos limites e atribuições respectivas dos poderes políticos e aos direitos políticos e individuais dos cidadãos; tudo que não é constitucional pode ser alterado, sem as formalidades referidas, pelas legislaturas ordinárias”.
Veja-se a lição de Canotilho:
“O critério substancial ou material considera primordial o conteúdo da norma, independentemente de ela ser "produzida" ou não por uma "fonte constitucional". Ao apontar para a dimensão material, o critério em análise coloca-nos perante um dos temas mais polêmicos do direito constitucional: "qual o conteúdo ou matéria da constituição?" Certo nos parece que o conteúdo da constituição varia de época para época e de país para país. ... Também é correto dizer que não há "reserva de constituição" no sentido de que certas matérias têm necessariamente de ser incorporadas na constituição pelo poder constituinte. Para além disso, pode afirmar-se que, historicamente (na experiência constitucional), foram consideradas matérias constitucionais, par excelente, a organização do poder político (informada pelo princípio da divisão de poderes) e o catálogo dos direitos, liberdades e garantias. Posteriormente, e ainda em termos de experiências constitucionais, verificou-se o "enriquecimento" da matéria constitucional através da inserção de novos conteúdos, até então considerados de valor jurídico-constitucional irrelevante, de valor administrativo ou de natureza "subconstitucional" (direitos econômicos, sociais e culturais, direitos de participação e dos trabalhadores, constituição econômica etc.).
Somente aqueles que desconhecem os rumos que a Ciência Política adotou no tumultuado século XX, a colocar o Estado a serviço do indivíduo e não este a serviço daquele, ainda tecem loas à Constituição estadunidense de 1787 que, originariamente, em treze artigos (ou, no nosso sistema, capítulos) prevê toda a organização do Estado americano. Ainda hoje, alguns dizem que a Constituição de 1988 é imperfeita porque é extensa em comparação com a Constituição de 1787... Outros sentem vergonha da nossa profícua produção de textos constitucionais, pois desde a Independência até hoje já tivemos 8 Cartas Constitucionais. Contudo, neste aspecto, a gloriosa França de muito nos ultrapassa, pois conta, até hoje, com 14 Constituições, em contar outros atos fundamentais que não mereceram tal denominação (Constituições de 1791, 1793, 1795, do ano VIII, do ano X, do ano XII, a Carta de 1814, o Ato Adicional de 1815, a Carta de 1830, as Constituições de 1848, 1852, 1875, 1946 e a atual, a da V República, promulgada em 4 de outubro de 1958).
No modo de ver dos últimosséculos, nem toda norma formalmente constitucional o é materialmente - por exemplo, no artigo 236 da vigente Constituição trata-se de matéria que não é materialmente constitucional, embora o seja formalmente. A recíproca também é verdadeira, pois nem toda norma constitucional materialmente está inserida na Constituição, existindo normas infraconstitucionais cujo conteúdo explicita a Constituição, como se vê, por exemplo, em normas orgânicas, como as leis complementares do Ministério Público (referidas nos arts. 61, § 1º, II, d; 128, § 5º) e do Estatuto da Magistratura (art. 93), as normas internas dos partidos políticos, que deverão estabelecer normas de fidelidade e disciplina partidárias (art. 17, § 1º, in fine) e até mesmo em interpretações jurisprudenciais (mormente aquelas do Supremo Tribunal Federal e decorrentes da prática do Congresso Nacional) que acabam valendo como constituição material.
A constitucionalização de determinadas matérias em países de constituição rígida, como a nossa, faz com que tais matérias fiquem intangíveis à legislatura ordinária e às mudanças que o Parlamento sofre em cada eleição periódica e, também, nos julgamentos das causas pelos tribunais, em face do princípio da reserva de plenário decorrente do disposto no art. 97, que se confira aos atos normativos uma presunção de constitucionalidade que somente pode ser afastada pelo Pleno ou respectivo órgão especial dos Tribunais, afastando o poder dos órgãos fracionários de proclamar a inconstitucionalidade ou, até mesmo, de deixar de aplicar a lei no caso em julgamento.
Quando determinada matéria ganha status de norma constitucional formal, fica protegida das variações mais periódicas das correntes de opinião dos parlamentos ou congressos legiferantes (criar ou elaborar leis).
Daí que, cada vez mais, as constituições deixam de ser sintéticas para serem analíticas, deixando de ser sucintas e ganhando em minuciosidade, e a exigir, cada vez mais, em atenção ao princípio da rigidez, que se editem novas emendas constitucionais para a integração do seu sentido.
A extensão do objeto da constituição material decorre de uma visão da Constituição como integração básica da comunidade estatal.
Sobre tal ponto, Reinhold Zippelius observa: 
"O conjunto de normas que formam a "Constituição em sentido material" (as decisões políticas fundamentais do Estado) não se deixa definir exatamente, mas somente de modo aproximado. Estão incluídas nelas, segundo o modo atual de entender a Constituição, os preceitos basilares acerca da organização do Estado: principalmente os que dizem respeito aos órgãos mais elevados do Estado, ao modo como são designados, às tarefas e competências que têm, e ao modo como colaboram entre si; bem como ainda as disposições principais acerca dos direitos políticos dos cidadãos, as garantias fundamentais e os princípios e juízos de valor políticos essenciais que estão na origem daqueles preceitos organizadores e garantias jurídicas. A limitação da Constituição às linhas gerais de ordem política deve torná-la apta a ser completada; carece de sê-lo e, portanto, confere-lhe capacidade de adaptação às situações em evolução. A capacidade de adaptação torna suportável e possível conservar um e o mesmo modelo de ordem política, através das transformações das situações históricas e políticas durante períodos mais largos." 
11 José Joaquim Gomes Canotilho, Direito Constitucional, Coimbra, Ed. Almedina, 1989, 4a. ed., p.65.
12 Reinhold Zippelius, Teoria Geral do Estado (Allgemeine Staalehre), Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1984, 2a. ed., p. 36.
2.2 - Promulgada e outorgada
Em termos gerais, a constituição outorgada é aquela imposta pelo poder constituinte revolucionário, isto é, por um poder constituinte não delegado pelo povo através de escolha de representantes eleitos. A constituição promulgada é aquela elaborada por uma assembléia nacional constituinte, escolhida pelo povo.
As Constituições brasileiras elaboradas por Assembleias Constituintes foram aquelas promulgadas em 24 de fevereiro de 1891, 16 de julho de 1934, 18 de setembro de 1946 e a atual Constituição, de 5 de outubro de 1988.
Caso especial é a Constituição anterior, de 24 de janeiro de 1967, que foi "promulgada" pelo Congresso Nacional, este transformado de Poder Legislativo em Assembleia Nacional Constituinte pelo Ato Institucional nº 4, de 07 de dezembro de 1966, baixado pelo Presidente Castelo Branco, que convocou o Congresso pelo período de 12 de dezembro de 1966 a 24 de janeiro de 1967 para apreciar projeto de Constituição elaborado pelo Executivo, com prazo restrito de apreciação e de interposição de emendas. A Constituição de 1967 foi "promulgada" no dia estabelecido no Ato Institucional nº 4.
Em 17 de outubro de 1969, os Ministros da Marinha de Guerra, do Exército e da Aeronáutica, no exercício do poder supremo em face do impedimento que eles mesmos declararam do Presidente Costa e Silva e seu Vice-presidente, Pedro Aleixo, outorgaram a Emenda Constitucional nº 1, que alterou profundamente a redação original da Constituição de 1967. As Emendas de nºs 7 e 8 também foram outorgadas em abril de 1977 pelo Presidente Ernesto Geisel, mas todas as outras foram promulgadas pelo Congresso Nacional, no exercício do poder constituinte instituído também chamado de poder constituinte derivado, constituído, de reforma ou de emenda.
Em tema de constituição promulgada ou outorgada, o que se vê no Direito Comparado é o debate subjacente da legitimidade da Constituição, isto é, o seu caráter de aceitação pela comunidade como meio de resolução dos conflitos entre os Poderes do Estado e entre os grupos sociais.
Assim, constituições e leis constitucionais que foram outorgadas pelos governantes do momento acabam ganhando foros de legitimidade e orientando a atuação social, como, por exemplo, a Magna Charta Libertatum, de 1215, outorgada por João sem Terra, ou a Constituição do Império do Brasil, de 1824: aquela até hoje consubstancia documento importante no conjunto de leis esparsas e práticas que se denomina de “Constituição britânica”, e esta durou até 1889, quando se proclamou a República, embora até hoje celebrada pelo seu caráter liberal.
2.3 - Rígida, flexível e semirrígida
A Constituição rígida é aquela cujo processo de elaboração de emendas constitucionais (o exercício do poder constituinte de reforma) é diverso do processo de elaboração das normas legislativas infraconstitucionais, daí decorrendo que as decisões previstas na Constituição somente poderão ser revistas por um processo mais solene e diverso que o processo destinado às outras questões.
Já a Constituição flexível é aquela que permite sua reforma pelo mesmo processo estabelecido para a elaboração das leis ordinárias.
Assim, somente em países de constituição rígida há que se falar em controle de constitucionalidade das leis, as quais não podem ser incompatíveis com a norma maior.
Instituiu-se a diferenciação entre constituição rígida e flexível para propiciar meio político de controle dos Parlamentos, pois, sem a Constituição rígida, poderiam eles atuar sem nenhuma limitação. 
Sobre a distinção entre constituição rígida e flexível, veja-se a obra clássica de Lord James Bryce13 embora seja justamente o Reino Unido o exemplo clássico na Ciência Política de constituição flexível, a despeito de algumas atenuações, como se depreende do antigo brocardo de que o Parlamento pode tudo, exceto transformar um homem em mulher.
Na Carta do Império de 1824, o art. 178 previa que somente era matéria constitucional o que dissesse respeito à organização dos poderes e à declaração dos direitos - tudo o mais poderia ser alterado pela legislação ordinária. Tal sistema é denominado de constituição semi-rígida, ou, segundo outros, de constituição semi-flexível.
Hans Kelsen denomina constituições pétreas aquelas que não podem ser reformadas14 e de constituições relativamente pétreas aquelas que não permitem a reforma em alguns dispositivos.
Tal classificação indica que a Constituição de 1988 é relativamentepétrea, pois o disposto no art. 60, § 4º inibe que se proceda à reforma no que diz respeito à abolição dos temas ali referidos.
1.2.4 - Real (ou efetiva) e ideal
Ferdinand Lassale observou que a Constituição real nem sempre coincide com a Constituição formal, decorrendo daí que ambas também podem não coincidir com o sentimento ideal de um determinado povo, em dado momento histórico, sobre como seria a Constituição.
A Constituição real ou efetiva refere-se às efetivas relações de poder existentes na sociedade; a constituição ideal seriam aquelas relações pretendidas pela comunidade - ambas, evidentemente, nem sempre coincidem com a constituição formal que seria, teoricamente, a base de toda a organização social.
Vê-se, nitidamente, a distinção no que diz respeito à discriminação social que é um dos maiores males da sociedade brasileira: embora as constituições formais tenham dito, solenemente, que todos merecem tratamento igualitário, a realidade nunca correspondeu ao comando constitucional formal, embora seja uma das mais caras aspirações da sociedade, em seu conjunto.
Tipo extremado de Constituição ideal seria a constituição idealista utópica, a que se refere Oliveira Vianna em “O Idealismo na Constituição” 15 como nos conta Manoel Gonçalves Ferreira Filho, transcrevendo o autor fluminense antes citado: "O que realmente caracteriza e denuncia a presença do idealismo utópico num sistema constitucional é a disparidade que há entre a grandeza e a impressionante euritmia de sua estrutura e a insignificância de seu rendimento efetivo - e isto quando não se verifica a sua esterilidade completa."
13 Lord James Bryce, Studies in History and Jurisprudence, Oxford, Claredon Press, 1901, volume I, ps. 144/251
14 Paulo Bonavides, em expressão que já se tornou clássica, afirmou que admitir-se a absoluta inalterabilidade da Constituição será correr todos os caminhos para a revolução. Em outras palavras, a se admitir que as decisões postas no texto constitucional fossem inalteráveis, sem se adaptar aos novos tempos e sem permitir às atuais gerações o poder de regrar seus destinos, a Constituição certamente será rasgada e substituída por outra que for imposta pelo poder da revolução, movimento que a Ciência Política considera como a ruptura violenta da ordem jurídico-política e social.
15 Oliveira Vianna em “O Idealismo na Constituição” 15, São Paulo, Editora Nacional, 1939, 2a ed.
Evidentemente, como todas as demais leis, a Constituição pretende impor condutas e, assim atende a determinados valores, os quais, compreensivelmente, somente nela foram inscritos posto que a sociedade não os atende.
Neste aspecto, ao dizer que homens e mulheres são iguais em direito (art. 5o), a Constituição de 1988 pretende impor o dever-ser (a conduta ideal) que não corresponde ao ser (o que está acontecendo na sociedade). Se a sociedade não estivesse discriminando as mulheres, desnecessário seria anotar na Constituição tal comando.
2.5 - Dogmática (ou ideológica ou ortodoxa) e compromissória (ou pragmática ou utilitária).
A Constituição dogmática é aquela que tem em si a expressão de uma ideologia política determinada, como vemos na Constituição de 1937 e na Constituição soviética de 1936.
A Constituição da URSS, de 1936 foi rigorosa no atendimento aos princípios marxistas-leninistas, enquanto que a Constituição da antiga URSS, de 7 de outubro de 1977, em alguns momentos, admitia princípios diversos do ideal socialista mais puro.
Já a Constituição compromissória traduz um compromisso ou acordo ou transação ou consenso entre as diversas correntes políticas que a influenciaram – o que está na Constituição de 1988 decorre do acordo, transação e compromisso entre diversas correntes ideológicas que, na Assembleia Nacional Constituinte, em lento trabalho de quase dois anos, entabularam os termos do novo sistema constitucional, de forma que, se não agrade completamente a todos, ao menos também fica aceito por expressiva parcela do titular do poder constituinte.
O caráter compromissório da Constituição de 1988 é demonstrado por levantamento que se fez em 100 votações, entre os Direitos e Garantias Fundamentais e a Organização dos Poderes e Sistema de Governo: a assiduidade média foi de 425 constituintes entre 559 (76%) por sessão e a média de aprovação da matéria foi de 349 votos, equivalentes a 62% do plenário.
A aprovação do presidencialismo (344 contra 212 votos) representou uma maioria de 61% do plenário, presentes todos os constituintes.
O inciso referente ao direito de propriedade, com as ressalvas para a desapropriação, foi aprovado por 446 a 40, presentes 490 constituintes. O direito de herança foi garantido por 291 a 182 votos. Enquanto o mandado de injunção e o habeas data foram aprovados por 424 votos a 0 e 406 a 0, o controvertido mandado de segurança coletivo foi aprovado por nada menos que 326 a 103 votos.
Dois terços dos constituintes (66,7%) aprovaram a proteção do emprego contra despedida imotivada, com indenização compensatória, enquanto a jornada de trabalho de 44 horas passou por 464 votos a 5, o turno contínuo por 324 a 125, a licença para gestantes e pais por 337 a 67, assegurado o direito de greve por 436 votos a 38.
A constituição compromissória representa a efetivação de que a Política é a arte do possível, na expressão célebre de Otto von Bismarck, e, como ato político, a Constituição deve trazer em si os princípios mais relevantes, legitimando-se desde o seu nascimento e fazendo interessar, a todas as correntes de opinião, a sua mantença e aprimoramento.
Manoel Gonçalves Ferreira Filho, Estado de Direito e Constituição, São Paulo, Editora Saraiva, 1988, p. 91.
Como ato decorrente da Política, a Constituição de 1988 necessariamente traz em si as sequelas dos compromissos que representa, razão pela qual não tem, nem pode ter, uma homogênea visão de conjunto, e traz, em diversos momentos, dispositivos cujos comandos parecem conflitantes.
Tal conflito aparente de normas deve ser solucionado mediante as técnicas usuais de interpretação e não infirma a legitimidade da Lei Maior.
O processo de elaboração da nova Constituição, se foi dificultado pela inexistência de um anteprojeto específico, ao menos foi participativo e aberto a todas as pressões sociais - tal participação, não só pelo lobby realizado pelos grupos de interesse, pela ampla divulgação dos trabalhos no rádio e televisão, os debates na oportunidade de votação de cada tema, permitiu que houvesse uma legitimação da Constituição perante a sociedade, o que é extremamente favorável para sua aplicabilidade.
1.2.5.1. Estado democrático de Direito e Estado social de Direito
A Constituição porta, necessariamente, uma ideologia política, ou ideologia do Poder, ou ideologia do Estado, a significar o que se pretende da atuação do poder ou do modo de ser da sociedade.
Aí se inclui, neste compromisso entre diversas ideologias, o modo de atuação do Estado.
A palavra "Estado", no sentido de organização monopolística de poder, foi utilizada, pela primeira vez, por Nicolau Maquiavel, em “O Príncipe”, obra clássica sobre o poder escrita em 1512/1513, mas só impressa em 1531, quatro anos após a morte de seu autor.
Como organização política da sociedade, o Estado já era conhecido desde a Antiguidade como “polis, na Grécia; “civetas”, em Roma, que depois conheceu as expressões “res publica” e, mais tarde, “imperium” e “regnum”.
Jean Bodin, em “Os Seis Livros da República”, abreviadamente “A República”, além de tentar denominar o Estado como "república", realçou lhe a característica de soberania:
"República é um reto governo de muitos lares e do que lhe é comum, com poder soberano. Apresentamos esta definição em primeiro lugar porque, em todas as coisas, se deve procurar o fim principal e, em seguida, os meios de alcançá-lo. Ora, a definição não é mais do que o fim do assunto que se apresenta e, se não estiver bem alicerçado, tudo quanto sobre ela se construir logo desabará..."
Se, durante a época medieval, o poder imperial ou real era limitado pormuitas outras fontes de poder, feudais e municipais, em que a posição hierárquica na comunidade medieval, e até mesmo os cargos e ofícios públicos, eram propriedade privada garantida inclusive pelo direito sucessório e o poder de disponibilidade, gradualmente se tornou o Estado, com a formação dos grandes Estados Nacionais europeus, uma “organização institucionalizada da corporação territorial soberana”.
Hoje, os modernos Estados são, em sua maioria, Estados constitucionais (dependentes de uma Constituição supraestatal), em que o exercício do poder está repartido entre os órgãos estatais e grupos sociais (como se vê, por exemplo, na Constituição de 1988, no art. 205, sobre a autonomia das universidades; no art. 17, § 1º, sobre a autonomia partidária, inclusive com direito de antena etc.). A soberania estatal, assim, como monopólio do exercício do poder, decorre não do próprio Estado, mas da Constituição, que o "constitui".
O pragmatismo constitucional acaba por tolerar, também, condutas que se mostram ideologicamente contrárias, como, por exemplo, o então Presidente Fernando Collor, eleito no 2º turno concorrendo com o socialista Luiz Inácio Lula da Silva, iniciou o seu governo baixando medidas provisórias terrivelmente interventivas na Economia, sob o fundamento de combate à inflação, inclusive imobilizando o capital, em normas que não foram reputadas inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal e que foram convertidas em lei pelo Congresso Nacional.
A característica principal do Estado é o exercício do poder, de forma monopolística, o que se denomina "coerção", ou, como observou Weber, que todas as formações políticas são formações de força, de tal maneira que se existissem somente agregações sociais sem meios coercitivos, já não haveria lugar para o conceito do Estado.
Em face da existência de Estados plurinacionais, hoje não mais é válido o conceito clássico de Bluntschil de que “o Estado é a nação politicamente organizada”. No entanto, para a existência do Estado, não se dispensam os elementos de poder, território e população, daí por que é aceitável o conceito de Georg Jellinek, citado pelo mesmo Bonavides: "a corporação de um povo, assentado num determinado território e dotada de um poder originário de mando".
Independentemente da ideologia política que elege seus fins e modo de atuação, o Estado moderno cada vez mais atua na vida social e econômica, compondo os conflitos de interesses. É o Estado, através da função legislativa, que escolhe os interesses que considera relevantes para o grupo social. Tais interesses, que seriam comuns, constituiriam o denominado “interesse público”, pelo qual o Estado vela e atua no sentido de ser alcançado.
É a sociedade, por seus representantes legislativos, que escolhe os bens e valores que considera imprescindíveis para a convivência social e a lei é que faz a discriminação, seja por forma direta, como no art. 121 do Código Penal, em que se considera o homicídio matéria de interesse comum, seja por forma indireta, quando uma lei tributária institui determinada forma de protecionismo, ou quando uma lei cria uma "reserva de mercado" ao instituir proibições para grupos estrangeiros.
Em nosso sistema jurídico, que acolhe o princípio liberal da liberdade, o que a lei não limita é permitido ao indivíduo fazer, decorrendo daí que o interesse do indivíduo só se restringe pelo interesse antes escolhido pela lei.
O art. 5o, II, da Constituição dispõe: “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei.” Embora a redação do dispositivo possa ser acoimada de imperfeita, é redação tradicional em nossas Constituições, desde a do Império, art. 179, inciso I.
Em seu conteúdo, a liberdade pode ser vista sob três aspectos: 1) a ausência de condições e limites; 2) como uma necessidade individual condicionada pelo meio em que se vive; e 3) o poder individual de escolha.
Cada um desses aspectos corresponde às visões inglesa, francesa e alemã, e são diferentes da visão antiga, segundo a clássica diferenciação que Benjamim Constant fez, no século passado. Para os antigos, a liberdade era o poder de intervir nos negócios públicos, enquanto, para os modernos, tem conteúdo nitidamente individual de atuação.
O Estado Democrático de Direito, de cunho liberal, fundando-se na diretriz ideológica da igualdade dos homens, induziu ao conceito formal de Constituição, extraindo, daí, o conceito de legalidade como o substrato jurídico do poder.19 A lei é exigida para o exercício do poder porque o administrador somente atuará quando e se houver determinação legal, pois sua atuação implica, necessariamente, restrição à liberdade individual. A fórmula constitucional do art. 5o, II, de que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei” tem, como decorrências, o princípio da legalidade administrativa (art. 37, caput), o princípio da legalidade penal (art. 5o, XXXIX), o princípio da legalidade tributária (art. 150, I), o princípio da vinculação do juiz à lei (Código de Processo Civil, art. 126, parte final e art. 127: “o juiz só decidirá por equidade nos casos previstos em lei”) e outros visando encadear a atuação dos Poderes Executivo e Judiciário, e respectivos poderes administrativos, à vontade, em primeiro lugar, do poder constituinte, e, a seguir, do Poder Legislativo. Daí a importância da constituição formal, como norma prevalecente sobre todas as outras, e da pirâmide jurídica a que se refere Hans Kelsen.
18 Citado por Paulo Bonavides, Ciência Política, Rio de Janeiro, Editora Forense, 1976, 3a ed., p. 54.
19"O Poder Legislativo está vinculado à ordem constitucional; os Poderes Executivo e Judiciário obedecem à lei e ao Direito" (Lei Fundamental de Bonn, art. 20, 3).
O Estado Social de Direito, de cunho transformador, funda-se na diretriz ideológica da desigualdade latente entre os homens, induz ao conceito material da Constituição e desconfia da norma genérica e abstrata, porque compreende que não lhe é possível a previsão de todas as situações. Pretende que não haja contradição ontológica entre legislação e decisão, lei e decreto ou sentença, que devem estar em relação dialética, porque se complementam. Se o velho Estado de Direito do liberalismo fazia o culto da lei, o novo Estado Social de Direito faz o culto da Constituição, porque “a lei às vezes degrada e avilta, corrompe e escraviza em ocasiões sociais e políticas de profunda crise e comoção, gerando a legalidade das ditaduras, ao passo que a Constituição é sempre a garantia do poder livre e da autoridade legítima exercitada em proveito da pessoa humana”.
1.2.6 - Codificada (ou consolidada) e dispersa. 
A Constituição codificada é aquela formulada em uma unidade de sistema (como a Constituição de 1988), enquanto a Constituição dispersa é aquela formulada em diversos atos legislativos bem como pelo costume (exemplo, a Constituição do Reino Unido).
Os termos vagos dos dispositivos constitucionais cada vez mais desprestigiam o texto constitucional e afirmam outras fontes constitucionais que não a Constituição formal, como, por exemplo, entre nós, o Supremo Tribunal Federal no seu imprescindível papel de intérprete da Constituição. A pesquisa das decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal é hoje a costumeira tarefa não só dos constitucionalistas como de todos aqueles que se inclinam sobre o estudo do Poder.
1.2.7 – Escrita ou costumeira, textual ou dispersa. 
A Constituição escrita ou textual é aquela formulada em documentos escritos enquanto a costumeira decorreria tão-somente dos costumes. A Constituição costumeira é tipo histórico, não mais encontrado, embora alguns autores ainda denominem constituição costumeira às constituições dispersas, que são aquelas que não estão consolidadas em um texto codificado, mas compreendendo diversas leis fundamentais ou constitucionais.
1.2.8 - Originária e derivada
Karl Loewenstein distingue entre constituições originárias, que são aquelas que apresentam um princípio político novo (como a Constituiçãoamericana ao instituir o federalismo ou o presidencialismo) das constituições derivadas (que não inovam).
Jorge Americano conceituou a equidade como o poder do juiz aplicar, no caso concreto, a lei que se faria para regular o caso concreto.
A Constituição de 1988 é tipo originário ao criar, por exemplo, o remédio jurídico processual denominado habeas data, mas é derivada no sistema federalista ou presidencialista. A Constituição de 1934 foi inovadora ao criar a Justiça Eleitoral, como órgão judiciário encarregado de dirimir os conflitos eleitorais e gerir o processo eleitoral.
Vale notar que as grandes potências, no mundo atual, são aquelas que introduziram em seu processo político caracteres próprios, e quando assimilaram caracteres de outros povos o fizeram de forma a adaptá-los ao seu modo de ser.
Enfim, uma constituição excelente para um povo quase certamente não atenderá satisfatoriamente outra nação, pois cada sociedade tem características e individualidades próprias. A cópia estulta é inócua (não causa dano, prejuízo ou perigo), o importante é estabelecer seus próprios padrões, de acordo com as necessidades e o momento histórico.
Por derradeiro, em tema de controle de constitucionalidade, pode-se apontar que a Constituição de 1988 é tipo originário ao absorver os padrões que então subsistiam separadamente nos Estados Unidos da América (quanto ao controle incidental) e na Europa Continental (quanto ao controle concentrado).
1.2.9 - Sintética (ou genérica) e analítica
Jorge Vanossi distingue entre as constituições sintéticas, que são aquelas que expõem concisamente a organização do Estado e os direitos individuais, delegando ao legislador infraconstitucional a regulamentação, das constituições analíticas, que são minuciosas ao estruturar e organizar o poder.
O primeiro tipo predominava nos séculos anteriores, como vemos com a Constituição americana de 1787, que somente ganhou, em duzentos anos, 25 emendas.
Contudo, neste século XX, desde a Constituição de Weimar de 191921, com a normatividade constitucional da ordem econômica e com as previsões de direitos sociais, as Constituições passaram a ser analíticas, o que lhes aumentou o texto, exigiu repetidas emendas constitucionais e as colocou sob o fogo da crítica em face da necessidade de relaxamento quanto ao conteúdo (cláusulas pétreas) que devem remanescer inalteráveis.
As Constituições da Índia (395 artigos) e da Iugoslávia são consideradas as mais extensas, o que, no entanto, não lhes prejudica a aplicabilidade ou a crença popular em sua eficácia. Neste século XX, as Constituições analíticas vieram representar, na realidade, uma tentativa de limitar o espaço deixado à atividade discricionária do legislador a partir do momento em que o intervencionismo estatal é a principal alavanca para as mudanças sociais: coloca-se o tema na Constituição para torná-lo imune às alterações por eventuais maiorias parlamentares.
1.2.10 - Normativas, nominais e semânticas
Loewenstein também distingue entre Constituição normativa, que é aquela que regula a limitação do poder público e o respeito aos direitos individuais, sendo efetivamente aplicada e respeitada, pois é adequada à realidade que regula. Tal classificação diz respeito mais à aceitação e efetividade da Lei Maior.
Já Constituição nominal é aquela que, embora também limitando o poder público e proclamando os direitos individuais, não é cumprida por não se adaptar à realidade social em que está inserida. Lavié coloca como lamentáveis exemplos algumas constituições latino-americanas.
Tão grande foi o prestígio da Constituição de Weimar que Hitler até mesmo a violentou em muitas oportunidades, mas não ousou revogá-la expressamente.
Finalmente, a Constituição semântica é aquela que, embora sendo cumprida, não regula adequadamente a atuação estatal, nem garante os direitos fundamentais; está muito mais na letra do que na vida
2.11 - Definitivas e de transição
Constituições definitivas são aquelas que se estabelecem em uma fase de consolidação, como, por exemplo, a Constituição estadunidense, que já estaria institucionalizada, isto é, portando instituições que são aceitas pela comunidade.
Já a Constituição de transição é aquela que surge em uma fase ainda de maturação do processo político, como, por exemplo, a Constituição de 1988, cujo caráter transitório é até mesmo reconhecido pela Assembleia Constituinte, prevendo, no art. 3º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, a revisão constitucional pela legislatura de 1993.
Note-se o processo de emenda ou de reforma da Constituição já se disseminou em toda parte, assim abdicando o constituinte originário do inviável poder de dispor de forma inalterável para as gerações vindouras.
2.12 - Constituição econômica
Canotilho entende como constituição econômica o "conjunto de preceitos e instituições jurídicas que, garantindo os elementos definidores de um determinado sistema econômico, instituem uma determinada forma de organização e funcionamento da economia e constituem, por isso mesmo, uma determinada ordem econômica".
José Alfredo de Oliveira Baracho invoca Souza Franco para distinguir três aspectos fundamentais na constituição econômica: 1) constituição socioeconômicas; 2) constituição financeira pública e 3) constituição econômica em sentido estrito para ordenação jurídica dos aspectos principais da atividade econômica.
2.13 – Constituição do Estado
Alguns autores assim denominam a parte da Constituição que se dedica à organização dos poderes e ao funcionamento dos órgãos públicos, dispondo sobre o Estado. Na Constituição de 5 de outubro seriam os títulos III (Da Organização do Estado), IV (Da Organização dos Poderes), V (Da Defesa do Estado e das Instituições Democráticas) e VI (Da Tributação e do Orçamento).
A distinção só oferece importância prática no que diz respeito à interpretação do texto constitucional, pois o aparente conflito de normas que estejam situadas, respectivamente, no título reservado às declarações de direitos e em título referente à organização estatal, acaba sendo resolvido em favor da norma que disponha sobre os direitos e a liberdade, em detrimento da norma que estrutura o poder - poder-se-ia até mesmo dizer que, em Direito Constitucional, vale a parêmia in dubio pro Libertate, pois a Constituição tem, por objeto, a liberdade e não a opressão.
2.14 - Constituição total
O notável mestre Luiz Pinto Ferreira nos fala a respeito da constituição total, que seria uma visão compreensiva e sintética da Constituição, na complexidade intrínseca dos seus aspectos econômico, sociológico, jurídico e filosófico, a fim de abranger o seu conceito em uma perspectiva unitária: 
"A Constituição total seria, assim, como um edifício de quatro andares: embaixo a infra-estrutura das relações econômicas, a técnica de produção e de trabalho, como símbolos de uma economia individualista ou coletivista; logo em seguida as representações coletivas da sociedade, os sentimentos e instituições dominantes da comunidade humana, como reflexo da consciência comunal; depois, o sistema de normas jurídicas que, se inspirando nos antecedentes econômicos e histórico-sociais, transluzem essa consciência social, corporificando-a em uma carta política; e, acima de tudo, os princípios da justiça, direito natural e segurança coletiva, como o ideal do regime constitucional perfeito".
2.15. Constituição diretiva.
Assim têm sido denominadas as constituições que limitam a atuação do legislador, prevendo não só o processo de elaboração das normas (mesmo porque se diz que a Constituição é o Estatuto do Legislador) mas, principalmente, quanto ao conteúdo das normas, exigindo rigidamente do legislador, o que lhe limita o poder político de dispor na regulação da sociedade e do Estado.
2.16. Constituição dirigente e constituição garantia.
A constituição garantia, tipicamente liberal, é aquela cujas normas intentam garantir os direitos individuais, o que implica, necessariamente, em limitar a atuação do Poder Público, mantendo o status quo. Jáa constituição dirigente é a que intenta transformações sociais, o que implica, necessariamente, em restrições às garantias individuais.
2.17. Constituição temperada
Assim são denominados os textos constitucionais do início do século XIX que tentavam conciliar, como a nossa Constituição de 1824, o poder do rei e o então ascendente poder democrático, como preconizava o mestre de Estrasburgo, Benjamim Constant.
Aliás, a expressar a transição entre o absolutismo real, fundado no poder teológico, e a democracia, consta no exórdio da Carta Imperial de 1824: Dom Pedro I, por graça de Deus e unânime aclamação dos povos, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil...
2.18. Constituição mista
Há autores que usam tal denominação quando a Constituição objeto de seu estudo admite influências diversas ou mesmo previsões normativas conflitantes, como, por exemplo, quando não preserva a ideia de Montesquieu quanto à divisão dos Poderes, ou quando admite, como a Constituição de 1988, mitigações parlamentaristas no regime presidencialista.
3. A Constituição não é imparcial
Não se diga que a Constituição, produto humano, reste por ganhar atributos divinos com a simples circunstância de sua promulgação.
Evidentemente, como manifestação de vontade, impondo condutas à sociedade e ao Estado, a Constituição é interessada na prossecução de seus altos fins: As garantias jurídicas, ou seja, vincular as funções do Estado a normas gerais, protegem, junto com as liberdades codificadas no sistema de Direito Privado burguês, a ordem do “MercadoLivre”. Intervenções estatais sem autorização através de uma lei não são, da perspectiva de seu sentido sociológico, primariamente condenáveis por ferirem princípios de justiça estatuídos por direito natural, mas simplesmente porque seriam imprevisíveis e, por isso, quebrariam a espécie e a extensão de racionalidade que há no interesse das pessoas privadas operando capitalisticamente. Senão faltariam exatamente aquelas “garantias da previsibilidade” que já Max Weber descobriu no capitalismo industrial: o cálculo das chances de lucro exige um intercâmbio que transcorra de acordo com as expectativas de probabilidade. Por isso é que estar no âmbito da competência e de acordo com uma justiça formal se tornaram critérios do Estado de Direito burguês: administração “racional” e justiça “independente” são, a nível da organização, os seus pressupostos. A própria lei, a que o Executivo e a Justiça precisam se ater, tem de ser igualmente obrigatória para todos: não deve, em princípio, permitir nenhuma dispensa ou privilégio. 
A Constituição é ato jurídico e por si só produz alteração no mundo jurídico e fático. Embora o ato jurídico supremo, ou Lex Legum, submete-se aos mesmos influxos que atuam sobre os demais atos jurídicos, o que se torna mais relevante a partir do momento que uma nova Constituição, portando a característica de inovação, constitui manifestação de vontade visando a satisfação de interesses que, por si só, se conflitam outros interesses dentro da sociedade.
Sob o título “O negócio jurídico como regulamentação de consequências jurídicas e como “situação de fato”, ensinou Karl Larenz: Os negócios jurídicos, ... , não são situações de fato “neutrais” a respeito de suas consequências jurídicas, mas situações de fato, a que é inerente o sentido de visarem produzir essas consequências jurídicas. Não alcançam significado jurídico só através da circunstância de poderem ser subsumidos à previsão duma norma jurídica, mas possuem uma significação jurídica, em virtude do sentido do ato que incorporam, independentemente de como devam ser apreciados com fundamento numa norma jurídica.”.
A Constituição, como todo negócio jurídico, não é “neutra” a respeito de suas consequências jurídicas, pois o simples fato de se ter considerado determinada matéria importante o suficiente para adentrar no texto constitucional significa que um determinado efeito social é esperado.
Como ato político de decisão sobre o modo de existência e organização da sociedade, também não é a Constituição nenhuma esfinge a demonstrar imperturbável imparcialidade na regência dos fatos sociais: na realidade, a Constituição quer que a sociedade, o Estado, todos e cada indivíduo tenham uma conduta específica, de acordo com a situação abstrata que prevê; coloca objetivos expressos e implícitos que devem nortear toda a atuação da sociedade e do Estado, como se vê no art. 3º e no art. 5º, XLIV.
23 Jurgen Habermas, Mudança estrutural na esfera pública.
s judiciários, como até mesmo os demais Poderes: assim, os art. 481, parágrafo único, e 557, do Código de Processo Civil, e, mais notadamente, a Lei no 9868/98
24 Karl Larenz, Introdução ao Pensamento Jurídico.
A Constituição não é imparcial nem desinteressada porque é ato de decisão e nenhum ato de decisão é desinteressado, pois intenta uma determinada consequência.
4. Natureza jurídica da Constituição
A expressão “natureza jurídica” refere-se às características que distinguem o ser no mundo jurídico.
Ao se inquirir sobre a natureza jurídica da Constituição, estamos a indagar sobre a sua qualidade que a diferencia dos demais atos jurídicos.
É a Constituição a suprema manifestação da vontade popular (Barthélemy), a decisão política fundamental (Carl Schmitt), o contrato social (Jean-Jacques Rousseau) que os integrantes da sociedade entabulam para permitir sua vida em comum.
Como expressão da vontade maior, a Constituição está acima do Estado e de todos os agentes públicos.
A Constituição não pode ser alterada pelo Estado, mesmo porque a Constituição “é” o Estado e o modo de ser do Estado não é questão estatal, mas expressão de uma vontade que está acima do Estado. O poder que elabora a Constituição não é um poder integrante do aparelho estatal, mas um poder pertencente, nos regimes democráticos, a toda a sociedade. Ainda quando a própria Constituição defere a órgãos estatais o poder de emenda (como faz a Constituição de 1988, em seu art. 60), não significa que a Constituição tenha perdido o seu caráter de supraestatalidade (descreve a existência de uma autoridade ou um ordenamento jurídico que transcende a esfera de poder dos Estados soberanos).
A Constituição é o ato de toda a coletividade a constituir (daí o nome) as relações de poder. Eis a principal característica da Constituição - é imperativa, comando maior da soberania popular a que todo o aparelho estatal se subordina.
5.A pirâmide jurídica
Segundo as ideias de Hans Kelsen, podemos imaginar o Estado e sua atividade, nos diversos níveis, como se fosse uma pirâmide, em cujo nível mais elevado estaria a Constituição, vindo a seguir as leis, as decisões e, no patamar mais baixo, a execução da atividade estatal.
Cada nível dá ao imediatamente inferior o fundamento de sua validade - a Constituição é que valida as leis, que com ela têm de estar compatíveis, enquanto a decisão judicial e a decisão executiva subordinam-se à lei e, por último, a atividade administrativa estatal, de transformação da realidade, deve guardar fidelidade à decisão que a determina.
O conteúdo da pirâmide jurídica está expresso na Lei Fundamental de Bonn (que é a Constituição da República Federal da Alemanha) que proclama, em seu art. 20, item 3: O Poder Legislativo está vinculado à ordem constitucional; os Poderes Executivo e Judiciário obedecem à lei e ao direito.
A Constituição dá os traços gerais e os limites da atuação estatal, inclusive no que diz respeito às matérias em que se interdita a atividade estatal (por exemplo, o disposto nos art.5º, XXXVI, e art. 150).
As leis, no sentido amplo, são comandos genéricos e abstratos, inovadores da ordem jurídica, através dos quais se impõe à sociedade e ao próprio Estado determinadas condutas, pela previsão de um fato ou relação social (preceito) com a consequência jurídica em caso da incidência (sanção).
A verificação da incidência concreta do fato abstrato previsto na lei cabe à decisão judicial ou à decisão executiva, enquanto à execução estatal cabe a transformação da realidade.Como exemplo de toda essa atividade, através de diversos planos, temos a educação, que, pelo art. 205, é direito de todos e dever do Estado e da família; em nível legal, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional traça as diretrizes básicas da educação; em nível de decisão, temos o decreto que determinou a implantação e estruturação de determinada escola pública e, em nível de execução, na transformação da realidade, está o professor a ministrar a aula.
Veja-se a lição de Kelsen: 
"A ordem jurídica não é um sistema de normas jurídicas ordenadas no mesmo plano, situadas umas ao lado das outras, mas é uma construção escalonada de diferentes camadas ou níveis de normas jurídicas. A sua unidade é produto da conexão de dependência que resulta do fato de a validade de uma norma, que foi produzida de acordo com outra, se apoiar sobre essa outra norma, cuja produção, por seu turno, é determinada por outra, e assim por diante, até abicar finalmente na norma fundamental - pressuposta. A norma fundamental - hipotética, nestes termos - é, portanto, o fundamento de validade último que constitui a unidade desta interconexão criadora. Se começarmos por tomar em conta apenas a ordem jurídica estatal, a Constituição representa o escalão de Direito Positivo mais elevado".
Kelsen, 1979, p. 310.
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