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PENSAMENTO DECOLONIAL: DESAPARECIMENTAÇÃO E ABERTURA
Um manifesto
Walter D. Mignolo
euUMA BREVE HISTÓRIA
Em maio de 2003, Arturo Escobar e eu reunimos o coletivo do projeto
modernidade/colonialidade em Chapel Hill. O tema deste encontro foi “Teoria
Crítica e Descolonização”. Os participantes foram convidados previamente a
refletir sobre a seguinte questão:
Como se apresenta hoje o projeto de "teoria crítica" de Horkheimer, quando uma série de
revoluções globais e pluriversais estão ocorrendo, ancoradas em histórias locais que, nos
últimos 500 anos, não conseguiram evitar o contato, o conflito e a cumplicidade com o
Ocidente? Qual deve ser o papel da “teoria crítica” numa época em quecondenados da terra(
Fanon) e oequipe(Hardt e Negri) ocupam o lugar doproletariadoa que Horkheimer se
referiu na década de 1920? Que tipo de transformações o projeto de “teoria crítica” precisa
para posicionar questões como gênero, raça e natureza em um contexto conceitual e
político? Finalmente, como a “teoria crítica” pode ser assimilada ao projeto latino-americano
de modernidade/colonialidade? Tal assimilação sugere a necessidade de abandonar o
projeto original de teoria crítica formulado por Horkheimer no início do século XX?1
1 Insistamos na geopolítica do conhecimento: Horkheimer e a Escola de Frankfurt podem ser lidos
de diferentes maneiras, não no sentido da pluralidade hermenêutica de cada leitura, mas na
distribuição geopolítica do trabalho intelectual através da diferença colonial (e também da
diferença imperial). Geopoliticamente, um tipo de interpretação corresponderia ao lugar que a
Escola de Frankfurt ocupa na genealogia do pensamento europeu. Outras leituras seriam
orientadas pela e através da diferença epistêmica colonial na genealogia pluriversal do
pensamento decolonial (como apresento neste artigo). É claro que algo mais também pode
acontecer: que a Escola de Frankfurt (ou correntes de pensamento equivalentes) seja utilizada
pelainteligência local nas antigas colônias como um sinal de distinção (eurocêntrica) sobre
outros setores intelectuais supostamente atrasados em relação às últimas ideias de
mercadorias vindas das fábricas epistemológicas da Europa ou dos Estados Unidos.
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Traduzido do Espanhol para o Português - www.onlinedoctranslator.com
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Os temas e questões propostos não eram novos, mas sim continuidade de
reflexões, conversas e artigos publicados anteriormente. Enrique Dussel e
Santiago Castro-Gómez (2000) já haviam introduzido no projeto a reflexão sobre
a teoria crítica de Frankfurt2
e Nelson Maldonado-Torres a reflexão sobre a agência docondenados da terra, uma
categoria que reposiciona e regionaliza categorias forjadas em outras experiências
históricas.3A partir desse encontro, o projeto coletivo incorporou cada vez mais a
categoria de “decolonialidade” como um suplemento à categoria de “modernidade/
colonialidade”. Uma continuação ocorreu em Berkeley em abril de 2005, sob o título
“Mapeando a Virada Decolonial” (Mapeando a virada descolonial), em um encontro
organizado por Nelson Maldonado-Torres, no qual membros do projeto
modernidade/colonialidade dialogaram com membros de um projeto da Caribbean
Philosophy Association chamado “Mudando as Geografias da Razão” e também com
um grupo de filósofas e críticos culturais latinos/as. Por meio desses dois encontros,
ficou claro que, embora a modernidade/colonialidade seja uma categoria analítica
da matriz colonial de poder, a categoria de decolonialidade expande a estrutura e os
objetivos do projeto. Entretanto, a própria conceituação da colonialidade como
constitutiva da modernidade já é um pensamento decolonial em andamento.
O argumento básico (quase um silogismo) é o seguinte: se a colonialidade é
constitutiva da modernidade, uma vez que a retórica salvacionista da
modernidade já pressupõe a lógica opressora e condenatória da colonialidade
(daí amalditos(de Fanon), essa lógica opressiva produz uma energia de
descontentamento, desconfiança e distanciamento entre aqueles que reagem à
violência imperial. Essa energia se traduz emprojetos decoloniais que são, em
última análise, também constitutivos da modernidade. A modernidade é uma
hidra de três cabeças, embora exiba apenas uma: a retórica da salvação e do
progresso. A colonialidade, cuja faceta é a pobreza e a disseminação da AIDS na
África, não aparece na retórica da modernidade como sua contrapartida
necessária, mas como algo separado dela. Por exemplo, o Plano de
Desenvolvimento do Milénio das Nações Unidas, liderado por Kofi Anan, e
2 Presumo que o pensamento decolonial seja crítico em si mesmo, mas crítico em um sentido
diferente daquele dado à palavra por Immanuel Kant e que, nessa tradição, foi retomado por
Max Horkheimer por meio do legado marxista. “Decolonial” é o conceito que substitui, numa
outra genealogia do pensamento (que é um dos objetivos deste artigo), o conceito “crítico” no
pensamento dissidente europeu moderno. Essa distinção — que foi precisamente a razão da
reunião em Duke à qual me referirei mais tarde — será vista mais claramente no restante do
argumento. O projeto decolonial também difere do projeto pós-colonial, embora, como o
primeiro, mantenha boas relações de vizinhança. A teoria pós-colonial ou estudos pós-coloniais
abrange a teoria crítica europeia proveniente do pós-estruturalismo (Foucault, Lacan e Derrida) e
as experiências da elite intelectual nas antigas colônias inglesas na Ásia e no Norte da África.
3 De um lado, os subalternos e a subalternidade moderna de Antonio Gramsci e os subalternos e a
subalternidade colonial de Ranajit Guha e o projeto sul-asiático; Por outro lado, a categoria de
“multidão” foi reintroduzida a partir de Spinoza por Paolo Virno, Michael Hardt e Antonio Negri.
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O Earth Institute da Universidade de Columbia, liderado por Jeffrey Sachs, está
trabalhando de forma colaborativa para acabar com a pobreza (como o título do
livro de Sachs sugere).4Mas em nenhum momento se questiona a ideologia da
modernidade, nem as fossas ocultas em sua retórica (as consequências da
economia capitalista — na qual tal ideologia se baseia — em suas diversas
facetas, desde o mercantilismo do século XVI, o livre-comércio dos séculos
seguintes, a revolução industrial do século XIX, a revolução tecnológica do
século XX), mas sim suas nefastas consequências. Por outro lado, todo o debate
nomédiaSobre a guerra contra o terror, por um lado, e todos os tipos de
protestos e movimentos sociais, por outro, eles nunca sugerem que a lógica da
colonialidade, escondida sob a retórica da modernidade, necessariamente gera
a energia irredutível de seres humanos humilhados, vilipendiados, esquecidos e
marginalizados. A decolonialidade é, então, a energia que se recusa a ser
controlada pela lógica da colonialidade, nem acredita nos contos de fadas da
retórica da modernidade. Se a decolonialidade tem uma gama variada de
manifestações — algumas indesejáveis, como aquelas que Washington hoje
descreve como “terroristas” — o pensamento decolonial é, então, o pensamento
que destaca e abre (daí “desapego e abertura” no título desta obra), ocultado
pela racionalidade moderna, montado e encerrado nas categorias do grego e
do latim e das seis línguas imperiais europeias modernas.
EA VIRADA EPISTÊMICA E A EMERGÊNCIA DO PENSAMENTO DECOLONIAL
Minha tese é esta: o pensamento decolonial surgiu na própria fundação da
modernidade/colonialidade como sua contrapartida. E isso aconteceu nas
Américas, no pensamento indígena e no pensamento afro-caribenho; Continuou
mais tarde na Ásia e na África, não relacionado ao pensamento decolonial nas
Américas, mas como uma contrapartida à reorganização da modernidade/
colonialidade do Império Britânico e do colonialismo francês. Um terceiro
momento ocorreu na intersecção dos movimentos de descolonização na Ásia e
na África, simultaneamenteà Guerra Fria e à ascensão da liderança dos Estados
Unidos. Desde o fim da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética,
o pensamento decolonial começou a traçar sua própria genealogia. O objetivo
deste artigo é contribuir para isso. Nesse sentido, o pensamento decolonial
difere da teoria pós-colonial ou dos estudos pós-coloniais, pois a genealogia
destes últimos está localizada no pós-estruturalismo francês e não na densa
história do pensamento planetário decolonial.
4 Jeffrey D. Sachs,O fim da pobreza. Possibilidades econômicas para o nosso tempo(2005) e Kofi
Anan (sf). O projeto imperial/colonial, articulado na modernidade/colonialidade, abrange todos
os flancos. O Plano do Milênio nos convida a sentar e observar como os grandes pensadores de
projetos imperiais estão cientes das injustiças imperiais. Assim como Las Casas ontem, os
Waman Puma de hoje são convidados a se submeter às boas maneiras da razão imperial crítica.
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A virada epistêmica decolonial é uma consequência da formação e
estabelecimento da matriz colonial de poder, que Aníbal Quijano, em um artigo
pioneiro que resume a plataforma do projeto modernidade/colonialidade,
descreve da seguinte forma:
A crítica ao paradigma europeu de racionalidade/modernidade é indispensável. Ainda mais
urgente. Mas é duvidoso que o caminho consista na simples negação de todas as suas
categorias; na dissolução da realidade no discurso; na pura negação da ideia e na
perspectiva da totalidade no conhecimento. Longe disso, é preciso nos desvencilhar dos
vínculos entre racionalidade e modernidade, antes de tudo, com a colonialidade e, em
última instância, com todo poder não constituído pela livre decisão de pessoas livres. Foi a
instrumentalização da razão pelo poder colonial, em primeiro lugar, que produziu
paradigmas distorcidos de conhecimento e arruinou as promessas libertadoras da
modernidade. A alternativa, portanto, é clara: a destruição da colonialidade do poder
mundial. (Quijano, 1992, p. 437)
Embora oreflexãosobre a viragem epistémica decolonial é de origem recente,
aprática epistêmicaO decolonial surgiu “naturalmente” como consequência da
formação e implementação da matriz colonial de poder que Aníbal Quijano
descreveu no final da década de 1980. Não é, portanto, surpreendente que a
genealogia do pensamento decolonial (isto é, o pensamento que surge da
viragem decolonial) se encontre na “Colónia” ou no “período colonial” (no jargão
canónico da historiografia das Américas). Este período formativo, no século XVI,
ainda não incluía as colônias inglesas no norte ou no Caribe, nem as francesas.
Entretanto, a virada descolonial reaparece na Ásia e na África como
consequência das mudanças, adaptações e novas modalidades de
modernidade/colonialidade geradas pela expansão imperial britânica e francesa
do final do século XVIII e início do século XIX.
Assim, as primeiras manifestações da virada descolonial são encontradas nos
vice-reinados hispânicos, nos Anáhuac e Tawantinsuyu, nos séculos XVI e início
do XVII, mas também as encontramos entre as colônias inglesas e na metrópole
durante o século XVIII. O primeiro caso é ilustrado por Waman Poma de Ayala,
no vice-reinado do Peru, que enviou sua obraNova Crônica e Bom Governoao rei
Filipe III, em 1616; O segundo caso é observado em Otabbah Cugoano, um
escravo liberto que pôde publicar em Londres em 1787 (dez anos após a
publicação deA Riqueza das Nações, de Adam Smith), seu tratadoPensamentos e
sentimentos sobre o mal da escravidão. Ambos são tratados políticos
decoloniais que, graças à colonialidade do conhecimento, não dividiram a mesa
de discussão com a teoria política hegemônica de Maquiavel, Hobbes ou Locke.
Reentrá-los na genealogia do pensamento político decolonial é uma tarefa
urgente. Sem essa genealogia, o pensamento decolonial não passaria de um
gesto cuja lógica dependeria de algumas das diversas genealogias fundadas na
Grécia e em Roma, reinscritas na modernidade imperial europeia em algumas
das seis línguas imperiais já mencionadas: italiano, espanhol e português, para
o Renascimento; Francês, inglês e alemão, para o Iluminismo.
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Waman Poma e Cugoano pensaram e abriram a brecha do impensável na
genealogia imperial da modernidade, tanto em suas facetas de direita quanto
de esquerda. Eles abriramas portas para outros pensamentosda experiência e
memória de Tawantinsuyu, uma, e da experiência e memória da brutal
escravidão negra do Atlântico, a outra. Nenhum dos que defenderam os
indígenas no século XVI, nem dos que se manifestaram contra a escravidão no
século XVIII, chegaram a pensar a partir do espaço e das experiências da ferida
colonial infligida aos índios e aos negros, assim como a epistemologia imperial
classificou a diversidade do Novo Mundo (ver Quijano neste mesmo volume). A
teoria política na Europa (de Maquiavel a Carl Schmitt, passando por Thomas
Hobbes e John Locke) foi construída com base nas experiências e memórias de
reinos e principados europeus, na formação de estados e na crise do estado
liberal.
Como interpretar a metáfora do parágrafo anterior: eles abriram as portas
para outros pensamentos? Como desapego e abertura.5Talvez com outra
metáfora que ajude a entender o tipo de portas de que estou falando neste
caso. Já não se trata das portas que conduzem à “verdade” (aletéia), mas para
outros lugares: para os lugares da memória colonial; aos vestígios da ferida
colonial a partir da qual se tece o pensamento decolonial.6Portas que conduzem
a outros tipos de verdades cujo fundamento não é oSermas o colonialidade do
Ser, a ferida colonial. O pensamento decolonial pressupõe sempre a diferença
colonial (e em certos casos, que não analisarei aqui, a diferença imperial). Ou
seja, exterioridade no sentido preciso do exterior (bárbaro, colonial) construído
pelo interior (civilizado, imperial); um interior fundado no que Santiago Castro-
Gómez (2005) chamou de “hybris do ponto zero”, na pretensa totalidade
(totalização) da gnose do Ocidente, fundada, recordemos mais uma vez, no
grego e no latim e nas seis línguas imperiais europeias modernas. A virada
descolonial é a abertura e a liberdade de pensamento e de outros modos de
vida (outras economias, outras teorias políticas); a limpeza da colonialidade do
ser e do saber; o distanciamento da retórica da modernidade e do seu
imaginário imperial
5 Refiro-me à noção de “desapego epistêmico” na citação anterior de Quijano. Esse distanciamento
epistêmico difere, no sentido de diferença colonial, do uso que Samir Amin faz do termo “la
déconnection” (traduzido para o inglês como “desvinculação”). Amin permaneceu na bolha da
episteme moderna, e sua desvinculação sugeriu uma mudança no conteúdo, não nos termos da
conversa. O “descolamento epistêmico”, por outro lado, marca o momento de ruptura e fratura,
um momento de abertura. Este significado, “abertura”, também difere do significado que um
conceito semelhante tem em Agamben:O Aberto: Homem e Animal, traduzido para o inglês
como “o aberto”. No pensamento decolonial, a abertura é justamente o distanciamento de
dicotomias naturalizadas como "homem e animal". Tal distinção não seria concebível como
ponto de partida nem para Waman Poma nem para Ottobah Cugoano.
6 O conceito deferida colonialvem de Gloria Anzaldúa (1987), numa das suas já famosas frases: “A
fronteira EUA-Méxicoé uma ferida abertaonde o Terceiro Mundo se irrita com o primeiro e
sangra.” Obviamente, a expressão tem um valor de troca em todas aquelas situações em que a
Europa e os Estados Unidos infligiram e continuam a infligir atritos na missão civilizadora,
desenvolvimentista e modernizadora.
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articulada na retórica da democracia. O pensamento decolonial tem como razão
de ser e objetivo a decolonialidade do poder (isto é, da matriz colonial do
poder). Este programa também foi desenvolvido por Quijano no artigo citado:
Em primeiro lugar [é necessário]descolonização epistemológica,paraentão dê lugar a uma
novaintercomunicação-cultural, a uma troca de experiências e significados,como base de
outra racionalidadeque pode legitimamente reivindicar, para alguma universalidade. Bem,
nada é menos racional, finalmente, do que a afirmação de que a visão de mundo específica
de um determinado grupo étnicoser imposta como racionalidade universal, embora tal
etnia seja chamada de Europa Ocidental. Porque isso, na verdade, é reivindicar o título de
universalidade para um provincianismo. (Quijano, 1992, p. 447 [itálicos são meus])
Onde, na vida cotidiana, emergem os sintomas da tensão irresolúvel entre a
retórica da modernidade e a lógica da colonialidade, sua natureza constitutiva
como duas cabeças em um corpo? Onde a energia decolonial emerge e como
ela se manifesta? As revoltas na França em novembro de 2005 revelam um
ponto de articulação entre a ilusão de um mundo que pensa e se constrói como
O único mundo possível (lógica da modernidade) e as consequências por trás
dessa retórica (lógica da colonialidade). Nesse mundo e a partir dele, o que é
aparente é a barbárie: irracionalidade, juventude, imigração que deve ser
controlada pela polícia e pela força militar, aprisionada e usada para sustentar a
retórica da modernidade. A tendência liberal proporá educação, a tendência
conservadora, expulsão, e a tendência de esquerda, inclusão. Qualquer uma
dessas soluções deixa intacta, no entanto, a lógica da colonialidade: nos países
industrializados, desenvolvidos, antigos países do primeiro mundo, do G-7, a
lógica da colonialidade retorna como um bumerangue de longo prazo, em um
movimento que começou no século XVI. Nos países em desenvolvimento, não
industrializados, ex-Terceiro Mundo, a lógica do colonialismo continua sua
marcha trepanadora (hoje, literalmente, na região amazônica e no oeste da
Colômbia, onde a presença de tratores amarelos, juntamente com helicópteros
e bases militares, constitui evidência inescapável da marcha da modernidade a
todo custo). O bumerangue retorna de territórios fora das fronteiras do G7: o
bumerangue entra (as torres gêmeas de Nova York, o trem de Madri, o ônibus e
o metrô de Londres), mas também sai (Moscou, Nalchik, Indonésia, Líbano). O
facto de condenarmos a violência destes actos
— em que nunca se sabe onde estão os limites entre os agentes da sociedade
civil e política, os Estados e o mercado — não significa que devamos fechar os
olhos e continuar a compreendê-los tal como a retórica da modernidade no-los
apresenta, namídia de massae em discursos oficiais do Estado! O pensamento
decolonial ainda não aparece, nem mesmo nas publicações mais extremistas de
esquerda. E a razão é que o pensamento decolonial não é mais de esquerda,
mas outra coisa: é o distanciamento da episteme política.
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moderno, articulado como direita, centro e esquerda; É uma abertura para algo
mais, em progresso, buscando-se na diferença.
Uma das razões pelas quais os movimentos de descolonização “falharam” é
que, como no socialismo/comunismo, eles mudaram o conteúdo, mas não os
termos da conversa e permaneceram dentro do sistema de pensamento único
(grego e latim e seus derivados modernos/imperiais). Na apropriação do Estado
pelas elites nativas, na Ásia e na África (como antes nas Américas, o Haiti é um
caso particular que não posso analisar aqui, no que se refere à construção do
Estado colonial pelas elites crioulas, de ascendência ibérica no sul e britânica no
norte), os Estados descolonizados seguiram as regras do jogo liberal, como na
Índia; Em outros casos, tentaram uma aproximação ao marxismo, como foi o
caso de Patrice Lumumba (primeiro-ministro da República Democrática do
Congo). A enorme contribuição da descolonização (ou Independência), tanto na
primeira onda de 1776 a 1830 nas Américas, como na segunda na Ásia e África,
é ter fincado a bandeira dapluriversatilidade descolonial face à bandeira e aos
tanques douniversatilidade imperial. O limite de todos esses movimentos foi
não ter encontrado a abertura e a liberdade de outra forma de pensar, isto é, de
uma descolonização que levasse, nos termos dos zapatistas, a um mundo em
que cabem muitos mundos (pluriversalidade); que, no Fórum Social Mundial, é
reafirmado no lema “outro mundo é possível”. É importante notar que as
aberturas para o que Ramón Grosfoguel descreveu como uma “segunda
descolonização” ocorreram após o fim da Guerra Fria: não apenas no caso dos
zapatistas e do Fórum Social Mundial, mas também no de Hugo Chávez. A
plataforma epistêmico-política de Hugo Chávez (metaforicamente, a revolução
bolivariana) não é mais a mesma plataforma em que Fidel Castro se baseou
(metaforicamente, a revolução socialista). Chávez na Venezuela e Evo Morales
na Bolívia estão propondo regras diferentes do jogo. Pedagogicamente,
poderíamos ver Lula da Silva, Néstor Kirchner e Tabaré Vázquez como
“momentos de transição” entre a plataforma epistêmico-política de Castro, por
um lado, e a de Chávez e Morales, por outro.
O que quero dizer é que esse “outro mundo” que começamos a imaginar não
pode mais ser apenas liberal, cristão ou marxista, nem uma mistura dos três
que garantiria o triunfo da bolha moderna/colonial, capitalista e imperial;
triunfo que marcaria o que Francis Fukuyama celebrou como o fim da história.
Então posso imaginar o que Fukuyama pensaria: toda a população da China;
toda a população islâmica do Centro-Oeste à Ásia Central e de lá à Indonésia;
todos os povos indígenas das Américas, do Chile ao Canadá; Austrália e Nova
Zelândia; toda a população africana ao sul do Saara, mais a diáspora nas
Américas; todos os latinos e outras minorias nos Estados Unidos; Em suma,
todos esses milhões de pessoas, que quadruplicam ou quintuplicam a
população da Europa Atlântica e da América do Norte, se renderão aos pés do
modo de vida paradisíaco do Ocidente.
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capitalista e o estado liberal-democrático. Um modo de vida que, entretido por
uma indústria televisiva e musical sem paralelos, mumificado por uma
tecnologia que cria um novo "truque" de encantamento e júbilo a cada minuto,
é projetado em sucesso ilimitado, excelência sem fronteiras e crescimento
tecno-industrial-genético que garante o paraíso para todos os mortais. Nesse
cenário, o marxismo continuaria como a oposição necessária para a
manutenção do sistema. O "fim da história" seria, portanto, o triunfo do
liberalismo, apoiado pelo cristianismo conservador, diante dos constantes
protestos da esquerda marxista e da filosofia da libertação. E assim seria, até o
fim dos tempos. Mas, gostemos ou não, depois do “fim da história” vieram o
Afeganistão, o Iraque, o Katrina e a França 2005. Literalmente, começou outra
história, a história em que o pensamento colonial, desenvolvido a partir do
momento fundador da modernidade/colonialidade, começa a assumir a
liderança.
Repensemos, a partir do ponto a que acabamos de chegar na argumentação,
a interpretação a que foram reduzidas as Independências descolonizadoras.
Foram interpretados como processos de libertação imperial: no século XIX,
Inglaterra e França apoiaram a descolonização das colônias de Espanha e
Portugal; No século XX, os Estados Unidos apoiaram a descolonização das
colônias da França e da Inglaterra. Na realidade, eles foram libertados de um
império para cair nas mãos de outro em nome da liberdade. A possibilidade do
pensamento decolonial foi silenciada pelas interpretações oficiais. As denúncias
de Amílcar Cabral, Aimé Césaire e Frantz Fanon foram admiradas e depois
descartadas, assim como as conquistas de Patrice Lumumba foram celebradas
depois que seu corpo foi cortado em pedaços. Repensar os movimentos
descolonizadores de independência (nos seus dois momentos históricos, na
América e na Ásia-África) significa pensá-los como momentos de distanciamento
e abertura no processo de descolonização do saber e do ser; momentos que
foram velados pela maquinaria interpretativa da retórica da modernidade, pela
ocultação da colonialidade e, consequentemente,pela invisibilidade do
pensamento decolonial em sua infância. Em outras palavras, os movimentos de
independência descolonizadores foram interpretados na mesma lógica
"revolucionária" da modernidade, seguindo o modelo da revolução gloriosa na
Inglaterra, da Revolução Francesa e da Revolução Bolchevique na Rússia.
Repensar significa desvincular a lógica da independência descolonizadora das
revoluções burguesa e socialista.
TAWANTINSUYU,ANÁHUAC E O CARIBE NEGRO:O“GRÉCIA"E“ROMAS"
DO PENSAMENTO DECOLONIAL
O pensamento decolonial surgiu e continua a se desenvolver em diálogo conflituoso
com a teoria política europeia, para a Europa e, a partir daí, para o mundo. Deste
diálogo conflituoso surge o pensamento de fronteira, que seria redundante chamar
de crítico (embora às vezes seja necessário evitar confusões), depois
32
da leitura de Waman Poma e Cugoano. Em qualquer caso, se a chamamos de
“crítica”, seria para diferenciar a teoria crítica moderna/pós-moderna (Escola de
Frankfurt e suas sequelas pós-estruturais) dateoria crítica decolonial, o que
demonstra sua gestação nos autores citados. Pensamento decolonial,separarda
tirania do tempo como estrutura categórica da modernidade, escapa também
das armadilhas da pós-colonialidade. A pós-colonialidade (teoria ou crítica pós-
colonial) nasceu entrelaçada com a pós-modernidade. Assim, Michel Foucault,
Jacques Lacan e Jacques Derrida foram os pontos de apoio para a crítica pós-
colonial de Said, Bhaba e Spivak. O pensamento decolonial, por outro lado, é
riscado em outras arenas. No caso de Waman Poma, nas línguas, nas memórias
indígenas confrontadas com a modernidade nascente; No caso de Cugoano, nas
memórias e experiências da escravidão, confrontadas com a instauração da
modernidade, tanto na economia quanto na teoria política. O pensamento
decolonial, ao se basear em experiências e discursos como os de Waman Poma
e Cugoano nas colônias das Américas, se distancia (amigavelmente) da crítica
pós-colonial.
Primeiro, examinaremos as implicações desses dois pilares do pensamento
decolonial na colonização das Américas e no tráfico de escravos e, em seguida,
especularemos sobre as consequências desses silêncios na teoria política e na
filosofia europeias. Insisto na localização, se ainda for necessário lembrá-la, pois
sabemos há algum tempo que todo pensamento é localizado, mas, apesar de
sabermos disso, há uma tendência geral a entender o pensamento construído a
partir da história e da experiência europeias como se fosse deslocalizado. Esses
deslizes sutis podem ter consequências sérias: no século XVIII, muitos
intelectuais iluministas condenaram a escravidão, mas nenhum deles deixou de
pensar que o negro africano era um ser humano inferior. Esses preconceitos e
cegueira perpetuam a geopolítica do conhecimento. O pensamento decolonial
vira o jogo, não como seu oposto e contrário (como o comunismo na União
Soviética em oposição ao liberalismo na Europa Ocidental e nos Estados
Unidos), mas sim por meio de uma oposição deslocada: o pensamento
decolonial é o das várias oposições planetárias ao pensamento único (tanto o
que justifica a colonialidade, de Sepúlveda a Huntington, quanto o que condena
a colonialidade (Las Casas) ou a exploração do trabalhador na Europa (Marx). Ou
seja: todo o planeta, com exceção da Europa Ocidental e dos Estados Unidos,
tem um fator em comum: lidar com a invasão, diplomática ou militar, benéfica
ou desastrosa, da Europa Ocidental e dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a
Europa Ocidental e os Estados Unidos têm algo em comum: uma história de
quinhentos anos de invasão, diplomática ou armada, no resto do mundo.
Waman Poma e Ottobah Cugoano abriram outro espaço, o espaço do
pensamento decolonial, na diversidade de experiências às quais os seres
humanos foram forçados pelas invasões europeias nesses dois casos. Eu me
deterei neles como fundamentos (semelhantes aos fundamentos
33
Gregos para o pensamento ocidental) do pensamento decolonial. Estes
fundamentos históricos (históricos, não essenciais) criam as condições para uma
narrativa epistémica que se refere à genealogia global do pensamento
decolonial (na verdadeoutroem relação à genealogia da teoria pós-colonial) a
Mahatma Gandhi, WEB Dubois, Juan Carlos Mariátegui, Amílcar Cabral, Aimé
Césaire, Frantz Fanon, Fausto Reinaga, Vine Deloria Jr., Rigoberta Menchú, Gloria
Anzaldúa, o movimento dos Trabalhadores Sem Terra no Brasil, os Zapatistas
em Chiapas, os movimentos indígenas e afro na Bolívia, Equador e Colômbia, o
Movimento Social Mundial Fórum e Fórum Social das Américas. A genealogia do
pensamento decolonial é global e não se limita a indivíduos, mas está
incorporada aos movimentos sociais (que se referem aos movimentos sociais
indígenas e afro-colombianos: Taki Onkoy para os primeiros, cimarronaje para
os últimos) e na criação de instituições, como os fóruns mencionados.
Vamos ver como seria essa genealogia. Waman Poma estruturou a tese geral
do manuscrito que enviou a Filipe III em seu título: Nova Crônica e bom governo
. A tese é basicamente a seguinte: 1) a nova crônicaÉ necessário porque todas as
crônicas castelhanas têm seus limites. Os limites que eles têm, contudo, não são
limites em termos do paradigma teológico cristão a partir do qual são narrados;
Por exemplo, a diferença pode estar entre um jesuíta, um dominicano ou um
soldado; Nem é uma questão de saber se o cronista castelhano foi ou não uma
testemunha ocular (uma testemunha ocular de quê? De séculos de história
aimará ou náuatle?). Algumas disputas internas ocorreram entre aqueles que
defendiam o privilégio do "eu vi" e aqueles que refletiam sobre as Índias a partir
de Castela (localização física) e de um lugar epistêmico greco-latino-cristão,
como López de Gómara versus Bernal Díaz del Castillo. Esses limites não eram
reconhecidos (talvez nem mesmo percebidos) pelos castelhanos. Quem podia
vê-los era Waman Poma. Os castelhanos não só não perceberam o que Waman
Poma percebeu, como também não estavam em condições de entender o que
Waman Poma percebeu. Consequentemente, Waman Poma foi “naturalmente”
silenciado por quatrocentos anos. E quando foi “descoberto”, deu origem a três
linhas de interpretação: a dos conservadores, que insistiam na falta de
inteligência de um índio; a posição acadêmica progressista (com Franklin Peace
no Peru, Rolena Adorno e Raquel Chang-Rodríguez nos Estados Unidos, Birgit
Scharlau na Alemanha e Mercedes López Baralt em Porto Rico), que incluiu
tanto a contribuição de Waman Poma quanto seu silenciamento pelos
hispânicos e crioulos peninsulares da América do Sul; e, finalmente, a
incorporação de Waman Poma ao pensamento indígena como um de seus
fundamentos epistêmicos (da mesma forma que Platão e Aristóteles foram
interpretados para o pensamento europeu). Assim, nos debates atuais da
Assembleia Constituinte na Bolívia, a posição indígena privilegia a presença e a
reinscrição do Tawantinsuyu e dos legados do pensamento decolonial na
organização social e econômica da Bolívia, enquanto a
34
O Estado liberal prioriza a continuação do modelo europeu de Estado. A
Universidade Intercultural dos Povos e Nações Indígenas do Equador (Amawtay
Wasi) forjou seu currículo e objetivos de ensino superior em Tawantinsuyu e
Kichua, embora o espanhol também seja "usado",7Enquanto a universidade
estadual continua a reprodução da universidade napoleônica, encerrada nos
legados do grego, latim e das seis línguas imperiais europeias modernas. Neste
caso, o espanhol é a língua hegemônica, com total descaso e abandono do
kichua.
O potencial epistémico e descolonizador já está presente naNova Crônica.
Waman Poma olhou e compreendeu desde a perspectiva do sujeito colonial (o
sujeito formado e forjado no Tawantinsuyu e no Keswaymara, confrontado com
a presença repentina do castelhano e do mapa-múndi de Ortelius) e não desde
o sujeito moderno que na Europa começou a pensar-se como sujeito a partir do
Renascimento.Eles também tinham acesso a informações às quais os
castelhanos não tinham acesso: poucos deles dominavam o aimará e o quíchua,
e aqueles que chegaram a entendê-los durante suas viagens pelos Andes ainda
estavam longe de adequar sua compreensão da língua aos seus anos de
escolaridade em latim e grego. Imagine Waman Poma em Castela, contando as
histórias dos castelhanos e suas antiguidades greco-latinas. Pois bem, com o
tempo os castelhanos se sentiriam humilhados e lhe diriam que realmente não
entendiam muito bem o que ele falava; que latim, grego e cristianismo não são
coisas que podem ser entendidas em alguns anos. Assim, embora o nativo,
andino ou castelhano,não tem privilégios quanto à verdade da história, sim, ela
tem uma subjetividade e uma localização geo-histórica (línguas, tradições,
mitos, lendas, memórias) nas quais se baseia sua maneira de entender a si
mesma, aos outros e ao mundo. E essa singularidade de experiência e vivências
não pode ser negada a nenhum deles (todos eram "homens" nesse contexto),
embora os castelhanos assumissem uma universalidade que lhes era própria e
que não cabia a nenhum outro habitante do planeta que não fosse cristão.
Além disso, como sujeito colonial, Waman Poma era umsubjetividade
fronteiriça(dupla consciência, consciência mestiça na terminologia atual), uma
subjetividade que nenhum castelhano conseguiu forjar, incluindo Juan de
Betanzos, que se casou com uma princesa inca. O pensamento de fronteira
surge da diferença imperial/colonial de poder na formação de subjetividades.
Portanto, o pensamento de fronteira não é inerente a um sujeito que habita a
casa do império, mas é inerente à formação de sujeitos que habitam a casa da
ferida colonial. ONova CrônicaÉ exatamente isso:
7 Veja o artigo de Catherine Walsh neste volume. Motivações políticas, filosofia educacional,
conceituação deretomare a estrutura dos ciclos de aprendizagem (e de desaprendizagem do
aprendido, no processo de colonialidade do saber para descolonizar o saber e o ser) são
explicados em detalhe emSumak Yachaypi, Alli Kawsaypipash Hachakuna(Aprendendo sabedoria
e boa vida) (2004). Parte do processo de gestação pode ser visto naBoletim Icci-Rimai(2001).
35
uma história em que a cosmologia andina (Keswaymara) começa a se refazer
em diálogo conflituoso com a cosmologia cristã, em toda a sua diversidade
missionária castelhana (dominicanos, jesuítas, franciscanos), e com a
mentalidade burocrática dos organizadores do Estado imperial sob as ordens de
Filipe II. Waman Poma e os cronistas castelhanos estão separados pela
diferença colonial epistêmica, invisível para os castelhanos, visível como uma
grande muralha para Waman Poma. É no confronto com esse muro que Waman
Poma escreve. O fato de que para os castelhanos, e para aqueles que veem as
coisas a partir da diversidade da cosmologia europeia, esse muro (a diferença
epistêmica colonial) fosse invisível, levou à não compreensão da proposta de
Waman e ao seu silenciamento.
O que Waman Poma propôs? Um “bom governo” baseado numa “nova
crónica”. Era natural que assim fosse. O historiador catalão Joseph Fontaná disse
uma vez, há pouco tempo, que há tantas histórias quantos projetos políticos. A
diversidade dos projetos políticos castelhanos baseava-se numa concepção de
história cujas fontes estavam na Grécia e em Roma (Heródoto, Tito Lívio, Tasso).
Em contraste, as fontes epistêmicas do projeto político exemplificado por
Waman Poma e Taki Onkoy não se baseavam na memória da Grécia e de Roma.
Como Waman Poma propôs esse novo projeto político (“bom governo”)?
Primeiro, ele estruturou a narrativa histórica com uma crítica ético-política
constante e coerente. Ele criticou igualmente os castelhanos, os índios, os
negros, os mouros e os judeus. A região de Cusco, na segunda metade do
século XVI, era, sem dúvida, uma sociedade “multicultural” (como diríamos hoje).
Mas não uma sociedade “multicultural” no império, mas nas colônias. Existe
alguma diferença? Multiculturalismo é multiculturalismo, não importa onde,
alguém poderia argumentar a partir de uma epistemologia desencarnada e
deslocalizada. Pode-se pensar, como uma simples correlação, na sociedade
"multicultural" da Península Ibérica durante o mesmo período: cristãos, mouros
e judeus convertidos que colocaram em movimento as três categorias
religiosas. Nas colônias, porém, os pilares eram índios, castelhanos e africanos,
principalmente a partir do final do século XVI. Além disso, nas colônias a
categoria de mestiçagem e as três mestiçagens “básicas” surgiram com base
nos três pilares do triângulo étnico-racial: mestiço/a, mulato/a e zambo/a.
A teoria política de Waman é articulada em dois princípios: primeiro, a crítica
de todos os grupos humanos identificáveis na Colônia, de acordo com as
categorias classificatórias da época. Mas qual é o critério que Waman usa para
sua crítica? Cristandade. Como?, perguntou um aluno em uma das minhas aulas
sobre Waman Poma: como isso pode ser um pensamento decolonial se ele
abraça o cristianismo?8Mas é assim que acontece. Vamos refletir. PARA
8 Durante as sessões do programa de doutorado em Estudos Culturais, na Universidade Andina
Simón Bolívar, em Quito (julho de 2005), discutimos em uma das aulas de Catherine Walsh a
crítica de Waman Poma aos africanos. Edison León questionou a possibilidade de considerar
Waman Poma decolonial, justamente por essas críticas. Naquilo
36
No final do século XVI e início do século XVII não havia Diderot, nem Rousseau,
nem Kant, nem Spinoza, nem Marx, nem Freud. Ou seja, a crítica secular
esclarecida ainda não existia. Waman Poma assume o cristianismo histórica e
eticamente, a ponto de defender o cristianismo dos andinos antes da chegada
dos castelhanos. Historicamente, Waman Poma seria um mentiroso, já que não
havia cristianismo antes da chegada dos castelhanos. Mas num plano lógico-
epistêmico, o cristianismo na Europa nada mais seria do que a versão regional
de certos princípios que afetam o comportamento humano e estabelecem
critérios de coexistência, de “bem viver”. O argumento de Waman Poma deve
ser lido neste segundo nível e não no primeiro. A leitura do primeiro nível é
eurocêntrica e concede ao cristianismo da Europa Ocidental (que se espalhou
para a América) a posse de princípios universais sob o nome de cristianismo.
“Cristianismo”, no argumento de Waman Poma, é equivalente a “democracia”
nas palavras e escritos dos zapatistas: a democracia não é propriedade privada
do pensamento ocidental e da teoria política, mas sim um princípio de
coexistência, de bem viver, que não tem dono. Waman Poma se apoderou dos
princípios cristãos apesar e contra os malignos cristãos espanhóis, assim como
os zapatistas se apoderaram dos princípios democráticos apesar e contra o
governo mexicano, em conluio com a comercialização da democracia no
mercado de Washington. Esta analogia tem uma dupla função: pedagógica,
para familiarizar o leitor com a situação de Waman Poma há quatro séculos e
meio; política e epistêmica, para lembrar a continuidade do pensamento
decolonial ao longo dos séculos, em suas diversas manifestações.
Tendo criticado todos os grupos humanos presentes na Colônia e também
identificado suas virtudes, Waman Poma propõe um "bom governo" dos
virtuosos, independentemente de serem índios, castelhanos, mouros ou negros.
A “boa governança”, em outras palavras, é proposta como o lugar da
coexistência e da superação das diferenças coloniais. Os dois grupos fortes —
política e demograficamente — no Peru eram, sem dúvida, os castelhanos e os
indígenas; e Waman Poma não esconde a sua identificação com os índios,
embora pudesse ter escolhido identificar-se com os castelhanos, assumindo que
nunca seria castelhano emsubjetividademesmo que fosse porlegalidade. Na
medida em que o pensamento decolonial surge de uma reviravolta geopolítica e
corporopolítica em face da teopolítica (desincorporada e deslocalizada ou,
melhor, localizadano não-lugar do espaço que medeia entre Deus e seus
representantes na terra), “a arrogância do ponto zero” é incongruente com o
pensamento decolonial:
Na época, minha leitura de Waman Poma estava um tanto esquecida, mas eu estava pensando
em retomá-la justamente para um seminário que eu daria no outono de 2005 na Universidade
Duke. De fato, reler Waman Poma revelou aspectos (como sempre acontece ao ler este texto
complexo e rico) aos quais eu não havia prestado atenção antes. O que afirmo aqui é o produto
de conversas que tive com Catherine e Edison e da minha subsequente releitura do assunto.
37
A epistemologia do ponto zero funda e sustenta a razão imperial (teo e ego-
politicamente).9
Waman Poma construiu a ideia de “bom governo” em Tawantinsuyu. Ao
contrário das utopias ocidentais modernas iniciadas por Thomas More um
século antes, a utopia de Waman Poma não se situa num não-lugar no tempo
(as utopias ocidentais modernas baseiam-se no não-espaço de um futuro
secular), mas na reinscrição de um espaço deslocado pelos castelhanos. Na
verdade, o que Waman Poma propõe é uma “topia” de razão fronteiriça e
pensamento decolonial. Razão de fronteira porque sua “topia” foi estruturada
no Tawantinsuyu. Como se sabe, Tawantinsuyu significa aproximadamente “os
quatro lados ou cantos do mundo”. Para aqueles que não estão familiarizados
com o diagrama de Tawantinsuyu, imagine as diagonais de um quadrado (sem
os quatro lados, apenas as diagonais). Os quatro espaços formados pelas
diagonais são os quatrosuyus, ou espaços significativos na estrutura e
hierarquias sociais dos Incas. O centro, durante o período inca, foi ocupado por
Cusco; e nas áreas ou cidades do Império Inca, todas elas organizadas em
Tawantinsuyu, a cidade em questão estava localizada. Neste esquema, Waman
Poma colocou o rei Filipe III no centro do Tawantinsuyu, já que ele ocupava o
trono, tanto em Castela quanto no Tawantinsuyu. Então, Waman Poma
distribuiu osuyuspara cada um dos grupos mencionados. Em umsuyuEle
colocou os índios em outra, os castelhanos em outra, os mouros em outra e os
africanos na quarta. Na medida em que o Tawantinsuyu é uma estrutura
hierárquica, Waman Poma manteve essa hierarquia na distribuição dosuyus(
detalhes que não cabem aqui, pois nosso objetivo é situar o surgimento do
pensamento decolonial e não entrar na análise de sua estruturação). No
entanto, a “boa governação” foi proposta como um espaço de coexistência com
Castela, por um lado, e de coexistência entre várias comunidades (ou nações) no
Tawantinsuyu. Ou seja, coexistência transnacional e coexistência intercultural.
Intercultural e não multicultural, porque na proposta de Waman Poma Filipe III
não é o soberano de uma estrutura política hispânica no Tawantinsuyu, mas sim
o soberanodoTawantinsuyu. Filipe III é, portanto, afastado de sua memória,
tradição, língua, educação e pensamento político hispânicos.
Tal teoria política é um produto do pensamento crítico de fronteira.
e, portanto, do pensamento decolonial. A última seção doNova Crônica,
extenso, é dedicado à descrição das “obras e dos dias” no Tawantinsuyu. O
ritmo das estações, a coexistência no e com o mundo natural: sol, lua, terra,
fertilidade, água,runas(seres vivos que no Ocidente são descritos como “seres
humanos”) coexistem na harmonia do “bem viver”. Essa harmonia é significativa,
no início do século XVII, quando a formação do capitalismo já demonstrava um
descaso pela vida humana.
9 A ego-política substituiu, mas nunca eliminou, a teo-política. Ambos se encontram, entre muitos
outros lugares, no pensamento político de Carl Schmitt; exemplarmente, na suaTeologia Política(
1922).
38
humanos descartáveis (índios e negros, principalmente), submetidos à
exploração do trabalho, expropriados de sua casa (a terra ondeeram), e sua
moradia transformada em terra como propriedade individual. Uma época em
que os europeus, em seus projetos econômicos, não consideravam a harmonia
da vida nem o movimento das estações, mas concentravam todos os seus
esforços no aumento da produção (ouro, prata, café, açúcar, etc.),
independentemente de quem morresse. A teoria política de Waman Poma se
opõe à teoria política europeia; É uma alternativa ao regime monárquico e
capitalista-mercantil do sistema-mundo. O "triunfo" (até hoje) do modelo
imperial relegou o modelo Tawantinsuyu ao mundo das fantasias de um indiano
desorientado e sem instrução: um caso exemplar de colonização do ser pela
colonização do saber, ao qual Waman Poma responde com um projeto
fundamental de pensamento decolonial.
Mas se Waman Poma é uma porta de entrada para o lado mais sombrio do
Renascimento, Ottobah Cugoano é uma porta de entrada para o lado mais
sombrio do Iluminismo. Cugoano é o menos conhecido dos quatro ex-escravos
(Egnatius Sancho, John Marrant e Loudah Equiano são os outros três) que, na
Inglaterra, na segunda metade do século XVIII, conseguiram se tornar
escritores. Estima-se que Cugoano chegou à Inglaterra por volta de 1770. Ele
teria sido escravo nas plantações inglesas no Caribe, de propriedade de um
certo Alexander Campbell. Nascido no que hoje é Gana por volta de 1757, ele foi
capturado por africanos quando tinha cerca de treze anos e vendido como
escravo para comerciantes europeus. Cugoano chegou à Inglaterra logo após a
"decisão de Mansfield" ter sido proclamada em junho de 1772 em favor de um
escravo fugitivo (escravo fugitivo), nas colônias. Essa decisão, conhecida, aliás,
com grande euforia por cerca de vinte mil africanos na Inglaterra, foi de grande
importância no processo de declaração de ilegalidade da escravidão.
Dois séculos de tráfico de escravos e exploração de mão de obra em
plantações insulares precederam o momento em que Cugoano publicou seu
tratado político descolonial em Londres, em 1787. O título é o seguinte:
Pensamentos e sentimentos sobre o tráfico maligno e perverso da escravidão e
do comércio da espécie humana, humildemente submetidos aos habitantes da
Grã-Bretanha, por Ottobah Cugoano, um nativo da África.O domínio da língua
inglesa por Cugoano é comparável ao domínio da língua espanhola pelo Inca
Garcilaso de la Vega. Waman Poma, por outro lado, não tinha contato com o
império, mas seu espanhol gramaticalmente deficiente não era obstáculo para
expressar suas ideias e argumentos, acompanhados de desenhos de mapas,
personagens e situações. O poder político de ambos os tratados é
incomparável, até onde eu sei, seja nas Américas ou em qualquer outro lugar do
planeta onde a colonização inglesa e francesa ainda não havia começado.
Tal como Waman Poma, Cugoano não tem outro critério de julgamento senão o
cristianismo. O pensamento iluminista, do qual Cugoano faz parte, estava apenas
começando a tomar forma. A teopolítica do conhecimento ainda era o enquadramento
39
de referência contra a qual a ego-política do pensamento iluminista reivindicou
seu direito de existir. Assim como Waman Poma, Cugoano levou os princípios
morais do cristianismo ao pé da letra e, a partir daí, projetou sua crítica aos
excessos dos cristãos ingleses na exploração brutal de escravos. Vejamos um
exemplo:
A história desses métodos terrivelmente pérfidos de formar assentamentos e adquirir
riquezas e territórios faria a humanidade tremer e até recuar diante do prazer de tais
aquisições e se transformar em raiva e indignação diante de tamanha injustiça horrível e
crueldade bárbara. "Os peruanos dizem que seus incas, ou monarcas, estenderam
uniformemente seu poder com atenção ao bem de seus súditos, para que pudessem
difundir as bênçãos das civilizações e o conhecimento das artes que possuíam entre as
pessoas que abraçaram sua proteção; e durante uma sucessão de doze monarcas, nenhum
se desviou desse caráter benéfico." A sensibilidade de tal nobreza de caráter lhes daria a
mais pungente antipatia pelos novos e terríveis invasores que haviam desolado e devastado
seu país. (Cugoano, 1999, p. 65)10
No parágrafo, estou interessado emdestacar várias coisas: o uso da
linguagem; conhecimento e solidariedade com a população indígena sob
colonização castelhana, que Cugoano compara à desumanização tanto do índio
quanto do negro; A crítica direta e brutal de um escravo negro aos comerciantes
e exploradores brancos (tão direta e brutal quanto a de Waman Poma). Essas
críticas (de Cugoano e Waman Poma) não estão mais no mesmo nível
(paradigma) das críticas de Las Casas aos seus próprios compatriotas. As críticas
de Cugoano e Waman Pomaestá localizado em outro lugar, no espaço da virada
decolonial. Nesse sentido, o parágrafo citado é um entre muitos outros
semelhantes em que se fazem críticas às formas de governo e à comunidade
imperial formada por Espanha, Portugal, França e Inglaterra. Para Cugoano, a
distinção entre nações imperiais não tem sentido. O diferença colonialE não
para nas fronteiras interimperiais. Para a diferença imperial, porém, está em
jogo a formação nacional, e assim, a partir de 1558, Isabel I da Inglaterra
(1533-1603) teceu em seu Império Britânico a lenda negra contra os abusos dos
castelhanos na América, graças às informações e críticas fornecidas por
Bartolomé de Las Casas. Cugoano faz eco a isso, mas em troca pune os ingleses
por suas brutalidades contra os escravos negros, semelhantes ou piores que as
dos castelhanos contra os índios. Contudo, Elizabeth I não criticou a brutalidade
dos ingleses que ela havia condenado nos castelhanos. A crítica de Cugoano é
situada e pensada na e a partir da diferença colonial. A lenda negra é localizada
e pensada na e a partir da diferença imperial. Cugoano não se deixa enganar
nem se distrair pelas controvérsias imperiais. Para um ex-escravo, todos os
gatos são pardos:
10 A seção entre aspas no parágrafo vem deHistória da América(1777) por William Robertson.
40
Esse tráfico de sequestros e roubos de homens foi iniciado pelos portugueses na costa da
África […] Os espanhóis seguiram seu exemplo infame, e o comércio de escravos africanos
foi considerado muito vantajoso para eles, para permitir que vivessem com facilidade e
riqueza pela cruel submissão e escravidão de outros. Os franceses e ingleses, e algumas
outras nações da Europa, ao fundarem assentamentos e colônias nas Índias Ocidentais ou
na América, seguiram o mesmo caminho e se uniram aos portugueses e espanhóis para
roubar e pilhar a África, bem como devastar e desolar os habitantes dos continentes
ocidentais. (Cugoano, 1999, p. 72)
A transformação devidas humanas em matéria descartávelÉ algo mais do que
a “vida nua” que Giorgio Agamben descobriu no Holocausto. Cugoano ajudou a
iniciar uma crítica que se reproduz hoje, por exemplo, na “necropolítica” de
Achille Mbembe, que, partindo da “biopolítica” de Michel Foucault, a desloca
para o espaço epistemológico de demarcação e abertura do pensamento
decolonial. As divisões imperiais/nacionais ficam expostas quando vistas da
perspectiva da lógica da colonialidade: lutas imperiais por mercadorias
humanas. As reflexões de Agamben são importantes, mas tardias, regionais e
limitadas. Começar pelos refugiados da Segunda Guerra Mundial e do
Holocausto significa ignorar os quatrocentos anos de história moderna/colonial
em que os refugiados e o Holocausto nazista são apenas mais um momento na
longa cadeia de descartabilidade da vida humana. Esse foi justamente um dos
argumentos mais fortes de Cugoano, como veremos em breve. A genealogia do
pensamento decolonial é desconhecida na genealogia do pensamento europeu.
Assim, Agamben retorna a Hanna Arendt e Heidegger, mas ignora, desconhece
ou simplesmente não é afetado pelo pensamento de Aimé Césaire, canônico na
genealogia do pensamento imperial. Em 1955, Césaire pôde ver o que talvez
poucos (ou nenhum) pensadores europeus pudessem “ver”, tão despossuídos
estavam e estão do arquivo construído pela ferida colonial. Césaire observou em
seuDiscurso sobre o colonialismo:
Sim, valeria a pena estudar clinicamente, em detalhe, os passos dados por Hitler e pelo
hitlerismo e revelar à burguesia muito distinta, muito humanista, muito cristã do século XX
que, sem que ele se aperceba, tem um Hitler dentro de si, que Hitler o habita, que Hitler é o
seu demónio, que se o critica, está a ser incoerente e que, no fundo, o que ele não pode
perdoar a Hitler não é o crime em si, o crime contra o homem, não é a humilhação do
homem como tal, é o crime contra o homem branco, a humilhação do homem branco, e o
facto de ter aplicado à Europa procedimentos colonialistas que até então tinham sido
reservados exclusivamente aos árabes ou à Argélia, aos "coolies" da Índia e aos "niggers"
de África. (Césaire, 2000, p. 5)11
Assim, a “vida nua” que Agamben “descobriu”, e que tanto entusiasmou a
mentalidade branca da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, é tardiamente o
que os indianos e os negros já conheciam desde o século XVI. Que as vidas
11 Cito aqui a tradução em inglês. A primeira tradução em espanhol está prestes a ser publicada
(Madri: Ediciones Akal).
41
que pessoas brancas pudessem ser descartáveis era uma novidade para a
Europa e a Anglo-América. Essa novidade também faz parte da cegueira do
“homem branco”; uma cegueira em que a descoberta da descartabilidade da
vida humana permite agora a construção de argumentos “críticos” baseados na
humilhação do homem branco. O pensamento decolonial, que também aborda
os horrores do Holocausto, o faz a partir de sua gestação histórica no século
XVI, em histórias paralelas, na Europa, nas Américas e entre as populações da
Ásia.
Neste ponto, vale a pena retornar à localização, não apenas geo-histórica,
mas também epistêmica (e a correlação entre ambas) do pensamento. Na
história das ideias, da filosofia, da ciênciaemEuropa edeNa Europa, esta questão
era tida como certa, porque se presumia que o que é importante éaquilo que e
sobre o qual se pensa e não de onde e de onde se pensa. Vamos ver um botão
de exemplo. Com uma prosa gloriosa que lembra a música de Wagner, Jean-
Jacques Rousseau anuncia assim a sua posição epistémica, ética e política no
Discursos sobre a origem e os fundamentos da desigualdade para os homens(
1755):
Meu assunto referente ao homem em geral, tentarei encontrar uma linguagem que sirva a
todas as nações; Melhor ainda, esquecendo os tempos e os lugares para pensar apenas nos
homens com quem falo, suporei que estou no Liceu de Atenas repetindo as lições dos meus
professores, tendo Platão como juízes e Xenófanes e a raça humana como ouvintes.
(Rousseau, 1977, p. 152)
Mas Waman Poma e Ottobah Cugoano dificilmente imaginariam o Liceu de
Atenas como cenário para suas palavras, nem “esqueceriam o tempo e o
espaço”. Eles diriam — imagino — que seu assunto é de interesse da
humanidade em geral, já que falam de uma civilização que veio para descartar
vidas humanas. Mas eles apontariam a diferença colonial que, a partir do século
XVI, “reorganizou a raça humana” como uma possível “audiência” e ocultou o
fato de que dentro dessa raça humana há vidas que não têm valor. Rousseau
escreveu um parágrafo que revela o deslumbramento do desejo e da vontade
de falar porA humanidade, numa época em que a transformação massiva da
vida em matéria descartável (que começou a ocorrer pela primeira vez na
história da “raça humana” no século XVI), já ocorria há mais de dois séculos.
Assim como Cugoano, cerca de vinte anos depois, e como Waman Poma, cerca
de dois séculos antes, Rousseau estava preocupado com a desigualdade entre
os homens. Observando o cenário europeu, em seu presente e em sua história,
mas desatento às desigualdades e à ferida infligida pela diferença colonial,
Rousseau observou:
Concebo na espécie humana duas espécies de desigualdade: uma que chamo de natural ou
física, porque foi estabelecida pela natureza e que consiste na diferença de idade, de saúde,
de força do corpo e de qualidades do espírito ou da alma; outra, que pode ser chamada de
desigualdade moral ou política, pois depende de uma espéciede convenção e é
estabelecida, ou pelo menos autorizada, pelo consentimento de
42
homens. Este último consiste nos diferentes privilégios que alguns desfrutam em
detrimento de outros, como ser mais rico, mais honrado, mais poderoso que eles, ou até
mesmo ser obedecido. (Rousseau, 1977, p. 150)
Para Rousseau, questionar a origem dadesigualdade naturalNão fazia
sentido, pois essa questão, segundo ele, já estava respondida de antemão pela
simples definição da palavra: a desigualdade é natural, e não há mais nada a
perguntar. É ainda mais absurdo perguntar – continua Rousseau – se existe
alguma ligaçãoessencialentre as duas desigualdades, pois fazer essa pergunta
significaria perguntar se aqueles que estão no poder e em posição de comandar
são necessariamente melhores do que aqueles que estão em posição de
obedecer. Este tipo de pergunta, conclui Rousseau, seria apropriado numa
discussão sobre escravos numa audiência com o seu senhor, mas totalmente
improdutiva e incorreta se tais perguntas fossem dirigidas a “homens razoáveis
e livres em busca da verdade” (Rousseau, 1977, p. 150). Como muitas outras
figuras do Iluminismo do século XVIII (Kant entre elas), Rousseau condenou a
escravidão, mas essa condenação não resultou da simples aceitação da
igualdade entre europeus e escravos africanos. A “desigualdade natural” é um
princípio racional suficiente para distinguir, ao mesmo tempo, a injustiça da
escravatura, mastambéma inferioridade dos negros africanos.
Ottobah Cugoano mudou completamente os debates sobre direito e direito
natural que ocupavam os pensadores brancos iluministas do século XVIII.
Enquanto Waman Poma respondia ao debate imperial de toda uma legião de
missionários e homens de letras (Las Casas, Acosta, Murúa, que ele menciona
no final doNova Crônica), Cugoano respondeu às ideias em voga durante o
Iluminismo e em um momento de ascensão intelectual na Inglaterra, Alemanha
e França. Entre os nomes que dominaram o campo intelectual, filosófico e
político da época estavam: George Berkeley, Princípios do Conhecimento
Humano(1710),Alexandre Pope,Ensaio sobre o Homem(1734), David Hume,
Inquérito sobre o entendimento humano(1748) e Ephraim Lessing,Educação da
raça humana(1780). As análises econômicas de Cugoano sobre a relação entre a
escravidão e o mercado também invertem o tratado de Adam Smith,A Riqueza
das Nações, publicado cerca de dez anos antes do de Cugoano. Além disso,
tendo intitulado o seu discursoPensamentos e Sentimentos, Cugoano faz alusão
direta ao tratado de Smith,A teoria dos sentimentos morais(1759). Em suma, o
tratado de Cugoano é uma crítica ética brutal aos predadores imperiais e aos
ladrões de homens (expressões que aparecem repetidamente em seu discurso),
em nome da ética cristã; uma análise da economia e da escravidão, insistindo
constantemente na descartabilidade das vidas negras (“nossas vidas são
consideradas sem valor”). Cugoano conclui seu discurso com propostas
concretas para acabar com a escravidão, compensar as nações africanas pelos
danos causados e legalizar o trabalho. Independentemente de estas questões
levantadas por Cugoano serem ou não abertas
43
Ainda hoje, o que é importante para a minha argumentação é identificar em que
consiste a viragem descolonial. Anthony Bogues marca claramente o distanciamento
e a abertura de Cugoano no campo da teoria política. Em relação aos debates e
tópicos em discussão entre filósofos e escritores políticos europeus da Inglaterra,
Alemanha e França no século XVIII, Bogues afirma o seguinte:
O discurso político de Cugoano sugere a existência de uma corrente diferente que articula
noções sobre liberdade natural e direitos naturais. Para Cugoano, o direito natural
fundamental era o direito do indivíduo de ser livre e igual, não em relação ao governo, mas
em relação a outros seres humanos. (Bogues, 2005, pág. 45)12
Bogues acrescenta que o argumento de Cugoano, que clama pela igualdade
dos negros em um mundo onde a teoria política e o conceito de humanidade
estavam nas mãos dos brancos ("desigualdade natural"), complementa a virada
decolonial ao afirmar que os seres humanos são iguais e livres em relação a
outros seres humanos.e não contra o Estado. Lembremos que o argumento de
Rousseau, por outro lado, é a igualdade formal dos homens perante o Estado e
sua desigualdade no "estado de natureza". Essa mudança é o que separa
Cugoano do resto dos abolicionistas brancos, que argumentam contra a
escravidão, mas defendem a inferioridade do negro:
Quando somamos essas coisas, não podemos escapar da conclusão de que existia na
narrativa da escravidão de Cugoano uma contranarrativa política que se movia em uma
direção diferente dos horizontes políticos do Iluminismo. (Bogues, 2005, pág. 45)
A “direção diferente” que Cugoano assume no horizonte político do
Iluminismo é precisamente o que tento descrever aqui como a virada decolonial
e a gestação do pensamento decolonial na própria fundação do sistema-mundo
moderno/colonial. A força e a energia do pensamento decolonial sempre
estiveram “lá”, no exterior, naquilo que era negado pelo pensamento imperial/
colonial.
PARAMODO DE CONCLUSÃO
Poderíamos continuar a genealogia do pensamento decolonial, focando, por
exemplo, em Mahatma Gandhi. Mencioná-lo aqui é importante pelo seguinte
motivo: Cugoano e Gandhi estão unidos, em diferentes pontos do planeta, pelo
Império Britânico, da mesma forma que Waman Poma e Cugoano estão unidos
pela continuidade do imperialismo europeu ocidental na América. Poderíamos
continuar com Frantz Fanon e conectá-lo a Cugoano por meio da ferida colonial
nos africanos e também pela cumplicidade imperial entre Espanha, Inglaterra e
França (apesar de seus conflitos imperiais). Com isso quero destacar o seguinte:
a genealogia da
12 As citações de Anthony Bogues foram retiradas de “The Political Thought of Quobna Cugoano:
Radicalized Natural Liberty” (2005).
44
O pensamento decolonial se estrutura no espaço planetário da expansão
colonial/imperial, ao contrário da genealogia da modernidade europeia, que se
estrutura na linha do tempo de um espaço reduzido, da Grécia a Roma, à
Europa Ocidental e aos Estados Unidos. O elemento genealógico em comum
entre Waman Poma, Cugoano, Gandhi e Fanon é a ferida infligida pela diferença
colonial.
A virada descolonial (descolonização epistêmica) operada por Waman Poma e
Cugoano ocorreu no horizonte das monarquias, antes do surgimento do Estado
moderno (burguês) e do surgimento das três ideologias seculares imperiais do
sistema-mundo moderno: conservadorismo, liberalismo e marxismo
(Wallerstein, 1995). Portanto, no horizonte epistêmico de ambos, a teologia é
rainha. Contudo, a genealogia do pensamento decolonial épluriletra maiúscula
(nãouniletra maiúscula). Assim, cada nó da rede dessa genealogia é um ponto
de partida e abertura que reintroduz línguas, memórias, economias,
organizações sociais, subjetividades, esplendores e misérias de legados
imperiais. A atualidade exige, e exige, uma abordagem decolonial que articule
genealogias espalhadas pelo planeta e ofereça “outras” modalidades
econômicas, políticas, sociais e subjetivas. O processo está em andamento e o
vemos todos os dias, apesar das más notícias que recebemos do Oriente Médio,
da Indonésia, de Nova Orleans e da guerra interna em Washington.
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