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Transição para a Modernidade

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MÓDULO 3 
Sumário Executivo 
A transição para a modernidade marca a ascensão do indivíduo como centro de 
referência do mundo. O percurso inicia-se com a revolução de René Descartes, que 
estabelece a racionalidade e a autoconsciência como as únicas bases seguras para 
a verdade, separando a mente (substância pensante) do corpo (substância 
mecânica). Essa afirmação do "eu" gera, simultaneamente, mecanismos de controle 
e exclusão: a loucura passa a ser vista como a perda da razão e uma ameaça à 
ordem social, enquanto o Estado (Hobbes) surge para conter a natureza egoísta 
humana. 
Ao longo dos séculos XVII e XVIII, emerge a distinção entre a esfera pública 
(máscaras sociais) e a privada (desejos íntimos), explorada por moralistas e autores 
como o Marquês de Sade. O Iluminismo, embora focado na razão, sofre a 
autocrítica de Kant, que limita o conhecimento humano aos fenômenos, e a reação 
do Romantismo, que prioriza a paixão, a natureza violenta e o "gênio" individual. A 
Psicologia moderna surge, portanto, do entrelaçamento de três eixos: o eu moral 
(controle social), o eu romântico (profundidade subjetiva) e o eu epistêmico 
(sujeito da ciência objetiva). 
1. O Alicerce Cartesiano e o Nascimento do Eu Moderno 
René Descartes (1596-1650) é identificado como o filósofo que sistematizou a 
transição para a Modernidade, movido por uma crise dos sistemas tradicionais de 
saber. 
A Dúvida Metódica e o Cogito 
Descartes propôs um método de busca pela verdade baseado na dúvida absoluta. 
Ao rejeitar tudo o que fosse minimamente duvidoso (sentidos, opiniões, tradições), 
ele alcançou uma certeza inabalável: o fato de estar pensando. 
● Princípio Fundamental: "Penso, logo existo" (Je pense, donc je suis). O 
pensamento torna-se a prova da existência e o princípio básico de toda a 
filosofia. 
● Consequência: A mente passa a ser a fonte da certeza, e o homem (não 
mais a realidade externa ou Deus) torna-se o centro do conhecimento. 
O Dualismo Mente-Corpo 
Descartes estabeleceu uma distinção radical entre duas substâncias: 
1. Res Cogitans (Mente/Alma): Imaterial, indivisível e puramente pensante. É 
a essência do homem. 
2. Res Extensa (Corpo): Material, divisível e submetida às leis da mecânica. O 
corpo humano é comparado a uma máquina ou a um relógio. 
"Conheci por isso que eu era uma substância cuja essência e natureza toda é 
pensar, e que não necessita, para ser, de lugar algum, nem depende de coisa 
alguma material." — Descartes 
2. Ordem Social, Controle e a Sombra da Loucura 
A afirmação do "eu" racional exigiu a organização da desordem e a exclusão daquilo 
que não se encaixava na racionalidade. 
Thomas Hobbes e o Leviatã 
Para Hobbes, a natureza humana é egoísta, movida pela busca do prazer e pelo 
medo da morte, o que geraria uma "guerra de todos contra todos". 
● O Contrato Social: O convívio social não é natural, mas um pacto de medo. 
Os homens transferem seus direitos a um soberano para garantir a 
sobrevivência. 
● Função das Leis: Atuar como balizas para impedir que os desejos 
impetuosos dos indivíduos causem destruição mútua. 
A Invenção da Loucura 
Segundo a análise de Foucault citada nos textos, a percepção moderna da loucura 
nasce no século XVII. 
● Medo do Contágio: Como a estabilidade do mundo passou a depender da 
lucidez do "eu", qualquer ameaça à razão tornou-se perigosa. 
● Exclusão: O louco passa a ser isolado em hospícios (muitas vezes antigos 
leprosários), sendo tratado como um "animal" que perdeu sua alma racional. 
3. A Dialética entre o Público e o Privado 
No século XVIII, o "eu" deixa de ser visto como uma totalidade e passa a ser 
compreendido como uma máscara social. 
O Espaço da Privacidade 
A privacidade emerge como o refúgio dos desejos e pensamentos que devem ser 
ocultos pela etiqueta. 
● Marquês de Sade: Representa o limite extremo do Iluminismo. Para Sade, a 
moral é local e variável; a única realidade é a busca pelo prazer individual na 
"alcova", onde o crime e a fantasia são as formas mais puras da natureza 
humana. 
Os Moralistas 
Autores como La Fontaine e La Rochefoucauld dedicaram-se à observação acurada 
dos costumes. 
● La Rochefoucauld: Denunciava que a vaidade e o amor-próprio são os 
verdadeiros motores das ações humanas, muitas vezes disfarçados de 
virtude. 
"Nossas virtudes são, o mais frequentemente, apenas vícios disfarçados." — La 
Rochefoucauld 
4. O Romantismo e a Profundidade Subjetiva 
Como reação ao racionalismo exacerbado do Iluminismo, o Romantismo (fim do 
século XVIII e século XIX) reivindicou a primazia das paixões. 
Características do Movimento Romântico 
● Crítica à Razão: A essência humana não é o pensamento, mas a natureza 
pulsional e passional. 
● Natureza Violenta: Ao contrário da natureza ordenada do Iluminismo, o 
Romantismo vê uma natureza indomável (como nas pinturas de Turner e 
Friedrich). 
● O Gênio e a Interioridade: Surge a ideia do "gênio" — o indivíduo dotado de 
um dom único e incomunicável. Werther, de Goethe, exemplifica o sofrimento 
do "eu" que se perde na plenitude de seus sentimentos. 
Schopenhauer e a Vontade 
Schopenhauer propõe que o mundo é, essencialmente, Vontade — uma energia 
universal cega e insaciável. O indivíduo é apenas um fenômeno passageiro dessa 
vontade de viver, desconstruindo a onipotência do sujeito racional. 
5. Limites da Razão e o Positivismo 
Mesmo dentro da racionalidade, surgiram movimentos que questionaram as 
pretensões do conhecimento absoluto. 
Kant e a Auto-crítica da Razão 
Immanuel Kant estabeleceu que a mente humana organiza o mundo através de 
categorias (como causa e efeito). 
● Fenômeno vs. Coisa em si: Só conhecemos o mundo como ele aparece 
para nós (fenômeno); a "coisa em si" é inacessível. 
● Teoria como Criação: O conhecimento científico não é a verdade absoluta, 
mas uma construção humana provisória para organizar os fenômenos. 
O Modelo Positivista de Auguste Comte 
No século XIX, o Positivismo estabelece as bases da ciência moderna: 
● Objetos Positivos: Aqueles observáveis e concretos. 
● Método: Observação e experimentação para prever e controlar a realidade. 
● Psicologia e Positivismo: Comte acreditava ser impossível uma psicologia 
científica, pois a mente não pode observar a si mesma como um objeto 
externo. 
6. Síntese: Os Três Caminhos para a Psicologia 
A Psicologia contemporânea é herdeira de três tendências principais de 
subjetividade que se entrelaçaram ao longo da história: 
Tipo de 
"Eu" 
Origem 
Principal 
Foco Principal Exemplo de 
Expressão 
Eu Moral Século XVII / 
Moralistas 
Auto-controle, imagem social 
e adaptação a normas. 
Livros de autoajuda, 
manuais de 
conduta. 
Eu 
Romântic
o 
Romantismo Interioridade, profundidade, 
individualismo absoluto e 
emoção. 
O gênio artístico, a 
crise de identidade. 
Eu 
Epistêmic
o 
Iluminismo / 
Descartes 
Sujeito do conhecimento, 
busca por neutralidade e 
objetividade. 
O cientista, a 
técnica e o trabalho 
industrial. 
Conclusão 
O nascimento da Psicologia decorre da necessidade de lidar com a "crise de 
identidade" gerada por esses movimentos conflitantes: a pressão pelo controle 
social (disciplina), a defesa da liberdade individual (liberalismo) e o reconhecimento 
de uma profundidade abismal e incontrolável na alma humana (romantismo). 
 
	Sumário Executivo 
	1. O Alicerce Cartesiano e o Nascimento do Eu Moderno 
	A Dúvida Metódica e o Cogito 
	O Dualismo Mente-Corpo 
	2. Ordem Social, Controle e a Sombra da Loucura 
	Thomas Hobbes e o Leviatã 
	A Invenção da Loucura 
	3. A Dialética entre o Público e o Privado 
	O Espaço da Privacidade 
	Os Moralistas 
	4. O Romantismo e a Profundidade Subjetiva 
	Características do Movimento Romântico 
	Schopenhauer e a Vontade 
	5. Limites da Razão e o Positivismo 
	Kant e a Auto-crítica da Razão 
	O Modelo Positivista de Auguste Comte 
	6. Síntese: Os Três Caminhos para a Psicologia 
	Conclusão

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