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Princípios contratuais

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PRINCÍPIOS CONTRATUAIS 
 
Princípios Informadores: “ são normas gerais e fundantes 
que fornecem os pilares de determinado ramo do pensamento 
científico. Informam, portanto, o cientista. Daí o nome, princípios 
informadores, porque informam os fundamentos dos quais devemos 
a partir. São gerais porque se aplicam a uma série de hipótese, e são 
fundantes, na medida em que deles se pode extrair um conjunto de 
regras, que deles decorrem por lógica. Assim, do princípio do 
enriquecimento sem causa, pode-se deduzir a regra de que quem 
recebe pagamento indevido, por erro do devedor, deverá restituir o 
que recebeu. Quem assina contrato bancário sem ler, mesmo que 
não se considere esta modalidade contrato de consumo, não estará 
obrigado a cumprir cláusula, que, embora não seja abusiva, impõe 
dever que não faça parte da natureza do contrato, como a obrigação 
de fazer um seguro de vida, como cláusula de contrato de abertura 
de conta. Esta regra se pode extrair de dois princípios, o da boa-fé e 
o da confiança” (César Fiúza). 
 
1) PRINCÍPIO DA AUTONOMIA DA VONTADE 
 
Evolução histórica: O princípio da autonomia da vontade 
ganhou grande relevância com o liberalismo econômico no século 
XIX, que defendia a ausência de interferência do Estado na 
economia e, por consequência, no próprio contrato, instrumento 
jurídico essencial da vida econômica, partindo do pressuposto da 
igualdade formal dos indivíduos. 
O CC/1916 foi inspirado no Código Francês e Alemão, que 
partem da concepção de um contrato em que as partes discutem 
livremente as suas condições numa situação de igualdade 
(paritário), mas, com o surgimento e desenvolvimento do 
capitalismo, a economia de massa fez com que surgissem contratos 
impessoais e padronizados. 
Assim a ideia da prevalência absoluta da autonomia da vontade 
sofreu alterações, derivadas da constatação da existência de 
desigualdade econômica e social dos contratantes, levando ao 
desequilíbrio contratual e a modificação das técnicas de contratação 
(contrato de adesão, em massa etc...), que ocasionou a 
despersonalização dos contraentes. 
Com isso se iniciou a crescente intervenção do Estado nos 
contratos, passando a autonomia da vontade a ser mitigada pelos 
princípios da supremacia da ordem pública e da função social do 
contrato. 
Conceito: Obedecidos os requisitos de validade, as partes são 
livres para contratarem da melhor forma que lhes aprouverem, sem 
qualquer interferência do Estado, podendo entabular contratos 
nominados (o CC estabelece 23 espécies) ou inominados. 
No caso dos contratos, as regras legais têm caráter supletivo 
(subsidiário), aplicando-se apenas no caso de silêncio das partes ou 
quando envolvam matéria de ordem pública (regra cogente). A 
doutrina costuma mencionar que o princípio da autonomia revela-se 
em três aspectos essenciais: 
 
a) faculdade de realizar ou não o contrato: a pessoa é livre para 
decidir se deseja ou não realizar um contrato, mas a regra comporta 
exceções: ex: obrigação das seguradoras em contratarem o seguro 
obrigatório (DPVAT) em razão de disposição legal. 
 
b) faculdade de escolher com quem realizará o contrato: a 
pessoa tem o poder de escolher com quem deseja realizar o contrato, 
salvo quando inexiste a possibilidade prática de opção (ex: serviços 
oferecidos sob o regime de monopólio (correios)). 
 
c) faculdade de escolher o conteúdo do contrato: as partes 
podem seguir os regramentos dos contratos nominados, realizando 
alterações nestes ou elaborando contratos inominados (atípicos). 
Exemplo de contratos atípicos: leasing (arrendamento mercantil), 
franchising (franquia) e factoring (faturização). 
 
- A liberdade de contratar propriamente dita é o poder 
conferido às partes contratantes de suscitar os efeitos que 
pretendem, sem que a lei imponha seus preceitos 
indeclinavelmente. Em matéria contratual, as disposições legais 
têm, de regra, caráter supletivo ou subsidiário, somente se 
aplicando em caso de silêncio ou carência das vontades 
particulares. Prevalece, desse modo, a vontade dos contratantes. 
Permite-se que regulem seus interesses por forma diversa e até 
oposta à prevista na lei. Não estão adstritas, em suma, a aceitar as 
disposições peculiares a cada contrato, nem a obedecer às linhas de 
sua estrutura legal. São livres, em conclusão, de determinar o 
conteúdo de contrato, nos limites legais imperativos. (Orlando 
Gomes). 
 
 
 
João casa-se com Maria mediante a celebração de um pacto 
antenupcial com separação total de bens. Durante o casamento, 
Maria ganha uma fortuna na mega sena e pede o divorcio de João, 
deixando-o na miséria. João ingressa com uma ação judicial 
visando obter metade do prêmio recebido por Maria. A ação é 
viável ? Não. Nesse caso, prevalece o princípio da autonomia de 
vontades, de sorte que João ficará submisso ao regime de bens 
convencionado 
 
2) PRINCÍPIO DA SUPREMACIA DA ORDEM PÚBLICA 
E DA FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO (SOCIALIDADE). 
 
Conceito e objetivo: é o princípio que determina que a 
liberdade de contratar não é absoluta ou ilimitada, conforme a 
vontade das partes, mas condicionada ao respeito a supremacia da 
ordem pública e dos bons costumes, subordinando o contrato ao 
interesse coletivo, fazendo prevalecer o interesse público sobre a 
vontade das partes1 . 
Como exemplos práticos da aplicação do princípio da função 
social do contrato, como limitação do princípio da autonomia das 
vontades, podem ser citados: quando um hospital celebra contrato 
de prestação de serviços médico-hospitalares com pessoa de 73 anos 
de idade, não poderá inserir, para exonera-se da obrigação, cláusula 
que exclui tratamento de doenças crônicas, terminais ou geriátricas 
(RT 816/207); A readequação de uma carteira de seguro de vida em 
grupo, após anos de avença, em que estão impostas condições muito 
onerosas, ofende a função social do contrato. 
 
Desvantagem contratual x função social do contrato: “É 
normal e não contraria a função social que uma das partes obtenha 
vantagem patrimonial, ainda que com prejuízos de outrem (...). O 
que o conceito de função social do contrato não admite é a 
submissão do interesse coletivo pelo interesse privado; luta 
contratual desleal; o abuso da superioridade de um dos contratantes; 
a eliminação da equidade que deve cercar o contrato ou a conduta 
imoral de aproveitar-se do estado de perigo, de sua inexperiência ou 
da premente necessidade do co-contratante”. (Luiz Guilherme 
Loureiro). 
 
 
 
1 Ordem pública: seria aquela que entende com os interesses essenciais do Estado ou coletividade, ou 
que fixa, no Direito Privado, as bases jurídicas fundamentais sobre as quais repousa a ordem econômica 
ou moral de determinada sociedade. (Orlando Gomes). 
 
Ordem pública: “A doutrina considera como de ordem 
pública, dentre outras, as normas que instituem a organização da 
família (casamento, filiação, adoção, alimentos); as que estabelecem 
a ordem de vocação hereditária e a sucessão testamentária; as que 
pautam a organização política e administrativa do Estado, bem como 
as bases mínimas da organização econômica; os preceitos 
fundamentais do direito do trabalho; enfim, “as regras que o 
legislador erige em cânones basilares da estrutura social, política e 
econômica da Nação. Não admitindo derrogação, compõem leis que 
proíbem ou ordenam cerceando nos seus limites a liberdade de 
todos” (Carlos R. Gonçalves) 
 
- Função social -Como a lei não define a locução “função 
social do contrato”, poderá ela ser interpretada de formas 
diversas, conduzindo à declaração de nulidade de cláusulas ou até 
mesmo de toda a avença. Por isso, procuramos delinear alguns 
parâmetros a serem seguidos, pois com essa função social do 
contrato teremos o justo processo legal substantivo. E nenhuma 
convenção prevalecerá se contrariar preceitos de ordem pública, 
tais como estabelecidos por este Código para assegurar a funçãosocial dos contratos (CC, art. 2.035, § único). Assim, os 
contratantes deverão sujeitar sua vontade: a) às normas de 
ordem pública, que fixam, atendendo os interesses da coletividade, 
as bases jurídicas fundamentais em que repousam a ordem 
econômica e moral da sociedade, uma vez que são atinentes ao 
estado e à capacidade das pessoas; a organização da família; aos 
princípios básicos da ordem de vocação hereditária, da sucessão 
testamentária, do direito de propriedade, da responsabilidade 
civil, da liberdade e da igualdade do cidadão, da liberdade de 
trabalho, de comércio e de indústria; e à organização política, 
administrativa e econômica do Estado; e b) aos bons costumes, 
relativos a moralidade social, de forma que sejam proibidos, p. ex. 
contratos que versem sobre exploração de casas de tolerância, 
corretagem matrimonial, usura, por contrariarem os bons 
costumes. (Maria H. Diniz). 
 
Limitações à autonomia da vontade: “ têm aumentado 
consideravelmente as limitações à liberdade de contratar, em seus 
três aspectos. Assim, a faculdade de contratar e não contratar (de 
contratar se quiser) mostra-se, atualmente, relativa, pois a vida em 
sociedade obriga as pessoas a realizar, freqüentemente, contratos 
de toda espécie, como de transporte, de compra de alimentos, de 
aquisição de jornais, de fornecimento de bens e serviços públicos 
(energia elétrica, água, telefone etc.) O licenciamento de um 
veículo, por exemplo, é condicionado à celebração do seguro 
obrigatório. O Código de Defesa do Consumidor dispõe que o 
fornecedor de produtos e serviços não pode recusar atendimento às 
demandas dos consumidores, na medida de suas disponibilidade 
de estoque, e em conformidade com os usos e costumes (art. 39, II). 
Também a liberdade de escolha do outro contratante (de 
contratar com quem quiser) sofre, hoje, restrições, como no caso 
dos serviços públicos concedidos sob regime de monopólio e nos 
contratos submetidos ao Código de Defesa do Consumidor. 
E, em terceiro lugar, o poder de estabelecer o conteúdo do 
contrato (de contratar sobre o que quiser), sofre também, 
hodiernamente, limitações determinadas pelas cláusulas gerais, 
especialmente as que tratam da função social do contrato e da boa-
fé objetiva, do Código de Defesa do Consumidor, principalmente, 
pelas exigências e supremacia da ordem pública”. (Carlos R. 
Gonçalves). 
 
Enunciados do CJF sobre o Princ. Da Função Social dos 
Contratos: 
 
- ENUNCIADO Nº 21: Art. 421: a função social do contrato, prevista no 
art. 421 do novo Código Civil, constitui cláusula geral a impor a revisão do 
princípio da relatividade dos efeitos do contrato em relação a terceiros, 
implicando a tutela externa do crédito. 
 
- ENUNCIADO Nº 166: Arts. 421 e 422 ou 113. A frustração do fim do 
contrato, como hipótese que não se confunde com a impossibilidade da 
prestação ou com a excessiva onerosidade, tem guarida no Direito brasileiro 
pela aplicação do art. 421 do Código Civil. 
 
- ENUNCIADO Nº 167: Arts. 421 a 424. Com o advento do Código Civil 
de 2002, houve forte aproximação principiológica entre esse Código e o 
Código de Defesa do Consumidor, no que respeita à regulação contratual, 
uma vez que ambos são incorporadores de uma nova teoria geral dos 
contratos. 
 
- ENUNCIADO Nº 360: Art. 421. O princípio da função social dos 
contratos também pode ter eficácia interna entre as partes contratantes. 
 
- ENUNCIADO Nº 361: Arts. 421, 422 e 475. O adimplemento 
substancial decorre dos princípios gerais contratuais, de modo a fazer 
preponderar a função social do contrato e o princípio da boa-fé objetiva, 
balizando a aplicação do art. 475. 
 
- ENUNCIADO Nº 431: Art. 421. A violação do art. 421 conduz à 
invalidade ou à ineficácia do contrato ou de cláusulas contratuais. 
João, com 50 anos de idade, realiza um seguro de vida com a 
seguradora X. Fica estabelecida uma cláusula que dispõe que o 
contrato tem vencimento anual, mas será renovado 
automaticamente a cada ano, caso as partes não se manifestem em 
sentido contrário. Depois de quarenta anos de contrato, a 
seguradora comunica João que não tem mais interesse na 
renovação do contrato. Nesse caso, João tem direito à renovação ? 
O cancelamento unilateral da apólice sem justificativa 
plausível, por deixar o segurado sem qualquer cobertura no 
momento em que se encontra mais exposto aos sinistros, encontra 
óbice nos princípios da boa-fé objetiva e da função social do 
contrato. Assim, é plausível que João busque a manutenção do 
contrato com fundamento nestes princípios. 
 
- Dirigismo contratual - Visando eliminar as distorções 
ocasionadas pela aplicação absoluta do princípio da autonomia da 
vontade, surgiram modificações no regime jurídico dos contratos, 
retratadas pelo surgimento do “dirigismo contratual”, caracterizado 
pela intervenção do Estado na esfera contratual, através de leis que 
restringem ou proíbem determinados conteúdos contratuais ou 
sujeitam a sua eficácia ou conclusão a uma autorização do poder 
público. Assim, o dirigismo contratual é um dos mecanismos 
adotados para implementação do Princípio da Função Social do 
Contrato. 
 
- Dirigismo contratual: Resultou da constatação, feita no 
início do século passado e em face da crescente industrialização, de 
que a ampla liberdade de contratar provocava desequilíbrios e a 
exploração do economicamente mais fraco. Em alguns setores 
fazia-se mister a intervenção do Estado, para restabelecer e 
assegurar a igualdade dos contratantes. (Carlos R. Gonçalves). 
 
 - Consiste em regular o conteúdo do contrato por disposições 
legais imperativas, de modo que as partes, obrigadas a aceitar o 
que está predisposto na lei, não possam suscitar efeitos jurídicos 
diversos. Em conseqüência, a vontade deixa de ser autônoma e a 
liberdade de contratar retrai-se. Não mais há regras supletivas, 
que as partes observam se coincidem com seus interesses, mas 
normas imperativas, a cuja obediência não podem furtar-se. 
(Orlando Gomes). 
 
 
Cláusula geral: “são normas orientadoras sob forma de 
diretrizes, dirigidas precipuamente ao juiz, vinculando-o, ao mesmo 
tempo em que lhe dão liberdade para decidir. São elas formulações 
contidas na lei, de caráter significativamente genérico e abstrato, 
cujos valores devem ser preenchidos pelo juiz, autorizado para 
assim agir em decorrência da formulação legal da própria cláusula 
geral. Quando se insere determinado princípio geral (regra de 
conduta que não consta do sistema normativo, mas se encontra na 
consciência dos povos e é seguida universalmente) no direito 
positivo do país (Constituição, leis, etc.), deixa de ser princípio 
geral, ou seja, de ser regra de interpretação e passa a caracterizar-se 
como cláusula geral” (Nélson N. Júnior). 
 
Cláusula geral – função social: A função social é considerada 
uma “cláusula geral”, assim, “o juiz poderá preencher os claros do 
que significa essa função social, com valores jurídicos, sociais, 
econômicos e morais. A solução será dada diante do que se 
apresentar, no caso concreto, ao juiz”. (Nélson N. Júnior). 
 
3) PRINCÍPIO DO CONSENSUALISMO 
O contrato é considerado perfeito e acabado desde o momento 
do consenso entre as partes, independentemente da entrega da 
coisa. Excepcionalmente, algumas espécies de contratos (reais), 
somente se aperfeiçoam com a entrega da coisa (ex: comodato, 
mútuo, depósito), enquanto outros carecem de solenidades 
especiais. 
 
4) PRINCÍPIO DA RELATIVIDADE 
Os efeitos do contrato somente atingem as partes e, em regra, 
seus sucessores, não afetando terceiros, salvo exceções (ex: art. 436, 
convenções coletivas do trabalho). 
 
-“Essa visão, no entanto, foi abalada pelo novo Código Civil, que 
não concebe mais o contrato apenas como instrumento de satisfação 
de interesses pessoais dos contratantes, mas lhe reconhece uma 
função social, como já foi dito. Tal fato tem como conseqüência, por 
exemplo, possibilitar que terceiros que não são propriamentepartes 
do contrato possam nele influir, em razão de serem direta ou 
indiretamente por eles atingidos”. (Carlos R. Gonçalves). 
 
 
 
João aluga uma casa a Pedro, porém, a conta de energia elétrica 
permanece em nome do locador. Pedro é despejado do imóvel e a 
energia elétrica é cortada, já que Pedro não pagou as contas. Nesse 
caso, João poderá pleitear o restabelecimento do serviço e exigir que 
o débito seja cobrado de Pedro ? 
A relação contratual é estabelecida entre João e a companhia de 
energia que, em princípio, não fica submetida ao contrato de 
locação, logo, se não houve alteração na titularidade da conta de 
energia, João ficará responsável pelo pagamento, embora possa 
exercer o direito de regresso contra Pedro. 
 
5) PRINCÍPIO DA OBRIGATORIEDADE 
(intangibilidade, força vinculante) - (pacta sunt servanda- os 
pactos devem ser cumpridos) 
 
Uma vez realizado validamente, o contrato faz “lei entre as 
partes”, gerando a imutabilidade (intangibilidade) da avença, que 
não pode ser alterada de forma unilateral ou mesmo judicial. O 
fundamento do princípio se refere à necessidade da segurança nos 
negócios jurídicos. 
 
- Por esse princípio, as estipulações feitas no contrato deverão 
ser fielmente cumpridas, sob pena de execução patrimonial contra 
o inadimplente. O ato negocial, por ser uma norma jurídica, 
constituindo lei entre as partes, é intangível, a menos que ambas as 
partes o rescindam voluntariamente ou haja a escusa por caso 
fortuito ou força maior (CC, art. 393, parágrafo único), de tal sorte 
que não se poderá alterar o seu conteúdo, nem mesmo 
judicialmente. Entretanto, tem-se admitido que a força vinculante 
dos contratos seja contida pelo magistrado em certas 
circunstâncias excepcionais ou extraordinárias que impossibilitem 
a previsão de excessiva onerosidade no cumprimento da prestação 
(Lei n ° 8.078, arts. 6°, V, e 51, CC, arts. 478, 479 e 480). (Maria H. 
Diniz). 
 
6) PRINCÍPIO DA ONEROSIDADE EXCESSIVA OU 
REVISÃO DOS CONTRATOS. 
 
Conceito: é o princípio que, mitigando os princípios da 
Autonomia da Vontade e da Obrigatoriedade, determina que, em 
casos excepcionais, é possível ao Estado, através do judiciário, 
realizar a revisão dos contratos para restabelecer o equilíbrio entre 
as partes. 
Teoria do rebus sic standibus: consiste basicamente em 
presumir, nos contratos comutativos, de trato sucessivo e de 
execução diferida, a existência implícita (não expressa) de uma 
cláusula, pela qual a obrigatoriedade de seu cumprimento 
pressupõe a inalterabilidade da situação de fato. Se esta, no 
entanto, modificar-se em razão de acontecimentos extraordinários 
(uma guerra p. ex.), que tornem excessivamente oneroso para o 
devedor o seu adimplemento, poderá este requerer ao juiz que o 
isente da obrigação, parcial ou totalmente. (Carlos R. 
Gonçalves). 
 
Teoria da imprevisão: A Teoria do rebus sic standibus 
surgiu na Idade Média, mas ressurgiu após a I Guerra Mundial, que 
provocou um desequilíbrio nas relações contratuais. No Brasil, 
Arnoldo Medeiros da Fonseca adaptou e difundiu a teoria, 
acrescentando como requisito a “imprevisibilidade”. O Código Civil 
acolheu a possibilidade de resolução ou alteração dos contratos 
diante da onerosidade excessiva. 
Assim sendo, não basta que ocorra a onerosidade excessiva para 
que aconteça a resolução ou alteração do contrato, mas também, que 
ela seja decorrente de um fato extraordinário e imprevisível. 
 
Previsão legal: o princípio foi recepcionado pelos arts. 478, 479, 
480, 393, 1.699, 333, II, 476, 567, 495 e .1973 do CC. 
 
Modificação do contrato: “ as modificações supervenientes que 
atingem o contrato podem ensejar pedido judicial de revisão do 
negócio jurídico, se ainda possível manter o vínculo com 
modificações nas prestações (art. 317 e 479 do CC), ou de resolução, 
nos termos dos arts. 317 e 478, a ser apreciado tendo em conta as 
cláusulas gerais sobre o enriquecimento injusto (art. 884), a boa-fé 
(art. 422) e o fim social do contrato (art. 421), se houver modificação 
da base do negócio que signifique quebra insuportável da 
equivalência ou a frustração definitiva da finalidade contratual 
objetiva” (Rui Rosado de Aguiar Júnior). 
 
Enunciados do CJF sobre o Princ. Da Onerosidade 
Excessiva 
 
ENUNCIADO Nº 175: Art. 478. A menção à imprevisibilidade e à 
extraordinariedade, insertas no art. 478 do Código Civil, deve ser interpretada 
não somente em relação ao fato que gere o desequilíbrio, mas também em 
relação às conseqüências que ele produz. 
 
ENUNCIADO Nº 176: Art. 478. Em atenção ao princípio da conservação 
dos negócios jurídicos, o art. 478 do Código Civil de 2002 deverá conduzir, 
sempre que possível, à revisão judicial dos contratos e não à resolução 
contratual. 
 
ENUNCIADO Nº 365: Art. 478. A extrema vantagem do art. 478 deve ser 
interpretada como elemento acidental da alteração de circunstâncias, que 
comporta a incidência da resolução ou revisão do negócio por onerosidade 
excessiva, independentemente de sua demonstração plena. 
 
ENUNCIADO Nº 366: Art. 478. O fato extraordinário e imprevisível 
causador de onerosidade excessiva é aquele que não está coberto 
objetivamente pelos riscos próprios da contratação. 
 
ENUNCIADO Nº 439: Art. 478. A revisão do contrato por onerosidade 
excessiva fundada no Código Civil deve levar em conta a natureza do objeto do 
contrato. Nas relações empresariais, observar-se-á a sofisticação dos 
contratantes e a alocação de riscos por eles assumidas com o contrato. 
 
ENUNCIADO Nº 440: Art. 478. É possível a revisão ou resolução por 
excessiva onerosidade em contratos aleatórios, desde que o evento 
superveniente, extraordinário e imprevisível não se relacione com a álea 
assumida no contrato. 
 
7) PRINCÍPIO DA BOA-FÉ 
 
Conceito: Os contratantes devem atuar segundo a boa-fé 
objetiva, compreendida como a exigência de comportamento leal 
dos contratantes desde as tratativas, como durante a formação e 
conclusão do contrato. Entende-se que a presunção legal é a de que 
as partes atuam de boa-fé, devendo a má-fé ser provada por quem a 
alega. 
 
Conteúdo: A boa-fé deve ser entendida como um padrão ético 
de confiança e lealdade, representada por características como: 
honestidade, integridade, humildade, justiça e respeito ao próximo 
 
Boa-fé objetiva e subjetiva: “Cumpre rapidamente relembrar 
que, enquanto a boa-fé subjetiva está intimamente relacionada com 
a animosidade do sujeito, a boa-fé objetiva desliga-se 
completamente do elemento vontade, para focalizar sua atenção na 
comparação entre a atitude tomada e aquela que se poderia esperar 
de um homem médio, reticente, do bom pai de família. O eixo da 
análise é deslocado. Enquanto na primeira modalidade o 
reconhecimento do animus nocendi é vital, na segunda 
desimporta”. (Daniel Ustarróz) 
 
“Na boa-fé subjetiva ocorre uma falsa impressão de uma ou 
ambas das partes acerca do objeto, das partes ou das características 
em geral do negócio jurídico celebrado. Desta forma, a parte é 
enganada por si própria, em razão ter convicção que algo existe ou 
acontece, quando a verdade é que ela inexiste ou não ocorre. 
Neste sentido, vários preceitos do Código Civil de 1916: arts. 
221 (efeitos do casamento putativo), 255, parágrafo único (terceiros 
de boa-fé prejudicados pela anulação de atos praticados por um só 
dos cônjuges), 490 e 491 (posse de boa-fé), 510 (efeitos da posse), 
550, 551 e 618 (aquisição pelo usucapião), 622 (tradição feita a 
adquirente de boa-fé), 935 (pagamento a credor putativo), 968 
(alienação de imóvel indevidamente recebido), 1.072 (cessionário 
de boa-fé), 1.318 e 1.321 (desconhecimento da revogação ou da 
extinção do mandato) e 1.507 (portador de boa-fé de título ao 
portador). 
Como é de perceber-se, nestes casos a boa-fé está presente por 
questão de ordem pessoal de quem contrata; sua vontade não foi 
maculada em razão de fato da outra parte, mas sim por falsa idéia 
criada no seu intelecto. Além disso,tem-se que a lei não impõe uma 
forma de proceder às partes, não cria presunções onde não existem, 
somente define as conseqüências. 
Por outro lado, a boa-fé objetiva é uma regra de conduta que 
deve ser observada pelos contratantes. Está relacionada ao modo de 
proceder com a outra parte, de forma que não se relaciona somente 
com um dos pólos do contrato e ele mesmo; importa em definir a 
lisura de uma parte para com a outra, a honestidade das 
declarações e condições de uma das partes para com as outras 
(Fernando H. G. Zimmermann). 
 
Aplicação: orientar na interpretação do contrato, coibir 
abusos contratuais. 
- O princípio da boa-fé entende mais com a interpretação do 
contrato do que com a estrutura. Por ele se significa que o literal 
da linguagem não deve prevalecer sobre a intenção manifestada 
na declaração da vontade, ou dela inferível. Ademais, 
subentendem-se, no conteúdo do contrato, proposições que 
decorrem da natureza das obrigações contraídas, ou se impõem 
por força de uso regular e da própria equidade. Fala-se na 
existência de condições subentendidas. Admitem-se, enfim, que as 
partes aceitaram essas conseqüências, que realmente rejeitariam 
se as tivessem previsto. No caso, pois, a interpretação não se 
resume a simples apuração da vontade das partes. (Orlando 
Gomes). 
Boa-fé nas fase pré e pós-contratual: Embora o CC se 
refira apenas ao momento de conclusão e execução do contrato, há 
entendimento que a boa-fé dos contratantes deve existir mesmo 
antes ou depois destas fases. 
 
Enunciados do CJF sobre o Princ. Da Boa-fé 
 
Enunciado 25 - Art. 422: o art. 422 do Código Civil não inviabiliza a aplicação, 
pelo julgador, do princípio da boa-fé nas fases pré e pós-contratual. 
 
Enunciado 26 - Art. 422: a cláusula geral contida no art. 422 do novo Código 
Civil impõe ao juiz interpretar e, quando necessário, suprir e corrigir o contrato 
segundo a boa-fé objetiva, entendida como a exigência de comportamento leal dos 
contratantes. 
 
Enunciado 27 - Art. 422: na interpretação da cláusula geral da boa-fé, deve-se 
levar em conta o sistema do Código Civil e as conexões sistemáticas com outros 
estatutos normativos e fatores metajurídicos. 
 
Enunciado Nº 363: Art. 422. Os princípios da probidade e da confiança são de 
ordem pública, estando a parte lesada somente obrigada a demonstrar a existência da 
violação. 
 
Enunciado Nº 432: Art. 422. Em contratos de financiamento bancário, são 
abusivas cláusulas contratuais de repasse de custos administrativos (como análise do 
crédito, abertura de cadastro, emissão de fichas de compensação bancária, etc.), seja 
por estarem intrinsecamente vinculadas ao exercício da atividade econômica, seja por 
violarem o princípio da boa-fé objetiva. 
 
JURISPRUDÊNCIA – PRINCÍPIOS CONTRATUAIS 
 
- Princípio da autonomia das vontades 
PROTESTO CONTRA ALIENAÇÃO DE BENS (...) Requerido que é, no 
entanto, casado em regime da separação de bens. Imóvel de propriedade 
exclusiva da esposa dele. Pacto antenupcial que estabelece a 
incomunicabilidade de bens e dívidas Prevalência do princípio da 
autonomia de vontades Inaplicabilidade da súmula 377 do STF ao regime 
convencional da separação de bens, incidindo apenas no obrigatório. 
Ausência de interesse na medida mantido Recurso improvido. (TJ-SP - 
507962020088260000 SP , Relator: Milton Carvalho, Data de 
Julgamento: 07/12/2010, 31ª Câmara de Direito Privado, Data de 
Publicação: 07/12/2010). 
 
- Apelação cível. Seguros. Pedido de médico no sentido de que a 
Unimed fosse obrigada a credenciar o autor como médico cooperativado. 
Inexistência de qualquer determinação legal ou contratual neste sentido. 
Apelo não provido. (Apelação Cível Nº 70053624193, Sexta Câmara Cível, 
Tribunal de Justiça do RS, Relator: Ney Wiedemann Neto, Julgado em 
31/07/2013) (TJ-RS , Relator: Ney Wiedemann Neto, Data de 
Julgamento: 31/07/2013, Sexta Câmara Cível) 
 
Princípio da Função Social do Contrato 
CIVIL - APELAÇÃO - SEGURO DE VIDA E ACIDENTES PESSOAIS -
AÇÃO DE INDENIZAÇÃO - CLÁUSULA CONTRATUAL QUE PREVÊ O 
CANCELAMENTO DO SEGURO - OFENSA AOS PRINCÍPIOS DA BOA-FÉ 
OBJETIVA E DA FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO - PROVIMENTO 
NEGADO. "O cancelamento unilateral e injustificado da longeva apólice 
de seguro de vida, por deixar o segurado sem qualquer cobertura no 
momento em que ele se encontra mais exposto aos sinistros, encontra 
óbice nos princípios da boa-fé objetiva e da função social do contrato, o 
que autoriza sua manutenção". (TJ-SP - 2215161120088260100 SP , 
Relator: Artur Marques, Data de Julgamento: 13/12/2010, 35ª Câmara de 
Direito Privado, Data de Publicação: 21/12/2010) 
 
Dirigismo Contratual 
APELAÇÃO CÍVEL PLANO DE SAÚDE OBRIGAÇÃO DE FAZER 
Preliminar: cerceamento de defesa pelo julgamento antecipado 
Inocorrência Vigora o sistema de livre apreciação das provas, e a 
demonstração de que o tratamento é experimental poderia ter sido feita 
com prova documental, o que não ocorreu Mérito: a seguradora não pode 
influir na conveniência e oportunidade do médico ao indicar um 
tratamento No Brasil todos os contratos de assistência à saúde se regem 
pela Lei 9.656/98, não havendo liberdade para contratar de forma diversa 
- Dirigismo contratual - Não ocorrência de qualquer das exclusões 
previstas na lei Abusividade da negativa Apelo desprovido. 
(TJ-SP - APL: 9000864072009826 SP 9000864-07.2009.8.26.0506, 
Relator: José Carlos Ferreira Alves, Data de Julgamento: 24/07/2012, 2ª 
Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 25/07/2012) 
 
Princípio da Relatividade 
Ação desconstituição de débito. Dívidas de energia elétrica 
oriundas do período em que o imóvel esteve locado. Proprietário do 
bem que pretende compelir a concessionária a exigir o pagamento 
diretamente do locatário. Pedido de restabelecimento do 
fornecimento. (...) Cobrança da dívida em face do proprietário. É 
dever do proprietário informar a concessionária acerca da locação 
do imóvel, requerendo a transferência da titularidade da unidade 
consumidora. Em decorrência do princípio da relatividade dos 
contratos, é impossível compelir a concessionária a exigir do 
locatário o pagamento das dívidas assumidas contratualmente pelo 
proprietário. Terceiro alheio ao pacto. Precedentes. Recurso 
parcialmente provido, com observação. 
(TJ-SP - APL: 111529520068260176 SP 0011152-
95.2006.8.26.0176, Relator: Virgilio de Oliveira Junior, Data de 
Julgamento: 23/11/2011, 21ª Câmara de Direito Privado, Data de 
Publicação: 30/11/2011) 
 
Princípio da obrigatoriedade 
COMPETÊNCIA - Alteração - Descabimento - Contrato 
Particular de Prestação de Serviços de Representação - Cláusula 
que dispõe sobre a eleição do foro - Abusividade - Não 
caracterização - Prevalecimento do Princípio da Obrigatoriedade 
dos Contratos (pacta sunt servanda) - Decisão Reformada - Recurso 
provido. (TJ-SP - AI: 02546457420128260000 SP 0254645-
74.2012.8.26.0000, Relator: Mendes Pereira, Data de Julgamento: 
13/05/2014, 7ª Câmara de Direito Privado, Data de Publicação: 
13/05/2014) 
 
Princ. Da Onerosidade Excessiva 
APELAÇÃO. LOCAÇÃO NÃO RESIDENCIAL. SHOPPING 
CENTER. RENOVATÓRIA. PRELIMINARES. ERRO MATERIAL DA 
SENTENÇA. CERCEAMENTO DE DEFESA NÃO CONFIGURADO. 
Ausência de conflito a respeito da renovação. Controvérsia restrita 
ao valor dos aluguéis. Não se admite a modificação das condições 
contratuais, salvo em situações excepcionalíssimas ausentes na 
hipótese. Onerosidade excessiva não reconhecida risco do 
empreendimento que afasta o reconhecimento da imprevisibilidade 
a que se referem os artigos 317 e 478 do CC. Riscos assumidos e 
distribuídos pelas partes. Apuração do valor do aluguel. Produção 
de prova pericial. Inutilidade e desnecessidade (CPC, art. 130). 
MULTA. Oposição de embargos protelatórios. Afastamento. 
Recurso provido em parte. (Apelação nº 0105119-
14.2009.8.26.0008, 29ª Câmara de Direito Privado do TJSP, Rel. 
Hamid Bdine. j. 06.08.2014). 
 
Princípio da boa-fé objetiva é consagrado pelo 
STJ em todas asáreas do direito2 
 Publicado por Superior Tribunal de Justiça (extraído pelo JusBrasil) 
 
Um dos princípios fundamentais do direito privado é o da boa-fé objetiva, cuja função é 
estabelecer um padrão ético de conduta para as partes nas relações obrigacionais. No entanto, a boa-fé 
não se esgota nesse campo do direito, ecoando por todo o ordenamento jurídico. 
Reconhecer a boa-fé não é tarefa fácil, resume o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) 
Humberto Martins. Para concluir se o sujeito estava ou não de boa-fé, torna-se necessário analisar se o 
seu comportamento foi leal, ético, ou se havia justificativa amparada no direito, completa o magistrado. 
Mesmo antes de constar expressamente na legislação brasileira, o princípio da boa-fé objetiva já 
vinha sendo utilizado amplamente pela jurisprudência, inclusive do STJ, para solução de casos em 
diversos ramos do direito. 
A partir do Código de Defesa do Consumidor, em 1990, a boa-fé foi consagrada no sistema de 
direito privado brasileiro como um dos princípios fundamentais das relações de consumo e como cláusula 
geral para controle das cláusulas abusivas. 
No Código Civil de 2002 (CC/02), o princípio da boa-fé está expressamente contemplado. O 
ministro do STJ Paulo de Tarso Sanseverino, presidente da Terceira Turma, explica que a boa-fé objetiva 
constitui um modelo de conduta social ou um padrão ético de comportamento, que impõe, concretamente, 
a todo cidadão que, nas suas relações, atue com honestidade, lealdade e probidade. 
Ele alerta que não se deve confundi-la com a boa-fé subjetiva, que é o estado de consciência ou a 
crença do sujeito de estar agindo em conformidade com as normas do ordenamento jurídico. 
Contradição 
Ao julgar um recurso especial no ano passado (REsp 1.192.678), a Terceira Turma decidiu que a 
assinatura irregular escaneada em uma nota promissória, aposta pelo próprio emitente, constitui vício que 
não pode ser invocado por quem lhe deu causa. O emitente sustentava que, para a validade do título, a 
assinatura deveria ser de próprio punho, conforme o que determina a legislação. 
Por maioria, a Turma, seguindo o voto do ministro Sanseverino, aplicou o entendimento segundo o 
qual a ninguém é lícito fazer valer um direito em contradição com a sua conduta anterior ou posterior 
interpretada objetivamente, segundo a lei, os bons costumes e a boa-fé. É o chamado venire contra factum 
 
2 http://stj.jusbrasil.com.br/noticias/100399456/principio-da-boa-fe-objetiva-e-consagrado-pelo-stj-em-
todas-as-areas-do-direito 
http://stj.jusbrasil.com.br/noticias/100399456/principio-da-boa-fe-objetiva-e-consagrado-pelo-stj-em-todas-as-areas-do-direito
http://stj.jusbrasil.com.br/
http://www.jusbrasil.com/legislacao/92133/c%C3%B3digo-de-defesa-do-consumidor-lei-8078-90
http://www.jusbrasil.com/legislacao/1027027/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02
http://www.jusbrasil.com/legislacao/1027027/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02
proprium (exercício de uma posição jurídica em contradição com o comportamento anterior do 
exercente). 
No caso, o próprio devedor confessou ter lançado a assinatura viciada na nota promissória. Por 
isso, a Turma também invocou a fórmula tu quoque , de modo a impedir que o emitente tivesse êxito 
mesmo agindo contra a lei e invocando-a depois em seu benefício (aquele que infringiu uma regra de 
conduta não pode postular que se recrimine em outrem o mesmo comportamento). 
Seguro de vida 
O STJ já tem jurisprudência firmada no sentido de que a seguradora não pode extinguir 
unilateralmente contrato renovado por vários anos. Num dos casos julgados na Terceira Turma em 2011 
(REsp 1.105.483), os ministros entenderam que a iniciativa ofende o princípio da boa-fé. A empresa havia 
proposto à consumidora, que tinha o seguro de vida havia mais de 30 anos, termos mais onerosos para a 
nova apólice. 
Em seu voto, o ministro Massami Uyeda, hoje aposentado, concluiu que a pretensão da seguradora 
de modificar abruptamente as condições do contrato, não renovando o ajuste anterior nas mesmas bases, 
ofendia os princípios da boa-fé objetiva, da cooperação, da confiança e da lealdade que devem orientar a 
interpretação dos contratos que regulam as relações de consumo. 
O julgamento foi ao encontro de precedente da Segunda Seção (REsp 1.073.595), relatado pela 
ministra Nancy Andrighi, em que os ministros definiram que, se o consumidor contratou ainda jovem o 
seguro de vida oferecido pela seguradora e o vínculo vem se renovando ano a ano, o segurado tem o 
direito de se manter dentro dos parâmetros estabelecidos, sob o risco de violação ao princípio da boa-fé 
objetiva. 
Neste caso, a Seção estabeleceu que os aumentos necessários para o reequilíbrio da carteira têm de 
ser estabelecidos de maneira suave e gradual, mediante um cronograma, do qual o segurado tem de ser 
cientificado previamente. 
Suicídio 
Em 2011, a Segunda Seção também definiu que, em caso de suicídio cometido durante os dois 
primeiros anos de vigência do contrato de seguro de vida, período de carência, a seguradora só estará 
isenta do pagamento se comprovar que o ato foi premeditado (Ag 1.244.022). 
De acordo com a tese vencedora, apresentada pelo ministro Luis Felipe Salomão, o novo Código 
Civil presume em regra a boa-fé, de forma que a má-fé é que deve sempre ser comprovada, ônus que cabe 
à seguradora. No caso analisado, o contrato de seguro de vida foi firmado menos de dois anos antes do 
suicídio do segurado, mas não ficou provado que ele assinara o contrato já com a intenção de se matar e 
deixar a indenização para os beneficiários. 
Plano de saúde 
Em outubro do ano passado, a Terceira Turma apontou ofensa ao princípio da boa-fé objetiva 
quando o plano de saúde reajusta mensalidades em razão da morte do cônjuge titular. No caso, a viúva era 
pessoa de 77 anos e estava vinculada à seguradora como dependente do marido fazia mais de 25 anos 
(AREsp 109.387). 
A seguradora apresentou novo contrato, sob novas condições e novo preço, considerado 
exorbitante pela idosa. A sentença, que foi restabelecida pelo STJ, considerou evidente que o 
comportamento da seguradora feriu o CDC e o postulado da boa-fé objetiva, que impõe aos contratantes, 
desde o aperfeiçoamento do ajuste até sua execução, um comportamento de lealdade recíproca, de modo a 
que cada um deles contribua efetivamente para o atendimento das legítimas expectativas do outro, sem 
causar lesão ou impingir desvantagem excessiva. 
Em precedente (Ag 1.378.703), a Terceira Turma já havia se posicionado no mesmo sentido. Na 
ocasião, a ministra Nancy Andrighi afirmou que, se uma pessoa contribui para um seguro-saúde por longo 
tempo, durante toda a sua juventude, colaborando sempre para o equilíbrio da carteira, não é razoável, do 
ponto de vista jurídico, social e moral, que em idade avançada ela seja tratada como novo consumidor. 
Tal postura é flagrantemente violadora do princípio da boa-fé objetiva, em seu sentido de proteção à 
confiança, afirmou. 
Defeito de fabricação 
No ano passado, a Quarta Turma definiu que, independentemente de prazo contratual de garantia, 
a venda de um bem tido por durável (no caso, máquinas agrícolas) com vida útil inferior àquela que 
legitimamente se esperava, além de configurar defeito de adequação (artigo 18 do Código de Defesa do 
Consumidor), evidencia quebra da boa-fé objetiva que deve nortear as relações contratuais, sejam de 
consumo, sejam de direito comum (REsp 984.106). 
Constitui, em outras palavras, descumprimento do dever de informação e a não realização do 
próprio objeto do contrato, que era a compra de um bem cujo ciclo vital se esperava, de forma 
legítima e razoável, fosse mais longo, concluiu o ministro Luis Felipe Salomão, relator do recurso. 
Bem de família em garantia 
http://www.jusbrasil.com/legislacao/1027027/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02
http://www.jusbrasil.com/legislacao/1027027/c%C3%B3digo-civil-lei-10406-02http://www.jusbrasil.com/legislacao/91585/c%C3%B3digo-de-defesa-do-consumidor-lei-8078-90
http://www.jusbrasil.com/topicos/10605675/artigo-18-da-lei-n-8078-de-11-de-setembro-de-1990
http://www.jusbrasil.com/legislacao/91585/c%C3%B3digo-de-defesa-do-consumidor-lei-8078-90
http://www.jusbrasil.com/legislacao/91585/c%C3%B3digo-de-defesa-do-consumidor-lei-8078-90
Contraria a boa-fé das relações negociais o livre oferecimento de imóvel, bem de família, como 
garantia hipotecária. Esta é a jurisprudência do STJ. Num dos precedentes, analisado em 2010, a relatora 
do recurso, ministra Nancy Andrighi, entendeu que o ato equivalia à entrega de uma garantia que o 
devedor, desde o início, sabe ser inexequível, esvaziando-a por completo (REsp 1.141.732). 
Por isso, a Terceira Turma decidiu que o imóvel deve ser descaracterizado como bem de família e 
deve ser sujeitado à penhora para satisfação da dívida afiançada. No caso, um casal figurava como fiador 
em contrato de compra e venda de uma papelaria adquirida pelo filho. Os pais garantiram a dívida com a 
hipoteca do único imóvel que possuíam e que lhes servia de residência. 
Comportamento sinuoso 
O princípio da boa-fé objetiva já foi aplicado diversas vezes no STJ no âmbito processual penal. 
Ao julgar um habeas corpus (HC 143.414) em dezembro passado, a Sexta Turma não reconheceu a 
ocorrência de nulidade decorrente da utilização de prova emprestada num caso de condenação por tráfico 
de drogas. Isso porque a própria defesa do réu concordou com o seu aproveitamento em momento 
anterior. 
A relatora, ministra Maria Thereza de Assis Moura, lembrou que a relação processual é pautada 
pelo princípio da boa-fé objetiva e invocou a proibição de comportamentos contraditórios. Tendo em vista 
o primado em foco, por meio do qual à ordem jurídica repugna a ideia de comportamentos contraditórios, 
tendo em vista a anuência fornecida pela defesa técnica, seria inadequado, num plano mesmo de eticidade 
processual, a declaração da nulidade, concluiu a ministra. 
Em outro caso (HC 206.706), seguindo voto do ministro Og Fernandes, a Sexta Turma reconheceu 
haver comportamento contraditório do réu que solicitou com insistência um encontro com o juiz e, após 
ser atendido, fora das dependências do foro, alegou suspeição do magistrado em razão dessa reunião. 
Mitigar o prejuízo 
Outro subprincípio da boa-fé objetiva foi invocado pela Sexta Turma para negar um habeas corpus 
(HC 137.549) o chamado dever de mitigar a perda ( duty to mitigate the loss ). No caso, o réu foi 
condenado a prestar serviços à comunidade, mas não compareceu ao juízo para dar início ao 
cumprimento, porque não foi intimado em razão de o endereço informado no boletim de ocorrência estar 
incorreto. 
O juízo de execuções ainda tentou a intimação em endereço constante na Receita Federal e na 
Justiça Eleitoral, sem sucesso. Por isso, a pena foi convertida em privativa de liberdade. A ministra Maria 
Thereza de Assis Moura, ao analisar a questão, invocou a boa-fé objetiva. Para ela, a defensoria pública 
deveria ter informado ao juízo de primeiro grau o endereço correto do condenado. 
A bem do dever anexo de colaboração, que deve empolgar a lealdade entre as partes no processo, 
cumpriria ao paciente e sua defesa informar ao juízo o endereço, para que a execução pudesse ter o 
andamento regular, não se perdendo em inúteis diligências para a sua localização, afirmou a magistrada. 
Boa-fé da administração 
O princípio da boa-fé permeia a Constituição e está expresso em várias leis regedoras das 
atividades administrativas, como a Lei de Licitação, Concessões e Permissões de Serviço Público e a do 
Regime Jurídico Único dos Servidores Públicos. 
A doutora em direito administrativo Raquel Urbano de Carvalho alerta que, se é certo que se exige 
boa-fé do cidadão ao se relacionar com a administração, não há dúvida da sua indispensabilidade no 
tocante ao comportamento do administrador público. 
E quando impõe obrigações a terceiros, é fundamental que a administração aja com boa-fé, 
pondere os diferentes interesses e considere a realidade a que se destina sua atuação. Para a doutrinadora, 
é direito subjetivo público de qualquer cidadão um mínimo de segurança no tocante à confiabilidade 
ético-social das ações dos agentes estatais. 
Desistência de ações 
A julgar mandado de segurança impetrado por um policial federal (MS 13.948), a Terceira Seção 
decidiu que a conduta da administração atacada no processo ofendeu os princípios da confiança e da boa-
fé objetiva. No caso, o ministro da Justiça exigiu a desistência de todas as ações antes de analisar os 
pedidos de apostilamento do policial e, posteriormente, indeferiu a pretensão ao fundamento de 
inexistência de provimento judicial que amparasse a nomeação. 
Conforme destacou o ministro Sebastião Reis Júnior, relator do caso, a atitude impôs prejuízo 
irrecuperável ao servidor: Apesar da incerteza quanto ao resultado dos requerimentos, o pedido de 
desistência acarretou a extinção dos processos, com resolução do mérito, inclusive da demanda que lhe 
garantia a nomeação ao cargo, ceifando qualquer possibilidade de o impetrante ter um julgamento 
favorável, pois a apelação não havia, ainda, sido julgada. 
Em seu voto, o ministro ainda destacou doutrina que invoca como justificativa à proteção da boa-
fé na esfera pública a impossibilidade de o estado violar a confiança que a própria presunção de 
legitimidade dos atos administrativos traz, agindo contrafactum proprium . 
http://www.jusbrasil.com/legislacao/1034025/constitui%C3%A7%C3%A3o-da-republica-federativa-do-brasil-1988
Verbas a título precário 
A Lei 8.112/90 prevê a reposição ao erário do pagamento feito indevidamente ao servidor público. 
O STJ tem decidido neste sentido, inclusive, quando os valores são pagos aos servidores em decorrência 
de decisão judicial de característica precária ou não definitiva (REsp 1.263.480). 
No julgamento do AREsp 144.877, a Segunda Turma determinou que um servidor público que 
recebeu valores indevidos, por conta de decisão judicial posteriormente cassada, devolvesse o dinheiro à 
Fazenda Pública. 
Essa regra, contudo, tem sido interpretada pela jurisprudência com alguns temperamentos, 
principalmente em decorrência de princípios como a boa-fé. Sua aplicação, por vezes, tem impedido que 
valores que foram pagos indevidamente sejam devolvidos. É o caso, por exemplo, do recebimento de 
verbas de boa-fé, por servidores públicos, por força de interpretação errônea, má aplicação da lei ou erro 
da administração. 
Objetivamente, a fruição do que foi recebido indevidamente está acobertada pela boa-fé, que, por 
sua vez, é consequência da legítima confiança de que os valores integravam o patrimônio do beneficiário, 
esclareceu o ministro Humberto Martins, no mesmo julgamento 
 
http://www.jusbrasil.com/legislacao/97937/regime-jur%C3%ADdico-dos-servidores-publicos-civis-da-uni%C3%A3o-lei-8112-90
	PRINCÍPIOS CONTRATUAIS
	Princípio da boa-fé objetiva é consagrado pelo STJ em todas as áreas do direito

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