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SANDRA AUGUSTA MARTINE PLANEJAMENTO EM SERVIÇO SOCIAL 2024 PLANEJAMENTO EM SERVIÇO SOCIAL Sandra Augusta Martine PRESIDENTE Frei Thiago Alexandre Hayakawa, OFM DIRETOR GERAL Jorge Apóstolos Siarcos REITOR Frei Gilberto Gonçalves Garcia, OFM VICE-REITOR Frei Thiago Alexandre Hayakawa, OFM PRÓ-REITOR DE ADMINISTRAÇÃO E PLANEJAMENTO Adriel de Moura Cabral PRÓ-REITOR DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO Dilnei Giseli Lorenzi COORDENADOR DO NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA - NEAD Franklin Portela Correia CENTRO DE INOVAÇÃO E SOLUÇÕES EDUCACIONAIS - CISE Franklin Portela Correia REVISÃO TÉCNICA Aracelia Maria Sagrado Lovato PROJETO GRÁFICO Centro de Inovação e Soluções Educacionais - CISE CAPA Centro de Inovação e Soluções Educacionais - CISE DIAGRAMADORES Andréa Ercília Calegari Lucas Ichimaru Testa © 2024 Universidade São Francisco Avenida São Francisco de Assis, 218 CEP 12916-900 – Bragança Paulista/SP CASA NOSSA SENHORA DA PAZ – AÇÃO SOCIAL FRANCISCANA, PROVÍNCIA FRANCISCANA DA IMACULADA CONCEIÇÃO DO BRASIL – ORDEM DOS FRADES MENORES A AUTORA A REVISORA TÉCNICA SANDRA AUGUSTA MARTINE Assistente Social formada pela PUC-SP em 1988. Mestre em Serviço Social pela PU- C-SP, em 2010, na área de conhecimento em Políticas Sociais. Doutora pela PUC-SP, em 2019, na área de conhecimento em Formação e Prática Profissional. Professora da graduação e da pós-graduação da FAPSS-SP – Faculdade Paulista de Serviço Social. Professora da graduação do Centro Universitário Italo – Santo Amaro. Professora do Programa Capacita-SUAS. Professora dos cursos de Pós-Graduação da ATUALIZE e da AMPLITUDE. Assistente Social há 34 anos, tendo atuado tanto no Poder Público quanto no 3º Setor, com os vários ciclos de vida e segmentos. Atualmente aposentada pela PMTS. Prestadora de serviços de assessoria, consultoria e formação. ARACELIA MARIA SAGRADO LOVATO Mestre Adolescente em Conflito com a Lei, Mestrado Profissional UNIAN/ Anhanguera / Kroton (SP)- 2016). Pós Graduação em Terapia Familiar -Centro de Formação e es- tudos Terapêuticos da Família- CEFATEF ( 2004). Graduação em Serviço Social pela Faculdade de Serviço Social de Lins (SP) ( 1985 . Experiências: Docente na faculdade Anhanguera de São Bernardo do Campo - SP , Curso de Serviço Social. Diretora da Proteção Social Básica no Município de Diadema, Coordenadora de CREAS e CRAS no Município de Diadema ( SP), Gerente da Proteção Social Especial de São Bernardo do Campo (SP), Técnica -Assistente Social em Santo André ( SP) e em diversas Orga- nizações Não Governamentais na área da Família, adolescência e Idosos. SUMÁRIO UNIDADE 01: CONCEITO DE PLANEJAMENTO E AS DIMENSÕES LÓGICO-RACIONAL E POLÍTICA ...........................................................................6 1. Elementos teórico-conceituais do planejamento: significado, intencionalidade e modelos organizativos .............................................................................................6 2. Gestão e planejamento nas esferas pública, privada e terceiro setor: definições, finalidade organizativa, funções gerenciais e lócus na execução ...........................16 3. O planejamento no Serviço Social: ferramenta técnica e política no trabalho do assistente diante das expressões da questão social ..............................................20 UNIDADE 02: PLANO, PROGRAMA E PROJETO NA ÁREA SOCIAL ................28 1. A planificação e seus documentos: planos, programas e projetos .....................28 2. Projeto Social .....................................................................................................36 3. Indicadores sociais .............................................................................................41 UNIDADE 03: PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO .................................................58 1. Conceito: principais aspectos de planejamento estratégico ...............................58 2. Tipos de planejamento estratégico: Missão, visão valores; Análise ambiental ... 61 3. Tomadas de decisões. Plano de ação. Diagnóstico estratégico .........................71 UNIDADE 04: UTILIZAÇÃO DO PLANEJAMENTO NO PROCESSO DE TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL ...........................................................86 1. Planejamento e Serviço Social ............................................................................86 2. O planejamento no Serviço Social: ferramenta técnica e política no trabalho do assistente social diante das expressões da questão social ....................................89 3. Elementos constitutivos na elaboração de projeto de intervenção social ...........94 6 1 Conceito de planejamento e as dimensões lógico-racional e política UNIDADE 1 CONCEITO DE PLANEJAMENTO E AS DIMENSÕES LÓGICO- RACIONAL E POLÍTICA INTRODUÇÃO Nesta unidade vamos apresentar os elementos teórico-conceituais do planejamento, seu significado, intencionalidade e modelos organizativos. Além disso, discutiremos suas funções gerenciais e os lócus possíveis na sua execução. Trabalharemos ainda a relação intrínseca entre a importância e a necessidade do planejamento no trabalho profissional do assistente social. Assim, partimos do pressuposto de que planejar é inerente ao ser humano, sendo então premissa, inclusive, para as nossas ações profis- sionais, ou seja, qualquer intervenção do assistente social deve ser planejada, evitando o imediatismo e o pragmatismo. SAIBA MAIS No texto “Expressões do pragmatismo no Serviço Social: reflexões preliminares”, a autora Yolanda Guerra traz a discussão a respeito do imediatismo e o pragmatismo no Serviço So- cial, e a influência desses conceitos na trajetória teórica e política da profissão. Acesse o site: https://www.scielo.br/j/rk/a/YC4WByMy9S8rWF7qwRZff8y/?format=pdf&lang=pt. O planejamento é um processo, portanto, parte-se da premissa de que existe uma se- quência temporal de fatos que se concretizam ao longo da história, e não de aconteci- mentos isolados que surgem em um momento específico. Para cumprir o seu papel, o planejamento deve cumprir etapas e apresentar-se como uma ferramenta de participa- ção da sociedade, mas nem sempre foi assim. Vamos entender melhor as definições de planejamento, suas tipologias, intencionalidades e instrumentos. 1. ELEMENTOS TEÓRICO-CONCEITUAIS DO PLANEJAMENTO: SIGNIFICADO, INTENCIONALIDADE E MODELOS ORGANIZATIVOS O planejamento é o ato ou o efeito de planejar, fazendo parte do nosso cotidiano. Todos os seres racionais planejam. O planejamento tanto é aplicado na vida social como tam- bém é instrumento imprescindível do trabalho profissional. https://www.scielo.br/j/rk/a/YC4WByMy9S8rWF7qwRZff8y/?format=pdf&lang=pt 7 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social 1.1 O QUE É O PLANEJAMENTO? Apenas no século XIX o planejamento passa a ser objeto de preocupação, importância e relevância quando usado para atender aos interesses das organizações e empresas capitalistas. É implementado como um “plano B” na tomada de decisão em decorrência das alterações drásticas do mercado. Várias críticas cercaram o processo de planejamen- to nesse período, o que perdurou por alguns anos, pois era visto como instrumento de dominação e retaliação do processo de trabalho então vivenciado. Ainda era considerado uma ferramenta burocrática que não acrescentava aspectos positivos às relações sociais vivenciadas pelos trabalhadores, mas que somente atendia ao modo de produção. Esse pensamento, apesar de legítimo nas circunstâncias descritas – afinal, há uma inten- cionalidade no ato de planejar –, não exprime o conceito mais amplo do planejamento. Segundo Barbosa (1980, p. 11), pode-se considerar o planejamento um processo de reflexão, “como uma disciplina que instrumenta transformações da realidade social”. O autor afirma ainda que “por natureza, o planejamento não é o todo-poderoso, nem meio de dominação da sociedade, mas, ao contrário, tem caráter eminentemente humanísti- coe instrumentais indis- pensáveis, acompanhados, sempre que possível, de cronograma dos mo- mentos de disponibilidade; o volume e a composição das inversões e gastos para todo o período e para cada fase; 32 Plano, Programa e Projeto na área social 2 a especificação das fontes e/ou modalidades de financiamento; a previsão de mudanças legais, institucionais e administrativas indispensá- veis para sua viabilidade; a atribuição das responsabilidades de execução, de controle e avaliação dos resultados. (BAPTISTA, 2000, p. 99-100) Nesse sentido, um plano deve conter alguns itens indispensáveis: diagnóstico socioter- ritorial; objetivos gerais e específicos; diretrizes e prioridades deliberadas; ações e es- tratégias correspondentes para sua implementação; metas estabelecidas; resultados e impactos esperados; recursos materiais, humanos e financeiros disponíveis e necessá- rios; mecanismos e fontes de financiamento; cobertura da rede prestadora de serviços; indicadores de monitoramento e avaliação; espaço temporal de execução. EXEMPLO O Plano Municipal de Assistência Social contém o detalhamento das demandas e ofertas de serviços socioassistenciais do município, assim como os objetivos e as ações planejadas para os próximos quatro anos. O PMAS é indispensável para interlocução e negociação no momento de negociar o financiamento dos programas de assistência social com a União. O PMAS deve conter o diagnóstico dos problemas sociais do município, o mapa da rede socioassistencial, os objetivos, as metas (objetivos em números) e as ações (descrição de programas, serviços e projetos). Modelo de PMAS 1. Dados de identificação 1.1 Identificação do plano: título; vigência; responsáveis pela elaboração; colaboradores; perío- do de elaboração; responsável para contato (nome, telefone, e-mail); entre outras informações. 1.2 Dados municipais: nome do município; porte do município (opções: Pequeno Porte I, Pequeno Porte II, Médio Porte, Grande Porte, Metrópole); nível de gestão do Suas (opções: inicial, básica, plena); nome do prefeito; período de mandato; endereço da prefeitura (rua, número, bairro, CEP); telefone (DDD e número); site; e-mail. 1.3 Dados do órgão gestor da assistência social: nome do órgão gestor; endereço (rua, núme- ro, bairro, CEP); telefone (DDD e número); site; e-mail; nome do gestor. 1.4 Dados do Fundo Municipal de Assistência Social (FMAS): Lei de criação do FMAS, decreto de regulamentação; CNPJ; nome do gestor; fonte de recursos (municipal, estadual, federal). 1.5 Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS): Lei de criação do CMAS; endereço (rua, número, bairro, CEP); telefone (DDD e número); site; e-mail; nome do presidente; pe- ríodo de mandato; representação (opções: governamental, não governamental, usuários); número de conselheiros; secretaria executiva. 2. Introdução Contempla informações da concepção de planejamento adotada pelo município, demons- trando sua importância na organização da política de assistência social e o atendimento à legislação em vigor. Pode-se explicitar o processo de elaboração e estruturação do plano municipal e a forma como se deu a participação da sociedade civil na elaboração do plano. 33 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social Também é possível abordar neste item como será o monitoramento e a avaliação das ações e metas planejadas. 3. Diagnóstico socioterritorial 3.1 Contextualização sócio-histórica do município: abordar brevemente um histórico do mu- nicípio e da região, suas características e particularidades, considerando aspectos da diver- sidade cultural, social, política e econômica. 3.2 Diagnóstico socioterritorial de vulnerabilidades e riscos sociais: análise a avaliação das vul- nerabilidades e riscos sociais postos naquele dado território. 3.3 Análise do diagnóstico socioter- ritorial de vulnerabilidades e riscos sociais a partir da política de assistência social: é necessário analisar as situações de vulnerabilidade e risco social identificadas no diagnóstico socioterritorial. 4. Objetivos Os objetivos do Plano devem estar fundamentados em diretrizes e princípios que indicam os resultados que se pretende atingir com sua execução. Esses objetivos devem levar em conta as legislações vigentes, tanto a nível federal como a municipal. 4.1 Objetivo geral: estabelece, de forma global e abrangente, as intenções e os resultados esperados do PMAS, orientando seu desenvolvimento. 4.2 Objetivos específicos: estabelece eventos ou ações concretas que contribuirão para al- cançar o objetivo geral. 5. Diretrizes e prioridades deliberadas O Plano Municipal de Assistência Social deve ser coerente e compatível com as legislações vigentes e com as diretrizes da administração pública e das políticas setoriais que tenham interfaces com a assistência social. Indica-se que as diretrizes da Política Nacional de As- sistência Social também sejam contempladas. São elas: descentralização político-adminis- trativa, participação da população, primazia da responsabilidade do Estado na condução da política e centralidade na família (PNAS, 2004). 6. Ações e estratégias correspondentes para sua implementação Este item deve ser formulado de acordo com os objetivos e metas estabelecidos, e deve aten- der às demandas identificadas no Diagnóstico socioterritorial. As ações a serem desenvolvidas devem estar pautadas em estratégias claras e objetivas. É importante que sejam compatibili- zadas com recursos financeiros e humanos, cobertura da rede, tempo disponível e metas esta- belecidas, entre outros elementos. É preciso estar atendo à diversidade do território e à cultura institucional e interinstitucional, pois trata-se de relações políticas e de espaços de poder. 7. Metas As metas são a quantificação dos objetivos em um tempo determinado. Nelas se considera desde o público atendido até a sua ampliação, levando em conta, ainda, os recursos dispo- níveis e a serem disponibilizados. 8. Resultados e impactos esperados Os resultados são o produto que se desenvolveu com base nos objetivos específicos e das metas estabelecidas. Os impactos referem-se à qualidade dos resultados obtidos, servindo 34 Plano, Programa e Projeto na área social 2 inclusive para expressar modificações nas situações de vulnerabilidade e risco social e na cobertura da rede prestadora de serviços em seus mais diversos componentes. 9. Recursos materiais, humanos e financeiros disponíveis e necessários Nenhum serviço socioassistencial pode funcionar sem estrutura, equipamentos e materiais adequados, nem sem equipes técnicas de profissionais de diferentes áreas do conhecimento em quantidade suficiente para atender à demanda. Tudo isso exige a previsão de recursos materiais, humanos e financeiros, que devem ser alocados o mais próximo possível dos ter- ritórios onde vivem as famílias destinatárias da política. É importante ressaltar que a pretensão não é somente equipar os serviços, seja pelas refor- mas, aquisição de imóveis e móveis, equipamentos de informática, entre outras ferramentas necessárias, mas também ofertar serviços de qualidade às famílias e indivíduos para que eles se sintam acolhidos e seguros no ambiente de atendimento. Por isso, é importante pres- tar atenção à localização dos serviços, aos aspectos culturais da população, à acessibilidade e à divisão do espaço em salas de atendimento, salas multiuso, salas de coordenação, almo- xarifado e banheiros, com iluminação e acústica adequados. Quanto aos recursos humanos, é necessário observar os parâmetros gerais para a gestão do trabalho a ser implementada na assistência social, englobando todos os trabalhadores do SUAS, órgãos gestores e executores de ações, serviços, programas, projetos e benefícios da assistência social estabelecidos pela BRASIL. NOB-RH/SUAS. Norma Operacional Básica de Recursos Humanos do SUAS. Brasília, DF. 2006. 10. Mecanismos e fontes de financiamento Os recursos para a assistência social provêmdo orçamento da Seguridade Social, formado por contribuições sociais e recursos fiscais e remetidos ao Fundo Nacional de Assistência Social. Este item apresenta o total de recursos destinados à assistência social alocados no Fundo Municipal de Assistência Social. O detalhamento deve seguir o planejamento orça- mentário feito no PPA e a participação do estado e da União no cofinanciamento. 11. Cobertura da rede prestadora de serviços Além do diagnóstico socioterritorial de vulnerabilidade e riscos, também é preciso relacionar o conjunto de serviços, programas, projetos e benefícios oferecido pela assistência social e pelas demais políticas sociais públicas, ou seja, identificar a cobertura da rede prestadora de serviços. O Plano deve detalhar informações dos tipos de serviços existentes em cada nível de proteção, a quantidade e a capacidade de atendimento, a cobertura e os padrões de qualidade, o quadro profissional disponibilizado, as modalidades de relação adotadas entre a administração pública e as entidades de assistência social (convênio, contrato, acordo de cooperação técnica, entre outros), e as competências a serem assumidas. 12. Indicadores de monitoramento e avaliação Os indicadores de monitoramento e avaliação devem ser escolhidos pelo município. Após essa escolha, é importante observar as dimensões dos indicadores de monitoramento contidas no art. 100 da NOB/SUAS: estrutura ou insumos, processos ou atividades, produtos ou resultados. Para tanto, há um conjunto mínimo de indicadores para subsidiar o acompanhamento da qualidade e do volume de oferta dos serviços, programas, projetos e benefícios de proteção social básica e proteção social especial, o cumprimento do Protocolo de Gestão Integrada de Serviços, Benefícios 35 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social e Transferência de Renda, o desempenho da gestão de cada ente federativo, o monitoramento do funcionamento dos Conselhos de Assistência Social e das Comissões Intergestores, conforme art. 101 da NOB/SUAS (BRASIL. NOB-RH/SUAS. Norma Operacional Básica de Recursos Huma- nos do SUAS. Brasília, DF. 2012.). Com relação à avaliação, o art. 107 da NOB/SUAS (BRASIL, 2012) afirma que os municípios podem, sem prejuízo de outras ações de avaliação que venham a ser desenvolvidas, instituir práticas participativas de avaliação da gestão e dos serviços da rede socioassistencial, envolvendo trabalhadores, usuários e instâncias de controle social. 13. Espaço temporal de execução Este item delimita o período de vigência do PMAS, ou seja, de quatro anos. Nele, pode-se especificar quais as ações a serem desenvolvidas em cada ano. Programa É o aprofundamento do plano, seu detalhamento, por setor, das políticas e diretrizes. Pode-se defini-lo como “um conjunto de projetos que perseguem os mesmos objetivos. Estabelece as prioridades nas intervenções, identifica e ordena os projeto, define o âmbito institucional e aloca os recursos a serem utilizados” (COHEN; FRANCO, 2008, p. 85) Em geral, as organizações responsáveis pelos programas são governamentais, mas existem também as instituições privadas, não governamentais, que operam dentro das diretrizes públicas. SAIBA MAIS Os programas perduram por um período de cinco anos, podendo se estender por mais tem- po, como foi o caso do Programa Bolsa Família. Acesse o site: https://www.gov.br/cidadania/ pt-br/acoes-e-programas/covid-19/transparencia-e-governanca/bolsa-familia. Segundo Baptista (2000, p. 100), o programa é, […] basicamente, um desdobramento do plano: os objetivos setoriais do pla- no irão constituir os objetivos gerais do programa. Permite projeções mais detalhadas à base de coeficientes e de informações mais específicas com relação aos diferentes níveis, modalidades e especificações de alcance se- torial ou regional. Conforme Baptista (2000, p. 101, 102), alguns elementos são considerados básicos e devem obrigatoriamente pertencer a um programa. São eles: a síntese de informações sobre a situação a ser modificada com a progra- mação; a formulação explícita das funções efetivamente consignadas aos órgãos e/ ou serviços ligados ao programa, com responsabilidade em sua execução; a formulação de objetivos gerais e específicos e a explicitação de sua co- erência com as políticas, diretrizes e objetivos do sistema maior, e de sua relação com os demais programas do mesmo nível; a estratégia e a dinâmica de trabalho a serem adotadas para a realização do programa; https://www.gov.br/cidadania/pt-br/acoes-e-programas/covid-19/transparencia-e-governanca/bolsa-familia https://www.gov.br/cidadania/pt-br/acoes-e-programas/covid-19/transparencia-e-governanca/bolsa-familia 36 Plano, Programa e Projeto na área social 2 as atividades e os projetos que comporão o programa, suas interligações, incluindo a apresentação sumária de objetivos e de ação; os recursos humanos, físicos e materiais a serem mobilizados para sua re- alização; a explicitação das medidas administrativas necessárias para sua implanta- ção e manutenção. Projeto É a unidade mais específica e delimitada no planejamento. São instrumentos necessá- rios às práticas profissionais, que delimitam a intervenção quanto aos objetivos, metas, formas de atuação, prazos, responsabilidades e avaliação. É um empreendimento pla- nejado que consiste em um conjunto de atividades inter-relacionadas e coordenadas para alcançar objetivos específicos dentro dos limites de um orçamento e de um perío- do. Quanto menor o âmbito e maior o grau de detalhamento, mais ele terá as caracterís- ticas de um projeto. Em relação ao projeto, nos aprofundaremos mais à frente no texto. CURIOSIDADE Quanto maior o âmbito e menor o detalhe referido, mais o documento se caracteriza como plano; quanto menor o âmbito e maior o grau de detalhamento, mais ele se caracterizará como projeto. 2. PROJETO SOCIAL Os projetos sociais, como já explicitado, são ferramentas estratégicas para o alcance de direitos da população usuária dos serviços das políticas públicas. Dessa maneira, é necessário aprofundar nosso conhecimento a respeito desses direitos para que concre- tamente atinjamos esse fim. 2.1. CONCEITOS E IMPORTÂNCIA No item anterior, apresentamos brevemente um dos documentos decorrentes do plane- jamento, e neste momento vamos à sua discussão em virtude da sua importância para a área social, e consequentemente para a nossa própria intervenção profissional nos diversos campos sócio-ocupacionais. Segundo a definição da ONU, “um projeto é um empreendimento planejado que consis- te num conjunto de atividades inter-relacionadas e coordenadas para alcançar objeti- vos específicos dentro dos limites de um orçamento e de um período de tempo dados” (apud COHEN; FRANCO, 1999, p. 85). Nesse sentido, uma distinção entre um projeto e outras formas de planejamento é considerá-lo uma tentativa de solucionar um proble- ma, de sanar uma necessidade, e pode-se afirmar que um projeto social é um planeja- mento para solucionar um problema. Os projetos sociais são criados para a mudança de uma dada situação da realidade social, sendo ações sistematizadas, organizadas com estrutura e intencionalidades, de 37 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social sujeitos sociais coletivos, organizações públicas ou privadas, que com base em estu- dos/diagnósticos, a respeito da problemática apresentada, buscam transformá-la. Segundo Armani (2009, p. 18), “Um projeto é uma ação social planejada, estruturada em objetivos, resultados e atividades, baseados em uma quantidade limitada de recursos […] e de tempo”. Ora, o projeto vai então detectar contextos sócio-históricos, identificar relações institucionais, grupais e comunitárias, planejando uma ação, considerando os limites e as possibilidades para a transformação social. Os projetos sociais podem ser impulsores de novas políticas públicas e/ou programas, em razão de seu caráter demonstrativodas possibilidades de resultados positivos e de impacto na realidade social. Eles colaboram para transformação de uma dada situação, em uma intervenção mais localizada no tempo e focalizada em seus resultados. A Constituição Brasileira de 1988 universalizou direitos até então restritos a certas ca- madas da população, o que fez surgir um aumento das demandas sociais dirigidas ao Estado. Nesse sentido, exigiu-se uma nova formatação das relações entre Estado e Sociedade Civil: descentralização do Estado; participação da Sociedade Civil organiza- da; novas fronteiras entre público e privado; complexidade no quadro de implementação de políticas sociais; redefinição de estratégias de articulação destas políticas sociais. Esse novo formato das relações entre Estado e Sociedade Civil faz do projeto social uma ferramenta adequada para dar conta da complexidade de implementação de políticas so- ciais, porque uma de suas características principais é a de delimitar a ação social, sendo então amplamente utilizada tanto pelo Estado como também pela Sociedade Civil. O projeto social, pelo Estado, deve ser visto como uma etapa ou uma forma de trabalho que se remete a objetivos de uma política pública. Já pela sociedade civil, esses obje- tivos podem produzir experiências inovadoras, colaborando para a consolidação e/ou mudanças nas políticas públicas, promovendo o empoderamento dos envolvidos. O projeto social, enquanto instrumento de ação, tem limites e desafios, e pode promo- ver riscos, que devem ser constantemente monitorados. Esses riscos são: fragmenta- ção das ações; excessiva dependência; falta de legitimidade ou alta de legitimidade ou representatividade; indefinição de responsabilidades e méritos; baixo controle da efetividade das ações; dificuldade na interpretação de desdobramentos do projeto. Armani (2009, p. 19) afirma que apesar dos riscos postos, as vantagens de atuar via projetos sociais valem todos os esforços: Por fim, ações sociais desenvolvidas através de projetos têm maior consci- ência técnica, aumentando a chance para parcerias e envolvimento organi- zado dos beneficiários, resultando em mudanças mais duradouras e susten- táveis. A isso chamamos de impacto. Ora, para desenvolver os projetos sociais há de se ter um gestor social que tenha mi- nimamente as seguintes capacidades: de compreensão do contexto social, político e institucional em que se dá a ação; de comunicação e de negociação; de definir, delegar e cobrar responsabilidades e tarefas; de coordenar o processo mais amplo da ação; de avaliação e agilidade para propor mudanças; de motivar as pessoas; de administrar 38 Plano, Programa e Projeto na área social 2 conflitos e frustrações; de gerenciar o trabalho em equipe; de valorizar e de promover a visibilidade do projetos e de seus resultados. Os projetos sociais têm características diferentes, mas todos apresentam quatro fases distintas, no que tange ao seu ciclo de vida e às etapas de cada uma das fases: 01. Elaboração: é o momento da identificação do problema, definição dos objetivos, progra- mação das atividades e confecção da proposta técnica do projeto, compreendendo três etapas: a) identificar um problema, uma carência, uma situação sentida como deficien- te; b) pensar em como solucionar o problema ou carência, e nas ações que poderiam contribuir para mudar essa situação; c) escolhida uma solução, parte-se para programar em detalhes o que vai ser feito, o que se espera que ocorra como resultado de nossa ação e o que se necessita agenciar e disponibilizar de modo a assegurar a realização do proposto. 02. Estruturação: uma vez decidido que o projeto vai ser realizado, é hora de organizar a equipe executora e mobilizar os meios necessários para executá-lo. 03. Realização: é o período quando as atividades previstas são realizadas e acompanhadas, de acordo com o planejado. 04. Encerramento: ao término do projeto é preciso analisar seus resultados e impactos, com- parando-se o que se pretendia originalmente com o realmente alcançado. 2.2. ELABORAÇÃO DE PROJETOS SOCIAIS A elaboração de um projeto social implica alguns pressupostos: identificar, compre- ender e agir em uma realidade constituída por redes de relações, em uma conjuntura dinâmica de forças sociais. Assim, isso implica a identificação de necessidades, po- tencialidades e sujeitos, e a articulação destes, viabilizando o projeto. Para a construção da identificação de necessidades, potencialidades e sujeitos, devem ser feitas as seguintes perguntas: ` Quais as necessidades da população? ` Que necessidades se traduzem em demandas? ` Quais as prioridades? ` Quais as potencialidades das organizações? ` Como podem ser organizadas as reivindicações? ` Que outros atores podem apoiar as ações? ` Quais atores se opõem ao projeto? Que sujeitos podem ser para o projeto? Na articulação entre os sujeitos há de se ter um consenso entre eles no que tange ao diagnóstico dos problemas, à forma de intervir na problemática detectada, aos objetivos a serem alcançados e aos resultados esperados. 39 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social Já no que se refere à viabilidade do projeto, no tocante aos aspectos sociais, há de se considerar: pertencimento local, considerações diante das peculiaridades culturais e suas representações, visibilidade pública e legitimidade institucional. No que remete aos aspectos econômicos, as considerações a serem feitas são: identificação de fontes de financiamento, conhecimento de procedimentos e condicionalidades das fontes de recursos, negociação das visões, expectativas e formatos entre financiadores, financia- dos e usuários/beneficiários e indicação das possibilidades da continuidade do projeto. Um bom projeto social deve responder a seis questões, a saber: ` Quem? Identifica o proponente do projeto. ` O quê? Consiste em definir objetivos e ações. ` Por quê? Mobilizará a organização que elabora uma proposta para justificar aquele trabalho. ` Como? Refere-se à metodologia. ` Quando e Onde? Dizem respeito ao tempo e ao espaço em que se desenvolverá o projeto. ` Quanto? Tem relação com os recursos necessários para sua execução. EXEMPLO Roteiro de um projeto social: 1. Título do projeto: “… deve refletir a natureza do problema enfocado e ter um impacto sig- nificativo ao leitor.” (CURY, 2001, p. 21). 2. Apresentação da organização, município, entidade, responsável pelo projeto etc.: “… deve conter: nome ou sigla da organização; composição da diretoria, da coordenação e nome do res- ponsável pelo projeto; endereço completo; histórico resumido da entidade (quando foi criada, diretrizes gerais, percurso ligado ao social, parcerias e trabalhos realizados, resultados alcan- çados e principais fontes de recursos ou financiamentos da organização).” (CURY, 2001, p. 21). 3. Diagnóstico da comunidade: é necessário que se conheça a realidade social (desde o terri- tório, suas relações, os sujeitos sociais envolvidos, os recursos e equipamentos existentes, as lideranças, as forças sociais locais, a própria instituição etc.). Para um bom diagnóstico, algu- mas informações são necessárias: localização, pequeno histórico, público-alvo, organizações/ serviços/políticas existentes, perfil da população, necessidades, desejos, demandas etc. 4. Justificativa com dados consistentes: deve responder à pergunta: por que executar o pro- jeto? Por que o projeto precisa acontecer? Deve ainda descrever as razões determinantes do projeto, os fatores de motivação que levaram à abordagem do assunto, a situação atual, a descrição dos antecedentes do problema, os esforços já realizados ou em curso para re- solvê-lo. 5. Objetivo geral e objetivos específicos: Objetivo geral – é o fim que se pretende alcançar com o desenvolvimento do projeto. Objetivo específico – é o detalhamento do objetivo geral. 40 Plano, Programa e Projeto na área social 2 Metas – são os objetivosquantificados; estimativas de mudanças que deverão ocorrer com a execução do projeto. 6. Metodologia: “… deve relatar, suscintamente, o modelo teórico utilizado, explicitar as roti- nas e as estratégias planejadas, as responsabilidades e os compromissos assumidos, como o projeto vai se desenvolver, todos os envolvidos e o nível de participação/responsabilidade de cada um.” (CURY, 2001, p. 23). 7. Sistema de avaliação e monitoramento: é preciso descrever como será o sistema de mo- nitoramento e avaliação do projeto, apresentando alguns indicadores, os instrumentos e es- tratégias de coleta de dados e a equipe responsável pelo processo. 8. Cronograma de atividades: deve enumerar as atividades necessárias a realização do pro- jeto e suas etapas no tempo, detalhadamente. Figura 02. Modelo de cronograma ATIVIDADE RESPONSÁVEL MÊS Jan Fev Mar Abr Mal Jun Jul Diagnóstico Social Reunião com a Comissão Elaboração do Plano Preparação dos Instrumentos Divulgação Implementação Avaliação Relatório Final Fonte: elaborada pela autora. 9. Cronograma físico-financeiro: é uma ferramenta importante para o controle, usado para administrar a execução do projeto, via fluxo de caixa – ou seja, o desembolso financeiro – para que se cumpra o orçamento do projeto. 10. Anexos (anexar fotos, currículos e outros documentos): tudo que agrega valor ao projeto: questionários, fotos, gráficos, currículos da equipe. Os anexos devem conter ainda as infor- mações ou documentos adicionais solicitados pelo financiador. A grande utilidade dos projetos é o fato de eles colocarem em prática as políticas e programas na forma de unidades de intervenção concretas. Os projetos ainda são a melhor solução para organizar ações sociais, uma vez que eles capturam a realidade complexa em pequenas partes, tornando-as mais compreensíveis, planejáveis, mane- jáveis (ARMANI, 2009, p. 66). A implementação de um projeto social deve ser estratégica, buscando responder com segurança, de maneira clara e objetiva, os detalhes mais importantes, o “como” o pro- jeto será executado. 41 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social Segundo Baptista (2000, p. 104), são tarefas da fase de implementação: ` A especificação de normas e padrões de intervenção; ` A obtenção de decisões políticas favoráveis ao pleno curso do planejado; ` A preparação da opinião pública e conquista de adesão de outros parceiros à ação prevista; ` A obtenção de recursos orçamentários específicos; ` A obtenção de leis, reformas fiscais ou monetárias, instruções de serviço ou decretos e outros instrumentos necessários à execução do planejado; ` A efetivação de experiências prévias, testes etc.; ` O estabelecimento da estrutura técnico-administrativa que viabilize a realização do planejado. Temos de considerar também o processo de implantação dos projetos que consiste na operação, nos espaços e nos prazos determinados, das ações previstas no planejamen- to. É nesta fase que se dá a instalação e o início de funcionamento do empreendimento. Após a implantação, gradualmente a execução vai se estabelecendo, suas rotinas de trabalho vão se concretizando e os resultados da ação planejada se evidenciando. Nes- ta fase, todos os trabalhos e seus efeitos deverão ser acompanhados, buscando-se o seu controle, sua avaliação e sua revisão. 3. INDICADORES SOCIAIS Para qualquer documento da planificação, ou seja, para o desenvolvimento do planeja- mento e para o reconhecimento da realidade social, os indicadores sociais são de suma importância. 3.1 INDICADORES SOCIAIS – DEFINIÇÃO E USO Os indicadores sociais ganharam um caráter científico nos anos 1960, mas foram reco- nhecidos oficialmente em 1970, como forma de acompanhamento das transformações sociais e para compreender os impactos das políticas sociais, procurando evidências da distância entre o crescimento econômico e a melhoria das condições de vida das populações. Durante essa década, foram elaborados muitos compêndios que tratam de indicadores sociais. Foram construídos instrumentos de mensuração das mudanças sociais, de maneira que os sistemas públicos passaram a elaborar relatórios a fim de que os governos pudessem orientar as ações, visando ao aumento dos níveis de bem- -estar das populações. Na década de 1980 houve uma revisão e o entendimento da importância dos indicado- res, que passaram a ser incorporados a diversos órgãos, com o objetivo de revelar a realidade social. No Brasil, a utilização dos indicadores sociais como instrumento de planejamento é re- cente. Embora o país tivesse alcançado elevados níveis de desenvolvimento na década 42 Plano, Programa e Projeto na área social 2 de 1970, não houve melhor distribuição de renda. É na década de 1980 que começam a ser pensadas políticas para a redução das desigualdades socioeconômicas, e os in- dicadores sociais têm seu uso difundido. Mas, afinal, o que é um indicador social? Segundo Jannuzzi (2012, p. 11), é um método para retratar a realidade social de forma simplificada, mas objetiva e padronizada. Os in- dicadores sociais apontam, indicam, aproximam e traduzem em termos operacionais as dimensões sociais de interesse definidas com base em escolhas teóricas ou políticas reali- zadas anteriormente. Eles se prestam a subsidiar as atividades de planejamento público e formulação de políticas nas diferentes esferas de governo, e possibilitam o monitoramento das condições de vida, da conjuntura econômica e da qualidade de vida da população. Figura 03. Representações da realidade Fonte: 123RF Como essas imagens, que representam uma dada realidade, os indicadores também buscam mostrar um aspecto da realidade. Diferentes índices são utilizados para definir o nível do desenvolvimento socioeconô- mico de uma sociedade, como mortalidade infantil, expectativa de vida, analfabetismo, habitações com rede de esgoto etc. Os indicadores sociais são aplicados em formulação de políticas, monitoramento da realidade social/reformulação de políticas. Também são utilizados no planejamento pú- blico e na formulação de políticas sociais, nas diferentes esferas de governo. Ainda, no monitoramento das condições de vida e de bem-estar da população, por parte do poder público e da sociedade civil. Enfim, no aprofundamento da investigação acadêmica que trata da mudança social e dos determinantes dos diferentes fenômenos sociais. 43 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social CURIOSIDADE Existe diferença entre indicadores se estatísticas públicas. As Estatísticas Públicas são da- dos sociais em sua forma bruta, não contextualizados em uma teoria social ou com finalidade programática. São úteis para a construção de indicadores que proporcionarão uma análise contextualizada e comparativa (tempo/espaço). Cadastros públicos Taxa de cobertura de rede de abastecimento de água Taxa de mortalidade infantil Taxa de evasão Taxa de desemprego Pesquisas do IBGE e outras instituições Registro de programas sociais Busca e combinação de dados de diferentes fontes e pesquisas Exemplos de possíveis indicadores Melhorias das condições de vida Condições de moradia Situação de saúde Perfil Educacional Inserção Ocupacional Fonte: elaborada pela autora. Figura 04. Indicadores sociais SAIBA MAIS Os conceitos de risco e vulnerabilidade são abstratos, e para serem diagnosticados, monito- rados e avaliados, necessitam ser traduzidos em medidas objetivas e quantificáveis por meio de algum recurso metodológico simples e padronizado. O recurso metodológico mais utiliza- do são os indicadores. São vários os indicadores, e podem representar vários aspectos da realidade, por exemplo: indicadores de saúde (leitos por mil habitantes, percentual de crian- ças nascidas com peso adequado), indicadores educacionais (taxa de analfabetismo, esco- laridade média da população de quinze anos ou mais), indicadores de mercado de trabalho (taxade desemprego, rendimento médio real do trabalho), indicadores habitacionais (posse de bens duráveis, densidade de moradores por domicílio), indicadores de segurança pública e justiça (mortes por homicídios, roubos à mão armada por cem mil habitantes), indicadores de infraestrutura urbana (taxa de cobertura da rede de abastecimento de água, percentual de domicílios com esgotamento sanitário ligado à rede pública) e indicadores de renda e desi- gualdade (proporção de pobres, índice de Gini) (JANNUZZI, 2009, p. 23). 44 Plano, Programa e Projeto na área social 2 Os indicadores sociais são medidas usadas para transformar conceitos abstratos, como “fome” ou “miséria”, em algo que possa ser analisado e quantificado. Em outras pala- vras, transformam aspectos da realidade em números, taxas e razões, seja essa uma realidade dada (situação social) ou construída (decorrente da intervenção governamen- tal), tornando possível sua observação e avaliação. A realidade é multifacetada e, portanto, não pode ser captada e retratada apenas por uma imagem simplificada, isto é, por apenas um indicador. Logo, um diagnóstico socio- econômico consistente não pode se resumir em apenas um ou em alguns indicadores quantitativos. É necessária a construção de um conjunto de indicadores sociais referi- dos aos distintos aspectos da realidade social de interesse (JANNUZZI, 2009, p. 25). Os indicadores servem para: ` Subsidiar e facilitar as atividades de planejamento público e a formulação de políticas sociais nas diferentes esferas de governo; ` Monitorar e avaliar os resultados das ações governamentais sobre as condições de vida e bem-estar da população, alimentando o processo decisório com informações qualificadas; ` Aprofundar a investigação acadêmica que trata da mudança social e dos determinantes dos diferentes fenômenos sociais (JANNUZZI, 2009, p. 25). Embora os indicadores facilitem a vida do gestor, é fundamental que o diagnóstico so- cial não se restrinja ao levantamento de dados e indicadores quantitativos, abrangendo também a captação de elementos qualitativos que expressem aspectos culturais, valo- res, expectativas e outros traços da população residente no território, permitindo uma leitura mais próxima à complexa realidade social. Diversas são as técnicas para a captação de aspectos qualitativos da realidade social de uma população, quais sejam: 1) os estudos de caso; 2) as observações participan- tes; 3) as investigações documentais; 4) as entrevistas breves ou em profundidade, dirigidas, semidirigidas ou abertas; 5) as histórias de vida ou outras formas de estudos biográficos; 6) os grupos de discussão, grupos focais ou estratégias afins; e 7) as obser- vações planejadas de diferentes formas, conforme os objetivos da investigação. Os indicadores sociais, segundo Jannuzzi (2009, p. 27), têm propriedades, que são: 01. Relevância social. 02. Validade. 03. Confiabilidade. 04. Cobertura. 05. Sensibilidade. 06. Especificidade. 07. Periodicidade na atualização. 45 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social 08. Desagregabilidade. 09. Factibilidade para obtenção. 10. Comunicabilidade. 11. Replicabilidade de sua construção. 12. Historicidade. Os indicadores também são classificados em tipologias, a saber: ` Indicador simples/composto. ` Indicador descritivo/normativo. ` Indicador quantitativo/qualitativo. ` Indicador objetivo/subjetivo. ` Indicador insumo/fluxo/produto. ` Indicador esforço/resultados. ` Indicador performance/estoque. ` Indicador eficiência/eficácia/efetividade social. ` Indicador absoluto/relativo. Há a necessidade da formulação de indicadores de avaliação, e é preciso especificar de forma evidente e direta o objetivo e os resultados que se quer atingir, correlacionados ao público-alvo com que se trabalhará. Processos e resultados podem e devem ser apreendidos em conjunto nos estudos de avaliação, por meio de conceitos que tratam exatamente de relacioná-los. Esses conceitos são: eficácia, eficiência e efetividade. Eficiência: é fazer as coisas de maneira adequada; resolver problemas; manter os recursos aplicados; cumprir com o dever; reduzir custos. A gestão será mais eficiente quanto menor for o seu custo e maior o benefício introduzido. Eficácia: é fazer as coisas certas; produzir alternativas criativas; maximizar o uso de re- cursos; obter resultados; aumentar o lucro (setor privado). Está relacionada ao alcance de seus objetivos. A gestão será eficaz à medida que suas metas sejam iguais ou superiores às propostas. Efetividade: é manter-se no mercado; apresentar resultados globais positivos com o de- correr do tempo. Está relacionada ao atendimento das reais demandas sociais, ou seja, à relevância de sua ação, à sua capacidade de alterar as situações encontradas. 46 Plano, Programa e Projeto na área social 2 CURIOSIDADE A eficácia e a efetividade são objetivos ético, porque se referem a valores a serem persegui- dos, como democracia e justiça social. Para dar conta da realidade multidimensional, construiu-se não só um indicador, mas um sistema de indicadores. Um sistema de indicadores é um conjunto de indicadores referidos a um determinado aspecto da realidade social ou área de intervenção progra- mática (JANNUZZI, 2009, p. 30). Assim, para caracterizar um fenômeno social, é preciso um sistema de indicadores referente a múltiplas dimensões. Exemplo de indicadores nacionais: Sistema de Indica- dores para Políticas Urbanas e Sistema de Indicadores de Saúde. O sistema de indicadores é estruturado e sistematizado da seguinte forma: Etapa 1 – temática a que o sistema se refere, construída a partir do interesse teórico ou programático. Etapa 2 – especificação de suas dimensões e diferentes formas de interpretação para definir um objeto que possa ser tratado de forma quantitativa. Etapa 3 – obtenção de estatísticas públicas (censo, cadastros públicos). Etapa 4 – combinação das informações estatísticas que traduzam o conceito abstrato em tangível. A seleção de indicadores é tarefa delicada; não existe uma teoria formal que a oriente com objetividade. É preciso garantir a validade entre indicador e conceito representado. É sujeita a erros advindos do processo de coleta de dados ou da seleção das amostras para a análise de um aspecto social. EXEMPLO Um exemplo de equívoco: uma medida construída para avaliar as condições de saúde de uma população a partir da oferta de serviços ou recursos humanos. Essa medida seria mais adequada para avaliar as condições de oferta dos serviços de saúde. Para o primeiro caso, as medidas mais adequadas seriam a taxa de morbidade e de mortalidade infantil. 47 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social 3.2. PRINCIPAIS FONTES DE INDICADORES NO BRASIL Figura 05. Fontes de indicadores Fonte: elaborada pela autora. Censos Demográficos Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Demais Pesquisas IBGE Pesquisas regulares de outras instituições Pesquisas de Avaliação dos Ministérios Cadastros Públicos Registros Administrativos Sistemas de Informação Programas Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): coordena o Sistema Estatístico Nacional. Principais pesquisas do IBGE: ` Censo Demográfico Brasileiro: pesquisa realizada com o universo da população bra- sileira voltada ao conhecimento da população brasileira com a finalidade de quantificar a demanda de bens e serviços públicos e privados. Definição: pesquisa estatística cujo levantamento consiste na contagem e obtenção de informações de todos os habitantes e domicílios de um país, em todos os municípios e em seus recortes territoriais internos: distritos, bairros e localidades, rurais ou urbanos. Objetivo: conhecer a evolução da distribuição territorial da população do país e as prin- cipais características socioeconômicas das pessoas e dos seus domicílios. Periodicidade: decenal (acada 10 anos). ` População pesquisada: universo. ` Conceitos importantes para o censo: ` População: público-alvo pretendido para a extração de informações. ` Universo: conjunto de todos os elementos amostrais da população. 48 Plano, Programa e Projeto na área social 2 ` Amostra: um subconjunto de elementos pertencentes a uma população, ou seja, é uma parcela conveniente selecionada do universo, com fins de generalizar as informações dela recolhidas para toda a população. ` Domicílio: local estruturalmente separado e independente, que se destina a servir de ha- bitação a uma ou mais pessoas ou que esteja sendo utilizado como tal. Pode ser particular ou coletivo. ` Setor censitário: unidade territorial de coleta das operações censitárias, definida pelo IBGE, e que constitui um conjunto de quadras, no caso de área urbana, ou uma área do município, no caso de uma área rural. Coleta dos dados: entrevista presencial pelo recenseador, sendo a resposta registrada em um computador de mão ou pelo preenchimento do questionário via internet (no- vidade de 2010). Para a coleta de dados, é usado um dos dois modelos distintos de questionário: básico ou da amostra. O censo demográfico: Conforme o site do IBGE (c2022, [n. p.]), os Censos Demográficos: são a única forma de informação sobre a situação de vida, da população em cada um dos municípios e localidades do País. As demais pesquisas domici- liares são levantamentos por amostragem, que não são representativas para todos esses níveis geográficos. ` Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (PNAD): pesquisa realizada anualmente com base em uma amostra populacional que atualiza as informações levantadas pelo Censo Demográfico. Objetivo: tem como objetivo “atualizar anualmente as informações levantadas pelo Censo Demográfico ao nível do país, Unidades da Federação e principais regiões me- tropolitanas, constituindo-se em um levantamento fundamental para atualizar os indica- dores sociais do país e dos estados”. (JANNUZZI, 2010, p. 176). Periodicidade: anual. PNAD é realizada por meio de uma amostra probabilística de domicílios obtida em três estágios de seleção: unidades primárias, municípios; unidades secundárias, setores censitários; e unidades terciárias, unidades domiciliares (domicílios particulares e uni- dades de habitação em domicílios coletivos). Metodologia: coleta dos dados por meio de entrevista presencial do pesquisador nos do- micílios selecionados na amostra. A PNAD investiga diversas características socioeconô- micas, algumas de caráter permanente nas pesquisas, como as características gerais da população, de educação, trabalho, rendimento e habitação; e outras com periodicidade va- riável, como as características de migração, fecundidade, nupcialidade, saúde, segurança alimentar e outros temas de acordo com as necessidades de informação para o país. ` Índice de Desenvolvimento Humano – IDH (Atlas do Desenvolvimento Humano Responsável: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Fundação João Pinheiro e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. 49 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social Objetivo: oferecer um panorama do desenvolvimento humano dos municípios e da desigualdade entre eles em vários aspectos do bem-estar. Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM): de 5.570 municípios brasileiros, além de mais de 180 indicadores de população, educação, habitação, saúde, trabalho, renda e vulne- rabilidade, com dados extraídos dos Censos Demográficos de 1991, 2000 e 2010. 3.3 A INTERVENÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL Ao abordarmos todo esse processo de planejamento e o uso das ferramentas postas enquanto atribuição do assistente social, reafirma-se a necessidade de vinculação des- ta ação com as prerrogativas defendidas pelo projeto ético-político do Serviço Social. Nesse sentido, é importante que o assistente social planejador, executor e avaliador de planos, programas e projetos consiga realizar uma leitura crítica do movimento real, a fim de não se tornar apenas um técnico que viabiliza ações que estão na contramão dos interesses dos nossos usuários. Nas normativas e legislações específicas do Serviço Social está posto que o planeja- mento constitui-se em uma atribuição e uma competência da profissão. Tomando por referência a Lei nº 8.662, de 7 de junho de 1993 que regulamenta a profissão, no Art. 4º são definidas as competências do Assistente Social, dentre as quais destacamos as seguintes, para trazer um exemplo da relação direta com o ato de planejar: I - elaborar, implementar, executar e avaliar políticas sociais junto a órgãos da administração pública, direta ou indireta, empresas, entidades e organi- zações populares; II - elaborar, coordenar, executar e avaliar planos, programas e projetos que sejam do âmbito de atuação do Serviço Social com participação da socie- dade civil; VI - planejar, organizar e administrar benefícios e Serviços Sociais; VII - planejar, executar e avaliar pesquisas que possam contribuir para a análise da realidade social e para subsidiar ações profissionais; VIII - prestar assessoria e consultoria a órgãos da administração pública dire- ta e indireta, empresas privadas e outras entidades, com relação às matérias relacionadas no inciso II deste artigo; X - planejamento, organização e administração de Serviços Sociais e de Unidade de Serviço Social. (BRASIL, 1993, p. 29) Já do Art. 5º desta mesma legislação, em que são apresentadas as atribuições privati- vas do Assistente Social, destacamos: I - coordenar, elaborar, executar, supervisionar e avaliar estudos, pesquisas, planos, programas e projetos na área de Serviço Social; II - planejar, organizar e administrar programas e projetos em Unidade de Serviço Social; 50 Plano, Programa e Projeto na área social 2 III - assessoria e consultoria e órgãos da Administração Pública direta e in- direta, empresas privadas e outras entidades, em matéria de Serviço Social. (BRASIL, 1993 p. 29). Conforme o exposto, fica evidente que o planejamento foi reconhecido e assumido legal e normativamente como uma das atribuições do assistente social. A operacionalização dos planos, programas e projetos requer dos profissionais um refe- rencial teórico-metodológico, técnico e político. Nesse contexto, é importante que seja marcado e reafirmado cotidianamente o posicionamento assumido pelos assistentes sociais, de defesa e a favor da classe trabalhadora. OBJETO DE APRENDIZAGEM Segue um projeto social, elaborado por assistentes sociais. Os nomes e endereços são fictícios. PROJETO SOCIAL DE INTERVENÇÃO EM SAÚDE BUCAL PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES DO SAICA CASA GIRASSOL SUMÁRIO DA PROPOSTA O presente projeto social de intervenção em saúde bucal tem como objetivo promover a importância do autocuidado da higiene bucal para as crianças do Serviço de Acolhimento Ins- titucional para Crianças e Adolescentes – SAICA, Casa Girassol, estimulando a participação dos familiares, educadores, funcionários e coordenadores no processo de hábitos saudáveis, com o intuito de diminuir o índice de cárie dentária e outras doenças bucais, consolidar hábi- tos saudáveis e evitar problemas futuros. 1.JUSTIFICATIVA Durante o estágio em serviço social no Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes – SAICA, Casa Girassol, percebemos que as crianças e adolescentes que lá residem só têm acesso a tratamento dentário quando precisam com urgência, assim, são le- vados(as) ao pronto-socorro do SUS. Consulta agendada na UBS é algo que não ocorre com frequência. Segundo os profissionais do SAICA, a consulta é rápida, com pouca ou quase nenhuma informação. Outra forma de acesso, no que tange à saúde bucal, ocorre quando a UBS faz campanha de visitas às casas, para entrega dos kits de higiene bucal. Diante disso, esse projeto visa promover a conscientização dos cuidados com a higiene bucal para as crianças e adolescentesdeste SAICA, educando-os para despertar o autocuidado, estimulando-os para a prevenção de cáries e outras doenças bucais. A Casa Girassol é um Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes – SAI- CA, e foi fundada em dezembro de 2010, pela necessidade de atender às demandas do Jardim Ângela e região, devido ao alto índice de crianças em situação de risco vítima de violência, ou risco de morte eminente. De acordo com o estatuto da criança e do adolescente – ECA, o abri- go é uma medida de proteção provisória e excepcional, como forma de transição para posterior retorno para família de origem, ou excepcionalmente, de colocação das crianças e adolescen- tes em família substituta. A instituição é sem fins lucrativos e conveniada à Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social – SMADS, da cidade de são Paulo. 51 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social O SAICA tem como objetivo a medida de proteção provisória e excepcional, e tem como dever garantir os direitos das crianças e dos adolescentes de ambos os sexos, inclusive crianças e adolescentes com deficiência em situação de medida de proteção e em risco pessoal, social e de abandono, cuja famílias ou responsáveis encontram-se temporariamente impossibilita- dos de cumprir sua função de cuidado e proteção. Para tanto, as unidades devem oferecer ambiente acolhedor, estar inserida na comunidade e ter aspectos semelhantes ao de uma residência, sem distanciar-se excessivamente do ponto de vista geográfico e socioeconômi- co da comunidade de origem das crianças e adolescentes acolhidos. O atendimento prestado pode ser personalizado, em pequenos grupos, e fornecer o convívio familiar e comunitário, além da utilização dos equipamentos disponíveis na comunidade local. Acolher e garantir proteção integral a crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e social de abandono. O acesso ao serviço é por determinação do poder judiciário e por requi- sição do conselho tutelar, sendo que neste último caso, a autoridade competente deverá ser comunicada, conforme previsto no art. 93 do ECA. O acesso ao serviço é por determinação do poder judiciário e por requisição do conselho tutelar, sendo que neste último caso, a auto- ridade competente deverá ser comunicada, conforme previsto no art. 93 do ECA. A casa (SAICA) funciona ininterruptamente, 24 horas diárias. O espaço/local (cedidos próprios ou locados) é administrado por organizações sem fins lucrativos, tem características residen- ciais, sem placas de natureza institucional, e endereço sigiloso para preservação da identidade e integridade do público atendido. É um espaço destinado ao atendimento de grupos de até 20 crianças e adolescentes e mais duas vagas na vigilância de operação baixa (nas baixas tem- peraturas). A estrutura organizacional é constituída por: gerente, organizador socioeducativo, assistente social, psicóloga, gerentes operacionais (cozinha, limpeza, geral). Tem como fonte de recursos convênios com a prefeitura de São Paulo, segundo portaria 47/2010 SMADS. A Odonto USP Júnior e a Fundação para Desenvolvimento Científico e Tecnológico da Odon- tologia (Fundecto) esperam reverter a atual situação bucal dos indivíduos que estão nas áreas mais carentes da cidade de São Paulo, situação que atualmente não é boa. O projeto construindo sorriso, já na sua terceira edição este ano, atendeu a crianças da comunida- de Heliópolis. A equipe Odonto USP Júnior é formada por 20 estudantes de odontologia e professores responsáveis, que foram examinar 700 crianças e revelaram vários problemas, entre eles, cáries na grande maioria delas. 200 dessas crianças foram sorteadas para fazer o tratamento dentário. Todos os participantes presentes puderam levar para casa creme den- tal, escova de dentes e fio dental, além de folder explicativo sobre higiene bucal. No dia 1 de abril, as 200 crianças foram levadas para a faculdade e foram recebidas por 150 estudantes, ex-estudantes e mais sete professores responsáveis logo após participarem de palestras educativas, brincadeiras e escovações supervisionadas. Ensinar as crianças o cuidado com os dentes desde cedo pode trazer grandes benefícios à sua vida. Uma boa higiene bucal providencia proteção aos dentes contra cáries, placas bactérias e outros males, como tártaro, que causa o sangramento da gengiva, formando uma inflamação. A alimentação dos pequenos também tem um papel importantíssimo: equilibrar o uso de açúcar, amido e alimentos pegajosos pode diminuir o aparecimento de cáries e, de- corrente de isso, diminuir visitas ao dentista. Crianças devem fazer o uso do fio dental partir de 4 anos de idade, com o auxílio de um adulto. Os dentistas sugerem: escovar os dentes três vezes ao dia ou logo depois das refeições, usar um creme dental com flúor para remover placas e bactérias, fazer uso do fio dental diariamente antes da escovação, e passar o fio entre os dentes e sob a margem gengival, em uma tentativa de diminuir o aparecimento de tártaro, que uma vez formado, é removido somente pelo dentista, com uma limpeza bucal. 52 Plano, Programa e Projeto na área social 2 Segundo dados de IBGE, o Brasil possui 39 milhões de brasileiros usando prótese dentária, e o dado alarmante é que eles têm idade entre 25 e 44 anos. A pesquisa aponta ainda que 16 milhões de pessoas vivem completamente desdentadas, e que 41,5% de idosos com mais de 60 anos já perderam todos os dentes. Foi realizada uma pesquisa pelo professor Antônio Carlos Pereira, junto com outros profissio- nais, em conjunto com Fop-Unicamp, Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo e Fousp, com o objetivo de conhecer a saúde bucal por faixa etária de 15 a 19, 35 a 44, e 65 em diante. A pesquisa aponta que de 3 a 6 dentes de adolescentes já foram 50% restaurados por esta- rem com cáries, enquanto adultos têm de 8 a 15, e idosos, uma média muito alta, de 22 a 28, dos quais a maior parte já foi extraída. Em relação à gengiva, 44% dos adolescentes, 74% dos adultos e 96% dos idosos apresentam problemas. Os idosos apresentam principalmente sangramento e cálculo (tártaro), mas 59% são desdentados. Em relação ao uso de próteses bucais, a porcentagem de adolescentes que usavam algum tipo era apenas 1%, adultos que faziam uso de prótese superior, 21%, e inferior, 7%, sendo o tipo mais comum a prótese parcial (ponte). Idosos com próteses superiores eram 24%, com próteses inferiores, 47%, mas a grande maioria usava dentadura. Muitos deles, cerca de 35% dos adultos e 53% dos idosos, precisavam de prótese ou de fazer a troca por outra nova. Verifica-se que devido à faixa etária existe uma necessidade de incentivar os indivíduos a ter o hábito da higiene bucal, contribuindo para uma melhor qualidade de vida. De maneira a acrescentar na realidade dessas crianças e adolescentes e trazer benefícios atualmente e futuramente nasceu a ideia desse projeto, de levar um profissional odontopediatra para o SAICA Girassol, em palestras de três sábados, orientando, supervisionando, examinado crianças e adolescentes. Além disso, seriam estabelecidas parcerias com a UBS local para fornecimento de kits de higiene bucal (creme dental, pasta de dentes, escova dental e fio dental). Pensando também em parceiros, contatar dentistas próximos para um fácil acesso das crianças ao atendimento odontológico seria importante. Diante deste contexto surgiu a inquietação para este projeto de intervenção, e podemos afirmar a relevância da necessidade de medidas interventivas no que tange à saúde bucal das crianças e adolescentes deste SAICA, visando promover o autocuidado por parte deles e incentivar os profissionais do SAICA a supervisionar e estimular hábitos saudáveis na rotina das crianças e adolescentes. Além disso, o projeto pode vir a despertar um interesse maior do SAICA em articulação com a saúde para criar estratégias de prevenção e cuidado. 2.OBJETIVO 2.1.OBJETIVO GERAL Promover a conscientizaçãodo autocuidado da higiene bucal para as crianças do SAICA Girassol. 2.2.OBJETIVOS ESPECÍFICOS Entender a importância da higiene bucal para a saúde. Compreender a importância dos dentes para a mastigação, para a fala e para o funcionamen- to do corpo como um todo. 53 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social Estimular a participação dos familiares, educadores, funcionários, coordenadores e crianças no processo de desenvolvimento de hábitos saudáveis. 3.DETALHAMENTO Logo após início de estágio no SAICA (Casa Girassol), observamos uma carência enorme em atendimento odontológico para as crianças adolescentes que lá residem. Pensando na dificul- dade financeira da casa SAICA, a vontade de contribuir para crianças, adolescentes e o corpo docente da casa, almejamos o interesse em um projeto educativo sem custos excedentes. Primeiramente houve uma reunião com toda a equipe técnica. Apresentamos a ideia do pro- jeto e a divisão de tarefas dos profissionais para colaboração não só na ação, mas nos dias em que houvesse a necessidade do acompanhamento de um adulto, para fazer com que as crianças e adolescentes criassem o hábito de cuidar da higiene bucal. A equipe analisou o ob- jetivo e a metodologia empregados na ação, e discutimos a respeito dos dias e horários para as atividades. Acordamos os dias 11, 18 e 25 de abril às 13:30 horas, logo após o almoço. Pensamos em como manter a atenção das crianças e dos adolescentes, e no local. Ficou decidido que seria na sala de TV, por ter um tamanho adequado para a dinâmica de educar “brincando de ser dentista”, na qual o palestrante ensinará as crianças a escovar os dentes e fazer uso do fio dental, interagindo com elas. A equipe técnica – gerente, psicólogo, assis- tente social, educadores, equipe operativa (cozinha e limpeza) –, que colaborará durante a intervenção e participará como ouvinte, além dos visitantes que são familiares das crianças e adolescentes que estiverem presentes, também poderão participar. Quando falamos dos kits de higienização bucal, a assistente social sugeriu que a UBS do bairro fizesse a doação, e a gerente entrou em contato com o responsável da UBS que dis- ponibilizou os kits para a ação, kits esses que já iriam para o SAICA, mas não havia data prevista. O palestrante (odontopediatra) confirmou presença nos dias e horários indicados. Assim, um sábado antes de ocorrer a ação, as crianças e adolescentes serão avisados. Além das dinâmicas educativas em forma de brincadeiras, os internos, um por um, farão a higiene bucal supervisionada pelo profissional, que trará os minijalecos feitos à base de TNT e uma boca gigante demonstrativa (artesanal), com dentes, língua e gengiva, para que, além da teoria, sejam demonstrados na prática os problemas que podem ter quando não é feita a higienização bucal adequada. Objetivo Específico Metas Ações Abril, 2020 (semanas/h) S1 S2 S3 Entender a importância da higiene bucal para a saúde Diminuir o índice de cáries e outras doenças bucais Lanche coletivo com a apresentação da proposta 40 min 1º sábado Compreender a importância da mastigação para o funcionamento do corpo Incorporação do autocuidado no cotidiano do SAICA Informativos teóricos e dinâmicas 40 m/1h 2º sábado 54 Plano, Programa e Projeto na área social 2 Estimular público-alvo, familiares e apoiadores no processo de desen- volvimento de hábitos saudáveis Aguçar o público para que as sejam agentes de hábi- tos saudáveis Brincadeiras educativas e exames preventivos 40 m/1h 3º sábado 4.RECURSOS HUMANOS Os educadores ficaram encarregados de supervisionar o dia a dia de trabalho se as crianças estão seguindo as orientações recomendadas. A assistente social ficará acompanhando o processo no intuito de garantir que os trabalhadores estejam colaborando para garantir a saúde bucal das crianças. A equipe operacional na cozinha, colabora com a separação dos lanches a serem distribuídos e na organização da limpeza durante a ação. Cabe às estagi- árias auxiliar o palestrante na distribuição de kits de higiene bucal, e auxiliar os visitantes prestando informações referente ao local. À gerente é dada a missão de articulação em rede com a UBS para andamento de tratamento, se necessário. O palestrante trará informações com clareza e detalhes educativos para todo o público, abrangendo além do público-alvo, além de trazer os jalecos artesanais feitos com TNT. 5.RECURSOS MATERIAIS ` Kits de higiene bucal, contendo: uma escova de dente, um creme dental e um fio dental. ` Uma boca gigante artesanal para a elaboração da dinâmica. ` Um avental branco artesanal, para a dinâmica “brincando de ser dentista”. ` Lanche da tarde: suco, bolinhos e minilanchinhos. 6.ORÇAMENTO Sem custo. Os kits de higiene bucal serão uma colaboração da UBS parceira, e o lanche, do próprio SAICA. O profissional palestrante foi convidado sem remuneração, que aceitou prontamente e nos colocou à disposição jalecos e a boca artesanal. Para tanto, se não pu- déssemos contar com a parceria da Unidade Básica de Saúde – UBS, do palestrante e do SAICA, o custo seria de R$ 668,50, como demonstrado na tabela a seguir: MATERIAIS CUSTO Kits de higiene bucal 150,00 Boca artesanal 20,00 Minijalecos artesanais 400,00 Lanches 98,50 Total 668,50 55 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social 7.AVALIAÇÃO A avaliação do projeto será feita pelo público-alvo, de forma criativa. Traremos um questio- nário de forma ilustrada, no qual vamos pedir que as crianças e adolescentes assinalem o desenho correto, para identificarmos se o objetivo do projeto foi alcançado, e imagens de rostos expressando felicidade, tristeza e dúvida, para que elas informem como se sentiram no decorrer das intervenções, marcando a opção desejada. REFERÊNCIAS http://www.saopaulo.sp.gov.br/ultimas-noticias/saude-projeto-construindo-sorrisos-leva-sau- de-bucal-a-criancas-carentes/. https://www.colgate.com.br/oral-health/life-stages/childrens-oral-care/oral-health-for-children https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2018-08/pesquisa-indica-que-16-milhoes-de- -brasileiros-vivem-sem-nenhum-dente. CONCLUSÃO A planificação no processo de planejamento tem grande importância quando tratamos das atividades desenvolvidas pelo Serviço Social, pois ações mal planejadas podem levar ao insucesso, impedindo que se alcance o objetivo proposto, ou seja, de trans- formação da realidade e atendimento às demandas. Para que os assistentes sociais possam elaborar projetos adequados à transformação da realidade social, é necessário que tenham a visão global dessa realidade, apreendida por meio das várias ferramentas disponíveis, isto é, do uso do conhecimento racional a respeito dos projetos, passando pela utilização dos relatórios, dos índices sociais e dos sistemas, até a execução des- ses mesmos projetos. Quanto maior a proximidade dos executores e coordenadores do projeto com o público envolvido, maiores serão as chances de os objetivos serem alcançados e mais sólido o conhecimento gerado pela experiência. É importante atentar para o que Vieira (2009, p. 144) aponta: Figurando decisão de governo, a planificação não consiste apenas em um problema técnico. A elaboração de um plano depende sobretudo de seu con- teúdo político. Assim, a criação de um certo plano não pode ser incumbência exclusiva de um órgão de planejamento, por tratar-se simultaneamente de uma atividade social e de uma tarefa governamental. Quando tal não acon- tece, inexiste planificação, mas unicamente programação econômica, aliás, o que tem sido habitual no Brasil. O assistente social é requisitado a elaborar, operacionalizar e avaliar planos, programas e projetos, que nada mais são do que os meios pelos quais o planejamento se materia- liza nas mais variadas áreas e setores. http://www.saopaulo.sp.gov.br/ultimas-noticias/saude-projeto-construindo-sorrisos-leva-saude-bucal-a-criancas-carentes/http://www.saopaulo.sp.gov.br/ultimas-noticias/saude-projeto-construindo-sorrisos-leva-saude-bucal-a-criancas-carentes/ https://www.colgate.com.br/oral-health/life-stages/childrens-oral-care/oral-health-for-children https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2018-08/pesquisa-indica-que-16-milhoes-de-brasileiros-vivem-sem-nenhum-dente https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2018-08/pesquisa-indica-que-16-milhoes-de-brasileiros-vivem-sem-nenhum-dente 56 Plano, Programa e Projeto na área social 2 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARMANI, D. Como elaborar projetos? Guia prático para elaboração e gestão de projetos sociais. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2009. BRASIL. Lei n. 8.662, de 7 de junho de 1993. Dispõe sobre a profissão de Assistente Social e dá outras pro- vidências. Brasília/DF, 1993. BAPTISTA, M. V. Planejamento social: intencionalidade e instrumentação. São Paulo: Veras Editora; Lisboa: CPIHTS, 2000. COHEN, E.; FRANCO, R. Avaliação de projetos sociais. Petrópolis: Vozes, 2006. CURY, T. C. Elaboração de Projetos Sociais. São Paulo: AAPCS, 2001. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). IBGE – População: Censo Demográ- fico. Apresentação. Brasília/DF: IBGE, c2022. JANNUZZI, P. Indicadores Sociais no Brasil. São Paulo: Alinea, 2012. VIEIRA, E. Os direitos e a política social. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2009. 57 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social 58 Planejamento Estratégico 3 UNIDADE 3 PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO INTRODUÇÃO Nesta unidade, vamos refletir a respeito do planejamento estratégico. Veremos con- ceitos, principais aspectos, tipos de planejamento e tomada de decisão, discussões fundamentais para que aprofundemos os conhecimentos sobre planejamento social. No decorrer dessa trajetória já tivemos a oportunidade de conhecer os rudimentos essen- ciais que compõem um planejamento social. Na prática profissional do assistente social, o planejamento está presente na gestão do trabalho, da equipe, da intervenção social, na escolha e aplicação dos instrumentais de trabalho, nos encaminhamentos e no acompanhamento das diversas demandas pre- sentes no cotidiano profissional. Convidamos você a continuar estudando o planejamento estratégico, o que proporcio- nará mais conhecimento e aperfeiçoamento dos que já foi aprendido. 1. CONCEITO: PRINCIPAIS ASPECTOS DE PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO O planejamento estratégico se caracteriza por ações que utilizam projeções de tendên- cias para o futuro, desenvolvidas com base em dados históricos e contemporâneos. Se observarmos as políticas públicas e/ou privadas, notaremos que ações são tomadas com base na análise desses dados, e por meio deles são eleitos temas prioritários que impactam mais a população e/ou os usuários que são alvos das políticas. A escolha e o uso de estraté- gias que atendam de forma efetiva tais temas são o foco do planejamento estratégico. PARA REFLETIR Seria possível realizar o trabalho profissional desprezando o planejamento na prática profissional? No âmbito do Serviço Social podemos afirmar que o uso de técnicas e estratégias de forma criativa é um dos desafios que demandam a continua qualificação e aperfeiçoa- mento dos assistentes sociais. Os assistentes sociais precisam oferecer respostas qualificadas e “[…] desenvolver sua capacidade de decifrar a realidade e construir propostas de trabalho criativas e capazes 59 3 Planejamento em serviço social U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co de preservar e efetivar direitos, a partir das demandas emergentes no cotidiano. Nesse sentido, no aproximamos do planejamento estratégico como mais uma ferramen- ta que qualifica a intervenção, e planejamento social é essencial. SAIBA MAIS SAIBA MAIS Vamos conhecer o planejamento estratégico? Sugerimos o vídeo realizado em parceria entre o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MP) e o Centro de Estudos Internacionais sobre Governo (CEGOV/UFRGS). Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=FNHJkGwGuPE&t=2s. Compreende-se então o planejamento estratégico como uma ferramenta que pode ser utilizada pelos governos municipais, estaduais e federal, como também por empresas e organizações da sociedade civil. É por meio do planejamento estratégico que se via- bilizam ações focadas e amparadas em dados oriundos do diagnóstico social realizado pelas políticas públicas. Sem um planejamento estratégico que envolva a sociedade civil, gestores e usuários, não podemos viabilizar a gestão participativa e democrática, seja ela na iniciativa pública ou privada. Logo, o processo formativo dos assistentes sociais deve se fundamentar em uma for- mação que proporcione tais discussões e contemple a compreensão do planejamento social como uma ferramenta que aproxima os profissionais do movimento, da dinâmica da realidade social e das expressões da questão social presentes. Anteceder o futuro, promover ações que minimizem os impactos da desigualdade e ex- clusão social, e das demais variações das expressões da questão social nos desafiam a utilizar e aperfeiçoar as estratégias que podemos utilizar no planejamento social, con- siderando as potencialidades, possibilidades, limites e os dados históricos/empíricos vivenciados no cotidiano dos territórios. Tais elementos devem ser considerados para viabilizar as articulações entre o Estado e a sociedade, realizando ações em conjunto. Você sabia que os governos elaboram um Plano Plurianual (PPA)? Esse é um instrumento de planejamento estratégico que deve contar com um plano de metas, resultados esperados, indicadores de avaliação e monitoramento e outros elementos, com o objetivo de efetivação de direitos. Conheça um PPA da cidade de Macaé/RJ (2022-2025) da Política de Assistência Social, disponível em: https://macae.rj.gov.br/midia/conteudo/arquivos/1643907740.pdf. Dentre os elementos já apresentados, podemos afirmar que o planejamento estratégico, como uma ferramenta para concretização, necessita de estudo prévio de indicadores que viabilizem a identificação dos pontos que necessitam de ações de curto, médio e longo prazos de forma focalizada, ou seja, deverá estabelecer objetivos claros, com me- tas e formas de monitoramento e avaliação. Para compreender mais as características do planejamento estratégico nas políticas públicas, buscaremos alguns dos elementos presentes no PPA da cidade de Macaé do Rio de Janeiro. https://www.youtube.com/watch?v=FNHJkGwGuPE&t=2s https://www.youtube.com/watch?v=FNHJkGwGuPE&t=2s https://macae.rj.gov.br/midia/conteudo/arquivos/1643907740.pdf 60 Planejamento Estratégico 3 SAIBA MAIS SAIBA MAIS Para conhecer mais o Monitoramento Social, acesse o vídeo feito pela parceria entre o Centro de Estudos Internacionais sobre Governo (CEGOV) e o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, que está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Gr_ FJNpuUPs&t=47s. E para conhecer mais a Avaliação em Políticas Públicas, acesse: https://www.youtube.com/ watch?v=WVxsRTEz-Bg. Os dois vídeos vão contribuir para compreensão do significado de monitoramento e avaliação social, suas premissas e objetivos. Para nos aproximarmos da temática ao visitarmos o item 4 intitulado “Diretrizes e Priori- dades Deliberadas” aprovado pelo Conselho Nacional da Assistência Social (CNAS) na Resolução nº 007/2016 e nas metas do Pacto de Aprimoramento do Sistema Único da Assistência Social (SUAS), bem como as deliberações oriundas da Conferência Munici- pal de Assistência Social de 2021. O Plano Plurianual (PPA) é um dos instrumentos de planejamento e gestão pública do Estado, previsto na Constituição Federal de 1988 no Artigo 165. Veja a CF e observe essas formas de implementação de ferramentas democráticas. Acesse: https://www2.senado.leg.br/bdsf/ bitstream/handle/id/566968/CF88_EC105_livro.pdf. A seguir, apresentamos algumas das deliberações da XIII Conferência Municipal de Assistência Social, que representaram a base para construçãodas metas e objetivos para Política da Assistência Social do município: 1 - Ampliar a capacidade técnica (garantindo o exercício da Política Nacional de Assistência) no planejamento e oferta de serviços e programas do SUAS, validando a autonomia dos trabalhadores do SUAS; 2 - Propiciar as condições de funcionamento da estrutura do SUAS – com manutenção da estrutura física, de pessoal, material permanente e de con- sumo (segundo NOB-RH) com prioridade para todos os Equipamentos de atendimento da Assistência Social; 3 - Estabelecer percentual 5% mínimo de recursos para Assistência Social (sem considerar folha de pagamento de recursos humanos), com garantia de execução financeira e acompanhamento pelo COMAS e ampliação de investimentos e regularidade nos processos de aquisição e liberação de be- nefícios eventuais para garantia de direitos; 5 - Estruturação dos CRAS no território de referência, para realizar reuniões (quinzenais, mensais), para sensibilizar os Usuários à participação, utilizando cartilhas com informações trazendo assuntos como orçamento público (como a verba se transforma em cesta básica ou benefícios), siglas dos Equipamentos, a fim de que os usuários possam entender melhor […] (MACAÉ, 2022, p. 46) https://www.youtube.com/watch?v=Gr_FJNpuUPs&t=47s https://www.youtube.com/watch?v=Gr_FJNpuUPs&t=47s https://www.youtube.com/watch?v=WVxsRTEz-Bg https://www.youtube.com/watch?v=WVxsRTEz-Bg https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/566968/CF88_EC105_livro.pdf https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/566968/CF88_EC105_livro.pdf 61 3 Planejamento em serviço social U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co SAIBA MAIS Vamos conhecer um pouco mais as premissas para construção do PPA municipal em vídeo realizado em parceria entre o Orçamento e Gestão (MP) e o Centro de Estudos Internacionais sobre Governo (CEGOV/UFRGS). Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=gxWoyiZjBsY. Observe que o planejamento plurianual é uma ferramenta de gestão estratégica do Es- tado que objetiva a qualidade do uso dos recursos públicos, financeiros e estruturais, a fim de efetivar os direitos sociais com a participação da sociedade local. CURIOSIDADE A prática do planejamento governamental no Brasil originou-se no primeiro governo de Getú- lio Vargas, com a construção do Estado Nacional Moderno, no início do século XX (SOUZA, 2004, p. 06-07 apud BRASIL, 2013, p. 15). Para conhecermos mais um pouco a respeito da temática, nos debruçaremos no conhe- cimento dos tipos de planejamento estratégico. 2. TIPOS DE PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO: MISSÃO, VISÃO VALORES; ANÁLISE AMBIENTAL O planejamento estratégico integra aspectos analíticos que devem abranger ambientes internos, externos e as perspectivas para ações futuras (curto, médio e longo prazo). A missão, a visão, os valores e a análise do ambiente são elementos que precisam estar presentes em sua formulação. É fundamental a compreensão que o planejamento estratégico ser um instrumento, cuja metodologia está baseada no pensamento participativo. Sua utilização deve orientar gestores e definir estratégias de ação, que serão monitoradas por meio de metas e objetivos mensuráveis. Independentemente do tipo de planejamento estratégico que se escolha, é preciso elaborar um plano estratégico, o qual deve ter consonância com a missão, a visão e os valores da instituição e/ou empresa. Em destaque, apresentamos os tópicos para construção de um plano estratégico de uma empresa, que pode ser utilizado na iniciativa pública e nas organizações da sociedade civil. Quadro 01. Modelo de Plano Estratégico CAPÍTULOS TÓPICOS I Apresentação da filosofia da empresa e seus objetivos. II Políticas e estratégias gerais. III Objetivos gerais e planos de ação gerais. IV Políticas específicas e estratégias específicas. V Objetivos específicos e planos de ação específicos. Fonte: adaptado de Vasconcellos Filho (1978, p. 10). https://www.youtube.com/watch?v=gxWoyiZjBsY https://www.youtube.com/watch?v=gxWoyiZjBsY 62 Planejamento Estratégico 3 Para construção de um plano estratégico, são necessários conhecimentos prévios a respeito da missão, da visão e dos valores da empresa, além da apropriação das fina- lidades e objetivos da política pública em que estamos atuando. Sem a clareza desses elementos o plano estratégico não atingirá os objetivos desejados, pois certamente estarão desconectados da realidade local e das premissas estabelecidas. PARA REFLETIR E quais seriam as vantagens do planejamento? Podemos destacar algumas razões importan- tes que mostram a relevância: ` Conhecer a realidade; ` Melhorar a comunicação entre governo e sociedade civil; ` Fortalecer e identificar potencialidades e capacidades locais; ` Estimular a participação social; ` Estimular a participação da sociedade no controle social; ` Fomentar os processos democráticos; ` Tomar decisões mais assertivas; ` Uso responsável dos recursos públicos; ` Melhorar a organização e operacionalizações de ações planejadas; ` Transformar realidades e efetivar direitos sociais; ` Identificar as reais necessidades dos territórios, municípios, cidades, estados e da nação. ` Corrigir equívocos, desvios operacionais e de gestão; ` Fomentar a transparência nas ações implementadas pela gestão pública e/ou privada. Assim, o planejamento estratégico pressupõe a participação não somente da equipe gestora, mas dos demais envolvidos, como as comunidades, as associações de bairros, organizações e sindicatos, que fornecerão dados da realidade, contribuindo para uma gestão transparente e efetiva. O planejamento pode ser classificado em três tipos, estratégico, tático e operacional, que se diferenciam pelos níveis de decisão, como mostra a Figura 01: 63 3 Planejamento em serviço social U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Figura 01. Tipos e níveis de planejamento De acordo com Zapelini (2010), o planejamento estratégico se relaciona a objetivos de longo prazo que podem afetar toda organização, o tático tem objetivos de curto prazo com ações que geralmente afetam parte da organização, e o operacional se refere às rotinas operacionais da organização de forma setorizada. Eles se correlacionam em um ciclo integrado por meio de atividades conjuntas que ga- rantam o atendimento dos objetivos propostos para o desenvolvimento da organização, como pode ser demonstrado na imagem a seguir: Fonte: Zapelini (2010, p. 31). Nível Estratégico Decisões Estratégicas Planejamento Estratégico Planejamento Tático Planejamento Operacional Decisões Táticas Decisões Operacionais Nível Operacional Nível Tático Figura 02. Ciclo de planejamento integrado Planejamento estratégico da organização Análise e controle de resultados Planejamentos táticos da organização Análise e controle de resultados Análise e controle de resultados Consolidação e interligação dos resultados Planejamentos operacionais das unidades organizacionais Fonte: Oliveira (2007 apud ZAPELINI, 2010, p. 32). 64 Planejamento Estratégico 3 O ciclo do planejamento estratégico requer uma sequência de ações de análise, con- trole de resultados e consolidação e interligação deles. É por meio da identificação de cada uma das etapas que as ações se interrelacionam e os planejamentos operacionais e táticos se concretizam. Como os tipos de planejamento ocorrem de forma interrelacionada, não é possível apresentar as diferenças entre eles de forma rigorosa, contudo, Zapelini (2010) discri- mina algumas diferenças: Quadro 02. Diferenças entre os três tipos de planejamento DISCRIMINAÇÃO PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO PLANEJAMENTO TÁTICO PLANEJAMENTO OPERACIONAL Quanto ao prazo mais longo intermediário mais curto Quanto à amplitude mais ampla intermediária mais restrita Quanto aos riscos maiores intermediários menores Quanto às atividades fins e meios meios meios Quanto à flexibilidade menor intermediária maior Fonte:e é elemento importante e estratégico de uma práxis democrática”. O planejamento é um instrumento de intervenção na realidade social. O ato de planejar consiste em estudar antecipadamente o contexto de uma situação, ação ou atividade, definindo os objetivos e organizando as melhores maneiras para atingi-los. Assim, planejar significa analisar, preparar e estruturar as melhores estraté- gias e condições para a concretização do planejado. Vários são os autores e estudiosos que explanam a respeito do planejamento, e Teixei- ra (2009) vai trazer alguns desses pensadores e suas definições: Quadro 01. O planejamento e suas várias definições AUTOR/PENSADOR DEFINIÇÃO/CONCEITO Betty Mindlin Lafer (1975) “modelo teórico para a ação, voltado para organizar racionalmente o sistema econômico.” Antônio Delfim Netto (Ministro da Fazenda de 1967-1974) “simples técnica neutra.” Carlos Thomas G. Lopes (1990) “processo coerente e compreensivo de formação e implementação de diretrizes, através de um controle central de vastas redes de organizações e institutos.” Igor H. Ansoff (1990) “regras e diretrizes para a decisão que orientam o processo de desenvolvimento de uma organização.” James Stoner (1999) “processo formalizado e de longo alcance, empregado para se definir e atingir os objetivos organizacionais.” Djalma de Pinho R. de Oliveira (2007) “processo que ocorre nos três níveis da organização – estratégico, tático e operacional – e que deve nortear todas as suas atividades.” Carlos Matus “Cálculo que precede e preside a ação”. Samuel C. Certo (1993) “Planejar é o processo de determinar como o sistema administrativo deverá alcançar os seus objetivos. Em outras palavras, é determinar como a organização deverá ir para onde deseja chegar”. 8 1 Conceito de planejamento e as dimensões lógico-racional e política AUTOR/PENSADOR DEFINIÇÃO/CONCEITO Richard L. Daft (2010) “Planejar é o ato de determinar os objetivos da organização e os meios para alcançá-los”. Koontz O’Donnell e Weihrich (1986) “Planejar é decidir antecipadamente aquilo que deve ser feito, como fazer, quando fazer e quem deve fazer”. John R. Schermerhom Jr. (1999) “Planejar é o processo de estabelecer objetivo e de determinar o que deve ser feito para alcançá-lo”. No processo administrativo, o planejamento constitui a primeira das funções, identifican- do os meios, as ações e estratégias necessárias para o alcance dos objetivos postos. É uma ferramenta administrativa, que possibilita identificar a realidade de uma atividade, avaliar os caminhos e construir um referencial futuro. É o lado racional de uma ação. Segundo Maximiano (2004, p. 131), “[…] Planejamento é o processo de tomar decisões sobre o futuro. As decisões que procuram, de alguma forma, influenciar o futuro, ou que serão colocadas em prática no futuro, são decisões de planejamento […]”. Assim, planejar significa interpretar a missão organizacional e estabelecer os objetivos da or- ganização e os meios necessários para a realização desses objetivos com o máximo de eficácia e eficiência. Nesse sentido, para Chiavenato (2004), o planejamento consiste em um processo que envolve tomada de decisões e avaliação prévia de cada decisão, de um conjunto de decisões inter-relacionadas, a respeito do que fazer, antes mesmo da ação ser neces- sária. Em outras palavras, o planejamento consiste em uma simulação do futuro a ser alcançado, prevendo e estabelecendo ações e meios para atingir os objetivos. O planejamento nas organizações antecede e direciona as demais funções, definindo objetivos e decidindo quais recursos e tarefas são necessários, tendo uma função ge- rencial que compõe o processo administrativo. Fonte: elaborado pela autora. PARA REFLETIR Como já colocamos, “planejar é inerente ao ser humano”. Nesse sentido, reflita a respeito de uma atividade/evento na sua vida que necessite desse planejamento. Os objetivos do planejamento devem ser definidos e esclarecidos, para que possibilitem o maior número de informações, tornando mais fácil a compreensão da importância da atividade/ação/intervenção a ser realizada. São esses alguns objetivos: ` Possibilitar a identificação dos meios necessários e disponíveis; ` Identificar e organizar as ações necessárias; ` Definir responsabilidades; ` Analisar os riscos e implementar medidas de tratamento; ` Ajudar a lidar com imprevistos; 9 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social ` Estimar custos e viabilizar orçamento; ` Definir a viabilidade e possibilidades. SAIBA MAIS GLOSSÁRIO Vamos planejar uma festa de aniversário? Quais as ações necessárias para que ela acon- teça? Bem, a festa tem como objetivo comemorar o aniversário com familiares e amigos. Vamos, então, eleger e ordenar as ações: ` Definir o orçamento para a festa e como subsidiá-lo. ` Quando será? – Dia e horário. ` Onde acontecerá? Local – Definir o espaço. ` Quantas pessoas serão convidadas? Quem? ` Contratar os serviços de um buffet para realização da festa, definindo a alimentação, a decoração e o orçamento. ` Elaborar e entregar os convites. ` Providenciar roupa, sapato, acessórios, maquiagem e cabelereiro. ` Pagar o evento. ` Curtir a festa. Assim, o planejamento torna-se de extrema relevância, pois: ` Identifica e seleciona objetivos; ` Defini e prioriza atividades; ` Estima prazos e investimentos; ` Identifica, analisa e estabelece prioridades; ` Analisa viabilidades, riscos e possibilidades; ` Organiza ações para o alcance do objetivo. Logo, a implementação e a implantação de decisões mais elaboradas e assertivas são o propósito do planejamento, prevendo e minimizando situações que podem impactar de modo negativo o alcance dos objetivos. Porém, o planejamento não pode ser visto como um processo estático, pois pressupõe um movimento contínuo de reavaliação das decisões. Segundo Baptista (2007, p. 103, 105), “Implementar significa tomar providências concretas para a realização de algo planejado”. Já a implantação “é a operação, nos espaços e prazos determinados, das ações previstas no planejamento.” 10 1 Conceito de planejamento e as dimensões lógico-racional e política O planejamento envolve uma lógica no pensamento, que traz questionamentos a respeito do que fazer, por que fazer, para quem fazer, como fazer, onde fazer e quanto vai custar. Esse movimento sistemático do planejamento possibilita maior segurança nas decisões envolvidas na execução das atividades, aumentando a probabilidade do alcance dos ob- jetivos, desafios e metas estabelecidas. No planejamento existem três grandes linhas, a saber: o gerenciamento de qualidade total, o planejamento estratégico e o planejamento participativo. No que tange à defini- ção dessas linhas, podemos pontuar: Gerenciamento de qualidade total: segundo Gandin (2011), é o processo de planejamento que apresenta um caráter um tanto mais conservador, já que seu surgimento está atrelado ao aperfeiçoamento do processo de produção, partindo de uma premissa meramente eco- nômica. Estabelece a padronização de tarefas, de procedimentos e de resultados. O autor aponta a qualidade como instrumento para manutenção da ordem econômica, estimulando a competitividade e apresentando aspectos dificultadores à intervenção social, a saber: a par- ticipação é restrita aos processos de cada setor, é pautada no lucro, buscando a qualidade e a eficiência, mantendo esquemas hierárquicos definidos, não discutindo nem se importando se produz ou não resultados sociais. Planejamento estratégico: de acordo com Chiavenato e Sapiro (2003), o conceito refere-se a um processo de formulação de estratégias organizacionais no qual se busca a inserção da organização e da sua missão no ambiente em que ela está atuando. A participação ganha um espaço maior, embora restrita ao campo da decisão, com destaque para o gerenciamento da qualidade total. Planejamento participativo: segundo Gandin (2011),Zapelini (2010, p. 34). O quadro apresenta as diferenças entre os tipos de planejamento quanto a prazo, am- plitude, riscos, atividades e flexibilidade. Em cada um dos itens está envolvida uma lógica no pensamento que produz questionamentos (internos e externos) acerca do que fazer, por que, para quem, como, em quanto tempo e quanto vai custar. Essa dinâmica sistemática e consciente nos possibilita maior segurança nas decisões envolvidas na execução das atividades, aumentando a probabilidade do alcance dos objetivos, desafios e metas estabelecidas 2.1 MISSÃO, VISÃO, VALORES, ANÁLISE AMBIENTAL Missão, visão, valores e análise dos ambientes interno e externo são compreendidos como prioridades no planejamento. É por meio deles que são definidos objetivos, são apresentadas premissas, são determinados os alvos de ações futuras e os meios para alcançar os objetivos propostos, são implementados e monitorados os planos de ação e estratégico, e são avaliados os resultados. SAIBA MAIS Acesse este vídeo para conhecer alguns fundamentos para criação de missão, visão e valo- res de uma organização social ou uma empresa. https://www.youtube.com/watch?v=63Hk4DyQqFw. Vamos iniciar tratando da análise dos ambientes interno e externo e, para isso, é fundamental fazer um diagnóstico de forças, fraquezas, oportunidades e ameaças. Po- demos utilizar a ferramenta Análise SWOT, também chamada de FOFA (tradução para o português), que ajuda a conhecer esses elementos e propicia recursos para análise https://www.youtube.com/watch?v=63Hk4DyQqFw 65 3 Planejamento em serviço social U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co e construção do planejamento estratégico. No quadro que segue apresentamos os ele- mentos principais para análise dos ambientes interno e externo. Quadro 03. Análise dos ambientes interno e externo (SWOT) para organizações privadas e públicas AMBIENTE INTERNO AMBIENTE EXTERNO Positivas (Forças) Características internas que podem melhorar o desempe- nho das ações que se preten- de implementar e podem ser aproveitadas. Positivas (oportunidades) Aspectos externos que se apro- veitados vão colaborar para ob- tenção de resultados positivos. Negativas (Fraquezas) Características internas que devem ser minimizadas ou extintas. Negativas (Ameaças) Situações externas que se não forem controladas, evitadas ou extintas podem afetar negativa- mente o planejamento/ação/es- tratégia. Fonte: elaborado pela autora. Vejamos outro exemplo: para construção de PPA municipal, recomenda-se que, para o planejamento municipal, sejam utilizados de 8 a 12 macro-objetivos, pois uma quan- tidade menor dá margem para excluir dados importantes de situações complexas que carecem da intervenção estatal (BRASIL, 2013). IMPORTANTE Quando tratamos de estratégia é importante conhecer regras que ajudam na tomada de decisão, como: Valores: Quais são os valores importantes nesta organização e/ou nesta política? Metas: Quais metas desejo e/ou preciso alcançar? Condutas: Quais as condutas desejadas? Prioridades: Quais são as prioridades? Análise do ambiente: Quais os pontos relevantes internos e externos que devo considerar no planejamento? Para elencar tais objetivos e definir as ações imediatas a serem realizadas pela adminis- tração pública, observe o exemplo utilizando a matriz FOFA (SWOT) no quadro que segue: Quadro 04. Exemplo da análise dos ambientes interno e externo (Matriz FOFA) da administração pública FATORES POSITIVOS (ajudam a concretização da Visão de Futuro) FATORES NEGATIVOS (dificultam a concretização da Visão de Futuro) 66 Planejamento Estratégico 3 ANÁLISE INTERNA (maior capacidade de gerenciamento pelo governo municipal) ANÁLISE EXTERNA (menor capacidade de gerenciamento pelo governo municipal) FRAQUEZAS Palavra-Chave: REVERTER ou ATACAR as fragilidades administrativas AMEAÇAS Palavra-Chave: NEUTRALIZAR as questões de contexto que podem inibir ou comprometer o desenvolvimento do município FORÇAS Palavra-Chave: POTENCIALIZAR o que a prefeitura possui de pontos fortes OPORTUNIDADES Palavra-Chave: APROVEITAR as questões de contexto que podem alavancar o desenvolvimento do município Fonte: Brasil (2013 p. 54). Note que para cada um dos quadrantes da ferramenta, foram destacadas ações relacio- nadas a pontos fortes, as potencias e fatores que devem ser aproveitados, e nas fraque- zas, ações relacionadas à reversão e neutralização, considerando a atual situação da municipalidade. Para estabelecer os objetivos de cada um dos quadros, definem-se dois ou três grandes objetivos, que devem se relacionar e/ou colaborar com o que se espera para o desenvolvimento, o crescimento e melhorias futuras para o município. São esses os objetivos que nortearão o planejamento municipal pelos quatros anos (BRASIL, 2013). GLOSSÁRIO Objetivo: situação que se deseja obter por meio da implementação do programa. Exemplo: reduzir taxa de analfabetismo de jovens e adultos. Meta: é um objetivo acompanhado das dimensões quantitativas e referências temporais e territoriais. Exemplo: alfabetizar 300 pessoas de 25 anos ou mais de idade (dimensão quantitativa) no município (referência territorial) em um ano (referência temporal) (BRASIL, 2015, p. 11). Na prática, a aplicação da Análise SWOT precisa ser compreendida como uma ferra- menta que colabora para/na execução dos objetivos propostos e/ou desejados, uma vez que proporciona o conhecimento de informações que não foram identificadas nas reuniões iniciais de planejamento. Colabora também para a assertividade nas tomadas de decisão, no uso correto e adequado dos recursos públicos e privados, além de ofe- recer sustentabilidade e credibilidade à equipe gestora e todos envolvidos, fornecendo maior segurança na obtenção de resultados. No quadro que segue destacamos um exemplo do uso e execução da Análise SWOT. Quadro 05. Exemplificando as análises do ambiente interno e externo FORÇAS FRAQUEZAS Fatores internos da empresa/ organização/secretaria de governo Equipe qualificada Quantidade insuficiente 67 3 Planejamento em serviço social U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co OPORTUNIDADES AMEAÇAS Fatores externos da empresa/ organização/secretaria de governo Parceria com organização internacional/Emenda Parlamentar Crise Econômica/ Nova variante do vírus causador da covid-19 Fonte: elaborado pela autora. Forças, fraquezas, oportunidades e ameaças são elementos que devem ser conside- rados dados para construção de um diagnóstico social. Precisam ser tratados com se- riedade e cuidado e considerados no levados em conta no estratégico. Tais elementos podem colaborar para efetividade do planejamento e corroborar para resultados sa- tisfatórios. A inexatidão das informações pode gerar ruídos de informação, equívocos irreparáveis e resultados insatisfatórios. Então, a clara interpretação dos dados coletados sugere confiabilidade na elaboração do plano estratégico de ação, e para isso pode-se utilizar a Matriz Operacional para a construção de um instrumento com dados sucintos a respeito de um conjunto de ações que têm a intenção de assegurar resultados mais seguros e duradouros, como no exemplo que segue: Quadro 06. Exemplo de Matriz Operacional NOME DO PROGRAMA O ENUNCIADO DO PROGRAMA DEVE SER CLARO E COMUNICÁVEL. Objetivo do Programa Deve ser viável, transformador, exequível e orientado para a estratégia do governo. Metas até 2017 No PPA Federal as Metas materializam os objetivos, podendo ser qualitativas ou quantitativas. Nos PPAs estaduais, via de regra, as metas quantificam os produtos das ações. Iniciativas ou Ações Iniciativas: é o que deve ser feito no âmbito do programa nos próximos 4 anos. Declara os bens e serviços que serão entregues. Ações: resultam em produtos - bens ou serviços - para a sociedade Recursos Necessários Para que se tenha ideia da exigência de recursos do programa e das suas iniciativas. Nãodeve ser detalhado - isso será feito por equipes técnicas após a decisão final de governo e sociedade. Resultado Esperado Espera-se resolver ou pelo menos atenuar os problemas e atingir os obje- tivos. Aqui se debatem os impactos efetivos do programa e suas ações na realidade local. Órgão Responsável Define o setor ou departamento responsável. Quanto mais preciso melhor. Fonte: Brasil (2013, p. 55). Esses dados ajudarão a compor o Plano Plurianual (PPA), e é fundamental que se observe alguns pontos, como: Detalhamento: conforme a complexidade das causas do problema ou da di- retriz estratégica (dimensão estratégica) será necessário detalhar o Progra- ma em projetos e ações específicas e assim por diante, o grau de detalha- mento deve obedecer a critérios de praticidade e operacionalidade do plano. Recursos Necessários: deve-se estimular uma reflexão sobre o grau de comprometimento de recursos necessários para executar a operação. Os recursos sempre são multifuncionais, podendo ser classificados em econômicos ou financeiros, tempo, humanos e políticos. Pode-se atribuir uma graduação (alto, médio, baixo) em operações mais complexas. A análise de 68 Planejamento Estratégico 3 recursos necessários é fundamental para avaliar a eficiência da ação proposta a partir do balanço geral de recursos. A análise dos recursos financeiros é a base para construção da proposta orçamentária nas fases posteriores. Produto Gerado: é o efeito imediato e direto da execução da ação ou operação. Por exemplo, se a ação proposta for: “Elaborar projeto de im- plantação de controladoria interna,” o produto gerado será provavelmente um “Projeto de Implantação da Controladoria” e os resultados “melhoria da qualidade do gasto público”. Resultado Esperado: é crucial distinguir resultado de produto, para que se analise a eficácia da ação, isto equivale a responder a seguinte pergunta: o produto esperado desta operação realmente garante o resultado desejado? No exemplo anterior um dos resultados mais prováveis seria a redução do desperdício ou melhoria da gestão. Há sempre uma pré-intencionalidade ao definir resultados, já que uma operação pode produzir muitos resultados. Resultados imprevistos ou negativos, dependendo das estratégias de viabili- dade e dos cenários futuros. Pode-se debater aqui indicadores quantitativos e qualitativos de resultado que, junto com os indicadores do problema, po- dem ajudar para montar o sistema de monitoramento. Responsável: recomenda-se definir junto ao grupo de planejamento o setor, secretaria ou departamento responsável pela execução da operação e que vai se responsabilizar perante o grupo por esta tarefa ou pelo seu detalha- mento técnico. Esta definição pode ficar “em aberto” e ser retomada no final do processo de planejamento quando debate-se o problema da gestão do plano e o conjunto de responsabilizações institucionais que ele demanda. (BRASIL, 2013, p. 55) Com a presença desses elementos é possível propiciar um padrão do mínimo para elaboração de uma Matriz Operacional. CURIOSIDADE Você sabia que é possível fazer a Análise SWOT (FOFA) pessoal? Ela pode ser aplicada para crescimento pessoal e profissional, proporcionando a identificação dos pontos fortes, fraquezas e ameaças para alcançar os objetivos traçados e/ou para oportunidades de desen- volvimento e crescimento na vida profissional ou acadêmica. Para aplicar a ferramenta é importante: ` Ter os objetivos já definidos, como ingressar na carreira de assistente social; se aperfeiço- ar e/ou se especializar de determinada área; ` Desenvolver determinadas habilidades e/ou competências. Você pode reaplicar a análise quantas vezes desejar. Para conhecer seus avanços, melho- rias e pontos a melhorar, sugerimos que a realize no início de cada semestre. Acompanhando melhor sua evolução, você poderá traçar planos de melhoria e, assim, aproveitar ainda mais o seu processo formativo. O segundo passo é conhecer qual a missão da organização, empresa ou política pública. Produzir conhecimento, reduzir a pobreza e a desigualdade social, contribuir para uma so- ciedade mais justa, expandir o conhecimento dos meios de participação e controle social, fomentar a participação da sociedade na política pública podem ser alguns dos elementos 69 3 Planejamento em serviço social U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co GLOSSÁRIO presentes na missão organizacional. É essencial que a equipe envolvida na construção do planejamento estratégico tenha conhecimento e clareza dessas informações para que possam estabelecer objetivos e metas de acordo com a missão estabelecida. “A expressão “controle social” tem origem na sociologia e, segundo Mannheim (1971, p. 178), é definida como o “conjunto de métodos pelos quais a sociedade influencia o comportamento humano, tendo em vista manter determinada ordem”. Nas Ciências Políticas e Econômicas, a expressão controle social pode ser abordada sob diferentes perspectivas, tanto relacionada ao controle do Estado sobre os cidadãos quanto ao controle que os cidadãos exercem sobre o Estado.” (FERNANDES; HELLMANN, 2016 p. 65). Quanto à visão, a organização precisa definir qual o seu horizonte de médio e longo prazo, em qual patamar desejar estar no futuro. É por meio da visão que se conhece qual(is) a(s) expectativa(s) e rumo dos projetos. Se temos essa informação, é possível analisar a situação atual e a desejada, e então angariar esforços para alcançá-lo por meio de metas e prazos preestabelecidos. SAIBA MAIS Diversas empresas elaboram um Relatório Anual, que geralmente apresenta a visão, a mis- são, os valores e as estratégias de atuação, ou seja, dados do seu planejamento estratégico. Como exemplo, apresentamos o Relatório Anual de 2020 da empresa Natura. Nas páginas 27 e 28, a empresa expõe sua estratégia e os sete pilares estratégicos para alcançar os seus objetivos. Este é um dos relatórios da empresa. O site disponibiliza uma série histórica, a qual você pode consultar e observar que diversas estratégias, objetivos e metas foram elencados, e os resultados, obtidos. Acesse: https://static.rede.natura.net/html/sitecf/br/11_2021/relatorio_anual/Relatorio_Anual_Natu- ra_GRI_2020.pdf. Logo, para fundamentar um planejamento estratégico necessitamos de conhecimento e compreensão de todas as informações que destacamos. Sem a leitura adequada da missão, visão, valores e análise dos ambientes interno e externo, certamente os esfor- ços empenhados não surtirão os resultados almejados. EXEMPLO As organizações sociais e empresas buscam apresentar de forma clara e transparente sua visão, missão e valores, e geralmente os disponibilizam em seus sites na área “Quem somos?” Veja o caso do Greenpeace, uma organização social criada em 1971 no Canadá e que atu- ante na defesa do meio ambiente. Em seu site, ela declara que nasceu com o sonho de construir um mundo mais verde e pacífico. “Qual a visão do Greenpeace? https://static.rede.natura.net/html/sitecf/br/11_2021/relatorio_anual/Relatorio_Anual_Natura_GRI_2020.pdf https://static.rede.natura.net/html/sitecf/br/11_2021/relatorio_anual/Relatorio_Anual_Natura_GRI_2020.pdf 70 Planejamento Estratégico 3 Acreditamos na coragem de cada um para transformar o mundo em que vivemos. Convida- mos milhares de pessoas a sair da zona de conforto para empreender ações corajosas co- nosco, seja em suas vidas diárias, seja em comunidade com outras pessoas, para defender nossos rios e florestas, tornar nossas cidades melhores para se viver e garantir um ambiente saudável e com qualidade de vida para todos. Um futuro verde e pacífico e a nossa busca. Os heróis da nossa história somos todos nós que, otimistas e corajosos, acreditamos que um mundo melhor não apenas é possível, como está sendo construído hoje. “Qual é a missão do Greenpeace? Nossa missão é garantir a capacidade da Terra de nutrir a vida em toda sua diversidade. Isso significa que queremos: “Nossos valores fundamentais Responsabilidadepessoal e não-violência. Agimos com base na consciência. Isso significa que somos responsáveis por nossas ações e assumimos nossa responsabilidade. Estamos comprometidos com a paz. Todos os envol- vidos em nossas ações são treinados pelo princípio da não-violência. “Independência Nós não aceitamos dinheiro de governos, empresas ou partidos políticos. Contribuições indi- viduais, juntamente com doações de fundações, são a única fonte de nosso financiamento. “Não temos amigos ou inimigos permanentes Atuamos em conjunto com governos e empresas dispostos a mudar para melhor, para que atinjam seus objetivos. Mas voltamos a confrontá-los quando isso não for consistente. O que importa não são palavras, mas ações. “Promovendo soluções Não é suficiente apenas apontar o dedo, nós desenvolvemos, investíamos e promovemos medidas concretas para um futuro verde e pacífico para todos nós.” Fonte: https://doe.greenpeace.org.br/Institucional/quem-somos. Acesso em: 21 mar. 2022. Destacamos no texto, até o presente momento, alguns elementos que elucidam a com- preensão a respeito do tema e nos fornece ferramentas para elaboração e implemen- tação do planejamento estratégico, seja ele construído para empresas, organizações sociais ou políticas. Para completar, vamos abordar o diagnóstico social nas temáticas referentes a tomadas de decisões, plano de ação e diagnóstico estratégico, conceitos fundamentais para construção e efetivação do planejamento estratégico. https://doe.greenpeace.org.br/Institucional/quem-somos 71 3 Planejamento em serviço social U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co 3. TOMADAS DE DECISÕES. PLANO DE AÇÃO. DIAGNÓSTICO ESTRATÉGICO A tomada de decisões é geralmente um momento com a presença de certezas e incerte- zas e que requer dos envolvidos e do gestor responsável pelo processo o acompanha- mento e condução das atividades que subsidiem a elaboração de um plano ação capaz de propor mudanças com base nos achados encontrados no diagnóstico estratégico. No campo das políticas sociais brasileiras, tradicionalmente tem-se atuado e planejado o trabalho como respostas a demandas sociais de públicos-alvo específicos. Nesse sentido, a política pública versa para uma segmentação da população que por vezes promove a homogeneização dos segmentos populacionais baseada em suas necessi- dades e características comuns. Assim, o planejamento constitui um relevante desafio que promove reflexões, mudan- ças de rota e tomadas de decisões a partir da apreensão da realidade, além de instigar processos e ampliar a consciência a respeito dos desafios e ações necessárias para atuação profissional. IMPORTANTE Para qualquer tomada de decisão, há necessidade de compilar os elementos que só serão pas- síveis de conhecimento por meio de um diagnóstico social bem-estruturado e comprometido. A articulação das dimensões física e política presentes nos territórios são elemen- tos que devem ser considerados, “[…] mas, também, uma dimensão sociocultural ao buscar compreender as dinâmicas socioculturais dos grupos sociais”. (FERNANDES; HELLMANN, 2016, p. 79). O diagnóstico vinculado tão somente a coleta de dados, informações e/ou à manutenção e inserção em relatórios, está longe de atingir a neces- sidade-fim e nos desafia para: Além de saber se um município tem muitos idosos, temos de saber se eles se caracterizam mais por pessoas idosas incapacitadas para a automanutenção ou por pessoas idosas sem condições de se manter pelo próprio trabalho. Alguns desses idosos são os arrimos das famílias e há casos concretos de apropriação e uso indevido de cartão de crédito por filhos. Quando se caracteriza melhor esse grupo supostamente homogêneo de idosos, observa-se o quanto ele é he- terogêneo. Ao territorializar essa informação se observa se essas possibilidades têm relação com determinados bairros da cidade. (BRASIL, 2016, p. 81) E o Dicionário Crítico da Política de Assistência Social no Brasil completa, afirmando que: O diagnóstico socioterritorial se constitui como uma estratégia para a gestão conhecer os territórios, aproximando-a da população. Deve fornecer infor- mações claras e objetivas sobre as dinâmicas locais, dimensionando as de- mandas da população e percebendo-as como demandas de caráter coletivo por proteção social, com vistas ao desenvolvimento de ações e contribuindo, desse modo, para o planejamento global da política pública de assistência social. (FERNANDES; HELLMANN, 2016, p. 79) Cabe então refletir acerca da relevância do diagnóstico social estratégico, como uma ferramenta capaz de realizar aproximações sucessivas com os territórios e a população 72 Planejamento Estratégico 3 atendida, ultrapassando os limites das estatísticas. Por essa razão, propomos avançar na direção do diagnóstico socioterritorial, como destaca o CapacitaSUAS: A nomenclatura aqui adotada de diagnóstico socioterritorial tem se mostrado mais próxima da ideia de trazer à tona o território de vivência, e não somente um conjunto de dados sobre esses territórios na forma de indicadores gené- ricos sobre uma cidade – por exemplo, sem vinculá-los aos diferentes ter- ritórios que compõem suas tramas cotidianas: as pessoas que moram no centro, em um bairro periférico ou, ainda, na zona rural podem apresen- tar condições de vida bem diferentes, e só a média do município não é capaz de capturar essas desigualdades internas da cidade. (BRASIL, 2013b, p. 66-68 apud BRASIL, 2016, p. 81, grifos nossos) A exemplo do SUAS (Sistema Único da Assistência Social), a vigilância socioassisten- cial é a área que, entre outras questões, analisa os dados produzidos pelos municípios, com o objetivo de monitorar o atendimento ofertado pela política social e contribuir para sua efetivação, além de propor respostas qualificadas para melhor oferecimento. IMPORTANTE É importante “[…] evitar o mau uso da terminologia “vigilância” na forma de práticas auto- ritárias baseadas em auditorias e fiscalizações, em relação tanto aos usuários quanto às equipes de trabalhadores da política de assistência social e às organizações prestadoras dos serviços socioassistenciais. Trata-se de um movimento de deslocamento tanto conceitual quanto prático que possibilita à política de assistência social exercer suas funções protetivas e de defesa de direitos”. (BRASIL, 2013d apud BRASIL, 2016, p. 17) O cotidiano nos desafia constantemente a efetivar esse diálogo com os sujeitos, usu- ários, gestores e trabalhadores das políticas, na condição de aprendizes diante das diversas demandas que a realidade nos impõe (VIGILÂNCIA […], [s. d.]). GLOSSÁRIO “Demanda significa quantidade de pessoas ou de famílias que possuem necessidades espe- cíficas para ter acesso aos serviços ou benefícios socioassistenciais; são todos os indivíduos ou famílias que poderiam estar sendo assistidos mas, por diversos motivos, incluindo falta de oferta, não acessam esses serviços e benefícios”. (BRASIL, 2016, p. 26) A condição de aprendiz implica aprender com o outro, escutar esse outro, entender que tudo está em processo de transformação e mudança, o que traz a abertura e leveza do novo. Os aprendizados anteriormente vivenciados são combustível para avançar e apren- der ainda mais. Nessa direção, a posição de aprendiz nos impulsiona na busca por novos conhecimentos, e o diagnóstico social, quando realizado nessa perspectiva, possibilita diversas descobertas. É possível por meio de uma estrutura identificar alguns tópicos que podemos tratar em um diagnóstico estratégico social para um Programa Social. Quadro 07. A estrutura de tópicos tratados em um diagnóstico para Programa Social Análise do público-alvo a atender ` Tendências do crescimento demográfico. ` Perspectivas de crescimento futuro da população e público atendido. 73 3 Planejamento em serviço social U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co ` Características educacionais, habitacionais e de saúde da população. ` Condição de atividade da força detrabalho, ocupação e rendimentos. ` Beneficiários de outros programas sociais. Análise do contexto econômico regional ` Tendências do desenvolvimento regional (indústria, comércio, agropecuária). ` Perspectivas de investimento público e privado. ` Infraestrutura de transporte e de comunicações. ` Estrutura do emprego e ocupações mais e menos dinâmicas. Análise dos condicionantes ambientais ` Identificação de áreas de proteção e restrições. ` Passivos e agravos ambientais. ` Oportunidades de exploração do turismo e desenvolvimento sustentável. Análise da Capacidade de Gestão Local ` Estrutura administrativa já instalada. ` Quantidade e características do pessoal técnico envolvido ou disponível. ` Experiência anterior na gestão de programas. Análise da Participação Social ` Comissões de Participação Popular/Social existentes. ` Histórico/Cultura de Participação. Fonte: MDS ([s. d.], p. 3). SAIBA MAIS Para conhecer um pouco mais o diagnóstico socioterritorial no contexto de pandemia de covid-19, acesse a live promovida pelo grupo de trabalho da Vigilância Socioassistencial da Câmara Temática da Assistência Social do Consórcio Nordeste do Brasil com a presença da Profa. Dra. Dirce Koga. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=w0nyDyWsjOI. Nesse sentido, uma das principais funções da vigilância socioassistencial é a produção de diagnósticos socioassistenciais que possibilitem a interpretação dos dados, A partir dessa leitura, o município, por exemplo, pode conhecer melhor as necessidades e demandas dos cidadãos. O diagnóstico socioterrito- rial possibilita que os responsáveis e operadores da política de assistência social apreendam as particularidades do território no qual estão inseridos e detectem as características e dimensões das situações de precarização que vulnerabilizam e trazem riscos e danos aos cidadãos e a sua autonomia, socialização e convívio familiar. O diagnóstico deve levantar, além das ca- rências, também as potencialidades do lugar, o que possibilita ações estra- tégicas para fomentar essas potencialidades. Por outro lado, o diagnóstico deve levantar a rede de proteção social no território – seja ela a rede referenciada da assistência social ou a rede das https://www.youtube.com/watch?v=w0nyDyWsjOI 74 Planejamento Estratégico 3 demais políticas públicas –, verificando quantas famílias já estão sendo aten- didas e, logicamente, a quantidade de famílias que demandam os serviços, mas ainda não estão sendo adequadamente atendidas, ou seja, a demanda potencial. (BRASIL, 2016, p. 83, grifos nossos) Para efetiva tomada de decisão é fundamental reconhecer as particularidades dos muni- cípios, estruturas, realidade social e as dimensões existentes na vida cotidiana. Por esse motivo, é essencial a personalização do diagnóstico social que viabilize a identificação de tais particularidades para que se elenquem as demandas e potencialidades existentes em cada um dos territórios. A vigilância socioassistencial tem um papel essencial não so- mente quanto à contribuição de dados, informações e análises, mas também de ser uma ferramenta que oferece subsídios para elaboração de planos e projetos de enfrentamento às diversas expressões da questão social. Então, é importante sabermos que: É papel da vigilância socioassistencial contribuir com as áreas de PSB e PSE na elaboração de planos e diagnósticos, tais como diagnósticos dos territórios de abrangência dos CRAS e diagnósticos e planos para enfrenta- mento do trabalho infantil, entre outros. Assim, o diagnóstico se concretiza por meio de um ou mais relatórios técnicos, que trazem subsídios para a tomada de decisão política. (BRASIL, 2016, p. 84) IMPORTANTE IMPORTANTE “O plano deve conter a caracterização da realidade social dos municípios – portanto, deve conter um diagnóstico, que no entanto não se limita à realização desse plano”. (BRASIL, 2016, p. 84) Assim, os dados coletados e sistematizados na execução do diagnóstico social devem conter, além das informações que geralmente são produzidas no âmbito socioeconômi- co, de acesso às políticas públicas, informações coletadas com as lideranças comunitá- rias, para que conheçam as particularidades e potencialidades, mas, também […] limites de territórios de gangues e facções, bem como quais os trechos do território mais distantes e as dificuldades de travessia para as famílias, entre outras características próprias do território de abrangência das unida- des. (BRASIL, 2016, p. 84) Isso colaboraria com a função essencial do planejamento, como instrumento técnico que tem a capacidade de melhorar a qualidade do processo de adoção de decisões, oferecendo dados básicos da situação e necessidades. Faz parte do processo decisório a possibilidade de escolha por diferentes alternativas. Como já destacamos, a dimensão político-decisória é premissa para que as ideias se realizam a respeito do planejamento. A participação da população no processo decisório é fundamental, pois não são só demandantes das ações/intervenções do planejamento, mas sujeitos cen- trais nos processos decisórios. De modo a potencializar a obtenção de dados que sistematizados e aplicação das infor- mações em estudos e pesquisas a serem realizadas pelos trabalhadores das políticas 75 3 Planejamento em serviço social U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co públicas em todas as esferas são disponibilizados dados em diversas ferramentas in- formacionais, como: Quadro 08. Ferramentas Informacionais do Portal SAGI Fonte: MDS ([s. d.]). SAIBA MAIS Para conhecer um pouco mais a respeito de relatórios, informes e outras ferramentas infor- macionais do Ministério da Cidadania, que apresenta diversos estudos que tratam de polí- ticas sociais, acesse: https://www.gov.br/cidadania/pt-br/servicos/sagi/. As informações pro- duzidas pela área de gestão e avaliação da gestão da informação poderão auxiliar tanto nos estudos quanto no ambiente profissional. https://www.gov.br/cidadania/pt-br/servicos/sagi/ 76 Planejamento Estratégico 3 Como já refletimos, o diagnóstico socioterritorial procura verificar situações desiguais de vida, as quais por vezes os dados estatísticos não alcançam, ou não apontam se a situação é desigual ou não, boa ou ruim. Nos dois exemplos que apresentaremos será possível visualizar como os dados podem ser apresentados de forma a identificar a representatividade das vulnerabilidades sociais obtidas por meio do monitoramento de indicadores sociais e execução do diagnóstico. SAIBA MAIS É importante pensar a respeito das vulnerabilidades sociais na política pública. Para tanto, acesse o vídeo “Vulnerabilidades e Proteção social”, com a Profa. Dirce Koga, e compreenda um pouco mais acerca desse tema, que é fundamental quando pensamos em diagnóstico so- cial e construção de plano de ação. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Xnr- 0cRdMiQg&t=24s. Exemplo 1: considere que você está na gestão do estado da Paraíba, e seu objetivo é conhecer o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos municípios para viabilizar algumas decisões. Foi entregue a você um histograma, que demonstra em vermelho os municípios mais vulneráveis e com baixo IDH, e em azul, as cidades com os melhores índices (BRASIL, 2016). Figura 03. Exemplo de histograma dos municípios da Paraíba No segundo exemplo, observe os dados referentes ao Índice de Exclusão/Inclusão So- cial do estado da Paraíba no mapa (BRASIL, 2016). Fonte: Brasil (2016, p. 86). https://www.youtube.com/watch?v=Xnr0cRdMiQg&t=24s https://www.youtube.com/watch?v=Xnr0cRdMiQg&t=24s 77 3 Planejamento em serviço social U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Figura 04. Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, 2000 Fonte: Brasil (2016, p. 87). Para que possamos contrapor os dados, a próxima figura apresenta uma cartografia com dados de exclusão e inclusão social da cidade. Nesta figura são mostrados 59 bairros, com a demonstração dasdesigualdades intraurbanas da capital da Paraíba, “[…] o que coloca em xeque o índice médio do mapa anterior, que indicava um alto grau de desenvolvimento humano.” (BRASIL, 2016, p. 87). Os bairros mais incluídos estão na cor verde, e mais excluídos, na cor vermelha. Figura 05. Índice de exclusão social dos bairros de João Pessoa Fonte: Brasil (2013b, p. 70 apud BRASIL, 2016, p. 87). 78 Planejamento Estratégico 3 Com os dados apresentados, a gestão da cidade de João Pessoa já tem elementos para compor um diagnóstico, e será possível enumerar os pontos fortes e as fraquezas, que possibilitarão definir as ações prioritárias, emergentes de curto, médio e longo pra- zos, por meio de dados georreferenciados, compreendendo que: A dimensão socioterritorial do diagnóstico objetiva justamente embasar os números, até possibilitando comparar um lugar e outro de uma mesma ci- dade, já que é possível que um lugar seja considerado pior que outro não somente porque seus moradores são pobres, mas porque, além da pobreza, percebe-se a falta de serviços urbanos, como esgoto, água, luz, estrada e transporte, ou de saúde, educação e assistência social – portanto, não basta dizer quem são as pessoas; se faz necessário também responder onde elas estão. Brasil (2013b, p. 70 apud Brasil, 2016, p. 88) Para um diagnóstico social estratégico útil e propositivo para Políticas Públicas, é ne- cessário se dispor a realizar um estudo da situação da população por meio de informa- ções descritivas e analíticas, do uso de dados estatísticos, indicadores e cartografias, e de real interesse em conhecer a realidade local. As premissas anteriormente refletidas no âmbito da caracterização do planejamento são elementos que precisam estar claros para toda a equipe gestora, seja na gestão pública ou privada. Algumas são: ` Estudo da situação ou diagnóstico: consiste na compreensão e na caracterização glo- bal de uma determinada situação-problema, e na determinação da natureza e da magni- tude de suas limitações e possibilidades; ` Definição de objetivos para a ação e estabelecimento de metas: caracteriza um mo- mento de tomada de decisões no processo de planejamento, no qual se define o estado de coisas que se pretende atingir com a ação planejada; ` Formulação e escolha de alternativas: são feitas tendo como princípio um processo complexo que analisa e avalia a dinâmica histórica em que o objeto; ` Montagem de planos, programas e/ou projetos ou planificação: é feita após decisões tomadas em conjunto para que seja efetivamente realizada em decorrência de uma rea- lidade determinada. Com as decisões tomadas, cabe à equipe gestora considerar os demais condicionantes do planejamento, como: ` Implementação: essa fase “[…] pode ser considerada como a busca, formalização e incorporação de recursos humanos, físicos, financeiros e institucionais que viabilizam o projeto; ` Implantação e execução: é a fase de efetivação do planejado e fica, em sua maioria, na responsabilidade dos setores de execução; ` Controle da execução: é entendido como instrumento de apoio e racionalização da execução; ` Avaliação de processo e da ação executada: o desempenho e os resultados da ação; ` Retomada do processo reflexivo, momento em que ocorrerão novas ideias e propos- tas de melhoria, realimentando o que havia sido planejado e exposto no plano de ação. 79 3 Planejamento em serviço social U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co PARA REFLETIR “É importante compreender que a apropriação dos dados do diagnóstico socioterritorial po- tencializa a vigilância socioassistencial e configura-se em ato de democratização dessa política pública”. (BRASIL, 2016, p. 56, grifos nossos). Como assistentes sociais, é fundamental reconhecermos e incentivarmos práticas que fo- mentem a democratização das políticas públicas e a efetivação dos direitos. 3.1 PLANO DE AÇÃO O plano de ação deve ser elaborado com base no diagnóstico social como uma estra- tégia para a efetividade da ação. Nesse sentido, é essencial que se reúnam todas as demandas, pontos fortes, fracos e potencialidades reveladas por meio da sistematização dos dados e informações ad- quiridas a respeito da realidade social identificadas durante o processo. Por meio do diagnóstico, é possível selecionar ações prioritárias que proporcionem melhorias nas condições de vida e alcance dos objetivos elencados. Um dos desafios é de identificar as principais ações. O ideal é que o plano de ação seja elaborado coletivamente, se possível com a presença de outras secretarias e/ou outras áreas, no caso de organizações sociais e empresas. Se estivéssemos elaborando um plano de ação para política relacionada a idosos, seria importante criar um comitê responsável pelo plano, mas também contar com a contribui- ção e acompanhamento constante do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa. Para que melhor compreensão, utilizaremos o Plano de Ação apresentado pela Co- missão para ODS – Objetivos para o Desenvolvimento Social de 2017-2019. Com o objetivo de contribuir para implementação dos ODS, além de fortalecer o diálogo entre governo e sociedade civil, tem como missão e visão: Figura 06. Visão e Missão da Comissão Nacional para os ODS Visão da Comissão Nacional para os ODS Missão da Comissão Nacional para os ODS ` Ser indutora da implementação dos ODS, por meio de um processo colaborativo e participativo, para alcance de todos os objetivos e metas da Agenda 2030 Brasil. ` Criar mecanismos institucionais que estabeleçam as condições adequadas à implementação dos ODS, incluindo estratégias para a territorialização, a definição de metas e indicadores, processos participativos, meios de implementação, acompanhamento e monitoramento da Agenda 2030. Fonte: Brasil (2017, p. 9). 80 Planejamento Estratégico 3 Para a comissão nacional, esse plano de ação colabora com o processo de efetivação da Agenda 2030 dos ODS, e oportuniza um diálogo entre os setores públicos e privados no Brasil (BRASIL, 2017, p. 9) . IMPORTANTE Os 17 objetivos de Desenvolvimento Sustentável têm metas e indicadores. Contudo, para sua efetivação, o relatório destaca a necessidade de que se supere a pobreza e a extrema pobreza como elementos essenciais para o exercício pleno da cidadania, além da presença de ambiente de justiça e paz social. “Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, suas 169 metas e 241 indicadores acor- dados no contexto da Agenda 2030, continuarão a exigir uma clara prioridade dos governos federal e subnacionais para superação do desafio de implementar políticas e programas transversais e intersetoriais. Para “não deixar ninguém para trás”, como expresso na Agenda 2030, os poderes executivo, legislativo e judiciário, o setor produtivo, a academia e as orga- nizações da sociedade civil deverão dar prioridade para a construção de soluções, inclusive as parcerias multisetoriais, para temas como a promoção de direitos humanos e melhoria das condições sociais e econômicas das populações mais vulneráveis. As pessoas permanecem centrais na nova agenda de desenvolvimento, o que havia sido um dos traços marcantes dos ODM. O desenvolvimento sustentável depende da superação da pobreza, incluindo a pobreza extrema, o que é essencial para o pleno exercício da cidadania, em um ambiente de justiça e paz social.” (BRASIL, 2017, p. ?) É importante que se forme uma comissão com a presença de representantes de diver- sas instituições; neste caso, formou-se um GT – Grupo de Trabalho – para realização do plano de ação com as seguintes representações: Secretaria de Governo da Presidência da República – SEGOV; Casa Civil da Presidência da República; Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão – MP; Ministério das Relações Exteriores – MRE; Ministério do Desenvolvimento Social – MDS; Ministério do Meio Ambiente – MMA; Associação Brasileira de Entidades Estaduais do Meio Ambiente – ABEMA; Confederação Nacional de Municípios– CNM; Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Su- perior- Andifes Confederação Nacional da Indústria – CNI; União Geral dos Trabalhadores – UGT; Conselho Nacional das Populações Extrativistas – CNS; Visão Mundial; Instituto Ethos; Fundação Abrinq pelos Direitos das Crianças e dos Adoles- centes; Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA Instituto Brasileiro de Ge- ografia e Estatística- IBGE (BRASIL, 2017, p. 20) Também foram convidados representantes de universidades para compor a comissão e colaborar na construção da metodologia de trabalho e atividades. 81 3 Planejamento em serviço social U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co SAIBA MAIS Para acessar o Relatório da Comissão Nacional dos ODS e conhecer mais elementos da construção do Plano de Ação, acesse: http://www4.planalto.gov.br/ods/publicacoes/plano- -de-acao-da-cnods-2017-2019. Certamente aprimorará ainda mais os seus conhecimentos acerca do tema. Para construção do plano de ação foram feitas entrevistas estruturadas com todos os integrantes da comissão que serviram como elementos para construção das oficinas, […] explorando ao máximo as trajetórias e expectativas de cada organiza- ção, num espaço colaborativo e propício ao desenho de iniciativas criativas e efetivas. Ao consolidar as entrevistas, foi possível identificar um conjunto de “ideias força”, que as instituições gostariam de trabalhar na oficina. (BRASIL, 2017, p. 21) Como um dos resultados dessa atividade, foi criado um diagrama com a representação das correlações entre as ideias força. Figura 07. Diagrama de Correlação de Formas Esse é um exemplo de planejamento que caminha no processo de participação demo- crática, rompendo com uma prática de planejamento vertical e tecnicista existente nas organizações governamentais. Com base nesses elementos, a comissão cria um planejamento de atividades para o GT e seleciona eixos estratégicos para composição do plano de ação para sua efetiva cons- trução. Cabe ressaltar que a Comissão Nacional das ODS elabora o plano de ação, mas quem implementa são as equipes presentes nas secretarias no âmbito local, ou seja, nos governos estaduais e municipais, e nessa situação específica, no governo federal. Fonte: Brasil (2017, p. 21). Espaço de colaboração, integração e sinergias Respeito às autonomias organizacionais Franqueza nos diálogos Construção de confiança Definição de ações concretas Escuta ativa http://www4.planalto.gov.br/ods/publicacoes/plano-de-acao-da-cnods-2017-2019 http://www4.planalto.gov.br/ods/publicacoes/plano-de-acao-da-cnods-2017-2019 82 Planejamento Estratégico 3 A Comissão Nacional agrupou todas as propostas por afinidades, a fim de construir um conjunto de seis grandes estratégias, que são: Figura 08. Estratégias de Organização dos Trabalhos da Comissão Nacional para os ODS Fonte: Brasil (2017, p. 27). A seguir, apresentamos um exemplo do planejamento de uma das ações realizadas para efetivação do primeiro eixo “Gestão e Governança da Comissão”. Objetivo: Estabelecer governança que garanta integração, participação, co- municação, funcionamento e efetividade à CNODS. Resultado E1.1: Regimento Interno da CNODS publicado. Produto E1.1.1: Minuta de Regimento Interno discutida e aprovada. Prazo: julho/2017. Responsável: CNODS. Produto E1.1.2: Portaria publicada. Prazo: outubro/2017. Responsável: Secretaria-Executiva da CNODS (SECEXCNODS). (BRA- SIL, 2017, p. 29) Para efetivação do planejamento de um eixo, são necessárias diversas ações que en- volvem um grupo expressivo de representantes, atividades e trabalho. Para isso, são precisos capacitação e preparo, a fim de que as informações não sejam desperdiçadas e/ou perdidas no decorrer do processo. O quadro-síntese a seguir apresenta um resumo das atividades necessárias para efe- tivação do eixo estratégico “Gestão e Governança”. Em cada um dos resultados há diversas atividades que requerem dos participantes comprometimento e dedicação. Eixos Estratégicos Gestão e Governança da Comissão Disseminação da Agenda 2030 Agenda 2030 Brasil (Internalização) Territorialização (Interiorização) Acompanhamento e Monitoramento 83 3 Planejamento em serviço social U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Fonte: Brasil (2017, p. 36). Percorremos uma jornada interessante, e pudemos refletir acerca dos elementos cons- titutivos em um planejamento estratégico e suas dimensões. Permanentemente somos desafiados a superar os limites burocráticos e fomentar a participação democrática da população em todos os espaços possíveis, e a nos capaci- tar continuamente para essa perspectiva de atuação profissional. CONCLUSÃO Tivemos a oportunidade de percorrer uma trilha de aprendizagem que nos proporcionou diversas reflexões a partir da discussão do planejamento estratégico e dos elementos indispensáveis para sua execução. O planejamento estratégico não pode ser considerado uma ferramenta da ação profis- sional isenta de propostas, intencionalidades, objetivos e metas, e tem visão, missão e valores. Da mesma maneira, não se pode objetivar uma ação como esta sem que se realize uma análise dos ambientes interno e externo. Somente com ações bem delineadas e definidas se inicia um diagnóstico social estra- tégico, o qual requer metodologia para ação, estabelecimento de prazos e a criação de mecanismos que viabilizem uma escuta qualificada dos representados de todos os níveis, além do engajamento dos representantes da sociedade civil e do setor público e das organizações sociais. Compreender o planejamento como algo que requer a participação de todos como uma forma de exercício da plena cidadania e respeito à democracia na conjuntura atual se Figura 09. Apresentação Esquemática do Eixo Estratégico: Gestão e Governança da Comissão Nacional para os ODS Resultado E1.1 Regimento Interno da Comissão Nacional para os ODS publicado. Resultado E1.2 Plano de Ação da Comissão Nacional para os ODS pactuado. Resultado E1.3 Relatórios das atividades da Comissão Nacional para os ODS elaborados e divulgados. E1.4 Resultado Criação de Câmaras Temáticas Resultado E1.5 Composição da Comissão Nacional para os ODS estabelecida para o período 2019-2021. Produto E1.1.1: Minuta de Regimento Interno discutida e aprovada. Prazo: julho/2017. Responsável: CNODS. Produto E1.2.1: Oficina de planejamento da CNODS realizada. Prazo: setembro/2017. Responsável: GT- CNODS. Produto E1.3.1: Relatório 2017-2018 de atividades da Comissão Nacional para os ODS elaborado e aprovado. Prazo: novembro/2018 Responsável: SECEX- CNODS. Produto E1.4.1: Critérios para criação, composição e funcionamento das câmaras temáticas definidos e aprovados. Prazo: novembro/2017. Responsável: GT- CNODS e CNODS. Produto E1.5.1: Modelo de governança da CNODS 2017-2019 avaliado. Prazo: fevereiro/2019. Responsável: CNODS. Produto E1.5.2: Propostas para eventuais ajustes ao modelo de governança 2019-2021 definidas. Prazo: março/2019. Responsável: CNODS. Produto E1.5.3: Processo seletivo para a CNODS 2019-2021 finalizado. Prazo: junho/2019. Responsável: SECEX- SEGOV. Produto E1.5.4: Composição da nova Comissão Nacional para os ODS (2019-2021) publicada. Prazo: julho/2019. Responsável: SEGOV. Produto E1.4.2: Primeira _ Câmara Temática criada. Prazo: dezembro/2017. Responsável: CNODS. Produto E1.4.3: Pelo menos quatro (4) Câmaras Temáticas implementadas e acompanhadas pela Comissão. Prazo: Julho/2019. Responsável: CNODS. Produto E1.3.2: Relatório 2018-2019 de atividades da Comissão Nacional para os ODS elaborado e aprovado. Prazo: novembro/2019. Responsável: SECEX- CNODS. Produto E1.2.2: Proposta de Plano de Ação da Comissão Nacional para os ODS elaborado. Prazo: outubro/2017. \Responsável: GT- CNODS. Produto E1.2.3: Plano de ação aprovado e divulgado. Prazo: novembro/2017. Responsável:CNODS. Produto E1.1.2: Portaria publicada. — Prazo: outubro/2017. Responsável: SECEX- CNODS. 84 Planejamento Estratégico 3 apresenta com um desafio. Como assistentes sociais devemos nos empenhar com prá- ticas que promovam esse exercício, e ter comprometimento com a defesa intransigente dos direitos sociais. Capacitar-nos para tal se apresenta como um dever. Certamente imprevistos ocorrerão; o cotidiano nos desafiará com diversas atividades, mas o compromisso com um projeto ético-político comprometido com a classe trabalha- dora não pode ser perdido de vista. 85 3 Planejamento em serviço social U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. Secretaria de Planejamento e Investimentos Estratégicos. Curso de Capacitação EAD em Planejamento Estratégico Municipal e Desenvolvimen- to Territorial – Guia de Estudos. 63 p. 2013. Disponível em: https://bibliotecadigital.seplan.planejamento. gov.br/bitstream/handle/iditem/489/CEGOV%20-%202013%20-%20EAD%20PPA%20Apostila%20vers%- c3%a3o%20virtual%20%5bDEZ%2020%5d.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 21 mar. 2022. BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário; Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Curso de atualização em vigilância socioassistencial do SUAS. Brasília, DF: MDSA, Secretaria de Avaliação e Gestão da Informação, Secretaria Nacional de Assistência Social; Centro de Estudos Internacionais sobre o Governo, 2016. 132 p. BRASIL. Comissão Nacional para os ODS Plano de Ação 2017 – 2019. Brasília: 2017. 42 p. Disponível em: http://www4.planalto.gov.br/ods/publicacoes/plano-de-acao-da-cnods-2017-2019. Acesso em: 19 abr. 2022. FERNANDES, R. M. C.; HELLMANN, A. Dicionário crítico: política de assistência social no Brasil. Porto Alegre: Editora da UFRGS/CEGOV, 2016. 324 p. Disponível em: http://hdl.handle.net/10183/198716. Acesso em: 22 mar. 2022. MACAÉ. Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, Direitos humanos e Acessibilidade. Plano Mu- nicipal de Assistência Social 2022-2025. Macaé, dez. 2021. Disponível em: https://macae.rj.gov.br/midia/ conteudo/arquivos/1643907740.pdf. Acesso em: 19 abr. 2022. MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL E COMBATE À FOME (MDS). Caderno de Informações. Diagnóstico para Gestão Municipal: dados municipais. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://aplicacoes.mds. gov.br/sagi/RIv3/dadosSv/Boletim-diag-mun.pdf. Acesso em: 19 abr. 2022. VASCONCELLOS FILHO, P. Afinal, o que é planejamento estratégico? Revista de Administração de Empre- sas, v. 18, n. 2, p. 7-14, abr./jun. 1978. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0034-75901978000200002. Acesso em: 19 abr. 2022. VIGILÂNCIA SOCIOASSISTENCIAL: DIAGNÓSTICO SOCIOTERRITORIAL. [S. l.], [s. d.]. 1 vídeo (1h, 51m 36s). Publicado pelo canal GT Vigilância Socioassistencial do Nordeste. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=w0nyDyWsjOI. Acesso em: 19 abr. 2022. ZAPELINI, W. B. Planejamento. 2. ed. rev. atual. 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São diversas as concepções e perspectivas técnicas e teóricas que tratam do planejamento. Assim, discorreremos a respeito da utilização do planejamento no processo de trabalho do assistente social, discutindo sua importância Serviço, sendo ele ferramenta técnica e política de ação profissional diante das expressões da questão social, bem como os elementos constitutivos na elaboração do projeto de intervenção do assistente social. 1. PLANEJAMENTO E SERVIÇO SOCIAL Já discutimos a questão do planejamento e sua importância para todos os setores da vida, inclusive a profissional. Enquanto método e processo, o planejamento se relaciona a como pensamos e agimos em relação a uma realidade para modificá-la, com o intuito de obter melhores resultados e soluções alternativas, reduzindo, inclusive, os riscos. O planejamento se concretizará em determinado momento (planejado), de maneira dinâ- mica, e suas etapas podem ocorrendo de forma inter e intradependentes. Conforme afirma Barbosa (1990, p. 53), o planejamento […] está inserido na lógica do movimento, como um exercício de decisão, o que pressupõe o poder em ação, já que planejar é tomar decisões, portanto, planejar participativamente é socializar o poder, é o povo decidindo direta- mente e/ou indiretamente na produção, na gestão, no usufruto dos bens por uma sociedade historicamente determinada. Batista (2010, p. 13) afirma que o planejamento é um processo lógico-racional, político e técnico-político. Na perspectiva lógico-racional, conforme a autora, o planejamento, “re- fere-se ao processo permanente e metódico de abordagem racional e científica de ques- tões que se colocam no mundo social”. Já em referência ao processo político, significa que haverá uma intencionalidade, um direcionamento diante da condução do planejado. 87 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social SAIBA MAIS GLOSSÁRIO O planejamento envolve, assim, um conjunto de prioridades e de tomada de decisões com base em determinada realidade tida como problemática, tendo em vista uma realidade desejada. Ele busca orientar um trabalho que não se restringe à improvisação, e antecipa resultados, reduz incertezas e riscos, partindo de determinadas intencionalidades, não se constituindo apenas em um processo técnico-administrativo, mas também ético- político, envolvendo tomada de decisões. Várias são as discussões acerca do planejamento diante do trabalho profissional dos assistentes sociais, remetendo-nos a compreender seus limites e possibilidades, tanto no plano teórico quanto na sua utilização nos espaços sócio-ocupacionais. No tocante às discussões teóricas que tratam do planejamento no Serviço Social, esse instrumental vai se relacionar com a profissão de acordo com as diversas perspectivas históricas nela predominantes. Os profissionais, inicialmente, adotavam o planejamento a partir dos pressupostos funcionalistas e tecnicistas, utilizando-o como um instrumento para a efetivação de suas ações nos diferentes espaços de trabalho. Nas décadas de 1950 e 1960, com a incorporação de novas atribuições profissionais, o planejamento, para a profissão, ganha novas configurações, haja vista a abertura de grandes empresas e indústrias, e a inclusão do Serviço Social nas administrações públicas. Somente após a Reconceituação, passa-se a entender o planejamento como ferramenta necessáriapara o desenvolvimento social. Ao consideramos o planejamento e suas modalidades, o planejamento participativo terá relação intrínseca com o projeto ético-político que o Serviço Social assumiu com a ver- tente de intenção de ruptura/movimento de reconceituação desde o final da década de 1970. Já a modalidade de planejamento estratégico situacional vai trazer o envolvimen- to dos assistentes sociais nas práticas de gestão e operacionalização dos documentos resultantes do planejamento. O Planejamento Estratégico Situacional – PES, desenvolvido por Carlos Matus, economista chileno, surgiu da reflexão acerca da necessidade de aumentar a capacidade de governar. Ele concebeu o planejamento como um processo dinâmico e contínuo que precede e preside a ação, e que envolve aprendizagem-correção-aprendizagem, tendo como metodologia: 01. Momento explicativo: quando se busca explicar a realidade de intervenção situacionalmente, res- pondendo a questões como “o que foi”, “o que é” e “o que tende a ser”. 02. Momento normativo: em que são detalhadas as propostas em função dos cenários previstos e dos possíveis resultados do plano. “O que deve ser” é o questionamento que orienta esta etapa. 03. Momento estratégico: responde ao questionamento “o que pode ser”. 04. Momento tático-operacional: a pergunta respondida é “o que fazer”. É momento de definição das estra- tégias e das responsabilidades de cada envolvido na implementação do plano. 88 Utilização do planejamento no processo de trabalho do assistente social 4 O planejamento, para o Serviço Social, é uma ferramenta que, articulada a outros ins- trumentais, possibilita uma intervenção profissional competente, tanto teórica quanto técnica e ética. Configura-se ainda como competência e direito dos assistentes sociais, A Lei de Regulamentação da Profissão, nº 8.662/93, nos artigos 4º e 5º, especifica, en- tre as competências e as atribuições, o planejamento como uma ferramenta integrante das ações desenvolvidas pelos assistentes sociais (CFESS, 2012, p. 44-46): Art. 4º Constituem competências do Assistente Social: I - elaborar, implementar, executar e avaliar políticas sociais junto a órgãos da administração pública, direta ou indireta, empresas, entidades e organi- zações populares; II - elaborar, coordenar, executar e avaliar planos, programas e projetos que sejam do âmbito de atuação do Serviço Social com participação da socie- dade civil; III - encaminhar providências, e prestar orientação social a indivíduos, gru- pos e à população; IV - (Vetado); V - orientar indivíduos e grupos de diferentes segmentos sociais no sentido de identificar recursos e de fazer uso dos mesmos no atendimento e na defesa de seus direitos; VI - planejar, organizar e administrar benefícios e Serviços Sociais; VII - planejar, executar e avaliar pesquisas que possam contribuir para a análise da realidade social e para subsidiar ações profissionais; VIII - prestar assessoria e consultoria a órgãos da administração pública dire- ta e indireta, empresas privadas e outras entidades, com relação às matérias relacionadas no inciso II deste artigo; IX - prestar assessoria e apoio aos movimentos sociais em matéria relacio- nada às políticas sociais, no exercício e na defesa dos direitos civis, políticos e sociais da coletividade; X - planejamento, organização e administração de Serviços Sociais e de Unidade de Serviço Social; XI - realizar estudos sócio-econômicos com os usuários para fins de bene- fícios e serviços sociais junto a órgãos da administração pública direta e indireta, empresas privadas e outras entidades. Art. 5º Constituem atribuições privativas do Assistente Social: I - coordenar, elaborar, executar, supervisionar e avaliar estudos, pesquisas, planos, programas e projetos na área de Serviço Social; II - planejar, organizar e administrar programas e projetos em Unidade de Serviço Social; III - assessoria e consultoria e órgãos da Administração Pública direta e in- direta, empresas privadas e outras entidades, em matéria de Serviço Social; IV - realizar vistorias, perícias técnicas, laudos periciais, informações e pare- ceres sobre a matéria de Serviço Social; V - assumir, no magistério de Serviço Social tanto a nível de graduação como pós-graduação, disciplinas e funções que exijam conhecimentos próprios e adquiridos em curso de formação regular; VI - treinamento, avaliação e supervisão direta de estagiários de Serviço Social; VII - dirigir e coordenar Unidades de Ensino e Cursos de Serviço Social, de graduação e pós-graduação; VIII - dirigir e coordenar associações, núcleos, centros de estudo e de pes- http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/Mensagem_Veto/anterior_98/VEP-LEI-8662-1993.pdf 89 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social quisa em Serviço Social; IX - elaborar provas, presidir e compor bancas de exames e comissões jul- gadoras de concursos ou outras formas de seleção para Assistentes Sociais, ou onde sejam aferidos conhecimentos inerentes ao Serviço Social; X - coordenar seminários, encontros, congressos e eventos assemelhados sobre assuntos de Serviço Social; XI - fiscalizar o exercício profissional através dos Conselhos Federal e Re- gionais; XII - dirigir serviços técnicos de Serviço Social em entidades públicas ou privadas; XIII - ocupar cargos e funções de direção e fiscalização da gestão financeira em órgãos e entidades representativas da categoria profissional. Já o Código de Ética Profissional do Assistente Social, de 1993, no seu art. 2º, p. 26 e 27, expressa Art. 2º Constituem direitos do/a assistente social: a - garantia e defesa de suas atribuições e prerrogativas, estabelecidas na Lei de Regulamentação da Profissão e dos princípios firmados neste Código; b - livre exercício das atividades inerentes à Profissão; c - participação na elaboração e gerenciamento das políticas sociais, e na formulação e implementação de programas sociais; d - inviolabilidade do local de trabalho e respectivos arquivos e documenta- ção, garantindo o sigilo profissional; e - desagravo público por ofensa que atinja a sua honra profissional; f - aprimoramento profissional de forma contínua, colocando-o a serviço dos princípios deste Código; g - pronunciamento em matéria de sua especialidade, sobretudo quando se tratar de assuntos de interesse da população; h - ampla autonomia no exercício da Profissão, não sendo obrigado a pres- tar serviços profissionais incompatíveis com as suas atribuições, cargos ou funções; i - liberdade na realização de seus estudos e pesquisas, resguardados os di- reitos de participação de indivíduos ou grupos envolvidos em seus trabalhos. 2. O PLANEJAMENTO NO SERVIÇO SOCIAL: FERRAMENTA TÉCNICA E POLÍTICA NO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL DIANTE DAS EXPRESSÕES DA QUESTÃO SOCIAL Como já discutimos anteriormente, o planejamento é considerado uma ferramenta ge- rencial essencial quando tratamos de tomada de decisão de forma racional e técnica. Colabora para dirimir esforços e focar a atenção nos elementos que constituem o objeto de trabalho e atuação nas políticas públicas, projetos e programas sociais. SAIBA MAIS Quer conhecer um pouco mais do planejamento e dos caminhos para realizá-lo na avaliação e monitoramento de políticas e programas sociais? Leia o artigo de Marília Patta Ramos e Letícia Maria Schabbach, “Avaliação de Políticas e Programas Sociais: Aspectos Conceituais e Metodológicos. Planejamento e Políticas Públicas”. Brasília: IPEA, 2009. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rap/a/bPM5xsjhwWgL54mdx3R7cnP/?format=pdf&lang=pt. https://www.scielo.br/j/rap/a/bPM5xsjhwWgL54mdx3R7cnP/?format=pdf&lang=pt 90 Utilização do planejamento no processo de trabalho do assistente social 4 Nesse sentido, o planejamento compreende uma junção de elementos e prioridades que orientam as decisões e colaboram para construção de novos cenários, mais pro- missores e alinhados com a perspectiva de defesa e garantia de direitos. Quando tratamosdo Serviço Social, o planejamento representa uma estratégia e/ou um caminho que, quando vinculado ao demais instrumentais, contribui para efetivação de intervenções técnicas e comprometidas com um projeto ético-político. O planejamento é um instrumento que: […] representa uma dimensão político-decisória na materialidade dos obje- tivos profissionais e das políticas sociais com as quais se trabalha. Planejar é uma das atribuições contida na Lei de Regulamentação nº 8.662/1993 da profissão de Assistente Social e por isto no exercício profissional a execu- ção, o planejamento, a gestão e a formulação de políticas sociais públicas devem perpassar. (BONIN; KRÜGER, 2015, p. 64) Assim, o planejamento utilizado pelo Serviço Social pode ser um instrumento potencia- lizador na medida em que oportuniza a participação dos sujeitos, reconhece o espaço de fala e as particularidades e singularidades da dinâmica da vida dos usuários e dos seus territórios de vivência. Ao considerar tais elementos como relevantes, o assistente social, além de promover a participação dos sujeitos-alvo das políticas públicas, ainda corrobora para que eles se reconheçam como cidadãos de direito. Então, esses sujeitos se articulando com os movimentos sociais, participando de fóruns de discussões, confe- rências e conselhos, e se sentem, então, pertencentes a esta sociedade, com a escuta de suas vozes possibilitada pelos assistentes sociais. SAIBA MAIS SAIBA MAIS Este documentário do Observatório de Análise da Política Pública de Saúde apresenta a fala de diversos sujeitos a respeito dos movimentos sociais e a importância de uma discussão qualificada com a população sobre os direitos a saúde. Por meio de música, depoimentos e reflexões, você terá uma oportunidade de avaliar a importância do papel do assistente social no fomento da participação e luta do povo brasileiro. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=BNHoAU5Ex6E. Para Bonin e Krüger (2015, p. 64), é importante compreender o planejamento na lógica do movimento, um exercício para tomada de decisão relacionado ao poder da ação. Os autores acrescentam que “[…] planejar participativamente é socializar o poder, é o povo decidindo diretamente e/ou indiretamente na produção, na gestão, no usufruto dos bens por uma sociedade historicamente determinada”, caracterizando o planejamento como um ins- trumento de defesa e fomento do direito de participar e exercer o controle social do Estado. O controle social é um dos meios mais importantes de acompanhamento e fiscalização do uso dos recursos públicos e da atuação do Estado por parte da sociedade civil. O ví- deo produzido pela CEGOV – Centro de Estudos Internacionais sobre o Governo e pelo MDS – Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome trata do tema e explica brevemente sua relevância e funcionamento. Disponível em: https://www.youtube.com/wat- ch?v=-vxio25HopE&t=18s. https://www.youtube.com/watch?v=BNHoAU5Ex6E https://www.youtube.com/watch?v=-vxio25HopE&t=18s https://www.youtube.com/watch?v=-vxio25HopE&t=18s 91 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social SAIBA MAIS IMPORTANTE Se revisitarmos a gênese da profissão, vamos observar que o planejamento foi uma ferramenta utilizada pelos assistentes sociais inicialmente para planejar atividades, por meio de relatórios técnicos, estáticos, que apresentavam as demandas da então popu- lação, denominada “clientes”. As práticas, nas décadas de 1930 e 1940, atentavam-se ao atendimento das necessidades e interesses dos donos do capital, e as ações realiza- das visavam à contenção da classe operária e à manutenção da ordem social vigente. Utilizando-se da doutrina social da Igreja Católica, os assistentes sociais planejavam e sistematizavam suas ações com a perspectiva de atender aos anseios da classe burguesa, e pouco se fazia para ampliar direitos sociais e/ou atender às demandas da classe trabalhadora, como destacam Iamamoto e Carvalho (2014, p. 90): “[…] embora trabalhe a partir e com a situação de vida do trabalhador, não é diretamente por ele soli- citado; atua junto a ele a partir de uma demanda, que na maioria das vezes não é dele.” Relembre alguns elementos importantes da história do Serviço Social, observando como a perspectiva de defesa de direitos sociais será premissa para atuação profissional com base nas reflexões feitas pela categoria, especialmente a partir da década de 1960. Acesse ao ví- deo em comemoração ao Dia do Assistente Social, que conta a história da assistência social no Brasil: https://www.youtube.com/watch?v=qPE5MdntV2Y. É a partir das décadas de 1950 e 1960 que a profissão incorpora o planejamento e a administração de projetos e programas sociais, fato fomentado devido à expansão da atuação profissional nos cargos de coordenação nas grandes indústrias, prefeituras, judiciário e outras áreas, que exigiam do profissional capacidade de planejar e sistema- tizar as ações. Na década de 1960, agravam-se as expressões da questão social e os níveis de pobreza, e com o golpe civil-militar em 1964 é interrompido o debate político e democrático, o que retarda o processo de participação da população nas políticas públicas, mas fomenta o questionamento da categoria quanto ao exercício profissional (BONIN; KRÜGER, 2015, p. 66). É importante que você conheça como a ditadura civil-militar de 1964 a 1985 atingiu o Serviço Social. Por meio de uma pesquisa minuciosa com assistentes sociais de todo o Brasil, o CFESS lançou, no 43º Encontro Nacional do CFESS-CRESS, um documentário com depoimentos de vários profissionais e professores de Serviço Social que foram torturados, presos e impedidos de circular livremente no Brasil, por serem considerados uma ameaça ao regime ditatorial vigente. O vídeo está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=y- FEo29Aqcn8&t=417s. No contexto da ditadura civil-militar, o planejamento “[…] continuava sendo pautado pela operacionalização dos serviços determinados pelas instituições e por referencias teóricas funcionalistas no sentido do ajuste social.” (BONIN; KRÜGER, 2015, p. 67) É somente a partir do movimento de reconceituação (ou renovação) na década de 1970 que o planejamento social desponta como uma ferramenta técnica e política no trabalho do assistente social diante das expressões das questões sociais, considerando-o um https://www.youtube.com/watch?v=qPE5MdntV2Y https://www.youtube.com/watch?v=yFEo29Aqcn8&t=417s https://www.youtube.com/watch?v=yFEo29Aqcn8&t=417s 92 Utilização do planejamento no processo de trabalho do assistente social 4 elemento que fomentava a participação, mobilização e relevância para tomadas de de- cisão e transformação da realidade social. Na década de 1980, tal compreensão ocorre por meio de algumas características, destacadas por Bonin e Krüger (2015, p. 67): A ação planejada do Serviço Social, até aproximadamente 1980, pode ser percebida em dois momentos característicos: a) antes da reconceituação, quando a ação profissional era consubstanciada por meio de práticas com grupos, comunidade e indivíduo, numa perspectiva de ajuste do homem ao meio; b) durante o processo de reconceituação, quando o Serviço Social passa a questionar a realidade social nos seus sistemas, subsistemas e es- truturas sociais, buscando novos caminhos para intervir (BARBOSA, 1990). No primeiro momento, a ação planejada é marcada pela própria ênfase na ação metódica e situações visualizadas de forma estática, enquanto no segundo momento o Serviço Social procura dominar os conhecimen- tos da disciplina de planejamento, instrumentalizando-se assim para atuar na política social e no planejamento social embora nos marcos do de- senvolvimentismo e da modernização conservadora. (grifos nossos) SAIBA MAIS Você sabia que o Congresso da Virada representou um marco na história do Serviço So- cial brasileiro? Pois bem, entre outras questões, ele representa um momento de reflexão e interrupção do exercício de umaprática profissional conservadora. Representa um momento de amadurecimento teórico-ético-político em um momento de grandes desafios e repressão ditatorial. Acesse o livro que trata dos 30 anos do Congresso da Virada, que está disponível em: http://www.cfess.org.br/arquivos/CFESS-CongressodaVirada-Site.pdf. Observe que no decorrer do processo de consolidação da profissão, o Serviço Social vem assumindo cargos de liderança em variados espaços sócio-ocupacionais na fun- ção de gestão e planejamento social, o que contribui para exercício dessa prática no cotidiano profissional. Nessa direção, o planejamento vai se caracterizando não somente com uma ferramen- ta de organização e sistematização de ideias, orçamento, intervenção, mas de ação política de reflexão contínua, como já discutimos anteriormente se ato permanente de reflexão-decisão-ação e retomada da reflexão. O cotidiano certamente lhe proporciona- rá desafios para implementação, que compreendem desde parcos recursos financeiros, humanos e estruturais, além de interesses políticos e mudança de gestão em uma are- na permeada de interesses contraditórios. IMPORTANTE É importante que você saiba que a Lei nº 8.662/93, nos artigos 4º e 5º, que Regulamenta a Profissão de Assistente Social, específica o planejamento como uma das competências e atribuições que devem ser desenvolvidas pelos assistentes sociais (CFESS, 2012, p. 44 a 46): Elaborar, coordenar, executar e avaliar planos, programas e projetos que sejam do âmbito do Serviço Social com participação da sociedade civil. Planejar, organizar e administrar benefícios e Serviços Sociais. Planejar, executar e avaliar pesquisas que possam contribuir para a análise da realidade social e para subsidiar ações profissionais. Planejamento, organização e adminis- tração de Serviços Sociais e de Unidades de Serviço Social. Coordenar, elaborar, executar, su http://www.cfess.org.br/arquivos/CFESS-CongressodaVirada-Site.pdf 93 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social SAIBA MAIS SAIBA MAIS pervisionar e avaliar estudos, pesquisas, planos, programas e projetos na área de Serviço So- cial; e, Planejar, organizar e administrar programas e projetos em Unidades de Serviço Social. Diante disso, podemos afirmar que o processo de planejamento no Serviço Social está presente e se faz necessário desde os primeiros contatos feitos com os usuários, na entrevista social face a face ou domiciliar, na construção de relatórios sociais, nos gru- pos reflexivos, na elaboração de projetos de trabalho e intervenção e tantas outras dimensões dos serviços em que o planejamento está presente e faz toda a diferença na atuação técnica e qualificada. Bonin e Krüger (2015, p. 67) reforçam a necessidade dos assistentes em compreenderem o planejamento como uma competência e direito profissional do assistente social, afirmando que: Ao entender que o planejamento constitui-se uma competência e direito pro- fissional do assistente social, podemos perceber a necessidade da profissão ocupar e qualificar mais este âmbito de atuação, sobretudo junto as políticas sociais. Os espaços de planejamento não são exclusivos para exercício pro- fissional do Assistente Social, mas este tem competência teórica, política e técnica para atuar de forma qualificada na elaboração dos instrumentos de gestão, como os Planos Plurianuais, as programações anuais de serviços e orçamentária e os relatórios de gestão das políticas sociais que se tornaram exigência para a gestão das políticas sociais a partir dos anos 2000. A atuação profissional exige dos assistentes sociais o uso de métodos e técnicas. Nesse breve vídeo, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome apresenta uma ex- plicação dos temas. Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=HDyt1s3yg3w. Na atualidade o planejamento faz parte do processo de trabalho do assistente social, e a sua promoção é condição fundamental para a prática profissional, definição e planeja- mento de demandas sociais e fomento da participação social dos usuários nos serviços e na tomada das decisões no âmbito da gestão e prestação do serviço social. O projeto ético-político nos evoca a buscar estratégia para superar os desafios pre- sentes no exercício da prática cotidiana, reconhecendo o planejamento como uma fer- ramenta fundamental para garantia de direitos sociais e ganho de espaço profissional para todos assistentes sociais brasileiros. A pandemia de covid-19 representou um grande desafio para os profissionais do Serviço Social e nos impôs novas perspectivas para o planejamento social e atuação profissional. Em comemoração ao dia do assistente social, o CRESS/MS, no ano de 2020, promoveu o debate “Atual conjuntura e a atuação profissional dos/as assistentes sociais em tempo de pandemia”, com os professores Maurílio Matos e Ivanete Boschetti, que realizam uma refle- xão sobre o tema e nos provocam a analisar criticamente a prática profissional diante de uma das principais pandemias de extensão mundial. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=Ni7w79OY5Bw&t=1366s. https://www.youtube.com/watch?v=HDyt1s3yg3w https://www.youtube.com/watch?v=Ni7w79OY5Bw&t=1366s https://www.youtube.com/watch?v=Ni7w79OY5Bw&t=1366s 94 Utilização do planejamento no processo de trabalho do assistente social 4 Ainda nesse sentido, o planejamento deve ocupar um espaço de contribuição para efe- tivação das políticas públicas, afastando os assistentes sociais das armadilhas do coti- diano, como o imediatismo e o pragmatismo no exercício das suas ações profissionais, qualificando, assim, a prática profissional. Diante disso, somos desafiados a compreender o planejamento como uma ferramenta de atuação profissional, competência e atribuição dos assistentes sociais. É essencial que constantemente nos qualifiquemos para tal, ressaltando que os campos de atuação profissional geralmente são ocupados por diversificadas profissões, e o que planeja- mento não pode ser considerado uma estratégia exclusiva dos assistentes sociais – ao contrário, os demais profissionais também devem estar aptos para realização do plane- jamento como um instrumento de gestão. 3. ELEMENTOS CONSTITUTIVOS NA ELABORAÇÃO DE PROJETO DE INTERVENÇÃO SOCIAL Como já observamos até este momento, as atividades e/ou ações presentes no cotidia- no profissional são sustentadas, realizadas e aprimoradas por meio do conhecimento da realidade e dos sujeitos a que são destinadas. É com base nesse conhecimento que escolhemos as abordagens e os instrumentos, e definimos os objetivos e metas a se- rem alcançados em um planejamento, o que pode se concretizar na elaboração de um projeto de intervenção profissional. Para Nogueira e Mioto ([s. d.], p. 9): Todo esse processo se opera com base no planejamento, na documentação e num apurado senso investigativo. Parte-se da premissa que toda ação profis- sional se constrói como processo, não existindo à priori, pois é parte integrante do processo histórico, estando em jogo distintos determinantes sociais. Mioto ([s. d.], p. 9) complementa, afirmando que o planejamento pode ser definido como um: […] conjunto de procedimentos, atos, atividades pertinentes a uma deter- minada profissão e realizadas por sujeitos/ profissionais de forma respon- sável, consciente. Portanto, contém tanto uma dimensão operativa quanto uma dimensão ética, e expressa no momento em que se realiza o processo de apropriação dos profissionais quanto fundamentos teórico-metodológico e ético-políticos da profissão em determinado momento histórico. São as ações profissionais que colocam em movimento, no âmbito da realidade social, determinados projetos de profissão. Estes, por sua vez, implicam em diferentes concepções de homem, de sociedade e de relações sociais. (MIOTO, 2001 apud LIMA, 2004). Desse modo, para construção de um projeto de intervenção é necessário saber que precisamos de um conjunto de procedimentos e escolhas e compreensão dos valores e princípioso planejamento participativo, enquan- to processo técnico, instrumento e metodologia, também se remete à questão política. As questões da qualidade, da missão e da participação são especialmente valorizadas, assu- mindo um caráter de proposta de futuro para a instituição que se planeja. O planejamento participativo busca integrar na prática o operacional e o estratégico, organizando-o em um processo de reflexão-ação. Do mesmo modo, conforme Oliveira (2007, p. 14), o planejamento pode ser classificado em hierarquia, estando relacionado aos níveis decisórios e seguindo três tipologias, a saber: estratégico, tático e operacional, de acordo com o quadro a seguir: Quadro 02. Tipos de Planejamento ESTRATÉGICO TÁTICO OPERACIONAL Objetivo De longo prazo De curto prazo Relacionado às rotinas Impacto Afeta toda a organização Afeta somente parte da organização Afeta somente os setores Fonte: elaborado pela autora. Destacamos no texto, até o presente momento, alguns conceitos trazidos por vários au- tores em relação ao planejamento, de forma mais ampla e geral. A seguir, vamos tratar do planejamento social. 11 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social 1.2. PLANEJAMENTO SOCIAL: PROCESSO LÓGICO, POLÍTICO E ADMINISTRATIVO Segundo Battini (2015, p. 7) o Planejamento Social pode ser compreendido: […] como ferramenta que possibilita um processo lógico comprometido com a cidadania; 2) como processo lógico, cidadão e administrativo que, por meio de seu movimento, fortalece a participação popular nos níveis decisórios e operativos; 3) como instrumento que busca racionalizar e dar direção para redefinições futuras de organizações, políticas sociais, setores ou ativida- des, influenciando o nível técnico e político; e 4) como mediação entre a burocracia e as condições objetivas para efetivação de direitos. Já em relação à sua finalidade, a autora afirma que o planejamento social pode pos- sibilitar o sentimento de pertencimento, quando da participação dos envolvidos, pro- piciando, inclusive, o controle social. O planejamento acompanha, monitora e avalia sistematicamente a ação/atividade/intervenção almejada, em uma perspectiva crítica. Para que se conheça a direção certa a seguir é necessário conhecer a distinção dos níveis em que o planejamento se produz, isto é, no operacional e no político. O nível político sustenta-se na ideologia, na filosofia, nas ciências sociais e na cultura, viabilizando transformações, especialmente em tempos de crises. Todos os sujeitos envolvidos na situação/tarefa/atividade a ser planejada devem participar, tendo o ges- tor/administrador a tarefa específica de coordenar o processo, para que de fato o povo tenha participação no planejamento. O planejamento político tem como questões de fundo “para quem”, “para quê” e “o quê”, tratando dos fins. É globalizante, buscando a eficácia e realizando-se a médio e longo prazo. Já o nível operacional/técnico está ligado à melhoria de uma boa estrutura passível de aperfeiçoamento. Busca encaminhar o fazer para a realização e vivência de tal rumo e tal missão. Deve estar nas mãos de sujeitos que compreendam o rumo traçado po- liticamente pela instituição. É o planejamento do “como” e do “com quê”, incluindo o detalhamento do “o quê”. Aborda cada aspecto isoladamente e dá ênfase as técnicas e aos instrumentos, buscando a eficiência e limitando-se ao curto prazo. A correlação entre os dois níveis é imprescindível, de modo que o político desencadeia o operacional e este realiza as propostas elaboradas no político. Os dois níveis são in- terdependentes, e só separáveis para que se compreenda um e outro conceitualmente ou para que se compreenda como um ou outro afetam o processo de planejamento. Assim, concordando com as análises de Baptista (2007, p. 27), o planejamento é um processo lógico-racional, político e técnico-político. O planejamento, entendido como ferramenta de gestão de políticas sociais, é um pro- cesso lógico e racional, trazendo apontamentos importantes para sua compreensão, correspondendo a uma ação que objetiva, de forma ordenada, mudanças de uma de- terminada realidade social. Assim, como afirma Baptista (2007, p. 13), o planejamento […] na perspectiva lógico-racional, refere-se ao processo permanente e me- tódico de abordagem racional e científica de questões que se colocam no mundo social. Enquanto processo permanente, supõe ação contínua sobre um conjunto dinâmico de situações em um determinado momento histórico. 12 1 Conceito de planejamento e as dimensões lógico-racional e política Como processo metódico de abordagem racional e científica, supõe uma se- quência de atos decisórios, ordenados em momentos definidos e baseados em conhecimentos teóricos, científicos e técnicos. Dessa forma, podemos apontar que o planejamento, concomitantemente: ` Refere-se à seleção de atividades e à otimização de tempo, recursos etc.; ` Subsidia a escolha dos caminhos que serão percorridos, estabelecendo a construção de objetivos e as providências necessárias; ` Acompanha a execução das ações, monitorando-as e estabelecendo a criação de indica- dores, para controle e avaliação, redefinindo e readequando as ações. IMPORTANTE O planejamento é a ferramenta para pensar e agir dentro de uma sistemática analítica pró- pria, estudando as situações, prevendo seus limites e suas possibilidades, propondo objeti- vos, definindo-se estratégias (BAPTISTA, 2007, p. 14). Essa perspectiva, lógica e racional, do planejamento, viabiliza-se por meio de opera- ções complexas e interligadas, de caráter contínuo, e são retroalimentadas a todo tem- po. Segundo Ferreira apud Baptista (2007, p. 15), são elas: a) de reflexão - que diz respeito ao conhecimento de dados, à análise e estudo de alternativas, à superação e reconstrução de conceitos e técnicas de diversas disciplinas relacionadas com a explicação e quantificação dos fatos sociais, e outros; b) de decisão - que se refere à escolha de alternativas, à determinação de meios, à definição de prazos, e etc.; c) de ação - relacionada à execução das decisões. É o foco central do pla- nejamento. Orienta-se por momentos que antecedem e é subsidiada pelas escolhas efetivadas na operação anterior, quanto aos necessários proces- sos de organização; d) de retomada de reflexão - operação de crítica dos processos e dos efeitos da ação planejada, com vistas ao embasamento do planejamento de ações posteriores. Essas operações podem ser assim representadas: Figura 01. A dimensão de racionalidade do planejamento DECISÃO AÇÃOREFLEXÃO RETOMADA DA REFLEXÃO Fonte: Baptista (2007, p. 16). 13 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social IMPORTANTE Toda política, plano, programa ou projeto requer que se faça o planejamento daquilo que se preten- de executar, além de, se necessário, um sistema de gerenciamento para analisar a sua implemen- tação, controlando-a. Esse gerenciamento envolve diretamente o monitoramento e a avaliação. O planejamento, enquanto sua dimensão política, segundo Baptista (2007, p. 17), é assim entendido, em razão de ser um “processo contínuo de tomadas de decisões, inscritas nas relações de poder”, caracterizando sua função política. E é nesse sentido a importância da dimensão política do planejamento e a necessidade de implementá-lo e executá-lo em uma perspectiva estratégica, ou seja, considerando a realidade social vivenciada pelos sujeitos envolvidos, no que tange às condições objetivas e às condições subjetivas, enfim, à correlação de forças postas. Assim, existe a neces- sidade de estratégias porque existem confrontos e maneiras diferentes de enfrentá-los. Lozano e Martin (1968) apud Baptista (2007, p. 18) revelam que o estabelecimento da “inter-relação necessária entre o elemento técnico (ou de concepção) e o elemento po- lítico (ou de decisão) no processo de planejamento”, não se faz de maneira simplificada. O planejador (técnico)constituintes no projeto ético político. Nota-se que o Serviço Social ao longo dos anos tem ampliado sua atuação profissional em funções de gestão em diversificados espaços, como dos poderes executivo, judi- ciário e legislativo, empresas, terceiro setor e consultorias o que exige dos assistentes sociais a capacidade de aprimorar os conhecimentos sobre planejamento e as ações que decorrem dele. Como destaca Teixeira (2009, p. 2): 95 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social A cada Ministério, a cada Secretaria e a cada órgão está imposta a respon- sabilidade de elaborar suas políticas, seus planos, programas e projetos e de supervisionar serviços e benefícios. Prefeitos devem conceber e elaborar Planos Diretores, Planos de Assistência Social, criar Conselhos e fundos. Nos últimos anos, as prefeituras vêm solicitando aos CRESS a indicação de assistentes sociais para a participação nesse trabalho. Ao tratarmos da elaboração de um projeto de intervenção, precisamos ter ciência de sua abrangência, que no caso do projeto se caracteriza como um documento com maior detalhamento das atividades que serão executadas. Tal atividade não pode ser confun- dida, e precisa ser concretizada de acordo com a sua abrangência, como destacamos no quadro que segue: Quadro 01. Diferenciação entre plano, programa e projeto PLANO PROGRAMA PROJETO É o documento mais abrangente e geral, que contém estudos, análises situacionais ou diagnósticos neces- sários à identificação dos pontos a serem atacados, dos programas e projetos necessários, dos objetivos, estratégias e metas de um governo, de um Ministério, de uma Secreta- ria ou de uma Unidade. É o documento que indica um conjunto de projetos cujos resultados permitem alcançar o objetivo maior de uma política pública. É a menor unidade do processo de planejamento. Trata-se de um instrumento técnico-ad- ministrativo de execução de empreendimentos específicos, direcionados para as mais variadas atividades interventi- vas e de pesquisa no espaço público e no espaço privado. Fonte: Teixeira (2009, p. 4). Para elaboração de um projeto de intervenção é relevante considerar os elementos constituintes dessa fase do planejamento, devendo o profissional identificar alguns ru- dimentos que colaborarão com dados de análise, limites e possibilidades de concretiza- ção das ações que se pretende implantar por meio do projeto em questão. Desse modo, vale considerar e estabelecer os seguintes procedimentos: ` Identificação do “terreno” ou “cenário” em que se desenvolverá a ação e suas tendências. ` Identificação de “aliados”, “oponentes”, “interessados”, “neutros” e, em alguns casos, “ini- migos”, mapeando a natureza e consistência de seus vínculos. ` Identificação do perfil das forças em confronto, seus recursos, suas técnicas, suas alian- ças (em magnitude e qualidade), sua capacidade operacional. ` Identificação do tempo disponível (de luta). Como em uma luta, quer-se vitória com hege- monia, isto é, domínio de situação, ampliação de posições, transformação de oponentes em aliados ou, no mínimo, se o cenário é desfavorável, evitamento ou adiamento de um combate direto. Trata-se de uma espécie de transição para um novo conteúdo e uma nova forma. (TEIXEIRA, 2009, p. 9). Para Teixeira (2009), todo projeto em uma sociedade de classes tem uma dimensão polí- tica, “[…] ou seja, se desenvolvem em meio às condições econômicas e políticas engen- dradas na dinâmica das classes sociais antagônicas”. (p. 9). Em uma sociedade capita- lista, um projeto profissional também se caracteriza como um projeto político-profissional. 96 Utilização do planejamento no processo de trabalho do assistente social 4 PARA REFLETIR Como assistentes sociais, é fundamental refletirmos acerca dos compromissos que assumi- mos, os quais podemos revisitar por meio das palavras de Netto: “Nosso projeto ético-político é bem claro e explícito quanto aos seus compromissos. Ele: tem em seu núcleo o reconhecimento da liberdade como valor ético central – a liberda- de concebida historicamente, como possibilidade de escolher entre alternativas concre- tas; daí um compromisso com a autonomia, a emancipação e a plena expansão dos indiví- duos sociais. Consequentemente, o projeto profissional vincula-se a um projeto societário que propõe a construção de uma nova ordem social, sem dominação e/ou exploração de classe, etnia e gênero.” (NETTO, 1999, p. 104 -105 apud TEIXEIRA, 2009, p. 6). Os projetos profissionais representam a autoimagem de uma profissão e “[…] elegem os valores que a legitimam socialmente, delimitam e priorizam os seus objetivos e fun- ções, formulam os requisitos (teóricos, institucionais e práticos) para o seu exercício, prescrevem normas para o comportamento.” (NETTO, 1999, p. 95 apud TEIXEIRA, 2009, p. 7). Podemos afirmar que os projetos profissionais materializam o trabalho que se pretende desenvolver em uma área pelo assistente social. Nesse sentido, o projeto de interven- ção profissional deve reconhecer e conhecer a instituição em que atua e quais são as necessidades sociais e demandas que serão alvos do processo de trabalho desenvol- vido pela profissão. Devemos considerar que: É importante ressaltar que se parte do pressuposto de que há uma margem de autonomia nos processos de trabalho em que os assistentes sociais es- tão envolvidos, o que lhes permite desenvolver atividades comprometidas com interesses sociais presentes nos espaços sócio-ocupacionais. Assim, sem negar os condicionantes colocados pela condição de trabalhador as- salariado, busca-se acentuar que há espaço para a defesa do projeto pro- fissional em qualquer local, público ou privado, em que o assistente social é requisitado a intervir. (COUTO, 2009, p. 1) Assim, temos uma margem de autonomia que se desenvolve nos postos de trabalho, e nesse sentido é fundamental que o profissional reconheça os compromissos éticos assumidos na profissão, além de identificar as necessidades sociais, realizar a leitura da realidade, das singularidades, particularidades, tensões presentes nos atendimentos a serem realizados com as famílias, indivíduos e grupos. Para que possamos nos aproximar dos sujeitos, famílias e grupos, é essencial que es- tejamos dispostos a “[…] mapear o terreno sobre o qual se trabalha” (COUTO, 2009, p. 2). A autora ainda reforça que: Embora os princípios norteadores do projeto profissional estejam fundados na perspectiva da construção de uma outra sociedade, é nos parâmetros do capitalismo que se materializa a profissão, e o assistente social é chamado a prestar serviços que podem corroborar o status quo ou atuar para criar outras formas de sociabilidade, que problematizem a organização da so- ciedade. Para que isso ocorra, é necessária uma sólida formação teórica e técnica. É preciso fugir das improvisações, é imperioso planejar o trabalho, dar-lhe sentido teleológico. 97 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social Diante disso, os desafios oriundos do cotidiano profissional nos evocam a ressignificar a prática profissional, a nos dispor a realizar as intervenções sociais de maneira criativa, qualificada, comprometida e por meio de embasamento técnico e teórico que sustente as tomadas de decisão e colaborem para o fortalecimento e efetivação dos direitos sociais. O assistente social, como trabalhador especializado, deve elaborar o projeto de inter- venção na perspectiva de que é um trabalhador assalariado e, como tal, este documen- to materializa as propostas de atendimento às demandas. Portanto, cabe ao assistente social a responsabilidade de imprimir na sua ação os saberes acumulados pela profis- são, ao longo do processo de reelaboração das demandas a ele encaminhadas (PAIVA, 2000, p. 81 apud COUTO, 2009, p. 3). SAIBA MAIS A pandemia do Covid-19 provocou mudanças relevantes no projeto de intervenção profissio- nal dos assistentes sociais. Emlive realizada em 2021, a Prof. Dra. Aldaiza Spozati reflete sobre os desafios do profissional assistente social em tempos de pandemia, e nos provoca a repensar a prática profissional e revisitar as possibilidades de atendimento e efetivação de direitos dos usuários da política de assistência social. Disponível em: https://www.youtube. com/watch?v=KCVUW8HodyQ&t=594s. O projeto de trabalho profissional deve ser considerado um instrumento que […] deve condensar as possibilidades e os limites colocados ao profissional para executar suas tarefas e deve iluminar sua constante avaliação da efi- cácia de seus instrumentos, técnicas e conhecimentos para atingir as metas propostas. (COUTO, 2009, p. 4) E essas metas propostas precisam se articular com o compromisso ético-político da profissão. IMPORTANTE Se desejar elaborar um projeto de intervenção, é importante atentar-se para os seguintes questionamentos: Que tipo de instituição é? Pública ou privada? Qual é a sua finalidade? Como se organiza? Que recursos usa na sua manutenção? Como se estabelecem as relações de poder? Por que requisitou o assistente social? Em que medida presta serviços à população? Como absorve os demandatários na órbita institucional? Quais são as necessidades sociais da população que se propõe a atender e de que forma? Há espaço institucional para alterações nessa or- ganização? A resposta a esses questionamentos fornece ao assistente social a identificação mínima necessária para construir uma proposta que seja exequível (COUTO, 2009, p. 4). 3.1 ELABORANDO UM PROJETO DE INTERVENÇÃO PROFISSIONAL O projeto de intervenção profissional pode ser considerado uma estratégia de demons- tração do trabalho profissional do assistente social. É por meio dele que se materializam as ações/atividades, demandas e necessidades que serão atendidas. Para a sua cons- trução, alguns elementos precisam ser considerados, como: https://www.youtube.com/watch?v=KCVUW8HodyQ&t=594s https://www.youtube.com/watch?v=KCVUW8HodyQ&t=594s 98 Utilização do planejamento no processo de trabalho do assistente social 4 Quadro 02. Elementos constitutivos do projeto profissional ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO DOCUMENTO a) A identificação, a delimitação e a justificativa, claras, do objeto da ação: o que o assistente social, com seu trabalho, se propõe a atender, que refrações da questão social serão objetos de sua intervenção. Nessa identificação, o assistente social deve estabelecer prioridades, que, por sua vez, devem responder de forma efetiva às demandas colocadas. b) A definição de seus objetivos com esse trabalho: o que pretende fazer, quais objetivos pretende al- cançar. Os objetivos devem ser claros e exequíveis. A definição de objetivos dá a clareza necessária para compreender a proposta de intervenção profissional. c) A identificação das metas: é preciso quantificar e qualificar o trabalho proposto. Essas metas devem estar relacionadas com os objetivos. É necessária a explicitação de indicadores, que serão os medidores da efetividade do trabalho. Todo o trabalho social pressupõe, ao ser executado, uma transformação sobre a realidade; para avaliar isso, é fundamental, na formulação do projeto, que se anunciem os resultados a que se pretende chegar e como, principalmente, o trabalho será monitorado, a fim de que se possam avaliar os resultados. d) O apontamento dos recursos: o projeto deve deixar muito claro quais recursos serão necessários para a sua execução. Neste item, é preciso atentar para os recursos financeiros que serão despendidos. Cada vez mais os assistentes sociais devem procurar entender de orçamento, seja público ou privado, dos me- canismos de formulação de propostas orçamentárias e de desembolso financeiro, para não só propor um projeto de trabalho exequível, mas também para buscar, nesse entendimento, estratégias de alargamento de recursos para atender às demandas dos cidadãos usuários. e) Por fim, é necessário que o projeto indique os mecanismos de controle social de seu trabalho, como os registros serão efetuados e como o conhecimento produzido no trabalho será potencializado. Um projeto de trabalho deve preocupar-se com que todo o conhecimento produzido seja um elemento que realimente novos projetos e que ofereça elementos de reforço à população usuária, na sua organização por ampliação de direitos sociais. Fonte: Couto (2009, p. 7-8). Pelos elementos descritos é possível afirmar que a formulação de projeto de trabalho profissional requer o conhecimento da realidade alvo da intervenção profissional na perspectiva de transformação da realidade. E, ainda: Necessita ser um elemento fundamental de reafirmação do projeto ético-po- lítico profissional e, portanto, construído para ser um elemento que indique, tanto para a instituição como para a população usuária, os compromissos assumidos pela profissão. Ele deve ser o reflexo do compromisso com a emancipação dessa população e da negação do papel de controle e tutela das classes subalternas. (COUTO, 2009, p. 8, grifos nossos) Couto (2009) destaca que para elaboração de projeto de trabalho é fundamental que o assistente social realize o mapeamento de alguns referenciais que colaboram para nortear a formulação deste documento. No quadro que segue é possível visualizar os elementos norteadores: 99 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social Quadro 03. Formulação do projeto de trabalho profissional CÓDIGO DE ÉTICA LEI N. 8.662/93 PROJETO DE TRABALHO Objeto Objetivos Metas Indicadores Avaliação Princípios do Código que devem balizar a proposta. Prerrogativas da Lei que embalam a proposta. Manifestações da questão social que deverão ser enfrentadas no projeto. Objetivos que indicam o que pode ser esperado com a intervenção profissional. Aonde se busca chegar. É importante quantificar, deixar claro quais metas deverão ser atingidas. Identificação dos indicado- res que serão utilizados para a intervenção e avaliação do processo. É fundamen- tal explicitar a forma de avaliação do projeto proposto. Lembrar-se da importân- cia do es- paço para a participação da população usuária. Fonte: Couto (2009, p. 11). A obtenção desses dados, sua análise e sistematização serão elementos fundamentais para a fundamentação da proposta, e representarão uma proposta pautada em informa- ções advindas da realidade social, proporcionando legitimidade a proposta de trabalho do assistente social. Nesse sentido, é fundamental que o profissional publicize tal documento para gestão, pares e demais representantes da equipes multiprofissionais. Além de legitimar a sua função, também apresenta qual o seu papel profissional na instituição, suas atribuições, limites e possibilidades de atuação profissional. É fundamental que tal informação esteja clara nos espaços ocupacionais, corroborando para a execução de um trabalho especializado. CONCLUSÃO Concluímos mais uma jornada pelo planejamento, agora perpassando pelos deba- tes que tratam do planejamento no Serviço Social e a formulação de um projeto de trabalho profissional. Tivemos a oportunidade de identificar os desafios do planejamento e refletir a respeito de como ele deve estar presente no ambiente profissional. Certamente este e outros desafios estarão presentes no cotidiano do exercício profissional, e cabe a cada um de nós a capacidade de aprimoramento no exercício do planejamento social, consideran- do-o uma ferramenta de organização e legitimação do nosso trabalho profissional, além de colaborar para efetivação e defesa de garantia de direitos sociais. Muitas serão as armadilhas do cotidiano para que tal atividade não seja realizada, e reconhecê-la como primordial evitará a perspectiva de que ela se enquadre como uma ferramenta burocrática que deve ser elaborada para atendimento ás normas. Ela ultra- passa esse limite e reconhece a profissão como especializada, como uma área que tem um saber profissionalque deve ser reconhecido e que sua prática profissional carece de estudo, dedicação e aprimorando contínuos. 100 Utilização do planejamento no processo de trabalho do assistente social 4 Convidamos você a refletir acerca dos desafios presentes na profissão, mas a também ter coragem de enfrentá-los, como nos recomenda Iamamoto e Carvalho (2012, p. 25): O momento que vivemos é um momento pleno de desafios. Mais do que nunca é pre- ciso ter coragem, é preciso ter esperanças para enfrentar o presente. É preciso resistir e sonhar. É necessário alimentar os sonhos e concretizá-los dia a dia no horizonte de novos tempos mais humanos, mais justos, mais solidários. 101 4 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BONIN, S.; KRÜGER, T. R. Planejamento e Serviço Social. Sociedade em Debate, v. 21, n. 2, p. 63-83, 2015. COUTO, B. R. Formulação de projeto de trabalho profissional. In: Serviço Social: direitos sociais e compe- tências profissionais. CFESS: 2009. IAMAMOTO, M. V.; CARVALHO, R. Relações sociais e serviço social no Brasil: esboço de uma interpre- tação histórico metodológica. 40. ed. São Paulo: Cortez, 2014. IAMAMOTO, M. V.; CARVALHO, R. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profis- sional. 23. ed. São Paulo: Cortez, 2012. NOGUEIRA, V. M. R.; MIOTO, R. C. T. Sistematização, Planejamento e Avaliação das Ações dos Assistentes Sociais no Campo da Saúde. Serviço Social e Saúde: Formação e Trabalho Profissional, [s. d.], p. 1-34. TEIXEIRA, J. B. Formulação, administração e execução de políticas públicas. In: Serviço Social: direitos so- ciais e competências profissionais. CFESS, 2009. TEIXEIRA, J. B. O projeto ético-político do Serviço Social. In: Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais. CFESS, 2009. Conceito de planejamento e as dimensões lógico-racional e política 1. Elementos teórico-conceituais do planejamento: significado, intencionalidade e modelos organizativos 2. Gestão e planejamento nas esferas pública, privada e terceiro setor: definições, finalidade organizativa, funções gerenciais e lócus na execução 3. O planejamento no Serviço Social: ferramenta técnica e política no trabalho do assistente diante das expressões da questão social Plano, Programa e Projeto na área social 1. A planificação e seus documentos: planos, programas e projetos 2. Projeto Social 3. Indicadores sociais Planejamento Estratégico 1. Conceito: principais aspectos de planejamento estratégico 2. Tipos de planejamento estratégico: Missão, visão valores; Análise ambiental 3. Tomadas de decisões. Plano de ação. Diagnóstico estratégico Utilização do planejamento no processo de trabalho do assistente social 1. Planejamento e Serviço Social 2. O planejamento no Serviço Social: ferramenta técnica e política no trabalho do assistente social diante das expressões da questão social 2. Elementos constitutivos na elaboração de projeto de intervenção socialtem como funções o equacionamento e a operacionalização das decisões nem sempre tomadas por ele. Essas atividades foram definidas por Baptista (2007, p. 19) da seguinte maneira, e po- dem ser assim representadas: DECISÃO OPERACIONALIZAÇÃOEQUACIONAMENTO AÇÃO Figura 02. Atividades do planejador Fonte: Baptista (2007, p.19). ` Equacionamento: refere-se ao maior número de informações pesquisadas, coletadas e consideradas pertinentes para a tomada de decisões, isto é, o processo que consiste em realizar escolhas entre diversas alternativas, encaminhadas pelos técnicos aos centros decisórios. A função essencial do planejamento, como instrumento técnico, é aumentar a capacidade e melhorar a qualidade do processo de adoção de decisões, oferecendo dados básicos da situação e necessidades. Diante de um mesmo problema e de uma mesma demanda, as pessoas têm diferentes formas de encaminhamento de apreensão do real. Isso está relacionado à visão de mundo de cada pessoa e à fonte em que busca seus fundamentos. Se sua perspectiva da realidade se faz a partir de um ângulo conser- vador, o planejador, vai percebê-la enquanto fato social objetivo, tomando o dado como 14 1 Conceito de planejamento e as dimensões lógico-racional e política limite da reflexão, fazendo com que a apreensão do real se resuma nas questões coloca- das no cotidiano, não interessando o processo que está em sua gênese. Essa atividade está intimamente ligada ao posicionamento teórico e político do planejador. ` Decisão: remete-se às diferentes escolhas realizadas e necessárias no decorrer do pro- cesso. A dimensão político-decisória é premissa para as ideias que se realizam em rela- ção ao planejamento. A compreensão da totalidade se faz fundamental. A participação da população no processo decisório é fundamental, pois não são só demandantes das ações/intervenções do planejamento, mas sujeitos centrais nos processos decisórios. Essa participação pode assumir diferentes formas, inclusive a de negação ao que está proposto, o que é uma maneira de pressão para a tentativa de outras decisões. ` Operacionalização: Relaciona-se ao detalhamento das atividades necessárias à efetivação das decisões tomadas, cabendo aos técnicos sua consubstanciação em planos, programas e projetos e na ocasião oportuna em sistematização das medidas para sua implementação. (BAPTISTA, 2007, p. 23) ` Ação: […] providências que transformarão em realidade o que foi planejado. Ao operá-la, cabe ao técnico o acompanhamento da implantação, o controle e a avaliação que realimentarão o ciclo de planejamento, de acordo com as perspectivas da política definida. (BAPTISTA, 2007, p. 24) Outrossim, para a autora, o planejamento como processo técnico-político realiza-se “a partir de um processo de aproximações, que tem como centro de interesse a situação de- limitada como objeto de intervenção.” (BAPTISTA, 2007, p. 27). O método é estabelecido por essas aproximações, as quais ocorrem em todos os tipos e níveis de planejamento. O planejamento nasce de necessidades como: ` de utilizar recursos escassos para atender a grandes problemas; ` de utilizar recursos excedentes ou de utilizar equipamento ocioso; ` da disponibilidade de recursos de agências de financiamento; ` da transferência do poder decisório para novas lideranças; ` de fundamentar novos programas. O movimento de reflexão-decisão-ação-retomada de reflexão que caracteriza o plane- jamento vai realizando as seguintes aproximações: ` Construção/reconstrução do objeto ou escolha e delimitação do objeto a respeito do que planejar: considera-se que o objeto do planejamento é o aspecto básico da rea- lidade com o qual ou sobre o qual se formulará um sistema de proposições. Sua escolha e delimitação no planejamento se referem à localização da questão central e das ideias básicas que serão trabalhadas no decorrer do processo (BAPTISTA, 2007). A delimitação do objeto de trabalho no planejamento é uma abstração, com o objetivo de permitir maior racionalidade à ação, isso porque na realidade social o aspecto delimitado continua man- tendo suas inter-relações com o universo mais amplo. Como afirma Baptista (2007, p. 34), a posição do planejador diante da construção/reconstrução do objeto “[…] deve ser de 15 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social desocultamento/desmitificação/decodificação, de modo a apreender, implícita nelas, suas dimensões concretas”. ` Estudo da situação ou diagnóstico: consiste na compreensão e na caracterização glo- bal de uma determinada situação-problema e na determinação da natureza e da magnitu- de de suas limitações e possibilidades. Essa fase é caracterizada pela investigação e pela reflexão, com fins operativos e sentido programático: sua finalidade é definir uma situação com vistas à intervenção. Seu processo envolve: levantamento de hipóteses prelimina- res; construção de referenciais teórico-práticos; coleta de dados; organização e análise; descrição; identificação de prioridades de intervenção. Devemos retomar neste momento conhecimentos já discutidos, como: a necessidade de conhecermos de que maneira se estabelecem as instâncias de poder; a superação do enfoque situacional, ou seja, não adotarmos uma visão reducionista; a identificação sistemática e contínua de áreas críticas e de necessidades, a que se pode acrescentar, ainda, de oportunidades e ameaças a de- terminação de elementos que permitam justificar a ação sobre o objeto; o estabelecimento de prioridades; a análise dos instrumentos e técnicas que podem ser operados na ação; a identificação de alternativas de intervenção (MATTELART apud BAPTISTA, 2007, p. 41). Esse processo caracteriza-se por: levantamento das hipóteses preliminares; construção de referenciais teórico-práticos; coleta de dados; organização e análise: descrição; identi- ficação de prioridades de intervenção. ` Definição de objetivos para a ação e estabelecimento de metas: caracteriza um mo- mento de tomada de decisões no processo de planejamento, no qual se define o estado de coisas que se pretende atingir com a ação planejada. Tem por base os valores e a ideologia do grupo planejador, as características da instituição, o reconhecimento do problema e a análise diagnóstica realizada (BAPTISTA, 2007, p. 29). Os objetivos, além do conteúdo, po- dem ser definidos segundo o tempo presumido para o seu alcance: longo, curto e imediatos. ` Formulação e escolha de alternativas: essas são feitas tendo como princípio um pro- cesso complexo que analisa e avalia a dinâmica histórica em que o objeto está imbricado, analisando os recursos, facilidades, dificuldades, expectativas, hábitos ligados à cultura, características sociais e políticas dos grupos trabalhados (BAPTISTA, 2007, p. 29). ` Montagem de planos, programas e/ou projetos ou planificação: é feita após decisões tomadas em conjunto para que seja efetivamente realizada em decorrência de uma rea- lidade determinada. Começam-se, então a sistematização, a interpretação e, por fim, a elaboração do documento (BAPTISTA, 2007, p. 29). ` Implementação: essa fase “[…] pode ser considerada como a busca, formalização e incorporação de recursos humanos, físicos, financeiros e institucionais que viabilizam o projeto, bem como a instrumentalização jurídico-administrativa do planejamento” (BAP- TISTA, 2007, p. 103). ` Implantação e execução: é a fase de efetivação do planejado e é, na maior parte das vezes, de responsabilidade dos setores de execução, mas deve ser acompanhada e su- pervisionada pelo grupo planejador. É fundamental a fidelidade ao planejado. ` Controle da execução: é entendido como instrumento de apoio e racionalização da exe- cução, e também no sentido de assegurar a observância ao programado, prevendo des- vios. É a fase do acompanhamento, da mensuração e do registro das atividades executa- das, do tempo despendido em cada fase, dos resultados alcançados. ` Avaliação de processoe da ação executada: o desempenho e os resultados da ação são examinados com base em critérios determinados. 16 1 Conceito de planejamento e as dimensões lógico-racional e política ` Retomada do processo em um novo patamar: refere-se a novas ideias que realimen- tam o planejado, com base nas evidências percebidas a partir do acompanhamento do progresso da intervenção e da análise dos resultados obtidos (BAPTISTA, 2007, p. 29). Quadro 03. O processo do planejamento PROCESSO RACIONAL FASES METODOLÓGICAS DOCUMENTAÇÃO DECORRENTE Reflexão (re)construção do objeto Estudo da situação Propostas de alternativas Proposta preliminar Diagnóstico Estudo de viabilidade Anteprojetos Decisão Escolha de prioridade Escolha de alternativas Definicação de objetivos e metas Planos Programas Projetos Ação Implementação Implantação Execução/controle Roteiros, rotinas, normas, manuais e relatórios Retomada da reflexão Avaliação Retomada do processo Relatórios avaliativos Novos planos, programas e projetos Fonte: Baptista (2007, p. 29). Como já visto, para Baptista (2007, p. 27), planejar é preponderantemente dialética, e a perspectiva da totalidade norteia todo o processo do planejamento, uma vez que ela permite que se procurem respostas por meio de uma ação reflexiva de uma determina situação. É fundamental que se estabeleça, em primeiro lugar, a constituição de um diagnóstico da realidade; em segundo, a escolha de objetivos e metas a alcançar; e, em terceiro, a materialização das ações, possibilitando a transformação de uma dada realidade/situação. Nesse sentido, é fundamental o envolvimento de todos os sujeitos sociais na ação. O planejamento, por ser processual, possui etapas que são interdepen- dentes e correlacionadas, voltadas para o alcance dos objetivos propostos. 2. GESTÃO E PLANEJAMENTO NAS ESFERAS PÚBLICA, PRIVADA E TERCEIRO SETOR: DEFINIÇÕES, FINALIDADE ORGANIZATIVA, FUNÇÕES GERENCIAIS E LÓCUS NA EXECUÇÃO O planejamento e a gestão social caminham juntos no processo de construção e exe- cução das políticas públicas. Conhecer profundamente as etapas do planejamento e da gestão garantem a qualidade do serviço prestado à população. 17 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social 2.1. O PLANEJAMENTO E A GESTÃO SOCIAL NA ATUALIDADE Segundo Barbosa (1980), planejamento e gestão caminham juntos. A temática da ges- tão social apresenta-se como necessária à discussão das expressões da questão social para os sistemas de governo, no sentido da implantação de políticas públicas, bem como nas empresas, para o gerenciamento dos negócios. Assim, como afirma Tenorio (1998, p. 1-2): Trata-se de justificar a presença do Estado mínimo na atenção focalizada, através de políticas sociais, e, ao mesmo tempo, de fomentar, flexibilizando, as relações de trabalho e de produção dos agentes econômicos. Em ambos os casos, o que se tem observado é uma teoria e prática de gestão social muito mais coerente com a gestão estratégica do que aquelas consentâneas com sociedades democráticas e solidárias. Os órgãos de formulação e gestão das políticas sociais estabelecem para os estados e mu- nicípios a responsabilidade sobre os processos de planejamento, gestão e controle social. O objetivo maior da gestão democrática e participativa, como também do planejamento participativo, como já vimos, é a ruptura com o processo de planejamento vertical e tec- nicista existente nas organizações governamentais. O que se espera é a participação popular no planejamento, na gestão e no controle social dessas políticas, como no caso dos conselhos de políticas sociais. SAIBA MAIS O controle social pressupõe a efetiva participação da sociedade, não só na fiscalização da aplicação dos recursos públicos como também na formulação e no acompanhamento da im- plementação de políticas. Um controle social ativo e pulsante permite uma maior participação cidadã, o que contribui para a consolidação da democracia em nosso país. Para se aprofun- dar no assunto do controle social exercido pelos conselhos de políticas sociais, consulte o site da Controladoria Geral da União: https://www.gov.br/cgu/pt-br/assuntos/controle-social. A Constituição de 1988 prevê essa participação da população no planejamento, gestão, execução e avaliação das ações públicas, impulsionando novas demandas. De acordo com a descentralização política e administrativa, o governo federal ficou responsável pela coordenação nacional das políticas sociais, e o Estado pela coordenação estadual, cabendo ao município assumir a maior parte da responsabilidade na execução e gestão de suas políticas. Como afirma Gonh (1990), a participação popular na sociedade brasileira não é nova, pois no início do século XX tivemos os movimentos operários e das comissões de fá- brica, além dos sindicatos e partidos políticos. Outrossim, segundo vários estudiosos, a questão da participação popular, via sociedade civil, começou por meio das associa- ções de bairros, de moradores, de mulheres; e ainda das organizações beneficentes, dos movimentos dos leigos das igrejas; por fim do chamado Terceiro Setor. https://www.gov.br/cgu/pt-br/assuntos/controle-social 18 1 Conceito de planejamento e as dimensões lógico-racional e política IMPORTANTE O Terceiro Setor é o conjunto de organismos, organizações ou instituições sem fins lucrativos dotados de autonomia e administração própria que apresentam como função e objetivo prin- cipal atuar voluntariamente à sociedade civil. Esse é mobilizador de um grande volume de recursos humanos e materiais para impulsionar iniciativas voltadas para o desenvolvimento social, setor no qual se inserem as sociedades civis sem fins lucrativos, as associações civis e as fundações de direito privado, todas entidades de interesse social, isto é, o Terceiro Setor é composto por organizações de natureza “privada” (sem o objetivo do lucro) dedicadas à consecução de objetivos sociais ou públicos, embora não seja integrante do governo. A cidadania tem seu pressuposto na possibilidade de querer e poder governar com seus representantes eleitos. Essa seria a forma indireta de participação, ocorrendo por meio da democracia representativa, pela qual o povo elege os representantes que compõem as Assembleias Legislativas e as Câmaras de Vereadores, delegando aos parlamentares a defesa de seus interesses. Existe ainda a forma direta de participa- ção no planejamento das políticas sociais que requer a tomada de decisões, sejam elas políticas, econômicas e sociais, de forma direta, isto é, por meio dos sindicatos, conselhos, conferências. A participação da sociedade civil na gestão pública vem se efetivando via a implemen- tação de vários Conselhos de políticas públicas, no comparecimento em fóruns de defesa, audiências públicas etc. Há ainda os instrumentos de planejamento que são importantes à participação da população: orçamentos participativos e Planos Pluria- nuais, além dos Planos Diretores, entre outros. Assim, a participação da sociedade no planejamento e na gestão pública é fundamental para a garantia efetiva dos direitos. Os instrumentos de planejamento Plano Plurianual (PPA), Lei de Diretrizes Orçamen- tárias (LDO) e Lei de Orçamentos Anuais (LOA) são importantes ferramentas de ge- renciamento orçamentário-financeiro. O PPA é o instrumento que orienta, organiza e viabiliza o Estado e a sociedade, no sentido de cumprir os fundamentos e os objetivos do país, pelo qual se declara o conjunto das políticas públicas do governo para um pe- ríodo de quatro anos e as estratégias necessárias para viabilizar as metas propostas, contribuindo para organizar a ação de governo na busca de um melhor desempenho. A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) tem o objetivo de estabelecer as metas e prioridades para o exercício financeiro seguinte, além de orientar a elaboração do orçamento. Dispõe, ainda, sobre alteração na legislação tributária e estabelece a polí- ticade aplicação das agências financeiras de fomento. E pela Lei Orçamentária Anual (LOA) o governo define as prioridades contidas no PPA e as metas que deverão ser atingidas naquele ano. A LOA disciplina todas as ações do governo federal, pois ne- nhuma despesa pública pode ser executada fora do orçamento. Como já afirmamos, os conselhos de políticas sociais exercem um papel fundamental de luta e articulação, no que se refere ao planejamento e gestão social. 19 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social SAIBA MAIS Segundo consta no caderno de Orientações para os Conselhos de Assistência Social, “Os Conselhos de Assistência Social, compostos por membros do governo e da sociedade civil, integram o Sistema Único de Assistência Social e estão vinculados aos órgãos gestores, devendo participar da formulação, avaliação, controle e fiscalização da política de assistência social. Os Conselhos são responsáveis pela aprovação do Plano de Assistência Social desen- volvido pelos órgãos gestores, pelo controle da parte orçamentária indicada nos fundos de as- sistência social, pela inscrição e monitoramento das organizações de assistência social, dentre outras funções”. Para se aprofundar no assunto acesse: http://www.mds.gov.br/webarquivos/ publicacao/assistencia_social/cartilhas/SUAS_Orientacoes_conselhos_controlesocial.pdf. A gestão social tem, com a sociedade e com os cidadãos, o compromisso de assegu- rar, por meio das políticas e programas públicos, o acesso efetivo aos bens, serviços e riquezas da sociedade. Para Maria do Carmo Brant de Carvalho, A gestão social é, em realidade, a gestão das demandas e necessidades dos cidadãos. A política social, os programas sociais, os projetos são não apenas canais dessas necessidades e demandas, mas também respostas a elas. (CARVALHO, 2001, p. 14) A autora expõe ainda que a gestão social, na atualidade, está aportada na parceria entre Es- tado, sociedade civil e iniciativa privada, não bastando só as políticas, sendo fundamentais os pressupostos, as estratégias e a participação da população (CARVALHO, 2001, p. 15). Nesse sentido, a autora afirma que a gestão social, hoje, pauta-se nas seguintes pre- missas e estratégias: ` O direito social como fundamento da política social, isto é, as demandas da população ganham voz e passam a ser reconhecidas pelo Estado; ` O equilíbrio entre políticas universalistas e focalistas, ou seja, as políticas nesse novo mo- delo de gestão social devem entender a totalidade do sujeito, priorizando o atendimento de forma integral; ` A transparência nas decisões, na ação pública, na negociação, na participação, isto é, maior profissionalismo e ética na prestação dos serviços públicos; ` A avaliação de políticas e programas sociais, ou seja, a avaliação ganha centralidade na gestão social, esperando-se controles menos burocráticos e mais voltados para medir a eficiência no gasto e a eficácia e efetividade nos resultados (CARVALHO, 2001, p. 16-17). http://www.mds.gov.br/webarquivos/publicacao/assistencia_social/cartilhas/SUAS_Orientacoes_conselhos_controlesocial.pdf http://www.mds.gov.br/webarquivos/publicacao/assistencia_social/cartilhas/SUAS_Orientacoes_conselhos_controlesocial.pdf 20 1 Conceito de planejamento e as dimensões lógico-racional e política Figura 03. Gestão Social Descentralização Política e Administrativa Políticas Sociais Responsabilidade Social Rede Controle Social Participação Ativa Parceria Sociedade Civil Estado Mercado Fonte: elaborada pela autora. 3. O PLANEJAMENTO NO SERVIÇO SOCIAL: FERRAMENTA TÉCNICA E POLÍTICA NO TRABALHO DO ASSISTENTE DIANTE DAS EXPRESSÕES DA QUESTÃO SOCIAL O planejamento é imprescindível em todas as áreas; mas especificamente para a área social – e particularmente para os assistentes – é indispensável. Todas as nossas ações, atividades e intervenções devem ser planejadas levando em conta todo o conhecimento teórico-metodológico, técnico-operativo e ético-político. 3.1. O TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NO PLANEJAMENTO E NA GESTÃO SOCIAL Os estudos que tratam do planejamento no Serviço Social apresenta vários enfoques, dependendo da linha teórica adotada, da instrumentação e da intencionalidade posta por quem planeja e de onde se planeja. Assim, o trabalho do assistente social, utili- zando-se do planejamento, seguiu diferentes perspectivas históricas predominantes no Serviço Social. Inicialmente, os profissionais utilizavam o planejamento segundo a linha teórica que embasava a própria profissão, isto é, via positivismo e com base nos pres- supostos funcionalistas e tecnicistas. Após o movimento de Reconceituação do Serviço Social foi adotada uma perspectiva mais crítica, mas somente após a Constituição de 1988 que o planejamento é entendido pela profissão como um instrumento fundamental para dar “saída” às demandas e necessidades da população. Da mesma maneira, a discussão a respeito do planejamento e a gestão de políticas sociais têm como pressupostos a democratização do Estado, envolvendo a sociedade civil nos processos decisórios da gestão pública. Cabe, aos planejadores, gestores e 21 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social técnicos – e entre eles os assistentes sociais – dar vazão e conteúdo ao processo de planejamento e gestão, orientando sua formatação e execução (TEIXEIRA, 2009, p. 7). Os profissionais de Serviço Social ganham outros espaços sócio-ocupacionais, já que a sociedade do capital se desenvolve e evolui, trazendo outras expressões da questão social, exigindo dos/das assistentes sociais novas respostas profissionais. Assim, se dá o ingresso no complexo campo da formulação, gestão e avaliação de políticas públicas, planos, programas e projetos sociais, impondo a apropriação de conceitos e procedi- mentos para a atuação (TEIXEIRA, 2009, p. 8) Segundo Guerra (2013, p. 40), O Serviço Social ao se inserir no âmbito da divisão social e técnica do tra- balho como uma profissão interventiva e institucionalizada para responder às diversas expressões da chamada “questão social”, cujos fundamentos, encobertos pela própria imediaticidade da realidade, encontram-se na eco- nomia e na política, tem sua natureza interventiva reconhecida e sanciona- da. Seu estatuto interventivo lhe confere um âmbito de intervenção condicio- nado pelos componentes estruturais do cotidiano e por sua relação com a questão social, que na aparência pelas políticas sociais. Estas conferem à profissão configuração e contornos definidos, instituem mediações e siste- mas de mediações que estabelecem um tipo determinado de intervenção na chamada “questão social”. Para que o processo de planejamento seja desenvolvido é necessário conhecer a reali- dade dos sujeitos envolvidos, a territorial e a institucional. As ações profissionais devem ser realizadas por meio de um cuidadoso processo de planejamento tanto da política e da instituição quanto do assistente social. IMPORTANTE No campo do planejamento, a realidade deve ser pensada no sentido de determinar ações concretas. Para ações concretas, faz-se necessário a utilização de um método científico, pois, para um bom planejamento, não se pode fazer uma análise pautada em suposições ou no senso comum. O planejamento é um processo para se tomar decisões em relação à realidade, que deve ser vista de maneira ampla. O conhecimento da realidade é uma fase do planejamento, e para o assistente social conhecer a realidade pressupõe conhecer a configuração social, política e econômica da área de atuação, fazendo um recorte daquilo que será objeto de intervenção, con- siderando a totalidade. O conhecimento da questão social e suas refrações – miséria, desemprego, exclusão, fome – é imprescindível ao profissional, além de ter evidentes a dinâmica da sociedade, os sujeitos em confronto, suas intenções e seus projetos, e os protagonistas emergentes. Faz-se necessário, também, estabelecer as principaisvariáveis e indicadores que per- mitem melhor conhecer a realidade nos seus diferentes aspectos, enfim, conhecer como se manifesta a conjuntura, conhecendo o jogo de forças presentes. Igualmente, é preciso conhecer a instituição, sua filosofia, estratégias e objetivos, de um lado, e do outro, os interesses e aspirações reais da população e os seus graus de 22 1 Conceito de planejamento e as dimensões lógico-racional e política consciência e organização. As associações formais e informais, movimentos e lideran- ças não podem deixar de ser identificados nesta fase. Há ainda de se construir um referencial teórico, escolhendo as categorias de análise e as referências teóricas básicas, buscando coerência entre elas. Esta é uma tarefa impor- tante para o planejador, tendo como instrumentos importantes entrevista, reuniões, pes- quisas, depoimentos, coleta de dados de diversas formas, relatórios e documentações. Assim, além do conhecimento dessas problematizações, há de se ter claras as respos- tas que vêm sendo dadas às essas mesmas questões e, principalmente, como saber articulá-las em um nível factível, capaz de ser compreendido e planejado. Para intervir na questão social, o assistente social deve considerar as exigências da re- alidade social no planejamento cotidiano de forma exequível, dando um contorno defini- do à ação profissional. O profissional deve dominar a questão teórica, técnica-operativa e ético-política, pois existe intencionalidade no planejamento e na intervenção proposta. Da mesma maneira, o comprometimento e a postura ética do assistente social são requisitos essenciais e primordiais no trabalho desenvolvido com a população usuária dos serviços. O profissional de Serviço Social deve orientar a população/comunidade/ usuário quanto aos seus direitos, a refletir a respeito de suas necessidades e tecer suas exigências, pois somente dessa forma teremos um processo de construção de cida- dania e de gestão social implementado dentro das premissas de participação. Alguns princípios são básicos e precisam ser relembrados e abordados durante esse processo: ` Democracia e participação: uma gestão democrática é aquela que abre canais de participa- ção desde os níveis mais elementares, as associações de moradores, por exemplo, até os de maior responsabilidade, como os conselhos gestores. As pessoas têm o direito de opinar, de ser ouvidas e respeitadas. As decisões são abertas e não restritas a um pequeno grupo, e os critérios de decisão são construídos em conjunto, conhecidos e assumidos por todos. ` Transparência: uma instituição com gestão transparente é aquela que cria canais de co- municação regulares e permanentes, informando as pessoas e as comunidades dos atos, das negociações, das decisões, dos critérios, dos resultados, das perdas e, principalmen- te, da gestão financeira sob sua responsabilidade, em linguagem acessível. ` Controle social: a gestão com o controle social está diretamente vinculada à ideia de constituição de uma esfera pública democrática que possa viabilizar o controle dos gover- nantes pela sociedade. A ideia básica reside na possibilidade de os grupos organizados influírem e decidirem sobre o tipo de sociedade e de ação governamental necessárias ao bem-estar da coletividade, além de manter mecanismos de avaliação das ações gover- namentais. Isso supõe a institucionalização de instrumentos de controle do setor público pela sociedade, garantindo não somente a fiscalização do orçamento, mas também a definição de propriedades, estratégias de ação e localização dos serviços. ` Respeito às pessoas e aos processos: respeitar as pessoas e as instituições tem a ver com a compreensão de que elas tenham tempo de amadurecimento das consciências e dos processos que precisam ser considerados. Portanto, construir processos locais de de- senvolvimento sustentável pressupõe o conhecimento, o entendimento e a prática desses princípios da gestão social (PROJETO INOVAR, 2005, p. 10). 23 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social O assistente social é um profissional habilitado para atuar no processo da gestão social, como gestor social, inclusive. Nossa formação nos dá aporte e suporte no que se refere aos conteúdos fundamentais para o trabalho na área social, como direito e legislação social, movimentos sociais, terceiro setor, planejamento e gestão social, entre outras disciplinas de suma importância. O gestor social deve ir muito além de delegar funções e determinar ações: deve ter sen- so crítico, capacidade gerencial, liderança e motivação; principalmente saber trabalhar em grupo e lidar com as diferenças existentes, conseguindo de maneira hábil sobrepor as dificuldades encontradas durante o processo de gestão social. Segundo Fischer et al. (2006, p. 12), a gestão social está intrinsecamente ligada à li- derança e gerenciamento, eficiência, eficácia e efetividade social; que são mediações sociais realizadas por pessoas – no caso, gestores e suas organizações. Os conceitos dos 3Es para a gestão social são: ` Eficiência: diz respeito à verificação e à análise da relação entre aplicação de recursos (financeiros, materiais, humanos) e os benefícios oriundos de seus resultados, ou seja, a obtenção de custo mínimo para o maior número e qualidade de benefícios. A gestão será mais eficiente quanto menor for o seu custo e maior o benefício alcançado. ` Eficácia: relaciona-se ao alcance de seus objetivos. A gestão será eficaz à medida que suas metas sejam iguais ou superiores às propostas. A relação entre meios e fins estabe- lece o quanto o projeto foi capaz de alcançar os objetivos e metas propostas, e o quanto foi capaz de cumprir os resultados previstos. ` Efetividade: relaciona-se ao atendimento das demandas sociais, isto é, à relevância de sua ação, à sua capacidade de alterar as situações encontradas. Ela é medida pela quantidade de mudanças significativas e duradouras na qualidade de vida e/ou no impacto do público beneficiário da ação que a política, plano, programa ou projeto foi capaz de produzir. IMPORTANTE A eficácia e a efetividade são objetivos éticos, porque se referem a valores a serem persegui- dos, como democracia e justiça social. No processo de gestão social, o gestor é o grande facilitador e mediador da gestão, e o sucesso de uma política, de um programa ou projeto depende quase que exclusivamen- te do seu papel (SOUZA, 2001, p. 15). O autor aponta ainda algumas características básicas e primordiais que o gestor – não só o social, mas todos os gestores – precisa possuir: ` A capacidade de comunicação interna e externa com eficácia; ` Liderança; análise contextual interna e externamente; ` Capacidade de adaptação a novas situações; 24 1 Conceito de planejamento e as dimensões lógico-racional e política ` Negociação e convencimento; ` Transparência à gestão; ` Organizar-se “administrativamente”. O gestor deve conhecer ainda técnicas de gerenciamento, colocando-as em prática diariamente, desde o momento em que entra na instituição até quando está planejando ações para a equipe ou comunidade na qual está envolvido e é responsável. O gestor assistente social deve estar preparado para atuar em um contexto de desa- fios e tensões entre eficiência, busca de resultados e a busca da participação social, considerando as questões que se apresentam de forma integral, não fragmentada, ul- trapassando as tensões dicotômicas entre teoria e prática, local e global, disciplinar e interdisciplinar. Deve ainda atuar em rede, estimular a comunicação e a articulação, trabalhar com a diversidade, lidando com a cultura e a linguagem de cada local, criando referências próprias do local, contribuindo para as construções de sujeitos sociais em cada processo em que atua, selecionando as estratégias apropriadas para cada inter- venção. Assim, muitas vezes será um gestor de conflitos, um mediador de interesses diferentes e contraditórios, sendo umavaliador das situações, da realidade que se apre- senta e das ações a serem tomadas, ou seja, enfim, também um planejador. CONCLUSÃO Como já disposto, Baptista (2007, p. 16) destaca o planejamento enquanto um processo que envolve reflexão, decisão, ação e retomada da reflexão, trazendo que por trás de qualquer ato de planejar invariavelmente há intencionalidades, pois existe uma dimen- são ético-político à ação técnica. O planejamento, como instrumento da ação profissional, não é isento nem neutro, en- volvendo indivíduos e grupos com interesses e expectativas contrárias, e as intencio- nalidades e a tomada de decisões são permeadas pelas correlações de forças, difi- cultando, inclusive, o acesso dos usuários às políticas/serviços. Assim, o trabalho do assistente social é imprescindível nesses espaços de disputa e conflito de interesses, possibilitando o acesso da população nos processos decisórios e promovendo a partici- pação da população tanto no planejamento como na gestão. Como afirma Teixeira (2009, p. 2-3), “Cabe, entretanto, a gestores e técnicos, processar teórica, política e eticamente as demandas sociais, dando-lhes vazão e conteúdo no processo de planejamento e gestão, orientando a sua formatação e execução.” Isso significa que cada vez mais ocupamos papéis de planejadores e gestores nos espaços sócio-ocupacionais, e desde que estejamos devidamente capacitados podemos fazer a diferença na defesa dos direitos e políticas duramente conquistados no processo de (re)democratização brasileira e postos nos marcos da Constituição de 1988, impondo, assim, a apropriação de conceitos e procedimentos para a atuação profissional. O planejamento, enquanto ato técnico e político, e a gestão, como gerenciamento, re- quer dos profissionais envovidos, especialmente de assistentes sociais, conhecimento aprofundado da realidade, mas não só, há se ter conhecimentos teóricos a respeito 25 1 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social da temática, preparo diante das etapas metodológicas, habilidades nas relações, pro- fundidade teórico-metológica e convicção ético-política. Não há imporvisos na nossa atuação profissional: as incertezas e inseguranças devem ser sanadas. O projeto éti- co-político profissional deve ser garantido nas relações com a população usuária das políticas e dos serviços, inclusive e especialmente no planejamento e gestão dessas mesmas políticas. A participação da população no processo de planejamento e gestão social consiste em um movimento de empoderamento da sociedade, permitindo que a população reflita e participe ativamente dos processos democráticos e históricos do Brasil. Os discursos “para pobre qualquer coisa basta” e “uma política pobre, para pobres”, por exemplo, não podem nem devem ocorrer, desde que a população de fato participe dos processos e exija seus direitos. A participação da população, nos conselhos, fóruns, audiências etc., com informações completas e corretas, mediadas pela nossa atuação, vai possibilitar outra relação com as políticas e serviços. O planejamento e a gestão social devem ser entendidos e apropriados pelos profis- sionais como um exercício de liberdade e participação necessário a todos os sujeitos envolvidos, aos que governam e aos que não governam. É instrumento dos que querem tornar-se sujeitos e construir o presente e o futuro desde já. Como exposto, a discussão a respeito do planejamento e a gestão social no campo do Serviço Social nos faz pensar os limites e possibilidades do profissional tanto no plano teórico quanto em sua apreensão nos espaços sócio-ocupacionais, utilizando do planejamento enquanto instrumento e estratégia de trabalho, possibilitando uma gestão qualitativa, na garantia dos direitos dos cidadãos. 26 1 Conceito de planejamento e as dimensões lógico-racional e política REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARBOSA, M. C. Planejamento e Serviço Social. São Paulo.Cortez,1980. BAPTISTA, M. V. Planejamento social: intencionalidade e instrumentação. São Paulo: Veras, 2007. BATTINI, O. Política e Planejamento Social: decifrando a dimensão técnico-operativa na prática profissio- nal. In: CEDEPS – Capacitação, Assessoria e Consultoria em Políticas Públicas, 2015. CARVALHO, M. C. B. Avaliação de Projetos Sociais. In: AVILA, C. M. (coord). Gestão de projetos sociais. São Paulo: AAPC, 2001. CHIAVENATO, I. 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Destaca- remos e refletiremos a respeito do ato de planejar como uma atribuição e competência profissional do assistente social. 1. A PLANIFICAÇÃO E SEUS DOCUMENTOS: PLANOS, PROGRAMAS E PROJETOS O planejamento é o ato de planejar, e a planificação é o resultado desse ato, concreti- zando-se em documentos: as políticas, os planos, os programas e os projetos. 1.1 A PLANIFICAÇÃO NO PROCESSO DE PLANEJAMENTO O planejamento social tem como foco transformar determinada realidade, e surge de um problema social, um questionamento a respeito de dada situação, realizando-se por meio de processo de aproximações. Assim, para definição do objeto do planejamento é necessário o conhecimento da realidade e a definição da questão central de onde se quer intervir. Para conhecer a realidade é importante entender que a realidade social é dinâmica, e que o processo de apreensão se faz por aproximações nas diferentes dimensões da realidade. Baptista (2000, p. 16) afirma que no planejamento, com base nos processos racionais, existe uma dinâmica contínua e um inter-relacionamento nas operações reflexão, deci- são, ação e retomada da reflexão. Cada uma das operações possui uma especificidade, mas estão intrinsecamente ligadas, correspondendo tanto às fases metodológicas quanto aos documentos decorrentes de cada fase. Assim, a operação de reflexão se refere à fase metodológica da construção do objeto, de estudo de situação, de estabelecimento de prioridades e propostas alternativas, e espera-se a produção dos seguintes documentos: propostas preliminares, diagnósticos, estudos de viabilidade e anteprojetos. 29 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is coPlanejamento em serviço social IMPORTANTE O diagnóstico é uma análise interpretativa que possibilita ler e compreender a realidade so- cial. A precisão do diagnóstico para o planejamento de políticas, planos, programas e pro- jetos é de suma importância para seu sucesso ou fracasso. Assim, o diagnóstico possibilita a aproximação com a realidade vivida pelos usuários naquele dado território, efetivando um bom planejamento. Na operação de decisão que abrange as fases metodológicas de escolha de priorida- de, escolha de alternativas e definição de objetivos e metas, os documentos decorren- tes serão planos, programas e projetos. Esses planos, programas e projetos são documentos que decorrem de explicitação, sistematização, interpretação e detalhamento das decisões, em graus decrescentes de níveis decisórios, bem como em grau de agregação de variáveis e detalhamento. Esse decurso é denominado planificação, como afirma Baptista (2000, p. 97): A planificação, no processo de planejamento, é realizada no momento em que, após a tomada de um conjunto de decisões, definidas em face de uma realidade determinada, inicia-se o trabalho de sistematização das atividades e dos procedimentos necessários para o alcance dos resultados previstos. A planificação é o passo seguinte ao conjunto das decisões tomadas no processo de planejamento e um momento de negociação, promovendo a sistematização das ativida- des e dos procedimentos necessários para o alcance dos resultados. Os documentos resultantes são os planos, programas e projetos, como já citamos. Ainda discorrendo a respeito das fases metodológicas do processo de planejamento e os documentos decorrentes, temos a operação de ação, com as fases de implemen- tação, implantação, execução e controle, e os documentos decorrentes são os rotei- ros, rotinas, normas/manuais e relatórios. Já a operação retomada de reflexão dispõe sobre as fases de avaliação e retomada de processo, trazendo como documentos os relatórios avaliativos, novos planos, programas e projetos. A operação de decisão, no processo de planejamento, é a etapa em que se elaboram também as políticas públicas, além dos planos, programas e projetos, expressando a metodologia de intervenção e a identificação das responsabilidades de cada sujeito envolvido no processo. Nesse sentido, políticas, planos, programas e projetos compõem uma só cadeia e estão diretamente ligados uns aos outros, mas cada qual com sua definição, particularidade e postulados, que exporemos a seguir. Política Na perspectiva do planejamento público, política é um processo de tomada de decisão que começa com a adoção de postulados gerais que depois são desagregados e espe- cificados. Assim, a política global prioriza setores e estabelece a integração que mante- rão entre si em um determinado marco teórico, histórico e espacial (CURY, 2001, p. 43). 30 Plano, Programa e Projeto na área social 2 As políticas públicas, em sua essência, estão ligadas ao Estado, cuja função é esta- belecer como os recursos são usados para o benefício de seus cidadãos. As políticas são públicas e não apenas coletivas. A sua extensão pública não é pelo conjunto de pessoas sobre as quais incidem, mas pelo seu caráter imperativo. São públicas por se- rem conjunto de decisões e ações revestidas da autoridade soberana do Poder Público. IMPORTANTE A política é a base da pirâmide, em que se estabelecem as definições a serem seguidas pelos planos, programas e projetos. Assim, faz-se pontuar o ciclo de políticas públicas, como mostra a figura a seguir: Figura 01. Ciclo de políticas públicas Fonte: elaborada pela autora. Identificação do Problema Formação da Agenda Formulação de Alternativas Tomada de Decisão Implementação Avaliação Extinção O ciclo de políticas públicas é uma ferramenta analítica que permite conhecer as várias fases dos processos político-administrativos envolvidos na realização de uma política pública. Facilita (embora não resolve) a investigação das relações de poder, das redes e das práticas que se encontram tipicamente em cada fase, auxiliando na elaboração e na avaliação das políticas públicas. Geralmente, distinguem-se cinco etapas: definição da agenda, definição das alternativas, tomada de decisão, implementação e avaliação. ` Definição da agenda: etapa na qual um problema adquire relevância política tal que passará a receber atenção prioritária dos gestores públicos. São várias as questões de políticas públicas, mas apenas algumas se tornam problemas de políticas públicas, ou seja, entram na agenda. A definição do problema, quando entra na agenda, tem impactos diretos sobre as alternativas e as soluções que a ele serão apresentadas. ` Definição das alternativas: etapa que consiste na definição das alternativas possíveis de tratamento do problema, conforme os objetivos a serem alcançados e os meios dis- poníveis para a solução do problema identificado. Envolve pelo menos uma avaliação preliminar a respeito dos custos e benefícios das várias opções de ação disponíveis, e uma avaliação das chances do projeto se impor na arena política. 31 2 U ni ve rs id ad e S ão F ra nc is co Planejamento em serviço social ` Tomada de decisão: etapa em que se adota uma ou um conjunto de alternativas pos- síveis, ponderando expectativas de resultados e custos para sua obtenção, segundo os meios a serem empregados. Normalmente precedem ao ato de decisão processos de conflito e de acordo envolvendo os atores mais influentes na política e na administração. ` Implementação: etapa que procede à execução das ações planejadas para a consecu- ção dos objetivos delineados. ` Avaliação dos resultados: etapa em que se apreciam os resultados e os impactos pro- duzidos pela política, plano, programa ou projeto Trata-se de uma fase de importante aprendizagem. Planos Segundo Baptista (2000, p. 99), O plano delineia as decisões de caráter geral do sistema, suas grandes li- nhas políticas, suas estratégias, suas diretrizes e precisa responsabilidades. Deve ser formulado de forma clara e simples, a fim de nortear os demais níveis da proposta. É tomado como um marco de referência para estudos setoriais e/ou regionais, com vistas à elaboração de programas e projetos específicos, dentro de uma perspectiva de coerência interna da organização e externa em relação ao contexto no qual ela se insere. No plano estão relacionados meios e fins a serem atingidos, determinando-se o tempo dispendido e determinando quem será responsável por cada delegação constante nele. Quando a atividade é organizada em um modelo que ofereça início, meio e fim, apre- sentando-se como uma sequência harmônica, lógica, temos um plano. O plano fornece um referencial teórico e político, as grandes estratégias e diretrizes que permitirão a ela- boração de programas e projetos específicos dentro de um todo sistêmico articulado e, ao mesmo tempo, extremamente coerente ao contexto no qual se insere. Em um plano, os problemas são selecionados estabelecendo áreas de concentração e, para essas áreas, elaboram-se programas que, não raro, derivarão projetos (CURY, 2001, p. 43). Lozano (1968) apud Baptista (2000) aponta os componentes estruturais de um plano: a síntese dos fatos e necessidades que o motivam e da importância da problemática para a instituição e para os grupos sociais que nela se bene- ficiarão do planejamento, fundamentando nela a formulação dos objetivos amplos da organização planejadora; a formulação explicita da política de prioridade e as razões para a escolha, des- tacando aspectos de viabilidade institucional, política, administrativa e técnica; o quadro ordenado, por itens, das mudanças a operar, quanto à expansão de diferentes níveis e modalidades de ação da organização, à estrutura e ao conteúdo dos setores e dos níveis de rendimento previsto; o quadro cronológico das metas ou resultados a atingir ao término do período os tipos e a magnitude dos recursos humanos, físicos