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PRINCÍPIOS CONTRATUAIS Princípios Informadores: “ são normas gerais e fundantes que fornecem os pilares de determinado ramo do pensamento científico. Informam, portanto, o cientista. Daí o nome, princípios informadores, porque informam os fundamentos dos quais devemos a partir. São gerais porque se aplicam a uma série de hipótese, e são fundantes, na medida em que deles se pode extrair um conjunto de regras, que deles decorrem por lógica. Assim, do princípio do enriquecimento sem causa, pode-se deduzir a regra de que quem recebe pagamento indevido, por erro do devedor, deverá restituir o que recebeu. Quem assina contrato bancário sem ler, mesmo que não se considere esta modalidade contrato de consumo, não estará obrigado a cumprir cláusula, que, embora não seja abusiva, impõe dever que não faça parte da natureza do contrato, como a obrigação de fazer um seguro de vida, como cláusula de contrato de abertura de conta. Esta regra se pode extrair de dois princípios, o da boa-fé e o da confiança” (César Fiúza). 1) PRINCÍPIO DA AUTONOMIA DA VONTADE Evolução histórica: O princípio da autonomia da vontade ganhou grande relevância com o liberalismo econômico no século XIX, que defendia a ausência de interferência do Estado na economia e, por consequência, no próprio contrato, instrumento jurídico essencial da vida econômica, partindo do pressuposto da igualdade formal dos indivíduos. O CC/1916 foi inspirado no Código Francês e Alemão, que partem da concepção de um contrato em que as partes discutem livremente as suas condições numa situação de igualdade (paritário), mas, com o surgimento e desenvolvimento do capitalismo, a economia de massa fez com que surgissem contratos impessoais e padronizados. Assim a ideia da prevalência absoluta da autonomia da vontade sofreu alterações, derivadas da constatação da existência de desigualdade econômica e social dos contratantes, levando ao desequilíbrio contratual e a modificação das técnicas de contratação (contrato de adesão, em massa etc...), que ocasionou a despersonalização dos contraentes. Com isso se iniciou a crescente intervenção do Estado nos contratos, passando a autonomia da vontade a ser mitigada pelos princípios da supremacia da ordem pública e da função social do contrato. Conceito: Obedecidos os requisitos de validade, as partes são livres para contratarem da melhor forma que lhes aprouverem, sem qualquer interferência do Estado, podendo entabular contratos nominados (o CC estabelece 23 espécies) ou inominados. No caso dos contratos, as regras legais têm caráter supletivo (subsidiário), aplicando-se apenas no caso de silêncio das partes ou quando envolvam matéria de ordem pública (regra cogente). A doutrina costuma mencionar que o princípio da autonomia revela-se em três aspectos essenciais: a) faculdade de realizar ou não o contrato: a pessoa é livre para decidir se deseja ou não realizar um contrato, mas a regra comporta exceções: ex: obrigação das seguradoras em contratarem o seguro obrigatório (DPVAT) em razão de disposição legal. b) faculdade de escolher com quem realizará o contrato: a pessoa tem o poder de escolher com quem deseja realizar o contrato, salvo quando inexiste a possibilidade prática de opção (ex: serviços oferecidos sob o regime de monopólio (correios)). c) faculdade de escolher o conteúdo do contrato: as partes podem seguir os regramentos dos contratos nominados, realizando alterações nestes ou elaborando contratos inominados (atípicos). Exemplo de contratos atípicos: leasing (arrendamento mercantil), franchising (franquia) e factoring (faturização). - A liberdade de contratar propriamente dita é o poder conferido às partes contratantes de suscitar os efeitos que pretendem, sem que a lei imponha seus preceitos indeclinavelmente. Em matéria contratual, as disposições legais têm, de regra, caráter supletivo ou subsidiário, somente se aplicando em caso de silêncio ou carência das vontades particulares. Prevalece, desse modo, a vontade dos contratantes. Permite-se que regulem seus interesses por forma diversa e até oposta à prevista na lei. Não estão adstritas, em suma, a aceitar as disposições peculiares a cada contrato, nem a obedecer às linhas de sua estrutura legal. São livres, em conclusão, de determinar o conteúdo de contrato, nos limites legais imperativos. (Orlando Gomes). João casa-se com Maria mediante a celebração de um pacto antenupcial com separação total de bens. Durante o casamento, Maria ganha uma fortuna na mega sena e pede o divorcio de João, deixando-o na miséria. João ingressa com uma ação judicial visando obter metade do prêmio recebido por Maria. A ação é viável ? Não. Nesse caso, prevalece o princípio da autonomia de vontades, de sorte que João ficará submisso ao regime de bens convencionado 2) PRINCÍPIO DA SUPREMACIA DA ORDEM PÚBLICA E DA FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO (SOCIALIDADE). Conceito e objetivo: é o princípio que determina que a liberdade de contratar não é absoluta ou ilimitada, conforme a vontade das partes, mas condicionada ao respeito a supremacia da ordem pública e dos bons costumes, subordinando o contrato ao interesse coletivo, fazendo prevalecer o interesse público sobre a vontade das partes1 . Como exemplos práticos da aplicação do princípio da função social do contrato, como limitação do princípio da autonomia das vontades, podem ser citados: quando um hospital celebra contrato de prestação de serviços médico-hospitalares com pessoa de 73 anos de idade, não poderá inserir, para exonera-se da obrigação, cláusula que exclui tratamento de doenças crônicas, terminais ou geriátricas (RT 816/207); A readequação de uma carteira de seguro de vida em grupo, após anos de avença, em que estão impostas condições muito onerosas, ofende a função social do contrato. Desvantagem contratual x função social do contrato: “É normal e não contraria a função social que uma das partes obtenha vantagem patrimonial, ainda que com prejuízos de outrem (...). O que o conceito de função social do contrato não admite é a submissão do interesse coletivo pelo interesse privado; luta contratual desleal; o abuso da superioridade de um dos contratantes; a eliminação da equidade que deve cercar o contrato ou a conduta imoral de aproveitar-se do estado de perigo, de sua inexperiência ou da premente necessidade do co-contratante”. (Luiz Guilherme Loureiro). 1 Ordem pública: seria aquela que entende com os interesses essenciais do Estado ou coletividade, ou que fixa, no Direito Privado, as bases jurídicas fundamentais sobre as quais repousa a ordem econômica ou moral de determinada sociedade. (Orlando Gomes). Ordem pública: “A doutrina considera como de ordem pública, dentre outras, as normas que instituem a organização da família (casamento, filiação, adoção, alimentos); as que estabelecem a ordem de vocação hereditária e a sucessão testamentária; as que pautam a organização política e administrativa do Estado, bem como as bases mínimas da organização econômica; os preceitos fundamentais do direito do trabalho; enfim, “as regras que o legislador erige em cânones basilares da estrutura social, política e econômica da Nação. Não admitindo derrogação, compõem leis que proíbem ou ordenam cerceando nos seus limites a liberdade de todos” (Carlos R. Gonçalves) - Função social -Como a lei não define a locução “função social do contrato”, poderá ela ser interpretada de formas diversas, conduzindo à declaração de nulidade de cláusulas ou até mesmo de toda a avença. Por isso, procuramos delinear alguns parâmetros a serem seguidos, pois com essa função social do contrato teremos o justo processo legal substantivo. E nenhuma convenção prevalecerá se contrariar preceitos de ordem pública, tais como estabelecidos por este Código para assegurar a funçãosocial dos contratos (CC, art. 2.035, § único). Assim, os contratantes deverão sujeitar sua vontade: a) às normas de ordem pública, que fixam, atendendo os interesses da coletividade, as bases jurídicas fundamentais em que repousam a ordem econômica e moral da sociedade, uma vez que são atinentes ao estado e à capacidade das pessoas; a organização da família; aos princípios básicos da ordem de vocação hereditária, da sucessão testamentária, do direito de propriedade, da responsabilidade civil, da liberdade e da igualdade do cidadão, da liberdade de trabalho, de comércio e de indústria; e à organização política, administrativa e econômica do Estado; e b) aos bons costumes, relativos a moralidade social, de forma que sejam proibidos, p. ex. contratos que versem sobre exploração de casas de tolerância, corretagem matrimonial, usura, por contrariarem os bons costumes. (Maria H. Diniz). Limitações à autonomia da vontade: “ têm aumentado consideravelmente as limitações à liberdade de contratar, em seus três aspectos. Assim, a faculdade de contratar e não contratar (de contratar se quiser) mostra-se, atualmente, relativa, pois a vida em sociedade obriga as pessoas a realizar, freqüentemente, contratos de toda espécie, como de transporte, de compra de alimentos, de aquisição de jornais, de fornecimento de bens e serviços públicos (energia elétrica, água, telefone etc.) O licenciamento de um veículo, por exemplo, é condicionado à celebração do seguro obrigatório. O Código de Defesa do Consumidor dispõe que o fornecedor de produtos e serviços não pode recusar atendimento às demandas dos consumidores, na medida de suas disponibilidade de estoque, e em conformidade com os usos e costumes (art. 39, II). Também a liberdade de escolha do outro contratante (de contratar com quem quiser) sofre, hoje, restrições, como no caso dos serviços públicos concedidos sob regime de monopólio e nos contratos submetidos ao Código de Defesa do Consumidor. E, em terceiro lugar, o poder de estabelecer o conteúdo do contrato (de contratar sobre o que quiser), sofre também, hodiernamente, limitações determinadas pelas cláusulas gerais, especialmente as que tratam da função social do contrato e da boa- fé objetiva, do Código de Defesa do Consumidor, principalmente, pelas exigências e supremacia da ordem pública”. (Carlos R. Gonçalves). Enunciados do CJF sobre o Princ. Da Função Social dos Contratos: - ENUNCIADO Nº 21: Art. 421: a função social do contrato, prevista no art. 421 do novo Código Civil, constitui cláusula geral a impor a revisão do princípio da relatividade dos efeitos do contrato em relação a terceiros, implicando a tutela externa do crédito. - ENUNCIADO Nº 166: Arts. 421 e 422 ou 113. A frustração do fim do contrato, como hipótese que não se confunde com a impossibilidade da prestação ou com a excessiva onerosidade, tem guarida no Direito brasileiro pela aplicação do art. 421 do Código Civil. - ENUNCIADO Nº 167: Arts. 421 a 424. Com o advento do Código Civil de 2002, houve forte aproximação principiológica entre esse Código e o Código de Defesa do Consumidor, no que respeita à regulação contratual, uma vez que ambos são incorporadores de uma nova teoria geral dos contratos. - ENUNCIADO Nº 360: Art. 421. O princípio da função social dos contratos também pode ter eficácia interna entre as partes contratantes. - ENUNCIADO Nº 361: Arts. 421, 422 e 475. O adimplemento substancial decorre dos princípios gerais contratuais, de modo a fazer preponderar a função social do contrato e o princípio da boa-fé objetiva, balizando a aplicação do art. 475. - ENUNCIADO Nº 431: Art. 421. A violação do art. 421 conduz à invalidade ou à ineficácia do contrato ou de cláusulas contratuais. João, com 50 anos de idade, realiza um seguro de vida com a seguradora X. Fica estabelecida uma cláusula que dispõe que o contrato tem vencimento anual, mas será renovado automaticamente a cada ano, caso as partes não se manifestem em sentido contrário. Depois de quarenta anos de contrato, a seguradora comunica João que não tem mais interesse na renovação do contrato. Nesse caso, João tem direito à renovação ? O cancelamento unilateral da apólice sem justificativa plausível, por deixar o segurado sem qualquer cobertura no momento em que se encontra mais exposto aos sinistros, encontra óbice nos princípios da boa-fé objetiva e da função social do contrato. Assim, é plausível que João busque a manutenção do contrato com fundamento nestes princípios. - Dirigismo contratual - Visando eliminar as distorções ocasionadas pela aplicação absoluta do princípio da autonomia da vontade, surgiram modificações no regime jurídico dos contratos, retratadas pelo surgimento do “dirigismo contratual”, caracterizado pela intervenção do Estado na esfera contratual, através de leis que restringem ou proíbem determinados conteúdos contratuais ou sujeitam a sua eficácia ou conclusão a uma autorização do poder público. Assim, o dirigismo contratual é um dos mecanismos adotados para implementação do Princípio da Função Social do Contrato. - Dirigismo contratual: Resultou da constatação, feita no início do século passado e em face da crescente industrialização, de que a ampla liberdade de contratar provocava desequilíbrios e a exploração do economicamente mais fraco. Em alguns setores fazia-se mister a intervenção do Estado, para restabelecer e assegurar a igualdade dos contratantes. (Carlos R. Gonçalves). - Consiste em regular o conteúdo do contrato por disposições legais imperativas, de modo que as partes, obrigadas a aceitar o que está predisposto na lei, não possam suscitar efeitos jurídicos diversos. Em conseqüência, a vontade deixa de ser autônoma e a liberdade de contratar retrai-se. Não mais há regras supletivas, que as partes observam se coincidem com seus interesses, mas normas imperativas, a cuja obediência não podem furtar-se. (Orlando Gomes). Cláusula geral: “são normas orientadoras sob forma de diretrizes, dirigidas precipuamente ao juiz, vinculando-o, ao mesmo tempo em que lhe dão liberdade para decidir. São elas formulações contidas na lei, de caráter significativamente genérico e abstrato, cujos valores devem ser preenchidos pelo juiz, autorizado para assim agir em decorrência da formulação legal da própria cláusula geral. Quando se insere determinado princípio geral (regra de conduta que não consta do sistema normativo, mas se encontra na consciência dos povos e é seguida universalmente) no direito positivo do país (Constituição, leis, etc.), deixa de ser princípio geral, ou seja, de ser regra de interpretação e passa a caracterizar-se como cláusula geral” (Nélson N. Júnior). Cláusula geral – função social: A função social é considerada uma “cláusula geral”, assim, “o juiz poderá preencher os claros do que significa essa função social, com valores jurídicos, sociais, econômicos e morais. A solução será dada diante do que se apresentar, no caso concreto, ao juiz”. (Nélson N. Júnior). 3) PRINCÍPIO DO CONSENSUALISMO O contrato é considerado perfeito e acabado desde o momento do consenso entre as partes, independentemente da entrega da coisa. Excepcionalmente, algumas espécies de contratos (reais), somente se aperfeiçoam com a entrega da coisa (ex: comodato, mútuo, depósito), enquanto outros carecem de solenidades especiais. 4) PRINCÍPIO DA RELATIVIDADE Os efeitos do contrato somente atingem as partes e, em regra, seus sucessores, não afetando terceiros, salvo exceções (ex: art. 436, convenções coletivas do trabalho). -“Essa visão, no entanto, foi abalada pelo novo Código Civil, que não concebe mais o contrato apenas como instrumento de satisfação de interesses pessoais dos contratantes, mas lhe reconhece uma função social, como já foi dito. Tal fato tem como conseqüência, por exemplo, possibilitar que terceiros que não são propriamentepartes do contrato possam nele influir, em razão de serem direta ou indiretamente por eles atingidos”. (Carlos R. Gonçalves). João aluga uma casa a Pedro, porém, a conta de energia elétrica permanece em nome do locador. Pedro é despejado do imóvel e a energia elétrica é cortada, já que Pedro não pagou as contas. Nesse caso, João poderá pleitear o restabelecimento do serviço e exigir que o débito seja cobrado de Pedro ? A relação contratual é estabelecida entre João e a companhia de energia que, em princípio, não fica submetida ao contrato de locação, logo, se não houve alteração na titularidade da conta de energia, João ficará responsável pelo pagamento, embora possa exercer o direito de regresso contra Pedro. 5) PRINCÍPIO DA OBRIGATORIEDADE (intangibilidade, força vinculante) - (pacta sunt servanda- os pactos devem ser cumpridos) Uma vez realizado validamente, o contrato faz “lei entre as partes”, gerando a imutabilidade (intangibilidade) da avença, que não pode ser alterada de forma unilateral ou mesmo judicial. O fundamento do princípio se refere à necessidade da segurança nos negócios jurídicos. - Por esse princípio, as estipulações feitas no contrato deverão ser fielmente cumpridas, sob pena de execução patrimonial contra o inadimplente. O ato negocial, por ser uma norma jurídica, constituindo lei entre as partes, é intangível, a menos que ambas as partes o rescindam voluntariamente ou haja a escusa por caso fortuito ou força maior (CC, art. 393, parágrafo único), de tal sorte que não se poderá alterar o seu conteúdo, nem mesmo judicialmente. Entretanto, tem-se admitido que a força vinculante dos contratos seja contida pelo magistrado em certas circunstâncias excepcionais ou extraordinárias que impossibilitem a previsão de excessiva onerosidade no cumprimento da prestação (Lei n ° 8.078, arts. 6°, V, e 51, CC, arts. 478, 479 e 480). (Maria H. Diniz). 6) PRINCÍPIO DA ONEROSIDADE EXCESSIVA OU REVISÃO DOS CONTRATOS. Conceito: é o princípio que, mitigando os princípios da Autonomia da Vontade e da Obrigatoriedade, determina que, em casos excepcionais, é possível ao Estado, através do judiciário, realizar a revisão dos contratos para restabelecer o equilíbrio entre as partes. Teoria do rebus sic standibus: consiste basicamente em presumir, nos contratos comutativos, de trato sucessivo e de execução diferida, a existência implícita (não expressa) de uma cláusula, pela qual a obrigatoriedade de seu cumprimento pressupõe a inalterabilidade da situação de fato. Se esta, no entanto, modificar-se em razão de acontecimentos extraordinários (uma guerra p. ex.), que tornem excessivamente oneroso para o devedor o seu adimplemento, poderá este requerer ao juiz que o isente da obrigação, parcial ou totalmente. (Carlos R. Gonçalves). Teoria da imprevisão: A Teoria do rebus sic standibus surgiu na Idade Média, mas ressurgiu após a I Guerra Mundial, que provocou um desequilíbrio nas relações contratuais. No Brasil, Arnoldo Medeiros da Fonseca adaptou e difundiu a teoria, acrescentando como requisito a “imprevisibilidade”. O Código Civil acolheu a possibilidade de resolução ou alteração dos contratos diante da onerosidade excessiva. Assim sendo, não basta que ocorra a onerosidade excessiva para que aconteça a resolução ou alteração do contrato, mas também, que ela seja decorrente de um fato extraordinário e imprevisível. Previsão legal: o princípio foi recepcionado pelos arts. 478, 479, 480, 393, 1.699, 333, II, 476, 567, 495 e .1973 do CC. Modificação do contrato: “ as modificações supervenientes que atingem o contrato podem ensejar pedido judicial de revisão do negócio jurídico, se ainda possível manter o vínculo com modificações nas prestações (art. 317 e 479 do CC), ou de resolução, nos termos dos arts. 317 e 478, a ser apreciado tendo em conta as cláusulas gerais sobre o enriquecimento injusto (art. 884), a boa-fé (art. 422) e o fim social do contrato (art. 421), se houver modificação da base do negócio que signifique quebra insuportável da equivalência ou a frustração definitiva da finalidade contratual objetiva” (Rui Rosado de Aguiar Júnior). Enunciados do CJF sobre o Princ. Da Onerosidade Excessiva ENUNCIADO Nº 175: Art. 478. A menção à imprevisibilidade e à extraordinariedade, insertas no art. 478 do Código Civil, deve ser interpretada não somente em relação ao fato que gere o desequilíbrio, mas também em relação às conseqüências que ele produz. ENUNCIADO Nº 176: Art. 478. Em atenção ao princípio da conservação dos negócios jurídicos, o art. 478 do Código Civil de 2002 deverá conduzir, sempre que possível, à revisão judicial dos contratos e não à resolução contratual. ENUNCIADO Nº 365: Art. 478. A extrema vantagem do art. 478 deve ser interpretada como elemento acidental da alteração de circunstâncias, que comporta a incidência da resolução ou revisão do negócio por onerosidade excessiva, independentemente de sua demonstração plena. ENUNCIADO Nº 366: Art. 478. O fato extraordinário e imprevisível causador de onerosidade excessiva é aquele que não está coberto objetivamente pelos riscos próprios da contratação. ENUNCIADO Nº 439: Art. 478. A revisão do contrato por onerosidade excessiva fundada no Código Civil deve levar em conta a natureza do objeto do contrato. Nas relações empresariais, observar-se-á a sofisticação dos contratantes e a alocação de riscos por eles assumidas com o contrato. ENUNCIADO Nº 440: Art. 478. É possível a revisão ou resolução por excessiva onerosidade em contratos aleatórios, desde que o evento superveniente, extraordinário e imprevisível não se relacione com a álea assumida no contrato. 7) PRINCÍPIO DA BOA-FÉ Conceito: Os contratantes devem atuar segundo a boa-fé objetiva, compreendida como a exigência de comportamento leal dos contratantes desde as tratativas, como durante a formação e conclusão do contrato. Entende-se que a presunção legal é a de que as partes atuam de boa-fé, devendo a má-fé ser provada por quem a alega. Conteúdo: A boa-fé deve ser entendida como um padrão ético de confiança e lealdade, representada por características como: honestidade, integridade, humildade, justiça e respeito ao próximo Boa-fé objetiva e subjetiva: “Cumpre rapidamente relembrar que, enquanto a boa-fé subjetiva está intimamente relacionada com a animosidade do sujeito, a boa-fé objetiva desliga-se completamente do elemento vontade, para focalizar sua atenção na comparação entre a atitude tomada e aquela que se poderia esperar de um homem médio, reticente, do bom pai de família. O eixo da análise é deslocado. Enquanto na primeira modalidade o reconhecimento do animus nocendi é vital, na segunda desimporta”. (Daniel Ustarróz) “Na boa-fé subjetiva ocorre uma falsa impressão de uma ou ambas das partes acerca do objeto, das partes ou das características em geral do negócio jurídico celebrado. Desta forma, a parte é enganada por si própria, em razão ter convicção que algo existe ou acontece, quando a verdade é que ela inexiste ou não ocorre. Neste sentido, vários preceitos do Código Civil de 1916: arts. 221 (efeitos do casamento putativo), 255, parágrafo único (terceiros de boa-fé prejudicados pela anulação de atos praticados por um só dos cônjuges), 490 e 491 (posse de boa-fé), 510 (efeitos da posse), 550, 551 e 618 (aquisição pelo usucapião), 622 (tradição feita a adquirente de boa-fé), 935 (pagamento a credor putativo), 968 (alienação de imóvel indevidamente recebido), 1.072 (cessionário de boa-fé), 1.318 e 1.321 (desconhecimento da revogação ou da extinção do mandato) e 1.507 (portador de boa-fé de título ao portador). Como é de perceber-se, nestes casos a boa-fé está presente por questão de ordem pessoal de quem contrata; sua vontade não foi maculada em razão de fato da outra parte, mas sim por falsa idéia criada no seu intelecto. Além disso,tem-se que a lei não impõe uma forma de proceder às partes, não cria presunções onde não existem, somente define as conseqüências. Por outro lado, a boa-fé objetiva é uma regra de conduta que deve ser observada pelos contratantes. Está relacionada ao modo de proceder com a outra parte, de forma que não se relaciona somente com um dos pólos do contrato e ele mesmo; importa em definir a lisura de uma parte para com a outra, a honestidade das declarações e condições de uma das partes para com as outras (Fernando H. G. Zimmermann). Aplicação: orientar na interpretação do contrato, coibir abusos contratuais. - O princípio da boa-fé entende mais com a interpretação do contrato do que com a estrutura. Por ele se significa que o literal da linguagem não deve prevalecer sobre a intenção manifestada na declaração da vontade, ou dela inferível. Ademais, subentendem-se, no conteúdo do contrato, proposições que decorrem da natureza das obrigações contraídas, ou se impõem por força de uso regular e da própria equidade. Fala-se na existência de condições subentendidas. Admitem-se, enfim, que as partes aceitaram essas conseqüências, que realmente rejeitariam se as tivessem previsto. No caso, pois, a interpretação não se resume a simples apuração da vontade das partes. (Orlando Gomes). Boa-fé nas fase pré e pós-contratual: Embora o CC se refira apenas ao momento de conclusão e execução do contrato, há entendimento que a boa-fé dos contratantes deve existir mesmo antes ou depois destas fases. Enunciados do CJF sobre o Princ. Da Boa-fé Enunciado 25 - Art. 422: o art. 422 do Código Civil não inviabiliza a aplicação, pelo julgador, do princípio da boa-fé nas fases pré e pós-contratual. Enunciado 26 - Art. 422: a cláusula geral contida no art. 422 do novo Código Civil impõe ao juiz interpretar e, quando necessário, suprir e corrigir o contrato segundo a boa-fé objetiva, entendida como a exigência de comportamento leal dos contratantes. Enunciado 27 - Art. 422: na interpretação da cláusula geral da boa-fé, deve-se levar em conta o sistema do Código Civil e as conexões sistemáticas com outros estatutos normativos e fatores metajurídicos. Enunciado Nº 363: Art. 422. Os princípios da probidade e da confiança são de ordem pública, estando a parte lesada somente obrigada a demonstrar a existência da violação. Enunciado Nº 432: Art. 422. Em contratos de financiamento bancário, são abusivas cláusulas contratuais de repasse de custos administrativos (como análise do crédito, abertura de cadastro, emissão de fichas de compensação bancária, etc.), seja por estarem intrinsecamente vinculadas ao exercício da atividade econômica, seja por violarem o princípio da boa-fé objetiva. JURISPRUDÊNCIA – PRINCÍPIOS CONTRATUAIS - Princípio da autonomia das vontades PROTESTO CONTRA ALIENAÇÃO DE BENS (...) Requerido que é, no entanto, casado em regime da separação de bens. Imóvel de propriedade exclusiva da esposa dele. Pacto antenupcial que estabelece a incomunicabilidade de bens e dívidas Prevalência do princípio da autonomia de vontades Inaplicabilidade da súmula 377 do STF ao regime convencional da separação de bens, incidindo apenas no obrigatório. Ausência de interesse na medida mantido Recurso improvido. (TJ-SP - 507962020088260000 SP , Relator: Milton Carvalho, Data de Julgamento: 07/12/2010, 31ª Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 07/12/2010). - Apelação cível. Seguros. Pedido de médico no sentido de que a Unimed fosse obrigada a credenciar o autor como médico cooperativado. Inexistência de qualquer determinação legal ou contratual neste sentido. Apelo não provido. (Apelação Cível Nº 70053624193, Sexta Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Ney Wiedemann Neto, Julgado em 31/07/2013) (TJ-RS , Relator: Ney Wiedemann Neto, Data de Julgamento: 31/07/2013, Sexta Câmara Cível) Princípio da Função Social do Contrato CIVIL - APELAÇÃO - SEGURO DE VIDA E ACIDENTES PESSOAIS - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO - CLÁUSULA CONTRATUAL QUE PREVÊ O CANCELAMENTO DO SEGURO - OFENSA AOS PRINCÍPIOS DA BOA-FÉ OBJETIVA E DA FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO - PROVIMENTO NEGADO. "O cancelamento unilateral e injustificado da longeva apólice de seguro de vida, por deixar o segurado sem qualquer cobertura no momento em que ele se encontra mais exposto aos sinistros, encontra óbice nos princípios da boa-fé objetiva e da função social do contrato, o que autoriza sua manutenção". (TJ-SP - 2215161120088260100 SP , Relator: Artur Marques, Data de Julgamento: 13/12/2010, 35ª Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 21/12/2010) Dirigismo Contratual APELAÇÃO CÍVEL PLANO DE SAÚDE OBRIGAÇÃO DE FAZER Preliminar: cerceamento de defesa pelo julgamento antecipado Inocorrência Vigora o sistema de livre apreciação das provas, e a demonstração de que o tratamento é experimental poderia ter sido feita com prova documental, o que não ocorreu Mérito: a seguradora não pode influir na conveniência e oportunidade do médico ao indicar um tratamento No Brasil todos os contratos de assistência à saúde se regem pela Lei 9.656/98, não havendo liberdade para contratar de forma diversa - Dirigismo contratual - Não ocorrência de qualquer das exclusões previstas na lei Abusividade da negativa Apelo desprovido. (TJ-SP - APL: 9000864072009826 SP 9000864-07.2009.8.26.0506, Relator: José Carlos Ferreira Alves, Data de Julgamento: 24/07/2012, 2ª Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 25/07/2012) Princípio da Relatividade Ação desconstituição de débito. Dívidas de energia elétrica oriundas do período em que o imóvel esteve locado. Proprietário do bem que pretende compelir a concessionária a exigir o pagamento diretamente do locatário. Pedido de restabelecimento do fornecimento. (...) Cobrança da dívida em face do proprietário. É dever do proprietário informar a concessionária acerca da locação do imóvel, requerendo a transferência da titularidade da unidade consumidora. Em decorrência do princípio da relatividade dos contratos, é impossível compelir a concessionária a exigir do locatário o pagamento das dívidas assumidas contratualmente pelo proprietário. Terceiro alheio ao pacto. Precedentes. Recurso parcialmente provido, com observação. (TJ-SP - APL: 111529520068260176 SP 0011152- 95.2006.8.26.0176, Relator: Virgilio de Oliveira Junior, Data de Julgamento: 23/11/2011, 21ª Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 30/11/2011) Princípio da obrigatoriedade COMPETÊNCIA - Alteração - Descabimento - Contrato Particular de Prestação de Serviços de Representação - Cláusula que dispõe sobre a eleição do foro - Abusividade - Não caracterização - Prevalecimento do Princípio da Obrigatoriedade dos Contratos (pacta sunt servanda) - Decisão Reformada - Recurso provido. (TJ-SP - AI: 02546457420128260000 SP 0254645- 74.2012.8.26.0000, Relator: Mendes Pereira, Data de Julgamento: 13/05/2014, 7ª Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 13/05/2014) Princ. Da Onerosidade Excessiva APELAÇÃO. LOCAÇÃO NÃO RESIDENCIAL. SHOPPING CENTER. RENOVATÓRIA. PRELIMINARES. ERRO MATERIAL DA SENTENÇA. CERCEAMENTO DE DEFESA NÃO CONFIGURADO. Ausência de conflito a respeito da renovação. Controvérsia restrita ao valor dos aluguéis. Não se admite a modificação das condições contratuais, salvo em situações excepcionalíssimas ausentes na hipótese. Onerosidade excessiva não reconhecida risco do empreendimento que afasta o reconhecimento da imprevisibilidade a que se referem os artigos 317 e 478 do CC. Riscos assumidos e distribuídos pelas partes. Apuração do valor do aluguel. Produção de prova pericial. Inutilidade e desnecessidade (CPC, art. 130). MULTA. Oposição de embargos protelatórios. Afastamento. Recurso provido em parte. (Apelação nº 0105119- 14.2009.8.26.0008, 29ª Câmara de Direito Privado do TJSP, Rel. Hamid Bdine. j. 06.08.2014). Princípio da boa-fé objetiva é consagrado pelo STJ em todas asáreas do direito2 Publicado por Superior Tribunal de Justiça (extraído pelo JusBrasil) Um dos princípios fundamentais do direito privado é o da boa-fé objetiva, cuja função é estabelecer um padrão ético de conduta para as partes nas relações obrigacionais. No entanto, a boa-fé não se esgota nesse campo do direito, ecoando por todo o ordenamento jurídico. Reconhecer a boa-fé não é tarefa fácil, resume o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Humberto Martins. Para concluir se o sujeito estava ou não de boa-fé, torna-se necessário analisar se o seu comportamento foi leal, ético, ou se havia justificativa amparada no direito, completa o magistrado. Mesmo antes de constar expressamente na legislação brasileira, o princípio da boa-fé objetiva já vinha sendo utilizado amplamente pela jurisprudência, inclusive do STJ, para solução de casos em diversos ramos do direito. A partir do Código de Defesa do Consumidor, em 1990, a boa-fé foi consagrada no sistema de direito privado brasileiro como um dos princípios fundamentais das relações de consumo e como cláusula geral para controle das cláusulas abusivas. No Código Civil de 2002 (CC/02), o princípio da boa-fé está expressamente contemplado. O ministro do STJ Paulo de Tarso Sanseverino, presidente da Terceira Turma, explica que a boa-fé objetiva constitui um modelo de conduta social ou um padrão ético de comportamento, que impõe, concretamente, a todo cidadão que, nas suas relações, atue com honestidade, lealdade e probidade. Ele alerta que não se deve confundi-la com a boa-fé subjetiva, que é o estado de consciência ou a crença do sujeito de estar agindo em conformidade com as normas do ordenamento jurídico. Contradição Ao julgar um recurso especial no ano passado (REsp 1.192.678), a Terceira Turma decidiu que a assinatura irregular escaneada em uma nota promissória, aposta pelo próprio emitente, constitui vício que não pode ser invocado por quem lhe deu causa. O emitente sustentava que, para a validade do título, a assinatura deveria ser de próprio punho, conforme o que determina a legislação. Por maioria, a Turma, seguindo o voto do ministro Sanseverino, aplicou o entendimento segundo o qual a ninguém é lícito fazer valer um direito em contradição com a sua conduta anterior ou posterior interpretada objetivamente, segundo a lei, os bons costumes e a boa-fé. É o chamado venire contra factum 2 http://stj.jusbrasil.com.br/noticias/100399456/principio-da-boa-fe-objetiva-e-consagrado-pelo-stj-em- todas-as-areas-do-direito http://stj.jusbrasil.com.br/noticias/100399456/principio-da-boa-fe-objetiva-e-consagrado-pelo-stj-em-todas-as-areas-do-direito http://stj.jusbrasil.com.br/ http://www.jusbrasil.com/legislacao/92133/c%C3%B3digo-de-defesa-do-consumidor-lei-8078-90 http://www.jusbrasil.com/legislacao/1027027/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02 http://www.jusbrasil.com/legislacao/1027027/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02 proprium (exercício de uma posição jurídica em contradição com o comportamento anterior do exercente). No caso, o próprio devedor confessou ter lançado a assinatura viciada na nota promissória. Por isso, a Turma também invocou a fórmula tu quoque , de modo a impedir que o emitente tivesse êxito mesmo agindo contra a lei e invocando-a depois em seu benefício (aquele que infringiu uma regra de conduta não pode postular que se recrimine em outrem o mesmo comportamento). Seguro de vida O STJ já tem jurisprudência firmada no sentido de que a seguradora não pode extinguir unilateralmente contrato renovado por vários anos. Num dos casos julgados na Terceira Turma em 2011 (REsp 1.105.483), os ministros entenderam que a iniciativa ofende o princípio da boa-fé. A empresa havia proposto à consumidora, que tinha o seguro de vida havia mais de 30 anos, termos mais onerosos para a nova apólice. Em seu voto, o ministro Massami Uyeda, hoje aposentado, concluiu que a pretensão da seguradora de modificar abruptamente as condições do contrato, não renovando o ajuste anterior nas mesmas bases, ofendia os princípios da boa-fé objetiva, da cooperação, da confiança e da lealdade que devem orientar a interpretação dos contratos que regulam as relações de consumo. O julgamento foi ao encontro de precedente da Segunda Seção (REsp 1.073.595), relatado pela ministra Nancy Andrighi, em que os ministros definiram que, se o consumidor contratou ainda jovem o seguro de vida oferecido pela seguradora e o vínculo vem se renovando ano a ano, o segurado tem o direito de se manter dentro dos parâmetros estabelecidos, sob o risco de violação ao princípio da boa-fé objetiva. Neste caso, a Seção estabeleceu que os aumentos necessários para o reequilíbrio da carteira têm de ser estabelecidos de maneira suave e gradual, mediante um cronograma, do qual o segurado tem de ser cientificado previamente. Suicídio Em 2011, a Segunda Seção também definiu que, em caso de suicídio cometido durante os dois primeiros anos de vigência do contrato de seguro de vida, período de carência, a seguradora só estará isenta do pagamento se comprovar que o ato foi premeditado (Ag 1.244.022). De acordo com a tese vencedora, apresentada pelo ministro Luis Felipe Salomão, o novo Código Civil presume em regra a boa-fé, de forma que a má-fé é que deve sempre ser comprovada, ônus que cabe à seguradora. No caso analisado, o contrato de seguro de vida foi firmado menos de dois anos antes do suicídio do segurado, mas não ficou provado que ele assinara o contrato já com a intenção de se matar e deixar a indenização para os beneficiários. Plano de saúde Em outubro do ano passado, a Terceira Turma apontou ofensa ao princípio da boa-fé objetiva quando o plano de saúde reajusta mensalidades em razão da morte do cônjuge titular. No caso, a viúva era pessoa de 77 anos e estava vinculada à seguradora como dependente do marido fazia mais de 25 anos (AREsp 109.387). A seguradora apresentou novo contrato, sob novas condições e novo preço, considerado exorbitante pela idosa. A sentença, que foi restabelecida pelo STJ, considerou evidente que o comportamento da seguradora feriu o CDC e o postulado da boa-fé objetiva, que impõe aos contratantes, desde o aperfeiçoamento do ajuste até sua execução, um comportamento de lealdade recíproca, de modo a que cada um deles contribua efetivamente para o atendimento das legítimas expectativas do outro, sem causar lesão ou impingir desvantagem excessiva. Em precedente (Ag 1.378.703), a Terceira Turma já havia se posicionado no mesmo sentido. Na ocasião, a ministra Nancy Andrighi afirmou que, se uma pessoa contribui para um seguro-saúde por longo tempo, durante toda a sua juventude, colaborando sempre para o equilíbrio da carteira, não é razoável, do ponto de vista jurídico, social e moral, que em idade avançada ela seja tratada como novo consumidor. Tal postura é flagrantemente violadora do princípio da boa-fé objetiva, em seu sentido de proteção à confiança, afirmou. Defeito de fabricação No ano passado, a Quarta Turma definiu que, independentemente de prazo contratual de garantia, a venda de um bem tido por durável (no caso, máquinas agrícolas) com vida útil inferior àquela que legitimamente se esperava, além de configurar defeito de adequação (artigo 18 do Código de Defesa do Consumidor), evidencia quebra da boa-fé objetiva que deve nortear as relações contratuais, sejam de consumo, sejam de direito comum (REsp 984.106). Constitui, em outras palavras, descumprimento do dever de informação e a não realização do próprio objeto do contrato, que era a compra de um bem cujo ciclo vital se esperava, de forma legítima e razoável, fosse mais longo, concluiu o ministro Luis Felipe Salomão, relator do recurso. Bem de família em garantia http://www.jusbrasil.com/legislacao/1027027/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02 http://www.jusbrasil.com/legislacao/1027027/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02http://www.jusbrasil.com/legislacao/91585/c%C3%B3digo-de-defesa-do-consumidor-lei-8078-90 http://www.jusbrasil.com/topicos/10605675/artigo-18-da-lei-n-8078-de-11-de-setembro-de-1990 http://www.jusbrasil.com/legislacao/91585/c%C3%B3digo-de-defesa-do-consumidor-lei-8078-90 http://www.jusbrasil.com/legislacao/91585/c%C3%B3digo-de-defesa-do-consumidor-lei-8078-90 Contraria a boa-fé das relações negociais o livre oferecimento de imóvel, bem de família, como garantia hipotecária. Esta é a jurisprudência do STJ. Num dos precedentes, analisado em 2010, a relatora do recurso, ministra Nancy Andrighi, entendeu que o ato equivalia à entrega de uma garantia que o devedor, desde o início, sabe ser inexequível, esvaziando-a por completo (REsp 1.141.732). Por isso, a Terceira Turma decidiu que o imóvel deve ser descaracterizado como bem de família e deve ser sujeitado à penhora para satisfação da dívida afiançada. No caso, um casal figurava como fiador em contrato de compra e venda de uma papelaria adquirida pelo filho. Os pais garantiram a dívida com a hipoteca do único imóvel que possuíam e que lhes servia de residência. Comportamento sinuoso O princípio da boa-fé objetiva já foi aplicado diversas vezes no STJ no âmbito processual penal. Ao julgar um habeas corpus (HC 143.414) em dezembro passado, a Sexta Turma não reconheceu a ocorrência de nulidade decorrente da utilização de prova emprestada num caso de condenação por tráfico de drogas. Isso porque a própria defesa do réu concordou com o seu aproveitamento em momento anterior. A relatora, ministra Maria Thereza de Assis Moura, lembrou que a relação processual é pautada pelo princípio da boa-fé objetiva e invocou a proibição de comportamentos contraditórios. Tendo em vista o primado em foco, por meio do qual à ordem jurídica repugna a ideia de comportamentos contraditórios, tendo em vista a anuência fornecida pela defesa técnica, seria inadequado, num plano mesmo de eticidade processual, a declaração da nulidade, concluiu a ministra. Em outro caso (HC 206.706), seguindo voto do ministro Og Fernandes, a Sexta Turma reconheceu haver comportamento contraditório do réu que solicitou com insistência um encontro com o juiz e, após ser atendido, fora das dependências do foro, alegou suspeição do magistrado em razão dessa reunião. Mitigar o prejuízo Outro subprincípio da boa-fé objetiva foi invocado pela Sexta Turma para negar um habeas corpus (HC 137.549) o chamado dever de mitigar a perda ( duty to mitigate the loss ). No caso, o réu foi condenado a prestar serviços à comunidade, mas não compareceu ao juízo para dar início ao cumprimento, porque não foi intimado em razão de o endereço informado no boletim de ocorrência estar incorreto. O juízo de execuções ainda tentou a intimação em endereço constante na Receita Federal e na Justiça Eleitoral, sem sucesso. Por isso, a pena foi convertida em privativa de liberdade. A ministra Maria Thereza de Assis Moura, ao analisar a questão, invocou a boa-fé objetiva. Para ela, a defensoria pública deveria ter informado ao juízo de primeiro grau o endereço correto do condenado. A bem do dever anexo de colaboração, que deve empolgar a lealdade entre as partes no processo, cumpriria ao paciente e sua defesa informar ao juízo o endereço, para que a execução pudesse ter o andamento regular, não se perdendo em inúteis diligências para a sua localização, afirmou a magistrada. Boa-fé da administração O princípio da boa-fé permeia a Constituição e está expresso em várias leis regedoras das atividades administrativas, como a Lei de Licitação, Concessões e Permissões de Serviço Público e a do Regime Jurídico Único dos Servidores Públicos. A doutora em direito administrativo Raquel Urbano de Carvalho alerta que, se é certo que se exige boa-fé do cidadão ao se relacionar com a administração, não há dúvida da sua indispensabilidade no tocante ao comportamento do administrador público. E quando impõe obrigações a terceiros, é fundamental que a administração aja com boa-fé, pondere os diferentes interesses e considere a realidade a que se destina sua atuação. Para a doutrinadora, é direito subjetivo público de qualquer cidadão um mínimo de segurança no tocante à confiabilidade ético-social das ações dos agentes estatais. Desistência de ações A julgar mandado de segurança impetrado por um policial federal (MS 13.948), a Terceira Seção decidiu que a conduta da administração atacada no processo ofendeu os princípios da confiança e da boa- fé objetiva. No caso, o ministro da Justiça exigiu a desistência de todas as ações antes de analisar os pedidos de apostilamento do policial e, posteriormente, indeferiu a pretensão ao fundamento de inexistência de provimento judicial que amparasse a nomeação. Conforme destacou o ministro Sebastião Reis Júnior, relator do caso, a atitude impôs prejuízo irrecuperável ao servidor: Apesar da incerteza quanto ao resultado dos requerimentos, o pedido de desistência acarretou a extinção dos processos, com resolução do mérito, inclusive da demanda que lhe garantia a nomeação ao cargo, ceifando qualquer possibilidade de o impetrante ter um julgamento favorável, pois a apelação não havia, ainda, sido julgada. Em seu voto, o ministro ainda destacou doutrina que invoca como justificativa à proteção da boa- fé na esfera pública a impossibilidade de o estado violar a confiança que a própria presunção de legitimidade dos atos administrativos traz, agindo contrafactum proprium . http://www.jusbrasil.com/legislacao/1034025/constitui%C3%A7%C3%A3o-da-republica-federativa-do-brasil-1988 Verbas a título precário A Lei 8.112/90 prevê a reposição ao erário do pagamento feito indevidamente ao servidor público. O STJ tem decidido neste sentido, inclusive, quando os valores são pagos aos servidores em decorrência de decisão judicial de característica precária ou não definitiva (REsp 1.263.480). No julgamento do AREsp 144.877, a Segunda Turma determinou que um servidor público que recebeu valores indevidos, por conta de decisão judicial posteriormente cassada, devolvesse o dinheiro à Fazenda Pública. Essa regra, contudo, tem sido interpretada pela jurisprudência com alguns temperamentos, principalmente em decorrência de princípios como a boa-fé. Sua aplicação, por vezes, tem impedido que valores que foram pagos indevidamente sejam devolvidos. É o caso, por exemplo, do recebimento de verbas de boa-fé, por servidores públicos, por força de interpretação errônea, má aplicação da lei ou erro da administração. Objetivamente, a fruição do que foi recebido indevidamente está acobertada pela boa-fé, que, por sua vez, é consequência da legítima confiança de que os valores integravam o patrimônio do beneficiário, esclareceu o ministro Humberto Martins, no mesmo julgamento http://www.jusbrasil.com/legislacao/97937/regime-jur%C3%ADdico-dos-servidores-publicos-civis-da-uni%C3%A3o-lei-8112-90 PRINCÍPIOS CONTRATUAIS Princípio da boa-fé objetiva é consagrado pelo STJ em todas as áreas do direito