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Crescimento, desenvolvimento 
e meio ambiente 
Capítulo 1 
Conforme já se mencionou, parcela importante do presente 
manual está voltada ao exame das duas principais correntes de 
pensamernto da economia ambiental, ressaltando tanto as principais 
contribuições como os pontos fracos de cada uma delas. Entretanto, 
para que se tenha uma compreensão mais precisa da essência dos 
fenômenos que essas correntes de pensamento tratam, este capítulo 
apresenta um exame das questões e controvérsias que estão na 
origem da economia do meio ambiente. Em essência, elas têm a 
ver com os impactos sobre o meio ambiente de um crescimento 
contínuo da escala da economia mundial. A população humanae 
a produção material vêm se expandindo, levando, de um lado, a 
um aumento continuado da extração de recursos naturais do meio 
ambiente, e produzindo, de outro lado, volumes cada vez maiores 
de emanações de resíduos e rejeitos para o meio ambiente, muitos 
de elevado potencial nocivo. A questão que se coloca é: será que 
não existem limites para essa expansão? Será que a economia 
mundial pode continuar a se expandir indefinidamente sem 
provocar sérias repercussões ambientais? 
Associado às avaliações a respeito dessas questões está o 
enorme desafio de desenhar estruturas institucionais e aparatos de 
politicas que possam reduzir os impactos ambientais mais nocivos 
Lanto OS que ocorrem em nível local como os impactos globais 
decorrentes da expansão das atividades humanas. Para enfrentar 
COm sucesso esse desafio. é deseiável que se torme um consenso a 
respeito dos problemas ambientais que mais preocupam, bem como 
SOOre a natureza dos instrumentos a serem usados para resolvê-los 
Os economistas e as relacões entre 
O Sistema econômico e o meio ambiente 
"29" 
ou amenizá-los. Entretanto, esse consenso está longe 
alcançado. Como veremos, há formas diferentes de ver essas 
questões e sugestöões distintas de para enfrentá-e estratégias e políticas 
las Essas diferenças de pontos de vista nao se restringem à ansl: 
econômica, mas elas têm impactos importantes sobre a evol 
de corrente de pensamento da economia do meio ambient 
melhor avaliar a situação, bem Para que se possa 
estabelecer uma base factual para O estudo da economia do mo 
ambiente, julgamos, pois, necessarla a presente discuss& 
introdutória. Ela foma o pano de fundo para o estudo das princinaie 
contribuições e das maiores deficiências das mais importantos 
corentes de pensamento da economia doO meio ambiente 
1.A escala da economia, o estilo 
Como para 
de desenvolvimentoeo meio ambiente 
"30 
1.1. A escala da economia e o meio ambiente 
Começamos fazendo uma analogia biológica: consideramos a 
sociedade humana um organismo vivo, complexo e mnultifacetado 
que, como todo ser vivo, retira energia e matéria de alta qualidade de 
seu meio extern0 �o meio ambiente -, empreqa-as para se manter, 
Crescer, evoluir, e devolve-as a esse meio externo degradados, nà 
forma de energia dissipada, resíduos e dejetos - ou seja, de poluiçao. 
Desde o momento em que, nos primÑrdios dos tempos, o homem se 
organizou em sociedade, esse fluxo de matéria e energia esta na v aliás, 
do funcionamento da economia humana - semelhantemente, 
ao que acontece com todo ser vivo. Mas, por muitos milênios isso 
Ocorreu sem maiores problemas; há registros históricos, num âmbito 
geográfico localizado, de esgotamento de recursos naturais básicos, 
com dificuldades para um determinado país ou grupo Social. Também 
há registros de poluição e de degradação ambiental intensas, 
mas 
em um domínio muito localizado.! 
1. lsso Ocorreu, por exemplo, nas cidades industriais inalesas nos séculos AV 
C. Mueller 
Depois da Segunda Guerra Mundial, entretanto, esses 
problenmas começaram a ser sentidos com uma intensidade e uma 
amplitude cada vez maiores. Recentemente a economia mundial 
atingiu escala suficientemente elevada para fazer com que o ritmo 
de extração de recursos naturais eo de emanações de rejeitos, de 
poluição, se tornassem fonte de crescente preocupação. Na década 
de 1970 deu-se mais atenção aos problemas que poderiam resultar 
de possível escassez de recursos energéticos; hoje, preocupam mais 
os possíveis impactos de poluição global que se acumula, 
especialmente a que vem originando o "efeito estufa" - as mudanças 
climáticas geradas por acúmulo crescente de dióxido de carbono e 
outros gases na atmosfera. Além disso, em nível localizado, a 
poluição, a emanaçãoeo acúmulo de dejetos são motivo de ações 
defensivas em quase todos OS países, envolvendo esforços e recursos 
econômicos e financeiros cada vez maiores. 
Essa evolução está associada à expansão recente do sistema 
econômico global. A partir da década de 1950 essa expansão se 
acentuou consideravelmente, exigindo quantidades crescentes de 
recursos naturais e gerando volumes cada vez maiores de 
emanações no meio ambiente de rejeitos nocivos. A atual 
preocupação com os impactos ambientais causados pela sociedade 
humana resulta, pois, da escala elevada da economia mundial dos 
nossos dias. Enquanto esta era reduzida, os impactos globais da 
atividade econômica eram pequenos e localizados; com sua 
ampliação, esses impactos aumentaram significativamente. 
Em termos muito gerais, a escala (o tamanho, a dimensão) 
da economia global tem dois componentes básicos: a magnitude 
da população humana; e o nível de renda per capita médio 
melhor, o nível da produção material por habitante. E esses dois 
Componentes têm fortes relações com a questão ambiental. 
Com efeito, por mais pobre que seja uma sociedade, se sua 
população cresce a uma taxa elevada, aumenta o número de pessoas 
que requerem alimentos e um mínimo de bens e serviços; aumentarm 
oS requerimentos de espaço para abrigar e alimentar essas pessoas; 
e ampliam-se as emissões de resíduos, de rejeitos. Aumenta, pois, 
sua escala. A degradação ambiental de países pobres superpovoados 
Os economistas e as relações entre 
O sistema econômico e o meio ambiente "31" 
e de elevado dinamismo denmográfico é qualitativamente diferente 
da que ocorre nos países ricos, mas ela existe e é preocupante 
Inclui, por exemplo, o lixo que se acumula próximo a residências e 
0s dejetos humanos não recolhidos e tratados; a poeira nos 
aglomerados urbanos; a fumaça da queima de lenha e esterco dentro 
das residências; a destruição dos solos e das florestas associadas à 
ocupação de terras, à eros�o e à degradação das águas causadas 
por populações de regiões de elevada densidade demográfica e de 
taxas elevadas de crescimento populacional. 
Por sua vez, mesmo que tenha população estável (uma 
população que não cresce), um país cuja renda per capita se expande 
acentuadamente usa quantidades crescentes de recursos naturais e 
gera emanações de rejeitos, de poluiç�0, cada vez maiores. 
O aumento da renda per capita tende a estar associado a uma 
produção material cada vez maior.?E, para que esta ocora, tornam 
se necessários cada vez mais recursos naturais. Ademais, os procesSos 
de produção e de consumo em expansão trazem consigo poluição e 
degradação ambiental crescentes. A ciência e a tecnologia podem 
amenizara situação, mas as leis da natureza impedem que sejam 
eliminados esses efeitos da expansão da produção material. 
Em nível global, portanto, os dois elementos da equação -a 
expansão da população e o crescimento da renda per capita � vêm 
resultando em uma escala cada vez maior do sistema econômico, 
com impactos ambientais negativos, que se tornaram altamente 
preocupantes. Algebricamente, podemos escrever: 
Y= Y/P x P; e, 
DA = 2 (Y) 
(1) 
"32" 
(2), 
onde Yé o produto real total (o Produto Interno Bruto real) da 
economia em um dado período (digamos um ano), tomado como 
2. Ressalte-se, entretanto, que esta não é uma lei rígida. imutável. Conforme comunicaçao do 
protessor José Eli da Veiga, é importante aue se registre o debate recente sobre a tendencia d 
"imaterialidade da produção pós-moderna".a conservação e a recuperação da qualidade do meio ambiente 
deixariam de ser um luxo; tenderiam, mesmo, a se tornar prioritárias. 
Haveria, em conseqüência, crescente pressão social para a 
introdução de legislação ambiental, para o desenvolvimento de 
instituições apropriadas, para a promoção de tecnologias e de 
produtos "limpos" e para a adoção de políticas de proteção 
ambiental. 14 
Representando em um gráfico a relação entre a renda per 
capita e um indicador de degradação ambiental, teríamos, pois, a 
figura de um "U" invertido, como a da Figura 3. Além disso, o 
desenvolvimento tecnológico e as pressões da sociedade e de 
organizações internacionais fariam essa curva se deslocar para 
baixo; esse deslocamento também resultaria da disseminação global 
de tecnologias limpas e do aprimoramento institucional, em níveis 
nacional e mundial. Assim, ao longo do tempo, um mesmo nível de 
renda per capita estaria associado a uma degradação ambiental 
cada vez menor. 
Se verdadeira a hipótese do "U" invertido, estaria afastado o 
receio da incompatibilidade entre crescimento econômico e 
qualidade ambiental. Vimos que, na década de 1970, tomou copo 
o ponto de vista de que a continuidade e a generalização do 
crescimento econômico resultariam em inexorável degradação 
ambiental, de conseqüências dramáticas para a humanidade. Com 
a teoria do "U" invertido, ao invés de anátema, o crescimento 
econômico passou a ser apontado como fator de amenização dos 
problemas ambientais da humanidade. 
Essa é a teoria. Mas até que ponto ela tem suporte nos fatos? 
14. Vimos que a hipótese do "U" invertido se originou do Informe sobre o desenvolvimento mundial 
de 1992, do Banco Mundial, enfatizando a relação entre desenvolvimento e meio ambiente. Um 
exemplo de tentativa de validação da hipótese está em trabalhos do volume coordenado por 
Goldin e Winters, sob o patrocínio do Development Center da OCDE. Ver Goldin, lan e L. Alan 
Winters (editores), The Economics of Sustainable Development. Cambridge, Inglaterra: Cambridge 
University Press, 1995, especialmente os artigos de Goldin e Winters, e de Gene Grossman. As 
Conclusões desses trabalhos são bastante otimistas - a hipótese do "U" invertido é considerada 
essencialmente correta. Reconhece-se, entretanto, que a hipótese não é válida para todos os 
tipos de poluição. 
Os economistas e as relações entre 
0 Sistema econômico e o meio ambiente " 65 
3.2. A aparência dos fatos 
Conforme mencionamos, a hipótese da curva do U" invertido ambiental começou a ser ressaltada no Relatório de 1992 do Banco 
Mundial. Mas esse documento não apresentou resultados de tost 
econométricos:l5 eles certamente toram teitos, mas, no Capítulo 2 
o relatório procura assentar a relação sugerida pela teoria do 4 p 
invertido com base no exame do que aconteceu em três grupos do 
países, classificados em temos de renda per capita. Os indicadoree 
de degradação ambiental focalizados foram principalmente 
poluentes de impacto local muito visivel, como as emissões de 
particulados, de dióxido de enxofre e de monóxido de carbono no 
caso da poluição atmostérica; e o do estado da água de rios em 
termos de oxigênio dissolvido, para o caso da poluição fluvial. 
Começando com a concentraç�o urbana de matéria 
particulada. a hiptese do relatório foi a de uma relação entre a 
renda per capita e um indicador dessa concentração como a 
esboçada na Figura 4. a seguir. 
Microgramas de 
partículas por metro 
cúbico de ar 
" 66 
1.800 
100 100.000 
Renda real per capita 
(escala logarítmica) 
Figura 4. Concentração urbana de matéria particulada 
15. Um dos estudos econormétricos pioneiros nesse campo é o de Grossman e Kruegol 
Charles C. Mueller 
Para a relação entre a renda per capita e a concentração 
urbana de dióxido de enxofre na atmosfera, os estudos encontraram 
Microgramas por 
metro cúbico de ar 
50 
100 
100.000 
Figura 5. Concentração urbana de dióxido de enxofre 
(escala logarítmica) 
O relatório reconhece que a relação entre Y/P e indicadores 
de degradação não necessariamente obedece ao formato de "U" 
invertido, como nos casos esboçados acima. A relação entre a renda 
per capita e a porcentagem da população urbana sem saneamento 
básico adequado, por exemplo, seria inversa desde o início. Ou 
seja, e de se esperar que haja uma acentuada melhoria nesse 
aspecto, desde as fases iniciais do processo de desenvolvimento. 
Nesses casos, o padrão estabelecido pelo relatório seria semelhante 
ao esboçado na Figura 6. 
Os economistas e as relações entre 
Para o relatório, não só existem padrões como os acima, de 
relação em "U" invertido - ou inteiramente descendente - entre a 
renda per capita e certos indicadores de degradação ambiental, 
como também, com a passagem do tempo, a curva referente a cada 
tipo de poluente (de degradação) tenderia a se deslocar para baixo. 
Como seria de se esperar, esses achados geraram, pelo menos 
em alguns círculos, uma onda de otimismo em relação aos impactos 
o sistema econômico e o meio ambiente " 67" 
relação semelhante à esboçada na Figura 5, a seguir. 
100 
100 
(%) 
" 68" 
Fiqura 6. Proporção da população urbana sem saneamento básien 
PIB e indice de 
degradação ambietal 
Renda real per capita 
(escala logarítmica) 
ambientais do crescimento. No extremo, acabou-se mesmo sugerindo 
que, aumentando a renda per capita, o crescimento propiciaria 
melhoras nas condições ambientais e não aumentos de degradacão. 
como se acreditava anteriormente. Para os otimistas de plant�o, 
portanto. as evoluções no tempo do Produto Interno Bruto real da 
economia mundial e de um indicador de qualidade ambiental seriam 
aproximadamente as indicadas na Figura 7, a seguir. 
100.000 
PIB real 
Indice de 
degradação 
Tempo (anos) 
Figura 7. Visão otimista da evolução do PIB mundial e da degradação ambiental 
Charles C. Mueller 
3.3. A verificação empírica da hipótese do "U" invertido 
O Relatório do Banco Mundial originou uma onda de testes 
econométricos que, na sua maioria, pareciam coroborar a hipótese 
do "U" invertido e dar credibilidade à visão otimista de que, ao 
invés de prejudicial, um continuado aumento de renda per capita 
seria um importante instrumento de melhora das condições do meio 
ambiente. Avaliações mais recentes, porém, mostram que há sérias 
razões para não se aceitar essa visão otimista. 
Uma importante resenha crítica dos estudos econométricos feitos 
para tentar corroborar a relação do "U" invertido é a de Borghesi 
(2002). A autora mostra que, na ausência de um indicador das 
condições de degradação ambiental global, a maioria desses estudos 
empíricos se valeu basicamente de indicadores específicos de 
degradação � como os de concentração de particulados e de dióxido 
de enxofre na atmosfera� ou das condições de um deteminado meio 
onde se depositan poluentes - como o estado da água de rios, medido 
pelo nível de oxigênio dissolvido. A autora mostra que os estudos 
econométricos aparentemente bem-sucedidos tiveram duas 
características: 
"A relação do "U" invertido geralmente se referia a poluentes ou 
agentes de degradação de impacto predominantemente local e 
de efeitos de curto prazo, como o dos dois poluentes antes 
mencionados. 
" Além disso, como, mesmo nos países desenvolvidos, não há séries 
de tempo suficientemente longas, ao invés de focalizar a evolução 
do fenômeno em estudo em um dado país, com dados de série 
temporal, quase todos os "bons" resultados em termos da relação 
vieram de estudos econométricos feitos com base em dados de 
seção transversal; ou seja, as observações se referiram à relação 
entre o indicador de poluição considerado e a renda per capita 
de diferentes países ou regiões. 
E interessante ressaltar que, como mostra a autora, a relação 
do "U" invertido não foi econometricamente significante, nem para 
Os economistas e as relacões entre 
o sistema econômico e o meio ambiente 
69 
a maioria dos casos de poluentes a outros mneios que nåoatmosfera, nem para poluentes de impacto regional e global 
geralmente poluentes que se acumulam e cujos eteitos um país pode 
externalizar - ou seja, pode mandar para outros países. Na verdado 
para estes últimos tipos de poluentes, os estudos constataram 
existência de relação direta entre a renda per capita e o indicador 
de degradação ambiental. 
Além disso, mesmo no caso dos estudos bem-sucedidos 
resenha constatou uma substancial discrepância a respeito do nível 
de renda per capita em que a degradação ambiental comeca a 
diminuir (o ponto máximo do "U invertido). Para um mesm 
poluente. em alguns casos esse nível parecia ser relativamento 
reduzido. indicando que com um pequeno esforço de 
desenvolvimento a poluição logo passaria a declinar; já outros 
estudos indicaram que a renda per capita teria de aumentar muito 
antes de a degradação começar a declinar. Ou seja, se fosse de 
validade geral o primeiro caso, talvez se justificasse para um país 
em desenvolvimento a adoção de uma política ambiental de esperar 
para ver o que acontece; mas isso seria arriscado se, para esse 
país. valesse o segundo caso. 
Os poucos estudos para os poluentes que registraram 
resultados favoráveis à relação do "U" invertido com base em 
estudos de seção transversal, mas feitos para países que dispunham 
de séries temporais relativamente longas, não constataram a relação 
do "U" invertido. Na verdade, eles mostram que a qualidade 
ambiental tendeu a piorar com níveis muito altos de renda per capita. 
A autora apresenta, também, objeções aos métodos de 
estimação adotados pela maioria dos estudos aparentenmente bem 
Sucedidos em cormprovar a existência da relação do U" invertido. 
Ela mostra que a maioria dos estudos teve de se valer de dados de 
qualidade duvidosa e pode ser criticada por ter adotado a técnica 
de estimação assentada em equação de forma reduzida, ou pOT 
outras limitações das técnicas econométricas. Merecem destaque as implicações de política das consta tações de Borghesi (2002, p. 218). Conforme ressalta a autora: 
"70" 
Charles C. Mueller 
A suposta forma da curva de Kuznetz ambiental levou alguns autores 
a concluir que a degradação ambiental seria apenas um fenômeno 
temporário e que, no longo prazo, é possível se "crescer para fora" 
desses problemas [..]. Caberia, assim, aos formuladores de política 
promover um crescimento rápido para fazer a economia atingir o 
ponto de inflexão do "U" invertidoo quanto antes. 
As críticas antes resenhadas, bem como outras observações, 
levam-nos a rejeitar enfaticamente essa linha de recomendacão. 
Adicionalmente, merecem destaque, nesse sentido, os seguintes pontos: 
" Mesmo supondo válida a relaç�o do "U" invertido, uma política 
de estímulo ao crescimento a todo custo poderia levar a um 
aumento desmesurado de degradação ambiental, pois pode levar 
décadas para que um país atinja o ponto de inflexão da renda 
per capita (ponto máximo da curva de "U invertido). Além disso. 
quanto maior a degradação acumulada antes de a economia 
alcançar esse nível, mais difícil será combater os efeitos dessa 
degradação na fase descendente do "U" invertido. 
" Um problema, associado ao discutido no parágrafo anterior, é 
que, conforme mostram alguns estudos empíricos, o nível de 
degradaç�o do ponto de inflexão pode ser muito alto. A questão 
não é, pois, apenas a demora para que seja atingido o ponto de 
inflexão, mas também a elevada degradação associada a esse 
nível de renda per capita. Na verdade, mesmo autores que vêm 
se mostrando crentes em relaç�o à existência da relação do "U" 
invertido reconhecem esse fato. Â nesse sentido que Munasinghe 
(1999) propôs aos países em desenvolvimento que procurem 
cavar um túnel" no "U" invertido, começando a adotar desde 
cedo políticas de controle da degradação ambiental. Ele rejeita, 
pois, a postura de "esperar para ver", associada a uma aceitação 
acrítica da tese do U" invertido ambiental. 
Outros autores (ver JHA e MURTHY, 2003, p. 353) argumen 
tam que não é válido buscar guia na relação da renda per capita 
com indicadores individuais, em isolamento, de poluição, 
lembrando que muitos poluentes se relacionam uns com outros. 
Há, assim, um impacto da ação combinada desses poluentes- há 
Os economistas e as relações entre 
o sistema econômico e o meio ambiente 
"71" 
uma sinergia entre eles. A existência de tais relações pode produ7ie 
indicados 
níveis de degradação ambiental muito maiores que os 
por relação unívoca. As medidas de política baseadas nos efeitos 
de acões de poluentes em isolamento seriam, assim, insuficientos 
e inadequadas para lidar com fenômenos altamente complevoe 
" Um ponto de natureza semelhante, teito por Common, 1995, 6o 
de que não se deve considerar a degradação ambiental de um 
país em isolamento, mas sim a do conjunto de países, O fato do 
que os países em desenvolvimento, em isolamento, degradam 
relativamente pouco, não impede que, se todos seguirem a receita 
de crescer para atingir a fase declinante do "U* invertido a 
poluição conjunta desses países possa vir a atingir proporções 
muito expressivas. Muitos degradando pouco, mas de forma 
Crescente, podem vir a produzir, no agregado, um nível substancial 
de degradação - especialmente no caso de poluentes de impacto 
global e que se acumulam (ver o Apêndice a este capítulo). 
" Finalmente, como ressaltam Arow et al. (1995), estimativas da 
relação de "U" invertido bem comportadas, obtidas a partir de 
dados dos atuais países desenvolvidos, geralmente escondem o 
fato de que melhorias ambientais nesses países foram, muitas 
vezes, conseguidas com a transferência de indústrias, ou 
atividades intensivas em energia e muito poluidoras, de seus 
territórios para os de países em desenvolvimento (ou seja pela 
"exportação de indústrias "sujas"). O pior é que os atuais países 
em desenvolvimento nem têm essa opção de exportar indústrias 
"sujas" para poderem obter o mesmo resultado dos países ricos 
quando, um dia, sua renda per capita alcançar o ponto de inflexão 
da curva do "U" invertido e eles desejarem obter reduções 
significativas de degradação. 
A hipótese do "U invertido no caso dos poluentes de 
impacto global e que se acumulam 
Vimos que têm sido muito pobres os resultados de estimativas da relação de "U" invertido no caso de poluentes de impacto glooe e que se acumulam. Um pouco de reflexão mostra que nem de 
"72" 
Charles C. Mueller 
longe se pode supor a existencia dessa relação entre Y/P e poluentes com efeitos duradouros e de ampla abrangência espacial - como a emissão de dióxido de carbono, com seus impactos em termos do efeito estufa. A expansão da renda per capita pode vir associada a melhorias em alguns indicadores ambientais, mas isso não nos permite concluir que basta o crescimento econômico para garantir uma melhoria ambiental generalizada, nem que os impactos ambientais do crescimento podem ser ignorados e, de fornma especial, que a base de recursos do globo terrestre é capaz de sustentar indefinidamenteo crescimento econômico. 
� ilustrativa, nesse sentido, a relação empírica entre a renda per capita e a emissão de dióxido de carbono - o principal agente 
causador do efeito-estufa. Como indica o próprio relatório de 1992 
do Banco Mundial, há uma relação direta e fortemente ascendente 
entre a emissão de CO, per capita e a renda per capita como a 
esboçada na Figura 8. 
Toneladas/habitante/ano 
boa 
50 
100 100.000 
Figura 8. Emissão de dióxido de carbono per capita 
Poucos desconhecem hoje o fato de que as emissões de CO, 
parte das quais se acumula na alta atmosfera onde permanece 
por muito tempo - têm efeitos globais mais que locais; além disto, 
Os economistas e as relações entre 
Renda real per capita 
(escala logarítmica) 
o sistema econônmico e o meio ambiente "73" 
esses efeitos tendem a não ser facilmente detectados no curto prazo 
Na verdade, foram cientistas - e não os habitantes de um Daís o 
região que perceberan o problemae alertaram para a 
consegüências potencialmente catastróficas de uma ampliacäo 
continuada da emissão de dióxido de carbono para a atmosfera. Por 
isso. o grosso da opiniào publica, mesmo de alguns países 
desenvolvidos, vem tendo reaçóes momas em relação ao problema 
especialmente quando os remédios sugeridos envolvem fortes medidas 
de contenção do crescimento para paises com elevados níveis do 
emiss�o de CO.. 
Por essa razão está sendo muito diticil a concretização de um 
acordo intemacional -o Protocolo de Kioto - para a promoção de 
reduções significativas das emissões de dióxido de carbono. Os 
reduções Estados Unidos. de forma especial, temem que essas 
signifiquem aumentos de custos de suas empresas, com conseqüente 
perda de competitividade internacional; receiam a redução no 
crescimento e o aumento de desemprego que possam resultar das 
medidas requeridas para uma redução expressiva de suas emissões. 
Semelhantemente. os países em desenvolvimento querem primneiro 
Crescer. aumentar suas rendas per capita de forma significativa, para 
depois considerar a possibilidade de vir a limitar suas emissões de 
CO,. Todos parecem ver o problema como muito remoto; com isso, 
vem sendo cada vez mais difícil a adoção de medidas que permitam 
enfrentar decisivamente o problema. 
Um outo exemplo de rejeitos do sistema econômico que 
aumentam com a renda per capita é o do lixo urbano. Nesse caso, 
definitivamente não funciona a curva de Kuznets ambiental. Pelo 
contrário, a despeito das modalidades de manejo avançadas ja 
desenvolvidas, o lixo urbano vem crescendo exponencialmente. Para 
se ter uma idéia, enquanto os países mais pobres geram anualmente 
poucas centenas de toneladas de lixo por cada bilhão de dólares de 
Produto Interno Bruto, os países industrializados mais ricos produzem 
mais de 5 mil toneladas de lixo anualmente por cada bilhão de dólares 
de PIB.16 
16. Ver World Bank, 1992, p. 54. 
"74" 
A Curva relacionando o lixo com a renda per capita tem, portanto, 
formato semelhante ao da Figura 8; a emissão de lixo aumenta em 
ritmo crescente com aumentos da renda per capita. Num mundo com 
a dinâmica demográfica antes caracterizada e que vem se urbanizando 
acentuadamente, aumentos de renda per capita significam acentuados 
incrementos de consumo de produtos industrializados, o que, entre 
outras coisas, traz a geração de volumes crescentes de lixo per capita. 
Esse lixo não desaparece; uma parte pode ser reciclada, mas mesmo 
em países como a Alemanha, caracterizados por alta propensão a 
reciclar, a emissão de rejeitos não recicláveis vem aumentando. 
Cumpre ressaltar um outro ponto: a relação do "U" invertido 
certamente não é válida para estoques de recursos naturais. A redução 
de muitos desses estoques vem se acentuando em resposta ao 
Crescimento econômico. Deve preocupar, nesse sentido, não tanto o 
esgotamento de recursos minerais que, na pior das hipóteses, ocorerá 
em um futuro distante, e muitos dos quais são passíveis de reciclagem, 
mas sim a degradação de recursos do solo e da cobertura vegetal, a 
destruição de florestas, habitats e da biodiversidade partes 
fundamentais do nosso capital natural - ver adiante. Merecem 
especial atenção as perdas da capacidade de regeneração - as perdas 
de resiliência � de ecossistemas, que estão ocorendo em ritmos 
preocupantes, ritmos estes que tendem a aumentar com o crescimento 
econômico. Essa é uma questão que recebe tratamento bem mais 
detalhado em outros capítulos do presente livro. 
A estimativa de uma relação de Kuznets global e para 
um agregado de países 
A discussão até agora nos faz voltar a atenção novamente 
para os problemas ambientais globais. Merece destaque uma 
tentativa de estimação feita por Jha e Murthy (2003) dos impactos 
agregados - globais � do crescimento econômico recente. Partindo 
da constatação de muitos dos pontos falhos nas estimativas 
econométricas convencionais da curva de Kuznets ambiental, os 
autores realizaram umn esforço de estimar a relação entre a 
Os economistas e as relações entre 
O sistema econômico e o meio ambiente 
"75" 
degradação ambiental causada por umn conjunto de agentes 
de degradação e um indicador de desenvolvimento econômico AIA 
disso. tendo em vista o fato de que a degradação ambiental n¯o co 
circunscreve ao teritório do pais que a gera, mas tende a ter impactoe 
regionais ou globais, os autores focalizaram a atuaç�o conjunta de 
um grupo de 174 países. O indicador de degradaç�o q que empregaram 
na sua Curva Ambiental Global de Kuznets (CAGK) foi um índico 
composto que construiram com base na Análise dos Componentes 
Principais. E o indicador de desenvolvimento usado foi o Indice do 
Desenvolvimento Humano (IDH). 
Os autores deixaram claros os problemas e as limitações de 
sou estudo. decorentes essencialmente da escassez de dados com 
um mínimo de qualidade. Em todo o caso, obtiveram bons resultados 
nas suas regressões com uma relação cúbica entre o indicador de 
desenvolvimento e o índice composto de degradação ambiental., 
Não obstante. puderam estabelecer uma CAGK não com um fomato 
de U" invertido., mas sim com formato de "N°. Ou seja, níveis 
menores do Indice de Desenvolvimento Humano podem dar a 
aparência de uma relação de "U" invertido; mas para níveis mais 
altos de desenvolvimento ocorre uma relação direta, e muito 
acentuada, entre o IDH e o índice de degradação ambiental. Além 
disso. puderam constatar o papel dos atuais países desenvolvidos 
na geraç�o dessa fase ascendente do "N". Conforme ressaltam Jha 
e Murthy (2003, p. 364): 
Uma elevada proporção da degradação ambiental total se originou 
dos países ricos. Apenas 22 países, todos com alto IDH, foram 
responsáveis por mais de 50% da degradação ambiental total. 
"76" 
4. Escala, meio ambiente e análise econômica 
Até meados do século XX os impactos ambientais da escala 
da economia não pareciam constituir. pelo menos em termo 
globais, ameaça ao bem-estar da humanidade. Não se considerava 
que a disponibilidade de recursos naturais de nosso globo pudess 
Charles C. Mueller 
vir a limitar a expansão da economia mundial. Além disso, as emanações e o despejo de resíduos e dejetos no meio ambiente provocavam apenas desconfortos localizados, que o desenvolvimento tecnológico acabava por reverter. Não se considerava, pois, a hipótese de que o meio ambiente pudesse constranger o funcionamento do sistema econômico. Pelo contráio, supunha-se que a natureza estaria sempre disponível para fornecer à 
humanidade dádivas gratuitas. Por essa razão, até recentemente a 
análise econômica virtualmente ignorou o meio ambiente. Ou seja, 
o meio externo em que se insere o sistema econômico não era parte 
da análise. O sistema econômico era tratado como um sistemna 
isolado, autocontido. 
Vários fatores mudaram essa visão, levando ao surgimento 
da disciplina da economia do meio ambiente. Isso começou a 
acontecer de forma sistemática a partir do final da década de 1960. 
quando ficou claro que a escala da economia de alguns países ou 
regiões estava originando impactos preocupantes sobre o m�io 
ambiente. A questão ambiental vinha tomando copo em todo o mundo 
e, desde então, se consolidaram correntes de pensamento econômico, 
focalizando de forma explícita as relações entre o sistema econômico 
eomeio ambiente. Foram aprimoradas e sistematizadas abordagens 
que tratavam dos efeitos do funcionamento da economia em termos 
de extração de recursos naturais � tanto os renováveis como Os 
existentes em quantidades fixas e passou-se a considerar a 
poluição não só como um distúrbio preocupante do meio ambiente, 
mas como elemento causador de efeitos negativos em termos de 
bem-estar social. Certos ramos da análise econômica passaram, 
portanto, a considerar o sistema econômnico em interação com o 
meio ambiente, como ilustrado na Figura 1 no início deste capítulo. 
Apesar dessa evolução, entretanto, está longe de haver 
Consenso sobre um ponto central - oda possibilidade de o meio 
ambiente suportar uma continuada expans�ão da escala do sistema 
econômico. Na verdade, os economistas vêm registrando 
considerável divergência a esse respeito. Em um extremo temos os 
otimistas delirantes, que crêem que, com mercados livres e 
Os economistas e as relações entre 
O sistema econômico e o meio ambiente 
"77 
desenvolvimento tecnológico, suplementados por políticas públicas 
que visem à eficiência econômica, a humanidade não terá 
problemnas em encontrar formas de contornar problemas ambientais 
e continuar crescendo. E no outro extremo estão os pessimista 
exacerbados, para os quais nossO globo está emn uma trajetória 
ireversível no sentido de uma grande catástrofe. 
Evidentemente, encontram-se os que assumem posições entre 
esses dois extremos. Mas o problema é que, considerando as 
posicões extremas na controversla - que congregam uma parte 
expressiva dos economistas -. ambas levam a uma postura 
relativamente passiva em tace da questão ambiental. Para oe 
otimistas delirantes. cumpre continuar como se vem fazendo. com 
alquns ajustes que melhorem a eficiência de mercados, estimulem 
a geração de tecnologias e corrijam as políticas públicas. Para os 
pessimistas exacerbados. uma catástrofe ambiental só seria evitada 
com uma mudança de rumo profunda, radical; e, atualmente, essa 
mudança estaria quase fora do rol das possibilidades. Assim, não 
haveria muito a fazer. O fim trágico estaria decretado, sendo apenas 
questão de tempo. O problema com posturas desse tipo é justamente 
o relativVo imobilisno dele resultante. Mas será que não se pode 
atuar de forma mais efetiva para conduzir a humanidade no sentido 
da sustentabilidade? 
Vamos discutir essa questão - que, incidentalmente, nos 
acompanhará em outras partes deste volume - com base nas 
contribuições de Robert Ayres (1998). Esse autor tem a virtude de, 
teimosamente, recusar-se a aceitar a postura passiva que decorre 
da análise das posições extremas: vem assim trabalhando e se 
esforçando para apontar maneiras concretas de atuação com o 
objetivo de fazer o sistema econômico se ajustar ao objetivo da 
sustentabilidade. 
Para Ayres (1998, p. 13), antes de se ir mais a fundo nessa 
questão, é importante responder claramente a três perguntas 
fundamentais: 
"78" 
1. Será válido considerar, em princípio, que uma continuada 
expansão da escala da economia é compatível, no longo praz com a sustentabilidade ecológica? 
Mueller 
2. Se a resposta for positiva, será que o nosso elenco de 
tecnologias e de instrumentos econômicos é, na prática, consistente com esse objetivo? 
3. Se isso não ocorre, qual será a trajetória política e institu 
cional mais eficaz (menos custosa) para irmos da situação 
atual para a de uma economia global sustentável? 
As duas posições extremas têm respostas diferentes a essas 
perguntas: a visão otimista não tem muita dúvida em responder 
positivamente à primeira questão. Com relação à segunda e à terceira 
perguntas, indicaria que, enbora não se esteja no melhor dos mundos. 
há soluções conhecidas, e não muito complicadas, para levar a 
economia à trajetória sustentável. A visão pessimista também 
responderia com um sim à primeira pergunta, mas responderia com 
um enfático não à segunda. Quanto à terceira pergunta, é em relação 
a ela que seu pessimismo mais se manifestaria. 
E esse o pano de fundo da nossa análise da evoluçãoe do 
estado atual da economia do meio ambiente. Examinaremos não 
apenas a corente de pensamento dominante -a economia ambiental 
neoclássica -, como também a economia ecológica e, notadamente, 
um ramo desta, que denominamos de economia da sobrevivência. 
A economia ambiental neoclássica tem um viés de médio praz0 e 
está mais bem adaptada ao exame de problemas ambientais das 
economias industrializadas, embora também desenvolva análises 
de questões que afetam outros ambientes econômicos. A economia 
da sobrevivência, por sua vez, focaliza, principalmente, o muito 
longo prazo; preocupa-se, principalmente, com as crescentes 
ameaças à sanidade e à estabilidade do meio ambiente, implícitas 
na tendência recente da evolução da economia mundial. 
Os economistas e as relações entre 
O sistema econômico e o meio ambiente 
"79" 
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{ "type": "Book", "isBackSide": false }
{ "type": "Book", "isBackSide": false }
{ "type": "Book", "isBackSide": false }
{ "type": "Book", "isBackSide": false }Sequndo os gue acreditam nessa tendência, n0s aluals paises desenvolvidos, quanto maior a renda per capita, menor os requerimentos de materials unidade de produto. E essa tendência pode ser intensificada pelo desenvolvimento tecnologlco. Esse tópico é discutido, adiante, em mais detalhe. 
CharlesC. Mueller 
indicador da escala da sua produção material no período; P representa a população da economia naquele momento do tempo; e DA, a degradação ambiental que se observa então. A primeira equação -que, na verdade, é uma tautologia - diz que o produto real total em um dado período é igual à renda per capita da economia no período multiplicada por sua população. Em essência, essa 
representação ressalta os dois grandes elementos determinantes da 
escala. Por sua vez, a equação (2) afirma que a degradação ambiental 
é uma função 2 da escala da produção material da economia. 
É importante ressaltar que não há uma relação fixa e estável 
entre Y e DA. Essa relação pode ser diferente entre países e, dentro 
de um mesmo país, pode variar ao longo do tempo. A configuração 
da função 2(Y) depernde da composição da produção e da tecnologia 
adotada na produção. Existem países com estruturas de demanda 
que requerem produtos cuja manufatura envolve mais recursos 
naturais, geram mais poluição e, além disso, produzem mais lixo na 
etapa do consumo. E, para um determinado nível de produto real, 
existem tecnologias de produção que são mais eficientes na conversão 
de materiais básicos (recursos naturais) em produtos e que causam 
menos poluição que outras. Assim, para um país em um dado 
momento, a relação 2(Y) vai depender da composição da produção 
que a sociedade demandae da tecnologia adotada para gerar essa 
produção. 
A figura a seguir ilustra a relação. Ali se vê que a composição 
da produção e o grau de "limpeza" das tecnologias usadas na 
produção determinam a natureza da ligação entre a escala da 
produção e a degradação ambiental. Dependendo desses dois 
elementos, uma mesma escala determina uma maior ou menor 
degradação ambiental. E alterando a composição da produção e 
o grau de "limpeza" das tecnologias usadas, as políticas econômica 
e ambiental podem, até certo ponto, modificar os impactos de uma 
dada escala de produção. 
Tomando a economia do globo terrestre como um todo, não 
é válido afirmar que existe uma relação linear e estável entre a 
degradação ambiental, DA, e a escala Y da produção material. 
Os economistas e as relações entre 
O sistema econômico e o meio ambiente " 33 
Escala da 
economia 
(Y=YP.P) 
Composição 
da produção 
Grau de 
"limpeza" das 
tecnologias 
usadas 
Degradação 
ambiental 
(DA) 
E de se esperar que a LDA cresça com Y, mas é possível que essa 
expansão ocora a taxas decrescentes. Em outros termos se. com o 
crescimento da economia global, houver transtomações na estrutura 
da demanda no sentido de bens que usem menOS recursos naturais 
escassos e podem ser produzidos Com menores emanações, com 
menos poluição: e se. ao mesmo tempo, a produção em expansão 
envolver o emprego crescente de tecnologias que poupam recursos 
naturais escassos. será possivel continuar ampliando a producão 
(e o padrão de vida da população) com incrementos moderados 
na degradação ambiental. Entretanto, também pode ocorrer o 
contrário: a demanda em expansão pode privilegiar produtos 
intensivOS em recursos naturais escassos e as tecnologias podem 
não evoluir no sentido de uma produção com menor degradaç�o 
ambiental por unidade de produto. Nesse caso, os impactos do 
crescimento da produção sobre DA poderão vir a ser dramáticos. 
A tentação éa de afirmar que, dos dois cenários esboçados 
no parágrafo anterior. o primeiro é o mais plausível. Entretanto, ao 
Contrário do que parecem crer alguns economistas, não há nenhuma 
lei, natural ou da economia, que nos garanta que isso aconteça. 
Há mesmo quem suspeite que o contrário vem ocorrendo. 
"34 " 
Não é aleatória, entretanto, a relação entre a escala da 
economia e a degradação ambiental. Os diversos fatores que 
estabelecem essa relação são, em grande parte, determinados pelo 
estilo de desenuolvimento da economia. Certos estilos de 
desenvolvimento fazem com que uma mesma escala produza 
maiores impactos ambientais negativos emn alguns países do que 
em outros. Essa questão é examinada a seguir. 
1.2. Estilos de desenvolvimento e meio ambiente 
O ponto que se deseja enfatizar é que o padr�o de degradaçao 
ambiental de cada país é fortemente afetado por seu estilo de 
Charles C. Mueller 
desenvolvimento.E, em larga medida, o estilo de desenvolvimento de uma sociedade resulta da forma como a renda é apropriada pelos seus diterentes segmentos. Essa apropriação afeta a estrutura da demanda e, portanto, reflete-se na composição da produção levada a efeito para atender a essa demanda. Ao influenciar a configuração da estrutura produtiva do país, a estrutura de demanda é. pois, fator na determinação das características das tecnologias empregadas e das intensidades de uso de fatores de produção como a mão-de-obra eo capital; e também afeta a intensidade e os tipos 
de recursos naturais empregados na produção e a natureza e a 
intensidade de resíduos, rejeitos e poluição que são gerados. 
Uma mnelhor compreensão de como o estilo de desenvol 
vimento se reflete no meio ambiente requer, pois, que se esclareçam 
elementos das caixas da relação, anterior, entre a escala da 
economia e o meio ambiente. Isso é feito na Figura 1, a seguir; 
vemos ali o sistema econômico inserido em um meio externo, com 
o qual interage. Uma vez que a sociedade estabeleça quem demanda 
eo que é demandado (ou seja, que bens e serviços os diferentes 
grupos sOciais requerem), a economia tem como principais funções 
organizar atividades e alocar recursos para a produção dos bens e 
dos serviços demandados. Estabelecem-se, assim, como se produz 
(com que tecnologias), a partir de que recursos básicos se produz e 
onde se localiza a produção. 
Os elementos que influenciam a configuração de quem (quais 
os grupos da sociedade) tem mais ou menos força nos mercados e 
o que é demandado por esses grupos são denominados fatores 
dinâmicos do estilo de desenvolvimento. Esses fatores incluem a 
renda per capita; a distribuição da riqueza, da renda e das 
oportunidades; a estrutura de gostos e preferências dos que têm 
mais renda para sustentar demandas; e os hábitos e preferências 
importados do exterior (importante na atual era da globalização). 
J. Para uma discussão do conceito de "estilo de desenvolvimento" e sua relação com o meio 
ambiente, ver Sunkel, 1980. 
Os economistas e as relações entre 
O Sistema econômico e o meio ambiente 
35 
RECURSOS 
NATURAIS 
COMO 
INSUMOS 
MEIO AMBIENTE 
SISTEMA 
ECONÔMICO 
Resíduos, 
rejeitos, 
degradação 
Produção 
Como se produz 
Onde oorre a produção 
A partir de que se produZ 
FATORES ESTRUTURAIS 
Tecnologias 
Tpos de produtos peradoS 
Fatores espacias 
Estrutura empresana 
-Fatorese nfiuéncias intemacionais 
Reciclagem 
Resíduos, 
rejeitos, 
degradação 
Consumo 
Quem demanda 
O que se demanda 
POLÍTICAS 
FATORES DINAMICOS 
Renda per capita 
de oportunidade 
Distribuição de renda, de riquezas e 
Gostose preferências 
ESTADO 
GERAL 
DO MEIO 
AMBIENTE 
Importação de hábitos de consumo 
Figura 1. Relações entre o 
sistema econômico e o meio ambiente 
Como se pode ver na Figura 1, as características do sistema 
produtivo da economia são determinadas pela natureza dos 
produtos que a sociedade demanda, pelas tecnologias disponíveis, 
pela estrutura ernpresarial, por fatores de ordem espacial e (com 
muito peso na era da globalização) por influências internacionais. 
Todos estes configuram os fatores estruturais do estilo de 
desenvolvimento. 
Se os elementos estruturais do estilo de desenvolvimento são 
afetados pelos fatores dinâmicos, estes também sofremo impacto da 
contormação e das mudanças nos elementos estruturais, num 
complexo processo de influência mútua.É preciso ter em mente que 
do sisterma produtivo emanam não apenas os bens e os serviços 
demandados, mas também a renda, aue é apropriada por diferentes 
seamentos da sociedade. Assim, no longo prazo, mudanças na estrutura produtiva podem alterar a distribuição de renda e da riqueza da economia, alterando seus fatores dinâmicos; e tais mudanças tendem a repercutir sobre a conformação da estrutura produtiva. Observa-se, ademais, que políticas públicas podem afetar tanto os fatores dinâmicos (alterando, por exemplo, a distribuição da renda), como os fatores estruturais (por exemplo, facilitando a importação 
de tecnologias, ou "abrindo a economia para o exterior). 
A Figura 1 representa o sistema econômico em um dado 
momento. Como já se indicou, porém, ao longo do tempo a situação 
tende a se modificar. O funcionamento do sistema produtivo pode, 
por exemplo, alterar a distribuição de renda, afetando os montantes 
demandados e a composição da demanda; e essas mudanças 
requerem ajustes na estrutura produtiva. As políticas públicas 
também atuam ao longo do tempo, provocando alterações nos 
fatores dinâmicos e nos estruturais. Entretanto, exceto em caso de 
alteração radical na estrutura da sociedade (por exemplo, a 
provocada por uma revolução), as mudanças do lado dos fatores 
dinâmicos e dos fatores estruturais tendem a ser lentas, graduais. 
Mas o sistema econômico - considerado um organismo vivo 
e complexo - não atua em isolamento. Ele interage como meio 
ambiente, do qual extrai recursos naturais fundamentais e no qual 
despeja dejetos. Além disso, o sistema econômico funciona num 
espaço geográfico; e suas incursões nesse espaço tendem a alterá 
lo consideravelmente. A economia afeta, pois, o estado geral do 
meio ambiente.O estilo de desenvolvimento tem, assim, muito a 
ver comn os impactos ambientais emanados do sistema econômico. 
Determinando as quantidades e os tipos de bens e serviços a serem 
produzidos e consumidos, bem comno a organização da produção 
e as tecnologias que esta emprega, afeta tanto a extração de 
recursos energéticos e naturais do meio ambiente, como as 
emanações de resíduos para o meio ambiente e as incursões sobre 
O espaço. E, assim, um fator importante na determinação da 
degradação que o sistema econômico impõe sobre o meio 
ambiente. 
Em termos da relação (2), anterior, o estilo de 
desenvolvimentoé fundamental no estabelecimento dos impactos 
Os economistas e as relações entre 
O sistema econômico e o meio ambiente 
"37 " 
de um dado nível de Y (produto real) sobre o meio ambiente, Pasor 
com um mesmo nível de Y emm um dado ano vão exibir imnacto 
ambientais distintos, dependendo dos respectivos estilos de 
desenvolvimento. Diferentes estilos de desenvolvimento geram 
padrões de consumo e estruturas produtivas distintos e, portanto 
impactos ambientais diferentes. A distribuição de renda molda a 
demanda, o padrão de consumo, a estrutura produtiva e natureza 
dos resíduos lançados no meio ambiente. Além disso, determina 
em larga medida. as carências que os segmentos mais pobres da 
sociedade experimentam e que também produzem consideráveis 
impactos ambientais e sociais. 
O meio ambiente. por sua vez, possui certa resiliência, ou 
seja. certa capacidade de se auto-regenerar das agressões do sistema 
econômico. Entretanto. essa resiliência temn limites. Uma agressão 
muito forte pode produzir mudanças drásticas no meio ambiente, 
afetando sua resiliência. Eo comprometimento da resiliência do 
meio ambiente pode provOcar situações imeversíveis, com efeitos 
dramáicOs sobreo próprio funcionamento do sistema econômico. 
Eoque acontece. por exemplo, em ecossistemas que experimentam 
o processo de desertificação causada pela ação humana. 
Os limites da resiliência do meio ambiente são uma questão 
que a economia do meio ambiente deveria priorizar; mas, como 
veremos, a escola de pensarmento dominante -a economia ambiental 
neoclássica - tende a exibir forte otimismo a esse respeito e focaliza, 
quase exclusivamente, aspectos do funcionamento do sistema 
econômico. A economia ecológica-a outra corrente de pensamento 
aqui focalizada - enfatiza esses aspectos. Essa questãoé examinada 
em maior profundidade em outros capítulos deste volume. 
Voltando à relação entre a escala da economia eo meio 
ambiente, vimos que, dado seu estilo de desenvolvimento, a evolução 
da degradação ambiental gerada por uma sociedade vai depender 
da dinâmica dos dois componentes da escala da economia (Y):o 
da sua população (P) e o da sua produção (material) per capita (Y/ P). A seguir, esboçam-se as tendencias recentes das dinâmicas desses dois componentes da escala da economia. 
"38" 
Charles C. Mueller 
2.A dinâmica demográica 
O número de pessoas que, em dado momento no tempo, habitamo globo terrestre é fator fundamental na determinação dos 
impactos da sociedade humana sobre o meio ambiente. Mais 
importantes, porém, são a taxa de crescimento dessa população e 
a distribuição geográfica de tal crescimento. Essas questões são 
examinadas na presente seção; para tal, são focalizadas as 
estimativas e as projeções demográficas da Divisão de População 
das Nacões Unidas, resumidas na Tabela 1, que se segue. 
Os seguintes aspectos da dinâmica demográfica recente, 
revelados pelos dados da tabela, merecem destaque: 
1. Os dados das Nações Unidas mostram que, entre 1950 e 
2000, a população do mundo aumentou cerca de 141%, de 2,5 
bilhões a quase 6,1 bilhões de habitantes. A taxa média de 
Crescimento nesses 50 anos foi de 1,76% ao ano. No período, a 
população mundial apresentou um incremento de quase 3,6 bilhões 
de pessoas. 
2. Olhando para o futuro, a expectativa é a de que, em 
continuação à tendência observada no período 1950-2000, na 
primeira metade do século XXI ocorra, em todo o mundo, acentuada 
e generalizada desaceleração demográfica. Considera-se que a taxa 
de crescimento da população mundial, que foi de 1,76% na segunda 
metade do século XX, em média, e que na virada do milênio já 
havia caído para cerca de 1,2% ao ano, continuará declinando; a 
média esperada para a primeira metade do século XXI é de cerca 
de 0.77% ao ano. 
Não obstante tal desaceleração, no começo do século XXI o 
mundo ainda registrava um incremento de cerca de 77 milhões de 
pessoas por ano; e, segundo as Nações Unidas, a população do 
nosso globo deverá ultrapassar os 8,9 bilhões de pessoas em 2050. 
Se essa projeção se confirmar, ao término da primeira metade do 
século XXI a população mundial terá tido um incremento de quase 
3 bilhões de pessoas em relação à de 2000. 
Os economistas e as relações entre 
O sistema econômico eo meio ambiente "39 
para o mundo, para grupos de paises e para 
grandes áreas geográficas, 1950, 2000 e 2050. 
Taxas médias anuais de crescimento, 1950-2000 e 2000-205o 
MUNDO 
Países desenvovidos 
Países em 
desenvolvimento 
Mais pobres 
Outros 
Grandes regiões 
Átrica 
ÁSia 
Tabela 1. População estimada e projetada 
Améica Latina e Caribe 
Eropa 
Armérica do Norte 
Oceania 
a) Popuação estiade 
b) Popuação projetade 
dois 
(milhões de habitantes) 
1950 
" 40 " 
2.518 
S13 
1.705 
200 
1.505 
221 
1.398 
167 
547 
172 
População 
13 
2000 
6.071 
1.194 
4.877 
668 
4.209 
796 
3.680 
520 
728 
316 
31 
2050 
8.919 
O que explica a iferença na 
1.220 
7.699 
1.675 
6.024 
1.803 
5.222 
768 
632 
448 
46 
Taxa média geométrica 
e crescimento (% ao ano) 
1950-2000 
1,76 
0,77 
2,10 
2,41 
2,06 
2,56 
1,94 
2,27 
0,57 
1,22 
2000-2050 
0,77 
0,04 
0,91 
1,84 
0,72 
1,64 
0,70 
Fonte: Urted Nators, Depamet of Economic and Social Affairs, Population Division, Worid Population 
Prospecs the 2002 Revision. United Nations, fevereiro, 2003 (www.unpopulation.org.) 
0,78 
-0,28 
0,70 
3. Chama a atenção na Tabela 1 a elevada participação da 
população dos países em desenvolvimento (PEDs) na população 
mundial total. Em 1950 a população dos PEDs totalizava1,7 bilh�o 
de habitantes, com participação de 67,7% do total mundial; e em 
2000 esta ultrapassou a casa dos 4.8 bilhões de pessoas, tendo a 
Sua participação atingido os 80,3%. No mesmo período, a 
participação dos países desenyolvidos (PDs) caiu substancialmente, de 32,3% para 19,7%. 
1,74 L 0,79 
evolução demográfica desses 
grupos Sao as respectivas taxas de crescimento médio anual; 
Charles C. Mueller 
enquanto a população dos PDs cresceu a uma taxa média de apenas 
0.7% ao ano em média entre 1950 e 2000, a dos PEDs aumentou 
à elevada taxa média anual de 2,1%. 
No grupo dos PEDs, a população dos países em 
desenvolvimento mais pobres (PDMPs) expandiu-se à elevada taxa 
média anual de 2,4%, passando de 200 milhões de habitantes em 
1950 a 668 milhões em 2000. A taxa de crescimento desse grupo 
mostrou-se bastante elevada, mas o incremento absoluto foi apenas 
de cerca de 448 milhões de pessoas. Mesmo assim, sua participação 
relativa aumentou de 7,9% da populaç�ão mundial em 1950 para 
11,0% em 2000. 
A população do grupo dos outros países em desenvolvimento 
(OPDs) teve um aumento absoluto expressivo, passando de 1,5 
bilhão para 4,2 bilhões de pessoas; a taxa de crescimento de sua 
população foi de 2,06% ao ano em média no período, e sua 
participação relativa na população mundial aumentou de 59,5% 
em 1950 para 69,2% em 2000. 
4. As projeções para o período 2000-2050 indicam que essa 
concentração espacial do crescimento demográfico deverá 
continuar. Observando as projeções verifica-se que: 
A população dos países desenvolvidos permanecerá virtualmente 
constante; a taxa de crescimento médio da população dos PDs 
projetada para o período é de apenas 0,04% ao ano no período. 
" A população dos países em desenvolvimento como um todo, por 
sua vez, deverá crescer à taxa média anual de 0,91%. Pode não 
parecer muito, mas essa taxa deve ser avaliada com base na 
população total desse grupo de países, que é enorme em 2000 
ela totalizava quase 4,9 bilhões de habitantes. Por isso, as 
projeções das Nações Unidas são de um crescimento absoluto 
de mais de 2,8 bilhões de pessoas no período 2000-2050, ou 
mais de 2,3 vezes a população total da China em 2000. 
Merece atenção especial a projeção de crescimento do grupo de 
países em desenvolvimento mais pobres (PDMPs). Vimos que na 
segunda metade do século passado a taxa de crescimento desse 
Os economistas e as relações entre 
o sistema econômico e o meio ambiente 
" 41 " 
grupo de países, de 2,41% ao ano, foi a mais elevada dont 
dos três grupos de países da Tabela 1. Embora em 1950 . 
população ainda fosse diminuta (200 milhões de pessoas ou 7.99% 
do total mundial), esse crescimento Signiticou a adiç�ão de quase 
470 milhões de pessoas, elevando sua participação relativa para 
11.0% do total mundial. Além disso, é importante ressaltar aue 
as projeções das Nações Unidas são de um crescimento da 
população dos PDMPs para o período 2000-2050 a unma taxa 
média anual de 1.84%. quase 2,4 vezes maior do que a taxa 
estimada para o mundo como um todo (0,77% a.a.). Se 
concretizada essa previs�o, em 2050 o grupo dos países mais 
pobres deverá ter uma populaç�o de quase 1,7 bilhão de pessoas, 
elevando sua participação relativa na população mundial para 
18,7%. À primeira vista essa proporção pode não parecer muito 
elevada, mas é importante considerar que esse grupo de países 
continuará a apresentar uma parcela substancial dos miseráveis 
do nosso planeta. 
O grupo dos outrOS países em desenvolvimento (OPDs) deverá. 
segundo as projeções, crescer à taxa moderada de 0,72% ao 
ano no período 2000-2050. Entretanto, é importante ter em vista 
a base extremamente elevada sobre a qual começa a incidir esse 
Crescimento (cerca de 4.2 bilhões de pessoas em 2000). Assim, a 
se cumprirem as projeções das Nações Unidas, teremos um 
incremernto absoluto de um pouco mais de 1,8 bilhão de pessoas 
à sua população ao longo da primeira metade do século XXI. 
Todavia, tratando-se de países nos quais, em média, a pressão 
demográfica sobre sua base de recursos é menos intensa que a 
�o grupo dos mais pobres, é menos grave -embora não deixe de 
Ser preocupante - a situação esperada para os OPDs. 
5. A perspectiva da dinâmica demográfica de grandes grupos 
populacionais, antes registrada, traduz a média do que deve 
acontecer em cada um desses arupos. Mas ela esconde variaçoes 
bastante significativas entre os países que compõem tais grupo5. Seguem-se alguns exemplos: 
" 42" 
Charles C. Mueller 
" Merecem destaque as diferenças entre os dois países mais 
populosos do mundo, ambos pertencentes ao grupo dos OPDs: a 
China e a India. A China, com política drástica de controle da 
natalidade, reduziu substancialmente sua taxa de crescimento 
demográfico para próxima de zero; já a India, cuja população 
recentemente ultrapassou a casa do bilhão de habitantes, vem se 
mostrando mais complacente com a expansão de sua população, 
que vem crescendo a taxas relativamente elevadas. 
Não há um comportamento uniforme entre os países da Asia, 
embora todos registrem nítida tendência de desaceleração 
demográfica. Tanto é que a projeção das Nações Unidas para o 
período 2000-2050 é de uma taxa de crescimento médio de 0,7% 
ao ano para a Asia, bem abaixo do 1,94% ao ano que prevaleceu 
na sequnda metade do século XX. Entretanto, mesmo esse O0,7% 
ao ano preocupa, dada a imensa base de população sobre a 
qual incide essa taxa; em 2000 a Asia já detinha quase 3,7 bilhões 
de habitantes, e a projeção para 2050 é a de um total de mais de 
5,2 bilhões de habitantes para a região, que também inclui 
enormes bolsões de pobreza e miséria. 
" No grupo dos PDs, há um contraste entre países com expectativas 
de declínio demográfico no período, como o Japão e alguns países 
da Europa, e Estados Unidos, que devem apresentar incremento 
demográfico na primeira metade do século XXI. 
" No grupo dos mais pobres (os PDMPs) também existem 
contrastes: enquanto alguns países deste grupo deveráo 
apresentar crescimento muito elevado, outros o terão quase nulo. 
Isso é discutido em mais detalhe no próximo item. 
6. Têm merecido atenção especial os impactos da epidemia 
de Aids sobre a dinâmica demográfica dos países da Africa ao sul 
do Saara - a maioria do grupo dos mais pobres". Só para 
exemplificar, espera-se que o aumento de mortalidade provocada 
pela epidemia nos sete países mais afetados na regiáo, todos 
localizados no sul do continente, faça sua população permanecer 
Os economistas e as relações entre 
O sistema econômico e o meio ambiente " 43 " 
virtualmente inalterada no período 2000-2050 (ela deverá passar 
de 74 milhões de pessoas em 2000 para apenas 78 milhões em 
2050). A expectativa é, inclusive, que países como a Africa do 
Sul. Botswana, Lesoto e Swaziland terão declínios absolutos de 
suas populações. Em contraste, os países do grupo menos afetados 
pela epidemia da Aids deverão apresentar crescimento 
demográfico expressivo, o que explica a taxa de 1,8% ao ang 
empregada nas projeções das Nações Unidas para a primeira 
metade do corrente século. 
São as seguintes as questões que se colocam em face desse 
panorama da dinâmica demográfica mundial: 
Terá nosso globo a capacidade de, por volta de 2050, alimentar 
seus quase 9 bilhões de habitantes? Será possível esperar uma 
melhora na nutrição das camadas mais pobres dessa população, 
particularmente nos países em desenvolvimento? 
Poderão as cidades absorver vários bilhões de pessoas em 
condições adequadas de saúde, educação, habitação, emprego 
e segurança? A expectativa é a de que em 2050 bem mais da 
metade da população mundial esteja residindo em cidades. 
Qual o impacto dessa expansão demográfica sobre o consumo 
de energia e de outros recursos naturais? E sobre a poluição? 
Em outros termos, terá nosso globo condições de absorver o 
estresse causado pelo crescimento econômico necessário para 
atender minimamente às aspirações dos habitantes dos países 
em desenvolvimento?Será que em 2050 o sistema econômico 
global terá condições de oferecer padrões de vida aceitáveis a 
quase 9 bilhões de habitantes sem impor profunda e irreversível 
degradação ambiental? 
Essas questões são focalizadas em maior detalhe adiante. 
Antes examinaremos os elementos da dinâmica demográfica, com o objetivo de estabelecer uma base analítica mínima para Sud avaliação. 
" 44" 
Charles C. Mueller 
2.1. Elementos da dinâmica demográfica 
As projeções do crescimento demográfico de grupos de 
países, examinadas anteriormente, não foram feitas mediante mera 
extrapolação de tendências recentes. Elas se apoiaram, ao invés, 
em hipóteses sobre a evolução de variáveis demográficas básicas 
que afetam a magnitude e a evolução no tempo das taxas de 
crescimento demográfico. A demografia desenvolveu bases teóricas 
que nos permitem ter certas expectativas sobre as mudanças dessas 
variáveis em face de estágios do desenvolvimento de sociedades de 
diferentes tipos. 
O diagrama que se segue apresenta um esboço simplificado 
dos principais fatores que afetam a taxa de crescimento demográfico 
de um dado pas ou região. 
Fecundidade 
Serviços de 
saúde e de 
saneamento 
1 NATALIDADE 
MORTALIDADE 
MIGRAÇÃO 
LÍQUIDA 
(imigraç�o � emigração)) 
Em um dado período, a variação líquida da população de 
um país, ou seja, a variação do "estoque" de pessoas que habitam 
Os economistas e as relações entre 
VARIAÇÃo 
DEMOGRÁFICA 
o país, é determinada pelas entradas e pelas saídas desse "estoque" 
no período. As entradas no "estoque" se originam, de um lado, dos 
nascimentos; e, do outro, da imigração, ou seja, das pessoas de 
tora do país que para ele se deslocam e lá passam a residir. Por sua 
vez, as saídas do "estoque" são determinadas, de um lado, pelos 
que morrem, e do outro, pelos que saem do país, indo residir em 
outros lugares. Os nascimentos - a natalidade - são determinados 
pela taxa de fecundidade (alguns a denominam de taxa de 
tertilidade), que reflete o comportamento reprodutivo do país (ver 
adiante). A mortalidade, por sua vez, tem muito a ver Com as 
O sistema econômico e o meio ambiente " 45" 
condicões de saúde e sanitárias do pais. Já a imigração ea 
emigração que ocorrem em um dado período - gue estä 
representados como migração líquida no diagrama - dependem do 
um complexo de fatores internos e externos (que não será detalhado 
aqui). Segue-se a conceituação dos elementos que compõem a taxa 
de variação demográfica de um país. 
A taxa de fecundidade (de fertilidade). Trata-se do 
número de nascimentos vivOS que, em média, se estima que uma 
mulher de um país ou região tem ao longo de sua vida reprodutiva 
(para fins estatísticos esta se situa entre 15e 49 anos de idade. em 
média). Refere-se a um dado momento do tempo. 
Se considerarmos um dado ano, veremoS que a taxa de 
fecundidade de diversos países tende a ser muito diferente. Eomesmo 
tende a ocorrer para um determinado país ao longo do tempo. Em 
termos de grandes regiões do mundo, por exemplo, no período 1990 
95 a taxa de fertilidade da Europa foi de 1,7 criança por mulher, 
enquanto na Africa essa taxa alcançou 6,0, na Asia 3,2 e na América 
do Sul, 2,9 crianças por mulher em condições de reproduzir.4 
Note-se que, na Europa, a média dos nascimentospor mulher 
nem mesmo repõe a unidade básica responsável por sua ocorência 
(o casal). Não obstante, a população desse continente não vem 
experimentando declínio Como se vê na Tabela 1, no período 
1950-2000 a taxa média anual de crescimento da população 
européia foi de 0,57%. Isso ocorre em razão da imigração, ou seja, 
das pessoas que ingressaram na Europa oriundas de outros 
continentes. Já na Africa ao sul do Saara, a taxa de fertilidade (6,0 
nascimentos por mulher) é muito maior que a necessária para 
substituiro casal; esse é um fator na alta taxa de crescimento de 
Sua população, a despeito da também elevada (e crescente, em 
virtude da epidemia de Aids) taxa de mortalidade do continente. 
Essa é uma das razões por que a dinâmica demográfica dessa regiao 
4. Dados demográficos de World Resources Institute. World Resources - 1994-1995. New Ton Oxford University Press, 1994, cap. 16, Tabela 15.2. 
" 46 " 
Charles C. Mueller 
vem causando preocupação. 
Um outro aspecto a ser ressaltado é que, ao longo do tempo, 
a taxa de fecundidade de um determinado país ou região tende a 
declinar. Na Europa, por exemplo, a taxa de fertilidade caiu de 2.2 
nascimentos vivos por mulher entre 1970 e 1975 para os já 
mencionados 1,7 entre 1990 e 1995. Na Améica do Sul a fertilidade 
declinou entre esses anos, de 4,6 a 2,9 nascimentos por mulher; na 
Ásia o declínio foi de 5,1 a 3,2 nascimentos. A Africa, entretanto, 
apresentou declínio de fecundidade insignificante entre esses 
períodos, de 6,6 para apenas 6,0 nascimentos vivos por mulher. 
A evolução da fecundidade no Brasil. O Brasil repete 
esse mesmo padrão. Os dados da Tabela 2, a seguir, mostram que, 
em um dado ano, a fecundidade é maior nas regiões mais pobres 
que nas mais desenvolvidas; e que, entre 1960 e 2000, a taxa de 
fertilidade declinou acentuadamente enm todas as regiões, e assim 
no país como um todo. 
Grandes regiões 
Brasil 
Norte 
Nordeste 
Sudeste 
Tabela 2. Brasil e grandes regiões 
Taxa de fecundidade, 1960-2000 
Sul 
Centro-Oeste 
1960 
6,3 
8,6 
7,4 
6,3 
5,9 
6,7 
1970 
5,8 
8,2 
Os economistas e as relações entre 
O sistema econômico e o meio ambiente 
7,5 
4,6 
5,4 
6,4 
1980 
4,4 
6,4 
6,2 
3,5 
3.6 
4,5 
1991 2000 
2,9 
4,2 
3,7 
2,4 
2,5 
2,7 
Fonte: IBGE, Censo demográfico 2000 - fecundidade e mortalidade infantil: resultados 
preliminares da amostra. Rio de Janeiro: IBGE, 2002 
2,3 
3,2 
2,6 
2,1 
2,2 
2,2 
Tomando o país como um todo, entre 1960 e 2000 a taxa de 
fecundidade caiu de 6,3 para 2,3 filhos por mulher. Essa redução 
Ocorreu inicialmente de forma lenta, de 6,3 para 4,4 filhos por mulher 
em 1980, mas deste último ano a 1991 a queda se acentuou. Assim 
é que de 1980 a 2000 a taxa de fecundidade passou de 4,4 para 
" 47 " 
2.3 filhos.5E uma evolução semelhante ocoreu em todas as grand 
regiões do país, embora se tenham mantido as diferenças nos nívot. 
da taxa de fertilidade entre elas em cada ano. 
As diferenças entre as regiöes tém a ver com diferencas nos 
seus oraus de desenvolvimento. Como no resto do mundo, para um 
dado ano a fecundidade é maior nas regiðes mais pobres que na 
mais desenvolvidas. Em 1960, por exemplo, as taxas de fecundidade 
das regiões Norte e Nordeste foram de 8,6 e 7,4 filhos por mulher 
por enquanto as das regiões Sudeste e Sul foram de 6,3 e 5.9 filhos 
mulher, respectivamente. Semelhantemente, em 2000 as taxas de 
fecundidade das regiões Nortee Nordeste foram 3,2 e 2,6 filhos por 
mulher. e as das regiões Sudeste e Sul toram de 2,1 e 2,2 filhos 
por mulher. respectivamente. Todas as regiões experimentaram forte 
declínio de fecundidade, mas as diferenças se mantiveram. 
Terão os movimentos observados nas taxas de fecundidade. 
não só no Brasil como em todo o mundo, sido obras do acaso? 
Esta questão é discutida a seguir. 
Determinantes no declnio da taxa de fertilidade. As 
reduções ao longo do tempo da taxa de fecundidade têm sido 
determinadas por fatores como: 
" Aumentos de renda per capita, da urbanização, do acesso à 
contracepção e a prograrnas de planejamento familiar ou de 
saúde reprodutiva e da educação da mulher. Influíram, também, 
fatores religiosos, culturais e tradições. 
" Un fator importante está no fato de que as famílias no mei0 
rural dos países pobres necessitam ter muitos filhos. Isso porque 
é alta a probabilidade de alguns morrerem; o casal quer ter a 
certeza de que um número suficiente de filhos sobreviverá para 
ajudar nos trabalhos do campo e para prover seu sustento na 
velhice. Com desenvolvimento da economia, com a 
urbanização, com a melhoria de padr�o de vida e com o 
desenvolvimento da previdência social issocessa de ocorrer. 
5. Na verdade, segundo estinativas recentes do IBGE, o Brasil provavelmente já tenha atingloo a taxa de fecundidade de 2,1 -a que meramente "repõe"o casal. 
" 48 
Charles C. Mueller 
Ocorrendo essas mudanças, um casal típico passa a desejar menos fillhos; ademais, nas cidades é bem maior o acesso à educação e tendem a ser disponíveis mais informações sobre Como realizar controle da natalidade. 
O momento demográfico. Suponhamos, apenas para raciocinar, que em um país de elevada fecundidade (digamos, de 5,5 nascimentos por mulher, em média), esta subitamente caia para um nível inferiora 2,1 nascimentoS por mulher (o nível de reposição do casal). Suponhamos ainda que não haja movimentos migratórios e que taxa de mortalidade permaneça constante. A demografia demonstra que, apesar dessa drástica redução da taxa de fecundidade, a população do país continuaria a aumentar por algum tempo. Isto porque países de elevada fecundidade geralmente têm populações jovens; ou seja, possuem população com elevada proporção de mulheres em idade reprodutiva. Assim, mesmo que se reduzisse drasticamente a fecundidade, por alqum tempo ainda permaneceria elevada a proporção de mulheres em condições de ter filhos. Mesmo que estas tivessem apenas dois filhos, em média, como são numericamente expressivas, manteriam a população crescendo por um período ainda substancial. Seriam necessárias algumas décadas para que a população fosse "envelhecendo e houvesse um declínio apreciável na proporção de mulheres em idade reprodutiva. Só então o país passaria a experimentar redução expressiva na taxa de crescimento demográfico. Esse fenômeno recebe a denominação "momento demográfico". A taxa de natalidade. A taxa de fecundidade e a 
participação das mulheres em idade de procriar na população determinam a taxa de natalidade de um país ou região. Trata-se da proporção do número de nascidos em um período de tempo em relação à população total. 
E evidente que, com a queda da taxa de fecundidade e com o "envelhecimento' da população, diminui a taxa de natalidade; a 
procriação humana se reduz e, portanto, os nascimentos diminuem. 
Mas, na melhor das circunstâncias, este tende a ser um fenômeno 
gradual, que se desenrola ao longo de muitos anos. 
Os economistas as relações entre 
O sistema econòmico e o meio ambiente " 49 
Taxa de mortalidade. Compreende o número de motos 
anuais de um país ou região, como propoTçao de sua populacâo 
total. Nos últimos 150 anos quase todos OS paises registraram um 
acentuado declínio de suas taxas de mortalidade. Para se tor . 
idéia. na Europa de 1300 a expectativa de vda -o número de anos 
gue, em média. uma pesSOa nascIda em um dado ano num país o 
região pode esperar viver - era de cerca de 35 anos apenas. Co 
anos depois a esperança de vida ainda era de cerca de 50 anos 
um aumento de apenas 15 anos em um século. Mas as subseaüentos 
reducôes de mortalidade fizeram a esperança de vida dos países 
industrializados alcançar 66 anos em 1950e cerca de 75 anos em 
1995.6 Esse forte aumento da esperança de vida tem a ver não só 
com melhorias de padrão de vida, propiciadas por aumentos de 
renda per capita. mas. de forma muito especial, com melhorias 
da nutrição. com avançOS na medicina, com o melhor acesso da 
população a serviços de saúde. com a descoberta de vacinas e 
com a realização de campanhas de vacinação bem-sucedidas, bem 
Como com crescentes investimentos na provisão de água tratada e 
em saneamentO básico. 
Na verdade. avanços da medicinae de práticas na área da 
saúde pública fizeram com que a mortalidade dos países em 
desenvolvimento também caísse rapidamente, levando suas 
esperanças de vida a aumentar mais que a evolução das suas 
rendas per capita permitiria prever cerca de meio século atrás. 
Para se ter uma idéia, se em 1950 a esperança de vida dos paises 
em desenvolvimento ainda era de cerca de 40 anos, em 1995 já 
havia alcançado os 62 anos. 
A taxa de crescimento vegetativo da populaçao. 
Compreende a diferença entre a taxa de natalidade de um pais Ou 
regiào, em um dado ano, e sua taxa de mortalidade nesse mesmo 
ano. Essa taxa deve, evidentemente, ser calculada sem computar a 
migração líquida do país ou da região no ano. Uma migração liqulda positiva (imigração maior que a emigrac�o) faz a taxa de 
6. ldem, ibidem, p. 29. 
"50" 
Charles C. Mueller 
crescimento da população ser mais elevada que a taxa de Crescimento vegetativo. O contrário ocorre em país ou região com migração líquida negativa. 
No período 1990-1995, a taxa média de crescimento demográfico dos países desenvolvidos era de apenas 0,48%, graças a uma combinaç�o de taxas de fecundidade e de mortalidade muito reduzidas. Vimos que nesses países há muito tempo a taxa de 
crescimento vem apresentando gradual, mas contínua, desace 
leração, como resultado de reduções moderadas, mas persistentes, 
nas taxas de fecundidade e de mortalidade, sendo que a 
desaceleração das primeiras foi mais intensa. 
Nos países em desenvolvimento, porém, a taxa de fecundidade 
Só passou a declinar mais acentuadamente nas três últimas décadas 
do século XX. Entretanto, a taxa de mortalidade começou a cair 
sensivelmente já na década de 1950, graças à ampla difus�o da 
vacinação e de programas de saúde pública e de investimentos em 
saneamento básico. Como as taxas de natalidade se mantiveram 
elevadas, as taxas de crescimento demográfico passaram a 
experimentar fortes aumentos. Teve início, naqueles países, o processo 
de transição de elevadas para reduzidas taxas de crescimento - a 
transição demográfica. Esse fenômeno é examinado a seguir. 
A transição demográfica. A evolução no tempo das 
variáveis demográficas que caracterizam a transição demográfica é 
ilustrada na Figura 2, abaixo. Ali vemos uma trajetória típica de 
países em desenvolvimento mais avançados, como o Brasil. 
Observam-se três fases distintas: 
" A fase inicial (até o ano T, no gráfico), em que tanto a taxa de 
natalidade como a de mortalidade são elevadas e o crescimento 
vegetativo da população nãoé muito alto. Em T, começam a ser 
sentidos os efeitos sobre a taxa de mortalidade de programas de 
saúde pública, de vacinação e de saneamento básico. Além disso, 
ocorrem mudanças na economia: a industrialização se intensifica, 
se aprofunda a diversificação produtiva e se acelera a 
urbanização. Em conseqüência, a taxa de mortalidade passa a 
declinar rapidamente. Como a taxa de natalidade experimenta 
Os economistas e as relações entre 
O sistema econômico e o meio ambiente 
"51 " 
vodiucães muito mais lentas, ocore um forte aumento na taxa do 
crescimento vegetativo (a diferença entre as duas taxas). 
"A sequnda fase: esta se inicia em ,e ao seu final terá sid 
completada a transição demográfica. Nesta fase, a taxa do 
fecundidade passa a registrar fortes reduções, levando a um 
contínuo declínio da taxa de natalidade. Em razão do fenômo 
do momento demográfico, inicialmente esse declínio é reduzido. 
isso estaria ocorrendo, por exemplo, no momento T,Com o tempo. 
entretanto, o declínio da taxa de natalidade se acentua. 
aproximando-se outra vez da taxa de mortalidade, que se reduziu 
rapidamente já em T,. Quando isso acontece, a taxa de crescimento 
vegetativo passa a diminuir consideravelmente. Na Figura 2. a 
segunda fase chega ao fim em 1,, quando as duas taxas se 
estabilizam, registrando, quando muito, apenas reduções graduais. 
Observe-se que no momento 1, a taxa de natalidade será apenas 
um pouco maior que a da mortalidade, 0 que taz com que o 
crescimento vegetativo da população seja relativamente reduzido. 
Taxas de 
natalidade e 
de mortalidade 
"52" 
T, 
Natalidade 
Mortalidade 
Figura 2. Transição demográfica 
Tempo (anos) 
Charles C. Mueller 
No Brasil, a segunda fase teve início após a II Guerra Mundial. A taxa de mortalidade experimentou acentuada redução, fazendo a taxa de crescimento vegetativo da população alcançar níveis altíssimos (esta chegou a cerca de 3%em 1950). Vimos que, por volta do fim de meados da década de 1960, começou a ocorer firme queda da taxa de fecundidadee, depois, da taxa de natalidade. 
Em conseqüência, houve contínua redução na taxa de crescimento 
vegetativo, que no período 1991/2000 se situou em apenas 1,63% 
ao ano (conforme dados dos censos demográficos). Ea tendência 
dessa queda é de continuar. Na verdade, a transição demográfica 
no Brasil ainda não se concluiu; projeções do IBGE estimanm que, 
por volta de 2020, a taxa de crescimento da população do país 
atingirá cerca de 0,7% ao ano- menos da mnetade da taxa para 
década de 1990. 
2.2. População, pobreza e meio ambiente 
Por que os padrões de crescimento demográfico dos países 
em desenvolvimento tendem a ser considerados ameaça ao meio 
ambiente? Isso acontece essencialmente porque quase todos os 
países com taxas elevadas de crescimento demográfico são pobres. 
Além disso, alguns destes exibem consideráveis densidades 
demográficas. Nessas circunstâncias, o crescimento demográfico 
implica acentuada expansão na demanda de alimentos, combus 
tíveis e outros bens e serviços, resultando em substancial pressão 
sobre o meio ambiente. Junto como avanço recente da urbanização 
nos países em desenvolvimento, isso também implica a aglomeração 
de segmentos mais pobres da população em espaços limitados, com 
igualmente forte comprometimento do meio ambiente. 
Com efeito, em países densamente povoados o aumento na 
demanda por alimentos geralmente conduz à adoção de processos 
de ocupação, abertura e uso descontrolados de terras, com cultivos 
de zonas inadequadas (encostas de montanha, ecossistemas frágeis), 
resultando em crescente degradação de solos, perda de fertilidade, 
erosão e, no limite, em desertificação. Em muitos desses países 
Os economistas e as relações entre 
0 sistema econÔmico e o meio ambiente "53" 
observa-se, também, a abertura indiscriminada de áreas viroeno 
de habitats e destruição de biodiversidade. Em tese, esses procesSOs 
com rápida eliminação da vegetação nativa e conseqçente alteração 
podem ser controlados, mas, em situaçóes de rápida expansä 
demoaráfica e de acentuada pobreza, isso se torna virtualmenta 
impossível. Como esperar que haja controle da degradacâo d 
natureza com uma populaçao pobre que cresce rapidamente e aue 
depende fundamentalmente de recusos naturais para sobrevivpr? 
Como se mencionou. tem-se verificado nos países em 
desenvolvimento forte tendència à urbanização. Esse fato se torna 
bvio quando se observa que quase todas as cidades de mais de 
10 milhões de habitantes de nosso planeta estão em países em 
desenvolvimento. Acontece que essa crescente concentração de 
população vem ocorrendo em países com baixa capacidade de 
investimento em infra-estrutura social, o que acaba se traduzindo 
em formidáveis impactos ambientais. 
Com efeito. a pobreza, as desigualdades distributivas e a 
concentração de população nas grandes cidades de muitos dos 
países em desenvolvimento vêm ocasionando dois tipos de 
problemas ambientais: a poluição, a congest�o de veículos e a 
degradação resultante dos padrões de consumo de um grupo 
relativamente pequeno de pessoas de renda média e alta, 
favorecidas em termos de acesso aos bens e serviços; e problemas 
ambientais resultantes da carência de serviços básicos para as 
camadas de baixa renda. A congestão e a poluição causadas por 
automóveis e outros veículos, bem comno a degradação gerada pel 
lixo, são geralmente problemas ocasionados pelo primeiro grupo. 
A congestáo humana, a precária situação sanitária, o acúmulo de 
lixo doméstico nas vizinhanças das residências, a degradaç�o de 
teras marginais, juntamente com as doenças e os acidentes oriundos 
dessas condições, constituem as consegüências ambientais dos 
grandes bolsões de pobreza em áreas urbanas com serviços pubilCOs 
inadequados. 
I.Como, por exemplo, a Cidade do México, São Paulo. Rio de Janeiro, Xangai, Beijing, bo Calcutá, Nova Délhi, Manila, Lagos, entre outras. 
"54 " 
Charles C. Mueller 
Nas grandes cidades brasileiras, por exemnplo - mesmo nas 
mais prósperas -, uma proporção considerável da população 
enfrenta condições de vida precárias. A degradação associada à 
pobreza é altamente visível ali. Os problemas ambientais urbanos 
comuns aos países industrializados - a poluição do ar e da água 
são exacerbados por um crescimento demográfico desordenado que 
vem gerando problemas do seguinte tipo: 
" A existência de grandes quantidades de pobres, amontoados em 
moradias inadequadas, situadas geralmente em terrenos ilegais 
ou semilegais, tais como áreas de encostas, áreas sujeitas a 
enchentes ou localidades que apresentam elevados índices de 
poluição. Muitas vezes é apenas em tais lugares que os mais 
pobres têm condições de erguer ou alugar suas moradias; essa 
populaç�o pode se alojar em tais lugares exatamente porque os 
mesmos não possuem estrutura sanitária e outros serviços básicos 
e porque apresentam altos riscos de saúde e de segurança, o que 
os tornam indesejáveis para os segmentos mais prósperos da 
populaç�o urbana. 
Nesses assentamentos, os domicílios são geralmente precários, 
pequenos, e neles moram muitas pessoas; além disso, não 
apresentam isolamento contra ruídos e variações de temperatura, 
são vulneráveisà sujeira, aos ratos e insetos e têm acesso limitado 
a serviços básicos. Muitas vezes a água utilizada pelos moradores 
é de baixa qualidade e de difícil acesso, a coleta do lixo ocore 
raramente e o esgotamento sanitário é deficiente. Ademais, a 
elevada concentração de população propicia o contágio de 
doenças, contágio esse facilitado pelos baixos níveis de resistência 
dos indivíduos, causados por desnutrição e por estados de saúde precários. Por último, os habitantes das aglomerações de baixa renda localizadas próximas a rodovias movimentadas e a zonas 
industriais também enfrentam níveis especialmente elevados de 
poluição atmosférica. 
8. Para maiores detalhes, ver Mueller, 1997, p. 81-101. 
Os economistas e as relações entre 
O sistema econômico e o meio ambiente " 55 " 
" As aglomerações urbanas de baixa renda são frágeis do ponto 
de vista ambiental, e a concentração da população contribui para 
sua degradação. Além do mais, tendem a ser perigosas. Vez por 
outra ocorrem desastres e tragédias; cidades como o Rio da 
Janeiro e São Paulo têm registrado tais calamidades com alquma 
fregüência, com vítimas que, na sua maioría, pertencem àe 
camadas mais pobres da população. 
Sendo ilegais. ou estando em desacordo com o zoneamento 
urbano. não há investimento público e os assentamentos pobres 
apresentam consideráveis deficits de serviços básicos necessários 
a uma vida saudável e adequada. Sua infra-estrutura urbana é 
precária (faltam ruas pavimentadas, áreas verdes e sistemas de 
drenagem). e muitas vezes os assentamentos estão sujeitos a 
alagamentos e infestados com lixo, tornando-se criadouros de 
ratos. insetos e outros transmissores de doenças. E, dada a grande 
concentração de população, é elevada a incidência de acidentes. 
" Tendem a se verificar problemas decorrentes de hábitos 
inadequados de higiene nos assentamentos pobres. Isso acontece 
onde é elevada a concentraç�o de migrantes recém-chegados da 
zona rural. portadores de doenças infecciosas e comn deficiências 
educacionais. A higiene pessoal precária, o ixo doméstico que 
se acumula próximo às casas e a falta de condições sanitárias 
criam condições propícias para a disseminação de doenças, 
algurmas tipicamente rurais.9 
" Finalrmente. os ambientes fisicos e sociais inadequados das ZOnas 
de concentração de populações urbanas de baixa renda são 
propíciosa acidentes domésticos e de rua, à alienação, ao estresse 
e à instabilidade social. Nessas zonas tendem a ser elevados o 
desemprego e o subemprego, assim como os índices de 
criminalidade e violéncia. 
9. De acordo corm a OMS, a intensa migracão do carmpo para a cidade no Brasil tol Um a iso transtormação da esquistoSSormoseern doenca urbana (OMs. 1988. p. 25). Obviamenie e também foi causado pelas condições precárias de saneamento de assentamento P favorecendo o estabelecimento do vetor da esquistossomose nas zonas urbanas. 
" 56 " 
Charles C. Mueller 
O padr�o antes delineado longe está de ser exclusivo do Brasil; 
ele é representativo do que acontece na maioria das grandes 
metrópoles do Terceiro Mundo. Na verdade, em muitas delas as 
condições são ainda mais difíceis que as do nosso país. 
2.3. Perspectivas globais de redução da pobreza 
No final da década de 1980, a Comissão do Meio Ambiente 
e Desenvolvimento das Nações Unidas ressaltou, com grande 
repercussão, o conceito de desenvolvimento sustentável. Para a 
Comissão, o desenvolvimento sustentável requer que se cumpram, 
simultaneamente, as três seguintes condições básicas:10 
"A melhoria, ou pelo menos a manutenção, do bem-estar dos atuais 
habitantes dos países e regiões industrializados. 
Vigoroso combate à pobreza, com acentuada redução nas 
disparidades de renda e riqueza entre os países industrializados 
do Norte e os do Sul, subdesenvolvidos, bem como dentro dos 
países. 
" E a garantia de que tudo isso ocorra sem prejudicar as 
oportunidades das gerações futuras. 
Sem entrar no mérito da viabilidade técnica e política da 
concretização do paradigma do desenvolvimento sustentável, parece 
claro que a questão ambiental está intimamente ligada a esses tres 
elementos da sustentabilidade. E é evidente que a redução da 
pobreza compõe um desses elementos. Quais as perspectivas de 
médio e longo prazos de tal redução? 
Iniciamos com um breve exame do desempenho em termos 
de redução da pobreza no mundo nas últimas décadas. O relatório 
do Banco Mundial de 1992 registra a ocomência de consideráveis 
progressos nesse sentido nos útimos 25 anos. "Nos países em 
10. Ver United Nations, 1987. 
Os economistas e as relações entre 
o sistema econômico e o meio ambiente 
"57" 
desenvolvimento o consumo medio per capita aumentou 70% 
termos reais, a esperança media de vida se elevou de 51a 62 
eataxa de matrícula no ensino primario atingiu 89%." Entretante 
essa evolução não nos permite ser otimistas. Esses ganhos longe 
estiveram de ser generalizados. Na verdade, o progresso e 
concentrou num pequeno numero de paises - os países mais bem 
Sucedidos na promoção do desenvolvimento (dentre os quais algune 
incuem o Brasil): e dentro de cada país, o desenvolvimento atingi, 
principalmente certas regiðes e certas camadas da populacân 
deixando outras nitidamente para trás. Assim é que em 1990 ainda 
havia cerca de 1,2 bilhão de pessoas, OU um quinto da humanidade 
vivendo em condições de miséria. Cerca de metade desse total so 
localizava na Asia, e mais de um quarto desse total, na parcela 
subsaariana do continente africano. Ademais, países em estágio 
de desenvolvimento semelhante ao do Brasil apresentam fortes 
contrastes entre as regiões mais e as menos prósperas. Mas a miséria 
com seus efeitos sobre o meio ambiente- também deixa marcas 
nos países e nas regiões mais prósperos; é o que se observa, por 
exemplo, em certas zonas de cidades como S£o Paulo, com grande 
concentração de famílias vivendo em assentamentos irregulares, 
em condições muito precárias. 
Em suma, uma parcela significativa dos miseráveis do nosso 
globo se concentra nos países e regiões mais pobres, que constituem 
as áreas sobre as quais é maior o impacto da degradação ambiental 
resultante da pobreza. O pior é que são pouco otimistas as 
perspectivas para o futuro. A Tabela 3 apresenta projeções 
aproximadas, para 2030, da renda per capita de grupos de paises 
em estágios semelhantes de desenvolvimento. São estimativas 
grosseiras e que, se fossem refeitas agora, talvez apresentassemn 
resultados até mais dramáicos, dados os problemas recentes da 
economia mundial. Entretanto, fornecem uma indicação das 
magnitudes relevantes e, de forma muito especial, das disparidades 
entre grupos de países e das evolucões previstas para o período. 
11. Ver Banco Mundial, 1992, p. 31. 
"58" 
Charles C. Mueller 
Tabela 3. Projeções aproximadas da renda 
per capita por grupos de países, 1990-2030 
(em US$ de 1990 por habitante/ano) 
Regiões (grupos de países) 
África ao sul do Saara 
Ásia e Pacífico (sem o Japão) 
América Latina e Caribe 
Oriente Médio e Norte da Africa 
Europa Orientale antiga URSS 
Países de renda elevada (0CDE) 
Fonte: Banco Mundial, 1992 
1990 
Os economistas e as relações entre 
480 
O sistema econômico e o meio ambiente 
540 
1.850 
1.750 
4.700 
15.500 
2030 
550 
2.000 
5.700 
4.300 
8.900 
Examinando os dados de 1990 - o ano-base para as 
comparações - chamam a atenção as enormes disparidades entre 
os diversos grupos de países. Num extremo estão os países mais 
ricos (os países da OCDE), com uma renda per capita de cerca de 
US$ 15.500; no outro, temos a Africa ao sul do Saara, com menos 
de US$ 500 por habitante/ano e a Asia e Pacífico com um pouco 
mais que isto. Aparecem em melhor situação a América Latina e o 
Caribe, assim como o Oriente Médio e o Norte da Árica.E ainda 
melhor, mas ainda bem abaixo do extremo superior, é a situação 
dos países da Europa Oriental e da antiga URSS. 
41.200 
Focalizando as projeções para 2030, constata-se que não dá 
para esperar significativa redução nas disparidades. Na verdade, 
projetam-se ganhos muito reduzidos para a Africa ao sul do Saara 
(cuja renda per capita passaria para apenas cerca de US$ 550 por 
habitante/ano), mas estima-se que a renda real per capita dos países 
ricos aumentará mais de 2,6 vezes em relação à de 1990, 
ultrapassando os US$ 41 mil anuais. As projeções indicam que a 
região Asia e Pacífico deverá multiplicar sua renda per capita 
aproximadamente 3,6 vezes, a América Latina e Caribe cerca de 3 
vezes, o Oriente Médio e Norte da Africa quase 2,5 vezes, e o grupo 
"59 
Se as projeções se tornarem realidade, em 2030 alguns grupos de 
composto pela Europa Oriental e a antiga URSS. quase duas vezes. 
países em desenvolvimento apresentarão consideráveis melhorias, 
mas ainda haveria muita miséria, notadamente na Árica 
partes da Asia e do Pacífico. E, Como vimos antes, os países mais 
pobres continuarão a ter populaçóes em rápida expansâo 
multiplicando miseráveis. 
Tudo indica. portanto, que partes do globo terrestre 
continuar�o a exibir níveis crescentes de degradação ambiental 
associada à pobreza. No fim do período, alguns países certamente 
estarão em situação critica, entrentando processos de degradacão 
irreversíveis. E um panorama preocupante para parcelas 
significativas do nosso globo. 
A se concretizarem as projeções, os países de renda média 
provavelmente não terão problemas tão agudos quanto os dos grupos 
a desaceleração de países mais pobres. Entretanto, mesmo nestes a 
do crescimento da população decorrente da transição demográfica 
ainda levará algqum tempo para fazer declinar para níveis bastante 
baixos o crescimento demográfico. E, até que isso ocorra, aumentará 
a degradação ambiental causada pela pressão da população sobre 
a capacidade de suporte do mneio ambiente. Em alguns desse países, 
isso ocorerá de foma preocupante. 
3.O crescimento da produção material e o 
meio ambiente 
Examinaremos aqui a relação entre a riqueza eo meio 
ambiente. Vimos que o outro determinante da escala da economia 
e o produto material por habitante. Para um país, este esta 
relacionado à sua renda real per capita. Da relação Y = YP xP, Se 
tomarmos como dada a populacão de um país, quanto maio lo 
Y/P - quanto mais "próspero ele for -, maior o nível do produto 
real da economia e maior a sua escala. A questao que se coloca 
nesta seção é: de que forma o crescimento do produto afeta o meio 
ambiente? 
" 60 " 
eller 
Ao longo da década de 1970 firmou-se a convicção de que 
existiria uma relação direta e rígida quase inexorável - entre o 
nível de produto e a degradação ambiental. O argumento era o 
seguinte: umavez que os estoques de recursos naturais básicos são 
dados e que a produção material necessariamente implica a 
emissão de dejetos e de poluição, uma expansão continuada da 
atividade econômica não seria sustentável. Isto porque ela iria de 
encontro a duas ordens de limites ambientais: 
" O limite da disponibilidade fixa de recursos naturais. Quanto 
maior o nível do produto -quanto maior a escala da economia � 
maior a absorção de recursos naturais. Com isso, aumentaria a 
escassez destes, que tenderia a se tornar aguda; e 
O limite imposto pela capacidade do meio ambiente de absorver 
emanações de resíduos e dejetos do sistema econômicos. Uma 
elevação muito acentuada da escala da economia ampliaria 
excessivamente essas emanações, levando a degradação 
ambiental a níveis perigosos. 
Hoje esse pessimismo se amainou, mas a questão ainda é 
objeto de controvérsia. Embora reconhecendo que, em certas 
circunstâncias, a ampliação da escala para níveis muito elevados 
pode causar graves impactos ambientais, o relatório de 1992 do 
Banco Mundial, por exemplo, insiste que políticas e instituições 
apropriadas de manejo e ordenamento ambiental - em associação 
ao desenvolvimento tecnológico - podem compatibilizar o 
crescimento com a proteção do meio ambiente. O relatório não 
nega que o crescimento econômico significa usos cada vez maiores 
de materiais e de energia e a produção ascendente de resíduos e 
dejetos, mas argumenta que só seria direta a relação entre o 
crescimento (entre o aumento da escala) e danos ao meio ambiente 
se vivêssemos em um mundo de tecnologias imutáveis e de 
Coeficientes fixOS de usos de recursos naturais e de emissão de 
dejetos na produção. Uma vez que o crescimento econômico pode 
vir acompanhado de mudanças qualitativas e de políticas de 
proteç�o do meio ambiente, o crescimento não necessariamente 
Significaria aumentos preocupantes de degradação ambiental. 
Os economistas e as relações entre 
o sistema econômico e o meio ambiente 
" 61 
3.1. A hipótese do "U" invertido 
o wolatóio de 1992 do Banco Mundial inspirou pesquisas 
sobre uma hipótese especial para a relação entreo desenvolviment 
ea dearadação ambiental. Se tomarmos a renda per capita, Y/P do 
países como um indicador de desenvolvimento e se observarmos, 
em linhas gerais, a relação ao longo do tempo desse indicador o 
certos índices de qualidade ambiental, aparentemente só em naicos 
com baixos níveis de renda per capita, aumentos desta seriam 
acompanhados de uma acentuação na deterioração ambiental. Fm 
países desenvolvidos, a relação que parece existir é inversa - quanto 
maior o desenvolvimento, menores seriam, em termos relativos. as 
magnitudes desses indicadores de degradação. 
Ou seja, surgiu a seguinte hipótese: em um país 
subdesenvolvido cuja renda per capita aumenta consistentemente. 
um emprego de quantidades crescentes de energia e materiais 
conduz a uma degradação ambiental - registrada por certos 
indicadores - cada vez maior. Mas isso aconteceria até certo nível 
de renda per capita. Se a YP desse país continuar a crescer, cedo 
ou tarde será atingido um nível de renda per capita após o qual 
aumentos ulteriores nesse indicador de desenvolvimento trariam 
reduções na magnitude dos indicadores de degradação ambiental. 
Essa é essência da hipótese do "U" invertido ambiental. 
A Figura 3, a seguir, descreve a relação, sugerida pela hipótese, 
entre a renda per capita e um índice de degradação ambiental; essa 
relação também é conhecida como a curva de Kuznets ambiental. " 
Conforme argumenta Borghesi (2002), essa relação resultaria da 
combinaç�o de três efeitos distintos do desenvolvimento sobre a 
qualidade do meio ambiente: 
12. Na decada de 1950, o economista (Prêmio Nobel) Simon Kuznets. apoiado em estudos empi inroduziu a hipótese de que a distribuicão de renda ea renda per capita de uma economia qe desenvolve teriam, ao longo do tempo, uma relacão aue, representada em um grático, ede Uma linha com o formato de "U" invertido. Ou seia. nas fases iniciais do prooeios desenvolvimento, aumentos de renda per capita piorariam a distribuicão de renda; mas er mais avançados do desenvolvimento, aumentos de renda per capita viriam acompanhados de melhora na distribuição de renda. Por analogia, hoje se fala de uma curva de 
"62 
de 
Kuznets ambiental. 
Charles C. Mueller 
O efeito escala. A idéia é que, quanto maior a escala de uma 
economia, mais energia e mais materiais s�o usados em processos 
econômicos, e, assim, maior a emissão de resíduos, de poluição 
pelo sistema econômico. A expansão da produção e do consumo 
de bens e serviços vem acompanhada de aumentos na emissão 
de poluentes, da degradação do meio ambiente. O aumento de 
escala de economia traduzir-se-ia em mais degradação ambiental. 
O efeito composição. Via de regra o aumento da renda per 
capita de um país faz com que vá se modificando a estrutura do 
processo produtivo. Inicialmente, a ênfase é na produção de 
produtos materiais: alimentos, bens de consumo não duráveis e 
duráveis e insumos materiais para as indústrias que geram esses 
produtos. Mas um dos efeitos do desenvolvimento é a redução 
na participação relativa desses bens no Produto Interno Bruto 
(PIB) do país; em contrapartida, há um aumento na participação 
relativa no PIB de serviços. Mas uma característica da produç�o 
de serviços estaria na sua menor intensidade em energia e 
materiais. Ou seja, costuma-se adotar a hipótese de que a 
produção de serviços é mais limpa.13 Se isso é verdade, o efeito 
composição agirá, assim, no sentido inverso ao efeito escala. 
Quanto mais desenvolvido o país, mais "limpa" seria a 
composição de seu PIB. 
O efeito mudança tecnológica. A idéia é que, com o 
desenvolvimento, aumenta a disponibilidade de recursos para a 
pesquisa eo desenvolvimento tecnológico. Com isso, tenderiam 
a ser desenvolvidas formas de substituir tecnologias de produção 
obsoletase mais "sujas" por tecnologias mais "impas". 
O raciocínio por detrás da hipótese do "U" invertido 
ambiental é o de que, nas etapas iniciais de processo de 
desenvolvimento, predomina o efeito escala; há, portanto, uma 
relação direta entre YP e indicadores de degradação ambiental. 
13. Não se deve, entretanto, supor que a produção de serviços não emprega materiaise energia. 
Ela pode usar menos materiais e menos energia que a produção, por exemplo, de uma indústria 
SIderúrgica. Mas a prestação de serviços requer, também, uma base material. 
Os economistas e as relações entre 
O sistema econômico e o meio ambiente 
" 63" 
Mas, com o desenvolvimento, aumentam os pesos dos efeitos 
mudança tecnológica. Mas esses dois efeitos se 
contrapõem ao efeito escala; assim, com o desenvolvimento, cedo 
ou tarde seria atingido um nível de renda per capita em que esses 
dois efeitos estariam mais que compensando o efeito escala. 
Estaríamos, então na fase da curva em que aumentos de Y/P viriam 
acompanhados de redução na magnitude do indicador d 
degradação. 
composição e 
indice de 
degradação 
ambiental 
Renda per capita 
" 64" 
Figura 3. A curva de Kuznets ambiental 
Existe uma visão da evolução do comportamento social que 
levaria os eteitos composição e desenuoluimento tecnológico a mais 
que contrapor o efeito escala. Segundo esta, em um país pobre, o 
Crescimento da produção de bens é prioritário, e os bens de que se 
necessita são bens materiais (alimentos, bens de consumo básiCOS 
em geral); nessas circunstâncias, a conservação do meio ambiente, 
o combate à poluição seriam luxos, já que para consegui-los seria 
necessário travar o crescimento. Contudo, se a economia do pais 
cresce consistentemente a taxas superiores à do seu crescimento 
demográfico, cedo ou tarde sua renda per capita atingirá um nível 
tal que o padrão de vida da população terá se tornado relativamente 
Charles C. Mueller 
confortável. A composição da produção se alteraria em favor dos 
serviços, e haveria desenvolvimento tecnológico. E, gradualmente,

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