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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAMPA Rede de Saberes Articulando Ciências, Criatividade e Imaginação – Rede SACCI CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM ENSINO DE CIÊNCIAS E TECNOLOGIAS STELLA MARIS MARTINS KRAETZIG A UTILIZAÇÃO DE KITS DE ROBÓTICA NA SALA DE AULA: POSSIBILIDADES E LIMITES Cidade 2026 STELLA MARIS MARTINS KRAETZIG A UTILIZAÇÃO DE KITS DE ROBÓTICA NA SALA DE AULA: POSSIBILIDADES E LIMITES Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Pós-Graduação Lato Sensu Especialização Ensino de Ciências e Tecnologias da Rede de Saberes Articulando Ciência, Criatividade e Imaginação – Rede SACCI, como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Ensino de Ciências e Tecnologias – Ênfase. Orientador: Nome do Orientador(a) Coorientador: Nome do Coorientador(a) Cidade 2026 Orientações para produção da Ficha catalográfica estão disponíveis em: https://sites.unipampa.edu.br/sisbi/normalizacao/ Ficha catalográfica elaborada automaticamente com os dados fornecidos pelo(a) autor(a) através do Módulo de Biblioteca do Sistema GURI (Gestão Unificada de Recursos Institucionais). STELLA MARIS MARTINS KRAETZIG A UTILIZAÇÃO DE KITS DE ROBÓTICA NA SALA DE AULA: POSSIBILIDADES E LIMITES Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Pós-Graduação Lato Sensu Especialização Ensino de Ciências e Tecnologias da Rede de Saberes Articulando Ciência, Criatividade e Imaginação – Rede SACCI, como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Ensino de Ciências e Tecnologias Área de concentração: nome da ênfase Trabalho de Conclusão de Curso defendido e aprovado em: dia, mês e ano. Banca examinadora: ______________________________________________________ Prof. (titulação). (Nome do Orientador) Orientador (sigla da instituição) ______________________________________________________ Prof. (titulação). (Nome do membro da banca) (sigla da instituição) ______________________________________________________ Prof. (titulação). (Nome do membro da banca) (sigla da instituição) RESUMO Este estudo analisa as possibilidades e os limites da utilização de kits de robótica educacional no contexto escolar, a partir de uma experiência prática desenvolvida com duas turmas do oitavo ano do ensino fundamental em uma escola pública. Inicialmente, foi realizado um diagnóstico dos conhecimentos prévios dos estudantes, evidenciando pouca familiaridade com conceitos de robótica e programação. Em seguida, foram propostas atividades práticas envolvendo a construção de protótipos simples e a utilização de kits para seu funcionamento. Os resultados demonstraram elevado interesse inicial dos alunos, especialmente na etapa exploratória, seguido por dificuldades técnicas relacionadas à montagem e programação dos dispositivos. Observou-se também uma participação heterogênea, com alguns estudantes demonstrando maior engajamento e outros apresentando desmotivação diante dos desafios. Apenas um dos protótipos desenvolvidos atingiu funcionamento completo, evidenciando limitações no processo de implementação. Conclui-se que a robótica educacional possui grande potencial pedagógico, favorecendo a aprendizagem ativa e o desenvolvimento de habilidades cognitivas e socioemocionais, porém sua efetividade depende de fatores como formação docente, planejamento pedagógico e suporte institucional. O estudo contribui para a reflexão sobre o uso de tecnologias na educação e aponta a necessidade de investimentos em capacitação e estrutura. Palavras-chave: educação; robótica; tecnologia. SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 7 2 REFERENCIAL TEÓRICO 9 2.1 Conhecimentos prévios dos estudantes sobre robótica educacional 9 2.2 Desenvolvimento de atividades práticas com robótica educacional 11 2.3 Engajamento e dificuldades dos estudantes no uso da robótica 13 2.4 A robótica educacional à luz das teorias clássicas da educação 15 3 RESULTADOS 19 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS 25 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 26 1 INTRODUÇÃO A inserção de tecnologias digitais no contexto educacional tem se consolidado como uma demanda contemporânea, especialmente diante das transformações sociais e das exigências formativas do século XXI. Nesse cenário, a robótica educacional emerge como uma estratégia pedagógica inovadora, capaz de promover o desenvolvimento do pensamento crítico, da criatividade e da resolução de problemas. Ao integrar conceitos de diferentes áreas do conhecimento, a robótica contribui para uma aprendizagem mais significativa e interdisciplinar, alinhando-se às propostas da educação contemporânea (Fernandes, 2022). A utilização de kits de robótica em sala de aula, como o Arduino e seus componentes, possibilita aos estudantes vivenciarem experiências práticas que articulam teoria e prática. Essas ferramentas favorecem o desenvolvimento do pensamento computacional e potencializam a aprendizagem de conteúdos, especialmente nas áreas de Ciências e Matemática, ao mesmo tempo em que estimulam o protagonismo discente (Machado, 2018). Contudo, apesar das potencialidades, ainda existem desafios relacionados à formação docente, à infraestrutura e à efetiva integração dessas tecnologias às práticas pedagógicas. Diante desse contexto, apresenta-se a seguinte problemática: quais são as possibilidades e os limites da utilização de kits de robótica na sala de aula, considerando as condições reais de implementação e o nível de preparo de professores e estudantes? O objetivo geral deste estudo é analisar as possibilidades e limitações do uso de kits de robótica educacional no contexto escolar, a partir de sua aplicação prática em turmas do ensino fundamental. Como objetivos específicos, pretende-se: (i) investigar o nível de conhecimento prévio dos estudantes acerca da robótica educacional; (ii) desenvolver atividades práticas com o uso de kits de robótica, visando à construção de protótipos simples; e (iii) analisar o engajamento e as dificuldades enfrentadas pelos estudantes durante a realização das atividades propostas. A metodologia adotada caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitativa, com abordagem exploratória, desenvolvida por meio de um estudo de caso em uma escola da rede pública estadual. A investigação envolveu a aplicação de um questionário diagnóstico inicial, seguido da realização de atividades práticas com duas turmas do oitavo ano do ensino fundamental, durante um período de dois meses. Os dados foram coletados a partir da observação das atividades, do desempenho dos estudantes e das interações em sala de aula. A justificativa para a realização deste estudo fundamenta-se na necessidade de compreender como a robótica educacional pode ser efetivamente incorporada às práticas pedagógicas, especialmente em contextos em que há limitações estruturais e formativas. Embora iniciativas governamentais tenham investido na aquisição de equipamentos tecnológicos para as escolas, como no caso do Programa Educação Gaúcha Conectada , ainda há lacunas no que se refere à capacitação docente e à utilização pedagógica desses recursos. Assim, investigar essas questões torna-se relevante para contribuir com a melhoria das práticas educativas e para o avanço das discussões sobre inovação no ensino. 2 REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 Conhecimentos prévios dos estudantes sobre robótica educacional A compreensão dos conhecimentos prévios dos estudantes constitui um elemento fundamental no processo de ensino e aprendizagem, especialmente quando se trata da inserção de tecnologias educacionais, como a robótica, no contexto escolar. Essa perspectiva está alinhada a abordagens pedagógicas que valorizam o papel ativo do estudante na construção do conhecimento, reconhecendo que toda aprendizagem significativa parte de saberes anteriormente adquiridos, sejam eles formais ou informais. No campo da robótica educacional, é comum que os estudantes apresentem algum tipo de contato prévio com tecnologiasdigitais, ainda que de maneira superficial. Esse contato pode ocorrer por meio de dispositivos eletrônicos, jogos digitais, redes sociais e outras ferramentas presentes no cotidiano. No entanto, essa familiaridade não implica, necessariamente, domínio conceitual sobre aspectos relacionados à lógica de programação, automação ou funcionamento de sistemas robóticos. Nesse sentido, torna-se essencial investigar o nível de conhecimento dos estudantes antes da implementação de atividades práticas, a fim de orientar o planejamento pedagógico. De acordo com Machado (2018), o uso da robótica no ensino fundamental pode potencializar o desenvolvimento do pensamento computacional, desde que as atividades sejam estruturadas de forma progressiva e compatível com o nível de compreensão dos alunos. O autor destaca que muitos estudantes apresentam dificuldades iniciais relacionadas à lógica e à resolução de problemas, o que pode comprometer o aproveitamento das atividades se não houver uma mediação adequada por parte do professor. Assim, a identificação dos conhecimentos prévios permite ajustar o grau de complexidade das tarefas propostas, favorecendo uma aprendizagem mais eficaz. Além disso, a robótica educacional se insere em uma perspectiva interdisciplinar, envolvendo conceitos de áreas como Matemática, Física, Engenharia e Tecnologia. Essa característica amplia as possibilidades de aprendizagem, mas também exige que os estudantes mobilizem conhecimentos diversos, nem sempre consolidados. Nesse contexto, a avaliação diagnóstica assume papel estratégico, pois possibilita ao docente compreender quais conceitos já foram assimilados e quais precisam ser retomados ou aprofundados. Fernandes (2022) destaca que a integração da robótica educacional à abordagem STEAM contribui para o desenvolvimento de competências essenciais, como pensamento crítico, criatividade e colaboração. No entanto, a autora ressalta que o sucesso dessa integração depende da capacidade de articular os conteúdos com a realidade dos estudantes, considerando seus conhecimentos prévios e suas experiências. Dessa forma, a robótica não deve ser introduzida como um conteúdo isolado, mas sim como uma ferramenta que dialoga com o repertório dos alunos. Outro aspecto relevante refere-se à motivação dos estudantes. Quando as atividades propostas estão alinhadas ao nível de conhecimento e às expectativas dos alunos, há maior engajamento e participação. Por outro lado, quando as tarefas são excessivamente complexas ou desconectadas da realidade dos estudantes, podem gerar frustração e desinteresse. Nesse sentido, Baldow et al. (2018) apontam que a robótica educacional pode ser altamente motivadora, desde que os desafios sejam adequados e haja suporte contínuo durante o processo de aprendizagem. No contexto da prática analisada, verificou-se que os estudantes possuíam conhecimentos bastante limitados sobre robótica, o que se refletiu nas dificuldades enfrentadas ao longo das atividades. A ausência de familiaridade com conceitos básicos de programação e eletrônica exigiu uma abordagem mais introdutória, com foco na exploração dos materiais e na compreensão de seu funcionamento. Essa etapa inicial foi fundamental para que os alunos pudessem se apropriar dos recursos disponíveis e desenvolver, gradualmente, maior autonomia. Segundo Silva Junior et al. (2017), a robótica educacional ainda é uma área em expansão no Brasil, o que explica, em parte, a falta de conhecimento prévio por parte dos estudantes. Os autores destacam que, embora haja um crescente interesse pelo tema, sua presença nas escolas ainda é limitada, especialmente em instituições públicas que enfrentam restrições de infraestrutura e formação docente. Essa realidade reforça a importância de iniciativas que promovam o acesso à tecnologia e a capacitação de professores. Ademais, é importante considerar que os conhecimentos prévios não se restringem aos aspectos cognitivos, mas também envolvem atitudes, percepções e expectativas em relação à aprendizagem. Muitos estudantes associam a robótica a algo complexo ou inacessível, o que pode influenciar sua disposição para participar das atividades. Nesse sentido, cabe ao professor desmistificar esses conceitos, criando um ambiente acolhedor e estimulante, no qual o erro seja compreendido como parte do processo de aprendizagem. A exploração inicial dos kits de robótica, conforme descrito na prática desenvolvida , mostrou-se uma estratégia eficaz para aproximar os estudantes do universo tecnológico, permitindo que eles conhecessem os componentes e suas funcionalidades de maneira mais concreta. Essa abordagem contribui para reduzir a ansiedade diante do novo e favorece a construção de uma base conceitual necessária para o desenvolvimento das atividades subsequentes. Por fim, destaca-se que o reconhecimento e a valorização dos conhecimentos prévios dos estudantes são fundamentais para o sucesso de propostas pedagógicas que envolvem inovação tecnológica. Ao considerar o ponto de partida dos alunos, o professor pode planejar intervenções mais adequadas, promover a inclusão e garantir que todos tenham oportunidades de aprendizagem. Nesse sentido, a robótica educacional, quando bem estruturada, pode se tornar uma poderosa aliada no processo educativo, contribuindo para a formação de sujeitos críticos, criativos e preparados para os desafios contemporâneos. 2.2 Desenvolvimento de atividades práticas com robótica educacional Diferentemente de abordagens tradicionais centradas na transmissão de conteúdos, a robótica possibilita a experimentação, a resolução de problemas e a aplicação concreta de conceitos teóricos, favorecendo uma aprendizagem mais significativa e contextualizada. A proposta de “aprender fazendo” encontra respaldo em abordagens construcionistas, nas quais o conhecimento é construído por meio da interação do sujeito com o objeto de estudo. Nesse contexto, a utilização de kits de robótica, como os baseados em plataformas Arduino, permite que os estudantes desenvolvam projetos, testem hipóteses e compreendam, na prática, o funcionamento de sistemas tecnológicos. Essa vivência contribui para o desenvolvimento de habilidades cognitivas e socioemocionais, como pensamento lógico, criatividade, autonomia e trabalho em equipe. De acordo com Trentin et al. (2013), a robótica educacional constitui um recurso didático eficaz no ensino de Ciências, pois possibilita a articulação entre teoria e prática, tornando os conteúdos mais acessíveis e interessantes para os estudantes. Ao manipular componentes eletrônicos e observar os resultados de suas ações, os alunos conseguem visualizar conceitos abstratos, o que favorece a compreensão e a retenção do conhecimento. Além disso, a robótica educacional se insere em uma perspectiva interdisciplinar, dialogando com diferentes áreas do conhecimento, como Matemática, Física, Engenharia e Tecnologia. Essa integração é fortalecida pela abordagem STEAM, que propõe a articulação entre ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática como forma de promover uma formação mais ampla e alinhada às demandas contemporâneas. Nesse sentido, Fernandes (2022) destaca que o desenvolvimento de atividades práticas com robótica contribui para a formação de estudantes mais críticos, criativos e capazes de atuar em contextos complexos. No entanto, para que essas atividades sejam efetivas, é necessário um planejamento pedagógico cuidadoso, que leve em consideração o nível de conhecimento dos estudantes, os objetivos de aprendizagem e os recursos disponíveis. A simples utilização de kits de robótica não garante, por si só, a aprendizagem. É fundamental que as atividades sejam estruturadas de forma progressiva, iniciando com a exploração dos materiais e avançando gradualmente para desafios mais complexos. Na prática analisada, os estudantes foram inicialmente incentivados a explorar os componentes do kit de robótica, familiarizando-se com os materiais disponíveis e suas funcionalidades . Essa etapa foi essencial para reduzir a insegurança diantedo novo e possibilitar uma compreensão inicial dos recursos. Em seguida, os alunos foram desafiados a construir protótipos simples, utilizando materiais acessíveis, como papel, e posteriormente integrar os componentes eletrônicos para dar funcionalidade aos projetos. Esse tipo de atividade favorece o desenvolvimento do pensamento computacional, uma vez que exige dos estudantes a elaboração de sequências lógicas, a identificação de problemas e a busca por soluções. Conforme apontam Machado (2018), a robótica educacional pode potencializar a aprendizagem de conceitos matemáticos e lógicos, desde que os estudantes sejam estimulados a refletir sobre os processos envolvidos e não apenas a executar tarefas de forma mecânica. Entretanto, durante o desenvolvimento das atividades, foram observadas dificuldades relacionadas à montagem dos circuitos e à compreensão dos comandos necessários para o funcionamento dos protótipos. Essas dificuldades evidenciam a importância da mediação docente, que deve atuar como facilitador do processo de aprendizagem, oferecendo suporte, orientações e intervenções pedagógicas sempre que necessário. Outro aspecto relevante diz respeito à necessidade de formação docente para o uso da robótica educacional. A condução de atividades práticas com kits tecnológicos exige conhecimentos específicos, tanto em relação ao funcionamento dos equipamentos quanto às estratégias pedagógicas mais adequadas. De acordo com Silva Junior et al. (2017), a falta de formação continuada é um dos principais obstáculos para a efetiva integração da robótica no ensino, limitando seu uso a experiências pontuais e pouco estruturadas. Além disso, é importante destacar que o desenvolvimento de atividades práticas com robótica envolve um processo de tentativa e erro, no qual o erro deve ser compreendido como parte do aprendizado. Essa perspectiva contribui para a construção de uma cultura de experimentação e inovação, na qual os estudantes se sentem encorajados a testar ideias, corrigir falhas e aprimorar seus projetos. 2.3 Engajamento e dificuldades dos estudantes no uso da robótica O engajamento dos estudantes em atividades de robótica educacional é um dos aspectos mais relevantes para a efetividade dessa abordagem pedagógica, uma vez que está diretamente relacionado à motivação, à participação ativa e à construção significativa do conhecimento. A robótica, por seu caráter interativo e inovador, tende a despertar o interesse inicial dos alunos, sobretudo por possibilitar a manipulação de tecnologias e a criação de artefatos concretos. No contexto das atividades desenvolvidas, observou-se que os estudantes demonstraram entusiasmo especialmente nas etapas iniciais, como a exploração dos kits e a proposta de construção dos protótipos . Esse interesse inicial pode ser explicado pelo caráter lúdico e desafiador da robótica, que rompe com práticas tradicionais de ensino e insere os alunos em um ambiente mais dinâmico e participativo. De acordo com Baldow et al. (2018), atividades envolvendo robótica educacional tendem a aumentar o engajamento dos estudantes ao promoverem situações de aprendizagem contextualizadas e práticas. Os autores destacam que, ao trabalhar com problemas reais e desafios concretos, os alunos se sentem mais motivados a participar e a buscar soluções, desenvolvendo não apenas conhecimentos conceituais, mas também habilidades socioemocionais. Entretanto, esse engajamento inicial nem sempre se mantém ao longo de todo o processo. Na experiência analisada, verificou-se que, à medida que as atividades avançavam para etapas mais complexas, como a montagem de circuitos e a programação dos dispositivos, alguns estudantes passaram a apresentar dificuldades significativas, o que impactou diretamente sua motivação . Essa mudança de comportamento evidencia a importância de adequar o nível de complexidade das atividades ao conhecimento prévio dos alunos. Machado (2018) ressalta que o desenvolvimento do pensamento computacional exige a construção gradual de habilidades, sendo necessário que os estudantes compreendam conceitos básicos antes de avançar para níveis mais complexos. Quando essa progressão não é respeitada, há maior probabilidade de surgirem dificuldades que podem levar à frustração e ao desinteresse. Outro aspecto relevante observado foi a heterogeneidade no engajamento dos estudantes. Enquanto alguns demonstraram persistência, curiosidade e disposição para enfrentar os desafios, outros apresentaram desmotivação diante das dificuldades encontradas. Essa diferença pode estar relacionada a fatores como experiências prévias, habilidades individuais e percepção de autoeficácia. Nesse sentido, a atuação do professor como mediador torna-se essencial para promover a inclusão e o apoio necessário a todos os alunos. Segundo Fernandes (2022), a robótica educacional, quando integrada a abordagens como o STEAM, pode favorecer o trabalho colaborativo e o desenvolvimento de competências diversas. No entanto, a autora destaca que é fundamental que o professor proponha atividades que considerem as diferenças individuais e incentivem a cooperação entre os estudantes, de modo que aqueles com maior facilidade possam auxiliar os colegas, promovendo um ambiente de aprendizagem mais equilibrado. Além das dificuldades relacionadas aos estudantes, também se evidenciam desafios ligados à prática docente. A condução de atividades de robótica requer conhecimentos específicos e segurança no uso dos recursos tecnológicos. Na experiência analisada, a própria docente estava em processo de aprendizagem, o que influenciou o andamento das atividades . Esse aspecto reforça a necessidade de formação continuada para professores que atuam com tecnologias educacionais. Silva Junior et al. (2017) apontam que a falta de capacitação docente é um dos principais entraves para a implementação efetiva da robótica nas escolas. Sem o domínio adequado dos conteúdos e das ferramentas, o professor pode encontrar dificuldades para orientar os estudantes, esclarecer dúvidas e propor intervenções pedagógicas eficientes. Outro fator que contribui para as dificuldades enfrentadas pelos estudantes é a complexidade inerente aos conteúdos trabalhados. A robótica envolve conceitos de eletrônica, programação e lógica, que podem ser desafiadores, especialmente para alunos que não possuem base prévia nessas áreas. Nesse contexto, é fundamental que as atividades sejam planejadas de forma progressiva e que o erro seja compreendido como parte do processo de aprendizagem. Conforme Trentin et al. (2013), a robótica educacional deve ser entendida como um processo experimental, no qual tentativas, falhas e ajustes fazem parte da construção do conhecimento. Essa perspectiva contribui para o desenvolvimento da resiliência e da capacidade de lidar com desafios, competências essenciais no contexto educacional contemporâneo. 2.4 A robótica educacional à luz das teorias clássicas da educação A utilização de atividades práticas com robótica educacional pode ser compreendida de forma mais aprofundada quando analisada à luz das principais teorias da educação, especialmente aquelas que enfatizam a construção ativa do conhecimento, a interação social e a aprendizagem significativa. Nesse sentido, estabelecer um paralelo entre a robótica educacional e os pressupostos teóricos de autores clássicos permite compreender por que essa abordagem tem se mostrado tão promissora no contexto contemporâneo. Inicialmente, destaca-se a contribuição de Piaget para a compreensão dos processos de aprendizagem. Segundo o autor, o conhecimento é construído ativamente pelo sujeito por meio da interação com o meio, em um processo contínuo de assimilação e acomodação. As atividades com robótica educacional dialogam diretamente com essa perspectiva, uma vez que permitem ao estudante manipular objetos, testar hipóteses e reorganizar seus esquemas mentais a partir das experiências vivenciadas. Ao construir e programar um protótipo, o aluno não apenas reproduz informações, mas reconstrói conceitosa partir da ação, o que favorece a aprendizagem significativa (Piaget, 1976). Complementarmente, a teoria sociocultural de Vygotsky contribui para a compreensão do papel da interação no processo de aprendizagem. Para o autor, o desenvolvimento cognitivo ocorre por meio das relações sociais e da mediação de instrumentos culturais. Nesse contexto, a robótica educacional pode ser entendida como uma ferramenta mediadora que potencializa a aprendizagem, especialmente quando as atividades são realizadas de forma colaborativa. O trabalho em grupo, a troca de conhecimentos e a resolução conjunta de problemas favorecem a construção coletiva do saber e ampliam a chamada zona de desenvolvimento proximal dos estudantes (Vygotsky, 1998). Outro autor relevante para essa discussão é Papert, que desenvolveu o construcionismo a partir das ideias de Piaget. Papert (1985) defende que a aprendizagem ocorre de maneira mais eficaz quando os estudantes estão envolvidos na construção de artefatos significativos, especialmente com o uso de tecnologias digitais. A robótica educacional é uma das aplicações mais diretas dessa abordagem, pois permite que os alunos criem, programem e testem suas próprias invenções, tornando o processo de aprendizagem mais concreto e motivador. Além disso, a proposta de aprendizagem significativa de Ausubel também se relaciona com o uso da robótica educacional. Para o autor, o fator mais importante para a aprendizagem é aquilo que o aluno já sabe, sendo fundamental estabelecer conexões entre os novos conteúdos e os conhecimentos prévios. Nesse sentido, as atividades com robótica devem ser planejadas de modo a dialogar com a realidade dos estudantes, utilizando exemplos e desafios que façam sentido em seu contexto. Quando essa relação é estabelecida, o aprendizado tende a ser mais duradouro e relevante (Ausubel, 2003). No campo da pedagogia crítica, Freire também oferece importantes contribuições para a análise do uso da robótica na educação. O autor defende uma educação problematizadora, na qual os estudantes são sujeitos ativos no processo de construção do conhecimento, e não meros receptores de informações. A robótica educacional, ao propor desafios e estimular a investigação, aproxima-se dessa perspectiva, pois incentiva os alunos a pensar, questionar e buscar soluções para problemas reais. Além disso, ao promover o protagonismo discente, essa abordagem contribui para a formação de sujeitos críticos e autônomos (Freire, 1996). A relação entre teoria e prática também é um elemento central nas discussões educacionais e encontra na robótica um campo fértil para sua concretização. Conforme destaca Trentin et al. (2013), a robótica educacional permite a aplicação prática de conceitos teóricos, favorecendo a compreensão e tornando o aprendizado mais dinâmico. Essa articulação é fundamental para superar a fragmentação do conhecimento e promover uma educação mais integrada. Entretanto, apesar das potencialidades, é importante reconhecer que a implementação de atividades com robótica educacional não está isenta de desafios. A falta de formação docente, a escassez de recursos e a dificuldade de integração com o currículo são obstáculos que podem comprometer a efetividade dessa abordagem. Nesse sentido, a reflexão teórica torna-se essencial para orientar a prática pedagógica e evitar que a tecnologia seja utilizada de forma superficial ou descontextualizada. De acordo com Silva Junior et al. (2017), a incorporação da robótica no ensino de Ciências no Brasil ainda enfrenta limitações estruturais e formativas, o que reforça a necessidade de políticas públicas que promovam não apenas o acesso aos recursos, mas também a capacitação dos professores. Sem esse suporte, há o risco de que a robótica seja utilizada apenas como um recurso pontual, sem impacto significativo na aprendizagem. Por outro lado, quando bem planejada e fundamentada teoricamente, a robótica educacional pode contribuir para a construção de um ambiente de aprendizagem mais inovador, participativo e alinhado às demandas contemporâneas. A integração entre teoria e prática, aliada ao uso de tecnologias, possibilita o desenvolvimento de competências essenciais, como pensamento crítico, resolução de problemas, colaboração e criatividade. Nesse contexto, a abordagem STEAM também se destaca como uma proposta que dialoga com as teorias educacionais clássicas, ao promover a interdisciplinaridade e a aprendizagem baseada em projetos. Conforme Fernandes (2022), a integração entre diferentes áreas do conhecimento, mediada por tecnologias como a robótica, favorece uma formação mais completa e prepara os estudantes para os desafios do mundo atual. 3 RESULTADOS A aplicação da atividade de robótica educacional foi realizada com duas turmas do oitavo ano do ensino fundamental, envolvendo aproximadamente 25 estudantes, ao longo de um período de dois meses . Inicialmente, foi aplicado um questionário diagnóstico com o objetivo de investigar os conhecimentos prévios dos alunos acerca da robótica, evidenciando que a maioria possuía pouco ou nenhum contato com conceitos relacionados à programação e ao funcionamento de dispositivos eletrônicos. Durante a etapa de desenvolvimento das atividades práticas, os estudantes foram desafiados a construir um robô simples utilizando materiais acessíveis, como papel, e posteriormente utilizar os kits de robótica para atribuir funcionalidade a esses protótipos . Observou-se que, em um primeiro momento, houve curiosidade e interesse por parte dos alunos, especialmente na fase de exploração dos materiais e reconhecimento dos componentes do kit. Entretanto, ao avançar para as etapas que exigiam maior compreensão técnica, como montagem de circuitos e programação básica, surgiram dificuldades significativas. Essas dificuldades estavam relacionadas tanto à ausência de conhecimentos prévios quanto à limitação de experiência da própria docente com o uso dos kits, o que impactou diretamente no andamento das atividades . Em relação ao engajamento, os resultados foram heterogêneos. Parte dos estudantes demonstrou entusiasmo e empenho na realização das tarefas, buscando soluções, realizando pesquisas e colaborando com os colegas. Por outro lado, um grupo de alunos apresentou desmotivação progressiva diante das dificuldades encontradas, o que evidencia a necessidade de estratégias pedagógicas diferenciadas para atender aos diversos níveis de aprendizagem presentes em sala de aula. Quanto aos resultados concretos da atividade, apenas um dos protótipos desenvolvidos conseguiu atingir o objetivo proposto de funcionamento com o uso do kit de robótica . Esse dado revela, por um lado, as limitações enfrentadas durante a implementação do projeto, mas, por outro, evidencia o potencial da proposta quando há compreensão adequada dos processos envolvidos. De modo geral, os resultados indicam que a utilização de kits de robótica na sala de aula apresenta potencial significativo para promover aprendizagens ativas e interdisciplinares, porém sua efetividade está diretamente condicionada à formação docente, ao planejamento pedagógico e ao suporte institucional. Assim, a experiência evidenciou tanto as possibilidades quanto os limites dessa prática no contexto escolar. 4 DISCUSSÃO A baixa familiaridade inicial dos estudantes com conceitos de robótica, identificada por meio do questionário diagnóstico, confirma a importância de considerar os conhecimentos prévios como ponto de partida para o planejamento didático. Conforme destacado por Machado (2018), o desenvolvimento do pensamento computacional está diretamente relacionado ao nível de compreensão inicial dos alunos, sendo necessário estruturar atividades que promovam a progressão gradual do aprendizado. Imagem 1: Acervo pessoal do autor. No que se refere ao desenvolvimento das atividades práticas, observou-se que a proposta de construção de protótipos e utilização dos kits favoreceu a aprendizagem ativa e o envolvimento dos estudantes, especialmentenas etapas iniciais. Esse resultado está em consonância com Fernandes (2022), ao afirmar que a robótica educacional, integrada à abordagem STEAM, potencializa a interdisciplinaridade e promove maior engajamento discente. No entanto, a dificuldade encontrada na execução das etapas mais técnicas evidencia que a simples disponibilização de recursos tecnológicos não garante, por si só, a efetividade do processo educativo. Imagem 1: Acervo pessoal do autor. A heterogeneidade no engajamento dos estudantes também se mostrou um fator relevante. Enquanto alguns alunos demonstraram interesse e persistência, outros apresentaram desmotivação diante das dificuldades enfrentadas. Esse aspecto corrobora as considerações de Baldow et al. (2018), que apontam que, embora a robótica possa aumentar o envolvimento dos estudantes, a ausência de domínio conceitual pode gerar frustração, exigindo mediação pedagógica constante. Outro ponto significativo diz respeito à limitação na formação docente para o uso da robótica educacional. A própria condução da atividade foi impactada pela necessidade de aprendizagem simultânea entre professora e alunos, o que reforça as discussões presentes na literatura sobre a importância da formação continuada. De acordo com Silva Junior et al. (2017), a efetiva integração da robótica no ensino depende não apenas da disponibilidade de equipamentos, mas também da capacitação dos professores para utilizá-los de forma pedagógica. Imagem 1: Acervo pessoal do autor. Ademais, o fato de apenas um dos protótipos ter alcançado funcionamento pleno evidencia as limitações estruturais e metodológicas enfrentadas durante a prática. Esse resultado, embora aparentemente negativo, deve ser compreendido como parte do processo de aprendizagem, uma vez que atividades experimentais envolvem tentativa, erro e reconstrução do conhecimento, aspectos valorizados nas abordagens construcionistas e nas propostas de ensino de Ciências com uso de tecnologias (Trentin et al., 2013). Imagem 1: Acervo pessoal do autor. Dessa forma, pode-se afirmar, que a robótica educacional possui grande potencial para enriquecer o processo de ensino e aprendizagem, promovendo protagonismo discente e integração de saberes. Contudo, sua efetividade está condicionada a fatores como formação docente, planejamento pedagógico, acompanhamento contínuo e adequação das atividades ao nível dos estudantes. Tais elementos são fundamentais para superar os limites identificados e ampliar as possibilidades dessa prática no contexto educacional. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS A presente pesquisa permitiu analisar as possibilidades e os limites da utilização de kits de robótica na sala de aula, a partir de uma experiência prática desenvolvida com estudantes do ensino fundamental. Os resultados evidenciaram que a robótica educacional constitui uma ferramenta pedagógica promissora, capaz de estimular o interesse, a criatividade e a participação ativa dos alunos no processo de aprendizagem. Observou-se que a proposta de construção de protótipos e experimentação prática favoreceu o envolvimento inicial dos estudantes, especialmente na fase exploratória. No entanto, ao longo do desenvolvimento das atividades, emergiram dificuldades relacionadas à ausência de conhecimentos prévios, à complexidade dos conteúdos técnicos e à necessidade de maior domínio por parte do professor. Esses fatores impactaram diretamente os resultados obtidos, evidenciando que a implementação da robótica no contexto escolar exige planejamento cuidadoso e preparação adequada. Outro aspecto relevante refere-se à diversidade de respostas dos estudantes frente às atividades propostas. Enquanto alguns demonstraram persistência e interesse em superar desafios, outros apresentaram desmotivação diante das dificuldades encontradas. Tal cenário reforça a importância de estratégias pedagógicas que considerem as diferenças individuais e promovam um ambiente de aprendizagem mais inclusivo e estimulante. Além disso, a experiência evidenciou que a disponibilização de recursos tecnológicos, por si só, não garante a efetividade das práticas pedagógicas inovadoras. É fundamental que haja investimento na formação docente, bem como suporte institucional contínuo, para que esses recursos sejam utilizados de maneira significativa e integrada ao currículo escolar. Por fim, conclui-se que a robótica educacional possui grande potencial para contribuir com a melhoria do ensino, desde que sejam superados os desafios relacionados à formação, infraestrutura e planejamento pedagógico. Espera-se que este estudo possa contribuir para reflexões e futuras iniciativas que busquem aprimorar o uso das tecnologias na educação, ampliando as possibilidades de aprendizagem e promovendo uma educação mais dinâmica e significativa. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AUSUBEL, David Paul. Aquisição e retenção de conhecimentos: uma perspectiva cognitiva. Lisboa: Plátano, 2003. BALDOW, Rodrigo; FARIAS FILHO, Everaldo Nunes de; LEITE, Bruno Silva; FARIAS, Carmen Roselaine de Oliveira; LEÃO, Marcelo Brito Carneiro. Ensino de física e educação ambiental: percepções de sustentabilidade dos estudantes em uma atividade de robótica sustentável. Experiências em Ensino de Ciências, v. 13, n. 5, p. 152-167, 2018. 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